Renato Felipe de Oliveira Romano Hamartigenia, de Aurélio Prudêncio Clemente: comentário, tradução e notas Belo Horizonte 2017 Renato Felipe de Oliveira Romano Hamartigenia, de Aurélio Prudêncio Clemente: comentário, tradução e notas Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Estudos Literários: Estudos Clássicos e Medievais da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Estudos Literários. Área de concentração: Literaturas Clássicas e Medievais. Linha de pesquisa: Literatura, História e Memória Cultural. Orientadora: Profa. Dra. Sandra Maria Gualberto Braga Bianchet. Belo Horizonte 2017 AGRADECIMENTOS Para a realização desta pesquisa sou grato, de modo especial, à profa. Sandra Maria Gualberto Braga Bianchet, por sua orientação paciente e generosa; ao sr. William Claspy, diretor-bibliotecário da Kelvin Smith Library, da Case Westerns Reserve University, que me pôs à disposição prontamente o estudo introdutório da tradução de J. Stam, e ao prof. Roberto Palla, docente de Literatura Cristã Antiga da Università di Macerata, por me ter enviado gentilmente, e sem custo, cópia do seu livro já esgotado. Aos familiares e amigos, pelo apoio e pela paciência. Aureli Clemens Prudenti, dic mihi, quaeso, quis te tam durus misit in exilium? Aelii Antonii Nebrissensis ad Prudentium ex Britannis reducem La envidia de la virtud hizo a Caín criminal. ¡Gloria a Caín! Hoy, el vicio es lo que se envidia más. Antonio Machado, “Proverbios y Cantares”, X LAVS DEO RESUMO Este trabalho tem o propósito de apresentar a tradução em língua portuguesa do poema Hamartigenia, de Aurélio Prudêncio Clemente (348-c. 405 d.C.), acompanhada tanto de notas filológicas e explicativas, como de comentários sobre seus temas basilares, a saber: a unidade de Deus, a heresia marcionita, a origem do pecado, o demônio como autor e incitador do mal, a criação antes e depois da queda do homem, os vícios e o destino da alma humana. No campo dos estudos de literatura comparada, são analisados as fontes literárias e bíblicas e os ecos de escritores antigos, pagãos e cristãos, presentes no poema, a fim de deixar claro o modo como Prudêncio se insere na tradição da poesia latina. Partindo do pressuposto de que a obra se enquadra no gênero didático, discutimos as características principais desse gênero e a presença de elementos satíricos, épicos e pastorais no poema. Palavras-chave: Prudêncio; poesia latina cristã; poesia didática. ABSTRACT The objective of this work was to present a translation to Portuguese of the poem Hamartigenia by Aurelius Prudentius Clemens (348-c.405 AD). Philosophical and explanatory notes were added, as well as commentaries on the poem’s basic themes, namely: the unity of God, the heresy of Marcion, the origin of sin, the demon as author and instigator of evil, Creation prior to and after the Fall of man, the vices and destiny of the human soul. In the field of comparative literature, one also analyzed the poem’s literary and biblical sources, as well as the echo of ancient pagan and Christian writers, in order to clarify how Prudentius inserts himself into the Latin poetry tradition. Considering the fact that Prudentius’ poem may be classified as Latin didactic poetry, this work discussed not only the main characteristics of this genre, but also the pastoral, epic and satiric elements of the poem. Key words: Prudentius; Christian-Latin Poetry; Didactic Poetry. SUMÁRIO 1. ABREVIATURAS................................................................................................................ 8 2. PREFÁCIO......................................................................................................................... 14 3. INTRODUÇÃO.................................................................................................................. 18 4. HAMARTIGENIA.............................................................................................................. 26 4.1. Considerações sobre o gênero didático.............................................................. 26 4.2. Fontes literárias cristãs e pagãs......................................................................... 33 4.2.1 Sagrada Escritura e escritores cristãos.................................................... 33 4.2.2 Escritores pagãos..................................................................................... 36 4.3. A retórica a serviço do poeta.............................................................................. 37 4.4. Texto original anotado e tradução .................................................................... 41 5. COMENTÁRIOS TEMÁTICOS.................................................................................... 122 5.1. Praefatio.............................................................................................................. 122 5.2. O diteísmo de Marcião e os argumentos em prol da unidade de Deus......... 127 5.2.1. Caracterização de Marcião................................................................... 127 5.2.2. Os argumentos contra o diteísmo de Marcião...................................... 129 5.2.3. Exposição do diteísmo marcionita........................................................ 132 5.3. A Criação: corruptio boni..................................................................................133 5.3.1. Deus uno fez todas as coisas boas no princípio.....................................133 5.4. A origem do mal e caracterização e natureza do diabo..................................134 5.4.1 O diabo, autor do mal.............................................................................134 5.4.2 Caracterização e descrição física do diabo.............................................135 5.4.3. Transformação do diabo........................................................................136 5.5. O homem: criação, corrupção e vícios.............................................................139 5.5.1. A corrupção do homem e da Criação pelo pecado................................139 5.5.2. Os vícios da mulher e do homem..........................................................141 5.5.3. Corrupção dos sentidos e elogio da moderação....................................142 5.6. A alma humana: natureza, dignidade e livre-arbítrio................................... 143 5.7. Os destinos da alma: céu ou inferno................................................................ 149 5.8. Prece final........................................................................................................... 152 6. CONCLUSÃO.................................................................................................................. 154 7. REFERÊNCIAS............................................................................................................... 156 8 1. ABREVIATURAS 1.1 Abreviaturas dos nomes próprios de autores e de obras1 AMBR. = AMBRÓSIO Cain De Cain et Abel Apol. Dav. 1 Apologia prophetæ David ad Theodosium Augustum Inst. virg. De institutione virginis Hex. Hexameron libri 6 Psalm. Enarrationes in psalmos 12 Abr. De Abraham Vid. De viduis AMM. = AMIANO MARCELINO APUL. = APULEIO M. Metamorphoseon lib. 11 Socr. De deo Socratis Mund. De mundo PS. APUL. = PSEUDO-APULEIO Ascl. Trismegistus vel Asclepius ARN. = ARNÓBIO Disputationes adversus nationes AUG. = AGOSTINHO Civ. De civitate Dei. Ep. Parmen. Contra epistolam Parmeniani Nat. Grat. De natura et gratia Serm. Sermones 201 Psalm. Enarrationes in psalmos Hept. Quaestiones in heptateuchum Fort. Contra Fortunatum Conf. Confessionum libri 13 Corrept. De correptione et gratia PS. AUG. = PSEUDO-AGOSTINHO 1 Para o estabelecimento das abreviaturas dos nomes dos autores e das obras, nos baseamos sobretudo no Dictionnaire illustré latin-français, de Felix Gaffiot, 1934 9 Cogn. De cognitione verae vitae AUS. = AUSÔNIO Ephem. Ephemeris Pasch. Versus Paschales CASS. = CASSIODORO Psalm. Expositio psalmorum CATUL. = CATULO CIC. = CÍCERO Att. Epistulae ad Atticum Nat. De natura deorum Domo De domo sua ad pontifices Tusc. Tusculanae disputationes Prov. De provinciis consularibus Opt. De optimo genere oratorum Com. Pro Q. Roscio comoedo CLAUD. = CLAUDIANO Eutr. In Eutropium Epist. Epistulae Ruf. In Rufinum Prob. et Olybr. Panegyricus in Probini et Olybrii consulatum 3 Cons. Hon. De tertio consulatu Honorii 4. Cons. Hon. De quarto consulatu Honorii Cons. Stil. De consulatu Stilichonis Pros. De raptu Proserpinae Cons. Theod. De consulatu Fl. Mallii Theodori Get. De bello Getico FORT. = FORTUNATO CARM. Carmina FRONTO = CORNÉLIO FRONTÃO Ep. ad M. Caes. Ad M. Caesarem FULG. RUSP. = FULGÊNCIO Ad Petr. De fide ad Petrum seu de regula fidei GEL. = AULO GÉLIO Noctes Atticae 10 HIER. = JERÔNIMO Ep. Epistulae Vita Malchi Vita Malchi Phil. Comm. in epistulam Pauli ad Philemonem HIL. PICT. = S. HILÁRIO Matth. In evangelium Matthaei Psalm. Tractatus super psalmos HOR. = HORÁCIO O. Odarum seu carminum libri Epo. Epodon liber Ep. Epistulae P. De arte poetica S. Satirae IREN. = IRINEU DE LION Irenaei interpres (tradução latina de S. Irineu) ISID. = ISIDORO DE SEVILHA Etym. Etymologiarum libri JUVENC. = JUVENCO De historia evangelica Gen. Liber in Genesin JUV. = JUVENAL Saturae LUCR. = LUCRÉCIO De Rerum Natura LACT. = LACTÂNCIO Inst. Divinarum institutionum libri 7 Opif. De opificio Dei LUC. = LUCANO Pharsalia MANIL. = MANÍLIO Astronomica MART. = MARCIAL Epigrammata MINUC. = MINÚCIO FÉLIX 11 Octavius OV. = OVÍDIO P. Ex Ponto epistulae Ars Ars amatoria M. Metamorphoseon libri 15 F. Fasti H. Heroides ou Epistulae Tr. Tristia Ib. Ibis Rem. Remedia amoris PS. OV. = PSEUDO-OVÍDIO Cons. Liv. Consolatio ad Liviam Augustam de morte Drusi Neronis P. NOL. = PAULINO DE NOLA Carm. Carmina PERS. = PÉRSIO Saturae PL. = PLAUTO Truc. Truculentus PLIN. = PLÍNIO ANTIGO Naturalis historia PRUD. = PRUDÊNCIO Apoth. Apotheosis Cath. Cathemerinon liber Ditt. Dittochaeon Epil. Epilogus Ham. Hamartigenia Perist. Peristephanon liber Proœm. Proemium ou Praefatio (das obras) Psych. Psychomachia Symm. Contra Symmachum QUINT. = QUINTILIANO Inst. De institutione oratoria SALL. = SALÚSTIO H. Historiarum fragm. 12 SEN. = SÊNECA Oed. Oedipus Ben. De beneficiis Ep. Epistulae ad Lucilium Phaedra Phaedra Dialogi Med. Medea SERV. = SÉRVIO En. Comentário sobre a Eneida SIL. = SÍLIO ITÁLICO Punica STAT. = ESTÁCIO S. Silvae Th. Thebais Ach. Achilleis SULP. SEV. = SULPÍCIO SEVERO Chron. Chronici TERT. = TERTULIANO Marc. Aduersus Marcionem Virg. De virginibus velandis Cult. De cultu feminarum Spect. De spectaculis Apol. Apologeticus AQUIN. = TOMÁS DE AQUINO Mt. Catena in Matthaeum VAL. MAX. = VALÉRIO MÁXIMO VAL. FLACC. = VALÉRIO FLACO Argonautica VERG. = VIRGÍLIO A. Aeneis (Eneida) Ecl. Eclogae ou Bucolica G. Georgicae (Geórgicas) VULG. = VULGATA 13 1.2 Abreviaturas dos livros bíblicos citados Ap Apocalipse At Atos dos Apóstolos Cl Colossenses 1 Cor 1 Coríntios 2 Cor 2 Coríntios Dn Daniel Dt Deuteronômio Ecl Eclesiastes Ecle Eclesiástico Ef Efésios Ex Êxodo Ez Ezequiel Fp Filipenses Gl Gálatas Gn Gênesis Heb Hebreus Is Isaías Jr Jeremias Js Josué Jo João Lc Lucas 2 Mc 2 Macabeus Mc Marcos Mt Mateus Nm Números 1 Pd 1 Pedro 2 Rs 2 Reis 4 Rs 4 Reis Rm Romanos Rt Rute Sb Sabedoria Sl Salmos 2 Sm 2 Samuel 1 Tm 1 Timóteo Tb Tobias 14 2. PREFÁCIO A presente dissertação tem por objeto a tradução do poema Hamartigenia, de Aurélio Prudêncio Clemente, acompanhada de uma anotação comentada e de uma introdução ao autor. Diversas são as razões que se poderiam aduzir para justificar a escolha desse objeto, mas é suficiente mencionar duas: uma delas é a importância da poesia de Prudêncio para o conhecimento das letras latinas antigas e cristãs; a outra reside no ineditismo da tradução em vernáculo. Os autores latinos que escreveram entre os séc. III e VI da era cristã parece que habitam um limbo acadêmico em língua portuguesa. Não é nosso propósito inquirir dos motivos e razões por que se chegou a este estado de coisas. Constata-se, no entanto, uma escassez bibliográfica sobre esses autores, entre os quais se encontra Prudêncio, pertencentes ao período histórico-literário que se costuma chamar de Antiguidade Tardia ou Baixo Império. Uma verdadeira história das ideias e das formas literárias produzidas em língua latina não pode ignorar a importância dos escritores cristãos e pagãos que floresceram nos últimos séculos do Império Romano do Ocidente. Ao optarmos pelo estudo e tradução de um poema de Aurélio Prudêncio Clemente, desejamos colaborar no resgate da latinidade tardia, chamada também de “pós-clássica”, às vezes com anacrônico desprezo renascentista2. A obra escolhida foi o poema didático Hamartigenia, em português A Origem do Pecado, cujo argumento, de teor filosófico e teológico, como o nome indica, trata da origem do mal (moral e metafísico), discorrendo acerca da unidade de Deus contra o diteísmo de Marcião e acerca do livre-arbítrio da alma humana. Com relação às traduções da poesia prudenciana em língua portuguesa, consta-nos apenas a do livro Cathemerinon, produzida pelo falecido prof. Homero Osvaldo Machado Nogueira, da Universidade de São Paulo, então em grau de mestrado3. À parte isso, existe, ora em antologias, ora em pesquisas acadêmicas, uma ou outra tradução de seletas de hinos4, prólogos e trechos dos poemas didáticos, sobretudo do referido livro Cathemerion, em virtude não apenas do seu alto valor poético, senão também do destino litúrgico que lhe foi reservado: 2 Aderimos às palavras de Jacques FONTAINE (1984, p. 197), no esforço de valorização da Antiguidade Tardia em face do “classicismo”: La notion d'Antiquité classique demeure valable, si elle désigne les civilisations grecque et romaine pour les distinguer des Antiquités orientales de l'Égypte pharaonique et du Moyen-Orient asiatique. Elle devient beaucoup plus ambigüe si elle privilégie les deux siècles qui s'articulent autour du règne d'Octave Auguste, en stigmatisant implicitement d'archaïques et de décadents les siècles qui les ont respectivement précédés et suivis. Notre siècle nous a appris à respecter le pluralisme des goûts, artistiques et littéraires, dans le temps et l'espace du monde actuel. Comment n'eût-il pas, logiquement, redécouvert l'importance et la valeur des créations littéraires de l'Antiquité tardive? (“Postclassicisme, Antiquité tardive, Latin des chrétiens: L'évolution de la problématique d'une histoire de la littérature romaine du IIIe au IVe siècle depuis Schanz”. In: Bulletin de l'Association Guillaume Budé, n. 2, julho de 1984, pp. 195-212). 3 NOGUEIRA, Homero Osvaldo Machado. O Cathemerinon Liber, de Prudêncio: introdução, tradução e notas, 1981. Mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo. 4 Cf. a dissertação do prof. Francisco de Assis Florêncio, Os Seis Primeiros Hinos do Cathemerinon Liber, 2001, Departamento de Letras Clássicas, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 15 versos dos dois primeiros hinos entraram na composição do Ofício Divino, ou Breviarium Romanum, da Igreja Católica5. Em outros idiomas, a obra poética de Prudêncio já se encontra traduzida integralmente. Interessa-nos, no entanto, o poema Hamartigenia, cuja primeira tradução integral foi feita por J. STAM (1940), em língua inglesa, com anotações e comentário; a ela sobreveio a de H. J. THOMSON (1949), pela Loeb Classical Library, e depois a de M. LAVARENNE (1961), pela Société d'Édition Les Belles Lettres; em seguida, saíram à luz, no mesmo ano, a de A. ORTEGA (1981), pela Biblioteca de Autores Cristianos6, e a de R. PALLA (1981), edição que, seja pela profusão de notas, seja pela erudição dos comentários, nos parece definitiva; a última tradução de que temos notícia foi feita por M. A. MALAMUD (2011), em inglês, também com notas e comentários7. Dito isso sobre dois dos motivos que nos levaram a optar pelo objeto desta dissertação, passamos a expor o método e os critérios adotados para realizá-la. Quanto à tradução do poema, pioneira em língua portuguesa, segunda em verso entre as traduções de Hamartigenia8, é a primeira que procura manter a correspondência, verso a verso, com o texto latino. Procuramos reproduzir na língua de chegada os diversos recursos poéticos da língua de partida. Que os tradutores anteriores escolhessem, em geral, verter em prosa Hamartigenia, é compreensível: sendo um poema didático, tem caráter discursivo e expositivo, e por isso, embora escrito em verso, quadra bem à prosa. Não cremos que os tradutores de Prudêncio, ao optar pela tradução em prosa, pretendessem tirar-lhe a condição de poeta, como fez Aristóteles a Empédocles9: apenas talvez desejassem realçar o conteúdo dogmático, a argumentação e o discurso, tornando o texto mais facilmente compreensível em vernáculo, uma vez que a prosa, em virtude de sua ordem direta e de sua forma amplificada, proporciona uma leitura mais corrente. Os recursos poéticos, por outro lado, às vezes distraem o leitor para belezas formais, para sonoridades que nem sempre se percebe como aliadas ao que é expresso. Prudêncio, porém, sendo verdadeiro poeta, mesmo em suas obras mais dogmáticas e em seus momentos mais especulativos, usa desses recursos não apenas para causar prazer estético no leitor, senão também para realçar aspectos do discurso, conceitos, sentenças, pensamentos, e o faz tão frequentemente e de modo tão manifesto, que julgamos 5 Sobre o emprego dos versos do Hino I (Hymnus ad galli cantum) e do Hino II (Hymnus Matutinus) no Ofício Divino e sobre as adaptações por que passaram, cf. FLORÊNCIO, op. cit., pp. 24-25 e 35-37. 6 A primeira tradução publicada pela BAC foi feita por J. Guillén (Obras completas de Aurelio Prudencio, BAC, Madrid, 1950). 7 Além das citadas, existe a tradução para o catalão de Nolasc Rebull, com a colaboração de Miguel Dolç (Natura de Déu; Origen del pecat; Combat espiritual. Aureli Prudenci Clement. Barcelona: Fundació Bernat Metge, 1980) e a de Luis Rivero García, para o espanhol, publicada pela editora Gredos (Prudencio. Obras. Biblioteca Clásica Gredos, Madrid, 1997). Um rol das traduções da obra prudenciana, atualizado até a data de sua publicação, encontra-se em ORTEGA e RODRIGUEZ, Obras Completas de Aurelio Prudencio, 1981, pp. 71*-76*. 8 A primeira tradução em verso foi feita por MALAMUD (2011), mas muito afastada da ordem numérica dos versos latinos (o poema de 966 passou a conter 1290 na língua inglesa). 9 Poética, 1447b: “[...] tem-se o costume de nomear [como poetas] aqueles que expõem, por meio da métrica utilizada, uma questão médica ou científica; mas não há nada em comum entre Homero e Empédocles, exceto a métrica; eis por que designamos, por justiça, um de poeta, o outro de naturalista em vez de poeta.” (Poética. Tradução de Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34, 2015). 16 conveniente tentar reproduzi-lo numa tradução em versos, a fim de preservar o caráter poético do autor. Embora Prudêncio adote o senário iâmbico no Praefatio e o metro padrão do gênero didático, o hexâmetro, no poema, não adotamos na tradução um tipo de verso com métrica específica, mas o verso livre e sem rimas, para tentar espelhar o mais possível, linha por linha, o original. Às vezes mantivemos em português os termos do latim na mesma posição da frase, o que em algum momento pode ter redundado em inversões sintáticas excessivas, mas assim tentamos produzir na língua de chegada efeito semelhante ao do latim, em que não raro fica suspenso no entedimento do leitor um nome ou adjetivo, até que a frase se complete com o termo correspondente. Buscamos reproduzir as diversas aliterações, anáforas, repetições enfáticas, a fim de que o leitor tenha uma experiência verdadeiramente poética do texto. No que diz respeito às notas explicativas e filológicas do texto original e aos comentários temáticos, convém esclarecer o seguinte: embora desde o início do projeto já nos fosse conhecida a existência da tradução comentada de Hamartigenia feita pelo prof. Roberto Palla, da Universidade de Macerata, somente tomamos contato direito com a publicação no segundo ano da nossa pesquisa, graças ao próprio autor, que gentilmente nos enviou cópia do exemplar já esgotado10. A erudição filológica do trabalho do prof. Palla nos leva a crer que se trata de edição definitiva de Hamartigenia. Por isso, como se verá nas referências das nossas notas, nos baseamos sobretudo em PALLA (1981). Já a nossa tradução é muito menos anotada, dado o escopo limitado do mestrado. Adotamos, pois, o seguinte procedimento para estabelecê-la: a) mantivemos as notas de conclusões a que chegamos por nós mesmos com a leitura atenta do poema; b) acrescentamos às nossas notas algumas informações do prof. PALLA, com a devida menção, adequadas aos limites da dissertação; c) conferimos e reunimos, na maior quantidade possível, as referências literárias e bíblicas constantes da edição de THOMSON (1949), de LAVARENNE (1961), de CUNNINGHAM (1966) e de RODRIGUEZ e ORTEGA (1981), bem como acrescentamos as nossas próprias referências a partir da pesquisa em corpus de escritores latinos de diferentes períodos; d) consultamos e aproveitamos comentadores antigos, como HEINSIUS (1667), CHAMILLARD (1687), TEOLIUS (1788), ARÉVALO (1788), OBBARIUS (1845), DRESSEL (1860) e LAFRANCHIUS (1904), cujas glosas e paráfrases são muito úteis ao trabalho do tradutor, e cujos comentários lançam luz sobre pontos que às vezes passam em branco aos críticos modernos11. O texto latino que adotamos é 10 Prudenzio. Hamartigenia. Introduzione, traduzione e commento a cura di Roberto Palla. Pisa: Giardini Editori e Stampatori, 1981. 11 Com a oferta de obras raras digitalizadas por bibliotecas estrangeiras nos últimos anos, principalmente dos Estados Unidos e da Europa, o estudioso brasileiro tem a oportunidade de consultar fontes primárias e publicações de acesso restrito que somente eram citadas de segunda ou terceira mão, como as edições anotadas in usum Delphini e a Patrologia Grega e Latina de J. P. Migne. 17 a edição crítica de CUNNINGHAM (1966), publicada na coleção Corpus Christianorum, Series Latina12. As notas ao texto do poema constituem observações filológicas relacionadas à métrica, à prosódia, ao léxico, ao estilo, à explicação de nomes e trechos bíblicos e mitológicos, entre outras informações elucidativas. Contudo, a maioria delas são remissões a lugares de autores anteriores a Prudêncio, pagãos como Virgílio, Horácio, Ovídio e Lucrécio, e cristãos como Tertuliano, S. Ambrósio e S. Agostinho, nos quais autores ocorre uma semelhança lexical, uma concordância de pensamento, um verso idêntico ou similar ao que o poeta emprega, indicando ora um empréstimo evidente, ora sugerindo um eco literário que se pode comprovar com ulteriores estudos comparativos. É preciso, no entanto, que fique claro que a simples referência a esses autores não significa um empréstimo consciente de Prudêncio, nem uma dívida direta para com eles, mas pode indicar uma contaminação ou certa tradição literária da qual o poeta se vale. A respeito do comentário temático, e também em razão do que foi dito acerca trabalho do prof. R. PALLA, considerando que de eadem re ne bis agatur, em vez de analisar verso a verso, decidimos delimitar e selecionar alguns lugares e tópicos do poema, por sua relevância (como o Praefatio, a doutrina de Marcião, o demônio, a origem do mal, a criação do mundo e do homem, os vícios humanos, o destino da alma humana após a morte, a prece final) e, em seguida, expor o pensamento que Prudêncio transmite acerca deles no poema. Assim, evitamos uma leitura horizontal em prol de uma leitura vertical, pois os temas escolhidos vão e voltam ao longo da obra: por exemplo, para caracterizar o demônio, não trabalhamos apenas com os versos em que o poeta o apresenta, mas recorremos também aos versos relacionados aos vícios humanos e nos quais Prudêncio nos fornece outras características do demônio e do seu modo de agir. Nos comentários foi-nos dada também ocasião de explorar remissões aos poetas antigos, já referidas nas notas, e tecer comparações que evidenciam a imitatio e o modo original como Prudêncio utiliza a poesia pagã. Completando o corpo da dissertação, elaboramos uma introdução sobre a vida de Aurélio Prudêncio Clemente, o contexto histórico e literário em que floresceu e, quanto ao gênero literário de Hamartigenia, partindo do pressuposto de que a maioria dos críticos e estudiosos classifica o poema como poesia didática, discutimos os elementos que caracterizam esse gênero literário, identificamo-los na obra em estudo e apontamos traços de outros gêneros, como o épico, o satírico e o pastoral. 12 Aurelii Prudentii Clementis Carmina. Cura et Studio Mauricii P. Cunningham. Corpus Christianorum. Series Latina, vol. CXXVI. Turnhout: Brepols, 1966. 18 3. INTRODUÇÃO Aurélio Prudêncio Clemente (Aurelius Prudentius Clemens) ocupa um lugar eminente na poesia latina cristã, não só pelo valor artístico de sua poesia, como também pela influência literária que teve nos séculos subsequentes. Seus poemas eram lidos e estudados nos mosteiros e nas escolas catedrais, e alguns de seus hinos entraram no Breviarium, ou Ofício Divino, a oração comum da Igreja católica. Sua obra poética teve edições ininterruptas desde o séc. XV nos principais centros de cultura da Europa13. Todavia, na época do chamado Renascimento, quando houve a guinada estética e filosófica para a Antiguidade greco-romana, mesmo autores imbuídos da poesia clássica não escaparam aos critérios “purificadores” dos humanistas (GARCÍA, 1998, pp. 40-41). Prudêncio, porém, continuou na estima de algumas figuras notáveis daquela época, como Erasmo de Roterdã, Juan Luís Vives e Antônio Nebrija, menos paganizantes do que os humanistas italianos14. A poesia prudenciana abarca temas teológicos, morais, apologéticos e espirituais, e tem por fim último o louvor a Deus (CHARLET, 1986, p. 369). São quase onze mil versos distribuídos em sete poemas, um proêmio e um epílogo, em metros variados15. A intenção de louvar a Deus já se encontra expressa no Proœmium16 (v. 36: saltem uoce deum concelebret, si meritis nequit17). Confessando-se desprovido de méritos, o poeta declara que a única oferta que pode fazer a Deus é a de sua poesia. É, pois, uma poesia confessional em sentido pleno. Para Prudêncio, o fazer poético é o único modo de cantar as glórias de Deus e exaltar Cristo. Pois, na pena do poeta cristão, já não são as divindades pagãs, nem o imperador, as figuras dignas de louvor. A confessionalidade da poesia de Prudêncio se revela igualmente na luta contra as heresias de seu tempo e no elogio ao testemunho dos mártires. Pouco se sabe sobre a vida de Aurélio Prudêncio Clemente. A única fonte são os versos do próprio poeta, principalmente os dados autobiográficos contidos no Proœmium. 13 A editio princeps dos poemas prudencianos data de 1482. Embora nos séculos XVI e XVII as edições tenham sido mais frequentes, os poemas de Prudêncio nunca deixaram de ser impressos até os tempos de hoje (cf. DYKES, 2015, p. 2). 14 Sobre Prudêncio, cita RODRIGUEZ (1981, pp. 61*-62*) alguns elogios de humanistas que recomendavam a leitura e o estudo da poesia de Prudêncio, especialmente este lugar de Erasmo (In cap. 14 Ioannis): Prudentius, vir quovis etiam saeculo inter doctos numerandus. Antônio Nebrija, por sua vez, escreveu comentários à obra de Prudêncio. 15 Por isso, Prudêncio já foi chamado de “Horácio cristão” e “Píndaro cristão”; além dessas comparações, há quem fale em “Virgílio cristão”, “Ovídio cristão”, “Lucrécio cristão”, “Juvenal cristão”, “Catulo cristão”, etc. (cf. ORTEGA; RODRIGUEZ, 1981, p. 51*; RAND, 1920, pp. 73- 76). Essas designações simplificadoras manifestam muitas vezes a ideia equivocada de que um escritor pertencente ao período tardio da literatura latina só pode ser adequadamente valorizado se tomado como um clássico redivivo. Com muito mais razão afirma CUNNINGHAM (1966, XXXV): Non est igitur Christianus Maro vel Flaccus, ne Pindarus quidem Latinus. Prudentius est poeta Christianus; nomen utrum meruit. 16 Para facilitar as referências, por Proœmium designamos o poema de caráter autobiográfico que introduz a obra prudenciana, reservando o uso do termo “prefácio” (Praefatio) para cada uma das breves composições poéticas que abrem os poemas Apotheosis, Hamartigenia, Psychomachia e Contra Symmachum I e II. 17 Proœm. 36: “Ao menos com a voz a Deus celebre, se com méritos não pode”. 19 Nascido em 348, na região de Calahorra18 (antiga Calagurris), na Hispânia, durante o consulado de Salia (Proœm. 24-25), viveu ao menos até o ano de 405 d.C., data de composição do Proœmium (vv. 1-3). O ano exato de sua morte é incerto. Ainda do Proœmium se deduz que recebeu uma educação conforme os padrões da época, às mãos de um gramático e de um retor (Proœm. 7-8), depois exerceu a advocacia (Proœm. 13-15), por duas vezes governou importantes cidades (Proœm. 16-18)19, em seguida acedeu a um cargo próximo do imperador (Proœm. 19-21)20, alcançando o cume de sua carreira administrativa imperial. A ausência de menção a Prudêncio e à sua obra, em autores seus contemporâneos21, reforça a hipótese de que os poemas se destinavam a um grupo muito restrito de leitores. Após deixar o serviço público, Prudêncio provavelmente se retirou numa vida de ascetismo e oração22, e, depois de um exame de consciência (Proœm. 28 ss.), começou sua obra poética, finalizando-a, como se supõe, em 404 ou 405. Entrementes, fez uma viagem a Roma (de meados de 401 a meados de 402)23. Se se adota o ano de 405 d.C. como marco final da produção poética de Prudêncio, descortina-se um panorama histórico-literário, o do séc. IV d.C., cujo conhecimento nos é útil para entender com mais profundidade a poesia prudenciana. Ao considerar, pela rama, certos fatos históricos e tendências culturais, não pretendemos adotar uma atitude que condicione totalmente o indivíduo às circunstâncias do seu tempo e tente explicar as motivações mais pessoais e insondáveis apenas à luz dos acontecimentos sociais, políticos e históricos. Admitimos, porém, que a sociedade política e os valores intelectuais e morais da cultura predominante exercem sobre a pessoa humana influência diversa e não pouca, e os grandes escritores são, geralmente, muito atentos à vida cultural e política da polis. Prudêncio representa disso um exemplo: sua poesia, embora olhe para o alto, é encarnada nas questões temporais24. 18 Para um estudo mais amplo sobre a vida de Prudêncio, e uma discussão exaustiva acerca do seu local de nascimento, cf. ORTEGA; RODRÍGUEZ, 1981, pp. 3*-21*. 19 Segundo CHARLET (1986, p. 368), na função de corrector. Os correctores eram oficiais imperiais que supervisionavam a administração financeira de alguns municipia. No Império tardio, tornou-se título de altos dignatários do governo imperial, sobretudo de governadores provinciais (cf. BERGER, 1953, s. v. correctores civitatium, p. 417), e essa parece ter sido a função exercida pelo poeta. 20 Provavelmente, Teodósio (379-395). CHARLET (1986, p. 368) supõe que Prudêncio presidiu o scrinium libellorum, órgão da chancelaria imperial durante o baixo Império, que cuidava das petições (libelli) dirigidas ao imperador e transcrevia as sentenças judiciárias (cf. BERGER, 1953, s. v. scrinium libellorum, p. 692) . 21 Na obra De uiris illustribus (392-393), em que trata dos escritores cristãos até o ano de 392, S. Jerônimo não nomeia Prudêncio. Disso se pode deduzir também que Prudêncio escreveu sua obra poética entre 392 e 405 (cf. ORTEGA; RODRIGUEZ, 1981, p. 29*). 22 CHARLET (1986, p. 368) afirma-o com certeza, mas sem apresentar evidências. Em verdade, muitos poetas no séc. IV d.C. exerceram cargos administrativos, como Prudêncio e Rutílio Namanciano, e era comum que, após se retirarem da vida pública, esses altos funcionários fossem gozar o otium aristocrático em suas propriedades rurais, dedicando-se ao estudo da filosofia e ao cultivo da poesia (DUVAL, 1987 p. 170-173). 23 Prudêncio teria presenciado a invasão da Itália por Alarico, comandante dos visigodos, em 401, e a sua derrota na batalha de Pollentia (abril de 402), mencionada em Symm. 2.720. O fato de a batalha de Verona (meados de 403) não ser citada por Prudêncio costuma ser tomado como indício de que o poeta já não se encontrava na Itália nesse período. 24 Prova-o seu labor apologético contra as heresias e o engajamento contrário ao retorno da religião pagã em Contra Symmachum. 20 Inicialmente, convém apreciar alguns fatos históricos e políticos de maior relevância, anteriores ao séc. IV. Desde a morte de Augusto, o Império Romano enfrentou sucessivos períodos de instabilidade. Após certa tranquilidade social com Marco Aurélio (161-180), o Império voltou a passar por graves crises políticas, econômicas e de autoridade. O séc. III assistiu ao período conhecido como “anarquia militar” (235-268), auge do descontentamento no seio das tropas romanas e período particularmente caótico e infenso à vida literária. A religião tradicional pagã já não parecia capaz de atuar como elemento de unificação social, nem fornecer o substrato moral que garantisse uma ordem tranquila. A par disso, as letras perdiam vigor. Segundo DUVAL (1987, p. 165), a poesia e a prosa latinas experimentam “une éclipse quasi totale entre le IIe et le IVe siècles”, e observa que, a partir do imperador Adriano (117-138), a língua grega se restabelece como língua de cultura, de tal modo que os latinos mesmos preferem escrever em grego (um exemplo notório é o do imperador Marco Aurélio). Mas nem mesmo a literatura grega deixou de padecer os efeitos dessa crise intelectual, que no entanto se fez sentir mais na poesia25. Assim como o ocaso literário andou pari passu com a desordem política, assim também o renascimento das letras acompanhará a renovação política. Entre os anos 293 e 311, período conhecido como tetrarquia, os imperadores romanos procuraram fortalecer a administração pública. O plano de restauração política e econômica do Império, iniciado com Aureliano (270-275) e impulsionado por Diocleciano (284-305) e seus sucessores, terá como base o reflorescimento das escolas, principalmente nas províncias da Gália (Aquitânia) e da África, de onde sairão não apenas os quadros burocráticos do Império, como também muitos escritores (DUVAL, 1987, pp. 166-167). Segundo DUVAL, “a escola está na origem da renovação poética” desse período (1987, p. 167). Ocorre então um novo estreitamento das letras com a política imperial, como já acontecera na dinastia júlio-claudiana. Em tais escolas, onde não raro o magister era grego, os jovens romanos se imbuíam do estudo da tradição literária, tanto romana quanto grega, num íntimo comércio com aqueles escritores aos quais depois, e por essa razão mesma, se dará o título de “clássicos”, ocupando Virgílio o lugar de honra26. É quando a poesia latina reassume um lugar eminente na formação dos valores e das inteligências. O refinamento, o virtuosismo verbal, o formalismo27 e a influência da literatura grega, de Homero aos poetas alexandrinos, são exigência dessa 25 Durante os séc. II e III d.C. a prosa grega consolidou-se na novela, ou romance, dos escritores conhecidos como erotici graeci, entre os quais se destaca a história de Dáfnis e Cloé, de Longo de Lesbos. 26 Proliferam-se no séc. IV os comentários às obras de Virgílio (entre os quais os do gramático Sérvio Honorato, assim como os centões baseados nas obras do poeta de Mântua, como o Cento Nuptialis de Ausônio e o Cento Vergilianus de laudibus Christi de Proba. 27 Como os carmina figurata, poemas cujas letras e versos compõem alguma figura significativa, e que remontam na tradição ocidental aos poemas de Símias de Rodes, no séc. IV a.C. Optaciano Porfírio (séc. IV d.C.) foi um dos que cultivaram tal gênero e chegou a dedicar algumas composições ao imperador Constantino. 21 educação. Além do estudo da poesia, ensinava-se a retórica, como fundamento da formação intelectual do homem romano: disciplina tão romana, que parece fazer de alguns mais oradores do que poetas28. Nos bancos escolares assentavam-se lado a lado pagãos e cristãos, e de tal modo o produto poético do séc. IV se mesclou de ambos, que não seria adequado considerá-los separadamente, ou se deixar levar pela profunda oposição ideológica entre a poesia cristã e a poesia profana. Como afirma DUVAL (1987, p. 168): Ce serait donc mutiler l’une et l’autre que de considérer à part ces deux poésies qui, en réalité, ne forment qu’une. Mas a esfera política estava longe de refletir essa relativa harmonia dos bancos escolares. Entre a nova religião e a religião tradicional pagã havia incompatibilidades insuperáveis. O cristianismo mudou profundamente a sociedade romana. Essa nova religião de judeus que pregavam um Messias, Salvador dos homens, e um reino que não é deste mundo, causou desde o princípio desconfiança entre os romanos29. Gradualmente, massas de homens iam-se convertendo. O martírio, testemunho extremo de fé, multiplicava as conversões30. A opinião comumente aceita de que os cristãos se convertiam entre as classes mais incultas e marginalizadas hoje começa a ser substituída por uma visão de que os cristãos se achavam integrados em todos os níveis da sociedade, até na classe dirigente imperial (DYKES, 2015, p. 8). Após sua conversão, Constantino concedeu a liberdade de culto aos cristãos, por meio do Édito de Milão (313), e Teodósio I, em 380, tornou o cristianismo a religião oficial do Império, com o Édito de Tessalônica. Nesse intervalo, houve reviravoltas e contra-ataques do partido pagão, mormente por parte do imperador Juliano (360-363), cognome Apóstata, que, num édito de 362, estabeleceu condições para seleção dos professores de retórica e gramática, como a abjuração da fé cristã e o culto aos deuses pagãos, o que na prática proibia a contratação de professores cristãos. Na segunda metade do séc. IV ocorreu a polêmica sobre a retirada do altar consagrado à deusa Vitória, que ficava no Senado. Os cultores da religião pagã, liderados pelo senador Símaco, orador de fama, defendeu obstinadamente a permanência do altar. O bispo S. Ambrósio, de Milão, refutou as alegações de Símaco. Prudêncio baseou-se nessa polêmica para escrever os dois livros de Contra Symmachum. Já nos primeiros séculos do cristianismo surgiram divergências doutrinais no seio da Igreja. As Sagradas Escrituras eram submetidas a interpretações divergentes. Eclodiram as 28 QUINT. Inst. 10.1.90: Lucanus ardens et concitatus et sententiis clarissimus et, ut dicam quod sentio, magis oratoribus quam poetis imitandus. 29 Cf. a famosa epístola 96 de Plínio, o Jovem, quando governava a província da Bitínia, escrita ao imperador Trajano, interrogando-o sobre como proceder no tratamento com os cristãos. 30 É célebre a sentença de TERTULIANO (Apol. 50): Plures efficimur quotiens metimur a uobis; semen est sanguis Christianorum. 22 heresias (do grego αι1ρεσις, de αι0ρέω, “escolher”), que constituem a negação formal de uma verdade da fé católica31. De um corpo doutrinal estabelecido, o herege “escolhe” algo em que não crê e prega uma nova doutrina. A apologética era o campo em que se rebatiam as doutrinas heréticas. Entre as heresias que vigoraram com maior êxito nos primeiros séculos da era cristã está o marcionismo, nome derivado do seu fundador, Marcião de Sinope (séc. I-II d.C.). Prudêncio escreveu um proêmio32 à coleção de seus poemas, fornecendo uma síntese do seu programa poético (Proœm. 37-42), conforme se segue. Hamartigenia deve ser lido e entendido à luz desse programa: Hymnis continuet dies nec nox ulla uacet quin dominum canat; pugnet contra hereses, catholicam discutiat fidem, conculcet sacra gentium, labem, Roma, tuis inferat idolis, carmen martyribus deuoueat, laudet apostolos. Com hinos os dias passe, nem uma noite deixe de cantar o Senhor; lute contra os hereges, perscrute a católica fé, calque os cultos dos gentios, a ruína, Roma, leve a teus ídolos, canção aos mártires consagre, louve os apóstolos. Nessas duas estrofes faz-se alusão às seguintes obras: Cathemerinon (vv. 37-38), Apotheosis, Hamartigenia e Psychomachia (v. 39), Contra Symmachum (vv. 40-41) e Peristephanon (v. 42). Há divergências sobre a cronologia das obras prudencianas, mas, para GARCÍA (1998, p. 16), Prudêncio provavelmente já tinha composto os poemas quando redigiu o Proœmium33. Tendo-se em conta a estrofe dos vv. 37-39, é possível aventar que Apotheosis, Hamartigenia e Psychomachia compõem a tríade de uma única obra conjunta. Assim entende CUNNINGHAM (1966, p. xxv), com base no que apresentam os códices34. Por outro lado, também se pode considerar Apotheosis e Hamartigenia uma díade, se tivermos em 31 LIVINGSTONE, E. A. The Concise Dictionary of the Christian Church. New York: Oxford, 1977, p. 237. 32 Trata-se de um poema sem título, autobiográfico e de teor confessional. O título Praefatio encontra-se em alguns manuscritos, já em outros consta Proœmium (cf. WITKE, 1968, p. 509). De nossa parte, preferimos adotar o título de Proœmium para facilitar a remissão a ele sem que se confunda com os outros seis prefácios escritos para as obras em hexâmetro datílico; ademais, essa escolha atende à predileção que o poeta tinha pelos títulos em grego. 33 Não há menção à coletânea epigramática Dittochaeon e ao Epilogus, o que não significa, per se, que as obras não estivessem compostas: Dittochaeon é uma composição de natureza peculiar, destinada a legendas de painéis bíblicos do Antigo e do Novo Testamento, expostos provalemente em alguma igreja; já o Epilogus dialoga com o Proœmium, e, portanto, não pertence propriamente ao programa poético. O poema Hexameron (sobre os seis dias da criação do mundo), atribuído a Prudêncio por Genádio, no séc. V (De uiribus illustribus, 13), não se encontra na tradição manuscrita. 34 Os três poemas possuem nos códices, respectivamente, os números Liber I, Liber II e Liber III, mas não existe um título que os abarque. 23 consideração o gênero didático e o teor polêmico de ambos, o argumento de natureza teológica e dogmática (respectivamente, a encarnação do Filho de Deus e o dogma da Santíssima Trindade; a unidade de Deus e a origem do pecado), ao passo que Psychomachia, de tom predominantemente épico, enfatiza um tema de ordem moral, a luta entre as virtudes e os vícios35. Não se deve ignorar a disposição dos poemas na coleção poética prudenciana e o diálogo interno entre eles36. Muitas vezes aos antigos ocorria ordenar os carmes e as partes de uma obra não segundo a cronologia de composição, mas atendendo a uma hierarquia de propósito conforme seu projeto poético37. A obra prudenciana tem certa ordem: de fato, não é dispersa e desconexa, mas orgânica e dotada de tal unidade que um poema explica, completa ou dialoga com outro. Alguns críticos estabelecem a seguinte correlação entre as obras (cf. GARCÍA, 1998, p. 15): Proœmium e Epilogus; poemas em hexâmetro datílico: Apotheosis, Hamartigenia e Psycomachia; e coleções de hinos: Cathemerinon e Peristephanon. Inserido entre Apotheosis e Psychomachia, Hamartigenia funcionaria como transição de temas essencialmente dogmáticos, como a encarnação do Verbo e a Santíssima Trindade (Apotheosis), para o de ordem moral, como o combate entre vícios e virtudes no interior da alma humana (Psychomachia)38. Possuindo uma característica dogmático-moral, com temas como a unidade de Deus, a origem do mal e o livre-arbítrio, Hamartigenia nos remete, por um lado, para o mistério da natureza divina e da sua obra criadora, e por outro, para o conflito moral do homem. Hamartigenia39, título em grego como na maioria dos poemas prudencianos40, já nos comunica que o poeta irá tratar da origem do pecado. Para discutir esse difícil problema teológico, filosófico e moral, Prudêncio parte da doutrina dualista de Marcião, que afirmava a existência de dois deuses, o Deus do Antigo 35 Isso explicaria a anomalia de dois prefácios ao poema Apotheosis (I Praefatio e II Praefatio, pp. 73-76 da edição CCSL), uma vez que cada poema que Prudêncio prefaciou possui apenas um prefácio. De fato, o conteúdo do primeiro desses prefácios (conhecido por “Hino à Trindade”, em hexâmetros) aplica-se adequadamente a uma leitura conjunta da tríade Apotheosis-Hamartigenia-Psychomachia ou da díade Apotheosis-Hamartigenia, funcionando como um prefácio “global”, enquanto o segundo prefácio, de dísticos compostos de um senârio iâmbico e um dímetro iâmbico acatalético, seria propriamente o de Apotheosis (GARCÍA, 1998, p. 21). 36 A tradição dos manuscritos, embora não seja unânime, apresenta certa regularidade quanto ao lugar de cada poema na coleção prudenciana. Nela a ordem dos poemas costuma ser a seguinte: Proœmium (Praefatio), Cathemerinon, Apotheosis, Hamartigenia, Psychomachia, Contra Symmachum I e II, Peristephanon, Dittochaeon, Epilogus. 37 Horácio põe no lugar mais importante de suas obras os poemas dedicados ao seu protetor Mecenas (primeiro epodo, primeira sátira, primeira ode e primeira epístola). Assim também Virgílio dedica a Mecenas cada um dos seus quatro livros das Geórgicas, e os versos em que cita o nome do seu protetor revelam uma simetria tal, que não parece ser mero acaso. Para outros exemplos de disposição dos poemas latinos, tendo em conta outro critério que não seja o cronológico da composição (cf. ORTEGA; RODRIGUEZ, 1981, p. 14* ss.). 38 Conforme CHARLET (1986, p. 377), Hamartigenia “associe la théologie dogmatique (problème métaphysique du mal) à la théologie morale (étude, à la manière d’un moraliste, des problèmes pratiques que pose l’exercice de la liberté”. 39 A palavra grega α0μαρτία (“falta” e, no âmbito filosófico e religioso, “culpa, pecado”, cf. LIDDELL-SCOTT) tem na língua latina o equivalente peccatum. Sobre a melhor tradução do título do poema, pecado ou mal, embora ambas nos pareçam possíveis, considerado o teor do poema (pecado dá relevo ao aspecto moral; mal, ao aspecto metafísico), os tradutores em geral preferem “pecado”. Algumas edições acrescentam a expressão contra Marcionitas, enfatizando o “destinatário”, Marcião e seus discípulos, contra os quais se insurge Prudêncio. 40 Apenas Contra Symmachum tem título latino. Os demais são: Cathemerinon, Apotheosis, Hamartigenia, Psychomachia, Peristephanon. O livro epigramático, de quadras em hexâmetros, possui um título latino Tituli historiarum e outro grego Dittochaeum, a depender da edição. O costume de intitular poemas com nomes gregos já existia no período augustano, com Virgílio (Geórgicas) e Ovídio (Metamorphoseos). 24 Testamento, criador do mal, e o Deus do Novo Testamento, redentor do homem. Prudêncio irá refutar a doutrina marcionita e expor a doutrina ortodoxa sobre a unidade de Deus, a fim de demonstrar que o verdadeiro autor do mal não é o Deus do Antigo Testamento (que é um só Deus com o do Novo Testamento), mas o diabo, o qual, depois de corromper-se pelo pecado de soberba e inveja, esforça-se para corromper o homem e arrastá-lo ao pecado. Marcião de Sinope, na região do Mar Negro, viveu entre o fim do séc. I até pouco depois da metade do séc. II d.C. Seu pai, que foi bispo de Sinope, expulsou-o da comunidade local. Tendo aderido à comunidade da Igreja de Roma, foi excomungado por volta do ano de 144 (ALTANER; STUIBER, 2010, p. 115; MAHÉ, 1971, p. 370)41. Seus escritos sobreviveram em fragmentos e em citações de seus célebres oponentes, como S. Irineu, Hipólito, S. Epifânio e Tertuliano. Marcião fundou uma seita, cuja doutrina, concebida da confrontação dos Evangelhos e das cartas paulinas com os livros do Antigo Testamento42, tem por fundamento que o Deus do Antigo Testamento não é o mesmo Deus misericordioso do Novo Testamento. O título de sua obra, Antithesis, revela o escopo de estabelecer contradições entre ambos os Testamentos. Em linhas amplas, a doutrina marcionita pregava que havia uma profunda diferença entre o Deus revelado no Novo Testamento, Jesus Cristo, que seria um Deus de amor, salutar e misericordioso, e o Deus do Antigo Testamento, o Deus da Lei, implacável e temível. Apesar disso, Marcião não nega a natureza divina ao Deus revelado no Antigo Testamento, nem a veracidade dos relatos nele contidos, mas rebaixa esse Deus a uma espécie de demiurgo, enquanto o Deus anunciado por Jesus Cristo seria o Deus bom e supremo. A Lei e o ideal de justiça da antiga divindade teriam validade para o povo judaico, mas não se coadunariam com o Deus de bondade dos cristãos. Sem poder negar o Deus da Antiga Aliança e recusando identificá-lo com o da Nova Aliança, Marcião é levado, por consequência, a fundar um diteísmo: há dois deuses, o do Antigo Testamento, criador do mundo, e o do Novo Testamento, salvador do homem (AMANN, 1923, p. 116 ss.). Sobretudo inquietava Marcião o problema do mal e de sua origem43. Tertuliano conta como Marcião busca solucioná-lo mediante a comparação da parábola das duas árvores (Lc 6, 41 S. Irineu de Lion, no seu livro Aduersus haereses, cap. 27, dá um breve quadro sobre a vida de Marcião e sua doutrina herética; e também Tertuliano, Marc. 1. 2. 1-3. 42 Assim, Marcião opõe a lex talionis e a lei da caridade (II, 18, 1 e IV, 16, 2); a ignorância do Criador sobre o lugar em que está Adão e o atributo divino de Cristo de conhecer a consciência dos homens (II, 25, I); o ouro roubado pelos hebreus aos egípcios e a pobreza evangélica dos discípulos de Cristo (II, 20, 1-2; IV, 24, 1 e V, 13, 6). O que pudesse ser alegado como conflitante e contraditório entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento, Marcião alegava-o. Sobre a “exegese” marcionita, diz MAHÉ (1971, p. 365): “De brefs passages de l’Ecriture, isolés de leur contexte. Aucune explication, aucune progression, tout est figé dans un parfait ou un présent atemporel: ‘la Loi a dit ceci, le Christ a dit cela’. Comme si l’opposition, acquise pour l’éternité, suffisait à elle seule à faire jaillir une évidence ontologique et que toute sa force consistât justement dans sa sécheresse.” Em contrapartida, Marcião omitia toda e qualquer concordância possível entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento. 43 TERT. Marc. 1. 2. 2.: Languens enim - quod et nunc multi, et maxime heretici - circa mali quaestionem, unde malum [...]. 25 43-44) com um versículo de Isaías (Is 45, 7), no qual diz Deus que cria os males44. Na parábola, a parábola das duas árvores e seus frutos, usada por Cristo em referência à fé e às obras dos homens, Marcião aplica-a à divindade; assim, a árvore má simbolizaria o Deus que dá maus frutos (o Criador do Antigo Testamento) e a árvore boa o Deus que dá bons frutos (o Cristo, revelado no Novo Testamento)45. Marcião criará seu próprio canon escriturístico para sustentar sua doutrina herética. No entanto, uma vez que nos Evangelhos e nos demais livros do Novo Testamento se encontram numerosas referências ao Antigo Testamento, algumas feitas pelo próprio Cristo, além de menções de S. Paulo às profecias sobre a vinda do Messias, Marcião não apenas negará os textos do Antigo Testamento, mas terá de eliminar ou mutilar também livros do Novo Testamento onde haja menção ao Antigo Testamento, restando afinal, como penhor de sua doutrina, o Evangelho de São Lucas e algumas epístolas paulinas, todos incompletos46. Os estudiosos da poesia prudenciana tentam responder à pergunta sobre o motivo pelo qual Prudêncio escolheu refutar Marcião, que viveu mais de duzentos anos antes da composição da obra. Segundo MAHÉ (1971, p. 371), os marcionitas teriam desaparecido tão rápido quanto surgiram e, na segunda metade do séc. IV, no tempo de Prudêncio, seriam pouco numerosos. Por outro lado, o arianismo grassava por toda a Igreja e, no entanto, Prudêncio parecer ignorar o heresiarca Ário47. Na opinião de PUECH (1888, p. 174), os temas teológicos tratados em Apotheosis e Hamartigenia (o mistério da Trindade e a origem do mal) foram escolhidos por Prudêncio porque eram temas dogmáticos que estavam em voga no seu tempo, mas que podiam ser discutidos sem muito risco de comprometer a própria ortodoxia, uma vez que já tinham sido refutados por escritores latinos anteriores (como Tertuliano, no caso do marcionismo); já a hipótese de CHARLET (1986, p. 377), embora pronunciada a respeito de Apotheosis, pode também aplicar-se a Hamartigenia: “Prudence veut prévenir les hérésies les plus graves – et intemporelles – que la raison humaine peut concevoir pour réduire le mystère du Christ.” Como quer que seja, tendo-se em conta a relevância da obra de Tertuliano contra Marcião e a própria tradição heresiológica relacionada com o debate sobre o diteísmo e a origem do mal, é de supor que o tema ainda despertasse interesse na comunidade dos fiéis, sendo atrativo como argumento de um poema. 44 Em Is 45, 7, citado por Tertuliano (Marc. 1. 2. 1-3), tais são as palavras de Deus: Ego sum qui condo mala; já na VETUS LATINA: ego creans lucem, et faciens tenebras, faciens pacem, et creans mala. 45 Tertuliano contesta Marcião sobre a maldade do Deus do Antigo Testamento, argumentando que aquilo que nos parece mal, por exemplo, nos castigos aplicados, não decorre da natureza mesma de Deus, como se este fosse mau, mas do seu poder de juiz (Marc. II, 24, 3-4). 46 Exceto as cartas pastorais (as duas a Timóteo e a de Tito) e a Epístola aos Hebreus (AMANN, 1923, p. 112). 47 Apenas uma rápida menção em Psych. 794. 26 4. HAMARTIGENIA 4.1. Considerações sobre o gênero didático Os historiadores e críticos da literatura latina, de modo quase unânime, elencam o poema Hamartigenia no rol da poesia didática48. Por isso partiremos de uma consideração sobre esse gênero literário, identificando-lhe os elementos componentes, para que possamos, em seguida, indagar do gênero do poema Hamartigenia. Os antigos gregos e romanos não tiveram uma ideia clara do poema didático como um gênero poético49. Aristóteles, na Poética, foi o primeiro a tentar uma classificação dos gêneros literários, dividindo-os em dramático, lírico e épico50. É de especial interesse o fato de o filósofo excluir Empédocles (495-435 a.C.) da categoria de poeta, contradizendo aqueles que tomam a métrica como critério para estabelecer o que é ou o que não é “o fazer poético” (τὸ ποιεῖν). Aristóteles, com efeito, afirma que nada há em comum entre Homero e Empédocles, exceto o metro, sendo o primeiro poeta (pois realiza a mímesis das ações humanas) e o segundo, naturalista (φυσιολόγος)51. Que Empédocles e outros filósofos pré-socráticos, como Parmênides, empregassem o verso para expor sua doutrina de explicação da natureza, não é coisa de admirar, uma vez que nos alvores da civilização grega, como se sabe, a transmissão do conhecimento era sobretudo oral, com papel importantíssimo desempenhado pela memória: daí a poesia ter precedido a prosa, pois o ritmo do verso facilita muito mais a memorização do que o discurso prosaico (MARTIN; GAILLARD, 2013, p. 199). Ainda depois do surgimento da prosa, todavia, a poesia continuou sendo empregada para veicular tratados técnicos ou filosóficos, seja na Grécia, seja em Roma. PUECH (1888, pp. 159-167) observa que a poesia didática era para os poetas cristãos não só um instrumento apto à instrução dos fiéis, mas um modo de falar a linguagem dos pagãos e ser compreendidos por eles, dada a tradição desse gênero entre escritores gregos e romanos nos séculos anteriores52. Na Grécia o poeta era considerado, de modo geral, fonte de saberes e conhecimento53. Homero, especialmente, gozava da fama de “educador da Grécia”, sendo lido e decorado nos bancos escolares e decorado, junto com outros poetas, como Sólon, conforme o testemunho 48 Citemos, por exemplo, LABRIOLLE (1947, p. 709 ss.), CONTE (1999, p. 664), MARTIN; GAILLARD (2013, p. 205). 49 TOOHEY (1996, p. 5): “the ancients, even at the high points of their literary self-consciousness and achievement, had no clear conceptualization of its [didactic poetry] separate life”. 50 P. 1447a8. 51 P. 1447b. 52 Segundo PUECH, os dois gêneros literários mais praticados pelos poetas cristãos nos primeiros séculos foram a poesia didática, que atendia à finalidade da apologética, e a poesia lírica, que atendia à finalidade do louvor a Deus. 53 Sobre essa posição privilegiada do poeta, ver DALZELL (1996, pp. 8-18) e TREVIZAM (2014, pp. 16-29). 27 de Xenófanes e Platão54. A autoridade do poeta não se resumia ao âmbito ético-moral, intelectual e religioso, mas estendia-se a diversas disciplinas especializadas, como a medicina, a arte da guerra e a geografia. Assim, para o homem grego, o caráter instrutivo e formador não pertencia exclusivamente a um gênero poético, mas era próprio da poesia em geral. Entre os romanos, Cícero (106-43 a.C.) menciona cinco gêneros literários55 e Horácio (65-8) seis56, não se encontrando o didático entre nenhum deles. Quintiliano (c. 30-100), privilegiando o critério do metro, insere a poesia didática como subespécie do épico57: segundo ele, Homero, Hesíodo, Apolônio, Arato, Teócrito, Nicandro integrariam o grupo de poetas épicos, do mesmo modo que, entre os romanos, Lucrécio, Virgílio, Ovídio e Germânico. Dentro do gênero épico haveria espécies como o mitológico, o didático, o pastoral e o épico em miniatura (epílio), mas todos, vale redizer, pertencentes a um gênero maior, épico. Logo, a poesia didática não consiste um gênero autônomo na classificação de Quintiliano. Apenas tardiamente, no séc. IV d.C., a poesia didática aparece designada por um termo próprio, mas sem receber uma clara definição de suas características58. Primeiro, Sérvio Onorato emprega no seu comentário às Geórgicas o vocábulo didascalice, de origem grega, para classificar a poesia didática, termo que é também adotado por Diomedes (séc. IV-V d.C.) na sua Ars grammatica, ao mencionar explicitamente a poesia didática na categoria em que o poeta fala com sua voz própria59, cujos representantes citados são Empédocles, Lucrécio, Arato e o Virgílio das Geórgicas. À parte os teóricos e gramáticos, que parecem não chegar a uma conclusão comum, uma outra forma de considerar a existência do gênero didático é ouvindo o que os próprios poetas dizem sobre si e suas influências. DALZELL (1996, pp. 21-22) identifica que diversos autores, geralmente classificados como didáticos, constituem uma filiação poética que remonta a Hesíodo. Calímaco, Nicandro, Virgílio, Columela, Manílio fazem referência direta ou indireta a Hesíodo em seus poemas. Como diz DALZELL (1996, p. 21), essa referência “suggest an apostolic succession of didactic poets who are aware of their common generic links and who see themselves as carrying on a tradition which goes back to Hesiod.” E, continuando, assevera: “It would not be true, therefore, to say that classical literature did not 54 ANDRADE (2000, p. 26). 55 Opt. 1.1. 56 P. 73-85. 57 Inst. 10.1.46 ss., 10.1.85 ss. 58 ANDRADE (2000, p. 28): “Esta ausência de um termo específico para referir a poesia didáctica até uma época tão tardia pode ser interpretado como resultado da falta de autonomia da poesia didáctica enquanto género diferenciado da épica.” 59 Diomedes adota a divisão platônica conforme três modos discursivos: o poeta fala em sua própria voz (exegeticón/enarratiuum), o poeta fala através de suas personagens (dramaticón), o poeta combina ambos os modos (koinón/commune). Igualmente posterior é o Tractatus Coislianus, escrito em grego, no qual se expõe uma doutrina bipartida dos gêneros, divididos em “miméticos” e “não miméticos”; nestes últimos se enquadra a tipologia historiké e a paideutiké, a qual engloba o gênero didático (cf. TREVIZAM, 2014, p. 25). 28 acknowledge the existence of didactic poetry as a separate genre” (1996, p. 22). Constituem um legado estruturante da poesia didática certas características da obra de Hesíodo, como o metro hexâmetro datílico, os quadros de digressão, a tonalidade épica e o zelo missionário. Vimos acima que, segundo a opinião comum dos antigos gregos, a poesia podia instruir e educar o homem. Portanto, para especificar a poesia didática, não é suficiente o mero ensinamento do poeta e o mero aprendizado do leitor: é necessária a presença de um mestre com intenção de ensinar e, por conseguinte, a presença de um destinatário (discípulo) e um assunto. E não basta que seja um ensinamento qualquer da parte do poeta, mas “um ensinar sistemático sobre um tópico concreto” (TOOHEY, p. 2). Esse é um traço fundamental do gênero didático. Diz Sérvio no proêmio do comentário às Geórgicas: et hi libri didascalici sunt, unde necesse est ut ad aliquem scribantur; nam praeceptum et doctoris et discipuli personam requirit; unde ad Maecenatem scribit, sicut Hesiodus ad Persen, Lucretius ad Memmium. Assim esclarece esta passagem ANDRADE (2000, p. 29): [...] autor, destinatário, matéria. Sérvio deixa bem claro como a poesia didáctica assenta as suas origens sobre uma situação concreta, sobre o processo de ensino-aprendizagem, no qual interagem dois intervenientes privilegiados, o professor e o aluno, com o objectivo de transmitir uma determinada matéria. A poesia didáctica implica uma relação particular entre o autor e o leitor com semelhanças óbvias entre a que se estabelece entre docente e discente. Não se julgue, porém, que é uma relação desprovida de complexidade e mesmo de ambivalência. Nas palavras de A. Dalzell, “o poeta didáctivo partilha com o professor e o pregador um tipo particular de comunicação”, revelando-se esta afinidade verdadeiramente significativa pelo facto de a comunicação se voltar sempre para um auditório. As palavras de Sérvio concedem um lugar de relevo ao discente na poesia didáctica, ainda que se trate de uma personagem muda e, algumas vezes, anónima, pois ele é um elemento essencial e imprescindível em qualquer atividade didáctica. Se procurarmos no poema Hamartigenia os elementos mencionados até aqui, veremos que é possível identificá-los. A começar pelo metro, os 966 versos são em hexâmetro datílico. O que seria um ponto pacífico no que diz respeito ao critério métrico, conforme a tradição didática, torna-se uma dificuldade ao considerarmos que o Praefatio do poema está escrito em 63 senários iâmbicos60. De fato, não se encontra precedente de poema didático nesse metro; quando algum poeta se afastou da convenção métrica do hexâmetro datílico, recorreu ao dístico elegíaco, como no caso de Ovídio. A voz do poeta, única e na primeira pessoa do singular, é ouvida claramente em Hamartigenia61. Não é difícil identificá-la já no Praefatio: agnosco (PrH.32), reaparecendo 60 DYKES (2015, p. 176), alertando para essa dificuldade, entende que o Praefatio não pode ser simplesmente desconsiderado, uma vez que o que é dito no poema nunca se afasta dos elementos expressos no Praefatio. 61 Para TOOHEY (1996, p. 2), “there must be a single and recognizable instructor's voice”. 29 frequentemente ao longo do poema: quid loquar (v. 230), rogo (v. 308), hoc sequar... tenebo (v. 342), fallo (v. 506), sed quid ego... detorqueo (v. 553-554), quod loquor (v. 625), sentio (v. 636), damna aures meas (v. 650), multa ut taceam (v. 658), saepe egomet memini... (v. 789). Nem sempre essa voz é do tipo magisterial, como no caso da prece ao fim do poema, em tom lírico, dirigida a Deus (vv. 931-966): regor... duco... trepido... capio... ago... confiteor... merui... merui... (vv. 933-939), animae... meae (v. 940), me (v. 948, 962, 966), non posco (v. 953). Outras vezes o poeta se inclui numa coletividade, usando a primeira pessoa do plural: assim, nos vv. 27 (nos... testamur) e 126 (nouimus... nouimus), num momento altamente polêmico e apologético, a primeira pessoa do plural marca a profissão de fé comum dos fiéis ortodoxos contra a heresia de Marcião; o plural representa essa comunhão de fé. Em outros momentos, Prudêncio emprega a mesma primeira pessoal do plural para abranger a totalidade do gênero humano, e nesse contexto, já não abrange apenas os fiéis, mas todos os homens, dotados de igual natureza, todos marcados pelo pecado, e expostos aos mesmos perigos causados pelo demônio62. Discorrer sobre a voz do poeta nos leva naturalmente a tratar do destinatário da mensagem. Foi praxe entre os principais poetas didáticos, como Hesíodo, Lucrécio e Virgílio, identificar um addressee ou discipulus para a mensagem do poema, nomeando-o; quando não era nomeado, esse destinatário se especificava de alguma outra forma. ANDRADE (2000, p. 30) nota, contudo, que era comum ocorrer “uma subtil oscilação entre este destinatário específico e o destinatário geral, ou seja, os potenciais leitores/ouvintes”. Ao considerar atentamente a questão do destinatário do poema Hamartigenia, vemos que ocorre a referida oscilação entre destinatário nomeado ou não, entre individual e coletivo. O destinatário primeiro, evidente, manifesto até nos subtítulos da tradição manuscrita do poema63, é Marcião de Sinope. Conquanto seja nomeado apenas duas vezes (vv. 55 e 124) em vocativo, a quem o poeta se dirige, sabemos, graças ao Praefatio e aos primeiros versos do poema (vv. 1-125), que as formas de segunda pessoa do singular a partir do primeiro verso (vv. 1, 2, 6, 110), bem como o aposto vocativo perfide Cain (v. 1), se referem a Marcião, o qual, tendo morrido em meados do séc. II (cerca de 200 anos antes do nascimento do poeta), já não pode evidentemtente ouvir Prudêncio, o que parece contradizer uma das características mais destacadas da poesia prudenciana: a atualidade e engajamento nos problemas de seu 62 É o caso dos seguintes versos: nos... sternimus (vv. 328-329), conluctamur (v. 521), mala nostra... nostris animis (vv. 554-555), nostrorum.. malorum (v. 557), nos uolumus (v. 559), damus (v. 560), nostra... propagine (v. 569), nos dignum... nihil (v. 579), nosque... uocet (v. 639), nostris... uisibus (vv. 883-884). 63 Alguns manuscritos indicam subtítulos como contra Marcionem ou contra Marcionitas. 30 tempo64. Na verdade, como observa PALLA (1981, pp. 17-19), sob a rubrica do dualismo de Marcião, e nos seus argumentos, Prudêncio também refuta outras heresias mais recentes, como o maniqueísmo, o priscilianismo, o adocionismo e o arianismo; pois o ponto mais importante e fundamental para Prudêncio no poema, como poeta cristão, é a origem do pecado, o qual representa uma “atualidade psicológica”, e não um fato apenas um fato histórico preso ao tempo em que se deu. Retornando ao tema da poesia didática e de seu destinatário, é inegável que a estratégia de Prudêncio ecoa a obra de Tertuliano, Adversus Marcionem, na qual o pioneiro dos apologistas cristãos ataca o herege e seus seguidores com grande poder retórico. A obra de Tertuliano, sem dúvida conhecida de Prudêncio, funciona como fonte de inspiração apologética e literária, quanto ao aspecto polêmico do poema prudenciano. Um leitor contemporâneo de Prudêncio dificilmente deixaria de fazer a comparação com a obra do cartaginês, e, sendo um dualista (marcionita ou não), se veria representado na figura do herege de Sínope. Mas nem sempre a segunda pessoa em Hamartigenia representa Marcião. A partir do v. 124, depois de concluir seus argumentos contra a doutrina marcionita, e, principalmente, ao fazer a transição para o tema moral (v. 247), o poeta passa a dirigir-se a um destinatário que mais se identifica com um leitor geral do que com Marcião ou com um discípulo marcionita. A oscilação de um destinatário específico para outro geral, mais ou menos indicada no v. 282 (cernas), fica clara quando Prudêncio se dirige ao leitor explicitamente (v. 624: Sanctum, lector, percense uolumen). Tendo sido antecedido por um imperativo plural como se visasse a um auditório (v. 445: credite, captiui mortales), o referido v. 624 manifesta claramente que não é a Marcião, mas ao público leitor que o poeta vinha destinando as perguntas e os questionamentos65. Quando, porém, parecia que a comunicação se fixara entre o poeta e o leitor, eis que se volta novamente contra Marcião (ou contra um qualquer marcionita) e lhe admoesta violentamente a ignorância sobre a liberdade dada por Deus aos homens: Nescis, stulte... nescis... (vv. 673-674 ss.). Ao final do poema, dá-se nova mudança de destinatário. O tom já não é polêmico nem magisterial, mas suplicante, momento em que o poeta se volta a Deus Pai e a seu Filho, Jesus Cristo, a fim de, numa prece sentida, pedir clemência para sua alma (vv. 931-966), como já o fizera no v. 650 (damna... pater alme, et claude). Assim, o poeta transita entre três tipos de interlocutores: a) Marcião (e os marcionitas); b) o leitor (que pode ser cristão, e, nesse caso, assume as posições que o poeta expressa em primeira pessoa 64 Sobre os vícios dos homens, ao comentar os vv. 375-636, GOOSSENS (1947, p. 201) observa que Prudêncio não perde de vista a sociedade contemporânea. 65 Uma estratégia muito usada por Prudêncio são as perguntas retóricas, às quais o leitor é chamado a engajar-se na leitura do poema, cf. vv. 279-282; vv. 308-324; vv. 358-359; vv. 462-489, etc. Às vezes as perguntas começam dirigidas a um herege da seita marcionita e terminam destinadas a um público geral, como nos vv. 673-689. 31 do plural; ou pagão, ao qual o poeta se dirige na medida em que todos os homens possuem a mesma natureza e vocação de louvar a Deus Criador, além de suscetíveis aos mesmos vícios e armadilhas do demônio; e c) Deus/Jesus Cristo. Conforme o destinatário, o tom se modifica. O caráter instrutivo está presente quando Prudêncio se dirige a Marcião e ao leitor, ainda que o modo de instruir seja antes polêmico e satírico66, como numa tribuna ou num juízo, em lugar da calma expositiva de uma sala de aula. Hesíodo estabeleceu a convenção da autoridade do poeta didático inspirado pelas Musas do Helicão67. Prudêncio, por sua vez, tem como garantia de sua autoridade como magister a fé da Igreja e a Sagrada Escritura. Fé e razão, todavia, não se contradizem, mas esta se submete àquela (vv. 180-181); quando expõe a doutrina da divindade de Cristo e da unidade da Santíssima Trindade, o poeta o faz pela fé (vv. 56-57), que é é segura e certa (certa fides, v. 922), e não por sua autoridade própria. A Sagrada Escritura é o seu documento (v. 769: en tibi... documentum; v. 777: sacris... notat... libris)68. Prudêncio não espera nem pede que o leitor creia nele por sua autoridade, mas no que ele ensina como transmissor fiel da revelação divina. O poeta mesmo convida o leitor a verificar e comprovar essa fidelidade, de modo que este assuma participação ativa no processo didático69: Accipe gestarum monumentum insignia rerum (723); talem multa sacris speciem notat orbita libris/aspice (vv. 777-778); sanctum, lector, percense uolumen (v. 624). Prudêncio chega a limitar a autoridade que porventura pudesse ter, em prol da autoridade suprema da Palavra de Deus: Fallo, creaturam nisi doctor apostolus... (v. 506 ss.), como a dizer: “Eu estou enganado no que digo, e tu, leitor, não serias obrigado a crer-me, se a Sagrada Escritura não afirmasse que...”. Contudo, não apenas à autoridade da fé e à Sagrada Escritura recorre Prudêncio, ele solicita ao leitor que também recorra à própria experiência, como no caso do exemplo do sol (v. 67 ss.) e, principalmente, nas visões da alma durante o sono (expertus dubitas, vv. 892 ss.). A matéria do poema é grave e séria (apesar do tom satírico em alguns momentos), além de religiosa e moral: a unidade de Deus, a origem do mal, o livre-arbítrio e o destino das almas. TOOHEY elenca a seriedade temática e o ensinamento de cunho moral e religioso como 66 DYKES (2015, p. 186): “Prudentius's invective and vituperation are often closer to the satirist and the practitioner of the carmen maledicum than to the persuasive talk of the didactic poet.” 67 Essa convenção às vezes foi questionada, como em Ovídio (Ars 1. 25-31), peritus amoris, cuja autoridade decorre da sua experiência. 68 São aduzidos por Prudêncio o quadro de Cain e Abel no Praefatio, o de Lot e sua mulher (vv. 723 ss.), o de Ruth e Orfa (vv. 777 ss.), a menção aos ensinamentos de Moisés (vv. 339-341), de S. Paulo (vv. 506-516) e de S. João (vv. 910-919), a cena de Lázaro post mortem (vv. 928-930). 69 Tal estratégia se enquadra no âmbito mais amplo da teoria do leitor responsável (responsible reader), exposta por A. DYKES (2015), segundo a qual “the Hamartigenia manifests, promotes and creates a consciousness of responsibility in the reader, by calling the reader to centre on the taking of decisions and the making of choices, both about how to read the poem and about how to read the texts outside it” (p. 29. Sobre a colaboração do leitor no papel de instrutor do poeta, cf. pp. 185-188. 32 traços da poesia didática70, além de apontar a presença de painéis intercalados à maneira de digressões para aliviar a aridez teórica da matéria do poema (1996, pp. 2-3; ANDRADE, 2000, p. 30). Tais painéis costumam ser mitológicos, de acordo com a tradição iniciada por Hesíodo. Em Hamartigenia encontramos exemplos dessa convenção nos cinco paradigmas que Prudêncio oferece acerca do livre-arbítrio. Mas, em vez de seguir a tradição dos modelos clássicos, o poeta cristão retira seus painéis da Bíblia, e não da mitologia pagã: o painel de Adão e Eva (vv. 697-722), o de Lot e sua mulher (vv. 723-776) e o de Rute e Orfa (vv. 778- 788). Outras vezes, entre os antigos, o painel expunha eventos prosaicos e cotidianos, e desse tipo são os outros painéis de Hamartigenia: o dos dois irmãos no bívio (vv. 789-801) e o das pombas atraídas pela isca (vv. 802-823). Por outro lado, não faltam estudiosos da obra de Prudêncio que, além dos elementos didáticos, apontam características de outros gêneros em Hamartigenia, entre os quais o épico, o satírico e o pastoral. Daí J. FONTAINE (apud LEVINE, 1991) falar em “mélange de genres”71. A seguir citaremos, sem sermos exaustivos, trechos de Hamartigenia em que se notam características dos gêneros mencionados. De caráter épico são os versos em que Prudêncio narra a alegoria dos sete povos inimigos dos judeus como vícios que acossam a alma humana sob o comando do demônio (vv. 409-428). Nessa narração se destaca a linguagem solene da épica e a descrição do combate. É de notar a presença de ecos virgilianos da Eneida em expressões como agmina denset (v. 409) = agmina densentur (A. 7. 794); furens exercitus ardet (v. 412) = furens mediisque in milibus ardet (A. 1. 491); socia agmina credunt (v. 427) = socia agmina credens (A. 2. 371). Pode-se ainda aduzir uma semelhança com Sílio Itálico no v. 411: cum cuspide quassans (v. 411) = cum cuspide labens (SIL. 10, 140). Como exemplo do tema pastoril no poema, poderia citar-se o início do Praefatio (vv. 1-7), mas principalmente o trecho em que Prudêncio descreve a corrupção do mundo após o pecado original do homem (vv. 216-235). O léxico se baseia principalmente no livro I das Geórgicas (sobretudo em G. 152-154), conforme exposto na nota aos vv. 216-218. Também se percebem ecos das Éclogas nos v. 216-218 (Ecl. 5. 37: infelix lolium et steriles nascuntur auenae) e no v. 235 (Ecl. 2. 64: lasciua capella). É de destacar que os citados vv. 216-235 de 70 TOOHEY (1996, pp. 2-4) dá algumas notas fundamentais da poesia didática, para uma caracterização ideal do gênero: a) o propósito de ensinar sistematicamente sobre um tema específico; b) a presença de uma voz magisterial única e a de um aluno (addressee), geral ou individual, nomeado ou não, a quem se destina o ensinamento; c) assunto de teor “técnico-científico”, moral, religioso, tratado com pormenores e de modo instrutivo, não apenas exortativo; d) seriedade ou gravidade na forma; e) painéis ilustrativos compostos de mitos ou de eventos não mitológicos; f) metro hexâmetro datílico; e g) uma extensão de mais ou menos 800 versos. No entanto, o próprio autor reconhece que, como tipo genérico na sua evolução histórica, a poesia didática nem sempre possuiu todos esses elementos e às vezes se misturou com outros gêneros (ibidem, p. 4). 71 Para um breve recenseamento destas opiniões, sobretudo acerca dos poemas Peristephanon e Cathemerinon, cf. Levine, Prudentius’ Romanus, 1991, pp. 6-8. 33 Hamartigenia contêm um vocabulário próprio da poesia bucólica e pastoril; no entanto, Prudêncio subverte um tópico desse gênero poético, descrevendo nesses versos não o locus amoenus, mas a corrupção do mundo após a queda do homem. Depois do pecado original, a Criação já não é a paisagem aprazível e amena onde o rústico desfruta da sua felicidade no contato com a natureza; ao contrário, as criaturas levam grande perigo ao homem, rompida a ordem original querida por Deus (v. 235: destructo foedere certo). Finalmente, como exemplo de elemento satírico do poema, aludimos ao modo como Prudêncio repreende as mulheres (vv. 264-276) e os homens (vv. 277-297) por causa da ostentação material, da vaidade, da ambição, da avareza. Se é verdade que constituem tópicos caros aos poetas satíricos72, também a tradição didática, desde Lucrécio73, já os havia incorporado. Assim, pode-se classificar Hamartigenia entre os poemas didáticos, pois preenche os requisitos essenciais do gênero, mas não se deve ignorar a presença notável de elementos característicos de outros gêneros póeticos. 4.2. Fontes literárias cristãs e pagãs CHARLET (1986, p. 376) descreveu concisamente o arcabouço literário e teológico de Hamartigenia, quando afirmou: La poésie théologique et didactique de Prudence s’appuie sur l’enseignement traditionnel de l’Église et en particulier sur le premier théologien chrétien de langue latine, Tertullien. Mais elle s’inscrit aussi dans la tradition de la poésie didactique romaine, dont le grand modèle est Lucrèce. Prudêncio está inserido culturalmente em duas grandes tradições: na tradição cristã bíblica, pela fé, e na tradição literária pagã, por sua formação intelectual. Donde é possível identificar duas fontes em que se abeberou para a composição de Hamartigenia: a) a Sagrada Escritura e escritores cristãos; e b) escritores pagãos. 4.2.1 Sagrada Escritura e escritores cristãos Prudêncio é um poeta bíblico74. A Sagrada Escritura, chamada por ele de sanctum uolumen (Ham. 624), constitui a fonte mais abundante de sua poesia, de onde jorram 72 JUV. 6, 457 ss., contra o luxo das mulheres. 73 De Rerum Natura, 5. 1423 ss. 74 Para um estudo amplo da presença da Sagrada Escritura na obra prudencia, cf. J. L. CHARLET, “Prudence et la Bible”, in: Recherches Augustiniennes, vol. 18, 1983. 34 versículos, episódios, paradigmas. Os críticos disputam sobre a versão do texto bíblico que Prudêncio usou em suas obras75. Havia então disponíveis os seguintes textos bíblicos: o texto hebraico do Antigo Testamento, a Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento), a Vetus Latina76 (nome genérico para o conjunto de diversas traduções latinas77 de ambos os Testamentos, feitas antes da Vulgata) e a Vulgata (obra de S. Jerônimo, que, solicitado pelo Papa Dâmaso a produzir um texto único, revisou e verteu para o latim, do hebraico e do grego, o Antigo e o Novo Testamento78). CHARLET (1983, p. 24), recorrendo ao método da crítica interna do texto, tomando indícios como os nomes próprios bíblicos e as alusões a passagens escriturísticas presentes nos poemas de Prudêncio, conclui que o texto de referência habitual do poeta constitui em uma ou mais versões latinas pré-jeronimianas, conhecidas como Vetus Latina79. É tarefa árdua, porém, identificar qual versão da Vetus Latina foi usada pelo poeta, não só por causa da dificuldade de acesso aos testemunhos remanescentes dessas versões80, como também pela peculiaridade das citações bíblicas no ambiente poético, conforme esclarece CHARLET (1983, p. 32): [...] Prudence est soumis aux exigences du mètre et les préoccupations esthétiques ne s'accordent pas toujours avec une fidélité littérale au texte sacré qui confinerait au prosaïsme. [...] Lorsqu'un prosateur cite un long passage biblique, ce qui implique le recours au texte sacré, on peut se livrer à une comparaison minutieuse avec les autres versions. Dans un texte poétique, les longues citations sont impossibles; tout au plus les hasards de la prosodie permettent-ils, dans des cas très limités, de reproduire textuellement une bréve citation biblique. Mais le plus souvent, un poète procède par allusion ou, s'il s'attarde sur un péricope, il la récrit à sa manière, et le vêtement poétique dont il la couvre occulte la version biblique utilisée. A cultura bíblica de Prudêncio manifesta-se no emprego das perícopes, no recurso a temas escriturísticos, na alusão a personagens do Antigo e do Novo Testamento, na citação mesma de trechos das Sagradas Escrituras, conforme se pode comprovar a seguir.81 75 CHARLET (1983, pp. 3-6) faz um levantamento dos principais estudos sobre o tema, como as teses de A. Rösler, F. X. Schuster, M. Lavarenne, N. Grasso e A. Salvatore. 76 Explica DYKES (2015, p. 14): “Vetus Latina [...] is an umbrella term which is used of all Latin Bible texts before Jerome. These had diverse origins and were in no way the products of a centralized plan or any universal exercise of authority.” 77 Sobre a variedade de versões em latim que circulavam naquele tempo, diz S. Jerônimo, no prefácio aos Evangelhos dirigido ao Papa Dâmaso que “quase há tantas versões latinas quanto códices” (tot sunt paene quot codices). 78 S. Jerônimo realizou seu trabalho de tradução da Vulgata basicamente entre os anos de 390 e 405 d. C. (a revisão dos Evangelhos costuma ser datada do ano de 383 e a do Saltério após 386). Cronologicamente, portanto, Prudêncio, que publicou sua obra no ano de 404-405 d. C., pode ter tido contato com o texto jeronimiamo, mas CHARLET considera improvável (cf. 1983, p. 8). 79 Isso fica claro no uso dos nomes próprios que ocorrem em Hamartigenia, como se pode deduzir das notas ao texto; cf. as notas aos nomes Absessalon (v. 564, 577 e 580), Belia (v. 520), Boos (v. 786), Golia (v. 784), Ierico (v. 480), Nebroth (v. 143), Solomon (vv. 576, 579), Zebusiacae (v. 416). 80 Os monges beneditinos da Abadia de Beuron estão desde 1945 trabalhando numa edição crítica completa das traduções latinas pré- Vulgata, a partir de manuscritos e das citações de autores antigos. 81 Neste passo nos baseamos grandemente na compilação feita por CHARLET (1983, p. 41 ss.) 35 São tratados de acordo com o texto do Gênesis (livro do Antigo Testamento mais aproveitado por Prudêncio nos seus poemas) o domínio do homem sobre as criaturas (Gn 1, 26 = Ham. 699-700; Gn 1, 28-30 = Ham. 679-684), a bondade da Criação (Gn 1, 31 = Ham. 341), a criação do homem, formado do barro (Gn 2,7 = Ham. 698 e 846), a criação da mulher (Gn 2, 21 = Ham. 280-281), as alusões à queda e à tentação da serpente (Gn 3, 1 = Ham. 197 ss.; Gn 3, 1-6 = Ham. 711), a resposta de Deus a Eva (Gn 3, 13 = Ham. 713-714), a maldição da terra e do solo (Gn 3, 18 = Ham. 216-218); o demônio, comparado ao caçador Nemrod (Gn 10, 8-12 = Ham. 142-148); o relato da história de Lot e os anjos que lhe foram enviados por Deus (Gn 19, 23-24 = Ham. 725 ss. e Gn 19, 15 = Ham. 730); o episódio de Cain e Abel (Gn 4, 7), desempenha uma função alegórica fundamental para a compreensão da obra; ainda extraído do Gênesis, Moisés, “historiador do mundo nascente”, testemunha sobre a bondade da criação (Gn 1, 31 = Ham. 339-341); a história de Rute, que decidiu acompanhar sua sogra Noemi, é resumida nos vv. 778-788 (Rt 1, 4-5 = Ham. 778; 2, 3 = Ham. 785; 4, 13 = Ham. 786; 4, 22 = Ham. 787), como paradigma do livre-arbítrio; a travessia do rio Jordão (Js 4, 9; Sl 113, 3-5 = Ham. 482-483); os sete povos inimigos dos hebreus (cananeus, amorreus, gergeseus, jebuseus, heteus, ferezeus, heveus) surgem alegoricamente como auxiliares do demônio no ataque que este faz contra a alma (Ex 33, 2; 34, 11; Dt 7, 1; 20, 17; Js 3, 10; 9, 1; 11, 3; 12, 8 = Ham. 409-423); a revolta de Absalão contra Davi, seu pai (2 Rs 14 e 15), imagem do mal que o homem gera dentro de si mesmo, do seu próprio coração (v. 563 ss.); a transmigração do povo judeu e o cativeiro na Babilônia (4 Rs 24, 14 e 16; 25, 11) são representados como metáfora da alma escrava do demônio, sob a figura do príncipe assírio Nabucodonosor (vv. 448-449); os judeus cativos na Babilônia, esquecidos de seu Deus, adorando a estátua de ouro erguida por Nabucodonosor (Dn 3, 7), são como a alma humana, esquecida do seu Criador e entregue ao pecado e aos atrativos do demônio (vv. 460-461). Do livro do Êxodo82, faz-se referência à escravidão do povo judeu no Egito (Ex 5, 10-11 = Ham. 463-465) e ao prodígio da vara de Moisés na presença do Faraó (Ex 7, 10 = Ham. 470); a fuga do Egito, em que os hebreus iam divinamente guiados por uma coluna de nuvem de dia e uma de fogo à noite (Ex 13, 21) e a travessia do Mar Vermelho (Ex 14, 22) são referidos como auxílios de Deus ao povo judeu (Ham. 475-476 e 471, respectivamente). Quanto ao Novo Testamento, a história do mendigo Lázaro (Lc 16, 24 = Ham. 859- 862; Lc 16, 22 = Ham. 852-853; Lc 16, 26 = Ham. 924; Lc 16, 23 = Ham. 925-930) tem função importante no tratamento que Prudêncio dá ao tema do destino das almas após a 82 Entre os livros do Antigo Testamento, o do Êxodo é, depois do Gênesis, o mais usado por Prudêncio nos seus poemas (cf. CHARLET, 1983, p. 50). 36 morte; despontam temas paulinos como o mundo submetido à vaidade (Rm 8, 20 = Ham. 506- 507), o domínio de Cristo sobre todas as coisas (Ef 1, 21 = Ham. 29), o poder do príncipe deste mundo (Ef 2, 2 = Ham. 391), Cristo pedra angular (Ef 2, 20 = Ham. 486), a luta contra as potestades das trevas (Ef 6, 12 = Ham. 509-516), a cobiça, raiz dos males (1 Tm 6, 10 = Ham. 258); o demônio como leão rugiente (1 Pe 5, 8); as revelações que S. João teve em sonho são exemplo de como a alma, sem deixar o corpo, pode estender sua visão a lugares que o olho humano não alcança (Ap 1, 9-10 = Ham. 910-911; Ap 8, 6-7 = Ham. 915-917). Seria desejável comparar o léxico dos referidos trechos da Sagrada Escritura com os versos prudencianos, a fim de verificar até que ponto a linguagem bíblica os influencia. A tarefa, porém, esbarra na dificuldade, já discutida, sobre o tipo de texto usado pelo poeta, de modo que a comparação ideal deveria confrontar não apenas com a Vetus Latina, mas também com a Septuaginta e a Vulgata. Como quer que seja, conforme observa GARCÍA (1998, p. 38), a dependência do texto prudenciano em relação ao escriturístico não é apenas de forma, mas também de pensamento, o que fica claro com as referências listadas acima. Quanto à presença de escritores cristãos, S. Ambrósio (De Cain et Abel) parece ter servido de modelo83 para a composição da cena de Cain e Abel no Praefatio de Hamartigenia (cf. nota aos vv. 11-13). Tertuliano, autor de Adversus Marcionem, obra em cinco livros contra a heresia de Marcião, foi certamente modelo para a composição de Hamartigenia, no diz respeito à polêmica contra Marcião, embora ainda se discuta até que ponto Prudêncio teria utilizado a obra. A ressonância desses autores cristãos e de outros, como S. Jerônimo, S. Agostinho e S. Paulino de Nola, na poesia prudenciana pode ser verificada na consulta às notas da tradução, onde se fazem aproximações de sentido ou de vocabulário e expressão. Ainda que nem sempre tais referências sejam suficientemente probatórias, fornecem indícios que podem ser investigados e aprofundados em estudos posteriores. 4.2.2. Escritores pagãos Quando os escritores cristãos decidiram expressar sua fé e doutrina por meio da arte literária, surgiu o questionamento sobre o uso que se deveria fazer da poesia pagã, ao mesmo tempo admirada por suas riquezas artísticas, mas incompatível, em muitos pontos, com a nova religião (ORTEGA; RODRÍGUEZ, pp. 37*-43*). Muitos escritores cristãos opunham objeção de 83 S. Ambrósio é notoriamente um modelo da poesia prudenciana, mas a importância do bispo milanês é maior na composição do Cathemerinon, graças ao seu hinário, e nos dois livros Contra Symmachum, em virtude de suas cartas ao imperador Valentiano, em 384, por ocasião da polêmica sobre o altar da deusa Vitória no Senado romano (ORTEGA; RODRÍGUEZ, 1981, pp. 32*-34*). 37 consciência ao uso dos autores pagãos (cf. GARCÍA, 1998, pp. 38-39). Três eram as vias seguidas em relação à poesia pagã: a) a recusa obstinada (e. g., Tertuliano); b) a imitação servil (e. g. Proba, Juvenco)84, e c) a assimilação criativa (e. g. Prudêncio, Paulino de Nola). Dois extremos, e uma postura conciliatória. Foi um momento crucial para a literatura latina, esse da polêmica sobre o modo como o escritor cristão lidaria com a literatura pagã. E, das três posições existentes, prevaleceu a moderada, da qual Prudêncio foi um dos supremos modelos. Diante da negação da herança das formas antigas ou da aceitação servil, Prudêncio procurou fazer justo uso85 da tradição e incorporá-la ao seu projeto poético de louvor a Deus e de defesa da ortodoxia. Em Hamartigenia, como em toda a obra de Prudêncio, domina a figura de Virgílio86, cujos versos, principalmente da Eneida e das Geórgicas, lhe servem de modelo. Lucrécio aparece principalmente como modelo didático, no entusiasmo “apostólico” com que ambos expõem a doutrina que professam, assim como no elogio à vida moderada e na crítica à vaidade, à ambição e ao luxo. Nisso Prudêncio se alia igualmente com Juvenal, nos momentos mais satíricos. GARCÍA (1998, p. 41) refere ecos de Claudiano na poesia de Prudêncio, que se podem verificar nas notas ao texto. O mesmo que foi dito sobre as notas referentes aos autores cristãos vale para os autores pagãos. Remetemo-nos a elas, para uma visão mais ampla das fontes empregadas por Prudêncio. Em alguns casos, como nas notas aos vv. 141 e 235, analisamos com mais cuidado a presença do modelo, em outros apenas a menção nos bastou para identificar uma eventual repercussão do autor citado. 4.3. A retórica a serviço do poeta Se por um lado Prudêncio não rejeita a herança clássica, em que nasceu e se instruiu, por outro também não a admite indiscriminadamente: renova-a à luz da fé, acrescentando-lhe 84 Ou “inorgânica”, como a denominou GARCÍA (1996, pp. 444-445): “tras unos ensayos de imitación inorgánica, de imitatio a secas, como la que, por ejemplo caracteriza el centón a la manera de Proba o la epopeya bíblica al modo de Juvenco, nos encontramos con una generación de sólidos poetas como Prudencio o Paulino de Nola que profundizan notable y fructíferamente en el método imitativo, rivalizando con los antiguos (aemulatio) y sierviéndose para ello de cuantas fuentes vengan a su pluma y colaboren con sus fines (contaminatio), con lo que no hacían sino seguir a su vez los pasos marcados ya por sus propios modelos, aunque añadiendo una buena dosis de manierismo (neo- alejandrinismo se lo ha llamado) en la práctica misma de esa ‘mezcla de tonos y géneros’”. 85 Como afirma GARCÍA (1998, pp. 38-39): “Los grandes intelectuales cristianos de la época [de Prudencio] habían ido abandonando aquella resistencia que en otros momentos y entre sectores menos cultivados de la nueva religión se había ofrecido a los portadores del saber pagano. Los grandes autores clásicos, en efecto, habían sufrido cierta condena por su adscripción religiosa y ello hacía poco recomendable el recurso a sus textos en busca de inspiración. Sin embargo, como digo, las mentes más preclaras del Cristianismo van comprendiendo la necesidad de aprovechar ese riquísimo caudal literario y –en aspectos muy concretos– de pensamiento que la antigua Roma ofrecía (no en vano se trataba de su propia tradición cultural), aunque teniendo siempre presente la necesidad de subordinar ese aporte a las necesidades de la nueva religión. Se trataba, en definitiva, de reutilizar a los antiguos, de hacer de ellos un uso justo (así se lo llamó).” Não apenas “setores menos cultivados”, vale dizer, foram contrários ao uso da literatura pagã, mas também figuras de proa, como Tertuliano. 86 Sobre as influências gerais na obra de Prudêncio, cf. GARCÍA, 1998, p. 39. 38 um novo conteúdo e rejeitando aquilo que lhe parece contrário a essa mesma fé. Como afirma CHARLET (apud GARCÍA, 1998, p. 144): “Le poète chrétien [...] n’accepte la tradition classique que pour l’utiliser dans un sens chrétien, ou mieux, pour la convertir à un projet spirituel chrétien”. Uma das heranças da tradição pagã, a que Prudêncio não pôde furtar-se, foi a retórica. Aqui serão comentados alguns versos de Hamartigenia, a fim de demonstrar a presença de elementos retóricos no poema. A retórica, como arte ou ciência do bem falar nos assuntos civis87, preparava o jovem romano para a persuasão e para a vitória no confronto dialético, sem preocupações de ordem moral acerca das proposições defendidas. Era de se esperar que essa disciplina, assim entendida, fosse repudiada pelos cristãos, preocupados com os problemas morais e com o ideal da vida virtuosa. Na própria Sagrada Escritura encontravam o preceito no qual podiam se basear: Sit autem sermo uester: “Est, est”, “Non, non”; quod autem his abundantius est, a Malo est (Mt 5, 37). O estudo da retórica constituiu um dos elementos mais importantes, senão o mais importante, da formação superior do romano culto do séc. IV (LÓPEZ, 2002, p. 25). Que Prudêncio fosse instruído e versado nessa técnica, prova-o seu Proœmium autobiográfico (vv. 7-9): Aetas prima crepantibus fleuit sub ferulis, mox docuit toga infectum uitiis falsa loqui non sine crimine. A idade primeira sob a crepitante palmatória chorou, depois ensinou a toga ao infectado de vícios dizer falsidades, não sem culpa. Nessa estrofe, surge em primeiro plano a figura do gramático severo que ministrava os rudimentos das letras às crianças das famílias da sociedade, o plagosus Orbilius horaciano88, e, em seguida, na idade maior, contaminado de vícios (infectum uitiis), o poeta foi ensinado pela toga (figura da retórica) a dizer falsidades (falsa loqui) não sem culpa (non sine crimine). Depois, na lida forense (iurgia), Prudêncio pôde exercitar seu saber retórico, cobiçoso das vitórias forenses (uincendi studium) (Proœm. 13-15). Nos mencionados versos do Proœmium sobre a retórica, revela-se o principal motivo da resistência dos cristãos à retórica, herança cultural do mundo antigo: a questão de 87 ISID. Etym. 2. 1. 88 Não apenas Horácio relembra os rigores da palmatória da escola da Antiguidade, mas também Plauto, Juvenal, Marcial, Ausônio, Plutarco e Quintiliano (cf. ORTEGA; RODRIGUEZ, 1981, p. 4, n. 8). 39 consciência diante do problema moral89. Dá-se, pois, uma solução paradoxal: ao mesmo tempo em que a retórica é vituperada por não cuidar do bom e do justo, é também usada pelo intelectual cristão como técnica para louvar a Deus e defender a fé90. Isso é possível porque, sendo uma arte de bem dizer e persuasão, cuida a retórica do como se diz, não do que se diz; o conteúdo da mensagem depende da doutrina e da moral do retor. Prudêncio censura a eloquência do fórum, mas emprega os recursos dela para anunciar com maior eficácia sua mensagem. Em relação à retórica, Prudêncio estabelece a comparação com o cachorro raivoso. Diz Prudêncio que a loquacidade canina dos advogados ressoam por todo o fórum (v. 401: Inde canina foro latrat facundia toto). Embora o poeta conhecesse bem a seara forense, por ter militado nela91, essa imagem, contudo, não lhe pertence originalmente. É um topos do mau orador, que teria sido criado por Ápio Cláudio Cego, cônsul de 307 a 296 a.C 92. Tal crítica ao mau orador já se encontra em alguns escritores pagãos93. Mas, no séc. IV, a crítica à retórica torna-se mais abrangente entre os escritores cristãos. Em Hamartigenia pode-se prová-lo com três exemplos. Dois versos antes da menção à retórica como canina facundia, Prudêncio descreve a alma humana rendida aos vícios e acossada pelos espíritos demoníacos (vv. 399-400): Ambitio uentosa tumet, doctrina superbit, personat eloquium, nodos fraus abdita nectit. Infla a fátua ambição, o saber assoberba, retumba a loquacidade, os nós a fraude furtiva trama. Integrando um elenco de conotação negativa, composto pela ambição (ambitio), pelo saber (doctrina) e pela fraude (fraus), aparece a eloquência (eloquium). Nas quatro orações dos dois versos, eloquium é o único termo que vem desacompanhado de uma palavra de conotação negativa que lhe desdourasse ainda mais o sentido, como se possuísse, per se, a carga viciosa94. Apesar disso, Prudêncio não condena de modo absoluto a retórica, reconhece- 89 Nas Confissões, S. Agostinho, que foi rhetor, em diversos momentos alude negativamente ao tempo que dedicou ao estudo e à leitura dos clássicos, bem como à retórica (Conf. 1. 18. 28: quid autem mirum, quod in vanitates ita ferebar). 90 Para uma exposição de como Prudêncio aplica os esquemas retóricos no poema Contra Symmachum, cf. o artigo de LÓPEZ, “Rhetor invitus: Prudencio entre la fe, la tradición y la retórica”, 2002. Sobre a retórica em Perisephanon, LEVINE (1991, p. 11) observa que “Prudentius shows none of guilt about using classical rhetoric that penetrates the texts of Jerome and Augustine [...]’” 91 Proœm. 13-15. 92 QUINT. Inst. 12.9.1.1: Ea est enim prorsus 'canina', ut ait Appius, 'eloquentia', cognituram male dicendi subire. Quanto a outras expressões similares, cf. nota ao v. 401. 93 CIC. Com. 57: Alii vestrum anseres sunt, qui tantum modo clamant, nocere non possunt, alii canes, qui et latrare et mordere possunt. 94 O verbo personat é semanticamente neutro, e na verdade é o substantivo eloquium que dá ao verbo a conotação negativa nesse trecho. 40 lhe utilidade para louvar a Deus, mas os homens preferem empregá-la mal, com objetivos ruins e nefastos (LÓPEZ, 2002, p. 29). Quando o poeta descreve a corrupção da natureza de Lúcifer, uma das transformações ocorre na linguagem (vv. 201-202): Simplex lingua prius uaria micat arte loquendi et discissa dolis resonat sermone trisulco. Simples antes, a língua vária vibra na arte da eloquência e, de dolos fendida, ressoa em linguagem trissulca. A língua do anjo caído, antes simples e sincera95 (simplex), divide-se; sua fala revela a cisão no seu ser, após o pecado, tornando-se tripartida (trisulco) e dolosa (dolis). Além disso, a corrupção de Lúcicer se manifesta no conhecimento da arte da eloquência (uaria arte loquendi), variada e incerta. Assim, a retórica é apresentada negativamente, como uma técnica que maneja os argumentos mais variados possíveis, não para o bem e para o justo, mas com o fim doloso de confundir e vencer. Daí o exercício e o domínio dessa arte é um vício que o mesmo Lúcifer contraiu após sua perdição. No entanto, a uarietas retórica, que ao mesmo tempo encanta e confunde, é assumida por Prudêncio como um instrumento que pode atender ao seu propósito poético96. Em Hamartigenia, o elemento retórico é um componente importante do poema, sendo um poderoso auxílio na refutação97 da heresia marcionita. Por fim, nota-se a marca do advogado forense em alguns versos lapidares (Ham. 22, 25-26), cujo teor e concisão muito se assemelham a máximas jurídicas. Como Prudêncio fosse advogado, a hipótese de que seus recursos retóricos têm raízes no ambiente forense nos parece muito provável. 95 O adjetivo simplex pode ser lido tanto em sentido concreto, quanto em sentido abstrato; ambos estão contidos aqui, pois também o substantivo lingua, ao qual se refere, permite as duas leituras: o órgão da boca e a própria linguagem. 96 A uarietas é uma nota da poesia prudenciana, que se manifesta, por exemplo, na diversidade dos metros dos prefácios e dos poemas líricos. 97 Segundo LÓPEZ (2002 p. 28), “en cierto sentido, la refutatio es lo que más centralmente caracteriza la actividad retórica forense.” E cita QUINT. Inst. 5.13.1: Refutatio dupliciter accipi potest: nam et pars defensoris tota est posita in refutatione, et quae dicta sunt ex diuerso debent utrimque dissolui. 41 4.4. Texto original anotado e tradução AMARTIGENIA A ORIGEM DO PECADO Fratres ephebi fossor et pastor duo, quos feminarum prima primos procreat, sistunt ad aram de laborum fructibus deo sacranda munerum primordia. Hic terrulentis, ille uiuis fungitur. 5 Dois mancebos, um lavrador e um pastor, irmãos, prole primeira da primeira das mulheres, depõem no altar, do fruto dos suores seus, as primícias do trabalho, oferendas a Deus. Um com terreais, o outro com vivos dons oficia. 5 ___________________________________________________________________________ 1-63] Este poema introdutório, em 63 senários iâmbicos, é designado convencionalmente de Praefatio, embore não se encontre tal denominação nos códices (CUNNINGHAM, 1966, p. 116). A grafia sem h, segundo CUNNINGHAM, é mais adequada à época de Prudêncio. 1-2 ephebi] Gn 4, 2-5. Grecismo. PALLA (p. 119, 1981) destaca que esse vocábulo, empregado por Plauto, Terêncio e Lucílio, se encontra raramente nos poetas do séc. I a.C, estando mais presente nos poetas da segunda metade do séc. I d.C., como Lucano, Marcial, Juvenal e Estácio. Prudêncio emprega-o nove vezes (aqui e em Cath. 9. 43; Psych. 845; Symm. 1,170; Perist. 9. 27; 10. 189, 279, 767; 14. 72). Além da razão métrica para sua escolha, deve-se considerar a aliteração de [f] formada com outros dois vocábulos do primeiro verso (fratres ephebi fossor) e com feminarum, do segundo. Outra aliteração se dá com o [p], ou [pr], presente no vocábulo pastor no v. 1 e nestas três palavras do v. 2: prima primos procrat, ocorrendo, assim, um cruzamento aliterativo, que se pode ilustrar do seguinto modo: Fratres ephebi fossor et pastor duo \ | / / | \ quos feminarum prima primos procreat. Quanto ao assassianto de Abel, MALAMUD (2011, p. 3) destaca a importância da temática do conflito entre irmãos na literatura e mitologia antigas, como é o caso de Rômulo e Remo, além dos filhos de Édipo, Etéocles e Polinices (Antígona de Sófocles e Tebaida de Estácio). fossor et pastor] LAVARENNE (apud PALLA, p. 119, 1981) registra 134 substantivos terminados em -tor e -sor nos poemas de Prudêncio (nove dos quais usados apenas por ele). O uso frequente do sufixo -tor não é particularidade de Prudêncio, mas recurso comum na criação de neologismos na língua dos antigos cristãos, conforme MOHRMANN (1961, pp. 35 e 44); no entanto, ambos os nomes já se encontravam na literatura clássica. Convém destacar que no texto da VULGATA Abel é tratado como pastor ouium, e Cain como agricola (Gn 4, 2); na VETUS LATINA também Abel é designado como pastor ouium, enquanto Cain operabatur terram (Gn 4, 2). Segundo PALLA (1981, p. 120), a escolha do vocábulo fossor, embora seja um termo com tradição poética (cf. VERG. G. 2. 264), indica certo “preziosismo linguistico”, empregado por Prudêncio apenas nesta passagem. MALAMUD (2011, p. 3), por sua vez, menciona as conotações negativas do vocábulo, usado para designar certos ofícios manuais considerados desprezíveis, como o de coveiro, e para significar “fornicador”. Além da necessidade métrica, contribui a criar a aliteração mencionada e compõe com pastor um paralelismo de vocábulos dissílabos, com rima interna, dando sonoridade ao verso, característica da poesia de Prudêncio. prima primos] juntamente com primordia (v. 4), formam um conjunto semântico de radical prim- que dá ênfase à antiguidade da cena da origem do pecado (cf. MALAMUD, 2011, p. 2). Em diversos lugares do Praefatio, o poeta parece querer mostrar como o pecado se introduziu já no início da Criação, daí ocorrência de muitas palavras e expressões desse mesmo campo semântico: prima (v. 2), primos (v. 2), primordia (v. 4), prisca... fabula (v. 25), factoque primo (v. 26). 3 sistunt ad aram] VERG. A. 8. 85: sistit ad aram. Quanto às expressões de laborum fructibus e munerum primordia, em referência às ofertas de Cain e Abel, assim se encontram nas versões do livro do Gênesis (Gn 4, 3-4): para a oferta de Cain, de fructu terrae (VETUS LATINA) e de fructibus terrae (VULGATA); para a de Abel, de primitiis ouium (VETUS LATINA) e de primogenitis gregis sui (VULGATA). Prudêncio se aproveita do texto das versões latinas da Bíblia, usando os termos fructus e primordia (da mesma família semântica de primitia e de primogenitus), mas, em vez de usá-los para distinguir os sacrifícios dos irmãos, descreve ambos os sacrifícios em conjunto. 5 terrulentis] qui terra constat, terrenus (FORCELLINI); neologismo de Prudêncio, que usou o advérbio terrulente (cf. Perist. 2. 195 e 10. 378). LAVARENNE (apud PALLA, 1981) nota a predileção de Prudêncio pelo sufixo -lentus (presente em 17 adjetivos de poesia, enquanto em Virgílio ocorre 3 vezes). Com a distinção entre terrulentis e uiuis (terra e animal), o poeta introduz simbolicamente a oposição entre corpo- alma, morte-vida. Cain representa o homem terreno (v. 12), enquanto Abel o homem espiritual (cf. AMBR. Cain 1. 10: plus est enim animalis quam terrenus, siquidem animalis proximus spiritali est). 42 Certante uoto discrepantes inmolant fetum bidentis alter ast alter scrobis. Deus minoris conprobauit hostiam, reiecit illam quam parauit grandior. Vox ecce summo missa persultat throno: 10 “Cain, quiesce; namque si recte offeras oblata nec tu lege recta diuidas, peruersa nigram uota culpam traxerint.” Num certame votivo discordantes imolam: este, um produto de ovelha bima; aquele, um da cova. Deus aprovou do mais novo a hóstia, rejeitou a que preparou o mais velho. Uma voz eis que do sumo trono ressoa: 10 “Cain, aquieta! Se ofereces correto o sacrifício, mas a oblação não divides pela reta lei, tua perversa oferta negra culpa te trará.” ___________________________________________________________________________ 7 bidentis] causa estranheza a presença deste termo em relação à oferta de Abel. Pois, embora bidens signifique ovelha de sacrifício, de dois anos ou com os dois dentes incisivos maiores (pinças) já permanentes (cf. s. v. OLD), em outros contextos pode denotar uma enxada de dois dentes, instrumento agrícola que quadraria melhor a Cain (fossor). A noção mesma de “dois” (bi- + dens), presente na formação do vocábulo, seria mais adequada à divisão pratica por Cain no sacrifício, figura do diteísmo de Marcião. alter ast alter] ênfase antitética. PALLA (1981, p. 121) destaca o uso frequente em Prudêncio de repetições, anáforas e aproximação de palavras similares, citando como exemplos do Praefatio: v. 2: prima primos; vv. 11-12: recte... recta; v. 22: crimen... crimine; v. 33: quis... quis; v. 42: uiuum... uiuorum; vv. 45-46: duorum... duo; vv. 50-51: terram... terram; vv. 55-56: carnis... caro; vv. 56-57: mentem... mens; v. 60: deum... deos. ast] conjunção arcaica, emprega muitas vezes imediatamente antes do pronome alius, compondo um pé dátilo āst ălĭ-, sobretudo no início do hexâmetro (cf. Ham. 120, 412, 812). scrobis] significa um sulco ou buraco cavado na terra, especialmente para a plantação, como também cova ou vala destinada ao cadáver (s. v. OLD), mantendo a duplicidade semântica já indicada com relação a fossor (agricultor e coveiro). Cain é o rústico que iniciou a morte (v. 27: mortis inchoator rusticus). 8-9 Sobre as possíves causas por que Deus recusou o sacrifício de Cain, cf. comentário aos vv. 11-13. 11-13 Paráfrase de Gn 4, 7. O texto de Prudêncio se distancia da VULGATA: Nonne si bene egeris, recipies: sin autem male, statim in foribus peccatum aderit?. É mais provável que se baseie na VETUS LATINA: Nonne si recte offeras, recte autem non diuidas, peccasti? Quiesce, o que se aproxima do texto grego da SEPTUAGINTA (cf. CHARLET, 1983, p. 22). As versões latinas das Sagradas Escrituras eram bem difundidas, sobretudo na Península Ibérica. (cf. PALLA, p. 123). Quanto ao motivo por que foi recusada a oferta de Cain, S. Agostinho afirma que a obscuridade do versículo fez com que cada exegeta tentasse explicá-lo segundo a regra de fé (Ciu. 14, 7, 15-19). De acordo com ele, o sacrifício de Cain seria correto (recte) porque oferecido ao Deus verdadeiro, mas, quanto à oração recte non diuidas, dá várias possibilidades de interpretação, nenhuma concludentes, reconhecendfo a dificuldade de encontrar uma resposta exata sobre a razão por que a oferta de Cain desagradou a Deus (Ciu. 14, 7, 19-32). Quanto à recusa divina, S. Ambrósio, em De Cain et Abel, 1. 10. 41, diz que Cain deveria ter oferecido a Deus, antes de tudo, suas primícias, para que principiasse na graça do Criador; e Deus ordenou que Cain sossegasse (quiesce), porque nenhuma justificativa convinha. Prudêncio parece não aderir a essa razão de S. Ambrósio, pois afirma que as ofertas eram feitas das primícias dos trabalhos (cf. v. 4: primordia), mas acolhe outra exegese do mesmo Ambrósio sobre o valor superior da oferta de um animal vivo (Cain, 1, 10; cf. nota ao v. 5). Ademais, Ambrósio diz que a oferta de Cain foi negada por causa das más afeições do ofertante Cain (Cain 2, 6, 18: Deum non muneribus oblatis placari, sed offerentis affectu), com o que concorda um trecho de Psychomachia (Psych. 772- 774), em que Prudêncio diz que Deus não aceita o sacrifício de um coração em rixa contra o seu irmão. Assim interpreta DRESSEL (1860, p. 128): Quare respexit dominus ad munera Abel? Numquid plus placet domino pecualis hostia, quam sacrificium de fructibus? Non utique. Sed quia videbat cor Cain malitia et invidia plenum contra fratrem suum, munus eius reprobavit. Assim, Cain sacrificaria recte, mas não recta mente (cf. DRESSEL, p. 129). Cf. nota ao v. 31. 13 culpam traxerint] JUVENC. 3. 688: Occidisse illum traheret confessio culpam. AUG. Ep. Parmen., 2, 34, XXII, 42: ipsa negligentia culpam trahit. 43 Armat deinde parricidalem manum frater probatae sanctitatis aemulus, 15 germana curuo colla frangit sarculo. Mundum recentem caede tinguit inpia sero expiandum iam senescentem sacro cruore Christi quo peremptor concidit. Mors prima coepit innocentis uulnere, 20 cessit deinde uulnerato innoxio. Arma então a mão fratricida o irmão, da santidade aprovada inimigo, 15 e o germano colo quebra com curvo sacho. Ao mundo recente com a morte tinge, ímpia, o qual será tarde purificado, já decadente, pelo sacro sangue de Cristo, no qual sucumbe o assassino. A morte primeira começou com a ferida dum inofensivo, 20 cessou em seguida, ferido um inocente. ___________________________________________________________________________ 14 parricidalem] uma ocorrência em Prudêncio; “parricida” é propriamente aquele que mata o pai ou um parente (FORCELLINI, s. v.), aqui usado na segunda acepção. PALLA (1981, p. 124) observa que S. Ambrósio emprega mais de uma vez esse adjetivo pós-clássico para relatar o mesmo episódio: per Cain parricidalis populus intellegitur Iudaeorum (Cain 1. 2. 5); quia nullis Cain impius bonis operibus tegebatur, quia parricidalis erat (Apol. Dav. 1, 6, 36). dĕīndĕ] advérbio geralmente dissílabo na poesia (deindĕ); a forma trissílaba (dĕīndĕ), embora seja mais rara (FORCELLINI, s. v.), é a que mais ocorre em Prudêncio (cf. também v. 21), enquanto a sinérese se dá em Symm 2. 347 e em Perist. 5. 205 e 542 (PALLA, 1981, p. 124). 16 germana... colla] em vez de germani/fratris colla. Além da razão métrica, o uso do adjetivo pelo genitivo restritivo é comum no latim do período cristão (cf. PALLA, 1981, p. 124). colla] plural poético; em Hamartigenia, lê-se ainda terga (v. 435) e menta (v. 748), partes do corpo, como colla (PALLA, 1981, p. 125). sarculo] a Sagrada Escritura (Gn 4, 8) não menciona o instrumento nem o modo como Cain matou Abel, daí os escritores divergirem e conceberem à sua maneira. CHAMILLARD (p. 524) cita alguns exemplos: para S. João Crisóstomo, Cain feriu Abel com uma espada (gladio); para Irineu, com uma foice; para Isidoro, com espada ou um instrumento de ferro (ferro); outros referem mordidas ou pedradas. Juvenco, por sua vez, defende como causa mortis o estrangulamento: Elidit geminis frendens pia guttura palmis. (Gen. v. 155). CHAMILLARD justifica a escolha de Prudêncio pelo critério da verossimilhança, pois, sendo sarculum um instrumento agrícola para extrair as ervas daninhas do terreno, Cain o teria facilmente à mão, por ofício. Venâncio Fortunato (c. 530-600), na esteira de Prudêncio, atribuirá o mesmo instrumento a Cain; FORT. Carm. 9, 2: Ac fraterna sibi sarcula membra fodent (BROWERUS, apud ARÉVALO, p. 1009). germana curuo colla frangit sarculo] pela repetição das guturais g e c, bem como da vogal posterior u e do r vibrante, o poeta reproduz expressivamente o golpe de Cain que degolou Abel. 17 caede tinguit] OV. P. 2.9.56: hostili tingere caede manum. 18 expiandum] gerundivo com força de particípio futuro passivo, recorrente em Prudêncio (PALLA, 1981, p. 126; cf. v. 735: cremandi). 18-19 sacro/cruore] VERG. G. 4. 542: sacrum iugulis demitte cruorem; A. 5. 333: immundoque fimo sacroque cruore; SULP. SEV. Chron. 2. 32. 4: omnis fere sacro martyrum cruore orbis infectus est. 19 peremptor] o demônio (cf. Jo 8, 44: ille homicida). No v. 33 do Praefatio, refere-se a Marcião. Substantivo atestado em escritores do séc. I d.C. em diante, como Sêneca (Oed. 221) e Apuleio (M. 3. 9; 7. 24; 8. 13); na literatura cristã, por S. Ambrósio (Inst. virg. 7. 49) e na VULGATA (2 Mc 4,16). O particípio passado peremptus, do qual o substantivo em questão deriva, já era frequente em poetas anteriores como Lucrécio, Virgílio e Ovídio. É conhecida a predileção dos autores tardios pelo sufixo em -tor (cf. MOHRMANN, 1961, p. 35). 20-21 innocentis uulnere... uulnerato innoxio] nos segundos hemistíquios de ambos os versos, a repetição do prefixo in- e das raízes (noc- e uuln-) reforça no plano morfológico e semântico a analogia entre Cristo e Abel, sua figura. A combinação de antíteses e repetições, que se estende até o v. 26, enfatiza a referida analogia e os efeitos contrários em relação à Morte, decorrentes do assassinato de Abel e de Cristo (v. 22: per crimen orta ↔ dissoluta est crimine; v. 23: Abel... ante ↔ Christum dehinc; v. 25: ex futuris ↔ prisca... fabula; v. 26: factoque primo ↔ res... ultima). 21 1 Cor 15, 22. 44 Per crimen orta dissoluta est crimine, Abel quod ante perculit, Christum dehinc. Finita et ipsa est finis exsortem petens. Ergo ex futuris prisca coepit fabula 25 factoque primo res notata est ultima, ut ille mortis inchoator rusticus insulsa terrae deferens libamina deumque rerum mortuarum deputans rastris redacta digna sacris crederet, 30 Por crime nascida, desfeita foi num crime, que antes golpeou Abel, depois Cristo. E findou aquela que buscou quem não tem fim. Portanto, do futuro começou a antiga história, 25 e no primeiro ato foi figurada a realidade última, de modo que o iniciador da morte, aquele rústico, as libações da terra derramando insípidas, e supondo um deus de coisas mortas, creu digno do sagrado o recorrido dos rastros, 30 ___________________________________________________________________________ 25 fabula] significa tanto narrativas ficcionais, como relatos históricos. 26 res notata est ultima] para esse verso, de difícil interpretação quanto ao significado de res ultima, PALLA (1981, p. 127) aventa duas hipóteses: ou Prudêncio alude à crucificação de Cristo (assim o verso se relacionaria o anterior), ou à heresia marcionita (assim introduziria o seguinte). Embora a segunda hipótese lhe pareça “mais provável” (ARÉVALO, p. 1009 também a adota), optamos pela primeira, pois, na analogia entre Abel e Cristo nos vv. 20-26, nos deparamos com dois pares de versos (vv. 20-21 e 22-23) que dialogam opostamente e se completam em relação à Morte, tendo por desfecho a antítese do v. 24. A conjunção ergo do v. 25 como que conclui e mantém nos vv. 25-26 a mesma oposição dos pares anteriores, cruzando os elementos de tal modo que o primeiro hemistíquio do v. 25 (ergo ex futuris) se oponha ao do v. 26 (factoque primo), e as idéias dos segundos hemistíquios mantêm a antítese (prisca... fabula ↔ res... ultima). Assim, res ultima faz referência à crucificação de Cristo, como equivalente à expressão plenitudo temporis usada por S. Paulo (Gl 4, 4-5); cf. comentário de TEOLIUS: ex futuris: Morte scilicet Christi.. 27 inchoator] vocábulo raro, atestado a partir dos séc. IV e V (PALLA, 1981, p. 127). rusticus] adjetivo que também se aplica a Cain em Ditt. 7. 28 insulsa] “sem sal, insípido”, mas igualmente “inepto, tolo”, em paralelo com rusticus do verso anterior; nessa segunda acepção Prudêncio fala das práticas da religião pagã (Symm. 1. 213: insulsum tenuit sed credulus usum). libamina] a forma terminada em -men coexiste com a terminada em -mentum, embora a primeira seja nos poetas mais frequente (cf. PALLA, 1981, p. 127; segundo FORCELLINI, s. v., a voz libamen é praticamente poética). Prudêncio usa 71 substantivos em -men e 34 em -mentum (LAVARENNE, apud PALLA, 1981, p. 127). 29 Mt 22, 32: Non est Deus mortuorum sed viventium. deputans] além de “julgar, estimar”, possui a acepção de “cortar, amputar, desbastar” (sobre o uso da metáfora agrária aplicada a Cain, símbolo das coisas mundanas e perecíveis, cf. TADDEI, 1981, p. 7). 30 rastris redacta digna sacris crederet] aliteração de r, reproduzindo o barulho do instrumento agrícola ao sulcar a terra. 45 uiuentis atrox aemulator hostiae. Agnosco nempe quem figura haec denotet, quis fratricida, quis peremptor inuidus praue sacrorum disciplinam diuidat, mactare dum se uota censet rectius. 35 da hóstia viva inimigo atroz. Reconheço, sim, quem esta figura denota, que fratricida, que assassino invejoso divide a disciplina das coisas sagradas erroneamente, pensando imolar seus votos mais corretamente. 35 ___________________________________________________________________________ 31 uiuentis... hostiae] não apenas literalmente, em alusão à polêmica sobre a espécie de vítima usada nos sacrifícios (produto da terra ↔ animal), mas sobretudo simbolicamente, em referência ao culto do Deus uno e vivo (v. 42) e ao sacrifício de Cristo. aemulator] de uso raro no período clássico (CIC. Att. 2.1.10) e mesmo no período imperial, disseminado porém nas versões bíblicas latinas da VETUS LATINA e da VULGATA, bem como entre escritores cristãos. Ocorre só neste lugar da obra prudenciana. O radical aemul-, no entanto, aparece outras duas vezes em Hamartigenia, na forma aemulus (PrH. 15 e Ham. 178). Nos vv. 15 e 31 do Praefatio, aplica-se a Cain; no v. 178, ao demônio. Das outras 6 ocorrências desse radical (aemula: Cath. 5.27; aemula: Psych. 779; aemula: Apoth. 390; aemulae: Perist. 5. 315; aemulando: Perist. 12. 13; aemulas: Apoth. Praef, 46), a de Psychomachia (v. 779) nos interessa porque dialoga com o Praefatio de Hamartigenia. Ao fazer o elogio da Paz, Prudêncio diz (Psych. 772-774 [...] 779-783): Nil placitum sine pace deo. Non munus ad aram/cum cupias offerre probat, si turbida fratrem/mens inpacati sub pectoris oderit antro; [...] Non inflata tumet, non inuidet aemula fratri,/omnia perpetitur patiens atque omnia credit,/numquam laesa dolet, cuncta offensacula donat,/occasum lucis uenia praecurrere gestit,/anxia ne stabilem linquat sol conscius iram. Prudêncio afirma que Deus não aprova a oblação do ofertante que não está reconciliado com seu irmão. Isso indica que o sacrifício de Cain teria desagradado a Deus não por um erro de divisão na oferenda ou no rito, como parecem indicar as frases non recte dividas (Gn 4, 7) e o nec tu lege recta dividas (PrH. 12), mas pela intenção viciada do ofertante Cain (como a opinião de DRESSEL, exposta na nota ao v. 13). Além disso, a escolha do vocabulário desse trecho de Psychomachia, assim como os conceitos expressos, relacionam-se claramente com a cena bíblica do prefácio de Hamartigenia: munus (Psych. 772), munerum (Ham. 4); ad aram (Psych. 772, Ham. 3); offerre (Psych. 773), offeras (Ham. 11); probat (Perist. 773), comprobauit (Ham. 8) e probatae (Ham. 15); turbida... mens (Psych. 773-774), mens in cerebro uentilator ebrio (Ham. 57); fratrem... oderit (Psych. 772-773), fratricida (Ham. 33); inuidet (Psych. 779), inuidus (Ham. 33 e 48); aemula fratri (Psych. 779), aemulus (Ham. 15) e aemulator (Ham. 31). E os termos para retratar a Paz são opostos aos usados para descrever o demônio: a Paz non inflata tumet (Psych. 779), o demônio inflatur, dum grande tumens (Ham. 169); a Paz omnia perpetitur patiens (Psych. 780), o demônio inuidia inpatiens iustorum gaudia ferre (Ham. 133). O tema da Paz, com efeito, aparece no v. 41 do Praefatio, relacionada à unidade da Igreja: a paz eclesial é rompida pela heresia marcionita. 32 Agnoscŏ] abreviação da vogal -o final da 1ª p. s. do indicativo presente; recurso comum na época imperial, já presente no período clássico (cf. PALLA, 1981, p. 129). Em Hamartigenia, há 36 ocorrências da sístole da vogal -o final (STAM, 1940, p. 45), entre os quais: a) na 1ª p. s. do indicativo presente: agnoscŏ (PrH. 32), fallŏ (v. 506), detorqueŏ (v. 554); b) ablativo do gerúndio: luctandŏ (v. 147); em advérbios, como idcircŏ (v. 10), porrŏ (v. 147), immŏ (v. 127); c) no nominativo singular da 3ª declinação: discretiŏ (v. 26), dominatiŏ (v. 31 e 540), dominatiŏ (v. 42). figura] no sentido de typos, como no v. 50 do prefácio de Psychomachia (cf. PALLA, 1981, p. 119 e 129; SOUTER, 1949, s. v.). Prudêncio passa a interpretar a alegoria tipológica do episódio bíblico de Cain e Abel. 32-33 quem... quis... quis...] a anáfora do pronome quis, no início dos hemistíquios do v. 33, remontando a quem no verso anterior, produz um suspense sobre quem se encontra prefigurado na personagem de Cain, sendo revelado bem no início do v. 36, ao modo de resposta: quem... quis... quis... Marcion. Conforme PALLA (1981, p. 128), trata-se de uma hipotética tentativa de advininhação para o leitor. denotat] além das acepções “indicar por um sinal, denotar, significar, designar”, o verbo tem a acepção negativa de “censurar, denegrir” (OLD, s. v. 4). Ambas podem aqui ser aceitas. 33 fratricida] analogia entre Marcião, cuja heresia rompe a unidade e a paz eclesial (PrH. 40-41), causando a morte espiritual de seus irmãos (fratres = fideles), e Cain, parricidalis (Ham. 14), assassino de seu irmão Abel. Quanto a peremptor, ver nota ao v. 19. inuidus] Marcião é tomado de inuidia, “ódio e inveja”, inimiga da unidade (PrH. 48). O vocábulo inuidia ocorre mais duas vezes no poema (Ham. 187 e 554), atribuído ao demônio. É um vício que liga Cain, Marcião e o demônio, constituindo-se um dos conceitos que dão coesão ao Praefatio e ao próprio argumento do poema: Cain invejou/odiou a oferta aprovada de seu irmão Abel; Marcião invejou/odiou a unidade da Igreja; o demônio invejou/odiou o homem, que, embora de natureza inferior à sua, foi por Deus escolhido rei da Criação (Ham. 190 ss.). Lê- se na VULGATA (Sb 2, 23-24): Quoniam Deus creauit hominem inexterminabilem, et ad imaginem similitudinis suae fecit illum. Inuidia autem diaboli mors introiuit in orbem terrarum [...]. Cumpre observar a semelhança sonora entre inuidus e o verbo diuidere (PrH. 34: diuidat), uma vez que a ideia de divisão também constitui um elemento de coesão do Praefatio. 34 sacrorum disciplinam] por disciplina se podem entender aqui duas acepções: a de normas rituais dos sacrifícios e a de doutrina religiosa (cf. PALLA, 1981, p. 130). Parece-nos que o sentido aplicável é o segundo, de “doutrina, ciência, conhecimento das coisas sagradas”, e apenas de modo indireto, por analogia a Cain, o de norma dos sacrifícios, já que o verso se refere a Marcião, e não a Cain propriamente. Para as diversas interpretações deste trecho, cf. PALLA, loc. cit. 34-35 prave... rectius] em comparação com Cain (PrH. 11-12), o erro de Marcião está em julgar que existe um deus criador do mal e outro deus criador do bem (cf. Ham. 14: praua e 15: recta), e não em oferecer erroniamente o sacrifício à divindade. 46 Marcion, arui forma corruptissimi, docet duitas discrepare a spiritu contaminatae dona carnis offerens et segregatim numen aeternum colens. Qui si quiescat nec monentem neglegat, 40 pacem quieta diligat germanitas, unum atque uiuum fassa uiuorum deum. Marcião, forma da gleba corruptíssima, instrui os dualistas a discordar do espírito, da carne contaminada oferecendo os dons e no culto separando o nume eterno. Se aquietasse, se não desdenhasse quem o adverte, 40 a irmandade amaria a paz, quieta, o Deus dos vivos professando, vivo e uno. ___________________________________________________________________________ 36 Mārcīŏn] alongada a vogal -i- e abreviada a vogal -o-. Mārcīōn, por posição (Ham. 56 e 124), Mārcĭŏnīta (Ham. 129) e Mārcīŏnĭs (Ham. 502); cf. PALLA, 1981, p. 130. arui forma corruptissimi] alusão à criação do homem (Gn 2, 7: Formauit igitur... Deus hominem de limo terrae). STAM (apud PALLA, 1981, p. 130) entende que a metáfora não atinge a pessoa de Marcião (pois todos os homens foram criados da terra, conforme o Gênesis), mas tão somente sua doutrina, improdutiva como um campo estéril. Considerando, como PALLA, que no Praefatio prevalece a antinomia corpo-alma (cf. PrH. 50 ss.), parece que, ao contrário de STAM, a imagem é depreciativa para Marcião (v. 12: homo terrenus), o qual não apenas é formado da terra (como qualquer homem), mas, por causa de sua falsa doutrina, é oriundo de uma terra corruptíssima, de modo que assim Prudêncio mantém o elo com o tema agrícola do sacrifício de Cain (sobre a terra corrupta, ver adiante: PrH. 50-55). Quanto ao termo aruum relacionado ao corpo humano, cf. Apoth. 906 e 1024. 37 duitas] duitae, duitarum, aqui sinônimo de Marcionitae, é um hapax prudenciano (cf. OBBARIUS, p. 83). Segundo CHAMILLARD, Prudêncio cunha, como sinal de desprezo, um novo vocábulo para designar a nova heresia: Poeta ut novam et horrendam haeresin adducat in contemptum, insolens fingit verbum proprium tamen et significans. Atque ut Tritheitae dicuntur, qui tres Deos esse docent, ita et Duitae, qui duos Deos agnoscunt. O termo τρίθεϊται já existia na língua grega. DRESSEL confunde duĭtas -atis (“dualidade”) com duītae -arum. spiritu] STAM, THOMSON, ORTEGA e MALAMUD traduzem por “Espírito” (com maiúscula), interpretando-o como menção ao Espírito Santo, mas PALLA (e LAVARENNE, que não opta pela maiúscula) considera que Prudêncio antecipa o contraste entre carne e espírito (corpo e alma), que será manifestado nos vv. 55 ss. (cf. PALLA, 1980, p. 131). Embora a oposição entre carne-espírito fique evidente no v. seguinte (dona carnis), o que nos leva a concordar com PALLA, não nos parece incompatível, todavia, a leitura de spiritus como referência sugestiva a Espírito Santo, pois os duitas divergem da doutrina revelada por Deus. docet duitas discrepare] a aliteração é quebrada pelo sintagma a spiritu, que dela destoa (discrepare) e, assim, reproduz na ordem fonética (e sintática) a dissenção dos marcionitas com o espírito. 38 carnis] de raro uso na poesia, especialmente até o começo do séc. II d. C., conforme PALLA (1981, p. 131), segundo o qual certos conceitos doutrinais do cristianismo não poderiam ser expressos senão por meio desse vocábulo (cite-se a encarnação do Verbo e a carne, como um dos três inimigos da alma). Das 70 ocorrências na poesia prudenciana, 13 se encontram em Hamartigenia (cf. DEFERRARI; CAMPBELL, 1932, p. 84-86), sem considerar seus compostos, como carnalis, carnaliter, carnulentus, carneus, etc. 39 segregatim] latim tardio, uma só ocorrência em Prudêncio. 40 quiescat] retoma o quiesce do v. 11 e o quieta do verso seguinte, todos na mesma posição do hemistíquio. 41 pacem] i. e. unitatem, a paz no seio da Igreja, apoiada na ortodoxia, ou a “communion with the Church” (S. Cripriano, apud SOUTER, 1949, p. 290). Cf. PALLA, 1981, p. 132; MOHRMANN, p. 29, 1961. germanitas] o vínculo de fé que torna irmãos os cristãos, o amor fraterno, a cristandade: “brotherly love [...] Christianity” (SOUTER, 1949, p. 161). 42 unum atque uiuum] Prudêncio prossegue enfatizando as antinomias unidade-divisão, vida-morte. O adjetivo unus reafirma a unidade de Deus e o monoteísmo presente no Antigo Testamento, distinguindo-o do politeísmo pagão (cf. PALLA, 1981, p. 132); já uiuus não apenas opõe a vida do Deus cristão à morte dos deuses pagãos, como também vivos são os que professam o Deus vivo (p. ex., Abel: v. 5), enquanto mortos são os pagãos e os hereges, como Cain e Marcião. uiuorum Dei] Dt 5, 26: ut audiat vocem Dei viventis; Mc 12, 27: Non est Deus mortuorum, sed vivorum; 2 Cor 3, 3: Spiritu Dei vivi e 6, 16: Vos enim estis templum Dei vivi; Lc 20, 38: Deus autem non est mortuorum sed vivorum, etc. 47 Hic se caduco dedicans mysterio summam profanus diuidit substantiam; malum bonumque ceu duorum separans 45 regnum deorum sceptra committit duo, deum esse credens quem fatetur pessimum. Cain cruentus, unitatis inuidus, mundi colonus, inmolator squalidus, cuius litamen sordet et terram sapit, 50 terram caduci corporis, uenam putrem, umore denso conglobatam et puluere, natura cuius fraude floret fertili fecunda fundens noxiorum crimina Ele, devoto de um mistério caduco, dividiu a substância – profano – suprema; o mal e o bem, ao separá-los, como fossem reinos 45 de dois deuses, entrega os cetros, dois, crendo ser deus aquele a quem chama o malíssimo. Cain cruento, invejoso da unidade, cultor do mundo, imolador sórdido, cujo sacrifício fede, e à terra sabe, 50 a uma terra de corpo caduco, de veio podre, em denso humor e pó misturada, cuja natureza em fraude fértil floresce, difundindo os fecundos crimes dos criminosos, ___________________________________________________________________________ 43 caduco] deficiente, frágil, perecível, transitório (cf. PrH. 51); em sentido próprio, caducus emprega-se especialmente em referência aos frutos e às folhas que caem naturalmente (FORCELLINI, s. v.), no âmbito das metáforas agrícolas que percorrem todo o Praefatio (cf. nota do v. 29). MALAMUD (2011, p. 5) destaca ainda um sentido jurídico do termo, o de algo que “não é ou não pode ser entregue à posse do herdeiro ou de seu legatário” (OLD, s. v. 10). Mysterium] traduzido por “doutrina” (THOMSON, ORTEGA, PALLA) e “dogma” (LAVARENNE), consideramo-lo no sentido de religião com seus cultos e verdades mais imperscrutáveis (cf. MALAMUD, 2011, p. 5: “cult”). Quanto à variante do verso: hic qui caduci rem laboris offerens, cf. PALLA, 1981, pp. 24-29. 44 summam... substantiam] AUG. Nat. Grat. 22 [20]: substantia est Deus summaque substantia. Substantia, e não essentia, era o termo preferido pelos cristãos ocidentais dos primeiros séculos para designar a essência divina (em grego, οὐσία) (cf. PALLA , 1981, p. 133). 46 sceptra] sceptrum era distintivo de poder real entre os judeus, e já se atribuía a Deus para indicar o seu poder (Ez 20, 37: Et subjiciam vos sceptro meo). 48 unitatis inuidus] inimigo da unidade da Igreja (vv. 40-41) e da unidade divina (vv. 42-47). 49 mundi colonus] Marcião simboliza o homem apegado aos bens terrenos, terrenus homo (v. 12) e, nesse sentido, se opõe ao paradisicola (v. 928) e a outros termos equivalentes usados por Prudêncio em outros poemas, como caelicola e christicola. 50 litamen] sacrifício propiciatório; atestato a partir de Estácio (Th. 10. 610) (cf. FORCELLINI, OLD). 51 caduci corporis] imagem usada pelo poeta em outros momentos, cf. caducis... artubus (Cath. 7. 177), corporis... caduci (Cath. 9. 16), hospitium... caducum (Apoth. 890), caducis... corporibus (Perist. 6. 119-120), caducum uasculum (Perist. 5. 301), corpus... caducum... nostrum (Perist. 10. 602-604). 53-54 fraude floret fertili/ fecunda fundens] aliteração pela qual os crimes parecem espalhar-se como num sopro. 48 animaeque uitam labe carnis enecat. 55 Caro in sororem tela mentem dirigit, mens in cerebro uentilatur ebrio, ex quo furores suculentos conligit madens ueneno corporis lymfatico. Deum perennem findit in duos deos, 60 audet secare numen insecabile. Cadit perempta denegans unum deum, Cain triumfat morte fratris halitus. e a vida do espírito com a ruína da carne mata. 55 A carne contra sua irmã, a alma, dardos dispara, a mente no cérebro rodeia embriagado, de onde loucuras suculentas acumula, embevecida no veneno delirante do corpo. Em dois deuses rasga o Deus eterno, 60 dividir ousa a divindade indivisível. Cai assassinada negando o Deus uno, Cain triunfa com a morte do seu irmão, o espírito. ___________________________________________________________________________ 55 ss. antinomia entre carne e espírito, entre corpo e alma. Segundo PALLA (1981, p. 134), essa antinomia foi largamente praticada pelos escritores cristãos dos primeiros séculos, além da imagem do corpo como cárcere da alma (cf. vv. 850-851, 918). 56 mentem] sinônimo de alma, como no prefácio aos poemas de Prudêncio, Proem. 32: mundum quem coluit mens tua perdidit. Cf. SOUTER, s. v.: mens = ψῦχή (Pseudo-Apuleio). Esse significado de mens já não era estranho aos escritores clássicos (cf. PALLA, 1981, p. 134). 58 suculentos] atestado a partir de Apuleio (M. 2.2.20 e 10.15.12), em Prudêncio reaparece em Perist. 10, 433; Paulino de Nola emprega-o em Carm. 24, 631: suculenti corporis licentia. 60 findit] posto logo após a cesura, no centro do verso, representa no âmbito da sintaxe a separação da divindade. PALLA (1981, pp. 134- 135) ressalta que o crescendo (a partir do v. 48) aqui chega ao auge, com a nota melancólica do último v. 63, que dá o tom do Praefatio. Convém observar, nos vv. 60 e 62, a correspondência da oposição, no mesmo lugar do verso (cf.: duos deos ↔ unum deum; perennem ↔ perempta). TADDEI (1981, p. 2) afirma que o verbo findit se aplicaria mais facilmente ao sacrifício de animais (de Abel) do que ao ofertório de produtos agrícolas (de Cain). As ocorrências lexicais do termo, porém, indicam o contrário (cf. VERG. A. 10.295; HOR. O. 1.1.11; OV. Ars 2. 671; CLAUD. Eutr. 1.113). perennem] em muitos lugares empregado por Prudêncio como sinônimo de aeternus (cf. Perist. 10. 311 e 389; Cath. 7. 47, etc.). Sobre esse significado entre os autores cristãos, cf. Paulino de Nola (Carm. 16), Lactâncio (Inst. 2. 12. 3), além de BLAISE (p. 674, s. v. perenniter). 61 insecabile] atestado em Vitrúvio, Sêneca e Quintiliano, na poesia apenas em Prudêncio. Quanto ao emprego do sufixo -bilis, LAVARENNE (apud PALLA, 1981, p. 135) aponta 83 adjetivos (sendo 4 hapax prudencianos) contra 42 em Virgílio. 63 triumfat] pode ser lido ambiguamente, no sentido militar de “triunfo” e no de “exultar, regozijar-se”. halitus] lição de muitos códices, entre eles o mais antigo, adotada nas edições de BERGMAN, CUNNINGHAM, RODRIGUEZ, PALLA; por outro lado, outra família de manuscritos lê alitus, incongruente porém com a métrica (cf. também ARÉVALO: allitus, aceito por DRESSEL e por THOMSON; LANFRANCHI, CHAMILLARD: oblitus). Sobre a refutação da forma allitus, cf. PALLA, 1981, p. 135. De acordo com MALAMUD (2011, p. 6), o nome Abel, do hebraico hebel, significa “breath” ou “spirit”, o que dá a este último verso um sentido profundamente simbólico, encerrando toda a construção alegórica do Praefatio. 49 Quo te praecipitat rabies tua, perfide Cain, diuisor blaspheme dei? Tibi conditor unus non liquet et bifidae caligant nubila lucis? Insincera acies duo per diuortia semper spargitur in geminis uisum frustrata figuris. 5 Terrarum tibi forma duplex obludit, ut excors diuiduum regnare deum super aethera credas. Bina boni atque mali glomerat discrimina sordens hic mundus, domino sed caelum obtemperat uni. Non idcirco duos retinent caelestia reges, 10 quod duo sunt opera humanas agitantia curas. Para onde te precipita tua raiva, pérfido Cain, blasfemo divisor de Deus? Há um só Criador, não te é claro? Caliginam as nuvens dum olhar bífido? A vista impura por duas vertentes sempre se espalha, a visão frustrando em figuras geminadas. 5 A forma dúplice das terras te ilude, tanto que demente crês acima do espaço etéreo um deus reinar dividido. Dois contrastes, o bem e o mal, engloba o sórdido mundo este; a um senhor porém o céu obedece, único. Não possuem os céus dois reis, apenas porque 10 duas espécies de obras agitam os cuidados dos homens. ___________________________________________________________________________ 1 HOR. Epo. 7. 1: quo, quo scelesti ruitis. 3 non liquet] fórmula com que os juízes afirmavam não ter suficiente conhecimento de causa para decidir sobre a condenação ou absolvição do réu, ou para definir-lhe a pena, sendo por isso necessária a prorrogação do julgamento; era indicada pela abreviatura N. L. na tabuinha (cf. FORCELLINI, s. v.). 4 Insincera acies] o adjetivo insincerus ocorre uma só vez em Virgílio, e igualmente no início do verso, formando um sintagma locucional com apes (sonoramente semelhante a acies) antes da cesura pentemímere: G. 4. 285: Insincerus apes. As demais ocorrências são em prosa e mais tardias, como em Frontão (Ep. ad M. Caes. 3.16.1.1) e Aulo Gélio (5. 3. 7). É de notar o emprego do termo por S. Ambrósio (Cain 2. 6. 18), precisamente ao tratar da oferta recusada de Cain: pro conscientia insincerae oblationis. Cf. ainda AMB. Hex. 3. 69; MINUC. 26. 8. 5 STAT. The. 10. 366: tergeminis figuris; TERT. Marc. 1. 2: quo facilius duos deos caeci perspexisse se existimauerunt. Unum enim non integre uiderant. Lippientibus etiam singularis lucerna numerosa est. 6 terrarum tibi forma duplex] TADDEI (1981, p. 3), considerando que a apóstrofe (v. 1 ss) se dirige a Cain e não a Marcião, entende que aquele oferecido dois montões empilhados de produtos da terra, um para cada deus, de modo que ele teria sido o primeiro dualista. Todavia, o vocativo perfide Cain (v. 1) se refere a Marcião, já figurado em Cain no Praefatio (v. 48), e não a Cain mesmo; além disso, a frase terrarum forma duplex (v. 6) não significa “two piles of offerings”, como entendeu TADDEI, mas uma imagem duplicada da terra (como leem todos os tradutores), causada pela insincera acies (v. 4), a má visão do herege (não só dos sentidos, mas também da visão da inteligência). obludit] verbo raro com registro apenas em Plauto (Truc. 105) e uma só vez em Prudêncio. 50 Exterior terrenus homo est, qui talia cernens conicit esse duo uariarum numina rerum. Dum putat esse deum, qui praua effinxerit olim et qui recta itidem condens induxerit, ambos 15 autumat esse deos natura dispare summos. Quae tandem natura potest consistere duplex aut regnare diu, quam fons diuisus ab arce separat alternaque apicum dicione recidit? Aut unus deus est, rerum cui summa potestas, 20 aut quae iam duo sunt minuuntur dispare summo. Porro nihil summum nisi plenis uiribus unum, distantes quoniam, proprium dum quisque reuulso uindicat imperio, nec summa nec omnia possunt. Exterior, terreno, o homem que, enxergando tal, supõe que há duas divindades de realidades diversas. Quando pensa que é deus quem os males formou um dia e quem, também criando, os bens introduziu, ambos 15 afirma existirem deuses de natureza distinta, supremos. Que natureza, contudo, pode subsistir dúplice, ou reinar longo tempo, se uma origem dividida a separa do seu trono e lhe amputa a autoridade com tiaras alternadas? Ou há um só Deus, que o sumo poder possui, 20 ou então há dois, diminuídos pelo que é sumo no seu oposto. Mas nada é sumo se não for plenamente uno, pois os diferentes, ao reivindicar cada um o que lhe é próprio, tomando para si o poder, não podem tudo nem o que é mais. ___________________________________________________________________________ 13 duo] alongamento da sílaba final breve em ársis, que ocorre também nos versos: v. 187 (inuidia), v. 299 (quinque), v. 375 (alia), v. 526 (fragilis), v. 549 (opibus), v. 708 (uagus), v. 724 (historia), v. 846 (anima), v. 901 (luminibus), v.908 (peruigilis) (cf. PALLA, 1981, p. 141). 16 dispare] ablativo em -ĕ ao invés de -ī, por necessidade métrica. 17 Cf. TERT. Marc. 1. 3: Duo ergo summa magna quomodo consistent [...]? 17-18 Cf. Mt 12, 25; Mc 3, 24. 20 ss. Argumento comum à tradição apologética, usado por Irineu (2. 1), Tertuliano (Marc. 1. 5), Lactâcio (Inst. 3) e Atanásio (multitudo numinum, nullitas numinum) para provar a unidade de Deus: se há vários deuses, cada um exclui do outro a sua perfeição, de modo que nenhum deles pode ser perfeito, e, por conseguinte, nenhum é Deus. Comprova-se que Prudêncio se vale não só das Escrituras, mas também de argumentos dos teólogos e Padres da Igreja. Cf. TERT. Marc. 3. 3-4: Nempe ut nihil illi adaequetur, id est, ut non sit aliud summum magnum. Quia si fuerit, adaequabitur, et si adaequabitur, non erit summum magnum. [...] Proinde Deus cum summum magnum sit, recte veritas nostra pronuntiavit: Deus, si non unus est, non est. 20 cui summa potestas] VERG. A. 10. 100: tum pater omnipotens, rerum cui prima potestas. 22 Porro nihil summum nisi plenis uiribus unum] o verso soa como provérbio (cf. ORTEGA; RODRÍGUEZ, 1981, 252, n. 22) ou máxima jurídica (cf. nota aos vv. 25-26) e assemelha-se à sentença de Tertuliano (Marc. 1. 3): Porro summum magnum unicum sit necesse est. 51 Ius uarium non est plenum, quia non habet alter 25 quidquid dispar habet; cumulum discretio carpit. Nos plenum sine parte deum testamur et unum, in quo Christus inest, idem quoque plenus et unus, qui uiget ac uiguit super omnia quique uigebit participem nullum conlato foedere passus. 30 Summa potestatum, simplex dominatio rerum, uirtutum sublime caput, fons unicus orbis, naturalis apex, generisque et originis auctor, ex quo cuncta fluunt, et lux et tempora et anni et numerus, qui post aliquid dedit esse secundum. 35 Um direito vário não é pleno, porque um não tem 25 o que o diverso tem; a separação tolhe o acúmulo. Nós um Deus pleno, sem partes, confessamos, e uno, n’Ele é Cristo, o mesmo também pleno e uno, que domina e dominou sobre todas as coisas, e que dominará, não tolerando nenhum partícipe na aliança pactuada. 30 Sumo poder dos poderes, soberania simples do universo, das virtudes princípio sublime, fonte única do mundo, ápice da natureza, das gerações e da origem autor, de quem fluem todas as coisas, a luz, as estações, os anos, o número, quem fez que após algo houvesse o seguinte. 35 ___________________________________________________________________________ 25-26 As sentenças ius uarium non est plenum (v. 25) e cumulum discretio carpit (v. 26), de grande concisão e força retórica, parecem pertencer ao discurso forense, assim como os termos dos vv. 23-24: proprium dum quisque... uindicat. dispar] dispăr, com abreviamento do monossílabo pār no composto, comum na poesia tardia (cf. Symm. 1. 168: impăr). 29 Cf. Ef 1, 21; Fp 2, 9. 31 Summa potestatum, simplex] mantemos o texto da edição de CUNNINGHAM (1966), seguido por ORTEGA e RODRÍGUEZ (1981), apenas acrescentando a pontuação, para mais fácil entendimento; sobre outra lição do verso (Summa potestatum pater est), cf. PALLA, 1981, p. 146. 31-37 Segundo ARÉVALO, os atributos arrolados aplicam-se ao Deus uno e trino, e não apenas ao Deus Pai. 32 ARN. 2: ille salus rerum deus, omnium virtutum caput, benignitatis et columen. 33 generisque] genus é usado frequentemente por Prudêncio e por outros escritores cristãos, como S. Hilário e Tertuliano, na acepção de natura (cf. ARÉVALO, pp. 502 e 526). 35 No princípio era Deus, uno, que depois fez o que pode ser numerado, as criaturas. Antes da Criação, não era número, e o mesmo Verbo, pelo qual foram feitas todas as coisas (Jo 1), não é posterior ao Pai, nem segundo em número, e assim o Pai não é anterior ao Filho, nem primeiro em número, mas ambos são Deus, autor do número e de tudo quanto pode ser numerado. No Símbolo Quicumque, diz-se sobre a Trindante: nihil prius aut posterius (cf. ARÉVALO, p. 502, acerca do mistério da Trindade e das procissões das três pessoas divinas e distintas, mas uma só natureza e substância, cita as seguintes palavras de S. Gregório de Nissa: nullo id sermone comprehendi posse, quemadmodum res eadem numerabilis sit et numerum fugiat). 52 Vnus enim princeps numeri est nec dinumerari tantum unus potis est. Sic, cum pater ac deus alter non sit, item Christus non sit genitore secundus, anterior numero est cui filius unicus uni est. Ille deus meritoque deus quia primus et unus, 40 in uirtute sua primus, tum primus in illo quem genuit. Quid enim differt generatio simplex? Vnum semper erit gignens atque unus ab uno ante chaos genitus numeroque et tempore liber. Quis dixisse duos rem maiestate sub una 45 regnantem propriamque sibi retroque perennem ausit et unius naturae excindere uires? Pois o uno é o princípio do número, apenas o um não é possível contar. Assim, já que um Pai e outro Deus não há, e também Cristo não é segundo depois do Genitor, anterior ao número é Aquele uno que tem um Filho único. Ele é Deus, merecidamente Deus, porque primeiro e uno; 40 primeiro em sua própria virtude, e primeiro n’Aquele a quem gerou. Ora, que diferença na geração simples? Um ser uno sempre será aquele que gera e o uno do uno antes do caos gerado, livre de número e de tempo. Quem ousaria dizer serem dois a substância reinante 45 numa majetade una, própria a si mesma, eternamente perene, amputando as virtudes de uma natureza una? ___________________________________________________________________________ 36 Cf. TERT. Marc. 1. 5. 39 S. Fulgêncio (Ad Petr. 1. 4) cita e comenta este lugar de Prudêncio: quia nec Filio, nec Spiritu Sancto, quantum ad naturae divinae unitatem pertinet, aut anterior, aut maior Pater est, etc. TEOLIUS (p. 12) louva a propriedade e precisão teológica da linguagem de Prudêncio acerca do emprego de unicus para o Filho e unus para Deus Pai, afirmando que o poeta antecipou a explicação S. Tomás (Iª q. 63, a. 2, resp): Dicimus tamen unicum filium, quia non sunt plures filii in divinis. Neque tamen dicimus unicum Deum, quia pluribus deitas est communis, etc. 42 AUG. Civ. 11. 10: Quod enim de simplici bono genitum est, pariter simplex est, et hoc est quod illud de quo genitum est; quae duo Patrem et Filium dicimus. Segundo ARÉVALO (p. 503), “geração simples é a geração eterna pela comunicação da mesma natureza, não por divisão ou multiplicação da essência”. Sobre a diferença entre a criação de todas as coisas e a geração do Verbo, explica CHAMILLARD (p. 532): res creatae generantur in similitudinem, Verbum autem in identitatem. 44 AUS. Ephem. vv. 10-11: generatus in illo/tempore, quo tempus nondum fuit. 53 Numquid adoptiuum genitor sibi sumpsit, ut alter externi generis numerum praestare duorum debeat et geminum distans inducere numen? 50 Forma patris ueri uerus stat filius ac se unum rite probat, dum formam seruat eandem. Non amor adscitus sociat nec iungit utrumque coniurata fides, pietas sed certa genusque unum, quod deus est, summam reuocatur ad unam. 55 Haec tibi, Marcion, uia displicet, hanc tua damnat secta fidem dominis caelum partita duobus. Quae te confundunt nebulae, quis somnus inerti incubat ingenio, cui per fantasmata duplex occurrit species biuio dispersa superno? 60 Terá o Pai tomado um filho adotivo, de modo que este outro, de origem estrangeira, deva constituir o número de dois e introduzir, sendo diverso, uma divindade geminada? 50 Forma do Pai verdadeiro, verdadeiro é o Filho, e prova devidamente ser uno, ao conservar a mesma forma. Não um amor adotado os associa, nem a ambos une um contrato pactuado; mas um amor piedoso e certo, um gênero uno, que é Deus, se condensa numa unidade suprema. 55 A ti, Marcião, desagrada esta via, tua seita condena esta fé, repartindo entre dois senhores o céu. Que névoas te confundem? Que sono no inepto intelecto se instala, ao qual por fantasmas dúplice imagem ocorre, dispersa num bívio celeste? 60 ___________________________________________________________________________ 48 genitor] como está dito no Símbolo Quicumque: Filius a Patre... non factus, nec creatus, sed genitus. 49 generis] naturae, ver nota ao v. 33. 51 Heb 1, 3. 53-54 adscita proles significa “prole adotiva” (cf. FORCELLINI, s. v. ascisco), mas pode designar também “admitido, associado” (cf. Ham. 786); os termos adscitus e coniurata fides pertencem mais à linguagem jurídica e política do que à teológica. 58-59 inerti/incubat ingenio] a repetição do prefixo in- reproduz a entrada e permanência do sono no intelecto de Marcião. 54 Si uim mentis hebes stupor obsidet, aspice saltem obuia terrenis oculis elementa, quibus se res occulta dei dignata est prodere signis. Hanc heresim praesaga patris praeuiderat olim maiestas: fore qui rectorem lucis et orbis 65 scinderet in partes geminatum segrege regno. Idcirco specimen posuit spectabile nostris exemplumque oculis, ne quis duo numina credat 68 [Imperitare uagis mundi per inania formis.] Vna per inmensam caeli caueam reuolutos 70 praebet flamma dies, texit sol unicus annum. Triplex ille tamen nullo discrimine trina subnixus ratione uiget: splendet, uolat, ardet; motu agitur, feruore cremat, tum lumine fulget. Se um estupor obtuso te assedia o vigor da mente, olha ao menos os elementos postos diante dos olhos terrenos, pelos quais a realidade oculta de Deus se dignou mostrar-se, sinais. Essa heresia, outrora a previu a presciente majestade do Pai: alguém haveria de o reitor da luz e do mundo, 65 duplicado em reinos separados, cindir em partes. Por isso pôs uma amostra visível aos nossos olhos, um exemplo, para que ninguém creia duas divindades 68 [governarem as formas vagantes pelos vazios do mundo]. Uma única chama faz pela imensa cavidade celeste os dias 70 revolutearem, um sol único tece o ano. Tríplice, mas sem diferença, ele num triplo aspecto amparado vigora: resplandece, voa, arde: pelo movimento, anima-se; pelo calor, queima; pela luz, brilha. ___________________________________________________________________________ 62 elementa] MALAMUD, considerando a dupla acepção do termo (“letras do alfabeto” e “elementos ou princípios”), observa que “studying nature is analogous to reading a book or interpreting signs” (2011, p. 9). 62-63 Sb 13, 5: a magnitudine enim et pulchritudine creaturarum cognoscibiliter potest creator horum videri, e Rm 1, 20: Invisibilia enim ipsius a creatura mundi per ea, quae facta sunt, intellecta conspiciuntur, sempiterna eius et virtus et divinitas. Cf. Ham. 81-84. 64 hĕresim] abreviamento da vogal -e da primeira sílaba. Como ensina PALLA (1983, p. 259), nas palavras de origem grega, o ditongo latino -ae- (em grego -αι-) não raro se abrevia nos poetas, principalmente nos tardios. 67 specimen... spectabile] nesta “aliteração silábica”, bem como em outros exemplos citados por PALLA (p. 154), a saber, vv. 58-59 (inerti/incubat ingenio) e v. 64 (praesaga... praeuiderat), Prudêncio reforça a expressão da sua ideia não apenas mediante o recurso fonético da aliteração, mas também pelo emprego do mesmo radical ou prefixo, respectivamente spec-, in-, prae-. 69 Segundo THOMSON (1993, p. 208), esta interpolação consta num manuscrito do séc. IX. Sobre as hipóteses acerca de sua origem e adequação ao estilo de Prudêncio, cf. PALLA, 1981, p. 155. 72 nullo discrimine] VERG. A. 1. 574; 10. 108; 12. 498 e 770, igualmente após a cesura pentemímera. 55 Sunt tria nempe simul, lux et calor et uegetamen, 75 una eademque tamen rota sideris indiscretis fungitur his, uno seruat tot munera ductu et tribus una subest mixtim substantia rebus. Non conferre deo uelut aequiperabile quidquam ausim nec domino famulum conponere signum, 80 ex minimis sed grande suum uoluit pater ipse coniectare homines, quibus ardua uisere non est. Paruorum speculo non intellecta notamus et datur occultum per proxima quaerere uerum. Nemo duos soles nisi sub glaucomate uidit 85 aut si fusca polum suffudit palla serenum São pois três efeitos simultâneos: luz, calor, avivamento. 75 Uma e mesma roda solar, porém, e sem distinção, realiza-os, um traçado tantas funções desempenha e em três uma só subsiste, misturadamente, substância. Comparar com Deus qualquer coisa, como se fora igualável, eu não ousaria, nem cotejar um escravo-estrela com seu senhor, 80 mas do ínfimo quis o mesmo Pai sua grandeza fosse conjecturada pelos homens, que o mais sublime não podem ver. No espelho das pequenas coisas notamos o ininteligível e pelo mais próximo nos é dado procurar a verdade escondida. Ninguém viu dois sóis, a não ser com catarata, 85 ou se um manto se estendeu escuro sob o céu sereno, ___________________________________________________________________________ 75 Pseudo-Agostinho (Cogn. 10) cria um diálogo em que o mestre expôe ao discípulo o mistério da Santíssima Trindade de modo enigmático (aenigmatice), não podendo fazê-lo de modo próprio (proprie), e para isso se vale também do exemplo da luz, do esplendor e do calor: três ações numa só e idêntica substância. E diz S. Agostinho mesmo (Serm. 44): Et si capere non potestis quomodo sancta Trinitas, tres et unum sunt, exemplum accipite. Unus enim est sol in coelo currens, calescens, et fulgens. Unus est in terra ignis tria similiter habens, motum, lucem et fervorem: nec lucem a motu et fervore dividere potes. Sic est sancta Dei Trinitas. Et si eius mysterium capere non valemus, bene operari festinemus, ut, sicuti est, sanctam Trinitatem per gratiam videre mereamur. Sobre outros autores que dão o sol como exemplo da Trindade, cf. PALLA (1981, p. 152). uegetamen] “princípio vital, força vital” (cf. GAFFIOT; L&S, s. v.). Vox cunhada por Prudêncio com o sufixo -men, muito comum em sua poesia (cf. peccamen, creamen, ructamen, ostentamen, oblectamen); ocorre apenas em Hamartigenia (vv. 298, 829, 871). CHAMILLARD (p. 353) reprova o vocábulo por vicioso, afirmando que o poeta deveria ter empregado vegetatio. Cf. FORCELLINI, s. v.: vegetandi vis. 76 LUCR. 5. 432 et 564: solis rota. Cf. Cath. 12. 5; Perist. 14. 96. indiscretis] espondeu no quinto pé do hexâmetro; o que se dá também em Ham. 103, 144, 223, 267, 391, 623, 714, 723, etc. 78 mixtim] voz lucreciana (LUCR. 3. 566). 81-84] cf. Harm. 62-63. 84 HOR. Ep. 2. 2. 45: quaerere uerum. 85 glaucomate] ambas as formas coexistem: glaucoma -atis (n.) e glaucoma -ae (f.). 87 radiorum spicula] cf. Cath. 2. 6: solis spiculo. 56 oppositus quotiens radiorum spicula nimbus igne repercusso mentitos spargit in orbes. Sunt animis etiam sua nubila, crassus et aër. Est glaucoma aciem quod tegmine uelat aquoso, 90 libera ne tenerum penetret meditatio caelum neue deum rapidis conprendat sensibus unum. Spargitur in bifidas male sana intentio luces et duplices geminis auctoribus extruit aras. Si duo sunt igitur cur non sint multa deorum 95 milia? Cur numero deitas contenta gemello est? An non in populos dispersa examina diuum fundere erat melius mundumque inplere capacem semideis passim nullo discrimine monstris quis fera barbaries perituros mactat honores? 100 sempre que, interposta aos dardos solares uma nuvem, com a luz reverberada os espalha em órbitas ilusórias. Há para as almas também suas nuvens e nevoeiro denso. Há uma catarata que encobre a visão com um véu aquoso, 90 impedindo a reflexão que penetre livre o suave céu e compreenda com rápida percepção que Deus é uno. Espalha-se em luzes a mirada malsã, bipartidas, e para dois criadores ergue um par de altares. Mas se existem dois deuses, por que não haveria muitos 95 milhares? Por que a divindade com o número dois se contenta? Não fora melhor um enxame de deuses espalhar disperso entre os povos, e encher o vasto mundo de semideuses, aqui e ali, desordenadamente, monstruosos, a quem a selvagem barbárie perecíveis dons sacrifica? 100 ___________________________________________________________________________ 95 TERT. Marc. 1. 5. 1: primo enim exigam, cur non plura, si duo? 97 examina diuum/fundere] cf. TERT. Marc. 1. 5. 1: examen divinitatis effudit; sobre o argumento usado por Prudêncio, cf. TERT. Marc. 1. 5. 2. 99 SIL. 2. 681: semiambusta iacet nullo discrimine passim; STAT. Th. 4. 816: incubuere uadis passim discrimine nullo. Cf. nota ao v. 72. 57 Dissona discretum retinent si numina caelum, conuenit et nebulis et fontibus et reboanti oceano et siluis et collibus et speluncis, fluminibus uentis, fornacibus atque metallis adsignare deos proprios, sua cuique iura. 105 Vel, si gentiles sordet uenerarier umbras et placet esse duos sceptris socialibus aequos, dic age quis terras dicionis sorte retentet, quis regat aequoreas aeterna lege procellas. Ede coheredum distinctum ius dominorum. 110 “Vnus” ais “tristi residet sublimis in arce, auctor nequitiae, scelerum deus, asper, iniquus, qui quodcumque malum uitioso feruet in orbe seuit et anguino medicans noua semina suco rerum principium mortis de fomite traxit. 115 Se divindades diferentes ocupam um céu dividido, convém designar às nuvens e às fontes, ao retumbante oceano, às florestas, montes, grutas, rios, ventos, crateras e metais, seus deuses próprios, a cada qual o que é de direito. 105 Ou então, se as sombras te enoja venerar, pagãs, e se te agrada que haja dois iguais de cetros aliados, diz, vamos! qual domina sobre os continentes, qual governa com a lei eterna as procelas marítimas? Proclama o direito próprio dos coerdeiros senhores. 110 “Um”, dizes, “reside, sublime, num triste baluarte, autor da maldade, deus dos crimes, áspero, iníquo, todo o mal que neste mundo vicioso ferve semeou e, as novas sementes medicando com seu fluido viperino, extraiu do rastilho da morte o princípio das coisas. 115 ___________________________________________________________________________ 103 et speluncis] quinto pé espondaico (cf. nota ao v. 76: indiscretis). 105 sua cuique iura] expressão ao modo de máxima jurídica, recurso que Prudêncio emprega com frequência no poema (cf. nota aos vv. 25- 26). Cf. carta de Gregório Magno aos reis francos Teoderico e Teodeberto, datada de 599: Summum in regibus bonum est iustitiam colere, ac sua cuique iura servare. Cūĭquĕ na quinta casa, sem elisão, compondo um dátilo com abreviamento da vogal -i- e alogamento do -u- (a prosódia regular é cŭīquĕ). 106 uenerarier] forma passiva arcaica de uenerari; paragoge. Cf. grassarier (v. 649). 110 Ede] este imperativo pode ser interpretado como sinônimo de dic, assim em Juvenal (3. 74-75): ede quid illum/esse putes, e em Sêneca (Oed. 914): Ede quid portes noui. Possui também acepção jurídica: na expressão ius edere, equivale a ius dicere (cf. L&S, s. v.). 114 medicans... semina] VERG. G. 1. 193: semina uidi equidem multos medicare serentis. 58 Ipse opifex mundi, terram mare sidera fecit; condidit ipse hominem, lutulenta et membra coëgit, effigians quod morbus edat, quod crimine multo sordeat, informi tumulus quod tabe resoluat. Ast alii pietatis amor placidumque medendi 120 ingenium recreans homines, mortalia seruans. Testamenta duo fluxerunt principe utroque; tradidit iste nouum melior, uetus illud acerbus.” Haec tua, Marcion, grauis et dialectica uox est, immo haec attoniti frenesis manifesta cerebri. 125 Nouimus esse patrem scelerum, sed nouimus ipsum haudquaquam tamen esse deum, quin immo gehennae mancipium, Stygio qui sit damnandus Auerno. Ele, arquiteto do mundo, a terra, o mar, os astros fez; criou ele o homem, e ajuntou os lodosos membros, formando o que a doença devora, o que na multidão de crimes se suja, o que o túmulo na putrefação disforme dissolve. Ao outro, porém, coube o amor de piedade e disposição benigna 120 de curar, restaurando os homens, conservando o mortal. Dois testamentos emanaram de ambos os soberanos: transmitiu este melhor o Novo, o Velho aquele cruel.” Esta é a tua voz, Marcião, gravosa e dialética; ou antes, o delírio manifesto de uma mente entorpecida. 125 Sabemos que existe o pai dos crimes, mas sabemos que ele, de modo algum, é Deus, não! ao contrário, é da geena um escravo que no estígio Averno merecia ser danado. ___________________________________________________________________________ 116 VERG. A. 12. 197: terram, mare, sidera, iuro. OV. M. 1. 180: terram, mare, sidera movit. 118 effigians] Cath. 10. 4: hominem, pater, effigiasti; Apoth. 807: his animam similem sibi conditor effigiauit; cf. Perist. 11. 126, etc. 120 CLAUD. Epist. 31. 48: pietatis amor. 122-123 Marcião rejeitava o Antigo Testamento e aceitava os livros do Novo Testamento mutilado parcialmente. Cf. TERT. Marc. 1. 16: Separatio legis et Evangelii proprium et principale opus est Marcionis. 125 frĕnĕsis] abreviamento da vogal da penúltima sílaba; do grego φρένησις, delírio comum a alguns enfermos. JUV. 14.136: Cum furor haud dubius, cum sit manifesta phrenesis. cĕrēbrī] alongamento da vogal da penúltima sílaba. 126 Jo 8, 44: [diabolus] mendax est, et pater eius. 127 gehennae] hebraísmo, de uso quase restrito à linguagem bíblica (cf. MOHRMANN, 1961, p. 47). 128 Stygio... Auerno] LUC. 6. 636: extractus Stygio populus pugnasset Auerno (Stygio e Auerno nas mesmas casas métricas do verso prudenciano). Ao explicar o conjuntivo da locução sit damnandus, CHAMILLARD aventa que Prudêncio se teria baseado na opinião teológica de que os demônios não foram enviados para o inferno, mas estão livres do suplício eterno até o dia do Juízo. Talvez Prudêncio queira fazer uma alusão intertextual à tradição literária pagã: na opinião dos pagãos, as almas entravam no lugar de condenação eterna pelo lago Averno, na Campânia, onde corria o rio Estígio, assim como geena é o nome de um vale nas proximidades de Jerusalém, associado ao lugar de condenação eterna na tradição judaica. Prudêncio parece afirmar, um tanto ironicamente, que o demônio é escravo da geena, mas seria digno de ser condenado também pelas crenças pagãs aos suplícios no Averno. ORTEGA (1981, p. 259) e PALLA (1981, p. 51) expressaram-no com a locução “digno de” e “degno di”. Quanto ao nome Averno, cf. Ham. 826 e 962. 59 Marcionita deus tristis, ferus, insidiator, uertice sublimis, cinctum cui nubibus atris 130 anguiferum caput et fumo stipatur et igni. Liuentes oculos suffundit felle perusto inuidia inpatiens iustorum gaudia ferre. Hirsutos iuba densa umeros errantibus hydris obtegit et uirides adlambunt ora cerastae. 135 Ipse manu laqueos per lubrica fila reflexos in nodum reuocat facilique ligamine tortas innectit pedicas neruosque in uincula tendit. Ars olli captare feras, animalia bruta O deus marcionita é triste, fero, traiçoeiro, de fronte altiva, a cabeça anguífera lhe é cingida 130 de atras nuvens e amontoada de fumo e fogo. Seus lívidos olhos banha de ardido fel a inveja, incapaz de suportar o júbilo dos justos. Densa juba cobre de vagueantes hidras as hirsutas omoplatas, e verdes cerastas a face lhe lambem. 135 Ele com as mãos enoda os laços trançados por fios lúbricos, laqueia com hábil ligamento emaranhadas armadilhas e em cadeias as cordas estica. Sua arte é capturar feras, brutos animais ___________________________________________________________________________ 129 Mārcĭŏnīta] abreviada a vogal -o-; cf. nota ao PrH. 36. 130-131 VERG. A. 4. 248-249: Atlantis, cinctum adsidue cui nubibus atris/piniferum caput et uento pulsatur et imbri e 2. 210: ardentisque oculos suffecti sanguine et igni. 132 CLAUD. Ruf. 1. 138: oculis liuentibus. 133 inuidia inpatiens iustorum] aliteração silábica. Sb 2, 24: Invidia autem diaboli mors introivit in orbem terrarum. Segundo S. Tomás de Aquino (Met. 1. 3. n. 12), inveja é a tristeza com a prosperidade de outrem (invidia est tristitia de prosperitate alicuius); e o mesmo (Iª 63 q. a. 2 resp.): Et ideo post peccatum superbiae consecutum est in angelo peccante malum invidiae, secundum quod de bono hominis doluit. 134 iuba] alude ao leão, que, na tradição bíblica, simboliza o demônio (cf. 1 Pd 5, 8 e Ham. 559: decrepito... leoni). CLAUD. Ruf. 1. 42: obstantes in tergum reppulit hydros/perque umeros errare dedit. VERG. G. 3. 86: densa iuba. 135 CLAUD. Ruf. 1. 96: mollia lambentes fixerunt ora cerastae; cf. VERG. A. 2. 211: lambebant... ora. Ao demônio são atribuídos caracteres da serpente e das Fúrias. As cerastes são serpentes dotadas de duas ou quatro proeminências sobre os olhos, à semelhança de chifres, não duras como estes (donde seu nome: κέρας em grego significa cornu). 136 laqueos] o laço, arma com que o demônio captura o homem, simboliza a escravidão ao pecado e ocorre outras vezes no poema (v. 443 e v. 806) com o mesmo simbolismo, além de já se encontrar nas Sagradas Escrituras (cf. 1 Tm. 3, 7; 6, 9: in laqueum diaboli). 139 olli] arcaísmo por illi; cf. Ham. 544 e Apoth. 305. VERG. G. 1. 139: tum laqueis captare feras. Prudêncio chama fera aos homens que, por seus vícios, se assemelham aos animais. 60 inretire plagis, retinacula denique caecis 140 indeprensa locis erranti opponere praedae. Hic ille est uenator atrox qui caede frequenti incautas animas non cessat plectere Nebroth, qui mundum curuis anfractibus et siluosis horrentem scopulis uersuto circuit astu, 145 fraude alios tectisque dolis innectere adortus, porro giganteis alios luctando lacertis frangere, funereos late exercere triumfos. Inproba mors, quid non mortalia pectora cogis? enredar em malhas, amarras imperceptíveis enfim 140 dispor em lugares ocultos para a presa errante. Este é aquele caçador atroz que com morte frequente não cansa de afligir as almas incautas, Nemrod, que à roda neste mundo, de anfractuosas sinuosidades eriçado e silvosos penedos, com astuta manha anda 145 a enlaçar uns em fraude e ocultos enganos, outros a despedaçar na luta com seus braços gigantes, a desfilar ao longe seus fúnebres triunfos. Ó ímproba morte, a quanto não obrigas o humano peito? ___________________________________________________________________________ 141 indeprensa] síncope poética de indeprehensa; uma ocorrência em Virgílio (A. 5. 591: indeprensus et inremeabilis error) e outra em Estácio (Th. 6. 564-565: uestigia cunctis/indeprensa procis?). No passo da Eneida (A. 5. 588-591), Virgílio elabora um símile com a descrição do labirinto de Creta para mostrar o modo como em armas e movimentos se emaranha a juventude troiana nos jogos em honra de Anquises. O mesmo motivo do dolo, do engano e da armadilha do labirinto de Creta está presente na arte do demônio de enlaçar suas presas (Ham. 136-148). A comparação do vocabulário dos dois trechos torna patente a influência do trecho virgiliano sobre Prudêncio: parietibus... caecis (A. 5. 589) = caecis... locis (Ham. 140-141); textum (A. 5. 589) = innectit (Ham. 138 e o vocabulário do campo semântico das ações de tecer e urdir: laqueos, fila, ligamine, neruos, etc.); dolum (A. 5. 590) = dolis innectere (Ham. 146); frangeret (A. 5. 591) = frangere (Ham. 148); indeprensus (A. 5. 591) = indeprensa (Ham. 141); error (A. 5. 591) = erranti (Ham. 141). É de notar ainda na descrição de Ham. 136- 141 o emprego de certos recursos linguísticos que ilustram com mais vivacidade e eficácia poética a arte do demônio, como a repetição de in (como preposição, prefixo ou no interior de palavras), como a reproduzir a captura da presa nas armadilhas (in nodum, innectit, in uincula, inretire, retinacula, indeprensa e mais adiante, no v. 143, incautas, e no v. 146 innectere) e a repetição da consoante l, a indicar o movimento do laço, o trançar dos fios que capturam a presa (v. 136: laqueos per lubrica fila reflexos; v. 137: facilique ligamine; v. 138: uincula; v. 139: olli... animalia; v. 140: plagis, retinacula, etc.). 142 CLAUD. Eutr. 2. 524: uenatus atrox. 143 Nebroth] como na VETUS LATINA: Nebroth; já na VULG.: Nemrod (cf. CHARLET, 1983, p. 15). Nemrod, filho de Cus, descendente de Cam, e fundador do reino da Babilônia, caçador robusto (Gn 10, 8-12); a ele está relacionada a construção da torre de Babel e a idolatria da Babilônia (cf. THE CATHOLIC ENCYCLOPEDIA, s. v. Nemrod). 144-145 A paisagem do mundo, depois do pecado, como que se tornou propícia à ação do demônio e tão insinuosa aos homens quanto as armadilhas dele. 144 VERG. A. 11. 522: curuo anfractu ualles; CLAUD. Prob. et Olybr. 105: curuis anfractibus Alpes. et siluosis] espondeu no quinto pé (cf. nota ao v. 76). 145 1 Pd 5, 8: adversarius vester diabolus tamquam leo rugiens circuit, quaerens quem devoret. 147 giganteis... lacertis] OV. M. 14. 184: giganteo iaculantem saxa lacerto. A alusão aos braços gigantes de Nemrod constitui um eco lexicográfico da VETUS LATINA (e da SEPTUAGINTA), onde se refere três vezes a Nemrod com o qualificativo gigas (γίγας), ao passo que Jerônimo, em sua tradução da VULGATA, opta por potens ou por robustus (cf. CHARLET, 1983, p. 26). lūctāndŏ] vogal -o abreviada (sobre este e outros casos de sístole, cf. nota ao PrH. 32). 149 VERG. A. 4. 412: improbe amor, quid non mortalia pectora cogis?; A. 3. 56-57: quid non mortalia pectora cogis,/auri sacra fames? 61 Ipse suam (pudet heu) contempto principe uitae 150 perniciem ueneratur homo, colit ipse cruentum carnificem, gladiique aciem iugulandus adorat. In tantum miseris peccati nectare captis dulce mori est, tanta in tenebris de peste uoluptas! Qui mala principio genuit deus esse putatur, 155 quique bona infecit uitiis et candida nigris! Par furor illorum quos tradit fama dicatis consecrasse deas Febrem Scabiemque sacellis. Inuentor uitii non est deus; angelus illud degener infami conceptum mente creauit, 160 qui prius augustum radiabat sidus et ingens ex nihilo splendor nutrito ardebat honore. Ex nihilo nam cuncta retro factumque quod usquam est. O homem (que vergonha!), desprezando o Senhor da vida, 150 a própria ruína venera, cultua o verdugo cruento e da espada adora o gume que irá degolá-lo. Tanto aos miseráveis seduzidos pelo néctar do pecado é doce morrer, tamanha a volúpia nas trevas com a ruína! Quem gerou o mal no princípio é considerado deus, 155 quem o bem contaminou com vícios, o branco com o negro! Igual loucura à dos que sagraram deusas, conta-se, a Febre e a Lepra e lhes dedicaram capelas. O inventor do vício não é Deus; um anjo degenerado com sua mente infame o vício criou, 160 anjo que antes radiava, astro augusto, imenso esplendor do nada vindo, que em dilatada dignidade ardia. Do nada vem tudo o que desde o início foi feito e o que por toda parte há. ___________________________________________________________________________ 150 At 3, 14-15. 153 In tantum] JUV. 4. 803: cepit et in tantum lucet mihi gratia Christi. 154 HOR. O. 3. 2. 13: dulce et decorum est pro patria mori. 156 JUV. 3. 30: qui nigrum in candida uertunt. 157-158 Sobre o costume dos pagãos de cultuar enfermidades para não padecer os males causados por elas, cf. PLIN. 2. 6, VAL. MAX. 2. 5. 6; CIC. Nat. 3. 62, bem como Minúcio Félix (25. 8: Cloacinam Tatius et inuenit et coluit, Pauorem Hostilius atque Pallorem, mox a nescio quo Febris dedicata). A Febre teve um templo no Capitólio e um altar no Esquilino. Segundo CHAMILLARD, entre os antigos não há menção ao culto da Scabies, exceto neste lugar de Prudêncio, o que pode indicar um exagero com intenção satírica. 159 VERG. A. 2. 164: scelerumque inuentor Vlixes; CLAUD. 3 Cons. Hon. 102: inuentor scelerum. 161 Descrição de Lúcifer, o mais preeminante dos anjos caídos (cf. Is 14, 12: Quomodo cecidisti de caelo, Lucifer, qui mane oriebaris?). 62 At non ex nihilo deus et sapientia uera spiritus et sanctus, res semper uiua nec umquam 165 coepta sed aërios etiam molita ministros. Horum de numero quidam pulcherrimus ore maiestate ferox nimiis dum uiribus auctus inflatur, dum grande tumens sese altius effert, ostentatque suos licito iactantius ignes, 170 persuasit propriis genitum se uiribus ex se materiam sumpsisse sibi qua primitus esse inciperet nascique suum sine principe coeptum. Hinc schola subtacitam meditatur gignere sectam, Mas não vem do nada Deus e a verdadeira Sabedoria e o Espírito Santo, substância sempre viva, nunca 165 começada, que seus ministros no entanto concebeu, aéreos. Desse número um de belíssimo aspecto, insolente majestade, inflando-se aumentado em desmedida força, elevando-se mais alto, intumescendo grande, ostentando seus esplendores mais jactancioso do que convinha, 170 persuadiu-se ter sido com suas próprias forças gerado de si mesmo, assumindo a matéria com que nos primórdios assim começou a existir, iniciada sua origem sem autor. Daí a escola uma doutrina concebe, um tanto secreta, ___________________________________________________________________________ 166 TEOLIUS (p. 17) observa que, na época de Prudêncio, a questão da natureza dos anjos ainda era ambígua e incerta, daí Prudêncio poder emprestar a eles, ao modo poético, um corpo aéreo e sutil. Embora CHAMILLARD afirme que certamente se trata de figura poética (p. 542), S. Agostinho reputava os demônio espíritos aéreos (cf. Ciu. 21: spiritus aerios e aerias potestates, et alias), o que indica que esse característica não era atribuída aos anjos apenas pelos poetas, mas era uma crença compartilhada por teólogos cristãos da época. Segundo ARÉVALO (p. 512), os adjetivos aerius e liquidus, em Prudêncio, significam o mesmo que spiritualis (cf. Ham. 515 ss). 167-173 O pecado da soberba foi aquele no qual por primeiro incorreram os anjos maléficos, conforme atestam inúmeros Padres da Igreja e o próprio texto sagrado (Tb 4, 14: Superbiam numquam in tuo sensu aut in tuo verbo dominari permittas: in ipsa enim initium sumpsit omnis perditio; Ecle 10, 15: initium omnis peccati est superbia). 169 Is 14, 13-14; 1 Cor 13, 4: Caritas... non inflatur; VERG. A. 3. 357: tumidoque inflatur; A. 11, 854: uana tumentem; CLAUD. Prob. et Olybr. 39: leuantibus alte intumuit rebus; Ruf. 2. 344: regale tumens; VERG. G. 3. 553: caput altius effert. 170 É pacífico entre os Padres da Igreja e teólogos que os demônios cometeram o pecado da soberba; porém, sobre a espécie ou natureza desse ato de soberba, disputam eles grandemente (cf. CHAMILLARD, p. 543): a) os demônios teriam apetecido sua perfeição natural como fim útimo, tal como Deus descansa na sua própria perfeição e beatitude; b) teriam apetecido sua beatitude sobrenatural, por meio das próprias forças e sem o auxílio divino, tal como Deus, sem auxílio de nenhum outro, mas por sua mesma faculdade, é beato; c) teriam apetecido o estado, função e beatitude de Cristo, a ponto de negar-lhe culto; d) não teriam aceitado que os homens tenham parte em igual graça e glória que as suas. Segundo ARÉVALO (p. 513), Prudêncio parece aderir à opinião dos que afirmam que o demônio desejou imitar a Deus e igualar- se a Ele. 174 schola] de Marcião. subtacitam] hapax prudenciano (cf. FORCELLINI e GAFFIOT). 63 quae docet e tenebris subitum micuisse tyrannum, 175 qui uelut aeterna latitans sub nocte retrorsum uixerit et tecto semper regnauerit aeuo. Aemulus, ut memorant, opera ad diuina repente corrumpenda caput caligine protulit atra. Hoc ratio sed nostra negat, cui non licet unam 180 infirmare fidem sacro quae tradita libro est. “Nil” ait “absque deo factum, sed cuncta per ipsum, cuncta, nec est alius quisquam nisi factus ab ipso.” Sed factus de stirpe bonus, bonitatis in usum proditus et primo generis de fonte serenus; 185 deterior mox sponte sua dum decolor illum inficit inuidia stimulisque instigat amaris. a qual ensina que das trevas brotou um súbito tirano, 175 o qual, como que em eterna noite latente, desde o princípio vivia e na eternidade sempre reinara, encoberta. Êmulo – narram –, para que as obras divinas de improviso se corrompessem, a cabeça na caligem negra irrompeu. Isso nossa razão porém o nega, a esta não lhe é lícito a fé 180 debilitar, una, que no Livro Sagrado foi transmitida. “Nada”, diz esta, “sem Deus foi criado, mas tudo por meio d’Ele, tudo, e não há ninguém que não foi criado por Ele.” Ora, criado bom na origem, para a prática do bem dado à luz e puro desde a fonte primeira da criação; 185 fez-se péssimo logo em seguida por sua vontade, ao infectá-lo a lívida inveja e incitá-lo com amargos estímulos. ___________________________________________________________________________ 176 retrorsum] ab aeterno, desde sempre até manifestar-se. 179 VERG. A. 9. 36: caligine uoluitur atra; A. 11. 876: caligine turbidus atra. 182 Jo 1, 3: Omnia per ipsum facta sunt, et sine ipso factum est nihil, quod factum est. Cf. 1 Cor 8, 6. Sendo o Verbo Deus, tudo o que foi feito pelo Verbo foi feito por Deus Pai (cf. ARÉVALO, p. 182). 184 factus de stirpe bonus] o demônio não é essencialmente mau (cf. Gn 1, 31), como ensinavam maniqueístas e priscilianos (seita fundada no séc. IV por Prisciliano); estes afirmavam que o demônio não era um anjo bom criado por Deus, mas emergira do caos e das trevas (Ham. 175), sem autor algum (Ham. 162-163), sendo o princípio e substância do mal. A doutrina desta seita foi condenada no Concílio de Braga, em 561. 186 VERG. A. 8. 326: Deterior donec paulatim ac decolor aetas. 187 VERG. A. 11. 337: obliqua inuidia stimulisque agitabat amaris. 187-189 É fácil perceber a frequente ocorrência da vogal -i-, muitas vezes na sílaba forte das palavras. O recurso não nos parece fortuito, mas um recurso poético com que Prudêncio, por meio dessa repetição, deseja reproduzir como que um gemido lancinante de dor ou mesmo de ira proferido pelo demônio no seu pecado de soberba. de fomite zeli] zelus tomado em sentido negativo, de inveja por causa do bem de outrem, como em 1 Cor 13, 4. 64 Arsit enim scintilla odii de fomite zeli et dolor ingenium subitus conflauit iniquum. Viderat argillam simulacrum et structile flatu 190 concaluisse dei, dominum quoque conditioni inpositum, natura soli pelagique polique ut famulans homini locupletem fundere partum nosset et effusum terreno addicere regi. Inflauit fermento animi stomachante tumorem 195 bestia deque acidis uim traxit acerba medullis. Bestia sorde carens, cui tunc sapientia longi corporis enodem seruabat recta iuuentam, conplicat ecce nouos sinuoso pectore nexus inuoluens nitidam spiris torquentibus aluum. 200 Cintilou a faísca do ódio saída do rastilho do ciúme e uma dor súbita excitou o iníquo engenho. Tinha visto a argila, imagem criada com o sopro 190 de Deus inflamar, e posta como senhor da Criação, de modo que a natureza da terra, do mar, do firmamento, servindo ao homem, copioso fruto produzir soubesse, e o produto ao rei da terra entregasse. Inchou o tumor da sua alma com o fermento da ira 195 a besta e, acerba, das suas ácidas medulas extraiu força. A besta, sem nódoas, de sabedoria que então reta conservava a juventude lise de um corpo esguio, eis que novas pregas no sinuoso peito dobra, envolvendo o ventre em retorcidas espirais, brilhante. 200 ___________________________________________________________________________ 188-189 Cf. AUG. Serm. 354: Prior est in uitiis superbia [...], deinde inuidia. Na interpretação de CHAMILLARD, o demônio teria sentido a soberba e a inveja no mesmo momento. 191 Gn 1, 26. Sobre a voz conditio (< condere), como sinônimo de res creata, já na Sagrada Escritura (cf. Ez 28, 15). 193 fundere partum] cf. JUV. 1. 105, nas mesmas sedes métricas. 195 CHAMILLARD (p. 546) nota que dois efeitos do fermento são o entumescimento e o azedamento. A raiz do vocábulo é a mesma de ferueo (ERNOUT; MEILLET, 2001, p. 227). VERG. G. 3. 380: fermento atque acidis imitantur uitea sorbis. 195a Após v. 194 (nosset et...), alguns editores inserem o verso: Qui cunctum regeret proprio moderamine mundum. CUNNINGHAM, bem como HEINSIUS, não o adota, ao contrário de TEOLIUS, seguido por LANFRANCHI e pela maioria (às vezes subsquente ao v. 191). 197 cui tunc sapientia] Jo 8, 44: [diabolus] in ueritate non stetit. 197-202 Prudêncio descreve a mutação do demônio após a queda: de uma criatura augusta e radiante degradou-se numa besta, com as características próprias de uma serpente, sua figura no livro do Gênesis (Gn 3, 1-15; cf. Ap 12, 9: Et proiectus est draco ille magnus, serpens antiquus, qui uocatur diabolus, et Satanas, qui seducit uniuersum orbem). O poeta serve-se sobretudo de Virgílio na descrição, conforme se pode ver no comentário a este trecho (pp. 137-139). 65 Simplex lingua prius uaria micat arte loquendi et discissa dolis resonat sermone trisulco. Hinc natale caput uitiorum, principe ab illo fluxit origo mali, qui se corrumpere primum, mox hominem didicit nullo informante magistro; 205 ultimus exitium subuerso praeside mundus sortitur mundique omnis labefacta supellex. Non aliter quam cum incautum spoliare uiantem forte latro adgressus, praedae prius inmemor, ipsum ense ferit dominum, pugnae nodumque moramque, 210 quo pereunte trahat captiuos uictor amictus, iam non obstanti locuples de corpore praedo, sic homini subiecta domus, ditissimus orbis scilicet in facilem domino peccante ruinam lapsus erile malum iam tunc uitiabilis hausit. 215 Simples a língua antes, vibra na arte vária da eloquência e, fendida de dolos, ressoa numa linguagem trissulca. Daqui a fonte natal dos vícios, desse príncipe fluiu a origem do mal, após aprender corromper-se primeiro a si, depois ao homem, sem nenhum mestre a ensiná-lo. . 205 O ínfimo mundo, subvertido o seu governante, da queda participou, e ruiu toda a mobília do mundo. Não diferente de quando o ladrão o viajante incauto ao acaso ataca, da presa a princípio esquecido, e fere à espada o dono, estorvo da luta e embaraço, 210 de quem, morto, as vestes arrancar vitorioso, capturadas, daquele corpo que já não estorva, possa o salteador enriquecido; assim a casa ao homem sujeita, o riquíssimo globo, tendo caído em fácil ruína com o pecado do seu senhor, o mal senhoril, já então propensa ao vício, absorveu. 215 ___________________________________________________________________________ 202 sermone trisulco] Mt 5, 37: Sit autem sermo uester: “Est, est”, “Non, non”; quod autem his abundantius est, a Malo est. 208 Non aliter quam cum] sintagma com que Ovídio frequentemente introduz um símile (cf. M. 3. 373; 4. 122 e 348; 6, 516; F. 2. 209). 210 VERG. A. 10. 428: pugnae nodumque moramque. Hemistíquio virgiliano empregado na mesma cláusula do verso. 66 Tunc lolium lappasque leues per adultera culta ferre malignus ager glaebis male pinguibus ausus triticeam uacuis segetem uiolauit auenis. Tunc etiam innocuo uitulorum sanguine pasci iamque iugo edomitos rictu laniare iuuencos 220 occiso pastore truces didicere leones. Nec non et querulis balatibus inritatus plenas nocte lupus studuit perrumpere caulas. Omne animal diri callens sollertia furti inbuit et tortos acuit fallacia sensus. 225 Quamuis maceries florentes ambiat hortos saepibus et densis uallentur uitea rura, aut populator edet gemmantia germina brucus aut auibus discerpta feris lacerabitur uua. Então nas glebas mal fecundas, através das culturas adúlteras, o agro nocivo ousou produzir o joio e as leves bardanas, o campo de trigo poluindo com aveias vácuas. Então também os leões ferozes aprenderam alimentar-se, morto o pastor, do sangue inocente dos vitelos 220 e despedaçar os novilhos a mordidas, mansos ao jugo. E também o lobo, assanhado com o balir lastimoso, deu-se à noite a invadir cercados cheios. Os animais todos se imbuíram da ardilosa astúcia do furto funesto e os sentidos o engano aguçou-lhes, desordenados. 225 Ainda que um muro os jardins cerque florescentes, e com densas sebes se protejam os vinhedos, ou a lagarta comerá devastadora os brilhantes brotos, ou por aves arrancada, selvagens, será estraçalhada a uva. ___________________________________________________________________________ 216-218 Por causa do pecado, a terra tornou-se infensa ao homem, condenado desde então a extrair dela o seu sustento (Gn 3, 17-18). Para descrever a degradação da paisagem, adversa ao homem, Prudêncio emprega um vocabulário que remete ao livro I das Geórgicas (principalmente aos vv. 152-154): lolium (v. 154), lappaeque (v. 153), culta (v. 153), ager (vv. 102 e 107), glaeba, glaebasque, glaebas (v. 44, 65 e 94), male pinguis (v. 105), triticeam in messem (v. 219), segetes, segetem (v. 152, 210, etc.), auenae (v. 154). Cf. VERG. Ecl. 5. 37: infelix lolium et steriles nascuntur auenae. 219 CLAUD. Cons. Stil. 2. 14: sanguine pasci. 222 inritatus] espondeu na quinta sede. 222-223 VERG. G. 4. 435: auditisque lupos acuunt balatibus agni; A. 9. 565-566: multis balatibus agnum/Martius a stabulis rapuit lupus. 224 callens sollertia] Gn 3, 1: Et serpens erat callidior cunctis animantibus agri, quae fecerat Deus. 228 brucus] cf. Sl 104, 34: Dixit, et venit locusta,/et bruchus cuius non erat numerus. 67 Quid loquar herbarum fibras medicante ueneno 230 tinctas letiferi fudisse pericula suci? Noxius in teneris sapor aestuat ecce frutectis, cum prius innocuas tulerit natura cicutas, roscidus et uiridem qui uestit flos rhododafnen pabula lasciuis dederit sincera capellis. 235 Ipsa quoque oppositum destructo foedere certo transcendunt elementa modum rapiuntque ruuntque omnia legirupis quassantia uiribus orbem. Frangunt umbriferos aquilonum proelia lucos et cadit inmodicis silua extirpata procellis. 240 Que dizer das fibras das ervas, de eficaz veneno tingidas, 230 a espalhar os perigos de um mortífero suco? Um nocivo sabor eis que arde nos tenros arbustos, tendo antes a natureza produzido inofensivas cicutas e a orvalhada flor que veste o verde rododendro dado alimento sadio às cabrinhas facetas. 235 Também os próprios elementos, destruída a ordem estabelecida, excedem o modo que lhes foi imposto e arrebatam e arruínam tudo, com suas forças, violadoras da lei, sacudindo o mundo. A refrega dos ventos fratura os umbríferos bosques e cai a selva desarraigada ao desregramento das procelas. 240 ___________________________________________________________________________ 234 rhododafnen] arbusto do gênero Rhododendron, que engloba diversas espécies tóxicas; a flor assemelha-se à rosa e as folhas às do loureiro, donde a etimologia do nome grego: ρ9όδον (rosa) e δάφνη (loureiro). Cf. PLIN. 16. 79. 1: rhododendron, ut nomine apparet, a Graecis venit. alii nerium vocarunt, alii rhododaphnen, sempiternum fronde, rosae similitudine, caulibus fruticosum. iumentis caprisque et ovibus venenum est, idem homini contra serpentium venena remedio. E PLIN. 24. 90. 1: Rhododendros ne nomen quidem apud nos invenit Latinum; rhododaphnen uocant aut nerium. mirum folia eius quadripedum venenum esse, homini vero contra serpentes praesidium, ruta addita e vino pota. pecus etiam et caprae, si aquam biberint, in qua folia ea maduerint, mori dicuntur. O veneno dessa planta age fortemente em jumentos, cabras, ovelhas e em outros quadrúpedes (cf. Ham. 235). 235 VERG. Ecl. 2. 64: lasciua capella. 235-243 LUCR. 1. 250-297: Lucrécio expõe a doutrina epicurista sobre a eternidade da matéria e mostra como nada se perde totalmente, umas coisas de outras nascendo; mas, sendo invisíveis os elementos da matéria, e com o propósito de convencer Mêmio, menciona o exemplo dos ventos, que, embora não sejam percebidos por olhos humanos, os efeitos de sua ação na natureza não podem ser negados. Prudêncio se baseia no trecho lucreciano para descrever a desordem dos elementos da natureza depois do pecado original, que corrompeu a ordem primeira criada por Deus. Cf. LUCR. 1. 271-276: Principio venti vis verberat incita pontum/ingentisque ruit navis et nubila differt,/inter dum rapido percurrens turbine campos/arboribus magnis sternit montisque supremos/silvifragis vexat flabris. LUCR. 1. 286- 289: ita magno turbidus imbri/molibus incurrit validis cum viribus amnis,/dat sonitu magno stragem volvitque sub undis/grandia saxa, ruit qua quidquid fluctibus obstat. 236 VERG. A. 1. 62: foedere certo. 237 VERG. A. 4. 581: rapiuntque ruuntque, cláusula de verso; LUCR. 1. 292: ruuntque. 238 legirupis] vocábulo pré-clássico e pós-clássico, já presente em Plauto como substantivo legirupa (cf. L&S, s. v.). 239 aquilonum proelio] vento Aquilão, que sopra violentamente do Norte. Cf. VERG. G. 1. 318: uentorum... proelia. 68 Parte alia uiolentus aquis torrentibus amnis transilit obiectas praescripta repagula ripas et uagus euersis late dominatur in agris. Nec tamen his tantam rabiem nascentibus ipse conditor instituit, sed laxa licentia rerum 245 turbauit placidas rupto moderamine leges. Nec mirum si membra orbis concussa rotantur, si uitiis agitata suis mundana laborat machina, si terras luis incentiua fatigat. Exemplum dat uita hominum quo cetera peccent, 250 uita hominum cui quidquid agit uaesania et error subpeditant, ut bella fremant, ut fluxa uoluptas diffluat, inpuro feruescat ut igne libido, sorbeat ut cumulos nummorum faucibus amplis Por outra parte, a violenta torrente, em caudalosas águas, supera o limite das ribanceiras, barreiras impostas, e vaga, ao longe alagando, os devastados campos domina. Ora, não foi o Criador que infundiu nesses elementos, ao nascerem, tão grande furor, mas uma licenciosa liberdade 245 conturbou-lhes as plácidas leis, rompido o que as moderava. Nem admira que as partes do globo abaladas girem, que sacudida por seus próprios vícios padeça a máquina do mundo, que uma epidemia irritante a terra debilite. Dá exemplo a vida dos homens para que todo o resto peque, 250 a vida dos homens, à qual a loucura e o erro fornecem tudo quanto faz, para que estalem as guerras, para que o fluido prazer fluindo se espalhe, para que ferva em fogo impuro a volúpia, para que montes de dinheiro devore, com ampla gorja, ___________________________________________________________________________ 241 VERG. A. 10. 603: torrentis aquae. CLAUD. Pros. 2. 198: torrentius amne. Quanto à locução parte alia, usada no começo de verso, cf. VERG. A. 1. 474; 8. 433; 9. 521, etc.. 242 obiectas praescripta repagula ripas] epexegese (aposição). 247 CLAUD. Pros. 278: Nec mirum si. Cf. STAT. S. 5.1.1, 43. 248 LUCR. 5. 96: sustentata ruet moles et machina mundi. Cf. Rm 8, 19 ss. 249 luis] alguns editores adotam a forma luēs, sendo comum, em Prudêncio, a sístole da última sílaba -ēs. VERG. A. 1. 280: quae mare nunc terrasque metu caelumque fatigat. VAL. FLACC. 2. 120: terrasque fatigat. 250-251 uita hominum] segundo RODRÍGUEZ (1981, p. 264), a repetição de uita hominum (epanalepse) nos dois versos é uma característica do estilo “inchado”, usado também por Lucrécio. 252 CLAUD. Cons. Stil. 2. 149: cum bella fremunt. STAT. Th. 3, 1: bella animis, bella ore fremunt. 254 CLAUD. Cons. Stil. 2, 112 ss.: quae semper habendo/plus sitiens patulis rimatur faucibus aurum/trudis Auaritiam. 69 gurges auaritiae, finis quam nullus habendi 255 temperat aggestis addentem uota talentis. Auri namque fames parto fit maior ab auro. Inde seges scelerum radix et sola malorum, dum scatebras fluuiorum omnes et operta metalla eliquat ornatus soluendi leno pudoris, 260 dum uenas squalentis humi scrutatur inepta ambitio scalpens naturae occulta latentis, si quibus in foueis radiantes forte lapillos rimata inueniat. Nec enim contenta decore ingenito externam mentitur femina formam, 265 ac uelut artificis domini manus inperfectum os dederit, quod adhuc res exigat aut yacinthis a voragem da avareza, que, insaciável num desejo de posse 255 sem fim, profere votos de acumular riqueza. A fome de ouro se torna maior com o ouro ganho. Daí a colheita de crimes e a raiz única dos males, quando todos os mananciais dos rios e os recônditos metais passam pelo crivo do adorno, proxeneta do vulnerável pudor; 260 quando perscruta as veias da escabrosa terra a tola ambição, as profundezas da natureza latente escavando, para que em algum fosso radiantes pepitas ao acaso, sondando, encontre. Pois, não contente com o encanto natural, falsifica a mulher sua beleza exterior, 265 como se a mão do Senhor, seu artífice, lhe houvesse dado um rosto imperfeito, que ainda exija algo, seja de safiras ___________________________________________________________________________ 255 finis... nullus habendi] cf. LUCR. 5. 1432-1433: habendi/finis. Prudêncio ecoa este passo lucreciano, onde o poeta epicurista discorre sobre a inveja dos homens e a cobiça por ouro e vestidos de púrpura, as vãs preocupações humanas e as rixas que nascem delas: nunc aurum et purpura curis/exercent hominum uitam belloque fatigant (LUCR. 5 1423-1425). 257 VERG. A. 3. 57: auri sacra fames. JUV. 14. 139-140: crescit amor nummi, quantum ipsa pecunia creuit/et minus hanc optat qui non habet. 258 JUV. 14. 173: Inde fere scelerum causae. 1 Tm 6, 10: Radix enim omnium malorum est cupiditas. 261 LUCR. 6. 808: ubi argenti uenas aurique secuntur/terrai penitus scrutantes abdita ferro. 264-278 Prudêncio parece partir sobretudo da Sátira 6 de Juvenal para repreender a vaidade feminina (cf. JUV. 6. 457 ss), embora tal crítica fosse já lugar comum da tradição apologética cristã contra as vaidades do mundo (cf. TERT. Cult.; AMBR. Inst. uirg . 1.1, etc.). Quanto ao luxo das mulheres, cf. também MANIL. 5. 516-526. Em Prudêncio, ver ainda o combate entre a Luxuria e a Sobrietas (Psych. 310-453). 265 Cf. TERT. Cult. 2. 5. 23-28: Quam autem a vestris disciplinis et professionibus aliena sunt, quam indigna nomini Christiano, faciem fictam gestare quibus simplicitas omnis indicitur! effigie mentiri quibus in lingua non licet, appetere quod tuum non sit quibus alieni abstinentia traditur, adulterium in specie exercere quibus studium pudicitiae sit. 266 inperfectum] espondeu na quinta sede métrica. 267 Cf. TERT. Cult. 2. 5. 8-11: Displicet illis dei plastica, in ipsis se nimirum arguunt et reprehendunt artificem omnium. Reprehendunt enim, cum emendant, cum adiciunt, utique ab adversario artifice sumentes additamenta. 70 pingere sutilibus redimitae frontis in arce, colla uel ignitis sincera incingere sertis, auribus aut grauidis uirides suspendere bacas. 270 Nectitur et nitidis concharum calculus albens crinibus aureolisque riget coma texta catenis. Taedet sacrilegas matrum percurrere curas, muneribus dotata dei quae plasmata fuco inficiunt, ut pigmentis cutis inlita perdat 275 quod fuerat falso non agnoscenda colore. Haec sexus male fortis agit, cui pectore in arto mens fragilis facili uitiorum fluctuat aestu. Quid, quod et ipse caput muliebris corporis et rex, adorná-lo, engastadas, no alto da fronte coroada, seja o alvo colo rodear com flamejantes colares, ou nas orelhas carregadas dependurar verdes esmeraldas. 270 Prende-se ainda a alva pérola das conchas aos reluzentes cabelos e com presilhas de ouro amarram os cachos. Aborrece descrever esses sacrílegos cuidados das matronas, o corpo plasmado com os dons de Deus impregnam de pó, de tal modo que a pele, de maquiagem untada, perca 275 o que era, fazendo-se irreconhecível pela falsa cor. Assim se comporta o sexo frágil, em cujo estreito peito o ânimo instável flutua no fluxo e refluxo dos vícios. Que dizer, se até aquele que é a cabeça do corpo da mulher e rei, ___________________________________________________________________________ 270 Sobre o uso de brincos pelas mulheres, cf. SEN. Ben. 7. 9. 4. 4 e PLIN. 9. 114. 1. 274 Cf. ARN. 2. 41. 1.: Idcirco animas misit, ut diuini ponderis et grauitatis oblitae gemmas lapillos margaritas castitatis dispendio conpararent, etc. plasmata] em sentido próprio, o termo grego plasma é o trabalho feito de argila; entre os poetas cristãos, designa frequentemente o corpo humano (FORCELLINI, s. v.). Cf. HIER. Ep. 54: Quid facit in facie Christianae purpurissus et cerussa?, etc. e TERT. Cult. 2. 8. 277 male fortis] OV. F. 1. 571: patris male fortis ad artes; e PS. OV. Cons. Liv. 418: Longius ut nolis (heu male fortis) ali. STAT. Th. 11. 232: ipse instaurari sacrum male fortis agique. 278 mens fragilis] OV. H. 19. 5-7: urimur igne pari, sed sum tibi uiribus inpar:/fortius ingenium suspicor esse uiris./ut corpus, teneris ita mens infirma puellis. fluctuat aestu] cláusula de fim de verso; cf. VERG. A. 4. 532: irarum fluctuat aestu; 8. 19: curarum fluctuat aestu; 12. 486: fluctuat aestu. Sobre o opinião de que as mulheres, por sua índole, se deixam levar mais facilmente pelos vícios, cf. OV. M. 10. 243-246. Segundo DYKES (2015, p. 214), Prudêncio frequentemente emprega a aliteração de fricativas para expressar algo repulsivo (cf. PrH. 54-55, Ham. 560 e 641). 279 1 Cor 11, 3. Quid, quod et ipse] OV. M. 13. 223: quid, quod et ipse fugit? Cf. OV. M. 9. 595; JUV. 6. 45-46: quid quod et antiquis uxor de moribus illi/quaeritur? Cf. Gn 3, 16: in dolore paries filios, et sub viri potestate eris, et ipse dominabitur tui. 71 qui regit inualidam propria de carne resectam 280 particulam, qui uas tenerum dicione gubernat, soluitur in luxum? Cernas mollescere cultu heroas uetulos, opifex quibus aspera membra finxerat et rigidos durauerat ossibus artus. Sed pudet esse uiros. Quaerunt uanissima quaeque 285 quis niteant, genuina leues ut robora soluant. Vellere non ouium, sed Eoo ex orbe petitis ramorum spoliis fluitantes sumere amictus gaudent et durum scutulis perfundere corpus. Additur ars ut fila herbis saturata recoctis 290 inludant uarias distincto stamine formas. Vt quaeque est lanugo ferae mollissima tactu pectitur. Hunc uideas lasciuas praepete cursu uenantem tunicas, auium quoque uersicolorum que rege essa franzina porçãozinhha da sua própria carne 280 extraída, que o tenro vaso com autoridade governa, se até ele se dissipa no luxo? Podes ver amolecerem no refinamento velhos heróis, cujos membros o Criador rudes talhara e cujas articulações com duros ossos enrijecera. Mas têm vergonha de ser homens! Buscam frivolidades tais 285 que os embelezem, e assim levianos seu vigor natural apagam. Folgam de vestir-se com esvoaçantes amitos, não do velo das ovelhas, mas de fibras de ramos das plagas orientais importados, e o corpo inundam robusto, com rendas geométricas. A isso se ajunta a arte com que os fios embebidos em ervas recozidas 290 brincam de várias figuras numa textura notável. Embora qualquer penugem de animal seja suavíssima ao tacto, carda-se. Verás um em túnicas correndo apressado na caça, lascivas, ou ainda de aves variegadas ___________________________________________________________________________ 280 Gn 2, 21-23. 281 1 Pd 3, 7. 282 CLAUD. Get. 367: in luxum falso rumore resoluit. 285-297 Cf. nota aos vv. 266-276. 286 genuina leues ut robora soluant] P. NOL. Carm. 19. 43-44: ut frangant robora vitae/sectenturque vagas per gaudia lubrica pompas. 287 Eoo ex orbe] Eōus -a -um, derivado do grego, referente à aurora, daí oriental, oriente. 290 A seiva das ervas e raízes era um dos principais corantes usados pelos antigos. Sobre a condenação do luxo das roupas tingidas, cf. TERT. Cult. 1. 8. 293 CLAUD. Ruf. 1. 262: uolucris non praepete cursu. 72 indumenta nouis texentem plumea telis; 295 illum pigmentis redolentibus et peregrino puluere femineas spargentem turpiter auras. Omnia luxus habet nostrae uegetamina uitae, sensibus in quinque statuens quae condidit auctor. Auribus atque oculis, tum naribus atque palato 300 quaeritur infectus uitiosis artibus usus. Ipse etiam toto pollet qui corpore tactus palpamen tenerum blandis ex fotibus ambit. Pro dolor! Ingenuas naturae occumbere leges captiuasque trahi regnante libidine dotes! 305 Peruersum ius omne uiget, dum quidquid habendum omnipotens dederat studia in contraria uertunt. as emplumadas indumentárias tecer em telas inusitadas; 295 outro a espalhar vergonhosamente perfumes femininos com cosméticos estrangeiros e corantes de fragrância. Das capacidades sensíveis de nossa vida a luxúria se apodera, as quais, postas nos cinco sentidos, o Criador criou. Com os ouvidos e olhos, depois com o olfato e paladar, 300 busca-se um uso de viciosos artifícios infectado. O tato mesmo, que no corpo inteiro vigora, o tenro palpar de doces favores solicita. Que lástima! honestas sucumbirem da natureza as leis, e cativos se arrastarem pela libido reinante os dons! 305 Pervertido vige todo o direito, quando os homens quaisquer bens, que o Onipotente lhes dera, vertem em inclinações contrárias. ___________________________________________________________________________ 295 indumenta... plumea] ou uma roupa costurada com penas de aves (cf. SEN. Ep. 91. 16: non auium plumae in usum uestis conseruntur?), ou uma vestimenta bordada à maneira de penas de aves, como parece ser o caso. 302 LACT. Inst. 6. 23, 1: tactu, qui sensus est totius corporis. CIC. Nat. 2. 141. 9-10: tactus autem toto corpore aequabiliter fusus est. 303 palpamen] um hapax prudenciano (cf. FORCELLICI, GAFFIOT, L&S). ex fotibus] voz tardia derivada do verbo fouēre, geralmente usada no ablativo singular fōtū (cf. GAFFIOT, L&S, s. v.). Prudêncio sempre a emprega no ablativo plural (cf. Symm. 2. 584 e Perist. 5. 330). 304 CLAUD. Ruf. 1. 55: pro dolor! STAT. Th. 1, 77: pro dolor. 306 Peruersum ius omne uiget] expressão de teor jurídico. 307 VERG. A. 2.39: scinditur incertum studia in contraria uolgus. STAT. Th. 5.147-148: nec uarius fremor aut studia in contraria rapti/dissensus, ut plebe solet. Novamente eco de Juvenal (3, 30): qui nigrum in candida uertunt. Cf. Ham. 156. 73 Idcircone, rogo, speculatrix pupula molli subdita palfebrae est, ut turpia semiuirorum membra theatrali spectet uertigine ferri 310 incestans miseros foedo oblectamine uisus? Aut ideo spirant mediaque ex arce cerebri demittunt geminas sociata foramina nares, ut bibat inlecebras male conciliata uoluptas quas pigmentato meretrix iacit inproba crine? 315 Num propter lyricae modulamina uana puellae neruorumque sonos et conuiuale calentis carmen nequitiae patulas deus addidit aures perque cauernosos iussit penetrare meatus uocis iter? Numquid madido sapor inditus ori 320 uiuit ob hanc causam, medicata ut fercula pigram Por isso, pergunto eu, é que a pupila observadora foi posta sob a pálpebra macia, para contemplar os torpes membros de efeminados serem arrastado na teatral vertigem, 310 poluindo com vil divertimento os míseros olhos? Ou por isso é que respiram e do centro da sede cerebral despedem duas narinas as fossas nasais, para aspirar a volúpia desordenada os encantos que da perfumada cabeleira lança a meretriz desonesta? 315 Acaso foi por causa das melodias vãs da lírica rapariga, dos sons das cordas e do canto convival de ardente malícia que Deus deu as abertas orelhas e determinou que por canais cavernosos penetrasse o caminho da voz? Acaso o sabor, deitado na úmida boca, 320 existe para que os pratos delicados atraiam ___________________________________________________________________________ 308-324 Cf. TERT. Spectac. 2. 10: nequem enim oculos ad concupiscientiam sumpsimus et linguam ad maliloquium et aures ad exceptaculum maliloquii et gulam ad gulae crimen et uentrem ad gulae societatem et genitalia ad excessus impudicitiae et manus ad uim et gressus ad uagam uitam, etc. 310 CLAUD. Eutr. 2, 359 ss.: uibrata puer uertigine molli membra rotet. Os escritores antigos, tanto cristãos, quanto pagãos, em geral não consideravam o teatro e o circo divertimentos honestos. Cf. TERT. Apol. 38. 1: Nihil est nobis dictu, uisu, auditu cum insania circi, cum impudicitia theatri, cum atrocitate arenae, e também OV. Tr. 2. 1. 279 ss. 312 LACT. Opif. 10. 10: odoratio in duas nares a summo artifice diuisa est, quia cerebrum, in quo sentiendi ratio est, quamuis sit unum, tamen in duas partes discretum est. Aut ideo] no começo de verso, cf. LUCR. 3. 811; 5. 356. 318 HOR. Ep. 1. 18, 70: nec retinent patulae conmissa fideliter aures. 321 medicata fercula] prática culinária, considerada um requinte luxurioso, de combinar certos alimentos, formando-lhes o recheio, ou de usar condimentos para modificar-lhes o sabor inato (CHAMILLARD, p. 559). 74 ingluuiem uegetamque gulam ganeonis inescent, per uarios gustus instructa ut prandia ducat in noctem lassetque grauem sua crapula uentrem? Quid durum, quid molle foret, quid lene, quid horrens, 325 quid calidum gelidumue, deus cognoscere nosmet ad tactum uoluit palpandi interprete sensu. At nos delicias plumarum et linea texta sternimus atque cutem fulcro attenuante polimus. Felix qui indultis potuit mediocriter uti 330 muneribus parcumque modum seruare fruendi, quem locuples mundi species et amoena uenustas et nitidis fallens circumflua copia rebus non capit ut puerum nec inepto addicit amori, qui sub adumbrata dulcedine triste uenenum 335 deprendit latitare boni mendacis operto! a preguiçosa gula e o guloso estômago do glutão, para que as refeições com vários sabores preparadas prolongue noite adentro a bebedeira e o ventre repleto fatigue? O que é duro, o que é mole, o que é liso, o que é áspero, 325 o que é quente ou frio, Deus quis que nós mesmos conhecêssemos pelo tocar, sendo intérprete o sentido do tato. Mas nós delicadas plumas e panos de linho estendemos e a pele amaciamos num estrado amolecido. Feliz aquele que pôde moderadamente usar os concedidos 330 dons e conservar um modo parcimonioso de fruir, a quem a opulenta aparência do mundo, o doce aspecto e a profusão flutuante e enganosa de rutilâncias não enganam como a uma criança, nem prendem a uma tola afeição, aquele que sob a doçura aparente o funesto veneno 335 descobre latente debaixo da coberta de um bem mendaz! ___________________________________________________________________________ 328 linea] entre os antigos romanos o linho era um tecido raro e considerado um artigo de luxo (cf. ARÉVALO, OBBARIUS e DRESSEL). 330 VERG. G. 2.490: felix qui potuit rerum cognoscere causas. RODRÍGUEZ (1981, p. 269) ressalta que Lucrécio também louva a vida simples (LUCR. 2, 20 ss., 31-33, e 5. 1118). 334 addicit] termo do âmbito jurídico. 336 HOR. P. 25: decipimur specie recti. 75 Sed fuit id quondam nobis sanctumque bonumque principio rerum, Christus cum conderet orbem. Vidit enim deus esse bonum, uelut ipse Moyses historicus mundi nascentis testificatus, 340 “Vidit” ait “deus esse bonum quodcumque creauit.” Hoc sequar, hoc stabili conceptum mente tenebo inspirante deo quod sanctus uaticinator prodidit antiquae recolens primordia lucis: esse bonum quidquid deus et Sapientia fecit. 345 Conditor ergo boni pater est et cum patre Christus. Nam deus atque deus pater est et filius unum. Quippe unum natura facit, quae constat utrique una uoluntatis iuris uirtutis amoris. Mas isso nos foi outrora santo e bom no princípio das coisas, quando Cristo criou o mundo. Viu pois Deus que era bom, tal como o próprio Moisés, historiador do mundo nascente, testemunhou: 340 “Viu Deus que era bom tudo o que criou”. Isso hei de seguir, isso na memória firmemente hei de guardar, o que por inspiração divina o santo profeta transmitiu, ao relembrar os primórdios da luz antiga: era bom tudo quanto fez Deus e a Sabedoria. 345 O Pai, portanto, é o criador do bem e, com o Pai, Cristo. Pois é Deus, e Deus Pai e Filho são uno. De fato, uno os faz a natureza, que permanece em ambos una em vontade, em direito, em poder, em amor. ___________________________________________________________________________ 341 Gn 1, 31. Verso baseado na VETUS LATINA: Et vidit deus omnia quaecumque fecit et ecce bona valde. Na VULG.:Viditque Deus cuncta quæ fecerat, et erant valde bona. (cf. CHARLET, 1983, p. 33). 343 sanctus uaticinator] na linguagem comum dos cristãos, o termo grego propheta substituiu em geral as palavras com reminiscência da religião pagã, como uates, fatidicus (cf. MOHRMANN, p. 42, 1961). Os poetas, no entanto, se inserem numa tradição literária da qual muitas vezes não desejam afastar-se totalmente, como no caso do termo uaticinator, embora de uso raro entre os clássicos (OV. P. 1. 1. 42), e de uates (cf. Ham. 575: dei uates). 347 Jo 10, 30. 76 Non tamen idcirco duo numina nec duo rerum 350 artifices, quoniam generis dissensio nulla est, atque ideo nulla est operis distantia, nulla ingenii. Peperit bona omnia conditor unus. Nil luteum de fonte fluit, nec turbidus umor nascitur aut primae uiolatur origine uenae. 355 Sed dum liuentes liquor incorruptus harenas praelambit, putrefacta inter contagia sordet. Numquid equus ferrum taurus leo funis oliuum in se uim sceleris cum formarentur habebant? Quod iugulatur homo, non ferrum causa furoris 360 sed manus est. Nec equum uaesania feruida circi auctorem leuitatis habet rabidiue fragoris. Mens uulgi rationis inops, non cursus equorum perfurit; infami studio perit utile donum. Não há duas divindades nem dois do mundo 350 autores, porquanto a discordância de natureza é nula, e por isso nula é a diferença de operação, nula a de índole. Deu à luz todas as coisas boas um único Criador. Nada sujo flui da fonte, nem turvo o líquido nasce ou se corrompe na origem do primeiro veio. 355 Mas, quando o licor incorrupto as lívidas areias lambe, se suja no contágio dos dejetos. Por acaso o cavalo, a espada, o touro, o leão, a corda, o azeite, em si mesmos, quando criados, tinham uma força criminosa? Se um homem é degolado, não é a espada a causa da loucura, 360 mas a mão. Nem o férvido desvario do circo tem o cavalo por autor do estouvamento ou do fragor raivoso. A mente do vulgo, carente de razão, e não o curso dos cavalos, é que desvaria; um gosto infame faz perecer um dom útil. ___________________________________________________________________________ 350 Non tamen idcirco] hemistíquio comum em Ovídio (M. 8. 751; 11. 449; Tr. 1. 5. 55, etc.). 353 bona omnia] hiato comum na poesia prudenciana. 356 STAT. Th. 4. 522: liuentes Acheron eiectat harenas. 357 praelambit] ocorre em Horácio no sentido de “lamber ou degustar antes ou primeiro” (S. 2. 6. 109); em Prudêncio e em Aviano, aplicado às águas (cf. L&S, Forcellini, s. v.). 361 circi] TERT. Apol., 38: Nihil est nobis dictu, uisu, auditu cum insania circi, cum impudicitia theatri, cum atrocitate arenae, cum uanitate xysti; e TERT. Marc. 1. 27. 4: quid non frequentas tam solemnes uoluptates circi furentis, caueae sauientis et scenae lascivientis? LACT. Inst. 6. 20: Circensium quoque ludorum ratio quid aliud habet, nisi levitatem, vanitatem, insaniam? 363 CLAUD. Eutr. 2. 429: rationis inops. STAT. Th. 1. 373: stat rationis inops. 77 Sic Lacedaemonicas oleo maduisse palestras 365 nouimus et placidum seruire ad crimina sucum. Inde per aërium pendens audacia funem ardua securis scandit proscaenia plantis; inde feras uolucri temeraria corpora saltu transsiliunt mortisque inter discrimina ludunt. 370 Sanguinis humani spectacula publicus edit consensus legesque iubent uenale parari supplicium, quo membra hominis discerpta cruentis morsibus oblectent hilaram de funere plebem. Mille alia stolidi bacchantia gaudia mundi 375 percensere piget, quae ueri oblita tonantis humanum miseris uoluunt erroribus aeuum. Assim, dos lacedemônios eram encharcadas de óleo as palestras, 365 sabemo-lo, e a usos criminosos servia o líquido inofensivo. Daí numa corda aérea pendendo a audácia, com pés confiantes, sobe ao elevado proscênio; daí corpos temerários, em flutuantes saltos, transpõem feras e brincam com o perigo da morte. 370 Espetáculos de sangue humano se promovem com público consenso, e leis ordenam a preparação de venais suplícios, para que membros humanos, dilacerados por cruentas mordidas, recreiam a plebe regozijante no cadáver. É penoso enumerar mil outros divertimentos insanos 375 do mundo estulto, que, deslembrados do verdadeiro Tonante, o século humano revolvem com erros miseráveis. ___________________________________________________________________________ 365 Cf. MART. 4. 55. 6-7: libidinosae/Ledaeas Lacedaemonos palaestras. Era praxe os lutadores gregos lubrificarem os corpos para mais dificilmente serem agarrados nos exercícios; os lacedôminos eram célebres na arte da luta. 367-368 Funâmbulos (funambulus). 369-370 Bestiário (bestiarius), gladiador que lutava contra animais ferozes. 372-373 uenale... supplicium] uenatio era o espetáculo em que escravos digladiavam com animais ou entre si, para divertimento do povo. Segundo TEOLIUS (p. 26), alguns criminosos eram condenados às feras, outros homens corajosos desciam à arena espontaneamente, e outros eram pagos para submeter-se a esse recreamento quase sempre mortal, donde a expressão uenale supplicium. 376 ueri tonantis] na religião romana, o epíteto tonans aplicava-se a Júpiter. Prudêncio emprega-o nove vezes, sete para designar a Deus (Ham. 376 e 669, Psych. 640, Perist. 6. 98; Cath. 6. 81; Cath. 12.83; Apoth. 171) e duas para Júpiter (no poema em honra ao martírio de São Romão, ou seja, num contexto pagão: Perist. 10. 222; Perist. 10. 277). Prudêncio assim parece indicar que o mais alto atributo aplicado ao maior dos deuses pagãos não pertence por direito a Júpiter, mas sim ao verdadeiro Deus, revelado no Antigo e no Novo Testamento. Como é comum na poesia prudenciana, o uso de elementos da literatura e da cultura pagã não é indiferente, mas obedece a um critério apologético destinado ao público pagão letrado. 78 Nemo animum summi memorem genitoris in altum excitat, ad caelum mittit suspiria nemo; nec recolens apicem solii natalis ad ipsum 380 respicit auctorem nec spem super aëra librat. Sed mentem grauidis contentam stertere curis indigno subdit domino perituraque pronus diligit et curuo quaerit terrestria sensu. Hoc pulchrum quod terra parit, quod gloria confert 385 lubrica, commendat quod perniciosa uoluptas, quod uelut excitus difflato puluere uentus praeterit, exemplo tenuis quod transuolat umbrae. His aegras animas morborum pestibus urget praedo potens, tacitis quem uiribus interfusum 390 corda bibunt hominum; serit ille medullitus omnes nequitias spargitque suos per membra ministros. Ninguém rememora na alma o sumo Pai e o coração ao alto eleva, ou aos céus dirige suspiros: ninguém! Nem meditando na sede sublime do seu nascimento, 380 olha para o Criador, nem a esperança acima das nuvens deposita. Mas submete a alma satisfeita, em cuidados graves repousada, a um indigno senhor, e as coisas perecíveis, prostrado, estima, curvada a mente o terreno requesta. Belo é isto que a terra gera, o que a glória oferece 385 instável, o que a perniciosa volúpia louva, o que passa como o vento erguido que o pó dispersa, o que revoa como a sombra tênue. Com os flagelos dessas doenças açoda as almas fracas o poderoso salteador, a quem, infiltrado em forças silenciosas, 390 os corações dos homens bebem; semeia ele até a medula todas as maldades, e espalha pelos membros os seus ministros. ___________________________________________________________________________ 378 A repetição da consoante m reproduz um tom de lamento e queixa. Cf. Rm 3, 11. 384 PERS. 2. 61: o curuae in terris animae et caelestium inanis. 388 VERG. A. 10. 636: tenuem... umbram. 390 praedo] o demônio (cf. Ham. 949), designado também como fur, latro (cf. Praef. Apoth. 2. 45; Apoth. 408, etc.). Quinto pé espondaico. 391 Ef 2, 2. 392 CLAUD. Eutr. 2, 498: sparsit per membra. 79 Namque illic numerosa cohors sub principe tali militat horrendisque animas circumsedet armis: ira superstitio maeror discordia luctus, 395 sanguinis atra sitis, uini sitis et sitis auri, liuor adulterium dolus obtrectatio furtum. Informes horrent facies habituque minaces. Ambitio uentosa tumet, doctrina superbit, personat eloquium, nodos fraus abdita nectit. 400 Inde canina foro latrat facundia toto; hinc gerit Herculeam uilis sapientia clauam ostentatque suos uicatim gymnosofistas, incerat lapides fumosos idololatrix Ali numerosa coorte milita sob tal comandante, e com armas horrendas as almas sitia: ira, superstição, tristeza, discórdia, luto, 395 sede funesta de sangue, sede de vinho, sede de ouro, inveja, adultério, dolo, detração, furto. Faces disformes horrorizam, com semblante ameaçador. Infla a fátua ambição, o saber assoberba, retumba a loquacidade, os nós a fraude furtiva trama. 400 Assim a canina facúndia ladra no foro todo, daí carrega a clava hercúlea a sabedoria vil e em cada esquina ostenta seus gimnosofistas, encera pedras defumadas a idólatra ___________________________________________________________________________ 393 Ef 6, 12; Rm 1, 29-30. 395 Gl 5, 19-21: Manifesta sunt autem opera carnis, quae sunt fornicatio, immunditia, impudicitia, luxuria, idolorum servitus, veneficia, inimicitiae, contentiones, aemulationes, irae, rixae, dissensiones, sectae, invidiae, homicidia, ebrietates, comessationes, et his similia. 399 1 Cor 8, 1: Scientia inflat, caritas uero aedificat. 401 OV. Ib. 232: latrat et in toto uerba canina foro. Tornou-se proverbial a expressão facundia canina (ou loquentia canina, em Quintiliano, e facundia rabida, em Aulo Gélio) para designar o orador maledicente e agressivo e o uso da eloquência para maldizer. S. Agostinho, S. Jerônimo, Paulino de Nola e Lactâncio, ao usarem a expressão facundia canina, atribuem-na a Ápio Cláudio Cego, cônsul de 307 a 296 a. C., conforme Salústio (H. 4. 54: Canina, ut ait Appius, facundia exercebatur). 402 AUG. Ciu. 14. 20: uidemus adhuc esse philosophos, qui non solum amiciuntur pallio, uerum etiam clauam ferunt. Embora a clava ou o báculo, além da barba e do pálio, fossem considerados insígnias comuns dos filósofos, representando a clava muitas vezes a força dialética, ao passo que Hércules era cultuado pelos sábios como modelo de trabalho e benfeitor, num templo a ele dedicado no circo Flamínio, GOOSSENS (1947, p. 198) todavia demonstra que Prudêncio se refere à seita dos filósofos cínicos, que se distinguiam por portar uma clava (cf. AUG. Ciu. 14. 20) e tinham Hércules por patrono da escola. Cf. OBBARIUS: Agit poeta de baculo philosophorum cynicorum insigni, non de syllogismis dialecticis. 403 gymnosofistas] voz grega, composta de γυμνός (nu) e σοφιστής (sábio). Eram sábios da Índia que andavam nus ou com escassa vestimenta, sendo por gregos e por romanos identificados em geral com os brâmanes. Os filósofos cínicos se filiavam a eles pelo ascetismo e pela simplicidade de vida (cf. GOOSSENS, 1947, p. 199-200). AUG. Ciu. 14. 17: Per opacas quoque Indiae solitudines, cum quidam nudi philosophentur, unde Gymnosophistae nominantur, adhibent tamen genitalibus tegmina, quibus per caetera membrorum carent. 404 idololatrix] hapax prudenciano (L&S, GAFFIOT, s. v.), derivado do grego ει0δωλολατρίς, “aquela que adora ídolos”; forma terminada em -x, considerada da língua vulgar, em vez de idololatris, confusão em virtude da semelhança dos sons -s e -x ao fim de palavra. A penúltima sílaba (īdōlŏlātris) é longa. 80 religio et surdis pallens aduoluitur aris. 405 Heu quantis mortale genus premit inprobus hostis armigeris, quanto ferrata satellite ductor bella gerit, quanta uictos dicione triumfat! Surgit in auxilium Chananeus atque agmina denset casside terribilis, saetarum pondera mento 410 concutiens dextramque graui cum cuspide quassans. Ast alia de parte furens exercitus ardet regis Amorraei, tum milia Gergeseorum effundunt aciem toto uolitantia campo. Eminus hi feriunt, confligunt comminus illi. 415 Ecce Zebusiacae feruent ad proelia turmae, aurea tela quibus de sanguine tincta draconis mortifero splendore micant radiantque necantque. religião e, pálida, aos surdos altares se prostra. 405 Ai! com quantos escudeiros o ímprobo inimigo oprime o gênero humano! com quanta escolta move o general encarniçada guerra, com quanta autoridade triunfa dos vencidos! Vem em auxílio o cananeu e adensa a tropa, de casco terrível, no queixo o peso das barbas 410 sacudindo e brandindo a destra com grave lança. Da outra banda furioso exército ferve, o do rei amorreu, então milhares de gergeseus espalham a linha de batalha, voando pelo campo todo. Uns ferem de longe, outros à mão se batem. 415 Eis a tropa de jebuseus a arder no combate, cujos dardos de ouro, tingidos do sangue de serpente, com mortífero esplendor brilham, fulgem, matam. ___________________________________________________________________________ 409 Chananeus] de Canaã, filho de Cam. Tomado como trissílabo: Chănăneus. Gn 10, 15-16; Js 11, 3. agmina denset] VERG. A. 7. 794: agmina densentur campis. LUC. 7. 221-222: fortissima densant/agmina. Cf. Js 24. 411 SIL. 10. 140: cum cuspide labens. 412 VERG. A. 1. 491: furens mediisque in milibus ardet. 413 regis Amorraei] amorreus eram povos da Palestina, na Judeia. Gergeseorum] Gergeseu foi o quinto filho de Canaã, daí o nome do seu povo. 416 Zebusiacae] jebuseus, povo oriundo da Palestina, cujo nome tem origem em Jebus, terceiro filho de Canaã. Segundo CHARLET (1983, p. 15), Zebus-(iacus) é criação de Prudêncio; na VULGATA e geralmente na VETUS LATINA consta a forma Iebus-, como no grego 0Ιεβουσαι/ος (nesta última por duas vezes ocorre a forma iniciada por z). 417 aurea tela] para CHAMILLARD (p. 567), dardos tingidos da cor de cinábrio (cinnabaris), sulfeto de mercúrio, mineral avermelhado usado na produção do corante vermelho, cor de sangue. Segundo FORCELLINI, alguns acreditavam (cf. PLIN. 7. 38) que a cinnabaris Indica era produzida do veneno de uma serpente (draco) esmagada com o peso de elefantes moribundos, misturando-se o sangue de ambos os animais. CHAMILLARD, considerando a expressão de sanguine tincta draconis, acredita que Prudêncio se vale dessa opinião. 81 Nec non terrificas pilis armare cateruas te, Cittaee, iuuat; sed gens Ferezea sagittis 420 insultat uirtute pari sed dispare ferro. Postremum cuneum rex promouet Euuaeorum squamosum thoraca gerens de pelle colubri. His subnixa uiris scelerum peruersa potestas edomat inualidas mentes, quae simplicitate 425 indociles bellique rudes sub foedere falso tristis amicitiae primum socia agmina credunt mammoneamque fidem pacis sub amore sequuntur. Mox faciles ad uincla rapi iuga dura uolentes addictis subeunt ceruicibus et nebulonum 430 spirituum iussis seruire ferocibus optant. E também a ti, heteu, te agrada armar de dardos tuas terríveis catervas; e o povo ferezeu com flechas 420 irrompe, igual em coragem mas com arma diversa. O rei dos heveus avança a última tropa em cunha, numa couraça escamosa vestido, de pele de cobra. Com o auxílio desses varões, o perverso poder dos crimes doma as almas débeis, que bisonhas de tão ingênuas 425 e rudes na guerra, sob um falso pacto de funesta amizade, a princípio creem serem tropas aliadas e a fé de Mamona seguem por amor à paz. Em seguida, arrastadas fácil ao cativeiro, consentem suas cervizes entregar aos duros jugos e dos nebulosos 430 espíritos optam por servir às ordens ferozes. ___________________________________________________________________________ 420 Js 11, 3 ss. Cittaee] os heteus. Incertos se mostram os comentadores acerca da origem da forma Cittaeus, usada por Prudêncio, mas desconhecida da VULGATA (H)ettheus/C(h)etteus, do grego Χετταιοσ, e da VETUS LATINA C(h)ett(h)eus. (cf. CHARLET, 1983, p. 13). Prudêncio baseia-se na narrativa do cap. 24 do livro de Josué, onde se faz menção aos heteus, cujo nome deriva de Heth, filho de Canaã. Ferezea] ferezeu, palestinos, de região próxima a Samaria. 422 Euuaeorum] heveus são os gabaonitas, da cidade de Gabão, na Palestina. 427 socia agmina credunt] VERG. A. 2. 371: socia agmina credens. STAT. Ach. 1. 301: socia agmina uidit. Cláusula de verso. 428 mammoneamque fidem] Lc 16, 8: Non potestis Deo servire et mammonae. 429-436 As almas subjugadas são conduzidas ao modo triunfante dos imperadores romanos, mas, ao contrário da visão romana, em que os vencidos são os bárbaros, neste caso o bárbaro (o demônio) é o vencedor (Ham. 436: barbaricis... habenis). 82 Ille superuacuis augens patrimonia fundis finitimisque inhians contempto limite agellis ducitur innexus manicis et mille catenis ante triumfales currus post terga reuinctus 435 nec se barbaricis addictum sentit habenis. Hic qui uentosae scandit fastigia famae inflaturque cauo pompae popularis honore, qui summum solidumque bonum putat ambitionis crescere successu, praeconum uoce trementes 440 exanimare reos, miserorum in corpora fasces frangere, terribiles legum exercere secures, in laqueum iam colla dedit, iam compede dura nectitur et pedibus seruilia uincula limat. Um certo, aumentando de fazendas o patrimônio, supérfluas, abocanhando os lotes vizinhos, desprezando os cercados, é conduzido amarrado em algemas e mil correias, diante do carro triunfal, ligado às costas, 435 e não percebe que é escravo dos bárbaros laços. Outro, que os fastígios sobe da fama falaz, inflando-se com a vã glória da pompa popular, que julga ser o supremo e duradouro bem o crescer no sucesso da ambição, o desfalecer os réus assustados 440 com a voz dos meirinhos, o quebrar nos corpos dos miseráveis os feixes e o exercer as terríveis segures das leis, já deu um laço ao pescoço, já em duros grilhões está atado e seus pés os vínculos servis lustram. ___________________________________________________________________________ 434 SIL. 13. 593: mille catenis. STAT. Ach. 1. 431: mille catenis. Cláusula de verso. 435 post terga reuinctus] costume romano de conduzir os prisioneiros dos povos derrotados à frente do carro do imperador triunfante. VERG. A. 2.57: ecce manus iuuenem interea post terga reuinctum. SIL. 1. 450: post terga reuinctum e 16. 72: post terga reuinctus. STAT. Th. 12.677: post terga reuinctas; CLAUD. Cons. Stil. 1. 213: post terga reuincti. Ao final do verso. 436 addictum] addictus era o devedor insolvente que o magistrado podia atribuir ao credor, depois de iniciada a execução pessoal (manus iniectio). Embora preso ao credor, juridicamente não era considerado escravo; no entanto, após sessenta dias, não tendo pago a dívida, podia ser vendido para fora das fronteiras de Roma (trans Tiberim) e, assim, perdia a condição de ciuis. 437 STAT. S. 4. 4. 50: uentosaque gaudia famae. 441-442 Cf. Perist. 9. 47-48: fragiles inque ora tabellas frangunt. 83 Credite, captiui mortales, hostica quos iam 445 damnatos cohibent ergastula, quos famulatu poenarum uirtus non intellecta coercet, haec illa est Babylon, haec transmigratio nostrae gentis et horribilis uictoria principis Assur, carmine luctifico quam deflens Hieremias 450 orbatam propriis ululauit ciuibus urbem. Num latet aut dubium est animas de semine Iacob exilium gentile pati quas Persica regna captiuas retinent atque in sua foedera cogunt? Illic natali desuescunt uiuere ritu 455 moribus et patriis exutae in barbara iura degenerant linguamque nouam uestemque sequuntur Crede, ó escravos mortais, já condenados que as prisões 445 inimigas oprimem, coagidos na servidão das penas por uma força não compreendida, essa é aquela Babilônia, essa a transmigração da nossa gente e a horrível vitória do rei da Assíria, pela qual chorando num cântico de luto, Jeremias 450 sua urbe em uivos gemeu, órfã dos próprios cidadãos. Acaso é ignorado ou incerto que as almas, da semente de Jacó, o exílio padecem entre os gentios e, pelos reinos da Pérsia retidas em cativeiro, são coagidas a pactos de aliança? Lá se desabituam de viver pelos modos da terra natal 455 e, dos costumes pátrios despidas, nas leis bárbaras degeneram, adotando língua e vestimenta novas, ___________________________________________________________________________ 445 Credite] expediente retórico que dá ênfase e uma certeza emotiva à asserção (cf. CIC. Prov. 7: Sed mihi credite). 447 uirtus non intellecta] segundo CHAMILLARD (p. 570), trata-se do vício sob aparência (specie) de virtude (cf. JUV. 14, 109: specie uirtutis et umbra e HOR. P. 25: decipimur specie recti); para TEOLIUS (p. 29, idem OBBARIUS e DRESSEL), trata-se de virtude ignorada (ignorantia sui, i.d. virtutis) ou não compreendida por aqueles submetidos às penas, que cobra o desprezo que lhe é demonstrado. No entanto, em razão dos versos anteriores (vv. 447 ss.), parece-nos, com ARÉVALO (p. 534), que uirtus está empregada não no sentido moral, mas na acepção de “força”, qual seja, do demônio, a qual supera o entendimento do homem (cf. Ham. 436; quanto a uirtus com sentido de “força”, cf. Ham. 512). 448 Babylon] capital do reino dos caldeus, tomada figuradamente por reino do demônio, como os reinos da Pérsia (v. 453) (TEOLIUS, p. 29). A transmigração do povo judeu para o cativeiro da Babilônia é narrada em 4 Rs 24-25. 449 principis Assur] Nabucodonosor. 450 Hieremias] profeta no reinado de Sedecias. Cf. Lm. 1, 1: Quomodo sedet sola ciuitas plena populo! Facta est quasi uidua domina gentium. 452 de semine Iacob] segundo TEOLIUS (p. 29), a expressão “almas da estirpe de Jacó” pode aplicar-se, neste contexto, tanto aos cristãos escravizados pelo pecado, quanto aos hereges infectados por seus erros dogmáticos. A primeira hipótese nos parece mais adequada. 456-457 Jeremias vaticinara que durante setentas anos os judeus viveriam escravos sob Nabuconodosor, rei da Babilônia (Jr. 25, 11), que zombava dos costumes e ritos judaicos (cf. Lm. 1, 7). 84 deque profanato discunt sordescere cultu nutricemque abolent petulanti e pectore Sion. Iam patriae meminisse piget, iam mystica frangunt 460 organa, et externi laudant anathemata regni. Nonne fuit melius saeuum Memfitidis aulae imperium tolerasse patres penitusque sinistris adsedisse focis positos Faraonis iniqui sub pedibus limo et paleis seruire paratos 465 carnis et inmodicae spurco ructamine crudos? Quo tantum auxilii per prodigialia signa effudit dominus, populum dum forte rebellem seruat ope inmerita, uinclis dum subdita colla soluit et Aegyptum uirga serpente coercet? 470 e aprendem a manchar-se num culto sacrílego, expulsando do peito petulante a nutriz Sion. Já aborrece a lembrança da pátria, já quebram os místicos 460 instrumentos e do reino estrangeiro louvam as oferendas. Não fora melhor que da corte de Mênfis o império cruel nossos pais tolerassem e junto ao fogo dos funestos lares acampassem, ao pé do faraó iníquo, ao serviço das palhas e da argila dispostos, 465 mal digerindo no repugnante arroto a carne em excesso? Para que tantos auxílios, com prodigiosos sinais, derramou o Senhor, ao salvar o povo rebelde com imerecida ajuda, ao libertar os pescoços aos grilhões sujeitos e punir o Egito com a vara-serpente? 470 ___________________________________________________________________________ 459 nutricem... Sion] Sião, montanha e cidadela de Jesuralém; a própria cidade, por metonímia. pectore Sion] alongamento da vogal -i- de Sion, breve por natureza; cf. P. NOL. Carm. 9. 3: cum patrium memori traheremus pectore Sion. Prudêncio fala daqueles judeus que abandonaram os ritos judaicos e os costumes pátrios para abraçar os dos pagãos; alguns se mantiveram fiéis à lembrança de Jerusalém (cf. Sl 136). 460 Iam... iam] anáfora. 461 anathemata] ănăthēmă (do grego α0νάθημα, derivado do verbo α0νατίθημι, “colocar no alto”), eram os dons dedicados aos deuses, em geral como adornos suspensos à vista no templo (FORCELLINI, s. v.). Não confundir com ănăthĕmă, “anátema, excomunhão”. 462 Memfitidis] Mênfis, principal cidade do antigo Egito, situada junto ao Nilo. Cf. Dn 3, 7. 465 Ex 5, 10 ss. 466 Ex 16, 3: Utinam mortui essemus per manum Domini in terra Ægypti, quando sedebamus super ollas carnium, et comedebamus panem in saturitate. 470 Ex 7, 10: tulitque Aaron virgam coram Pharaone et servis ejus, quae versa est in colubrum. 85 Quid iuuat aequoreum pelago cedente profundum puluerea calcasse uia, cum conscia ponti saxa sub ignoto patuerunt prodita caelo aruit et medio sitiens in gurgite limus, si uictor uirtute dei mediasque tenebras 475 luce columnari scindens exercitus olim perdidit inuenti uallem botryonis opimam, si nescit uersare solum cui melle perenni glaeba fluens niueos permiscet lactea riuos, si domitam Iericon lituis atque aere canoro 480 rursus in antiquos patitur consurgere muros, si ripis reflui Iordanis pellitur et iam deserit adscriptam dimensa in iugera sortem, Que adianta, abertas as águas, ter pisado no caminho polvoroso o fundo marítimo, quando as pedras que conhecem o mar se mostraram descobertas ao céu ignorado, e no meio da voragem secou a terra sedenta, se, vencedor na virtude de Deus, as trevas ao meio 475 rasgando com a luz colunar, um dia o exército desperdiçou o vale fértil onde encontrou os cachos de uva? se não sabe amanhar o solo, cuja láctea gleba mistura a flux níveos rios ao mel perene? se consente que a domada Jericó, com trombetas e o bronze canoro, 480 outra vez ressurja nos antigos muros? se das margens do refluente Jordão se retira e então abandona a sorte que lhe coube em geiras bem medidas? ___________________________________________________________________________ 471 Ex 14, 22 ss. 472-473 conscia... saxa] OV. M. 6. 547: et conscia saxa mouebo. 471-474 Paulino de Nola, no seu Carmen 27, descreve a passagem dos judeus pelo Mar Vermelho. É possível estabelecer uma comparação de imagens e vocabulário com este trecho de Prudêncio: Iordanis suspenso gurgite (Carm. 519) = medio... in gurgite (Ham. 474); amne refuso (Carm. 521) = pelago cedente (Ham. 471); arente profundo (Carm. 526) = aequoreum... profundum (Ham. 471) e aruit... limus (Ham. 474); puluerulenta... uestigia (Carm. 528) = puluerea... uia (Ham. 472); duro... limo (Carm. 528) = limus (Ham. 474). Coincidentemente, logo em seguida, Paulino narra a história de Rute e Orfa, assim como Prudêncio (vv. 778-788), concluindo, de modo semelhante ao poeta de Calahorra, que duas são os caminhos dos homens neste mundo: os que seguem a Deus e os que buscam a própria ruína, percorrendo a via mais ampla (semelhança com a parábola dos irmãos no bívio, vv. 789-801). 475 Ex 13, 21. 477 Nm 13, 24. uallem botryonis opimam: vale de Jericó, próximo a Jerusalém. Botryo, palavra grega = uva (uua) ou cacho (racēmus). 478-479 Num 13, 28: Venimus in terram, ad quam misisti nos, quae revera fluit lacte et melle; Js 5, 6: et quibus ante juraverat ut non ostenderet eis terram lacte et melle manantem. 480 Iericon] Ierico(n), acusativo grego. Na VULGATA: Hiericho; na VETUS LATINA: (H)iericho/Ierico (cf. CHARLET, 1983, p. 14). Cf. VERG. A. 9. 503: aere canoro; OV. M. 3. 704: aere canoro. Cláusula de verso. Sobre a queda de Jericó, cf. Js 6, 10. 482 Js 3, 16; Sl 113, 3-5: Iordanis conversus es retrorsum. Prodígio da travessia das águas do rio Jordão. 483 Js 11, 23: Cepit ergo Josue omnem terram, sicut locutus est Dominus ad Moysen, et tradidit eam in possessionem filiis Israel secundum partes et tribus suas. 86 denique si structam tantis sudoribus urbem et quae nubigenas transcendunt culmina nimbos 485 defensare nequit, si nescit quis lapis ille est hostibus obsistens et inexpugnabile turris praesidium, quem non aerato machina rostro arietat insiliens nec ferrea uerbera quassant? Angulus hic portae in capite est, hic continet omnem 490 saxorum seriem constructaque limina firmat. Quem qui rite suis per propugnacula muris nouerit insertum seque ac sua moenia uallo praecingat triplici celsa stans eminus arce fretus amore petrae castis et peruigil armis, 495 non illum regina Tyri, non accola magni enfim, se a cidade construída com tanto suor e os altos tetos que transcendem as nuvens do céu 485 não pode defender? se não sabe qual é aquela pedra resistente aos inimigos e defesa inexpugnável de torre, a qual pedra um aríete com testa de bronze em assalto não abate nem abalam açoites de ferro? Esta pedra angular está no vértice da porta, pedra que contém toda 490 a série de blocos e a estrutura do limiar firma. Aquele que em seus muros, inserida como bastião, essa pedra devidamente reconhecer, a si mesmo e a sua muralha com tripla trincheira envolvendo, ao longe de pé na sublime cidadela, firme no amor à pedra e com armas vigilante, castas, 495 a ele nem a rainha de Tiro, nem o habitante do grande ___________________________________________________________________________ 484 urbem] Jerusalém. 486 lapis ille] Cristo. Cf. Ef 2, 20-21: ipso summo angulari lapide Christo Jesu: in quo omnis aedificatio constructa crescit in templum sanctum in Domino, etc., e também Ditt. 31, 122. 490 Mt 21, 42; Sl 118 (117), 22. 492 VERG. A. 9. 664: per propugnacula muris. 496 regina Tyri] Os comentadores disputam sobre quem seria tal rainha. CHAMILLARD (p. 576), após aventar várias hipóteses, afirma, sem certeza, que se trata de Dido, rainha de Cartago, filha do rei de Tiro e, portanto, rainha de Tiro, por direito. ARÉVALO (p. 538) e outros, contrariamente, negam que seja Dido ou mesmo a rainha de Sabá, defendendo a hipótese da alegoria da avareza ou da soberba, tendo-se em conta o episódio do rei de Tiro (Ez 28, 1 ss.). OBBARIUS, por sua vez, afirma ser a rainha de Sabá. Segundo PALLA (1981, p. 240), que nos parece ter razão, a única interpretação possível consiste na relação com Cartago, e aduz o fato de nos versos seguintes Prudêncio mencionar outros povos estrangeiros inimigos dos romanos: os indianos e os partos. 87 Eufratis Parthus rapiet, non decolor Indus tempora pinnatis redimitus nigra sagittis. Quin si fulmineos cogens ad bella gigantas allofilus tua castra uelit delere tyrannus, 500 tutus eris, nec te firma statione mouebit ipse Charon mundi, numen Marcionis, ipse qui regit aërio uanas sub sole tenebras. Nam uanum quidquid sol aspicit, ex elementis cuncta solubilibus fluxoque creamine constant. 505 Fallo, creaturam nisi doctor apostolus omnem subiectam uanis non sponte laboribus orsus Eufrates, o parto, o arrebatará, nem o indiano incolor, de negra fronte coroada com aladas setas. E ainda que, impelindo à guerra seus fulminantes gigantes, o tirano filisteu queira teu acampamento destruir, 500 seguro estarás, nem mesmo te moverá do firme posto ele, o Caronte do mundo, divindade de Marcião, ele, que rege sob o sol aéreo as trevas vãs. Pois é vão quanto o sol vê; de elementos solúveis e de um fluxo criar tudo se constitui. 505 Minto, se o apóstolo doutor não tivesse dito que todas as criaturas estão sujeitas, contra a vontade, a vãos trabalhos ___________________________________________________________________________ 497 Eufratis Parthus] os partos, exímios flecheiros, habitavam região próxima ao rio Eufrates. Cf. Ham. 533. decolor Indus] cf. OV. Tr. 5. 3. 24, Ars 3. 130; decolor India, cf. OV. M. 4. 21; SEN. Phaedra 345-346. 498 tempora... redimitus] VERG. G. 1. 349, A. 3. 81; Ov. M. 14. 654; SEN. Oed. 430; VAL. FLACC. 1. 278: redimitus tempora. 499 gigantas] os asseclas do demônio, que, assim como os gigantes tentaram derrotar Júpiter, assim também combatem a Deus. 500 allofilus... tyrannus] o diabo (cf. Ditt. 71). A voz allofĭlus ou allŏphylus, do grego α0λλόφυλος, “estrangeiro, alienígena” ou, especificamente entre os judeus, “não hebreu” (cf. GAFFIOT, s. v.), é tardia, a partir do séc. IV; segundo DU CANGE (s. v.), Sulpício Severo emprega o termo para designar os filisteus, como é usado na SEPTUAGINTA (cf. Sl 55, 1), emprego em geral conservado pelos escritores cristãos. A penúltima sílaba é longa por natureza, mas entre os poetas latinos se abrevia (cf. FORCELLINI, s. v.). Cf. TERT. Marc. 4. 37: Enimvero Zaccheus, etsi allophylus, fortasse tamen aliqua notitia Scripturarum ex commercio Iudaico adflatus. P. NOL. Carm. 24. 549 e 26. 71. Santo Agostinho, passim, por exemplo, em Psalm. 59. 11: Mihi Allophyli subditi sunt. Allophyli, qui sunt? Alienigenae, non pertinentes ad genus meum. e Hept. 4. 3: Mirum est autem quomodo abusive alienigena dicitur, quod magis alterius generis hominem significat, id est αλλογενὴς, et non magis αλλόφυλος, quod significat alterius tribus hominem: quo nomine magis utitur Scriptura in aliarum gentium hominibus, ut allophyli appellentur, quasi aliarum tribuum homines. O vocábulo é usado por S. Jerônimo na VULGATA (Sl 55, 1), além de outros escritores eclesiásticos. 501 tutus eris] OV. H. 4. 145, Ars 1. 752, Rem. 1. 650. Cf. Is 28 16. 502 Charon mundi] Caronte, o barqueiro dos infernos cujo ofício era conduzir as almas dos mortos, aqui significa o diabo, príncipe deste mundo (cf. Jo 12, 31) e potestade das trevas (cf. Lc 22, 53). O demônio conduz neste mundo as almas ao pecado e lança-as no inferno. 504 Ecl 1, 14: vanitas vanitatum, et omnia vanitas. 505 creamine] crĕāmen é um hapax prudenciano, sinônimo de creatio ou de res creata. Sobre a predileção de Prudêncio pelo sufixo -amen, cf. nota ao v. 75. 506 Rm 8, 20: vanitati enim creatura subjecta est non volens, sed propter eum, qui subjecit eam in spe. 88 periuro ingemuit miserans seruire latroni. “Errat” ait “qui luctamen cum sanguine nobis et carne et uenis feruentibus et uitioso 510 felle putat calidisque animam peccare medullis. Non mentem sua membra premunt nec terrea uirtus oppugnat sensus liquidos belloue lacessit; sed cum spiritibus tenebrosis nocte dieque congredimur, quorum dominatibus umidus iste 515 et pigris densus nebulis obtemperat aër.” Scilicet hoc medium, caelum inter et infima terrae quod patet et uacuo nubes suspendit hiatu, frena potestatum uariarum sustinet ac sub principe Belia rectoribus horret iniquis. 520 His conluctamur praedonibus, ut sacra nobis oris apostolici testis sententia prodit. e não lamentasse compassivo que elas sirvam ao ladrão perjuro. “Erra”, diz ele, “quem pensa que nossa luta é contra o sangue, a carne, as veias ardentes, o fel 510 vicioso, e que a alma peca nas cálidas medulas. Não oprimem o espírito os membros, nem é uma força terrena que ataca os fluidos sentidos ou os incita à guerra; mas com espíritos tenebrosos noite e dia contendemos, ao senhorio deles esse ar úmido 515 e denso de indolentes nuvens obedece”. Decerto este intervalo, que entre o céu e o chão da terra se abre e as nuvens suspende no espaço vazio, segura as rédeas de várias potestades, e sob as ordens do príncipe Belial se eriça de reitores iníquos. 520 Com esses salteadores lutamos, assim a sagrada sentença da boca apostólica nos testemunha. ___________________________________________________________________________ 509 Ef 6, 12: quoniam non est nobis colluctatio adversus carnem et sanguinem, sed adversus principes, et potestates, adversus mundi rectores tenebrarum harum, contra spiritualia nequitiæ, in cælestibus. 515-516 Ef 2, 2: secundum principem potestatis aeris huius, spiritus. Cf. nota ao v. 166. 520 principe Belia] 2 Cor 6, 15: quae autem conventio Christi ad Belial? Belial é comumente empregado como sinônimo de demônio ou personificação do mal. No hebraico bíblico, no entanto, trata-se de um nome comum, que designa “perverso, malvado” (cf. THE CATHOLIC ENCYCLOPEDIA, s. v.). Bēlīā] alongamento da vogal -i-. Quanto à forma Belia em vez de Belĭas, ocorre outras vezes em Prudêncio tal mudança na terminação (cf. Helia em vez de Helias, em Cath. 7. 26). VULGATA: Belĭal. Na VETUS LATINA, ambas as formas: Belial e Belia (cf. CHARLET, 1983, p. 13). 522 oris apostolici] por oris apostoli. Sobre o uso do adjetivo possessivo pelo genitivo entre os cristãos, cf. MOHRMANN, 1961, p. 36-37. 89 Nemo habitum naturae aut inritamina peccans corporis accuset; facile est frenare rebelles adfectus carnis nimiosque retundere pulsus 525 materiae fragilis et uiscera uicta domare. Quippe animus longe praestantior, utpote summo aethere demissus; subiectos si uelit artus imperio quassare graui iussisque seueris dedere, regnanti domino uis nulla resistet. 530 Maior inest uis illa homini quae flatile uirus ingerit et tenuem tenui ferit aëre mentem. Parthica non aeque uentos transcurrit harundo, cuius iter nullus potis est conprendere uisus; praepes enim uolucres dum pinnis transuolat auras 535 inprouisa uenit, nec stridor nuntiat ante Ninguém o hábito da natureza ou os estímulos do corpo, ao pecar, acuse; é fácil frear as rebeldes afeições da carne, os imoderados impulsos repelir 525 da matéria frágil, e domar as vísceras subjugadas. Pois o espírito é bem mais excelente, como do sumo éter enviado; se os membros quiser debilitar, submetidos ao seu grave império, e com ordens severas rendê-los, ao senhor reinante nenhuma força resistirá. 530 Maior dentro do homem é aquela força que inocula um vírus volátil e fere a alma sutil com sutil ar. Não percorre igual os ventos a seta dos partos, cujo trajeto olho algum é capaz de perceber; ao cruzar célere com as penas os ares velozes, 535 vem imprevista, nem um sibilo anuncia antes ___________________________________________________________________________ 523 inritamina] inritamen (irritamen) ocorre em Ovídio três vezes (M. 9. 133, 12. 103 e 13. 434) e em Prudêncio uma vez; é muito menos frequente e tardia do que o seu equivalente inritamentum, já presente na época augustana, em Tito Lívio e Salústio (cf. OLD, s. v.). Cf. nota aos vv. 75 e 505. 524 facile est] Cf. AMBR. Abr. 2. 6. 27. 528 VERG. A. 12. 853: demisit ab aethere summo. O símile de Prudêncio assemelha-se ao usado por Virgílio neste trecho em que compara as duas pestes habitantes do sólio celeste, de cognome Dirae, enviadas por Júpiter para provocar guerras e doenças aos mortais, à flecha do guerreiro parto (cf. VERG. A. 12. 856-859 e Ham. 533-538). 531 Maior... uis illa] scilicet: ui corporis. O poder do diabo sobre o homem é mais forte do que a concupiscência da carne. 534 CLAUD. Pros. 2. 201: non leue sollicitae mentis discurrit acumen. 536 HOR. O. 2. 13. 19: inprouisa leti/uis rapuit. 90 aduentum leti quam pectoris abdita rumpat securam rapiens medicato uulnere uitam. Sed magis aligera est magis et medicata sagitta quam iacit umbrosi dominatio lubrica mundi, 540 eludens excussa oculos calamique uolantis praepete transcursu cordis penetralia figens. Nec segnis natura animae est aut tarda cauendi uulneris, ignitum quoniam deus indidit olli ingenium purum sapiens subtile serenum 545 mobile sollicitum uelox agitabile acutum, factorem modo casta suum ueneretur et ipsi militet ac uictum proculcet sobria mundum, nil de pestiferis opibus aut falsificatis terrarum spoliis stulto oblectamine libans 550 o advento da morte, antes que as entranhas do peito rompa, a vida segura arrebatando na ferida envenenada. Porém mais ligeira e mais envenenada a flecha lançada pela falaz dominação deste sombrio mundo, 540 iludindo desferida os olhos, e no rápido transcurso da pena célere fincando no recanto do coração. E não é indolente a natureza da alma, ou lenta em se precaver da ferida, porque Deus infundiu-lhe uma acesa índole, pura, sábia, sutil, serena, 545 ágil, vigilante, veloz, ligeira, sagaz, contanto que a seu Criador venere casta, para Ele milite, e vencido sóbria pise o mundo, nada das posses pestilentas ou dos falazes espólios da terra, num tolo divertimento, degustando; 550 ___________________________________________________________________________ 538 OV. M. 5, 63: uulnere uitam. 539 medicata] i. e. veneno. Cf. SIL. 7. 453: si mea tela dedi blando medicata ueneno. 540 Ef 6, 16. 545-546 Mais um exemplo de enumeração de qualidades, frequente em Prudêncio. Cf. nota aos vv. 760-762. 549 falsificatis] hapax prudenciano. 91 ne sub fasce iacens alieno et dedita regno non queat argutas hostis uitare sagittas. Sed quid ego omne malum mundique hominumque maligni hostis ad inuidiam detorqueo, cum mala nostra ex nostris concreta animis genus et caput et uim, 555 quid sint, quid ualeant, sumant de corde parente? Ille quidem fomes nostrorum et causa malorum est; sed tantum turbare potest aut fallere quantum nos uolumus, qui decrepito suggesta leoni armamenta damus. Friget fera futtile frendens, 560 humani generis ni per suffragia gliscat. Gignimus omne malum proprio de corpore nostrum, ut genuit Dauid, alias pater optimus, unum crimen Abessalon. Taetrum pater ille sed unum que não seja que, sob esse fardo jazendo e rendida a um reino estrangeiro, não consiga as setas do inimigo evitar, aguçadas. Mas por que eu todo o mal do mundo e dos mortais imputo à inveja do maligno inimigo, se nossos males, em nossas almas produzidos, tomam do genitor coração 555 a origem, a fonte, a força, o que são e o que podem? Ele decerto é o combustível e a causa dos nossos males; mas tanto nos pode perturbar ou iludir, quanto nós consentimos, nós ao decrépito leão muitas armas damos. Folga a fera e futilmente freme, 560 se não é nutrida pelo favor do gênero humano. Geramos do nosso próprio corpo todo o nosso mal, como Davi gerou, aliás ótimo pai, um só crime: Absalão. A esse terrível parricida, e a um só, ___________________________________________________________________________ 551 sub fasce] Apoth. 720. Locução virgiliana (G. 3. 347 e 4. 204), usada por escritores contemporâneos de Prudêncio, como Ambrósio (Vid. 11. 70), Jerônimo (Vita Malchi 7) e Paulino de Nola (Carm. 21. 733). 552 Ef 6, 16. 556 de corde parente] Mt 15, 19: de corde enim exeunt cogitationes malae. 558-559 quantum nos uolumus: livre-arbítrio. 559 1 Pd 5, 8: Sobrii estote, et vigilate: quia adversarius vester diabolus tamquam leo rugiens circuit, quaerens quem devoret. 560-561 S. Agostinho, num dos seus sermões, afirma: latrare potest, solicitare potest, mordere omnino non potest nisi uolentem. Non enim cogendo, sed suadendo nocet: nec extorquet a nobis consensum, sed petit. Sobre a aliteração fricativa, cf. nota ao 278. 563 2 Rs 14 ss. 564 Abessalon] Absalão, filho de Davi, tendo expulsado de Jerusalém o pai, apoderou-se da casa paterna e violentou as concubinas. A mesma grafia da VETUS LATINA; na VULGATA, Absalom (cf. CHARLET, 1983, p. 13). 92 innocuas inter suboles genuit patricidam, 565 ausus in auctorem generis qui stringere ferrum (a pietas!) signis contraria signa paternis egit et unius commisit sanguinis arma. Nostra itidem diros urente propagine natos pectora parturiunt, uersis qui protinus in nos 570 morsibus insuescunt gignentum uiuere poenis; depopulantur enim nimium fecunda parentum uiscera et interitu genitalis stirpis aluntur. Progeniem uerum ille suam rex utpote summus atque dei uates pariturae et uirginis auctor 575 tristibus atque piis uariauerat, ut Solomonis frater Abessalon sereret sua crimina iustis pigneribus dulcemque domum turbaret amaris. Nos dignum Solomone nihil, nos degener inplet aquele pai gerou, entre rebentos inocentes; parricida 565 que ousou contra o autor de sua vida sacar a espada (oh! piedade filial!), conduziu bandeiras adversas às bandeiras paternas e fez digladiar as armas de um único sangue. Nossos peitos igualmente, em abrasante cria, terríveis filhos dão à luz, os quais, voltando suas mordidas contra nós, 570 acostumam-se a viver dos sofrimentos dos que os geraram; devastam as vísceras excessivamente fecundas dos pais e se alimentam da destruição de sua estirpe natal. Mas aquele, como era rei supremo e profeta de Deus, e ancestral da virgem destinada a dar à luz, 575 entre filhos cruéis e pios alternara a prole, e assim o irmão de Salomão, Absalão, semearia seus crimes entre os justos descendentes e o doce lar perturbaria de amarguras. Em nós nada digno de Salomão, nos preenche o degenerado ___________________________________________________________________________ 565 patricidam] o termo vem de Cícero, Domo 26: patricida, fratricida, sororicida. OLD (s. v.) considera-o “a nonce-word”, palavra de ocasião, criada a fim de atender a certo propósito do autor. A voz comum seria parricida. 567 signis contraria signa paternis] LUC. 1. 6-7: infestisque obuia signis/signa. 575 dei uates] cf. nota ao v. 343, uaticinator. 576 Solomonis] Salomão, filho de Davi com Betsabé, esposa legítima (2 Sm 12, 24). Nos manuscritos prudencianos há flutuação entre Salomon e Solomon, bem como nas versões do grego e da VETUS LATINA; na VULGATA, Salomon (cf. CHARLET, 1983, p. 15). 579 Solomone] cf. nota ao v. 576. 93 solus Abessalon lacerans pia uiscera ferro. 580 Si licet ex ethicis quidquam praesumere uel si de physicis exempli aliquid, sic uipera, ut aiunt, dentibus emoritur fusae per uiscera prolis, mater morte sua, non sexu fertilis aut de concubitu distenta uterum, sed cum calet igni 585 percita femineo, moriturum obscena maritum ore sitit patulo. Caput inserit ille trilingue coniugis in fauces atque oscula feruidus intrat insinuans oris coitu genitale uenenum. Nupta uoluptatis ui saucia mordicus haustum 590 frangit amatoris blanda inter foedera guttur, infusasque bibit caro pereunte saliuas. His pater inlecebris consumitur. At genitricem Absalão apenas, dilacerando com espada as piedosas vísceras. 580 Se é lícito da moral colher algo ou mesmo da ciência natural um exemplo, assim a víbora (dizem) às dentadas morre da prole saída das vísceras, mãe na morte sua, fértil não no sexo nem da cópula o útero incha, mas, ao arder 585 excitada pelo fogo feminino, o macho que há de morrer obscena apetece com a escancarada boca. A cabeça ele insere trilíngue nas fauces da fêmea e, fogoso, beijos introduz insinuando pelo coito oral o genital veneno. A noiva, vulnerada de volúpia, às mordidas espedaça 590 a cabeça do amante entre carícias conjugais, e, enquanto o amado agoniza, bebe a saliva infundida. Nessas seduções o pai se extingue. E a genitora ___________________________________________________________________________ 581 ēthicis] primeira vogal longa abreviada: ĕthĭcīs. 582 ut aiunt] oração intercalada, indicando incerteza quanto ao fato, citado com cautela. Quanto à opinião dos antigos sobre a procriação de cobra vivípara, cf. PLIN. 10. 169-170: tertio die intra uterum catulos excludit, dein singulis diebus singulos parit, uiginti fere numero. itaque ceteri tarditatis inpatientis perrumpunt latera occisa parente. 585-589 Sobre o coito das serpentes, cf. PLIN. loc. cit.: coeunt conplexu, adeo circumvolutae sibi ipsae, ut una existimari biceps possit. viperae mas caput inserit in os, quod illa abrodit voluptatis dulcedine, e HIER. Ep. 38: Viperae per os coitum faciunt, masculi mortem contemnunt, sed femina in ipso coitu, sive magna dulcedine exagitata, sive futuri praescia periculi, dum absorbet semen, caput masculi abscindit, et sic eum occidit. Sed cum conceperit, viscera illius ab ipsis quos concepit, comeduntur, et sic matrem occidunt. 587 ore... patulo] OV. M. 15. 513; SIL. 5. 48; 9. 517; 10. 246; STAT. Th. 1. 588; 4. 799. trilingue] cf. v. 202: sermone trisulco. 94 clausa necat subolis; nam, postquam semine adulto incipiunt calidis corpuscula parua latebris 595 serpere motatumque uterum uibrata ferire, aestuat interno pietatis crimine mater carnificemque gemit damnati conscia sexus progeniem saepti rumpentem obstacula partus. Nam, quia nascendi nullus patet exitus, aluus 600 fetibus in lucem nitentibus excruciata carpitur atque uiam lacerata per ilia pandit. Tandem obitu altricis prodit grex ille dolorum ingressum uitae uix eluctatus et ortum per scelus exculpens. Lambunt natale cadauer 605 reptantes catuli, prolis dum nascitur orba, haud experta diem miserae nisi postuma matris. matam-na, a prole encerrada; pois, crescida a semente, a mãe se inquieta no crime interno da piedade filial e lamenta, ciente do sexo condenado, a prole sanguinária a romper as barreiras que cercam o parto. Pois, não havendo passagem ao nascimento, o ventre, 600 pelos fetos que anseiam a luz torturado, rasga-se, abrindo caminho pelas ilhargas laceradas. Enfim, morta a mãe, sai aquele rebanho de dores, com luta a penas ingressando na vida e sua origem num crime lavrando. Lambem o cadáver natal 605 os bichinhos rastejantes, órfãos de nascimento, só podendo ver o dia como prole póstuma de uma mãe miserável. ___________________________________________________________________________ 596 motatumque] motāre, frequentativo de mouēre, já era empregado no período augustano (VERG. A. 5. 5; OV. M. 11. 674, etc.), mas a forma do particípio passado é do latim tardio. 597 pietatis crimine] é pietas porque vingam a morte do pai, e crimen porque matam a mãe (cf. TEOLIUS, p. 36). 606 reptantes catuli] catulus aplica-se, propriamente, aos filhotes de cachorros e, de modo translato, aos de quaisquer outros animais, exceto de aves (CHAMILLARD, p. 584). Quanto ao uso do termo aplicado às crias das serpentes, cf. PLIN. 10. 169 e VERG. G. 3. 438. 607 postuma] CHAMILLARD (p. 600) adota a grafia posthuma com a justificativa de que haveria diferença de significado entre posthuma proles (“prole póstuma”) e postuma proles (“última prole”). Posthmus consiste, na verdade, numa grafia decorrente de uma falsa etimologia (post humum = depois da terra); portanto, a melhor lição é postuma, que significa “última” ou, como neste caso, “nascida após a morte do pai ou da mãe, póstuma”. 95 Non dispar nostrae conceptus mentis. Ab ore uipereo infusum sic conbibit illa uenenum coniuge Beliade; sic oscula deuorat haustu 610 interiusque rapit; sic felle libidinis ardens inpletur uitiis perituro mixta marito. Tunc praegnans letale genus concepta maligni fert opera ingenii de semine conplicis hydri, quem poenis pensare prius sua facta necesse est 615 corruptae pro stupro animae proque orbe perempto. Ipsam porro animam crudelia uulnera carpunt mille puerperiis, suboles dum parturit ex se contra naturam genitas, peccamina crebra scilicet et pastos materno funere natos. 620 Não difere o parto da nossa alma. Da boca viperina ela bebe o veneno assim instilado, tendo por cônjuge a Belíada; assim os beijos devora num trago, 610 arrastando-os para dentro; assim, ardendo no fel da libido, enche-se de vícios, a um marido unida que será morto. Então, prenhe de letal linhagem, produz frutos de maligna natureza, com o sêmen da hidra cúmplice, a qual é necessário que antes padeça suas penas 615 pelo estupro da alma corrupta e pela perdição do mundo. Em seguida, cruéis feridas a alma dilaceram com mil partos, dando à luz crias dela mesma contra a natureza geradas, seus sucessivos pecados, filhos com o cadáver materno alimentados. 620 ___________________________________________________________________________ 609 HOR. O. 1. 37. 28: conbiberet uenenum. 610 coniuge Beliade] tradutores e comentadores de Hamartigenia interpretam erroneamente a expressão como “tendo por cônjuge um filho de Belial”. Segundo HEINSIUS (apud ARÉVALO, p. 545), Belias, Beliadis seria patronímico de Belial. No entanto, Belias (Beliadis), Belíada, é o nome de “uma neta de Belo”(GAFFIOT, s. v.; Seneca, Hercules Oetaeus, 960). Belo foi pai de Dânao, ou seja, o termo se refere a uma danaide. Segundo a mitologia grega, danaides eram as cinquentas filhas de Dânao, o qual, tendo-se desentendido com seu irmão Egipto, partiu para Argos, onde se tornou rei. Os cinquenta filhos de Egipto perseguiram as filhas de Dânao para desposá-las contra o consentimento deste. Dânao tramou com elas um plano, para que se casassem com os primos e os degolassem na noite de núpcias (exceto uma delas, Hipermnestra, não obedeceu). Condenadas ao Hades por isso, são obrigadas a tentar encher eternamente um jarro sem fundo. 614 conplicis] conplex, conplicis, latim tardio: é o sócio, parceiro, cúmplice, em sentido negativo (ISID. Etym. 10. 50: Conplex, quia uno peccato uel crimine alteri est adplicatus ad malum; ad bonum uero numquam dicimus conplicem). 619 contra naturam] contra a natureza instituída originalmente por Deus (TEOLIUS, p. 36). peccamina] o mesmo que peccatum. O vocábulo peccamen é muito empregado pelos escritores cristãos a partir do séc. IV, principalmente na prosa (cf. HIL. PICT. Matth. 18, 10; HIER. Praef. In Job, 23 e 30). Prudêncio emprega-o outras sete vezes (Cath. 9. 96; Apoth. 73, 911, 929; Symm. 2. 1043; Perist. 10. 517; Ditt.. 89). A respeito dos substantivos terminados em -men, cf. nota ao v. 75. 96 Hinc illa est domini iusta obiurgatio Christi: “Nonne pater daemon (uos increpo, peccatores) concubitu carnis semen sitientis iniquum uos genuit?” Sanctum, lector, percense uolumen; quod loquor inuenies dominum dixisse profanis 625 uera obiectantem mortalibus: “Ex patre nam uos esse meo genitos pietas” (ait) “ipsa probaret ac pietatis opus.” Pro caeca libido! Quid hoc est quod, cum se thalamis desponsam mens bona iustis nouerit inque torum regis nuptura uocetur 630 et regis semper iuuenis senioque repulso diuinum decus aeterno seruantis in ore, malit adulterium, fuluo et se munere uilem uendat nocticolae spurcis conplexibus Indi Donde aquela justa exprobação do Senhor, o Cristo: “Acaso o vosso pai, o demônio (vos increpo, pecadores), pelo conúbio da carne, sedenta da iníqua semente, não vos gerou?” Percorre, leitor, o Sagrado Livro; verás que o Senhor disse o que digo, aos homens 625 verdades objetando, ímpios: “Se de meu Pai vós fôsseis filhos, vossa piedade provaria e as obras de piedade.” Oh, cega libido! Por que é que a boa alma, sabendo estar prometida a justas núpcias e ser chamada a desposar-se no leito de um rei, 630 de um rei sempre jovem que, imune à velhice, conserva na face eterna o decoro divino, prefere o adultério e por um regalo de ouro vende-se vil aos abraços imundos de um indiano noturno, ___________________________________________________________________________ 622 Jo 8, 44: Vos ex patre diabolo estis: et desideria patris vestri vultis facere. 624 percense] imperativo singular, com vogal final -e abreviada, como se fosse da 3ª conjugação; nas demais ocorrências, Prudêncio emprega-o segundo o paradigma, com vogal temática -ē- (cf. Ham. 376, Apoth. 385 e 596, Perist. 9.101). 626 Jo 8, 42: Si Deus pater vester esset, diligeretis utique et me. 628 Pro caeca libido!] cf. CLAUD. Eut. 2. 545-546: pro caeca futuri/gaudia! 629-630 2 Cor 11, 1: Despondi enim uos uni uiro, uirginem castam exhibere Christo. 634 nocticolae... Indi] o indiano, tipo que já fora associado ao perigo (vv. 497-498), aqui é metáfora do diabo. 636 in fornice natos] JUV. 3. 156: lenonum pueri quocumque ex fornice nati; na mesma sede métrica. Em Apoth. 624, o termo é empregado de modo ambíguo, com o significado de abóboda (do mundo) e de lupanar. 97 aspernata dei fusam per uirginis artus 635 progeniem dulcesque uocans in fornice natos? Sentio quam contra moueat pellacia litem, quo dente obnitens spinosa calumnia pugnet nosque lacessito uocet ad luctamina uero. “Si non uult deus esse malum, cur non uetat?” inquit. 640 “Nil refert auctor fuerit factorque malorum anne opera in uitium sceleris pulcherrima uerti, cum possit prohibere, sinat. Qui, si uelit omnes innocuos agere omnipotens, nec sancta uoluntas degeneret facto nec se manus inquinet ullo. 645 Condidit ergo malum dominus, quod spectat ab alto et patitur fierique probat tamquam ipse crearit. de Deus a linhagem desprezando, que os membros de uma virgem 635 propagou, e chamando de “meu doce filho” aquele no beco nascido? Sei qual contestação move em contrário a falácia, com que dente ataca a espinhosa calúnia empenhada e ao combate nos chama, em detrimento da verdade. “Se não quer Deus que o mal exista, por que não o impede?” diz. 640 “Não importa se foi o criador ou feitor dos males, ou se acaso suas belíssimas obras em vício de crime se converteram, se, podendo proibir, o permite. Se quisesse que todos na inocência vivêssemos o Onipotente, a vontade santa não degeneraria, nem a mão se mancharia em ação alguma. 645 Criou, portanto, o Senhor o mal, e contempla-o do alto, permite e aprova que aconteça, como se Ele mesmo o fizesse. ___________________________________________________________________________ 637 pellacia] LUCR. 2. 559 e 5. 1004: pellacia ponti. moueat... litem] expressão do âmbito forense, mouere litem significa “iniciar uma medida judicial, processar”; cf. AMBR. Psalm. 38: Noli ergo propter divitias vane conturbari... ut aliena diripias, litem moveas pauperi, verearis exactorem tributi; AUG. Psalm. 2. 16: Negotium agis? noli fraudem facere, et laudasti Deum. Agrum colis? Noli litem movere, et laudasti Deum; e também HIL. PICT. Psalm. 54. 9: putentque totum querellis prophetae increpari. sed nos litem non movemus. neque enim destruimus, sed adstruimus. 640 LACT. Inst. 2. 17. 1: dicet aliquis: cur ergo Deus haec fieri patitur?; TERT. Marc. 2. 5: si deus bonus et praescius et avertendi mali potens, cur hominem, et quidem imaginem et similitudinem suam, immo et substantiam suam, per animae scilicet censum, passus est labi de obsequio legis in mortem, circumuentum a diabolo? si enim et bonus, qui euenire tale quid nollet, et praescius, qui euenturum non ignoraret, et potens, qui depellere ualeret, nullo modo euenisset quod sub his tribus condicionibus diuinae maiestatis evenire non posset. 641 Sobre a aliteração de fricativas, cf. v. 278. 643 Observa ARÉVALO (p. 547) que este argumento marcionita reproduz a máxima jurídica “quem não proíbe o que pode proibir parece consentir”: Qui non prohibet quod prohibere potest assentire videtur. 98 Ipse creauit enim quod, cum discludere possit, non abolet longoque sinit grassarier usu.” Damna aures, pater alme, meas, et claude meatus 650 obbrutescentis capitis, ne peruia tales concipiat flexura sonos. Est perdere tanti extinctum uitae officium de parte cerebri, inmunem modo sese anima expertemque nefandi auditus felix stolida conseruet ab aure. 655 Quis ferat haec iniecta deo conuicia, qui se diuinis meminit praecellere nobilitatum muneribus? Multa ut taceam, uel sola benignum res probat esse deum, uetiti quod amore peremptos Ele de fato criou o que, podendo eliminar, não abole e deixa grassar em largo uso.” Dana-me os ouvidos, divino Pai, e obstrui-me os meatos 650 da cabeça embrutecida, para que os canais não recebam livres tais sons. Melhor é suprimir-se uma função vital, de uma parte do cérebro excluída, desde que a alma imune e privada da nefanda audição feliz se conserve do ouvido molesto. 655 Quem pode tais impropérios a Deus tolerar, ao lembrar que se distingue enobrecido graças aos divinos dons? Para calar muitas outras razões, uma basta para provar que Deus é bom: os que morreram por amor ao proibido ___________________________________________________________________________ 648 LACT. Inst. 5. 7. 5: Deus ergo non exclusit malum. 649 grassarier] forma arcaica do infinitivo depoente grassari. Sobre a paragoge, ver nota ao v. 106. 650 pater alme] AUS. Pasch. 16: tu uerbum, pater alme, tuum, natumque deumque. P. NOL. Carm. vv. 299-300: Panditur immensum, si demus uela, profundum/in laudes, Pater alme, tuas. 651 obbrutescentis] LUCR. 3. 545: e partibus obbrutescat. 652-655 Cf. Mt 5, 29: Quod si oculus tuus dexter scandalizat te, erue eum, et proiice abs te: expedit enim tibi ut pereat unum membrorum tuorum, quam totum corpus tuum mittatur in gehennam, bem como Mt 18, 8-9. 658-664 Para OBBARIUS, Prudêncio refere-se à ressurreição dos mortos; para CHAMILLARD (cf. TERT. Marc. 2. 3), à reparação do homem que perdeu a graça ao comer o fruto da árvore proibida e à encarnação de Cristo; para ARÉVALO, à redenção dos homens e à ressurreição com Cristo; para DRESSEL, à glória dos fiéis ressuscitados com Cristo e salvos pela fé n’Ele. Como Deus quer que os homens participem do seu reino por toda a eternidade (v. 660-661), ressuscita os que estavam mortos por causa do pecado (v. 659). Prudêncio alude a Adão e Eva e ao preceito proibitivo ne comedas (Gn 2, 17) no v. 659: uetiti... amore peremptos; à ressurreição dos corpos no v. 660: excitat e tumulis, e à salvação eterna nos vv. 660-661: regnique per aeuum participes... esse sui. Os versos 661-664 expõem os meios utilizados por Deus: após o homem perder a salvação na morte do pecado (v. 662-663), Deus quis entregar seu Filho como medicina que vivifica o pecador (v. 663) e o restaura pela graça (v. 664). Cf. TERT. Marc. 2. 8: ita non in mortem institutum hominem probat qui nunc cupit in uitam restitutum, malens peccatoris paenitentiam quam mortem. 99 excitat e tumulis homines regnique per aeuum 660 participes iubet esse sui. Qui, si foret auctor seruatorque mali, nunquam post damna salutis peccantumque obitus rediuiuam ferre medellam uellet et amissos ope restaurare secunda. Labi hominis, seruare dei est. Meritis perit iste, 665 ille abolet pereuntis opus meritumque resoluit. Argumentum ingens dominum, qui talia praestet, nolle malum nec quod post abluit ante probare. “Inuitone aliquis potis est peccare tonante, cui facile est in corde hominis conponere sensus 670 quos libeat fibrasque omnes animare pudicis pulsibus et totum uenis infundere honestum?” Nescis, stulte, tuae uim libertatis ab ipso formatore datam? Nescis ab origine quanta Ele os desperta dos túmulos e os manda por toda eternidade 660 participar do seu reino. Se Ele fosse o autor e conservador do mal, nunca, após a perda da salvação e a morte dos pecadores, teria querido dar a cura rediviva e restaurar os perdidos com um segundo auxílio. Cair é do homem, salvar é de Deus. Aquele perece por mérito, 665 este abole a obra do que perece e lhe anula o que merecia. Grande argumento o de que o Senhor que opera tais coisas não quer o mal, nem aprova antes o que depois apaga. “Pode alguém pecar mau grado o Tonante, para quem é fácil no coração do homem ordenar os sentidos 670 que queira, animar todas as artérias com castas pulsações e nas veias infundir toda a honestidade?” Ignoras, ó tolo, o poder da tua liberdade, pelo próprio Criador dado a ti? Ignoras quanto poder, desde o princípio, ___________________________________________________________________________ 665 Cf. TERTUL. Marc. 2. 8: igitur sicut deus homini uitae statum induxit, ita homo sibi mortis statum attraxit. 667 Argumentum ingens] VERG. A. 7. 791: argumentum ingens, et custos uirginis Argus; também antes da cesura. 669 tonante] cf. nota ao v. 376. 670-672 Cf. Jo 12, 24: Qui immutat cor principum populi terrae, et decipit eos ut frustra incedant per invium. 673 ss. Prudêncio passa a expor várias razões acerca da liberdade humana. Cf. Tert. Marc. 2. 7: nec illud miraberis, quod deus non intercesserit aduersus ea, quae noluit euenire, ut conseruaret ea, quae uoluit. si enim semel homini permiserat arbitrii libertatem et potestatem et digne permiserat, sicut ostendimus, utique fruendas eas ex ipsa institutionis auctoritate permiserat, fruendas autem, quantum in ipso, secundum ipsum, id est secundum deum, id est in bonum (quis enim aduersus se permittet aliquid?) quantum uero in homine, secundum motus libertatis ipsius. 100 sit concessa tibi famulo super orbe potestas 675 et super ingenio proprio laxaeque soluto iure uoluntatis, liceat cui uelle sequique quod placitum nullique animum subiungere uinclo? An, cum te dominum cunctis quaecumque crearat praeficeret mundumque tuis seruire iuberet 680 imperiis cumque arua polum mare flumina uentos dederet, arbitrium de te tibi credere auarus nollet ut indigno libertatemque negaret? Quale erat electus magni rex orbis ut esset non rex ipse sui curto foedatus honore? 685 Nam quis honos domini est cuius mens libera non est, una sed inpositae seruit sententia legi? Quae laus porro hominis uel quod meritum sine certo inter utramque uiam discrimine uiuere iuste? te foi concedido sobre o mundo, teu servo, 675 sobre o teu próprio espírito e sobre o amplo direito de uma livre liberdade, a qual pode querer e seguir o que lhe agrade sem sujeitar a alma a nenhum vínculo? Acaso, quando te fez senhor de tudo o que criara e ordenou que o mundo servisse ao teu império, 680 quando te deu os campos, o céu, o mar, os rios, os ventos, não iria querer avaro conceder-te, como a um indigno, o arbítrio sobre ti mesmo, negando-te a liberdade? Qual fora isto, se o rei eleito deste vasto mundo não fosse rei de si mesmo, aviltado na sua honra mutilada? 685 Que honra, com efeito, a de um senhor cuja alma não é livre, enquanto seu pensamento obedece, único, a uma lei imposta? Que glória, enfim, tem o homem, ou que mérito, o de viver segundo a justiça, sem o correto discernimento entre duas vias? ___________________________________________________________________________ 679 Cf. Gn 1, 28. 680 TERT. Marc. 2. 6: sed et alias quale erat ut totius mundi possidens homo non inprimis animi sui possessione regnaret, aliorum dominus, sui famulus? 685 CLAUD. 4 Cons. Hon. 262: rex esse tui. 688 ss. TERT. Marc. 2. 6: tota ergo libertas arbitrii in utramque partem concessa est illi, ut sui dominus constanter occurreret et bono sponte seruando et malo sponte uitando, quoniam et alias positum hominem sub iudicio dei oportebat iustum illud efficere de arbitrii sui meritis, liberi scilicet. ceterum nec boni nec mali merces iure pensaretur ei, qui aut bonus aut malus necessitate fuisset inuentus, non uoluntate. E AUG. Fort. 20: quod liberum arbitrium si non dedisset deus, iudicium puniendi nullum iustum esse posset nec meritum recte faciendi. 101 Non fit sponte bonus cui non est prompta potestas 690 uelle aliud flexosque animi conuertere sensus. Atqui nec bonus est nec conlaudabilis ille qui non sponte bonus, quoniam probitate coacta gloria nulla uenit sordetque ingloria uirtus. Nec tamen est uirtus, ni deteriora refutans 695 emicet et meliore uiam petat indole rectam. “Vade” ait ipse parens opifexque et conditor Adae, “uade, homo, adflatu nostri praenobilis oris, insubiecte, potens rerum arbiter, arbiter idem et iudex mentis propriae, mihi subdere soli 700 sponte tua, quo sit subiectio et ipsa soluto libera iudicio. Non cogo nec exigo per uim; sed moneo iniustum fugias iustumque sequaris. Não se torna bom por livre vontade quem não tem o pronto poder 690 de querer o contrário e de converter a inclinação dos sentidos da alma. Na verdade, não é bom nem digno de louvor quem não é bom por livre vontade, pois, a honestidade sendo coagida, nula é a glória, e a virtude inglória repugna. Nem sequer há virtude, a menos que, recusando o mal, 695 resplandeça e busque por sua melhor índole o reto caminho. “Vai”, diz o Pai, artífice e criador, a Adão, “vai, homem, nobilíssimo graças ao sopro da nossa boca, não subjugado, da natureza potente árbitro, árbitro e juiz de tua própria alma, a mim sujeita-te apenas, 700 por tua vontade, de modo que essa submissão seja livre, com pleno consentimento. Não obrigo nem exijo por força, mas exorto que evitas o injusto e o justo sigas. ___________________________________________________________________________ 690 ss. HIER. Phil. 14: Nihil quippe bonum dici potest, nisi quod ultroneum. [...] Quod autem necessitate bonum est, non est bonum. E AUG. Conf. 1. 12. 19: Nemo autem invitus bene facit, etiamsi bonum est quod facit. 695-696 OV. M. 7. 20-21. 697 Vade ait] VERG. A. 3. 480; OV. M. 11. 137; STAT. Th. 2, 19; no início do verso. 698 Gn 2, 7. 700-703 AUG. Corrept. 11. 32: dederat [Deus] adiutorium, sine quo in ea [bona uoluntate] non posset permanere si vellet; ut autem vellet, in eius libero reliquit arbitrio. 703 Sl 36, 27: Declina a malo, et fac bonum, et inhabita in saeculum saeculi. Ecle 15, 18: Ante hominem uita et mors, bonum et malum: quod placuerit ei dabitur illi. 102 Lux comes est iusti, comes est mors horrida iniqui. Elige rem uitae! Tua uirtus temet in aeuum 705 prouehat, aeternum tua damnet culpa uicissim. Praestet et alterutram permissa licentia sortem.” Hac pietate uagus et tanto munere abundans transit propositum fas et letalia prudens eligit atque uolens, magis utile dum sibi credit 710 quod prohibente deo persuasit callidus anguis. Persuasit certe hortatu, non inpulit acri imperio. Hoc mulier rea criminis exprobranti respondit domino suadelis se malefabris inlectam suasisse uiro. Vir et ipse libenter 715 consensit. Licuitne hortantem spernere recti A luz acompanha o justo, a morte terrível acompanha o injusto. Elege o que é da vida! Que tua virtude te leve para a eternidade, 705 que tua culpa, ao contrário, eternamente te condene. Que essa liberdade concedida outorgue ambas as sortes.” Por essa bondade solto e repleto de tão grande dom, transgride a lei que lhe foi dada e o mortífero, consciente, escolhe, e voluntariamente, crendo mais útil 710 para si o que Deus proibiu e a astuta serpente persuadiu. Persuadiu por exortação, decerto, não forçou com ríspida ordem. A mulher, ré de crime, respondeu ao Senhor, ao repreendê-la, que fora com ardilosas persuasões atraída e persuadiu o varão. E o varão, livremente, 715 consentiu. Pôde desprezar a que lhe exortava, ___________________________________________________________________________ 704 Ecle 15, 14: Deus ab initio constituit hominem, et reliquit illum in manu consilii sui; e Ecle 15, 18: Ante hominem vita et mors, bonum et malum: quod placuerit ei dabitur illi. Jo 3, 20-21: Omnis enim qui male agit, odit lucem, et non venit ad lucem, ut non arguantur opera ejus: qui autem facit veritatem, venit ad lucem, ut manifestentur opera ejus, quia in Deo sunt facta. 705 Elige rem uitae] Dt 30, 19: Testes invoco hodie cælum et terram, quod proposuerim vobis vitam et mortem, benedictionem et maledictionem. Elige ergo uitam, ut et tu uiuas, et semen tuum. CHAMILLARD (p. 592) considera que se faz referência às duas árvores postas por Deus no centro do Paraíso: a árvore da Vida e a árvore da ciência do Bem e do Mal (Gn 2, 9). 709 propositum fas] preceito divino para que Adão e Eva não comessem o fruto da árvore da ciência do Bem e do Mal (Gn 2, 16-17). 711 Cf. Gn 3, 1 ss.: serpens erat callidior. 712-713 acri imperio] SIL. 11. 253-254: acri/imperio; na mesma sede métrica. 714 malefabris] adjetivo abonado nos léxicos apenas com este passo de Prudêncio (FORCELLINI, GAFFIOT, L&S, s. v.). PALLA (1981, p. 275), ao ler isoladamente o adjetivo faber modificado pelo advérbio male, e não como composto, aduz ocorrência a partir de Ovídio e em autores tardios. Sobre a resposta de Eva, cf. Gn 3, 13: Serpens decepit me, et comedi. 715-716 Gn 3, 12: Mulier, quam dedisti mihi sociam, dedit mihi de ligno, et comedi. 103 libertate animi? Licuit. Namque et deus ante suaserat ut meliora uolens sequeretur; at ille spernens consilium saeuo plus credidit hosti. Nunc inter uitae dominum mortisque magistrum 720 consistit medius. Vocat hinc deus, inde tyrannus ambiguum atque suis se motibus alternantem. Accipe gestarum monumenta insignia rerum, praelusit quibus historia spectabile signum. Loth fugiens Sodomis ardentibus omnia secum 725 pignera cara domus properabat sede relicta nubibus urbicremis subducere, sulpure cum iam nimboso ignitus caelum subtexeret aër flagrantemque diem crepitans incenderet imber. com a liberdade da sua alma reta? Pôde. De fato, Deus antes aconselhara-o a que buscasse voluntariamente o bem; mas ele, o conselho desprezando, mais acreditou no cruel inimigo. Agora, entre o Senhor da vida e o mestre da morte, 720 fica no meio. Chama-o daqui Deus, dali o tirano, e indeciso se alterna nos movimentos. Tu pega os insignes documentos de fatos passados, com os quais ensaiou a história imagem admirável. Lot, fugindo de Sodoma em chamas, abandonada a casa, 725 apressava-se em retirar consigo das nuvens incendiárias da cidade todos os seus entes queridos, estando já o ar de fogo a cobrir o céu com as nuvens de enxofre e a chuva crepitante a incendiar o ardente dia. ___________________________________________________________________________ 716-717 Cf. TERT. Marc. 2. 5: non enim poneretur lex ei, qui non haberet obsequium debitum legi in sua potestate, nec rursus comminatio mortis transgressioni adscriberetur, si non et contemptus legis in arbitrii libertatem homini deputaretur. 725 Cf. Gn 19, 23 ss. A corrupção moral de Sodoma fez cair sobre seus habitantes o castigo divino em chuvas de fogo. Tendo Lot escapado com o auxílio dos anjos, sua mulher na fuga descumpriu a proibição divina de olhar para trás e foi transformada em estátua de sal. 727 urbicremis] o adjetivo urbicrĕmus, composto de urbs e cremāre, é hapax prudenciano. 728 VERG. A. 3. 582: caelum subtexere fumo. 104 Angelus hanc hospes legem praescripserat ollis 730 emissus uirtute dei sub imagine dupla, omnis ut e portis iret domus utque in apertum dirigeret constans oculos nec pone reflexo lumine regnantes per moenia cerneret ignes: “Nemo, memor Sodomae, quae mundi forma cremandi est, 735 ut semel e muris gressum promouerit, ore post tergum uerso respectet funera rerum.” Loth monitis sapiens obtemperat, at leuis uxor mobilitate animi torsit muliebre retrorsus ingenium Sodomisque suis reuocabilis haesit. 740 Traxerat Euua uirum dirae ad consortia culpae, haec peccans sibi sola perit. Solidata metallo diriguit fragili saxumque liquabile facta stat mulier, sicut steterat prius, omnia seruans O anjo, estrangeiro pelo poder de Deus enviado 730 sob forma dupla, tinha-lhes prescrito esta lei: que toda a casa saísse dos portões e a campo aberto dirigisse constante a vista e, sem voltar atrás os olhos, não olhasse as chamas dominando os muros. “Ninguém, lembrado de Sodoma, imagem do mundo 735 que será queimado, assim que ultrapassar os muros, o rosto voltando por sobre os ombros, olhe a ruína de tudo.” Lot sapiente às advertências obedeceu, mas a leviana esposa, por inconstância de espírito, torceu para trás seu feminino instinto e na sua Sodoma, revocável, parou. 740 Eva o varão arrastara para a cumplicidade da terrível culpa, a de Lot, pecando consigo, pereceu só. Solidificada em mineral frágil, enrijeceu, feita pedra dissolúvel, fica mulher, como ficara antes, conservando tudo, ___________________________________________________________________________ 731 sub imagine dupla] Gn 19, 1: Venerunt duo angeli Sodomam vespere, et sedente Lot in foribus civitatis. 732 omnis domus] Gn 19, 12: omnes, qui tui sunt, educ de urbe hac. 735 cremandi] gerundivo com força de particípio futuro passivo (cf. PrH. 18). 737 Gn 19, 17: noli respicere post tergum. Lc 17, 31: In illa hora, qui fuerit in tecto, et vasa ejus in domo, ne descendat tollere illa: et qui in agro, similiter non redeat retro. Memores estote uxoris Lot. 105 caute sigillati longum salis effigiata, 745 et decus et cultum frontemque oculosque comamque et flexam in tergum faciem paulumque relata menta retro, antiquae monumenta rigentia noxae. Liquitur illa quidem salsis sudoribus uda, sed nulla ex fluido plenae dispendia formae 750 sentit deliquio, quantumque armenta saporum attenuant saxum tantum lambentibus umor sufficit attritamque cutem per damna reformat. Hoc meruit titulo peccatrix femina sisti, infirmum fluidumque animum per lubrica soluens 755 consilia et fragilis iussa ad caelestia. Voti propositum contra non conmutabile seruat Loth ingressus iter nec moenia respicit alto in cinerem conlapsa rogo populumque perustum à imagem de pedra de sal esculpida de muito tempo: 745 beleza e adorno, rosto, olhos, cabelos e a face voltada para as costas, e o queixo levemente inclinado para trás, rígido monumento da antiga culpa. Liquefaz-se ela decerto, molhada em salsos suores, mas não sente detrimento algum de sua plena forma, 750 pela fluida liquefação, e quanto os rebanhos a sápida pedra gastam, tanto aos lambedores o líquido fornece e a pele pela perda danificada reforma. Neste monumento mereceu a mulher pecadora ficar, dissolvendo a alma débil e fluida em escorregadios 755 juízos e frágil aos mandamentos celestes. Lot, ao contrário, conservando o propósito do voto, imutável, seguiu caminho e os muros não olhou da alta fogueira às cinzas caídos e o povo requeimado ___________________________________________________________________________ 745 Gn 19, 26: Respiciensque uxor eius post se, uersa est in statuam salis. 754 Hoc... titulo] PALLA (1981, p. 280) traduz titulo por causa, considerando pouco convincente a interpretação de titulus como sinônimo de signum, monumentum. Sem desconsiderar que Prudêncio não raro emprega certas palavras em contextos que permitem mais de uma leitura possível (cf. nota ao PrH. 37: spiritus), parece-nos que titulus é aqui um ótimo termo para designar, a um só tempo, a estátua da esposa de Lot (signum), a memória eterna de sua desobediência e sepulcro de sua condenação (monumentum). 106 et mores populi tabularia iura forumque 760 balnea propolas meritoria templa theatra et circum cum plebe sua madidasque popinas. Quidquid agunt homines Sodomorum incendia iustis ignibus inuoluunt et Christo iudice damnant. Haec fugisse semel satis est. Non respicit ultra 765 Loth noster; fragilis sed coniunx respicit et quae fugerat inuerso mutabilis ore reuisit atque inter patrias perstat durata fauillas. En tibi signatum libertatis documentum quo uoluit nos scire deus quodcumque sequendum est 770 sub nostra dicione situm passimque remissum alterutram calcare uiam. Duo cedere iussi de Sodomis, alter se proripit, altera mussat. e os costumes do povo, os arquivos, tribunais e o fórum, 760 banhos, tendas, prostíbulos, templos, teatros, o circo com sua plebe e as úmidas tabernas. O que quer que façam os homens, o fogo de Sodoma em justas chamas envolve e condena, sendo o Cristo juiz. Ter fugido disto uma vez basta. Não olha mais para atrás 765 nosso Lot, porém a frágil esposa olha e o que escapara, voltando o rosto, inconstante, voltou a ver. E permanece endurecida entre as faíscas pátrias. Eis para ti um assinalado documento de liberdade, com que Deus quis nos fazer saber que quanto devemos seguir 770 está sob o nosso poder e em todas as partes nos é permitido pisar um ou outro caminho. Dois foram ordenados a sair de Sodoma, um escapa, a outra hesita. ___________________________________________________________________________ 760-762 Enumeração comum em Prudêncio (cf. vv. 545-546). 761 propolas] primeira vogal breve (como no grego προπώλης), mas alongada aqui: prōpōlās. 763 JUV. 1. 85: Quidquid agunt homines, também no início do verso. 764 Christo iudice] cf. v. 735. 765 Loth noster] o possessivo noster revela a simpatia do poeta para com Lot e solicita a cumplicidade do leitor, fazendo com que este se identifique com a personagem que obedece à prescrição divina (cf. CHAMILLARD, p. 596). Embora CHAMILLARD inteprete Lot como imagem da alma humana virtuosa e sua mulher como imagem do corpo, instável e enfermo, parece-nos que a disjuntiva apresentada por Prudêncio consiste, por um lado, na alma virtuosa e fiel aos preceitos divinos (Lot) e, por outro, na alma que se deixa dominar pelas paixões da carne e seus encantos (esposa de Lot). 107 Ille gradum celerat fugiens, contra illa renutat. Liber utrique animus, sed dispar utrique uoluntas. 775 Diuidit huc illuc rapiens sua quemque libido. Talem multa sacris speciem notat orbita libris. Aspice Ruth gentis Moabitidis et simul Orfan. Illa socrum Noomin fido comitatur amore, deserit haec. Atquin thalamis et lege iugali 780 exutae Hebraeisque toris sacrisque uacantes iure fruebantur proprio. Sed pristinus Orfae fanorum ritus praeputia barbara suasit malle et semiferi stirpem nutrire Goliae. Ele o passo aperta fugindo; ela, ao contrário, recusa. A alma em ambos é livre, mas difere em ambos a vontade. 775 Separa-os, arrastando para cá e para lá, o desejo de cada qual. Muitos modelos indicam tal imagem nos Sagrados Livros. Observes Rute, da gente moabita, e junto Orfa. Aquela com amor acompanha fiel a sogra Noemi, esta abandona-a. Com efeito, dos tálamos e da lei conjugal 780 livres e dos leitos e ritos hebreus desobrigadas, gozavam do seu direito próprio. Mas o antigo culto dos templos persuadiu Orfa a preferir o prepúcio bárbaro e nutrir a estirpe de um semífero Golias. ___________________________________________________________________________ 774 VERG. A. 4. 641: illa gradum studio celerabat. renutat] LUCR. 4. 600: renutant, também na sexta casa métrica, abonada apenas com estas duas ocorrências (FORCELLINI, L&S). 775-776 VERG. A. 4. 285 e 8. 20: atque animum nunc huc celerem nunc diuidit illuc, e VERG. Ecl. 2. 65: trahit sua quemque uoluptas. Para descrever o livre-arbítrio e a divergência nas decisões dos homens, Prudêncio emprega no v. 775 dois termos usados por Virgílio em cada um dos versos citados (animus e uoluptas) e no v. 776 outros elementos dos mesmos dois versos virgilianos (huc... diuidit illuc e sua quemque). 778 Ruth] mulher moabita, que se casou com Maalon, um dos filhos de Noemi e Elimelec; morto seu marido, decidiu acompanhar sua sogra de Moab a Belém, onde começou a trabalhar nos campos de Booz, com quem se casou após renunciar aos direitos do casamento anterior. Obed, seu filho com Booz, foi avô de Davi. Rt 1, 4 ss. Cf. P. NOL. Carm. 27. 532 ss. Moabitidis] moabitas, descendentes de Moab, fruto do incesto de Lot com sua filha mais velha (Gn 19, 37). Orfan] Orfa, nora de Noemi, atendendo aos rogos desta, voltou para seu povo, os maobitas. Segundo certa tradição judaica, teria sido mãe de Golias (cf. OBBARIUS). Cf. nota ao v. 784. Noomin] esposa de Elimelec; após a morte de seus dois filhos, Maalon e Quelion, queria mandar suas duas noras, Rute e Orfa, para as respectivas famílias. Mas Rute não quis ir e preferiu acompanhá-la, casando-se com Booz, parente de Elimelec. Quanto à forma, Prudêncio se afasta da versão latina Noemi (VULGATA e VETUS Latina) e aproxima-se da variante grega Νοομμει(ν) (cf. CHARLET, 1983, p. 15). 782 iure proprio] desobrigadas do matrimônio anterior, estavam livres para contrarir novo matrimônio. 784 Goliae] Na VULGATA, Goliath; na VETUS LATINA, Golias (cf. CHARLET, 1983, p. 14). Os comentadores divergem quanto à interpretação deste ponto: segundo certa tradição rabínica, Orfa teria sido mãe do gigante Golias; CHAMILLARD considera tal opinião absurda, alegando que a mãe de Golias era filisteia e vivera no tempo de Saul, ao passo que Orfa era moabita. Para TEOLIUS (p. 43), Orfa não tem ligação genealógica com Golias, que aqui simboliza qualquer homem bárbaro e selvagem. Para ARÉVALO também, não há menção a Golias propriamente. De qualquer modo, o que ressalta das palavras de Prudêncio é que Orfa teria sido uma ascendente de Golias, e não sua mãe. Cf. Rt 4, 13. 108 Ruth dum per stipulas agresti amburitur aestu, 785 fulcra Boos meruit, castoque adscita cubili Christigenam fecunda domum, Dauitica regna, edidit atque deo mortales miscuit ortus. Saepe egomet memini fratres geminos ad hiulcum peruenisse simul biuium nutante iuuenta 790 et dubitasse diu bifido sub tramite quodnam esset iter melius, cum dextrum spinea silua sentibus artaret scopulosaque semita longe duceret aërium cliuoso margine callem, at laeuum nemus umbriferum per amoena uirecta 795 ditibus ornaret pomis et lene iacentem Rute, enquanto entre as espigas se queimava num calor agreste, 785 o tálamo de Booz mereceu e, associada a um casto leito, deu à luz a casa cristogênica, reinos de Davi, fecunda, e misturou em Deus a origem mortal. Frequentemente eu recordo que dois irmãos gêmeos a uma fendida encruzilhada chegaram juntos, na vacilante juventude, 790 e hesitaram longo tempo na vereda bívia qual fora o caminho melhor, o da direita por uma selva espinhosa, apertado com sarças, onde uma trilha pedregosa ao longe levava a uma senda aérea numa encosta íngreme, ou o da esquerda, um bosque umbrífero, entre vergéis amenos, 795 de ricos frutos ornado, onde levemente descendia ___________________________________________________________________________ 785 Rt 2, 3: Abiit itaque et colligebat spicas post terga metentium. Accidit autem ut ager ille haberet dominum nomine Booz. 786 Boos] cf. nota ao v. 778. Na VULGATA, Booz; a grafia da VETUS LATINA oscila entre Boos/-z/-es (cf. CHARLET, 1983, p. 13). fulcra... meruit] AQUIN. Mt. 1. 3: Ruth, pro merito fidei suae nupsit Booz, quia deos patrum suorum repulit et Deum viventem elegit. Et Booz pro merito fidei suae illam accepit uxorem, ut ex coniugio tali sanctificato genus nasceretur regale. casto... cubili] CATUL. 66. 83: casto... cubili; VERG. A. 8. 412: castum ut seruare cubile; SIL. 3. 28: castumque cubile; VAL. FLACC. 2. 137: castumque cubile. adscita] cf. nota ao v. 53. 787 Dauitica regna] Rt 4, 18-22. Christigenam] provavelmente um neologismo prudenciano, só abonado nos léxicos com este lugar. FORCELLINI e L&S registram como substantivo christigena -ae, enquanto GAFFIOT como adjetivo christigenus -a -um. Ambos os casos quadram ao presente verso, mas tomá-lo por adjetivo parece mais adequado, pois mantém o paralelo com o sintagma adjetivo + substantivo Dauitica regna. 789 Sobre a imagem do bívio entre os antigos como metáfora da liberdade humana, cf. SERV. En. 6. 136. 20: novimus Pythagoram Samium vitam humanam divisisse in modum Y litterae, scilicet quod prima aetas incerta sit, quippe quae adhuc se nec vitiis nec virtutibus dedit: bivium autem Y litterae a iuventute incipere, quo tempore homines aut vitia, id est partem sinistram, aut virtutes, id est dexteram partem sequuntur: unde ait Persius “traducit trepidas ramosa in compita mentes”. ergo per ramum virtutes dicit esse sectandas, qui est Y litterae imitatio: quem ideo in silvis dicit latere, quia re vera in huius vitae confusione et maiore parte vitiorum virtus et integritas latet. 795 VERG. A. 6. 473: nemus umbriferum; A. 6. 638: amoena uirecta. 109 planities daret ampla uiam; squalentibus unum contentum spinis reptasse per ardua saxa, porro alium campo sese indulsisse sinistro; illum sideribus caput inmiscere propinquis, 800 hunc in caenosas subito cecidisse paludes. Omnibus una subest natura, sed exitus omnes non unus peragit placitorum segrege forma. Haud secus ac si olim per sudum lactea forte lapsa columbarum nubes descendat in aruum 805 ruris frugiferi, laqueos ubi callidus auceps praetendit lentoque inleuit uimina uisco, sparsit et insidias siliquis uel farre doloso. Inliciunt alias fallentia grana gulamque innectunt auidam tortae retinacula saetae 810 molle uel inplicitas gluten circumligat alas. numa planície ampla um caminho; de arbustos cercado, hirsutos, pelas íngremes pedras rastejou um; já o outro ao campo se entregou, sinistro; aquele nos astros a cabeça misturou, vizinhos, 800 este em pântanos de súbito caiu, imundos. Para todos há uma única natureza, mas o fim de todos não é único, sendo diverso o molde das vontades. Não é diferente se um dia pelo céu puro uma nuvem láctea de pombas, ao acaso deslizando, desce à lavoura 805 do campo fértil, onde o astuto passarinheiro estendeu os laços, untou as virgas de visgo pegajoso e espalhou esparrelas de vagens ou doloso trigo. Os grãos enganosos algumas atraem e o pescoço ávido lhes prendem os cordames de trançada crina, 810 ou o mole grude lhes ata ao redor as asas embaraçadas. ___________________________________________________________________________ 802-803 Sendo a alma humana a mesma para todos, bem como o corpo e os apetites, a condenação ou a salvação depende da diversa vontade de cada homem. Deus, por sua vez, quer que todos se salvem (1 Tm 2, 4). 804 haud secus ac] VERG. A. 3. 236: haud secus ac, e 12. 9: haud secus; OV. M. 9. 40: haud secus ac; SIL. 9. 3: haud secus ac si (e passim). per sudum] VERG. A. 8. 529: per sudum rutilare uident; SIL. 8. 626: per sudum attonitis; VAL. FLACC. 2.115: per sudum (na mesma sede métrica). 110 Ast aliae, quas nullus amor prolectat edendi, gressibus innocuis sterili spatiantur in herba suspectamque cauent oculos conuertere ad escam. Mox, ubi iam caelo reuolandum, pars petit aetram 815 libera sideream plaudens super aëra pinnis, pars captiua iacet laceris et saucia plumis pugnat humi et uolucres nequiquam suspicit auras. Sic animas caeli de fontibus unicoloras infundit natura solo. Sed suauibus istic 820 deuinctae inlecebris retinentur et aethera paucae conscendunt reduces, multas uiscosus inescat pastus et ad superas percurrere non sinit auras. Praescius inde pater liuentia tartara plumbo Mas outras, que não se deixam arrastar pelo desejo de comer, espalham-se com passos inofensivos na grama estéril e cuidam não virar os olhos para o alimento suspeito. Quando já é hora de revoar ao céu, parte se dirige livre 815 para o firmamento celeste, batendo as plumas no ar, parte jaz cativa, ferida com as penas dilaceradas, e, debatendo-se na terra, procura em vão pelas brisas ligeiras. Assim as almas, do alto das fontes celestes, unicolores a natureza as derrama na terra. Aí, porém, com doces 820 atrativos retidas, ficam presas, e aos céus poucas sobem de volta, a muitas o pasto engoda viscoso e pelas brisas percorrer não as deixa, às alturas. Presciente, pois, o Pai o lívido Tártaro incendiou ___________________________________________________________________________ 819 unicoloras] unicolōrus em vez da forma mais comum unicŏlor -ōris (divergem, contudo, os códices); mas, quanto a outros compostos semelhantes, Prudência usa ambas as formas: uersicolorus (Symm. 2. 56) e uersicolor (Ham. 294), discolorus (Perist. 10.302) e discolor (Psych. 710). Indica o termo, neste contexto, que as almas têm a mesma natureza. 820-823 Sobre o símile, cf. lugar antigamente atribuído a S. Jerônimo, mas de autoria incerta: Ita inciderunt in laqueos feralium uoluptatum, sicut aues aucupali fraude captiuae: quae quo magis conantur euadere, eo innumeris se nexibus illigant, et in profundiores sinus demergunt. E também AMBR. Bono. 5. 16: Avis enim quae descendit ex alto, vel quae in altum se extollere non potest, frequenter aut laqueis capitur, aut visco fallitur, aut quibuscumque irretitur insidiis. Sic quoque et anima nostra caveat ad haec mundana descendere. Laqueus est in auro, viscus in argento, nexus in praedio, clavus est in amore. 823 ad superas... auras] VERG. A. 5.427: bracchiaque ad superas interritus extulit auras; OV. M. 10. 11: quam satis ad superas postquam Rhodopeius auras; STAT. Th. 1. 295: dic patruo: superas senior se attolat ad auras. Cf. VERG. A. 6. 128, G. 4. 486; SIL. 3. 712 e 9. 630. 111 incendit liquido piceasque bitumine fossas 825 infernalis aquae furuo suffodit Auerno et Flegetonteo sub gurgite sanxit edaces perpetuis scelerum poenis inolescere uermes. Norat enim flatu ex proprio uegetamen inesse corporibus nostris animamque ex ore perenni 830 formatam non posse mori non posse uicissim pollutam uitiis rursum ad conuexa reuerti mersandam penitus puteo feruentis abyssi. Vermibus et flammis et discruciatibus aeuum inmortale dedit, senio ne poena periret 835 non pereunte anima. Carpunt tormenta fouentque de chumbo fundido, escavou fossas de pez com betume 825 no negro Averno de água infernal e, sob o sorvedouro do Flegetonte, ordenou que vermes nas perpétuas penas dos crimes brotassem, edazes. Ora, sabia que do seu sopro um princípio vital entrou em nosso corpo e que uma alma, da boca perene 830 formada, não pode morrer, não pode também poluída de vícios novamente para a abóbada celeste retornar, deve ser mergulhada no poço do fervente abismo. Aos vermes, às chamas, aos tormentos duração eterna deu, para que com o tempo o castigo não perecesse, 835 ao não perecer a alma. Os tormentos dilaceram, fomentam ___________________________________________________________________________ 826 infernalis] vocábulo cuja ocorrência mais antiga remonta a Prudêncio (cf. FORCELLINI, GAFFIOT, L&S, s. v.). 827 Flegetonteo] Flegetonte é um dos rios do Hades. 828 Is 66, 24: Et egredientur, et videbunt cadavera virorum qui prævaricati sunt in me; vermis eorum non morietur, et ignis eorum non extinguetur: et erunt usque ad satietatem visionis omni carni. Mc 9, 43: in gehennan, in ignem inextinguibilem, ubi uermis eorum non moritur, et ignis non extinguitur. 831-832 Cf. Ap 21, 27: Non intrabit in eam [nouam Jersusalem] aliquod coinquinatum, aut abominationem faciens et mendacium, nisi qui scripti sunt in libro vitae Agni; Mt 22, 11-13. 833 abyssi] palavra própria do latim bíblico, como paradisus (v. 839), não pertencentes ao vocabulário corrente (cf. MOHRMANN, 1961, p. 45). Ap 21, 8: Timidis autem, et incredulis, et execratis, et homicidis, et fornicatoribus, et veneficis, et idolatris, et omnibus mendacibus, pars illorum erit in stagno ardenti igne et sulphure : quod est mors secunda. 834 discruciatibus] hapax prudenciano, derivado do verbo discruciāre. 112 materiam sine fine datam; mors deserit ipsa aeternos gemitus et flentes uiuere cogit. At diuersa procul regionibus in paradisi praemia constituit maiestas gnara futuri 840 spiritibus puris et ab omni labe remotis, quique Gomorraeas non respexere ruinas, auersis sed rite oculis post terga tenebras liquerunt miseri properanda pericula mundi. Ac primum facili referuntur ad astra uolatu, 845 unde fluens anima structum uegetauerat Adam. Nam, quia naturam tenuem decliuia uitae pondera non reprimunt nec tardat ferrea conpes, concretum celeri relegens secat aëra lapsu a matéria dada sem fim; a própria morte abandona os eternos gemidos e os lamentosos a viver obriga. Prêmios porém diversos, longe, nas regiões do paraíso, determinou a majestade conhecedora do futuro 840 aos espíritos puros, de toda mancha isentos, e que de Gomorra não olharam as ruínas, mas, desviada a vista como prescrito, atrás as trevas deixaram, perigos evitandos do mundo miserável. E logo num voo são aos céus reconduzidos, ágil, 845 donde, manando, um’alma animara Adão modelado. Com efeito, como os decadentes pesos da vida a tênue natureza não refreiam, nem férrea corrente a retarda, o denso ar, recorrendo, corta ela em célere lance, ___________________________________________________________________________ 834-838 Sobre a eternidade das penas infernais, entre muitos outros testemunhos dos Padres da Igreja, cf. CASS. Psalm. 20. 10: Iste tamen ignis sic absumit, ut servet; sic servat, ut cruciet; dabiturque miseris vita mortalis, et poena servatrix. TERT. Apol. 48: non enim absumit quod exurit, sed, dum erogat, reparat: adeo manent montes semper ardentes, et qui de coelo tangitur, salvus est, ut nullo iam igni decinerescat. Montes uruntur et durant: quid nocentes et Dei hostes?. Cf. também LACT. Inst. 6. 21: Idem igitur divinus ignis una eademque vi atque potentia, et cremabit impios, et recreabit, et quantum e corporibus absumet, tantum reponet, ac sibi ipse aeternum pabulum subministrabit; quod poetae in vulturem Tityi transtulerunt; ita sine ullo revirescentium corporum detrimento aduret tantum, ac sensu doloris afficiet. 839 paradisi] cf. nota ao v. 833, abyssi. 842 Lc 9,62: Ait ad illum Iesus: “Nemo mittens manum suam in aratrum et aspiciens retro, aptus est regno Dei”. 844 properanda pericula] para alguns comentadores, trata-se de sintagma epexegético referente a tenebras: pericula properanda, pois devem ser evitados com presteza (cf. ARÉVALO). 113 exsuperatque polum feruens scintilla remensum 850 carcereos exosa situs quibus haeserat exul. Tunc postliminio redeuntem suscipit alto cana Fides gremio tenerisque oblectat alumnam deliciis multos post diuorsoria carnis ore renarrantem querulo quos passa labores. 855 Illic purpureo latus exporrecta cubili floribus aeternis spirantes libat odores ambrosiumque bibit roseo de stramine rorem; ditibus et longo fumantibus interuallo fluminaque et totos caeli sitientibus imbres 860 inplorata negat digitum insertare palato flammarumque apices umenti extinguere tactu. e o firmamento supera a ardente centelha, imenso, 850 odiando os cárceres a que pregada fora exilada. E, graças a um poslimínio, a regressa, acolhe-a no alto colo a encanecida Fé, com tenros afagos a criança deleita, a qual os trabalhos após a pousada da carne reconta queixosa, os muitos trabalhos que sofreu. 855 Ali num purpúreo aposento de lado estendida, de flores eternas perfumantes liba os odores e o orvalho ambrósio bebe do róseo leito; e aos ricos fumegantes à longa distância e aos sedentos das ribeiras e das chuvas todas do céu, 860 implorada nega o dedo lhes inserir no palato e as línguas de chamas extinguir com o úmido tato. ___________________________________________________________________________ 846 uegetauerat] uegetare (derivado de uegetus, “vigoroso, ativo, de boa saúde”) consta a partir da época imperial em Sêneca (Dialogi 9. 17. 8), Apuleio (M. 11. 1. 5; Socr. 21. 13; Mund. 10.5) e Aulo Gélio (17. 2.1). 849 celeri... lapsu] OV. M. 6. 216: celerique per aera lapsu; VAL. FLACC. 1. 91: celerique per aethera lapsu; LUCR. 6. 324: celeri... lapsu. 852 CLAUD. Ruf. 1, 94: suscepi gremio. postliminio] o poslimínio era um dispositivo legal por meio do qual um cidadão romano, capturado e feito escravo do inimigo, retomava os direitos civis ao voltar para o território de Roma. A alma, antes exilada neste mundo (v. 851), regressa à pátria celeste e readquire os direitos que tinha perdido. É mais um caso de linguagem jurídica no poema prudenciano. 853 cana Fides] VERG. A. 1. 292: cana Fides; na mesma sede métrica. 858 ambrosiumque] ambrosius denota não apenas o que se refere à ambrosia, mas também “imortal, divino, sumamente belo”, isto é, o que diz respeito às excelências divinas (cf. FORCELLINI e L&S, s. v.); nesta segunda acepção parece empregá-lo Prudêncio, uma vez que o adjetivo qualifica rorem, “orvalho”, e não um alimento (entre os pagãos, ambrosia era o alimento dos deuses, e o néctar a bebida). Daí ser possível a lição de alguns manuscritos, citada por ARÉVALO, onde consta gramine em lugar de stramine, a indicar que o orvalho divinamente suave que a alma bebe é exalado por um céspede coberto de rosas. 859-862 Lc 16, 24. 861 inplorata negat] a alma bem-aventurada. 114 Nec mirere locis longe distantibus inter damnatas iustasque animas concurrere uisus conspicuos meritasque uices per magna notari 865 interualla, polus medio quae diuidit orbe. Errat quisque animas nostrorum fine oculorum aestimat, inuoluit uitreo quos lucida palla obice, quis speculum concreta coagula texunt inpediuntque uagas obducto umore fenestras. 870 Numne animarum oculis denso uegetamine guttae uoluuntur teretes aut palfebralibus extra horrescunt saetis cilioue umbrante teguntur? Illis uiua acies, nec pupula parua sed ignis traiector nebulae uasti et penetrator operti est. 875 Nil ferrugineum solidumue tuentibus obstat. Nem te admires nesses lugares que distam longe, entre as almas condenadas e as justas, olhares claros convergirem e as sortes merecidas de cada um serem percebidas 865 por entre grandes espaços, no meio o orbe, os quais o céu separa. Erra quem quer que as almas considere com o limite dos nossos olhos, os quais envolve uma translúcida cortina de vitral barreira, nos quais um espelho, de coágulos condensados composto, com fluido obsta corrido as janelas francas. 870 Por acaso nos olhos da alma, num denso movimento, gotas rolam arredondadas, ou palpebrais cerdas exteriores eriçam, ou com espessa sobranceira se cobrem? A vista lhes é viva, não pequena a pupila, mas um fogo que atravessa a névoa e a vasta escuridão penetra. 875 Nada ferruginoso ou sólido a visão lhes obsta. ___________________________________________________________________________ 866 Segundo ARÉVALO, Prudêncio professaria a sentença teológica de que o lugar dos condenados se situaria no centro da terra. 870 uagas... fenestras] quanto aos cinco sentidos como “janelas” da alma, cf. CIC. Tusc. 1. 46: saepe aut cogitatione aut aliqua vi morbi impediti apertis atque integris et oculis et auribus nec videmus nec audimus, ut facile intellegi possit animum et videre et audire, non eas partis quae quasi fenestrae sint animi, quibus tamen sentire nihil queat mens, nisi id agat et adsit. Lucrécio (3. 369) emprega postis, “porta”, para indicar a visão. 872 palfebralibus] hapax prudenciano (cf. FORCELLINI, L&S, GAFFIOT). 874 ss. De acordo com TEOLIUS (p. 47), Prudêncio parece querer emular os seguintes versos de Manílio sobre a alma racional (MANIL. 1. 541-543): docet ratio, cui nulla resistunt/claustra nec immensae moles caecive recessus;/omnia succumbunt, ipsum est penetrabile caelum. 875 traiector] hapax prudenciano (cf. FORCELLINI, L&S, s. v.). 115 Nocturnae cedunt nebulae, nigrantia cedunt nubila, praetenti cedit teres area mundi. Nec tantum aërios uisu transmittit hiatus spiritus; oppositos sed transit lumine montes, 880 oceani fines atque ultima litora Thylae transadigit, uolucresque oculos in tartara mittit. Nostris nempe omnes pereunt sub nocte colores uisibus et caeco delentur tempore formae. Numquid et exuti membris ac uiscere perdunt 885 agnitione notas rerum uel gressibus errant? Vna animas semper facies habet et color unus aëris, ut cuique est meritorum summa, sinistri seu dextri. Alternas nec commutabile tempus conuertit uariatque uices; longum atque perenne est 890 Cedem as noturnas névoas, cedem as negras nuvens, do cortinado mundo a redonda área cede. E não apenas os abismos aéreos transpõe com a visão o espírito, mas os montes transcende com sua luz, opostos, 880 do oceano os confins e os extremos litorais de Tule transgride, e os alados olhos aos Tártaros lança. Para nós as cores morrem todas dentro da noite e à nossa vista na hora cega se apagam as formas. Acaso os que estão livres dos membros e vísceras perdem 885 a percepção das notas dos objetos ou em seus passos erram? Um único aspecto sempre as almas possui e uma cor única de ar, segundo a soma dos méritos de cada qual, sinistro ou direito. Tal sorte respectiva nem o tempo mutável pode converter e variar, longo e eterno é 890 ___________________________________________________________________________ 881 Thylae] as lições dos manuscritos variam quanto ao termo que designa essa ilha no setentrião europeu, talvez a Islândia ou parte da Escandinávia (Tile, Thyle, Thule, Thyla). VERG. G. 1. 30: ultima Thule; STAT. S. 4. 4.62: nigrae litora Thyles, ambas no sexto pé. SEN. Med. 375-379: uenient annis saecula seris,/quibus Oceanus uincula rerum/laxet et ingens pateat tellus/Tethysque nouos detegat orbes/nec sit terris ultima Thule. Diz-se ultima, porque era a porção de terra ao ocidente mais distante então conhecida pelos antigos, mas também por causa da convenção tópica de usar o adjetivo ultimus quando o poeta deseja exprimir uma longa distância em relação a um lugar qualquer (cf. Apoth. 612: ultima Bactra; Perist. 13. 104: ultimis Hiberis). 883-884 VERG. A. 6.272: et rebus nox abstulit atra colorem. Quanto à imagem contrária, a do dia que devolve a cor às coisas, cf. Cath. 2. 5- 8: Caligo terrae scinditur/percussa solis spiculo/rebusque iam color redit/uultu nitentis sideris. 888-889 sinistri seu dextri] cf. Mt 25, 31-46: pastor segregat oves ab haedis: et statuet oves quidem a dextris suis, haedos autem a sinistris. 890 VERG. A. 9. 164: uariantque uices. 116 quidquid id est, unus uoluit sua saecula cursus. Expertus dubitas animas percurrere uisu abdita corporeis oculis, cum saepe quietis rore soporatis cernat mens uiua remotos distantesque locos, aciem per rura per astra 895 per maria intendens? Nec enim se segregat ipsa ante obitum uiuis ex artubus aut fugit exul sanguinis et carnis penetralia seque medullis exuit abductamue abigit de pectore uitam; uiscerea sed sede manens speculatur acutis 900 omnia luminibus et qua circumtulit acrem naturae leuis intuitum nullo obice rerum disclusa ante oculos subiectum prospicit orbem atque orbis sub mole situm sordens elementum. Obiacet interea tellus nec uisibus obstat. 905 Quin si stelligerum uultus conuertat ad axem, o que seja; um único curso seus séculos volteia. Por experiência própria, duvidas que as almas percorrem com a vista o que está fora do alcance dos olhos corpóreos, quando muitas vezes, aos que estão adormecidos pelo orvalho do descanso, a mente viva enxerga locais remotos e distantes, a vista por campos, 895 por astros, por mares estendendo? Com efeito, não se separa ela, antes da morte, dos membros vivos, nem foge exilada das entranhas do sangue e da carne, nem se despe das medulas ou expulsa do peito a vida; ao contrário, permanecendo na morada das vísceras, observa tudo com penetrantes 900 olhos e em toda parte aonde estende a vista aguda de sua natureza leve, por nenhum obstáculo separada, enxerga o mundo colocado diante dos seus olhos e, posto sob a massa do mundo, o sórdido elemento. Nesse espaço a terra se opõe e não lhe estorva a vista. 905 E ainda que seu vulto se volte para o céu constelado, ___________________________________________________________________________ 891 VERG. A. 2. 49; LUCR. 5. 577: quidquid id est; cf. idem. 5. 1252. 905 LUCR. 3. 26: nec tellus obstat quin omnia dispiciantur. Sobre as visões da alma durante o sono, cf. Cath. 6, 25 ss. 117 nil intercurrens obtutibus inpedit ignem peruigilis animae, quamuis denseta grauentur nubila et opposito nigrescat uellere caelum. Sic arcana uidet tacitis cooperta futuris 910 corporeus Iohannis adhuc nec carne solutus, munere sed somni paulisper carne sequestra liber ad intuitum sensuque oculisque peragrans ordine dispositos uenturis solibus annos. Procinctum uidet angelicum iam iamque cremandi 915 orbis in excidium, raucos et percipit aure mugitus grauium mundi sub fine tubarum. Haec ille ante obitum membrorum carcere saeptus secedente anima, non discedente uidebat. nada impede, intervindo-lhe à visão, o fogo da alma vigilante, por mais condensadas que se carreguem as nuvens e um novelo se oponha, escurecendo o céu. Desse modo os arcanos vê cobertos do silencioso futuro 910 João em corpo, ainda da carne não liberto, mas, mercê do sono, por pouco tempo, por intermédio da carne, livre para ver, com a mente e os olhos percorrendo os anos dos vindouros sóis, em ordem dispostos. O batalhão vê angélico, pronto para logo logo o globo, 915 condenado ao fogo, destruir, e recebe no ouvido os roucos mugidos das soturnas tubas do fim do mundo. Eles tais coisas, antes da morte, no cárcere dos membros encerrado, afastada a alma, sem que o abandonasse, via. ___________________________________________________________________________ 908 denseta] Prudêncio sempre usa o verbo desse particípio na forma densēre em vez de densāre (cf. Ham. 409, Cath. 5.53, Praef. Symm. 1. 21). O particípio densetus é raro e, segundo FORCELLINI (s. v.), ocorre em Macróbio e Prudêncio; acrescente-se ainda P. NOL. Carm. 20. 340; 28. 42 e AMM. 14. 2. 10; 22. 8. 46, etc. 909 uellera caelum] VERG. G. 1. 398: tenuia nec lanae per caelum uellera ferri. Imagem usada antes por Lucrécio (6. 504): umorem, uel uti pendentia uellera lanae. 910 Cf. Ap 1, 9-10. 915-917 Ap 8, 6: Et septem angeli, qui habebant septem tubas, praeparaverunt se ut tuba canerent. Cf. Ap 8-10. 917 mugitus grauium mundi sub fine tubarum] a repetição da vogal e semivogal -u-, aliada às nove sílabas longas, produz um som grave e solene, conforme ao significado do verso. 918 Acerca da imagem do corpo como cárcere da alma, cf. Proem. 44 e Cath. 10. 22. 118 Nonne magis flatus sine corpore cuncta notabit 920 corporis inuolucris tumulo frigente repostis? Certa fides rapidos subterna nocte caminos, qui pollutam animam per saecula longa perenni igne coquunt, oculis longum per inane remoti pauperis expositos, nec setius aurea dona 925 iustorum dirimente chao rutilasque coronas eminus ostendi poenarum carcere mersis. Hinc paradisicolae post ulcera dira beato proditur infelix ululans in peste reatus spiritus inque uicem meritorum mutua cernunt. 930 O dee cunctiparens, animae dator, o dee Christe, cuius ab ore deus subsistit spiritus unus, Não conhecerá ainda mais tudo isso o sopro sem corpo, 920 depositado o invólucro do corpo no sepulcro frio? Certa é a fé, os fornos na noite subterrânea, devoradores, os quais a poluída alma, por longos séculos, em perene fogo cozinham, ficam expostos, por um longo vazio, aos olhos daquele mísero apartado, e não menos os áureos dons 925 dos justos, apesar do caos a interpor-se, e as rútilas coroas ao longe visíveis para os que foram lançados no cárcere das penas. Por isso ao paradisícola, depois das cruéis úlceras beato, mostra-se o infeliz espírito, ululando no flagelo da culpa, e enxergam a mútua recompensa de seus méritos. 930 Ó Deus Pai do universo, criador da alma, ó Deus Cristo, de cuja boca subsiste o Deus Espírito uno, ___________________________________________________________________________ 921 inuolucris] inuŏlŭcrīs, abreviada a penúltima, em vez de inuŏlūcris (cf. o mesmo fenômeno em Cath. 5. 36 e Praef. Symm. 1. 54); mudança de quantidade comum no latim tardio. 922 subterna] hapax prudenciano, de subter com sufixo -nus, assim como supernus (super + -nus); também em Symm. 1. 392. Cf. Mt 13, 42: et mittent eos in caminum ignis. Ibi erit fletus et stridor dentium. 924 Cf. Lc 16, 26: et in his omnibus inter nos et vos chaos magnum firmatum est: ut hi qui volunt hinc transire ad vos, non possint, neque inde huc transmeare. VERG. A. 12. 354: longum per inane; Ecl. 6. 31; LUCR. 1. 1018 e 1103; 2. 65, 105 e 109: magnum per inane. 925-930 Cf. Lc 16, 19-31. 928 paradisicolae] hapax prudenciano. post ulcera dira] referência ao pobre Lázaro (cf. Lc 16, 20-21), que, como é narrado no Evangelho, após sua morte podia ser visto no “seio de Abraão” (vv. 852-853) pela alma do rico que lhe negara alimento em vida. 931 dee cunctiparens] a desinência regular do vocativo em -e, em lugar de deus, usada apenas aqui por Prudêncio, atende à métrica do verso (para o vocativo deus, cf. Cath. 6. 7-8). Cunctiparens é vocábulo cunhado pelo poeta (cf. Perist. 14. 128). 119 te moderante regor, te uitam principe duco, iudice te pallens trepido, te iudice eodem spem capio fore quidquid ago ueniabile apud te, 935 quamlibet indignum uenia faciamque loquarque. Confiteor, dimitte libens et parce fatenti! Omne malum merui; sed tu bonus arbiter aufer quod merui. Meliora fauens largire precanti. Dona animae quandoque meae, cum corporis huius 940 liquerit hospitium neruis cute sanguine felle ossibus extructum, corrupta quod incola luxu heu nimium conplexa fouet, cum flebilis hora clauserit hos orbes et conclamata iacebit materies oculisque suis mens nuda fruetur, 945 ne cernat truculentum aliquem de gente latronum inmitem rabidum uultuque et uoce minaci sendo tu o governante, sou governado; sendo tu o princípio, existo; sendo tu o juiz, tremo de pavor; tu, sendo o mesmo juiz, alimento a esperança de que tudo o que eu faça encontre 935 em ti perdão, por mais indigno de perdão o que faço e digo. Eu confesso! Perdoa benigno e compadece-te do que confessa! Mereci todo o mal; mas tu, bom juiz, retira o que mereci. Bens melhores dá benévolo ao suplicante. Concede à minha alma um dia, quando deste corpo 940 abandonar a morada, construída de nervos, pele, sangue, fel, o qual corpo ela, pela luxúria corrompida, oh! abraçando-o demais, acaricia; quando a hora lastimosa me fechar os olhos e jazer chorada a matéria, e a alma nua fruir da sua própria visão, 945 que ela não veja nenhum ladrão truculento da gente dos ladrões, selvagem, enraivecido, de vulto e voz ameaçadora, ___________________________________________________________________________ 936 Confiteor] na forma intransitiva, com o sentido de confiteri peccata, é próprio do latim cristão (cf. MOHRMANN, 1961, p. 30 ss.). 120 terribilem, qui me maculosum aspergine morum in praeceps ut praedo trahat nigrisque ruentem inmergat specubus cuncta exacturus adusque 950 quadrantem minimum damnosae debita uitae! Multa in thensauris patris est habitatio, Christe, disparibus discreta locis. Non posco beata in regione domum; sint illic casta uirorum agmina, puluereum quae dedignantia censum 955 diuitias petiere tuas, sit flore perenni candida uirginitas animum castrata recisum. At mihi tartarei satis est si nulla ministri occurrat facies, auidae nec flamma gehennae terrível, que a mim, maculado com a mancha dos maus costumes, ao precipício como a um bandido me arraste e ruindo me mergulhe em negros antros, cobrando tudo, até 950 o último centavo, todas as dívidas desta funesta vida! Muitas nos tesouros do Pai são as moradas, ó Cristo, divididas em lugares desiguais. Não peço uma casa na região bem-aventurada; estejam lá as castas fileiras dos varões, que, desprezando os bens empoeirados, 955 tuas riquezas buscaram; esteja em flor perene a cândida virgindade, castrada no desejo amputado. Mas já me basta a mim se a face de um servidor do Tártaro não me aparecer, se a chama da ávida geena ___________________________________________________________________________ 951 Mt 5, 26: Amen dico tibi, non exies inde, donec reddas novissimum quadrantem. specubus] SEN. Med. 742: Tartari ripis ligatos squalidae Mortis specus. 952 Jo 14, 2: In domo Patris mei mansiones multae sunt. 957 Mt 19, 12: Sunt enim eunuchi, qui de matris utero sic nati sunt: et sunt eunuchi, qui facti sunt ab hominibus: et sunt eunuchi, qui seipsos castraverunt propter regnum caelorum. Qui potest capere capiat. 959 gehennae] ver nota ao v. 127. 121 deuoret hanc animam mersam fornacibus imis. 960 Esto cauernoso, quia sic pro labe necesse est corporea, tristis me sorbeat ignis Auerno. Saltem mitificos incendia lenta uapores exhalent aestuque calor languente tepescat. Lux inmensa alios et tempora uincta coronis 965 glorificent, me poena leuis clementer adurat. não devorar esta alma imersa nos profundos fornos. 960 Seja que no cavernoso Averno, porque assim é necessário por causa da mancha do meu corpo, o triste fogo me trague. Ao menos os lentos incêndios vapores mitigadores exalem, e o calor, num lânguido fervor, arrefeça. A luz imensa e as têmporas rodeadas de coroas a outros 965 glorifiquem, a mim uma pena leve clemente me abrase. ___________________________________________________________________________ 962 tristis... ignis] OBBARIUS distingue este fogo daquele fogo eterno a que alude Prudêncio na descrição dos castigos das almas condenadas (v. 922 ss.) e, lembrando que a doutrina do purgatório se tornou dogma apenas posteriormente, com Gregório Magno, usa a expressão “no seio de Abraão” (in Abrahae sinu), conforme Tertuliano (Marc. 4. 34), para designar o lugar de pena para onde o poeta suplica a Deus que envie sua alma, em vez da geena. ARÉVALO intepreta a passagem como uma referência ao purgatório: Prudêncio, consciente de que seus pecados não o fazem digno do paraíso (vv. 961-962), humilha-se, pedindo que lhe basta não ser condenado eternamente. PUECH (1888, p. 171, n. 4), mencionando o último verso (v. 966) e sem dar razões justificáveis, afirma que lhe parece “impossível” crer que Prudêncio se refira ao purgatório, e que o poeta falaria de um castigo “d’une douceur relative”. 966 glorificent] são próprios do latim dos cristãos os neologismos em -ficare, cf. PALLA (1981, p. 316). 122 5. COMENTÁRIOS TEMÁTICOS 5.1. Praefatio O pequeno poema em 63 trímetros iâmbicos, que abre Hamartigenia, designa-se convencionalmente Praefatio, embora não conste essa denominação nos códices (CUNNINGHAM, 1966, p. 116). Os prefácios na obra de Prudêncio servem de chave interpretativa dos poemas correspondentes (TADDEI, 1981, p. 1) 98, como se fossem miniatura figurativa do que será desenvolvido posteriormente. TADDEI (1981, p. 1) afirma que, em Hamartigenia, Prudêncio trata da origem do mal em vários níveis, a saber: escriturístico, eclesiástico, doutrinal, espiritual. Na ordem do tempo, há uma comunicação entre passado, presente e futuro, à luz da revelação divina (vv. 25-26) 99. Quanto aos temas (origem do pecado, natureza de Deus, heresia, morte redentora de Cristo), todos se entrelaçam ou se iluminam mutuamente. As oposições entre Cain e Abel, Marcião e a Igreja, carne e espírito, se refletem umas às outras, de modo coerente e por um princípio de unidade. O Praefatio pode ser dividido em duas partes: a primeira, vv. 1-31, e a segunda, vv. 32-63, cada uma das quais subdivisível em duas seções: vv. 1-16 e vv. 17-31 e vv. 32-47 e vv. 48-63. Assim teríamos a seguinte divisão, segundo a leitura por níveis: a) Primeira parte (vv. 1-31): escriturística a.1) vv. 1-16: relato bíblico de Cain e Abel, entrada do pecado no mundo. a.2) vv. 17-31: ação redentora de Cristo. b) Segunda parte (vv. 32-63): eclesiástica e espiritual. b.1) vv. 32-47: descrição sumária da doutrina de Marcião. b.2) vv. 48-63: luta e vitória da carne contra o espírito, referência a Cain e a Marcião. Na primeira parte, predomina o tema do pecado: seu ingresso no mundo pelo crime de Cain contra Abel, mas também sua derrota pela morte redentora de Cristo (v. 22). A noção de divisão, que constitui o mote da segunda parte, sobre o dualismo marcionita, é introduzido no episódio do sacrifício de Cain, desagradável a Deus por não ter sido dividido corretamente (v. 12). Assim como Cain, o herege também presta a Deus um culto indevido (v. 50), provocando 98 Quanto à estrutura e composição do Praefatio de Hamartigenia, nos baseamos grandemente na análise de R. M. TADDEI, “The Praefatio of the Hamartigenia”, in A Stylistic and Structural Study of Prudentius' Hamartigenia, 1981. 99 Consta o relato de verbos todos no presente, dando maior vivacidade à narrativa; a transição para os verbos no passado ocorre no primeiro verso da segunda parte da seção (v. 17: tinguit). 123 a morte da alma (v. 62-63). O pecado e a divisão de Deus constituem, pois, as duas colunas que sustentam o Praefatio, como “noções interdependentes” (cf. TADDEI, 1981, p. 8). O Praefatio inicia-se com a narração de uma cena do livro do Gênesis (Gn 4, 2-5)100. Dois irmãos, Cain e Abel, filhos de Eva (v. 2), oferecem as primícias de seus trabalhos em sacrifício a Deus. Prudêncio não opta pela narrativa de Adão e Eva (Gn 3, 1-24), como era de esperar101, para tratar sobre a origem do pecado. Segundo TADDEI (1981, p. 2), a razão é realçar “the idea of division”, pois no Praefatio o pecado é considerado à luz do motivo da divisão em três temas relacionados: no sacrifício de Cain (vv. 11-13); no cisma que a heresia causa no seio da Igreja (vv. 34 ss.) e no antagonismo entre corpo e alma (vv. 55 ss.). De fato, o mote da divisão percorre todo o Praefatio, sendo próprio da heresia marcionita, que divide a divindade em dois deuses. A oposição figurativa entre Cain e Abel expressa bem essa divisão em nível teológico, eclesiástico e moral. Além disso, o assassinato do irmão é um crime dramático e violento, apropriado ao argumento do poema, ao passo que o ato de Adão e Eva (Gn 3, 6), a manducação do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, não constitui evidentemtente um crime em si mesmo, mas na medida em que se trata de uma desobediência ao mandamento divino. Porém, uma vez que o pecado original é cometido pela desobediência do primeiro casal, Prudêncio faz menção a Eva no v. 2 (feminarum prima), ressaltando o nexo entre ambas as cenas, a de Cain e Abel com a de Adão e Eva, e, de certo modo, recordando a precedência daquele ato de desobediência na geração do pecado. Cain ocupa um lugar de protagonista na primeira parte do Praefatio, assim como Marcião é o protagonista da segunda parte. De fato, ele é figura de Marcião (cf. v. 32). Ao narrar o sacrifício oferecido por Cain e Abel, Prudêncio traz algumas informações presentes no texto bíblico sobre o ofício de ambos os irmãos: Abel é pastor, daí sua oblação consistir de animais vivos, e Cain é agricultor, e por isso sua oferta consiste em produtos da terra. É uma imagem fundamental que permeia todo o Praefatio: o que diz respeito à terra é tratado pelo poeta negativamente, como mundano, perecível, carnal e contrário ao espírito, que está associado à vida. Um jogo de oposições, antíteses, compõe a estrutura do texto e lhe dá coerência num esquema de comparações em vários níveis, conforme a mencionada análise de TADDEI (1981), que assim se relacionams102: 100 Prudêncio utiliza a Sagrada Escritura em diversos níveis de leitura (teológico, espiritual, moral e literário), conferindo ao texto bíblico dignidade artística, em substituição à mitologia pagã. Também em Psychomachia e em Contra Symmachum I e II, o poeta se vale de personagens da história bíblica no prefácio. 101 O relato de Adão e Eva será usado no poema como exemplo do livre-arbítrio (vv. 697-719; 740). 102 Seria possível expandir as antíteses para outras oposições, como seres inanimados ↔ seres animados, pecado ↔ virtude, condenação ↔ salvação, etc. 124 Negativo Positivo Cain ↔ Abel Demônio ↔ Cristo Marcião (heresia) ↔ Igreja (ortodoxia) Corpo (carne) ↔ Espírito (mente/alma) Morte ↔ Vida Os elementos negativos e positivos se identificam mutuamente no prefácio: a saber, Cain é um assassino, como o diabo (v. 19: peremptor), que deseja a perdição das almas; ataca o seu irmão, como o herege (v. 33: fratricida), que rompe a paz da Igreja; age e pensa mal, porque obedece antes à carne que ao espírito (v. 56-59); é causador da morte da sua alma e da dos fiéis (v. 20); já Abel é o inocente sacrificado, como Cristo (vv. 20-21); sua oferenda viva é agradável a Deus (v. 8), como o fiel ortodoxo que confessa o Deus dos vivos (v. 42); sua santidade (v. 15) é a de quem se rege pelas coisas do alto e do espírito; a vida vence a morte (vv. 21, 24), a qual havia ferido Abel e Cristo (v. 23). No âmbito lexical, Cain é associado a palavras relacionadas à agricultura, metáfora predominante no Praefatio (TADDEI, 1981, pp. 6-8): seu ofício é de agricultor (v. 1: fossor), suas oblações são de produtos da terra (v. 5: terrulentis; v. 7: scrobis; v. 28: insulsa terrae... libamina); é um rústico (v. 27: rusticus). Marcião, de quem Cain é figura, igualmente se identifica com a terra (v. 36), o mistério ao qual se dedica é perecível (v. 43: caduco), como as folhas e os frutos que caem das árvores; é colono do mundo (v. 49: colonus), cujo sacrifício sabe ao gosto da terra (v. 51). Desde o primeiro verso, ao usar o termo fossor para designar o ofício de Cain, Prudêncio já identifica o elemento da terra com a morte e o pecado, pois tal vocábulo não significa apenas um tipo de caseiro (uilicus) que trabalha na plantação, mas também, no século IV e no contexto cristão sobretudo, o coveiro (cf. FORCELLINI, 1940, s. v.; SOUTER, 1949, s. v.), não raro com conotação negativa 103. A par da conotação negativa atribuída às metáforas agrícolas, Prudêncio emprega um léxico relacionado com o mote da divisão, recurso esse que desperta no leitor um dos tópicos principais do poema: o dualismo de Marcião104. A noção de divisão aparece pela primeira vez, com conotação negativa, na censura que Deus lança contra Cain (PrH. vv. 11-13). Assim como Cain divide sua oblação em desacordo com a reta disposição da lei (v. 12), assim também Marcião divide erroneamente a doutrina do sagrado (v. 34) e a substância divina (v. 103 SOUTER aduz ainda o significado de “pederasta”, que depreciaria ainda mais Cain (cf. MALAMUD, 2011, p. 3). 104 Cf. TADDEI, 1981, p. 8-12. 125 44): ambos acreditando agir mais retamente (v. 35). Em relação à doutrina dualista de Marcião, Prudêncio emprega no Praefatio os seguintes verbos e expressões pertencentes ao campo semântico de “divisão”: frangit (v. 16), segregatim (v. 39); separans (v. 45), unitatis inuidus (v. 48), findit (v. 60), e, guardando relação com a agricultura, caede (v. 17), deputans (v. 29) e secare (v. 61). Está presente a noção de divisão não apenas no âmbito teológico, mas também no eclesiológico: pois a heresia marcionita acaba com a paz desfrutada pela fraternidade dos fiéis (v. 41), a qual se apoia na unidade da fé (v. 42). A primeira palavra do primeiro verso, fratres (v. 1), remete a essa fraternidade, que é rompida pela heresia. O herege é fratricida (v. 33), perturba a paz dos irmãos no seio da Igreja, levando-os à perdição. Desse modo, Cain, assassino de seu irmão Abel, é figura do herege Marcião, que, por sua vez, no Praefatio representa todas heresias dualísticas que dividiam então a Igreja (TADDEI, 1981, p. 5). Na verdade, Marcião não é apenas figurado por Cain, mas atualiza o pecado deste. Assim se expressa TADDEI (1981, p. 5): Marcion's introduction of particular kinds of sin and death into the world is not only foreshadowed by Cain's act; it also stems from and re-enacts it. As Marcion separates the community of believers, his brothers, he re-enacts, though without physical bloodshed, the murder of Abel. This interpretation of the re-enactment is for Prudentius' Christian audience not just symbolic, but real. O pecado, pois, traz divisão: divisão no culto a Deus, divisão da doutrina, divisão entre os fiéis e, enfim, divisão no homem. Não apenas Cain e Marcião são fratricidas, mas também a carne, ao atacar a alma, sua irmã (vv. 56, 63). A ofensiva movida pela carne contra o espírito, no interior do homem dominado pelo pecado, traz à tona outro tipo de imagem presente no Praefatio, a militar (cf. TADDEI, 1981, p. 12). No v. 6, certante uoto expressa o espírito de emulação e disputa entre os votos dos irmãos, decorrente da diversa intenção com que cada qual deles oferece seu sacrifício a Deus (cf. nota ao verso). O verbo certare, com efeito, pertence ao campo semântico do tema militar, bem como aemulus (v. 15), aemulator (v. 31), uulnere e uulnerato (v. 20 e v. 21), e mais claramente, armat (v. 14). A metáfora do combate se faz manifesta na ofensiva da carne contra a alma, descrita com vocábulos e expressões como tela... dirigit (v. 56) e triumfat (v. 63); uma luta entre vícios e virtudes no interior da alma humana, uma psychomachia, que antecipa o argumento do poema seguinte da “trilogia” na obra de Prudêncio. 126 Do ponto de vista da ação temporal, a unidade do Praefatio é reforçada pela correlação dos eventos (cf. TADDEI,1981, p. 6). A primeira parte, com efeito, narra a cena de Cain e Abel em tempo presente, dando-lhe maior vivacidade (vv. 1-16), lembrando que o pecado é uma realidade sempre presente e atual; o tempo da ação se transporta ao passado quando é necessário falar do sacrifício redentor de Cristo, o qual, embora futuro em relação à história de Cain e Abel, e anterior ao tempo de Prudêncio, é presente no plano de Deus mesmo, pois figurado em Abel e constantemente atualizado nos méritos redentores e salvíficos da Cruz que se aplicam aos homens. Já na segunda parte, o tempo presente dos verbos aponta para a atualidade e permanência da heresia, no seio da Igreja, e do conflito entre a carne e o espírito, no interior do homem. Embora Prudêncio fosse um poeta, e não um teólogo, como Tertuliano e S. Irineu de Lion, recorre implicitamente a vários recursos de argumentação que contradizem pontos essenciais da doutrina de Marcião ou responde a algumas práticas da seita. Cite-se, por exemplo, a tática de mostrar que o Antigo Testamento e o Novo Testamento não se contradizem; na verdade, este é cumprimento pleno daquele. Pois Marcião, na sua obra Antithesis, compara várias de passagens, que lhe parecem contraditórias, do Antigo e do Novo Testamento, de modo tal que conclui que o Antigo Testamento deveria ser excluído do cânon bíblico. Como resposta, Prudêncio escolhe uma passagem do livro do Gênesis, a cena de Cain e Abel, e, a partir dela, mostra Abel como figura de Cristo (v. 23), de acordo com a tradição patrística, segundo a qual não apenas não existe contradição entre um e outro Testamento, mas o Novo é a plena realização das profecias do Antigo, onde não raro aparecem como figuras (vv. 25-26). Ademais, a seita marcionita destacava-se pelo espiritualismo e rigorismo nas práticas ascéticas, cuja causa era a gnóstica recusa da matéria como algo mal em si, criação do deus demiurgo, revelado no Antigo Testamento. No entanto, como foi dito antes, Prudêncio recorre com frequência às metáforas e imagens agrícolas para se referir a Marcião e à sua figura, Cain, chamando-o mundi colonus105 (PrH. 49) e exterior terrenus homo (Ham. v. 12). Ainda no primeiro verso do Praefatio, ocupando a posição mais forte ao fim, o vocábulo duo nos lembra que a questão sobre a unidade ou dualidade de Deus será um dos temas importantes que o poema pretende denodar106. O emprego das palavras prima, primos 105 Colonus significa aquele que cultiva e trabalha no campo, mas sua raiz nos faz remeter ao verbo colere e ao sentido religioso de “cultuar”, como se Marcião fora um “cultor do mundo”. 106 Prudêncio emprega muitas vezes, ao longo do Praefatio e no corpo do poema, várias palavras que significam a noção de dualidade, como duo, duplex, bina, bifidas, etc. Considerado apenas o Praefatio, temos duo (v. 1, 46), duitas (v. 37), duorum (v. 45), duos (v. 60). 127 (v. 2) e primordia (v. 4) sugere a antiguidade da entrada do pecado no mundo, já no início da Criação. 5.2. O diteísmo de Marcião e os argumentos em prol da unidade de Deus No início do carme em hexâmetros, Prudêncio contesta o dualismo de Marcião com três argumentos principais, faz sua profissão de fé no Deus uno, provoca o herege a explicar sua doutrina e assume a defesa da doutrina católica sobre a unidade de Deus contra a heresia marcionita, como já ocorrera no Praefatio (vv. 36-47). Prudêncio não é original na argumentação, mas antes se filia à tradição apologética de Irineu de Lion (Aduersus Haereses) e, principalmente, de Tertuliano (Aduersus Marcionem), os quais já tinham tratado a matéria da unidade de Deus contra o marcionismo nas obras mencionadas. Do ponto de vista lexical, introduz-se a oposição entre unidade (v. 2: unus) e dualidade (v. 2: diuisor e v. 3: bifidae). Nos primeiros versos do poema (vv. 1-125), de caráter mais dogmático, essa oposição de termos reflete no âmbito lexical o confronto entre monoteísmo e diteísmo, a fim de afirmar a doutrina da unidade de Deus contra a heresia de Marcião107. 5.2.1 Caracterização de Marcião Entre os vv. 1-125, Prudêncio apostrofa Marcião em três ocasiões (vv. 1, 56, 124). O poeta se dirige a ele como a um rival que, embora já morto, ainda vive na sua doutrina e nos seus seguidores, os marcionitas (PrH. 37). O emprego frequente dos pronomes de segunda pessoa do singular (v. 1: te, tua; v. 2: tibi; v. 6: tibi; v. 56: tibi, tua; v. 58: te; v. 124: tua) e do imperativo (v. 61: aspice; v. 108: dic, age; v. 110: ede) fazem com que Marcião esteja sempre presente, na condição de destinatário da fala do poeta, o qual se identifica na primeira pessoa do discurso (v. 80: ausim), dando o tom polêmico e pessoal desta seção do poema. Cain é mencionado como figura de Marcião (v. 1), o que se percebe graças ao Praefatio e aos adjetivos perfidus (v. 1) e blasfemus (v. 2). 107 Nos 125 versos iniciais, o vocábulo unus (nos seus diversos casos e derivados, como unicus) aparece 23 vezes, das quais 13 nas posições mais fortes do verso (10 no último lugar: vv. 2, 9, 22, 27, 28, 40, 43, 45, 55, 92; e 3 vezes no primeiro lugar: vv. 52, 55, 76). No poema inteiro, unus (nos seus diversos casos) ocorre 37 vezes: 18 no fim do verso (vv. 180, 347, 353, 563, 564, 797, 887 e 932, além dos lugares citados), 5 no início (v. 349, 687 e nos lugares citados) e 14 vezes nas demais posições do verso (vv. 20, 32, 37, 39 43, 47, 71, 77, 78, 348, 568, 802, 803 e 891). Se consideramos o Praefatio, fica mais evidente o destaque dado por Prudêncio ao vocábulo unus, em virtude da posição no verso (cf. nota do Praefatio). Os termos que, por sua vez, se relacionam com a noção de divisão e dualidade são os seguintes nos vv. 1-125: diuisor (v. 2), bifidae (v. 3), duo, diuortia (v. 4), geminis (v. 5), duplex (v. 6), diuiduum (v. 7), bina (v. 8), duos (v. 11), duo (v. 13), ambos (v. 15), dispare (v. 16), duplex (v. 17), diuisus (v. 18), alternaque (v. 19), duo, dispare (v. 21), alter (v. 25), dispar (v. 26), discretio (v. 26), alter (v. 37), duos (v. 45), alter (v. 48), duorum (v. 49), geminum (v. 51), utrumque (v. 53), duobus (v. 57), duplex (v. 59), biuio (v. 60), geminatum (v. 66), duo (v. 69), duos (v. 85), bifidas (v. 93), duo (v. 95), gemello (v. 96), dissona (v. 101), duos (v. 107), duo, utroque (v. 122). 128 Não apenas com argumentos lógicos e teológicos Marcião é atacado por Prudêncio. Importa notar como a retórica prudenciana caracteriza o herege com imagens relacionadas ao intelecto e à visão. Prudêncio empregará a imagem da cegueira e da desordem mental para descrever o estado de alma e mental do herege. Marcião é excors (v. 6), tolo, estulto arrastado pela rabies (v. 1) e pela frenesis (v. 124) a crer num deus dividido. A primeira referência a um estado mental desequilibrado se encontra no Praefatio, quando o poeta descreve a ofensiva da carne contra o espírito (v. 56-59). A mente do herege rodopia no cérebro embriagado (PrH. 57: mens in cerebro uentilatur ebrio). A doutrina marcionita é produto do delírio de uma mente entorpecida (v. 124: attoniti frenesis manifesta cerebri); um sono parece ter descido sobre o entendimento inepto de Marcião (vv. 58-59: quis somnus inerti/incubat ingenio), ou um estupor obtuso lhe tira o vigor da mente (v. 61: uim mentis hebes stupor obsidet). Marcião é terrenus e exterior (v. 12): “terreno”, como tudo o que é perecível e caduco; e “exterior”, relacionado com o que é do corpo e não da alma, e assim se opõe ao homo interior. Prudêncio novamente aplica ao herege o elemento agrícola, perecível e cadudo, em sentido depreciativo e contrário ao espírito e à vida, conforme o fizera no Praefatio. Segundo um modo oratório que nos remete ao exórdio da primeira catilinária de Cícero108, o poeta descreve que a rabies (v. 1) arrasta Marcião, precipitando-o não se sabe aonde. Uma das características da rabies é sua violência e arrebatamento, a ponto de cegar a razão. Marcião parece cego, por isso enxerga mal o mundo criado por Deus109. O defeito da visão é tratado inicialmente como metáfora para o embotamento do intelecto, que impede o conhecimento do real. Prudêncio definiu-o belamente no verso: Sunt animis etiam sua nubila, crassus et aer (v. 89). O poeta pergunta a Marcião se as nuvens (nubila) de uma visão bifendida o obscurece (v. 3). A visão dupla (ou diplopia) gera formas duplicadas, como uma estrada que se divide (duo per diuortia, vv. 4-5), por isso é enganosa. A ideia central desses versos se repete adiante: v 58: Quae te confundunt nebulae = v. 3: et bifidae caligant nubila lucis?; v. 59: per fantasmata = v. 5: in geminis... figuris; v. 60: biuio dispersa superno = vv. 4-5: duo per diuortia... spargitur; vv. 59-60: duplex... species = v. 6: forma duplex. Continuaremos a tratar do significado dessas imagens ao discorrer sobre Deus na Criação, um dos argumentos usados por Prudêncio contra o diteísmo. 108 Quousque tandem, Catilina..., dadas algumas semelhanças, como o advérbio quo logo no princípio do poema, o verbo praecipitat, que indica a mesma precipitação desenfreada de frase ciceroniana sese effrenata iactabit, a rabies tua equivalente a furor iste tuus, a série de interrogações com que ambos, Cícero e Prudêncio, se dirigem a seus interlocutores, revelando espanto e desafio. 109 A metáfora da visão desempenha função importante no poema, como no segundo argumento de Prudêncio, sobre Deus na Criação. 129 5.2.2. Os argumentos contra o diteísmo de Marcião Prudêncio era um poeta de grande talento oratório, mas não um teólogo, por essa razão não se deve esperar dele novidade no tratamento dos temas teológicos. Ao contrário, repete ele a doutrina ortodoxa da Igreja e os grandes teólogos apologetas que o antecederam. Não é de estranhar, portanto, que Prudêncio se tenha baseado em alguma medida na obra de Tertuliano, Aduersus Marcionem para a composição de Hamartigenia. Os críticos, no entanto, divergem grandemente sobre o modo como isto se deu (STAM, 1940, pp. 9-12). Que uso teria feito Prudêncio da obra de Tertuliano? Teria aproveitado ideias, argumentos, vocabulário do teólogo? Ou antes seria acidental o reflexo de Tertuliano no poema de Prudêncio, que se basearia antes na tradição heresiológica? Como quer que seja, há notáveis convergências entre as duas obras, e delas se tratará aqui. Não pretendemos decretar se Prudêncio seguiu conscientemente os passos de Tertuliano, ou se, como dito, apenas procurou manter-se numa tradição apologética, cujos argumentos e recursos oratórios para refutar as doutrinas heréticas se tornavam quase lugares-comuns. Os livros I e II de Aduersus Marcionem discorrem sobre o tema da unidade de Deus, tratado por Prudêncio nos primeiros 125 versos de Hamartigenia: no livro I, Tertuliano refuta o dualismo de Marcião; no livro II, expõe a doutrina católica sobre o Criador e sobre a unidade de Deus. BRAUN (1990, p. 31) explica a estratégia de Tertuliano nos dois livros: La caractéristique de ces livres est de mettre en oeuvre une méthode de discussion rationnelle, fondée sur les arguments logiques, en renvoyant à plus tard l'examen des assises scripturaires de la doctrine. [...]. Em comparação com a estratégia de Prudêncio, nota-se que é a mesma. De fato, na refutação do dogma marcionita, não sendo a unidade de Deus matéria adstrita à revelação divina, o poeta não faz uso de fundamentos escriturísticos, mas de argumentos lógicos e racionais. Os próprios filósofos pagãos conseguiram alcançar, com a luz da razão natural, um único princípio das coisas110. Antes de contradizer os postulados da doutrina marcionita, Prudêncio desfaz um equívoco: duas coisas inquietam o homem neste mundo – a presença do bem e do mal e, principalmente, a necessidade de discernir o que é bom e o que é mau (vv. 8-11); daí não se deve concluir, porém, que haja dois deuses. Trata-se de um non sequitur que leva Prudêncio ao primeiro argumento, de natureza lógica. 110 Cf. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, Iª q. 11 a. 3 co. 130 a) O sumo é diminuído pelo díspar (vv. 17-26): ao afirmar que existem dois deuses, Marcião lhes confere o atributo de summus (“sumo”, “supremo”, “altíssimo”), que é próprio da divindade, embora a natureza deles seja diversa: um, criador do mal; o outro, do bem (vv. 14-16). Prudêncio, em resposta, afirma que dois poderes supremos não podem ser tais, sem que o que há de diferente em um não reivindique a si a mesma supremacia, diminuindo o outro (vv. 17-26). O supremo poder pertence a um só Deus. Admitidos dois deuses, ambos deixam de possuir o supremo poder e, por conseguinte, não são deuses (vv. 20-21). Prudêncio condensa numa série de máximas, de teor forense e de alto vigor oratório, o cerne do seu argumento: nihil summum nisi plenis uiribus unum (v. 22), ius uarium non est plenum (v. 25), non habet alter quiquid dispar habet (v. 26-27), cumulum discretio carpit (v. 26). Para Prudêncio, o summus é uma característica essencial à definição da divindade, daí a recorrência do termo nos versos desta seção do carme (vv. 16, 20-22, 24, 31, 55). Summus é o que detém o máximo poder, o que está no mais alto posto hierárquico, o mais digno e perfeito. Ademais, Deus é plenus (v. 22, 25, 27-28): unus, summus, plenus são atributos da divindade, conversíveis entre si, de modo que, se há dois deuses, nenhum deles é uno, nem sumo, nem pleno. Entre o primeiro argumento e o segundo, encontra-se um interlúdio em que o poeta faz sua profissão de fé (nos... testemur) na unidade, na plenitude e no supremo poder de Deus (vv. 27-30), atributos que a doutrina marcionita nega. Ao empregar o plural da primeira pessoal, é como se Prudêncio falasse como membro da Igreja, expositor da fé e da doutrina católica. O dogma da divindade de Cristo, tratado em Apotheosis, é novamente professado (v. 28 ss.), e, após uma lista de perífrases111 que descrevem Deus como Criador e origem de todas as coisas (vv. 31-33), Prudêncio expõe que Cristo, sendo Deus, não é “outro” Deus, mas possui a mesma natureza divina do Pai (vv. 36-55). Como Marcião, em sua heresia, identificava o deus mal com o Deus Pai e o deus bom com Jesus Cristo, Prudêncio argumenta que o Pai e o Filho são um, de igual natureza (v. 51-52). E, para esse fim, novamente lança mão de um argumento lógico: o uno, sendo o princípio do número, não pode ser numerado (vv. 36-37). Deus, sendo uno, fez com que uma coisa existisse após outra coisa (v. 35), mas Cristo, gerado pelo Pai por geração simples (v. 42), não é segundo após o seu Genitor, sendo anterior ao número (v. 39): 111 Alguns estudiosos atribuíram o recurso frequente que Prudêncio faz da enumeração à sua origem espanhola (cf. LAVARENNE, 1933, §§ 1580, apud PALLA, 1981, p. 281). Aliás, o que no poeta parece excessivo, desmedido, de “mal gosto” (pois “anticlássico”), esses estudiosos explicam por esse mesmo critério, com o qual, por suposto, não costumam concordar os críticos espanhóis. Sobre o uso da enumeração, PALLA (loc. cit.), comentando os vv. 760-762, atribui o recurso a uma prática comum dos autores medievais: “È più opportuno parlare di caratteristica medievale dello stile prudenziano, visto che nel corso del Medio Evo la tendenza alle enumerazioni registra un aumento continuo e che esse in questo periodo, ben lunghi dall'essere considerate un difetto, finiscono per diventare, insieme a giochi di parole e virtuosismi del genere, banco di prova per misurare l'abilità del poeta”. 131 o Pai genitor e o Filho gerado antes do caos não se submetem ao tempo e ao número (vv. 43- 44). Não são dois deuses diferentes. Tendo exposto o dogma da natureza divina de Cristo e da unidade deste com o Pai, o poeta, dirigindo-se novamente a Marcião (v. 56), passa ao segundo argumento contra o diteísmo marcionita. b) A Criação fala de Deus (vv. 61-84): uma vez que o intelecto de Marcião parece estupidificado e incapaz de compreender os argumentos sobre a unidade de Deus (v. 61), o poeta exorta-o ao menos a ver (v. 61: aspice saltem) os elementos postos pelo Criador diante dos olhos humanos (v. 62), pois são sinais que revelam verdades escondidas sobre a natureza divina (v. 63). Segundo uma tradição judaica, expressa nos Salmos e no livro da Sabedoria (Sb 13, 1-8), bem como por S. Paulo (Rm 1, 20) e continuada pelo cristianismo, a Criação foi como que a primeira revelação de Deus e é um “livro” que o homem é capaz de “ler” e pelo qual pode alcançar um conhecimento sobre o Criador. Os mistérios de Deus (res occulta dei, na expressão prudenciana, e invisibilia ipsius [dei], na paulina) se refletem no espelho das criaturas (v. 83: paruorum speculo). O Criador quis que o homem conjecturasse sobre a sua grandeza (v. 81: grande suum), seu poder e divindade eternos (Rm 1, 20) a partir das coisas inferiores (v. 81: ex minimis), de tal modo que, partindo do que está mais próximo (v. 84: per proxima), conseguisse chegar às verdades mais altas, as quais ao homem não foi dado conhecer diretamente neste mundo (v. 82). A fim de monstrar como Deus revela alguns de seus atributos divinos por meio da Criação, Prudêncio oferece o exemplo do sol (vv. 67-78). Considerando esse astro, o homem pode presumir o mistério do Deus uno e trino112. Pois o mesmo sol que faz os dias e os anos, embora seja um só, realiza três ações: resplandece, voa e arde no céu. É uma única substância em três funções. De modo análogo, existe uma só natureza divina em três Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo). Não são três deuses. Aqui convém retomar o que já foi dito sobre o defeito de visão, metáfora para a dificuldade de Marcião compreender a natureza de Deus. Assim como alguém enxerga dois sóis porque padece de uma enfermidade dos olhos (v. 85), ou porque uma nuvem se espalha e lhe cobre o céu, reverberando o raio solar em órbitas ilusórias, assim também a alma pode sofrer de uma espécie de catarata, ou carregar nuvens e caligem dentro de si, que lhe impedem a reflexão e a compreensão da unidade de Deus (vv. 89-94). 112 Segundo PALLA (1981, p. 152), embora no séc. III Sabélio já propusesse o exemplo do sol como símbolo da Trindade, Prudêncio provavelmente ecoa um exemplo que devia ser comum nas discussões teológicas de seu tempo, principalmente contra o arianismo. Cf. nota ao v. 75. 132 Finalmente, como último argumento em prol da unidade de Deus e contra o diteísmo de Marcião, Prudêncio questiona que, se se admitissem dois deuses, por que não mais, ao infinito? c) O diteísmo é um politeísmo (vv. 95-105): mediante uma série de perguntas retóricas, recurso frequente no poema, Prudêncio indaga por que apenas haveria dois deuses, e não milhares. Pois, no seu fundamento, o diteísmo é um politeísmo. O poeta refere-se aos deuses pagãos como monstros (v. 99) e sombras (v. 106), cultuados por uma gente bárbara cujos sacrifícios são perecíveis (v. 100). De modo irônico, diz que, se há mais de um Deus, convém designar a cada criatura o seu deus próprio (vv. 101-105), como fizeram os pagãos, e, como lhe é característico, encerra sua argumentação com uma máxima jurídica, ao modo de chave- de-ouro: “a cada qual o que lhe é direito” (v. 105: sua cuique iura). Tendo apresentando suas três principais objeções ao dualismo de Marcião, com argumentos lógicos e segundo a razão, Prudêncio, ainda ironicamente, convoca o herege a explicar melhor sua doutrina dualista, já que este não parece disposto a aderir ao paganismo (vv. 106-110). O tom é desafiador e impaciente (v. 108: dic age, ede). Os termos técnicos ainda remetem ao discurso jurídico (v. 110: Ede... ius). 5.2.3. Exposição do diteísmo marcionita Entre os vv. 111-123, ouvimos a voz de Marcião, um discurso qualificado inicialmente de grauis e dialecticus (v. 124), mas logo em seguida definido como “delírio manifesto” (v. 125). Eis a súmula do credo marcionita conforme Prudêncio: há um deus, autor do mal e dos crimes todos que há no mundo (vv. 112-113), deus esse que é o criador do mundo (v. 116) e do homem (v. 117); além dele, há outro deus, clemente, que veio em socorro do homem para lhe dar a salvação (vv. 120-121). O primeiro promulgou o Antigo Testamento, o segundo o Novo Testamento (v. 122-123). Nesta breve exposição, Prudêncio transmite essencialmente a doutrina de Marcião, tal qual nos chegou. Como diz PALLA (1981, p. 161), o fato de o poeta não se alongar em expor com mais detalhe a doutrina marcionita não significa que ele a ignorasse, mas que isso fugiria ao fio condutor do poema e à sua economia. Convém notar que Prudêncio dedica nove versos para descrever o deus que introduziu o mal no mundo, enquanto apenas dois versos ao deus bom, o que comprova sua preocupação em ater-se à origem do mal, argumento do carme. Prudêncio volta a tratar da doutrina da schola marcionita um pouco adiante, ao descrever a figura do demônio. Desta vez já não é pela boca de Marcião que fala o poeta. A 133 doutrina marcionita ensina que um tirano (v. 175) despontou subitamente das trevas, onde vivera e reinara desde toda a eternidade (vv. 176-177). Esse deus tirano seria inimigo (v. 178: aemulus) das obras do deus bom; para corrompê-las é que ele teria se despertado (v. 179) da sua noite eterna (v. 176). Prudêncio intercala a oração ut memorant (v. 178), a fim de indicar que transmite o que leu ou ouviu dizer, talvez dos próprios discípulos de Marcião. Tal doutrina contradiz a fé ensinada pela Sagrada Escritura (v. 180-182), na medida em que afirma que Deus não criou todas as coisas e as que criou não eram todas boas (vv. 182-183). Novamente falando em primeira pessoa do plural, como é de costume quando expõe a doutrina comum dos fiéis da Igreja, Prudêncio diz que a razão (v. 180: ratio... nostra) não pode debilitar unidade da fé. Assim, estabelece uma hierarquia entre fé e razão, em que esta se submete àquela, ao que Marcião, com sua uox dialectica, não obedece. 5.3. A Criação: corruptio boni 5.3.1. Deus uno fez todas as coisas boas no princípio O poeta retoma a discussão sobre a origem do mal em termos teológicos. No princípio da Criação, o homem não era enganado pela aparência das coisas, não se ocultava um triste veneno sob o bem aparente (vv. 335-336). Quando Cristo, o Verbo divino, criou o mundo, tudo era santo e bom para o homem (vv. 337-338). Pela primeira vez no poema Prudêncio menciona explicitamente uma passagem da Sagrada Escritura para corroborar a doutrina sobre a Criação do mundo: Moisés, a quem se atribui o livro do Gênesis, é chamado de “historiador do mundo nascente” (v. 340: historicus mundi nascentis). Vidit deus esse bonum quodcumque creauit (v. 341) resume num verso o capítulo I do livro do Gênesis. Prudêncio volta a reafirmar a doutrina católica contra o dualismo: não há dois deuses, um dos quais, iníquo e injusto, seria o autor do mal que existe na Criação, como diz Marcião (vv. 350-353). Ao contrário, tudo o que fez Deus e a Sabedoria, Cristo, é bom (v. 345: bonum esse quiquid deus et Sapientia fecit): Deus Pai é o autor do bem, e não do mal, e com Ele o Filho (v. 346). Pai e Filho são um só Deus, possuem a mesma natureza divina e a mesma vontade (vv. 347-349). E, numa só sentença, apresenta o dogma: “um único criador deu à luz todas as coisas” (v. 353). A fim de que conceitos tão abstratos penetrem com mais clareza na inteligência, Prudêncio usa a imagem da fonte, cujas águas brotam puras e depois se sujam no contato com os dejetos (vv. 354-357): a Criação também saiu pura e santa das mãos de Deus e foi maculada em seguida pelo pecado do demônio e do homem. 134 O poeta prossegue em forma de discurso, fazendo perguntas a um ou mais destinatário (vv. 358-359). Imaginamos que se trata de Marcião, mas, na estratégia do gênero didático, o leitor se inclui como potencial destinatário da mensagem. Marcião acreditava que a matéria era intrinsecamente má, daí o ascetismo exacerbado praticado por ele e seus discípulos, como a interdição ao casamento. Prudêncio, em resposta, argumenta que as criaturas não foram criadas más em si mesmas (v. 359) e dá os seguintes exemplos: a) a espada não é responsável pela degola do homem, mas a mão de outro homem (vv. 360-361); b) o cavalo não é a causa do furor e do estrépito no circo, mas a loucura do povo (vv. 361-364); c) não é o azeite a causa dos atos libidinosos entre os lutadores nas palestras (vv. 365-366); d) não é a corda a causa da queda e morte dos funâmbulos (vv. 367- 368); e) o touro e o leão não são responsáveis pelas mortes nos espetáculos de gladiadores (vv. 369-374). 5.4. A origem do mal e caracterização e natureza do diabo 5.4.1. O diabo, autor do mal Como resposta à heresia de Marcião, Prudêncio apresentará a solução da doutrina católica para o problema do mal. Ambos reconhecem a existência do mal no mundo, mas divergem quanto à sua origem. Prudêncio fala como membro da comunidade de fiéis da Igreja. Como já fizera no v. 27, o poeta emprega a primeira pessoa do plural para expressar a crença comum dos fiéis católicos: nouimus... nouimus (v. 126). Retomando uma expressão posta antes no discurso de Marcião, quando este chamara de deus dos crimes (v. 112: scelerum deus) o demiurgo da Criação, Prudêncio afirma que os cristãos sabem que existe o pai dos crimes (v. 126: patrem scelerum), mas que este, contrariamente à doutrina marcionita, não é deus. O pai e autor dos crimes é o demônio. Ele é o cabeça donde nasceram os males (v. 203), dele fluiu a origem do mal (vv. 203-204). Neste tópico discorreremos sobre o diabo como autor e origem dos males do mundo, a natureza inicial do diabo antes da queda e depois da queda e sua transformação física. 135 5.4.2. Caracterização e descrição física do diabo A descrição da aparência física do diabo, feita por Prudêncio no curso dos vv. 129- 135, é considerada a primeira na poesia cristã ocidental, e por isso serviu de modelo para posteriores caracterizações do anjo caído, sobretudo nas artes plásticas. A doutrina cristã discorre sobre o demônio e suas ações do ponto de vista moral e teológico, mas, sendo ele uma realidade espiritual, não seria possível representá-lo senão por meio de um símbolo ou metáfora, como no caso da serpente do Gênesis ou do leão na Epístola de S. Pedro. A caracterização moral do diabo começa a ser feita já no Praefatio, onde é mencionado pela primeira vez no poema como peremptor (PrH. 19). O demônio é o assassino do homem, pois pode arrastá-lo à condenação eterna (cf. Mt 10, 28)113. Chamado ironicamente de marcionita deus (v. 129), pois equivale ao demiurgo de Marcião, o demônio está condenado a ser “escravo da geena” (vv. 127-128), de onde não sairá jamais. Tal é sua maldade, porém, que merecera ser condenado ao Averno dos pagãos (cf. nota ao v. 128). O diabo é triste, feroz e traiçoeiro (v. 129: tristis, ferus, insidiator). A partir do emprego lexical de Prudêncio para a descrição do demônio e do deus marcionita (vv. 110 ss.), é possível estabelecer uma relação direta entre o caráter e a fisionomia de ambos. Com efeito, o demônio é tristis e de “altiva fronte” (v. 130: uertice sublimis), já o deus marcionita reside “sublime num triste baluarte” (v. 111: tristi... sublimis in arce); aquele é ferus (v. 129), este é asper (v. 111); aquele é insidiator (v. 129), este é auctor nequitiae (v. 112). O deus marcionita é associado à imagem da serpente (v. 114: anguino... suco), tal como o demônio (vv. 131 e 134-135). Assim como o deus iníquo (v. 112: iniquus) de Marcião tirou do rastilho da morte (v. 115: mortis de fomite) o princípio das coisas (v. 115), do rastilho do ciúme (de fomite zeli) ardeu o ódio do demônio e lhe acendeu sua inclinação iníqua (ingenium... iniquum) (vv. 188-189). O demônio é um senhor indigno (v. 383), um poderoso salteador (v. 390: praedo potens; v. 949: praedo), o ímprobo inimigo (v. 406), perverso poder dos crimes (v. 424: scelerum peruersa potestas), ladrão perjuro (v. 508), leão decrépito (v. 559), indiano noturno (v. 634), serpente astuta (v. 711), truculento da gente dos ladrões (v. 946). Fisicamente, o demônio é uma criatura cuja cabeça, repleta de cobras (v. 131: anguiferum caput) e cercada de escuras nuvens (v. 130: nubibus atris), é rodeada de fumo e fogo (v. 131). Seus olhos são lívidos (v. 132) e uma densa cabeleira (v. 134: iuba densa) de 113 Mt 10, 28: Et nolite timere eos, qui occidunt corpus, animam autem non possunt occidere; sed potius eum timete, qui potest et animam et corpus perdere in gehenna. 136 cobras d’água agitadas (v. 134: errantibus hydris) lhe encobre os hirsutos ombros (v. 134). Cerastas verdes lambem seu rosto (v. 135), como na representação das Fúrias (Erínias), o que sugere uma contaminação de elementos mitológicos pagãos. Mas em seguida se introduz um elemento que distingue substancialmente a figura do demônio das Fúrias ou de qualquer outra divindade pagã infernal: a inveja (v. 133). Mas nem sempre foi assim terrível o demônio. Criado por Deus, como os outros anjos (v. 163 e v. 166), no princípio era o de mais belo aspecto (v. 167: pulcherrimus ore) e radiava como um astro majestoso, de imenso esplendor e dignidade (vv. 161-162). Como em tudo na Criação, sua natureza era boa (v. 184: factus de stirpe bonus e v. 185: primo generis de fonte serenus) e ordenada ao bem (vv. 184-185: bonitatis in usum/proditus). Eis que, inflado de orgulho de sua excelência (v. 168), presumiu-se de que dera origem a si mesmo, sem ter Deus como autor (vv. 171-173). Ao descrever a queda do demônio, Prudêncio usa de palavras e imagens que ilustram num crescendo exterior o pecado da soberba: nimiis... uiribus auctus/inflatur (vv. 168-169), grande tumens sese altius effert (v. 169), ostentat... iactantius (v. 170). À soberba somou-se a inveja. Como diz S. Agostinho (Serm. 354): Non potest superbus esse non invidus. Invidia filia est superbiae. [...] Prior est in vitiis superbia, ut dicere coeperam, deinde invidia. Non enim invidia peperit superbiam, sed superbia peperit invidiam. Non enim invidet, nisi amor excellentiae. Amor excellentiae, superbia vocatur.114 O demônio, pois, infectado pela inveja (v. 187), corrompeu-se por vontade própria (vv. 186 e 204). A causa da inveja do demônio foi o homem: este, embora de natureza inferior (v. 190: argillam), foi posto por Deus como senhor da Criação (vv. 191-192), rei da terra (v. 194), de modo que todas as coisas lhe servissem (vv. 192-194). O demônio, bestia (vv. 196- 197), inflou-se de indignação, ira, azedume, e sofreu uma transformação em sua natureza. 5.4.3. Transformação do diabo Prudêncio descreve a transformação por que passou o demônio após a queda, de uma criatura augusta e radiante se degradou num animal selvagem (bestia), com características próprias de uma serpente, figura do diabo no livro do Gênesis (Gn 3, 1-15). E, assim como no 114 “Não pode o soberbo não ser invejoso. A inveja é filha da soberba. [...] Nos vícios se encontra primeiro a soberba, como eu começara a dizer, depois a inveja. Não é a inveja que produziu a soberba, mas a soberba é que produziu a inveja. De fato, apenas amor à excelência inveja, e o amor à excelência se chama soberba.” (tradução nossa) 137 livro do Gênesis, em que o diabo persuadiu o homem a pecar, assim também o poeta tratará em seguida de como como o demônio, após corromper-se a si mesmo, corrompeu o homem. Prudêncio se serve de Virgílio, tanto da Eneida (A. 2, 471-475) quanto das Geórgicas (G. 3, 423-439), para descrever a transformação do demônio. Para demonstrá-lo, faremos a comparação dos trechos, principalmente do léxico empregado por ambos os poetas. Abaixo se seguem os respectivos trechos virgilianos e, após, o lugar prudenciano: qualis ubi in lucem coluber mala gramina pastus, (A. 2. 471-475) frigida sub terra tumidum quem bruma tegebat, nunc, positis nouus exuuiis nitidusque iuuenta, lubrica conuoluit sublato pectore terga arduus ad solem, et linguis micat ore trisulcis.115 cum medii nexus extremaeque agmina caudae (G. 3. 423-427, 433-439) soluuntur, tardosque trahit sinus ultimus orbis. est etiam ille malus Calabris in saltibus anguis squamea conuoluens sublato pectore terga atque notis longam maculosus grandibus aluum, [...] exsilit in siccum, et flammantia lumina torquens saeuit agris asperque siti atque exterritus aestu. ne mihi tum mollis sub diuo carpere somnos neu dorso nemoris libeat iacuisse per herbas, cum positis nouus exuuiis nitidusque iuuenta uoluitur, aut catulos tectis aut oua relinquens, arduus ad solem et linguis micat ore trisulcis.116 Bestia sorde carens, cui tunc sapientia longi (Ham. 197-202) corporis enodem seruabat recta iuuentam, conplicat ecce nouos sinuoso pectore nexus inuoluens nitidam spiris torquentibus aluum. Simplex lingua prius uaria micat arte loquendi et discissa dolis resonat sermone trisulco.117 Ambos os trechos de Virgílio guardam entre si uma semelhança muito grande, tanto no léxico, quanto na estrutura dos versos; por exemplo, o mesmo verso: arduus ad solem et linguis micat ore trisulcis (A. 2. 475 e G. 3. 439) e outro quase idêntico, com apenas a 115 “Qual cobra vindo à luz, quando, alimentada de má erva/sob a terra fria na bruma se escondia entumescida/mas agora, deposta a pele, nova e brilhante em juventude,/convulsiona o lúbrico dorso, erguido o peito/empinado ao sol, e vibra-lhe a boca em línguas trisulcadas.” (tradução própria) 116 “Havendo-se quedrado os nós do meio,/Assim como do fim da cauda as roscas;/E as voltas vai fazendo vagarosas./Há também nas florestas da Calábria/Essa terrível serpe, que revolve/Seu escamoso dorso e eleva o peito,/Mostrando o longo ventre grandes malhas./[...]/Sai de acolá, e os olhos inflamados/Retorcendo nos campos se enraivece,/Exasperada por calor e sede./Oxalá a vontade não me tome/De ao sereno gozar do doce sono/Nem me deitar na lomba da floresta,/Quando, mudada a pele, a juventude/A cobra adquire, ou quando em seu buraco/Os filhos ou os ovos deixa e eleva,/Fulgindo, para o sol trisulca língua.” (trad. de João Felix Pereira, Lisboa, 1875, com a ortografia atualizada). 117 “A besta, sem nódoas, de sabedoria que então reta/conservava a juventude lise de um corpo esguio,/eis que novas pregas no sinuoso peito dobra,/envolvendo o ventre em retorcidas espirais, brilhante./Simples a língua antes, vibra na arte vária da eloquência/E, fendida de dolos, ressoa numa linguagem trissulca.” 138 diferença do monossílabo na primeira casa do hexâmetro: nunc/cum positis nouus exuuiis nitidusque iuuenta (A. 2. 473 e G. 3. 437); por fim, outro verso com uma diferença léxica e com o mesmo verbo em forma diversa: lubrica conuoluit sublato pectore terga (A. 2. 474) e squamea conuoluens sublato pectore terga (G. 3. 426). Dadas as referidas semelhanças, é impossível afirmar com certeza em qual dos dois trechos se baseou Prudêncio. Talvez em ambos. O que é possível dizer é que um leitor de Virgílio, como era Prudêncio, perceberia facilmente a convergência léxica das duas passagens. No entanto, em Hamartigenia não ocorre propriamente a transformação do demônio numa serpente, nem Prudêncio menciona o animal. Lúcifer continua a ser uma criatura angélica, e, pois, espirigual. Assim, não se pode afirmar que o demônio passa por uma metamorfose (ainda que pareça), mas por uma deformação do estado anterior de excelência e beleza num estado degradante e corrompido moralmente. Embora a comparação com a serpente não seja explícita no novo estado caído do demônio, isso se deduz não só dos termos empregados por Prudêncio nos versos citados, senão também pela semelhança com os dois trechos virgilianos, os quais dizem respeito claramente a serpentes. Prudêncio, baseando-se em descrições da serpente feitas por Virgílio, conserva a simbologia da tradição bíblica na representação do demônio, conforme o livro do Gênesis (Gn 3, 1-15), onde este, em forma de serpente, ilude Eva e a faz comer do fruto proibido. Além disso, no livro do Apocalipse de S. João (Ap. 12, 9), diz-se: “E surgiu aquele grande dragão, antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, e que seduz o mundo inteiro”118. Como já foi dito, a natureza inicial do demônio era nobre, sem manchas (v. 197: sorde carens). Conservava uma juventude sem rugas (v. 198: enodem... iuuentam). O vocábulo iuuenta aparece nos trechos virgilianos em referência à brilhante jovialidade da serpente após trocar sua pele, estando sempre ligado ao adjetivo nitidus (A. 473, G. 437), o qual Prudêncio, por sua vez, emprega para aluus (v. 200). Os verbos conplicat (v. 199) e inuoluens (v. 200), usados por Prudêncio, ecoam conuoluit (A. 474) e conuoluens e uoluitur (G. 426 e 438) de Virgílio. Prudêncio usa o adjetivo nouus em relação às dobras, pregas (v. 199: nouos... nexus), enquanto Virgílio chama “nova” à serpente após trocar sua pele (A. 473 e G. 437). Apenas no trecho das Geórgicas consta o vocábulo nexus (v. 423), assim como sinus (v. 424), cujo derivado sinuosus será empregado por Prudêncio na expressão sinuoso pectore (v. 199). Outros vocábulos que constam apenas no lugar citado das Geórgicas é aluus (v. 427), já mencionado, e torquens (v. 433), usado por Prudêncio na expressão spiris torquentibus (v. 200). Por fim, e numa alusão depreciativa à retórica (v. 201: arte loquendi), valendo-se da 118 Cf. Ap 12, 9: Et proiectus est draco ille magnus, serpens antiquus, qui uocatur diabolus, et Satanas, qui seducit uniuersum orbem. 139 segunda parte do hexâmetro de A. 2. 475 e G. 3. 439 (... linguis micat ore trisulcis), e aproveitando três destes termos (v. 201: lingua, micat e v. 202: trisulco, além do mesmo campo semântico de ore e sermone), o poeta se refere implicitamente ao diálogo entre Eva e o demônio (agora feito serpente), que usou da sua eloquência (v. 202), dolos (v. 202: dolis) e de uma linguagem enganosa (v. 202) para persuadi-la a comer o fruto. Portanto, vê-se que na descrição da corrupção física do anjo caído Prudêncio não usa servilmente o texto de Virgílio, mas recria-o com originalidade, variando os termos, fazendo o leitor enxergar a transformação do demônio numa serpente, sem que de fato ela ocorresse, e assim conjugando com o símbolo da serpente no livro do Gênesis, de tal modo que preparasse o tema da queda do homem e da Criação. 5.5. O homem: criação, corrupção e vícios Quando trata do livre-arbítrio da alma humana, Prudêncio introduz uma fala de Deus a Adão, com a qual define a dignidade do homem recém-criado e suas prerrogativas (vv. 697- 707). O Criador enaltece Adão com os seguintes atributos: não submetido a nada (insubiectus, v. 699), poderoso soberano da Criação (potens rerum arbiter, v. 699), árbitro e juiz da sua própria alma (arbiter idem et iudex mentis propriae, v. 699-700). Mas a liberdade e supremacia do homem sobre si mesmo e sobre a criatura não é ilimitada e isenta de obrigações. Deus concedeu-lhe a faculdade de eleger, mas quis que escolhesse a vida e não a morte (v. 705); ordenou que o homem se submetesse ao seu Criador, não à força, mas por livre vontade, buscando o justo e evitando o injusto (vv. 701-703). Assim foi criado o homem. 5.5.1. A corrupção do homem e da Criação pelo pecado O demônio, tendo recebido de Deus uma natureza boa, corrompeu-se a si mesmo por soberba e inveja, invejou o homem e sua condição de senhor da Criação, querida pela vontade divina. Após causar sua própria ruína (v. 204), perdeu também o homem (v. 205). A queda do senhor da criação (v. 206: subuerso praeside) provocou igualmente a corrupção das criaturas (v. 215: erile malum... hausit). O símile do ladrão salteador que mata o dono antes de se apoderar do objeto desejado (vv. 208-215) ilustra a ação do demônio contra o homem. Que o mundo, tal como se encontra após o pecado original, é visto por Prudêncio sob um ângulo negativo, percebe-se no início do poema, quando Marcião é chamado cultor do 140 mundo (PrH. 49). O mundo é sórdido (vv. 8-9: sordens mundus), estulto (v. 375: stolidi... mundi), suas riquezas e encantos são aparentes (v. 332). Prudêncio certamente não discorda da sentença posta na boca de Marcião sobre “todo o mal que ferve neste mundo vicioso” (v. 113). Mas não é apenas o mal moral, os pecados e crimes praticados pelos homens. O mundo tornou-se um lugar cheio de riscos e perigos que ameaçam a vida humana (vv. 144-145), depois que o pecado cometido pelo senhor da Criação (v. 214: domino peccante) acarretou a corrupção de “toda a mobília deste mundo”, criaturas viventes e não viventes (vv. 206-207). O poeta lança o olhar sobre diversas situações da natureza animal, vegetal e mineral, que nos parecem comuns e naturais, mas, na verdade, revelam a desordem pós-pecado (vv. 236-237: oppositum... transcendunt modum) e uma corrupção do plano original de Deus (v. 236: destructo foedere certo). Eis os exemplos de corrupção da natura, por causa do pecado do homem: I) Males causados pela astúcia (sollertia) e pelo engano (fallacia) (vv. 224-225): a) nos campos nocivos (malignus) começou a produzir-se joio e bardana, e a cultura de trigo foi violada pelo sapé estéril (vv. 216-218); b) o leão aprendeu a alimentar-se dos vitelos e novilhos, morto o pastor (vv. 219-221); c) o lobo passou a invadir o redil das ovelhas (vv. 222-223); d) a ação das lagartas e das aves, contra as quais é inútil a proteção dos jardins e dos vinhedos cercados (vv. 226-229); e) o veneno mortífero de ervas, plantas e flores, infensos ao homem e aos animais (vv. 230-235). II) Males causados pela violência dos elementos da natureza (vv. 236-238): a) a impetuosidade dos ventos e das tempestades que derruba florestas e bosques (vv. 239-240); b) as águas dos rios caudalosos que transbordam as margens e alagam os campos (vv. 241-243). A desordem dos elementos da natureza antecipa, na estrutura do poema, a desordem das condutas humanas, que serão tratadas adiante. As criaturas transgridem as leis que Deus prescreveu para a Criação (v. 238: legirupis... uiribus; v. 246: placidas... leges), assim como o homem transgride no âmbito moral. O que se passa na máquina do mundo (vv. 248-249: mundana... machina), em nível macroscópico, dá-se também no interior da alma humana, em nível microscópico. Também uma laxa licentia (v. 245) levará o homem a cometer o pecado. Assim como os membros do homem são instrumentos sensíveis com os quais se cometem os pecados, assim os membros do globo se agitam e se fatigam em vícios. Todas as criaturas padecem as consequências do mal introduzido no mundo pelo demônio, corruptor do homem. 141 5.5.2. Os vícios da mulher e do homem Que dizer do mal no mundo, da desordem das criaturas, dos desastres, da carnificina dos animais, das pragas nas lavouras, se o homem mesmo, com sua vida desregrada e viciosa, oferece um mau exemplo? (vv. 250-251). Loucura (uaesania) e erro (error) movem o agir do homem depois do pecado (vv. 251-252). Prudêncio descreverá alguns dos vícios humanos, entre os quais aqueles mais comuns aos do seu tempo, como é próprio do satírico. Num primeiro momento, o poeta cita quatro consequências do pecado: as guerras, a sensualidade (uoluptas), a luxúria (libido) e a avareza (gurges auaritiae). O poeta retoma Virgílio (v. 257), mas, ao invés de apenas citá-lo ou repeti- lo, acrescenta uma noção nova à exclamação do poeta clássico: a avareza se torna tanto maior quanto mais ouro se obtém (v. 257). Apesar do claro empréstimo virgiliano do v. 257 (cf. nota ao verso), é a voz de Juvenal (Sátiras 6 e 14) que mais ecoa neste trecho do poema. As reminiscências agrárias continuam presentes no vocabulário e nas imagens, como no v. 258 (seges scelerum radix et sola malorum). Assim podemos classificar os tipos de vícios mencionados por Prudêncio, de acordo com o sexo da pessoa: a) primeiro, repreende os excessos da vaidade feminina (vv. 259-278) e a busca ávida por pedras preciosas para adorno (vv. 259-264) – coroas de enfeite (v. 268), colares (v. 269), orelhas carregadas de brincos (v. 270), cabelos, maquiagem (vv. 274-276); b) em seguida, censura os vícios masculinos (v. 279-297): o luxo dos enfeites (v. 282), roupas delicadas e atraentes (vv. 287-288, 290-291, 293-295), os perfumes efeminados (vv. 297- 298). A mulher, sexo frágil (v. 277: sexus male fortis), se caracteriza pela instabilidade de ânimo (v. 278: mens fragilis), que se deixa arrastar facilmente pelo vício, como no caso da esposa de Lot (vv. 725 ss.). Ao homem, “rei e cabeça do corpo da mulher” (v. 279), lhe pesa maior culpa e responsabilidade por ceder ao pecado, o que se deduz da ênfase da pergunta retórica: Quid quod et ipse (v. 279). A crítica moral feita por Prudêncio se fundamenta num argumento teológico: homens e mulheres, com tais comportamentos desregrados e viciosos, contrariam a obra do Criador, como se fosse imperfeita (vv. 266-267), e a natureza dos dons que Ele lhes concedeu (v. 274). Por isso, as preocupações das matronas, descontentes de sua graça natural (v. 264-265: decore ingenito), são ímpias (v. 273: sacrilegas... curas). Também os homens efeminados são increpados por causa do desprezo ao seu vigor natural (v. 286: genuina robora), dom do Criador (vv. 283-284), e por terem vergonha da sua virilidade (v. 285). A ofensa ao Criador, 142 pelo mau uso dos dons concedidos, é que constitui a causa da indignação, do lamento e do desgosto do poeta (v. 273: taedet; v. 279: Quid quod et ipse; v. 304: Pro dolor!), e não um moralismo de convenção social. É o fato de cada homem ser criatura de Deus e possuir dons adequados à sua condição de homem ou de mulher que leva o poeta a censurar-lhes os pecados atuais e a desordem no agir em relação ao seu fim próprio. Assim, em diversas ocasiões, Prudêncio faz menção a Deus Criador nos seguintes termos: artificis domini manus (v. 266), opifex (v. 283), condidit auctor (v. 299), omnipotens dederat (v. 307), deus addidit (v. 318), deus... uoluit (vv. 326-327). Daí o seu lamento sobre as almas que se esquecem do seu autor Deus e não se dirigem às coisas espirituais (vv. 375-381); ao contrário, o homem se volta para as coisas terrenas, para o que é perecível (vv. 382-384). É retomado o tema da terra (v. 384: terrestria; v. 385: terra) – cujos produtos, sinônimo de morte, representavam no Praefatio uma antítese com os animais, sinônimo de vida – em oposição às coisas do alto (v. 378: in altum; v. 379: ad caelum; v. 381: super aëra). 5.5.3. Corrupção dos sentidos e elogio da moderação Prudêncio continua a narrar as consequências do pecado original. O efeito mais evidente é a desordem, não apenas nas criaturas irracionais e inanimadas, mas também no homem. A noção de desobediência a uma lei, como causa de uma ação pecaminosa, já tinha sido exposta no Praefatio, quando Deus repreende Cain por não dividir suas oferendas segundo a reta lei (v. 12: lege recta). Nesse caso, a lei é prescritiva sobre o oferecimento do sacrifício. Também no caso de Eva, Deus havia prescrito que não se comesse o fruto da árvore situada no meio do Paraíso (Gn 3, 3). Ao tratar da corrupção das criaturas, porém, Prudêncio fala das leis que Deus prescreveu à natureza das coisas, as quais leis são eternas, plácidas e bem criadas (vv 109: aeterna lege; 244: placidas; 304: ingenuas). Conforme essas leis divinas, cada coisa se ordena a um fim. Como foi dito nos vv. 206-249, o pecado introduziu a desordem nas leis que regem as criaturas, daí estas nem sempre procederem segundo o seu fim. Quanto às forças vitais (uegetamina) do homem, que Deus pôs nos cinco sentidos, estão tomadas pela luxúria (luxus) (vv. 298-299). E, igualmente, o homem faz mau uso deles (v. 301). As leis da natureza sucumbem, e os dons dos homens se tornam escravos da libido (vv. 304-305). 143 O poeta passa a enumerar diversos exemplos em que o homem faz uso contrário dos dons que Deus lhe concedeu (v. 307: studia in contraria uertunt)119: quanto à visão, danças teatrais de homens efeminados (vv. 308-311); quanto ao olfato, cabelos perfumados da meretriz (vv. 312-315); quanto à audição, cantos maliciosos dos banquetes (vv. 316-320); quanto ao paladar, embriaguez e alimentos apetitosos que estimulam a gula (vv. 320-324); quanto ao tato, lençóis macios de um leito acolchoado (vv. 328-329). Ao contrário, segundo o poeta, feliz é aquele que fez uso moderado e parcimonioso dos dons que Deus lhe concedeu (vv. 330-331), que não é capturado pelos encantos do mundo nem se deixa enganar como uma criança pela aparência de um falso bem (vv. 332-336). A felicidade de que fala Prudêncio decorre de duas virtudes: da moderação no uso dos bens e dos dons de Deus (vv. 330-331) e da prudência que não se deixa enganar pelo mal que se apresenta sob a aparência de bem (vv.332-336). Esses já eram temas comuns da literatura antiga pagã, como demonstra Lucrécio (2.20 ss.) e Juvenal (14, 316-321), acerca da felicidade na moderação, e o ideal horaciano da aurea mediocritas (Ode II, 10, 5), além do verso da Arte Poética sobre o engano da aparência: decipimur specie recti (Ep. ad Pisones, 25). 5.6. A alma humana: natureza, dignidade e livre-arbítrio Na análise do Praefatio, foi mencionado o conflito entre a alma e o corpo. Prudêncio afirma que a carne (corpo) lança dardos contra a alma, sua irmã (PrH. 56); em seguida, no último verso do Praefatio, reafirma a fraternidade entre espírito e corpo (v. 63). O pecado rompeu a harmônica convivência entre ambos, e, portanto, o corpo, que deveria subordinar-se à alma, triunfa sobre ela. Os termos que Prudêncio emprega nessa desordem no interior da alma humana remetem à arte militar e à guerra (PrH.56: tela... dirigit; PrH.62: cadit perempta; PrH.63: triumfat morte). Nesse combate, a alma, sendo superior ao corpo, deveria ser capaz de senhorear sobre ele sem dificuldades. Prudêncio ecoa a lição de São Paulo no trecho da carta aos Efésios (Ef 6, 12) 120 sobre a verdadeira luta da alma (Ham. 509-516): 119 O poeta usa advérbios que indicam finalidade e advérbios interrogativos de resposta negativa, como se esperasse a concordância do leitor (v. 308: idcirco, v. 312: ideo, v. 316: num propter, v. 320: numquid). 120 Ef 6, 12: quoniam non est nobis colluctatio adversus carnem et sanguinem, sed adversus principes, et potestates, adversus mundi rectores tenebrarum harum, contra spiritualia nequitiæ, in cælestibus. Se comparamos o trecho de Prudêncio (vv. 509-520) com a passagem de S. Paulo, veremos que, além de transmitir a mesma doutrina do apóstolo, o poeta ainda fez uso de um vocabulário bastante semelhante: conluctamur (v. 521) e luctamen (v. 509) = colluctatio; cum sanguine... et carne (v. 509-510) = adversus carnem et sanguinem; potestatum (v. 519) = potestates; sub principe Belia (vv. 519-520) = principes; rectores (v. 520) = rectores; tenebrosis (v. 514) = tenebrarum; iniquis (v. 520) = nequitiae; inter caelum (v. 517) = in caelestibus. Ainda se pode alegar a locução resistere in die, no versículo seguinte (Ef 6, 13), equivalente à expressão nocte dieque congredimur (vv. 514-515). 144 Errat ait qui luctamen cum sanguine nobis et carne et uenis feruentibus et uitioso felle putat calidisque animam peccare medullis. Non mentem sua membra premunt nec terrea uirtus oppugnat sensus liquidos belloue lacessit; sed cum spiritibus tenebrosis nocte dieque congredimur, quorum dominatibus umidus iste et pigris densus nebulis obtemperat aër. “Erra”, diz ele, “quem pensa que nossa luta é contra o sangue, a carne, as veias ardentes, o fel vicioso, e que a alma peca nas cálidas medulas. Não oprimem a alma os membros, nem uma força terrena ataca os límpidos sentidos ou os incita à guerra; mas com espíritos tenebrosos noite e dia contendemos, a cujo senhorio esse ar úmido e denso de indolentes nuvens obedece.” Na doutrina do apóstolo das gentes, repetida por Prudêncio, a luta (luctamen) travada na alma de cada homem (nobis) não é contra o corpo e as paixões (cum sanguine... carne et uenis feruentibus et uitioso felle). O homem não peca por causa dos seus membros (vv. 511- 512), nem por qualquer outra força terrena ou material (v. 513). Seu inimigo, contra o qual portanto move contenda diuturna (nocte dieque), é espiritual (v. 514-515: cum spiritibus tenebrosis... congredimur): os espíritos das trevas e potestades (potestatum uariarum, v. 519) que vagam no intervalo entre o céu e a superfície da terra (v. 517-518), sob o império do demônio (v. 520). Por isso, ninguém pode acusar (nemo... accuset) a natureza e a sensibilidade do seu corpo como causas do pecado, uma vez que os impulsos e os afetos corporais podem ser facilmente controlados pelas potências superiores da alma (vv. 523-526). Em seguida, Prudêncio anota algumas qualidades do espírito, ao qual se refere com os termos anima, mens, spiritus, animus como sinônimos. A razão da superioridade da alma sobre o corpo é que aquela tem sua origem no éter, ou seja, é espiritual, ao passo que o corpo é material (vv. 527-530). A superioridade é tal que nenhuma força do corpo poderia superar o domínio da alma (v. 530). A alma é sutil (v. 532), sua natureza não é indolente nem vagarosa (vv. 543-544). Deus lhe deu diversas qualidades (v. 545-546), com as quais poderia evitar as investidas do inimigo. A força do demônio é muito maior, contra a alma, do que os afetos corporais (v. 531-532). No entanto, as potências da alma podem superar os ataques do demônio, desde que ela, mantendo-se casta, venere a Deus, seu criador, e lute em prol d’Ele (vv. 547-549). A semântica da arte militar continua presente na descrição da alma humana em busca da sua perfeição e santidade. Ela é o senhor que reina (regnanti domino, v. 530) sobre o corpo 145 e um soldado que deve militar para o seu Criador (v. 547-548: ipsi [factori] militet), a fim de não ser rendida ao reino estrangeiro do demônio (v. 551). Outros termos como opibus (v. 549), spoliis (v. 550), hostis, sagittas (v. 552) expressam e reforçam a imagem bélica, de luta. Na imagem do inimigo que atira flechas contra a alma (v. 552: hostis... sagittas), Prudêncio compara o vírus que o demônio inocula na alma humana com a flecha dos partos (Ham. 533-538). O símile tem ecos virgilianos da Eneida (12.856-859): non secus ac neruo per nubem impulsa sagitta, (A.12. 856-859) armatam saeui Parthus quam felle ueneni, Parthus siue Cydon, telum immedicabile, torsit, stridens et celeris incognita transilit umbras: talis se sata Nocte tulit terrasque petiuit. não diferente a flecha, arremessada através das nuvens e armada d’um fel de cruel veneno, a qual um parto, um parto ou cidônio, com um nervo torce, dardo irremediável, sibilando despercebida atravessa as céleres sombras: tal se lançou a filha da noite e buscou as terras.121 Parthica non aeque uentos transcurrit harundo, (Ham. 533-538) cuius iter nullus potis est conprendere uisus; praepes enim uolucres dum pinnis transuolat auras inprouisa uenit, nec stridor nuntiat ante aduentum leti quam pectoris abdita rumpat securam rapiens medicato uulnere uitam. Não percorre igual os ventos a seta dos partos, cujo trajeto olho algum é capaz de perceber; ao cruzar célere com as penas os ares velozes, vem imprevista, nem um sibilo anuncia antes o advento da morte, antes que as entranhas do peito rompa, a vida segura arrebatando na ferida envenenada. Na passagem da Eneida, Virgílio descreve a descida de uma das pestes, ou Diras, lançada à terra por Júpiter desde a morada dos deuses para conter a intervenção de Juturna em prol de Turno e dos etruscos. Quanto ao símile e seu termo comparativo, a flecha dos partos, a comparação de Virgílio é de igualdade (non secus ac), enquanto a de Prudêncio é de inferioridade (non aeque). Prudêncio assim dá maior poder à ação do demônio, não igualando, como Virgílio, mas superando a temível flecha dos partos. O poeta de Calahorra recorre aos sinônimos, alterando às vezes a classe das palavras empregadas pelo seu modelo clássico, proporcionando variedade ao texto e evitando a imitação servil. Assim, sagitta (A. 12.856) torna-se harundo (Ham. 533); em Virgílio, a flecha atravessa as sombras céleres (celeris... 121 Tradução nossa. 146 transilit umbras, v. 858) despercebida (v. 858: incognita); em Prudêncio, cruza os ares velozes (v. 535: uolucres... transuolat auras) imprevista (v. 536: inprouisa); no símile de Virgílio, a flecha do parto é estridente (v. 858: stridens), em Prudêncio sequer emite sibilo (v. 536: nec stridor nuntiat); em Virgílio, é um dardo incurável (immedicabile, v. 857), em Prudêncio, produz uma ferida envenenada (medicato uulnere, v. 538), mas não é immedicabilis pois pode ser curada pela graça. Outra variação do texto de Prudêncio, em relação ao modelo clássico, é o uso do adjetivo derivado Parthica (v. 533) em lugar do nome próprio Parthus, que ocorre duas vezes em Virgílio. Por fim, como exemplo de imitatio que se recusa a ser mera transposição de palavras, temos em Prudêncio a palavra pinnis (v. 535) como equivalente poética de neruo (v. 856) no texto virgiliano, na função de parte mencionada do instrumento dos partos, e a substituição da imagem per nubem impulsa (v. 856) por uentos transcurrit (v. 533), no mesmo lugar métrico. Apesar dos ataques poderosos do demônio contra a alma, Prudêncio adverte que não se pode atribuir a ele todo o mal do mundo e dos homens (vv. 553-554). Pois o demônio só subjuga o homem, se este consintir (vv. 558-559). A vontade humana pode prevalecer, a liberdade da alma é capaz de resistir ao inimigo. Por isso, segundo Prudêncio, nossos males têm como causa o demônio, que os instiga (v. 557), mas se concretizam no interior da alma humana, que dá o consentimento ao inimigo (vv. 555-556, 562). Para mostrar que o vício nasce do próprio coração do homem e atenta contra este, Prudêncio faz uma comparação com o pai que gera um filho parricida, como na história do rei Davi e de seu filho Absalão, que se rebelou contra o pai (vv. 563-580, exemplo ex ethicis), e com a víbora que é devorada por suas próprias crias após o parto (vv. 583-607, exemplo ex physicis). Interessa-nos aqui o longo símile da víbora e alguns dos seus elementos. Baseando-se na descrição dos antigos, como Heródoto e Plínio, sobre a reprodução de certas víboras, Prudêncio descreve o nascimento da prole desses répteis, aproveitando-se da figura bíblica da serpente como símbolo do demônio. O conúbio entre o macho e a fêmea é um símile das núpcias que a alma humana contrai com o diabo. Assim como as crias da víbora devoram a mãe ao nascer, assim também os pecados da alma, vícios que ela mesma dá à luz, causam-lhe a perdição (vv. 617-620). Quando a alma peca e alimenta seus vícios, dá seu consentimento matrimonial ao demônio122. Essa união configura um adultério (v. 633), pois a alma está prometida e destinada às núpcias celestes com Cristo, seu verdadeiro (vv. 628-630). Cristo é 122 Chama a atenção nessa passagem a descrição de pormenores com um certo teor erótico (vv. 585-589). 147 comparado a um rei sempre jovem, de beleza eterna, ao passo que o demônio é identificado com um indiano de abraços imundos (v. 634). A partir do v. 637, Prudêncio expõe novos argumentos dos marcionitas, agora sobre a impossibilidade de conciliar a existência do mal com a onipotência de Deus. O poeta diz estar ciente das objeções (sentio, v. 637), como se fossem argumentos gastos e repetidos pelos hereges. No primeiro argumento (vv. 640-649), o herege, concedendo que uma criatura, e não Deus, pudesse ter sido a fonte do mal e concedendo ainda que a Criação fosse boa no início, afirma que, se Deus não evita o mal, podendo fazê-lo, é o seu autor. A resposta do poeta a esse argumento, após uma reação indignada em que pede a Deus que o torne surdo para não ouvir tais impropérios contra a divindade (vv. 650-655), é a seguinte: Deus é bom e não quer o mal, e a prova dessa bondade é que Ele dá nova vida aos homens mortos pelo pecado, para que assim participem do seu reino (vv. 658-668). É uma evidente referência ao sacrifício de Cristo e à graça dos sacramentos. Um Deus que age desse modo não quer o mal do homem (vv. 667-668). O segundo argumento diz respeito ao livre-arbítrio (vv. 669-672). Sendo Deus onipotente, é capaz de infundir no coração do homem a inclinação para o bem. De novo a reação do poeta é veemente (v. 673), que então proclama a liberdade que Deus concedeu à alma humana, com a potência de escolher entre uma coisa e outra, sem nenhum vínculo que a obrigasse (vv. 674-678). Questiona como seria possível o homem, feito por Deus senhor da Criação, não ter o domínio sobre si mesmo e sua liberdade (vv. 679-683). Ora, se um homem é coagido a fazer o bem, não lhe cabe mérito nem glória alguma por fazê-lo (vv. 692-694); se, porém, pôde escolher o mal, mas optou pelo bem, há virtude e mérito (vv. 695-696). O Criador respeita a liberdade humana. Como já foi dito na seção sobre a criação do homem, Deus não obriga nem exige pela força (v. 702) que a sua criatura mais excelente se submeta ao Autor da vida (v. 700-702). Não se deve buscar o que é justo nem evitar o que é injusto por coação, mas por vontade livre, e, conforme se fizer, terá a vida ou a morte por recompensa (vv. 702-704). É o preço da liberdade (v. 707). Apesar desse imenso dom, o homem deixa persuadir-se pela serpente, conscientemente (uolens, v. 710) e com pleno conhecimento (v. 709), que são condições para o pecado mortal. A serpente persuade por exortação (hortatu, v. 712), não por uma ordem violenta (acri imperio, vv. 712-713). O homem é convidado pelo demônio a pecar: graças à liberdade de sua alma, pode recusar o convite ou consentir. Assim se passou com Eva (vv. 713-715), persuadida pela serpente, à 148 qual deu consentimento livremente; e depois com Adão, persuadido por Eva, embora ambos pudessem ter recusado a anuência a quem convidava para o mal (vv. 715-719). O estado em que se encontra a alma do homem pós-pecado original é o do dilema, “entre a cruz e a caldeirinha”, como expressa o ditado popular. Entre o Senhor que lhe deu a vida e o tirano que o quer conduzir à morte, está o homem no meio, chamado por um e outro (vv. 720-722). Prudêncio ilustra a alternativa da alma humana com quatro exemplos, cujo fundamento comum consiste nisto: duas pessoas ou grupos se encontram diante de duas alternativas cujos resultados são contrários; escolhiada uma das alternativas por livre vontade, cada qual recebe o quinhão devido à escolha feita. Apresentam-se os seguintes quadros: a) Lot e sua esposa (v. 725-776); b) Rute e Orfa (v. 778-788); c) dois irmãos no bívio (v. 789-801); d) dois grupos de pombas (v. 804-818). Trataremos, primeiro, da história de Lot, narrada no livro do Gênesis (Gn, 19, 23 ss.). Deus decide incendiar a cidade de Sodoma por causa dos pecados de seus habitantes. Lot, avisado por dois anjos, retira-se da cidade a tempo, com sua esposa e filhas (vv. 725-729), avisado do preceito divino a fim de que não voltassem os olhos para trás (vv. 730-737). Lot obedeceu ao preceito e foi salvo, ao passo que sua esposa, voltando os olhos para Sodoma, foi transformada em estátua de sal como punição (v. 738 ss.). Não se trata de uma metamorfose propriamente, pois, como diz o poeta: “fica mulher, como fora antes, conservando tudo” (v. 744). Assim como a transformação por que passa o demônio após o seu pecado não é uma metamorfose, no sentido de que se mudou em outra coisa, mas uma corrupção do seu estado original123. Prudêncio novamente menciona a história de Adão e Eva, contrastando as personagens de Adão e de Lot (vv. 741-742): enquanto aquele se deixou persuadir pela mulher e morreu para a graça junto com ela, este torna-se um exemplo da liberdade bem exercida, ao não acompanhar sua mulher no erro. O exemplo de Lot e sua esposa permite estabelecer uma comparação: Lot é sábio (v. 738: sapiens), sua mulher é leviana (v. 738: leuis) e frágil (v. 766: fragilis), de espírito inconstante (v. 739: mobilitate animi; v. 767: mutabilis), fluido e débil (v. 755: infirmum fluidumque). Os atributos psicológicos da mulher de Lot, no campo semântico da instabilidade e da fragilidade, contrastam com o estado em que ela ficou transformada: figura de pedra (v. 745), monumento rígido (v. 748) e endurecida (durata, v. 768). A história de Rute e Orfa consiste em outro paradigma extraído dos Livros Sagrados (v. 777). Se, por um lado, o exemplo de Lot e sua esposa, em contraste com Adão e Eva, destaca a firmeza de Lot em obedecer ao preceito divino e mostra a consequência dos que são 123 Com essa ressalva, tais transformações nos sugerem a lembrança das metamorfoses narradas por Ovídio. 149 persuadidos a transgredi-lo, a história de Rute e Orfa, por outro lado, ressalta a fidelidade em permanecer no povo escolhido dos judeus, sugerindo um contraste entre os fiéis da Igreja, na pessoa de Rute, e os hereges, na pessoa de Orfa. A consequência da decisão delas é que Rute, ao contrair núpcias com Booz, teve um final nobre, gerando a casa de Davi e a linhagem de Cristo (vv. 786-788), enquanto Orfa teria dado à luz a estirpe de Golias (v. 784). A mensagem simbólica que Prudêncio parece transmitir com esse paradigma é a de que os homens têm a liberdade de escolher pertencer à linhagem de Cristo (isto é, à Igreja) ou fundar novas estirpes semibárbaras com suas heresias ou dos heresiarcas. O paradigma dos dois irmãos mostra simbolicamente a consequência do livre-arbítrio no âmbito dos novíssimos. Os dois caminhos que se abrem aos irmãos gêmeos representam o céu, o caminho da direita (vv. 792-794, 800), e o inferno, o da esquerda (vv. 795-797, 801). Por fim, o paradigma dos dois grupos de pombas reflete o assentimento de algumas almas que se deixam fisgar pelos atrativos do mundo e, assim presas às coisas terrenas, não podem erguer seus pensamentos e afetos para as coisas espirituais. O passarinheiro (v. 806: callidus auceps) que prepara a armadilha para capturar as pombas representa o demônio, cujos laços aprisiona as almas incautas dos pecadores (v. 806: laqueos). Os quadros inseridos por Prudêncio para ilustrar o livre-arbítrio da alma humana são apresentados de modo diverso: a história de Lot e sua mulher, bem como a de Rute e Orfa, constituem “insignes documentos de fatos passados” (v. 723); a cena dos irmãos no bívio é introduzida como uma recordação frequente de Prudêncio (v. 789); por fim, o paradigma das pombas é antes uma comparação, um símile (haud secus ac si..., v. 804; sic..., v. 819). No meio dessa variedade expositiva subjaz o mesmo entendimento de que as almas todas gozam de igual liberdade: a vontade dos homens é vária, embora a natureza humana seja una (vv. 775 e 802-803). 5.7. Os destinos da alma: céu ou inferno Nos versos 824-930, como consequência do tema da liberdade humana, Prudêncio descreve poeticamente a realidade dos novíssimos, o céu e o inferno. As almas recebem seus prêmios conforme as escolhas feitas na vida terrena. A luz é companheira do justo, a morte é do injusto (v. 704). Diz Deus a Adão: “que a tua virtude te conduza à salvação eterna, e tua culpa te condene eternamente” (vv. 705-706). Para descrever ambas as realidades do céu e do inferno, o poeta se vale de termos e imagens da tradição poética antiga, permitindo ao leitor instruído dessa tradição enxergar concretamente o destino oposto das almas. Assim, os termos 150 “Tártaro”, “Averno” e “Flegetonte” (vv. 824, 826-827) designam o inferno, onde os ímpios padecem seus tormentos. Por outro lado, a descrição do recebimento da alma pura pela cana Fides no céu (vv. 852-858), com a referência ao aposento purpúreo (v. 856) onde, deitada num leito de rosas, a alma liba odores e bebe a ambrosia (vv. 857-858), essa descrição se assemelha ao banquete dos deuses pagãos. Os tormentos experimentados pelas almas condenadas, as chamas, os vermes que as devoram, são eternos (v. 834-835), pois eterna é a alma, abandonada pela própria morte (v. 837). O inferno é descrito como um lugar incendiado, repleto de chumbo fundido (v. 824- 825), fossas de pez e betume (v. 825), vermes edazes (vv. 827-828). As almas daqueles que morrem no pecado não podem entrar no céu, pois estão poluídas de vício (vv. 831-832). Nas regiões do paraíso, ao contrário, encontram-se os espíritos puros e de toda mancha isentos (v. 841). A natureza do espírito é tênue (v. 847) e, ao retornar para sua morada, se vê livre dos empecilhos do corpo (vv. 847-848), cárcere (v. 851) onde a alma se encontrava exilada. Embora o céu e o inferno distem longamente e entre eles permeie o globo terrestre, segundo Prudêncio, as almas dos condenados e dos justos se entreolham à distância, contemplando cada qual a sorte recíproca (vv. 864-865). Isso é possível ocorrer porque o olhar da alma difere do olhar humano (vv. 867-873, 883-884): aquele é penetrante e transpõe os obstáculos, as barreiras materiais e as distâncias até chegar à visão do inferno (vv. 874- 882). Prudêncio quer que o leitor recorra à própria experiência (expertus dubitas, v. 892) para provar a comunicação visual entre as almas no céu e no inferno, alegando o fato de que, nos sonhos, nossa vista percorre lugares distantes e remotos além do que nossos olhos corpóreos podem enxergar, e o fazem sem deixar o corpo ainda vivo (vv. 892-909). Outro exemplo referido pelo poeta é o de S. João, que revela suas profecias no livro do Apocalipse: sua alma penetra os arcanos futuros sem deixar o corpo (vv. 910-919). Para Prudêncio, com muito mais razão as almas, depois de abandonarem o invólucro do corpo, são capazes de ver os castigos ou recompensas que recebem conforme o mérito (vv. 920-921). Segundo Prudêncio, tal estado das almas é uma verdade de fé (certa fides, v. 922), ocom base na narração do Evangelho de São Lucas (Lc 16, 19 ss.) sobre a morte do pobre Lázaro e do homem rico que lhe negava auxílio. É possível notar muitas semelhanças entre os versos prudencianos e o trecho da Sagrada Escritura, que se segue124: 9 Homo quidam erat dives, qui induebatur purpura et bysso, et epulabatur quotidie splendide. 20 Et erat quidam mendicus, nomine Lazarus, qui jacebat ad januam ejus, ulceribus plenus, 21 cupiens saturari de micis quæ cadebant de mensa divitis, et nemo illi dabat : sed et canes veniebant, et 124 Transcrevemos a versão da Vulgata Clementina. 151 lingebant ulcera ejus. 22 Factum est autem ut moreretur mendicus, et portaretur ab angelis in sinum Abrahæ. Mortuus est autem et dives, et sepultus est in inferno. 23 Elevans autem oculos suos, cum esset in tormentis, vidit Abraham a longe, et Lazarum in sinu ejus: 24 et ipse clamans dixit: Pater Abraham, miserere mei, et mitte Lazarum ut intingat extremum digiti sui in aquam, ut refrigeret linguam meam, quia crucior in hac flamma. 25 Et dixit illi Abraham: Fili, recordare quia recepisti bona in vita tua, et Lazarus similiter mala: nunc autem hic consolatur, tu vero cruciaris: 26 et in his omnibus inter nos et vos chaos magnum firmatum est: ut hi qui volunt hinc transire ad vos, non possint, neque inde huc transmeare.125 Ao comparar o trecho evangélico com os versos de Hamartigenia, vemos que, segundo Prudêncio, após a morte a alma justa é recebida no colo da encanecida Fé (vv. 852- 853: suscipit alto/cana Fides gremio), ao passo que o Evangelho narra que o pobre Lázaro foi carregado por anjos até o seio de Abraão (Lc 16, 22: in sinum Abrahae). Ainda segundo o poeta, a alma justa não atende as súplicas dos ricos condenados ao inferno (v. 859: ditibus), fumegantes e sedentos, negando inserir-lhes o dedo na boca para extinguir as chamas; o condenado na história de Lázaro igualmente era rico (dives, 19) e suplica a Abraão que mande Lázaro molhar a ponta do dedo e refrescar-lhe a alma que padecia tormentos de fogo e sede (Lc 16, 23-24). Entre as almas justas e ímpias se interpõe uma longa distância (v. 859: longo... interuallo; v. 863: locis longe distantibus), de acordo com o Evangelho (Lc 16, 23: a longe). Nos versos Ham. 922-930, ainda sobre os destinos opostos das almas que se avistam mutuamente, a menção à história de Lázaro é explícita. Os fornos que cozinham a alma manchada de vícios (vv. 922-924) têm relação com a fala do rico condenado: crucior in hac flamma (Lc 16, 24), assim como a expressão dirimente chao (v. 926) retoma a fala de Abraão: inter nos e vos chaos magnum firmatum est (16, 26). A menção às “cruéis úlceras” (v. 928: ulcera dira) indica claramente que Prudêncio se baseia na narrativa evangélica da história de Lázaro, que é descrito como repleto de úlceras (Lc 16, 20: ulceribus plenus, 20), as quais os cães lambiam enquanto ele mendigava a sobra de comida dos banquetes do rico. Prudêncio assim afirma, com base na Sagrada Escritura, que os justos e os ímpios avistam com olhos espirituais, em distância intransponível, seus respectivos destinos, 125 “19 Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho, e que todos os dias se banqueteava esplendidamente. 20 Havia também um mendigo, chamado Lázaro, o qual, coberto de chagas, estava deitado à sua porta, 21 desejando saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, e ninguém lhas dava; mas os cães vinham lamber-lhe as chagas. 22 Ora, sucedeu morrer o mendigo, e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico, e foi sepultado no inferno. 22 E, quando estava nos tormentos, levantando os olhos, viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio; 24 e, gritando, disse: Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nesta chama. 25 E Abraão disse-lhe: Filho, lembra-te que recebeste os (teus) bens em tua vida, e Lázaro, ao contrário, (recebeu) males; por isso ele é agora consolado, e tu és atormentado. 26 E, além disso, há entre nós e vós um grande abismo, de maneira que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os daí (podem) passar para cá.” (Tradução do Pe. Matos Soares). 152 decorrentes dos méritos obtidos nesta vida (v. 930), sem que as almas justas possam atender aos rogos para aliviar o sofrimento das almas condenadas (Ham. 887-891; Lc 16, 26). 5.8. Prece final Hamartigenia se encerra com uma súplica do poeta a Deus (vv. 931-966). Prudêncio abandona o tom polêmico contra Marcião e seus sequazes, abandona o discurso didático com que se dirige ao leitor e se volta afinal para o seu interlocutor mais íntimo e verdadeiro, Deus mesmo, contemplando no interior de sua alma e de sua própria consciência os temas que tratados no poema, como o mal, o pecado e o julgamento divino. Prudêncio eleva a prece à Santíssima Trindade (vv. 931-932), reconhecendo em Deus o seu governador, o seu princípio e o seu juiz, cujas sentenças de condenação e de salvação se amparam no mistério da justiça e misericórdia divinas (vv. 933-936). Num tom pessoal, ele mostra que as questões mais metafísicas se aplicam concretamente à alma do cristão. Assim, quando trata do pecado, o poeta não fala como se estivesse acima do mal, nem discorre sobre os novíssimos como se fora algo verdadeiro apenas para os outros e mera possibilidade para si mesmo, mas assume existencialmente a doutrina, em que crê, como realmente aplicável não apenas aos demais, mas também a si. Por isso, ao mesmo tempo que reconhece seus pecados e admite que merece ser punido por causa deles, espera na misericórdia e bondade divinas (vv. 937-939), rogando a Deus que, no momento da morte (v. 943: flebilis hora), não se depare com um demônio que o leve para o inferno (vv. 946-951). Os críticos divergem acerca do significado de Ham. 952-966. De fato, a alguns parece que o poeta já expressa a crença na existência do purgatório, lugar ou estado para onde vão as almas que não serão condenadas ao inferno, mas que ainda não estão devidamente purificadas para ingressar no paraíso. Nesse sentido, satisfeito com não ser condenado ao inferno (vv. 958-960), e, numa demonstração de humildade, não se considerando merecedor de habitar o céu (vv. 953-954), prêmio digno daqueles que desprezaram os desejos mundanos e carnais (vv. 954-957), Prudêncio pede, por causa dos seus pecados (v. 961), seja sua alma lançada no triste fogo do Averno (v. 962), lugar onde as penas são mais brandas (vv. 962-964). Considerando esses versos e o que foi dito antes sobre o destino das almas dos justos e dos condenados, Prudêncio parece não admitir senão duas sortes: a bem-aventurança dos santos e a pena das almas pecadoras (vv. 956-966), entre as quais, no entanto, haveria penas mais graves, que sofreriam as almas enviadas ao inferno, e penas mais leves, aplicadas às almas que não morreram de todo purificadas do pecado. 153 Essa dificuldade decorre não tanto de uma imprecisão doutrinal de Prudêncio no que diz respeito ao destino das almas, mas de um debate teológico vivo que ainda perdurava em seu tempo. Sabe-se, por exemplo, que Orígenes (c. 185-253/254) negava a eternidade das penas e do fogo eterno, doutrina à qual Prudêncio certamente não adere, como vimos. No entanto, CHARLET (1983, p. 87) afirma que: à l’époque de Prudence, l’eschatologie chrétienne n’est pas fixée [...] il existait dans l’Église, dès le IVe s., une théorie de la mitigation des peines de l’enfer obtenue par les suffrages de l’Église ou directement octroyée par la miséricorde divine. Essa explicação quadra a Ham. 958 ss. O poeta, não sendo digno do céu, espera que suas penas sejam mitigadas pela misericórdia divina. Mas no Epilogus de sua obra poética, Prudêncio postula uma mitigação, não das penas do inferno, mas da bem-aventurança. O céu é como a morada de um homem rico (Epil. 13-14), instruída não apenas de objetos caros, mas também de utensílios simples de madeira e argila (Epil. 23-24). A esses objetos de ouro, prata, bronze e marfim são comparadas as almas dos homens virtuosos e fiéis a Deus (Epil. 1-4) e dos que socorrem os necessitados (Epil. 5-6). Ao reconhecer que não é capaz de santidade nem obras de misericórdia (Epil. 9-10: sanctitatis indigi/nec ad leuamen pauperum potentes), Prudêncio dedica a Deus seus versos (Epil. 7-8), os quais, embora um canto humilde (Epil. 12: pedestre carmen), agradam à divindade (Epil.. 11-12). A alma do poeta é comparável a um vaso de argila (Epil. 16: obsoletum uasculum) no átrio de Deus Pai (Epil. 25), vaso que Cristo põe no canto da casa e dele também se utiliza (Epil. 27-28), pois cada utensílio do Senhor tem seu uso próprio (Epil. 21-22). Com essa metáfora, Prudêncio manifesta a esperança de habitar no céu, embora não mereça, por não possuir a virtude ou santidade dos justos; mas confia na salvação de sua alma, uma vez que o oferecimento de seus versos a Deus, versos de barro (Epil. 29: munus fictile) cujo valor é somente terem cantado a Cristo (Epil. 34), possui algum proveito, ainda que ínfimo (Epil. 31-32). Em Hamartigenia, Prudêncio considera que sua alma merece a condenação por seus pecados, mas pede a Deus penas mais brandas; já no Epilogus, reconhece não poder gozar da mesma bem-aventurança dos santos, mas roga a Deus que lhe conceda “um lugar no céu”. Por que súplicas tão diversas a respeito da salvação da própria alma? É difícil afirmá-lo. Uma hipótese que nos parece razoável é que, em Hamartigenia, convinha que o poeta, movido pelo argumento do poema a condoer-se mais profundamente dos próprios pecados, realçasse a severidade do castigo divino, enquanto no Epilogus ele dirige sua derradeira súplica antes de partir desta vida e encontrar o supremo Juiz. 154 6. CONCLUSÃO Hamartigenia, de Aurélio Prudêncio Clemente, não é apenas um poema de argumento teológico, que trata da origem do pecado e da unidade de Deus à luz da doutrina cristã. Para realizar seu plano poético de consagrar-se a Deus por meio da poesia, Prudêncio muito deve à literatura pagã, recorrendo aos autores clássicos, às vezes de espectro ideológico tão diverso do seu, como Lucrécio. Um componente fundamental de sua poesia (característica geral da poesia cristã da Antiguidade Tardia126) são as Sagradas Escrituras, que Prudêncio utiliza inovando convenções literárias clássicas, como no caso dos painéis típicos da tradição do gênero didático, extraídos da história sagradas. A qualificação de poema didático, atribuída a Hamartigenia pela crítica predominante, pode ser sustentada graças à presença de diversos elementos próprios do gênero, como a voz de um mestre, a identificação de um ou mais destinatários da mensagem, nomeados ou não, o tom grave e sério da exposição, o propósito de ensinar e transmitir uma doutrina. Mas notam- se elementos de outros gêneros, principalmente do satírico, na crítica de costumes, e também do pastoral (no Praefatio e na descrição da corrupção do mundo), e até se insinuam elementos do gênero lírico (na prece final), o que não é novidade na dinâmica dos gêneros literários. Em Prudêncio, no entanto, isso se dá de modo tão incisivo que alguns críticos falam em “mistura de gênero” (cf. R. LEVINE, p. 7, 1991). O desafio de traduzir em versos um poema como Hamartigenia, atentando para os muitos recursos poéticos do original (como aliterações, anáforas, onomatopeias, entre outras figuras) e tentando reproduzi-los de algum modo na língua portuguesa, é tal que apenas o ter chegado ao fim já nos dá alguma satisfação. Se os versos em vernáculo, no entanto, estão impregnados daquele “doce mel das musas” (LUCR. 1. 947: musaeo dulci melle) de Lucrécio, que Prudêncio também derramou nos seus versos para tornar suave matéria tão grave como a origem do mal, cabe leitor dizer. A verdade é que a a presente tradução, com os comentários e notas filológicas, pode contribuir, assim esperamos, aos que desejam conhecer e pesquisar a poesia de Aurélio Prudêncio Clemente, além de servir a estudos mais vastos sobre a poesia latina do séc. IV d.C., não só cristã, como pagã, e sobre temas conexos, como a teologia e a heresiologia. Ao fim deste trabalho, temos a convicção de que não se pode aderir, sem crítica, ao preconceito que considera a literatura latina tardia como sinônimo de decadência. Com efeito, 126 Segundo FONTAINE (1984, p. 201): “La composante chrétienne et biblique n’importe donc pas moins, à la définition des traits pertinents de la latinité tardive, que la survie des modèles classiques”. 155 constatamos que Prudêncio não apenas se insere na tradição poética latina, como ainda mantém diálogo constante e original com ela. Sua poesia é vinho novo em odres velhos, um cântico novo consagrado a Deus. Seria possível fugir à tentação de afirmar que Prudêncio batizou a poesia pagã, como se costuma dizer que Tomás de Aquino batizou a filosofia de Aristóteles? Ora, o que ressalta com clareza é que o poeta de Calahorra, no meio das fortes tensões políticas e religiosas entre paganismo e cristianismo, adotou uma postura conciliatória no âmbito da arte literária, que irá repercutir nos séculos posteriores, dada a importância de sua poesia na formação espiritual e literária do Ocidente cristão. Esperamos, pois, abrir com este trabalho novos caminhos de pesquisa. A poesia de Prudêncio e a literatura latina tardia constituem um desses caminhos. Se outros irão segui-lo, ou não, cabe a cada um decidir com seu livre-arbítrio. 156 7. REFERÊNCIAS Repositório de textos latinos CLASSICAL LATIN TEXTS. A Resource Prepared by The Packard Humanities Institute. Disponível em: < http://latin.packhum.org/>. Acesso em: 5 maio 2017. 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