UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA Ser-tão Cerrado de Guimarães Rosa: espaço movimentante Gabriel Túlio de Oliveira Barbosa Belo Horizonte Instituto de Geociências - UFMG 2013 2 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA Ser-tão Cerrado de Guimarães Rosa: espaço movimentante Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Geografia. Área de Concentração: Análise Ambiental Orientador: Prof. Dr. Bernardo Machado Gontijo Belo Horizonte Instituto de Geociências – UFMG 2013 3 Para Brasinha, Miguilim, Seo Toco Pequi, Riobaldo, Manuelzão, Robertim do Robertão (vaqueiro do futuro), Dô Nhã, Miquinha, Diadorim, Dito, Seo Sidraque, Maria das Graças, Diô Waldomiro, Lina, Ageu, Neguinho, Grivo, Sr. Sezo e todos os personagens reais e fictícios do Sertão rosiano. À lembrança de Hilda e Zélia. 4 AGRADECIMENTOS Ao Professor Bernardo, pela inspiração desde os tempos de graduação, pela convivência e por incentivar com entusiasmo cada passo desta travessia. À Professora Claudia Campos Soares da Faculdade de Letras da UFMG, pelas conversas atenciosas. Aos professores da Banca de Defesa e Seminário de Dissertação, pelas preciosas sugestões: José Antônio de Deus, Claudinei Lourenço, Oswaldo Bueno Amorim e Mônica Meyer. À Carla Wstane, pela leitura cuidadosa. À Maria Elisa Macedo, pela leitura e pelas velinhas acesas. Aos companheiros de campo: Geraldo Dias, Thiago Sá e Frederico Gonçalves. Um por um, agradeço pela cooperação, paciência e envolvimento na viagem de campo, que tornou esta pesquisa inesquecível. Sem vocês, este trabalho não seria o mesmo. Ao Fred ainda agradeço pelas belas fotografias que compõem a dissertação. A todos que ajudaram no trabalho de campo: Carla Maiza, que há anos me acolhe em Cordisburgo, Rachel Oliveira, Brasinha, Seo Toco Pequi e aos guias do IEF do Munumento Natural Peter Lund; Marco André Malaquias, gestor do Circuito Turístico Guimarães Rosa; Maria das Graças, da Casa de Cultura do Sertão em Morro da Garça e ao Professor Dieter Heideman; Sr. Sidraque, de Paredão de Minas; aos grandes amigos Gui do Rai e Kiko, pela contribuição em Jaíba; Sr. João do Óculos e os guias Ageu e Neguinho, do Parque Estadual Veredas do Peruaçu; Valeriano, Sr. Geraldo e Sr. Pedro, funcionários do Refúgio de Vida Silvestre do Rio Pandeiros; Cícero e Decão do Parque Estadual Serra das Araras; Danielle Alves e a todos do Instituto Rosa e Sertão; Gustavo Meyer, companheiro de campo em Chapada Gaúcha e doutorando da UFRGS; Virgílio e Andréia, do Projeto Cresertão, em Sagarana; ao Sr. Orlando Gonçalves de Unaí; e Júlia, que nos hospedou em Brasília. 5 Ao Programa de Pós-Graduação em Geografia do IGC/UFMG. À CAPES, pela bolsa de mestrado. Aos amigos, veredas deste sertão. À minha família, oásis da vida. Agradeço novamente pelo apoio dado em minhas empreitadas, pelo companheirismo, conforto, confiança e o carinho de sempre. 6 Do bolso da paisagem borboletas queriam escapar. Rosa abriu a paisagem e as borboletas saíram. Eu fabricava coragem para puxar uma prosa com aquele João. Uma anhuma rasou por cima de nós, tocando fagote. Eu disse para o Rosa ouvir: O canto desse pássaro diminui a manhã. Rosa pôs tento. Ele tinha uma sede anormal por frases com ave. Me olhou sentado na frase e se riu para mim. Gostou que eu estava fraseando no vento. Quer dizer que esse anhuma diminui a manhã? ─ ele perguntou. Eu disse: um homem que não tem ensino me ensinou. Ele não tem informação das coisas, mas adivinha. Rosa disse: Quem acumula muita informação pode perder o Dom de adivinhar. São as obscuridades coerentes do povo. Vai daí começamos a prosear lourenço. (Manoel de Barros) 7 RESUMO O escritor João Guimarães Rosa, além de toda a elaboração estética, do significado mítico-místico e da profunda concepção psicológica de seus personagens, deixa transparecer também em sua obra uma preocupação sobre as questões sociais e ambientais que envolvem o cenário regional, nacional e universal do “sertão”, que também “é o mundo”. No projeto literário do autor, o sertão e o Cerrado transcendem seus destinos de moldura narrativa, para se conformarem em personagens co-protagonistas das narrações. Um espaço ao mesmo tempo metafísico e geográfico, permeado por uma rica e sofrida história, um mundo “muito misturado” no coração do país. Apesar de evidenciar um “continuum espacial” em todas as suas narrativas, existem nuances socioespaciais intercaladas entre os livros do autor. Selecionamos nesta pesquisa três momentos ficcionais e alegóricos deste espaço movimentante: a) o sistema jagunço de Grande Sertão: veredas; b) os gerais em movimento de Corpo de Baile; c) e o mundo maquinal de Primeiras Estórias. As nuances ficcionais são reflexos das transformações dos gerais, desde a decadência do jaguncismo no final do século XIX e início do século XX, passando pelo desenvolvimento getulista nos anos 40 e 50, até a inauguração de Brasília, no início da década de 1960. O autor, contudo, não pode acompanhar as intensas transformações do Cerrado nas décadas subsequentes à sua morte em 1967. As mudanças de matrizes de racionalidades levadas pela modernização para o ambiente artístico de Rosa induziram profundas modificações na dinâmica dos recursos naturais e no sistema de uso da terra. Desta forma, objetivou-se nesta pesquisa, além da análise das obras de Guimarães Rosa, conceber uma experiência sensorial com o sertão rosiano na atualidade para absorver sabedorias in locu e compreender de que maneira se articula este espaço movente. A vivência de campo contribuiu para a escritura de sete episódios/insights, contextualizando os três momentos ficcionais de Grande Sertão: veredas, Corpo de Baile e Primeiras Estórias e suas relações com o “sertão presente”. Concluiu-se que apesar das pressões externas, a cidade não acaba com o sertão. A “matéria vertente” integradora do ser-tão cerrado continuará a conduzir sua alma, enquanto for dimensão da vida humana, de existência, onde é percebido, vivido e afetivamente experienciado pelos sertanejos. E é de dentro deste lugar onde deve estar o núcleo de resistência que represente uma resposta veemente às tentativas de homogeneização do espaço. Vimos alguns exemplos de resistências socioambientais, cujas propostas locais partem da inspiração na matriz literária de Guimarães Rosa, capaz de transmitir, “iluminar” e estimular um olhar artístico para o espaço, tal como lentes para uma percepção cativante da realidade. Palavras-chave: Guimarães Rosa, Cerrado, Sertão, Literatura, Geografia. 8 ABSTRACT The writer João Guimarães Rosa, beyond all the aesthetic elaboration, the mythical and mystical meanings and the deep psychological conception of his characters, also reveals in his work a concern on social and environmental issues involving the regional, national and universal setting of the sertão. In the author's literary project, the sertão (“hinterland”) and the Brazilian Cerrado transcend their narrative-framing destinations, to conform themselves into coprotagonists of the stories. A space which is at the same time metaphysical and geographical, permeated by a rich and painful history; a “very mixed” world in the heart of the country. Despite the evidence of a "spatial continuum" in all his narratives, there are socio-spatial nuances interposed among the author's books. We have selected in this research three fictional and allegorical moments of this moving space in Rosa’s fiction: a) the jagunço’s system from Grande Sertão: Veredas; b) the gerais in motion from Corpo de Baile; c) and the machinal world from Primeiras Estórias. The fictional nuances are reflexes of the transformations in the space of the sertão, since the decay of the jagunço’s system in the late nineteenth century and early twentieth century, through the administration of Getúlio Vargas in the 1940s and 1950s, and up to the inauguration of Brasília, in the early 1960s. The author, however, wasn’t able to follow up the intense transformations to the Brazilian Cerrado that took place throughout the decades after his death in 1967. The changes in the rationality matrixes undertaken by modernization into Rosa’s artistic environment induced profound modifications in the dynamics of the natural resources and in the land use system. Thereby, this research aimed, besides the analysis of the works of Guimarães Rosa, to conceive a sensory experience with Rosa’s sertão at the present time to absorb wisdoms in loco and comprehend the ways in which this moving space articulates itself. The field work experience contributed for the writing of seven episodes/insights, contextualizing the three fictional moments from Grande Sertão: Veredas, Corpo de Baile and Primeiras Estórias and their connections with the present sertão. It’s been concluded that despite the external pressure, the city does not end the sertão. The “outpouring matter” that integrates the sertão/Cerrado will continue to conduct its soul, as long as it continues to be the dimension of human life, of existence, where it is perceived, undergone and affectively experienced by the hinterlanders. It is within this place that should be the resistance core to represent a vehement answer to the attempts of making the space homogenous. We have seen some examples of socio-environmental resistance, whose local proposals come with the inspiration from the literary matrix of Guimarães Rosa, capable of transmitting, “illuminating” and stimulating an artistic view over the space, like lenses for a captivating perception of the reality. Keywords: Guimarães Rosa, Brazilian Cerrado, Sertão, Literature, Geography. 9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Guimarães Rosa a bordo da mula Balalaika, em 1952..................................... 26 Figura 2: Mapa do Circuito Turístico Guimarães Rosa, diferenciado espacialmente pelos cenários de algumas das obras do autor........................................................................ 27 Figura 3: Cerrado em Minas Gerais ............................................................................................. 42 Figura 4: Cerrado contínuo, suas áreas de transição e cerrado amazônico .............. 43 Figura 5: Campos.................................................................................................................................. 48 Figura 6: Recuperação da vegetação após período de queimadas, no Parque Nacional Grande Sertão: Veredas ..................................................................................................49 Figura 7: Vegetação do Cerrado no entorno do Parque Estadual Serra das Araras........................................................................................................................................................ 51 Figura 8: Cerrado margeando a estrada interna do Parque Estadual Veredas do Peruaçu .................................................................................................................................................... 52 Figura 9: Cerradão em beira de estrada, Unaí ........................................................................ 53 Figura 10: Cerradão ........................................................................................................................... 54 Figura 11: Mata Seca sobre afloramento de Calcário no município de Ubaí ............. 55 Figura 12: Trecho de mata na estrada de Ibaí para São Romão ..................................... 56 Figura 13: Mata Ciliar no curso do Rio Pandeiros, com destaque para o buriti....... 58 Figura 14: Vereda no entorno do Parque Estadual Veredas do Peruaçu..................... 60 Figura 15: Alinhamento de buritis no Vão dos Buracos, Chapada Gaúcha ................ 61 Figura 16: Entardecer no Parque Estadual Veredas do Peruaçu ................................... 62 10 Figura 17: A imensidade do Rio São Francisco, após receber as águas do de-Janeiro ...................................................................................................................................................................... 92 Figura 18 : Sr. Toco Pequi, de volta ao ser-tão cerrado, após longo período de vida na capital paulista ............................................................................................................................ 109 Figura 19: Bananal na Jaíba ......................................................................................................... 128 Figura 20: Captação de água do Rio São Francisco ............................................................ 128 Figura 21: Loja do Brasinha em Cordisburgo ...................................................................... 144 Figura 22: Plano Piloto de Brasília ........................................................................................... 161 Figura 23: Construção de Brasília ............................................................................................ 161 Figura 24: Árvore do Cerrado aprisionada entre eucaliptos. Museu Nacional de Brasília: exposição Arte e Tecnologia da UNB ..................................................................... 162 Figura 25: No meio do redemunho .......................................................................................... 169 Figura 26: Morro da Garça, visto da estrada ........................................................................ 184 Figura 27: Sombra escalena do Morro .................................................................................... 184 Figura 28: Primeira Vereda avistada no trabalho de campo, no meio do redemoinho ......................................................................................................................................... 185 Figura 29: Carvoeiras na estrada de Buritizeiro para Paredão de Minas ................ 185 Figura 30: Localização do Mosaico no Noroeste mineiro................................................ 186 Figura 31: Poligonal do Mosaico Sertão Veredas ............................................................... 187 Figura 32: Amanhecer na Serra das Araras .......................................................................... 207 Figura 33: Trecho íngreme da trilha que chega ao topo da Serra ............................... 207 Figura 34: Arara Canindé .............................................................................................................. 207 11 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Tabela de Campo ........................................................................................................... 29 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AP – Antes do Presente APA – Área de Proteção Ambiental CRESERTÃO - Centro de Referência em Tecnologias Sociais do Sertão DTBC – Plano de Desenvolvimento de Territorial de Base Conservacionista FBB – Fundação Banco do Brasil FUNATURA – Fundação Pró-Natureza GPS - Global Positioning System - Sistema de posicionamento global IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IEF/MG – Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais INCRA - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária MMA - Ministério do Meio Ambiente MST – Movimento dos Sem Terra ONGs – Organizações Não Governamentais PAIS – Produção Agroecológica Integrada e Sustentável PARNA – Parque Nacional PCC – Primeiro Comando da Capital PDSA – Projeto de Assentamento e Desenvolvimento da Serra das Araras PE – Parque Estadual RDS/REDES – Reserva de Desenvolvimento Sustentável RESEX – Reserva Extrativista 12 RVS – Refúgio de Vida Silvestre TNC – The Nature Conservancy TS – Tecnologias Sociais UC – Unidade de Conservação UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais UNB – Universidade de Brasília USP – Universidade de São Paulo WWF - World Wide Fund for Nature - Fundo Mundial para a Natureza 13 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................................................. 14 VEREDAS METODOLÓGICAS ............................................................................................ 21 A literatura como renovação metodológica ............................................................. 31 1 - CERRADO: ESPAÇO-MOVENTE .............................................................................. 40 1.1 Os subsistemas biogeográficos do Cerrado ................................................ 47 1.2 O grande sertão, as veredas e a caderneta biodiversa ...................... 63 1.3 Ser-tão Cerrado: um mar de territórios ....................................................... 69 2 - O SERTÃO MOVIMENTANTE TODO-TEMPO .............................................. 82 I) Prelúdio do sertão, na imensidade do rio ............................................ 83 II) Zé Bebelo: um futuro que nunca chega .................................................. 93 III) Sujeitos de terras definitivos e homens provisórios no ermo jaibão ............................................................................................................................. 110 IV) Antiquário dos gerais ........................................................................................ 129 V) O mundo maquinal, no hostil espaço .................................................... 145 VI) O recado poente do Morro ............................................................................ 163 VII) Aurora das Araras (e o sertão de dentro) .......................................... 186 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................... 208 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................ 215 14 INTRODUÇÃO1 Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas (João Guimarães Rosa) 1 As imagens das capas dos capítulos foram extraídas do belíssimo trabalho do artista plástico Arlindo Daibert (1998). 15 A exuberância da natureza e a riqueza dos detalhes descritos sobre a vasta paisagem cultural e natural do cerrado brasileiro se definiram como uma importante marca do projeto literário do escritor João Guimarães Rosa. Devido a um intenso conhecimento adquirido por meio de pesquisas documentais acerca do universo sertanejo, somados aos registros de viagens realizadas pelo sertão mineiro, e por um sentimento telúrico em relação à sua terra natal, Rosa pôde exprimir poeticamente um espaço que se transfigurou - a partir da realidade geográfica - na ambiência artística de seus livros. No “mundo muito misturado” que iremos adentrar nesta dissertação, o primeiro passo a ser dado esbarra em uma tortuosa e envolvente via de mão dupla: Afinal, foi a realidade sertaneja que deu origem aos livros de Rosa, ou os livros que deram uma nova moldura ao sertão?2 No início do caminho traçado nos deparamos com uma reflexão de natureza ambígua a respeito do tema a ser tratado. O enigma do sertão, de sua gente e de um modo de vida específico condicionado à dualidade ecológica do rude grande sertão e o mundo “belimbeleza” das veredas, despertaram o fazer artístico de Rosa; que, por sua vez, soube dar aos seus personagens e ao cenário um valor mágico e transcendente à realidade regional. Despreocupado em somente realizar uma síntese definitiva e descritiva dos traços locais ou uma análise histórico-social do homem do sertão, Rosa preferiu se enveredar por outros caminhos. O autor investiga questões relevantes em qualquer parte do mundo – inclusive no que se refere à alma humana – alcançando o universal a partir de um regionalismo em constante transfiguração entre realidade e ficção. É assim que nos deparamos com o sertão do tamanho do mundo e em toda parte no aclamado romance Grande Sertão: Veredas. A literatura se configura como uma legítima interpretação de imagens construídas sobre os lugares e os homens. Ao estabelecer um encontro entre diversos saberes e superando o isolamento das disciplinas, a arte literária compreende em si, um arcabouço de conhecimentos para a compreensão subjetiva 2 (FANTINI, 2003, p. 29) 16 do espaço, lançando um olhar atento acerca das dinâmicas do território e sobre as transformações das sociedades e dos lugares. O discurso presente no painel literário preenche, portanto, todos os requisitos para enriquecer a linguagem e fortalecer os argumentos do conhecimento socioespacial. Ao estabelecer o diálogo entre o regional e o universal por meio da literatura, o conjunto da obra rosiana torna-se importante aliado para compreensão da relação local/global – ou da relação lugar/mundo - tão cara à geografia e aos conhecimentos que investigam as questões socioespaciais. Neste trabalho será abordada uma reflexão a respeito das relações atuais entre os homens e o ambiente que os cercam, tendo como perspectiva hologramática as paisagens descritas nos livros de Rosa. O âmbito da pesquisa pressupõe que os gerais rosianos estabelecem uma relação hologramática com o Mundo, ou seja, insinuam uma espécie de status microcósmico. Como muito bem observado por Morin (1984), as singularidades locais instituem uma relação intrínseca com o todo: “é necessário circunscrever o campo de estudo e respeitar sua singularidade irredutível; mas, ao mesmo tempo, como em todo sistema complexo, o local contém de uma certa maneira o todo no qual ele se inscreve” (MORIN, 1984, p. 157). Tomando como foco de análise uma amostra representativa de um problema amplo e complexo, o sertão mineiro e o Cerrado, de uma forma geral, podem servir como um “balão de ensaio” para uma compreensão das interações sociais, políticas, econômicas, culturais e ambientais que constroem sua identidade. O duplo perfil do Cerrado, ora representado por conotações negativas (“sertão inóspito”, “vegetação feia”, “solo pobre”, “povo rude”), ora positivas (“espaço de uma brasilidade profunda”, “corredor produtivo”, “rico em biodiversidade”, “caixa d’água do Brasil”), indica uma grande complexidade deste “Bioma-Território”. O pressuposto que colocamos em pauta é de que Guimarães Rosa, além de toda a elaboração estética, do significado mítico-místico e da profunda concepção 17 psicológica de seus personagens, deixa transparecer também em sua obra uma preocupação sobre as questões sociais e ambientais que envolvem o cenário regional, nacional e universal do “sertão”, que também “é o mundo”. Nuances de um sertão em movimento... Partimos do princípio de que a obra rosiana se conforma por diferentes momentos de acordo com a análise alegórica do sertão e suas nuances. Estes “momentos ficcionais” caminham juntos com a história brasileira, desde a decadência do jaguncismo no final do século XIX e início do século XX, passando pelo desenvolvimento getulista e também pelo início das transformações causadas pela modernização brasileira, ancoradas pela proposta desenvolvimentista a partir do final dos anos 50. Desta forma, predomina principalmente em Grande Sertão: Veredas, a forte presença dos elementos paisagísticos que expressam a realidade inóspita do interior central brasileiro, um “desertão sem cerca”, afastado do quadro urbano e do processo de modernização do país. Já em Corpo de Baile, encontramos algumas nuances deste sertão, em direção a uma realidade mais próxima do mundo urbano, como muito bem analisado por Soares (2008). Os bandos de jagunços já não “vive(m) seu cristo-jesus, arredado de arrocho de autoridade”, já que a violência é mais contida, e desponta uma vida rural organizada, a partir da labuta rotineira dos vaqueiros e lavradores. Contudo, no caso da realidade ficcional do livro Primeiras Estórias, sobressai um elemento novo na literatura do autor: a aparição de uma grande cidade no meio do sertão, “a mais levantada do mundo”. Provável referência a capital federal Brasília, em processo de construção no contexto dos contos “As margens da alegria” e “Os cimos”. Nestes textos, Rosa acompanha o início de intensas transformações socioespacias no domínio do Cerrado, vinculadas ao contexto histórico-social do país na metade do século passado. 18 O “mundo maquinal” avançava para onde se “construía a grande cidade”, ameaçando a biodiversidade do bioma e anunciando a modernidade prometida por Brasília. Expressa de forma indireta neste livro, a construção da nova capital impulsionaria de fato as grandes transformações no Brasil a partir dos anos 60. Porém, apesar da euforia vivenciada por grande parte dos brasileiros naquele período histórico, havia também inúmeros questionamentos sobre o futuro do país. De acordo com José Miguel Wisnik, o “Brasil se moderniza sem se modernizar [...] é vocacionado para o moderno sem nunca chegar a sê-lo, [...] muda sem mudar as bases sobre as quais se constituiu” (WISNIK, 2002, p.178). Mais importante do que propor uma categorização que distingue três momentos da literatura de Rosa de acordo com a análise alegórica do sertão e suas nuances (a. Grande Sertão: Veredas; b. Corpo de Baile; c. Primeiras Estórias) é fundamental realizarmos uma reflexão sobre a modernização desigual que acontece no país e de como isso foi desdobrado ficcionalmente pelo autor. Alguns elementos presentes em parte de seus livros evidenciam o advento dos novos hábitos e padrões da vida moderna no sertão mineiro. No entanto, Guimarães Rosa não pôde acompanhar o rápido processo de transformação dos gerais, onde em poucos anos houve a substituição de um tipo de ocupação tradicional (especialização ao pastoreio e comunidades camponesas) por uma paisagem tecnicista e industrial. As discussões sobre as velozes transformações desencadeadas pela modernização estariam ainda mais em evidência a partir da década de 1970. O ambiente do Cerrado, até então representado dentro do imaginário social brasileiro como um espaço opaco, um sertão inóspito, símbolo do atraso do país, passa a integrar os anseios do desenvolvimento “a todo o custo” do Brasil. Aos poucos, a imagem negativa de um cerrado visto apenas como região infértil, de vegetação feia e solo pobre - incorporada pela concepção produtivista - passa a ser enxergada pelas novas possibilidades de utilização do espaço, por meio da interiorização demográfica e, em seguida, pelo desenvolvimento agropecuário em larga escala. 19 Riobaldo, em Grande Serão: Veredas, afirma que “o sertão está movimentante todo-tempo”. No espaço ficcional de Rosa, nos deparamos a todo o momento com encontros ambíguos que aproximam o arcaico e o moderno, o rural e o urbano, e o sertão e a cidade. Décadas depois das primeiras publicações dos livros do escritor, continuamos a nos perguntar sobre o Cerrado e sua gente; sobre o dualismo simbólico deste ambiente: o árido e o úmido, o pobre e o farto, o “sertão” e as “veredas”; e também sobre a força da cidade que impulsiona o sertão a migrar cada vez para mais distante dos olhos da civilização, mas que, em contrapartida, continua sempre “dentro da gente”. Outra questão elaborada pelo protagonista de Grande Sertão: Veredas indica uma espécie de guia investigativo para esta pesquisa e a primeira de uma série de questões norteadoras que serão expostas: “... a cidade acaba com o sertão. Acaba?” Traçamos assim a primeira hipótese deste trabalho: a cidade - como símbolo da modernização - transforma e impõe certas mudanças na sociedade e no meio ambiente, mas não “acaba” com o sertão, não elimina os traços socioculturais em ampla escala. Sugerindo, assim, uma espécie de faca de dois gumes, permeada tanto por mudanças, como pelas permanências no espaço. Outra consideração que emerge neste início de reflexão é de que a obra do escritor demonstra em suas entrelinhas, uma riqueza de saberes, sejam sociológicos, geográficos, culturais, ecológicos, que representam interpretações do autor sobre o mundo. E por que não, utilizar desses saberes, desta inspiração em sua obra literária também por uma tomada de consciência sobre os cerrados? A segunda hipótese, portanto, sugere que a literatura de Rosa, já tão difundida e propagada em diversos estratos da sociedade brasileira e internacional, pode inspirar uma nova consciência sobre o Cerrado, tanto em sua faceta territorial, como ecológica, que vêm sofrendo uma gigantesca pressão socioambiental nas últimas décadas. Em linhas gerais, o presente trabalho tem como objetivo realizar um estudo investigativo sobre as mudanças e permanências nas relações socioambientais do 20 Cerrado, inspirado na obra de Guimarães Rosa, contribuindo para uma reflexão ambiental e cultural do Sertão-Mundo rosiano. Os objetivos específicos se compõem como desdobramentos da afirmativa anterior, a fim de: a)destacar transformações culturais e ambientais no contexto do sertão mineiro e no cerrado, de uma forma geral. E, b) captar como o autor trata destas transformações espaciais em diversos momentos de sua literatura, em um sertão que caminha rumo à modernização. 21 VEREDAS METODOLÓGICAS A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir seus encantos. A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá. Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. Os sábiás divinam. (Manoel de Barros) 22 Uma das definições da palavra vereda, amplamente difundida pela região central do Brasil, é atribuída a um tipo de fisionomia ambiental de importante significado ecológico e socioeconômico para o domínio do Cerrado. Trata-se de um arranjo fitogeográfico condicionado ao afloramento do lençol freático, podendo ocorrer tanto nos vales, como nos topos das chapadas, em suaves depressões. É igualmente descrita como cabeceira de drenagem natural, com nascentes em toda a sua extensão, orladas por belas palmeiras conhecidas como buriti. Já no plano artístico, a vereda ganhou nova acepção ao ser literariamente reelaborada por João Guimarães Rosa, o primeiro a referenciá-la como um “oásis” em meio às vastas terras do grande sertão. No entanto, é outro significado acerca desta palavra que encaminha nosso percurso metodológico: a ideia de vereda como rumo, caminho, direção. A concepção que adotamos neste estudo deixou-se seduzir pela linguagem poética presente na obra de Rosa como uma direção que nos fez refletir sobre a dinâmica espacial do sertão, especialmente em sua versão mineira. Por isso, podemos afirmar que o trabalho proposto encontra na literatura o ponto-chave para atender aos anseios da pesquisa. A essência desta dissertação pressupõe precisão para que se alcance as respostas das questões formuladas, ao mesmo tempo em que necessita de certa liberdade e subjetividade, a fim da pesquisa se deixar inspirar pela obra de Guimarães Rosa, tanto para analisar as transformações espaciais no sertão mineiro, como para alertar sobre o avanço de um modelo de desenvolvimento predatório incorporado em nossa sociedade. Cássio Hissa (2002) chama a atenção para a adoção de metodologias mais flexíveis, que permitam a incorporação do potencial criativo dos pesquisadores e dos caminhos alternativos escolhidos por eles: A busca da precisão e a liberdade não são excludentes, como pode ser sugerido por referências mais conservadoras. Imagina-se que o método de investigação científico seja sistemático o suficiente para a construção crítica – a leitura das coisas e dos seres -, mas suficientemente livre para estimular o espírito criativo do sujeito. (HISSA, 2002, p. 161) 23 Para o autor, a liberdade alcançada nos usos metodológicos, diante de roteiros mais flexíveis e criativos, permite uma avaliação mais crítica, portanto mais rica acerca da realidade. Por isso, para alcançar os objetivos traçados até agora, será necessária flexibilidade em relação aos temas abordados, enriquecida por uma estratégia metodológica capaz de responder ao desafio proposto. Ao refletir sobre a importância de uma linguagem mais aberta, criativa e menos limitada ao discurso científico, Adriana Melo (2011) aposta na “palavra poética” para dar novos horizontes para a ciência contemporânea. “Na palavra poética, o ponto é móvel e nos mobiliza: desviando-nos do caminho, convocando- nos a visualizar novos caminhos” (MELO, 2011, p. 23). A poesia, ao visar novos caminhos, possibilitaria maior fertilidade ao texto científico, gerando ricas e inusitadas interpretações sobre o espaço. Deste modo, implícitos ao texto construído nesta dissertação estarão presentes novas abordagens a fim de discutir as ciências e, mais especificamente, as questões espaciais. Neste sentido, são absorvidas a concepção de “transição paradigmática” 3 e o conceito de “ecologia dos saberes” 4 elaborados por Boaventura de Souza Santos; o pensamento complexo de Morin 5; e a noção do paradigma emergente da ciência contemporânea de Vasconcelos, fincada pelo tripé Complexidade – Instabilidade – Intersubjetividade 6. 3 “O conhecimento ganha em rigor o que perde em riqueza” (SANTOS, 2006, p. 54). Boaventura Souza Santos no livro “Um discurso sobre as ciências”, especula sobre a ordem hegemônica científica atual, evidenciando os sinais de crise desta ordem e, por fim, caracteriza o perfil de uma nova ordem emergente. 4 O conceito de ecologia dos saberes se refere à possibilidade epistemológica do diálogo entre saberes hegemônicos (científicos) e não hegemônicos (outros saberes), “evitando a desqualificação mútua e procurando novas configurações de conhecimentos” (SANTOS, 2005, p. 24). 5 Para Morin (1999), a complexidade não é uma receita ou uma resposta, e também não representa completude. “A ambição da complexidade é prestar contas das articulações despedaçadas pelos cortes entre disciplinas, entre categorias cognitivas e entre tipos de conhecimento” (p. 76). Representa, portanto, não a obrigação de dar todas as informações sobre um fenômeno, mas respeitar todas suas dimensões. 6 A autora aponta três avanços principais do paradigma científico tradicional para um paradigma emergente: 1) do pressuposto da simplicidade para o pressuposto da complexidade; 2) Do pressuposto da estabilidade para o pressuposto da instabilidade do mundo; 3) Do pressuposto da objetividade para o pressuposto da intersubjetividade (VASCONCELOS, 2002, p.101, 102). 24 No primeiro capítulo enfocamos o Cerrado como espaço-movente, fundamentado pela perspectiva de trabalhos que se dedicam a pesquisa histórico- social do bioma e suas transformações, tanto pelo ponto de vista ambiental, como cultural. Autores como Carlos Mazzeto (2006, 2009), Darcy Ribeiro (2006), Klink e Machado (2005), Ricardo Ferreira Ribeiro (2005), Ribeiro & Walter (2008), Eguimar Chaveiro (2010), Maria Geralda Almeida (2003), Altair Sales Barbosa (2002), trazem valiosas contribuições para o tema. Já no segundo capítulo, a abordagem de orientação mescla duas perspectivas de análise. A primeira utiliza-se de reflexões teóricas embasadas pelas leituras dos livros de Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas, Corpo de Baile, Primeiras Estórias) e por críticas literárias a respeito do escritor mineiro, como Antônio Candido (1971), Walnice Galvão (1972), José Miguel Wisnik (2002), Willi Bolle (2002, 2004, 2007), Carlos Augusto Monteiro (2006), Claudia Campos Soares (2007, 2008), Mônica Meyer (2008), dentre outros. Assim, como já adiantado na introdução, analisamos a obra de Guimarães Rosa considerando as nuances que diferenciam o sertão em sua dinâmica espacial e temporal. A segunda perspectiva implica o emprego de um método in vivo, com a intenção de propiciar a imersão do pesquisador junto ao contexto sertanejo. As mudanças e permanências do sertão movimentante de Guimarães Rosa foram reveladas nesta pesquisa por meio da incursão ao ambiente artístico do autor, planificadas por atividades de campo que nos permitiram “dar corpo ao suceder”. O trabalho de campo como mecanismo de aproximação e interação com o universo pesquisado motivou geógrafos e outros pesquisadores de várias áreas dos saberes a interagirem com os seus campos de estudo, a fim de possibilitar um diálogo mais fértil com as teorias abordadas nas pesquisas. Carl Sauer percebia que além de tudo que se pode ser transmitido pela instrução e pelas considerações técnicas e teóricas, “se encontram no domínio da percepção e da interpretação individual, a arte geográfica” (SAUER, 2000, pg. 149). Por isso, nossa proposta pressupõe um direcionamento por uma percepção mais densa da realidade abarcada na paisagem real/fictícia de Guimarães Rosa, a partir de realização de roteiros temáticos, atividades de campo e registros junto a alguns 25 condutores que possuem forte identidade local, método similar desenvolvido por Gontijo (2003) em Lapinha, localidade da Serra do Cipó, onde se procurou, a partir destes condutores, “transmitir algo da alma do lugar” (GONTIJO, 2003, p. 26). Deve ficar claro que não foi objetivo analisar exaustivamente um lugar específico, mas sim, exemplificar um espaço em permanente mutação, para compreender suas características socioculturais e ambientais locais, relacionando- as com a literatura de Rosa. Para isso, foi realizada uma pesquisa de caráter qualitativa, com absorção das relações existentes, como enriquecimento para atender às respostas das questões levantadas, resultando em uma análise geral do quadro teórico-prático. Na última semana de junho de 2012, aconteceu no município de Cordisburgo, terra natal de João Guimarães Rosa, a XXVI Semana Rosiana. Neste evento foram celebrados os 60 anos de sua viagem pelo Sertão Mineiro, responsável por promover o reencontro do autor com o universo sertanejo de sua infância. A viagem ocorreu entre a Fazenda da Sirga, na beira do rio São Francisco e a Fazenda São Francisco, em Araçaí, próximo de Cordisburgo, entre 19 e 28 de maio de 1952, acompanhada por uma boiada conduzida por oito vaqueiros e guiada por Manoel Nardy, o Manuelzão. O primeiro passo para nosso método in vivo se deu a partir deste evento que comemorou um momento crucial para a carreira do autor. Ao acompanhar a “Boiada”, montado na Mula Balalaika (Figura 1), Rosa pôde realmente engrossar o caldo de sua literatura, ao observar e colher in locu elementos para suas estórias, sempre perguntando e anotando “qualquer bobajada” e aprendendo “o poetar dos vaqueiros”, com caderninho e lápis dependurados ao pescoço. 26 Figura 1: Guimarães Rosa e a mula Balalaika, em 1952 (Foto: Eugênio Silva; Fonte: SILVA, 1952) As outras atividades de campo foram desenvolvidas como desdobramentos deste primeiro momento vivenciado durante a Semana Rosiana. O intuito foi “devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe”, com o propósito de observar as novas realidades impostas pelo processo de modernização no Cerrado, de acordo com as mudanças paisagísticas no sertão de Minas Gerais. Com o auxílio de dois geógrafos (Frederico Gonçalves e Geraldo Dias) e um cineasta (Thiago Sá) para a realização da viagem, foram planejados 21 dias de campo durante o mês de outubro de 2012, tomando como referência o próprio caminho percorrido por Rosa com a Boiada em 1952 (ver Figura 2) e os marcos de paisagem das três obras em análise nesta pesquisa: Corpo de Baile (Lapa do Gorgulho e Gruta do Maquiné, em Cordisburgo; Morro da Garça e Andrequicé); Grande Sertão: veredas (Encontro do Rio de Janeiro com o São Francisco, Paredão de Minas, Barra do Guaicuí, Jaíba, Serra das Araras, Vão do Buraco); e Primeiras Estórias (Brasília) (Ver Tabela de Campo, pg. 27-28). 27 Figura 2: Mapa do Circuito Turístico Guimarães Rosa, diferenciado espacialmente pelos cenários de algumas das obras do autor. Fonte: BEZERRA; HEIDEMANN, 2006 A dinâmica da viagem de campo também se orientou pelo estabelecimento de contatos prévios com pessoas-chave que já possuem um envolvimento entre a geografia e a literatura de Rosa; por instituições que utilizam a literatura rosiana para realizar iniciativas socioambientais e socioculturais pelo território; e por gestores de órgãos ambientais que possuem na bagagem o contato direto com as políticas ambientais e suas contradições na atualidade do norte mineiro. Além disso, surgiram durante o percurso diversos contatos com personagens sertanejos 28 que explicitam a alma do sertão e evidenciam a cultura sertaneja e as transformações espaciais ao longo do tempo. Além das entrevistas, foram realizados registros por vídeo, áudio, fotografias e pela escritura de um diário de campo, com observações, informações práticas, notas literárias e as sensações absorvidas. Desta forma, a partir da confluência entre o trabalho de campo e as referências teóricas a respeito dos três momentos ficcionais, o capítulo 2 se articula por meio de sete episódios/insights de campo como técnica de escrita para abordar o espaço movimentante da obra de Guimarães Rosa e suas relações com o “sertão presente”. De forma imagética, os insights fornecem uma coleção de metáforas e analogias para a conexão entre o mundo ficcional de Rosa com a perspectiva do sertão mineiro na atualidade, criando novos sentidos para refletirmos a cerca do sertão-mundo. Cada um desses episódios de campo remete aos três momentos do sertão rosiano em análise, comparando-as do ponto de vista socioespacial e histórico, sendo que os últimos dois tentam remeter a um quarto momento, um sertão que Guimarães Rosa não teve a oportunidade de conhecer. Por fim, procuraremos nos aproximar das hipóteses e questões elaboradas nesta dissertação, explicitando os resultados alcançados, frutos do processo de interpretação teórico-metodológico e das vivências poéticas pelo sertão de Guimarães Rosa. Tabela 1 Tabela de Campo DIA LOCALIDADE ATIVIDADE CONDUTOR TEMA OBRA 08 Cordisburgo a) Loja do Brasinha b) Lapa do Gorgulho / Lapa do Valentim Caiano (Monumento Natural Peter Lund) a) Brasinha b) Brasinha, Guias da UC Geografia e Literatura Corpo de Baile 09 Cordisburgo; Araçaí a) Trilha no cerrado b) Entrevista c) Fazenda Santa Catarina (último ponto da Boiada) a) Sr. Toco Pequi b) Sr. Toco Pequi c) ----------------- a) Conhecimento tradicional do Cerrado b) O Sertão acaba? c) A Boiada de 1952 Corpo de Baile; A Boiada 10 Cordisburgo; Curvelo; Morro da Garça a) Museu Guimarães Rosa b) Entrevista – Circuito Turístico Guimarães Rosa c) Subida ao Morro da Garça a) Grupo Miguilim b) Marco André c) ------------------ a) Relação Obra/Autor b) Circuito Turístico c) “Recado do Morro” Corpo de Baile 11 Morro da Garça a) Casa de Cultura do Sertão a) Maria das Graças / Dieter Heidemann a) Obra/Autor/ Cultura sertaneja/Transformações no sertão Corpo de Baile 12 Andrequicé; Barra do Rio de Janeiro; Sirga; Capela do Manuelzão a) Encontro do de-Janeiro com São Francisco b) Fazenda da Sirga (1º ponto da Boiada) c) Capela do Manuelzão a) Valico b) ------------------ c) ------------------ a) Riobaldo e Diadorim b) Boiada de 1952 c) “Uma estória de amor” Grande Sertão: veredas; A Boiada; Corpo de Baile 13 Pirapora; Paredão de Minas a) Registro de Veredas b) Entrevista c) Rio do Sono/ Paredão (Batalha Final de GS:V) a) ----------------- b) Sr. Sidraque c) Sr. Sidraque a) Impactos ambientais b) O Sertão acaba? c) Batalha Final de GS:V Grande Sertão: veredas 14 Paredão de Minas; Barra do Guacuí a) Entrevista b) Igreja Bom Jesus de Matozinhos a) Sr. Sidraque b) ---------------- a) O Sertão acaba? b) “Guararacavã do Guaicuí” Grande Sertão: veredas 15 Lagoa dos Patos a) Medições de Caverna a) Frederico Gonçalves a) Serra da Onça GS:V 16 São Romão a) Entrevista a) Diô Waldomiro a) Rio São Francisco GS:V 17 Jaíba a)Visita ao Bananal / Entrevista b) Jaibão, canal de irrigação a) Marcos b) ----------------- a) Projeto Jaíba / “Acampo do Hermógenes” Grande Sertão: veredas 30 DIA LOCALIDADE ATIVIDADE CONDUTOR TEMA OBRA 18 PARNA Cavernas do Peruaçu a) Trilhas (Janelão, Gruta da Bonita, Desenhos) a) Miquinha Sertão Protegido?; Ambiente Cárstico; Turismo; UCs Grande Sertão: veredas 19 PE Veredas do Peruaçu a) Trilhas a) Ageu; Neguinho Sertão Protegido?; Veredas; Cerrado; UCs Grande Sertão: veredas 20 PE Veredas do Peruaçu a) Trilhas b) Entrevista a) Ageu; Neguinho b) Sr. João do Óculos Sertão Protegido?; Veredas; Cerrado; UCs Grande Sertão: veredas 21 RVS Pandeiros a) Trilha a) Valeriano Sertão Protegido?; Rio Pandeiros; Cerrado; UCs Grande Sertão: veredas 22 RSV Pandeiros (Pântano) a) Torre IEF b) Navegação Rio Pandeiros a) Sr. Geraldo b) Sr. Pedro Unidades de Conservação; “Pantanal Mineiro” Grande Sertão: veredas 23 RDS Veredas do Acari a) Trilhas a) Cícero Cerrado; Fauna. Grande Sertão: veredas 24 Comunidade de Buraquinhos; PE Serra das Araras a) Trilhas b) Trilhas a) Decão b) Decão Comunidades do entorno de UCs; Serra das Araras Grande Sertão: veredas 25 PE Serra das Araras; Chapada Gaúcha a) Trilha b) Entrevista - Instituto Rosa e Sertão a) Decão b) Danielle a) UC; Cerrado b) Mosaico de UCs; Iniciativas locais Grande Sertão: veredas 26 Chapada Gaúcha; Buracos a) Entrevista – Cooperativa Agroextrativista b) Trilha a) Sr. Sezo b) --------------- a) Extrativismo do Cerrado b) “Vão dos buracos” Grande Sertão: veredas 27 Sagarana a) Entrevista/Visita ao Projeto “Cresertão” a) Virgílio/Andréia Iniciativas locais Grande Sertão: veredas 28 Brasília Museu Nacional; Esplanada; Congresso Nacional ----------------- “As Margens da alegria”; A capital no sertão Primeiras Estórias 31 A literatura como renovação metodológica Ah, meu amigo, a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou alguém de tudo faz trincha para rir-se da gente... E então? (Guimarães Rosa – Primeiras Estórias) A literatura em seus diversos gêneros – romances, poesias, novelas, contos, etc. – abrem-se como possibilidades de abordagens alternativas para tratar os temas socioespaciais. Embora assumidamente ficcionais, eles se configuram também como legítimas representações do mundo e de seus significados. Interpretações que lançam olhares sobre o espaço e sobre os lugares, convergindo aos caminhos percorridos por geógrafos empenhados em perspectivas amplas, integradas e multifacetadas da realidade, em múltiplos aspectos da sociedade e da natureza. Como analisado por Carlos Augusto Monteiro (2006), não quer dizer que o ficcional, o imaginário, o mítico, o metafísico possa substituir o real. Mas é muito provável que isso venha a “iluminar” a percepção daquilo que é geográfico, capaz de enriquecer o conhecimento espacial. Nas palavras do autor, a relação geografia- literatura vai ao encontro de um pensamento mais sistêmico, proposto inicialmente pela nova geografia humanística: A atual preocupação com um conhecimento mais conjuntivo, uma pregação das virtudes do ‘holismo’ e a proposta de uma nova geografia humanística, poderá promover um benéfico contato com a literatura.§ Não se quer dizer, de nenhum modo, que a criação literária substitua a geografia, mas é preciso que se considere uma possibilidade de complementação enriquecedora [...] E reconhecer também que, por mais tabelas de dados e comprovações científicas que uma análise geográfica possa fornecer, haverá uma possibilidade de que um artista criador – na alta literatura – com outros recursos tenha o poder de criar uma ‘realidade infinita’ (MONTEIRO, 2006, p. 61). Neste sentido, Adriana Melo (2011) considera que a “palavra poética” pode contribuir de forma estimulante à ciência, a partir de uma linguagem mais livre, flexível e fluente para o diálogo (MELO, 2011, p.18). Ao construir um limite da palavra científica em relação às palavras da arte, a ciência moderna instaurou uma dicotomia que tende a esvaziar os argumentos que buscam perfeição e 32 objetividade. Para a autora, o rigor da linguagem científica, ao se colocar refratária à subjetividade, à parcialidade, à proximidade e ao contato, criou uma espécie de “Torre de Babel” de línguas intraduzíveis que não se comunicam. Concordamos com Melo especialmente pelo reconhecimento de que a ciência, como um exercício de explicação do mundo, necessita de analogias e metáforas como forma de enriquecer e qualificar a linguagem, possibilitando o fortalecimento de seus argumentos. A palavra poética ou a palavra literária são alternativas para “iluminar” o texto científico a partir de uma linguagem envolvida por sensibilidade, de maneira a proporcionar maior proximidade com aquilo que é discutido nas pesquisas. O poder da palavra remete a consideração de José Saramago sobre o tema: As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos, às vezes são os nervos que não podem aguentar mais, suportaram muito, suportaram tudo, era como se levassem uma armadura, diz-se (SARAMAGO, 2008, p. 267). A força da palavra, ao “estalar a compostura dos sentimentos”, induz ao leitor a adquirir uma nova percepção das coisas, que permita induzi-lo a refletir, a se emocionar, e que seja capaz de levá-lo a um novo estado de ânimo. É justamente nesta direção que o formalista russo Viktor Chklovski (1971) concebe o processo da arte. A arte atua com objetivo de dar novas formas, sensações e intensidades para certos aspectos que o apreciador do objeto artístico ainda não havia experimentado até o momento. De acordo com o autor, o conteúdo artístico provocaria um novo olhar capaz de despertar o espectador de sua inércia mental, provocada pelo inconsciente humano e pelo comportamento automático em que normalmente estamos submetidos: Se examinarmos as leis gerais da percepção, vemos que uma vez tornadas habituais, as ações tornam-se também automáticas. Assim, todos os nossos hábitos fogem também para um meio 33 inconsciente e automático [...] Se toda a vida complexa de muita gente se desenrola inconscientemente, então é como se esta vida não tivesse sido. E eis que para devolver a sensação de vida, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama de Arte. O objetivo da Arte é dar a sensação do objeto como visão, e não como reconhecimento; o procedimento da Arte é o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção (CHKLOVSKI, 1971, p. 43-45). O olhar artístico e o olhar geográfico - manifestado em suas perspectivas críticas - seriam como lentes essenciais para uma percepção cativante e lúcida da realidade. Por que não dizer que a percepção, o olhar e a observação não são também habilidades atribuídas ao geógrafo, desde os mais remotos insights da disciplina geográfica? O olhar como contribuição para as descrições do espaço, para aumentar a “duração da percepção” sobre o território, para ver aquilo que escapa do inconsciente e do automatismo do cotidiano. Desta forma, tanto a arte como a ciência geográfica muito teriam a contribuir a despeito da forma míope e automática de se ver o mundo. Um dos personagens mais emblemáticos na obra de Guimarães Rosa, o menino Miguilim de “Campo Geral”, ao final da narrativa descobre um novo mundo através das lentes dos óculos cedidos por um doutor que viera a isolada fazenda do Mutum. Trata-se de uma cena comovente, já que após colocar os óculos, o menino consegue ver além daquilo que seu universo míope conhecia até então. A beleza do horizonte abriria um novo caminho para o personagem, que em breve se mudaria daquele lugar para uma nova vida: Mas, então, de repente, Miguilim parou em frente do doutor. Todo tremia, quase sem coragem de dizer o que tinha vontade. Por fim, disse. Pediu. O doutor entendeu e achou graça. Tirou os óculos, pôs na cara de Miguilim. § E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de sao-josés, como algodão. O verde dos buritis, na primeira vereda. O mutum era bonito! Agora ele sabia (ROSA, 2006, p. 133). A repentina nitidez das formas da paisagem propiciada pelo par de óculos revela ao menino um mundo de esperança que se refaz em frente aos seus “novos 34 olhos”. Miguilim, que se divertia e se encantava com a exuberância da natureza, ao contemplar a beleza da flora e dos animais presentes naquele ambiente, agora podia enxergar um mundo ainda mais vasto, onde a vista conseguia alcançar mais longe. Assim como o personagem de Rosa, a geografia e a ciência, de uma maneira geral, podem atingir panoramas ainda mais amplos em suas pesquisas, a partir da palavra poética e literária. Ao projetar uma infinidade de imagens pelas “lentes” feitas de metáforas e analogias, a literatura concede uma estimuladora alternativa de fertilidade aos saberes - dentre eles o conhecimento científico - encorajando uma reflexão ainda mais intensa de suas questões. O geógrafo brasileiro Milton Santos já indicava que o “maior erro que a geografia cometeu foi o de querer ser ciência, em vez de ciência e arte” (SANTOS; HARAZIM, 2011, p. 169). A aproximação da geografia com o método de pensamento estritamente científico deixou para trás algumas importantes contribuições, devido ao simultâneo distanciamento da disciplina em relação à literatura, à poesia e à filosofia – campos do conhecimento interdependentes e ricos para a reflexão geográfica. Além disso, sem estar preso às formalidades da linguagem e das restrições metodológicas da ciência, e sem a pretensão de desvendar com exatidão o “real”, a arte não procura uma verdade única, nem explicações lógicas sobre o mundo. As obras literárias abordam as questões dos homens e de seu ambiente de modo a permitir que elas permaneçam vivas aos olhos e às almas dos leitores. A “literatura faz o saber sem a pretensão arrogante de fazê-lo, sem anunciar promessas que não pode cumprir” (HISSA, 2002, p.291). Um novo paradigma de ciência caminha em direção a um saber mais próximo de questionamentos que movam o pensamento humano, de dúvidas que incitem incertezas, irresoluções. “Com o saber cresce a dúvida, na verdade só sabemos quão pouco sabemos”, afirmava o filósofo e poeta alemão Goethe. A despretensão de representação do mundo pelas artes não visam obstinadamente “verdades provisórias”, mas sim impulsionar novos olhares para 35 um espaço em constante mutação. Assim, “ao concluir uma pesquisa [o cientista] constata que para uma resposta obtida levantam-se novas indagações. E é isso que impulsiona a ciência.” (MONTEIRO, 2006, p. 61.62). Ao admitir a provisoriedade de seus dados, resultados, conclusões e conquistas, as abordagens científicas podem absorver uma maior amplitude de reflexão por meio das suas próprias dúvidas. Embora ainda em menor número, alguns pesquisadores começam a trabalhar a perspectiva da literatura em consonância com aquilo que é considerado como conhecimento de natureza espacial, ou geográfica. Frederico Roza Barcelos (2009) assinala que o discurso literário pode se afirmar como uma “renovação metodológica”. Uma renovação pelo fato da literatura, ao longo da história da humanidade, se mostrar mais do que outras formas de conhecimento, capaz de representar o “irrepresentável” ou o “indizível”. “Assim sendo, graças às virtualidades imagéticas da criação literária, tornar-se-lhe possível dar materialidade e visibilidade àqueles elementos que, doutra forma, seriam intraduzíveis e imperceptíveis a olho nu” (FANTINI, 2008, p. 245) Alguns trabalhos devem ser citados como exemplos de abordagens precursoras que levaram em consideração as interpenetrações entre geografia e literatura. Além daqueles já considerados anteriormente, fazemos menção à autores como Fernando Segismundo (1949), Carlos Fuentes (2007), Lúcia Helena Gratão (2006), Eduardo Mandarola Jr (2005), Oswaldo Bueno de Amorim (2008), Lívia de Oliveira (2002), dentre outros. Desta forma, a literatura de Guimarães Rosa em todas as etapas desta dissertação será envolvida a trazer a arte, a invenção e a inspiração para auxiliar a construção do texto. Não só pela poesia, pelo poder da palavra “a estalar a compostura dos sentimentos”, mas também pela possibilidade do romance rosiano propor leituras e visões sobre o Brasil e o Cerrado, em sua conjuntura espacial, temporal, social e cultural. Rosa chegou a admitir que durante a infância, uma de suas preferências era “estudar sozinho e brincar de geografia”. O escritor era publicamente um grande admirador da geografia e de tudo “que representa, numa câmera lentíssima, o 36 estremunhar da paisagem, pelos séculos” 7. Os documentos das cadernetas de viagens ao sertão mineiro (1952) e pela França e pela Itália (1949-1950), o diário de Paris (1948-1951) e o caderno de leitura de Homero (1950) reafirmam também seu perfil naturalista, interessado no “saber da grande vida, do envolvente, do conjunto”.8 Ao trabalhar com a obra deste autor, devemos levar em conta a advertência colocada pelo próprio Rosa no prefácio de Tutaméia, quando observa que “o livro pode valer pelo muito que nele não deve caber”. E também a declaração do poeta Carlos Drummond de Andrade, ao contemplar a publicação de Primeiras Estórias, em 1962: “mais uma vez não facilitem com o Rosa; ele diz sempre outra coisa além do que está dizendo". Apesar da autêntica descrição de realidades locais, paisagens características do sertão, através de uma fidelidade incrível ao real, Guimarães constrói uma importante linguagem simbólica em toda sua obra. Como exemplifica o trecho a seguir da carta ao tradutor italiano Edoardo Bizarri, Rosa utilizava a realidade sertaneja como pano de fundo para uma mensagem maior, a partir de sua valorização ao metafísico e religioso, despertando o interesse por valores intrínsecos aos seres humanos: [...] os meus livros, em essência são “antiintelectuais” – defendem o altíssimo primado da intuição, da revelação, da inspiração, sobre o bruxolear presunçoso da inteligência reflexiva, da razão, a megera cartesiana [...] Por isso mesmo, como apreço da essência e acentuação, assim gostaria de considerá-los: a) cenário e realidade sertaneja: 1 ponto; b) enredo: 2 pontos; c) poesia: 3 pontos; d) valor metafísico religioso: 4 pontos. (ROSA, 2003, p. 90, 91) Muito dos méritos atribuídos a Rosa estão vinculados ao seu poderoso artifício em detalhar os aspectos essenciais de uma região – o sertão mineiro – e do homem sertanejo condicionado a sua peculiaridade ecológica. É daí também que irão brotar das páginas rosianas, uma poesia recheada por elementos paisagísticos compostos pelos rios, morros, serras, imensos chapadões, tabuleiros e pela ímpar 7 Publicado originalmente na Revista da Sociedade Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro (Tomo LIII, 1946, p. 96-97). Utilizamos como referência a publicação de BEZERRA e HEIDEMANN (2006, p. 16). 8 Idem. 37 biodiversidade concernente ao Cerrado brasileiro. Contudo, mesmo representando uma localidade delineada espaço-temporalmente, como no caso dos trabalhos do escritor, não podemos reduzir os limites do ambiente artístico a uma paisagem real. Tratando especificamente de Grande Sertão: Veredas, Antônio Candido chama atenção para certas “metamorfoses cartográficas” desta obra: Cautela, todavia. Premiado pela curiosidade, o mapa se desarticula e foge. Aqui um vazio; ali uma impossível combinação de lugares; mais longe uma rota misteriosa, nomes irreais. E certos pontos decisivos escapam de todo. Começamos então a sentir que a flora e a topografia obedecem freqüentemente à necessidade de composição; que o deserto é sobretudo projeção da alma e as galas vegetais simbolizam traços afetivos. Aos poucos vemos surgir um universo fictício, à medida que a realidade geográfica é recoberta pela natureza convencional (CANDIDO, 1971, p. 124). Parte do que é descrito nos livros do autor realmente corresponde à lugares espacialmente localizáveis, assemelhando-se a relatos descritivos do sertão mineiro. Aliás, cuidadosos trabalhos realizaram estudos sobre as marcas do tempo e do espaço constatados na obra de Guimarães. Allan Viggiano (1978), por exemplo, rastreia localidades mencionadas no Grande Sertão: veredas, chegando à conclusão de que, dos cerca de 230 marcos na paisagem, dentre rios, cidades, vilas, povoados, serras, córregos, mais de 180 podem ser encontradas no mapa. Entretanto, a transfiguração do real por meio da imaginação poética de Rosa, imprime novos e determinantes significados para os romances. As paisagens inventadas muitas vezes “parecem brotar dentro dos personagens”, para representar determinado papel simbólico (COSTA, 2008, p. 335). É neste caminho, que Candido percebeu o deserto como projeção da alma e galas vegetais simbolizando traços afetivos, de acordo com a citação anterior. A toponímia real se mescla com a elaboração artística e com a concepção mítica e metafísica, profundamente lapidadas pelo escritor, resultando em obras absolutamente polissêmicas. Os livros possuem um conteúdo que vai muito além de seu “continuum espacial”, se caracterizando, portanto, pelo caráter transcendente e universal. 38 Monteiro (2006), ao comparar a efemeridade dos relatos geográficos e o conteúdo de obras literárias, vê em Grande Sertão: Veredas uma obra eterna e “encantatória”: Os vários relatórios das diferentes missões científicas; os antigos relatos dos naturalistas; as monografias e artigos geográficos que se produziram ao longo dos tempos darão depoimentos circunscritos às épocas de suas produções. A efemeridade dos relatos geográficos diante de um mundo em permanente mutação. O magnífico painel arquitetado literariamente por Guimarães Rosa – como “poema-encantatório” que é – será eterno (MONTEIRO, 2006, p. 61). Talvez por isso mesmo a obra literária no caso de Rosa e de tantos outros grandes escritores, assuma com veemência a virtude de continuar perpetuando ao longo do tempo na lembrança e na vida dos leitores. Assim, quando discutimos uma ciência que procura alcançar o real e que busca métodos específicos para isso, vemos então que ela precisa, ao mesmo tempo, do fantástico – da literatura, das artes, de outros saberes – para encontrar um caminho mais fértil, onde a “fantasia nos devolve sempre enriquecidos à realidade do cotidiano” (CANDIDO, 1971, p.139). A experiência documentária de Rosa, esforço que buscou a observação do modo de vida sertanejo e das implicações ecológicas do seu ambiente, ao ser incorporado por valores metafísicos e aos grandes dilemas humanos - os quais a arte se dispõe a investigar – alavanca e fertiliza o conhecimento sobre o mundo. Como uma possibilidade de complementação enriquecedora, a literatura rosiana iluminará nossa pesquisa, envolvendo os aspectos socioespaciais que rodeiam o sertão mineiro, o Cerrado e suas transformações ao longo do tempo. A paisagem, como produto cultural/hereditário e reflexo subjetivo da experiência, ao se metamorfosear em “paisagem literária”, ganha novas formas mediadas por um renovado conjunto semiótico/artístico (MULINACCI, 2009). No caso de Guimarães Rosa, o sertão e o Cerrado transcendem seus destinos de moldura narrativa, para se conformarem em personagens co-protagonistas da narração. Um espaço ao mesmo tempo metafísico e geográfico, permeado por uma rica e sofrida história, um mundo “muito misturado” no coração do país, que carrega em si a “imensa emoção poética que sobe da nossa terra e das suas belezas: dos campos, das matas, dos rios, das montanhas; capões e chapadões, alturas e 39 planuras, ipueiras e capoeiras, caatingas e restingas, montes e horizontes; do grande corpo, eterno, do Brasil” 9. 9 Ibidem, p. 34. 40 Capítulo 1 Cerrado: espaço-movente Porque – serra pede serra – e dessas, altas, é que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta. Sertão sendo do sol e os pássaros: urubu, gavião – que sempre voam, às imensidões, por sobre... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos bichos, do fundo dele... (João Guimarães Rosa) 41 Os gerais descritos na obra de Guimarães Rosa compreendem a vasta região dos cerrados e de fazendas de gado que se estendem desde o Oeste e Noroeste de Minas Gerais até ao Piauí e ao Maranhão, como muito bem descrito pelo próprio escritor ao tradutor italiano Edoardo Bizzarri (ROSA, 2003, p.40). Trata-se de um grande fragmento do domínio morfoclimático e fitogeográfico classificado pelo geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber como o “domínio dos chapadões recobertos por cerrados e penetrados por florestas galerias” (AB’SABER, 2003). A concepção adotada por Ab’Saber compreende o Cerrado como uma das seis feições paisagísticas e ecológicas brasileiras, que se constituem a partir de conjuntos espaciais de certa grandeza territorial – de centenas de milhares a milhões de quilômetros quadrados de área – onde haja um esquema coerente de feições de relevo, tipos de solo, formas de vegetação e condições climático- hidrológicas (AB’SABER, 2003, p. 11, 12). O emprego do termo cerrado adotado aqui pode se adequar também segundo outras interpretações e expressões normalmente concebidas por estudiosos do tema, como área geográfica, biossistema regional, região fitoecológica, província vegetacional, domínio fitogeográfico e por bioma, a concepção mais consolidada entre elas. Desta forma, o Cerrado se configura como o segundo bioma em extensão do Brasil, ocupando cerca de 2 milhões de km² da área central do país, compreendendo grande parte do Centro-Oeste e outras regiões do território nacional. Como área contínua (ou área central) abrange os estados de Goiás, Tocantins e Distrito Federal, parte dos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí, Rondônia e São Paulo; e também ocorre em áreas disjuntas ao Norte, nos estados do Amazonas, Pará, Roraima, e Amapá, e ao Sul, em pequenas “ilhas” no Paraná. Fora do Brasil ocupa áreas na Bolívia e Paraguai, enquanto paisagens semelhantes são encontradas na Colômbia, Guiana, Suriname e Venezuela, onde recebe a consolidada denominação de Lhanos (RIBEIRO & WALTER, 2008, p. 156). Minas Gerais é um dos destaques entre os estados brasileiros, já que possui, aproximadamente, 30,8 milhões de hectares de Cerrado, ocupando cerca de 53% do território mineiro (RIBEIRO, 2005, p. 47). O bioma está presente nas regiões do 42 Alto São Francisco, Alto Jequitinhonha, Norte, Noroeste, Alto Paranaíba, Triângulo e Alto Jequitinhonha (Figura 3). Figura 3: Cerrado em Minas Gerais. Fonte: Instituto de Geociências Aplicadas de Minas Gerais – IGA Devido à sua localização, o Cerrado é conhecido como o “Bioma do Contato”, pois compartilha várias áreas de transições ecológicas e paisagísticas com os outros biomas brasileiros (Caatinga, Florestas Amazônica e Atlântica, Floresta de Araucária, Pantanal, Zona de Cocais). Carlos Eduardo Mazzeto (2009, p. 90, 91) considera que, desta forma, o cerrado contínuo, – que representa 22,65% do território brasileiro – ao ser somado a área de transição com outros biomas, alcança 36% da área nacional. É importante ressaltar também os cerrados amazônicos - ilhas de cerrado na Amazônia - que acrescem 7,8 milhões de hectares a esta porcentagem. 43 Figura 4: Cerrado contínuo, suas áreas de transição e cerrado amazônico. (MAZZETO, 2009, p. 92) Predominam nesta macro-região as chapadas, chapadões, tabuleiros – planaltos de superfície aplainada, superfície estrutural, delimitada por fortes rupturas – e as depressões, ravinas, encostas e vales, em áreas mais úmidas, com presença dos cursos d’água. Sua composição vegetacional é formada predominantemente pelos cerrados (strictu sensu), cerradões e formações campestres nos interflúvios e nas vertentes suaves dos planaltos; e pelas florestas- galeria rigidamente vinculadas ao fundo aluvial dos vales de médio e grande porte. A vereda, o oásis do cerrado para Guimarães Rosa, representa um arranjo fitogeográfico de importante significado ecológico e socioeconômico regional, podendo ocupar tanto vales pouco encaixados, como os topos das chapadas, em depressões suaves. O bioma se caracteriza também pela alternância de verões chuvosos – entre os meses Outubro e Março - e invernos secos – entre Abril e Setembro, com média anual de precipitação de 1500 mm, variando de 1300 a 2000 mm (RIBEIRO & WALTER, 2008, p. 154). A temperatura média anual de 20,1º C varia durante todo o ano de acordo com as duas estações bem definidas entre “seca” e “chuvosa”. 44 Assim, nos deparamos muitas vezes nos livros de Rosa com expressões frequentemente utilizadas na região como: “entrada-das-águas”, “tempo-das- águas”, “fim-das-águas”, “final das águas”. Elas exprimem os períodos do ano de acordo com suas estações, já completamente incorporadas na relação do homem sertanejo com o seu ambiente. Contudo, o ritmo marcante do tropicalismo regional implica em uma preservação dos padrões de perenidade dos cursos d’água regionais, mesmo nos períodos secos, fator essencial para a dinâmica ecológica do bioma: Mesmo nos canais de escoamento laterais aos chapadões e de reduzida extensão permanece uma espécie de linha úmida d’água quase superficial, que atravessa toda a estação seca no meio do ano. Este lençol d’água também sofre variações, de um a quatro metros do subsolo superficial dos cerrados, continuando, porém, tangente à superfície da topografia, o que alimenta as raízes da vegetação lenhosa nessa área (AB’SABER, 2003, p. 38) O protagonista de Grande Sertão: Veredas afirma que “[...] nuns lugares, encostando o ouvido no chão, se escuta barulho de fortes águas, que vão rolando debaixo da terra” (ROSA, 2001, p. 308). De tal modo que, inclusive durante a estação seca, a dinâmica dos lençóis d’água subsuperficiais permite a alimentação da vegetação do cerrado, já adaptadas ecologicamente a partir de suas longas e pivotantes raízes. Além disso, durante o período de maior deficiência hídrica, em que ocorre grande número de queimadas na região, a vegetação adquire mecanismos de adaptações morfológicas, que possibilita sua sobrevivência ao fogo. O ritmo sazonal acentuado, o fogo e o tipo de solo contribuem de diferentes formas para o perfil e para a fisionomia da vegetação: uma flora de aparência xeromórfica (aspecto árido), marcada por uma variedade de transformações de suas formas e cores durante o ano, como vemos nesta descrição de Peixoto & Coradin (1992/1993): Adaptada à forte sazonalidade, a vegetação apresenta picos de eventos biológicos, em cadeias sucessivas, constituídas de maravilhosos e intrincados mecanismos. No inverno seco, de julho a setembro, as árvores e arbustos ficam parcialmente desfolhados, ocorrendo floração em algumas espécies. No estrato herbáceo as Gramineae, em particular, tornam-se pardacentas, secas e de fácil combustão. Ao final de setembro e inicio de outubro ocorre o desenvolvimento de plantas lenhosas – algumas vezes antes 45 mesmo das chuvas – acompanhado de floração abundante. A partir de outubro e durante toda a primavera, os cerrados explodem em beleza devido à diversidade de formas e à variedade de cores das flores, que sobressaem entre o azul do céu e o avermelhado do solo. Com o início das chuvas ocorre um pico de crescimento vegetativo: a camada herbácea desabrocha, há floração e farta frutificação, além da dispersão de sementes, sendo marcante, nesta época, as revoadas de insetos. A grande concentração de frutos e insetos na primavera – promovida pela estabilidade climática – é responsável pela aglomeração de aves migratórias de outras regiões, para se reproduzirem (PEIXOTO; CORADIN, 1992/1993, p. 158, 159). Do ponto de vista fitofisionômico, Ribeiro e Walter (2008) descrevem onze tipos de vegetação para o bioma, enquadrados em formações florestais (Mata Ciliar, Mata de Galeria, Mata Seca e Cerradão), savânicas (Cerrado sentido restrito, Parque de Cerrado, Palmeiral e Vereda) e campestres (Campo Sujo, Campo Limpo e Campo Rupestre) (RIBEIRO & WALTER, 2008, p. 164 - 187). No entanto, pensando no sertão rosiano a partir de sua singularidade ecológica e ambiental, procuraremos relacionar a diversidade de ambientes e de fisionomias do cerrado segundo a análise de Altair Sales Barbosa (2002) 10. Para o autor, a área nuclear do cerrado não pode ser entendida como uma unidade zoogeográfica particularizada, e tampouco pode ser considerada uma unidade fitogeográfica, porque não se trata de uma área uniforme em termos de paisagem vegetal. Ele acredita que se aos fatores zoogeográficos e fitogeográficos forem agregados de fatores morfológicos e climáticos, dentre outros, tem-se maiores elementos para a compreensão do Cerrado como um Sistema Biogeográfico (BARBORSA, 2002, p. 143). O Sistema Biogeográfico, no caso do Cerrado, seria composto por vários subsistemas específicos intimamente inter-atuantes e interdependentes, de acordo com o caráter fisionômico, com a composição vegetal e animal, além de outros fatores, apresentando a seguinte organização: Subsistema dos Campos; Subsistema do Cerrado; Subsistema do Cerradão; Subsistema das Matas; Subsistema das Matas Ciliares; e Subsistemas das Veredas e Ambientes Alagadiços. 10 Apesar de Barbosa utilizar terminologias e conceituações distintas de Ribeiro & Walter, os dois trabalhos apontam sobre a importância da diversidade de ambientes, fisionomias e da complexidade paisagística e ecossistêmica do Cerrado. 46 No próximo tópico analisaremos a diversidade ecossistêmica do cerrado - característica fundamental do bioma - a partir de breves ponderações de Barbosa, Ribeiro & Walter e outros autores que estudam o tema, enriquecidas por trechos que o retratam coraçãomente, presentes em vários momentos da literatura de Guimarães Rosa. 47 Os subsistemas biogeográficos do Cerrado Campos Distribuídos descontinuamente pela região do Cerrado, os campos ocupam as partes mais elevadas do bioma, em áreas planas, denominadas regionalmente por chapadões ou campinas. Há forte ventilação durante quase todo o ano e a temperatura em geral é mais baixa que nos demais subsistemas. A rede de drenagem é insignificante, porém, às vezes aparecem pequenas lagoas, sendo algumas perenes. A vegetação é arbustiva esparsa e de gramínea, intensamente distribuída pela área. (BARBOSA, 2002, p. 145) Ao analisar as formações campestres do Cerrado, Ribeiro & Walter (2008) apresentam três tipos diferenciados do ponto de vista fitofisionômico: o Campo Sujo, o Campo Rupestre e o Campo Limpo. O Campo Sujo caracteriza-se pela presença marcante de arbustos e subarbustos entremeados no extrato arbustivo- herbáceo; no Campo Limpo a presença de arbustos e subarbustos é bem mais sutil; e o Campo Rupestre possui uma estrutura similar ao campo sujo e ao campo limpo, diferenciando-se pelo substrato composto por afloramento de rocha, e pela composição florística, que inclui muitos endemismos (RIBEIRO & WALTER, 2008, p. 183). Mazzeto (2009) lembra também que o ambiente campestre do Cerrado é objeto de uso pelas populações locais, se constituindo como importante meio para a fonte de renda regional, seja para a tradicional “solta” do gado (o pasto nativo), seja para prática de diversos tipos de extrativismo de subsistência, como frutas, lenha, plantas medicinais, madeira, palha, flores, etc (MAZZETO, 2009, p. 94). 48 O chapadão é sozinho – a largueza. O sol. O céu de não se querer ver. O verde carteado do grameal. As duras areias. As arvorezinhas ruim-inhas de minhas. A diversos que passavam abandoados de araras – araral – conversantes. Aviavam vir os periquitos, cota o canto-clim. Ali chovia? Chove – e não encharca poça, não rola enxurrada, não produz lama: a chuva inteira se soverse em minuto terra a fundo, feito um azeitezinho entrador. O chão endurecia cedo, esse rareamento de águas. O fevereiro feito. Chapadão, chapadão, chapadão (GSV, p. 329, 330).11 Figura 5: Campos. Fonte: Altair Sales Barbosa (website) Para trocar de bacia o senhor sobe, por ladeiras de beira-de-mesa, entra de bruto na chapada, chapadão que não se devolve mais. Água ali nenhuma não tem – só a que o senhor leva. Aquelas chapadas compridas, cheias de mutucas ferroando a gente. Mutucas! Dá o sol, de onda forte, dá que dá, a luz tanta machuca (GSV, p. 47, 48) 11 A partir de agora, as referências aos livros de Guimarães Rosa serão indicadas apenas pela numeração das páginas e pelas seguintes abreviaturas: GSV, para o Grande Sertão: Veredas (ROSA, 2001); CB para o Corpo de Baile (ROSA, 2006); SAG para o Sagarana (ROSA, 1984); e PE para o Primeiras Estórias (ROSA, 2008). 49 O chão sem se vestir, que quase sem seus tufos de capim seco em apraz e apraz, e que se ia e ia, até não-onde a vista não se achava e se perdia. Com tudo, que tinha de tudo. Os trechos de plano calçado rijo: casco que fere faíscas – cavalo repisa em pedra azul. Depois, o frouxo, palmo de areia de cinza em-sobre pedras. E até barrancos e morretes. (GSV, p. 524) Do chapadão, com esprumo de duras ladeiras repentinas, onde a areia se cimenta [...] Ou aquela areia branca, por baixo da areia amarela, por baixo da areia rosa, por baixo da areia vermelha – sarapintada de areia verde: aquilo, sim, era ter saudade (CB, p. 463) As queimadas dos campos, fogueiras se alastrando nos espigões. O sol escurecido. A cinza vindo pó e pó, nos ventos tardezinhas. Outro chapadão. Penar, penar, quando a areia se solta (CB, p. 605). Figura 6: Recuperação da vegetação após período de queimadas, no Parque Nacional Grande Sertão: Veredas. Autoria: Leo Dummond 50 Cerrado (stricto sensu) Este Subsistema constitui a paisagem dominante do Sistema, segundo Barbosa (2002). Apresenta um estrato gramíneo e diferencia-se dos campos pela ocorrência de árvores de pequeno porte e aspecto tortuoso. A rede de drenagem é mais completa do que a do subsistema de campo e os solos são de baixa fertilidade natural e não uniformes. Ribeiro & Walter (2002, p. 174) enaltecem a evidência de queimadas geralmente marcadas na fisionomia desta vegetação. Inclusive, algumas espécies apresentam órgãos subterrâneos perenes (xilopódios), que permitem a rebrota após queima ou corte. E, como já visto, na época chuvosa os estratos subarbustivo e herbáceo tornam-se exuberantes, devido ao seu rápido crescimento. Os autores também citam vários estudos que abordam a respeito da complexidade de fatores condicionantes para a fisionomia deste subsistema na estrutura da vegetação, na distribuição espacial das espécies e na florística (RIBEIRO & WALTER, 2008, p. 176). A densidade arbórea pode variar de acordo com condições edáficas, pH e saturação de alumínio, fertilidade, condições hídricas e profundidade do solo, além da frequência de queimadas e ações antrópicas. Tresmente: que com o capitão-do-campo de prateadas pontas, viçoso no cerrado; o anis enfeitando suas moitas; e com florzinhas as dejaniras. Aquele capim-marmelada é muito restível, redobra logo na brotação, tão verde-mar, filho do menor chuvisco (GSV, p. 44). Depois subia um branco poder de sol, e um vento enorme falava, respondiam todas as árvores do cerrado – a caraíba, o bate-caixa, a simaruba, o pau-santo, a bolsa-de- pastor (CB, p. 463). 51 O “cerrado”, sob as boas chuvas, tinha muitos ornatos: a enfolhada capa-rosa, que proíbe o capim de medrar-lhe em tôrno; o pau bate-caixa, verde-aquarela, musical aos ventos; o pao santo, coberto de flores de leite e mel; as lobeiras, juntando grandes frutas verdes com flôres rôxas; a bôlsa-de-pastor, brancacenta, que explica muitos casos de “assombrações” noturnas; e os barbatimãos, estendendo fieiras de azinhavradas moedinhas.12 Figura 7: Vegetação do Cerrado no entorno do Parque Estadual Serra das Araras. Autoria: Frederico Gonçalves 12 Ibidem, p. 34. 52 [...] enquanto a estrada sai do mato para o calorão do cerrado, com enfezadas arvorezinhas: muricis de pernas tortas, manquebas; mangabeiras pedirocas-de- esmola; barbatimãos de casca rugosa e ramos de ferrugem; e, no raro, um araticum teimoso, que conseguiu enfolhar e engordar (SAG, p. 322). Figura 8: Cerrado margeando a estrada interna do Parque Estadual Veredas do Peruaçu – Autoria: Frederico Gonçalves Cerradão O Cerradão caracteriza-se pela presença de espécies que ocorrem no Cerrado (stricto sensu) e também por espécies de florestas, particularmente as da Mata Seca Semidecídua e da Mata de Galeria Não Inundável. “Do ponto de vista fisionômico é uma floresta, mas floristicamente é mais similar ao Cerrado” (RIBEIRO & WALTER, 2008, p. 172). Ainda segundo Ribeiro & Walter (2008), a altura média do estrato arbóreo varia de 8m a 15m, proporcionando condições de luminosidade que favorecem a formação de estratos arbustivos e herbáceo diferenciados. De acordo com a fertilidade do solo, o Cerradão pode ser classificado como Cerradão Distrófico 53 (solos pobres) ou Cerradão Mesotrófico (solos mais ricos), cada qual possuindo espécies características adaptadas a esses ambientes. Atualmente, este subsistema se apresenta muito degradado por diferentes tipos de ações antrópicas. Ab’Saber percebe que, ao contrário do que se pensava, “os cerradões pertencem a um patrimônio biológico arcaico, comportando-se como adensamentos de fitomassas de cerrados, verdadeiras florestas reexpandidas na cimeira dos planaltos regionais” (AB’SABER, 2003, p. 42). Para o autor, isso reforça a ideia de que, diferentemente dos cerrados (stricto senso), o cerradão não consegue se recompor facilmente, sendo pouco resistente às ações antrópicas. [...] o rapaz punha nova atenção nas formas do cerrado alto, por ermo daqueles tabuleiros [...] O cerradão, as beiras, com as cambaúbas retrocadas, a estrada fofa de areia, vagarável (CB, p. 827) A chapada é para aqueles casais de antas, que toram trilhas largas no cerradão por aonde, e sem saber de ninguém assopram sua bruta força (GSV, p. 331) Figura 9: Cerradão em beira de estrada, Unaí – Autoria: Gabriel de Oliveira 54 Figura 10: Cerradão. Fonte: Altair Sales Barbosa (Website) Matas Ocorrem em manchas de solo de boa fertilidade natural. Às vezes adquirem a configuração de ilha em meio a uma paisagem dominante de cerrado - conhecida pelo nome de capões - e às vezes formam áreas extensas, compactas e homogêneas (BARBOSA, 2002, p. 145). Muitas vezes o Subsistema de Matas é também designado por Mata Seca. Para Ribeiro & Walter, a Mata Seca não possui associação com cursos de água, ocorrendo nos interflúvios, em solos geralmente ricos em nutrientes. (RIBEIRO & WALTER, 2008, p. 170) No caso mineiro, é importante também a associação das Matas aos maciços e afloramentos de calcário. De acordo com Carlos Magno Ribeiro (2007) trata-se de uma modalidade das florestas tropicais caducifólias ou semicaducifólias, ou ainda, florestas estacionais deciduais. “Sob o estrato arbóreo, há um sub-bosque arbóreo- arbustivo e um herbáceo pobre e rarefeito, descontínuo, por causa dos afloramentos rochosos.” (RIBEIRO, 2007, p. 125). 55 Ainda de acordo com o autor, existem inúmeras espécies arborescentes: angicos, aroeira, cedros, paineiras barrigudas, as indefectíveis gameleiras com suas raízes possantes e longas que penetram nas fendas das rochas ou aderem firmemente aos paredões. No solo, encontram-se muitas bromeliáceas, como o gravatá, algumas delas epífitas, orquidáceas, cactáceas (RIBEIRO, ibidem). E a gente dava a banda da mão esquerda ao Vão-do-Oco e ao Vão-do-Cuio: esses buracões precipícios – grotão onde cabe o mar, e com tantos enormes degraus de florestas, o rio passa lá no mais meio, oculto no fundo do fundo, só sob o bolo de árvores pretas de tão velhas, que formam mato muito matagal. Isto é um vão (GSV, p. 519, 520). Figura 11: Mata Seca sobre afloramento de Calcário no município de Ubaí – Autoria: Frederico Gonçalves Lá tinha um capão-de-mato. Ou era mata, muito velha. Os coatis desciam espirrando, de sua sesta deles, nas árvores, e os jacus voavam para outras árvores, se empoleirando para o sono da noite, com um escarcéu de galinheiro (GSV, p. 262) 56 E descemos num pojo, num ponto sem praia, onde essas altas árvores – a caraíba-de- flor – roxa, tão urucuiana. E o folha-larga, o aderno-preto, o pau-desangue; o pau- paraíba, sombroso. O Urucuia, suas abas. E vi meus Gerais! [...] Aquilo nem era só mata, era até florestas! (GSV, p. 322) Figura 12: Trecho de mata na estrada de Ibaí para São Romão – Autoria: Frederico Gonçalves Matas ciliares Ocorre nas cabeceiras dos pequenos córregos e rios e acompanha estes pelas suas margens em estreitas faixas. Essas faixas, todavia, são muito variáveis quanto à configuração. Há locais onde se alargam na forma de bosque e há outros locais, onde praticamente desaparecem (BARBOSA, 2002, p. 145) Ribeiro & Walter (2008, p. 164 – 169) diferenciam a Mata Ciliar da Mata de Galeria pela composição florística e pela deciduidade - a primeira possui diferentes graus de caducifolia na estação seca, enquanto a segunda é perenifólia. Além disso, outros fatores são levados em consideração, como a presença da Mata Ciliar ser 57 condicionada à ocorrência dos rios de médio e grande porte do Cerrado, enquanto a Mata de Galeria acompanha os rios de pequeno porte e córregos. No entanto, Ribeiro (2007, p. 131, 132) prefere evitar polêmicas ao considerar que tanto uma, como outra, podem ser chamadas simplesmente de “matas justafluviais”, que galgam as ravinas, as nascentes e as encostas e criam um contraste interessante com as outras fitofisionomias do Cerrado, como o cerrado (stricto sensu), o cerradão e os campos. Outras expressões também são geralmente adotadas para tratar deste subsistema, como Mata (ou floresta) Ripária, Mata Marginal ou Mata Ripícula. A mata marginal se cerrava, uma enormidade, negra de vírgem. Tinha-se de olhar em volta. Aquelas árvores de beira-de-rio, maculadas, barbudas de branco, manchosas, cascudas com rugas, eriços, placas e pálidas escamas se pintalgando – a carne-de- vaca, o jequitibá, o lendí, o ingá, a almesca, o gonçalo, o pau-pombo, a folha-miúda e o olandim-do-brejo pardão – tomavam tamanhos fora do preceito, bojavam diâmetros estrusos; à borda, as retas pindaíbas e os troncos repartidos, desfiados, brancos, riscavam no verde nervos e medulas. Lá dentro, se enrolava o corpo da noite mais defendida e espessa. O chão, de impossível andada, era manta profunda, serapilheira em estrago e empapo, se amassando numa lama vegetal. Dormia um bafio triste, um relento chuvoso, dali torpe se respirava. No denso, no escuro, cogumelos e larvas olhavam suas luzinhas mortiças. Lívidos entes se encostavam, sem caras. (CB, p. 679, 680) 58 Figura 13: Mata Ciliar no curso do Rio Pandeiros, com destaque para o buriti. Autoria: Gabriel de Oliveira Veredas e ambientes alagadiços Barbosa (2002) encerra sua descrição do Sistema Biogeográfico do Cerrado abordando as veredas e ambientes alagadiços. O autor chama a atenção para o fato de que as veredas são mais frequentes no centro do Sistema em direção norte e leste. E, quando se aproxima do Pantanal Matogrossense, sudoeste do sistema, elas tendem a desaparecer, ao passo que as áreas alagadas aumentam (BARBOSA, 2002, p. 145). Segundo Boaventura (2007) as veredas são genericamente configuradas por “vales rasos, com vertentes côncavas suaves cobertas por solos arenosos, e fundo plano preenchido por solos argilosos, frequentemente turfosos, ou seja, com elevada concentração de restos vegetais decompostos” (BOAVENTURA, 2007, p. 34). Além disso, são áreas de surgência gradual da água acumulada a pouca 59 profundidade do solo, constituindo-se como uma zona de recarga, que capta a água das chuvas e a transmite para os lençóis subterrâneos. Nesta direção, Ribeiro (2007) afirma que elas possuem um significado geomorfológico, pedológico, hidrológico, florístico e faunístico próprio. Significado geomorfológico, porque são depressões suaves, vales pouco encaixados a quebrar a horizontalidade das superfícies aplainadas, quando se formam nos topos. Significado hidrológico e hidrográfico, porque as veredas delatam a existência de água na superfície ou na subsuperfície, criam um habitat diferente e possibilitam a dessedentação da fauna. Significado florístico, porque abrigam uma flora própria, distinta daquela dos cerrados e cerradões vizinhos, e são caracterizadas, muitas vezes, pela dominância e majestade dos buritis – Mauritia vinifera, Mart, que formam alinhamentos ou conjuntos ao longo do eixo de drenagem. E, no entorno da vegetação arbóreo-arbustiva, em solos mais arenosos, formando anfiteatros nas cabeceiras ou extensos campos nas bordas, sobressaem formações herbáceo- graminosas, estabelecendo corredores naturais e água disponível para a fauna e para o próprio homem (RIBEIRO, 2007, p. 134). 60 E o coração e corôo de tudo, o real daquela terra, eram as veredas vivendo em verde com o muito espelho de suas águas, para os passarinhos, mil – e o buritizal, realegre sempre em festa, o belo-belo dos buritis em tanto, a contra-sol (CB, p. 463). O senhor estude: o buriti é das margens, ele cai seus cocos na vereda – as águas levam – em beiras, o coquinho as águas mesmas replantam; daí o buritizal, de um lado e do outro se alinhando, acompanhando, que nem que por um cálculo. (GSV, p. 393) Figura 14 : Vereda no entorno do Parque Estadual Veredas do Peruaçu. Autoria: Frederico Gonçalves 61 Num campo de muitas águas. Os buritis faziam alteza, com suas vassouras de flores. Só um capim de vereda, que doidava de ser verde – verde, verde, verdeal (CB, p. 241). Figura 15: Alinhamento de buritis no Vão dos Buracos, Chapada Gaúcha – Autoria: Gabriel de Oliveira 62 Dali para cá, o senhor vem, começos do Carinhanha e do Piratinga filho do Urucuia – que os dois, de dois, se dão as costas. Saem dos mesmos brejos – buritizais enormes. Por lá, sucuri geme. Cada surucuiú do grosso: voa corpo no veado e se enrosca nele, abofa – trinta palmos! Tudo em volta, é um barro colador, que segura até casco de mula, arranca ferradura por ferradura. Com medo de mãe-cobra, se vê muito bicho retardar ponderado, paz de hora de poder água beber, esses escondidos atrás das touceiras de buritirana. Mas o sassafrás dá mato, guardando o poço; o que cheira um bom perfume. Jacaré grita, uma, duas, as três vezes, rouco roncado. Jacaré choca – olhalhão, crespido do lamal, feio mirando na gente. Eh, ele sabe se engordar. Nas lagoas aonde nem um de asas não pousa, por causa da fome de jacaré e da piranha serrafina. Ou outra – lagoa que nem não abre o olho, de tanto junco. Daí longe em longe, os brejos vão virando rios. Buritizal vem com eles, buriti se segue, segue (GSV, p. 47). Figura 16: Entardecer no Parque Estadual Veredas do Peruaçu – Autoria: Frederico Gonçalves 63 O grande sertão, as veredas e o mundo biodiverso da caderneta Além da variedade de ambientes, diferenciados anteriormente pelos seis subsitemas biogeográficos, uma importante dualidade ambiental do cerrado é amplamente tratada na obra de Guimarães Rosa. As travessias de seus personagens percorrem a todo o momento um ambiente de configuração mutável: revelado ora pelo aspecto árido da vegetação, o formato tortuoso das árvores e o solo de má qualidade, “onde a terra e o pasto pobrejam tanto” (CB, p. 249); ora pelo maravilhoso mundo dos grandes rios, “num campo de muitas águas” (CB, p. 241) e da diversidade das plantas e animais, da beleza dos buritis, das veredas e formações rochosas. Segundo avaliação de Monteiro (2006), um dos elementos que exemplificam o vínculo entre o “real” e o “mítico” na geografia do sertão de Guimarães Rosa é, justamente, o contraste entre os oponentes higrométricos: “o difícil e rude sertão e ‘o verde macio’, ‘belimbeleza’ das veredas” (MONTEIRO, 2006, p. 50, 51). No prefácio de Grande Sertão: Veredas, Paulo Rónai (2001) chama a atenção para o padrão ambíguo recorrente nesta obra, embaralhado na linguagem e no fluxo de memória do narrador. O protagonista Riobaldo é empenhado em definir o termo grande sertão, com nítido conteúdo geográfico e ainda imbuído de outros significados vagos e amplos. Para Rónai, o grande sertão é a contraposição simbólica das veredas: Para quem nele nasceu e viveu e com ele se identificou, o “sertão” acaba sendo toda a confusa e tumultuosa massa do mundo sensível, caos ilimitado de que só uma parte ínfima nos é dado a conhecer, precisamente a que avista ao longo das “veredas”, tênues canais de penetração e comunicação. Assim o sinal ___ : ___ entre os dois elementos do título teria valor adversativo, estabelecendo a oposição entre a imensa realidade inabrangível e suas mínimas parcelas acessíveis, ou noutras palavras, entre o intuível e o conhecível (RÓNAI, 2001, p.17). Partindo desta interpretação simbólica, corroborada por outros críticos da literatura brasileira, podemos chegar à idéia da oposição entre o grande sertão e as veredas também pela peculiaridade ambiental das paisagens rosianas, em que o dualismo, desta vez, se configura por meio das diversas fisionomias do cerrado. 64 É possível verificar na descrição dos gerais apresentada por Rosa ao tradutor italiano, indícios que evidenciam a bifacialidade desta vasta paisagem. No trecho a seguir, ele circunscreve a região sob o ponto de vista topográfico, morfológico, pedológico e vegetacional. Além da conotação negativa atribuída ao solo e vegetação do cerrado, verifica-se um amplo conhecimento geográfico do escritor, ao realçar a dinâmica hidrológica, o processo de infiltração das águas das chuvas e a capacidade adaptativa das espécies arbóreas no bioma: O que caracteriza esses GERAIS são as chapadas (planaltos, amplas elevações de terreno, chatas, às vezes serras mais ou menos tabulares) e os chapadões (grandes imensas chapadas, às vezes séries de chapadas). São de terra péssima, vários tipos sobrepostos de arenito, infértil. [...] E tão poroso, que, quando bate chuva, não se forma lama nem se vêem enxurradas, a água se infiltra, rápida, sem deixar vestígios, nem se vê, logo depois, que choveu. A vegetação é a do cerrado: arvorezinhas tortas, baixas, enfezadas (só persistem porque teem longuíssimas raízes verticais, pivotantes, que mergulham a incríveis profundidades). E o capim, ali, é áspero, de péssima qualidade [...] Árvores, arbustos e má relva, são nas chapadas, de um verde comum, feio, monótono (ROSA, 2003, p. 40, grifos nossos). Logo depois desta caracterização, o autor esclarece também o papel das veredas dentro do contexto ambiental do cerrado, com importante desempenho ecológico e social. Assim, percebemos que, além daquele significado de “canais de comunicação” dentro do espaço amplo, perigoso e ameaçador do sertão, as veredas também exercem sua função ecológica, cumprindo o papel de oásis em relação às áreas de chapadas: Mas, por entre as chapadas, separando-as (ou, às vezes, mesmo no alto, em depressões no meio das chapadas) há as veredas. São vales de chão argiloso ou turfo-argiloso, onde aflora a água absorvida. Nas veredas há sempre o buriti. De longe a gente avista os buritis, e já sabe: lá se encontra água. A vereda é um oásis. Em relação às chapadas, elas são, as veredas, de belo verde-claro, aprazível, macio. O capim é verdinho-claro, bom. As veredas são férteis. Cheias de animais, de pássaros (ROSA, 2003, p. 41, grifos nossos). [...] Nas veredas há às vezes grande matas, comuns. Mas, o centro, o íntimo vivinho e colorido da vereda, é sempre ornado de buritis, buritiranas, sassafrás e pindaíbas, à beira da água. As veredas são sempre belas! (ROSA, 2003, p. 42, grifos nossos). 65 Guimarães Rosa narra com precisão este ambiente para que o tradutor seja capaz de interpretar e sentir a relevância das veredas dentro da realidade do sertão rosiano. A ocorrência das veredas, condicionadas ao afloramento do lençol freático, exercem papel fundamental no sistema hidrológico e na manutenção da fauna do bioma, como local de pouso para a avifauna ou como refúgio, abrigo, fonte de alimento e local de reprodução para fauna terrestre e aquática. As veredas também tiveram grande influência para os primeiros núcleos de povoamento humano da região e até hoje é fator condicionante para fixação do homem do campo. O padrão dual da fitofisionomia do sertão e das veredas é mais uma das ambiguidades que surgem na obra de Rosa, neste caso, representado pela geografia física e pela ecologia do bioma. São inúmeros os exemplos de como se desdobra esta dualidade ambiental em seus livros e também sobre a importância do detalhamento descritivo dos gerais para os tradutores. O trecho a seguir exemplifica como o cenário ficcional se assemelha ao relato revelado anteriormente para Bizzarri, inclusive ao expor a contraposição da qual estamos analisando. Trata-se de um fragmento de “Cara-de-Bronze”, novela que compõe o livro Corpo de Baile: Mar a redor, fim a fora iam-se os Gerais [...]: mesas quebradas e mesas planas, das chapadas, onde há areia; para o verde sujo de más árvores, o grameal e o agreste – um capim rude, que boca de burro ou boi não quer; e água e alegre relva arrozã, só nos transvales das veredas, cada qual, que refletem, orlantes, o cheiroso sassafrás, a buritirana espinhosa, e os buritis, os ramilhetes dos buritizais, os b u r i t i z a i s, os buritis bebentes (CB, p. 559, grifos nossos). O conhecimento profundo de Guimarães Rosa em relação à natureza do sertão se justifica pela íntima relação com sua região natal, e também por uma sistemática pesquisa bibliográfica e viagens de campo realizadas com auxílio da famosa caderneta de anotações. Os anos que separam Sagarana (1946) e os livros Corpo de Baile e Grande Sertão: veredas - ambos lançados em 1956 - se destacam na vida e obra do autor pelo fato de não existirem nenhum registro de obras de sua autoria nesta época. Este é um período chave em que Rosa realizou viagens de documentação não só pelo Sertão de Minas (em dezembro de 1945 e maio de 66 1952), mas também pelo Pantanal mato-grossense (julho de 1947) e sertão da Bahia (junho de 1952). Ao analisar estas cadernetas de viagem, o ensaio de Ana Luiza Costa (2008), João Rosa, Viator, e o livro de Mônica Meyer (2008), Ser-tão natureza: a natureza em Guimarães Rosa, tocam em um ponto essencial para apreensão do mundo literário do escritor, pois tentam ir ao cerne de elementos de inspiração e de impulso para sua escritura, como a viagem, o contato com a terra, com a natureza e com a cultura do sertão. As observações feitas pelas autoras mostram que os diários de viagem representam um inventário informal da fauna e da flora do sertão e uma descrição da vida sociocultural do vaqueiro. Observa-se um rico arcabouço de detalhes ambientais e culturais que foram essenciais para a “construção” dos livros de Guimarães Rosa, permitindo a “camuflagem” entre o sertão real e o sertão inventado. Na abordagem de Costa (2008), Guimarães percorre dois caminhos convergentes, dialogando com Euclides da Cunha e com relatos de viajantes do século XIX: [...] por um lado, dialogando com Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902), e com a tradição da épica oral, ele desenvolve uma reflexão sobre a “cultura boiera”, centrada na relação entre o homem e o boi no universo do sertão; por outro lado, em diálogo com relatos de viajantes do século XIX que descreveram o sertão do Brasil, ele incorpora a viagem como procedimento narrativo [...] (COSTA, 2008, p. 314). Como resultado disso, a biodiversidade do cerrado ganha vida poética ao ser exposta e trabalhada minuciosamente nos textos literários do autor. Em “Cara- de-Bronze”, por exemplo, há a presença massiva de notas de rodapé - técnica pouco incorporada pela literatura - preenchidas por variados nomes de espécies da flora e da fauna deste bioma brasileiro. Na estória, um dos vaqueiros é escolhido pelo misterioso proprietário de uma fazenda, para realizar uma viagem até sua terra natal e narrar o “quem das coisas”, derivando em um múltiplo relato e uma visão poética do universo sertanejo. 67 Novamente referenciado pelas correspondências com o tradutor italiano, o escritor explica que nesta novela, o já idoso e rico fazendeiro, apelidado de “Cara- de-Bronze”, é fortemente tomado pela tristeza e pela doença, uma paralisia, “que é a exteriorização de uma como que ‘paralisia da alma’” (ROSA, 2003, p.94). E pede ao Grivo, vaqueiro de maior sensibilidade entre os trabalhadores locais, para “captar a poesia das paisagens e lugares” de sua terra natal. Na medida em que Grivo vai descrevendo os elementos da paisagem, se desenvolve uma verdadeira enxurrada de nomes populares da diversidade biológica do cerrado. Apesar das denominações de árvores, arbustos, plantas, cipós, ervas, aves, mamíferos e répteis, serem, aparentemente, registros aleatórios nas notas de rodapé, Rosa revela que todos pertencem rigorosamente à região e são enumerados apenas aqueles “que contém poesia em seus nomes: seja pelo significado, absurdo, estranho, [...] seja pelo picante, poetizante, do termo tupí, etc” (ROSA, 2003, p. 94). O autor desvenda ainda uma “estorinha”, que pode ser lida nas entrelinhas, a partir de nomes da flora regional: - E os arbustos, as plantinhas, os cipós e as ervas? - A damiana, a angélica-do-sertão, a douradinha-do-campo. O joão- venâncio, o chapéu-de-couro, o bom-homem. O boa-tarde. O cabelo-de-anjo, o balança-cachos, o bilo-bilo. O alfinete-de-noiva. O peito-de-moça. O braço-de-preguiça. O aperta-joão. O são- gonçalino. A ata-brava, a brada-mundo, a gritadeira-do-campo (CB, p. 604). A cada oração desta passagem há algum acontecimento relativo aos nomes das espécies, compondo a “estorinha”. Primeiro, há a apresentação de uma moça no campo: “a damiana, a angélica-do-sertão, a douradinha-do-campo”; depois é a vinda do rapaz, um vaqueiro: “o joão-venâncio, o chapéu-de-couro, o bom-homem”. Ele cumprimenta a moça: “O boa-tarde”; a atitude dela: “O cabelo-de-anjo, o balança-cachos”, e o rapaz tentando acariciá-la: “o bilo-bilo”. Depois, o óbvio: “o alfinete-de-noiva e o peito-de-moça”. O “braço de preguiça” é a mão boba; o“são- gonçalinho” representa o membro viril; e por fim a reação da moça alarmada, brava, aos gritos: “A ata-brava, a brada-mundo, a gritadeira-do-campo” (ROSA, 2003, p. 94). 68 Este é apenas um dos exemplos em que o desdobrar poético da natureza do sertão transparece como fruto da experiência documentária de Guimarães Rosa. Além deste último relato, o escritor também faz questão de mencionar o nome científico das espécies vegetais e animais regionais para seus tradutores. Indicando ainda explicações acerca da etimologia das palavras e outros elementos que praticamente formam um Glossário do conhecimento erudito e popular adquirido ao longo dos anos, no que diz respeito à grande riqueza do bioma central brasileiro, especialmente do sertão mineiro. Além da biodiversidade marcante nas descrições do autor, o Cerrado, por si só, evidencia uma rica trajetória histórica, marcada pela íntima relação dos seus povos com a paisagem natural do Brasil Central. No próximo subcapítulo será analisado como se desenvolveu o “mar de territórios” do Ser-tão Cerrado e como se instituíram as relações sociais e culturais que deram forma e identidade a sua representação espacial. 69 Ser-tão Cerrado: um mar de territórios A descrição física da ambiência dos gerais é fundamental para entendermos como se caracteriza a população e como ela se organiza diante às condições naturais deste espaço. O domínio dos cerrados não pode ser analisado apenas sob o panorama do rico arcabouço constituído por suas características físicas (tipos de solo, formas do relevo, clima, potencial hídrico, fitofisionomias). O bioma integra também a perspectiva do patrimônio cultural e humano, compondo um palco de disputas simbólicas, baseadas em estratégias de usos que dão suporte a sua logística espacial. Estes são alguns dos fatores que levaram aos autores Eguimar Chaveiro e Celene Cunha Barreira (2010) a proclamarem o cerrado como um “Bioma- território”: formado pelas diferentes paisagens naturais e uma rica biodiversidade; e pela acepção do território e seus múltiplos sujeitos – “organizados como territorialidades, vinculados a dispositivos sociais e culturais de diferentes matizes” (PELÁ; CASTILHO, 2010, p. 11). O bioma é resultado de um produto histórico, de composição natural e social, que vem se modificando drasticamente nas últimas décadas. A história do Cerrado é preenchida por uma importante trajetória traçada durante milhares de anos antes das primeiras embarcações portuguesas avistarem o “novo mundo”. Desde a primeira ocupação levada a efeito pelo homem na região, é notória a importância da relação humana com os recursos naturais existentes e com a dinâmica ecológica do bioma. Altair Sales Barbosa e Pedro Ignacio Shmitz (2008) realizaram um importante estudo sobre o histórico de ocupação do Cerrado e dos Chapadões do Brasil Central, a partir das primeiras migrações de contingentes humanos para a região. Evidenciou-se que as mudanças ambientais foram determinantes para a intensa movimentação de populações no continente, principalmente a partir de 12 mil anos antes do presente (AP). A diminuição de savanas e o início de desertificação em certos locais acentuaram o processo de redução da fauna, sobretudo a de animais gigantes na parte centro-norte ocidental do continente Sul-Americano. Este período coincide 70 com o avanço das áreas florestais sobre as áreas de Caatinga, nas depressões e nas áreas de Cerrado, nos baixos platôs da Amazônia (BARBOSA & SHMITZ, 2008, p. 52). Segundo os autores, as movimentações humanas relacionavam-se com modificações de ordem ambiental e também por fatores mediados pela cultura, em que as populações seriam impulsionadas a buscar novas formas de organização ambiental e social, como alternativa de sobrevivência. Desta forma, as migrações partiram das regiões norte-ocidentais em direção ao leste do continente, provavelmente influenciadas pela presença de áreas abertas do Cerrado ainda existente em manchas significativas nos baixos chapadões da Amazônia - semelhantes às savanas habitadas anteriormente. Este fato favoreceu novas expectativas de sobrevivência e novos arranjos culturais, desencadeando os processos iniciais de colonização das áreas interioranas do continente (BARBOSA & SHMITZ, 2008, p. 49). À medida que as populações se adaptavam às condições ambientais encontradas, a colonização de novas terras passava a se aproximar da área nuclear dos chapadões do Brasil Central. Desta forma, na origem de ocupação do Cerrado já se estabeleceu uma forte sinergia entre a paisagem e as populações humanas, a partir de quatro fatores principais: clima, abrigos naturais, recursos vegetais e relação com a fauna. No que se refere ao clima, tanto em relação aos limites atuais quanto aos antigos, a área do Cerrado caracteriza-se “pela estabilidade e por um ciclo climático aliado a um biológico bastante homogêneo, fato que permite, às populações de economia simples, a adoção de um planejamento também homogêneo” (BARBOSA & SHMITZ, 2008, p. 51). Os abrigos naturais são elementos fundamentais para que os grupos humanos se estabelecessem em determinadas épocas do ano. Os recursos vegetais, como fibras, lenha, folhas ásperas eram utilizados para a cobertura destes abrigos. Além disso, o Cerrado é o sistema biogeográfico que fornece maior variedade de frutos comestíveis. E a grande porcentagem de biomassa animal, representada por animais de médio e pequeno portes, associada à oferta de frutos e de outros recursos vegetais, constituía fonte 71 de grande importância para essas populações, que, lentamente, aperfeiçoavam um sistema generalizado de caça e coleta de frutos (BARBOSA & SHMITZ, 2008, p. 51 – 53). Todo este processo resultaria na ocupação efetiva do interior do continente sul-americano, representada pela Tradição Itaparica, “que se estendeu por vários pontos da região do Cerrado e possui um artesanato lítico muito homogêneo, guardando uma íntima ligação com os usos dos recursos naturais do Brasil Central” (RIBEIRO, 2005, p. 71). Este complexo cultural e seus mecanismos adaptativos ainda perduraram por 2 mil anos, mantendo algumas características e com um sistema econômico e tecnológico específico. Novas atividades econômicas foram acrescentadas no processo histórico que se seguiu na região, especialmente pela introdução da agricultura, que permitiu a formação de sociedades “mais populosas, mais estáveis e menos dependentes dos abrigos naturais nos períodos de maior intempérie” (RIBEIRO, 2005, p. 92). Tanto Barbosa & Shimtz (2008), como Ricaro Ribeiro (2005), analisam as diversas tradições e fases da Pré-História do Cerrado, permitindo a identificação cultural e geográfica destes povos com os grupos indígenas pertencentes ao Tronco Linguístico Macro-Jê, encontrados pelos colonizadores europeus. As distintas trajetórias percorridas pelas sociedades indígenas que viveram no Cerrado, ao longo dos séculos, sofreram grandes consequências com a chegada dos bandeirantes paulistas a partir do século XVII. Interessados na expansão territorial da Nação, na conquista de territórios mineradores e na escravização e comercialização de índios, a presença dos conquistadores instituiu um novo tipo de relação naquelas terras: Esses contatos diretos com os bandeirantes, que ainda encontravam as tribos plenamente instaladas, com suas aldeias, seus roçados, seus campos de caça e coleta, como havia sido em épocas passadas, provocaram não só a desagregação social – com a diminuição das tribos por escravização, guerras e doenças -, mas também a deterioração econômica, provocada pela posse de espaços vitais, que atingiram os cultivos, com a pilhagem das roças, e a desorganização dos espaços de cada aldeia. Tudo isso, ao final, levou os grupos à guerra, primeiro contra os arraiais 72 brancos, e, em seguida, a guerrearem entre si (BARBOSA & SHIMTZ, 2008, p. 64). Por outro lado, apesar deste comportamento baseado na degradação cultural e na violência, “os bandeirantes também se transformavam nos principais difusores das antigas traduções referentes ao uso, manejo, conhecimentos e representações simbólicas em torno do Cerrado” (RIBEIRO, 2005, p. 145). Portanto, se o conhecimento e crenças dos povos indígenas foram, em grande parte, ignorados pelos exploradores, outra parcela das heranças destas sociedades se transmitiu para aquela que viria a ser chamada de “sociedade sertaneja”, principalmente no que se refere aos usos dos recursos naturais do bioma. Com o desenvolvimento do Brasil colônia, intensificado por atividades comerciais e garimpeiras, foi se incrementando também uma sociedade urbana integrada ao circuito econômico e cultural europeu, se distanciando da cultura indígena e dos primeiros colonizadores paulistas. “Aí se configuraria uma sociedade sertaneja, nem indígena, nem bandeirante, mas herdeira de muitas de suas tradições” (RIBEIRO, 2005, p. 171). Paralelamente às investidas dos paulistas e suas grandes ambições de enriquecimento, armados por uma tecnologia efetiva e um projeto de conquistas de território, existia também outra rota de entrada pelo interior do país, através das terras áridas do Nordeste, tendo o Rio São Francisco como eixo condutor. Ao longo dos anos, este caminho serviu de trilha para fazer descer o gado do Nordeste até a região das Minas Gerais, sobretudo, no início do século XVIII, no auge do ciclo do ouro no Estado. Para Darcy Ribeiro (2006), o Sertão, em traços gerais, desenvolveu-se a partir de uma economia pastoril operando originalmente como fornecedora de carne, de couro e de bois de serviço. Assim, conformou-se uma subcultura própria do sertanejo, com algumas marcas principais, como a: [...] especialização ao pastoreio, a dispersão espacial e traços característicos identificáveis no modo de vida, na organização da família, na estruturação do poder, na vestimenta típica, nos folguedos estacionais, na dieta, na culinária, na visão de mundo [...] (RIBEIRO, 2006, p. 307). 73 O gado trazido pelos portugueses das ilhas de Cabo Verde foi instalado primeiramente no agreste pernambucano e na orla do recôncavo baiano. Daí os primeiros lotes se multiplicaram e dispersaram por currais, ao longo dos rios, formando as ribeiras pastoris. Segundo o autor, ao fim do século XVI, os criadores baianos e pernambucanos se encontravam já nos sertões do Rio São Francisco, rumo às terras do Piauí e Maranhão e também em direção ao Sul, subindo o rio a caminho de Minas Gerais (RIBEIRO, 2006, p. 307). A economia pastoril foi se estabelecendo ao longo de seu percurso em grandes latifúndios, somada sempre às atividades camponesas, como uma economia de abastecimento interno. A partir destas características, o sertão configurou-se com um duplo perfil de região atrasada e de espaço portador de uma brasilidade específica (BOLLE, 2004, p. 53). Desde o período da chegada dos portugueses no Brasil, o sertão vem ganhando representações elaboradas por distintos segmentos da sociedade brasileira. Com a expansão das bandeiras e, depois com as viagens científicas realizadas pelos naturalistas no século XIX, novas interpretações sobre o interior do país foram sendo compostas sempre pela ótica dos novos “desbravadores”. Desde então, um imaginário negativo a respeito do Cerrado e do sertão foi capaz de consolidar a ideia de que haveria aqui dois Brasis – “um do litoral e outro do sertão; um superior e outro do interior, um integrado ao progresso do mundo desenvolvido e outro desintregado” (CHAVEIRO; BARREIRA, 2010, p. 26). Tudo isso criou uma significação que Maria Geralda Almeida (2003) chama de “duplo enquadramento”. Um primeiro quadro retrata a visão elaborada pelos “de fora”, viajantes e cronistas cujas narrativas se destinavam a saciar a curiosidade de outros e ensinar o que havia no Brasil; e o segundo quadro resgata os sertões enquanto lugar, espaço de experiência e vivência dos sertanejos, os “de dentro”. Portanto, o duplo enquadramento se dá, por um lado, pela paisagem moldada pelo olhar estrangeiro; e, por outro, o sertão adquire forma do lugar/espaço vivido, permeado de valores ligados à maneira como os indivíduos apreendem o meio ambiente e entram em relação com ele. 74 Na história brasileira, o termo sertão ganhou mais notoriedade em duas frentes principais: no Nordeste brasileiro, nos chamados sertões da caatinga nordestina; e também em outras áreas do Brasil Central, onde a vegetação do cerrado se estabeleceu em vastas dimensões. Os gerais, termo frequentemente utilizado por Guimarães Rosa, também se confunde com a idéia de sertão e cerrado, formando uma tríade de vocábulos de semelhantes significados entre si. A idéia destas três palavras no imaginário brasileiro normalmente está vinculada a noção de isolamento, lugar longínquo, espaço refratário à modernização, incivilizado, selvagem, desconhecido. Carlos Augusto Monteiro (2006, p. 48) lembra que em todos os países de grandes extensões, nos diferentes continentes, há a oposição entre a face externa (litorânea), que se abre às trocas, intercâmbios e facilidades de mudanças, e aquela interna (interior), lentamente conquistada, lugar de refúgio e distâncias. Assim, para os francófonos existe a distinção do avant e o arrière pays e para os anglófonos o front e back lands. Em outro texto, o autor ainda cita exemplos específicos que se equivalem ao nosso sertão, como o Oeste norte-americano (Middle-Far) e, sobretudo na Austrália, onde há um grande contraste entre o litoral do sudeste e o out back rude do coração seco do país (MONTEIRO, 2010, p. 128). Estas características convergem para o que Walnice Galvão (2001) avalia sobre a origem da palavra sertão. Mesmo antes do descobrimento do Brasil, o termo já era utilizado na África e até mesmo em Portugal, mas diferente do que se pensava, não significava uma corruptela de desertão - indicativa de aridez, secura e esterelidade - mas sim a noção de interior, de distante da costa. Por isso, o sertão pode até ser formado por florestas, contanto que sejam afastadas do mar: O vocábulo se escrevia mais freqüentemente com c (certam e certão) [...] do que com s. E vai encontrar a etimologia correta no Dicionário da língua bunda de Angola, de frei Bernardo Maria de Carnecatim (1804), onde o verbete muceltão, bem como sua corruptela certão, e dado como locus mediterraneus, isto é, um lugar que fica no centro ou no meio das terras. Ainda mais, na língua original era sinônimo de “mato”, sentido correntemente usado na África Portuguesa, só depois ampliando-se para “mato longe da costa”. Os portugueses levaram-na para sua pátria e logo trouxeram-na para o Brasil, onde teve longa vida, aplicação e destino literário. (GALVAO, 2001, p. 16). 75 O sertão, portanto, possui uma longa história desde a chegada dos colonizadores no país até os dias atuais. Concordamos com Ricardo Ribeiro (2005) quando o autor considera que as fronteiras deste “mato longe da costa” sempre foram móveis e se definiram muito menos pela geografia do que pelo jogo das identidades culturais. Apesar de ser reconhecida oficialmente como uma subárea pelo IBGE, a situar mais para o interior, além da “zona da mata” e do “agreste” no Nordeste, “pertencer ao sertão tem um significado muito mais profundo, por toda a carga negativa construída, historicamente, em torno desta categoria” (RIBEIRO, 2005, p. 60). Por isso, a dimensão cultural deve ser prioritariamente encarada ao tratar o sertão, ou mesmo o Cerrado, já que é pela cultura que as populações fazem a sua mediação com o mundo e constroem um modo de vida particular, além de se enraizarem no território (CLAVAL, 1995). Assim como o sertão, o Cerrado também foi retratado pelos “de fora” como um lugar de atraso, um lugar que deveria ceder espaço aos padrões estabelecidos pela civilização e ao “destino” da modernização imposto ao bioma, principalmente no decorrer do século XX. Desta forma, criou-se um dogma depreciativo em que o Cerrado seria composto por uma vegetação pobre, de árvores tortas, sobre um solo seco e infértil. O bioma passou por muito tempo como signo de uma mentalidade pejorativa, elaborada por aqueles que viam o mundo a partir da racionalidade européia, tanto em relação ao complexo ecológico, como pelo que diz respeito a sua gente: Solo pobre, vegetação exótica e rastejante, povo rude, economia atrasada, ritmo lento, falta de ambição, costumes gentios, pouca circulação de informação, distância das instituições liberais, ínfima presença do dinheiro, vida simples e parca etc, marcam o enredo desse olhar que timbrava o cerrado como estranho território selvático (CHAVEIRO, 2008, p. 87) No entanto, a visão “de dentro” do bioma carrega outra porção de significados, encontrados nos traços afetivos que suas populações constroem continuamente em seus territórios. Estas sociedades se desenvolveram ao longo de séculos com modos de vida acoplados aos ecossistemas do bioma, inclusive respeitando os diferentes subsistemas biogeográficos descritos anteriormente, ancorados por uma produção primária (extrativismo, caça e pesca) e em 76 estratégias agropecuárias. Neste sentido, Mazzeto (2005) chama a atenção para os diversos modos de apropriação camponesa que “foram sendo criados e recriados ao longo dos séculos, forjando identidades camponesas também diferenciadas no âmbito do Cerrado” (MAZZETO, 2005, p. 227). O autor destaca os gerazeiros do Norte Minas, os geraizenses dos Gerais de Balsas/MA, retireiros em áreas alagadas do Araguaia/MT, barranqueiros e vazanteiros da beira e ilhas do São Francisco/MG, quebradeiras de coco na Zona dos Cocais/ MA, dentre outras denominações espalhadas no domínio dos cerrados. Podemos perceber que a maioria destas denominações identitárias espalhadas pelo domínio do cerrados se referem aos ecossistemas que estas populações habitam, sejam áreas alagadas, várzeas, chapadas ou veredas, indicando a íntima relação histórica destes povos com o seu ambiente. Os núcleos camponeses espalhados pela região se organizavam principalmente em torno da produção coletiva e na utilização das chapadas para complementação alimentar e criação de gado “na solta”: As chapadas constituíam-se verdadeiros “bosques comunais”, onde se coletavam frutos alimentícios e plantas medicinais, praticava-se a caça e, por serem áreas de pastagens devido à presença de enorme variedade de forrageiras, criava-se extensivamente o gado, que tinha e tem a função de reserva de valor para os sujeitos de cada coletividade (LUZ et. al. 2008, p. 8). Na concepção de Luz et. al. (2008) a relação do sertanejo com a terra e com a natureza possui um caráter de “parceria” na reprodução de vida, constituída coletivamente e viabilizada por valores de solidariedade, como as relações de vizinhança e compadrio. Distanciada daquela visão pejorativa e excludente, para estas comunidades o Cerrado se configura como um verdadeiro hábitat, um espaço vivido pelos “povos cerradeiros”. Desta forma, ao descrever para o tradutor italiano como os moradores dos “gerais” ocupam e trabalham localmente, Guimarães Rosa dá detalhes de sua concepção sobre os geraizeiros e veredeiros, destacando a vereda e as chapadas como ambientes fundamentais para as populações locais: 77 Em geral, os moradores dos “gerais” ocupam as veredas, onde podem plantar roça e criar bois. São os veredeiros. Outros, moram mesmo no alto das chapadas perto das veredinhas ou das veredas altas, que, como disse, também há nas chapadas: estes são os “geralistas” propriamente ditos [...] Quem mora nos gerais, seja em vereda ou chapada, é geralista. Eu, por exemplo, Você, agora, também. (ROSA, 2003, p. 41, 42) Utilizando uma linguagem inovadora e aproveitando sua íntima relação com o sertão, Rosa consegue dar voz a este universo sertanejo/cerradeiro em suas obras, cedendo lugar ao mundo dos pobres, do vaqueiro, do violeiro, do jagunço, do maluco, da criança e compartilhando os anseios interiores e a visão de mundo destes personagens da cultura brasileira do Ser-tão Cerrado. Neste sentido, uma das grandes inovações do autor, do ponto de vista estético, está na capacidade de introduzir um posicionamento muito próximo entre o narrador e seus personagens, o que evidencia a grande identificação de Rosa com a matéria popular. Em Grande Sertão: Veredas, por exemplo, quem conta a estória, aquele que realmente possui algo importante a ser dito, é o jagunço iletrado, “contador de caso”, e quem escuta, com “fineza de atenção”, é o “doutor” da cidade. O mesmo panorama persiste em Corpo de Baile: as estórias ganham versões ora pela perspectiva do menino de família pobre, Miguilim (Campo Geral), ora pelo ponto de vista de vaqueiros, como o Grivo (Cara-de-Bronze), Lélio (Estória de Lélio e Lina) e Soropita (Dão-Lalalão), pelo enxadeiro Pedro Orósio (Recado do Morro), e também por idosos, como a feiticeira Dõ-nhã (Buriti) ou o velho Camilo (Uma estória de amor). O escritor, em contato direto com as comunidades rurais, expõe as subculturas dos gerais em seus livros de forma bastante completa, realizando uma espécie de mediação entre a cultura erudita - do médico, diplomata, poliglota - e a cultura popular, introduzida de maneira inédita até então na literatura brasileira. No longo trecho descrito pelo personagem Grivo, de “Cara-de-Bronze”, vemos um pouco da diversidade da população da região, desde as mulheres em seus ofícios, até caçadores, meninos, velhos e famílias em situações sociais mais críticas: Mulher na roca e no tear, fiando e tecendo seu algodão, sentada em esteirinha de buriti. Moça com o camocim à cabeça, na rodilha. Mulher-velha, com um rosário no pescoço. Mulher velha cruzando 78 bilros. Geralista caçador. Um que mangabêia. Veredeiro com chapéu-de-couro. Tão longe, tão longe. Cafua em toca, de buriti, com quintalim e cocorico de galo. Os meninozinhos vindo pelos caminhos perto, uns de bonita voz, pedindo à gente a bênção. Cafua: fumaça que de dia acena. E de noite às vezes têm uma vasqueira luzinha triste, de candeia. Velhos, cujos olhos não aprovam mais muito o viver, só no mexido da boca é que se espantam. Uns que vigiam seu chiqueirinho como um porco, de de dentro de sua casinha choupana, toda cheia com três dúzias de espigas de milho. Cada um conta acontecimentos e valentias de seu passado, acham que o recanto onde assistem é de todos o principal. O mundo ferve quieto. Papudos. De farrapos. Tudo vivente na remediação. O que, se eles têm, de comer, repartem: farinha, ovo duma galinha, abobrinha, bró de buriti, palmito de buriti, batata-doce, suas ervas. O que eles têm para comer? Comem suas mãos, o que nelas estiver. Doendo em sua falta-de- saúde, povo na miséria nos buraquinhos. Vez a vez, passa uma tropa: tropas de burros com cargas de trens, vêm beirando pelas veredas mais moradas, estradas de viajantes [...] A gente sabe que esses silêncios estão cheios de mais outras músicas (C.B. p. 612, 613). No que tange o sertão rosiano em suas diferentes nuances – tema do próximo capítulo – veremos que os traços na vida social nos gerais vão se modificando na medida em que o sertão se aproxima das influências citadinas, das trocas com outros modos de reprodução do cotidiano, inclusive no que diz respeito à organização da família e à estruturação do poder. Se em Grande Sertão: Veredas e alguns contos de Sagarana, o jaguncismo se configura praticamente como um sistema paralelo no que diz respeito à forma de “governar” o sertão, onde a violência é muito pouco reprimida e não existem instituições que garantam algum direito à população, em Corpo de Baile desponta uma vida rural mais organizada. Nos contos desta última obra é possível encontrar uma sociedade disposta em torno do núcleo familiar central referente ao proprietário da terra, no topo da escala social, a partir do qual se estabelecem as relações com outras camadas hierárquicas. Ou seja, outros fazendeiros detentores de menor poder, parceiros, vaqueiros, agregados, dentre outras posições deste meio social. Alguns elementos desta obra já sugerem algumas tensões e impasses no meio rural do sertão mineiro, vinculadas ao contexto histórico-social dos anos 40 e 50 no país. 79 Contudo, pode-se afirmar que ao realizar referência indireta a Brasília, em Primeiras Estórias, o autor se aproxima ainda mais da representação daquela que seria a 1ª fase da modernização desta região brasileira. Segundo Mazzeto (2006), este período inicial foi marcado pela construção da capital federal em 1960 e por toda a infraestrutura necessária para lhe dar suporte, além dos objetivos governamentais de integração nacional e interiorização demográfica. Após o falecimento do escritor em 1967, desdobram-se outras duas fases de modernização no domínio dos cerrados: a 2ª é marcada pela implantação de programas estatais modernizantes de desenvolvimento agropecuário, no período da chamada Revolução Verde; e a 3ª e atual fase (a partir de década de 90) é singularizada pela lógica privada de expansão do agronegócio, via atuação em redes de grandes corporações nacionais e internacionais (MAZZETO, 2006, p. 68). Desde então, este “Bioma-território” vem sofrendo uma pressão gigantesca para atender as demandas do negócio agroexportador. A pobreza do solo já não é obstáculo para a ocupação de grandes extensões de terras para agricultura moderna. Ao contrário da Amazônia sobre a qual se ergueu uma defesa ecológica internacionalizada, o Cerrado vem sendo a fronteira permitida, o espaço onde, desde a década de 1970, uma série de esforços de pesquisa e iniciativas de programas governamentais viabilizou sua domesticação agrícola e modernização concentradora (MAZZETO, 2009). Considerado a última fronteira agrícola do planeta (KLINK; MACHADO, 2005), o bioma já possui uma taxa de desmatamento alarmante. Segundo Mazzeto (2009, p. 94), as vertentes principais causadoras desta alta taxa estariam arroladas à grande pecuária de corte; a produção de grãos para exportação em sistema de grandes monoculturas; e a grande exploração da vegetação para o carvoejamento e a sustentação da indústria siderúrgica e celulósica de diversas regiões, com destaque para o estado de Minas Gerais. Por ser qualificada, na atualidade, como uma área rica em biodiversidade (5% da diversidade biológica do mundo), mas já bastante degradada, o bioma é classificado como um Hotspot de biodiversidade, com prioridade para 80 conservação13. Além disso, a localização central, combinada com a elevação topográfica e alta concentração de nascentes, permite a região ser uma grande coletora e distribuidora de água do território nacional, crucial para o abastecimento das regiões Centro-Sul, Nordeste, do Pantanal e até partes da Amazônia. Contudo, o Cerrado ainda é tratado pelas políticas públicas do país como o “Primo Pobre” entre os biomas brasileiros, apresentado sempre como o espaço a ser incorporado pelas artimanhas do desenvolvimentismo. Talvez por não possuir a exuberância e o status ecológico da Floresta Amazônica e Mata Atlântica, nem os atrativos turísticos do Pantanal – as três regiões naturais brasileiras reconhecidas como Patrimônio Nacional – o bioma passou despercebido durante muito tempo, como se fosse uma savana esquecida entre duas florestas tropicais. Até a década de 1960, este território foi praticamente abandonado pelo Estado, que só iria atuar de fato na região após a construção de Brasília e por meio dos projetos modernizantes que a sucederam. É necessário voltarmos à concepção de Chaveiro e Barreira (2010) para refletirmos a respeito de uma questão fundamental nesta discussão: “qual é a lógica que nega o cerrado e o abandona num momento, mas o mantém preservado?”. Ou seja, a lógica de um Estado que se abdica da região “inóspita”, até a década de 1960, em contraposição ao envolvimento intrínseco dos povos cerradeiros, camponeses e indígenas que, independente de qualquer atuação governamental, mantiveram o Cerrado em pé, e com ótimo estado de preservação. “E qual é a lógica que o transforma, o insere na economia nacional e mundial, o faz peça de marketing e o destrói?” (CHAVEIRO, BARREIRO, 2010, p. 17). Antes de colocarmos estes questionamentos em debate, enfocaremos no próximo capítulo os três momentos que tangem a realidade ficcional de Rosa, inspirados em episódios vivenciados durante o trabalho de campo. No total, estes 13 Os Hotspots de biodiversidade são áreas com alta incidência de biodiversidade e que estão ameaçadas em grau elevado. Foram classificadas 34 regiões em todo o planeta, que possuem ao menos 1500 espécies endêmicas e que já perderam grande parte (3/4) de sua vegetação original. No Brasil, além do Cerrado, a Mata Atlântica também é área prioritária para conservação. 81 episódios compõem sete insights: o primeiro introduz a travessia; os quatro seguintes trazem reflexões específicas sobre o sistema jagunço de Grande Sertão: veredas, os gerais em movimento de Corpo de Baile e ao mundo maquinal de Primeiras Estórias; por fim, os dois últimos episódios trazem à tona as principais considerações a cerca do “sertão presente”. 82 Capítulo 2 O sertão movimentante todo-tempo Toute aventure humaine, quelque singulière qu’elle paraisse, engage l’humanité entière Jean Paul Sartre 83 Prelúdio do sertão, na imensidade do Rio Medo maior que se tem, é de vir canoando num ribeirãozinho, e dar, sem espera, no corpo dum rio grande... 12 – X – 2012 – Encontro do de-Janeiro com o São Francisco14 A emblemática travessia de Riobaldo em Grande Sertão: veredas principia na confluência do Rio de Janeiro – “quase só um rego verde só” – com o Rio São Francisco – “aquela terrível água de largura” (GSV, pg. 120-121). “Balançando no estado do rio” (GSV, pg. 119), numa canoa meio bamba, Riobaldo atravessa o Rio do Chico ao lado de Diadorim. O primeiro encontro entre os dois ainda adolescentes marca a passagem iniciatória no romance de Rosa: “Foi um fato que se deu, um dia, se abriu, o primeiro” (GSV, pg. 116 – 126). É neste local onde também damos o primeiro passo relativo às paisagens de Grande Sertão: veredas no percurso de campo. Para chegar ao marco iniciativo da vida adulta de Riobaldo é preciso cruzar uma confusa estrada que liga Andrequicé, distrito de Três Marias, até a Fazenda da Sirga 15, beirando o Rio São Francisco e sufocantes labirintos de eucaliptais. No meio desta estrada é possível dar a primeira visada do Rio que partiu a vida de Riobaldo “em duas partes”. Algo que também significaria para nós, naquele momento, “uma transformação, pesável” (GSV, pg. 125). Este insight/episódio de campo funciona como um texto introdutório para tratar os três momentos alegóricos do sertão rosiano, com base em eventuais experiências do trabalho de campo. Para alguns estudiosos da obra rosiana, a presença da água e dos rios podem ser consideradas grandes metáforas em Grande Sertão: veredas. Alan 14 Utilizaremos a mesma grafia empregada por Guimarães Rosa em sua caderneta de campo para se referir as datas da Boiada de 1952, com algarismos arábicos e romanos (ROSA, 2011). 15 Fazenda que era propriedade de Francisco Guimarães Moreira, primo de Guimarães Rosa, e onde se iniciou a viagem da boiada de 1952. A Sirga foi transfigurada literariamente como Fazenda da Samarra, na novela “Uma estória de amor”, de Corpo de Baile. A respeito disso, o escritor explica ao tradutor italiano que: “a SIRGA existe, mesmo; mas escolhi-a também pela beleza que achei no nome, pouco comumente usado (sirga = corda com que se puxa embarcação, ao longo da margem). Já, na própria estória ‘UMA ESTÓRIA DE AMOR’, troquei-o pelo de Samarra, que ainda me apareceu mais sugestivo” (ROSA, 2003, pg. 124). 84 Viggiano lembra que os rios estão sempre entrecortando o roteiro de Riobaldo no continuum espacial do romance (VIGGIANO, 1978, pg. 16). As próprias fases das vidas dos personagens e os grandes momentos no livro estão relacionados aos rios, como mostra Cavalcanti Proença, em Trilhas no Grande Sertão (1959): a cólera pela morte de Joca Ramiro é representada por uma enchente; a morte de Medeiro Vaz acontece em meio a uma chuva pesada; e a marcante presença do Rio Urucuia, responsável por atribuir identificação a Riobaldo, “Meu rio de amor é o Urucuia” (PROENÇA, 1959). Portanto, o romance de Rosa é, em sua essência, composto por esta “metáfora-fluvial” (BOLLE, 2004, pg. 77). Bolle ainda interpreta que o “baldo” do nome de Riobaldo é incorporado ao núcleo do verbo alemão “baldowern” (“explorador”), chegando à imagem do protagonista-narrador como explorador de um rio, um autêntico “narrador rio” 16. Adélia Bezerra de Menezes (2002) aprofunda mais o tema ao perceber a realidade mítica e mágica do rio, além de sua subsistência geográfica. Para a autora, a “matéria vertente” da conversa de Riobaldo com o doutor culto da cidade alia os planos geográficos e psicológicos, por exemplo, quando associa a fala do narrador ao rio que despenha do alto: “Lhe mostrar os altos claros das Almas: rio despenha de lá, numa afã, de espuma próspero, gruge; cada cachoeira, só tombos” (GSV, pg. 42). Portanto, “mostrar os altos claros das almas” de onde caem as águas do rio pode ser “uma explanação do termo ‘Psico-análise’, se estivermos atentos à etimologia de psique = alma e à ‘Aufklärung’, ao percurso de ‘esclarecimento’ que o processo analítico propicia” (MENEZES, 2002, pg. 10). Utilizando-se de outras referências do texto, Menezes vincula a comunhão profunda entre homem e Rio em Grande Sertão: veredas - “se o sertão é o 16 Apesar da divergência desta interpretação com outras leituras do nome de Riobaldo, Bolle sustenta o argumento segundo vários elementos do romance rosiano, citando três, em especial: “1. a identificação explícita do narrador com o elemento fluvial: [...] ‘penso como um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal vejo...’; (...) 2. a intenção de contar a ‘matéria vertente, ou seja, decifrar o ‘grande sertão’ por meio das ‘veredas’ que ‘sabem’ dele; (...) 3. a significação alegórica da leitura dos cursos d’água por Riobaldo, que na verdade é um contador de discursos – discursos sobre o Brasil que o romance apresenta em forma de desmontagens e remontagem crítica” (BOLLE, 2004, pg. 78). 85 mundo, os rios são os homens” -, elencando o Rio São Francisco como elemento estruturador do enredo, do espaço narrativo e responsável por diversas cadeias associativas de metáforas (MENEZES, 2002, pg. 14). Em análise anterior, Antonio Candido evidencia, semelhantemente, a função mágico-simbólica do Rio do Chico, conotando-o de “curso d’água e deus fluvial”, “eixo do sertão” (CANDIDO, 1971, pg. 124 -125). Ao atentar para a função do curso d’água no romance, o autor o percebe que o acidente geográfico divide o mundo em duas partes qualitativamente diversas: “O direito é o fasto; nefasto o esquerdo” (CANDIDO, 1971, pg. 125). Enquanto na margem direita a topografia é mais nítida e as relações mais normais, a outra margem apresenta uma topografia fugidia, com fatos estranhos e desencontrados17. Visto estes aspectos, nossa travessia in vivo das referências espaciais do Grande Sertão: veredas tem origem a partir da confluência do de-Janeiro com o São Francisco. Quase como um rito de passagem, íamos ao encontro do “fato primeiro” que mudou a vida de Riobaldo, onde as impávidas águas do rio (fluxo incessante do destino) assistiam o estremecido balancear da frágil canoa (instabilidade da vida humana). A respeito do de-janeiro, algumas referências já eram conhecidas antes mesmo da nossa chegada. É um afluente do São Francisco, um rio “estreito, não estende de largura, as trinta braças”, com matas altas em sua beira. Havia de ter ali também um “porto”, “alguns bichos cágados” e flores vermelhas ao longo da beira de seu curso (GSV, pg. 120). E “dali abaixo meia-légua, entra no São Francisco, bem reto ele vai, formam uma esquadria” (GSV, pg. 117). “Lá era, como ainda hoje é” (GSV, pg. 118). 17 Algumas situações são exemplificadas por Candido a respeito da margem direita do São Francisco: é o lado do “grande chefe justiceiro Joca Ramiro; do artimanhoso Zé Bebelo; da vida normal de Curralinho; da amizade ainda reta (apesar da revelação na Guararavacã do Guacuí) por Diadorim”. Enquanto a margem esquerda “era a margem da vingança e da dor, do terrível Hermógenes e seu reduto no alto Carinhanha; das tentações obscuras; das povoações fantasmais; do pacto com diabo”. Também se situam ali locais misteriosos e estranhos como o campo de batalha do Tamanduá-tão, as Veredas-Mortas, o liso do Sussuarão e o arraial do Paredão (CANDIDO, 1971, pg. 124 – 125). 86 Além das informações encontradas no Grande Sertão: veredas, outra fonte preciosa para adentrar na geografia desta e de outras obras do escritor são os escritos da caderneta de viagem da Boiada realizada em 1952. Antes restritas ao Arquivo Guimarães Rosa, do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, estas notas foram publicadas em 2011 pela Editora Nova Fronteira (ROSA, 2011), para entusiasmo dos estudiosos rosianos. A evidência de que Guimarães Rosa esteve no local onde o Rio de Janeiro deságua no São Francisco - anos antes da publicação de Grande sertão: veredas - é revelada pelos detalhes anotados no “diário de campo” do escritor, referentes ao dia 14 de maio de 1952. Por lá, o autor pode ter tido o insight para a representação do encontro entre Riobaldo e o Menino. A semelhança entre as minúcias dos escritos da caderneta e o trecho do episódio no romance valida tal tese. Nos escritos d’A Boiada, o romancista descreve seu primeiro relato do lugar com informações um pouco desconexas: No “Rio de Janeiro”: As longas canoas. Sacos atados com broto (folha nova de buriti), cheia de sacos (arroz: 15 alqueires, atados com folhas novas de buriti (verde e amarelo, mas as cores longitudinais, longitudinalmente. (O Padrinho, que este ano não plantou arroz, porque enviuvou. Vão para os Porcos, “nesse oco de mundo”. Lá é bom por demais. É nos gerais”. (fica nos gerais de Lassance). (...) “Ele mora longe, nos gerais de Lassance” (ROSA, 2011, pg. 39). As longas canoas que fariam o transporte dos sacos de arroz para o outro lado do rio seriam essenciais para compor o episódio no livro: Terceiro ou quarto dia, que lá fui, apareceu mais gente. Dois ou três homens de fora, comprando alqueires de arroz. Cada saco amarrado com broto de buriti, a folha nova – verde e amarela pelo comprido, meio a meio. Arcavam com aqueles sacos, e passavam, nas canoas, para o outro lado do de-Janeiro (GSV, pg. 118, grifos nossos) Da mesma forma acontece com o citado “Padrinho”, viúvo, morador dos gerais de Lassance, representado ficcionalmente como tio do Menino que Riobaldo acabara de conhecer: 87 Então ele foi me dizendo, com voz muito natural, que aquele comprador era o tio dele, e que moravam num lugar chamado Os- Porcos, meio-mundo diverso, onde não tinha nascido. Aquilo ia dizendo, e era um menino bonito, claro, com a testa alta e os olhos aos-grandes, verdes. Muito tempo mais tarde foi que eu soube que esse lugarim Os-Porcos existe de se ver, menos longe daqui, nos gerais de Lassance. – “Lá é bom?” – perguntei. – “Demais...” – ele me respondeu; e continuou explicando: – “Meu tio planta de tudo. Mas arroz este ano não plantou, porque enviuvou de morte de minha tia...” Assim parecesse que tinha vergonha, de estarem comprando aquele arroz, o senhor veja (GSV, pg. 118, grifos nossos). Estas circunstâncias são introduzidas devido ao fato da mãe de Riobaldo ter o levado ao porto do Rio de Janeiro, para que o garoto cumprisse promessa feita ao Bom Jesus da Lapa, pois acabara de sarar de doença. No terceiro ou quarto dia em que vai ao local, ele se admira com a presença de um menino pitando cigarro, encostado numa árvore, em meio aos homens que comercializavam o arroz. É o primeiro contato que se tem com o “menino mocinho”, “com um chapéu- de-couro, de sujigola baixada”. Outros trechos que se desenrolam a partir dali também podem ser comparados entre o momento vivido pelo escritor: Aqui é o porto do Rio de Janeiro. Canoa escavada num tronco de pau-d’óleo. Amarra-se a corrente da canoa num troço de raiz de pau-d’óleo (Rosa, 2011, pg. 40). E o resultado no livro, quando os garotos escolhem uma canoa para passear no rio: As canoas eram algumas, elas todas compridas, como as de hoje, escavacadas cada qual em tronco de pau de árvore. Uma estava ocupada, apipada passando as sacas de arroz, e nós escolhemos a melhor das outras, quase sem água nem lama nenhuma no fundo (GSV, pg. 119). A referência do “Porto” é sinalizada nA’Boiada como “(Do Seu Joãzinho) – (o negociante do Rio de Janeiro)” (ROSA, 2011, pg. 41), e explicada de maneira mais desenvolta no romance: “No porto do Rio-de-Janeiro nosso, o senhor viu. 88 Hoje, lá é o porto do seo Joãozinho, o negociante. Porto, lá como quem diz, porque outro nome não há” (GSV, pg. 116, 117). Estudiosos como Adélia Menezes (2002) e Francis Uteza (1998) encaram a cena do encontro entre os meninos como uma “travessia iniciática” na vida de Riobaldo. Uteza dá destaque, por exemplo, para o sentido etimológico da palavra Porto, encruzilhada fluvial que remete a passagem, por excelência. Já o nome de “Rio-de-Janeiro nosso” invoca o Deus latino Janus, protetor dos lugares de trânsito, de travessias. Além disso, a cerimônia iniciatória permitiu à criança a passagem para a idade adulta, batizado nas águas do Rio São Francisco, o “Rio-Pai”. Por essas e outras características da cena, as “informações dadas pelo narrador, banalíssimas em aparência, inferem um substrato metafísico que reúne num feixe coerente vários elementos tomados das grandes tradições religiosas do ocidente” (UTEZA, 1998, pg. 2). Já Adelia Menezes destaca a importância da travessia do rio em outras tradições culturais, como a civilização da China antiga. De acordo com a autora, era costume, por exemplo, jovens casais a realizarem no equinócio da primavera, como um rito de travessia - travessia do ano, das estações, do yin ao yang, purificação preparatória à fecundidade (MENEZES, 2002, pg. 17). Tudo indica que Guimarães Rosa também fez a travessia de canoa naquele local, aonde provavelmente já lhe vinha à mente parte das ideias que formariam essa passagem simbólica do Grande Sertão. Pelo “valor metafísico- religioso” das grandes tradições filosóficas do Oriente e do Ocidente enfatizadas ao longo de toda a obra de Rosa 18 é de se supor que já aflorava nele a simbologia do emblemático encontro (dos rios e dos meninos), durante sua própria travessia no imponente Rio São Francisco. 18 Guimarães Rosa cita algumas de suas referências metafísicas-religiosas em carta a Edoardo Bizzarri: “Quero ficar com Tao, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Bergson, com Berdiaeff – com Cristo, principalmente” (ROSA, 2003, pg. 90). 89 Assim como as analogias e metáforas expostas anteriormente por Bolle a respeito do rio remetem ao caráter do narrador-rio em Grande Sertão: veredas, Guimarães Rosa absorve igualmente as características do “baldowern”, um explorador atento as conotações mágicas e míticas a partir da geografia e da paisagem do sertão observados in locu. O próprio pseudônimo utilizado pelo escritor antes de publicar seus primeiros livros, Viator, revela a importância da viagem como base de sua investigação artística19. As notas do diário de Rosa também citam o relato de uma navegação no rio. Intitulado brevemente por “Na canoa”, o escrito remete, primeiramente, à vegetação que acompanha a margem direita do rio de janeiro: “alto, nas árvores, abundantes, sempre folhas roxas de olho-de-boi: cipó (trepadeira)”, e destaca a presença de pássaros: “canta um pássaro. (Nhambu?)”, “Periquitos – bandos – sobrevoam-no” (ROSA, 2011, pg. 40) e “cágados, muitos, no rio de janeiro” (ROSA, 2001, pg. 72). A partir disto, podemos relacioná-los com a descrição do passeio em “canoa de tão pouca firmeza” em Grande Sertão: veredas, com o Menino mencionando o espetáculo da natureza para Riobaldo 20: Saiba o senhor, o de-janeiro é de águas claras. E é rio cheio de bichos cágados. Se olhava a lado, se via um vivente desses – em cima de pedra, quentando sol, ou nadando descoberto, exato. Foi o menino quem me mostrou. E chamou minha atenção para o mato da beira, em pé, paredão, feito à régua regulado. – “As flores...” – ele prezou. No alto, eram muitas flores, subitamente vermelhas, de olho-de-boi e de outras trepadeiras, e as roxas, do mucunã, que é um feijão bravo; porque se estava no mês de maio, digo – tempo de comprar arroz, quem não pôde plantar. Um pássaro cantou. Nhambu? E periquitos, bandos, passavam voando por cima de nós. Não me esqueci de nada, o senhor vê (GSV, pg. 120, grifos nossos). Instantes depois, a canoa segue para a confluência dos rios. O São Francisco iria se mostrar poderoso, com violeta corrente, “o risco extenso d’água” (GSV, pg. 121). N’A Boiada, o encontro das águas é exposto de forma sucinta, mas, 19 Em conversa informal com a professora da Faculdade de Letras da UFMG, Claudia Campos Soares nos revela o pseudônimo utilizado por Guimarães Rosa para participação de um concurso literário em 1938: “Viator”, que significa viajante em italiano. Alguns autores analisam a importância da característica do viajante Guimarães Rosa para elaboração de sua obra (BARBOSA, 2009); (COSTA, 2008); (MEYER, 2008); (BARROS, 1988). 20 Prática que se tornaria recorrente ao longo do romance: “Quem me ensinou a apreciar essas belezas sem dono foi Diadorim” (GSV, pg. 42). 90 no entanto, é circulado e realçado no texto: “O São-Francisco – barrento – recebe o Rio de Janeiro – de água verde” (ROSA, 2011, pg. 40). E, assim, o momento da afluência ganha conotação poética, revelada no romance: Mas, com pouco, chegávamos no do-Chico. O senhor surja: é de repentemente, aquela terrível água de largura: imensidade. Medo maior que se tem, é de vir canoando num ribeirãozinho, e dar, sem espera, no corpo dum rio grande. Até pelo mudar. A feiúra com que o São Francisco puxa, se moendo todo barrento vermelho, recebe para si o de-janeiro, quase só um rego verde só (GSV, pg. 120, 121). Se o real e o fantástico são elementos híbridos e fundamentais na literatura de Guimarães Rosa, o ambiente onde se dá o primeiro encontro entre Riobaldo e Diadorim é um dos momentos de mais alta fidelidade frente à realidade do meio físico que o envolve. Em um primeiro instante, podemos perceber isto ao entrar em contato com as notas de campo do escritor. Mas, quando a paisagem sai da ficção e do material documentado para entrar aos olhos e ouvidos de quem a experimenta, ela se descortina verdadeiramente como uma paisagem “dentro da gente”. Por isso, a “transmutação iniciática” (UTEZA, 1998) de Grande Sertão: veredas começava ali de forma imediata tanto para seu narrador, como para nós, décadas mais tarde. Novamente atento às palavras de Antonio Candido, descobrimos que “é preciso entrar na realidade fluida do Sertão para compreendê- lo, que nos devolverá mais claros a nós mesmos e aos outros” (Candido, 1971, pg. 139). Se o objetivo é compreender o Sertão através de suas “águas”, entre as veredas que o circundam, nada mais representativo do que tomar como referência o calmo de-Janeiro, com suas águas verdes, desaguando no do-Chico “– o poder dele – largas águas, seu destino” (GSV, 321). Como uma fotografia, a “mata alta” da margem direita do rio de Janeiro é acompanhada pela serenidade cotidiana de três pescadores sertanejos à sua sombra. A outra beira se encontra quase diretamente a uma área de fazenda, descampada, onde o gado escapa do sol para matar a sede e aproveitar um resquício de sombra. 91 Em meados do mês de outubro de 2012, angustiado pela demora do “tempo-das-águas” em todo o centro-norte mineiro, o Rio São Francisco se apresentava para nós com aspecto diferente ao “todo barrento vermelho” descrito por Riobaldo. Visto que “se estava no mês de maio” (GSV, pg. 120) em sua travessia, o narrador percebe a margem ainda “lameada da cheia derradeira”, “quando o do-Chico sobe os seis ou onze metros” (GSV, pg. 121). Logo após o verão chuvoso, o processo erosivo fluvial ainda seguia intenso na descrição literária, e o rio continuava a transportar grandes partículas sedimentares. O ritmo do tropicalismo regional marcado pela dualidade estacional do Cerrado (período seco e período chuvoso) também tem como consequência uma variação na aparência dos rios sertanejos. No nosso caso, era possível ver a “aguagem bruta” do São Francisco mais branda e muito mais límpida, já que a “entrada-das-águas” demorava a dar seus primeiros sinais. A imensidade do rio, entretanto, permanecia em seu moto-contínuo: caudaloso e imponente, ao mesmo tempo, fluido e corrente. A curva de seu curso se perdia ao final da vista sugerindo muitos outros caminhos a se encontrar, outras travessias (Figura 17). No local onde as águas se fundem, vemos a fisgada de um belo Dourado por um pescador. O entusiasmo ante a façanha nos dá mais um motivo para desvendar as próximas paisagens rosianas. A imagem do rio perdendo de vista, protegido pela densa mata que acompanha sua trajetória, insiste aquietando e inquietando a visão, que não mais distingue imaginação, realidade e ficção. “O que até hoje, minha vida, avistei, de maior, foi aquele rio. Aquele, daquele dia” (GSV, pg. 122). Após a travessia da imensidade do Rio, Riobaldo não seria mais o mesmo. Na volta, sua mãe já o esperava no porto. E ele mal conseguiu se despedir do Menino, “... de longe, virei, ele acenou com a mão, eu respondi (...). Dele nunca me esqueci, depois, tantos anos todos” (GSV, pg. 125). A “transformação pesável” já era uma realidade para ele. Da mesma maneira, o João Rosa, como era apelidado pelos viajantes da comitiva da Boiada, não era mais o mesmo quando regressara em seu jipe (ROSA, 92 2011, pg. 40), depois da experiência daquele dia, daquele rio. O cordão umbilical de Grande Sertão: veredas já navegava profundamente por aquelas águas. “Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda. E algum ribeirão” (GSV, pg. 90) Aquilo era um prelúdio. Agora também nos restava empreender outras travessias. Alcançar nossas perguntas pelo fluir águas, seguindo os cursos inesperados dos rios, fluxos que recortam o caminho e formam seu leito, depositam e transportam seus sedimentos. Procurar um Grande Sertão por meio dos atalhos aquosos de suas veredas. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas, veredazinhas (GSV, pg. 116). Figura 17: A imensidade do Rio São Francisco, após receber as águas do de-Janeiro. Autoria: Gabriel de Oliveira 93 Zé bebelo: um futuro que nunca chega Ordem e Progresso, viva a Paz e a Constituição da Lei! Assinado: José Rebelo Adro Antunes, cidadão e candidato. 16- X - 2012 – de São Romão à Jaíba Um dos percursos de deslocamento mais longos realizados em campo se deu no dia 16 de outubro, quando saímos da cidade São Romão e atravessamos a balsa que transpõe os passageiros para a margem direita do Rio São Francisco. Jaíba era o destino final do dia. Devido aos poucos dias restantes e a grande quantidade de lugares ainda a serem visitados até o fim do trabalho, de acordo com o planejamento prévio, o caminho neste trecho era feito com rapidez, sem o tempo necessário para imergir a cada localidade avistada. Cruzamos os municípios de Ubaí, Brasília de Minas, Japonvar, Varzelândia e Verdelândia antes de chegar ao “sertão irrigado” da Jaíba. E o que chama atenção nesta época do ano para qualquer viajante que se desloca não só por ali, mas por todo o interior mineiro e, provavelmente por todo o país, são as marcas da paisagem momentaneamente alterada por bandeiras de partidos políticos, cartazes com candidatos locais, panfletos espalhados pelo chão e outros “restos” publicitários da campanha eleitoral municipal. Em outubro de 2012, o 1º turno havia sido realizado no dia 7 e ainda se esperava pelo 2º turno em cidades com mais de 200 mil habitantes, previsto para o dia 28. Este episódio marca a segunda consideração para os insights de campo por trazer à tona elementos essenciais no romance Grande Sertão: Veredas, elencado aqui como o 1º momento ficcional e alegórico do sertão, como já esclarecido parcialmente na introdução do trabalho. O intuito nos próximos parágrafos é apontar traços essenciais que diferenciam este romance dos livros Corpo de Baile e Primeiras Estórias, aprofundando as peculiaridades do Sistema Jagunço (GSV, pg. 533; BOLLE, 2004), como marca cultural-histórica central do Grande Sertão. E ainda mostrar como a violência praticada pelas mãos dos jagunços está associada ao mandonismo local, compactuando e sustentando a 94 organização sociopolítica e econômica não só no contexto do livro, mas em sua correlação histórico-espacial com o sertão contemporâneo. Concordamos com a concepção de Willi Bolle no sentido de que a narração da guerra de jagunços em Grande Sertão: Veredas não se limita apenas a um retrato do passado, mas evoca alegoricamente estruturas que se prolongam até os dias atuais (BOLLE, 2007, p. 141). Se nos modos, nos usos e na maneira de ser, podemos dizer que os temidos jagunços do romance de Guimarães Rosa não povoam mais, “de legítimo leal” (GSV, pg. 41, 42), o interior mineiro e outros “sertões” distantes do Brasil, é impossível não se remeter à reflexão sobre o jogo perverso entre os donos do poder e as classes subalternas em todos os cantos do país. Não seria diferente em pleno norte mineiro em período eleitoral. Segundo Heloisa Starling (1998), a narrativa de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas está enquadrada historicamente entre as últimas décadas do século XIX, ainda no final do Império, até cinquenta anos depois, próximo à Revolução de Trinta (STARLING, 1998, pg. 43). Esta afirmação é baseada em uma multiplicidade de fontes constatadas pela historiadora que permitem condições para uma “mirada historicista” sobre o Sertão no romance rosiano. A autora cita descrições detalhadas de cenas e falas dos protagonistas, como “antigos dobrões de prata do Império”; documentos que remetem a um tempo em que ainda havia Imperador no país; o registro de batistério de Diadorim “na era dos 1880 e tantos”; o relato de passagens de indivíduos reais pelo sertão rosiano - Antônio Dó, Neco e Pedro Cardoso; e notícias de batalhas reais fielmente reconstituídas: o ataque às cidades de Januária e Carinhanha em 1879 e à cidade de São Francisco, em 1896, e o ataque da Coluna Prestes em São Romão, em 1922 (STARLING, 1998, p. 42). Portanto, o romance de Rosa narra ficcionalmente uma época representada por guerras entre jagunços que atuam sob ordens de potentados locais, muitas vezes lutando como aliados ou opositores do Governo, mas também entre si. Como afirma Candido (1970) o jaguncismo está ligado “à idéia da prestação de serviço, de mandante e mandatário, sendo típica nas situações de luta política, disputa de família ou grupos” (CANDIDO, 1970, p. 141). Por isso, é essencial compreender a luta armada dos jagunços como peça inseparável do 95 mandonismo tradicional, em que o sistema de dominação vigente é garantido, sobretudo, pela violência (GALVÃO, 1972, p.12). No romance de Guimarães Rosa, o protagonista-narrador apreende suas primeiras impressões a respeito deste enigmático e violento submundo do interior de Minas Gerais ao escutar as histórias contadas pelo padrinho Selorico Mendes. Desde o primeiro instante é ressaltado o engrandecimento e o prestígio das “potentes chefias” que regiam seus comandados em grandes guerras locais: – Ah, a vida vera é outra, do cidadão do sertão. Política! Tudo política, e potentes chefias. A pena, que aqui já é terra avinda concorde, roncice de paz, e sou homem particular. Mas, adiante, por aí arriba, ainda fazendeiro graúdo se reina mandador - todos donos de agregados valentes, turmas de cabras do trabuco e na carabina escopetada! (GSV, pg. 127) Nos casos relatados por Selorico sobre as “altas artes de jagunços” (GSV, p. 127) também sobressaem diversos nomes de mandatários locais e as respectivas localidades em que cada um deles detém o poder regional: “cada lugar é só de um grande senhor, com sua família geral, seus jagunços mil, ordeiros” (GSV, 128). É um contexto onde a propriedade privada exerce e faz valer a justiça como mecanismo de poder pessoal, através da força e das armas de verdadeiros exércitos sertanejos. A partir destas informações e pela circunstância da entrada de Riobaldo no Sistema Jagunço, primeiramente, “em caso curto de acaso” (GSV, 142), aderindo ao grupo de combatentes de Zé Bebelo e, depois, vindo a integrar-se aos homens de Joca Ramiro - graças à presença de Diadorim – o narrador ganha intimidade com a essência daquele ambiente conflituoso, “onde manda quem é forte, com as astúcias” (GSV, pg 35). A força desta estrutura interna do jaguncismo está recalcada não apenas pela autoridade exercida pelos chefes políticos, mas também pelos valores enaltecidos entre os jagunços, como a coragem, a bravura, lealdade, honra e vigor em combate. Cada um dos chefes jagunços recebe diversos adjetivos no decorrer da estória, seja para sacralizá-los como heróis pelas histórias e façanhas realizadas, seja para demonizá-los pela bruteza de espírito, caso do Hermógenes – “homem 96 sem anjo-da-guarda” (GSV, pg. 132). No início da narrativa, Riobaldo apresenta os principais chefes da seguinte forma: o Medeiro Vaz é o “mais supro, mais sério (...) um homem antigo”; Seu Joãozinho Bem Bem é o típico chefe jagunço, admirado por todos, “o mais bravo de todos, ninguém nunca pôde decifrar como ele por dentro consistia”; Joca Ramiro, “o grande homem príncipe!”; Zé-Bebelo, “quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou”; Sô Candelário, por sua vez, “se endiabrou, por pensar que estava com doença má”; Titão Passos se ajagunçou pelas relações de amizade no meio; Antônio Dó, uma das figuras reais do sertão mineiro, era “um severo bandido”; Andalécio, “no fundo, um bom homem-de-bem” e “estouvado raivoso em sua toda justiça”; Ricardão guerreava porque queria ser rico, chamado de “bruto comercial”; já Hermógenes, para Riobaldo, era “remarcado no mau”, “nasceu formado tigre”; e o “Urutu-Branco”, que mais tarde se revelaria como sendo o próprio narrador, “era um pobre menino do destino...”, levado para o universo jagunço (GSV, pg. 33). Walnice Galvão, em As Formas do Falso (1972), retrata muito bem a figura do jagunço acentuando seu caráter ambíguo, ora visto como delinquente, um bandido que mata, rouba e exerce o mal “aquém dos requisitos de humanidade”; ora como o herói, cavalheiresco, com noções de honra e que premia a valentia do adversário (GALVÃO, 1972, pg. 18). Além disso, apesar de percorrerem livremente o sertão, como acontece no Grande Sertão, a liberdade destes jagunços é relativa e submissa a um regime autoritário de dominação, como veremos mais adiante. Isto tudo passa um pouco fora da consciência do jagunço raso, como Riobaldo antevê: “Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase que tudo para ele é o igual. Nunca vi. Pra ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final” (GSV, pg. 72). As características desses guerreiros reproduzidas no romance rosiano permitem ao leitor adentrar mais no universo sertanejo, onde os habitantes necessitam fazer a lei à sua maneira, recorrendo à guerra entre os bandos. O cenário de violência e da barbárie de um sertão sem lei é absolutamente intenso nos episódios de Grande Sertão: veredas, diferentemente das novelas de Corpo de Baile – um mundo já em transformação, “onde os homens não se dedicam à violência como forma de vida” (SOARES, 2008, pg. 43) - e de Primeiras Estórias, em 97 que, apesar de haver a iminência da violência física nos contos “Os irmãos Dagobé”, “Luas de Mel” e “Famigerado”, ela não se dá de fato, como muito bem observado por Wisnik (2002, pg. 177). Para as reflexões que estamos desenvolvendo, nos interessa entender a forma essencial em que a dubiedade do narrador se dá frente ao Sistema Jagunço. Como pôde participar das duas facções que se destacam na narrativa – os “bebelos” e os “ramiros” - Riobaldo revela, sobretudo, quais são as aspirações políticas e ambições destes que batalham entre si no campo de ação sertanejo. Bolle afirma que a mudança de lado de Riobaldo no romance é um dispositivo do autor para focalizar as questões morais com base em perspectivas diferentes (BOLLE, 2004, pg. 110). Apesar da extrema admiração à Joca Ramiro e à Zé Bebelo, o narrador demonstra uma visão inconformista de ambas as pretensões de seus chefes. As duas visões de mundo antagônicas despertam nele desconfiança perante a louvação exagerada ao primeiro - “Todo o mundo, então, todos, tinham de viver honrando a figura daquele, de Joca Ramiro, feito fosse Cristo Nosso Senhor, o exato?!” (GSV, pg. 54) -, e um ceticismo a respeito do discurso modernizador do segundo - “aquela mente de prosa já me aborrecia” (GSV, pg. 331). A interpretação de Alfredo Cesar-Melo (2011) é muito valiosa neste sentido, pois enfatiza que a argumentação de Riobaldo questiona “tanto o mundo da tradição sertaneja de Joca Ramiro, quanto a crença cega no progresso citadina empunhada por Zé Bebelo” (CÉSAR-MELO, 2011, pg. 74). O confronto entre modernidade e tradição - “civilização” e “barbárie” - alcança seu ápice na cena emblemática do julgamento de Zé Bebelo, na qual se dá o desfecho da primeira guerra do romance. Alguns estudos já focalizaram este episódio como um dos motes para representar o livro de Rosa como alegoria histórico-política e social do Brasil (STARLING, 1999; BOLLE, 2004; RONCARI, 2001; CÉSAR-MELO, 2011). A importância simbólica do julgamento se justifica pela riqueza dos discursos proclamados pelos chefes, já que ali “o romance rompe de modo mais decisivo com as representações cristalizadas sobre o sertão” (CESAR- MELO, 2011, pg.79). 98 Este mecanismo de justiça inédito e inusitado para o sistema cultural dos jagunços ocorre quando Zé Bebelo, ao ser capturado pelo grupo liderado por Joca Ramiro, exige um “julgamento correto legal” (GSV, pg. 270). O episódio visa muito além da pessoa empírica de Zé Bebelo, pois “trata-se de uma cena-chave que nos permite observar como o sistema jagunço fala de si mesmo” (BOLLE, 2007, pg. 146). O principal embate se dá entre a manutenção de um sistema arcaico, munido pelas antigas tradições e princípios dos guerreiros, e os novos ideais de Bebelo. O primeiro parecer de Joca Ramiro no julgamento reflete a visão daqueles que vêem nas intervenções e nos objetivos do “réu” uma atitude “forasteira”: “O senhor não é do sertão. Não é da terra...” (GSV, p. 276). Sua principal acusação é de ambicionar modificar os códigos internos e os “estatutos” regionais: “– ‘O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei...’” (GSV, pg. 276). A valia desses “costumes velhos de lei” encarna nas palavras de todos que depõem naquela ocasião, mesmo que o conteúdo e o posicionamento frente à acusação oscilem de acordo com a avaliação pessoal de cada um deles. As falas de Ricardão e Hermógenes desempenham posição a favor da sentença de morte com “a misericórdia duma boa bala” (GSV, pg. 284), interpretando as investidas de Zé Bebelo como uma guerra com apoio e a serviço do Governo. Ricardão se refere aos sofrimentos, às mortes e aos prejuízos causados pelo réu, “como mandadeiro de políticos e do Governo” (GSV, pg. 283). E ainda relembra a responsabilidade de Joca Ramiro para com os fazendeiros que financiavam o bando, ressaltando interesses econômicos e políticos: Relembro também que a responsabilidade nossa está valendo: respeitante ao seo Sul de Oliveira, doutor Mirabô de Melo, o velho Nico Estácio, compadre Nhô Lajes e coronel Caetano Cordeiro... Esses estão agüentando acossamento do Governo, tiveram de sair de suas terras e fazendas, no que produziram uma grande quebra, vai tudo na mesma desordem... A pois, em nome deles, mesmo, eu sou deste parecer (GSV, pg. 284) Segundo as concepções destes dois chefes, a condenação de Zé Bebelo era justa e significativa para a continuidade do sistema vigente e da defesa dos interesses particulares das elites locais. Após as sugestões e possíveis soluções 99 propostas por outros chefes e jagunços, Zé Bebelo tem a chance de expor sua defesa que, ao seu modo, tenta estabelecer conciliação entre os grupos: Vou depor. Vim para o Norte, pois vim, com guerra e gastos, à frente de meus homens, minha guerra... Sou crescido valente, contra homens valentes quis dar o combate. (...) Briguei muito mediano, não obrei injustiça nem ruindades nenhumas; nunca disso me reprovam. Desfaço de covardes e de biltragem! Tenho nada ou pouco com o Governo, não nasci gostando de soldados... Coisa que eu queria era proclamar outro governo, mas com a ajuda, depois, de vós, também. Estou vendo que a gente só brigou por um mal-entendido, maximé. Não obedeço ordens de chefes políticos. Se eu alcançasse, entrava para a política, mas pedia ao grande Joca Ramiro que encaminhasse seus brabos cabras para votarem em mim, para deputado... Ah, este Norte em remanência: progresso forte, fartura para todos, a alegria nacional! Mas, no em mesmo, o afã de política, eu tive e não tenho mais... A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro... (...) De ter sido guardado prisioneiro vivo, e estar defronte de julgamento, isto é que eu louvo, e que me praz. Prova de que vós nossos jagunços do Norte são civilizados de calibre: que não matam com o distrair de mão um qualquer inimigo pegado. Isto aqui não são essas estrebarias... Estou a cobro de desordens malinas. Estimei. Dou viva Joca Ramiro, seus outros chefes, comandantes de seus terços. E viva sua valente jagunçada! Mas, homem sou. Sou de altas cortesias. Só que medo não tenho; nunca tive, no travável... (GSV, pg. 294-295, grifos nossos) A retórica de Zé Bebelo, além de induzir um “meio-termo” para o conflito entre ramiros e bebelos, realça também diversos elementos relevantes como a valorização dada às características gerais dos jagunços, como a bravura e valentia; a suposta independência dele em relação ao Governo; a intenção de proclamar um “outro governo”, com novos ideais, “a alegria nacional”; a intenção de incluir Joca Ramiro e seus homens como possíveis aliados futuros; e a gratidão por “estar defronte de julgamento” pelos “jagunços civilizados”. A partir desta fala, o chefe dos ramiros dá a sentença final: o réu deveria ir para as terras de Goiás, permanecendo até enquanto Ramiro permanecesse vivo. Cesar-Melo (2011), ao tecer suas considerações a respeito da cena do julgamento, enxerga um “rearranjo imaginário” de Guimarães Rosa formado pela mistura e cumplicidade entre modernidade e tradição neste episódio. A modernidade pode ser ilustrada pelo próprio procedimento do julgamento para sentenciar o inimigo - antes resolvido “na bala” e “no sangue” - e pelo método de 100 consulta democrático, enquanto os valores da tradição se fazem presentes nas falas dos sertanejos, que ressaltam um código de honra cavalheiresco, duríssimo e ríspido na batalha, mas justo e cortês fora dela. Desta forma, o confronto entre civilização e barbárie em Grande Sertão: veredas não induz duas coisas distantes que não se tocam, mas que, pelo contrário, se colidem constantemente ao longo da saga de Riobaldo. O grande responsável por estabelecer este cotejo no plano da ficção é Zé Bebelo. No intuito de civilizar o sertão, equipado por cerca de mil homens, ele empreende uma espécie de “cruzada” pelo norte mineiro (CANDIDO, 1971, pg. 127). É necessário recorrer a outras referências dele no romance rosiano para refletirmos sobre de que maneira seus ideais ensejam uma mudança de estrutura no sertão do começo do século passado, um retrato de um passado político que se reproduz de modo intermitente no Brasil “real”. Se em Grande Sertão: veredas podemos encarar as encenações como representações contemporâneas das estruturas do país, como ponderou Willi Bolle (2004, 2007), Zé Bebelo figura como inevitável exemplo do retrato ideológico da nacionalidade na primeira metade do século XX que, em diversos ângulos, permanece presente até os dias de hoje. Por isso e por outros motivos, os símbolos da campanha eleitoral em 2012 evocam interesses políticos conservadores, sob a persistência de estruturas arcaicas no país. Esse “Alto Norte brabo” (GSV, pg. 172) que pudemos vivenciar em sua essência neste início de século XXI, transmite a ideia de um espaço já visivelmente muito transformado ao que tínhamos em mente pelo Grande Sertão, mas que a qualquer momento pode fazer encarnar personagens do romance para o “sertão presente”, como o eloquente Zé Bebelo. No livro de Guimarães Rosa muitas informações são passadas a respeito dos propósitos progressistas do personagem, o “falar muito nacional”, o desejo de reformulação do sertão, do desenvolvimentismo, ou seja, intenções de mudança das bases sobre as quais estavam estabelecidas tradicionalmente a região. A oportunidade para a execução de projetos como o de acabar com “a vergonheira de jagunços, a sobre-corja” (GSV, pg. 146) - se torna favorável devido a uma série de motivos. O sertão retratado é, sobretudo, um espaço onde estão praticamente 101 suprimidas as grandes cidades - a não ser por esparsas alusões ao longo do romance -, e que a lei não se faz presente como conjunto de normas que atue acima de interesses particulares. Permitindo, assim, a instauração de um caótico universo de violência comandado pelo mandonismo da ordem privada, com conivência da autoridade pública. A intenção de reforma pelo personagem é claramente exposta em forma de garantias: “Deixa, que, daqui a uns meses, neste nosso Norte não se vai ver mais um qualquer chefe encomendar para as eleições as turmas de sacripantes, desentrando da justiça, só para tudo destruírem, do civilizado e legal!” (GSV, pg. 146). Caso conseguisse enfim limpar “estes Gerais da jagunçagem” (GSV, p. 618), o valente Zé Bebelo tinha outros projetos “para o progresso de todos”, “todo Brasil, territórios”, como relata Riobaldo: Porque ele tinha me estatutado os todos projetos. Como estava reunindo e pervalendo aquela gente, para sair pelo Estado acima, em comando de grande guerra. O fim de tudo, que seria: romper em peito de bando e bando, acabar com eles, liquidar com os jagunços, até o último, relimpar o mundo da jagunçada braba. – “Somente que eu tiver feito, siô Baldo, estou todo: entro direito na política!” Antes me confessou essa única sina que ambicionava, de muito coração: e era de ser deputado (GSV, pg. 146, grifos nossos). A proposta de acabar com a jagunçagem era publicamente um trampolim para o personagem ingressar à carreira política, quando poderia desenvolver o sertão à sua maneira, “botando pontes, baseando fábricas, remediando a saúde de todos, preenchendo a pobreza, estreando mil escolas” (GSV, pg. 47). Segundo Bolle, são promessas feitas pelo representante das ideias do desenvolvimentismo, do populismo e do discurso eleitoreiro, típico dos candidatos a cargos públicos (BOLLE, 2002, pg. 361). Em uma das primeiras atuações como membro do grupo dos zé bebelos, exercendo o papel de “professor” e “secretário”, Riobaldo relata o desdobramento da primeira vitória do grupo sobre o adversário. Logo quando acabada a batalha, Zé Bebelo comparece ao município mais próximo para proclamar as façanhas de seu bando para a população local. Riobaldo é quem reúne “os municipais do lugar” para “fazer o discurso” (GSV, pg. 149). Com direito a “uma ruma de foguetes” 102 disparados em comemoração, Zé Bebelo sobe em palanque improvisado, “uma tábua por cima de um canto de cerca”: Ao que Zé Bebelo elogiou a lei, deu viva ao governo, para perto futuro prometeu muita coisa republicana. Depois, enxeriu que eu falasse discurso também. Tive de. – “Você deve de citar mais é em meu nome, o que por meu recato não versei. E falar muito nacional...” – se me se soprou. Cumpri. O que um homem assim devia de ser deputado – eu disse, encalquei. Acabei, ele me abraçou. O povo eu acho que apreciava (GSV, pg. 149). Por mera coincidência ou por “destino dado” (GSV, pg. 155), esta primeira vitória sobre os Hermógenes, em que Riobaldo participa no grupo de Bebelo, acontece próximo ao “município de Brasília” (GSV, pg. 149), atual Brasília de Minas, localizada à margem direita do Rio São Francisco. No auge do período seco do cerrado, em uma tarde de outubro de 2012, atravessávamos a estrada que corta esta mesma região, atentos aos signos da paisagem. Além do aspecto seco da vegetação e da insistência robusta do sol ao cotidiano dos homens e mulheres que ali circulavam, as marcas da campanha eleitoral naquele ermo sertão nos instigava: será que o projeto progressista de Zé Bebelo enfim se instituíra anos depois daquele discurso e das demais passagens épicas de Grande Sertão: veredas? Por acaso, o sertão teria se integrado ao restante da pátria, como o personagem havia desejado? E o “progresso forte”, a “fartura para todos”, a “alegria nacional”, tão aclamados pelo futuro candidato a deputado? Sem querer simplificar perguntas complexas que demandam uma atenção redobrada acerca da escala histórica que separa o romance rosiano do nosso “sertão presente”, algumas observações podem ser decodificadas com auxílio de estudos, por exemplo, de Willi Bolle (2002, 2004, 2007), José Miguel Wisnik (2002) e Walnice Nogueira Galvão (1972). Esta última autora, além das contribuições a respeito do tema da ambiguidade em Grande Sertão: veredas, em diversos níveis de sua estrutura – enredo, personagens, imagens, concepção metafísica –, também abordou de forma pioneira o aspecto da jagunçagem no romance. Segundo a pesquisadora, a força armada a serviço de um proprietário rural é uma tradição brasileira secular, na qual “a violência é uma prática rotineira” 103 e atua em função defensiva e ofensiva, “presente dentro da propriedade para garantir limites, mas igualmente importante por seu desempenho em eleições” (GALVÃO, 1972, pg. 21). A partir desta leitura traçamos dois apontamentos principais que se interligam para dar sentido à nossa referência histórica ficcional de Grande sertão: veredas: a) a violência jagunça é ligada ao mandonismo local, por sua vez estruturado de acordo com o sistema político vigente; b) os interesses eleitorais também fazem parte do sistema e das instituições que o sustenta. Para esclarecer este quadro, assim como Galvão, Willi Bolle (2007) aponta o esboço precursor de Euclides da Cunha, em “Os Sertões”, para ratificar o banditismo sertanejo como elemento integrante das campanhas eleitorais desde o Império, compondo, inclusive, sua disputa política oficial (BOLLE, 2007, pg. 143). A eleição, suposta prática democrática do Estado de Direito, assumiu, desde sua origem em terras brasileiras, a integração entre as instituições de nosso direito público com “a solidariedade de família senhorial, o banditismo coletivo, o fanatismo religioso, o partido do coronel” (GALVÃO, 1972, pg. 22). A vingança familiar, o nepotismo, o assassino de adversários políticos, a fraude eleitoral e a corrupção de autoridades locais eram costumes recorrentes da composição entre tais instituições, para Galvão (1972, pg. 22). A partir dessas ideias, a autora analisa a “condição jagunça” sob quatro aspectos: a constituição das unidades de poder no Brasil, a partir da propriedade latifundiária; as unidades de produção econômica e sua função na economia mundial; as relações de trabalho no meio rural; e as formas de organização política a partir da categoria do “inútil utilizado”. De acordo com ela, as unidades mínimas de poder no país, consequentemente, estão ancoradas pelos “braços d’armas” da massa de sertanejos submetidos ao poder dos donos de terra tanto para a defesa da propriedade, como para objetivos eleitorais. E é desta maneira que as unidades e alianças entre senhores que as lideram originaram os partidos políticos municipais, estaduais e nacionais (GALVÃO, 1972, pg. 42). Desta maneira, o trabalho de Bolle e Galvão convergem analiticamente ao considerar a jagunçagem um fenômeno não apenas regional, mas revelador do arcabouço de sustentação política do país, evidenciando de maneira mais nítida a 104 perpetuação de velhas estruturas ao longo da história brasileira. E quais seriam as reverberações desta conjuntura secular da História brasileira em um romance que retrata o país do início do século XX, segundo as ações da testemunha ficcional de Zé Bebelo? E qual a relação disso com a paisagem do interior mineiro em período de campanha política no século XXI? Independentemente da legitimidade no desejo das benfeitorias do projeto de Zé Bebelo ou da possível falácia política - toda aquela “fraseação” que girava em torno de seus argumentos -, o personagem não conseguiu instituir o progresso “no meio do triste sertão”. O agente da modernidade de Grande Sertão: veredas explicita suas contradições ao recorrer à violência para impor a lei e paz no sertão e ao abrir mão de seus ideais de “render serviço à pátria”, em detrimento da execução de vingança pessoal dos “Judas” (assassinos de Joca Ramiro), ao lado de Riobaldo e Diadorim. Quando acabava um combate contra seus adversários, Zé Bebelo saía com revólver na mão perseguindo os que ainda não haviam sido capturados, e gritava “- Viva a lei! Viva a lei!...” (GSV, pg. 93). E continuava atirando e entoando: “Paz! Paz!” (GSV, pg. 93). Este gesto contraditório (em que a intenção da lei e da paz são reproduzidas pela transgressão delas próprias, ou seja, pelo crime e pela violência) representa, incoerentemente, a intenção de “civilizar” o sertão ao contrário, a partir de sua incivilidade, pela força e por meios que não alterariam a sólida fundação que a sustenta. Nas últimas páginas do romance, Riobaldo reencontra Zé Bebelo próximo ao Rio Abaeté, quando este acabara de “negociar um gado”. “A ganhar o muito dinheiro – é o que vale...”, alega Bebelo (GSV, pg. 622). A renúncia política do personagem é sintomática para compreender o imobilismo de transformação social frente ao núcleo duro de nossa organização socioeconômica e política. Ao final, restou a Zé Bebelo empreender novos projetos: “Não queria saber do sertão, agora ia para a capital, grande cidade. Mover comércio, estudar para advogado” (GSV, pg. 622). 105 Quanto ao “sertão presente”, concordamos com Bolle (2002) que “a cada dia que passa, o Brasil real assemelha-se mais ao país retratado por Guimarães Rosa em seu romance Grande sertão: veredas” (BOLLE, 2002, pg. 352). A forma mais evidente de mudança não está na estrutura, mas na transgressão das fronteiras regionais de violência no “sertão”, alcançando o dia a dia de nossas grandes metrópoles. Se no plano da violência em território urbano, “a soberania é exercida abertamente por bandidos no lugar de policiais”, no plano governamental, os políticos do mais alto escalão “têm ocupado o noticiário não pelos serviços que prestam à nação, mas pelo seu envolvimento em ações ilegais, no estilo dos velhos mandões locais e de chefes de quadrilha” (BOLLE, 2002, pg. 352-353). São reflexões que expõem a continuidade dos resquícios históricos do poder no Brasil, mesmo com as ilusórias mudanças modernizantes no país. A lei do Estado continua inseparável do “mandonismo local”, a despeito do processo de urbanização, do crescimento demográfico e da maior complexidade das cidades. E a violência, como parte integrante do sistema, revela também uma das facetas da inseparabilidade entre cidade e sertão. A modernização se dá no país de forma tardia e desigual, onde as bases que constituem a sua cultura e sua configuração espacial jamais puderam vivenciar uma alteração profunda, de fato. Nas palavras de Wisnik: [...] é aí que se desnuda em contexto moderno um fundo ancestral de violência no qual se confundem o público e o privado (...), mas confundem-se também, por extensão, a mudança e a paralisia, a lei e a transgressão, a polícia e o bandido, o traficante e a autoridade (...). Ligados à corrupção, ao tráfico de influência e à impunidade, à violência policial e ao crime organizado, avatares do mandonismo (...) e indissociáveis da concentração campeã de renda, esses temas vieram à tona da vida pública brasileira na última década, num misto sintomaticamente ambíguo de saúde e doença política, de vontade de transparência e de impotência para mudar, que pairam interrogantes sobre o esgarçamento do tecido social (WISNIK, 2002, pg. 195). Desta forma, é interessante perceber como a falta de transformação das relações sociais no Brasil suscita outra “coincidência” nas páginas finais de artigos de Wisnik (2002) e Bolle (2007). São notas sobre cenas cotidianas da violência em São Paulo, em que os autores fazem questão de expor exemplos, na contemporaneidade, da “necessidade histórica” da violência que configura nosso 106 povo (GALVÃO, 1972). Se as datas dos acontecimentos são relativamente esparsas - uma de agosto de 2001, a outra em maio de 2006 - os fatos derivam da mesma truculenta realidade da capital paulista. José Miguel Wisnik cita a mesa redonda no II Seminário Internacional Guimarães Rosa, onde se discutiu a presença na literatura do escritor da cidade no sertão e a permanência do sertão na cidade, pensando nos destinos da violência na sociedade brasileira, e na distinção entre os papéis do agente da lei e do transgressor. Dois dias após o evento, o sequestrador da filha do apresentador de televisão e empresário midiático Silvio Santos, depois de ter conseguido fugir de um primeiro sequestro, retorna à casa do apresentador, mas desta fez se rende a polícia. O que intriga Wisnik é a morte do bandido na cadeia em condições obscuras meses depois de sua prisão, e a morte posterior dos policiais que o teriam enfrentado, também sem muita explicação plausível pelas versões oficiais. Um episódio que coloca em xeque a lei e a lei do mais forte. Uma controversa legitimidade de “julgamento”, onde a força da justiça se assemelha a retrógrada lei jagunça, ao utilizar a violência “seja para manter a ordem seja para ameaçá-la, para impor a lei como para transgredi-la, para vingar ofensas como para praticá-las” (GALVÃO, 1972, pg. 47). Já no caso de Bolle, após sua exposição sobre o Brasil Jagunço no campus da Universidade de São Paulo, o diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas anuncia a suspensão de todas as atividades, diante do fato de que naquele dia a população de São Paulo sofreu a ameaça do crime organizado, de bandidos do PCC (Primeiro Comando da Capital). Ou seja, nas palavras do autor: [...] a paisagem da violência, no Brasil, não é mais um longínquo sertão lá no “alto brabo norte” de Minas Gerais; nestas últimas cinco décadas, da publicação de Grande sertão: veredas para cá, o sertão avançou para o coração das nossas metrópoles, inclusive para aquela que costuma ser considerada a mais avançada: a cidade de São Paulo (BOLLE, 2007, pg. 157). Após os depoimentos pessoais dos autores, deixamos também registrado o caso de uma figura sertaneja do município de Cordisburgo, Seo Toco Pequi. Grande conhecedor dos benefícios medicinais do Cerrado, o ex-lavrador conta uma longa história de vida, marcada pela migração para São Paulo por melhores condições de vida. Um trecho desta história converge para o tema tratado aqui. Se 107 por mais de trinta anos, as condições salariais e de trabalho o mantém na capital com os serviços de “oficial instalador”, a volta para sua terra se fez quase sempre como um karma obrigatório. Porém, apesar deste karma natural de volta às origens, a volta é forçada por um episódio eminente de violência na “civilizada” capital paulista. A fala do sertanejo explicita, em si, o drama vivido: Senti obrigado a vir embora, porque estava muito perseguido por malandro. Me descobriram uma vez, quando fui sacar uma alta quantia no banco, e eles ficaram na minha cola. Aí eu falei “– Eu não posso ficar mais!” Eles viram que eu tava mexendo com dinheiro... Quando eu voltei do trabalho - estava de férias antes - falaram que dois colegas meus estavam me procurando, duas pessoas numa moto. Aí eu disse: “- não é colega meu não! É vagabundo... Colega que eu tenho aqui é só Geovani e ele não tem nem bicicleta”. Fiquei assustado! E meu colega de trabalho disse até o dia que eu voltava de férias... Então no dia que eu voltei de férias eles foram lá procurando por mim, e minha esposa falou: “- Ele saiu;” “- E que horas ele vem?” “- Num sei, ele tem muita coisa pra fazer.” E eu vi que tinha dois motoqueiros saindo e eu tava chegando, mas eles não me viram. Eu colocava tudo em um embornal, capacete amarelo, calça azul, camisa azul, bota feia, desci do ônibus assim, aí eles devem ter pensado: “- Esse aí não tá com nada, é funcionário, queremos o outro...” Aí entrei pra casa e eles não viram. No outro dia eu fui na NEC (?), eles foram atrás. Quando eu apeei do ônibus na Nec eles olharam e pensaram: “- É ele mesmo!” Na hora que entrei no portão da NEC eles não puderam entrar. Eu vi eles e pensei: “agora eu não posso sair...” Eu dei o golpe neles.. Então [depois do episódio] eu falei: “ - Vou embora, não fico mais! E eu vim embora.... Desci na Praça da Sé, fui no sindicato fazer o acerto, peguei o metrô pro Tietê e já apanhei o ônibus vim embora, de tão assustado.... Se Riobaldo tem a distância crítica para perceber a condição do pobre, seja ele pacífico ou jagunço em guerras, conforme adverte Galvão (1972), e também representa uma voz marcadamente inconformista em relação às visões de mundo que “pelejavam pelo controle do sertão” (CESAR-MELO, 2011), qual seria a interpretação do “jagunço-letrado” de Grande Sertão: veredas ao ver crianças brincando em meio aos restos da campanha política no “brabo Norte” mineiro e a cena da volta de Seo Toco Pequi à sua terra natal, após ser ameaçado fisicamente na cidade símbolo da urbe brasileira? 108 Embora a promessa civilizadora de Zé Bebelo não tenha se cumprido no plano da ficção e se a promessa da modernidade na história recente também não conseguiu atender a quem necessita de suas eventuais benfeitorias, a perpetuação dos discursos políticos contemporâneos insistem em enaltecer os mesmos compromissos, independente de onde estejam. Tomada aqui como microcosmo de uma realidade socioespacial mais ampla, a mesma Brasília de Minas em que Zé Bebelo discursou após vitória diante os inimigos jagunços, continua a se perguntar sobre o destino do sertão e aguarda as promessas progressistas de um então fictício “cidadão e candidato” (GSV, pg. 346). A descrença de Riobaldo aos ideais citadinos de Zé Bebelo poderia se passar na cabeça de qualquer outro sertanejo do século atual, assistindo silenciosamente a ida dos filhos para a cidade grande. A fuga da população jovem, cada vez mais comum no interior, significa uma impulsiva busca por condições de existência diversas da precariedade encontrada no meio rural. Até porque a “plebe rural”, segundo Galvão (1972), nunca conseguiu constituir organizações representativas de seus próprios interesses. Mas o que esperar do próximo destino? A respeito da vida errante dos brasileiros nos (des) caminhos da modernidade, Sandra Vasconcelos (2002) afirma que as personagens rosianas reencenam simbolicamente a vida dos habitantes do Brasil real. Parafraseando a autora, para eles “o passado é ainda presente, o presente é futuro e o futuro se projeta com um tempo que nunca chega” (VASCONCELOS, 2002). Viver é um descuido prosseguido... (GSV, pg. 86). 109 Figura 18 : Sr. Toco Pequi, de volta ao ser-tão cerrado, após longo período de vida na capital paulista. Autoria: Frederico Gonçalves. 110 Sujeitos de terra definitivos e homens provisórios no “ermo jaibão” Sabíamos: um pessoal nosso perpassava por lá, na Jaíba, até à Serra Branca, brabas terras vazias do Rio Verde-Grande. De madrugada, acordamos em sua janela um velhozinho, dono de um bananal. 17 – X – 2012 – Bananal, Jaíba É no acampamento do Hermógenes, na Mata da Jaíba, onde Riobaldo convive de maneira mais intensa, pela primeira vez, com os jagunços de Grande Sertão: veredas. Ali o narrador se “endurecesse as pressas” no seu fazer “particípio de jagunço” (GSV, pg. 255). Porém, outras personagens eminentes do romance rosiano são passíveis de uma interpretação socioespacial e histórica a partir do plano ficcional traçado por Guimarães Rosa quando se chega à Jaíba atual, onde prevalece o Projeto de Irrigação que permitiu o agronegócio dominar a paisagem com grandes plantações de monoculturas frutíferas. Alguns quilômetros depois do município de Jaíba, seguindo um atalho de estrada de terra perpendicular à rodovia que segue para Mocambinho, é possível atravessar o canal de irrigação das águas do São Francisco para se aproximar das diversas glebas do Projeto Jaíba. Após uma longa viagem iniciada em São Romão, o percurso, feito a noite, se mostrava cada vez mais complicado para localizar uma propriedade voltada à produção de banana, uma fazenda em meio a tantas outras. Mas, conhecendo as terras como as palmas de suas mãos, a indicação feita pelo proprietário havia sido certeira e, de repente, estávamos equilibrando o automóvel em meio a um labiríntico bananal. Mais excêntrico do que pilotar um Fiat Uno em meio a uma plantação de banana no sertão, em plena escuridão, foi acordar na manhã seguinte, ainda com os olhos fechados, escutando o raro som de águas caindo nas terras do norte mineiro, no auge de seu período seco. O estranhamento logo se esclareceu para nós quando os olhos se abriram e não viram nenhum pingo de chuva, mas sim uma constante “chuvinha artificial” caindo sobre a plantação, decorrente do sistema de irrigação servida pelo canal terciário do imponente Rio São Francisco. Após assimilarmos o contraste entre a seca ecológica e a umidade artificial, caminhamos junto ao 111 proprietário para sua quase diária tarefa de conferir detalhadamente os trechos de plantação com possíveis problemas, pestes e outros tipos de danos. Ao observá-lo anotando na caderneta e assistir aos procedimentos ali utilizados, alguns elementos que conectam o sertão ficcional de Rosa e o “ermo jaibão” (GSV, pg. 201) do século XXI vieram à tona. Sinalizamos neste episódio um momento alegórico de transição e de interseção entre o sertão jagunço de Grande Sertão: veredas e os gerais a caminho da modernização de Corpo de Baile. Objetivamos, neste momento, diferenciar alguns pontos relevantes das duas obras, a partir das características essenciais de seus personagens, para depois aproximá-las, afirmando o tipo errante/provisório do sertanejo. Alguns personagens da primeira obra, como o alemão Vupes - espécie de caixeiro viajante do sertão, o turco Assis Wababa - negociante do distrito de Curralinho e Seo Habão – típico homem de negócios voltado para a agricultura - representam indícios pontuais de um mundo de valores dissonantes daqueles que dominam o cenário de guerras do contexto geral do Grande Sertão. Estes, já com o espírito do lucro imbuídos em suas empreitadas e repletos das novas configurações da modernização no interior brasileiro, seriam trabalhados, com frequência, na forma de outros personagens nas novelas de Corpo de Baile. Uma das diferenças entre estas duas obras está na predominância de dois tipos de personagens distintos em cada uma delas. Podemos classificar os jagunços de Grande Sertão: veredas de “homens muito provisórios”, assim como os chamou Riobaldo; enquanto os fazendeiros de Corpo de Baile podem ser denominados de “sujeitos de terra definitivos”, semelhantes ao latifundiário Seo Habão, como veremos adiante. Se os estrangeiros Vupes e Seo Assis Wababa aparecem de forma mais tênue no romance, Seo Habão exerce grande influência no decorrer da estória, tema tratado minuciosamente por Bolle (2004, pg. 141-174). Por isso, iniciamos esta análise a partir de breves passagens a cerca dos comerciantes do sertão mencionados, responsáveis por esboçar um presságio ficcional daquilo que iria se 112 manifestar com mais força em Corpo de Baile: a aparição cada vez mais intensa de elementos da cidade no meio rural mineiro, aproximando o sertão de espectros da urbanização. Em seguida, destacaremos a presença e os intuitos de Seo Habão como um divisor de águas para a conscientização do meio social sertanejo por Riobaldo, que passa a perceber o caráter ilusório da existência do jagunço, até então encoberto por uma retórica romântica (Bolle, 2004, pg. 150). Por fim, os elementos ficcionais analisados serão transportados à realidade da Jaíba contemporânea. Tempos antes de se enveredar pelos caminhos do universo jagunço, quando ainda residia em Curralinho, Riobaldo se apaixona pela Rosa’uarda, filha do negociante Assis Wababa. Ele é dono da venda intitulada “O Primeiro Barateiro da Primavera de São José” (GSV, pg. 130) – um amplo armazém, onde se comercializa de tudo para os habitantes da vila. Curralinho é considerada um espaço de mediação “entre a fixidez da cultura local e das singularidades de culturas estrangeiras” (FANTINI, 2003, pg. 83), não apenas pela presença da família turca de Wababa, mas também pelo comparecimento constante do “estranja alemão” Vupes, conhecido também do interlocutor citadino do romance: “E como é mesmo que o senhor fraseia? Wusp? É. Seo Emílio Wuspes... Wupsis... Vupses” (GSV, pg. 87). Seo Emílio Vupes se encarrega de realizar trocas comerciais pela região, fornecendo aos fazendeiros produtos para o manejo na roça e na agricultura: “arados, enxadas, debulhadora, facão de aço, ferramentas rógers e roscofes, latas de formicida, arsênico e creolinas; e até papa-vento, desses moinhos-de-vento de sungar água, com torre, ele tomava empreitada de armar” (GSV, pg. 87). Utensílios de difícil entrada no ermo interior mineiro no período da estória narrada21. Por isso, o trabalho de Vupes possui grande importância não só para as trocas 21 A dificuldade de escoamento de diversos itens poderia ser solucionada, em partes, com a chegada de uma nova estrada de ferro passando por Curralinho, como revelado por Vupes em conversa com Wababa: “que em breve tempos os trilhos do trem-de-ferro se armavam de chegar lá, o Curralinho então se destinava ser lugar comercial de todo valor” (GSV, pg. 140). Esta estrada de ferro realmente existiu, denominada de Estrada de Ferro Central do Brasil e inaugurada em 1906, em Corinto (Bolle, 2004, pg. 107). 113 comerciais, mas também para os intercâmbios culturais entre o meio rural e o meio urbano, um incipiente ingresso do sertão na modernidade. Riobaldo cogita trabalhar como ajudante do alemão, viajando e “vendendo ferramentas por aí” (GSV, pg. 141), quando foge da casa do pai em uma de suas crises existenciais. Mas a intenção do protagonista-narrador não se concretiza, pois Vupes recusa o pedido. A partir disso, o narrador muda completamente o rumo da sua vida ao receber a oportunidade para dar aulas a um senhor “na Fazenda Nhanva, altas beiras do Jequitaí, para o ensino de todas as matérias” (GSV, pg. 142). Este senhor era Zé Bebelo - personagem analisado de forma mais densa no último episódio. A partir dali, Riobaldo entraria de corpo e alma no Sistema Jagunço, contexto inversamente proporcional ao “estável” e “moderno” trabalho de comerciante, em que o narrador por pouco não ingressara: “Ah, e se não fosse, cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã que não conforma resposta” (GSV, pg. 142). Qual teria sido o destino seguinte de Riobaldo caso Vupes o empregasse no serviço? Pelo viés do comércio, o protagonista poderia realizar trajetos de idas e vindas entre o rural e o urbano, sem se envolver nas disputas políticas e na violenta luta dos jagunços, semelhantemente ao Vupes: “Hê, hê, com toda a confusão de política e brigas, por aí, e ele não somava com nenhuma coisa: viajava sensato, e ia desempenhando seu negócio dele no sertão” (GSV, pg. 87). Uma realidade muito menos épica do que sua travessia de jagunço, imerso em combates e preso ao destino junto a Diadorim. Ao receber e hospedar o jovem doutor da cidade para ouvir sua estória anos depois do contato com o “sistemático” alemão, sabe-se que o comerciante andarilho vive abastado, na capital do estado: “é dono de venda grande, loja, conforme prosperou” (GSV, pg. 87). Contudo, no período em que Riobaldo já se firmava como jagunço, Vupes o reencontra no Norte de Minas e pede escolta para realizar viagem com destino à cidade de São Francisco. Mesmo para o caixeiro viajante inserido em outras atividades cotidianas, o sertão era um espaço conflituoso no terreno de Grande Sertão: veredas. A fala dele remete a um sertão “muito atrapalhado” e, por isso, 114 pede ajuda ao jovem jagunço: “– Sei senhor homem valente, muito valente... Eu precisar de homem valente assim, viajar meu, quinze dias, sertão agora aqui muito atrapalhado, gente braba, tudo...” (GSV, pg. 87). O quadro de guerras intermitentes na região chega a intervir diretamente nas atividades econômicas que são desenvolvidas ainda de forma inicial pelos comerciantes e pelos fazendeiros que tentam prosperar na agricultura. Em contraposição aos que detém o poder, ainda resguardados pela violenta lei jagunça, e distantes da prosperidade comercial das vilas, outras personagens vagueiam miseravelmente pelo sertão afora e mal são percebidos pelos jagunços. Eles representam uma espécie de outra classe social, distinta também dos guerreiros. Ao levar o Vupes em escolta pelo norte mineiro, Riobaldo compara, ao seu modo, a penúria da população rural contraposta ao seu contentamento pela “profissão jagunça” – uma vida “vivida por cima”: Mas o mais garboso fiquei, prezei a minha profissão. Ah, o bom costume de jagunço. Assim que é vida assoprada, vivida por cima. Um jagunceando, nem vê, nem repara na pobreza de todos, cisco. O senhor sabe: tanta pobreza geral, gente no duro ou no desânimo. Pobre tem de ter um triste amor à honestidade. São árvores que pegam poeira. A gente às vezes ia por aí, os cem, duzentos companheiros a cavalo, tinindo e musicando de tão armados-e, vai, um sujeito magro, amarelado, saía da algum canto, e vinha, espremendo seu medo, farraposo: com um vintém azinhavrado no conco da mão, o homem queria comprar um punhado de mantimento; aquele era casado, pai de família faminta. Coisas sem continuação... (GSV, pg. 87-88) Estes personagens que vivem à margem tanto do poder dos fazendeiros, como dos embrionários progressos comerciais das vilas, fazem parte de uma realidade distinta também a dos guerreiros jagunços. Não pela condição social em que se encontram, mas pelo contraste dos valores morais a que os dois grupos são definidos. Se no caso do jagunço, como já vimos, há uma condição ambígua que pode representá-lo ora como cavalhereisco, ora como assassino e criminoso, a realidade da população rural pode ser vista tanto pela perspectiva da humildade, honestidade e da labuta em seus serviços, como pelo descaso e pelo tom da miséria em que se encontram. 115 Embora saibamos que nas novelas de Corpo de Baile a violência não está muito distante de seus cenários, os personagens deste livro não se dedicam a violência como forma de vida, como acontece em Grande Sertão: veredas, mas sim na labuta rotineira no campo. Naquela obra retira-se o foco das lutas jagunças e assassinatos, para tratar, dentre outras coisas, das possibilidades e dificuldades da vida familiar nos gerais (LIMA, 2001; RONCARI, 2004; SOARES 2007). A sociedade representada se dispõe, de uma forma geral, em torno do núcleo familiar central referente ao proprietário da terra, no topo da escala social, a partir do qual se estabelecem as relações com outras camadas hierárquicas. Ou seja, outros fazendeiros detentores de menor poder, parceiros, vaqueiros, agregados, dentre outras posições deste meio social. Como esclarece minuciosamente Carlos Augusto Monteiro (2006), todas as sete novelas da obra permitem detectar como a estrutura social dos gerais se perpetua. Em “Cara-de Bronze”, por exemplo, a regência da propriedade “de riqueza dada e feita” (CB, pg. 560) se dá pela presença de um poderoso e misterioso fazendeiro, assessorado por uma “chusma de vaqueiros” (CB, pg. 560). Já em “A estória de Lélio e Lina”, Seo Senclér tem menos sorte, pois vem perdendo o prestígio e declinando financeiramente em sua Fazenda do Pinhém. Manuelzão, em “Uma estória de amor”, se autodenomina pelo status ambíguo de “quase sócio, meio capataz de vaqueiro, certo um empregado”, ao administrar uma propriedade que não o pertence – a Samarra (CB, pg. 135-245). Em categoria inferior despontam também os “parceiros” e agregados às fazendas, que trabalham duro e sem muita perspectiva, caso típico de Nhô Berno, pai de Miguilim em “Campo geral”. Mas o grosso mesmo da população presente em Corpo de Baile é ainda de menor relevância social, são aqueles que “labutam na lavoura e que enfrentam dificuldades ainda maiores, desde que vivem subordinados aos proprietários com quem apenas partilham porcentagens ínfimas de bezerros nascidos e produtos colhidos” (MONTEIRO, 2006, p. 9). Na fazenda do Buriti Bom, em “Buriti”, por exemplo, se nota mais claramente a dinâmica do modo de vida de pessoas de classe superior e sua disposição dentro do arranjo social em Corpo de Baile. E é nesta situação em que 116 podemos ver como se aproxima a perspectiva da pobreza rural pelo olhar “jagunço” de Riobaldo aos pobres pedintes que apareciam na rica propriedade de Iô Liodoro: Em certos dias, surgia na varanda uma mansa gente — os pobres do mato. Eram umas velhas, tiritáveis, xales pretos tapando remendos e molambos, os rostos recruzando mil rugas; e as rugas eram fortes, assim fortes os olhos, os queixos — e quase todas eram de uma raça antiga, e claras: davam idéia de pertencer a uma nação estrangeira. Ou os velhos, de calças arregaçadas, as roupas pareciam muito chovidas e secadas no corpo, esses homens se concentravam, num alquebro, sempre humildes. Aquelas roupas tinham sido fiadas e tecidas à mão, por suas mães ou mulheres, ou filhas. Eles deviam de ter passado por caminhos estranhos — carrapichos, pedaços de gravetos, folhas verdes, prendiam-se em seus paletós, seus chapéus. Como deviam de morar em bordas de grotas, ou recantos abstrusos dos morros, em antros e choupanas tristonhas, onde os ventos zuniam e a chuva gotejava. Esses podiam testemunhar milagres. Não, o sertão dava medo — podia- se cair nele adentro, como em vazios da miséria e do sofrimento (CB, pg. 747). Essa gente que procura qualquer tipo de assistência e caridade na grande propriedade do Buriti Bom se assemelha aos catrumanos encontrados pelo bando de Zé Bebelo no povoado do Pubo e do Sucruiú, em Grande Sertão: veredas. Nos dois casos se vê o extremo da miséria do sertão, personagens que mal conseguem inserir-se na condição da plebe rural, ou seja, daqueles que sobrevivem à custa do latifúndio como agregados, meeiros, vaqueiros e moradores. Para atermos mais estritamente a este episódio de Grande Sertão: veredas verificamos que, segundo o Léxico de Guimarães de Rosa, de Nilce Sant’anna Martins, a palavra catrumano é uma designação do caipira, matuto, sertanejo, porém impregnados por uma conotação depreciativa. A etimologia vem de quadrumano, alteração prosódica por quadrúmano, que leva a aproximação de quadrúpede (MARTINS, 2008, pg. 108). Visto que eles vivem na mais completa miséria, Riobaldo enxerga naqueles homens uma raça “diverseada distante” (GSV, pg. 404), inclusive aproximando-os dos bichos: “estavam menos arredados dos bichos que nós mesmos estamos” (GSV, pg. 404) ou “nem não saíam dos solapos, segundo refleti, dando cria feito bichos, em socavas” (GSV, pg. 400). 117 A condição de um contingente de miseráveis naqueles povoados é o contexto ideal para o ofício de Seo Habão, proprietário que explora a mão-de-obra local para sustentar a riqueza de suas terras. Dono de ao menos três propriedades citadas pelo narrador – o Valado, no Sucruiú, a Coruja e outra grande fazenda na vertente do Resplandor – Habão se mostra preocupado com o surto da bexiga preta na comunidade do Sucruiú, castigando os moradores que constituem a força de trabalho para as lavouras de cana e arroz. Riobaldo chama a atenção para o foco empreendedor do fazendeiro que só “entendia de assuntos triviais” (GSV, pg. 430), na prosperidade de seus investimentos e na grande preocupação com o lucro - “o dinheiro para ele devia de ter valor” (GSV, pg. 428). Valores muito distintos daqueles estimados entre os “provisórios” jagunços, como relatado pelo narrador ao observar a conversa entre o fazendeiro e o chefe jagunço Zé Bebelo: Fiquei notando. Em como Zé Bebelo aos poucos mais proseava, com ensejos de ir mostrando a valia declarada que tinha, de jagunço chefe famoso; e daí, sutil, se reconhecia da parte dele um certo desejo de agradar ao outro. Por causa que o outro era diferido, composto em outra séria qualidade de preocupações. E seô Habão, que escutava com respeito, devagarzinho pegava a fazer perguntas, com a idéia na lavoura, nos trabalhos perdidos daquele ano, por desando das chuvas temporãs e do sol grave, e das doenças sucedidas. O que me dava a qual inquietação, que era de ver: conheci que fazendeiro-mor é sujeito da terra definitivo, mas que jagunço não passa de ser homem muito provisório (GSV, pg. 429, grifos nossos). Portanto, toda a idealização da jagunçagem pormenorizada ao longo do romance não faz parte da visão de mundo de Seo Habão. Apesar de demonstrar respeito quando se fala de grandes guerreiros como Joca Ramiro, Hermógenes e Ricardão, e nas guerras, tiroteios e outros batalhas, o fazendeiro não exibe grande interesse no universo jagunço, e sim, nas aspirações econômicas de suas terras. Ao observar as características essenciais de Habão, Riobaldo passa a se dar conta de outras configurações presentes no meio social do sertão. Na conversa travada entre o proprietário e o narrador-jagunço expõe-se o lado mais perverso das atividades nas fazendas, revelando como a exploração 118 dos moradores dos povoados é inteiramente marcada pelo princípio do lucro. Inicialmente, Habão comenta sobre a peste no Sucruiú: - “A bexiga do Sucruiú já terminou. Estou ciente dos que morreram: foram só dezoito pessoas...” (GSV, pg. 431, grifos nossos). E, posteriormente, esclarece a respeito de suas próximas ações para retomar a estabilidade da atividade econômica, atitudes implícitas à exploração secular do Sertão brasileiro e da relação entre latifundiário e a massa rural, conforme mencionado pelo narrador: “Disse que ia botar os do Sucruiú para o corte da cana e fazeção de rapadura. Ao que a rapadura havia de ser para vender para eles do Sucruiú, mesmo, que depois pagavam com trabalhos redobrados” (GSV, pg. 431) 22. Na verdade, essa mão-de-obra explorada não representa apenas uma minoria do meio rural brasileiro, mas “uma imensa massa humana excluída do processo produtivo principal, e que vive como pode, aplicada a atividades marginais e esporádicas” (GALVÃO, 1972, pg. 36). Uma massa constituída por todos os que não têm meios de vida, representando “a maioria da população livre do país” (GALVÃO, 1972, pg. 36). Riobaldo viria a se surpreender ainda mais quando o fazendeiro examina os próprios jagunços com potencial para mão-de-obra no trabalho da lavoura, já que está desfalcado de parte dos servos do Sucruiú. Neste momento o narrador enxerga o caráter ilusório da jagunçagem, dando conta de sua posição social verdadeira, como afirma Willi Bolle: “Se ele depusesse as armas nesse momento e abandonasse a jagunçagem, não seria mais que um simples diarista, desaparecendo no meio da plebe rural” (BOLLE, 2004, pg. 150). Neste sentido, a posição do protagonista é clara e o distingue das personagens que labutam no dia a dia no meio rural de Corpo de Baile e de outros viventes de Grande Sertão: veredas: E espiou para mim, com aqueles olhos baçosos – aí eu entendi a gana dele: que nós, Zé Bebelo, eu, Diadorim, e todos os companheiros, que a gente pudesse dar os braços, para capinar e 22 O ideal capitalista de Seo Habão causa até ironia por parte de Riobaldo, como mostra este trecho: “Do que destapei: que um desses, com a estirpe daquele seô Habão, tirassem dele, tomassem, de repente, tudo aquilo de que era dono – e ele havia de choramingar, que nem criancinha sem mãe, e tatear, toda a vida, feito ceguinho catando no chão o cajado, feito quem esquenta mãos por cima dum fogo fumacento” (GSV, pg. 433) 119 roçar, e colher, feito jornaleiros dele. Até enjoei. Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos! (...) Nós íamos virando enxadeiros. Nós? Nunca (GSV, pg. 431-432) Apesar da repulsa de Riobaldo quanto à subalternidade do trabalhador pobre e sua condição no campo, a posição social do jagunço, em si, não é tão distinta do homem das lavouras e da pecuária, se compusermos uma análise fria para comparação: ambos estão sujeitos aos mandos do político poderoso ou de fazendeiros ricos e possuem uma falsa liberdade – já que não tem propriedade, qualificação profissional, instrumentos de trabalho, nem direitos e deveres -, tendo como corolário a dependência absoluta. Por isso, o único meio de sobreviver é colocar-se sob proteção de um poderoso (GALVÃO, 1972, pg. 37). Enquanto sujeitos sociais, tanto o “enxadeiro” quanto o “jagunço” são determinados pela exclusão do processo econômico e encontram sua possibilidade de sobrevivência determinada pela peculiaridade do latifúndio. Desta forma, encontramos ao mesmo tempo distinções e semelhanças entre os personagens principais de Grande Sertão: veredas e Corpo de Baile. Todos pertencem à mesma massa da população do meio rural brasileiro, sendo que os jagunços da primeira obra são envoltos por feitos notáveis e heroísmos, enquanto os da segunda representam os trabalhadores anônimos e o cotidiano de personagens comuns do interior brasileiro (LIMA, 2001; SOARES, 2007). No trabalho de Deise Dantas Lima, por exemplo, verifica-se uma contiguidade entre o sertão marcado pelos feitos grandiosos da jagunçagem, em “fama de glória”, de Grande Sertão: veredas e “o humilde cotidiano dos trabalhadores de fazenda de pecuária” de Corpo de Baile (LIMA, 2001, pg 16). Nesta segunda obra, enfocada pela autora em Encenações do Brasil rural em Guimarães Rosa (2001), “o proprietário tem sua riqueza defendida e reproduzida não pela ação espetacular dos jagunços, mas pela labuta rotineira dos lavradores da terra alheia e dos vaqueiros” (LIMA, 2001, pg. 16). A transição entre estes dois livros – que chamamos neste trabalho de 1º e 2º momentos alegóricos do sertão de Guimarães Rosa - pode ser notado por meio 120 de elementos de Grande Sertão: veredas que diferenciam crucialmente o tempo da história narrada (entre o final do séc. XIX e início dos anos 30) e o tempo presente da narração (mais próximo de meados do século XX, período histórico equivalente a história narrada de Corpo de Baile). A perspectiva do presente da narração indica que os jagunços já não são figuras tão frequentes perambulando pelo sertão, segundo depoimento de Riobaldo: Tempos foram, os costumes demudaram. Quase que, de legítimo leal, pouco sobra, nem não sobra mais nada. Os bandos bons de valentões repartiram seu fim; muito que foi jagunço, por aí pena, pede esmola. Mesmo que os vaqueiros duvidam de vir no comércio vestidos de roupa inteira de couro, acham que traje de gibão é feio e capiau (GSV, pg. 41-42) Com as mudanças de costumes ocorridas entre o período da história narrada e da perspectiva presente da narração do ex-jagunço, nota-se que alguns antigos companheiros da jagunçagem se tornaram mendigos, em condições de extrema pobreza. Neste caso, Riobaldo é exceção do meio, pois conseguira ascender socialmente, tornando-se dono da propriedade herdada do Padrinho Selorico Mendes. Willi Bolle considera, inclusive, que houve na vida do protagonista uma tremenda mudança de fortuna e de status social (Bolle, 2004, pg. 150). No tempo da narração, Riobaldo pode ser considerado um típico latifundiário, tendo como subordinados os antigos companheiros de armas. Se a guerra entre jagunços já não é mais “costumeira” como antes, seus trabalhadores permanecem a postos para defender a propriedade do narrador, caso se faça necessário, como é possível vislumbrar no trecho abaixo: Chegassem viessem aqui com guerra em mim, com más partes, com outras leis, ou com sobejos olhares, e eu ainda sorteio de acender esta zona, ai, se, se! É na boca do trabuco: é no té- retêretém... E sozinhozinho não estou, há-de-o. Pra não isso, hei coloquei redor meu minha gente. Olhe o senhor: aqui, pegado, vereda abaixo, o Paspe – meeiro meu – é meu. Mais légua, se tanto, tem o Acauã, e tem o Compadre Ciril, ele e três filhos, sei que servem. Banda desta mão, o Alaripe [...]! Depois mais: o João Nonato, o Quipes, o Pacamã-de-Presas. E o Fafafa [...] Ele cria cavalos bons. Até um pouco mais longe, no pé-de-serra, de bando meu foram o Sesfredo, Jesualdo, o Nélson e João Concliz. Uns outros. O Triol... E não vou valendo? Deixo terra com eles, deles o 121 que é meu é, fechamos que nem irmãos. Para que eu quero ajuntar riqueza? Estão aí, de armas areiadas. Inimigo vier, a gente cruza chamado, ajuntamos: é hora dum bom tiroteiamento em paz, exp’rimentem ver. Digo isto ao senhor, de fidúcia. Também, não vá pensar em dobro. Queremos é trabalhar, propor sossego (GSV, pg. 40) Outro exemplo pontual do tempo da narração em Grande Sertão: veredas pode se relacionar a um traço característico de Corpo de Baile referente ao deslocamento de personagens por diferentes espaços do meio rural. Outro meeiro da propriedade de Riobaldo, Zé-zim simboliza um típico personagem que seria enfocado nas novelas da segunda obra. Ele representa o constante trânsito da população pobre pelos gerais: Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-ogiro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: – “Zé- Zim, por que é que você não cria galinhas-d’angola, como todo o mundo faz?” – “Quero criar nada não...” – me deu resposta: – “Eu gosto muito de mudar...” Está aí, está com uma mocinha cabocla em casa, dois filhos dela já tem. Belo um dia, ele tora (GSV, pg. 58) Este tipo de situação - muito mais recorrente nas estórias de Corpo de Baile – indica a grande instabilidade vivida pelos personagens que imprimem forma literária para a condição do homem pobre do campo, em que a imagem central do deslocamento – mais ou menos compulsório – por diferentes espaços é refeita em contínua adaptação ao sistema econômico, como observado por Lima (2001, pg. 19). Segundo esta autora, nas novelas rosianas a instabilidade é vivida por cada protagonista como um momento de crise e de tentativa individual de superação das condições econômicas: Corpo de baile movimenta, no primeiro plano narrativo, personagens pobres sem perspectiva de melhoria do quadro da pobreza estrutural que caracteriza a realidade sertaneja, mesmo em passo acelerado para acertar a marcha trôpega da estrutura fundiária no ritmo ditado pelo “dinheiro moderno” (LIMA, 2001, pg. 21 – 22). 23 23 A autora faz a ressalva de que deve-se evitar atribuir apenas ao dado econômico a causa única para os deslocamentos que acontecem nas novelas. É possível notar também nuances psicológicas, morais e afetivas que movem os personagens (LIMA, 2001, pg. 21). 122 Em ambas as obras rosianas tratadas até o momento, a transitoriedade dos personagens permeia o imenso “mar de territórios” do sertão: ora como consequência das andanças dos jagunços e das estratégias em um verdadeiro campo de guerra; ora pelo fato do sertanejo pobre não encontrar meios de fixação e estar sempre em busca de trabalho e do sonho de uma vida melhor. Contudo, a condição comum das travessias das duas obras converge para um mesmo universo dominado pelo latifúndio, onde não há espaço para os pequenos e médios proprietários rurais. O “homem muito provisório”, citado por Riobaldo, não corresponde apenas ao jagunço, o guerreiro das grandes batalhas, mas condiz também ao homem comum do campo, o trabalhador anônimo em sua luta cotidiana. Enquanto que os “sujeitos de terra definitivos” se referem apenas àqueles que conseguem perpetuar o poder da propriedade, como Seu Habão e o próprio Riobaldo (no tempo presente da narração), e os grandes fazendeiros de Corpo de Baile: Iô Liodoro de “Buriti”; o “Cara-de-Bronze”, da novela homônima; Seo Senclér da Fazenda do Pinhém, em “Estória de Lélio e Lina”; e o Frederico Freyre, dono da Samarra em “Uma Estória de Amor”. Para concluir, tomemos novamente como referência a perspectiva analítica de Willi Bolle em grandesertão.br (2004) para notar a maneira como se constituem as relações político-sociais tanto do ponto de vista ficcional da literatura de Guimarães Rosa, como da teoria social. O pesquisador traça um paralelo entre a narração da estória de ascensão de Riobaldo como um raso jagunço a chefe e latifundiário, e a história da institucionalização da propriedade, da lei e da ordem social. Algo semelhante à teoria política utilizada no Contrato Social de Rousseau para compreender a constituição da sociedade civil e do Estado moderno (BOLLE, 2004, pg. 155-174). Bolle considera os instrumentos ficcionais e teóricos de Guimarães Rosa e Rousseau segundo os três princípios fundamentais da sociedade civil: a propriedade, a justiça e a ordem político social. E exemplifica a conexão de tais instrumentos pelo quadro político de Grande Sertão: veredas e seus personagens: 123 1. A questão da propriedade: Medeiro Vaz, o chefe primordial, propõe a abolição da propriedade – enquanto o fazendeiro Ricardão é o defensor da ordem dos latifundiários. 2. A questão da violência e da justiça: o chefe Joca Ramiro queria pôr em prática uma justiça ao alcance de todos, que solucionasse os conflitos de forma não-violenta e “acabasse com a guerra” – ao passo que Hermógenes, “matador muito pontual”, encarna o princípio da violência e a lei do mais forte. 3. A questão social, ou seja, a existência de um imenso contingente de miseráveis, de onde se originam também os jagunços, e que são representados em sua forma extrema pelos catrumanos. Enquanto o latifundiário seô Habão é mostrado no papel de explorador deles, Zé Bebelo aparece como o político que propõe a abolição da miséria em nome da “modernização” – mas suas palavras acabam sendo desmentidas por suas ações (BOLLE, 2004, pg. 159-160) Elencamos esta leitura de Bolle para compreendermos igualmente o destino contemporâneo do sertão mineiro representado neste episódio pelo Projeto Jaíba. Todos os três princípios da sociedade civil citados e seus respectivos personagens correspondentes na obra de Rosa encontram no “sertão presente” da Jaíba suas correlações, como veremos a seguir. O desejo de abolição da propriedade proposta por Medeiro Vaz, gesto de rebeldia contra os latifúndios, pode ser transportado ao sertão contemporâneo pela imagem do Movimento dos Sem Terra (MST), que luta por um ideal de justiça, (no sentido do princípio da justiça social mais do que da própria lei institucionalizada) algumas vezes recorrendo à violência, assim como fazia “o rei dos gerais”. Por sua vez, Ricardão simboliza os grandes proprietários em luta constante por seus próprios interesses e configura parcela considerável dos grandes grupos econômicos que empreendem significativos investimentos na agricultura irrigada na Jaíba. Joca Ramiro e o ideal de colocar em prática uma justiça de forma não violenta podem ser comparados a algumas iniciativas pontuais no norte de Minas propostas por ONGs, Cooperativas de Pequenos Agricultores, Movimentos Sociais e outras entidades que buscam soluções justas para a realidade sertaneja. A figura do Hermógenes, “matador muito pontual”, também permanece atualizada em todo o interior brasileiro, quando se encarna a violência e a lei do mais forte, com a grande presença de capangas em fazendas para proteger as terras de seus proprietários, ao modo da lei jagunça de Grande Sertão: veredas. 124 Em relação à questão social, a imagem dos catrumanos espalhados pelos ermos cantos do sertão é recorrente não só no meio rural do interior mineiro, como nas periferias das médias e grandes cidades. Neste contexto, figuras dispostas a explorar a miséria como mão-de-obra barata não significa “coisa do passado”, mas continua sendo vivenciado em diversos contextos. Da mesma forma acontece com as promessas de modernização e de desenvolvimento de políticos em âmbito local, regional e nacional. Inclusive, foi a partir deste discurso que os primeiros projetos de desenvolvimento semelhantes ao Projeto Jaíba surgiram no Brasil para dinamizar a economia das regiões mais pobres do país. Elencado como uma importante estratégia para o desenvolvimento da agricultura irrigada em uma região impactada pelos períodos de estiagem prolongada, o Projeto Jaíba significou, a partir dos anos 1960, uma alternativa de investimento para promover o desenvolvimento do norte de Minas Gerais. Localizado entre a margem direita do São Francisco e a margem esquerda do Rio Verde Grande, o projeto objetivou, teoricamente, aumentar a produção de alimentos e matérias-primas para as indústrias, reduzir as adversidades climáticas e aumentar as oportunidade de emprego e renda na região (RODRIGUES, 2000; NETO, JÚNIOR, 1999). Porém, desde sua concepção inicial, o plano geral previa a ocupação de terras irrigadas por grupos empresariais privados que ali implantariam projetos agrícolas de grande porte (NETO; JÚNIOR, 1999, pg. 138-139). Esta linha proposta pelo programa de desenvolvimento deixou de lado, desde os seus primeiros esboços, os vastos contingentes de pequenos agricultores regionais que não dispõem de terras para a prática de agricultura, limitando a capacidade de se criar e distribuir renda em umas das regiões mais pobres do país. A configuração do Projeto Jaíba destinava a irrigar 100 mil hectares e ser implantado em quatro etapas. O início se deu, de fato, em 1975, mas por falta de recursos financeiros, as obras se mantiveram em ritmo extremamente lento nos primeiros anos, até se estagnarem completamente em 1983. Após o financiamento do Banco Mundial, no ano de 1988, o projeto deu sequência às suas atividades. Contudo, devido a inúmeras deficiências de planejamento, questões políticas e 125 problemas de gestão, apenas uma fração muito pequena (5.713,71 ha) da área inicialmente planejada (lOO.OOO ha) estava efetivamente irrigada no final de 1997 (NETO; JÚNIOR, 1997, pg. 139-140). Apesar de estabelecer uma melhor forma de distribuição dos assentamentos das terras irrigadas entre pequenos agricultores, médios empresários e grandes grupos empresariais na reprogramação do planejamento do Projeto em 1988, vários problemas foram detectados por pesquisadores, como Luciene Rodrigues (1998; 2000) e Alfredo Neto e Antônio de Moraes Júnior (1999). Na tese de doutorado de Rodrigues (1998), em que se fez uma exaustiva análise do Projeto Jaíba entre os anos de 1970 e 1996, chegou-se a um balanço final das hipóteses levantadas inicialmente no trabalho. Extraímos a seguir trechos das principais evidências de que o projeto contribuiria para a concentração de renda regional para o benefício de empresários, em detrimento dos pequenos agricultores: O Projeto Jaíba não constitui caso singular: pertence a uma família de megaprojetos, gerados pelos governos locais e por instituições internacionais. (...) Em geral, os megaprojetos consomem muito recursos, contribuem para aumentar a dívida interna e não são capazes de cumprir objetivos delineados. (...) O Jaíba, em seu pleno funcionamento, apresenta condições potenciais para induzir uma nova estrutura de preços na região, próxima a do mercado mundial. Tal situação levaria a uma concorrência desleal com os produtores situados fora do Projeto. Suas pequenas propriedades não estão em condições de produzir de forma competitiva, no futuro próximo, aos que operam no Projeto. Assim, Projetos da natureza do Jaíba terminam afetando, de forma negativa, os pequenos produtores dos municípios sem projeto e tende a arruinar a pequena produção dos agricultores locais. (...) O Projeto Jaíba faz parte de uma família de manipulações socioeconômicas gestada em funções de interesses oligopolistas. Caracteriza-se por não considerar os ensinamentos das teorias de mudança social, de acumulação e de divisão do trabalho (RODRIGUES, 1998, pg. 302-303). Em conversa informal com o proprietário da fazenda na qual tivemos a oportunidade de conhecer no árido outubro sertanejo, podemos compreender ainda mais as vantagens e os grandes problemas do Projeto nas últimas décadas, a 126 partir de uma percepção geral e sincera daquele que avalia um grande contraste entre o que foi previsto pelo Governo e o que se deu na prática na região. Em relação à situação atual, trechos esparsos de sua fala expõem muitos desafios relativos às condições dos trabalhadores e da estrutura organizacional, que necessitam ser superados dentro do planejamento estatal: Deu tudo errado. O Estado preparou de forma errada. Foi feita a licitação sem preparar o território. Fizeram a Etapa 1 primeiro, nos anos 70. Os militares... Grana demais, muito dinheiro. Desde a década de 70 e está funcionando até agora. Teve funcionamento durante anos e depois teve a licitação da Etapa 2. Primeiro ficaram só os colonos lá... Ficou tudo parado até agora em 2000, 2002. Primeiro foram só os colonos, colonos pequenos, aí não deu mão de obra, deu tudo errado. (...) Eu perdi uma cozinheira agora, porque aqui não tem escola. Ela tem 3 filhos e não tem [escola], como é que faz? Eu que vou arcar com isso? Não tem jeito! Agora eu vou arrumar uma briga grande aí! Brigar assim, nós vamos apertar a política mesmo! Pelo menos para ter uma linha de ônibus, até essa vila aqui da frente.... A vila fica lá no meio do mato... Agora já tem os Sem-Terra, o povo já ocupou. Está começando a Vila a acontecer. Mas aí pra você ver: na escola, tem é a empreiteira alojada!! A empreiteira foi lá e tomou posse da escola! Entrou e botou 50 peão lá dentro!! E presta serviço aqui e cobra a diária, entendeu!? Imagina o tipo de gente que dá... Na constante relação entre o sertão ficcional de Rosa e o sertão real experienciados durante o trabalho de campo desta pesquisa, diversos elementos se fizeram sobrepor: o “faz-de-conta” (GSV, pg. 421) de Zé Bebelo para remediar a pobreza do Sertão se equivale aos discursos dos Megaprojetos brasileiros como o Jaíba e que continuam a perpetuar na nossa política atual; Seo Habão, “sujeito de terra definitivo”, alegoria da Propriedade, da Riqueza e da Avarícia (Bolle, 2004, pg. 168) encarna os interesses oligopolistas de grupos empresariais e donos de terras no sertão mineiro; enquanto os “homens muito provisórios”, catrumanos, sertanejos, geraizeiros, pequenos produtores e trabalhadores comuns, almejam 127 sair da condição que Walnice Galvão nomeou como a de “inútil utilizado” (GALVÃO, 1972, pg. 41-47). Seriam personagens ficcionais ou reais? Homens provisórios a serviço de sujeitos de terra definitivos? Provisórios, portanto livres? Ou livres, mas em submissão? Walnice Galvão chama a atenção para essa massa de sujeitos disponíveis em suas “experiências avulsas”: livres, e por isso mesmo dependentes; sem ter nada seu, e por isso mesmo servidores pessoais de quem tem; inconscientes do destino, e por isso mesmo tendo seu destino totalmente determinado por outros; sem causas a defender, e por isso mesmo usados para defender causas alheias; avulsos e móveis, e por isso mesmo chefiados autoritariamente e fixados em sua posição de instrumento (GALVÃO, 1972, pg 41- 42). Em seus destinos provisórios e à procura de um porvir definitivo, estes homens e mulheres se encontram em constante deslocamento por terras que mais parecem miragens indefinidas em meio às paisagens ilusórias do sertão. Personagens que permutam neste espaço-tempo ficcional e real: catrumanos, matutos, sertanejos, ribeirinhos, cangaceiros, jagunços, geraizeiros, enxadeiros, moradores das periferias, lavradores e todos aqueles que necessitam conduzir-se por incertos destinos, lugares desconhecidos. Na Jaíba, além da cozinheira que não encontra uma escola para que os filhos estudem e tenham destino mais definitivo - ou menos provisório - e mais uma vez recorre ao deslocamento, assistimos um dos funcionários da fazenda pedir demissão junto ao patrão. Circunstância mais do que comum, como nos conta o proprietário: poucos são os trabalhadores que permanecem e se vinculam àquele trabalho. Nas condições precárias em que ficam expostos no sertão, eles tendem a exercer suas atividades esporádicas, favorecendo cada vez mais a instabilidade, vidas inseguras e outras mobilidades. A maioria desta gente é originária de uma população que vive à deriva, uma multidão que vislumbra a estrada como espaço móvel de uma esperança que nunca acaba. 128 As razões de não ser. O que foi que eu pensei? Nas terríveis dificuldades; certamente, meiamente. Como ia poder me distanciar dali, daquele ermo jaibão, em enormes voltas e caminhadas, aventurando, aventurando? (GSV, pg. 201) Figura 19: Bananal na Jaíba – Autoria: Frederico Gonçalves Figura 20: Captação de água do Rio São Francisco – Autoria: Gabriel de Oliveira 129 Antiquário dos Gerais A vida não tem passado. Toda hora o barro se refaz. Deus ensina 8 – X – 2012. Loja do Brasinha, Cordisburgo O primeiro dia do trabalho de campo para esta pesquisa se deu no dia 8 de outubro de 2012, partindo de Belo Horizonte diretamente para a terra natal de Guimarães Rosa, Cordisburgo. O simpático município, distante pouco mais de 100 km da capital mineira, estabeleceu ao longo dos anos fonte de inspiração para meus trabalhos, desde a época da monografia de graduação em 2009, quando comecei a conhecer este sertão rosiano e seus personagens. Alguns contatos e amizades foram nascendo neste processo, permitindo uma aproximação contínua entre o tema teórico da pesquisa e a fascinante magia sertaneja. Quando se passa por Cordisburgo, qualquer viajante interessado na relação espaço-obra na literatura de Rosa, cativado pelas singularidades do sertão mineiro, ou mesmo à procura dos encantos da Gruta de Maquiné - atrativo turístico mais visitado no município - provavelmente encontrará, antes de qualquer informativo turístico na cidade, a loja de José Osvaldo dos Santos, o Brasinha. O comerciante é um especialista informal da obra rosiana e as associações entre a literatura e os lugares e pessoas que existem ou existiram na região. Planejamos junto ao Brasinha uma visita ao entorno da Gruta de Maquiné, onde meses antes, durante trabalho de campo do XII Encontro Nacional de Geógrafos na cidade, descobrimos a relação entre a geografia real da Lapinha do Valentim Caiano (antigo “feiticeiro” / “benzedeiro” da cidade) e a ficcional Lapa do Gorgulho (morada de um dos mensageiros do “Recado do Morro”). Desta forma, vindos da frenética capital mineira para o primeiro destino da viagem, realizávamos também o primeiro contato com o sertão de Guimarães Rosa, feito pela “mediação” do comerciante. Na obra do escritor mineiro, este município é espacializado principalmente em alguns contos de Sagarana e na novela “Recado do Morro”, de Corpo de Baile, onde se dá início a uma viagem exploratória comandada pelo 130 naturalista estrangeiro Olquiste (Olquist, Alquiste). Cordisburgo significava para a dissertação, além da referência telúrica na vida de Guimarães Rosa e de sua vivência com o mundo sertanejo na infância, uma aproximação com as paisagens desta novela referida. Assim como o encontro das águas do Rio de Janeiro com o Rio São Francisco simbolizariam momento iniciático para adentrar nas paisagens de Grande Sertão: veredas, Cordisburgo era o passo inicial para o envolvimento com o mundo real-ficcional de Corpo de Baile. E é justamente no Empório do Brasinha que se pode atravessar a primeira janela para estes gerais. “Aqui já é sertão”: é o que está grafado por fortes letras logo na fachada da loja, indicando, de forma emblemática, a ambiência na qual adentrávamos. Os artefatos em exposição em seu interior remetem a reflexões a respeito de significativos aspectos de Corpo de Baile, pois fazem aproximar elementos essenciais da cultura rural e sertaneja às primeiras influências da cidade, retratadas por Guimarães Rosa nesta obra. O mundo muito misturado do empório será abordado aqui como representação do intercâmbio entre cidade e sertão que passam a se imbricar a partir de meados do século XX no Brasil e no plano ficcional de Corpo de Baile. O empório expõe uma miscelânea de artefatos de temporalidades sobrepostas, muitos dos quais representam os primeiros bens de consumo a penetrar no sertão, até então desconhecidos da população rural: bugigangas, brinquedos, artigos farmacêuticos, eletrodomésticos e outros produtos urbanos que apareciam nestas regiões como verdadeiras novidades. Contrapostos a estes novos elementos mencionados, destacam-se na loja também outros objetos mais impregnados na tradicional cultura sertaneja, como pinturas de cabeças de bois, miniaturas de vacas e cavalos, artefatos religiosos, quadros da arquitetura colonial e da paisagem local, em meio a fotos do cerrado mineiro e suas veredas. No diário de campo, alguns destes itens foram transportados detalhadamente para o conteúdo das anotações: (...) vários utensílios antiquíssimos, recortes de jornais, quadros de Guimarães Rosa e outros sertanejos, várias citações rosianas espalhadas, xícaras, panelas, chaleiras, 131 lâmpadas coloridas, geladeiras “víntages”, cabides, chapéus, vasos, estandartes, baleiros, frigideiras dependuradas, quadros de santos, televisões e muitos rádios antigos, relógios de parede, bonecas, uma coruja ornamental, violões estilizados, garrafas de bebidas alcoólicas, fotos de Guimarães em vários momentos de sua vida, desenhos de cabeças de bois, moedores, remédios antigos em garrafas, merendeira do Sandy e Junior, máquina de costura completamente pintada e marcada por flores, telefones, muitos recortes de revistas, carrinhos de brinquedo, instrumentos musicais (violino, bandolim, flauta, violão), latas de produtos domésticos dos anos 50, flâmulas, máquinas de fotografia, máquinas de escrever, quadro do Che Guevara, liquidificadores, miniatura de bois e cavalos (...). No Brasil, a partir da Era Vargas (1930-1945 e 1951-1954), a influência urbana tenciona a trazer para o meio rural mudanças relativas aos modos de vida, comportamentos, padrões de trabalho e consumo de suas populações. Diferentemente de Grande Sertão: veredas, as novelas de Corpo de Baile dão maior ênfase para a emergência de uma cultura urbana no interior mineiro e o advento dos primeiros efeitos da modernização no ambiente rural, permitindo a chegada assimétrica do que é considerado moderno nestas regiões. Neste quadro, uma tensão é inaugurada entre o arcaico e o moderno, e entre o rural e o urbano no plano ficcional de Guimarães Rosa, ao mesmo tempo em que, nos anos 40 e 50, o país assiste a chegada de “modernidades tardias” (SOUZA, 1998) em grande parte do território nacional. Segundo Eneida Maria de Souza (1998), as modernidades tardias se referem a um conceito que observa a superposição de temporalidades distintas e capta as vacilações do novo, relendo a permanência e a mudança da tradição moderna (SOUZA, 1998, pg. 29-30). Os ensaios que compõem o livro da autora abordam o sentido de “tardio”, entendido como o que vem fora do tempo, de duração lenta e de recepção defasada. Este conceito é essencial para a compreensão da relação entre o que foi produzido literariamente em Corpo de Baile e a realidade socioespacial do sertão mineiro em meados do século passado. Ele pode contribuir para análise do descompasso existente entre os aspectos progressistas e desenvolvimentistas da 132 modernização urbana e sua assimetria quanto à perspectiva retrógada do Brasil rural naquele período. Para esclarecer ainda melhor o conceito das modernidades tardias, Roniere Menezes pondera que: As modernidades tardias estão vinculadas, no Brasil e na América Latina, a um campo de sentido em que a industrialização, a abertura comercial, os meios de comunicação de massa, entre outros fatores, contribuirão para a formação de novas construções identitárias e de um novo imaginário social. As modernidades tardias não se definem por um momento, mas pela recepção gradativa da modernidade, em outro ritmo e em outro tempo (MENEZES, 2011, pg. 32-33). Ainda segundo o autor, as modernidades tardias devem ser vistas temporalmente de modo “tardio” e espacialmente de modo “periférico” (MENEZES, 2011, pg. 34). A modernização, marcada pela primazia do urbano e apresentada ao imaginário social por ícones arquitetônicos, industriais e midiáticos, foi um caminho para que se instituísse a consolidação da modernidade no país. Porém, as ações modernizadoras não se deram de forma completa, se considerarmos a questão social do Brasil como um todo. Ou seja, nos anos 50 há um aprofundamento e ampliação da industrialização e da urbanização iniciada em 1930, contudo não se avança no sentido de transformar o quadro de extrema desigualdade em plano nacional. Embora não sejam reveladas nas narrativas de Corpo de Baile marcas explícitas concernentes ao referencial histórico, pode-se inferir que o livro, lançado no ano de 1956, engloba temporalmente o período desenvolvimentista do governo de Getúlio Vargas no país. No conjunto da obra rosiana, do ponto de vista espacial, social e histórico, e levando em conta as análises referidas nesta dissertação, pode- se considerar que os gerais desta obra, em processo de aproximação com o mundo urbano, reconstroem literariamente um estágio intermediário entre o sertão jagunço, rústico, violento e sem lei de Grande Sertão: Veredas – 1º momento alegórico do sertão - e a cidade no sertão, representada pelos contos “As margens da alegria” e “Os cimos” de Primeiras Estórias – 3º momento. Além dos aspectos trabalhados no último episódio concernentes ao caráter transitório dos personagens que se deslocam pelos cenários de Corpo de 133 Baile e da tematização das tarefas cotidianas dos homens pobres e simples que povoam os gerais, novas características deste meio socioespacial serão abordadas, em seguida, para singularizar o 2º momento alegórico do sertão rosiano.24 Nas novelas desta obra estabelecem-se articulações importantes entre o sertão e a cidade, proporcionando situações de permanências e transgressões nas fazendas da região. O mandonismo local, personificado nos traços do chefe patriarcal, busca manter e impor determinados valores, estimando a estrutura familiar, a propriedade, a herança, a ordem e o poder. Em compensação, várias infrações deste sistema brotam através da influência da cidade, atuante na própria relação entre os personagens e também pelo fascínio ao novo: as novelas de rádio ouvidas por Soropita em Andrequicé, em “Dão-la-lão”, a aparelhagem do veterinário Miguel e os luxos urbanos de Lalinha em “Buriti”, dentre outros elementos. No caso de “Buriti”, por exemplo, alguns destaques dentro da narrativa expõem os dois extremos do embate entre o patriarcalismo e ascensão do urbano. Em uma das extremidades, a obediência e o temor dos que convivem com o fazendeiro Iô Liodoro externam a afirmação de uma estrutura rígida, capaz de dar sustentação às relações existentes. Vigoram relações paternalistas de proteção das camadas socialmente inferiores e desvalidas da possibilidade de assistência pelas instituições civis e Estado, mas que, em contrapartida, induzem a várias condicionantes de submissão, como a prestação de serviço e o alojamento de favor. O temor dos habitantes ao redor da fazenda do Buriti Bom se manifesta pelo teor de “respeito” ao patrão, expressando, sobretudo, uma obediência geral ao homem que impunha a ordem e “regia” o trabalho de todos na localidade. Nhô Gualberto Gaspar, fazendeiro vizinho da família de Liodoro, comenta que ele é 24 Além da aparição de personagens em mais de uma das estórias e da coesão contextual do meio social dos gerais em Corpo de Baile, Soares (2007) esclarece que a unidade de conjunto do livro pode ser sustentada ainda por outros dois importantes componentes: o fato de serem sete estórias, que são também o número dos conjuntos perfeitos (os dias da criação, os planetas da cosmologia tradicional, os ramos da árvore cósmica...); e também pelo título que as articula: "trata-se de um corpo, um organismo resultante do inter-relacionamento de suas partes constitutivas” (SOARES, 2007, p. 40). 134 “mais forte que uma lei, na sisudez dos antigos” (CB, 644). Sua imponência é maior e se faz mais atuante do que as leis instituídas e do que o próprio governo, pouco presente naqueles gerais. Em diversos trechos da novela vemos o vizinho enfatizar os comportamentos do patriarca: Ao em volta de iô Liodoro, tudo não se concebia calado? Iô Liodoro regia sem se carecer; mas somente por ser duro em todo o alteado, um homem roliço – o cabeça. [...] –“Amigão, meu amigo... Abaixo da minha família e de Deus, ele é quem eu prezo. Por ele enfrento, se preciso hajar! Por ele morro...” [...] Temiam iô Liodoro? Tem um não em todo sim e as pessoas são muito variadas. Aí, em algumas horas, temessem. Mas não precisavam de dar demonstração. Tinham respeito. (CB, p. 643, 644, grifos nossos). O senhor ver um homem em mando, vê Iô Liodoro. Ele mesmo não põe mão em trabalho, de jeito nenhum, mas tudo rege sisudo, com grandeza. Quase todo o povinho deste nosso derredor, figuro que trabalham para mim ou para ele. O que Iô Liodoro é, é antigo. Lei dum dom, pelos costumes (CB, pg. 654, grifos nossos). O chefe Liodoro simboliza, portanto, os “costumes” e o “antigo”, buscando cumprir os valores do regime em vigência. Sua dominação transparece também no comportamento poligâmico que sustenta em volta da fazenda. Se em casa, a dignidade, a discrição e o amor pela família são suas características marcantes, fora da casa ele mantém relacionamentos frequentes com amantes: “Dentro de casa, compadre iô Liodoro é aquela virtude circunspecta, não tolera relaxamento. [...] Mas, por em volta, sempre teve suas mulheres exatas” (CB, pg. 654, grifos nossos). Assim, ele reproduz uma conduta condizente às “regras sexuais do patriarcalismo”, rotineiramente adotada pela sociedade patriarcal, como afirma Luiz Roncari (2008): [...] ele realiza por inteiro a duplicidade do comportamento ou da hipocrisia patriarcal brasileira: a máscara de integridade e seriedade na vida oficial, familiar e pública; e a concretização de todos os impulsos incontidos, clandestinamente, na vida noturna, geralmente com as mulheres de agregados e clientes pobres (RONCARI, 2008, p. 54). Além desses fatores, o chefe patriarcal procura dar continuidade aos negócios da fazenda e preservar os laços materiais e simbólicos da família. Contudo, o Buriti Bom vem sofrendo uma série de influências e restrições, gerando 135 dificuldades para a estabilidade da célula familiar, exemplificados pelos descaminhos de seus quatro filhos: Iô Irvino abandona Lalinha para fugir com outra mulher e, raramente dá notícias em casa; Ísio casa-se com uma ex-prostituta, que não é aceita pela família; Maria Behú é dedicada quase que exclusivamente as rezas e não possui intenção de casar-se; e Maria da Glória ainda não possuía um pretendente real para o matrimônio, exceto pela possibilidade da volta de Miguel à fazenda. O grande proprietário passa por uma condição delicada, tendo em vista os abalos que emergem dentro da estrutura interna da família, um dos sustentáculos da ordem patriarcal. As influências exógenas também chegam para alterar as relações dentro da casa e sugerem um contato cada vez mais íntimo da cidade com os gerais. A influência da modernização no “inóspito” sertão é introduzida por novos ingredientes trazidos tanto por Miguel - em menor escala -, como pelo comportamento urbano de Lalinha - em maior escala. Após o abandono do marido Irvino (filho de Liodoro), Lalinha fora levada pelo sogro para morar na fazenda, pois “tinha de continuar fazendo parte da família” para prezar “inteiro o estatuto da casa” (CB, pg. 644). Seu perfil urbano propicia, por um lado, curiosidade e desconfiança pelos personagens habituados ao modo de vida sertanejo e, por outro, um grande deslumbramento. Miguel dá sua versão sobre a moça, em tom de encantamento: Vê-se, é pessôa fina, criada e nascida em cidade maior, imagem de princesa. Cidade: é para se fazerem princesas. Sua feição – os sapatinhos, o vestido, as mãos, as unhas esmaltadas de carmesim, o perfume, o penteado. Tudo inesperado, tão absurdo, a gente não crê estar enxergando isto, aqui nas brenhas, na boca dos Gerais. Esta fazenda do Buriti Bom tem um enfeite. Dona Lalinha não é de verdade (CB, pg. 631, 632). Será que os roceiros de perto não vão dando notícias de ali haver aquela diferente criatura, e o caso não corre distâncias, no sertão? Uns devem de vir, com desculpa qualquer, mas só para a ela assistir, no real, tomarem certeza de que não é uma invenção formada (CB, pg. 632). Além de despertar impressões sobre a “feição” citadina, como um enfeite, imagem de princesa, quase uma invenção formada, a moça também irá desencadear 136 uma série de transformações nas relações existentes dentro da casa, sobretudo ao estreitar os laços com a cunhada Maria da Glória e Iô Liodoro, que se deixam seduzir pelos encantos da cunhada/nora. Em determinado ponto da estória, Nhô Gual observa os usos da moça e chega a conclusões sobre a disparidade entre a vida no sertão e na cidade: “No que a cidade e o sertão não se dão entendimento: as regalias da vida, que as mesmas não são. Que aqui no sertão, um, ou uma, que muito goza, como que está fazendo traição aos outros” (CB, pg. 645). Por sua vez, Lala também nota as defasagens entre a vida urbana e aquele mundo distante e arcaico, e passa a se lembrar com saudades da cidade, do movimento urbano, da maior dinamicidade das relações pessoais, do cinema, do telefone, do cabeleireiro, das amigas. Comentava com Glória sobre a vida estagnada na fazenda, especialmente para aquelas jovens cheias de vida: “Glória, meu-bem, vocês não sentem a vida envelhecer, se passar?” (CB, pg. 753). Os impactos da ascensão da influência da cidade e da modernização provocam como resultado uma reação dupla entre os sertanejos, motivando ora fascínio e maravilhamento, ora repulsa e desconfiança aos novos elementos. Reiterando a ideia da unidade de Corpo de Baile, reencontramos Miguilim, protagonista de “Campo Geral”, já adulto em “Buriti”, e prestes a pedir em casamento a bela Maria da Glória, uma das filhas do fazendeiro Iô Liodoro. As duas estórias, justamente as que abrem e fecham o livro, marcam simbolicamente a trajetória de vida do menino pobre nascido no isolado Mutum, “longe, longe daqui” (CB, pg. 11), que se muda para a cidade grande, tornando-se veterinário. Miguilim, agora como Miguel, surge no sítio do Buriti Bom para tratar os bois, participando de forma indireta, mas fundamental, na composição do enredo da novela. Ao introduzir a vacina como um novo procedimento para tratar os animais, o veterinário provoca reações inusitadas entre os vaqueiros da fazenda. O olhar entre eles revela curiosidade, traduzida em “um pouco de desprezo, para não se debilitar com excesso de admiração” (CB, pg. 469). Ou seja, um olhar contraditório, que desdenha ao mesmo tempo em que admira. No trecho abaixo, 137 fica claro como aparecem estas contradições sobre os usos que a modernidade traz a partir da desconhecida aparelhagem de Miguel: Aqueles vaqueiros apreendiam com esquisita sutileza todo momento em que alguma coisa demudava – para então olharem assim. Antes, desconfiavam da aparelhagem, do mecanismo das vacinas, quase uma forma de pecado; queriam o que fosse uma benzedura, com virtude de raminho verde de planta e mágicas palavras no encoberto – queriam atalhos. Miguel sabia disso, sentia isso (CB, pg. 649). Tudo aquilo que escapa da rotina dos vaqueiros parece despontar “uma forma de pecado”, uma dúvida constante sobre novos comportamentos. Há aqui um choque entre o método moderno e racional - consequência do avanço técnico- científico urbano - e o pensamento arcaico-popular do sertanejo, que confia nos desígnios da divindade, nos “atalhos”, em “palavras mágicas” ou na eficácia do “raminho verde” que poderia solucionar as doenças dos bichos. 25 Não é por acaso também que Miguel surge na fazenda, em sua segunda visita, conduzido por um jeep, que transita pelos gerais em uma “rapidez fora do comum”, se desentendendo com “o monótono redor, os conduzidos caminhos campeiros” (CB, pg. 629). Além de sair dos gerais do Mutum rumo à cidade grande, o menino inicialmente sem perspectivas em “Campo Geral”, cumpre, em sua fase adulta, a façanha de se formar “doutor”, e ainda chega ao Buriti Bom por intermédio do forte motor do jeep. É o que declara o matuto Gualberto Gaspar: “Primeira vez que alguém chega aqui de jípel, esses progressos...” (CB, pg. 823). O jeep, pela primeira vez naquele lugar, vai percorrendo o cerrado, as estradas fofas e os ermos dos tabuleiros, anunciando e corroborando as transformações na fazenda de Iô Liodoro. Circundando os buritis, aos olhos dos bichos, dos bois e dos voos dos pássaros, o novo veículo e a modernização dão os 25 O confronto cidade-sertão manifestado no instante da vacinação, se dá de maneira oposta quando surge Dô-Nhã, feiticeira levada pelos parentes de Iô Lodoro para tentar unir novamente Lalinha e Irvino. Enquanto as irmãs Maria da Glória e Maria Behú valorizam aquela figura e acreditam na força de seus feitiços, a citadina Lala, pelo menos ao primeiro contato, desdenha as artimanhas de Dô-Nhã: “Como era possível, deus-meu, acreditar-se em branca sombra duma sujeita de burlas dadas? Como?!” (CB, pg. 724). 138 primeiros sinais de que mudanças estão ficando mais próximas daquele sertão isolado, patriarcal e distante da civilização. Se no caso de “Buriti” não sabemos sobre a continuidade dos novos acontecimentos no ambiente moralista da propriedade de Iô Liodoro, o tempo da nobreza patriarcal de “A estória de Lélio e Lina”, por seu turno, parece se desmantelar por completo no final desta narrativa. Para quitar inúmeras dívidas acumuladas por um investimento mal planejado, o fazendeiro do Pinhém, Seo Senclér, necessita entregar a propriedade aos credores como forma de pagamento. O declínio financeiro se dá sucessivamente pela cessão das boiadas, até acabar perdendo, por completo, a fazenda. Deise Lima (2001) comenta que o fracasso do proprietário se dá pela dificuldade de adaptação de Senclér as exigências de uma nova economia: Senclér, embora possua uma grande fazenda para pecuária, com pastos invejáveis e um plantel de primeira linha, envolve-se em negócios desastrosos que acabarão por obrigá-lo a se desfazer da propriedade para saldar dívidas. [...] o poder do dinheiro moderno derrotou um sujeito cuja prosperidade repousava sobre o dinheiro antigo – a riqueza fundiária (LIMA, 2001, pg. 114). Da mesma forma como ocorre em Grande Sertão: veredas, em que o ex- jagunço e idealista Zé Bebelo vai para a cidade para “mover negócio” e “estudar para advogado” (GSV, pg. 622) no final do romance, Seo Senclér, após o fiasco financeiro, abandona suas terras a procura de novas possibilidades do meio urbano, onde poderia “cuidar de outros bons negócios, com ajuda de parentes” (CB, pg. 379). Tanto pelo declínio do sistema jagunço, como do sistema patriarcal, a cidade é vislumbrada como destino migratório natural para estes personagens. Tendo em vista os comentários produzidos até aqui, as transformações em curso nas novelas de Corpo de Baile assemelham-se às manifestações de crise social e cultural decorrentes de mudanças econômicas analisadas no estudo sociológico de Antonio Candido, Parceiros do Rio Bonito (2001). Segundo o autor, em toda conjuntura de crise – tensões ainda não resolvidas - podem-se observar duas características principais dos fatos: os de permanência e os de alteração. Em face das pressões exercidas pelo meio social circundante, sob o influxo da urbanização, como é o caso do contexto social de Corpo de Baile, emerge uma crise 139 nos meios de subsistência, nas formas de organização e nas concepções de mundo. São tensões que condicionam a alteração dos padrões tradicionais, o seu desaparecimento ou a sua persistência (CANDIDO, 2001, pg. 203-205). A linha de pensamento estabelecida na pesquisa de Candido remete não só aos aspectos socioespaciais de Corpo de Baile, mas também aos outros dois momentos alegóricos do sertão e da própria configuração contemporânea do sertão mineiro. Todos estes “momentos” dizem respeito à circunstância de permanência ou persistência como fenômeno de ajuste às novas situações que vão se firmando, independentes do momento histórico, e que podem rejeitar as normas e práticas anteriores, ou incorporá-las, depois redefini-las (CANDIDO, 2001, pg. 204). No caso específico do sociólogo, que estudou os caipiras do interior paulista no final dos anos 40 e início dos anos 50, a economia de subsistência, dominante a princípio na área estudada, coexistiu em seguida com a agricultura comercial, que não se arraigou de maneira a excluí-la, nem a destruir o cerne da cultura caipira. O autor enxerga que a vida tradicional sobreviveu até aquele momento, embora mais ou menos alterada. Entretanto, em sua interpretação, parecia improvável uma resistência à expansão capitalista dali para frente, enquanto fórmula de ajustamento do grupo ao meio em função da subsistência. O trabalho de Candido ganha atenção especial para este episódio, pois retrata um cenário semelhante tanto do ponto de vista histórico (anos 40 e 50), como da perspectiva socioespacial em Corpo de Baile, já que ambos os textos abordam o meio rural da região sudeste, não muito distante do âmago do processo de urbanização do país. O incremento das atividades urbanas está ligado ao progresso industrial e as consequentes aberturas de mercados; daí a penetração, em áreas rurais, de bens de consumo desconhecidos por estas populações. Nas palavras do autor, em contextos semelhantes no interior brasileiro surgem: (...) necessidades novas, que contribuem para criar ou intensificar os vínculos com a vida das cidades, destruindo a sua autonomia e ligando-o estreitamente ao ritmo de economia geral, isto é, da região, do estado e do país, em contraste com a economia particular (...). Doravante, ele [o caipira] compra cada vez mais, desde a roupa e os utensílios até alimentos e bugigangas de vários tipos; em conseqüência, precisa vender cada vez mais. Estabelece- se, desse modo, uma balança onde avultam receita e despesa 140 (embora virtuais) – elementos que inexistem na sua vida passada. Por outras palavras, surgem relações compatíveis com a economia moderna, que o vai incorporando a sua esfera. (CANDIDO, 2001, pg. 207) Portanto, os ajustes ao meio e as novas situações decorrentes da incorporação da uma economia moderna repercute profundamente em toda a organização da vida social destas populações “rústicas” 26 nos planos ecológico, econômico, cultural, social e psíquico. Considerando os aspectos teóricos de Parceiros do Rio Bonito e o “mundo em transformação” (SOARES, 2008) de Corpo de Baile, podemos induzir correlações a cerca das diferentes formas de integração dos personagens (reais, no caso do pesquisador; e fictícios, no caso de Rosa) às novas conjecturas apresentadas no interior brasileiro naquele período vinculado à marcha da urbanização. Neste sentido, alguns personagens de Rosa podem ser comparados a tipos de indivíduos inseridos neste contexto, distinguido pelo estudioso em três modalidades: 1) “O caipira [sertanejo] que procura enquadrar-se ao máximo nas novas condições” (CANDIDO, 2001, pg. 213). O dono da Gruximã, em “Buriti”, Nhô Gualberto Gaspar se assemelha a este primeiro tipo classificado por Antonio Candido. Com posses bem inferiores em relação ao vizinho Liodoro, ele era chamado pela mulher por “Gulaberto”, às vezes sintetizando ainda mais para o apelido de “Gula”, como bem observado por Luiz Roncari (2008, pg. 50-51). Podemos compreender a etimologia do apelido de Gualberto ao “seu espírito utilitário do capitalismo” que ascendia “no acúmulo de riquezas” (RONCARI, 2008, pg. 51). Um exemplo observado no texto de “Buriti” revela o intuito de Nhô Gual em aproveitar o terreno do “Brejão-do-Umbigo” para o plantio de eucalipto. Porém, de acordo com estudo encomendado pelo fazendeiro, o ambiente úmido inviabilizava a operação nos “vinte e tantos alqueires de terreno perdido” (CB, pg. 658): “O ruim é aquele Brejão. Não se pode aterrar, esgotar as águas, talar as valas. 26 Termo utilizado por Candido, não como equivalente ao rural, ou rude, tosco, embora os englobe. A nomenclatura exprime um tipo social e cultural, “indicando o que é, no Brasil, o universo das culturas tradicionais do homem do campo; as que resultaram do ajustamento do colonizador português ao Novo Mundo, seja por transferência e modificação dos traços da cultura original, seja em virtude do contato com o aborígene” (CANDIDO, 2001, pg. 26). No caso brasileiro, o autor cita o uso de rústico por estudiosos da cultura cabocla e, no seu caso, pelo estudo do caipira, mas podemos estender esta compreensão também para o sertanejo. 141 Já mandei examinar. Disseram que nem por um dinheirão, que se pagasse, não valia a pena (CB, pg. 652-653).27 Como já está com idade mais avançada, Gual não vê a possibilidade de se transferir para a cidade e, por isso, tenta, ao máximo, fazer rentável e produtiva sua propriedade, diferentemente do vizinho Iô Liodoro que “conserva as matas-virgens, não consente em derrubar...” (CB, pg. 653). 2) “O que se apega à vida tradicional, procurando conciliá-la com as exigências presentes”(CANDIDO, 2001, pg. 213). Neste caso, o destino de Miguel é exemplo interessante da trajetória de uma criança da plebe rural que ascende socialmente e escapa do determinismo do meio, pois tem a oportunidade ir à cidade para estudar. Entretanto, no caminho de volta ao Buriti Bom, em uma segunda visita, para pedir em casamento a filha de Iô Liodoro, Miguel demonstra não ter perdido as raízes sertanejas e pretende voltar a morar no sertão. Ele manifesta uma relação profunda e afetiva com a região: “(...) o grande sertão dos Gerais povoava-o, nele estava, em seu amor, carnal marcado” (CB, pg. 646). No final da narrativa, o rumo de Miguel é incerto, pois a estória termina antes de sabermos se o casamento com Glória se concretiza. É bem plausível, no entanto, que esta hipótese seja confirmada e o personagem volte ao sertão, desta vez procurando conciliar o aprendizado assimilado na cidade, “com remédios para os animais, para o gado, injeções” (CB, pg. 641), à realidade sertaneja. 3) “O que é totalmente incapaz de se ajustar-se a estas [novas condições]” (CANDIDO, 2001, pg 213). No plano dos grandes fazendeiros de Corpo de Baile, Seo Senclér é o que encontra mais dificuldade para se adaptar aos novos incrementos da economia moderna, “pois comprara gado bom para uma terra que este gado não tinha boa adaptação, e, pior que tudo, comprara touros caros em 27 Na conversa que tivemos com Brasinha, durante o trabalho de campo, foi abordada esta questão latente em “Buriti”, correlacionada às monoculturas de eucalipto em grande parte do sertão mineiro atual (tema a ser tratado com mais detalhes no 6º insight de campo). O comerciante sertanejo explora muito bem o tema em sua fala, mostrando grande conhecimento da obra de Rosa e das consequências atuais da modernização: “No meu olhar, muito do que Guimarães Rosa escreveu em sua literatura está acontecendo agora. Sempre é contemporâneo! Em 1956 ele publica Corpo de Baile e o Grande Sertão: veredas. No Corpo de Baile tem um conto chamado ‘Buriti’, onde o veredeiro fala o seguinte – olha a percepção do Guimarães Rosa: ‘Será que eles vão dar conta de valar estas veredas, estes brejos para plantar eucalipto? ’ Será que o sertanejo, o veredeiro, vai virar carvoeiro? Isso nos anos 50. E hoje a gente está vendo os eucaliptos engolindo as veredas. O que está acontecendo hoje, Guimarães Rosa já tinha uma noção”. 142 época alta” (LIMA, 2001, pg. 114). Ele acaba por se atrofiar nas perspectivas únicas da riqueza fundiária, como já destacamos anteriormente. Outros inúmeros viventes das novelas rosianas deste livro são incapazes de se ajustar às novas situações. Entretanto, eles não estão somente diretamente afetados pelas novas condições econômicas impostas, como também são contextualizados por uma perspectiva histórica complexa e de difícil superação, já que não são donos das terras em que trabalham. São enxadeiros, sitiantes e “parceiros” endividados aos proprietários. Caso típico de Nhô Berno, pai de Miguilim, em “Campo Geral”, que luta para sustentar a família, mas sempre depende da vontade e dos interesses do dono da fazenda. Para finalizar este episódio a respeito das permeabilidades do campo aos ecos da cidade, vamos nos ater a experiência vivida em “Dão-Lalalão”. A idéia do eco é significante no nome de um dos povoados na novela – o Ão -, que pode ser relacionado a sertão (MENEZES, 2011, pg. 172). Nesta estória, além da presença de mercadorias industrializadas (de maços de cigarros a caminhões), surge uma nova tecnologia de comunicação no sertão rosiano que é assimilado pela comunidade local, o rádio. Este é um bom exemplo do confronto entre tecnologia e tradição, visto que a novela de rádio ouvida por Soropita, protagonista de “Dão-Lalalão”, em Andrequicé, é repassada e recriada oralmente, por ele, à comunidade do Ão. As observações realizadas por Roniere Menezes (2011) neste sentido são de grande valor. O autor lembra a chegada de um caminhão ao povoado do Ão que, munido de um radinho a pilhas, armou um fio no arame da cerca para o povo escutar a novela. Porém, as pessoas quiseram ir ouvir Soropita contá-la, “para confirmarem o que tinham ouvido”: “O contado direto no ‘calor’ da audição, a experiência dos encontros, apresenta-se como algo mais ‘verdadeiro’, propicia a continuidade da história em novas e mais vivas formas de mentiras” (MENEZES, 2011, pg. 175). Desta forma, podemos perceber que os signos da cultura urbana chegam ao interior e são ressemantizados, ganham novos e inesperados sentidos. Estes fatos aproximam esta realidade ao conceito das modernidades tardias, apontado no início deste episódio. As influências recebidas pelo rádio - meio de comunicação 143 de massa - são incorporados e ganham novas apropriações e reelaborações das informações recebidas, de acordo com os aspectos socioculturais dos sertanejos. Menezes ainda propõe que: Quanto mais distanciada da experiência direta das metrópoles, mais chances a comunidade tem de produzir novos significantes e significados que resistem à totalização indiferenciada. Por meio de deslocamentos e de substituições, desconstroem-se formas passivas de recepção e projetam-se novos sentidos, distantes da idéia de ato reflexo no processo comunicativo. Esse desequilíbrio, relacionado à recepção da modernidade em outro ritmo e em outro tempo, demonstra que as representações da identidade brasileira e latino-americana interferem nas justificativas de desenvolvimento homogêneo típicas do mundo moderno (MENEZES, 2011, pg. 175). As modernidades temporalmente “tardias” e espacialmente “periféricas” ganham novos sentidos nos gerais rosianos, especialmente nas narrativas de Corpo de Baile. Este é um espaço em movimento, mas que ainda desconhece os desdobramentos da modernidade e da modernização no meio rural. A abertura de novas estradas no interior, a mediação de novos aparatos tecnológicos, as mudanças no regime de trabalho, a maior dependência do campo em relação aos centros urbanos são algumas das expressões destas transformações. Nas novelas desta obra, os ecos da cidade se fazem mais audíveis pela chegada do rádio, de caminhões, jipes e da vitrolinha de Maria Behú. Os produtos de consumo são comprados por Soropita para dar a sua mulher Doralda: perfumes, sabonetes e vestidos. Lala também traz da cidade sua penteadeira, cosméticos e toda uma indumentária urbana. E na Vila próxima a fazenda do Buriti Bom, “uma das janelinhas do mundo” (CB, pg. 770), já é possível comprar remédios, passar telegramas e consultar o dentista (CB, pg. 769-770). Tudo isto amplia o modo de vida do sertanejo, que se vê em contato com o mundo além dos grotões dos gerais. Décadas depois, ao visitar a Loja do Brasinha em Cordisburgo, compreendemos um pouco a realidade deste período e sua contiguidade ao longo do tempo. Ali está composta uma amostra de como o imaginário da cidade, os signos e os produtos urbanos interferiram e interferem na paisagem do interior do país. A recepção destes elementos não é desencadeada por processos passivos, 144 mas na projeção de novos sentidos dados pelos saberes, hábitos e práticas coletivas, acumuladas de geração em geração no mundo sertanejo. O antiquário dos gerais, representado pelo simpático empório do Brasinha, mostra mais uma vez que “toda hora o barro se refaz” (CB, pg. 828) no processo dinâmico das culturas “rústicas”. Mesmo sendo espaços marginais do sistema econômico, que concebem o moderno de forma defasada e “periférica”, as paisagens do sertão pluralizam suas possibilidades culturais. A imagem do colecionador de antiguidades no sertão, de modo bem particular, revela como são costurados os novos signos urbanos ao tecido cultural sertanejo. As novidades e transformações não desqualificam o sertão, pelo contrário, os reafirma ainda mais. Talvez sejam como conchas espalhadas pela areia, que compõem e ajudam a arquitetar o imenso mar simbólico sertanejo: “Sendo o sertão assim – que não se podia conhecer, ido e vindo enorme, sem começo, feito um soturno mar, mas que punha à praia o condão de inesperadas coisas, conchinhas brancas de se pegarem à mão, e com um molhado de sal e sentimentos” (CB, pg. 763) Figura 21: Loja do Brasinha em Cordisburgo. Autoria: Frederico Gonçalves 145 O mundo maquinal, no hostil espaço E as coisas vinham docemente de repente, seguindo harmonia prévia, benfazeja, em movimentos concordantes: as satisfações antes da consciência das necessidades. 28 – X – 2012 Brasília, DF A última parada de campo revelou uma ruptura acentuada quanto às paisagens observadas até então durante o percurso de viagem. Até ali, o sertão ambientalmente preservado nos trechos de chapadões e tabuleiros cobertos por cerrados, entrecortados pelas veredas e por densas matas nos pé-de-serras, se fazia contrastar, constantemente, com as gigantescas plantações de eucalipto ao longo do caminho. São verdadeiros “desertos verdes” formados por avultas árvores ou por troncos recém cortados e dispostos por pilhas de tocos no chão, compondo uma paisagem monótona e esvaziada de vida. O intenso fluxo de automóveis e caminhões pelas estradas e o emergente crescimento de cidades médias do interior mineiro como Pirapora, Três Marias, Januária e Unaí também chamavam a atenção para o retrato atual do sertão de Minas. Porém nenhum destes elementos causa tanto estranhamento instantâneo como a chegada à capital federal, após 20 dias de viagem já aclimatados ao cheiro da poeira das estradas, às conversas longas e pausadas com os personagens sertanejos, e com as virtudes do cotidiano interiorano. Contudo, o ponto de interesse agora seria o sertão invertido, seu contraposto e contraponto: a cidade no sertão e o sertão na cidade. Com a idealização de Brasília, a modernidade urbana brasileira passa a pautar o processo de desenvolvimento nacional. Segundo Roniere Menezes, com a concepção da nova capital, a modernidade é introduzida por um “monumento imaginário inaugural” que deveria funcionar como aglutinador e organizador do processo de modernização brasileira (MENEZES, 2011, pg. 33). A imponente arquitetura moderna e o planejamento urbano arrojado de Brasília têm a marca consagrada de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Por acaso, o 146 arquiteto das linhas curvas viera a falecer no dia 05 de dezembro de 2012, prestes a completar 105 anos de idade, pouco mais de um mês após nossa visita ao plano piloto da capital brasileira. Os traços inconfundíveis de Niemeyer lançam um olhar para o paradigma da modernidade sintetizada esteticamente nas formas desta cidade: um território onde o Estado procurava dar vida ao projeto nacional e incrementar ações modernizadoras pelo interior inóspito do país. Na manhã do dia 28 de outubro saíamos da típica fazenda leiteira da região de Unaí, no Noroeste mineiro, ao som das vacas e aos cantos diários dos pássaros, abrindo porteiras na estrada de terra para alcançar finalmente a rodovia que segue rumo ao destino incerto no Distrito Federal. Brasília constitui uma referência espacial e alegórica crucial para esta dissertação, a propósito de ser praticamente a única alusão direta ao mundo urbano na obra de Guimarães Rosa. É uma cidade ainda a se cumprir em Primeiras Estórias, no primeiro (“As margens da alegria”) e no último conto (“Os cimos”) do livro. Estas duas estórias indicam também ritos de passagem para um menino que viaja com os tios e passa a perder a ingenuidade e a pureza infantil, ao mesmo tempo em que observa a construção de uma grande cidade no meio do sertão, “a mais levantada no mundo” (PE, pg. 10). Antes desta nossa incursão in locu, a referência sensorial mais direta experienciada em relação à capital federal havia se dado a partir da canção de um dos movimentos artístico-culturais mais importantes no cenário musical brasileiro, o Clube da Esquina. Os mineiros Fernando Brant e Toninho Horta compuseram em 1980, “Céu de Brasília”, tradução musical da atmosfera do planalto central, nas curvas desenhadas por Niemeyer e no cotidiano urbano de sua população. A força harmônica da canção emaranhada pela guitarra distorcida de Horta e o excelente arranjo orquestral pelos músicos ao fundo inspiram um “voo” pelo plano piloto e arredores da cidade: Lá vou eu pelo ar asas de avião Me esquecendo da solidão da cidade grande, do mundo dos homens num voo maluco que eu vou inventando 147 E voo até ver nascer o mato, o sol da manhã, as folhas, os rios, o azul Beleza bonita de ver Nada existe como o azul sem manchas do céu do Planalto Central e o horizonte imenso aberto sugerindo mil direções [...] Um voo imaginário também estava prestes a ser alçado naquele 28 de outubro. Ao meio-dia, o sol a pino refletido no concreto exuberante da Esplanada dos Ministérios inviabilizava uma maior interação pelas largas avenidas da cidade e das partes constitutivas do projeto urbanístico. Por isso, adentramos no Museu Nacional da cidade para contemplar a exposição “Arte e tecnologia da UNB”. Por “destino dado” (GSV, pg. 155), uma das primeiras obras exibidas fazia-nos voltar rapidamente para o sertão mineiro contemporâneo: um conjunto de fotografias representava o cerceamento de uma árvore retorcida do Cerrado em meio a uma floresta de eucaliptos. As árvores do eucaliptal funcionavam claramente como grades, semelhantes a uma prisão ou jaula que sufocavam uma derradeira representante nativa do cerrado (Figura 24, pg. 160). A partir deste insight dentro da cúpula do Museu, a relação entre a modernidade da capital, as subsequentes transformações no sertão mineiro a partir dos anos 60 e 70 e a própria ocupação dos sertanejos na cidade de Brasília começavam a ser desenhadas. Assim como nós, Guimarães Rosa também realizou viagem a Brasília, dois anos antes de sua inauguração, em 1958. Assim, se a Boiada pelo sertão de Minas Gerais realizada em 1952 serviu de base para as experiências narradas em Corpo de Baile e Grande Sertão: veredas, a visita do escritor a futura capital federal significou nova transmutação entre o vivido pelo autor e os textos literários de “As margens da alegria” e “Os cimos”, lançados em 1962. Na visita do escritor cordisburguense ao marco moderno de Brasília podia-se notar certo entusiasmo de Rosa frente aos devires da cidade. Em carta escrita ao pai, o autor explicita um pouco do sentimento esperançoso a cerca da “nova capital” e ainda aponta elementos bucólicos que iriam compor os contos de 148 Primeiras Estórias, como as perdizes, seriemas e veados presentes em “As margens da alegria”, com destaque para o tucano literariamente abordado em “Os cimos”: No começo de junho, estive em BRASÍLIA, pela segunda vez, lá passei uns dias. O clima, na NOVA CAPITAL, é simplesmente maravilhoso, tanto no inverno quanto no verão. E os trabalhos de construção se adiantam, num ritmo e entusiasmo inacreditáveis: parece coisa de russos ou de norte-americanos. Desta vez, não vi tantos bichos e aves, como da outra, em janeiro passado – quando as perdizes saíam assustadas, quase de debaixo da gente, e iam retas no ar, em vôo baixo, como bolas peludas, bulhentas, frementes, e viam-se os jacus fugindo no meio do mato, com estardalhaço; e também veados, seriemas, e tudo. Mas eu acordava cada manhã para assistir ao nascer do sol, e ver um enorme tucano, colorido, belíssimo, que vinha, pelo relógio, às 6 hs. 15’, comer frutinhas, durante dez minutos, na copa alta de uma árvore pegada à casa, uma “tucaneira”, como por lá dizem. As chegadas e saídas desse tucano foram uma das cenas mais bonitas e inesquecíveis de minha vida (ROSA, 1983, pg. 186-187). Apesar da exaltação relatada na carta em relação ao ritmo acelerado da construção da capital, comparando à potência dos “russos e americanos”, Guimarães Rosa buscou nos contos de Primeiras Estórias, de modo crítico, romper com o discurso da modernização e do otimismo em torno da nova capital. Como já adiantamos, o “lugar onde se construía a grande cidade” (PE, pg. 7) dos contos de abertura e de encerramento deste livro, expressa, de forma indireta, a construção de Brasília. A concepção da capital impulsionaria, de fato, as grandes transformações no Brasil no final dos anos 50. Porém, apesar da euforia vivenciada por grande parte dos brasileiros naquele período histórico, havia também inúmeros questionamentos sobre o futuro do país. No episódio de campo anteriormente retratado pelo mundo misturado no Empório do Brasinha, em Cordisburgo, vimos que os anos 40 e 50 surtiram importantes transformações no país, onde o imaginário de progresso se pautava na vocação modernizadora a ser implantada pelo Estado em território nacional. O ideal citadino tem papel primordial para reafirmar a ideia da modernização, desde a construção do conjunto arquitetônico da Pampulha na década de 40, em Belo Horizonte, laboratório da experiência moderna e fundamental para a concepção de Brasília (Souza, 1998). O objetivo político, portanto, passa a se definir pela 149 associação entre a noção do moderno – pela arquitetura e pelas ideias de urbanismo – e o modelo de desenvolvimento latente. É um período em que o país vive o vislumbre do desenvolvimento industrial e a solidificação de uma sociedade urbana que poderia despertar o até então, “gigante adormecido”. Durante o governo de Juscelino Kubitschek, a televisão se firma como importante meio de comunicação de massa, ao mesmo tempo em que há o desenvolvimento progressivo do rádio, já absorvido nos mais longínquos cantos do Brasil. Além da industrialização, da urbanização, do maior alcance dos veículos midiáticos e da forte atuação estatal para o desenvolvimento brasileiro, desponta também uma efervescência cultural em variados planos de nossa sociedade. Desenvolve-se uma noção mais arrojada nas artes plásticas, nos edifícios e nos automóveis. No esporte, o Brasil encanta o país com o futebol de Pelé e Garrincha, que viria a conquistar a primeira Copa do Mundo em 1958, na Suécia. Nascem também expressões artísticas como a Bossa Nova, no final dos anos 50 e o Cinema Novo, no início dos anos 60, transitando entre a tradição cultural brasileira e as inovações internacionais: seja derivada musicalmente das tradições do samba, contudo, com forte influência do jazz, no primeiro caso; seja, no segundo, pela abordagem voltada para a temática social do país, mas influenciada pela linguagem neo-realista do cinema italiano ou da “nouvelle vague” francesa. A fundação da imponente cidade em pleno Planalto Central brasileiro inseria-se neste contexto de grande otimismo entre a sociedade brasileira. Brasília era apenas a ponta do iceberg do ambicioso plano de modernização lançado por Kubitschek, logo após ser empossado na presidência da república. No ano de 1956, o famoso “Programa de Metas” incluía a visionária ideia de inaugurar uma cidade totalmente planejada em pleno cerrado brasileiro. Segundo Heloisa Starling, ela surgia “como um monumento de papel crepom e prata, marcado pela crença na construção de uma nacionalidade de base homogênea, pronta para reunir as energias esparsas de uma coletividade em direção ao futuro” (STARLING, 1998, pg. 200). A nova capital induziu um intenso povoamento da região, por meio do projeto desenvolvimentista que incluía a urbanização, a industrialização e o 150 incremento de infraestrutura dos transportes e de fontes de energia. A grande questão contraditória neste contexto é o fato de que os ícones da modernidade - arquitetônicos, estéticos e midiáticos – não se ajustam perfeitamente, do ponto de vista temporal e espacial, aos intuitos de modernização. É o que autores como Eneida Maria de Souza (1998) e Roniere Menezes (2011) conceituam como “modernidades tardias”. Estes esforços modernos chegam a um ritmo descompassado com a realidade brasileira e incitam uma receptividade desaranjada na sociedade. É como se houvesse um hiato entre o projeto modernizador e a herança do passado brasileiro, o atraso e as dificuldades enfrentadas pela nação até ali. Nos textos que indicamos em Primeiras Estórias, Guimarães Rosa acompanha o início de intensas transformações socioespacias no domínio do Cerrado. O “mundo maquinal” avançava para onde se “construía a grande cidade”, ameaçando a biodiversidade do bioma e anunciando a modernidade prometida por Brasília. Nas palavras de José Miguel Wisnik a respeito destas narrativas, “uma brasília não nomeada se constrói ‘derrubadora’, devassando e devastando, com o poder do ‘mundo maquinal’, a biodiversidade do cerrado” (WISNIK, 2002, p .178). Representa-se no plano literário a primeira etapa do longo período desenvolvimentista no país, que teve como uma das consequências a contínua devastação da savana mais rica em biodiversidade do planeta. A partir de então, a diversidade biológica do Cerrado estaria ameaçada não somente pela eminente perda da riqueza de espécies vegetais e animais, mas também no que diz respeito a todo o sistema cultural e ao conhecimento tradicional adquirido pelo “Homem do Cerrado” sobre seu habitat ao longo dos tempos (ALMEIDA, 2003). O “prenúncio” das transformações nos campos gerais é reproduzido por Rosa inicialmente no conto “As Margens da alegria”, por intermédio de um Menino que observa atentamente a paisagem dos chapadões cobertos por cerrados e suas florestas de galeria, através da janelinha do avião que sobrevoa a região central do Brasil. É provavelmente a primeira viagem dele pelas asas de uma aeronave, proporcionando todo o maravilhamento das novidades do mundo infantil que, neste caso, também demonstram as perspectivas de um país rumo à modernização. 151 “Era uma viagem inventada no feliz; para ele, produzia-se em caso de sonho” (PE, pg.7). O voo de pouco de mais duas horas despertaria um “novo senso de esperança”, rumo “ao não sabido, ao mais” (PE, p.7). A leitura do conto que apresentamos aqui se aproxima à concepção de Wisnik (2002), pois consideramos que os novos olhares relativos à infância em “As Margens da Alegria” são paralelos à visão de um novo mundo introduzido pelo “lugar onde se construía a grande cidade” (PE, pg. 7). Ambas as perspectivas – a do menino e a que diz respeito à construção de Brasília – geram, ao mesmo tempo, encantamento e desilusão, intrínsecas às novidades. Auxiliado pela escala abstrata do mapa pousado em suas mãos, o garoto atravessa os ares identificando pontos localizáveis na escala real do altiplano. Transmite-se uma imagem marcante do cerrado visto do alto, com a presença das pastagens, de cores e de todas as formas enxergadas pela janela do avião: “as nuvens de amontoada amabilidade, o azul de só ar, aquela claridade à larga, o chão em visão cartográfica, repartindo de roças e campos, o verde que se ia a amarelos e vermelhos e a pardo e a verde; e além, baixa, a montanha” (PE, p.8). Em determinado momento da viagem, a apreensão cartográfica do Menino sofre o primeiro choque: as pastagens do meio rural e as variadas fisionomias da vegetação são confrontadas pela visão da construção de uma cidade. Apesar de não aparecer de maneira explícita no texto, tudo indica que o conto se refere à capital federal, ainda apresentada como um canteiro de obras: “a grande cidade apenas começava a fazer-se, num semi-ermo, no chapadão: a mágica monotonia, os diluídos ares” (PE, p.8). A vigorosa natureza do cerrado passa a dar lugar ao traçado quadriculado do plano piloto da futura cidade. Um presságio sobre a grande mudança paisagística que a região viria a experimentar no decorrer dos próximos anos. Após o pouso no aeroporto, o Menino vai direto para a casa dos tios. Ele se encanta com o quintal, repleto de árvores e com a riqueza das cores, o tamanho e os gestos do “belo, belo” e emblemático peru imperial (PE, pg. 8-9). Em seguida, o convidam para um passeio por onde seria construído um sítio, próximo à cidade. 152 Nesta parte, os detalhes descritivos dos fascínios da natureza elaborados por Rosa em grande parte de sua obra (já abordados no subcapítulo 1.2) desabrocham de forma sedutora aos olhos do menino, desta vez a bordo do jeep do tio: Iam de jeep, iam aonde ia ser um sítio do Ipê. O Menino repetia-se em íntimo o nome de cada coisa. A poeira, alvissareira. A malva- do-campo, os lentiscos. O velame-branco, de pelúcia. A cobra- verde, atravessando a estrada. A arnica: em candelabros pálidos. A aparição angélica dos papagaios. As pitangas e seu pingar. O veado campeiro: o rabo branco. As flores em pompa arroxeadas da canela-de-ema. O que o Tio falava: que ali havia uma “imundície de perdizes”. A tropa de seriemas, além, fugindo, em fila, índio-a- índio. O par de garças. Esta paisagem de muita largura, que o grande sol alagava. O buriti, à beira do Corguinho, onde, por um momento, atolaram. Todas as coisas, surgidas do opaco. Sustentava-se delas sua incessante alegria, sob espécie sonhosa, bebida, em novos aumentos de amor. E em sua memória ficavam, no perfeito puro, castelos já armados. Tudo, para o seu tempo ser dadamente descoberto, fizera-se primeiro estranho e desconhecido. Ele estava nos ares (PE, p. 9-10). Este longo trecho da narrativa é essencial dentro do contexto do conto, pois evidencia as características naturais e harmônicas da paisagem, tão caras a literatura do autor. Na passagem anterior, observamos o Menino aprendendo o “íntimo nome de cada coisa” do meio biótico regional e procurando fixar em sua memória tudo o que presenciara no caminho ao sítio. Manifestam-se alguns dos representantes de espécies da fauna adaptados às formações herbáceo-arbustivas do cerrado, como o veado campeiro e “a tropa de seriemas”. O voo dos papagaios e o “par de garças” também são visualizados durante o percurso. Os nomes populares da flora são de espécies tipicamente regionais, como a canela de ema, a malva-do-campo, o velame-branco, a arnica; e com o detalhe da localização do buriti, à “beira do corguinho”. E também notamos a especificidade da topografia local, resumida pela expressão “essa paisagem de muita largura”, que se aplica a um amplo chapadão, feição típica das altas superfícies do Brasil Central. Entretanto, a harmonia da paisagem e a satisfação do menino se desfazem rapidamente a partir dos próximos episódios da estória. Quando volta a casa para reencontrar o exótico peru, que tanto o entusiasmara, ele se depara somente com as penas e os restos do animal pelo chão. A decepção em relação à morte da ave influencia no estado de espírito do menino, quando os parentes o 153 levam para passear pelo “canteiro de obras” da cidade, inclusive fazendo referência indireta ao Lago Paranoá 28: “Vamos aonde a grande cidade vai ser, o lago...” (PE, pg. 10). Ao chegar ao destino, a melancolia do olhar do garoto se mistura a uma paisagem degradada, com “vagas árvores”, um “ribeirão de águas cinzentas”, o velame-do-campo desta vez como uma “planta desbotada”, ou seja, manifestações de “um encantamento morto e sem pássaros” (PE, p. 11). A partir deste momento, podemos observar mais claramente o surgimento dos novos elementos urbanos e de como isso desperta no Menino o sentimento de desapontamento, traduzido pela “circunstristeza” do olhar para o horizonte. Em um espaço ficcional amplamente marcado pelas formas do grande sertão, a natureza bruta do cerrado, e pelo mundo “belimbeleza” das veredas de Guimarães Rosa, somos surpreendidos bruscamente pela imagem de homens trabalhando no processo de terraplenagem, com a circulação de caminhões de cascalho, compressoras e caçambas. A descoberta do Menino se entrelaça ao anseio do leitor que se espanta com as mudanças do novo cenário: “formava um medo secreto: descobria o possível de outras adversidades, no mundo maquinal, no hostil espaço” (PE, p.11, grifos nossos). O espaço agora se configura como hostil e agressivo e o mundo não é mais o dos voos papagaios, das seriemas ou do peru imperial, mas sim, um ambiente onde a máquina impera e opera para dar a nova expressão ao lugar. Desdobra-se, em seguida, a cena da queda da árvore. Este instante estabelece um marco definitivo para o conto, pois encarna o extrato simbólico da biodiversidade que sai de cena para dar lugar ao projeto traçado pelas linhas geométricas de Brasília. Transitam as máquinas que edificam a nova parafernália do aeroporto, substituindo a mata pré-existente. Mostram ao menino a 28 Lago artificial de Brasília, concebido em 1894 pela Missão Cruls e concretizado com a construção da cidade nos anos 1950. Durante a visita da comissão de estudos para a nova capital ao local, no fim do século XIX, notou-se uma imensa planície entre dois grandes chapadões – Gama e Paranoá – em que poderia ser represada a água para aumentar a umidade em suas proximidades e permitir a navegação. 154 derrubadora e o machado, responsáveis pelo abatimento da vegetação e, a partir daí, segue a figura do tratorista e do impacto pelo desabamento de uma árvore: Indicou-se uma árvore: simples, sem nem notável aspecto, à orla da área matagal. O homenzinho tratorista tinha um toco de cigarro na boca. A coisa pôs-se em movimento. Reta, até que devagar. A árvore, de poucos galhos no alto, fresca, de casca clara... e foi só o chofre: ruh... sobre o instante ela para lá se caiu, toda, toda. Trapeara tão bela. Sem nem se poder apanhar com os olhos o acertamento – o inaudito choque – o pulso da pancada. O Menino fez ascas. Olhou o céu – atônito de azul. Ele tremia. A árvore, que morrera tanto. A limpa esguiez do tronco e o marulho imediato e final de seus ramos – da parte de nada. Guardou dentro da pedra (PE, p. 11). Expõe-se o corte real da árvore, trazendo a tona também o “corte simbólico”, canalizado por mudanças desencadeadas pela cidade na região central do país e todo o aparato estrutural que a acompanharia. “O pulso da pancada” e o “inaudito choque” da árvore ao cair no chão fazem o Menino tremer frente às novidades que surgem de forma arrebatadora a sua frente. Anteriormente, ele percebera que o peru imperial, símbolo de beleza exuberante, fora devorado, desaparecera no espaço: “da gente as mais belas coisas se roubavam” (PE, pg. 10); instantes depois ele “abaixava a cabecinha” de desapontamento e desilusão ao ver a “circuntristeza” do horizonte, a cidade em construção: um encantamento morto (PE, pg. 11); e, por último, o abalo ao ver o desabamento da “árvore que morrera tanto” (PE, pg. 11). No início da estória, o mesmo Menino demonstra o fascínio referente às maravilhas técnicas do avião, com seus bancos reclináveis, com balas e chicletes a disposição. Ele expressa uma emoção incontida ao estar nos ares vendo do alto outros meninos, bois e cavalos como insetos muito distantes na topografia real. O clima de êxtase, entretanto, vai se modificando conforme os novos acontecimentos são vivenciados, já com os “pés no chão”. Embora não seja nomeada, a cidade em que o avião pousa na estória é Brasília em sua fase inicial, quando os “vastos espaços do cerrado” (AB’SABER, 2003) começam a ser ocupados pelos engenheiros e candangos pioneiros que aceleram a obra na capital em “ritmo e entusiasmo inacreditáveis”, como anunciado pelo próprio Guimarães Rosa, em carta ao pai (Ibidem, pg. 146). 155 O desdobramento e as consequências do traçado moderno de Brasília foram anunciados por Rosa sob a perspectiva das “margens da alegria” de um Menino, que se desestabiliza com as novas informações recebidas no decorrer de sua viagem para a cidade grande. Se, inicialmente, a viagem é “inventada no feliz”, um “caso de sonho” por intermédio da percepção encantadora do avião e por uma cidade vista do alto; posteriormente, a desilusão pela morte do peru e a dor por um mundo que dá lugar ao “espaço hostil” e ao “mundo maquinal”, engendram no garoto uma forma menos ingênua de perceber a realidade. Análogo ao conto de Rosa, o Brasil viveu um período de enorme euforia, não só pela crença nas possibilidades do progresso “salvador” das políticas públicas, mas também pela efervescência no mundo das artes e da arquitetura nos meados do século XX. Mas, ao longo dos anos, como analisado por Costa, a “promessa de modernidade não se concretizou de forma universal” (COSTA, 2008, p.91). O moderno, motivo de orgulho e de otimismo para a população brasileira nos anos 40 e 50, passa a ser cada vez mais questionado, da mesma forma como o desencanto do Menino sobressai em meio a suas alegrias passageiras. Assim como no conto rosiano, a figura de uma aeronave também é destaque na configuração da nova capital federal, porém, neste caso, assinalada pelos traços do formato do projeto urbanístico de Lúcio Costa: o corpo do avião – Eixo Monumental – e suas asas - Eixo Rodoviário (Figura 22, pg. 159). Brasília era o emblema de modernidade que contagiava o clima de otimismo no resto país, espelhado no plano de desenvolvimento de Juscelino. A vista do alto pela janelinha do avião ou por imagens de satélite focalizam um emblema da modernidade no terreno plano do Planalto Central, com orientação certeira para o horizonte vindouro. O Brasil, conduzido pelo avião urbanístico da nova capital, era, naquele momento, o país do futuro. Pelo ponto de vista sócio-histórico e espacial, contudo, a narrativa construída por Guimarães Rosa revela uma análise cautelosa e questionadora em relação às promessas da modernidade e o compromisso com o progresso, enraizados no discurso das políticas públicas dos anos de Kubitschek. Ao final de “Margens da alegria” vemos a criança desapontada pela percepção de uma 156 paisagem opaca no horizonte e assustada com o corte violento da árvore, ação simbólica da tentativa de desmanche da força ambiental do cerrado. A tensão observada entre a exuberância da natureza de um lado, e a ambiência de tratores, caminhões e da artificialidade da nova cidade, por outro, pode representar uma indagação quanto ao futuro da biodiversidade do bioma e das possíveis transformações socioculturais em seu território. Colocando em alerta aquele que seria dali em diante, o bioma suspenso na corda bamba do desenvolvimento do país, situado na linha de frente da modernização. O bioma, até então representado dentro do imaginário social brasileiro como um espaço vazio, um sertão inóspito, símbolo do atraso, passa a integrar os anseios da modernização e do desenvolvimentismo no Brasil. Aos poucos, a imagem negativa de uma região vista apenas como infértil, de vegetação feia e solo pobre - incorporada pela concepção produtivista - passa a ser enxergada pelas novas possibilidades de utilização do espaço, por meio da interiorização demográfica e, em seguida, pelo desenvolvimento agropecuário em larga escala. A literatura de Guimarães Rosa foi uma das poucas manifestações culturais que souberam representar de maneira positiva o cerrado dentro do recorte histórico dos anos 40, 50 e 60 no país. Analisando as correspondências com tradutores, os estudos sobre as cadernetas de viagem e alguns extratos retirados dos livros de Rosa, vimos no 1º capítulo o leque de saberes adquirido pelo escritor no que tange o meio social e físico dos gerais, transmitido poeticamente ao longo de sua obra literária. Da mesma forma, o escritor foi capaz de compreender o papel do espírito modernizante vinculado à construção de Brasília, a obra mais emblemática da política nacional-desenvolvimentista do país. Ao romper com o discurso quase unívoco da modernização naquele momento, o questionamento implícito de Primeiras Estórias indica que a urbanização e a modernização não são, necessariamente, a garantia definitiva da resolução dos profundos problemas nacionais. Mais do que isso, ao interrogar sobre o destino do Brasil, o escritor 157 coloca também em xeque o futuro do ambiente artístico de sua obra, o cerrado brasileiro. Segundo Heloisa Starling (1998) a concepção de Brasília pertence a um projeto triunfalista de adesão à modernidade, repleto de maravilhas tecnológicas, mas vazio de humanidade (STARLING, 1998, pg. 200). A partir daí vivemos uma crise histórica, cujas raízes estão fincadas nos descompassos entre o homem e aquilo que ele produziu, “entre a fabulosa evolução técnico-científica e uma lógica instrumental que o desvaloriza e corrompe o seu meio ambiente” (CAETANO, 2008, p. 188). Uma lógica que teve como resultado o desmanche socioambiental do Bioma-território da região central que, desde a concepção do projeto da capital federal vem dando lugar a “razão” da modernidade. Assim, o que Guimarães Rosa não teve a oportunidade de acompanhar a partir dos anos 70, foi o ambiente do cerrado incorporado ao “progresso predatório” (CAETANO, 2008). Mais de 50 anos após o lançamento do livro e da inauguração da nova capital, qual seria a visão deste Menino ao retornar para ver novamente a imponência do eixo monumental e seus grandes edifícios públicos? Qual a relação entre as primeiras impressões naquele primeiro sobrevoo da cidade em construção e a realidade de um dos centros urbanos de arquitetura e urbanismo mais modernos do mundo? Provavelmente ele não poderia imaginar e nem prever o grande aglutinamento populacional nas cidades satélites, para onde os trabalhadores pioneiros se transferiram, desordenadamente, por não conseguirem habitar o plano piloto, devido a excludentes imposições imobiliárias. Um crescimento demográfico estratosférico se impôs durante as próximas décadas na cidade que, por ironia, não fora calculado pelos detalhistas urbanistas da época. No último conto de Primeiras Estórias, “Os cimos”, o Menino das “margens da alegria” volta para cidade dos tios, por conta da doença da mãe. Desta vez o ritmo de trabalho no canteiro de obras parece ainda mais intenso, pois “os mil e mil homens muitamente trabalhavam fazendo a grande cidade” (PE, pg. 187) 29. O 29 Em carta escrita ao pai, em 1958, Guimarães Rosa relata duas visitas à Brasília em seu processo de construção (ver página 146). A primeira feita em janeiro – em que foram vistos muitos bichos e aves, como as perdizes, jacus, veados e seriemas; e a segunda em junho – quando Guimarães 158 passeio conduzido pelas “sacudidelas do jeep” revelava também novos caminhos no entorno da cidade: “o jeep corria por estradas de não parar, sempre novas” (PE, pg. 187). Por estas estradas já deveriam estar sendo feitas as vias de trânsito para as cidades satélites, determinadas no projeto inicial de Brasília a uma distância de 25 km do plano piloto. O caso das cidades satélites é emblemático neste sentido, pois como apresentado por Menezes (2011), a demarcação do terreno da construção da capital já trazia a ideia do insulamento, da “civilização oásis”. O “cordão sanitário”, que divide o espaço claro e límpido do plano piloto, de seus arredores, aponta para a cisão existente entre a ideia de modernidade e a manutenção de velhas estruturas políticas no país (MENEZES, 2011, pg. 37-38). Assim, toda a população realçada por Guimarães Rosa em suas obras - os migrantes, sertanejos, negros, artistas populares – permaneceriam de fora deste Projeto Nacional. As transformações propostas nos anos de Juscelino Kubicheck se mostram superficiais na fisionomia política do país, acentuando as diferenças das classes sociais e influindo diretamente nos aspectos socioculturais e socioambientais do sertão. O Distrito Federal, no limite noroeste de Minas Gerais e inserido também no contexto cultural do sertão mineiro, iria fortalecer os laços migratórios do sertanejo, que passa a ver na capital uma nova opção de vida, como assinala Menezes: (...) a construção de Brasília contribuiu em muito para o “alargamento” e o povoamento do sertão mineiro, por meio das estradas que levavam à nova “terra prometida”. Por trás dessa migração em busca de propósitos de vida bem definidos – trabalho, moradia, salário, escola, etc. –, mesmo que esses se mostrem a posteriori bastante frustrantes, permanecem aquelas “vidas avulsas” arraigadas no sertão e totalmente desenraizadas em relação à noção de pertencimento ao país (MENEZES, 2011, pg. 43). acordava toda manhã para ver as chegadas e saídas de um tucano para comer frutinhas na copa de uma árvore. É de se imaginar que o ano de 1958 corresponde igualmente ao período ficcional das duas visitas do Menino à cidade dos tios, no primeiro e no último conto de Primeiras Estórias. Mais uma evidência de que os contos retratam, de fato, a construção da capital. 159 Antes mesmo da nossa chegada à capital do país, em pleno século XXI, podia-se notar este “alargamento” do sertão mineiro ao ouvirmos atentos os relatos de sertanejos a cerca do êxodo rural e da urbanização imposta ao sertão, na qual muitos comentavam de filhos e filhas que foram parar no “marco inaugural da modernidade” da metrópole planejada, sem saber ao certo o que isto representava. Durante a construção da capital e logo depois de sua inauguração, as heranças dos modos de vida dos matutos dos gerais e das donas de casa passam a se espalhar pelo espaço retangular do Distrito Federal. É interessante revermos a interpretação alternativa do “lugar” concebida por Doreen Massey (2000), para conceber uma perspectiva contemporânea do sertão se relacionando abertamente com mobilidades, fluxos e movimentos espacialmente diversificados. Para a autora, o que dá a um lugar sua especificidade não é a história longa e internalizada, mas o fato de que ele se constrói a partir de uma constelação particular de relações sociais, que se encontram e se entrelaçam num locus particular. Seriam lugares de encontro: “isso, por sua vez, permite um sentido do lugar que é extrovertido, que inclui uma consciência de suas ligações com o mundo mais amplo, que integra de forma positiva o global e o local” (MASSEY, 2000, pg. 184). No caso do recorte de mundo enfatizado nesta dissertação há um destaque para o duplo encontro entre o sertão globalizado nos interiores de Minas Gerais e a diversidade de “lugares” produzidos dentro da metrópole brasiliense, dentre eles, o próprio sertão mineiro. Quando chegamos à Brasília, em vez de visualizarmos o plano piloto por cima, como no conto de Rosa, “dentro do macio rumor do avião” (PE, pg. 8), a cidade era vivenciada transversalmente ao longo de suas largas avenidas, com os olhos atentos ao maravilhamento da arquitetura moderna, imbricado à fisionomia dos trabalhadores que por ali passavam em suas tarefas cotidianas. O voo ao planalto central descrito anteriormente pelos cancioneiros mineiros enfatizava um “horizonte imenso aberto, sugerindo mil direções”. No derradeiro dia de campo, observávamos - entre a topografia plana e o “céu azul sem manchas” - uma Brasília de memória e imagens do passado carregados por seus habitantes. Uma capital que também se deixou “sertanejar”, mesmo sendo um marco da modernidade, onde são discutidas as pautas políticas da nação todos os dias. 160 No interior da estrutura oval do museu de arte moderna se dispõem fotografias de um cerrado encurralado. Pela tela do celular ou do computador, por sua vez, trabalhadores das plantações de eucalipto podem acessar qualquer canto do mundo moderno, a qualquer momento. A moderna capital está rodeada de cultura sertaneja, transportada invariavelmente por sua população, assim como o sertão está rodeado de modernização, seja nas imensas monoculturas espalhadas pela paisagem, na violência crescente das cidades médias, no tráfego de veículos e na rapidez das informações e transformações. O sertão passa a ocupar os cantos mais remotos da cidade (muitas vezes nas mais precárias situações) e o moderno passa a incorporar os lugares mais inesperados do sertão, um espaço onipresente e em contínuo movimento, migrante e aberto aos encontros com o mundo. Os sertanejos migrantes - provisórios sujeitos - não deixam de alimentar suas esperanças. As dificuldades e obstáculos impostos pelo caminho são permeados, de forma ambivalente, pelo encantamento com as possibilidades de realização pessoal. No último parágrafo do conto de abertura de Primeiras Estórias surge um vaga-lume voando no quintal, compensando a desilusão anterior do Menino frente às novidades. A imagem luminosa do inseto, que se acende e apaga a cada instante, representa as sensações oscilantes vividas pela criança no conto, mas também nos lembra o instável sujeito do sertão que procura, obstinadamente, por sua luminosidade de alegria: Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vagalume. Sim, o vagalume, sim, era lindo! – tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo- se. Era, outra vez em quando, a Alegria (PE, pg. 12). 161 Figura 22: Plano Piloto de Brasília Figura 23: Construção de Brasília. Autoria: Marcel Gautherot 162 Figura 24: Árvore do Cerrado aprisionada entre eucaliptos. Museu Nacional de Brasília: exposição Arte e Tecnologia da UNB. Fotografia da série “Sufocamento”, de Pedro David. 163 O recado poente do Morro - E que foi que o Morro disse, seu Malaquias, que mal pergunto? -Pois, hum... Ao que foi que ele vos disse, meu senhor? Ossenhor vossemecê, com perdão, ossenhor não está escutando? Vigia ele-lá: a modo e coisa que tem paucta... 10, 11, 12 – X – 2012 Morro da Garça/Andrequicé Em Corpo de Baile, a novela “O Recado do Morro” narra a viagem de uma comitiva pelo sertão, envolvida acessoriamente pela viagem de um recado transmitido por diversos “marginais da razão” (ROSA, 2003). A articulação do recado formado entre eles acaba por cristalizar uma canção composta ao final da estória por um poeta e cantador, desvendando grande mistério em volta do enxadeiro Pedro Orósio “(também acudindo por Pedrão Chãbergo ou Pê-Boi, de alcunha)” (CB, pg. 389). O recado passa imperceptível durante a expedição científica comandada pelo naturalista Seo Olquiste, responsável por inventariar o perfil geográfico, geológico e biótico da região, com destaque para o relevo cárstico nas proximidades de Cordisburgo, no início do trajeto, com suas cavernas, grutas e lapas. A cavalo, o cientista alemão toma notas em uma caderneta e desenha os croquis descritivos, “de tudo tirava traço e figura leal” (CB, pg. 393). Com ele, vinha um frade, Frei Sinfrão; um fazendeiro empreendedor, Seo Jujuca do Açude; o tropeiro Ivo; e Pedro Orósio, protagonista da estória e responsável por guiar o grupo. Ao longo do trajeto, eles se deparam com lunáticos que tentam comunicar mensagens infralógicas da atmosfera e da paisagem, brotadas inicialmente “de um germe caído no perturbado espírito de um louco, alimentada e desenvolvida pela colaboração de outros lunáticos” (RONAI, 2006). O embrião do recado é originário da surpreendente conversa entre Malaquias, apelidado como Gorgulho - “um velhote grimo, esquisito, que morava sozinho dentro de uma lapa” (CB, pg. 399) – e um morro, em que se prenuncia a morte de alguém, uma “morte à 164 traição” (CB, pg. 422). O emissor do recado é especial: um morro solitário, no centro geográfico de Minas Gerais – o Morro da Garça. Voltando novamente as anotações de Guimarães Rosa durante a Boiada de 1952 (ROSA, 2011), notamos que o escritor-viajante se encanta com a “escalena” feição geomorfológica do morro, enfatizada como um marco paisagístico para orientação dos boiadeiros. Tendo como ponto inicial a Fazenda da Sirga, nas margens do Rio São Francisco (próximo a Barra do Rio de Janeiro) em direção à região de Araçaí (distrito de Cordisburgo), a Boiada realiza caminho inverso ao dos viajantes fictícios de “O Recado do Morro”. Em ambos os casos, entretanto, o Morro da Garça é sempre avistado como ponto de referência, acima das superfícies circundantes. Algumas passagens do diário de campo de Rosa descrevem a fisionomia e a posição dos vaqueiros na viagem em relação ao morro. Podemos situar o trajeto feito por eles em orientação Norte-Sul, inicialmente situados ao lado esquerdo do morro: “Vamos pelos altos. À esquerda, o morro da Garça. Belo!” (ROSA, 2011, pg. 143), com suas características fisionômicas únicas, “o Morro da Garça – pirâmide rasa. Corcova de camelo, às vezes, às vezes uma tartaruga. Escuro” (ROSA, 2011, pg. 147); depois, margeando-o no mesmo sentido, o morro começa a ficar para trás, “Avistamos, a Nordeste, o Morro da Garça. Ao norte dele, outros cimos, mais chatos e mais baixos” (ROSA, 2011, pg. 171); e segue-se na orientação Oeste-Leste, “Viajamos vendo, atrás, noroeste, o morro da Garça” (ROSA, 2011, pg. 173); até continuar o trajeto em direção a Cordisburgo, com o monte ainda perceptível no horizonte: “Estamos nos altos da Trindade. Avista-se, atrás, a igrejinha de São Tomé. Ao longe, pequenino, mamelar, o Morro da Garça” (ROSA, 2011, pg. 185). Em carta a um padre amigo de Belo Horizonte, Rosa explica que é possível avistar o morro até das partes mais altas de Cordisburgo e confirma que pôde enxergá-lo, por vários dias, “da banda do norte, do leste e do sul, sucessivamente, durante dias, quando vim, em 1952, com uma boiada...” 30. Na estória de “O Recado do Morro”, o acidente geográfico também é reproduzido de 30 Carta ao Padre João Batista, escrita no dia 26 de agosto de 1963. Um exemplar encontra-se na Casa de Cultura, do município de Morro da Garça. 165 forma imponente, como uma pirâmide em meio à topografia aplainada do cerrado: “E, indo eles pelo caminho, duradamente se avistava o Morro da Garça, sobressainte. [...] dias e dias, caceteava enxergar aquele Morro: que sempre dava ar de estar num mesmo lugar, sem se aluir [...]” (CB, pg. 414). Além de servir como guia referencial para os viajantes no conto, ele é responsável por proclamar possíveis acontecimentos futuros na novela, porém, os membros da comitiva são incapazes de captar a mensagem, pois não creditam legitimidade nas falas dos “loucos rosianos”, achando que aqueles assuntos “nem eram coisas do mundo entendível” (CB, pg. 411). É importante ressaltar que os membros da comitiva trazem um olhar limitado aos seus estreitos campos de interesse e são incapazes de perceber os sentidos presentes além de seu circunscrito território, por mais que a viagem apresente espírito aventureiro, como analisa Menezes (2011, pg. 177). Desta forma, o discurso da ciência vincula-se, na ficção, ao viajante naturalista, enquanto o da religião, a Frei Sinfrão e o do capitalismo desbravador, ao fazendeiro Seu Jujuca. Uma das lições apreendidas na leitura de o “Recado do Morro” corresponde ao modo de retratar o sertão pelo naturalista Seo Olquiste. Preso a formação erudita da ciência moderna para inventariar a paisagem, o alemão toma a natureza como objeto frio de análise, a ponto de não estar aberto ao recado transmitido pelos “marginais da razão” e incapaz de compreender o que se passava ao redor31. A ciência tradicional, exemplificada aqui pela visão dos naturalistas que percorreram o interior brasileiro no século XIX, não permite se entregar inteiramente aos lugares pesquisados e podem, invariavelmente, perder a sabedoria carregada pelas populações e por outras maneiras de lidar com a percepção e com o envolvimento delas com o meio. Atentos a estes detalhes, íamos em direção ao magnético Morro da Garça, no terceiro dia de campo, para procurar outros possíveis recados sobre o 31 Apesar disto, dentre os membros da comitiva de viagem no conto, o naturalista alemão é o que mais se preocupa com a provável importância do recado, como exemplificado em pergunta dirigida ao Frei Sinfrão, “naquela língua sem as possibilidades: “‘Hom’est’diz xôiz’ imm’portant!’ [...] – ‘Chôis’ muit’ imm’portant?’” (CB, 410). 166 futuro e os devires do sertão. O recado agora não seria o da estória ou da fábula, mas da complexidade de um sertão em transformação, não apenas visíveis em seus aspectos físicos pesquisados outrora por Seo Olquiste, mas também nas questões que afetam diretamente o cotidiano da população sertaneja. O município de Morro da Garça encontra-se a cerca de 200 km de Belo Horizonte, na região centro-norte de Minas Gerais, localizada, curiosamente, no centro geodésico do estado. A chegada ao morro homônimo se dá a partir da própria cidade, por 2 km de estrada de cascalho. No sopé do monte há uma estreita estrada de terra, em que é possível alcançar determinado trecho do morro de carro, sendo o resto feito a pé até o topo, onde se encontra uma torre de TV e um cruzeiro. Durante todo o trabalho de campo, foi enfatizada, além do foco na geografia física e humana, a importância da paisagem emotiva e sensorial a ser buscada por nós para decodificar o recado da geografia do sertão atual. Os gestos e contatos minimalistas com o sertão passavam a se dar cada vez mais intensos a partir de então. E assim, subíamos o morro por sua vertente sudoeste, às 17h do dia 10 de outubro, acompanhando os primeiros movimentos do pôr do sol. Lá do alto, além da grande área deprimida da bacia do rio São Francisco observada, era necessário captar outros signos “invisíveis” na paisagem, um olhar crítico por cima e além do relevo do Morro da Garça. A luminosidade do sol, ao incidir no formato peculiar do morro, privilegia a aparição temporária de uma imensa sombra triangular cobrindo o terreno aplainado abaixo (Figura 27, pg. 182). Embora constituído de rochas mais antigas, assim como alguns de seus vizinhos, o morro é um verdadeiro monte isolado na planura do cerrado, que permite uma visão privilegiada e vasta do entorno. Sua situação geológica permitiu que ele fosse preservado como forma residual, na qualidade de um testemunho na paisagem regional, submetida à sedimentação e, posteriormente, a um intenso processo de desnudação (RIBEIRO, 2007, pg. 128). Após subir a sequência pelito-arenosa definidora da transição entre as formações Serra da Saudade e Três Marias, chegávamos ao topo sustentado por 167 cerca de 60 m de metarenitos impuros da Formação Três Marias, bastante recristalizados (CHAVES et. al., 2007, pg. 43). Soltos na intempérie do morro escaleno, caminhávamos sobre a estrutura geológica que possibilitava sua presença testemunhal exuberante, acima de duas superfícies: uma ondulada em depressão e outra tabular aplainada. Dali de cima, uma livre vista panorâmica indicava áreas de cerrado relativamente preservadas, variando entre vegetações mais densas e outras mais esparsas. O terreno aplainado circundante ao morro se encontrava com as linhas de serras no horizonte, ao fundo, como narrado no conto de Rosa, “muito mais longe, na direção, outras montanhas – sendo azul a Serra da Diamantina” (CB, pg. 402). Imaginávamos os leitos dos rios mais secos devido ao período de estiagem, protegidos por suas matas ciliares. Ao sopé, era possível enxergar as casinhas e o ordenamento urbano do pequeno município homônimo, onde, antes ainda do início da noite, pontinhos de luzes começavam a ganhar um corpo luminoso frente à imensidade do horizonte. Contudo, além da bela paisagem natural, avista-se também um cenário perverso de transformações em grande parte da vista panorâmica contemplada. Se o Morro da Garça é visível de diferentes ângulos a partir da perspectiva de viajantes que rondam suas redondezas, uma paisagem dominada pelas intermináveis plantações de eucalipto se torna quase onipresente no campo de visão. Tal como a novela de Guimarães Rosa, presenciávamos um recado corporificado pela natureza, no topo do Morrão. Ali estava sendo transmitido o prenúncio dos próximos dias de viagem. O ordenamento paisagístico natural do cerrado era contraposto com densos eucaliptais, com áreas descampadas onde provavelmente a massa vegetal já havia sido cortada e levada nas carrocerias dos caminhões e, ainda, em outros pontos, fumaças de carvoarias clandestinas se espalhavam pelo ar. Este era o recado que nos instigaria a todo o momento pelas inúmeras estradas a serem percorridas nos próximos dias. O mensageiro era novamente corporificado pelo Morro da Garça e outros avisos poderiam ser transmitidos durante o restante do percurso de campo. Agora, contudo, bastava-nos 168 compreender, de forma receptiva, as sensações contidas na natureza bruta do cerrado e na concepção profunda de seus habitantes. Na carta de Guimarães Rosa ao Padre João Batista, já apresentada anteriormente, o escritor acrescenta algumas explicações a respeito do “Recado do Morro”, afirmando a importância da “intuição, da inspiração (da revelação, não menos), sobre as operações e conceituações da lógica e conclusões da inteligência reflexiva” na novela. O autor pondera que a própria natureza do Morro tenta avisar Pedro Orósio do perigo de morte iminente, planejado contra ele por falsos companheiros. O Morro se confunde com o subconsciente de Pedro, com o subconsciente coletivo e com o “fundo extra-racional”, do qual as revelações brotam. Entretanto, por estar preso demais à realidade aparente, para o mundo externo “objetivado”, o protagonista não percebe a mensagem. Quem a apreende são, exatamente, os que Rosa chamou de “seres receptivos”, “pobres de espírito”, “marginais da razão comum”. Por estarem mais abertos às sensações e ao obscuro, eles assimilam o recado e, movido por uma intuição mais acesa e com sua inspiração poética, um artista captura a mensagem e a transforma em uma canção. Só ao ouvi-la e entoá-la é que Orósio entende a importância e vital significado dela, reage ainda a tempo contra os traiçoeiros camaradas e se salva. Estas considerações a respeito do conto remetem uma atenção especial para a ontologia da paisagem ou para o subconsciente da paisagem que muito tem a dizer do sertão mineiro atual. É preciso captar a essência alarmante da poesia do cerrado, e assim como Pedro Orósio, despertar a tempo para os perigos estampados no cenário contemporâneo. Por ser o centro geodésico do estado - no coração de Minas Gerais, assim como o Cerrado está no coração do país - o aviso do morro é ainda mais representativo, por tratar de atividades que vem contaminando o bioma há algum tempo, principalmente no que se refere às monoculturas “desérticas” dos eucaliptos. 169 O diabo na rua, no meio do redemoinho... Rumo a rumo de lá, mas muito para baixo, é um lugar. Tem uma encruzilhada. Estradas vão para as Veredas Tortas - veredas mortas. Figura 25: No meio do redemunho (DAIBERT, 1998, pg. 137) No dia seguinte, ainda interpretando o novo recado, pegávamos a estrada de terra que segue de Morro da Garça para o distrito de Andrequicé (terra de Manuelzão e um dos cenários de “Dão-Lalalão”), em Três Marias. Agora, percorrendo o caminho na topografia aplainada, antes enxergada por cima do “resistente” morro, sentíamos na pele o que havia sido anunciado panoramicamente. A pior e mais difícil estrada de todo o trajeto de campo insinuava caminhos inconcebíveis e labirínticos, onde nem o senso espacial do GPS 170 conseguira determinar uma rota certeira, visto que os enormes eucaliptais que tangem a estrada de terra impõem constantes mudanças em seus itinerários, de acordo com as épocas de plantio e corte das glebas. As informações concedidas por moradores encontrados pelo trajeto e mesmo por trabalhadores locais eram dissonantes a respeito do melhor caminho a seguir. Enquanto isto, a péssima condição da estrada maltratava o assoalho do automóvel. E, justamente neste tenso trecho do caminho, avistávamos uma solitária vereda, a primeira durante toda viagem de campo (Figura 28, pg. 183). Contudo, a expectativa construída por leituras anteriores a respeito do sertão rosiano nos fazia imaginar suas águas límpidas e azuis e uma vegetação exuberante em torno delas, ornadas por buritis, flores e inúmeros pássaros. Mesmo estando ainda perdidos pelas estradas conflituosas daquele trajeto paramos o carro para contemplar aquela primeira amostra do oásis do sertão. Em meio aos eucaliptais, não foi espantoso enxergar a fisionomia abatida da vereda, degradada e com sinais de queimada, cercada por todos os lados pelo “deserto verde”. Ali era, no entanto, o único local daquele trecho onde se ouvia o canto de pássaros, certamente tentando se refugiar naquela remota península de biodiversidade. Ao voltar ao carro, topamos com trabalhadores das plantações que desceram do caminhão para nos auxiliar a nortear o trajeto a ser feito que, desta vez, se mostrou eficiente. Assim, enfim chegávamos ao povoado de Andrequicé. Após consertar o peito de aço maltratado do automóvel, andávamos pelas ruelas do distrito notando que muitas de suas casas eram novas e várias outras se encontravam em processo de construção. O lugarejo estava agitado, talvez pelo horário de final de expediente. Não era difícil notar uma mescla entre antigos moradores e a recém chegada de trabalhadores temporários, uma grande massa de gente disposta a labutar nas plantações de eucalipto. Informaram-nos que haveria no dia seguinte uma tradicional procissão feita a pé de Andrequicé até Três Marias, em homenagem a Nossa Senhora da Aparecida. Antes disso, naquela noite de véspera de feriado, tentávamos dormir na Pensão da Dona Olga, enquanto um som absurdamente alto persistia em tempo integral. No pequeno lugarejo, o som do funk invadia ofensivamente os poros de 171 cada casinha simples da vila durante a madrugada, até que, por volta das 04h da manhã, o som passou a ser interposto e envolvido ao foguetório em homenagem a Santa padroeira do Brasil. Por volta desse horário dava-se início a caminhada dos fiéis para Três Marias. A noite perturbada deixava clara a tensão das contradições de um lugarejo típico do interior de Minas, vinculado às fazendas de gado e às tradições religiosas, e que começa a receber um grande contingente de novos moradores, ligados a outras atividades e à cultura urbana. Novos recados eram dados. Na verdade, era uma versão atualizada das mudanças derivadas dos efeitos da modernização no sertão mineiro que, desde os anos 70, vem ganhando força no estado. Décadas antes, no ano de 1989, o estudioso Carlos Rodrigues Brandão (1998) realizara uma viagem de pesquisa em direção ao Norte de Minas Gerais, semelhante à nossa, mais uma dentre tantas outras “boiadas” inspiradas nos caminhos de Guimarães Rosa. Um dos principais relatos adquiridos pelo antropólogo em seu trabalho se concentrava justamente no distrito de Andrequicé, no qual ainda residia o vaqueiro Manuelzão, lenda viva do sertão rosiano da época. É interessante considerar a percepção valiosa deste personagem sertanejo que vivenciava a fundo novas racionalidades impostas já no final da década de 1980 na região. Separamos aqui algumas das falas de Manuelzão, em entrevista a Brandão, sobre o cenário de transformações causadas pela chegada, principalmente, da monocultura do eucalipto: (Manuelzão aponta distâncias) Vocês imaginem. Tudo isso aqui já foi eucalipto que foram cortados. [...] A Companhia, acho que não dá é conta de limpar e trazer isso limpo, sô! É trem demais, sô! É trem demais e não é só aqui. Lá por onde passamos ontem, a maior parte é trem da Companhia. Esse trem (terras) desce doido por aí abaixo. [...] Companhia não gosta mesmo de deixar gado entrar no que é dela. Dentro do eucalipto gado nenhum pode entrar. É só nessas beiras de veredas, nesses prados. Assim mesmo tem, e eles não gostam mesmo. É um absurdo! [...] Você olha esse mundo aqui em abaixo, ó. Que está destroçado aí, na beira dessas veredas. Onde tem água tem bateria cozinhando carvão, aquela confusão toda. Você olha esse azul aí fora... e pra todo lado aqui o tanto de eucalipto que tem!... Cobra pode ter alguma dentro dessa reserva. Mas dentro de eucalipto nem cobra não fica. Nem cobra! Marimbondo, você pode andar o dia todo dentro do eucalipto, você não encontra (BRANDÃO, 1998, pg. 251) 172 A fala do matuto Manuelzão demonstra a ausência de vida nas enormes terras de “deserto verde” dos eucaliptais, um ambiente morto, onde nem o gado tem permissão de entrada, vetado pelos proprietários das companhias. O parque siderúrgico e industrial, já naquele período, dominava o terreno, antes preenchido pela vida exuberante do cerrado, pelos cursos d’água, veredas e também pela tradição secular das fazendas de gado, ambiente no qual Manuelzão se sentia incorporado desde os tempos de criança. As imposições ambientais das plantações de eucalipto ainda remetem a questão das mudanças climáticas locais, na fala do sertanejo, em relação aos períodos determinados de chuva e seca: Porque todo mundo sabia, até os próprios bichos. Você via o movimento dos bichos voando. E, pois, tem os passarinhos que a gente conhece eles por tesoureiro. Quando ele avoa a caudazinha dele parece o tipo duma tesoura. Aquilo, se avoasse, a gente podia escrever: “de hoje a três dias tem chuva”. Hoje ele morre de avoar e não tem chuva (BRANDÃO, 1998, pg. 246) O pessimismo de Manuelzão quanto ao cenário presente era um recado emitido para o futuro, sobre o possível desaparecimento do sertão em âmbito cultural e ambiental que, de certa forma, frustrava o pesquisador: “Vocês não vão achar sertão mais de maneira nenhuma! [...] Tinha muita casa [fazendas antigas] aqui, mas está do jeito que você está vendo: o Eucalipto acabou com tudo” (BRANDÃO, 1998, pg. 248). Impossível não remeter a fala de Manuelzão à de Riobaldo em Grande Sertão: veredas, ao receber o doutor da cidade e comentar sobre o quadro presente do período da narração, para aquele que queria conhecer a fundo a região: “Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe? Tem seus motivos. Agora – digo por mim – o senhor vem, veio tarde” (GSV, pg. 41). As falas de Riobaldo e Manuelzão se encaixam até na possível disposição em apresentar o sertão, seja para o interlocutor fictício do romance -“Não fosse meu despoder por azías e reumatismos, aí eu ia. Eu guiava o senhor até tudo” (GSV, pg. 42) - seja para o antropólogo, autor de Memória Sertão - “Eu vou te falar: eu, é porque não posso. Porque se eu pudesse, ia andar com vocês era muitos dias [...] Mesmo por aí pra fora, onde eu conheço. Eu tinha prazer com isso!” (BRANDÃO, 1998, pg. 252). 173 Durante a Boiada de 1952, Guimarães Rosa também teve a oportunidade de passar pelo povoado de Andrequicé. Nas anotações do diário de campo não é possível notar nenhuma referência a essas transformações que se dariam com grande força nas décadas subsequentes. As descrições, pelo contrário, enfatizam as belezas do cerrado e as características da fazenda de gado, neste caso representado pela Fazenda Santa Catarina, cuja descrição serviu de base para a reprodução da morada de Otacília, em Grande Sertão: veredas. As ruas de Andrequicé ainda eram marcadas pela presença do gado deitado no meio da rua, “de barriga cheia (...), amalhado, descansando” (ROSA, 2011, pg. 124). Córregos como o Ribeirão do Boi ou o Capim-de-Cheiro e veredas como a São José se misturam aos bandos de sofrês cantando nos buritis, o fogo-apagou, periquitos, borboletas, a restinga do cerrado, a flor casa-comigo, dentre outros elementos. Na Fazenda Santa Catarina enfatiza-se os elementos do curral, os bezerrinhos deitados e a lida com os bois (ROSA, 2011, pg. 122-129). Enfim, o contexto observado por Rosa indica a presença da natureza e a do gado que unifica a categoria “sertão” e “pintalgam qualquer tom da paisagem sertaneja” (GALVÃO, 1972, pg. 27). E é esta a presença marcante também nos livros de Rosa, o mundo da pecuária extensiva e a relação do homem com o boi, uma proximidade física e afetiva, que também se incorpora na relação do homem com o mundo natural. Embora a pecuária se constituísse como atividade principal do sertão mineiro, a região também desenvolveu grande riqueza no cruzamento da questão social com a questão ecológica, pelas mãos dos Geraizeiros, Caatingueiros e Vazanteiros, resultando na apropriação das condições naturais que a região oferecia, com os brejos/várzeas, chapadas, encostas, cerrados, matas secas e caatingas, que permitiram o aprimoramento do sistema alimentar e, consequentemente, do sistema agrícola. Esta temática, tratada no fim do 1º Capítulo, indica a importância da íntima relação histórica dos povos cerradeiros com o seu ambiente natural. É verdade que a hegemonia do quadro do latifúndio pecuarista ganhou um destaque especial na região, do ponto de vista geográfico-cultural, mesmo porque, economicamente, era a atividade que deu conteúdo oficial para a ocupação e conquista do sertão em sua história. Porém, se houve uma apropriação desigual 174 das terras pelo latifúndio, houve também a possibilidade de um sistema de uso coletivo/comum da terra, subjacente à diversidade cultural de região (ALMEIDA, 2003a, 2003b; MAZZETO, 2006, 2009; LUZ et. al., 2008; PORTO, 2000; RIBEIRO, 2005, 2006). Daí a denominação Campos Gerais para as terras comunais do Cerrado, indicativa de um modo de apropriação comum, geral, dessas terras. Esse era o Bioma-Território fundamentado pela presença esparsa e constante do gado solto e da subsistência das lavouras, ambiente no qual Manuelzão e seus companheiros se inseriam e que formaram a base documental para a maior parte da obra de Guimarães Rosa. Contudo, a partir dos anos 50 e 60, o modelo desenvolvimentista passa a comandar o país e a região sofre uma verdadeira revolução em sua organização socioespacial. Duas expressões utilizadas pelo geógrafo Carlos Walter Porto (2000) são essenciais para analisar este grande contexto de mudança na organização socioespacial, observada neste período. A primeira é a modernização conservadora à la Norte de Minas, onde os latifúndios considerados improdutivos deveriam se modernizar e se transformar em Empresas Rurais. Assim, os incentivos governamentais sob a forma de isenção fiscal ou de concessão de terras públicas, gerais, foram colocados à disposição de empresários, se tornando terras particulares, através de contratos de concessões para a consolidação de monoproduções. A segunda expressão de Porto se insere em desdobramentos da lógica que privatizou os Gerais, através de uma mudança radical da matriz de racionalidade. As matrizes de racionalidade da população sertaneja que garantiam o auto-abastecimento da região e dos tropeiros, passa a se pautar pela imposição da monoprodução, condicionada pelo apoio técnico e financiamento bancário aos novos empresários. A matriz de racionalidade que, anteriormente, produzia riqueza, através de um modo de vida que transformava a natureza local/regional em cultura, é substituída por uma racionalidade preocupada com a expressão monetária da riqueza, o dinheiro (PORTO, 2000, pg. 27). 175 Sob a influência de uma nova matriz de racionalidade, segundo as novas lógicas impostas pela modernização conservadora, o poder de determinar o destino da região transforma profundamente o envolvimento das populações com o seu meio ambiente, em nome de um des-envolvimento: Há uma determinação superior, de um Brasil-Grande, que vai levar/trazer o desenvolvimento o que, rigorosamente falando, significa des-envolvimento. O Norte de Minas tinha um envolvimento próprio, com contradições próprias e, enquanto uma região, conformava uma relativa autonomia quanto à sua dinâmica de usos dos recursos naturais, o que ensejou culturas próprias, matrizes de racionalidade diferenciadas e corporificadas no Caatingueiro, no Gerizeiro, no Vazanteiro [...] O processo que vem se dando, sobretudo a partir da década de 70 é, neste sentido, a quebra deste envolvimento, o des-envolvimento, o que significa que a autonomia ficou cada vez mais relativa, cada vez menor a capacidade/possibilidade de determinar seus destinos. Nesse sentido des-envolver foi, também, des-locar, ou seja, tirar dos locais, dos do local, o poder (PORTO, 200, pg. 28-29). Ainda segundo o autor, o sertanejo, neste contexto, tende a ficar fora do mapa do sertão, compondo apenas marginalmente a paisagem, deixando de imprimir suas marcas, suas grafias e deixando de fazer suas geografias. Surge o desemprego por um lado - fruto da desestruturação do sistema agrário que envolvia os produtores familiares - e mudanças ambientais regionais, por outro, desencadeadas pela mudança do sistema de uso da terra. Dias antes da nossa chegada a Andrequicé, um dos primeiros depoimentos a cerca deste tema sugere a alteração do regime hídrico regional e as mudanças no campo social na região, exemplificadas na fala de Sr. Toco Pequi: Olha, mudou muita coisa. Até o tempo mudou! Antigamente a gente já sabia qual época que iria chover, e hoje não tem mais disso. Então, a coisa tava seca e meus avós falavam: olha, mas nós vamos ter chuva, porque tem as “chuva das flor”, no mês de agosto, daí mês de agosto chovia. Aí vinha a primavera, aí já tava bonito, o campo tava bonito, florido, verde... Hoje não, tá feio! Quer dizer, nós estamos em outubro, aqui não tem chuva, tem uns lugares que choveram muito, a gente vê na televisão, mas aqui no sertão: nada! As plantas ficam feias... Acabou! E, por outro lado, o homem fez muita modificação né? Porque ele destocou sem dó, aí foi acabando com as bacias de água, foi acabando os afluentes dos córregos maiores, foi secando tudo, tá cada vez mais difícil, cada vez mais seco. [...] Porque a grande bacia acabou, drenaram... Tinha as lavouras que as águas que elas recebiam ficavam sempre 176 conservada né!? Então drenou tudo, esgotou e acabou a água. O Córrego chamado Guaíba, hoje a água dele é um pouquinho, é onde tinha vários moinhos, geradores de energia, acabou tudo! Destruição foi fazendo com que a água fosse secando. O povo que vivia antigamente dava muito valor à lavoura, à roça, hoje não, todo mundo quer cidade.... É pouco lugar que as pessoas ainda plantam, e se plantam, plantam só para a cidade. E quando eu era criança e quando eu casei e depois, a gente trabalhava para comer, então a gente plantava roça para colheita, e hoje não é mais, só uma raridade de pessoas. Onde a pessoa planta para colher é só aonde pode trabalhar com máquina, porque o braçal acabou, e o povo até desaprendeu, né? Todo o mundo ficou preguiçoso: ah não, se não for com o trator para trabalhar com isso aqui, não tem como não... Mas, antigamente, era na enxada, e ainda era cantando... O pessoal trabalhava e ia cantando... O entendimento amplo da situação por Seu Toco Pequi revela a dinâmica ecológica do Cerrado, com seus períodos chuvosos e secos em confronto com a perspectiva posterior caracterizada pelas modificações realizadas pelo homem. Não somente pela conversa travada com este sertanejo, mas pela leitura de vários outros estudos em comunidades tradicionais do sertão mineiro, como o de Mazzeto (2006, 2009), Ribeiro (2006) e por meio de depoimentos do próprio Manuelzão (BRANDÃO, 1998), existem diversas confirmações a cerca da alteração do regime hídrico regional ocasionadas pelas monoculturas de eucalipto, pelo desmatamento (o “destocar sem dó”), queimada do cerrado e pela apropriação da água pelos grandes projetos de irrigação (“acabando com as bacias de água”). Foi alterada também, profundamente, a estrutura fundiária e a matriz de racionalidade dos Geraizeiros, Caatingueiros, Barranqueiros ou Vazanteiros que, segundo Seo Toco, hoje querem cidade e não querem mais trabalhar cantando como em outros tempos. Tendo isto em vista, podemos analisar uma conjuntura interessante e metafórica entre o ambiente contemporâneo de transformação em Andrequicé e a relação com aspectos da obra rosiana, consideradas pela perspectiva interpretativa de Willi Bolle (2004). Em um dos pontos de vistas propostos por Bolle, postula-se que Grande Sertão: veredas é organizado em torno de um ato-chave no romance: o pacto de Riobaldo com o Diabo, que, segundo o autor, sugere uma reflexão de Guimarães Rosa a respeito das instituições as quais repousam a ordem pública, o 177 sistema político e jurídico no país e o próprio processo da modernização (BOLLE, 2004, pg. 141-194). Se ainda retomarmos as anotações de Rosa na Boiada sobre Andrequicé, notaremos, além da descrição da natureza e da cultura sertaneja na Fazenda Santa Catarina, uma conversa presenciada por Guimarães Rosa relacionada ao imaginário popular sobre o “Pai da Mentira” (GSV, pg. 435): “O (capeta) moço que apareceu no Andrequicé e disse de lá a Sirga poderia vir em 20 minutos apenas, costeando o “rio do Chico” pelas cabeceiras...” e, logo depois: “Zé Simplício: (não pode passar em 3 lugares – o Aristides – um chorinho atrás dele, e uma voz dizendo: - Eu já vou!... Eu já vou! ...) [...] A besta “rupeia” pra ele, nega de banda.... Tem um capeta em casa dele” (ROSA, 2011, pg. 75). Coincidentemente, a única referencia a Andrequicé no livro Grande Sertão: veredas é transmutada destas anotações da Boiada, para fazer menção aos rumores sobre a passagem do diabo na região. Segue abaixo o trecho em que Riobaldo relata o caso ao interlocutor: Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que, para aqui vir – normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele era capaz que só com uns vinte minutos bastava... porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe – sem ofensas – não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem se anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses... Então? Que-Diga? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças! (GSV, pg. 24-25, grifos nossos) As inúmeras reflexões a respeito de Deus e do Diabo elaboradas por Riobaldo seguiriam intensas ao longo do texto, como motivação para o protagonista descrever as passagens de sua vida. O trecho acima, disposto no início da narração, não alude a interpretações específicas da localidade de Andrequicé, mas apenas remonta reflexões incorporadas pelo autor durante a viagem pelo 178 distrito, transportadas ao texto ficcional. Entretanto, coincidentemente, a interpretação do pacto de Riobaldo com o diabo, um dos eventos fundamentais do romance, é, na concepção de Bolle, uma amostra representativa a cerca da modernização e o cenário das relações sociais no Brasil. O esboço contemplado por Bolle se faz cativante para a nossa pesquisa se considerarmos o contexto de mudança de matriz de racionalidade no sertão mineiro e, em especial, em Andrequicé, já anunciadas pela vista privilegiada do Morro da Garça. Segundo o pesquisador, o pacto nas Veredas Mortas é uma “representação criptografada da modernização no Brasil. Uma vez que essa modernização tem sido contraditória e perversa” (BOLLE, 2004, pg. 148). Para além dos significados existenciais, esotéricos, míticos e metafísicos do episódio32, o autor busca um quadro de interpretação em torno de significados históricos, políticos e sociais. E, por este viés, o lado “diabólico” de Guimarães Rosa aponta para as incursões do Mal, de acordo com a história da modernização, escrita por linhas tortas no Brasil. Assim, o “Mal de que trata Grande Sertão: veredas, lida como história primeva do Brasil, é um mal social” (BOLLE, 2004, pg. 157). E o pacto realizado nas Veredas Mortas não passaria de um “falso contrato social”, uma alegoria a respeito do discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, remontada teoricamente por Rousseau. No caso do filósofo, o ato histórico fundador – que separou ricos e pobres, chefes e comandados, senhores e servos – pode ser comparado à transformação de Riobaldo após o Pacto com o Diabo, conquistando a chefia do bando e impondo-se aos outros chefes e aos seus companheiros que, até então, eram tido como seus iguais. Para Bolle, com a fórmula de um trato entre iguais em que uma das partes dá as ordens, Guimarães Rosa introduz em sua narrativa ficcional um elemento de alta relevância teórica. E é a partir desta perspectiva que podemos relacionar as ideias do autor sobre o trato ou pacto em Grande Sertão: veredas com a força do capital da modernização conservadora do “sertão presente”. Transportamos para a nossa pesquisa, desta forma, um dos questionamentos trazidos pelo estudioso: “O que significa um acordo entre parceiros supostamente 32 Contemplados por análises valiosas como a de Uteza (1994) e Rosenfield (1993). 179 iguais, quando uma das partes passa a assumir o papel dominante, colocando a outra parte numa situação de inferioridade?” (BOLLE, 2004, pg. 173). Concordamos com o autor e estendemos a compreensão para o nosso recorte de estudo, ao considerar o trato de Riobaldo com o Diabo, pelo prisma da teoria política de Rousseau, como um falso contrato social. O pacto da modernização ou o trato do desenvolvimentismo, trazidos goela a dentro pelos grotões do sertão, evidencia uma parte que assume o papel dominante: os “de fora”, os mesmos que classificaram o sertão/cerrado como atrasado, isolado, bárbaro. Em detrimento daqueles de “dentro”, os que vivem e experienciam o sertão e o fazem o espaço/lugar vivido, envolvidos pelos valores ligados à maneira como se associam ao meio vivido. Este duplo enquadramento do sertão, como chamou Maria Geralda Almeida (2003a) - entre os “de fora” e os “de dentro” - ou os “dois Brasis” abordados por Chaveiro e Barreira (2010) - os do “litoral” e os do “sertão” - passam a estabelecer um contrato forçado a partir dos anos 50 e 60, no qual as forças desiguais tencionam a tirar o poder e a possibilidade do povo cerradeiro traçar seu próprio destino. A quebra de envolvimento das tradições regionais e da relativa autonomia do sertão mineiro, após o pacto do des-envolvimento, utilizando o termo de Carlos Walter Porto, marca o modo de inserção da lógica do dinheiro, ou da lógica do mercado, que passa a comandar a organização do espaço regional. Para Porto, uma das marcas dessa transformação, sobretudo a partir da década de 70, foi uma dissociação mais radical entre homem e a natureza e uma mudança da apropriação das terras e das águas, dos cerrados, através de sua mercantilização, assim como as próprias famílias se viram expulsas e concitadas a migrar e a se assalariar, muitos lançados ao subemprego e à marginalização social (PORTO, 2000, pg. 30). Nas ruelas de Andrequicé, no meio do redemoinho, vemos essas transformações em curso, após o pacto firmado - às escuras - entre as distintas e desiguais matrizes de racionalidades. Ao invés da relação homem-boi ou homem- natureza, se vê, cada vez mais, a relação homem-máquina dos trabalhadores nos eucaliptais. Após o início da procissão a Três Marias conseguíamos o contato de 180 uma pessoa que iria para a mesma direção do nosso próximo destino: a Barra do Rio de Janeiro. Um morador local, conhecido como Valico, estava a caminho de um lugarejo chamado “Pedras” e topou nos acompanhar para guiar o labiríntico caminho, costeando a margem direita do Rio São Francisco. Este trajeto é repleto de eucaliptais e propenso a perdas, devido ao caráter temporário das estradas e à paisagem monótona, da qual já havíamos tido problemas em trechos anteriores. Valico conta que é trabalhador nas plantações de eucalipto (Empresa Gerdau) há alguns meses. Muito do trabalho realizado neste setor já é desempenhado por máquinas, o que reduz drasticamente a oferta de empregos para a população local. O ofício para ele, contudo, proporciona benefícios quando comparado à lida na fazenda, seu último ofício. Há plano de saúde, carga horária pré-estabelecida e folga no fim de semana. Enquanto na fazenda, muitas vezes, é preciso trabalhar em tempo integral, o que gera insatisfação para os que labutam na roça, devido também às precárias condições oferecidas aos trabalhadores rurais. Aproveitando o feriado de Nossa Senhora da Aparecida, Valico ia pescar em alguma beira do Rio São Francisco e, por isso, nos guiava até a Barra do Rio de Janeiro. As condições do trabalho atual são relatadas pelo ex-vaqueiro: O serviço que a gente faz é até bom, sô. Tiramos na faixa de três salários todo mês, trabalho de segunda a sexta, não é ruim não. Mas vai acabando tudo [a máquina como força de trabalho]... Tem tudo assinado [carteira de trabalho]. Essas firmas aqui, enquanto você não assina sua carteira, você não trabalha não. É tudo arrumadinho. É as firmas grandes que pagam seu salário, o empreiteiro não paga, é a firma que paga. Você não tem nada a ver com o empreiteiro, a responsabilidade é toda da firma. Porque tinha muito empreiteiro que vinha pegava um servição, ganhava dinheiro, não pagava os funcionários e ia embora. Agora a firma já tira o dinheiro deles e já paga [aos trabalhadores]. Aí você não fica sem receber. E nas firmas grandes, como a Gerdau, você tem plano de saúde, tem tudo! E você também sai cedo: trabalhou de tarde, aí depois você não tem nada a ver mais. Fazenda você tem que ficar preocupado o 181 tempo todo, você não pode nem sair... Você acha que se fosse fazenda eu estaria indo pescar igual eu estou indo hoje? Vários elementos da fala deste sertanejo nos fazem refletir a respeito da condição do trabalhador rural no sertão mineiro contemporâneo. Para não tomarmos o relato como um quadro geral sobre tema, é importante atentar para a individualidade do depoimento, ou seja, não foi nosso interesse, neste trabalho, realizar uma análise específica sobre a questão agrária do sertão. Outras pesquisas têm se debruçado a respeito deste tema e diversas considerações ainda precisam ser analisadas. Os poucos meses de Valico na empresa não permitem uma avaliação categórica a respeito do caráter e da continuidade do trabalho, se é temporário ou não, e se é benéfico à população ou não. Importa-nos compreender que o ganho dos benefícios do trabalho formal, por mais pontual que seja, clama para que o serviço no campo permita condições dignas aos seus trabalhadores em quaisquer atividades empreendidas. Entretanto, se as companhias permitem o trabalho formal neste caso específico, em outras tantas circunstâncias semelhantes afloram apenas o caráter da quebra de envolvimento dos povos do sertão com o seu ambiente. O morador mesmo comenta que, há pouco tempo, as empreiteiras exploravam a mão de obra local sem realizar o pagamento aos funcionários e, provavelmente, este cenário ainda é realidade em outros recantos de monoculturas clandestinas espalhadas pelo território mineiro. Ao romper com a sociobiodiversidade do cerrado e seu caldo cultural associado, o agronegócio apenas implanta as estruturas transnacionais para o lugar-sertão. Apesar da relação homem-máquina no trabalho de Valico, sua opção de lazer no feriado está diretamente relacionada à tradição do homem do sertão com o mundo natural. A pesca é apenas mais uma das atividades realizadas pelo sertanejo, desde as primeiras movimentações humanas pelo Brasil Central. Se nos dias atuais é impossível fugir da ideia da interdependência universal dos lugares, como definido por Milton Santos (2005, pg. 137), e se a ordem global busca impor, a todos os lugares, uma única racionalidade, basta aos lugares responderem ao mundo segundo os diversos modos de sua própria racionalidade (SANTOS, 2005, 182 pg. 170). A riqueza do sertão mineiro, em suas especificidades, tem a potencialidade para resistir à “cidade que acaba com o sertão” (GSV, pg. 183). Os vários hectares sem vida dos eucaliptais, os grandes “desertos verdes” estabelecem uma nova relação neste lugar-sertão. As atividades anteriores construídas pelos cerradeiros e veredeiros se entrelaçavam ao ambiente, pela coleta de frutos, na utilização dos recursos vegetais, na caça, na agricultura adaptada à diversidade ambiental do cerrado e também, ao longo dos anos, pela cultura do pastoreio do gado que, apesar do caráter relativamente predatório ao meio natural, construiu a própria identidade do sertão, com seus carros de boi, a presença do couro, as vestimentas e assim por diante. E qual a cultura que o eucalipto enseja ao seu redor? Como seria o pano de fundo e qual a estória a ser contada por um escritor como Guimarães Rosa nos dias atuais, em um cerrado “vazio”, “opaco de humanidade”? Não só pelo que vimos em campo, mas por diversas pesquisas concebidas neste sentido, o sertão, ao invés de se transformar em “mar”, como anunciado pelo líder de Canudos, Antonio Conselheiro, está próximo de se tornar um grande “deserto”. Assim, o cerrado vai sendo transformado em paisagens uniformes e industriais, onde se “destoca sem dó” a vegetação, “acabando com as bacias de água”. O mesmo Rio São Francisco em que o morador de Andrequicé vai pescar tende a ficar com menos peixes, com menos água de qualidade para a perpetuação de um regime alimentar rico e variado daquelas velhas matrizes de racionalidade. Um ambiente “maquinal” (PE) e esvaziado de vida passa a secar as veredas do grande sertão. Sobre isto, cabe reaver a ideia do pacto em Grande Sertão: veredas, tomando como significativo o nome do local onde ocorre a invocação do demônio por Riobaldo: “as veredas mortas”. Vimos que o pacto da modernização afeta diretamente o ambiente natural do Cerrado e, consequentemente, seu ambiente sociocultural. As “Veredas Mortas”, local ficcional do pacto com Diabo, seriam análogas ao estado degradado desta essencial fitofisionomia do cerrado, observado ao longo de todo o trabalho de campo. Se o movimento do rio é metaforizado como movimento da vida, fluido e livre, as veredas mortas, por sua vez, estagnadas e apodrecidas, simbolizam um 183 cerrado sem vida. A descrição do autor a respeito da fisionomia mortificada e do sinistro contexto em que se daria o pacto com o “cão extremo” 33 é auto- explicativa: Só esta coisa o senhor guarde: meia-légua dali, um outro corgo- vereda, parado, sua água sem-cor por sobre de barro preto. Essas veredas eram duas, uma perto da outra; e logo depois, alargadas, formavam um tristonho brejão, tão fechado de moitas de plantas, tão apodrecido que em escuro: marimbus que não davam salvação. Elas tinham um nome conjunto – que eram as Veredas- Mortas. O senhor guarde bem. No meio do cerrado, ah, no meio do cerrado, para a gente dividir de lá ir, por uma ou por outra, se via uma encruzilhada. Agouro? Eu creio no temor de certos pontos. Tem, onde o senhor encosta a palma-da-mão em terra, e sua mão treme pra trás ou é a terra que treme se abaixando. A gente joga um punhado dela nas costas – e ela esquenta: aquele chão gostaria de comer o senhor; e ele cheira a outroras... Uma encruzilhada, e pois! – o senhor vá guardando... Aí mire e veja: as Veredas Mortas... Ali eu tive limite certo (GSV, pg. 417). As veredas que se bifurcam e correm em paralelo demonstram uma “água sem cor”, a formar um “tristonho brejão”. No meio do cerrado, o brejão “apodrecido” remete a paisagem oposta ao “belimbeleza” das veredas, dos majestosos buritis, do vasto mundo do sertão, dos chapadões sem fim e suas “belezas sem dono” (GSV, pg. 42). “Veredas Mortas” é inclusive o título que seria dado ao romance, pelo que indica a capa da edição de 2011, a qual reconstitui a versão datilografada pelo escritor com o título “veredas mortas” rasurado de lápis e com o subtítulo que permaneceria na versão final: “o diabo na rua, no meio do redemoinho...”. Seria outro prenúncio? Riobaldo aconselha que não se repita o nome do local da encruzilhada onde fora feito o pacto. Evitemos pronunciá-lo também, para que as veredas do “sertão presente” não tenham o mesmo destino: 33 Outros nomes dados pelo autor ao “Coisa ruim”, ao longo das páginas de Grande Sertão: veredas: o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa Ruim, o Diá, o Dito Cujo, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba- Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-Sei-Que-Diga, O -Que-Nunca-Se-Ri, o Sem-Gracejos, o Muito-Sério, o Sempre-Sério, o Austero, o Severo-Mor, o Romãozinho, o Rapaz, Dião, Dianho, Diogo, o Pai-da- Mentira, o Pai-do-Mal, o Maligno, o Tendeiro, o Mafarro, o Manfarri, o Capeta, o Capiroto, o Das Trevas, o Pé-de-Pato, o Bode-Preto, o Morcego, o Xu, o Dê, o Dado, o Danado, o Danador, o Dia, o Diacho, o Rei-Diabo, Demonião, Barzabu, Lúcifer, Satanás, Satanazin, Satanão, o Dos-Fins, o Solto-Eu, o Outro, o Ele, o O, o Oculto. 184 Eu disse, o senhor não ouviu. Nem torne a falar nesse nome, não. É o que ao senhor lhe peço. Lugar não onde. Lugares assim são simples – dão nenhum aviso (GSV, pg. 113). Figura 26: Morro da Garça, visto da estrada. Autoria: Frederico Gonçalves Figura 27: Sombra escalena do Morro. Autoria: Frederico Gonçalves 185 Figura 28: Primeira Vereda avistada no trabalho de campo, no meio do redemunho. Autoria: Frederico Gonçalves Figura 29: Carvoeiras na estrada de Buritizeiro para Paredão de Minas. Autoria: Frederico Gonçalves 186 A aurora das araras (e o sertão de dentro) Desde o raiar da aurora, o sertão tonteia. Os tamanhos. A alma deles. 25, 26 e 27 – X – 2012 Serra das Araras/Chapada Gaúcha/Sagarana Entre os dias 18 e 25 de outubro durante o trabalho de campo focou-se o papel das áreas de proteção ambiental que formam o Mosaico de Unidades de Conservação Sertão Veredas – Peruaçu, presente na porção Norte e Noroeste de Minas Gerais, já na divisa com os estados da Bahia e de Goiás. Localizado a margem esquerda do Rio São Francisco, o Mosaico compreende diversas áreas de preservação, tanto do grupo de proteção integral (parques nacionais, parques estaduais, refúgio de vida silvestre), como do grupo de uso sustentável (reservas de desenvolvimento sustentável, áreas de proteção ambiental e reservas particulares do patrimônio natural). Figura 30: Localização do Mosaico no Noroeste mineiro, em uma área de quase 2 milhões de hectares distribuídos em onze municípios do norte e noroeste de Minas Gerais e do sudoeste da Bahia (Fonte: WWF Brasil/ESRI) 187 Figura 31: Poligonal do Mosaico Sertão Veredas – Peruaçu. Figura reduzida, sem critério cartográfico, apenas para efeito de ilustração. (FUNATURA, 2005, pg. 41) O roteiro de campo nos permitiu um contato com algumas dessas unidades em especial, como o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu; o Parque Estadual Veredas do Peruaçu; trechos da Área de Proteção Ambiental do Peruaçu; APA do Rio Pandeiros; Refúgio Estadual de Vida Silvestre do Pandeiros; Parque Estadual Serra das Araras; e Reserva de Desenvolvimento Sustentável Veredas do Acari (Ver tabela de campo, pg. 28) No polígono territorial do Mosaico estão localizados paisagens de grande relevância espacial no fluxo narrativo de Grande Sertão: veredas, desde os limites com o estado da Bahia, onde nascem rios importantes como o Carinhanha -“um rio quase preto, muito imponente, comprido e povooso” (GSV, pg. 330) - e o Piratinga - “filho do Urucuia” – os dois fluindo em direções opostas, “se dão as costas [...] Saem dos mesmos brejos – buritizais enormes” (GSV, pg. 47). Outros afluentes do Rio São Francisco nascem próximos aos limites baianos, se destacando na rede hidrográfica regional, como o Cochá, o Peruaçu e o Pandeiros – “esse tem 188 cachoeiras que cantam, e é d’água tão tinto, que papagaio voa por cima e gritam, sem acordo: - ‘É verde! É azul! É verde! É verde!...’”(GSV, pg. 71). Outros topônimos desta região também revelam uma apuração cartográfica do autor ao indicar, por exemplo, o Córrego Catolé, “a nascença do Peruaçu” até o Rio Cochá e a Várzea da Ema (GSV, pg. 50); ou a Lagoa Sussuarana e o Córrego Sussuarana que fluem para o Rio Pandeiros: “E seguimos o corgo que tira da Lagoa Suçuarana, e que recebe o do Jenipapo e a Vereda – do-Vitorino, e que verte no Rio Pandeiros” (GSV, pg. 71). Somente consultando o mapa 1:250000 da Carta Buritis encontramos estes e outros topônimos citados por Guimarães Rosa. A partir da mesma carta topográfica estão circunscritos o Vão do Buraco “por diante da contravertência do [rio] Preto e do [rio] Pardo” (GSV, pg. 50) e a Serra das Araras, “aonde tudo quanto era bandido em folga se escondia” (GSV, pg. 50) e aonde conseguíamos desvendar os segredos de sua topografia real in locu, durante o trabalho de campo Há também lugares descritos que não passam de uma “transgressão corográfica” (MONTEIRO, 2006, pg. 54) entre o real e o geográfico, método literário presente em toda a obra rosiana. O Liso do Sussuarão é o típico caso desta transgressão em Grande Sertão: veredas, uma invenção cartográfica e geográfica que impulsiona a reflexão sobre a condição psicológica ou o estado de espírito dos fatos vivenciados, mais do que a determinação exata de lugares reais e possíveis de ser identificados no mapa de Minas Gerais. Descrito no romance quase como um deserto, onde “água não havia”, “nem menos sinal de sombra”, “nenhum poço não se achava” (GSV, pg. 67), o Liso compreende uma passagem de errância dentro da estória. Apesar dos indícios geográficos remeterem a determinada área na porção noroeste nos limites Mosaico, na divisa com a Bahia, a paisagem descrita demonstra uma intencional falta de verossimilhança, ao reproduzir a imagem de “uma terra diferente, louca” (GSV, pg. 64), exageradamente sem vida, com a luz do sol castigando o terreno, sem plantas, nem “capim não havia”, nem bichos – “um gavião-andorim: foi o fim de pássaro que a gente divulgou” (GSV, pg. 64) – diferente da realidade ambiental da região. Tudo indica que há uma transfiguração da paisagem a partir de sua personificação, em um momento de dificuldade na travessia dos personagens: “Só saiba: o Liso do Sussuarão concebia silêncio, e 189 produzia uma maldade – feito pessoa!” (GSV, pg. 67) ou como um pesadelo, “pesadelo mesmo de delírios”, o “miolo mal do sertão” (GSV, pg. 65). Seguíamos à procura desses lugares reais e fictícios do imaginário rosiano convictos da certeira afirmação de Bolle de que “perder-se no Grande Sertão é tão importante quanto acertar o caminho” (BOLLE, 2004, pg. 65). Ao interesse em situar os topônimos de Rosa é somada a relevância de compreender os rumos específicos tomados na região quanto à preservação ambiental, representado institucionalmente pelo Mosaico de Unidades de Conservação, frente ao avanço de elementos da modernização que, nas últimas quatro décadas, vem se acentuando continuamente no sertão mineiro. A ideia era compreender este contexto comparado à realidade vivenciada nos primeiros dias de campo, onde as Unidades de Conservação estão praticamente ausentes. E, ao mesmo tempo, situar as fissuras do discurso de proteção ambiental, representados nos conflitos registrados in locu. Além disso, a diversidade ecossistêmica do Sistema Biogeográfico do Cerrado (BARBOSA, 2002) distribuída por esta grande área permite uma compreensão da dinâmica de transição ecológica e ambiental, o que faz do mosaico um rico universo para inúmeros pesquisadores do país que se debruçam em distintos estudos nas Unidades de Conservação da região. Citando os locais percorridos no trabalho de campo, uma diversidade de ambientes pôde ser verificada, desde o relevo cárstico e sua relevância espeleológica, arqueológica e paleontológica das Cavernas do Peruaçu; passando pelas áreas úmidas das veredas que funcionam como cabeceira de drenagem do Rio Peruaçu; até a planície de inundação do Rio Pandeiros, próxima a sua confluência com o Rio São Francisco, região denominada como o “Pantanal Mineiro”; e a bela paisagem dos tabuleiros e escarpas abruptas da Serra das Araras. Por estas paragens também circularam os jagunços do Grande Sertão de Guimarães Rosa. Antes de atravessarem um dos mais assustadores trechos desta longa travessia, o Liso do Sussuarão (mais metafísico do que geográfico), Riobaldo e seus companheiros “entortam” o trajeto para a Serra das Araras, para “revinhar 190 34 aquelas corujeiras nos bravios de ali além [...] lá se podia azo de combinar mais outros variáveis companheiros” (GSV, pg. 50). Este trecho faz referência aos valentões e bandidos que frequentavam a região no início do século XX, onde o famoso chefe jagunço Antônio Dó, foragido da polícia, se estabeleceu durante anos. A Serra das Araras também é, há mais de um século, ponto de encontro de romeiros e pagadores de promessas que sobem a Serra para homenagear Santo Antônio. De acordo com os relatos dos moradores locais, a história conta que a imagem do santo apareceu no alto da serra há muitos anos e mesmo depois de levada para a Vila, ela surgiu no topo da serra novamente. Depois de uma sequência de desaparecimentos e reaparecimentos da imagem, a notícia se espalhou pelo sertão e, desde então, foram surgindo peregrinações da população regional para o distrito, sempre na primeira quinzena de junho. No último dia desta sessão do roteiro de campo, absorvido pela região do Mosaico de Unidades de Conservação, resolvíamos percorrer a trilha dos peregrinos para alcançar o topo da Serra das Araras. Ao contrário do sol poente visto no alto do Morro da Garça, escolhíamos sair ainda na aurora, acompanhando os movimentos do nascer do sol. Enquanto a feição geomorfológica circular do Morro da Garça o fazia sobressair diante a planura circundante do cerrado, a região da Serra das Araras evidencia claramente três domínios geomorfológicos, representativos dos processos atuantes na evolução da paisagem. A subida da Serra remonta suas escarpas acentuadas, com ocorrência de taludes íngremes e os grandes blocos desmoronados nos sopés. Para uma avaliação mais didática do ponto de vista geomorfológico, o Plano de Manejo do Parque esclarece a divisão dos três domínios em evidência: o domínio residual, composto por relevos tabulares instalados sobre o arenito Urucuia, remanescentes na chapada, e altimetria variando entre 850 e 880m, aproximadamente; o domínio erosional, referentes às encostas e relevos aplainados a suavemente ondulados, dominantes em torno da Serra, com cotas entre 600 e 850m; e o domínio deposicional, em planícies aluvionares formadas por 34 Significado de percorrer, atravessar. “Possível combinação de revirar e revir” (MARTINS, 2008, pg. 429) 191 entulhamento dos vales principais, com cotas altimétricas em torno dos 600m (IEF/MG; FUNATURA, 2005, pg. 74, 76). A vista panorâmica era representativa para aquele momento, pois sintetizava diversas outras visadas realizadas nos últimos dias, uma perspectiva continuamente coberta pela massa vegetacional do cerrado em todas as direções do campo de visão, em bom estado de preservação e com os dosséis arbóreos diferenciados nos cursos de rios e nos alinhamentos dos buritis nas margens das veredas, com poucos indícios de atividades econômicas ou de aglomerações populacionais. Não somente nas alturas das Serra das Araras, como em diversos outros mirantes espalhados dentro dos próprios limites dos parques (pontos privilegiados para controle de incêndios), destaca-se um imponente cerrado espalhado pelas “ladeiras de bacias-de-mesa” (GSV, pg. 48) ou entre “os barrancos e morretes” (GSV, pg. 524), semelhantes às paisagens literárias de Guimarães Rosa, especialmente em Grande Sertão: veredas. Vários sítios foram destaques no percurso realizado dentro dos limites no Mosaico Sertão Veredas – Peruaçu, como a vista por cima da Dolina dos Macacos, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, onde se destaca a perna de bailarina - considerada a maior estalactite do mundo - e a transição altimétrica vegetacional entre a mata seca e a esverdeada mata ciliar beirando o Rio Peruaçu, que traça seu caminho por dentro das cavernas. Já nas cabeceiras do Peruaçu, podemos realizar “imersões” no cerrado, rodando no Jipe pelas trilhas do PE Veredas do Peruaçu, quase infiltrando dentro de sua densa massa vegetal. Pelas torres do IEF espalhadas neste Parque também é possível perceber o cenário da evolução regenerativa de um cerrado praticamente recuperado, após crescer em terras trabalhadas para o cultivo do eucalipto durante a década de 1970. Na vista da torre no Refúgio de Vida Silvestre do Rio Pandeiros, por sua vez, verifica-se a grande área alagada do pântano regional, responsável por grande parte da reprodução e do desenvolvimento da fauna ictiológica no médio Rio São Francisco. Por fim, em uma destes pontos privilegiados de visão, no topo do mirante da RDS Veredas do Acari, onde se tem uma perspectiva geral da Serra das Araras, foi presenciado um espetáculo único da natureza, quando uma cobra capturou um calango e o fez vítima de predação ecológica – “Cobra antes de picar tem ódio 192 algum? Não sobra momento. Cobra desfecha desferido, dá bote, se deu” (GSV, pg. 437). Todas estas experiências eram referências para aquela última travessia do “sertão protegido”, subindo pelas escarpas da Serra das Araras. A dinâmica da evolução da paisagem na Serra desdobra-se na presença de enormes paredões verticais de arenito, que servem como habitat e criadouro natural de espécies de araras (arara-vermelha e arara-canindé, principalmente), a mais de 100 metros do solo ou do topo, fenômeno que dá nome ao lugar. As aves utilizam dos buracos nas paredes para nidificação e como locais de concentração ou passagem. No momento em que o sol começa a incidir nos paredões pela manhã, as barulhentas araras passam a se comunicar, transformando seus gritos em uma vigorosa sinfonia para o amanhecer da Serra. Os ecos dos gritos das araras são apreendidos como um recado diferente daquele emitido pelo Morro da Garça. Tal como as araras da Serra, o Morro também gritava no conto “O Recado do Morro”, de Guimarães Rosa, porém no intuito de avisar sobre estranhos acontecimentos futuros, incomodando o “troglodite” Gorgulho: “- ‘H’um... Que é que o morro não tem preceito de estar gritando... Avisando coisas...’” (CB, pg. 401). Décadas depois da escritura do conto, o recado do sertão atual mostrava novas complexidades avistadas do alto do Morrão, o qual decodificamos parcialmente no insight de campo anterior. Enquanto que no topo do relevo tabular da Serra das Araras, em seus domínios residuais, embora ainda resistindo aos processos erosivos tal como o Morro da Garça, sua atmosfera era distinta, correspondendo a uma percepção quase nostálgica de um cerrado ainda em pé, sem interferências antrópicas consideráveis avistados pelo campo de visão. Após vencer o terreno íngreme, principalmente na fase final da trilha, encontramos uma miniatura de uma capelinha, onde se localizava a imagem motivadora da devoção de Santo Antônio pelos fiéis sertanejos. Por todos os lados da vista do tabuleiro, instiga-se uma imagética percepção da evolução do relevo, se desmanchando nas seguidas fases de seus processos erosivos, desde suas formas tabulares até aos blocos desmoronados no sopé das escarpas. O grito das araras e 193 os cerrados a perderem de vista compõem um cenário sensorial propício para as anotações de campo de Guimarães Rosa e seus desdobramentos poéticos. Se o poente do Morro da Garça anunciava uma perversa realidade do sertão mineiro, corporificado pelo testemunho residual do Morrão, a aurora na Serra fazia as araras cantarolarem estridentemente a vital natureza do sertão, clamando por uma esperança frente aos avanços da modernização e das recentes mudanças bruscas em suas matrizes de racionalidade. Apesar do cenário esperançoso vislumbrado pelo Mosaico de Unidades de Conservação, a realidade em contexto insinua diversas fissuras do discurso de proteção ambiental na região, visto as dificuldades existentes em diversos âmbitos, intrínsecas à insurgência de conflitos ambientais, não exclusivos do norte de Minas, mas resultantes em diversos contextos em que existam “assimetrias na classificação e na apropriação social da natureza [que] resultam em uma distribuição ecológica desigual” (ZHOURI et. al., 2005, pg. 18). Os principais problemas constatados em diálogo com os gestores dessas Unidades de Conservação são a falta de estrutura (a quase totalidade das unidades ainda não está implantada) e os sérios problemas de regularização fundiária. Além disso, grande parte dessas áreas de proteção pertence à categoria de proteção integral que não admite populações tradicionais dentro de seus limites e outra grande parte são Áreas de Proteção Ambiental que, embora se trate de unidade de conservação de uso sustentável (que mantém propriedades privadas da área), não se caracterizam pela presença das comunidades ancestrais do Cerrado. Autores como Carlos Mazzeto (2006, 2009) e Ricardo Ribeiro (2006) defendem a ideia de que, devido à trajetória histórica de ocupação humana no Cerrado e de populações que ali habitam e utilizam os recursos naturais por várias gerações, a estratégia de expansão de criação de novas áreas protegidas nesse bioma deverá contemplar a presença dessas populações, priorizando as UCs de uso sustentável, principalmente as Reservas Extrativistas (Resex) e as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS). Obviamente todos os aspectos evidenciados no último insight de campo influenciam também nos padrões organizacionais das áreas de preservação 194 ambiental, já que a racionalidade caracterizada pela expressão monetária da riqueza (PORTO, 2000) impõe expectativas e necessidades em todo o âmbito regional, submetendo as populações a adotarem novas medidas e atitudes com o meio que o circundam. Voltando a concepção de Antonio Candido (2001), em Parceiros do Rio Bonito, em uma situação de mudança da organização social, de passagem de uma economia praticamente auto-suficiente para o âmbito da economia capitalista, se manifestam sintomas de crise social e cultural. E o que ocorre no Sertão/Cerrado mineiro, há décadas, seja em áreas protegidas ou fora delas, é a insurgência de uma nova racionalidade que traz o des-envolvimento e gera um desequilíbrio entre a ampliação das necessidades impostas por ele, mas sem a ampliação do poder aquisitivo dos povos do sertão, intensificando o vínculo com a vida das cidades, ligando ao ritmo da economia geral, modernizada, perdendo a autonomia local. Muitos dos avanços trazidos pelas medidas de proteção ambiental no Mosaico são responsáveis pela manutenção dos aspectos vegetacionais do cerrado, bem como a proteção das chapadas, áreas de recarga hídrica do bioma e as diversidades ambientais que constituem os subsistemas biogeográficos altamente interdependentes entre si. Estas medidas são essenciais, seja em função da preservação integradora das veredas, responsáveis por aproximadamente 80% das cabeceiras de afluentes do Rio São Francisco situados nos chapadões areníticos do Norte e Noroeste de Minas (BOAVENTURA, 2007, pg. 16); ou pelo feixe de atributos reunidos no conjunto de cavernas do rio Peruaçu, que o coloca como um dos mais importantes sítios espeleológicos e geomorfológicos do Brasil, verdadeiros arquivos para reconstituições paleoambientais do Quaternário continental brasileiro (PILÓ; RUBBIOLI, 2002); ou ainda pela importância da preservação da planície de inundação do Rio Pandeiros, ambiente incorporado por uma biodiversidade tremenda, assim como os outros tantos sítios deste Mosaico, onde os elementos geológicos e fisiográficos comportam também um alto grau de diversidade biológica, por sua vez, associada ao modo de vida tradicional do povo cerradeiro. Contudo, apesar dos avanços no sentido da preservação ambiental deste mosaico ecossistêmico, o modo de vida de suas populações muitas vezes entra em 195 desacordo com os anseios das Unidades de Conservação, devido às restrições de atividades desempenhadas. Muito ainda deve ser trabalhado para a convivência harmônica das comunidades do Cerrado com seus ecossistemas, como perpetuado tradicionalmente ao longo dos séculos. O convívio entre as áreas de conservação ambiental e suas comunidades deve estabelecer o elo para um envolvimento em torno de uma autonomia regional, frente aos interesses externos e as novas racionalidades impostas. O conflito ambiental não se origina da relação destas unidades com as populações, mas nas contradições dos modelos de desenvolvimento emergentes no Brasil e na América Latina, como percebido por Zhouri et. al: [...] os conflitos ambientais ocorrem, assim, quando há desacordo no interior do arranjo espacial das atividades de uma localidade, região ou país: a continuidade de um tipo de ocupação do território vê-se ameaçada pela maneira como outras atividades, espacialmente conexas, são desenvolvidas (ZHOURI et. al., 2005, pg. 8). Visto isto, o próximo ponto do roteiro de campo sinalizava outras esperanças, baseadas em experiências desenvolvidas em âmbito cultural e ambiental no município de Chapada Gaúcha e Sagarana (distrito de Arinos), sendo esta última localidade já inserida na bacia do Rio Urucuia: “O chapadão – onde tanto boi berra” (GSV, pg. 89). Inspirados em iniciativas relevantes nestas duas localidades para a resistência sociocultural e socioambiental do Cerrado, terminamos nossas considerações dos insights de campo, reverberando os gritos vibrantes das araras no alto da Serra. Sertão de dentro... A estrada que liga o distrito de Serra das Araras ao seu município sede, Chapada Gaúcha, significa uma grande mudança na paisagem e nos distintos usos materiais e simbólicos destas localidades. “Avançamos rompidas marchas, duramente no varo das chapadas” (GSV, pg. 323), assim como os jagunços rosianos, percebendo uma transição considerável dos aspectos físicos e da organização social ali estabelecida. A extensa chapada, com imperceptíveis diferenças de níveis 196 altimétricos, serve como ambiente ideal para o domínio das plantações de soja e capim em larga escala, em áreas ainda muito próximas do limite do Mosaico Sertão Veredas – Peruaçu. Em 1994, Chapada Gaúcha se tornou distrito do município de São Francisco e já no ano seguinte foi emancipado. Antes da criação do município, a região foi colonizada através de um projeto de colonização (Projeto de Assentamento e Desenvolvimento da Serra das Araras – PDSA) realizado pela Ruralminas (Empresa de Terras do Estado de Minas Gerais) em meados da década de 70, por colonos que vieram do sul do país, a maioria do Rio Grande do Sul, para disseminar o plantio de monoculturas na região. A presença dos gaúchos é notável pelas ruas do município, nas calçadas as pessoas tomam seus chimarrões e conversam em alto e bom sotaque sulista, em mais um dos rincões do sertão mineiro. Em uma política do Governo Federal de incentivo à produção de monocultura em regiões de baixo desenvolvimento, Chapada recebeu grupos de gaúchos, a maioria de cidades pequenas em condições sociais bastante precárias, e que conseguiram nestas últimas quatro décadas estabelecer um considerável patrimônio material, devido às atividades empreendidas. A qualidade de vida dos moradores é evidenciada pelas características das casas, pela presença de escolas e instituições bancárias, e no aspecto geral do município, distinto de outras realidades do interior de Minas. Algumas destas informações nos eram passadas pela Coordenadora do Projeto de Turismo Ecocultural de Base Comunitária, Danielle Alves, do Instituto Rosa e Sertão. O Instituto foi criado em 2007 no município, por iniciativa de professoras municipais de educação infantil e fundamental, de moradores de comunidades tradicionais e de agentes culturais, com o anseio de se valorizar o lugar e sua multiplicidade cultural e ambiental. Vale lembrar que Chapada Gaúcha é sede do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, que também faz parte do Mosaico de Unidades de Conservação da região. 197 O Instituto é um dos grandes palcos de resistência sociocultural na região, exercendo inúmeras atividades e projetos em benefício das populações não somente de Chapada Gaúcha e seu entorno, como de todo território do conjunto destas Unidades de Conservação. A Fundação Pró-Natureza (Funatura), uma das parceiras do Instituto, realizou estudos e elaborou documentos justificando a relevância ambiental e sociocultural regional para a criação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, em 1989, com aproximadamente 84000 hectares, ampliado para 231000, no ano de 2004. A Funatura tem conseguido captar recursos de diversas instituições, inclusive entidades internacionais como o Fundo Mundial da Natureza da WWF e da The Nature Conservancy (TNC). A partir de um foco de atuação diferenciado em relação às comunidades da região, a Funatura estabelece ações relacionadas ao desenvolvimento sustentável do entorno do Parque, com foco no agroextrativismo, agroecologia e no turismo ecocultural. A Fundação também atuou como mediadora entre a comunidade que vivia no interior do parque e os órgãos oficiais (o Ibama, na época, e o Incra) para a resolução da situação das famílias que não poderiam permanecer nos limites da unidade, devido aos critérios estabelecidos na legislação ambiental. Esta ação, provavelmente inédita no país, permitiu um apoio total à população no que se refere à transferência para as proximidades do parque, em condições semelhantes a que se encontravam antes no local, nas características do solo, água, vegetação, paisagem e no aproveitamento dos recursos naturais. Apesar da agressão simbólica que este tipo de ação acarreta, foi elaborado todo um plano participativo, no qual se pretendeu conservar a estrutura e organização da comunidade. Danielle Alves, que inclusive adota uma postura crítica frente às políticas conservacionistas no país, argumenta que a Funatura conseguiu, neste episódio, tratar a questão da remoção das famílias com um trabalho muito cuidadoso e menos agressivo, envolvendo o trabalho de diversos profissionais, como geógrafos, antropólogos e turismólogos. A co-gestão de órgãos ambientais oficiais com entidades da sociedade civil tende a ser positiva, caso se trabalhe a ideia de proteção ambiental de forma mais ampla, considerando o equilíbrio entre os fatores socioculturais, econômicos e ambientais. Outra instância de gestão integrada das unidades de conservação na 198 região é o Conselho do Mosaico, de caráter consultivo, atuante nas propostas de diretrizes desenvolvidas nas áreas de proteção e nas relações com as populações do entorno. A entrevistada do Instituto Rosa e Sertão considera a instância como intermediadora de um diálogo para a discussão política do território, identificando os conflitos ambientais ali existentes, reconhecendo os vários olhares para os problemas socioambientais e permitindo um maior interlocução entre as comunidades e o Estado. Danielle ainda destaca a variedade de perspectivas do Conselho, composto por unidades preservacionistas, entidades culturais, cooperativas, produtores rurais, extrativistas, empresas do agronegócio, artistas populares, dentre outros. Um dos grandes embates em curso na região é entre as atividades da agricultura familiar e da plantação de soja. O Conselho do Mosaico desempenha um papel no sentido de enfrentar esses problemas, se colocando de forma efetiva por meio de documentos, moções, petições, e às vezes pela própria discussão política entre os envolvidos. No âmbito do Instituto Rosa e Sertão, diversos projetos foram executados localmente tendo como base a valorização da diversidade ambiental e cultural do sertão, o alicerce literário de Guimarães Rosa. De acordo com Danielle Alves, o Instituto foi criado em 2008, a partir de uma articulação entre professoras do ensino secundarista, com o objetivo de agregar cultura e meio ambiente para uma transformação e para uma educação mais participativa e aberta. É interessante notar que praticamente todas as ações desenvolvidas pela entidade têm relação direta com a obra de Guimarães. O próprio nome do Instituto vem como homenagem ao autor, “Rosa”, e ao “Sertão”, do livro Grande Sertão: veredas.35 35 Cinco projetos em âmbito local e regional foram destacados pela entrevistada: a) “Manoelzinho da Crôa”, envolvendo atividades culturais com a literatura, a partir de contações de estórias, coral, dança e teatro, sempre permeando o universo do sertão; b) “Sertão Dá Flor”, um trabalho com a produção artesanal de doces e esteiras, com as mulheres de Buraquinhos, comunidade localizada entre Chapada Gaúcha e Serra das Araras; c) O “Ponto de Cultura Seu Duchim” é o terceiro projeto, vinculado a Política Federal dos pontos de cultura, o “Cultura Viva”. Ocorrem ações culturais na cidade, como coral, capoeira, dança afro, artesanato, dentre outros; d) “Arara Vermelha”, cujas ações foram direcionadas para o turismo de base comunitária, dando continuidade ao “Sertão Dá Flor”, na comunidade de Buraquinhos; e) “Turismo Ecocultural com Base Comunitária”, concebido de forma coletiva dentro do Conselho do Mosaico, com o foco voltado para o planejamento compartilhado em todas as etapas do turismo comunitário, com a identificação, mapeamento, sensibilização, mobilização, articulação dos arranjos produtivos locais, comercialização e ações em marketing. 199 Destacamos aqui as ações do Instituto Rosa e Sertão e do Conselho do Mosaico, como um todo, para compreender como determinadas iniciativas evocam uma resposta diante da imposição de racionalidades “de fora”, intensificadas pelo processo de modernização do interior brasileiro. O próprio turismo comunitário, foco desenvolvido pelo Rosa e Sertão em seus últimos projetos, pode ser uma proposição positiva, caso seja trabalhado como alternativa e não como política central “salvadora” de todos os problemas socioeconômicos da região, como proposto em diversos recantos de Minas Gerais e do Brasil. E, se pensado em longo prazo, sem criar expectativas e “miragens econômicas e sociais”, utilizando expressão de Candido (2001), a atividade vislumbra a oportunidade de conceber um legado que valorize as manifestações culturais e um olhar diferenciado para o meio natural, permitindo um “outro turismo” (BARBOSA, 2009), um turismo humanizado, centrado nas trocas e aprendizagem entre as comunidades e os viajantes. Existe a tentativa, no caso de Chapada Gaúcha e da região do Mosaico, por meio do Conselho, das cooperativas, do Instituto Rosa e Sertão, das ações da Funatura e de outras frentes, para se conceber um diálogo e efetivar proposições criativas para revigorar o lugar-sertão, enquanto espaço vivido por sua população. A mobilização social e a participação coletiva da sociedade são pontos-chave para atender seus próprios interesses e difundir a ideia de resistência às novas racionalidades, tanto do ponto de vista cultural como ambiental. O lugar, como categoria geográfica, pode ser compreendido neste contexto como “sede de resistência da sociedade civil” (SANTOS, 2005, pg. 142), frente aos processos mais gerais de constituição da economia, da globalização e das tentativas de homogeneizar a produção do espaço. Ao analisar algumas amostras destas “resistências” pelo sertão mineiro, observa-se uma articulação dos projetos com o substrato literário de Guimarães Rosa, cuja repercussão dos aspectos culturais e ambientais do sertão/cerrado funciona como possível catalisadora para ações locais. A própria criação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas é uma homenagem explícita ao romance do escritor e foi utilizado como argumento para estabelecimento desta unidade de conservação, um dos maiores parques nacionais em Minas Gerais. As descrições 200 sobre a vasta paisagem natural e os modos de vida relacionados ao Cerrado por Rosa em Grande Sertão: veredas foram imprescindíveis para a avaliação e para a proposta de criação do parque, evidenciado em vários trechos do Plano de Manejo da unidade, como relatado abaixo: [...] o estabelecimento do Parque Nacional Grande Sertão Veredas era um sonho da FUNATURA desde a sua fundação, em 1986, tendo em vista que, na região dos Gerais (sub-unidade do cerrado, que abrange cerca de 13 milhões de hectares na margem esquerda do São Francisco compreendendo o noroeste de Minas Gerais e o oeste da Bahia até o sul do Piauí) não havia uma única unidade de conservação que pudesse proteger os ecossistemas tão maravilhosamente descritos na obra de Guimarães Rosa. [...] o romance Grande Sertão: Veredas [...] retrata com extrema sensibilidade a realidade regional, repleto de passagens que descrevem os locais, a relação do homem com a natureza e as características culturais, ainda hoje encontradas [...] A união concreta e veemente destes aspectos culturais e ambientais, retratada com fidedignidade e excelência por Guimarães Rosa, deu origem ao nome do Parque, uma vez que sua área abriga claramente tais características. Esta obra literária [Grande Sertão: veredas] retrata com exatidão cenas do ambiente encontrado no Parque e na região dos gerais, onde a população tradicional expressa naturalmente suas características culturais endêmicas, sejam elas a gastronomia, os utensílios domésticos fabricados manualmente, a dança e a música, os tratamentos naturais com ervas locais, enfim, os saberes e fazeres, os costumes e dizeres (MMA/IBAMA; FUNATURA, 2003, pg. 12, 14 e 63). Por sua vez, o Instituto Rosa e Sertão também busca inspiração na obra do autor, tanto na concepção dos ideais do instituto, quanto nas atividades desenvolvidos ao longo dos anos. A articulação feita pelos projetos encara a literatura de Guimarães Rosa como estímulo essencial para a identidade dos trabalhos realizados, como mostra o depoimento da entrevistada: O sertanejo, lendo ou não lendo Guimarães Rosa, ele é rosiano! Do ponto de vista da identidade, não existe uma identidade no sertão, ele têm várias, a gente consegue entender que, em sua maior parte, existe uma matriz rosiana, existe uma referência literária. Esses projetos todos que eu te falei eles permeiam essa perspectiva da literatura, todos! Mesmo de uma forma inconsciente, em toda reunião que a gente faz sempre sai Guimarães Rosa, em toda articulação sempre alguém menciona, está presente o tempo inteiro. Não conseguimos pensar no Norte Mineiro sem pensar em Guimarães Rosa, acho que é muito orgânico. 201 A referência literária do autor catalisa um rol de possibilidades, inclusive como justificativas mais concretas para a captação de recursos ou para criação de unidades de conservação. Este fato nos faz relembrar uma das primeiras considerações esboçadas nesta pesquisa a respeito de uma dupla perspectiva envolvendo Guimarães Rosa e o Sertão. No começo do trabalho foi questionado se a realidade sertaneja deu origem aos livros de Rosa, ou se foram os livros que deram uma nova moldura ao sertão. Formando uma perspectiva convergente: se a experiência de Rosa com o sertão, a partir de suas vivências e de pesquisas detalhadas sobre o Centro-Norte mineiro definiram a ambiência artística de seus livros, a moldura mágica utilizada para retratar poeticamente esta região pelo escritor mineiro criou condições para dar uma enorme visibilidade ao sertão. A partir da obra de Guimarães Rosa, mesmo pessoas que nunca foram ao sertão mineiro passaram admirá-lo e a conhecê-lo, imaginando a beleza das veredas, dos enormes chapadões e das palmeiras dos buritis, das características dos seus moradores, das músicas dos violeiros e de todas as manifestações culturais transmitidas pelo autor. E, através destas veredas, pôde ser dado um impulso por uma sensibilização do quadro preocupante dos gerais rosianos, a respeito da contínua devastação da vegetação dos cerrados, da proliferação das plantações de eucalipto, das novas configurações das relações regionais, os efeitos da urbanização, das transformações culturais e migrações sertanejas. Os projetos inspirados pela literatura de Rosa não estão presente apenas na área do Mosaico Sertão Veredas – Peruaçu. Depois da passagem por Chapada Gaúcha, o próximo passo de campo se dava em direção ao Chapadão do Urucuia, onde impera o “rio de amor” (GSV, pg. 89) de Riobaldo. A bacia do Rio Urucuia é formada por rios provenientes de serras dos “montões oestes” (GSV, pg. 24), no coração do país, na divisa noroeste do estado de Minas Gerais com a Bahia e Goiás, linha divisória das águas do planalto. Inclusive, estas serras onde estão as nascentes da Bacia citadas por Rosa em Grande Sertão: veredas representam topônimos que se referem ao conceito de fronteira - Serra do Cafundó, Serra dos Confins, Extrema de Santa Maria, - ou de princípio - Serra da Raizama, Buriti-Mirim, como pontuado por Uteza (1998, pg. 9). 202 O narrador de Grande Sertão: veredas destaca as matas, as grandes fazendas e a prosperidade da agricultura nas terras do Rio Urucuia, onde “na beira dele tudo dá - fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes” e “culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há” (GSV, pg. 24). Contudo, a realidade atual da bacia do rio “identitário” de Riobaldo se insere no mesmo contexto de desestruturação do sistema agrário do sertão de Minas, pela difusão da monoprodução das plantações de eucalipto e soja, dos pivôs centrais e da consequente diminuição de disponibilidade de água e espécies nativas do cerrado. Entretanto, um distrito do Vale do Urucuia chama a atenção por iniciativas desenvolvidas também em âmbito local, através do Centro de Referência em Tecnologias Sociais do Sertão – CRESERTÃO. Assim como o Instituto Rosa e Sertão, as atividades propostas ali partem de dentro do sertão, com a valorização da cultura popular local, da identidade e da preservação ambiental. O Centro está localizado em Sagarana (distrito de Arinos), nome de uma das principais obras de Guimarães Rosa. O termo “Sagarana”, inclusive, remete a uma ligação entre o regional e o universal, ou entre o local e global, entre o homem e sua terra e cultura, vinculado à universalidade do ser humano. Representada pela união do radical germânico “saga” – que significa narrativa épica em prosa, ou história com acontecimentos marcantes – com o elemento “rana”, de origem tupi, que quer dizer “à maneira de”, “típico ou próprio de”. Este é um dos primeiros elementos fornecidos por Virgílio e Andrea, colaboradores do Cresertão, que nos receberam no vilarejo. Sagarana foi o segundo assentamento da Reforma Agrária implantado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Estado de Minas Gerais. Com 37 anos de existência, a vila tem uma população de aproximadamente 400 habitantes, que vivem e se sustentam principalmente da pecuária leiteira, em regime de agricultura familiar. 203 Com o apoio da Fundação Banco do Brasil (FBB), o Cresertão avança na difusão das Tecnologias Sociais (TS) 36 para fortalecer a organização social e o desenvolvimento sustentável regional. Virgílio esclarece o contexto de Sagarana e suas imediações, desde as transformações ocorridas com a chegada da plantação de soja e do aparecimento das carvoarias, responsáveis pelo desmatamento do cerrado e pelas mudanças do regime hídrico, contribuindo para um verdadeiro “colapso” na região: Fazenda nossa quando eu mudei para lá tinham 50 famílias, viviam para este trabalho na lavoura, rústico mesmo, rudimentar, com enxada, com cavalo de capineiro. Eles faziam um financiamentozinho para plantar o milho. Aí com o dinheiro do milho, dava para plantar o feijão também no meio do milho. Então ele colhia o milho, pagava o financiamento, sobrava um pouquinho, sobrava o feijão integral para ele poder passar o ano, era a renda que ele tinha, o feijão que ele colhia. E com a vinda da soja, da braquiara, veio as bizorrinhas, as cigarrinhas, o bizorrinho que atacava muito o feijão. Aí que aconteceu? Tirou o suporte do cara passar o ano. Então ele tinha o seguro de banco, do financiamento. Pararam de oferecer este tipo de financiamento com os pequenos produtores, porque eles não estavam dando conta de pagar. Pagavam e não sobrava nada, como é que eles iam passar o ano? Aí a alternativa [de renda] qual foi? As carvoarias! O pessoal estava vindo de fora, de olho no cerrado, que era terra plana, fácil de maquinar, aí todo mundo migrou para as carvoarias, aí foi o colapso da região! E hoje a gente colhe isso aqui, esse clima é bem atípico, aqui sempre a estação da seca foi longa, mas ela compreendia 6 meses, hoje nós temos 8 meses, 2 meses a mais. A região inteira! O semiárido chegou, está aqui! A divisa da Bahia pra cá não está tão distante não. O semiárido vai encostando devargazinho, vai mudando muito o clima... Para amenizar estas situações e propor novas alternativas para o desenvolvimento local surge o Centro de Referência em Tecnologias Sociais, cujas 36 Ações desenvolvidas em três frentes principais: tecnologias para a melhoria da produtividade na cadeia do leite; construção de fossas sépticas biodigestoras; e a PAIS – Produção Agroecológica Integrada e Sustentável. 204 diversas técnicas são aplicadas para a comunidade, como a permacultura, a ideia de reutilização da água, horta e plantação frutífera. Além de unidades demonstrativas no Centro para efetivação destas técnicas, são oferecidos cursos, oficinas e outras atividades que geram um maior envolvimento da comunidade local. O entrevistado explicita a concepção das atividades desenvolvidas pelo Cresertão como alternativa, diante de um cenário cada vez mais dominado pela produção em larga escala: Então qual é a ideia do centro? É oferecer essas Unidades Demonstrativas, esse trabalho de uso racional da água, e se inserir neste contexto, para redirecionar esses processos agrícolas da agricultura familiar, que está quase se extinguindo na região também. Agora mesmo vêm aí três usinas de álcool, 90 mil hectares de cana serão plantados. Áreas vão ser abertas pra isso, então vai passar por uma transformação. Tudo isso acaba gerando aquele emprego, que gera comodismo no cara, e acaba que o agricultor familiar mesmo vai deixar de existir. [...] O cara tem 30, 40 ha, mas vive escravo de uma cooperativa. Porque não tem valor agregado de produção não, nem nada, nem derivados do leite [...] é só aquela coisinha no final do mês, ele tem que pagar para produzir praticamente. Agora mesmo essas Usinas [de álcool] vindo para região, muito cerrado vai para o chão, muita faixa de cerrado que ainda existe aí vai para o chão [...] Então são mais áreas que vão ser trabalhadas, então tem que agarrar nesse pouquinho que tem aqui [outras alternativas], esta Unidade, o entorno da Unidade, criar uma ação que cerque este avanço do “progresso”, que contenha ele da chapada pra cima lá. Se ele chegar aqui, ele chega a todo vapor. [...] Aqui mesmo é uma alternativa, a ideia é estar criando alternativas.... E, assim como no Mosaico Sertão Veredas – Peruaçu, a obra de Guimarães Rosa é catalisadora para projetos em âmbito local, por meio de editais, parcerias e fontes de financiamento. A exemplo do Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas, sediado em Chapada Gaúcha, desde 2008 acontece em Sagarana um festival anual para valorização da cultura popular, chamado Festival Sagarana: feito Rosa para o sertão – Cultura, Identidade e Sustentabilidade. As cinco edições 205 realizadas celebraram festas e discussões sobre cultura regional, a importância do cerrado como fonte de sustentação cultural dos habitantes do sertão e oportunidades geradoras de renda e promoção da cidadania. Além disto, o distrito de Sagarana e o vale do Urucuia são reafirmados nestes eventos como depositários legítimos do imaginário rosiano e de sua vinculação ao esforço para o envolvimento dos “de dentro”, por uma via alternativa e distinta do des-envolvimento levado pelos “de fora”. No esclarecimento a respeito da definição do sertão, no início da narrativa de Grande Sertão: veredas, Riobaldo explica ao interlocutor da cidade que o “sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia” (GSV, pg. 23-24), se referindo às nascentes do Rio Urucuia, nos “montões oestes”. Em seguida, é apresentada uma percepção de uma região isolada e de refúgio para criminosos, “onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador” e “onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade” (GSV, pg. 24). Por fim, o narrador afirma que os gerais correm em volta, “esses gerais são sem tamanho” (GSV, pg.) e “cada um o que quer aprova (...) o sertão está em toda a parte” (GSV, pg. 42). Se no início da explanação, Riobaldo tenta delimitar o sertão do ponto de vista geográfico e por suas características regionais, por fim ele o concede um significado “sem tamanho” e “em toda a parte”. Como se a localização cartográfica importasse menos do que a “alma” do lugar, daquilo que é carregado pelas gerações sertanejas, pelos povos cerradeiros, desde suas primeiras migrações humanas pelos chapadões do Brasil Central. Neste sentido, o lugar ganha uma conotação importante se compreendermos as considerações de Milton Santos (2005, 2006) e de diversos outros autores a respeito desta categoria (TUAN, 1983; MASSEY, 2000) como dimensão da vida humana onde se estabelecem os referenciais espaço-temporais de existência, onde o “espaço é vivido” (TUAN, 1983), a partir das emoções, dos sentimentos, afetividades e da intersubjetividade experienciada nas relações cotidianas. Para Santos, a autonomia dos lugares engendra a possibilidade de construir uma história das ações que seja diferente do projeto de atores hegemônicos (SANTOS, 2005, pg. 163). No caso do sertão mineiro, o lugar-sertão 206 também poderia ser o núcleo de resistência da racionalidade imposta pela nova ordem globalizada da modernização, cujas consequências foram tratadas consideravelmente nesta pesquisa. E neste lugar, de dentro dele, nos interiores da cada sertanejo, é aonde devem partir as indagações e as proposições sobre o presente e o futuro a seguir por eles próprios. E, como vimos, Guimarães Rosa se constitui como um dos elementos culturais a instigar uma reflexão a respeito do “sertão dentro da gente” (GSV, pg. 325), de um sertão que já vem se posicionado com um palco de resistências aos avanços do des-envolvimento vindos “de fora”. Além dos exemplos trazidos neste episódio a respeito do Mosaico Sertão Veredas – Peruaçu, do Instituto Rosa e Sertão e do Cresertão, outros projetos espalhados por este lugar- sertão se dão de forma contínua. Podemos citar diversas iniciativas exercidas em outras localidades, como os contadores de estórias do Grupo Miguilim em Cordisburgo, com crianças que dão vida a literatura rosiana no município. As caminhadas ecoliteáriras do Grupo “Caminhos do Sertão”, desenvolvidas em torno da cidade, estimulando a população a “dar corpo ao suceder” pelo cerrado, aproximando-os da obra de Rosa e valorizando simbolicamente a paisagem natural e cultural da região. Podemos mencionar também a Casa de Cultura do Sertão e a Semana de Arte e Cultura, em Morro da Garça 37, o Memorial do Manuelzão e a Festa do Manuelzão em Andrequicé. A alma do lugar-sertão, percebido e vivido pelos sertanejos, pertence obstinadamente a este sertão de dentro, ao “homem humano” (GSV, pg. 624) que habita há milhares de anos suas serras, seus imensos chapadões, onde os rios correm para o São Francisco e os buritizais acompanham suas veredas. O destino do sertão depende dos devires de suas futuras grafias por sua terra, suas geografias. E é somente ali, na “entreluz da aurora, quando o céu branquece” (GSV, pg. 134), que as araras continuarão a gritar sua alma e desfilar pelos ares, como um “pano azul ou vermelho [...] nos lombos do vento quente” (GSV, pg. 61). 37 Iniciativas inicialmente promovidas por Marily da Cunha Bezerra e Dieter Heidemann, que relatam a imersão de diversos atores nestes cenários rosianos, em publicação da Revista Estudos Avançados (BEZERRA, HEIDEMANN, 2006). 207 Figura 32: Amanhecer na Serra das Araras. Autoria: Frederico Gonçalves Figura 33: Trecho íngreme da trilha que chega ao topo da Serra. Autoria: Frederico Gonçalves Figura 34: Arara Canindé. Autoria: Frederico Gonçalves 208 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos perto da metafísica. E voltamos. Havia araras. Havia o caramujo perto de uma árvore. Ele disse: Habemos lesma, Manoel. Eu disse: caramujo é que ajuda árvore crescer. Ele riu. Relvas cresciam nas palavras e na terra. Rosa escutava as coisas. Escutava o luar comendo árvores. (Manoel de Barros) 209 Urubu é vila alta, mais idosa do sertão: padroeira, minha vida – vim de lá, volto mais não... Vim de lá, volto mais não?... Corro os dias nesses verdes, meu boi mocho baetão: buriti –água azulada, carnaúba – sal do chão... Remanso de rio largo, viola da solidão: quando vou p’ra dar batalha, convido meu coração... (Canção do Siruiz – Grande Sertão: veredas) Procuramos nesta pesquisa a “matéria vertente” integradora do sertão- cerrado. A alma deste lugar vem sendo conduzida desde as primeiras travessias de populações humanas pelos chapadões do Brasil Central, as primeiras migrações empenhadas pelos “andarilhos da claridade” (BARBOSA, 2002) em busca das áreas de formação abertas do Cerrado, dos abrigos naturais e de seus recursos vegetais. Desde então, a alma do lugar-sertão se eleva como “coisa interna supremada, muito mais do de dentro” (GSV, pg. 41). A convivência das comunidades com os ricos ecossistemas do Cerrado permitiram um modo de vida hábil para escrever no espaço suas grafias, suas geografias, a partir do conhecimento e da harmonia com a terra, com o mundo natural, onde natureza e “homem humano” (GSV, pg. 624) são um só. Tendo o Rio São Francisco como linha d’água condutora, “deus fluvial” e “eixo do sertão” (CANDIDO, 1971), essas populações se depararam com a dispersão e multiplicação de currais e fazendas por suas terras, cedidas para uma externa “atividade produtiva”, no século XVIII. Apesar da violência, da desagregação social e da deterioração econômica trazida com a chegada dos bandeirantes interessados na expansão territorial de uma Nação, os povos do Cerrado passaram a combinar as heranças de seus antepassados com a cultura do 210 pastoreio. A ancestralidade portadora da proximidade física e afetiva com o mundo natural passava a encontrar um vínculo profundo também entre o gado e os homens. Completamente vestidos pelo couro, com o chapéu, a sujigola, algibeira, e gibão, aprendendo a domar os cavalos, mulas e bois, com laços e cabrestos, eles romperam novas travessias sertão a fora, versando viagens a cavalo pelas estradas. Na obra de Guimarães Rosa, o vínculo da vida sertaneja com o universo da pecuária extensiva, e a do homem com a exuberância do meio natural é tratada de forma intensa e rica, onde o real e o fantástico se misturam e se entrelaçam na escritura poética. Apesar de existir uma marca espacial contínua em todas as narrativas do autor - a vasta região dos cerrados e das fazendas de gado - existem nuances socioespaciais entre as obras de Rosa, referentes às distintas formas de representar o sertão em movimento. Selecionamos nesta pesquisa três momentos ficcionais e alegóricos deste espaço movimentante, como reflexos das transformações dos gerais, da história deste grande sertão rosiano, especialmente a partir do final do século XIX e primeiras décadas do século seguinte, até a década de 1960. Em Grande Sertão: veredas o lugar-sertão é, sobretudo, lugar onde “carece de ter coragem” (GSV, pg. 122), espaço da violência e de batalhas jagunças. As roupas de couro carregam também a munição de homens preparados para atuar em grandes guerras sob o comando de potentados locais. Enquadrado historicamente no período do jaguncismo entre o final do século XIX e início do século XX, neste romance “o grande sertão é a forte arma” (GSV, pg. 359) que estrutura o sistema político vigente, baseado no latifúndio, nas unidades de produção econômica e nas relações de trabalho no meio rural. Apesar das promessas progressistas e desenvolvimentistas para a reformulação do sertão feitas por Zé Bebelo, seu “falar muito nacional” (GSV, pg. 149) representa, metaforicamente, um futuro que nunca chega para os homens provisórios da sociedade sertaneja, sempre dependentes e separados de maneira abissal dos sujeitos de terra definitivos. O senhor sabe o perigo que é viver... 211 Nas novelas de Corpo de Baile, os personagens de Rosa não se dedicam a violência como forma de vida, mas na labuta rotineira do campo, nas lavouras e na pecuária. Apesar desta mudança de perspectiva, a estrutura social não é alterada, os homens provisórios continuam excluídos do processo econômico e dependentes do latifúndio, sem autonomia para determinar seus próprios destinos. Neste livro, os gerais também estão mais suscetíveis ao intercâmbio entre cidade e sertão, sensíveis às informações de um mundo muito misturado. A influência da cidade, principalmente a partir da Era Vargas (1930-1945 e 1951-1965) leva para o meio rural mudanças relativas aos modos de vida, comportamentos, padrões de trabalho e consumo de suas populações. Os personagens rosianos assistem a chegada de “modernidades tardias” (SOUZA, 1998), novidades temporalmente tardias, defasadas e, espacialmente, periféricas. As pluralidades culturais e a adaptação aos novos sentidos produzidos pelo moderno são metaforizadas pelo antiquário dos gerais, espaço de encontro entre o arcaico e o moderno, o rural e o urbano, o sertão e o mundo. Toda hora o barro se refaz. Deus ensina. Já Primeiras Estórias revela o olhar de um menino através da janela do avião, em um voo imaginário que o faz enxergar um cerrado incorporado por linhas geométricas delineadoras da construção de uma grande cidade. Brasília é o emblema da modernidade, “monumento imaginário inaugural” (MENEZES, 2011, pg. 33) da modernização brasileira. A partir da inauguração da capital federal o ambiente artístico de Guimarães Rosa passa a ser transplantado em um mundo maquinal, no hostil espaço. Apesar do tom de otimismo e euforia da sociedade brasileira no período entre o final da década de 50 e início de 60, a modernização e o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek não trouxeram mudanças nas bases sólidas e perversas em que o país se constituiu. Na “circunstriteza” do olhar do menino ao ver o novo horizonte destaca-se o desmanche ambiental do Cerrado, com “vagas árvores”, ribeirões de águas cinzentas, plantas desbotadas, “um encantamento morto e sem pássaros” (PE, pg. 11). ... da gente as mais belas coisas se roubavam 212 Se o sertão está “movimentante todo-tempo” (GSV, pg. 533), como afirmava Riobaldo, as novas articulações espaço-temporais seguiriam intensas nas décadas subsequentes à morte de Guimarães Rosa, no ano de 1967. As geografias do sertão-cerrado continuariam a ser escritas no espaço, grafadas nas rochas, nos desenhos das pinturas rupestres em afloramentos de calcário, nas colorações das folhagens dos buritis, no couro dos vaqueiros e nas rodas dos carros de bois. Entretanto, a velocidade das transformações e a aproximação vertiginosa entre o sertão e o mundo injetam projeções conflituosas e de complexa apreensão no universo sertanejo. Como se houvesse uma significativa diferença entre um tempo em que o movimento das novidades no sertão passava muitos dias sendo transportados por carros de bois, enquanto que, na contemporaneidade, “em horas o senhor em seu jipe resolve” (GSV, pg. 118), com a abertura de novas estradas pelo interior ou através da mediação de novos aparatos tecnológicos, como o rádio, a televisão e outros labirintos cibernéticos. Por isso, se objetivou, além da análise das obras de Guimarães Rosa, conceber uma experiência sensorial com o grande sertão rosiano, “dar corpo ao suceder” (GSV, pg. 116) e absorver sabedorias in locu para compreender de que maneira se articula este espaço movente. A vivência de campo, além de ter contribuído para a própria escritura dos insights de campo, contextualizando os três momentos ficcionais de Grande Sertão: veredas, Corpo de Baile e Primeiras Estórias, permitiu a concepção de um imaginário 4º momento deste sertão rosiano, um “sertão presente”, responsável pela aproximação com as hipóteses traçadas no início da pesquisa. Nos últimos dois insights de campo vislumbraram-se duas visadas por perspectivas do topo de relevos residuais, testemunhos da paisagem do sertão rosiano ao longo do tempo. No primeiro contexto, durante o poente no alto do Morro da Garça foi anunciado um recado a respeito do deserto verde dos eucaliptais, circundados pela fisionomia apodrecida de veredas mortas, encruzilhada crucial para o rito do pacto modernizador imposto ao sertão mineiro. Como símbolo da modernização, a cidade, no meio do redemunho, parece comprovar o conteúdo da frase inglória do narrador em determinado trecho de Grande Sertão: veredas: A cidade acaba com o sertão. Contudo, logo após a 213 afirmação, ele se questiona: Acaba? Cabia-nos também decifrar este Recado do Morro: qual será a grafia escrita pelo des-envolvimento no sertão-cerrado rosiano? Dias depois, acompanhando o raiar do sol, na “entreluz da aurora, quando o céu branquece” (GSV, pg. 134), no topo do relevo tabular da Serra das Araras, outra mensagem “infralógica” (RONÁI, 2006) estava prestes a ser transmitida. Pelos enormes paredões verticais de arenito surgia o som da sinfonia estridente das araras, reveladora de uma vigorosa e exuberante natureza do Cerrado. Se a cidade e as mudanças de matrizes de racionalidades (PORTO, 2000) levadas pela modernização impõem profundas transformações na dinâmica dos recursos naturais e no sistema de uso da terra, o lugar-sertão, enquanto for dimensão da vida humana, de existência, onde é percebido, vivido e afetivamente experienciado pelos sertanejos, ele continuará sendo espaço movente, mas sem perder sua alma, seus traços socioculturais mais fortes. E é de dentro deste lugar onde deve estar o núcleo de resistência que represente uma resposta veemente à cidade que quer acabar com o sertão. Vimos alguns exemplos das resistências socioambientais no último insight de campo, em Chapada Gaúcha e Sagarana, cujas propostas locais partem da inspiração na matriz literária de Guimarães Rosa, capaz de transmitir, “iluminar” e estimular um olhar artístico para o espaço, tal como lentes para uma percepção cativante da realidade, “a estalar a compostura dos sentimentos” (SARAMAGO, 2008). O lugar-sertão não é estático, não está congelado no tempo, não tem fronteiras de divisões demarcatórias, pois o lugar está ligado também ao “exterior” (MASSEY, 2000). E nada disso nega a importância do lugar e de suas singularidades. Como falamos da imensidade do rio, no prelúdio de nossa travessia por este “sertão presente”, vale relembrar da metáfora da fluidez do rio, sempre corrente, em movimento, simbolizando o incessante fluxo da vida, a contínua escrita do espaço. Nas nascentes do Rio Urucuia descem o Rio São Domingos e o Piratinha “pelos altos claros das Almas” (GSV, pg. 42), referência à Serra das Almas. Mas não seria essa menção também relativa a própria alma do lugar-sertão, despencando das altas terras do Urucuia para o mundo? 214 Confusa é a vida da gente; como esse rio meu Urucuia vai se levar no mar ... O Urucuia não é o meio do mundo? Nas palavras de Adélia Menezes, se o sertão é o mundo, os rios são os homens (MENEZES, 2002). Assim como Riobaldo - “narrador rio” (BOLLE, 2004) - a alma do lugar-sertão pertence aos sertanejos e cabe a eles determinar o fluxo dos movimentos futuros deste espaço, definindo sua trajetória, incorporando novos sedimentos e depositando outros, atravessando os vales dos grandes tabuleiros e chapadões, correndo por debaixo da terra para alimentar as veredas e as raízes pivotantes do cerrado. De dentro do corpo aquático, eles recebem o “encharcar dos brejos, verde a verde, veredas” (GSV, pg. 450-451), recolhem e semeiam as areias, meandram com paciência o presente, para grafar os próximos caminhos desta rede fluvial, da estrada movimentante do sertão. Ao recortar os acidentes topográficos, ampliando sua velocidade nos declives, o sertão, tal como os rios, modela sua paisagem e migra a linha que limita o domínio dos territórios. E busca na alma do lugar, o sertão dentro da gente: O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar mais grosso, mais fundo (GSV, pg. 450). Os rios não dormem... 215 Referências bibliográficas AB’SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. ALMEIDA, Maria Geralda. Cultura ecológica e biodiversidade. Mercator - Revista de Geografia da UFC, ano 2, número 03. 2003. ALMEIDA, Maria Geralda. Em busca do poético do sertão: um estudo de representações. 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