ADRIANA MARIA TENUTA DE AZEVEDO , S? domínios DISCURSIVOS: UMA yrs. io COGNITIVA DA ESTRUT DE NARRATIVAS ORAIS BELO HORIZONTE ^ * SIDADE FEDERAL DE MESlàs GE 2005 . V UNIVE Adriana Maria Tenuta de Azevedo DOMÍNIOS DISCURSIVOS: UMA VISÃO COGNITIVA DA ESTRUTURAÇÃO DE NARRATIVAS ORAIS Tese apresentada ao Programa de Pús-Graduação Estudos Lingüísticos da Faculdade de Letras de Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Doutora em Lingüística. Área de concentração: Lingüística Linha de Pesquisa: Estudos da Inter-relação entre Linguagem, Cognição e Cultura Orientadora: Profa. Dra. Heliana Mello - UFMG Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG 2005 Tese defendida por Adriana Maria Tenuta de Azevedo em 12/08/2005 e aprovada pela Banca Examinadora constituída pelos Profs. Drs. relacionados a seguir: Heliana Ribeiro de Mello - UFMG Orientadora Maria ^ argarida Martins Salomão -\ Ijfjf Helena Franco Martins - PUC/RJ Helena Silva de Resende Chaves Marinho - UFMG ^ da Silva Júnior - UFMG Agradecimentos A Profa. Heliana Mello, primeiro, amiga; depois, mestra, orientadora de extrema seriedade, dedicação, amor às questões lingüísticas; aos meus professores da graduação e pós-graduação da FALE/UFMG, em especial, Rosália Dutra, Haj Ross, Mário Perini e Milton do Nascimento; aos professores T Rorher e S. Coulson, pela introdução valiosa ao mundo da Lingüística Cognitiva, em Odense, Dinamarca e ao Prof R. Langacker, pelo cuidado com que nos conduziu pelos caminhos da Gramática Cognitiva, em High Whycombe, UK. À UFMG, universidade pública brasileira, que, devido a seu compromisso com a pesquisa, concedeu-me licença remunerada e todas as condições de realização desta; ao Programa de Pós-graduação Estudos Lingüísticos - PosLin, especialmente aos professores Heliana Mello, Cristina Magro e Fábio Alves, da linha de pesquisa dos Estudos da Inter-relação entre Linguagem, Cognição e Cultura, à qual estou diretamente ligada. À Capes, por financiar meu estágio no exterior; ao Departamento de Psicologia da Universidade de Portsmouth, por me receber e proporcionar as condições de trabalho; ao Prof Christopher Sinha, pela ótima convivência e supervisão durante esse estágio; à Joan Muzamdar, pela amizade e grande acolhida na Inglaterra. Aos colegas e amigos, professores da FALE/UFMG, pelo incentivo e colaboração, que também se traduziu em assumir encargos por mim no período de realização desta pesquisa; aos funcionários dessa imiversidade, que, de várias maneiras, me auxiliaram. Aos colegas e amigos. Beto, Antônio Marcos, Eiidénio, Ana Cláudia, Zé Luiz, Vitor, Henrique, Rodrigo; à Cida, Marilene, Kênia, Vai, Sandra B., Sandra C., Flávia, Herberth, Pedro, Ricardo, Heather e Mauricéia, do grupo de estudos em Lingüística Cognitiva da UFMG, InCognito, liderado pela Profa. Heliana Mello, pelas trocas inestimáveis. À Profa. Janice Marinho, pela amizade e valiosa participação na análise das estruturas oracionais. Ao Marcos e à Sandra, pelo suporte técnico. Aos familiares, pelo carinho e apoio. Aos meus contadores de história, personagens de minha vida pessoal. Aos amigos, também por suas narrativas, inscritas nas nossas histórias. Para o Arthur Resumo Um corpus composto de 13 narrativas orais, cm português do Brasil, foi analisado em ternios de seus valores TAM (Tempo, Aspecto e Modo) e checou-se que o sistema verbal serve à função discursiva de marcar qual material lingüístico pertence à Figura Narrativa, qual pertence ao Fundo e qual ao Discurso Direto. Comprovou-se, dessa forma, que a estrutura de narrativas orais reflete o princípio da percepção cognitiva da distribuição de elementos em figura e fundo (Hopper 1979, baseado na Psicologia Gestalt). Este trabalho visou a aliar as teorias dos Espaços Mentais (Fauconnier 1994, 1997) e da Mesclagem Conceituai (Fauconnier & Turner 1996, 1998, 2002), integrantes da Semântica Cognitiva, aos conceitos da Gestalt, para melhor descrição da realidade cognitiva do narrar oral. Com essa finalidade, propôs-se que Figura, Fundo e Discurso Direto podem ser vistos como domínios discursivos independentes, interconectados. Cada um desses domínios apresenta certas características gerais em termos das noções discursivas (BASE, FOCO, EVENTO, PONTO DE VISTA) e das categorias tempo-aspectuais (presente, passado, futuro, perfectivo, IMPERFECTIVO, PROGRESSIVO, PERFEITO), que estão em Cutrer (1994). Trechos extraídos das narrativas componentes do corpus foram diagramados e ficou demonstrada a adequação de se descrever a estrutura de textos narrativos orais em termos do quadro teórico da Semântica Cognitiva e seu conceito de espaços mentais. Abstract A corpus composed of 13 oral narratives, in Brazilian Portuguese, has been analysed in terms of its TAM (Tense, Aspect and Mood) values and it has been checked that the verbal system serves the discourse purpose of marking which linguistic material belongs to the Narrative Figure, which belongs to the Narrative Ground, and which to the Direct Speech. It was shown, thus, that the structure of oral narratives mirrors the perceptual cognitive principle of the distribution of elements into foreground and background (Hopper 1979, based on Gestalt Psychology). This work aimed at joining the Mental Spaces (Fauconnier 1994, 1997) and Blending (Fauconnier & Turner 1996, 1998, 2002) theories, which belong to the Cognitive Semantics framework, to the Gestalt concepts for better description of the cognitive reality of oral story telling. For that purpose, it was proposed that Figure, Ground and Direct Speech could be seen as independent, interconnected discourse domains. Each of these domains has certain general characteristics in terms of the discourse notions (BASE, FOCUS, EVENT, POINT OF VIEW) and the tense-aspect categories (PRESENT, PAST, future, perfect, progressive, PERFECTIVE, IMPERFECTIVE) in Cutrer (1994). Extracts from the data were diagramed and it was shown the adequacy of describing the structure of oral narratives in terms of the Cognitive Semantics framework and its concept of mental spaces. Sumário 1 - Introdução - - - —11 2 - A INSERÇÃO DA Lingüística Cognitiva nas ciências COGNITIVAS 14 3 - Lingüística Cognitiva: abordagens 21 3.1- Gramática Cognitiva 21 3.2 - Semântica Cognitiva: Espaços Mentais 27 3.3 - Semântica Cognitiva: Mesclagem 36 4-Narrativa - 47 4.1 - Narrativa e Lingüística Cognitiva 52 4.2 - Narrativa e a percepção cognitiva: figura e fundo 56 4.2.1 - Princípio geral da percepção cognitiva 59 4.2.1.1 - A EXPRESSÃO temporal DO PRINCÍPIO GERAL DA PERCEPÇÃO COGNITIVA 60 4.3 - Pressuposto: Pretérito Perfeito e Figura Narrativa 64 5 - Metodologia 66 6 - Checagem da correlação entre sistema TAM em narrativas orais E o princípio cognitivo 73 6.1 - Divisão dos textos em unidades oracionais 73 6.2 - Separação das unidades em discurso direto 74 6.3 - Seleção das estruturas em Pretérito Perfeito 75 6.4 - Checagem da correlação Pretérito Perfeito/ EVENTO narrativo 76 6.4.1-EventoNarrativo 77 6.4. L1 - Decisões relativas a Eventos Narrativos 78 6.4.2 - Observou-se: em relação ao Mapeamento N° I — 81 6.4.3 - Observou-se: em relação ao Mapeamento N° 2 82 6.4.4-Gráficos 83 7 - Os valores TAM 86 7.1 - Tempo verbal 86 7.LI-TEMPO VERBAL NOS DADOS 87 7.2-Aspecto 90 7.2.1 - Aspecto nos dados - 94 7.3 —Modo — 97 7.3.1-MODO NOS DADOS - 98 8 - Os VALORES TAM E os DOMÍNIOS NARRATIVOS - 102 8.1 - Na perspectiva dos valores TAM 102 8.1.1-VALORES TEMPORAIS 103 8.1.2-Valores ASPECTUAis 103 8.1.3-Valores MODAis 104 8.2 - Na perspectiva dos domínios discursivos 104 8.2.1 -Domínio dos Eventos Narrativos (Figura) 105 8.2.2-Domínio Suporte (Fundo) 106 8.2.3 - Domínio da Encenação (Discurso Direto) 107 9 - Domínios do texto narrativo oral e a Teoria dos Espaços Mentais 109 9.1- Instrumental do quadro teórico utilizado 109 9.1.1-Noções discursivas 110 9.1.2 - Princípios de organização discursiva 111 9.1.3 - Categorias tempo-aspectuais 111 9.1.4 - Representação das interações entre noções discursivas E categorias tempo-aspectuais 112 9.2 - Proposta de diagramas para os domínios do texto narrativo oral 117 9.2.1 - Domínio dos Eventos Narrativos 118 9.2.2-Domínio Suporte 119 9.2.3-Domínio DA Encenação 120 10 - Diagramação discursiva dos valores tempo-aspectuais 121 10.1 - Trecho diagramado 1 122 10.2 - Trecho diagramado 2 135 10.3 - Trecho diagramado 3 144 10.4 - Domínio da Encenação: mudança de base 149 10.5- Trecho diagramado 4 153 10.6 - Trecho diagramado 5 159 10.7 - Trecho diagramado 6 162 10.8- Trecho diagramado 7 — - - i65 10.9 - Trecho diagramado 8 - lós 10.10-Considerações FINAIS— i7i 11-Conclusão 173 Citações no original - 178 Referências 183 Apêndice 1-Corpus— i89 Apêndice 2 211 Parte A - Divisão dos textos em unidades oracionais 211 Parte B - Análise das estruturas oracionais em termos de valores TAM 222 1 - Introdução o objetivo central do presente trabalho é o de caracterizar a estruturação temporal da narrativa oral, numa proposta de descrição da realidade cognitiva motivadora dessa estruturação. Tal proposta alia os conceitos de figura e fundo da Psicologia Gestalt, já utilizados para tal finalidade no âmbito da Lingüística (Hopper, 1979), à Teoria dos Espaços Mentais (Fauconnier, 1994, 1997) e à Teoria da Mesclagem Conceituai (Fauconnier & Turner, 1996, 1998, 2002), integrantes da Lingüística Cognitiva. Os elementos gramaticais em foco são as categorias verbais de Tempo, Aspecto e Modo (TAM). Fazem parte das concepções adotadas nesta pesquisa, primeiro, que a semântica é a base e a motivação para as formas lingüísticas e, segundo, que a utilização da linguagem pelos seres humanos não está desvinculada de outros recursos e habilidades cognitivos. Foram utilizados os conceitos de Figura e Fundo, que estão em Hopper (1979).' Tais conceitos descrevem um aspecto da estruturação narrativa que é a contraparte temporal do princípio cognitivo proposto pela Psicologia Gestalt. Esse princípio, segundo o qual nós percebemos o mundo ressaltando determinados elementos {foreground) em relação a outros {background), apesar de ter sido proposto inicialmente para o campo da percepção visual, aplica-se mais generalizadamente à percepção humana. O que se toma como pressuposto desde Hopper (1979) e outros pesquisadores é o fato de as gramáticas das línguas refietirem, de algum modo, tal pressão cognitiva. ' Na língua inglesa, há distinção entre a terminologia utilizada na psicologia Gestalt referindo-se ao princípio cognitivo (foreground/background) e a utilizada em estudos lingüísticos sobre narrativas ifigure/groiind). Já na língua portuguesa, para ambos os campos, utilizam-se os tennos figura e fundo. Neste trabalho, optei por distingui-los marcando por iniciais maiúsculas o campo nan-ativo (Figura/Fundo). 11 A primeira parte da pesquisa visou à checagem da pressuposição de que o sistema verbal, com suas distinções de Tempo, Aspecto e Modo (TAM), sei-viria lingüisticamente para a expressão da distinção figura/fundo, no português do Brasil. A expectativa com que se trabalhou foi a de que haveria a confimiação dessa situação, ou seja, que o Pretérito Perfeito marcaria essencialmente as estruturas da linha central da história, a Figura Narrativa, sendo o Fundo (as estruturas com infonnação de suporte a essa linha central - descrições, comentários, etc.) expresso através de outros tempos verbais. As características semântico-fomiais dos elementos componentes de cada parte do texto narrativo oral revelaram que o sistema TAM é um recurso utilizado pelo falante no sentido de organizar seu texto e orientar o ouvinte para que este perceba basicamente qual é a linha seqüenciada dos eventos (Figura) e qual é a infonnação adicional que amplia esses eventos (Fundo). A segunda etapa da pesquisa foi baseada na proposição de que essas partes do texto narrativo poderiam ser tratadas como domínios, espaços ampliados no universo do texto, descritos mais apropriadamente através do arcabouço teórico da Lingüística Cognitiva, mais especificamente da Semântica Cognitiva (Teoria dos Espaços Mentais e da Mesclagem Conceituai). Assim, teriamos a descrever: o Domínio dos Eventos Narrativos (Figura) e o Domínio Suporte (Fundo), além do Domínio da Encenação, que é material lingüístico distinto funcional e fonnalmente daquele presente nos dois domínios anteriores. O Domínio da Encenação compõe-se de estruturas em discurso direto, representando as falas dos personagens. A abordagem dos Espaços Mentais prove instrumentação teórica apropriada para se lidar com essa perspectiva de domínios, possibilitando visualizar melhor como se estruturam, se interconectam e se inter-relacionam. 12 Tal descrição envolveu, primeiro, a proposta de diagramação para os domínios do texto narrativo oral, buscando representar essa realidade de a distribuição da informação no texto refletir um princípio cognitivo geral, e, segundo, a comparação dessa proposta com uma diagramação do encadeamento discursivo de trechos extraídos das narrativas que compuseram o corpus da pesquisa. Utilizou-se, para as diagramações, as noções discursivas BASE, PONTO DE VISTA, FOCO, EVENTO; as categorias tempo- aspectuais PRESENTE, PASSADO, FUTURO, PERFECTIVO, IMPERFECTIVO, PROGRESSIVO, PERFEITO e os Princípios de Organização Discursiva, que estão em Cutrer (1994) e Fauconnier (1997). Este trabalho inicia-se pela apresentação da Lingüística Cognitiva como integrante de um ramo de abordagens que busca alternativas aos postulados objetivistas, inatistas, modularistas, do cognitivismo. Essa apresentação visa essencialmente a explicitar posturas que o quadro teórico adotado para este trabalho assume em relação a noções fundamentais como as de símbolo, significado, representação." " Considero importante, por vezes, indicações de afiliação das abordagens teóricas. Neste caso, essa distinção epistêmica faz-se necessária pelo fato de a Lingüística Cognitiva constituir um quadro relativamente recente e ainda em construção. 13 2 - A INSERÇÃO DA Lingüística Cognitiva nas Ciências Cognitivas A Lingüística Cognitiva surge no contexto de oposição aos pressupostos do cognitivismo, ao qual Sinha (2001a) se refere como Ciências Cognitivas Clássicas (CCS'"). Integra o grupo que, por se contrapor, em vários aspectos, a tais pressupostos, é denominado, por esse autor, de Segunda Geração das Ciências Cognitivas (G2CS).'^ O cognitivismo é caracterizado, segundo Gardner (1995), por uma ênfase nos paralelos entre os processos cognitivos dos seres vivos e a operação das máquinas de comunicação. Nesse paradigma, o computador é o modelo da mente, a inteligência é computação de representações simbólicas e pensar é calcular. Um dos elementos mais importantes de toda a abordagem cognitivista é, para Gardner, a visão de uma sintaxe (símbolos e regras na base das operações da mente). Esse autor confere a Chomsky o status de um dos cientistas cognitivos mais importantes. Inatismo - A teoria chomskiana é inatista. Nesse quadro, os indivíduos nascem dotados de princípios universais (Gramática Universal), que lhes capacitam para a linguagem, e os parâmetros específicos da língua vão sendo ajustados no processo de aprendizagem. Somente essa dotação inata explica a aquisição lingüística.^ Iniciais para o rótulo em inglês (Classical Cognitive Science) (Second Generation Cognitive Science) - Essa segunda geração, para Siniia, liga-se à tradição anterior ao behaviorismo, que recolhe elementos da psicologia Gestalt, da psicologia da linguagem de Bühler, da psicologia genética de Piaget e Baldwin, da teoria sócio-cognitiva de Barlett, das teorias sócio-genéticas de desenvolvimento da linguagem, da visão sócio-psicológica (Boas, Sapir, Whorf, Meillet, Baktin/Vosolinov) e do funcionalismo da Escola de Praga. ^ "Uma teoria da estrutura lingüística que objetiva adequação explicativa incoipora um tratamento dos universais lingüísticos e atribui conhecimento tácito desses universais à criança. Propõe, então, que a criança se aproxima dos dados com a pressuposição de que são extraídos de uma língua de um tipo bem definido antecedentemente, sendo seu problema o de determinar qual das línguas (humanamente) possíveis é essa a da comunidade na qual está inserido." (Chomsky, 1965:27) (#1) - Este símbolo indica a numeração nas CITAÇÕES NO ORIGINAL. 14 Modllarismo - No cognitivismo, o sistema cognitivo possui módulos especializados no desempenho de detemiinados processos. Fodor (1983) propõe um sistema cognitivo composto de dois componentes básicos: o processador periférico e o central. O processador periférico caracteriza-se por ser modular, por apresentar sub-partes/sub- divisões que são responsáveis por funções ou processos cognitivos específicos, ou seja, para esse modelo, o input que nos chega é, de certa forma, caracterizado, para ser trabalhado pelo setor especializado naquele domínio. A tese da modularidade é a de que aprendemos, processamos, vivenciamos fenômenos independentemente uns dos outros (há módulos para a visão, a audição, a produção e compreensão lingüísticas, etc.).^' Objetivismo e Simbolismo - No cognitivismo, pressupõe-se o mundo como independente do indivíduo, a ser explorado por ele. O mundo é composto de objetos, com propriedades inerentes, compostos de partes apresentando relações fixas entre si. Para Johnson (1987), esse objetivismo é uma orientação entranhada na tradição filosófica e cultural ocidental. Nesse contexto, a língua expressa conceitos mapeados a objetos do mundo de fonna literal e a combinação desses conceitos, em proposições, através da sintaxe, descreve aspectos da realidade. Essa perspectiva objetivista relaciona-se à visão composicional do significado (dos huilding-hlocks). O significado é fixo, imanente às palavras, às sentenças, encontra-se na relação símbolos/objetos. O objetivismo é, então, simbolista . De acordo com Dinsmore (1991), no paradigma simbólico, estruturas simbólicas são interpretáveis semanticamente, ou seja, representam alguma coisa Obs.: As traduções dos trechos cujos originais constam das CITAÇÕES NO ORIGINAL são de minlia inteira responsabilidade. VI o módulo para a compreensão lingüística proposto por Fodor é responsável tanto pelo reconhecimento de letras e palavras, quanto pela estruturação das frases. A análise semântica preliminar ocorre na interface entre os componentes periféricos (modulares) e o processador cognitivo central. A partir de processos de inferência, o sentido é finalmente produzido pelo processador cognitivo central, que constrói uma representação mental. Esse é um processo serial, automático, inconsciente. 15 (objetos, conceitos abstratos, relações entre objetos) no mundo e são manipuláveis por processos cognitivos. Através da razão conectamos esses conceitos e fazemos inferências reguladas por regras da lógica. Pressupostos cognitivistas revistos - A Lingüística Cognitiva está em consonância com abordagens que apontam para alternativas às visões cognitivistas das questões de linguagem, cognição e cultura em relacionamento: Inatismo, tido como uma espécie de ponto de partida, momento no qual o aprendizado não seria observado, é discutido por Oyama (1990): mesmo os genes estão sujeitos à influência ambiental, têm de ser ativados, regulados. Qualquer ponto de partida para o início da influência ambiental que escolhennos será arbitrário, podemos , , , YÍÍ sempre pensar em estágios anteriores. Em relação ao modularismo, para a Lingüística Cognitiva, princípios cognitivos mais gerais também atuam em nossa utilização da linguagem, o que é, inclusive, testado através desta pesquisa. Somos seres complexos e nossas experiências não ocorrem de fornia pura, no sentido de um domínio ser estanque e encapsulado a ponto de não sofrer ou gerar influências sobre os outros. Toda a história de nossas interações com o ambiente e com os demais indivíduos nos predispõe a vivenciannos os processos de fomia peculiar. Oyama (2000) propõe um sistema de desenvolvimento no qual haja uma refonnulação dos conceitos de ontogenia e fílogenia, de natureza e ambiente {nature and nurture), ao invés de declarações conciliatórias do tipo: ambos são importantes. Nature não se contrasta com nurture. Nature não é transmitida, mas sim construída, produto de desenvolvimento. Nature é o produto de processos interacionais (nurture), ao mesmo tempo em que é base para interações subseqüentes; depende tão profundamente do contexto, quanto do genoma. O genoma deve ser visto como tendo possibilidades de desenvolvimento que serão variáveis com o estado do organismo e seu contexto. O ambiente é constitutivo da biologia, não complementar a ela. Há fenômenos que desafiam categorizações estanques. 16 A visão do processamento cognitivo em paralelo do modelo conexionista aponta num sentido distinto do modularismo.^'" O objetivismo tem como alternativa a visão da corporeidade. Para Sinha (2001a), a nova ciência cognitiva (G2CS) é corporeizada na medida em que envolve a compreensão do papel constitutivo do corpo na linguagem e cognição e tem o compromisso com a reformulação da noção de representação. O limite entre interno e externo neste contexto toma-se mais permeável. As propriedades não estão nos objetos, mas emergem da nossa relação com eles; o mundo se configura, para nós, a partir de nossas interações. A mente não é separável do corpo e o corpo, por sua vez, não é separável do mundo. No contexto de G2CS, como as propriedades não são intrínsecas aos objetos, o significado tem de ser construído e essa construção é um processo dinâmico no qual atuam elementos emergentes do contexto, da interação, e estruturas conceituais rotinizadas, esquemáticas.'" O conexionismo, para Elman et al (1999), é uma alternativa ao modelo de Fodor, no qual a mente pode ser vista como controlada por um 'homúnculo' (que, através de seus módulos especializados, capta as informações do mundo, levando-as, de maneira involuntária, ao processador cognitivo central, onde ocorrem os processos ligados ao pensamento). No conexionismo, por outro lado, os processos estão descentralizados e os efeitos globais das redes surgem a partir de interações locais. Neste modelo, o processamento apresenta um caráter paralelo, ao invés de serial, numa proposta de interação, com constante troca de informação. O conexionismo possibilita visão distinta da que localiza o significado no símbolo e suas relações com a realidade objetiva. O conhecimento é parte das conexões neurais, é função do estado global da rede neural, que apresenta o sistema de ativação de nódulos. Para Dinsmore (1991) qualquer representação é também uma interpretação da realidade e há processos que não explicamos apenas pelo mapeamento simbólico tradicional. São exemplos desses processos o reconhecimento de faces, nossa compreensão de input com ruído, processos emocionais, estéticos, etc.. Johnson (1987) completa esse questionamento ao simbolismo quando considera estarem intimamente relacionadas a significado estruturas não-proposicionais, fatores pré-conceituais, estruturas imaginativas, dos quais são exemplos os esquemas imagéticos e as projeções metafóricas (tratados no capítulo 3). Para este autor, levar em conta tais elementos significa 'devolver o corpo à mente'. 17 Assim, as concepções de significado e de representação entrelaçam-se com visões de mundo e do ser vivo. Se, por um lado, pensamos a realidade como externa ao indivíduo, esse indivíduo tem de ter aparelhos/aparatos cognitivos para captá-la e, quanto mais precisos forem esses aparelhos, mais sucesso tem em sua apreensão desse mundo, especialmente se tem êxito em manter sua emoção, sua história de vida, à distância. Os objetos, com suas propriedades e relações, estão fora. O indivíduo possui os símbolos que representam tais objetos e possui seu raciocínio. Seus processos mentais consistem da manipulação de tais símbolos, seguindo regras lógicas e efetuando operações algorítmicas. Semelhante a esse é o funcionamento do computador. Inerente a essa visão é a dissociação mente e corpo. Quando, por outro lado, considera-se o organismo como inexoravelmente indissociado de seu contexto, a perspectiva se altera. A realidade não está 'lá' e fazer sentido não é papel exclusivo da mente, mas sim de um ser integral, que tem corpo, emoções, história, cultura, hábitos. Essencial aqui é a visão do ser humano como organismo em funcionamento num meio, sofrendo e gerando influência sobre ele. Assume-se a perspectiva da interação, a perspectiva histórica. Neste paradigma, o significado não é apenas lingüístico, não está nos símbolos, nas palavras, nas sentenças, emerge de toda uma configuração cognitiva que envolve várias dimensões do ser. Deixam de ser úteis as metáforas em que se tem a mente como máquina, bem como a da comunicação como um tubo condutor (Reddy, 1979).* Como conseqüência, descarta-se a visão do significado como um conteúdo transmissível de uma mente a outra. * Reddy (1979) faz um levantamento de expressões da língua inglesa que, ao mesmo tempo em que expressam a maneira como os falantes daquela língua concebem língua e comunicação, ao serem utilizadas, reforçam, nesses mesmos falantes, essas concepções. Tais expressões estão direta ou indiretamente ligadas à metáfora do tubo condutor, ou seja, ligadas à visão de que as palavras ou combinações delas servem como containers para idéias e sentimentos. Esses containers podem ser transferidos de um emissor (falante/escritor) a um receptor (ouvinte/leitor), situados de um lado e outro do tubo condutor (a língua, o código, as regras gramaticais). Nesse quadro, o receptor tem papel passivo e ao emissor cabe a maior parcela da responsabilidade pelo sucesso da comunicação, que é o resultado esperado, uma vez que há confiança na regularidade e invariabilidade do código, tido como patrimônio 18 Constituem, então, alguns exemplos de visões alternativas às inatistas, modularistas, objetivistas, o modelo conexionista, abordagens ligadas à corporeidade"' e, ainda, a Lingüística Cognitiva. O quadro que se segue possibilita a visualização esquemática das tendências, tanto do paradigma no qual se baseia a Lingüística Cognitiva, quanto do paradigma do cognitivismo: comum aos envolvidos no processo. Sermos (certamente também nós, falantes de línguas não tão distintas do inglês) visceralmente alimentados por e alimentadores dessa concepção, toma-nos presas numa malha lingüística que tem reflexo, além de em nossas práticas cotidianas, infonnais, também na ciência que produzimos. *' O organismo em interação - Na perspectiva não cognitivista, Foley (1997) também não encampa a abordagem das representações mentais, segundo a qual há um mundo lá fora, natural, de onde o indivíduo retira suas percepções e as representa em sua mente, estocando-as em compartimentos, na visão de entidades separadas: o indivíduo, a mente, as representações, o mundo. Esse autor apresenta a proposta de cognição de Maturana & Varela (1987) e Varela, Thompson & Rosch (1991), para a qual é primordial a interação entre as alterações no ambiente e as interações internas ao sistema (nervoso) do organismo. Nesse quadro, o mundo não existe como objeto de cognição, mas provoca alterações no sistema do indivíduo e os indivíduos, por sua vez, sofrem e ocasionam mudanças, num processo contínuo de construção do sistema social. Para tais autores, todo conhecimento é ação num contexto. Sentido é criado na relação entre os falantes e não está limitado às práticas lingüísticas. 19 Perspectiva Cognitivista/ INATISTA/ OBJETIVISTA Perspectiva Interacional/ Situacionista/ Cognitiva/ Cultural Lingüística Cognitiva . independência da sintaxe (abstrata); independência da linguagem . mentalismo . inatismo . entidades separadas: mundo/indivíduo . objetivismo: objetos têm propriedades essenciais . símbolo - mapeáveis a situações no mundo de forma objetiva . pensamento - manipulação de símbolos . primazia da sintaxe . significado é próprio das palavras e sentenças . representação fixa . não se baseia na análise de dados autênticos Metáforas: - A comunicação é um tubo condutor - A mente é um computador . visão integracionista (língua/outros processos cognitivos - sintaxe/outros níveis de estruturação lingüística) . noção de corporeidade . ênfase na interação . acoplamento estrutural . ênfase em processos - o observador tem um papel, perspectiva histórica . símbolo - mapeamento entre conceito e expressão . pensamento - imagético . a semântica é a motivação para as expressões . significado é co-construído . emergência . perspectiva baseada no uso Metáfora: - Informação lingüística é a ponta de um iceberg 20 3 - Lingüística Cognitiva: abordagens A Lingüística Cognitiva, quadro teórico adotado para este trabalho, engloba a Gramática Cognitiva proposta por Langacker (1987, 1991), a Semântica Cognitiva, com as teorias dos Espaços Mentais (Fauconnier, 1994, 1997), da Metáfora Conceituai (Lakoff & Johnson, 1980), e da Mesclagem Conceituai (Fauconnier & Turner, 1996, 1998,2002). Várias noções ou construtos teóricos propostos para a Gramática Cognitiva são adotados pela Lingüística Cognitiva, no geral. Aplicam-se, mais amplamente ao quadro, fundamentos relativos a, por exemplo, visão de símbolo e significado, papel de imagética, natureza dos universais, base cognitiva da linguagem, natureza da descrição teórica. Parte dessa fundamentação é exposta a seguir, partindo de considerações sobre a Gramática Cognitiva. Na seqüência, aspectos mais específicos das teorias dos Espaços Mentais e da Mesclagem Conceituai são abordados. 3.1 - Gramática Cognitiva Langacker (1987) afinna: "Minha própria insatisfação com as tendências dominantes na teoria atual é profunda. Atinge o estrato básico dos princípios organizacionais; noções sobre como é a língua e com o quê a teoria lingüística deveria se preocupar. ... Certo ou errado eu concluí, há um tempo, que os fundamentos conceituais da teoria lingüística foram constiuídos sobre areia movediça, e que o único remédio era começar de novo sobre terreno mais firme." (Langacker, 1987: v) (#2) 21 Esse autor estmtura um quadro que representa uma ruptura relativamente às tendências, em Lingüística, na linha das CCS. Sua Gramática Cognitiva apresenta uma visão da estrutura gramatical como processamento cognitivo. São integrantes dessa gramática unidades simbólicas bipolares, apresentando um pólo/estrutura/esquema semântico e um fonológico. Em seu modelo, há um contínuo do léxico à sintaxe. Símbolos complexos (estruturas gramaticais) são fonnados a partir de símbolos menores. Para Langacker (1987:2/3), não há um nível fomial, autônomo, de representação; a gramática consiste, então, da simbolização convencional da estrutura semântica e a estrutura semântica, por sua vez, é específica da língua, não é universal, e baseia-se em imagética convencional. Significado - Para Langacker (2004), na perspectiva da Lingüística Cognitiva, os significados estão nas mentes dos falantes e ouvintes."" A concepção desse modelo não é, no entanto, estática, mas sim compatível com a visão interativa do significado (como emergindo na interação social, sendo co-construído com base nas várias dimensões do contexto). Para o autor, nas mentes, encontram-se pré-concepções, expectativas acerca dos significados usuais das palavras, bases sobre as quais a negociação pode ocon^er. Langacker (2004) define significado lingüístico, de maneira não técnica. Admite ser a definição vaga, apesar de preferi-la a outra mais precisa, mas que seja totalmente composicional: "" Para Langacker (2004), a Lingüística Cognitiva equaciona significado e conceitualização e esta última é definida como processamento cognitivo, experiência mental (atividade neurológica). O autor afinna haver duas perspectivas para conceitualização: a do processamento - que visa à atividade em processo, dependente de estudos de laboratório, para se compreender como "experiências codificadas lingüisticamente são implementadas neurologicamente". afenomenológica - que visa a experiência nela mesma. Este é o foco da Semântica Cognitiva. Langacker (2004-cap.2:4) 22 "... além de elementos que sejam inquestinavelmente semânticos, o significado de uma expressão inclui quanta estmtura adicional for necessária para tomar a conceitualização coerente e relletir o que o falante ingenuamente veria como sendo o que se quis dizer e o que se disse, enquanto exclui fatos que sejam inquestionavelmente pragmáticos e desnecessários para se fazer sentido do que está lingüisticamente codificado." Langacker (2004-cap.2:14) (#3) Numa situação semelhante à utilizada por Langacker (2004-cap.2:23/4) para exemplificar essa questão, se alguém está te ajudando a guardar as compras e você percebe que essa pessoa está parada, segurando a lata de óleo, olhando para você interrogativamente, você pode dizer: (a) Eu quero que você coloque a laia de óleo na última prateleira da despeusa. (b) Coloque a lata de óleo na última prateleira da despeusa. (c) Coloque-a na última prateleira. (d) Óleo, última prateleira. (e) Na última prateleira. (í) Na última Qualquer uma dessas expressões será uma mensagem eficiente, pois o contexto situacional provê "substrato conceituai": todo o contetádo expresso abertamente em (a) está incluído no significado das demais expressões. Essa visão contradiz aquela que distingue significado lingüístico de interpretação contextual. O autor argumenta que fi-agmentos como os em (d) a (f) são muito comuns no uso lingüístico diário, e dever-se-ia tratar semelhantemente todos os casos, pois há sempre um contexto por trás de qualquer expressão. Nesse quadro, não são propostos universais sintáticos nem semânticos. A Gramática Cognitiva não postula a existência de estruturas profundas abstratas, nem tampouco de transformações. As alternativas de estruturas têm significados próprios. 23 expressam alterações de contexto, construais^'" distintos. Construed refere-se, então, à nossa capacidade de conceitualizar uma mesma situação objetiva de fonnas variadas, possibilidades alternativas de apresentação de uma mesma situação. E, para Langacker (2004), significado envolve, além de conteúdo conceituai, construal. Segundo Sinha (2001a), aprendemos essa flexibilidade de representação lingüística de uma mesma situação concomitantemente ao aprendennos a nos comunicar lingüisticamente. Sinha fornece-nos o seguinte exemplo: para a expressão em inglês The cup is on the saucer (A xícara está no pires), a língua zapotec, por exemplo, prefere algo como The cup is face the saucer. Podemos também, intra-lingüisticamente, optar por The saucer is under the cup (O pires está sob a xícara), dependendo do aspecto da situação que nos convém salientar. Há, portanto, variações intra- e trans-lingüísticas. Essa questão é abordada, segundo o autor, em termos das noções de figura e fundo da Psicologia Gestalt, bem como das noções de trajector e landmark da Lingüística Cognitiva. Nessa perspectiva, expressões com as mesmas condições de verdade, podem ser semanticamente distintas. Figura e fundo - Figura e fundo, noções da Psicologia Gestalt propostas para a percepção cognitiva do campo visual, entram nesse modelo teórico, então, relativas à dependência que significado tem de construal. Dentre os ramos da psicologia, a Gestalt foi a que mais contribuiu para a Lingüística Cognitiva, segundo Sinha (2001a). São concepções dessa abordagem dos estudos psicológicos adotadas pela Lingüística Cognitiva: (1) a atenção seletiva ser TT' . , . Ha temios relacionados ao quadro da Lingüística Cognitiva, tais como construal, frame, profile, trajector, landmark, que preferi deixar em inglês neste trabalho. O grupo de estudos em Ligüística Cognitiva da UFMG, InCognilo, está trabalhando numa proposta de tradução desses tentios para a h'ngua portuguesa, porém tal proposta não foi ainda finalizada. 24 essencial aos processos mentais superiores (figura/fundo); (2) a rejeição ao associacionismo, na concepção de que o todo não é a soma das partes.*'^ Figura e fundo referem-se a aspectos da distribuição de atenção, saliência, foco. Trajecíor/landmark, profile/base, perspectiva e especificidade são noções da Lingüística Cognitiva que expressam o fato de os princípios cognitivos que governam os sentidos também atuarem em relação a nossa utilização da linguagem/^ Essa afinidade da Lingüística Cognitiva com a Psicologia Gestalt reflete a perspectiva integracionista desse ramo dos estudos lingüísticos: a linguagem existe em conexão com outras habilidades cognitivas e a estrutura da língua deriva de capacidades psicológicas mais gerais (percepção, memória, categorização).*^' Wertheimer (1924) formula a Teoria Gestalt pela afirmação de que "Há todos, o comportamento dos quais não é determinado pelos seus elementos individuais, mas os processos das partes são eles mesmos determinados pela natureza intrínseca do todo. A teoria Gestalt espera determinar a natureza de tais todos." (#4) Esse autor explica que a força propulsora dessa teoria veio de um problema levantado por Ehrenfels, a partir da proposição, em psicologia, de a experiência ser composta de elementos; ouvimos uma melodia, depois a ouvimos novamente, tocada em notas distintas, como reconhecemos ser a mesma? Os elementos são distintos, porém proporcionam a experiência de um mesmo todo. Ehrenfels propõe que há um elemento extra aos elementos componentes, a geslallqualilat, possibilitando essa situação. Porém, a Teoria Gestalt vai além dessa explicação e propõe: minha percepção da melodia não vem desse processo secundário à percepção de seus componentes. O que se dá é o reverso. O que percebo de cada parte me é dado pelo todo. A postulação de que partes não são primárias à percepção e de que o todo é mais que a soma delas reflete- se, em Lingüística Cognitiva, na visão da não-composicionalidade do significado. O pólo semântico de toda predicação é composto de duas partes: base (o escopo da predicação) e profile (o elemento da base que tem proeminência, que está em evidência na predicação). Uma predicação nunca designa todos os detalhes do significado. Pode, por um lado, nomear o todo de uma imagem, ou, por outro, selecionar alguns de seus detalhes, deixando implícita a imagem maior. Trajeclor, neste quadro, refere-se ao primeiro participante de uma relação, ou seja, o mais proeminente, a entidade {conslnied entity) "a ser localizada , avaliada ou descrita". Landmark, por sua vez, refere-se ao segundo. (Langacker 2004-cap.3:15) Perspectiva refere-se à posição da qual visualizamos uma situação. (Langacker, 2002:2) Especificidade diz respeito à proximidade com que se examina uma situação, em hierarquias de esquematicidade do tipo coisa>criatura>inseto>mosquito>mosquito da fruta (Langacker, 2002:2) xvi Langacker (2000) relaciona alguns fenômenos psicológicos que a gramática cognitiva considera como básicos para a utilização da linguagem, tais como entrincheiramento {entrenchment - através da repetição, mesmo um evento complexo resulta numa rotina, toma-se manipulável e adquire status de unidade); abstração (emergência de uma estrutura através do reforço de aspectos comuns inerentes a múltiplas experiências -esquematização é um tipo de abstração); comparação (habilidade de se detectar 25 Langacker (2004-cap.3:2/4) menciona várias assimetrias que podem ser descritas em termos de figura e fundo, todas manifestações de um mesmo traço cognitivo: interpretação de uma determinada experiência, tendo por base conhecimento prévio ou o fato de uma concepção facilitar a emergência de outra. São exemplos dessas assimetrias: - fenômenos da percepção conhecidos como figura e fundo - um barulho sobre o silêncio, o movimento do cursor sobre a tela do computador; - categorização - o elemento sendo categorizado é julgado em relação a uma categoria pré- estabelecida; - as expressões recrutam conhecimento prévio para sua compreensão - qualquer que seja a expressão; - o domínio fonte, no caso das metáforas, precede sobre o alvo e ambos, por sua vez, são fundo conceituai para o espaço mescla; - no discurso narrativo, as descrições servem de fundo para a linha dos eventos; - conteúdo alvo de discussões opõe-se a comentários subsidiários (fundo); - no ambiente de uma única sentença, uma oração pode ser fundo para a outra; - no decorrer do discurso, a estrutura corrente tem sempre por base todo o discurso prévio. Como já mencionado, este modelo não lida com possibilidades abstratas, um sistema lingüísfico abstrato. Não se afirma, por exemplo, a priori, que uma dada possibilidade de estruturação seja agramatical. As possibilidades estão relacionadas ao uso. O que existe são convenções de forma, por uma rotinização, por entrincheiramento. Os dados muitas vezes são surpreendentes e há sempre uma interação de fatores a se considerar. Relacionado a isso, tem-se uma concepção mais relafivista da linguagem e sua relação com a sociedade, a cultura: evitam-se, então, além de previsões aprioristicas, afirmações universalistas, generalizações muito abrangentes. Há, neste quadro, ainda, o sentido da emergência e a perspectiva da negociação ligados à atribuição de sentido. discrepâncias entre estruturas - categorização é um tipo de comparação); composição (combinação de unidades mais simples em mais complexas); associação (um tipo de experiência evoca outra - simbolização é um tipo de associação entre conceitualizaçôes e representações mentais de entidades observáveis, tais como sons, gestos e marcas gráficas). Esses fenômenos (ou operações) ocorrem em várias combinações, como redes nas quais umas operações aplicam-se aos resultados das outras. 26 A Gramática Cognitiva e, mais amplamente, a Lingüística Cognitiva, caracteriza-se, segundo Langacker (2000), pela visão não-reducionista da estrutura lingüística. Entende que o que o falante tem de aprender e representar mentalmente na aquisição de uma língua é vasto. Considera-se também que, se a representação cognitiva é redundante e massiva, sua descrição também deve sê-lo. Esse modelo tem caráter empirista condizente com a opção por uma metodologia baseada no uso. Modelos dessa natureza, de orientação cognitiva, segundo Kemmer & Barlow (2000:viii/xxii), postulam: - que a análise lingüística e a teorização devem se apoiar nos dados de uso; - que a compreensão e a produção são integradas, só separáveis para propósitos metodológicos; - que o aprendizado e a experiência têm papel crucial na aquisição da linguagem; que uso, variação sincrônica e mudança diacrônica se inter-relacionam; - que o sistema lingüístico está interconectado com outros sistemas cognitivos e - que as representações lingüísticas são emergentes e não vistas como entidades fixas, operadas por regras (instruções ou procedimentos). Ao invés disso, as unidades lingüísticas são vistas como rotinas cognitivas (padrões recorrentes de ativação mental). Os aspectos relativos á Gramática Cognitiva aqui mencionados aplicam-se também a outras abordagens da Lingüística Cognitiva, como a Teoria dos Espaços Mentais e da Mesclagem Conceituai, que foram especificamente utilizadas nesta pesquisa e são abordadas nos dois itens seguintes deste capítulo. 3.2 - Semântica Cognitiva : Espaços Mentais Para a Semântica Cognitiva (Fauconnier, 1997), ligada a nossa utilização da linguagem, ocorre uma série de operações mentais. As expressões lingüísticas são a parte acessível da comunicação, que envolve construções cognitivas subjacentes. A metáfora utilizada no quadro da Lingüística Cognitiva para expressar essa relação entre 27 as expressões, que são visíveis, delineáveis, e as operações cognitivas menos acessíveis, ligadas à linguagem, é a do iceberg. Trazemos à interpretação uma capacidade muito rica, envolvendo aspectos psicológicos gerais, tais como a percepção, a categorização e a abstração. Realizamos projeção e integração conceituai, rotineiramente, porém, sem nos darmos conta de que o fazemos. Nessa perspectiva, a língua nos dá dicas de construções no nível cognitivo. As expressões lingüísticas não possuem significado em si mesmas, possuem significado potencial, geram significado através de dicas aos ouvintes que estruturam espaços mentais, constróem mesclagens conceituais a partir da informação lingüística restrita e da afivação de certos cenários, de esquemas. Esquemas são expectativas, construídas tendo por base nossas rotinas, são parte de nossa história. Ao interagimios com o mundo não partimos de um ponto zero a todo instante, temos por base certas expectativas em relação ao universo à nossa volta, esquemas internalizados. Porém, a própria interação e negociação constantes garantem a possibilidade de alteração, flexibilização. Esquemas, portanto, não apresentam caráter de rigidez ou constância absoluta. Esse é um processo dinâmico de rotinização da experiência. Relacionados a essas expectativas, esses mapas de possibilidades semânticas, há os esquemas de evento ou scripts que, por sua vez, são expectativas sobre toda uma seqüência de acontecimentos de detenninados eventos. Nesse contexto, a compreensão do sentido de um item lexical envolve conhecimento do(s) esquemas(s) ao(s) qual(is) esse item pertence, no contexto de uso. As palavras evocam sistema(s), redes emergentes de significado, que se aplicam a qualquer nível gramafical; ao léxico, á morfologia, à sintaxe, ao discurso. Nessa concepção, esquemas e imagens estão na base do pensamento, o que contesta a visão computacional da Lingüística e composicional do significado. Há 28 padrões imagéticos subjacentes à linguagem, que surgem e se desenvolvem a partir da experiência. Observe as seguintes expressões: Eu saí de casa hoje às 9 horas. Eu saí daquele trabalho porque não gostava do chefe. A informação saiu antes da hora. Sua raiva saiu descontrolada. Todas essas expressões incluem sair, mais ou menos metafórico, e relacionam-se ao padrão representado pelo diagrama seguinte: Onde: Tj - trajector Lm - Landmark Nesse contexto, as noções de frame e modelos cognitivos, culturais, são essenciais."^'" De acordo com esse modelo, os recursos gramaticais disponíveis numa língua têm caráter imagético. Selecionamos imagens específicas para estruturar lingüisticamente as situações que pretendemos comunicar. As línguas diferem em suas estruturas gramaticais, diferem, portanto, nas imagens disponíveis aos falantes. Jonhson (1987) argumenta que certos esquemas foram construídos na infância, a partir de experiências corporais, e os utilizamos para interpretar metaforicamente nossa experiência cotidiana. Palmer (1996) propõe que esquemas imagéticos sejam abstrações orgânicas, incluindo conceitualizações, tanto específicas, quanto aquelas ligadas a experiências fisicas, corporeizadas. Estabelece como função prototípica da imagem a representação do ambiente, sem sugerir, no entanto, que ela corresponda direta e exatamente a todos os elementos deste. Esse autor discute vários conceitos relacionados à imagética ligada à linguagem, cultura e cognição humanas. Para ele, imagética filtra e emoldura nossas percepções. Em geral, nossa comunicação acontece sobre imagens mentais, cuja relação com o chamado mundo real é indireta. A imagética reforça comportamentos culturais. Todas as noções referentes à distribuição de saliência e foco relacionadas a figura/fundo, portanto ligadas ao campo da percepção cognitiva visual, tais como Irajector/landmark, profile/hase, perspectiva e especialidade apresentados anteriormente são parte do sistema de imagética. 29 Segundo Fauconnier (1997), por estamios, por exemplo, familiarizados com situações envolvendo transações comerciais, ao ouvinnos uma frase do tipo Jack comprou ouro de Jill, identificamos todo um quadro, um frame para vender e comprar, constituído de vários papéis e relações: comprador, vendedor, mercadoria, propaganda, dinheiro, preço e uma série de inferências relativas a posse, obrigações no negócio, etc.. No momento do discurso, XdX frame entrará na construção de espaço mental relativo à frase referida. .Jack, Jill, ouro (elementos a, b e c) serão mapeados aos lugares apropriados no frame. Frame é um termo de Fillmore (1982) e Idealized Cognitive Model, ICM, está em LakofT (1987). Referem-se a abstrações, parte do sistema conceituai. Em Fillmore (1982) encontra-se: "Pelo termo framé' eu tenho em mente qualquer sistema de conceitos relacionados de tal forma que para se compreender um deles é necessário compreender toda a estrutura na qual ele se insere; quando uma das coisas nessa estrutura é introduzida em um texto, ou uma conversação, todos os outros são automaticamente postos à disposição. Tenho a intenção que a palavra frame'' como usada aqui seja um termo geral para uma série de termos variadamente conhecidos na literatura de compreensão de língua natural, tais como 'esquema', 'script', cenário, '■ideational scaffolding", 'modelo cognitivo' ou 'folk theory'." Fillmore (1982:111) (#5) Seana Coulson, no curso sobre Semântica Cognitiva ministrado em Odense, Dinamarca, em 2001, discute a distinção entre frames, modelos cognitivos (ICM) e domínios: frames apresentam uma estruturação relativamente maior em termos de papéis e propriedades que os modelos cognitivos; domínios são frames ainda ampliados, mais genéricos. Por exemplo, um domínio ligado ao conceito 'viagem' comportaria vários frames do tipo: preparação, trajeto, meio de transporte, bagagem, acomodação, etc., que apresentam estruturação própria. Conceitualizações do tipo abaixo seriam modelos cognitivos: Ação (que envolve intenção) gera conseqüência, (modelo da ação) As pessoas são responsáveis pelas ações, (modelo da responsabilidade) Langacker (2004-cap.2:17) afirma que os termos domínio, yz-awe e ICM são em geral intercambiáveis, apesar de não perfeitamente equivalentes. Fillmore (1882:116) relata ter percebido que, para lidar com semântica lexical seria necessário se pensar não somente em termos de um grupo de palavras, mas de um domínio de vocabulário, envolvendo esquematização. O autor mostra que, em 1977, revelara certas estruturas cognitivas (verbos semanticamente relacionados uns com os outros, invocando, de maneiras variadas, uma detenninada cena). Para 'evento comercial' a cena esquemática inclui: o Comprador (definido como alguém interessado em trocar dinheiro por mercadoria), o Vendedor, a Mercadoria, o Dinheiro (também definidos nesse estilo). O autor caracteriza comprar distintamente de vender , pagar, gastar, custar, cobrar, em termos de foco: cada um desses verbos refere-se a 'foco na ação de alguém com respeito a algo ou alguém da relação', deixando como fundo os demais elementos. (Exemplo: comprar focaliza a ação do Comprador com respeito à Mercadoria.) 30 ^ . comprador y . vendedor ^^nercadoria Espaço Mental Frame (Fauconnier, 1997:12, Fig. 1.1) (#6) Palmer (1996) define frames como molduras nas quais encaixamos a experiência e que nos permitem inferências e espaços mentais, neste quadro, são representações teóricas de possíveis construções cognitivas, que acontecem à medida que elaboramos nossos pensamentos, falamos ou interpretamos linguagem. Por exemplo, há uma configuração de espaços para Naquela época, eu tinha uma bicicleta. Naquela época, um 'construtor de espaços', nos tennos da teoria, suscita a constituição de um espaço PASSADO, estruturado pelo frame que contém os elementos eu e uma bicicleta (representados no diagrama a seguir pelas letras a q b, respectivamente) e a relação a TER b. Esse espaço está ligado/mapeado ao espaço BASE, aqui, como mais comumente acontece, a Realidade do Falante. Todo esse processo pode ser representado através de um diagrama: a: eu h: uma hicideta a TI;r b PASSADO Essa configuração seria distinta daquela para Eu quero uma bicicleta. Neste caso, criamos um espaço do desejo, PRESENTE, estruturado frame que contém os mesmos elementos a e è e a relação a QUERER b, ligado/mapeado ao espaço BASE: 31 Assim, os frames organizam os espaços mentais, que são de vários tipos: temporais; imagéticos; hipotéticos; contrafactuais; dramáticos (peças teatrais, filmes); indicadores de crenças, desejos, etc.. Os usuários da língua exploram as expressões; estabelecem, estruturam, interconectam os espaços e indicam qual deles está em foco. Mesmo sentenças simples são complexas em tennos dosy/Y/meiVmodelos cognitivos que podem estar envolvidos, gerando diferentes interpretações. Além disso, as pessoas aplicam os modelos ao mundo de diferentes maneiras. Compartilhamos vários desses modelos, mas às vezes só aparentemente, o que leva a problemas de comunicação (trans- e intra-culturalmente)."" Segundo Fauconnier (1997), as expressões lingüísticas não representam ou codificam as construções complexas necessárias para que a comunicação se dê. Uma sentença, por exemplo, conterá os seguintes tipos de informação: informação referente a quais novos espaços estão sendo estabelecidos, tipicamente expressa por meio dos construtores de espaço\ - dicas de que espaço está em foco no momento, qual é sua conexão com a base, e quão acessível está; essa informação é tipicamente expressa por meio de tempos e modos gramaticais; ** Esta é uma questão que mereceria um estudo especifico. Há uma série de situações nas quais a incompreensão entre os envolvidos numa interação acontece quando os indivíduos pensam estar se referindo a um modelo comum quando não estão, assumindo pressuposições diversas. Ex: interação entre um especialista (médico) e um leigo (paciente). 32 - descrições que introduzem novos elementos (e possivelmente suas contrapartes) aos espaços; - descrições ou anáforas ou nomes que identifiquem elementos existentes (e possivelmente suas contrapartes); - informação sintática que tipicamente estabelece esquemas de nível geral c frames', - informação lexical que conecta elementos dos espaços mentais aos frames e modelos cognitivos do conhecimento prévio; essa infonnação estrutura os espaços internamente, beneficiando-se de esquemas prévios pré-estruturados disponíveis. Tais esquemas podem, no entanto, ser alterados ou elaborados dentro das construções em andamento; - marcações de pressuposição que permitem algo da estrutura ser propagado instantaneamente através da configuração de espaço; - infonnação retórica e pragmática, transmitida por palavras como even, hut, already, que tipicamente sinalizam escalas implícitas para raciocínio e argumentação." (Fauconnier, 1994:xxiii) (#7) As expressões lingüísticas, então, fornecem infomiação para a construção de espaços, com seus elementos e as relações entre eles. Neste quadro, são denominadas 'construtoras de espaço' expressões que venham a estabelecer novos ou se referir a espaços previamente estabelecidos no discurso (como naquela época, em Naquela época, eu tinha uma bicicleta). Podem ser, segundo Fauconnier (1994:17), sintagmas preposicionais, adverbiais, conectivos, combinações sujeito-verbo do tipo {Mary hopes, Gertrude claims, Max believes) ou infomiações pragmáticas (ficção, teatro, estilo indireto livre, ou mudança de tempo ou crença não marcada). Outra noção essencial para a Lingüística Cognitiva é a noção de mapeamento, que é emprestada da matemática e que significa, no geral, a correspondência entre dois conjuntos, com a atribuição, a cada elemento do primeiro, uma contraparte no segundo. No âmbito da Lingüística Cognitiva, mapeamentos são operações mentais complexas entre domínios. Os domínios incluem, na sua estruturação, frames prévios e os espaços mentais, introduzidos localmente. Os mapeamentos são parciais, assimétricos e móveis. Todo esse processamento é 33 subjacente à gramática cotidiana. Para Fauconnier (1997), mapeamentos são centrais na nossa capacidade de produzir e interpretar significados. Anteriormente à visão expressa pela Teoria da Metáfora Conceituai (Lakoff & Johnson, 1980, ou mesmo Reddy, 1979), no entanto, mapeamentos eram considerados fenômenos ligados à metáfora e analogia, e metáfora era somente lingüística, especialmente literária. Na perspectiva de Lakoff & Johnson, porem, pensa- se em metáforas, muito mais significativamente, como recursos cognitivos de compreensão de experiência e estruturação de pensamentos e ações. Não são casos especiais nas línguas, nem tampouco estão restritos a elas. Só ocorrem na língua porque são parte do sistema conceituai. Nessa concepção, então, mapeamentos ocorrem muito mais generalizadamente em nossa utilização de linguagem e na realização de outras atividades ligadas a pensamento. Este trecho de Menino sentindo mil coisas (Azevedo, 1995) evidencia o fato de ser corriqueiro, diário, simples, dominante, até mesmo no mundo infantil, tratarmos um conceito de um domínio da experiência em termos de outro domínio: "Meu pai, uma vez, estava no ônibus voltando do trabalho. Disse que um homem subiu no ônibus, parou lá no fundo e gritou: - Burro! — foi aquele susto. Todo mundo olhou para Irás. O sujeito riu e berrou: - Só chamei um! Ninguém gosta de ser xingado de burro porque burro não é só aquele bicho parecido com o cavalo só que um pouco menor e bem mais orelhudo. Existe coisa que a gente fala e todo mundo entende mas ninguém sabe como. Um exemplo. Falar que a pessoa tem um parafuso a menos. Ninguém tem parafuso nem a mais nem a menos, mas todo mundo entende. Dizer que não sei quem entrou pelo cano. Não existe cano nenhum mas todo mundo entende. Achar que está quente pra chuchu. Não tem nem chuchu nem sombra de chuchu, mas todo mundo entende. É que às vezes, no mundo, é comum a gente falar uma coisa para dizer outra coisa ou, às vezes, enxergar uma coisa no lugar de outra. 34 É só reparar, Je novo, as nuvem do céu. A gente olha, aperta um pouco o olho e, de repente, as nuvens parece que desenham um rosto, uma árvore ou outra figura qualquer. Uma vez escutei o marido da dona Odete dizendo que ela era um doce. A dona Odete pode ser doce mas não é doce de verdade, senão a coitada ia viver se coçando cheia de mosca, barata e formiguinha. Outra coisa. Se uma pessoa chega e pergunta se está tudo azul ela só está querendo saber se está tudo bem e não se pintaram o mundo de azul. " (Azevedo, 1995) O conceito de espaços mentais constitui um elemento importante para a descrição de operações cognitivas ligadas a pensamento. As expressões lingüísticas e a gramática são mediadoras de um processo dinâmico no qual espaços mentais são criados, estruturados, interconectados. Nesse processo, ocorrem mapeamentos e projeções (metafóricos, de identidade ou transformação, de frames e seus elementos, etc). Para Fauconnier (1994), não se considera que os espaços mentais façam referência ao mundo objetivo. Os diagramas deste modelo visam a descrever discurso em sua fluidez, o que significa que não se trata de representações mentais pré- existentes. Quando descrevemos o mundo real, pode haver algum emparelhamento entre o espaço mental construído e o domínio da referência, mas isso não acontece com casos mais complexos, por exemplo, envolvendo contrafactuais, crenças, etc..''"' Quanto ao status científico da noção de espaços mentais, Fauconnier (1994) afímia: "No nível de investigação científica, "espaços mentais" e noções relacionadas examinadas em nosso trabalho são claramente construtos teóricos, projetados para modelar organização cognitiva de alto nível. Nesse sentido, o status é aquele de noções científicas usuais, das ciências físicas, sociais ou cognitivas: Campos magnéticos, habitus social (Bourdieu (1979)), estruturas sintáticas, todos têm uma conexão com o "mundo real" que é necessariamente mediada pelas teorias das quais eles são parte. Tais teorias vêm acompanhadas de (acordadas socialmente e, ao mesmo tempo, disputadas ferozmente) procedimentos para se conectar as noções com outros aspectos de nossa interação com o mundo - os experimentos do físico, as anotações dos astrônomos, os julgamentos de gramaticalidade do lingüista, as pesquisas do sociólogo e os cálculos dos economistas. O quanto uma noção é sentida como real depende de fatores, tais como o grau de comprometimento com a teoria, sua utilidade para a apreensão do mundo, se adquire ou não aceitação ampla e daí por 35 o presente trabalho utiliza de forma essencial o conceito de espaços mentais e apresenta diagramações de trechos discursivos dentro deste modelo. Tal conceito integra a Teoria da Mesclagem, apresentada a seguir: 3.3 - Semântica Cognitiva: Mesclagem A visão de domínios para as partes do texto narrativo oral, proposta nesta pesquisa, incluiu a visão de que a representação das falas de personagens envolve mesclagem conceituai. Mesclagem, para a Lingüística Cognitiva, é uma operação cognitiva que envolve projeção de elementos selecionados de, no mínimo, dois espaços input, resultando em integração conceituai, num espaço mescla. Segundo Fauconnier & Turner (1998), projeção ocorre rotineiramente ligada à nossa utilização lingüística e serve a propósitos variados, numa infinidade de contextos: estruturação sintática, atribuição de significados de palavras e sentenças, metáforas, scripts, formas indutiva e dedutiva de raciocínio e estrutura narrativa. O modelo de Mesclagem (Fauconnier & Turner, 1996, 1998, 2002) pode ser visto como um desenvolvimento da Teoria da Metáfora Conceituai (Lakoff & Johnson, 1980),""" teoria que propôs que metáfora é um recurso de nosso sistema conceituai, ligado à forma como organizamos nossos pensamentos e nossas ações.""'" diante. Nesse sentido, as teorias populares, religiões, paranóia, e ciência, todas produzem fortes sentimentos de realidade. Nós não precisamos debater a "realidade" (nesse sentido) dos espaços mentais (ou estruturas sintáticas, ou buracos negros, ou charms e quarks)" (Fauconnier, 1994: xxxi-xxxii) (#8) """ Essa é uma visão da qual nem todos os autores compartilham. """ Para ilustrar o que os autores querem dizer com o fato de as metáforas organizarem nossas ações, se num determinado momento a metáfora conceituai AMOR É GUERRA passa a ser significativa para uma pessoa, ela poderá mudar sua predisposição ao iniciar uma nova relação afetiva. Funcionamos em conformidade com nossas verdades, nossos modelos cognitivos. Lidamos com uma série desses modelos em nosso cotidiano (o que posso comer, em que loja encontro a roupa que gosto, etc.). A implicação 36 Lakoff & Johnson (1980) propõem a existência de sistemas metafóricos subjacentes a nossa utilização da linguagem. Varias expressões compõem uma única metáfora conceituai.*"'^ As metáforas conceituais são culturais. Em nossa cultura, por exemplo, discussão é conflito físico. Utilizamos cotidianamente expressões variadas baseadas em mapeamentos do tipo: Fonte Alvo COMBATE - CONFLITO FÍSICO DISCUSSÃO posição opinião combatente participante defesa resposta render-se mudar de opinião Metáforas envolvem mapeamentos entre domínios da experiência, seguindo um princípio da direcionalidade. Esse princípio nos diz que, em geral, compreendemos um conceito mais abstrato lançando mão de conceitos mais concretos. Há, então, o domínio fonte, mais simples, mais concretamente perceptível, e o alvo, mais complexo, abstrato, menos delineável. Realizamos projeções de estruturas de um domínio sobre outro, envolvendo objetos, propriedades, ações e relações: Fonte (Simples, Concreto) Alvo (Abstrato, Complexo) Objetos Objetos correspondentes Ações Ações correspondentes Propriedades Propriedades correspondentes Relações Relações correspondentes O processo metafórico é o da projeção do que se sabe a respeito do domínio fonte, do qual se tem uma compreensão 'não metafórica' ou 'relativamente menos política dessa questão é que o poder e a mídia têm grande força na imposição de metáforas e na conseqüente criação de verdades, realidades propositalmente construídas. Tal sistematicidade já havido sido revelada em Reddy (1979) em relação à metáfora do tubo condutor. 37 metafórica', para o domínio alvo, resultando na compreensão deste último. Na base da teoria está a postulação da motivação por experiência corporal. O modelo da Mesclagem pode lidar com uma série de outros fenômenos conceituais além de metáforas."*^ Utiliza, como ferramenta teórica, os espaços mentais, que têm a característica de serem criados localmente, serem mais circunstanciais que domínios, que, por sua vez, referem-se a estruturas mais gerais ligadas à experiência. São propostos, na Teoria da Mesclagem, além dos dois espaços input iniciais, correspondentes aos domínios da Teoria da Metáfora Conceituai, o espaço genérico e a mescla. "Tomamos como uma descoberta fundamental e estabelecida da Lingüística Cognitiva que a estrutura de mapeamento e a projeção metafórica têm papel central na construção de raciocínio e significado. Dados a existência e o papel central de tais mapeamentos, nosso foco está na construção de espaços adicionais, com estrutura emergente, não diretamente disponível nos domínios input. Inferências, emoções e conceitualizações não explicadas nos quadros teóricos disponíveis, são elegantemente tratadas pelo modelo de integração conceituai." (Fauconnier & Turner, 1998:135) (#09) No modelo de mesclagem há; - dois ou mais espaços inputs, que constituem informação prévia, ligados à experiência; são em algum sentido análogos, mapeáveis entre si, de onde elementos são selecionados para compor o espaço mescla; - um espaço genérico, uma abstração contendo o que há em comum entre os inputs e - a mescla, contendo elementos selecionados dos inputs, estrutura emergente, as inferências, que resultam dos seguintes processos imaginativos de integração, XXV ^ Xeoria da Mesclagem explica também exemplos mais complexos de metáforas nos quais os mapeamentos não ocorrem de forma tão direta. Nestes casos, a análise através da Metáfora Conceituai, mais restrita aos domínios, requereria muita informação prévia, relacionando várias metáforas, recursivamente. 38 composição, completamento e elaboração. As estruturas emergentes, por sua vez, podem ser base para outras mesclagens. Espaço Genérico Mescla (Fauconnier&Turner, 1998:143) Nos diagramas, como o acima, que representam mesclagens, encontramos: os espaços mentais representados por círculos; os elementos dos espaços, por pontos; as conexões, por Unhas cheias (mapeamentos) ou pontilhadas (projeções) e a estrutura emergente, por um quadrado na mescla; Num exemplo clássico em Semântica Cognitiva, encontra-se a seguinte fala de um filósofo contemporâneo, ao conduzir um seminário: "Afirmo que a razão é uma capacidade que desenvolve por si só. Kant discorda de mim nesse ponto. Ele diz que é inata, mas eu respondo que falta argumentação, ao que ele contrapõe, em Critica da Razão Pura, que somente idéias inatas têm poder. Porém a isso eu digoi e a seleção de grupo neuronal? E ele não responde." (Fauconnier and Turner, 1998:145) (#10) 39 o que está em questão nessa situação é como podem indivíduos localizados em espaços temporais distintos envolverem-se em uma interação. Naturalmente que fazemos sentido dessa passagem não porque trazemos Kant para a modernidade, de forma realista, como explicam os autores, mas sim porque lançamos mão de nossa habilidade cognitiva de integrar elementos de fontes distintas (os espaços input) num local único (o espaço mescla), o que pode ser representado como a seguir: Espaço Genérico Mescla Os dois espaços input no diagrama apresentam certa analogia em termos dos elementos que os estruturam, possibilitando mapeamento entre esses elementos e projeção da abstração deles para o espaço genérico. Os elementos selecionados dos inputs projetados para o espaço mescla resultam numa unidade conceituai. Neste caso, a conceitualização resultante apresenta, como um elemento emergente, a situação em que Kant e o filósofo contemporâneo se encontram, situação essa, não existente em qualquer dos espaços input. 40 Um exemplo de uma metáfora sendo analisada através da proposta de mesclagem é uma estrutura do tipo: "Esse cirurgião é um açougueiro".""^' Nesse caso, há dois domínios nitidamente presentes, numa clara situação de analogia, que podem ser vistos como apresentando, cada um deles, os seguintes elementos: Fonte Açougueiro açougueiro carne animal açougtie instrumentos para corte procedimento: corte finalidade: corte da carne Alvo Cirurgião cirurgião paciente humano sala de cirurgia instrumentos cirúrgicos procedimento: corte finalidade: cura do paciente O diagrama seguinte representa, com os espaços mentais circunstancialmente construídos, o processo cognitivo de mesclagem conceituai que ocorre em relação à metáfora referida; Espaço Genérico agente paciente instrumentos local de trabalho Espaço de input 1 açougueiro animal instr. para corte açougue finalidade:corte da earn] característica: corte ostensivo \ Espaço de input 2 cirurgião humano instr. cirúrgicos sala de cirurgia finalidade: cura do paciente característica: corte pontual / Espaço Mesclado cirurgião humano instrumentos cirúrgicos sala de cirurgia finalidade: cura do paciente característica: corte ostensivo INCOMPETÊNCIA Esse exemplo metafórico foi dado por Seanna Coulson e discutido no curso de Semântica Cognitiva, no Summer Institute da Universidade da Dinamarca, em Junho 2001. A diagramação de mesclagem como apresentada foi feita para este trabalho. 41 o espaço mesclado contém, como vimos, elementos selecionados dos dois espaços input. Contém ainda a inferência de incompetência ligada ao cirurgião. Essa inferência é um elemento emergente, pois não está associado a nenhum dos espaços input originais: não são os cirurgiões que são incompetentes, nem tampouco os açougueiros. A incompetência ligada ao cirurgião surge, neste caso específico, como resultado da mescla dos elementos dos dois domínios. E na mistura que emerge a inferência negativa. Mesclagens podem ocorrer em modalidades múltiplas: - entre elementos visuais - entre elementos visuais e lingüísticos - auditivamente em fonemas, resultando em trocadilhos - sintaticamente No universo artístico e publicitário, por exemplo, percebe-se essa utilização constante do mecanismo de projeção através de uma infinidade de exemplos de textos e imagens envolvendo integração conceituai. Em cartoons que trazem animais, mescla é a regra, e um padrão simplificado pode ser vislumbrado: Input 1 Mundo humano tipo de reação tipo de movimento Cartoon Mescla Input 2 Mundo animal estrutura corporal básica 42 A imagem a seguir integra uma campanha em defesa da Mata Atlântica e apresenta o padrão descrito acima. A imagem, juntamente com um texto introduzido por "Não deixe a natureza ir embora", compõem a situação mescla, que tem por espaços input Mundo Natural e Mundo Humano. Na mescla, ocorrem idéias e inferências que podem resultar na modificação de como conceitualizamos os espaços input, ou seja, após a realização do mapeamento, mudamos o que pensamos sobre um dos domínios fonte. No caso dessa propaganda, há uma mensagem clara objetivando conscientização para mudança de atitude neste segundo domínio. Nossa compreensão da mescla, como qualquer processo de inferência de significado, sofi"e restrição de conhecimento prévio. Mesclas são, muitas vezes, convencionalizadas, portanto culturais, havendo também mesclas novas, criadas circunstancialmente. No entanto, o mecanismo cognitivo envolvido nos dois casos, é, em princípio, o mesmo. Mesclagem tem a ver com processamento cognitivo dinâmico: é não- composicional e não-puramente mental. Nessa concepção da integração conceituai, o significado não reside no espaço mescla apenas, nem tampouco pode ser previsto com 43 base apenas na estrutura dos inputs', encontra-se no conjunto representado pelo diagrama, com todos os espaços, mapeamentos e projeções. Mesclagem tem sido utilizada na explicação da construção de significado, por exemplo, em analogias, contrafactuais e combinações de conceitos, como no caso de termos compostos da língua inglesa. Turner & Fauconnier (1998) mostram que, em relação a um tenuo composto do inglês, não captamos seu significado apenas pela combinação dos sentidos centrais dos ternios componentes. A Lingüística Cognitiva propõe que, para a compreensão dessas estruturas, construímos mesclagens conceituais a partir da infomiação lingüística restrita, da ativação dos cenários dos quais os elementos componentes participam e dos papéis que desempenham nesses cenários. Assim, a compreensão desses termos compostos envolve, nesse contexto teórico, acessannos estruturas conceituais amplas, envolve conhecimento dos esquemas de nossa experiência, padrões de interação com os elementos em questão. Na anáhse realizada em Turner & Fauconnier (1998), dolphin safe, numa lata de atum, sugere medidas de proteção de golfinhos ao se pescar atuns; numa situação de mergulho, condições sob as quais os mergulhadores são protegidos por golfinhos {dolphin safe diving); ou sugere, noutro contexto, que peixes dourados estarão protegidos dos golfinhos, seus predadores. Os autores trabalham ainda com as possibilidades que surgiriam da mera inversão dos elementos do composto {safe dolphin: o golfinho que é protegido, ou que não causará os problemas que outros causam, etc.). O que Turner & Fauconnier mostram é que se o significado da estrutura fosse puramente composicional, ou seja, unicamente resultado da soma dos significados individuais de seus elementos componentes, essa multiplicidade semântica não aconteceria. 44 Os contrafactuais prestam-se à análise através de mesclagem, pois estabelecem, ao lado da realidade pressuposta, uma situação imaginária, contrária aos fatos. Essa realidade e a situação imaginária servem de dois espaços input, cujas estruturas são parcialmente projetadas numa mescla, que é, em geral, uma conceitualização de uma situação implausível. Num esforço de maior formalização, Fauconnier & Turner (1998) propõem Princípios de Otimização, aos quais uma mescla atenderá, mais ou menos adequadamente, resultando, segundo eles, em melhores ou piores mesclas: "Integraçüo - A mescla deve constituir uma cena fimiemente integrada que possa ser manipulada como uma unidade. Mais geralmente, cada espaço na estrutura de mescla deve poder ser visto como integrado. Topologia - Para qualquer espaço input e qualquer elemento naquele espaço projetado à mescla, é ideal para as relações do elemento na mescla corresponderem às relações de sua contraparte. Rede - A manipulação da mescla como uma unidade deve manter a rede de conexões aos espaços input, facilmente e sem observação ou computação adicional. Desempacotamcnto - A mescla sozinha deve possibilitar àquele que compreende desempacotar a mescla para reconstruir os inputs, os mapeamentos trans-espaciais, o espaço genérico, e a rede de conexões entre esses espaços Boa razüo - Se um elemento aparece na mescla, haverá pressão para encontrar significação para esse elemento. Significação incluirá elos com outros espaços e funções relevantes no processamento da mescla." (Fauconnier & Turner 1998:163) (#11) Para Coulson & Oakley (2000) a Teoria da Mesclagem evidencia a relação entre a compreensão da linguagem e processos do pensamento e da atividade humanos porque, na construção do significado, estão envolvidos, além das estruturas lingüísticas, outros elementos: o contexto, o conhecimento de mundo e as habilidades cognitivas gerais. 45 Neste trabalho, que visa tanto à checagem de um aspecto dessa inter-relação entre linguagem e outros processos da atividade humana, quanto à descrição da estruturação do texto narrativo oral de uma perspectiva cognitiva, utiliza-se a Teoria da Mesclagem Conceituai nas diagramações contendo falas de personagens. A visão dessas falas como compondo o Domínio da Encenação no contexto da narração justifica tratá-las como mesclagens de elementos selecionados de dois mundos no universo do texto: o Mundo da História e o Mundo da Narração, como será discutido no capítulo 10. 46 4 - Narrativa As narrativas lingüísticas são tentativas de se reviver eventos, no que eles têm de ocorrido ou imaginado, limite, na maior parte dos casos, indefmível. Há muitas abordagens de estudos de narrativas: Narratologia - Prince (1997) apresenta essa teoria como uma busca de se definir o que as narrativas têm em comum, seus componentes e seu sistema de regras. Situa tal teoria no ramo estruturalista. No início, os estudos narratológicos concentravam-se 'na história'. No relato de Prince, por exemplo, Propp (1928) estabelece 31 funções dos contos de fadas russos, afirmando que falta ou vilanidade (villainy), bem como o resgate, (daquela falta) talvez estejam presentes em todas as histórias; Greimas (1966) propõe um modelo em termos de seis 'actantes': Sujeito (procurando o Objeto), Objeto (procurado pelo Sujeito) aquele que Envia (o Sujeito, sua busca do Objeto), aquele que Recebe (o Objeto para ser assegurado pelo Sujeito), o Ajudante (do Sujeito) e o Oponente (do Sujeito). Outros narratologistas, segundo Prince, voltaram-se para 'a estrutura discursiva' das narrativas: Genette (1972), por exemplo, enfoca as relações temporais entre o texto e a história do texto; o evento narrativo específico inscrito no texto. Há também, em narratologia, a busca da integração entre essas duas tendências; os termos Fabula ('material básico da história') e Sjuzet ('enredo'), dos formalistas russos, bem como o esforço por se estabelecer uma gramática da narrativa, servem a essa integração. (Prince, 1997:3) Abordagem discursiva - Os estudos especificamente discursivos da narrativa relacionam-se basicamente com a perspectiva interacional, ou seja, pretendem tratar o conteúdo integrado à situação específica de produção da história. Narrativa é vista como 47 ação social, não apenas codifica experiência. Segundo Edwards (1997), são questões pertinentes a essa visão: onde começar e tenninar uma narrativa (decisões que alteram forma e significado); "o que incluir: que palavras/categorias usar? Para quem, por quem, por quê e em que conjuntura a história é contada? Que alternativas estão sendo negadas ou alinhadas com ela? Que negócio interacional está sendo realizado no momento?" (Edwards, 1997:277) (#12) Psicologia narrativa - Nesta abordagem, narrativa é um modo de compreensão humana básico, não apenas um tipo literário. Edwards (1997) acrescenta que em Bruner (1990) narrativa é definida como "um modo de pensamento e ação descritivel em termos que possa ser relacionado a planos cognitivos e representações" (Edwards, 1997:269) (#13). É através da narrativa que organizamos nossa experiência do mundo social. Análise conversacional - No quadro da análise conversacional, as histórias são turnos longos e tal abordagem dedica-se a questões analíticas do tipo: como as pessoas começam e temiinam suas histórias; a fomia como as histórias são providas na interação (propostas, solicitadas, produção de uma segunda história, ou outra); regras de tomada de turno conversacional, como relata Edwards (1997). Estudos sociolingüísticos- Voltados para o estudo de narrafivas orais, como os de William Labov (1972), assim como a narratologia, segundo Edwards (1997), os estudos sociolingüísticos buscam identificar tipos e estruturas. Na definição de narrativa de Labov (1972), a ordem dos eventos representados pela narrativa tem de ser expressa pela ordem das fi"ases. Uma narrativa bem formada pode apresentar os seguintes elementos, que se relacionam com a estrutura discursiva: resumo {abstract - A), 48 orientação {orientation - O), ação complicadora {complicating action - CA), avaliação {evaluation - E), resultado ou resolução {result or resolution - R) e coda {coda - C - um item opcional, que estabelece uma ligação com o presente). O estudo desenvolvido através desta pesquisa lança um olhar gramatical cognitivo sobre as narrativas orais. Enfoca aspectos gramaticais, basicamente o elemento verbal, dentro da perspectiva cognitiva dos estudos lingüísticos, perspectiva essa integracionista, que toma por base a inter-relação entre linguagem e outras habilidades e processos cognitivos humanos; relaciona, portanto, padrões de utilização gramatical à macro estruturação do texto narrativo e propõe a descrição dessa estruturação em termos de espaços mentais, domínios discursivos. Tal descrição revela a expressão temporal de um princípio da percepção cognitiva. A pesquisa corrente, não se encaixa, portanto, exatamente, em nenhum dos ramos dos estudos narrativos mencionados. Aproxima-se dos estudos de Labov, uma vez que esse autor também trabalha com narrativas orais numa perspectiva temporal, no entanto, difere-se dele por incluir a dimensão da cognição. Não deixa de ser sensível também a várias questões propostas através das abordagens mencionadas: admite a visão do texto narrativo como um ato interacional de fala, uma locução, contextualizada; é igualmente sensível à proposta do texto narrativo oral como um turno conversacional sem muitas interrupções, cujos inícios e finais exigem elaboração específica, bem como às postulações da psicologia narrativa que relacionam a narrativa com o processo constante de estruturação interna da experiência social humana. Essas diferentes perspectivas são relacionáveis. Na visão da Lingüística Cognitiva do discurso e da narrativa, afimia-se o papel essencial dos esquemas imagéticos (Palmer, 1996). As histórias humanas repetem-se, diferenciam-se entre falantes de uma mesma cultura, muitas vezes, apenas 49 em detalhes e contextualizações. Aí identificamos os cenários, os esquemas recorrentes, que são, com freqüência, inconscientes. Para Chafe (1990), a mente humana cria modelos do mundo ao lidar com ele e para lidar com ele. Tais modelos, ou esquemas, são estruturas de expectativas prontas, fornecidas pela cultura, ou, até um certo ponto, criadas pelo indivíduo. Essa visão postula que não criamos tudo sempre de novo, porém confrontamos nova experiência com tais modelos. "Isso é, então, talvez o que de mais importante narrativa pode nos fornecer evidência: o fato de que a mente não grava o mundo, mas o cria de acordo com sua própria mistura de expectativas culturais e individuais." (Chafe, 1990:81) (#14) No entanto, o autor reconhece que a experiência, em sua complexidade, jamais se restringiria a modelos conhecidos. Tendemos a rejeitar, como primeira reação, situações que estão em conflito com nossos modelos. Por outro lado, no entanto, tais conflitos são imprescindíveis para superação do tédio existencial. E é disso que tratam as narrativas, do inesperado. Ameaça ao modelo é o que vale a pena ser narrado. Na linha da psicologia narrativa, Bruner (2002) argumenta que as histórias nos fornecem modelos do mundo e corrobora, em grande parte, o que é dito por Chafe. Afirma que narrativa rememora o que é culturalmente esperado, porém, dialeticamente, celebra 'transgressões' do canônico. Ao mesmo tempo em que resolve problemas, também os encontra. Esse autor discute ainda o 'dilema ontológico' posto pela narrativa. São as histórias reais ou imaginadas? O autor simplesmente descarta percepção e memória como instrumentos da 'verdade'. Vê-os muito mais como servos da convenção. Em relação a essa questão, encontra-se em Personal Narratives Group: "Ao falar sobre suas vidas, as pessoas mentem às vezes, esquecem muito, exageram, confundem-se e erram. Mesmo assim elas estão revelando 50 verdades. Essas verdades não mostram o passado 'como ele realmente foi', aspirando a um padrão de objetividade. Elas nos dão, ao invés, as verdades de nossas experiências. Elas não são o resultado de pesquisa empírica ou da lógica de deduções matemáticas. Diferentemente da Verdade segura do ideal científico, as verdades das narrativas pessoais não estão abertas nem a prova, nem são auto-evidentes. Nós chegamos a compreendê-las através de interpretação, prestando bastante atenção aos contextos que modulam sua criação e às visões de mundo que as infonnam. As vezes as verdades que vemos nas narrativas pessoais perturbam nossa segurança complacente de intérpretes 'fora' da história e nos tomam cientes de que nosso próprio lugar no mundo tem um papel na nossa interpretação e dão fonna aos significados que derivamos delas". (1989:261). (#15) Edwards (1997) numa perspectiva discursiva, afirma que questões do tipo de objetividade, sinceridade ou verdade são administradas no próprio ato de fala. Bruner (2002) também percebe o caráter de locução da história ao afirmar que o falante está imbuído de uma determinada intenção ao contá-la para aquele ouvinte, naquele cenário. Refere-se assim à narrativa como um ato de fala. Esse autor argumenta que poderíamos utilizar outras formas para falar do que acontece conosco, como, por exemplo, listannos nomes, locais e datas. Não o fazemos, segundo o autor, porque as narrativas nos ajudam a lidar com as surpresas e o inesperado, domesticando-os. Bruner (2002) apresenta como elementos da narrativa reconhecidos pelo senso comum os seguintes: um grupo de personagens-agentes, que possuem expectativas acerca do mundo, do mundo da história; uma ruptura no estado esperado das coisas, sem o que não se tem o que narrar; uma resolução (mais como insights morais que como restauração do canônico); muitas vezes, uma explicação posterior dos eventos. Como traço final, tem-se a coda, uma avaliação de possível significado presente da história. 51 o narrar está arraigado em nossa cultura e em muitas outras. Somos expostos desde muito cedo em nossas vidas a rotinas narrativas. Para Bruner (2002), como evidência de que as crianças têm precocemente o sentido da narrativa, tem-se o fato de elas distinguirem quando se trata de uma ritualização: divertem-se com situações que, se ocorressem no plano do real, lhes causariam sofrimento. As crianças desenvolvem cedo as expectativas sobre o mundo. 4.1 - Narrativa e Lingüística Cognitiva No campo da Lingüística Cognitiva, Turner (1996) apresenta narrativa como uma capacidade cognitiva básica. Inicia seu texto por uma história contada pelo vizir, conselheiro do grande rei Shahriyar, a fim de dissuadir sua filha, Sharahzad, do propósito de se oferecer voluntariamente ao rei como esposa. Todas as manhãs, cabia a esse vizir decapitar a virgem que na noite anterior havia sido entregue ao rei. Essa rotina tivera início quando Shahriyar descobrira que sua primeira esposa lhe havia sido infiel: Havia um fazendeiro muito próspero que conhecia a linguagem dos animais e dos pássaros. Em sua estrebaria, mantinha um boi e um burro. Ao fmal de cada dia, o boi vinha ao local onde se encontrava o burro e via-o sempre escovado, bem alimentado, descansando. Quase nunca era solicitado ao trabalho. Por acaso, um dia o fazendeiro ouviu o boi dizer ao burro: Que sorte você tem! Estou esgotado de tanto trabalho, enquanto você descansa confortavelmente. Minha vida é um eterno penar no arado e no moinho. Ao que o burro respondeu: Quando estiver no campo, finja estar doente e deixe-se tombar. Não levante, mesmo que te açoitem. Quando te trouxerem de volta, não aceite alimento. Abstenha-se por um ou dois dias, e assim encontrará seu descanso. Quando foram buscar o boi no dia seguinte, ele estava longe de estar bem. Então o fazendeiro disse ao camponês. Pegue o burro e use-o com o arado o dia todo. (Tradução livre. Turner, 1996:1) (#16) 52 o plano de Sharazhad era salvar todas as virgens ainda disponíveis e a estratégia consistia em, após entregar-se ao rei na primeira noite, iniciar uma história, supostamente contada para sua innã mais nova, mas secretamente destinada aos ouvidos de Shahriyar. Cuidadosamente cronometraria sua narrativa para que o clímax se desse ao romper da aurora, obrigando o rei a adiar sua execução por um dia. Nos dias subseqüentes, repetiria a mesma estratégia. O curioso, como mostra Turner, é que o vizir endossa a estratégia da filha ao tentar dissuadi-la, exatamente contando-lhe uma história, que pode ser projetada à história da filha. Dada a natureza dos riscos que tanto o vizir quanto Shahrazad corriam, naturalmente que pensaram em se utilizar do recurso mais poderoso que puderam vislumbrar: a narrativa. Estamos fundamentalmente condenados às narrativas. Narrativa, ou parábola, não é vista pelo autor no sentido apenas de um recurso literário. Nossa capacidade de história e projeção é, segundo Turner, indispensável à cognição. E dela nos utilizamos para prever o futuro, planejarmos ou explicamios algo. Para esse autor, possuímos a capacidade de reconhecemios e executannos pequenas histórias espaciais: alguém lança uma pedra, colocamos água num copo, o vento balança os galhos da árvore. Nossa experiência do mundo não é caótica. Nessas histórias, aprendemos a distinguir (categorizar) objetos e eventos. A maneira como reconhecemos esses elementos tem a ver com esquemas-imagéticos, "padrões recorrentes em nossa experiência sensorial e motora", dos quais são exemplos "movimento por um caminho, interiores limitados (recipientes), equilíbrio e simetria", que podem se combinar. (Turner, 1996:16) (#17) Projetamos também, segundo ele, nossa visão dos eventos no espaço, para os eventos no tempo, e estes últimos adquirem aspectos tais como continuidade, circularidade, abertura, etc.. 53 Essa visão de parábola não condiz com a de significado como estático, localizável, mas sim como resultado da interconexão de espaços mentais. Significado é distribuído, vivo, construído situacionalmente. No processo de significação de parábola há mais de dois espaços envolvidos, pois as projeções não são todas diretas, unidirecionais. Turner discute, então, o modelo de Mesclagem. No espaço mescla desse modelo desenvolvem-se estruturas emergentes próprias, que podem ser projetadas de volta aos espaços input. "O espaço mescla pode ativar poderosamente ambos os espaços input e mantê-los facilmente ativos enquanto realizamos trabalho cognitivo sobre eles para construir significado."(Tumer, 1996:60) (#18) Outro aspecto importante da abordagem de Mesclagem para a visão de parábola é a postulação do espaço genérico. É possível compreendennos, por exemplo, quem com ferro fere, com ferro será ferido descontextualizado. Nossa compreensão de provérbios (parábolas simples) envolve a projeção de uma interpretação genérica. A informação contida nesse espaço genérico aplica-se tanto ao domínio fonte, quanto ao alvo. Quando se conta uma história, há, quase sempre, a possibilidade de projeção de sua estrutura para um contexto próximo aos participantes do processo da narração. Isso constitui, em muitos casos, a razão mesma de se narrar. Há quase sempre um ponto que se quer abordar. Toda narrativa é, em algum nível, uma parábola. O vizir visava a alertar Sharazad. Sua intenção era que Sharazad projetasse a história por ele contada à sua própria. Na narrativa de que se utiliza, dos animais no contexto da fazenda, o trabalho teria invariavelmente de ser realizado. Como desenvolve Turner, na mescla das histórias realizada pelo vizir, uma donzela teria de ser decapitada a cada manhã. Entretanto, esse elemento do espaço input não foi selecionado 54 por Sharazad na mescla por ela realizada, tão ciente estava de seu poder. Sharazad só não poderia, no entanto, naquele momento, precisar a atuação que teria por mil e uma noites. Quando se conta uma história, há diferentes domínios de realidade e de realização da narração envolvidos. A narrativa focaliza um evento supostamente ocorrido, ou imaginado, constituindo o Domínio da História. Há também o Domínio da Narrativa em si, composto pelo narrador, o ouvinte e os eventos narrados. Segundo Turner (1996), no espaço da história propriamente dita, o narrador não existe, não tem poder, mas o tem sobre os eventos narrados e exerce esse poder, por exemplo, mudando o foco de tempo e espaço na narração. Nossa percepção é sempre parcial e local. Temos, no entanto, consciência de que alguém, situado numa outra posição, terá uma visão diferente da nossa, de um mesmo evento. Há, então, diferentes possibilidades de ponto de vista e foco. Turner (1996:117/118) afirma que, numa narrativa, o narrador pode, por exemplo, assumir o ponto de vista espacial ou temporal de um dos personagens. Há mecanismos lingüísticos utilizados para esses propósitos. Tipicamente, o discurso direto envolve esse tipo de mudança de ponto de vista, como será discutido neste trabalho. Isso tudo é parte de uma competência cotidiana, apesar de complexa. A visão de história na perspectiva dos espaços mentais envolve a visão de tempo verbal como um instrumento que indica ponto de vista e foco temporal, não mais como uma relação entre momento do evento e momento da fala (relação esta dada pragmaticamente). Esta perspectiva, que está em Turner (1996), Fauconnier (1997) e Cutrer (1994), explica casos em que um determinado tempo verbal traz um valor temporal distinto daquele esperado, dado o rótulo que apresenta. São exemplos dessas 55 ocorrências, o presente indicando futuro ou passado, com significado genérico ou habitual, ou o passado indicando futuro. Em inglês, para Turner (1996:149), o tempo verbal presente corresponde à categoria narrativa na qual '"foco temporal eponto de vista coincidem', ou seja, estão no mesmo espaço; passado corresponde a ""foco precede ponto de vista' e futuro corresponde a 'ponto de vista precede foco\ o que se pode dizer que também ocorre em relação ao português. Para o autor, o ponto de vista temporal ser identificado com o momento da fala é puramente circunstancial. E o padrão mais comum, mas não é em absoluto o único. O falante pode escolher situar-se num local imaginado no domínio da história e falar desse local. O ponto de vista muda ao longo do narrativa. A diagramação e análise, neste trabalho, das estruturas em discurso direto de narrativas, por exemplo, confirmam o fato de a interpretação do valor dos tempos verbais não poder estar presa à perspectiva do falante (momento da fala). 4.2 - Narrativa e a percepção cognitiva: figura e fundo o principal objetivo desta pesquisa, como dito na introdução, é o de caracterizar a estruturação da narrativa oral, através de uma proposta de descrição da realidade cognitiva que motiva essa estruturação. Propõe-se, aqui, aliar os conceitos da Psicologia Gestalt (figura e fundo) à Teoria dos Espaços Mentais e à Teoria da Mesclagem Conceituai, integrantes da Lingüística Cognitiva, para a análise dos elementos gramaticais em foco; as categorias verbais de Tempo, Aspecto e Modo (o sistema TAM). O texto narrativo oral pode ser percebido, como proposto neste trabalho, dividido em grandes Domínios Discursivos,**^" (o Domínio dos Eventos Domínio e espaços mentais são duas noções que têm sido utilizadas, na Lingüística Cognitiva, por vezes de forma intercambeável. Em Langacker (2004-cap.2:21) encontra-se essa discussão nos seguintes 56 Narrativos - Figura, o Domínio Suporte - Fundo e o Domínio da Encenação - Discurso Direto) trazendo, cada um deles, material lingüístico específico. A instrumentação teórica da abordagem dos Espaços Mentais possibilita-nos lidar com essa perspectiva de domínios, visualizando melhor como se estruturam, se interconectam e se inter-relacionam. Pontos de partida da pesquisa - Tenho, como pontos de partida, principalmente, três trabalhos: William Labov (1972), Paul Hopper (1979) e Tanya Rcinhart (1984), que, unidos, levam-nos a crer que, na língua portuguesa, o tempo verbal Pretérito Perfeito, em textos narrativos, corresponderia aos eventos centrais da história. São os seguintes os elementos desses trabalhos motivadores desta pesquisa: Para Labov (1972), narrativa é "um método de se recapitular experiência passada pela apresentação de uma seqüência de orações {narrative clauses) correspondendo à seqüência de eventos que supostamente aconteceram'"""''" (Labov, 1972:359/350) (#19). Para esse autor, então, as orações narrativas são basicamente caracterizadas por esse elo temporal. Hopper (1979) conduziu um estudo trans-lingüístico da gramaticalização distinta das inter-relações entre narrativa lingüística, estrutura de foco e aspecto. Trabalhou com o francês, o russo, o malaio e o inglês arcaico. Encontrou o seguinte padrão: termos: domínio, definido como qualquer tipo de concepção ou experiência mental, e espaços mentais, por sua vez, como estruturas parciais, criadas localmente, permitindo a partição de discurso, possuem definições igualmente amplas. Esse autor utiliza a seguinte distinção: a primeira noção foca a inteireza, enquanto a segunda, a descontinuidade. Pode-se dizer que essa distinção aplica-se à utilização dos termos neste trabalho. XXVI" nieus os grifos nesta citação de Labov assim como os do quadro do estudo trans-lingüístico de Hopper (1979) seguinte. 57 PKKFtXTIVO Impeuikctivo . seqüenciamento estritamente cronolócico . visão de um evento como um todo, necessariamente comoietado oara aue haja 0 evento subseqüente . identidade do sujeito em cada episódio . distribuição não-marcada de foco: pressuposição do sujeito, e asserção no verbo e seus complementos imediatos (ou outro foco não-marcado) . tópicos humanos . eventos dinâmicos, cinéticos . figura: eventos indispensáveis à narrativa . simuitaneidade ou superposição cronológica de situações . não exigência de comoietamento . mudança freqüente de sujeito . distribuição marcada de foco: sujeito, instrumento, adverbiais . variedade de tópicos . situações estáticas, descritivas . FUNDO: estados ou situações necessárias à compreensão das atitudes e motivos, etc. (Hopper, 1979:216) Do quadro acima, destaco a relação encontrada nas línguas entre aspecto verbal e estrutura narrativa: os eventos centrais da história (Figura) tendem a ocorrer em formas marcadas como Perfectivas, e, por outro lado, os estados e situações que enriquecem essa história com detalhes e infonnação adicional tendem a ser Imperfectivos. Nessa mesma linha. Li, Thompsom & Thompson (1982) investigaram o mandarim; Kalmár (1982), o muktitut, um dialeto do oeste da Groelândia e Givón (1982) compara o sistema TAM do crioulo prototípico com o do hebraico bíblico. Esses estudos mostraram haver, nessas línguas, um mecanismo morfossintático para a gramaticalização das noções de figura e fundo. O que subjaz a esses estudos é a visão de que a estrutura de narrativas reflete uma realidade perceptual cognitivo-visual. Mais especificamente, que o sistema lingüístico, principalmente através das categorias verbais de Tempo, Aspecto e Modo (TAM), expressa o mesmo princípio cognitivo da percepção proposto para o campo visual pela Psicologia Gestalt. 58 4.2.1 - Princípio geral da percepção cognitiva Salientamos certos aspectos do mundo (figura) em oposição a outros (fundo). □ Nesse desenho,**'" podemos ver tanto um quadrado sobre um retângulo, como um retângulo com um buraco quadrado. E uma interpretação exclui a outra num mesmo instante. No primeiro caso, sabemos que o retângulo pennanece por sob o quadrado, ou seja, o fundo continua por sob a figura. □ Podemos perceber agora, também como decorrência daquele princípio, que a figura depende do fundo para sua caracterização. Se o fundo é alterado, nossa percepção da figura também se altera. Como exemplo, vejamos o que ocorre ao nos aproximarmos da obra de arte seguinte, de M. C. Escher: somos levados a selecionar os anjos, em cor clara, ou os demônios, em escuro, altemadamente. No primeiro caso, temos os anjos como figura, sobre um fundo de demônios. No segundo, o foco de nossa atenção passa a ser os seres **'* Os desenhos apresentados neste item 4.2.1 e 4.2.1.1, à exceção da obra de M.C.Escher, estão em Reinhart (1984). A autora tem por base Koffka (1935). 59 que se assemelham a morcegos, tomados possíveis pelos contornos do fundo onde se inserem. A exigência de tal alternância dá-se devido a uma característica de nosso aparato cognitivo, não por outra razão, como, por exemplo, uma opção estética. 4.2.1.1 - A EXPRESSÃO TEMPORAL DO PRINCÍPIO GERAL DA PERCEPÇÃO COGNITIVA O princípio cognitivo proposto inicialmente em relação à percepção espacial atua também em relação a nossa utilização da linguagem. O que trabalhos como o de Hopper (1979) afirmam é que figura e fundo são realidades num texto narrativo. A Figura Narrativa contém os eventos narrados na seqüência cronológica em que supostamente ocorreram. E a linha central da estória. O Fundo apresenta diferentes elementos que dão suporte à linha central dos eventos: descrições, explicações, comentários, julgamentos, caracteristicamente. No trecho seguinte, as estruturas em negrito correspondem à Figura, as em estilo normal correspondem ao Fundo: 60 Narrativa 11 (01) Um dia, o que é interessante nessa nessa história toda (02) é que voltávamos do catecismo mais tarde (03) e não- a professora atrasou (04) e nós saímos à noitinha. (05) Ainda não havia luz elétrica na cidade. (06) E nós atravessamos a cidade toda ao ca- ao- à luz dos lampiões de gás. (07) Mas na minha rua não havia lampião de gás, (08) e nós tínhamos que passar primeiro por uma ponte. (09) E a ponte era perto do cemitério, bem ao lado do cemitério. /UNHUM/ Critérios para identificação da Figura - Reinhart (1984) propõe critérios para identificação da Figura Narrativa, explicitando o paralelo entre os dois campos cognitivos: A - Continuidade temporal - servem como Figura: unidades textuais cuja ordem de apresentação corresponde à ordem na qual os eventos que elas representam supostamente ocorreram. A) Ao nos depararmos com a figura (A), tendemos a ver uma curva senoidal e outra contendo ângulos retos, que apresentam continuidade, ao invés das formas fechadas como em (B). Lingüisticamente, as unidades temporais são os eventos seqüenciados, que provêem continuidade. Como estamos falando de um domínio passado, essa seqüência temporal é apresentada no tempo verbal passado. 61 Exemplo: Nairativa 6 (98) Parô o caminlulo assim na porta, (99) pcgô na minha nulo, (100) me levô lá, (101) bateu na porta... Ò02) Já tava tudo fechado (103) daí cê vê tanto (104) que viajô. (105) Já tava tudo fechado, né? (106) Bateu na porta, Ò07) seu Antônio veio. As unidades oracionais em neginto estão em Pretérito Perfeito. Correspondem à linha dos eventos, formam uma espécie de fio de acontecimentos. B - Pontualidade - eventos pontuais servem mais facilmente como Figura que os durativos. Nessa figura, há a tendência a vermos três 'estradas' estreitas, com uma linha sobrando à direita, ao invés de três 'estradas' largas, com uma linha sobrando à esquerda. Menor figura exige menos esforço cognitivo para se completar o fundo sob ela. Lingüisticamente, pequeno significa menos tempo transcorrido, expresso por verbos pontuais. Este é um critério relativo à semântica. Exemplos de verbos pontuais são espirrar, tropeçar. Verbos mais durativos seriam morar, estudar, etc.. No trecho da Narrativa 6 selecionado para exemplificar o critério da continuidade, podemos observar como os verbos utilizados para representar os acontecimentos centrais da história são relativamente mais pontuais, ou seja, indicam 62 ações mais reduzidas temporalmente (jyegar, parar, bater, abrir) do que aqueles que trazem informação de suporte à linha de eventos, que, por sua vez, são estativos ou indicam ações mais durativas {ver, viajar, estar). C - COIMPLETAMENTO - eventos completados, fechados, servem mais facilmente como Figura. O mesmo desenho agora, por incluir elementos que sugerem fechamento, é percebido de forma distinta. Tendemos a ver três formas 'fechadas', com uma linha sobrando à esquerda. Lingüisticamente, áreas fechadas são expressas especialmente através do aspecto verbal. Formas Perfectivas, trouxe, vendi, expressam completamento, em oposição a formas Imperfectivas, que não infonnam sobre esse fechamento, estava trazendo, vender, etc.. O mesmo trecho da Narrativa 6 ainda exemplifica o critério do completamento. No trecho selecionado, as estruturas que trazem o fio condutor da história estão expressas em Pretérito Perfeito, de valor aspectual Perfectivo. Podemos perceber que, para o encadeamento das ações apresentadas nesse tempo verbal, é necessário o encerramento de uma ação para que a outra se dê {jyarar o caminhão é seguido de pegar na mão, que, por sua vez, é seguido de levar lá, e assim por diante). Isso já não ocorre com as estruturas que trazem informação de suporte (não sabemos, por exemplo, quando a situação estar tudo fechado foi iniciada, ou quando tenninará). 63 D - Outros critérios - Proposições negativas e modais suo mais facilmente vistas como Fundo. Exemplos: Narrativa 13 (49) Eu eu fui lá no Viaduto de madrugada, (50) tentei subi e tal. (RISO) (51) Num tive coragem. Nanativa 3 (56) Aí eu comecei quebrá galho de coisa (57) ejogá por cima dele, né? (58) pra ele podê saí, né? Nesses exemplos, vemos um elemento negativo, em (51), e um modal, em (58), ambos constituindo informação de suporte. 4.3 - Pressuposto: Pretérito Perfeito e Figura Narrativa Os autores especialmente enfocados dizem: Labov (1972) - que elementos temporais (passados), seqüenciados, definem as orações narrativas; Hopper (1979) - que há uma estreita correspondência trans-lingüistica entre aspecto Perfectivo e Figura Narrativa, de um lado, e aspecto Imperfectivo e Fundo, de outro; e Reinhart (1984) - que os princípios de percepção cognitiva propostos pela Gestalt são uma realidade no campo temporal, narrativo, e relaciona valores gramaticais e semânticos específicos à Figura, através de determinados critérios. A partir da relação entre esses textos, infere-se que, na língua portuguesa, os eventos do texto narrativo que correspondem à linha central da história representada pelo discurso devem ocorrer em fomias afirmativas de Pretérito Perfeito, uma vez que: 64 - o Pretérito Perfeito é o tempo verbal da língua portuguesa que é Passado e Perfectivo e - a negatividade é indicadora de Fundo Narrativo. A proposta de relacionar esses três trabalhos nos quais me baseio justifica- se se consideramos que, primeiro, Paul Hopper e Tanya Reinhart afmam-se de imediato, uma vez que o trabalho dele é fonte para o dela. Segundo, o trabalho de Labov, que enfoca narrativas orais propondo categorias para as estruturas que compõem tais textos numa perspectiva sociolingüística, compatibiliza-se com os trabalhos dos dois autores anteriores. Labov propõe a definição de narrativa sobre um critério temporal, ou seja, para ele, narrativa consiste de orações ordenadas temporalmente; tal perspectiva temporal também perpassa a definição de Figura Narrativa com a qual os outros trabalham. A proposta de tratar essa questão da expressão temporal das noções de figura e fundo em termos da Lingüística Cognitiva é igualmente plausível, uma vez que este quadro teórico afina-se com abordagens fiancionalistas, às quais Hopper se filia. Os dois modelos partem da premissa de que a semântica é a motivação para as fomias, apresentam pontos teóricos e metodológicos comuns. O capítulo que se segue é destinado à descrição da metodologia empregada na realização desta pesquisa, que envolve duas etapas. A primeira etapa constitui-se da checagem da correlação Pretérito PerfeitolEvQvúos Narrativos e a conseqüente constatação da existência de partes formal e funcionalmente distintas no texto narrativo oral. A segunda etapa desenvolve a proposta de que essas partes podem ser vistas como domínios distintos no universo do texto, descritíveis, portanto, através, essencialmente, da ferramenta teórica dos espaços mentais, integrante da Lingüística Cognitiva. 65 5-Metodologia Esta pesquisa consta de duas partes. A primeira delas visa a checar a existência de evidência empírica, através da análise de dados autênticos da língua, para o fato de o sistema TAM (de Tempo, Aspecto e Modo verbais) ter um papel na estruturação de textos narrativos orais. Esta etapa, por constituir-se da checagem da pressuposição de que, no português do Brasil, o tempo verbal Pretérito Perfeito, de aspecto Perfectivo, representaria os eventos centrais da história num texto narrativo, checagem essa feita através, dentre outros procedimentos, de uma contagem de ocorrências, envolve aspectos quantitativos significativos. Isso não significa, no entanto, que a metodologia aí empregada seja essencialmente dessa natureza. Essa checagem também apresenta características alinhadas com a metodologia qualitativa: (1) observação naturalística, pela coleta de textos autênticos, em situações conversacionais espontâneas; (2) perspectiva de 'de dentro', com a participação do próprio analista nas conversações gravadas; (3) busca por uma descrição de todo tipo de fenômeno encontrado, que fosse relacionado ao tópico; (4) análise com características subjetivas do tópico cm questão. Na segunda parte da pesquisa, relatada nos capítulos 9 e 10, propõe-se à descrição da realidade narrativa oral através do instrumental teórico das teorias dos Espaços Mentais e da Mesclagem Conceituai. Por ser um ramo da investigação lingüística relativamente novo, não há metodologias bem definidas ligadas a todo o A Lingüística Cognitiva filia-se à perspectiva baseada no uso e este trabalho assume tal perspectiva. A utilização de dados reais de língua é absolutamente desejável para este modelo. Para Fauconnier (2003): "Métodos devem se estender a aspectos contextuais do uso da linguagem e à cognição não- lingüística. Isso significa estudar discurso total, linguagem em contexto, inferências realmente feitas por participantes numa interação, grames aplicáveis, pressupostos implícitos e construal, para nomear apenas algumas coisas." (2003:2) (#20) 66 quadro da Lingüística Cognitiva. A que foi empregada para a realização desta pesquisa teve um desenho próprio, proposto com a finalidade de responder às questões especificas do trabalho. Nesta segunda etapa, a pesquisa toma-se ainda mais significativamente qualitativa. Com base nos pressupostos de uma realidade dinâmica, não se tem a intenção de que os resultados aqui obtidos sejam generalizados para contextos diversos."*'" Pode-se dizer, em relação ao conjunto da pesquisa, que a análise realizada conforma-se preferencialmente ao paradigma qualitativo."""" CORPUS - Utilizei, para este trabalho, o corpus que havia coletado e transcrito para a minha dissertação de mestrado. Em Azevedo (1992) desenvolvi uma pesquisa que buscou comprovar o papel das categorias TAM na estruturação do discurso narrativo, nos dados do português brasileiro analisados. Essa pesquisa serviu como primeira indicação da inter-relação desses elementos e incentivo para que eu continuasse essa investigação, porém sobre bases metodológicas e teóricas distintas. """' Em relação à generalização, Davis (1995), entretanto, esclarece que não é o caso que os estudos qualitativos não possam ser generalizados, mas sim que a responsabilidade de tal generalização é de quem deseja fazê-la, no sentido de avaliar cuidadosamente as semelhanças contextuais para tal transferência. (Davis, 1995:441) """" Taylor & Bogdan (1985) atírmam, referindo-se à preocupação, por parte dos pesquisadores que se dedicam a pesquisas qualitativas em relação à acuidade de seus dados: "Um estudo qualitativo não é uma análise impressionista, descuidada {ojf-the-cufj), baseada num olhar superficial sobre um ambiente ou povo. Constitui um exemplar de pesquisa sistemática, conduzida através de procedimentos exigentes, mas não necessariamente padronizados." (Taylor & Bogdan, 1984) (#21) Mais especificamente relacionado à Semântica Cognitiva, Langacker (2004) afinna: "Uma semântica cientificamente respeitável é presumivelmente objetivista por natureza, sujeita a fonnalização discreta e capaz de predição estrita. (...) Idealmente, e cada vez mais em prática, descrições da semântica cognitiva são baseadas em análise cuidadosa, suportada por evidência empírica e formulada em termos de construtos descritivos bem-formulados." (Langacker, 2004- cap.3:31)(#22) 67 A utilização dos mesmos dados do estudo anterior significou uma possibilidade de maior familiarização com os mesmos e ampliação de descobertas, no sentido de uma melhor descrição da estruturação de textos narrativos orais. Vejo a utilização desse corpus na perspectiva de Davis (1995), quando contrasta estudos qualitativos e quantitativos, em relação à credibilidade. Nos quantitativos, credibilidade já está assegurada pelo conceito de 'validade interna encontrado nos estudos estatísticos'. Nos segundos, entretanto, credibilidade tem de ser conquistada e procedimentos específicos serão responsáveis por tal sucesso. Nos termos de Davis, 'engajamento prolongado' e 'observação persistente' seriam requisitos (Davis (1995:445).""'" Como descrito em Azevedo (1992), o corpus examinado é composto por treze (13) narrativas de registro oral produzidas em português do Brasil, por falantes de idade e nível de escolaridade variados, de ambos os sexos, provenientes de vários estados do país. Tal variedade foi proposital, pois esses fatores não eram significativos para a análise a ser realizada. Unidades narrativas foram extraídas de gravações de longas interações conversacionais informais, não tendo havido qualquer delimitação prévia de tema, o que também não se considerou ser fator de interferência. Trabalhou- se, portanto, com textos produzidos em contextos comunicativos autênticos. Os textos foram, posteriormente, transcritos dentro das convenções ortográficas, com atenção especial para que, ao serem lidos, pudessem revelar a pronúncia original, especialmente marcada por reduções em posição final de palavras, como, por exemplo, a ausência da XXXIII várias as considerações a respeito da utilização dos dados da pesquisa anterior além da possibilidade de um aprofundamento devido à maior familiaridade com os mesmos. As narrativas utilizadas, que foram agora inteiramente retrabalhadas, compõem um corpus bem estabelecido, rico relativamente ao fenômeno investigado, merecedor, portanto, desse aprofundamento. Ainda, o fenômeno lingüístico sob observação não sofreu alteração com a passagem do tempo desde a coleta até a análise realizada para esta pesquisa. Também foi levado em conta o fato da utilização recorrente de mesmos dados ser uma prática comum em estudos lingüísticos, ainda mais se levamos em consideração a existência de corpora organizados e disponibilizados à utilização de pesquisadores, que constitui uma tendência atual neste campo científico. 68 fricativa glotal surda, representada pela letra 'r', nos Infmiíivos verbais - {enfeitú - enfeitar); ausência do morfema de plural, expresso pela fricativa pós-dental surda, representada pela letra 's' - (aquelas nvinha, miudinha, pequenininha)', certas reduções como 'tá' para 'está', '"cê' para 'você'; etc.. Além disso, foram usados os sinais ortográficos padrão para as entonações ascendentes (subida leve, a vírgula; subida rápida ou acentuada, o ponto de interrogação) e descendente (o ponto final). Na disposição gráfica do material, aparecem ainda: ... indicando alongamento, próprio de hesitação; - marcando o ponto onde uma determinada estrutura foi abandonada pelo falante; /versalete/ para as falas da ouvinte principal; /M.: versalete/ para as falas de uma segunda ouvinte; as seguintes indicações entre parênteses (riso) e (GESTO); (??) para pequenos fragmentos • ' * "v xwiv mcompreensiveis na gravaçao. Procedimentos (A): Para a primeira etapa da pesquisa, que corresponde à checagem da correlação entre sistema TAM em narrativas orais e o princípio cognitivo, procedi da seguinte forma; 1 - Dividi as narrativas em unidades oracionais, pois o foco da análise seria as categorias verbais das predicações; 2 - isolei todo o discurso direto, ou seja, toda unidade oracional que representasse a fala de personagem, por constituírem essas falas, no texto narrativo, um domínio discursivo específico, aqui denominado Domínio da Encenação; Para referência, os textos narrativos foram providos na sua integridade, no APÊNDICE 1, e neles as estruturas oracionais foram graficamente marcadas para indicar se pertencem ao DOMÍNIO DOS EVENTOS Narrativos - Figura (negrito), ao Domínio da Encenação - Discurso Direto {itálico) ou ao Domínio Suporte - Fundo (estilo normal). A análise gramatical completa de todas as estruturas oracionais encontra-se no APÊNDICE 2. Assim, facilita-se a conferência das indicações e da exemplificação. Por vezes, o ideal é que se consulte o texto mais amplo no qual uma ocorrência se insere para que se possa perceber seu significado e todos os valores verbais em foco. 69 3 - selecionei toda estrutura oracional afirmativa em Pretérito Perfeito e 4 - busquei respostas para as seguintes questões: A — A seqüência de Pretéritos Perfeitos realmente traz/representa a linha de eventos, constituindo um Domínio dos Eventos Narrativos? Há um mapeamento entre formas afirmativas de Pretérito Perfeito e Eventos Narrativos, como representado abaixo? PPal PPa2 PPan ENl EN2 ENn Onde: PPa = Pretérito Perfeito afimiativo EN = Evento Narrativo Exemplo: Narrativa 13 (134) Tinha uns Sabinos lá, (135) mas num tinha nenhum Fernando, né? /unhum/ (136) Aí cu tive a idéia (137) de olhá em Tavares. (138) Aí eu olhei Tavares. (139) Tinha lá um F. Tavares, né? /UHN/ (140) Aí eu "Quem sabe é, né? " (141) Aí eu peguei e disquei. (142) Quando eu disquei, (143) eu num esqueço disso, (144) atendeu (145) efalô assim "Alô isso é uma- isso"- Nesse trecho, as estruturas em Pretérito Perfeito são estruturas que trazem eventos que compõem a linha central da história (Eventos Narrativos). Ilustram, portanto, o mapeamento indicado. B - As orações remanescentes (em Outros Tempos Verbais, que não o Pretérito Perfeito) trazem preferencialmente informação de suporte, complementar, constituindo um Domínio de Suporte à linha de eventos, como a seguir? 70 OTsl $ Supl OTs2 t Siip2 OTsn $ Siipn Onde; OTs - Outros Tempos Verbais Sup - Suporte à linha de eventos No mesmo trecho selecionado da Narrativa 13, as estruturas cm Outros Tempos Verbais {Pretérito Imperfeito, Presente, Infinitive) podem ser consideradas como complementares aos Eventos Narrativos. De alguma fonna elaboram esses eventos, enriquecendo seu sentido, ou trazendo informação descritiva suplementar. C - Se de fato encontramos no texto narrativo oral, além cio Domínio da Encenação, um Domínio dos Eventos Narrativos e um Domínio de Suporte a esses eventos, e já sabemos (uma vez que esse foi o ponto de partida da pesquisa) como o DOMÍNIO DOS Eventos NARRATIVOS se comporta em termos do sistema TAM (basicamente, Pretérito Perfeito, aspecto Perfectivo), a questão que se coloca é a seguinte: Como se comportam o Domínio Suporte e o Domínio da Encenação em termos das marcações e valores verbais, ou seja, do sistema TAM? Este é, então, o QUADRO DE INVESTIGAÇÃO INICIAL, que nos permite visualizar as questões (A), (B) e (C) relacionadas no item (4). O quadro é composto de três grupos de estruturas oracionais; em negrito estão as informações conhecidas e, em estilo normal, aquelas a serem descobertas: 71 Grlpo 1 Domínio dos Eventos Narrativos seqüência mais básica, essencial aos eventos cronológicos (Figura)? Pretérito Perfeito Aspecto Perfective Realis Grupo 2 Domínio de Suporte à linha de eventos (Fundo)? Como se comporta em temos das marcações e valores verbais? Grupo 3 Domínio da Encenação (Discurso direto) Como se comporta em termos das marcações e valores verbais? Procedimentos (B): Para a segunda parte da pesquisa, relatada nos capítulos 9 e 10, procedi como descrito a seguir: 1 - Propus diagramas para os domínios do texto narrativo oral. Domínio da Encenação, Domínio dos Eventos Narrativos e Domínio Suporte, que se delinearam como resultado da primeira parte da pesquisa, utilizando o modelo dos Espaços Mentais; 2 - selecionei trechos do corpus, representativos em termos dos valores temporais mais significativos; 3 - diagramei, utilizando o modelo dos Espaços Mentais, o seqüenciamento discursivo dos trechos previamente selecionados; 4- diagramei esses mesmos trechos, no formato proposto (item 1) para os domínios do texto narrativo oral e 5 — comparei os dois tipos de diagramação realizados em relação a cada trecho discursivo, com a finalidade de checar a adequação da proposta do item (1). 72 6 - Checagem da correlação entre sistema TAM em NARRATIVAS ORAIS E O PRINCÍPIO COGNITIVO O que se pretende neste ponto da pesquisa é checar se o princípio cognitivo de percepção visual expresso em ternios das noções de figura e fundo é uma realidade na estruturação do texto narrativo oral. Mais especificamente, buscar confinnação para os postulados de Labov (1972), Hopper (1979) e Reinhart (1984), que levam à interpretação de que as categorias verbais TAM têm papel fundamental na distinção de partes do texto, sendo o tempo verbal Pretérito Perfeito característico da Figura Narrativa. A expectativa inicial é a de que haveria tal confirmação. 6.1 - Divisão dos textos em unidades oracionais Ao dividir os texto em unidades oracionais, como discutido em Azevedo (1992), depara-se com elementos que necessitam de uma análise mais cuidada antes de serem classificados como elementos verbais,"""^ devido especificamente a se tratar de um corpus de língua oral. Nesta modalidade, encontram-se, por exemplo, várias formas verbais (ou aparentemente verbais), que, dependendo do contexto onde se inserem, não constituem, predicados: sabe?, viu?, né?, tá entendeno?, entendeu?, entendeu com'e que é?, olha-. Foi referência para este trabalho a visão de Neves (2000) da relação entre verbos, predicados e orações: "Os verbos, em geral, constituem os predicados das orações. Os predicados designam as propriedades ou relações que estão na base das predicações que se formam quando eles se constróem com seus argumentos (os participantes da relação predicativa) e com os demais elementos do enunciado. A predicação constitui, pois, o resultado da aplicação de um certo número de termos (que designam entidades) a um predicado (que designa propriedades ou relações). A construção de uma oração requer, portanto, antes de mais nada, um predicado, representado basicamente pela categoria verbo, ou, ainda, pela categoria adjetivo (construído com um verbo de ligaçSo)." (Neves, 2000:25) 73 acho (que), parece (que), num sei/ sei lá/ num sei quê, diz (que)/ eles falam\ só sei (que), quer dizer (que dizê)', lembro (que), acontece/ aconteceu (que), eu sei (que). Tais elementos muitas vezes, mais do que propriamente servirem eomo predieatios, eom estrutura e conteúdos plenos, têm funções discursivas. Tais funções são, por exemplo, de sinalizar retomo à Figura Narrativa, estabelecer ou manter contato com o ouvinte. Podem ter também valor modal de falta de comprometimento do falante com o conteúdo de sua fala. O texto oral apresenta ainda fomias enfáticas e/ou clivadas: é (que), foi (que), era (que), que não constituem predicação. Surge também, no momento da catalogação, a questão de quando duas fomias verbais próximas, estando a segunda delas no Gerimdio ou no Infiniíivo, devem ser separadas em duas unidades oracionais. Assim, e necessário, no processo de catalogação, estabelccemios critérios e tomarmos decisões quanto a essas situações. (Essas decisões foram descritas na Pau'i k A do Apêndice 2.) Foram catalogadas 1IÜ6 estruturas oracionais nas 13 narrativas estudadas. 6.2 - Separação das unidades em discurso direto Após dividir as narrativas cm unidades oracionais, separei aquelas unidades que representavam falas de personagens, constituindo estruturas em discurso direto. O discurso direto é um aspecto essencial da estrutura da narrativa, compondo, por vezes, extensões significativas do texto. Exemplo: 74 Narrativa 1 (24) Chegô pra mim "O sir, I speak English. " (25) Eu falei f26J "Olha, cê tá muito enganado comigo, (27) num sò gringo não. (28) Cê tá me achano com gringo, (29) eu tô branquinho assim, (30) mas eu num só gringo não. (31) Eu sô daqui (32) e tenho muito mais idade que você (33) e sei de todas essas malandragens daqui. (34) Quê que cê tá quereno, ô rapaz? " (35) "Ah, desculpe, tal, né, eu... tio. " (36) Aí me chamô de tio. Nesse trecho, as estruturas em itálico correspondern à fala de personagern. O grupo de estruturas em discurso direto destaca-se do restante do texto, não sendo exatamente estruturas de Figura ou de Fundo. Constitui um domínio específico no universo da narrativa, o Domínio da Encenação. Das 1106 estruturas oracíonais dos dados, 125 eram representações de falas de personagens, restando, portanto, 981 unidades. 6.3 - Seleção das estruturas em Pretérito Perfeito Em seguida, foram separadas aquelas estruturas expressas em Pretérito Perfeito, por ser este o tempo verbal que supostamente corresponde ao seqüenciamento cronológico dos eventos da história. Das 981 unidades oracionais que não constituem falas de personagens, 378 estão no Pretérito Perfeito,, sendo 17 delas negativas e 361 afirmativas. As 17 ocorrências de Pretérito Perfeito em estruturas negativas foram catalogadas como Fundo, pois a negatividade é um dos critérios estabelecidos por 75 Reinhart (1984) para identificação do Fundo Narrativo (e tipicamente as histórias representam eventos acontecidos, portanto, afínnativos). Essas ocorrências são as seguintes; Narrativa 3 - (68) Narrativa 5 - (30) e (39) Narrativa 6 - (02) Narrativa 8 - (05) e (77) Narrativa 9 - (92), (111), (128), (142), (143) e (146) Narrativa 10 - (70) Narrativa 13 -(51), (53), (162) e (321) Exemplo: Narrativa 8 (76) Cê acredita, Adriana, que a madeira tinha voltado pro lugar?! /OLllA!/ (77) Não preciso (78) de chamá o carpinteiro, nada (79) pra pra mexê na madeira. Das 981 unidades oracionais que não estavam cm discurso direto, 361 foram expressas em Pretérito Perfeito afirmativo e 593 cm Outros Tempos Verbais. 6.4 - Checagem da correlação Pretérito Perfeito I Ewehto Narrativo: Mapeamento N" 1 - As 361 estruturas apresentadas no tempo verbal Pretérito Perfeito podem ser consideradas estruturas da Figura Narrativa, constituintes do Domínio dos Eventos Narrativos (orat^-ões do grupo \), correspondendo ao segidnte mapeamento? PPal PPa2 PPan $ ENl EN2 ENn Onde: PPa - Pretérito Perfeito afirmativo EN - Evento Narrativo 76 Mapeamento N" 2 - Ax 593 estruturas em Outros Tempos Verbais podem ser consideradas estruturas do Fundo Narrativo, constituintes do Domínio Suporte (orações do Grupo 2), correspondendo ao seguinte mapeamento? O Tsl OTs2 OTsn $ -» $ ^ $ Supl Sup2 Siipn Onde: OTs - Outros tempos verbais Sup - Suporte à linha de eventos Procedi, então a uma análise de todas as estruturas oracionais, com a finalidade de observar se confirmavam os mapeamentos referidos. 6.4.1 - Evento Narrativo Adotou-se, como base para essa análise, a noção de 'Evento Narrativo'. Considerou-se Evento Narrativo todo evento pertencente à cadeia de acontecimentos situados no eixo temporal definido pela narrativa. Foram interpretadas, então, como estruturas eventivas aquelas contendo Eventos Narrativos, integrantes da linha central da historia. Os aspectos temporal e de seqüenciamento (Labov e Reinhart) foram, portanto, cruciais nessa análise, que teve um caráter subjetivo (consoante, portanto, com o paradigma qualitativo de pesquisa). Um evento, por exemplo, cuja duração transcendia o eixo estabelecido para a história foi interpretado como uma informação de suporte. Estruturas dessa natureza representaram, em geral, descrições, explicações, comentários, constituindo situações de apoio a essa mesma linha central. 77 6.4.1.1 - Decisões relativas a eventos narrativos É importante observar que o texto narrativo oral apresenta sub-enrecios, reformulações, repetições e reparos, como recursos discursivos que servem ao planejamento e à revisão, que acontecem concomitantes à produção textual efetiva. Tais recursos são mais raros em narrativas escritas. Há casos, então, cuja análise de uma estrutura não se dá de imediato. Faz-se necessário adotar critérios para a decisão sobre sua catalogação. Foram considerados 'eventos narrativos' - Além das estruturas contendo eventos nitidamente narrativos, foram catalogadas como tais as seguintes situações: 1 - Estruturas eventivas de pequenas narrativas (suh-enredos, historinhas dentro da história central). Tais sub-enredos foram recuados na página (nas transcrições no Apêndice \) a fim de melhor destacá-los em relação ao enredo central: Narrativa 8 - (03) e (07) Narrativa 13 - (49), (50), (52), (200), (201), (203), (204), (206), (207), (208), (217), (220), (222), (224) e (229) Exemplo: Narrativa 8 (02) eu fui em casa de minha prima, Mimi, né? /uhn/ e o piano de lá estava- (03) Ela compro este piano (04) pra filha estudá. (05) Depois a menina não quis mais (06) continuá o estudo (07) e o piano Ticô parado. (08) E o piano estava empenado a parte da frente (09) onde tampa, né? /SEI/ A parte recuada á direita do trecho acima traz um pequeno enredo e constitui uma pequena narrativa inserida na narrativa maior. Apesar de terem personagens e elementos em comum, essas histórias acontecem em tempos distintos. 78 2 - Estruíurus que constituem pequenas inversões em relação à ordem de apresentação da seqüência dos eventos, constituindo reparos, explicações, que o ouvinte perfeitamente recupera como sendo situações da linha eventiva, como em: Nairativa 5 - (26), (28), (37)e (38) Narrativa 8 - (29), (30), (73), e (80) Nanativa 13 — (25),(26) e (27) Exemplos: Narrativa 13 (24) então eu aproveilei, (25) fui lá pra casa da tia Margarida, /uhn/ (26) E- qué dizê, eu arrumei esse pretexto, né? (27) Eu falei com tia Margarida As duas últimas estruturas do trecho da Narrativa 13 selecionado para exemplificação refonnulam a narrativa, introduzindo elementos que vêm posterionnente no discurso ('arrumar o pretexto' e 'falar com tia Margarida'), inas que representam eventos que teriam ocorrido anteriormente (a 'ir pra casa da tia Margarida'). Tais estruturas constituem um reparo. Narrativa 5 (37) Eu joguei fora, (38) fiquei com nojo. (39) E ela num guentô, (40) morreu. Poder-se-ia considerar que, a rigor, o evento 'ficar com nojo' antecede 'jogar fora'. No entanto, tais inversões são praticamente imperceptíveis no decorrer do discurso, são fenômenos esperados em produções orais, nas quais não se planeja com antecedência o discurso. São reestruturações ou servem de explicação. 3 - Repetições, ocorrendo: após pedido de esclarecimento por parte do ouvinte; com funções discursivas de reformular/reestruturar a apresentação dos fatos narrados; como mecanismo de sinalizar retorno aos eventos narrativos após algum tipo de explicação ou comentário: 79 Narrativa 1 - (13), (15), (16) e (17) Narrativa 2 - (16), (19) Narrativa 3 - (05), (12) Narrativa 8 - (29), (30), (32) Narrativa 9 - (48), (49), (50), (51), (52), (53), (54), (62), (63), (138) c (140) Exemplos: Narrativa 2 (13) E uma dessa um jacaré sai assim zanzano, né? (14) andano assim na água, (15) ficô ali dentro do poço. (16) E eu saí (17) pra pegá lenha pra minha mãe. (18) E lá meu padrasto lá tinha dois cachorro grande. (19) Eu saí (20) eles saíram atrás de mim. A repetição de 'eu saí' ocorre como uma retomada dos eventos narrativos, após uma explicação típica de Fundo. Narrativa 9 (137) E torceu meu braço assim na frente dela, (138) que eu dei um grito, sabe? (139) Falei "Ai meu braço". (140) Gritei com ela ainda. Nesse trecho, a repetição de 'dar um grito' ocorre como uma re-elaboração discursiva, inclusive havendo pequena modificação da fomia inicialmente utilizada ('dei um grito'/'gritei'). Observação - Não foram catalogadas como estruturas que integrassem as narrativas aquelas que constituem meta linguagem. Esses elementos, em geral, introduzem ou finalizam os eventos. Estão presentes nas narrativas 1, 3, 4, 5, 6, 9, 13. Exemplo: Narrativa 1 Tô contano- eu tava contano nra você (01) que há uns anos atrás, (02) cu passei umas férias em Beiorizonte 80 'Tô contano- eu tava contano pra você', por exemplo, não foi catalogado como estrutura oracional da narrativa. Constitui uma introdução, mas não integra a história propriamente. 6.4.2 - Observou-se: em relação ao Mapeamento N" 1 A) 19 ocorrências de Pretérito Perfeito (5.3%) em estruturas contra-seqüenciais, explicativas, por vezes representando eventos no eixo temporal da narrativa, que não seriam prontamente consideradas Figura, que foram, portanto, catalogadas como Fundo: Narrativa 6 - (28), (104) Narrativa 7 - (21) Narrativa 8 - (68) Narrativa 9 - (23), (27), (72), (108) e (148) Narrativa 10 — (47), (60), (65), e (72) Narrativa 11 — (16) Narrativa 13 - (228), (278) e (284) Na mesma situação estão: Narrativa 6 - (72) "alternativa a uma estrutura da Figura" Narrativa 13 - (283) "avaliativa" Exemplo: Narrativa 10 (56) Eu, até então, eu nunca tinha propriamente ouvido falar assim Deus, (57) quem era Deus, (58) o quê que Deus era. (59) Nunca tinha me passado pela mente. (60) Aprendi (61) a rezar, (62) mas simplesmente a rezar, (63) mas nunca ninguém me havia falado em Deus. B) 17 ocorrências de Pretérito Perfeito (4.7%) em estruturas que não são propriamente eventivas, que, no entanto, trazem uma avaliação a posteriori dos eventos narrados, apresentando, de alguma forma, um sentido de seqüência, em relação aos eventos da Figura, ou trazerem uma explicação, às vezes imi resumo dos eventos narrativos. Tais estruturas foram catalogadas como Figura: Narrativa 6 - (17), (93) e (95) Narrativa 10 - (16), (22) e (73) Narrativa 13 - (72), (95), (104), (106), (320) e (325) 81 Narrativa 3 - (73) Narrativa 7 - (27) Narrativa 13 - (253), (254) e (324) Exemplo: Narrativa 10: (14) Mudamos, os pequenos, um irmão mais velho. (15) Mudamos para uma casa, para um sobrado, em frcn- no centro da cidade, em frente í» prefeitura, a o lado da casa paroquial e a poucos passos da igreja matriz. (16) Foi uma alegria 6.4.3 - Observou-se: em relação ao Mapeamento N" 2 A) 04 estruturas no Presente histórico, integrando a linha de eventos, o que constitui 0.7% das ocorrências de Outros Tempos Verbais (que não o Pretérito Perfeito) que não poderiam ser catalogadas como Fundo Narrativo: Narrativa 2 - (13) Narrativa 9 - (73) Narrativa 13 - (217) e (261) Exemplo: Narrativa 2 (13) E uma dessa um jacaré sai assim zanzano. né? (14) andano assim na água, (15) ficô ali dentro do poço. (16) E eu saí (17) pra pegá lenha pra minha mãe. (18) E lá meu padrasto lá tinha dois cachorro grande. (19) Eu saí (20) eles saíram atrás de mim. B) 12 ocorrências de estruturas no Pretérito Imperfeito que, de alguma, forma avançam a história, sendo, entretanto, que esses eventos representam situações repetidas, sem o sentido do completamento. Tais ocorrências perfazem um total de 2.0%. Poderiam, dependendo do aspecto que se queira enfocar, ser catalogadas como Figura ou, alternativamente, como Fundo Narrativo, opção feita neste trabalho: Narrativa 2 - (27), (29), (30), (31), (33), (34), (36) e (37) Narrativa 5 - (35), (50) e (51) Narrativa 13 - (170) Exemplo: 82 Narrativa 13 (167) Aí quando ele falô assim (168) "Após ouvir o toque (169) deixe o seu recado né? (170) Aí dava o toque (171) Aí eu desliguei, né? 6.4.4-Gráficos O que se observou em relação ao Mapeamentos N° 1 e N" 2 pode, então, ser visualizado como a seguir: Pretérito Perfeito Outros Tempos Verbais 100 80 60 40 20 O i n O Figura □ Ok Figura □ Fundo 100 80 60 40 20 O □ Fundo □ Ok Fundo □ Figura 1st Qtr 1st Qtr O gráfico da esquerda, Pretérito Perfeito, indica que 94,7% das unidades oracionais apresentadas em Pretérito Perfeito afirmativo poderiam ser consideradas estruturas componentes da linha central da história, ou seja, estruturas de Figura Narrativa. (90,0% são (Figura) e 4,7% podem ser Figura (Ok Figura)). Constituem, portanto, o Domínio dos Eventos Narrativos. Apenas 5,3% dessas unidades apresentam conteúdo de Fundo Narrativo (Fundo). O gráfico da direita, Outros Tempos Verbais, indica que 99,3% das unidades oracionais apresentadas em Outros Tempos Verbais (que não o Pretérito 83 Perfeito) poderiam ser consideradas estruturas de conteúdo de suporte a essa linha de eventos (97,3% são (Fundo) e 2,0% podem ser Fundo (Ok Fundo)). Em outros termos, 99,3% de Outros Tempos Verbais poderiam constituir o Fundo Narrativo, ou o Domínio Suporte. Apenas 0,7% dessas unidades apresentam conteúdo de Figura Narrativa (Figura). Através dessa contagem, comprova-se que o que se deduziu das colocações de Labov (1982), Hopper (1979) e Reinhart (1984) a respeito do Pretérito Perfeito na língua portuguesa corresponder, num texto narrativo, à seqüência dos eventos principais da história aplicou-se aos dados analisados. Após essa investigação, confinnou-se a presença de três grupos distintos de unidades oracionais, com funções discursivas especificas, constituindo três domínios no universo do texto narrativo oral. Domínio dos Eventos Narrativos, Domínio Suporte e Domínio da Encenação, o que e representado através do QUADRO DE INVESTIGAÇÃO: SEGUNDO MOMENTO. Domínio dos Eventos Narrativos Função discursiva: seqüência mais básica, eventos da linha da história - Figura. Pretérito Perfeito Aspecto Perfectivo Realis Domínio Suporte Função discursiva: informação de suporte aos eventos centrais, descrições - Fundo Como se comporta em temos das marcações e valores verbais? Domínio da Encenação Função discursiva: representação da fahi de personagens - Discurso Direto. Como se comporta em tenuos das marcações e valores verbais? A respeito do primeiro grupo, sabemos que é composto, em termos do sistema TAM, basicamente de estruturas em Pretéritos Perfeitos, aspecto Perfectivo, 84 apresentadas como fato, ou seja, expressando modalidade Realis. Resta saber como se comportam, em tennos do mesmo sistema TAM, os outros dois domínios constituintes do universo narrativo. A fim de encontrar as respostas para as duas perguntas restantes no QUADRO DE INVESTIGAÇÃO: SEGUNDO MOMENTO, foi necessária a observação das características dos elementos verbais presentes em todas as estruturas oracionais dos dados, em termos de Tempo, Aspecto e Modo. Procedi a uma catalogação dessa marcação gramatical no elemento verbal, expressando sensibilidade a arranjos e valores contextuais, manifestados em ambientes mais extensos que o sentenciai. Baseei-me em estudos sobre as categorias verbais em foco, realizados por diferentes autores, não especificamente voltados à visão cognitiva. Este processo está descrito no capítulo que se segue. 85 7 - Os VALORES TAM 7.1 - Tempo verbal Tempo tem sido tradicionalmente abordado como uma categoria dcitica, ou seja, com a função de situar o momento do evento em relação a outro momento, em geral o momento da fala, isto é, o presente. Reflete, lingüistieamente, nossa percepção de seqüência, movimento, sucessão. A expressão desses valores pode ocorrer também através de outros recursos lingüísticos, tais como a lexicalização, sintagmas ou orações adverbiais. Bybee (1985) conduziu um estudo trans-lingüístico no qual examina a morfologia verbal de 50 línguas. A autora encontrou as seguintes funções temporais: Presente, Passado, Futuro e Anterior. Dentre os resultados obtidos pela autora, encontram-se: - os morfemas de Presente são utilizados com sentido genérico, de futuro imediato c de narrativas no passado (presente histórico). - as marcas de Futuro são muito usadas com funções atemporais ou ligadas a modalidades. Em alguns casos, a etimologia do afixo Futuro era ainda identificável, o que sugere que seja de formação mais recente, o que converge com a idéia de que é muitas vezes reformado, o que também explica as várias ocorrências de formas perifrásticas neste tempo. Câmara Jr. (1985) e Coseriu (1980) também apontam para a relação tempo futuro/valores modais e para o caráter de instabilidade das fonnas desse tempo, que se alternam, desde o latim, entre fixas e perifrásticas. 86 7.1.1 - Tempo verbal nos dados Especialmente na modalidade falada da língua portuguesa, encontramos, com freqüência, uma forma de tempo verbal desempenhando uma função, num determinado contexto, distinta da função prototípica daquele tempo. Foram encontrados nos dados: a) Presente do Indicativo com valor genérico ou habitual (aqui denominados valores atemporais) Exemplo: Narrativa 7 (30) Porque ele anda é assim (GESTO), Adriana, Assim (GESTO), esses dois joelhos, /sei./ (31) Ele é- anda assim, entendeu? (32) Os dois joelho é grudado, (33) então o calcanhá num assenta. (34) Ele anda é com a ponta do dedo. (35) Isso ele num movimento. Essas são características do personagem 'meu innão' da Narrativa 7. Não se referem especifica e unicamente ao momento presente da história ou da situação de narração, por isso são marcadas como atemporais, neste trabalho. b) Presente do Indicativo com valor passado (Presente histórico) Exemplo: Narrativa 2 (13) E uma dessa um jacaré assim zanzano, né? (14) andano assim na água, (15) fícô ali dentro do poço. (16) E eu saí (17) pra pegá lenha pra minha mãe. A forma de Presente do Indicativo, nesse trecho, traz uiti evento da seqüência narrativa. Alinha-se, portanto, com os demais eventos expressos em Pretérito Perfeito, com valor passado. 87 c) Presente do Indicativo com valor de Futuro do Presente Exemplo: Narrativa 4 (13) E ela todo dia falava (N) "Cuidado, um dia cê perde prato aí. Cuidado... " A personagem 'minha mãe', nesse trecho, refere-se a um perigo futuro. d) Presente do Indicativo com valor Imperativo Exemplo: Narrativa 6 (79) "Olha, ele qué (80) mamá, (81) Mde mamá pra ele." e) Pretérito Perfeito do Indicativo com sentido contra-seqüencial (semelhante ao valor de Pretérito Mais-qite-perfeito) Exemplo: Narrativa 9 (22) A santa ceia era linda, aquela coisa prateada em alto relevo e a moldura preta, o quadro, lindo o quadro. (23) Única coisa que mamãe pediu (24) que não deixasse em Cuiabá era a santa ceia. (25) Que ela queria A forma de Pretérito Perfeito no trecho selecionado traz um evento que antecede toda a história (objeto da narração), ou seja, esse evento situa-se fora do eixo temporal definido pela narrativa. O personagem 'mãe' pedira que trouxessem 'a santa ceia' muito antes da 'irmã de caridade' ir à casa naquele dia. Portanto, esse tempo verbal, nesta estrutura, traz um evento contra-seqüencial, situado fora do eixo temporal definido pela narrativa, podendo ser parafraseado por tinha pedido. f) Pretérito Imperfeito com valor de Futuro do Pretérito Exemplo: 88 Narrativa 7 (25) "Se meu filho morresse, (26) eu matava ou você ou seu filho aqui. " Na estrutura acima, matava tem valor semelhante a mataria. Na contagem que procedi, considerei, então, a seguinte situação, uma vez que a preocupação maior que tive foi com a catalogação dos valores temporais, e não propriamente dos rótulos gramaticais associados às formas: 1- Presente (valor presente ou atemporal) 2- Pretérito Perfeito 3- Pretérito Imperfeito 4- fonuas ou valores de Futuro do Presente e Futuro do Pretérito 5- Pretérito Mais-que-perfeito 6- Infinitivo 7- Gerúndio 8- formas ou valores de Imperativo 9- formas de Subjuntivo 10- Presente histórico A Lingüística Cognitiva apresenta uma interpretação específica da função desempenhada pela categoria tempo verbal, como já foi mencionado neste trabalho. Cutrer (1994), Turner (1996) e Fauconnier (1997) mostram que, se compreendemos essa categoria verbal como expressando a relação entre ponto de vista c foco, podemos explicar os usos de morfemas flexionais de Presente para designar situações atemporais, genéricas, futuras ou passadas, bem como os usos de fonnas de Passado e de Futuro que não correspondam à expressão de seus valores básicos (relativos ao momento da fala). Essa visão da Lingüística Cognitiva das categorias verbais como organizadoras de espaços mentais será explorada quando for feita a caracterização da estruturação do texto narrativo em termos desse quadro teórico. 89 7.2-Aspecto Os sistemas de tempo e modo sempre foram, tradicionalmente, exaustivamente tratados pelas gramáticas, o que não acontece tanto em relação a aspecto. Tratando desta categoria, destacam-se, para a língua portuguesa os estudos de Castilho (1968), Soares (1984), Travaglia (1985) e Costa (1990). Brinton (1988) discute o fato de não haver consenso para a própria definição de aspecto, distinguindo dois grupos de definições. Para Brinton, aspecto, propriamente, refere-se a uma visão ou perspectiva do falante sobre a situação, o que se aplica às definições do segundo grupo. A perspectiva adotada neste trabalho conforma- se a esse grupo. As do primeiro grupo listadas por Brinton, por sua vez, relacionam-se à natureza inerente da situação, referem-se a oposições do tipo, pontual/durativo, estático/dinâmico. Então, visto basicamente a partir de Comrie (1976), um dos autores mencionados por Brinton, aspecto é uma categoria que expressa como o falante considera a constituição temporal interna do fato verbal, ou seja, expressa ou não um XXXVI aspecto corresponde à palavra russa vid "visão" introduzida na gramática eslava no início do século dezenove (Golda 1962:9). Na história dos estudos de aspecto, o tenno tem sido usado de maneiras diversas, e nenhuma única definição do conceito foi aceita. No sentido mais gerai, aspecto é uma 'maneira de se conceber a passagem do tempo' (definição de Holt; veja Friedrich 1974:2). Por outro lado, estudiosos germânicos geralmente seguem a definição simples de Karl Brugmann; 'a maneira que a ação do verbo procede' (veja Golda 1962:12-13). Definições similares podem ser encontradas em gramáticas eslavas, eg. 'aspecto expressa a forma pela qual o processo acontece no tempo ou é situado no tempo' (definição de Peskovskij; veja Golda 1962:10). Roman Jakobson (1971:130-47), escrevendo sobre o verbo russo, sugere que aspecto 'lida com valores temporais inerentes à atividade ou o próprio estado', enquanto Paul Friedrich (1974:1), escrevendo sobre o grego homérico, sugere que aspecto 'significa a duração relativa ou pontualidade numa linha do tempo'. Um escritor, dizendo simplificar a questão, diz que aspecto é o nome para a fianção de discriminar os tipos de "coisas" temporais que podem ser (lingüisticamente) "localizadas" na ordem seqüencial do tempo (Taylor, 1977:164-5). Por outro lado, um outro tipo de definição é bem comum. Etsko Kruisinga (1931:221) sugere que aspecto 'expressa se o falante vê a ação na sua inteireza, ou com especial referência a alguma parte (principalmente o início ou final). Tais definições podem também ser encontradas em gramáticas eslavas (a definição de Rasmussen; veja Golda 1962:11). Numa monografia sobre aspecto, Bernard Comrie (1976:3) diz que 'aspectos são diferentes maneiras de se ver a constituição temporal interna de uma situação'. Mais recentemente, Marion Johnson (1981:152) define aspecto como referência a uma das fases temporalmente distintas da evolução de um evento no tempo." (Brinton, 1988:2) (#23) 90 enfoque do interior desse fato pelo falante. A distinção principal dos valores aspeetuais é a seguinte: Perfcctivo - a visão do evento como um todo, completado. - Eu toquei piano ontem. Imperfectivo - ausência de referência à completude, possibilidade de referencia à constituição temporal interna do evento. - Eu tocava piano quando você chegou. 'Tocar piano\ nas duas orações acima, pode ter um referente único, ou seja, ser a mesma situação. Não se trata, segundo Comrie, de objetividade a distinção entre Perfectivo e Imperfectivo. O falante, no momento do enunciado, expressa um determinado ponto de vista sobre a situação em foco. Num outro momento, sua escolha pode se alterar. Na Gramática Cognitiva, Langacker (2001:43/44) contrasta: It rained last night [perfectivo; visão global] com It was raining hist night [progressivo; visão local] e define um verbo perfectivo como sendo aquele em que o processo apresentado {profiled) é limitado em seu escopo imediato. Quanto ao progressivo, a parte que se insere no campo de visão relativo ao processo apresentado e não-limitada ("o progressivo toma uma visão interna, impondo um escopo imediato que exclui os pontos inicial e final"): é, então, imperfectivo, segundo o autor. A distinção entre Perfectivo c Imperfectivo, nesses termos, condiz com a proposta por Comrie. Langacker, no entanto, trata os processos como 'inerentemente' perfectivos (aqueles que podem ocorrer com progressivo - learn, write, study, recite, copy) ou imperfectivos (aqueles que não podem ocorrer com progressivo - know, like, understand, see, have), apesar deste autor afinnar não haver uma possibilidade clara de distinção, nesse nível: 91 "Por exemplo, muitos verbos são ambivalentes, sua caracterização como perfectivo ou imperfectivo sendo determinada pela natureza de seus complementos nominais (/ admire her courage vs. / am admiring her dress)', pela perspectiva assumida em uma cena {This road winds trough lhe mountain vs. This road is winding through the mountains)', ou per outros fatores." (Langacker, 1991-a;208) (#24) A questão dos meios de expressão dos valores aspectuais é tratada por Soares (1984). Para a autora, aspecto é a expressão desses valores por meio de flexões e perífrases verbais (plano morfossintátieo), enquanto aktionsart (tipos ou 'modos de ação') refere-se ã lexiealização (valor similar ao de 'sentido inerente' do fato verbal) da aspectualidade. Optei, nesta pesquisa, por não proceder a uma análise aspectual no nível dos conteúdos semânticos dos elementos verbais catalogados, primeiro, porque, na língua portuguesa, perfectividade e imperfectividade são valores impostos aos processos pela flexão verbal e outros fatores contextuais, discursivos, como será observado nos dados. Segundo, porque o que Langacker está tratando como sentido inerentemente perfectivo ou imperfectivo (contetído objetivo do predicado) outros autores consideram como relativo a distinções do tipo verbos dinâmicos/estativos, principalmente, e pontuais/durativos, télicos/atélicos (Brinton, 1998:23) Considero hábito, duração, iteração, telicidade, progressão e continuidade valores ligados à aspectualidade, sem constituírem em si a distinção Perfectivo/lmperfectivo básica. Um evento durativo, mais facilmente percebido como Imperfectivo, pode ser apresentado pelo falante perfectivamente. Por outro lado, contextos específicos podem determinar que fonnas verbais de valor aspectual básico Perfectivo apresentem nuances aspectuais ligadas à imperfectividade. Isso se explica porque perfectividade expressa a ausência de 'referência' à constituição temporal 92 interna e não ausência de tal constituição. O que a escolha da fonna Perfectiva define é a visão do fato todo como uma unidade. A análise de dados discursos autênticos que apresentam contextos mais amplos para as formas lingüísticas é extremamente importante para a percepção de combinações inusitadas de valores aspectuais. Em consonância com essa perspectiva discursiva, Wynne (1999) reafinna a importância do contexto interacional na detenninação do significado dos enunciados: "O inglês, como muitas outras línguas européias, tem um sistema tcmpo- aspectual das fornias verbais, ou mais precisamente, um sistema de constelações verbais e situações associadas que podem expressar muitas classes aspectuais. Entretanto, essas estruturas verbais nunca podem ser vistas isoladamente, mas sim no contexto da interação entre seus valores semânticos e aspectuais e os outros elementos lingüísticos e não-lingüísticos que constituem o enunciado em sua inteireza. E a interação que dá ao enunciado seu significado último". (Wynne, 1999:249) (#25) Além da distinção básica entre Perfectivo e Imperfectivo, há ainda a categoria Perfeito: Perfeito - uma relação entre tempos. Um fato anterior resulta em um estado posterior. (Comrie, 1976) - Eu linha tocado piano quando você chegou. Brinton (1988:15) mostra que há autores que consideram o Perfeito uma expressão de tempo, há aqueles que o consideram aspecto, e há quetn não o posiciona em nenhuma das duas categorias. Givón (1984) afirma que a complexidade desta categoria se dá pelo fato de ela envolver elementos temporais e aspectuais em sobreposição. Para Givón, são os seguintes os sub-componentes dessa categoria: perfecíiviüade - presença de um limite temporal; relevância corrente - noção de 'motivação comunicativa'; anterioridade - 93 existência de uma lacuna entre o fato precedente mencionado e o eixo, a referência temporal; contra-seqüencialidade - codificação de um evento fora-de-seqüência. O sistema dos tempos verbais do português originou-se de formas verbais latinas, nas quais as noções aspectuais estavam presentes de forma bem marcante. Havia, no latim, dois ramos aspectuais {Perfectum ou Infectum). Do Perfectum latino originaram o Pretérito Perfeito e o Pretérito Mais-que-perfeito do Indicativo, o Pretérito Perfeito e o Futuro do Subjuntivo, além do Pcirticípio. Do Infectum vieram o Presente, o Pretérito Imperfeito, o Futuro do Presente e o Futuro do Pretérito do Indicativo, o Presente do Subjuntivo, o Imperativo afimiativo e negativo, bem como o Infmitivo Pessoal e Impessoal e o Gerúndio. (Câmara Jr, 1985) Câmara Jr.(1985) aponta para a distinção feita por gramáticos latinos, desde Varrão (século I a.C.): evento 'concluso' - chamavam Perfectum ('perfeito', feito cabalmente); evento 'inconcluso' - chamavam Infectum ('imperfeito, não feito cabalmente). Sem dizer que haja, no plano sincrônico, uma correspondência direta entre detenninado tempo verbal e determinado ramo aspectual do latim, nota-se que, em geral, os tempos verbais com valores aspectuais Perfectivo e Perfeito do português, vieram de formas do Perfectum latino. 7.2.1 - Aspecto nos dados Nos dados analisados, observou-se a seguinte relação entre valores aspectuais e temporais: 94 1 - Presente (valor presente ou atemporal) 2- Pretérito Perfeito 3- Pretérito Imperfeito 4- fomias ou valores de Futuro do Presente e - Imperfectivo - Perfective - Imperfectivo 5- Pretérito Mais-que-perfeito 6- Infinitivo 7- Geründio 8- fomias ou valores de Imperativo 9- formas de Subjuntivo I O- Presente histórico Futuro do Pretérito - Imperfectivo - Perfeito - Imperfectivo - Imperfectivo - Imperfectivo - Imperfectivo - Imperfectivo A partir dessas correspondências, temos os valores aspectuais básicos das formas verbais. No entanto, essas formas são complexas em sua estruturação e muitas vezes apresentam valores aspectuais combinados.*'"'^" Nos dados, encontramos fonnas apresentando: a) Unicamente valores Imperfectivos: - VALOR Imperfectivo básico Exemplo: Narrativa 7 (01) Além de ^ pequeno, Adriana, (02) ele era uma criança- ele era defeituoso da perna - valor Imperfectivo básico + valor Imperfectivo adicional - DA LOCUÇÃO verbal Exemplo: No caso de perífrases, foi considerada a forma do primeiro elemento verbal como básica, pois, levando-se em conta a noção de construal de Langacker, essa forma expressa como o falante optou por apresentar o evento, mesmo que seja complexo em termos da combinação de seus valores ligados à aspectualidade. 95 Narrativa 4 (39) já tava ficano roxa (40) de ficá ali, né? (41) A água CO-correno (42) e eu tava Ficano roxa (43) de ficá segurando no no naquelas arvorezinha - NO DISCURSO (pela repetição + prefixo aspectual) Exemplo: Narrativa 13 (38) Eu gostava demais do livro. (39) Eu lia e relia várias vezes. b) Unicamente valores Perfectivos: - valor Perfectivo básico Exemplo: Narrativa 12 (14) Ele negô o jornal, (15) negô o jornal de cabeça pra baixo, né? (16) Diz que ele afasto assim (17) e disse - VALOR Perfectivo básico + valor Perfectivo adicional - NO discurso (pela estrutura globalizante: /b/ e bateu, virô e falo) Exemplo: Narrativa 9 (97) Aí a madre foi e bateu o olho assim na santa ceia assim. (98) Já tinha ganho uma porção de coisa ali, cadeira giratória, cadeira giratória (99) que era do escritório dele, a mesinha do escritório com a cadeira giratória, (100) tudo deu pra irmã. (101) Aí na hora que ela bateu o olho assim na na santa ceia (102) ela virô pra papai e falõ assim c) Unicamente valor Perfeito: Exemplo: 96 Narrativas 8 (73) Depois de um mês ou ma- ou mais um pouco de um mês nós forno abri o piano (74) pra vê (75) como que estava, (76) Cê acredita, Adriana, que a madeira tinha voltado pro lugar?! /olha!/ d) Valores Perfectivos e Imperfectivos: - VALOR PERFECTIVO BÁSICO + VALOR IMPERFECTIVO ADICIONAL - NA LOCUÇÃO VERBAL Exemplo: Narrativa 3 (03) Na época dela ela é miudinha, branquinha. (04) E eu olhei (05) e fui nanhá água. - NO DISCURSO (pela repetição) Exemplo: Narrativas 9 (82) Ela chegô lá na oficina, (83) nediu isso, nediu aquilo. - VALOR PERFECTIVO BÁSICO + VALOR IMPERFECTIVO ADICIONAL (na locução verbal) + VALOR IMPERFECTIVO NO DISCURSO (pela repetição) Exemplo: Narrativas 9 (82) Ela chegô lá na ofícina, (83) pediu isso, pediu aquilo, (84) papai foi dano, foi dano 7.3 - Modo Modalidade tem, basicamente, a ver com a expressão de ponto de vista subjetivo do falante em relação ao conteúdo de sua fala, com referência a esse conteiido 97 ter ou não existência objetiva. Afirmamos ou negamos a ocorrência efetiva do fato, ou, por outro lado, apresentamos esse fato como uma possibilidade, um desejo ou temor. Há uma variedade de recursos lingüísticos potenciais para a expressão da modalidade, dentre os quais destaca-se o sistema de modos, com suas conjugações tradicionalmente conhecidas como Indicativo, Subjuntivo e Imperativo. Gili y Gaya (1969) mostra como noções da lógica são utilizadas para mostrar o que o Indicativo e o Subjuntivo expressam distintamente: Indicativo - juízos assertórios: afimiam ou negam uma realidade Subjuntivo - juízos problemáticos - expressam uma possibilidade (dúvida) e juízos apodíticos - expressam uma necessidade (desejo) A distinção modal essencial, que foi considerada para a catalogação dos dados nesta pesquisa é a seguinte: Real is - um evento apresentado como fato Irreal is - expressão de incerteza, possibilidade, desejo, etc. Nos dados analisados, foram encontradas as seguintes estruturas expressando conteúdos modais tanto deônticos, quanto epistêmicos, portanto catalogadas como Irrealis: 13A - Modo nos dados a) FORMAS DE OU COM VALOR DE SUBJUNTIVO Exemplo: Narrativa 9 (12) papai levava elas de carro (13) e sempre sempre ajudando muito lá o asilo. (14) Ajudando com dinheiro, com o (15) que precisasse 98 b) FORMAS DE OU COM VALOR DE IMPERATIVO Exemplo: Narrativa 8 (33) e falei (34) "Mimi. vamos trocar esse essa- o piano de luvar!" c) FORMAS DE OU COM VALOR DE FUTURO (DO PRESENTE OU DO PRETÉRITO) Exemplo: Narrativa 8 (23) Aí Mimi falô comigo (24) que ela ia chamá um carpinteiro (25) pra arrumá a madeira do piano. (26) ia chamá gente (27) pra afiná d) ESTRUTURAS CONDICIONAIS Exemplo; Narrativa 9 (90) Se pedia. (91) ele- principalmente pedindo, (92) nunca ele falô não. /UNHUM/ (93) Ele num falava não. e) PERÍFRASES MODAIS Exemplo: Narrativa 10 (11) Papai não podia mudar (12) porque tinha os interesses do sítio (13) e ele não podia deixar de uma hora pra outra. f) ESTRUTURAS SUBORDINADAS A VERBOS COM CONTEÚDOS MODAIS {resolver, mandar, pedir, parecer, precisar, querer, gostar, ele.) Exemplo: Narrativa 5 (16) E eu gostava demais (17) de tomá ovo de manhã assim ó 99 g) ESTRUTURAS ALTERNATIVAS Exemplo: Narrativa 6 (71) Pus dentro dum saco (72) ou amarrei num pano, sei lá. sabe? h) ESTRUTURAS NEGATIVAS Exemplo: Narrativa 4 (38) e eu num agüentava. (39) já tava ficano roxa (40) de ficá ali, né? i) ESTRUTURAS CONTENDO ADVERBIAIS Exemplo: Narrativa 13 (203) no dia que acabô o décimo volume, (204) que eu vi (205) que num tinha mais um volume, (206) eu quase que chorei assim, sabe? /unhum/ j) ESTRUTURAS INTERROGATIVAS - PERGUNTAS SIM/NÃO Exemplo: Narrativa 9 (119) enfíleirei de coisa (120) que tinha- que papai tinha dado nessa hora, (121) "a senhora ainda cnió a santa ceia (122) que é de mamãe? k) ESTRUTURAS CONTENDO MARCADORES DISCURSIVOS EXPRESSANDO FALTA DE COMPROMETIMENTO DO FALANTE COM O CONTEÚDO DE SUA FALA Exemplos: Narrativa 13 (295) Senti (296) Que ela tava meio assim con- /unhum/ condoída, num sei, né? 100 Narrativa 5 (01) Lá em casa minha mãe tinha muita galinha de angola (02) e ualinha de angola eles falam que bota seis meses (03) e seis meses num bota, né? O capítulo seguinte apresenta a quantificação dos valores relativos a Tempo, Aspecto e Modo (TAM) existentes nos elementos verbais das estruturas oracionais do corpus, valores esses descritos no capítulo que se encerra. Essa quantificação possibilita completar totalmente o quadro de investigação com que venho trabalhando, permitindo a caracterização dos domínios que estruturam o texto narrativo oral. 101 8 - Os VALORES TAM E OS DOMÍNIOS NARRATIVOS Ao realizar uma análise detalhada dos elementos verbais presentes em cada uma das três partes do texto narrativo (o Domínio dos Eventos Narrativos, o Domínio Suporte e o Domínio da Encenação) em tenrios de Tempo, Aspecto e Modo, levando em conta os valores emergentes no contexto de uso dos elementos lingüísticos, encontrei a seguinte situação: 8.1 - Na perspectiva dos valores TAM Valores temporais Eventos Narrativos 98,9% - Pretérito Perfeito Suporte 50,1 % - Pretérito Imperfeito 17,9% - Presente 13,4% - Infmitivo Encenação 48,0% - Presente 14,4% - Pretérito Perfeito 12,0% - Infmitivo 11,2% - Imperativo 9,6% - Futuro Valores aspcctuaís 98,9% - Perfectivo 90,2% - Imperfectivo; 4,0% - Perfeito 5,8% - Perfectivo 85,6% - Imperfectivo 14,4% - Perfectivo Valores modais 99,2% - Realis 80,2% - Realis \9,%%-Irreídis 60,8% - Realis 39,2% - Irrealis O que pode ser ilustrado pelos gráficos a seguir: 102 8.1.1 - Valores temporais }' 1 1- 1 f ,íl 11 Mijrf» Mi| i»| I wi| I II I I wi| I rn, mi| P PP PI F -KiP Inf G Imp S PH P - Presente PP - Pretérito Perfeito PI - Pretérito Imperfeito F - Futuro +qP - Pretérito Mais-que-peifeito Inf - Infmitivo G - Gerúndio Imp - Imperativo S - Subjuntivo PH - Presente histórico 8.1.2 - Valores aspectuais □ DENar □ D Sup □ d Ene a Ptivo Itivo Perf Ptivo - Perfective Itivo - Imperfectivo Perf - Perfeito ODE Nar □ D Sup □ d Ene 103 8.1.3 - Valores modais 100 80 60 40 20 O Realís Irrcalis ■ D E Nar □ D Sup O D Ene 8.2 - Na perspectiva dos domínios discursivos Eventos Narrativos Valores temporais 98,9% - Pretérito Perfeito Valores aspectuaís 98,9% - Perfective Valores modais 99,2% - Realis Suporte 50,1% - Pretérito Imperfeito 17,9% - Presente 13,4% - Infmitivo 90,2% - Imperfectivo 4,0% - Perfeito 5,8% - Perfectivo 80,2% - Realis 19,8% - Irrealis Encenação 48,0% - Presente 14,4% - Pretérito Perfeito 12,0% - Infmitivo 11,2% - Imperativo 9,6% - Futuro 85,6% - Imperfectivo 14,4% - Perfectivo 60,8% - Realis 39,2% - Irrealis O que pode ser ilustrado pelos gráficos a seguir: 104 8.2.1 - Domínio dos Eventos Narrativos (Figura) □ pp QPtivo □ Realis □ PII Ptivo - Perfectivo P P - Pretérito Perfeito P H - Presente Histórico As estruturas oracionais neste domínio do universo narrativo são essencialmente apresentadas em Pretérito Perfeito (que enfoca o passado). Isso distingue o grupo de estruturas oracionais que trazem a linha central dos eventos representados pelo discurso. O aspecto Perfectivo acompanha essa marcação temporal e compõe, com esse tempo verbal, o quadro gramatical distintivo para esse domínio do universo narrativo (os eventos da história são apresentados como completados). A predominância do aspecto Perfectivo apenas acontece neste ambiente. A modalidade Realis, apesar de não preponderar apenas neste domínio (toda a história tende a ser apresentada como fato, realidade, ao invés de constituir situação ligada à incerteza ou qualquer outro valor do campo da irrealidade) ocorre aqui, no entanto, de forma praticamente exclusiva. 105 8.2.2 - Domínio Suporte (Fundo) looX 80 60 40 20 O OP □ PI □ Inf □ Itivo □ Realis P - Presente PI - Pretérito Imperfeito Inf - Infinitivo Itivo - Imperfectivo As estruturas oracionais que compõem este domínio, trazendo descrições ou outras situações de suporte à linha dos eventos, apresentaram variedade em termos da marcação dos valores TAM. Pretérito Imperfeito foi o tempo verbal de maior incidência, pois é muito freqüente em descrições. Este tempo verbal só ocorreu significativamente neste domínio. Nota-se que o aspecto Imperfectivo é o que predomina aqui. A modalidade Realis dominante coexiste com uma presença significativa de seu oposto, valores Irrealis. Essa marcação aspectual e modal agrupa o Domínio Suporte com o Domínio da Encenação e coloca a ambos em oposição ao Domínio dos Eventos Narrativos, dando destaque a este último no quadro geral do universo narrativo oral. 106 8.2.3 - Domínio da Encenação (Discurso Direto) mp □ pp □ F ■ Inf □ Imp a itíM) □ Rcalis P - Presente P P - Pretérito Perfeito F - Futuro Inf - Infinitivo Imp - Imperativo Itivo - Imperfectivo Complementando o que já foi discutido, o ambiente discursivo da encenação das falas dos personagens apresentou a maior variação de todos em relação às categorias verbais analisadas. O Presente (com toda sua gama de valores presente e atemporal) é a maior característica deste domínio, quanto a tempo. Ocorreu aqui também a maior variação em termos de valores aspectuais e modais. Houve a predominância do aspecto Imperfectivo e da modalidade Realis (com incidência mais significativa de valores Irrealis). O QUADRO DE INVESTIGAÇÃO COMPLETADO flCa COmO a SCguin 107 Domínio dos Eventos Narrativos Função discursiva: seqüência mais básica, eventos da linha da história - Figura. 98,9% - Pretérito Perfeito 98,9% - Perfectivo 99,2% - Realis Domínio Suporte Função discursiva: informação de suporte aos eventos centrais, descrições - Fundo 50,1% - Pretérito Imperfeito 17,9% - Presente 13,4% - Infinitivo 90,2% - Iniperfectivo; 4,0% - Perfeito 5,8% - Perfectivo 80,2% - Realis 19,8% - Irreaiis Domínio da Encenação Função discursiva: representação da fala de personagens - Discurso Direto. 48,0% - Presente 14,4% - Pretérito Perfeito 12,0% - Infinitivo 11,2% - Imperativo 9,6% - Futuro 85,6yo - Iniperfectivo 14,4% - Perfectivo 60,8% - Realis 39,2% - Irreaiis A marcação lingüística diferenciada dos três domínios do texto narrativo oral expressa uma função discursiva. As categorias de tempo e aspecto verbais, principalmente, e também modo, servem, ao falante, no processo de organização do conteúdo de sua narração, e, ao(s) ouvinte, sinalizando o material central da linha dos eventos, ou seja, a Figura Narrativa, guiando-o através dos referidos domínios no processo dinâmico de interpretação do discurso. 108 9 - Os DOMÍNIOS DO TEXTO NARRATIVO ORAL E A TEORIA DOS Espaços Mentais A segunda etapa deste trabalho constitui-se da caracterização do texto narrativo através das ferramentas teóricas da abordagem dos Espaços Mentais. Propõe- se, após a análise realizada na primeira etapa da pesquisa dos valores relativos a Tempo, Aspecto e Modo das estruturas oracionais do corpus, a descrição das partes que compõem o texto narrativo oral (a Figura, o Fundo e o Discurso Direto) como domínios discursivos interconectados, pelos quais o falante e o(s) ouvinte(s) circulam no decorrer do ato da narração. Essa mudança de perspectiva teórica, na verdade, é um aprofundamento do trabalho com as noções de figura e fundo da teoria Gestalt. O paralelo, em Hopper (1979), entre o campo temporal da expressão lingüística e o da percepção visual integra a linguagem a outras capacidades cognitivas. Esse mesmo embasamento cognitivo sustenta todo o quadro teórico no qual se insere a Teoria dos Espaços Mentais. 9.1 - Instrumental do quadro teórico utilizado a Teoria dos Espaços Mentais (Fauconnier, 1994, 1997) e da Mesclagem Conceituai (Fauconnier &, Turner, 1998), da Lingüística Cognitiva, pemiitem uma descrição mais detalhada da realidade cognitiva do narrar oral, uma vez que provêem um instrumental teórico mais refinado em termos de noções discursivas e categorias tempo-aspectuais, permitindo a caracterização dos grandes domínios do texto narrativo em sua constituição e inter-relacionamento. 109 Este trabalho é especialmente baseado cm Cutrer (1994). Dessa autora são utilizados; 9.1.1 - Noções Discursivas Segundo Fauconnier (1997:72), toda atividade humana ligada a pensamento envolve configurações de espaços mentais, interconectados e estruturados também por conhecimento prévio e contextual. Esse é o caso das interações lingüísticas. Quem fala situa seu discurso numa base, assume um detenninado ponto de vista, põe detemiinado evento em foco e realiza mudanças constantes nessa configuração. E os participantes da interação têm de acompanhar a dinâmica desse processo: perceber as alterações locais e manter a perspectiva do todo. Prestamos especialmente atenção às mudanças relativas a duas dimensões da experiência: tempo e distância epistêmica (o status de 'realidade' de um espaço em relação a outro). A informação lingüística/gramatical é o meio através do qual somos guiados nessa percepção. Em cada configuração de espaços, visando a representar o discurso, tem-se: BASE - espaço ao qual o discurso está ancorado: o ponto de partida FOCO - espaço que é o foco de atenção EVENTO - espaço no qual a estrutura do evento ou situação indicada pelo verbo é construída PONTO DE VISTA - espaço a partir do qual outros espaços são acessados ou estruturados; ponto de referência para as categorias tempo-aspectuais (Cutrer, 1994:22) Ao longo do processamento do discurso, esses conceitos são distribuídos entre os espaços. Tal distribuição é regulada pela informação lingüística e pelos: 110 9.1.2 - "Princípios de Organização Discursiva; I- Princípios gerais a. Em qualquer momento do processo de interpretação do discurso pode haver apenas um espaço FOCO. O resultado de uma única oração pode ter somente um espaço FOCO. b. Pode haver somente uma BASE em cada configuração hierárquica de espaços apesar de mais de uma configuração e mais de uma BASE poder ser acessada para um iinico enunciado. c. BASE é o PONTO DE VISTA inicial. II- Princípios Operacionais d. Se FOCO é BASE, PONTO DE VISTA também é BASE. e. Um novo espaço é construído da BASE ou FOCO. f. BASE pode mudar para qualquer PONTO DE VISTA, ou para qualquer BASE prévia. g. FOCO pode mudar para um espaço EVENTO, para um espaço BASE, para um espaço FOCO prévio, ou para um novo espaço. h. PONTO DE VISTA pode mudar para FOCO ou para BASE i. EVENTO pode ser FOCO ou pode mudar para FOCO ou para um novo espaço que seja fiHio de PONTO DE VISTA." (Cutrer, 1994:77) (#26) 9.1.3 - Categorias tempo-aspectuais presente PASSADO FUTURO PERFEITO progressivo imperfectivo perfectivo No modelo apresentado em Cutrer (1994:68/9), tais categorias funcionam como elos entre espaços, organizando a distribuição de BASE, FOCO, etc., entre os espaços, detemiinando relações temporais, no decorrer do discurso. Para autora, elas atuam no nível da construção cognitiva. Não são, portanto, "representações de fonnas 111 semânticas, nem são categorias gramaticais específicas das línguas." (Cutrer, 1994:94) Cutrer (1994:94) esclarece que as categorias por ela adotadas têm por base o estudo trans-lingüístico de Bybee e Dahl (1989), segundo o qual, cerca de 80% das línguas analisadas apresentaram seis tipos de marcação, por morfemas gramaticais, de conteúdo tempo-aspectual, que são os por ela adotados, acrescentado do presente, que é, em geral, a forma não marcada nas línguas. 9.1.4-Representação das interações entre noções discursivas E CATEGORIAS TEMPO-ASPECTUAIS "passado - identifica ou sinaliza a construção de um espaço PASSADO N. Indica que: N está em FOCO. O pai de N é PONTO DE vista. O tempo de N é anterior a PONTO DE VISTA (pai). Eventos ou propriedades representadas em N são FATO a partir do PONTO DE VISTA (pai). (#27) Espaço M: PONTO DE Espaço N: FOCO PASSADO FATO Anterior a M 112 PRESENTE - identifica ou sinaliza a construção de um espaço PRESENTE N. Indica que: N está ein FOCO. N ou o pai de N é PONTO DE VISTA. O frame temporal representado em N é Não-Anterior a PONTO DE VISTA/BASE Eventos ou propriedades representados em N são FATO. FUTURO - identifica ou sinaliza a construção de um espaço FUTURO N. Indica que; N está em FOCO. O pai de N é PONTO de vista. O frame temporal representado em N é Posterior a PONTO DE VISTA. Eventos ou propriedades representados em N são PROGNÓSTICO a partir de PONTO DE VISTA. Espaço M: PONTO DE VISTA FOCO PRESENTE FATO Não-Anterior à BASE ou Esp Espaço N: FOCO PRESENTE FATO Não-Anterior à BASE Espaço M: PONTO DE V Espaço N: FOCO FUTURO PROGNÓSTICO Posterior a M 113 PERFEITO - identifica ou sinaliza a construção de um espaço EVENTO N. Indica que: N não está em FOCO. O pai de N é PONTO DE VISTA. O tempo de N é anterior ao do PONTO DE VISTA (mas não necessariamente anterior a todo o frame temporal do espaço PONTO DE VISTA pai.). PROGRESSIVO - identifica ou sinaliza a construção de um espaço EVENTO N. Indica que: N não está em FOCO. O pai de N é PONTO DE VISTA. O período de tempo representado em N inclui PONTO DE VISTA. PONTO DE VISTA é Durante N. Espaço M: PONTO D Espaço N: EVENTO Anterior a N Espaço IV PONTC Espaço N: EVENTO ( PONTO DE VISTA Durante N) 114 IMPERFECTIVO - identifica um espaço FOCO N. Indica que: N é PONTO DE VISTA. Espaço N: FOCO PONTO DE VISTA PERFECTIVO - identifica um espaço FOCO N. Indica que: N é Não-PONTO DE VISTA. Espaço N: FOCO (Cutrer, 1994:88/93) (#28) Cutrer (1994:87-94) fornece as seguintes informações sobre as categorias tempo-aspectuais: - PRESENTE, PASSADO, FUTURO, PERFEITO, PROGRESSIVO - somente estabelecem e atribuem propriedades ao espaço gerado N e à ligação entre N e seu PONTO DE VISTA pai (origem). Num contexto bem-formado, o espaço origem já terá sido provido. - IMPERFECTIVO, PERFECTIVO — somente atribuem uma relação entre PONTO DE VISTA e FOCO. Num contexto bem fonnado, o espaço FOCO já terá sido provido. - PASSADO, PRESENTE E FUTURO podem se combinar de várias maneiras: PASSADO PASSADO (PASSADO do PASSADO, 0 que em português poderia ser expresso pelo Preíérito Mais-que-perfeitó) passado FUTURO (futuro do passado, o que no português seria expresso pelo Futuro th Pretérito). 115 - PASSADO, PRESENTE E FUTURO identificam um espaço já marcado como tal, ou marcam um novo espaço (N), espaço este em FOCO c com certos tipos de relação com outros espaços (conexão temporal entre este espaço N FOCO e o espaço PONTO de vista ou PONTO DE vista/base). - o mapeamento entre as categorias tempo-aspectuais e a codificação nas línguas não é univoco: pode haver mais de um marcador ligado a uma categoria, assim como um único marcador pode estar ligado a mais de uma categoria. Outro aspecto dessa perspectiva é o fato dessa marcação poder se dar através de outras estruturas lingüísticas que não o tempo verbal. Nesses casos, a configuração dos espaços ó estabelecida por outros meios gramaticais, lexicais e pragmáticos. Cutrer (1994) afirma que as categorias de tempo marcam o espaço N como FATO ou PROGNOSTICO em relação a PONTO DE VISTA (PASSADO e presente atribuem marcação FATO; FUTURO atribue marcação PROGNÓSTICO). A autora vincula, então, eventos PASSADO e presente à marcação FATO. Neste trabalho, no entanto, marcam-se como FATO apenas os espaços PASSADO e PRESENTE que são também evento. Considerou-se que somente um espaço que represente a realização de um conteúdo verbal, ou seja, um espaço no qual a estrutura da situação indicada por um verbo é constmída, pode ser marcado como FATO. Assim, pode ocorrer, nas diagramações, de um espaço PASSADO (ou PRESENTE), por não ser EVENTO, não ser marcado como FATO. Além disso, uma situação representada por um espaço PRESENTE (ou PASSADO) pode ainda ter seu conteúdo caracterizado como Irrealis. Nesse caso, PRESENTE (ou PASSADO) não confere marcação FATO ao espaço. Essa distinção pôde ser percebida neste trabalho porque foi feito, conjuntamente ao levantamento dos valores tempo-aspectuais, a observação dos valores modais das estruturas analisadas. Se não é adequado marcar como FATO as estruturas com valor futuro (PROGNÓSTICO), como sugere a autora, não é adequado tampouco, como se percebeu pela análise aqui 116 realizada, marcar como FATO outras estruturas que expressem valores de dúvida, possibilidade, desejo, etc., não condizentes com uma asserção, por parte do falante, da realidade do conteúdo de seu enunciado. Assim, pode ocorrer, nas diagramações, de um espaço PASSADO (ou presente), evento, por ser Irrealis, não ser marcado como FATO. 9.2 - Proposta de diagramas para os domínios do texto NARRATIVO ORAL A visão das partes do texto narrativo como domínios discursivos, independentes e interconectados, sugere um movimento virtual no ato da narração. E como se, no decorrer da história, transitassem, falante e ouvinte(s), de um desses domínios ao outro e voltassem quando fosse necessário. Cada um desses macro espaços discursivos apresenta certas características gerais em termos das noções e categorias propostas por Cutrer e podem ser representados através de diagramas, como a seguir. Estes diagramas são abstrações ou esquematizações, representações de possíveis configurações no nível cognitivo e expressam funções discursivas e características das partes do texto. Foram propostos, a partir da observação das regularidades da marcação dos valores verbais das estruturas oracionais componentes de cada domínio, dentro do modelo dos Espaços Mentais. Não são representações de discurso, mas serão comparadas, no capítulo 10, com configurações de trechos narrativos selecionados dos dados.""""' """VIII Os diagramas realizados neste trabaliio exibem um grau de formalização relativamente denso. Tal situação é inevitável devido às características do arcabouço teórico adotado. Procurei, no entanto, explicitar a simbologia utilizada e evitar excessos de marcação. Não representei, nos diagramas que contêm mesclagens, o espaço genérico, integrante da teoria. A omissão desse espaço foi possível por não ser relevante para análise do fenômeno aqui estudado. O papel de tal espaço é o de revelar mais nitidamente uma analogia entre os espaços input, contendo uma abstração dos elementos que têm em comum; toma-se importante quando se necessita explicitar tal analogia, porém dispensável quando se trata de inputs obviamente análogos. O espaço genérico visa 117 9.2.1 - Domínio dos Eventos Narrativos Situação de Narração Realidade do Falante (Narrador) BASE PONTO DE VISTA PRESENTE Os eventos são narrados a partir do PONTO DE vista do falante (narrador). Esse ponto de vista é a base à qual esses eventos estão ancorados. A BASE é, então, a Realidade do Falante (Narrador), a Situação de Narração, um espaço não- EVENTO. O espaço diagramado Eventos Narrativos é contextualinente preenchido por conteúdos verbais informativos da linha da história, sendo, portanto, um espaço evento. Tais situações são, quase que exclusivamente, passadas em relação ao momento da narração. O espaço é, assim, passado, Anterior à Situação de Narração. É um espaço perfectivo (é foco e não-PONTO de vista), condizente com o completamento característico dos eventos narrativos. É, ainda, FOCO, por constituir elemento de saliência cognitiva, foco de atenção. Por ser passado, é marcado como fato, o que condiz com o nosso conhecimento de que as histórias representam situações supostamente ocorridas, de modalidade Realis. também a restringir a possibilidade de aplicação da teoria. Não tê-lo utilizado neste trabalho é também devido ao meu propósito de evitar a formalização excessiva. Eventos Narrativos (Personagens) FOCO PASSADO/PERFECTIVO Anterior à SITUAÇÃO DK NARRAÇÃO EVENTO FATO 118 9.2.2 - Domínio Suporte Situação de Narração Realidade do Falante (Narrador) BASE PRESENTE Evento: Suporte FOCO EVENTO Uma situação utilizada no texto com a função discursiva de dar suporte aos eventos centrais da história ocupa o espaço Suporte no diagrama. Essa situação é o foco de atenção no momento em que é apresentada, marcando SuPORTE como FOCO. Este espaço tem como origem o espaço base, não-EVENTO, Situação de Narração, que é a Realidade do Falante (Narrador). SUPORTE é EVENTO, pois a situação indicada pelo verbo é construída nesse espaço. No diagrama, o espaço Suporte engloba o espaço Eventos Narrativos, no sentido de que as situações que representam descrições, explicações, virtualmente subjazem a esses eventos. Tal diagrama reflete o princípio cognitivo do fundo permanecer sob a figura. Suporte pode ou não anteceder o espaço base cronologicamente. Quando antecede, é marcado como Anterior ò Situação de Narração, é imperfectivo, apresentando foco e ponto de vista (que muda da base para este espaço) coincidentes. Esta é a situação mais típica. No entanto, Suporte pode ser realizado por situações não-Anterior(es) a ponto DE VISTA/basE. Os eventos narrativos, em ambos os casos, são acessados da BASE, o que é indicado pela linha pontilhada no diagrama. 119 9.2.3 - Domínio da Encenação Situação de Narração (Mundo da NarraçAo) Realidade do Falante (Narrador) BASE PONTO DE VISTA PRESENTE Eventos Narrativos (Mundo da História) Personagens FOCO PASSADO / PERFECTIVO Anterior à Sl ITIAÇÃO I)K NakraçãO EVENTO PONTO DE VISTA FOCO PRESENTE EVENTO Visualizar o Domínio da Encenação como uma mescla de Situação de Narração e Eventos Narrativos justifica-se como a seguir: o espaço Encenação, onde ocorre a representação das falas dos personagens, apresenta elementos selecionados dos dois espaços de input. Da Situação de Narração, Encenação seleciona presente e as noções discursivas de BASE e PONTO de vista. Isso ocorre porque, na utilização do discurso direto, o narrador assume o self de um personagem no domínio de realidade da História, o discurso deixa de se ancorar na Realidade do Falante. Isso é exatamente o que, segundo Cutrer, o discurso direto significa: uma mudança de base para um self, um ponto de vista, num outro domínio de realidade. Do espaço Eventos Narrativos, a mescla seleciona os personagens e as noções discursivas de evento e FOCO. 120 10 - Diagramaçâo discursiva dos valores TEMPO-ASPECTUAIS Passo agora e diagramar os trechos das narrativas selecionados. Os elementos verbais de tais trechos apresentam os valores TAM de maior ocorrência em cada domínio narrativo. Todas as diagramações do seqüenciamento discursivo serão comparadas ao modelo de representação proposto por este trabalho, sempre tendo por base as noções discursivas, as categorias tempo-aspectuais e os princípios discursivos da Modelo de Espaços Mentais, como em Cutrer (1994). Valores verbais de maior ocorrência no Domínio dos Eventos Narrativos Preíérilo Perfeito -► 98,9% Valores verbais de maior ocorrência no Domínio Suporte Pretérito Imperfeito 50,1% Presente 17,9% Infmitivo 13,4% Valores verbais de maior ocorrência no Domínio da Encenação Presente ->• 48,0% Pretérito Perfeito ->• 14,4% Infmitivo 12,0% Imperativo 11,2% Futuro 9,6% 121 10.1 - Trecho diagramado 1 Tempos verbais focalizados: Domínio dos Eventos Narrativos - Pretérito Perfeito - 98,9% Narrativa 4 (05) que a casinha dela era na beira do Rio e a cozinha era- Bem, qualquer- (06) Aí qualquer enchidinha também que o rio dava, (07) entrava lá pra cozinha a água, (08) as galinha já ia subino pra pra pra cima, porco, tudo, né? (09) já tinha- já ta- já tava acostumado já com a correnteza do rio. (10) e eu lavava- acabava de arrumá a cozinha, (11) pegava os prato (12) ia lavá na beira do rio. (13) E ela todo dia falava (14) "Cuidado, um dia cê perde prato ai. Cuidado... " (15) Foi um belo dia mia filha, o rio encheu. (16) Tava correno a água (17) e a corrente da água levou o prato mesmo. (Riso) E eu... O primeiro enunciado desse trecho é configurado da seguinte maneira: Domínio Suporte - Pretérito Imperfeito - 50,1% (05) que a casinlia dela era na beira do Rio N BASE (P0NT( a: casinha dela h: beira do rio a Si:i{ em h EVENTO 122 Situação de Narração, o espaço N {Realidade do Falante/Narrador), c PONTO DE VISTA inicial, disponível como base. A fornia do Preíérito Imperfeito, neste contexto, expressa a combinação de passado e IMPERFECTIVO. PASSADO e IMPERFECTIVO s2o diagramados em espaços separados pois possuem relações FOCO/PONTO DE VISTA distintas. PASSADO estabelece um espaço FOCO, Anterior a PONTO DE vista (seu espaço origem), imperfectivo estabelece a seguinte relação foco/ponto DE vista: foco é ponto de vista. Um espaço imperferctivo e criado (SI). Este espaço é EVENTO, pois é nele que é construída a estrutura da situação indicada pelo verbo ser. FOCO muda do espaço PASSADO para esse espaço imperfectivo, o que está de acordo com o Princípio Operacional (g), segundo o qual FOCO muda para um espaço EVENTO ou para um novo espaço. PONTO DE vista também muda da base para esse espaço, o que está de acordo com o Princípio Operacional (h) (PONTO DE VISTA pode mudar para FOCO). Por terem mudado de espaço, FOCO em P e PONTO de vista em N aparecem entre parênteses no diagrama. Observação - O movimento das noções discursivas de um espaço para outro é representado, nos diagramas, por parênteses. Por exemplo, se um espaço N é marcado como FOCO num determinado momento do discurso e, no momento seguinte, FOCO muda para P (um espaço recentemente constituído), no diagrama, P será marcado FOCO e N (FOCO). Este trecho aparece na seqüência do discurso: e a cozinha era- Bem, qualquer- (06) Aí qualquer enchidinha também que o rio dava, (07) entrava lá pra cozinha a água, (08) as galinha já ia subino pra pra pra cima, porco, tudo, né? (09) já tinha- já ta- já tava acostumado já com a correnteza do rio. (10) e eu lavava- acabava de arrumá a cozinha, (11) pegava os prato (12) ia lavá na beira do rio. (13) E ela todo dia falava 123 A configuração é, então, atualizada da seguinte fornia: Esnaco de Discurso Papel do experienciidor: @ 1'ON I O DE VISTA a: casinha dela h : he ira Jo rio c: rio d : água e: cozinha f: galinha, porco, indo g: correnteza do rio h: eu ecozinha i: prato(s) hbeira do rio J: ela a SKR em h C llAHKNCHinmHA cJimMKe fSI III III (V. a. a. inceptivo/progrcssivo) i:STAIi:i fazendo) - continuativa (continuar a fazer) - conclusiva {acabar de fazer) - egressiva {vir de fazer) 129 (FOCO) I PASSADO (BASE) ^ (PONTO DE VISTA) d'CORRER (V.a.a. progressivo) N BASE PONTO DE VISTA a: casinha dela b: beira do rio c: rio d: água e: cozinha f: galinha, porco, tudo g: correnteza do rio h: eu ecozinha i: pralo(s) bbeira do rio Espace cic Discurso Papel do experienctidor: (Sí PONTO DK VISTA k: você iprato k i'i:rdi:r i'(\K) Cl (FOCO) FUTURO Posterior a C PROGNÓSTICO NC R a SKR em h c DAR i:NCIIIt)INIIA d i:miL\Re fsimiR (V. a. a. inceplivo/progressivo) USTAR ACOsníMAIX) com g h ARRUMAR e' (V. a. a. tenninativo) flXlAR i I^WAUem b' (V. a. a. inceptive) j l-AIJR S (1 a 9) (PONTO DE VISTA) (FOCO) IMPERFECTIVO EVENTO El (FOCO) PASSADO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO SIO (PONTO DE VISTA) (FOCO) IMPERFECTIVO EVENTO ga corrente da água i'prato k l.EVAR h E2 FOCO PASSADO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO I j 130 Com o enunciado que vem em seguida no discurso, a configuração fica atualizada através do estabelecimento do espaço E2, que tem as mesmas características do espaço El: é também acessado a partir de N, BASE, para onde muda PONTO DE VISTA (Princípio Operacional (h) - PONTO DE vista muda para BASE). A seguir, passo à diagramação desse mesmo trecho no fonnato proposto neste trabalho para os domínios do texto narrativo. Será observada a distribuição dos conceitos discursivos (BASE, PONTO DE VISTA, etc.) e categorias tempo-aspectuais (passado, PRESENTE, etc.) pelos cspaços. Na possibilidade da congruência das configurações para os discursos com os diagramas para os domínios do texto narrativo, conclui-se que os últimos podem ser utilizados como uma fomia de representar a construção cognitiva que ocorre nos processos de produção e interpretação do texto, especialmente por refletir a distribuição da informação em Figura e Fundo. Diagrama dos domínios do texto narrativo Narrativa 4 (05) que a casinha dela era na beira do Rio e a cozinha era- Bem, qualquer- (06) Aí qualquer enchidinha também que o rio dava, (07) entrava lá pra cozinha a água, (08) as galinha já ia subino pra pra pra cima, porco, tudo, né? (09) já tinha- já ta- já tava acostumado já com a correnteza do rio. (10) e eu lavava- acabava de arrumá a cozinha, (11) pegava os prato (12) ia lavá na beira do rio. (13) E ela todo dia falava (14) "Cuidado, um dia cê perde prato ai. Cuidado... " (15) Foi um belo dia mia filha, o rio encheu. (16) Tava correno a água (17) e a corrente da água levou o prato mesmo. (RISC) E eu... 131 N BASE PONTO DE VISTA S (1 a 9) (FOCO) (PONTO DE VISTA) Anterior a N IMPERFECTIVO EVENTO El (FOCO) Anterior a N PASSADO PERFECTIVO EVENTO FATO a: casinha dela h: heini i/o rio c: rio cl: água e: cozinha /: gatinha, porco, tudo g: correnteza do rio h: eu ecozinha i: prato(s) hbeira do rio j: ela (Ce Cl) a .SI:H em h C IMUKNCIItItINIIA d KNTKAlie fSlIKIU (V. a, a. inceplivo/progressivo) KSTAH AC Y).S7'Í /U-U)0 com g hARRVM.ARe' (V. a. a. tcmiinativo) rfííAK i IJ IA li em h ' (V. a. a. inccplivo) j I AIAR(CcC\) a: casinha dela h: beira do rio c: rio d: água e: cozinha f: gatinha, porco, tudo g: correnteza do rio h: eu ecozinha i: pralo(s) b ■; beira do rio j: ela (Ce Cl) d': água a SI:r em b c i)aki:nciiii)iniia dKNTIi-tRe fSi W IR (V. a. a, inceptivo/progressivo) i;.yiAR Aco.sruMAix) com g h ARRUMAR e ' (V. a. a. temiinativo) /•i-:r,.íR i lAVARem b' (V. a. a. inccptivo) J FAUR (C e Cl) d'COKtU-R (V.a.a. progressivo) S (1 a 10) (FOCO) (PONTO DE VISTA) j IMPERFECTIVO Anterior a N EVENTO ga corrente da água i'prato k t.l-y.AR h E2 FOCO Anterior a N PASSADO PERFECTIVO EVENTO FATO 132 S (1 a 9) é estruturado pelas informações dos frames constituídos; pelos elementos a e h e pela relação a SER em b; pelo elemento c e pela relação c dar ENCI/IDINIIA', pelos elementos d e e e pela relação d entrarpra e; pelo elemento/e pela relação f subir; pelo elemento g e pela relação estar acostumado com g; pelos elementos h e e' q pela relação h arrumar e'; pelo elemento / e pela relação pegar /; pelo elemento h' e pela relação lavar em h' e pelos elementos j e {C c Cl) e pela relação j falar (C e Cl). S (1 a 9) é imperfectivo: assinala um ponto de vista de um espaço FOCO (ponto de vista mudou da base para esse espaço FOCO (Princípio Operacional (h) - PONTO DE VISTA pode mudar para FOCO ou para base). É Aníerior a N e é EVENTO, pois nele se estruturam os conteúdos dos frames relacionados. Liga-se ao espaço N BASE, e a El, passado, foco, perfectivo (não ponto de vista), evento (FOCO mudou para esse espaço evento - Princípio Operacional (g), que estabelece que FOCO pode mudar para um espaço evento, para um espaço base, para um espaço foco prévio, ou para um novo espaço). El, por ser passado e evento, é marcado como fato em relação a PONTO de vista (N, base, para onde PONTO DE vista voltou). Por ser construído no contexto de S (1 a 9), é diagramado internamente a S (1 a 9). O evento narrativo que se segue no discurso 'e a corrente da água levou o prato mesmo.', representado pelo espaço E2, é construído num contexto diferenciado daquele do evento em El ('Foi um belo dia mia filha, o rio encheu.') apenas pela situação descrita através do frame constituído pelo elemento d' e pela relação d' correr. O contexto de E2 é, então, a situação representada por S (1 a 10). O diagrama apresenta E2 (estruturado frame constituído pelos elementos g' c i" e pela relação g' levar /"'), um espaço com as características tempo-aspectuais de El, internamente a S (1 a 10), que, por sua vez, tem as características tempo-aspectuais semelhantes a S (1 a 9). 133 Observação - Não vou representar em detalhes a configuração para o discurso direto (que no diagrama aparece como C e Cl). Essa configuração será explorada quando forem trabalhados os valores verbais do Domínio da Encenação (Trechos DIAGRAMADOS 4, 5, 6 ,7 E 8). Esta é uma configuração que retrata o todo do discurso, até o último instante, contendo traços da historia do seqüenciamento dos enunciados. Esse diagrama visa a oferecer a possibilidade de visualização mais precisa do que ocorre cognitivamente nos processos de estruturação e interpretação da macro-estrutura do texto narrativo. Especialmente, reflete a complexidade da distribuição da informação em material de Figura ou de Fundo, em suas relações, que podem ser gerais ou mais localizadas. Foi também elaborado, com base nas noções discursivas, categorias tempo- aspectuais e princípios de organização discursiva do modelo adotado. Se, como este, os demais trechos diagramados mostrarem não haver incompatibilidade entre esta e a diagramação do seqüenciamento de discurso, é indicio de a proposta apresentada neste trabalho ser um tipo de representação possível da macro-estruturação do texto narrativo oral e seus domínios discursivos (Eventos Narrativos, Suporte e Encenação). 134 10.2 - Trecho diagramado 2 Tempos verbais focalizados: Domínio dos Eventos Narrativos - Pretérito Perfeito - 98,9% Narrativa 6 (57) porque luz num tinha mesmo, né? /UNHUM/ (58) Era luz de querosene, luz de azeite. (59) Punha aquele paviozinho dentro do azeite, (60) cendia, né? (61) ficava ali. (62) Aí Adriana, esse dia o marido da Ada passô por lá. (63) Dona Amelinha mandô (64) me chamá. (65) Aí eu fui, (66) fechei a casinha toda lá pra vó, né? (67) e fui. (57) porque luz num tinha mesmo, né? /UNHUM/ Domínio Suporte - Infinitivo - 13,4% Inicia-se a diagramação pelo enunciado: a: luz TF.Ra (N)(IR) PONTO DE VISTA FOCO IMPERFECTIVO EVENTO SI 135 o Pretérito Imperfeito, como já dito, codifica a combinação de PASSADO c iMPERFECTivo. PASSADO estabelece um espaço (P) FOCO, Anterior a Ponto de vista (N - espaço origem/pai, base). SI, espaço IMPERFECTIVO, Anterior a N, EVENTO, é criado e a categoria tempo-aspectual IMPERFECTIVO estabelece a relação 'FOCO é PONTO DE vista'. FOCO muda de P para esse novo espaço, de acordo com o Princípio Operacional (g), que permite FOCO mudar para espaço EVENTO. PONTO de vista também muda da BASE para este novo espaço FOCO (SI), o que é pennitido pelo Princípio Operacional (h). SI é estruturado pelo frame constituído do elemento a e da relação ter a. O enunciado representado por esse espaço é negativo e tem valor modal Irrecilis, o que é expresso por (N) e (IR), respectivamente, no diagrama. O discurso segue com uma série de outras estruturas em Pretérito Imperfeito, (58) Era luz de querosene, luz de azeite. (59) Punha aquele paviozinho dentro do azeite, (60) cendia, né? (61) ficava ali. que podem ser todas agrupadas num único espaço, também IMPERFECTIVO. O diagrama sofre a seguinte atualização: 136 EVENTO S (2 a 5) é IMPERFECTIVO. Tal espaço é, portanto, semelhante, à exceção da negatividade, ao espaço SI e é estruturado pelo conteúdo áo^ frames constituídos de: elemento b e relação ser h\ elementos cede relação FÔR C dentro de h; relação (a)cender e relação ficar. O que se segue a partir desse ponto é: (62) Aí Adriana, esse dia o marido da Ada passô por lí. que é diagramado pela inserção de um espaço PASSADO (El - Evento Narrativo): 137 PERFECTIVO EVENTO FATO O tempo verbal Pretérito Perfeito codifica a categoria tempo-aspectual PASSADO. El é, então, introduzido; um espaço FOCO, PERFECTIVO, Anterior a N, EVENTO, FATO. N, BASE, é O espaço para onde volta ponto de vista (Princípio Operacional (h)) e de onde El é acessado. Temos introduzida, então, nesta exemplifícação, uma seqüência de eventos narrativos: 138 (63) Dona Amelinha mandô (64) me chamá. (65) Aí eu fui, (66) fechei a casinha toda lá pra vó, né? (67) e fui. que pode ser diagramada como a seguir. (Abaixo, o espaço El liga-se a E2, que se encontra na página seguinte, por não ter sido possível manter o diagrama inteiro em uma única página.): h: luz cie querosene/de azeite si:u b c: aquele paviozinlio d: azeite l'ÔI< c dentro de d (a)ci:ni)i:i< t-JCAR N BASE PONTO DE VISTA P (FOCO) PASSADO SI (PONTO DE VISTA) (FOCO) IMPERFECTIVO EVENTO El (FOCO) PASSADO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO S (2 a 5) (PONTO DE VISTA) (FOCO) IMPERFECTIVO EVENTO 139 E2 (FOCO) PASSADO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO E3 (FOCO) PASSADO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO h: nie CHAMAR h (IR) S6 (FOCO) EVENTO E5 FOCO PASSADO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO O primeiro enunciado da seqüência de eventos narrativos que segue El c uma estrutura principal (diagramada pelo espaço E2) em relação a uma subordinada (diagramada pelo espaço S6). E2 e S6 apresentam uma relação de subordinação local. E2 possui as características de um espaço PASSADO, à semelhança de El. E composto pelo frame contendo o elemento g e a relação g mandar. S6, por sua vez, e um espaço FOCO, estruturado pelo frame constituído do elemento h e pela relação CHAMAR h, sem marcação tempo-aspectual: o enunciado tem valor modal Irreal is, marcado por (IR) no retângulo correspondente ao espaço S6. Dessa estrutura subordinada, o discurso evolui 140 para 'Aí eu fui', estrutura representada por E3, que, neste momento e o FOCO e se assemelha aos demais espaços PASSADO da configuração. E3 é acessado a partir de E2, para onde FOCO havia sido transferido. Esse enunciado é, de certa forma, abandonado pelo falante, que reformula seu texto através de 'fechei a casinha toda lá pra vó, né?' (representado em E4), que traz um evento que antecede cronologicamente seu antecessor na linha discursiva. Em seguida, o texto apresenta 'e fui.' (representado em E5), que repete o conteúdo de E3. E4 é acessado, então, a partir de E2, exatamente por causa dessa situação de refomiulação. FOCO passa de E3 para E4 e para E5. Todos esses espaços representando eventos narrativos possuem configurações semelhantes, distinguindo-se pelos frames que os estruturam internamente: E3 - elemento h' e relação h' m; E4 - elementos i ej c relação fechar i pray e E5 - relação ir. As estruturas em Infmitivo que ocorrem no Domínio Suporte, em geral, seguem o padrão da forma desse trecho de discurso, ou seja, são estruturas subordinadas, constituindo, com suas principais, uma relação localizada, não interferindo na macro configuração do discurso em termos das relações Figura/Fundo gerais. Diagrama dos domínios do texto narrativo - Realizando a configuração para o modelo proposto para os domínios do texto narrativo oral, temos o seguinte diagrama: Narrativa 6 (57) porque luz num tinha mesmo, né? /UNHUM/ (58) Era luz de querosene, luz de azeite. (59) Punha aquele paviozinho dentro do azeite, (60) cendia, né? (61) ficava aU. (62) Aí Adriana, esse dia o marido da Ada passo por lá. (63) Dona Amelinha mandô (64) me chamá. (65) Aí eu fui, (66) fechei a casinha toda lá pra vó, né? (67) e fui. 141 N BASE PONTO DE VISTA e: o marido da Ada e 1'ASSARpor/ f.Iá g dona AmeUnha g mandar S6 heii h' lli i: casinha I 'ECIIAR i praj J. vó lli S (1 a 5) (PONTO DE VISTA) (FOCO) Anterior a N IMPERFECTIVO EVENTO E(la5) FOCO PASSADO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO a: tuz Ji:Ra (N)(IR) h: luz de querosene/de azeite .SV-Ví h c: aquele paviozinho l'ÔR c dentro de d d: azeite (a)ci:ni)i:r FICAR Este tipo de diagrama, como dito anterionncnte, mostra o discurso na totalidade, porém, revelando elementos do processo. Prove infonnações sobre a história, o desenrolar desse discurso, aponta marcas desse seqüenciamento, como as alterações na distribuição das noções discursivas, expressas pelos parênteses envolvendo algumas dessas noções em determinados espaços. S (1 a 5) representa todos os eventos expressos em Pretérito Imperfeito, tempo verbal que codifica PASSADO e IMPERFECTIVO. Tal tempo verbal estabelece um espaço IMPERFECTIVO ligado a um espaço PASSADO: E (1 a 5) cumpre essa exigência. O espaço IMPERFECTIVO (FOCO, PONTO DE VISTA, Anterior aN - origem/pai, EVENTO) estrutura-se pelos frames que contêm os elementos e relações: a e TER a (N); b c SER 6; cede PÔR c 142 dentro de d\ (a)cender e ficar. Todos os eventos diagramados através de S (1 a 5) são Fundo para os enuneiados de E (1 a 5). E (1 a 5) que, por sua vez, contém eventos narrativos, expressos em Pretérito Perfeito, é um espaço PASSADO, FOCO (transferido a partir de S (1 a 5)), PERFECTIVO, Anterior a N, evento, fato). S6 representa um enunciado que possui apenas uma relação de subordinação com E2, liga-se aos demais eventos através do evento em E2 do diagrama anterior a este ('Dona Amelinha mandô'); S6 apareceu na diagramação apenas compondo os frames que estruturam E(1 a 5), a í,íibcr, frames estruturados por: e e/e e PASSAR por f, e S6 e g mandar S6-,h'eh' IR-, i cj e fechar i pra j e //?. S6 não constitui, portanto, informação de suporte para os demais eventos narrativos. Não compõe uma unidade com os demais eventos suporte, não podendo, portanto, constituir, com eles, um único espaço. Essa diagramação pennite-nos perceber a distinção entre os eventos que dão suporte a um trecho maior do discurso e aqueles que mantêm apenas relações Figura/Fundo localizadas. O Infmitivo, que não codifica categoria tempo-aspectual, representou 13,4% das ocorrências, em geral, estruturas subordinadas dessa natureza, apresentando com o evento narrativo uma relação semelhante a essa. 143 10.3 - Trecho diagramado 3 Tempos verbais focalizados: Domínio dos Eventos Narrativos - Pretérito Perfeito - 98,9% Domínio Suporte - Presente (valor presente ou atemporal) - 17,9% Narrativa 2 (42) Aí eu peguei ele pelo rabo. (43) O jacaré é pesado, né? (44) Ele é cabeçudo. (45) Aí eu peguei ele pelo rabo (46) e saí arrastano ele até em casa. Inicio a diagramação desse trecho pelo primeiro enunciado: (42) Aí eu peguei ele pelo rabo. O tempo verbal Pretérito Perfeito codifica PASSADO e PERFECTIVO. A categoria PASSADO estabelece a construção de um espaço PASSADO, FOCO, FATO (El), Anterior a ponto de vista origem/pai (N). perfectivo identifica esse espaço FOCO, não-PONTO DE VISTA. El é EVENTO e exibe, como frame estruturador, os elementos a, h e c e a relação a pegar b pelo c. a: eu h: ele c: rabo a I'BSAIi h pelo c FATO Na seqüência, tem-se: 144 (46) O jacaré é pesado, né? (47) Ele é cabeçudo. duas estruturas no tempo verbal Presente, diagramadas, no contexto, da seguinte fomia: Não-Anterior a N EVENTO FATO O espaço S (1 e 2) que é introduzido na diagramação para representar os enunciados 'O jacaré é pesado, né?' e 'ele é cabeçudo' é PRESENTE, portanto, FOCO. S(le2)é FATO, EVENTO, espaço no qual os valores prcenchedores dos papéis e relações b' Q b' SER pesado e b" e b" SER cabeçitdo se realizam. Esse espaço é diagramado separadamente do espaço PRESENTE BASE pois representa um período de tempo que não corresponde ao do momento da fala.*'' Esse novo espaço liga-se a El na seqüência do discurso e é acessado a partir da base/ponto de vista N, Situação de Narração. Na seqüência temos as estruturas: (47) aí eu peguei ele pelo rabo (46) e saí arrastano ele até em casa. Neste trabalho opto por chamar as nuances de significado genérico, habitual e atemporal pelo rótulo único de presente atemporal. Apesar de Cutrer distinguir os três termos, trata a todos, para efeito de análise e diagramação como um fenômeno único. Ou seja, todos suscitam a criação de um espaço ligado ao espaço BASE, pois nenhum se refere a um período de tempo que coiresponda ao momento da fala. (Neste modelo, trabalha-se com períodos de tempo e não pontos na linha temporal.) 145 que são representados por dois espaços PASSADO, como a seguir: N aeu b'": ele crabo o' PlXiAH b'" pelo c' El (FOCO) PASSADO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO PASSADO PERFECTIVO EVENTO FATO h"": ele d: casa Há, neste caso, um exemplo de retomada da Figura Narrativa, pelo falante, através da repetição do último elemento antes de uma inserção no Fundo. Esse recurso da repetição é muito comum no texto oral. No diagrama, o espaço que representa o elemento repetido (E2) é estabelecido ligado ao espaço que contem o material do Fundo, refletindo a seqüência discursiva. Liga-se também diretamente à base/ponto de VISTA (Situação de Narração N), de onde é acessado. E2 é um espaço com as características semelhantes a El em tennos das noções discursivas e categorias tempo- aspectuais. É um espaço EVENTO estruturado pelos valores referentes aos papéis a', h'", c' e da relação a' pegar b'" pelo c'. O enunciado 'e saí arrastano ele até em casa.' E3 SAIU (arrastano) b"" até em d (V. a. a. progressivo) FOCO PASSADO PERFECTIVO EVENTO FATO 146 estabelece um espaço passado (E3). E3 segue E2 e distingue-se dele por seu frame estruturador que é constituído pelos elementos h"" cd ca. relação SA/R (arrastano) h"" até em d. um valor aspectual adicional, imposto ao enunciado pela locução verbal aspectual progressiva, que é representado no diagrama através da indicação (V. a. a. progressivo) no retângulo correspondente a E3. {arrastano pode ser interpretado como apresentando um valor semelhante ao de um adverbial.) Diagrama dos domínios do texto narrativo - A configuração para o modelo proposto para os domínios do texto narrativo oral fica da seguinte fomia: Narrativa 2 (42) Aí eu peguei ele pelo rabo. (48) O jacaré é pesado, né? (49) Ele é cabeçudo. (50) Aí eu peguei ele pelo rabo (46) e saí arrastano ele até em casa. O evento representado em E3 ('e saí arrastano ele ate em casa.') apresenta N BASE PONTO DE VISTA a rfílAR h iK'lo c a' riUiAK h'" jkIo c' bo jacaré h' ,S7:7< pesado h'ele b'' si:li cabeçudo S.4IIÍ (arrastano) h"" até em d (V. a. a. progressivo) S(1 e2) E(la3) PRESENTE Não-Anterior a N FOCO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO PASSADO (FOCO) EVENTO 147 o diagrama mostra que os eventos no tempo verbal Presente do Indicativo, que codificam a categoria tempo-aspectual PRESENTE, encontrados no DOMÍNIO Suporte do texto narrativo oral, apresentam, em geral, uma relação Figura/Fundo com os eventos narrativos semelhante àquela apresentada pelos eventos em Pretérito Imperfeito. Essa relação tem a possibilidade de ter um caráter mais generalizado, ou seja, cada evento suporte com essas características tempo-aspectuais pode, em potencial, subjazer a seqüências extensas de eventos narrativos. Juntos, o Pretérito Imperfeito e o Presente do Indicativo, compuseram 68% das estruturas do Doiviínio Suporte, nos dados analisados neste trabalho. Os eventos narrativos, em ambos os casos são acessados da BASE, o que é indicado pela linha pontilhada no diagrama. 148 10.4 - Domínio da Encenação: mudança de base Antes de diagramar os trechos envolvendo estruturas em discurso direto, portanto componentes do domínio da encenação, são necessárias algumas considerações. Como dito quando foi apresentada a visão de Turner (1996) de história e projeção, diferentes domínios de realidade estão presentes numa situação de narração. São exemplos desses domínios; O Mundo da Narrativa O Mundo da História O Mundo Real Cada domínio apresenta sua própria estrutura, seus elementos, seus selves. Cada self em um domínio é um ponto de vista, pode ser um espaço base, ou seja, uma referência dêitiea de onde tempo e adverbiais podem ser acessados. A perspectiva dos espaços mentais permite-nos ver que certas ocorrências de valores verbais são compreendidas através da relação entre o sistema temporal e esses domínios. Canonicamente, tempo verbal é acessado do espaço Realidade do Falante (Situação de Narração), relacionado ao primeiro dos domínios representados pelos círculos acima. Entretanto, isso nem sempre ocorre. Podemos acessá-lo de bases distintas. E, independentemente da base da qual tempo verbal é acessado, a relação entre PONTO DE VISTA e foco permanece invariável. 149 Tempo Presente ^ FOCO corresponde a PONTO DE VISTA Tempo Passado -► FOCO precede PONTO DE VISTA Tempo Futuro PONTO DE VISTA precede FOCO Quando acessamos um determinado tempo verbal de um ponto de vista distinto do canônico, temos valores temporais também não canônicos. Assim, compreende-se melhor as fonnas de passado significando presente ou futuro, formas de presente significando passado, etc.. Com a visão da Lingüística Cognitiva de que tempo verbal é melhor definido como uma relação entre FOCO e PONTO DE VISTA do que como uma categoria dêitica ligando situação descrita pelo verbo a momento da enunciação, é possível explicar alguma ocorrência na qual os mapeamentos PP/EN e OT/Sup não tenham ocorrido. Por exemplo, o Presente histórico, tempo Presente utilizado para se recapitular eventos passados, significa uma mudança de BASE para um ponto de vista no Mundo da História. Numa situação de discurso direto, o narrador, num certo sentido, encarna um personagem, um self no Mundo na História, assume sua voz, encena seu discurso. Ocorre, nessa situação, uma mudança de PONTO DE vista/base de toda a configuração discursiva e fica estabelecido um novo cenário para referência dêitica. Em outras palavras, passa-se da perspectiva temporal do falante/narrador para a perspectiva temporal desse personagem, na qual o ouvinte baseia-se no processo de interpretação da enunciação. Cutrer representa mudanças de BASE da seguinte maneira: 150 No Domínio/Mundo da Narrativa, o texto está ancorado no tempo da narração. No Domínio/Mundo da História, porém, a ancoragem passa a acontecer a partir do eixo temporal definido pela narrativa. No caso do texto oral, é o verbo de discurso e/ou a entonação que estabelecem esse novo domínio de referência. Apesar de haver elos cognitivos conectando elementos, quando se estabelece esse novo domínio, fica estabelecida uma barreira para acesso temporal a partir da base no Domínio/Mundo da Narrativa. Segundo Cutrer (1994:405), "na língua falada, a mudança de base é engatilhada pelo verbo de discurso e indicada pela mudança de tempo, pronominais e outros dêiticos, auxiliada por acento, entonação e prosódia". (#29) A mudança de PONTO DE VISTA para um personagem no Mundo da História é sinalizada, então, muitas vezes, pela mudança de tempo. O tempo verbal Presente é o que mais caracteriza o discurso direto e foi o de maior incidência nos dados. No entanto, qualquer tempo verbal, em princípio, pode ocorrer neste contexto; o conteúdo da fala de um personagem é imprevisível e pode expressar situações que se localizam inclusive fora do eixo temporal definido pela narrativa. 151 A proposta deste trabalho é representar esta mudança de base por uma diagramação envolvendo mesclagem. Como vimos, há dois mundos em questão; o Mundo da Narrativa e o Mundo da História, dois espaços input, portanto. Os trechos diagramados a seguir envolvem estruturas do Domínio da Encenação. 152 10.5 - Trecho diagramado 4 Tempos verbais focalizados: Domínio da Eventos Narrativos - Pretérito Perfeito - 98,9% Domínio da Encenação - Presente (valor presente ou atemporal) - 48,0% Narrativa 1 (10) Eu falei (l I) "Olha. ô cara, cê tà me achano (12) que eu sô gringo? Iniciando por: (10) Eu falei tem-se a configuração: Para a interpretação desse elemento do texto ('Eu falei'), constrói-se um espaço PASSADO (E - Evento Narrativo, foco. Anterior à base, perfectivo, evento) ligado ao espaço base (N - Situação de Narração), origem. O verbo de 153 discurso leva à construção do Espaço de Discurso, para o PONTO DE VISTA, a conceitualização do falante. Esse Espaço de Discurso possui, então, um papel PONTO DE VISTA inerente associado ao experienciador (@), o self representado através do discurso. Ao ser introduzida a fala do personagem, que no caso identifica-se com o narrador, o texto é ampliado através das estruturas: (11) "Olha, ô cara, cê tá me achano (12) que eu sô gringo? Cuja interpretação resulta na seguinte diagramação; N Realidatle cio Narra ciar (BASE) (PONTO DE VISTA) a: eu a f-AlAR E (FOCO) PASSADO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO Espaço dc Discurso Piipel do experienciador @ PONTO DE VISTA c BASE PONTO DE VISTA PRESENTE a(vo)cê h: me a" ACHAR h (?)(IR) V. a. a. progrcssivo/dunitivo Cl (FOCO) PRESENTE EVENTO C2 FOCO PRESENTE Não Anterior a C EVENTO FATO c: gringo a'' si:i< c 154 Acontece, então, a mudança da base para ponto de vista C, onde cia pennanece enquanto durar a fala deste personagem. O conteúdo das estruturas que representam tal fala, ou seja, do trecho em discurso direto, estrutura tanto o espaço Cl, quanto C2. O PRESENTE é acessado tanto em Cl, quanto em C2, desta BASE, PONTO de VISTA do self representado, o experienciador (o personagem eu)\ há, assim, uma identidade experienciador (@)/personagem eu {a'): @ e a' correspondem ainda ao narrador. O novo ponto de vista/base funciona como o centro dêitico. N fica bloqueada para acesso de tempo e aspecto. FOCO transfere-se, primeiramente para Cl, e posteriormente para C2. Cl é estruturado pelo frame constituído dos elementos a' c b c da relação a' ACiiAR h\ apresenta valor aspectula adicional progressivo/durativo, expresso pela locução verbal (V. a. a. durativo). O enunciado em Cl é interrogativo (?) e tem valor modal Irrealis (IR); liga-se a C2, que, por sua vez, é estruturado pelo frame constituído dos elementos a " e c e da relação a'' ser c. A diagramação realizada para o trecho da Narrativa 1 selecionado como representativo do Domínio da Encenação Narrativa 1 (10) Eu falei (! 1) "Olha, ô cara, cê tá me acliano (12) que eu sô gringo? envolve mesclagem: 155 Diagrama de mesclagem Espaço de Discurso Papel do experienchdor @ PONTO DE VISTA a': (\'o)ce h: me a'ACHAHhCX (N)(IR) V. a. a. progressivo/duiativo N (Mundo da Narrativa) Realidade do Narrador (BASE) (PONTO DE VISTA) (PRESENTE) E (Mundo da História) Personagens (selves) (FOCO) PASSADO PERFECTIVO EVENTO FATO c Self representado BASE PONTO DE VISTA PRESENTE Cl PRESENTE EVENTO FOCO O espaço C é o espaço mesclado do diagrama acima. C contém elementos selecionados dos dois espaços input. O narrador (originalmente do Mundo da Narrativa) assume o self de um personagem do Mundo da História: o PONTO DE VISTA é o PRESENTE desse self. Do espaço N, C utiliza, então, as características BASE, PONTO DE VISTA e PRESENTE. Do espaço E, vem o personagem, o self representado. Cie C2, como extensões de C, são espaços evento, foco passa de Cl a C2. C2 aparece no diagrama acima compondo o espaço Cl, por manter com Cl uma relação local de subordinação entre os conteúdos das estruturas representadas por esses espaços. Os elementos a' e ò (e também os elementos que compõem o frame estruturador de C2) estão ligados aos dois espaços input por elos cognitivos, ou seja, fazem parte do Mundo da História {a, b e c) e, ao mesmo tempo, mesmo que implicitamente, do Mundo da Narrativa {A, B e C). 156 o tempo verbal Presente correspondeu a 48% das estruturas do Domínio DA Encenação, ou seja, foi o tempo verbal de maior incidência neste dominio discursivo. Isso condiz com o que Cutrer aponta como característico de discurso direto. Cutrer (1994:408) discute essa mudança de BASE que ocorre quando há utilização de discurso direto e afirma: "O tempo Presente e a marcação ortográfica de discurso direto explicitamente indicam a mudança de BASE para o espaço M1 (na diagramação da autora), para o PONTO DE vista do SELF representado (...). As aspas estabelecem um domínio local de referência e um limite forte entre o domínio da citação e o domínio externo. Esse limite toma a base ficcional externa inacessível como um ponto de acesso para tempo, tempo dentro da citação pode somente ser acessado da base mais local. A mudança de base tem suporte também em infonnação pragmática, contextual (...). (#30) A autora trabalha com dados da língua escrita. Em relação ao texto oral, além da informação gramatical/lexical, pragmática/contextual, a entonação c, por vezes, essencial para indicação da mudança de base. Como não há marcação gráfica de aspas para a fala ou monólogo interno dos personagens, guiamo-nos, então, para a percepção da reprodução dessa fala, por elementos como a introdução de um verbo de discurso, a mudança de entonação, aliados à alteração do tempo verbal. Assim, apesar da grande incidência no Domínio da Encenação, não é a presença do tempo verbal Presente que indica discurso direto. Qualquer outro tempo verbal pode ocorrer nesse contexto. Quando representam discurso de personagem, os outros tempos também serão acessados a partir dessa base do representado, ou seja, do presente do personagem em questão. Os TRECHOS DiAGRAMADOS 5. 6, 7 E 8 ilustram como a mudança de base ocorre de forma semelhante para qualquer tempo verbal que componha estrutura 157 integrante do Domínio da Encenação. Isso significa que o mecanismo de produção/interpretação de discurso, representado através dos espaços mentais, é único nesses casos. Para todos os trechos apresentarei os diagramas nos dois formatos com que venho trabalhando. 158 10.6 - Trecho diagramado 5 Tempos verbais focalizados: Domínio da Eventos Narrativos - Pretérito Perfeito - 98,9% Domínio da Encenação - Pretérito Perfeito - 14,4% Narrativa 11 (23) papai falou (24) "Minha filha, o que é que foi? " Cl FOCO PASSADO Anterior a C PERFECTIVO EVENTO FATO 159 Para a representação desse trecho do discurso, constrói-se um espaço PASSADO (E - Evento Narrativo, foco, Anterior à base, perfectivo, evento) ligado ao espaço BASE (N - Situação de Narração), origem. O verbo de discurso leva à construção do Espaço de Discurso, para o PONTO DE vista, a conceituaiização do falante. Esse Espaço de Discurso possui, então, um papel ponto de vista inerente associado ao experienciador, o self representado através do discurso. Exatamente como acontece em relação ao trecho diagramado 4. Ocorre a mudança da BASE para ponto DE VISTA C. O PASSADO é acessado, em Cl, desta base/ponto de vista do self representado, o experienciador. Há uma identidade experienciador (@)/personagem papai (a). N fica bloqueado para acesso de tempo e aspecto. O novo PONTO de vista/base funciona como o centro dêitico. foco transfere-se para Cl, que representa um enunciado interrogativo (?) e é estruturado pelo frame constituído do elemento h e da relação h ser (?). 160 Diagrama de mesclagem - Realizando a configuração para o modelo proposto para os domínios do texto narrativo oral, temos o seguinte diagrama, que para o trecho selecionado, envolve mesclagem: Narrativa 11 (23) papai falou (24) "Minha ftlha, o que é que foi? " Esnaco de Discurso Papel do experienchdor @ PONTO DE VISTA h: o que (é que) h Slüt. ( ? ) E (Mundo da História) Personaí^ens (selves) (FOCO) PASSADO PERFECTIVO EVENTO c Self representado BASE PONTO DE VISTA PRESENTE Cl FOCO PASSADO PERFECTIVO EVENTO (Mundo da Narrativa) Realidade do Narrador (BASE) (ponto de vista) (PRESENTE) Semelhantemente à mesclagem proposta para o trecho niAGRAMAfíO 4, C é o espaço mesclado e contém elementos selecionados de N e E. O narrador (originalmente de N) assume o self de um personagem em E: o PONTO DE VISTA é o PRESENTE desse self. De N, C seleciona as características BASE, PONTO DE VISTA c presente; de E, o personagem, o self representado. Cl, como extensão de C é foco e EVENTO. O elemento b em Cl está ligado aos dois espaços input por elos cognitivos; @ liga-se ao personagem 'papai' (em E), o representado. 161 10.7 - Trecho pi agram ado 6 Tempos verbais focalizados: Domínio da Eventos Narrativos - Pretérito Perfeito - 98,9% Domínio da Encenação - Infmitivo - 12,0% Narrativa 3 (52) Ah mia filha, eu joguei a hita lá longe e ó... (gesto) no pé. (53) "£ agora pr'eu desce? E agora pr'eu Jescè? " (54) porque ele ficô lá, né? PASSADO Anterior a N PERFECTIVO EVENTO FATO 162 o espaço C, neste caso, é estabelecido no momento cm que é introduzida a fala/pensamento do personagem 'eu' e não, como nos dois casos anteriores, quando o verbo de discurso aparece. São os elementos que indicam a mudança de BASE: a entonação, a escolha lexical/gramatical - pronome, tempo verbal. Cl (EVENTO, não marcado tempo-aspectualmente, por representar uma situação expressa por Infinitivo) ancora-se em C, para onde a BASE/ponto de vista foi mudada enquanto permaneceu a fala/pensamento. Os espaços E e El do diagrama têm N por base. São espaços PASSADO, Anterior a N, PERFECTIVO, FOCO, EVENTO. El, inclusive, representa um evento que segue, na cadeia do discurso, a mudança de BASE para C: estabelece um retomo à base N. O frame constituído pelo elemento a c h ax relação a jogar h (longe) estrutura E; a' e a' descer (?) estruturam Cl. A unidade oracional 'E agora pr'eu descê? E agora pr'eu descê?', representada por esse espaço, é interrogativa (?) e traz uma repetição de valor aspectual no nível do discurso, um componente de expressão de duração; El é estruturado por c e a relação c FICAR (lá)- 163 Diagrama de mesclagem - A diagramação para os domínios do texto narrativo referente ao trecho selecionado inclui mesclagem: Narrativa 3 (52) Ah mia filha, eu joguei a lata lá longe c ó... (gesto) no pé. (53) "£ agora pr'eu descè? E agora pr'eu descê? " (54) porque ele ficô lá, né? Espaço de Discurso Papel do experienciidor @ PONTO DI-; VISTA N (Mundo da Narrativa) Realidade do Narrador BASE PONTO DE VISTA PRESENTE E (Mundo da História) Personagens {selves) (FOCO) PASSADO PERFECTIVO EVENTO FOCO PASSADO PERFECTIVO EVENTO FOCO EVENTO c Self representado BASE PONTO DE VISTA PRESENTE Esta mesclagem vem confinnar que a situação da mudança de BASE não se altera com escolhas alternativas de tempos verbais para a representação de fala/pensamento de personagens. O fenômeno é o mesmo e as mesclagens só variam cm relação aos frames que estruturam os espaços e às características tcmpo-aspectuais destes. O trecho diagramado 6 inclui um elemento que segue o discurso direto no texto ('porque ele ficô lá, né?'). A diagramação desse elemento revela que, ao haver a transição para um evento narrativo após a fala do self representado, a BASE retoma à SITUAÇÃO DE NARRAÇÃO N. 164 10.8 - Trecho diagramado 7 Tempos verbais focalizados: Domínio da Eventos Narrativos - Pretérito Perfeito - 98,9% Domínio da Encenação - formas ou valores de imperativo -11, 2% Narrativa 8 (51) Falei (52) "Mimi, vamos trocá essa essa- esse piano de posição!" Neste trecho, então, como nos anteriores que envolvem discurso direto, ocorre o estabelecimento de um Espaço de Discurso contendo um papel experienciador inerente (@), um PONTO DE viSTA de onde se 'observam' agora os eventos que 165 constituem a fala desse experienciador. Essa situação resulta na transferência da base/ponto de vista para esse espaço, de onde passam a ser acessados tempo e aspecto. Este trecho apresenta um elemento do discurso direto expresso através de uma forma com valor Imperativo. Tal valor suscita o estabelecimento de um espaço (Cl) Não anterior à BASE (C), FOCO e evento, estruturado pelo frame constituído dos elementos A e c e da relação h trocar c (de posição)^?). O enunciado em Cl c interrogative (?) e tem valor modal Irrealis (IR). O espaço passado E, estruturado por a e a falar, ancora-se à BASE N e representa um enunciado que contém um verbo de discurso. Diagrama de mesclagem - Esta é a diagramação para os domínios do texto narrativo referente ao trecho selecionado: Narrativa 8 (51) Falei (52) "Mimi, vamos trocá essa essa- esse piano de posição!" b: (nós) c: esse piano h TKOCAlic (deposiçõo)( ?)(1R) (V. Imperativo) N (Mundo da Narrativa) Realidade do Narrador (BASE) (PONTO DE VISTA) (PRESENTE) E (Mundo da História) Personagens (selves) (FOCO) PASSADO PERFECTIVO EVENTO Esnaco de Discurso Papel.do experienciador @ PONTO DK VISTA BASE FOCO EVENTO PONTO DE VISTA PRESENTE 166 A mesclagem proposta aqui envolve, como nos casos descritos desde o TRECHO DIACRAMADO 4, eleiTicntos selccionados dos espaços N e E, apresentando, neste caso, Cl (um espaço gerado a partir da introdução de um elemento com valor Imperativo) como extensão de C. Esta é apenas mais uma confirmação de que o tempo do elemento verbal utilizado para a expressão do conteúdo da fala de personagens não altera a configuração da mudança de base. A nova BASE é sempre estabelecida como um espaço PRESENTE, distinto da base N (também geralmente presente). Ou seja, c a partir do momento presente do personagem que interpretamos seu discurso, não do momento presente do narrador. O discurso direto, então, invariavelmente estará ancorado nesta BASE do personagem, não dependendo em absoluto da Situação de Narração para interpretação de seus valores tempo-aspectuais. 167 10.9 - Trecho diagramado 8 Tempos verbais focalizados: Domínio da Eventos Narrativos - Pretérito Perfeito - 98,9% Domínio da Encenação - formas ou valores de Futuro - 9,6% Narrativa 13 (128) Aí eu falei (129) "Bom, mas cumé que eu vô descobri (130) onde que o Fernando Sahino mora, né? " N EVENTO FATO Para a interpretação de 'Aí eu falei', constrói-se E, um espaço passado (foco, Anterior à BASE, PERFECTivo, EVENTO, ligado ao espaço BASE N, origem. Como nos outros trechos DiAGRAMAnos 4, 5, 6 k 7. o verbo de discurso e/ou outros elementos prosódicos, lexicais/gramaticais levam à construção do Espaço de Discurso (C), que possui um papel PONTO DE VISTA inerente associado ao cxperienciador, o self representado. Neste caso, o personagem eu é identificado com o narrador. Ocorre mudança da base de N para C. O conteúdo das estruturas que representam tal fala do personagem em questão estrutura tanto o espaço Cl, quanto C2. O PRESENTE é acessado tanto cm Cl, quanto em C2, de C, o novo PONTO DE VISTa/BASE, que funciona como o centro dêitico. Seguindo o processo característico desta situação, N fica bloqueada para acesso de tempo e aspecto. FOCO transfere-se, primeiramente para Cl, e posterionnente para C2. Cl representa um enunciado interrogativo (?) de valor modal Irreal is. Marcado como FUTURO, Cl é PROGNÓSTICO. É estruturado pdo frame constituído do elemento a' e da relação a' descobrir C2 (ewrt'e) (?) e se liga-se a C2, estruturado pelo frame constituído do elemento 6 e da relação b morar (onde). 169 Diagrama de mesclagem - Eis a cliagramação para este trecho na perspectiva de domínios do texto narrativo: Narrativa 13 (128) Aí eu falei (129) "Bom, mas cume que eu vô descobri (130) onde que o Fernando Sabino mora, nó? " Esnaco de Discurso Papel do experiencúdor @ PONTO DE VISTA aeu a'l)i:sr<)HKIIi C2 (aim 'é) (?) (IR) N (Mundo da Narrativa) Realidade do Narrador (BASE) (PONTO DE VISTA) (PRESENTE) E (Mundo da História) Personaf^ens (selves) (FOCO) PASSADO PERFECTIVO EVENTO c Self representado BASE PONTO DE VISTA Cl FOCO FUTURO EVENTO PRESENTE Do Mundo da Narrativa (N), o espaço mesclado (C) utiliza as características BASE, PONTO DE VISTA e PRESENTE. representa o papel expericnciador, ligado cognitivamente ao personagem 'eu', em E, e também ao narrador, em N. Cl c C2, como extensões de C, são espaços EVENTO. C2, como acontece no trecho DIAGRAMADO 4. compõe O espaço Cl, por existir uma relação local de subordinação entre os conteúdos das estruturas representadas por esses espaços. Os elementos que compõem os frames estruturadores de Cl e C2 estão ligados aos dois espaços input por elos cognitivos tanto do Mundo da História (a e h), quanto Mundo da Narrativa (À e B). 170 10.10 - CONSIDEItAÇÕES FINAIS Os TRECHOS Dl AGRAM ADOS 1,2 E 3 contcm, essencialmente, estruturas que compõem o Domínio dos Eventos Narrativos e o Domínio Suporte. O tipo de diagramação proposto através deste trabalho foi condizente com a diagramação obtida através da representação do seqüenciamento discursivo. Foi realizada de acordo com a mesma abordagem teórica, baseada, portanto, nos princípios discursivos reguladores da distribuição das noções de base, ponto de vista, foco, evento e das categorias tempo-aspectuais, de Cutrer (1994). Tal congruência aponta para o tato dessa proposta de representação das partes do texto narrativo oral ser adequada. Essa representação revela, de forma mais clara, como o princípio cognitivo geral da percepção em tennos de elementos de figura e de fundo acontece relativo à nossa percepção temporal. Os trechos diagramados 4.5.6.7 e 8 contêm, essencialmente, estruturas que compõem a Domínio da Encenação. A proposta de diagramação de situações envolvendo representação de falas de personagem (pertencentes a esse domínio), através de mesclagens, evidencia o mecanismo de mudança de base que ocorre nessas situações. Isso se dá porque o diagrama põe em destaque a existência dos dois espaços input (Narração e História), dois mundos no universo do texto, de onde são selecionados elementos para a composição da mescla, a situação resultante. Fica evidenciado, ainda, que o fenômeno de mudança de BASE é, cm princípio, o mesmo, para qualquer tempo verbal que constitua o discurso direto. A análise das estruturas em discurso direto confimia que a interpretação do valor dos tempos verbais no contexto da narrativa não pode estar presa à perspectiva do falante. A categoria tempo verbal, como mostrado por este modelo, diz respeito à relação entre PONTO DE vista/base e FOCO. O presente é apenas mais comumente, não 171 necessariamente, o momento da fala: presente significa FOCO coincidir com ponto de VISTA, um ponto de vista mutável ao longo do narrar. 172 11 - Conclusão Para este trabalho, adotou-se a Lingüística Cognitiva, que tem por base a concepção da motivação semântica para as formas lingüísticas e a visão de símbolo distinta daquela que pemiite seu mapeamento, de forma objetiva, a situações/objetos/relações da realidade. A abordagem adotada escapa, assim, da postulação de representações fixas, da reificação do significado. O que se entende como integrantes das conceitualizações, nesta perspectiva, são estruturas da ordem de esquemas imagéticos, que envolvem vários aspectos de nossa experieneia. A utilização da linguagem, por nós, portanto, não está desvinculada do restante de nosso sistema cognitivo. O princípio apontado pela Psicologia Gestalt relativo à nossa percepção visual/espacial, segundo o qual forçosamente selecionamos aspectos do ambiente nos quais focamos nossa atenção mostrou-se atuante em relação a nossa vivência temporal e à expressão dela através de textos narrativos orais. A análise dos valores de Tempo, Aspecto e Modo das estruturas oracionais de um corpus composto de textos autênticos comprovou que a Figura Narrativa (o material que traz a linha central da história) é essencialmente marcada pelo tempo verbal Pretérito Perfeito, de valor aspectual Perfectivo, e essa marcação distingue essa parte do texto das outras duas, o Fundo (a informação adicional que complementa a história) e o Discurso Direto (a representação da fala de personagens), marcados pelo aspecto Imperfectivo e uma variação maior de tempos verbais. Com a finalidade de descrever, de fonna mais apropriada, a realidade da distribuição da informação no texto narrativo oral, foram utilizadas as teorias dos Espaços Mentais e da Mesclagem Conceituai. Tal quadro teórico possibilitou um maior detalhamento na representação das características tempo-aspectuais das estruturas 173 oracionais integrantes das partes que estruturam o texto. A Figura, o Fundo e o Discurso Direto foram vistos, nesta perspectiva, como domínios, macro espaços, com funções discursivas e marcações lingüísticas específicas. Foram denominados, respectivamente, o Domínio dos Eventos Narrativos, o Domínio Suporte e o Domínio da Encenação. Essa perspectiva de domínios provou refletir processos cognitivos subjacentes à utilização da linguagem. Esta pesquisa ofereceu contribuição à Lingüística Cognitiva nos seguintes sentidos: A) Reforçou um de seus postulados primários, aquele segundo o qual, para a utilização da linguagem, lançamos mão de recursos psicológicos e cognitivos mais gerais, que atuam em vários aspectos de nossa interação com o mundo. Esse postulado integra a visão de que não contamos com setores cognitivos tão especializados. Dessa forma, ao aliar, as noções de figura e fundo às teorias dos Espaços Mentais e da Mesclagem Conceituai, confirmou a filiação desse ramo dos estudos lingüísticos à Psicologia Gestalt. B) Constou da análise de estruturas oracionais, sem perda do enfoque textual, discursivo, extra-sentencial. O modelo teórico adotado, por filiar-se à concepção baseada no uso, depende de estudos no nível da estruturação discursiva que utilizem dados autênticos de língua. C) Apresentou uma metodologia específica, que se mostrou adequada à proposta da pesquisa. A abordagem utilizada ainda se ressente da escassez de metodologias bem definidas. 174 D) Corroborou a postulação de emergência ligada à construção de significado uma vez que as diagramações realizadas (dentro do modelo que tem como principal ferramenta teórica os espaços mentais, acrescida das noções BASE, PONTO DE VISTA, FOCO, EVENTO) representaram o aspecto essencialmente fluido dos processos cognitivos ligados à produção e interpretação discursiva. Esta pesquisa também ofereceu contribuição em relação aos estudos de narrativas, de uma forma geral, uma vez que realiza uma descrição da estruturação temporal do texto narrativo oral levando em conta a perspectiva cognitiva. Uma pesquisa como a realizada para este trabalho pode ser vista como possibilitando desdobramentos; A) Alguns princípios norteadores da Lingüística Cognitiva, como, por exemplo, o da pressuposição de uma realidade dinâmica, que se reflete no postulado do caráter de emergência ligado à concepção de significado, tende a alinhá-la com o modelo conexionista, como dito pelo próprio Langacker (2000)."'" Apesar de fugir totalmente ao escopo deste trabalho traçar paralelos entre as redes neurais do conexionismo e as configurações envolvendo espaços mentais da Lingüística Cognitiva, é possível pensarmos na congruência das representações propostas nos dois modelos. De acordo com Langacker, 2000, do ponto de vista do processamento, seu modelo adota o estilo conexionista (processamento distribuído paralelo - PDP), onde entrincheiramento é identificável com ajustes nos pesos de conexão, com o efeito da emergência de um atrator. Esquemas são imanentes nas ocorrências e relacionam-se ao reforço de aspectos comuns, atingindo um síatiis cognitivo capaz de influenciar processamentos futuros. Equaciona-se assim uma experiência com "um ponto no espaço estado" ou uma trajetória através dele. Categorização é interpretada como captura por um atrator e simbolização como um padrão de ativação. 175 Um dos pilares do conexionismo, que c a visão do processamento distribuído, ao invés de serial, linear, encontra respaldo, por exemplo, na Teoria da Mesclagem Conceituai quando se pensa que a separação da intbnnação pelos espaços não inclui a idéia de seqüência. Esta abordagem da Lingüística Cognitiva indica que, nos movimentos de produção ou interpretação de pensamento ou linguagem, os processos estão ocorrendo todos a um mesmo tempo. Os pesos diferenciados dos nódulos das redes conexionistas, pela recorrência de inputs, também se alinam com a idéia de entrincheiramento em Lingüística Cognitiva. Assim, um desdobramento possível para pesquisas que envolvam configurações de espaços mentais, como esta, seria tentar mostrar, através da análise de dados lingüísticos essa compatibilidade teórica.*'"' B) É também uma trajetória viável, decorrente desta pesquisa, relacionar a perspectiva cognitiva da estruturação textual à aprendizagem de leitura, através de um trabalho voltado para o desenvolvimento, em aprendizes, de um tipo de sensibilidade para tipos ou gêneros textuais. C) Partindo do entendimento de que a linguagem humana não está desvinculada de outras habilidades e recursos utilizados pelo indivíduo em sua aproximação do mundo, a Lingüística Cognitiva oferece instrumentos para a investigação de detemiinados processos cognitivos subjacentes à utilização da linguagem. Neste sentido, um trabalho como este pode apontar na direção de uma interface entre a Lingüística Cognitiva e Psicologia. * Esta é uma sugestão dada pelo Prof. Fábio Alves, que participou da banca do Exame de Qualificação relativo a este trabalho, parte dos requisitos para a obtenção do título de Doutor pelo Programa de Pós- graduação em Lingüística da UFMG. 176 A investigação da atribuição de figuração, por indivíduos, cm narrativas ou outras produções discursivas, pode revelar padrões culturais relativos à percepção, em termos de saliência e foco, em contextos interacionais específicos, bem como revelar divergências em relação a esses mesmos padrões. São exemplos de indivíduos que poderiam ter suas narrativas investigadas sob essa perspectiva, crianças apresentando déficit de atenção e hiperatividade. Em suma, a pesquisa concluída cumpriu os objetivos a que se propôs, representou contribuição para o modelo teórico adotado, alem de ter possibilitado a visualização de possíveis desdobramentos. 177 Citações no original #01) "A theory of linguistic structure that aims for explanatoiy adequacy incoiporates an account of hnguistic universais, and it attributes tacit knowledge of these universais to the child. It proposes, then, that the child approaches the data with the presumption that they are drawn from a language of a certain antecedently well-defined type, his problem being to determine which of the (humanly) possible languages is that of the community in which he is placed." (Chomsky: 1965:25) #02) "My own dissatisfaction with the dominant trends in current theory is profound. It reaches to the deepest stratum of organizing principles: notions about what language is like and what linguistic theory should be concerned with. ... Rightly or wrongly, I concluded some time ago that the conceptual foundations of linguistic theory were built on quicksand, and that the only remedy was to start over on firmer ground." (Langacker, 1987: v) #03) "(...) besides elements that are indisputably semantic, an expression's meaning includes as much additional structure as is needed to render the conceptualization coherent and reflect what speakers would naively regard as being meant and said, while excluding factors that are indisputably pragmatic and not necessary to make sense of what is linguistically encoded." (Langacker, 2004-cap.2:14) #04) "There are wholes, the behaviour of which is not determined by that of their individual elements, but here the part-processes are themselves determined by the intrinsic nature of the whole. It is the hope of Gestalt to determine the nature of such wholes." (Wertheimer, 1924) http://enabling.ora/ia/iiestalt/wertl .html #05) "By the term 'frame' I have in mind any system of concepts related in such a way that to understand any one of them you have to understand the whole structure in which it fits; when one of the things in such a structure is introduced into a text, or into a conversation, all of the others are automatically made available. I intend the word 'frame' as used here to be a general cover term for the set of concepts variously known, in the literature on natural language understanding, as 'schema', 'script', 'scenario', 'ideational scaffolding', 'cognitive model', or 'folk theory'." (Fillmore, 1982:111) 1997:12, Fig. 1.1) #07) "- information regarding what new spaces are being set up, typically expressed by means of space builders; - clues as to what space is currently in focus, what its connection to the base is, and how accessible it is; this information is typically expressed by means of grammatical tenses and moods; - descriptions that introduce new elements (and possibly their counterparts) into spaces; - descriptions or anaphors or names tliat identify existing elements (and possibly their counterparts); - syntactic infonnation that typically sets up generic-level schemas and frames; - lexical information that connects the mental space elements to frames and cognitive models from background knowledge; this information structures the spaces internally by taking advantage of available prestructured background schemas. Such prestructured schemas can, however, be altered or elaborated within the constructions under way; - pressupositional markings that allow some of the structure to be instantly propagated through the space configuration; - pragmatic and rhetoric infonnation, conveyed by words like even, but, already, which typically signal implicit scales for reasoning and argumentation". (Fauconnier, 1994:xxiii) #06) Mental space Frame (Fauconnier, 178 #08) "At the level of scientific inquiry, "mental spaces" and related notions examined in our work are clearly theoretical constructs devised to model high-level cognitive organization. In that sense, their status is that of usual scientific notions, whether in the physical, social, or cognitive sciences: Magnetic fields, social habitus (Bourdieu, 1979), syntactic stmctures, and mental models all have a connection to the "real world" that is necessarily mediated by the theories of which they are pail. Such theories come with (socially agreed upon and at the same time, hotly disputed) procedures for linking the notions with other aspects of our interaction with the world - the physicist's experiments, the astronomer's recordings, the linguist's grammaticality judgments, the sociologist's surveys, the economist's accountings. How real a notion is felt to be depends on many factors, such as the degree of our commitment to the theory, its usefulness for apprehending the world, whether it gains wide acceptance, and so on. In that sense, folk theories, religions, paranoia, and science, all produce strong feelings of reality. We need not debate the "reality" (in that sense) of mental spaces (or syntactic structures, or black holes, or charms and quarks)." (Fauconnier, 1994: xxxi-xxxii) #09) "We take it as an established and fundamental finding of cognitive science that structure mapping and metaphorical projection play a central role in the constmction of reasoning and meaning. In fact, the data we analyze shows that such projections are even more pervasive than previously envisioned. Given the existence and key role of such mappings, our focus is on the construction of additional spaces with emergent structure, not directly available from the input domains." (Fauconnier & Turner, 1998:135) #10) "I claim that reason is a self-developing capacity. Kant disagrees with me on this point. He says it's innate, but I answer that that's begging the question, to which he counters, in Critique of Pure Reason, that only innate ideas have power. But I say to that, what about neuronal group selection? And he gives no answer." (Fauconnier and Turner, 1998:145) #11) "Integration - the blend must constitute a tightly integrated scene that can be manipulated as a unit. More generally, every space in the blend structure should have integration. Topology - For any input space and any element of that space projected into the blend, it is optimal for the relations of the element in the blend to match the relations of its counterpart. Web - manipulating the blend as a unit must maintain the web of appropriate connections to the input spaces easily and without additional surveillance or computation. Unpacking - The blend alone must enable the understander to unpack the blend to reconstruct the inputs, the cross-space mapping, the generic space, and tlie network of connections between all these spaces. Good Reason - All things being equal, if an element appears in the blend, there will be pressure to find significance for this element. Significance will include relevant links to other spaces and relevant functions in running the blend." (Fauconnier & Turner, 1998:163) #12) "(...) what to include: which words/categories to use? To whom, for whom, for what, and at what juncture is the story told? What alternatives are being countered or aligned with? What cunent interactional business is being managed?" (Edwards, 1997:277) #13) "(...) a mode of thought and action describable in terms that can be related to cognitve plans and representations." (Edwards, 1997:269) #14) "This is then one thing, and perhaps the most important thing that nairatives can give us evidence for: the fact that the mind does not record the world, but rather creates it according to its own mix of cultural and individual expectations." (Chafe, 1990:81) #15) "When talking about their lives, people lie sometimes, forget a lot, exaggerate, become confused, and get things wrong. Yet they are revealing truths. These truths don't reveal the past "as it actually was", aspiring to a standard of objectivity. They give us instead the truths of our experiences. They aren't the result of empirical research or the logic of mathematical deductions. Unlike the reassuring Truth of the scientific ideal, the truths of personal narratives are neither open to proof nor self-evident. We come to understand them only through interpretation, paying careful attention to the contexts that shape their creation and to the world views that inform them. Sometimes the truths we see in personal narratives jar us from our complacent security as interpreters 'outside' the story and make us aware that our own place in the world plays a part in our interpretation and shape the meanings we derive from them." (Personal Narratives Group, 1989:261). 179 #16) "There was once a wealthy fanner who owned many herds of cattle. He knew the languages of beasts and birds. In one of his stalls he kept an ox and a donkey. At the end of each day, the ox came to the place where the donkey was tied and found it well swept and watered; the manger filled with sifted straw and well-winnowed barley; and tlie donkey lying at his ease, for the master seldom rode him. It chanced that one day the farmer heard the ox say to the donkey: 'How fortunate you are! 1 am worn out with toil, while you rest here in comfort. You eat well-sifted barley and lack nothing. It is only occasionally that your master rides you. As for me, my life is peipetual dmdgeiy at the plough and the millstone.' The donkey answered: 'When you go out into the field and the yoke is placed upon your neck, pretend to be ill and drop down on your belly. Do not rise even if they beat you; or if you do rise, lie down again. When they take you back and place the fodder before you, do not cat it. Abstain for one day or two; and then shall you find rest from toil.' Remember that the farmer was there and heard what passed between them. And so when the ploughman came to the ox with his fodder, he ate scarcely any of it. And when the ploughman came the following morning to take him out into the field, the ox appeared to be far from well. Then the farmer said to the ploughman: 'Take the donkey and use him at the plough all day'." (Turner, 1996:1) #17) "(...) patterns that recur in our sensory and motor experience (...)" "(...) Motion along a path, bounded interior, balance and symmetry (...)" (Turner, 1996:16) #18) "(...) the blended space can powerfully activate both input spaces and keep them easily active while we do cognitive work over them to construct meaning" (Turner, 1996:60). #19) "Definition of Narrative - We define narrative as one method of recapitulating past experience by matching a verbal sequence of clauses to the sequence of events which (it is inferred) actually occurred." (Labov, 1972:359/350) #20) "Methods must extend to contextual aspects of language use and to non-linguistic cognition. This means studying full discourse, language in context, inferences actually drawn by participants in an exchange, applicable frames, implicit assumptions and construal, to name just a few." (Fauconnier, 2003:2) #21) "A qualhative study is not an impressionistic, off-the-cuff analysis based on a superficial look at a setting or people. It is a piece of systematic research conducted with demanding, though not necessarily standardized, procedures." (Taylor & Bogdan, 1984) #22) "A scientifically respectable semantics is presumed to be objectivist in nature, subject to discrete fonnalization, and capable of strict predictability. (...) Ideally, and increasingly in practice, cognitive semantic descriptions are based on careful analysis, supported by empirical evidence, and fonnulated in terms of well-justified descriptive constructs." (Langacker, 2004-cap.3:31) #23) "The term aspect corresponds to the Russian word vici 'view' introduced into Slavic grammar in the early nineteenth century (Gonda 1962:9). In the history of aspect scholarship, the term has been used in diverse ways, and no single definition of the concept has come to be accepted. In the most general sense, aspect is a 'way of conceiving the passage of time' (Holt's definition; see Friedrich 1974:2). On the one hand, Germanic scholars generally follow Karl Biugmann's simple definition: 'the manner and way in which the action of the verb proceeds' (see Gonda 1962:12-13). Similar definitions may be found in Slavic grammars, e.g. 'aspect expresses the way in which a process takes place in time or is placed in time' (definition of Peskovskij; see Gonda 1962:10). Roman Jakobson (1971:130-47), writing on aspect in Homeric Greek, suggests that aspect 'signifies the relative duration or punctuality along a time line'. One writer, claiming to put the matter simply, says that aspect 'is the name for the function of discriminating the kinds of temporal "things" which may be (linguistically) "located" in the sequential order of time' (Taylor, 1977:164-5). 180 On the other hand, a different kind of definition is also quite common. Etsko Kniisinga (1931:221) suggests that aspect 'expresses whether the speaker looks upon an action in its entirety, or with special reference to some part (chiefly the beginning or end)'. Such definitions may also be found in Slavic grammars, e.g. 'aspect expresses the moments or stages of the process' (Rasmussen's definition; see Golda 1962:11). In a monograph on aspect, Bernard Comrie (1976:3) says that 'aspects are different ways of viewing the internal temporal constituency of a situation'. More recently, Marion Johnson (1981:152) defines aspect as 'reference to one of the temporally distinct pha.ses in the evolution of an event through time." (Brinton, 1988:2) #24) "... For example, many verbs are ambivalent, their characterization as perfective or impcrfective being determined by the nature of their nominal complements (/ admire her courage v.s. I'm admirinf^ her dress)-, by the perspective taken on a scene {This road winds ihroiif^h the moimlains vs. This road is winding through the mountains); or by other factors." (Langacker, 1991-a:208) #25) "English, like many other European languages, has a tense-aspect system of verb forms, or more precisely, a system of verbal constellations and associated situations which can express various aspectual classes. These verbal structures can never be regarded in isolation, however, but must be seen in the context of the interplay between their aspectual and semantic values and the other linguistic and non- linguistic elements which constitute the utterance in its entirety. It is the interplay which gives the utterance its ultimate meaning." (Wynne, 1999:249) #26) ''Principles of Discourse Organization: I - General Principles: 1) At any given moment in the discourse interpretation process, there may be only one FOCUS space. The output of a single clause may have only one FOCUS space. 2) There may be only one base in each hierarchical configuration of spaces, although more than one configuration and thus more than one base may be accessed for a single utterance. 3) The BASE is the initial V-POINT. II - Operational Principles: 4) If FOCUS is BASE, V-POINT is also BASE. 5) A new space is built from BASE or FOCUS. 6) BASE may shift to any v-point, or to any previous base. 7) FOCUS can shift to an EVENT space, to a BASE space, to a previous FOCUS space, or to a new space. 8) V-POINT can shift to FOCUS or to base. 9) EVENT can be FOCUS or it can shift to FOCUS or to a new space which is daughter of V-POINT." (Cutrer, 1994:77) #27) "(...) are not representations of semantic fonii, nor are they intended as language specific grammatical categories" (Cutrer, 1994:94) #28) "PAST identifies or cues construction of some PAST space N. It indicates that; N is in FOCUS N's parent is V-POINT N's time is prior to v-POiNT (parent) events or properties represented in N are fact from v-POiNT (parent). PRESENT identifies or cues construction of some PRESENT space N. It indicates that: N is in FOCUS N or N's parent is v-POlNT the time frame represented in N is not prior to v-point/base events or properties represented in N are FACT. KU ITIRE identifies or cues construction of some FUTURE space N. It indicates that: N is in FOCUS N's parent is v-point the time frame represented in N is posterior to v-point events or properties represented in N are PREDICTION from V-POINT. PERFECT identifies or cues construction of an event space N. It indicates that: N is not in FOCUS N's parent is v-POiNT 181 N's time is prior to that of V-POINT (N's time is prior to v-POlNT, but not necessarily prior to the whole temporal frame of the parent V-POiNT space.) I'ROGRESSIVE identifies or cues construction of an EVENT space N. It indicates that: N is not in FOCUS N's parent is V-POiNT the time period represented in N includes V-POINT. V-POINT is during N. The iMPERI-'ECriVE identifies a FOCUS space N and indicates that: N is V-POINT The PERFECTIVE identifies a FOCUS space N and indicates that: N is not V-POINT" (Cutrer, 1994:88/93) #29) "In spoken language, a BASE shift is primed by the speech verb and indicated by the shift of tense, pronominais, and other deictics, aided by stress, intonation, and prosody." (Cutrer, 1994:450) #30) "The Present tense and the orthographic marking of quoted speech explicitly indicate a shift in BASE to space MI, to the V-POINT of the represented SELF (...) The quotation sets up a local domain of reference and a strong boundary between the quote domain and the external domain. This boundary makes the external fictional BASE inaccessible as an access point for tense; tense within the quotation can only be accessed from the more local base. The BASE shift is also supported by contextual, pragmatic information (...)." (Cutrer, 1994: 408) 182 Referências Azevedo, A. M. T. Tempo, modo e aspecto verbal na eslnitiiração do discurso narrativo. Dissertação (Mestrado em Lingüística). Belo Horizonte: UFMG, 1992. Azevedo, R. (3" ed. 2002). Menino sentindo mil coisas. Ed. Átiea, 1995. Barlow, M. Usage, Blends, and Grammar. In: Usa^e-luised models of language. M. Barlow & S. Kemmer (Eds.). Stanford, California: CSLI Publications, 2000. p. 315- 345. BOURDIEU, P. Outline of a theory of practice. Cambridge: Cambridge University Press, 1977. Brinton, L. J. The development of English aspectual systems. In: Cambridge Studies in Linguistics, 49. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. Brlfner. J. Making stories. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2002. Bybee, J. L. Morphology. Amsterdam: John Benjamins P. Co., 1985. CÂMARA Jr., J. M. História e estrutura da lingua portuguesa. 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" Vô falá palavrão, ein? /UIIN/ Vai saí palavrão. /NUM TEM IMPORTÂNCIA./ (RISO) (10) Eu falei (11) "Olha, ô cara, cê tá me achano (12) que eu sô gringo? negócio de speak English pro meu lado? " /MAS PORQUE CÊ TAVA AQUI EM BELORIZONTE, UNS DIAS, TAVA BRANCO?/ (13) Passei aqui umas férias./ahn/ (14) Estava branco, sem praia, /anham/ (15) Cheguei lá branquinho. /ANHAM/ (16) E fui pra praia, (17) sentei ali na minha toalha, direitinho, (18) tava ali quieto, no meu canto, aqueles malandros lá de praia, aqueles caras que ficam cercan- /QUE FICAM só SACANO O POVO, NÉ?/ (19) É, sacam (20) que é gringo, né? (21) e aí veio lá querer (22) vender coisas (23) que sei lá têm milhões de mutretas, né? (24) Chegô pra mim "O sir, I speak English. " (25) Eu falei (26) "Olha, cê lá muito enganado comigo, (27) num só gringo não. (28) Cê tá me achano com gringo, (29) eu tô branquinho assim, (30) mas eu num só gringo não. (31) Eu só daqui (32) e tenho muito mais idade que você (33) e sei de todas essas malandragens daqui. (34) Quê que cê tá quereno, ô rapaz? " (35) "Ah, desculpe, tal, né, eu... tio. " (36) Aí me chamô de tio. (37) Falei 189 (38) "Olha, eu num sô seu lio coisa nenhuma, (Riso) (39) num sô seu parente, (40) num sô nada seu, viu? Mas luclo bem. Tudo bem. (41) Agora cê tá perdeno seu tempo comigo, lá? (42) Eu lô quase te mundano à merda, rapaz. " (43) Falei pra ele. (44) Falô (45) "O que é que há? (46) Num vai brigá comigo não. " (47) E saiu aquele -quele jeitinlio de malandro pilantra, né? /UNHUM E ELE NUM FEZ MAIS NADA COM'CÊ, NÃO, FOI EMBORA?/ (48) Não. Saiu. Saiu. Saiu. (49) Agora quando cheguei lá no Rio, (50) tava branquinho, né? (51) que tô aqui em Mi- Belorizonte, /UNHUM/branquinlio, (52) Cheguei lá todo mundo queimado de praia, todo mundo naquele (53) Aí cheguei no meio de meus amigos lá, né? Aí Aríete, uma grande amiga minha, (54) que Nilce até conhece, "Ô, Antônio!" (55) Me abraço, (56) me beijô, (57) falô (58) "O gente, lô beijando, (59) abraçando um gringo, mineiro, um gringo mineiro. " (RISO) (60) Falei "Olha..." NARRATIVA 2 - JACARÉ (A) (01) ...pra fazê casa, /UHN/ entendeu? /sei/ (02) fazê casa. (03) Então, quando eles tiram (??) (04) fica aquele buraco grande, né? /ahn/ muito grande. (05) Quando o rio enche (06) sai em represa pra tudo quanto é canto, cê sabe disso, né? (07) Depois ele esvazia, (08) vai esvaziando, (09) e aquelas é... onde enche (10) fica cheio, (11) porque num esvazia, né ? (12) continua cheio. (13) E uma dessa um jacaré sai assim zanzano, né? (14) andano assim na água, (15) Ticô ali dentro do poço. (16) E eu saí (17) pra pegá lenha pra minha mãe. (18) E lá meu padrasto lá tinha dois cachorro grande. (19) Eu sai (20) eles saíram atrás de mim. (21) Quando- a eles viram né o já- os dois olho do jacaré assim, a cabeça dele pra fora, dentro do do poço, só a cabeça. (22) Aí eles foram em cima. (23) E o jacaré fundô, (24) mas ele num tinha (25) por onde flindá, 190 (26) pra onde í. (27) Aí ele vinlia outra vez, (28) e eu passei mão num pedaço de pau, sabe? (29) Quando ele vinha outra vez (30) eu metia o pau nele. (31) Aí ele ia pra saí, (32) o cachorro ia em cima dele, ele em cima d'água (33) e eu metia o pau. (34) Ele vinha outra vez (35) pra saí, né? (36) o cachorro ia em cima (37) e eu metia o pau. (38) Aí eu acabei matano o jacaré. /CÊ matô, lila?/ (39) Matei. Jacaré grande, sam? Quês bocão des'tamae! (40) Aí peguei- /GENTE, MAS o PAU DEVIA SÈ ASSIM GRO-/ Ele grande mesmo. (41) Mas o cachorro também, os dois, né, era muito bons. (42) Aí eu peguei ele pelo rabo. (43) O jacaré é pesado, né? (44) Ele é cabeçudo. (45) Aí eu peguei ele pelo rabo (46) e saí arrastano ele até em casa. (47) Cheguei em casa (48) pra minha mãe assá pros cachorro, /gente!/ NARRATIVA 3 - JACARÉ (B) /mas teve um caso também que ocê falò QUE CÊ TEVE QUE SUBÍ EM CIMA DA ÁRVORE./ Esse foi o jacaré também. (01) Aquelas uvinha miudinha, pequenininha, que tem assim, (02) que só dá na beira do rio, tá entendeno? /UHN/ (03) Na época dela ela é miudinha, branquinha. (04) E eu olhei (05) e fui panhá água. (06) Porque lá ninguém tem água em casa, né? (07) tudo é panhado no rio. (08) Quando na época da da chuva, que o rio enche (09) então a gente pega água no corgo. (10) Lá tem aqueles bonito, corrente, né? (11) Tava vazio, (12) aí fui pegá a água pra minha müe. (13) E vi aquele pé. (14) Tava branquinho lá, branquinho, aqueles ca- cachinho. (15) Ela é pequenininha, Adriana, miudinha, (16) mas dá em cacho assim, (17) é a coisa mais bonita. (18) Lá, o povo lá é ig- ignorante, (19) entào costumava pegá. (20) pra enfeitá a casa. (21) quando eu vi aquele pé, Adriana, (22) que tava branquinho... (23) que lá eles costumam pegá o cacho da uva /M.: DA FRUTINHA/ (24) Não, cacho da fruta, né? tudo, leva pra dentro de de de- (25) pra enfeitá. (26) Dependurá assim na parede, (27) porque é cacho, né? /SEl/ (28) Dependurá assim 191 (29) pra enfeitá. /ela seca?/ (30) Não, cia é muito bonita /ENQUANTO ELA TÁ viVA?/ (31) E, enquanto ela tá viva. (32) Pra enfeitá. (33) Aí eu fui cega, mia Filha, no no no pé. (34) Quando eu vi, (35) Eu vi só aquele negócio (36) que vinha assim sh sh sh sh sh sh sh, (37) que eu olhei, (38) era o jacaré, que vinha atrás de mim... (39) porque ele tinha botado... (40) Porque o o o jacaré ele bota na areia. (41) Diz que lá o pessoal fala assim (■}2) "Fulano Jica de olho assim (43) pareceno um Jacaré. " (44) Porque ele fica vigiano, né? /unhum/ (45) Agora a areia que- o calor da areia que choca, nc? /QUE choca o ovo./ (46) que vira os filhote. (47) E ele fica vigiano (48) pra nada num mexe, tá entendeno? (49) E eu fui daquele lado, né? (50) e ele penso (51) que eu ia pra lá. (52) Ah mia filha, eu joguei a lata lá longe e ó... (GESTO) no pé. fS3) "E agora pr'eii desce? E agora pr'eu descê? " (54) porque ele ficô lá, né? /ele FicÓTE vigiano?/ (55) ficô lá de baixo um tcmpilo. (56) Aí eu comecei quebrá galho de coisa (57) e jogá por cima dele, né? (58) pra ele podê saí, né? /É A jacaré fêmea, né, lila, É a mâe, né?/ Com muito custo- ein? (59) É aquela de- aquela (60) que tem- que eles falam (61) que é o jacaré de papa amarela, entendeu? /UHN/ (62) Porque tem um (63) que é tudo escuro de uma vez (64) e tem um (65) que é papa amarela, né? (66) É desse daí. (67) Com muito custo ele saiu. (68) Aí também num quis mais (69) sabê de de de uva mais não. (70) Fui direto na água, né? (71) Cheguei em casa (72) Ainda tomei uma surra. (RISO) /porque CÈ ATRASO MUITO?/ (73) Porque eu fiquei toda vida lá, né? NARRATIVA 4 - SURRA (A) Foi duas vezes que eu tomei assim. (01) Uma vez- que lá nós lavávamos prato na beira do rio, né? (02) mas isso quando morávamos em Brota, (03) isso eu era mais crian- mais criança, (04) morava na beira do Rio Brota, né? (05) que a casinha dela era na beira do Rio e a cozinha era- Bem, qualquer- (06) Aí qualquer encliidinha também que o rio dava, (07) entrava lá pra cozinha a água, (08) as galinha já ia subino pra pra pra cima, porco, tudo, né? 192 (09) já tinha- já ta- já tava acostumado já com a conenteza do rio. (10) e eu lavava- acabava de arrumá a cozinha, (11) pegava os prato (12) ia lavá na beira do rio. (13) E ela todo dia falava (14) "Cuidado, um dia cê perde prato ai. Cuidado... " (15) Foi um belo dia mia filha, o rio encheu. (16) tava correno a água (17) e a corrente da água levou o prato mesmo. (Riso) E eu... /MAS FORA ALI ONDE QUE ERA PRA LAVÁ?/ Ein? /SE NUM LAVASSE ALI, ONDE LAVAVA? (18) A gente lavava em casa, numa gamela, né? /ahn. levava a água, né?/ (19) Panhava água no rio, (20) é, lavava em casa, na cozinha, na gamela grande, /unhum/ (21) Ah Adriana, ela me pôs dentro da água, dentro do rio, da água /M.: pra pegá o prato?/ (22) pra ca-procurá o prato. /quê ISSO? RiO CHEIO?/ O rio cheio. (23) Falô (24) "Agora cê pé-vai pegá o prato." /M.: ERA UM PRATO SÓ?/ (25) Era um prato só. Desses prato de antigamente. (26) Era aqueles prato de alumínio, né? (27) que num tinha louça, né? (28) Era aqueles prato de- leve. /unhum/ né? (29) "Agora cê vai procurá o prato." (30) E ela na beira do rio me esperano lá, chicote na mão. (31) " Vai procurá o prato. (32) Cê tem que achá o prato. (33) Cê apanha (34) ou cê acha o prato." (35) Aí eu resolvi (36) apanhá (37) porque num achava o prato mesmo, né? (38) e eu num agüentava, (39) já tava ficano roxa (40) de ficá ali, né? (41) A água CO- correno (42) e eu tava ficano roxa (43) de ficá segurando no no naquelas arvorezinha (44) que tem na beira do rio, /sei/ saran, aquelas coisa (45) pra num rodá também, né? (46) E eu já tava ficano roxa. (47) Aí eu saí, né de dentro da água, né? (riso) (48) entrô no bolo também. /foi com a vara também, lila?/ Foi com a vara. NARRATIVA 5 - SURRA (B) Da outra vez, Adriana, cu tomei uma surra, sabe com o quê? de galinha morta. (RISO) (01) Lá em casa minha mãe tinha muita galinha de angola (02) e galinha de angola eles falam que bota seis meses (03) e seis meses num bota, né? (04) num põe. (05) E abandona o ninho. (06) E és num põe em casa não, (07) põe em capim, tá entendeno? /UNHUM/ (08) Aí eu vi (09) minha mãe passa pimenta no bumbum da galinha, né? 193 (10) Diz que fica ardeno, (11) a galinha acha (12) quevaibotá (13) e vai (14) pra ela i atrás (15) pra achá o ninho. /SEl/ (16) E eu gostava demais (17) de tomá ovo de manliã assim ó (18) galinha levantava (19) pra espreme (20) e eu enfiava minha mão assim (GESTO) (21) e o ovo caía quentinho aqui. /unhum/ (22) Aí eu batia assim no pau, (23) escorria a clara (24) e engolia a gema. (25) Isso eu fiz muito. Muito bem. (26) Então, quando foi no dia seguinte quê que aconteceu? Eu fui atnis da galinha, (27) a galinha já tinha botado, (28) botô primeiro, né? do que cu. (29) Falei "Pronto. " (30) Aí eu num vi, (31) eu achei (32) que ela num tinha ainda botado. /UNHUM/ (33) Peguei o vidro de pimenta, (34) enchi o rabo da galinha de pimenta. (35) Mas a galinha espremia, Adriana, coitada da galinha, Adriana. (36) No fim ela acabô botano um ovo assim da casca mole /AHN/ todo rajado de sangue. /SEI/ (37) Eu joguei fora, (38) fiquei com nojo. (39) E ela num guentô, (40) morreu. /NOSSA, lila!/ (41) E isso meu irmão viu, né? (42) Aí ela falô (43) "O gente, essa galinha lava boa, (44) cantando aí agora mesmo. " (45) Essas galinha de lá canta, né? (46) E o meu irmão falô (47) que eu tinha passa- passado pimenta no rabo dela. (48) Ela pegô a galinha pelos pés, (49) virô assim, pelos dois pés, (50) e eu corria na frente e ela atrás de mim com a galinha. (51) Ah mia filha do céu, aonde pegava a cabeça da galinha assim nas minhas costas, né? aqui assim, aqui assim, (52) ficô tudo cheio de calombo. NARRATIVA 6 - IDA PRA CUIABÁ (01) Então, quando minha mãe ficô com cie, (02) ele num quis eu /É?/ (03) Nós éramos um casal, eu e o menino. /SEl/ (04) O menino ficô, (05) ajudô, né? mas eu não. (06) Falô (07) que num queria eu. (08) Aí eu fiquei com minha vó. /sua vó lá mesmo em brotas?/ Minha vó- é, em Brotas (09) E minha mãe foi morá em Quatro Vintém (??) (10) Mas nessa época, sabe, Adriana, a a Anita e Alice já eram professoras lá em Brotas (11) há ó...(gesto) muito tempo. 194 (12) Depois veio Dona Amelinhn. (13) Aí Alice casô, (14) Aí ficô Carmcm no lugar da Alice. (15) A Anita ainda foi minha professora, (16) ainda es- estudei um pocadinho com Anita. (17) Eu sei que foi uma-um troço. (18) Aí o dia que minha vó- dona Amelinha mando (19) chamá minha vó (20) e falô (21) se eu num podia vir pra dona Palmyra, /unhum/ né? (22) que D. Palmyra tava precisano, né? duma pessoa em casa, né? uma menina em casa, uma mocinha. (23) Aí ficamo combinado assim (24) pra mim vim. (25) Aí minha vó foi pra roça (26) e eu fiquei lá. (27) Eu tava esperando. (28) Porque Ada casô (29) e morava pr'aquele lugar (30) e o marido dela tinha um caminhão (31) que fazia navegação. (32) Ele passava por Brota, né? (33) ia pra Cuiabá. (34) Nesse tempo cê passava dia inteiro (35) viajano (36) pra chegá de Brota- /M.: de brotas a cuiabá era o dia todo./ (37) Era o dia inteiro. (38) Saía ônibus de manhã, aquele ônibus correio, né? (39) Saía acho que seis, sete hora, (40) que passava lá por Brotas seis hora. /M.: hoje em menos de uma hora você vai./ Ah, mas o dia inteiro. (41) Eu sei, mia filha que o caminhão- escuta só, O caminhilo passo por lá... (42) Bom, mas lá a gente num tem hora, né? /UNllUM/ (43) Calculava assim é pelo sol, tá entendeno? /UNHUM/ (44) Quando o sol tava bem aqui (45) era meio dia. (Riso) (46) Não, fora de brincadeira, bem aqui é meio dia, (47) aí aqui é num sei que hora, (48) ai aqui- tava começano a entrá, (49) aí pronto, já era seis hora. /M.: A sombra- a GENTE pisano na sombra da gente ERA meio dia./ (50) o sol tava começano a entrá. (51) pronto, já é seis hora, (52) todo mundo já ia caçano jeito de jantá, (53) ficava sentado na porta (54) conversando, né? com o vizinho, (55) pra fazê hora (56) pra dormi, (57) porque luz num tinha mesmo, né? /unhum/ (58) Era luz de querosene, luz de azeite. (59) Punha aquele paviozinho dentro do azeite, (60) cendia, né? (61) ficava ali. (62) Aí Adriana, esse dia o marido da Ada passô por lá. (63) Dona Amelinha mandô (64) me chamá. (65) Aí eu fui, (66) fechei a casinha toda lá pra vó, né? (67) e fui. (68) Peguei minhas roupinha 195 (69) que eu tinha, (70) nem mala num tinha, coitada, pobre! (71) Pus dentro dum saco (72) ou amarrei num pano, sei lá, sabe? (73) fui embora c'o marido da Ada. (74) Fui cedo ainda. (75) O caminhão tava cheio de gente, né? (76) Então tinha uma meio tantan com o marido, (77) a criança chorava (78) ele falava assim (79) "Olha, ele qué (80) nuimá, (81) dá de mamá pra ele." (82) Aí ela tirava, né? (GESTO) (83) arrumava a criança, (84) a criança mamava (85) até largá. (86) Aí largava. (87) Aí ele falava assim (88) "Ó, cabô, (89) põe pra dentro. " Aí- (RISO) Foi sim. /M: esquecia de guarda./ que ela pegava e- (90) Eu sei que nós chegamos em em lá em Cuiabii de noite. (91) As luz tava toda ace.sa, né? (92) e eu achei aquilo tSo diferente, né? /cÊ nunca tinha IDO A CUIABÁ?/ (93) Nunca tinha ido a Cuiabá, né? (94) achei aquilo tslo diferente, tudo bonito, né? (95) As casas já estavam tudo fechado também, lá em Cuiabá, /UNllUM/ (96) quando nós chegamo. (97) Eu sei que marido da Ada pegô pegô na minha müo, imagina. (98) Parô o caminhão assim na porta, (99) pegô na minha mão, (100) me levô lá, (101) bateu na porta... (102) Já tava tudo fechado (103) daí cê vê tanto (104) que viajô. /M.: É/ (105) Já tava tudo fechado, né? (106) Bateu na porta, (107) seu Antônio veio, (108) abriu, (109) mandô (110) chamá dona Palmyra, (111) veio, (112) eles me pegaram lá. (113) Aí que ele foi pra casa dele. Assim- /uhn/ assim que eu fui. NARRATIVA 7 - MALDADE /SEU IRMÃO ERA MUITO PEQUENININIIO AINDA?/ (01) Além de sê pequeno, Adriana, (02) ele era uma criança- ele era defeituoso da perna (03) Ele custô muito pra andá (04) e ele ficô com a perna assim, (GESTO) no joelho, em cima, né? /SEl/ (05) E aqui em baixo (GESTO) ele não assenta o calcanhá no chão. (06) Ele anda só com a ponta do pé, assim, entendeu /UNllUM/ conVé que é? (07) Tanto que uma vez- Porque lá qualquer criança de sete anos nada 196 (08) um um um filho de um senhor lá do correio pegô cie, (09) pôs na canoa (10) e soltô ele lá no rio, lá no meio. (11) Mas nesse meio tempo chcgô um senhor na beira do rio (12) e conheceu ele. (13) Falô (14) "Gente, aquele é filho de dona Maria. " (15) Entrô na canoa, (16) foi lá, (17) buscô-tirô ele d'água, né? (18) chegô e virô ele de cabeça pra baixo. (19) Aí levo ele lá em casa (20) e ele falô (21) que foi ele. (22) Aí minha mãe passô mão numa mão-de-pihlo. (23) Minha mãe foi dentro da casa dele com a mão-de pilão. /É, LILA?/ (24) Falô (25) "Se meu filho morresse, (26) eu matava ou você ou seu filho aqui. " /NOSSA! ELA É BRAVA, EIN? ELA É BRAVA./ /M.: FEZ DE PROPÓSITO PRA CANOA VIRÁ./ (27) Fez de propósito, Adriana, (28) porque ele sabia (29) que o menino era aleijado./ô, gente!/ /M.:poisé./ (30) Porque ele anda é assim (gesto), Adriana, Assim (gesto), esses dois joelhos. /SEI./ (31) Ele é- anda assim, entendeu? (32) Os dois joelho é grudado, (33) então o calcanhá num assenta. (34) Ele anda é com a ponta do dedo. (35) Isso ele num faz movimento. /MALDADE, NÉ?/ (36) Fez por maldade. /M:.É MALDADE/ NARRATIVA 8 - PIANO (01) Quando eu fui a Cuiabá- quando eu fui a Cuiabá, esta esta última vez, /uhn/ (02) eu fui em casa de minha prima, Mimi, né? /UHN/ e o piano de lá estava- (03) Ela compro este piano (04) pra filha estuda. (05) Depois a menina não quis mais (06) continua o estudo (07) e o piano ficô parado. (08) E o piano estava empenado a parte da frente (09) onde tampa, né? /SEl/ (10) aquela par- aquela madeira assim de- passa bem na frente, (11) a madeira tava assim, torta, toda empenada. /UNHUM/ (12) Tanto que na hora que fechava o piano, (13) num num segurava direito o fecho. (14) O tampo do piano num segurava na madeira. (15) A madeira tava tava indo pra frente (16) e as teclas do piano, todas, tocava, (17) abaixava, (18) num levantava, sabe? /UN hum/ (19) Uma ou outra só que tava- que levantava, (20) mas a maioria das teclas, todas, baixas, num levantava, né? (21) Aí a Mimi-eu experimentei. 197 (22) o piano tava péssimo. (23) Aí Mimi falô comigo (24) que ela ia chamá um carpinteiro (25) pra arrumá a madeira do piano. (26) ia chamá gente (27) pra afiná (28) pra consertá as teclas e tudo. (29) Aí eu dei o palpite. (30) Eu lembrei de mamãe, sabe? (31) que mamãe ensinava muito esses negócio de piano. (32) Aí eu lembrei (33) e falei (34) "Mimi, vamos trocar esse essa- o piano cie lugar!" (35) Porque o piano estava numa numa parede da sala /UNliUM/ (36) que atrás da parede passava um quintalzinho, /SEl/ sabe? (37) Atrás da casa era o quintal grande. (38) Pra quem num quisesse (39) entrá pela sala, na casa, (40) entrava por esse quintalzinho, (41) dando a volta, (42) entrando pela cozinha, sabe? /SEI. anham/ (43) E atrás é- a o o piano recebia nessa parede toda a umidade /SEi/ de chuva, (44) quando chovia. (45) Apesar que lá em Cuiabá faz muito sol quente e tudo, (46) mas mas era uma parede externa /unhum/ da casa, né? (47) que vinha- recebia toda a umidade de fora, a parede. (48) E tinha uma janela grande perto do piano também (49) que era da parede, (50) que recebia a mesma umi- umidade. (51) Falei (52) "Mimi, vamos troca essa essa- esse piano cie posição! (53) Cê experimenta, uma experiência. /UNMUM/ (5-4) Vamos Ira- botá esse piano na parede ex- interna deste outro lado da sala, (55) cpie é parede interna, (56) cpie dá pro seu cjuarto? /UNHUM/ (57) E pro piano num fica recebendo essa umidade, (58) pra vê (59) se conserta, (60) se tem algum conserto, (61) antes de você chamá o carpinteiro, (62) antes de chamá coisa- alguma pessoa (63) pra mexê nele? " (64) E nós trocamo- na mesma hora nós trocamos o plano, piano pequeno, sabe? (65) era piano brasileiro pequeno. (66) Nós trocamos o piano de lugar. (67) Passamos pra outra sa- pra outra parede. (68) Depois de um mês- que eu a- eu passei quatro meses em Cuiabá. (69) Tava sempre com ela, né? /unhum/ (70) mas nós num mexiamos no piano, (71) o piano tava lá na parede (72) sem mexê. (73) Depois de um mês ou ma- ou mais um pouco de um mês nós fomo abri o piano (74) pra vê (75) como que estava, (76) Cê acredita, Adriana, que a madeira tinha voltado pro lugar?! /OLHA!/ (77) Não preciso (78) de chamá o carpinteiro, nada (79) pra pra mexê na madeira. /OLHA, QUE barato!/ (80) E as teclas subiram?! 198 NARRATIVA 9 - IRMÃ DE CARIDADE (01) Eu sei que es- essas innãs de caridade num saíam lá de casa. (02) Elas eram muito amigas de mamãe, de papai, tudo. (03) E papai servia muito elas, em tudo (04) que precisasse, sabe? (05) Tudo que precisava (06) eles- elas iam lá em casa (07) pedi (08) pra ajudá. (09) Papai tinha carro, /UHN/ (10) elas precisavam (11) i de carro em qualquer lugar, (12) papai levava elas de carro (13) e sempre sempre ajudando muito lá o asilo. (14) Ajudando com dinheiro, com o (15) que precisasse (16) ele ajudava muito lá /unhum/ as irmãs, sabe? (17) Aí papai tava vendeno tudo (18) e mamãe tinha uma uma santa ceia grande, maior que essa (19) que tem aqui, (20) que é a que é a a coisa mais linda, Adriana, a santa ceia, o o Cristo com o o todos os apóstolos, (21) todos eram em prata, /unhum/ tudo em prata, em alto relevo, em alto relevo assim, né? /SEl/ e a moldura larga assim de um um quase um palmo de largura, preta, em volta. (22) A santa ceia era linda, aquela coisa prateada em alto relevo e a moldura preta, o quadro, lindo o quadro. (23) Única coisa que mamãe pediu (24) que não deixasse em Cuiabá era a santa ceia. (25) Que ela queria (26) que trouxesse a santa ceia. /UNHUM/ (27) Única coisa que nós trouxemos também foi a- foi o piano, foram as máquinas de costura, as duas máquinas, /SEI/ o piano, só. /e ouedê a santa ceia?/ Pois isso que eu vô contá pra você, a história da santa ceia. O que que a imiã de caridade me fez (RISO) por causa dessa santa ceia. Aí a madre a madre Marta Cerrufe- não me esqueço o nome dela, ficô gravado na minha cabeça o nome da Marta, da madre Marta. (28) E quando nós es- estávamos de de vinda, (29) elas estavam já mudando pro colégio Coração de Jesus, /UHN/ (30) que elas estavam- já tinham construído o colégio (31) pra elas mudarem, /unhum/ (32) Aí foram com o livro de ouro (33) pra papai assiná. (34) Todo mundo em Cuiabá assino no livro de ouro do colégio (35) pra co- pra cooperá coin elas, né? /unhum/ (36) Papai assino no livro de ouro. (37) E lá em casa papai tinha tinha empresa funerária, (38) tinha casa de molduras, (39) punlia punha molduras em quadros, vi- casa de vidros, /unhum/ espelhos, molduras... (40) Era uma porção de coisas, né? (41) Papai tinha até linlia de ônibus na rua. (42) Tudo foi vendido, (43) foi vendeno. (44) E ele tava desfazeno de tudo, da oficina... (45) a oficina tinha muitos armários cheio de panos de de panos de coisa de de trabalho mesmo, /sei/ (46) que precisava, né? /UNHUM/ aqueles vidros, aquelas coisas todas, aqueles espelhos enormes, aqueles quadros de espelho. 199 (47) Na sala de casa tinha dois quadros de espeliios lindíssimos, enomies, com madeira dourada assim, na sala lá de casa. /unhum/ (48) Um desses espelhos papai deu pro colégio. (49) Deu pro colégio o espelho. (50) E o outro espelho, como quebrou o espelho, (51) ele deu a moldura,/unhum/viu? (52) Quer dizer que o colégio levou o espelho grande da sala (53) e levou a moldura do outro espelho, (54) que quebrou o espelho. (55) E bo- e mont- e e os armários? os armários grandes que tinha lá? (56) Ele mando (57) envemizá, (58) mando (59) botá vidro no- em algum vidro quebrado, (60) mandô (61) arrumá os armários todos (62) e fez presente pro colégio. (63) Fez presente de muita coisa (64) que era lá de casa pro colégio, /unhum/ (65) E as irmãs iam lá (66) cada vez mais pedi, cada vez mais pedi. (67) Bom, aí quando foi um dia eu estava lá na oficina com papai, (68) E ele mexendo lá, (69) e eu também tava sempre perto dele ali, (70) ele ia mexê (71) eu ia atrás, né? (72) Fiquei sozinha com ele ali, e Lila, né? /unhum/ (73) Aí chega chega a madre, a ma- (74) E ele pegô a o o a santa ceia (75) e botô num canto assim lá da oficina (76) e pediu pro Chico, o empregado nosso /uhn/ de papai, (77) que enca- que ele embalasse a santa ceia (78) pra viajar, /unhum/ (79) Fazer embalagem de viagem (80) pra pra mandá pra mamãe, né? /sei/ (81) Mamãe já tava aqui em Belorizonte. (82) Ela chegô lá na oficina, (83) pediu isso, pediu aquilo, (84) papai foi dano, foi dano. (85) Papai num falava não pra ninguém, (86) pelo contrário, ele até dava tudo. (87) O que precisasse (88) dá (89) ele dava. (90) Se pedia, (91) ele- principalmente pedindo, (92) nunca ele falô não. /unhum/ (93) Ele num falava não. (94) Uma coisa às vezes que ele queria (95) ele dava. (96) Não falava não. (97) Aí a madre foi e bateu o olho assim na santa ceia assim. (98) Já tinha ganho uma porção de coisa ali, cadeira giratória, cadeira giratória (99) que era do escritório dele, a mesinha do escritório com a cadeira giratória, (100) tudo deu pra irmã. (101) Aí na hora que ela bateu o olho assim na na santa ceia (102) ela virô pra papai c falô assim (103) "O seu Tenuta, e essa santa ceia, o senhor num vai me- o senhor num vai oferecer pro colégio essa santa ceia? " (Riso) (104) Hora que ela falô assim, pronto! /NUM TEVE jeito./ 200 (105) Papai falô assim (106) "Pois não, irmã, com muito prazer, eu mando (107) levar pra senhora. " (108) Santa ceia de mamãe, que ele mandô (109) embalá (110) pra mandá pra mamãe. (111) Ele ele falô- ele num negô pra innã. /UNHUM/ (112) Ele ia dá pra irmã, (113) como deu, né? (114) Eu virei pra irmS, eu, perto de papai, /UNHUM/ falei assim (115) "Ô irmã, a senhora Já ganho tanta coisa aqui, (RISO) (116) papai já deu muita coisa pra senhora, (117) já assino no livro de ouro, (118) já deu isso, já deu aquilo, " (119) cnfileirei de coisa (120) que tinha- que papai tinha dado nessa hora, (121) "a senhora ainda qué a santa ceia (122) que é de mamãe? Essa santa ceia, não. (123) Essa santa ceia aí vai pra Belorizonte. (124) Essa santa ceia é de mamãe. (125) Ela pediu (126) pra não deixá. (127) Essa santa ceia num- essa santa ceia não pode não, sabe? " /UNHUM/ (128) Papai num falô nada comigo, (129) só me olhô assim. (130) Ele- aí ela falô assim (131) "Não, essa santa ceia seu pai já me deu, menina, olha aqui, " (132) Torceu meu braço, /QUÊ ISSO?/(RISO) um beliscão duro aqui em mim, torcido, (133) falô pra mim assim (134) "Menina, você- seu pai num é pão-duro, (135) você é meia pão-dura, né menina? (136) Seu pai num é pão-duro assim como você. " (137) E torceu meu braço assim na frente dela, (138) que eu dei um grito, sabe? (139) Falei "Ai meu braço". (140) Gritei com ela ainda. (141) C papai- na vista- tudo isso na vista de papai e ele fícô quieto. (142) Ele num falô nada comigo. (143) Nunca ele falô- tocô em em- nunca ele tocô em- pra mim, (144) do que eu falei foi pra irmã (145) que eu num ia dá a santa ceia, /UNHüM/ (146) Papai num falô nada comigo. /mas DEU A santa ceia?/Ein? /embalo a santa ceia E MANDÔ PRA ELA?/ (147) Mandô pra irmã de caridade a santa ceia. (148) Marta Cerrute, ela já morreu. (149) Me deu um beliscão aqui (150) de torcê meu braço. NARRATIVA 10 - PRESENTE (01) Quando eu tinha nove anos de idade, (02) Nós mudamos de casa (03) e minha mãe adoeceu gravemente. (04) E ficou doente mais de um ano. (05) Uma doença sem cura, sofrendo. 201 (06) gemendo, (07) e às vezes até gritando. O relógio vai batê. /É, NUM TEM IMPORTÂNCIA NÃO./ (08) E morávamos num lugar distante do centro, distante de médico, de fannácia, distante dos parentes, distante dos amigos. (09) Então um tio meu achô melhor (10) que mudássemos para o centro da cidade. (11) Papai não podia mudar (12) porque tinha os interesses do sítio (13) e ele não podia deixar de uma hora pra outra. (14) Mudamos, os pequenos, um irmilo mais velho. (15) Mudamos para uma casa, para um sobrado, em fren- no centro da cidade, cm frente íi prefeitura, ao lado da casa paroquial e a poucos passos da igreja matriz. (16) Foi uma alegria (17) porque morar na cidade, numa casa de sacada (18) onde a gente ficava lá em cima a (19) a ver as pessoas (20) que subiam (21) e desciam (22) e foi uma experiência maravilhosa. (23) Um belo dia eu estava na sacada (24) e debaixo passou o padre, o capelão capelAo nHo, o vigário da paróquia. (25) Era um homem gordo, vermelho e já de meia idade (26) que eu nem havia conhecido ainda. (27) E ele me abano a mão (28) e falou (29) "Vem cá, menininlui" (30) Eu desci correndo as escadas (31) e ele meteu a mão no bolso (32) e me tirou um livrinho (33) e me deu. (34) "Toma esse livrinho (35) para você aprender (36) a rezar." (37) E eu olhei o livro- (38) eu já sabia (39) ler, (40) estava com nove anos, (41) mas já sabia (42) ler bem. (43) E li no livrinho assim Catecismo da Doutrina Crista. (44) Era um livrinho, uma brochura, uma capa de papel de embrulho, verde claro, com letras douradas- Catecismo da Doutrina Cristã. (45) E eu achei aquilo uma coisa linda, uma coisa do outro mundo, (46) que até aquela data nunca havia ganho um presente (47) que me foi tão precioso. (48) Dai eu comecei a folhear o livro (49) e a ler (50) e a decorar as primeiras lições. (51) E me lembro muito bem, (52) a primeira pergunta era esta (53) "Quem é Deus? " (54) E vinha logo a resposta (55) "Deus é um espírito perfeitíssimo, eterno, criador e senhor do céu e da terra. " (56) Eu, até então, eu nunca tinha propriamente ouvido falar assim Deus, (57) quem era Deus, (58) o quê que Deus era. 202 (59) Nunca tinha me passado pela mente. (60) Aprendi (61) a rezar, (62) mas simplesmente a rezar, (63) mas nunca ninguém me havia falado em Deus. (64) Eu via a Natureza (65) porque fui criada na roça até a idade de sete anos. (66) Via aquela natureza linda (67) e os pássaros cantando, as florestas com aquelas parasitas. (68) E eu entranhava no meio da floresta com meu innão mais velho um ano. E os rios, cachoeiras e e campos, (69) gado pastando, curral cheio de gado, os bezerrinhos, os porquinhos, (70) mas eu nunca tive idéia, (71) nunca ninguém me havia falado (72) que tudo aquilo foi Deus que criô. (73) E o catccismo me valeu muito. (74) E eu comecei a freqüentar o cntecismo na igreja. (75) Pouco antes- poucos meses depois minha mile faleceu (76) e nós voltamos para morar distante da cidade. NARRATIVA 11 - PONTE (01) Um dia, o que é interessante nessa nessa história toda (02) é que voltávamos do catecismo mais tarde (03) e nslo- a professora atrasou (04) e nós saímos à noitinha. (05) Ainda não havia luz elétrica na cidade. (06) E nós atravessamos a cidade toda ao ca- ao- íl luz dos lampiões de gás. (07) Mas na minha rua não havia lampião de gás, (08) e nós tínhamos que passar primeiro por uma ponte. (09) E a ponte era perto do cemitério, bem ao lado do cemitério. /UNIIUM/ (10) E quando iamos passando na ponte (11) eu falei assim (12) "Eu não vou na beirada (13) porque as almas me pegam, nem do lado esquerdo, nem do lado direito. " (RISO) (14) Então as duas Beneditas que eram mais ou menos da mesma idade, (15) mas eram maiores, (16) eu é- fiii sempre pequetitinha, (17) me abraçaram (18) e nós passamos abraçadinhas. (19) atravessamos a ponte até chegar bem longe, num escuro (20) que a gente enxergava os vagalumes (21) que passavam. (22) Chegaram em casa- chegamos em casa mais tarde (23) papai falou (24) "Minha filha, o que é que foi? " (25) "Não, a professora atrasou ". NARRATIVA 12 - BOM DE LEITURA (O I) Diz que lá no interior tinha um um sujeito assim também (02) que ele num sabia (03) lê não, (04) mas ele comprava aquelas caneta Parker de ouro, né? (05) punha assim no no no paletó, por fora do paletó, né? (RISO) (06) Naquele bolsinho de dentro ele punha as caneta pra mos-, duas três caneta, né? (07) e ele gostava (08) de exibi que- 203 (09) Um dia ele clicgô num bar lá (10) e tava chegano o jornal, né? o jomal novo. (11) Então ês falô assim (12) "Ah, cè é bom cie leitura, (13) leia- lê aqui pra nós. " Né? (14) Ele pcgô o jornal, (15) pegô o jornal de cabeça pra baixo, né? (16) Diz que ele afasto assim (17) e disse "Nossa, desastre em São Paulo. " (18) Que tinha um carro assim (19) e o carro ficô de cabeça pra baixo. (RISO) (20) Pegô o jornal de cabeça pra baixo. "Desastre em São Paulo" NARRATIVA 13 - FERNANDO SABÍNO /NÀO. MAS ERA POR ISSO- POR ISSO QUE CÈ TEM ESSA HISTÓRIA DO FERNANDO SAHINO?/ Não, pcra ai. Eu vô conta é o caso caso lá do do Rio, né? (01) O caso é que eu fui-planejei (02) procurá-lo lá no Rio, né? (03) Mas o que acontece é o seguinte que eu escrevia, né? (04) e nessa época eu devia tê uns quinze anos /UHN/ (05) e eu escrevia muito, né? (06) Desd'os treze assim que eu escrevia principalmente poesia. (07) E escrevia com muita freqüência. (08) Escrevia praticamente todo dia uma poesia. (09) E tava muito envolvido, né? com com isso. (10) Mas eu até que não lia muito não. (11) Eu tinha muito livro de poesia, (12) mas num lia tanto não. (13) Eu eu lia só algumas coisas (14) que eu que eu gostava mais (15) que era um escritor alemão chamado é Karl May. (16) E e eu lia muito Carlos Drummond e Mário de Andrade e Manoel Bandeira e Fernando Sabino. (17) Eram os os escritores /UHN/ que eu mais lia, (18) E aconteceu que teve um congresso de até de lingüística lá no Rio de Janeiro... (19) Era um congresso de lingüistica e literatura. (20) E nesse congresso ia ia- o Carlos Drummond de Andrade ia falá no congresso. (21) Parece que o o Fernando Sabino num ia não, mas o Ferreira Goulart e e uns outros escritores, né? (22) E era lá no Rio de Janeiro (23) e era em Janeiro, (24) entüo eu aproveitei, (25) fui lá pra casa da tia Margarida, /uhn/ (26) E- qué dizê, eu arrumei esse pretexto, né? (27) Eu falei com tia Margarida (28) que eu queria (29) vê o congresso. (30) Aí ela me convido pra lá (31) ficá na casa dela, né? (32) Aí o que acontece é que- que eu tinha- nessa época eu tava com uma relação muito forte com um determinado livro do Fernando Sabino, (33) que é um livro de cartas entre ele e o Mário de Andrade, /uiin/ (34) que chama Cartas a um Jovem Poeta. 204 (35) E é um livro (36) em que o o o Mário de Andrade ele tem uma relação muito estreita assim com o Fernando Sabino, (37) aconselha... (38) Eu gostava demais do livro. (39) Eu lia e relia várias vezes. (40) E eu também tava muito influenciado pelo Encontro Marcado do Fernando Sabino, /UNIIUM/ (41) que eu tinlia lido várias vezes (42) e gostava demais do livro. (43) Então eu tava com essa coisa assim é na cabeça, né? essa essa coisa assim de da relação entre os escritores, (44) eu tava assim fantasiano muito em cima disso, né? /UNHUM/ (45) Pra mim assim o má- o máximo era isso, né? Assim (46) os escritores, tendo uma relação, (47) assim trocando cartas, né? E aquela coisa lá do Viaduto Santa Tereza, né? /UNHUM/ (48) que tem no no no livro. (49) Eu eu fui lá no Viaduto dc madrugada, (50) tentei subi e tal. (Riso) (51) Num tive coragem. (52) Quando olhei lá pra baixo (53) num tive coragem de subi. (54) Mas então eu fui lá no Rio (55) e tava tendo o congresso, né? (56) O congresso era mais de lingüística do que literatura, né? (57) Então tinha umas palestras lá (58) que eu num entendia nada, né? (59) do que eles falavam, né? (60) Era um negócio lá complicado pra caramba. (61) Então eu eu eu num assistia essas coisa não, (62) eu fui embora. (63) Ficava mais na praia, né? (64) Mas os dias que eram era de literatura, (65) que que era entrevista, né? com- (66) não, que que tinha palestra de literatura também (67) que eu também num ia não. /UNHUM/ (68) Mas quando eram os escritores, (69) eu fui, né? (70) Foram as únicas coisas do congresso que eu fui. (71) Então eu lembro que eu vi o Homero Homem, (72) que aliás foi muito interessante a a palestra do Homero Homem, (73) que ele levô um texto enorme. (74) Eram páginas e páginas. (75) Ele pegô e começo a lê aquilo. /UHN/ (76) Eu nem lembro (77) o quê que era. (78) Era um tema assim meio complicado, um negócio meio estranho. (79) Nem lembro direito o tema. (80) Eu sei que ele começo a lê aquilo e numa voz assim monótona, né? aquela coisa assim, (81) olhano pro papel, tal. (82) Aí de repente tinha um um- levanto no no no no Tim assim do do auditório um desses poetas de cordel, /UHN/ (83) levanto (84) e começo a falá os cordéis dele, sabe? /uhn/ (85) E o cordel dele- eu lembro do cordel mais ou menos, (86) falava (87) que que a que a língua não estava nos dicionários. (88) Não, a língua não era uma prisioneira dos dicionários e tal. (89) Eu lembro que ele é esse esse poeta de cordel levanto assim muito abruptamente 205 (90) e o Homero Homem levô um susto tüo grande (91) que as páginas dele caíram da müo dele, (92) espalharam assim, (93) saíram voando (94) e o óculos dele caiu no clulo. (95) Então foi uma cena meio surrealista assim (96) porque ele ficô- parece que ele tinha muitos graus assim, né? (97) então num enxergava nada sem o óculos. (98) Então ele tava ouvindo aquele poeta, (99) mas ele Ficô assim totalmente atordoado, assim, (100) bateno a mão na mesa, assim, (101) procurando o óculos, as folhas, (102) e o poeta falando. (103) O cara desando a falá cordel e tal. (104) Foi super louco o negócio, né? (105) Logo depois foi o Ferreira Goulart, né? que falo. (106) Foi interessante, né? /unhum/ (107) Mas o- e eu tava assim na maior expectativa (108) pravê (109) se o Fernando Sabino aparecia lá no congresso, né? /UlIN/ (110) porque o Dmmmond já num num num ia, né? (111) Porque parece que tinha unia uma história assim (112) como que o Drummond nunca participava de nada, né? (113) Qué dizê, se ocê fazia uma homenagem ao Drummond (114) ele num ia, né? /UHN/ (115) Nunca ia, né? /unhum/ (116) Então eles ele- o Drummond ia fazê uma palestra. (117) Tava marcado. (118) E ia tê uma homenagem ao Drummond, (119) que o congresso era em homenagem ao Drummond, né ? (120) Aí na hora que ia sê a palestra do Drummond, (121) chego uma moça lá com uma cartinha lá do Drummond (122) falando que ele- que- uma desculpa assim inclusive muito drunimondiana- (123) que ele tava com um pequeno- pass- pequeno mal-estar- uma coisa- (124) parecia até um poeminha a desculpa dele, né? uma coisa super interessante. (125) Aí eu Tiquei lá, tal, (126) vi (127) que o Fernando Sabino num ia dá as cara por lá, né? (128) Aí eu falei (129) "Bom, mas ctimé que eu vô descobri (130) onde que o Fernando Sabino mora, nó? " (131) Aí eu sabia (132) que o- ele chamava Fernando é... Tavares Sabino, ou Sabino Tavares, num sei. /UHN/ (133) que eu já tinha olhado no catálogo do Rio, Sabino. (134) Tinha uns Sabinos lá, (135) mas num tinha nenhum Fernando, né? /UNHUM/ (136) Aí eu tive a idéia (137) de olhá em Tavares. (138) Aí eu olhei Tavares. (139) Tinha lá um F. Tavares, né? /UHN/ (140) Aí eu "Quem sabe é, né?" (141) Aí eu peguei e disquei. (142) Quando eu disquei, (143) eu num esqueço disso, (144) atendeu (145) e falô assim "Alô, isso é uma- isso-" 206 (146) Cumé que é? Não, num num fala assim (147) "isso é uma gravação" não. (148) "Alô, aqui quem fala é o Fernando Sabino. " (149) É... e ele falava um pouquinho. (150) Falava um um- mais ou menos uns trinta segundos /UHN/ (151) e depois ele falava assim (152) "Isto é uma gravação", né? /UNHUM/ (153) Acontece quando eu (RISO) aten- coloquei o telefone (154) eocarafalü (155) "Alô. aqui é o Fernando Sabino. " (RISO) (156) eu disparei a falá (Riso) "Fernando Sabino, aqui é o-" (riso) (157) eu falei falei, (158) fui falano assim, sabe? (159) tu- fiquei assim meio alterado com a coisa, (160) fui falando.(riso) (161) Aí eu vi (162) que ele num parô de falá também, né?/UNllUM/ (163) Aí eu parei de ouvi, (164) "Isto é uma gravação ", né? (165) Aí eu falei (166) "Nó, então num é tão fácil assim. " (167) Aí quando ele falô assim (168) "Após ouvir o toque (169) deixe o seu recado né? (170) Aí dava o toque (171) Aí eu desliguei, né? (172) Aí eu pensei assim (173) "Ah, que que eu vó- que que eu vô falá né? (174) Aí eu peguei e escrevi um um um texto /uhn/ (175) pra pra coloca, na na na secretária dele. /uniium/ Mas um texto enorme, /AH, MEU DEUS/ (RISO) (176) falando- nossa, mas eu nem lembro direito. (177) Só sei que falava (178) que eu vinha de Belorizonte, (179) que que nem ele com Mário de Andrade, agora eu (RISO) também vinha de Minas e (180) e que então ele- como ele- Mário de Andrade tinha orientado ele, (181) ele podia me orienta, (riso), que num sei o quê (182) e eu lia todos os livros dele, (183) e que tinha uma- muitas semelhanças, né? assim. (184) Eu lembro que eu falei, que eu falei no inicio aqui, né? (185) que tinha um escritor (186) que eu lia muito, um escritor alemão, /UNIlUM/ (187) que chama Karl May, né? ou Mai, num sei /UNiiUM/ (188) cumé que fala. (189) E eu realmente tinha uma paixão incrível com esse escritor, né? (190) Esse escritor ele ele só escrevia sobre índio, né? (191) Ele só escrevia sobre o oeste americano (192) Ele é- a história dele tinha dois dois personagens. (193) Um era um índio chamado Winnetow (194) e o outro era um um um um branco (195) que chamava- num num tinha nome. (196) o apelido dele era Mão-de-Ferro, né? /UNHUM/ (197) E é uma obra imensa. (198) São dez volumes, /UNHUM/ assim, volumes grossos, umas quinlientas páginas. (199) Tudo é históría, aventuras desses dois, do Winnetow... /UNHUM/ (200) E eu li os dez volumes, né? (201) Eu lembro que eu fiquei tilo apaixonado com a coisa (202) que eu ia leno (203) no dia que acabo o décimo volume, (204) que eu vi (205) que num tinha mais um volume, (206) eu quase que chorei assim, sabe? /unhum/ (207) Minha vida perdeu o sentido, né? (208) Eu fiquei super ligado, né? (209) E eu lembro que eu tava leno um livro do Fernando Sabino de entrevista, (210) um pessoal fazeno entrevista com ele. Aqueles livro de crônica dele, /UNHUM/ (211) que tem de tudo, né? (212) Aliás tem umas coisas bem bem chatas mesmo. (213) E uma das coisas lá que era uma entrevista com ele (214) e a repórter perguntando (2 / 5) "Qual é o livro (216) que você gostô mais na sua vicia? " /UNHUM/ (217) Aí o Fernando Sabino fala assim (218) "Olha. eu já li de tudo na minha vida. (219) Já li- já li os firef^os, " né? (220) Ele até falô um negócio interessante. (221) "Eu já li aquelas insuportáveis obras primas /UNHUM/ de de Homero, e num sei quê (222) e foi falando um tanto de coisa (223) que ele que ele tinha lido, (224) mas- é mas- falô assim (225) "mas o que eu f^ostei mesmo, (226) o livro que eu li com mais paixão na minha vida foi um livro (227) que eu li com onze anos de idade de um escritor alemão, chamado Karl May, chamado Winnetow. " (228) E o interessante que eu também li o Winnetow com onze anos de idade, né? /UNHUM/ (229) Aí eu falei assim (230) "Nossa, mas ó coincidência demais, né?" assim. (RISO) (231) E eu falei isso lá lá no telefone também, né? /UNHUM/ (232) E tinha mais umas coin- umas coincidências (233) que eu tinha arrumado lá entre eu e ele, sabe? (234) eu sei que eu escrevi tudo. (235) Aí eu, bom, eu preparei, né? (236) eu li aquilo, (237) li umas vinte vezes (238) pra vê. (239) Aí eu liguei de novo, né? (240) Aí falô (241) "Alô, aqui é o Fernando Sabino" é... de de de novo, né? a a gravação dele. (242) Aí quando deu o toque, (243) eu peguei e desandei a lê aquele meu negócio, né? (244) Lê, lê, lê . (245) Eu acho que eu devo tê gastado o resto da fita da secretária eletrônica dele, né? (246) Deve tê sido uns dez minutos de de fala, né? (247) E depois desliguei, né? (248) E deixei o telefone da casa da minha tia. (249) "Se se quisé (250) entrá em contato comigo, (251) telefone aqui pra esse mmero, /UNHUM/ (252) que eu tô na casa da minha tia e tal. " (253) Aí- Isso foi de manhã, né? (254) foi lá- foi num domingo de manhil. (255) Eu tava até escreveno, (256) eu tava escreveno /UNHUM/ um conto, um negócio lá. 208 (257) E aí na segunda-feira de manhã, eu já tinlia até- tinha ido na praia depois (258) saí com com com a Marllia. /UNHUM/ (259) Tinha até esquecido (260) que eu tinha hgado pra ele, mais ou menos. (261) Aí telefonam pra mim./uhn/ (262) Tia Margarida falô (263) "Ó, tão tão telefonam pr'ocê. " (264) Aí é... eu atendi. (265) Aí falô assim (266) "Ah, você que é o Marcos, (267) que ligô pro Fernando Sahino? " /UM! NOSSA!/ (268) Eu falei assim (269) Sô." (270) "Ah, eu sõ a secretária particular dele. (271) £... eu ouvi-" Ela falô assim (272) "Eu ouvi o seu- a sua gravação. " (273) E... ela falô assim que s- ela falô assim (274) "O Fernando num tá aqui. Que ele tá- ele tá-" (275) Ela falô (276) que ele tava num num sei onde, num sitio, num sei quê, (277) escreveno um livro. /UNHUM/ (278) Inclusive aquele livro que ele escreveu, chamado O menino... /NU. NÃO, ESSE É o homem nu./ (279) Não. É O menino... Como é que chama o livro, gente? (280) é um livro muito bonito. O menino... de asa, O menino de vidro... O menino no espelho... O Menino no Espelho (281) que chama./UNHUM/ (282) É muito bonito o livro mesmo. /UNHUM/ (283) Aliás eu achei o melhor livro (284) que ele escreveu. (285) E ela falô (286) "Ele tá escreveno um livro, né? (287) então ele num quê (288) sê incomodado. (289) Quando ele vai escreve (290) ele fica lá isolado (291) até escreve." (292) Mas falô (293) "Mas o que que eu posso fazè por você? " (294) Ela falô- mas- ela falô num tom assim 6.../MATERNALy materna! assim, quase de pena. (RISO) (295) Senti (296) que ela tava meio assim con- /UNHUM/ condoída, num sei, né? (297) Mas aí me deu assim uma bobeira, sabe? (298) Um... sabe quando cê fica totalmente sem graça? (299) E falei assim (300) "Ah, não, pode deixá, é é... e é é ass- ass-" (301) Fiquei gaguejano assim, tal, (302) num sabia (303) o que dizê, né? (204) porque o quê que eu ia falá? /mas também o quê que ela poderia fazê por você?/ (305) É. E o quê que eu ia falá, né? (306) porque o que eu queria era (307) falá com ele, né? (308) E mesmo se ele falasse comigo (309) eu num sabia (310) o quê que eu ia falá pra ele, né? /uNHUM/ (311) Quê que eu ia falá pra ele, né? (312) eu num tinha levado nem nada (313) pra ele lê? /UNHUM/ Nem nada assim meu es- (314) Se bem que eu tinha levado sim umas coisas escritas. mas num ia tê coragem de mos- /mas Cê NUM tinha uma coisa pra propor pra ele, assim?/ 209 (315) Eu num tinha nada. (316) Eu queria (317) que ele- que ele que ele fosse o Mário de Andrade pra mim, né? (Riso) É, mas aí ai- /aí pronto?/ Aí pronto. /DESLIGO E Pronto? sem nada?/ (318) Desligo... (319) Não. Aí ela me deu acho que um telefone, num sei. (320) Mas foi um trem assim super sem graça, sabe? /unmum/ (321) Aí depois eu num quis (322) mexê mais com isso nada, (323) deixei pra lá e tal. (324) Mas enquanto enquanto durô (325) foi muito interessante, né? 210 Apêndice 2 Parte A - Divisão dos textos em unidades oracionais No texto oral encontram-se 'formas' verbais que não constituem predicados; há o problema das locuções, perífrases e outros. Esta é a descrição do processo de divisão dos textos em unidades oracionais: 1 - 'Formas' verbais A - Marcadores discursivos Dentre os elementos que têm fonna verbal, mas que não centralizam predicações (em termos de significado, estrutura e flexão plenos), foram encontrados os seguintes, que foram interpretados como marcadores discursivos: a) A função de sabe?, viu?, né?, tá entendeno?, entendeu?, entendeu cont'd que é?, olha que ocorreram, por exemplo, nas estruturas listadas a seguir, ó nitidamente discursiva, de estabelecer contato falante/ouvinte. Esses elementos apresentam-se geralmente como formas fixas, ou mesmo reduzidas, com pouca ou nenhuma flexão: Narrativa 1 - (20), (38), (40), (47), (58) Narrativa 5 - (07), (09) Narrativa 6 - (43), (57), (88) Narrativa 7 - (06) Narrativa 8 - (18) Narrativa 13 - (31), (233) Exemplos: Narrativa 2 (27) Aí ele vinha outra vez, (28) e eu passei mao num pedaço de pau, sabe? Narrativa 3 (01) Aquelas uvinha miudinha, pequenininha, que tem assim, (02) que só dá na beira do rio, tá entendeno? /UHN/ b) acho (que), parece (que), num sei/ sei lá/ num sei quê, diz (que)/ eles falam são marcadores discursivos de incerteza/dúvida, ou relativizam o comprometimento do falante com o conteúdo de sua fala: 211 Narrativa 6 - (39) Narrativa 13 —(319) Narrativa 13 - (96), (111) Narrativa 1 - (23) Narrativa 13 - (132), (221) Narrativa 5 - (02) Narrativa 12 - (01) Exemplos: Narrativa 12 (01) Diz que lá no interior tinha um um sujeito assim também (02) que ele num sabia (03) lê não, Narrativa 13 (111) Porque parece que tinha uma uma história assim (112) como que o Drummond nunca participava de nada, né? Contrastam-se as ocoirèncias acima com outras em que achar, parecer, saber e dizer apresentam mais nitidamente caráter de predicado (tlexão de pessoa ou temporal, presença do argumento objeto): Narrativa 10 - (45) Narrativa 13 - (283) Narrativa 3 - (43) Narrativa 13 - (124) Narrativa 13 - (302), (309) Exemplos: Narrativa 13 (121) chego uma moça lá com uma cartinha lá do Drummond (122) falando que ele- que- uma desculpa assim inclusive muito drummondiana- (123) que ele tava com um pequeno- pass- pequeno mal-estar- uma coisa- (124) parecia até um poeminha a desculpa dele, né? uma coisa super interessante. Natrativa 13 (282) É muito bonito o livro mesmo, /unhum/ (283) Aliás eu achei o melhor livro (284) que ele escreveu. c) só sei (que), quer dizer (que dizê) podem apresentar papel discursivo de elemento resumidor (semelhante à expressão enfim) ou introdutor de uma explicação/elaboração: Narrativa 13 - (177) Narrativa 9 - (52) Narrativa 13 - (26), (113) 212 Exemplos: Narrativa 9 (52) Quer dizer que o colégio levou o espelho grande da sala (53) e levou a moldura do outro espelho, Narrativa 13 (174) Aí eu peguei e escrevi um um um texto /UHN/ (175) pra pra coloca, na na na secretária dele. /UNIIUM/ Mas um texto enorme, /aii, meu deus!/ (riso) (176) falando- nossa, mas eu nem lembro direito. (177) Só sei que falava (178) que eu vinha de Belorizonte, d) Lembro (que), acontece/ aconteceu (que), eu sei (que) desempenham, muitas vezes, no discurso, a função de sinalizar para o ouvinte um retorno (ou introdução) à linha central dos eventos, ou seja, inostrar que o narrador está voltando ao Domínio dos Eventos Narrativos (Figura), após algum tipo de divagação ou explicação de suporte: Narrativa 13 - (89) Narrativa 13 - (03), (18), (32), (153) Narrativa 6 - (41) Narrativa 13 - (80) Exemplo: Narrativa 13 (75) Ele pegô c comcçô a lê aquilo. /UHN/ (76) Eu nem lembro (77) o quê que era. (78) Era um tema assim meio complicado, um negócio meio estranho. (79) Nem lembro direito o tema. (80) Eu sei que ele começo a lê aquilo e numa voz assim monótona, né? aquela coisa assim, (81) olhano pro papel, tal. Lembrar, saber, por outro lado, são mais nitidamente um predicado em: Narrativa 13 - (76), (79) Narrativa 1 - (33) Exemplo: Narrativa 1 (31) Eu sô daqiti (32) e tenho muito mais idade que você (33) e ^ de todas essas malandrassem daqui. (34) Quê que cê tá quereno, ô rapaz? " 213 Há, no texto oral, outros recursos através dos quais o falante pode indicar um retomo aos eventos centrais da história, como, por exemplo, a repetição do ultimo evento narrativo, e o marcador aí. Fatores prosódicos, em especial a entonação, são muito importantes para a determinação das seguimentações das estruturas oracionais. Os elementos considerados marcadores discursivos apresentam, em geral, entonação típica, não sendo acentuados, ou pronunciados com tanta clareza. B - Formas enfáticas e/ou clivadas é (que), foi (que), era (que) aparecem em estruturas enfáticas ou clivadas, por exemplo, as seguintes: Narrativa 1 - (45) Narrativa 6 - (43) Narrativa 7 - (34) Narrativa 10 - (72) Exemplo: Narrativa 1 (44) Falô (45) "O que é que há? (46) Num vai hrigá comigo não. " Tais ocorrências podem ser contrastadas com fonnas do verbo ser como um predicado: Narrativa 9 - (122) Narrativa 13 - (22), (23) Exemplo: Narrativa 9 (121) "a senhora ainda qué a santa ceia (/22) que é de mamãe? Essa sanla ceia, não. " 214 C-Elementos integrantes de expressões idiomáticas/ FORMAS cristalizadas Exemplo: Narrativa 6 (79) "Olha, ele cjué (80) manui, (81) dá cie niantá pra ele. " Dá de matnú é computado como apenas um elemento verbal com conteúdo semântico semelhante a amainentar. D-Outras Também não foram catalogadas como centralizadoras de predicados: a) a fomia é (é)... (hesitação) Exemplo: Narrativa 13 (147) "Isso é uma gravação " não. (N8) "Alô, aqui quem fala é o Fernando Sabino. " (149) E... e ele falava um pouquinho. b) a forma ó (= sim) Narrativa 1 —(19) Narrativa 3 - (31) Exemplo: Narrativa 1 (17) sentei ali na minha toalha, clircitlnho, (18) tava ali quieto, no meu canto, aqueles malandros lá de praia, aqueles caras que ficam ccrcan- /QUE FICAM SÓ S AC ANO O POVO, NÉ?/ (19) É, sacam (20) que é gringo, né? c) Formas verbais em estruturas abandonadas pelo narrador, que escolhe estruturar sua idéia através de uma outra construção: Narrativa 7 - (02) Narrativa 8 - (47) Exemplo: 215 Narrativa 8 (45) Apesar que lá em Cuiabá faz muito sol quente e tudo, (46) mas mas era uma parede externa /UNHUM/ da casa, né? (47) que vinha- recebia toda a umidade de fora, a parede. 'Vinha', nessa ocorrência, não foi computada, pois o falante rcestruturou seu discurso através de um outr elemento verbal. 2 - Perífrases e locuções No momento da catalogação das estruturas oracionais, uma questão apresenta-se relevante. Havendo uma seqüência de dois verbos, torna-se necessário investigar se se trata de duas estruturas oracionais. Há casos em que tal seqüência fonna nitidamente um todo (tempos compostos com ter - tenho feito/teria feito\ algumas locuções com valores aspectuais de incepçào ou terminação - comecei a! terminei de fazer; e outros). Por outro lado, encontramos urna série de construções nas quais sc toma difícil a delimitação das unidades oracionais. Neves (2000) relaciona os verbos que não constituem predicados, por ela denominados de operadores gramaticais. Para a autora, esses verbos indicam modalidade, aspecto, tempo e voz. A-Construções com verbos modalizai)Ores + V. Infinitivo Dentre os modalizadores, não-predicados. Neves situa os verbos de modalidade epistêmica e deôntica: - necessidade epistêmida, ligada ao conhecimento E você DEVERIA ser uma espécie de leólo^o ou guru cia nova doutrina. - possibilidade epistêmica Não PODE ser que eu tenha feito isso. Carlos DEVE ter vindo. - necessidade deôntica (obrigatoriedade) E era ajuste que não PODIA demorar muito. Detinho, amanhã íENItO QUE romper as estradas para Piranhas. - possibilidade deôntica (permissão) Se você é livre, PODE fazer o que quiser. Não se DEVE fumar na sala de necrópsia. Segundo a autora, "já os verbos que exprimem a chamada modalidade habilitativa (indicação de capacidade) na verdade constituem predicados": O bonde PODE andar até a velocidade de 9 pontos. 216 Se não lhe interessa, SEI ilefender a minha. Também constituem predicados, para a autora, os verbos de expressão de voiiçào: Eu também QUERIA viver longe Je liiJo isso. Neves (2000: 62-63) Neves (2000) propõe, então, esse critério semântico para o estabelecimento ou não do status de predicado a um verbo. Adotei, distintamente da autora, porém chegando a resultados muito semelhantes, o critério sintático de "inserção de sujeito", que se dá da seguinte maneira: Inserção de um sujeito para o segundo verbo, distinto do sujeito do primeiro, com Jlexão do segundo. No caso da aplicação desse critério a uma estrutura resultar cm gramaticalidade, interpretou-se que havia uma maior independência entre um elemento e outro e, portanto, considerou-se a existência de dois predicados na estrutura. Justitlca- se considerar esses dois elementos como predicados, pois seria possível atribuir argumentos distintos a ambos, compondo predicações plenas: Eu falei com tia Margarida que eu queria ver o congresso. (Narrativa 131 inserção de sujeito Eu falei com tia Margarida (...) que eu queria que da visse o congresso Se, por outro lado, o resultado obtido foi uma estrutura agramatical, considerou-se que a seqüência de elementos verbais forma uma locução, com valor modal, centralizando uma única unidade oracional: e falô se eu num podia vim pra dona Palmyra, (Narrativa 6) - inserção Je suieito e falô *se eu num podia que e]e viesse pra D. Palmyra 217 B - Verbos aspectuais Neves (2000) relaciona, como operadores gramaticais, ou seja, não predicados, fomiando perífrases e locuções, verbos que indicam: - início de evento (aspecto inceptivo) £ as lágrimas da mãe COMEÇARAM A correr pelas faces nigosas. Sílvia DESANDOU A chorar mais ainda do que havia feilo(...). Passou Camilo A aguardar a desforra do Major. - desenvolvimento do evento (aspecto cursivo) Ricardo ESTA VA falando com João Camilo. Laio e Creonte CONTINUAVAM lutando. Motoristas FICAVAM A buzinar. Sendo que o curso do evento pode configurar: . hábito (aspecto habitual) Ela vive fazendo perguntas sobre a saúde do garoto. . progressão (aspecto progressivo) O próprio cartão magnético ESTÁ evoluindo para garantir maior inviolabilidade. A violência VAI crescendo à medida que é silenciada. - término ou cessação do evento (aspecto temiinativo ou cessativo) Basta de proteger vândalos. Não DEIXOU, porém, DE se ocupar no que habitualmente se ocupava. - resultado de evento (aspecto resultativo) O problema dos homens ESTÁ resolvido. (...), FICOU acertado que o Bane.spa não será privatizado. - repetição do evento (aspecto iterativo ou fieqüentativo) . com idéia de freqüência Tenho saído com ele, ido a todos os lugares que quero conhecer. A namorada do ateu DEU DE teimar para que ele a acompanhasse nessa visita obrigatória. . sem idéia de freqüência Fez-se um terrível silêncio até que Domício VOLTOU a falar. Torneia entrar. - consecução Tomavam a mãozinha rechonchuda, beijavam-na, CHEGAVAM A tirá-lo do carro. - intensificação CANSEI-ME de avisá-la, agora se agüente. -aquisição de estado Bem queria que Aparicio nunca VIESSE A saber deste desespero da mma mãe. Neves (2000: 63-64) Nos dados analisados nesta pesquisa, ocorreram vários casos de locuções com valor aspectual. No entanto, algumas estruturas apresentaram algum material lingüístico entre um e outro elemento verbal, descaracterizando os dois elementos verbais como formadores de um único predicado. Tiveinos, então, nos dados, dois grupos de estruturas: a) Seqüência de dois verbos (o principal no Injlnitivo ou Gerúndio) formando Perífrases ou Locuções com valor aspectual, ou seja, uma única unidade oracional 218 Nos casos nos quais o verbo ir vem imediatamente seguido por uma forma verbal infmitiva, procedeu-se à interpretação da estrutura como uma perifrase com valor de Futuro, ou valor aspectual inceptivo; Narrativa 1 - (46) Narrativa 3 - (05) Narrativa 5 - (12) Narrativa 8 - (24), (26) Narrativa 13 - (305) Exemplo: Narrativa 5 (10) Diz que fica ardeno, (11) a galinha acha (12) que vai botá (13) e vai Nos casos nos quais o verbo ir vem imediatamente seguido por um Gerimdio, procedeu-se à interpretação da estrutura como uma perifrase com valor aspectual durativo/progressivo, ou inceptivo: Narrativa 4 - (08) Exemplo: Narrativa 4 (07) entrava lá pra cozinha a água, (08) as galinha já ia subino pra pra pra cima, porco, tudo, né? Em relação aos verbos ser/eslar/ficar vindo imediatamente seguidos por um Gerúnciio, procedeu-se à interpretação das estruturas como perífrases com valor aspectual durativo/progressivo; Narrativa 1 - (34) Narrativa 3 - (44) Narrativa 4 - (39) Exemplo: Narrativa 4 (37) porque num achava o prato mesmo, né? (38) e eu num agüentava, (39) já tava ficano roxa (40) de fícá ali, né? Considerou-se uma única unidade oracional toda ocorrência que contém seus dois elementos verbais relativamente próximos um do outro, sendo o primeiro deles um verbo de movimento e o segundo uma forma de Gerúndio. O Gerimdio, nestes casos, desempenha função semelhante à adverbial, com uma nuance aspectual durativa: Narrativa 2 - (13), (46) 219 Narrativa 10 - (30) Exemplo: Narrativa 10 (30) Eu desci correndo as escadas (31) c ele meteu a müo no bolso (32) e me tirou um livrinho b) Dois verbos próximos (o segundo deles no Infiniíivo ou Gerúndio) formando duas estruturas oracionais Houve casos, no entanto, em que havia material lingüístico se interpondo entre os dois elementos verbais, sendo esse material muitas vezes componente da estrutura argumentai do primeiro verbo. Nesses casos, houve a tendência de separá-los em orações distintas, tendência reforçada por traços prosódicos. Exemplo: Narrativa 9 (05) Tudo que precisava (06) eles- elas iam lá em casa (07) pedi (08) pra ajudá. Nesse caso, o verbo ir apresenta complemento locativo e conserva mais o seu significado original de movimento. Considerou-se, também, a existência de duas estruturas oracionais em: Narrativa 5 - (43/44) Narrativa 6 - (53/54) Narrativa 10-(18/19) Narrativa 13 - (99/100) Exemplo: Narrativa 6 (52) todo mundo já ia caçano jeito de jantá, (53) ficava sentado na porta (54) conversando, né? com o vizinho, e ainda em; Narrativa 6 - (34/35) Narrativa 13-(121/122) Exemplo: Narrativa 13 (121) chego uma moça lá com uma cartinha lá do Drummond (122) falando que ele- que- uma desculpa assim inclusive muito drummondiana- Houve, também, nos dados: 220 3 - Repetição com função aspectual Certas estruturas envolvendo a repetição de elementos verbais não foram consideradas duas unidades oracionais. Tal repetição expressa valores como duração ou repetição, ligados à noção de aspectualidade: Narrativa 9 - (66), (83), (84) Narrativa 13 - (244) Exemplo: Narrativa 9 (82) Ela chcgô lá na oficina, (83) nediii isso, netiiu aquilo. (84) papai foi dano, foi dano. 4 - Foi/virou/pegou + V Pretérito Perfeito O texto oral, mais tipicamente, apresenta ainda uma outra situação em que há a conjunção de dois elementos verbais fonnando uma íinica unidade oracional, com valor aspectual 'globalizante' (Soares, 1982), relativo à apresentação do fato como um todo, típico do ambiente da Figura Narrativa. O primeiro elemento verbal destas estruturas vem destituído de seu significado pleno de verbo de ação. São exemplos dc estruturas globalizantes - foi e disse, pegou e fez, virou e falou, etc. Narrativa 9 - (97) Narrativa 13-(141), (243) Exemplo: Narrativa 9 (97) Aí a madre foi c bateu o olho assim na santa ceia assim. Por outro lado, há situações nas quais expressões semelhantes às estruturas globalizantes apresentam material lingüístico interposto, principalmente constituinte de estrutura argumentai do primeiro elemento da estrutura, o que ajuda na percepção deste como um predicado. Teinos, nestas ocorrências, duas unidades oracionais distintas: Narrativa 5 - (48/49) Narrativa 6 - (74/75) Exemplo: Narrativa 5 (48) Ela pegô a galinha pelos pés, (49) virô assim, pelos dois pés, 221 Parte B - Análise das estruturas oracionais em termos DE valores TAM Legenda (1), (2), (3), etc. - números atribuídos às unidades oracionais das narrativas. 1,2,etc., até 10 - indicações do tempo e aspecto da situação expressa pela verbo, da seguinte forma: Tempo Aspecto 1 - Presente (presente ou valor atemporal) - Iinperfectivo 2 - Pretérito Perfeito - Perfective 3 - Pretérito Imperfeito - Imperfectivo 4 - formas or valores de Futuro do Presente e Futuro do Pretérito - Imperfectivo 5 - Pretérito Mais-que-perfeito - Perfeito 6 - Infmitivo - Imperfectivo 7 - Gerímdio - Imperfectivo 8 - formas ou valores de Imperativo - Imperfectivo 9 - formas de Subjuntivo - Imperfectivo 10 - Presente histórico - Imperfectivo at - atemporal {Presente atemporal, que inclui Presente com sentido genérico e habitual) LV - locução verbal, que pode ser: asp. - aspectual, que, por sua vez pode ser: durativa, progressiva, iterativa, inceptiva, terminativa. moda! V. - valor de -D-discursivo (forma verbal 'não-predicado', marcador discursivo) Tais formas verbais podem assumir as funções discursivas, indicando: falta de comprometimento do falante; - busca de atenção do /envolvimento do/ contato com o ouvinte; retomada da Figura / marcação de Figura Narrativa; reformulação. -P-predicado (forma verbal 'predicado') N - negativa 222 R - Rectlis \R- Irrealis 2 unidades crit. ins. suj. - a estrutura assim marcada é a primeira de um grupo dc duas unidades oracionais, contendo verbos contíguos, que foram separadas através do critério dc inserção de sujeito, sendo cada um dos verbos considerado um 'predicado'. 2 unidades: crit. de mat. ling, interposto - a estrutura assim marcada é a primeira de um grupo de duas unidades oracionais, contendo verbos contíguos, que foram separadas por ocorrer entre essas duas fomias verbais algum material lingüístico. Tal material poderia ser interpretado como compondo a estrutura semântica/gramatical/argumental da forma verbal alocada na primeira estrutura do conjunto. Cada um dos verbos foi considerado um 'predicado'. est. aband. - ocorre, nesta unidade oracional, uma estrutura abandonada pelo falante. est. asp. globalizante - estrutura aspectual globalizante pegou e fez, falou e disse, virou e falou, etc. cliv./ênf- existência nessa unidade oracional dc estrutura clivada ou enfática. - elem. de idiom. - a forma relacionada a essa marcação é parte de uma estrutura idiomática, portanto 'não-predicado'. est. alternativa - estrutura alternativa. é = sim - a forma 'é' significa 'sim'. é- hesit. - a fonna 'é' indica hesitação. repetição aspectual iterativa - o valor aspectual desta estrutura manifesta-se no nível do discurso. Todo elemento sublinhado é item lexical da estrutura. 223 NARRATIVA 1 - GRÍNGÒ'^^ (1) 1 (2) 2 (3) 3 (4) 2 (5) 2 (6) 3 (7) 2 (8) 1 at (9) 2 (11) (IR) I LV asp. progressiva/dtiralivci ollui-D (busca cUi alençâo do ouvinte) iiíluir-P (12) I (13) 2 (14) (IR) 3 N (15) 2 (16) 2 (17) 2 (18) 3 (19) 1 at é = sim (resposta a né?) (20) 1 at (21) 2 LV asp inceptiva (2 unidades-crit. ins. sujeito) (22) 6 (23) (IR) 1 at sei lá-D: (falta de comprom.do lalante) (24) 2 (26) 1 olha-D (busca da atenção do ouvinte) (27) (IR) I at N (28) I LV asp. diirativa (29) I (30) (IR) I at N (31) I at (32) I at (33) I at saher-P (34) I LV asp. progressiva (35) (IR) 8 (36) 2 (37) 2 (38) (IR) I at N olha-D (busca da atenção do ouvinte) (39) (IR) I at N (40) (IR) I at N (41) 1 LV asp. progressiva (42) (IR) 4 LV V. Futuro (quase) (43) 2 (44) 2 (45) I cliv./enf. (46) (IR) 4 N LVV. Futuro (47) 2 (48) 2 repetição discursiva mio aspectual Na legenda acima, todos os itens estão em negrito, para destaque. Na análise, porém, cada um deles pode aparecer em negrito, em itálico ou em estilo normal. Em estilo nomial, está toda informação referente às estruturas oracionais pertencentes ao DOMÍNIO SliPORTK - Fundo; aparecem em negrito as informações referentes às estruturas oracionais pertencentes ao Domínio dos Evkntos Nakka i ivos - Figura e, finalmente, em itálico, aquelas informações referentes às estruturas do DOMÍNIO l).\ Encenação — Discurso Direto. 224 (49) (50) (51) (52) (53) (54) (55) (56) (57) (58) (59) (60) 2 3 1 2 2 1 at. 2 2 2 1 7 2 L V asp. proj^ressiva NARRATIVA 2 - JACARÉ (A) (01) (02) (03) (04) (05) (06) (07) (08) (09) (10) (11) (12) (13) (14) (15) (16) (17) (18) (19) (20) (21) (22) (23) (24) (25) (26) (27) (28) (29) (30) (31) (32) (33) (34) (35) (36) (37) (38) (39) (40) (41) (42) (IR) (IR) entendeu-D (busca do envolv. do ouvinte) at. at. at. at. at. at. at. at. at. at. é - elemento de idiom. saber-D LV asp. durativa N 7 2 2 6 3 2 2 2 2 2 3 6 6 3 2 3 3 3 3 3 3 6 3 3 2 2 2 3 2 N LV asp. inccptiva + durativa idiom. sahe-D (busca de envolv. do ouvinte) LV asp.inceptiva LV asp.inceptiva (2 unidades - crit. mat. ling, inteiposto) LV terminativa sam (forma reduzida de sabe) -D (busca de envolv. do ouvinte) 225 (43) 1 at. (44) 1 at. (45) 2 (46) 2 LV asp. progrcssiva/diirativa (47) 2 (48) 6 NARRATIVA 3 - JACARÉ (B) (01) 1 at. (02) 1 at. (03) 1 at. (04) 2 (05) 2 LV asp. inccptiva (06) (IR) 1 at. N (07) 1 at. Voz passiva (08) 1 at. (09) 1 at. (10) 1 at. (11) 3 (12) 2 LV asp.inccptiva (13) 2 (14) 3 (15) 1 at. (16) 1 at. (17) 1 at. ser-P (18) 1 at. ser-P (19) 3 LV asp.iterativa (20) 6 (21) 2 (22) 3 (23) 1 at. LV asp.iterativa (24) 1 at. (25) 6 (26) 6 (27) 1 at. (28) 1 at. (29) 6 (30) 1 at. (31) 1 at. (32) 6 (33) 2 (34) 2 (35) 2 (36) 3 (37) 2 (38) 3 cliv./ênf. (39) 5 (40) 1 at. (41) 1 at. (42) I at. (2 unidades: cril. de mal. lin^. interposto) (43) 7 parecer-P (44) 1 at. LV asp. durativa (45) 1 at. (46) 1 at. (47) 1 at. LV asp.durativa (48) 6 tá entendeno-D (busca de envolv. do ouvinte) (49) 2 226 (50) (51) (IR) (52) (53) (54) (55) (56) (57) (58) (IR) (59) (60) (61) (62) (63) (64) (65) (66) (67) (68) (IR) (69) (70) (71) (72) (73) 2 3 2 6 2 2 2 6 6 2 2 6 2 2 2 2 at. at. at. at. at. at. at. at. N (c;k.sio avança a história) repetição discursiva não aspedual LV asp.inccptiva LV moda! ser-P ser-P entendeu-D (busca de envolvimento do ouvinte) ser-P (2 unidades - crit. ins. sujeito) resumidora NARRATIVA 4 - SURRA (A) (01) (02) (03) (04) (05) (06) (07) (08) (09) (10) (11) (12) (13) (14) (IR) (15) (16) (17) (18) (19) (20) (21) (22) (23) (24) (IR) (25) (26) (27) (IR) (28) (29) (IR) (30) (31) (IR) 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 4 2 3 2 3 3 3 2 6 2 8 3 3 3 3 8 1 8 N LV asp. Inceptiva/progressiva LV asp. terminativa LV asp. inceptiva V. Futuro cliv./ênf LV asp. progressiva é=sini (resposta a né?) LV modal V. Imperativo ser-P ser-P ser-P LV modal V. Imperativo L V modal - V. Imperativo 227 (32) (IR) I LV modal (33) (IR) 4 V. Futuro (34) (IR) 4 V. Fuluro (est. alternativa) (35) 2 (2 unidades - crit. ins. sujeito) (36) 6 (37) (IR) 3 N (38) (IR) 3 N (39) 3 LV asp durativa/progressiva (40) 6 (41) 7 (42) 3 LV asp. durativa/progressiva (43) 6 LV asp. durativa (44) 1 at. (45) 6 (46) 3 LV asp. durativa/progressiva (47) 2 (48) 2 NARRATIVA 5 - SURRA (B) (01) 3 (02) 1 at. eles falam-D (falta de comprom. do falante) (03) (IR) I at. N (04) (IR) 1 at. N (05) 1 at. (06) (IR) 1 at. N (07) 1 at. tá entendeno-D (busca de envolv. do ouvinte) (08) 2 (09) 6 (10) 1 at. LV asp. durativa diz que- D (falta de comprom. falante) (11) 1 at. (12) (IR) 4 LVV Futuro (13) I at. (14) 6 (15) 6 (16) 3 (17) 6 (18) 3 (19) 6 (20) 3 (21) 3 (22) 3 (23) 3 (24) 3 (25) 2 resumidora de eventos seqUcnciados de Fundo (26) 2 acontecer-P cli./ênf. resumidora (27) 5 (28) 2 (pequenas inversões, reparos, explicações) (29) 2 (30) (IR) 2 N (31) 2 achar-P (32) (IR) 5 N (33) 2 (34) 2 (35) 3 (36) 2 LV asp. terminativa (37) 2 (38) 2 (pequenas inversões, reparos, explicações) 228 (39) (IR) 2 N (40) 2 (41) 2 (42) 2 3 (2 imidades - crit. maler.ling.interposto) (44) 7 (45) 1 at. (46) 2 (47) 5 (48) 2 (2 unidades: crit. de mat. ling, interposto) (49) 2 (50) 3 (51) 3 (52) 2 NARRATIVA 6 - IDA PRA CUIABÁ (01) 2 (02) (IR) 2 N (03) 3 (04) 2 (05) 2 (06) 2 (07) (IR) 3 N (08) 2 (09) 2 LV asp. inceptiva (10) 3 ser-P (11) 1 (>2) 2 (13) 2 (14) 2 (15) 2 ser-P (16) 2 (17) 2 eu sei que-D (retomada da Figura) resumidora (18) 2 (2 unidades - crit. ins. sujeito) (19) 6 (20) 2 (21) (IR) 3 N LV modal (22) 3 LV asp. durativa (23) 2 (24) 6 (25) 2 (26) 2 (27) 3 LV asp. durativa (28) 2 contra-seqüencial (29) 3 (30) 3 (31) 3 (32) 3 (33) 3 (34) 3 (2 unidades - crit. mater. ling, interposto) (35) 7 (36) 6 (37) 3 ser-P (38) 3 (39) (IR) 3 acho que-D (falta de comprom.do falante) (40) 3 (41) 2 ei^sei-D (retom. Figura) esçuta_só-(busca envolv. do ouvinte) 229 (42) (IR) 1 N (43) 3 ênf./cliv. (44) 3 (45) 3 ser- P (46) 1 ser-P (47) (IR) I num sei-D (falta de comp. do falante) (48) 3 LV asp. inceptiva + durativa (49) 3 ser-P (50) 3 LV asp. inceptiva + durativa (51) 1 ser-P (52) 3 LV asp. inceptiva + durativa idiom. (53) 3 (2 unidades - crit. mat. ling, interposto) (54) 7 (55) 6 idiom. (56) 6 (57) 3 (58) 3 ser-P (59) 3 (60) 3 (61) 3 (62) 2 (63) 2 (2 unidades - crit. Ins. sujeito) (64) 6 (65) 2 (66) 2 (67) 2 (68) 2 (69) 3 (70) (IR) 3 N (71) 2 (72) (IR) 2 sabe-D (b. env. do ouv.) sei lá-D (f. de comp.) (est. altem.) (73) 2 (74) 2 (75) 3 (76) 3 (77) 3 (78) 3 ^ olhci-D (husca de env. do ouv.) (2 linid.— crit. ins. sujeito) (80) 6 (SI) (IR) 8 (82) 3 (83) 3 (84) 3 (85) 6 (86) 3 (87) 3 (S8) 2 Ó-D (forma reduzida de olha- busca da atenção do ouvinte) (89) (IR) 8 (90) 2 cu sei quc-D (retomada dc eventos da Figura) (91) 3 (92) 2 achar-P (93) (IR) 5 N (94) 2 (95) 3 (96) 2 2 cu sei que-D (marcador de Figura) imagina-D (b. dc env. do ouv.) (99) 2 (100) 2 (101) 2 230 (102) 3 (103) 1 (104) 2 contra-seqüencial (105) 3 (106) 2 (107) 2 (108) 2 (109) 2 (2 unidades - crit. ins. sujeito) (110) 6 (111) 2 (112) 2 (113) 2 NARRATIVA 7 - MALDADE (01) 6 ser-P (02) 3 ser-P (est. aband.) (03) 2 LV asp. durativa (04) 2 (05) (IR) 1 at. N (06) 1 at. entendeu cum'é que é-D (busca de envolv. do ouvinte) (07) 1 at. (08) 2 (09) 2 (10) 2 (11) 2 (12) 2 (13) 2 (14) I at. ser-P (15) 2 (16) 2 (17) 2 (18) 2 (est. globalizante) (19) 2 (20) 2 (21) 2 contra-seqüencial (22) 2 idiom. (23) 2 (24) 2 P (26) (IR) 4 V. Futuro do Pretérito (27) 2 resumidora/avaliativa (28) 3 saber-P (flexão) (29) 3 ser-P (30) 1 at. (31) 1 at. (32) 1 at. ser-P (33) (IR) 1 at. N (34) 1 at. ênf./cliv. (35) (IR) 1 at. N (36) 2 resumidora/avaliativa 231 NARRATIVA 8 - PIANO (01) 2 (02) 2 (est. aband.) (03) 2 (04) 6 (05) (IR) 2 N (2 unidades - crit. ins. sujeito) (06) 6 (07) 2 (08) 3 (09) 1 at. (10) 1 at. (11) 3 (12) 3 (13) (IR) 3 N (14) (IR) 3 N (15) 3 LV asp. durativa (16) 3 (17) 3 (18) (IR) 3 N sabe-D (busca de envolv. do ouvinte) (19) 3 (20) (IR) 3 N (21) 2 (22) 3 (23) 2 (24) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito (25) 6 (26) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito (27) 6 (28) 6 (29) 2 (30) 2 sabe-D (busca de envolv. do ouvinte) (31) 3 (32) 2 (33) 2 (34) (IR) 8 LV modal V. Imperativo (35) 3 (36) 3 sabe-D (busca de envolv. do ouvinte) (37) 3 ser-P (38) (IR) 9 N (39) 6 (40) 3 (41) 7 (42) 7 sabe-D (busca de envolv. do ouvinte) (43) 3 (44) 3 (45) 1 at. (46) 3 (47) 3 (est. aband.) (48) 3 (49) 3 ser-P (50) 3 (51) 2 (52) (IR) 8 LV modal V. Imperativo (53) I (54) (IR) 8 LV modal V. Imperativo (55) I at. ser-P (56) I at. 232 (57) (IR) 6 N LVcisp. durativa ênf./cliv. (58) 6 (59) 1 (60) 1 (61) 6 (62) 6 (63) 6 (64) 2 scr-P sabc-D (busca de envolv. do ouvinte) (65) 3 (66) 2 (67) 2 (68) 2 (69) 3 (70) (IR) 3 N (71) 3 (72) (IR) 6 N (73) 2 LV asp. inceptiva (74) 6 (75) 3 (76) 5 cê acredita-D (contato com o ouvinte) (77) (IR) 2 N (2 unidades - crit. de ins. de sujeito) (78) (IR) 6 N (79) 6 (80) 2 NARRATIVA 9 - IRMÃ DE CARIDADE (01) (IR) 3 N eu sei que-D (introdutório) (02) 3 ser-P (03) 3 (04) (IR) 9 sabe-D (busca de envolv. do ouvinte) (05) 3 (06) 3 (2 unidades- crit. de mater. ling, interposto) (07) 6 (08) 6 (09) 3 (10) 3 (11) 6 (12) 3 (13) 7 (14) 7 (15) (IR) 9 (16) 3 sabe-D (busca de envolv. do ouvinte) (17) 3 LV asp. durativa (18) 3 (19) 1 at. (20) 1 at. ser-P (21) 3 ser-P (22) 3 ser-P (23) 2 contra-seqüencial (24) (IR) 9 ênf./cliv. (25) 3 (2 unidades-crit. ins. de sujeito) (26) (IR) 9 contra-seqüencial (27) 2 cliv./ênf. (28) 3 (29) 3 LV asp. durativa (30) 5 (31) 6 233 (32) 2 (33) 6 (34) 2 (35) 6 (36) 2 (37) 3 (38) 3 (39) 3 (40) 3 ser-P (41) 3 (42) 2 Voz passiva (43) 2 LV asp. durativa (44) 3 LV asp. durativa (45) 3 (46) 3 (47) 3 (48) 2 (49) 2 (50) 2 (51) 2 viu (busca de contato com o ouvinte) (52) 2 quer dizer-D (reforniulador) (53) 2 (54) 2 (pequenas reformulações, inversões, reparos) (55) 3 (56) 2 (2 unidades- crit. ins. de sujeito) (57) 6 (58) 2 (2 unidades- crit. ins. de sujeito) (59) 6 (60) 2 (2 unidades- crit. ins. de sujeito) (61) 6 (62) 2 (63) 2 (64) 3 (65) 3 (2 unidades- crit. de matar. ling, interposto) (66) 6 repetição asp. iterativa (67) 3 ênf./cliv (68) 7 (69) 3 (70) 3 LV asp. inceptiva (71) 3 (72) 2 contra-seqüencial (73) 10 (74) 2 (2 unidades- crit. de mater. ling, interposto) (75) 2 (76) 2 (77) (IR) 9 (78) 6 (79) 6 (80) 6 (81) 3 (82) 2 (83) 2 repetição asp. iterativa (84) 2 LV asp. iterativa/progressiva repetiçüo asp. iterativa (85) (IR) 3 N (86) 3 (87) (IR) 9 (88) 6 (89) 3 (90) (IR) 3 234 (91) 7 (92) (IR) 2 N (93) (IR) 3 N (94) 3 (95) 3 (96) (IR) 3 N (97) 2 idiom. est. asp. globalizantc (98) 5 (99) 3 (100) 2 ÒOl) 2 idiom. (102) 2 est. asp. globalizantc (103) (IR) 4 N LV V. Futuro (104) 2 (105) 2 (106) (IR) 4 V. Futuro (2 unidades- crit. ins. de sujeito) (107) 6 (108) 2 contra-seqüencial (2 unidades-crit. ins. de sujeito) (109) 6 (HQ) 6 (111) (IR) 2 N (est. aband) (112) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito (113) 2 (114) 2 (est. globalizntc) (115) 2 (116) 2 (117) 2 (118) 2 repetição aspectual durativa (119) 2 (120) 5 (121) (IR) I (122) I at. -ML-P (123) (IR) 4 K Futuro (124) I at. ser-P (125) 2 (126) 6 (127) (IR) I N sahe-D (busca do envolv. do ouvinte) (128) (IR) 2 N (129) 2 (130) 2 (131) 2 olha aqui-D (busca da atenção do ouvinte) (132) 2 (133) 2 (134) (IR) I at. N ^-P (135) 1 at. ^-P (136) (IR) I at. N ^-P (137) 2 (138) 2 .sahe-D (busca do envolv. do ouvinte) (139) 2 (140) 2 (141) 2 (142) (IR) 2 N (143) (IR) 2 N (144) 2 cliv./cnf. (pequenas reformulações, inversões, reparos) (145) (IR) 4 N LV V. Futuro do Pretérito (146) (IR) 2 N (147) 2 (148) 2 (149) 2 (150) 6 235 NARRATIVA 10 - PRESENTE (01) (02) (03) (04) (05) (06) (07) (08) (09) (10) (11) (12) (13) (14) (15) (16) (17) (18) (19) (20) (21) (22) (23) (24) (25) (26) (27) (28) (29) (30) (31) (32) (33) (34) (35) (36) (37) (38) (39) (40) (41) (42) (43) (44) (45) (46) (47) (48) (49) (50) (51) (52) (53) (54) (55) (56) (IR) (IR) (IR) (IR) (IR) (IR) (IR) (IR) 3 2 2 2 7 7 7 3 2 9 3 3 3 2 2 2 6 3 7 1 1 2 3 2 3 5 2 2 8 2 2 2 2 5 (í 6 2 3 6 3 3 6 2 3 2 5 2 2 6 6 1 3 / 3 / 5 N LV moda! N LV modal at. at. N N at. at. N (2 unidades- crit. mat. ling. Interposto) ser-P LV asp. durativa (2 unidades- crit. ins. de sujeito) saber-P saber-P ser-P achar-P (2 unidades- crit. ins. de sujeito) (2 unidades- crit. ins. de sujeito) contra-seqüencial LV. asp. inceptiva lembrar-P ser-P idiom. 236 (58) 3 ser-P (59) (IR) 5 N (60) 2 contra-seqüencial (2 unidades- crit. ins. de sujeito) (61) 6 (62) 6 (63) (IR) 5 N (64) 3 (65) 2 Voz passiva contra-seqüencial V. asp. Completive (66) 3 (67) 7 (68) 3 (69) 7 (70) (IR) 2 N contra-seqüencial (71) (IR) 5 N (72) 2 cliv./ênf. (73) 2 (74) 2 LV asp. inceptiva (75) 2 (76) 2 LV asp. itcrativa NARRATIVA \\-PONTE (01) 1 at. ser-P (02) 3 cliv./ênf. (03) 2 (04) 2 (05) (IR) 3 N (06) 2 (07) (IR) 3 N (08) (IR) 3 LV modal (09) 3 ser-P (10) 3 LV asp. durativa (11) 2 (12) (IR) 1 N (13) I (14) 3 ser-P (15) 3 ser-P (16) 2 ser-P (17) 2 (18) 2 (19) 2 (20) 3 (21) 3 (22) 2 (est. aband.) (23) 2 (24) 2 cliv./ênf. (25) 2 NARRATIVA 12 - BOM DE LEITURA (01) 3 (02) (IR) 3 N (2 unidades- crit. ins. de sujeito) (03) 6 (04) 3 (05) 3 (06) 3 (07) 3 (2 unidades- crit. ins. de sujeito) (08) 6 (09) 2 (10) 3 LV asp. progressiva (11) 2 (12) I at. (13) (IR) 8 (14) 2 (15) 2 (16) (IR) 2 diz que (falta de comprem, do falante) (17) 2 (18) 3 (19) 2 (20) 2 NARRATIVA 13 - FERNANDO SABINO (01) 2 ênf./cliv. (est. aband.) (02) 6 (03) 3 acontece - D ênf./cliv. (04) (IR) 3 LV modal (05) 3 (06) 3 (07) 3 (08) 3 (09) 3 (10) (IR) 3 N (11) 3 (12) (IR) 3 N (13) 3 (14) 3 (15) 3 ser-P é-hesit. (16) 3 (17) 3 ênf./cliv. (18) 2 aconteceu que-D (retomada da Figura) (19) 3 (20) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito (21) (IR) 4 V. Futuro do Pretérito parece que-D (f. de comprom. falante) (22) 3 ser-P (23) 3 ser-P (24) 2 (25) 2 (26) 2 qiié dize-D (organizador/explicaivo) (27) 2 (28) 3 (2 unidades- Crit. ins. sujeito) (29) 6 (30) 2 (31) 6 (32) 3 o que acontece é que- D (est. aband.) (33) 1 at. ser-P (34) 1 at. (35) 1 at. ser-P (36) 1 at. (37) 1 at. (38) 3 (39) 3 repetição asp. iterativa (+ prefixo asp. iterativo) 238 (40) (41) (42) (43) (44) (45) (46) (47) (48) 3 5 3 3 3 3 7 7 1 at. (49) (50) (51) (52) (53) (54) (55) (56) (57) (58) (IR) (59) (60) (61) (IR) (62) (63) (64) (65) (66) (67) (IR) (68) (69) (70) (71) (72) (73) (74) (75) (76) (IR) (77) (78) (79) (IR) (80) (81) (82) (83) (84) (85) (86) (87) (IR) (88) (IR) (89) (90) (91) (92) (93) (94) (95) (96) (IR) (97) (IR) (98) (99) N N N 2 3 3 3 3 3 3 3 2 3 3 3 3 3 3 2 2 2 2 2 3 2 1 N 3 3 1 N 2 7 2 2 2 1 3 3 3 2 2 2 2 2 2 2 3 3 3 2 N N LV asp. durativa/progressiva ser-P 2 2 (IR) 2 N 2 (IR) 2 N LV modal (idiom.) LV asp. progressiva ser-P ser-P ser-P ser-P V. Futuro do Pretérito ser-P resumidora cliv./ênf. lembrar-D LV inceptiva ser-P ser-P I lembrar-P ser-P ser-P lembrar-P LV asp. inceptiva resumidora/avaliativa (est. globalizante) cu sei que-D N LV asp. inceptiva sabe-D (contato com o ouvinte) lembrar-P ser-P eu lembro que-D LV asp. inceptiva + durativa resumidora/avaliativa parece que-D (falta de comprom.) (est. aband.) LV asp. inceptiva + durativa (2 unidades-crit. mat. ling, interposto) 239 (100) 7 (101) 7 (102) 7 (103) 2 LV asp. inceptiva (104) 2 resumidora/avaliativa (105) 2 cliv./cnf. (106) 2 scr-P resumidora/avaliativa (107) 3 (108) 6 (109) (IR) 4 V. Futuro do Pretérito (110) (IR) 4 N V. Futuro do Pretérito (111) (IR) 3 parece que-D (falta de comprom. do falante) (112) (IR) 3 N (113) (IR) 3 qué dize-D (organizador/explicativo) (114) (IR) 3 N (115) (IR) 3 N (116) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito (117) 3 (118) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito (119) 3 ser-P (120) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito (121) 2 (2 unidades- crit. mat. ling, interposto) (122) 7 (123) 3 (124) 3 parecer-P (125) 2 (126) 2 (127) (IR) 4 N LV V. Futuro do Pretérito (idiom.) (128) 2 (129) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito cliv./ônf. (130) I at. (131) 3 (132) (IR) 3 num sei-D (falta de comnrom. do falante) (133) 5 (134) 3 (135) (IR) 3 N (136) 2 (idiom.) (2 unid. - crit. ins. sujeito) (137) 6 (138) 2 (139) 3 (140) (IR) I at. .ser-P quem sahe-D (incerteza} (141) 2 est. asp. globalizante (142) 2 (143) (IR) 1 N esquecer-P (144) 2 (145) 2 (est. aband.) (146) (IR) 1 at. N çumé_3ueé (organizador do discurso) (147) I at. ser-P (148) I at. ênf./cliv. (149) 3 é-hesitação (150) 3 (151) 3 (152) I at. (153) 2 açonteçe-D (retomada da Figura) (154) 2 (155) I ser-P (156) 2 LV asp. inceptiva + durativa (est. aband.) (157) 2 repetição asp.durativa (158) 2 LV asp. durativa (159) 2 240 160) 2 LV asp. diirativa 161) 2 162) (IR) 2 N LV asp. temiinativa 163) 2 LV asp. terminativa 164) / aí. ser-P 165) 2 166) (IR) I cit. N ser-P 167) 2 168) 6 169) (IR) 8 170) 3 171) 2 172) 2 173) (IR) 4 LV V. Futuro 174) 2 est asp. globalizante 175) 6 176) (IR) 1 N lembrar-P (est. neg.) (est. aband.) 177) 3 só sei que-D 178) 3 179) 3 180) 5 181) (IR) 4 V. Futuro do Pretérito LV modal num sei o quê-D (f. de comprem.) 182) 3 183) 3 184) 2 eu lembro que (retomada da Figura) (185) 3 (186) 3 (187) (IR) 1 at. num sei-D (falta de comprom. do falante) (188) 1 at. cliv./ênf. (189) 3 (190) 3 (191) 3 (192) 3 (193) 3 ser-P (194) 3 ser-P (195) (IR) 3 N (est. aband.) (196) 3 ser-P (197) 1 at. ser-P (198) 1 at. ser-P (199) I at. ser-P (200) 2 (201) 2 eu lembro que-D resumldora/avallativa (202) 3 LV asp. durativa (203) 2 (204) 2 (205) 3 (206) (IR) 2 sabe-Dícontato com o ouvinte) quase (207) 2 (208) 2 (209) 3 LV asp. progressiva eu lembro que-D (210) 7 (211) 1 at. (212) 1 at. (213) 3 ser-P (214) 7 (215) 1 aí. (216) 2 (217) 10 (218) 2 olha-D (busca da aíenção do ouviníe) (219) 2 241 (220) 2 (221) (IR) 2 num sei quô-D (falta de compram, do falante) (222) 2 LV asp. durativa (223) 5 (224) 2 (225) 2 (226) 2 (227) 2 (228) 2 contra-seqüencial (229) 2 (230) I ser-P (231) 2 (232) 3 (233) 5 sabe-D (busca de envolv. do ouvinte) (234) 2 eu sei qiie-D (retomada da Figura) (235) 2 (236) 2 (237) 2 (238) 6 (239) 2 (240) 2 (241) I at. ser-P (242) 2 (243) 2 LV asp. incetiva + durativa est. asp. globalizante (244) 6 repetição asp. iterativa (245) (IR) 1 LV modal Asp. perf. eu acho que-D (falta de comprom.) (246) (IR) 1 LV modal Asp. perf. (247) 2 (248) 2 (249) (IR) 9 (250) 6 (251) (IR) 8 (252) I (253) 2 ser-P (254) 2 ser-P (255) 3 LV asp. progressiva (256) 3 LV asp. progressiva (257) 5 (258) 2 (259) 5 (260) 5 (261) 10 (262) 2 (263) / LV asp. progressiva (264) 2 (265) 2 (266) (IR) I at. ser-P (267) 2 (268) 2 (269) 1 at. ser-P (270) I at. ser-P (271) 2 (est. aband.) (272) 2 (273) 2 (est. aband.) (274 (IR) I N (275) 2 (276) (IR) 3 num sei onde, num sei quê-D (falta de comp.) (2 unid- Crit. mat. ling.) (277) 7 (278) 2 contra-seqüencial 242 (279) 1 at. cliv./ênf. (280) 1 at. ser-P (281) 1 at. (282) 1 at. ser-P (283) 2 achar-P (284) 2 contra-seqüencial (285) 2 (286) I LVasp. progressiva (287) (IR) IN (2 unidades- cril. ins. sujeito) (288) 6 Voz passiva (289) I LV asp. inceptiva (290) I at. (291) 6 (292) 2 (293) (IR) I LV modal (294) 2 (295) 2 (296) (IR) 3 num sei-D (falta de comprom. do falante) (297) 2 sabe-D (busca de envolv. do ouvinte) (298) 1 at. sabe-D (busca de envolv. do ouvinte) (299) 2 (300) (IR) I LV modal (301) 2 LV durativa/repetitiva (302) (IR) 3 N saber-P (flexão e neg.) (303) 6 (304) (IR) 4 LV V. Future do Pretérito (305) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito (306) 3 (2 unidades- crit. ins. sujeito) cliv./ênf. (307) 6 (308) (IR) 9 (309) (IR) 3 N (310) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito (311) (IR) 4 LV V. Futuro do Pretérito (312) (IR) 5 N (313) 6 (314) 5 (est. abandon.) (315) (IR) 3 N (316) 3 (2 unidades-crit. ins. sujeito) (317) (IR) 9 (318) 2 (319) (IR) 2 acho que, num sei-D (falta de comprem, do falante) (320) 2 resumidora/avaliativa sabc-D (busca de envolv. ouvinte) (321) (IR) 2 N (2 unidades-crit. ins. sujeito) (322) 6 (323) 2 (324) 2 resumidora/avaliativa (325) 2 ser-P resumidora/avaliativa 243