UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS ESCOLA DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO LER E COMPARTILHAR NA WEB: PRÁTICAS INFORMACIONAIS DE BLOGUEIROS LITERÁRIOS Belo Horizonte 2018 JÉSSICA PATRÍCIA SILVA DE SÁ Jéssica Patrícia Silva de Sá JÉSSICA PATRÍCIA SILVA DE SÁ LER E COMPARTILHAR NA WEB: PRÁTICAS INFORMACIONAIS DE BLOGUEIROS LITERÁRIOS LER E COMPARTILHAR NA WEB: PRÁTICAS INFORMACIONAIS DE BLOGUEIROS LITERÁRIOS Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais para obtenção do grau de Mestre em Ciência da Informação. Linha de Pesquisa: Usuários, Gestão do conhecimento e Práticas informacionais Orientador: Carlos Alberto Ávila Araújo Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais para obtenção do grau de Mestre em Ciência da Informação. Linha de Pesquisa: Usuários, Gestão do conhecimento e Práticas informacionais Orientador: Carlos Alberto Ávila Araújo BELO HORIZONTE 2018 DEDICATÓRIA À minha irmã, Melissa, a primeira leitora e blogueira literária que conheci. AGRADECIMENTOS Eu costumava rir de uma brincadeira que meu pai fazia, ele dizia que “todo mundo que faz mestrado fica doido”. Nessa jornada, eu tive sim minhas angústias, ansiedades e insônias, mas não fiquei “doida” graças ao apoio que tive de pessoas muito queridas. Seguem, então, meus agradecimentos a todos aqueles que me acompanharam durante essa trajetória. Primeiramente, agradeço aos meus pais, Eugênio e Carminha, pelo amor incondicional, incentivo e apoio. Sem vocês eu nunca teria chegado até aqui. Obrigada por colocarem a minha educação como prioridade, sei que isso exigiu muito sacrifício de vocês, mas como mamãe gosta de dizer “a educação é a sua herança”. Amo vocês. Ao meu marido Glauber, que no início do mestrado ainda era meu noivo, agradeço por ser meu porto seguro, por acreditar em mim mais do que eu mesma, por sempre me dizer que tinha certeza que eu conseguiria. Juntos encaramos essa aventura de organizar um casamento no meio do mestrado, foi uma correria, mas deu tudo certo! Te amo para sempre. À minha irmã, Melissa, minha fonte de inspiração em todos os sentidos. Foi durante uma conversa nossa que surgiu meu interesse em pesquisar os blogs literários. Além disso, você é minha inspiração como mulher e pesquisadora. Meu exemplo desde sempre, aquela que lia histórias para mim, que me incentivou a ler e a estudar. Te amo com todo meu coração. Ao meu cunhado, Diego, que compartilhou comigo estratégias de estudo e escrita em outubro de 2017, quando finalmente comecei a escrever a dissertação. Aos meus filhos de quatro patas, Malu e Rodrigo, sou grata pela firmeza de seu apoio silencioso e pela companhia durante as minhas solitárias horas de estudo. O carinho que me dão e a alegria que transmitem confortaram-me em momentos difíceis. Aos meus motoristas de plantão, meu pai e Glauber, obrigada por terem me levado para fazer as entrevistas que foram em locais distantes para ir de ônibus, como Ribeirão da Neves e alguns bairros de BH. Foi muita generosidade de vocês se oferecerem para me levar e até mesmo aguardar a entrevista terminar para me trazer de volta para casa. Agradeço a gentileza e o carinho. Aos meus familiares e à família do Glauber, agradeço por acreditarem no meu potencial e pelas palavras de carinho e incentivo. Agradeço também aos amigos, que entenderam as ausências, torceram por mim e me deram o apoio necessário. Em especial, os amigos que me acompanham desde os tempos de escola. Ao meu orientador, prof. Carlos Alberto (Casal), por ser um ótimo professor que desde a graduação incentiva seus alunos a fazerem o mestrado. Agradeço por ter aceitado orientar essa pesquisa poucos meses antes da qualificação, pelas reuniões de orientação esclarecedoras e, acima de tudo, por sempre respeitar e apoiar o que realmente eu queria pesquisar. À professora Adriana Bogliolo (em memória), pela sua disponibilidade em conversar sobre o projeto e por toda a ajuda que me deu no processo de mudança de orientação. Sem ela eu não teria conseguido agendar a qualificação para o dia anterior ao meu casamento, me lembro até hoje de como ela dizia brincando que eu era “a louca que ia qualificar e casar”. Agradeço também pelas contribuições na banca de qualificação, dentre elas, a mais valiosa foi a sugestão da elaboração de um capítulo sobre leitura, que acabou sendo essencial para essa pesquisa. Ao professor Claudio Paixão, pelo sincero interesse na pesquisa e também pela disponibilidade em ajudar, sobretudo com a elaboração do parecer do projeto para o Comitê de Ética. Obrigada! Aos membros da banda de defesa: prof. Claudio Paixão, Marina Nogueira e Tatiane Gandra. Agradeço pela disponibilidade e pelas considerações feitas à dissertação. Ao Ruleandson do Carmo, pela cuidadosa leitura do projeto e pelas contribuições que deu a essa pesquisa na banca de qualificação. À professora Lígia Dumont, agradeço pelo acolhimento inicial no PPGCI. À professora Dalgiza Andrade, que no quinto período da graduação me incentivou a fazer o mestrado. Agradeço também pelas conversas no corredor e pela indicação de bibliografia. À professora Maria da Conceição Carvalho, pelo interesse genuíno na temática da minha pesquisa e pela lista de referências bibliográficas que gentilmente me enviou. À professora Maria Guiomar, pelos elogios que fez ao meu projeto durante a disciplina de metodologia, seu incentivo me iluminou quando eu achava que meu projeto não era bom o suficiente. À Marina Nogueira, que me incentivou a pesquisar na linha de usuários da informação. Sou grata pelas dicas, por tantas conversas e conselhos. À Grace Lima, um anjo em forma de mestranda. Obrigada pela amizade e parceria, por me auxiliar a resolver todas as burocracias, por ser minha companheira na submissão do projeto ao COEP, por aguentar todos os meus telefonemas e mensagens de desabafo, por me ajudar antes mesmo de eu precisar pedir. Sempre ligada no 220v e muito empenhada, você me inspirou a me dedicar à minha pesquisa. Não tenho palavras para demonstrar o quanto você foi essencial nesse processo, muito obrigada Grace. À Flávia Abreu, que adoçou meu mestrado com o seu carinho e meiguice. Agradeço pela amizade, pelas trocas, pelos encontros, pelas mensagens de incentivo e pelo seu otimismo inabalável. Você é um exemplo de superação, de força e de fé. Você foi fundamental nessa caminhada, amiga. Obrigada pelos docinhos e pelo queijo. À Andreza Barbosa, minha madrinha de mestrado. Por aturar minhas perguntas “Andreza, como faz isso?”, “Andreza, como faz aquilo?” e ajudar em tudo, na maior paciência. Obrigada por ter me ajudado também com a normalização da dissertação. Agradeço a sua disponibilidade em ajudar e a sua gentileza em sempre fazer isso com um sorriso no rosto, mesmo com toda aquela dor no joelho. Jamais esquecerei nossa viagem para Lavras e o quanto você foi solidária. Aos colegas do PPGCI por tantas conversas na salinha da Pós-Graduação, pela convivência e pelas trocas. Em especial: Emanuelle Amaral, Tatiane Gandra, Janicy Rocha, Ariane Lemos, Olívia Gutierrez, André Silva e Amanda Dabéss. Agradeço também Raquel Vilela, Maria Amorim e Rosilene Coelho de Sá pelo acolhimento no primeiro semestre, um dos momentos mais difíceis, em que em me senti muito perdida e graças à vocês percebi que eu estava no lugar certo. Um agradecimento à Suzana Dabéss, colega no início do mestrado. À turma da minha graduação em Biblioteconomia, meus bibliotecários amigos do coração. Agradeço por acreditarem na minha capacidade de prosseguir com meus estudos, pelas palavras de incentivo e apoio. Ao Samuel Medina, membro da equipe da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, agradeço pelo interesse na minha pesquisa e por ser tão solícito ao me enviar uma lista com todos os blogs literários que conhecia. Ao grupo EPIC – Estudos em Práticas Informacionais e Cultura – agradeço pelas valiosas discussões sobre práticas informacionais, que me auxiliaram na compreensão do conceito. À equipe do Giz – Diretoria de Inovação e Metodologias do Ensino Superior - por me selecionarem para atuar no Programa de Incentivo à Formação Docente. Às maravilhosas blogueiras que tive o prazer de conhecer, agradeço por terem conseguido arrumar um tempinho na agenda de vocês para me fornecerem as entrevistas e pela forma tão amistosa com que fui recebida por todas vocês. Obrigada por terem compartilhado comigo suas vivências na blogosfera e suas experiências literárias, pois vocês são, acima de tudo, leitoras apaixonadas. Sem vocês não teria pesquisa, gratidão! Em especial, agradeço às blogueiras do Marshmallow com Café por terem cedido a fotografia de sua autoria que é plano de fundo da capa dessa dissertação. À Capes e ao contribuinte brasileiro, pelo apoio financeiro dessa pesquisa. Chegar até aqui é uma vitória. A cada página escrita, cada capítulo finalizado, cada etapa vencida, eu comemorei. Nunca acreditei que eu conseguiria chegar tão longe. Toda pesquisa tem suas imperfeições, mas tenho um carinho especial por essa. Várias manhãs, tardes (e até noites!) da minha vida estão aqui. Então eu espero que ela possa contribuir para aqueles que a acessarem ou que, ao menos, seja uma leitura agradável. “Do nascimento à velhice, estamos sempre em busca de ecos do que vivemos de forma obscura, confusa, e que às vezes se revela, se explicita de forma luminosa, e se transforma, graças a uma história, um fragmento ou uma simples frase. E nossa sede de palavras, de elaboração simbólica, é tamanha que, com frequência, imaginamos assistir a esse retorno de um conhecimento sobre nós mesmos surgindo sabe-se lá de que estranhas fontes, redirecionando o texto lido a nosso bel-prazer, encontrando nele o que o autor nunca teria imaginado que havia colocado.” (Michelle Petit, 2008, p. 113) RESUMO Uma das possibilidades que o leitor literário possui para compartilhar suas experiências de leitura é inserir-se no ambiente virtual, buscando outros leitores na web. Assim sendo, a presente pesquisa objetivou investigar os blogs literários buscando averiguar as práticas informacionais dos blogueiros no que diz respeito aos seus papéis como leitores, produtores de conteúdo e mediadores de leitura nos webrings, os círculos sociais de blogueiros, pertencentes à blogosfera literária. Acredita-se que a compreensão das práticas informacionais desses sujeitos pode fornecer importantes elementos para o entendimento das maneiras como os círculos sociais lidam com a informação nos blogs disponíveis na web. A abordagem social dos estudos de usuários da informação foi adotada como suporte teórico, baseando-se no conceito de práticas informacionais como forma de compreender a relação entre o sujeito e a informação. Foi realizada uma revisão teórica a respeito dos blogs, evidenciando o significado dos webrings como os círculos sociais formados pelos blogueiros na web. A leitura literária foi discutida com ênfase na sua apropriação e no seu compartilhamento. Por se tratar de uma pesquisa de cunho qualitativo em profundidade, a metodologia consistiu no uso da netnografia, que possibilitou uma imersão na blogosfera literária, utilizando-se a análise documental e a entrevista semiestruturada como técnicas de coleta de dados. Os dados obtidos foram avaliados com base na análise de conteúdo e discutidos à luz do embasamento teórico da pesquisa. Os resultados apontaram as práticas informacionais realizadas pelas oito blogueiras identificadas na amostra, que foram elencadas em quatro categorias: leitura, identidade, ações de informação e interação. A respeito dos papéis exercidos pelas blogueiras na blogosfera literária, identificou-se que elas atuam como leitoras e como produtoras de conteúdo. Contudo, não se pode considerar a atuação das blogueiras como mediadoras de leitura, apesar de incentivarem a leitura em seus blogs. A motivação de cada blogueira tanto para adentrar na blogosfera literária como para manter o seu blog ativo perpassa por questões pessoais, que vão além da simples vontade de compartilhar leituras: a necessidade de trabalhar a timidez, ter voz ativa e ser ouvida por outras pessoas, poder expressar sua própria opinião sobre as leituras, ser um exemplo para os filhos e mantê-los próximos, escapar da solidão, a responsabilidade com as parcerias editoriais e com os leitores do blog. No que tange à formação dos webrings, constatou-se que eles são formados tanto de forma virtual como presencial, por meio dos eventos literários. Contudo, a interação entre os blogueiros literários ocorre predominantemente no meio virtual. Palavras-chave: Práticas Informacionais. Blogs literários. Blogueiros. Webrings. Compartilhamento de leituras. ABSTRACT Readers of literature, among other alternatives, can share their reading experiences by inserting themselves in a virtual environment and searching for other readers on the web. This thesis aims at investigating literary blogs in order to examine the information practices of bloggers with respect to their roles as readers, content producers, and reading mediators in the webrings, the social circles of bloggers, belonging to the literary blogosphere. It is believed that the understanding of informational practices of these subjects can provide important elements for understanding the ways in which social circles deal with information in blogs available on the web. The social approach to the studies of information users was adopted as theoretical support based on the concept of information practices as a way of understanding the relationship between subject and information. A review of theory was carried out regarding blogs, highlighting the meaning of webrings as social circles formed by bloggers in the web. Literary reading was discussed with emphasis on its appropriation and sharing. Since the research was qualitative and in depth, the methodology involved the use of netnography, which allowed an immersion in the literary blogosphere, using the documentary analysis and the semi-structured interview as data collection techniques. The data obtained were evaluated based on the content analysis and discussed in light of the theoretical support. The results pointed out the information practices performed by the eight bloggers identified in the sample, which were listed in four categories: reading, identity, information actions, and interaction. Regarding the roles played by the bloggers in the literary blogosphere, it was identified that they act as readers and as content producers but are not considered mediators of reading, although they encourage reading on their blogs. The motivation of each blogger both to enter the literary blogosphere and to keep their blog active runs through personal matters that extend beyond the simple desire to share readings: the need to overcome shyness, to have an active voice, and to be heard by other people, as well as being able to express their own opinion about the readings, set an example for their children and keep them close, escape from loneliness, and the responsibility for editorial partnerships and blog readers. Regarding the formation of webrings, it was verified that they are formed both in virtual and in person, through literary events. However, the interaction between literary bloggers occurs predominantly in the virtual environment. Keywords: Information Practices. Literary Blogs. Bloggers. Webrings. Sharing readings. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 – Práticas informacionais de adolescentes em comunidades digitais.................36 FIGURA 2 – Layout básico de um blog.................................................................................47 FIGURA 3 – 20º #Clube do Livro BH....................................................................................89 FIGURA 4 – Blog escolhido para aplicação do piloto...........................................................92 FIGURA 5 – Clube do Livro de Ribeirão das Neves ............................................................96 FIGURA 6 – 5 anos de #Clube do Livro BH.........................................................................97 FIGURA 7 – Encontro de Fãs da Marissa Meyer.................................................................98 FIGURA 8 – Página inicial do blog Entrando Numa Fria....................................................103 FIGURA 9 – Página inicial do blog Minha Estante e Muito Mais........................................105 FIGURA 10 – Página inicial l do blog Marshmallow com Café.............................................107 FIGURA 11 – Página inicial do blog DNA Literário...............................................................109 FIGURA 12 – Página inicial l do blog Cultura Pocket...........................................................112 FIGURA 13 – Página inicial do blog Menina Compassiva....................................................114 FIGURA 14 – Página inicial l do blog Livros e Sushi............................................................115 FIGURA 15 – Página inicial do blog Paradise Books...........................................................117 FIGURA 16 – Livro Outlander nos suportes eletrônico e impresso......................................134 FIGURA 17 – Produção de fotografias autorais nos blogs...................................................174 FIGURA 18 – Link de blogueiras nos comentários dos blogs..............................................200 FIGURA 19 – Webrings identificados na pesquisa...............................................................205 LISTA DE QUADROS QUADRO 1 - Levantamento dos blogs literários...................................................................21 QUADRO 2 - Categorias de blogs.........................................................................................43 QUADRO 3 - Características distintivas entre sites e blogs..................................................45 QUADRO 4 - Trabalhos sobre blogs na Ciência da Informação............................................56 QUADRO 5 - Definição da amostra.......................................................................................90 QUADRO 6 - Perfil das entrevistadas.................................................................................101 QUADRO 7 - Frequência das postagens............................................................................119 QUADRO 8 - Número de comentários das postagens........................................................120 QUADRO 9 - Número de seguidores dos blogs..................................................................121 QUADRO 10 - Características dos blogs literários analisados..............................................122 QUADRO 11 - Categorias de análise...................................................................................124. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS BDTD - Biblioteca Digital de Teses e Dissertações CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CI - Ciência da Informação COEP - Comitê de Ética em Pesquisa ELIS - Everyday Life Information Seeking HTML- Hypertext Markup Language ISIC - Information Seeking in Context RMBH - Região Metropolitana de Belo Horizonte TCLE - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais UFPB - Universidade Federal da Paraíba SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 18 2 ESTUDOS DE USUÁRIOS DA INFORMAÇÃO………………………...........24 2.1 Abordagem tradicional dos estudos de usuários ................................... 25 2.2 Abordagem alternativa dos estudos de usuários ................................... 27 2.3 Abordagem social dos estudos de usuários ........................................... 29 2.3.1 Práticas informacionais ............................................................................ 32 3 BLOGS: CONCEITOS E APROPRIAÇÕES ............................................... 37 3.1 Um breve histórico dos blogs .................................................................. 39 3.2 Categorização dos blogs .......................................................................... 42 3.3 Estrutura dos blogs ................................................................................... 44 3.4 Webrings e comunidades virtuais ............................................................ 48 3.5 Blogs literários e blogosfera .................................................................... 51 3.6 Blogs como objeto da Ciência da Informação ........................................ 54 3.6.1 Blogs como fontes de informação ........................................................... 60 3.6.2 Blogs relacionados à Biblioteconomia .................................................... 61 3.6.3 Blogs como espaços sociais de representação...................................... 62 3.6 4 Estudos da blogosfera .............................................................................. 63 3.6.5 Tratamento da informação em blogs ....................................................... 64 3.6.6 Estudos sobre blogs literários ................................................................. 64 3.6.7 Considerações sobre estudos de blogs na CI ........................................ 65 4 LER E COMPARTILHAR ............................................................................ 66 4.1 Leitura literária .......................................................................................... 66 4.2 Leitura solitária e leitura compartilhada .................................................. 68 4.3 Mediação de leitura ................................................................................... 71 4.4 Comunidades de leitores .......................................................................... 74 4.5 Ler e compartilhar na web ........................................................................ 76 5 METODOLOGIA ......................................................................................... 81 5.1 Netnografia ................................................................................................ 82 5.2 Técnicas de coleta de dados .................................................................... 84 5.3 Universo e amostra ................................................................................... 87 5.4 Piloto .......................................................................................................... 91 6 RESULTADOS E ANÁLISE ........................................................................ 93 6.1 Eventos literários ...................................................................................... 93 6.2 Perfil das blogueiras ............................................................................... 100 6.3 Perfil dos blogs ....................................................................................... 102 6.3.1 Entrando Numa Fria ................................................................................ 103 6.3.2 Minha Estante e Muito Mais .................................................................... 105 6.3.3 Marshmallow com Café ........................................................................... 107 6.3.4 DNA Literário ........................................................................................... 109 6.3.4 Cultura Pocket ......................................................................................... 111 6.3.6 Menina Compassiva ................................................................................ 113 6.3.7 Livros e Sushi .......................................................................................... 115 6.3.8 Paradise Books ....................................................................................... 117 6.3.9 Características dos blogs analisados .................................................... 119 6.4 Categorias de análise .............................................................................. 123 6.4.1 Leitura ...................................................................................................... 126 6.4.1.1 Interesse inicial pela leitura ....................................................................... 126 6.4.1.2 Frequência de leitura ................................................................................ 131 6.4.1.3 Suportes de leitura..................................................................................... 133 6.4.1.4 Necessidade de compartilhar leituras ...................................................... 136 6.4.1.5 Busca de informações sobre livros ............................................................ 138 6.4.1.6 Apropriação da leitura ............................................................................... 143 6.4.2 Identidade ................................................................................................ 151 6.4.2.1 Motivações ................................................................................................ 152 6.4.2.2 Representações do blog ........................................................................... 156 6.4.2.3 Mudanças após o blog .............................................................................. 161 6.4.3 Ações de informação .............................................................................. 164 6.4.3.1 Produção de conteúdo .............................................................................. 164 6.4.3.2 Escrita de resenhas .................................................................................. 166 6.4.3.3 Sorteios e lançamentos ............................................................................. 171 6.4.3.4 Produção de fotos ..................................................................................... 173 6.4.3.5 Atualização ............................................................................................... 177 6.4.3.6 Transmídia ................................................................................................ 178 6.4.4 Interação ................................................................................................. 186 6.4.4.1 Leitores ..................................................................................................... 186 6.4.4.2 Blogueiros ................................................................................................. 195 6.4.4.3 Mercado editorial ...................................................................................... 211 6.5 Práticas informacionais das blogueiras .................................................. 219 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................... 222 REFERÊNCIAS ........................................................................................ 225 APÊNDICE A – ROTEIRO DA ENTREVISTA .......................................... 237 APÊNDICE B - TCLE ............................................................................... 239 18 1 INTRODUÇÃO “Porque eu acho que a leitura é isso: ela tem esse poder de te distrair mas, ao mesmo tempo, de te manter viva” (Lucíola1). A leitura literária possui um caráter paradoxal, ao permitir escapadas solitárias e também encontros (PETIT, 2009). Em certo aspecto, o ato de ler pode ser compreendido como solitário, uma vez que o leitor possui apenas o livro como seu companheiro durante a leitura, realizando um diálogo interno com o texto e com o autor. Contudo, o fim da leitura pode vir acompanhado de uma necessidade do leitor de compartilhar as reflexões e experiências vivenciadas pela narrativa, emitindo sua opinião e juízo de valor sobre o livro lido. É nesse sentido que a leitura literária pode abrir caminho para encontros com outros leitores, de forma que possam ocorrer trocas informativas sobre suas experiências de leitura. Petit (2009) afirma que ler permite criar vínculos não só com a narrativa e os fragmentos de uma história, mas também entre participantes de grupos e universos culturais. Nessa perspectiva, é possível abordar a dimensão socializadora da leitura literária, na qual ocorre o intercâmbio das ideias suscitadas durante a leitura individual com outros membros de uma comunidade leitora. Portanto, participar de uma comunidade é enriquecedor para o leitor que, além de dialogar com o autor, passa também a interagir com outros leitores, propiciando o contato com novas experiências e percepções sobre a obra literária e os sentidos despertados pela leitura. Diante da possibilidade de o leitor poder compartilhar suas leituras em círculos sociais de leitores, surgiram algumas inquietações que nortearam essa pesquisa: E se um leitor literário que deseja compartilhar suas leituras não encontra outros leitores com os quais possa comentar sobre os livros que leu? Quais as possibilidades que esse leitor possui, visto que ele não tem contato com nenhum grupo de leitores que se encontra presencialmente? Será possível que esse leitor acesse a web à procura de um espaço no qual possa compartilhar suas leituras com outros leitores? Em outras épocas, era necessário um local físico onde um grupo de leitores pudesse se encontrar pessoalmente. Outro meio de comunicação era o envio de correspondências por correio para compartilhar leituras, críticas e comentários. O advento da internet abriu novas possibilidades para entrar em contato com as pessoas através da rede. Assim, uma comunidade de leitores não precisa ser necessariamente um encontro de um grupo in loco presencialmente. Atualmente, a interação ocorre de forma on-line, onde leitores podem 1 Participante da pesquisa, durante a entrevista. 19 elogiar, sugerir, opinar e criticar sobre o que leram durante ou imediatamente após a leitura (CARNEIRO, 2011). Dessa forma, uma das possibilidades que o leitor literário possui para compartilhar suas experiências de leitura é inserir-se no ambiente virtual, buscando outros leitores na web. A experiência da internet acabou por demonstrar que cada leitor tem uma legitimidade, um direito de julgamento pessoal. As redes eletrônicas ampliam a possibilidade de intervenções e discussões, estando ao alcance de todos a produção dos juízos pessoais e a atividade crítica (CHARTIER, 2009). Assim, surgiram espaços virtuais nos quais leitores podem compartilhar suas leituras, opiniões, críticas, sugestões e quaisquer informações literárias. Um desses espaços são os blogs literários. De modo geral, um blog se configura como um espaço virtual utilizado para publicação de informação escrita dos mais diversos gêneros. Conforme Pereira (2008), as principais características de um blog são a atualização constante e o formato de diários com textos, notícias e opiniões individualizadas e com estilo informal e subjetivo. Ao se tratar especificamente da literatura, é possível encontrar inúmeros blogs literários que se dedicam a compartilhar informações sobre o tema. Araújo e Araújo (2015) consideram blogs literários como aqueles que abordam de várias maneiras a temática da leitura, dos livros e da literatura em geral. De acordo com esses autores, a resenha seria um elemento importante na categorização dos blogs literários, pois são as representações das experiências de leitura do blogueiro, transmitidas aos leitores da página. Outra importante característica de um blog é sua interatividade, que se dá através dos comentários possíveis de serem feitos nas postagens. Assim, um blog permite a comunicação entre os escritores de blogs, denominados blogueiros, e seus leitores. De acordo com Di Luccio e Nicolaci-da-Costa (2010), além de escreverem em seus blogs, os blogueiros leem regularmente outros blogs e interagem com os seus autores. Como resultado é formada uma comunidade de escritores/leitores de blogs com grande potencial de interação e formação de opinião pública. Recuero (2003, p. 9) denomina esses círculos sociais formados por blogueiros como webrings, que “representam um círculo de pessoas que interagem com alguma frequência através de seus blogs e comentários”. Dessa forma, são constituídos círculos sociais virtuais, nas quais os papéis de blogueiros e leitores se misturam, permitindo uma interatividade que resulta em um compartilhamento de informações sobre literatura. Com base nos argumentos elencados, essa pesquisa tem como foco os blogueiros literários, compreendidos como leitores que atuam como produtores de conteúdo sobre literatura na web. Acredita-se que realizar um estudo com esses blogueiros possa auxiliar na compreensão do modo como o fluxo e o compartilhamento da informação acontecem nos webrings ligados à temática da literatura. Assim sendo, a compreensão das práticas 20 informacionais desses sujeitos pode fornecer importantes elementos para o entendimento das maneiras como círculos sociais lidam com a informação nos blogs disponíveis na web. A imersão na blogosfera, a comunidade formada por blogs e blogueiros, suscita vários questionamentos sobre os blogueiros literários, seus respectivos blogs e os círculos sociais formados por eles: os webrings. A primeira motivação da pesquisa foi conhecer as intenções de criação dos blogs literários, para verificar se o intuito da existência do blog se dava a partir de uma necessidade de compartilhamento de experiências de leituras literárias. Logo surgiram também outras questões, sendo uma delas referente às práticas informacionais dos blogueiros e os papéis desempenhados por eles, que atuam como leitores, produtores de conteúdo e possíveis mediadores de leitura. Uma última questão trata dos webrings, como são formados e como ocorrem as interações no interior deles. Esses questionamentos levam ao seguinte problema de pesquisa: Como se configuram as práticas informacionais dos blogueiros literários nos papéis de leitores, produtores de conteúdo e mediadores de leitura nos webrings pertencentes à blogosfera literária? Para responder à questão problematizada fez-se necessário um estudo com enfoque no blogueiro como sujeito informacional, compreendendo sua individualidade, mas também sua relação dialética com o coletivo. O objetivo geral dessa pesquisa foi, portanto, investigar os blogs literários buscando averiguar as práticas informacionais dos blogueiros no que diz respeito aos seus papéis como leitores, produtores de conteúdo e mediadores de leitura nos webrings pertencentes à blogosfera literária. Para alcançar o objetivo geral, foram considerados os seguintes objetivos específicos:  Caracterizar as práticas informacionais dos blogueiros literários;  Constatar os principais motivos que levam à criação do blog literário;  Identificar os papéis dos blogueiros literários como leitores, produtores de conteúdo e mediadores de leitura nos webrings;  Investigar como se dá a criação dos webrings. A World Wide Web, doravante designada como web, é uma plataforma de interface hipertextual que agrupa várias ferramentas e recursos que possibilitam a divulgação e o compartilhamento de informações. Dentre esses recursos estão os blogs, espaços de trocas de informações, que promovem o surgimento de novas ideias e reflexões, propiciando a interação e comunicação entre as pessoas no ambiente virtual (ALCARÁ; CURTY, 2008). Os blogs são páginas da web com características específicas, cujo surgimento e popularização datam do final da década de 1990. O fenômeno dos blogs é relativamente recente, permitindo que uma pessoa, grupo ou instituição possa se tornar um autor/editor de sua própria página, expressando suas opiniões e divulgando informações no espaço público 21 da internet. A enorme difusão dos blogs aconteceu em poucos anos, tendo esse se tornado um novo modelo de comunicação, permitindo a publicação de textos com bastante autonomia e possibilitando a interação dos leitores (EIRAS, 2007). À época do grande aumento do número de blogs, Loyola e Malini (2010) consideraram a blogosfera como uma das maiores manifestações de interação no ciberespaço. Os blogs tiveram um acelerado crescimento na primeira década dos anos 2000. Entretanto, Biscalchin (2012) afirma que, na década de 2010, a ausência da divulgação de números sobre o tamanho da blogosfera fez surgir a especulação sobre a morte dos blogs. Veículos importantes como o The New York Times afirmaram que ferramentas de redes sociais como o Facebook e o Twitter decretariam a falência dos blogs. Entretanto, existe uma tendência do uso dessas ferramentas para divulgar, interagir e captar leitores para os blogs. Outro argumento é de que os espaços dos blogs são para conteúdos maiores que os poucos caracteres disponíveis no Twitter. Dessa forma os conteúdos considerados banais que antes estavam nos blogs, como o que se está fazendo ou pensando no momento, têm agora lugar nessas redes sociais, deixando os blogs livres para se tornarem a esfera pública da criatividade e da expressão (BISCALCHIN, 2012, p. 63). Entre as diversas tipologias de blog, os blogs literários apresentam-se como importantes elementos na blogosfera. Araújo e Araújo (2015) fizeram um levantamento dos blogs literários existentes por meio de uma busca no diretório de blogs do Google como pode ser observado no Quadro 1. Quadro 1 - Levantamento dos blogs literários Descritor Resultados Blogs sobre livros Aprox. 31.100 Blogs literários Aprox. 35.900 Blogs sobre leitura Aprox. 40.900 Fonte: ARAÚJO; ARAÚJO, 2015, p. 9. Entretanto, sua importância não advém somente da sua amplitude quantitativa, mas dos complexos aspectos comunicativos e informacionais realizados pelos blogueiros que os constituem. Como recorte da pesquisa, optou-se por investigar os blogs e blogueiros literários. Existe um pressuposto de que a dinâmica de compartilhamento da informação nos blogs literários apresenta-se mais rica, uma vez que as postagens implicam em leituras prévias de livros pelos blogueiros, o que não acontece, por exemplo, em blogs no formato de diários pessoais. Dessa forma, as relações entre o sujeito e a informação apresentam-se complexas e permeadas por vários processos como: leitura, apropriação e interpretação da informação, 22 produção de conteúdo, compartilhamento de experiências de leitura, navegação pela blogosfera literária, troca de informações e conversas informais com leitores e demais blogueiros. A proposição de um estudo de blogs e blogueiros literários no âmbito da Ciência da Informação (CI) relaciona-se ao fato de que essa área configura-se como uma ciência social aplicada, possuindo um “objeto teórico que se constitui pela articulação de objetos empíricos, como pessoas, processos, instrumentos e produtos, cuja orientação é essencialmente pragmática” (ORTEGA, 2013, p. 2). Nessa perspectiva, uma das subáreas da CI é constituída pelos estudos de usuários da informação. Dessa forma, o estudo do universo informacional está atrelado às pessoas, aos grupos e comunidades. O fluxo informacional depende da comunicação, do uso e da apropriação da informação pelos indivíduos. A Ciência da Informação, no campo dos estudos de usuários, coloca os sujeitos em perspectiva: “A informação passa a ser vista como algo na perspectiva de um sujeito” (ARAÚJO, 2009, p. 200). González de Gómez (1999) ressalta que o ato de informar ou buscar informação antecipa a concepção do que será elaborado pelo usuário como informação. De acordo com a autora, há uma seleção e construção do indivíduo que irá estipular “em qual caso a informação é um caso”. O sujeito é quem intervém na significação de algo que virá a se tornar informação. Tal processo ocorre por meio de uma seleção, seja ela individual ou social, na qual o usuário emerge um valor de informação. Os valores ou ‘testemunhos’ de informação se constituem, assim, pela sobre- determinação de uma “indecidibilidade estrutural”, mediante atos seletivos e decisionais, quer sejam explícitos e formais, quer sejam tácitos e não- formalizados, dos indivíduos e grupos sociais em suas práticas culturais (GONZÁLES DE GOMES, 1999, p. 4). O sujeito, tido como ator do seu processo de conhecimento, se apropria da informação de forma simbólica, após um processo de significação, relacionado ao âmbito individual e coletivo. Portanto, analisar a relação entre o sujeito e a informação, sobretudo quando o indivíduo é quem julga o que é informação, é analisar as práticas informacionais do sujeito e/ou de uma comunidade. Por meio dessa análise verificam-se também os fatores que influenciam os usuários nesses processos. Marteleto (1995) define as práticas informacionais: [...] toda prática social é uma prática informacional – expressão esta que se refere aos mecanismos mediante dos quais os significados, símbolos e signos culturais são transmitidos, assimilados ou rejeitados pelas ações e representações dos sujeitos sociais em seus espaços instituídos e concretos de realização (MARTELETO, 1995, p. 4). Deste modo, a pesquisa sobre as práticas informacionais dos blogueiros pertencentes à blogosfera literária se insere no campo da Ciência da Informação. Tal estudo pretende ampliar a agenda de pesquisas do campo, que historicamente sempre privilegiou certos grupos sociais, como cientistas, empresários e profissionais. Tal ampliação possibilita que 23 outros grupos sociais sejam contemplados nos estudos realizados na CI, considerando outros tipos de sujeitos informacionais (ARAÚJO, 2008). Em relação à estrutura, o texto dessa dissertação é composto por este capítulo introdutório e pelos capítulos indicados a seguir. No capítulo 2 – Estudos de Usuários da Informação – é apresentada uma breve revisão sobre o campo dos estudos de usuários, contemplando suas três abordagens: tradicional, alternativa e social. A ênfase do capítulo é na discussão do conceito de práticas informacionais, vinculado à abordagem social dos estudos de usuários. No capítulo 3 – Blogs: conceitos e apropriações – apresenta-se uma revisão teórica sobre os blogs, discutindo-se a terminologia, o histórico, as diferentes conceituações, os elementos estruturais, as tipologias e as múltiplas apropriações dos blogs no contexto virtual. Ao final do capítulo é realizado um levantamento bibliográfico de estudos sobre blogs no âmbito da CI e uma análise dos trabalhos encontrados. O capítulo 4 – Ler e Compartilhar – aborda questões relativas à leitura literária, uma vez que essa está vinculada ao motivo da existência dos blogs literários. Dessa forma, a temática da leitura é explorada em suas dimensões individual e coletiva, com ênfase no compartilhamento de leituras e na formação de comunidades. Também são apresentadas as diversas plataformas virtuais nas quais o leitor pode compartilhar suas leituras na web. No capítulo 5 – Metodologia – apresenta-se o método adotado na pesquisa, a netnografia, e também as técnicas de coletas de dados utilizadas, a análise documental e a entrevista semiestruturada. Em seguida, descreve-se o processo de definição da amostra da pesquisa e o piloto. No capítulo 6 – Resultados e Análise – é relatada a forma como os dados foram analisados. Na sequência, são apresentados os perfis dos blogs e das blogueiras participantes da pesquisa. A análise é feita por meio de quatro categorias principais e 18 subcategorias, nas quais os dados coletados foram discutidos à luz do referencial teórico. Nas Considerações Finais, recapitulou-se a pesquisa, explicitando seus principais resultados e contribuições. É feita uma avaliação da metodologia e das técnicas de coleta de dados aplicadas. Em seguida, são apresentadas sugestões para pesquisas futuras. 24 2 ESTUDOS DE USUÁRIOS DA INFORMAÇÃO Nesse capítulo são apresentados os fundamentos teóricos que embasam essa pesquisa, vinculada à abordagem social dos estudos de usuários, uma vez que objetiva estudar as práticas informacionais dos blogueiros literários. Entretanto, para se compreender o conceito de práticas informacionais é necessária uma breve revisão sobre o campo de estudos de usuários. Os estudos de usuários da informação podem ser entendidos como uma subárea da Ciência da Informação (ARAÚJO, 2008). Inicialmente voltados às bibliotecas, esses estudos têm sua origem na primeira metade do século XX. No decorrer do tempo, os estudos de usuários são abordados em perspectivas diferentes, que alteram a forma como o sujeito e sua relação com a informação são analisados. Diferentes contextos históricos e científicos possibilitaram a elaboração de determinadas maneiras de se estudar os usuários. Contudo, é importante reconhecer que, apesar das abordagens terem seguido uma sequência histórica linear, não significa que elas pertencem estritamente à época em que surgiram, e que as perspectivas mais antigas foram abandonadas e substituídas. É possível identificar estudos de usuários atuais pertencentes às abordagens tradicional, alternativa ou social. A escolha da abordagem depende dos objetivos da pesquisa e da perspectiva pela qual se deseja compreender os usuários. Capurro (2003) apresenta os três paradigmas epistemológicos da Ciência da Informação: paradigma físico, cognitivo e social. O paradigma físico remete à teoria matemática e à concepção de informação como coisa, um fenômeno objetivo, excluindo o papel ativo do usuário na recuperação de informações e no processo informativo e comunicativo em geral. O paradigma cognitivo pretende compreender de que maneira os processos informativos transformam o usuário, tido como um indivíduo cognitivo portador de uma necessidade, uma anormalidade cognitiva em que os conhecimentos que possui não são suficientes para resolver um problema. O paradigma social não compreende o usuário como ser isolado, mas inserido em um contexto social, que desempenha um papel ativo em sua relação com a informação. Dessa forma, é possível identificar o percurso dos estudos de usuários da informação dentro dos paradigmas físico, cognitivo e social, tratando-se respectivamente das abordagens tradicional, alternativa e social. A seguir serão exploradas as três abordagens. Como a pesquisa foi realizada a partir da abordagem social, a ênfase desse capítulo concentra-se na discussão da perspectiva das práticas informacionais. 25 2.1 Abordagem tradicional dos estudos de usuários Os primeiros estudos de usuários foram embasados na abordagem tradicional. Nessa perspectiva, a relação entre o indivíduo e a informação é estudada como forma de planejar e melhorar serviços de unidades de informação. O usuário é analisado conforme seus hábitos de busca e uso de informação, as fontes de informação que utiliza e seu grau de satisfação com o sistema de informação. A análise é feita com métodos estatísticos e correlação de variáveis, objetivando criar generalizações para o comportamento de determinado grupo de usuários, prevendo suas demandas e organizando o sistema de informação para melhor atender suas necessidades. Segundo Rabello (1981), dentre as várias categorias de usuário, esse campo temático aborda o usuário da informação. Tratar um indivíduo como usuário da informação requer considerá-lo sob um ponto de vista amplo, pois a informação encontra-se registrada em diferentes suportes físicos, transmitida por uma série de canais e armazenada em diferentes locais. “Quanto ao campo relativo ao usuário, temos que seu elemento principal de análise é o próprio usuário” (RABELLO, 1981 p. 3). Os estudos de usuários são definidos por Figueiredo (1994) como a verificação dos fins para os quais os indivíduos usam informação e quais os fatores que afetam esse uso. Estudos de usuários são investigações que se fazem para saber o que os indivíduos precisam em matéria de informação, ou então, para saber se as necessidades de informação por parte dos usuários de uma biblioteca ou de um centro de informação estão sendo satisfeitas de maneira adequada. (FIGUEIREDO, 1994, p. 7). De acordo com Choo (2003, p.65), o estudo de como as pessoas se comportam quando buscam e usam a informação tem uma longa trajetória. “A busca e o processamento da informação são fundamentais em muitos sistemas sociais e atividades humanas”. O primeiro marco da origem dos estudos de usuários está relacionado à fundação da Graduate Library School da University of Chicago, na década de 1930 (ARAÚJO, 2010). Dias (2000) constata que a instituição voltou-se para a pesquisa orientada para o campo das Ciências Sociais e Biblioteconomia, que incluíam estudos sobre necessidades de informação e atitudes do cidadão em relação à biblioteca. No fim do século XIX e começo do século XX, a biblioteca pública, nos Estados Unidos, foi responsável por equalizar as oportunidades educacionais e auxiliar na assimilação de imigrantes vindos de diferentes partes do mundo (FIGUEIREDO, 1994). De acordo com Araújo (2010, p. 6), nesse momento “começam a ser desenvolvidos estudos de usuários para conhecer esses imigrantes – quem são, que línguas conhecem, que grau de escolaridade possuem, quais interesses etc. – como forma de cumprir o objetivo proposto”. Segundo o autor, os primeiros estudos de usuários buscavam indicadores demográficos dos grupos 26 sociais atendidos (usuários) ou não atendidos (não-usuários) pelas bibliotecas, com o objetivo de apresentar um diagnóstico que permitisse aperfeiçoar os produtos e serviços bibliotecários. O segundo marco originário do campo é a Conferência sobre Informação Científica da Royal Society em 1948, na qual foram apresentados dois estudos: um sobre o comportamento de busca de informação de cientistas britânicos servidores de órgãos governamentais, universidades e institutos particulares de pesquisa; e outro sobre o uso da biblioteca do museu de Londres (CHOO, 2003). Em Washington, a Conferência Internacional de Informação Científica de 1958 também contribuiu muito para essa área de investigação, com apresentação de diversos trabalhos de estudos de usuários (FIGUEIREDO, 1994). Os primeiros estudos de usuários de informação foram patrocinados por organizações profissionais, objetivando responder à explosão de informações científicas e novas tecnologias. Também eram iniciados por bibliotecários ou administradores de centros de informação ou laboratórios, com o intuito de obter dados para planejar seu serviço. O recebimento de verbas advindas de agências governamentais era um fator que aumentava significativamente os estudos sobre grupos científicos e tecnológicos (CHOO, 2003). Ao longo de meio século de história, é possível contar milhares de estudos que investigaram as necessidades e usos da informação em determinados grupos de pessoas. Um amplo espectro de usuários da informação foi pesquisado, o que inclui cientistas, engenheiros, cidadãos de uma comunidade, grupos de interesse, médicos, pacientes, pessoas com preocupações de saúde. Executivos, administradores, pequenos empresários, funcionários do governo, advogados, acadêmicos, estudantes, usuários de bibliotecas, etc. (CHOO, 2003, p. 65). De acordo com Araújo (2010, p. 10), os estudos iniciados na década de 1940, objetivavam “a produção de indicadores de uso, os processos e fluxos da comunicação científica, a produção de dados para o diagnóstico e o planejamento e a gestão da informação no ambiente organizacional”. Conforme o autor, esses estudos seguem um modelo positivista, que se expressa na preocupação de se estabelecer leis de comportamento para o usuário da informação e “medir” seus hábitos de busca e uso da informação, verificando frequências de acesso e grau de satisfação. O modelo positivista, presente no paradigma tradicional de estudos de usuários, envolve os seguintes aspectos: objetivo de explicação (tal como nas ciências naturais), tratamento estatístico, correlação de variáveis e busca do estabelecimento de relações causais, verificação pela manipulação de uma ou mais variáveis, busca de generalizações, possibilidade de replicação do experimento. A abordagem tradicional compreende pesquisas orientadas ao sistema, ou seja, com foco principal nas unidades de informação. É caracterizada como estudos que enfocam o conteúdo ou a tecnologia. Os estudos voltados ao conteúdo são os relacionados às linhas temáticas de interesse de grupos de usuários, com base nos modelos tradicionais de classificação do conhecimento. Os estudos voltados à tecnologia são os que 27 focalizam o uso de livros, fontes, bases de dados, obras de referência, computador ou o próprio sistema (COSTA; SILVA; RAMALHO, 2009, p. 7). Choo (2003, p. 66) caracteriza a orientação ao sistema como aquela que vê a informação como entidade externa, independente dos usuários ou sistemas sociais, uma entidade objetiva que tem uma realidade própria baseada no conteúdo. “A informação existe a priori, e é tarefa do usuário localizá-la e extraí-la”. Para o autor, a pesquisa orientada para o sistema examina como a informação flui por esses sistemas sociais e objetiva o desenvolvimento de instrumentos e serviços para simplificar o acesso à informação e fomentar a partilha de informações. Com o passar do tempo, os estudos de usuários foram se transformando e adotaram uma postura mais analítica e avaliativa (CUNHA, 1982). É sobre essas mudanças que trataremos a seguir ao apresentarmos a abordagem alternativa dos estudos de usuários. 2.2 Abordagem alternativa dos estudos de usuários Dervin e Nilan (1986) apontam que a evolução dos estudos de usuários possibilitou a identificação de duas abordagens diferentes: a abordagem tradicional e a alternativa. A diferença entre as abordagens reside no modo como é interpretado o sujeito, a informação e a relação entre eles. Na perspectiva tradicional, a informação é objetiva e o usuário é visto através do seu comportamento externo no âmbito dos sistemas de informação. Já na perspectiva alternativa, o usuário é um sujeito ativo e cognitivo, que utiliza a informação para construir seu conhecimento. Dessa forma, críticas feitas à abordagem tradicional levaram a constituição da abordagem alternativa, também denominada abordagem cognitiva. O principal aspecto criticado na perspectiva tradicional dos estudos de usuários foi seu caráter positivista e generalizante, que considerava os indivíduos apenas como processadores de informação, não apresentando estudos que colocassem realmente os usuários no centro do processo de busca de informação (BERTI; ARAÚJO, 2017). Segundo Araújo (2012), na abordagem alternativa a informação não é mais entendida como um documento ou item informacional que é acessado pelos usuários, passando a ser definida na sua relação com o conhecimento (ou ausência dele). A informação é compreendida como algo capaz de alterar os estados cognitivos dos indivíduos, sendo o foco dessa perspectiva a maneira como os próprias pessoas percebem a lacuna cognitiva que possuem e as estratégias que escolhem para buscar e usar as informações para suprir sua necessidade informacional. Segundo o autor, as variáveis sociodemográficas não são fundamentais nessa abordagem como eram na perspectiva tradicional, sendo a principal variável o modo como os usuários percebem suas lacunas. 28 Dessa forma, a grande inovação da abordagem alternativa, é posicionar o usuário como um sujeito ativo nos seus processos de necessidade, busca e uso de informação. Para Choo (2003), a pesquisa orientada para sistemas, concebida na abordagem tradicional, acontece no ambiente externo ao indivíduo, analisando instrumentos e serviços. Já os estudos que apresentam uma orientação para o usuário, interpretam a informação como uma construção subjetiva criada dentro da mente dos usuários, examinando as preferências e necessidades cognitivas e psicológicas do indivíduo e como isso afeta sua busca por informações (CHOO, 2003). Embora um documento ou registro possa ser definido ou representado em referência a algo ou a algum assunto, o usuário encerra esse conteúdo objetivo num envelope interpretativo, de modo que a informação torna-se significativa, e é esse pacote de conteúdo mais interpretação que os usuários julgam valioso e útil. Portanto, o valor da informação reside no relacionamento que o usuário constrói entre si mesmo e determinada informação. Assim, a informação só é útil quando o usuário infunde-lhe significado, e a mesma informação objetiva pode receber diferentes significados subjetivos de diferentes indivíduos (CHOO, 2003, p. 70). Conforme Berti e Araújo (2017), a partir da década de 1970, teorias e modelos explicativos foram usados principalmente em investigações ligadas ao comportamento informacional dos usuários. O conceito de comportamento informacional, cunhado por Tom Wilson, apresenta-se relacionado a necessidade de informação, identificada pelos indivíduos, que buscam e usam informação para resolver seus problemas informacionais. Criados com o objetivo de explicar como os usuários buscam a informação a partir de uma necessidade consciente, os modelos relacionam o comportamento a uma situação que o usuário se encontra especialmente no contexto da pesquisa, em bibliotecas ou espaços especializados. Estes modelos tornaram-se importantes referências para responder questões ligadas aos caminhos tomados pelas pessoas que necessitam de informação (BERTI; ARAÚJO, 2017, p. 6). Dentre esses modelos, podemos citar o de Dervin (1992), o de Kuhlthau (1991) e o de Taylor (1986). O modelo de criação de significado de Brenda Dervin compreende o indivíduo como capaz de construir significados. A necessidade de informação do sujeito consiste em um uma lacuna no seu estado de conhecimento. Esse modelo é associado à metáfora de uma pessoa que move-se no tempo e no espaço, o movimento para frente significa a criação de significados, que é interrompido por uma descontinuidade, um vazio cognitivo. Para transpor esse vazio o indivíduo realiza estratégias de busca por informações e ao usar a informação o sujeito obtém o que necessita para preencher a sua lacuna. De acordo com a autora, o modo como as pessoas percebem seus vazios cognitivos pode prever seu comportamento de busca e uso da informação. Por sua vez, Kuhlthau (1991) entende que as necessidades cognitivas estão relacionadas às reações emocionais, dessa forma as necessidades informacionais são pensadas e também sentidas. As reações emocionais orientam a busca da informação e 29 também determinam como o indivíduo processa e usa a informação. A autora divide o comportamento de busca por informação em seis estágios e identifica a relação entre sentimentos, pensamentos e ações em cada um desses estágios, baseados no princípio da incerteza. Já Taylor (1986) compreende que o uso da informação é situacional. Sendo assim, o ambiente de uso da informação está relacionado ao comportamento informacional do indivíduo, podendo as características do meio social ou profissional do sujeito induzir ou restringir certos comportamentos de busca da informação. Contudo, a abordagem alternativa também sofreu várias críticas. Ao compreender a necessidade de informação a partir de uma lacuna, como um conhecimento que falta para que seja possível executar uma tarefa, o modelo cognitivo acaba por restringir a compreensão do usuário como indivíduo portador de uma necessidade específica que seria satisfeita por determinada fonte de informação (ARAÚJO, 2008). Atualmente, a abordagem alternativa domina o campo dos estudos de usuários, como forma de superação da abordagem tradicional. Entretanto, observa-se que as pessoas que usam informação em seu cotidiano não o fazem apenas quando surge uma necessidade. Além disso, toda ação informacional está baseada em relacionamentos e interações, ou seja, são marcadas pelo social, que é construído reciprocamente (BERTI; ARAÚJO, 2017). A grande contribuição da abordagem cognitiva foi colocar os sujeitos como elementos centrais em sua relação com a informação. A partir dessa perspectiva os autores da Ciência da Informação sentiram a necessidade de analisar esse sujeito cognoscente e sua relação com a informação levando em consideração o seu contexto social. Assim, das críticas feitas à abordagem alternativa surgiu uma outra linha de pensamento: a abordagem social dos estudos de usuários. 2.3 Abordagem social dos estudos de usuários A abordagem social refere-se ao terceiro paradigma identificado por Capurro (2003) como paradigma social. Para o autor, esse paradigma é importante ao transcender os limites impostos pelo paradigma cognitivo, que considera a informação como algo separado do usuário, considerando-o primordialmente como sujeito cognoscente, isolado das condições sociais e materiais da existência humana. Conforme Capurro, deve existir uma integração da perspectiva individualista e isolacionista do paradigma cognitivo dentro de um contexto social. Para ele, a informação só tem valor enquanto conhecimento quando compartilhada, com a possibilidade de se apresentar relevante para outros indivíduos ou grupos. Berti e Araújo (2017) consideram que autores como Hjorland (2002), Rendón Rojas (2005) e Frohmann (2008) também estariam ancorados no paradigma social da informação. Tal concepção contempla a informação além dos seus aspectos físicos e cognitivos, 30 compreendendo o seu aspecto social. Considerar o aspecto social significa compreender que as construções sociais que são permeadas pelo caráter individual, coletivo, cultural, político e ideológico de uma realidade que é construída dialogicamente na relação entre o sujeito e a sociedade. Araújo (2008) descreve a instalação progressiva do paradigma social no âmbito da CI como um movimento teórico articulado em escala mundial. O I CoLIS – International Conference on Conceptions of Library and Information Science é visto pelo autor como o marco histórico desse paradigma. Nesse congresso, realizado em 1991, na Finlândia, diversos pesquisadores de diferentes nacionalidades apresentaram seus trabalhos que questionavam os modelos teóricos à época utilizados na CI, expondo propostas diferentes para se conduzir as pesquisas na área. A inserção dos estudos de usuários no paradigma social da CI é, provavelmente, a transformação mais importante para esses estudos no momento contemporâneo, o que pode contribuir também para o desenvolvimento de uma sólida fundamentação teórica para o campo (ARAÚJO, 2010). O evento internacional, à época intitulado Information Seeking in Context (ISIC), realizado pela primeira vez na Finlândia, em 1996, é considerado por Sirihal Duarte, Araújo e Paula (2017) como um marco importante no surgimento da abordagem social aplicada aos estudos de usuários. A importância do contexto foi evidenciada não somente no nome do evento, mas também nos trabalhos apresentados e nos debates. Para os autores, o enfoque no contexto é um deslocamento da análise cognitiva para a social, passando-se a considerar a interferência do contexto nas ações do indivíduo e também como as ações do indivíduo tem a possibilidade de alterar o contexto, em uma relação dialógica. Araújo (2012) aponta a possibilidade de construção de uma nova abordagem nos estudos de usuários, pautada pelo paradigma social, que poderia ser designada como abordagem interacionista dos estudos de usuários da informação. Segundo o autor, a partir do final da década de 1990, os estudos de usuários começam a tentar superar as tendências que viam o usuário por meio de um determinado perfil sóciodemográfico, como tratado na abordagem tradicional; ou enxergavam o usuário enquanto ser isolado e individual que sentia uma necessidade de informação, como na abordagem alternativa. A superação dessas tradições de estudo aliam o conhecimento acumulado nas décadas anteriores com as problematizações recentes que surgiram no campo da CI sobre o conceito de informação. Nas contribuições dos autores da área, alguns elementos comuns emergem: “a natureza social e coletiva do uso da informação; seu enraizamento num contexto concreto da experiência; o caráter ativo do usuário em sua relação com a informação; a natureza cognitiva, mas não só, do processo de busca e uso da informação” (ARAÚJO, 2012, p. 149). Nessa nova abordagem, a interação é um conceito-chave. “O conceito de intersubjetividade, isto é, de sujeitos em interação, torna-se central portanto para o campo de 31 estudos de usuários da informação” (ARAÚJO, 2010, p. 23). A ação recíproca pressupõe o fato de que uma ação exercida por algo ser também afetada por esse algo. O usuário, na perspectiva interacionista, não é totalmente determinado pelo contexto no qual se insere, mas também não é isolado ou alheio a ele, a influência real do contexto existe, mas não se apresenta como absoluta, sendo interpretada e alterada pelo sujeito. Da mesma forma, o significado da informação não está totalmente no documento material, mas também não é totalmente fruto da mente do usuário, sendo resultado da interação dos elementos que compõem a mensagem com as estratégias cognitivas do sujeito. Nessa mesma linha, o usuário é social, não sendo determinado pelo coletivo, mas também não se apresentando isolado desse. O sujeito, ao mesmo tempo, constrói o coletivo e é construído por ele. A ação de acessar e usar informação é cognitiva, mas também é emocional, cultural, contextual (ARAÚJO, 2012). Os usuários, no ponto de vista do paradigma social, não se apresentam mais como instrumentos para medição da eficácia de sistemas, nem como indivíduos cognoscentes desligados de um contexto, mas como seres produtores de sentido em constante interação com os demais, que se articulam em comunidades diversas, em esferas de diferentes naturezas (ARAÚJO, 2008). Dessa forma, estaria colocada uma nova agenda de pesquisa para os estudos de usuários, que não se atém a buscar taxas de uso de fontes de informação ou frequência de visitas à bibliotecas, voltando-se para compreensão do porquê do uso de determinada fonte, do entendimento do significado que o sujeito atribui a ela, do significado do acesso à biblioteca. Assim, os estudos de usuários da informação sob essa perspectiva talvez consigam ter como objeto de estudo os usuários propriamente ditos, ao invés das fontes e sistemas de informação, enxergando os usuários enquanto sujeitos nos processos de busca e uso de informação (ARAÚJO, 2010). A abordagem social compreende a dimensão recíproca dos fenômenos e de seus componentes. O estudo da interação do sujeito com a informação deve enxergar como ele é determinado pelo social, mas também como não é alheio a ele, entender que o significado da informação está no documento, mas também é recriado pelo sujeito (ARAÚJO, 2012). Na construção dessa nova abordagem, conforme Araújo (2010), determinadas perspectivas surgem como proporcionadoras de categorias e instrumentos de pesquisa como: a fenomenologia, postura epistemológica que concentra-se no estudo da vida cotidiana; o interacionismo simbólico, que propõe que o indivíduo e a sociedade se constituem reciprocamente; e a etnometodologia, que enxerga como os indivíduos constroem suas próprias definições. Essa última apresenta dois conceitos com enorme potencial de utilização nos estudos de usuários: (i) prática, conceito que compreende que fatos sociais são constantemente produzidos pelos indivíduos; (ii) accountability, maneira reflexiva como os 32 indivíduos tornam disponíveis e relatáveis suas experiências e ações para si mesmos e para os outros. Dessa forma, Araújo (2015) enfatiza que conceitos já utilizados nas ciências sociais e humanas podem se apresentar como contribuições teóricas e metodológicas na consolidação da incipiente abordagem social dos estudos de usuários. Dentre esses conceitos, o autor destaca a imaginação (DURAND, 1993) e a sociabilidade (MAFFESOLI, 1984). A imaginação se refere a capacidade de criar, imaginar, simbolizar. Assim, a imaginação não se trata de um estoque, e sim de uma capacidade. Já a sociabilidade é um conceito que se refere a uma atmosfera que unifica e agrega pessoas, diferenciando-se de relações sociais. A sociabilidade não é cristalizada, estabelecida e tipificada como as relações sociais, sendo construída no campo da experiência, realizando-se caso a caso, o que impede generalizações. Existe também uma diferença entre o conceito de sociabilidade e socialização. Esse último remete ao entendimento dos atores sociais e de como como são as estruturas de comportamento de uma sociedade. A ideia é de que o indivíduo está inserido num “jogo” com regras pré- definidas, já no conceito de sociabilidade o “jogo” ainda está em construção. A aplicação dos conceitos de imaginação e sociabilidade nos estudos de usuários da informação contribuiriam para superação das abordagens tradicional e alternativa. O conceito de imaginação auxilia a superar o caráter restritivo em torno da ideia de necessidade e uso da informação. A sociabilidade coloca ênfase no sujeito e suas diversas formas de atuação no mundo, destacando seu caráter social e coletivo, rompendo com a ideia de se estudar o sujeito isolado (ARAÚJO, 2015). As demandas colocadas pelo surgimento da abordagem social dos estudos de usuários da informação proporcionaram um espaço para que a perspectiva das práticas informacionais fosse utilizada como alternativa crítica ao comportamento informacional. Assim, a partir da década de 1990 a adoção desse termo vincula-se às interações entre sujeitos e informação, construídas coletiva e socialmente (ROCHA; SIRIHAL DUARTE; PAULA, 2017). Tal ideia é corroborada por Berti e Araújo (2017) ao considerarem que o entendimento da epistemologia social afeta o campo dos estudos de usuários, embasando a perspectiva das práticas informacionais, que compreendem o sujeito para além do comportamento informacional. 2.3.1 Práticas informacionais De acordo com Sirihal Duarte, Araújo e Paula (2017), a adoção do termo práticas informacionais e dos estudos voltados para uma postura sociocultural fazem parte de um momento histórico de valorização do contexto das investigações. O usuário da informação passa a ser denominado sujeito informacional, termo que ressalta seu caráter de ator. Dessa 33 forma, essa perspectiva considera as relações dialógicas entre o sujeito e o contexto. A terminologia práticas informacionais denomina “os estudos conduzidos a fim de investigar como se dão os inter-relacionamentos entre o sujeito e a informação” (SIRIHAL DUARTE; ARAÚJO; PAULA, 2017, p. 3). A perspectiva das práticas informacionais é discutida por Savolainen (2007), em sua relação com o conceito de comportamento informacional. De acordo com o autor, esses dois termos podem ser considerados como conceitos “guarda-chuva”, desenhando diferentes discursos que fornecem um contexto pra os estudos de usuários da informação e sugerem diferentes abordagens metodológicas. Comportamento informacional e práticas informacionais são os dois conceitos principais que analisam, em formas gerais, como as pessoas lidam com informação. À primeira vista, esses dois conceitos “guarda-chuva” parecem exibir aspectos sobrepostos, no entanto os termos não são sinônimos. O comportamento informacional é baseado no ponto de vista cognitivo, enquanto as práticas informacionais se inspiram nas ideias do construcionismo social. Para o autor, os termos não são neutros, pois se baseiam em diferentes perspectivas teóricas, que revelam o posicionamento e olhar do pesquisador, não podendo, portanto, serem usados sem uma real reflexão dos seus significados. Ao emergir de diferentes pontos de vista, o comportamento informacional e as práticas informacionais sugerem formas distintas de interpretação dos fenômenos informacionais. Os trabalhos de Tom Wilson, no início da década de 1980, foram considerados o ponto de partida para os estudos de comportamento informacional. O conceito de prática informacional aparece na literatura do início dos anos 1960 e 1970, mas a discussão mais aprofundada sobre esse conceito iniciou-se na primeira década do século XXI. A retomada desse conceito e a discussão sobre sua natureza pode ter partido de uma necessidade de encontrar uma alternativa para o conceito dominante na área, o comportamento informacional. Assim, os estudos de práticas informacionais começaram com os trabalhos de Pamela McKenzie e Sanna Talja, em 2003 e 2005, respectivamente (SAVOLAINEN, 2007). Os estudos de práticas informacionais concentram-se em compreender os indivíduos como membros de vários grupos e comunidades que constituem o contexto de sua vida e atividades cotidianas. A ênfase é no papel dos fatores contextuais que permeiam a busca, uso e compartilhamento de informações, o que difere das abordagens individualistas e descontextualizadas, como é o caso dos estudos de comportamento informacional. As práticas informacionais também podem lidar com elementos da comunicação e não apenas com a busca por informações. Desse modo, a fronteira entre comunicação e informação é difícil de ser delimitada, podendo sobrepor-se em muitos casos, como nos estudos de contextos interacionais de informação (SAVOLAINEN, 2007). 34 Nessa mesma linha, Berti e Araújo (2017) consideram que, nas investigações de práticas informacionais, a interação caracteriza a complexidade do sujeito, que pertence a dimensões individuais, coletivas, sociais, culturais e políticas. Assim, os contextos sociais também são influenciados a partir dessas relações. Para os autores, no comportamento informacional a informação é determinada por um fator externo e se ajusta às necessidades do indivíduo, desconsiderando o conjunto de fatores humanos, pessoais, individuais e coletivos que interferem na relação do sujeito com a informação. Os estudos de práticas informacionais levam em conta as características microssociológicas, propondo-se a olhar o micro para responder ao macrossocial. Savolainen (2007) ressalta que existem barreiras encontradas nas definições de comportamento informacional e práticas informacionais, uma vez que comportamento e prática possuem múltiplos significados em diferentes áreas como a Filosofia, Psicologia e Sociologia. Essa desconexão discursiva pode levar ao uso irrefletido dos termos. O autor frisa que as duas concepções referem-se às maneiras pelas quais as pessoas lidam com a informação, a principal diferença é que no discurso do comportamento informacional a relação com a informação é desencadeada por necessidades e motivações, enquanto que no discurso das práticas informacionais a relação entre sujeito e informação é afetada e moldada pelo social e por fatores culturais. Dos conceitos “guarda-chuva”, o comportamento informacional alcançou maior popularidade e domina o campo dos estudos de usuários. Muitas vezes o conceito é usado com a suposição de que existe um amplo consenso sobre sua utilização entre os pesquisadores da área. As práticas informacionais podem ser concebidas como uma importante alternativa a esse discurso dominante (SAVOLAINEN, 2007). Embora o paradigma cognitivo possa responder às questões do comportamento informacional, não apresenta-se suficiente para explicar os fenômenos informacionais na sua relação com as condutas e significações humanas. Deve-se abordar o contexto e não somente o modo de pensar individual das pessoas, é necessário considerar a informação associada ao mundo em que as pessoas e vivem e dão sentido a suas ações (BERTI; ARAÚJO, 2017). Rocha, Sirihal Duarte e Paula (2017) apresentam uma revisão dos modelos teóricos de práticas informacionais empregados por diversos autores da Ciência da Informação. Os autores discutem o modelo de Savolainen (1995), que mesmo não sendo um modelo efetivamente de práticas informacionais, é apontado como o percursor desses, pois contribui para os atuais estudos de práticas informacionais com a noção de vida cotidiana e a percepção de que a relação dos sujeitos com a informação é permeada de fatores sociais, culturais, individuais e temporais. A noção de informação no contexto da vida cotidiana é apresentada por Savolainen (1995). Nessa perspectiva, o autor quebra a sequência pré-concebida de necessidade, busca 35 e uso de informação. Também enfatiza que, muitas vezes, as pessoas procuram por fontes informais de informação. Para o autor, a busca por informação é parte da vida cotidiana das pessoas. Assim, ele propõe um modelo de busca de informação na vida cotidiana (Everyday Life Information Seeking, ELIS). Outro modelo apontado é o modelo bidimensional de práticas informacionais de McKenzie (2003), que investigou as necessidades de informação, as práticas informacionais, e as fontes de informação utilizadas por mulheres grávidas de gêmeos. A autora adota o conceito de vida cotidiana proposto por Savolainen (1995), criando um modelo que considera as dimensões casuais envolvidas no processo de busca por informação. Para ela, o encontro casual com a informação tem o mesma importância de uma busca ativa. Entretanto, críticas a compreensão das práticas informacionais através de modelos são realizadas. Para Berti e Araújo (2017), teorias que embasam modelos valorizam os processos informacionais numa visão unidimensional do pensar, deixando de lado a compreensão de como os significados são construídos. Pois é dessa forma que são realizados os estudos de comportamento informacional, afastando-se as representações simbólicas presentes na interação social. Um estudo de práticas informacionais em meio virtual foi proposto por Harlan (2012), que abordou as práticas informacionais de adolescentes criadores de conteúdos digitais, como blogs, vídeos, etc. A autora descreve as práticas informacionais contemporâneas de adolescentes em comunidades digitais e um modelo como sendo resultante dessas práticas. O objetivo da pesquisa foi explorar como os jovens usam e produzem informações no contexto digital. As práticas informacionais forneceram uma estrutura apropriada para a compreensão dos processos de uso, criação e compartilhamento de informações dos adolescentes em espaços on-line, visto que as ações informacionais dos sujeitos são socialmente situadas, sendo o significado de informação negociado dentro da comunidade (HARLAN; BRUCE; LUPTON, 2014). As categorias de análise surgiram de forma emergente após um processo de codificação das entrevistas e observação das comunidades de prática. Além disso, a interação com os participantes foi realizada também no momento da categorização, de forma que ela fosse construída juntamente com eles (HARLAN; BRUCE; LUPTON, 2014). Portanto, o modelo de práticas informacionais apresentado por Harlan (2012) é especifico para as comunidades estudadas em sua pesquisa. No entanto, Harlan, Bruce e Lupton (2014) reconhecem que novas pesquisas podem revelar que esse modelo é comum em outras comunidades, podendo sugerir que as práticas informacionais identificadas são fundamentais na formação das comunidades virtuais. 36 Figura 1 – Práticas informacionais de adolescentes em comunidades digitais Fonte: HARLAN, 2012, p. 189. Na análise dos dados compreendeu-se que os adolescentes possuíam ações de informação (coleta de informações, pensamento e criação) e também diferentes maneiras com que experimentavam a informação (como participação, como inspiração, como colaboração, como processo e como artefato). Desenvolveu-se um modelo (FIGURA 1) de como essas ações e experiências se cruzaram nas práticas informacionais, identificando-se cinco práticas interdependentes (aprender a comunidade, negociar estética, negociar controle, negociar capacidade e representar conhecimento) (HARLAN; BRUCE; LUPTON, 2014). Após essa breve revisão da discussão sobre práticas informacionais, constata-se que essa perspectiva, ainda em construção, apresenta novos aspectos para o estudo dos usuários, agora compreendidos como sujeitos informacionais. Ao contrário de estudos de comportamento informacional, os estudos de práticas informacionais não analisam a sequência linear de necessidade, busca e uso de informação. As práticas informacionais consistem nos diversos modos como os sujeitos lidam com a informação, que nem sempre partem de uma necessidade específica, considerando-se o encontro ocasional com a informação. A busca e o uso da informação apresentam-se socialmente inseridos, permeados por processos comunicativos, que envolvem a interação entre os sujeitos e o compartilhamento de informações. 37 3 BLOGS: CONCEITOS E APROPRIAÇÕES Esse capítulo aborda a temática dos blogs, uma vez que o objeto empírico dessa pesquisa são as práticas informacionais dos blogueiros literários que se manifestam nos webrings. Para conhecer melhor esse objeto foi necessária uma revisão teórica sobre a terminologia, o histórico, as diferentes conceituações, os elementos estruturais, as tipologias e as múltiplas apropriações dos blogs no contexto virtual. A respeito do termo blog, não existe um consenso sobre sua utilização na forma escrita. Na literatura pesquisada foram encontradas as terminologias: weblog, blog e também a utilização das terminologias weblog e blog em conjunto, como sinônimos. Foram encontrados dois artigos com o termo blogue (SOUSA et al., 2007; ALVIM, 2007), fator que pode estar relacionado à publicação ter sido em Portugal. É perceptível que estudos mais antigos utilizam weblog e os mais recentes trabalham com a nomenclatura blog. A grafia blogue é a versão oficialmente aportuguesada do termo, presente no dicionário Priberam2 e nos Vocabulários Oficiais da Academia Brasileira de letras (VOLP)3. Entretanto, a versão da língua portuguesa não é comumente utilizada pelos pesquisadores da área no Brasil, que optam por weblog ou blog. Nos blogs visitados pela pesquisadora a designação blogue não foi encontrada, sendo unanimidade o uso do termo blog. Dessa forma, existe uma preferência em se adotar o termo blog nessa pesquisa, visto que é o termo eleito pelos próprios criadores das páginas, ou seja, os blogueiros. Algumas referências ao termo weblog serão feitas ao abordarmos o histórico dos blogs e também em citações dos autores que o utilizam, visto que a palavra weblog foi usada primeiramente e depois abreviada, sendo essa a terminologia da qual deriva a palavra blog. Quanto ao conceito de blog, Amaral, Recuero e Montardo (2009) concluem que os blogs podem ser definidos de maneira estrutural, funcional ou como artefatos culturais. A definição estrutural perpassa pela ideia de que um blog é uma ferramenta de publicação em um formato muito particular. Nessa concepção, a definição mais comum é apontar um blog como textos organizados em ordem cronológica reversa, datados e atualizados com frequência. O critério da frequência de publicação também é apontado como essencial. Entretanto, nem todos os autores consideram a presença da ferramenta de comentários como essencial. Compreender um blog a partir de sua definição estrutural é apreendê-lo enquanto formato, que permite usos e apropriações diversas. Na linha da definição de blog como estrutura, alguns autores descrevem o blog em relação aos componentes presentes na página. “Um blogue é acima de tudo um sítio web 2 Disponível em: . Acesso em: 19 out. 2017. 3 Disponível em: . Acesso em: 19 out. 2017. 38 onde são colocadas mensagens (habitualmente designadas por posts), por ordem cronológica invertida, sobre um ou vários temas” (SOUSA et al., 2007, p. 89). Uma definição semelhante é apresentada por Silva (2003) que conceitua o blog como um website extremamente flexibilizado, com posts organizados em ordem cronológica reversa e com interface de edição simplificada, que não exige a compreensão de qualquer tipo de código HTML (do inglês, Hypertext Markup Language). Outro aspecto ressaltado é a facilidade de criação do blog, “um dos elementos que diferencia o weblog de outros sites diz respeito à facilidade com que este tipo de página pode ser construído [...]” (SILVA, 2008, p.4). Já na concepção funcional, o blog é entendido na sua função primária como meio de comunicação. O blog é, portanto, mais do que uma ferramenta de publicação caraterizada por seu formato, sendo uma ferramenta de comunicação. A percepção dos blogs como constituintes de redes sociais e espaços de sociabilidade também pertencem à concepção funcional, pois ressaltam sua função comunicativa e os elementos que dela decorrem (AMARAL; RECUERO; MONTARDO, 2009). A visão funcional de blog é identificada por alguns autores que ressaltam a questão da interação entre os indivíduos. Almeida (2008) considera a interatividade como característica dos blogs, descrevendo a relação entre os leitores e blogueiros, que ocorrem através de e- mail contido no blog ou por meio dos comentários. Para Araújo e Vieira (2012), os blogs são produtos do ciberespaço, que reafirmam a comunicação interativa e a colaboração. Já Matos (2009) afirma que a interatividade é a condição de existir dos blogs enquanto ambientes virtuais. A definição de blogs como artefatos culturais é advinda de um olhar antropológico e etnográfico. Vistos como artefatos culturais, os blogs são apropriados pelos sujeitos e constituídos através de marcações e motivações. Nessa visão, blogs são lugares de marcações culturais de determinados grupos e populações no ciberespaço, sendo possível ao acessá-los, recuperar seus traços culturais (AMARAL; RECUERO; MONTARDO, 2009). De acordo com Shah (2005 citado por AMARAL; RECUERO; MONTARDO, 2009), um artefato cultural pode ser definido como um repositório vivo de significados compartilhados que são produzidos por uma comunidade de ideias. O autor estudou os usos e apropriações dos blogs de pornografia pelas mulheres indianas e constatou que as motivações dos blogueiros podem revelar muito da própria significação da ferramenta. Ele argumenta que os blogs, enquanto artefatos culturais, podem revelar diferentes ideias de porque as pessoas blogam, pois a legitimação do blog se dá pelas práticas vividas pelas pessoas que os criaram. Nas seções desse capítulo serão aprofundadas algumas temáticas relacionadas aos blogs: contexto histórico, diferentes categorizações, componentes estruturais, os blogs literários e a blogosfera, os webrings e as comunidades virtuais. 39 3.1 Um breve histórico dos blogs Inicialmente, o termo weblog referia-se a um conjunto de sites que divulgavam links interessantes na web. Dessa forma, weblog apresenta-se como a junção das palavras “web” (teia) e “log” (diário de bordo utilizado por navegadores e aviadores) cujo significado seria “diário de bordo” (SILVA, 2006; DI LUCCIO; NICOLACI-DA-COSTA, 2010). Outra interpretação sugere que a composição do termo compreende outro significado, no qual weblog define-se como “arquivo da web” (AMARAL; RECUERO; MONTARDO, 2009). Os primeiros weblogs eram sites constituídos por links. “Cada um era uma mistura em proporções únicas de links, comentários, pensamentos e ensaios pessoais” (BLOOD, 2000, on-line, tradução nossa)4. A palavra weblog foi utilizada pela primeira vez em dezembro de 1997 por Jorn Barger, editor do blog Robot Windom (BLOOD, 2000). Barger definia como weblogs páginas pessoais que utilizavam ferramentas que permitiam facilmente a ligação com outras páginas da web, como o uso de blogrolls (gestão de links) e trackbacks (referência a posts publicados em outros blogs), além da postagem de comentários em texto (MARQUES, 2012). Um weblog (às vezes chamado de blog ou página de notícias ou filtro) é uma página da Web onde um weblogger (às vezes chamado de blogueiro ou pré- surfista) registra todas as outras páginas que ele achou interessantes. O formato, normalmente, é adicionar a entrada mais recente no topo da página, de modo que os visitantes frequentes possam recuperar o atraso ao ler a página, até chegarem ao link que viram na última visita. (BARGER, 1999, on- line, tradução nossa)5. No início de 1999, o blogueiro Peter Merholz6 abrevia a palavra weblog e apresenta o termo blog, que se torna a forma verbal mais popularizada, o uso da abreviação também foi incentivado pela criação do serviço Blogger no mesmo ano (MARQUES, 2012). Nos weblogs originais, os editores apresentavam links pouco conhecidos da web ou notícias atuais consideradas por eles como dignas de nota, divulgavam o que era incompreensível, estúpido e atraente. O weblog oferecia para seus leitores uma filtragem daquilo que existia de mais valioso na web, conforme a opinião de seu editor. Era como se a web tivesse sido “pré-navegada” e posteriormente compartilhava-se as informações mais 4 Each was a mixture in unique proportions of links, commentary, and personal thoughts and essays. 5 A weblog (sometimes called a blog or a newspage or a filter) is a webpage where a weblogger (sometimes called a blogger, or a pre-surfer) 'logs' all the other webpages she finds interesting.The format is normally to add the newest entry at the top of the page, so that repeat visitors can catch up by simply reading down the page until they reach a link they saw on their last visit. 6 Autor do blog disponível em: . Acesso em: 19 out. 2017. 40 relevantes. Cada link compartilhado era quase sempre acompanhado pelo comentário do editor que destacava certos aspectos contidos nele, acrescentava fatos adicionais considerados pertinentes, adicionava um ponto de vista ou opinião. Normalmente, os comentários possuíam tom irreverente e sarcástico (BLOOD, 2000). Para Marques (2012), essa prática de realizar uma filtragem dos conteúdos da web seria um contraponto aos filtros jornalístico-midiáticos, que impõem pontos de vistas parciais e limitados. Portanto, é natural outras vozes se levantarem para questionar, completar e apresentar novas versões dos fatos. Os blogs são um dos espaços que vieram cumprir esse novo papel de viabilizar novos relatos, opiniões, pontos de vista, compartilhamentos, meditações etc. Segundo a autora, antes dos blogs, as pessoas tinham listas de e-mail para compartilhar com os amigos o que achassem de interessante na rede, por isso no começo muitos blogueiros continuaram a fazer o que faziam antes, ou seja, filtrar conteúdo, compilar links. Nessa época, um weblog só poderia ser criado por pessoas que já sabiam como fazer um site, que dominavam a linguagem HTML. Blood (2000) relata que, em 1998, existia um punhado de sites que hoje em dia podem ser considerados como blogs. De acordo com a autora, cada vez mais pessoas começaram a publicar seus próprios weblogs, o que tornou difícil ler todos diariamente ou mesmo acompanhar todos os novos que estavam aparecendo. Amaral, Recuero e Montardo (2009) apontam alguns fatores que explicam essa popularização dos weblogs. O primeiro deles seria o surgimento das ferramentas de publicação, o que tornou os weblogs mais acessíveis para o usuário comum. No ano de 1999, a Pitas lançou sua primeira ferramenta de manutenção de sites via web e a Pyra lançou o Blogger. Um segundo fator fundamental foi a agregação da ferramenta de comentários aos blogs, que permitiu a interação entre os editores e os leitores da página. Outro fator responsável por essa popularização foi a palavra “weblog” ter sido escolhida como a palavra do ano de 2004 pelo Merriam-Webster`s Dictionnary. No mesmo ano o Google comprou o Blogger. Devido a essa rápida popularização e multiplicação dos blogs na web, não existe um consenso sobre qual foi o primeiro weblog. De acordo com Amaral, Recuero e Montardo (2009), alguns autores consideram como primeiro weblog o primeiro site da web7, mantido por Tim Berners-Lee (criador da World Wide Web), que tinha como função apontar todos os novos sites que eram colocados no ar. Di Luccio e Nicolaci-da-Costa (2010) afirmam que, no Brasil, os blogs começaram a se difundir entre os anos de 2000 e 2001, de forma tão veloz e contínua como no resto do mundo. “Diariamente surgem novos serviços em português e o crescimento do fenômeno no Brasil é evidente” (LEMOS, 2002, p. 5). O primeiro blog brasileiro também é 7 Disponível em: . Acesso em: 19 out. 2017 41 motivo de desacordo. Alguns apontam Zamorim8 como o pioneiro na publicação nesse formato, emitindo seu primeiro post em 2000. Entretanto, Viviane Menezes9 também é apontada como a primeira blogueira brasileira, tendo iniciado as suas primeiras publicações em fevereiro de 1998 (SILVA, 2006). Após a popularização dos blogs, uma das primeiras apropriações foi o uso dos blogs como diários pessoais. O uso dos blogs como espaço de expressão pessoal, publicação de relatos, experiências e pensamentos é apontado como o uso mais popular da ferramenta (AMARAL; RECUERO; MONTARDO, 2009). Blood (2000) analisa o número crescente de blogs no formato de diários eletrônicos que surgiram após o lançamento da plataforma Blogger, portadora de uma interface acessível, fator que impulsionou a mudança do blog estilo “filtro da web” para o blog estilo diário pessoal. Esses blogs, muitas vezes atualizados várias vezes por dia, eram um registro dos pensamentos do blogueiro: algo notado no caminho do trabalho, notas sobre o fim de semana, uma reflexão rápida sobre algum assunto. Os links levavam o leitor ao site de outro blogueiro, com quem o primeiro estava tendo uma conversa pública ou se encontrara na noite anterior, ou ao site de uma banda que ele tinha visto na noite anterior. Conversas completas foram realizadas entre três ou cinco blogs, cada um referenciando, concordando ou discordando das opiniões dos outros. (BLOOD, 2000, on-line, tradução nossa).10 De acordo com Blood (2000, on-line), a definição de weblog mudou de uma lista de links com comentários pessoais para um site que é atualizado com frequência, com novos materiais publicados no topo da página. Na opinião dela, deveria existir um outro termo para caracterizar o que ela denomina blog de filtro, para distinguir do que é hoje denominado como blog. Posteriormente, os blogs começaram a abranger também outros temas, apresentando conteúdo variado ou especificando em uma determinada temática. Surgiram blogs profissionais e científicos, utilizados como ferramenta de trabalho para jornalistas e pesquisadores. A verdade é que, quanto mais popular na rede, os blogs estão cada vez mais diversificados no que consiste aos temas que os motivam: música, moda, poesia, contos, crônicas, cinema, culinária, jornalismo, religião, política, arte... A blogosfera incha diariamente e os assuntos ficam a critério do blogueiro, o qual não precisa se prender a nenhum padrão textual, a não ser o hipertextual, que já é, por natureza, de origem híbrida (CARNEIRO, 2011, p.75). 8 Autor do blog disponível em: < http://zamorim.eti.br/>. Acesso em: 19 out. 2017. 9 Entrevista com a blogueira Viviane Menezes disponível em: . Acesso em: 19 out. 2017. 10 These blogs, often updated several times a day, were instead a record of the blogger's thoughts: something noticed on the way to work, notes about the weekend, a quick reflection on some subject or another. Links took the reader to the site of another blogger with whom the first was having a public conversation or had met the previous evening, or to the si te of a band he had seen the night before. Full-blown conversations were carried on between three or five blogs, each referencing the other in their agreement or rebuttal of the other's positions. 42 O surgimento e popularização dos blogs vão de encontro à uma demanda social de criar um espaço próprio onde se possa opinar, comentar, compartilhar fatos, notícias e até escrever sobre si mesmo. Tanto na primeira configuração dos blogs enquanto filtros de conteúdo da web, quanto no estilo de diários pessoais, os blogs exercem o mesmo papel: tornar o blogueiro um protagonista. É o blogueiro quem está compartilhando conteúdo, quem avalia o que importante, o que deve ser acessado, expressa suas opiniões, promove reflexões, exprime o que pensa. O blog é uma parte do blogueiro, em outras palavras, é como se o blogueiro abrisse seu mundo pessoal para os visitantes, no caso, os leitores. 3.2 Categorização dos blogs No senso comum, ao se abordar a temática dos blogs, geralmente é feita uma associação imediata com os diários pessoais. Mas, como afirmado anteriormente, os blogs possuem outros formatos que vão além desse. Sob os mais diferentes usos, o blog faz as vezes da agenda, do jornal, da página literária, do álbum de recordação, do caderno de anotar a vida ou diário pessoal, dentre outras infinitas finalidades, uma expressão inteiramente original que prevê a possibilidade de vários sujeitos empregarem a primeira pessoa em uma situação de diálogo e socialização da comunicação (CARNEIRO, 2011, p. 80). Recuero (2003) ao realizar uma investigação e analisar diferentes blogs, identificou três categorias de blogs, sendo elas:  Diários eletrônicos: são blogs atualizados com pensamentos, fatos e ocorrências da vida pessoal e do cotidiano do sujeito. A intenção desses blogs não é ser informativo ou publicar notícias, mas simplesmente servir como um canal de expressão do blogueiro.  Publicações eletrônicas: são blogs que se destinam principalmente à disseminação de informação. Trazem notícias, dicas e comentários sobre um determinado assunto, como se fossem revistas eletrônicas. Comentários pessoais são evitados, embora tenham algumas ocorrências.  Publicações mistas: são blogs que misturam posts pessoais sobre a vida do blogueiro e posts informativos, com notícias, dicas e comentários conforme o gosto pessoal. Outra classificação é proposta por Silva (2003), que propõe duas categorias, sendo: Weblogs Temáticos, concebidos com base em um tema específico ou numa área de interesse comum, pode-se incluir blogs com propósitos educacionais, jornalísticos, etc.; e Weblogs Livres, contendo publicações que não se atém a um único tema, contendo características próprias de uma página pessoal, com formas de anotações livres, podendo 43 incluir criação literária, comentários sobre o que se passa na cabeça do autor, críticas, fofocas, atualização de notícias, diários, entre outros. Uma categorização semelhante é apresenta por Benedito (2003 citada por SOUSA et al., 2007) ao considerar que no processo de evolução dos blogs encontram-se dois tipos: o blog-agenda, contendo pensamentos, ideias, comentários de livros lidos etc; e o blog-mural, que se apresenta como um “jornal de parede”, contendo notícias, artigos de opinião e até imagens de acontecimentos, em primeira-mão, sem compromisso nem censura. Vega e Rojo (2003) também criaram categorias de identificação dos blogs, classificando-os em: Pessoais, sendo aqueles que refletem as impressões de uma pessoa sobre um tema ou sobre aspectos variados, sendo muito abundantes na internet e pouco interessantes de um ponto de vista informativo; Corporativos, blogs advindos de determinadas instituições com o intuito de servir de boletim de comunicação e informação entre os membros da organização, transmitindo notícias e oferecendo recursos com foco nos procedimentos e políticas internas; Temáticos, páginas dedicadas a uma disciplina ou assunto, com um administrador e colaboradores, formadores de opinião. Já Granado e Barbosa (2004 citados por SILVA, 2008) dividem os blogs em três tipos: Diários, descrições diárias de acontecimentos e eventos que preenchem a existência do autor; Analíticos, compostos por pequenos ensaios sobre temas ligados à atualidade ou assuntos em que o autor seja especializado; Informativos, originados por material retirado de outras páginas. É possível reconhecer semelhanças nas categorizações propostas pelos diversos autores citados, conforme apresentado no quadro 2. Quadro 2 – Categorias de Blogs Diário Pessoal Conteúdo Temático Diário Eletrônico Weblogs Livres Blog-agenda Pessoais Diários Recuero (2003) Silva (2003) Benedito (2003) Vega, Rojo (2003) Granado, Barbosa (2004) Publicações Eletrônicas Weblogs Temáticos Blog-mural Temáticos Analíticos Recuero (2003) Silva (2003) Benedito (2003) Vega, Rojo (2003) Granado, Barbosa (2004) Fonte: Elaborado pela autora. O blog como diário pessoal é encontrado nas categorias: Diário Eletrônico (RECUERO, 2003), Weblogs Livres (SILVA, 2003), Blog-agenda (BENEDITO, 2003), Pessoais (VEGA; ROJO, 2003), Diários (GRANADO; BARBOSA, 2004). Já o blog como uma 44 página com conteúdo temático é categorizado em: Publicações eletrônicas (RECUERO, 2003), Weblogs temáticos (SILVA, 2003), Blog-mural (BENEDITO, 2003), Temáticos (VEGA; ROJO, 2003), Analíticos (GRANADO; BARBOSA, 2004). Para Recuero (2003, p. 5) é importante ressaltar a existência de diversas formas de blogs, evitando a generalização do blog enquanto ferramenta específica de construção de diários, “Blogs têm sido utilizados das mais diversas formas, todas relacionadas à publicação de ideias, algumas pessoais (diários) outras informacionais (publicações)”. Além de categorizar os blogs quanto ao conteúdo, Silva (2003) realiza uma classificação quanto à sua produção: Weblog individual, onde somente o criador do blog pode postar conteúdos, estando a página sob a responsabilidade de uma única pessoa, o que até certo grau reflete a personalidade do indivíduo que o mantém; Weblog coletivo, onde mais de uma pessoa pode postar, o criador/administrador do blog tem a opção de controlar quem pode escrever, permitindo que múltiplos autores participem da manutenção do mesmo site, motivados por interesses semelhantes. É interessante observar que as categorizações servem como elementos norteadores para o estudo dos blogs, mas as classificações não devem ser entendidas como restritas e rígidas. Afinal, um blog pode pertencer a mais de uma categoria, sendo um híbrido de dois formatos. Além disso, no decorrer da evolução dos blogs, podem surgir outros elementos que determinem outras categorias. 3.3 Estrutura dos blogs Os blogs são páginas que diferenciam-se de outras páginas da web, como por exemplo, os websites. A maior divergência é na maneira como as informações são apresentadas na web. Os sites são o modelo tradicional de formatação de conteúdo na internet. Entretanto, a internet 2.0 permite que os internautas possam contar com espaços virtuais em que os conteúdos sejam geridos de forma colaborativa, com a inclusão de comentários de outros leitores, esses espaços são os blogs que integram a blogosfera. Dessa forma, a web não é mais constituída de uma coleção de websites de consulta de informação, podendo se apresentar como uma plataforma inteligente na qual seus utilizadores finais podem, simultaneamente, ser usuários e produtores de informação (BOSLER; CALDEIRA; VENTURELI, 2011). A criação dos blogs é um processo muito simples que, segundo Carneiro (2011) constitui poucas etapas. Primeiramente, o usuário precisa acessar a página principal do software do servidor, em seguida cria uma conta no site, escolhe um nome/título/endereço eletrônico e, finalmente seleciona um design gráfico, ou seja, um layout pra o blog. 45 Tanto os blogs como os websites possuem suas vantagens e desvantagens, como descrito no quadro 3. Essas características devem ser levadas em consideração no momento da escolha do formato, devendo ser avaliadas conforme os objetivos do autor da página. Dentre as vantagens do blog, destaca-se a possibilidade de comunicação direta com o internauta por meio da caixa de comentários, disponível na própria página. Além disso, é possível criar um blog de forma gratuita, no qual o blogueiro não necessita ter nenhum conhecimento básico de programação para gerenciar seu blog. Quadro 3 - Características distintivas entre sites e blogs Aspecto Site Blog Percurso de navegação A navegação parte-se de uma home page, que funciona como um ponto inicial para outras páginas. Frequentemente é preciso retornar à home page para que outras páginas possam ser visualizadas. Os conteúdos ficam arma- zenados como postagens cronológicas, aparecendo em primeiro lugar sempre a mais recente seguida das demais. Comunicação com internauta Via mail ou formulários. Via comentários. Conhecimentos prévios de informática necessários Indispensável conhecimento básico de programação. Dispensável conhecimento básico de programação. Custos Pago. Tendencialmente gratuito. Periodicidade para atualização Normalmente intervalos maiores. Frequentemente, até mesmo diários. Autor/administrador Raramente o autor é o responsável por colocar as postagens no ar, realizar atualizações, ajustes. Há um autor por trás dos conteúdos redigidos, e um administrador que cria e alimenta o site. O autor (ou autores) podem acumular as funções de criação e alimentação do blog. Disponibilização de pacotes informacionais É possível disponibilizar vídeos, fotografias, arquivos, slides. Alguns gerenciadores de blogs restringem os pacotes informacionais que poderão ser disponibilizados apenas a certas modalidades. Fonte: BOSLER; CALDEIRA; VENTURELI, 2011, p. 2. Além das diferenças entre os formatos de blogs e websites, existem variações estruturais entre os diferentes tipos de blogs. Entretanto, ao analisar-se as concepções de blog de alguns autores, é perceptível que alguns elementos são citados como determinantes na identificação de um blog de qualquer gênero. Esses elementos característicos são:  Atualização frequente: um blog pode ser caracterizado pela inserção frequente de posts, que podem ser apagados, alterados, atualizados com a frequência que o autor desejar. A publicação de conteúdos nos blogs é quase sempre diária. Os 46 blogs são organizados em função do tempo (RECUERO, 2004a; DI LUCCIO; NICOLACI-DA-COSTA, 2010; MARQUES, 2012).  Ordem cronológica reversa: é o formato típico para se ler notícias. A mais nova atualização encontra-se sempre no topo da página, com data e hora, o que torna possível que o visitante perceba imediatamente se o blog foi atualizado ou não. Essa estrutura privilegia sempre a atualização mais recente (SILVA, 2003; RECUERO, 2004a; SOUSA et al., 2007; MATOS, 2009; DI LUCCIO; NICOLACI- DA-COSTA, 2010; MARQUES, 2012).  Microconteúdos: o conteúdo dos blogs é publicado em pequenos blocos de conteúdo textual e/ou imagético denominados posts. A escrita nesses tipo de ambiente virtual é caracterizada por ser informal, espontânea, rápida e direta (SILVA, 2003; RECUERO, 2004a; SILVA, 2006; SOUSA et al., 2007; MATOS, 2009).  Ferramenta de comentários: permite que os leitores possam acrescentar comentários ao post publicado pelo blogueiro. Normalmente, todos os posts contam com espaço para comentário de leitores. No caso dos blogs, esse espaço surge em 2001 e passa a ser importante para a interação na rede. Pode ser denominada também como caixa de diálogos (RECUERO, 2004a; MATOS, 2009; DI LUCCIO; NICOLACI-DA-COSTA, 2010; MARQUES, 2012).  Trackbacks: notificação automática que um blog envia para outro, avisando sobre a realização de uma postagem em que um blogueiro cita um post de outro blog. Trackbacks permitem que posts sejam referenciados em outros blogs, tornando a troca de informações mais evidente e proporcionando espaços para a interação dos discursos. (RECUERO, 2004a; MARQUES, 2012).  Blogrolls: lista de blogs recomendados pelo autor, geralmente blogs de amigos ou que possuam temáticas semelhantes (RECUERO, 2003; MARQUES, 2012). Outros itens também foram identificados por alguns autores como: RSS (do inglês, Really Simple Syndication), um sistema que permite agregar conteúdo e mostrar as alterações que ocorrem em um determinado blog/site (MARQUES, 2012); espaço destinado à descrição pessoal do autor, com fotos e demais marcas de autoria (RECUERO, 2004a); e uso de ferramentas blog, ou seja, programas ou plataformas que facilitam a criação, edição e manutenção da página na web (SILVA, 2003). Os elementos citados são característicos e sua presença é facilmente percebida nos blogs. Entretanto, deve-se ressaltar que os blogs são um formato em constante mutação, estando suas ferramentas em evolução, como a própria internet. Dessa forma, os blogs não ficarão atados a essas ferramentas, pois irão acompanhar os passos da rede e as necessidades dos usuários (MARQUES, 2012). 47 No layout dos blogs, geralmente os elementos disponíveis são dispostos de forma semelhante. Para melhor compreensão da estruturação do layout dos blogs, foi realizada uma exploração do Blogger pela pesquisadora, que navegou pela plataforma no modo de edição, como fazem os blogueiros. Foi identificada uma estrutura básica para montagem do layout do blog, como mostrado na Figura 2. Figura 2 – Layout básico de um blog Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados da plataforma Blogger11. No cabeçalho é apresentado o nome do blog e o logotipo, podendo conter também uma imagem de fundo e uma pequena descrição. O cabeçalho é também chamado pelos blogueiros de banner. No menu é onde encontram-se as páginas que o blog possui. Geralmente nas páginas, com exceção da página principal, estão dispostos conteúdos estáticos ou que oferecem pouca alteração, como é o caso da página “Sobre”, que apresenta uma descrição do blog. Abaixo do menu são encontradas as postagens, os denominados posts, contendo textos elaborados pelo blogueiro. Na barra lateral são dispostos gadgets12, dispositivos que acrescentam recursos aos blogs, possibilitando, por exemplo, mostrar as redes sociais na própria página do blog, acrescentar uma caixa de pesquisa, visualizar as postagens mais populares e os seguidores do blog. Alguns blogs apresentam duas barras laterais, uma no lado direito e outra no lado esquerdo. Por fim, no rodapé é apresentado o nome do tema ou design do blog e o responsável pela sua elaboração, também podem ser colocados os direitos autorais do blogueiro. 11 Disponível em: . Acesso em: 24 ago. 2018. 12 Pequenos utilitários desenvolvidos para facilitar o acesso a funcionalidades disponibilizadas em aplicações mais abrangentes. Disponível em: . Acesso em: 24 ago. 2018. 48 Para além de seus elementos estruturais, o blog, assim como outras páginas da internet, apresenta algumas peculiaridades quanto a forma de apresentação de seu conteúdo, próprias da linguagem virtual. Assim como as postagens, que além de possuir caráter micro, apresentam-se caracterizadas pelo hipertexto. Com o hipertexto (texto eletrônico), uma espécie de texto em paralelo que se encontra ligado a outros textos por um elo chamado hyperlink ou simplesmente link, o internauta pode saltar de uma página a outra, ou seja, de um link a outro, acessando outros textos, imagens, vídeos etc. Neste caso, estamos falando de hipermídia: a ligação de várias mídias pelos links. O hipertexto ilustra de forma prática o conceito de intertextualidade. Com o hipertexto, a leitura transforma-se numa aventura por várias páginas, porque a infinidade de elos conduz o leitor a diversa possibilidades de descobertas pelo mundo virtual, no qual um assunto se sobrepõe a outro (SILVA, 2010, p. 55). Carneiro (2011) ressalta que os blogs apresentam linguagem informal e espontânea, com o uso frequente de verbos na primeira pessoa do singular. Oura característica que é usada para atrair o público em geral, conforme Silva (2010), são as postagens dos blogs que se valem de vários outros recursos disponíveis na web como, por exemplo, os audiovisuais ou multimídias. Esse fenômeno pode ser denominado como intermidialidade ou interrelação de mídias. Dessa forma, as postagens integram mídia estática (texto, fotografia, imagens) com mídia dinâmica (vídeo, áudio, animação). 3.4 Webrings e comunidades virtuais Os blogueiros estabelecem relações virtuais entre si, ao lerem mutualmente seus blogs e entrarem em contato por meio de comentários. De acordo com Prange (2003), os comentários de visitantes são bem recebidos e esperados pelos blogueiros, quer sejam de amigos ou de leitores desconhecidos. Uma cumplicidade é desenvolvida por meio da seção de comentários, que apresenta-se como espaço privilegiado para as trocas estabelecidas com os leitores, assim, se os visitantes são também autores de outros blogs, estabelece-se muitas vezes uma verdadeira rede de relações entre blogueiros. “As possibilidades de interação desenvolvidas a partir do aspecto público dos blogs se constituem, dessa forma, em um aspecto relevante da prática” (PRANGE, 2003. p. 104). O caráter público dos blogs, segundo a autora, oferece significativas possibilidades de interação. Dessa forma, as trocas costumam ocorrer de forma intensa, inclusive como estímulos para as atualizações diárias por parte dos autores. A ausência de comentários é, inclusive, uma fonte de ansiedade para os blogueiros, que desejam a participação dos leitores e o feedback dos conteúdos postados. Segundo Recuero (2003), dessas relações virtuais surgem os webrings, compostos não apenas pelo blog, mas também pelo círculo de blogueiros e pelos comentários sobre o blog, além do suporte tecnológico e da comunidade virtual. 49 [...] utilizamos o termo webring para definir círculos de bloggeiros que lêem seus blogs mutuamente e interagem nestes blogs através de ferramentas de comentários. Os blogs são linkados uns nos outros e formam um anel de interação diária, através da leitura e do comentário dos posts entre os vários indivíduos, que chegam a comentar os comentários uns dos outros ou mesmo deixar recados para terceiros nos blogs. Esse círculo de blogs difere, basicamente, de um grupo de links porque, como discutiremos adiante, o blog funciona como uma representação do bloggeiro no ciberespaço. Portanto, num webring, como o definimos aqui, temos um grupo de pessoas, mais do que um grupo de links (RECUERO, 2003, p. 7). Em um primeiro momento, o leitor conhece o blog, e ao ler os posts, sente a necessidade de interagir com o autor e deixar comentários. Aos poucos, esse leitor vai conhecendo o autor e vendo que outros leitores também interagem com ele. O leitor, muitas vezes, também possui um blog, onde também tem contato com seus respectivos leitores. É assim que o círculo começa a ser formado (RECUERO, 2003). A relação entre leitores e escritores de blogs também é analisada por Di Luccio e Nicolaci-da-Costa (2010, p. 140), que afirmam que “nos blogs, escritores e leitores se misturam e se fundem”. De acordo com as autoras, escritores de blogs são também leitores de outros blogs. Muitos blogueiros eram incialmente leitores de blogs, que ficaram encantados com os recursos desse espaço textual virtual e decidiram criar seus próprios blogs. Araújo e Vieira (2012, p. 5) descrevem a rede formada pelos blogueiros e como ocorrem a formação dessas relações: Na rede de interações formam-se vínculos virtuais entre os atores, às vezes essa relação interativa ocorre de forma isolada onde um laço de interação acontece numa via de mão única, [...] é chamada de relação unidirecional. Mas, também ocorrem os casos em que essa relação se apresenta de forma recíproca, ou bidirecional, por exemplo, um determinado ator interage com um nó, com um link de saída para um blog e por sua vez o blog que recebeu o link, oferta um outro link de entrada para esse determinado ator, formado um laço de interação mútua entre os pares. Blogueiros são como vizinhos, se visitam diariamente, leem os posts uns dos outros e interagem por meio de comentários. As visitas recíprocas a partir dos links disponíveis nos blogs é que possibilitam a qualidade dinâmica dos mesmos (DI LUCCIO; NICOLACI-DA- COSTA, 2010). É assim que são constituídos os webrings. A ferramenta de comentários é essencial para a construção das relações sociais e, consequentemente, dos webrings. O círculo de blogueiros se forma quando um blogueiro lê o comentário de alguém e se interessa em saber quem é. Rapidamente, é possível identificar o indivíduo, pois geralmente nos comentários é possível assinar, colocar foto e o blog pessoal. A partir da descoberta de um novo blog, o blogueiro passa a acessá-lo com frequência, e, posteriormente divulga o link do mesmo em sua própria página, para que todo o círculo de pessoas que acessa seu blog possa também conhecer esse novo blog. À medida que novos blogs são acrescentados às listas diárias dos usuários, novos webrings surgem. Um blogueiro pode pertencer a vários webrings (RECUERO, 2003). Entre os autores de blogs é comum a formação de grupos ou comunidades, sendo este mais um dos desdobramentos da escrita nos blogs. Esses grupos, 50 no entanto, não são fechados e nem têm definidos, previamente, o número de blogs integrantes. Assemelham-se a “redes” e se formam, geralmente, a partir dos links indicados em cada um dos blogs. Estes links, além de encaminhar os leitores de um blog para outros, indicam os sites com os quais os autores têm alguma afinidade. Em alguns casos o vínculo de amizade já existia antes dos blogs e, em outros casos, esse vínculo é iniciado ou construído justamente no ambiente virtual (PRANGE, 2003. p. 100). Existem alguns elementos essenciais para que o blogueiro consiga inserir seu blog em uma rede de blogs. Primeiramente, o autor deve divulgar seu blog, fazendo uso dos recursos existentes na internet. Um dos recursos disponíveis é incluir o endereço eletrônico de seu blog em comentários deixados nos blogs de outros blogueiros, numa expectativa de reciprocidade, esperando a retribuição da visita e do comentário postado. Posteriormente, ao menos três outros movimentos parecem ser fundamentais para que o escritor/leitor entre no universo dos blogs: constante atualização dos posts, inclusão de links para outros blogs e visitas feitas a outros blogs, deixando comentários. Esses elementos demonstram a necessidade de atualização constante e apontam para a característica fundamental da interconexão (DI LUCCIO; NICOLACI-DA-COSTA, 2010). Adentrando no conceito de comunidade virtual, Recuero (2003) o compreende como um grupo de pessoas que estabelecem relações sociais entre si, caracterizadas pela permanência no tempo que leva à construção de um corpo organizado, cuja comunicação é mediada por um computador e associada a um virtual settlement. Portanto, o primeiro passo para a formação da comunidade virtual é a formação de relações sociais através da interação mútua entre os indivíduos. O conceito de virtual settlement é uma proposição de Quentin Jones (1997 citado por RECUERO, 2003). O virtual settlement “é um lugar demarcado no espaço, onde os indivíduos participantes da comunidade encontram-se para estabelecer as relações sociais, como por exemplo, uma sala de chat” (RECUERO, 2003, p. 6). Esse conceito é trabalhado por Recuero (2003), trazendo a perspectiva da criação de um lugar no ciberespaço, delimitações imaginárias constituídas por nós mesmos. Dessa forma, a autora compreende os blogs como representações espaciais do self, ou seja, o blog se constitui como demarcação de onde o blogueiro se encontra na web. Os blogs que costuma acessar e linkar são vistos como seus “vizinhos”. Um webring, conforme Recuero (2003, p. 12), pode ser compreendido como um virtual settlement, pois os círculos de blogueiros que interagem, se relacionam e trocam informações entre si funcionam como um lugar, uma vizinhança. Segundo a autora, os webrings poderiam ser também compreendidos como comunidades virtuais “[...] porque todas as características estão presentes: a temporalidade das relações, uma vez que os blogs são atualizados frequentemente, bem como os comentários, que são feedbacks de cada post, e que representam a interação mútua possibilitada pelo sistema [...]”. 51 A concepção de que as redes de blogueiros e as relações entre escritores/leitores formam comunidades virtuais é também identificada por outros autores em suas pesquisas. Matos (2009) corrobora com essa ideia ao afirmar que os blogs se assemelham às salas de discussão e comunidades virtuais, devido ao seu caráter subjetivo e relacional. De acordo com os estudos de Di Luccio e Nicolaci-da-Costa (2010), os conceitos de comunidade e rede estão presentes nos depoimentos de blogueiros, sendo bastante difundida entre eles a ideia de que os blogs formam uma comunidade. Para Araújo e Viera (2012), os blogs estão organizados em torno de redes, uma vez que a partir dos comentários de leitores e dos links para outros blogs é promovida uma interconexão das redes, com potencial de agregação de grupos sociais. Em sua pesquisa, os autores adotam o conceito de webrings, identificando-os como as redes sociais dos blogs, que formam as comunidades virtuais, caracterizadas como espaços de comunicação e interação. 3.5 Blogs literários e blogosfera De acordo com Silva e Martha (2009, p. 4) a literatura se inseriu no ciberespaço como forma de buscar sua sobrevivência e, principalmente, conquistar mais leitores. “Assim, observando este novo leitor, a literatura criou diversos espaços no mundo eletrônico e entre estas diversas formas de veiculação de textos na internet, o blog é um dos mais procurados e tem interessado tanto os leitores como os estudiosos”. De acordo com o dicionário Priberam13, o adjetivo “literário” significa “relativo à letras, à literatura ou a conhecimentos humanos adquiridos pelo estudo”. Nessa concepção, um blog literário é um blog referente à literatura. Entretanto, a exploração da blogosfera permitiu a identificação de tipos diferentes de blogs literários. Uma tentativa de diferenciação dos blogs literários é proposta na pesquisa de Carneiro (2011), que realiza uma divisão do ponto de vista do produtor do blog: blogs criados por escritores consagrados pelo cânone; blogs de pessoas que lidam direta ou indiretamente com a literatura (como jornalistas, professores de Letras ou críticos literários); blogs de escritores amadores que encontram na rede um canal de publicação de seus escritos. Já Almeida (2008), em sua pesquisa sobre fontes de informação literária na web, percebe os tipos diferentes ao dar exemplos de três blogs literários, identificando-os da seguinte forma: blogs de escritores e sobre literatura; blogs sobre livros e leituras; blogs sobre política, cinema e literatura. 13 Disponível em: . Acesso em: 27 fev. 2018. 52 É possível, com base na estrutura da blogosfera literária, categorizar três tipos de blogs literários. Um aspecto relevante é a possibilidade de, em todos esses tipos, os blogueiros identificarem-se como blogueiros literários:  Blogs sobre literatura: Abordam temas relacionados aos livros, literatura e à leitura literária. Os leitores comuns14 pertencem a esse grupo, pois buscam compartilhar as leituras realizadas, resenhas e opiniões sobre os livros, notícias sobre lançamentos etc. Os críticos literários que mantêm blogs profissionais também pertencem a esse grupo.  Blogs de escritores: Dedicam-se a publicação de textos autorais dos mais diversos gêneros literários (contos, crônicas, romances etc.). Nesse grupo podem ser inseridos os blogs de escritores já consagrados, que buscam publicar novidades e promover seu trabalho; como também podem ser inseridos os escritores amadores, que encontram na plataforma dos blogs um espaço para publicação da literatura que produzem.  Blogs mistos: Contém tanto a produção literária autoral como também resenhas e comentários sobre outros livros. Esse tipo é a fusão dos outros dois, constituindo-se como um blog que promove os escritos do próprio blogueiro, mas que também publica comentários sobre as leituras realizadas por ele. É interessante destacar que esses tipos de blogs podem apresentar conteúdos temáticos que extrapolam a temática da literatura. Nos blogs sobre literatura, é comum os blogueiros abordarem outros conteúdos além de suas opiniões sobre livros, como comentários sobre filmes, séries e outros assuntos relacionados ao universo literário. Nos blogs de escritores é comum os blogueiros postarem seus textos literários autorais, mas também postarem pensamentos ou relatos de sua vida cotidiana. Os blogs de escritores têm o seu espaço na blogosfera literária. Por meio desses blogs é possível que um escritor amador, que não tem a possibilidade de publicar em uma editora, possa publicar seus escritos na web, o que permite que seus textos literários possam ser lidos e que ele receba o feedback de seus leitores. As produções são de diversos tipos: Presente, cotidiano, humor, sarcasmo e iconoclastia são características unânimes. Aspectos reincidentes também são a autoreferência, o biografismo e o memorialismo em tom de paródia. Citações literárias e filosóficas, referências ao mundo da história, da psicanálise, da cultura erudita e de 14 Conforme Virginia Woolf, o leitor comum se diferencia do crítico e do professor. É aquele que lê para seu próprio prazer, muito mais do que para repartir conhecimento ou corrigir opiniões alheias. Ele é guiado pelo instinto de criar para si mesmo, enquanto lê jamais para a fim de remendar alguma construção imperfeita. Impaciente, descuidado e superficial, ora lendo um poema, ora as obras de um velho cenário, sem se importar de que natureza seja desde que sirva a seus propósitos e sustente seus argumentos. As deficiências críticas do leitor comum são bastante óbvias, mas se ele tem alguma palavra final talvez poderá valer a pena prosseguir escrevendo algumas ideias e opiniões, insignificantes em si mesmas, irão contribuir muito para um resultado (WOOLF, 2007, p.11-12). 53 massa (chegando ao lixo cultural) estão presentes em vários autores. Alguns se dedicam com talento ao ensaísmo, à crítica literária, à resenha, ao artigo, ao texto opinativo. Com exceção de poucos posts longos, a brevidade é marca desta produção textual, como se os blogueiros soubessem que dispõem de pouco tempo para seduzir o leitor, como se não quisessem enfastiá-lo. (MATOS, 2009, p. 8) Entretanto, para os fins dessa pesquisa, serão estudados os blogs literários do primeiro tipo, os blogs sobre literatura, especificamente aqueles mantidos por leitores comuns. A escolha desse tipo de blog permite que seja possível analisar como o leitor sente a necessidade de compartilhar suas leituras, adentrando na blogosfera literária para publicar suas opiniões e comentários sobre os livros que leu, além de trocar informações com outros leitores, formando círculos sociais. A proposta de diferenciação dos blogs foi realizada para fins de esclarecimento dos tipos de blogs literários existentes e do tipo que será investigado, delimitando o escopo da pesquisa. Ressalta-se que, no decorrer da pesquisa, utilizaremos o termo geral blogs literários, sempre em referência à subcategoria de blogs sobre literatura. A referência à categoria geral blogs literários justifica-se pela autonominação dos blogueiros, que qualificam seus blogs como literários e se intitulam como blogueiros literários. Dessa forma, são considerados blogs literários, como o próprio nome sugere, blogs que abordam de várias maneiras a temática da leitura, dos livros e da literatura em geral (ARAÚJO; ARAÚJO, 2015). O objetivo dos blogs literários geralmente é promover o hábito da leitura e proporcionar um diálogo em torno dos livros, que vão dos clássicos aos lançamentos modernos (SANTOS; RODRIGUES; FERREIRA, 2014). Assim, os blogs literários levam uma discussão sobre livros e literatura para o ambiente virtual. Araújo e Araújo (2015) constatam que não existem regras para o tipo de publicação do blog literário, contanto que esteja relacionada ao tema central que é a literatura. Entretanto, os autores ressaltam algumas peculiaridades das postagens desses ambientes virtuais. As resenhas apresentam-se como um importante elemento na caracterização de um blog literário, visto que “consistem em uma redação na qual o autor descreve a obra lida de maneira sintetizada, agregando argumentos referentes à sua opinião crítica [...] são a representação das experiências de leitura do autor da postagem transmitidas aos leitores da página” (ARAÚJO; ARAÚJO, 2015, p. 5). Outra característica comumente presente nesse tipo de blog são notícias sobre lançamentos de livros, novidades sobre autores e eventos do gênero. Um elemento comum nos blogs literários são as parcerias, entre blogs e também entre editoras. A parceria entre blogs funciona como uma troca de divulgações e a parceria entre editoras consiste no envio de livros como cortesia, assim o blogueiro se compromete a resenhá-los em seu blog (ARAÚJO; ARAÚJO, 2015). 54 A respeito das relações entre blogs e editoras, Santos, Rodrigues e Ferreira (2014) argumentam que os blogs literários, além de divulgarem livros e críticas literárias, permitem uma maior proximidade entre autor, leitor e editora. O mercado editorial, dominado pela concorrência, encontrou na avaliação espontânea de leitores comuns uma estratégia de marketing de livros. O resultado dessa estratégia de mercado é uma promoção dos livros das editoras feito a baixo custo, uma vez que os blogueiros recebem os livros, mas não são pagos pela divulgação dos mesmos. Apesar dessas autoras considerarem essa parceria como duplamente positiva, alegando que existe a disponibilização de livros de forma gratuita, Matos (2009, p. 11) preocupa-se com o futuro dos blogs literários, que poderão perder a sua espontaneidade, sendo “engolidos por megaeditoras”. A interatividade é fundamental nos blogs literários. Ao produzir conteúdo, os blogueiros compartilham suas experiências de leitura, suas resenhas, contendo opiniões e críticas; por sua vez, os leitores comentam a postagem do blogueiro, comunicando-se com ele e também com os demais leitores da página. Muitas vezes, esses leitores são também blogueiros. Essa comunicação estabelece relações e vínculos entre os blogueiros e leitores, constituindo uma blogosfera. “[..] os blogueiros formam comunidades cujo epíteto ‘espaço sem fronteiras geográficas’ não é mera retórica, sendo apropriado o uso do termo blogosfera para se referir a este universo e sua amplitude de alcance” (MATOS, 2009, p. 3). De acordo com Santos, Rodrigues e Ferreira (2014, p.104), “a blogosfera literária pode ser definida como uma comunidade de blogs cujo objetivo é escrever sobre literatura”. Tratando-se de um notório canal de comunicação de leitores comuns, que apesar de não serem profissionais, se dedicam ao aperfeiçoamento ortográfico e crítico, promovendo um conteúdo variado e especializado, contribuindo ainda para chamar a atenção de não leitores. Comunidades formadas por leitores e escritores existem há muito tempo, como por exemplo, os clubes de leitura. Entretanto, o fenômeno das comunidades virtuais de escritores e leitores na rede é algo novo, cujo surgimento é propiciado pelos recursos disponibilizados nos blogs, como o hipertexto, que permitem visitar, frequentar e linkar outros blogs (DI LUCCIO; NICOLACI-DA-COSTA, 2010, p. 142). 3.6 Blogs como objeto da Ciência da Informação A presente pesquisa configura-se como um estudo em profundidade, com viés qualitativo. Adota-se a concepção de que os blogs não se apresentam somente como fontes de informação e disseminadores de conteúdo, e sim, espaços nos quais acontecem interações sociais, constituídas pelo compartilhamento de informação, pelas conversas informais e pelos vínculos formados entre os blogueiros e também com os leitores. 55 Retomando as três abordagens dos estudos de usuários da informação, analisou-se como seriam realizadas pesquisas sobre os blogs e seus respectivos blogueiros, sob o olhar tradicional, cognitivo e social. Um estudo de blogs na perspectiva tradicional se ateria a quantificar o seu uso pelos blogueiros, gerando estatísticas sobre a frequência de acesso, número de postagens, quantidade de comentários. Correlacionando-se essas variáveis, o intuito seria o de generalizar o comportamento dos blogueiros objetivando melhorar os blogs como fontes de informação, simplificando o acesso e disseminação da informação. Por outro lado, uma pesquisa sobre blogs na abordagem alternativa, consideraria o indivíduo, no caso o blogueiro, e sua trajetória de necessidade, busca e uso da informação. O pressuposto seria de que o blogueiro possui uma necessidade informacional, se inserindo na blogosfera para preencher sua lacuna de conhecimento. Seu comportamento informacional seria analisado desde a percepção de sua necessidade, passando pelo processo de busca e as estratégias utilizadas para tal, até o uso da informação. A visita do blogueiro a outros blogs seria considerada um comportamento de busca por informação. Já na abordagem social, adotada nessa pesquisa, os blogs e os blogueiros são analisados sob uma ótica sociocultural. O intuito é compreender o blogueiro como sujeito informacional, considerando seu contexto social e sua historicidade. O fluxo informacional na blogosfera não segue a sequência necessidade, busca e uso; considerando-se o encontro casual com a informação e o compartilhamento. Dessa forma, sob o suporte teórico das práticas informacionais, buscou-se compreender como acontecem as relações entre os sujeitos informacionais nos ambientes dos blogs inseridos na blogosfera literária, objetivando- se entender esses processos por meio do ponto de vista dos sujeitos, no caso, os blogueiros. Com a finalidade de embasar essa pesquisa, considerou-se necessário realizar um levantamento bibliográfico de trabalhos no campo da Ciência da Informação que possuem blogs como objetos de estudo. O objetivo principal desse levantamento é a constatação da existência do blog como temática estudada no campo da CI e a análise de quais perspectivas estão sendo abordadas nesses estudos. É importante destacar que esse levantamento bibliográfico não pretendeu apresentar-se como uma pesquisa bibliométrica. Conforme os dados do levantamento, realizado em maio de 2018, os blogs já apresentam-se como objetos de estudo na CI. Foram realizadas buscas com os termos “blog”, “blogs”, “blogs literários” e “blogosfera” associados ao termo “Ciência da Informação” nas bases de dados: Scielo, Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e Base PERI da Escola de Ciência da Informação da UFMG. Além das bases de dados foi também utilizado o motor de busca Google Acadêmico. No total foram encontrados 37 trabalhos sobre blogs no campo da CI, conforme apresentado no quadro 4. 56 Quadro 4 – Trabalhos sobre blogs na Ciência da Informação (continua) Autor Título Tipo Periódico/ Instituição/Evento Ano Alvim Blogue e bibliotecas - construir redes na Web 2.0 Artigo Cadernos BAD 2007 Araújo, P.C. O blog na “era da informação” como ferramenta de compartilhamento de informação, conhecimento e para promoção profissional Artigo Revista ACB 2010 Araújo; Araújo Ler, compartilhar e interagir: blogs como ferramenta de mediação de leitura Artigo Revista ACB 2015 Araújo; Teixeira Biblioteconomia conectada: uma análise da biblioblogosfera brasileira Artigo Revista ACB 2013 Araújo; Vieira Blogosfera como rede social: análise da interatividade dos blogs de Alagoas Artigo Revista Informe 2012 Biscalchin Blogs de entretenimento: um estudo exploratório da circulação e legitimação da informação na internet brasileira Dissertação Universidade de São Paulo 2012 Caregnato; Sousa Blogs cientificos.br? um estudo exploratório Artigo Informação & Informação 2010 Corrêa; Zamban; Oliveira Blogs sobre Biblioteconomia e a ressignificação da profissão no Brasil: uma análise do blog Bibliotecários Sem Fronteiras Artigo Revista ACB 2013 Dodebei Novos meios de memória: livros e leitura na época dos weblogs Artigo Encontros Bibli 2009 Eiras Blogs - mais que uma tecnologia, uma atitude Artigo Cadernos BAD 2007 57 Quadro 4 – Trabalhos sobre blogs na Ciência da Informação (continuação) Autor Título Tipo Periódico/ Instituição/Evento Ano Farias A inclusão da comunidade de Santa Clara na sociedade da informação Dissertação Universidade Federal da Paraíba 2011 Farias; Freire Memória do cotidiano: registro da comunidade Santa Clara na web Artigo Em Questão 2011 Freire; Lima; Costa Júnior Mídias sociais na web: de olho na CI para capacitação acadêmica e profissional Artigo Biblionline 2012 Freire; Santos; Nascimento Gestão da Informação no blog De olho na CI Artigo Informação & Informação 2014 Gaudêncio Representação da informação de cibercordéis em blogs: uma análise sob a luz da semântica discursiva Dissertação Universidade Federal da Paraíba 2014 Gomes; Carvalho Literatura erótica em blogs: análise do universo feminino nos blogs de literatura erótica Artigo Revista Informação na Sociedade Contemporânea 2017 Inafuko; Vidotti Diretrizes para o desenvolvimento e a avaliação de blogs de biblioteca Artigo Encontros Bibli 2012 Jovanovich; Tomaél A abordagem da informação jurídica e da jurisprudência em blogs: um estudo comparativo entre termos Artigo Revista ACB 2014 Lima Mídias sociais na web: uma análise da mídia De olho na CI na perspectiva da disseminação da informação Dissertação Universidade Federal da Paraíba 2013 Magalhães O Blog Caçadores de Bibliotecas e a construção de conteúdos Artigo Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação 2015 58 Quadro 4 – Trabalhos sobre blogs na Ciência da Informação (continuação) Autor Título Tipo Periódico/ Instituição/Evento Ano Manso- Rodriguéz Leer, comentar, compartir! El fomento de la lectura y las tecnologías sociales Artigo Transinformação 2015 Pinheiro Estudo do uso das listas de discussão e dos blogs brasileiros em Biblioteconomia Artigo Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação 2014 Ramos Usabilidade do blog da Biblioteca Leopoldo Nachbin do Instituto de Matemática da UFRJ: estudo de caso Trabalho apresentado em evento Seminário Nacional das Bibliotecas Universitárias 2016 Sampaio A experiência da utilização de blogs na disciplina Teoria e Prática da Leitura: construindo o portfólio eletrônico Artigo Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação 2011 Santana Júnior et al. Uma ferramenta para recuperação de tags de blogs baseada em microformatos Artigo Tendências da pesquisa brasileira em Ciência da Informação 2017 Santos; Neves; Freire Organização da informação em blogs: análise do uso de etiquetas no blog de olho na CI Artigo Ponto de acesso 2017 Silva et al. Blogs: relevante ferramenta para o fazer bibliotecário Trabalho apresentado em evento Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação 2011 Silva, I. S. Weblog como fonte de informação para jornalistas Dissertação Universidade de Brasília 2006 Silva, I. S. Weblog como objeto da Ciência da Informação Artigo DataGramaZero 2008 59 Quadro 4 – Trabalhos sobre blogs na Ciência da Informação (conclusão) Autor Título Tipo Periódico/ Instituição/Evento Ano Silva, H. O. Construção do sítio virtual para democratização da informação para pessoas com deficiência no Estado da Paraíba Dissertação Universidade Federal da Paraíba 2014 Silva; Silva Júnior; Aquino Gêneros digitais: expandindo a comunicação do Movimento Negro na Paraíba Artigo Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação 2013 Silva Júnior A construção da identidade negra a partir de informações disseminadas em blogs de funk Dissertação Universidade Federal da Paraíba 2014 Silveira Dos jornais revolucionários aos blogs: a preservação das manifestações políticas por meio do web archiving Trabalho apresentado em evento Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação 2011 Sousa; Caregnato A comunicação científica nos blogs de pesquisadores brasileiros: interpretações segundo categorias obtidas da análise de links Artigo Liinc em Revista 2012 Souza et al. A blogosfera: perspectivas e desafios no campo da Ciência da Informação Artigo Cadernos BAD 2007 Viera; Baptista Uma teoria crítica da "biblioteca 2.0" para a situação dos blogs de bibliotecas no Brasil Trabalho apresentado em evento Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação 2011 Targino Blogs como instrumento de legitimação de lutas sociais em Cuba Artigo Informação & Informação 2013 Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados obtidos no levantamento bibliográfico. 60 Ressalta-se que a simples menção dos termos relacionados à temática dos blogs não foi considerada nesse levantamento, sendo compilados somente os trabalhos que possuíam os termos presentes no título, resumo ou palavras-chave, ou seja, os que realmente tratavam os blogs como objeto de estudo. Dos 37 trabalhos recuperados no levantamento, 26 são artigos de periódicos científicos, sete são dissertações e quatro são trabalhos apresentados em eventos científicos da área. Por meio da análise desses documentos foi possível identificar seis categorias, que auxiliam na compreensão de como os blogs são abordados nos trabalhos. Quatro das categorias formadas compreendem diferentes campos de estudo vinculados à Ciência da Informação como: fontes de informação, Biblioteconomia, tratamento da informação e responsabilidade social. As outras duas categorias compreendem os estudos da blogosfera e os estudos sobre blogs literários. 3.6.1 Blogs como fontes de informação Dentre as pesquisas encontradas, oito trabalhos consideram os blogs na perspectiva de fontes de informação, como disseminadores de informações na web. Dessa forma, a tipologia de blogs como fontes de informação foi a que apareceu com maior frequência. Em sua dissertação, Silva (2006) analisa os blogs como fontes de informação para jornalistas, e em um artigo de 2008 propõe o blog como objeto de estudo na CI, pelo uso da ferramenta na criação, distribuição, comunicação, armazenamento e recuperação da informação (SILVA, 2008). Sousa et al. (2007) apontam os blogs como passíveis de serem inseridos nos sistemas de informação, na perspectiva da gestão da informação. Eiras (2007) propõe a criação de blogs por parte dos profissionais da documentação e informação, como forma de divulgação das unidades de informação e também como ferramenta para partilha, troca de experiências entre os pares. Silva et al. (2011) apontam a importância do uso do blog como fonte de informação e também como ferramenta de trabalho do bibliotecário. A pesquisa de Pinheiro (2014) também aborda os blogs como fontes de informação relacionadas à Biblioteconomia, pois objetivou investigar o uso de blogs e listas de discussão sobre Biblioteconomia e Ciência da Informação no Brasil. O blog De Olho na CI foi objeto de estudo de vários trabalhos, uma vez que é um projeto vinculado ao Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Freire, Lima e Costa Júnior (2012) compartilham a experiência com a edição e publicação do blog, que tem como público-alvo pesquisadores e profissionais da informação, objetivando divulgar conteúdo referente à Ciência da Informação, Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia. Já Freire, Santos e Nascimento (2014) apresentam um estudo 61 sobre o blog De Olho na CI analisando a produção e transferência de informação, na perspectiva da gestão da informação. Percebe-se que o ponto central dessas pesquisas é a compreensão do blog como uma fonte de informação, identificando o potencial da plataforma blog na publicação de conteúdo atualizado e relevante, principalmente para profissionais. Dessa forma, essas pesquisas evidenciam a possível atuação dos blogs na disseminação da informação na web, propiciando seu acesso para diversos usuários. 3.6.2 Blogs relacionados à Biblioteconomia A análise de sete trabalhos revelou que seus objetivos estão especificamente relacionados ao estudo do vínculo entre os blogs e a Biblioteconomia. Alvim (2007) apresenta os blogs como ferramentas que as bibliotecas podem utilizar em duas perspectivas: como fonte de informação e como forma de promover os seus serviços, proporcionando canais de comunicação com os usuários. O blog e sua relação com a divulgação de informação e promoção do profissional bibliotecário está presente no artigo de Araújo (2010) e também no artigo de Corrêa, Zamban e Oliveira (2013), que trata especificamente do blog Bibliotecários sem Fronteiras. O uso do blog como ferramenta da biblioteca 2.0 é ressaltada por Vieira e Baptista (2011). Os blogs usados em bibliotecas também são tema do artigo de Ramos (2016), que apresenta uma avaliação do blog de uma biblioteca universitária, verificando sua qualidade e usabilidade. A autora enfatiza a inegável importância da utilização dos blogs por bibliotecas, não só pelo caráter informativo, mas também pela maior aproximação da instituição com seus usuários. A divulgação de bibliotecas e espaços culturais por meio dos blogs é temática discutida por Magalhães (2015), que apresenta o blog Caçadores de Bibliotecas como um veículo informacional, que publica conteúdos relacionados a espaços culturais diversos e diferentes tipos de bibliotecas, ressaltando a importância da divulgação dos espaços de atuação do profissional da informação. O blog também foi abordado como plataforma possível de ser utilizada em cursos de graduação em Biblioteconomia. Em seu relato de experiência, Sampaio (2011) descreve a utilização da do blog como portfólio eletrônico de uma disciplina. Conclui-se que o foco dos trabalhos citados é defender o uso de blogs como formas de divulgação de bibliotecas, tornando-as mais conhecidas, de forma a explicitar os serviços oferecidos e atrair novos usuários. Além disso, a promoção do trabalho do bibliotecário por meio dos blogs é uma forma de valorização desse profissional, que muitas vezes não possui o devido reconhecimento. 62 3.6.3 Blogs como espaços sociais de representação Foram encontrados sete artigos que relacionavam os blogs, no âmbito da CI, à representação social e cultural de grupos e comunidades. Em sua dissertação, Farias (2011) objetiva promover a inclusão da comunidade Santa Clara na sociedade da informação mediante registro e publicação da memória social dessa comunidade da Paraíba. Assim, a autora identifica o regime de informação e as fontes de informação na comunidade, criando um blog para registrar e disseminar os seus conhecimentos, compreendendo-o como uma ferramenta de inclusão social. No mesmo ano, a autora publicou um artigo com sua orientadora, no qual Farias e Freire (2011) descrevem a experiência da criação do blog na comunidade Santa Clara como forma de preservar a memória social e o saber popular. O blog foi visto como uma ferramenta de empoderamento da comunidade, valorização da identidade cultural dos moradores e também como instrumento de comunicação. No mesmo sentido, Silva (2014) também trabalha na perspectiva da responsabilidade social da Ciência da Informação, uma vez que sua dissertação objetivou o planejamento e construção de um blog para democratização de informações de interesse para pessoas com deficiência no estado da Paraíba. Silva, Silva Júnior e Aquino (2013) investigam como o Movimento Negro do Estado da Paraíba se apropria dos gêneros digitais, sendo um deles o blog, utilizando-os para disseminar a informação étnico-racial. Silva Júnior (2014), apresenta em sua dissertação o uso da netnografia para o estudo dos blogueiros. Seu objetivo foi averiguar a construção da identidade negra a partir de informações disseminadas em blogs de funk. Sua pesquisa apresenta um forte viés cultural e trabalha a interpretação da informação e sua apropriação no ponto de vista dos sujeitos. Os blogs como espaços de livre expressão são discutidos por Silveira (2011), que defende o blog como substituto da imprensa alternativa da época do regime militar brasileiro e dos jornais de cunho político do final do século XIX. Sendo assim, a autora alerta para a necessidade de preservação dos blogs como forma de manter a memória nacional registrada da atualidade. É apresentado o conceito de arquivamento da web como forma de preservação digital dos blogs de manifestações políticas e movimentos sociais. Nessa perspectiva, Targino (2013) analisa blogs cubanos como espaço de luta para (re)conquista da cidadania, em especial o blog Generación Y, que apresenta-se como espaço genuíno de crítica à realidade do povo cubano, sendo também uma alternativa à reivindicação de direitos, promovendo o exercício da liberdade de expressão e o intercâmbio de informações. Compreende-se que o ponto comum dessas pesquisas é abordar o blog como um meio para promover uma representação social de certos grupos e comunidades, que muitas vezes são desprovidos de espaço para expressão ou são socialmente oprimidos. O blog, 63 como uma ferramenta de fácil criação e uso, possibilita o empoderamento desses grupos, que podem comunicar-se livremente através da web. Os blogs, nesses casos, são concebidos como artefatos culturais, revelando traços indentitários e culturais de seus autores. 3.6.4 Estudos da blogosfera Foram identificadas seis pesquisas que realizam estudos sobre blogs, possuindo enfoque na blogosfera e nos blogueiros. Caregnato e Sousa (2010) realizam um estudo exploratório das redes formadas por blogs científicos brasileiros, investigando formas de recuperação e as características estruturais desses blogs, com o objetivo de compreender seu papel no âmbito da comunicação da ciência. Em um outra pesquisa, Sousa e Caregnato (2012), analisam o fluxo da comunicação científica a partir do uso de links nas postagens dos blogs de pesquisadores profissionais brasileiros. Em uma pesquisa voltada para a interação possibilitada pelos blogs, Araújo e Vieira (2012) interpretam a blogosfera como uma rede social. A partir da análise das redes sociais, os autores verificam a blogosfera averiguando sua expressividade, o nível de interatividade entre os blogs e os laços estabelecidos. Em 2013, Araújo e Teixeira, analisam a “biblioblogosfera” brasileira, realizando uma pesquisa exploratória com abordagem cibermétrica, objetivando mapear os blogs sobre Biblioteconomia no país e analisa-los quanto ao gênero, interatividade e abordagem temática. Por meio da análise de redes sociais, os autores verificaram a baixa interconectividade dos blogs. Ao abordar os sujeitos atuantes na blogosfera, Biscalchin (2012) apresentou um caráter etnográfico em sua dissertação, na qual realizou um estudo de caso exploratório e descritivo sobre um blog de entretenimento. A autora objetivou compreender o papel dos blogs e a influência da blogosfera na troca de informações, abordando questões como a autoria, o uso de links e as questões de visibilidade que permeiam as relações mediadas pelas tecnologias da informação. O termo práticas informacionais foi utilizado esporadicamente no decorrer da pesquisa, sem embasamento teórico, referindo-se a participação dos blogueiros na blogosfera. A etnografia virtual foi usada por Lima (2013) ao abordar a mídia De Olho na CI como objeto de sua dissertação. A partir da análise documental e da análise de redes sociais, a autora conclui que as mídias De Olho na CI formam redes sociais na internet. Nos estudos sobre a blogosfera é evidenciada a formação de redes, nas quais os blogs encontram-se conectados. O foco desses trabalhados é compreender o fluxo de informação nas redes formadas na blogosfera, sendo um dos métodos comumente utilizados, a análise de redes sociais. 64 3.6.5 Tratamento da informação em blogs Conteúdos relacionados às temáticas de organização e tratamento da informação em blogs foram identificados em cinco trabalhos. Inafuko e Vidotti (2012) analisam os blogs de bibliotecas do ponto de vista da arquitetura da informação e da usabilidade, apresentando diretrizes para o desenvolvimento e avaliação desses blogs. Santana Júnior et al. (2017) realizam um experimento com uma ferramenta voltada para a recuperação de informação em blogs, tendo como referência o padrão de microformatos. Abordando a temática da indexação, a pesquisa de Gaudêncio (2014), em nível de mestrado, averiguou a representação da informação dos cibercordéis em blogs por meio de procedimentos semânticos centrais no processo de indexação. O autor voltou sua pesquisa para a questão do tratamento da informação e como os blogs podem auxiliar a entender, representar, preservar e divulgar produções culturais. Também relacionado à indexação, o artigo de Javanovich e Tomaél (2014) analisa a utilização das terminologias “informação jurídica” e “jurisprudência” em blogs da área. Santos, Neves e Freire (2017) realizaram uma pesquisa quanti-qualitativa para analisar o uso das etiquetas no blog De Olho na CI, organizando as temáticas abordadas nas etiquetas em nove categorias. O estudo atenta para a necessidade de padronização dos usos das etiquetas para melhor representação dos conteúdos no blog. Conclui-se que os estudos sobre o tratamento da informação em blogs evidenciam a necessidade de organizar a informação disponibilizada nesse meio, por meio de técnicas como a indexação, de forma que ela possa ser facilmente recuperada posteriormente. O fato de existir uma preocupação com o tratamento da informação nos blogs está diretamente vinculada à compreensão de que eles são fontes de informação. 3.6.6 Estudos sobre blogs literários Foram identificados quatro estudos sobre blogs literários na área da CI. Apesar de não utilizar o termo blogs literários, Dodebei (2009) discorre sobre a memória, os livros, a leitura e sua relação com as novas tecnologias, como os blogs. De acordo com a autora, blogs e websites são depositários das narrativas na atualidade. Dodebei ressalta a característica hipertextual da leitura nos espaços virtuais e a interatividade entre autor e leitor. Gomes e Carvalho (2017) analisam o universo feminino em blogs de literatura erótica. As autoras realizam uma pesquisa qualitativa com observação direta de cinco blogs voltados para esse tipo de literatura. Constatou-se que esses blogs são escritos por mulheres e tem 65 um público majoritariamente feminino, que utiliza o espaço para compartilhar experiências de relacionamentos, divulgar e discutir a literatura erótica. Na perspectiva dos blogs literários e sua relação com a promoção da leitura, Manso- Rodriguéz (2015) investiga o uso das ferramentas tecnológicas e como elas contribuem para o incentivo à leitura, citando o blog como ferramenta usada frequentemente na implementação de ações de incentivo à leitura, como por exemplo, clubes do livro. O autor também caracteriza os blogs como via de intercâmbio de informação entre os leitores. Em uma outra pesquisa, Araújo e Araújo (2015) pesquisam os blogs como ferramentas de mediação de leitura. Para esses autores, os blogs são vistos como comunidades formadas por blogueiros e leitores, que como admiradores de livros e leitura, utilizam das ferramentas da rede para mediarem a leitura entre si. 3.6.7 Considerações sobre os estudos de blogs na CI Ao final dessa breve análise das pesquisas identificadas por meio do levantamento bibliográfico, destaca-se que não foi encontrado nenhum trabalho que realiza explicitamente um estudo de usuários da informação em blogs. Entretanto, na categoria estudos da blogosfera (3.6.4) foram encontrados alguns trabalhos que apresentaram certa aproximação com a subárea dos estudos de usuários da informação, uma vez que se dedicaram a pesquisar as redes formadas pelos blogueiros e ressaltaram o caráter social dos blogs, compreendendo-os como mais do que uma fonte de informação ou uma ferramenta disponível na web. É perceptível uma certa concentração de pesquisas sobre blogs na Universidade Federal da Paraíba, visto que das sete dissertações analisadas, cinco foram defendidas na UFPB. As dissertações de Farias (2011), Lima (2013) e Silva (2014) foram orientadas pela Professora Isa Maria Freire. É percebida também a presença de Freire em quatro artigos. Em relação à temporalidade, encontrou-se trabalhos mais antigos, elaborados na década de 2000, época do surgimento dos blogs no Brasil. No entanto, a maioria dos trabalhos concentram-se no início da década de 2010, período de grande crescimento do número blogs. Foram também encontrados trabalhos atuais, dos anos de 2015, 2016 e 2017, que demonstram a permanência dos blogs no ciberespaço. 66 4 LER E COMPARTILHAR Ao abordar os blogueiros literários e seus respectivos blogs nessa pesquisa, torna-se necessário trabalhar questões relativas à leitura literária, uma vez que essa está vinculada ao motivo da existência dos blogs literários. Dessa forma, esse capítulo aborda a temática da leitura, em suas dimensões individual e coletiva, com ênfase no seu compartilhamento e na formação das comunidades. Além disso, é discutido o conceito de mediação de leitura, visto que essa é uma prática possível de ser realizada pelos blogueiros literários. É apresentada uma revisão de literatura resgatando o histórico das comunidades de leitores, que tem início nas rodas de leitura ao pé do fogo, passando pelos cafés e salões literários, até chegar à atualidade das comunidades virtuais de leitores. Por fim, foram apresentados diversos ambientes virtuais nos quais é possível compartilhar leituras na web como, por exemplo, sites, blogs, Facebook, Youtube, Twitter, Wattpad, Skoob, Instagram e Google Plus. 4.1 Leitura literária Inicialmente, faz-se necessário conceituar a Literatura, para tornar compreensível a prática da leitura literária. Lajolo (1982, p. 16) constata que “a obra literária é um objeto social. Para que ela exista, é preciso que alguém escreva e que outro alguém leia. Ela só existe enquanto obra nesse intercâmbio social.” Portanto, segundo a autora, para que uma obra seja considerada parte do conjunto de obras literárias de uma determinada tradição cultural é necessário que ela tenha o endosso de certos setores especializados, que identificarão se determinado texto é literário ou não literário. Dentre esses setores estão os intelectuais, a crítica, a universidade, a academia e a escola. Entretanto, a concepção de literatura por parte desses setores muda com o tempo. A autora alerta que os conceitos de literatura seguem uma dinâmica relacionada ao tempo e aos grupos sociais, cada época e grupo têm sua definição de literatura. Por esse motivo, a literatura foi diferentemente concebida em diferentes momentos da história. Quanto à linguagem, Lajolo (1982, p. 37) afirma que não é o uso deste ou daquele tipo de linguagem que configura o texto como literatura, “[...] é, pois, essa linguagem instauradora de realidade e fundante de sentidos de que se tece a literatura”. O mundo da literatura, assim como o mundo da linguagem, é o mundo do possível. A linguagem torna-se literária quando seu uso instaura um universo, promovendo um espaço de interação de subjetividades entre autor e leitor, espaço esse que escapa ao imediatismo, à predictibilidade, ao estereótipo das situações e dos usos da linguagem da vida cotidiana (LAJOLO, 1982). 67 Após a definição de literatura, é notória a discussão existente sobre as vantagens da leitura literária, principalmente no que se refere à formação e humanização. A respeito do caráter humanizador da literatura, Lajolo (1982, p. 43) alega que esse não vem da natureza ou da quantidade de informações transmitidas ao leitor, nas palavras da autora “Literatura não transmite nada. Cria. Dá existência plena ao que, sem ela, ficaria no caos do inomeado e, consequentemente do não existente para cada um”. Nessa mesma perspectiva, Petit (2009) considera que a leitura convoca uma atividade de simbolização, de pensamento, de narração de sua própria história entre as linhas lidas. Os textos, segundo a autora, agem em vários níveis: através de seus conteúdos, das associações que suscitam, das discussões que promovem. De acordo com Petit (2009, p. 29) a apropriação da literatura é desejável por vários motivos, “[...] porque quando aí se penetra, torna-se mais hábil no uso da língua, conquista- se uma inteligência mais sutil, mais crítica; e também torna-se mais capaz de explorar a experiência humana, atribuindo-lhe sentido e valor poéticos”. O novo horizonte aberto pela leitura literária, conforme Petit (2009), permite a construção de um mundo interior, um espaço psíquico, além de possibilitar um processo de autonomia e de construção do sujeito. Além disso, a leitura torna possível iniciar uma atividade de narração, de forma que se estabeleçam vínculos entre os fragmentos de uma história, entre os participantes de um grupo, entre universos culturais. Esses elementos permitem que a experiência da leitura seja testemunhada por pessoas diferentes, pertencentes a distintos meios sociais e culturais, tendo praticado a leitura individual ou travado leituras compartilhadas. A experiência de leitura deve ser verdadeiramente apropriada, não sendo entendida como algo que se impõe ou sobre o que é preciso prestar contas (PETIT, 2009). Para Yunes (1995) o ato de ler é uma ato de sensibilidade e inteligência, de compreensão e comunhão com o mundo, pois lendo expandimos o estar no mundo e alcançamos novas esferas do conhecimento. “Ler é, pois, interrogar as palavras, duvidar delas, ampliá-las. Deste contato, desta troca, nasce o prazer de conhecer, de imaginar, de inventar a vida” (YUNES, 1995, p. 188). Por meio da leitura literária, conforme a referida autora, o leitor é capaz de mudar horizontes, interagir com o real, interpretá-lo, compreendê- lo e decidir sobre ele. Já Zilberman (2001) considera que a literatura realiza um papel social ao realizar uma ruptura no interior das vivências do sujeito, mostrando-lhe as possibilidades de outro universo e alargando sua compreensão de mundo. Assim, o leitor altera seu ponto de vista, conhece as possibilidades de transformar a sociedade e não se conforma com o já existente. Nesse sentido, Yunes (1995) afirma que, sem dúvida, a leitura por si só não resolve os problemas sociais e/ou individuais, mas o conhecimento de outras vidas, de outros tempos, de outras histórias e culturas, se oferece como um contraponto para o leitor. Segundo a autora, ter 68 opções e compreender situações é menos amargo do que ser levado pelo domínio do que se passa em torno. Portanto, dentre os benefícios da leitura literária podemos destacar: a atividade de simbolização, a formação do pensamento crítico, a narração de sua própria história, o maior domínio da língua, a construção do sujeito e a compreensão do mundo. No entanto, para o leitor literário existem diferentes modos de apropriar-se do texto, tendo a possibilidade de realizar uma leitura solitária ou compartilhar suas leituras, o que irá influir diretamente nas suas experiências de leitura, como veremos a seguir. 4.2 Leitura solitária e leitura compartilhada A leitura literária se mostra paradoxal, conforme Petit (2009), pois permite escapadas solitárias e também encontros. Ao tratar do ato da leitura solitária, a autora considera que os livros podem auxiliar a manter a dor ou o medo à distância, podendo também transformar a dor e agonia, possibilitando o reencontro com a alegria. “Os textos lidos abrem aqui um caminho em direção à interioridade, aos territórios inexplorados da afetividade, das emoções, da sensibilidade; a tristeza ou a dor começam a ser denominadas” (PETIT, 2009, p. 108). Por vezes, os leitores descrevem que ler é realizar um salto para fora de suas realidades cotidianas. Para Petit (2009), esse salto não é tanto uma fuga, palavra que é dita frequentemente de maneira depreciativa, pois acredita-se que seria mais honrável se dedicar completamente à dor ou ao tédio. Essa fuga seria, na verdade, uma verdadeira abertura para outro lugar, que possibilita o devaneio, o pensamento, a lembrança e a imaginação. Por vezes, considera-se que a história lida ou a imagem contemplada é bela, mas o interior do leitor é que é belo, pois os livros existem como reflexos. “[...] Esses livros são sempre receptivos, estão à disposição, os heróis não podem escapar, e a permanência desse recurso possível ajuda a manter ou restaurar o sentimento da sua própria continuidade e sua capacidade de estabelecer elos com o mundo” (PETIT, 2009, p. 80). Além de ser um caminho para a interioridade, a leitura literária permite que esse sujeito vá além do reconhecimento de si mesmo, permitindo uma mudança de ponto de vista, um encontro com a alteridade, que possibilita a educação dos seus sentimentos. Essa mudança de visão acontece por meio do diálogo com o autor, pois, mesmo lendo sozinho, o leitor encontra no texto a marca do trabalho psíquico e literário realizado pelo escritor, que o mantém próximo do seu corpo, de suas pulsões, das experiências sensíveis que encontrou e de seu prazer em transmiti-las. Em eco, essas experiências do autor suscitarão, em alguns leitores, pensamentos, emoções, potencialidades de ação, uma comunicação mais livre entre corpo e espírito. Essas sensações poderão dar força ao sujeito para sair do lugar onde se encontrava imobilizado (PETIT, 2009). 69 A relação dialógica entre leitor e texto é destacada por Zilberman (2001). De acordo com a autora, a leitura permite ao leitor ocupar-se com os pensamentos do outro, assim o leitor substitui a própria subjetividade por outra, abandonando momentaneamente suas disposições pessoais e preocupando-se com algo que até então não conhecia. O leitor vivencia a alteridade como se fosse ele mesmo, entretanto a sua realidade não desaparece, formando um pano de fundo contra o qual os pensamentos advindos do texto assumem certo sentido. Ainda sobre a relação leitor-texto, Petit (2009, p. 113) considera que a leitura traz ao leitor um retorno de si mesmo: Do nascimento à velhice, estamos sempre em busca de ecos do que vivemos de forma obscura, confusa, e que às vezes se revela, se explicita de forma luminosa, e se transforma, graças a uma história, um fragmento ou uma simples frase. E nossa sede de palavras, de elaboração simbólica, é tamanha que, com frequência, imaginamos assistir a esse retorno de um conhecimento sobre nós mesmos surgindo sabe-se lá de que estranhas fontes, redirecionando o texto lido a nosso bel-prazer, encontrando nele o que o autor nunca teria imaginado que havia colocado. Para além da relação que o leitor estabelece com o autor e com o próprio texto, as narrativas conectam esse leitor à sua própria humanidade. Petit (2009) afirma que as histórias (mitos, contos, lendas, poesias, peças de teatro, romances) retratam as paixões, os desejos e os medos humanos, ensinando às crianças, aos adolescentes e também aos adultos que o que os assusta pertence a todos. Nesse sentido, é perceptível as pontes lançadas entre o eu e os outros. Portanto, mesmo a leitura realizada de forma solitária permite a interação com o outro, seja com o autor ou com a essência das narrativas que apresentam emoções e experiências inerentes ao ser humano. É por meio de intersubjetividades gratificantes que surge o desejo de ler, e o ato de dividir é inerente à leitura como a todas as atividades de sublimação. Mesmo se leio sozinha no meu quarto, quando viro as páginas, quando levanto os olhos do livro, outros estão ali ao meu lado: o autor, os personagens cujas vidas ele narra ou aqueles que ele criou, se se tratar de uma ficção (e talvez aqueles que o inspiraram), os outros leitores do livro, de ontem e de amanhã, os amigos que dele me falaram ou a quem imagino que eu poderia recomendar. Mas também os que construíram a minha vida ou que a compartilham hoje, cujos rostos, brincadeiras, traições ou generosidade estão prontos para aparecer nas entrelinhas. Sozinha, sou muito povoada dentro de mim mesma (PETIT, 2009, p. 140). Por outro lado, Bértolo (2014) acredita que a leitura silenciosa apresenta a possibilidade e o risco de que o leitor acredite que é ele quem dá vida às palavras e que o texto foi escrito somente para ele. Assim, o leitor silencioso tende a se apropriar das palavras de maneira individual, singular, própria, particular, egoísta e narcisista. Nesse momento, o leitor silencioso sente-se proprietário do texto. Nada de estranho tem, portanto, que, a partir de sua condição de silencioso e solitário, o leitor se sinta o dono do universo que comprou na livraria ou no supermercado. Acomoda-se no sofá e submerge num universo alheio e próprio ao mesmo tempo. Entende que o livro é apenas a figura de barro que não ganhará vida até que alcance o sopro da leitura. Agora ele é o dono do livro. Pode dar-lhe vida ou tirá-la (basta fechar o livro), condená-lo ou salvá- 70 lo (gostei ou não gostei). O leitor sente que as palavras do livro são suas palavras. Enquanto lê não precisa de ninguém. O livro lhe oferece a possibilidade de viver outras vidas, de transportar-se a outros tempos e espaços. A leitura como um adultério sem riscos. O sonho do adultério – viver duas vidas - se torna realidade. O sonho do espião – viver duas vidas – se cumpre. O sonho do voyer – viver duas vidas – se torna realidade. Sem risco de escândalo, prisão ou condenação. O sonho de ser Deus – viver duas vidas: e fez o homem a sua imagem e semelhança – se cumpre. Claro que ele logo deve voltar à vida real, com suas tarefas, tédios, esperanças, afetos e desafetos, problemas e paixões, sonhos e temores. Mas é possível recuperar o paraíso perdido por uma soma modesta. Bastam algum dinheiro e um pouco de solidão (BÉRTOLO, 2014, p. 66). A experiência da leitura silenciosa evoca no leitor o sentimento de que não são necessários os outros para se viver uma experiência plena. “A leitura silenciosa ou privada cria a aparência de uma solidão produtiva. Solidão porque o leitor se retira do mundo; produtiva, porque a partir da leitura constrói uma ideia de mundo e uma ideia de si mesmo” (BERTÓLO, 2014, p. 35). Dessa forma, entende-se que a leitura permite ao leitor conhecer sua própria interioridade, tendo os livros como reflexos de si mesmo ao encontrar neles pensamentos e lembranças. Além disso, o leitor vivencia a alteridade, muda seu ponto de vista, coloca-se no lugar do outro. A leitura também possibilita ao leitor conectar-se à humanidade, identificando sentimentos e experiências comuns aos seres humanos. Por outro lado, o leitor silencioso está sujeito à solidão, ao egoísmo e ao narcisismo. Em decorrência desses sentimentos, é compreensível que um caminho possível para o leitor seja buscar outros leitores, procurando compartilhar suas leituras e experiências. Adentrando na dimensão da leitura literária compartilhada, Petit (2009) afirma que aquelas e aqueles que participam de espaços de leitura livremente compartilhadas adquirem melhores possibilidades de se expressar. Por um lado, nesses espaços os leitores se sentem vinculados aos outros, descobrindo que dividem as mesmas emoções e confusões; por outro lado, eles se veem separados, capazes de pensar independentemente, o que propicia a delimitação de si mesmo, permitindo a cada leitor traçar os seus próprios contornos. Seoane (2004 citada por PETIT, 2009, p. 169) ressalta o papel da leitura no contexto coletivo afirmando que “para além da possibilidade da leitura solitária, e sem de modo algum menosprezá-la, a leitura nos interessa aqui como uma atividade social de renegociação de significações, como prática polissêmica, coletiva, multívoca, polifônica”. Nesse sentido, os espaços coletivos de leitura são capazes de retirar o leitor da sua solidão, permitindo um compartilhamento das experiências encontradas nas páginas lidas pelos que estão ao seu lado, além das trocas que o leitor já realizou com o autor e com os próprios personagens. Essas experiências literárias contribuem para a formação de uma sensibilidade e de uma educação sentimental. Nessa perspectiva, a leitura favorece as transições entre o eu e os outros (PETIT, 2009). 71 Na visão de Bértolo (2014), a leitura coletiva está relacionada à leitura oral. Nessa forma de leitura, o “leitor-ouvinte” sabe que o texto não se destina a ele e sim ao público do qual ele se sente parte. Esse leitor coletivo escuta os outros, lê com os outros, fatos que alteram a sua apreensão das palavras. Esse leitor-ouvinte só se sente leitor enquanto parte de um coletivo, procura nas palavras o comum, o que a comunidade também escuta. Tanto a leitura solitária como a leitura compartilhada apresentam sua relevância para os leitores, como relata Petit (2009, p. 170) em suas experiências de pesquisa: Ao final de minhas pesquisas, encontrei muitos leitores, de diferentes meios sociais, entusiasmados de ler sozinhos, que estavam felizes nessa solidão tão povoada desses espaços “seus”, conquistados às vezes em grande luta contra seus próximos, onde não teriam que prestar contas a ninguém. Também conheci- e são por vezes os mesmos – leitores felizes, em certos momentos, por compartilhar seus achados, suas emoções, suas questões, suas reflexões. De acordo com Petit (2009, p.170), as duas modalidades apresentam diferenças, pois a leitura solitária é propícia à intimidade rebelde, se opondo a leitura coletiva e edificante. No entanto, essas formar de ler também possuem semelhanças, pois, segundo a autora “Ambos os tipos de leitura desenham espaços de liberdade e, algumas vezes, de resistência, contribuindo para o desenvolvimento de outras formas de vínculo social, de espaço público”. Conclui-se que a apropriação do texto literário pelo leitor pode ocorrer tanto na dimensão individual como na dimensão coletiva, e que, das duas maneiras ele estará delineando um lugar de liberdade. 4.3 Mediação de leitura A relação das pessoas com a leitura não surge de maneira espontânea ou natural, por esse motivo torna-se essencial que seja realizada uma intervenção, que deve trabalhar a aproximação entre os sujeitos e os livros, despertando o interesse e o gosto pela leitura literária. Portanto, a relação entre o leitor e os livros deve ser mediada por outras pessoas. Para que uma pessoa possa apropriar-se de um texto, de acordo com Petit (2009), é necessário que ela tenha tido contato com alguém, uma pessoa próxima para quem os livros são familiares, que já fez com que contos, romances, ensaios e poemas entrassem na sua própria existência e que soube apresentar esses objetos sem esquecer disso. Essa pessoa próxima ao leitor pode ser um professor, um bibliotecário, um fomentador de leitura, um amigo. Nessa mesma linha, Yunes (1995) considera que no processo de iniciação à leitura existe uma relação afetiva, que sendo boa ou má, pode imprimir contornos duradouros à experiência de ler. De acordo com a autora, se o mediador inicial – seja ele o professor, o pai, o bibliotecário – deixar de apresentar o gosto pelas palavras, a apreciação da leitura e a 72 ampliação do saber podem estagnar, até que o sujeito se isole no seu medíocre vocabulário cotidiano, restringindo seus conhecimentos. Em muitos lugares, pessoas se dedicam a dar vida a espaços coletivos que permitem a mediação de recursos culturais, narrativos, reflexivos, linguísticos. Tudo começa com uma hospitalidade, alguém que manifesta à criança, ao adolescente e também ao adulto, uma disponibilidade, uma recepção, seja em um centro cultural, uma biblioteca, uma escola (PETIT, 2009). A mediação de leitura pode ser definida como “fazer fluir a indicação ou o próprio material de leitura até o destinatário-alvo, eficiente e eficazmente formando leitores” (BARROS, 2006, p. 17). De acordo com Barros (2006) a atividade da mediação envolve o texto, o leitor e o mediador, sendo esse processo permeado por fatores extrínsecos e intrínsecos relacionados ao objeto, ao sujeito e ao agente da leitura. Nesse sentido, Barros (2006) argumenta que a mediação de leitura deve ser planejada. Os mediadores de leitura, em sua maioria bibliotecários e professores, devem possuir conhecimentos que permitam a esses profissionais terem habilidade e competência para exercer a mediação de leitura, como o conhecimento de teorias sobre leitura e literatura, fundamentos de Psicologia, Teoria do Conhecimento, entre outros. É necessário também que o bibliotecário conheça o acervo disponível, as recentes publicações editoriais, avalie a crítica da mídia e faça também a sua própria análise, pois essas aptidões proporcionam “a diretriz para a oferta, para o aconselhamento, para o processo de mediação de leitura, enfim tanto em nível particular quanto em nível coletivo” (BARROS, 2006, p. 17). Dessa forma, na visão de Barros (2006), a mediação de leitura não é a simples democratização da leitura e o acesso ao livro. O que ocorre com frequência é a não-mediação de leitura por parte dos encarregados de bibliotecas, seja pelo desconhecimento do conteúdo ou pela falta de critério. A autora define a não-mediação como “a inadequação, a omissão ou negligência no ato da oferta da leitura” (BARROS, 2006, p. 21). Em contrapartida, Petit (2008) compreende a mediação de leitura não como uma atividade estritamente planejada, na qual o mediador deve ter o domínio de várias teorias, e sim, como uma atividade vinculada ao incentivo à leitura e à afetividade. De acordo com Petit (2008, p. 165), o mediador de leitura pode ser “um professor, um bibliotecário ou, às vezes, um livreiro, um assistente social ou um animador voluntário de alguma associação, um militante sindical ou político, até um amigo ou alguém com quem cruzamos”. Nessa mesma perspectiva, Bortolin (2006) também considera que qualquer pessoa pode atuar como um mediador. Segundo a autora, a palavra mediador deriva do latim mediatore e significa aquele que medeia ou intervém. Em se tratando de leitura, podemos considerar que o mediador do ato de ler é o indivíduo que aproxima o leitor do texto. Em outras palavras, o mediador é o facilitador dessa relação; que pode ser exercida por diferentes indivíduos, 73 independentemente do sexo, da idade e da classe social; em diferentes espaços e em diferentes situações (BORTOLIN, 2006, p. 67). O gosto pela leitura não surge pelo simples contato material com os livros. Uma biblioteca pode ter pouco significado para uma pessoa que não se sente à vontade para aventurar-se na cultura letrada devido à sua origem social. É essencial a dimensão do encontro com um mediador, pois é ele quem atribui vida aos livros. Assim, não é a biblioteca ou a escola que despertam o gosto pela leitura, e sim o mediador, seja um professor, um bibliotecário, que transmite sua paixão através de uma relação individual. (PETIT, 2008). O iniciador é aquele ou aquela que exerce uma função-chave para que o leitor não fique encurralado entre alguns títulos, para que tenha acesso a universos de livros diversificados, mais extensos. Porque uma das especificidades dos livros é a sua enorme variedade (PETIT, 2008, p. 197). Contudo, não é apenas para iniciar a leitura que o papel do mediador é primordial, para legitimar ou revelar o desejo de ler. É essencial também a presença no mediador no acompanhamento do trajeto do leitor, para lhe dar oportunidade de alcançar uma etapa nova. Não se trata de questionar a liberdade do usuário, mas é preciso, em determinados momentos, ajudar certos leitores a superar algo. O leitor precisa de uma orientação para transpor barreiras, que podem ser, por exemplo, passar da seção juvenil à adulta ou acessar outros tipos de leitura (PETIT, 2008). Petit (2008) também relata as atividades desenvolvidas por outros profissionais, na biblioteca ou fora dela, que animam clubes de leitura, ateliês de escrita, atividades teatrais, como forma de introduzir o jovem à leitura e também a outras formas de convívio. Nas palavras da autora “Como veem, não tenho receitas mágicas para lhes oferecer. Tenho apenas a preocupação de fazê-los sentir que o papel do mediador de leitura é, a todo momento, penso eu, o de construir pontes” (PETIT, 2008, p. 197). Dessa forma, na visão da autora, o mediador de leitura é compreendido como a pessoa que pode legitimar um desejo de ler, aquele que ajuda a ultrapassar as barreiras em diferentes momentos da trajetória do leitor. Pode ser um profissional ou um voluntário que acompanha o leitor no difícil momento da escolha do livro. “Aquele que dá a oportunidade de fazer descobertas, possibilitando-lhe mobilidade nos acervos e oferecendo conselhos eventuais, sem pender para uma mediação de tipo pedagógico” (PETIT, 2008, p. 197). Essa forma de mediação de leitura, que não é pedagógica nem planejada, mas que exerce o incentivo à leitura, despertando o desejo de ler e guiando o leitor na escolha de livros, pode ser realizada por diversas pessoas que não são necessariamente profissionais. Nessa perspectiva, um dos objetivos específicos dessa pesquisa é analisar a possibilidade dos blogueiros literários atuarem como mediadores de leitura, junto aos leitores de seus blogs e nos círculos sociais formados pelos webrings. 74 4.4 Comunidades de leitores No contexto das leituras compartilhadas em espaços sociais, a retomada de aspectos históricos sobre o surgimento das comunidades de leitores se mostra relevante. Ao pesquisar historicamente sobre os hábitos de leitura, Darnton (2010) afirma que a leitura não evoluiu numa única direção, ela assumiu formas diferentes entre diferentes grupos em épocas diversas. Darnton (2010) constata que, no Início da Idade Moderna, a leitura já se constituía como atividade social na Europa. A leitura popular acontecia nos celeiros, oficinas e tavernas. A instituição mais importante da leitura popular era uma reunião ao pé do fogo. Nessas reuniões, as crianças brincavam, as mulheres costuravam e os homens consertavam ferramentas, enquanto alguém que soubesse decifrar um texto lia para os demais livretos populares baratos. No século XIX, artesãos, como charuteiros e alfaiates, revezavam-se para ler ou contratavam uma pessoa para ler em voz alta e os entreter durante o trabalho. Esses livros se destinavam aos ouvidos, começando a narrativa com expressões como “o que vocês vão ouvir...”, dessa forma os livros eram mais ouvidos do que vistos, contando mais com ouvintes do que com leitores (DARNTON, 2010). Assim como as classes populares, a elite também tinha suas formas de vivenciar a leitura como atividade social. De acordo com Rebollar (2002 citado por ALMEIDA, 2008), os primeiros pontos de encontros literários surgiram na França no início do século XVI, eram os primeiros cafés e salões literários, frequentados pela elite burguesa e pelos intelectuais da época. Para Darnton (2010) a cafeteria foi uma instituição de leitura importantíssima, que se difundiu pela Alemanha no século XVII. As cafeterias ofereciam jornais e revistas, mostrando- se como ambiente propício para discussões políticas. Em 1760, Viena tinha no mínimo sessenta cafeterias desse tipo. Em Londres e Amsterdã esses espaços de leitura nos cafés permaneceram por mais de um século (DARNTON, 2010). Nos salões aristocráticos grandes damas, cavalheiros e pessoas letradas recebiam implicitamente uma educação literária. No século XVII, o número de salões literários aumentou, muitos deles passaram a ser vistos pela corte real sob uma ótica de perigo, visto que o pensamento extrapolava a literatura, abordando filosofia e política. Passada a desconfiança de uma revolta política, uma vez que os salões literários seguiam certas regras de conveniência e respeito; uma rua inteira de Paris se torna, no século XVIII, um ponto de encontro literário. Nessa época, os salões literários tornaram-se locais onde os convidados fumavam, bebiam, jogavam cartas, liam poemas, ouviam música, riam, discutiam literatura e participavam de debates calorosos sobre diversos temas. Já no século XIX, com o aparecimento das indústrias, das redes de transporte, das organizações operárias e do comunismo, os salões literários perdem aos poucos seu espaço para discussões mais 75 populares, com assuntos como dinheiro e política, transformando esses ambientes em locais de troca de interesses. Com isso, é deixado para trás o glamour dos períodos anteriores, o que empobrece a vida cultural europeia. (REBOLLAR, 2002 citado por ALMEIDA, 2008, p.37- 39). Além dos cafés e salões literários, outra instituição de leitura importante foram os clubes de leitura. Para um pequeno número de pessoas cultas que podiam comprar livros, a leitura constituía uma experiência mais privada. Ainda assim, muitas delas participavam de clubes de leitura, cabinets littéraires ou lesegesellschaften, onde podiam ler quase tudo que quisessem, numa atmosfera social. Por um pagamento mensal, tinham acesso a livros, jornais e salas especiais destinadas a socialização. A proliferação desses clubes em Paris aconteceu no século XVIII. Muitas livrarias eram convertidas em gabinetes de leitura, cobrando-se uma taxa pelo direito de frequentá-las, nesses locais os leitores tinham acesso a um ambiente com boa iluminação, cadeiras confortáveis e a assinatura de meia dúzia de jornais. Na Alemanha, os clubes de leitura cresceram numa velocidade espantosa no século XVIII, fornecendo as bases sociais para uma variedade distinta da cultura burguesa (DARNTON, 2010). Broca e Barbosa (2005) descrevem que, no Brasil do início do século XX, a vida boêmia centralizava-se não somente nos clubes, mas também nos salões literários da época. Os tradicionais salões literários aconteciam no Rio de Janeiro e também em São Paulo, reunindo intelectuais. Os cafés literários, como a Confeitaria Colombo no Rio, eram ponto de encontro de escritores, como por exemplo João do Rio e Lima Barreto. Além dos cafés, as livrarias também eram locais de reunião dos escritores, sendo a primeira e mais frequentada a Garnier. Na livraria Revista Brasileira se reuniam Machado de Assis, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, Coelho Neto, Taunay, Nabuco e outros. “Dessas tertúlias acompanhadas de um chá e torradas nasceu, como se sabe, a Academia Brasileira” (BROCA; BARBOSA, 2005, p. 81). Contudo, Almeida (2008) aponta que o período áureo dos salões brasileiros não persistiu por muito tempo. O autoritarismo do governo republicano, que conhecia o descontentamento da elite intelectual, dispersava os boêmios dos cafés do centro da cidade; o que acarretou o distanciamento e isolamento da burguesia intelectual, que passou a se reunir em pequenos salões fechados. Na Europa de 1900, havia um movimento de ruptura estética, além da pluralidade de tendências filosóficas, científicas, sociais e literárias. O espírito moderno circundava a elite intelectual, uma época de criação de ambientes mais direcionados aos seus interesses. Com intenção de compartilhar cultura, em especial literatura e artes, foi lançado na França o Congresso do Espírito Moderno em março de 1922. Graça Aranha, membro da Academia Brasileira de Letras, fortemente influenciado pelo modelo francês, programa a 1ª Semana de Arte Moderna em fevereiro de 1922, que torna-se também um importante ponto de encontro 76 literário. Assim, o movimento modernista se torna ponto de partida para as conquistas da literatura brasileira no século XX (ALMEIDA, 2008). Com o aumento desses eventos culturais no mundo, que promovia com afinco discussões literárias, surge a necessidade de se criar novamente ambientes exclusivamente literários. É assim que, por volta dos anos 1940 consolidam-se as primeiras feiras do livro. Surgida nas cinzas da Segunda Guerra Mundial, a feira do livro de Frankfurt aconteceu pela primeira vez em 1949. Seguindo a tendência alemã, surgem feiras do livro em toda a Europa, como as de Londres, Paris, Belgrado, Berlim e Lisboa. Surge também a Feira de Guadalajara no México e as de Quebéc e Toronto no Canadá. Surge “[...] no Brasil a Bienal do Livro, a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto e a Festa Literária Internacional de Parati (FLIP), considerada hoje como um dos mais importantes festivais literários do mundo (ALMEIDA, 2008, p. 42). Ainda no século XX, acontece a ruptura radical dos tradicionais ambientes literários com o aparecimento das novas tecnologias. Segundo Almeida (2008), o computador juntamente com a internet, alteraram definitivamente a forma de compartilhar ideias: A possibilidade de diferentes trocas, como pesquisas, compras, músicas, filmes, jogos virtuais e diversificadas leituras, criou uma disputa de atenção dos leitores entre as movimentadas feiras do livro e os ambientes literários on-line, estes que oferecem páginas de reflexões, listas de discussões, salas de bate -papo, blogs, sítios literários e comunidades virtuais (ALMEIDA, 2008, p. 42) Santaella (2012) afirma que, mediante as mídias digitais, a configuração da literatura foi alterada em todas as suas instâncias: produção literária, recepção multimídia, a leitura e interpretação literárias, direitos do autor, novas formas de edição, novas configurações da obra literária, o acesso e a função social da literatura. As reuniões ao pé do fogo, os cafés e salões literários, os clubes do livro e feiras literárias tinham em comum a exigência do encontro presencial dos leitores. Em geral, os encontros presenciais oferecem trocas riquíssimas entre os leitores, de forma que sua importância não deve ser menosprezada. Entretanto, a web abre outra possibilidade: o leitor têm a oportunidade de conectar-se com outros leitores através da rede. Assim, se no passado só era possível formar uma comunidade de leitores a partir de encontros presenciais, atualmente a internet permite a interação entre leitores por meio de ambientes virtuais que proporcionam um diálogo sobre livros e literatura. Na próxima seção, serão apresentados diversos espaços virtuais nos quais são formadas comunidades de leitores. 4.5 Ler e compartilhar na web De acordo com Almeida (2008), no século XXI o ponto de referência para a vida literária é o internauta/leitor, adaptado a um mundo de possibilidades no qual ele consegue 77 adquirir quase de tudo pela internet: periódicos, artigos, livros, imagens e textos em geral. Além dessa facilidade na aquisição de leituras, a web não é somente uma fonte de informação, mas também uma fonte de aproximação, possibilitando trocas diversas. “No campo literário, com todo o compartilhamento de textos em rede, o internauta/leitor passa a sentir a necessidade de dividir suas ideias e impressões literárias através da rede” (ALMEIDA, 2008, p. 44). Chartier (2009) caracteriza algumas das mudanças que aconteceram com a denominada Revolução Eletrônica. Para o autor, o leitor do texto eletrônico é mais livre. O texto no formato eletrônico permite uma maior distância em relação ao escrito, o que torna possível uma relação não corporal, não sendo necessário que o leitor segure um livro com as mãos e vire as suas páginas. Processo semelhante acontece com quem escreve, a mediação do teclado instaura um afastamento entre o leitor e seu texto. Há também uma mistura dos papéis de produtor e editor, na medida em que um produtor de texto pode ser imediatamente seu editor. Quanto ao papel do crítico, esse é ampliado no sentido em que todo mundo pode apresentar sua crítica: Evidentemente, as redes eletrônicas ampliam esta possibilidade, tornando mais fáceis as intervenções no espaço de discussão constituído graças à rede. Deste ponto de vista, pode-se dizer que a produção dos juízos pessoais e a atividade crítica se colocam ao alcance de todo mundo (CHARTIER, 2009, p. 17). Em virtude desse novo leitor, surgiram também novas ferramentas e plataformas que proporcionassem espaços para as discussões e trocas literárias. Gnisci (2018) considera que “quanto às produções e críticas literárias, o blog pode ser considerado a primeira ferramenta midiática a compartilhar relatos de experiências individuais e coletivos de diversas áreas e interesses [...]”. Além dos blogs literários, já abordados no segundo capítulo dessa pesquisa, existem outros espaços virtuais nos quais acontecem trocas literárias. A seguir são apresentadas algumas plataformas que proporcionam a formação de comunidades virtuais de leitores: Facebook, YouTube, Instagram, Twitter, Skoob, Wattpad e Google Plus. Almeida (2008) aponta a existência de sites na web que fazem reflexões sobre textos, livros, escritores e a vida literária. A autora também cita o Facebook como espaço de discussão sobre literatura através dos diversos grupos sobre o tema. A Revista Conexão Literatura15, site dedicado ao universo literário, apresenta um ranking de grupos do Facebook relacionados à leitura literária, nos quais é possível conversar sobre autores preferidos, compartilhar ideias, dar dicas de leituras e se manter atualizado sobre novidades do mundo da literatura. Alguns grupos relacionam leitores, autores, editoras e também blogueiros literários para discussões literárias, mas também para divulgação e lançamentos de livros. 15 Disponível em: . Acesso em: 28 fev. 2018. 78 Outro espaço para cultura literária disponível na rede é o YouTube. Gnisci (2018) define os booktubers como proprietários de canais do YouTube que produzem vídeos relacionados à literatura e à leitura. Para Jeffman (2018, p. 187) um booktuber forma um booktube, ou seja, uma comunidade formada por um canal literário. Um booktube trata-se de uma rede social “formada por pessoas que gostam de ler e compartilhar suas impressões sobre a leitura através de vídeos”. A autora explica que no booktube “o diálogo é norteado pelas leituras realizadas, autores preferidos, eventos literários frequentados, pelas reflexões que o contato com a literatura oferta, entre outras possibilidades relacionadas ao consumo cultural” (JEFFMAN, 2017, p. 187). De acordo com Gnisci (2018), a transição das narrativas escritas para produções audiovisuais teve início na primeira década do século XXI. Jeffman (2017) afirma que, no Brasil, até 2012 o local de maior concentração do universo literário era a blogosfera. O crescimento exponencial dos booktubers foi percebido pela autora principalmente em 2015, após mapear 630 canais literários brasileiros entre os anos de 2009 e 2016. O Instagram, rede social para compartilhamento de fotos e vídeos, também vem se tornando um ambiente virtual propício ao compartilhamento de experiências literárias. Os perfis do Instagram que se dedicam à literatura geralmente publicam fotos das capas ou de pequenos trechos dos livros, além disso postam pequenas resenhas juntamente com a imagem. O Instagram também é utilizado por editoras para promoção de lançamentos literários. É fácil encontrar na internet rankings que listam os perfis do Instagram sobre livros, como por exemplo, os sete perfis selecionados pela revista Exame16, que listou perfis que apresentam conteúdo relacionado à literatura cujas postagens comtemplam: frases de livros, imagens de grifos em livros, trechos de livros em backgrounds e fontes diferentes, frases engraçadas relacionadas à leitura, situações vividas pelos leitores, confissões de leitores, fotos de livros e livrarias. O Twitter, microblog criado em 2006, também tem se tornado um espaço para discussões sobre livros e leitura. Lemos (2008) apresenta as características do Twitter, que permite postagens com poucos caracteres, sendo uma ferramenta que publica atualizações rápidas e curtas a partir de uma multiplicidade de suportes diferentes. De acordo com a autora, recursos como o Twitter dão origem a novas linguagens, algumas delas de caráter colaborativo, ou seja, não é um só enunciador, mas enunciadores que colaboram produzindo novos discursos. No Brasil, o Twitter foi adotado de forma rápida pelos blogueiros como forma de informação, relacionamento e socialização (LEMOS, 2008). É possível encontrar vários perfis sobre livros e leitura literária no Twitter, desde perfis oficiais de grandes editoras e de autores consagrados, até perfis de leitores que publicam fotos das capas e comentários sobre 16 Disponível em: . Acesso em: 28 fev. 2018. 79 os livros que leram. Dentro da restrita quantidade de caracteres, muitos usuários publicam frases retiradas dos livros. O Skoob é citado por Silva (2011) como um canal de interação de internautas que visam compartilhar as suas experiências de leitura. A autora afirma que, no Brasil, a rede Skoob é uma experiência similiar às redes sociais internacionais Goodreads17 e Shelfari18, com o mesmo objetivo de promover trocas de informações sobre livros, autores e leituras. Criado em 2009, o Skoob possui uma interface que possibilita que o leitor compartilhe com sua rede de contatos informações como: os livros que está lendo, relendo, suas pretensões e metas de leitura e até mesmo os livros que desistiram de ler. Além disso, por meio da ferramenta “cortesia” os usuários podem participar de sorteio de livros que estão em lançamento. Existe também a possibilidade do usuário trocar livros com outras pessoas da rede (SILVA, 2016). A comunidade on-line Wattpad, criada em 2006, é considerada por Silva (2016) como uma plataforma que possibilita aos usuários lerem livros e também permite que autores independentes publiquem seus próprios livros, poemas etc. De acordo com informações disponibilizadas no próprio site19, o Wattpad é um aplicativo que pode ser acessado no computador ou celular, que permite a leitura on-line e off-line dos livros disponíveis sem a necessidade de realizar o download. O aplicativo permite que sejam feitos comentários on- line, que possibilitando compartilhar impressões e interagir com outros leitores enquanto o usuário realiza a leitura. O Wattpad também promove concursos literários para premiar os escritores amadores. Outra rede que possibilita a formação de comunidades virtuais de leitores é o Google Plus20. Em uma postagem de 2013, o jornalista Ben Oliveira listou em seu blog21 35 comunidades para leitores e escritores existentes no Google Plus. De acordo com o blogueiro, dentre as várias possibilidades do Google Plus é possível usar a rede social para compartilhar experiências, tirar dúvidas, acompanhar palestras e lançamentos on-line, divulgar dicas de leitura e escrita, acompanhar o mercado editorial, conhecer autores iniciantes e interagir com os autores veteranos. Atualmente, as comunidades22 do Google Plus são compostas por um grande número de membros. Ao fazer uma busca por comunidades relacionadas à literatura, a comunidade “Livros” aparece com 92.357 membros, seguida da comunidade “Apaixonados por livros” com 33.328 membros, dentre inúmeras outras comunidades. 17 Disponível em: . Acesso em: 28 fev. 2018. 18 Disponível em: . Acesso em: 28 fev. 2018. 19 Disponível em: . Acesso em: 28 fev. 2018. 20 Disponível em: . Acesso em: 8 mar.2018. 21 Disponível em: . Acesso em: 28 fev. 2018. 22 Disponível em: . Acesso em: 28 fev. 2018. 80 Como visto, existem várias possibilidades de redes sociais e canais nos quais os leitores literários podem interagir. É interessante ressaltar que esses espaços são, de certa forma, complementares, uma vez que o fato de um leitor ter um perfil em uma determinada rede não impede que ele possa criar o perfil em outra plataforma. O que acontece é justamente o contrário: é comum o leitor literário participar de mais de uma rede social sobre leitura. Nos blogs literários geralmente encontra-se o link para a página do Facebook do blog ou para o Instagram. Muitas vezes, uma postagem no blog consiste em um vídeo feito pelo blogueiro em seu canal literário no YouTube. No final do vídeo de um booktuber consta o seu perfil do Twitter e/ou do Instagram. Trata-se do fenômeno transmídia. Conforme Arnault et al. (2011, p. 5) vivemos atualmente em uma “era transmídia”, com a disponibilidade de diversas plataformas e meios de comunicação nos quais a população pode engajar-se, interagir e gerar conteúdo. “Sempre que há o engajamento por determinado assunto, e é feita a distribuição de forma conectada entre as múltiplas plataformas de mídia, pode-se observar a transmídia em ação, seja de forma planejada ou por consequência das mídias espontâneas [...]”. Na transmídia, temos o desenvolvimento de conteúdo em um plataforma de mídia, que tem seu desdobramento expandido em outras plataformas. O objetivo de uma ação transmídia é alcançar o público-alvo buscando uma interligação entre todas as plataformas de mídia, promovendo a interação desse público em mais de um tipo de mídia de forma sinérgica. O início de um projeto transmídia pressupõe a elaboração de um conteúdo principal (história, produto, serviço, etc.). A partir desse conteúdo, planeja-se as demais ações de veiculação para cada plataforma de mídia. A divulgação deve ocorrer também com a utilização das novas mídias, como as redes sociais (Facebook, Twitter, Google +, LinkedIn, etc.) (ARNAUT et al., 2011). É especialmente importante em um projeto transmídia, o conhecimento das plataformas de mídia, sabendo-se utilizar o melhor de cada uma de modo que elas se complementem. “Em um projeto transmídia, as ações de mídia se encaixam umas nas outras, e se não houver um conhecimento profundo dos recursos disponíveis em cada mídia, o projeto não conseguirá explorar todo o potencial de cada plataforma em cada segmento de público” (ARNAUT et al., 2011, p. 12). Em suma, as redes estão todas interligadas, o que proporciona ao leitor literário espaços virtuais diversos nos quais ele pode escolher a forma como quer interagir e transmitir suas experiências literárias. O leitor poderá ainda optar pela criação de conteúdos textuais, imagéticos e audiovisuais, divulgando sua produção nas diversas mídias disponíveis na web. 81 5 METODOLOGIA De acordo com Amaral, Recuero e Montardo (2009) uma variada gama de propostas metodológicas são utilizadas nos estudos sobre blogs. Dentre os métodos empregados, as autoras explicitam dois: a análise de redes sociais e a netnografia. A análise de redes sociais permite estudar “as redes compostas em blogs através de seus comentários e/ou conexões e observam-se as características estruturais e dinâmicas dessas redes” (AMARAL; RECUERO; MONTARDO, 2009, p. 43). Por sua vez, a netnografia, segundo as autoras, consiste na adaptação do método etnográfico para o ambiente on-line, sendo os blogs uma rica ferramenta para a aplicação do método. A análise de redes sociais foi considerada como um método possível para a realização dessa pesquisa, pois proporcionaria uma forma de delinear as interações realizadas pelos blogueiros na blogosfera, com a identificação dos webrings. Entretanto, a intenção principal da pesquisa é buscar a intencionalidade dos sujeitos dentro dos webrings. Além disso, Biscalchin (2012) considera que a heterogeneidade da blogosfera se mostra como um grande obstáculo na execução dessa metodologia. Dessa forma, para o desenvolvimento da pesquisa optou-se por utilizar o método da netnografia, também conhecida como etnografia virtual. A escolha desse método também está relacionada a adoção da perspectiva teórica das práticas informacionais, visto que a netnografia apresenta uma maneira de pesquisar que permite uma proximidade com as dimensões cultural e social dos sujeitos, aspectos que são evidenciados na abordagem social dos estudos de usuários da informação. Ao se tratar de um estudo de cunho qualitativo em profundidade, pautado no método netnográfico, optou-se por adotar as seguintes técnicas de coletas de dados: análise documental e entrevista semiestruturada. É importante ressaltar que, devido à adoção da entrevista como técnica de coleta de dados, foi essencial que a pesquisa fosse submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da UFMG, como forma de dar credibilidade à pesquisa e também de respeitar as pessoas que aceitaram fornecer seus dados e informações durante a entrevista. O projeto de pesquisa23 foi submetido ao COEP em 05/04/2018 e aprovado em 05/06/2018. Foi também elaborado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (ver APÊNDICE B). No decorrer deste capítulo, é abordada a concepção de netnografia e as possibilidades de sua aplicação em um estudo sobre blogs. Posteriormente, descreve-se as técnicas de coletas de dados. Por fim, apresenta-se a definição do universo da pesquisa, a amostra dos blogs e o piloto. 23 À época da submissão ao COEP, a pesquisa se intitulava Práticas Informacionais de Blogueiros Literários. 82 5.1 Netnografia A netnografia é definida por Kozinets (2002, p. 2, tradução nossa)24 como “uma nova metodologia de pesquisa qualitativa que adapta técnicas de pesquisa da etnografia para o estudo de culturas e comunidades emergentes cujas comunicações são mediadas por computador”. Como método, segundo o autor, a netnografia apresenta-se mais rápida, mais simples e menos cara do que a etnografia tradicional, além de ser natural e discreta no estudo dos sujeitos virtuais. A etnografia tradicional é um método antropológico que ganhou popularidade na Sociologia e em estudos culturais de vários campos das Ciências Sociais. Tal método refere- se ao trabalho de campo, ao estudo dos significados, práticas e artefatos de grupos sociais particulares. A etnografia baseia-se na participação e observação de arenas culturais, bem como no emprego da reflexividade do pesquisador. Sendo assim, esse método é fundamentado no conhecimento daquilo que é local, particular e específico. Por mais de um século, a etnografia tem sido utilizada para compreensão dos comportamentos de pessoas de diferentes nacionalidades, religiões, culturas e faixas etárias. Entretanto, pode-se dizer que não existem duas pesquisas etnográficas que foram conduzidas exatamente da mesma maneira, sendo a flexibilidade da etnografia uma de suas maiores qualidades. Dessa forma, os métodos etnográficos são continuamente remodelados para se adequar a diferentes campos, grupos culturais, pesquisas e preferências do pesquisador. Embora a forma de pesquisa seja aberta, os etnógrafos escolhem procedimentos de campo relacionados e, muitas vezes, enfrentam problemas metodológicos semelhantes. Alguns procedimentos etnográficos comuns que ajudam na observação participante realizada pelos pesquisadores incluem: (1) ingresso cultural, (2) reunião e análise dos dados, (3) realização de interpretações confiáveis, (4) realização de pesquisas éticas e (5) oferecimento de oportunidades para os membros da cultura realizarem seus comentários (verificação dos participantes) (KOZINETS, 2002, p. 4-5). A internet proporciona um novo meio para troca social, para Kozinets (2002) uma reunião social mediada por computador constitui uma comunidade on-line. Dessa forma, a netnografia apresenta-se como a adaptação do método etnográfico para o estudo de comunidades virtuais. Assim como a etnografia, a netnografia também é bastante flexível e adaptável. A netnografia baseia-se principalmente na observação do discurso textual, seu foco está nos laços particulares dos grupos e na profundidade reveladora de suas comunicações 24 “Netnography” or ethnography on the Internet, is a new qualitative research methodology that adapts ethnographic research techniques to the study of cultures and communities emerging through computer-mediated communications. 83 on-line. Conclusões úteis podem ser retiradas de um número relativamente pequeno de mensagens, caso essas contenham informações descritivas suficientes para serem interpretadas com considerável profundidade analítica e percepção (KOZINETS, 2002). É importante fornecer uma descrição geral das etapas e dos procedimentos envolvidos na condução da netnografia, uma vez que são adaptados a contingências on-line únicas. Como resultado da observação, os etnógrafos geralmente escrevem notas de campo reflexivas, registrando suas percepções sobre os subtextos, pretextos, condições e emoções pessoais que ocorreram durante a pesquisa. Tais reflexões escritas podem apresentar-se como inestimáveis para contextualizar os dados e constituem um procedimento recomendado. No entanto, é possível conduzir a pesquisa netnográfica apenas com observação e downloads. A análise de dados muitas vezes começa concomitante à coleta de dados, nessa etapa o netnógrafo deve contextualizar os dados on-line (KOZINETS, 2002). Montardo e Passerino (2006) analisam as possibilidades e limitações de um estudo sobre blogs realizados a partir da netnografia. Os estudos de netnografia, como o de Kozinets (2002), são orientados para estudos da web de forma ampla, não sendo aplicada especialmente a blogs. As autoras se apropriam do termo webrings (RECUERO, 2003), considerando-os como a socialização decorrente dos blogs. Para elas, os blogs são objetos privilegiados para a análise da socialização na internet. Afinal, as relações sociais entre autores e leitores ocorre de forma espontânea, tratando-se de um fenômeno no ciberespaço que existe independentemente de qualquer pesquisa que se realize sobre os mesmos, apresentando-se como objeto que requer a netnografia como técnica para apreendê-lo. Dessa forma, o estudo dos blogs conforme o método da netnografia apresenta possibilidades como a exploração da comunicação multimídia, ou seja, coleta de dados em texto, áudio, vídeo e demais recursos que podem enriquecer a observação dos estudos etnográficos tradicionais. Outras possibilidades no uso da netnografia para pesquisar os blogs são: facilidade de busca e coleta de dados; amplitude da coleta e do armazenamento (no tempo e no espaço); desdobramento da pesquisa com rapidez (MONTARDO; PASSERINO, 2006). Em relação aos procedimentos éticos de pesquisa em comunidades virtuais, Kozinets (2002) recomenda as seguintes práticas a serem realizadas pelo pesquisador: divulgar plenamente sua presença e intenções para os membros da comunidade on-line durante qualquer pesquisa; garantir o sigilo dos participantes; buscar e incorporar feedback de membros da comunidade on-line que está sendo pesquisada. Há um procedimento final adicional que é específico para o meio on-line, que envolve tomar uma posição cautelosa na mediação da relação privado-versus-público. As questões éticas, na visão de Montardo e Passerino (2006) devem ser bem observadas pelo pesquisador ao adentrar nas redes de relacionamento criadas em torno dos blogs. Primeiramente, o pesquisador deve entrar em 84 contato com os blogueiros nos próprios blogs, solicitando o e-mail dos mesmos, para se manifestar de forma mais precisa sobre as intenções da pesquisa e estabelecer acordos sobre a coleta de dados que será feita a partir dos blogs a serem analisados, obtendo assim, o consentimento dos sujeitos participantes. Quanto às limitações do estudo, podem ocorrer desdobramentos da pesquisa, com abertura de inúmeros caminhos, fazendo com que seja fácil perder o foco inicial. Nesse sentido, Schneider e Foot (2005 citados por MONTARDO; PASSERINO, 2006) sugerem a seleção do tópico de análise, restringindo o tipo de blog e delimitando o período de análise. Entretanto, definir uma amostra que se mantenha constante durante o período da pesquisa pode apresentar-se como uma tarefa difícil. Para tal, é necessário que os blogueiros postem nos blogs a serem observados e, além disso, comentem em outros blogs, fator que não pode ser determinado a priori pelo pesquisador (MONTARDO; PASSERINO, 2006). Conforme as autoras, outro problema que pode ocorrer está relacionado à desterritorialização do ciberespaço, que apresenta-se presente também nos blogs, de forma que, para evitar o fenômeno infoglut25, o pesquisador deve ter em mente a delimitação de sua pesquisa. Em comparação à etnografia tradicional, a netnografia apresenta uma limitação no que diz respeito à identidade dos blogueiros e a veracidade das informações transmitidas por eles. Dessa forma, é pertinente realizar uma triangulação da técnica de observação netnográfica com outras técnicas de pesquisa como, por exemplo, entrevistas e análise de documentos disponíveis no ciberespaço (MONTARDO; PASSERINO, 2006). A junção dos métodos também é citada por Kozinets (2002), ao considerar que uma triangulação de dados netnográficos com dados coletados usando outros métodos, como entrevistas, grupos focais ou etnografias tradicionais realizadas pessoalmente, pode ser útil ao pesquisador que procura generalizações para outros grupos diferentes da população estudada. Apesar das limitações descritas, Montardo e Passerino (2006) recomendam o uso da metodologia netnográfica em estudos de espaços de socialização na web, como os blogs. Segundo as autoras, a etnografia virtual é fundamental para oferecer um estudo mais aprofundado e completo, pois considera o universo pesquisado a partir de seus atores principais. 5.2 Técnicas de coleta de dados O método etnográfico pressupõe a técnica da observação como forma de compreensão e análise dos fenômenos. Como afirmado anteriormente, no caso da 25 Sobrecarga de informações. 85 netnografia, a observação baseia-se principalmente na observação do discurso textual, objetivando compreender as relações sociais dos grupos e a profundidade de suas comunicações virtuais (KOZINETS, 2002). Dessa forma, a observação netnográfica nessa pesquisa foi embasada nos preceitos da análise documental. De acordo com Garcia Júnior, Medeiros e Augusta (2017), a análise documental no campo da Ciência da Informação tem sua relevância ao possibilitar que o pesquisador possa coletar, tratar e analisar fontes informacionais, compreendendo o potencial informativo existentes nos documentos. Tal procedimento exige que o pesquisador compreenda certos mecanismos que auxiliam na construção de evidências de um determinado registro. Conforme os autores, os documentos estão ligados às suas realidades sociais, podendo informar sobre o contexto social em que estão inseridos. Dessa forma, é possível realizar uma pesquisa documental para compreender, por exemplo, redes de sociabilidade e o mapeamento de suas configurações. É importante ressaltar que a forma de interpretar um documento irá depender das particularidades de cada pesquisador, pois não existe um pensamento unificado, o que resulta em abordagens críticas dos documentos com caráter subjetivo (GARCIA JÚNIOR; MEDEIROS; AUGUSTA, 2017). Com base nesses pressupostos, após a seleção da amostra dos blogs que foram investigados, a primeira etapa da coleta de dados consistiu em uma imersão na blogosfera literária. A partir dela, foi possível conhecer os blogs e os blogueiros, realizando a leitura de postagens e comentários. Ao analisar o conteúdo textual, imagético e hipertextual presente nos blogs, buscou-se compreender como se configura o perfil de cada blog e que tipo de informação é veiculada pelo blogueiro. Como complementação da análise documental, foram aplicadas entrevistas semiestruturadas. De acordo com Cunha (1982), a entrevista é o segundo método mais utilizado em estudos de usuários, sendo superada apenas pelo questionário. Segundo o autor, a entrevista apresenta vantagens como possibilitar o contato direto com o entrevistado, permitindo captar suas reações e sentimentos, além disso a técnica permite que o entrevistador esclareça alguma pergunta não compreendida pelo entrevistado e também que o pesquisador possa pedir detalhes de respostas fornecidas quando são detectados fatos interessantes ou novos. Como toda técnica, a entrevista também apresenta desvantagens, como a possibilidade de dupla distorção, a probabilidade de o entrevistador emitir opiniões afetando as respostas do entrevistado e o custo mais elevado. De acordo com Boni e Quaresma (2005), as entrevistas nas Ciências Sociais podem ser: entrevista estruturada, semiestruturada, aberta, entrevistas com grupos focais, história de vida e a entrevista projetiva. Dentre essas tipologias, a que mais se enquadra nessa pesquisa é a entrevista semiestruturada. Nessa técnica, o pesquisador deve seguir um conjunto de questões previamente definidas, mas o procedimento tem o caráter mais semelhante a uma 86 conversa informal. Boni e Quaresma (2005) destacam que o entrevistador deve ficar atento para dirigir a entrevista de acordo com os assuntos que mais o interessam, podendo fazer perguntas adicionais para explorar ou elucidar respostas que não ficaram claras. Caso o entrevistado tenha “fugido” ao tema, o pesquisador deve recompor o roteiro da entrevista. As autoras afirmam que a entrevista semiestruturada aplica-se quando se deseja delimitar o volume das informações, obtendo um direcionamento maior para o tema que possa permitir o alcance dos objetivos da entrevista. A técnica da entrevista semiestruturada tem como vantagem a sua elasticidade quanto à duração, permitindo uma flexibilidade para abordar profundamente determinados assuntos. Além disso, esse tipo de entrevista possibilita uma maior interação entre o entrevistador e o entrevistado, dando abertura para abordar assuntos mais complexos e delicados. “As respostas espontâneas dos entrevistados e a maior liberdade que estes têm podem fazer surgir questões inesperadas ao entrevistador que poderão ser de grande utilidade em sua pesquisa” (BONI; QUARESMA, 2005, p. 75). Dessa forma, a segunda etapa da coleta de dados consistiu na realização das entrevistas semiestruturadas com os blogueiros responsáveis pelos blogs selecionados para a pesquisa, buscando entender as práticas do sujeito informacional do seu ponto de vista. Por meio de tais entrevistas pretendeu-se apreender as falas dos sujeitos no que se refere as intenções de criação do blog, como acontecem as interações entre os blogueiros possibilitando a formação dos webrings, e como o blogueiro se identifica como leitor literário, produtor de conteúdo e também como mediador de leitura na blogosfera literária. O roteiro da entrevista semiestruturada foi inspirado em alguns tópicos utilizados na pesquisa de Di-Luccio e Nicolaci-da- Costa (2010), um estudo no campo da Psicologia, que pretendeu investigar como escritores e leitores estão usando o espaço textual dos blogs e seus recursos, dentre eles, a interatividade. A técnica utilizada pelas autoras consiste em um roteiro estruturado, com uso de itens e não de perguntas, para preservar a característica informal da conversa. Dessa forma, as autoras formulavam as perguntas durantes a realização da entrevista, com base no seguinte roteiro: O roteiro era dividido em duas partes. A primeira era composta de perguntas objetivas sobre os participantes, tais como: idade, escolaridade, profissão, ocupação, etc. Já a segunda parte era composta por 11 itens/perguntas de cunho mais subjetivo, que abordavam os seguintes tópicos: (1) a decisão de criar um blog, (2) a frequência de atualização dos posts, (3) a importância dos comentários recebidos, (4) a reação às críticas feitas nos comentários, (5) a falta de comentários, (6) o que o (a) entrevistado(a) achava atraente em um blog como leitor(a), (7) o que achava que atraía seus leitores, (8) como era o(a) entrevistado(a) no blog, (9) como era o(a) entrevistado(a) fora dele, (10) o papel do blog na vida do entrevistado(a) e (11) as mudanças que ocorreram em sua vida e nele(a) próprio(a) após a criação do blog (DI LUCCIO; NICOLACI-DA-COSTA, 2010, p.139). 87 Os tópicos do roteiro estruturado de Di Luccio e Nicolaci-da-Costa se apresentaram interessantes e aplicáveis também a essa pesquisa. Dessa forma, os itens considerados pertinentes foram o ponto de partida para a estruturação das questões, sendo remodelados na forma de perguntas para compor o roteiro da entrevista semiestruturada. Foram também acrescentadas outras perguntas relevantes que estão relacionadas aos propósitos específicos desse estudo, com ênfase nos blogs literários, nas práticas informacionais dos blogueiros, na interação e formação dos webrings. Algumas perguntas formam elaboradas após uma navegação na blogosfera literária, que possibilitou a identificação de aspectos gráficos das páginas, como o layout, a plataforma utilizada pelo blog, a presença de conteúdo imagético juntamente ao conteúdo textual, a presença de publicidade e dos selos editoriais, a conexão do blog com outras mídias sociais. O roteiro da entrevista semiestruturada (ver APÊNCIDE A) foi elaborado em dois blocos: I. O blogueiro e sua relação com seu blog: visa coletar dados referentes aos blogueiros e seus blogs, objetivando conhecer aspectos pessoais desses sujeitos como suas práticas de leitura literária e aspectos relacionados à criação do blog (motivação pessoal, influências, necessidade de compartilhar leituras, etc.), além da relação do blogueiro com o blog. II. O blogueiro e a interatividade: no intuito de coletar dados referentes às práticas informacionais dos blogueiros, verificando como o blogueiro, considerado sujeito informacional, atua na blogosfera literária, objetivando identificar como ocorre a interação entre os blogueiros e a formação dos webrings. Intencionou também obter dados sobre o papel do blogueiro como produtor de conteúdo, sendo escritor do seu próprio blog, além de seu possível papel de mediador de leitura. Os dados coletados utilizando-se as técnicas de análise documental e entrevista semiestruturada foram referentes ao próprios blogueiros, seus respectivos blogs, as formas como lidam com a informação e interagem entre si. Esses dados foram analisados em categorias de análise criadas posteriormente à coleta de dados. 5.3 Universo e amostra O universo da pesquisa abrange os blogueiros literários da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e seus respectivos blogs. A opção do recorte por localização geográfica é justificada pela preferência em realizar a entrevista de forma presencial, o que possibilita um contato maior com os entrevistados, considerando-se que o método de coleta de dados adotado exige maior profundidade. Quanto à amostra, Guerra (2010) afirma que não faz muito sentido falar de amostragem numa pesquisa qualitativa, uma vez que não se procura uma representatividade 88 estatística, mas sim uma representatividade social. De acordo com a autora, nas pesquisas qualitativas a maioria dos autores utilizam a noção de amostra em um sentido não probabilístico. Face à questão de saber quem entrevistar (no interior da amostra definida), e considerando que não se trata de interrogar indivíduos cujas respostas serão somadas, mas informadores suscetíveis de comunicar suas percepções da realidade através da experiência vivida, não se procura nem a representatividade estatística, nem regularidades, mas antes uma representatividade social e a diversidade dos fenômenos (GUERRA, 2010, p. 48) Conforme Pires (1997 citado por GUERRA, 2010), a amostra não probabilística não se constitui por acaso, mas em função de características específicas que o investigador quer pesquisar. “É uma amostra teórica, não probabilística” (PIRES, 1997 citado por GUERRA, 2010, p. 43). O autor também cita as diversas formas de amostra: acidental, intencional, por quotas, típica de voluntários em cascata ou bola de neve. Portanto, ao possuir um caráter qualitativo, a presente pesquisa apresentou uma amostra não probabilística, com a intenção de obter uma representatividade social. Para definição da amostra de blogueiros literários, inicialmente houve uma tentativa de realizar um mapeamento dos blogs literários da RMBH. Foram realizadas buscas com diversas palavras- chaves no motor de busca Google, entretanto a recuperação de blogs foi escassa. Observou- se que nos blogs, geralmente, não são informadas as cidades nas quais os blogueiros residem. Possivelmente a localização física dos blogueiros não é tão relevante na blogosfera, visto que a informação publicada virtualmente é acessível a todos que tenham acesso à internet, independentemente do local no qual se encontram. A segunda tentativa de definir uma amostra de blogueiros e blogs da RMBH se deu por meio de grupos e comunidades de blogueiros literários. Em fevereiro de 2018, a pesquisadora entrou nos grupos do Facebook “Book Lovers”26 (1.808 membros) e “Interação Blogueiros Literários”27 (663 membros), ambos dedicados à divulgação de blogs e trocas entre os blogueiros. A pesquisadora fez uma postagem apresentando sucintamente os objetivos da pesquisa e solicitou que os blogueiros residentes na RMBH se manifestassem nos comentários da postagem. Não houve nenhuma resposta dos membros dos grupos. A mesma postagem foi feita em duas comunidades do Google Plus: “Divulgue seu blog, site, etc”28 (77.228 membros) e “Livros, escritores, Booktuber e Blogs Literários”29 (3.261 membros). Também não houve nenhuma manifestação por parte dos membros das comunidades. 26 Disponível em: . Acesso em: 8 fev. 2018. 27 Disponível em: . Acesso em: 8 fev. 2018. 28 Disponível em: . Acesso em: 8 fev. 2018. 29 Disponível em: . Acesso em: 8 fev. 2018. 89 Observou-se que, de modo geral, as postagens realizadas nesses grupos do Facebook e nessas comunidades do Google Plus não recebem nenhuma forma de feedback dos membros, com ausência de curtidas e comentários. Dessa forma, optou-se por definir uma amostra em um evento literário na cidade de Belo Horizonte. O evento escolhido foi o #Clube do Livro BH, um evento literário de grande porte idealizado por uma blogueira literária, administradora do blog Coisas de Mineira. O evento conta com o apoio de várias editoras e também da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, sendo realizado no Centro de Referência da Juventude, na região central da cidade. O Clube foi criado em 2013, é gratuito e tem cerca de quatro edições por ano. De acordo com informações da página oficial do evento no Facebook30, o #Clube do Livro BH possibilita a reunião de leitores e pretende também incentivar a leitura junto aqueles que ainda não são leitores. A amostra de blogueiros literários foi definida no 20º #Clube do Livro BH (FIGURA 3), que aconteceu no dia 24 de fevereiro de 2018. O evento contou com a presença de autores nacionais, além da realização de sorteios de livros e brincadeiras com os participantes (ver SEÇÃO 6.1). Das 196 pessoas presentes no evento, foram identificadas 17 pessoas que afirmaram ter um blog literário, assinando uma lista na qual informaram o nome, e-mail, cidade e endereço do blog. Posteriormente, foram identificadas outras duas blogueiras que estavam presentes no evento, mas que não assinaram a lista. Dessa forma, identificou-se um total de 19 blogs. Figura 3 – 20º #Clube do Livro BH Fonte: Imagem retirada do vídeo “Venha ler e se divertir com a gente!” disponível na página do Facebook do Clube do Livro BH, 2018. 30 Disponível em: . Acesso em: 14 jul. 2018. 90 A listagem de 19 blogs advinda do evento 20º #Clube do Livro BH foi analisada pela pesquisadora, que navegou pelos blogs e identificou se suas características eram condizentes com a proposição da pesquisa, como explicitado no Quadro 5. Quadro 5 – Definição da amostra Blog Participou da pesquisa? Motivo Uma Mente Inquieta Não O blog abrange muitos temas diferentes como livros, artesanato, maquiagem, fotografia, viagens, filmes, séries e variedades. Depois da Leitura Não É um perfil do Twitter sobre literatura. Sweet Dark Não O blog não foi localizado, mesmo após tentativa de contato com a blogueira por e-mail. Minha Estante e Muito Mais Sim É um blog literário. Milcaretas Não O blog foi abandonado em novembro de 2017, continuando somente como um canal literário no YouTube. Eu nos Dezessete Outra Vez Não O blog é um diário virtual, que ocasionalmente publica resenhas literárias. 3 amigas e 1 livro Não É um perfil do Instagram sobre literatura. Day Dreams Books Não É um perfil do Instagram sobre literatura. Marshmallow com Café Sim É um blog literário. Julgando pela capa Não É um perfil do Instagram sobre literatura. Menina Compassiva Sim É um blog literário. Livrenhos da Thatty Não É um perfil do Instagram sobre literatura. Cultura Pocket Sim É um blog literário. Entrando Numa Fria Sim É um blog literário. Enquanto Somos Jovens Não É um blog de escritora, utilizado para divulgação de produção literária autoral. Livros e Sushi Sim É um blog literário. Morena Boa de Prosa Não O blog não pertence à RMBH, sendo a blogueira residente na cidade de Itabira. DNA Literário Sim É um blog literário. Paradise Books Sim É um blog literário. Fonte: Elaborado pela autora. 91 Dessa forma, dos 19 blogs identificados, oito blogs foram considerados como possíveis de serem contemplados na pesquisa. Os demais 11 blogs foram desconsiderados, uma vez que suas características não estavam em conformidade com a definição de blog literário adotada, conforme discutido na seção 3.4. O tamanho da amostra foi considerado pertinente, visto que a entrevista semiestruturada exige conversas mais longas e detalhadas com as entrevistadas. Assim, segundo Barros (2016), a amostra pode parecer pequena, mas é condizente com a proposta da pesquisa. Além disso, a autora também afirma que considerando o tempo disponível para uma pesquisa de mestrado, a quantidade parece adequada para que o trabalho possa ser realizado com qualidade. É interessante ressaltar que a amostra foi essencialmente feminina, sendo todos os blogs administrados por mulheres, apesar de dois blogs também terem a participação de homens na equipe. O primeiro contato com as blogueiras foi realizado virtualmente. Primeiramente, tentou-se a comunicação através do e-mail informado no blog. Como somente uma das blogueiras respondeu ao e-mail, optou-se por enviar uma mensagem aos perfis do Facebook dos blogs e das blogueiras. Dessa forma, obteve-se a resposta de outras quatro blogueiras. Aquelas que já haviam respondido ao contato inicial e aceitado participar da entrevista, auxiliaram na localização das outras três blogueiras, compartilhando o contado delas do aplicativo WhatsApp. Assim, a pesquisadora conseguiu contactar todas as oito blogueiras, que concordaram em fornecer uma entrevista pessoalmente. 5.4 Piloto Como etapa piloto da pesquisa, foi realizada uma entrevista semiestruturada com uma blogueira literária de RMBH, com a finalidade de verificar a pertinência do roteiro de perguntas. A intenção foi realizar um teste de aplicação do roteiro em campo, verificando se ele proporcionaria uma entrevista que apresentasse dados suficientes para o cumprimento dos objetivos da pesquisa. Ressalta-se que o piloto foi realizado no dia 11 de novembro de 2017, antes da definição da amostra, portanto essa entrevista não foi incorporada à discussão dos resultados da pesquisa, sendo utilizada somente como forma de pré-teste do roteiro de perguntas. O blog escolhido para realização da entrevista piloto foi o Livros de Fantasia31. A escolha desse blog baseou-se em seu acompanhamento prévio pela pesquisadora, que já era sua leitora e conhecia a blogueira que o administra. O blog (FIGURA 4), constituído em 2010 na plataforma WordPress, apresenta interação entre a blogueira e os leitores. A blogueira responsável se dispôs a fornecer uma entrevista pessoalmente. 31 Disponível em: /. Acesso em: 11 nov. 2017. 92 Figura 4 – Blog escolhido para aplicação do piloto Fonte: Blog Livros de Fantasia, 2017. A entrevista durou 53 minutos e apresentou-se muito enriquecedora, possibilitando conhecer o processo de criação do blog e a importância que a blogueira dá aos recursos disponíveis, a relação da blogueira com a produção de conteúdo e compartilhamento da informação, assim como a criação de vínculos entre ela e outros blogueiros e como acontece a comunicação nesses círculos sociais. A blogueira citou vários blogs dos quais é seguidora, interagindo com as blogueiras administradoras. Durante a entrevista, a blogueira apresentou- se comunicativa e, muitas vezes, antecipou as respostas de várias perguntas. Entretanto isso não se apresentou como algo negativo, pois quando perguntada sobre um item do qual já havia falado anteriormente, ela foi conduzida a se aprofundar naquele tópico específico, de forma que a entrevistada relatasse com detalhes suas experiências e percepções. Como resultado, concluiu-se que o roteiro apresentou boa estrutura, podendo ser aplicado às demais entrevistas realizadas nessa pesquisa. Houve mudanças simples na forma de escrita das perguntas, de forma a torná-las mais claras. O número de perguntas existentes no roteiro foi diminuído, uma vez que haviam questões que estavam repetitivas e, também, questões muito específicas, que poderiam acabar direcionando a fala das entrevistadas. . 93 6 RESULTADOS E ANÁLISE Neste capítulo são apresentados os resultados e a análise dos dados coletados, com utilização das técnicas de análise documental e entrevistas semiestruturadas. Na prática, a análise documental dos blogs e as entrevistas com as blogueiras foram realizadas de modo concomitante. Primeiramente, são descritos os eventos literários presenciados pela pesquisadora. Em seguida, são apresentados os perfis das blogueiras e dos blogs literários que compõem a amostra. Por fim, apresentam-se as categorias de análise da pesquisa e a discussão dos resultados. 6.1 Eventos literários Durante o período de coleta de dados, a pesquisadora teve a oportunidade de participar de quatro eventos literários. A participação no primeiro evento ocorreu com o objetivo de obter a amostra da pesquisa e a participação nos outros três ocorreu devido ao convite das próprias blogueiras entrevistadas. A descrição desses eventos torna-se relevante, uma vez que a sua observação acabou por fazer parte da coleta de dados. Conforme citado anteriormente na seção 5.3, o primeiro evento literário observado foi o 20º #Clube do Livro BH, realizado no Centro de Referência da Juventude, aparelho público vinculado à Prefeitura de Belo Horizonte. O evento aconteceu das 14h às 18h no auditório do local com capacidade para 300 pessoas, possuindo um grande palco e uma arquibancada com cadeiras para o público. Antes do início do evento, do lado de fora do auditório, foram montadas algumas mesas enfeitadas, conhecidas como “Banca Pimenteira”, na qual estavam sendo vendidos alguns itens, como blusas coloridas e canecas com a logomarca do Clube. Os responsáveis pela Banca Pimenteira são ajudantes na organização do evento, chamados de “anjos”, que ficam uniformizados com a camisa do Clube. Uma hora antes do início, os anjos começaram a distribuir as senhas, colocando uma pulseira laranja com um número no braço de cada pessoa. A porta do auditório foi aberta 10 minutos antes do horário marcado, de forma que as pessoas pudessem se acomodar nas arquibancadas. Uma garota fantasiada da personagem Emília, do livro Sítio do Picapau Amarelo, dançava segurando alguns balões, convidando as pessoas a entrar no auditório, ao som de uma música animada. Na entrada, foram entregues a cada participante o denominado “kit boas vindas”, que consiste numa sacola com o logotipo do Clube contendo diversos marcadores de páginas. Ao se acomodar no auditório, cada pessoa recebeu um pequeno formulário no qual deveria informar alguns dados pessoais, como nome, idade, cidade, e-mail e também o endereço de seu blog e de suas redes sociais. 94 O evento foi iniciado pelas duas organizadoras, conhecidas como irmãs Pimenta, que estavam no palco vestidas com camisas do Clube. Elas apresentaram a história do evento, relatando que a necessidade de trocar ideias sobre livros foi o que impulsionou a criação do #Clube do Livro BH. As irmãs descreveram também o início do projeto, que acontecia em shoppings e parques da cidade com a participação de poucas pessoas, até que, com uma quantidade maior de participantes, conseguiram a parceira com a Fundação Municipal de Cultura para utilizar o Centro de Referência da Juventude. Em seguida foram dados alguns avisos gerais, como a proibição do consumo de alimentos dentro do auditório, a proibição da venda de livros sem autorização prévia, a necessidade de menores de 14 anos estarem acompanhados dos pais, o aviso de que a senha é pessoal e intrasferível e de que as pessoas devem permanece sentadas durante todo o evento. As organizadoras também divulgaram o projeto “Leitura coletiva diferentona”, no qual, pagando um valor mensal de 30 reais, o participante pode retirar na Banca Pimenteira uma caixa com vários brindes e livros, que serão lidos de forma coletiva pelo grupo de leitores pertencentes ao projeto. No palco estavam dispostas mesas com os 50 livros destinados para sorteio entre todos os participantes. Esses livros são oferecidos pelas editoras parceiras do evento, sendo carimbados com a logomarca do Clube e uma frase sobre a proibição da venda. Além disso, também estava no palco o “Tambor vip”, um tambor no qual estavam dispostos três livros de Shakespeare e um box com obras de Jane Austen, destinados a um sorteio exclusivo, somente para aqueles que compraram uma blusa ou caneca com a logomarca do Clube. As irmãs Pimenta alegam que o valor arrecadado pela venda desses itens colabora para a realização do evento. Algumas poltronas estavam preparadas no palco para os autores nacionais convidados: Marina Carvalho, Frini Georgakopoulos e Jim Anotsu. Os autores foram convidados para um bate-papo com as irmãs Pimenta, no qual falaram sobre suas obras e os lançamentos futuros. Para fazer uma pergunta para algum dos autores era necessário escrevê-la em um papel, que seria recolhido e colocado numa caixa para ser sorteado pelas irmãs Pimenta. Os autores foram convidados para algumas brincadeiras, como quiz e pequenas encenações no palco. Posteriormente, foi convidada ao palco a diretora do filme “Elena, a Filha da Princesa”, adaptação do livro de Marina Carvalho. Foi exibido o trailer do filme no telão e os atores que formam o casal principal subiram ao palco para serem apresentados ao público. As organizadoras conduziram o evento com muitas brincadeiras e piadas. O público foi majoritariamente feminino, contando com a presença de muitas mulheres jovens e adultas, algumas crianças e poucos homens. Em vários momentos ocorreram pausas para realização de sorteio de livros. O número sorteado pelas irmãs Pimenta era conferido com o número que constava na pulseira do participante, que após ter ganhado o livro e tirado uma foto com as 95 irmãs, tinha sua pulseira cortada, não sendo permitido que uma pessoa ganhasse mais de um livro. Foi realizada a “Batalha das blusinhas”, na qual todos os participantes vestidos com a blusa oficial do Clube deveriam se levantar, de forma que pudesse ser contado o número de pessoas que estavam com a camisa de determinada cor. A maioria dos participantes estava com a camisa amarela, portanto esse grupo foi o ganhador da “batalha”, sendo chamado ao palco, para que cada um recebesse um bombom como prêmio. Antes do encerramento foi tocada uma música, escolhida previamente pelo público por meio de uma enquete do Facebook. As organizadoras convidaram a plateia a ficar de pé e dançar a música ganhadora da enquete, cuja coreografia estava sendo exibida em um vídeo no telão. O melhor dançarino, escolhido pelas irmãs Pimenta, ganhou um livro. Ao final, foi sorteado o restante do livros e os participantes do Clube puderam pedir autógrafos e tirar fotos com os autores. Antes do público sair do auditório, todos são instruídos a se reunirem ao centro e gritarem “Clube do Livro BH” ao mesmo tempo que jogam as mãos para o alto em frente a uma câmera de vídeo (ver FIGURA 3). O segundo evento presenciado pela pesquisadora foi o Clube do Livro de Ribeirão das Neves, cidade da RMBH. O Clube ocorreu no dia 14 de julho de 2018, das 14h às 17h, no parque ecológico da cidade. O projeto é realizado por duas blogueiras literárias, administradoras dos blogs DNA Literário e Cultura Pocket, que foram entrevistadas pela pesquisadora. O Clube consiste em uma pequena reunião de cerca de 20 leitores, que se encontram mensalmente para fazer um piquenique e conversar sobre os livros que leram. O grupo de leitores pôde ser facilmente identificado no pequeno parque, pois várias toalhas de mesa foram estendidas para forrar o gramado, onde foram colocados os quitutes trazidos por cada participante. Todos se sentaram em círculo, deixando o lanche ao centro, de forma que pudesse ser compartilhado. Alguns livros destinados ao sorteio estavam encostados em um tronco de árvore, ao lado de uma pequena placa de plástico com os dizeres Clube do Livro de Ribeirão das Neves. Uma das organizadoras deu início ao Clube do Livro, informando que o tema do mês era o gênero romance. Ela discorreu sobre o tema consultando algumas informações anotadas em um caderno pessoal, explicando o que era de fato um romance e quebrando alguns preconceitos sobre os livros do gênero ao afirmar, por exemplo, que um livro policial é um romance. A organizadora também fez uma distinção entre romance de época e romance histórico. Após esse momento inicial, cada participante foi convidado a falar sobre os livros que leu. Não foi estabelecida nenhuma ordem, possibilitando que cada leitor pudesse tomar a iniciativa de falar no momento em que sentisse vontade. Alguns leitores levaram os livros que leram para mostrar ao grupo, enquanto contavam a história e falavam suas impressões. Os 96 participantes que não levaram livros para o encontro também comentaram sobre suas leituras. Na maior parte das vezes os leitores recomendaram os livros, mas também tiveram momentos em que criticaram alguns livros de forma negativa. Os membros do grupo se sentiam à vontade para comentar as falas dos demais. Entre os comentários dos participantes, as organizadoras sorteavam alguns livros, que conseguiram através de editoras ou por meio de doações. Cerca de 10 livros foram sorteados e houve também o sorteio de marcadores de livros. Não havia tempo demarcado para o lanche, de forma que os participantes conversavam e comiam de modo informal. Ao final, as organizadoras fizeram um quiz sobre assuntos tratados no próprio encontro, como o gênero romance e os autores que tinham sido abordados pelos participantes. A vencedora do quiz ganhou o livro “A Filha Perdida” da autora Elena Ferrante, o livro mais desejado pelo grupo durante o encontro. Alguns participantes adolescentes não puderam esperar até o final do Clube, afirmando que tinham horário para ir embora. Para encerrar foram tiradas algumas fotos do evento (FIGURA 5) e os participantes dividiram o que sobrou do lanche. O Clube aconteceu de forma descontraída, informal e, principalmente, intimista. A maioria dos participantes já se conhecia das outras edições, mas os novatos foram incluídos nas conversas e ouvidos da mesma forma que os demais. Em sua maioria, o Clube é composto por adolescentes e mulheres, estando presente apenas três rapazes e duas crianças levadas pela mãe. Figura 5 – Clube do Livro de Ribeirão das Neves Fonte: Facebook do Clube do Livro de Ribeirão das Neves, 2018.32 O terceiro evento observado foi o 5 anos de #Clube do Livro BH, uma comemoração do aniversário do Clube, que aconteceu no dia 21 de julho de 2018, das 14 às 18h, no auditório 32 Disponível em: . Acesso em: 27 jul. 2018. 97 do Centro de Referência da Juventude, contando com a presença de aproximadamente 250 pessoas. Como na edição anterior, a “Banca Pimenteira” estava posicionada próxima à porta de entrada do auditório e as senhas começaram a ser distribuídas uma hora antes do início do evento. De forma geral, o Clube teve uma estrutura bem semelhante ao anterior, com a organização feita pelas irmãs Pimenta, os avisos gerais e o relato da história do evento, que dessa vez ocorreu com a exibição de vídeos. Também ocorreu de forma semelhante os sorteios dos livros oferecidos pelas editoras e o momento da dança. O grande diferencial foi que, nessa edição, o evento não contou com autores, e sim, com representantes de editoras. Estavam representadas as editoras Companhia das Letras, Valentina, Aleph, Gutenberg e Arqueiro. O evento consistiu em apresentações feitas pelos representantes editorais, que mostravam e comentavam sobre os lançamentos. Cada representante falou em média 40 minutos. O telão foi muito utilizado para exibir vídeos de divulgação dos livros e também vídeos de autores, assim como diversas imagens das capas dos livros. Alguns representantes fizeram brincadeiras com o público, como um quiz, no qual o ganhador recebia um livro como brinde. Entre uma apresentação editorial e outra, as irmãs Pimenta promoviam algumas brincadeiras com os representantes e com a público. Ao final, os participantes foram convidados a se levantarem e cantarem a música “Parabéns Para Você” em comemoração ao aniversário do #Clube do Livro BH. Foi também tirada uma foto com todos os participantes levantando as mãos e gritando “Clube do Livro BH” como mostra a figura 6. Na saída, cada participante recebeu um pote contendo um bolo confeitado. Figura 6 – 5 anos de #Clube do Livro BH Fonte: Facebook do #Clube do Livro BH, 2018.33 33 Disponível em: https://www.facebook.com/ClubedolivrodeBH/>. Acesso em: 27 jul. 2018. 98 O último evento literário observado foi o Encontro de Fãs da Marissa Meyer, realizado no dia 28 de julho de 2018, organizado pelas blogueiras do blog Paradise Books, analisado nessa pesquisa. O encontro foi realizado em parceria com a Editora Rocco e com a Livraria Leitura, sendo realizado em uma unidade da loja em um shopping na região central de Belo Horizonte. O evento foi divulgado pelo Facebook, sendo ao todo 64 pessoas convidadas, contando com a confirmação de 22 pessoas e outras 37 pessoas interessadas em comparecer. No dia do encontro, apenas 16 pessoas compareceram (FIGURA 7). Figura 7 – Encontro de Fãs da Marissa Meyer Fonte: Acervo pessoal das blogueiras do Paradise Books, 2018. O evento ocorreu no segundo andar da livraria, local onde foi disposta uma mesa com vários marcadores de página e exemplares do livro “Sem Coração”, lançamento da autora Marissa Meyer. Havia também um pequeno banner com os dizeres “encontro de leitores”, a data e horário do evento e uma imagem da capa do livro lançamento. Em frente à mesa estavam dispostas cerca de 20 cadeiras de ferro organizadas em filas. Somente uma das blogueiras do Paradise Books foi responsável pela condução do evento, sentando-se na mesa e apresentando o lançamento ao público. A blogueira contou um pouco da história do livro e comentou sobre sua experiência de leitura. O livro “Sem Coração” é uma recriação do passado da Rainha de Copas, personagem do livro Alice no País das Maravilhas. A blogueira também comentou um pouco sobre Marissa Meyer, autora de uma outra coleção de livros fortemente recomendada pela blogueira. Além disso, foi ressaltada a presença da autora na 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que ocorreu no mês de agosto. 99 O encontro de fãs ocorreu de forma breve, durando aproximadamente 30 minutos. Ao final, foi sorteado um exemplar do livro entre as 16 pessoas que assinaram a lista de presença. Os marcadores de livros foram distribuídos para todos os participantes. Após o evento, a pesquisadora foi convidada a passear pelo shopping com um grupo de blogueiros presentes no encontro de fãs. Esse grupo era composto por duas blogueiras do Paradise Books, o blogueiro do Eu Conto Depois, a blogueira do Beco Imaginário e a blogueira do Livros e Sushi. Nesse grupo, duas das blogueiras já tinham sido entrevistadas pela pesquisadora, uma vez que Paradise Books e Livros e Sushi são blogs que fazem parte da amostra da pesquisa. A faixa etária dos blogueiros do grupo era de 19 a 32 anos. O passeio consistiu em caminhar pelo shopping e comprar alguns lanches. O grupo de blogueiros alegou ter se formado a partir de eventos literários, nos quais foram se conhecendo e tornando-se amigos. Atualmente, eles participam de um grupo de blogueiros de Belo Horizonte no aplicativo WhatsApp, por meio do qual mantêm contato virtual diário. Os blogueiros caminharam pelo shopping em clima de brincadeira e fazendo piadas internas. Uma das blogueiras perguntou a pesquisadora se ela também era uma leitora e de quais livros gostava, o que levou a uma breve conversa sobre alguns livros que elas tinham lido em comum. O clima de descontração foi marcante nesse grupo de blogueiros que, às vezes, faziam algumas piadas sobre o universo literário dizendo frases como “Não posso gastar hoje, vou economizar pra gastar tudo na Bienal!” ou “Você vai ter que me pagar tudo em livro!”. Os quatro eventos que tiveram a observação participante da pesquisadora, apresentam-se bastante diferentes no que se refere a estruturação e forma de contato com o público, com exceção das duas edições do #Clube do Livro BH que, claramente, apresentam semelhanças. É perceptível que o #Clube do Livro BH constitui-se como um evento de grande porte, com a possibilidade de convidar autores e representantes editoriais, além de conseguir uma grande quantidade de livros para sorteio e brindes para os participantes. Entretanto, percebe-se que o Clube tem um caráter de animação cultural, com muitas brincadeiras e uma marcada presença de um mercado editorial, não ocorrendo uma aproximação efetiva com o público leitor. Na forma como é estruturado o evento, a participação dos leitores presentes na plateia fica restrita às brincadeiras e sorteios. Portanto, os leitores não têm a possibilidade de opinarem e se expressarem sobre suas experiências literárias como geralmente ocorre em um encontro de leitores ou, no caso, um clube do livro. Diferentemente do #Clube do Livro BH, o Clube do Livro de Ribeirão das Neves é precário em termos de espaço para a realização do evento, uma vez que o parque onde é realizado não possui sanitários, é muito barulhento e frequentado por um grande número de pessoas. Também não possui o grande apoio editorial e a mesma quantidade de participantes que o evento de Belo Horizonte. Entretanto, esse Clube tem um caráter intimista e próximo aos leitores. As blogueiras organizadoras conduzem o grupo de forma sutil e integram-se a 100 ele nas discussões. O número reduzido de pessoas permite que os leitores se conheçam e que cada um expresse suas ideias e opiniões sobre suas leituras. Por sua vez, o Encontro de Fãs da Marissa Meyer apresentou-se como um evento predominantemente editorial. O lançamento do livro da Editora Rocco foi feito com a mediação das blogueiras do Paradise Books, mas claramente tratava-se de um interesse maior do grupo editorial. Por mais que a blogueira manifestasse genuíno interesse pelo livro e pela autora, o evento foi uma estratégia de marketing para a divulgação do lançamento, promoção e venda do livro. Por outro viés, foi um evento que agregou muitos blogueiros, possibilitando o encontro presencial de pessoas que se comunicam virtualmente. A importância dos eventos literários para os blogueiros será aprofundada e discutida na seção 6.4.4.2. 6.2 Perfil das blogueiras As entrevistas foram realizadas no período de 19/06/2018 à 28/07/2018, sendo gravadas e, posteriormente, transcritas na íntegra pela própria pesquisadora. As oito entrevistas resultaram em aproximadamente nove horas de gravação em áudio, cuja transcrição totalizou 139 páginas. Como forma de preservar o sigilo das participantes, optou- se pela utilização de nomes fictícios para a identificação das blogueiras. Inicialmente, pretendia-se identificar cada blogueira associando o termo “entrevistada” a um número. Entretanto, considerou-se que a utilização de nomes fictícios aproximaria a discussão dos resultados ao caráter social da pesquisa, ressaltando a importância dos sujeitos. Dessa forma, as blogueiras foram identificadas por nomes fictícios, inspirados em personagens femininas da literatura brasileira. Evidencia-se que não há relação entre a escolha dos nomes e as características pessoais das blogueiras. A faixa etária das entrevistadas foi de 20 a 36 anos. Todas as blogueiras residem na RMBH, sendo que cinco moram na cidade de Belo Horizonte, duas em Ribeirão das Neves e uma em Contagem. Quanto à escolaridade, três possuem o ensino superior incompleto, sendo estudantes de graduação. As outras cinco possuem ensino superior completo e, dentre elas, uma possui pós-graduação. Em relação à profissão, as blogueiras possuem ocupações que não estão vinculadas à literatura. Curiosamente, essas leitoras atuam profissionalmente sem contato direto com a leitura literária. Entre as três estudantes, uma cursa Fisioterapia, uma Jornalismo e a outra Design Gráfico. Entre as outras cinco, uma é advogada em um escritório da família, uma é analista contábil em uma grande empresa nacional de eletrodomésticos, uma é administradora de empresas, uma é analista de processos em uma siderúrgica, a última é professora de circo e também artista circense. 101 No que tange ao ano em que se tornaram blogueiras, algumas criando seu próprio blog e outras se inserindo em blogs já existentes, todas adentraram na blogosfera literária na última década. A mais experiente é blogueira desde 2008 e a menos experiente tornou-se blogueira em janeiro de 2018. No quadro 6 foi descrito o perfil das entrevistadas. Os dados são apresentados na ordem em que as entrevistas aconteceram. Quadro 6 - Perfil das entrevistadas Nome Idade Cidade Escolaridade Profissão Ano em que se tornou blogueira Blog Emília 28 Belo Horizonte Ensino Superior Advogada 2008 Entrando Numa Fria Lucíola 31 Belo Horizonte Ensino Superior Analista Contábil 2015 Minha Estante e Muito Mais Ana Terra 22 Belo Horizonte Ensino Superior Incompleto Estudante de Fisioterapia 2018 Marshmallow com Café Gabriela 20 Ribeirão das Neves Ensino Superior Incompleto Estudante de Jornalismo 2016 DNA Literário Macabéa 36 Ribeirão das Neves Ensino Superior Administradora 2017 Cultura Pocket Capitu 21 Contagem Ensino Superior Incompleto Estudante de Design Gráfico 2013 Menina Compassiva Iracema 32 Belo Horizonte Pós- graduação Analista de Processos 2014 Livros e Sushi Ceci 32 Belo Horizonte Ensino Superior Professora de Circo 2015 Paradise Books Fonte: Elaborado pela autora. 102 No TCLE foi informado que a entrevista ocorreria no local escolhido pelas entrevistadas. Dessa forma, Emília optou por realizar a entrevista em seu escritório de advocacia. Já Ana Terra escolheu a UFMG como seu local de preferência para fazer a entrevista. Lucíola e Iracema receberam a pesquisadora em suas respectivas residências. As outras quatro blogueiras escolheram locais e datas relacionados à eventos literários, o que demonstra mais uma vez a importância desses eventos. Gabriela e Macabéa são parceiras na organização do Clube do Livro de Ribeirão das Neves. Assim, a pesquisadora foi convidada a participar do evento, realizando a entrevista com Gabriela antes do seu início, e com Macabéa após o seu encerramento. Capitu preferiu marcar a entrevista para o dia do evento 5 anos de #Clube do Livro BH, sendo realizada antes do início do Clube. Por fim, a entrevista com Ceci foi agendada para o dia do Encontro de fãs da Marissa Meyer, uma vez que o seu blog era responsável pela organização do evento. 6.3 Perfil dos blogs literários A análise documental foi realizada por meio do acompanhamento de cada um dos blogs, sendo feita a leitura das postagens, a análise do layout e dos recursos disponíveis. Em um período de seis meses, compreendido entre março e agosto de 2018, foi observado o conteúdo textual, o conteúdo imagético e também os comentários dos leitores. Como o conteúdo dos blogs é público, foi realizada a análise documental e, posteriormente, as blogueiras foram avisadas que seus blogs foram observados. A opção de informar as blogueiras somente após a coleta dos dados teve a finalidade de garantir que as suas práticas não fossem alteradas por terem a consciência de que estavam sob observação. Como forma de apresentação dos oito blogs que compõe a amostra, foi feito o print screen das páginas iniciais dos blogs. Dessa forma, as figuras de 8 a 15 permitem uma breve visualização do layout de cada blog e, acompanhadas das figuras, constam as descrições das principais características identificadas na análise documental. Ressalta-se que nessa seção, além dos dados obtidos por meio da análise documental, foram também apresentadas algumas informações sobre os blogs obtidas nas entrevistas, uma vez que as duas técnicas de coletas de dados são complementares. As informações advindas das entrevistas referem-se ao histórico do processo de criação de cada blog que, em muitos casos, não consta nas páginas dos próprios blogs. 103 6.3.1 Entrando Numa Fria O blog Entrando Numa Fria34 (FIGURA 8) foi criado em 2006 pelo blogueiro Paulo35, na plataforma WordPress. Quando o blog já estava com cerca de dois anos de existência, Paulo conheceu Emília em um evento literário em Belo Horizonte. A parceria surgiu quando Emília apresentou seu interesse em escrever em um blog e Paulo comentou sobre sua dificuldade em administrar um blog sozinho. Emília, entrevistada pela pesquisadora, relatou que no início o blog era no formato de um diário virtual, no qual ela e Paulo escreviam sobre vários assuntos. Com o tempo, os dois perceberam que o blog estava ficando cada vez mais voltado para a literatura e para o cinema. Atualmente, o blog é administrado pelos blogueiros Paulo e Emília, mas também conta com a colaboração de outras pessoas, identificadas como colunistas. Emília afirmou que o blog possui de dez a doze colunistas, mas nas postagens do período analisado foram encontrados sete colunistas atuantes no blog. Figura 8 – Página inicial do blog Entrando Numa Fria Fonte: Blog Entrando Numa Fria, 2018. O nome Entrando Numa Fria foi ideia de Paulo, que anteriormente possuía um outro blog na plataforma Terra, cujo conteúdo foi perdido. Ao relatar seu problema em uma postagem no Orkut, recebeu um comentário afirmando que ele tinha “entrado numa fria”. Assim, quando criou um novo blog, em uma nova plataforma, Paulo batizou o blog com o nome Entrando Numa Fria. As páginas do blog disponíveis no menu são: “Início”, “Você Encontra” (contendo as abas Notícias, Promoções, Críticas), “Lançamentos”, “Cinema”, “Resenha”, “Série”, “Sobre”, “Contato” (contendo as abas Colabore Conosco, Nosso Selo). Na barra lateral direita estão dispostos os gadgets: caixa de cadastro do e-mail, selos das 13 editoras parceiras, selos das 34 Disponível em:< http://www.entrandonumafria.com.br/>. Acesso em 31 de ago. 2018. 35 Nome fictício. 104 três empresas parceiras (livrarias e agências de comunicação), redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter, YouTube, Google Plus), postagens recentes e divulgações (propagandas da Amazon e de filmes em cartaz). Quanto ao conteúdo, o blog apresenta resenhas de livros e críticas de filmes, assim como notícias de lançamentos editoriais e sorteios. Existem também algumas postagens sobre séries de TV. Comparado aos demais blogs analisados, Entrando Numa Fria é o que possui um maior número de posts, uma vez que as postagens são praticamente diárias. Também é o blog com o maior número de parceria com editoras, fato que se reflete em postagens cujo tema é a pré-venda de livros e lançamentos editoriais. O blog realiza promoções em parceria com editoras e empresas, sorteando livros, marcadores de páginas, cortesias de cinema e brindes. Quanto às imagens, é o único blog que não se dedica à produção autoral de fotos de livros. Apesar das resenhas do blog serem escritas por pessoas diferentes, é mantido um padrão. No início de cada resenha é postada a foto da capa do livro, a ficha técnica (nome, autor, ISBN, páginas, ano) e a sinopse. Posteriormente, são escritos os comentários e opiniões do autor da resenha, sendo que o tamanho do texto é variável. Após o texto, são dispostos dois banners de propagandas, geralmente da Amazon. Depois são colocadas algumas tags (etiquetas), como forma de categorizar a resenha, e também alguns links de outras resenhas com o título “você também pode gostar de”. Ao final, o autor da resenha é identificado por uma foto, acompanhada de um pequeno texto de descrição. Dois dos colunistas possuem seus próprios blogs literários, sendo comum que postem o nome e o link para o seu respectivo blog. A estrutura das críticas de filmes é um pouco diferente, uma vez que o texto é intercalado por muitas imagens de cenas do filme, sendo ao final postado o trailer oficial. Um diferencial das resenhas do Entrando Numa Fria é que os blogueiros atribuem notas aos livros de um a cinco. Na escrita das resenhas é perceptível uma preocupação com a ortografia e gramática do texto. Geralmente, os blogueiros comentam sobre a narrativa, a estética do livro e também fazem comentários pessoais sobre a experiência de leitura. Na resenha do livro “O que Alice Esqueceu”, postada em 18 de junho de 2018, a blogueira Emília escreveu: Passei muita vergonha rindo alto e chorando no ônibus durante a leitura, rs. Mas é que há muitas situações tão engraçadas quanto emocionantes. Impossível não me afetar com os acontecimentos [...]. A capa é um espetáculo à parte e achei que tem tudo a ver com a história! Assim, indico esse livro para todo mundo! Casadas, solteira, mães, quem ainda não é mãe. Com certeza é uma lição para todos, sobre como lidar com a vida adulta, com as responsabilidades da vida, do casamento, do amor, de filhos sem precisar levar a vida tão a sério. Leiam! Quanto aos comentários dos leitores, foi identificada uma ausência nos meses de junho, julho e agosto. Em junho, somente quatro postagens receberam comentários, sendo que em três os comentários foram da editora Intrínseca e somente um comentário foi de uma 105 leitora. No mês de julho, só uma das postagens recebeu dois comentários e em agosto nenhuma postagem recebeu comentários. Entretanto, observou-se que de março a maio, todos as postagens receberam de dois a três comentários, sendo que algumas chegaram a cinco comentários. Tal fato se deve ao “top comentarista”, promoção cujas regras exigiam que o participante comentasse nas resenhas de janeiro a maio de 2018 para concorrer ao prêmio, um vale no valor de 50 reais na livraria Saraiva. A postagem de 01/04/18 com anúncio do “top comentarista” é a recordista de comentários, uma vez que 14 pessoas comentaram na postagem confirmando sua participação. Entre os leitores que deixaram seus comentários nas postagens, não foi encontrado nenhum que se apresentasse como blogueiro, deixando o link do seu blog. Somente alguns dos comentários são respondidos pelos blogueiros do Entrando Numa Fria. 6.3.2 Minha Estante e Muito Mais Minha Estante e Muito Mais36 (FIGURA 9) foi criado em julho de 2015 na plataforma Blogger e é administrado pela blogueira Lucíola. Inicialmente tinha o nome De Letras a Números, com a intenção de juntar as duas paixões da blogueira, que pretendia postar sobre livros e também sobre matemática. Em um dos primeiros posts, a blogueira relata seus métodos de estudo de contabilidade. Entretanto, as postagens sobre matemática não tiveram continuidade, sendo o blog dominado por postagens sobre literatura. Sendo assim, Lucíola restringiu o nome De Letras a Números a uma das páginas do blog, que contém somente a postagem sobre seus estudos em contabilidade. Dessa forma, a blogueira optou por alterar o nome do blog para Minha Estante e Muito Mais. Figura 9 – Página inicial do blog Minha Estante e Muito Mais Fonte: Blog Minha Estante e Muito Mais, 2018. 36 Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2018. 106 Na página “Sobre o Blog”, em 11 de julho de 2015, Lucíola escreveu: O blog nasceu há uma semana, e tem a função muito pessoal, e digamos que como uma válvula de escape. Nunca pensei em ter um blog e ainda morro de vergonha em ser o centro das atenções, apesar de que depois de conhecer sou palhaça. Aqui é um lugar pra falar de tudo um pouco, coisas que gosto, que sei e que aprendo [...]. Amo ler desde sempre, e sou viciada em comprar livros e qualquer motivo é usado como desculpas para uma nova aquisição. As páginas do blog disponíveis no menu são: “Home”, “Quem escreve”, “Sobre o blog”, “Resenhas”, “Estante” (contendo as abas Lidos, A Ler, Primeiras Impressões e Autores Nacionais), “Dicas de letras a números” (contendo as abas Dicas, Letras e Números) e “Contato”. O blog possui os seguintes gadgets na barra lateral direita: redes sociais (Facebook, Instagram, Skoob e Google Plus), o cadastro para receber os posts por e-mail, os seguidores do blog, os cincos posts mais acessados, uma nuvem de tags, as cinco postagens mais recentes, links de blogs literários com a indicação “blogs que amo”. No que diz respeito ao conteúdo, o blog é essencialmente literário, apresentando resenhas, primeiras impressões de livros, entrevistas com autores nacionais e novas aquisições. Lucíola afirma ter vontade de começar a resenhar filmes e séries, tendo uma lista com vários títulos que pretende escrever no blog. Entretanto, esse projeto ainda não foi concretizado. As resenhas presentes em Minha Estante e Muito Mais seguem um mesmo padrão. No início são apresentados alguns dados sobre o livro: foto da capa, autor, editora, ano de publicação, ISBN, link para a página do livro no Skoob e número de páginas. Na sequência, Lucíola apresenta sua opinião sobre o livro em alguns parágrafos, sempre se dirigindo aos leitores com as frases iniciais “Oi pessoal, tudo bom? Hoje vamos falar...” e com as frases finais “E você, já leu? Abra seu coração e me conte como foi a sua leitura. Até a próxima”. Em seguida, é apresentada a sinopse do livro e uma foto do autor acompanhada de uma pequena biografia. Em uma nota no final da postagem, é informado que as fotos foram retiradas do site Skoob ou são de autoria da blogueira. Lucíola escreve de maneira simples, utilizando uma linguagem informal semelhante à uma conversa entre amigos, fazendo uso de gírias e abreviações. A blogueira escreve de forma bem pessoal, buscando relacionar as suas leituras às suas experiências de vida. Como exemplo, apresenta-se um parágrafo da resenha do livro “Nunca Olhe para Dentro”, postada em 20 de junho de 2018: Betina ganhou meu coração já nas primeiras linhas e minha vontade de bater nela também. Não teria conseguido passar pelo que ela passou, sem socar a cara daquela tia. Isso só prova que ela é mais evoluída do que eu jamais serei. Já que não aguentaria passar por metade. Ressalto que o livro não é pesado, pelo contrário, no entanto há cenas de te jogar em um mar de emoções. 107 Em cada postagem existe a possibilidade de compartilhar o post nas redes sociais, curtir e comentar. Em geral, os posts de Lucíola não possuem comentários e somente alguns possuem curtidas. 6.3.3 Marshmallow com Café O blog Marshmallow com Café37 (FIGURA 10) foi criado em agosto de 2017 na plataforma Blogger e é administrado por quatro blogueiras. Três delas já eram amigas e conheceram a quarta integrante no #Clube do Livro BH. A entrevistada Ana Terra foi a última a se tornar blogueira, tendo entrado para a equipe do blog em janeiro de 2018, mas já atuava como colaboradora do blog, sendo responsável pela administração da página do Facebook. Uma das blogueiras já tinha uma conta na rede social Tumbrl com o nome Marshmallow com Café, que acabou sendo mantido também como o nome do blog coletivo. Figura 10 – Página inicial do blog Marshmallow com Café Fonte: Blog Marshmallow com Café, 2018. As páginas do blog disponíveis no menu são: “Home”, “Resenhas”, “Organização”, “Experiência Literária”, “TV e Cinema”, “Autoral” e “Dicas”. A página Experiência Literária contém conteúdo um pouco diferente das resenhas, uma vez que apresenta relatos de como foi para as blogueiras lerem novos gêneros literários e conhecerem autores diferentes. Em Autoral, as blogueiras publicam textos autorais sobre assuntos diversos. Na barra lateral direita estão disponíveis os seguintes gadgets: foto das blogueiras, caixa de pesquisa, arquivo do blog, postagens populares, categorias, links das redes sociais (Twitter, Facebook e Instagram), seguidores do blog e caixa para cadastro do e-mail. Quanto ao conteúdo, o blog é predominantemente literário, mas também aborda outros temas como filmes, séries e organização. Entretanto, as postagens sobre filmes e séries se 37 Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2018. 108 restringem a poucos posts, e com o tema organização existem apenas duas postagens. Além disso o blog também possui cinco textos autorais das blogueiras sobre autoestima, feminismo, vida pessoal, frases inspiradoras e um poema. Dessa forma, a grande maioria das postagens está relacionada aos livros e ao universo literário. Apesar do blog ser escrito a quatro mãos, as resenhas possuem um padrão, sendo divididas em duas partes. Na primeira parte é apresentada uma sinopse do livro, e na segunda “o que eu achei”, na qual a blogueira autora da postagem faz os seus comentários sobre a história. É comum as blogueiras destacarem algumas frases do livro e colocarem citações em itálico no decorrer das postagens. Cada uma das postagens é assinada por uma das blogueiras, sendo a assinatura acompanhada de uma foto da blogueira e uma pequena descrição pessoal. São postadas de duas a três fotos em cada post, sendo todas as fotografias autorais. A dedicação à fotografia é evidente, pois as fotos dos livros são tiradas em um fundo padrão e possuem ornamentos diversos, como flores, xícaras, canetas, joias, etc. Existem também muitas fotos das blogueiras lendo diversos livros em meio à natureza. As blogueiras escrevem as resenhas de forma bem objetiva, expressando em alguns parágrafos suas opiniões e comentários sobre o livro. Elas se referem aos leitores do blog de forma carinhosa como “Oi meus amores” ou “Olá Marshmallows”, o que sugere uma proximidade com os seguidores e uma informalidade ao escrever. Apesar disso, é perceptível uma preocupação com a escrita das postagens e com a expressão de opinião, como pode ser percebido no seguinte trecho da resenha do livro “Espada de Vidro”, postada em 26 de junho de 2018: Posso dizer – assim como eu disse para Rainha Vermelha – que sou apaixonada com a capa desses livros. E que o final me deixou tão atordoada que quase surtei! [...] Uma coisa que eu senti falta foi de mais narradores, visto que Mare narra o livro todo sozinha. Acredito que a perspectiva de uma personagem só em uma narrativa tão rica quanto essa, deixa o texto limitado. E sei que nem todas as pessoas gostam da personagem principal, apesar de eu não ter nada contra ela. Todas as postagens de Marshmallow com Café recebem comentários. A maioria dos posts possui de cinco a dez comentários, existindo postagens com 12, 15 e 18 comentários. Um post de sorteio de livros publicado em 25 de maio recebeu 21 comentários. A maioria dos comentários são feitos por outras blogueiras, que cumprimentam a blogueira autora da postagem, escrevem o que acharam da resenha e deixam também o link do seu respectivo blog. Encontrar um comentário de um visitante que seja apenas leitor do blog é raridade. É comum também ocorrer a interação das quatro blogueiras administradoras, uma vez que elas comentam nas postagens feitas pelas colegas. De modo geral, os comentários são respondidos pelas blogueiras. 109 6.3.4 DNA Literário O blog DNA Literário38 (FIGURA 11) foi criado em 2013 pela blogueira carioca Kátia39 na plataforma Blogger. Inicialmente foi criada uma página no Facebook com o nome DNA Literário, mas Kátia sentiu a necessidade de um espaço em que pudesse escrever postagens mais longas, o que a levou a criar o blog. Em 2016, a blogueira fez uma postagem procurando alguém que pudesse auxiliá-la com o blog. Foi então que Gabriela, que já estava com a intenção de criar um blog, respondeu à postagem de Kátia, afirmando que gostaria de entrar para a equipe do DNA Literário. As duas já eram amigas virtuais desde 2011, quando se conheceram no Twitter. Dessa forma, o blog é administrado por Kátia, no Rio de Janeiro, e por Gabriela, em Ribeirão das Neves. Figura 11 – Página inicial do blog DNA Literário Fonte: Blog DNA Literário, 2018. Na página “Sobre” foi contado um pouco da história do blog e a escolha do nome: Tudo começou no facebook. Uma página foi criada e a chamamos de DNA Literário. Por que esse nome? Bem, eu sou uma apaixonada por biologia e uma das minhas matérias preferidas é a genética, foi só juntar com outra paixão minha: livros. Aí está: DNA Literário! Ou, se preferir, Ácido desoxirribonucleico Literário haha - Brincadeira! Eu sempre queria falar sobre livros, mas nem todos no meu perfil tem gosto por leitura e é sem graça você ler um livro muito bom e não ter com quem conversar sobre ele. Foi então que criei a página, depois de um tempo tive a ideia do blog, que me daria mais espaço para criar as resenhas e fazer posts mais longos. E esse foi o início do DNA Literário. Bem, aqui no blog, podem esperar matérias interessantes, curiosidades, novidades literárias e resenhas. Este é o seu, o nosso cantinho literário, onde podemos compartilhar do mesmo amor pelos livros e toda a cultura pop/geek. 38 Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2018. 39 Nome Fictício. 110 No menu é possível identificar as páginas: “Página Inicial”, “Sobre”, “Resenhas”, “Novidades”, “Parceria”, “Colunas”, “Contato” e “Colabore”. Na página Resenhas, é possível fazer a busca por ordem alfabética do título do livro, por editora e pelo título do filme. Já em Novidades, são postadas notícias e lançamentos de livros e filmes. Apesar dos demais blogs possuírem parcerias, o DNA Literário é o único que explicitou as condições para parceria com autores nacionais, editoras, lojas e também com outros blogs na página Parceria. Outro diferencial do blog é a Página Colunas, onde são listadas as colunas existentes no blog, sendo elas: “Cariótipo” (biografia de autores), “Convidados” (postagens feitas por pessoas convidadas), “DNA em Série” (séries de TV), “Dream Casting“ (elenco dos sonhos), “Entrevistas” (autores e pessoas relacionadas à literatura), “Especiais” (datas comemorativas, eventos, projetos), “Gene Recessivo” (divulgação de livros, séries e filmes pouco conhecidos), “O XX da Questão” (mulheres na literatura), “Primeiras Impressões” (livros que as blogueiras estão lendo), “Tags40” (criadas ou respondidas), “Top X“ (rankings). Nos demais blogs existem categorias relacionadas ao assunto da postagem, sendo que cada post pode pertencer a várias categorias. Mas o formato de colunas, no qual cada postagem tem uma tipologia e pertence a uma das colunas, foi encontrado somente no DNA Literário. Na barra lateral direita encontram-se os seguintes gadgets: perfis das blogueiras, propagandas diversas, redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter, YouTube, Skoob, Google Plus), seguidores do blog, caixa para cadastro do e-mail, posição do blog no ranking Blogs Brasil41, colabore (apoio financeiro ao blog), listas de links (autores parceiros, blogs parceiros, editoras parceiras, lojas parceiras), cupom de desconto (loja parceira), o que estamos lendo (link para o site Skoob), postagens populares, contador de visitantes da página, tradutor e arquivo do blog. O DNA Literário é o blog que apresenta o maior número de gadgets e também o que possui maior número de propagandas. As duas blogueiras seguem o mesmo padrão para escrever as resenhas. Primeiramente, é postado um quadro azul no qual consta a ficha técnica do livro, a sinopse e a cópia literal do trecho preferido da blogueira. Em seguida, é postada a foto da capa do livro e a blogueira inicia seus comentários. Entre os parágrafos são postadas cerca de duas fotos do livro tiradas pelas próprias blogueiras ou é postado o vídeo da resenha postada no canal do YouTube do DNA Literário. É possível compartilhar as postagens do blog nas redes sociais. 40 O termo tag, nesse caso, está associado ao ato de criar ou responder à uma tag. Um blogueiro cria uma tag, ou seja, um tipo de jogo de perguntas e respostas sobre determinado assunto. No caso dos blogs literários, as respostas das tags envolvem a indicação de livros. 41 Blogs Brasil é uma plataforma que junta os blogueiros, as marcas/agências e leitores, fornecendo ferramentas que ajudam a comunicar via blogosfera. Os blogs são classificados por categorias e a plataforma publica estatísticas e dados sobre a audiência. Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2018. 111 A escrita das resenhas é informal, na qual as blogueiras se comunicam diretamente com os leitores como em uma conversa. Entretanto, fica bem nítida a maneira de escrever de cada uma, sendo que Gabriela é bem objetiva e Kátia é mais descontraída. Ao final de cada postagem as blogueiras publicam a despedida “Obrigada por tudo! Que a força esteja com você e a sorte a seu favor! Volte sempre! #desaparatei”. Quanto aos comentários, de março a agosto de 2018, somente dez postagens do DNA Literário foram comentadas. Sete comentários foram feitos pela blogueira Macabéa, parceira de Gabriela na coordenação do Clube do Livro de Neves. A parceria entre as duas fica evidente no blog, não só pela interação nos comentários, mas também nas leituras realizadas por Gabriela, como pode ser observado na postagem do dia 23 de março de 2018: Fala, galera! Hoje eu trouxe a resenha de um livro que me tirou da minha zona de conforto fantasia-suspense. As Doze Tribos de Hattie foi o livro escolhido para o projeto “Livro Viajante” do Clube do Livro de Ribeirão das Neves. A sugestão foi [...] do blog Cultura Pocket, nosso parceiro. Dentre os outros comentários, alguns foram de leitores e um foi de um autor nacional que teve seu livro resenhado no blog. A maioria dos comentários foi respondido pelas blogueiras administradoras. 6.3.5 Cultura Pocket O blog Cultura Pocket 42(FIGURA 12) foi criado em agosto de 2017 pelas blogueiras Macabéa e Talita43 na plataforma Blogger. Durante um dos encontros do #Clube do Livro BH, Talita propôs a ideia da criação do blog para sua amiga de faculdade Macabéa. Com receio de não conseguir produzir conteúdo suficiente, Macabéa convidou uma outra amiga, e, com o tempo, conquistou um grupo de pessoas dispostas a escrever no blog. Atualmente, o Cultura Pocket tem uma equipe de oito blogueiros, sendo que uma das blogueiras não escreve resenhas, atuando na diagramação e no design do blog. Duas das blogueiras são de outros estados, sendo uma residente em Brasília e a outra no Pará. Macabéa, entrevistada pela pesquisadora, relatou ter conhecido as duas em grupos literários no Facebook. O nome Cultura Pocket foi escolhido porque a palavra Pocket significa bolso, e a intenção do blog era produzir textos curtos. Além disso, Macabéa afirma que Pocket também lembra a palavra pop e que o conteúdo das postagens está relacionado à cultura pop. Na postagem “Quem Somos?”, datada de 2 de agosto de 2017, os blogueiros se descrevem: Somos uma geração cheia de opinião e muitas coisas a dizer. Nossa geração presenciou a mudanças nos meios de comunicação e o mundo se tornou menor. Por este motivo também consumimos muito mais informação e cultura. Sofremos o impacto não só dos acontecimentos e comportamentos sociais locais, mas sim mundiais. A música, a literatura, o cinema, os 42 Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2018. 43 Nome fictício. 112 esportes, a política, a moda, as comidas nada se restringe mais a sua rua, bairro, cidade, estado, país. Somos cidadãos do mundo e ele está em constante mudança. Somos amigos “virtuais” de vários lugares que gostariam de falar do que amam, dos nossos sonhos e ideias. Emitir nossa opinião e te convidar a compartilhar a sua também. Figura 12 – Página inicial do blog Cultura Pocket Fonte: Blog Cultura Pocket, 2018. No menu é possível acessar as páginas: “Página Inicial”, “Parcerias” (editoras parceiras, blogs parceiros, autores parceiros), “Extras” (filmes, séries, música, falando sobre política, meu autor nacional, esportes, coisas que amamos, sorteios), “Resenhas” (estrangeiro, nacional, infantil), “Entretenimento” (eventos, datas importantes, dicas), “Livro Viajante”, “Clube do Livro” e “Desafio Literário”. O Livro Viajante é um projeto do qual o blog participa, no qual determinado livro “viaja” por várias cidades sendo lido por diversos leitores que compõem um grupo de amigos. Já o Desafio Literário é realizado mensalmente pelo Cultura Pocket, que propõe três leituras diferentes, com o objetivo de tirar o leitor de sua zona de conforto como, por exemplo, ler um livro que um amigo recomendou ou um livro que tenha uma história engraçada. Na barra lateral esquerda é possível encontrar os gadgets: postagem em destaque, contador de visualizações da página, citação de livro da semana, leituras (link para o Skoob), link do Instagram, arquivo do blog. Já na barra lateral direita estão os gadgets: perfil dos blogueiros, link para o Facebook e Instagram, seguidores do blog, sorteios, autores parceiros, divulgação da leitura coletiva, caixa para cadastro do e-mail, link do Google Plus, blogs amigos. Em relação ao conteúdo, o blog é predominantemente literário, abordando também conteúdos relacionados, como filmes e séries. Ocasionalmente o blog posta algo na categoria “Extras”. As resenhas são, em sua maioria, escritas por Macabéa e pela blogueira residente no Pará. O padrão das resenhas é começar com uma pequena introdução cumprimentando 113 os leitores com “Oi Pockets!” e apresentando o livro. Em seguida é apresentada a foto da capa do livro acompanhada da ficha técnica, a sinopse e a resenha em si. Ao final de cada resenha, o blogueiro autor assina a postagem com uma foto pessoal. É possível compartilhar a postagem nas redes sociais e também assinalar uma reação (interessante, engraçado, legal) para a resenha. Na parte inferior da resenha é possível identificar as tags, que categorizam a postagem. As resenhas do Cultura Pocket são extensas se comparadas às resenhas dos demais blogs, são bem detalhadas com várias citações ao longo da postagem e apresentam de quatro a cinco fotos do livro. A produção de imagens é menos frequente no blog, que muitas vezes posta fotografias autorais junto às fotos não autorais. Ao resenhar o livro “Dias de Chuva”, em 21 de março de 2018, Macabéa expressou suas opiniões sobre os personagens e sobre a história de uma maneira bem próxima aos leitores: Muito contraditório e cheio de segredos Audrick é daqueles que deixa a gente sonhando com ele, lindo, místico, misterioso, “mau” (este foi por minha conta). Ele é muito dúbio a gente nunca sabe o que esperar, mas que é um gato disso não tenho dúvidas!!! Uma história cheia de uma fantasia bem nacional, que te deixa de queixo caído com a riqueza de informação, um amor que terá de resistir a muitas desafios, uma protagonista com uma história sofrida como de tantos brasileiros, muitas perdas, dor e ensinamentos. Comparado aos demais, esse é o blog que possui o maior número de comentários nas postagens. Dos meses de março a agosto de 2018 foi encontrada somente uma postagem que não possuía comentários. Geralmente, as postagens recebem entre 7 e 20 comentários, existindo uma postagem com 27 e outra com 29 comentários. Muitos comentários são feitos por blogueiros, mas também existem muitos comentários de leitores. Os comentários são, em sua maioria, respondidos pelos blogueiros do Cultura Pocket. 6.3.6 Menina Compassiva O blog Menina Compassiva44 (FIGURA 13) foi criado em 2013 pela blogueira Capitu na plataforma Blogger. A ideia do blog foi sugestão de uma colega, que recomendou que Capitu escrevesse sobre cuidados com os cabelos. Na época, o namorado apoiou a criação do blog, mas incentivou Capitu a escrever sobre vários assuntos de seu interesse. Dessa forma, Capitu criou o blog com a intenção de escrever sobre seus assuntos preferidos, principalmente a literatura. O nome do blog foi ideia de um amigo e a blogueira achou interessante o significado da palavra compassiva, relativa a quem tem compaixão. 44 Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2018. 114 Figura 13 – Página inicial do blog Menina Compassiva Fonte: Blog Menina Compassiva, 2018. No menu é possível encontrar as páginas: “Home”, “Livros”, “Beleza”, “Decoração”, “Promoções” (sorteios), “Parcerias” (lista de blogs), “Contato” e “Sobre”. Na barra lateral direita é possível localizar os seguintes gadgets: perfil com foto da blogueira, caixa para cadastro do e-mail, redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter, Google Plus), seguidores do blog, postagens populares, nuvem de tags e contador de visitantes. Entre os blogs analisados, o Menina Compassiva é o que apresenta conteúdos mais diversificados. A própria blogueira caracteriza o blog como principalmente literário, uma vez que ele também aborda outras temáticas. Além dos temas relacionados ao universo literário, como filmes e séries, Capitu também escreve alguns posts sobre beleza e decoração. As resenhas de Capitu apresentam elementos em uma ordem pré-estabelecida. Primeiramente, apresenta a ficha técnica do livro acompanhada de uma foto da capa e, em seguida, a sinopse. Ao apresentar seus comentários e opiniões sobre o livro, a blogueira intercala parágrafos de texto com fotos. Capitu fotografa de uma forma diferente das blogueiras dos demais blogs analisados, uma vez que tira fotos de partes internas dos livros, como prólogo e páginas iniciais dos capítulos. Cada resenha conta com cerca de seis fotografias do livro, o que é um número muito maior se comparado às fotografias dos demais blogs. Por outro lado, as fotos são simples, sem a presença de muitos adereços no entorno do livro. A escrita das resenhas é informal, a blogueira expressa suas opiniões sobre a narrativa em três ou quatro parágrafos pequenos. Nas resenhas Capitu se dirige aos leitores com “Oi pessoal, tudo bem?” no início da postagem e “Beijinhos e até o próximo post!” ao final. Um trecho da resenha do livro “A Fada”, postada em 19 de março de 2018, revela uma identificação com a personagem principal: O livro me prendeu desde a primeira palavra, e fiquei muito feliz por isso. Há tempos eu não era surpreendida desde a primeira página, e Carolina conseguiu isso direitinho. Li em apenas 5 dias durante meu trajeto de ida e 115 volta para o trabalho, dentro do ônibus. Me identifiquei muito com a personagem por vários motivos, primeiro porque ela faz aniversário no mesmo dia que eu (21/02), segundo porque a forma de pensar dela e seus sentimentos eram bastante parecidos com os meus quando eu tinha a idade dela (18 anos), terceiro porque ela é uma fada! A maior parte das resenhas não recebe comentários. Duas postagens receberam comentários de blogueiras, que elogiaram as resenhas e deixaram o link de seus blogs. Uma outra postagem recebeu o comentário da autora do livro resenhado. 6.3.7 Livros e Sushi O blog Livros e Sushi45 (FIGURA 14) foi criado pela blogueira Iracema em março de 2014, na plataforma WordPress. Iracema já era colunista em um blog literário de uma amiga, mas decidiu criar o seu próprio blog, que tivesse a sua identidade. Atualmente, ela administra o Livros e Sushi, mas ainda mantém o trabalho de colunista, escrevendo para o Entrando Numa Fria. O namorado de Iracema atua ocasionalmente como colunista em seu blog. Figura 14 – Página inicial do blog Livros e Sushi Fonte: Blog Livros e Sushi, 2018. Na página “Sobre”, a blogueira escreveu sobre a história do blog e a escolha do nome: Tive a ideia de começar um blog em 2014 como um passatempo, escrevendo sobre as coisas da vida, do que eu gosto e que quero compartilhar. Espero fazer daqui um cantinho para gente conversar, falar de livros (óbvio né?! hahaha) e de tudo mais que der vontade. Eu tenho um sonho de ter a minha própria biblioteca e o meu amor pela leitura começou com os livros dos “Karas” do Pedro Bandeira. Além dos livros, eu sou apaixonada pela culinária de outros países, principalmente a do Japão, não resisto a um bom sushi. #souboadegarfo Escolhi o nome LIVROS E SUSHI para juntar essas duas paixões! ♥ 45 Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2018. 116 Estou sempre online, se quiser falar comigo ou me seguir pode usar uma das redes sociais. No menu é possível encontrar as seguintes páginas: “Home”, “Sobre”, “Resenhas” (com as abas Por Autor, Por Editora, Por Filme), “Séries Literárias”, “Sorteios” e “Contato”. O blog apresenta uma organização das resenhas, que podem ser facilmente recuperadas por autor ou editora. Na página Séries Literárias, Iracema apresenta várias séries resenhadas, postando as capas dos livros e a sequência correta dos volumes, pois a blogueira afirma que conhecer a ordem dos livros de séries é uma das maiores demandas de seus leitores. Na barra lateral direita estão disponíveis os gadgets: redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter, Pinterest), perfil com foto e pequena descrição da blogueira, colunistas, caixa para cadastro do e-mail, categorias, últimos comentários, principais posts, tradutor, propagandas de filme em exibição nos cinemas, selos das cinco editoras parceiras. Quanto ao conteúdo, Livros e Sushi é um blog predominantemente literário, sendo que só iniciou postagens sobre filmes em agosto de 2018, estando o restante dos posts relacionados aos livros. As resenhas têm uma sequência: foto da capa, acompanhada da ficha técnica do livro, seguida do texto com os comentários da blogueira. Diferentemente de alguns blogs, Iracema não posta a sinopse do livro, mas conta sobre a história no decorrer de seu texto. A blogueira classifica os livros atribuindo de uma a cinco estrelas. Em cada postagem há pelo menos uma fotografia autoral do livro, postada entre os parágrafos do texto. Em todas as resenhas há o link “compare os preços do livro aqui”, que direciona o leitor para o site Buscapé. Ao final das resenhas é encontrada a assinatura da blogueira com foto e uma pequena descrição pessoal. Há também a possibilidade de compartilhar a resenha no Facebook, Twitter, Google Plus, por e-mail e a opção de imprimir a postagem, o link para postagens relacionadas, além das tags que categorizam o post. O blog possui a opção “curtir” para blogueiros da plataforma WordPress, de forma que em cada postagem conta quantos blogueiros curtiram, junto à uma pequena foto e nome de cada blogueiro que curtiu. Geralmente, as postagens possuem de duas a quatro curtidas de blogueiros, sendo que dois posts foram curtidos por sete blogueiros. Iracema escreve as resenhas demonstrando suas opiniões, não deixando de lado as críticas negativas. Como exemplo, segue o trecho da resenha do livro “A Joia”, postada em 9 de agosto de 2018: Apesar de ter gostado no geral, destaco que, para mim, a autora errou ao introduzir no meio da trama um romance que não caiu bem. Não teve química entre o casal e sinceramente o livro ganharia mais pontos se tivesse apenas mostrando a jornada de Violet sozinha, mas ainda tenho esperanças que a leitura será melhor no próximo volume. Em relação aos comentários, o blog apresenta grandes variações, pois, ao mesmo tempo que existem postagens sem nenhum comentário, existem postagens que possuem muitos comentários. Das 34 resenhas analisadas, apenas 14 possuem comentários, sendo 117 que cinco delas possuem de um a quatro comentários, e as outras nove resenhas possuem de nove a quinze comentários. Os comentários são, na maior parte, de blogueiros, que possuem conta no WordPress e são identificados na plataforma, ou que deixam o link do seu respectivo blog. Existem também alguns comentários de leitores. Entretanto, poucas vezes Iracema responde aos comentários. 6.3.8 Paradise Books O blog Paradise Books46 (FIGURA 15) foi criado em agosto de 2014 por três blogueiras na plataforma Blogger. Posteriormente, uma quarta integrante se juntou a equipe do blog. Três das blogueiras são parentes, sendo duas irmãs e uma prima. A quarta blogueira, a entrevistada Ceci, entrou para a equipe do blog em janeiro de 2015. Ceci conheceu as outras blogueiras em uma página literária no Facebook e passou a ser leitora do Paradise Books, se tornando também amiga das garotas. Por ser muito participativa no blog, Ceci foi convidada para se tornar uma das blogueiras administradoras. O nome do blog foi escolhido como uma referência ao livro Alice no País das Maravilhas. Figura 15 – Página inicial do blog Paradise Books Fonte: Blog Paradise Books, 2018. No menu estão disponíveis as páginas: “Home”, “Resenhas”, “Seriados”, “Livros por Temas”, “Dica da Nik”, “Sorteios”, “Contatos”. Na página “Resenhas” é possível realizar a busca por editora, por data e também pela capa do livro. De forma semelhante, na página “Seriados” é possível fazer a busca de resenhas pelo banner da série. Em “Livros por Temas” são apresentadas resenhas que indicam vários livros de um mesmo assunto, por exemplo, piratas, esportes, caubóis, sereias, etc. O menu lateral do blog encontra-se à esquerda com os seguintes gadgets: perfil com foto das blogueiras, publicidade (propagandas de livrarias), 46 Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2018. 118 selos das seis editoras parceiras, propaganda de um filme em exibição nos cinemas, caixa de pesquisa, posts populares, link do Facebook, tradutor, caixa para cadastro do e-mail e contador de visualizações da página. Destaca-se que os links para as demais redes sociais (Twitter, Instagram, YouTube e Google Plus) encontram-se no canto superior direito do blog. O conteúdo do Paradise Books é predominantemente literário, sendo composto em sua maioria por resenhas de livros e apresentando algumas resenhas de séries de TV e filmes. As resenhas começam com a foto da capa e a ficha técnica do livro, em seguida a autora do texto conta um pouco da história e expressa sua opinião. As blogueiras atribuem de uma a cinco estrelas para cada livro. Alguns trechos dos livros são copiados e destacados em quadros azuis. Em todas as resenhas é postada também uma fotografia do livro tirada pelas blogueiras, sendo notável a dedicação do Paradise Books em relação à produção de fotos autorais, uma vez que as imagens são de alta qualidade e existe toda uma ornamentação de forma a montar um cenário que se relacione ao conteúdo do livro. Ao final das resenhas existe a possibilidade de compartilhamento nas redes sociais e são postadas também algumas tags, que auxiliam na categorização do conteúdo da postagem. A escrita das resenhas é informal, as blogueiras expressam suas opiniões se preocupando sempre em apresentar os pontos fortes e fracos de cada livro, como é possível identificar na resenha de Ceci sobre o livro o “Segredo de Helena”, postada em 26 de julho de 2018: Lucinda criou uma trama envolvente onde você fica a todo momento querendo saber quais são seus segredos mais obscuros, quem é o pai de Alex, qual foi o real significado de seu relacionamento com Alexis em sua adolescência, enquanto eu fui lendo eu fiquei imaginando o que realmente aconteceu com ela para nunca tocar nesses assuntos com ninguém. Eu fiquei um pouco desapontada com os segredos dela, eu durante a leitura já fui deduzindo quais eles eram e quando foram revelados não me causou grande impacto. O Paradise Books recebe poucos comentários em suas postagens. Talvez por esse motivo, ao final de cada postagem é feita uma comunicação direta com os leitores: Hey, gostou da postagem? Então deixe sua opinião/crítica/elogio aqui! O Paradise Books agradece seu comentário, obrigado pela visita! obs.: Não respondemos comentários em anônimo; Não é permitido o uso de palavras ofensivas; Não compartilhamos livros, isso vai contra a política de direitos autorais. De março a agosto, apenas sete posts receberam comentários. Cinco postagens receberam de um a três comentários, as outras duas receberam quatro e seis comentários respectivamente. Em geral, os comentários são feitos por blogueiros, que deixam o link de seus blogs, sendo identificada somente uma leitora do Paradise Books. As quatro blogueiras administradoras geralmente respondem aos comentários. 119 6.3.9 Características dos blogs analisados Após a descrição do perfil de cada um dos oito blogs da amostra, pretendeu-se fazer uma análise de alguns elementos, de forma a identificar as semelhanças e diferenças que auxiliam na caracterização desses blogs. Dessa forma, apresentam-se as análises referentes à frequência das postagens, ao número de comentários nas postagens, à quantidade de seguidores e aos conteúdos presentes nos blogs. A frequência das postagens é apresentada no quadro 7, uma vez que os blogs apresentam diferentes intervalos de tempo na produção de conteúdo. Foi realizado um levantamento do número de postagens de cada um dos blogs em um período de seis meses, compreendendo os meses de março a agosto de 2018. A frequência das postagens pode ser compreendida como um indicativo do tempo de dedicação de cada blogueira ao seu blog, no que diz respeito a produção de conteúdo e a preocupação em mantê-lo sempre atualizado. Quadro 7 – Frequência das postagens Meses Blogs Março Abril Maio Junho Julho Agosto Entrando Numa Fria 31 25 34 22 32 20 Minha Estante e Muito Mais 2 1 0 3 0 1 Marshmallow com Café 11 11 10 12 10 7 DNA Literário 7 7 10 10 11 9 Cultura Pocket 4 5 5 6 9 7 Menina Compassiva 4 1 0 0 1 2 Livros e Sushi 7 7 7 1 9 4 Paradise Books 4 4 4 5 3 4 Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados disponíveis nos respectivos blogs. Evidencia-se que a maioria dos blogs possui uma frequência média de postagem pré- estabelecida pelas blogueiras. Entrando Numa Fria possui uma frequência de postagem praticamente diária. Marshmallow com Café realiza postagens de duas a três vezes por semana. DNA Literário posta em média duas vezes por semana. Livros e Sushi também apresenta postagens duas vezes por semana, com exceção do mês de junho, no qual a blogueira estava viajando, e do mês de agosto, que teve uma postagem por semana. Cultura Pocket posta de uma a duas vezes por semana. Paradise Books realiza postagens uma vez por semana. Já os blogs Minha Estante e Muito Mais e Menina Compassiva não possuem 120 uma frequência de postagens, apresentando intervalos de tempo muito grandes entre um post e outro. Há meses em que esses blogs não postam nenhum conteúdo ou postam uma única vez. Foi realizado também um levantamento do número de comentários nas postagens dos blogs de março a agosto de 2018. No quadro 8 é apresentado o total de comentários mensais dos blogs, advindo da soma dos comentários presentes em cada uma das postagens dos respectivos meses. Quadro 8 – Número de comentários nas postagens Meses Blogs Março Abril Maio Junho Julho Agosto Entrando Numa Fria 77 60 80 4 3 0 Minha Estante e Muito Mais 0 0 0 0 0 0 Marshmallow com Café 88 74 92 67 57 24 DNA Literário 2 4 2 3 6 2 Cultura Pocket 38 78 69 69 104 36 Menina Compassiva 0 0 0 0 2 4 Livros e Sushi 6 29 27 0 35 14 Paradise Books 5 9 2 1 1 0 Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados disponíveis nos respectivos blogs em 31 de agosto de 2018. Ao analisar a quantidade de comentários nas postagens, é evidente que as blogueiras possuem diferentes relações com seus respectivos leitores, sejam eles blogueiros ou não. No caso do blog Entrando Numa Fria, como comentado anteriormente, o número elevado de comentários nos três primeiros meses foi em decorrência do top comentarista, uma premiação para o leitor que deixasse mais comentários no blog. Após a premiação, foi visível a queda no número de comentários. Minha Estante e Muito Mais e Menina Compassiva são os blogs que apresentam os menores números de comentários, sendo também os que possuem frequência irregular de postagens. A ausência de comentários, nesses casos, pode estar relacionada a dificuldade dos leitores em acompanhar blogs que não tenham uma frequência de postagens bem definida. Os blogs DNA Literário e Paradise Books possuem um número pequeno de comentários, com várias postagens que não são comentadas. Já Livros e Sushi possui muitos comentários em algumas postagens específicas como, por exemplo, os 14 comentários do mês de agosto que foram feitos em uma única resenha. Marshmallow com Café e Cultura Pocket são os blogs mais comentados, sendo raridade encontrar nesses blogs postagens sem 121 comentários. Destaca-se que nos blogs Marshmallow com Café, Livros e Sushi e Paradise Books houve uma predominância de comentários escritos por outros blogueiros. Além de apresentarem diferentes frequências de postagens e número de comentários, os blogs também apresentaram proporções variadas no que se refere à quantidade de seguidores. O quadro 9 apresenta o número de seguidores dos blogs e de suas respectivas páginas nas redes sociais. Durante as entrevistas, ao falarem sobre o número de seguidores que possuem no blog, as blogueiras citaram também o número de seguidores que o blog possui nas redes sociais, demonstrando a forte relação dos blogs com essas mídias. Analisar blogs com grandezas diferentes tornou-se muito enriquecedor para a pesquisa, proporcionando avaliar como ocorrem as interações e práticas informacionais em blogs pequenos, médios e grandes. Quadro 9 – Número de seguidores dos blogs Blogs Nº de seguidores no blog Nº de seguidores no Instagram Nº de seguidores no Facebook Nº de seguidores no Twitter Nº de seguidores no YouTube Entrando Numa Fria NI 9.267 10.517 5.281 202 Minha Estante e Muito Mais 32 809 410 NP NP Marshmallow com Café 51 3.082 122 NP NP DNA Literário NI 1.777 1.322 106 340 Cultura Pocket 314 659 426 NP NP Menina Compassiva 102 580 449 28 NP Livros e Sushi 3.881 7.774 2.922 767 NP Paradise Books NI 8.612 7.175 2.223 949 Legenda: NI = Não Informado; NP = Não possui Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados disponíveis nos respectivos blogs, Instagram, Facebook, Twitter e YouTube, referentes ao dia 27 de julho de 2018. Conforme os dados apresentados, observa-se que o número de seguidores dos blogs é bem menor em comparação com o número de seguidores nas redes sociais. Três blogueiras não souberam informar o número de seguidores dos blogs, afirmando que retiram o contador de seguidores da página. O Instagram apresenta-se como a rede social com o maior número de seguidores, com exceção de Entrando Numa Fria, que apresenta maior número de seguidores no Facebook. Percebe-se que mesmo os blogs pequenos possuem maior 122 representatividade no Instagram, como é o caso de Minha Estante e Muito Mais, que no blog possui apenas 32 seguidores e no Instagram possui 809. O número de seguidores no Facebook também é relevante, apesar de, na maioria dos casos, ser menor que o número de seguidores do Instagram. O Twitter apresenta grande número de seguidores somente para Entrando Numa Fria e Paradise Books. Quanto ao YouTube, apenas três blogs possuem um canal literário (booktube). Os canais de DNA Literário e Paradise Books são constituídos de vídeos feitos pelas próprias blogueiras. Já o canal de Entrando Numa Fria possui vídeos autorais, mas também publica vídeos não autorais como trailers de filmes. Entretanto, os canais de Entrando Numa Fria e Paradise Books foram descontinuados, com as últimas postagens feitas, respectivamente, em 2016 e 2017. Quadro 10 - Características dos blogs literários analisados Blogs Características E n tr a n d o N u m a F ri a M in h a E s ta n te e M u it o M a is M a rs h m a ll o w c o m C a fé D N A L it e rá ri o C u lt u ra P o c k e t M e n in a C o m p a s s iv a L iv ro s e S u s h i P a ra d is e B o o k s Blog coletivo X X X X X Publica resenha de livros X X X X X X X X Aborda outros assuntos como filmes e séries X X X X X X X Realiza sorteios X X X X X X X X Tem parceria com editoras X X X X Tem parceria com autores nacionais X X X Produção de fotos autorais X X X X X X X Possui Facebook X X X X X X X X Possui Instagram X X X X X X X X Possui Twitter X X X X X X Possui canal no YouTube X X X Fonte: Elaborado pela autora. Em relação ao conteúdo, conforme apresentado no quadro 10, foram identificados alguns tópicos semelhantes que caracterizam os blogs literários analisados como: a existência blogs coletivos; a publicação de resenhas de livros; a abordagem de assuntos relacionados à literatura, como filmes e séries; a realização de sorteios; as parcerias com editoras e autores; a intensa presença das blogueiras nas redes sociais. 123 Por meio desse quadro foi possível identificar quatro características comuns a todos os blogs analisados: a publicação de resenhas de livros, a realização de sorteios, o perfil no Instagram e a página no Facebook. Dos oito blogs analisados, cinco são coletivos, o que pode demonstrar uma relação de parceria entre os blogueiros e também uma dificuldade em manter atualizado um blog literário de forma individual. A maioria dos blogs também posta resenhas de filmes e séries, de forma que apenas Minha Estante e Muito Mais apresenta-se como exclusivamente literário. A presença das parcerias também é marcante, sendo que quatro blogs possuem parcerias com editoras e cinco com autores nacionais. O blog Menina Compassiva é o único que não possui nenhum tipo de parceria. A produção de fotos autorais dos livros está presente em todos os blogs, com exceção do Entrando Numa Fria. A relação dos blogs com as redes sociais apresenta-se intensa, uma vez que todos os blogs possuem no mínimo dois perfis em redes sociais, e três blogs estão presentes em quatro redes sociais. Após o fim da interpretação dos dados obtidos por meio da análise documental, a próxima seção apresenta a discussão dos dados advindos das entrevistas. 6.4 Categorias de análise Para analisar os dados obtidos nas entrevistas, realizou-se a análise de conteúdo das falas das entrevistadas. De acordo com Franco (2005), a análise de conteúdo é utilizada para produzir inferências acerca de dados verbais ou simbólicos, coletados por meio de perguntas e observações feitas pelo pesquisador. Segundo a autora, o ponto de partida da análise de conteúdo é a mensagem emitida, vinculada às condições contextuais de seus produtores, pois as expressões verbais estão permeadas de componentes cognitivos, afetivos, valorativos, históricos e ideológicos. “É, portando, com base no conteúdo manifesto e explícito que se inicia o processo de análise” (FRANCO, 2005, p. 24). Para a autora, a produção de inferências é essencial na análise de conteúdo, uma vez que a ação puramente descritiva é de pequeno valor. As inferências permitem a criação de relações entre os dados, assim toda análise de conteúdo implica em comparações, inclusive com abordagens teóricas. Diríamos que produzir inferências em análise de conteúdo tem um significado bastante explícito e pressupõe a comparação de dados, obtidos mediante discursos e símbolos, com os pressupostos teóricos de diferentes concepções de mundo, de indivíduo e de sociedade. Situação concreta que se expressa a partir das condições da práxis de seus produtores e receptores acrescida do momento histórico/social da produção e/ou recepção (FRANCO, 2005, p. 28). Em relação à criação de categorias, Franco (2005) considera que formular categorias é o ponto crucial da análise de conteúdo, sendo um processo longo, difícil e desafiante, que implica em constantes idas e vindas entre teoria e material de análise. “A categorização é uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação 124 seguida de reagrupamento baseado em analogias, a partir de critérios definidos (FRANCO, 2005, p. 57). A referida autora considera que a criação de categorias de análise exige esforço do pesquisador, que não possui “fórmulas mágicas” que possam orientá-lo, não sendo aconselhável que esse estabeleça passos apressados ou muito rígidos. “Em geral, o pesquisador segue seu próprio caminho baseado em seus conhecimentos e guiado por sua competência, sensibilidade e intuição” (FRANCO, 2005, p. 58). Nessa pesquisa, as categorias foram criadas a posteriori, ou seja, emergiram após a análise dos dados das entrevistas. De acordo com Franco (2005), as categorias não definidas a priori emergem da fala, do discurso, do conteúdo das respostas. As categorias devem ser criadas conforme surgem nas respostas, para depois serem classificadas quanto às convergências e divergências, deixando sempre espaço aberto para novas categorias. “As primeiras, quase sempre aproximativas, acabam sendo lapidadas e enriquecidas para dar origem à versão final, mais completa e satisfatória” (FRANCO, 2005, p. 58). Dessa forma, as transcrições das entrevistas foram analisadas pela pesquisadora, que realizou a categorização das falas das entrevistadas. O processo resultou na criação de quatro grandes categorias, com 18 subcategorias, conforme apresentado no quadro 11. Quadro 11 - Categorias de análise (continua) Categorias Subcategorias Descrição 6.4.1 Leitura 6.4.1.1 Interesse inicial pela leitura Pessoas, instituições e contextos que influenciaram a formação das blogueiras como leitoras. 6.4.1.2 Frequência de leitura Tempo destinado à leitura literária, caracterizando as blogueiras como leitoras assíduas. 6.4.1.3 Suportes de leitura A leitura literária em ebooks e livros impressos. 6.4.1.4 Necessidade de compartilhar leituras Compartilhamento de leituras como fruto da necessidade de conversar sobre os livros lidos. 6.4.1.5 Busca de informações sobre livros Busca de informações antes e/ou depois da leitura. O encontro ocasional e a fuga dos spoilers. 6.4.1.6 Apropriação da leitura A apropriação da leitura como as diversas associações do texto literário ao contexto individual de cada leitora. 125 Quadro 11 - Categorias de análise (conclusão) Fonte: Elaborado pela autora. As próximas seções serão destinadas a apresentação do conteúdo de cada uma das categorias com suas respectivas subcategorias, nas quais analisou-se o discurso das entrevistadas à luz de abordagens teóricas. Categorias Subcategorias Descrição 6.4.2 Identidade 6.4.2.1 Motivações As principais motivações de cada blogueira para adentrar na blogosfera literária e para postar no blog. 6.4.2.2 Representações do blog As diversas formas como os blogs são concebidos pelas blogueiras: hobby, trabalho, forma de visibilidade, filho. 6.4.2.3 Mudanças após o blog As contribuições do blog na vida das blogueiras: amizades e sociabilidade; autoconfiança e reconhecimento. 6.4.3 Ações de informação 6.4.3.1 Produção de conteúdo Compreensão das blogueiras sobre sua atuação como produtoras de conteúdo. 6.4.3.2 Escrita de resenhas Produção de resenhas críticas nos blogs, a importância da informação textual e a relação das blogueiras com a escrita. 6.4.3.3 Sorteios e lançamentos Outros conteúdos postados nos blogs: os lançamentos editoriais e os sorteios de livros. 6.4.3.4 Produção de fotos A forte tendência da produção de fotografias autorais nos blogs, uma forma de veicular informações sobre os livros lidos por meio das imagens. 6.4.3.5 Atualização A importância da atualização do blog como forma de manter os leitores. 6.4.3.6Transmídia A presença das blogueiras nas mídias Instagram, Facebook, Twitter e YouTube. 6.4.4 Interação 6.4.4.1 Leitores A importância dos seguidores, a relevância e a ausência de comentários. A discussão sobre a relação dos blogs literários com o incentivo à leitura. 6.4.4.2 Blogueiros A interação entre blogueiros: a leitura de outros blogs, a formação de webrings, os eventos literários, os sentimentos de amizade e competição. 6.4.4.3 Mercado editorial As parcerias firmadas pelos blogueiros com editoras e autores nacionais. 126 6.4.1 Leitura Na categoria leitura são apresentadas as práticas informacionais das entrevistadas no papel de leitoras de literatura, uma vez que, antes de atuarem como blogueiras, elas realizam leituras de livros. Identificou-se que a leitura literária ocupa um lugar de destaque na vida dessas blogueiras, que relataram sua paixão pelos livros. A seguir são apresentadas as seguintes subcategorias: interesse inicial pela leitura, frequência de leitura, apropriação da leitura, suportes de leitura, necessidade de compartilhar leituras e a busca de informações sobre livros. 6.4.1.1 Interesse inicial pela leitura Para conhecer as práticas informacionais das blogueiras no papel de leitoras, considera-se importante compreender a historicidade da prática da leitura literária, ou seja, como elas tornaram-se de fato leitoras. Retomando Savolainen (1995), considera-se que a relação dos sujeitos com a informação é permeada por fatores sociais, culturais, individuais e temporais. Nesse sentido, evidencia-se o fato de que as entrevistadas não tornaram-se leitoras de forma arbitrária, mas tiveram uma trajetória histórica permeada de elementos influenciadores em determinado contexto que, juntamente às suas preferências individuais, culminaram na prática da leitura assídua. Ao serem perguntadas sobre quando surgiu o interesse pela leitura, as blogueiras descreveram os seus respectivos processos de formação como leitoras. É perceptível que esses processos foram permeados por diferentes pessoas e instituições que incentivaram a leitura, como a família, a escola e os amigos. Em alguns relatos, as bibliotecas, tanto a escolar como a pública, apareceram como instituições utilizadas pelas entrevistadas para o empréstimo de livros. Além disso, a leitura de massa apresentou-se como grande propulsora de leitura entre quatro das oito blogueiras. Não é por acaso que a família, a escola e os amigos emergiram nas falas das blogueiras ao relatarem seu interesse inicial pela leitura. Retomando Petit (2009) e a revisão de literatura realizada, o gosto pela leitura não surge por meio do simples contato material com os livros, pois para que uma pessoa possa apropriar-se efetivamente de um texto é necessário que ela tenha tido contato com alguém para quem os livros são próximos. Da mesma forma, Yunes (1995) considera que o processo de iniciação à leitura é envolvido por uma relação afetiva, que imprime contornos duradouros à experiência de ler. Na pesquisa Retratos da Leitura do Brasil 4 (FAILLA, 2016), o mediador emerge como figura de destaque na formação dos leitores, sendo citados a família e os professores como os principais fomentadores da leitura. Na referida pesquisa, a mãe surge como a principal 127 influenciadora no gosto pela leitura, principalmente na primeira infância. Destaca-se que a figura da mãe é preponderante, principalmente se comparada à figura do pai ou de outros parentes. O incentivo da família pode ser percebido com maior ênfase no discurso de algumas blogueiras, que foram incentivadas à leitura desde crianças. Nos relatos, ao serem perguntadas sobre como se interessaram pela leitura, duas blogueiras logo se recordaram de suas mães. MACABÉA: Minha mãe, ela é cristã, evangélica, então ela sempre leu pra gente histórias da bíblia. Então, desde pequenininha, minha mãe sempre gostou de pegar assim histórias e ela meio que transformava aquilo ali num conto, numa historinha pra poder contar pra gente, tipo a travessia do mar vermelho e tal, e parecia tão fantasioso que era quase que... Pra mim a bíblia não tem aquela conotação de algo muito místico né, muito sagrado, pra mim é como se eu tivesse lendo as histórias dos personagens que a minha mãe me contava. Uma outra blogueira conta que era obrigada pela mãe a pegar livros na biblioteca da escola, ler e fazer resenhas. A mãe julgava se a resenha estava condizente com a história do livro ou não, para saber se a filha realmente tinha feito a leitura. A rigidez da mãe nesse quesito era justificada pela preocupação em manter as filhas em segurança dentro de casa, pois enquanto elas estivessem lendo, não estariam na rua. A blogueira relata que o fato de a mãe trabalhar fez com que ela tivesse mais autonomia e responsabilidade, ao mesmo tempo em que ler a transportava para outros lugares. Talvez por isso, ela compreendeu o incentivo, mesmo que feito de maneira obrigatória, como um ato positivo que efetivamente a aproximou dos livros. LUCÍOLA: Então, minha mãe. Apesar de hoje ela achar que é muito vício da minha parte, ela que me incentivou. Ela era... Eu devia ter uns nove, dez anos, era obrigação pegar um livro na biblioteca. E a minha mãe, não sei que macumba, ela lia a primeira página e a última página, ela sabia de toda a história e queria resenha no final da semana. Ou seja, tinha que ler o livro durante a semana e falar com ela sobre o que se tratava a história. E ela julgava se a história era convincente ou não. [...] A minha mãe sempre trabalhou fora, sempre, sempre, sempre [...]. Eu passei a ter autonomia, passei a ter responsabilidades muito cedo. E a literatura é aquilo, ela faz com que você fique num lugar mas, ao mesmo tempo, te leva pra outros né. Então assim, Menino Maluquinho, Turma da Mônica... Por incrível que pareça, eu amo livro clássico, Lucíola, amo Machado de Assis, Aluízio de Azevedo, José de Alencar é meu preferido... E eram livros que eu sempre li. Então assim, é... Sempre tinha um livro, mesmo que, mesmo pequeno assim. A minha mãe sempre fazia a gente ler, porque... porque a gente tava lendo a gente tava dentro de casa e não na rua. Então assim, era a forma dela manter a gente em casa enquanto ela tava trabalhando. Houve também um outro caso de formação da entrevistada como leitora devido à forte influência da família, que ocorreu através da irmã mais velha. Por ser 25 anos mais velha, essa irmã também pode se enquadrar no papel de uma figura materna, que acompanhou a blogueira desde a infância, presenteando-a com livros e levando-a à biblioteca. GABRIELA: Então, é desde pequena a minha irmã me influenciou muito pra ler, ela é bem mais velha que eu, ela é 25 anos mais velha que eu, então ela teve muita influência sobre mim enquanto eu estava pequena. Eu aprendi a 128 ler, ela que me levou na biblioteca pra fazer minha conta, ela me deu um box com clássicos, adaptados né pra criança, então tinha O Mágico de Oz, tinha O Patinho feio, essas coisas. Uma das blogueiras afirma não saber exatamente como se interessou pela leitura, mas lembra que começou a gostar de livros na quinta série. Ela se lembra de ter lido a série Os Karas do autor Pedro Bandeira, uma coleção de livros de literatura infanto-juvenil amplamente divulgada no Brasil. Com o tempo, parou de ler. Só retomou a leitura por influência de uma amiga, uma blogueira literária. IRACEMA: Nem sei quando eu comecei a ler, pra falar a verdade... Mas eu lembro de uma série que que me marcou muito que foi aquele Os Karas do Pedro Bandeira, o que eu mais lembro é que eu comecei... Aí teve um tempo que eu parei de ler. Aí uma amiga minha me falou que ela tinha um blog e tal, eu falei ‘Ah que legal, acho que eu vou começar a ler também né’. Aí a gente... Eu até comecei a trabalhar pra ela no blog, e nisso eu comecei a ler, e foi assim natural e meio instintivo sabe. A escola foi lembrada por algumas entrevistadas como uma instituição que colaborou para que elas se tornassem leitoras. A figura da professora como promotora de leitura aparece no depoimento de uma das blogueiras. CAPITU: Eu tinha mais ou menos uns 12 anos e eles sempre incentivam a leitura assim na escola, escola pública, tipo toda sexta-feira a gente tinha que pegar um livro e ler. E aí eu comecei a engajar um pouco assim na leitura [...]. GABRIELA: [...] E a escola também ela incentivava muito, sempre tinha alguma coisa relacionada à leitura. MACABÉA: Então eu aprendi a ler, quando eu entrei na escola, primeiro ano lá da escola, eu já sabia ler. Já tava muito adiantada. E por eu estar muito adiantada, eu acabava lendo muito mais do que as outras crianças né. A professora acabava que, enquanto ela tava alfabetizando os outros alunos, ela me dava outra coisa pra eu fazer. E essa outra coisa acabava sendo um livrinho pra eu ver e tal. Em alguns casos, a leitura literária promovida pela escola foi lembrada negativamente. Nesses relatos, a escola apareceu como uma instituição que desmotivou a leitura, pois o incentivo ocorria na forma de leituras obrigatórias. ANA TERRA: Meu contato com a leitura era coisa obrigatória do colégio, sabe. O professor passou o livro tal, você tem que ler pra fazer trabalho. Eu lia obrigada, detestava, porque ninguém merece ler coisa obrigada. E nem sempre era de um gênero que me interessava. EMÍLIA: [...] Porque eu lia? Lia. Só que na época da escola eu parei de ler, porque eu peguei aqueles livros pesados de ensino médio e parei. A biblioteca escolar foi recordada por algumas blogueiras como uma instituição da qual elas eram usuárias, realizando empréstimos de livros, uma vez que elas não tinham livros em casa. Entretanto, é perceptível que não há menção de bibliotecários ou outros profissionais atuantes na biblioteca, nem de projetos de promoção da leitura existentes no local, sendo o único serviço oferecido o empréstimo domiciliar de livros. 129 PESQUISADORA: Essa biblioteca que sua mãe falava pra você pegar livro era da escola? LUCÍOLA: Escola, escola. Acho que eu li uns 40%. Dos meu nove aos meus quatorze anos. PESQUISADORA: Do que tinha na biblioteca da escola? LUCÍOLA: Sim. E eram livros antigos né, então assim era o que eu tô te falando, clássicos... É... Encarnação do José de Alencar, A Moreninha, esses livros assim... Todos eu li, hoje em dia eu tô relendo porque é uma outra visão né. Porque antigamente eu li com dicionário pra entender o que tava escrito, hoje em dia é mais aquela percepção... MACABÉA: E tive muito livro na escola porque em casa, como meus pais não tinham condições financeiras de ter livros em casa, eu quase não tinha livro. Mas eu lia muito livro da escola, da biblioteca da escola. Desde pequena assim, comecei lá lendo os pequenos clássicos que a gente vê aí dos Irmãos Green, as várias adaptações que tem, depois fui ler Vaga-Lume, fui ler romance de banca e... Foi a vida toda, sempre foi algo que eu adoro. O uso da biblioteca escolar foi evidenciado por uma das blogueiras, entretanto ela ressalta as falhas da instituição, como a escassez de exemplares que causava longas filas de espera para empréstimo de livros. ANA TERRA: [...] eu sempre ia na biblioteca atrás de alguma coisa. Lá na escola tinha um volume de Crônicas de Nárnia, eu nunca consegui pegar, eu sempre ficava na fila de espera, nunca eu chegava, nunca chegou a minha vez. Por fim eu tive que comprar o livro pra conseguir ler. Mas aí eu não parei mais. PESQUISADORA: Você usava a biblioteca da escola então? ANA TERRA: Sim, eu estudei em escola estadual. A biblioteca pública foi citada somente por uma das entrevistadas, residente na cidade de Ribeirão das Neves. Ela lembra com afeto das facilidades de ter uma biblioteca próxima a sua casa. PESQUISADORA: Essa biblioteca que você citou é a Biblioteca Pública de Ribeirão das Neves? GABRIELA: Biblioteca Pública de Neves. Antes ela ficava aqui na praça né, quando eu tava pequena, a primeira vez que eu fui. E aí teve uma época, quando eu morava lá embaixo, ela mudou lá pra perto, então era só eu subir a rua que eu tava na biblioteca. Acho que foi a melhor época pra mim, porque era bem rápido. Aí eu subia, pegava livro. Depois descia, lia tudo. Depois voltava lá, era bem mais fácil. Curiosamente, metade das blogueiras relatou que o seu interesse inicial pela leitura surgiu devido ao lançamento de um romance best-seller: o livro Crepúsculo. Dumont (2000a, p. 166) define a literatura de massa como “os livros de ficção, tipo best-sellers e os de bolso, normalmente vendidos em bancas de revistas”. De acordo com Dumont (2000b, p. 12), a literatura de massa é considerada um contraponto à literatura erudita, consagrada, acadêmica ou até mesmo clássica, possuindo várias designações como “literatura popular, marginal, paraliteratura, subliteratura, contraliteratura, antiliteratura, literatura underground”. Segundo a referida autora, a análise da literatura de massa oscila entre a crítica severa e uma relativização de seus efeitos. Em geral, as críticas a essa literatura baseiam-se nos seguintes argumentos: é considerada como um instrumento de dominação que homogeneíza os gostos, inibindo o questionamento e a criatividade; transmite o discurso da classe dominante, 130 induzindo o leitor a nele acreditar; funciona como catarse, fuga, escapismo ou evasão provocando a alienação (DUMONT, 2000a, p. 168). Em oposição, Dumont (2000a) apresenta alguns elementos que relativizam os efeitos provocados da leitura de massa, afirmando que toda leitura acrescenta algo à bagagem de conhecimentos do leitor, de acordo com sua vivência. Os meios de comunicação em massa podem ser considerados instrumentos da democracia, podendo veicular valores das classes subalternas. Além disso, podem ajudar na solução de problemas metafísicos, e, por serem produtos mais baratos e acessíveis, podem promover a cultura e a instrução, proporcionando também lazer e descontração para grande parte da população. O fato de metade das blogueiras terem se tornado leitoras devido a um mesmo livro, demonstra a capacidade da literatura de massa em marcar toda uma geração. A saga Crepúsculo trata-se de uma série de livros de fantasia constituída de quatro volumes, que conta a história de uma adolescente que se apaixona por um vampiro. De acordo com o site oficial47, o primeiro volume intitulado Crepúsculo teve sua primeira publicação em 2005 e figurou como best-seller número um do The New York Times e do USA Today. A saga vendeu 155 milhões de cópias em todo o mundo. Em 2008, Crepúsculo foi adaptado para o cinema e o outros volumes da série também viraram filmes nos anos seguintes. No relato abaixo, a blogueira conta como o livro estimulou o seu gosto pela leitura: CAPITU: [...] só que desengatou [a leitura] mesmo quando eu conheci Crepúsculo. E aí eu li o primeiro livro e o segundo, e aí me apaixonei, li o resto e aí continuei, aí fui lendo tudo que aparecia. Eu gosto bastante de romance também, é o segundo gênero preferido. E aí foi com Crepúsculo. PESQUISADORA: Qual idade que você tinha? CAPITU: Uns 12, 13 anos. Em outro caso, Crepúsculo foi recomendado por uma amiga, que julgou a importância do livro ao afirmar que ele seria adaptado para o cinema. O interesse da entrevistada pelo livro resultou na leitura de outro best-seller, a série Percy Jackson. CECI: [...] uma amiga falou ‘Tá lançando Crepúsculo, vão fazer um filme’. Aí comecei com Crepúsculo, então assim minha iniciação no mundo literário foi Crepúsculo. Aí depois Percy Jackson e foi indo, foi indo, foi indo... E agora eu tenho mais de 600 livros em casa, não parei mais. No caso de Ana Terra, o interesse pelo livro Crepúsculo surgiu da necessidade de ocupar um lugar social, espelhando-se em uma colega vista como a líder da turma. Ela relata que Crepúsculo “explodiu”, referindo-se ao fenômeno literário e cinematográfico. A entrevistada assistiu ao filme, uma vez que “todo mundo assistia” e se interessou pelo livro. Em seu depoimento, é notório como a família, no caso os pais, mesmo não sendo leitores, investiram na aquisição do livro para a filha, como forma de incentivá-la a ler. ANA TERRA: Aí quando eu tava na sétima série, Crepúsculo explodiu, todo mundo assistia Crepúsculo, todo mundo lia Crepúsculo. Aí eu falei ‘Ué vamos 47 Disponível em: . Acesso em 21 set. 2018. 131 ver esse negócio’. Aí eu vi o filme, gostei. E tinha as meninas da minha sala, que era bem parecido com a Regina George do Meninas Malvadas, tem a menininha que é a chefe e aí todo mundo queria ser igual ela, aí tinha uma moça assim e ela lia Crepúsculo. Eu falei ‘Vou ler esse negócio também’. Aí eu li Crepúsculo, eu demorei bastante pra ler. Minha mãe comprou o livro pra mim de presente, porque eu cheguei em casa pedindo e ela nunca tinha visto eu pedir um livro, ela falou ‘Vou comprar né, vamos apoiar esse negócio’. E eu achei interessante porque os meus pais não têm muito costume de leitura, mas eles queriam que eu e minha irmã lêssemos [...]. Aí ela me deu o livro de presente, eu li Crepúsculo, demorou bastante. Mas, assim que eu terminei de ler Crepúsculo, eu li Lua Nova, li Eclipse, na época ainda não tinha lançado Amanhecer. É, eu li os dois em um mês, pra quem não tinha hábito de leitura foi bastante rápido. E aí eu não parei [...]. Após um período tumultuado na faculdade, uma das entrevistadas teve o seu interesse pela leitura renovado ao ler o livro Crepúsculo, uma vez que só realizava leituras acadêmicas. A blogueira foi incentivada a ler o livro depois de assistir a sua adaptação para o cinema. EMÍLIA: E aí eu assisti Crepúsculo na TV e isso me puxou de novo pra literatura. [...] Na faculdade eu tava lendo só livro de direito, livro de literatura não tava lendo nada. Aí quando eu acabei esse período e assisti Crepúsculo, eu fui procurar o livro. Li, fiquei apaixonada. Aí comecei a procurar alguma outra coisa que me apaixonasse, fui pro romance de banca. Depois do romance de banca fui procurar... Aí acabei caindo no romance, foi aí que o romance entrou, que eu lia tudo de romance. E aí foi nesse período meu de maluquice que eu voltei a me apaixonar pela literatura. No relato das blogueiras sobre sua formação como leitoras emergiu a figura de mediadoras de leitura – a mãe, a irmã, a amiga, a professora. Curiosamente, todas as fomentadoras de leitura citadas são figuras femininas. Também foram lembradas as instituições que contribuíram para que as leitoras tivessem acesso aos livros, como a biblioteca escolar e a pública. Em alguns casos, a obrigatoriedade da leitura promovida pela escola foi lembrada negativamente. Um fato surpreendente foi o potencial da literatura de massa no incentivo à leitura, uma vez que metade das blogueiras se tornou leitora devido ao mesmo livro. 6.4.1.2 Frequência de leitura A frequência de leitura pode ser compreendida como uma ação que demonstra o gosto pela leitura e sua incorporação no cotidiano das leitoras, uma vez que a procura frequente por livros e as leituras realizadas promovem um contato contínuo com a literatura, que resulta na apropriação de informações. Dessa forma, o período de tempo destinado à leitura literária auxilia na caracterização das blogueiras como leitoras assíduas. É necessário enfatizar que, ao analisar a frequência de leitura, o mais importante não é a quantidade de livros lidos, mas o contato frequente das blogueiras com a prática da leitura. É evidente que algumas entrevistadas tentam estabelecer frequências de leitura, apesar do esforço, elas relatam que nem sempre é possível cumprir a meta. A falta de tempo 132 devido à faculdade foi a justificativa de uma das blogueiras para a redução da sua frequência de leitura. No caso das blogueiras que são universitárias, elas consideram que sua frequência de leitura aumenta nos períodos de férias da faculdade. ANA TERRA: Eu tento manter um livro por semana, tem semana que dá, tem semana que não dá. Tem semana que eu consigo ler mais, tem semana que eu leio um livro e meio, às vezes até dois. Vai depender muito de como tá a minha situação na faculdade, de quanto tempo eu consigo separar pra ler. Geralmente eu venho pra faculdade lendo e volto lendo, e se eu tenho algum intervalo. Nas férias isso aumenta porque eu tenho muito menos coisa pra fazer. Então é uma frequência meio bagunçada. GABRIELA: Ó, por mês eu tento manter uma média de quatro livros, eu tento ler um livro por semana. Porque... Pelo blog mesmo, porque eu sempre gravo aquelas leituras do mês, então acho que ter um livro por semana assim é a minha meta. Porém, quando chega férias eu consigo ler mais, porque eu tô em casa, não tem faculdade, aí geralmente sobe pra seis, sete livros por mês. CAPITU: Atualmente é bem complicado, porque eu não tenho tempo, de verdade. Mas eu consigo ler melhor assim em férias, por exemplo, eu entrei em férias tem uma semana, então tô resolvendo problemas e depois eu começo com a leitura de novo. Mas no período de faculdade é bem complicado. Mas eu já cheguei numa meta assim de leitura muito boa, de conseguir ler tipo 30 livros no ano, eu acho isso muito bom. Só que isso é numa época assim, alguns anos atrás. Quando eu tinha mais tempo né... Mas eu pretendo voltar, como eu tô no último período, eu espero conseguir ler mais ano que vem. Mesmo com muitas tarefas no trabalho, uma das blogueiras consegue manter uma frequência de leitura bem alta, lendo dois livros por semana. Apesar disso, ela se cobra para ler mais livros. EMÍLIA: Ó, eu não tô numa época boa agora porque eu tô bem agarrada no trabalho então eu tô lendo uma média de dois por semana [...]. Pois é, numa época boa minha é tipo quatro por semana. Isso é uma época excelente. Excelente mesmo. Mas eu não tô numa época boa. Tanto que a minha meta esse ano era 100. Eu acho que eu não vou conseguir essa meta de 100 livros. Pra mim é uma meta muito ruim essa meta que eu tenho de 100 livros é muito ruim. Outra blogueira consegue mensurar suas leituras por semana ou por mês, afirmando que lê sempre que possível. A entrevistada relata a dificuldade em conciliar trabalho, família e suas leituras, restringindo seu tempo de leitura a pequenos intervalos, como seus horários de almoço, durante a o trajeto de ônibus ou enquanto seu filho está brincando. LUCÍOLA: Menina, sempre que eu não tô fazendo... Tipo assim, sempre que eu não tenho algo que eu precise me concentrar. É... Ônibus, fila, às vezes meu filho tá andando de bicicleta, eu sento ali no meio fio, ele tá andando de um lado pro outro, de vez em quando eu só levanto a cabeça pra ver se não tá vindo carro alguma coisa... Mas assim, sempre que eu posso, eu tô lendo [...]. Ou então às vezes questão de tempo também, porque como trabalha fora, tem filho, tem família, tem o Bruno meu namorado, então assim às vezes... Por exemplo, quando eu não tava trabalhando, em dezembro do ano passado, eu li 23 livros então tinha resenha no blog até junho de tudo que eu li em um mês. Mas, por exemplo, mês passado eu li um livro só [...]. Hoje em dia eu trabalho de oito às seis, aí chega em casa tem que dar conta de para casa de menino, tem que dar conta de... sabe. Aí eu tenho meia hora pra ler de manhã, de manhã não, no horário do almoço. Eu almoço e tenho meia 133 hora pra ler. Então, às vezes eu demoro tipo um mês pra ler um livro de 200, 300 páginas. Algumas blogueiras afirmaram que a frequência de leitura depende muito do livro em si, do gênero e da quantidade de páginas. Além disso, a frequência de leitura é afetada pelo humor e pela fase da vida em que se encontram. Como exemplo, uma entrevistada afirma ter passado pela “crise dos 30 anos”, diminuindo seu ritmo de leitura. IRACEMA: Então eu tava com uma média de oito a dez por mês, mas depende sabe... Depende do livro também. [...] Depende muito do livro pra gente saber se tem aquela... Pra gente ler rápido ou não. Mas é o que? Dois a três por semana, depende. Mas depende, teve uma época que eu lia tipo cinco por mês. Depende da época da vida também né. Coloca oito aí por mês. CECI: Ah, eu tive a minha crise dos 30, depois eu dei uma diminuída no ritmo de leitura, mas eu consigo ler mais de três livros por mês. Assim, depende, tem mês que eu posso tá super empolgada e ler 10 livros e tem mês que nem agora eu tô super garrada com um livro que eu recebi, o livro é 1.200 páginas, então ele fica um pouco mais garrado comigo. Mas vai depender de como eu tô, como tá meu humor no mês. Dependendo até do gênero, porque às vezes tem alguns livros que eles são lentos, então até você entrar no ritmo, essa leitura fica um pouco mais arrastada, mas tem livros que você lê numa tarde. Conforme relatado pelas entrevistadas, é perceptível que a frequência de leitura é variável, uma vez que a maioria das blogueiras relativiza a quantidade de livros que lê em um determinado período de tempo. É evidente que o contato dessas leitoras com os livros é constante, de forma que a leitura foi incorporada no seu cotidiano. Constata-se que existe nos discursos das blogueiras a recordação de um passado no qual elas liam mais ou o destaque para uma época específica do ano em que leem mais livros. Essas falas demonstram um desejo das blogueiras de afirmar que seu desempenho como leitoras pode ser melhor do que relatam no momento, como se quisessem afirmar que conseguem ser leitoras “melhores” do que são agora. 6.4.1.3 Suportes de leitura A subcategoria que aborda os suportes de leitura surgiu de maneira inesperada, uma vez que não havia nenhuma pergunta no roteiro da entrevista semiestruturada relacionada a leitura de livros eletrônicos e/ou impressos. Somente uma das blogueiras não se posicionou quanto a essa temática. Verificou-se que as entrevistadas fazem uso dos livros eletrônicos por meio de leitores digitais, como o Kindle ou Kobo, ou até mesmo pelo celular. Entre os principais motivos para leitura de ebooks, elas citam a facilidade e rapidez de leitura do livro digital e até mesmo a preservação do livro impresso. Contudo, o principal motivo para leitura de ebooks, presente na fala da maioria das blogueiras, foi o peso do livro impresso e sua dificuldade para transporte. Nesse sentido, Chartier (2009) considera que o leitor do texto eletrônico é mais 134 livre, pois tem uma relação não corporal com o texto, não sendo necessário que o leitor segure um livro com as mãos e vire as suas páginas. Algumas blogueiras alegaram possuir tanto o livro eletrônico como o livro físico, tendo o costume de alternar entre os dois suportes. Carrenho (2016) afirma que os ebooks atraem primeiramente aqueles que já são leitores, pois são eles os mais dispostos a mudar seus hábitos de leitura, sendo mais curiosos em relação aos novos suportes e mais interessados em investir em um aparelho de leitura. “[...] o leitor de livros digitais é o leitor assíduo que tem passado a realizar suas leituras também no formato digital” (CARRENHO, 2016, p. 106). Na figura 16, é possível visualizar o mesmo livro no formato impresso e em ebook, a fotografia foi postada pelas blogueiras do Marshmallow com Café. Figura 16 – Livro Outlander nos suportes eletrônico e impresso Fonte: Perfil do Instagram do blog Marshmallow com Café, 2018. 48 Em alguns relatos, as blogueiras narram a facilidade de ler livros eletrônicos quando se está fora de casa, uma vez que os leitores digitais e celulares são mais leves que o livro físico, além de que o transporte de um livro de papel pode danificá-lo. Já uma das blogueiras considera que as ruas de Belo Horizonte são perigosas para se usar o leitor digital ou celular, preferindo carregar o livro impresso ao sair de casa e ler ebooks em outras ocasiões. EMÍLIA: [...] eu sempre tenho o livro físico e o livro em ebook, porque quando eu tô na rua eu não vou ler um livro físico, até eu pegar ele na bolsa, abrir, achar a página que eu tava lendo, já perdi muito tempo. Quando você lê no celular, você lê muito mais rápido. É uma coisa que eu já aprendi, que eu tipo 48 Disponível em: . Acesso em: 19 set. 2018. 135 coloco na minha vida, tenha o livro físico e o ebook, porque o ebook você consegue ler muito mais rápido. IRACEMA: Inclusive, costumo ter o físico e o ebook, porque as vezes eu tô no celular aí eu vou ler sabe... Eu cuido muito dos livros, às vezes até pra não estragar o livro eu falo ‘Ah não vou levar ele pra rua não’, daí eu leio... Leio muito, muito. Eu tenho muito livro, tem vez que eu fico pensando nossa era melhor ter tudo em ebook sabe porque menos espaço e tal. Mas ao mesmo tempo, eu gosto de ter o livro, então eu fico nesse conflito aí eterno. LUCÍOLA: Tanto que eu sempre leio mais de um livro, é sempre um livro físico, porque as nossas ruas não estão seguras assim, e um livro digital, sempre. Então livro e Kindle tão sempre na bolsa, sempre na mochila, sempre do lado do travesseiro assim, isso aí é sempre [...]. Por exemplo, livros já publicados ou livros de autores que são parceiros do blog, eu leio sempre no Kindle. Mas, por exemplo, eu leio da plataforma Whattpad, aí eu leio no celular. É... e livro físico também. Livros muito grossos eu tento sempre, tipo assim Stephen King, Game of Thrones, eu sempre tento manter nas duas plataformas, porque às vezes você quer ler na rua, aí você tá com o físico, às vezes o livro é muito grande e você tá com uma bolsa muito pequena, então o Kindle cabe em qualquer lugar, então assim sempre tem... Outra entrevistada também costuma ter livros nos dois suportes, mas define sua preferência pelo livro eletrônico, defendendo a praticidade de poder levar vários livros consigo sem precisar carregar peso. Ela possui livros físicos porque se considera uma consumista, gostando de colecioná-los. CECI: Eu leio muito ebook. Hoje em dia eu prefiro ler no Kindle do que ler no papel. Mas eu sou uma consumista então eu tenho o ebook, mas eu tenho o livro de papel. De papel não, publicado né, impresso. Eu tenho o livro impresso e tenho o livro digital, o ebook. Eu prefiro, como eu falei, já prefiro ler, é muito mais prático, mais leve, se eu não tô gostando eu mudo pra outro ebook... Se eu tô carregando um livro comigo, eu tenho só aquele, só aquele que eu vou poder ler. Eu apoio, só acho muito caro ainda, os livros digitais aqui no Brasil acho um pouco caro... As blogueiras Ana Terra e Gabriela tinham um preconceito inicial com o ebook, que foi desconstruído após o reconhecimento das facilidades da leitura do livro eletrônico. As duas contam situações em que abandonaram livros impressos para ler a obra no formato digital, por serem livros muito grandes e pesados ou uma edição antiga com cheiro de mofo. Esses relatos exemplificam a praticidade de ler livros eletrônicos no dia-a-dia das blogueiras. ANA TERRA: Eu tinha muito aquela imagem de que livro se não for de papel não presta. Só que aí, por exemplo, eu peguei pra ler Outlander, aquele livro é enorme! Eu tinha o Viajante do Tempo, só que eu leio no ônibus, trazer aquilo todo dia é muito pesado. E eu queria ler, mas pesava. E você ler um livro grande não é confortável, não dá pra você ler de qualquer jeito. Eu acho que eu consigo ler de qualquer jeito porque eu tenho o Kindle, ele é leve, eu consigo manusear ele com uma mão, então isso ajuda bastante. E como eu consegui os livros de Outlander no Kindle, facilitou bastante, eu até vendi o meu [...]. Acabei desfazendo do meu livro e ficando só com a versão em Kindle. E aí, a partir daí eu percebi que não... Que ele não veio pra acabar com o livro impresso, ele veio pra agregar. Eu prefiro livro impresso? Prefiro. Mas tem hora que eu não consigo ler, eu vou ler um livro de 800 páginas dentro do ônibus apertada? Não dá. Então nesses momentos o Kindle é melhor pra mim, mas se eu posso ler meu livro de 800 páginas deitada na minha cama, ótimo. 136 GABRIELA: Então, agora eu tô aproveitando mais ebook do que antes. Antes eu era bem... Aquele preconceito né, não vou ler ebook [...]. Então, eu tinha um certo preconceito, agora eu tô deixando de lado, porque eu tô vendo que eu tô rendendo muito bem no livro digital também, sabe. E eu tô tendo preferência porque eu vou pra faculdade, então pra ficar carregando peso é difícil, então quando o livro é maior eu prefiro ler o ebook. Tipo Os Irmãos Karamazov, eu ganhei ele físico, só que é uma edição deste tamanho e é uma edição antiga, então o texto tá com a letra desse tamanho, socada, e já tem aquele cheiro de mofo, porque já é uma edição velha. Então eu falei gente não vou ler isso aqui não, então eu peguei o ebook, entendeu, li no ebook [...]. E eu percebi que eu tô rendendo melhor no livro digital, eu tô lendo Jane Eyre muito bem, tá fluindo assim. Também porque o livro é um livro gostoso, sabe. Mas quando é um livro também que eu tenho um certo pé atrás pra comprar, tipo ah eu não vou comprar, será que eu vou gostar mesmo, vai ficar aqui na estante... aí eu pego o ebook primeiro, entendeu. Às vezes é mais confortável, porque carregar peso pra lá e pra cá é muito difícil. Somente uma das blogueiras afirmou não gostar de ler livros eletrônicos, apesar de reconhecer a sua praticidade. Ela considera que o livro impresso é melhor, devido a um apego pessoal às suas características físicas, como a textura do papel e as edições. Mas, ao final de sua fala, ela afirma que ainda não conseguiu aceitar o suporte, o que sugere que futuramente possa aceitá-lo. CAPITU: Não gosto. Eu gosto do livro físico, gosto de ter os livros, da sensação de passar a página... Mas porque eu gosto mesmo de edição sabe. Aí eu acho que perde a característica do livro quando você tá lendo no ebook sabe... É muito prático, mas é um negócio que eu não consegui aceitar ainda não. De modo geral, por meio do discurso das blogueiras, fica evidente a facilidade que a maioria delas possui em transitar pelos dois suportes de leitura, o livro impresso e o livro eletrônico. As vantagens do livro eletrônico relatadas foram: a facilidade de transporte, a leveza do aparelho, a possibilidade de possuir vários ebooks disponíveis no leitor digital e a rapidez da leitura nesse suporte. Já o livro físico foi lembrado com maior afetividade, como algo para se preservar, colecionar e ler no conforto de casa. 6.4.1.4 Necessidade de compartilhar leituras Foi investigada a necessidade das blogueiras de compartilhar as suas leituras. A pesquisadora perguntou se após a leitura de um livro interessante, as blogueiras sentiam vontade de recomendá-lo para outras pessoas. As entrevistadas afirmaram que sentem vontade de conversar sobre as leituras realizadas, recomendar os livros para os amigos e disseminar a leitura. Algumas blogueiras brincam ao dizer que, após ler um livro muito bom, obrigam os amigos a lerem também. Para elas, a necessidade de compartilhar a leitura é fruto de uma vontade de discutir alguns aspectos da história e de incentivar os amigos a lerem os mesmos livros. 137 CECI: Até obrigo a ler. Ah minha filha, a Natasha que tava aqui comigo, eu sempre falo com ela ‘Pode ler esse Natasha’, ela fala ‘Ah então eu vou ler’. Então assim, eu recomendo demais... Natasha pegou um livro pra ler, ela leu 100 páginas e falou ‘Ceci, eu não gostei’. E era um livro indicado meu, aí eu olhei pra cara dela e falei assim ‘Natasha, você pode pegar esse livro e terminar de ler’. Quando ela terminou, hoje ela me agradece, ela falou ‘Nossa Ceci, o livro era realmente muito bom’. Eu falei ‘Termina de ler porque você não chegou na parte interessante’ [risos]. ANA TERRA: Eu tento obrigar as pessoas a ler [risos]. Afinal de contas, eu preciso ter alguém pra discutir. Nem sempre a gente consegue encontrar pessoas que leem a mesma coisa que você. Então quando você encontra alguém que gosta de ler, você quer que ela leia mais ou menos a mesma coisa, pra vocês poderem discutir ah e tal coisa, que você acha que aconteceu, porque você acha que aconteceu aquilo, e se fulano tivesse feito diferente, o final tinha sido diferente? Eu acho essa troca muito interessante. Em seu depoimento, Macabéa ressalta que compartilhar leituras é uma forma de transformar o ato de ler, solitário e intimista, em uma ação coletiva. Essa percepção da blogueira está em concordância com Petit (2009), que considera que os espaços de leitura livremente compartilhadas são capazes de retirar o leitor da sua solidão. A autora afirma que o compartilhamento das experiências de leitura com outras pessoas permite a criação de conexões entre o eu e os outros, pois os leitores se sentem vinculados, descobrindo que dividem as mesmas emoções e confusões. MACABÉA: Impossível não recomendar. Na verdade, eu não recomendo né, a gente intima o amigo da gente a ler. Você precisa ler esse livro, vai mudar a sua vida! Eu não consigo ler e não fazer isso. E acho até que eu ter criado o blog acabou sendo isso também, sabe. Uma maneira de você poder falar com as outras pessoas que ‘olha, esse livro é tão legal’ [...]. Eu normalmente recomendo, recomendo, presenteio, se eu achar que é bom demais vou te dar o livro, pra garantir que você vá ler o livro [...]. E eu acho que a literatura, ela precisa disso, porque ler é uma coisa muito individual, você acaba ficando muito sozinho, quase todo mundo que lê fica meio estigmatizado de pessoa que fica isolada né, aquela pessoa que gosta de ficar sozinha, é o universo dela. Quando você lá ali tá você e seu livro, não é uma coisa que dá pra você compartilhar. E isso que a gente tá fazendo agora [o blog], me deu uma perspectiva diferente, de você encontrar pessoas que gostam daquilo que você gosta também e poder dividir com elas sua opinião, trocar ideia. Isso eu tô achando totalmente diferente de tudo aquilo que eu já vi, da maneira como eu me comportava como leitora, acho que agora eu tô sendo mais interativa com as outras pessoas, tem sido bem legal. A associação entre a necessidade de compartilhar leituras e realização de postagens no blog foi rapidamente feita por Capitu e Gabriela, que afirmaram indicar livros para amigos, mas também postarem nos seus respectivos blogs recomendando as leituras. CAPITU: Recomendo. Eu sempre tento pensar numa pessoa que eu acho que vai dar certo com aquele livro, tipo já é do estilo da pessoa. Ou no caso, eu faço a postagem no blog e vou divulgando esse link, a pessoa que gostar é isso aí. GABRIELA: Nossa quando eu amo o livro, eu não paro de falar do livro. Aí toda hora eu falo, no almoço com as pessoas lá de casa, depois eu falo no WhatsApp com os amigos, grupo de leitura, porque a gente tem vários grupos de leitura no WhatsApp, tem o grupo do Clube do Livro, tem o grupo da leitura conjunta do Cultura Pocket, tem o grupo da leitura conjunta do DNA Literário, 138 então você sai mandando vários livros, comentando. Aí no blog também a gente faz resenha, faz vídeo, faz post no Instagram também recomendando. Algumas blogueiras costumam recomendar até mesmo os livros que acham ruins, pois consideram que uma outra pessoa pode achar interessante. O fato de indicar livros que não gostaram, evidencia que as blogueiras consideram a leitura como uma ação positiva, independente do livro ser bom ou não, o que elas julgam relevante é o ato de ler em si. Essa questão fica clara na fala de Lucíola, que afirma ter vontade de disseminar a leitura devido ao seu caráter transformador. LUCÍOLA: Sempre, mesmo livros ruins, mesmo livros que eu não goste. É... No blog eu sinto essa liberdade, que eu posso falar sobre... sobre tudo. E mesmo que as pessoas me julguem, é a minha versão, é a minha história aquilo ali. É tipo um diário que eu deixo as pessoas lerem. [...] Quando você fala de livros, você quer disseminar a leitura pro maior número de pessoas possível, por isso que tem tantas plataformas que falam de livros, tantos sites, tantos blogs, canais, Instagrams, porque a ideia principal é fazer com que mais pessoas leiam, porque a leitura ela te transforma, esse é o meu ponto de vista. EMÍLIA: Ah, recomendo. Na verdade, mesmo que eu não goste do livro, eu recomendo, porque eu não gostei, a outra pessoa eu não sei se ela vai gostar ou não. Então geralmente eu falo o que eu achei do livro, tipo se eu for falar com você, eu falo o livro fala disso e disso e disso, eu não gostei muito não, mas pode ser que você goste. E tem uma coisa que as pessoas não prestam atenção, às vezes eu não gostei, mas é a hora que eu tô lendo. Eu já li um livro que eu não gostei, aí eu falei assim eu vou dar outra chance pra ele, quando eu dei essa outra chance numa outra época eu me apaixonei pelo livro. Eu não aguentava pensar no livro quando eu li a primeira vez. IRACEMA: Recomendo sempre, sempre. Até falo dos livros se eu não gostar, mas lá no blog a gente faz resenha negativa né, acaba que é gosto pessoal né. Eu sempre deixo no final olha, eu não gostei, não dá pra agradar todo mundo né, mas quem sabe você goste [...]. Mas eu sempre recomendo sim. Sempre. Até mesmo quando não é livro de parceria, tipo o livro que eu comprei sabe, aí eu recomendo assim mesmo, sem ser no blog, às vezes pra amigos. Por favor, leiam pra comentar comigo. Acho que isso é o principal. Todas as blogueiras afirmaram sentir necessidade de compartilhar as suas experiências de leitura. Recomendar o livro lido para os amigos ou fazer uma postagem no blog contando a sua opinião sobre a leitura são modos que essas leitoras encontram de socializar suas leituras. Após a leitura solitária, que propicia a vivência de emoções, a reflexão e a apropriação de informação, essas leitoras necessitam compartilhar essas experiências. Elas sentem o desejo de interagir com outros que possam ter experienciado essas mesmas leituras ou recomendam que outros leitores também as vivenciem. 6.4.1.5 Busca de informações sobre livros O sujeito informacional busca por informações de diversas formas. No caso das blogueiras, a necessidade informacional pode vir antes da leitura, de maneira que elas procuram informações sobre os livros que desejam ler para saber se o conteúdo é de seu 139 interesse. Mas, na maioria dos casos, as blogueiras sentem necessidade de informação após a leitura, realizando buscas sobre opiniões de outras pessoas sobre o livro que leram, pretendendo esclarecer aspectos da narrativa, saber se o livro foi bem avaliado e se outros leitores gostaram ou não da experiência de leitura. Essas buscas nem sempre são realizadas de maneira formal, podendo acontecer informalmente, na forma de conversas com amigos. A busca informal é evidenciada por Savolainen (1995) ao enfatizar que, muitas vezes, as pessoas procuram por fontes informais de informação. Como exceção, foram identificadas duas blogueiras que relataram ausência da necessidade de buscar informações sobre livros. Dessa forma, as blogueiras relataram suas experiências em buscar (ou não) informações sobre os livros que desejam ler ou comentários de outras pessoas sobre as leituras realizadas. Muitas das buscas por informações sobre livros ocorrem por meio da web. As blogueiras citaram os blogs, o YouTube, o Skoob e o GoodReads como plataformas nas quais procuram informações sobre livros literários. O aplicativo WhatsApp também foi citado como fonte de informação sobre livros, uma vez que, em grupos de blogueiros, são realizadas diversas trocas informativas sobre os lançamentos literários e comentários sobre livros. CECI: Lá no blog somos quatro, então a gente sempre comenta entre si os livros. E dependendo lê e fala ‘Ah não lê não’, aí você passa... ou ‘Lê que é ótimo’, aí você lê... E também a gente tem um grupo no WhatsApp de blogueiras daqui de Belo Horizonte, então sempre a gente tá lá comentando a respeito da leitura, então a gente vê o que sai, até assim ah será que eu vou gostar, aí a gente vê assim... Leio resenhas no Skoob às vezes, visito outros blogs também. GABRIELA: Sim, normalmente eu gosto de assistir resenha no YouTube e blogs também, tem um blogs que eu já acompanho, aí eu procuro... Ás vezes dou uma olhada nas resenhas que ficam no Skoob, então eu procuro sim [...]. É importante, por exemplo, você tá com uma dúvida sobre um livro, você não sabe se você vai gostar, eu acho que quando você lê uma resenha você consegue ter uma noção maior do que pode te agradar e o que pode fazer você não gostar da história, sabe. Acho que você ter uma opinião de uma pessoa, principalmente uma pessoa que você sabe que tem o gosto parecido com o seu, uma pessoa que você sabe o que ela gosta, você sabe mais ou menos o que agrada ela, você tem uma noção do que naquele livro pode te agradar ou não, acho que tira essa dúvida assim, sabe. Quando você vai pegar um livro você tá com um pé atrás, eu acho que a resenha é bom pra isso. IRACEMA: Sim, demais. Tô até falando né, recomendar pro pessoal ler pra gente poder comentar né. Mas sim, eu olho muita resenha no Skoob também, antes de ler... E depois também, pra eu saber se... Igual, quando tem livro que eu não gosto, eu olho pra saber se tipo ‘Só eu que não gostei?’. Tipo não deu certo comigo. Eu olho muito no GoodReads também, só que o pessoal lá de fora eu acho muito doido, sabe, tem umas opiniões meio doida, eu acho que... não sei se eu acredito muito sabe. Mas o Skoob eu sempre olho, olho blogs também de outras pessoas. Digito o nome do livro, coloco resenha sabe... Mas assim é mais é depois pra falar verdade viu, porque eu acho que tem muita gente que entrega né. Uma das blogueiras busca informações sobre os livros que leu na forma de conversas informais e trocas de opiniões com os amigos. De acordo com Savolainen (2007), as práticas informacionais também podem lidar com elementos da comunicação, de forma que a fronteira 140 entre comunicação e informação fica difícil de ser delimitada, podendo sobrepor-se em muitos casos. CAPITU: Mas quando acontece de eu ler um livro que tipo assim eu fiquei muito surpresa, aí eu sinto muita necessidade de conversar com alguém ou de postar, no caso. Porque pode acontecer, tipo assim eu li um livro que eu fiquei sem saber o final assim, eu li, mas eu não sei se eu entendi. Então eu preciso conversar com alguém, pra ver a opinião dela, o que que ela achou, pra ver se ela entendeu a mesma coisa, pra ver se eu não tô doida. Porque tem livro que... Meu Deus! Aí tem que buscar uma segunda opinião pra ver o que a pessoa achou. PESQUISADORA: E geralmente você procura na internet? CAPITU: Amigos mesmo. Aí eu vou procurando pessoas mais próximas que gostam do mesmo tipo de livro e vou perguntando se já leu ‘Ah como é que foi?‘ E aí a gente discute sobre o assunto. Algumas das entrevistadas destacam que só procuram informações ou comentários sobre os livros depois que já fizeram a leitura, para evitar formar uma opinião antes de ler o livro. MACABÉA: Eu não gosto de ler resenha por exemplo antes de ler o livro, eu não gosto de ler resenha do livro porque eu acho que quando você lê você já vai com uma opinião meio formada, então você acaba sendo influenciado, acho que isso me atrapalha um pouco, então não gosto muito de ler resenha antes. Eu leio, às vezes, depois. Depois, pra ver se parece com a minha opinião. Então assim, eu acho... eu gosto, eu gosto de compartilhar sabe, aquilo que o outro acha sobre o livro também. Se achou legal, se não achou, ou o porquê de não ter achado tão bom. Eu acho que é uma boa interação. EMÍLIA: Depois que eu leio, sim. É, eu não gosto de... Na verdade, eu não leio nenhuma opinião antes de ler [...]. Então eu não leio nada do livro antes de ler e nem antes de escrever. Porque se eu ler alguma coisa, se eu conversar com alguém antes, pode ser que as vezes uma coisa que tava pensando em colocar, a pessoa fala ‘Ah não gostei muito disso’, e às vezes você faz automático, nem reparando as vezes você já tá falando aquilo mesmo. Então eu gosto de ficar com minha cabeça bem centrada, limpa. Mas depois que eu já escrevi, aí eu leio, eu vejo o que as pessoas acharam, converso com alguém sobre o livro. Mas eu gosto de limpar, eu gosto de deixar a opinião só minha mesmo. Em alguns casos, as blogueiras afirmam não buscarem nenhuma opinião ou comentário de outras pessoas sobre os livros que leram. Ana Terra mostra-se aberta a possibilidade; ao contrário, Lucíola considera que as pessoas no mundo literário não estão preparadas para aceitar opiniões diferentes. A blogueira considera que as pessoas são muito intolerantes e que não acontecem trocas verdadeiras, pois não aceitam ideias diferentes. ANA TERRA: Eu não tenho muito esse costume, mas eu acho que pode ser algo interessante. LUCÍOLA: Sinceramente? Não. Porque é... Não é nem questão de não querer opinião. [...] no início da minha leitura, era uma coisa muito solitária, pra mim a minha visão bastava. E como, eu assim, depois do blog... Eu percebi que tipo assim quem lê é igual as mesmas pessoas que não leem, e as vezes elas são até mais intransigentes do que quem não lê. E elas não aceitam a sua opinião [...] tem gente que já vem armado, com muros e tal, querendo te... entendeu [...]. Elas não estão preparadas pra se relacionar com alguém que não concorda com a mesma coisa que elas. Eu acho que assim é... A gente já via isso muito forte, mas aí quando a gente entra no meio literário, a gente 141 vê que isso não diminui. E às vezes é tão mais severo e tão mais gritante do que fora do mundo literário. Compreende-se que a busca de informação sobre livros é frequente no cotidiano das blogueiras. Algumas relatam que antes da leitura buscam algumas informações sobre o livro que desejam ler, de forma que possam avaliar se ele é de fato interessante. Outras já afirmam sentir a necessidade de buscar informações após a leitura, para saber as opiniões de outras pessoas sobre o livro ou para conversar sobre a sua história. A ausência da necessidade informacional e da busca de informações sobre livros foi relatada por duas blogueiras, podendo ser decorrente de dois fatores. No primeiro caso, a blogueira aparentava satisfação com sua própria opinião sobre o livro, não possuindo a necessidade informacional de conhecer as experiências de outras pessoas, mas mostra-se aberta para a possibilidade de realizar futuras buscas. No outro caso, a blogueira se refere à intolerância das pessoas vinculadas ao mundo literário, o que sugere que ela tenha tido experiências negativas ao buscar informações e/ou trocar opiniões sobre os livros lidos. Spoiler A busca por informações sobre livros pode resultar em tomar conhecimento de um spoiler. De acordo com o dicionário Priberam49, o termo spoiler refere-se a uma “informação que revela partes importantes do enredo de um filme, de uma série televisiva ou de um livro, sobretudo para quem ainda não os viu ou leu”. O spoiler foi um tema que surgiu no decorrer das entrevistas e que não estava no roteiro de perguntas. O tema é popular entre as blogueiras, sendo que apenas uma delas não se posicionou sobre esse assunto. O spoiler pode apresentar-se na forma de um encontro ocasional com a informação, no qual o sujeito não está ativamente buscando a informação, mas depara-se com ela. A identificação acidental ou casual com a informação está relacionada ao conceito de serendipity cunhado por McKenzie (2003), definido por Araújo (2015, p.14) como “a possibilidade de se fazer descobertas importantes por acaso ou, no caso, encontrar determinados recursos informacionais relevantes sem estar procurando por eles”. Para McKenzie (2003), o encontro casual com a informação tem a mesma importância de uma busca ativa. Como exemplo, o caso relatado por Ana Terra que, sem intenção, descobriu o final do livro que estava lendo ao visitar uma livraria. ANA TERRA: [...] por exemplo eu tava lendo Corte de Espinhos e Rosas, aí eu fui na Leitura [...]. E na sinopse de Corte de Neve e Fúria, que é o segundo né, na sinopse tem um spoiler do final de Corte de Espinhos e Rosas. Eu tava com o livro assim, eu olhei pra cara do meu namorado, ele falou assim ‘Que que foi?’, eu ‘Acabei de descobrir o que vai acontecer no final do livro que eu tô lendo’, ele falou ‘Bem feito, quem mandou você ler’, eu falei ‘Mas... Ah meu 49 Disponível em: . Acesso em: 19 set. 2018. 142 Deus e agora?’. Aí assim, eu fiquei curiosa pra saber como que aquilo tinha acontecido, porque na parte que eu tava no livro, nada indicava que o que tava escrito na sinopse do segundo livro ia acontecer, então eu fiquei curiosa pra saber como. Mas tem histórias que... Depende muito também do meu engajamento com o livro. Se eu tô lendo e tô achando a história mais ou menos, provavelmente eu largo. Mas se eu tô lendo, achei a história boa, acontece igual aconteceu, eu vou querer terminar de ler o primeiro pra saber porque que aquilo aconteceu. Para evitar o encontro casual com a informação, algumas blogueiras tentam fugir do spoiler a todo custo, evitando a leitura até mesmo da sinopse e das orelhas do livro. O importante para essas blogueiras é manter as surpresas da narrativa. CAPITU: Não gosto de spoiler, eu gosto de ser surpreendida. Não gosto de saber nada do livro, só leio atrás da capa, porque se contar um pedacinho eu já fico ah já sei o que é. A não ser que seja alguma coisa que eu já li, que eu gostei muito, aí eu quero ler de novo, aí tudo bem. Mas a pessoa contar antes de eu começar a ler o livro, aí eu perco a vontade. Eu acho que o legal é você não saber. É a surpresa. EMÍLIA: Na verdade eu não leio nem a orelha do livro. Às vezes eu leio só a parte, a sinopse do final, aquela que vem na contracapa, porque às vezes é a que vem menos coisa falando, mais limpa, sem spoiler, orelha sempre tem spoiler. E eu não leio... IRACEMA: Eu tento evitar até sinopse às vezes. Pra mim interfere, eu gosto de surpresas. Gosto de descobrir sozinha. Então acaba que leio sim, mas às vezes é mais no final, quando eu já terminei de ler, então... Mas quando é livro que a gente recebe né, a gente recebe as news, aí eu dou uma olhada na sinopse superficialmente, dou olhada. Às vezes eu vou no GoodReads ver a pontuação... Eu não leio tantas resenhas antes pra não estragar. Curiosamente, o spoiler é procurado por uma das blogueiras, que adora saber os acontecimentos da narrativa antes da leitura. Ela alega que o interessante da leitura não é conhecer a história, mas sim como ela aconteceu. LUCÍOLA: E eu amo spoiler então...Nossa acho um barato descobrir o final. Eu comprei Como eu Era Antes de Você porque eu descobri o final. PESQUISADORA: Você não acha que estragou a leitura? LUCÍOLA: Não, porque o gostoso da leitura não é saber o fato, é saber como aconteceu, como é que o autor escreveu pra chegar naquele fato. Porque é muito fácil você falar assim, por exemplo, você sabe o spoiler da Bíblia, Jesus morreu! Mas tipo assim, como isso aconteceu? Entendeu, eu acho que é isso que é o gostoso, é você descobrir como e não o quê. Acho que a história ela é isso, como aconteceu, como ela é contada pra você. E não o que aconteceu. Você vê vários livros aí sobre a mesma história, por exemplo, A Bela e a Fera, olha quantas recontagens tem sobre a Bela e a Fera, e todas são legais. E você sabe que no final a Bela salva a Fera da morte, mas mesmo assim quem é fã da história lê todas as recontagens. No entanto, a blogueira percebe que muitos leitores não gostam dos spoilers, considerando que as pessoas são muito engessadas quando se trata do assunto. LUCÍOLA: Às vezes a pessoa fala ‘Não quero ouvir, não quero ouvir’, faz um escândalo, briga com você e fica sem conversar com você. Porque tipo assim a pessoa não tem... O propósito que ela usa pra leitura não é esse. E tipo assim as pessoas se engessam muito com aquilo dali. Algumas entrevistadas afirmam que, em certas situações, gostam de descobrir um spoiler, já em outros momentos preferem evitá-los. Um exemplo é o caso de Ceci, que 143 inicialmente afirma não gostar de spoilers, mas depois relata uma situação em que pediu a outra blogueira para lhe contar o final de um livro. CECI: Mas eu tô muito assim, tem aquela coisa ah não gosto de spoiler, então às vezes eu evito também ler [resenhas], então depende [...]. Não gosto de spoiler, não gosto [...]. Você perguntou se eu procuro outras resenhas, às vezes sim, às vezes não, porque tem coisas que eu quero descobrir... Aí a gente comenta muito entre a gente, a Naiara50 [colega no blog] leu agora um que é A Garota dos Pesadelos, o segundo livro, eu falei ‘Pode me contar o final, Naiara, eu vou ler, mas você pode me contar o final’. Porque ela ficou muito revoltada, a Naiara ela sempre tem os surtos dela, ela não aceita o final, eu falei ‘Então me conta’, ela não aceita [risos]. ANA TERRA: Pra mim depende bastante. Tem coisas que me animam e tem coisas que eu falo ah já que é assim, já que eu já sei que isso vai acontecer no final eu vou largar, porque eu sei que eu não vou gostar. Então vai depender bastante da história e do que eu já sei sobre a história. Conclui-se que a relação das blogueiras com o spoiler apresenta-se de duas formas, uma vez que elas deparam-se com essa informação de forma despretensiosa ou buscam pelo spoiler, procurando saber sobre o final do livro. Algumas blogueiras relativizam a questão de tomar conhecimento de um spoiler, mas outras se mantêm firmes ao afirmar que não gostam de descobrir informações cruciais da narrativa antes da leitura do livro. 6.4.1.6 Apropriação da leitura De acordo com Petit (2008, p. 201), a apropriação da leitura é um assunto individual, uma vez que “um texto nos apresenta notícias sobre nós mesmos, nos ensina mais sobre nós, nos dá as chaves, as armas para pensarmos sobre nossas vidas, pensarmos nossa relação com o que nos rodeia”. Nesse sentido, essa subcategoria compreende as diversas relações emocionais estabelecidas entre as entrevistadas e o texto literário, reveladas em trechos nos quais elas relatam sentimentos associados às leituras realizadas. Discute-se o gosto pela leitura, a leitura como fuga da realidade, a quebra de preconceitos e as experiências de leitura. Gosto pela leitura Em alguns trechos, as blogueiras comentaram seu gosto pela leitura. Emília, Lucíola, Iracema e Macabéa concebem a leitura na perspectiva de hobby, passatempo, entretenimento e prazer. Petit (2009, p. 183) considera a leitura como uma atividade muito complexa, que não pode ser reduzida a um único aspecto. Entretanto, ela afirma que não se pode negar que o leitor encontre nessa atividade “prazer, distração, informações, assuntos de conversa, 50 Nome fictício. 144 algumas vezes ideias que apurem seu espírito crítico; e de tempos em tempos, de se encantar com uma escrita, serem tocados por um estilo, sensibilizados por um ritmo”. EMÍLIA: Gosto de ler né [risos], ver filmes, série, às vezes ficar sem fazer nada que é muito raro. Gosto...A gente tem uma chacrinha, gosto de sentar na varanda e ficar olhando pro nada... Mas normalmente sempre tem um livro envolvido, sempre tem um livro. Sentada olhando pro nada tem um livro... É ... Ai sabe qualquer coisa que possa envolver um livro eu gosto de fazer. LUCÍOLA: Pra mim ler é isso, pra mim ler é um hobby. É uma coisa que eu me sinto bem fazendo, é uma coisa que eu fico feliz em fazer. IRACEMA: Eu acho que é meio um passatempo mesmo. E eu acabo não vendo TV, então é um jeito de entretenimento, entendeu. MACEBÉA: Às vezes eu tô fazendo uma coisa, tô pensando em outra, fazendo uma atividade eu tô pensando em outra coisa que eu tenho que fazer. Aí quando eu tô lendo, não... quando eu tô lendo, eu estou lendo. Eu me foco naquilo que eu estou lendo. Então eu gosto de uma literatura que me faça ter esse tipo de sensação, a sensação de prazer, de estar envolvida com uma história, de me ver dentro daquele contexto. O gosto pela leitura também foi demonstrado pelas entrevistadas ao falarem sobre seus gêneros literários favoritos. Britto (2015, p. 130), afirma que o leitor lê pelas mais variadas razões diferentes tipos de texto, em situações e suportes diferentes, conforme as suas disponibilidades e necessidades. De acordo com o autor “[...] não faz sentido afirmar que uma pessoa torna-se melhor ou pior, mais ou menos crítica, por ser menos ou mais leitora, ou ser leitora disto ou daquilo”. Quanto aos gêneros literários, algumas blogueiras mostraram ter preferências bem delimitadas sobre quais livros procuram para ler. CAPITU: Sim, fantasia. Gosto muito, qualquer coisa assim que tem seres sobrenaturais eu leio. Amo. IRACEMA: Mas hoje em dia eu gosto só de ler ficção. Acaba que eu não leio muita biografia, nem autoajuda, nem esse tipo... Emília e Macabéa consideram o romance como gênero literário favorito, revelando que esse gênero funciona como uma válvula de escape e uma distração. Em sua pesquisa, Petit (2009) relata que a menção a romances é muito frequente, uma vez que os sujeitos acessavam esse gênero literário em busca de tranquilidade, companhia, consolo, esperança, e também para escapar do medo, da pobreza do tédio e da infelicidade. EMÍLIA: [...] eu tenho um gênero muito que eu leio, romance. 90% da minha leitura, ela é romance. Aí vem romance com suspense, romance com um pouquinho de ação, um pouquinho de ação, suspense. Não leio, de jeito nenhum, terror. E drama eu tenho que tá muito inspirada. Eu normalmente eu pego tipo um drama e consigo ler dois, três dramas de uma vez, vou ficar depressiva, mas eu vou ler tudo de uma vez. Aí eu vou e corro e leio, a minha válvula de escape é sempre o romance, agora tem sido especificamente romance de época, eu tenho lido muito, mas muito mesmo romance de época. Então a gente sempre volta pro romance. Sempre vou voltar pro romance. MACABÉA: Tenho, meu gênero preferido é o romance. Eu acho que é algo que eu encontro mais coisas dentro desse tema que acaba me agradando né. Eu gosto muito de tipo assim tem uma história, dos dramas que envolvem aquele personagem, isso em qualquer dos seguimentos do romance, é onde me atrai mais [...]. E já o romance eu consigo me distrair, porque eu sou uma 145 pessoa muito agitada sabe, eu sou muito ligada, eu faço muitas coisas ao mesmo tempo e a única coisa que eu consigo me desligar é quando eu tô lendo, nada mais me desliga [...]. Então eu acabo me envolvendo muito com romance por causa disso. Não é só questão do romance romântico, igual a gente expôs aqui hoje né, não é só questão do romance romântico, é aquele romance por exemplo de investigação, de você ficar curioso pra descobrir, é quase como se tivesse assistindo um filme. Já as outras quatro blogueiras leem vários gêneros literários, demonstrando em suas falas a importância de variar as suas leituras. Petit (2009) afirma que, qualquer que seja o meio social e cultural dos leitores, a regra é o ecletismo. De acordo com a autora, a sede de simbolização dos humanos é tamanha que eles tiram proveito do que tem acesso, a ponto de que é necessário questionar se qualquer material não está apto a servir a esse propósito. LUCÍOLA: E sempre com histórias diferentes, eu tento sempre misturar gêneros diferentes. É... Romance, um clichê, uma distopia, uma fantasia... ANA TERRA: Esse ano eu coloquei como uma das minhas metas de leitura tentar expandir um pouco meu horizonte, sabe. Eu gosto muito de romance, eu sempre leio muito romance e eu tendo a procurar romances pra ler. Então eu tava ficando muito presa nisso e muita coisa eu tava deixando de conhecer, então esse ano eu me propus a ler mais fantasia, meu namorado curte muito quadrinho, então ele me passa uns quadrinhos pra eu ler que ele acha interessante. É... Pretendo tentar ler alguma coisa de terror, de suspense. Eu tô tentando assim... conhecer um pouco de tudo. CECI: Eu gosto muito de fantasia, fantasia e new adult, mas eu leio... Assim, tem alguns que eu não leio, policial eu nunca me envolvi muito. Livros de terror, li um livro só. Então eu não me envolvo muito, mas eu sou bem... Eu leio fantasia, eu leio infanto-juvenil, leio infantil, leio livro adulto, eu leio bastante de tudo. Biografias eu também não leio muito ainda. Mas eu tento sempre tá andando entre os gêneros literários, eu não fico muito presa a um não, mas assim o gênero preferido, o meu é fantasia. GABRIELA: Então, eu tento ler de tudo assim, eu sou bem curiosa e eu gosto de variar. Justamente para ter o que falar né, eu gosto de saber pra poder falar. É, mas eu gosto muito de fantasia, acho que fantasia é uma coisa que me marcou muito, assim... Quando eu era pequena eu fui apresentada ao Senhor dos Anéis, eu fui apresentada a Harry Potter, isso me cativou muito assim, eu fiquei encantada com aquilo. E até hoje eu gosto muito de fantasia. Desse modo, algumas blogueiras expressaram o seu gosto pela leitura e o lugar que ela ocupa em suas vidas como um hobby. Já outras blogueiras afirmaram seu gosto pela leitura ao falar sobre os gêneros literários que costumam ler, evidenciando seus favoritos ou procurando a leitura de diversidades. Leitura como fuga A discussão sobre leitura como uma fuga da realidade é feita por Dumont (2000a), que apresenta as críticas feitas pelos estudiosos ao mecanismo de evasão. Essa ação é criticada ao ser considerada como uma tentativa de escapar da dura realidade do dia-a-dia, que provocaria a alienação do sujeito, tornando-o um leitor passivo e não questionador. Por outro lado, na concepção de Dumont (2000a), toda leitura, em princípio, permite uma evasão. 146 Entretanto, há vários tipos de evasão, sendo essencial saber do que se está evadindo e em qual direção. Já Petit (2009) não considera que a leitura promova uma fuga, pois a palavra pode ter uma conotação depreciativa, julgando-se que seria mais honrável entregar-se completamente à dor ou ao tédio. A autora avalia como mais apropriado considerar que a leitura pode propiciar um salto para fora da realidade vivida pelo leitor. Esse salto seria “uma verdadeira abertura para um outro lugar, onde o devaneio, o pensamento, a lembrança, a imaginação de um futuro tornam-se possíveis” (PETIT, 2009, p. 76). Algumas entrevistadas descreveram o ato de ler como uma forma de fugir da realidade. Emília conta que a leitura de livros de romance, principalmente romances de época e de banca, proporcionam a ela uma sensação de alívio e tranquilidade, pois a previsibilidade da narrativa a conforta e distrai quando sua própria vida está muito atribulada. De acordo com Dumont (2000a), um efeito atribuído a leitura de romances de massa é o mecanismo de consolação, utilizado pelos escritores de literatura de massa, que usam artifícios muito eficientes nos romances folhetinescos. Um desses artifícios é a previsibilidade, onde tudo acaba exatamente como se desejava que acabasse, sendo uma das principais características do mecanismo de consolação o final feliz. Além disso, o recurso do reconhecimento também é bastante aplicado na literatura de massa, no qual são contados ao leitor fatos ou revelações que os personagens da trama ainda não têm conhecimento. Esse recurso é muito apreciado pelo leitor, que tem a sensação de ter desvendado o enigma antes do que deveria (DUMOND, 2000a). No relato de Emília, fica nítido o seu gosto pelo mecanismo de consolação e pelo recurso de reconhecimento: EMÍLIA: Ele [livro de romance] já me deixa leve, já me deixa... Porque... Principalmente romance de época, romance de época você já sabe o que que vai acontecer. O inicinho tá a mocinha que vai ser... vai ficar pra titia ou vai ser a dama mais bonita da sociedade, da temporada, aquela coisa. Aí ela vai sofrer alguma coisa ali no meio ou vai só bagunçar a vida dela. E no final ela vai tá feliz pra sempre, então... Dá aquela [respiração de alívio], aquela acalmada. Quando a vida tá muito bagunçada, eu sempre pego um romance de época, que você já sabe o que vai acontecer. Você já sabe o que é o final então dá aquela aliviada, dá aquela tranquilizada no dia. E aí é a mesma coisa de romance de banca. Romance de banca é isso, você sabe o início, sabe o meio, sabe o fim. Então você só vai ler pra você distrair. Zéraffa (1971 citado por DUMONT, 2000a, p. 169), considera que não importa saber para onde o leitor está evadindo, mas certamente é para a liberdade. “Determinista ou anti determinista, o romance organiza, harmoniza, ressocializa, realiza o desejo, o prazer e, sobretudo, a imaginação.” Nesse sentido, a entrevistada Lucíola relata que os livros a ajudam a esquecer-se dos seus problemas, sendo seus companheiros fiéis. A blogueira considera que a leitura a mantém sã e viva, principalmente nos momentos tristes que vivencia. Em outro momento da entrevista, a blogueira volta a comentar sobre a importância da literatura em auxiliá-la a viver, relacionando os gêneros literários que gosta de ler quando está sentindo determinadas emoções. 147 LUCÍOLA: Olha, [o livro] é um dos meus melhores companheiros. É... Eu em todo momento, tanto feliz quanto triste da minha vida, eu tava assim... Os livros foram o que mais me ajudou [...]. E a literatura, ler livros, ela me colocava com o pé, ela me mantinha com o pé na sanidade, digamos assim. Ela meio que esquecia do... Ela meio que me fazia esquecer dos meus problemas, dessas neuras que de vez em quando elas aparecem e me deixava bem. Então assim... eu conseguia ler. E, na época eu era meio uma devoradora, quando eu tô mal, eu meio que vou colocando um livro atrás do outro [...]. Porque eu acho que a leitura é isso: ela tem esse poder de te distrair, mas ao mesmo tempo te manter viva. [...] e a leitura é o que faz a vida continuar... Porque às vezes tá muito difícil, aí eu leio uma fantasia. Mas aí quando eu tô muito dramática, quando eu tô muito triste, aí eu leio romance clichê. Aí quando eu tô forte eu leio tipo um Game Of Thrones, uma distopia, um livro de guerra. Aí quando eu tô bem emocionalmente eu leio um drama, sabe. Outra referência à prática da leitura como fuga, escapismo ou evasão aparece na fala de Macabéa. A blogueira considera a leitura como a única coisa que a distrai dos seus problemas, chateações e ocupações diárias. MACABÉA: Porque realmente é algo que eu me concentro quando eu tô ali. E mesmo que as coisas estejam acontecendo em volta, muitas vezes aquilo não me incomoda, entendeu. Porque é algo que realmente me dá prazer, é algo que eu faço porque, não porque é algo que eu tenho obrigação [...]. Eu acho que é a única coisa que realmente me tira dos meus problemas, quando eu tô muito chateada, às vezes das ocupações que eu tenho do dia, é poder ter um momento pra mim poder ler. Já para Ceci e Gabriela, a leitura proporcionou uma evasão diferente, um refúgio para a timidez e solidão. Na adolescência, Gabriela sentiu dificuldade para se socializar e voltou- se para a literatura. Por sua vez, Ceci cresceu no circo, vivendo itinerante até os 18 anos, o que fez com ela não tivesse amizades quando fixou residência em Belo Horizonte. A leitura foi compreendida por elas como uma atividade solitária, que dispensava o contato com outras pessoas. Dessa forma, para fugir de uma realidade de isolamento, as blogueiras liam livros. GABRIELA: Então eu sempre li, sempre li bastante, mas foi na adolescência, que eu tive mais dificuldade pra me socializar que eu busquei na leitura meio que um refúgio sabe. Aí eu comecei a ler mais, aí foi nessa época, a partir dos 15 [...]. CECI: Ler... Eu... É uma fuga pra mim também, vamos dizer assim, de viver outras vidas, conhecer outras histórias, nesse sentido e... Eu não gosto de sair, eu não sou de balada, eu não sou de barzinho, eu não sou assim. Eu gosto muito de ficar em casa e tá em contato com os livros. Eu acho que também o que me fez ficar tão assim presa à literatura, porque eu não tenho... Assim, hoje eu tenho alguns amigos. Mas quando eu vim pra Belo Horizonte, eu não tinha amigos. Porque não é como todo mundo que estudou junto e cresceu e tem aquele grupo. Então eu não tive, sempre fui muito mais sozinha assim. Então eu me identifico muito com a leitura, que é uma coisa só, a leitura é você e o livro. Aí eu fico eu com a leitura muito por conta disso. E até... igual eu falei que eu jogo online, também é em casa... Então... a forever alone [risos]. Portanto, é evidente que a fuga da realidade propiciada pela leitura emergiu no discurso de algumas blogueiras. Para elas, a leitura apresentou-se como uma fuga da tristeza, dos problemas e também da dificuldade de socialização. 148 Alteridade Retomando o referencial teórico, Zilberman (2001) considera que a leitura permite a vivência da alteridade, de forma que o leitor pode ocupar-se dos pensamentos de outro, substituindo momentaneamente sua própria subjetividade por outra, permitindo que ele se preocupe com algo que até então desconhecia. Assim, o leitor experiencia a alteridade como se fosse ele mesmo. Nessa perspectiva, foram identificados trechos das falas de duas blogueiras que evidenciam a vivência da alteridade, demonstrando como essa experiência possibilitou a quebra de preconceitos. Ana Terra afirmou que a leitura a torna uma pessoa melhor ao proporcionar que ela conheça outras culturas, desfazendo preconceitos que ela possuía devido à falta de informação. ANA TERRA: Eu acho que a leitura me permite viajar por lugares que muitas vezes não seria possível de eu viajar, por questões de não existir por exemplo livros de fantasia, ou então me levar a lugares que eu tenho vontade de conhecer, mas eu não tenho possibilidade. A leitura me permite imaginar certas situações, me permite torcer por pessoas, me permite conhecer novas culturas [...]. Então me permite conhecer outras coisas, me permite me tornar uma pessoa melhor também. PESQUISADORA: E porque você acha que te torna uma pessoa melhor? ANA TERRA: Eu acho que a partir do momento que eu posso conhecer algo mais profundamente, eu tiro alguns preconceitos que eu tinha sobre aquilo. Mas porque eu não conhecia, e não porque eu não acho certo. Lucíola relata as contradições que vive em aceitar a homossexualidade dos amigos, uma vez que ela é religiosa e aprendeu a julgar que a relação entre homossexuais não é correta ou natural. Ela afirma que o blog e a leitura abriram seus horizontes para que ela visse a questão de uma outra forma, retirando rótulos. Mesmo não abandonando sua religião, a blogueira lê livros com narrativas de personagens homossexuais e transexuais. LUCÍOLA: E aí é isso, ele [o blog] me fez ver também coisas de uma outra forma né. Não vou te falar que eu não sou homofóbica, eu não gosto. Sou cristã, então pra mim não é natural. Mas assim, os meus melhores amigos são gays. É contraditório? É [...]. Mas aí você fala assim, mas você é evangélica, né? É uma coisa... Sim, mas ao mesmo tempo são pessoas que eu vou levar... Mas é contraditório sim, sabe [...]. E aí meu universo, minha percepção também aumentou muito [...]. Eu, na minha religião, não acho certo. Mas eu leio livro de qualquer gênero, hetero, homossexual, trans... Caiu na minha mão, eu tô lendo, é igual bula de remédio, caiu na minha mão, eu tô lendo. E... ampliou mesmo, essa coisa de conhecer pessoas, de tirar rótulos, de sair da zona de conforto... Dessa forma, constata-se que nesses dois casos a leitura apresentou-se como possibilidade de aprender sobre o outro, vivenciar outras culturas, colocar-se no lugar de outra pessoa. Essa experiência com a alteridade propiciou que as blogueiras repensassem alguns de seus preconceitos. 149 Experiências de leitura Duas blogueiras relataram de modo mais demorado as suas experiências com os livros, afirmando sentir emoções durante a leitura. Conforme Petit (2009), a leitura abre caminho para a interioridade, possibilitando transitar pelos territórios da afetividade, das emoções e da sensibilidade. Lucíola conta sobre o medo e a revolta que sentiu após ler o livro de terror “O Iluminado”, do autor Stephen King. Ela considera que o livro despertou seu instinto materno em relação a um dos personagens da história, sentindo necessidade de protegê-lo. LUCÍOLA: Aí eu li O Iluminado, fiquei dois dias sem dormir. Não é que deu medo... Menina, é porque eu fico assim como é que ele [o autor] teve imaginação de fazer isso com uma criança de seis anos. Porque tipo assim... tinha umas horas que o menininho via umas coisas que te dá um cagaço. Você fica assim ‘Oi, o menino tem seis anos e tá vendo isso?’. E tipo eu não posso fazer nada. E aí vem meu instinto materno assim, eu só quero abraçar e proteger ele. Cadê a mãe desse menino? E o pai endemoniado e o hotel... E a mãe simplesmente ‘meu casamento tá bem’. O menino aparecia roxo e a mãe não fazia nada. Como assim, Jesus? Emília relata sua experiência com leituras de dramas. A blogueira tem uma resistência em ler livros desse gênero, mas conta que quando está chateada lê vários livros de drama em sequência. Ela afirma que se sentiu paranoica após ler vários livros de drama que envolviam sequestro. Ao acabar seu estoque de livros de drama, ela sempre volta a ler romances, como forma de aliviar a tristeza provocada pelas narrativas dramáticas. EMÍLIA: É porque eu não consigo pegar um livro de drama, aí eu tenho vários na estante que eu quero ler, mas eu não tenho coragem de pegar pra ler. Então, normalmente eu pego... é uma coisa estranha. Sabe aquele dia que você tá bem chateada? Eu pego esse dia, eu leio um, aí eu já emendo em outro, porque já que eu já comecei a descer a ladeira eu já emendo em outro. Aí normalmente assim, se tem mais algum faltando ali, eu já pego e já leio de uma vez, mesmo sabendo que eu vou ficar mal quando eu ler aquele livro, que eu vou chorar, eu vou ficar chateada. Eu pego e vou lendo, vou lendo, até acabar meu estoque de drama. E aí depois acabou o estoque, eu pego romance rápido pra ler, normalmente pego um romance com comédia tipo Sophie Kinsella, Marian Keys, pego alguma coisa rápida pra eu subir de novo a ladeira. Que... pensa, eu fui ler O Quarto, que adaptou pro cinema, O Quarto de Jack. Eu tive crises de choro [...]. Aí eu fui emendando só livro pesado, aquilo... eu... sabe... Eu não aguentava sair de casa, ficava achando que tinha alguém me perseguindo. E eu tinha emendado, eu emendei só sequestro, foi trauma com sequestro. Aí foi Quarto de Jack, esse do Harlan Coben, aí peguei outro... Eu tinha certeza que tinha alguém me seguindo. Sem brincadeira, eu andava olhando para trás. Eu emendei uns três ou quatro de drama com sequestro. Eu tinha certeza, falei eu vou ser sequestrada, se você chegasse e encostasse no meu ombro eu já tava gritando. De acordo com Dumont (2000a), a leitura pode proporcionar ao leitor uma comoção identificatória. Ao possuir uma cumplicidade com o leitor, o texto traz à luz múltiplas referências arquivadas em seu repertório textual, permitindo a reflexão, o discernimento e a decisão. O que o leitor sente é um retorno sobre si mesmo, pois a leitura possibilita a busca 150 por informações previamente armazenadas, que o sujeito relaciona consciente ou inconscientemente a passagens específicas do texto. De acordo com a autora, quando uma determinada leitura traz alguma informação que vai de encontro a algo que permanecia latente no leitor, há o desencadeamento de uma sensação de êxtase quase explosivo no sujeito. O leitor tem a satisfação de finalmente compreender aquela informação que ele não conseguia expressar com palavras, que já estava na sua consciência, mas que o texto expressou com perfeição. Petit (2009) também identifica o retorno de um conhecimento sobre si mesmo propiciado pela leitura, afirmando que a necessidade de elaboração simbólica redireciona o texto lido, de forma que o leitor encontra nele ecos do que viveu de forma confusa, explicitado graças a um fragmento ou uma frase. Um exemplo de comoção identificatória está presente no relato da blogueira Lucíola. A entrevistada narra sua experiência ao descobrir que sofria de depressão após ler o livro Uma Canção para a Libélula da autora nacional Juliana Daglio. A blogueira relata que, devido à sua religião, acreditava que a depressão era causada pela ausência de Deus na vida das pessoas. Ao ler o livro, concluiu que a depressão se tratava de uma doença. LUCÍOLA: [...] Como Juliana Daglio, uma autora nacional, que eu me vi depressiva depois de ler um livro dela. Porque tipo assim, eu sou evangélica então, você cresce entendendo que depressão é coisa de gente que não acredita em Deus, que depressão é uma coisa de quem não tem Deus, depressão é de quem se afasta de Deus né. E aí assim quando você começa a ler, você vê que não é bem assim. Aí quando você começa a pesquisar, você começa a ver que as coisas não são bem assim né. No trecho abaixo, Lucíola conta como se identificou com os sentimentos da personagem principal do livro, que apresentava sintomas de depressão. LUCÍOLA: Tipo assim é um livro fenomenal, mostra a protagonista dela com depressão no meio de uma família dividida, porque a mãe odeia ela, mas o pai ama... E aí você fica assim sabe... Você se vê em muitos momentos como a personagem. E aí você fica assim gente, sabe... Como? Porque? E aí você vê que tudo que a pessoa, que a protagonista passa, são coisas que você também passa. A blogueira entrou em contato com a autora para questionar se os sentimentos da personagem eram baseados na realidade. Juliana Daglio, formada em Psicologia, confirmou a veracidade dos sintomas da depressão descritos em seu livro e orientou que Lucíola procurasse ajuda profissional. Lucíola considera a leitura como um remédio, que auxilia a manter sua mente equilibrada. LUCÍOLA: Essa Juliana ela é psicóloga. E ela sempre teve depressão e aí ela quis colocar um pouco dela na personagem. E aí eu falei pra ela, uma vez eu perguntei pra ela, eu falei assim ‘Aqui esses sintomas da sua personagem, eles são sintomas verdadeiros?’. Ela ‘É’. Aí eu virei pra ela e falei assim ‘Você tem certeza?’. Ela ‘Sim, eu estudei, eu sou formada em Psicologia’ e tal, eu falei assim ‘Porque eu sinto tudo que ela sente’, ela ‘Então procure uma ajuda’ [...]. Tanto que aí eu me tratei, fiz terapia. Os remédios não me faziam bem, com nenhum remédio eu consegui ficar centrada, os remédios eles me faziam fisicamente mal, eles não tratavam meu psicológico, só afetavam meu físico. E aí os livros fizeram isso, eles fizeram essa... sabe. Eles me tiram do mundo 151 real quando eu preciso ser tirada e eu consigo voltar pro mundo real pra ser presente pro meu filho, pra ter minha família, pra lidar com as pessoas né. Conforme constatado nos depoimentos das blogueiras, as experiências de leitura proporcionaram o contato com emoções e a vivência de sentimentos profundos. Além disso, a identificação com personagens ou com aspectos da narrativa, promoveu uma associação direta entre a ficção e a vida real das leitoras. 6.4.2 Identidade De acordo com Recuero (2004b), os blogs funcionam como uma presença do “eu” no ciberespaço. Existe uma personalização do blog, que reflete a visão que o blogueiro tem de si mesmo ou a visão que pretende transmitir aos seus leitores. Conforme a autora, essa personalização está presente em todos os aspectos de um blog. Dessa forma, em toda informação que é divulgada no blog está incutida a personalidade de seu autor, pois o blogueiro deseja que o leitor entenda que aquele espaço é seu. “O blog é imbuído de personalidade. Imbuído das características e das impressões que seu autor quer dar, da maneira através da qual ele deseja ser percebido pelo leitor” (RECUERO, 2004b, p. 3). A presente categoria busca compreender a relação das blogueiras com seus respectivos blogs, que é permeada por aspectos muito pessoais, que envolvem sua personalidade, sentimentos e vivências. Segundo Recuero (2004b), a relação ente o “eu” do blogueiro e o blog trata-se da apropriação individual do espaço virtual, uma construção do “eu” em um lugar que é “meu”. O blog constitui-se como “uma tentativa de apropriação individual e coletiva do ciberespaço, através da extensão daquilo que o blogueiro compreende como seu particular (identidade individual, personalidade) através da configuração de um espaço” (RECUERO, 2004b, p. 6). Nesse sentido, promoveu-se uma exploração das dimensões emocional e social dos sujeitos da pesquisa. Na perspectiva das práticas informacionais, a identidade tem um “eu” individual e social, visto que há uma relação dialógica entre a dimensão pessoal e a coletiva. De acordo com Araújo (2012), a abordagem social dos estudos de usuários tende a superar algumas dicotomias, como o usuário entre o cognitivo e o emocional. Nessa visão, acessar e usar a informação é também uma ação emocional, cultural, contextual, não restringindo-se o sujeito a uma mente cognitiva. Na análise das entrevistas é perceptível que a relação entre cada blogueira e seu blog – que é também uma relação com a informação, ao abranger busca, uso, produção e compartilhamento de informações - está permeada pelo envolvimento afetivo, constatado nos relatos das motivações das blogueiras, na concepção que elas possuem de blog e nas mudanças de vida proporcionadas por ele. 152 6.4.2.1 Motivações Recuero (2004b, p. 4) constata que “permanece a questão da motivação pela qual as pessoas estão apropriando-se com tal intensidade do ciberespaço, através da personalização que acontece através dos blogs”. Após investigar essa questão, apresentam-se nessa subcategoria as principais motivações das blogueiras ao inserirem-se na blogosfera literária: superação da timidez, criação de um espaço para compartilhar leituras e influência de outras blogueiras literárias. Além disso, verificam-se as motivações para fazer postagens no blog, ou seja, as motivações atuais que promovem a continuidade do blog. Inserção na blogosfera literária As blogueiras foram questionadas quanto a sua motivação para criação de um blog literário. Lucíola, Capitu, Iracema e Macabéa criaram seus próprios blogs. Já Emília, Ana Terra, Ceci e Gabriela se tornaram blogueiras ao se inserirem em blogs já existentes. Em alguns casos, a criação do blog literário surgiu de uma necessidade de criar um espaço para compartilhar suas leituras. Lucíola conta que se sentia solitária e que o blog surgiu como uma oportunidade para falar com as pessoas sobre o seu amor pelos livros, mas, ao mesmo tempo, manter o seu filho próximo e mostrar a ele um exemplo positivo. Já Capitu, foi inspirada por uma colega a fazer o blog e achou que esse seria um espaço importante para falar sobre as coisas que mais gostava, com foco nos livros. LUCÍOLA: Menina, tava sozinha e queria muito falar dos livros que eu gostava [...]. Então assim, foi disso mesmo, eu precisava falar [...]. E foi aí que eu precisei dessa necessidade. Que tipo assim, eu lia várias coisas, eu lia vários livros maravilhosos e tipo assim não tinha o que fazer... E era uma forma de eu conseguir fazer o que eu amava que era ler, ficar perto do meu filho né, é... [...]. Mas assim, manter ele perto, sabe. E mostrar ele, tipo assim, com exemplos mesmo, que pode ser legal tipo assim você falar sobre as coisas, você ler alguma coisa e conseguir falar com as pessoas daquilo ali. Foi mais dessa necessidade de tipo assim manter quem eu gosto perto, continuar fazendo o que eu gosto e também falar com as pessoas sobre o que eu gosto, mas ao mesmo tempo, sem ter ninguém pra falar, sabe. CAPITU: E aí eu parei pra pensar algumas coisas que eu gostava muito na época e livro foi o principal. E aí ás vezes eu falava de maquiagem ou alguma coisa assim, mas o principal, o foco mesmo é livro. E aí foi assim, uma ideia jogada da menina da minha van, aí eu pensei um pouco mais sobre o assunto e gostei, e aí continuei. Surpreendentemente, algumas entrevistadas alegam que sua inserção na blogosfera literária como blogueiras foi uma forma de superar a timidez. Elas contam que são muito tímidas, mas a faculdade e o trabalho demandam que elas sejam pessoas mais comunicativas. Dessa forma, elas encontraram no blog literário uma forma de trabalharem suas habilidades de comunicação. 153 EMÍLIA: E a ideia era falar com as pessoas sobre aquilo que eu gostava, na verdade a ideia foi escrever. Eu era muito tímida e queria melhorar um pouco a minha timidez, comecei a escrever. Mas não aparecia né, ninguém sabia quem tava escrevendo [...]. Veio essa vontade de escrever e de falar, de fazer evento tudo, por causa da minha timidez [...]. Eu ainda sou um pouco, ainda sou tímida, ninguém acredita, mas eu sou tímida. E eu não conseguia escrever com segurança, eu não conseguia falar com segurança. E acabou que era uma válvula de escape do meu trabalho, porque eu precisava no meu trabalho de ter essa segurança. Eu precisava na faculdade ter essa segurança por causa do curso e eu não tinha [...]. A partir do momento que eu vi que eu precisava perder aquela timidez e eu vi no blog uma possibilidade grande disso, aí eu entrei de cabeça. ANA TERRA: Eu sempre fui uma pessoa muito tímida, eu sou uma pessoa muito tímida e a faculdade tá exigindo que essa timidez acabe ou pelo menos que seja diminuída. Igual, no meu caso, eu vou lidar diretamente com pessoas, eu preciso conversar com elas, eu preciso saber instruir, eu preciso saber ouvir... E eu senti uma necessidade de falar algo que as pessoas tivessem interessadas pelo que eu estivesse falando, pudessem me ouvir, no caso, pudessem me ler [...]. Então, a partir disso eu senti uma necessidade de mudar alguma coisa em mim, então eu me matriculei na academia, eu comecei a escrever no blog. Eu acho que eu já melhorei bastante, mesmo que eu esteja falando e as pessoas não estejam me ouvindo falar diretamente. Eu acho que é uma ferramenta de comunicação e que é bastante viável, eu vejo uma resposta muito boa, então foi mesmo uma necessidade de melhorar. Metade das blogueiras se inseriu na blogosfera literária como influência de outras blogueiras literárias. Ceci já era leitora do blog Paradise Books antes de ser convidada para se tornar parte da equipe. Ao ver as postagens das amigas no blog, ela conta que sentiu necessidade de falar a respeito da sua opinião sobre os livros que lia. Gabriela, integrante do blog DNA Literário, também se sentiu influenciada por várias blogueiras e booktubers. Curiosamente, ela conta que uma grande influência para se tornar blogueira também foi o blog Paradise Books. CECI: Porque eu via elas postando a opinião delas sobre os livros, eu li aqueles livros, eu também queria falar qual que era a minha opinião a respeito daquele livro. Então... GABRIELA: Porque eu via muita gente falando, eu acompanhava. Naquela época os canais literários estavam começando né [...] e eu via aquelas pessoas comentando, falando das leituras. E eu também conheci umas meninas que tinham um blog aqui em Bh, as meninas do Paradise Books. E eu sempre encontrava com elas em eventos literários. Inclusive uma delas, são quatro, uma delas eu conheci no Mundo Nárnia, que era o site dos fãs de Crônicas de Nárnia. E aí a gente sempre se encontrava, eu via que elas postavam, elas faziam uns posts e eu também queria compartilhar sabe. Eu também tinha essa vontade de falar de livro, eu lia muito sabe, eu queria falar também. Eu queria que as pessoas soubessem que eu tava lendo, eu queria conversar sobre livros, então foi isso. As outras entrevistadas que se inseriram na blogosfera literária por influência de blogueiras, contam que já atuavam como colunistas de blogs de amigas, mas sentiram a necessidade de criar seus próprios blogs, que tivessem a sua própria identidade. MACABÉA: Teve uma certa inspiração em amigos que já tinham blog, que falavam, eu tenho uma amiga de São Paulo que ela já tava. E ela já tinha me chamado pra escrever duas vezes no blog dela, resenhar algumas coisa pra 154 ela, e eu já tava trabalhando como colaboradora nesse blog dela. Só que como o blog dela tem parceria acaba que ela fica focada naquilo que ela tem que ler e eu não queria isso pro meu. Eu falei não, se eu tiver que escrever um blog, eu vou escrever um blog que eu possa ler o que eu quiser e falar sobre o que eu quiser, independente da editora tá me pagando, não tá me pagando, eu quero falar o que eu gosto. Então acabou sendo isso, acabou sendo a junção de algo que já tinha despertado meu interesse com algo que eu tinha me familiarizado no blog de outra pessoa. Aí eu vi falei ah eu me identifico com isso aqui, eu acho que isso aqui vai ser legal de eu falar, acho que eu vou poder colocar minha opinião e vou poder ouvir o que as pessoas tão achando também. IRACEMA: Aí quando eu comecei a trabalhar com a minha amiga, a Bruna, aí eu achava legal, sabe, é diferente. E era legal ler os comentários, sabe e tudo mais. Aí que eu quis fazer o meu, mas pra ter a minha cara, porque eu só escrevia pra ela. Aí eu falava ‘ah vamos mudar o layout’, ela falava ‘não, tá bom’. Eu não tinha aquela liberdade, apesar de sermos amigas, era dela. Então eu quis fazer o meu pra ter mais tipo assim minha cara e tudo mais. E foi bom, foi muito bom, tanto é que o dela fechou e eu continuei, entendeu, foi bom. Agora se eu começasse do zero, talvez eu não tivesse o mesmo ânimo daquela época. Aí foi bom por causa disso, acho que ter nossa própria identidade. Apesar da gente trabalhar... Eu trabalho pra Emília também. Só que eu só escrevo, eu não interfiro em nada, sabe. Mas aí no meu eu faço foto, coloco as resenhas na ordem que eu quero, enfim... Fica muito mais pessoal. E blog a ideia é essa né, bem pessoal assim. A necessidade de compartilhar leituras já era cotada como uma grande motivação para uma leitora se tornar uma blogueira literária. Mas, a inserção na blogosfera como forma de superação da timidez foi uma motivação muito peculiar que surgiu no discurso de algumas entrevistadas. É interessante, também, observar como a leitura de outros blogs influenciou a metade das entrevistadas a se tornarem blogueiras literárias. Acompanhar o blog de outras pessoas, despertou nessas leitoras a vontade de também exercer um protagonismo, ocupar o seu lugar no ciberespaço e emitir opiniões a respeito das leituras. Postar no blog Realizar postagens no blog é o que o mantém ativo. As motivações de todas as blogueiras para postar nos blogs estão, direta ou indiretamente, associadas aos leitores do blog, o que ressalta uma necessidade que elas possuem de terem suas opiniões lidas, de possuírem voz ativa e serem “ouvidas”. Determinadas blogueiras afirmaram que sua motivação para fazer os posts é receber o feedback dos seguidores do blog. Esse argumento vai ao encontro da afirmação de Prange (2003), que considera que os comentários funcionam como estímulo para os blogueiros escreverem diariamente em seus blogs. De acordo com a autora, o desejo das blogueiras pela participação dos leitores fala de uma intensa necessidade de feedback dos conteúdos postados. CAPITU: Eu gosto de ver o feedback das pessoas, eu gosto de ver quando eu mando o link pra pessoa e ela fala ‘Nossa eu gostei muito, quero ler’, ou ela fala ‘Nossa você escreve bem, eu gostei das fotos’... Nem que seja só pelas fotos, sabe. Mas quando a pessoa dá um retorno, ela fala que gostou, 155 eu percebo que tá fazendo diferença pra alguém. Então se tá fazendo diferença pra alguma pessoa, eu continuo postando porque vai ter aquela pessoa que vai ser bom pra ela, sabe. Não precisa ser tipo nossa vou ficar famosa mundialmente, mas assim se tá fazendo diferença pra alguém já é alguma coisa. GABRIELA: Motivação... é eu acho que por mais que a gente faça por gostar, eu acho que é bom ter um retorno sabe, saber que tem alguém lendo. Eu acho que... E divulgar nosso trabalho, sabe, dá trabalho fazer [...]. Então acho que você saber que tem alguém lendo, que tem alguém acompanhado o blog, divulgando a gente, isso é bom. ANA TERRA: Eu acho que é mais essa questão de querer que as pessoas ouçam o que eu tenho pra falar sobre determinada coisa [...]. Mas eu acho que é essa necessidade mesmo sabe. [...] se eu for lá no blog vai ter gente que acha interessante e que eu vou falar alguma coisa, ela vai responder no final do post. Então eu acho bacana esse feedback. Apesar de todos os dias pensar em desistir do blog, uma das blogueiras sente que a motivação para continuar vem dos comentários que recebe dos leitores e de sua atuação na disseminação de informações na blogosfera literária. EMÍLIA: Então, motivação mesmo...Todo dia quando eu acordo eu acho que eu vou desistir dele [...]. Eu falo ‘nossa eu não aguento, chega, cansei, vou passar esse blog pra frente’. Aí na hora que eu vou dormir, porque normalmente eu olho meu quarto na hora que eu vou dormir, então tipo eu olho pra frente, aí eu olho a quantidade de livro que tem e aquilo me bate um desespero, aí eu durmo. Aí de manhã cedo ‘não, eu vou dar conta’ aí eu acordo já motivada de novo. Eu acho que a motivação é dos comentários que a gente recebe. Tipo, eu recebi um comentário agora mais cedo, a menina falou ‘Nossa fala mais de romance de época, adoro romance de época’. E às vezes o fato de que as pessoas, é estranho isso, porque hoje a rede social é tão ampla, a gente para e pensa todo mundo sabe de tudo, mas não. As pessoas não veem as coisas, não vê os lançamentos, não recebe, não vê evento. Aí de repente quando passa fala tipo ‘nem vi’. Então mesmo sendo uma rede social tão ampla a informação não chega. Então eu gosto de pensar que eu sou um pontinho ali ajudando a rede social, as informações a chegarem um pouco mais pra frente, sabe. Outras motivações citadas dizem respeito ao senso de responsabilidade com as editoras parceiras do blog e também o compromisso em mantê-lo atualizado para os seguidores. IRACEMA: Motivações eu não sei... É tão natural hoje em dia ‘ah tenho que postar’. Eu acho que é mais até por responsabilidade, até porque a gente tem as parcerias. E pra deixar também porque a gente tem os seguidores, é legal também manter o feed atualizado até pra mostrar que você tá ativa no perfil né. Então eu acho assim é mais motivações eu acho que é o público e também o compromisso que a gente tem com as editoras e tudo mais [...]. Eu acho que a motivação é mais essa aí mesmo, é um trabalho. A necessidade de falar sobre os livros que gostam é a motivação de certas entrevistadas. Algumas blogueiras enfatizam o gosto pelo compartilhamento de suas leituras. Já outra afirma que, além de falar sobre os livros que gosta com outras pessoas, ela motiva- se a postar no blog para ser um bom exemplo para os filhos. CECI: Pra postar no blog é compartilhar informação. E como eu comentei falar de algo que eu realmente gosto. 156 LUCÍOLA: Ah, não tem muita motivação, é aquela coisa o sentido inicial é eu li e quero compartilhar aquilo com as pessoas [...]. É, tipo assim... Quem sabe alguém mais gostou ou quem sabe o que esse livro falou é bom pra outra pessoa... MACABÉA: Porque eu gosto de fazer, eu gosto de ler. Quando eu fico muito empolgada com alguma coisa. Às vezes eu posto também, porque como eu tenho dois filhos, eu leio pra eles e eles trazem algumas coisas da escola [...]. E é minha motivação, acho que eles principalmente, assim, poder mostrar pra eles que aquilo é legal, poder mostrar que você pode ter pessoas inteligentes, você pode conviver com pessoas, você pode aceitar as pessoas do jeito que elas são, você não precisa impor sua vontade sobre elas... A minha maior motivação é fazer algo que eu gosto e poder compartilhar isso com outras pessoas que eu sei que também gostam dessas coisas. Percebe-se que grande parte das blogueiras usa a palavra “feedback” ao relatarem sobre as suas motivações, ressaltando a importância da interação com o leitor do blog. Outras motivações citadas dizem respeito a atuação como disseminadora de informações na blogosfera literária e o compromisso assumido com as editoras. A já cotada necessidade de compartilhar leituras surge outra vez junto às principais motivações. A questão de ser um exemplo para os filhos, já citada na motivação para inserção na blogosfera, aparece novamente, sendo esse ponto abordado pelas duas blogueiras que são mães. É evidente que as motivações das blogueiras, tanto para inserir-se na blogosfera literária como para continuar realizando postagens no blog, perpassam por questões muito pessoais, que envolvem sentimentos muito íntimos como: a necessidade de trabalhar a timidez, ter voz ativa e ser ouvida por outras pessoas, compartilhar suas leituras e poder expressar sua própria opinião, ser um exemplo para os filhos e mantê-los próximos, escapar da solidão, a responsabilidade com as parcerias e com os leitores do blog. 6.4.2.2 Representações do blog O blog possui diferentes representações na vida das blogueiras. Durante as entrevistas elas foram perguntadas se enxergavam o blog como um hobby, como uma forma de visibilidade ou como uma forma alternativa de renda. Entretanto, surgiram outras respostas, uma vez que o blog também é visto como um trabalho e, em algumas falas, constatou-se que as blogueiras se referem ao blog como um “filho”. É importante ressaltar que as representações do blog são ações, pois, conforme o conceito de informação adotado pelo paradigma social, produzir ou usar informação ocorre no decurso de outras ações, noção evidenciada pelo conceito de práticas informacionais. 157 Blog como hobby A maioria das blogueiras compreende o blog como um hobby, evidenciando em suas falas que o blog é algo que fazem por prazer, não sendo uma forma alternativa de renda. MACABÉA: Acho que ele tem muito mais uma forma de hobby. Hoje ele pra mim é um hobby assim, algo que eu dispendo um tempo pra cuidar porque eu gosto, não porque eu tenho pretensão de ah eu vou ser a blogueira mais conhecida da história dos blogs. Eu não tenho essa pretensão não, não é essa a intenção. A intenção mesmo é poder interagir com outras pessoas que gostam das mesmas coisas que eu e poder falar um pouquinho. Não é nada grandioso, não quero ficar rica. CAPITU: Um hobby que me dá prazer em fazer quando eu tô inspirada. Do mesmo jeito que eu amo ler, eu amo fotografia, eu amo escrever também [...]. Eu faço por prazer mesmo. Se vier o dinheiro e a visibilidade é uma consequência, quem sabe um dia. LUCÍOLA: É um hobby mesmo. É hobby mesmo, tanto que ele não tem uma constância. Eu escrevo nele tudo que eu gosto de todos os livros que eu leio e é isso. Não me dá renda não. Uma das blogueiras também considera o blog um hobby, mas ressalta que, apesar de não obter uma renda, o blog possibilita que ela receba livros gratuitamente das editoras. CECI: Hoje o blog pra nós é um hobby, porque como eu falei todas têm outros afazeres, mas a gente tem aquele carinho com o Paradise. [...] Como renda não temos, assim o que a gente tem nesse sentido é... A gente tem parcerias com algumas editoras, então a gente recebe alguns livros. [...] Mas como renda, não. Ele dá mais é gasto, porque às vezes a gente gosta muito do livro e quer sortear e a gente não tem como, a gente compra pra sortear. Apenas uma das blogueiras ressalta o fato de conseguir arrecadar um pouco de dinheiro através da publicidade da Amazon, mas considera que o blog é um hobby. GABRIELA: Olha, renda a gente ainda não tá ganhando dinheiro não. A gente tem negócio com a Amazon, aquele link da Amazon, então tem um dinheirinho lá, que a gente vai usar sei lá pra enviar prêmio de sorteio, alguma coisa assim. Então renda muito pouco. Hobby, sim. As blogueiras consideram o blog como hobby, uma atividade realizada por prazer, ressaltando que ser blogueira literária não é uma atividade lucrativa. Blog como trabalho Surpreendente, certas blogueiras responderam que o blog trata-se de um trabalho, pois elas possuem parcerias com editoras e necessitam de cumprir prazos para ler os livros recebidos e postar as resenhas. IRACEMA: A minha relação hoje com o blog é hobby também, até porque ele preenche lacunas no meu dia-a-dia, apesar de não ser o principal. Mas eu também encaro como trabalho, por causa do compromisso que eu assumi, até porque não é brincadeira né. A empresa que tá do outro lado ela é séria, ela quer lucro, ela não tá lá só pra fazer os blogueiros felizes [...]. E a gente é um meio de divulgação, um veículo né. Então eu encaro muito como um trabalho, como um compromisso. E com dinheiro assim, a gente não ganha 158 nada, mas quando a gente recebe livro, a gente economiza né. Porque é um livro que você queria ler, acaba que você recebeu em casa, então acaba que é uma economia. Então no geral é uma conta que fecha assim. Eu compraria de qualquer forma, então é até bacana ter o blog pra poder receber os lançamentos. E é muito bom você saber das coisas, sabe. Eu quando era leitora apenas, nossa não sabia de nada. EMÍLIA: É, eu não considero mais um hobby, porque eu tenho obrigações a cumprir ali [...]. Mas hoje se eu não cumprir minhas obrigações, eu vou queimar meu nome [...]. Se fosse um hobby, eu postar ou não, seria tranquilo, mas não é mais [...]. Então se fosse só um hobby, tranquilo, eu não ia preocupar, porque não deu pra fazer, beleza. Só que eu tenho compromisso com terceiros, eu tenho compromisso com editora. Eu sei que muita gente considera a blogosfera, o blog, como hobby. Mas eu acho que a partir do momento que você tem parcerias, que você tem... assume compromissos, já não é... Já não é mais um hobby, aí acaba sendo um trabalho, um terceiro trabalho que eu tenho.. Eu tenho que cumprir aqueles prazos que eles determinam. O blog configura-se como um trabalho para as duas blogueiras que possuem um grande número de parcerias com editoras. Emília do Entrando Numa Fria possui 13 parcerias com editoras, enquanto Iracema do Livros e Sushi possui cinco selos editoriais. A parceria com as editoras demanda dessas blogueiras uma responsabilidade com os prazos para leitura e postagem dos livros, o que desconfigura o blog como um hobby feito por prazer e impõe uma pressão para publicação das postagens. Blog como forma de visibilidade Em alguns casos, os blogs são considerados como forma de visibilidade. Gabriela afirma que o blog promove sua visibilidade e que coloca em seu currículo que é blogueira, pois como estudante de jornalismo, ela considera importante divulgar seu trabalho. Emília também afirma que o blog é uma forma de visibilidade, mas não em relação a sua profissão de advogada, sendo conhecida por ser blogueira GABRIELA: É um pouco forma de visibilidade, porque eu coloco no currículo. Coloco blogueira DNA Literário, vídeo e texto. Porque se a pessoa vai procurar um texto seu e ela vê lá, eu acho que dá uma ajudada, sabe [...]. Então eu coloco no currículo sim, coloco naquela assinatura do Gmail. EMÍLIA: Ah, todo mundo fala que eu conheço o mundo né. Todo mundo fala, ‘A Emília? A Emília conhece o mundo’. Na verdade, a Emília é conhecida no mundo, todo mundo conhece a Emília. Então o pessoal normalmente sabe, que se precisa saber de alguma coisa, se tem alguma novidade fala comigo. Eu não sei nada, mas normalmente o pessoal aqui de BH, fala ‘Ah a Emília deve saber’, ‘Ah vamos postar alguma novidade, ah a Emília sabe, se a Emília não souber ninguém sabe’. Eu falo que não é assim gente, tem gente que sabe muito mais do que eu, mas eu sei de muita coisa [...]. As pessoas praticamente não conhecem a Emília advogada pelo blog, as pessoas conhecem a Emília blogueira. Mas eles sabem que se precisar de qualquer coisa tem a Emília ali que vai te ajudar. Então eu tenho uma visibilidade boa. Para algumas blogueiras, o blog permite algumas facilidades no meio literário, como a entrada gratuita em eventos. 159 CECI: É, a gente consegue, nós conseguimos credenciar na Bienal, então nós não vamos pagar a entrada. Então ele dá uma facilitada com algumas coisas no meio literário [...]. A visibilidade no sentido que às vezes você tá aqui, a pessoa fala ‘Ah você é a Ceci do Paradise’, então nós somos reconhecidas em alguns locais por causa do blog. Mas é só no meio literário realmente, não pra outra coisa assim. LUCÍOLA: É, menina acho que foi uma das melhores realizações da minha vida blogueira foi isso. Eu recebi uma carta, uma carta não, eu recebi um e- mail da Novo Século me convidando pra ir na Bienal, e eles me deram duas cortesias. Na Bienal de BH em 2016. E assim, eu me senti o máximo, porque eu tinha direito a um kit de blogueiro e aí eu fui sabe feliz. Ah mostra sua... Mostrei o meu ingresso, porque eu não gastei nada pra poder entrar. Aí fui toda maravilhosa, cheguei 10 horas da manhã, na hora que abriu a Bienal, saí da Bienal seis horas da tarde. Aí fui, passei lá no estande da Novo Século, ganhei meu kitzinho, que veio com ecobag, garrafinha, tudo que a gente gosta né. Ter um negócio pra você beber água, poder hidratar, e uma ecobag maravilhosa e tal, fiquei me sentindo. Em outro momento da entrevista, Emília também lembrou do reconhecimento que possui nos eventos literários, como na Bienal do Livro, onde é sempre lembrada como a blogueira que vai presentear os autores com doce de leite. Ela conta com orgulho, que na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2017, recebeu a credencial de imprensa, sentindo-se mais valorizada. EMÍLIA: [...] você tem que manter sua marca, você tem que manter sua ideia, porque igual as pessoas já me conhecem, já sabem quem eu sou. Há oito anos, que eu acho que eu fui na minha primeira Bienal, eu levei doce de leite para os autores, aleatoriamente, porque eu queria dar uma lembrancinha. Acabou que hoje todo mundo sabe, todo mundo sabe, se vier em Belo Horizonte, vai ganhar doce de leite. Se for na Bienal, eu sempre vou levar doce de leite. Então, eu já sou conhecida como a blogueira que vai levar doce de leite. Se eu não levar doce de leite, é assustador o tanto de gente que reclama, não reclama não do tipo de xingando, mas ‘Pô Emília, você não trouxe doce’. Então gente é sempre isso, é acreditar que uma coisinha mínima que você faz vai ser reconhecida, pode não ser reconhecido financeiramente que às vezes é o que as pessoas esperam. Mas é o carinho, um livro que você vai receber sem tá esperando, uma cortesia de entrada, uma credencial de imprensa invés de ser de blogueiro. Ano passado, Bienal do Rio. Eles tinham a credencial de blogueiro, eu recebi a de imprensa e a de blogueiro. Então, faz uma diferença, você vê que seu trabalho tá sendo mais reconhecido porque você recebe uma credencial de imprensa, sendo que eles poderiam ter me dado a de blogueiro. Dessa forma, o blog apresenta-se como uma forma de visibilidade, dependendo do propósito de cada blogueira. A futura jornalista Gabriela necessita que as pessoas conheçam seu trabalho com o blog. Ceci e Lucíola constatam que a sua visibilidade é somente no meio literário, mas que isso proporciona algumas facilidades. Já Emília, que já possui uma carreira consolidada como advogada, prefere ser reconhecida como blogueira, sendo uma referência nos eventos literários. 160 Blog como filho No discurso de metade das blogueiras constatou-se que elas referem-se ao blog como um “filho”, utilizando também a palavra “cuidar” ao se referirem à atualização do blog. Essas expressões demonstram uma forte afetividade na relação das blogueiras com o seu blog. CECI: Então como eu falei, no começo do ano a gente ficou um tempo sem atualizar o blog, todo mundo ficou triste. Como vamos fazer com o blog né não vamos deixar ele morrer, tipo é o nosso filho [risos]. Então é um hobby, vamos cuidar dele. Cada uma pode postar uma vez por semana? Pode. Então vai ser assim. A gente tenta cuidar mesmo, assim é o nosso filho. GABRIELA: Eu acho que eu faço muita coisa pensando no DNA e pensando no DNA crescendo, sabe [...]. Então eu fico pensando nisso tipo nossa vou fazer tal vídeo, vou fazer tal coisa, mas porque é uma parte da minha vida que eu gosto, sabe. Eu realmente gosto de fazer o que eu tô fazendo. E então eu penso no DNA com carinho mesmo, tipo como se fosse um filho que eu tô cuidando sabe. Uma das blogueiras conta como consegue “cuidar” do blog em meio a uma rotina de trabalho intensa. Em seu discurso, ela expressa uma contradição entre, ao mesmo tempo, gostar e não gostar do tempo que o blog demanda, mas considera que o blog é uma escolha que faz parte de quem ela é. A blogueira conta que qualquer tempo disponível que possui, entra no blog para dar uma olhada, como se fosse um filho. IRACEMA: Engraçado, eu falo que às vezes não tenho tempo pra cuidar dele, que quero desistir né, mas ao mesmo tempo eu penso assim nossa se eu não tivesse ele o que eu ia fazer no final de semana, o que que eu ia... Será que eu ia ler por obrigação? Porque a gente tem prazos né. E acaba que hoje eu vejo que eu gosto demais do tempo que ele me toma, e não gosto também. É bom demais, não sei explicar, é bom e ruim. É tipo eu não odeio, porque se eu odiasse eu não ia fazer nunca né, mas é uma relação assim tipo tá dentro já, tá inserido no meu dia-a-dia, super corrido, mas a gente encaixa. E dá certo, sabe. É muito doido [...]. Mas assim, às vezes no meu trabalho, no meu trabalho eu acabo abrindo o blog, tem um comentário e tal, acabo respondendo e tal. Qualquer momentinho eu vou lá e dou uma olhada, é tipo filho sabe. Eu gosto muito, mas o tempo que ele toma não é um tempo assim que nossa eu tô deixando de viver, sabe. Acho que faz parte do que eu hoje sou, do que hoje eu quero. Então assim é bem natural mesmo, gosto muito. Ana Terra, ao falar das diversas redes sociais ligadas ao blog, conta que cada plataforma é “cuidada” pelas blogueiras integrantes do Marshmallow com Café. De acordo com ela, o Twitter precisa de uma “mãe” para cuidar dele como um “filho”, da mesma forma que as outras mídias são “cuidadas” ANA TERRA: Porque o Instagram nós quatro cuidamos, o Facebook a Yasmin51 cuida mais, aí tem o Pinterest que às vezes a gente consegue colocar alguma coisa lá, mas aí nós quatro também acessamos. Precisamos de uma cuidadora oficial, uma mãe do Twitter, pra poder cuidar dele como um filho como a gente tem cuidado das outras mídias. 51 Nome fictício. 161 O fato das blogueiras referirem-se ao o blog com um filho, demonstra uma relação sentimental com o projeto. No discurso das blogueiras observa-se que esse blog “filho” demanda cuidado, carinho, deseja-se que ele cresça, mas ao mesmo tempo, esse mesmo filho demanda tempo e cobra responsabilidades. 6.4.2.3 Mudanças após o blog As entrevistadas relataram as principais mudanças que sofreram em suas vidas após se tornarem blogueiras. No discurso de determinadas blogueiras constata-se que o blog trouxe amizades e auxiliou na melhoria da sociabilidade. Em outros relatos, as blogueiras evidenciam que o blog contribuiu para sua autoconfiança e reconhecimento. Amizades e sociabilidade Tornar-se blogueira possibilitou que essas leitoras participassem de novos círculos sociais, conquistando novas amizades. Ceci é grata ao meio literário pelos amigos que fez em Belo Horizonte, principalmente as blogueiras do Paradise Books. Ela também comenta sobre sua amizade com Iracema e afirma que o mundo literário constitui 50% de sua vida. CECI: Na minha vida é... Eu sou muito grata à literatura, aos livros, pelos amigos que eu fiz, como eu falei, eu não morava aqui... Então hoje todos os amigos que eu tenho foi por meio da leitura. E eu me senti... pelas meninas quando elas me convidaram pra fazer parte do blog, porque como eu falei são duas irmãs e uma prima, então elas são todas da família, eu sou o pontinho de fora ali no blog. Então pra mim é importante nesse sentido, é onde eu posso me expressar a respeito das minhas leituras, se eu tô gostando se eu não tô gostando. Eu entro em contato com outros leitores também, que às vezes você posta a resenha, você pergunta ‘Quem já leu? Vocês gostaram ou não gostaram?’ Então você fica compartilhando essa informação com pessoas, contatos mesmos... Amigos que eu fiz por conta do blog, a Iracema veio depois, eu conheci a Bruna que é do Meu Mundinho Fictício porque eu participava da promoção no blog dela, eu comentava lá e eu conheci ela pessoalmente, que é daqui de Belo Horizonte... Então assim é muito importante pra mim esse mundo literário, vamos dizer assim, do blog, dos contatos e tudo. Como eu falei na Bienal tenho contato com todas... Então tipo assim é 50% pra mim esse mundo literário, que é muito importante. Outra blogueira considera que não é uma pessoa que possui facilidade em fazer amizades, mas que conheceu pessoas do Brasil todo por meio do blog, além do grupo de amigas blogueiras de Belo Horizonte. IRACEMA: E eu não sei... Mas eu conheci muita gente, muita, muita gente, foi muito bom. Eu não sou uma pessoa que faz amizade fácil e com ele eu conheci muita gente, sabe, que talvez eu não conheceria nunca. Tipo eu só conheço gente do meu trabalho, da faculdade... E são pessoas do Brasil todo, tem gente de São Paulo, do Rio que a gente fez amizade. Aqui de BH também meninas que eu nunca... não tem nada em comum a não ser livros e somos amigas. Então assim eu acho que essa parte dos livros mudou muito por causa disso. E também tem as apresentações em eventos, acaba que a gente 162 fica mais antenada. [...] Então eu acho que um pouco dos livros já tá internalizado em mim sabe... A gente muda sem saber né... E acaba que eu não sei viver mais sem isso, é muito louco né. Lucíola considera o blog como seu ponto de equilíbrio, afirmando que ele a retirou de crises depressivas intensas. Além disso, ela afirma que depois do blog conquistou novos amigos, pois antes ela só convivia com o filho e com as pessoas vinculadas à igreja que frequenta. Atualmente, ela se relaciona com várias pessoas diferentes no meio literário. LUCÍOLA: Ele é meu ponto de equilíbrio [...]. Ele não deixa a minha, o meu pêndulo nem ficar muito negativo e nem ir por positivo demais, porque eu acho que quando você tá muito feliz, as coisas sempre tendem a dar um caída. E aí ele mantém esse meu equilíbrio entre o coração e a razão, digamos assim, porque eu sou muito racional [...]. Eu tenho amigos [risos]. Não, eu... As pessoas que eu conheço elas são maiores, porque antigamente eram pessoas da faculdade e pessoas da igreja. E... Aí eu saí, eu terminei Gestão Financeira, aí era só eu e meu filho e as pessoas da igreja. Agora, tipo assim, nos encontros eu me relaciono com várias pessoas diferentes, então eu tenho essa possibilidade de conhecer outras pessoas, conhecer pessoas diferentes, sabe, de trabalhar com pessoas diferentes, de estar em meios [...]. Me tirou de crises depressivas, de crises de ansiedade muito grande... Então assim, pra mim o blog é isso. Em seu relato, Macabéa considera que o blog possibilita que ela esteja próxima dos amigos, uma interação com pessoas por quem ela tem um carinho especial. Além disso, o blog permite também conhecer outros leitores, de modo que seja criada uma rede social de pessoas que gostam das mesmas coisas. Ela termina sua fala afirmando que o blog é seu grupo de apoio. MACABÉA: É um papel mesmo assim [...] que eu possa realmente estar mais próxima dos meus amigos porque as pessoas que estão lá são pessoas por quem eu tenho um carinho muito grande [...]. Uma ferramenta pra você fazer da leitura... uma ferramenta pra interagir com outras pessoas. Então o blog acabou sendo isso, ser uma ferramenta pra gente conhecer outras pessoas, pra gente falar desse... pra criar mesmo um universo de pessoas em uma rede social de pessoas que gostam das mesmas coisas que a gente gosta. É quase como se fosse aqueles grupos sabe, tipo grupo de apoio, o blog é meu grupo de apoio [risos], tive DR [discussão de relacionamento] aí eu vou pra lá. No caso das blogueiras tímidas, houve relatos de como o blog auxiliou na superação da timidez e na melhoria de sua socialização. ANA TERRA: Eu tenho melhorado o aspecto pessoal. Porém no blog é um pouco mais tranquilo, por tirar o visual, sabe. Eu tô falando lá, tem a minha foto lá, mas a pessoa não tá me vendo falar. Então é bem mais tranquilo falar assim. Mas eu tenho tentado melhor o verídico mesmo né, a Ana Terra fora da internet. GABRIELA: Olha, eu tô bem menos tímida do que eu era. Porque eu acho que a partir do momento que você se abre pra outra pessoa ler o que você tá falando, você perde um pouco disso, porque tipo você sabe que alguém tá lendo, você não tá postando pra ninguém [...]. Eu perdi muito a timidez [...]. Foi o DNA que me ajudou com a timidez assim e me ajuda também a fazer amizade, eu tô fazendo amizade por causa dos livros. É perceptível que o blog promove a criação de vínculos entre os leitores literários. Ao ser uma forma de divulgar as leituras realizadas, o blog permite a interação entre leitores que 163 possuem gostos semelhantes, o que propicia o surgimento de novas amizades. Além disso, o blog auxilia como forma de expressão, possibilitando a superação da timidez. Autoconfiança e reconhecimento A autoconfiança e o reconhecimento são sentimentos que emergiram nas falas das blogueiras. No depoimento abaixo, uma das blogueiras constata que, conforme recebia feedback positivo dos leitores do blog, sentia-se confiante e valorizada. Ela afirma que essa confiança atingiu todos os aspectos de sua vida. CAPITU: Autoconfiança. Sério. Porque as pessoas que me davam retorno, eu comecei a pensar nossa as pessoas leem de verdade, nossa as pessoas realmente gostam, se elas tão se dando ao trabalho de escrever pra mim é porque elas gostam. Já recebi vários e-mails de pessoas elogiando, nem pedindo nada... E eu fico muito feliz de ver que as pessoas gostam, sabe. Então eu comecei a escrever, eu sempre gostei de escrever só que eu não publicava nada. E quando eu comecei a fazer o blog que eu percebi que as pessoas gostavam do que eu escrevia, melhorou muito assim a minha confiança na minha pessoa. Sério, eu fiquei assim mais confiante em qualquer coisa na vida. Fui melhorando aos poucos né, claro, mas melhorei bastante. Outra blogueira descreve como se tornou uma referência para as pessoas quando o assunto são os livros, sendo reconhecida como uma pessoa que lê muito e escreve sobre os livros que ama. EMÍLIA: É... Todo mundo quando precisa de alguma informação, de família, é muito engraçado... Ás vezes alguém de família vem conversar com você, você fala ‘Ah pode falar’, ‘Não, tô precisando é de uma indicação de livro’. Então pra indicar livro sou eu. E isso mudou muito de antes, porque hoje todo mundo sabe a Emília lê, a Emília tem muito livro, a Emília ama leitura, a Emília escreve. Então isso fez uma diferença até na minha vida. Macabéa, uma das organizadoras do Clube do Livro de Ribeirão das Neves, considera que o blog contribui com certa credibilidade, uma vez que ela necessita de solicitar contribuições de editoras para esse projeto social. Segundo a blogueira, o blog permite que as pessoas a conheçam e possam ler o que ela escreve. MACABÉA: E o blog me ajudou nisso. Em que? Conhecer editoras, de ter mais coragem pra poder ir lá e falar aqui deixa eu te falar, tem um Clube lá em Neves e tal... E eu acho que o blog ajuda porque dá credibilidade e tal. A pessoa tem um blog onde ela escreve e ela tá fazendo um trabalho social lá na cidade dela onde quer fazer né alguma coisa lá... Então isso ajuda, dá credibilidade quando você manda, você fala ‘Ah eu escrevo lá no blog tal’, você vai ver minha carinha lá, quem sou eu na fila do pão, você sabe quem que é. Então o blog ajudou nisso, sabe. É perceptível no discurso das blogueiras que sua inserção na blogosfera literária possibilitou mais do que a participação no universo literário, abrindo caminho para conhecer novas pessoas e fazer novas amizades, além de permitir a conquista da autoconfiança e um reconhecimento do seu trabalho por parte de terceiros, como os familiares e as editoras. É importante ressaltar que todas as mudanças observadas estão relacionadas a sentimentos 164 muito íntimos de cada blogueira, que envolvem as relações interpessoais, a capacidade de interagir, a confiança em si mesma e a sensação de ser reconhecida. 6.4.3 Ações de Informação Em sua pesquisa, Harlan (2012) considera como ações de informação: a coleta, o pensamento e a criação de conteúdo. Essas três categorias conceituais criadas pela autora, foram obtidas no estudo das práticas informacionais de adolescentes em comunidades virtuais, abordado no referencial teórico. As ações de coleta são guiadas por necessidades informacionais e ocorrem por meio da observação, navegação, busca e também inclui o encontro casual com a informação. As ações de pensamento estão relacionadas ao modo como são usadas as informações coletadas, incluindo avaliação, reflexão e o planejamento. Por fim, as ações de criação constituem o uso visível da informação, incluem copiar, modelar e compor. Ao fazer um paralelo com o conceito de ações de informação proposto por Harlan (2012), a presente categoria intenciona compreender as ações das blogueiras no processo de produção de conteúdo para o blog. Tal processo compreende ações de coleta, visto que as blogueiras necessitam de realizar leituras prévias para produzir resenhas, procurar informações sobre os lançamentos ou recebê-los diretamente das editoras. As ações de pensamento também estão presentes no momento da construção do texto, no planejamento dos sorteios, na ideia do cenário das fotografias de livros, ao manter a atualização do blog, ao programar a divulgação do conteúdo em cada uma das redes sociais. As ações de criação são contempladas no ato de escrever resenhas críticas, realizar sorteios, divulgar lançamentos literários, fotografar livros, postar nas redes sociais, enfim, produzir conteúdo. Nesse sentido, apresentam-se as subcategorias de ações de informação: produção de conteúdo, escrita de resenhas, sorteios e lançamentos, produção de fotos, atualização e transmídia. 6.4.3.1 Produção de conteúdo As entrevistadas foram questionadas se consideravam-se como produtoras de conteúdo, um dos papéis que essa pesquisa objetiva averiguar no que se refere a atuação dos blogueiros na blogosfera. De acordo com Arnault et al. (2011), atualmente, todos têm o potencial de produzir conteúdo. A realização de postagens nos blogs, a escrita de resenhas e a criação de imagens são ações que podem ser compreendidas como produção de conteúdo na web. Entretanto, a pergunta intencionava investigar a perspectiva que as blogueiras possuem de si mesmas como produtoras de conteúdo. A maioria das blogueiras respondeu 165 afirmativamente, considerando que produzem conteúdo nos blogs como resenhas e fotos. Além disso, a influência que o conteúdo postado pode provocar no leitor também foi citada. IRACEMA: Sim, também, até pelas fotos e pelas resenhas. Eu acho assim... a gente acha que não, mas a gente influencia muita gente. EMÍLIA: Produtora de conteúdo, sim. Porque eu tenho conteúdo escrito e mesmo se eu replico conteúdo, se eu pego conteúdo numa página e reposto no Instagram, eu tô fazendo com que aquele conteúdo aumente, chegue, um alcance maior, então assim... ANA TERRA: Acho que sim. Eu deixo a minha opinião marcada sobre determinada coisa e aquilo pode influenciar outras pessoas, sabe. ‘Ah, eu vou ler aquele livro porque a menina daquele blog falou que ele é bom, vamos ver se ele é bom’. Isso pode influenciar tanto positivamente, quanto negativamente. GABRIELA: Sim, eu produzo conteúdo. Nunca parei pra pensar nisso, mas é, eu produzo conteúdo pra alguém, falando de alguma coisa pra alguém, alguma coisa que... alguma coisa que outra pessoa também pode gostar. CAPITU: Pergunta difícil. Eu não sei se eu diria que hoje em dia... Mas se for olhar no geral, sim. Porque eu não copio nada dos outros blogs, o que eu faço é autoral, as fotos são minhas, o texto é meu, eu escrevo a minha opinião [...]. Então é uma geração de conteúdo. Por outro lado, algumas blogueiras não se consideram como produtoras de conteúdo. As ações de compartilhar conteúdo e emitir opiniões por meio das resenhas críticas não são compreendidas pelas entrevistadas como uma produção de conteúdo. O argumento preponderante em seus discursos é o de que elas não produzem nada de novo, sendo sua atuação somente compartilhar e comentar sobre algo que já existe. CECI: Não... Eu... É compartilhar mesmo assim, eu não... É hobby pra nós. Então é mais um compartilhar mesmo, pra as pessoas terem contanto com outras pessoas com o mesmo gosto que a gente, essas coisas... Sim, eu crio conteúdo, mas não... LUCÍOLA: Não. Porque tipo assim pra você ter, pra você ser um... você produzir um conteúdo, você precisa produzir além daquilo ali. E eu falo de uma coisa que já está pronta, eu só tô fazendo a minha visão. Não é, eu não vou influenciar o mundo pela minha resenha, às vezes eu posso mudar o seu pensamento com uma resenha minha. Mas eu não vou criar nada, eu não vou tirar do limbo uma coisa que não existia ou melhorar uma coisa que não existia. É, não me acho. MACABÉA: Produtora de conteúdo? Eu não sei... [...]. Eu não sei se produtora de conteúdo seria... Acho que mais produtora de opinião do que de conteúdo, porque eu entendo que conteúdo é você pegar algo e colocar um assunto novo em pauta. Acho que quando você faz resenha, você não tá colocando um assunto novo em pauta, você tá emitindo opinião sobre algo que outras 300 pessoas tão emitindo. Acho que seria gerar conteúdo se eu falasse de um assunto completamente novo, tipo eu entro lá e falo algo a partir do nada ou a partir de alguma coisa que eu vi, uma pesquisa que eu fiz, realizei, eu vou fazer algum post. Mas quando eu faço uma resenha eu não acho que eu tô gerando conteúdo, eu acho que eu tô na realidade emitindo uma opinião sobre algo. A identificação das suas ações na blogosfera como formas de produção de conteúdo está presente no discurso de muitas blogueiras. Em outra visão, algumas não se consideram produtoras de conteúdo, preferindo afirmar que compartilham informações e emitem opiniões. 166 6.4.3.2 Escrita de resenhas Retomando o referencial teórico, Araújo e Araújo (2015) consideram a resenha como um elemento essencial na caracterização de um blog literário, pois são as experiências do autor da postagem transmitidas aos leitores da página, contendo a descrição da obra lida de maneira sintetizada e argumentos relacionados à opinião crítica. Por meio da análise documental, constatou-se que a maior parte das publicações dos oito blogs pesquisados constitui-se de resenhas. As blogueiras foram questionadas sobre a importância que davam ao texto e como acontece o processo de escrita das resenhas. Como observado durante a análise documental dos blogs, as resenhas críticas possuem uma estrutura pré-determinada, com a inserção dos elementos em uma certa ordem. Geralmente a resenha é iniciada com a sinopse, copiada do livro ou redigida com as próprias palavras da blogueira. Posteriormente, apresenta-se a opinião sobre o livro, transmitindo aos leitores as impressões que a blogueira teve durante a leitura. ANA TERRA: Eu acho que o texto... Ele é a parte mais importante na questão do transmitir [...]. Então, eu tento passar... Igual a gente divide né, a sinopse e o que eu achei desse livro. Eu tento passar na sinopse o máximo de informação possível sem dar spoiler, e o que eu achei eu tento falar... De uma forma... bem verídica, assim o que eu achei sabe. LUCÍOLA: Mas assim, se você for ver eu sempre tenho uma estrutura meio que pré-determinada, que eu mudei a pouco tempo, que eu meio que inverti. Sempre falo, tipo assim, falo alguma coisa aleatória, aí eu falo a minha visão, tipo a minha sinopse do livro e aí eu falo sobre o livro, assim a história. Aí eu coloco a sinopse mesmo do livro, que o autor fez. Eu acho que tipo assim, tem gente que fala que enche muito, mas eu acho que não enche, eu acho que... Uma coisa é você ver a minha visão, outra coisa é você ver a visão que o autor tem da história... CECI: No texto da resenha a gente sempre tenta não copiar a sinopse do livro, pra não ficar tipo uma repetição né. Já tem a sinopse, eu vou repetir a sinopse inteira? Não. Então a gente sempre tenta falar do livro qual que é o tema ou a trama que ele envolve, a gente sempre tenta colocar. E falar a respeito do que nos agrada e do que não agrada também. De acordo com Pereira (2009, p.10), “o que podemos então compreender é que os blogs literários partem de uma situação concreta: o desejo de escrever e ser lido. São dirigidos a um auditório concreto, os leitores, e de acordo com o desejo de atingir ou não um interlocutor específico [...]”. Dessa forma, evidencia-se no discurso das blogueiras a necessidade em adequar a sua escrita de forma que agrade o leitor. Atualmente, as blogueiras consideram que os seguidores não estão interessados em ler resenhas muito longas, pois percebem que as pessoas estão com certa “preguiça” de ler. Dessa forma, elas procuram escrever de forma mais sucinta, proporcionando aos seus leitores uma leitura menos exaustiva. CAPITU: E eu não coloco muito texto porque eu acho que as pessoas, atualmente elas tão com muita preguiça de ler assim, sabe. Tipo ela começou a ler, só preciso dar o gostinho do livro do livro, pra ela ir lá e comprar. Se eu falar tudo, a pessoa não vai nem querer comprar sabe. 167 IRACEMA: Aí eu nem faço muitas resenhas longas assim, eu acho que eu faço uns cinco parágrafos. Assim não tem conta, mas eu tento não falar muito pra não estragar a história e também tento não ser chata tipo assim ‘ah gente achei esse livro tão lindo olha aqui, olha essa capa’, porque isso enche linha e quando você vê tem cinco parágrafos falando nada e a pessoa não tá interessada às vezes muito nesse processo sabe. Então assim, escrever é uma arte viu, porque manter a pessoa interessada é difícil. LUCÍOLA: [...] assim também como resenhas grandes também não adianta. PESQUISADORA: O pessoal não lê resenhas muito grandes. LUCÍOLA: Não [risos]. Por isso que vídeos no YouTube, aqueles de cinco minutos, aquelas resenhas mega rapidinhas fazem tanto sucesso. A ação de emitir uma opinião pessoal sobre o livro lido é destacada por algumas blogueiras. Elas acreditam que é essencial justificar ao leitor a sua avaliação sobre a leitura, explicando o porquê de ter gostado ou não da narrativa. A análise do livro, feita por meio de uma resenha, geralmente avalia o enredo, os personagens e até mesmo a edição. ANA TERRA: Se eu gostei eu vou colocar que eu gostei por causa disso, disso e disso. O personagem tal me chamou a atenção nisso, o personagem tal eu não gostei de tal característica dele [...]. Mas tem alguns que eu procuro falar coisas que me incomodaram, sabe [...]. Ah, foi a escrita do autor que eu achei incoerente, foi a edição que não ficou muito boa, eu não me adaptei pra aquela edição, ah a paginação do livro é branca e não off-white, isso cansa a vista. Eu procuro dar esse feedback. CAPITU: Mas tentar falar sobre tudo um pouco, os personagens, o enredo, se eu me dei bem com o personagem ou não, se eu achei que a história foi bem desenvolvida ou não e a edição em si mesmo. Eu falo se eu gostei, se vale a pena. MACABÉA: A maior parte são resenhas, normalmente resenhas críticas, que a gente acaba emitindo um pouco da nossa opinião sobre aquilo que a gente leu, aquilo que a gente viu [...]. No texto eu acho muito importante, e isso é algo que eu prezo, é a liberdade de emitir a minha opinião. GABRIELA: E eu acho que a gente divulga muita resenha, muita opinião de filme, de série. Então eu acho que as pessoas vão pra querer saber o que a gente tá falando mesmo das coisas. CECI: Porque não é só falar que é tudo lindo e maravilhoso, porque tem algumas leituras que realmente não fluem. E dar a nossa opinião se a gente indica ou não, assim eu realmente gostei do livro por causa disso, disso e disso, isso me atraiu, ele teve um final que me deixou desesperada, agora eu quero ler o próximo... Outro ponto citado foi a importância de destacar os aspectos positivos e os negativos da leitura na resenha, sem julgar o livro como completamente ruim. As blogueiras ressaltam o fato de as pessoas possuírem opiniões diferentes, de forma que um livro que não gostaram poderá ser apreciado por um outro leitor. CECI: Mas eu tenho uma opinião um tanto minha que... Eu já escrevi no blog, em resenhas passadas, em alguns comentários, que é às vezes um livro que funciona pra você, não funciona pra mim, então vamos lá né... Gostos diferentes. Porque às vezes você faz uma resenha realmente que ela fica negativa, aí você fala gente eu não consegui me incluir nessa história, eu não consegui entrar no contexto do autor, tudo que ele escreveu eu já esperava... EMÍLIA: Eu acho que as minhas resenhas, as resenhas do blog são importantes. Porque uma coisa é a pessoa falar ‘Ah não, livro horrível’, e não 168 explicar porque. Eu gosto... eu não sou jornalista, nenhum de nós é jornalista pra poder dar uma opinião final. Então eu acho que a gente deve falar sempre pontos positivos, pontos negativos pra que a pessoa... Às vezes um ponto negativo pra mim, pro leitor é um ponto positivo [...]. Na verdade as minhas resenhas no blog, eu acho que elas têm ponto positivo no mercado, por causa disso, por não falar que é ruim e não falar que é maravilhoso. Macabéa considera que é importante fazer associações entre a atualidade e os livros que indica em suas resenhas. A blogueira acredita que possui uma grande responsabilidade de mostrar para seus leitores que a literatura não é somente um entretenimento, servindo também para informar. Como exemplo, ela conta que em uma data específica sobre a memória das vítimas de tortura, ela fez uma postagem abordando vários livros com a temática da ditadura. MACABÉA: Então a gente procura sempre fazer um link que esteja envolvido com a literatura [...]. A gente procura falar de alguns temas dentro do que tá acontecendo no momento também [...]. Mês passado se não me engano, eu aproveitei a nossa lista de leituras do mês, os desafios que a gente tinha do mês, pra falar por exemplo de literatura ligada a época dos militares sabe, à repressão [...] é um mês que tem uma data específica pra falar sobre vítimas de tortura, e aí a gente aproveitou pra falar “Ó esses livros falam sobre esse tema”... Porque às vezes as pessoas vão muito cruas, assim literatura ela não pode ser só pra divertir, ela tem que ser pra informar. Sabe, eu acho que a gente tem uma responsabilidade muito grande, principalmente quando se escreve uma coisa assim, você joga nas redes sociais, de você falar pras pessoas olha você até pode ler pra se divertir, mas se você quiser saber alguma coisa, se você quiser se informar a respeito de uma época... Igual a gente fica chocado quando a gente vê jovens falando ‘Ah podia voltar a ditadura’, não sabe o que tá falando. Então assim... Será que é falta de conhecimento? Será que é porque você não quer chegar a esse conhecimento? Eu acho que é importante a gente chegar e mostrar que tem, ‘olha tem essas alternativas aqui, você pode pesquisar, você pode saber’. Durante a escrita de uma resenha crítica sobre um livro literário, as blogueiras tentam contemplar alguns aspectos da narrativa, mas, sobretudo, emitir a sua opinião sobre a leitura. É também essencial justificar ao leitor elementos que embasam essa opinião, como aspectos positivos e negativos do enredo, dos personagens e da edição do livro. Atualmente, as resenhas adaptam-se à preferência do seguidor do blog, que não lê textos muito longos. A preocupação com esses leitores também é evidenciada na ação de não julgar o livro como completamente ruim, uma vez que outro leitor pode gostar. Essa centralidade do leitor é comentada por Recuero (2004a, p. 6), que afirma que “quem escreve, em um weblog, escreve sempre em relação ao Outro, a um leitor, um receptor, imaginário ou concreto [...]”. Por fim, a responsabilidade de informar os leitores por meio das resenhas foi sentida por uma das blogueiras, que faz associações entre momentos atuais, história e literatura. 169 Relação com a escrita As blogueiras também foram questionadas a respeito de como é a sua relação com a escrita, se elas possuem ou não facilidade em escrever e como se dá o processo de escrever uma postagem para o blog. MACABÉA: Eu normalmente assim, eu vou fazendo anotações, quando eu quero resenhar alguma coisa, normalmente eu gosto de fazer algumas anotações ao longo do período que eu tô lendo, eu marco com post-it, eu coloco alguma coisa pra sinalizar e tal. Quando eu sento pra escrever, eu gosto de escrever tudo de uma vez [...]. Porque assim, enquanto tá fresco na minha cabeça, enquanto as ideias tão fluindo [...]. Aí depois, às vezes eu nem faço no mesmo dia, eu volto depois. Às vezes eu edito, arrumo direitinho, tabulo, organizo as ideias, às vezes troco parágrafo, tipo assim nossa atropelei essa informação aqui, aí troco um parágrafo de lugar. Não tem nada que eu faça assim sob pressão não. A blogueira citada afirma que o processo de escrever começa durante a leitura, com as marcações e anotações feitas no livro. Ela relata escrever tudo de uma vez e só depois organizar as ideias e editar o que escreveu. Já no relato abaixo, outra entrevistada conta sua dificuldade em expressar no texto da resenha as emoções sentidas durante a leitura do livro. LUCÍOLA: Tem livros que eles são maravilhosos de se ler e muito difíceis de escrever, sabe [...]. Tipo assim, quando eu pego esse tipo de livro, eu fico assim... Caraca como eu vou colocar tipo uma unha do sentimento desse livro num papel? [...]. Então acho que esse que é o desafio, o gostoso do blog é exatamente essa diferença assim, sabe. Você tem um peso sobre aquilo que você escreve, porque você tenta passar a mesma emoção que você teve lendo, você quer que as pessoas tenham um gostinho daquilo ali lendo o que você escreveu, por isso que eu acho que é tão difícil. A relação com a escrita depende do momento em que se escreve, sendo natural para as blogueiras terem dias em que a escrita flui e dias em que não flui. Outro fator que intervém na escrita é a narrativa do livro em si, que interfere na facilidade em transmitir informações pelo texto. IRACEMA: Eu até que... Tem dias que a gente, tem dias melhores que os outros pra escrever. Mas... Não sei, acho que é tranquilo. Eu sento, escrevo. Tem alguns erros [...]. Mas é prática e tudo mais [...]. Mas a relação, não é que é complicada, eu acho que tem seus dias. ANA TERRA: Depende. Tem algumas que eu consigo escrever bem rápido e tem outras que eu agarro. Tem histórias que eu tenho muita coisa pra falar, eu tenho várias histórias, mas na hora que eu sento na frente do computador, tudo some. Ou então nada tá bom, as informações não tão conversando entre si, aí eu apago e refaço, apago e refaço, aí uma hora vai. Mas vai depender bastante da história e do que eu tenho pra falar sobre a história. EMÍLIA: É engraçado, porque às vezes se eu não gostar do livro, ela vai fluir melhor do que se eu gostar. Depende muito do dia, a gente comentou, já aconteceu de eu pegar tipo quatro horas e fluir cinco, seis resenhas. Já aconteceu de eu ficar duas horas na frente do computador e não sair uma linha. Depende muito de como eu tô [...]. Normalmente às vezes eu só desespero. Se eu tô com um prazo pra cumprir e tá chegando o prazo, por exemplo, amanhã é dia 20, eu tenho que entregar acho que duas resenhas da Arqueiro, se eu não consigo escrever hoje, amanhã eu começo a surtar, aí elas não vão sair fácil. 170 Como abordado no referencial teórico, Santos, Rodrigues e Ferreira (2014) consideram que os blogueiros são leitores comuns que atuam como aprendizes de críticos literários, e que, mesmo não sendo profissionais, dedicam-se ao aperfeiçoamento ortográfico e crítico. Os cuidados com a coerência do texto, a ortografia, a gramática, a norma culta e a revisão são evidenciados pelas blogueiras. Afinal, a resenha é um texto publicado na internet com acesso livre que, na visão das entrevistadas, necessita de certa formalidade e de ser compreensível para o leitor, o que torna a sua produção demorada. CECI: Então, a gente tenta ter uma formalidade quando escrevemos as resenhas do blog, pelo linguajar mesmo, o modo de escrita, pra não ficar escrevendo gírias ou essas coisas... Porque é um texto pra internet, pra um acesso e tal, a gente tem um cuidado sim nessa escrita. Porque quando eu for comentar com alguém a respeito do livro ‘aquela vaca daquela autora’, eu não posso escrever isso ‘mas aquela vaca daquela autora matou meu personagem favorito’ [risos]. Então tem assim um pouco de diferença na forma de falar do livro no blog ou pessoalmente [...]. Então eu melhorei muito meu português depois do blog, porque você tem que ter um cuidado com o que você escreve. LUCÍOLA: A resenha escrita, ela demora. Por que? Porque você tem que assentar aquela ideia e aí você começa a escrever e aí você tem que pensar em contar a história, falar o que você acha, mas sempre preocupada com ortografia, gramática... [...]. Então tipo assim, às vezes eu passo duas horas, três horas pra escrever uma resenha. E fora as revisões né [...]. Então assim dia produtivo, consegui escrever cinco resenhas, aí programo todas, deixo todas bonitinhas e elas saem lá automaticamente... IRACEMA: Eu não acho que eu escrevo bem, não acho que eu escrevo bem. E é engraçado que às vezes eu escrevo e posto né, aí eu vou ler e falo ‘Gente será que eu escrevi isso mesmo?’ É engraçado porque às vezes eu não me reconheço nas escritas, é estranho né. Escrever é uma coisa que não é fácil, eu acho. E apesar de ter que trabalhar com isso, não é fácil escrever e pôr de um jeito que as pessoas compreendam sabe. A relação com a escrita extrapola as postagens do blog no caso de duas blogueiras, que escrevem textos literários. Gabriela escreve para o jornal da faculdade de jornalismo, tendo também publicado poemas e crônicas. Ela sente vergonha de compartilhar seus textos no blog, afirmando ser muito tímida. Capitu conta que mantém um diário e gosta de escrever o que vem à mente, já escreveu poesias e pretende escrever um livro de fantasia. Ela tem receio de compartilhar seus escritos no blog, com medo do julgamento das outras pessoas, afirmando que se sente confiante em postar sobre livros, mas sobre seus sentimentos ainda tem vergonha, preferindo manter somente para si. Compreende-se que o ato de postar um texto no blog é visto pelas blogueiras como uma forma de exposição, uma vez que publicar abre margem para o julgamento e os comentários de outras pessoas. GABRIELA: E aí foi com o DNA que eu comecei a escrever mais [...], fui escrevendo pro DNA, fui escrevendo pro jornal da faculdade. E esse ano lançou coletânea da Academia de Letras daqui da cidade [Ribeirão das Neves] e eu participo da Academia também, então entrei com dois poemas e uma crônica. Eu escrevi ano passado, então assim eu ainda tô aos poucos escrevendo contos essas coisas. Mas pro blog então é sempre né. É, eu até gosto, gosto de escrever. Mas assim pensando numa coisa mais literária, aos pouquinhos eu tô indo. 171 CAPITU: Flui [a escrita], mais com livros. Mas eu escrevo outras coisas também, só que não publico, eu escrevo pra mim assim, pra treinar. Eu gosto de manter um diário também, eu gosto de escrever sobre o que eu tô sentindo. E pretendo escrever um livro um dia, mas não sei quando, uma coisa de fantasia assim... Não sei se eu vou conseguir, mas a esperança é a última que morre. Percebe-se que a relação das blogueiras com a escrita é algo complexo, permeado por várias questões: a leitura do livro; a organização das ideias; o ato de escrever em si, com as preocupações com as normas da língua portuguesa; a edição do texto; a revisão; a expressão dos sentimentos; a exposição da blogueira; a transmissão de informações. 6.4.3.3 Sorteios e lançamentos De acordo com Santos, Rodrigues e Ferreira (2014), os blogs literários possuem um conteúdo variado e especializado, buscando atrair uma audiência no ambiente virtual. Além das resenhas, as blogueiras costumam postar outros conteúdos nos blogs. No decorrer das entrevistas, as publicações mais mencionadas foram os sorteios e lançamentos. Os sorteios de livros são feitos por todas as blogueiras entrevistadas, muitas vezes a divulgação do sorteio é feita no blog e/ou nas redes sociais. ANA TERRA: A gente faz sorteios. A maioria dos nossos sorteios sai pelo Instagram, que é o nosso maior público. Mas a gente tá com um sorteio atualmente ativo no blog. GABRIELA: E fazemos promoções, fazemos sorteios no blog, sorteio no canal, sorteio no Instagram. CAPITU: Eu já fiz dois sorteios, os dois em parceria com outros blogs. MACABÉA: A gente faz alguns sorteios. Agora mesmo o blog vai fazer um ano, então a gente conseguiu vários livros que a gente vai sortear alguns brindes, que a gente consegue com parceiros, com amigos tudo que a gente vai sortear. A realização de sorteios é considerada como muito importante, pois apresenta-se como uma estratégia para atrair seguidores para o blog. É comum o sorteio de livros, marcadores de página e também brindes exclusivos fornecidos pelas editoras. Outra prática citada é a parceria entre blogs, que se unem para realização conjunta do sorteio, o que atrai seguidores para ambos, além de permitir a divisão dos custos. CECI: O Paradise é... O que atrai os leitores muitas vezes para os blogs são os sorteios. Isso é um fato. A gente não pode fugir muito disso. EMÍLIA: E também a quantidade de sorteios, eu faço uma quantidade... Como eu recebo muita coisa, e eu fico com as coisas, eu normalmente tenho uma quantidade boa de sorteio. Então eu acho que isso atrai o público. LUCÍOLA: O povo gosta muito de promoção, boba. Aí como eu andei fazendo umas promoções, uns sorteios, aí acaba vindo bastante gente assim. E aí oscila muito, por exemplo, eu tive muita entrada durante as promoções e tive muita gente que saiu depois das promoções [...]. Então, quando você fica muito tempo sem fazer sorteio, promoção, alguma coisa assim, meio que... 172 IRACEMA: Promoção apenas no Instagram que eu faço. No blog eu já fiz, mas eu prefiro fazer no Instagram mesmo. Sorteio de livros, marcador. Geralmente também acabo fazendo com a Emília, o blog dela é bem grande né, acaba tendo mais alcance, e a gente divide os custos né, é melhor [...]. E é isso livros e marcadores, brindes... A gente ganha muitos brindes, a gente despacha também junto... E o povo adora brinde, porque brinde é muito exclusivo né. Tipo livro, você compra, o brinde não. Tem muita gente que gosta [...]. Às vezes você não escreve nada, mas tem lá mil seguidores... A gente faz sorteio pra isso também sabe, a gente... Fala verdade, assim todo mundo, ninguém quer dar livro, tipo você não faz sorteio porque você gosta de fazer sorteio, você quer algo em troca. Outro tipo de publicação é a postagem de lançamentos literários no blog, ou seja, as novidades do mercado editorial. Araújo e Araújo (2015) constatam que os lançamentos são muito recorrentes nos blogs literários, mas que nem sempre refletem diretamente o gosto do blogueiro, sendo uma fonte de informação para manter os leitores da página inteirados sobre as novidades. Esses lançamentos normalmente recebem apoio das editoras parceiras, que solicitam aos blogueiros a divulgação dos novos livros que serão publicados. Santos, Rodrigues e Ferreira (2014) consideram que a divulgação de lançamentos de livros na blogosfera literária faz parte de estratégias de promoção de setores de marketing das editoras. Ao noticiar o lançamento de um livro, as blogueiras se sentem importantes, uma vez que receberam aquela informação em primeira mão, sendo as responsáveis por transmiti-la ao público: “[...] é possível afirmar que o blogueiro se torna atuante, líder de opinião dentro do contexto em foco, porque é ele quem apresenta novidades aos seus leitores, além de propagar as notícias do mercado editorial” (SANTOS; RODRIGUES; FERREIRA, 2014, p. 12). As três blogueiras que possuem parcerias com grandes editoras divulgam os lançamentos: CECI: Lançamento literário sim... Ou desejados. IRACEMA: Agora no Instagram eu já faço lançamentos, recebidos... EMÍLIA: E a nossa ideia é que as pessoas saibam dos lançamentos, porque tem gente que não sabe, tem gente que não tem acesso. Então a gente sempre tenta colocar todos os lançamentos das editoras, mensais [...]. Mas a gente coloca lá tem uma postagem que chama Na Mira dos Lançamentos, que tem todos os lançamentos [...]. Porque eu tento fazer de todas as editoras e é uma quantidade muito alta, chega a ter às vezes no mês umas 12, 15 postagens de lançamento, e eu faço tipo uma postagem por editora. E aí acaba que é uma quantidade mais alta. Porém, houve também uma crítica a superficialidade de se postar os lançamentos editoriais. A postagem sobre um lançamento literário também pode ser feita de modo espontâneo, uma vez que as blogueiras comentam no blog sobre os livros que consideram como desejados. CAPITU: Eu já fiz em parceria com editora. Então, por exemplo, a editora falou ‘Ah eu te dou tal coisa se você postar esse lançamento’, entendeu, tipo isso. Mas eu não tenho costume de postar os lançamentos não, porque eu acho que já tem bastante coisa assim sabe, eu acho um pouco superficial. Opinião minha, eu acho um pouco superficial colocar só os lançamentos, sendo que já tem muito lugar que tem, principalmente nas próprias editoras. Então eu não acho muito necessário, eu acho mais importante a minha opinião sobre o livro depois que eu leio ele. 173 GABRIELA: Lançamento a gente nunca fez não, às vezes a gente comenta tipo ‘Nossa esse livro fiquei sabendo que vai lançar e eu quero muito’. Aí geralmente a gente comenta isso numa tag ou coisa assim, mas num post mesmo de lançamento a gente não faz não. Percebe-se que o conteúdo dos blogs literários não é unicamente voltado para as resenhas críticas de livros, sendo produzidas também outras formas de publicações que diversificam as postagens, como forma de chamar a atenção dos leitores e de trazer novidades. 6.4.3.4 Produção de fotos Uma resenha crítica geralmente é acompanhada de uma imagem do livro, uma vez que fotos das capas funcionam como forma de ilustrar as resenhas publicadas no blog. Destaca-se que a produção de fotografias autorais de livros é uma tendência nos blogs literários. Ao invés de utilizar imagens dos livros que estão disponíveis na web, as próprias blogueiras se dedicam a fotografar os livros resenhados de forma autoral. Dessa forma, as fotografias não são meramente um complemento das resenhas, sendo uma outra forma de se produzir conteúdo nos blogs literários. A imagem é considerada como um elemento especialmente importante nas publicações dos blogs, uma vez que o conteúdo imagético atrai o público. Além disso, as fotografias são essenciais para apresentar o livro ao leitor. A produção autoral de fotos também retoma a ideia da personalização do blog, transmitindo por meio das fotografias a identidade das blogueiras. MACABÉA: Eu acho que quando você navega na internet, imagem é algo que faz você parar. É inegável, você vê alguma coisa que chama sua atenção você não vai parar no texto primeiro, normalmente você para pela imagem [...]. Parou pela imagem? Beleza. Agora que você parou, vem cá, deixa eu te falar um pouquinho do quê que eu acho, do que esse momento representa, do que essa história representa. ANA TERRA: Eu acho que as imagens são muito importantes porque eu não posso partir do pressuposto de que todo mundo conhece aquele livro, todo mundo conhece aquela edição que eu tô falando. CECI: Sim, as fotos são todas autorais do Paradise, todas as resenhas e tudo [...]. Eu acho que é muito importante pra ter a nossa identidade, não é simplesmente você receber um livro... Porque como é algo que a gente ama fazer que é ler e falar com os outros a respeito desse nosso amor, então a gente tem que fazer com carinho e eu acho super importante fazer as fotos autorais pra tá mostrando mesmo. Na figura 17 é possível visualizar fotografias autorais publicadas nos blogs. Destacam- se os ornamentos que são arranjados em torno dos livros, o que indica a preocupação das blogueiras em fotografar e ter um resultado esteticamente harmonioso. 174 Figura 17 – Produção de fotografias autorais nos blogs Legenda: a) Fotografia autoral do blog Minha Estante e Muito Mais,19 set. 2018. b) Fotografia autoral do blog Marshmallow com Café, 12 jul. 2018. c) Fotografia autoral do blog DNA Literário, 26 jul. 2018. d) Fotografia autoral do blog Menina Compassiva, 6 ago. 2018. e) Fotografia autoral do blog Paradise Books, 21 maio 2018. f) Fotografia autoral do blog Livros e Sushi,13 ago. 2018. g) Fotografia autoral do blog Cultura Pocket,16 set. 2018. Fonte: Elaborado pela autora com base nas fotografias disponíveis nos respectivos blogs. 175 Evidencia-se que os ornamentos também representam elementos presentes nas próprias narrativas dos livros. Dessa forma, compreende-se que as fotografias autorais e a montagem do cenário transmitem ao leitor informações sobre o conteúdo dos livros. Nos blogs literários o texto da resenha é intercalado com fotografias. Em alguns casos, as blogueiras recorrem ao Skoob para buscar a fotografia da capa do livro, o que não impede que elas a publiquem juntamente com as fotos autorais. Uma das entrevistadas ressaltou sua preferência em publicar várias fotos do livro e colocar uma menor proporção de texto. Já outra alegou colocar somente uma fotografia, uma vez que considera que o excesso de fotos polui a resenha visualmente. LUCÍOLA: É, eu costumo, meu padrão é a foto da capa, quando as minhas fotos não saem boas, eu pego aquelas do Skoob mesmo, mas eu sempre dou crédito e tal. É, tiro uma foto bonitinha de alguma citação que eu gostei, de alguma parte do livro ou do livro em algum ambiente, não é sempre, mas de vez em quando tem. E a foto do autor junto com alguma biografia dele assim. CAPITU: Eu sempre tento colocar bastante foto. Por exemplo, coloco foto de capa, da contracapa, parte de dentro, se ele tiver uma folha de rosto bonita tipo da Darkside tem umas coisas bonitinhas, eu posto também, coloco foto de início de capítulo, do miolo... Sempre tentando mostrar todos os detalhes de edição mesmo, pra pessoa conhecer o livro sem precisar ir na livraria pra poder olhar [...]. Então eu tento colocar bastante imagem de tudo assim que eu acho interessante, e não colocar muito texto. GABRIELA: Sim, a fotinha da capa do livro a gente pega no Skoob, a gente salva a capa lá. E as fotos maiores, que aparecem durante a resenha, a gente que faz. IRACEMA: Eu tento não encher a resenha de foto, eu coloco uma foto só, porque eu acho que é tipo pra encher linguiça sabe, e é isso, eu tento não poluir muito. Como o uso do blog ocorre concomitante ao uso das redes sociais, o Instagram, voltado para a postagem de fotos e vídeos, foi citado como uma plataforma propícia para a divulgação da produção de conteúdo imagético dos blogs literários. IRACEMA: Eu até acho que até mesmo por causa do Instagram, a gente tenta tirar todas as fotos de todos os livros que a gente vai fazer o texto né. Aí às vezes eu acho que pelo Instagram a foto é até mais importante sabe porque é aquele primeiro momento que vai chamar. Assim o texto também é, mas hoje eu vejo que as pessoas não leem muito o que a gente escreve. MACABÉA: Então eu costumo ter uma preocupação grande, tanto que a gente usa muito o Instagram por causa disso, porque é uma ferramenta pra quê, pra você falar daquilo que você tá querendo tratar lá no blog, mas você tem mais espaço pra colocar mais imagens. O processo de produção das fotos envolve tempo e dedicação das blogueiras. Existe uma preocupação com estética da imagem, que envolve a iluminação e a montagem de um cenário. Porém, a atenção das blogueiras para esses elementos é variável, de forma que algumas dedicam-se mais e outras menos às fotografias amadoras. CAPITU: Então, por exemplo, pra tirar uma foto a noite dependendo fica ruim, então eu preciso esperar um final de semana pra tirar as fotos pra ficar bonitinho, tem que editar as fotos pra ficar melhor... 176 CECI: Horas esperando luz, esperando o sol, teve uma semana que tava nublado a Nayara52 [colega no blog] não conseguiu tirar foto nenhuma, porque a luz não ajudava [...]. Então essas fotos, a Nayara ela gasta realmente um tempo, uma dedicação, tudo pra tá fazendo essas fotos. GABRIELA: A gente pega o livro, monta um cenário e tira foto. Eu acho que é uma coisa mais estética, né. A gente quer mostrar o livro e coloca tipo um enfeite, assim, pra pessoa ver e falar ‘Nossa que bonito’. Eu acho que é mais pra chamar a atenção, mais uma coisa estética. LUCÍOLA: Eu demoro 40 minutos para tirar várias fotos, monto um cenariozinho assim e só troco o livro, entendeu [...]. Pra foto eu sou mais largada com relação a isso, mas pra resenha... Porque foto eu posso copiar de qualquer lugar. Os ornamentos utilizados para decorar o entorno do livro, montando um cenário, são comprados pelas blogueiras. Também é feito um investimento na compra de câmeras fotográficas. IRACEMA: O custo que a gente gasta muito é com coisas pra enfeitar a foto sabe, decoração que coloca né, aquilo ali não tem em casa não, aquilo ali tudo a gente compra. Muita gente usa as coisas que tem em casa né, com o tempo você começa a sentir necessidade de enfeitar melhor a foto, até mesmo investir melhor na câmera... São custos que também ninguém põe no lápis né e tá lá. A explicação sobre o motivo de tantos ornamentos diferentes foi evidenciada nas falas de Ana Terra e Ceci. Durante a produção da foto de um livro, procuram-se elementos que estão relacionados à sua história, de forma que a fotografia desses adereços possa instigar o leitor sobre a narrativa e incentivá-lo a fazer a leitura do livro. ANA TERRA: A gente sempre monta as fotos, nós fazemos autoral, a gente tem um fundo padrão e aí os elementos cada uma escolhe com o que tem a ver com a história [...]. Tem histórias que dá mais trabalho você achar alguma coisa que você tenha disponível e que combine com a história. Igual, por exemplo, ah tem uma história que ela vai girar em torno do cara que ele perdeu a esposa e aí ele usa a aliança pendurada no pescoço. Aí eu posso tirar minha aliança, colocar num cordão e colocar lá. Eu acho que dá um significado a mais pra foto, não é só uma imagem com coisas aleatórias que combinaram. CECI: É interessante que a Nayara [colega no blog], ela sempre tenta manter alguma coisa da trama do livro relacionado às fotos, ela sempre usa então... Às vezes você vê uma foto que tem uma adaga, vamos dizer, você pensa ‘Gente o que que tem essa adaga?’ Aí quando você vai ver tem a ver, é aquela coisa que instiga, porque que aqueles elementos estão naquela foto relacionados a determinado livro. Somente o blog Entrando Numa Fria não realiza produção de fotos autorais. Emília afirma que as fotos realmente chamam a atenção do leitor, entretanto considera que o excesso de fotos pode distraí-lo durante a leitura da resenha. EMÍLIA: Lá no blog a gente não coloca muita foto, na resenha normalmente só tem a foto da capa aí do lado a gente coloca as informações do livro e embaixo a crítica. Normalmente a foto chama o leitor. É, a gente... Eu sempre vejo que às vezes tem gente que coloca foto durante, eu acho que distrai um pouco o leitor aquelas fotos, então a gente coloca o texto limpo. 52 Nome fictício. 177 A tendência das fotografias autorais feitas pelas blogueiras, que envolve dedicação e até mesmo investimento financeiro, evidencia uma necessidade de se produzir um outro tipo de conteúdo, além da informação textual. Conclui-se que a disseminação de informações sobre os livros lidos também ocorre por meio das fotografias. 6.4.3.5 Atualização Conforme apresentado no referencial teórico, a atualização é um dos atributos determinantes de um blog, uma vez que os blogs são organizados em função do tempo e caracterizam-se pela inserção frequente de posts (RECUERO, 2004a; DI LUCCIO; NICOLACI-DA-COSTA, 2010; MARQUES, 2012). A partir desse pressuposto, procurou-se conhecer a compreensão das blogueiras sobre a importância da atualização do blog. No discurso de todas as entrevistadas está presente a relação entre a atualização e os leitores do blog. É evidente a preocupação em atualizar o blog para o leitor, para não desapontá-lo e para mantê-lo como seguidor do blog. As blogueiras consideram que trazem novidades para os leitores, ou seja, elas são as responsáveis por disseminar novas informações. ANA TERRA: Ah, eu acho bem importante [...]. Então eu acho importante ter várias publicações semanais, pra que a pessoa que queira ver o seu conteúdo chegue e tenha alguma coisa nova pra ela poder ver. CECI: Então a gente dá essa importância pra atualização, não pra ter resenhas todos os dias ou posts todos os dias, mas com os leitores que tão no blog, no mínimo uma vez na semana trazer alguma coisa nova pra eles no blog. EMÍLIA: A gente tem esse padrão de fazer postagens diárias com lançamento, o público já tá meio que esperando isso. Então eu tenho, tenho alguns leitores que entram todos os dias pra saber sobre as novidades, então se eu não postar eu vou tá falhando com eles. E se eu falho com o leitor, ele não vai meio que acreditar que vai tá lá amanhã por exemplo. E aí eu perco o leitor, que às vezes gostava da resenha, gostava das notícias ou de alguma coisa e ele vai ficar insatisfeito com aquilo. IRACEMA: A gente voltou a falar de manter ativo né e até pra falar que o blog tá antenado, acho que é bom mostrar o que tá saindo, resenhas atuais [...]. Mas atualização, eu tento atualizar duas ou três vezes o blog e o Instagram a cada dois dias. MACABÉA: Pelo menos assim uma ou duas atualizações em cada semana. Se não a pessoa entra e parece que não teve nada novo [...]. Então assim pra sempre que a pessoa olhar, ah mudou uma coisinha aqui, entendeu, uma frase [...]. Porque aí a pessoa entra e já vê uma coisa que já tá um pouquinho diferente. A atualização também mostra-se como fator preponderante no momento de fazer parcerias com as editoras, que avaliam o compromisso que o blogueiro possui com seu blog por meio da sua frequência de postagens. GABRIELA: É bom você manter uma frequência e manter o público né, que eu acho que quando tu não posta e fica muito tempo sem postar, a galera 178 meio que desliga né. [...] Então acho que isso é justamente pra você manter leitores e pra você manter a frequência do blog. Tipo quando você vai tentar uma parceria com uma editora, eles verem que você tem um compromisso ali, que você posta mesmo, entendeu, acho que é importante isso. Os Menina Compassiva e Minha Estante e Muito Mais não possuem uma frequência de postagens pré-determinada, apresentando intervalos de tempo muito grandes entre os posts, permanecendo meses sem publicação de conteúdo (ver QUADRO 7). Esses são também os blogs que apresentam menor número de seguidores (ver QUADRO 9). Para as blogueiras responsáveis, a atualização é importante, no entanto elas consideram que estão desprovidas de tempo para se dedicar ao blog. Por ser estudante universitária e estagiar durante o dia, Capitu avalia que sua rotina diária é muito atribulada. Ela conta que ao se colocar no papel de leitora de blogs, considera frustrante a ausência de novas postagens, mas ao se colocar na função de blogueira, ela acha relevante postar um conteúdo com maior qualidade, mesmo que não seja tão frequente. Já Lucíola se culpa pela falta de atualização do blog, contando sobre as dificuldades em ser contadora, trabalhando com algo que não está relacionado com o blog ou com o meio literário. CAPITU: Igual eu falei, não adianta você postar uma coisa de qualquer jeito [...]. Então eu acho que não precisa ser um negócio muito frequente desde que tenha qualidade. LUCÍOLA: Olha, eu me culpo muito por não atualizar, porque eu acho assim às vezes a pessoa gosta do que você escreve, ela gosta das suas opiniões e aí tipo assim você simplesmente não atualiza... A pessoa ela vai esquecer que você existe. Acho que por isso que outras mídias sociais elas gostam, elas são tão visualizadas, por causa de atualização. Percebe-se que todas as blogueiras evidenciam a atualização, tendo consciência do seu papel na permanência dos seguidores. Afinal, a ausência de novas postagens provoca a frustração do leitor, dificultando o acompanhamento do blog. Como visto anteriormente, em muitos casos, a motivação para postar no blog está diretamente ligada ao reconhecimento e ao feedback dos leitores. Nesses casos, a ausência de atualização pode promover a perda de seguidores, o que pode acarretar em uma falta de motivação para postar, possibilitando o fim do blog. 6.4.3.6 Transmídia Após realizar a análise documental dos blogs e as entrevistas com as blogueiras, constatou-se uma forte presença do fenômeno transmídia na blogosfera literária. Atualmente, os blogs literários não atuam somente na própria plataforma do blog, estendendo-se para diversas redes sociais, como relatado nos depoimentos que se seguem. CAPITU: Eu tenho basicamente todas assim né, o blog, o Facebook, o Instagram, Twitter. 179 EMÍLIA: Porque, o que acontece, hoje as pessoas praticamente não seguem mais o blog, elas vão direto nas redes sociais ou no Facebook ou no Instagram. Então normalmente eu sempre posto no blog e aí vou lá no Facebook e já reposto a notícia ou a postagem. LUCÍOLA: É, porque hoje em dia a maioria dos blogueiros, de blogs mesmo voltados pra escrita, eles são muito poucos que são exclusivamente de livros ou são exclusivamente blogs. IRACEMA: Eu acho que nem tem como ter só o blog. Igual eu te falei, o blog em si você tem que buscar ele e as outras redes sociais acabam ajudando talvez a alavancar ele. GABRIELA: Então, as redes sociais a gente usa... É meio que um apoio do blog, sabe. Assim tipo braços do blog que a gente usa pra divulgar e pra conhecer outras pessoas. Para detalhar o fenômeno transmídia existente nos blogs literários analisados, essa subcategoria foi dividida de modo a explanar como as blogueiras utilizam as principais redes sociais relacionadas aos blogs: Instagram, Facebook, Twitter e YouTube. Instagram O Instagram é a rede social mais comentada e utilizada pelas blogueiras. Em vários momentos no decorrer da entrevista, o Instagram foi evidenciado como uma plataforma que complementa o blog. Conforme Arnault et al. (2011), é essencial o conhecimento das plataformas de mídia, sabendo-se utilizar o melhor de cada uma de modo que elas se complementem. No caso das entrevistadas, o uso das duas plataformas se torna complementar na medida em que o blog é o espaço preferencial para a postagem das resenhas de forma integral, para personalização da identidade da blogueira e marca do seu lugar no ciberespaço; e o Instagram torna-se apoio do blog na divulgação das resenhas e na postagem de fotografias atrativas dos livros. CECI: As resenhas dos livros a gente também posta no Instagram, a gente não fica só na plataforma blog, a gente posta resenhas também por ali, a gente posta as resenhas também pelo Instagram. IRACEMA: Mas eu acho que são, igual eu te falei, propostas diferentes mas que se completam. E eu acho que tem que saber usar, tipo não dá pra fazer uma resenha gigante no Instagram gente, não dá pra lotar o blog de fotos, sendo que não é a proposta. Eu acho que tem que entender melhor o que cada um é. Até mesmo pra você poder alcançar os seus leitores né, porque geralmente, às vezes, não é o mesmo que lê o blog e o que acompanha no Instagram. Mas assim acho que a relação é mais de complemento, mas também de poder trabalhar as duas plataformas diferentes. Uma publicação no Instagram é vista como uma forma de atrair os leitores para o blog. A postagem de uma fotografia do livro e uma parte da resenha podem encaminhar o leitor para ler a resenha completa no blog. Essa rede social é voltada para a publicação de fotos e vídeos, apresentando pouco espaço para a produção textual. Dessa forma, as blogueiras usam os recursos do Instagram, publicando o link para a postagem completa feita no blog. 180 ANA TERRA: Colocar no Instagram algo que vá chamar a atenção, colocar uma imagem bonita, um texto que vá chamar a atenção, que vai deixar a pessoa curiosa pra saber o que você tem pra falar sobre aquilo, mas você não vai responder aquilo no Instagram, você vai falar com ela ‘Ah você quer saber o final disso daí, você quer saber o que eu achei? Lá no nosso perfil tem o link do blog, vai lá e lê o conteúdo completo’. CECI: Mas acho que pelas fotos o Instagram tem um acesso muito grande, então pelo Instagram acaba chegando ao blog também né, quer ver a resenha completa vá ao blog. IRACEMA: Mas mesmo assim é complemento sabe, pra melhorar o alcance dos dois, acaba que você escreve ‘Ó se você quiser saber mais, você vai lá no blog que tem a resenha completa’, entendeu. ‘Ah me acompanha lá, que lá eu coloco eu coloco mais novidades’. GABRIELA: Porque às vezes a pessoa não vai no blog, às vezes a pessoa vê só o que a gente publica no Instagram, então a gente tem que fazer um conteúdo bom no Instagram também. Quando a gente vai publicar resenha no Instagram, a gente não publica ela completa, que a gente fala ‘Ó a resenha completa tá no blog’, mas a gente coloca alguma coisa lá pra pessoa também ter contato. Então eu acho que é um meio de divulgar e é um meio de se encontrar outros públicos também. CAPITU: Eu acho que as pessoas veem mais porque justamente o conteúdo tá nele [blog] né, o conteúdo completo. Se eu postasse, por exemplo, tudo no Instagram, uma resenha completa no Instagram, aí eu acho que as pessoas deixariam de olhar no blog. A partir do momento que percebe ‘Ah o conteúdo é igual, então vou olhar no Instagram, porque no Instagram eu posso ver mais rápido, eu tô com o celular na mão o tempo todo’, entendeu. MACABÉA: O Instagram eu uso mesmo pra dar visibilidade pra aquele assunto que a gente tá falando lá no blog, eu acho que é importante e acho que é uma mídia mais rápida pra gente poder fazer isso. Na análise documental constatou-se que o número de seguidores dos perfis do Instagram ultrapassa a quantidade de seguidores dos blogs, conforme apresentado no quadro 9. Esse fato foi comentado pelas blogueiras nos depoimentos seguintes. ANA TERRA: Eu acho que nosso carro chefe é o Instagram, é onde a gente tem mais pessoas que nos seguem. No blog, pessoas inscritas no blog mesmos são poucas, mas a maioria das pessoas que acessam o blog vem por causa do Instagram [...]. Então nosso crescimento no Instagram é muito maior do que nosso crescimento no blog. Mas o crescimento do Instagram pode levar a um crescimento do blog também. MACABÉA: A gente tem o mesmo tempo de blog e de Instagram, a gente tem 500 e tantos seguidores no Instagram sem tem feito nada, o povo foi lá e tá seguindo porque quer seguir, não tá ganhando nada em seguir a gente. E no blog a gente já tem que ficar incentivando ‘Ah já que você entrou lá porque você gostou, você podia seguir’. Então assim você tem que incentivar... CECI: O Instagram ele tem sido a rede social mais movimentada do Paradise, tipo é até inspiração pra outros [...]. Só que como eu tava comentando, hoje em dia, a nossa rede social que a gente mais tem atualização é o Instagram [...]. Então assim o blog tá, mas hoje em dia, a gente tem utilizado a plataforma do Instagram mais e ela vem alcançando mais pessoas né o Instagram. Há uma diferença na forma como a informação é apresentada ao leitor no blog e no Instagram. Para acessar as informações disponíveis no blog, o leitor tem que fazer uma busca ativa, efetivamente entrar no blog e navegar pela página. Por meio do Instagram, o usuário já 181 encontra-se na rede social e, por seguir o perfil do blog, depara-se com a informação no seu feed de notícias. ANA TERRRA: E é diferente do público do Instagram que apenas surge na tela dele. Pode ser que ele goste, pode ser que ele vá lá e pesquise a gente e veja o que a gente já publicou, mas é diferente o tipo de procura. IRACEMA: Até porque Instagram é tipo, como que fala, instantâneo, é tipo diário [...]. E o blog, o timing dele é diferente né. O Instagram as pessoas olham todos os dias e ele mostra para as pessoas, o blog você tem que ir lá buscar, ele não tá lá, é diferente. Não adianta ficar fuçando todo dia, não deu tempo ainda das pessoas te acharem sabe. Existe uma tendência na blogosfera para migração dos blogueiros para o Instagram, de forma que os blogs literários sejam desativados, continuando como perfis literários nessa rede social. Além da fácil visibilidade do conteúdo que o Instagram proporciona, a rede torna- se atrativa também pelo fator estético, uma vez que a publicação de fotografias de livros chamam a atenção dos usuários. Outro atrativo para os seguidores é a postagem de textos sucintos devido ao limite de palavras, o que é um ponto a favor daqueles que não gostam de resenhas muito longas. Apesar desses atributos, nenhuma das blogueiras entrevistadas manifestou intenção de desativar o blog e prosseguir somente com o perfil do Instagram. EMÍLIA: Falam que tem uma onda pra se deslocar, das redes sociais se deslocarem todas pro Instagram. Mas por exemplo, eu não deixo o blog morrer, porque eu sei que essa onda ela vai voltar. Sempre volta [...]. Só que o blog nunca morre, é estilo o livro físico e o livro em ebook. Quando o livro ebook saiu, falaram assim ‘Ah o livro físico vai morrer’. Não morreu. E aí o que eu acho, o meu pensamento com relação ao blog é esse. Tanto é isso que as editoras que, por exemplo, tem a editora Intrínseca, eu participei de uma reunião com eles e eles explicam que tudo que eles fazem é pensando cinco anos à frente, então eles estão sempre cinco anos na frente. E mesmo estando cinco anos à frente, eles continuam fazendo renovação de parcerias em blogs. Então, eles acreditam que o blog também não vai morrer. Então, por exemplo, se eles acreditam eu também tô acreditando. LUCÍOLA: É, tem muita gente que migra porque acha que essa parte escrita ela não... Não é tão atrativa. Por exemplo, um Instagram Literário, uma foto bonita, você precisa de uma foto e a resenha tem o quê no máximo cinco parágrafos. E não são cinco parágrafos, são cinco parágrafos de uma tela de celular. Então tipo assim elas não precisam ser resenhas grandes. E raramente você vai realmente ver a opinião das pessoas, são coisas que chamam mais pela foto, mais pela estética. CECI: Migrar a gente não quer, a gente não quer fechar o blog totalmente. Terminar com o blog, esse não é o nosso desejo não. Nem que for um por semana, dois por mês, a gente quer deixar o blog vivo ali. Mas sim as nossas redes sociais são muito mais utilizadas que o blog em si. Uma das blogueiras mostrou-se especialmente interessada em realizar a migração do blog para o Instagram. Apesar de gostar mais de utilizar o Instagram para publicar fotos e resenhas dos livros, ela considera importante manter o blog. De acordo com Iracema, o blog não pode ser abandonado por dois motivos: a parceria que firmou com as editoras e a sua marca, afinal a sua identidade como blogueira é decorrente da sua atuação junto ao blog. IRACEMA: Sim, é hoje em dia eu tô mais voltada para o Instagram, pra falar verdade. É até uma tendência também acho que mundial. [...] Eu tô ainda no 182 blog, mas aí às vezes eu tô migrando um pouco mais pro Instagram e tudo mais [...]. Eu, por exemplo, se eu pudesse eu até abandonaria o blog sabe, tipo pra poder mexer só no Instagram, que é o que eu gosto mais. Mas hoje eu não faço isso, primeiro porque eu firmei já parcerias com o blog, aí é até sacanagem né. E outra porque tipo o blog foi o primeiro, então é muito da marca né, no meu pelo menos, de ser blogueira, a gente é blogueira por causa do blog, não por causa do Instagram entendeu. Então acaba que eu deixo. Estou tentando migrar aos poucos, mas eu não posso deixar ele também. O intenso uso do Instagram por parte das blogueiras literárias é decorrente do aumento do impacto dessa rede social na atualidade. Como o Instagram é uma rede social cuja quantidade de usuários tem crescido, é natural que as blogueiras também sintam a necessidade de inserir-se com maior dedicação nessa rede, que mostra-se muito atrativa para divulgações relacionadas ao universo literário. Facebook O Facebook é uma rede social na qual todos os blogs possuem um perfil. Contudo, atualmente ele não está sendo considerado pelas blogueiras como uma rede muito acessada. Elas relatam a diminuição do uso do perfil do Facebook dos blogs e também a pouca utilização da rede social por parte dos leitores, fazendo uma comparação com o uso do Instagram. IRACEMA: Ah eu também não uso direito. Eu tenho, tem seguidores lá... Sabe o que é, Facebook teve uma época que foi muito moda né, eu não sei se hoje em dia as pessoas usam direito... Eu só vejo evento no Facebook [...]. É mais isso porque eu não compartilho nada, eu já não gosto de compartilhar nada mesmo, então acaba que eu não posto muita foto lá, então enfim... Mais Instagram, é por isso que eu falo, eu quero usar mais o Instagram. CAPITU: Facebook é muito difícil, acho ele muito parado em geral, não só no meu, mas em geral. LUCÍOLA: O Facebook ele não é uma ferramenta, hoje em dia ele não é uma plataforma das mais atrativas. CECI: Mais no Instagram, do que no Facebook. O Facebook também perdeu um pouco... EMÍLIA: Normalmente, as pessoas têm achado o Facebook chato, então tão saindo do Facebook pra ir pro Instagram. ANA TERRA: O Facebook é mais fraco, eu não sei dizer ao certo quantas pessoas tem, mas eu acho que são bem menos, eu não sei se elas chegam a 100. Entretanto, foram relatadas algumas facilidades no uso do Facebook. A postagem feita no blog pode ser automaticamente enviada para o Facebook, já no Instagram é necessário gerar uma postagem diferente. Além disso, o Facebook foi valorizado pela facilidade de interação com as pessoas, que podem iniciar uma conversa com a blogueira por meio dos comentários, além de possibilitar o contato com os leitores que não acessam o blog frequentemente, avisando-os sobre novas postagens e convidando-os para visitar a página do blog. 183 PESQUISADORA: Então tudo que você posta no blog você reposta no Facebook. No Instagram, não? EMÍLIA: No Instagram demora um pouquinho mais, porque eu tenho que fazer o post, gerar um post diferente, no Facebook já é automático. É só entrar no Facebook que eu já consigo repostar. GABRIELA: E é mais fácil pra conversar também no Facebook, às vezes o comentário ali você já... MACABÉA: O Facebook eu uso menos, eu uso mais pra poder divulgar, porque eu tenho amigos que não vão ficar entrando no blog. Então as vezes eu uso o Facebook pra falar ‘Olha tem post novo’, se a pessoa segue a página ela vai ir lá e ver que tem post novo, aí ela vai lá no blog. Então a gente deixa o link pra facilitar a vida do coleguinha... Eu uso mais pra puxar. A queda no uso do perfil do Facebook dos blogs pode estar vinculada a ascensão do Instagram como a rede social que está em voga na atualidade. Twitter O Twitter é uma rede social pouco usada pelas blogueiras, apesar de a maioria possuir uma conta do seu respectivo blog. Apenas os blogs Minha Estante e Muito Mais e Cultura Pocket não possuem perfil no Twitter. Algumas blogueiras relatam dificuldade no uso da rede social: MACABÉA: Não, não temos. É uma ferramenta que eu quase não uso. Não tenho familiaridade com esse trem. Não consigo ver o que o povo tá postando, não consigo ver o que tá no top top lá do Twitter, ah que trem difícil...[risos]. IRACEMA: Eu não uso muito o Twitter, na verdade eu nem sei usar direito, mas ele é super famoso lá fora né, a galera sabe mais fofoca tipo tudo pelo Twitter do que por outros meios. Mas eu não sei usar direito, apesar de ter um. Mas é tipo mais pra ter, porque tem que ter, eu nem invisto nele. É perceptível, no discurso de algumas blogueiras, o pouco uso do Twitter e até mesmo a sua negligência se comparado às outras redes sociais. ANA TERRA: Temos, mas a gente ainda precisa colocar alguém como cuidadora oficial do Twitter [...]. Precisamos de uma cuidadora oficial, uma mãe do Twitter pra poder cuidar dele como um filho como a gente tem cuidado das outras mídias. Mas ele existe. CECI: A gente divulga no Face, posta no Instagram, tem o Twitter que às vezes também a gente divulga. A gente tenta usar a maioria das redes sociais pra essa divulgação. CAPITU: O melhor é o blog mesmo, o Instagram eu acho que fica em segundo lugar. Facebook eu não vejo muita gente olhando, muito difícil. Twitter muito menos. Todavia, houve casos de uso frequente do Twitter. O ato de tuitar53 o link da postagem feita no blog é considerado como uma forma de divulgação, que possibilita o aumento do número de visualizações do post. 53 Publicar numa conta da rede social Twitter. Disponível em: . Acesso em: 5 out. 2018. 184 GABRIELA: Às vezes você solta um link no Twitter, a visualização já aumenta sabe. Às vezes você dá um RT [retuitar54] assim já publico no DNA e eu retuito no meu pessoal e aí já sobe. E ajuda bastante. EMÍLIA: Twitter, é. Mas o Twitter geralmente retuita tudo do blog, já é automático. A restrição do uso do Twitter por parte das blogueiras pode ser decorrente da dificuldade apresentada no uso da rede social ou pelo desconhecimento de suas potencialidades na disseminação da informação. YouTube Três blogs possuem canal do YouTube, entretanto apenas o canal do DNA Literário é ativo na publicação de vídeos. Gabriela pensa em impulsionar o canal no YouTube, apesar de afirmar que continuará a gravar os vídeos mesmo que o canal tenha poucos seguidores. GABRIELA: Tipo a gente tem o canal, então a gente tá pensando em impulsionar o canal né, fazer ele crescer [...]. Eu acho que o canal por exemplo, 320 seguidores, eu vou produzir o conteúdo pra ele com 320, vou produzir o conteúdo pra ele com 150, igual a gente tava há pouco tempo atrás, e vou produzir conteúdo se um dia ela chegar a mil, entendeu. Eu vou continuar fazendo, independente disso. Os canais dos blogs Entrando Numa Fria e Paradise Books foram descontinuados. No primeiro caso, a senha da conta no YouTube foi perdida e a blogueira afirma ter dificuldades na edição dos vídeos e na manutenção de tantas mídias diferentes vinculadas ao blog. No segundo caso, a blogueira considera que os canais literários no YouTube foram uma tendência há algum tempo atrás e que atualmente o Instagram é o grande destaque no meio literário. EMÍLIA: Na verdade a gente tinha só que o Paulo perdeu a senha e a gente não conseguiu recuperar. Mas é só mesmo pra postar trailer de filme [...]. A gente chegou a fazer algumas entrevistas com autor, mas é muito complicado editar. É complicado você cuidar do Facebook, cuidar do Instagram, cuidar do YouTube e da rede social do blog em si. CECI: Você pode ver que teve uma época que era tudo youtubers, aí todo mundo foi lá pra dentro do YouTube. Hoje em dia ainda tá forte o YouTube, mas no mundo literário a gente tem visto que caiu um pouco os vídeos, vamos dizer de resenhas com vídeos caiu um pouco. E se vê o tanto que essas fotos, esse trabalho que tem sido criado com as imagens, se vê o Instagram muito em destaque hoje no universo literário. As facilidades da plataforma YouTube também apareceram nas falas das blogueiras. A gravação de uma resenha em vídeo é considerada bem mais rápida do que a produção de uma resenha em texto. Além disso, no YouTube o seguidor não precisa realizar o esforço de ler a postagem, recebendo a informação de forma passiva ao assistir o vídeo. 54 Publicar numa conta da rede social Twitter algo que outrem publicou. Disponível em: . Acesso em: 5 out. 2018. 185 LUCÍOLA: Porque você leu o livro, por exemplo, a pessoa demora uma hora pra gravar uma resenha de um livro, a resenha vai durar vamos supor 5 minutos, 10 minutos, mas ela demora uma hora pra gravar. Num dia, se ela viver disso, quantas resenhas ela pode gravar? Entendeu, então assim... A resenha escrita, ela demora. IRACEMA: Assim o texto também é, mas hoje eu vejo que as pessoas não leem muito o que a gente escreve. Apesar de ser importante, porque blog é pra escrever né. Mas eu vejo que a galera até prefere YouTube pra poder só receber sabe, só ficar lá assistindo. Uma das blogueiras conta que é espectadora de vários canais literários no YouTube, ressaltando que uma das facilidades dos vídeos é poder ouvi-los enquanto faz outras atividades, o que o blog não permite, uma vez que o leitor deve dedicar-se exclusivamente à leitura. LUCÍOLA: Tem gente que gosta de limpar a casa ouvindo música. Eu ligo no YouTube em resenha, naquele modo aleatório e deixo ele ir, e vou escutando resenha enquanto eu limpo casa, enquanto eu faço as coisas, mas não é uma coisa que... Por isso que a praticidade do YouTube é essa entendeu, por isso que tem tanta gente migrando também, por causa disso, que pra você ler um blog você tem que parar e ler. Com um canal do YouTube você pode fazer qualquer coisa enquanto ouve. Algumas blogueiras receberam sugestões de amigos para tornarem-se booktubers, no entanto, essa não foi considerada como uma opção interessante para as entrevistadas. Lucíola considera que o trabalho para criar um canal no YouTube não compensaria a ausência de retorno financeiro. Já Macabéa acha que não se sentiria confortável em frente às câmeras, devido à exposição. Ela ainda ressalta que o YouTube traz maior visibilidade e aceso, mas que considera escrever mais fácil e possui o blog porque gosta. LUCÍOLA: Igual outro dia me falaram assim ‘Nossa porque você não cria um canal no YouTube, você escreve tão bem, você deve falar bem também’. Eu falei ‘Não, eu não vou perder minha vida por causa disso’. Sério, ela tá assim ‘Nossa mas ganha muito dinheiro, você vê os youtubers ganhando direito e tal’. Eu falei ‘Me fala quantos canais de livro’, porque pra mim se eu fosse virar uma youtuber seria uma coisa que eu gosto, então seria de livro, ‘Me fala quantos canais de livro tem um milhão’, chorando eu conheço três que tem 100 mil. MACABÉA: As meninas tão falando ‘Ah a gente podia ter um canal’, eu falei ‘Ah eu não fico muito confortável gravando’. Eu acho que eu não sei se eu daria certo com esse trem não. Então assim, escrever pra mim é mais fácil porque você não expõe, acho que quando você coloca sua imagem assim, você fica mais exposto [...]. Eu acho que hoje as mídias tão muito focadas nisso, no reconhecimento rápido e instantâneo né. YouTube, o povo quer colocar vídeo porque vídeo dá visibilidade, vídeo dá acesso, vídeo dá dinheiro, inclusive, tem muito acesso. Mas blog não, blog você faz porque você gosta [...]. Apesar dos benefícios que os canais literários proporcionam, como a visibilidade, a rápida produção das resenhas e os seguidores, em geral as blogueiras mostram-se desmotivas a produzir conteúdo para o YouTube. Com exceção de Gabriela, que mantém seu canal ativo, as demais entrevistadas não se mostraram interessadas em atuarem como booktubers sendo os motivos citados: a dificuldade de edição, a administração de várias 186 mídias, a ascendência do Instagram no meio literário, ausência de retorno financeiro e exposição pessoal. 6.4.4 Interação Nas investigações de práticas informacionais, Berti e Araújo (2017) enfatizam que a interação caracteriza a complexidade do sujeito, pertencente a dimensões individuais, coletivas, sociais e culturais. De fato, a interação é o conceito chave da abordagem social dos estudos de usuários da informação, significando uma ação recíproca, colocando em relevo o fato de uma ação ou influência sobre algo também ser afetada por esse algo. Nesse sentido, podemos analisar a relação recíproca do sujeito com o contexto, a informação, o coletivo (ARAÚJO, 2012). A categoria interação discute as práticas informacionais das blogueiras entrevistadas ao interagirem com os leitores de seus respectivos blogs, com outros blogueiros da blogosfera literária e também com o mercado editorial, composto pelos autores nacionais e pelas editoras. Recuero (2004a) aborda a ideia de reflexibilidade na construção da interação no blog, defendendo que a pessoalidade de um blog é sempre construída em função do outro. Nesse sentido, o “outro”, identificado nessa pesquisa, pode ser um leitor, um blogueiro, um autor, uma editora. A seguir, apresentam-se as subcategorias: leitores, blogueiros e mercado editorial. 6.4.4.1 Leitores A presente subcategoria aborda aspectos do relacionamento das blogueiras entrevistadas com os respectivos leitores de seus blogs. É discutida a importância dos seguidores, a relevância dos comentários e as angústias provocadas pela sua ausência. Por fim, evidencia-se a atuação das blogueiras junto ao incentivo à leitura. Seguidores Perguntou-se às blogueiras qual importância elas atribuíam ao número de seguidores que possuíam, tanto no blog como nas redes sociais vinculadas a ele. Conforme apresentado anteriormente no quadro 9, os blogs analisados possuem proporções diferentes em relação ao número de seguidores. A intenção dessa questão foi compreender do ponto de vista das blogueiras a relevância desses seguidores, independentemente do número de pessoas que seguem os blogs. Em alguns casos, a quantidade de seguidores pode representar uma 187 conquista, pois consegue-se captar diversos leitores que estão interessados em acompanhar as publicações do blog. EMÍLIA: É uma conquista. Porque, eu vou te falar uma coisa, dessa parte de seguidores eu consegui sozinha, porque o Paulo [colega no blog] não preocupa muito com isso. Tipo em 2016 a gente tinha 200 e poucos seguidores no Instagram [...]. O Facebook tava parado também tinha cinco mil e pouquinho. Então, foi trabalhoso, mas eu consegui conquistar esses seguidores. ANA TERRA: Eu acho que são pessoas que realmente gostam do que a gente tá falando. São pessoas que... a pessoa que por exemplo se inscreve na newsletter do blog, ela quer sempre saber o que você tá publicando, sabe. MACABÉA: Olha, eu acho que com um ano é um número razoável, menos do eu gostaria, mais do que eu tinha expectativa [risos]. Eu não achei que fosse conseguir que outras pessoas seguissem... Quando eu comecei, eu falei gente ninguém vai entrar pra ler esse trem, nossa só a família vai ler os posts [risos]. A relevância dos seguidores está também em conseguir uma visibilidade do mercado editorial, uma vez que, para firmar parcerias, as editoras exigem uma certa quantidade de seguidores. IRACEMA: Eu quero mais, a gente quer sempre mais né. Até porque as editoras olham isso, sabe. Elas pedem muito na hora da inscrição. Mas não é só elas não, todo mundo pede, a gente geralmente quando vai olhar um artista, a primeira coisa que eu olho é quantas pessoas tão seguindo. Aí acaba que número conta né. GABRIELA: Cara, pra mim até que tipo não é tão significativo. Acho que é mais pra gente conseguir parceria, pra gente conseguir editora, mais isso sabe, pra gente ter visibilidade. Em outros casos, a questão da quantidade de seguidores é relativizada. Foi evidenciada a relação com o leitor e seu efetivo acompanhamento do conteúdo postado, assim a proximidade com o seguidor foi considerada mais valiosa do que de um número grande de seguidores. LUCÍOLA: Porque esse tipo de coisa é muito... no blog é muito, muito relativo. [...] porque muita gente não comenta hoje em dia em blog, muita gente raramente curte as coisas, a pessoa não curte uma foto sua no Instagram, ela não lê até o final [...]. Então assim, não me diz muita coisa [...]. CAPITU: Eu acho que nesse caso os números nem contam tanto, porque você pode ter por exemplo mil seguidores e só cinco leem de verdade. Às vezes a pessoa coloca lá, ela participa de um sorteio, ela nunca mais vai olhar seu blog. Acontece, tem seguidores assim. Só que parece que quando você tem menos seguidores, você não tem tanta visibilidade, são as pessoas que mais leem, porque tipo fica um pouco mais familiar, sabe. Porque tipo são poucas pessoas que te leem, mas elas leem de verdade, não é só pra falar assim, entendeu. CECI: Ah que bacana, temos nove mil seguidores no Instagram. Mas o que a gente mais presa é o contato com o leitor, de você tá no Instagram a pessoa realmente ver sua foto e curtir. As entrevistadas foram questionadas se realmente conheciam quem eram seus leitores. No relato de certas blogueiras, surgem os chamados “leitores fiéis”, pelos quais as blogueiras têm carinho. 188 ANA TERRA: A gente cria até uma relação de carinho, sabe. [...] meu contato com eles é mais comentário e resposta [...]. Fiéis mesmo... Ah, tem aqueles que você já pode procurar que eles vão tá sempre ali, eu acho que são quatro. E tem aqueles que aparecem e comentam um ou comentam outro. CECI: Então fica um pouco distante de quem realmente você sabe que tá lendo o conteúdo sempre, acompanhando o blog. Porque tem aqueles leitores que acompanham sempre o blog, tem os fiéis, que querem saber o que que o Paradise tá lendo, que somos nós quatro né. Macabéa foi uma blogueira que demonstrou especial empolgação ao falar sobre seus leitores, comentando que faz amizades virtuais e também presenciais através do blog. MACABÉA: Muita gente que comenta né, às vezes é um amigo que te vê, que comentou, então a gente sabe que é aquele amigo, daquela rede social que a gente tá ou de uma leitura que a gente tá fazendo junto. Então a gente acaba conhecendo, tem estranhos óbvio, mas também tem uns que a gente conhece [...]. Temos, tem uns que a gente parece que conhece desde criança [risos]. É engraçado porque tem gente que a gente gosta demais da conta, então tem gente que veio pra vida da gente, vida virtual mais leva. Sai do virtual, vem ficar na casa da gente uma semana, já teve. Uma das blogueiras conta que alguns de seus leitores se tornaram blogueiros por influência do Paradise Books. Retomando Di Luccio e Nicolaci-da-Costa (2010), as autoras afirmam que muitos blogueiros eram inicialmente leitores de blogs, que ficaram encantados com os recursos desse espaço virtual e decidiram criar seus próprios blogs. CECI: A gente já teve leitores nossos que depois criaram blogs, aí ele ia lá... Porque assim às vezes você comenta e deixa o link do seu blog, então essa pessoa só comentava, comentava, aí depois passou um tempo ela começou a comentar e deixar o link. Então depois a gente vai conversar, ‘Ah foi por causa de vocês, eu comprei tantos livros, agora também fiz o meu’. Por outro lado, algumas blogueiras consideram que não conhecem seus leitores, caracterizando-os como transitórios. Elas afirmam que interagem mais com blogueiros do que com leitores. EMÍLIA: Sim, tenho amizades. Mas não vou focar em leitores. [...] são alguém da blogosfera. São mais blogueiros do que leitores [...]. Na verdade, o que acontece eu tenho alguns leitores né que leem, mas eu não tenho aquele povo, aquele tipo fiel sabe, que eu sei quem são, não tenho. É como se o blog na verdade tivesse leitores é... como chama? Transitórios. GABRIELA: E aí eu converso com as pessoas assim [...]. Não necessariamente com meus leitores. IRACEMA: Não [risos]. Não tem assim uma pessoa que sempre comenta assim. Quem eu tenho certeza que tá de olho são outros blogueiros aqui de Belo Horizonte, porque a gente tem um grupo, a gente acaba conversando. [...] mas leitores sem ser do meio literário, não [...]. Então eu acho que é um pouco disso também, eu sou um pouco ausente como blogueira em relação aos leitores. Entretanto, em outros momentos da entrevista, Iracema e Gabriela relatam o contato com leitoras. Iracema afirma que iria se encontrar com uma blogueira na Bienal do Livro, já Gabriela conta que uma leitora do blog pediu para publicar uma postagem. Esses casos podem ser considerados como situações isoladas de interação com leitores, uma vez que as blogueiras afirmaram anteriormente que não conheciam seus leitores. 189 IRACEMA: Tem até uma leitora que a gente conversa assim, mas não sei se é... A gente até vai se encontrar na Bienal pra conhecer, eu falei ‘ah vamos lá conhecer’. Então acaba que é legal fazer contatos né mesmo fora. GABRIELA: [...] essa semana teve o post de uma pessoa que pediu pra publicar, aí a gente deixou, ter um post diferente assim... Ela entrou em contato com a Kátia [colega no blog], foi pelo Facebook mesmo assim. Ela olha tô com um post e tal, eu quero publicar. A gente deixa, a gente abre esse espaço. Capitu e Lucíola também afirmam não conhecer seus leitores, mas depois acabam citando leitores com quem tiveram contato. No entanto, elas se referem a esses leitores de forma bem vaga, não identificando-os pelo nome, o que sugere mais uma vez situações isoladas de interação com leitores, não caracterizando uma prática frequente. CAPITU: Tem umas pessoas que se repetem com uma certa frequência, eu gosto de ver isso. Mas de vez em quando aparecem uns rostinhos novos. Mas eu sempre respondo todos igualmente. PESQUISADORA: Mas esses que se repetem você conhece? CAPITU: Nem sempre. Tem uma menina, eu não lembro o nome dela agora. Mas tem uma menina que ela sempre comenta, eu não conheço pessoalmente, eu não sei nem se ela é de Minas. Mas eu sei que ela sempre comenta. Então assim... PESQUISADORA: Você não conhece quem são seus leitores? LUCÍOLA: Não. Eu sei que tem um que é divertido demais, ele é de Fortaleza. Ele, uma época, ele me ajudou na fanpage do blog, ele me ajudava a divulgar. Compreende-se que os seguidores são importantes para as blogueiras, sendo considerados uma conquista, uma forma de visibilidade do blog para o mercado editorial. Em alguns casos, o número de seguidores foi relativizado em detrimento de uma relação mais próxima ao leitor. Entretanto, ao verificar a relação das blogueiras com os leitores, constata- se que são poucas que apresentam realmente vínculos com seus leitores, reconhecendo-os no blog e possuindo relações amigáveis. A maior parte das blogueiras não conhece seus leitores, apresentando apenas alguns casos isolados de interação. Comentários Conforme apresentado no quadro 8, os blogs apresentam diferenças em relação ao número de comentários recebidos, sendo os blogs de Ana Terra, Macabéa e Iracema os mais comentados. Para Recuero (2004b), a ferramenta de comentários permite que o blog seja um espaço de discussão, possibilitando a interação, gerando laços sociais e criando comunidades. Na visão das blogueiras, os comentários são o feedback dos leitores, um momento no qual eles podem emitir sua opinião, a ocasião em que acontecem as trocas. ANA TERRA: É o momento que eu posso ouvir o que as pessoas têm pra falar sobre aquilo que eu tô falando [...]. Então é o momento que eu posso ver as opiniões diferentes sobre aquilo que eu tô falando. Ou então assim ‘ah eu não conheço, mas vou passar a conhecer’ [...]. Então, é realmente esse momento de troca. 190 CECI: Um feedback das pessoas... Saber que elas tão realmente vendo esse conteúdo [...]. GABRIELA: Comentário é bom porque você sabe se a pessoa identificou ou não. E ela vai dar opinião e aí você vai conversar com ela e vai ver outra opinião diferente da sua. Eu gosto disso assim, essas opiniões contrastantes. E saber que a pessoa gostou do que você fez, isso é muito bom. LUCÍOLA: É o feedback né. Se você conseguiu alcançar o intuito original daquilo ali né, se a pessoa que leu aquilo ali até o final ela gostou do que escreveu, ou se ela não gostou, ou se ela achou alguma coisa de errado ou se ela não achou alguma coisa de errado. Eu acho que o comentário ele serve pra isso, ele serve como um termômetro. MACABÉA: [...] o meu [blog] eu deixo a pessoa publicar, escreveu, publicou, quer comentar... Porque eu acho que do mesmo jeito que eu me dou ao direito de emitir minha opinião, eu tenho que dar o direito ao outro de emitir a opinião dele sobre aquilo que eu tô escrevendo. De repente ele não concorda, de repente ele não gosta, de repente... CAPITU: Igual uma das coisas que eu mais gosto é o feedback, então se a pessoa não fala nada, não fala se ela gostou ou não, nem que seja pra falar tipo ‘Essa parte aqui tá ruim, você pode fazer de tal jeito pra melhorar’, é isso que eu acho que falta. Para Iracema, o comentário já é importante para que ela saiba que alguém leu sua resenha até o final. Além disso, ela gosta de conhecer a opinião de outros leitores, que acabam vendo aspectos do livro que ela não conseguiu ver. Mas, a principal importância do comentário reside em ser um esforço realizado pelo leitor, fato também destacado por Ceci. IRACEMA: E comentário eu acho que é muito bom porque é um esforço, sabe curtida, salvar a foto, likes é muito fácil. E hoje em dia a gente faz automático, nem vê [...]. Mas comentário é muito esforço do outro lado, a pessoa tem que querer comentar e comentar. Eu acho que realmente é uma vitória [risos], cada comentário é tipo ‘Ai recebi um comentário’. Fico muito feliz. CECI: [...] e essa pessoa, ela não simplesmente passou, ela parou ali e dedicou seu tempo até pra comentar. Na opinião de Emília, as pessoas só comentam se puderem receber algum tipo de compensação. Ela relata o top comentarista que criou para aumentar o número de comentários no blog, que justifica o grande número de comentários do Entrando Numa Fria nos meses de março, abril e maio, e a posterior queda dos comentários nos outros três meses (ver QUADRO 8). EMÍLIA: Porque na verdade, as pessoas não comentam se não forem obrigadas a comentar. Por exemplo, fiz uma promoção de top comentarista de 50 reais, se a pessoa comentasse todas as postagens ela ia ganhar um cupom, um vale de 50 reais, aí todo mundo comenta. Mas se não tiver uma compensação, a pessoa que comenta ela quer alguma coisa em troca daquilo, ninguém tá comentando mais. A palavra “feedback” foi a mais usada pelas blogueiras ao descreverem o que os comentários representam para elas. Destaca-se que, de forma semelhante, a palavra feedback também apresentou-se como a mais utilizada pelas blogueiras ao referirem-se a sua motivação para postar no blog. 191 Além disso, o comentário também foi considerado como a oportunidade de conhecer a opinião do leitor. Conforme Recuero (2004a), é preciso compreender que os lugares de fala dos interagentes são diferentes nos blogs, uma vez que o blogueiro tem a seu dispor todo o site, com grandes espaços de discurso para manifestar-se. Por outro lado, o comentarista dispõe de uma janela menor que só será vista se o leitor clicar no link “comentários”. No ponto de vista das blogueiras, o comentário é um esforço do leitor, que não simplesmente acessa a postagem, mas se empenha também em escrever uma anotação. Há ainda a afirmação de que, atualmente, os leitores só comentam se tiverem algum tipo de compensação, ganhando algo em troca da postagem do comentário. Ausência de comentários Conforme abordado no referencial teórico, Prange (2003) avalia que os comentários dos visitantes são esperados pelos blogueiros, sejam provenientes dos próprios amigos ou de leitores desconhecidos. Segundo a autora, essa receptividade expressa um intenso desejo por parte das blogueiros, de terem seus blogs lidos e de, assim, conquistarem um público cativo para seus textos. Dessa forma, a ausência de comentários pode ser uma fonte de ansiedade para os blogueiros. Durante a análise das entrevistas, identificou-se que existe um discurso predominante nas falas de todas as blogueiras a respeito da ausência de comentários, relatando que, atualmente, os leitores não comentam nas postagens e que há uma tendência geral da falta de comentários nos blogs literários. Tal discurso está presente até mesmo nas falas das blogueiras que geralmente recebem muitos comentários em suas postagens, como Macabéa, Ana Terra (ver QUADRO 8). Nesse sentido, buscou-se compreender o que incomodava as blogueiras em relação à falta de comentários por parte dos leitores. CAPITU: As pessoas não comentam muito, eu sei que elas veem, mas elas não falam o que achou sabe. Não sei se é por medo do que eu vou pensar, mas tipo eu não importo, pode ser qualquer coisa. Mas geralmente não falam. ANA TERRA: Eu fico um pouco decepcionada. Porque dá um trabalho, dá um certo trabalho, você tirar um tempo do seu dia, um tempo da sua semana pra poder escrever aquilo, não assim pela leitura, porque a leitura provavelmente com blog ou sem eu teria lido. [...] mas aí você chega lá no blog, você escreve um texto de quase mil palavras e ninguém comenta, ou as pessoas veem mas não falam assim ‘Ah bacana’. Então é... falta alguma coisa. GABRIELA: Cara, tem muito post no blog que não tem comentário. A gente vê mais comentário no YouTube e no Instagram. Post no blog é um ou outro, sabe. Mas... superei. No início eu ficava grilada, sabe. Tipo nossa, mas não tem ninguém comentando. Mas agora superei, continuo fazendo [...]. Talvez o pessoal tenha preguiça de comentar. Eu creio que é preguiça de comentar mesmo porque... As blogueiras sentem-se desvalorizadas quando não recebem comentários em suas postagens. Elas se sentem decepcionadas por terem investido tempo para produzir um 192 conteúdo que, aparentemente, não está sendo lido. No depoimento abaixo, Macabéa levanta um outro ponto, o fato de a ausência de comentários no blog comprometer as parcerias. MACABÉA: Olha, comentário, é engraçado porque igual eu tô te falando, quando as pessoas leem normalmente elas comentam, mas elas comentam com a gente, não comentam no blog. Quando comentam no blog, eu acho que é legal. Pra quê? Pra você conseguir visibilidade quando você quer parceria. Para saber se suas postagens estão sendo acessadas, as blogueiras analisam o número de visualizações do post. As publicações costumam apresentar grande número de acessos, porém poucos comentários. Esse fato foi identificado por Araújo e Araújo (2015), que afirmam que há um índice de comentários muito abaixo do de visualizações. CECI: A gente no blog, a gente trabalha com visualizações, porque quando você entra na plataforma fala quantas pessoas visualizou, então no blog a gente fica meio assim nossa 500 pessoas visualizaram esse post e ninguém comentou. GABRIELA: [...] às vezes tem tipo cento e poucas visualizações e não tem nenhum comentário. Às vezes tem 300 e tantas visualizações e tem um comentário sabe. EMÍLIA: Normalmente eu vou muito pelo acesso que teve aquela resenha, eu vejo se ela teve algum acesso. Agora se eu postar alguma coisa, tiver um top comentarista e não tiver comentário, aí eu fico preocupada, que aí eu vejo que tem alguma coisa errada ali. MACABÉA: [...] 100 visualizações, 100 pessoas lerem o conteúdo, 2 comentaram. Aí você falta chorar, você fala assim ‘Por que que esses 100 abençoados que leram não deixaram um comentário’? ‘Ah gostei’, podia falar pelo menos gostei, sabe. LUCÍOLA: Mas é igual eu te falei, como as pessoas não comentam, tipo assim às vezes eu tenho... Eu tenho, eu devo ter umas 180 publicações no blog, não tenho nem 10% disso de comentário. Você vai pegar lá umas 15 resenhas seguidas, você não tem comentário nenhum. Iracema e Lucíola alegam não se importar com a ausência de comentários. A primeira afirma não ter intenção de ser uma blogueira famosa ou de se promover por meio do blog. A segunda não considera que os comentários são o propósito inicial do blog, afirmando que se sente satisfeita se o leitor ler a sua resenha até o final e se sentir interessado pelo livro. IRACEMA: Eu não ligo não [risos]. Eu acho que já é até natural, até porque meu blog não é grande também e eu não sou famosa como blogueira, aí não tem aquele... [...] E eu não sou uma pessoa de me divulgar, gosto mais tipo eu prefiro dar ênfase no material sabe. Então acaba que eu não ligo não, eu não ligo de não ter comentários. LUCÍOLA: Eu fico muito feliz quando vem um comentário, quando a pessoa fala assim ‘Nossa que resenha maravilhosa’ ou ‘Que resenha bem escrita’, ‘Nossa esse livro entrou pra minha lista de desejados’... É uma coisa muito boa porque te afaga o ego, mas não é o propósito inicial, tipo assim se a pessoa entrou, leu até o final, gostou e colocou esse livro na lista de desejados ou comprou o livro por uma coisa minha, eu fico feliz. Mas, eu não posso falar com você que eu sei de alguém que fez isso. Geralmente, a ausência de comentários é motivo de angústia para as blogueiras, que sentem-se decepcionadas e desmotivadas pela falta de feedback por parte de seus leitores. 193 A quantidade de comentários é comparada ao número de acessos da postagem, entendendo- se que os leitores visualizam a publicação, mas não comentam. Entretanto, certas blogueiras não aparentam se importar com a ausência de comentários. Incentivo à leitura Ao serem perguntadas sobre a possibilidade de seu blog literário incentivar a leitura, todas as blogueiras consideram que seu respectivo blog atua no incentivo. As justificativas são as mais diversas, desde o feedback de terceiros ao formato das resenhas. CAPITU: Sim, não posso falar que em grande escala, mas sim. Pelo menos algumas pessoas já falaram que sim né. CECI: Sim. GABRIELA: Sim. E principalmente a leitura nacional, assim, por a gente dá mais espaço pra isso. EMÍLIA: Sim, sim, a gente tem... Tanto é que eu tenho certeza disso como já me falaram e eu tenho parceria com a Leitura aqui de BH por causa disso, porque eles acham, eles veem no blog uma... distribuição boa de informação [...] terceiros já me mostraram isso, que meu trabalho tá legal. MACABÉA: Ah, eu acho. Eu acho que incentiva muito. Porque a gente não tá focado num único tema, porque eu já abri oportunidade por exemplo pra outras pessoas escreverem, eu já convidei amigo meu pra escrever [...]. IRACEMA: Sim. Eu acho assim também, não exatamente eu Iracema influencio uma tal pessoa [...]. Acaba que eu ajudo na massa de influenciadores, entendeu. Eu acho que eu não sou tão importante no meio literário a ponto de eu sozinha influenciar, mas acho que eu ajudo a manter sabe [...]. Então acaba que eu acho que eu ajudo nesse... no grupo. No geral, não sozinha. LUCÍOLA: Eu acho que sim. Porque as minhas resenhas, elas não são grandes, eu tento manter, eu tento criar um misto entre a razão de escrever e o sentimento que o livro me deu. Ana Terra foi a única que apresentou certa dúvida ao responder, possuindo uma opinião mais crítica sobre o que é realmente o incentivo à leitura. Para a blogueira, incentivar de fato a leitura é promover o gosto pela leitura entre aqueles que ainda não são leitores, atuando no processo de formação do leitor. Na visão dela, o blog atrai um público que já é leitor, sendo sua atuação um incentivo à leitura de livros específicos. ANA TERRA: Quanto a isso eu não sei falar. Eu entendo como incentivo à leitura, é pegar eu lá da sétima série que não lia e teve algo que me motivou a ler. Eu acho que as pessoas que procuram o nosso blog, são mais pessoas que já tem o costume de ler e tão ali pelo mesmo motivo que a gente tá escrevendo, pra procurar coisas novas ou procurar alguém que tenha lido o que você leu pra você poder conversar. Pode ser que incentive alguém de ler outro gênero, mas quanto ao incentivo à leitura, eu acho que nem tanto. As blogueiras recebem feedbacks de seus leitores, confirmando que suas postagens sobre determinados livros influenciam as pessoas a lerem ou desejarem esses livros. De acordo com Araújo e Araújo (2015), se existe um elo de confiança entre o blogueiro e o leitor, 194 as resenhas, que refletem a opinião do blogueiro sobre a obra, podem influenciar os leitores a iniciar novas leituras. CAPITU: Sim. Eu já recebi vários comentários da pessoa falando que depois que leu a resenha, queria ler. Várias pessoas falam, eu recebo e-mail e... Assim, é maravilho ver isso. A pessoa falar ‘Nossa eu li sua resenha gostei, agora eu vou ler’. ANA TERRA: Então, meu namorado publicou o quadrinho dele no FIQ, ele me contou que um dia chegou uma moça lá na mesinha dele, aí ele chegou pra falar sobre a revista dele, aí a moça falou ‘Eu já sei a história, eu li no blog’ [...]. Então eu acho que pode ser que aconteça também com os outros conteúdos que eu publico, tanto filme quanto livro, quanto série. CECI: Sim, sim, sempre tem alguém que fala ‘Ah eu vou ler porque você tá lendo’, ‘Ah eu vou ler também’. Tem aqueles livros queridinhos que a gente sempre... Igual eu vou lembrar de uma postagem de Setembro Amarelo, que eu fiz no blog, aí eu listei vários livros que tem o tema de suicídio e tal. Aí as pessoas ‘Ah esse livro também é, eu vou ler’. Então tem sim, tem um retorno. GABRIELA: Eu acho que sim, porque eu já vi gente falando ‘Ah você falou de tal livro, eu fui ler, amei’. E que bom né [risos]. Já, já vi gente falando que leu. A própria Macabéa, já comentei livro com ela, já fiz resenha e ela comentou e tal, e ela ficou de ler o livro depois. E teve a menina no Instagram também, então... EMÍLIA: Isso, é, falam né [...]. E às vezes, por exemplo, eu vi, às vezes tem comentário no Instagram, isso é muito mais forte no Instagram, você posta uma capa a pessoa comenta embaixo ‘Nossa mais um pra lista’ ou... é... ‘Já vou procurar saber mais’, sabe essas coisas. Você sabe que a pessoa ficou sabendo do livro por ali. A influência que o blog exerce sob os leitores é ressaltada na fala de algumas entrevistadas. Lucíola reflete sobre o poder de influência que pode causar nas pessoas através de uma resenha, impulsionando o consumo de livros. LUCÍOLA: Porque tipo assim eu acho que é muita influência que eu posso estar gerando pra pessoa, fazendo ela ter um custo que às vezes ela não tem, eu acho que por isso é perigoso, dependendo da forma com que você expõe aquilo ali, você pode influenciar a pessoa a comprar aquilo ou não, e ela pode ter condição daquilo ou não. Então por isso que eu acho que é perigoso, mas assim o intuito é esse, que a pessoa leia aquilo ali que você... MACABÉA: Ah, eu acho que influencia. Assim, meu grupo pelo menos, os grupos dos quais eu participo, acaba influenciando, assim como eu sou influenciada por eles [...]. Então, isso é uma maneira da gente influenciar também, quer dizer, se a pessoa vai lá é porque ela se interessou por aquilo que você tá falando, se ela foi lá, se ela leu, chamou a atenção dela, é uma maneira de influenciar, pelo menos eu acredito que seja. IRACEMA: Sim. Eu acho que todo mundo influencia todo mundo [...]. Então acaba que eu vejo isso nas pessoas próximas a mim, de ver que eu gostei e recomendar. Eu acredito que sim, isso influencia com certeza. Compreende-se que o blog e as mídias sociais vinculadas a ele promovem uma divulgação dos livros lidos pelas blogueiras e provocam certa influência nos leitores. Esse fato fica mais evidente quando o mercado editorial usa os blogs literários como estratégia de marketing, comprovando que as resenhas auxiliam na venda de livros. Havia um questionamento na pesquisa sobre a possibilidade de as blogueiras literárias atuarem como mediadoras de leitura. Na pesquisa de Araújo e Araújo (2015), constatou-se 195 que os blogueiros atuam como mediadores de leitura. De acordo com os autores, os próprios membros da blogosfera literária utilizam as ferramentas disponíveis na rede para mediarem a leitura entre si, de forma não profissional. Conforme abordado anteriormente, Petit (2009) acredita em uma mediação de leitura que aconteça de uma forma não planejada, que não tenha cunho pedagógico e na qual o mediador não necessite de uma formação específica. Entretanto, a autora considera que é essencial a proximidade entre o mediador e o leitor, fato que pode ter ocorrido na amostra definida por Araújo e Araújo (2015), mas que não foi verificado nas falas das blogueiras literárias dessa pesquisa. Dessa forma, por meio da análise das respostas sobre o incentivo à leitura e a influência de suas postagens, fica evidente que as blogueiras não atuam como mediadoras de leitura. Para que fossem consideradas mediadoras de leitura, as blogueiras precisariam conhecer e manter uma relação próxima aos seus leitores, guiando-os e promovendo leituras com afetividade (PETIT, 2009). Conclui-se que a atuação das blogueiras restringe-se ao incentivo à leitura de determinados livros e à uma influência para sua aquisição. 6.4.4.2 Blogueiros Nessa subcategoria serão discutidas algumas questões relativas à interação das blogueiras entrevistadas com outros blogueiros vinculados à blogosfera literária. Para tal, foi investigado se as blogueiras realizam a leitura e acompanhamento de outros blogs literários. Além disso, averiguou-se a formação dos webrings, que acontece tanto de forma virtual como presencial. Por fim, discute-se a importância dos eventos literários e os sentimentos presentes nas relações entre os blogueiros. Leitura de outros blogs literários Para verificar a interação das entrevistadas com outros blogueiros, perguntou-se incialmente se elas visitam outros blogs e realizavam a leitura das postagens. Algumas blogueiras afirmam que acompanham blogs literários, principalmente blogs de amigos. É comum elas associarem diretamente o blog ao blogueiro administrador, citando seus nomes. EMÍLIA: Livros e Sushi, eu leio tudo que a Iracema escreve. É... Menina da Bahia eu leio, a Menina da Bahia escreve muito sobre romance, então eu leio mais. Vamos ver quem mais... Eu tenho, eu tenho acompanhado, eu acompanho alguns, mas não com a frequência que eu queria, é lógico né. Tem o Fundo Falso. É... Nossa, eu vou lembrando... GABRIELA: O Paradise eu acompanho até hoje. Tem o Memorialices da Luana, acho o blog dela muito fofo, adoro. E o Epílogo em Branco da Rubiane, que foi uma menina que eu conheci pela internet, no mundo Nárnia também. LUCÍOLA: Eu conheci o Coisas [blog Coisas de Mineira] na Bienal em 2016 que foi o mesmo ano que eu conheci o clube [Clube do Livro BH]. Tem o 196 Livros e Fuxicos, que eu conheci o blog primeiro, antes do canal [...]. Menina, eu já segui mais, hoje em dia não tanto. Mas muita coisa tá desativada, muita gente deixou, muita gente migrou, então... Mas os que eu acompanho até hoje são esses. MACABÉA: Leio, leio mais o de pessoas com quem eu já tenho mais afinidade. [...] o Gata Leitora eu sempre entro, é... O da Gabriela que tava aqui, mais a Kátia, elas são gracinha, então sempre que ela posta alguma coisa lá, eu entro, comento, eu falo lá alguma coisa. Tem alguns... O Coisas de Mineira, que é das meninas, às vezes eu entro pra poder olhar, mas mais blogs literários. Em contrapartida, ao serem perguntadas se eram leitoras de blogs literários, metade das blogueiras afirmou que não. Elas alegam acompanharem somente o perfil do Instagram dos blogs, fato que mostra mais uma vez a ascensão dessa rede social entre os blogueiros. Além disso, evidencia-se a questão da migração de plataforma. O fato de as próprias blogueiras não estarem lendo postagens nos blogs, sugere certa tendência de uso do Instagram como principal plataforma para veiculação de postagens literárias no futuro. ANA TERRA: Eu acho que não. É bem essa coisa do Instagram, sabe. Eu vi ali no Instagram, sabe. Às vezes eu vejo o pessoal do Coisas de Mineira publicou alguma coisa no Instagram, até mesmo no Facebook, aí eu vou lá e leio. Mas não é periódico, antes eu acompanhada sempre, sempre que saía lá novidade eu ia lá e lia. Hoje eu não tenho acompanhado tanto. CAPITU: Frequente, frequente não. Mas igual eu te falei, tenho vários salvos, aí de vez em quando eu dou uma olhada [...]. Eu acho que os outros eu olho pelo Instagram, que é mais rápido pra ver. E aí geralmente eles costumam postar tipo a imagem e uma resenha bem rápida assim, é o que eu mais acompanho, blog mesmo eu visitar é bem mais difícil. CECI: Não, leitora de blogs assim eu não acompanho não. Eu tenho seguido muito Instagram. É a tendência. [...] Ah nossa... Daqui eu vou lembrar... Clube do Livro, eu sigo a Iracema, eu sigo o Luke, eu sigo o da Joy, eu vou lembrar mais o nome dos blogueiros do que dos blogs, porque aí fica [risos]. Mas são vários que eu sigo, se você olhar o meu Instagram, 70% é de livros. IRACEMA: Igual eu falei eu não sei se eu... Ativa assim acho que não. Eu quero ler um livro aí digito lá às vezes ou vou ler e procuro, mas assim falar assim vou lá buscar o blog não. PESQUISADORA: Nem de blogs amigos? IRACEMA: Não, acaba que eu acompanho mais pelo Instagram. É raro, olha pra você ver, a gente é blogueira e não visita os blogs. Seja por meio da plataforma blog ou através das redes sociais, no caso o Instagram, as blogueiras acompanham as postagens de outros blogueiros pertencentes ao meio literário. Essa prática revela que as blogueiras sentem a necessidade de conhecer outras pessoas que possuem uma atuação semelhante à sua na blogosfera, que têm os mesmos gostos e que também estão compartilhando conteúdo relacionado à literatura. O fato é que as blogueiras não ficam isoladas em seus próprios blogs, acompanhando outros blogueiros e vinculando-se a eles, formando círculos sociais. 197 Influência dos blogueiros Todas as blogueiras afirmaram já terem sofrido influência de outros blogueiros, pois, ao lerem as resenhas postadas, sentiram vontade de ler os livros indicados. O acompanhamento das postagens de outros blogs e das redes sociais vinculadas a eles, permite que a blogueiras conheçam outros livros e se sintam motivadas a lê-los após conhecer as opiniões emitidas nas resenhas. MACABÉA: Já, várias vezes. ANA TERRA: Ah, sim, bastante. A minha referência é o Coisas de Mineira mesmo, sabe [...]. A resenha que eu li lá sobre Bakes of Deception foi bacana, então me motivou a querer ler, um dia eu ainda consigo. CAPITU: Sim, acontece. Eu só não lembro de cabeça agora, mas acontece. Às vezes eu tenho um livro aqui em mente que eu acho que eu não vou ler, aí eu leio lá um post da pessoa e me faz mudar de ideia. IRACEMA: Nossa, acho que na época quando o Caraval saiu sabe, você leu esse livro? O Caraval quando saiu a galera falou muito, muito, muito. Mas não lembro qual blogueiro, de tanto ver que a gente se interessa sabe. LUCÍOLA: Nossa, sim, vários [...]. Eu gosto de dar mérito pra blogs escritos exatamente por isso. Teve vários que a foto era maravilhosa, a escrita era maravilhosa, a forma como ela escreveu te traz pra aquilo ali, ela te deixa curiosa... Nossa tem um segredo. Mas como assim um segredo? E não tem como você virar e falar assim aqui quero um spoiler, me fala que segredo é esse. GABRIELA: Muitas, muitas nossa. As meninas do Paradise, às vezes eu tenho um gosto parecido com o da Marina55, com o da Nayara, aí elas falam de tal livro eu já falo hum acho que eu vou gostar. Então eu já pego. Para algumas blogueiras, as resenhas publicadas em outros blogs exercem uma influência para que elas adquiram livros. A aquisição de livros nem sempre resulta na efetiva leitura do livro, o que ressalta o caráter comercial dos blogs literários e seu potencial na venda das publicações editoriais. Como exemplo, o caso relatado por Emília, que se sentiu influenciada a comprar uma coleção completa em inglês, mesmo sem ser fluente na língua. EMÍLIA: [risos] Já, infelizmente. Queria ser uma pessoa que não fosse influenciável, nossa como eu queria [...]. Teve um que eu fiquei muito puta... a Bárbara Sá da Segredos entre Amigas, ela é apaixonada por Crepúsculo. Por ter sido a primeira série que eu li, eu sou apaixonada. Ela tava mostrando a coleção dela de livros, ela me influenciou a comprar uma versão gringa de Crepúsculo. Você não tá entendendo. Eu quase matei a Bárbara. Tive vontade de pegar ela pelos cabelos! Ela tem uma coleção gigante de Crepúsculo e na época eu tava montando a minha coleção também. E eu achei a edição linda que ela comprou fora, aí eu fui e comprei também, porque eu achei linda. PESQUISADORA: E você leu? EMÍLIA: Nada, eu não sei nem falar inglês. Se fosse espanhol eu tinha lido. PESQUISADORA: Virou objeto decorativo? EMÍLIA: Exato. Pior, eu não tenho espaço, então tá no maleiro. Você não tá entendendo, tá no maleiro! Porque eu não tenho espaço pra colocar. 55 Nome fictício. 198 CECI: Assim eu sou influenciada a comprar livros... Trono de Vidro foi uma influência de uma blogueira, eu comprei o livro e adorei, passei pra Nayara, ela que leu e ela que resenhou. Então a gente compartilha essas coisas no blog. Sou bem influenciada. IRACEMA: Então eu acho que eu fui muito influenciada sim a querer comprar as coisas que os outros blogueiros falavam antes de virar blogueira sabe. Hoje eu nem quero tanto comprar sabe, eu quero mais é ler mesmo, nem penso, nem sei se eu penso em comprar, mas é tipo que legal, gostei. Ao serem perguntadas em que sentindo seus próprios blogs são influenciados por outros blogs, as blogueiras afirmaram que o formato das publicações é baseado em blogs que elas visitaram. A forma como as resenhas são estruturadas seguem um certo padrão que é seguido nos blogs. Além disso, as blogueiras espelham-se em outros blogs como forma de buscar inspirações no momento de produzir conteúdo. ANA TERRA: Eu acho que sim, por exemplo até no formato de post novo que a gente tá usando, sabe. [...] as meninas viram em um blog que a blogueira separava sobre a história e o que eu achei da história [...]. Então direciona bastante, isso é uma influência que gente teve de um outro blog. CAPITU: Não muito, não sei mensurar isso não [...]. Agora, às vezes eu procuro inspiração [...]. Não necessariamente o conteúdo, só a ideia mesmo. Tipo a tag 15 séries que você ama, sei lá tô inventando, aí a pessoa fez, eu vou lá e faço a minha também. Esse tipo de coisa. MACABÉA: Com relação aos textos não tem jeito, a gente acaba sendo influenciada por um padrão [...]. Então isso me influencia, tipo eu vejo alguma coisa que eu gosto, que me agrada e que eu quero trazer por meu. Às vezes não funciona no meu, eu tiro, se funciona, eu deixo. Então dessa maneira eu acho que eu sou influenciada, por esses padrõeszinhos né, o formatozinho, o meio de formatação... Acho que até pra quem lê, ela já tá acostumada com aquela identidade visual ali, aquele formatinho. Então pra quem vai ler facilita, ela já tá mais familiarizada. LUCÍOLA: Menina, tipo assim ele [blog Coisas de Mineira] me deu um padrão de o que escrever, de como escrever, né. Por exemplo, o Coisas tem seis, sete anos, então eu acho ele lindo esteticamente e ele é muito bem escrito, todas as meninas escrevem muito bem. E aí você fica naquela, tipo assim, não é aquela coisa de tipo quero ser eles quando crescer, mas eles te dão um parâmetro do que é bom e do que não é bom. A tendência da criação das fotos autorais por parte das blogueiras também foi lembrada como influência de outros blogs. CECI: Igual eu tava te falando, a gente acompanha outros blogs também, vemos as fotos autorais deles, achamos lindas e maravilhosas, então nós queremos fazer um trabalho tão bonito quanto. E a gente vê que as pessoas também vão lá pra ver essas fotos novas, que inspiram elas também. O top comentarista realizado no blog Entrando Numa Fria foi uma influência que a blogueira teve de outros blogs, nos quais acompanhou o aumento da interação com os leitores provocada pela promoção. EMÍLIA: Sabe uma coisa que eu tô sendo influenciada, no top comentarista. Porque eu sei que o top comentarista faz interação. [...] isso tem dado tanto movimento em outros blogs que esse tipo de promoção, que tá me influenciando de outros blogs, que eu tenho trago [...]. E como eu sei que isso faz a diferença, eu vejo em outros lugares, aí eu tenho feito. 199 Gabriela considera que existe um ciclo de influência entre os blogueiros, uma vez que, ao ler uma postagem de um blog, ela se sente motivada a ler um determinado livro e, após a leitura, escreve sobre ele em seu próprio blog. Assim, por meio dessa postagem influenciará outros blogueiros. GABRIELA: Talvez, porque quando eu acompanho muito um blog geralmente eu vou ler o que eu tô vendo lá. Uma coisa que me interessa lá então eu vou ler. E aí vou falar dele no DNA, entendeu. Então, acho que é meio que um ciclo [risos]. A influência entre os blogueiros na blogosfera literária é evidente nos depoimentos das entrevistadas. Existe uma influência na escolha do livro que a blogueira decide ler e também na sua aquisição. Além disso, os blogs influenciam-se uns aos outros no formato das postagens e nos conteúdos postados, como também nas tendências como a produção de fotos e as promoções. Webrings Como já visto anteriormente, Recuero (2003) considera que um webring começa a ser formado quando um leitor conhece o blog e, ao ler os posts, sente a necessidade de interagir com o blogueiro e deixar um comentário. Esse leitor também é um blogueiro que, ao comentar, deixa o link de seu blog pessoal. O círculo de blogueiros se forma quando o blogueiro autor daquele blog lê o comentário e se interessa em saber quem é. Ao descobrir esse novo blog, o blogueiro passa a acessá-lo com frequência, o que promove uma interação entre os sujeitos. Ao verificar os blogs da pesquisa, é possível identificar com facilidade comentários nos quais blogueiros deixam o link de seus respectivos blogs literários. Normalmente são feitos elogios a postagem e comentários gerais demonstrando um interesse pelo conteúdo resenhado e pelo blog. Essa prática é muito comum e foi encontrada na maior parte dos blogs durante o período analisado e até mesmo posteriormente, com exceção dos blogs Minha Estante e Muito Mais e Entrando Numa Fria. Na figura 18 são apresentados dois exemplos de comentários que possuem links para outros blogs. Esse tipo de comentário, feito por blogueiros, apresenta um convite para a visita de seus respectivos blogs. Algumas blogueiras entrevistadas, aceitam o convite e clicam no link, sendo direcionadas para a página do outro blog. CAPITU: Visito. Aí eu geralmente salvo uma pastinha que eu tenho lá de blogs, aí eu coloco todos. Aí eu não visito com muita frequência, por causa de falta de tempo mesmo, mas eu gosto de olhar, de saber o que as pessoas tão postando, de saber o que é entre aspas tendência, os livros que as pessoas tão lendo mais, eu gosto de ver. IRACEMA: Sim, dou uma olhadinha. Já teve várias vezes de blogs iniciantes até pra fazer público né, pra se apresentar, eles falam ‘Ah tô te seguindo me segue de volta’, aí eu até falo ‘Ah vou te ajudar’, sigo. Eu não ligo pra isso 200 não, tipo acho que todo mundo no começo precisa de ajuda, uma curtida, um seguidor vale muito sabe, é difícil. CECI: Entro no link pra ver e retribuir. Porque existe muito essa coisa de retribuição de comentários também, às vezes a pessoa vai no seu blog e comenta, deixa o link dela. Você retribui o comentário, vai no blog dela. Figura 18 – Link de blogueiras nos comentários dos blogs Legenda: a) Comentário de uma blogueira na postagem de Capitu. b) Comentário de uma blogueira na postagem de Iracema. Fonte: Blog Menina Compassiva56 e blog Livros e Sushi57, 2018. Apesar de visitarem o blog, as blogueiras não se mostram genuinamente interessadas em conhecer o blog ou o blogueiro, pois afirmam que o fazem para retribuir a visita, ajudar o blogueiro iniciante e incentivá-lo. Ao alegarem que não visitam os blogs com frequência e só dão uma “olhadinha”, as blogueiras demonstram que não estão efetivamente interagindo com esses outros blogueiros, ou seja, não estão constituindo webrings desse modo. MACABÉA: Ah, depende. Igual eu te falei, se é alguém que eu conheço, que eu valorizo... Agora se é alguém que entrou só pra deixar o link, às vezes eu não vou não. Porque assim, blog tem muito disso, às vezes tem gente que entra faz o comentário, deixa o link dele só pra você poder ir no blog dele. Eu nem conheço, não sei quem é e tal, aí eu não vou não. Se eu ficar interessada, se o comentário for pertinente, eu perceber que a pessoa 56 Disponível em: . Acesso em: 14 out. 2018. 57 Disponível em: . Acesso em: 14 out. 2018. 201 realmente se deu ao trabalho de ler, aí às vezes eu visito, e às vezes tem surpresas boas, sabe. No relato acima, a blogueira apresenta certa desconfiança em entrar em um blog de uma pessoa desconhecida, preferindo visitar blogs de amigos. No mesmo sentido, outras blogueiras afirmam não visitar nenhum blog cujo blogueiro deixou o link nos comentários. Essa prática é interpretada como uma forma do blogueiro se promover, pedindo visitações de forma pública, atingindo os leitores do outro blog e fazendo um tipo de propaganda em cima do conteúdo produzido por um outro blogueiro. EMÍLIA: A partir do momento que me pediu uma visitação, principalmente pública, foi lá no comentário do blog e pediu pra visitar, eu não visito. Não, não visito. Porque se quer pedir que eu te visito, manda inbox no Facebook, manda inbox no Instagram, por e-mail, não manda público não. Porque na verdade a pessoa não tá pedindo pra você visitar, tá pendido pros seus leitores visitarem. LUCÍOLA: Eu vejo muita gente falando ‘Nossa que legal, eu também escrevo’ e coloca o link do blog embaixo. Isso eu acho feio, eu não faço esse tipo de coisa [...]. Eu acho que esse tipo de pessoa ela quer se promover em cima de uma outra pessoa, ela quer se promover em cima do conteúdo de uma outra pessoa. Somente uma das blogueiras demonstrou vincular-se a outros blogueiras da forma descrita por Recuero (2003), afirmando que entra no link deixado nos comentários de sua página, conhece o blog de outra blogueira, comenta no postagem e também deixa o link do seu respectivo blog. GABRIELA: Eu entro, com certeza. Se ela veio no meu né, porque não ir no dela? Eu acho que faz parte, eu acho que é importante né, você incentivar outra pessoa também. Eu entro e comento. [...] Então, virtual geralmente a gente comenta o post uma da outra, deixa o link do blog. Constata-se que, no caso das demais blogueiras entrevistadas, a formação de webrings não ocorre de acordo com o processo descrito por Recuero (2003). Evidencia-se que essas blogueiras participam de webrings, contudo, esses círculos sociais não se constituem por meio de links deixados por outros blogueiros nos comentários. Assim, para compreender como os webrings são constituídos nesses casos, foi perguntado às blogueiras quais as situações que permitem a criação de vínculos entre os blogueiros literários. Na maioria dos casos relatados, os webrings são formados de duas maneiras: presencial e virtual. Um webring, conforme Recuero (2003), trata-se de um grupo de pessoas, mais do que um grupo de links. Esse grupo de blogueiros é caracterizado pela interação entre os sujeitos, agregando o suporte tecnológico do blog e os comentários. Apesar do forte viés virtual que caracteriza um webring, constatou-se que nada impede que um círculo de blogueiros surja de maneira presencial, por meio de eventos literários que promovem diversos encontros, nos quais os blogueiros se conhecem e mantêm contato. Certamente, o círculo de blogueiros presencial resulta em uma imersão virtual posterior, uma vez que os blogueiros irão manter contato e visitar mutuamente seus blogs através do suporte tecnológico. 202 Para uma das blogueiras, os webrings são formados em encontros presenciais e depois transportados para o ambiente virtual. CAPITU: Eu fiz amizades físicas com o blog. Porque aí com o blog, eu comecei a vir no Clube no Livro [BH]. No Clube do Livro, eu conheci outras blogueiras. Mas pessoas que eu conheci no blog virtualmente eu não tive contato, eu só respondo como blogueira mesmo [...]. E aí a gente vai conhecendo o pessoal assim através de eventos mesmo, vitualmente não. A importância do contato com outros blogueiros, tanto na forma presencial como na forma virtual é evidenciada nos depoimentos abaixo. Os encontros de leitores são relatados pelas blogueiras, que também descrevem as interações que ocorrem por meio da web. ANA TERRA: Eu acho que é um pouco de cada. Porque pela internet você pode conhecer uma infinidade de coisas sem sair da sua casa, sem sair... Ou então você tá na rua, tá com o celular na mão, você consegue ler uma coisa que alguém do outro lado do mundo publicou. E a questão de você tá num evento e conhecer alguém num evento ela cria uma relação diferente né, eu te conheci, eu soube que você trabalha com tal coisa, então eu vou procurar porque eu achei interessante, não foi nada que apareceu pra mim. GABRIELA: Então, virtual geralmente a gente comenta o post uma da outra, deixa o link do blog. E pessoalmente, Clube do Livro, é... Esses eventos literários tipo Café com Leitura, Romances de época, essas coisas. Então geralmente tem espaço pra ‘Ah quem é blogueiro quer deixar marcador de página58 aqui?’. Eu ainda não tenho, mas quem tem deixa lá o marcador e fala do blog mesmo. Tipo as meninas do Clube do Livro [BH] sempre falam ‘Ah quem é blogueira?’ Aí chega lá na frente e fala, entendeu. LUCÍOLA: Alguns [blogueiros] sim, porque é mais fácil quando moram perto. Os de Belo Horizonte, a gente acaba se encontrando em eventos, no próprio Clube [Clube do Livro BH] ou em eventos tipo encontro de fãs de alguma editora, por exemplo teve encontro da Jane Austen, teve encontro de fãs da Darkside, teve há pouco tempo da Passarela da Companhia das Letras né, do selo Passarela. Então assim a gente se encontra nessas coisas assim. Ou em grupos do WhatsApp, pelo WhatsApp mesmo. Quanto às relações presenciais, as bienais do livro foram lembradas pelas blogueiras como uma possibilidade para estreitar laços entre os blogueiros, seja para ter uma companhia durante a viagem, para conhecer blogueiros no próprio evento ou encontrar pessoalmente amigos virtuais. IRACEMA: Também eventos até fora de Belo Horizonte, companhia pra ir pra Bienal né, às vezes é muito ruim viajar sozinha, então eu acho que com certeza aproxima [...]. Acho que evento, sorteios, afinidade de gênero literário. EMÍLIA: Muitos eventos, Bienal. Gente, Bienal é ótimo pra isso, porque na hora que você assusta tipo você tá conhecendo pessoas que você conversa na rede social há anos. Ou então, às vezes pessoas que você não conversa, mas que às vezes conhecem seu trabalho [...]. Então acaba que você tem um contato com pessoas que você não conversa na rede social. Então Bienal é a melhor coisa do mundo pra você se encontrar com as pessoas. 58 É uma prática comum entre os blogueiros literários a confecção de marcadores de páginas com o logotipo do blog. Esses marcadores são distribuídos em eventos literários como forma de promover o blog. As blogueiras do Entrando Numa Fria e do Livros e Sushi entregaram seus respectivos marcadores de página para a pesquisadora. 203 Em contrapartida, uma das blogueiras destaca que nos eventos literários nem sempre é possível identificar quem são os blogueiros presentes. Apesar de considerar os eventos literários como importantes pontos de encontro, Macabéa considera que é mais fácil criar vínculos com outros blogueiros de forma virtual. MACABÉA: Em evento a gente encontra muito, mas é engraçado, porque eu não sei assim se as pessoas tem vergonha... Não sei como é que foi quando você tava tentando identificar blogueiro... O povo escreve, o povo posta nos Instagram, mas ninguém fala que escreve. Você vai nos eventos tá cheio de gente lá que tem blog, ninguém fala nada. Virtualmente, os webrings são formados através dos blogs e também pelas redes sociais, como os grupos de blogueiros no Facebook e no aplicativo WhatsApp. A dificuldade em se encontrar pessoalmente com blogueiros que moram em regiões distantes é também destacada pelas blogueiras como um dos motivos da permanência do contato virtual. As parcerias entre os blogs, como por exemplo para realização de sorteios virtuais, também foi lembrada por possibilitar a criação de vínculos entre as blogueiras. CECI: Virtualmente. Porque tem muitos de outros estados, que você só consegue ver durante os eventos, como na Bienal de São Paulo e Rio, que sai do Brasil inteiro que vai pra lá. Então a gente tem o contato mais virtual do que presencial. PESQUISADORA: Aí você mantém contato pelas redes sociais, pelo WhatsApp? CECI: Tudo, tudo. Pelo blog, pelo Face, pelo grupo de trocas de marcadores de livros. MACABÉA: Acho que os grupos [Facebook], os sorteios, você faz um sorteio em parceria ou você faz um post em parceria, tipo uma parte do post tá no seu blog, o restante ou um outro comentário vai tá no outro blog, aí você deixa o link ali pra pessoa ir pra aquele outro blog. Então isso eu acho que é algo que ajuda. IRACEMA: E também sorteio, fazer sorteio juntos porque o custo fica dividido e até mesmo um alavanca o outro, por exemplo o da Emília é maior que o meu, me ajudaria entendeu, e talvez o meu público que tá participando não é o público dela e acaba que ajuda ela também. Então acho que é isso [...]. Eu acho que... Hoje em dia a gente é muito virtual, a gente tá numa mesa a gente não conversa, prefere conversar no celular. Hoje em dia eu acho que é a tendência assim, eu acho que é isso, entendeu. E é muito difícil de encontrar. Ana Terra conta sobre os webrings formados por meio de grupos no Facebook. Os blogueiros possuem uma parceria virtual, na qual toda semana os blogs parceiros visitam o blog de Ana Terra e uma das blogueiras do Marshmallow com Café visita os blogs amigos. Essa parceria pode explicar o grande número de comentários recebidos pelo blog (ver QUADRO 8) e a predominância de comentários feitos por blogueiros. ANA TERRA: Então, tem uma parceria que a gente fez com o pessoal do Clube do Livro, que foi pelo Facebook, que as meninas entraram em contado com a gente, mas é troca de experiências nos blogs. Então, a Yasmin é responsável por visitar os blogs parceiros e aí os blogs parceiros tem essa mesma obrigação de visitar a gente e comentar o que a gente tá falando. Isso, nas nossas publicações não sai. Isso é do grupo lá fechado, que as meninas firmaram, sabe. É um compromisso mais verbal, de eu ir lá toda semana te visitar e você vim cá toda semana me visitar. 204 Conclui-se que, no caso das blogueiras participantes da pesquisa, a formação de webrings ocorre virtualmente e também presencialmente, sendo depois transportada para o meio virtual. De fato, as interações entre blogueiros ocorrem predominantemente de forma virtual, por meio dos blogs e das redes sociais, mas é importante ressaltar a importância que as blogueiras entrevistadas atribuíram aos eventos literários, que permitem o encontro presencial de círculos de blogueiros e também a criação de novos contatos. Com o objetivo de fazer um mapeamento dos webrings identificados na pesquisa, foram consideradas as relações nas quais as blogueiras demonstraram algum tipo de interação e não meramente a leitura de outros blogs. Durante a análise documental, identificou-se a divulgação de links de blogs parceiros na forma de blogrolls. Entretanto, muitos desses não foram sequer citados pelas entrevistadas quando abordada a temática da interação entre blogueiros, de forma que foram considerados como troca de divulgação, e não como webrings propriamente ditos. Nos comentários das postagens é possível ver algumas interações entre blogueiros. Contudo, não foi possível averiguar se essa relação é mútua, uma vez que não foram analisados os demais blogs, para que fosse possível constatar se as blogueiras entrevistadas também os visitaram e interagiram com seus administradores. No decorrer das entrevistas, as blogueiras citaram nomes de blogs e blogueiros com os quais interagem. Dessa forma, considerou-se a fala das blogueiras como a principal fonte de informação sobre as interações mais profundas, que constituem os verdadeiros webrings. Na figura 19, é possível ver os webrings formados pelas blogueiras participantes da pesquisa. Apesar de os webrings serem constituídos por grupos de pessoas, optou-se por apresentar o esquema com o nome dos blogs ao invés do nome dos blogueiros, de forma a simplificar a compreensão, visto que muitos dos blogs são coletivos. Devido à amostra da pesquisa ser advinda de um evento literário, no caso o 20º #Clube do Livro BH, existe uma conexão entre os blogs, de forma que muitas blogueiras se conhecem. As blogueiras de Entrando Numa Fria, Livros e Sushi e Paradise Books constituem um webring juntamente com o blogueiro de Eu Conto Depois. Também existe um webring formado por Paradise Books e DNA Literário. As duas blogueiras de Ribeirão das Neves, dos blogs DNA Literário e Cultura Pocket também formam um webring. As blogueiras de Marshmallow com Café e a blogueira do Menina Compassiva formam um webring juntamente com as blogueiras do Coisas de Mineira. A blogueira do Minha Estante e Muito Mais é a única que não se relaciona com nenhuma outra blogueira da pesquisa, mas pertence a um webring com as blogueiras do Coisas de Mineira. Ressalta-se que todas as blogueiras entrevistadas possuem vínculos com outros blogueiros, ou seja, participam de webrings. 205 F ig u ra 1 9 – W e b ri n g s i d e n ti fi c a d o s n a p e s q u is a F o n te : E la b o ra d o p e la a u to ra c o m b a s e n o s d a d o s d a s e n tr e v is ta s . 206 De acordo com Recuero (2004b), vários webrings podem ter nós (blogs) em comum, como por exemplo, as blogueiras dos blogs Paradise Books, DNA Literário, Cultura Pocket e Coisas de Mineira, que pertencem a mais de um webring. Todos os blogs analisados possuem webrings com blogueiros que não fazem parte da pesquisa, pois um webring pode ser constituído de várias redes (RECUERO, 2004b). Conclui-se que a figura 19 apresenta somente uma parte de uma extensa rede de conexões entre os blogs literários. Ressalta-se que o esquema representa as interações entre os blogueiros no momento presente, estando sujeito a diversas alterações no decorrer do tempo, onde vínculos serão desfeitos e novos webrings se formarão. Os dados da pesquisa sugerem uma ampliação do conceito de webrings. Recuero (2003) definiu os webrings como círculos sociais constituídos por blogueiros, que interagem por meio dos seus blogs e comentários. A autora identificou que a formação desses círculos sociais ocorria por meio dos links deixados por outros blogueiros nos comentários das postagens de um blog. Contudo, a maioria das participantes da pesquisa demonstraram que não constituem webrings desse modo, não possuindo genuíno interesse pelos links deixados em seus blogs ou julgando-os como uma estratégia de promoção de outro blog. Atualmente, conforme os dados da pesquisa, devido ao fenômeno transmídia, o blog está vinculado a diversas mídias sociais, que possibilitam o contato virtual entre blogueiros, de forma que as relações não acontecem somente através dos comentários na plataforma do blog. Dessa forma, os blogueiros podem se conhecer e interagir por meio das redes sociais (Facebook, Instagram, YouTube, Twitter), formando webrings. Além disso, círculos sociais de blogueiros são formados presencialmente, nos diversos eventos literários, e posteriormente são transportados para o ambiente virtual. Como Recuero (2003) afirma que os webrings são grupos de pessoas, mais do que um grupo de links, compreende-se que esse conceito possa ser aplicado às relações entre blogueiros que se iniciam de forma presencial e ocorrem predominantemente no meio virtual. Eventos Literários No decorrer das entrevistas, as blogueiras ressaltaram a importância dos eventos literários. No roteiro de perguntas não estava prevista nenhuma questão que abordasse a temática dos eventos literários, porém o discurso das blogueiras trouxe espontaneamente o relato da participação em eventos, que proporciona um momento de entretenimento e de contato com outras pessoas do meio literário. É importante destacar que os eventos literários de modo geral não são exclusivamente para blogueiros, sendo o público formado por leitores. ANA TERRA: Eu acho que ele pode te propiciar conhecer o conteúdo que eles tão ali pra falar sobre e conhecer pessoas que gostam do que você gosta também. 207 CAPITU: Aí eu conheci várias pessoas lá [evento literário da editora Rocco], algumas eu mantenho contato até hoje, pessoas de editora... CECI: É o nosso momento de encontro. Porque a gente vem aqui compartilhar, o Paradise às vezes media alguns eventos, então a gente tá sempre por aqui e a gente tenta acompanhar alguns outros eventos também, não é sempre que dá pra ir com as agendas, mas é o nosso momento. EMÍLIA: Eu vou te falar que as minhas amizades literárias em Belo Horizonte hoje foram em eventos. GABRIELA: Com certeza, fazer contato e fazer amizade, você conhecer outras pessoas que gostam de ler, ter esse espaço pra você compartilhar pessoalmente a sua leitura e conhecer pessoas, eu acho muito importante. MACABÉA: Eu costumo ir, eu vou muito mais porque... Primeiro, que eu me divirto, eu sempre me divirto [...]. Então eu faço muito isso. E eu acho esses eventos bons, sabe. Iracema e Ceci fazem parte de um mesmo grupo do aplicativo WhatsApp, composto por cerca de 15 blogueiros de Belo Horizonte. Elas contam que os blogueiros se conheceram por meio de eventos literários, o que possibilitou a formação desse webring. Apesar de se encontrarem nos eventos literários, o grupo se comunica majoritariamente de forma virtual, por meio da interação diária através do aplicativo. As blogueiras relataram que fazem indicações de livros e falam sobre o meio literário, mas que as conversas giram em torno de assuntos pessoais e piadas, uma vez que o grupo de blogueiros se tornou um grupo de amigos. A pesquisadora teve a oportunidade de conhecer alguns membros desse grupo após o Encontro de Fãs da Marissa Meyer, sendo convidada para um passeio com o grupo, como já descrito anteriormente. Iracema afirma que o grupo é formado por pessoas que não possuem nada em comum a não ser os livros, que não teriam se encontrado se não fosse pelo meio literário. IRACEMA: A gente sempre se via nos eventos, porque em Belo Horizonte antes não tinha muito, agora tá até meio vazio de evento. Aí a gente se encontrava nos eventos, sempre são as mesmas pessoas, aí nisso vai conversando, vai conversando... Ah essa daqui é minha prima... Aí a gente foi montando o grupo [WhatsApp], aí hoje o grupo é fechado, é só aquele povo, meio panelinha né, é isso. Foi ficando. CECI: Temos um grupo de blogueiros no WhatsApp. PESQUISADORA: E vocês se conheceram como? CECI: Eventos literários. PESQUISADORA: São quantos mais ou menos? CECI: Lá tem uns 15. Esses todos são de BH. Os eventos promovidos por editoras foram lembrados pelas blogueiras em seus depoimentos. Esses eventos geralmente tratam-se de lançamentos de livros. No depoimento de Macabéa é possível verificar que as blogueiras têm consciência de que esses eventos possuem cunho comercial. MACABÉA: Eu gosto mais quando o evento é uma palestra que a pessoa vai falar de algum assunto que ela domina, do que quando é, por exemplo, um ai hoje a gente vai num evento da Record, aí a Record vai passar muita coisa pra vender os livros dela [...]. 208 ANA TERRA: Mas eu gosto muito daquele Romances de Época da Arqueiro, porque é algo que eu gosto muito de ler, então sempre tem, no desse ano eu não pude ir, mas no do ano passado eu fui. É divulgação de um livro tal, se me interessa eu vou, evento da editora tal no lugar tal, se eu tenho possibilidade de ir eu vou, porque é algo que eu gosto de fazer. CAPITU: Por exemplo, eu fui em um que era o lançamento das edições novas da Rocco de Harry Potter, aquelas capas novas. Aí eu fui fantasiada, de capa... A 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que aconteceu em agosto de 2018, foi citada por algumas blogueiras que já estavam com passagem comprada para ir ao evento. As blogueiras consideram a Bienal como um evento de grande porte que permite o contato com diversas pessoas, inclusive com autores. CECI: Já tô com a passagem comprada pra ir pra Bienal de São Paulo. Desde 2014, uma Bienal em São Paulo, uma Bienal no Rio, eu consegui ir em todas uma em São Paulo, outra no Rio. LUCÍOLA: Por exemplo, eu tô me planejando pra ir pra Bienal de São Paulo no último final de semana. Mas eu tento ir a muitos eventos aqui, apesar que em BH os eventos são muito poucos MACABÉA: É, eu tô muito animada. A Bienal é uma feira pra vender livro, a gente sabe disso. Mas a Bienal também ela tem muito de um momento do leitor, aquele momento de você tá em contato com os autores que você gosta. [...] então na Bienal você vai encontrar aquele amigo virtual que você não vê todo dia, que você vai poder bater um papo com ele pessoalmente. IRACEMA: Igual agora a gente vai pra Bienal [...]. Claro que a gente não faz isso só pra trabalhar, a gente gosta né, vai ser Bienal, vai ser legal ver autor. O #Clube do Livro BH foi evidenciado por blogueiras que são fãs do evento. O clube é lembrado como um evento que movimenta a cidade de Belo Horizonte e que permitiu que as blogueiras fizessem amizades. Capitu e Ana Terra se conheceram no evento, assim como Gabriela e Ceci. ANA TERRA: Eu frequento... Acho que o primeiro que eu fui foi o evento de 3 anos. E aí desde lá eu só perdi o último, que eu tive aula no dia e não pude ir [...]. Eu acho interessante ter alguma coisa aqui que querendo ou não movimenta a cidade, sabe. Vem gente da cidade inteira, até de cidades próximas [...]. CAPITU: Aí eu comecei a vir, tinha pouca gente ainda, mas aí foi crescendo muito rápido, eu fui fazendo várias amizades [...]. Aí eu conheci a Ana Terra [...]. E aí eu vou conhecendo mais pessoas assim, tipo uma pessoa conhece a outra aí indica, eu vou conhecendo. GABRIELA: Tanto que a primeira vez que eu conheci a Marina, a Nayara e a Ceci do Paradise foi no Clube do Livro de BH em 2015. Tipo anos que eu tinha a Marina no Facebook, Orkut, tinha ela em todas as redes sociais possíveis, mas fui conhecer ela pessoalmente lá. Lucíola trabalha como “anjo” no #Clube do Livro BH, ajudando na organização do evento que conheceu em um dos momentos mais difíceis de sua vida. Ela ressalta que o #Clube do Livro BH é muito acessível, por ser na região central da cidade e o horário facilitar a volta pra casa, além de que é possível que as mães levem as crianças. Esse é considerado um diferencial do Clube, pois os eventos promovidos pelas editoras geralmente são em locais 209 muito distantes, realizados em shoppings de bairros elitizados, em horário noturno e em dias de semana, o que dificulta o acesso para leitores como Lucíola que utilizam transporte público. LUCÍOLA: Sim, é num sábado à tarde [...] como mãe você consegue arrumar sua casa, lavar uma roupa, fazer um almoço, entendeu. Ah seu filho não tem idade pra ir ou não entende, hoje em dia tem lá o cantinho pras crianças [...]. Lá é tipo assim até um horário bom, é tranquilo pra você ir embora, tá numa região central [...]. O Clube do Livro de Neves, atualmente organizado por Gabriela e Macabéa, foi evidenciado como um espaço que possibilitou o encontro das duas blogueiras, que já tinham se visto em um evento literário, mas que se tornaram parceiras por causa do clube. Além disso, Gabriela conta sobre a importância de buscar um encontro pessoal com outros leitores, pois não estava satisfeita com o contato somente virtual. GABRIELA: [...] eu conheci o Clube porque eu queria um espaço pra falar de livro, porque só o DNA virtualmente pra mim não tava bastando sabe, eu queria pessoalmente. E tem o Clube do Livro de BH, só que por que eu tenho que ir lá em BH? Por que que não tem um aqui em Neves, sabe? Por que que não tem um perto da minha casa? E foi aí que eu descobri o Clube do Livro e aí que eu conheci a Macabéa. É perceptível a relevância dos eventos literários para as blogueiras, principalmente no que se refere à questão da sociabilidade, uma vez que esses eventos promovem encontros com outros leitores. Foram citados tanto os eventos de cunho comercial, como os promovidos pelas editoras e a Bienal do Livro; como também os clubes de leitura, realizados em Belo Horizonte e em Ribeirão das Neves. Conclui-se que a maior importância dos eventos literários reside na possibilidade que o leitor solitário possui de encontrar pessoalmente outros amantes da literatura. Sentimentos presentes na relação entre os blogueiros Foram questionados quais sentimentos permeavam a relação entre os blogueiros literários. A maioria das blogueiras tem a percepção de que as relações na blogosfera literária envolvem amizade e cooperação. Esses sentimentos podem auxiliar na formação de webrings, pois possibilitam a criação de vínculos entre os blogueiros. CAPITU: Eu acho que eles são bem unidos, porque geralmente os blogs literários tem menos visibilidade do que os blogs em geral. Por exemplo, de moda e maquiagem tem muita visibilidade. Então os leitores, eles são meio que mais juntinhos assim, meio que uma família mesmo. Acho que as pessoas procuram mais saber quem que são as outras pessoas e conversam entre si. GABRIELA: Olha, eu vejo muito a questão de amizade mesmo. Principalmente as meninas do Paradise, tem outros blogs daqui de BH que são bem próximos mesmo, é um grupinho mesmo e fazem sorteios juntos e eventos literários estão todos lá. Então eu vejo uma relação de amizade mesmo. IRACEMA: Ah, eu acho... Pelo menos em Belo Horizonte né que eu tenho mais contato, a galera se ajuda muito, até mesmo falando de parceria “Ah 210 abriu tal parceria, inscrição”, “Ó eu fui parceira ano passado e não gostei” sabe dando a sua opinião. Eu acho que não tem concorrência em si, até porque não é porque você é parceira que eu vou deixar de ser parceira, então eu não vejo concorrência nisso. Eu acho que a galera é unida, assim tirando uns ou outros... Mas, no geral, acho unida, se ajudam e tal. MACABÉA: Eu acho que tem uma comunidade, quem escreve pra blog costuma formar uma comunidadezinha de outras pessoas que também escrevem e que acabam se apoiando. Acaba que tem uma cooperação, eu não sinto muito assim essa coisa de disputa sabe, querer que o meu blog seja mais visualizado que o outro [...]. Mais é partilhar, sabe, eles querem dividir assim, querem compartilhar os leitores, querem compartilhar as curtidas, os comentários, se ajudar porque o negócio não é fácil. Apesar das afirmações de que os blogueiros literários formam grupos e comunidades, se ajudam e são amigos, algumas blogueiras possuem uma outra percepção da blogosfera literária. Para elas, a relação entre os blogueiros literários é permeada por conflitos e pelo sentimento de competição. As rixas acontecem por causa de parcerias editoriais e também em decorrência de eventos literários. EMÍLIA: Só que tem uma coisa, o mundo do blog tem uma rixa... É... Tem-se uma rixa muito grande no mundo do blog, na blogosfera. É... E isso quase ninguém presta atenção. Não é aquela coisa de um ajudar o outro, é um ferrar o outro. Você sempre tem que tomar cuidado com o que você tá fazendo [...]. A blogosfera é cruel. Ela é muito cruel, você sempre tem que tomar cuidado quem tá do seu lado. Você acha que às vezes a pessoa tá do seu lado, vai te apoiar, tipo você acabou de passar numa parceria e a pessoa não vai te apoiar, ela não vai te dar os parabéns, porque ela queria ter passado e não passou. CECI: Já teve muita treta [risos]. Entre os blogueiros literários rola um ranço às vezes... Tem, tem, tem sim. Não vou falar que é um mundo de mil maravilhas, mas... Eu brinco com as meninas, eu falo que eu tento manter a social, eu sempre vou em tudo quanto é evento, vou participando, assim eu tento ficar no meio sem grandes atritos, mas às vezes rola a treta sim. LUCÍOLA: Menina, muito sangue... Nossa muita inveja, se você tá sendo melhor do que a outra pessoa eles vão sabe... É muito sangue nos olhos, muito Tropa de Elite [...]. Por exemplo, você vai intermediar um evento, a pessoa cria um evento no mesmo dia do seu. Para as pessoas ficarem divididas entre o seu evento e o dela. Em seus relatos, as blogueiras apresentaram os dois lados da relação entre blogueiros na blogosfera literária. De um lado, a relação amigável, que propicia a criação dos webrings, o compartilhamento de informações e as trocas. Por outro lado, uma relação hostil, na qual predomina a competição, o que resulta no surgimento de barreiras que inibem o fluxo informacional na blogosfera literária. É importante ressaltar que a sociabilidade não consiste somente em laços de amizade, tratando-se da relação com o outro, que pode ser harmônica ou conflituosa. 211 6.4.4.3 Mercado editorial Nessa subcategoria discute-se as interações realizadas entre as blogueiras e o mercado editorial, que vê nos blogs literários uma estratégia de divulgação de livros. A pesquisa já previa a parceria dos blogs com as editoras, fenômeno bastante comum na blogosfera literária e verificado tanto no referencial teórico como na análise documental. Entretanto, durante as entrevistas surgiu um outro tipo de aliança, citada pela maior parte das blogueiras, a parceria com autores nacionais. Editoras A blogosfera literária, conforme Santos, Rodrigues e Ferreira (2014, p. 2) configura-se como um nicho crescente dentro da plataforma dos blogs, e “tem despertado a atenção dos setores de marketing das editoras em suas estratégias de promoção e divulgação de lançamentos de livros”. Para as editoras, os blogs literários têm um grande potencial de difusão de conteúdo literário, dessa forma, elas transformaram a avaliação espontânea de leitores comuns em aliadas do mercado editorial. As parcerias com as editoras foram citadas pelas blogueiras em vários momentos no decorrer das entrevistas. As blogueiras Emília, Ceci e Iracema possuem várias parcerias com editoras, apresentando respectivamente, treze, seis e cinco selos editoriais em seus blogs. Gabriela possui apenas uma parceria com uma editora pequena, que publica autores nacionais. As demais blogueiras não possuem parceria com editoras, mas todas já se submeteram aos processos de seleção. ANA TERRA: Hoje a gente não tem parceria com nenhuma editora firmada, a gente participou de diversos processos de seleção, mas nós não fomos classificadas em nenhum ainda, tenho fé que um dia vai sair. GABRIELA: A gente tenta, sempre que sai, a gente faz a inscrição. MACABÉA: A gente já tentou, mas é difícil. Parceria com editora grande é muito difícil. CAPITU: Eu já tentei uma vez, mas eu tentei só por tentar mesmo, eu sabia que eu não ia conseguir manter o que eles pediam, mas era só pra ver mesmo o que que rolava assim. Mas eu pretendo tentar futuramente. LUCÍOLA: É tipo assim, a pessoa fala assim ‘Ah tenta, o não você já tem’. Eu até me inscrevo, mas são coisas que tipo assim, sabe aquele não criar expectativas. Exatamente porque eu sei que vai ter editoras, eu conheço editoras de blogueiros que tem parcerias que elas são mega de boas, mas tem editora que te manda o livro e te dá 30 dias pra ler e resenhar. E eu acho que tipo assim, você tem que viver. EMÍLIA: Então, tem algumas editoras que fizeram contato pra poder ser parceiras no blog e tem algumas que eu sempre entro na seleção. Tem algumas que eles falam, eu já sei que eu vou passar, eu tô na seleção mas eu sei que eu vou passar, mas eu tenho que entrar na seleção. Tem algumas que já renovam automático e tem algumas que é tipo surpresa. 212 Por meio do discurso das blogueiras, verificou-se que as editoras abrem processos seletivos para parcerias com os blogs literários, nos quais os blogueiros se inscrevem. Para ter o seu blog selecionado, ele deve preencher alguns pré-requisitos. Ter um conteúdo sempre atualizado, uma frequência específica de postagem, um número mínimo de seguidores, uma certa quantidade de palavras na resenha e ser ativo nas redes sociais são alguns dos pré- requisitos solicitados pelas editoras. CAPITU: Eu já tentei, mas normalmente eles pedem um número específico de seguidores. Tipo assim, mínimo mil seguidores. E precisa ter uma frequência, então assim você tem que postar no mínimo uma vez por semana. E é o tipo de coisa que eu ainda não posso cumprir, então não adianta muito. ANA TERRA: [...] aí vai abrir parceria da editora tal. Vamos tentar? Vamos. Mas pra isso a gente precisa ter sempre um conteúdo atualizado, a gente precisa não priorizar sempre uma editora. MACABÉA: Parceiros grandes a gente não tem porque igual eu te falei, eles... Você vai preencher o formulário quando eles abrem parceria, eles perguntam quantos seguidores tem seu blog. LUCÍOLA: [...] as minhas resenhas elas são bem curtinhas. Esse é até um dos motivos que eu não consigo parceria. Editoras costumam gostar de resenhas com 2.000 palavras, minhas resenhas com muito custo chegam a 1.500. EMÍLIA: Tem uma, tem duas editoras que eu sei que elas têm uma preocupação muito grande com comentário. Mas já tem umas que não, se você repostou a informação, seu Facebook tá bom, Instagram tá bom, ela vai olhar aquilo. Investigou-se quais seriam os motivos de as blogueiras desejarem tanto ter as parcerias. Em suas falas, é possível identificar que, na visão das blogueiras, as parcerias com editoras trazem diversos benefícios. Nos relatos abaixo é possível compreender alguns desses benefícios, como receber livros de forma gratuita, manter o blog atualizado com os lançamentos editoriais, a credibilidade de possuir os selos editoriais na página do blog e a divulgação das postagens do blog feita pela própria editora. ANA TERRA: A questão de você ter uma parceria firmada, claro que não sempre, mas das grandes editoras, você tem uma garantia que você vai tá sempre recebendo novidades, então seu blog ele vai tá muito... Cheio de coisa nova [...]. Muitas de nós não trabalham, então é complicado da gente ir lá toda semana e comprar um livro novo. E a questão da parceria eu acho que facilitaria por isso. Então quando você traz coisas atuais pode ser que mais gente queira te visitar pra saber sobre aquilo, sabe. GABRIELA: [...] porque geralmente você pode receber lançamentos. Quando é lançamento chama mais atenção das pessoas, é um livro que acabou de chegar. E às vezes a editora mesmo compartilha o seu post, essa coisa toda traz um público né. PESQUISADORA: E aí vocês receberiam os livros? GABRIELA: Também, é, tem isso. Porque já né economiza. Universitária falida [risos]. CAPITU: Sim, porque dá uma certa credibilidade. Quando a gente olha assim no cantinho as parcerias, a gente fica ‘Olha esse blog é bom’, mesmo não sendo sabe. Acho que é questão de cultura mesmo, a gente olha, se tem parceria a gente automaticamente imagina que ele é melhor, mesmo com tudo sendo a mesma coisa. 213 CECI: [...] como eu falei, a gente tem as parcerias com editoras, normalmente um post tem 200, 300 visualizações, aí às vezes a editora vai lá e posta no Facebook dela, aí você chega a 2.000 visualizações. IRACEMA: Mas eu acho que dá credibilidade um pouco sabe, ‘Nossa a editora tá de olho nela’, eu acho que dá um pouco sim. Até mesmo eu como usuária eu vejo isso. Primeira coisa que eu olho, além do banner e tal, eu olho se tem editora, sabe na lateral assim, eu sempre olho. EMÍLIA: Sobre o selo, tá lá no blog a influência que isso tem, tem uma influência muito grande, porque se uma editora já confia no seu trabalho, acaba que a pessoa vai confiar mais no trabalho. E a própria editora tem hora que puxa também porque ela manda, você manda a resenha pra ela, às vezes ela divulga, então seu trabalho cresce mais, com o apoio da editora. E eu acho que isso, o fato de você já ser apoiado por uma editora grande, por exemplo, eu tenho parceria com quase todas as editoras do Brasil, então isso faz uma diferença, isso faz um peso. E você ser mais reconhecido, seu trabalho é um pouco mais reconhecido do que se você não tivesse. Você já tem um apoio. Aquelas que já firmaram as parcerias relataram o processo de solicitar e receber os livros. Primeiramente, as blogueiras têm a opção de escolher alguns livros em uma lista ou em um catálogo fornecido pela editora. IRACEMA: Pode né, porque a gente escolhe... Mas enfim, tipo eu escolho os livros que eu recebo dentro do catálogo. CECI: Aí cada uma pede o que gosta ou que quer, ou se não gostou de nada, não pede. Eles dão uma lista de livros que a gente pode escolher, por isso que a gente fica um pouco presa. Aí às vezes quando nada realmente interessa, a gente não pede. Após escolherem os livros que desejam, as blogueiras os recebem pelo correio de forma gratuita. A editora determina um prazo para que as blogueiras possam ler e resenhar os livros. Para solicitar mais livros, é necessário que as blogueiras não possuam muitas pendências, ou seja, livros que receberam e que ainda precisam resenhar. CECI: Pelo correio, tem o prazo pra ler e postar resenhas [...]. Então tem mês que eu recebo cinco, seis livros, tem mês que eu recebo um, tem mês que eu não peço... Então vai dependendo do que me atrai e do que não. EMÍLIA: É aquela coisa, é um prazo do pedido, então até o livro chegar, eles contam esse tempo. Harper Collins também é uma média de dois meses... É sempre uma média de dois meses. E aí eles pedem, por exemplo, pra você nunca ter muita pendência. Por exemplo, a Fara Editorial, eles pedem pra você nunca ter acima de quatro, então só libera se você tem menos de quatro livros pendentes. Já a Arqueiro, são seis. Então, é essa média, dois meses ou uma média de quatro livros pendentes. Para certas blogueiras que não possuem parcerias, existe um receio das exigências das editoras. Lucíola considera que as metas impostas pelas editoras são difíceis de cumprir e que o propósito inicial do blog é ser um hobby. Macabéa considera que as parcerias podem comprometer a emissão sincera de opinião sobre o livro, uma vez que a resenha deve ser positiva e agradar a editora. LUCÍOLA: Mas eu nunca tive vontade de ser parceira de editoras grandes, tanto que tipo assim no meu primeiro ano, eu me inscrevi em todos os blogs, todas as parceiras, tudo, tudo, tudo. Aí eu falei assim, gente, sou eu sozinha, se esse povo começar a mandar esse tanto de livro, que que eu vou fazer? 214 Tem meta. Eu trabalho fora, tenho um menino pra criar, que que eu vou fazer da minha vida... Aí eu parei... Ah não, comecei a ideia era diversão, vamos continuar com diversão. Se eu conseguir ler, bem. Se eu não conseguir ler, bem também. MACABÉA: [...] eu tenho um pouco de medo de parceria, pra falar verdade. Porque eu acho que parceria te deixa engessado pra falar sua opinião, você tem que dar sempre uma opinião positiva. Você tá ganhando o livro né, ele quer vender o livro, se você falar que o livro ruim você não vai poder vender, então é complicado. Quanto a opinião expressa na resenha, Ceci, que possui seis parceiras editoriais, afirma que as editoras não exigem um retorno positivo sobre o livro, deixando as blogueiras livres para escreverem se gostaram ou não da leitura. Iracema acha que é possível falar mal do livro mesmo que ele seja de uma editora parceira. CECI: E como a gente tem parcerias com editoras, às vezes também a gente recebe livros que a gente não gosta, aí quando eu recebo livro que eu não gosto, eu falo lá também que eu não gosto. PESQUISADORA: A editora não te cobra de dar o retorno positivo. CECI: Não, não. Com as nossas editoras parceiras a gente nunca encontrou nada a esse respeito de ter uma obrigação de falar bem ou não. IRACEMA: [...] às vezes a editora não liga se você falar mal do livro, porque às vezes não fere ela tanto [...]. Entretanto, a influência que as editoras exercem nas leituras realizadas pelas blogueiras é um fato inegável. Nos casos relatados, as blogueiras muitas vezes ficam restritas aos livros que recebem de parcerias, pois elas possuem a obrigação de lê-los e resenha-los. Elas escolhem esses livros, no entanto a escolha é limitada às publicações da editora, não sendo uma seleção totalmente livre. EMÍLIA: Então, vamos lá, primeiro eu vou falar da questão da influência na leitura. Elas influenciam muito porque tem mês que eu só leio o que chega de parceria. CECI: Quando você pede um livro, você em si é obrigado a ler aquele livro, você vai ter que postar algo relacionado aquele livro. Então... Por isso que eu falei, às vezes a gente pede, às vezes a gente não pede. Porque também não adianta eu falar nossa esse livro, vou pedir, mas eu não quero ler, não é o tipo que me atrai. Eu vou pedir um livro só pra ganhar um livro e ter uma obrigação toda? Porque é uma obrigação, tipo é um trabalho né de divulgação que a gente faz para as editoras. IRACEMA: Uai, só leio essas aí né, só recebo livro delas [risos]. Tô brincando. Elas são as maiores daqui do nosso país, então acaba que elas tão com os melhores títulos, que tem mais grana pra comprar o título, direitos né. Então acaba que sem querer a gente acaba lendo elas por serem as maiores e por ter títulos que me interessam também. Então é meio que sem querer, é como que fala... Andam junto sabe, e como eu recebo livro delas, eu leio o que chega. E assumo compromisso de ler também pra resenhar né, então acaba que nossa eu só leio livro de parceira, não leio mais livro que eu quero... Quer dizer, é o que eu quero, mas... Como abordado no referencial teórico, Matos (2009) preocupa-se com o futuro dos blogs literários, que podem perder sua espontaneidade devido à influência das grandes editoras. Essa questão fica evidente por meio do relato de Ceci, que aborda a influência das 215 parcerias editoriais em toda a blogosfera literária, afirmando que o conteúdo de muitos blogs gira em torno da divulgação dos mesmos lançamentos. CECI: Os blogs que têm essas parcerias com editoras, a gente fica preso à algumas coisas, eles só podem pedir lançamentos literários. Então você vai em dez blogs, em todos os dez blogs tem a mesma coisa. Então às vezes isso fica saturado pra nós blogueiros, como você já tá ali. Então a gente fica meio um pouco pra que que eu vou entrar se eu sei o que eu vou encontrar? A opção por ter uma parceria editorial não é uma escolha ingênua das blogueiras. As entrevistadas têm consciência de que estão lidando com empresas, que utilizam seus blogs como estratégias de marketing, uma forma de divulgação dos lançamentos editoriais. CECI: E o blog também ele é um marketing pra essas editoras [...]. MACABÉA: Eu até entendo que aquilo é um produto né, vamos ser sinceros, a gente lê, a gente gosta, a gente trabalha pra divulgar a literatura como uma ferramenta de crescimento para as outras pessoas, mas a gente sabe que é um produto. Nós não somos ingênuos, ainda mais que eu fiz Administração, eu tenho total noção de que pra editora aquilo é um produto, ela tá vendendo um produto, ela não tem a preocupação de desenvolvimento pessoal, intelectual de ninguém, não gente. Vamos parar com essa ilusão aí porque não é assim. IRACEMA: Porque a gente recebe o livro, elas não tão dando de graça né, elas querem o retorno, acho que a divulgação... [...]. A empresa que tá do outro lado, ela é séria, ela quer lucro, ela não tá lá só pra fazer os blogueiros felizes. Ninguém é caridoso, ninguém é nesse mundo pra falar a verdade, que o mercado em si ele não é, certo? E a gente é um meio de divulgação, um veículo né [...]. Iracema ressalta que em outros tipos de blogs, como no caso dos blogs de moda, as blogueiras além de receberem produtos de forma gratuita, também são pagas pela publicidade. De acordo com Santos, Rodrigues e Ferreira (2014) essa questão é parte da estratégia das editoras para fazer a promoção de seus livros a baixo custo, uma vez que as blogueiras ganham os livros, mas não são pagas pela sua divulgação. IRACEMA: [Blog] Literário, acaba que a gente nunca... Não se paga né, apesar da gente receber livro, não se paga igual as blogueiras de moda que recebem produtos, ganham coisas demais e elas são... elas com o tempo recebem pra fazer resenhas dos produtos né, como que fala, publi né, publicidade. Aí é bem diferente. Apesar de todas as exigências editoriais, que solicitam pré-requisitos dos blogs e impõem prazos para publicação das resenhas, as blogueiras desejam as parcerias. Esse fato é expresso na fala de Emília, que se sente valorizada pelas editoras. EMÍLIA: Gente é chato tem hora ter parceria, é chato pra caramba, você tem que cumprir com prazo, tem editora que é chata com prazo, tem editora que é chata de lidar, mas é uma opção. Agora tem editora que é maravilhosa, nós somos parceiros da Intrínseca, há acho que uns oito anos, sete anos, nunca tivemos problema. A Arqueiro é a melhor parceria do mundo [...]. É lógico que você pega uma editora chata você não quer aquela editora, mas quando você pega uma editora boa que te respeita, respeita seu trabalho, valoriza o que você faz, é bom. Portanto, o recebimento dos lançamentos editorais de forma gratuita promove benefícios para as blogueiras literárias: a credibilidade, a atualização do conteúdo do blog, a 216 divulgação das postagens pelas editoras e a economia em não precisar comprar livros. Dessa forma, mesmo que algumas apresentem receios em relação às editoras, todas as blogueiras já tentaram parcerias. Santos, Rodrigues e Ferreira (2014) consideram que o blogueiro se sente um líder de opinião dentro do seu contexto, pois é ele quem apresenta a novidade aos seus leitores e quem propaga as notícias do mercado editorial. Assim, o desejo das blogueiras de tornarem-se parceiras de editoras é latente, mesmo com a consciência de que estão atuando como marketing dessas grandes empresas, sendo difusoras de informação sobre os lançamentos do mercado em troca de livros. Autores Nacionais Houve o relato de parcerias feitas entre as blogueiras e autores nacionais, que publicam de forma independente ou são vinculados a editoras menores. Os autores se beneficiam da parceria ao terem seus livros resenhados e divulgados pelas blogueiras. Do outro lado, as blogueiras recebem os livros de autores nacionais de forma gratuita e tem o seu blog divulgado pelos escritores. Atualmente Lucíola, Gabriela e Macabéa são parceiras de autores nacionais. LUCÍOLA: [...] só com autores nacionais. Eu tenho hoje acho que umas seis parcerias nacionais. GABRIELA: [...] autores nacionais a maioria independente né, que não tem tanto espaço no mercado editorial, a gente faz parceria com eles, a gente faz entrevista... [...] os próprios autores nacionais ajudam, porque quando a gente faz um post deles, eles divulgam. MACABÉA: Hoje a gente tem parceria com autores independentes, a gente tem três autores independentes que a gente tem parceria. Na realidade a gente tem quatro, duas parceiras foi eu que fechei, e duas foi a Suzana59 que é do Pará que fechou. São autores independentes, então são autores menores, uma das meninas assinou agora com a Coerência, que é uma editora pequena assim de visibilidade e tal, foi legal. Porque esses autores, logo que a gente assinou, assim fechou a parceria, eles já mandaram os livros pra gente ler e tal, disponibilizam algum material pra gente divulgar... Mas eu acho que é uma via de mão dupla né, eles ajudam a gente a divulgar o blog, a gente ajuda a divulgar o trabalho deles. Os autores firmam parcerias com as blogueiras de duas formas. A primeira forma é a abrir um processo seletivo, com formulários semelhantes aos das editoras, nos quais as blogueiras devem preencher algumas informações sobre seus blogs. A segunda forma consiste no envio de uma mensagem por parte do próprio autor, convidando a blogueira para firmar uma parceria. GABRIELA: Às vezes a gente vai atrás, tipo tem algum autor que tá fazendo seleção, aí a gente se inscreve. Ou às vezes eles mandam mensagem pra gente, falam olha... PESQUISADORA: Ah, eles fazem seleção também. 59 Nome fictício. 217 GABRIELA: Fazem. Às vezes é tipo um formulário, sabe, aqueles formulários igual de editora, aí faz lá e eles selecionam quais blogs que eles querem parceria, sabe. E às vezes ele só mandam mensagem ‘Queria fazer parceria vocês topam?’ Aí a gente topa. Após firmar a parceria, o autor normalmente envia seu livro para a blogueira, podendo optar pelo ebook ou o livro impresso. Quando o autor não envia seu livro, ele dá um desconto para que as blogueiras possam efetuar a compra. GABRIELA: Aí ou é o livro físico ou é o digital. Aí eles mandam em PDF também ou pelo Kindle né, que eu leio no celular e PDF eu tenho que ler no computador. Mas mandam físico também. Às vezes a gente compra também, aí a gente compra com desconto [...]. Igual A Thaís Lopes, ela é parceira nossa, mas aí a gente compra com desconto. No início do ano eu comprei a série dela toda com desconto. Era cento e poucos, eu paguei 80. Os livros dela são ótimos LUCÍOLA: Menina, eu, eu gosto de parceria com autor nacional, porque tipo assim eu leio e falo sobre. Se você gostou do que eu falei, você me manda seu livro. Se não, continuo com ebook. Outra prática comum é a escrita das primeiras impressões do livro nacional por parte das blogueiras, após receber uma prévia do livro enviado pelo autor. As primeiras impressões consistem em uma leitura inicial do livro, até um determinado número de páginas, e na publicação de uma resenha parcial com as expectativas sobre os próximos capítulos. Após a leitura completa do livro é publicada a sua resenha final. LUCÍOLA: É, resenhas, primeiras impressões... Tipo assim, o autor começou a escrever, vai lançar o livro semana que vem, você lê as primeiras páginas, você fala o que você achou da história e o que que você espera da história. GABRIELA: Ele na verdade é uma primeira impressão que você tem do livro assim, a gente lê até determinado ponto, eu costumo colocar até a página 100. Aí eu leio até a página 100, o que eu achei até aqui, entendeu. Porque às vezes no decorrer da história sua opinião pode mudar né. PESQUISADORA: E depois que você acaba de ler você faz a resenha? GABRIELA: Faz a resenha. MACABÉA: As primeiras impressões é assim, o autor ele disponibiliza pra gente uma prévia, normalmente 40, 50 páginas do livro. E aí você lê o livro, aquelas 40 primeiras páginas e você emite a sua opinião sobre elas. Então são suas impressões... Tipo o que eu achei? Ah eu achei que é legal, eu acho que a história vai desenvolver por um caminho interessante, como que vai ser. PESQUISADORA: São autores nacionais que costumam fazer isso? MACABÉA: É, eles enviam né uma prévia dos livros pra um grupo, um grupo quase como se fosse um grupo de teste ali né, um grupo fechadinho. As pessoas leem, e aí tem um prazo, normalmente 30 dias pra você ler e fazer uma resenha falando qual foi sua impressão sobre o livro. É bem legal. Além das primeiras impressões, Gabriela conta que em seu blog é feita uma semana de divulgação para livros de autores nacionais. GABRIELA: E a gente também faz semana de divulgação, quando tem algum autor nacional, contemporâneo que vai lançar um livro, e aí ele fala ‘Olha, queria fazer uma semana de divulgação’. Aí ele manda as informações pra gente, a gente organiza. Aí recentemente eu fiz até uma do Rafael, que é do livro Caminhando Sozinho. Aí é tipo assim a apresentação do livro, booktrailer, entrevista com o autor, aí no outro dia você lança sei lá playlist alguma coisa assim, a gente faz primeiras impressões do livro, etc. 218 A partir do momento que firmam a parceria com os escritores, as blogueiras têm a obrigação de realizar a leitura do livro e escrever uma resenha sobre ele. Gabriela evidencia como esse tipo de parceria é uma troca de favores entre os blogueiros e os autores. GABRIELA: Às vezes você tá lendo um livro que é o autor que mandou, tipo não é uma coisa que você ah eu quero ler assim, você quer ler mas de certa forma é uma obrigação. É uma troca de favor, você divulga o livro dele e ele te manda o livro. É uma troca de favor, de certa forma tem uma obrigação, tem um trabalho. LUCÍOLA: É, então assim, a maioria eles [autores nacionais] falam assim, eles gostam muito, porque eu consigo falar sobre tudo. Eu não viro e falo ‘Ah o livro é bom’. Eu gosto sempre de falar assim se a história ela foi bem pensada, se a escrita, se a pessoa escreveu bem, se ela escreve bem, então assim eles sempre gostam desse... Porém, a emissão de uma opinião sobre um livro nacional nem sempre é uma tarefa fácil, uma vez que a proximidade com o autor pode dificultar esse processo. Para não ofender os autores, é um procedimento comum as blogueiras enviarem as resenhas para que eles possam avalia-las antes da publicação. Se a resenha ficar negativa, as blogueiras normalmente não publicam, como forma de não prejudicar o autor. Emília considera que esse é um dos motivos pelos quais não firma parcerias com autores nacionais. EMÍLIA: [...] eu tenho muitos autores nacionais que eu conheço, eu amo de paixão, que eu tinha vontade de colocar lá tipo autores parceiros [...]. E aí acontece uma coisa, eu às vezes não quero falar que o livro é ruim publicamente, eu não falo isso. Se o seu livro é ruim, eu não vou falar publicamente, eu vou te mandar um e-mail e falar assim ‘O livro não é legal’, isso é uma opção minha, ‘O livro não é legal tanto que eu não vou publicar a resenha, se você autorizar eu publico’. [...] eu acho que isso é pesado, a pessoa gastou tanto tempo pra escrever que é preferível falar só pra ela ‘Seu livro não tá legal’. IRACEMA: [...] e quando você fala mal do livro de um autor, às vezes pro autor é mais significativo né. MACABÉA: Prefiro não falar nada do que falar mentira. Eu quando eu fui fazer a primeira impressão mesmo, eu mandei o texto pra autora antes falei com ela ‘O que eu vou falar é isso aqui. Posso postar?’. Aí ela ‘Tá ótimo, tá muito legal, é isso mesmo, você conseguiu pegar bem a ideia do que eu queria falar’. Eu ‘Ai que bom, porque é isso aqui que eu vou postar, se você não quiser que eu posto, eu não posto nada’. [...] Porque se ela falasse assim ‘Ah vai ser ruim, vai ser marketing negativo’, eu não ia publicar. Porque já que as impressões foi ela que ofereceu, eu não publicaria, mas também eu não publicaria só pra agradar não. Lucíola relata um problema que teve com um autor nacional, após publicar uma resenha negativa sobre seu livro. A blogueira escreveu que não concordava com o final do livro, considerando que o autor deveria escrever uma continuação para concluir a história. O autor não gostou da avaliação da blogueira e solicitou que ela retirasse a resenha do blog. LUCÍOLA: Igual esse autor que me chamou inbox no Facebook e não gostou da resenha. É, não tirei também. O blog é meu! Eu acho que ele deixou uma puta... Aí eu virei pra ele e falei assim ‘Mas vai ter outro livro?’ Ele falou ‘Não, esse é único’. Eu falei como assim ‘E fulano, e ciclano e isso aqui como é que vai ficar?’. Ele ‘Não, aquele é o final do livro’. Eu falei ‘Oi?’. Também não li 219 mais nada dele. Acho um absurdo isso, ele deixou uma cratera deste tamanho no final do livro, sabe. Iracema conta que já fez parcerias com autores nacionais, mas atualmente não possui nenhuma. Ela afirma que nunca teve nenhum problema, mas que não é fã da literatura nacional. IRACEMA: Já fiz, mas não deu tempo de ler, não dou conta [...]. Eu não tive problema nenhum não, acabou que todos que eu tive foi ok, não teve nenhum problema de leitura, de não gostar do conteúdo, mas eu nunca fiz de verdade, de manter [...]. E não sei, acaba que eu leio pouco nacional pra falar verdade, hoje em dia eu leio um pouco mais do que antes. Eu não sei, eu não sou muito fã de livro nacional. É perceptível uma certa afetividade quando as blogueiras falam sobre os autores nacionais. Comumente elas usam termos como “ajudar” e “apoiar”, além de se referirem a eles como amigos e demonstrarem que são pessoas queridas. MACABÉA: [...] eu só participei das primeiras impressões porque a autora é gracinha demais [...]. E acabei comprando o livro pra ler o restante do livro né e pra apoiar também porque eu acho que autor nacional sofre demais tadinho, então quando a gente acha um que a gente gosta, a gente acaba querendo ajudar. LUCÍOLA: E queria muito ajudar autores nacionais. Eu amo livro nacional. Apesar de ter um, já ter tido alguns problemas com autores, tipo eu amo livros nacionais. Eu vejo, às vezes eu vejo os meus livros preferidos hoje, tipo meu top 10 tem pelo menos sete nacionais, e de autores que são mega gente boa, autores que alguns viraram amigos. As parcerias com autores nacionais diferenciam-se das parcerias com as grandes editoras no sentido de que as blogueiras sentem-se mais próximas dos escritores. Existe uma afetividade na relação com os autores, uma vontade de ajudar os escritores iniciantes a divulgarem seus livros e uma preocupação em não ofendê-los por meio das resenhas. Talvez por também necessitarem de divulgação de seus blogs, as blogueiras se identifiquem com esses autores, criando uma relação de cooperação. 6.5 Práticas informacionais das blogueiras Ao chegar ao fim da análise dos discursos das blogueiras participantes da pesquisa, compreende-se a diversidade de modos com os quais esses sujeitos lidam com a informação em suas principais ações cotidianas. Ressalta-se que as práticas informacionais não estão relacionadas somente aos atores, mas também a dimensão do contexto em que ocorrem. Assim, as práticas informacionais, que se manifestam nos webrings, envolvem as blogueiras e demonstram como elas relacionam-se com a informação como leitoras literárias e como produtoras de conteúdo, além de sua evidente interação com outros blogueiros, editoras e autores na blogosfera literária. A categoria leitura foi composta por seis subcategorias. Ao investigar o interesse inicial das blogueiras pela leitura, identificou-se a presença de instituições (escola, 220 biblioteca), pessoas (família, amigos) e também a literatura de massa como os elementos influenciadores no processo de formação das leitoras. A análise da frequência de leitura considerou sua incorporação ao cotidiano das blogueiras, avaliadas como leitoras assíduas. Quanto aos suportes de leitura, percebeu-se que as blogueiras utilizam o suporte impresso e também o digital, lendo frequentemente ebooks. A necessidade de compartilhar leituras foi evidenciada no discurso de todas as blogueiras, fruto da vontade de conversar e trocar ideias sobre os livros lidos. A busca de informação sobre livros pode ocorrer antes e/ou depois da leitura, havendo também blogueiras que não sentem a necessidade de buscar informações. Além disso, ocorre o encontro casual, a procura e a fuga do spoiler. Os processos de apropriação da leitura envolvem a associação do texto literário ao contexto individual de cada leitora, possibilitando o gosto pela leitura, a leitura como fuga da realidade, a vivência da alteridade e as experiências emocionais com a leitura literária. Na categoria identidade foram identificadas três subcategorias, relacionadas ao envolvimento de cada blogueira com seu blog. A subcategoria motivações compreende os principais motivos que levam as leitoras a se apropriarem do ciberespaço, tornando-se blogueiras. Em representações do blog, compreende-se como as blogueiras concebem o seu próprio blog: hobby, forma de visibilidade, trabalho e filho. Na subcategoria mudanças após o blog, algumas blogueiras relatam que o blog possibilitou a criação de novas amizades e melhoria da sociabilidade, outras consideram que trouxe autoconfiança e reconhecimento. A categoria ações de informação compreendeu seis subcategorias. A subcategoria produção de conteúdo contém a visão das próprias blogueiras da sua atuação em relação a criação de publicações no blog. A maioria se considera produtora de conteúdo, as demais consideram que compartilham informações e emitem opiniões, o que também pode ser compreendido como forma de produção de conteúdo. Em escrita de resenhas, compreende- se a relação das blogueiras com a escrita e a produção das resenhas críticas, processo permeado por várias questões: a leitura do livro; a organização das ideias; o ato de escrever em si, com as preocupações com as normas da língua portuguesa; a edição do texto; a revisão; a expressão dos sentimentos; a exposição da blogueira; a transmissão de informações. A realização de sorteios e lançamentos diversifica as publicações dos blogs, objetivando atrair os leitores. A produção de fotos é uma tendência nos blogs literários, apresentando-se como uma outra forma de disseminar informações sobre os livros, por meio da criação de conteúdo imagético. A importância da atualização do blog advém do seu papel preponderante na permanência dos seguidores. Na subcategoria transmídia, observa-se o uso das redes sociais (Instagram, Facebook, Twitter e YouTube) como plataformas vinculadas ao blog, destacando o Instagram como a mídia mais atrativa na visão das blogueiras. A categoria interação compreendeu três subcategorias. Ao investigar a relação das blogueiras com seus leitores, por um lado, percebe-se a importância do número de 221 seguidores, por outro lado, a ausência de vínculo com os leitores na maior parte dos casos. A relevância dos comentários é evidenciada, além de existir um discurso comum sobre a ausência de comentários nos blogs, motivo de angústia para muitas blogueiras. Ressalta-se que as blogueiras realizam, de certa forma, um incentivo à leitura em seus blogs, ao indicarem e divulgarem livros, influenciando outros blogueiros e leitores a lerem. Na análise da interação entre as blogueiras e os demais blogueiros, metade das entrevistadas fazem leitura de outros blogs, já a outra metade acompanha somente perfis do Instagram de blogueiros literários. A influência entre os blogueiros é evidente no momento que antecede a leitura, na escolha do livro e na sua aquisição; além da influência no próprio blog, no formato das publicações e nos conteúdos postados. A investigação sobre a formação dos webrings evidencia que as blogueiras participam de vários círculos sociais virtuais. Contudo, os círculos de blogueiros não formam-se somente como indicado no referencial teórico, sendo constituídos de forma virtual e também presencial. Os eventos literários são compreendidos como pontos de encontros de leitores, sendo muito benquistos pelas blogueiras, como forma de promover a sociabilidade. Quanto aos sentimentos presentes na relação entre blogueiros, de um lado, a amizade e a cooperação; do outro, a competição e os conflitos. Por fim, ao compreender a relação das blogueiras com o mercado editorial, encontrou-se duas formas de parceria: com editoras e com autores nacionais. As blogueiras têm consciência de que a parceria editorial trata-se de uma estratégia de marketing das editoras, mesmo assim elas desejam as parcerias, alegando que promovem credibilidade, atualização do conteúdo do blog e maior divulgação das postagens. Quanto a parceria com autores nacionais, existe uma relação de cooperação, uma vez que as blogueiras têm maior proximidade com os escritores, sentindo vontade de ajudá-los com a divulgação dos livros de sua autoria e receio de ofendê-los por meio das resenhas críticas. 222 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS O percurso dessa pesquisa, pautada no método netnográfico e na contribuição das blogueiras entrevistadas, chega ao fim com algumas considerações a serem feitas. Com base no objetivo geral da pesquisa, investigar os blogs literários buscando averiguar as práticas informacionais dos blogueiros no que diz respeito aos seus papéis como produtores de conteúdo, leitores e mediadores de leitura nos webrings pertencentes à blogosfera literária, considera-se que o mesmo foi alcançado. No que tange ao primeiro objetivo específico, caracterizar as práticas informacionais dos blogueiros literários, a análise dos dados da pesquisa possibilitou compreender as práticas informacionais das blogueiras identificadas na amostra, que foram elencadas em quatro categorias principais: leitura, identidade, ações de informação e interação. O segundo objetivo específico, constatar os principais motivos que levam à criação do blog literário, foi contemplado na subcategoria 6.4.2.1, que apresenta as motivações para inserção na blogosfera literária e também as motivações para postar no blog, mantendo-o ativo. A motivação de cada blogueira perpassa por questões pessoais, que vão além da simples vontade de compartilhar leituras: a necessidade de trabalhar a timidez, ter voz ativa e ser ouvida por outras pessoas, poder expressar sua própria opinião sobre as leituras, ser um exemplo para os filhos e mantê-los próximos, escapar da solidão, a responsabilidade com as parcerias editoriais e com os leitores do blog. O terceiro objetivo específico propunha a identificação dos papéis dos blogueiros literários como leitores, produtores de conteúdo e mediadores de leitura. Com base na análise das entrevistas, os papéis de leitoras e produtoras de conteúdo foram caracterizados como as principais atuações das blogueiras na blogosfera literária, já que elas objetivam ler livros literários e compartilhar conteúdo na web, seja no formato imagético ou textual. A caracterização das blogueiras como leitoras é discutida em toda a categoria 6.4.1, referente à leitura. A temática das blogueiras como produtoras de conteúdo é abordada na subcategoria 6.4.3.1, que apresenta a visão das próprias blogueiras sobre esse papel. Diagnosticou-se que as blogueiras não atuam no papel de mediadoras de leitura, uma vez que não possuem proximidade suficiente com seus leitores para realizar de fato uma mediação, atuando apenas no incentivo à leitura dos livros que recomendam, conforme discutido na subcategoria 6.4.4.1. O último objetivo específico, a investigação de como se dá a criação dos webrings, foi contemplado na subcategoria 6.4.4.2. A discussão sobre os webrings pertencentes à blogosfera literária ressaltou a interação entre blogueiros literários, o compartilhamento de informação e as trocas comunicativas que ocorrem dentro desses círculos sociais. Verificou- se que, em grande parte dos casos, os webrings formam-se tanto de forma virtual como 223 presencialmente, por meio dos eventos literários. Entretanto, a interação entre blogueiros acontece predominantemente no meio virtual, por meio das diversas mídias sociais. A pesquisa também evidenciou a possibilidade da ampliação do conceito de webrings cunhado por Recuero (2003). Atualmente, os círculos sociais de blogueiros não formam-se somente por meio da plataforma do blog, sendo constituídos através das diversas redes sociais vinculadas a ele, que ampliam as possibilidades de comunicação entre os blogueiros, que antes entravam em contato somente pelos comentários das postagens. Como os webrings são grupos de pessoas (RECUERO, 2003), compreende-se que o conceito possa ser aplicado também aos grupos de blogueiros que entram em contato por meio dos eventos literários e mantêm relações virtuais. Quanto ao método, a adoção da netnografia apresentou-se como uma escolha satisfatória, visto que, por meio da análise documental, foi feita uma imersão nos blogs literários, realizando uma observação do conteúdo no formato textual e também dos recursos multimídia disponíveis. A etnografia virtual permitiu compreender o perfil de cada um dos blogs, explorar o discurso textual e visualizar as interações que ocorrem virtualmente por meio dos comentários. Além disso, identificou-se algumas práticas informacionais das blogueiras vinculadas às ações de informação, como a escrita de resenhas, a produção de fotos, a realização de sorteios, a publicação de lançamentos e a atualização do blog. A análise documental também possibilitou visualizar a influência do mercado editorial nos blogs que possuem parcerias. Contudo, para realização da netnografia foi necessário fazer um recorte, com intuito de evitar-se o infoglut (MONTARDO; PASSERINO, 2006), de forma que somente a plataforma dos blogs foi investigada durante a análise documental. Assim, o fenômeno transmídia, facilmente visível nos blogs, não pôde ser pesquisado em sua totalidade, uma vez que foram realizadas visitas às demais mídias relacionadas aos blogs, mas elas não fizeram parte da análise documental. A adoção da entrevista semiestruturada como técnica de coleta de dados, complementar à análise documental, mostrou-se como uma escolha bastante acertada. A condução das entrevistas permitiu compreender diferentes dimensões dos sujeitos – histórica, social e emocional – presentes na sua relação com a informação. A análise dos discursos das blogueiras possibilitou compreender as práticas informacionais identificadas na análise documental do seu ponto de vista, entendendo como ocorrem os processos de produção de conteúdo. Além disso, por meio das entrevistas, as blogueiras relataram outras práticas informacionais relacionadas à sua atuação na blogosfera, mas que não estão evidentes em seus blogs, como as práticas que envolvem a leitura literária, a constituição da identidade de blogueira, a interação com outros blogueiros fora dos blogs, a participação em eventos literários e as parcerias com autores nacionais. 224 Durante a pesquisa, houve problemas para a definição da amostra devido às restrições impostas pela organização do #Clube do Livro BH, que não se mostrou favorável à coleta de dados durante o evento. Essa resistência à abertura do evento pode evidenciar um desconhecimento dos benefícios da pesquisa. Apesar disso, considera-se que a amostra definida conseguiu atingir uma representatividade social, visto que não objetivava-se uma amostra estatística. Assim, a amostra foi contemplada por blogs literários diversos, com proporções diferentes em relação aos números de seguidores, comentários e frequência de postagens, com presença ou não de parcerias. As blogueiras também apresentaram diversidade na faixa etária, nas profissões e também no tempo de atuação como blogueiras. O fato de algumas blogueiras se conhecerem e estarem vinculadas aos mesmos webrings apresentou-se como enriquecedor, uma vez que foi possível perceber as influências e trocas que permeiam essas relações. Quanto ao perfil das blogueiras, a pesquisa desmistificou algumas concepções pré- estabelecidas. Antes da coleta de dados, considerava-se que as blogueiras seriam em sua maioria jovens estudantes de áreas vinculadas à literatura, que criaram o blog como forma de hobby. Contudo, poucas blogueiras apresentaram esse perfil. A maioria das blogueiras está na faixa etária dos 30 anos de idade, sendo profissionais formadas em diversas áreas, que não estão diretamente relacionadas à literatura. Foi surpreendente identificar que duas das blogueiras também são mães, que veem no blog uma possibilidade de mostrar um bom exemplo para seus filhos. O blog não apresentou-se somente como hobby, sendo concebido também como um trabalho, uma forma de visibilidade e até mesmo um filho. A relação afetiva das blogueiras com a leitura literária ficou evidente no decorrer das entrevistas, nas quais as participantes citaram os títulos de diversos livros, contando com entusiasmo sobre suas narrativas e o modo como foram afetadas pela leitura. Percebeu-se que o afeto pelos livros estende-se ao blog, espaço de liberdade para escrever, criticar, opinar, compartilhar, criar e ser uma protagonista. Como pesquisas complementares e futuras, sugere-se o estudo das práticas informacionais dos blogueiros literários com ênfase no fenômeno transmídia, investigando o uso e apropriação das diversas redes sociais como forma de produzir e compartilhar informações vinculadas ao universo literário, verificando também a interatividade. Outra possibilidade de pesquisa futura seria explorar as práticas informacionais dos blogueiros especificamente durante os eventos literários, acompanhando com maior proximidade as interações entre blogueiros que ocorrem presencialmente. As comunidades de leitores formadas nos sites Skoob, Whattpad, Goodreads e Google Plus, visando o compartilhamento de leituras na web, também podem ser alvo de pesquisas sobre práticas informacionais. 225 REFERÊNCIAS ALCARÁ, Adriana Rosecler; CURTY, Renata Gonçalves. Blogs: dos diários egocentristas aos espaços de comunicação científica. In: Maria Inês Tomaél (Org.). Fontes de Informação na internet. 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Você sente vontade de procurar opiniões de outras pessoas sobre o livro que você leu? 5. Como foi a sua decisão de criar um blog literário, de onde surgiu essa ideia? Como foi o processo de criação do blog? 6. Que tipo de informação você publica no seu blog literário? Que importância você dá ao conteúdo textual e ao conteúdo imagético? 7. Quais são as suas motivações para postar no blog? 8. Com que frequência você atualiza seu blog? Qual importância você dá a atualização? 9. Qual importância você dá ao layout do seu blog? O que você acha que atrai mais a atenção dos leitores? 10. Existe alguma diferença entre quem você é no seu blog e quem você é fora do seu blog? 11. Qual o papel do blog na sua vida? Quais mudanças ocorreram na sua vida e em você mesmo(a) após a criação do blog? 12. Atualmente como você vê seu blog (hobby, forma alternativa de renda, forma de visibilidade)? Bloco 2 - O blogueiro e a interatividade 13. O que você acha que atrai os leitores para seu blog? Por que as pessoas procuram seu blog? 14. Você se considera um produtor(a) de conteúdo? Como é a sua relação com a escrita? 15. Quantas pessoas seguem seu blog e o que isso representa para você? 16. Qual importância têm pra você os comentários recebidos no seu blog? Como você lida com a falta de comentários? 17. Você considera que suas postagens sobre livros influenciam as pessoas a lerem? Você considera que seu blog incentiva a leitura? 18. Como é a sua relação com os seus leitores? Você considera que possui amizades virtuais? 238 19. Você já era leitor(a) de algum blog literário antes de se tornar um blogueiro(a)? 20. Atualmente, você é leitor(a) de algum blog literário? 21. O que você acha atraente em um blog como leitor(a)? O que te faz deixar um comentário em uma postagem de blog? 22. Como é a sua relação com os leitores do seu blog que também são blogueiros? 23. Você já se sentiu influenciado por um outro blogueiro? Em que medida você acha que o seu blog é influenciado por outros blogs? 24. Como você percebe a relação entre os blogueiros literários? 25. Quais situações permitiram a criação de vínculos entre você e outros blogueiros literários? Essas situações acontecem no meio virtual ou também pessoalmente? 26. Que relação você faz entre as mídias sociais (Facebook, Twitter, Instagram) e seu blog? 27. Como você vê a relação do seu blog com as editoras? Em que medida as editoras influenciam as suas leituras e postagens no blog? 239 APÊNDICE B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Participante Prezado (a) Senhor (a), Eu, Jéssica Patrícia Silva de Sá, orientada pelo Prof. Dr. Carlos Alberto Ávila Araújo, estou realizando um trabalho de pesquisa cujo objetivo é compreender as práticas informacionais dos blogueiros literários. Esta pesquisa está inserida no Programa de Pós- Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em nível de mestrado, e possui cunho estritamente acadêmico sem fins comerciais. Diante disso, tenho a satisfação de convidá-lo(a) para participar desta pesquisa, como voluntário (a), concedendo-me uma entrevista sobre sua relação com a informação como blogueiro(a) atuante na blogosfera literária. Na entrevista serão abordados tópicos referentes à sua relação com seu blog, com os demais blogs e blogueiros literários, além de suas experiências como escritor(a) e como leitor(a). Durante a entrevista e eventuais conversas ao longo do processo, os fatos observados que sejam importantes para a pesquisa serão anotados e haverá gravação em áudio e posterior transcrição por mim. A entrevista será agendada previamente, com duração de aproximadamente uma hora, sendo realizada no local que você determinar como mais conveniente. A sua identidade e a sua participação nesta pesquisa serão mantidas em sigilo e os dados divulgados pela pesquisa não conterão nomes ou quaisquer outras informações que permitam identificá-lo (a). Seu nome não será usado na divulgação dos dados, sendo utilizado o termo “Entrevistado”, associado a um número, para quaisquer referências a sua pessoa. Os arquivos contendo as gravações e transcrições da entrevista não serão acessados por outras pessoas, além mim e de meu orientador. Garanto a confidencialidade desses registros, comprometendo-me a manter os arquivos sob minha guarda. Você não terá nenhum gasto com a sua participação no estudo e também não receberá pagamento ou indenizações pela mesma. O benefício de sua participação nesta pesquisa será a contribuição com este estudo, que visa compreender como os blogueiros literários lidam com a informação, compartilhando conteúdo e interagindo com outros blogueiros. Há pouco risco relacionado à sua participação na pesquisa, apenas o de que você se sinta constrangido(a) durante a condução da entrevista ou desconfortável em responder alguma das questões. Você tem o direito de não querer participar ou de sair deste estudo a qualquer momento, sem nenhuma penalidade. Caso decida retirar-se do estudo, favor me contactar pessoalmente ou através do telefone ou e-mail informados no final deste Termo. Você também poderá entrar em contato comigo ou com meu orientador, por telefone ou e-mail, caso sinta 240 necessidade de maiores esclarecimentos sobre essa pesquisa. Em caso de dúvidas éticas, você poderá entrar em contato com o Comitê de Ética em pesquisa da UFMG (COEP-UFMG), cujo telefone, e-mail e endereço completo constam no final desse Termo. Certa de que as informações acima apresentadas lhe forneceram os esclarecimentos necessários em relação a essa pesquisa e caso haja concordância de sua parte em participar deste estudo, solicito que manifeste sua concordância assinando o seguinte Termo de Consentimento Livre Esclarecido em duas vias de igual teor (uma via ficará em seu poder): __________________________________________________________________ Assinatura do (a) participante TÍTULO DO PROJETO: Práticas Informacionais de Blogueiros Literários PESQUISADORA: Jéssica Patrícia Silva de Sá e-mail: j.jessicadesa@gmail.com - Telefone: (31) 98552-7301 ORIENTADOR: Prof. Dr. Carlos Alberto Ávila Araújo e-mail: casalavila@yahoo.com.br- Telefone: (31) 3409-6131 INSTITUIÇÃO: Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais. Telefone: (31) 3409-6103 Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG (COEP-UFMG) e-mail: coep@prpq.ufmg.br - Telefone: (31) 3409-4592 Av. Antônio Carlos, 6627. Unidade Administrativa II - 2º andar - Sala 2005. Campus Pampulha. Belo Horizonte, MG – Brasil. CEP: 31270-901. __________________________________________________________________ Assinatura da pesquisadora (orientanda) Local e data __________________________________________________________________ Assinatura do pesquisador (orientador)