91 INTRODUÇÃO A repetição e suas formas de manifestação são temas de minhas pesquisas desde os tempos da graduação em Psicologia na PUC-MG. O enfoque no corpo foi se delineando aos poucos, mas o interesse sobre a esfera do agir — no caso, a repetição — já se fazia presente desde um estágio curricular realizado no Setor de Toxicologia do Hospital João XXIII. Durante o segundo semestre de 1999 e os dois primeiros meses do ano seguinte, atendi pacientes que haviam tentado o auto- extermínio. Esses atendimentos me possibilitaram inferir que as tentativas de suicídio têm um caráter repetitivo. Constatei, dentre outros aspectos, que essas tentativas expressam repetições diferentes. A maioria delas pode ser considerada como uma atuação endereçada ao Outro, isto é, um acting-out com todas as suas implicações. No entanto, as recidivas das tentativas de auto-extermínio parecem expressar uma repetição mais “demoníaca”, da ordem da pulsão de morte.1 Meus estudos sobre a repetição e seus modos de se dar a ver continuaram durante a Especialização em Teoria Psicanalítica na UFMG. Ao ingressar nesse curso, meu objetivo principal era pesquisar a repetição, na teoria psicanalítica, por meio das obras de Freud e de Lacan, promovendo uma articulação deste conceito com as recidivas das tentativas de suicídio. No entanto, no decorrer de minhas investigações, deparei com a Filosofia e a direção de meus estudos tomou outro rumo. Após um primeiro contato com alguns filósofos, que se dedicaram à análise do fenômeno repetição, surgiu o interesse em comparar as concepções psicanalíticas com as filosóficas. 1 Desenvolvi essas idéias no artigo “Sobre suicídio e repetição”, elaborado como tarefa de encerramento do estágio supracitado e apresentado em Jornada Interna do Hospital João XXIII em Outubro de 1999. 10 Lacan foi quem despertou minha curiosidade em relação à filosofia de Sören Kierkegaard. Em seu seminário sobre a relação de objeto, o psicanalista francês faz alguns comentários relacionando a categoria da reminiscência com a da repetição em Kierkegaard.2 Lacan aproxima as concepções de Freud e de Kierkegaard sobre a repetição, na medida em que coloca a repetição kierkegaardiana como contrária à noção platônica de reminiscência. Concentrei meus estudos, a partir de então, nas visões que Freud e Kierkegaard têm sobre a repetição com o objetivo de verificar se as mesmas são, ou não, coincidentes e em que este fato pode nos ser útil na clínica psicanalítica. Esta pesquisa culminou em uma monografia intitulada “A repetição em Kierkegaard e em Freud: um paralelo”, elaborada sob a orientação do Prof. Dr. Carlos Roberto Drawin e defendida em Junho de 2003. Curiosamente, apesar de a monografia ser um estudo teórico sobre a repetição, é possível observar como a questão do corpo perpassa este trabalho, seja por meio das esferas do fazer e do agir, que podemos entrever nos exemplos que Freud fornece sobre a manifestação do fenômeno de repetição na vida das pessoas, ou dos afetos descritos nos textos kierkegaardianos. Mas se, por um lado, a questão do corpo é “vislumbrada” na monografia, por outro, as possibilidades de sua articulação com a repetição não foram ali exploradas. Este estudo esboça a caminho pelo qual continuo minhas investigações psicanalíticas. O corpo está em moda. Fala-se muito dele. Muitos dizem até que o corpo fala! Mas o que interessa aqui é discorrer sobre aquilo que fala pelo ou no corpo, sobre aquilo que o atravessa e do qual só se vê os efeitos. O que será isto que afeta o corpo: o Inconsciente? A pulsão? Ou será o Isso? Talvez o menos importante seja dar um nome à coisa em si, quando é necessário pesquisar, tentar apreender, o fenômeno. Objeto de 2 Cf. LACAN. O seminário - livro 4: a relação de objeto. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1995. p. 13-14. 11 inúmeros estudos médicos, mercadológicos, psicológicos e psicanalíticos, o corpo é tema central também desta pesquisa, ao lado da repetição. Sabe-se que não há como falar do corpo sem mencionar o enunciado freudiano de 1915 que descreve a relação da pulsão com o psíquico e o somático. Sendo assim, elegi, para tratar o corpo psicanaliticamente, os conceitos de pulsão e de repetição. São eles que me guiam na tentativa de responder à questão sobre o “lugar” que o corpo ocupa na metapsicologia freudiana. Usando uma expressão que não é minha, tento traçar uma “metapsicologia psicanalítica do corpo”, pela via da pulsão e da repetição, por meio deste estudo. Tarefa nada fácil e que traz vários complicadores. O corpo é, por si só, paradoxal dentro do âmbito psicanalítico: ele não é um conceito e, mesmo assim, permeia, de diversas maneiras e em diferentes ocasiões, a teorização de Freud. Por que utilizar, então, para a pesquisa sobre um tema tão complexo, um conceito também paradoxal, e até controverso, como a repetição? Pelo simples fato de que foi este conceito que despertou meu interesse pelo corpo. Pergunto- me, e é isto o que move minhas investigações clínicas e teóricas, se a repetição, com todas as suas formas de manifestação, como retorno do recalcado e como expressão máxima da pulsão de morte, pode ser considerada como sendo um conceito útil, um operador conceitual capaz e eficaz de fazer pensar o corpo psicanaliticamente. Neste sentido, a pulsão é o que torna possível uma aproximação entre o corpo e o fenômeno de repetição. Trabalho com a hipótese de que a pulsão, ao percorrer o corpo, faz dele um lugar de sua manifestação e, ao fazê-lo, torna o corpo um palco privilegiado para a repetição. Repetição que, ao utilizar o corpo, produz mal-estar, produz sintoma, pois coloca em cena a pulsão e suas vicissitudes. A pulsão transforma o 12 corpo, disjunta os esquemas corporais inatos e produz novos esquemas,3 tornando o corpo superfície de inscrição das histórias do sujeito. Em suas tentativas de obter satisfação, contornando o objeto, a pulsão faz do corpo um lugar de inscrição do psíquico e do somático.4 Inscrição e repetição estão intimamente ligados. Basta pensar, em se tratando da esfera psíquica, no que Freud descreveu como sendo o processo de facilitação. Na opinião de alguns,5 a noção de facilitação pode ser considerada como sendo um ponto de partida para as formulações que resultaram na teorização da compulsão à repetição. Esta noção traz consigo, ainda, uma questão econômica, uma vez que considera que tudo na vida mental tende a percorrer um caminho já trilhado anteriormente, evitando, assim, os caminhos novos que impõem uma resistência maior. Este é o modelo do que ocorre com a maior quantidade de eventos que se caracterizam como repetição. O desenvolvimento desta questão, empreendido por Freud no Projeto para uma psicologia científica (1895), é o que permite tecer estas considerações. Em 1932, Freud reafirmará esta descrição dizendo ser possível supor que, desde a ocasião em que uma situação, tendo sido uma vez alcançada, é desfeita, surge uma pulsão para criá-la novamente, ocasionando fenômenos que podemos descrever como uma compulsão à repetição.6 3 GARCIA-ROZA. Acaso e repetição em psicanálise: uma introdução à teoria das pulsões. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986. p. 112. 4 A idéia de se pensar o corpo como sendo um lugar de inscrição do psíquico e do somático é a tese central que Maria Helena Fernandes desenvolve em Corpo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003. (Coleção Clínica Psicanalítica). 5 KAUFMANN. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. p.450. 6 FREUD. “Conferência XXXII: ansiedade e vida instintual”, p. 132. 13 A experiência primária de satisfação pode ser tomada como exemplo de uma situação deste tipo. Garcia-Roza lembra que Freud fala desta experiência como sendo a primeira ocasião em que se dá o diferencial prazer-desprazer. 7 Ou seja, A partir da experiência primeira de satisfação do bebê sugando o seio materno, estabelece-se uma facilitação ou um diferencial na trama dos neurônios, de tal modo que ao se repetir o estado de necessidade surgirá um impulso psíquico que procurará reinvestir a imagem mnêmica do objeto com a finalidade de reproduzir a satisfação original. [...] Este será doravante o modo básico de funcionamento do aparelho psíquico. 8 Em “Os instintos e suas vicissitudes” (1915), Freud afirma que a finalidade, ou o alvo, de uma pulsão é chegar à satisfação,9 porém, a descrição da “vivência de satisfação” nos mostra que tal finalidade — apreender o objeto — está fadada ao fracasso. Mas, se capturar o objeto não é possível, a pulsão o contorna e, deste contorno, obtém a satisfação. Como observa Lacan, em O seminário 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964-65), a satisfação da pulsão é sempre parcial e se dá pelo próprio movimento de contorno do objeto. Ao contorná-lo, a pulsão se aproxima dele, faz borda, mas, ao mesmo tempo, ao dar a volta, escamoteia-o, algo se perde. “A pulsão jamais se satisfará senão contornando-se o objeto eternamente faltante”.10 O que é interessante nisso tudo é que a pulsão, ao traçar seu caminho em torno do objeto e rumo à satisfação, engendra, concomitantemente, uma repetição e um esboço de corpo. A pulsão, como um impulso constante (drang), atravessa a superfície da zona erógena — constituída como uma borda — e, por meio da repetição, tenta apreender o objeto. Tenta apreender e desvia, uma vez que o objeto de desejo está 7 GARCIA-ROZA. Acaso e repetição em psicanálise: uma introdução à teoria das pulsões, p. 46. 8 GARCIA-ROZA. Introdução à metapsicologia freudiana. Livro 3. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986. p. 94. 9 FREUD. “Os instintos e suas vicissitudes”, p. 128. 10 LACAN. O seminário - livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 170. 14 perdido para sempre. É a distância entre o objeto faltoso e o objeto para o qual a pulsão se dirige que faz com que ela retorne em direção à fonte, no caso, a zona erógena, e recomece seu movimento em direção ao objeto. Assim, no que se refere ao corpo, a pulsão também está entrelaçada à repetição. Será que isto nos autoriza a afirmar que a repetição pode ser útil para se pensar os efeitos da pulsão, de seu excesso ou esvaziamento, no corpo? Será que o fato de considerar os caminhos da pulsão sobre o corpo como sendo repetitivos possibilita entender que a pulsão se manifesta no corpo de acordo com os revezes da repetição, isto é, ora sob sua faceta constitutiva, atuando a serviço do princípio de prazer, ora sob a forma restitutiva da repetição, tentando inscrever no corpo algo que não encontrou outra maneira de se fazer representar? Pode- se verificar os efeitos da pulsão de morte no corpo, pela via da repetição? Estas são algumas das questões que motivaram esta pesquisa. Uma investigação sobre a relação que a pulsão estabelece com o corpo, ao longo da primeira e segunda teoria das pulsões, pode responder de forma afirmativa à possibilidade de articulação do corpo com a repetição, e, do mesmo modo, ser útil para a consideração do fenômeno da dor como um exemplo dos efeitos da repetição no corpo. Desta forma, interessa destacar neste estudo o entendimento que se tem do corpo e do fenômeno da dor a partir da primeira teoria pulsional e da introdução do conceito de pulsão de morte. Impasses enfrentados por alguns pacientes em processo de análise reforçaram ainda mais minha intenção de averiguar a possibilidade de se pensar a repetição como sendo capaz de produzir sintoma no corpo ou de fazer do corpo “o sintoma”. É impressionante e, ao mesmo tempo, desafiante a insistência, a reincidência — ou a permanência — de alguns acontecimentos somáticos na clínica psicanalítica. Se 15 há uma repetição “por trás” de tais acontecimentos, talvez os sintomas corporais, a dor, mais especificamente, possa ser compreendida como sendo uma manifestação do fenômeno de repetição no corpo, como uma tentativa de inscrição da pulsão. Poderia citar mais de um exemplo da psicopatologia do corpo na vida cotidiana11 para esclarecer esta hipótese. No entanto, um relato de uma analisanda, que recebeu o diagnóstico médico de fibromialgia, é mais interessante para exemplificar o que tenho em mente: O que eu faço para parar de sentir esta dor, por todo o meu corpo, toda vez que eu não falo o que tinha de ter falado com a minha irmã? É aquela velha história, de novo. Sempre que me calo ou que me sinto contrariada, meu corpo fala por mim. Ele me dá uma rasteira, me mostra o que eu deveria ter feito. Mas o que eu faço para mudar isto? Estou cansada dessa repetição. O “incômodo” que o corpo representa pode ser analisado sob diversos ângulos e a literatura psicanalítica tem se ocupado do assunto cada vez mais. Nomes como Jean-Bertrand Pontalis, Jurandir Freire Costa, Joel Birman, entre muitos outros, estão entre os que já percorreram o caminho das pedras. De acordo com Birman,12 a evocação das esferas do fazer e do agir — por meio da pergunta “o que eu faço?” — remete para a superação de obstáculos existentes no registro do real, impasses diante dos quais o sujeito se vê sem saída. A articulação dessas esferas, do fazer e do agir, com o registro do corpo pode ajudar a interpretar a pergunta dessa paciente. Talvez não seja suficiente afirmar que seu questionamento expressa uma modalidade de acting-out, uma tentativa de se esquivar do trabalho de perlaboração no processo psicanalítico, evitando assim lidar com certos conteúdos recalcados e permanecendo no curto-circuito de sua dor. A pergunta “o que eu faço?” comporta sim este tipo de interpretação, mas talvez 11 Expressão utilizada por Maria Helena Fernandes, em Corpo (2003), para caracterizar imagens que evocam cenas da clínica psicanalítica e que funcionam como espelho da cultura, refletindo um mal-estar na atualidade. 12 BIRMAN. A mais valia vai acabar, seu Joaquim: sobre o mal-estar da psicanálise. In: LO BIANCO (Org.). Cultura da ilusão, Rio de Janeiro: Contra Capa, 1991, p. 173. 16 não seja só isto o que está em jogo. Há repetição aí, uma repetição que insiste por meio da dor, utilizando o corpo como palco, e que, ao insistir, faz desse corpo um lugar de embaraço para o sujeito, ou seja, de enfrentamento do real. Ressalte-se que, no caso dessa paciente, especificamente, a dor “fala”, isto é, representa algo que não pode ser expresso por meio da palavra. As coisas se complicam quando a dor só dói, quando não há outras possibilidades de representação ou de simbolização. Creio ser nessas ocasiões que a noção de compulsão à repetição pode ser acionada com o objetivo de se obter uma compreensão metapsicológica e psicanalítica do corpo. Por outro lado, não é novidade afirmar que os sintomas somáticos expressam um excesso pulsional. Basta lembrar Freud e a ênfase que ele dá ao fator quantitativo na produção dos sintomas. “Se a experiência dá lugar a reações patológicas não habituais, é sempre em razão de uma demanda excessiva”.13 Em “Neuropsicoses de defesa” (1894), Freud afirma que o afeto, ou melhor, seu excesso, é o que provoca toda sorte de manifestações sintomáticas, inclusive no corpo. Na descrição das denominadas neuroses atuais, quando diferencia as categorias clínicas da neurastenia e de neurose de angústia, é também o fator econômico que se faz presente. Segundo ele, a neurastenia se manifesta por um empobrecimento da atividade sexual, além das dores de cabeça e perturbações da digestão. No caso da neurose de angústia, um acúmulo de excitação sexual é transformada diretamente em sinais como sudorese, palpitações, dificuldade de respiração, entre outros. Estas mesmas descrições clínicas podem ser ouvidas, atualmente, por uma quantidade cada vez maior de psicanalistas. O que é isto? É, no mínimo, curioso constatar que um grande número de nossos analisandos se queixa dos mesmos sintomas 13 FREUD. Estudos sobre a histeria, p. 195. 17 que Freud descreveu há mais de um século. Como explicar este fato? Pode-se afirmar que as afecções com as quais lidamos, em nosso dia a dia na clínica, são novas? Desta forma, visando verificar a possibilidade de o conceito de repetição ser utilizado como um operador conceitual eficaz para se pensar o corpo psicanaliticamente, no segundo capítulo deste estudo, retomou-se o percurso metapsicológico dessa noção ao longo da obra de Freud, enfatizando-se as concepções que este tema adquire do decorrer das duas teorias pulsionais. Fez-se necessário proceder da mesma forma, também, com relação ao corpo. Sendo assim, no terceiro capítulo destacou-se o entendimento psicanalítico do corpo a partir das investigações freudianas, considerando-se a primeira e a segunda teoria da pulsão. Isto permitiu que se delimitasse a questão que a introdução do conceito de pulsão de morte coloca para a compreensão psicanalítica do corpo. No quarto capítulo, com o objetivo específico de se investigar a possibilidade de utilização da dor como exemplo dos efeitos da pulsão, pela via da repetição, no corpo, procedeu-se um levantamento dos modos por meio dos quais Freud compreendeu este fenômeno ao longo de sua obra. Assim, no capítulo das considerações finais, foi possível analisar a hipótese que deu início a esta pesquisa, retomando-se o caso clínico que serviu de argumento para este estudo.