Luiz Fernando Campos de Andrade Júnior OCUPA BELO HORIZONTE: CULTURA, CIDADANIA E FLUXOS INFORMACIONAIS NO DUELO DE MCs Belo Horizonte 2013 Luiz Fernando Campos de Andrade Júnior OCUPA BELO HORIZONTE: CULTURA, CIDADANIA E FLUXOS INFORMACIONAIS NO DUELO DE MCs Dissertação apresentada ao Programa de Pós- graduação em Ciência da Informação da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciência da Informação. Linha de pesquisa: Informação, Cultura e Sociedade Orientadora: Profª Drª Maria Guiomar da Cunha Frota Coorientadora: Profª Drª Maria Aparecida Moura Belo Horizonte Escola de Ciência da Informação da UFMG 2013 Andrade Júnior, Luiz Fernando Campos de A553 Ocupa Belo Horizonte: cultura, cidadania e fluxos informacionais no Duelo de MCs [manuscrito] / Luiz Fernando Campos de Andrade Júnior - 2013. 284f. Orientadora: Maria Guiomar da Cunha Frota Coorientadora: Maria Aparecida Moura Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Ciência da Informação. 1. Informação e cidadania – Brasil – Teses 2. Espaço Público– Brasil – Teses 3. Cultura e informação – Teses 4. Cidadania – Brasil – Teses I. Frota, Maria Guiomar da Cunha II. Moura, Maria Aparecida III. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Ciência da Informação. IV. Título CDD: 020 Ficha catalográfica: Cleide A. Fernandes CRB6/2334 Para os MCs e artistas que fazem da rua lugar de vida e sonho. AGRADECIMENTOS Aos meus pais, irmãos e sobrinhos, pelo apoio e amor incondicionais. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela bolsa de fomento destinada ao desenvolvimento deste estudo. À professora Maria Aparecida Moura, por me acolher na ECI, pela confiança depositada e por uma interlocução marcada pelo rigor e generosidade na condução da pesquisa. À professora Maria Guiomar da Cunha Frota. Aos professores Juliana Gonzaga Jayme, Carlos Alberto Ávila Araújo e Camila Maciel Campolina Alves Mantovani, pelos importantes apontamentos durante a defesa. À Família de Rua, sem a qual não seria possível a realização deste trabalho. MCs PDR, Monge e Ozleo, obrigado pela acolhida e por me mostrarem a força que vem das ruas. Aos MCs Douglas Din, Vinicin e Mirapotira, por me confiarem um pouco de suas vidas. À professora Natacha Rena, pelas reflexões e apontamentos. Ao Pablo Bernardo, por autorizar o uso de seu belo material fotográfico e pelo importante trabalho de cobertura do Duelo de MCs. Aos amigos que contribuíram, cada um à sua maneira, par este estudo: À Fabíola Farias, querida colega e amiga, pelo carinho, ensinamentos e preciosas contribuições. À Ana Amélia Lage Martins, pela disponibilidade e boas discussões. À Juliana Monteiro, por ter acompanhado de perto este processo desde o início e pela torcida e carinho constantes. À Cleide Fernandes, pela delicadeza e boa vontade em ajudar nos momentos decisivos. À Paula Ziviani, pelos conselhos desde a concepção do projeto, sempre com leveza e serenidade. À Juliana Gonzaga Jayme novamente, por me apresentar o universo da pesquisa acadêmica. Ao Carlos Sidnei Coutinho, pela generosidade em compartilhar impressões e ideias. À Mariana Ramos, afilhada e amiga de todas as horas, pelos conselhos e boas conversas sobre a academia e o mundo da cultura. À Gislene Alencar, companheira de caminhada acadêmica, pelas conversas e desabafos. À Julie Daniel de Carvalho, pelo carinho e auxílio técnico. À Ana Paula Costa Andrade, por me ajudar a tornar este trabalho visualmente mais bonito e fidedigno ao Duelo de MCs. À Priscila da Mata, por levar os resultados desta pesquisa para o XIV Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, em novembro de 2013, em Florianópolis. Os ninguéns As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura. Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada. Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos: Que não são, embora sejam. Que não falam idiomas, falam dialetos. Que não praticam religiões, praticam superstições. Que não fazem arte, fazem artesanato. Que não são seres humanos, são recursos humanos. Que não têm cultura, e sim folclore. Que não têm cara, têm braços. Que não têm nome, têm número. Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata. (Eduardo Galeano, 2007, p.71) RESUMO O estudo teve como objetivo geral discutir a reapropriação do espaço público na cidade por grupos sociais e os fluxos informacionais criados a partir da interação entre eles. Nos últimos anos, a ênfase no viés econômico por parte do Estado vem trazendo restrições a moradores e frequentadores no uso dos lugares da vida cotidiana pública. A liberdade de circulação esbarra em iniciativas de privatização de locais antes destinados ao encontro de pessoas e a outras experiências coletivas. A pesquisa, de caráter qualitativo, teve como objeto de análise empírica o Duelo de MCs, movimento hip-hop que ocupa, nas noites de sexta-feira, a área sob o Viaduto Santa Tereza, no Centro de Belo Horizonte, e reúne jovens, na sua maioria negros, com diversos níveis socioculturais e de diferentes regiões da capital mineira para “batalhas” entre MCs, a partir da improvisação de rimas e ao som do rap. A fundamentação teórica pautou-se pela discussão das culturas pós-modernas e a conceituação de público, cidade informacional, direito à cidade, cidadania cultural e informação enquanto fenômeno social. Além disso, apresentou-se um breve histórico dos últimos movimentos de ocupação das cidades no Brasil e no mundo. A metodologia contemplou o trabalho de campo, com o acompanhamento do Duelo de MCs entre agosto e dezembro de 2012; entrevistas com organizadores do movimento; análise de conteúdo dos versos das “batalhas do conhecimento” – uma das modalidades do Duelo de MCs que sugere um tema antes das disputas –, bem como de letras de música, cartazes e graffitis presentes sob o viaduto e panfletos e fanzine distribuídos; entrevistas estruturadas com o público e netnografia dos organizadores e seus seguidores nas redes sociais digitais. Concluiu-se que as trocas informacionais entre esses jovens revelam, no Centro da cidade, uma cultura emergente, cujo repertório ficava restrito a zonas periféricas, como favelas e aglomerados. Além disso, elas possibilitam a construção de novas representações simbólicas e de um espaço de pertença coletiva e resistência cultural da juventude negra periférica em Belo Horizonte. Como movimento de ocupação, o Duelo de MCs promove a reflexão crítica de grupos historicamente alijados das políticas públicas, tensiona a noção de público e reivindica questões ligadas à liberdade de expressão, identidade cultural e cidadania. PALAVRAS-CHAVE: informação; cultura; cidadania; espaço público. ABSTRACT The study has aimed to discuss the re-appropriation of public space in the city for social groups and the informational flows created from the interaction between them. In recent years, the emphasis on economic bias by the State has been bringing locals and regulars restrictions on the use of public places of everyday life. Freedom of movement collides with initiatives to privatize sites before intended to meet people and other collective experiences. The qualitative research had as its object of analysis the Duelo de MCs, an hip hop movement that occupies the area under the Santa Tereza’s viaduct, in downtown Belo Horizonte, on Friday nights, and brings together young people, mostly black, with different sociocultural levels and from different regions of the city to “battles” between MCs with rhyming improvisation to the sound of rap music. The theoretical framework was based upon the discussion of postmodern cultures and concepts of public, informational city, right to the city, cultural citizenship and information as a social phenomenon. Furthermore, has presented a brief history of the last movements of the occupation of cities in Brazil and worldwide. The methodology has included field work accompanying Duelo de MCs between August and December 2012; interviews with organizers of the movement; content analysis of the verses of “Battles of Knowledge” - one of the modalities of Duelo de MCs suggesting an issue prior the dispute - as well as song lyrics, posters and graffiti gifts under the viaduct, flyers and fanzine distributed; structured interviews with the public and netnography of the organizers and their followers in digital social networks. It was concluded that the informational exchanges between these young people show in the city center an emerging culture, whose repertoire had been restricted to peripheral areas such as slums and clusters. Furthermore, they enable the construction of new symbolic representations and a space of belonging and collective cultural resistance of black youth in downtown Belo Horizonte. As an occupation movement, Duelo de MCs promotes critical reflection of groups historically disenfranchised from public policy, tensions the notion of public policies and reclaims issues connected to freedom of expression, cultural identity and citizenship. KEYWORDS: information; culture; citizenship; public space. LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 - Viaduto Santa Tereza em construção em 1928..................................................... 101 FIGURA 2 - Viaduto Santa Tereza à época da inauguração..................................................... 101 FIGURA 3 - Viaduto Santa Tereza durante o Duelo de MCs................................................... 105 FIGURA 4 - Real da Rua.......................................................................................................... 106 FIGURA 5 - Ocupação do viaduto para o Duelo de MCs......................................................... 107 FIGURA 6 - Batalha entre MCs................................................................................................ 117 FIGURA 7 - Duelo de MCs...................................................................................................... 118 FIGURA 8 - MC Monge cumprimenta o público no começo do Duelo de MCs..................... 121 FIGURA 9 - Público pede o terceiro round.............................................................................. 123 FIGURA 10 - Noite de Danças................................................................................................. 125 FIGURA 11 - Cadeia produtiva do hip-hop.............................................................................. 126 FIGURA 12 - Vendedores ambulantes..................................................................................... 127 FIGURA 13 - Público............................................................................................................... 128 FIGURA 14 - Frequentadores ligados a religiões.................................................................... 129 FIGURA 15 - Diversidade do público...................................................................................... 141 FIGURA 16 - MC Douglas Din após vencer o Duelo de MCs Nacional 2013........................ 149 FIGURA 17 - Duelo de MCs durante apresentação no Sesc Palladium em 2012.................... 150 FIGURA 18 - Duelo de MCs durante apresentação no Palácio das Artes em 2013................. 151 FIGURA 19 - Duelo de MCs durante apresentação na Praça da Liberdade em 2013.............. 152 FIGURA 20 - MC Monge......................................................................................................... 155 FIGURA 21 - MC Ozleo........................................................................................................... 157 FIGURA 22 - MC PDR............................................................................................................. 159 FIGURA 23 - Latinha “roda” para contribuições espontâneas do público............................... 160 FIGURA 24 - MC Douglas Din................................................................................................ 166 FIGURA 25 - MC Vinicin........................................................................................................ 167 FIGURA 26 - MC Sweet e MC Douglas Din........................................................................... 169 FIGURA 27 - MC Mirapotira................................................................................................... 170 FIGURA 28 - Grafiteiros do Viaduto Santa Tereza................................................................. 171 FIGURA 29 - Duelo do Conhecimento.................................................................................... 180 FIGURA 30 - Duelo do Conhecimento: direito à cidade (primeira semifinal)........................ 186 FIGURA 31 - Duelo do Conhecimento: direito à cidade (segunda semifinal)........................ 187 FIGURA 32 - Duelo do Conhecimento: eleições (primeira semifinal).................................... 191 FIGURA 33 - Duelo do Conhecimento: eleições (segunda semifinal).................................... 192 FIGURA 34 - Duelo do Conhecimento: conexões (final)........................................................ 196 FIGURA 35 - Duelo do Conhecimento: combate à violência contra a mulher........................ 198 FIGURA 36 - Capa do CD “O som que vem das ruas”............................................................ 202 FIGURA 37 - Cartaz do lançamento do single “Amoravila”................................................... 211 FIGURA 38 - Uso de dispositivos digitais móveis.................................................................. 227 FIGURA 39 - Redes sociais digitais: eleições municipais....................................................... 230 FIGURA 40 - Redes sociais digitais: o caso Guarani-Kaiowá................................................. 232 FIGURA 41 - Redes sociais digitais: campanha “Eu respeito o Duelo de MCs!”................... 234 FIGURA 42 - Redes sociais digitais: manifesto Duelo de MCs.............................................. 235 FIGURA 43 - Redes sociais digitais: “Respeitar o Duelo de MCs é?”................................... 240 FIGURA 44 - Redes sociais digitais: roda de conversas.......................................................... 241 FIGURA 45 - Redes sociais digitais: cadeia produtiva do hip-hop......................................... 242 FIGURA 46 - Redes sociais digitais: Rede Globo................................................................... 243 FIGURA 47 - Redes sociais digitais: “É tempo de parar”....................................................... 244 FIGURA 48 - Redes sociais digitais: população em situação de rua....................................... 247 FIGURA 49 - Redes sociais digitais: Jornadas de Junho......................................................... 248 FIGURA 50 - Redes sociais digitais: lavação coletiva............................................................ 249 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS APCBH Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte APH Assembleia Popular Horizontal CLT Consolidação das Leis do Trabalho Fafich Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Serviço FMC Fundação Municipal de Cultura Iepha/MG Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais INPS Instituto Nacional de Previdência Social MST Movimento dos Sem Terra NMSs Novos Movimentos Sociais NUC Grupo Cultural Negros da Unidade Consciente ONU Organização das Nações Unidas ONGs Organizações Não Governamentais Oscip Organização da Sociedade Civil de Interesse Público PAC Programa de Aceleração do Crescimento PNB Produto Nacional Bruto SLU Superintendência de Limpeza Urbana TICs Tecnologias da Informação e da Comunicação TJMG Tribunal de Justiça de Minas Gerais Unesco Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura LISTA DE QUADROS QUADRO 1 - Modalidades do Duelo de MCs.......................................................................... 123 QUADRO 2 - Impressões do público sobre o Duelo de MCs: resistência cultural................... 142 QUADRO 3 - Impressões do público sobre o Duelo de MCs: movimento político.................. 143 QUADRO 4 - Impressões do público sobre o Duelo de MCs: espaço da juventude urbana..... 143 QUADRO 5 - Impressões do público sobre o Duelo de MCs: espaço da cultura hip-hop........ 144 QUADRO 6 - Impressões do público sobre o Duelo de MCs: opção de lazer na cidade.......... 145 QUADRO 7 - Impressões do público sobre o Duelo de MCs: atuação indevida da polícia...... 146 QUADRO 8 - Impressões do público sobre o Duelo de MCs: serviços públicos...................... 146 QUADRO 9 - Impressões do público sobre o Duelo de MCs: comportamento do público...... 147 QUADRO 10 - Cartazes e graffitis: temáticas assinaladas....................................................... 172 QUADRO 11 - Duelo do Conhecimento: principais temáticas das batalhas analisadas.......... 180 QUADRO 12 - Duelo do Conhecimento: “direito à cidade”.................................................... 181 QUADRO 13 - Duelo do Conhecimento: “eleições, ambulantes e Dia das Crianças”............. 188 QUADRO 14 - Duelo do Conhecimento: “conexões”.............................................................. 193 QUADRO 15 - Duelo do Conhecimento: “combate à violência contra a mulher”................... 197 QUADRO 16 - Produção Musical: principais temáticas do CD “O som que vem das ruas”.... 200 QUADRO 17 - Produção musical: faixas 1 e 2 do CD “O som que vem das ruas”................. 202 QUADRO 18 - Produção musical: faixas 3, 4 e 5 do CD “O som que vem das ruas”............. 205 QUADRO 19 - Produção musical: faixas 6 e 7 do CD “O som que vem das ruas”................. 207 QUADRO 20 - Produção musical: faixas 8, 9 e 10 do CD “O som que vem das ruas”........... 208 QUADRO 21 - Produção musical: faixas 11 e 12 do CD “O som que vem das ruas”............. 209 QUADRO 22 - Produção musical: canção “Amoravila”, de Douglas Din.............................. 212 QUADRO 23 - Panfletos........................................................................................................... 215 QUADRO 24 - Fanzine “O que acontece aqui?”...................................................................... 221 QUADRO 25 - Redes sociais digitais: campanha “Eu respeito o Duelo de MCs”................... 237 QUADRO 26 - Redes sociais digitais: comunicado “É tempo de parar”.................................. 245 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 16 1.2 Estrutura da dissertação............................................................................................. 20 2 CULTURAS PÓS-MODERNAS............................................................................ 23 2.1 Movimentos culturais ................................................................................................ 38 2.2 Cidadania cultural no Brasil ...................................................................................... 42 2.3 Informação e cultura digital ....................................................................................... 47 3 AS CIDADES E O ESPAÇO PÚBLICO................................................................ 58 3.1 Movimentos de ocupação ........................................................................................... 69 3.2 Cidadania .................................................................................................................... 74 4 JUVENTUDE E A CULTURA HIP-HOP.............................................................. 84 4.1 O hip-hop em Belo Horizonte ..................................................................................... 89 5 METODOLOGIA..................................................................................................... 95 6 O VIADUTO SANTA TEREZA............................................................................. 100 6.1 A ocupação................................................................................................................. 104 7 O DUELO DE MCS.................................................................................................. 116 7.1 A noite de sexta-feira e o público ............................................................................... 121 7.2 O coletivo Família de Rua ......................................................................................... 153 8 FLUXOS INFORMACIONAIS............................................................................. 162 8.1 O espaço .................................................................................................................... 170 8.2 Duelo do Conhecimento............................................................................................ 179 8.3 Produção musical...................................................................................................... 200 8.4 Panfletos e fanzine .................................................................................................... 214 8.5 Web e redes sociais ................................................................................................... 226 9 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................. 251 REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 256 GLOSSÁRIO ......................................................................................................................... 263 ANEXOS ............................................................................................................................... 271 1 INTRODUÇÃO As metrópoles contemporâneas vivem uma crise em relação à ocupação dos espaços públicos. Em sua área geográfica, os reflexos do planejamento urbano, com códigos de postura restritivos, cerceiam aos cidadãos o direito de usufruir dos lugares de referências simbólicas. A liberdade de circulação esbarra em iniciativas de privatização de locais antes destinados ao encontro, às trocas informacionais e a outras experiências coletivas. A cidade, que assiste de forma ininterrupta à invasão de arranha-céus, shopping centers e viadutos, cria empecilhos para a fruição do espaço urbano enquanto lugar da coletividade. Originalmente, a cidade é o local da experiência cultural. Cada cidadão é peça fundamental na engrenagem da vida citadina como detentor de um conhecimento único adquirido a partir de suas vivências. Tempo e espaço permeiam um olhar atento sobre o outro e seu papel na composição do cenário urbano. Informações são transmitidas de vários polos, o que traz diferentes formas de representação do real conforme crenças e valores. Nessa dinâmica intermitente e silenciosa, a cultura vai sendo, aos poucos, coletivamente tecida. No entanto, a ênfase no viés econômico por parte do Estado vem trazendo restrições a moradores e frequentadores no uso dos lugares da vida cotidiana pública. As calçadas diminuem para dar vazão a grandes corredores de tráfego. Praças, parques e outras áreas arborizadas dão lugar a grandes edifícios e centros comerciais. Antigos prédios públicos são cedidos para exploração da iniciativa privada. Dessa forma, o local do encontro perde-se no meio de máquinas, veículos e concreto armado. Áreas são muradas, isoladas, bloqueadas e travam a circulação de pessoas. Como resposta aos processos de apropriação privada do espaço urbano, somado a outras reivindicações populares que denunciam injustiças e desigualdades sociais, movimentos de ocupação têm tomado ruas e praças de grandes cidades pelo mundo, cuja mobilização também é feita pelas redes sociais digitais. Desde o final de 2010, nas primeiras manifestações populares que deram origem à Primavera Árabe, até os últimos protestos no Brasil, em junho de 2013, a população de várias partes do mundo trouxe a esfera pública para o foco das discussões. 17 Colocou em xeque a legitimidade do Estado, que atende aos anseios do sistema capitalista e impede o acesso dos cidadãos a direitos civis, políticos e sociais. Em Belo Horizonte, as iniciativas de cerceamento do uso do espaço público no Centro da cidade se refletem na ação do poder público municipal, que vem restringindo a livre circulação em áreas públicas, com a instalação de grades e catracas em eventos, burocratizando as exigências, com pedidos de licenças e alvarás, e promovendo a expulsão de grupos que usam o espaço para manifestações espontâneas na cidade. Como movimento social, cultural e de militância política, o Duelo de MCs – que desde 2007 ocupa, às sextas-feiras, a área sob o Viaduto Santa Tereza, no Centro da cidade – se impõe no uso do espaço público, mesmo seguindo os trâmites impostos pela administração municipal. Sendo assim, o objetivo deste trabalho foi discutir como se dá, em Belo Horizonte, o movimento de reapropriação dos espaços públicos por grupos sociais a partir de uma abordagem cultural e informacional. Jovens representantes da cultura hip-hop brasileira – que mescla o rap estadunidense, tradições musicais brasileiras e a denúncia de problemas sociais no país – tensionam, por meio de rimas improvisadas nas “batalhas” entre MCs, a noção de público no espaço urbano, bem como a liberdade de expressão e circulação. Além da democratização do espaço público, o Duelo de MCs coloca em evidência, no Centro da cidade, uma cultura emergente, ligada à juventude negra oriunda de áreas periféricas, como favelas e aglomerados. Por intermédio de sua arte e conhecimento, exigem o direito à cidade como local da cultura, do lugar para a reflexão de valores antagônicos aos já instituídos e trazem demandas populares ligadas à cidadania e direitos humanos. Questões antes conhecidas apenas nos locais onde aconteciam, agora ganham visibilidade em toda a cidade. Em geral, fazem parte do Duelo de MCs jovens negros entre 18 e 30 anos, com variados níveis de escolaridade e provenientes de diversas regiões da cidade. No entanto, mesmo que nem todos venham de subúrbios e outras áreas da periferia, se identificam com essa realidade de exclusão e, por meio da improvisação de rimas, contribuem para denunciar os problemas sociais que enfrentam. Entre as questões abordadas, destaca-se a omissão das instituições públicas, as desigualdades sociais e a violação de direitos. Dessa forma, como espaço de militância política, o Duelo de MCs promove a valorização da identidade cultural e o empoderamento juvenil. 18 Diferentemente da visão estereotipada que as pessoas têm sobre esse público, conhecido por sua baixa escolaridade, resignação diante de uma estrutura social injusta e envolvimento com a criminalidade, os MCs demonstram nas letras das composições vasta cultura informacional1 e consciência de direitos enquanto cidadãos. Nas trocas informacionais e de conhecimento entre eles, revelam um olhar crítico sobre o mundo que os cerca, em oposição às formas hegemônicas que nomeiam a realidade. Aliás, a cultura informacional desses jovens é formada não somente a partir do que foi ensinado na escola ou por meio de fontes tradicionais de informação, como a literatura e os meios de comunicação. Ela também carrega a experiência que esses jovens acumulam ao lidar com as dificuldades do cotidiano ao longo da vida, especialmente em situações de discriminação e injustiça. Assim, a cidade se torna um grande objeto informacional2 para rappers e MCs, que expõem as desigualdades sociais, falta de acesso a serviços públicos e privação de direitos, construindo novas representações sobre a realidade. Para alguns pesquisadores, esses jovens são considerados “intelectuais periféricos”, uma vez que assumem a organização do mundo simbólico dos grupos sociais que representam. Tomando esse contexto como referência, a pesquisa buscou compreender, do ponto de vista informacional, como se dá o processo de construção social da informação. Ou seja, quais as implicações que a ação política e o posicionamento crítico desses cidadãos têm na elaboração de um discurso que apresenta outras significações e sentidos sociais. Dessa forma, a informação confere a eles a representação de uma identidade enquanto grupo social e a materialização de demandas ao poder público. Além disso, cumpre seu papel na mediação de discursos alternativos que desconstroem o status quo e na busca pela emancipação dos sujeitos. 1 Segundo Moura (2011), a cultura informacional é uma adoção autônoma e crítica da informação num contexto de produção de saberes e é caracterizada pela riqueza de informações e estímulos. 2 O objeto informação, enquanto forma instituída de memória, gestão, distribuição e recepção dos artefatos culturais, é aqui o elemento de ligação entre as dimensões conjuntista-identitária e imaginária, que regem o funcionamento da “instituição total da sociedade” e da própria dinâmica cultural. Tendo em vista que a produção e reprodução dos artefatos culturais se realizam pelo modo informacional, pelo menos nas sociedades históricas, pode-se afirmar que, nestas sociedades, toda prática social é uma prática informacional – expressão esta que se refere aos mecanismos mediante dos quais os significados, símbolos e signos culturais são transmitidos, assimilados ou rejeitados pelas ações e representações dos sujeitos sociais em seus espaços instituídos e concretos de realização (MARTELETO, 1995, p. 3). 19 Em relação aos frequentadores, a partir da realização de pesquisa por amostragem, detectou-se que, apesar da maior presença da juventude negra entre os participantes das batalhas, o público do Duelo de MCs é marcado pela diversidade de perfis e é proveniente de várias regiões da cidade, inclusive de municípios vizinhos, com diferentes níveis de escolaridade e hábitos culturais. Além disso, o Duelo de MCs tornou-se referência de resistência cultural na cidade, uma vez que congrega pessoas de vários grupos, que se autodenominam como “punks”, “darks”, “emos”, “góticos”, “funkeiros”, “neo-hippies” e “rastafáris”, além de jovens de classe média alta. Dessa forma, o Duelo de MCs se tornou um espaço de convivência e troca de informações entre grupos sociais na cidade. A pesquisa feita com os frequentadores demonstrou que a maioria deles não só aprecia a cultura hip-hop, como se identifica e referenda o conteúdo produzido pelos MCs. Como movimento cultural independente, organizado por coletivos artísticos, a maioria dos projetos depende da aprovação em editais de órgãos públicos de cultura. No entanto, o Duelo de MCs tem tido um papel importante em criar alternativas para fomentar a cadeia produtiva do hip-hop em Belo Horizonte. Ao incentivar a organização de eventos e a produção de CDs e outros produtos vinculados às atividades artísticas de rappers e MCs, os organizadores do Duelo trazem a possibilidade de novas fontes de renda para o encontro – o que contribui para garantir o caráter independente do Duelo, seguindo suas próprias diretrizes e valores – e a esperança de que jovens MCs possam se dedicar ao hip-hop como profissão. Entre os documentos que foram analisados na pesquisa, foi dada ênfase aos versos do “Duelo de Conhecimento”. Essa modalidade de batalhas, realizada uma vez por mês no Duelo de MCs, traz um tema específico sobre o qual os MCs improvisam suas letras de rap. O fato de exigir conhecimento prévio, reflexão e posicionamento diante das questões levantadas foi decisivo para escolha desses versos como principal objeto de análise. Além disso, também foi feita a análise de outros objetos que compõem os fluxos informacionais no Duelo de MCs: cartazes afixados e graffitis3desenhados na estrutura do 3 Do italiano “graffiti”, plural de graffito, que significa “marca ou inscrição feita com uma ponta sobre uma superfície dura”, é o nome dado às inscrições feitas em muros e paredes desde o Império Romano. Na cultura hip- hop, o graffiti representa desenhos, apelidos ou mensagens sobre qualquer assunto, feitas com spray, rolinho e pincel. É considerada uma arte e usada como forma de expressão e denúncia. 20 Viaduto Santa Tereza, bem como panfletos e fanzine distribuídos entre o público; letras de músicas produzidas coletivamente por MCs e a informação divulgada sobre o Duelo no perfil do movimento nas redes sociais digitais, uma vez que se tornam extensão da sociabilidade verificada sob o viaduto. Portanto, do ponto de vista informacional, buscou-se discutir a importância da informação e do conhecimento para a criação, em diversos suportes comunicacionais, de novos discursos e representações simbólicas a partir do olhar das culturas periféricas. Um olhar que traz consigo reivindicações e demandas de uma população que luta por estima social e cidadania. Assim, os MCs atuam como vetores de resistência cultural, imprimindo um olhar que expande os limites da cidade e contribui para práticas interculturais e trocas informacionais entre grupos sociais. A seguir, destaca-se a estrutura da dissertação, com a divisão dos capítulos a partir dos temas apresentados e que auxilia na compreensão da problemática proposta no trabalho. 1.1 ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO A estruturação da presente pesquisa buscou inicialmente contemplar os eixos principais que abarcam a discussão teórica proposta, como a pós-modernidade e as culturas periféricas, a informação enquanto fenômeno social e a ocupação do espaço público. Portanto, o referencial teórico é composto pelos capítulos 2 e 3. Para a contextualização do Duelo de MCs, objeto deste trabalho, destacou-se, no capítulo 4, a cultura hip-hop e a mobilização que promove entre os jovens. A metodologia é detalhada no capítulo 5, e o histórico do Viaduto Santa Tereza e sua ocupação pelos coletivos culturais são descritos no capítulo 6. A descrição e análise do Duelo de MCs e dos objetos informacionais produzidos por seus sujeitos compõem os capítulos 7 e 8, respectivamente. Já as considerações finais estão no capítulo 9. O capítulo 2, intitulado “Culturas pós-modernas”, discutiu a dinâmica de hibridação das culturas pós-modernas a partir de referências múltiplas, entre elas as que se referem a grupos periféricos, como o Duelo de MCs. Além disso, foi feita uma reflexão sobre o papel do consumo e das tecnologias digitais nos processos de identidade cultural. Como base para essa discussão, 21 foram utilizadas as contribuições de Canclini (2008), Castells (2010) e Hall (2011). Além disso, Yúdice (2006) adverte sobre os riscos de se apropriar do setor cultural para fins políticos, sociais e econômicos, subjugando grupos culturais às regras mercadológicas. Nos subcapítulos, destacou-se o papel dos movimentos culturais na criação de espaços de participação social e luta por direitos e o reconhecimento do direito à cultura no Brasil por meio de políticas públicas de cidadania cultural. Para evidenciar a noção de informação discutida neste trabalho, conceituou-se a informação, segundo Reis (1999), enquanto fenômeno social. Intitulado “As cidades e o espaço público”, o capítulo 3 discutiu os conflitos que a cidade apresenta a seus cidadãos para garantir a eles espaços de livre circulação e expressão cultural. Foram usados os conceitos de “espaço de fluxos” e “cidade informacional” de Castells (2010) e destacou-se a contestação social nas áreas periféricas como reflexo da desigualdade nos processos informacionais das cidades. Foi feita a conceituação de público a partir dos apontamentos de Arendt (2011) e foram usadas as reflexões de Lefebvre (1969), Harvey (2013) e Bauman (2003) para a discussão sobre os direitos à cidade e à diferença no convívio urbano. Pelo fato de que as instâncias do poder político têm sido cada vez mais refutadas como representantes do povo, abordou-se os efeitos da globalização e da competitividade das sociedades capitalistas modernas para a autonomia do Estado. Como alternativa à democracia representativa, destacou-se o papel que os Novos Movimentos Sociais (NMSs) – conceituados por Santos (2008) – vêm desempenhando na ocupação dos espaços públicos e na exigência do atendimento de demandas sociais pelo Estado. A exemplo de outros movimentos sociais da história brasileira que lutaram por direitos no país, também se discutiu como os avanços para conquistar a cidadania no Brasil ainda são um desafio, uma vez que ela ainda precisa ser alcançada de forma igual por todos os grupos sociais. No capítulo 4, intitulado “Juventude e a cultura hip-hop”, resgatou-se a trajetória do rap e do movimento hip-hop desde sua origem, nos Estados Unidos. Além disso, fez-se uma análise da importância das culturas urbanas para o processo de socialização da juventude periférica no mundo e no Brasil, com a criação de novos signos de pertencimento coletivo. Para isso, foram utilizados os apontamentos de Dayrell (2005) e Herschmann (2005). No contexto belo- horizontino, foi feito um histórico do movimento na cidade a partir da década de 1980. 22 O capítulo 5, intitulado “Metodologia”, expõe o método adotado pela pesquisa que, sustentado pelas técnicas de análise de conteúdo e análise do discurso, buscou identificar a informação subjacente ao discurso dos MCs e do público, bem como aquela presente nos documentos pesquisados como cartazes, folders e conteúdos criados nas redes sociais digitais. Intitulado “O Viaduto Santa Tereza”, o capítulo 6 recuperou o histórico do viaduto desde sua construção, em 1928, até a última reforma, em 1997, que contemplou a criação de áreas de convivência entre cidadãos e mobiliário para apresentações artísticas. Pelos entraves impostos pelo poder público para a realização de manifestações culturais no local, abordou-se as medidas restritivas e iniciativas gentrificadoras no Centro de Belo Horizonte, sobretudo com a chegada de megaeventos na cidade. O capítulo 7, intitulado “O Duelo de MCs”, fez uma discussão sobre as articulações entre jovens ligados à cultura hip-hop para a criação do Duelo de MCs e a reapropriação do espaço público no Centro de Belo Horizonte. Além disso, destacou-se o Duelo como ambiente de troca de informações entre grupos sociais, uma vez que o público, apesar da estética e comportamento próprios – especialmente na valorização da identidade negra –, representa diferentes regiões e níveis socioculturais, conforme análise da pesquisa realizada entre os frequentadores. Foi feita também a apresentação do coletivo Família de Rua, que organiza o encontro, e a importância do Duelo na formação de uma cadeia produtiva do hip-hop na cidade. No capítulo 8, intitulado “Fluxos informacionais”, foi feita a análise dos principais objetos que envolvem o Duelo de MCs. Além dos versos improvisados durante o Duelo do Conhecimento, também foi feita a análise do espaço sob o viaduto, com seus cartazes, banners e graffitis, panfletos e fanzine distribuídos e letras de música produzidas coletivamente por MCs. Ademais, foi analisada a informação difundida pelos organizadores nas redes sociais digitais, que possibilita a interatividade com internautas e cria novos embates discursivos sobre a ocupação do espaço público de Belo Horizonte pela juventude negra periférica. No capítulo 9, “Considerações finais”, buscou-se reunir os principais reflexos do Duelo de MCs para a reapropriação do espaço público em Belo Horizonte, bem como para a valorização da identidade cultural de jovens negros e a consolidação da cultura hip-hop na cidade. Além disso, foram feitos apontamentos futuros para o campo da Ciência da Informação na condução de pesquisas que envolvam a informação e o conhecimento de culturas periféricas. 23 2 CULTURAS PÓS-MODERNAS A juventude que participa do Duelo de MCs cria no Centro de Belo Horizonte um ambiente com influências culturais diversas, a partir de referências territoriais, sociais e informacionais. Esses jovens trazem para a rua um jeito próprio de se comportar, vestir, falar e se expressar artisticamente. O movimento hip-hop – cuja origem está nas letras de protestos de jovens negros estadunidenses dos anos 1980, ao som do rap – é hoje a fonte de inspiração para que a juventude belo-horizontina faça ecoar os protestos de uma população historicamente excluída e discriminada. Trata-se, portanto, de um dos motivos para dar visibilidade a essas questões a partir da ocupação do Centro da cidade. Nesse contexto, este capítulo discute as culturas pós-modernas, com ênfase nos processos de hibridação das culturas subalternas, bem como o papel do consumo e das tecnologias digitais nos processos de identidade cultural e acesso a bens simbólicos por grupos sociais periféricos. Para tal, parte-se dos apontamentos de Canclini (2008), Castells (2010) e Hall (2011). Além disso, Yúdice (2006) expõe os riscos de que a cultura seja convenientemente apropriada para fins políticos, sociais e econômicos, subjugando grupos culturais às diretrizes do mercado. Os subcapítulos propõem uma reflexão sobre os movimentos culturais e a criação de espaços para a participação social, pertencimento e luta pela cidadania; a importância de políticas públicas que reconheçam o direito à cultura no Brasil com base no conceito de cidadania cultural de Chauí (2006) e o conceito de informação como fenômeno social de Reis (1999), bem como sua aplicação nas plataformas digitais. No Duelo de MCs, organizadores, MCs e público representam uma juventude cujas referências culturais são múltiplas. Nas últimas décadas, a globalização – e com ela o desenvolvimento dos meios de comunicação, que trouxe impactos na circulação simbólica e no consumo – tem contribuído para o alargamento das fronteiras. Seja pelos processos migratórios, massas de desempregados e subempregados e uma juventude dissidente, Canclini (2008) afirma que as culturas populares trazem, no contexto da pós-modernidade, uma nova modalidade de organização da cultura a partir da hibridação de tradições de classes, etnias e nações, o que pode ser verificado no Duelo de MCs. 24 Com a expansão urbana, é a cidade que intensifica a hibridação cultural na pós- modernidade e passa a ter uma oferta simbólica cada vez mais heterogênea. Porém, sob o aspecto ideológico, Canclini afirma que os movimentos sociais se fragmentaram. Cada um deles foi atrás de suas demandas – de ordem étnica, de gênero, ambiental etc. –, o que enfraqueceu a mobilização social. E aponta que sua eficácia depende da reorganização do espaço público. Nesse sentido, o Duelo de MCs subverte a ordem urbana de exclusão, marcada pelo engessamento territorial e as desigualdades sociais, para trazer de volta o papel da cidade como mobilizadora social. Reúne, num único lugar – a partir de uma linguagem artística, a música –, pessoas com diversos perfis e demandas. Pode-se dizer, portanto, que o Duelo de MCs reforça seu caráter agregador e sua capacidade de reativar o espaço público como lugar da coletividade dos sujeitos, apesar de suas diferenças. Assim, assiste-se à ampliação da circularidade de imaginários e práticas sociais. Ao discorrer sobre o sujeito na sociedade informacional e a multiplicidade de referências que embasam as relações sociais na contemporaneidade, Castells (2010) conceitua “identidade”: Por identidade, entendo o processo pelo qual um ator social se reconhece e constrói significado principalmente com base em determinado atributo cultural ou conjunto de atributos, a ponto de excluir uma referência mais ampla a outras estruturas sociais. Afirmação de identidade não significa necessariamente incapacidade de relacionar-se com outras identidades (...), ou abarcar toda a sociedade sob essa identidade. (...). Raymond Barglow, em seu ótimo ensaio sobre o assunto, sob a perspectiva da psicanálise social, aponta o fato paradoxal de que, embora aumentem a capacidade humana de organização e integração, ao mesmo tempo os sistemas de informação e a formação de redes subvertem o conceito ocidental tradicional de um sujeito separado, independente (CASTELLS, 2010, p. 57-58). Portanto, a clássica definição de identidade, que se refere a um determinado território, é complementada por uma definição sócio-comunicacional. Dessa maneira, grupos sociais passam a potencializar os espaços de trocas informacionais e comunicacionais, em que as identidades também se renovam, especialmente com o advento das tecnologias digitais. A globalização, segundo Hall (1999), provoca a contestação e o deslocamento de identidades centradas e “fechadas” de uma cultura nacional. Há um efeito pluralizante sobre as identidades, produzindo uma variedade de possibilidades e novas posições de identificação, o que torna as identidades mais posicionais, mais políticas, mais plurais e diversas; menos fixas, 25 unificadas ou trans-históricas. Dessa forma, estão sujeitas aos desdobramentos da história, da política, da representação e da diferença. Ao levar em conta a complexidade e diversidade da dinâmica cultural, Coelho (2004) afirma que a cultura da identidade4, resultante do desejo e da dificuldade de definir os limites precisos da individualidade, tenta se afirmar. No entanto, as culturas pós-modernas não buscam mais uma cultura de identidade com traço nacionalmente unificador, procurada ao longo dos anos 1960. Passam a aderir a uma identidade vista ora numa ótica maior – a de uma etnia –, ora numa ótica menor, a de uma orientação sexual ou a do gênero, ora em ambas simultaneamente. É importante ressaltar de qual conceito de cultura parte-se essa discussão. Opta-se pelo conceito de cultura semiótico de Geertz (2008), uma vez que, a partir de seu caráter semiósico, traz novas significações e o alargamento de fronteiras para as experiências culturais. De acordo com o autor, com sistemas entrelaçados de signos interpretáveis, a cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos com densidade. Segundo ele, “a cultura não é uma ciência experimental, em busca de leis, mas uma ciência essencialmente interpretativa, à procura do significado” (GEERTZ, 2008, p. 4). Concorda-se também com a concepção de cultura proposta por Hall (2011), que caracteriza as práticas sociais como reveladoras de si mesmas, cujos processos criam flutuações de identidades, correspondências e descontinuidades, num processo sempre metamorfósico. Segundo o autor, o importante é saber como essas práticas e padrões são vividos e experimentados. Nesse contexto, a informação se caracteriza como substrato para esses deslocamentos e práticas culturais. A experimentação da identidade é pautada pela informação obtida pelo sujeito em situações de interação. Para Bauman (2005), trata-se de um reflexo da modernidade líquida, que permite a libertação da inércia dos costumes tradicionais, das autoridades imutáveis, das rotinas pré-estabelecidas e das verdades inquestionáveis. Uma liberdade nova, sem precedentes, representada pela autoidentificação e um forte sentimento de confiança em si e nos outros. 4 Um rótulo mais atual para designá-la é cultura da autenticidade: o que ela designa é a busca de uma visão de mundo e de um modo de estar no mundo que teria sido alegadamente reprimido ou sufocado. A cultura gay se encaixa nessa divisão tanto quanto as que recorrem a rótulos do tipo afro-americanidade e afro-brasilidade (COELHO, 2004, p. 131). 26 Canclini (2005) afirma que os processos globalizadores acentuam a interculturalidade moderna quando criam mercados mundiais de bens materiais e dinheiro, mensagens e migrantes. Os fluxos e as interações que ocorrem nesses processos diminuíram fronteiras, assim como a autonomia das tradições locais; propiciam mais formas de hibridação produtiva, comunicacional e nos estilos de consumo do que no passado. Às modalidades clássicas de fusão, derivadas de migrações, intercâmbios comerciais e das políticas de integração educacional impulsionadas por Estados nacionais, acrescentam-se as misturas geradas pelas indústrias culturais. Segundo Canclini, hoje todas as culturas são de fronteira, em que as artes se desenvolvem em relação com outras artes: o artesanato migra do campo para a cidade; os filmes, os vídeos e canções que narram acontecimentos de um povo são intercambiados com outros. Assim, as culturas perdem a relação exclusiva com seu território, mas ganham em comunicação e conhecimento. É assim que o Duelo de MCs cria, sob o Viaduto Santa Tereza, um espaço de hibridação de várias culturas e estilos musicais. Do hip-hop estadunidense, com influências da produção musical de São Paulo, berço do rap brasileiro, para a improvisação de rimas verificadas nas tradições de repentes e trovas nordestinas que falam do universo periférico de jovens negros belo- horizontinos; entre o público, o espaço é compartilhado por MCs, “punks”, “emos”, “neo- hippies”, entre representantes de outros grupos. Para Canclini, as cidades contemporâneas induzem as trocas simbólicas entre grupos cultos e populares, tradicionais e modernos. A afirmação do regional ou do nacional não tem sentido nem eficácia como condenação geral do exógeno: deve ser concebida como a capacidade de interagir com as múltiplas ofertas simbólicas internacionais a partir de posições próprias. Para isso, os processos de desterritorialização e reterritorialização são constantes. Canclini chama o processo de desterritorializar e reterritorializar de hibridação, no qual estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas. Em um mundo tão fluidamente interconectado, as sedimentações identitárias organizadas em conjuntos históricos mais ou menos estáveis (etnias, nações, classes) se reestruturam em meio a conjuntos interétnicos, transclassistas e transnacionais. As buscas mais radicais sobre o que significa estar entrando e saindo da modernidade são as dos que assumem as tensões entre desterritorialização e 27 reterritorialização. Com isso refiro-me a dois processos: a perda da relação “natural” da cultura com os territórios geográficos e sociais e, ao mesmo tempo, certas relocalizações territoriais relativas, parciais, das velhas e novas produções simbólicas (CANCLINI, 2008, p. 309). Nos intercâmbios da simbologia tradicional com os circuitos internacionais de comunicação, com as indústrias culturais e as migrações, não desaparecem as perguntas pela identidade e pelo nacional, pela defesa da soberania, pela desigual apropriação do saber e da arte. Não se apagam os conflitos, como pretende o pós-modernismo neoconservador. Colocam-se em outro registro, multifocal e mais tolerante, repensa-se a autonomia de cada cultura - às vezes - com menores riscos fundamentalistas (CANCLINI, 2008, p. 326). Nesse contexto de fim das barreiras territoriais e um fluxo intenso de migrações, seja dentro de uma mesma cidade ou entre continentes, as culturas diaspóricas trazem novas informações, conflitos e disputas discursivas, estabelecendo novas perspectivas para as culturas locais. Hall (2011) enfoca o jogo da diferença – a noção derridiana de différance5 – da natureza hibridada das identidades, em especial das diásporas negras, em que as disjunções de tempo, espaço e disseminação se recusam a ser alinhadas. Para Velho (2001), os sujeitos, especialmente os habitantes das metrópoles, estão potencialmente expostos a experiências muito diferenciadas, na medida em que se deslocam e têm contato com universos sociológicos, estilos de vida e modos de percepção da realidade distintos e mesmo contrastantes. Muitos inclusive atuam como mediadores entre diferentes mundos, experiências e domínios sociais. Apesar da tendência homogeneizante da globalização, Hall destaca o que ele chama de “proliferação subalterna da diferença”. São tendências emergentes, formadas a partir de conexões laterais ao eixo vertical do poder cultural, econômico e tecnológico, que escapam ao seu controle e inevitavelmente são consideradas. “Ela emerge em muitos locais, entre os quais o mais significante é a migração, planejada ou não, forçosa ou denominada ‘livre’, que trouxe as margens para o centro, o ‘particular’ multicultural disseminado para o centro da metrópole ocidental” (HALL, 2011, p. 59). Ao criar um espaço de visibilidade, na área central de Belo Horizonte, para práticas culturais subalternas, oriundas de subúrbios e favelas da cidade, o Duelo de MCs subverte a 5 ...o movimento do jogo que “produz” (...) essas diferenças, esses efeitos de diferença (DERRIDA apud HALL, 2011, p. 58). 28 lógica excludente e higienista em áreas que sofrem a influência direta dos centros de poder. Os MCs reinventam a ocupação desse espaço ao interromperem a homogeneidade do fluxo de pessoas e informações e buscam, na diferença cultural, deslocamentos de poder e contestação social. Para as comunidades da diáspora, o enraizamento de suas tradições coexiste com a integração com outras comunidades, sobretudo pelos mais jovens. Mesmo com o respeito aos costumes de seu grupo, alguns se sentem mais livres e, movidos por forças contraditórias, desejam experimentar outras práticas, sejam elas reais ou no campo do simbólico. Hall considera que um dos dilemas da modernidade é, dentro do contexto multicultural, reconhecer o particular e o universal e as pretensões da diferença e da igualdade. Ou seja, não se trata mais de buscar o maniqueísmo, mas tentar perceber como ambos podem estar juntos. Assim, Hall se atém ao conceito de différance, em que os places de passage estão sempre em deslize. Ele diz que a identidade é um lugar em que se assume uma postura de posição e contexto, e não uma essência a ser examinada. Sempre há o “deslize” inevitável do significado na semiose aberta de uma cultura, enquanto aquilo que parece fixo continua a ser dialogicamente reapropriado. A fantasia de um significado final continua assombrada pela “falta” ou “excesso”, mas nunca é apreensível na plenitude de sua presença a si mesma (HALL, 2011, p. 33). Ao comentar sobre as tradições musicais híbridas que foram criadas nos subúrbios de Londres, sobretudo pela influência de várias diásporas, Hall cita o dance hall – ou salão de baile –, inspirado na música e na subcultura da Jamaica e que agora tem suas variantes afro-britânicas, e a jungle music londrina, fruto da mescla entre o dub jamaicano, o hip-hop da Atlantic Avenue (Nova Iorque), o gangsta rap e o white techno, esses dois últimos como resultado do cruzamento do rap, techno e a tradição clássica indiana. A troca entre tradições musicais de grupos da diáspora do Sul e a música eletrônica criada no Norte fazem dos grandes centros urbanos um espaço coletivo de criação simbólica, permitindo o encontro da música tecnológica com ritmos tradicionais. A proliferação e a disseminação de novas formas musicais híbridas e sincréticas não podem mais ser apreendidas pelo modelo centro/periferia ou baseada simplesmente em uma noção nostálgica e exótica de recuperação de ritmos 29 antigos. É a história da produção da cultura, de músicas novas e inteiramente modernas da diáspora – é claro, aproveitando-se dos materiais e formas de muitas tradições musicais fragmentadas (HALL, 2011, p. 37). Entre os progressos teóricos apontados por Hall na área dos estudos culturais contemporâneos, destaque para a descoberta da discursividade e textualidade e a importância da linguagem e da metáfora linguística para o estudo da cultura. Além disso, o reconhecimento da textualidade e do poder cultural da própria representação como local de poder e de regulamentação; do simbólico como fonte de identidade. Assim, esses avanços teóricos também são base para se entender a cultura como território de identidade das camadas populares da sociedade. Os territórios de fricção, que promovem o embate, o conflito, o choque e escancaram as diferenças, são chave para o entendimento das práticas culturais subalternas. Hall diz que a cultura do povo6 não é representada por suas tradições de resistência, tampouco pelas formas que as sobrepõem. Na verdade, elas são representadas pelo próprio terreno onde as transformações acontecem. O importante é perceber o modo como elas são mantidas em relação às outras culturas. Ao falar da cultura dos trabalhadores do século XX, Hall deixa claro que não há uma cultura do povo autêntica e autônoma. Influenciados pelas indústrias culturais capitalistas, eles são consumidores de produtos comerciais e por isso se inserem dentro das relações de poder. Os efeitos são concretos, mas não de alcance total, pois se trata de um processo dialético, em que há pontos de resistência e superação. Na atualidade, essa luta é contínua e ocorre nas linhas complexas da resistência e da aceitação, da recusa e da capitulação, que transformam o campo da cultura em uma espécie de campo de batalha permanente, onde não se obtêm vitórias definitivas, mas onde há sempre posições estratégicas a serem conquistadas ou perdidas (HALL, 2011, p. 239). 6 Cabe aqui fazer a distinção entre os termos “cultura popular” e “cultura do povo”, segundo Chauí (2011): (...) seria interessante indagar por que falar em “cultura do povo” em lugar de “cultura popular”. É plausível supor que a escolha da primeira expressão em vez da segunda tenha o mérito de procurar um caminho que nos resguarde da ambiguidade presente no termo “popular”. Considerar a cultura como sendo do povo permitiria assinalar mais claramente que ela não está simplesmente no povo, mas que é produzida por ele, enquanto a noção de “popular” é suficientemente ambígua para levar à suposição de que representações, normas e práticas porque são encontradas nas classes dominadas são, ipso facto, do povo. Em suma, não é porque algo está no povo que é do povo (CHAUÍ, 2011, p. 53). 30 Dessa forma, o Duelo de MCs, enquanto encontro de resistência cultural na cidade, precisa acontecer com frequência, uma vez que sua aceitação depende de organização e mobilização constantes, de forma a cercar as possibilidades de ocupação de espaços e visibilidade. Ao mesmo tempo em que é vítima de entraves por parte do poder público, que exige alvarás e não fornece os serviços necessários para um encontro de rua, o Duelo tem projetos aprovados nos órgãos públicos de fomento à cultura. Num cenário de incoerências e incertezas, é preciso reafirmar, a todo o momento, o direito à manifestação cultural. Com o significado atribuído, em parte, ao contexto social e histórico no qual está inserido, o símbolo cultural seria apenas uma arma na luta de classes na cultura ou em torno dela. São as culturas concebidas não como “formas de vida”, mas como “formas de luta”, que acabam se cruzando nos pontos de interseção. A cultura do povo é, portanto, na visão de Hall, um dos locais onde a luta, contraditoriamente a favor ou contra a cultura dos poderosos, é sempre engajada e comprometida com seus ideais coletivos. A capacidade de constituir classes e indivíduos enquanto força popular – esta é a natureza da luta política e cultural: transformar as classes divididas e os povos isolados – divididos e separados pela cultura e outros fatores – em uma força cultural popular-democrática (HALL, 2011, p. 246). Segundo Yúdice (2006), o ambiente caótico e hostil dos grandes centros urbanos afasta ainda mais a possibilidade de uma identidade homogênea. No caso dos grupos juvenis, a pouca inserção deles na escola e no mercado de trabalho faz com que se juntem e se apoiem entre si, formando grupos que buscam seu espaço a partir da disputa simbólica entre eles. O hibridismo das culturas urbanas jovens é muitas vezes criticado pelos ativistas dos movimentos sociais de base, uma vez que elas não refletem os símbolos do nacional-popular e não representariam uma oposição ao imperialismo cultural. No entanto, Yúdice acredita que, para uma efetiva ação democrática, é preciso transcender ao debate que prega o conflito entre indústrias culturais e culturas populares: Se podemos superar essa dicotomia maniqueísta, torna-se possível “repensar as relações entre cultura e política (...) para ligar as políticas culturais às transformações da cultura política, especialmente com relação às implicações de comunicação da última, ou seja, a trama de inter-relações onde se constituem os atores sociais” e, assim, considerar as comunicações de massa não como um 31 “mero problema de mercados e de consumo”, mas como um “espaço decisivo na redefinição do público e na construção da democracia” (YÚDICE, 2006, p. 132). O fato de a cultura do povo historicamente ter se tornado a forma predominante da cultura global pós-moderna –com territórios marginais nunca tão produtivos como antes – trouxe um impacto direto na construção das identidades das diásporas negras. Hall (2011) enumera três fatores: o deslocamento dos modelos europeus de alta cultura, o surgimento dos Estados Unidos como centro de produção e circulação global da cultura e a emergência cultural do “terceiro mundo”, o que ele chama de “emergência das sensibilidades descolonizadas”. Um aspecto positivo da globalização é dar visibilidade a sujeitos de várias partes do globo que antes não configuravam no mapa “oficial” do mundo. Com a criação de novos canais de comunicação, fluxos de informação são estabelecidos entre vários pontos do planeta, fora do circuito Norte/Sul e centro/periferia. Dessa forma, a conexão direta entre países de continentes como África, Ásia e América Latina permite trocas simbólicas e construções discursivas sem a mediação e manipulação de centros de poder na Europa e Estados Unidos. No contexto de Belo Horizonte, ao chamarem a atenção para suas manifestações culturais e a criação de espaços de sociabilidade na cidade, movimentos como o Duelo de MCs impõem modelos de empoderamento e autonomia de jovens negros periféricos. Dessa forma, engendram seus próprios valores, discursos e formas de organização e representação simbólica. Ao ganharem visibilidade e reconhecimento, revelam a potência e a pluralidade da cultura brasileira. Pela transformação que as vozes das margens trouxeram à vida cultural, sobretudo do Ocidente, houve uma mudança no equilíbrio de poder nas relações da cultura, uma vez que elas conquistaram espaços de hegemonia, ainda que poucos e sempre regulados e vigiados. Reconhecer esses espaços como legítimos e substituir antigos modelos de depreciação e menosprezo é entender a predisposição do pós-moderno em se abrir para a diferença. Hall considera a cultura do povo negro um exemplo de trazer à tona outras tradições de representação. Seja pela sua expressividade, musicalidade, oralidade, em suas inflexões vernaculares, na sua rica produção de contranarrativas ou no uso metafórico do vocabulário musical, ela conseguiu reunir elementos de um discurso diferente do utilizado pela cultura dominante. 32 Mais do que uma expressão cultural da juventude periférica belo-horizontina, o Duelo de MCs se torna um espaço especialmente destinado à visibilidade da cultura negra. A partir da construção de versos que trazem questões ligadas à autovalorização e à recusa de estigmas que assinalam a trajetória de jovens negros, como a violência e a marginalidade, os MCs tentam impor um novo olhar sobre esse grupo social. Ademais, a partir de linguagens artísticas como a dança de rua e o graffiti, garantem um espaço para expressões cênicas e plásticas, também carregados de contestação social e ruptura com discursos hegemônicos segregadores. E na lógica do acoplamento citada pelo autor, no lugar da oposição binária, as heranças africanas das diásporas se articularam com as influências europeias e criaram uma estética diaspórica híbrida, seja em inovações linguísticas, na postura corporal, nos estilos de cabelo, na forma de ocupação de um espaço social alheio ou de constituir o companheirismo e a comunidade. “O que esse movimento burla é a essencialização da diferença dentro das duas oposições mútuas ou/ou. O que ele faz é deslocar-nos para um novo tipo de posição cultural, uma lógica diferente da diferença” (HALL, 2011, p. 326). Ao se discutir a hibridação das culturas pós-modernas, com ênfase na potência das culturas subalternas, destaca-se a seguir o papel do consumo e das tecnologias digitais nos processos de identidade cultural e acesso a bens simbólicos de grupos sociais periféricos. As reflexões apontam os riscos de que a cultura seja apropriada para fins políticos, sociais e sobretudo para o desenvolvimento econômico, subjugando grupos culturais às diretrizes do mercado. Entre os quatro aspectos que descrevem a trajetória do desenvolvimento cultural – histórico-territorial, cultura de elites, comunicação de massa e sistemas de informação e comunicação –, este último ganha cada vez mais relevância, uma vez que os jovens têm no referencial tecnológico o principal meio para a manifestação de comportamentos e troca de experiências. Nesse aspecto, as formas heterogêneas de pertencimento a uma cultura esbarram nas práticas de consumo. Ao ir além de uma visão preconcebida do consumo, ligada apenas à geração de produtos pela força de trabalho, Canclini (1999) afirma que, na modernidade, o conceito também abrange os processos de comunicação e recepção de bens simbólicos. Algumas correntes da antropologia dão ênfase, por exemplo, à interação entre produtores e consumidores e entre emissores e 33 receptores. O autor reconhece as críticas ao consumismo – que desconectaria cidadãos de condições equânimes – e a desigualdade. No entanto, ele acredita que a expansão das comunicações e do consumo gera lutas sociais, mesmo em grupos marginais. Nessa perspectiva, o consumo ocupa o lugar da diferenciação e distinção entre as classes e os grupos e chama a atenção para seus aspectos simbólicos e estéticos. A racionalidade das relações sociais se constrói não mais na luta pelos meios de produção, mas disputando signos de distinção simbólica. A ideia do consumo passa a estar na necessidade que se tem de se integrar ao outro, para realizar desejos e pensar o papel de cada sujeito no mundo. Os componentes culturais híbridos presentes nos grupos sociais fazem com que o conflito e a negociação sejam fundamentais para a interação de classes. O ato de negociar está presente na subjetividade coletiva e se acentua nas sociedades contemporâneas pelas complexas interações entre o tradicional e o moderno, o popular e o culto, o subalterno e o hegemônico. Em muitos casos, se não há uma negociação racional ou crítica, pode haver o simulacro de um consenso. Para ascenderem à condição de cidadãos, é importante que os consumidores sejam guiados por uma ação política. Para isso, é necessária uma ampla oferta de bens e mensagens, de acesso fácil a todos, uma informação multidirecional e confiável sobre a qualidade dos produtos – cujo controle seja feito pelos consumidores – e, principalmente, a participação democrática da sociedade civil de ordem material, simbólica, jurídica e política em que se organizam os consumos. Em decorrência do controle da economia material e simbólica por parte das empresas, cujas privatizações reduziram e empobreceram a oferta cultural, Canclini propõe a retomada do público para convergir consumo e cidadania: Só através da reconquista criativa dos espaços públicos, do interesse pelo público, o consumo poderá ser um lugar de valor cognitivo, útil para pensar e agir significativa e renovadoramente na vida social. Vincular o consumo com a cidadania requer ensaiar um reposicionamento do mercado na sociedade, tentar a reconquista imaginativa dos espaços públicos, do interesse pelo público. Assim o consumo se mostrará como um lugar de valor cognitivo, útil para pensar e atuar significativa e renovadoramente, na vida social (CANCLINI, 1999, p. 92). A globalização e seus mercados transnacionais atingem um número cada vez maior de setores, e a cultura não deixou de sofrer suas consequências. Aliás, esse cenário trouxe um novo 34 desafio para que as culturas pudessem resistir às influências alheias, muitas vezes de olho no seu potencial enquanto produto de alto valor agregado e alvo de investimentos por parte da indústria da cultura de massa, patrimônio e turismo. Para essas indústrias, a cultura é, segundo Yúdice (2006), mais do que mercadoria. Ela é absorvida por uma racionalidade econômica, de tal forma que o gerenciamento, a conservação, o acesso, a distribuição e o investimento se tornam prioritários. O autor cita a “alta cultura” vista como elemento para o desenvolvimento urbano – a exemplo de tantos museus, centros culturais e monumentos criados para atrair investimentos em áreas consideradas “deterioradas” da cidade. Além disso, a culinária e os rituais simbólicos de uma determinada região são explorados pelo turismo, sem falar na indústria da cultura de massa e do entretenimento, que cada vez contribuem mais para o Produto Nacional Bruto (PNB) estadunidense. Numa época de esvaziamento do discurso político e de crise financeira internacional, não raro a instrumentalização da cultura e da arte é mencionada como uma das principais vias para a melhoria das condições sociais, geração de empregos, tolerância multicultural, o que, na verdade, se traduz em oportunidades de crescimento econômico. Para Yúdice, o papel de mercadoria conferido à cultura se deve em parte à redução da subvenção estatal direta de todos os serviços sociais, inclusive da cultura, o que requer uma nova estratégia de legitimação na era pós-Ford e pós-direitos civis nos Estados Unidos. O Banco Mundial considera a cultura uma “visão holística de desenvolvimento” para afugentar a “desagregação social” e “manter a autoestima”. Os argumentos do Banco Mundial são eufemismos para que Estado e mercado lancem mão de mais uma área destinada ao desenvolvimento econômico. Dessa forma, a cultura se torna alvo de um mercado de compra e venda de produtos e é incluída como área propícia à exploração comercial de grandes corporações. Além disso, grupos culturais são explorados por gerenciadores e induzidos a prover experiências e simular manifestações que normalmente acontecem de forma natural e de acordo com seu contexto social. Na esteira de se pensar a cultura como solução para questões de âmbito político, econômico e social, a “economia criativa” traz, sob a perspectiva do multiculturalismo e do protagonismo de jovens artistas, a criação de projetos inovadores em diversas áreas – moda, arte, design, arquitetura –, mas que encobre sua principal função de desenvolvimento do capital. 35 “Alguns até defendem que a cultura se transformou na própria lógica do capitalismo contemporâneo” (YÚDICE, 2006, p. 35). Para Yúdice, a culturalização da economia é feita com base na mobilização, controle e gerenciamento das populações marginais, que oferecem sua criatividade e práticas simbólicas para alimentar as indústrias culturais locais, num misto de cultura enquanto práticas vernáculas, noções de comunidade e desenvolvimento econômico. Dessa maneira, as expressões culturais perdem sua essência e ficam subjugadas às diretrizes do mercado, que as utilizam como produto de exploração econômica. O Estado também acaba contribuindo para esse processo, uma vez que cerceia o direto ao uso do espaço público e impede que manifestações culturais alternativas aconteçam na cidade. Entre os desafios do Duelo de MCs está o de se manter como um encontro de hip-hop independente na cena cultural de Belo Horizonte, sem o patrocínio de empresas e, assim, garantir seus valores, olhar crítico e o embate com outras culturas. Há também o desafio de reverter os obstáculos impostos pelo poder público – como alvarás e licenças de funcionamento – para que a ocupação aconteça de forma espontânea. Ao reforçar a conveniência do uso da cultura como recurso para outros fins, Yúdice lança mão do termo “performatividade”, “que se refere aos processos pelos quais identidades e entidades de realidade social são constituídas pelas repetidas aproximações dos modelos” (YÚDICE, 2006, p. 53). Nesse sentido, à medida que a globalização permite o encontro entre culturas diferentes, há o questionamento das normas, o que pode induzir à performatividade. A interface entre o sujeito e a sociedade, alimentada por forças performativas que produzem as diferenças individuais, cria possibilidades de mudança de comportamento, fazendo com que o limite entre o “dentro” e o “fora” do que vem sendo culturalmente estabelecido se torne frágil e facilmente transposto. Com a convergência entre a utilização do trabalho de produtores e o desejo de consumidores, torna-se fácil a compra e venda de experiências e artefatos culturais. Ao aderirem à performatividade, grupos culturais se tornam vulneráveis e propensos a abandonar as características que os fazem diferentes. Assim, se tornam reféns do mercado, que dita as regras que devem seguir e molda suas práticas. No caso do Duelo de MCs, após seis anos de encontros semanais sob o Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte, os organizadores seguem 36 com o intuito de serem independentes. Após a recusa de patrocínios, por não terem tido a certeza de autonomia, buscam alternativas de sobrevivência em editais públicos de fomento à cultura, apoio de Organizações Não Governamentais (ONGs) e parceria com outros grupos. Nos países do Sul, em que isso acontece com mais frequência, inclusive pela vulnerabilidade de algumas populações, artistas e intelectuais – normalmente alijados das tomadas de decisão – são submetidos à expropriação de seu trabalho. Sob o ponto de vista de quem as promove, essas iniciativas são consideradas positivas, uma vez que conseguem representar a idealização da cultura nacional e traz solidez a setores como o comércio e o turismo. Em decorrência dos efeitos negativos que a globalização trouxe para a cultura, Yúdice ressalta a importância da cidadania cultural. Ele sustenta o conceito a partir de uma visão igualitária pluralista ou relativista – em que a cultura é percebida como o substrato para a comunhão entre os cidadãos, cada um à sua maneira –, por meio da qual diferentes culturas têm parcelas iguais na constituição da sociedade e são expressões de uma forma de humanidade: ...a cidadania cultural implica que grupos unidos por certos aspectos sociais, culturais e/ou físicos não deveriam ser excluídos da participação nas esferas públicas de determinada constituição política com base naqueles aspectos ou características. (...), a cultura serve de base ou garantia para fazer “reivindicações de direitos no terreno público” (Rosaldo, 1997: 36). Uma vez que a cultura é o que “cria o espaço onde as pessoas se ‘sentem seguras’ e ‘em casa’, onde elas se sentem como pertinentes e partícipes de um grupo”, de acordo com essa perspectiva, ela é condição necessária para a formação da cidadania (Flores; Benmayor, 1997:15) (YÚDICE, 2006, p. 42-43). Nesse aspecto, a promoção da democracia por parte das esferas públicas deve ser, de antemão, pautada pelas diferenças culturais. Ou seja, o conteúdo da cultura deve ter mais importância do que sua utilidade como garantia de direitos e inclusão social. E os conflitos entre grupos culturalmente diferenciados, portanto, não deve acontecer por meio de uma competição acerca de territórios, recursos ou empregos, mas pelo viés cultural. Nos últimos anos, a transição do Estado do bem-estar social para o Estado neoliberal trouxe mudanças na percepção dos direitos da cidadania: entre elas, nota-se sua dimensão social conforme carências grupais, seus desejos e seu imaginário. Sendo assim, a cidadania cultural se torna um desdobramento desses direitos, de acordo com o autor, seja pelo aumento na imigração, pelos meios eletrônicos ou pelo mercado pós-massa. 37 No entanto, as adaptações ao novo contexto social trazem novos desafios. Com o movimento conservador para impedir o acesso aos direitos, cuja estrutura legal se refere a indivíduos, a transferência deles para grupos precisa acontecer no terreno das experiências em torno das quais eles constituem sua identidade. Dessa forma, elas acontecem, por exemplo, na língua, para minorias étnicas, e na sexualidade para gays e lésbicas. Mas as vantagens de uma virada cultural para a cidadania ainda são um desafio para as aspirações de uma cidadania global – orientada em relação aos direitos humanos, à democracia das bases, à reforma ambiental e às identidades locais –, tendo em vista as políticas para um consumo frenético. Apesar de, na ponta de todo o processo, serem exploradas e se tornarem as que mais perdem no uso da cultura como recurso para fins sociais, políticos e econômicos, as comunidades locais se organizam enquanto sociedade civil e renegociam o papel do Estado e os diversos setores. O domínio do neoliberalismo contribui para o acirramento dessas reivindicações, sobretudo na exigência de políticas que possam fortalecer os direitos civis, políticos e sociais. Com a crise dos partidos e do processo político institucionalizado, as inovações no campo originam-se das mãos de movimentos sociais e ONGs, nacionais ou internacionais. Esses atores reconhecem o uso da cultura para exploração capitalista, mas reafirmam seu reconhecimento como fonte de resistência. Com a presença de um Estado cada vez mais a serviço do mercado – no caso do setor cultural, com mecanismos de financiamento de projetos públicos pela iniciativa privada, a exemplo das leis de incentivo –, os grupos culturais vêm estabelecendo parcerias e recebendo apoio de grupos do terceiro setor. Além de ONGs brasileiras, que muitas vezes contribuem com serviços de produção e divulgação, há a presença de ONGs e agências de cooperação internacional de outros países, bem como de organismos internacionais, que promovem o financiamento de projetos. Yúdice explica que a cultura é definida como a luta pelo significado e que não é propriedade de ninguém nem de grupo algum, trata-se de um processo estratificado de embates. Para tanto, é preciso reconhecer a autonomia de quem está inserido nela. E mesmo as políticas neoliberais e a difusão das novas tecnologias por parte da globalização se tornaram fonte de inspiração para uma reação por parte da sociedade civil. 38 A seguir, destaca-se o papel dos movimentos culturais, especialmente daqueles formados por jovens, na criação de vias alternativas para a participação social, pertencimento e luta pela cidadania. Ao mobilizarem sujeitos que reafirmam sua identidade cultural e se recusam a aceitar os modelos hegemônicos propostos, exigem a responsabilidade estatal na criação de políticas públicas que garantam a proteção das expressões culturais. 2.1 MOVIMENTOS CULTURAIS O direito à cultura tem sido uma das grandes conquistas dos movimentos sociais nos últimos anos. Apesar do avanço das indústrias culturais e do processo de marginalização como consequência das políticas neoliberais, esses grupos, especialmente da juventude, têm se organizado para reivindicar questões relativas à produção, disseminação e fruição de suas práticas culturais. Assim como na maioria dos países, a globalização provocou grandes mudanças nos movimentos culturais na América Latina e os tornou transculturais e híbridos. Seja pela diferenciação nos modos de produção, pela segmentação dos mercados de consumo cultural ou pela expansão da indústria cultural, eles expandiram suas fontes de influência, o que inevitavelmente repercutiu em suas formas de expressão. Para que garantam espaços de reafirmação de suas identidades, especialmente os grupos culturais periféricos, é importante que tenham apoio em iniciativas de empoderamento e autonomia. Ao discorrer sobre as classes subalternas, Spivak (2010) diz que a relação entre o capitalismo global, representado pela exploração econômica, e as alianças dos Estados-nação, que exercem a dominação geopolítica, é macrológica e não pode ser responsável pela textura micrológica do poder. As teorias da ideologia e a formação dos sujeitos são micrológicas, ainda que muitas vezes reforcem macrologias. A autora remete a Foucault, em que tornar visível o que não é visto pode significar avanços para o processo de reconhecimento das micrologias subalternas. “Para o ‘verdadeiro’ 39 grupo subalterno, cuja identidade é a sua diferença, pode-se afirmar que não há nenhum sujeito subalterno irrepresentável que possa saber e falar por si mesmo” (SPIVAK, 2010, p. 60- 61). Yúdice (2006) cita o caso do Viva Rio, no Rio de Janeiro, que abarcou vários estratos sociais e focou sua atuação nas áreas desassistidas pelo Estado neoliberal, sobretudo no cruzamento de questões ligadas às classes média e baixa. O movimento também provocou a valorização do funk como uma das características culturais mais importantes da cidade. Sobre a diferença de se categorizar a identidade, exposta num encontro internacional de grupos indígenas nos Estados Unidos, com representantes de mais de 25 comunidades latino- americanas – o que possibilitou a expansão do conceito de indígena americano –, alguns grupos consideraram que a participação, e não a identidade, seria a forma de se determinar o pertencimento, e que não se tratava de uma questão de sangue ou de raça. Para eles, trata-se do conjunto de suposições, pressupostos, crenças, mitos, valores, experiências e laços, definidos pelos pesquisadores como o “território do significado”. A identidade nacional brasileira é alvo de críticas dos movimentos de rap da juventude negra, tecidas no campo político, cultural e racial. A partir de suas letras de música, sejam de funk ou rap, jogam por terra o estereótipo do Brasil idealizado como local de harmonia entre vários grupos étnicos e propõem a autonomia de múltiplas identidades locais, construídas por vários grupos sociais. Como espaço de representação de uma identidade híbrida, construída a partir da construção social da juventude negra periférica belo-horizontina, com o culto a um estilo musical afro-americano e que traz em suas letras a realidade de conflito social vivida por esses jovens no Brasil, o Duelo de MCs traz à tona uma identidade brasileira repertoriada por influências plurais, distante dos ideais de nação anteriormente pregados. Ao evidenciarem sua cultura nas letras que criam, seja em batalhas entre MCs ou pocket shows, reafirmam sua identidade como brasileiros. No entanto, essa heterogeneidade de perfis sociais não se traduziu na livre circulação pelos espaços das grandes metrópoles mundiais. O território se apresenta dividido e, nesse contexto, as populações economicamente pobres se tornam prisioneiras em suas próprias vizinhanças. Em muitos casos, o Estado detém aqueles que atravessam áreas que “não lhes pertencem”, expurgando aqueles desprovidos de “direito” em prol dos que acessam a “cidadania”. 40 O pânico da classe média, criado pelos meios de comunicação com as imagens dos arrastões pelas praias cariocas, sobretudo a partir de meados da década de 1980, trouxe reação das juventudes populares, que, por intermédio dos movimentos de funk e hip-hop, buscaram transmitir sua mensagem ideológica contra o racismo, que inclusive tinha a cumplicidade do Estado. Dessa forma, se colocaram no centro do debate da esfera pública sobre cultura, exigindo que as autoridades revissem seu papel enquanto representantes da coletividade e comunicando um novo sentido de cidadania, pertencimento e participação. Yúdice reforça o papel da juventude brasileira como vetor de múltiplas manifestações culturais. O autor cita jovens com diferentes perfis, como rappers politizados, caras-pintadas que celebraram o triunfo democrático sobre o presidente Collor, surfistas, funkeiros, metaleiros, punks, motoqueiros, neo-hippies, neonazistas, nacionalistas, muçulmanos negros, rastafáris, jovens que cultivam a música e as práticas culturais da diáspora africana, entre outros. Portanto, é pelo viés da cultura que os jovens brasileiros criam seu próprio espaço de participação social e dão notoriedade a reivindicações e denúncias de violação de direitos. Ao se mobilizarem e estabelecerem uma pertença coletiva a partir de uma identidade cultural comum, compartilham ideais e buscam a conquista de direitos. Para integrantes e simpatizantes do Duelo de MCs, a cultura hip-hop cria a possibilidade de vínculo e compartilhamento de experiências entre os sujeitos. Além disso, estabelecem um espaço de discussão política sobre o direito à cidade, o papel do Estado em promover serviços públicos de qualidade e a conquista da cidadania. Em menor escala que os movimentos culturais, os coletivos culturais vêm crescendo no país. Ao criarem projetos comuns e compartilharem valores e ideais profissionais e pessoais, artistas vêm se juntando em coletivos e construindo em conjunto uma concepção artística de grupo. Especialmente presentes nas áreas de música e teatro, também são observados na dança, no cinema, na literatura, no jornalismo. Em relação ao trabalho, se organizam de forma desierarquizada e atuam de modo colaborativo. Inseridos nos Novos Movimentos Sociais (NMSs), os coletivos culturais vislumbram, segundo Downing (2001), avanços que “em grande medida, independem do que o Estado pode conceder – objetivos que guardam uma relação muito mais próxima com um senso de crescimento e identidade pessoais em interação com a subcultura do movimento” (DOWNING, 2001, p. 57). 41 No caso do hip-hop, por se tratar de uma expressão cultural de favelas e outras áreas periféricas da cidade, muitos coletivos de rap são formados a partir do convívio entre amigos ou vizinhos de bairro. Em muitos casos, grupos se formam e se desfazem no próprio bairro, sem se tornarem conhecidos (DAYRELL, 2005). Yúdice (2006) questiona a sobrevivência dos movimentos sociais, considerados uma esperança para uma sociedade civil que não se identifica com o capitalismo consumista. Com atuação à parte do Estado e por não participarem da política eleitoral, correm o risco de se tornarem marginais, condenados à desintegração e à extinção quando cessarem as razões que os fizeram emergir. Ademais, ao se tornarem os principais representantes das demandas da sociedade civil e justificarem a ausência dela, se encaixam na maneira pela qual as elites tentam eximir o Estado de suas obrigações e responsabilidades. Portanto, ao se institucionalizarem, precisam manter a constante tensão com o Estado, com a legalidade, com o mercado e com as entidades transnacionais. Sendo assim, ONGs e movimentos sociais devem considerar que, dentro de sua estratégia de levar adiante ações que reconheçam os direitos de uma população tradicionalmente marginalizada, é preciso o envolvimento do Estado, polícia, organizações de direitos humanos, comércio, mídia, organismos internacionais, entre outros setores envolvidos. “O reconhecimento da diversidade não pode substituir a responsabilidade estatal nem a implicação dos setores do mercado, não pode ser um mero substituto” (YÚDICE, 2006, p. 259). Dessa forma, o Duelo de MCs torna-se um dos principais movimentos contemporâneos de luta por cidadania por parte de grupos sociais periféricos de Belo Horizonte. Como espaço de resistência cultural e de reflexão política sobre a cidade e os direitos da população, põe em xeque o papel do Estado, que deve cumprir sua função de criar políticas públicas que deem conta da pluralidade das manifestações culturais e das demandas de grupos sociais subalternos. A seguir, discute-se a importância de se criar políticas públicas de cidadania cultural que reconheçam o direito à cultura no Brasil e possibilitem a criação de novos espaços de significação e de pertença coletiva a grupos sociais, especialmente aqueles historicamente marginalizados e oriundos de áreas periféricas, como vilas e favelas. Para isso, destaca-se o conceito de cidadania cultural de Chauí (2006) e o valor de políticas culturais que promovem a participação solidária, o protagonismo e o empoderamento social. 42 2.2 CIDADANIA CULTURAL NO BRASIL Para que haja a legitimação das práticas culturais de artistas independentes, muitas vezes marginalizados e fora do circuito comercial das indústrias culturais, como é o caso do Duelo de MCs, o Estado brasileiro precisa adotar políticas públicas que abarquem a pluralidade de manifestações culturais do país e adotem o conceito antropológico de cultura em suas diretrizes. Dessa forma, são criadas políticas em prol da cidadania cultural, ou seja, de autenticação do direito à cultura e seu reconhecimento como trabalho de criação. Ao discorrer sobre a cidadania cultural, Chauí (2006) faz referência ao nacional-popular em Gramsci. Nacional pelo resgate de uma tradição não trabalhada ou manipulada pela classe dominante, popular pela expressão da consciência e do sentimento populares, feita por quem se identifica com o povo. É o caso de um intelectual ou de um artista que apresenta ideias, situações, sentimentos e anseios universais, em que há a possibilidade de o povo reconhecê-lo, compreendê- lo e se identificar com ele. Ou seja, o popular na cultura em Gramsci traz uma coincidência na interpretação pelo intelectual, artista e povo. Ao mencionar o conceito de hegemonia em Gramsci, Chauí (2006) diz que a hegemonia é um conjunto complexo de determinações contraditórias de ideias, crenças e valores que pode ser renovado ou entrar em crise. Como cultura – na ampliação do conceito de Gramsci, que não se restringe à direção política –, a hegemonia determina o modo como os sujeitos representam a si mesmos e aos outros, o espaço, o tempo, a liberdade, o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, o trabalho, as instituições sociais, a política. Por estar sujeita a pressões e mudanças, propicia uma contra-hegemonia que resiste à interiorização da cultura dominante. No entanto, no modo de produção capitalista, em que o sujeito é o capital e as classes sociais seus suportes, entidades como o cidadão, o homem e ideias como igualdade, liberdade e justiça são abstrações, por não possuírem base concreta, e afirmar sua existência seria dissimular ou ocultar a realidade. Dessa forma, torna-se fundamental que o Estado crie condições para que essas entidades passem a fazer parte do real e sejam opções na vida dos sujeitos. Portanto, dentro da concepção de cidadania cultural – “a cultura como direito dos cidadãos e como trabalho de criação” (CHAUÍ, 2006, p. 67) –, a autora destaca a importância de 43 os órgãos estatais retomarem a concepção antropológica de cultura como prática social que institui um campo de símbolos, valores e comportamentos, levando em consideração as diferenças observadas no interior da sociedade, em decorrência da pluralidade de grupos e movimentos sociais. Dessa forma, o Estado passa a atuar não mais como produtor da cultura, mas como produto dela. Ao reafirmar a importância de políticas culturais voltadas para a cidadania cultural, Chauí recusa três concepções de política que, nos últimos anos, se consolidaram nos órgãos de cultura do país: a da cultura oficial produzida pelo Estado, a populista e a neoliberal. No caso da neoliberal, que fincou raízes desde os anos 1980, o Estado na cultura é mínimo. “Enfatiza apenas o cargo estatal com o patrimônio histórico enquanto monumentalidade oficial celebrativa do próprio Estado” (CHAUÍ, 2006, p. 66). Os órgãos públicos seguem os padrões definidos pela indústria cultural e seu mercado. Aliás, veem a iniciativa privada como grande parceira das atividades culturais. Compram serviços de empresas que administram a cultura a partir de critérios do mercado, reforçando o privilégio de uns em detrimento da exclusão de outros. “Expressa-se pelo efêmero, liga-se ao mercado de consumo da moda, dedica-se aos espetáculos enquanto eventos sem raiz e proliferação de imagens para consagração do consagrado e volta-se para os aspectos intimistas da vida privada, isto é, para o narcisismo” (CHAUÍ, 2006, p. 68). Como política cultural que reconheça o direito dos cidadãos e trabalhe na criação de sujeitos culturais, que promova o espaço de encontro para aqueles que desejam fruir os bens culturais e descobrir suas capacidades como criadores de símbolos, Chauí concebe a cultura do ponto de vista da cidadania cultural. Trata-se, portanto, de uma alternativa às três concepções de política cultural: aquela que destina ao Estado o papel de assegurador público de direitos, patrocinador de iniciativas organizadas pela própria sociedade civil – abrindo-se para o conflito e mudanças – e que garanta direitos, elimine privilégios e faça cumprir a função daquilo que é público. Sendo assim, a política cultural é vista como acesso a direitos, principalmente daqueles que têm sido excluídos do direito à cultura, como os trabalhadores, considerados meros receptores de ideias, normas e valores. Para artistas e outros criadores experimentais nas artes, técnicas, ciências e práticas socioculturais, deixam de ser censurados e discriminados e também 44 têm garantidos seus direitos culturais. A cidadania cultural garantiria o direito à informação, à participação, à fruição e à produção cultural. Canclini (1999) afirma que uma política pública voltada para a cidadania precisa entender a heterogeneidade como base para uma pluralidade democrática. No caso da cidade, é preciso entender as especificidades de cada região para adotar ações sociais diferenciadas que contemplem o universo social de cada espaço. O potencial das indústrias culturais pode ser usado em prol da cidadania na medida em que reconstrói um imaginário comum para as experiências urbanas, pautado pelo enraizamento territorial, a participação solidária na informação e o desenvolvimento cultural proporcionado pelos meios de comunicação de massa. Nesse contexto, a cultura também serve como fomentadora das relações sociais e trocas entre cidadãos, refutando a divisão dicotômica da cidade entre “centro” e “periferia”. A proposta é abandonar os estigmas socioculturais, promover a cultura política e criar conexões entre a experimentação e a resistência das culturais populares com o restante da cultura na cidade. Um dos pilares para sustentação dessa política é o estímulo à participação cidadã e o compartilhamento das tomadas de decisão. Para isso, é importante que a sociedade civil crie núcleos e fóruns regionais de cultura independentes do poder público e seja capaz de intervir na política cultural. Portanto, o poder está espalhado também pelo social, e um dos locais onde ele é exercido é o governo, mas não só nele. Dessa maneira, os conceitos de participação e de poder trazem consigo a ideia de descentralização do poder como democratização das decisões políticas, de sorte que a sociedade seja capaz de criar múltiplos lugares e focos de poder que são concorrentes, concomitantes, divergentes, conflitantes, antagônicos, contraditórios e, com frequência, convergentes (CHAUÍ, 2006, p. 147). É a partir do conflito e da divergência que o Duelo de MCs se estabelece como ponto de questionamento das políticas públicas na cidade, uma vez que a gestão pública não compartilha a tomada de decisões e muitas vezes impõe entraves para a manifestações culturais espontâneas na cidade. Diante de poucas possibilidades de apoio do Estado, o Duelo cria um espaço independente, alimentado pela articulação entre grupos e coletivos artísticos e fomentando cadeias produtivas independentes. 45 Longe do intervencionismo estatal e da homogeneização do mercado, Canclini (1999) sugere uma terceira opção de política pública que favoreça o desenvolvimento cultural democrático e a representação de múltiplas identidades a partir de iniciativas da sociedade civil. São movimentos sociais, grupos artísticos, televisões independentes, sindicatos, agrupamentos étnicos, associações de consumidores e telespectadores, entre outros. Conceber a cultura como um processo de criação, ou seja, como trabalho, é encará-la como instituição social e, como tal, determinada pelas condições materiais de sua realização, bem como pela imaginação, reflexão, experiência e debate. Como trabalho, a cultura promove mudanças, abre possibilidades para o novo e é ofertada como insumo para transformações por parte dos sujeitos sociais, que usam sua inteligência e sensibilidade para a elaboração de algo original, novo e único. Turino (2009) diz que a questão da cultura na construção de um novo espaço público envolve a quebra de hierarquias e a edificação de novas legitimidades. Uma política pública de acesso à cultura tem que ir além da oferta de espaços e produtos culturais; precisa respeitar a autonomia dos agentes sociais, fortalecer seu protagonismo e gerar empoderamento social. Trata- se de uma cultura que aproxima os diferentes para que, na essência, eles se percebam bem próximos. Uma política pautada pela cidadania cultural deve reconhecer o patrimônio histórico e cultural que serve de base para sua ação e como referência para a construção da identidade dos sujeitos. No entanto, precisa entender que o diferente, o externo, o alheio ou o desconhecido não constitui uma ameaça. Pelo contrário, é a partir dele que é possível trocar, experimentar, se libertar e se desenvolver. A cultura tem o papel decisivo de oferecer alternativas, permitir o acesso ao conhecimento, ampliar o repertório cultural e transformar. O autor fala em “Estado de baixo para cima”, o que exigiria uma grande mudança de mentalidades e valores, entre elas a de abandonar o mito de criação da cultura por parte dos gestores públicos. É preciso estabelecer um diálogo com agentes culturais no sentido de potencializar o trabalho que eles vêm realizando em suas comunidades. No lugar de “fazer para”, de importar regras rígidas, “fazer com”. No lugar de “impor”, “dispor”. 46 Dessa forma, o sujeito se apropria dos instrumentos de poder e rompe com um discurso falacioso – que atende a interesses particularistas e que se impõe como de todos – e desenvolve uma postura ativa e crítica sobre as políticas culturais. A democracia é o ambiente ideal para a prática da cultura da cidadania e é perpetuada por sua ampliação. Mais do que a garantia dos direitos civis, políticas e sociais, a cidadania também traz consigo o direito à cultura. Ou seja, a cultura política democrática também é pautada por uma democracia cultural. Entre as normativas internacionais de salvaguarda das expressões culturais e o respeito à sua heterogeneidade, estão a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, de 2002, primeiro instrumento internacional elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) destinado a promover a diversidade cultural, e a Convenção Sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, de 2005. Nos artigos 1, 2, 3, 4 e 5 da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, a Unesco destaca a diversidade cultural como uma manifestação da originalidade e pluralidade de identidades que caracterizam os grupos sociais; o pluralismo cultural como parte de um contexto democrático, que possibilita a convivência e a coesão social, além de ser fonte de desenvolvimento intelectual, afetivo e moral, e o respeito à dignidade humana e aos direitos humanos das minorias como o marco propício dos direitos culturais. Já a Convenção Sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais deixa claro, no seu artigo 1, que “a diversidade cultural somente poderá ser protegida e promovida se estiverem garantidos os direitos humanos e as liberdades fundamentais, tais como a liberdade de expressão, informação e comunicação, bem como a possibilidade dos indivíduos de escolherem expressões culturais” (UNESCO, 2006, p. 3). No artigo 5, recomenda aos Estados a implementação de políticas culturais e da adoção de medidas para a proteção e a promoção da diversidade das expressões culturais. Sobre a participação da sociedade civil, o artigo 11 destaca seu papel na proteção e promoção da diversidade das expressões culturais. Portanto, movimentos culturais com o Duelo de MCs podem ser apoiados e potencializados por políticas públicas que os reconheçam e os empoderem enquanto sujeitos sociais. Assim, o poder público age como um parceiro para o desenvolvimento cultural, num ambiente de democracia e participação cidadã. 47 Ademais, é importante que governos adotem as normativas internacionais estabelecidas pela Unesco, uma vez que a proteção e promoção da diversidade cultural reafirmam a identidade cultural de grupos sociais, criam a possibilidade de trocas simbólicas entre eles, provocam a autovalorização dos sujeitos e geram renda e novas perspectivas de vida aos envolvidos. No contexto das culturas pós-modernas e das políticas de cidadania cultural, a apropriação da informação torna-se fundamental para a autonomia de grupos sociais periféricos e a criação de novos confrontos simbólicos na cidade. Assim, o subcapítulo a seguir discute a informação e seu uso na cultura digital. 2.3 INFORMAÇÃO E CULTURA DIGITAL A informação, enquanto fenômeno social, é um dos principais substratos para a construção do real e se torna um importante instrumento de empoderamento dos sujeitos. Um dos grandes desafios do mundo contemporâneo é o de democratizá-la e permitir que o acesso a ela seja para todos. Dessa forma, cria-se condições para transformações sociais e a vivência da cidadania. Ao instaurarem o processo de construção social da informação, jovens do Duelo de MCs criam novas formas de inserção social e ressignificam o olhar sobre a juventude negra periférica. De acordo com Reis (1999), a informação é peça fundamental na internalização e compreensão da realidade, o que exige de quem a recebe um processo de crítica e reflexão, transformando-a em conhecimento. Para isso, é preciso um exercício de confrontação das informações por parte dos sujeitos e análise da historicidade dos processos sociais. Portanto, a informação é concebida da seguinte forma: Informação – substrato da vida social, fundamental à compreensão dos fenômenos, requerendo daquele que a recebe submetê-la a um processo de análise, crítica e reflexão, para que, inserindo-o na historicidade dos processos sociais, possa ser incorporada como conhecimento, norteando a ação (REIS, 1999, p.155). 48 No caso do Duelo de MCs, é a informação, transmitida por meio dos versos criados pelos MCs, que os permite marcar um posicionamento político. Ela materializa e dá sentido ao discurso definido pelo grupo, que, a partir do processo de formação da cultura informacional vivida por eles, apresenta uma alternativa àquilo que é colocado como a única versão possível sobre a realidade. Sob o ponto de vista da semiótica peirceana, Ziller e Moura (2010) afirmam que a informação pode ser considerada um signo que representa algo para alguém, na medida em que ela faz a mediação entre a realidade e a percepção de mundo dos sujeitos. A partir de seu caráter semiósico, podem ser feitas categorizações e interpretações – o que caracteriza a produção de sentido que advém da relação entre signo, objeto e interpretante –, processo que contribui para a formação do conhecimento. Dessa forma, as autoras propõem um alargamento da ideia de informação, decorrente da noção de conhecimento. Ou seja, se a informação identifica-se como representante do real, ela não está presa apenas ao conhecimento científico, mas pode estar ligada às inúmeras possibilidades de inferências dos sujeitos no mundo concreto em que está inserido. Além disso, traz a ideia da informação como processo em constante transformação. A informação, assim, será vista aqui como um signo envolvido no processo de conhecimento, na apropriação simbólica da realidade pelo homem. Como signo, a informação, ao representar seu objeto a um intérprete, encontra um estado de conhecimento anterior, se molda ao contexto de significação, tomado aqui como a capacidade múltipla de representar o objeto e à concepção semiósica da virtual mente interpretadora. Assim, dentre as possibilidades de representação, uma delas consuma o processo de significação, dando prosseguimento à cadeia semiósica – e, nesse ponto, como já dissemos, são relevantes tanto a historicidade da cadeia semiósica e a observação colateral quanto o contexto de contato com a representação (ZILLER; MOURA, 2010, p. 333). Portanto, a partir de um recorte amplo sobre a noção de informação e de conhecimento, que abrange formas não acadêmicas do conhecimento, como as oriundas do senso comum, o Duelo de MCs é exemplo de um espaço de construção de informações com seus respectivos significados, que se desdobram em interpretações e questionamentos, os quais obedecem à relação entre a realidade e a experiência colateral e a inserção sociocultural dos sujeitos. 49 As batalhas entre os MCs sob o Viaduto Santa Tereza trazem uma informação que traduz a visão de mundo que eles têm sobre a realidade. Ao denunciarem a privação de direitos que sofrem, a omissão do Estado em áreas periféricas e o desejo de ocupar o espaço público, escancaram para toda a cidade suas representações sobre o real. Dessa forma, contribuem para a produção de um conhecimento sem cortes e manipulações e ressignificam o discurso hegemônico, que traz um olhar distorcido e não dá chance a outros vieses. Portanto, a informação difundida pelo Duelo de MCs pode ser considerada instrumento de democratização e cidadania. Na medida em que insere os sujeitos no âmbito da cultura e provoca questionamentos sobre a construção de um discurso conservador e excludente, elucida para o público as vias alternativas para alcançar a transformação social. A cultura informacional dos sujeitos é formada com base nas informações que compõem o repertório intelectual que desenvolvem ao longo da vida. Portanto, ao se tornar suporte para a difusão do conhecimento por um grupo social composto majoritariamente por sujeitos de áreas periféricas e alijados das discussões sobre a cidade, como é o caso dos MCs e seu público, essa cultura informacional ocasiona a relativa perda do monopólio do saber e do poder da fala autorizada, seja da administração pública ou de tradicionais formadores de opinião. Dessa forma, a partir do processo de formação da cultura informacional experimentada pelos MCs – com o acesso e uso da informação presente nos livros, discos, jornais, revistas, internet etc. ou mesmo no compartilhamento de experiências entre eles e na leitura que fazem sobre a cidade –, ela se torna elemento para a produção do conhecimento e de uma visão crítica de mundo, e, sob a abordagem cidadã proposta pela autora, é um instrumento de ampliação das possibilidades de exercício dos direitos. Nos processos de mediação sociocultural, a informação é alvo de disputas discursivas. O termo “mediação”, de acordo com Russ (1994), vem do latim mediatione – que designa originalmente intervenção humana entre duas partes, ação de dividir em dois ou estar no meio – e tomado por diferentes perspectivas, indica ideias de interveniência, relação, conjugação, religação, ponte ou elo estabelecido nas relações humanas. A interação se torna a via de transmissão dos sentidos sociais, pelos quais os sujeitos significam a realidade e se posicionam diante dela, conforme assinala Velho (2001): 50 Num contínuo processo de negociação da realidade, escolhas são feitas tendo como referência sistemas simbólicos, crenças e valores, em torno de interesses e objetivos materiais e imateriais dos mais variados tipos. A mediação é uma ação social permanente, nem sempre óbvia, que está presente nos mais variados níveis e processos interativos (VELHO, 2001, p. 10). Thompson (1999) ressalta que a força do espaço mediador está na capacidade de intermediar conflitos a partir da análise, crítica e julgamento. Esse espaço de diálogo, necessário para expressão e existência dos grupos sociais, é disputado por todos, porém, não é ocupado de forma igual. Portanto, não se trata de um espaço neutro ou acolhedor, mas um campo de luta razoavelmente civilizado, com obstáculos, conquistas, impedimentos e controles. ...o momento da mediação é o momento em que se abandonam os espelhos que servem para admirar a beleza da imagem do ator no palco da vida; é um momento de ampliar a capacidade de visão, que não pode mais ficar subjugada aos olhos irados, provenientes das injustiças ou da insanidade das condições humanas e ambientais. É necessário duplicar a capacidade de visão e buscar olhares exteriores ao conflito, capazes de serem tolerantes e de estabelecerem o diálogo com o outro, o diferente, o inimigo (THOMPSON, 1999, p. 6). Dessa forma, o fluxo de informações que acontece durante o Duelo de MCs traz à tona um discurso contra-hegemônico que representa a maioria dos sujeitos ali presentes. Seja pela letra das músicas, rimas improvisadas pelos MCs ou mensagens passadas pela organização ao longo do encontro, demarca-se o território de um grupo social por meio de valores, ideias e significações próprios, criados a partir de uma visão de mundo particular. Nesse caso, traz o olhar de quem vive nos subúrbios e nas favelas e revela, no Centro da cidade, suas questões e demandas. No contexto em que as articulações das coletividades são feitas com base no uso da linguagem e de símbolos antagônicos, a informação é, segundo Reis e Martins (2011), um importante recurso simbólico a conferir a esses sujeitos a nomeação das diferenças que os assinalam e, assim, possibilitar a inscrição discursiva de suas identidades e demandas ao poder público. Em outras palavras, a informação atua na ressignificação da realidade e na interpretação dos fatos a partir de sua visão de mundo, num processo de recusa da narrativa hegemônica. As autoras destacam a relação intrínseca que existe entre a informação e a produção de sentidos, uma vez que a informação, enquanto procedimento cultural e simbólico, intermedeia a relação do homem com o mundo na significação do real. Dessa forma, a mediação informacional 51 atua na negociação, disputa e confronto discursivos entre grupos sociais e campos histórico- culturais em conflito e contradição. Esta noção funda-se a partir do entendimento de que as relações entre mediação e informação compreendem um processo de natureza dialética, cuja apreensão requer a consideração dos múltiplos aspectos sociais, culturais e temporais que compõem as estruturas de sentidos inerentes a todo procedimento informacional (REIS; MARTINS, 2011). Como espaço de mediação sociocultural, o Duelo se configura como um local aberto para o encontro entre pessoas. A possibilidade de trocas, comunicação e o cruzamento entre diferentes universos territoriais de Belo Horizonte evidencia disputas muitas vezes conflitantes no processo de negociação de sentidos. Aliás, o conflito é iminente, pois a interação não significa uma relação pacífica ou de harmonia. De qualquer forma, todos veem no Viaduto Santa Tereza um local para a livre circulação de ideias e, sob o ponto de vista político, espaço de contestação. As relações sociais e práticas culturais na pós-modernidade também são marcadas pelo fluxo de informações na web. A cultura digital7 atua como a dimensão técnico-informacional da identidade dos sujeitos e, com a democratização do acesso às Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) – principalmente após o desenvolvimento da tecnologia em aparatos móveis –, o fluxo intermitente de informações se tornou mecanismo importante na dinâmica da interatividade. Comunidades, blogs e redes sociais na web vêm construindo uma mudança paradigmática na prática do ser social, na medida em que se tornam local para a produção de sentido a partir de uma nova concepção de espaço e de tempo. A web é caracterizada como local de novas conexões e possibilidade da pluralidade de vozes e informações. A sociabilidade é potencializada, e novos significados são incorporados aos sujeitos de maneira cada vez mais rápida. Conforme Bauman (2005), os meios digitais ampliaram os processos de produção, disseminação e compartilhamento da informação, dos quais fazem parte sujeitos informacionais heterogêneos, em espaços sociais interconectados e relativa autonomia. O processo, irreversível, traz uma revolução aos meios de comunicação de massa. Deixa-se de lado o estereótipo da 7 Para Lemos (2009), a cultura digital é a cultura marcada pelas ferramentas eletrônicas, com o digital ligado à dimensão da comunicação. São tecnologias da transformação material e energética do mundo, mas que permitem a efetiva transformação comunicativa, política, social e cultural. Uma leitura que incorpora as ressignificações sobre o ser social e seu papel no compartilhamento de informações com o outro. 52 audiência passiva, que a partir de poucos meios, recebia e automaticamente assimilava a informação, para também atuar como mediadora e emissora de informação. É no espaço digital que o usuário começa a ser, de fato, considerado interlocutor fundamental para a produção de sentido. Para Moura (2007), a tecnologia se destaca pela transformação que possibilita à vida e aos sentidos, pelo aumento na capacidade de processar informações, por permitir a ampliação do espaço sociocultural, por implementar a ideia de fluxo e, sobretudo, por possibilitar ao corpo a capacidade de circular no planeta numa perspectiva interativa. Entre as dimensões da ação da informação descritas por Gonzalez de Gomez (2000), está a semântico-discursiva, uma vez que a informação responde às condições daquilo sobre o que informa, estabelecendo relações com um universo prático-discursivo ao qual remete sua semântica ou conteúdos. Nesse sentido, é preciso usar estratégias comunicacionais, especialmente para reconstruir a produção de sentido dos sujeitos. No caso do Duelo de MCs, é a partir dos meios digitais que organizadores, MCs e público criam novos espaços de sociabilidade. Além disso, tornam-se canais de reafirmação de posicionamentos políticos que muitas vezes não foram discutidos sob o Viaduto Santa Tereza. Assim, a web cria discursos paralelos para a criação de uma narrativa própria da juventude periférica belo-horizontina. Pelo fato de que a cultura é mediada e determinada pelos meios de comunicação, Castells (2010) afirma que o novo sistema tecnológico transformará o arcabouço de crenças e códigos historicamente produzidos pelos sujeitos ao longo do tempo. Esse sistema está em processo de construção e ainda é usado de modo fragmentado, seja pelos novos canais de mídia, nos sistemas de telecomunicações ou nas redes de interação na web. No momento em que este novo sistema eletrônico de comunicação tiver alcance global – que abarque não somente as atividades dominantes, mas chegue aos principais segmentos da população –, as mudanças na cultura serão ainda mais significativas. Os efeitos na cultura se devem ao fato que nunca houve separação entre realidade e representação simbólica. De acordo com o autor, as formas de comunicação, responsáveis pelo processo de construção da cultura, são baseadas na produção e consumo de sinais. Portanto, a realidade sempre foi virtual, já que foi percebida por intermédio de símbolos com algum sentido 53 que escapa à sua definição semântica. Assim, os sistemas de comunicação, caracterizados pela integração eletrônica de todos os modos de comunicação, também contribuem para a construção da realidade. Ou seja, fazem da virtualidade a realidade. Dessa forma, a experiência multimidiática cria processos de produção de sentido para a construção da realidade dos sujeitos sociais: É um sistema que a própria realidade (ou seja, a experiência simbólica/material das pessoas) é inteiramente captada, totalmente imersa em uma composição de imagens virtuais no mundo do faz-de-conta, no qual as aparências não apenas se encontram na tela comunicadora da experiência, mas se transformam na experiência (CASTELLS, 2010, p. 459). Assim, a apropriação das novas tecnologias da informação pelos sujeitos potencializa sua função mediadora de processos sociais. Castells destaca que, ao serem controladas e terem seu uso redefinido, especialmente na web, essas tecnologias acabam se tornando uma extensão da mente humana. Dessa forma, há uma relação muito próxima entre os processos sociais de criação e manipulação de símbolos, que forma a cultura da sociedade, e a capacidade de produzir e distribuir bens e serviços. Ou seja, a mente humana deixa de ser apenas um elemento decisivo no sistema produtivo e se torna força direta de produção. A importância da multimídia na formação de um novo ambiente simbólico, marcado pela diversidade das expressões culturais, também é destacada por Castells. Ela põe fim à separação e distinção entre as culturas “popular” e “erudita” e, a partir do histórico de conteúdos, as coloca juntas, seja por meio de manifestações passadas, presentes ou futuras. O novo sistema de comunicação, baseado em rede digitalizada de múltiplos modos de comunicação, é capaz de incluir as várias formas de expressão cultural, bem como a diversidade de interesses e valores e seus conflitos sociais. Isso se deve especialmente por características como diversificação, horizontalidade, multimodalidade e versatilidade. Dessa forma, segundo o autor, há consequências para a forma e para os processos sociais. De um lado, assiste-se ao enfraquecimento do poder simbólico de alguns emissores tradicionais, transmitido por hábitos sociais como religião, moralidade, autoridade e valores tradicionais; de outro, transforma o tempo e o espaço e cria uma nova cultura atemporal, permeada por um espaço de fluxos. 54 Localidades ficam despojadas de seu sentido cultural, histórico e geográfico e reintegram-se em redes funcionais ou em colagens de imagens, ocasionando um espaço de fluxos que substitui o espaço de lugares. O tempo é apagado no novo sistema de comunicação, já que passado, presente e futuro podem ser programados para interagir entre si na mensagem. O espaço de fluxos e o tempo intemporal são as bases principais de uma nova cultura, que transcende e inclui a diversidade dos sistemas de representação historicamente transmitidos: a cultura da virtualidade real, onde o faz-de-conta vai se tornando realidade (CASTELLS, 2010, p. 462). A cultura digital, segundo Lemos (2009), tem transformado o processo de visibilidade e reconhecimento das pessoas no âmbito dos relacionamentos sociais, e, no aspecto laboral, de instituições públicas, privadas e do terceiro setor. E as mudanças não são diferentes para movimentos sociais, artistas e grupos culturais. Dessa forma, a cultura digital tem dado maior visibilidade a suas reivindicações enquanto grupos marginais, permitindo reconhecimento público e inserção em novos contextos sociais. No âmbito da sociedade, a efetivação de direitos passa pelo debate público, pautado pelo compartilhamento de informações, inclusive na web. Souto Pereira e Morigi (2011) salientam que a informação, na forma de liberdade de pensamento, de expressão, de culto e de reunião, enquanto elemento fundamental para a cidadania, perpassa os direitos civis, bem como os direitos políticos e sociais. Os autores também dizem que o direito de comunicar deve ser considerado, inclusive como quarto tipo de direito, que considera não apenas o fato de receber informação, mas também de comunicá-la. No caso de grupos culturais como o Duelo de MCs, a cultura digital traz avanços em seu processo de construção social, política, cultural e da cidadania. Ela permite cada vez mais autonomia e consolidação de suas práticas simbólicas, alcançando certa visibilidade. Esses grupos passam a manter uma interlocução direta com sua audiência, permitindo que novos públicos tenham acesso a seu trabalho artístico, ideias e valores– um movimento que ultrapassa barreiras espaciais e cria novos olhares sobre a cidade e a produção cultural que a espelha. A web é local da cultura e da dinâmica das representações. Mais do que incorporar novos significados para as práticas sociais, os sujeitos também passam a irradiar informação e se transformam em plenos partícipes de uma construção coletiva de significados. Segundo Mantovani (2011), a era da mobilidade e o desenvolvimento das tecnologias digitais contribuíram 55 para que os fluxos de interação se tornassem menos desiguais. Além disso, corroborou para o rompimento da linha divisória entre emissores e receptores. A autora cita os digital natives, formados por uma geração de consumidores que deixam de lado os canais midiáticos tradicionais e optam por produzir seu próprio conteúdo ou acessar conteúdos produzidos por sujeitos inseridos em sua rede de relacionamentos. Quase sempre lançam mão de mídias descentralizadas, tais como blogs, podcasts, distribuidores de vídeos ou mensagens disparadas por celulares, que permitem acessar e receber informações em trânsito. Como movimento que representa a juventude periférica belo-horizontina, com acesso cada vez maior aos meios digitais, em especial os dispositivos móveis, o Duelo de MCs se constitui em espaço de novas representações e discursos dissonantes também em plataformas digitais, como no blog do coletivo e em seus perfis nas redes sociais. Além disso, o conteúdo disponibilizado – tais como fotos, vídeos e comentários – é replicado pelo público em blogs individuais e sites de compartilhamento de arquivos. Uma pesquisa de opinião realizada com o público do Duelo de MCs sobre o próprio encontro e hábitos culturais – cujos detalhes estão no capítulo 8 deste trabalho – revelou que 75% dos frequentadores também acompanham o movimento por outros meios, sendo que 90% o fazem pelas redes sociais digitais. Em relação às fontes de informação dos entrevistados, 83% disseram que se informam pelas redes sociais em casa, 56% por sites, blogs em casa e 53% por e-mail em casa. Sendo assim, confirma-se o alto índice de acesso à internet e aos meios digitais pelo público nas residências e o uso das redes como o principal canal de contato com os organizadores. A pesquisa também mostra que dispositivos digitais móveis, como celulares e tablets, são bastante usados para acompanhar o Duelo de MCs. Entre os entrevistados, 41% afirmam que usam o celular para acessar as redes sociais, 21% para entrar em sites e blogs na internet e 19% para receber e enviar e-mails. Aliás, os dispositivos móveis vêm sendo cada vez mais usados pelo público para a postagem de fotos, vídeos e comentários concomitantemente às batalhas de MCs. Desde 2013, a organização do Duelo também passou a enviar, de aparelhos celulares, posts em redes sociais digitais durante as apresentações. Dessa forma, o encontro cria uma extensão digital simultânea por onde deixa seus rastros informacionais. 56 Nesse contexto, faz-se necessária a discussão dos impactos do uso de artefatos móveis para a interatividade entre os sujeitos e a dinâmica dos fluxos informacionais. Mantovani destaca o uso de telefones celulares, que estão cada vez mais presentes na paisagem urbana e auxiliam na implementação da mobilidade informacional, que se tornou parte das mudanças globais que acontecem na sociedade contemporânea. Além do tradicional serviço de voz, esses dispositivos móveis agregam informações textuais e conexão com a internet. Diante disso, a autora afirma que a produção e a disseminação de informações em movimento trouxeram significativa mudança na maneira como as pessoas se informam e se relacionam. Esses dispositivos se tornaram uma espécie de central móvel de gerenciamento de informações, o que ocasionou mais flexibilidade ao usuário para lidar com informações presentes em seu universo pessoal e profissional. Portanto, engendram uma sociedade potencialmente conectada e disponível para ingressar em processos interativos. Sendo assim, os sistemas de telecomunicação e as tecnologias da informação possibilitam a aceleração dos processos de produção e disseminação da informação em novos suportes. Para Mantovani, a era da informação se torna suporte para a era da mobilidade, em que o sujeito se movimenta por redes de interações sociais e de conhecimento. O que se destaca a respeito da era da mobilidade, quando esta é analisada tendo como pano de fundo a era da informação, é o entrelaçamento entre o movimento físico e os fluxos informacionais. Se na era da informação não se enfatizava tanto o movimento dos corpos físicos, chamando justamente a atenção para o fato de que a informação poderia viajar independente dos seus sujeitos- produtores, na era da mobilidade, ainda que a informação continue a se deslocar independente dos sujeitos que a produzem, o estado de conexão generalizado em que se encontra a sociedade faz com que os deslocamentos informacionais e físicos coincidam, modificando a paisagem contemporânea (MANTOVANI, 2011, p. 29). Diante disso, o paradigma da mobilidade extrapola a questão informacional e ajuda a compreender os fenômenos sociais contemporâneos. Ou seja, o sujeito mobiliza-se a si mesmo na forma de informação, fazendo com que seus processos sociais e culturais se tornem fluxos informacionais. Nesse contexto, ao usarem os dispositivos móveis para interação na web, jovens que participam do Duelo de MCs registram, em espaços digitais, quase que de forma instantânea, rastros informacionais que revelam sua visão de mundo e compreensão da realidade. 57 Portanto, a informação, analisada com substrato da vida social, torna-se elemento fundamental para a produção de sentido e disputas discursivas, o que, no caso do Duelo de MCs, cria ambientes de sociabilidade, empodera sujeitos e dá visibilidade a novas representações simbólicas sobre a juventude negra periférica, seja no espaço público da cidade ou na web. 58 3 AS CIDADES E O ESPAÇO PÚBLICO Movimentos sociais como o Duelo de MCs trazem à tona o desejo dos cidadãos de se apropriar do espaço da cidade, trazendo de volta sua origem como local para manifestações políticas e artísticas. Unidos por ideais comuns, fazem uso de uma ação política para conceber ruas, praças e parques como locais para a reflexão e a troca de experiências e saberes. Dessa forma, este capítulo discute a cidade contemporânea e os desafios de proporcionar aos cidadãos um espaço de livre circulação e expressão cultural. A partir dos conceitos de “espaço de fluxos” e “cidade informacional” de Castells (2010), buscou-se destacar a influência da desigualdade dos processos informacionais para iniciativas de contestação social nas áreas suburbanas das cidades. Para definição de “público”, usa-se o conceito de Arendt (2011) e discute-se os direitos à cidade e à diferença no convívio urbano à luz das contribuições de Lefebvre (1969), Harvey (2013) e Bauman (2003). Além disso, aborda-se os efeitos da globalização e da competitividade das sociedades capitalistas modernas para a autonomia do Estado, segundo Giddens (1991), e, no âmbito da cidade, para a privatização do espaço público urbano, a partir das reflexões de Santos (2007). Com os apontamentos de Silva (2005), destaca-se a renovação da sociabilidade urbana a partir do rompimento de isolamentos territoriais. A cidade costuma ser um espaço de encontro e trocas simbólicas. Cada cidadão é detentor de um saber único adquirido de suas experiências como partícipe e difusor da cultura. No entanto, além de fazer parte desse processo vital da cidade, ele também pode usar a informação adquirida para a experimentação de um processo de engajamento artístico e militância política. A lógica é reconhecer a urbe como local de transformação e fazer dela local para performances, intervenções e manifestações. Ao caracterizar o espaço e sua relação com a informação, Castells (2010) afirma que foi instaurada uma nova lógica espacial, baseada não mais no “espaço de lugares”, mas no “espaço de fluxos”. Sob o ponto de vista da teoria social, o autor diz que o espaço é “o suporte material de práticas sociais de tempo compartilhado” (CASTELLS, 2010, p. 500), ou seja, são simultâneas 59 no tempo. E o “espaço de fluxos”, característico das práticas sociais que dominam e moldam a sociedade em rede, é definido pelo autor da seguinte maneira: O espaço de fluxos é a organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxo. Por fluxos, entendo as sequências intencionais, repetitivas e programáveis de intercâmbio e interação entre posições fisicamente desarticuladas, mantidas por atores sociais nas estruturas econômica, política e simbólica da sociedade (CASTELLS, 2010, p. 501). Dessa forma, cria-se uma interdependência entre lugares e fluxos globais. No caso das metrópoles, cuja sociedade passa a ser guiada pela perspectiva do conhecimento e em torno de redes, elas são definidas pelo autor como cidades informacionais. São cidades não mais referenciadas como espaço, mas como processo, caracterizado pelo predomínio de fluxos. Nesse sentido, o fato de as megacidades estarem conectadas física e socialmente a redes globais e a certos grupos sociais de seus países as deixa desconectadas das populações locais. Castells afirma que esta configuração das megacidades como “constelações descontínuas de fragmentos espaciais, peças funcionais e segmentos sociais” (CASTELLS, 2010, p. 495) caracteriza-se por uma nova forma urbana. Assim, o novo espectro da megacidade cria diferenças no significado, localização de funções e apropriação social de seu espaço. Áreas suburbanas e periféricas se tornam campo de batalha entre os esforços de redesenvolvimento por parte das empresas e da elite econômica e as ações defensivas dos trabalhadores – que têm a casa como motivo de luta – e as tentativas invasoras das contraculturas. Assim, grupos procuram mostrar sua situação de abandono em áreas negligenciadas pelas redes de comunicação. Portanto, as pessoas ainda vivem em lugares. Mas, como a função e o poder em nossas sociedades estão organizados no espaço de fluxos, a dominação estrutural de sua lógica altera de forma fundamental o significado e a dinâmica dos lugares. A experiência, por estar relacionada a lugares, fica abstraída do poder, e o significado é cada vez mais separado do conhecimento. Segue-se uma esquizofrenia estrutural entre duas lógicas espaciais que ameaça romper os canais de comunicação da sociedade (CASTELLS, 2010, p. 517). Portanto, como representantes de áreas periféricas da cidade, excluídas dos processos decisórios de interesse coletivo, os MCs fazem da área sob o Viaduto Santa Tereza, no Centro de 60 Belo Horizonte, um espaço de ocupação física e simbólica da cidade, reivindicando direitos e explicitando as demandas de grupos sociais historicamente alijados de discussões que envolvem a cidade enquanto espaço público e de interesse comum. Como “público”, Arendt (2011) criou dois conceitos correlatos. O primeiro se aproxima do que se chama de realidade, em que tudo o que se mostra em público e se torna aparente pode ser percebido por todos. Assim, a presença de outros que veem e ouvem o que o sujeito vê e ouve garante a ele a realidade do mundo e dele mesmo. Já o segundo, que significa o próprio mundo, tem estreita relação com o privado, uma vez que é comum a todos, porém, diferente do lugar que se possui nele. Pois, embora o mundo comum seja o local de reunião de todos, os que estão presentes ocupam nele diferentes posições, e, assim como se dá com dois objetos, o lugar de um não pode coincidir com o de outro. A importância de ser visto e ouvido por outros provém do fato de que todos veem e ouvem de ângulos diferentes. É esse o significado da vida pública (...). Somente quando as coisas podem ser vistas por muitas pessoas, em uma variedade de aspectos, sem mudar de identidade, de sorte que os que estão à sua volta sabem que veem identidade na mais completa diversidade, pode a realidade do mundo aparecer real e fidedignamente (ARENDT, 2011, p. 70). Dessa forma, a natureza coletiva do público termina quando é reduzida a um único olhar privado. Quando se recusa entender que é a multiplicidade de olhares sobre o mesmo lugar que o faz comum a todos. Com a arbitrariedade de se focar em único meio de se ver as coisas, assiste- se, no contexto do espaço urbano, a um processo de mercantilização do bem público por parte dos detentores do poder. Esse comportamento é verificado, por exemplo, quando a administração pública destina áreas de parques e praças da cidade para eventos privados, ao mesmo tempo em que impede ou dificulta a realização de manifestações culturais espontâneas da população, semelhante ao processo vivido pelo Duelo de MCs. Estar no Centro da cidade é, na visão de Lefebvre (1969), altamente desejável pelos sujeitos, na medida em que recusam o gueto social dos subúrbios e o isolamento na multidão dos indivíduos. Eles expõem as feridas de uma cidade cujo espaço é apropriado de forma desigual e, assim, se fragmenta e tende ao conflito social. Clamam em participar da história que é inscrita nos muros, nas ruas, nas praças e monumentos e que formam a memória de um povo. 61 O autor também destaca a cidade e o urbano como resultado das relações de classe, propriedade e poder. O Estado, o mercado e a ideologia dominante são representados pela cidade política, econômica, militar e religiosa. Em certa medida, impõem suas visões de mundo e influenciam diretamente na construção da realidade. No entanto, essa cidade da elite convive com a dinâmica que o povo faz dela, seja a partir do que acontece nas ruas, praças e outros espaços. Existe a língua da cidade: as particularidades próprias a uma tal cidade a que são expressas nas conversas, nos gestos, nas roupas, nas palavras e nos empregos das palavras pelos habitantes. Existe a linguagem urbana, que se pode considerar como linguagem de conotações (...). Finalmente existe a escrita da cidade: aquilo que se inscreve e se prescreve em seus muros, na disposição dos lugares e no seu encadeamento, em suma, o emprego do tempo na cidade pelos habitantes dessa cidade (LEFEBVRE, 1969, p. 63). Portanto, a forma urbana se desenvolve num processo contraditório, em que o espaço dos encontros e da convergência das comunicações e das informações dá lugar ao desequilíbrio permanente, coações e dissolução das normalidades. E o Duelo de MCs é exemplo do conflito na cidade, com o rompimento dos discursos dominantes e luta por ressignificações no processo de construção simbólica da realidade. Assim como o Duelo de MCs, que confere visibilidade a desejos latentes de cidadãos que clamam por uma outra cidade, Calvino (2011) mostra que esses moradores dividem a mesma angústia de não terem o local como referência simbólica, apesar do grande vínculo afetivo com o espaço geográfico. No entanto, compartilham o mesmo olhar que filtra as incongruências e as várias perguntas sem resposta para focar na cidade do sonho e da justiça. Ao descrever Berenice, o autor remete à cidade dos justos – ou daqueles que se dizem justos –, que esconde uma perversidade por trás de seus atos que alimentam o rancor, a rivalidade, a teimosia e a represália contra os “injustos”. Mas é nesse contexto que surge outra cidade. “Trata-se do possível despertar – como um violento abrir de janelas – de um amor latente pela justiça, ainda não submetido a regras, capaz de compor uma cidade ainda mais justa do que era antes de se tornar recipiente de injustiça” (CALVINO, 2011, p. 147). Nesse sentido, Harvey (2013) destaca que o direito à diferença é um dos principais direitos dos citadinos. A cidade é o lugar do encontro, da desordem, da interação criativa dos desejos individuais concorrentes. Seja individual ou coletivamente, a cidade é feita de 62 engajamentos políticos, intelectuais e econômicos. Mas a diferença também pode resultar em intolerância, segregações e exclusão, quando não em confronto. Para Bauman (2003), “identidade” significa ser diferente; portanto, sua construção não pode deixar de dividir e separar. Diante da vulnerabilidade das identidades individuais, os sujeitos buscam alternativas que possam, coletivamente, compartilhar medos e ansiedades individualmente experimentados. Ao construírem uma comunidade de identidades, adquirem resistência e poder. É discutível se essas “comunidades-cabide” oferecem o que se espera que ofereçam — um seguro coletivo contra incertezas individualmente enfrentadas; mas sem dúvida marchar ombro a ombro ao longo de uma ou duas ruas, montar barricadas na companhia de outros ou roçar os cotovelos em trincheiras lotadas, isso pode fornecer um momento de alívio da solidão (BAUMAN, 2003, p. 21). Por trás do status de “minoria étnica”, segundo Bauman, há grupos sociais de tipos diferentes. No entanto, o que os faz diferentes quase nunca é explicado. Na verdade, as diferenças advêm do contexto social em que foram constituídas, ou seja, da natureza da atribuição forçada que levou à imposição de limites por parte das elites política e econômica. Ao citar o exemplo do gueto estadunidense e da periferia urbana francesa, o autor salienta que “ser pobre numa sociedade rica implica em ter o status de uma anomalia social e ser privado do controle sobre sua representação e identidade coletiva” (BAUMAN, 2003, p. 108). Dessa forma, os guetos, como lugares contemporâneos de segregação social forçada e estigmatizante, complementam a criminalização das populações de baixa renda. Harvey (2013) salienta que o direito à cidade não pode ser concebido como um direito individual. Dessa forma, demanda uma mobilização social na formação de direitos políticos ao redor de solidariedades sociais, o que pode gerar uma mudança da vida urbana. O direito à cidade, como comecei a dizer, não é apenas um direito condicional de acesso àquilo que já existe, mas sim um direito ativo de fazer a cidade diferente, de formá-la mais de acordo com nossas necessidades coletivas (por assim dizer), definir uma maneira alternativa de simplesmente ser humano. Se nosso mundo urbano foi imaginado e feito, então ele pode ser reimaginado e refeito. (HARVEY, 2013, p. 33). 63 No entanto, a cidade capitalista pós-moderna, que modifica sua paisagem com novas edificações, a crescente poluição do ar, visual e sonora, o excesso de veículos nas ruas e a troca de áreas verdes pelo concreto, se esqueceu do cidadão. Passou a ser objeto da especulação do mercado e transformou os cidadãos em intrusos de seu próprio espaço de referência territorial. As calçadas diminuem para dar vazão a grandes corredores de tráfego. Praças, parques e outras áreas arborizadas dão lugar a grandes arranha-céus. Antigos prédios públicos são cedidos para exploração da iniciativa privada. Na concepção de Giddens (1991), a natureza competitiva e expansionista das sociedades capitalistas, com a inovação tecnológica constante e difusa, interfere na atuação de outras instituições, como o Estado. Marcadas por um sistema de produção de mercadorias, baseado na relação entre a propriedade privada do capital e o trabalho assalariado sem posse de propriedades, essas sociedades se estabelecem a partir de um sistema de classes. Dessa forma, a autonomia do Estado é influenciada pela sua dependência da acumulação do capital, sobre a qual o seu controle está longe de ser completo. Sobre a globalização, o autor considera a economia capitalista mundial uma de suas principais dimensões, uma vez que a forma de produção dos principais estados é o empreendimento econômico capitalista. Dessa forma, as instâncias econômicas acabam balizando as ações do Estado. Um contexto voltado para as dinâmicas comerciais traz reflexos para a vida na cidade e a destinação dada ao espaço público. As políticas econômicas nacional e internacional destes estados envolvem muitas formas de regulamentação da atividade econômica, mas, como foi notado, sua organização institucional mantém uma ‘insulação’ do econômico em relação ao político. Isto possibilita um amplo escopo para as atividades globais das corporações de negócios, que sempre têm uma base matriz num estado específico, mas podem desenvolver muitos outros envolvimentos regionais em outros lugares. As firmas de negócios, especialmente as corporações multinacionais, podem controlar imenso poder econômico e têm a capacidade de influenciar sistemas políticos em seus países-base e em outros lugares (GIDDENS, 1991, p. 75). Lefebvre (1969) ressalta o caráter segregador do Estado e das empresas, que tentam suprimir a cidade como tal. O Estado patrimonialista agiria por cima, ditando as regras, e as 64 empresas atuariam por baixo, na exploração e restrição aos cidadãos. Segundo ele, a crise da cidade é acompanhada diretamente por uma crise das instituições de administração urbana. Outro aspecto destacado por Giddens (1991) como reflexo da modernidade, e que corrobora com a ênfase ao viés econômico, é a transformação do tempo e do espaço. O relógio mecânico uniformizou a organização social do tempo e provocou seu deslocamento no espaço, levando ao desenvolvimento do “espaço vazio”. As relações sociais são estabelecidas entre “ausentes”, localmente distantes e sem interação face a face. “Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles” (GIDDENS, 1991, p.75). Para a discussão das novas dinâmicas da sociedade e do território e a nova urbanização impulsionados pelo meio técnico-científico-informacional, Santos (2007) contribui, com seus questionamentos, para uma teoria contemporânea do espaço geográfico. O mesmo espaço que cede às pressões globais é palco de reivindicações de grupos locais. Nesse contexto de imposições externas, vinculadas às formulações da ciência e da tecnologia, que abarca a construção de um novo meio ambiente, “o artifício tende a sobrepor-se à natureza e a substituí-la” (SANTOS, 2007, p.69). Para responder a essas mudanças, as cidades – sobretudo aquelas localizadas nos países do Sul, mais vulneráveis à manipulação dos grandes centros de poder do Norte – se tornam mais rígidas e frias. O local do encontro perde-se no meio de máquinas, veículos e concreto armado. Áreas são muradas, isoladas, bloqueadas e travam a circulação de pessoas. Com a cumplicidade do Estado, o espaço público é privatizado e perde sua função original. Nos países subdesenvolvidos, surgem como espaços derivados. Quanto mais os países se modernizam e crescem, mais as grandes cidades associam lógicas externas e lógicas internas subordinadas. Por isso são cidades críticas desde o seu nascimento, sobretudo porque se tornam cidades sem cidadãos. Nessas aglomerações pós-iluministas, a lei do novo é também a da conformidade e do conformismo. As estruturas mentais forjadas permitem a abolição da ideia (e da realidade) de espaço público e de homem público. Numa sociedade de homens privados, a lei da concorrência legitima a lei da jungle, e a cidade retrata tais egoísmos funcionais: em suas formas primárias e secundárias, em seus arranjos particulares e em sua arrumação global. A rua, onde o estacionamento expulsa o jardim, torna-se a arena desse conflito e não mais o lugar do encontro e da festa (SANTOS, 2007, p. 70-71). 65 Dessa forma, os recursos disponíveis ou trazidos de fora são destinados exclusivamente para atender a essas novas transformações e a realização de atividades modernas de produção e circulação. A atenção é voltada para um número sempre menor de grandes firmas cada vez maiores que, apesar de minoritárias, dominam os processos econômicos e políticos e se colocam acima da lei e do bem comum. À cidade como um todo, teatro da existência de todos os seus moradores, superpõe-se essa nova cidade moderna, seletiva, cidade técnico-científica- informacional, cheia das intencionalidades do novo modo de produzir, criada (na superfície e no subsolo, nos objetos visíveis e nas infraestruturas) ao sabor das exigências sempre renovadas da ciência e da tecnologia (SANTOS, 2007, p.72). O espaço da cidade é fundamental para a produção e fruição da cultura urbana. Um espaço carregado de história e histórias, de referências territoriais, urbanas, arquitetônicas, culturais e que remetem ao imaginário coletivo dos citadinos. O autor menciona o direito à cidade, e a perda do entorno – caracterizada pela desculturalização –, seja pela alienação ou até mesmo pela imposição de um entorno geográfico que convém a ações hegemônicas, desnorteia quem mantém com aquele lugar um vínculo afetivo e guarda na memória boas lembranças de um “tempo lento” que passou. Sobre o direito à cidade, Lefebvre (1969) salienta que se trata de ter nela a garantia para atividades criadoras, lúdicas, de informação, simbolismo e imaginário. Nesse sentido, apenas grupos sociais capazes de iniciativas revolucionárias – desfazendo, assim, as estratégias e ideologias dominantes – podem se encarregar delas e alcançar a solução para os problemas urbanos. São habitantes dos subúrbios, dos guetos residenciais e das proliferações perdidas, longe dos centros da cidade. Basta abrir os olhos para compreender a vida quotidiana daquele que corre de sua moradia para a estação próxima ou distante, para o metrô superlotado, para o escritório ou para a fábrica, para retomar à tarde o mesmo caminho e voltar para casa a fim de recuperar as forças para recomeçar tudo no dia seguinte. O quadro dessa miséria generalizada não poderia deixar de se fazer acompanhar pelo quadro das “satisfações” que a dissimulam e que se tornam os meios de iludi-la e de evadir-se dela (LEFEBVRE, 1969, p. 109). Para Harvey (2013), as ondas de reestruturação urbana executadas pelas incorporadoras imobiliárias, que propõem a “destruição criativa”, têm uma dimensão de classe, uma vez que os 66 menos favorecidos e os marginalizados do poder político são os mais afetados por esse processo. Eles tornam-se vítimas de novos sistemas de governança criados pelo neoliberalismo, que integram interesses estatais e empresariais e garantem a acumulação do capital a partir de uma urbanização calcada na desapropriação da população de baixa renda e colonização de espaços para a elite econômica. Vainer (2013) lembra que a cidade neoliberal aprofundou e agudizou os conhecidos problemas que as cidades herdaram de quarenta anos de desenvolvimento excludente: favelização, informalidade, serviços precários ou inexistentes, desigualdades profundas, degradação ambiental, violência urbana, congestionamento e custos crescentes de um transporte público precário e espaços urbanos segregados. Segundo Lefebvre (1969), o direito à cidade não pode ser concebido como direito de visita ou retorno às cidades tradicionais. Deve ser concebido como direito à vida urbana, transformada e renovada, em que o “urbano” é o espaço do encontro e da realização prático- sensível de seus habitantes. Assim, “o direito à cidade se manifesta como forma superior dos direitos: direito à liberdade, à individualização na socialização, ao habitat e ao habitar. O direito à obra (à atividade participante) e o direito à apropriação (bem distinto do direito à propriedade)” (LEFEBVRE, 1969, p. 124). Dentro do sistema capitalista, a ética neoliberal do individualismo e a recusa de formas coletivas de ação política são, na visão de Harvey (2013), o modelo para a socialização humana. E a cidade é reflexo desse processo, com fragmentos fortificados, condomínios fechados e espaços públicos privatizados, mantidos sob vigilância constante. Dessa forma, ideais de identidade urbana, cidadania e pertencimento não encontram sustentação, apesar da iniciativa de movimentos sociais urbanos que tentam superar o isolamento e remodelar a cidade sob uma perspectiva coletivista e humana. O autor ainda equipara o direito à cidade como um direito humano, na medida em que é mais do que a liberdade individual de ter acesso aos recursos urbanos, mas um direito que os cidadãos têm de refazer a si mesmos – e, portanto, um direito coletivo para remodelar a urbanização – e a cidade. 67 No entanto, Leite (2007) chama a atenção para os contra-usos da cidade nos contextos de gentrificação8 e apropriação cultural do espaço urbano a partir dos fluxos de capitais. No entanto, segundo o autor, há sempre a possibilidade de renovação do caráter público da cidade, com espaços considerados de conflito, que constroem públicos ativos, capazes de escolhas, simbolizações e práticas de seus espaços, negociados cotidianamente. Dessa forma, os espaços são reapropriados, produzindo uma repolitização da vida e das áreas públicas. ...políticas culturais e práticas sociais que segregam esses espaços para o consumo não contribuem necessariamente para um esvaziamento no sentido público desses espaços urbanos, da mesma forma que não impedem que novas formas cotidianas de apropriação política dos lugares, marcadas pela publicização e politização das diferenças, qualifiquem esses espaços da cidade como espaços públicos (...). Enquanto espaço de poder, o espaço público não está obviamente imune às assimetrias do poder e das desigualdades sociais que perpassam sua construção social (LEITE, 2007, p.23). Nesse contexto, a noção de lugar antropológico descrita por Augé (2003) em oposição aos não-lugares – descritos pelo autor como um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional e nem como histórico – inclui diversos percursos que nele se efetuam, discursos que nele se pronunciam e linguagem que o caracteriza. Trata-se do lugar do sentido inscrito e simbolizado, de uma experiência de relação com o mundo. Remete-se “àquela construção concreta e simbólica do espaço que não poderia dar conta, somente por ela, das vicissitudes e contradições da vida social, mas à qual se referem todos aqueles a quem ela designa um lugar, por mais humilde e modesto que seja” (AUGÉ, 2003, p.51). No caso do Centro de Belo Horizonte, onde está o Viaduto Santa Tereza, palco do Duelo de MCs, intervenções urbanas de caráter higienista tentam, nos últimos anos, impedir o direito à liberdade de circulação e de expressão dos cidadãos. O objetivo é tirar aquilo que não interessa: a população de rua, inscrições discursivas de grupos sociais, como o graffiti e pichações, entre outros. Por outro lado, eventos privados e patrocinados por grandes empresas – que, na maioria 8 Ainda no início dos anos 1960, a socióloga britânica Ruth Glass utilizou o termo gentrification para definir a transformação da composição social dos residentes de antigos bairros operários londrinos, onde ocorreu a substituição de camadas populares pela classe média assalariada. Para Smith (2006), este processo urbano identificado inicialmente por Glass chega ao século XXI como uma dimensão marcante do urbanismo contemporâneo. Ao analisar o processo de gentrificação ocorrido em Nova Iorque, o autor afirma que por trás das estratégias de “regeneração urbana”, está a intenção de expulsar os grupos sociais de baixa renda dos centros “regenerados”. Segundo Smith, trata-se do motor central da expansão econômica da cidade. 68 das vezes, acabam sendo fechados com grades e cujo fluxo de pessoas é controlado por catracas – são vistos com bons olhos pela administração municipal na ocupação do espaço urbano. Manifestações culturais espontâneas de artistas, como é o caso do Duelo de MCs, também são alvo da intimidação do poder público. Ainda que tenha aprovados projetos culturais pelo órgão cultural do município, o Duelo tem dificuldades de manter sua agenda de encontros sob o viaduto. A prefeitura exige alvarás semanais de funcionamento e não fornece a infraestrutura necessária para o encontro. Por sua vez, a polícia militar muitas vezes não faz a segurança no local e, quando está presente, é acusada de agir de forma truculenta. Apesar dessas adversidades, o Duelo mantém o ideal de fazer da área sob o Viaduto Santa Tereza um local de experiências e relações sociais. Para a construção de um projeto de cidade voltado para a união das diferenças, Silva (2005) destaca que é preciso uma política cultural sustentada pelo apoio de grupos culturais locais e a criação de instrumentos que possibilitem o encontro entre eles. O autor comenta que determinadas manifestações culturais são consideradas sem a devida qualidade, longe do que abarca o mundo culturalmente “civilizado”, e outras são discriminadas por serem associadas ao tráfico de drogas e à violência. Dessa forma, há um engessamento dos territórios e a redução de trocas simbólicas e culturais. Romper com esse isolamento dos territórios da cidade significa reconhecer a legitimidade da presença do outro, da sua atividade criativa e do direito de manifestar as leituras do seu mundo. Valorizar e respeitar a diversidade de manifestações culturais e artísticas dos moradores dos espaços populares é ato primordial de construção de uma sociabilidade urbana renovada. Vislumbra-se, como resultado, a ampliação da circularidade de imaginários, de obras, de bens e práticas culturais na cidade. A cultura torna-se mais rica quando expandimos as nossas trocas de imaginários, de saberes, de fazeres e convivências. Essa proposta também inclui a superação das desigualdades sociais, já que estas não dizem respeito exclusivamente aos aspectos econômicos, como distribuição de renda, desemprego e consumo (SILVA, 2005, p. 108). Dessa forma, apesar da influência dos processos globalizadores e seus reflexos nas mais diversas dimensões, nem tudo o que é predeterminado, imposto ou subjugado será tolerado ou aceito. Apesar dessa face perversa da globalização, ela também permite rotas de desvio. Caminhos que levam à identidade, à coletividade, à interculturalidade, às diferenças e, sobretudo, ao empoderamento e à cidadania. 69 Calvino (2011) faz uma sugestão para o impasse da modernidade, que parece privar os cidadãos de pertencer à cidade e participar das trocas simbólicas entre os sujeitos: O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço (CALVINO, 2011, p.150). É abrindo espaços e ocupando áreas no Centro de Belo Horizonte, como o Viaduto Santa Tereza, que o Duelo de MCs possibilita experiências de inserção social de jovens negros periféricos no convívio com outros cidadãos no espaço público da cidade. Assim, rompem com as fronteiras culturais da cidade, quebram com estereótipos das populações suburbanas, quase sempre atrelados à criminalidade, e passam a ter visibilidade para a reivindicação de direitos. A seguir, é destacado o papel de movimentos sociais que se articulam para promover a ocupação de áreas públicas e exigir do Estado o atendimento às demandas da população e o fim das desigualdades econômicas e sociais. É feita uma retrospectiva dos últimos movimentos pelo mundo – Occupy Wall Street e Primavera Árabe, passando pelos protestos na Europa, América Latina e Brasil –, além da discussão sobre os Novos Movimentos Sociais elaborada por Santos (2008) e Alves (2012). Em comum às iniciativas populares, a luta por participação social. 3.1 MOVIMENTOS DE OCUPAÇÃO Num momento de desintegração da cidade como espaço social, movimentos sociais como o Duelo de MCs se mobilizam para resgatar seu uso público. Num contexto de economia transnacionalizada, em que as metrópoles atuam como catalisadoras das transações econômicas, eles atuam de forma cidadã e promovem a ocupação de avenidas, ruas, parques e praças. Na maioria das vezes, são motivados pelo fim das desigualdades e injustiças sociais e pela preservação ambiental e de identidades culturais. 70 Entre os exemplos contemporâneos que demonstraram o poder da sociedade civil em se reunir em prol de grandes mudanças, especialmente em relação às políticas neoliberais – que prestam socorro aos bancos e deixam milhões de pessoas à deriva –, o movimento Occupy Wall Street, que tomou as ruas do centro financeiro de Nova Iorque em setembro de 2011, foi um caso emblemático. A articulação de movimentos sociais mostrou sua capacidade de dar projeção a questões políticas e criar novos mecanismos de mobilização social. Por ter se organizado num dos principais centros de poder da economia capitalista mundial, o movimento Occupy Wall Street deu notoriedade à indignação da sociedade civil perante a atuação de um Estado autoritário e exclusivamente a serviço das classes dominantes, num contexto de crise social e econômica iniciada em 2008 nos Estados Unidos. Aliás, o Occupy Wall Street procura ocupar um espaço público central, como um parque ou uma praça, próximo a muitos bastiões do poder. Ao mobilizar cidadãos, transforma a área num espaço de discussão e debate sobre os problemas trazidos por esse poder e as melhores formas de se opor ao seu alcance. O início das últimas manifestações populares pelo mundo, com a visível participação de jovens politizados e conscientes de seus direitos, aconteceu na Tunísia no final de 2010, após a autoimolação do vendedor ambulante Mohamed Bouazizi, de 26 anos, que se revoltou ao ser proibido pela polícia de vender frutas pelas ruas da cidade de Sidi Bouzid. Após o episódio, milhares ocuparam as ruas do país e conquistaram a derrubada do presidente Ben Ali. O episódio tunisiano desencadeou a Primavera Árabe, uma onda de ocupações das ruas em vários outros países da região. Os protestos organizados pela juventude egípcia, inspirados na vizinha Tunísia, culminaram com a saída de multidões às ruas do Cairo e a renúncia do presidente Hosni Mubarak. Além disso, a mobilização no Mundo Árabe culminou em grandes levantes populares na Líbia, Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Síria, Omã e Iêmen e protestos menores no Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental. Todos os movimentos, laicistas e democráticos, pediam o fim dos governos autoritários, há vários anos no poder. Em alguns países, houve êxito nas reivindicações, com a queda ou renúncia de governos. Também palco de protestos, Istambul, capital da Turquia, teve a praça Taksim ocupada por manifestantes no início de junho de 2013, após a decisão do governo de destinar a área da 71 praça e do parque Gezi para a construção de um shopping center. O aumento no número de pessoas nas ruas, inclusive em outras cidades turcas, engrossou o coro dos insatisfeitos, que pediram a renúncia do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, há mais de dez anos no poder. Na Espanha, as manifestações do movimento Los Indignados, de 15 de maio de 2011, que acampou na Puerta del Sol, uma das principais praças de Madri, para protestar contra a grave crise econômica e os altos índices de desemprego no país, reverberaram em outros países europeus, como Portugal, com a Geração à Rasca, e na Grécia, com a ocupação da praça Syntagma. Na América Latina, destaque para os protestos dos estudantes no Chile, que exigiram nas ruas uma educação pública e gratuita no país. No Brasil, os protestos que começaram em março de 2013 – cujo ápice se deu durante as “Jornadas de Junho” –, foram motivados pelo reajuste nas tarifas do transporte coletivo, tendo em vista a péssima qualidade de um serviço que é público, mas gerenciado por um pequeno grupo de empresas. No entanto, as manifestações ganharam força com o repúdio da população aos altos investimentos feitos para a realização da Copa do Mundo de 2014 no país. Durante a Copa das Confederações, em junho de 2013, várias passeatas tomaram ruas de diversas cidades do país e houve confrontos com a polícia. Dessa forma, a proliferação de manifestações e iniciativas de ocupação do espaço público tornou-se a senha para milhares de jovens protestarem em várias cidades no mundo. Uma eclosão simultânea e contagiosa de movimentos sociais de protesto com reivindicações peculiares em cada região, mas com formas de luta muito assemelhadas e consciência de solidariedade mútua. Uma onda de protestos sociais tomou a dimensão de um movimento global. (...) Em todos os países houve uma mesma forma de ação: ocupações de praças, uso de redes de comunicação alternativas e articulações políticas que recusavam o espaço institucional tradicional (CARNEIRO, 2012, p. 7). Como resposta, o Estado autoritário e clientelista adota a violência para excluir o público de seu próprio espaço e criminalizar quem não acata suas decisões soberanas. Apoiado pela classe capitalista, se diz o único a ter o direito de regular o espaço público e dele dispor como julgar conveniente. Com que direito os prefeitos, os chefes de polícia, os oficiais militares e as autoridades do Estado dizem para nós, o povo, que eles podem determinar o que é público em “nosso” espaço público, bem como quem pode ocupá-lo e quando? 72 Quando é que eles presumem expulsar-nos, o povo, de qualquer espaço que nós, o povo, decidimos coletiva e pacificamente ocupar? Eles dizem que agem de acordo com o interesse público (e usam as leis para prová-lo), mas nós somos o povo! Onde está “nosso interesse” em tudo isso? E, aliás, não é “nosso” dinheiro que os bancos e financistas usam tão descaradamente para acumular “seu” bônus? (HARVEY, 2012, p. 62). Chomsky (2011) diz que iniciativas como a do Occupy Wall Street precisam de uma ampla e ativa base popular, chamando a atenção das pessoas para o valor de uma ação coletiva. No entanto, ele atenta para a importância de um trabalho de educação e ativismo, ou seja, aprender a participar, a fazer parte de uma coletividade. Entre os aspectos mais interessantes do movimento, ele destaca a construção de vínculos. Esses laços podem se manter e gerar novos frutos, como novas campanhas que coloquem a sociedade numa trajetória mais humana. E como os resultados não vêm a curto prazo, é preciso esperar e entender que grandes mudanças acontecem com o tempo. Ao afirmar que a difusão social da produção contribuiu para desocultar novas formas de opressão e que o isolamento político do movimento operário facilitou a emergência de novos sujeitos sociais e novas práticas de mobilização social, Santos (2008) destaca a atuação dos Novos Movimentos Sociais (NMSs). Ao advogar um novo paradigma social menos focado na riqueza e no bem-estar material e direcionado para a cultura e a qualidade de vida, denunciam os excessos de regulação da modernidade. Esses excessos atingiriam, além do modo como se trabalha e produz, a maneira como se descansa e vive. Evidenciariam as assimetrias econômicas e sociais como reflexos do desequilíbrio entre os sujeitos, que são atingidos não mais pelo viés da classe social, mas como grupos sociais transclassistas da sociedade no seu todo. Em relação às reivindicações dos NMSs contra as formas de opressão e exclusão, não são atendidas suficientemente apenas com a concessão de direitos; exigem uma reconversão dos processos de socialização, inculcação cultural e modelo de desenvolvimento. Além disso, exigem mudanças concretas imediatas e locais. É importante destacar o contexto para o surgimento dos NMSs que hoje lutam contra os abusos do neoliberalismo, seja na América Latina ou Europa. A maioria deles teve origem na organização da sociedade civil na década de 1970, cujo papel foi decisivo na democratização de Estados antes governados por governos militares e/ou autoritários. 73 O autor destaca que os NMSs representam a afirmação da subjetividade perante a cidadania e que a emancipação por que lutam é, antes de política, pessoal, social e cultural. Quanto ao modo de organização, eles se pautam por formas organizativas, e seus protagonistas são grupos sociais com contornos definidos por interesses coletivos, muitas vezes localizados mas potencialmente universalizáveis. A incidência dos NMSs ocorre no marco da sociedade civil e eles mantêm uma distância calculada em relação ao Estado, da mesma forma com partidos e sindicatos tradicionais. Portanto, criam uma nova maneira de se organizar politicamente, baseada na independência e isonomia entre seus integrantes: A ideia da obrigação política horizontal, entre cidadãos, e a ideia da participação e da solidariedade concretas na formulação da vontade geral são as únicas susceptíveis de fundar uma nova cultura política e, em última instância, uma nova qualidade de vida pessoal e colectiva assentes na autonomia e no autogoverno, na descentralização e na democracia participativa, no cooperativismo e na produção socialmente útil. A politização do social, do cultural e mesmo do pessoal abre um campo imenso para o exercício da cidadania (SANTOS, 2008, p. 263). Ao instaurarem um modelo de democracia participativa, segundo Santos, os NMSs criam uma relação de tensão e difícil convivência com a democracia representativa. E dessa relação conflituosa muitas vezes saem as energias emancipatórias necessárias para a redefinição do campo político e a reforma das instituições. Portanto, são um sinal de transformações globais no contexto político, social e cultural da contemporaneidade, e sua luta estará permanentemente na agenda política dos próximos anos. Considerados movimentos sociais que recusam a adoção de táticas ilegais e cujos manifestantes têm consciência moral e senso de justiça social, eles também coincidem, segundo Carneiro (2012), no reconhecimento do precariado, “uma nova forma de proletariado informal e terceirizado, um novo tipo de trabalhador cujas habilidades intelectuais são exploradas por meio da precarização, desregulamentação e perda dos direitos sociais do welfare state das gerações anteriores do proletariado industrial” (CARNEIRO, 2012, p.13). Ao denunciarem a situação do precariado, esses movimentos pregam o igualitarismo democrático radical, que fundamenta as tradições intelectuais e correntes políticas progressistas. 74 O objetivo é criar oportunidades para que todos tenham o mesmo acesso a recursos, além de serem partícipes das tomadas de decisão, principalmente daquelas que lhes afetam diretamente. Para Alves (2012), os NMSs representam as reivindicações de um contingente populacional jovem vinculado à condição de proletariedade e à ausência de perspectivas futuras. Em sua diversidade e amplitude de expectativas políticas, expressam uma consciência crítica e dizem não ao status quo de um sistema capitalista como modo de produção da vida social. Dessa forma, ressignificam o cotidiano como espaço de reivindicação coletiva de direitos usurpados. Portanto, em detrimento à lógica neoliberal privatista, que privilegia os espaços do consumo e da fruição intimista, querem reconquistar pacificamente o espaço público urbano, considerado o local compartilhado por todos, sejam praças, largos ou ruas. Portanto, evidencia-se como o interesse público, que leva em conta os desejos coletivos e representa as demandas da população, é ignorado pelos governos em prol de uma elite, que acaba impondo sua visão economicista e distorcendo a função pública do espaço urbano. Em face desse modelo autoritário de cidade, o Duelo de MCs é um exemplo de movimento de resistência cultural e política que leva para o Centro de Belo Horizonte algumas das principais reivindicações de segmentos desassistidos da sociedade. É a partir de movimentos de mobilização popular, com a ocupação de espaços públicos e atos simbólicos, seja contra a exploração econômica ou a ausência do Estado de bem-estar social, que a população pressiona por mudanças e conquista direitos. Nesse sentido, discute-se, no próximo subcapítulo, como a aquisição da cidadania (MARSHALL, 1967) tem, ao longo da história brasileira, corrigido distorções e desigualdades no país, e os desafios a serem enfrentados para que ela seja alcançada de forma igual por todos os grupos sociais. 3.2 CIDADANIA Apesar de a cidadania não ter tido um papel decisivo na redução das desigualdades sociais ao longo do século XIX, Marshall (1967) afirma que é ela que ajudará a guiar o progresso para o caminho que conduziu diretamente às políticas igualitárias do século XX. Ao traçar o 75 desenvolvimento da cidadania na Inglaterra até o fim do século XIX, Marshall divide o conceito em três elementos: civil, político e social. O elemento civil é composto por direitos necessários à liberdade individual - liberdade de ir e vir, liberdade de imprensa, pensamento, e fé, o direito à propriedade e de concluir contratos válidos e o direito à justiça. Este último difere dos outros porque é o direito de defender e afirmar todos os direitos em termos de igualdade com os outros e pelo devido encaminhamento processual. (...). Por elemento político se deve entender o direito de participar no exercício do poder político, como um membro de um organismo investido da autoridade política ou como um eleitor dos membros de tal organismo. (...). O elemento social se refere a tudo o que vai desde o direito a um mínimo de bem-estar econômico e segurança ao direito de participar, por completo, na herança social e levar a vida de um ser civilizado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade (MARSHALL, 1967, p. 63). O autor reforça o papel da cidadania na oposição histórica à divisão de classes e na mitigação dos efeitos das desigualdades sociais do sistema capitalista. Como um status concedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade igualitária, ao longo do século XX a cidadania minou as distorções econômicas do sistema de classe, que antes era total. No Brasil, os avanços da cidadania coincidem com os esforços de construção de um regime democrático após o fim do período de ditadura militar, em 1985. Mas, ao contrário da sequência proposta por Marshall (1967), da conquista dos direitos civis e, em seguida, dos políticos e sociais – no caso inglês, primeiro vieram os civis, no século XVIII, seguidos dos políticos, no século XIX, e dos sociais, no século XX –, o Brasil seguiu sua própria sequência pela conquista de direitos, tendo em vista seu contexto histórico, político, econômico e social. Carvalho (2001) conta que, no Brasil, houve maior ênfase aos direitos sociais. Apesar disso, foram os políticos que saíram na frente após a Independência, em 1822. A Constituição de 1824, que regeu o país até o fim da monarquia, estabeleceu os três poderes tradicionais: Executivo, Legislativo e Judiciário. Além disso, regulou quem teria direito de votar e ser votado: homens de 25 anos ou mais que tivessem renda mínima de 100 mil réis. Como se vê, a herança colonial travou o avanço dos direitos civis. Até 1888, ano que foi abolida a escravidão, foi negada a condição humana do escravo. O Estado era comprometido com o poder privado e cúmplice dos grandes proprietários rurais, o que, ainda hoje, remete à discussão dos muitos avanços a serem conquistados para uma efetiva desprivatização do poder público. 76 A partir de 1930, o país avança nos direitos sociais, principalmente com a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Para assegurar o direito dos trabalhadores, inclusive os rurais, foi criada uma legislação trabalhista e previdenciária, que em 1943 ganha o reforço da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Por conta do período ditatorial de Getúlio Vargas entre 1937 e 1945, os direitos políticos caminharam a passos mais lentos. No entanto, a promulgação da Constituição de 1946 e a criação do voto popular após o Estado Novo trouxeram alento à democracia brasileira. Mesmo com alguns avanços na aquisição de direitos civis, os movimentos sociais ainda eram incipientes e havia restrições de acesso ao poder judiciário. A situação foi agravada com o golpe militar de 1964, que suspendeu a liberdade de expressão e de organização. Carvalho conta que o período entre 1968 e 1974 – apesar de coincidir com o “milagre” e a expansão da economia – foi o mais sombrio da história do país, marcado por forte repressão do general Garrastazu Médici. A privacidade do lar e o segredo de correspondência eram violados. Prisões eram feitas sem mandado judicial, e os presos eram mantidos isolados, incomunicáveis e, em muitos casos, submetidos a sessões de tortura, que não raro levavam à morte. Já em relação aos direitos sociais, a ditadura militar permitiu avanços significativos e adotou uma postura paternalista para compensar a falta de liberdade política. Destaca-se a criação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), em 1966, e do Ministério da Previdência e Assistência Social em 1974. No campo dos direitos políticos, a chegada do general Ernesto Geisel ao poder promoveu o início da abertura do país, com redução às restrições da propaganda eleitoral e a retomada dos movimentos de oposição. Houve também a volta de alguns direitos civis, como o acesso à Justiça, mas um dos grandes problemas na época – e que mais tarde refletiria no nível de desigualdade social – era a restrição a essas conquistas, já que não eram compartilhadas pelo conjunto total da população: Como consequência da abertura, esses direitos foram restituídos, mas continuaram beneficiando apenas parcela reduzida da população, os mais ricos e os mais educados. A maioria continuou fora do alcance da proteção das leis e dos tribunais. A forte urbanização favoreceu os direitos políticos mas levou à formação de metrópoles com grande concentração de populações marginalizadas. Essas populações eram privadas de serviços urbanos e também de serviços de segurança e de justiça. Suas reivindicações, veiculadas pelas 77 associações de moradores, tinham mais êxito quando se tratava de serviços urbanos do que de proteção de seus direitos civis (CARVALHO, 2001, p.194). Em 1985, após o fim da ditadura, o Brasil entra numa fase de expansão dos direitos civis, políticos e sociais sem, no entanto, conseguir o acesso a todos os cidadãos. Em 1988 é promulgada a Constituição, intitulada “Cidadã”, por contemplar grandes avanços. Em 1989 houve a primeira eleição direta para presidente da República desde 1960. No entanto, a democracia política não solucionou problemas econômicos, como a desigualdade e o desemprego, além de questões sociais, sobretudo na educação, saúde e saneamento básico, com o agravamento das restrições à segurança individual. Em relação aos direitos políticos, a Constituição Federal dá voto facultativo aos analfabetos – na época em número considerável no Brasil, em torno de 30 milhões – e aos jovens entre 16 e 18 anos. Carvalho destaca o surgimento do Movimento dos Sem Terra (MST), que usou o direito de organização para promover a incorporação à vida política de parcela importante da população, contribuindo para a democratização do sistema. Já os direitos sociais foram os mais contemplados pela carta magna de 1988. A legislação fixou em um salário mínimo o teto inferior das aposentadorias e pensões, inclusive para deficientes físicos e maiores de 65 anos, e introduziu a licença-paternidade de cinco dias, entre outras conquistas. Direitos civis, como a liberdade de pensamento, imprensa e organização, foram readquiridos. O racismo foi definido como crime inafiançável e imprescritível e a tortura como crime inafiançável e não anistiável. Uma lei ordinária de 1989 definiu os crimes resultantes de preconceito de cor e raça e a Lei Nacional de Defesa do Consumidor foi regulamentada em 1990. Fora do âmbito constitucional, foram criados os Juizados Especiais de Pequenas Causas Cíveis e Criminais e, em 1996, foi instituído o Programa Nacional dos Direitos Humanos. A Constituição de 1988 também reconheceu os direitos culturais dos cidadãos brasileiros. O artigo 215 prevê que “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”. No parágrafo primeiro, ainda diz que “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional” (BRASIL, 2001, p. 127). 78 Apesar dos grandes progressos alcançados pela “Constituição Cidadã”, Carvalho (2001) ressalta que a parcela da população que pode contar com a proteção da lei é pequena, mesmo nos grandes centros. Em relação aos direitos políticos, continuam pendentes temas importantes como alterações no sistema eleitoral para reduzir o número de partidos e reforçar a fidelidade partidária e criar um modelo que combine o critério proporcional com o majoritário. Mesmo bastante contemplados, os direitos sociais esbarram na persistência das desigualdades sociais que caracterizam o país desde a independência. No que tange aos direitos civis, a falta de garantia se verifica sobretudo em relação à segurança individual, à integridade física e ao acesso ao Judiciário. Dessa forma, Carvalho divide os cidadãos brasileiros em três classes: Há os de primeira classe, os privilegiados, os “doutores”, que estão acima da lei, que sempre conseguem defender seus interesses pelo poder do dinheiro e do prestígio social. Os “doutores” são invariavelmente brancos, ricos, bem- vestidos, com formação universitária. (...). Frequentemente, mantêm vínculos importantes nos negócios, no governo, no próprio Judiciário. Esses vínculos permitem que a lei só funcione em seu benefício. (...). Ao lado dessa elite privilegiada, existe uma grande massa de “cidadãos simples”, de segunda classe, que estão sujeitos aos rigores e benefícios da lei. São a classe média modesta, os trabalhadores assalariados com carteira de trabalho assinada (...). Podem ser brancos, pardos ou negros, têm educação fundamental completa e o segundo grau, em parte ou todo. Essas pessoas nem sempre têm noção exata de seus direitos, e quando têm carecem dos meios necessários para os fazer valer (...). Finalmente, há os “elementos”, do jargão policial, cidadãos de terceira classe. São a grande população marginal das grandes cidades, trabalhadores urbanos e rurais sem carteira assinada, posseiros, empregadas domésticas, biscateiros, camelôs, menores abandonados, mendigos. São quase invariavelmente pardos ou negros, analfabetos, ou com educação fundamental incompleta. (...). Na prática, ignoram seus direitos civis ou os têm sistematicamente desrespeitados por outros cidadãos, pelo governo, pela polícia. Não se sentem protegidos pela sociedade e pelas leis. (...). Para eles vale apenas o Código Penal (CARVALHO, 2001, p. 215-216). Os “elementos” ou cidadãos de terceira classe, de acordo com a classificação de Carvalho, coincidem com a “ralé brasileira” discutida por Souza (2011). Mais do que discorrer sobre essa camada da população, o autor dá ênfase à invisibilidade desse grupo social por parte da sociedade brasileira, historicamente subjugada pelo poder da elite econômica e cujos problemas sociais e políticos são julgados por uma visão economicista e quantitativa da realidade. 79 O discurso do liberalismo economicista para a tese do patrimonialismo prega a dicotomia entre o mercado e o Estado. De um lado, o mercado, detentor de grandes virtudes, marcadas pelo crescimento e pujança econômica; de outro, o Estado, condenado ao fracasso e identificado apenas com a corrupção e o privilégio. Dessa forma, ao ocultar os fatores econômicos da desigualdade, perpetua, ao longo do tempo, os conflitos sociais que causam dor, sofrimento e humilhação cotidiana para milhões de brasileiros, que acabam se tornando invisíveis. A ralé brasileira, segundo Souza, é fruto de “uma sociedade que ‘naturaliza’ a desigualdade e aceita produzir ‘gente’ de um lado e ‘subgente’ de outro” (SOUZA, 2011: 24). Trata-se de uma violência simbólica que não é vista como tal e encarada como uma consequência natural da sociedade. O marginalizado social é percebido como alguém que está em pé de igualdade com qualquer outro, seja em relação à disciplina, ao autocontrole ou à autorresponsabilidade. Sendo assim, sua miséria é considerada como fruto de seu “fracasso” e cuja “culpa” é exclusivamente sua. E vê-lo como um indivíduo “carente” ou “perigoso” se torna algo corriqueiro. O “talento inato” das classes alta e média é transformado em privilégio negativo de um grupo social que está sempre a um passo da delinquência e do abandono. No entanto, o autor põe fim ao mito do “talento inato” e indica a real origem desse descompasso social no Brasil: O indivíduo privilegiado por um aparente “talento inato” é, na verdade, produto de capacidades e habilidades transmitidas de pais para filhos por mecanismos de identificação afetiva por meio de exemplos cotidianos, assegurando a reprodução de privilégios de classe indefinidamente no tempo. (SOUZA, 2011, p. 23) É essa “gênese da desigualdade social” que nenhuma teoria liberal alcança. Existe um verdadeiro abismo entre as crianças da classe média e da “ralé” brasileira. Enquanto as primeiras chegam à escola já tendo recebido dos pais todo o estímulo, os melhores exemplos e a carga de motivação diária necessária para o difícil aprendizado que a disciplina escolar significa para as crianças, as crianças da “ralé” chegam completamente despreparadas para os mesmos desafios (SOUZA, 2011, p. 82). Souza salienta que as condições econômicas e o capital cultural – uma mistura de herança dos valores familiares e do capital escolar – são as que compõem os elementos estruturais para se compreender a hierarquia social da sociedade moderna. A ausência desses elementos seriam as causas efetivas da desigualdade, marginalidade e subcidadania. 80 Dessa maneira, é pelo fim dos estereótipos – consagrados pelo poder público e a conivência dos meios de comunicação tradicionais –, que o Duelo de MCs se coloca para a cidade. Procura esclarecer, a partir das informações trazidas pelos jovens, que esse segmento da população teria as mesmas condições em relação a outros grupos sociais se a sociedade brasileira fosse economicamente equânime ou se contasse com políticas públicas que mitigassem os efeitos perversos das desigualdades. E, apesar de um cenário desfavorável, demonstram força para lutar por novas oportunidades e melhoria das condições de vida. A estrutura e o funcionamento do mundo social não pode ser explicado sem a reintrodução da noção de capital em todas as formas, e não somente o que é reconhecido pela teoria econômica. Além dos capitais econômico e social, Bourdieu (1999) reforça a importância do capital cultural como o capital simbólico, que pressupõe a intervenção do habitus9 e uma capacidade cognitiva socialmente constituída. O autor considera três estados do capital cultural: o incorporado, na forma de disposições duráveis da mente e do corpo; o objetivado, representado pela aquisição de bens culturais, tais como livros, obras de arte, máquinas etc., e o institucionalizado, que tem origem nas qualificações adquiridas e no desempenho ao longo do período escolar. Bourdieu ainda menciona a importância da transmissão familiar do capital cultural ao longo dos anos, o que o legitima de geração em geração. Sua aquisição é possível a partir de um processo de inculcação e assimilação, o que implica em renúncia e sacrifício. Não se nega o fato de que sua incorporação advém de uma especificidade biológica, somada a uma transmissão hereditária imperceptível. No entanto, o tempo livre de necessidades econômicas que a família disponibiliza para o sujeito é determinante para que ele possa se dedicar ininterruptamente ao processo de acumulação do capital cultural. A condição social de igualdade ou desigualdade é uma alternativa definida por chances iguais de acesso a bens materiais e simbólicos escassos e que pressupõem competição social. No entanto, de acordo com Souza (2011), sujeitos da “ralé” têm poucas condições para entrar nessa 9 ...o habitus, como indica a palavra, é um conhecimento adquirido e também um haver, um capital (de um sujeito transcendental na tradição idealista) o habitus, a hexis, indica a disposição incorporada, quase postural –, mas sim o de um agente em acção (BOURDIEU, 1998, p. 61). 81 luta. Nascem filhos de pais – ou somente mães – miseráveis não só economicamente, como sem autoestima, autoconfiança e precondições psicossociais para ganhar a vida. Essa é a classe, que compõe cerca de 1/3 da população brasileira, que está abaixo dos princípios de dignidade e expressivismo, condenada a ser, portanto, apenas “corpo” mal pago e explorado, e por conta disso é objetivamente desprezada e não reconhecida por todas as outras classes que compõem nossa sociedade. Essa é também a razão da dificuldade de seus membros construírem qualquer fonte efetiva de autoconfiança e de estima social, que é, por sua vez, o fundamento de qualquer ação política autônoma. (...) É apenas por serem percebidos como meros “corpos”, numa sociedade que valoriza a disciplina e o autocontrole acima de tudo, é que essa classe desprezada é vista como tendencialmente perigosa e como assunto da “polícia”, e não da “política” (SOUZA, 2011, p. 122). O preconceito e a criminalização contra jovens que se reúnem para organizar e participar de manifestações culturais como o Duelo de MCs acontecem pelo fato de serem representantes da “ralé”. São jovens explorados por sua força de trabalho – muitas vezes física – e que quase não têm acesso a outras oportunidades de emprego. Com maioria negra, oriundos de áreas periféricas da cidade, são logo vistos como delinquentes. No entanto, ao revelarem um discurso político impregnado de resistência e insubmissão à um sistema segregador e excludente, buscam reconhecimento de seus direitos e estima social. Dessa forma, subvertem o processo de discriminação pelo qual sofrem e exigem respeito às diferenças e isonomia nas relações que estabelece com o Estado e entre sujeitos. No caso brasileiro, Souza ainda diz que a justificação da desigualdade é potencializada por uma aliança invisível com o mito da brasilidade. A origem disso viria do mito da identidade nacional brasileira defendida por Gilberto Freyre, que fala do componente racial mestiço como representação do “homem cordial”, da “índole pacífica do povo”, da “emocionalidade” e da “sensualidade”. Ao longo dos anos, o encobrimento e a negação de conflitos e diferenças se legitimaram entre a população e se tornaram argumento indispensável para qualquer discurso sobre o país. Que apesar das mazelas sociais, os brasileiros são conhecidos como pessoas calorosas e simpáticas. Com o “esquecimento” do social no individual, Souza explica que assim cria-se a base para a celebração dos méritos individuais e a consequente perpetuação de privilégios. Portanto, a 82 tese do personalismo/patrimonialismo, com seus atributos de emocionalidade, calor humano e sentimento, se coloca como verdadeira. A tese do patrimonialismo permite defender privilégios, ou seja, ser uma “ideologia conservadora” de iniquidades, ao mesmo tempo em que dá a impressão de ser “crítica” da realidade. A meu ver é precisamente esse “golpe de mestre” de ter conseguido transformar uma ideia conservadora e que, na verdade, assegura a permanência de privilégios injustos, com a “aparência” de crítica social, o que explica, a despeito de sua fragilidade teórica evidente, a extraordinária longevidade e eficácia dessa ideia entre nós. Como foi e como é ainda possível se passar por avançado e crítico quando se é conservador e mesquinho? (SOUZA, 2011, p. 68). As diferentes classes sociais, segundo o autor, estão empenhadas em suas próprias lutas simbólicas, no intuito de imporem suas definições do mundo social e ideologias conforme seus interesses. Sendo assim, torna-se fundamental a aquisição do capital cultural não somente como instrumento de ascensão social, mas também como empoderamento político e posicionamento ideológico. Esse processo se inicia quando uma verdade é afirmada com autoridade, cujo poder simbólico de quem a anuncia - com propriedades econômicas e culturais em comum - é reconhecido como legítimo. O auctor, mesmo quando só diz com autoridade aquilo que é, mesmo quando se limita a enunciar o ser, produz uma mudança no ser: ao dizer as coisas com autoridade, quer dizer, à vista de todos e em nome de todos, publicamente e oficialmente, ele subtrai-as ao arbitrário, sanciona-as, santifica-as, consagra-as, fazendo-as existir como dignas de existir, como conformes à natureza das coisas, “naturais” (BOURDIEU, 1998, p. 114). Ao se munir de seu capital cultural, a classe dominante também tenta impor sua dominação por meio da produção simbólica. No entanto, para que ela se confirme como visão de mundo, mobilize e paute a ação dos sujeitos, é preciso que ela seja reconhecida como não arbitrária. Para Bourdieu (1998), o mínimo desconforto em relação à dominação simbólica e econômica pode significar uma luta para derrubar posições estigmatizadas e a reivindicação de uma autonomia política e cultural. A revolução simbólica contra a dominação simbólica e os efeitos de intimidação que ela exerce tem em jogo não, como se diz, a conquista ou a reconquista de uma identidade, mas a reapropriação colectiva deste poder sobre os princípios de construção e de avaliação de sua própria identidade de que o dominado abdica 83 em proveito do dominante enquanto aceita ser negado ou negar-se (e negar os que, entre os seus, não querem ou não podem negar-se) para se fazer reconhecer (BOURDIEU, 1998, p. 125). É a partir da negação de valores simbólicos impostos pela sociedade que grupos sociais, como o Duelo de MCs, buscam uma identidade entre si. Para isso, se empoderam de um discurso que desconstrói a ordem vigente, neutraliza o autoritarismo do poder público e possibilita a imposição de sua visão de mundo. Como diz o autor, “o que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia” (BOURDIEU, 1998, p. 15). Na busca incessante por fundamentar-se, racionalizar-se e justificar-se, a vontade de verdade apontada por Foucault (2011) tende a exercer pressão e poder coercitivo sobre os outros discursos se apoiada sobre um suporte e uma distribuição institucional. Entretanto, é preciso ir de encontro a esse sistema e fazer com que essas outras vozes sejam externalizadas com regularidade e fixem fronteiras. “O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual queremos nos apoderar” (FOUCAULT, 2011, p. 10). Dessa forma, ao criar um espaço de reflexão e posicionamento político – neste caso, pelo viés da cultura de rua –, o Duelo de MCs permite a mobilização e a participação social de sujeitos em prol de direitos. Institui informalmente, no Centro de Belo Horizonte, um debate público sobre a cidade, com discursos dissonantes e demandas de uma população que ainda tem negado o acesso à cidadania. 84 4 JUVENTUDE E A CULTURA HIP-HOP O Duelo de MCs surgiu com a mobilização de jovens de áreas periféricas da cidade, como vilas e favelas, em busca de uma identidade e universo próprios por meio das linguagens artísticas do hip-hop. A partir das influências do hip-hop dos Estados Unidos e de outras cidades brasileiras, imprimiram uma concepção própria ao encontro, que trouxe novo impulso à cultura hip-hop em Belo Horizonte. Dessa forma, criaram um espaço de sociabilização da juventude belo-horizontina na cidade, cujas demandas por direitos e participação social são evidenciadas nas rimas improvisadas dos MCs. Sendo assim, este capítulo faz uma breve trajetória do rap e do movimento hip-hop, que teve origem nos Estados Unidos. Além disso, a partir do olhar de Dayrell (2005) e Herschmann (2005), faz-se uma análise da importância de culturas urbanas juvenis como o hip-hop para o processo de socialização da juventude periférica no mundo e, especificamente, no Brasil, com a criação de novos signos de pertencimento coletivo. Ademais, discute-se como esses jovens hibridizam influências locais e globais para a representação da realidade, a exemplo do rap como estilo musical que se alimenta de outros ritmos, como o repente. A consolidação da cultura hip-hop em Belo Horizonte também é tema deste capítulo. Faz- se um histórico do movimento na cidade a partir da década de 1980, com destaque para os principais espaços de difusão e grupos de rap da cidade até a chegada do Duelo de MCs, em 2007. Com trechos da entrevista feita com MC Monge, um dos organizadores do Duelo, discute- se a concepção do encontro como espaço de convivência entre grupos de hip-hop e diversos grupos sociais juvenis da cidade. Sobre a origem do rap, o estilo musical começou, assim como o funk, com o surgimento do soul – uma junção do profano rhythm and blues com o gospel, a música protestante negra – nos Estados Unidos, que teve como principais representantes os cantores Ray Charles, Sam Cooke e James Brown. O estilo musical teve um papel importante na história do movimento negro estadunidense a partir da década de 1960 e se tornou trilha sonora dos movimentos civis e símbolo da consciência negra. 85 No entanto, segundo Dayrell (2005), ao obter sucesso e popularidade, o soul perdeu suas características revolucionárias. Nesse contexto, surgiram, na década de 1970, novos movimentos musicais de tradição black, como o rap, com origem na juventude dos guetos negros nova- iorquinos. Desde então, o rap – cuja palavra é formada pelas iniciais de rhythm and poetry (ritmo e poesia) – se tornou um gênero musical que articula a tecnologia com a tradição ancestral africana, produzindo um discurso de denúncia de injustiça e opressão. O rap e as linguagens artísticas da dança (break) e das artes plásticas (graffiti) foram difundidos para além dos guetos pelo DJ Afrika Bambaataa10como os três pilares da cultura hip- hop11. O disco de vinil se torna um importante instrumento musical com a criação do scratch12 e do back spin13 e fez do disco-jóquei, o DJ, uma figura central no rap e considerado o quarto elemento do hip-hop. Ao promoverem festas de rua, que atraíam um grande número de jovens, os DJs emprestavam os microfones para que o público pudesse improvisar discursos acompanhando o ritmo da música. Mais tarde, ficaram conhecidos como Mestres de Cerimônia (MCs). O break é uma dança de rua, com movimentos de ruptura corporal e acrobacias de efeitos harmoniosos, em performances reelaboradas com movimentos de outras danças de origem afro- americana, como o charlestone, e das artes marciais. Já o graffiti surge na década de 1970, a partir das tags14 em muros, trens e estações de metrô de Nova Iorque. Incorporou letras especiais, desenhos e símbolos, criando uma estética própria e sendo conhecida como a arte das ruas. O graffiti era a forma dos jovens dos guetos se apropriarem do espaço público. De acordo com Dayrell, pontos de encontro entre grupos de hip-hop se tornam espaços privilegiados de expressão da realidade juvenil urbana, seus anseios e suas contradições. Por meio da música que tocam e ouvem, das roupas que vestem, da forma como se relacionam entre 10 Nome artístico do estadunidense de origem jamaicana Kevin Donovan que criou, em 1973, o grupo Zulu Nation, no Bronx, em Nova Iorque. Foi herdeiro da tradição oral dos griôs africanos, cujo canto havia sido introduzido na ilha caribenha durante o período da colonização. 11 Cultura urbana, de origem afro-americana, que envolve poesia, música, dança e pintura de rua. Seus principais valores são paz, união, amor e diversão. Na tradução literal, a expressão de língua inglesa “hip hop” significa pular e mexer os quadris. 12 Efeito de atrito da agulha sobre o disco girado ao contrário. 13 Frase rítmica extraída do disco que é repetida várias vezes, alterando o andamento normal da música. 14 Assinatura dos grafiteiros feita com rotulador ou spray. 86 si e com a sociedade, torna-se possível inferir as questões mais candentes presentes entre eles. Dessa forma, colocam os jovens como sujeitos sociais, funcionando como articuladores de identidade e na elaboração de projetos individuais e coletivos, além de colocar na cena pública a diversidade e as contradições vividas pela juventude das áreas periféricas da cidade. Para esses jovens, se torna cada vez mais urgente a convivência com um grupo de semelhantes, o compartilhamento de sentimentos de pertença e as experiências cotidianas possibilitadas pela vivência mediada pelo estilo. Apesar de levar ao confronto direto pelo jogo das palavras, o hip-hop exibe seu potencial agregador ao inserir os MCs num contexto de solidariedade e aprendizado mútuo. Entre vitórias e derrotas, ele mostra que todos são iguais. De fato, ele constitui uma agente de socialização para os jovens, à medida que produz e veicula molduras de representação da realidade, de arquétipos culturais, de modelos de interação entre indivíduo e sociedade, e entre indivíduo e indivíduo. A música oferece aos jovens a possibilidade de conjugar a trama de um caminho de busca existencial com os signos de uma pertença coletiva. Por meio da música, as necessidades dos jovens de uma ancoragem e agregação coletiva se articulam com os percursos de experimentação de si mesmos (DAYRELL, 2005, p. 37). O vínculo entre MCs de um mesmo coletivo é marcado pela convergência de valores e respeito mútuo. A identidade do hip-hop está, segundo Herschmann (2005) profundamente arraigada à experiência local e marcada pelo apego a um status conquistado em coletividade. Os grupos formam um novo tipo de “família”, elaborado a partir de um vínculo intercultural. Dayrell (2005) afirma que, de forma cada vez mais intensa, eles lançam mão da dimensão simbólica como a principal e mais visível forma de comunicação, expressa nos comportamentos e atitudes pelos quais se posicionam diante de si mesmos e da sociedade. A música, a dança, o corpo e seu visual têm sido os mediadores que articulam grupos que se agregam para produzir um som, dançar, postar-se diante do mundo, alguns deles com projetos de intervenção social. O mundo da cultura aparece com um espaço privilegiado de práticas, representações, símbolos e rituais no qual os jovens buscam demarcar uma identidade juvenil. Longe dos olhares dos pais, professores ou patrões, assumem papel de protagonistas. A música é a atividade que mais os envolve e os mobiliza. Para além da lógica estreita do mercado, muitos deixam de ser simples fruidores da música, e são também produtores, formam grupos musicais, compõem músicas e letras, apresentam-se em festas e eventos, mobilizando recursos culturais da sociedade atual (DAYRELL, 2005, p. 15). 87 No caso do Brasil, ainda que de forma restrita e desigual, o autor diz que jovens pobres têm acesso a um circuito cada vez maior de informações. A partir dos apelos da cultura de consumo, com acesso a diferentes modelos sociais e a cenários que nunca poderiam contatar pessoalmente, eles têm sonhos e fantasias estimulados e transpõem fronteiras, num processo de alteração da geografia situacional. A partir daí, vão em busca de elementos que os permitam acessar novos mundos. Para os MCs, é como consumidores culturais de música, discos, shows e festivais que eles se transformam em produtores. O autor destaca que o hip-hop tem seus elementos recodificados pelos grupos, desenvolvendo uma constelação própria de signos, atividades, temas e valores de forma a expressar o contexto social e suas próprias questões. O estilo adotado expressa tanto o processo de globalização, com questões universais, quanto relações locais e a leitura própria do contexto no qual se inserem. Os elementos materiais e simbólicos heterogêneos, que imprimem nesses jovens novas identidades e permitem sua visibilidade, Dayrell chama de “estilos subculturais”. As subculturas têm importante papel social e mostram a diversidade das culturas juvenis urbanas: Mesmo não tendo respostas para os problemas concretos do cotidiano, as subculturas cumprem funções positivas que não estão resolvidas por outras instituições, significando espaços de autonomia e autoestima para os jovens. As subculturas expressam novos valores em oposição e resistência a um código cultural padrão. (...) não podemos falar de uma cultura juvenil homogênea, tanto que a estamos utilizando no plural. Ao contrário, expressa um conjunto de significados compartilhados, um conjunto de símbolos específicos que expressam a pertença a um determinado grupo, uma linguagem com seus específicos usos, particulares rituais e eventos, por meio dos quais a vida adquire um sentido (DAYRELL, 2005, p. 35). Entre os jovens que se integram aos grupos que participam do Duelo de MCs, nota-se como acabam criando um universo próprio, a partir de um jeito de falar, de vestir e de se posicionar diante dos outros. A própria condição de “família”, criada pelos integrantes da Família de Rua, coletivo que organiza o encontro sob o Viaduto Santa Tereza, estabelece uma maneira específica de se relacionar com os outros MCs e o próprio público. Assim, eles criam uma identidade própria com os colegas e criam um vínculo cultural entre si. 88 Ao viverem um processo de apropriação heterogênea de valores, tanto locais quantos de influência global, Herschmann (2005) cita a desterritorialização e a reterritorialização nos processos de consumo e produção desses jovens, o que revela um estilo de vida e práticas sociais bastante diversificados. Eles elaboram valores, sentidos, identidades e afirmam localismos, ao mesmo tempo em que se integram em um mundo cada vez mais globalizado. Ao construírem seu mundo a partir do improviso, da montagem de elementos provenientes também de uma cultura transnacionalizada, em cima daquilo que está em evidencia naquele momento, esses jovens, se não restituam sua comunidade, amigos e a si mesmos no mundo, pelo menos denunciam a condição de excluídos da estrutura social (HERSCHMANN, 2005, p. 214). Apesar das influências externas, os movimentos de rap da juventude negra brasileira vêm adotando um estilo próprio ao questionarem o status quo vigente e tecerem críticas à identidade nacional, especialmente no campo político, racial e cultural. Segundo Yúdice (2006), por meio das músicas não tradicionais, eles procuram estabelecer novas formas de identidade, mas não aquelas que anunciam uma nação da diversidade sem conflitos. Pelo contrário, a música é sobre a desarticulação da identidade nacional e a afirmação da cidadania local. No caso do Duelo de MCs, ao estabelecer um espaço de mediação entre diferentes grupos sociais e áreas da metrópole, evidenciando a cultura periférica para o Centro de Belo Horizonte, os jovens MCs se associam à noção de liberdade e optam por abandonar os condicionamentos e determinações socioculturais impostas pela sociedade, subvertendo a ordem de exclusão e confinamento. Assim, fronteiras são cruzadas, transformando padrões tradicionais de relacionamentos e criando pontes entre os universos pelos quais transita. “É preciso desacreditar na realidade soberana das barreiras sociais para poder transitar através delas; é preciso descobrir sua natureza esquemática e artificial; em outras palavras: é preciso desnaturalizá-las” (VIANNA, 2001, p. 43). Dessa forma, esses jovens acabam se tornando interlocutores de diferentes visões de mundo e propõem o diálogo e a interculturalidade. É a partir da mediação entre universos tão diferentes que o hip-hop cria uma linguagem híbrida e várias influências. No que se refere à estética musical, temáticas e métrica dos versos, o rap produzido no país se caracteriza pela apropriação e colagem de elementos de outros estilos 89 musicais brasileiros. A semelhança com o repente – tradição brasileira que remonta aos trovadores medievais e com forte incidência na região Nordeste – está, segundo Alves (2013), no canto falado, nas rimas, na improvisação – o freestyle15 – e no diálogo com a poesia. De acordo com a autora, a pluralidade cultural no Brasil estreita relações regionais, sociais e culturais. Nesse contexto, o rap, que apresenta a característica de absorção de outros gêneros musicais, e o repente, que é conhecido por acolher e somar outros estilos, criaram um entrelaçamento linguístico, rítmico e ideológico. Há, porém, um estilo individual dentro de cada gênero. O rap, por exemplo, pode ser considerado um repente que une a tradição à contemporaneidade, uma vez que as rimas improvisadas são cadenciadas pelas batidas da música eletrônica produzida pelo DJ e cujos temas envolvem a metrópole e seus conflitos sociais. Ao discutir o rap produzido no Nordeste como prática educativa da juventude negra, Alves (2008) aponta a condição de poetas marginais como característica comum aos “manos” do hip-hop e aos repentistas e emboladores nordestinos. Pela cultura oral, trazem saberes, valores, conceitos e visões de mundo. No caso de Belo Horizonte, como mostra o subcapítulo a seguir, o hip-hop surgiu na cidade na década de 1980, após a consolidação da cultura em outras cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro. 4.1 O HIP-HOP EM BELO HORIZONTE Com influências diretas do rap estadunidense, o rap produzido no Brasil, com forte presença em São Paulo, tem como eixo a questão da negritude e letras com temáticas ligadas à realidade social, com ênfase na violência e nas drogas. A origem do movimento hip-hop no Brasil remete aos bailes black na periferia das grandes metrópoles nos anos 1970. Segundo Dayrell (2005), em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, equipes de som promoviam os eventos nos finais de semana como uma alternativa de lazer e que buscava a valorização da cultura negra, seja nas músicas, nas roupas e nos penteados. 15 Letras de rap criadas com rimas improvisadas. 90 Em Belo Horizonte, de acordo com o autor – que fez um percurso histórico do rap na cidade –, o estilo aportou nos anos 1980, com a proliferação de pequenos salões de dança em bairros da periferia, sobretudo em quadras cobertas, como as do Vilarinho, na região de Venda Nova, e do Chiodi, no Bairro Industrial, em Contagem, que é limítrofe à capital. No Centro de Belo Horizonte, havia o Máscara Negra, tradicional danceteria de black music da época. No caso dos dançarinos de break, tanto nos bailes quanto nas ruas havia competição entre as gangues, geralmente formadas por grupos de um mesmo bairro. No espaço urbano de Belo Horizonte, os jovens escolhiam pontos estratégicos de visibilidade: a Savassi, região tradicional da cidade; o saguão entre os edifícios Sulacap e Sulamérica, na Avenida Afonso Pena, no Centro; o coreto da Praça da Liberdade e o Terminal Turístico JK. Na primeira metade da década de 1990, o movimento hip-hop em Belo Horizonte cresceu, porém, de forma muito tímida. No total, cerca de 20 grupos estruturados de rap atuavam na cidade. Havia também alguns adeptos do estilo, mas sem qualquer articulação entre eles e os grupos existentes, tampouco entre as diferentes linguagens, com poucos momentos de encontros e troca de informações. O coletivo mais conhecido na cena hip-hop da época era o Black Soul, que chegou a gravar CDs. No mesmo período, também se popularizavam em todo o país as batalhas, em que o rap é feito de forma improvisada numa disputa de rimas entre MCs. Além da ausência de articulação e difusão precária de informações sobre o movimento, o hip-hop belo-horizontino era, até 1995, considerado incipiente também por outros fatores. A maioria se identificava apenas com a linguagem a que cada um aderia e pela linha de protesto social que ela expressava, sem a intenção de criar uma organização coletiva. Não havia formação daqueles que começavam a aderir ao estilo, tampouco maior enraizamento nos próprios bairros de origem – com exceção dos grupos do Alto Vera Cruz, na região Leste da cidade, conhecidos por sua coesão – e ações para conquistar um público que os acompanhasse e consumisse a produção musical que realizavam. Outro fator que contribuiu para a pouca visibilidade dos grupos de rap foi a baixa qualidade de sua produção musical. Em muitos casos, supervalorizavam as letras e as mensagens que queriam transmitir em detrimento da base musical, vista apenas como pano de fundo. Na época, a tecnologia ainda não estava tão popularizada e havia dificuldades financeiras para o acesso aos meios necessários para uma boa produção. 91 Sob a influência de artistas nacionais, como os Racionais MCs, e o rapper Gabriel, o Pensador, que ganharam visibilidade nas rádios comerciais e programas de TV e permitiram a popularização do hip-hop entre jovens de classe média, o ano de 1995 foi marcado pelo crescimento da cena hip-hop na cidade, com maior número de grupos, festas e shows. Rádios comunitárias, como a Rádio Favela, do Aglomerado da Serra, tiveram importante papel na difusão do rap na cidade. Entre os espaços criados para o público que consumia rap, destaque para a Broaday, bar temático em Santa Tereza, bairro de classe média na região Leste da capital, especializado em estilos underground, como hard rock, funk e rap. O local chamava a atenção por congregar pela primeira vez jovens da periferia e da zona sul, num contato interclasse inexistente em outros espaços da capital mineira. Após pressão de moradores vizinhos, a Broaday foi fechada em 1997, mesmo ano em que o número de eventos e festas diminuiu gradativamente pela cidade, trazendo novo refluxo do movimento hip-hop belo-horizontino. O crescimento de grupos, espaços e eventos, verificado a partir de 1995, não se traduziu no fortalecimento do movimento hip-hop na cidade. Nessa época, casas como o Estrela Night Club, Calabouço e Dançarte, no Centro, eram considerados os redutos do hip-hop. Apesar de inegável, a cena rap foi sempre reduzida e com um espaço marginal no circuito cultural de Belo Horizonte. O Duelo de MCs trouxe novo impulso à cultura hip-hop em Belo Horizonte. Envolvido com o movimento desde 1999, MC Monge conta que, no início dos anos 2000, aconteceram várias iniciativas, como o surgimento de grupo de grafiteiros, dança, rap, DJs, além da realização de encontros, eventos e debates. No entanto, não ganhavam visibilidade externa. Em meados da década, rodas de improviso ganharam adeptos com um encontro quinzenal organizado por alguns coletivos na Praça Sete, no Centro. Com a chegada do Duelo de MCs, em 2007, o hip-hop feito em Minas Gerais, especialmente o de Belo Horizonte, ganhou força. Dessa forma, boa parte dos grupos de hip-hop da cidade tem no Duelo uma vitrine para seus trabalhos, o que gerou união dos envolvidos e novas parcerias. Muitos deles, inclusive aqueles que até então tinham visões opostas sobre o movimento, se juntaram para a produção de projetos maiores, como a Cidade Hip Hop e o Palco Hip Hop. Nesse sentido, a participação de 92 grupos de Belo Horizonte em festivais nacionais tem crescido e feito do movimento em Minas uma referência nacional. Como ponto de encontro entre artistas, o Duelo se tornou referência para a troca de informações, ideias e o desenvolvimento de projetos artísticos coletivos, que antes não aconteciam com a grande intensidade que hoje acontecem em Belo Horizonte e entorno. Um exemplo é a Casa Amarela, no bairro São Mateus, em Contagem, na região metropolitana. A Família de Rua apoiou os projetos do espaço cultural, que promoveu batalhas de MCs depois que alguns jovens da região que treinavam breaking no espaço começaram a frequentar o Duelo de MCs. Nesse sentido, o Duelo de MCs trouxe estímulo a outros grupos de hip-hop, e a Família de Rua começou a orientá-los para que pudessem promover iniciativas parecidas. Na cidade vizinha de Betim, o “MC Confronta” promove batalhas periodicamente. Em Belo Horizonte há outros encontros para batalhas de freestyle como o “Rapa do Papa”, “Batalha da Estação” e “Batalha da Pista”. Como um grupo de hip-hop, a Família de Rua segue os principais valores do movimento: paz, união, amor e diversão. A concepção artística vem, segundo MC Monge, de uma realidade cruel, de discriminação, de marginalização, em que a cultura nasce para poder unir pessoas em prol do que elas verdadeiramente são. Criar e afirmar identidades e união para que isso se torne ainda maior. O MC Monge lembra dos jovens do Bronx, na periferia de Nova Iorque, na década de 1970. Dançavam, rimavam, discotecavam, pichavam e faziam graffiti. E descobriram que, por meio de festas, confraternizações, comemorações, eles se uniam e ganhavam força. De poderem falar que são negros, latinos, asiáticos e pobres nos Estados Unidos, mas que também são hip- hop. A conquista maior era a autoafirmação, de poder andar do jeito que andavam, vestir-se do jeito que se vestiam. É uma cultura que está espalhada no mundo inteiro, e as pessoas do mundo inteiro se comunicam através do hip-hop. Hoje existem competições e competições, eventos e eventos, principalmente de DJ, graffiti e dança, que unem pessoas no mundo inteiro. E um não precisa falar um do outro porque a arte está falando por eles, você se comunica através da arte, porque os termos são os mesmos, independente de onde você está, seja aqui, na China, nos Estados Unidos, onde for. Top rock, foot work, scratch, tag, bomb, drown up, 93 war style existem no mundo inteiro. Isso é o grande valor do hip-hop (MC Monge16). A Família de Rua concebe o hip-hop como uma linguagem artística que ultrapassa as barreiras do preconceito, da exclusão, da segregação. Mesmo que o hip-hop tenha entendido, durante muito tempo, que só negros de baixa renda podiam fazer parte dele, o coletivo acredita que o hip-hop contemporâneo surge para acabar com esse estereótipo. Durante as apresentações do Duelo de MCs, o que se vê são pessoas com perfis diversos se respeitando e consumindo juntos o hip-hop. O hip-hop é hoje espaço de discussão de questões ligadas ao direito da mulher, discriminação, preconceito racial, desigualdades sociais, homossexualidade. MC Monge explica que o weak é uma dança que foi trazida para o hip-hop por Shabba Doo, coreógrafo da cantora Madonna, após visitas a boates gays dos Estados Unidos. Ou seja, é uma dança do universo gay que foi trazida para o hip-hop. Nesse contexto, MC Monge destaca as infinitas possibilidades de uso do hip-hop. Valores e reflexões que são trazidos, digeridos e trabalhados conjuntamente. Para ele, o hip-hop se alimenta dessa diversidade. E se essa cultura não dá conta dessa diversidade, ela definha em si mesma, ela não dá conta dela mesma. No hip-hop a tendência é sempre abrir, receber...a dificuldade existe o tempo inteiro, porque somos humanos e limitados, então sempre haverá barreiras, dificuldades, diferenças, divergências...não existe um dono da parada, não existe alguém que estabelece uma ordem de cima pra [sic] baixo. Mas é amplo, e se a gente souber lidar com essa amplitude, a gente pode crescer ainda muito mais, abrigar muito mais, ser muito mais sábio, mais inteligente, ocupar de uma forma muito mais massa os espaços, justamente pelas possibilidades (MC Monge17). Dessa maneira, MC Monge demonstra como o Duelo de MCs é parte de um movimento hip-hop que encarna o processo de desterritorialização e reterritorialização cultural, com o alargamento de fronteiras e a busca de referenciais heterogêneos. O grupo dá ênfase à troca de informações e joga por terra o estereótipo das territorialidades. Entende que o espaço de socialização de jovens criado pelo Duelo de MCs no Centro de Belo Horizonte, ainda que traz as 16 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012. 17 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012. 94 demandas da juventude periférica, pode ser compartilhada com pessoas das mais diversas origens econômicas, sociais e culturais. Portanto, o Duelo de MCs cria um espaço de convivência e respeito às diferenças. Com influências de uma expressão cultural da juventude negra e periférica estadunidense, que teve sua história marcada pelo preconceito racial e exclusão, os organizadores idealizam um ambiente de tolerância e respeito e seguem os valores do hip-hop, como paz, união e amor. Dessa forma, estabelecem um local de prática democrática e cidadã no espaço público na cidade. 95 5 METODOLOGIA A investigação aqui proposta foi orientada por uma pesquisa qualitativa, tendo como centralidade a análise da produção artística e informacional de sujeitos envolvidos com o Duelo de MCs. A escolha de uma pesquisa de caráter qualitativo se sustentou na necessidade de apreender o subjacente ao discurso empreendido especialmente pelos MCs e público, bem como àquele presente em documentos que compõem o espaço sob o Viaduto Santa Tereza, como cartazes, folders e fanzine, e no perfil do Duelo de MCs em redes sociais digitais. Tendo em vista a necessidade de compreensão do discurso registrado nos documentos a serem estudados, o trabalho teve como método a análise de conteúdo, uma técnica de pesquisa que possibilita a descrição objetiva e sistemática do tema a ser investigado, a partir do estabelecimento de categorias. Por meio da seleção de categorias e de sua análise, buscou-se uma leitura aprofundada dos discursos e documentos em questão, com o “olhar para uma outra significação, uma outra mensagem entrevista através ou ao lado da mensagem primeira” (BARDIN, 2009, p. 43). Considerando que a “mensagem primeira” é aquela presente nas rimas improvisadas dos MCs, nas suas letras de música, nos textos e imagens de cartazes, folders e fanzine, nos comentários do público e nas postagens em redes sociais digitais, a análise de conteúdo permitiu, por meio da análise das categorias, entender outros significados subjacentes ao discurso adotado: qual visão de mundo se mostra quando o Duelo de MCs, sob o ponto de vista de quem o organiza e de quem o recebe, se apresenta no cenário cultural de Belo Horizonte. A investigação por meio de categorias permitiu a sistematização necessária para a objetividade dos pontos a serem analisados. Ao mesmo tempo, as categorias refletem a heterogeneidade e complexidade do tema. Portanto, a análise dos documentos foi feita a partir de duas categorias, a saber: a) Cidadania cultural: identificar como os MCs e público revelam em seus discursos a concepção sobre o direito à cultura e as práticas culturais como extensão da cidadania; 96 b) Reapropriação do espaço público: identificar como esses sujeitos entendem o espaço público e seu uso por parte dos cidadãos como espaço de encontro e trocas simbólicas. Para conhecer de perto o universo do Duelo de MCs e entender o seu funcionamento, bem como ter a dimensão das questões discutidas por MCs e público, foi realizada, durante o período de agosto a dezembro de 2012 – e em algumas datas do primeiro semestre de 2013 –, uma observação in loco do encontro. Dessa forma, foi possível estabelecer contato com integrantes da Família de Rua, MCs e público e reunir dados e informações a partir de conversas e do cotidiano observado durante as noites de sexta-feira. Ao longo do trabalho de campo, foram sendo agendadas entrevistas semiestruturadas com alguns importantes interlocutores do Duelo de MCs, como os MCs Monge, PDR e Ozleo, integrantes do coletivo Família de Rua. Entre os MCs em início de carreira, foram entrevistados os MCs Douglas Din – bicampeão do Duelo de MCs Nacional e considerado uma das grandes revelações do hip-hop em Belo Horizonte –, Mirapotira, vice-campeã do Duelo de MCs Nacional de 2012 e uma das poucas mulheres a participar de batalhas, e Vinicin, que se destaca na elaboração das rimas improvisadas, especialmente nos duelos temáticos. Além disso, também foi entrevistada a professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG, Natacha Rena. Como principais atores das práticas culturais presentes no Duelo de MCs, deu-se ênfase à análise de conteúdo da produção discursiva dos MCs. No caso das batalhas, optou-se pela análise do “Duelo do Conhecimento”, uma vez que sugere temas previamente definidos pela Família de Rua, com a sugestão de palavras-chave que devem estar presentes nas rimas. Os assuntos propostos, muitas vezes relacionados à atualidade, trazem o desafio aos MCs de estarem sempre informados sobre os acontecimentos, o que revelou o processo de formação de uma cultura informacional dinâmica, a partir de um repertório diverso e revelador. As batalhas analisadas aconteceram entre setembro e dezembro de 2012. Pelo fato de serem feitas de forma improvisada e rápida, o acompanhamento delas in loco não foi suficiente para transcrevê-las. Assim, fez-se necessário o acesso aos vídeos postados no perfil do site IndieBH no Youtube – gravados por Pablo Bernardo, que é responsável pelo site e faz a cobertura em vídeo e foto do Duelo de MCs – para que fosse feita a transcrição correta de cada round das 97 batalhas. No total, foi feita a transcrição de nove rounds de quatro batalhas, que tiveram a participação de 12 MCs. No caso da produção musical analisada, optou-se pela escolha do disco “O som que vem das ruas”, uma vez que reúne músicas interpretadas por MCs que começaram a fazer parte da cultura hip-hop a partir do Duelo de MCs. Ou seja, reflete a mobilização que o encontro promoveu entre jovens periféricos na cidade. O acesso às doze músicas se deu pelo site , a partir do qual foi possível fazer a transcrição das letras. A produção autoral do MC Douglas Din que, além de se destacar como grande revelação do freestyle em Belo Horizonte, tem buscado desenvolver um trabalho como compositor, também foi analisada. Dessa forma, a canção “Amoravila”, que foi lançada em pocket show no Duelo de MCs em 2 de novembro de 2012, durante o trabalho de campo, foi submetida à análise. Para descrever o histórico do Viaduto Santa Tereza, desde a construção até as últimas intervenções arquitetônicas, foram feitas consultas ao acervo do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte (APCBH). E para ilustrar o ambiente sob o Viaduto Santa Tereza, bem como os sujeitos que participam do Duelo de MCs e suas práticas culturais, foram usadas fotos. Algumas foram feitas pelo próprio autor durante seu trabalho de campo, mas a maioria delas foi produzida e cedida para os fins da pesquisa pelo fotógrafo Pablo Bernardo, do site IndieBH, que faz a cobertura jornalística do Duelo. Como sujeitos importantes na construção e reafirmação dos discursos engendrados no Duelo de MCs, também foi necessário fazer a análise de conteúdo da discursividade dos frequentadores. Dessa forma, para conhecer o perfil do público, foi elaborado um roteiro de entrevista estruturada. A aplicação da pesquisa de público por amostragem aconteceu entre setembro e novembro de 2012. Ao longo do trabalho de campo, foram coletados e-mails do público, para os quais foi enviado um questionário semiaberto com 22perguntas (cuja íntegra encontra-se no Anexo 1 deste trabalho), além de postado no perfil do Facebook da Família de Rua. No total, de cerca de 240 questionários enviados, 155 foram respondidos, o que demonstrou adesão do público com a temática proposta pela pesquisa. Do total, 15 questões são objetivas, ou seja, com respostas definidas em meio a alternativas previamente estabelecidas e cujos resultados foram apresentados em gráficos e mapas no capítulo 5. É importante reiterar que não se teve a intenção de fazer um retrato do público do 98 Duelo de MCs de uma forma geral, mas por amostragem, a partir das respostas obtidas somente dos frequentadores abordados durante o trabalho de campo. Entre as sete perguntas subjetivas – em que a resposta é apresentada textualmente e de forma livre –, quatro perguntam a opinião sobre determinados aspectos o Duelo de MCs: “O que você mais curte no Duelo de MCs?”, “O que você menos curte no Duelo?”, “Para você, qual é a importância do Duelo de MCs na cena cultural da cidade?” e “Considerações finais”. Para a análise de conteúdo das respostas às quatro questões subjetivas, foi feita a associação de palavras – substantivos e adjetivos – e expressões (BARDIN, 2009) que revelassem a representação simbólica que os frequentadores têm sobre o Duelo de MCs. Dessa forma, chegou-se a oito grandes temas – cinco positivos e três negativos em decorrência da pergunta “O que você menos curte no Duelo?” –, que foram identificados pelos entrevistados como referência ao se tratar do Duelo de MCs. Além disso, para fazer uma análise de conteúdo sobre a discursividade presente no Duelo de MCs, foi feito o uso da técnica de análise do discurso. Neste caso, não para classificar o discurso conforme as variedades e enfoques propostos por esse método, mas no intuito de auxiliar na identificação dos elementos culturais presentes nos documentos analisados. Teóricos da corrente metodológica acreditam na “importância central do discurso na construção da vida social” (GILL, 2004, p. 244). Dessa forma, reconhecem que as maneiras como os sujeitos sociais compreendem o mundo são histórica e culturalmente específicas e determinadas pelos processos sociais. É importante destacar a noção de construção da linguagem, já que, segundo a autora, os sujeitos lidam com o mundo a partir da construção de diferentes tipos de texto. Além disso, se orientam pelo contexto interpretativo em que se encontram e constroem o discurso para se ajustar a esse contexto. De acordo com Foucault (2011): “...a análise do discurso, assim entendida, não desvenda a universalidade de um sentido; ela mostra à luz do dia o jogo da rarefação imposta, com um poder fundamental de afirmação. Rarefação e afirmação, rarefação, enfim, da afirmação e não generosidade contínua do sentido, e não monarquia do significante” (FOUCAULT, 2011, p. 70). Consequentemente, a análise do discurso permitiu identificar quais questões e elementos que permeiam as trocas simbólicas e discursivas no Duelo de MCs revelam as práticas e o 99 contexto cultural de seus interlocutores. Ou seja, como esses jovens, sejam eles MCs ou representantes do público, agregam ao Duelo significações que representam sua visão de mundo e concepção do real. Para a análise de posts e a interatividade no perfil do Duelo de MCs em redes sociais digitais, optou-se por restringi-los ao conteúdo armazenado no Facebook, uma vez que a rede congrega o armazenamento de documentos em outras redes, além de ser hoje o principal canal de comunicação estabelecido com o público na web. No total, foram analisados 13 conteúdos publicados pela Família de Rua entre 5 de setembro de 2012 e 7 de julho de 2013. Nesse caso, foi adotada como percurso metodológico a netnografia, que analisa o comportamento cultural e as práticas comunicacionais no ciberespaço, como em comunidades e redes sociais. Como o próprio nome diz, a netnografia tem origem na etnografia, método antropológico que reúne técnicas para o trabalho de observação da dinâmica social em comunidades. Segundo Amaral, Natal e Viana (2008), os traçados culturais demarcados pelos sujeitos na interação em comunidades, blogs e plataformas digitais são as pistas seguidas pelos pesquisadores em sua análise. Portanto, foi feita uma análise dos conteúdos postados e, em certa medida, a interatividade verificada no perfil do Duelo de MCs no Facebook. Procurou-se analisar como, a partir das informações deixadas pelo coletivo Família de Rua, os MCs reafirmam a ocupação do espaço público na cidade e a valorização da identidade cultural da juventude negra periférica ao criarem novos discursos na web por meio de recursos textuais e imagéticos. 100 6 O VIADUTO SANTA TEREZA Cenário do confronto poético entre MCs, o Viaduto Santa Tereza traz hoje em sua simbologia a marca da cultura hip-hop e da cultura de rua. Aliás, o viaduto já foi fonte de inspiração e devaneio de escritores modernistas, que faziam escaladas sobre seus arcos. Hoje, enquanto monumento da cidade formal, se transformou num espaço democrático da juventude belo-horizontina, que reverbera os anseios e reivindicações da população de favelas e periferias. Assim, este capítulo faz um histórico do viaduto desde sua construção, em 1928, passando pela importância de ligação entre duas regiões da cidade, tombamento, até a última intervenção, em 1997, cujo projeto contemplou a criação de áreas de convivência entre cidadãos e mobiliário para apresentações artísticas, local onde hoje são feitas as apresentações do Duelo de MCs. Discute-se, a partir de trechos da entrevista feita com o MC Monge, como se deu o processo de ocupação da área, os entraves impostos pela prefeitura para o uso de uma área pública da cidade e a dificuldade com outras instâncias de poder, como a polícia. Além disso, é feita uma análise dos processos gentrificadores e de limpeza social no Centro de Belo Horizonte, especialmente com a chegada de megaeventos na cidade, a partir da análise da professora e urbanista Natacha Rena. Em agosto de 1926, foi lançada a pedra fundamental do Viaduto Santa Tereza. A obra, custeada pela Prefeitura de Belo Horizonte e a Central do Brasil, começou em 1928. O arco parabólico, a parte mais importante do projeto – foram necessários 700 metros cúbicos de concreto –, ficou pronto em agosto de 1929. Em dezembro, os moradores da Região Leste passaram a usufruir das vantagens da ligação com o Centro. A obra foi assunto nas conversas da época. “Aos domingos, quando começava a anoitecer, a Floresta derrama sobre o viaducto uns grupos alegres de moças bonitas. É o footing, uma inauguração antecipada do viaduto”18. 18 Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Viaduto Santa Tereza Belo Horizonte: [PBH], 1999. 101 Ao longo dos anos, o Viaduto Santa Tereza se tornou uma referência urbana para várias gerações de escritores e artistas mineiros. Entre a Rua da Bahia, símbolo da nova capital, moderna e pujante, e a Floresta, que lembrava as casas de alpendre do interior de Minas, o então mais recente cartão-postal de Belo Horizonte era palco para uma escalada por seus arcos, numa espécie de rito de passagem. Entre os aventureiros noturnos, estavam os escritores Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Cyro dos Anjos, Murilo Rubião e Fernando Sabino. Em seu desenho, influências da arquitetura da década de 1930, como o estilo Art Déco. São 390 metros de extensão, 13 metros de largura e 14 de altura, do ponto mais alto ao nível dos trilhos. Com a construção do Viaduto da Floresta, em 1937, o Viaduto Santa Tereza passou a ter mão única, no sentido Centro-Floresta. Por problemas de fissuras de até 20 centímetros nas vigas mestras, em 1961 o viaduto corria o risco de ser interditado. FIGURA 2 – Viaduto Santa Tereza à época da inauguração Fonte: Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte - APCBH/Doação. FIGURA 1 – Viaduto Santa Tereza em construção em 1928 Fonte: Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte - APCBH/Doação. 102 Na década de 1980, após ter passado por algumas reformas, apresentou graves problemas de conservação, tanto em seus elementos decorativos como na estrutura. Para minimizar os efeitos da deterioração, em 1983 o trânsito pesado foi interrompido e, dois anos mais tarde, foram realizadas obras de recuperação estrutural. Na época, a área sob o viaduto servia de abrigo para moradores de rua, e o espaço se encontrava depredado, com sinais de abandono e sujeira. Em 1992, chegou a ser local para barracas do ABC, programa de abastecimento da prefeitura, para venda diária, a baixo custo, de frutas, verduras e legumes, entre outros alimentos. Em 1996, o viaduto foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG) como parte do conjunto arquitetônico da Praça Rui Barbosa, a Praça da Estação. A parte inferior passou a ser usada como depósitos de equipamentos sucateados da prefeitura e estacionamento, além de contar com construções aleatórias e mal planejadas e servir como moradia informal de adolescentes de rua e mendigos. Após 35 intervenções, a última reforma teve início em março de 1997, na gestão do prefeito Célio de Castro, dentro do projeto “Eixo Cultural Rua da Bahia Viva”. Com custo de R$ 2,5 milhões, ficou sob a responsabilidade da Regional Centro-Sul de Belo Horizonte. Tendo como base a Carta de Veneza –referência internacional para restauração de monumentos –, procurou-se favorecer a conservação da edificação, atribuindo-lhe outras funções úteis à sociedade, que até então não cumpria. O amplo espaço sob o viaduto foi considerado de grande potencial, em decorrência da sua localização privilegiada e articulação com o sistema viário e outros espaços de vocação para atividades culturais no Centro da cidade. Considerando essas peculiaridades, foi pensada uma intervenção de caráter estrutural que recuperasse o viaduto para uma ampla e diversificada utilização, universalizando o uso e revertendo seu estado de degradação. O espaço antes deteriorado passaria a abrigar alternativas de lazer, recreação e difusão cultural. Os arquitetos responsáveis afirmavam que a restauração do viaduto, dissociada de uma intervenção abrangente na área “degradada”, teria seu alcance limitado. Na época, a coordenação do projeto “Eixo Cultural Rua da Bahia Viva” informou que outras metas, como a reforma de três passeios ao longo da rua, criação de um calçadão e iluminação especial noturna, já tinham sido aprovadas pelo conselho consultivo, e a licitação sairia em breve. 103 A proposta de ocupação dos 3 mil metros de área coberta teve como marco um projeto que valorizou o antigo viaduto. Os idealizadores usaram alguns materiais com a finalidade de estabelecer o contraste da intervenção contemporânea com a estrutura preexistente. Como parte do “Eixo Cultural Rua da Bahia Viva” – que contemplava intervenções paisagísticas em toda a extensão da via, da Praça da Estação à antiga sede da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), na Rua Carangola, no Santo Antônio –, foi criado o Largo dos Poetas, na confluência da Avenida Assis Chateaubriand com Rua da Bahia, como espaço de referência cultural do viaduto, numa homenagem aos poetas e escritores que incluíram o monumento em suas obras. A criação do Largo dos Poetas tinha como principal diretriz a recuperação e valorização da área do entorno. Uma das propostas também era de ampliar a percepção da cidade aos olhos do cidadão, acrescentando valor à experiência do lugar e enfatizando sua história, características culturais e potencial ambiental. Dessa forma, os espaços sob o viaduto foram decorados com bancos, novo desenho de piso e pedestais para abrigar as silhuetas e trechos de obras dos escritores e poetas. Parte da área foi destinada para a Casa do Artesão – projeto oriundo do Orçamento Participativo –, um local destinado à formação e aprimoramento técnico e profissional dos artesãos, possibilitando a convivência, articulação e organização da categoria, além de espaço para a comercialização permanente dos produtos. Na praça em frente, foi instalada uma estrutura metálica que permitia a montagem de quiosques para feiras diversas – livros, flores, fotografias. O canteiro central da Avenida dos Andradas, localizado sob o viaduto, foi coberto e recebeu revestimento de calçada portuguesa para facilitar a travessia de pedestres, que ainda ganharam novos passeios. No segundo trecho, ao lado da Serraria Souza Pinto, o conjunto arquitetônico foi criado também para destinação cultural, com palco, pista de dança, arquibancada, bar e área delimitada para a disposição de mesas e cadeiras. Junto às escadarias do viaduto, foram construídos sanitários públicos, com boxe para deficientes físicos. A ocupação artística do local podia ser agendada diretamente na então Secretaria Municipal de Cultura. Trata-se da área utilizada para as apresentações do Duelo de MCs. 104 O projeto ainda contemplava áreas de descanso arborizadas equipadas com bancos, posto policial e esferas de concreto ao longo da calçada para impedir o acesso de veículos em áreas destinadas ao pedestre, além de passagem exclusiva para acesso à área de serviços da Serraria, o que facilitou seu funcionamento em dias de grandes eventos. Nos vãos situados do outro lado da linha férrea, próximos à Rua Itambé, foi construída estrutura para abrigar depósitos, vestiários, refeitório e áreas de descanso para funcionários da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU). A proposta de integração urbana e melhoria da qualidade ambiental do entorno ainda compreendeu o alargamento do passeio na lateral do Parque Municipal, com eliminação do estacionamento, arborização em pontos estratégicos e a retirada de outdoors que interferiam na paisagem do viaduto. O intenso processo de deterioração que ameaçava a integridade do monumento e a segurança dos usuários foi contido. Dessa forma, percebe-se que a última reforma realizada na área do Viaduto Santa Tereza foi pensada de forma a oferecer à cidade um espaço que se integrasse à vida citadina. Ao criar mobiliário urbano destinado a exposições de arte, feiras e ocupação artística, buscou-se o entendimento de que a metrópole, apesar de seu desenvolvimento e crescimento econômico, deve preservar áreas destinadas aos encontros e trocas simbólicas entre cidadãos. A seguir, destaca-se como se deu a ocupação dessa área pelo Duelo de MCs. 6.1 A OCUPAÇÃO Foi a área debaixo do viaduto – onde, simbolicamente, se encontram os excluídos do convívio social de uma cidade – que o Duelo de MCs quis adotar como local para os encontros da juventude periférica belo-horizontina. Entretanto, desde o início das atividades, em 2007, a Família de Rua, coletivo que promove o Duelo, tenta superar diversas dificuldades para utilizar o espaço sob o Viaduto Santa Tereza nas noites de sexta-feira. O poder público demonstra desinteresse em relação às demandas e se mostra ausente na hora de cumpri-las. Em alguns momentos, isso quase significou o fim do Duelo. 105 Durante as primeiras edições, a falta de lâmpadas na área obrigava a organização a realizar o encontro sob a luz de velas. Não havia limpeza regular do local, bem como lixeiras e o banheiro, que estava interditado. Ademais, a falta do ponto de energia impedia o uso do equipamento de som. Depois disso, em articulação com apoiadores do movimento, a Família de Rua se organizou para solicitar o alvará, emitido pela prefeitura, para o funcionamento do Duelo. Após o pedido contínuo de alvarás – emitidos semanalmente –, a Família de Rua passou a se organizar para reclamar o cumprimento de demandas referentes à iluminação, limpeza, banheiros e ponto de energia. Foram diversas solicitações, articulações, reuniões e pouco resultado. Banheiros químicos foram disponibilizados durante algum tempo, mas logo não foram disponibilizados mais, assim como as lixeiras móveis. Novos pedidos foram feitos, ora atendidos, ora não. O ponto de energia foi conseguido em 2010, três anos após o início das apresentações. Portanto, há um processo ininterrupto, por parte da Família de Rua, de acionar os órgãos responsáveis da prefeitura para atender as reivindicações. No entanto, a partir do descompromisso e de falhas sucessivas do poder público, o coletivo se articulou e criou uma rede composta de outros grupos, instituições, pesquisadores e pessoas que desenvolvem outras ações de ocupação da cidade, entre outros, para pressionar pelas medidas necessárias. A partir da articulação entre a Família de Rua e outros grupos, houve avanços. A varrição do espaço se tornou mais frequente, um caminhão-pipa passou a ajudar na limpeza, houve a instalação de algumas lixeiras fixas. No período das eleições municipais de 2012, as solicitações FIGURA 3 - Viaduto Santa Tereza durante o Duelo de MCs Fonte: Pablo Bernardo. 106 pararam de ser atendidas, uma vez que poderiam caracterizar campanha política. Entretanto, o MC Monge, um dos representantes da Família de Rua, conta que o que era para ter durado cerca de dois meses, durou mais. E agora a gente precisa correr atrás de novo. Foi esse processo e é esse processo o tempo inteiro, tem sempre que ter alguém acionando e articulando para poder continuar ocupando o espaço da forma que a gente acredita e da forma que o espaço merece, de trato, de cuidado. Ainda hoje, depois de cinco anos, é batalha, é luta, as coisas não vêm por si como eu acredito que deviam vir. Tem cinco anos que ocupamos esse espaço e todo mundo sabe que tem que ter isso, isso, isso, isso e isso funcionando lá para ter o Duelo de MCs ou qualquer outra manifestação cultural que o espaço proporcione, mas não é assim que acontece. (MC Monge19) Entre as instituições que auxiliam a Família de Rua na articulação com o poder público está a ONG Pacto, cujo trabalho de desenvolvimento social dá ênfase à convivência nas cidades, seus conflitos e soluções20. Foi com a Pacto que o Duelo de MCs criou, em meados de 2012, a Real da Rua, um encontro duas horas antes do Duelo, entre pessoas interessadas em discutir, refletir e apontar caminhos para questões ligadas ao Duelo e à ocupação do espaço urbano. O Grupo Cultural Negros da Unidade Consciente (NUC), do Alto Vera Cruz, região Leste de Belo Horizonte, também colabora com o empréstimo do equipamento de som. Também já 19 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012. 20 Pacto Desenvolvimento Social e Pesquisa. Disponível em . Acesso em: 14 mai. 2013. FIGURA 4 – Real da Rua Fonte: Pablo Bernardo. 107 houve parcerias com Coordenadoria Municipal dos Direitos da Mulher, órgão ligado à prefeitura, a outros grupos e instituições também presentes na área da Praça da Estação, como o grupo de teatro Espanca!, o bar Nelson Bordello e o Espaço 104. Entre os representantes da Câmara Municipal, o vereador Arnaldo Godoy (PT) se mobilizou desde a criação do Duelo para que a Família de Rua pudesse ocupar o espaço. Na opinião do MC Monge, a relação mais conflituosa talvez seja com a Polícia Militar, uma vez que é sempre solicitada a presença de policiais durante o encontro, sem, no entanto, muitos resultados. Para ele, a falta de um policiamento preventivo desde o início fez com que a situação do tráfico e uso de drogas durante o Duelo se agravasse. “É bom que isso esteja acontecendo também, pra gente ver que a molecada só consegue ocupar e socializar dessa forma. Mas também a gente não pode deixar com que a coisa permaneça do jeito que tá, porque uma hora ou outra, vai dar merda”, destaca. Mesmo após diversas solicitações, envios de ofícios e reuniões com o comando da sexta companhia, que atende a região do Centro, ainda há um impasse. E, nas vezes em que a polícia aparece, age com uma abordagem muitas vezes truculenta. A ocupação cultural do baixo Centro de Belo Horizonte se tornou uma realidade há alguns anos. Assim como Duelo de MCs, que chegou em 2007 para ocupar o espaço público sob o Viaduto Santa Tereza, apareceram outros movimentos e espaços culturais entre as avenidas Aarão Reis e Santos Dumont. No entanto, seja na ocupação da rua ou de um espaço privado, FIGURA 5 – Ocupação do viaduto para o Duelo de MCs Fonte: Pablo Bernardo. 108 todos eles enfrentam a dificuldade do poder público em lidar com a cultura. “Principalmente se isso não está de acordo com planos iniciais para as políticas culturais”, comenta MC Monge. Para o MC, a cidade ainda não sabe lidar com seus espaços marginais. “Quando falamos que a gente está debaixo do viaduto, as pessoas não acreditam. ‘Debaixo do viaduto? Sério? Nossa, mas lá só tem drogado, só mendigo’. E por isso não merece ter nada ali, tem que estar jogado às traças?” (MC Monge21), questiona. Ele conta que já ouviu de uma autoridade policial da cidade dizer que “lá não tem que ter nada, o espaço está perdido, ninguém tem que fazer nada ali. Não sei o que vocês estão fazendo lá. Vou fazer de tudo para tirar vocês dali porque não tem que acontecer nada. Só dá trabalho, e trabalho ruim”. Ao usar a linguagem da música como veículo para expressão de suas ideias contrárias ao sistema social e a uma cidade que lhes nega lugar e passagem (VAINER, 2013), o Duelo de MCs traz à tona uma concepção excludente de cidade, que reforça as desigualdades, a criminalização da população de baixa renda e a segregação dos espaços. Como momento de exercício da democracia política, a juventude de áreas periféricas da cidade, incluídas numa lógica de exploração, se organiza pelo viés cultural para questionar criticamente a realidade, expor publicamente seus problemas e reivindicar soluções. Para aumentar a força política de ocupação por parte de grupos culturais, é desejo da Família de Rua criar um calendário de eventos sob o Viaduto Santa Tereza ao longo da semana. O anfiteatro pode ser local para apresentações teatrais, circenses, musicais, entre outras. Além disso, a ocupação com maior frequência traria o reconhecimento do público como um local para manifestações artísticas no baixo Centro. Além do Duelo de MCs, presente às sextas-feiras, há eventos esporádicos ligados ao reggae e competições de carrinhos de rolimã. De vez em quando, um grupo de break treina no espaço às quintas-feiras. Em alguns domingos há o Game of Skate, uma disputa entre skatistas promovida também pela Família de Rua. Em 2013, os organizadores do Quarteirão do Soul – movimento que resgata a tradição dos bailes black belo-horizontinos da década de 1970 e que nasceu nas ruas do Centro da cidade –, transferiram o evento dançante para debaixo do viaduto aos sábados à tarde. 21 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012. 109 A ocupação de um espaço público é uma ação política, uma troca de informações entre pessoas em prol da construção do que é nosso, do que é o bem coletivo, a política é isso. Não são pessoas que representam pessoas e fazem o que elas querem. A política se dá nos mínimos detalhes da convivência e da construção que ela é em prol de todos. E o Duelo é, literalmente, isso. Uma demanda da juventude da cidade, da cultura hip-hop da cidade, que a gente faz acontecer. Nós estamos fazendo política. Política pública da juventude e da cultura. É o que a gente faz. Só que sem nada instituído, sem um projeto de lei do município que fala que o Duelo de MCs é uma política pública cultural da juventude da cidade...não, a gente faz e ponto. Então, é política (MC Monge22). Dessa forma, Monge destaca a relevância do Duelo de MCs na formação política da juventude periférica belo-horizontina. De caráter independente e enfrentando as barreiras impostas pelo poder público municipal em manter a agenda de encontros, o Duelo de MCs se mantém na luta pela cidadania de jovens. De forma espontânea, traz para o Centro de Belo Horizonte a discussão de demandas de grupos sociais historicamente alijados das decisões que envolvem a cidade e provoca uma reflexão crítica sobre o papel do Estado. Consequentemente, o Duelo de MCs se torna um dos principais espaços de participação social e empoderamento da juventude periférica na cidade. MC Monge deixa claro que o Duelo de MCs não tem a política como algo instituído. O que fazem é hip-hop, cultura, arte, e que a política entra no contexto, sem ser o foco, longe de discursos partidários. Enquanto cidadãos, os integrantes da Família de Rua têm suas convicções políticas, mas o Duelo de MCs e a Família não tem posicionamento partidário. A gente passou por isso nas eleições dos dois candidatos mais cotados irem ao Duelo ou fazerem coisas relativas ao Duelo e usarem o Duelo como mote eleitoral...ou, nem um nem outro, é nóis! Pode ganhar um, ganhar outro, e vamos continuar com as mesmas demandas, vamos continuar fazendo Duelo toda a sexta-feira. Então que se ferre quem ganhar, pois nós vamos fazer. (...). A gente tá ali por causa do hip-hop. E o hip-hop não tem partido, o hip-hop não tem candidato, o hip-hop tem seus desejos e demandas e, independente de quem esteja no poder, nós somos o nosso próprio poder, então, tanto faz. A gente vai articular com qualquer um que estiver lá para fazer cumprir nossas demandas (MC Monge23). Ao destacar a independência política do Duelo de MCs, MC Monge descreve o conflito vivido, nos últimos anos, entre as democracias representativa e participativa. Independente da 22 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012. 23 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012. 110 concepção ideológica do candidato a prefeito Márcio Lacerda (PSB), que venceu as eleições de 2012 – e as implicações que isso pode ter para o Duelo de MCs –, o encontro da juventude periférica belo-horizontina seguirá acontecendo com as mesmas demandas e reflexões. Com a crise de representatividade dos governantes, grupos sociais se mobilizam a partir da participação social e da discussão coletiva de interesses, em prol da autogestão. Especialmente no caso do Duelo de MCs, cujos organizadores e participantes reivindicam o direito à cidade e o uso do espaço público, agem conforme suas diretrizes e alheios à ação do Estado, mesmo que precisem negociar licenças e alvarás de funcionamento. Ou seja, ainda que as elites política e econômica não estejam dispostas a ouvir as demandas que chegam da periferia, o Duelo de MCs as obriga a ouvi-las. A Família de Rua quer que o Duelo continue acontecendo da melhor maneira possível. É o ocupar, o fazer, o realizar e o vivenciar de uma forma cada vez mais articulada e democrática. Que seja um espaço para os artistas de hip-hop de Belo Horizonte e de outros estados, de outras cidades, como um espaço de convivência da cultura hip-hop e reflexão política. Um momento de encontro entre amigos para trocar, vivenciar, se divertir e construir coletivamente. No entanto, em 7 de junho de 2013, a Família de Rua anunciou a interrupção do Duelo de MCs. Há cerca de um ano o coletivo se queixava dos problemas advindos da falta de policiamento durante o encontro, especialmente o uso e tráfico de drogas. Em 2010, já havia tido uma curta paralisação das atividades, também em decorrência do mau comportamento do público e da falta de vigilância da polícia. Aliás, a campanha “Eu respeito o Duelo de MCs” começou naquele ano, após a interrupção. O coletivo entendeu que, diante da falta de apoio da polícia e da prefeitura, não podia enfrentar uma questão que precisa ser combatida com políticas públicas. Diante dessa situação, tentavam resolver o problema sem o apoio da prefeitura e órgão competentes e deixavam de lado o lugar de artistas e organizadores do encontro. Além de apontarem a omissão do Estado, acreditam que também houve falta de conscientização do público. Tem uma relação direta de negligência de seis anos, né? De a gente solicitar e de tentar chegar num entendimento de ter uma atuação do poder público condizente com a ocupação e com o que o espaço pedia e disso não ser atendido uma vez sequer, sacou? De não existir nenhuma tentativa mais de contemplar, assim, o Duelo de MCs e o que acontecia ali na noite de sexta-feira da forma como a 111 gente lutou pra que fosse estabelecido, né? É sempre uma coisa assim, ou é assim ou não é, né? E aí a gente cansou também de dialogar nesse sentido, sabe? A gente cansou de ficar pedindo pelo amor de Deus pra essa galera, de ficar tentando, ficar adiando esse momento mesmo, sabe? Principalmente no último ano. E também, cara, uma falta de sensibilidade e percepção da galera que cola também, sacou? Do público não conseguir enxergar a coisa de uma maneira um pouquinho mais profunda, de entender que tem um monte de coisa em jogo ali no espaço (MC PDR24). Nesse sentido, apesar de não ser mais promovido às sextas-feiras à noite, especialmente em decorrência da omissão do poder público, o Duelo de MCs deixou um legado de resistência cultural e politização da juventude periférica belo-horizontina. Levou à conscientização de direitos, à reflexão crítica e à valorização da cultura negra e periférica. A partir do empoderamento de vários de jovens, criou a possibilidade de multiplicar iniciativas que contestem a ordem estabelecida e criem novas formas de representação do real – o que pode significar a conquista de direitos. Além disso, ao longo de seis anos de ocupação da área sob o Viaduto Santa Tereza, o Duelo de MCs deixou um lastro de resistência cultural e de contestação da democracia representativa e da atuação do Estado no Brasil. Durante as manifestações que tomaram as ruas do país em junho de 2013, conhecidas como as “Jornadas de Junho”, foi criada a Assembleia Popular Horizontal (APH). Autônoma e organizada horizontalmente, mobilizou movimentos sociais e cidadãos de Belo Horizonte para protestos e criou, sob o Viaduto Santa Tereza, um espaço de reuniões, divididas em 11 eixos temáticos, para a formulação de pautas e propostas que envolvem a cidade e o poder público25. O projeto da Família de Rua foi manter a realização do Duelo de MCs sob o viaduto. No entanto, aos domingos à tarde, com periodicidade quinzenal. Em 15 de outubro de 2013, após cinco meses de pausa, a Família de Rua anunciou que o Duelo de MCs retomaria as batalhas sob o Viaduto Santa Tereza a partir de 3 de novembro do mesmo ano. Paralelamente, outros projetos levaram o Duelo de MCs, enquanto performance artística, para outros espaços e eventos, como casas de shows e centros culturais. Com vistas à Copa do Mundo de 2014, o Governo de Minas e a Prefeitura de Belo Horizonte anunciaram, em março de 2013, novo pacote de obras para a capital, entre elas o 24 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 07 nov. 2012. 25 Assembleia Popular de Belo Horizonte. Disponível em: . Acesso em: 18 ago. 2013. 112 “Circuito do Viaduto Santa Tereza”, com investimentos de R$ 5 milhões26. O projeto prevê a “revitalização” do monumento, com a recuperação da estrutura do viaduto e do revestimento original, em pó de pedra. A área sob o viaduto abrigará o “Circuito de Esportes Radicais”. As intervenções incluem instalação de equipamentos destinados à prática de lazer e esportes, como pista de skate, quadra poliesportiva para a prática de basquete, anfiteatro e minicircuito de bicicleta, além de salas multiuso. A obra ainda prevê a reforma das instalações sanitárias, “revitalização” da escadaria e a instalação de um posto da Polícia Militar. Em março de 2013, a Fundação Municipal de Cultura (FMC) apresentou também o projeto “Corredor Cultural Estação das Artes”, que promete intervenções físicas e o fortalecimento da vocação artística da área da Praça da Estação.27O projeto será custeado com verba de R$ 21,8 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas – que reserva recursos para Belo Horizonte – e tem previsão de entrega para 2014. Um levantamento da FMC identificou mais de 20 equipamentos e instituições culturais na região. Inicialmente, o corredor compreende a Avenida dos Andradas, na altura da Rua Varginha, no Bairro Floresta, até as proximidades do Parque Municipal, além da Rua Sapucaí. A requalificação inclui a melhoria dos passeios, iluminação e sinalização dos prédios e monumentos, além da restauração da antiga hospedaria, na Rua Aarão Reis, que será sede da Escola Livre de Artes. A Fundação realiza reuniões públicas para a discussão da iniciativa com interessados e público em geral, e uma comissão da sociedade civil – com a participação dos organizadores do Duelo de MCs – foi instituída para acompanhar cada passo do projeto. Além de banheiros públicos, iluminação e segurança, integrantes de movimentos sociais e artísticos reivindicam que o projeto preserve, além da vocação cultural, traços de uma região marcada pela movimentação de pedestres, moradores de rua e o comércio popular. 26 LAMEIRA, Gustavo. BH recebe investimento de R$ 177 milhões para obras de mobilidade urbana. Jornal O Tempo, 19 mar. 2013. Disponível em . Acesso em: 24 mar. 2013. 27 AYER, Flávia. PBH quer criar corredor cultural na Praça da Estação. Jornal Estado de Minas, 14 mar. 2013. Disponível em: . Acesso em: 07 abr. 2013. 113 Pesquisadora do espaço urbano em Belo Horizonte e da ocupação da área sob o Viaduto Santa Tereza, a professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG, Natacha Rena, diz que a iniciativa lançada pelos governos estadual e municipal são parte de um processo de gentrificação do Centro de Belo Horizonte. Segundo ela, isso começou com a restauração da Serraria Souza Pinto, nos anos 1990, que passou a ser um espaço destinado para grandes eventos. Natacha Rena explica que os governos usavam o discurso da “revitalização” ou da “requalificação” do espaço urbano, aliado à questão ambiental, patrimonial e de maior oferta de equipamentos culturais, para destinar a área a grandes investimentos empresariais. “No entanto, o objetivo principal é tirar dali aquilo que não interessa, como o graffiti, o pixo, a droga, o preto, o pobre, o hip-hop. Tem que ter o discurso, pois não se pode falar que quer tirar, mas vai requalificar, iluminar, acabar com a violência, investir, plantar árvores, com lojas, supermercados, teatros e se tornar um local ‘maravilhoso’, mais seguro e policiado”, comenta. Para a especialista, é preciso o discurso nostálgico de um lugar limpo, organizado, com o “pó de pedra”, para endossar a “revitalização” de uma área que já é habitada e tem vida – mas uma vida que não interessa à elite política e econômica da cidade, composta por mendigos, usuários de crack, negros, pobres e oriundos da periferia. Por que o pó de pedra, que tinha ali cem anos atrás, é mais importante de voltar do que o pixo e o graffiti que estão ali hoje? Há cem anos a mulher também não tinha os mesmos direitos dos homens, os negros não tinham os mesmos direitos dos brancos, e porque que a arquitetura vai voltar a ser o que ela era cem anos atrás? Do ponto de vista ideológico, o que está por trás disso? (Natacha Rena28). Dessa forma, Natacha Rena destaca a importância da cidade como espaço da sociabilidade, do pertencimento de grupos sociais a um determinado lugar. Assim, iniciativas de “revitalização” apagam o processo espontâneo de ocupação do espaço e desconstroem o elo existente entre o lugar e os sujeitos. A construção social que é feita dos espaços públicos não pode ser desfeita em decorrência de projetos gentrificadores e que beneficiam grandes incorporadoras para a construção de edifícios e ocupação comercial dessas áreas. A professora conta que o projeto “Corredor Cultural Estação das Artes”, que já era previsto para a cidade, pretende vender os espaços públicos para grandes empreiteiras e 28Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 20 fev. 2013. 114 incorporadoras, promovendo a valorização imobiliária do Centro e aumentando consideravelmente os lucros de investidores, que agora compram imóveis a baixo custo para depois revendê-los por grandes cifras. Ao abordar os caminhos da arquitetura contemporânea brasileira, Natacha Rena – coordenadora do grupo de pesquisa Indisciplinar, sediado na Escola de Arquitetura da UFMG e cujas ações enfatizam a produção contemporânea do espaço urbano – afirma que hoje o campo está muito voltado para uma discussão técnica, estética e desvinculado das discussões sociais. A arquitetura feita hoje é fechada para a cidade, pro[sic] espaço público, talvez até seja do espaço público, mas do público do Estado, que não é de todos. Por exemplo, a instalação de um banco de praça numa área de grande incidência da luz do sol é uma estratégia antimendigos, antipessoas muito usada (Natacha Rena29). No caso da América Latina, especificamente no caso de países como a Colômbia, Argentina e Venezuela, essa concepção política e social da arquitetura, de reconhecer a cidade formal e informal e a ocupação espontânea do espaço urbano – com outra visão sobre meio ambiente, ambulantes, favelas etc. – tem sido bastante expressiva. Natacha Rena conta que esses estudiosos, sobretudo os colombianos, trazem da Europa – com destaque para Espanha e Holanda – essa visão crítica e a adaptam para a realidade latino-americana. Essa concepção social da arquitetura já chegou à América Latina, mas não no Brasil. Pelo contrário, a especialista diz que, com os grandes eventos, como a Copa do Mundo, pensa-se na ideia de progresso, desenvolvimento, higienização, limpeza. “Só com a crise que isso começará a ser pensado, assim como muitos grupos de arquitetos no mundo passaram a entender que é preciso resgatar uma discussão mais política, sociológica e antropológica da arquitetura, muito em função da falta de dinheiro no mercado para investimentos”, diz. Portanto, como monumento e parte do espaço público de Belo Horizonte, ao longo dos anos o Viaduto Santa Tereza vem sendo administrado pelo poder público com olhares diferentes, conforme a concepção que os gestores têm de cidade, seja sob a perspectiva democratizante ou excludente. Em relação ao Duelo de MCs, o Estado mostra sua ação repressora a manifestações culturais espontâneas, sobretudo àquelas que representam a periferia, e viola o direito à cidade. 29Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 20 fev. 2013. 115 Mesmo assim, jovens MCs desafiam a lógica discriminatória da administração pública da cidade e propõem a ocupação do espaço público pelo viés da cultura. Trazem histórias de luta por direitos em favelas e periferias, zonas da cidade tradicionalmente esquecidas pela elite política da cidade. Nesse contexto, buscam, por meio da denúncia nas rimas improvisadas, estima social e reconhecimento enquanto cidadãos. Ao desafiarem a lógica de apropriação privada do espaço urbano, movimentos culturais como o Duelo de MCs estabelecem um contra-uso da cidade, conforme conceitua Leite(2007), possibilitando a demarcação de tensões e disputas em torno dos usos e sentidos atribuídos aos espaços urbanos enquanto áreas públicas. 116 7 O DUELO DE MCS O Duelo de MCs surge na cena cultural belo-horizontina não apenas como espaço de fruição da cultura hip-hop. Concebido por MCs de vários grupos de rap, o encontro foi criado também por uma demanda da maioria dos jovens da cidade, com pouco ou quase nenhum acesso a bens culturais e cuja vida é marcada pela falta de oportunidades e exclusão social. No entanto, o Duelo recebe outros grupos sociais, com níveis socioculturais diversos e oriundos de diferentes partes da cidade e região metropolitana. Assim, ao promover um encontro às sextas-feiras à noite sob o Viaduto Santa Tereza, marcado por momentos de diversão e trocas informacionais, o Duelo de MCs torna-se um espaço de convivência e diálogo da juventude em Belo Horizonte. Portanto, este capítulo faz a descrição da cena da noite de sexta-feira sob o Viaduto Santa Tereza e o papel dos sujeitos na ocupação da área, integrados pela identidade com o hip-hop: o Duelo de MCs e suas modalidades de competição, o público com estética e comportamento próprios, especialmente na valorização da cultura negra, e a convivência com vários grupos. Há também uma análise do público, a partir de pesquisa realizada com frequentadores, com dados sobre seu perfil, hábitos culturais e opiniões sobre o Duelo de MCs. Destaca-se também o Duelo de MCs como espaço agregador de outros coletivos, inclusive de fora da cidade, bem como a consolidação do encontro na cultura hip-hop brasileira, seja pela organização do Duelo de MCs nacional ou pela participação dos MCs em apresentações em grandes eventos e importantes casas de espetáculos da cidade. Além disso, é feita uma discussão sobre a articulação de jovens ligados à cultura hip-hop para a criação do Duelo de MCs e a reapropriação do espaço público no Centro de Belo Horizonte. É ressaltada a formação da Família de Rua, o coletivo que organiza o encontro, bem como as possibilidades de financiamento do Duelo, enquanto evento cultural alternativo, e sua importância na formação de uma cadeia produtiva do hip-hop na cidade. É inegável a importância que o movimento hip-hop em Belo Horizonte adquiriu a partir da ocupação desse espaço no Centro da capital mineira. Trouxe empoderamento aos MCs, que vêm conquistando seu lugar como artistas, levando sua música e conhecimento para a cidade, 117 mesmo com todos os entraves de manter ininterruptamente um encontro semanal de arte urbana e gozar do direito de uso do espaço público. Dessa forma, jovens negros periféricos legitimam seu movimento artístico e político, o que traz a eles possibilidade de inserção como sujeitos a partir de sua arte, seus valores, sua identidade e idiossincrasias. Com esse viés, se reconhecem e são reconhecidos como cidadãos, num ambiente social em que a diversidade se torna estímulo para as relações sociais, pautadas pelo respeito ao outro. Dayrell (2005) explica que, para esses jovens, a condição de “periferia” – ainda que nem todos sejam oriundos de vilas e favelas da cidade –, que também engloba a condição de pobres e de negros, reflete uma característica mais ampla da cultura juvenil, que tende a transformar os espaços físicos em espaços sociais pela produção de estruturas particulares de significado. Percebe-se isso no sentido que atribuem à rua e às praças que, muitas vezes, aparecem como palco para a expressão da cultura que elaboram, numa reinvenção do espaço. FIGURA 6 – Batalha entre MCs Fonte: Pablo Bernardo. 118 a) b) c) Mesmo com a difícil conquista de espaços para a visibilidade da cultura hip-hop, o Duelo de MCs vem rompendo barreiras e permitindo trocas informacionais que até pouco tempo não existiam. Estes jovens fazem do Viaduto Santa Tereza seu lugar como mediadores sociais, alçando sua voz para a indiferença a manifestações culturais da cidade e propondo novos diálogos com o espaço da cidade e seus cidadãos. A motivação para a criação do Duelo de MCs surgiu em agosto de 2007 com a “Liga dos MCs Nacional”, evento de batalhas de MCs realizado na antiga casa de espetáculos Lapa Multishow, em Belo Horizonte, pela Brutal Crew, um grupo de hip-hop do Rio de Janeiro. Além da capital mineira, foram feitas eliminatórias no Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Porto Alegre (RS) e Recife (PE). Em cada cidade, 16 MCs locais se enfrentavam para o desafio de um FIGURA 7 – Duelo de MCs a) Batalha entre MCs b) Batalha entre MCs c) Batalha entre MCs Fonte: Pablo Bernardo. 119 duelo até o limite. Após a etapa Belo Horizonte, que teve grande adesão de interessados, alguns MCs e DJs, oriundos de vários grupos da cidade, decidiram propor um encontro periódico. Na época, o movimento hip-hop da capital mineira não tinha um encontro periódico que agregasse os vários grupos de rap da cidade para batalhas entre MCs. Havia apenas encontros quinzenais de freestyle na Praça Sete, sem a proposta de embates, mas que começava a se desmobilizar. A organização ficava a cargo do coletivo Conspiração Subterrânea, composta por MCs e DJs e alguns b-boys e grafiteiros. Na semana seguinte à etapa mineira da Liga, cerca de dez pessoas se encontraram na Praça da Estação. A proposta era criar um ponto de encontro fixo entre MCs para trocar ideias, escutar e dançar rap e principalmente para criar rimas e participar de batalhas. Ou seja, vivenciar a cultura hip-hop, que significava boa parte de sua experiência como sujeitos sociais. Era importante que fosse no Centro de Belo Horizonte, já que a maioria dos ônibus coletivos da cidade passa pela região, o que possibilitaria a participação de pessoas de várias áreas da capital e região metropolitana. Quando os MCs se juntaram pela primeira vez numa roda na Praça da Estação, guardas municipais abordaram o grupo para perguntar se tinham autorização para o encontro no local. Informaram que, caso não tivessem um alvará emitido pela prefeitura, teriam que sair. Como estavam sem a documentação exigida, decidiram migrar para a calçada em frente ao Centro Cultural Miguilim, atual Centro de Referência da Criança e do Adolescente, ao lado da praça, e lá passaram a se reunir todas as semanas. Aos poucos, eles começaram a se organizar entre si, cada um com sua função. Um se comprometeu a levar o carro para que o som pudesse reproduzir as músicas de rap, mas logo foi possível articular com a direção do Miguilim a permissão para usar a energia elétrica. Havia quem levasse os beats30 ou que mobilizasse a participação dos grupos. Em alguns momentos, montavam o skate sound system, em que duas caixas de som são colocadas sobre uma prancha de skate e ligadas a uma bateria de carro e a um MP3 player. Movidos pelo boca-a-boca, o número de interessados aumentava progressivamente a cada encontro. De um pequeno grupo de dez, o encontro começou a ter algumas dezenas de pessoas. 30 Batida do rap. 120 Para melhor se preparar, os idealizadores nomearam alguns participantes que se comprometeram a levar adiante o projeto. Entre eles, pessoas de várias regiões da cidade, pertencentes a diferentes coletivos, festas e produtoras de hip-hop de Belo Horizonte. Além de integrantes do Conspiração Subterrânea, havia gente de outros grupos de rap, como o Minas Som e Rap e o Casa B, da Xeque Mate Produções, da festa Mmm Bop e do grupo Negros da Unidade Consciente (NUC), que passou a emprestar o equipamento de som. O coletivo foi batizado por inspiração de um dos integrantes, o grafiteiro Mateus, conhecido como MTS. Ele fazia parte de um grupo de skate chamado Street Family. O nome, que depois foi abandonado pelos skatistas, traduzia a essência do grupo: jovens que compartilhavam experiências artísticas pelas ruas da cidade e tinham os mesmos desafios e sonhos. Criado especialmente para lidar com as demandas do encontro – logo nomeado de Duelo de MCs –, a Família de Rua também tinha a missão de levar artistas de outras linguagens do hip-hop, como a dança e o graffiti, para o Duelo. A migração do Duelo de MCs para o anfiteatro localizado debaixo do Viaduto Santa Tereza, ao lado da Serraria Souza Pinto, aconteceu de forma natural. Pelo fato de a área próxima ao Miguilim ser descoberta, e eles usarem equipamentos eletrônicos, a chuva os obrigava a procurar proteção, e a área sob o viaduto era o local mais próximo. Desde então, se tornou o destino do Duelo diante de qualquer ameaça de chuva. Entre o final de 2007 e início de 2008, o encontro ficou entre os dois locais, até o grupo perceber que a área sob o viaduto era o espaço ideal, formado por uma estrutura de concreto com palco e arquibancada. Havia também uma área que poderia ser destinada aos skatistas e espaço mais confortável para os b-boys. Além disso, elementos urbanos, como o metrô, que passa na linha férrea localizada atrás do palco, e a própria estrutura do viaduto, grande e imponente, agregavam signos ao Duelo de MCs. Para coletivizar a decisão sobre a mudança de endereço do Duelo, a Família de Rua organizou uma enquete no Orkut – uma das redes sociais mais populares da época – para votação. E no primeiro semestre de 2008, o Duelo de MCs se estabeleceu no Viaduto. No mesmo ano, a dança e o graffiti começaram a entrar para o calendário de encontros do Duelo. 121 A seguir, destaca-se a noite de sexta-feira do Duelo de MCs, com detalhes sobre os tipos de batalhas que acontecem e a composição do espaço sob o Viaduto Santa Tereza. Além disso, descreve-se o perfil do público a partir dos resultados de pesquisa feita com frequentadores. 7.1 A NOITE DE SEXTA-FEIRA E O PÚBLICO A partir das 21h de sexta-feira, o público começa a se juntar debaixo do Viaduto Santa Tereza, ao lado da Serraria Souza Pinto e próximo à Avenida dos Andradas. O som é montado e o DJ convidado começa a testá-lo. Por volta das 22h, com uma plateia cheia, MC Monge, que tradicionalmente conduz o encontro, dá as boas-vindas ao público e faz a primeira pergunta de sempre: “O que acontece aqui?”. Na sequência, escuta a resposta em uníssono: “Duelo de MCs!”. A mesma saudação é repetida algumas vezes, numa espécie de mantra. São abertas as inscrições para os duelos, ao custo de R$ 2, para que possa haver o sorteio dos interessados e início da primeira batalha de rimas improvisadas da noite. No início de cada FIGURA 8 – MC Monge cumprimenta o público no começo do Duelo de MCs Fonte: Pablo Bernardo. 122 apresentação, é comum ver os MCs levantarem a mão, num movimento de cima para baixo, e pedirem à plateia que faça o mesmo, num gesto de incentivo à sua performance. Ao estabelecer uma relação de identidade com o público, Monge o cumprimenta chamando-o de “família”. Os MCs Monge, PDR, Ozleo e os demais integrantes da Família de Rua se consideram irmãos. Além de comporem um coletivo de artistas, também mantêm vivência em família – especialmente por morarem juntos e manter um espaço de encontro entre eles no Centro da cidade – e colaboram entre si em questões pessoais. Ao criarem um vínculo de pertencimento entre eles, pautado na solidariedade, cumplicidade e respeito – contexto que é propiciado pelo hip-hop e seu princípio de coletividade –, transferem essa identidade familiar para o público, com quem compartilham os mesmos valores. A relação de amizade e pertença coletiva também é estabelecida com MCs e grupos de rap convidados para os pockets shows que acontecem ao longo da noite. Em muitos casos, são artistas de outras cidades mineiras ou de outros estados – cujos custos com a viagem são bancados pelos próprios artistas – que acabam sendo “batizados” pela Família de Rua após as apresentações, se tornando parte da “família” do Duelo de MCs. A postura acolhedora e aberta traz importantes frutos para uma boa relação com MCs de outros lugares, com possibilidades de futuras parcerias e reconhecimento do Duelo como um espaço de visibilidade no cenário nacional. Dessa forma, o Duelo de MCs tem se tornado referência do hip-hop como um movimento cultural que agrega outros coletivos, permitindo momentos de troca de experiências, amizade e admiração mútua. Assim, o Duelo promove um ambiente que se opõe à realidade discriminatória e segregadora em que vive a maioria dos MCs, o que o faz ser um espaço de visibilidade e autovalorização da juventude negra periférica. Durante a apresentação de cada MC, apesar de muitas palavras serem ofensivas, é clara a relação de respeito entre os MCs. Quase sempre se abraçam e se cumprimentam após o fim de um duelo. Para julgar o desempenho de cada um, são convidados dois MCs, e o público dá o terceiro voto. Ao final de duas rodadas, se houver empate, é realizado o terceiro round – que muitas vezes é solicitado pelo público, que quer dar nova chance aos concorrentes – até a definição do vencedor. 123 O encontro se encerra com o duelo final entre os vencedores. Ganha aquele que conseguir produzir as melhores sequências de versos ao atacar e responder o adversário. Aquele que vencer é considerado o grande Mestre de Cerimônia da noite, o que dá direito ao “freestyle do campeão”, com duração de um minuto. Cada um dos quatro encontros mensais do Duelo de MCs tem uma proposta diferente: a primeira sexta-feira é dedicada ao “Duelo Tradicional”, quando MCs se enfrentam em rounds de 45 segundos para a improvisação de rimas. Na segunda, há o “Duelo Bate e Volta”, em que os MCs criam rimas um em seguida do outro, o que exige mais agilidade e concentração. Na terceira sexta-feira, acontece o “Duelo do Conhecimento”, com batalhas travadas a partir de algumas temáticas preestabelecidas. Em muitos casos, os temas têm relação com a atualidade, e quase sempre o MC que agrega mais informações à rima ganha a disputa. QUADRO 1 Modalidades do Duelo de MCs DUELO TRADICIONAL DUELO DO CONHECIMENTO DUELO BATE E VOLTA Periodicidade Toda a primeira sexta-feira do mês Toda a segunda sexta-feira do mês Toda a terceira sexta-feira do mês FIGURA 9 – Público pede o terceiro round Fonte: Pablo Bernardo. 124 DUELO TRADICIONAL DUELO DO CONHECIMENTO DUELO BATE E VOLTA Número e tempo dos rounds Dois rounds de 45 segundos para cada duelista. Na primeira rodada, um MC ataca e o outro responde. As posições são invertidas no segundo round. Se houver empate, o terceiro round é de 45 segundos para casa um. Um round de um minuto para cada duelista. Em caso de empate, há o terceiro round de 45 segundos para cada. Dois rounds de 45 segundos, com o terceiro, também de 45 segundos, em caso de empate. Número de MCs sorteados Oito Oito Oito Características MCs se enfrentam improvisando rimas em sequências de ataque e defesa, de maneira a desqualificar o adversário. Batalhas travadas a partir de temáticas preestabelecidas. Os temas têm relação com a atualidade ou com o universo da juventude. São disponibilizadas cinco palavras-chave. MCs criam rimas um em seguida do outro, para ataque e defesa em relação ao concorrente. Os rounds são contados pelas oitavas da batida do DJ, o que torna o duelo mais dinâmico. Há quatro entradas para cada MC por round. Na primeira entrada, são quatro oitavas e oito versos; na segunda, terceira e quarta, apenas duas oitavas e quatro versos. O formato exige que o duelista seja mais ágil na formação de rimas. Avaliação dos jurados Qualidade das rimas, adequação ao ritmo da música e uso apropriado das palavras. Palavrões fazem com que o MC perca pontos. Principalmente a contextualização com o tema e as palavras-chave. Também são avaliados a qualidade das rimas, adequação ao ritmo da música e uso apropriado das palavras. Qualidade das rimas, uso apropriado das palavras, adequação ao ritmo da música e entrosamento com o colega. O MC que usar palavrões perde pontos. Já a quarta e última sexta-feira do mês, a “Noite de Danças”, é dedicada exclusivamente à Street Dance. Em frente à plateia, a roda é aberta pelo público, que se contagia com as inúmeras acrobacias e coreografias de bailarinos ou de quem queira se arriscar. Uma das grandes características da dança de rua é a improvisação e a mistura de linguagens como encenação teatral, mímica e danças. E os estilos são variados: Breaking, Popping, Locking, Krumping, Waacking, House e Rock Dance. São b-boys e b-girls – nomes criados no Bronx, em Nova Iorque, em 1973, para se referir aos dançarinos e dançarinas – que dançam e interagem seus corpos ao som de James Brown, 125 Marvin Gaye, Michael Jackson e outros ícones da Soul Music estadunidense. No Duelo de MCs, a Street Dance é organizada por Eduardo Sô, que faz parte da primeira geração de breakers de Belo Horizonte, que surgiu no começo da década de 1980. Ficou 15 anos em São Paulo (SP) e teve a chance de levar a dança de rua brasileira para vários países. a) b) c) Além das atividades artísticas que acontecem no palco, o Duelo é marcado pela venda de produtos relacionados ao encontro: botons, adesivos, camisetas e principalmente CDs de MCs que se apresentam no duelo. Os CDs normalmente são produzidos sem qualquer patrocínio, FIGURA 10 – Noite de Danças a) B-boy durante apresentação no Duelo de MCs. b) B-girls durante apresentação no Duelo de MCs. c) B-boy durante apresentação no Duelo de MCs. Fonte: Pablo Bernardo. 126 vendidos a R$ 5, e o Duelo de MCs representa para esses artistas um momento para a divulgação de seus trabalhos e a obtenção de renda com sua produção artística. Ao promoverem a comercialização de produtos com a marca do Duelo de MCs, bem como de CDs de MCs e rappers, os organizadores possibilitam, além de uma fonte de renda para o próprio encontro e para artistas independentes, a criação de uma cadeia produtiva do hip-hop. Dessa forma, fomentam a produção musical de MCs e incentivam aqueles que estão em início de carreira. Após se tornarem conhecidos durantes as batalhas, os MCs produzem seu próprio trabalho e gravam seu primeiro CD, o que simboliza um rito de iniciação à carreira artística e a chance de viver da própria arte. Para o Duelo de MCs, a venda de roupas e acessórios com a logomarca do encontro também contribui para a formação de um sentimento de pertença por parte do público, que literalmente “veste a camisa” do movimento. Seja sob o Viaduto Santa Tereza ou em outros espaços sociais que frequentam, levam consigo símbolos de resistência, respeito à pluralidade de expressões culturais e crítica à atuação do Estado em coibir as manifestações culturais na cidade. a) b) O espaço destinado ao Duelo foi totalmente caracterizado com elementos da cultura hip- hop. Nas paredes, pilastras e escadarias do Viaduto Santa Tereza há inúmeros desenhos feitos com graffiti. Numa das vigas que sustentam o Viaduto, localizada em cima do palco, há um desenho com a frase “Respeite o Duelo de MCs”. Há também cartazes com eventos ligados ao FIGURA 11 – Cadeia produtiva do hip-hop a) Venda de CDs b) Venda de camisetas Fonte: Pablo Bernardo. 127 movimento e até mesmo faixas em branco para que o público deixe sua mensagem de apoio ao Duelo. Além disso, há também o espaço destinado a skatistas e dançarinos. Os vendedores ambulantes circulam entre os frequentadores com seus carrinhos. É possível comprar cerveja, vinho, refrigerante, cachorro-quente, bombons e açaí. Com o aparecimento frequente de fiscais da prefeitura, que proíbem a “venda irregular de produtos”, precisam vendê-los à espreita para não terem as mercadorias apreendidas. a) b) Boa parte do público se veste com uma estética hip-hop: rapazes de bonés ou toucas, camisetas largas e compridas, alguns com blusas de moletom e calças jeans largas, além de calçarem tênis de cano alto. A maioria das moças veste shorts, saia ou calças largas, camiseta regata e calça sapatilhas ou tênis de cano alto. É alto o índice de homens e mulheres com tatuagens, alargadores de orelhas e piercings. Além disso, o Duelo de MCs traz a autovalorização do negro entre os jovens periféricos. Diante de um cotidiano excludente e racista, esses jovens reafirmam a cultura negra especialmente no uso do cabelo com diferentes penteados, como black power, dread e rastafári. Há também a presença de jovens de diversos grupos, como de “punks”, “darks”, “emos”, “góticos”, “funkeiros”, “neo-hippies” e “rastafáris”. Menos numerosos, jovens de classe média se misturam entre os frequentadores. Dessa forma, o Duelo de MCs acaba sendo um ponto de encontro da juventude urbana belo-horizontina ligada a diversas filosofias, estilos e modos de expressão estética e FIGURA 12 – Vendedores ambulantes a) Vendedor de bebidas b) Vendedor de alimentos Fonte: Autor. 128 comportamental. O espaço se tornou para eles referência de liberdade, subversão à ordem estabelecida e de convivência entre pessoas com diferentes origens, histórias e classes sociais. a) b) c) d) e) Há grupos de jovens ligados a religiões, principalmente as cristãs, como as evangélic Em muitos casos, conheceram o hip-hop em cultos e celebrações. Alguns chegam ao FIGURA 13 – Público a) Público durante o Duelo de MCs b) O uso de penteados que reforçam a identidade negra c) O uso de penteados que reforçam a identidade negra d) Grupo de amigos e) Grupo de amigas Fonte: Pabl Bernardo. 129 Duelo após celebrações religiosas e trazem a bíblia na mão. Aliás, a temática religiosa é uma referência constante no rap brasileiro e está presente nas letras de vários rappers, já que, num contexto de injustiça social, muitas se voltam para a fé. Além das igrejas evangélicas, há ligação do hip-hop com o budismo e com religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Ao congregar grupos ligados pela identidade religiosa, o Duelo de MCs mostra o alcance da diversidade de seu público e o diálogo com grupos sociais com diferentes hábitos. Assim, promove um ambiente de convivência entre pessoas que, apesar das diferenças, criam uma identidade comum com os valores do hip-hop. Para saber o perfil dos frequentadores do Duelo de MCs, o presente estudo realizou pesquisa de público por amostragem entre setembro e novembro de 2012. Foram elaborados pequenos panfletos sobre a proposta da pesquisa e, durante três sextas-feiras, foram entregues a algumas pessoas, que se interessaram pela proposta e disponibilizaram seu e-mail. Num universo de cerca de 240 pessoas, foi enviado questionário semiaberto (cujo modelo se encontra no anexo deste trabalho) com 22 perguntas que abordavam, entre outros temas, o envolvimento com o Duelo de MCs e hábitos de consumo em cultura. É importante deixar claro que não houve a intenção de traçar o perfil do público do Duelo de MCs de uma forma geral, mas buscou-se, a partir da análise das respostas das pessoas que foram abordadas durante o trabalho de campo e responderam às questões, descrever as principais FIGURA 14 – Frequentadores ligados a religiões Fonte: Autor. 130 características do público. Ou seja, a partir de uma amostragem aleatória, mas considerada suficiente para representar o universo pesquisado. De acordo com as respostas de 155 pessoas que aderiram à pesquisa, a diversidade é a grande característica do público, que advém de diversas regiões da cidade, inclusive de municípios vizinhos, com diversos níveis de escolaridade e hábitos culturais. Além de congregar interessados na cultura hip-hop, o Duelo é reconhecido também como espaço da juventude belo- horizontina e de resistência cultural no Centro da cidade. Os gráficos a seguir fazem um resumo das respostas dos entrevistados: 131 132 133 134 135 136 137 138 139 Os dados mostram que a quantidade de homens e mulheres é equilibrada, o que rompe com o estereótipo de que encontros da cultura hip-hop são admirados e seguidos apenas por homens. Apesar de a maioria do público ser composta por pessoas do sexo masculino (51,6%), a diferença para o público feminino (48,4%) é de pouco mais de três pontos percentuais. É possível afirmar que o Duelo de MCs é um movimento de interesse da juventude. De acordo com a classificação da Organização das Nações Unidas (ONU), que define o jovem como alguém entre 15 e 24 anos, 73% dos frequentadores do Duelo são jovens, com maior índice entre 19 e 24 anos (56%). Apesar de ser um espaço com diversidade de perfis, na temática “cor” a maioria dos entrevistados se declara preto, pardo ou mulato (52,2%). Nesse sentido, o Duelo de MCs se configura como um movimento que reflete majoritariamente as demandas da juventude negra. Os dados sobre escolaridade mostram que a maioria (42%) está na universidade. Os frequentadores que terminaram ou que ainda estão no Ensino Médio somam 31,5%. Sobre a origem, a maior parte é mesmo da capital mineira (74%), com pessoas de todas as regiões de Belo Horizonte, seja de Venda Nova, no extremo norte da cidade, ou na região Centro-Sul, onde está localizado o Viaduto Santa Tereza. Perguntado sobre como ficou sabendo do Duelo de MCs – em que podia marcar mais de uma opção – o velho boca-a-boca predomina: 95% dos entrevistados afirmam que souberam do encontro por indicação de amigos. No entanto, 28% do público conheceu o Duelo pelas redes sociais digitais, o que reforça a importância desses veículos de comunicação para a visibilidade do movimento. O hábito de frequentar o Duelo vem crescendo ao longo dos anos, desde as primeiras apresentações, em 2007. Se o público que participa do movimento desde os dois primeiros anos é de 14,9%, quase 71% dos frequentadores começaram a ir nos últimos três anos, o que comprova o crescimento da audiência e a consolidação do Duelo de MCs na cidade. Além disso, eles mantêm boa assiduidade, já que 42,5% dizem ir quase toda semana. Sobre os motivos que os levam a frequentar o Duelo, a maior parte do público se identifica com a cultura hip-hop (70%) e acha interessante a arte das rimas improvisadas dos MCs (68%). Ademais, 69% vão ao Viaduto Santa Tereza nas noites de sexta-feira porque 140 admiram o movimento de ocupação cultural na área da Praça da Estação, o que endossa um dos objetivos do movimento em ocupar os espaços públicos da cidade. A identificação com o rap fica clara entre o público, uma vez que 83% afirmam gostar do estilo musical. Além de estarem presentes no Duelo, 75% dos frequentadores também acompanham o movimento por outros meios, com destaque para as redes sociais digitais, usadas por quase todos (90%). Sendo assim, confirma-se o alto índice de acesso à internet e aos meios digitais pelo público e o uso das redes como o principal meio de comunicação com os organizadores. Em relação ao hábito cultural dos frequentadores, os locais que mais costumam frequentar nos momentos de lazer são a casa de amigos (81%), praças (74%), shows (72%), bares (71%), cinema (68%) e centros culturais (57%), sendo que duas opções – praças e centros culturais – também são espaços e equipamentos culturais públicos. Além do rap, o público também gosta de outros estilos musicais, como a MPB (68%), o samba (65%), o rock internacional (63%) e o rock nacional (58%). Em relação às fontes de informação dos entrevistados, 83% disseram que se informam pelas redes sociais digitais em casa, seguidas pela troca de informações com familiares, amigos, vizinhos ou colegas de trabalho (70%), jornais, revistas, boletins (69%), sites, blogs em casa (56%), e-mail em casa (53%) e TV (52%). Percebe-se, a partir das opções mais votadas, como a cultura informacional experimentada pelo público é pautada ora pela troca de informações entre parentes e amigos e por veículos tradicionais de imprensa, como jornais e TV, ora pelos meios digitais, como as redes sociais, sites e blogs. A pesquisa também mostra que dispositivos móveis, como celulares, são bastante usados para acompanhar o Duelo de MCs. Entre os entrevistados, 41% afirmam que usam o celular para acessar as redes sociais, 21% para entrar em sites e blogs na internet e 19% para receber e enviar e-mails. A diversidade do público do Duelo de MCs pode ser comprovada com a menção de quase 70 diferentes bairros das nove regiões de Belo Horizonte nas respostas da pesquisa realizada, bem como sete municípios da região metropolitana, duas cidades do interior de Minas Gerais e uma cidade em outro estado brasileiro. 141 Em relação à ocupação dos entrevistados, a maioria se declara estudante (29%). Entre os profissionais, destaque para os vendedores (6,5%) e auxiliares administrativos (5,2%). Foram citadas ainda outras 60 profissões com perfis diversos, como estoquista, publicitário, serralheiro, empresário, almoxarife, artista plástico, copista, designer, mecânico, educadora física, ator, secretária, frentista, geógrafo, montador de móveis e guia de turismo. a) b) c) d) e) f) FIGURA 15 – Diversidade do público a) Frequentadora b) Frequentador c) Frequentador d) Frequentador durante batalha entre MCs e) Amigas assistem à apresentação de breaking f) Grupo de amigos Fonte: Pablo Bernardo. 142 Entre as questões abertas do questionário, os entrevistados foram perguntados sobre o que mais gostam do Duelo de MCs e sua importância para o cenário cultural da cidade. As respostas incidem majoritariamente sobre quatro aspectos do movimento, especificados nos quadros a seguir, que também apresentam as expressões mais usadas pelos entrevistados e alguns comentários na íntegra: QUADRO 2 Impressões do público sobre o Duelo de MCs: resistência cultural TEMA ABORDADO SUBSTANTIVOS E EXPRESSÕES USADAS Duelo de MCs como movimento de resistência cultural em Belo Horizonte, capaz de atrair um público com perfis diversos, promovendo a convivência entre grupos sociais e valorizando as culturas populares urbanas. Respeito, acolhimento, diversidade, paz, “liberdade de expressão”, “fim à cena cultural tradicionalista de BH”, “formação de uma nova identidade cultural de Belo Horizonte”, “ausência de preconceito”, “cultura afro”, “interação entre diferentes tipos de pessoas e classes”, “espaço onde não rola briga”, “a cultura representada cara a cara, olho no olho”. COMENTÁRIOS  “A diversidade de ‘tribos’ que frequentam esse espaço é incrível: clubbers, skatistas, playboys e patricinhas, funkeiros, moradores de rua, gente da high society de BH, todos em convivência pacífica. Em que outras circunstâncias ocorreria um encontro desses?”  “Possibilita o encontro de pessoas de diferentes estilos aumentando as inter-relações, convívios e quebra de preconceitos. Isso é vida”.  “Duelo de MCs: onde a patricinha da zona sul encontra com o marginalizado da favela”.  “Qualquer um pode chegar e colar lá com a gente, independente da sua raça cor ou estilo. Ao contrário da sociedade em que eu vivo, onde as pessoas me olham de um jeito diferente como se eu não fosse igual a eles. Lá é o mundo real para mim e o que eu vivo no dia-a-dia parece ser de mentira”. Ao verem o Duelo de MCs como o espaço de convivência entre grupos e trocas simbólicas, os frequentadores resgatam o papel do espaço público como importante mediador das relações sociais. Concebem a rua como local democrático, do encontro entre pessoas dos mais diversos perfis, seja de sexo, idade, cor, escolaridade, classe social, orientação sexual ou região da cidade. Dessa forma, o Duelo se torna local para práticas cidadãs e o respeito às diferenças. O público também destaca a criação de uma “nova identidade cultural de Belo Horizonte”, na medida em que o Duelo de MCs interrompe com o processo de exclusão social e preconceito contra as culturas periféricas e propõe um olhar sobre a cidade que contemple as mais diversas expressões culturais que advêm de seus sujeitos e que se cruzam no Centro da cidade. 143 Assim, o Duelo de MCs ressignifica o conceito de cultura, que além de estar ligado a espaços territoriais, também é construído a partir de uma perspectiva que tangencia os fluxos e percursos de práticas e representações sociais. QUADRO 3 Impressões do público sobre o Duelo de MCs: movimento político TEMA ABORDADO SUBSTANTIVOS E EXPRESSÕES USADAS Duelo de MCs como movimento político de ocupação dos espaços públicos da cidade e luta pela cidadania e fim das desigualdades sociais. “Atuação política”, “ocupação do espaço público”, “contribuição do Duelo para a cidade”, “protestos contra autoridades”, “letras que falam de temas sociais” e “retratam a realidade dos atores envolvidos”. COMENTÁRIOS  “O Duelo é um movimento cultural de BH que mostra a voz das ruas, essa voz que não tem vez em nossa sociedade desigual, hipócrita, moralista e preconceituosa”.  “É um evento tradicional da cidade. Importante espaço de ocupação, interação e atuação política”.  “A cultura, as músicas, o freestyle e o posicionamento dos organizadores que tentam informar/orientar o público sobre assuntos diversos, proporcionando discussão”. A natureza política do Duelo de MCs ao ocupar a área sob o Viaduto Santa Tereza também é evidenciada pelos frequentadores. Pelos comentários, sabem da importância estratégica do Duelo enquanto movimento social que busca sistematizar o conflito com o Estado na busca pela cidadania e conquistas sociais coletivas. Dessa forma, o público endossa um discurso que aponta falhas do atual sistema político, denúncia violações de direitos e exige a solução para os problemas. O Duelo também é visto como responsável pela formação de um espírito crítico entre os jovens, levando-os à reflexão sobre seu papel enquanto sujeitos políticos e que precisam atuar de forma a exigir do poder público participação nas tomadas de decisão de interesse coletivo. Sendo assim, os MCs são exemplos de atuação cidadã e reforçam a importância de cada cidadão na construção de uma sociedade democrática e sem injustiças sociais. QUADRO 4 Impressões do público sobre o Duelo de MCs: espaço da juventude urbana TEMA ABORDADO SUBSTANTIVOS E EXPRESSÕES USADAS Duelo de MCs como espaço da juventude urbana e fonte de novas oportunidades e projetos de vida para jovens de baixa renda. “Encontro da juventude”, “quebra de estereótipos”, “não às drogas e à guerra”, “mobilização da juventude da periferia”, “vida melhor para jovens”, “trabalho para MCs” e “divulgação de novos artistas”. 144 COMENTÁRIOS  “Admiro a luta da Família de Rua em ocupar aquele espaço, conseguir reunir várias gerações e passar boas mensagens a quem gosta do estilo hip-hop. Traz boas mensagens para a vida de muitos jovens e a expectativa de uma vida melhor.”  “O Duelo faz crescer uma cultura que engloba mais a juventude e nos leva a ter uma opinião na sociedade. A cultura de rua existe e lá é um dos espaços que a encontramos”.  “É um espaço que, além de lazer, também educa a muitos que não teriam oportunidade de aprender tais qualidades nos meios que vivem. Em suma, o Duelo de MCs é muito mais que música e dança, é educação, respeito e cidadania”. O Duelo de MCs também é visto como espaço para trocas, experiências e demandas da juventude, em especial os de baixa renda e moradores de áreas periféricas da cidade. Na medida em que cria no Centro de Belo Horizonte um ambiente de identidade cultural entre eles, a partir de suas expressões artísticas, permite a vivência e o compartilhamento de sonhos, desejos e inquietações típicas da idade. Dessa forma, permite aos jovens momentos de fruição cultural e um distanciamento, ainda que momentâneo, da realidade de marginalização, violência e violação de direitos. Além disso, o Duelo também contribui para o empoderamento e a profissionalização desses jovens artistas, fazendo com que o hip-hop se torne uma opção de vida. Ao estimular o trabalho com a música, seja na criação de rimas improvisadas ou na composição de letras e melodias, o Duelo se torna espaço de capacitação profissional e incentivador da cadeia produtiva do hip-hop, fazendo com que muitos consigam renda e viver do trabalho com o hip-hop. QUADRO 5 Impressões do público sobre o Duelo de MCs: espaço da cultura hip-hop TEMA ABORDADO SUBSTANTIVOS E EXPRESSÕES USADAS Duelo de MCs como espaço de visibilidade da cultura hip-hop e seus valores. Criatividade, espontaneidade, humildade, rapidez, amizade, sagacidade, improvisação, esforço, conhecimento, “som”, “rimas”, “DJ”, “dança”, “freestyle”, “terceiro round”, “pocket shows”, “batalha do conhecimento”, “graffiti”, “rap nacional”, “música independente”, “beats instrumentais de qualidade” e “batidas das músicas”. COMENTÁRIOS  “A energia que o local transmite é algo incrível, lá é um local onde é possível ser você mesmo, as rimas dos MCs mostram tanta verdade...algo super diferente de tudo que eu já tinha visto na minha vida”.  “É sensacional a posição que os MCs assumem no palco. São agressivos, pegam pesado mesmo. Mas depois da batalha são amigos, irmãos do rap, e isso não se vê com frequência”.  “O Duelo é um patrimônio da cidade. Ele proporciona que a cultura hip-hop seja conhecida, vivenciada e reconhecida. Proporciona a quebra do preconceito para com essa cultura”. 145  “Ele é importante, pois mostra para nossa sociedade que é preconceituosa com o hip-hop que rap, graffiti, break e os DJs são cultura e não bandidos ou favelados que usam um boné de aba reta, um tênis gigante e umas calças grandes. São artistas que querem mostrar o seu trabalho de forma diferente”. O Duelo de MCs também é reconhecido com um dos principais espaços de difusão da cultura hip-hop na cidade. Expressão das culturas periféricas, traz, em especial nas letras de rap, as reivindicações de uma população historicamente alijada da ação do Estado. Além disso, cria condições para o diálogo entre os quatro elementos do hip-hop – rap, DJ, graffiti e breaking – e o fim de antigas rivalidades. A partir de valores como paz e amizade, o Duelo de MCs tenta reverter preconceitos contra o hip-hop, como o de ser uma cultura que faz apologia às drogas e à criminalidade. Trata- se de uma manifestação cultural periférica, contra-hegemônica, que preza pela união e respeito de seus adeptos e faz do protesto contra desigualdades sociais uma de suas principais bandeiras. QUADRO 6 Impressões do público sobre o Duelo de MCs: opção de lazer na cidade TEMA ABORDADO SUBSTANTIVOS E EXPRESSÕES USADAS Duelo de MCs como opção de lazer e entretenimento gratuito na cidade. Cultura, lazer, diversão, interação, estilo, “divulgação de outros eventos”, “leveza do ambiente”, “boa energia”, “encontrar amigos” e “conhecer gente nova”. COMENTÁRIO  “É importante porque é um ponto de encontro aonde amigos vão se ver, ouvir um ótimo som, se divertir e sair um pouco desta realidade do mundo onde trabalhamos muito e pouco nos divertimos”. O Duelo de MCs também é referência de lazer para seus frequentadores. É considerado um espaço democrático, em que é possível encontrar os amigos e conhecer pessoas novas. Além disso, para parte do público – seja pelo excesso de trabalho ou falta de condições financeiras para frequentar locais pagos –, o Duelo torna-se uma das poucas opções gratuitas de entretenimento em espaços públicos, especialmente no Centro da cidade. A pesquisa também quis saber o que os frequentadores menos gostam do Duelo. Foram feitas críticas principalmente em relação à estrutura do encontro, em decorrência da omissão do poder público em questões como segurança e apoio na organização. Além disso, foram citados problemas relacionados ao comportamento dos frequentadores e, com menor incidência, às apresentações dos MCs, conforme os quadros temáticos a seguir: 146 QUADRO 7 Impressões do público sobre o Duelo de MCs: atuação indevida da polícia TEMA ABORDADO ASPECTOS OBSERVADOS Falta de segurança e atuação indevida da polícia durante o Duelo de MCs.  Comércio e uso de drogas;  Brigas entre grupos;  Pequenos furtos;  Ação truculenta da polícia. COMENTÁRIOS  “A Polícia Militar tem pessoas sem preparo nenhum pra [sic] atuar diretamente com pessoas jovens, não tem nenhum respeito pela integridade física e psicológica de ninguém”.  “Acho que as ‘batidas’ policiais que acontecem direto são desnecessárias”.  “Quando a polícia chega, a galera sai correndo loucamente!” Uma das principais queixas dos entrevistados é da atuação da polícia durante o Duelo de MCs. Eles apontam abusos na hora de abordar as pessoas e ressaltam a violência e opressão da polícia ao lidar com jovens da periferia. O público reconhece os malefícios de uma ação que reforça a marginalização e criminalização de grupos sociais de baixa renda e que condena manifestações culturais alternativas. A discriminação a esses jovens lhes tira o direito à segurança pública, fazendo com que o Duelo seja espaço também de furtos, uso e comércio de drogas. QUADRO 8 Impressões do público sobre o Duelo de MCs: serviços públicos TEMA ABORDADO ASPECTOS OBSERVADOS Queixa em relação aos serviços públicos, sobretudo pela falta de apoio da prefeitura ao Duelo de MCs.  Ausência de banheiros e lixeiras;  Falta de transporte público até o local;  Superlotação;  Mau cheiro;  Intimidação por parte dos frequentadores de festas na Serraria Souza Pinto. COMENTÁRIOS  “Falta participação e apoio da prefeitura com banheiros químicos e policiamento efetivo”.  É triste ver a opressão por parte da prefeitura e da PM”.  “Não curto nem um pouco as tentativas recentes da prefeitura (e de outras instâncias institucionais, como a Secretaria Estadual de Juventude) de cooptar o Duelo, tentando incorporá-lo ao calendário oficial da cidade depois de várias tentativas de sabotagem”. A falta de infraestrutura mínima para a realização do Duelo de MCs é vista pelos frequentadores como um ato negligenciado pelo poder público. Questões como colocação de banheiros químicos e lixeiras, fundamentais para manter as condições de higiene e limpeza no 147 local, são entendidos como uma ação de boicote ao Duelo. Entre outras medidas que impedem o bom funcionamento do encontro de hip-hop – como a exigência semanal de um alvará de funcionamento –, a prefeitura atua de forma omissa ao dificultar o acesso a uma área pública e repreende os cidadãos que tentam realizar uma atividade cultural na cidade. QUADRO 9 Impressões do público sobre o Duelo de MCs: comportamento do público TEMA ABORDADO ASPECTOS OBSERVADOS Comportamento indevido dos frequentadores.  Abuso na ingestão de bebidas alcoólicas e cigarros;  Falta de educação;  Agressividade;  Vandalismo;  Pichação;  Vulgaridade. COMENTÁRIOS  “Algumas pessoas não entendem a mensagem que o Duelo quer passar e utilizam o espaço para o tráfico e práticas que incitam a violência”.  “Pessoas vão somente para encher a cara de droga, não se preocupando com a imagem que é tão custosa para este movimento, tanto pela localização quanto pelo estilo. Faço tudo que posso sem pudor, porém não contribuo para o desfavorecimento desta massa perante os olhos dos ‘certos’”.  “O vandalismo e algazarras feitos por frequentadores sem senso de convivência acabam atrapalhando o evento e prejudicando os organizadores e os espectadores, além de manchar a imagem do Duelo de MCs”. O comportamento indevido dos próprios frequentadores também é indicado como aquilo que o público menos gosta do Duelo de MCs. Ao entenderem que o Duelo, enquanto movimento cultural que traz as culturas populares para o Centro da cidade, propondo o fim de clichês e preconceitos sobre o jovem de periferia, não querem que o mau comportamento de minorias comprometa o clima agradável entre organizadores, MCs e público e impeça as apresentações sob o Viaduto Santa Tereza. Ao analisar a percepção do público sobre o Duelo de MCs a partir dos comentários feitos pelos entrevistados, destaca-se o entendimento sobre o caráter político-cultural do encontro. Mesmo frequentando um espaço destinado ao lazer e entretenimento de jovens em Belo Horizonte, identificam o Duelo como espaço de participação social, atuação política diante de questões que abrangem a cidade e seu uso pelos cidadãos e resistência de uma cultura marginal que precisa ter a devida visibilidade para ser reconhecida. 148 Além disso, o público também percebe as consequências da atuação negligente do Estado, que não dá o suporte necessário para a realização do encontro. Dessa forma, também reconhece a discriminação que a gestão pública faz de grupos culturais periféricos que tentam realizar uma atividade em espaço público. Ainda que o público tenha perfil heterogêneo – o que quer dizer que, assim como os MCs, nem todos são oriundos de áreas periféricas, subúrbios e aglomerados –, ele se mostra cúmplice de uma iniciativa que visa a interculturalidade, o alargamento de fronteiras territoriais, sociais e culturais e a liberdade de expressão e circulação na cidade. Nesse sentido, estabelece-se uma pertença coletiva também entre os frequentadores, que avalizam um discurso que reivindica o fim das desigualdades sociais e da marginalização de sujeitos de camadas de baixa renda da população e a universalidade no acesso a direitos. A chegada do Duelo de MCs a novos espaços da cidade trouxe perspectivas para a conquista de novos públicos. A partir de 2010, o Duelo de MCs intensificou a participação e organização de grandes eventos e criou um movimento de itinerância por equipamentos culturais e outros espaços de Belo Horizonte, considerado um reflexo do reconhecimento de seu valor pela cidade. Entre os eventos que participou, destaque para a parceria com o Verão Arte Contemporânea, que desde 2010 abre espaço para shows de hip-hop no Grande Teatro do Palácio das Artes. A participação na primeira edição da Noite Branca, no Parque Municipal, em setembro de 2012, também foi importante para a formação de novos públicos. Além disso, a realização da final do Duelo de MCs Nacional em Belo Horizonte, cuja primeira edição aconteceu em agosto de 2012, e a segunda em agosto do ano seguinte – mesmo tendo ocorrido durante a paralisação das atividades semanais sob o viaduto –, se tornou um marco para o hip-hop brasileiro contemporâneo. Durante o Duelo de MCs Nacional, jovens MCs de várias partes do país estiveram no palco do Viaduto Santa Tereza para as batalhas, após eliminatórias em Belo Horizonte, São Paulo (SP), Brasília (DF), Salvador (BA), Vitória (ES), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e, no caso de Belém (PA), a partir de 2013. Artistas já consagrados do público hip-hop, como Happin Hood e Emicida, acreditam na proposta do Duelo e têm participação especial no evento para compartilhar experiências e mostrar sua arte. 149 Na primeira edição, as disputas aconteceram entre oito MCs, dois de Minas Gerais e seis dos outros estados. Na final entre os MCs Mirapotira, de Salvador (BA), e Douglas Din, de Belo Horizonte, o mineiro ganhou o título de campeão da noite. Em 2013, Douglas Din se tornou bicampeão ao enfrentar o MC Koell (SP). A final teve a participação de MCs dos oito estados onde aconteceram as eliminatórias. Para a Família de Rua, o Duelo Nacional é o grande momento de visibilidade da cena hip- hop de Belo Horizonte. Além disso, o coletivo pode acolher os colegas de outras cidades e estados, bem ao estilo “família” de ser. A partir do Duelo Nacional, as articulações entre grupos se intensificou em prol de uma unidade coletiva, como explica MC Monge: O hip-hop é isso. É uma cultura, uma forma de vivenciar, de viver que ela cria entre as pessoas, um respaldo de um para o outro, um amor de um para o outro que é muito massa, sacou? (...) A gente é uma coisa só, mesmo, independente de estar na Bahia, em São Paulo, no Rio, em Belém, onde for no mundo afora...é hip-hop, e é isso que une a gente (MC Monge31). Em seu depoimento, MC Monge salienta a identidade cultural que une artistas, público e profissionais a partir da sociabilidade entre eles. Além disso, destaca também o reconhecimento do Duelo de MCs como um dos principais movimentos brasileiros de difusão da cultura hip-hop, 31 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25out. 2012. FIGURA 16 – MC Douglas Din após vencer o Duelo de MCs Nacional 2013 Fonte: Pablo Bernardo. 150 uma vez que o encontro conquistou o respeito de coletivos e admiradores em todo o país. Ao reconhecer o talento de MCs, Monge reforça a importância do Duelo como possibilidade de inserção social de jovens periféricos, que podem se dedicar à música como profissão e traçar novos projetos de vida. No caso do festival Verão Arte Contemporânea, que há sete anos oferece ao público belo- horizontino atrações de diversas linguagens artísticas, já são quatro anos de parceria, sendo que há três o festival leva o Duelo de MCs para a maior casa de espetáculos de Minas Gerais: o Palácio das Artes. Desde 2011, a ideia era ocupar o Grande Teatro com os quatro elementos da cultura hip-hop, simultaneamente. Com a edição de 2012 no Grande Teatro do Sesc Palladium, a Família de Rua apresentou o espetáculo “O som que vem das ruas”, fruto de CD homônimo com o registro da produção musical de vários MCs de Belo Horizonte. De volta ao Palácio das Artes em 2013, a proposta foi de criar um show dentro do conceito de Style Wars32. Sendo assim, o show “Material de Zion” apresentou batalhas de MCs, b-boys e b-girls, skatistas, DJs e beatmakers33, além de uma banda que tocou durante o espetáculo. Houve também a participação dos rappers paulistanos Thaíde, Slim e Thiago Beats. 32 Guerra de estilos que acontece nas variadas linguagens do hip-hop. 33 Produtor musical que constrói os sons instrumentais das músicas, que se baseiam em batidas e melodia, algumas vezes contendo samples (sons gravados digitalmente) de outros artistas. FIGURA 17 – Duelo de MCs durante apresentação no Sesc Palladium em 2012 Fonte: Pablo Bernardo. 151 Na estreia do evento “Noite Branca” em Belo Horizonte, que ocupou o Parque Municipal e o Palácio das Artes das 18h do dia 14 de setembro de 2012 às 6h do dia seguinte, o Duelo teve acesso a um novo público, que lotou os jardins do parque durante a apresentação no coreto, às 2h30. Inspirado no “Nuit Blanche”, de Paris, o evento proporcionou uma experiência noturna diferente para o público em 12 horas ininterruptas de shows, exposições, instalações, mostras de vídeos e apresentações cênicas de artistas locais. Em 2013, o Duelo de MCs continuou participando de eventos em espaços tradicionais da cidade. No dia 17 maio, a Família de Rua preparou uma edição especial para o “Boa Noite Memorial”, no Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade, evento que comemorou o Dia Internacional de Museus, com programação cultural entre 18h e 4h. No dia 29 do mesmo mês foi a vez dos MCs ocuparem o Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação, durante o evento “Quarta rap”, com batalha temática e show do MC Kadu dos Anjos. FIGURA 18 – Duelo de MCs durante apresentação no Palácio das Artes em 2013 Fonte: Pablo Bernardo. 152 Em 14 de junho, foram convidados para se apresentar na “Meia Virada Cultural da Fafich”, no prédio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG, em Belo Horizonte. E entre os dias 22 e 27 de julho, foram para Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, participar do 45º Festival de Inverno da UFMG, onde realizaram batalhas nas ruas do Rio Grande, na periferia da cidade. Ao se apresentar em equipamentos culturais, como teatros e museus, e participar de eventos artísticos tradicionais, o Duelo de MCs confere seu reconhecimento enquanto movimento cultural de Belo Horizonte. Dessa forma, a arte de rua deixa de estar apenas nos espaços públicos para ganhar o palco de casas de espetáculo e a participação em festivais e viradas culturais. A elite que detém a gestão cultural na cidade, seja pública ou privada, se rende às culturas periféricas e passa a identificar o valor de sua arte. A chegada a esses espaços e eventos também permite ao Duelo de MCs maior visibilidade e formação de um público que não frequenta a área sob o Viaduto Santa Tereza. Nesse sentido, a divulgação de shows e batalhas de MCs em seções de cultura e espetáculos de meios de comunicação tradicionais permite a circulação da informação entre perfis de público diversos e contribui para o fim de estereótipos e preconceitos sobre a cultura periférica. Para destacar a importância do trabalho de quem organiza o Duelo de MCs, a seguir apresenta-se o coletivo Família de Rua. Os MCs revelam o processo de construção da cultura FIGURA 19 – Duelo de MCs durante apresentação na Praça da Liberdade em 2013 Fonte: Pablo Bernardo. 153 informacional, a concepção do projeto como foco de resistência cultural e reflexão política na cidade e o trabalho de formação que desempenham junto à juventude periférica belo-horizontina. 7.2 O COLETIVO FAMÍLIA DE RUA Os jovens que fazem parte do coletivo Família de Rua trazem, a partir das vivências experimentadas na rua pela cultura hip-hop, o papel da militância política em prol de espaços de resistência cultural na cidade. Como lideranças informacionais dentro do movimento, mobilizam artistas, produtores, público e instâncias da administração municipal para garantir momentos de lazer, reflexão política e valorização da identidade cultural da juventude negra periférica. Para isso, se organizaram como um “coletivo”. Entre idas e vindas, já passaram cerca de 20 pessoas pela Família de Rua. A maioria delas está ligada ao movimento hip-hop de Belo Horizonte e muitas estiveram durante a criação do Duelo de MCs, mas deixaram o projeto por necessidades e situações diversas. No total, seis pessoas compõem o coletivo: os MCs Monge, PDR e Ozleo, que idealizaram o Duelo, além do DJ Roger Dee, que desde 2008 foi convidado a tocar durante o encontro e começou a fazer parte; Rafael Lacerda, que em 2011 produziu uma apresentação do Duelo e não deixou mais o projeto, e Ludmila Ribeiro, que foi convidada a fazer um trabalho de planejamento da Família de Rua e também se integrou ao coletivo em 2011. O fato de a cultura hip-hop criar espaços de socialização entre os jovens e propiciar o vínculo entre eles, há, normalmente, um forte sentimento de cooperação entre os grupos. Dessa forma, a Família de Rua conta com colaboradores de outros coletivos caso precisem de apoio, seja na produção de um evento ou durante apresentações artísticas. Os integrantes da Família de Rua são jovens na faixa dos 30 anos, advindos de diferentes regiões da cidade, com trajetórias que se fundem com a cultura hip-hop. Em comum, o entendimento do hip-hop como espaço sociopolítico, o que os torna lideranças estratégicas para a consolidação do movimento na cidade e a luta por novas representações sobre a realidade que os cerca. No Duelo desde a concepção do projeto, os MCs Monge, PDR e Ozleo dividem um 154 apartamento no Centro da cidade – local que também funciona como ponto de encontro e apoio de MCs e outras pessoas envolvidas com o encontro –, o que demonstra um forte vínculo de amizade e identificação entre eles. Considerados um exemplo para os MCs em início de carreira, trazem a experiência da cultura informacional pautada num conceito amplo de “leitura”, seja de livros, filmes, internet ou da própria cidade e seus vários universos sígnicos e informacionais. Depois de alguns anos de experiência na improvisação de rimas e da importância que o Duelo de MCs adquiriu como espaço de resistência cultural na cidade, entendem o poder da informação, seja para um bom desempenho numa batalha34 de freestyle ou qualquer outra forma de expressão artística e política. Na visão do grupo, o Duelo é um espaço de conhecimento da cidade para a cidade, gerando informações sobre juventude, cultura, ocupação do espaço público, desigualdades econômica e social, entre outras. Entendem que, para os MCs, não há regras para se obter a informação, que pode ser adquirida desde a leitura de um livro até numa conversa ou situação corriqueira do cotidiano. Na batalha tudo vira arma, tudo vira algo para alfinetar ou vira escudo. Numa batalha você vê desde usar desenho animado até usar a situação do busão. Tá [sic] dentro das possibilidades que a pessoa tem a partir das vivências que a pessoa tem, experiência, o que ouviu, leu. E isso é muito de MC para MC...lembro de um colega dizer ‘não gosto de ler não, e daí? Diz que nego tem que ler pra [sic] caramba...não leio porra nenhuma! Não gosto, não tenho costume!’. E é um dos caras mais fodas...você vai ver ele vê filme pra [sic] caralho, lê coisa pra [sic] caralho na internet...notinhas, sacou? Ele lê de outras formas. É de MC pra MC, de pessoa pra pessoa que a coisa se dá (MC Monge35). Portanto, Monge amplia as fontes para obtenção de informação e conhecimento. Não se restringe às fontes tradicionais, como livros e filmes, mas se refere também às experiências vividas ao longo do cotidiano. Pela natureza de protesto do rap, as vivências da juventude periférica, marcadas pela falta de acesso a serviços públicos, racismo, criminalização e abuso policial, se tornam questões tão ou mais importantes do que aquelas suscitadas pelos meios tradicionais para a construção da rima com um posicionamento crítico. 34 Disputa entre dois MCs para saber quem tem a melhor performance. Competem pelas melhores rimas no estilo freestyle, ou seja, improvisadas. 35 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012. 155 MC Monge é Thiago Antônio Costa de Almeida, de 30 anos, que se envolve com o hip- hop desde o final da década de 1990, seja como MC ou produtor cultural. Belo-horizontino da região Noroeste da capital, tem graduação incompleta em Ciências Sociais e Filosofia e fez parte do coletivo Conspiração Subterrânea. MC Monge recomenda a literatura aos mais jovens. Sabe que, para a maioria, o hábito de ler nunca fez parte de suas vidas. Por isso mesmo, faz questão de orientá-los e conscientizá-los sobre a importância da leitura para o desenvolvimento de vocabulário e raciocínio. Para ele, traz fluidez na interpretação de situações mais diversas e amplia o repertório de ideias e informações. Cabe ressaltar o papel do Duelo de MCs na educação de jovens e no estímulo a atividades de busca de informação e leitura. A partir de uma perspectiva artística, muitos passam a ampliar o olhar sobre a vida e o mundo, possibilitando o acesso a novos conhecimentos e a criação de uma consciência crítica e cidadã. Por ter estudado Ciências Sociais, Monge gosta muito de ler autores de sociologia e filosofia, ainda que sejam apenas trechos de obras. Mas é leitor também de jornal, revistas, histórias em quadrinhos e publicações de hip-hop. De literatura, gosta de livros de ficção, como a obra “Anjos e demônios”, do escritor estadunidense Dan Brown, que o fez criar uma ligação entre a física quântica e o movimento hip-hop, a partir das reflexões de um amigo: Livro de ficção eu grado [sic] pra [sic] caralho, umas histórias meio malucas, assim, não só futuristas, possibilidades mais conspirativas, que trazem elementos FIGURA 20 – MC Monge Fonte: Pablo Bernardo. 156 da realidade. Dan Brown, por exemplo. A construção dele eu acho muito massa. Pra [sic] mim não fica só nessa coisa da reflexão da historinha, traz outras coisas, e outras reflexões. Por exemplo, lembro que li ‘Anjos e demônios’ e tem uma reflexão que eles fazem do acelerador de partículas, que aí as partículas se chocando é o mesmo raciocínio do big bang, e aí eu fico pensando, ‘que porra é essa, véi [sic]?’, aí fui pesquisar e cheguei em outras áreas da física quântica que me interessaram, aí eu fui ler umas outras coisas, ver alguns filmes e aí cheguei num tanto de coisa que eu acho super massa, de interpretações de mundo a partir dessas visões. Nada a ver com o hip-hop, só que depois me trouxe para o hip- hop. Porque o Cleciano fala que todas as pessoas são hip-hop, porque o hip-hop é parte da consciência do universo, aí faz uma reflexão bem da física quântica, de uma consciência universal, desde o início do universo é a mesma energia, e a gente é parte do início da coisa, a gente é desdobramento disso, aí ele traz pra música dele. O hip-hop é parte dessa consciência, então todo mundo é hip-hop, então vamos nos respeitar, que a gente é uma coisa só, aí isso me leva a outras coisas, aí eu leio, eu vejo alguma coisa e vai desdobrando (MC Monge36). A partir do seu depoimento, Monge demonstra que também se conecta a outros mundos que não estejam necessariamente ligados à cultura hip-hop, ao Duelo de MCs ou, de uma forma geral, à resistência cultural em Belo Horizonte. O repertório do MC é formado a partir de fontes de leitura diversas, o que agrega novas informações. Dessa forma, ele se mostra aberto a outros campos de conhecimento e busca ampliar o olhar sobre o mundo. Ao refletir sobre a consciência universal da física quântica, de que “o hip-hop é parte da consciência do universo”, Monge destaca a cultura hip-hop como expressão cultural de sujeitos que, assim como quaisquer outros cidadãos, refletem sobre sua inserção no mundo, buscam reconhecimento enquanto partícipes da vida social e lutam por direitos e uma vida digna. Ou seja, acredita numa relação de isonomia entre os sujeitos, sugerindo que as diferenças entre eles não sejam impedimento para a construção de espaços democráticos e igualitários. Monge também aprecia outras leituras como fonte de informação. Vai da embalagem de xampu e de alimentos até a internet e o cinema. E gosta de trocar ideias e absorver informações no encontro com o outro. Para isso, ele sugere a cidade como um grande objeto informacional. Vivenciar a cidade, talvez seja a maior das informações. Você pegar um cara ou uma mina que tem essa coisa do transitar, vivenciar, trocar com a cidade...o que essa pessoa produz é muito diferente e muito mais rico do que uma pessoa que fica só num círculo, ali, fechadinha, e só vivencia dois ou três espaços. Essa rapaziada que transita, que vai, que conhece pessoas, grupos, organizações, 36 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012. 157 lugares, formas, são pessoas que na hora que vão produzir ou vão batalhar, trazem uma carga muito maior (MC Monge37). Mais uma vez, Monge destaca a importância da cidade – e sua pluralidade de vozes – para o processo de criação artística. Dessa maneira, entende que o rompimento com uma visão restrita e viciada sobre ela e a circulação por outros espaços e universos sociais trazem novas perspectivas para o MC enquanto artista e cidadão. Propõe o fim das fronteiras econômicas e sociais que impedem a circulação dos fluxos e a vivência da cidade como lugar das trocas simbólicas e da experiência coletiva. Já o MC Ozleo, ou Leonardo Lucas Cezário, de 33 anos, tem formação técnica em design gráfico e é responsável pela produção de todo o conteúdo gráfico do Duelo de MCs. Já morou no bairro Goiânia, Nordeste de Belo Horizonte, no Cruzeiro, na região Centro-Sul, na Sagrada Família, na região Leste, entre outras áreas da cidade. De família evangélica, frequentou a igreja até os 14 anos e logo descobriu o skate pelas ruas da cidade. Iniciou-se no graffiti até se tornar um amante do rap. Não pensava em ser MC até que começou a colar38 em alguns colegas para rimar e não parou mais. Foi do coletivo Casa B. MC Ozleo acredita que a informação é a base do Duelo de MCs. Por ser um espaço de encontro entre pessoas com vários questionamentos, o Duelo é propício para a troca de informações e o fortalecimento de movimentos sociais. E isso se reflete na atuação dos MCs nas batalhas, em rimas que promovem a reflexão sobre situações de injustiças e desigualdades. 37 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012. 38 Na gíria dos MCs, significa acompanhar, andar junto. FIGURA 21 – MC Ozleo Fonte: Pablo Bernardo. 158 Ao longo do contato com os novos MCs, a Família de Rua busca orientá-los para que transmitam informações que expressam os valores da cultura hip-hop. Respeito, humildade, igualdade e seriedade são as qualidades que devem estar incorporadas no comportamento de um MC. Ozleo ressalta que um dos reflexos disso são batalhas de qualidade, com o uso adequado de rimas e expressões – sem apelar para palavras de baixo calão –, em que o MC entende a responsabilidade de falar para o seu público e transmitir a ele suas informações. Pela diversidade de públicos que frequentam o Duelo, Ozleo não acredita que haja apenas uma informação que circula pelo espaço, mas várias. Não dá pra [sic] falar em algo formatado, o Duelo é uma miscigenação louca demais, velho, é mais louco que a miscigenação brasileira, o Duelo de MCs, porque lá é travesti, é puta, é bicha, é lésbica, é punk, é religioso, é negro, é branco, é rico, é pobre, é vendedor, é traficante, é usuário, saca? Não tem como falar “é isso” ou “é isso”, a “informação é essa”. Tem muita informação lá que eu não tenho nem ideia, de repente neguinho tá [sic] lá planejando um assalto a banco e eu não sei. (...) Você não imagina o tanto de histórias que compreende esse espaço de tempo que a gente tá [sic] fazendo o Duelo (MC Ozleo39). Dessa forma, a diversidade de público faz do Duelo de MCs um espaço com múltiplas referências políticas, econômicas, sociais e culturais. A partir das trocas simbólicas, vários fluxos informacionais são travados a partir de diferentes abordagens. Nesse cruzamento de significados, o espaço sob o Viaduto Santa Tereza se reafirma como local de resistência cultural na cidade e espaço de estímulo à cultura de paz entre diversos grupos sociais. Com a alcunha de “PDR”, Pedro Valentim, belo-horizontino de 30 anos, é formado em jornalismo e se encarrega das funções relativas à comunicação do Duelo, sobretudo da divulgação na imprensa e redes sociais. Criado no bairro Glória, região Noroeste da capital, já morou no Santa Mônica e no Jaraguá, na Pampulha. Por ser um reduto de MCs, sempre frequentou o Glória. Já foi skatista, grafiteiro e conheceu o hip-hop num encontro de skatistas no Padre Eustáquio, Noroeste de BH. Percebeu na música o espaço ideal para se expressar. 39 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 05 dez. 2012. 159 MC PDR afirma que a Família de Rua atua de forma a dar respaldo à informação relativa ao Duelo de MCs e à cultura hip-hop em Belo Horizonte. Seja na divulgação de um evento, na relação com o público, no posicionamento do coletivo em relação a questões importantes sobre a cultura na cidade, a informação é elemento-chave para a atuação do Duelo como um encontro cultural da cidade e um movimento social de luta por cidadania e direitos culturais. Em sua atuação como MC, o jornalista PDR cita a TV, a internet e revistas como fontes formais de informação. No entanto, ele também destaca a cidade, especialmente em decorrência do comportamento das pessoas nas ruas e as mensagens do graffiti, como espaço privilegiado de informação. Diz que o hip-hop o ensinou a conviver com as diferenças e ouvir boas histórias, seja com um colega ou uma idosa no ponto de ônibus. Por organizarem um encontro independente e com poucos recursos, os integrantes da Família de Rua fazem trabalhos paralelos. PDR dá oficinas de graffiti para crianças em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Como designer gráfico, Ozleo presta serviços para uma empresa onde já trabalhou. Monge faz algumas participações na produção de eventos de hip-hop em Belo Horizonte. Para viabilizar o Duelo de MCs, a Família de Rua vem participando de editais públicos de fomento à cultura. Há cinco anos, eles têm projetos aprovados pelas leis municipal e estadual de incentivo à cultura. No caso da Lei Rouanet, ainda não conseguiram aprovar projetos porque ainda não são uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), assim como não FIGURA 22 – MC PDR Fonte: Pablo Bernardo. 160 puderam se candidatar a ser um Ponto de Cultura, do programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura. No entanto, participam de outros editais e convênios públicos. Apesar de já terem tido inúmeras proposta de patrocínio, não “vendem” o Duelo. Não querem vinculá-lo a nenhuma marca, estender um banner no viaduto ou ter que anunciar alguma empresa no microfone. Acreditam que essa possibilidade existiria caso houvesse uma grande identificação com o conceito do Duelo, para que pudessem fazê-lo como já é feito, ou seja, com liberdade. Querem manter o frescor do encontro de rua, da troca livre de ideias, pensamentos e visões de mundo. Para contribuir com o pagamento do carreto que transporta o equipamento de som do Alto Vera Cruz até o Viaduto Santa Tereza, “rodam” a latinha entre o público. Entre as alternativas para viabilizar o Duelo, está a de levá-lo para eventos fechados, com pagamento de cachê. Pela respeitabilidade que o Duelo adquiriu ao longo de seis anos e pela grande rede de parceiros que se formou dentro do movimento hip-hop de Belo Horizonte, a formação de uma cadeia produtiva do hip-hop na cidade tem sido possível. Além disso, a participação em seminários e a venda de camisetas do Duelo de MCs também são pensadas como estratégias para a sustentabilidade do encontro. Dessa forma, o Duelo de MCs é um exemplo de grupo cultural que não quer perder sua originalidade e elo com os conceitos e valores que defende. Como representante da juventude periférica da cidade, historicamente alijada dos processos decisórios e destituída de direitos, FIGURA 23 – Latinha “roda” para contribuições espontâneas do público Fonte: Pablo Bernardo. 161 precisa ter garantido o espaço de reflexão e discussão política, expondo as tensões de uma cidade marcada pelas desigualdades sociais e, assim, contribuindo para a formação crítica dos jovens. Nesse sentido, não aceita se submeter a modelos pré-estabelecidos por empresas patrocinadoras, cujo objetivo maior se torna a obtenção de lucro com a exploração comercial e publicitária. Portanto, ao discutir neste capítulo a criação do Duelo de MCs, há seis anos, pela Família de Rua, até sua popularidade entre frequentadores com perfis diversos e a valorização da cultura de rua com apresentações em importantes casas de shows, nota-se a importância de se criar representações culturais contra-hegemônicas para novos embates discursivos sobre a cidade. Ao ver reconhecidos os esforços em dar visibilidade para as culturas periféricas e suas principais demandas sociais, o Duelo de MCs reafirma seu papel de criar brechas para que vozes historicamente caladas sejam respeitadas e finalmente ouvidas. 162 8 FLUXOS INFORMACIONAIS A informação politiza discursos, engendra outras leituras sobre a realidade e faz do Duelo de MCs um espaço para o debate de ideias e compartilhamento de experiências sob o Viaduto Santa Tereza. É também pelo viés da informação que velhos arquétipos sobre a periferia, sua cultura e juventude são tensionados, fazendo do hip-hop um movimento de ressignificação da realidade de jovens negros periféricos. A partir de vários canais de comunicação, organizadores, MCs, público, grafiteiros, produtores culturais, apoiadores, pesquisadores, entre outros, difundem informações e criam um espaço dinâmico de interação e trocas simbólicas. Sendo assim, este capítulo faz a análise dos principais objetos informacionais que envolvem o Duelo de MCs. A base está nas micronarrativas criadas pelos MCs durante o Duelo de Conhecimento, em que denunciam as principais violações de direitos e reivindicam o fim de injustiças e desigualdades sociais. No entanto, também é feita a análise do espaço sob o viaduto, com seus cartazes, banners e graffitis, letras de música produzidas coletivamente por alguns MCs, panfletos distribuídos entre o público e um fanzine realizado por pesquisadores, em parceria com artistas de rua e ativistas urbanos. Por último, é analisada a informação difundida pela Família de Rua sobre o Duelo nas redes sociais digitais, uma vez que se configuram como extensão da sociabilidade verificada sob o Viaduto Santa Tereza. Antes da análise dos objetos informacionais propriamente dita, discute-se a cultura informacional vivenciada pelos MCs, bem como o entendimento de que são considerados “intelectuais periféricos”, segundo Silva (2012). Portanto, a cultura informacional experienciada por esses jovens vai muito além do que é ensinado nos bancos de escola ou daquilo que é apreendido da leitura de um livro. Essa cultura informacional também advém da experiência na lida diária com as dificuldades do dia-a-dia, que revelam situações de privação de direitos, marginalização e preconceito. Dessa forma, adquirem um repertório marcado por experiências pessoais de injustiça social e que se encaixa com a natureza de protesto do rap. Em muitos casos, é a própria cidade, vista a partir de suas desigualdades sociais, que fornece os elementos para a rima improvisada, especialmente nos duelos temáticos. As condições precárias de moradia, a fila do posto de saúde, o ônibus lotado, a escassez de trabalho e a 163 violência policial, entre outros temas, se tornam alvo de denúncia e contestação e exigem dos MCs reflexão e posicionamento político. Dessa forma, eles ganham visibilidade social ao conferir nova leitura à realidade a partir de suas experiências e representações que constroem do mundo. Aliás, o conhecimento e a informação acabaram se tornando um dos principais pilares da cultura hip-hop. Além do MC, DJ, break e graffiti, o DJ Afrika Bambaataa, considerado um dos fundadores do hip-hop, declarou, na década de 1980, que havia um quinto elemento: o conhecimento40. Tratava-se do conhecimento de mundo, da cultura, de valores para a formação de uma consciência ética e de cidadania nas pessoas, especialmente para os afrodescendentes de baixa renda, que tinham pouco acesso à educação e mal conheciam seus direitos e deveres. Dessa forma, ao viver uma situação de exclusão econômica, social e racial, a juventude periférica tem a palavra como principal instrumento de autovalorização, contestação social e consciência de direitos, permitindo que reflita sobre sua realidade e tente transformá-la. Além disso, a cultura informacional também é permeada pelo compartilhamento de experiências que a cultura hip-hop proporciona a esses jovens. Em suas rimas, relatam os encontros com outros MCs, as parcerias firmadas, o espírito de união e amizade que permeia a relação entre eles e o aprendizado constante com os mais experientes. Dessa forma, evidenciam, a todo o momento, a identidade cultural estabelecida durante o Duelo de MCs, que lhes proporciona um dos poucos espaços de prazer, sonho e realização de desejos. Assim, a intelectualidade desses jovens pode ser conferida não somente pelo nível de instrução e acesso à escola formal, mas também por suas experiências de vida, que traduzem as privações e violação de direitos sofridas por grupos sociais de áreas periféricas da cidade, que normalmente não conhecem as ações de um Estado de bem-estar social. Ao discutir a trajetória social e intelectual do rapper paulista Mano Brown, Silva (2012) afirma que atores sociais como rappers e MCs podem ser considerados “intelectuais periféricos”, uma vez que podem ser vistos como organizadores do mundo simbólico de grupos sociais de periferias das grandes cidades brasileiras às quais estão diretamente ligados. O autor se baseia no conceito de intelectual desenvolvida por Antonio Gramsci, ou seja, o intelectual enquanto organizador da cultura, que produz uma ideologia e fornece consciência e homogeneidade ao grupo social que representa. 40 Disponível em: . Acesso em: 28 ago. 2013. 164 A eclosão desse novo perfil de intelectual, segundo o autor, também acontece devido à crise do intelectual moderno desde o final do século XX, especialmente após o colapso do socialismo e o triunfo do capitalismo na década de 1990, com o fim do regime soviético. A criação de uma nova ordem mundial teria trazido um período de “fim das utopias” e “crise das ideologias”, processo que mais tarde foi acentuado pela globalização e o avanço do neoliberalismo, que reforçaram o individualismo e uma vida movida exclusivamente por interesses particulares. Além disso, Silva ressalta que a ênfase dada pela teoria do reconhecimento à voz e atuação de grupos considerados oprimidos, que viviam às margens e fronteiras do capitalismo tardio, possibilitou a ascensão dos intelectuais periféricos. Apesar de uma trajetória social, cultural e política distinta dos antigos intelectuais, mantém o potencial transformador como porta- vozes da contracultura numa sociedade democrática. Portanto, o intelectual contemporâneo não é, necessariamente, um vanguardista, não profecia em relação ao futuro, não antecipa a história como o fazia o intelectual do princípio do século. É esse novo intelectual, especialmente aquele que nasceu e foi socializado nas periferias das grandes cidades brasileiras, que necessitam de estudos e tratamento científico. No caso dos organizadores de cultura ligados ao hip hop, não podem ser enquadrados enquanto “intelectuais precários” do tipo francês. No entanto, carregam a mesma inquietação, indisciplina e vontade de intervir na realidade (SILVA, 2012, p.199). Said (2005) endossa o perfil do intelectual contemporâneo, que busca o conflito diante dos discursos hegemônicos: No fundo, o intelectual, no sentido que dou à palavra, não é nem um pacificador nem um criador de consensos, mas alguém que empenha todo o seu ser no senso crítico, na recusa em aceitar fórmulas fáceis ou clichês prontos, ou confirmações afáveis, sempre tão conciliadoras sobre o que os poderosos ou convencionais têm a dizer e sobre o que fazem. Não apenas relutando de modo passivo, mas desejando ativamente dizer isso em público (SAID, 2005, p. 35-36). Portanto, pode-se afirmar que os jovens que organizam e participam do Duelo de MCs, enquanto formadores de uma opinião crítica e dissonante, que detêm informações que possibilitam a reflexão sobre questões como a noção de público e a ausência do Estado promotor de bem-estar social, também podem ser considerados intelectuais periféricos. 165 Na maioria das vezes, são sujeitos com pouco ou quase nenhum envolvimento com o conhecimento científico, mas com larga experiências nas dificuldades de uma vida marcada pela marginalização social e poucas perspectivas futuras. A partir daí, começam a combater o status quo, cujo discurso afirma a “cordialidade” e a “índole pacífica” do brasileiro e nega conflitos de qualquer natureza. Enquanto isso, MCs escancaram publicamente o “lado B” de uma sociedade de desiguais e criam novas formas de representação da realidade. MC Douglas Din – Douglas Nascimento da Silva, de 22 anos – é uma das revelações do hip-hop belo-horizontino e bicampeão do Duelo Nacional, nas edições 2012 e 2013. Ele acredita que o hip-hop lhe deu a oportunidade de traduzir seus sentimentos e levar a mensagem de transformação e revolução social. Considera que o Viaduto Santa Tereza é sua casa, lugar em que, pela primeira vez, entendeu o significado de respeito. Um ponto de encontro com seus “irmãos” e onde tem a chance de mostrar sua arte. Em maio de 2012, decidiu deixar o emprego como estoquista para viver do dinheiro que ganha de apresentações e participações em eventos de hip-hop. Nascido na Vila Santana do Cafezal, favela na região Centro-Sul de Belo Horizonte, já fez parte de um grupo de rap na adolescência e desde o início do Duelo de MCs, em 2007, participa das batalhas. Terminou o Ensino Médio em 2008 e tem feito cursos livres, como de artes gráficas e multimídia. Para um bom desempenho na improvisação das rimas, diz que não há receita. Tem gente que fala que cê [sic] tem que ler pra [sic] caramba. Mas eu mesmo não leio assim, não, tá [sic] ligado? Eu prezo pelo bem-estar, velho. Se o que me faz feliz é ver um filme de comédia, ou de terror, eu vou ver o filme e não vou parar pra [sic] ler, tá [sic] ligado? (...). O que eu pego é aquilo que eu tenho de substância já na minha cabeça e estendo, tá [sic] ligado, tipo assim, eu estico as coisas, arrumo outros significados (Douglas Din41). 41 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 01 ago. 2013. 166 Portanto, da mesma forma que muitos MCs, Douglas Din revela uma cultura informacional pouco repertoriada pelos formatos tradicionais de aquisição de conhecimento. As vivências são a principal fonte de inspiração. Em sua bagagem, experiências na favela e o preconceito racial que vive desde a infância. Com o auxílio do rap para expressar seu desabafo ou protesto, ele afirma que se sente mais forte para enfrentar os problemas que antes não conseguia: Eu fui tão marretado quando eu era moleque com essa coisa de negro, que eu sinto da mesma forma que eu sentia há dez anos atrás [sic]. Então, o que me assombra é a mesma coisa, velho. Agora, o que me engrandece ou o que me põe na roda, me põe no jogo, aí mudou pra [sic] caramba. Pô [sic] velho, eu tô [sic] muito mais maduro pra [sic] enfrentar certas situações, tá [sic] ligado? (Douglas Din42). Douglas Din revela como o hip-hop contribui para o empoderamento do jovem negro da periferia e em seu processo de visão crítica sobre o mundo. Apesar de ainda sofrer discriminação racial, hoje é capaz de enfrentar a questão e impor seu respeito. Dessa forma, ao propor reflexão sobre os problemas e compartilhar experiências, saberes e sentimentos, o Duelo de MCs cria, a partir de uma prática solidária e cidadã entre os MCs, sentimentos de autoestima e autoconfiança, possibilitando a transformação social. 42 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 01 ago. 2013. FIGURA 24 – MC Douglas Din Fonte: Pablo Bernardo. 167 MC Vinicin, ou Vinícius Andrade de Lima, de 26 anos, é filho de pais que vieram do interior de Minas Gerais e foi criado no bairro Tupi, na região Norte de Belo Horizonte. Desde 2010 participando de batalhas, se destaca pela precisão no uso das palavras ao expor sentimentos de indignação com a realidade social do país. Conheceu o rap por acaso aos oito anos, ao escutar a música numa rádio pirata. “Pelas batidas, pelo que falava, eu me senti mais vivo”, comenta. E desde então não parou de escutar e pesquisar sobre o universo da cultura hip-hop, além de participar de festas e eventos. No final de 2012, a identidade que criou com o rap o fez sair do emprego de porteiro num museu da cidade para se dedicar à produção de um Extended Play (EP)43 e a escrever composições. Vinicin não acredita que haja uma preparação para as batalhas. Tem o hábito diário de ler as notícias em sites na internet e, pelas informações que tem acesso – além das experiências que ele mesmo vive –, se mostra descrente com a vida, o que contribui para criar rimas que denunciam situações de injustiça, corrupção e desigualdades sociais. 43 Gravação em vinil ou CD longa demais para ser considerada um compacto (single) e muito curta para ser classificada como álbum. Um EP tem entre duas e oito faixas e duração de três a 40 minutos. FIGURA 25 – MC Vinicin Fonte: Pablo Bernardo. 168 Eu me vejo muito cético com a vida. Então, nessa parte de duelo temático, é mesmo a indignação que eu carrego, principalmente quando falam de política, de melhorias que não acontecem. Eu carrego tanto isso no dia-a-dia, que acaba que quando acontece um duelo do conhecimento e eu participo é como se eu tivesse desabafando tudo aquilo que eu penso (MC Vinicin44) A cultura informacional vivenciada por Vinicin também é construída a partir da leitura de livros, ainda que não leia com muita frequência. Entre as obras que mais gostou, destaca “O caçador de pipas”, do escritor afegão Khaled Hosseini, e alguns livros de Paulo Coelho, com quem descobriu a leitura. Também escreve crônicas e poesias e pretende montar um blog com seu trabalho autoral. Do Duelo de MCs, Vinicin carrega a gratidão pelos inúmeros aprendizados, especialmente na convivência com o outro. “Eu evoluí bastante nisso. Sou uma pessoa muito fechada e lá me senti mais aceito também, e isso possibilitou que eu me permitisse entrar mais em contato com as pessoas”, diz. O relato de MC Vinicin reforça o papel que as experiências vividas por esses jovens exercem para a formação da cultura informacional. A trajetória marcada pela privação de direitos e a negligência do Estado no atendimento às demandas sociais fornece informações que os autoriza a estar no lugar de protesto. Além disso, ao identificarem traços comuns nas reivindicações de cada um, os MCs estabelecem uma relação de cumplicidade e pertencimento coletivo, o que fortalece a construção de discursos dissidentes, que imprime outro significado à realidade. Por ser um universo ainda predominantemente masculino, segundo MC PDR, com certa dose de agressividade nos duelos, poucas mulheres se arriscam nas batalhas de freestyle ou na composição de letras de música. Em Belo Horizonte, o Duelo de MCs tem revelado alguns talentos femininos, como a MC Sweet, que ganhou algumas batalhas importantes, como a edição especial para o “Boa Noite Memorial”, no Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade, em 17 de maio de 2013. 44 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 01 ago. 2013. 169 Entre as mulheres que se arriscam no palco do Duelo está a MC Mirapotira – ou Mirapotira Souza, de 25 anos –, de Salvador (BA). Ela ficou conhecida por ser finalista da primeira edição do Duelo de MCs Nacional, em agosto de 2012, em Belo Horizonte. Acolhida pela “família” de MCs belo-horizontinos, a MC se sente em casa na cidade. Apesar de ter perdido a batalha para o MC Douglas Din, a competição lhe rendeu convites para shows, batalhas só com meninas e a participação num disco. O envolvimento com o rap começou em 2004, quando MC Mirapotira começou a escrever letras de música em Manaus (AM), onde nasceu. Participou de um coletivo de mulheres que participavam de duelos e outros eventos na cidade. Mas diz que foi a experiência de viver em São Paulo (SP) que a fez crescer como profissional do rap. O rap é minha vida, meu lugar, motivo pra [sic] me tirar da minha cidade e buscar evolução e conhecimento. Sempre quis saber tudo da cultura hip-hop e a informação é muito importante. Somos a voz dos pobres, dos menos favorecidos e queremos dizer para a galera que a gente veio atrás dos nossos direitos (MC Mirapotira45). 45 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 19 out. 2012. FIGURA 26 – MC Sweet e MC Douglas Din Fonte: Pablo Bernardo. 170 A partir de seu depoimento, Mirapotira ressalta o valor do hip-hop como espaço de trocas informacionais de alto teor político, direcionadas para reivindicações da juventude que tem seus direitos violados. E entende o papel do MC como porta-voz de uma população historicamente marginalizada e sem oportunidade de fala nos processos de interesse coletivo. Mirapotira enxerga o mundo com a lente da literatura marginal, da experiência de rua, da convivência com os colegas. Gosta de poesia, de Patativa do Assaré, do líder do movimento hip- hop brasileiro Preto Ghóez, já falecido. Lê Che Guevara, livros de crítica ao capitalismo e se preocupa com sua formação política, uma das bases para sua obra artística. 8.1 O ESPAÇO A área sob o Viaduto Santa Tereza, ao lado da Serraria Souza Pinto, se tornou um local de resistência cultural do hip-hop em Belo Horizonte e traz informações sobre o Duelo de MCs e seu público. Nas paredes, escadarias e vigas do viaduto, o graffiti ocupa os espaços e revela grandes artistas de rua e sua arte de protesto. Algumas pilastras próximas à arquibancada servem de local para a fixação de cartazes de protestos e eventos ligados ao hip-hop. Afixados numa área pública, FIGURA 27 – MC Mirapotira Fonte: Pablo Bernardo. 171 eles representam a diversidade de pessoas que transitam por essa área da cidade e não necessariamente refletem um posicionamento da organização do Duelo de MCs. A partir de uma ocupação simbólica, presente nos desenhos do graffiti, nas frases do pixo, nos cartazes afixados, esses jovens ressignificam o espaço sob o viaduto e reafirmam a noção de público no Centro da cidade. A arte de rua trouxe a ambiência de um espaço habitado, onde circulam pessoas, cruzam fluxos informacionais e demarcações territoriais são criadas. Dessa forma, rechaçam uma política higienista pautada por medidas restritivas em áreas destinadas à liberdade de circulação e o convívio coletivo. a) b) c) d) A maioria dos cartazes afixados faz alusão à cultura hip-hop. Seja de shows musicais, ações sociais religiosas, mostras culturais, festas ou batalhas de MCs em outras cidades, é feita a FIGURA 28 – Grafiteiros do Viaduto Santa Tereza a) Grafiteiro b) Grafiteiro c) Grafiteira d) Grafiteiro Fonte: Pablo Bernardo. 172 propaganda de outros eventos, quase sempre com a participação de rappers, DJs e MCs. Já outros fazem um protesto claramente político, sobretudo em relação à administração municipal. No período das eleições municipais, houve panfletagem, e banners de candidatos foram pregados. Outros cartazes deixam espaço para que cada um deixe sua mensagem de “desabafo”. O quadro a seguir traz uma análise das temáticas assinaladas em cada cartaz: QUADRO 10 Cartazes e graffitis: temáticas assinaladas CARTAZ OU DESENHO EM GRAFFITI TEMÁTICAS ASSINALADAS O cartaz afixado no alto de um dos pilares do viaduto questiona a noção de público concebida pela administração municipal. Marca o lugar de oposição a uma política pública que promove a privatização e venda dos espaços públicos. “Márcio” é o nome do prefeito (Márcio Lacerda) de Belo Horizonte, o telefone “156” é número da central de atendimento da prefeitura e “Av. Afonso Pena, 1212 - Centro” é o endereço da sede do poder público municipal. De caráter anarquista, dois cartazes fazem oposição à política higienista da prefeitura ao tentar “varrer” de espaços como a área do Viaduto Santa Tereza a ocupação dinâmica e espontânea de moradores de rua, ambulantes e artistas. Reforça a reapropriação do espaço público como lugar de trocas informacionais entre grupos sociais. 173 CARTAZ OU DESENHO EM GRAFFITI TEMÁTICAS ASSINALADAS O cartaz foi afixado num dos pilares do viaduto, para que qualquer pessoa pudesse escrever seu “desabafo”. Entre as mensagens deixadas, a que diz “Eu respeito a batalha da Casa Amarela!”, em referência ao espaço de difusão do hip-hop em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. A iniciativa enfatiza o discurso de protesto contra o sufocamento de culturas periféricas na cidade e as restrições de uso do espaço público. Convite para um evento religioso no Palmital, favela de Santa Luzia, na região metropolitana. Entre os artistas que se apresentarão, MCs, funkeiros e rappers. Mostra a capacidade de interlocução do hip-hop, que também dialoga com grupos sociais de religiões e igrejas. Provoca o fim de estereótipos, como o de ser um estilo musical ligado à criminalidade. 174 CARTAZ OU DESENHO EM GRAFFITI TEMÁTICAS ASSINALADAS O cartaz chama a atenção para o pocket show dos “Psicóticos – a voz que o sistema não cala!” no Duelo de MCs. Marca a natureza do protesto dos artistas de rap e coloca o Viaduto Santa Tereza como um espaço pleno de liberdade de expressão e difusão da cultura de áreas periféricas da cidade, como o hip-hop. O cartaz da final do Duelo de MCs nacional de 2012, afixado em vários locais do viaduto, demonstra o alcance do Duelo de MCs. Ao organizar um evento em sete cidades brasileiras e com grande apelo entre os movimentos hip-hop locais, a Família de Rua se consagra como um dos principais coletivos de difusão do hip-hop no país. Deixa clara a força da rap belo- horizontino e seu reconhecimento fora da capital mineira. Ao mesmo tempo, revela um contrassenso em relação às ações de desconstrução do movimento por parte do poder público em Belo Horizonte. 175 CARTAZ OU DESENHO EM GRAFFITI TEMÁTICAS ASSINALADAS Convite para evento de skate em Contagem mostra a diversidade de ações da cultura hip-hop, seja em Belo Horizonte ou nos municípios vizinhos. Revela o movimento de aproximação entre as linguagens artísticas do hip- hop que vem sendo promovido pelo Duelo de MCs. O cartaz do projeto “Horizontes Periféricos” convida para dois eventos: uma mostra de cinema no Centro de Cultura de Belo Horizonte e uma festa no espaço Matriz. Com a participação de artistas do hip-hop, o convite mostra a presença de MCs e DJs em outros espaços culturais e a consequente capilaridade que o movimento hip-hop vem adquirindo na cidade. O convite para a festa no Music Hall também conta com a participação de artistas do hip- hop e a chegada do movimento em espaços culturais importantes de Belo Horizonte. Salienta a formação de novos públicos com apresentações em casas de shows. 176 CARTAZ OU DESENHO EM GRAFFITI TEMÁTICAS ASSINALADAS Com a participação de artistas revelados no Duelo de MCs, como Douglas Din e Hot Apocalypse, o cartaz do Festival Boom Box, no Music Hall, em Belo Horizonte, revela não só o reconhecimento do hip-hop na cidade, como a importância do Duelo de MCs na formação de novos talentos do rap, com o apoio de artistas conhecidos do grande público. Convite da Mostra de Cultura Independente de Contagem tem participação de DJs e grafiteiros. Mostra a força do movimento hip-hop em outros eventos culturais independentes e em outras cidades da região metropolitana. Revela a criação de eventos culturalmente contra- hegemônicos. 177 CARTAZ OU DESENHO EM GRAFFITI TEMÁTICAS ASSINALADAS Cartaz de festa hip-hop com atrações de São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Reforça o crescimento do movimento hip-hop belo- horizontino e o peso que o rap produzido na cidade tem entre artistas de outros estados. Cartaz convida para festa de hip- hop no Mercado das Borboletas, em Belo Horizonte, com a presença de Mano Brown, vocalista dos Racionais MCs, e do músico carioca Mr. Catra. Com nomes de destaque da cena do hip-hop brasileiro, o evento revela mais uma vez a força do movimento em Belo Horizonte e a ocupação artística de espaços alternativos na cidade. 178 CARTAZ OU DESENHO EM GRAFFITI TEMÁTICAS ASSINALADAS O desenho em graffiti destaca a importância simbólica do hip-hop enquanto movimento de resistência cultural e política. Refere-se à fidelidade que seus membros têm com seus valores e sua natureza de protesto contra um sistema que promove desigualdades e justiças. Não se rende às provocações do mercado e segue com o foco em seu trabalho conceitual, voltado para as demandas de grupos sociais periféricos e a conquista de direitos. O desenho em graffiti com a imagem de uma fita cassete num dos pilares do Viaduto Santa Tereza revela a demarcação da área pelos artistas de rua como o local da música, da cultura e da liberdade de expressão. Enfatiza a natureza pública do viaduto e sugere a ocupação dos espaços públicos, sobretudo por meio de manifestações culturais. Os cartazes afixados nos pilares e vigas do Viaduto Santa Tereza revelam a força discursiva de artistas e produtores culturais, que apresentam ao público a cultura hip-hop e outras manifestações das culturas periféricas. Reforçam a importância de espaços públicos da cidade na divulgação de uma cultura contra-hegemônica com informações que sejam fiéis às suas propostas, sem distorções. Além disso, os cartazes que fazem a divulgação dos eventos de hip-hop dão a dimensão do movimento em Belo Horizonte, com grande alcance nos municípios vizinhos e a 179 respeitabilidade de artistas de outros estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, onde a cultura hip-hop começou no Brasil. Com o Duelo de MCs nacional, a Família de Rua demonstra não só a força do hip-hop belo-horizontino, como a possibilidade de um coletivo da cidade produzir um evento nacional, com etapas em várias capitais brasileiras e grande procura de artistas e público. Em relação ao cartaz que se refere à administração municipal, é feita uma crítica à atual gestão, marcada por iniciativas de privatização do espaço público. Trata-se de um protesto contra a política higienista da prefeitura e sugere um modelo que respeite o direito à liberdade de expressão e circulação dos cidadãos pelas ruas. Já os desenhos em graffiti mais uma vez traduzem a reapropriação do espaço público pelos cidadãos, que clamam pelo direito à cidade e à participação social. Enquanto a juventude periférica de Belo Horizonte não vê contempladas suas demandas sociais, cria vias alternativas como expressão política e cultural e demonstra insubmissão às diretrizes impostas pelas instâncias do poder público. Entre os cartazes de apresentações de grupos de rap, há uma clara referência à natureza de protesto do estilo musical. Dessa forma, as mensagens de contestação contribuem para fazer do lugar um ambiente de discussão política, de reivindicações coletivas e luta por direitos de camadas tradicionalmente desassistidas pelo Estado. No que tange às políticas públicas, esses jovens exigem dos gestores o reconhecimento como produtores de cultura, o que acarreta o acesso às condições necessárias para a realização de eventos na cidade, a mecanismos de fomento às atividades artísticas realizadas e à discussão e participação na elaboração de políticas culturais que reconheçam a diversidade cultural enquanto meio para o desenvolvimento da cidadania. 8.2 DUELO DO CONHECIMENTO As batalhas realizadas entre os MCs durante o “Duelo do Conhecimento” dão voz a um novo discurso sobre a cidade e escancaram desejos e reivindicações que, ao longo do tempo, foram reprimidos e silenciados. Por meio das rimas improvisadas, eles criam micronarrativas que 180 revelam sua origem, história, sentimentos e a representação simbólica que constroem sobre a vida e a realidade que os cerca. Além disso, conferem à área sob o Viaduto Santa Tereza um espaço de reflexão política, uma vez que exigem o cumprimento de direitos, como o de usufruir da cidade e tantos outros que vêm sendo negados às populações periféricas de Belo Horizonte e do Brasil. Após uma análise prévia de quatro batalhas do Duelo do Conhecimento, foi identificada a predominância de algumas temáticas principais, tais como: QUADRO 11 Duelo do Conhecimento: principais temáticas das batalhas analisadas TEMÁTICA PRINCIPAIS IDEIAS Liberdade de expressão A cidade como local para expressão da identidade cultural dos grupos sociais periféricos Reapropriação do espaço público Ocupação das áreas públicas por parte da população, resgatando-as como espaço de todos e destinado às trocas simbólicas entre os sujeitos Desigualdades sociais Assimetrias sociais causadas pela diferenciação de renda entre grupos sociais da cidade e as consequências para a população de áreas periféricas Ausência de políticas públicas Inoperância do Estado em cumprir seu papel de executor de políticas públicas, principalmente nas áreas sociais Redes Os reflexos das redes sociais digitais na vida de grupos juvenis periféricos Diversidade cultural Manifestações culturais que abarquem o perfil diverso da população, sobretudo aquelas ligadas à cultura negra FIGURA 29 – Duelo do Conhecimento Fonte: Pablo Bernardo. 181 TEMÁTICA PRINCIPAIS IDEIAS Violência de gênero Atos de violência contra a mulher, especialmente em zonas periféricas da cidade A seguir, o quadro com trechos do duelo sobre o “direito à cidade”, que aconteceu no dia 14 de setembro de 2012. A análise é feita a partir das temáticas assinaladas em cada trecho, divididas em “temática principal” e “temáticas associadas”: QUADRO 12 Duelo do Conhecimento: “direito à cidade” 14 DE SETEMBRO DE 2012: DIREITO À CIDADE* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Vinicin Porque somos livres, não vai ter desconto E faça essa pergunta somos livres até que ponto Até que ponto, parceiro, deixa eu explicar pros [sic] ares Pergunta isso lá pros [sic] militares Que bota uma repressão a cada esquina Então, vamos lá, porque isso sempre alucina Liberdade de expressão Liberdade de circulação Vinicin Então eu tô [sic] sempre ligado O espaço é público mas o Lacerda acha que é privado Tá querendo acabar, mas não acaba porque eu falo Que aqui é o meu lar Então, essa é minha sessão Não acaba o Duelo, muito mais fácil acabar a eleição Acaba com a opção, mas não acaba o viaduto Porque se fala isso que acaba eu truco** Liberdade de circulação Reapropriação do espaço público Vinicin Fazer uma repressão, pode crer, então eu falo, falo bem mais Conhecimento, capacidade, vem é de baixo E eu represento essas classes sociais Liberdade de expressão Valorização do conhecimento popular Crizin Direito na cidade Chego na cara dura Vai ver no lance que nós tem [sic] direito à cultura Ter um espaço nosso debaixo de um viaduto Sei bem disso, senão eu fico puto Liberdade de expressão Identidade cultural Crizin Classes sociais, cada uma anda sozinha A alta, a média, a baixa, a minha É desse jeito que acontece Mas tá [sic] de boa, a ideia é que prevalece Diferença e convivência existe antes, creio A diferença dos bolso [sic] vazio e dos bolso [sic] cheio E vive tudo separado E é um bagulho*** desse que me deixa assustado Desigualdades sociais Isolamentos territoriais na cidade 182 14 DE SETEMBRO DE 2012: DIREITO À CIDADE* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Crizin Mais livre que eu é [sic] até os macaco [sic] lá do zoológico Acho que eles tão [sic] tendo mais liberdade Porque eu tô [sic] vivendo na mediocridade Público e privado, essa é a parada A única privacidade que eu tenho é sentado na minha privada Liberdade de expressão Reapropriação do espaço público em detrimento às restrições à livre circulação na cidade Crizin Somos livres? Faça essa pergunta, acho que não Eles querem a gente trancado vendo televisão Pra mexer com o nosso psicológico Isso é lógico Liberdade de expressão e circulação Crítica à alienação e massificação da informação Crizin Agora tenho algo para reclamar Não sei se cês [sic] tão [sic] ciente, Din, qual é que é Acho que tá [sic] faltando água lá em Ibirité Cês [sic] viram lá no Balanço Geral Eu acho que isso é direito da cidade, na moral Desigualdades sociais Direito a serviços públicos de qualidade Crizin Cê [sic] tá [sic] ligado eu tomo de assalto O único direito que eu quero ter é eu rimar E ocês [sic] jogar [sic] a mão pro [sic] alto Com satisfação, agora é o Crizin finalizando essa sessão... É nóis! Liberdade de expressão Identidade cultural Vinicin É muito fácil falar de diferença Só que tem que pensar pra [sic] botar um papo em decência Eles dizem que somos livres Mas até quando, até que ponto vai ser isso Porque eu penso e não sou omisso Liberdade de expressão Identidade cultural Vinicin Eu sou livre pra [sic] quê Pra [sic] chegar e pra [sic] mostrar meu serviço Sou livre pra [sic] pagar o meu imposto Eu pago se eu quero, e pago a contragosto Tá [sic] entendendo, dá pra [sic] você entender Se eu não pago a minha conta o meu nome cai lá no SPC Não posso mais comprar Se eu não compro Como é que faz pra [sic] eu degustar? Ausência de políticas públicas Descrença nas instituições do Estado Vinicin Não, vou ter que viver sempre nesse regime Eles implantam, querem colocar minha mente numa cela Não trancando, botando uma novela Mas isso eu não assisto e não me abaixo Tá [sic] entendendo? Não assisto, não gosto, da Globo parceiro Liberdade de expressão Identidade cultural e crítica à alienação e massificação da informação Vinicin Eu esculacho mais, eu vou com a simplicidade Eu mostro que ser livre é não estar preso de verdade Liberdade de expressão 183 14 DE SETEMBRO DE 2012: DIREITO À CIDADE* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Ser livre, parceiro, não é ser besta Ser livre é diferente de estar preso Ser livre é colar**** no Duelo na sexta Liberdade de circulação e identidade cultural Inti Sabe porque eu mando na sagacidade? Direito à cidade eu tenho mesmo habilidade Porque eu tenho que falar Eu venho pro [sic] Duelo e pra [sic] isso eu saio lá de Sabará Pra [sic] ocupar esse viaduto E pra [sic] fazer esse Duelo sair desse estado bruto Liberdade de expressão Liberdade de circulação e identidade cultural Well Juntemos todo mundo e ocupemos a cidade Porque se deixar pro [sic] governo abrir a mão Eu chego só mandando a minha improvisação Porque cê [sic] tem que ter a noção O cara tá [sic] preocupado com o voto, lá só tem político ladrão E quando eu mandei a estrutura A gente tem que ocupar porque eles não gostam de cultura Porque isso me traz a tristeza O maldito Lacerda quer transformar BH em empresa Reapropriação do espaço público Liberdade de expressão, direito à cultura, crítica à política e descrença nas instituições do Estado Well Porque é a gente que constrói essa parada, Duelo de MCs Se não fosse a gente, seria diferente O público é privado mas a gente é inocente Nessa parada o público não é privado Vamos cantar pro [sic] Márcio Lacerda ‘tá [sic] tudo dominado’ Reapropriação do espaço público Liberdade de expressão e crítica à gestão pública Well Eu sigo aqui na rima, não deixo as digitais Ali tá escrito, classes sociais Tem a A, a C e a B Mas tem aquela que é da rua que encaixa eu e você Reapropriação do espaço público Aproximação dos cidadãos pelo viés da cultura Well Consegue entender, então eu vou falar Eu já cansei de ouvir muito blá blá blá Porque essa parada, é truque, na real Eu disse até a classe social no Facebook Tá ligado, assim não dá Realmente a gente tem que se conectar Reapropriação do espaço público Redes e aproximação dos cidadãos pelo viés da cultura Well Porque aqui eu mostro que eu não sou cabaço E então eu vou mandando e não sou inerte Vamos nos unir Que eu já cansei de Che Guevara de internet Parceiro eu mandei improvisada Reapropriação do espaço público 184 14 DE SETEMBRO DE 2012: DIREITO À CIDADE* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Pra [sic] esse Che Guevara Pode crer que a internet vai ser é discada Porque deixa eu improvisar Se a parada for revolucionar Eu vou é ter que compartilhar Redes e aproximação dos cidadãos pelo viés da cultura e por ideais em comum Well Porque, na moral, parceiro, eu mando improvisado Eu tenho meu direito e ele foi conquistado Conquistado com o microfone Quando eu tô [sic] nessa parada***** É tudo no meu nome Classe social, meu parceiro, nada disso A classe no palco é ser verdadeiro Reapropriação do espaço público Liberdade de expressão e aproximação dos cidadãos pelo viés da cultura Inti Participação não é no orçamento É pra [sic] chegar aqui e mostrar o sentimento Isso é participar, eu sou MC Eu participo com você, para interagir (...) Eu vou improvisar, coletividade É substantivo coletivo Liberdade de expressão Interação e coletividade Inti Coletividade, atividade Eu vou mandando a minha rima aqui no Centro da cidade Sabe porque, porque eu colo no Duelo E tô [sic] com meus irmãos e não tem sorriso amarelo Aqui não tem falsidade É todo mundo com paz, justiça, liberdade Reapropriação do espaço público Liberdade de expressão, interação e coletividade Vinicin Foi aí que nasceu o coletivo que trouxe essa coletividade Tudo mais se faz, pra [sic] onde que veio essa força de Minas Gerais Dá onde é que rima, e isso é da fonte Da onde é que isso vem? De Belo Horizonte Então, parceiro, nesse momento Vem debaixo do viaduto, vem daqui do Centro Do Centro da cidade, do interior de um coração Que vai de um MC pra [sic] toda uma nação Reapropriação do espaço público Liberdade de expressão e coletividade Vinicin Espaço público Onde eu faço rima Espaço público Onde a mente determina Reapropriação do espaço público Liberdade de expressão Vinicin De quem acredita numa igualdade De quem acredita e sempre tem um plano De quem sabe olhar o verdadeiro de um ser humano Liberdade de expressão 185 14 DE SETEMBRO DE 2012: DIREITO À CIDADE* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Por isso eu acredito na justiça Por isso eu vejo que aqui tem uma malícia Por isso que eu faço e venho pra sessão Se eu acredito na justiça Tá [sic] aqui as minhas palavras de participação Informação e conhecimento como elementos para a justiça social Inti A união faz o açúcar mas a força é no Duelo Não é no açúcar, claro, que ela faz a diferença Então eu vim pegar o microfone e marcar presença Porque o Inti não amola Espaço público, o viaduto é que foi a minha escola Reapropriação do espaço público Direito à cultura, interação e coletividade Vinicin Então, isso é uma loucura Não temos o mesmo sangue Mas somos irmão de cultura Irmão de viaduto, por isso que eu truco Toda sexta-feira a gente mostra que tá [sic] vivo e não de luto Desigualdades sociais Identidade cultural, direito à cultura e coletividade Well E eu chego sem seguro Aqui nessa parada nós dois também temos cabelo duro Então já é uma semelhança Diversidade cultural Identidade racial Vinicin Só pensamento que vem e que se expande O cabelo é duro mas o seu é pequeno e o meu é grande Tá [sic] entendendo, sem desespero Desde o ano passado que eu não vou no cabeleireiro Diversidade cultural Identidade racial *A disputa aconteceu entre os MCs Vinicin, Crizin, Inti e Well. A primeira semifinal foi entre Crizin e Vinicin, com vitória de Vinicin (ver Anexo 2). Na segunda, entre Inti e Well, Inti foi o melhor (ver Anexo 2). Na final entre Vinicin e Inti, Vinicin foi eleito o vencedor do Duelo da noite (ver Anexo 2). **Truco, trucar: mentira, enganar. ***Bagulho: determinada coisa a que se refere. ****Colar: seguir, acompanhar. *****Parada: situação. Um dos principais temas abordados pelos MCs a partir do tema “Direito à cidade” foi a liberdade de expressão. A todo o momento, tensionam a dificuldade de um direito fundamental ser garantido justamente por quem deveria agir para preservá-lo. O desejo legítimo de expor suas ideias a partir de sua arte não é respeitado pela administração pública, que cria mecanismos para coibi-lo. Como diz MC Vinicin, “Eles dizem que somos livres, mas até quando, até que ponto vai 186 ser isso, porque eu penso e não sou omisso”. MC Well também faz menção à sua liberdade de expressão como um direito “conquistado com o microfone”. a) b) A liberdade de circulação e a reapropriação do espaço público pelos cidadãos também são entendidos pelos MCs como direito à cidade. Eles mencionam as iniciativas de privatização por parte da prefeitura, que demonstra ignorar a noção de público. Há referência aos militares – o que lembra o período de ditadura no Brasil, quando havia restrições à circulação das pessoas pelas ruas – e uma comparação às ações repressivas do “Lacerda”, referindo-se ao prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, que “quer transformar BH em empresa”. Quando MC Vinicin diz que “não acaba o Duelo, muito mais fácil acabar a eleição”, traz a questão das dificuldades impostas pela atual gestão da cidade para realizar o Duelo de MCs sob o Viaduto Santa Tereza. No entanto, reafirma a resistência da juventude em ocupar o espaço, e reforça a importância do voto como instrumento de mudança do modelo atual de gestão pública. Como crítica para expressar sua indignação sobre a privatização do espaço público, MC Crizin faz comparações exageradas como “mais livres que eu até os macaco [sic] do zoológico” e “a única privacidade que eu tenho é sentado na minha privada”. MC Well lança mão de expressões para dizer que a rua é o espaço do povo: “nessa parada, o público não é privado, vamos cantar para o Márcio Lacerda ‘tá tudo dominado’”. Outro tema recorrente nos versos é uma clara descrença no sistema político e nas instituições do Estado, por não darem conta das reivindicações da população. MC Crizin comenta sobre a falta d’água em Ibirité, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte. A FIGURA 30 – Duelo do Conhecimento: direito à cidade (primeira semifinal) a) MC Vinicin b) MC Crizin Fonte: Pablo Bernardo. 187 insatisfação sobre a falta do Estado no atendimento a serviços básicos também é expressa por MC Vinicin sobre o pagamento dos impostos – dos quais não se vê o retorno esperado – quando diz que é livre para pagá-los, mas que os paga a contragosto. Os MCs também reafirmam que a luta pelo direito à cidade expõe desigualdades sociais e isolamentos territoriais no espaço geográfico. Em seu verso, MC Crizin critica a divisão de classes pelo viés econômico – “a diferença dos bolso [sic] vazio e dos bolso [sic] cheio” – e as consequências disso para a convivência e a troca de ideias entre as pessoas. A informação e o conhecimento são reconhecidos pelos MCs como ferramentas para a justiça social. São as “palavras de participação”, mencionadas pelo MC Vinicin, que desencadeiam mudanças e melhores condições de vida. Ele também diz que “capacidade vem é debaixo, e eu represento essas classes sociais”, referindo-se à força dessas pessoas e um conhecimento que não se aprende nos bancos de escola e que precisa ser igualmente valorizado. Esse conhecimento também é colocado pelos MCs como arma contra a massificação da informação, referendada pelos meios de comunicação tradicionais, e a alienação. a) b) A identidade e a diversidade cultural também são consideradas como direito à cidade. Os MCs reforçam a importância do direito à cultura e como o viés cultural permite a aproximação de cidadãos de grupos sociais diversos. Quando o MC Vinicin diz que “aqui é o meu lar” e que “não temos o mesmo sangue, mas somos irmãos de cultura”, ele traduz a relação afetiva que tem com o Viaduto Santa Tereza e com os colegas MCs. Da mesma forma, MC Crizin fala da satisfação de FIGURA 31 – Duelo do Conhecimento: direito à cidade (segunda semifinal) a) MC Well b) MC Inti Fonte: Pablo Bernardo. 188 “ter um espaço nosso, debaixo de um viaduto”, com o qual demonstra ter estabelecido uma relação de afeto. Há também referências à identidade racial entre MCs, como no verso de MC Well, “aqui nessa parada nós dois temos cabelo duro”. Os MCs também destacam a interação, a união e o sentimento de coletividade presentes no Duelo, o que pode ser percebido pelo uso do pronome na primeira pessoa do plural. MC Inti destaca que “eu sou MC, eu participo com você, para interagir” e, num jogo de palavras com o substantivo coletivo da gramática da língua portuguesa, diz que “coletividade é substantivo coletivo”. Ele também faz uma alusão ao slogan da marca de açúcar, dizendo que “a união faz o açúcar, mas a força é no Duelo”, reforçando o espaço de mobilização para a crítica a discursos hegemônicos. MC Vinicin demonstra que a relação próxima entre os MCs também traz força para vencer as dificuldades. “Toda sexta-feira a gente mostra que tá [sic] vivo, e não de luto”. A seguir, o quadro com trechos do duelo do dia 12 de outubro de 2012, que sugeriu três temas: “eleições”, “comércio ambulante” e “Dia das Crianças”: QUADRO 13 Duelo do Conhecimento: “eleições, ambulantes e Dia das Crianças” 12 DE OUTUBRO DE 2012: ELEIÇÕES, AMBULANTES E DIA DAS CRIANÇAS* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Thaik Pra [sic] que colocar fiscalização? (...) Precisa de fiscalização é no Congresso Pros [sic] cara [sic] que só rouba [sic], os político [sic] Por isso que meu rap é crítico Corrupção Descrença no sistema político Thaik Trabalho, isso que eu faço Pros [sic] cara [sic] chegar e limpar o espaço Tá [sic] ligado que os cara [sic] tão [sic] trabalhando E o trabalho deles é honesto Honesto igual ao nosso Desigualdades sociais e econômicas Injustiça, direito ao trabalho e dignidade Thaik Eu quero ver a postura na cara De cada político que quer candidatar, irmão Que só quer fazer promessa na época de eleição Só que promete mas não cumpre nada (...) Tem que bolar um código de posturas, sim Pra [sic] esses político [sic] lero Corrupção Descrença no sistema político 189 12 DE OUTUBRO DE 2012: ELEIÇÕES, AMBULANTES E DIA DAS CRIANÇAS* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Thaik Por isso que a gente chega na parada Porque o rap também é protestar E falar, pra [sic] ver se há mudança Por isso que a gente chega na esperança Liberdade de expressão Rap como vetor de transformação social Du Mascote Eu sei, fiscalização Os cara [sic] só fiscaliza os irmão [sic] Será que os cara [sic] não vão ter nenhuma alternativa? Tem que vender o DVD na esquina Cê [sic] tá[sic] ligado que o cara não pode fazer isso Chegar e pegar a mercadoria do amigo Os cara [sic] têm que botar comida na mesa Desigualdades sociais e econômicas Injustiça, direito ao trabalho e dignidade Du Mascote E o Dia das crianças na favela Daqueles que não têm brinquedo e só espera [sic] E chega lá o pai que é entregador Aquele cara que trabalha sem caô** Com um brinquedo, um carrinho Cê [sic] tá ligado que já vem um sorriso Desigualdades sociais Isolamentos territoriais, direito ao trabalho e família Nutela Paro e penso Tudo o que o comerciante ambulante tá [sic] querendo É sustento Colocar a comida no prato da família E o fiscal tá [sic] querendo embaçar*** Não consigo assimilar essa ideia Vocês conseguem? Por favor, me explica plateia Liberdade de circulação Direito ao trabalho e desigualdades sociais Nutela Não concorda quando o cara vai querer vender droga Mas a culpa é do governo, entende Eles não dão sustento, um salário bom pra [sic] gente E a gente vai tentar fazer os nossos corre [sic] E aí, assim, o dinheiro socorre Omissão do Estado Desigualdades sociais e direito ao trabalho Vinicin Eles falam, código de postura, tem que explicar Código de postura é não atrapalhar O trabalhador a se auto-sustentar Consegue assimilar, consegue entender, vamos compreender eles querem atrapalhar você a se fortalecer Burocratização do Estado Direito ao trabalho Vinicin Eles dizem que trabalhar na rua não é trabalho Mas com esse pensamento, eu não sou falho Esse pensamento é mó [sic] desgosto Não é trabalho só porque não tamo [sic] pagando o imposto Então, parceiro, eu explico Não tamo [sic] pagando o imposto Não fortalece o bolso do rico Omissão e burocratização do Estado Direito ao trabalho e desigualdades sociais 190 12 DE OUTUBRO DE 2012: ELEIÇÕES, AMBULANTES E DIA DAS CRIANÇAS* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Vinicin Só que meu filho não pergunta Como é que chega o sustento lá em casa Esse é o assunto, o que importa é que chega O que importa não é como você tá [sic] trabalhando E sim que a comida não tá [sic] faltando na mesa Dignidade Direito ao trabalho Vinicin Quando eu era criança, sim Eu tinha aquele sonho O sonho que eu vi, e não discuto O sonho de crescer e me tornar um dia adulto Que trabalha e honra sua família Tá [sic] ligado que segue tranquilo nessa trilha Só que eu cresci e continuo genuíno Cidadania Infância, sonhos, dignidade, trabalho e família Vinicin Eu tenho 25, só lembro como eram bons tempos Do tempo que eu tinha oito ou sete Eu ainda naquele tempo era pivete Sim, eu tinha uma malandragem Só que não pensava que adulto Eu ia ver a porcaria que acontece de politicagem Infância Descrença no sistema político Thaik O bom tempo é sempre atual Cê [sic] tem que viver o presente, entende Nada de futuro nem passado Não é ser prepotente, é ser consciente É ter consciência, é ter envolvência, nunca na ausência Por isso que eu mando a rima com inteligência Minha alma de menino tá [sic] presente na minha mente Na minha alma, no meu espírito Por isso que eu pareço essa alma com o meu domínio Empoderamento da juventude Envolvimento, conhecimento, participação e sensibilidade Thaik Por isso que eu falo Porque eu vou rimando aqui, parceiro, e eu não me calo Tenho muita responsabilidade, isso é fato, não é mítico Mas responsabilidade tá [sic] faltando pros [sic] político [sic] Liberdade de expressão Direito à cultura, responsabilidade e descrença na política Vinicin Pode até criticar ou falar que não Mas o que importa é que eu contribuo com a noção Eu sei que é pouco o que eu tenho pra [sic] ajudar Mas é de coração e eu tô [sic] disposto a passar Eu tô [sic] disposto a passar não é com talento É com 25 anos de conhecimento Liberdade de expressão Conhecimento, sensibilidade e empoderamento da juventude Vinicin Porque quando eu era criança eu escutei o meu avô Escutei a minha mãe, o meu pai Graças a escutar tudo isso Que hoje a casa aqui não cai Tá [sic] entendendo, porque o trabalho é honesto Família Responsabilidade, trabalho e honestidade 191 *A disputa aconteceu entre os MCs Thaik, Du Mascote, Nutela e Vinicin. A primeira semifinal foi entre Thaik e Du Mascote, com vitória de Thaik (ver Anexo 2). Na segunda, entre Vinicin e Nutela, Vinicin foi o melhor (ver Anexo 2). A disputa da final aconteceu entre os MCs Vinicin e Thaik, com vitória de Vinicin (ver Anexo 2). **Caô: mentira, enganação. ***Embaçar: ofuscar, tirar o vigor, a força de antes. Os três temas propostos para o duelo do conhecimento de 12 de outubro acabam se entrelaçando nas rimas dos MCs. A partir do tema “eleições”, percebe-se, na fala dos MCs, um descontentamento e revolta contra um Estado que não promove o bem-estar social, que se omite em relação às demandas da população e cuja modelo representativo vem perdendo força, sobretudo pelos constantes casos de corrupção e desvio de dinheiro público. Dessa forma, os MCs denunciam o tratamento injusto que é dado ao “comércio ambulante”, uma vez que esses trabalhadores são discriminados e impedidos de trabalhar nas ruas pelos fiscais da prefeitura. Nas palavras de MC Vinicin, “eles querem atrapalhar você a se fortalecer” e não deve prejudicar “o trabalhador a se auto-sustentar”. a) b) Em referência à ação desses funcionários públicos e ao Código de Posturas, que reúne o conjunto de normas municipais, inclusive sobre a utilização do espaço urbano, MC Thaik diz que a fiscalização tem que estar no Congresso, “pros [sic] cara [sic] que só rouba [sic], os político [sic]”, e o Código de Posturas destinado “pra [sic] esses político [sic] lero lero, que só querem fazer promessa na época de eleição”. FIGURA 32 – Duelo do Conhecimento: eleições (primeira semifinal) a) MC Thaik b) MC Du Mascote Fonte: Pablo Bernardo. 192 Sobre os ambulantes, Thaik diz que “o trabalho deles é honesto, honesto igual ao nosso”. Dessa forma, o MC estabelece uma semelhança com a situação vivida pelos ambulantes com a do Duelo de MCs, que precisa enfrentar diversos entraves da gestão pública para conseguir manter as apresentações sob o Viaduto Santa Tereza. a) b) Os MCs também destacam a importância do trabalho para o acesso a direitos básicos como a alimentação. Du Mascote diz que os ambulantes “têm que vender o DVD na esquina” para “botar comida na mesa”. Já Vinicin deixa claro que “o que importa não é como você tá [sic] trabalhando, e sim que a comida não tá [sic] faltando na mesa”. MC Vinicin ainda menciona como essa situação de injustiça social e violação de direitos é justificada pela persistência das desigualdades sociais de um sistema excludente e classista. Para ele, a ação dos fiscais em coibir o trabalho dos ambulantes acontece pelo fato de que “não tamo [sic] pagando o imposto” e assim “não fortalece o bolso do rico”. Ao falar sobre o “Dia das Crianças”, Vinicin relaciona com o tema “eleições” dizendo que, aos 25 anos, lembra de sua infância, quando queria se tornar um adulto, mas que “não pensava que adulto ia ver a porcaria que acontece de politicagem”. Ele também faz referência aos ensinamentos passados por seus pais, com os quais “hoje a casa aqui não cai porque o trabalho é honesto”. Além disso, reconhece o conhecimento que adquiriu ao longo de sua vida, o que, ao se tornar MC e porta-voz da juventude da periferia, revela maturidade e uma visão crítica de mundo: “Pode até criticar ou falar que não, mas o que importa é que eu contribuo com a noção”. FIGURA 33 – Duelo do Conhecimento: eleições (segunda semifinal) a) MC Nutela b) MC Vinicin Fonte: Pablo Bernardo. 193 MC Du Mascote faz a junção entre os temas “eleições” e “Dia das Crianças” ao criar a história de um entregador, morador de uma favela, que leva um presente para seu filho, “daqueles que não têm brinquedo e só espera [sic]”. Ao contrário dos políticos, envolvidos em corrupção e que não fazem seu trabalho como deveriam, o entregador é “aquele cara que trabalha sem caô” – sem mentira, enganação – e, apesar das dificuldades, presenteia o filho. Dessa forma, Du Mascote denuncia a falta de representatividade dos políticos brasileiros, as desigualdades sociais e a ausência do Estado nas áreas periféricas da cidade. A seguir, o quadro com trechos da batalha sobre “conexões”, que aconteceu no dia 9 de novembro de 2012: QUADRO 14 Duelo do Conhecimento: “conexões” 9 DE NOVEMBRO DE 2012: CONEXÕES* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Inti Lembrei desse bagulho de internet Sabe como é que é, bagulho de Youtube Do povo que fica o dia inteiro lá no Facebook Tá [sic] ligado que eu mando na parada Essa ideia nunca vai ser compartilhada Redes Conhecimento e reapropriação do espaço público Inti Esse bagulho de ficar na internet, não rola A rua, parceiro, que é a minha escola Porque meu rap não é da Idade Média O meu conhecimento não veio do Wikipédia Redes Conhecimento e reapropriação do espaço público Inti Se liga** só, venho aqui no Duelo Por isso que eu chego e bato o martelo (...) Não curto rede, quem cai na rede é peixe E eu não sou peixe, tô [sic] na conduta Apesar que eu só pesco com os mano*** [sic] truta Redes Conhecimento, coletividade e diversidade de informação Inti Sabem como é que é, o bagulho é notório Porque eu vou adiante Vou conquistando meu território Tipo cachorros mijando no hidrante Reapropriação do espaço público Direito à cidade e identidade cultural Hot Eu não tenho a internet, a saga continua Aqui, porque tem a proximidade E aqui eu posso falar com sinceridade E olhar no olho do meu camarada Aperto a sua mão Tamo [sic] junto, parceiro, não pega nada Redes Conhecimento, interação e coletividade 194 9 DE NOVEMBRO DE 2012: CONEXÕES* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Hot Tá [sic] ligado que eu tenho o meu talento Aqui no Duelo que eu ganhei o meu conhecimento No hip-hop mantive uma postura Tá [sic] ligado hoje eu represento essa cultura Conhecimento Identidade cultural Hot O meu território é o mundo todo O meu território é onde eu boto meu pé Onde eu boto a minha fé Onde eu acredito Liberdade de circulação Conhecimento e identidade cultural Hot Minha saga continua Cê [sic] tá ligado que eu continuo, vivo nessa rua Conhecimento que impulsiona o pensamento Meu parceiro, com o meu talento Você escuta, mantém a conduta Reapropriação do espaço público Conhecimento e identidade cultural Hot Tá [sic] ligado, meu parceiro Que a gente não foge dessa luta A gente tá [sic] lutando com nossas vivências Da rua, eu tenho as minhas experiências Eu tô [sic] na rua, isso é proximidade Por isso que eu até falo com você com sinceridade Reapropriação do espaço público Conhecimento e coletividade Hot As redes não tão [sic] na internet A rede tá [sic] quando cê [sic] fala com o irmão pra [sic] sair do 157****, pra [sic] sair do crime Cê [sic] tá [sic] ligado, mano, cê [sic] tem o dom então se anime Se anime porque a luta é nossa proposta Se anime porque a conduta é nossa Redes Conhecimento e coletividade Inti Minha conexão Parceiro, ela não é 3G Ela é comigo, também com você Vai se ligando porque eu mando aqui E não tem caô Eu vim pra [sic] um palco Não vou ficar na frente lá do monitor Redes Conhecimento, coletividade e direito à cultura Inti Sabe porque a rima não cai Porque senão os caras vai [sic] Querer roubar o meu wifi Vai roubar o meu wifi Porque, mano, eu tento Mas os cara [sic] não vai [sic] conseguir Roubar o meu talento Redes Conhecimento 195 9 DE NOVEMBRO DE 2012: CONEXÕES* MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Inti Porque na rima tenho motivo Sou tipo conexão Igual o evento Conexão Vivo Não tô [sic] morto A conexão é feita na rima Por isso que a gente chega aqui Então joga a mão pra [sic] cima Reapropriação do espaço público Conhecimento Inti Isso é conexão Isso é interação Isso daqui que eu chamo de liberdade de expressão Liberdade de expressão Interação e coletividade Inti Conexão, parceiro É chegar e fugir do perigo Sabe porque eu mando um improvisado Na gíria da favela Conexão é o bonde***** que tá [sic] formado Liberdade de expressão Coletividade e áreas periféricas Monge É sensacional fazer parte dessa família É através do hip-hop que a gente faz a nossa trilha (...) Cê [sic] tá [sic] ligado, isso nos conecta Afinal a nossa rima é repleta De conhecimento e amizade União Amizade, conhecimento e direito à cultura Monge Conexão tá [sic] feita através da vivência Duelo de MCs, mais uma experiência (...) Brasil afora, fazendo a conexão Esse aqui, parceiro, é um irmão Não é de sangue, mas é de rua A satisfação é minha, também é sua União Amizade e compartilhamento de experiências *A disputa da final aconteceu entre os MCs Hot e Inti, com vitória de Inti (ver Anexo 2). No freestyle do campeão, houve a participação de vários MCs, entre eles o MC Monge (ver Anexo 2). **Se liga: prestar atenção. ***Mano: amigo, companheiro. ****157: artigo do Código Penal Brasileiro referente ao crime de roubo. *****Bonde: grupo de amigos. O duelo entre os MCs Inti e Hot, cujo tema era “conexões”, faz referência à rua como lugar de interação entre as pessoas, em detrimento das redes sociais digitais. Eles reforçam o papel do Duelo de MCs como espaço de empoderamento da juventude, onde é possível trocar experiências, adquirir novos conhecimentos e criar uma identidade cultural. “Aqui no Duelo que 196 eu ganhei o meu conhecimento”, diz MC Hot num de seus versos. O discurso marca a relevância do Duelo como estímulo para a busca de novas perspectivas para o jovem, especialmente para aqueles oriundos de áreas periféricas. a) b) Entre as questões mais presentes nos versos dos MCs, está a reapropriação do espaço público como local de práticas informacionais e de trocas de experiências, principalmente em oposição à interação nas redes sociais digitais ou à aquisição formal de conhecimento em salas de aula. MC Inti faz crítica aos internautas, já que “esse bagulho de ficar na internet não rola, a rua, parceiro, que é a minha escola”. Ele também diz que “meu conhecimento não veio do Wikipedia” e que “minha conexão, parceiro, não é 3G, ela é comigo, também com você”. Os MCs também destacam a interação e os sentimentos de união e coletividade entre eles. Ao se referirem ao outro como “mano”, “parceiro”, entre outros, denotam uma clara relação de cumplicidade. Para o MC Hot, “as redes não tão [sic] na internet, a rede tá [sic] quando cê [sic] fala com o irmão pra[sic] sair do 157”, fazendo referência ao artigo 157 do Código Penal Brasileiro, que cita o crime de roubo. Nesse caso, ele cita a importância da amizade para afastar os colegas do envolvimento com a criminalidade. Na construção de um discurso que valoriza as conexões da rua, os MCs Inti e Hot também mencionam a reapropriação do espaço público no Centro de Belo Horizonte. Inti reforça a delimitação de um espaço da cultura e da juventude na cidade ao dizer que “vou conquistando meu território, tipo cachorros mijando no hidrante”. Hot deixa clara a importância da rua: “O meu FIGURA 34 – Duelo do Conhecimento: conexões (final) a) MC Inti b) MC Hot Fonte: Pablo Bernardo. 197 território é onde eu boto meu pé, onde eu boto a minha fé”. E reafirma sua função como local do encontro. “A gente tá [sic] lutando com nossas vivências, da rua tenho minhas experiências”. Na visão de MC Monge, as “conexões” são também feitas a partir de uma espécie de irmandade - pelo viés da rua e da cultura - que é estabelecida entre MCs e artistas, sejam de Belo Horizonte ou de outras cidades do Brasil. É a partir das experiências relatadas em suas letras de música ou no improviso das rimas que eles vão tecendo uma pertença coletiva, pautada em valores comuns, como a luta contra o preconceito e a exclusão social, a busca pela cidadania e a valorização de uma cultura que os norteia enquanto sujeitos sociais. Na sequência, há o quadro com trechos de uma sessão de freestyle no dia 30 de novembro de 2012 em homenagem ao Dia Internacional de combate à violência contra a mulher, comemorado em 25 de novembro: QUADRO 15 Duelo do Conhecimento: “combate à violência contra a mulher” 30 DE NOVEMBRO DE 2012: COMBATE À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Isabella Né [sic] só porque eu sou mina Que eu não posso ser MC Pode crer, eu posso mandar Até meus frees** [sic] e o que eu quiser Liberdade de expressão Igualdade de gênero Zaika MC só não Na cozinha, também não só A gente sabe fazer muita coisa Mulher tem atitude, consciência e consistência Verdade e essência Liberdade de expressão Igualdade de gênero e empoderamento feminino Zaika Bater em mina, tá [sic] errado, mano Seja homem Responsabilidade, essência Consistência e verdade Homem que agride mulher Não tem respeito por si próprio Violência de gênero Respeito às diferenças Zaika Eu acho que nós somos todos um Mas ao mesmo tempo Existem as diferenças Homem e mulher E a palavra do meio É respeito Igualdade de gênero Respeito às diferenças 198 30 DE NOVEMBRO DE 2012: COMBATE À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER MC Trecho da batalha Temática principal Temáticas associadas Sweet Eu não nasci pra [sic] ser capataz nem capacho Eu falo o que eu acho E cê [sic] tá ligado que a minha cabeça eu nunca abaixo Eu falo lá de cima, eu me dou o respeito E eu respeito também Violência de gênero Respeito às diferenças Sweet Mas aí, eu sou mulher e sou do bem Eu edifiquei a minha família, criei a minha filha Sustento a minha casa, e então, aí Nego*** não levanta a asa pra [sic] me agredir Igualdade de gênero Empoderamento feminino *Foram convidadas as MCs Isabella, Zaika, Negra Lud e Sweet (ver Anexo 2). **Frees: freestyle, rap improvisado. ***Nego: rapaz. a) b) Ao criar uma sessão de freestyle especial para discutir o combate à violência contra a mulher, o Duelo de MCs reconhece que a questão ainda é um grave problema social no Brasil e cria uma oportunidade para debater o tema e conscientizar as pessoas sobre a importância da igualdade de gênero e o respeito às diferenças. Além disso, ao promover um encontro somente com MCs mulheres, coloca o hip-hop como espaço de diversidade e inclusão social, deixando de lado o estereótipo de ser FIGURA 35 - Duelo do Conhecimento: combate à violência contra a mulher a) Zaika b) MC Sweet Fonte: Pablo Bernardo. 199 exclusivamente masculino e machista. Aliás, ao se dirigir ao público, seja sob o Viaduto Santa Tereza ou nas redes sociais digitais, a Família de Rua dá um claro sinal de sua preocupação com a questão de gênero, já que sempre faz a distinção nos pronomes pessoais, “ele(s), ela(s)” ou vocábulos como “cara(s), caro(s)” ou “prezada(s), prezado(s)”. Conscientes da força e presença das mulheres na sociedade, as MCs afirmam que o hip- hop também é parte do mundo delas. Ao dizer que “eu posso mandar até meus frees [sic] e o que eu quiser”, Isabella considera a improvisação de rimas uma forma de liberdade de expressão, na medida em que constrói seu discurso e atuação enquanto sujeito social. Zaika chama a atenção para a violência física contra a mulher, que acaba sendo um ato do homem contra si próprio. Para ela, “nós somos todos um”, e que a única diferença que existe entre homem e mulher é “respeito”. Já MC Sweet destaca o empoderamento feminino ao dizer que “eu falo o que eu acho” e “a minha cabeça eu nunca abaixo”. Ao mencionar o fato de que cria sua filha e sustenta sua própria casa, reforça a importância da independência feminina e a possibilidade de chefiar uma família, o que é a realidade de muitas mulheres brasileiras. Ao travarem batalhas sobre temas tão caros à construção de uma cidade democrática e plural, que traz para si questões que envolvem a coletividade, os MCs atuam como porta-vozes de uma parcela da população cujas demandas são ignoradas pelo poder público. A partir de seus versos improvisados, retratam o alijamento de boa parte da sociedade da ação do Estado, que se recusa a conceber a gestão pública como mecanismo para o desenvolvimento humano e social. Diante da omissão e negligência dos governantes, os MCs usam o palco localizado sob o Viaduto Santa Tereza como lugar para a discussão política e conscientização de direitos. Dessa forma, reafirmam o papel central que a prática política em espaços não usuais tem na contemporaneidade e contribuem para a ampliação do espaço público. Pelo viés cultural, esses jovens criam uma identidade coletiva. Numa época de crise de representatividade política, os MCs assumem o posto de lideranças formadoras de opinião e se tornam referência intelectual e informacional para o público e demais seguidores do Duelo de MCs. Sendo assim, artistas e coletivos hip-hop produzem deslocamentos das relações de poder por onde transitam. Nesse caso, reduzem o poder de influência dos poderes econômico e político tradicionais e desencadeiam empoderamentos individuais e coletivos. 200 Ao permitir uma relação de cumplicidade entre MCs e a juventude, a cultura pode ser entendida não somente como processo de construção artística, mas como espaço de comunicação e criação de redes, nas quais valores são transmitidos. Dessa forma, os jovens veem os MCs como exemplo de posicionamento crítico e de uma postura ética e cidadã. 8.3 PRODUÇÃO MUSICAL A produção musical do Duelo de MCs traduz o desenvolvimento profissional de artistas e MCs que compõem a cena hip-hop belo-horizontina. Em muitos casos, as canções registradas em CDs exprimem ideias e sentimentos de jovens que tiveram o primeiro contato com o rap sob o Viaduto Santa Tereza. Nesse sentido, a música desses artistas é marcada pela ocupação do espaço público em Belo Horizonte, luta por direitos e reivindicações de uma parcela da população desassistida pelo poder público. Após uma análise prévia das canções do CD “O Som que vem das ruas” – uma produção coletiva de vários artistas – e da música “Amoravila”, de autoria do MC Douglas Din, foi identificada a predominância de algumas temáticas, tais como: QUADRO 16 Produção musical: principais temáticas do CD “O som que vem das ruas” TEMÁTICA PRINCIPAIS IDEIAS Reapropriação do espaço público Ocupação das áreas públicas por parte da população, resgatando-a como espaço de todos e destinado às trocas simbólicas entre os sujeitos Promoção e desenvolvimento cultural Hip-hop como identidade cultural e meio de transformação social e oportunidade de trabalho para jovens artistas Exclusão social e privação de direitos Desigualdades sociais, ausência do Estado, marginalização e outros entraves enfrentados pelos jovens para alcançar uma vida digna na cidade União e coletividade entre MCs Valores do hip-hop compartilhados pelos MCs e que permitem a construção de práticas solidárias e cidadãs Amor e afetividade O rap conhecido também como um tipo de música voltado para os sentimentos e as relações afetivas entre as pessoas 201 TEMÁTICA PRINCIPAIS IDEIAS Favela e territórios periféricos Áreas da cidade vistas não somente pelo prisma da ausência de infraestrutura e serviços, mas também como local de práticas culturais e construção de identidades As temáticas colocadas refletem os anseios de artistas – a maioria oriunda de favelas e outras áreas periféricas da cidade –, que fazem de seu trabalho um ato político, na medida em que denunciam problemas sociais e descrevem uma realidade ignorada pelos discursos dominantes. Trazem à tona demandas históricas de setores da sociedade sem o devido amparo do Estado. Além disso, reivindicam o direito à cidade, à cultura e à ocupação dos espaços públicos. Entre os principais resultados do trabalho da Família de Rua, está o CD “O som que vem das ruas”, lançado em 2011, que registra a produção inédita de 23 artistas de Belo Horizonte, MCs e beatmakers que mais participaram do Duelo de MCs ao longo dos últimos quatro anos. A produção foi feita pelo DJ Roger Dee e as músicas estão disponíveis no link . Com 12 faixas e produzido por Roger Dee, o CD foi viabilizado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura e registra a produção musical de vários MCs de Belo Horizonte. O fato de ser um disco coletivo, com a participação dos principais talentos descobertos ao longo das noites de sexta-feira no Duelo, reforça o caráter coletivo das experiências vividas por esse grupo social e demonstra o espírito de união e cumplicidade presente na relação entre os MCs. Juntos, tecem críticas aos sistemas econômico e político atuais e denunciam problemas sociais que vivenciam. 202 A seguir, é feita uma análise das letras das músicas. Foram produzidos quadros esquemáticos contendo trechos de algumas canções e as respectivas temáticas assinaladas, seguidos de alguns comentários: QUADRO 17 Produção musical: faixas 1 e 2 do CD “O som que vem das ruas” CD – O SOM QUE VEM DAS RUAS (2011): FAIXAS 1 E 2 FAIXA TRECHO TEMÁTICAS ASSINALADAS Faixa 1 – “Nós” Repare nos semblantes ao seu lado Todos encantados, ao som do que as ruas querem dizer Nós somos família e vivemos pra [sic] ser, sempre Pelas raízes, pela fé, por você Ocupação do espaço público, direito à cidade, liberdade de expressão e identidade cultural Faixa 1 – “Nós” Sobrenome rua respeitada e sem clichê Tendo com letras do DNA h-i-p-h-o-p (...) Irmandade na rima Fazendo em prol de um todo Mantendo o funk na ginga Sendo punk no jogo Ocupação do espaço público e identidade cultural FIGURA 36 – Capa do CD “O som que vem das ruas” Fonte: Pablo Bernardo. 203 CD – O SOM QUE VEM DAS RUAS (2011): FAIXAS 1 E 2 FAIXA TRECHO TEMÁTICAS ASSINALADAS Faixa 1 – “Nós” Mesmo que o dia nos transforme em caixas de fadiga Ainda que as intrigas deixem a autoestima baixa Por quanto mais a vida impeça a caminhada As faixas no asfalto dão sinais de outra estrada Dificuldades do cotidiano, desigualdades sociais, ocupação do espaço público, liberdade de expressão e arte como meio de transformação social Faixa 1 – “Nós” De um lado a censura, a repressão o trabalho em vão Do outro a mistura, a cultura, a criação Que brota noite adentro E no coração do Centro Planta novamente A semente das block parties* Liberdade de expressão, direito à cultura e à cidade e identidade cultural Faixa 1 – “Nós” Parece loucura Não enxergam que é cultura E você não entende Mas não me surpreende Onde tem gente que se vende Tem gente que não se rende Direito à cultura, liberdade de expressão e identidade cultural Faixa 2 - “Por onde eu ando” Claro que eu faço meu papel Independente da ortografia Pois meus sons me resumem tipo uma autobiografia Por isto eu sigo essa diretriz Escrever errado ainda sim Eu gosto dos pingos nos is Valorização do conhecimento popular a partir do compartilhamento de experiências Faixa 2 - “Por onde eu ando” Faço no tranco Mas meu trampo eu não troco por troco Pois este elo que nos une me mantém Convicto de que essa tal vitória um dia vem E talvez até lá esteja rico ou continue apertado igual os busões que enfrento no horário de pico União, coletividade e valorização da arte *Block parties: Na tradução para o português, “festas do bloco”, que surgiram no início do movimento hip-hop em Nova Iorque, na década de 1970. Eram festas em que membros de um bairro se reuniam para dançar. Os agitadores culturais fechavam o quarteirão para o tráfego de veículos e transformavam a rua em pista de dança. Na faixa 1, “Nós”, composta por Roger Dee e PJ, os MCs Monge, Dmorô, PDR, Brisa Flow e OZ – a maioria integrante do coletivo Família de Rua –, retratam o sentimento dos artistas que participam do movimento do Duelo de MCs em Belo Horizonte. Eles falam da ocupação do espaço público na cidade, de “sobrenome rua respeitada e sem clichê”, em referência à rua como espaço da cultura, da criatividade e da coletividade. A letra reforça a importância de um espaço para a cultura hip-hop na cidade, com a “mistura, a cultura, a criação”, sobretudo para a juventude negra – que traz de volta o sentimento 204 das “block parties”, em referência às festas de rua em bairros da periferia de Nova Iorque na década de 1970. Há referência também à “irmandade na rima” do grupo que, como o próprio nome diz, se considera uma “família” e são “pelas raízes, pela fé, por você”. Dessa forma, eles enxergam no Duelo de MCs um espaço de identidade cultural coletiva, que os une mediante laços de afetividade e fraternidade. Além disso, “Nós” não deixa de denunciar as condições adversas nas quais vivem os artistas, que não podem se dedicar inteiramente à arte. A maioria deles se dedica a outras atividades de trabalho e só após o expediente têm condições para se dedicar à música. A música também remete ao descaso de autoridades públicas e pessoas que não identificam o hip-hop como parte legítima da cultura da cidade, e mesmo com um cenário desfavorável, acreditam na música como ferramenta de transformação social: “as faixas no asfalto dão sinal de outra estrada”. A faixa 2, “Por onde eu ando”, composta por Coyote e na voz de Nil Rec, retrata o rap como projeto de vida de MCs, que acreditam na vocação para a arte. Para esses jovens, a falta de escolaridade não é impedimento para um bom desempenho nas rimas, que pode acontecer “independente da ortografia” ou dos ensinamentos em sala de aula. Acreditam que o conhecimento construído a partir de suas vivências em casa e na rua também pode ser instrumento para a criação de versos que retratem sua realidade e denunciem os problemas sociais pelos quais passam. Coyote também destaca que, apesar das adversidades que a cultura hip-hop enfrenta para se impor, devido ao preconceito, desvalorização e a falta de oportunidades, a relação entre os MCs, pautada na união, amizade e cumplicidade, garante a continuidade do projeto de difundir o som das periferias pela cidade. O compositor também coloca na música a possibilidade de dias melhores, esperança na “vitória” como reconhecimento do seu trabalho enquanto artista, “convicto de que essa vitória um dia vem”. 205 QUADRO 18 Produção musical: faixas 3, 4 e 5 do CD “O som que vem das ruas” CD – O SOM QUE VEM DAS RUAS (2011): FAIXAS 3, 4 E 5 FAIXA TRECHO TEMÁTICAS ASSINALADAS Faixa 3 – “O som da vida” Lembrança de amigos que morreram Os covardes que mataram também morreram Os outros correram (...) Tem os que se divertem, Tem os que se matam Eu conheço os que se abraçam Conheço os que se maltratam (...) Eu curto o som de raiz Pra [sic] esquecer que a minha vida Já teve [sic] por um triz Áreas periféricas, violência, criminalidade e direito à cultura Faixa 3 – “O som da vida” Não me preocupo, com o que o fulano falou Eu sou um rapaz comum da cidade de Belô Esse é o som da vida, esse é o som da vila Onde eu cresci, eu aprendi eu assisti, eu vivi Pertencimento e direito à cidade, áreas periféricas e isolamentos territoriais Faixa 3 – “O som da vida” De geração a geração o rap incendeia Eu sou do tipo que nasceu com rap na veia Fale o que quiser, até duvide do talento A raiz e a origem eu sei que eu represento Direito à cultura e identidade cultural Faixa 4 – “Vivência” Deixa fluir a inspiração Deixa transparecer a essência Abra seu coração quando falar de sua vivência Verdades, versos e prosas Amigos e bons momentos A vida o cheiro das rosas Hip hop sentimento Hip-hop como resistência e identidade cultural coletiva, que possibilita o compartilhamento de sentimentos e experiências Faixa 4 – “Vivência” Vi dois amigos casarem Vi minha filha nascer Vi MCs surgirem com tudo pra [sic] vencer E no final a história que faz esse elo E te pergunto quantas histórias já se cruzaram pelas noites de Duelo Hip-hop como identidade cultural de grupos sociais da juventude belo-horizontina Faixa 5 - “Maturidade” Cidade que me envolve, que dissolve sonho Faço a minha parte e me entrego àquilo que me proponho Enfrento meu demônio em cada etapa Seleção natural na eliminação de quem tem mente fraca Direito à cidade e à cultura Faixa 5 - “Maturidade” Quanto tempo eu demorei pra [sic] ver se vale a pena ser um dos que cantam pra [sic] você Mas não compare, me encare se quiser Olha no Face, eu não sou playboy da Savassi Equilibrando mente, corpo, espírito e rima na classe Desigualdades sociais, redes e valorização do conhecimento popular 206 A canção “O som da vida”, terceira faixa do disco, composta por Easy-CDA e na voz de Simpson Souza, retrata a vida numa favela de Belo Horizonte. A letra cita algumas situações presenciadas por um jovem morador do local que perpassam a violência urbana, quando são citados “os amigos que morreram”, “os covardes que mataram e também morreram”, “os que se divertem, os que se matam” e que “a minha vida já esteve por um triz”. Apesar de caracterizar o espaço da favela como uma área violenta da cidade, o jovem favelado também é colocado como um cidadão comum da capital, com desafios parecidos como os de qualquer cidadão belo-horizontino. Representante desse universo, ele faz das noites de sexta-feira no Duelo de MCs um espaço de lazer, sonho, alegria e troca de experiências com outras pessoas, criando uma identidade cultural com os outros jovens e um pertencimento à cultura da cidade. A canção “Vivência”, faixa 4 de “O som que vem das ruas”, é assinada por Gurila Mangani e tem interpretação de Digô. A letra mostra o papel do hip-hop como identidade cultural coletiva para grupos sociais da juventude belo-horizontina. Destaca o rap como mediador de histórias comuns, ideias e criações coletivas e a cultura hip-hop como espaço para experiências simbólicas e construção de ideais, sonhos e projetos. A partir das batalhas no Duelo de MCs, criam uma espécie de fio condutor para suas vidas, seja no palco, em casa com a família ou nos encontros e trocas de experiências. Na música “Maturidade”, quinta faixa do disco assinada por Giffoni e cantada por Leozin, a cidade é vista como um espaço desagregador, que inibe o diálogo intercultural e o encontro entre pessoas. Apesar desse cenário, os MCs resistem e ocupam as áreas públicas para transmitir sua mensagem a partir das disputas de rimas entre eles. A letra também diz respeito à valorização das culturas periféricas dos MCs, que traduzem nas rimas a superação das dificuldades do cotidiano, da condição de exclusão social e do preconceito, uma crítica a quem nunca precisou lutar contra isso, como o “playboy da Savassi”. O “Face” mostra o uso de redes sociais digitais por esses jovens. 207 QUADRO 19 Produção musical: faixas 6 e 7 do CD “O som que vem das ruas” CD – O SOM QUE VEM DAS RUAS (2011): FAIXAS 6 E 7 FAIXA TRECHO TEMÁTICAS ASSINALADAS Faixa 6 – “Passo a passo” A cada passo em prol da arte Sinto orgulho de fazer parte Em nome do hip hop Sempre pronto pro [sic] combate Guerreiro preparado Com foco na missão Deus conversa com o MC Sobre o poder da criação (...) Hip hop de raiz, isso me faz feliz Quatro elementos juntos no Duelo de MCs Onde eu me formei MC de verdade Ainda assim espalho meus throw ups* por toda a cidade Direito à cultura, resistência cultural e hip-hop como identidade cultural coletiva Faixa 6 – “Passo a passo” Me envolvo de coração mente e alma pura Desenvolvo meu melhor pelo progresso da cultura Antes admirador sem maiores pretensões Agora um rimador com Coyote nas produções Hip-hop como identidade cultural coletiva e motivador de novos projetos de vida Faixa 7 – “Vende- se” Vendo a maldade do mundão Quanta divisão Pra [sic] quem deveria manter-se unido (...) Sinto-me incapaz de rimar a paz Se quem faz a parada prefere estar dividido (...) O único sentido a seguir mostra-me a contramão Dos irmãos que não querem me ver prosseguir (...) Se abaixo a cabeça, me atropelam sem pena Desigualdades sociais, injustiça e isolamentos territoriais na cidade Faixa 7 – “Vende- se” Mesmo que mudem as regras, invertam os fatos Trazendo a repressão serei totalmente contrário A opressão, não, obrigado Deram-me a chance da revanche E um de nós será vingado Liberdade de expressão e direito à cultura *Throw up: graffiti feito rapidamente, muitas vezes numa situação de clandestinidade. A sexta faixa do disco, “Passo a passo”, composta por Coyote e na voz de Destro, frisa o papel central que o hip-hop e o Duelo de MCs tem para essa juventude. É destacado o papel que o Duelo faz de juntar as quatro linguagens do hip-hop sob o Viaduto Santa Tereza e na formação de jovens MCs, que passam a ver o rap como um projeto de vida. A letra relata as perspectivas que o hip-hop traz para um MC, que antes era um “admirador sem maiores pretensões” que 208 assistia da plateia as batalhas entre os MCs e decidiu se arriscar em cima do palco. A partir daí, concebe o hip-hop como espaço de trabalho, cultura e reflexão. A canção número 7 do disco, de nome “Vende-se”, de autoria de Enece e com interpretação de Fabrício FBC, denuncia os problemas do mundo, refletidos nas grandes cidades com a segregação de pessoas e espaços, a repressão por parte do poder público e a ausência de perspectivas futuras. No entanto, apesar das adversidades, o jovem MC tenta reverter esse quadro e identifica o hip-hop como a arma mais poderosa para alcançar seus objetivos e desejos. QUADRO 20 Produção musical: faixas 8, 9 e 10 do CD “O som que vem das ruas” CD – O SOM QUE VEM DAS RUAS (2011): FAIXAS 8, 9 E 10 FAIXA TRECHO TEMÁTICAS ASSINALADAS Faixa 8 – “Cliclos (amor-te)” Que por várias vezes Cantei na porta da prefeitura Panelaços, sempre estava na parada Ultimamente, prefiro fazer cultura E quem tá [sic] por dentro sabe, lá vem pedrada Desigualdades sociais e ausência de políticas públicas Faixa 9 – “Sinceramente” Mas hoje venho mixar sinceridade Com a minha habilidade De masterizar não o que os outros querem Mas o que todos têm necessidade Empoderamento e liberdade de expressão Faixa 9 – “Sinceramente” Disso restou flashbacks Em meio a flashes e backs Sem happy hour Pois hoje rima é power para os blacks Cultura negra e identidade racial Faixa 9 – “Sinceramente” Imagine uma faca, é só uma faca A utilidade dela é você que define Resumindo se sua vida é uma bosta Das duas uma, ou você gosta, ou você gosta Empoderamento, superação das dificuldades e busca de projetos de vida Faixa 10 – “Carapuça” Não quero agradar sob efeito da hipocrisia Antes no peito um ódio puro do que uma falsa alegria Porque fiz da rima um espaço Que as minhas pernas não alcançam Hip-hop como protesto e denúncia de problemas sociais Faixa 10 – “Carapuça” Tenho sonho e tô [sic] disposto a trabalhar Com esforço, pretendo ir até onde der Com a força que Deus me dá Em cada vitória a certeza De que nasci pra [sic]isso E quando perco, não deixo de mostrar serviço Esse é meu ritual Que me fascina mesmo sendo difícil Onde eu ofereço ideias como sacrifício Sonhos, projetos de vida, fé, autoestima, vocação e valorização da arte 209 O amor ao rap é o tema da oitava faixa, “Cliclos (amor-te)”, de autoria de Easy-CDA e interpretação de Kadu dos Anjos. Nela, fala-se da vocação para a arte, poesia, sonhos, desejos, morte, esperança e a oportunidade que os MCs têm de ser artistas, apesar das dificuldades. Há destaque também para um passado de panelaços na porta da prefeitura, o que remete a reivindicações históricas de uma população alijada das políticas públicas. Na voz de Douglas Din e composta por Gurila Mangani, “Sinceramente”, a faixa 9 do disco discute o empoderamento e as oportunidades que o hip-hop traz para os jovens, que a partir de novas perspectivas de vida, podem planejar um futuro diferente daquilo que a sociedade escolheu para eles. Com o exemplo da faca, o compositor enfatiza as alternativas para a criminalidade. E numa alusão ao movimento Black Power – movimento negro de orgulho racial iniciado na década de 1970 nos Estados Unidos –, ele diz que a mensagem das rimas é hoje um importante meio de difusão da cultura jovem e negra. “Carapuça”, a décima canção do disco, composta por Giffoni e interpretada por Vinição, menciona o rap como estilo musical voltado para o protesto e denúncia, o que para muitos jovens é o único meio para desabafar e dizer aquilo que pensa. Fala dos sonhos do jovem em se tornar um MC, da vocação para ser artista, apesar do desafio de vencer uma batalha de rimas e das adversidades que a carreira de um artista da cultura hip-hop precisa enfrentar para ter seu trabalho reconhecido. QUADRO 21 Produção musical: faixas 11 e 12 do CD “O som que vem das ruas” CD – O SOM QUE VEM DAS RUAS (2011): FAIXAS 11 E 12 FAIXA TRECHO TEMÁTICAS ASSINALADAS Faixa 11 – “Tá tudo errado” Nós que plantamos esse pé de manga que não tomba Vocês que se divertem, comem fruta, pegam sombra Jogamos vários jogos, vencemos competições E vocês só aparecem pra [sic] foto dos campeões Oportunismo e concorrência entre grupos de hip-hop da cidade Faixa 11 – “Tá tudo errado” Engraçado Cês [sic] fingem que não percebem Somos nós que trabalhamos, vocês que recebem Enquanto cês [sic] se divertem, nosso trabalho dobra Deus tarda mas não falha Qualquer dia ele cobra Oportunismo e concorrência entre grupos de hip-hop da cidade Faixa 11 – “Tá tudo errado” Ninguém saiu pra [sic] comprar os ingredientes da receita Mas quando o bolo tá [sic] pronto, ninguém rejeita Precarização do trabalho, desigualdades sociais, direito à cultura e valorização da arte 210 CD – O SOM QUE VEM DAS RUAS (2011): FAIXAS 11 E 12 FAIXA TRECHO TEMÁTICAS ASSINALADAS Até o fim pelo que eu luto Respeito e liberdade aos guerreiros do viaduto Faixa 12 – “O som que vem das ruas” Duelo de MCs Conhecimento e cultura direto do elevado Eleva ideias que vencem a rua Queria replay dessas cenas, Centro da cidade Duelo de MCs como difusor da cultura e do conhecimento em Belo Horizonte Faixa 12 – “O som que vem das ruas” Contrariando os que fingiram não escutar Bravas vozes decidiram anunciar a renovação Nossa missão É manter a chama acesa com a certeza da vitória A cada noite de celebração Duelo de MCs como espaço de resistência cultural da cidade Faixa 12 – “O som que vem das ruas” Muitos desacreditaram Poucos se desempenharam Para realizar um sonho Que vários já sonharam Atitude, o respeito, a resistência e o amor Sexta-feira à noite é pro [sic] viaduto que eu vou Duelo de MCs como espaço de resistência cultural da cidade “Tá tudo errado”, canção de número 11, escrita por Enece e interpretada por Vuks, faz um desabafo sobre o oportunismo e a deslealdade de alguns artistas que acabam se aproveitando das conquistas do Duelo de MCs para o movimento hip-hop de Belo Horizonte. O compositor tece críticas a alguns músicos que não participaram da criação do Duelo de MCs e que, agora, passada a etapa de ocupação do Viaduto Santa Tereza, querem levar os méritos de quem lutou durante anos para conseguir um legítimo espaço da arte de rua na cidade. A canção revela a importância que os MCs dão para a coesão entre os artistas de rap em prol do fortalecimento da cultura hip- hop em Belo Horizonte. A última canção, homônima ao disco, composta por D.N.T. e na voz de vários MCs, é uma celebração ao Duelo como movimento de resistência cultural no Centro de Belo Horizonte. A música destaca a importância do Duelo de MCs na apropriação do espaço público como local da cultura, demonstrando a força do movimento, que ganha cada vez mais adeptos e admiradores. Mais uma vez, destacam o espírito de união entre eles para criar o movimento que, apesar das vozes contrárias, se empenharam contra as adversidades e garantem “a certeza da vitória a cada noite de celebração”. A criação do CD “O som que vem das ruas”, realizado coletivamente entre vários MCs, contribui para a construção social da informação sobre o Duelo de MCs, o movimento hip-hop de 211 Belo Horizonte e a ocupação cultural dos espaços públicos na cidade. Na medida em que suas letras revelam o alcance do movimento – que traz as reivindicações das culturas periféricas para o Centro da capital, propõe um diálogo intercultural entre diversos grupos sociais e evoca a dimensão do público para a reflexão dos cidadãos –, o CD coloca o Duelo de MCs como expoente da diversidade cultura belo-horizontina e espaço de reivindicação de direitos. A seguir, é feita a análise de trechos da canção “Amoravila”, composta pelo MC Douglas Din e lançada durante pocket show no Duelo de MCs em novembro de 2012 . Nela, Din declara seu amor pela Vila Cafezal, uma das principais favelas de Belo Horizonte e onde mora. O artista reconhece a favela como espaço da ausência do Estado, mas a concebe também como lugar de construção simbólica de seus moradores, o que contribui para seu reconhecimento como um dos principais MCs brasileiros da atualidade. FIGURA 37- Cartaz do lançamento do single “Amoravila” Fonte: Pablo Bernardo. 212 QUADRO 22 Produção musical: canção “Amoravila”, de Douglas Din CANÇÃO “AMORAVILA”, DE DOUGLAS DIN (2012) TRECHO TEMÁTICAS ASSINALADAS Amo, alvenaria, telha de zinco Chamo de união, um quarto pra cinco (...) Não é meu forte, mas posso forçar a barra Impossível não existe na terra da gambiarra Eu vim de lá, núcleo do improviso Doce lar dos meninos sem juízo Favela ao mesmo tempo como local da falta de infraestrutura e do acolhimento e referência cultural Olha a disciplina Lá alteza é Deus E o menino do morro, ainda é plebeu Mas amo esse lugar, a rua ritmo me viu Abraçar meu talento igual rabiola no fio Favela como lugar da ausência do Estado, da religiosidade, mas também como espaço de construção simbólica Amor, adoro esse lugar Ei, ei, respeito pra [sic] chegar Nego, lá é uma maravilha Nega, maravilha ser de lá Favela como referência cultural e territorial Condomínio fechado, residencial A primeira maravilha do mundo é esse local (...) Bronx, das paredes sem reboco Casa de quem faz seu próprio troco Favela como referência cultural e espaço para expressões artísticas de trabalhadores que lutam por uma vida melhor Moço, não me interrogue pelo amor Nada contra polícia, mas nada a favor Pro [sic] bem de todos, guarde sua arma e sua voz alta E os tapas na cara também não vão fazer falta Favela idealizada como espaço de convivência pacífica, longe do autoritarismo e da ação truculenta da polícia Fomos à luta e a lenha marcando o couro Nenhum barraco lá tem estante pra desaforo Hum, hum, com licença, excelência Será que nos permite desfrutar da sua ausência? Favela como morada de trabalhadores que lutam por dignidade, respeito e uma vida melhor A letra de “Amoravila” traduz com leveza o retrato de uma favela a partir do olhar de alguém que fez parte e vivenciou intensamente esse lugar. Isso não significou um olhar complacente com uma realidade dura, marcada pela indisponibilidade de infraestrutura e serviços públicos e sob o estigma da violência e criminalidade. Douglas Din reconhece essa realidade, mas não se prende a ela. Pelo contrário, o compositor apresenta a favela como espaço de referência cultural de seus moradores; como lugar do encontro, do acolhimento, da solidariedade e das trocas simbólicas. Ao dizer que a rua reconheceu o seu talento “igual rabiola no fio” – em alusão ao rabo das pipas que fica preso no fio da rede elétrica, cena comum nas ruas de favelas e aglomerados –, o 213 MC credita parte dessa conquista ao lugar de onde vem. É a partir das referências culturais sobre a vila e de uma cultura informacional permeada também pelas assimetrias econômicas e sociais, exclusão social e privação de direitos que Din construiu seu repertório simbólico e pôde se destacar entre os MCs. Apesar de citar a vila como a “terra da gambiarra” e o “núcleo do improviso”, ele reafirma seu pertencimento a esse lugar, caracterizado pela precariedade de suas construções. “Maravilha ser de lá”, diz ele, que considera um local como “a primeira maravilha do mundo”, onde é preciso “respeito pra [sic] se chegar”. Dessa forma, ele reafirma o lugar da favela não somente como espaço da ausência, mas também da potência, da criação e da inovação. Ao se referir à vila como o “Bronx, das paredes sem reboco”, Din remete ao distrito de Nova Iorque onde foi fundado o hip-hop, na década de 1970. Nesse sentido, ele destaca o importante papel de movimentos artísticos como o hip-hop na representação simbólica das culturas periféricas das grandes metrópoles. E que sua vila também é o lugar para a arte de rua. Ao idealizar a favela como lugar de harmonia e convivência pacífica, o MC pede fim à ação truculenta da polícia. Com uma atuação autoritária e abusiva em subúrbios e periferias – o que reforça o estereótipo de serem áreas de violência e criminalidade –, Din pede ao policial que “guarde sua arma e sua voz alta” e que os “os tapas na cara também não vão fazer falta”. Além disso, ele destaca a favela como lugar de gente trabalhadora, honesta, que vai à luta diariamente para seu sustento e que merece um tratamento digno das autoridades, em especial as policiais, sem violência e desrespeito aos cidadãos. Com diz Din, “com licença, excelência, será que nos permite desfrutar da sua ausência?”. Ao demonstrar uma relação afetiva com seu lugar de origem, Douglas Din procura desmitificar a favela como espaço exclusivo da ausência e da carência e local da violência e criminalidade. Dessa forma, propõe a ressignificação da favela, que dever ser entendida também como o local da cultura, das trocas simbólicas entre moradores e trabalhadores que possibilitam a criação de uma identidade cultural e o sentimento de pertença coletiva. Assim, a favela se encontra no imaginário coletivo de seus moradores como lugar de vivência das práticas culturais, assim como em qualquer outro bairro da cidade. De uma forma geral, a produção musical de artistas e coletivos culturais que fazem parte do universo do Duelo de MCs demonstra o alcance social do projeto. Sob o Viaduto Santa 214 Tereza, eles mantêm no espaço público do Centro de Belo Horizonte um espaço de autoafirmação como artistas e profissionais da música, o que possibilita o cruzamento de ideias, a criação de projetos e parcerias para a capacitação e profissionalização desses jovens, permitindo, assim, novas perspectivas de vida. Além disso, ao realizar um trabalho independente de gravação de discos e canções com grande alcance do público pelas redes sociais digitais, o Duelo de MCs cria circuitos alternativos de bens culturais que entram em conflito com os interesses da indústria cultural. Dessa forma, rompem com o padrão de consumo dominante baseado no incremento do lucro das grandes corporações midiáticas e contribuem para o crescimento da cadeia produtiva de artistas locais. Como objeto informacional, a produção musical dos MCs traduz a busca, por parte desses jovens, em construir e registrar novas abordagens discursivas sobre a realidade. Assim, por meio de um olhar sensível sobre aquilo que está à margem e oculto por uma visão de mundo classista e segregadora, ressignificam a percepção sobre os espaços periféricos da cidade e legitimam suas práticas culturais. A partir de temas que fazem parte de suas vidas e que são evidenciados nas letras das músicas, tais como desigualdades sociais, isolamentos territoriais, ausência de políticas públicas, liberdade de expressão e circulação, empoderamento juvenil, ocupação do espaço público e culturas periféricas, os MCs dão voz às reivindicações de uma população que luta por visibilidade, dignidade, cultura e cidadania. 8.4 PANFLETOS E FANZINE Por ser formado por pessoas interessadas no alargamento das fronteiras culturais da cidade e que fazem do lazer um momento para a reflexão sobre sua própria realidade, o público do Duelo de MCs foi alvo de mensagens de cunho político e cultural, seja por meio de panfletos, flyers, filipetas e folders. A maioria dos panfletos entregues entre agosto e dezembro de 2012, período do trabalho de campo desta pesquisa, era de convites para festas e outros eventos hip-hop em Belo Horizonte e região metropolitana. 215 Nesse contexto, destaca-se a importância do Duelo de MCs e a área sob o Viaduto Santa Tereza como importantes espaços para a divulgação e difusão das culturas periféricas da cidade. Em decorrência das eleições municipais de 7 de outubro, houve a distribuição de santinhos de candidatos a vereador de Belo Horizonte, que compreenderam o Duelo como espaço de debate político e de luta por direitos e conquistas sociais. O quadro a seguir faz uma análise das temáticas assinaladas em cada panfleto: QUADRO 23 Panfletos PANFLETO TEMÁTICAS ASSINALADAS O santinho do candidato a vereador Rafael Frois também faz referência a algumas características do público do Duelo de MCs. Inicialmente, o fato de ser negro cria uma identidade com a maioria dos frequentadores. Além disso, sua trajetória pautada por questões sociais, como a atuação nos movimentos sociais, envolvimento com o Orçamento Participativo e articulação para a aprovação de obras em áreas periféricas da cidade pode haver semelhanças com as reivindicações do público. A plataforma voltada para as políticas sociais e de juventude, transporte público e valorização da cultura do povo vai ao encontro das demandas do Duelo. Ao fazer referência ao graffiti e destacar a frase “pela valorização da diversidade cultural”, o candidato a vereador Gilson Reis buscou se aproximar das bandeiras do Duelo de MCs como liberdade de expressão e diversidade cultural na cidade. 216 PANFLETO TEMÁTICAS ASSINALADAS Grafiteiro e ligado à cultura hip-hop, o candidato a vereador Airone fez do Duelo de MCs um espaço natural para a busca de votos para a sua candidatura. A partir do lema de campanha “Chega dos mesmos, vote no grafitteiro!”, se coloca como um candidato do público do Duelo de MCs, enquanto representante da cultura hip-hop de Belo Horizonte. A filipeta convida o público do Duelo para participar da marcha pela legalização da maconha e contra o câncer e o crack. Entende que os frequentadores são potenciais apoiadores de causas libertárias, que propõem o fim de leis conservadoras. O Duelo visto sob o ponto de vista da expansão de liberdades individuais, do empoderamento e politização juvenil e visão crítica do mundo. O panfleto, de caráter anarquista, convida para uma ação cultural de rappers e funkeiros para criar um poder popular que vai além das eleições municipais. Ao afirmar que “nossas urgências não cabem nas urnas”, revela a descrença no sistema político atual e na eficácia das políticas públicas no atendimento às demandas da juventude periférica belo-horizontina. 217 PANFLETO TEMÁTICAS ASSINALADAS O panfleto convida para um evento de hip-hop em solidariedade à ocupação Eliana Silva, na região do Barreiro, em Belo Horizonte – o que inclui um momento de abraço às comunidades. Remete às desigualdades sociais no país, à luta por moradia e reforça a importância das ações de ocupação do espaço público para contemplar direitos os básicos da população, com o apoio do Duelo de MCs e da Família de Rua. O santinho de igreja batista da Serra, na região Centro-Sul da capital, foi entregue após entrevista com um grupo de frequentadores que estava sentado com bíblias na mão próximo à área reservada aos skatistas. Eles fazem parte de um grupo de jovens da igreja, que faz cultos às sextas-feiras às 19h30 e que depois descem juntos para assistir ao Duelo. Mostram a diversidade do público e as várias identidades culturais que unem os grupos sociais presentes, inclusive aqueles ligados a religiões. Tendo o Duelo de MCs como fonte de inspiração, o “MC Confronta” propõe batalhas de freestyle entre MCs em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O convite demonstra a mobilização da juventude de outros municípios no movimento hip-hop e estímulo ao protesto, à politização e luta por direitos. 218 PANFLETO TEMÁTICAS ASSINALADAS Convite para apresentação do coletivo “As mina rima”, que se apresenta periodicamente na Casa Amarela, em Contagem. O panfleto reforça a presença da mulher, em especial à mulher negra, nos espaços dedicados à cultura hip-hop. Cria-se, portanto, uma identidade com o público feminino e negro. O convite para o show “Material de Zion”, dos MCs Monge (da Família de Rua) e Matéria Prima, no Palácio das Artes, dentro da programação do Verão Arte Contemporânea 2013, demonstra o alcance que o Duelo de MCs deu ao movimento hip-hop de Belo Horizonte. Após dar visibilidade ao rap e às culturas periféricas ao longo de seis anos sob o Viaduto Santa Tereza, os artistas do Duelo de MCs sobem ao palco do principal teatro de Minas Gerais. Na ilustração do panfleto, os dois artistas simulam abrir à força as portas do teatro para o rap. Episódio importante para o respeito ao hip-hop, fim de estereótipos e sua consolidação na cena cultural mineira. Os panfletos analisados dão a dimensão da percepção sobre a juventude que frequenta o Duelo. Ao contrário de uma visão estereotipada, que percebe esse grupo social como despolitizado e alheio às questões que interessam a coletividade, ele é visto como formador de opinião e interessado na participação social. Dessa forma, o Duelo de MCs é percebido como 219 local de debate político e de reflexão sobre o papel das políticas públicas no atendimento a reivindicações populares. A partir de uma perspectiva política, os panfletos dão a dimensão do Duelo como espaço estratégico para o fortalecimento da cena hip-hop em Minas Gerais, seja na formação de artistas ou na sua crescente itinerância por espaços da cidade. Assim, colaboram para que haja maior conhecimento sobre o hip-hop e menos preconceito contra expressões culturais periféricas. Especialmente sobre o panfleto do “I Hip Hop Ocupa”, realizado na ocupação Eliana Silva, destaca-se a importância do Duelo de MCs como espaço de convergência de grupos sociais com anseios distintos às demandas hegemônicas, de apoio a outros movimentos de ocupação de áreas públicas e a causas populares, como o direito à moradia. Já o santinho “Clínica da alma” revela a grande diversidade de público, que advém de vários ambientes sociais, mas que se unem num sentimento de pertença coletiva sob o Viaduto Santa Tereza. Além disso, denota a forte relação existente entre o hip-hop e algumas religiões, especialmente as protestantes e de matriz africana. A partir dos santinhos políticos e religiosos, bem como do panfleto sobre a marcha pela legalização da maconha, percebe-se como o Duelo de MCs, enquanto movimento de ocupação do espaço público que congrega um número cada vez maior de interessados e com perfis diversos, é reconhecido por outros movimentos sociais na cidade. Ou seja, o Duelo de MCs consolida-se como espaço formador de opinião e que promove a interlocução com a cidade, especialmente em questões importantes para a vida política do país, como as eleições. A seguir, é feita a análise de alguns trechos do fanzine “O que acontece aqui?”, resultado de workshops de ativismo urbano realizado durante o Festival Cidade Eletronika 2012, em setembro do mesmo ano, em Belo Horizonte. O evento contou com a participação de artistas internacionais, que se apresentaram com artistas da cidade. Dentro da programação, a “cidade eletronika” fez a ponte entre arte e urbanismo e propôs o debate e a prática da ocupação consciente dos espaços públicos. O objetivo foi a criação coletiva de uma mídia que pudesse ter a participação dos atores envolvidos na ocupação do Viaduto Santa Tereza pelo Duelo de MCs. Resultado de um trabalho colaborativo e em rede de duas semanas, a elaboração do fanzine teve a participação da Família 220 de Rua, MCs, grafiteiros, skatistas, desenhistas, serralheiros, marceneiros, arquitetos, artistas, estudantes e pesquisadores, entre outros. Além de coletivos de arte e arquitetura latino-americanos, houve a participação de equipes de pesquisa e extensão da UFMG (PRAXIS, da Escola de Arquitetura e Urbanismo, e Cidade e Alteridade, da Faculdade de Direito) e do Rio de Janeiro (Universidade Nômade), entre outras associações e grupos. Com uma proposta política de reflexão sobre a ocupação do espaço público, o fanzine é um documento que contém informações não só sobre a representação do espaço físico, mas da produção simbólica dos grupos sociais que ocupam o Viaduto Santa Tereza. Nesse sentido, a publicação se baseia nas vivências de rua desses sujeitos e dá visibilidade às suas demandas enquanto artistas e ativistas do espaço urbano. No único artigo do fanzine, nas páginas 35 e 36, intitulado “Ativismo urbano: a potência do espaço multidisciplinar”, o grupo enfatiza o direito de habitar o espaço público. Concebe a metrópole como espaço com capacidade de abrigar e fomentar a diversidade de práticas e atores sociais e faz menção aos “territórios sensíveis”, capazes de viabilizar outras possibilidades de habitar a cidade, como a dos moradores de rua, catadores de papel, artesãos, vendedores ambulantes e feirantes. Reconhece as ações de uma gestão pública que expulsa o cidadão das áreas públicas para exploração econômica, turística, cultural e artística, numa clara demonstração de distorção sobre o entendimento de público. No entanto, diante de tentativas de segregação e controle dos fluxos, aponta as “apropriações informais” e “linhas de fuga” como rotas alternativas aos enquadramentos hegemônicos. Nesse contexto, a cidade se mostra como espaço mediador das expressões culturais da juventude urbana. A partir de desenhos, textos, ilustrações e representações iconográficas, o fanzine deixa clara a representação social do Viaduto Santa Tereza para esses sujeitos, que reivindicam o direito a usufruir de seu espaço como lugar para o surgimento espontâneo de uma identidade cultural coletiva. 221 QUADRO 24 Fanzine “O que acontece aqui?” FANZINE ANÁLISE A capa traz a dimensão da ocupação da área sob o Viaduto Santa Tereza durante as apresentações do Duelo de MCs. Ao contrário do estereótipo de uma área “debaixo do viaduto”, normalmente ligada à degradação e à clandestinidade, a ilustração demonstra a vivacidade de um espaço destinado a ações culturais e o encontro de diversas pessoas. Estabelece um sentido social para essa área da cidade e reforça a reapropriação do espaço público pelos grupos sociais, que sinalizam a vida e a expressão cultural do lugar e rechaçam qualquer iniciativa de “revitalização” por parte do poder público. A página 4 faz referência e cita um trecho da obra “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino, cujos personagens sobem nos arcos do Viaduto Santa Tereza. A inspiração é o escritor Carlos Drummond de Andrade, que costumava escalar o viaduto na década de 1920. Ao sugerir a escalada pelas vigas do viaduto, o fanzine indica, com humor, a reapropriação do espaço público e traz de volta a referência cultural do monumento, ligado às artes, à liberdade de circulação e sobretudo à subversão da ordem estabelecida. Estimula a ocupação espontânea e coletiva dos espaços públicos na cidade. 222 FANZINE ANÁLISE A página 5 propõe a recusa ao projeto “Corredor Cultural Estação das Artes”, anunciado em março de 2013 pela prefeitura de Belo Horizonte, que promete realizar obras na área próxima à Praça da Estação para “fortalecer a vocação artística da região”. A partir de uma foto aérea da área entre o Parque Municipal e o Viaduto da Floresta, aponta os espaços e movimentos culturais já existentes, bem como locais de fluxo de pessoas, como praças, igreja, estação de trem, pontos de ônibus e metrô. Reafirma o caráter cultural da região e rechaça a imposição de iniciativas verticais do poder público em criar circuitos artificiais de difusão cultural na cidade. A página 23 faz a ligação entre a “Real da Rua” – encontro para a reflexão e o compartilhamento de experiências sobre o Duelo de MCs entre organizadores, apoiadores e público – e algumas palavras como “espaço”, “dividir”, “respeito”, “desejo”, “conversar”, “cidade”, “cultura” e “aliança”. Retrata a iniciativa de se pensar coletivamente a ocupação da área sob o Viaduto Santa Tereza destinada a atividades culturais, em especial o Duelo de MCs, sob o ponto de vista do respeito aos artistas de rua e o reconhecimento da vocação do espaço por parte da cidade, seja pelo poder público, polícia e cidadãos. 223 FANZINE ANÁLISE As páginas 24 e 25 retratam o descaso e a falta de respeito com o Duelo de MCs por parte da polícia, que não cumpre seu papel de manutenção da segurança durante as apresentações e, quando está presente, age de forma truculenta. A ilustração mostra o policial fora do “círculo de respeito” ao Duelo de MCs, que inclui o MC, o b-boy, o morador de rua, o skatista, o vendedor ambulante, o grafiteiro e o público. Simboliza a tendência da polícia e do poder público em criminalizar movimentos culturais espontâneos nas áreas públicas da cidade, sobretudo aqueles que representam as culturas periféricas. A agenda de ocupação cultural da área sob o Viaduto Santa Tereza na página 30 mostra o panorama das atividades que vêm sendo realizadas semanalmente: Duelo de MCs, Game of Skate, breaking e Parkour46. Ao deixar espaços em branco no quadro, sugere que outros movimentos e grupos culturais se apropriem da área para encontros, ensaios, apresentações e competições artísticas. Reforça o caráter público e a ocupação artística espontânea da cidade, entendida como lugar do encontro e da livre circulação de pessoas. 46 Atividade de rua com origem na França cujo princípio é mover-se de um ponto a outro o mais rápido possível, usando as habilidades do corpo. Criado para ajudar a superar obstáculos de qualquer natureza — desde galhos e pedras até grades e paredes de concreto —, pode ser praticado em áreas rurais e urbanas. Na cultura hip-hop, é ligada à prática de skate. 224 FANZINE ANÁLISE Ao propor um labirinto sem qualquer possibilidade de ligação entre os MCs e a sede da prefeitura de Belo Horizonte, a ilustração da página 35 simboliza as barreiras que o Duelo de MCs enfrenta para conseguir se apresentar semanalmente sob o viaduto. No caso, elas foram representadas pelo alvará de funcionamento, uma exigência semanal da prefeitura para que o encontro aconteça. Retrata a burocratização da máquina pública, a falta de entendimento da administração municipal sobre a noção de público no espaço urbano e um comportamento do Estado pautado pela falta de diálogo com o cidadão. A ilustração do Viaduto Santa Tereza nas páginas 38 e 39 mostra um cenário futuro sobre a ocupação do espaço. Além de apresentar situações que já acontecem, insere outras que fazem parte dos planos do Duelo de MCs: partidas de basquete na área do “fundão”, próximo à linha férrea, o fim do cumprimento da exigência de alvará, a colocação de mobiliários móveis, como a arquibancada multifuncional e obstáculos de skate e o uso da cabine da Polícia Militar, localizada atrás do palco, para uso dos DJs. Reforça a importância do Duelo de MCs como movimento de ocupação cultural no Centro de Belo Horizonte e a noção de público do espaço urbano. Sugere novos sentidos sociais para as áreas e espaços normalmente destinados apenas ao trânsito de pessoas. 225 FANZINE ANÁLISE Ao usar o jogo dos sete erros nas páginas 50 e 51, o fanzine “apaga” na segunda foto do viaduto importantes conquistas do Duelo de MCs para o bom funcionamento do encontro – os banheiros químicos, as lixeiras, a iluminação e o policiamento – e a liberdade de circulação e expressão dos atores envolvidos representados pelo graffiti no pilar do viaduto e o vendedor ambulante. Denuncia o descaso do poder público, que há muito não fornece a infraestrutura mínima para o Duelo, e sua ação repressora. O mapa da região central de Belo Horizonte na página 53, limitado pela avenida do Contorno, indica os vários movimentos culturais populares de ocupação do espaço público na cidade. Entre eles, o “Praia da Estação”, na Praça da Estação, o Quarteirão do Soul”, na Rua Santa Catarina, e o “Sarau Vira Lata”, com itinerância pelas praças da cidade. Traduz a força desses movimentos de se reapropriar de espaços públicos e se opor a uma administração municipal que esvazia e privatiza áreas públicas destinadas ao convívio coletivo. Em linhas gerais, o fanzine põe em reflexão a cidade enquanto organismo vivo, pautada pela ação dos cidadãos e que não deve estar subjugada a decisões verticais e unilaterais do poder público. Estabelece que a cidade é regida pela dinâmica dos fluxos de seus moradores, aos quais o Estado deve se adaptar, em detrimento a uma lógica de conformidade dos sujeitos com as diretrizes estabelecidas pelos gestores urbanos. A partir de uma perspectiva ativista, reforça a contestação das diretrizes institucionais e condena a ação autoritária e repressora da administração pública, cujos instrumentos institucionais expõem o abuso de poder e contribuem para a violação de direitos dos cidadãos. A publicação destaca também o potencial agregador das ruas, vistas como lugar das trocas simbólicas, da imprevisibilidade, da coletividade e da consciência cidadã. Além disso, dá ênfase à 226 reapropriação do espaço público e incentiva a mobilização de movimentos culturais e a ocupação criativa dos espaços públicos das metrópoles. Sob a perspectiva informacional, corrobora com a construção de uma informação que desconstrói uma concepção discriminatória dos movimentos sociais, sobretudo aqueles que representam culturas periféricas. Traz uma nova narrativa sobre esses grupos, que se mobilizam em prol do direito à cidade, da fruição e produção de expressões artísticas não hegemônicas e da cidadania. 8.5 WEB E REDES SOCIAIS A web e as redes sociais digitais se constituem um importante espaço de circulação de informações sobre o Duelo de MCs. É por meio desses canais de comunicação que a Família de Rua evidencia seu posicionamento político diante de questões nas quais está inserido o Duelo e fazem desses espaços digitais uma extensão da mensagem que é passada sob o Viaduto Santa Tereza. Nesse sentido, a web se constitui numa plataforma que engendra uma narrativa própria da juventude periférica, com seus anseios, dúvidas, questionamentos e reivindicações. Os canais digitais da Família de Rua também permitem obter um importante feedback sobreas ações do Duelo de MCs e o acesso a novos públicos, especialmente de pessoas de outras cidades de Minas Gerais e estados. Além do blog – –, os perfis da Família de Rua no Facebook, Youtube, Twitter, Instagram e Bandcamp são os canais de visibilidade das ações do Duelo e de interlocução com os seguidores. Com vídeos do Duelo, o canal no Youtube permite que o público da web conheça as batalhas entre MCs que acontecem debaixo do Viaduto Santa Tereza. No total, já são mais de três milhões de acessos47, seja no canal do Duelo de MCs ou do IndieBH . 47 Acesso em: 02 set. 2013. 227 No entanto, pelo número expressivo de curtidas – com quase 22 mil48 –, a página no Facebook, que faz a convergência das outras redes numa única plataforma e exibe textos, vídeos, fotos e banners, é considerado pela Família de Rua como a rede social digital de maior visibilidade das ações do Duelo de MCs e de interatividade com o usuário, seja “curtindo”, “comentando” ou “compartilhando”. Uma das características do público do hip-hop é a de se posicionar. Uma audiência que, seja na postura ou na mensagem a ser dita, agrega informações e opina sobre a temática em discussão. O perfil no Facebook também tem permitido uma grande mobilização de pessoas por meio do compartilhamento de posts, seja para a divulgação do Duelo às sextas-feiras ou de outros encontros organizados pelo coletivo. Somente o Duelo Nacional, realizado em 2012, teve o banner compartilhado 2 mil vezes49. Aliás, o uso de dispositivos digitais, como celulares e tablets, tem sido cada vez mais frequente pelo público para a postagem de fotos, vídeos e comentários simultaneamente com o que acontece debaixo do Viaduto Santa Tereza. Desde 2013, a organização do Duelo também vem enviando posts instantâneos com mensagens e fotos, via celular, para seu perfil nas redes sociais durante o encontro. Dessa forma, batalhas, pocket shows e outras apresentações acabam tendo uma extensão digital, o que potencializa a comunicação pela web com seguidores e admiradores do movimento. 48 Acesso em: 27 out. 2013. 49 Acesso em: 11 out. 2013. FIGURA 38 – Uso de dispositivos digitais móveis Fonte: Pablo Bernardo. 228 O Twitter é usado estrategicamente para os tuitaços – feitos com o apoio do Circuito Fora do Eixo. Em várias ocasiões – no lançamento do clipe “Mestre em cerimônia”, na lavação do Viaduto Santa Tereza ou nas edições do Duelo Nacional –, foram escolhidas algumas frases como hashtag e disparadas em determinado dia e horário entre os seguidores, como forma de divulgação e mobilização. Das vezes que a Família de Rua fez o tuitaço, conseguiu ficar entre as dez hashtags mais tuitadas do Brasil no momento. A rede Bandcamp , voltada para artistas independentes da música, é usada pela Família de Rua para disponibilizar o download gratuito de alguns trabalhos musicais do Duelo, como o disco “O som que vem das ruas” e o clipe “Mestre sem cerimônia”. A interatividade e o fortalecimento de uma identidade com o público - e a possibilidade de um feedback imediato - é, na opinião de PDR, uma das grandes vantagens das redes. A interlocução direta com os usuários mantém a espontaneidade e a informalidade do discurso, rotineiramente marcado com frases de ordem do coletivo, como “cola com nóis!”, “chega junto!” ou “espalhe a palavra!”, que marcam uma relação de estreitamento e reforçam o sentimento de pertença coletiva: Se a gente botar um anúncio no jornal, ele não vai ter a mesma força nunca, sabe? Porque as pessoas sabem quem é a Família de Rua, sabem quem são as pessoas que estão por trás daquilo ali. Então quando a gente tá[sic] falando diretamente com a assinatura da Família de Rua, as pessoas sabem quem está dizendo, a gente tá[sic] falando na linguagem delas, por mais que a gente use uma linguagem informal naquilo que a gente tá [sic] dizendo, e como toda essa característica da técnica jornalística, a gente preserva muita coisa da gíria, a gente preserva essa coisa que a gente sabe que é a linguagem da rua, a maneira que a gente fala com as pessoas e a maneira como aquilo vai chegar nelas é com muito mais valor mesmo, sabe? (MC PDR50). Atos espontâneos organizados pelos internautas também surpreendem os MCs da Família de Rua. Em 2011, enquanto sofreram pressão por parte da administração municipal e da polícia militar para que interrompessem as atividades do Duelo sob o Viaduto Santa Tereza, o público escreveu uma carta de apoio, destacando a importância do encontro para a cultura hip-hop belo- 50 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 07 nov. 2012. 229 horizontina, para ser assinado por seus apoiadores. O conteúdo do documento acabou vazando na internet e colocado em petição pública e recolhimento de assinaturas. A questão tomou grandes proporções, com grande adesão de simpatizantes, e o coletivo teve que se posicionar publicamente sobre o caso. Em relação ao público do Duelo, a Família de Rua diz que nas redes ele é formado também por pessoas do interior de Minas Gerais e de outros estados. Frequentemente recebem convites para realizar consultoria a grupos de hip-hop em outras cidades, que se inspiram no movimento de Belo Horizonte para criar ações semelhantes. A divulgação constante de posts e compartilhamentos, além da participação do público nos comentários, reforçam o papel da Família de Rua em fortalecer a cultura hip-hop nacional. Além disso, os seguidores acabam criando uma relação de amizade e certa intimidade com os integrantes do coletivo. Isso é tão doido, cara, que a gente chega nos lugares e o cara chama a gente pelo nome, sacou? Pô[sic], cê [sic] nunca viu, não sabe quem é, nunca conversou pessoalmente...mas é uma coisa da visibilidade que o negócio permite mesmo, assim. Alguém te adiciona no seu perfil pessoal que cê [sic] tem, aí tem as informações que a Família de Rua circula, tem os vídeos do Duelo, tem o documentário, aí as pessoas vão ligando, tem as fotos...e a gente é assim com pessoas que a gente admira também, no mundo inteiro aí, sacou? Tipo assim, cê[sic] sabe várias coisas sobre a pessoa e a pessoa nunca te viu na vida, sacou? E isso, de alguma forma, é até natural, sacou? (MC PDR51). Sobre o papel das redes na formação de público e no estímulo a uma consciência crítica entre os jovens, PDR destaca que, nos últimos anos, as redes permitiram a aproximação de um público mais jovem, entre 12 e 16 anos, cuja maioria ainda não frequenta o Duelo, mas que é atraído pelo rap e pelas batalhas entre os MCs. Ele acredita que, além daqueles que acompanham o encontro seguindo uma tendência do momento ou influenciados por amigos, há uma parcela desses adolescentes que acreditam nessa cultura e serão a geração do hip-hop de amanhã. A seguir é feita a análise de alguns posts feitos pela Família de Rua no Facebook entre setembro de 2012 e julho de 2013. Em todos eles, há uma clara preocupação em politizar a discussão sobre a ocupação do espaço público, visto como local para a difusão das culturas periféricas e expressão da juventude belo-horizontina. A todo o momento, a expressão “cola com nóis!”, que finaliza a maioria dos posts, reforça a importância do público – no caso, os internautas 51 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 07 nov. 2012. 230 – no apoio e respaldo às ações do Duelo de MCs e, consequentemente, para a cultura hip-hop em Belo Horizonte. Os perfis da Família de Rua nas redes sociais digitais, como o Facebook, se tornam um dos principais meios de comunicação entre a organização do Duelo de MCs e o público, inclusive de outros municípios e estados. A partir de suas publicações, a Família de Rua disponibiliza informações que mostram o ideário político que permeia as ações que envolvem o Duelo de MCs, seja em seus posicionamentos oficiais, apoio a determinados eventos, causas e campanhas. Ao se referir ao público como “família”, reitera a relação fraterna que procura ter com o público e apoiadores do Duelo, considerados cúmplices de uma trajetória de luta e superação de obstáculos. No dia 5 de setembro de 2012, a Família de Rua postou uma nota oficial deixando claro seu posicionamento de neutralidade durante as eleições municipais de outubro do mesmo ano. A publicação da nota foi justificada pelo uso de imagens em vídeo do Duelo de MCs em campanhas para a TV de candidatos à prefeitura de Belo Horizonte – inclusive com informações inverídicas sobre o apoio financeiro ao Duelo. A intenção foi de “desmascarar ações desonestas e aproveitadoras”. FIGURA 39 – Redes sociais digitais: eleições municipais Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 231 Intitulada “Politicamente incorreto”, a nota começa contextualizando o momento do capitalismo contemporâneo, que vem se reorganizando a partir novos quadros econômicos, políticos e culturais, numa era de “falsas democracias e ditaduras declaradas convivendo ‘harmoniosamente’, a partir de interesses financeiros, corporativos e políticos”. Diante desse contexto, o texto destaca como essa realidade, refletida na cidade de Belo Horizonte, proporcionou movimentos de inquietação e posicionamento da população, com destaque para a juventude, especialmente em período de eleições. Diante das tentativas de cooptação do Duelo de MCs por parte de candidatos a prefeito da cidade, a Família de Rua deixou claro que o evento é um “encontro cultural independente e autônomo”, que “não serve ou atende a nenhum interesse empresarial ou político-partidário” e que “não apoia e não faz campanha para nenhum candidato à prefeitura ou qualquer cargo”. O coletivo aproveitou o tema eleitoral para evidenciar seus valores e propostas: A Família de Rua é um coletivo focado na promoção do Hip Hop, do Skate e das culturas urbanas, que através do diálogo e da articulação em rede, principalmente com outros coletivos da juventude, busca gerar cidadania, profissionalização e ocupação da cidade. Nossa crença é nos coletivos independentes, nas pessoas, na cultura e na arte. Devido a diversos fatores, alguns já citados nesse texto, não acreditamos nas articulações político- partidárias. Acreditamos na política orgânica e independente que as juventudes alimentam na sua ocupação e vivencia na cidade. Vale ressaltar ainda que, independente de quem estiver ocupando a Prefeitura e a Câmara dos Vereadores, continuaremos articulando, dialogando e cobrando os nossos direitos de cidadãos e cidadãs. (Família de Rua, 2013) Dessa forma, além de marcar um posicionamento em relação às eleições municipais e rechaçar qualquer vinculação político-partidária com os candidatos, a Família de Rua deixa clara para seu público sua natureza independente. A partir de uma comunicação franca e transparente, se autodeclara um coletivo que acredita no diálogo, em estruturas desierarquizadas de poder e na força da coletividade, da juventude e das expressões culturais. Também mostra sua insatisfação com a atuação de um Estado que sofre a influência direta dos poderes econômicos e que atua em prol do desenvolvimento dos setores produtivos, em detrimento a um modelo cidadão que preconiza a emancipação social e o acesso a direitos. Além disso, a Família de Rua destaca a ocupação de rua como um ato político, assim como a relação com outros coletivos juvenis, a qual chama de “política orgânica”, que vai sendo 232 tecida ao longo da vivência na cidade. E deixa claro que se trata de uma política que prioriza o diálogo com as instâncias de poder na luta pela efetivação de direitos. No dia 26 de outubro de 2012, a Família de Rua publicou uma mensagem em solidariedade aos indígenas Guarani-Kaiowá. Nos últimos anos, grupos dessa etnia vêm sofrendo perseguições e sendo expulsos de suas terras pelo avanço dos latifúndios e de áreas destinadas à mineração no Mato Grosso do Sul. Em outubro de 2012, uma liminar da Justiça Federal que determinava a expulsão de comunidades ribeirinhas do rio Hovy motivou os Guarani-Kaiowá a escrever um manifesto e ameaçavam um suicídio coletivo caso a decisão fosse cumprida. No post, a Família de Rua colocou em destaque a foto de crianças Guarani-Kaiowá com cartazes em protesto contra a decisão da Justiça, além de disponibilizar um trecho do manifesto e o link para a assinatura de uma petição pública que pedia a revogação da decisão judicial. O coletivo pedia aos internautas que assinassem o abaixo-assinado e compartilhassem com o maior número de pessoas. Faz referência ao descaso das mídias local e nacional e da anuência dos governos estadual e federal, solicitando a cobertura da imprensa e ação urgente do poder público para evitar a morte dos indígenas e a extinção do povo Guarani-Kaiowá. FIGURA 40 - Redes sociais digitais: o caso Guarani-Kaiowá Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 233 A decisão de criar um post em apoio à causa indígena dos Guarani-Kaiowá, que engloba o direito à terra e à identidade cultural, demonstra o sentimento de solidariedade por parte da Família de Rua a grupos sociais marginalizados e perseguidos pelo Estado. Ao enfatizar sua ação junto ao poder econômico de latifundiários e mineradores, o Estado se torna conivente com a violação de direitos dos indígenas, que exigem o reconhecimento de suas terras como espaço para a vivência de sua cultura. Na medida em que também é alvo de uma política de exclusão social, que prioriza o desenvolvimento econômico das cidades e retira os cidadãos das ruas, o coletivo se identifica com essa luta. A preservação de movimentos como o Duelo de MCs também é motivo de luta de grupos sociais que reivindicam o direito à cidade e a concepção pública do espaço urbano. No dia 18 de fevereiro de 2013, a Família de Rua postou uma ilustração que retrata a campanha educativa “Eu respeito o Duelo de MCs” que o coletivo vem realizando nas redes sociais digitais. Ao longo dos seis anos de ocupação sob o Viaduto Santa Tereza, várias iniciativas foram feitas para que o Duelo tivesse um público que respeitasse o espaço, organizadores e artistas. Em algumas ocasiões, o uso e o comércio de drogas e o comportamento violento de algumas pessoas foram alvo de queixa da Família de Rua. O coletivo reitera que o Duelo de MCs é um espaço para a difusão da cultura hip-hop e de encontro da juventude belo- horizontina e não quer estar atrelado à criminalidade. Pela falta de apoio da polícia na vigilância de atos ilícitos durante as apresentações do Duelo de MCs e os diversos obstáculos criados pelo poder público para a realização do encontro, a Família de Rua teme que a continuidade desses atos criminalize o Duelo – que vem lutando para se desvincular de estigmas sociais –, o que poderia ameaçar a emissão do alvará concedido pelo poder público para a ocupação da área sob o viaduto. 234 Ao dar continuidade à campanha “Eu respeito o Duelo de MCs” em 2013, no dia 22 de fevereiro, data que marcou a volta da programação do Duelo de MCs, a Família de Rua lançou um manifesto. No documento, o coletivo pede aos frequentadores que se sejam corresponsáveis pelo encontro semanal e façam sua parte a partir de práticas respeitosas com o espaço e as pessoas que se encontram sob o Viaduto Santa Tereza. O manifesto destaca o Duelo de MCs como um dos maiores encontros de hip-hop no Brasil e diz que o fato de ser autônomo e independente tem gerado um olhar “respeitoso e solidário”. No entanto, apesar dos avanços, reconhece os limites da Família de Rua em organizar o Duelo e a fragilidade do poder público “no trato com grupos organizados da sociedade civil” e “que se apresenta na ineficácia para fazer cumprir os acordos firmados”, especialmente em fornecer as condições mínimas para a realização do Duelo. Nesse sentido, a Família de Rua entendeu que era momento de convocar os frequentadores “para que assumam e compartilhem conosco os desafios, responsabilidades e conquistas geradas a partir da existência do Duelo de MCs” e “que este é o momento oportuno para mostrarmos nossa força coletiva enquanto cidadãos(ãs), juventudes e cultura hip hop”. Além disso, refere-se à área sob o Viaduto Santa Tereza como “um lugar que para muitos já se tornou FIGURA 41 - Redes sociais digitais: campanha “Eu respeito o Duelo de MCs!” Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 235 uma segunda casa, uma escola, a descoberta de uma identidade, entre tantos outros significados positivos para a vida de um número incalculável de pessoas”. (Família de Rua, 2013) Conforme vídeo postado no Facebook52 no dia da apresentação do manifesto, MC Monge reforçou o pedido de respeito ao Duelo e cogitou a possibilidade de interrupção do encontro: Hoje, sexta-feira, 22 de fevereiro, a gente solicita que todos e que todas vistam a camisa “eu respeito o Duelo de MCs”. Mas não por fora, por dentro, em seus espíritos, nas suas intenções, nas suas falas, nas suas práticas. Afinal de contas, manter esse espaço há cinco anos é um ato de resistência, de luta, da juventude, das juventudes, do hip-hop. Porém, perder esse espaço é uma demonstração da nossa fraqueza, no sentido coletivo. E é isso que tem tendido a acontecer. Cada vez mais é mais difícil voltar no ano seguinte com o Duelo de MCs. Dois meses de espera não foi [sic] porque a gente queria simplesmente, não. É que o bagulho tá “embaçado”, tá difícil manter isso aqui acontecendo. E se cada um, cada uma, não assume a sua responsabilidade com o Duelo de MCs, com a Família de Rua, garanto pra [sic] vocês, isso não continua. O desejo de uma parcela considerável é que o Duelo de MCs acabe. E nós estamos dando isso de bandeja pra [sic] essas pessoas. Rapaziada, moçada, vir pra cá, encher a cara de pó, de maconha, de loló, de álcool, é justamente o que o sistema quer. É justamente a destruição que eles querem que a gente cause na gente mesmo, pra 52 Disponível em (ver Anexo 2). Acesso em: 14 abr. 2013. FIGURA 42 - Redes sociais digitais: manifesto Duelo de MCs Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 236 [sic] que a gente se torne apático e incapaz de lutar contra o sistema. E o que a gente se propõe aqui é justamente o contrário, é resistir, é estar ligados, ligadas, literalmente acordados e acordadas pra tudo o que tá [sic] acontecendo, sabe pra [sic] quê? Pra [sic] ninguém fuder [sic] mais a gente. Porque quem se fode no final das contas, somos nós. Quem tem grana, poder, posses, televisão, a porra toda, não se fode mais não, rapaziada! É nós aqui, ó, que não temos grana, não temos poder, não temos posses, é que todo dia vamo [sic] pra [sic] vala, e pra vala em vários sentidos...que os “peão” deles é nóis [sic], tá [sic] ligado? Quem não é independente é nóis [sic]! A gente depende desses filha [sic] da mãe, do pai, aí, o tempo todo. E fazer o que a gente tá [sic] fazendo aqui é cumprir o papel que eles colocaram pra [sic] gente, não que nós escolhemos. Liberdade é outra coisa, rapaziada, liberdade é justamente saber estar no lugar. Fiquem atentos e atentas. (Família de Rua, 2013) O manifesto dá ênfase ao sentimento coletivo presente entre os grupos sociais que se encontram para o Duelo de MCs. A partir de uma identidade comum – o gosto pela cultura hip- hop enquanto movimento de resistência cultural e expressão das juventudes periféricas –, os organizadores do encontro solicitam aos frequentadores que ajam de forma a preservar um clima de paz e tranquilidade durante as apresentações. Ao admitir o fim das possibilidades de negociação com o poder público para dar as condições necessárias para a realização do Duelo, a Família de Rua evidencia uma gestão municipal autoritária, que não concebe a cultura a partir de uma abordagem cidadã – promovendo um boicote às manifestações culturais espontâneas na cidade – e inviabiliza a participação social nas tomadas de decisão de interesse público. Dessa forma, o coletivo entende que a pertença coletiva entre organizadores, artistas e público à cultura hip-hop possibilitará a mobilização dos atores como última instância para que o Duelo continue acontecendo sem problemas. É como se eles fizessem uma autogestão do encontro, a partir de ações definidas horizontalmente e de forma colaborativa. Além disso, o manifesto estabelece uma relação estreita entre a ocupação e o espaço ocupado. A área sob o Viaduto Santa Tereza adquire novas significações e se torna lugar de referência territorial e cultural, onde muitos podem estabelecer trocas informacionais, obter novos conhecimentos e estabelecer uma identidade com outros jovens da cidade por meio do hip-hop. Em seu discurso, Monge reforça o papel subalterno que a sociedade impõe para as juventudes periféricas urbanas. Afirma sua situação de vulnerabilidade econômica, de precarização do trabalho a que estão submetidas e do preconceito social que vivem. Ao se referir 237 ao “papel que eles colocaram pra [sic] gente”, propõe uma reflexão sobre as desigualdades econômicas e sociais, subserviência e resignação desses jovens, que devem agir de outra forma para que ressignifiquem a realidade em que vivem. No lugar da privação de direitos e envolvimento com drogas e a marginalidade, luta pela cidadania e por oportunidades de uma vida mais digna, seja por meio da música ou por outras vias. Durante a campanha, foram feitos vídeos com o testemunho de MCs e artistas, destacando a importância do Duelo de MCs para a cultura em Belo Horizonte. A seguir, trechos de alguns depoimentos: QUADRO 25 Redes sociais digitais: campanha “Eu respeito o Duelo de MCs” VÍDEOS POSTADOS PRINCIPAL MENSAGEM MC Douglas Din53 Eu dou muito valor pra [sic] isso, e eu sei que aquilo ali não é só meu. É também do b-boy, do grafiteiro, da plateia em si que às vezes não tem nada a ver com o movimento hip-hop em si, que não tá [sic] ligado a nenhum núcleo, não dança, não é DJ...mas eu sei que aquilo ali é deles também. MC Kadu dos Anjos54 É uma questão de respeitar, de pressionar o poder público, a massa mesmo, a gente precisa pressionar o poder público, que aonde [sic] acontece tráfico explícito, assim, violência, é onde o poder público não age, e a gente vê que o poder público não age debaixo do viaduto. 53 Disponível em (ver Anexo 2). Acesso em: 15 abr. 2013. 54 Disponível em (ver Anexo 2). Acesso em: 15 abr. 2013. 238 VÍDEOS POSTADOS PRINCIPAL MENSAGEM MC Coscarque55 O Duelo de MCs é muito importante pra [sic] cultura hip-hop nacional, porque ele mostra a força não só de uma organização, que é a Família de Rua, mas também o poder de mobilização que o hip-hop tem de interagir com a sociedade, de tá [sic] ocupando um espaço público, que poderia ser um espaço ocioso, jogado à bandidagem (...). Mas a Família de Rua e outros parceiros estão lá, fomentando a cultura, arte e conhecimento dentro da cidade de Belo Horizonte. Flávio Renegado56 Acho que a gente tem um espaço público ocioso e jovens querendo mudar a realidade onde vivem e de alguma forma interferir nessa cidade. (...) quando a gente quer intervir nessa realidade, a gente tem a oportunidade e cria as ferramentas pra [sic] chegar nesse momento. (...) as pessoas que administram a cidade já têm um pensamento conservador. E a gente ir pra[sic]rua, fazer uma parada no fim de semana, reunir jovens, trocar ideia, propor uma coisa que elas saem desse padrão, dessa ordem instaurada, ela causa uma estranheza, né? As pessoas não estão preparadas pra[sic] entender o quanto é evoluído aquilo. MC Douglas Din reforça o sentimento de coletividade e união entre as pessoas envolvidas com o Duelo de MCs. Entende o papel de cada uma na construção de um espaço de difusão da cultura e da cidadania na cidade, até mesmo do público que não enxerga o valor que o Duelo tem para a profissionalização de MCs e a cadeia produtiva do hip-hop em Belo Horizonte, uma das poucas oportunidades que esses jovens têm de construir uma alternativa para suas vidas, muitas vezes marcada pela vulnerabilidade social e privação de direitos. Já MC Kadu dos Anjos dá ênfase à negligência do Estado, que demonstra interesse na “limpeza” do espaço sob o Viaduto Santa Tereza e não fornece as condições necessárias para que o encontro aconteça, o que sinaliza um boicote ao Duelo de MCs e outras manifestações culturais 55 Disponível em (ver Anexo 2). Acesso em: 15 abr. 2013. 56 Disponível em (ver Anexo 2). Acesso em: 15 abr. 2013. 239 espontâneas pela cidade. O MC atribui a situação de tráfico de drogas e violência no local à omissão do poder público em manter a segurança e o policiamento no local. Em certa medida, o Estado reproduz a exclusão social de pessoas de baixa renda e a ausência que mantém em áreas periféricas da cidade, como favelas e aglomerados. MC Coscarque, que é de Salvador (BA), destaca o papel da Família de Rua de alinhavar as diversas linguagens do hip-hop e promover encontros em todo o país, se tornando referência no desenvolvimento da cultura hip-hop no Brasil. Ao mesmo tempo, ele reafirma a importância do Duelo de MCs na ocupação de um espaço público da cidade e na transformação social por meio da arte. No caso do cantor Flávio Renegado - que pertence ao grupo cultural NUC, sediado no Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte, e um dos apoiadores do Duelo de MCs -, ele enxerga o encontro como uma iniciativa de jovens que “saem do padrão” e buscam mudar a realidade em que vivem. Apresenta o Duelo de MCs como uma estratégia para interromper o ciclo de subordinação e exclusão social em que a maioria desses jovens vive. E pelo fato de que essa mudança chega por meio de uma cultura periférica, carregada de preconceitos, não é aceita pela sociedade, inclusive pelo poder público. Ao dar continuidade à campanha “Eu respeito o Duelo de MCs”, no dia 1º de março a Família de Rua convocou o público a comparecer ao Duelo com cartazes que pudessem responder à pergunta “Respeitar o Duelo de MCs é?” e convidar pelo menos mais dois amigos para “chegar junto e somar forças nessa empreitada”. Ao entender que o Duelo de MCs é fruto de um esforço coletivo entre organizadores, produtores, MCs, artistas e público, a Família de Rua usa as redes sociais digitais para mobilizar seus seguidores e conscientizá-los de que o encontro é uma conquista da cidade e que precisa do apoio dos cidadãos para continuar acontecendo sob o Viaduto Santa Tereza. 240 No dia 7 de março, a publicação sobre a Real da Rua convidou os internautas para participar de uma edição especial da roda de conversas sobre a campanha “Eu respeito o Duelo de MCs”. A proposta da discussão foca numa possível mudança do Duelo de sexta-feira à noite para domingo. A Família de Rua deixa as seguintes perguntas: “Se o Duelo de MCs passar a acontecer aos domingos à tarde, o que seria bacana pensar para que a expectativa de um encontro mais próximo do que propõe o hip-hop possa, de fato, acontecer? E se o Duelo passa a não acontecer mais às sextas-feiras, o que cada pessoa, cada um que vive a cultura da cidade embaixo do viaduto, nas sextas à noite, tem a dizer?”. Mais uma vez, o coletivo compartilha com seu público as decisões a serem tomadas sobre o Duelo de MCs. Nesse caso, a partir de um instrumento de diálogo horizontal e democrático, quer ouvir o que o público tem a dizer sobre possíveis mudanças para o futuro do Duelo. Entende que os frequentadores são corresponsáveis pelo encontro e muitos já o concebem como um importante movimento de resistência na cidade para a socialização e intercâmbio de ideias entre jovens. Portanto, devem ser ouvidos sobre as questões que permeiam o Duelo. FIGURA 43 - Redes sociais digitais: “Respeitar o Duelo de MCs é?” Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 241 No dia 11 de março, a Família de Rua publicou uma foto com o novo modelo de camiseta do Duelo de MCs, com destaque para os arcos do Viaduto Santa Tereza. A venda de camisetas e acessórios como bonés, botons e adesivos tem sido uma das fontes de renda para a organização do encontro de hip-hop. Com grande procura entre os frequentadores e admiradores do encontro, as camisetas são vendidas durante as apresentações do Duelo e pela internet, já que há demanda também por parte de seguidores do Duelo em outras cidades e estados. No site , além da camiseta com a nova estampa, há o modelo tradicional, nas cores branca e preta, na qual é feita a conjugação do verbo “respeitar”, em referência às campanhas de respeito ao encontro. A venda de roupas e acessórios com as marcas do Duelo de MCs se constitui, além de meio alternativo para a sustentabilidade do Duelo, uma forma de criar uma identidade entre as pessoas que se envolvem e admiram o Duelo. Na maneira de se vestir, esses jovens compartilham símbolos de resistência cultural, ativismo urbano e reflexão sobre a cidade onde moram. Em decorrência de um público jovem, com acesso à internet e que acompanha o Duelo de MCs pelas redes sociais digitais e que muitas vezes não é de Belo Horizonte, a venda on-line de camisetas e acessórios é uma estratégia que se encaixa no perfil dos admiradores do encontro. FIGURA 44 - Redes sociais digitais: roda de conversas Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 242 a) b) c) Em 6 de abril, a Família de Rua chamou a atenção para uma reportagem veiculada no telejornal MGTV, da Rede Globo, também disponibilizada no site G1 sobre o Duelo de MCs como o ganhador do Prêmio Bom Exemplo 2013, na categoria de cultura. O coletivo destaca a produção de uma reportagem sobre o Duelo num canal de TV aberta e comercial e afirma que “é o hip hop okupando [sic] todos os espaços”. FIGURA 45 – Redes sociais digitais: cadeia produtiva do hip-hop a) Venda de camiseta com a estampa “Duelo de MCs – BH, MG, BR” b) Venda de camiseta preta com estampa da campanha “Eu respeito o Duelo de MCs!” c) Venda de camiseta branca com estampa da campanha “Eu respeito o Duelo de MCs!” Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 243 A publicação no Facebook reforça a importância do prêmio, que contribui para a valorização de iniciativas na cidade como o Duelo de MCs. No entanto, o destaque maior é dado ao fato de que uma TV comercial como a Rede Globo, que normalmente carrega uma visão preconceituosa sobre a juventude da periferia – presa ao clichê do jovem envolvido com o tráfico de drogas e a criminalidade –, se rende ao trabalho de difusão cultural e participação cidadã realizado pelo Duelo sob o Viaduto Santa Tereza. Dessa forma, é importante ressaltar um novo olhar que veículos de comunicação tradicionais começar a ter, ainda que de forma isolada, sobre movimentos culturais como o Duelo de MCs. Com uma audiência que muitas vezes não coincide com o público do Duelo, iniciativas como esta acabam contribuindo para o fim de estereótipos e acesso a informações que revelam a realidade desse grupo social. Como comentou o internauta e frequentador do Duelo de MCs Rafael Martimelo, “bom que mostrei pra [sic] minha mãe qual é meu ‘rolé’ de sexta”. O dia 7 de junho marcou a interrupção das atividades do Duelo de MCs, após quase seis anos de apresentações sob o viaduto. Para comunicar a paralisação do Duelo, a Família de Rua escreveu o comunicado “É tempo de parar” (Família de Rua, 2013). Nele, o coletivo afirma que, após anos de “conquistas, lutas, quedas, tropeços e muito aprendizado”, entendeu que havia FIGURA 46 - Redes sociais digitais: Rede Globo Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 244 chegado o momento de uma pausa para reflexão. A interrupção é justificada pelo “distanciamento ou perda” do propósito de promover um encontro da cultura hip-hop, em decorrência do comportamento de parcela do público, sem conexão com a proposta do Duelo, e do descaso e omissão do poder público em não garantir uma infraestrutura mínima à organização. A Família de Rua ainda deixa claro que se trata apenas de uma interrupção para que o Duelo de MCs seja “repensado, reinventado”, ainda sem definições sobre sua volta. “Continuaremos acreditando e trabalhando pela essência que nos move com o mesmo amor e dedicação. O hip hop não para!”, finaliza o comunicado. Com a decisão de interromper o Duelo de MCs, a Família de Rua esgotou todas as possibilidades de tentativa de diálogo com o poder público, que nunca demonstrou empenho em tentar resolver as pendências para a realização do encontro, especialmente em relação à segurança dos frequentadores. Além disso, ao exigir alvarás de autorização semanais, burocratizou a relação com o cidadão diante de uma demanda de ocupação do espaço público. Sendo assim, a Família de Rua preferiu preservar a essência do Duelo de MCs como um encontro da cultura hip-hop na cidade – e buscar uma alternativa para retomar as apresentações – a manter as atividades a qualquer custo e deixar que o Duelo seja atrelado a um espaço de tráfico FIGURA 47 - Redes sociais digitais: “É tempo de parar” Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 245 e uso de drogas. Aliás, ao saírem de zonas periféricas e suburbanas para levar a cultura hip-hop para o Centro da cidade, esses jovens também buscam desvincular essas áreas e suas populações de um panorama de marginalização e criminalização. Assim, procuram fazer com que suas manifestações culturais e consciência política – traduzida na luta por cidadania – se descolem de velhos estereótipos. Na medida em que o Estado se mostra ausente no apoio às culturas populares da cidade, a única – e talvez não a melhor – alternativa para manter um espaço de resistência cultural e política no Centro de Belo Horizonte foi a de uma pausa. No dia da publicação do comunicado de interrupção das atividades sob o Viaduto Santa Tereza, houve uma grande participação dos internautas em apoio à decisão da Família de Rua, inclusive com depoimentos, como os selecionados abaixo: QUADRO 26 Redes sociais digitais: comunicado “É tempo de parar” AUTOR COMENTÁRIO Charles Santana Gomes (07/06/2013) Como frequentador do espaço e do Duelo de MCs, eu me sinto como se uma parte do que eu sou hoje estivesse me deixando... visualizo e entendo os desafios que o coletivo Família de Rua enfrenta, mas creio que ao longo destes quase seis anos, foi criado um conceito de cultura, e ele não pode e nem poderá ser alterado com tanta facilidade assim. Neste momento, só consigo imaginar como a mente de cada um, assim como eu, que se redescobriu através da cultura hip-hop e do Duelo de MCs, deve estar com essa decisão. Lamentável! Creio ainda na volta do Duelo após a Copa e com força total.... Filipe Fernandes de Oliveira (09/06/2013) Eu não curtia rap até o dia que fui no Duelo! Não entendia a essência e achava que faziam apologia a coisas desnecessárias...quando fui no Duelo, percebi que o respeito com o outro, mesmo sendo rival naquele momento, e o uso das boas palavras, das palavras bem ditas - em todas as suas aplicações - eram fundamentais para que o clima de união prevalecesse sobre aquele lugar...em alguns momentos de nossas vidas e dos nossos projetos, é necessário parar para reajustar as bússolas, reorientar as velas e seguir com os novos ventos, o que não quer dizer que desistimos de nossos destinos. 246 Os depoimentos de Charles e Filipe mostram o alcance do Duelo de MCs enquanto um espaço que estabelece laços e uma identidade com a juventude. Além disso, revelam o potencial de criar mudanças e novas possibilidades para o público. No caso de Charles, suas palavras reforçam o papel do Duelo em deixar um legado cultural para a cidade, uma vez que “foi criado um conceito de cultura, e ele não pode e nem poderá ser alterado com tanta facilidade assim”. Já a mensagem de Filipe deixa clara a mudança que o Duelo de MCs provocou em seu olhar sobre o hip-hop, que ao contrário de fazer “apologia a coisas desnecessárias”, é para ele hoje sinônimo de respeito ao outro, união e conhecimento. No dia 8 de junho, a Família de Rua compartilhou em seu perfil um infográfico que alertava sobre a violação de direitos da população em situação de rua em Belo Horizonte, especialmente durante a Copa das Confederações. A publicação comenta sobre o recolhimento forçado de pessoas por parte da polícia, sobretudo nas imediações da Praça da Estação e em toda a região central da cidade, e sugere aos internautas que façam fotos de algum flagrante para “dar voz aos cidadãos dessa cidade contra a política higienista do governo do estado e da prefeitura”. Na publicação, a Família de Rua declara seu apoio a denúncias de abordagens violentas à população em situação de rua, por parte de policiais militares ou agentes públicos, e lembra que essas pessoas vivem um processo histórico de exclusão social e são vítimas do descaso e da discriminação. O coletivo lembra a ação popular do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), que em dezembro de 2012 determinou “a abstenção de atos que violem os direitos fundamentais dos moradores em situação de rua”, sob pena de multa diária de R$ 1 mil. A ação foi ajuizada depois que o TJMG recebeu denúncias de violação de direitos por entidades e órgãos de defesa de direitos humanos. A Família de Rua ainda esclarece que “o caminho para a saída das pessoas das ruas começa pela garantia e efetividade de direitos, com o reconhecimento da cidadania, sem qualquer distinção nos termos da Política Nacional para a População em Situação de Rua instituída por meio do Decreto Presidencial nº 7.053/2009”. 247 A publicação da Família de Rua denota a solidariedade a grupos desassistidos pelo poder público e uma preocupação especial com a população em situação de rua, uma vez que também sofre violação de direitos pela ocupação de uma área pública da cidade. Mais uma vez, o coletivo reforça a política autoritária, excludente e higienista do poder público municipal que, neste caso, expulsa literalmente os cidadãos do território onde vivem. Por dividirem com essas pessoas o mesmo espaço – a rua –, ainda que de maneiras diferentes, a Família de Rua acompanha de perto a luta delas por uma vida digna, o que, em certa medida, também afeta a sua reivindicação em ocupar artisticamente a área sob o Viaduto Santa Tereza. Nesse sentido, percebe-se o conhecimento que o coletivo tem sobre o arcabouço jurídico e as últimas decisões sobre a população em situação de rua, reforçando a importância de políticas públicas que garantam a cidadania e acesso a serviços públicos de qualidade. No dia 17 de junho, no auge das “Jornadas de Junho”, a Família de Rua publicou a foto de uma manifestação e convocou seus seguidores a ir para a rua e participar dos protestos do dia na Praça Sete. A mobilização, que tomou conta das redes sociais, foi motivada pela decisão da Justiça mineira de proibir as manifestações durante a Copa das Confederações em Belo FIGURA 48 - Redes sociais digitais: população em situação de rua Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 248 Horizonte. Dessa forma, o coletivo convidou o movimento hip-hop para somar forças num momento em que “a cidade se movimenta coletivamente pela construção de uma nova realidade”. Por encabeçar, há mais de seis anos, um movimento de ocupação cultural de uma área pública na cidade, a Família de Rua não poderia deixar de demonstrar apoio e participar das manifestações, cujas reivindicações também aparecem nos versos improvisados dos MCs ao longo das apresentações do Duelo: a presença de um Estado que garanta a plena contemplação dos direitos e acesso a serviços públicos de qualidade, seja no transporte, na moradia, na saúde e na educação. E que assegure a livre circulação e liberdade de expressão dos cidadãos. Já em 7 de julho, a Família de Rua compartilhou uma foto da área sob o Viaduto Santa Tereza e convidava seus seguidores para uma “lavação coletiva” do espaço. O ato deu início à iniciativa chamada “A Ocupação”, organizada por vários coletivos para uma grande intervenção artística na Avenida Aarão Reis, entre a Serraria Souza Pinto e a Praça da Estação. O objetivo era reafirmar o corredor cultural já existente no local, em oposição ao projeto da prefeitura de criar o “Corredor Cultural Estação das Artes” na mesma região. Houve shows, performances, DJs, projeções, aulas públicas, cinema, teatro, dança e oficinas. Além disso, foi realizada uma edição especial do Duelo de MCs para fortalecer “o encontro do povo na rua”, após um mês de interrupção das batalhas. FIGURA 49 - Redes sociais digitais: Jornadas de Junho Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 249 O apoio e participação da Família de Rua n’A Ocupação impulsionam a luta do Duelo de MCs em ocupar a área sob o Viaduto Santa Tereza – especialmente após o coletivo decidir interromper as atividades semanais –, na medida em que o encontro de hip-hop legitima as ocupações espontâneas que já vem sendo realizadas na região. Trata-se, portanto, de uma ação que empoderou cidadãos a tomarem as ruas, entendidas como um espaço público destinado a encontros, festas, atividades culturais e trocas simbólicas. Além disso, o coletivo rechaça a criação do projeto de um novo corredor cultural, apresentado pela Fundação Municipal de Cultura. Apesar de audiências públicas discutirem sua implantação, especialistas e grupos culturais que atuam na região veem a proposta como parte das iniciativas de gentrificação da cidade, bem como a de oferecer uma maior oferta de equipamentos culturais auspiciados por grandes empresas. A discussão põe em xeque a ação do poder público diante de atividades que vêm sendo realizadas por grupos culturais que se reapropriam dos espaços públicos da cidade. Ao invés de lançar uma proposta que aproveite a efervescência cultural da região para a criação de oportunidades comerciais – o que gera conflitos e diferenças com os artistas que já se FIGURA 50 - Redes sociais digitais: lavação coletiva Fonte: www.facebook.com/familiadrua. 250 estabeleceram na região –, o Estado deveria priorizar políticas de cidadania cultural, potencializando as iniciativas existentes e dando oportunidade para outros artistas e grupos. De uma forma geral, a partir das publicações nas redes sociais digitais, a Família de Rua dá visibilidade para suas ideias e concepções e compartilha projetos, novos trabalhos e sua luta de ocupação do espaço público e promoção do hip-hop e das culturas periféricas. Além disso, cria um importante canal de comunicação com fãs, seguidores e admiradores do Duelo de MCs que possibilita interatividade e trocas informacionais instantâneas. As redes também atuam na mediação de um discurso político que se retroalimenta a cada postagem. Nesse sentido, a Família de Rua busca destacar sua atuação na reflexão e debate político, especialmente sobre a ocupação do espaço público na cidade, o que muitas vezes não é colocado ou passa despercebido para o público que comparece ao Duelo de MCs – e que também está ali para o ócio e a diversão. Dessa forma, as redes sociais retratam aquilo que é considerado relevante pelo coletivo e marcam seu posicionamento sobre elas. Como objeto informacional, as redes sociais digitais se configuram como um dos principais meios de difusão e compartilhamento de informação de grupos de culturas juvenis periféricas. É também por intermédio delas que é feita a construção social da informação sobre o Duelo de MCs – além do que é colocado ao longo dos encontros de sexta-feira –, uma vez que, a cada post, trazem novas significações sobre esse movimento político-cultural, a partir de seu posicionamento diante dos acontecimentos, das ideias reveladas, da concepção de mundo que deixam escapar. Assim, as informações são materializadas e vão mostrando o contexto social no qual esses jovens estão inseridos, além de suas referências culturais e territoriais. 251 9 CONSIDERAÇÕES FINAIS O Duelo de MCs pode ser considerado um dos principais movimentos de ocupação do espaço público e participação popular nos últimos anos em Belo Horizonte. Durante o encontro às sextas-feiras sob o Viaduto Santa Tereza, levou para a rua jovens que reivindicam liberdade de expressão e circulação na cidade e querem de volta o espaço de interação e trocas simbólicas entre sujeitos. Assim como os movimentos de tomada das ruas em várias partes do mundo, ele também demonstra a insatisfação com a privatização do espaço público e denuncia a crise institucional do Estado, que não apresenta garantias para o cumprimento de direitos. Ao analisar a informação presente no discurso de jovens que produzem e frequentam o Duelo de MCs, seja a partir das rimas improvisadas do Duelo do Conhecimento, das letras de música, dos cartazes, graffitis, panfletos, fanzine e conteúdos compartilhados nas redes sociais digitais, procurou-se fornecer um panorama do movimento que ocupa o Viaduto Santa Tereza. O trabalho de pesquisa pressupôs dedicação ao objeto de estudo, com a presença rotineira no Duelo de MCs para observação do ambiente, conversas informais e entrevistas com organizadores, MCs e público. Além disso, foi feito registro em áudio e fotografia de cenas e documentos encontrados no local que fornecessem os elementos presentes nos discursos e representações simbólicas que os grupos juvenis periféricos engendram sobre si mesmos no Centro da cidade. Nesse sentido, a análise dos documentos informacionais proposta nesta pesquisa permite dizer que o Duelo de MCs, enquanto espaço da cultura hip-hop e de reapropriação do espaço público, fez do Centro de Belo Horizonte o local de convívio entre grupos juvenis. Por outro lado, enquanto espaço de reflexão política da juventude periférica belo-horizontina, foi reconhecido por outros grupos sociais da cidade, sejam ligados à religião, à política ou por outros movimentos de ocupação, como o Eliana Silva. Portanto, sob o aspecto informacional, o Duelo de MCs reconhece a cidade e, por outro lado, é reconhecido por seus grupos sociais. Simbolicamente, o Duelo de MCs teve o papel de dar novo impulso à resistência cultural na cidade. Dessa maneira, deixou um lastro de luta e mobilização social em prol do reconhecimento da diversidade de manifestações culturais em Belo Horizonte. Após o Duelo, grupos sociais passaram a conceber o espaço público como extensão para suas experiências, 252 criando possibilidades de interação com o ambiente e seus atores sociais. Assim, se apropriam da cidade como referência territorial e afetiva. Além disso, os MCs se tornaram porta-vozes de uma juventude oriunda dos setores desassistidos da população e alheados dos processos decisórios sobre a cidade. Eles usam sua arte como instrumento de contestação da injustiça e desigualdades sociais e ressignificam a realidade a partir de discursos dissonantes que não são reconhecidos pelas instâncias de poder. Dessa forma, reivindicam o direito à cidade, à cultura, a liberdade de expressão e o reconhecimento de identidades culturais diversas. No entanto, o poder público demonstra dificuldades em lidar com o Duelo de MCs. Para que o encontro possa acontecer, exige dos organizadores um alvará de funcionamento semanal. Mesmo emitindo a autorização, retirou, ao longo dos anos, a infraestrutura necessária para o bom funcionamento de eventos públicos com um número considerável de pessoas: banheiros químicos, lixeiras e policiamento. Ao mesmo tempo, quando há a presença de policiais, frequentadores reclamam da truculência, e os vendedores ambulantes têm dificuldades de escapar da ação de fiscais. Ademais, o Duelo de MCs vem sendo reconhecido pelos órgãos de cultura e vem tendo projetos aprovados pelas leis de incentivo estadual e municipal. Portanto, a gestão dos processos culturais periféricos no Centro de Belo Horizonte demonstra pouca clareza e articulação entre os órgãos públicos. Após seis anos de Duelo de MCs sob o Viaduto Santa Tereza, o cenário cultural em Belo Horizonte já não é mais o mesmo. Ao dar voz a rappers e MCs e levá-los para o Centro da cidade, promoveu não somente a consolidação da cultura hip-hop belo-horizontina – especialmente com a união de artistas do rap, do graffiti, das danças de rua e DJs –, mas também o reconhecimento do hip-hop por novos públicos, que inclusive tiveram a oportunidade de assistir a apresentações de MCs em grandes eventos e casas de espetáculos na cidade. Esse processo de formação de público em outros espaços da cidade possibilita a desmitificação das culturas periféricas e o fim a estigmas de que estariam ligadas à criminalidade. Ainda que tenha se tornado um projeto cultural da cidade, o Duelo de MCs não dá sinais de que abandonará seu caráter alternativo e independente. Após seis anos recusando propostas de patrocínio e criando alternativas para sua sobrevivência, seja a partir da aprovação de projetos 253 culturais em editais públicos, da colaboração de coletivos artísticos ou da criação de uma cadeia produtiva do hip-hop em Belo Horizonte, o Duelo de MCs vem conseguindo manter seu trabalho e rotina de encontros e apresentações sem quaisquer interferências externas e seguindo valores e diretrizes próprias. Aliás, o êxito conseguido até aqui pode se tornar incentivo para seguir com o projeto independente. Longe de ser somente um espaço de lazer e entretenimento gratuito nas noites de sexta- feira, o Duelo de MCs demonstrou ser um espaço de resistência política e formação cidadã. Ele cumpre um importante papel de fomentar a reflexão coletiva dos problemas da cidade e empoderar jovens, que passam a entender seu papel como cidadãos e participam das tomadas de decisão referentes ao futuro da cidade e seus moradores. Ao reafirmar a identidade racial de jovens, a partir da construção de representações simbólicas que realçam a cultura negra, o Duelo de MCs cria um espaço de sociabilidade e pertença coletiva e possibilita uma nova percepção sobre si mesmos enquanto sujeitos sociais, que se reflete na autovalorização, no empoderamento e na autonomia. Ademais, num contexto de marginalização, o Duelo traz oportunidades de inserção social, uma vez que, a partir do hip-hop e do conhecimento, esses jovens desenvolvem potencialidades e traçam novos projetos de vida como profissionais da música e da produção cultural. Do ponto de vista da cidade e suas fragmentações sociais e culturais, o Duelo de MCs rompe com o estigma urbano da dicotomia “favela X asfalto”, uma vez que alarga fronteiras e congrega, num único lugar, grupos sociais de diferentes áreas da cidade, com níveis socioculturais e histórias de vida diversas. Assim, a partir dos valores do hip-hop – paz, união, amor e diversão –, os MCs invertem a lógica de preconceito e exclusão social que sofrem e atuam como mediadores de um espaço coletivo, em que as diferenças entre os grupos juvenis que o frequentam são respeitadas, a despeito da ação violenta de policiais que fazem a segurança no local. Portanto, pode-se dizer que o Duelo de MCs é um dos poucos espaços em Belo Horizonte onde é possível um diálogo intercultural entre grupos sociais. Do ponto de vista informacional, o Duelo de MCs se revelou um espaço de fluxo intenso de informações que denotam postura crítica e posicionamento político. Como difusores de informações que remetem às periferias de Belo Horizonte, os organizadores revelam uma cultura informacional que vem sendo formada não somente a partir do acesso à escola e a instrumentos 254 formais de aquisição de conhecimento, como livros e meios de comunicação. Ou seja, a construção social da informação também é feita a partir de experiências em áreas onde o Estado não chega. São lugares em que os sujeitos enfrentam a marginalização, o estigma da criminalidade, a violência policial e a falta de acesso a serviços públicos, ou seja, onde os direitos não são garantidos. Dessa forma, conclui-se que, ao revelarem as incongruências do Estado e de outras instâncias de poder, as informações transmitidas nos discursos do Duelo de MCs ressignificam a realidade da juventude negra periférica em Belo Horizonte e trazem discursos e representações simbólicas que produzem novos sentidos para esses sujeitos sociais. Ao produzir discursos dissonantes àqueles já instituídos, o Duelo de MCs reafirma o papel central que a prática política em espaços não usuais tem na contemporaneidade e contribui para a ampliação do espaço público e o deslocamento das relações de poder. Revela, assim, que uma sociedade democrática é construída a partir da participação social e do confrontamento de pontos de vista, e não do alheamento dos sujeitos em relação aos processos decisórios que interessam à coletividade. Portanto, como intelectuais periféricos, os MCs assumem a organização do mundo simbólico de grupos sociais periféricos de Belo Horizonte. Como representantes de uma população discriminada por sua cor e condição econômica, dão voz às suas questões, especialmente àquelas relacionadas à conquista de direitos. Ao criarem discursos a partir de uma realidade própria, marcada pela exclusão, preconceito e indiferença, os MCs promovem a conscientização e criam oportunidades de mudança no comportamento dos cidadãos. Sob o ponto de vista da cidadania cultural, em que a cultura é vista como direito de todos, o Duelo de MCs busca, a todo momento, alcançar o direito à livre expressão e manifestação cultural, bem como garantias, por parte do Estado, de que as culturas periféricas e a pluralidade cultural belo-horizontina sejam reconhecidas e ganhem visibilidade. Sendo assim, é salutar destacar a importância das políticas públicas de cidadania cultural, que apoiam iniciativas organizadas pela própria sociedade civil, garantindo a autonomia dos agentes sociais e potencializando os reflexos dos projetos culturais sobre os sujeitos envolvidos. Assim, a cultura cumpre sua função na ampliação de visões de mundo, de transformação social e desenvolvimento humano. 255 Algumas questões importantes perpassaram o trabalho, mas como não eram o foco da proposta estabelecida, não puderam ser respondidas. Portanto, o estudo enseja um aprofundamento em questões, por exemplo, sobre o legado que o Duelo de MCs deixa para a cidade, especialmente no que tange as políticas de juventude, e seus impactos para a redução no número de homicídios contra a juventude negra57. Há também apontamentos importantes a serem feitos sobre a relação do hip-hop e o Duelo de MCs com os grupos religiosos. Sobre o processo de construção da cultura informacional desses jovens, sejam MCs ou frequentadores, torna-se pertinente discutir os impactos que o repertório adquirido no Duelo de MCs traz para a vida profissional e pessoal de cada um deles. Como apontamento para o campo da Ciência da Informação, o Duelo de MCs abre novas perspectivas para se pensar a produção de informação e conhecimento, sobretudo em contextos de grupos sociais periféricos. No movimento de alargamento das fronteiras do pensamento científico, para que dê conta de refletir a multiplicidade dos fenômenos sociais contemporâneos, é preciso um olhar sensível para o que ocupa as margens e que quase sempre passa despercebido. Portanto, a Ciência da Informação precisa abarcar em suas temáticas de pesquisa a informação e o conhecimento de grupos sociais historicamente marginalizados e oprimidos. Conhecimentos construídos a partir do senso comum, sobretudo com base em experiências de discriminação e privação de direitos, precisam ser reconhecidos e ganhar visibilidade como objeto de análise em estudos acadêmicos na área. 57 De acordo com a pesquisa de opinião Violência contra a juventude negra no Brasil, realizada em novembro de 2012 pelo DataSenado, instituto de pesquisas do Senado Federal, a maioria dos homicídios que ocorrem no Brasil atinge pessoas jovens: do total de vítimas em 2010, cerca de 50% tinham entre 15 e 29 anos. Desses, 75% são negros. Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2013. 256 REFERÊNCIAS ALVES, Camila Cristina de Oliveira. Diálogos entre rap e repente: heterogeneidade discursiva e representação da subjetividade na canção. Dissertação (Mestrado em Linguística e Língua Portuguesa) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Araraquara, 2013. ALVES, Giovanni. Ocupar Wall Street...e depois? In: HARVEY, David et al. Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas. São Paulo: Boitempo, 2012. ALVES, Valmir Alcântara. De repente o rap na educação do negro: o rap do movimento hip- hop nordestino como prática educativa da juventude negra. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro de Educação, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2008. AMARAL, Adriana, NATAL, Georgia, VIANA, Lucina. Netnografia como aporte metodológico da pesquisa em comunicação digital In: Comunicação e consumo nas culturas locais e global. São Paulo: ESPM, 2009, p. 1-18. ARENDT, Hannah. 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Bate-cabeça: estilo de rap com batida mais pesada, apreciado pelos skatistas. Beat: batida do rap. Beatbox: literalmente, “caixa de batida”. Refere-se à percussão vocal do hip-hop, à arte de reproduzir sons de bateria com a voz, boca e cavidade nasal. Beatmaker: produtor musical que constrói os instrumentais das músicas, que se baseiam em batidas e melodia, algumas vezes contendo samples de outros artistas. Bembolado: mistura de ideias. 264 Block parties: na tradução para o português, “festas do bloco”, que surgiram no início do movimento hip-hop em Nova Iorque, na década de 1970. Eram festas em que membros de um bairro se reuniam para dançar. Os agitadores culturais fechavam o quarteirão para o tráfego de veículos e transformavam a rua em pista de dança. Bombeta: boné. Bonde: grupo de amigos. Box: rádiogravador de tamanho grande, utilizado nas rodas de break. Break, breaking, b-boying: dança criada em Nova Iorque – com a influência de vários lugares – por negros e latinos, cujos passos são realizados no chão; elemento cênico do hip-hop. B-boy, b-girl: literalmente, breaker boy e breaker girl, dançarino e dançarina de break. C Caô: mentira, enganação. Chegado: amigo, aliado. Chegar na humildade: aproximar-se sem tratar ninguém com diferença. Colar: acompanhar, andar junto. Crew: grupo de MCs, DJs ou b-boys. Chegar junto: aparecer, estar presente, prestigiar. Coletivo: grupo de pessoas que se juntam para a realização de projetos artísticos, com estrutura horizontal e natureza colaborativa. D Dar chapéu: enganar. Dar a letra: contar a história. DJ: dee-jay ou disc-jóquei, que opera as bases instrumentais para o mestre de cerimônia (MC). 265 E Embaçar: ofuscar, tirar o vigor, a força de antes. Espalhe a palavra: bastante usada nas redes, esta expressão é um incentivo ao compartilhamento de informações divulgadas pelo Duelo de MCs. Extended Play (EP):Gravação em vinil ou CD longa demais para ser considerada um compacto (single) e muito curta para ser classificada como álbum. Um EP tem entre duas e oito faixas e duração de três a 40 minutos. F Família: coletivo de artistas que mantém vivência em família e colaboram entre si fora do trabalho. Fazer a correria: concretizar um projeto. Fazer a rima: comunicar, passar a mensagem. Freestyle: estilo de rap ou batalha de MCs cujas letras são criadas a partir de rimas improvisadas. Flow: ou levada, é a maneira que o rapper encaixa seus versos na batida. G Gambé: polícia. Giro de cabeça: giro de corpo com a cabeça apoiada no chão. Graffiti: do italiano “graffiti”, plural de graffito, que significa “marca ou inscrição feita com uma ponta sobre uma superfície dura”, e é o nome dado às inscrições feitas em muros e paredes desde o Império Romano. Na cultura hip-hop, o graffiti representa desenhos, apelidos ou mensagens sobre qualquer assunto, feitas com spray, rolinho e pincel. É considerada uma arte e usada como forma de expressão e denúncia. Grafiteiro: artista plástico do hip-hop. Groove: jeito de tocar típico da black music. 266 H Hip-hop: cultura urbana, de origem afro-americana, que envolve poesia, música, dança e pintura de rua. Seus principais valores são paz, união, amor e diversão. Na tradução literal, a expressão de língua inglesa “hip hop” significa pular e mexer os quadris. House: dança nova-iorquina que segue as batidas da house music, que por sua vez tem origem na Chicago dos anos 1980. I Improvisado: verso criado a partir de uma improvisação. K Krumping: estilo de street dance criado na década de 1990 em Los Angeles. Conhecido inicialmente como clown dancing ou clowning (dança do palhaço) - que mais tarde se torna um estilo de krump, o krump clown -, é marcado por movimentos de estilo livre e expressivos e uso de pinturas faciais. L Limpeza: pessoa ou situação legal. Levada: ritmo da música. Locker: dançarino de locking. Locking: dança criada em Los Angeles no início dos anos 1970 por Don Campbell. Baseia-se em movimentos rápidos e distintos de braço e mão combinado com movimentos mais relaxados de quadris e pernas. O nome é baseado no conceito de “bloquear” os movimentos. Loop: trecho de música com ênfase em repetições. 267 M Mandar: fazer, executar. Mano: irmão, parceiro, colega, companheiro. Mina: moça, mulher. Mandar um salve: mandar lembranças. Mix: colagem sonora. Mixer: aparelho usado pelos DJs para “colar” (misturar) uma música na outra. MC: mestre de cerimônia, poeta do rap, cantor. Representante da cultura hip-hop que se comunica pela fala. Porta-voz que relata, por meio de rimas, os problemas, carências e experiências dos guetos. Também lança mensagens de alerta e orientação. Moscou: deu mole, vacilou. N Nego, nega: rapaz, moça. No grau: no ponto, pronto. P Parada: situação. Pá e bola: algo mais. Pá-pum: sem enrolar. Parkour: atividade de rua com origem na França cujo princípio é mover-se de um ponto a outro o mais rápido possível, usando as habilidades do corpo. Criado para ajudar a superar obstáculos de qualquer natureza — desde galhos e pedras até grades e paredes de concreto —, pode ser praticado em áreas rurais e urbanas. Na cultura hip-hop, é ligada à prática de skate. Pick up: toca-discos do DJ, com máquina para produzir efeitos. Popping (Boogaloo): dança cujo nome se refere ao seu criador, Boogaloo Sam, que inventou o estilo em 1976 em Fresno, na Califórnia. É baseado na técnica de rapidamente contrair e relaxar 268 os músculos para causar um empurrão no corpo do dançarino. Posse: crew, grupo organizado de hip hoppers. Q Quebrada: favela, bairro do subúrbio. R Racha: disputa entre dançarinos de break para decidir quem é o melhor. Rap: ritmo de música que engloba principalmente rimas, em que o DJ se encontra com o MC. É um dos pilares da cultura hip-hop. A tradução literal é “rhythm and poetry”, ou “ritmo e poesia”. Rapper: cantor de rap (que pode ser também um MC). Dance rock: também conhecido como dance punk, é um gênero musical criado na Inglaterra nos anos 1980 que abrange qualquer mistura de rock com dance music eletrônica. Rodou: foi pego, foi preso. Round: rodada de disputa entre dois MCs. S Sacar: entender. Sapateado: no breaking, movimento com o corpo deitado no chão em que pernas e braços giram em forma de círculo. Sample: instrumento que grava digitalmente qualquer som. Conhecido também como o trecho de uma música. Samplear: copiar fragmentos de gravações para remixar em novas bases. Sangue bom: gente fina. Scratch: efeito de atrito da agulha sobre o LP girado ao contrário. Single: CD com apenas duas ou quatro faixas. Skate: esporte inventado na Califórnia que consiste em deslizar sobre o solo e obstáculos 269 equilibrando-se numa prancha de mesmo nome, dotada de quatro pequenas rodas e dois eixos chamados de “trucks”. Skate sound system: aparelhagem de som em que dois amplificadores são colocados sobre uma prancha de skate e ligados a uma bateria de carro e a um MP3 player. Soul music: gênero musical estadunidense que nasceu do rhythm and blues e do gospel durante o final da década de 1950 e início dos anos 1960 entre os negros. Sound system: carros equipados com equipamentos de som, parecidos com trios elétricos, usados para festas de rua. Stance: atitude do b-boy refletida no jeito de vestir, falar e andar. Street dance: dança de rua, cujo estilo mais conhecido é o breaking. Style: atitude dos b-boys que se reflete no jeito de vestir, falar e dançar. Style wars: guerra de estilos que acontece nas variadas linguagens do hip-hop. T Tá ligado: tá sabendo; manter o papo e a atenção. Trucar: mentir, enganar. Tag: assinatura dos grafiteiros feita com rotulador ou spray. Throw up: graffiti feito rapidamente, com o uso de duas ou três cores, muitas vezes numa situação de clandestinidade. Toaster: modo de cantar dos imigrantes caribenhos de Nova Iorque criado na década de 1970, com levadas bem fraseadas e rimas bem feitas, muitas vezes politizadas, outras banais e sexuais, cantadas ao som do reggae instrumental. Dará origem ao rap. Trairagem: traição. Treta: questão a ser resolvida. Trombar: encontrar os manos. Truta: amigo, companheiro. Turntablism: arte de manipular sons e criar músicas usando turntable fonógrafo e um DJ mixer. 270 V Véi, velho: colega, amigo, parceiro, chegado. Veneno: dificuldade. W Waacking (punking): dança criada em Los Angeles, no final dos anos 1970, sob a influência do locking. Wildstyle: estilo complicado de graffiti, com letras entrelaçadas entre si. Y Yo!: grito de exaltação utilizado para animar o público. 271 ANEXOS ANEXO 1 ROTEIRO DAS ENTREVISTAS ESTRUTURADAS Pesquisa - Duelo de MCs - Escola de Ciência da Informação - UFMG Caro (a) frequentador (a) do Duelo de MCs de Belo Horizonte, O roteiro de entrevista a seguir é parte do trabalho de mestrado sobre o Duelo de MCs a ser apresentado na Escola de Ciência da Informação da UFMG. O objetivo é analisar o caráter informacional do evento, principalmente a partir dos fluxos de informação entre MCs e o público, para saber quais ecos são produzidos a partir das trocas simbólicas realizadas. Com os seus dados, poderemos entender o perfil das pessoas com as quais o Duelo de MCs dialoga. Deixamos claro que as informações aqui declaradas terão apenas fins acadêmicos. Agradecemos pela participação. Em breve, entraremos em contato para dar um retorno sobre os dados consolidados da pesquisa. Atenciosamente, Luiz Fernando Campos Mestrando - PPGCI - ECI/UFMG *Obrigatório E-mail* 272 Sexo*  Feminino  Masculino Cor*  Branco  Preto, pardo ou mulato  Amarelo  Indígena Idade*  Menos de 15 anos  Entre 15 e 18 anos  Entre 19 e 24 anos  Entre 25 e 36 anos  Mais de 36 anos Grau de escolaridade*  Ensino Fundamental incompleto  Ensino Fundamental completo 273  Ensino Médio incompleto  Ensino Médio completo  Graduação incompleta  Graduação completa  Pós-graduação  Outro: Profissão* Município*  Belo Horizonte  Contagem  Betim  Sabará  Nova Lima  Ribeirão das Neves  Santa Luzia  Vespasiano  Ibirité  Outro: Bairro* 274 Como você ficou sabendo da existência do Duelo de MCs?* (pode marcar mais de uma opção)  Amigos  Comunidade  Trabalho  Bailes  Shows  TV  Rádio  Panfleto  Redes sociais  Sites, blogs  E-mail  Outro: Desde quando você vai ao Duelo?*  2007  2008  2009  2010  2011 275  2012 Com qual frequência?*  Fui somente uma vez  Vou de vez em quando  Vou pelo menos uma vez a cada três meses  Vou uma vez por mês  Vou quase toda semana  Vou toda sexta-feira Por que você frequenta o Duelo de MCs?* (Pode marcar mais de uma opção)  Curiosidade  Encontro com os amigos  É uma opção de lazer  É interessante ver a improvisação nas rimas dos MCs  Gosto do movimento hip-hop  Faço parte da comunidade hip-hop  Admiro o movimento de ocupação cultural na área da Praça da Estação  Outro: Você curte rap?*  Sim 276  Não  Mais ou menos O que você mais curte no Duelo de MCs? O que você menos curte no Duelo? Para você, qual é a importância do Duelo de MCs na cena cultural da cidade? Você acompanha as atividades do Duelo por outros meios?*  Sim  Não  De vez em quando 277 Se sim, como você acompanha o Duelo de MCs? (Pode marcar mais de uma opção)  Amigos  Comunidade  Bailes  Shows  TV  Rádio  Redes sociais  Sites, blogs  E-mail  Outro: Qual outro lugar você costuma frequentar nos momentos de lazer?* (Pode marcar mais de uma opção)  Bailes  Festas  Shows  Bares  Danceterias  Restaurantes  Casa de amigos  Praças 278  Parques  Centros culturais  Bibliotecas  Igreja  Shoppings  Casas de jogos eletrônicos  Cinema  Teatro  Clube  Outro: Com exceção do rap, qual tipo de música você curte?* (Pode marcar mais de uma opção)  Rock nacional  Rock internacional  Pop nacional  Pop internacional  MPB  Samba  Pagode  Funk  Eletrônica  Hardcore 279  Heavy Metal  Gospel  Sertanejo  Jazz  Instrumental  Clássica  Outro: Como você se mantém informado?* (Pode marcar mais de uma opção)  TV  Rádio  Jornais, revistas, boletins  Livros e cartilhas  Troca de informação com familiares, amigos, vizinhos ou colegas de trabalho  Redes sociais no celular  Redes sociais em casa  Redes sociais no telecentro, cyber café ou outro local  Sites, blogs no celular  Sites, blogs em casa  Sites, blogs no trabalho  Sites, blogs no telecentro, cyber café ou outro local  E-mail no celular  E-mail em casa 280  E-mail no trabalho  E-mail no telecentro, cyber café ou outro local  Cinema  Teatro  Outro: Considerações finais 281 ANEXO 2 QR CODES – VÍDEOS Duelo do Conhecimento: direito à cidade 1 (p. 185) Duelo do Conhecimento: direito à cidade 2 (p. 185) Duelo do Conhecimento: direito à cidade 3 (p. 185) 282 Duelo do Conhecimento: eleições, comércio ambulante e Dia das Crianças 1 (p. 191) Duelo do Conhecimento: eleições, comércio ambulante e Dia das Crianças 2 (p. 191) Duelo do Conhecimento: eleições, comércio ambulante e Dia das Crianças 3 (p. 191) Duelo do Conhecimento: conexões 1 (p. 195) 283 Duelo do Conhecimento: conexões 2 (p. 195) Duelo do Conhecimento: Dia internacional de combate à violência contra a mulher (p. 198) Manifesto Duelo de MCs: MC Monge (p. 235) Eu respeito o Duelo de MCs: MC Douglas Din (p. 237) 284 Eu respeito o Duelo de MCs: MC Kadu dos Anjos (p. 237) Eu respeito o Duelo de MCs: Flávio Renegado (p. 238) Eu respeito o Duelo de MCs: MC Coscarque (p. 238)