Luiz Duarte Haele Arnaut VERSAR A LIBERDADE, DESCONSTRUIR A MONARQUIA Representações Políticas nos Poemas da Campanha Republicana na Imprensa da Corte (1870-1889) Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Departamento de História Belo Horizonte 2015 Luiz Duarte Haele Arnaut VERSAR A LIBERDADE, DESCONSTRUIR A MONARQUIA Representações Políticas nos Poemas da Campanha Republicana na Imprensa da Corte (1870-1889) Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em História. Orientador: Prof. Dr. Luiz Carlos Villalta Linha de Pesquisa: História e Culturas Políticas Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Departamento de História Belo Horizonte 2015 Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da Fafich – UFMG 981.05 A745v 2015 Arnaut, Luiz Versar a liberdade, desconstruir a monarquia [manuscrito] : representações políticas nos poemas da campanha republicana na imprensa da corte (1870-1889) / Luiz Duarte Haele Arnaut. - 2015. 392 f. Orientador: Luiz Carlos Villalta. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Inclui bibliografia. 1. História – Teses. 2. Imprensa – Séc. XIX – Teses. 3. Brasil – História- Até 1889- Teses. I. Villalta, Luiz Carlos, 1962-. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título. Agradecimentos Este trabalho resulta de uma jornada na qual acumulei dívidas com muitas pessoas. O apoio e a colaboração delas foram fundamentais para o término desta tese. Deixo aqui meus agradecimentos: a Luiz Carlos Villalta, pela orientação, incentivo e interlocução ao longo dos anos; a Renata Moreira, pelo apoio, incentivo e parceria. a Regina Helena Alves da Silva, pelo companheirismo, apoio e estímulo; aos amigos Valteir e Kelly, pelo apoio e companheirismo de longa data; aos integrantes do GETHL, pelas proveitosas reuniões de discussão e aprendizado; a Sarah Alves Miattelo, pela ajuda na organização do material; aos ex-alunos e colegas de ofício, que acompanharam de perto a confecção do trabalho; ao Programa de Pós-Graduação em História da Fafich-UFMG; a Regina Horta Duarte e Sérgio Alcides pelas contribuições e sugestões quando do exame de qualificação; à Biblioteca Nacional, pelo acesso aos jornais; à Pró-Reitoria de Pós-Graduação pela BIC que contribuiu para o término da pesquisa; aos colegas do Departamento de História, pelo apoio; a meus filhos por serem quem são. Dedico este trabalho a Renata, Gabriel, Lígia e Laís. Resumo Esta tese tem como objeto de estudo a publicação e veiculação de poemas em jornais e periódicos na Corte entre os anos de 1870 e 1889 como parte da campanha republicana no Brasil. Interessa-nos analisar como esses poemas contribuíram para a desconstrução da legitimidade monárquica. Os poemas publicados nos jornais enunciavam as virtudes do governo republicano, ao mesmo tempo em que denunciavam os vícios e imperfeições da Monarquia e do monarca. A existência desses poemas revela uma estratégia de divulgação da bandeira republicana e de ampliação do número de adeptos da República. Por outro lado, indica também uma preocupação em atingir e envolver uma parcela da população que não se mobilizava com as análises teóricas da política. A veiculação de críticas políticas na forma de poemas foi uma prática corrente no Império. Paralelamente às denuncias das condições políticas e sociais sob a Coroa, encontramos aquelas que colocavam a Monarquia em questão, que defendiam sua substituição pela forma republicana de governo. Os poemas contribuíram para a corrosão da legitimidade monárquica e, nesse sentido, para a ausência de manifestações pela sua manutenção quando da Proclamação da República em novembro de 1889. Abstract This thesis studies the publication and the distribution of poems in newspapers and periodicals in the Brazilian Court between 1870 and 1889 as part of the republican campaign in the country. It aims to analyze how these poems contributed to the deconstruction of the monarchy’s legitimacy. The poems published in the newspapers enunciated the virtues of the republican government as a model, while denouncing the vices and imperfections of the monarchy and the monarch. The very existence of these poems reveals a strategy for propagating the republican ideals and for enlarging its number of supporters. Likewise, it indicates a preoccupation in reaching and engaging a part of the population, which did not mobilize itself with theoretical analysis of politics. The distribution of political criticism in poem form was a common practice during the Empire. In addition to the complaints regarding political and social conditions under the Crown, there were those that called the monarchy itself into question, advocating its replacement by the republican form of government. The poems contributed to the corrosion of the monarchy’s legitimacy and therefore to the absence of demonstrations in its support when the republic was proclaimed. Sumário Introdução .....................................................................................................................9 I. Questões teóricas e historiográficas ........................................................................14 Republicanos ..........................................................................................................14 Tópicos republicanos .............................................................................................17 Antimonarquistas ...................................................................................................22 Em torno da Proclamação ......................................................................................28 Cidadãos de farda e Casacas ..................................................................................39 O 15 de novembro e a não participação popular ....................................................51 Uma política da escrita ...........................................................................................56 Os jornais ...............................................................................................................71 II. Os poemas da política ............................................................................................82 Versando o descontentamento: as críticas sob o Império .......................................91 “Só o pobre é sacrificado” .................................................................................95 “Do ministério nefasto” ...................................................................................113 “Sede rei mas sede irmão!”: as críticas ao Império ..............................................125 III. “O peso dos tiranos” ...........................................................................................137 Povo soberano ......................................................................................................138 “A chaga que se chama fome” ..............................................................................144 “No fogo da corrupção” .......................................................................................146 “Os dois prisioneiros” ..........................................................................................150 “Medonha estação” ..............................................................................................155 “O jugo do infamante despotismo” ......................................................................157 “Terrível noite” .....................................................................................................167 “Não mais do povo os gemidos” ..........................................................................171 IV. Economia do tempo histórico ..............................................................................178 Conclusão ..................................................................................................................204 Referências ................................................................................................................211 Fontes Primárias ...................................................................................................211 Fontes secundárias ...............................................................................................212 Referências teóricas .............................................................................................214 Anexo 1: Relação nominal dos poemas localizados .................................................219 Anexo 2: Relação nominal dos jornais consultados .................................................223 Anexo 3: Tabela – Poemas por periódico e data .......................................................225 Anexo 4: Poemas utilizados na análise .....................................................................228 Imaginemos. É o que os historiadores sempre se veem obrigados a fazer. Georges Duby Fictionalizing begins where knowledge leaves off, and this dividing line turns out to be the fountainhead of fictions by means of which we extend ourselves beyond ourselves. Wolfgang Iser Eu dou golpes nos costumes E cuidam que é nas pessoas. Nicolao Tolentino 9Introdução Este trabalho tem como objeto de estudo a publicação e veiculação de poemas em jornais e periódicos na Corte entre os anos de 1870 e 1889 como parte da campanha republicana. O marco inicial tem como justificativa ser o ano da publicação do Manifesto Republicano, através do qual se colocou publicamente em questão a existência da monarquia e se propôs a instauração da república no Brasil. A partir dessa iniciativa, é possível perceber tanto ações no sentido de inscrever a discussão sobre a forma de governo na agenda política, quanto atuações para que esta questão se tornasse pública. A constituição de um grupo político, a publicação de seu manifesto inicial e a publicidade daí decorrente nos parecem suficientes para justificar esta baliza. O marco final se justifica por ser o ano da Proclamação, quando a República deixa de ser uma proposição e não mais se define pela oposição ao governo existente. A partir desse ano, a ideia de república é identificada e definida pelas práticas concretas do governo que aparece e se apresenta como sendo sua implementação. A campanha deixa de ter sentido, uma vez que o objetivo final dos republicanos fora alcançado: o Brasil se tornara uma República. A campanha pela república no Brasil assumiu muitas formas: manifestos, clubes, agitação, propaganda e jornais.1 Todas essas configurações pretendiam explicitar, definir e defender a ideia republicana e a proposição de que ela seria o formato mais adequado de governo para o Brasil. A documentação relativa a essas instituições e manifestações oferece, do ponto de vista do analista, a grande vantagem da origem comum. Ou seja, 1Ver, entre outros: ALBUQUERQUE, Medeiros de. Quando eu era vivo...– Memórias 1867 a 1934. Porto Alegre, Livraria do Globo, 1942; BOCAIUVA, Quintino. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. 2 vs.; HOLANDA, Sérgio B. de. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1972. T. II, v. 5; JARDIM, Antonio da S. Propaganda Republicana. Rio de Janeiro: Casa Rui Barbosa, 1978; JOSÉ, Oiliam. A Propaganda Republicana em Minas. Estudos Sociais e Políticos. Belo Horizonte, nº 12, FDUFMG, 1960; MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007; MENDONÇA, Lúcio de. A caminho (Propaganda Republicana). Rio de Janeiro: Lammert & Cia, 1905; MORAES, Evaristo de. Da Monarquia para a República (1870-1889). Brasília: Editora UnB, 1985; PESSOA, Reynaldo C. A Idéia Republicana no Brasil, através dos documentos. São Paulo: Alfa-Omega, 1973. 10 permite relacionar, de forma direta, um conjunto de ideias e ações a um grupo de sujeitos e/ou instituições que não só divulgaram e promoveram a nova forma de governo, como também foram seus dirigentes. Pela sua própria origem, essa documentação permite traçar claramente como os protagonistas diretos, os integrantes do movimento republicano, concebiam a república. O que a definia, suas vantagens em relação à monarquia, seus limites, suas justificativas, as articulações políticas, as estratégias, os mecanismos de divulgação, entre outros aspectos, são alguns elementos que os manifestos, editoriais e correspondências permitem conceituar com razoável clareza. Em que pese a diversidade, a produção dos militantes e propagandistas permite identificar como a república estava sendo definida, justificada e desenhada pelos seus defensores. Essa documentação, por se ater aos dirigentes, organizadores e aqueles que trabalham por propagandear a ideia e/ou o movimento, não permite conclusões sobre como os que não participavam diretamente do mesmo pensavam e entendiam a proposta de República. De outra forma: esse material, embora rico, é pouco revelador de como a ideia da República era percebida e recebida por um público mais amplo. Existe, por outro lado, uma farta documentação que, dada a sua dispersão original, tem sido pouco explorada e que, acreditamos, pode contribuir para preenchimento dessa lacuna. Nos diversos jornais que circulavam no Brasil na segunda metade do século XIX, a república apareceu como tema constante. Vários deles se organizavam em torno dessa bandeira, dedicando-lhe inúmeros artigos e editoriais. Além desses, a temática da república foi trabalhada também sob a forma de poemas publicados nos mesmos jornais. Tal material consistia em discurso político-literário dirigido à população, em alguns casos feitos por ela, e pode indicar com maior precisão o entendimento desta acerca da república e da monarquia, como também explicar seu comportamento durante e após a Proclamação. O que confere unidade a esse corpus documental, além do suporte comum (jornais), é o fato de ter sido publicado na mesma conjuntura (final do século XIX) e com a mesma preocupação: interferir e participar da política. Sendo assim, a ideia de que fazem parte da campanha republicana deve ser entendida a partir da perspectiva de que não havia um centro articulador concentrando e orientando as publicações. Em que pese a unidade apontada, é necessário explicitar a diversidade interna 11 desse conjunto. Primeiro, seus autores vão desde nomes conhecidos na literatura e/ou cultura brasileira até simples leitores que enviavam colaborações eventuais. Neste sentido, parte destes poemas pode ser vista e relacionada diretamente à propaganda e campanha republicanas. Seriam peças feitas por republicanos para difusão, propagação e convencimento da supremacia da proposta de república e pelo fim da Monarquia no Brasil. Já a parte restante pode ser vista como resultado da campanha. Neste caso, uma parcela dos poemas localizados pode ser atribuída ao sucesso (ou efeito) da campanha, na medida em que expressa e indica a adesão de anônimos à proposta da república. Uma segunda diferença diz respeito à multiplicidade dos jornais que os publicavam, ou seja, o conjunto resulta da consulta e coleta de diversos periódicos, alguns dos quais constitutivos do movimento republicano, outros não. A forma também merece ser citada: localizamos poemas próximos aos cânones acadêmicos, outros de forma mais livre, alguns sérios, sisudos e circunspectos, como também alguns satíricos, divertidos e iconoclastas. A publicação sistemática dos poemas nos jornais como parte da campanha republicana enunciava as virtudes da proposta, ao mesmo tempo em que denunciava os vícios e imperfeições da Monarquia existente. A existência desses poemas revela uma estratégia de divulgação da bandeira republicana e de ampliação do número de adeptos da república. Se, pela temática, os poemas podem ser aproximados dos demais documentos que têm subsidiado as análises sobre o pensamento republicano no Brasil, sua forma sugere serem outros seus destinatários e a natureza de seu argumento. Enquanto manifestos, editoriais, ensaios e brochuras podem ser caracterizados como dirigidos à elite letrada e baseados na argumentação racional, na tradição e fortuna crítica dos filósofos e teóricos da república, o mesmo não pode ser afirmado em relação aos poemas. O reduzido número de alfabetizados existentes no Brasil, na segunda metade do século XIX, poderia levar à suposição de que o alcance, impacto e eficácia dos poemas republicanos seriam mínimos. No entanto, diversos estudos têm destacado alguns equívocos decorrentes da identificação direta entre alfabetização e capacidade de leitura. Um critério anteriormente utilizado para dimensionar o universo dos leitores foi observar a lista das atas de casamentos, partindo do suposto de que estes seriam os alfabetizados e, portanto, os leitores. Esses estudos identificavam alfabetização às 12 habilidades de escrita e leitura. Autores como Chartier, Darton e Burke têm questionando essa lógica, a partir de exemplos que evidenciam que essas competências não se dão necessariamente juntas.2 Por diferentes motivos, muitos dos que leem não escrevem, o que nos permite afirmar que o número de leitores é superior ao universo dos alfabetizados. Ao mesmo tempo, os poemas são peças curtas que, pelas suas características próprias (métrica, ritmo e rima), revelam-se como de fácil memorização, quando comparados a artigos e ensaios políticos. Dadas essas características peculiares, podemos supor que os poemas se prestavam à oralização, ampliando o universo de indivíduos por eles atingidos. Estes poemas deixam transparecer a preocupação em atingir e envolver uma parcela da população que não se mobilizava com as análises teóricas da política. Para tanto, era importante alcançar o sentimento popular, como é possível inferir da caricatura sobre Francisco Glicério feita por Lúcio de Mendonça: Homem de ação mais que inteligência, postava-se ao lado dos jornalistas e dos oradores, dos poetas, dos idealistas e dos letrados, de quantos sabiam a arte de se dirigir ao sentimento popular e à consciência nacional (…) E a sua palavra singela, convencida, ao nível da inteligência do povo, era como moeda divisionária em que trocava, para a vulgarização, o ouro da doutrina.3 A existência desses poemas decorre da prática dos jornais de dedicar regularmente um espaço para sua publicação e/ou contar com a colaboração sistemática de um poeta. Acrescente-se a isto a concepção da literatura como dotada de uma função cívica. A literatura era usada pela política, nas campanhas em prol da independência nacional e da abolição da escravatura, ou como arma de excitação do espírito guerreiro (Guerra do Paraguai, campanha de Canudos) e da propaganda republicana. Os gêneros de atividade intelectual mais difundidos eram a oratória, o jornalismo, o ensaio político, a polêmica, e os homens de letras típicos do tempo eram os lutadores, os que reuniam as letras e a política ou a ação pública. A 2CHARTIER, Roger (org.). Práticas da Leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996; DARTON, Robert. A palavra impressa. In: ______. O beijo de Lamourette – Mídia, Cultura e Revolução. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p. 109-172; e BURKE, Peter. A arte da conversação. São Paulo: Unesp, 1995. 3MENDONÇA, Lúcio de (Juvenal Gavarni). Caricaturas Instantâneas [1896]. Rio de Janeiro: S. A. A Noite, 1939. p. 86. 13 literatura exercia, assim, uma função cívica, como força de expressão nacionalista.4 Há que se considerar, para esta discussão, a proposição de Jacques Rancière, que entende a escrita, a literatura e a poesia como pertencentes à política5, bem como percebe o ato escrever como forma de ação e militância. Assim, tais poemas podem ser entendidos como estratégia de envolvimento da população na campanha pela República, mobilizando diferentes recursos, desde as emoções não pautadas pela lógica até a argumentação racional. Essa produção literária teria, dessa feita, colaborado para dessacralização da monarquia e contribuído para a corrosão de sua legitimidade, conforme as análises contidas em Idéias em Movimento, de Ângela Alonso, e A República Consentida, de Maria Tereza Chaves de Mello. A presente tese é, em parte, uma interlocução com essas duas análises. Seu diferencial é que, aqui, lança-se mão de fontes até então ausentes na historiografia sobre o fim da monarquia. A investigação se dará, portanto, por meio da análise dos poemas, bem como de sua situação no campo maior de sua performance. 4COUTINHO, Afrânio. Prefácio da Primeira Edição (1955). In: ______. A literatura no Brasil. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio; Niterói: UFF, 1986. p. 29 5Sobre esta relação ver RANCIÈRE, Jacques (Dir.). La politique des poètes – Pourquoi des poètes en temps de détresse? Paris: Albin Michel, 1992; RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Edit. 34, 1995; e RANCIÈRE, Jacques. Política de la literatura. Buenos Aires: Libros de Zorzal, 2011. 14 I. Questões teóricas e historiográficas Republicanos Nas últimas décadas do Império, os republicanos experimentavam, se comparados aos monarquistas, ao defender suas ideias, uma vantagem ao mesmo tempo que uma desvantagem. Como a monarquia era a instituição vigente, estava mais sujeita às críticas em função dos percalços que enfrentava. As insatisfações sociais quase sempre podem ser canalizadas contra os governos existentes, independentemente de sua responsabilidade por aquilo que gerou o descontentamento – nisto consistia a vantagem. Os republicanos tinham claramente um alvo para seus ataques, a quem responsabilizar pelas dificuldades e incidentes por que passava a população. A Monarquia, por ser o governo instituído, tornava-se vulnerável às críticas; já a república, por ser uma proposta, estava relativamente imune aos ataques. A participação da Coroa na política, principalmente nas trocas de gabinetes, permitia que as críticas a estes pudessem ser dirigidas àquela. As críticas e investidas políticas dos republicanos podiam ser endereçadas também à pessoa do imperador. As ações e atitudes de Pedro II, bem como dos membros da família imperial, eram tratadas como constitutivas da instituição monárquica e reveladoras da sua incapacidade.6 A campanha republicana assumiu, por conseguinte, momentos de ataques pessoais ao monarca, identificado com a senilidade, devaneio e limitação intelectual, e ao seu genro, apontado como um oportunista, sovina, que cobrava pessoalmente os aluguéis dos cortiços de sua propriedade.7 Se essa situação conferia aos republicanos vantagem no debate político, o mesmo não ocorria quando pensamos na divisão partidária. Nos anos iniciais da República, é comum encontrarmos referências aos partidos Liberal e Conservador como “antigos 6Os monarquistas também identificavam Monarquia e monarca, quando as qualidades da primeira apareciam relacionadas ao imperador, apresentado como intelectual, filósofo e sábio. 7“A família de Bragança é, demais, uma família decadente, condenada pelas leis da fatalidade natural. (…) As famílias reais estão, pelo que se observa, condenadas ao raquitismo físico, intelectual, e moral. (…) Não são, em suma, tipos da boa e completa espécie humana, e sim seres imperfeitos, moralmente monstruosos, gastos pelas lisonjas e ouropéis de um mesquinho convencionalismo corruptor...” JARDIM, Antonio da S. A pátria em perigo (Braganças e Orléans). In: ______. Propaganda Republicana. Rio de Janeiro: Casa Rui Barbosa, 1978, p. 57. 15 partidos monárquicos”. Esta nomenclatura, embora seja procedente, gera certa ambiguidade. Durante a vigência da Monarquia, os partidos existentes até pelo menos 1870 se definiam não em função da forma de governo ou regime, mas em função do liberalismo, em que pese a discussão do significado deste ideário no período. Os partidos eram “monárquicos”, muito mais por não colocarem a monarquia em questão do que por explicitamente transformarem-na em pedra de toque de seu programa. Isto porque a coroa não estava em discussão, as discordâncias e divergências se davam sob o entendimento comum de que a Monarquia era a forma de governo. O que transformava os grupos em partidos rivais eram questões que variavam desde a centralização, o alcance e necessidade de reformas, entre outros, até o nível pessoal através do apadrinhamento político.8 A crise de 18689 produziu enorme desgaste ao Imperador e levou à constituição da Liga Liberal e do Clube Radical. Estas organizações inovaram duplamente o debate político no Império. No que diz respeito aos temas, introduziram questões até então ausentes das discussões, como o Senado vitalício, o Conselho de Ministros e a eleição dos presidentes de província. A segunda novidade foi a reedição das conferências públicas de 1848. Os temas da agenda política ganharam publicidade através de conferências abertas ao público.10 Após 1870, surge um agrupamento que coloca como questão primeira o regime político: o Partido Republicano. Por menor que fosse esta “agremiação” e mesmo que possa ser considerada um “regresso conservador”,11 sua pretensão em mobilizar os 8O Novo Conservador – Jornal político, Agrícola, Commercial, Noticioso e Litterário, cujo lema era “Justiça Ordem e Legalidade”, seria o melhor exemplo desta situação. Assumidamente conservador, propõe-se a combater e denunciar os integrantes do Partido Liberal a quem chamam de “pseudopolíticos e falsos patriotas”. (Rio de Janeiro. 17 maio 1883. p. 1). 9Em 1868, em função da discordância da escolha de Torres Homem para senador, feita por D. Pedro II, Zacarias, chefe de gabinete, renunciou ao cargo. Por ser a Câmara unanimemente liberal, a praxe recomendava que o novo gabinete fosse também liberal. D. Pedro foge às regras tácitas e nomeia um conservador, Itaboraí. A reação da Câmara e dos liberais ao que foi tratado como uma ingerência do poder moderador constituiu a crise no bojo da qual surgem agrupamentos políticos que colocam em questão o “poder pessoal” e mesmo a monarquia. A este respeito ver VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: ABL, 2006. Cap. V. 10CARVALHO, José Murilo de. As conferências radicais do Rio de Janeiro: novo espaço de debate. In: ______. (org.). Nação e cidadania no Império: novos horizontes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 17-42. 11“Suas propostas [do Clube Radical de 1868] serão cotejadas com as do Manifesto Republicano, com o fim de demonstrar que o republicanismo significou um retrocesso conservador.” CARVALHO, José Murilo de. Radicalismo e republicanismo. In: ______ e NEVES, Lúcia M. B. P. das. Repensando o Brasil dos oitocentos: cidadania, política e liberdade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 21. Ver também as páginas 41 e 42 em que o argumento está detalhado. 16 eleitores e de ganhar eleições, em suma, sua própria existência inscreve na agenda política a questão da forma de governo. Aqueles antigos partidos passam a ser identificados com a Monarquia, diante dos ataques e iniciativas dos republicanos. Ora, nesse embate, há pelo menos dois conflitos: entre o partido liberal e o conservador e destes com o republicano. Isso reduzia ainda mais a capacidade deste último de interferir na agenda ou ocupar posições estratégicas, de produzir as mudanças por ele pleiteadas. A resistência do Clube Republicano de São Cristóvão em apoiar a candidatura de Bocaiuva nas eleições de 1881 revela a dificuldade do partido contrário ao regime. A questão preliminar que o Clube levantava não dizia respeito ao candidato, a quem declara simpatia e apoio, mas a “se os republicanos deviam concorrer às urnas demonstrando por esse fato aceitar o regímen da lei vigente em virtude da reforma ultimamente adotada pelo parlamento.”12 A diferença de agrupamentos partidários colocava os republicanos em franca desvantagem no debate político. Um partido sem tradição e com poucos integrantes, com uma bandeira “exógena”, facilmente se tornaria refém dos grandes partidos tradicionais do Império. A julgar pelo argumento de Mendonça a pretexto das eleições de 1880, os republicanos eram atraídos pelos demais partidos nos pleitos eleitorais. Entendemos (…) que os republicanos devem concorrer às eleições e votar como republicanos. Votar como republicano é votar em nome republicano. (…) O nosso partido tem direito, irrecusável direito, aos nossos votos: empregá-los fora do nosso partido é roubar-lhos – para os empregar contra ele. Cada republicano que votar em um monarquista votará duas vezes contra a República: primeiro, porque lhe negará seu voto; segundo, porque o dará a um seu inimigo.13 Se o alvo dos republicanos era visível e oferecia muitos pretextos para o ataque, seu poder de fogo na arena institucional era reduzido, pois constituíam minoria pouco expressiva. Lembremo-nos, a esse respeito, de João Alfredo, quando disse aos republicanos para crescerem e aparecerem, ideia que será retomada mais adiante. 12BOCAIUVA, Quintino. Apresentação do candidato escolhido pelos eleitores republicanos em Assembléia Geral do Partido a 15 de agosto de 1881. In: ______. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. I, p. 560-561. 13MENDONÇA, Lúcio de. As futuras eleições. In: ______. A caminho (Propaganda Republicana). Rio de Janeiro: Lammert & Cia, 1905. p. 165 e 166. 17 Tópicos republicanos Na análise social, é preciso sempre pôr em causa os objetos pré-construídos. O aparente, o óbvio, o dado, é sempre construído. As evidências, a coincidência entre as estruturas objetivas e as estruturas subjetivas, enfim, as representações partilhadas por todos, podem ser nada mais do que o produto do mundo social que nos dispomos a conhecer e de que também somos fruto. O paradoxo dessa situação está no fato de tomarmos como objeto a sociedade (ou práticas) da qual somos criaturas. Nossos juízos, nossos princípios de visão e de divisão, as estruturas estruturantes, os esquemas classificatórios a partir dos quais olhamos para o mundo social foram forjados por esse mesmo mundo. Daí a necessidade de pôr em questão aqueles ditos objetos pré- construídos, de pensar o pensamento, para não sermos instrumentos daquilo que queremos pensar.14 A proposição anterior está associada a uma percepção do mundo social como relacional. Devemos pensar esse mundo, lutando “por todos os meios contra a inclinação primária para pensar o mundo social de maneira realista”, substancialista.15 A oposição entre estruturas e representações é, segundo Bourdieu, artificial. O trabalho do intérprete dos processos sociais comporta dois momentos: o objetivista e o subjetivista.16 A realidade social é também objeto de percepção, e tanto as visões espontâneas, quanto as teorias eruditas fazem parte dessa realidade. E a ciência social deve tomar como objeto não apenas essa realidade, mas também a percepção desta realidade, as perspectivas, os pontos de vista que, em função da posição que ocupam no espaço social objetivo, os agentes têm dessa realidade.17 Com base nessa concepção, buscamos pensar o tema da República nos poemas publicados nos jornais do final do século XIX na Corte. Por um lado, temos que considerar séculos de construção e definição dessa ideia, a República. Por outro, é fundamental que consideremos todos os acréscimos (e depurações) que os poemas acrescentam (e retiram) a essa noção. De outra forma, a leitura dos clássicos e/ou teóricos sobre a República, embora necessária, não é suficiente para respondermos à questão de quais valores, práticas e atributos foram relacionados e associados a ela 14BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand-Brasil, 1989. p. 21-33; BOURDIEU, Pierre. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 149-168. 15BOURDIEU, Pierre. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 152. 16BOURDIEU, Pierre. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 157. 17BOURDIEU, Pierre. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 157. 18 durante a campanha republicana no Brasil. A República, como ideia e como proposta de nova organização do governo brasileiro, corresponde àquela que emergiu do encontro das ideias eruditas e teóricas com as veiculadas pelos poemas e outros materiais (artigos, conferências, opúsculos etc.). Se a realidade social é relacional e comporta tanto a dimensão objetiva quanto a subjetiva, o mesmo pode ser dito das ideias que constituem essa realidade. Sendo assim, se havia uma ideia de República que motivava e inspirava os republicanos, essa foi sendo constituída ao longo da campanha. As noções e concepções iniciais presentes nas cabeças dos redatores do Manifesto de 1870 sofreram modificações, adaptações, ampliações e reduções. Assim, a ideia de República subjacente à campanha teria sido constituída ao longo da própria campanha. Portanto, estamos recusando uma concepção que trabalha com a dicotomia entre uma dada ideia e sua aplicação e/ou sua desvirtuação. Entendemos que o tempo não é mero pano de fundo, mas constitutivo dessas mesmas noções. Por essa razão, evitamos buscar a chave para compreensão das ideias no Brasil em uma pretensa matriz europeia e/ou americana. Mais do que o movimento das ideias nos interessam as ideias em movimento, para usarmos o feliz e preciso título do trabalho de Ângela Alonso.18 Diferentes tradições e pensadores foram apropriados pelos militantes republicanos brasileiros e confrontados com a situação concreta que enfrentavam. A síntese que elaboravam tinha menos a ver com a coerência filosófica e/ou doutrinária da origem e mais a ver com a capacidade de oferecer uma explicação e um equacionamento dos problemas que enfrentavam, seja o poder moderador, seja a centralização monárquica.19 Homens e mulheres incomodados com práticas e/ou instituições se aproximam de pensadores que aparentemente oferecem respostas a este desconforto. A leitura, a compreensão e a apropriação de uma teoria e/ou doutrina é mediada pelas experiências no mundo social daquele que lê, compreende e se apropria. A construção de sentido se faz na interação entre texto e leitor, com suas experiências e biblioteca interior.20 Os textos não se “revelam” àquele que os lê. Toda leitura é seletiva, uma atuação cooperativa entre texto e leitor. Se o modo de aparecer for constitutivo do ser, a ideia de República, então, é 18ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. 19ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 21-50. 20GOULEMOT, Jean Marie. Da leitura como produção de sentidos. In: CHARTIER, Roger (org.). Práticas da Leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996. 19 indissociável de tudo que foi catalogado como tal ou a ela associado ao longo do tempo. Essa modificação ou transformação só é aceitável se considerarmos que tudo o que foi acrescido à ideia inicial romana e/ou as experiências republicanas através dos séculos são constitutivas da ideia de República. “Ser não é somente no tempo, mas atravésʻ ʼ ʻ ʼ (por meio de, em virtude de) do tempo. Em essência ser é tempo.”21 Nesse caso, podemos dizer que a ideia de República existe e se constitui em virtude do tempo, através do tempo, não correspondendo a um conteúdo a-histórico. Por isso, não concebemos que havia uma ideia de República alheia e impermeável às suas apropriações, aplicações, entendimentos ou usos no Brasil durante a campanha republicana. Essa campanha é constitutiva da ideia republicana, bem como é constituída por ela; a campanha é informada ao mesmo que informa a ideia republicana. O que foi dito acima não nos autoriza a entender que República é uma simples palavra. Por mais que seja dinâmica e histórica, ela é uma ideia. República implica um jogo entre iguais, mesmo quando convive ou mantém, para além desses, um grupo de não iguais. A noção pode ser associada a um espaço próprio do jogo político (a cidade), a polis, civitas; à existência de regras para a decisão coletiva dos problemas e questões que envolvem o grupo e seus membros; equivale à noção de uma comunidade que se administra, que exerce o poder soberano coletivamente. “A polis era suposta ser uma isonomia, não uma democracia”.22 No pensamento político clássico, podemos supor duas tradições: a politéia grega e a res publica romana.23 A primeira pode ser compreendida mais como um gênero das constituições políticas do que como um governo específico. (...) A expressão res publica, na sua significação mais imediata – a coisa pública, de todo o povo, a esfera dos interesses comuns, do bem comum – parece acentuar mais a referência à natureza política da comunidade (que designa sua agregação em vista do bem, do direito e do interesse comum, o koinon synpheron dos gregos) do que a questão, propriamente constitucional, da boa organização das magistraturas ou do “melhor regime”, que polariza quase inteiramente o interesse dos clássicos pela ciência prática da política.24 21CASTORIADIS, Cornélius. O Domínio social-histórico. In: ______. Os destinos do totalitarismo e outros escritos. Porto Alegre: LP&M, 1985. p. 24. 22ARENDT, Hannah. Da revolução. São Paulo: Ática/Brasília: Unb, 1988. p. 24. 23CARDOSO, Sérgio. Que República? In: BIGNOTTO, N. (org.) Pensar a República. Belo Horizonte: Edit. UFMG, 2000. p. 31. 24CARDOSO, Sérgio. Que República? In: BIGNOTTO, N. (org.) Pensar a República. Belo Horizonte: Edit. UFMG, 2000. p. 32. 20 A temática da República não pode ser caracterizada, assim, como um corpo doutrinário, coeso e unívoco, mas a uma tradição que remonta à Roma.25 Uma das primeiras explicitações do que seria a Res Publica devemos a Cícero: A República coisa do povo, considerando tal, não todos os homens de qualquer modo congregados, mas a reunião que tem seu fundamento no consentimento jurídico e na utilidade comum. Pois bem: a primeira causa dessa agregação de uns homens a outros é menos a sua debilidade do que um certo instinto de sociabilidade em todos inato; a espécie humana não nasceu para o isolamento e para a vida errante, mas com uma disposição que, mesmo na abundância de todos os bens, a leva a procurar o apoio comum.26 Três noções nucleares da ideia republicana se fazem presentes em Cícero: a valorização da sociabilidade, da vida em comum e da comunidade política como referência fundamental; o ordenamento legal (critério de justiça e ordenamento jurídico) como fundamento da República, como “cimento da comunidade política”; e a ideia de que o bem comum como “critério último para as decisões da coletividade seja sempre obtido tendo como referência a totalidade do corpo político e não o desejo das partes”. Marsílio de Pádua, os humanistas cívicos e Maquiavel serão responsáveis pelo resgate e ampliação dessas noções no final do período medieval e no Renascimento. O primeiro pela defesa da cidade como uma assembleia de cidadãos e reconhecendo nela a única fonte de poder legítima. Os segundos pela defesa e definição que fazem da liberdade. Esta é entendida como um conceito eminentemente político, correspondendo ao direito de participar das decisões do corpo político, sendo a igualdade entre os membros deste a condição para seu exercício. Maquiavel, por seu turno, identifica a República como a melhor forma de governo, pois só nessa temos o bem comum. A República oferece um quadro geral para expressão do conflito decorrente das divisões do corpo político, sem ameaçar a coesão social. Essa tradição, ao longo dos séculos, foi sendo constituída e ampliada, incorporando novos temas e dimensões. Nos séculos XVIII e XIX, a revolução democrática, “por muito tempo subterrânea, explode, quando o corpo do rei se encontra destruído, quando cai a cabeça do corpo político, quando simultaneamente a corporeidade do social se dissolve”.27 A partir dessa mutação, não há mais poder ligado 25BIGNOTTO, Newton. Republicanismo. In: BARRETO, Vicente (org.). Dicionário de Filosofia do Direito. Porto Alegre: Editora Unisinos, 2006. 26CÍCERO, Marco Túlio. Da República. Livro Primeiro, XXV. 27LEFORT, Claude. A imagem do corpo e o totalitarismo. In:______. A Invenção Democrática. São 21 a um corpo, não há princípio que não possa ser posto em questão. O poder aparece como um lugar vazio e só pode ser exercido pela força ou pelo consentimento. Na França, o resgate do republicanismo traz a afirmação da igualdade e da soberania do povo. Para Robespierre, os conceitos são sinônimos, referindo-se ambos à mesma substância, “apesar dos abusos da linguagem vulgar”: a democracia é um Estado em que o povo soberano, guiado por leis que são sua obra, faz ele mesmo tudo o que pode fazer, e, através dos delegados, faz tudo aquilo que não pode fazer por si só.28 Os debates ocorridos na França sobre a representação, bem como sobre o mandato imperativo são reveladores das mudanças em curso. Os termos do Senatus Consulto, que instituiu o império na França em 1804, são profundamente esclarecedores. Em seu artigo primeiro, declara que “Le Gouvernement de la République est confié à un Empereur, qui prend le titre d'Empereur des Français”.29 Este documento reafirma a noção de República não como troca de governante, mas como forma de organização política da sociedade, como dito acima. Uma cabeça coroada ou os títulos de Império e imperador não seriam per si antagônicos à organização republicana. Ao longo dos séculos, todo um universo de questões emerge na busca de conciliar as ideias clássicas com a sociedade moderna: representação, mandato imperativo, liberdade moderna, liberdade antiga, sufrágio, vontade geral, vontade da maioria, soberania, virtude etc. Em resumo, como decorrência desta mutação, República, Democracia e Liberalismo se encontram, confundem-se e se fundem.30 Paulo: Brasiliense, 1983. p. 117. 28ROBESPIERRE, M. de. Sobre os princípios de moral política que devem guiar a Convenção Nacional na administração interna da República. In: ______. Discursos e Relatórios na Convenção. Rio de Janeiro: EdUerj/Contraponto, 1999. p. 144. 29FRANCE, Constitution de l'an XII. Titre premier. Article premier. 1804. 30Alguns títulos que nos permitem mapear minimamente parte destas questões: SIEYÈS, Emmanuel Joseph. O que é o Terceiro Estado? In: BASTOS, A. W. (org.) A Constituinte Burguesa – Qu'est-ce que le Tiers État? Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2001, p. 1-75; CONSTANT, Benjamin. Da liberdade dos antigos comparada à dos modernos. Revista Filosofia Política. nº. 2, 1985, p. 9-25; ARENDT, Hannah. Da revolução. São Paulo: Ática/Brasília: Unb, 1988; CANÊDO, Letícia Bicalho (org.). O sufrágio universal e a invenção democrática. São Paulo: Estação Liberdade, 2005; TURNER, Bryan S. Outline of a Theory of Citizenship. Sociology. May 1990. vol. 24, nº 2, p. 189-217; BIGNOTTO, N. (org.) Pensar a República. Belo Horizonte: Edit. UFMG, 2000; LOSURDO, Domenico. Democracia ou bonapartismo – Triunfo e decadência do sufrágio universal. Rio de Janeiro: Edit. UFRJ/ Edit. UNESP, 2004; FURET, F. & OZOUF, M. Dicionário Crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. Espec. p. 619-916. 22 Antimonarquistas Um procedimento intelectual que pode revelar-se produtivo é, como já citado, questionar o aparentemente óbvio. Com isto, corre-se o risco de dispender um esforço inútil, mas também corre-se o risco de perceber o processo de um ângulo novo, mesmo que seja para confirmar o que já se sabia. Outras vezes corre-se o risco de ampliar a questão, de perceber pequenos detalhes escondidos, mas muito esclarecedores. Tudo é uma questão de risco, de ver a roupa nova do rei ou de perceber que ele está nu. Esta estratégia pode evitar que nos tornemos instrumentos daquilo que nos propomos a pensar. Muito do que aparece como óbvio, verdade estabelecida, inconteste, pode ser uma pré-construção naturalizada, como já indicamos a partir da fala de Bourdieu. “A força do pré-construído está em que, achando-se inscrito ao mesmo tempo nas coisas e nos cérebros, ele se apresenta com as aparências de evidência, que passa despercebida porque é perfeitamente natural”, afirma o sociólogo francês.31 Republicanos ou antimonarquistas? Esta é a questão. Em outros termos, em que medida os autonomeados republicanos se confundiam ou apareciam como antimonarquistas? A resposta talvez nos ajude a perceber qual o foco do discurso republicano, se em propor ou atacar, se no novo ou no existente. A resposta poderia ser buscada através de uma análise exaustiva dos discursos de todos os textos de autores republicanos para alcançarmos alguma essência profunda. Não é nossa intenção. Essa estratégia supõe um quê de essencial e de religioso, no qual a exegese dos textos forneceria a verdade das ideias dos autores. Ora, mais do que o que estes pensavam, interessa-nos como apareciam, como atuavam no mundo social, quais valores e princípios colocavam em circulação. De outra forma, a resposta não deve ser buscada na produção ou na autoimagem dos republicanos ou na doutrina e ideologia a que explicitamente se filiavam, mas nas práticas e ideias que eram associadas à noção de república. No embate político concreto, na desconstrução do senso comum favorável à Monarquia, prevaleceram os ataques e críticas a esta e/ou a defesa e elogios à República? Talvez isso possa ser esclarecedor de algumas dimensões do processo ou, em último caso, de um caminho a ser evitado. Neste sentido, recorreremos à leitura do texto inaugural do movimento republicano no Brasil, o Manifesto Republicano de 1870. Um levantamento dos termos 31BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand-Brasil, 1989. p. 49. 23 presentes no Manifesto indica alguns pormenores interessantes. No que diz respeito às formas de governo, “Democracia” é referida 11 vezes (“pura”, “ultrajada”, “moderna”, “monárquica” e “monarquizada”, uma vez cada), enquanto que “Monarquia” aparece 12 vezes (sendo três referências à Monarquia portuguesa, quatro à “temperada”, uma à constitucional e uma à hereditária) e “Despotismo”, oito vezes. O adjetivo “republicano” aparece duas vezes (como qualificativo do partido) e o “monarquista” outras duas (qualificando políticos do Império). As instituições e práticas políticas são as mais presentes no texto. Há 12 ocorrências de “Cidadão(ãos)”, quatro para “eleição(ões)”, cinco para “parlamento”, seis para “assembléia”, duas para o senado como instituição,32 três para “federação”, quatro para “federativo”. As duas grandes presenças são “soberania” e “liberdade”: a primeira é citada 19 vezes (13 como “nacional”, uma como “do povo” e outra como “democrática”) e a segunda, 28 vezes (“individual” e “pública”, três vezes cada; “política”, pública”, “de consciência”, “econômica”, “de imprensa”, “de associação”, “de ensino”, “democrática” e “de voto”, uma vez cada). Embora o levantamento estatístico das palavras não traduza com justeza a importância e o desenvolvimento das ideias, fornece-nos uma ordem de grandeza destas. A grande surpresa é a ausência de “República” ao longo do texto. A proposta do novo governo não é objeto de definição pela inclusão, pelo que tem de positivo, mas tão somente em relação àquilo de que pretende se distinguir: a Monarquia. No texto, a Democracia pode ser considerada como substituto para a exposição que o manifesto pretendia. No entanto, essa diz respeito a um padrão de relação entre governantes e governados, o que é próximo, mas não equivalente à ideia de República. Tanto é assim que a democracia aparece como “ultrajada” ou ainda como coerente e/ou compatível com a Monarquia, através dos qualificativos “monarquizada” e “monárquica.”33 República implica uma ideia de igualdade, uma noção de público que compreende todos os membros de uma sociedade em igualdade de direitos. Não queremos entrar aqui em uma discussão conceitual do que venha ser República e Democracia e quais as relações que podemos estabelecer entre ambas. O importante é que o Manifesto, mesmo sendo 32As referências ao Senado como lugar, como indicadores do espaço, não estão sendo consideradas. 33“Perante a Europa passamos por ser uma democracia monárquica que não inspira simpatia nem provoca adesões. Perante a América passamos por ser uma democracia monarquizada, aonde o instinto e a força do povo não podem preponderar ante o arbítrio e a omnipotência do soberano.” Manifesto Republicano, 1870. 24 “republicano”, trata mais da Democracia e da Monarquia. Talvez por isso, a liberdade seja tantas vezes citada. Esta seria a grande ideia, valor, instituição que a República/Democracia quer recuperar e que a Monarquia ameaça e/ou suprime. A liberdade aparece, no mais das vezes, como algo que deveria existir, mas que, por alguma razão, foi suprimida, como a descrição de uma situação que não deve ser mantida. No Manifesto, a liberdade aparece como ameaçada, “sofismado as garantias da”, “ocaso fatal”, expulsa (hégira), sequestrada, confiscada, aparente, simulada, nulificada, suprimida, subordinada e dependente. Isso devido às “tradições do velho regime, aliadas aos funestos preconceitos de uma escola política meticulosa e suspicaz, que só vê nas conquistas morais do progresso e da liberdade invasões perigosas”. Daí ser necessário seu resgate pela mudança do governo. A liberdade, como um valor, prática e instituição – que, no contexto da Monarquia brasileira, não pode se realizar, aflorar em toda sua plenitude –, faz necessária a mudança do governo para seu resgate. Da leitura do Manifesto, inferimos uma maior preocupação em atacar o governo existente – o Império – do que em propor o novo regime. A Monarquia é identificada com a concentração de poder, sendo responsabilizada por todos os males da sociedade,34 e o poder pessoal do imperador é sinalizado como ameaça à liberdade. Esta simplificação é ironizada por Vianna: Desde que a livrássemos desta ação, o “perigo” desapareceria, e a liberdade poderia vir para rua, limpinha, vestidinha, segurazinha sem nenhum receio de desacato ao seu pudor e, muito menos, à sua pureza de Diana imaculada.35 Essa situação pode ser atribuída a um recurso ou estratégia de discurso: é mais fácil e eficaz demonstrar as falhas e imperfeições de algo concreto e presente no dia-a- dia do que as virtudes de uma proposta, de uma abstração. O novo encontra-se implícito, subentendido, nas críticas que eram dirigidas ao Império, ao velho regime e ao monarca. Em todo caso, podemos afirmar que não é a novidade, o que deve ser, que aparece como aquilo que justifica o futuro, mas o antigo, o que não é (ou melhor, o que deveria ser), portanto, algo que existe da forma errada, impura, deturpada. Assim, a lógica é mais corrigir do que construir. A República estava sendo concebida em termos de ajustes do passado e menos de construção de futuro, mais como uma negação, uma 34COSELECCHI, José E. O Partido Republicano Paulista. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 35. 35VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: ABL, 2006. p. 83. 25 libertação, do que uma positividade, a instauração da liberdade. É irresistível lembrar, aqui, da leitura que Walter Benjamin faz do Angelus Novus de Klee.36 O progresso como a tempestade que emerge do passado em ruínas e que impele o anjo (espectador) para o futuro: a liberdade em ruínas, ameaçada ou suprimida no Império, é que empurra a sociedade brasileira para a futura República. A genealogia da falta de liberdade e a recuperação da história que gerou essa situação aparecem como ponto de partida ou de apoio para a busca do futuro; este porvir, por seu turno, faz retornar ao passado na busca das possibilidades perdidas e de seu resgate. É impossível não recorrer a Arendt: Esse passado, além do mais, estirando-se por todo o trajeto de volta à origem, ao invés de puxar para trás, empurra para a frente, e, ao contrário do que seria de esperar, é o futuro que nos impele de volta ao passado.37 Voltaremos posteriormente a esta ideia. Corramos os riscos: o Manifesto Republicano é republicano ou antimonarquista? Esta questão, aparentemente banal e sem sentido, parece-nos fundamental para a discussão sobre a República Brasileira. A partir dela, podemos esboçar o entendimento dos homens e mulheres no século XIX quando falavam em República. Qual a noção de sociedade, de ordenamento político, de soberania, de direitos políticos que fundamentava esta ideia? Por outro lado, caso se revele mais antimonarquista do que republicano, quais seriam os desdobramentos desta consideração para a análise? Entendemos que ser republicano implicava construir uma proposta de nova organização social, buscar ampliar a pele curta da cidadania de forma a incluir mais e mais indivíduos. Significava desenhar uma nova sociedade com outros pressupostos. Já ser antimonarquista acarretava ser contra uma ordem instituída. Nesse caso, não haveria a necessidade do desenho do novo, mas somente a de apontar os estrangulamentos existentes, bem como os pontos a serem reformados. Em todo caso, a resposta não pode 36“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.” BENJAMIN, W. Sobre o conceito de História. In: ______. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. Tese nº 9. p. 226. 37ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo, Perspectiva, 1992. p. 37. 26 ser considerada absoluta, pois ser uma ou outra coisa é uma definição histórica, ou seja, é resultante da forma concreta como essas ideias foram apropriadas e construídas por homens e mulheres, também concretos, ao longo de sua história. Não é conveniente selecionar algumas características do discurso político e contrapô-las a um modelo preestabelecido e a-histórico e concluir, então, ser mais ou menos republicano em função da proximidade com o modelo. Não buscamos aqui atingir uma essência ou pureza de um discurso político qualquer, mas detectar em que ponto estava a ênfase da ação política de homens e mulheres concretos na sua luta ou insatisfação concreta, como construíram uma identidade e uma noção de ser “republicano”, quais os elementos constitutivos dessa, quais estratégias utilizadas e valores invocados. Em outras palavras, a questão colocada anteriormente tem mais um efeito de deslocar o eixo da abordagem do discurso político em relação à tradição que permitiria aproximações e afastamentos para a forma palpável como a campanha se deu. Ora, a campanha republicana, tal como o Manifesto, teve momentos de antimonarquismo e de republicanismo, sendo que, na prática, as duas “dimensões” se confundiam naquilo que poderíamos nomear como o republicanismo presente na campanha entre 1870 e 1889. Mais: essa campanha foi plural, tanto no que diz respeito aos agentes, quanto aos momentos, às tradições e suas inspirações intelectuais e filosóficas. Portanto, a identidade republicana era, por um lado, ampla e se confundia com os discursos contra a coroa e/ou a favor da liberdade (até mesmo dos escravizados); por outro, possuía alguma base comum para além dessa pluralidade, que permitia aos sujeitos tanto se reconhecerem, como serem identificados como republicanos no cenário político e social. Para além das ideias que colocavam em circulação, é preciso também ficar atento às práticas de que os republicanos lançaram mão. Ao constituírem clubes, publicarem jornais, poemas, promoverem reuniões, conferências, atos públicos, eles ampliavam o debate político para outros espaços além do parlamentar, incluindo mas não se restringindo às ruas. Observemos a atuação de um Silva Jardim, a existência dos jornais,38 ou ainda a incidência de poemas e pequenas notas na imprensa. A campanha 38Vianna indica a existência de “apenas 74 jornais” republicanos em novembro de 1889. Desta cifra, conclui pela fragilidade e diminuta penetração geográfica e social do republicanismo (VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1959. p. 106.). Mesmo na ausência de dados que confirmem ou não esses números, gostaríamos de salientar que, para esta questão, o número de exemplares editados é mais importante do que o número de títulos. O jornal fluminense Gazeta de Notícias tinha, em 1875, uma tiragem de 12000 exemplares e O País chegou a imprimir 26000 27 não resultou de uma estratégia claramente definida por uma direção centralizada, a despeito das tentativas em sentido contrário. Em 1873, Bocaiuva apontou os efeitos negativos da falta de unidade e de uma coordenação central para o partido. Os esforços isolados e cometimentos esparsos, sem o elo da fraternal cooperação de todos os sectários da mesma crença, constituem movimentos estéreis, atividades que bem pronto cansam, convulsões espasmódicas que debilitam o organismo do partido e que são mais perniciosos do que úteis porque engendram a desconfiança, o desânimo, o egoísmo, a esterilidade enfim!39 Na mesma oportunidade, defendeu a necessidade de subordinação ao programa partidário, para o bom andamento da propaganda republicana, e afirmou que “as nossas individualidades, as nossas paixões, os nossos intuitos pessoais devem desparecer diante da razão coletiva do nosso partido”.40 Em maio de 1889, Silva Jardim, que se recusara a reconhecer a autoridade de Bocaiuva, em Manifesto, indica que o problema da falta de unidade partidária permanecia.41 O conjunto de iniciativas que marcaram a campanha era muitas vezes não articulado e nem sempre de pessoas ligadas ao partido. Reforça essa interpretação a afirmativa de Cunha sobre a não existência do partido republicano, uma vez que a ideia republicana não estava restrita a “tão estreito círculo”. (...) O partido republicano não existe. De fato, não restringimos as nossas ideias a um tão estreito círculo de ação (...). (...) Não constituímos uma agremiação de indivíduos (...). Somos alguma coisa mais que um partido, embora relativamente pouco numerosos pela extensão e pela sua generalização, podemos afirmar – sem que se veja um exagero de frase – que constituímos a molécula integrante de uma nova sociedade.42 Os temas, valores, imagens, justificativas, expectativas, construídas ou associadas à República, não constituíram um monopólio do partido republicano. Grupos exemplares diários. Há que considerar também que um exemplar do jornal tinha mais de um leitor (MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007. p. 77). 39BOCAIUVA, Quintino. Assembléia do Partido Republicano. In: _____. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. I. p. 398- 399. 40BOCAIUVA, Quintino. Assembléia do Partido Republicano. In: _______. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. I. p. 399. 41JARDIM, Antonio da S. A situação republicana (Questão da Chefia do Partido). In: _____. Propaganda Republicana. Rio de Janeiro: Casa Rui Barbosa, 1978. p. 355-375. 42CUNHA, Euclides da. Atos e Palavras. In: ______. Obras Completas. Rio de Janeiro, Nova Aguillar, 1995. V. I. p. 613. 28 e agentes, os mais diversos, apropriaram-se e fizeram uso dessas ideias e ideais. Assim, o conjunto de iniciativas que objetivava propagar a ideia republicana e/ou que a expressava e/ou contribuía para sua difusão não decorreria de uma ação orquestrada de um centro único, nem traduziria uma visão monolítica. Sendo assim, parece-nos razoável que procuremos nesse conjunto aparentemente desconexo de falas e atitudes o significado do que vinha a ser republicano no Brasil do final do século XIX. Ou, em outras palavras, o que corria nos corações e mentes sob a identidade de república. Nesta lógica, faz sentido que nos desloquemos dos documentos oficiais para os textos marginais. A campanha se deu fora do Parlamento ou, pelo menos, visava atingir as pessoas que estavam nas ruas, nos mercados, nas praças, o que implicava ter como interlocutor a nação, o povo, e tratá-lo como sujeito político. Poderíamos afirmar que esse deslocamento, no limite, coloca a questão da forma de governo para a opinião pública, procedimento este que abala os alicerces da Monarquia ao colocá-la em evidência para pessoas e grupos que estavam excluídos dessa discussão, da ágora definida e definidora da Ordem Saquarema.43 Estamos propondo um deslocamento analítico que privilegie aquilo que era dirigido para (ou pela) população em geral, através dos jornais, que são indicadores da(s) ideia(s) que conformavam o entendimento de república. Buscamos o resgate de registros e manifestações (poemas publicados nos jornais como parte da campanha republicana) até o presente pouco explorados na análise social e política. O suposto é que essas fontes são reveladoras de sujeitos e atores não referidos nas análises clássicas e apontados pelas mesmas como ausentes do processo político. Tais poemas são parte constitutiva e constituinte da definição dos significados concretos das opções e ideias do momento, dos termos e temas que conformaram o que era República, Monarquia, liberdade, soberania, justiça, entre outros. Nesse caso, a discussão sobre o republicanismo no Brasil seria ampliada, pois, além do pensamento político stricto sensu, estaríamos resgatando uma certa poética e sensibilidade política republicana. Em torno da Proclamação Quinze anos após a Proclamação da República, em 1904, Machado de Assis 43O termo “Saquaremas” era utilizado para nomear os membros do partido conservador no Império. Por extensão, “Ordem Saquarema” indica a vitória deste grupo sobre seus rivais, os liberais ou “Luzias”, definindo a defesa da estabilidade política como garantia da liberdade. Segundo Mattos, os Saquaremas exerciam uma hierarquia sobre os Luzias após os conflitos da década de 1840. Ver MATTOS, Ilmar R. de. O Tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec, 1987, espec. Cap.. II 29 publicou Esaú e Jacó, narrativa ambientada nos últimos anos do Império e nos primeiros anos da República. O romance acompanha a trajetória dos membros da família de Santos, sua esposa Natividade e seus filhos gêmeos, Pedro e Paulo. Ao longo da narrativa, vários acontecimentos da conjuntura política são abordados, tais como a Abolição, a Proclamação e o Estado de Sítio. A Proclamação aparece de chofre no livro. O autor não espalha pistas nem referências da mobilização e articulação republicanas. As divergências políticas entre Paulo e Pedro são dos poucos rastros que sugerem haver uma proposta de mudança da forma de governo em curso. A referência à existência de um grupo de republicanos se dá quando: Na rua Gonçalves Dias, indo para o Largo da Carioca, Paulo viu dous ou três políticos de São Paulo, republicanos, parece que fazendeiros. Havendo-os deixado lá, admirou-se de os ver aqui, sem advertir que a última vez que os vira ia já alguma distância44 No capítulo “Noite de 14”, o autor faz uma operação interessante. A recepção do dia 14 (de novembro) é tratada longamente para mostrar como a República não estava inscrita na ordem do dia, não era assunto obrigatório nas rodas de conversa. Ou seja, para indicar que a mudança da forma de governo não estava nos corações e bocas dos personagens na véspera da Proclamação. Na véspera da República, a ausência apontada tem o efeito de realçar a surpresa e as dúvidas que acompanharam as notícias do dia seguinte. O capítulo posterior não trata de imediato da Proclamação. Toda a ambientação é construída a partir do passeio matinal de Aires. Nada, em seu caminho, evidencia que, não muito longe dali, está ocorrendo a Proclamação. Esta vai paulatinamente chegando ao personagem, uma frase aqui, um ruído ali, palavras soltas. Coerente com a atmosfera da noite/capítulo anterior, nada anuncia as mudanças em curso. A pouca importância dos acontecimentos aparece reafirmada na passagem da Confeitaria do Império. O problema de Custódio, proprietário da confeitaria, não se devia à forma de governo propriamente dita, mas a Proclamação acontecer logo quando havia mandado pintar uma nova tabuleta. O trabalho já fora concluído e o nome da confeitaria — “do Império” — não lhe parecia adequado aos novos tempos. Temia represálias caso mantivesse o nome antigo e não aceitava alterar o nome para “da 44ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. [1908] São Paulo: Nova Cultural, 2003. Cap. LVII. 30 República” por temer “uma nova reviravolta”. Essa passagem pode ser vista também como indicação de que os eventos em curso reduziam-se ao mesmo problema de Custódio: uma questão de nome. Esta sugestão é reforçada por Aires ao afirmar, após certificar-se da Proclamação, que “(…) nada mudaria; o regímen, sim, era possível, mas também se muda de roupa sem trocar de pele. (…) No sábado, ou quanto muito na segunda feira, tudo voltaria ao que era na véspera, menos a constituição”.45 O advento da República, para o personagem Aires, é diminuto, sem importância, sem maiores modificações. Dois registros daquela noite aparecem na narrativa: a reunião na casa de Santos e o passeio de Paulo pela cidade. Na casa, os amigos conversavam sobre os novos acontecimentos. Todos sabiam ser fato consumado. Ninguém sabia se a vitória do movimento era um bem, se um mal, apenas sabiam que era um fato. Daí a ingenuidade com que alguém propôs o voltarete do costume, e a boa vontade de outros em aceitá-lo. Santos a princípio quis resistir [ao jogo]; não era bonito que no mesmo dia em que o regímen caíra ou ia cair, entregasse o espírito às recreações de sociedade...46 Nas ruas, Paulo e alguns amigos “iam cheios de si” se inteirar das novidades e extravasar a euforia com o novo regime. Passeavam por jornais, pelo quartel e pela casa de Deodoro. Falavam com os soldados, “nenhum lhes contara o que se passara, nem todos saberiam nada”. A República como continuidade é afirmada como fato, e não mais como possibilidade ou pessimismo nos acontecimentos dos anos seguintes. Paulo, que é republicano, vai para a oposição; enquanto Pedro, partidário da Monarquia, passa a apoiar o governo. Esse momento coincide, a nosso ver, com a chamada República dos Conselheiros, quando antigos monarquistas passam a dirigir a República, e os republicanos mais radicais são excluídos do processo. A República que existia não correspondia àquela dos sonhos, ressente-se Paulo, repetindo o que diziam vários republicanos que não eram personagens de romances.47 A oposição não era ao princípio, mas à execução. Não é esta a República 45ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. [1908] São Paulo: Nova Cultural, 2003. Cap. LXIV. 46ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. [1908] São Paulo: Nova Cultural, 2003. Cap. LXVI. 47Sobre as decepções com a República, ver CARVALHO, José Murilo de. Introdução. In: VIANNA, O. O ocaso do Império. Rio de Janeiro: ABL, 2006. p. ix-xxi e MELLO, Maria Tereza Chaves de. A República e o Sonho. VARIA HISTORIA. Belo Horizonte, vol. 27, no 45: p.121-139, jan/jun 2011. 31 dos meus sonhos, dizia ele; e dispunha a reformá-la em três tempos, com a fina flor das instituições humanas, não presentes nem passadas, mas futuras.48 A Proclamação aparece em Esaú e Jacó mais próxima da descrição de Aristides Lobo – de que o povo assistiu bestializado à Proclamação – do que da grandiosidade que os protagonistas quiseram imprimir à derrubada da Monarquia. As pessoas não se envolvem, as notícias pegam-nas de surpresa. A vida continua não só porque tem que ser assim, mas também porque ninguém está visceralmente preocupado com a queda da Coroa ou com a Proclamação da República. A pequenez do evento e o pouco interesse das pessoas fazem com que tudo continue como sempre fora: “enfim, o basto e a espadilha fizeram naquela noite o seu ofício, como as mariposas e os ratos, os ventos e as ondas, o lume das estrelas e o sono dos cidadãos”.49 A República aparece no romance não como ápice de uma luta. A descrição dos eventos como anticlímax reafirma a surpresa que foi sua proclamação e instalação. A narrativa de Esaú e Jacó permite pensar que os eventos da manhã do dia 15 de novembro, por maiores que tenham sido suas consequências, não foram grandiosos, ficaram restritos a alguns quarteirões, como no já citado juízo de Lobo. A distinção fica por conta da seguinte passagem, que retoma a empolgação com que certo cocheiro contara a Aires os acontecimentos daquele dia: Aires olhava o cocheiro, cuja palavra saía deliciosa de novidade. Não lhe era desconhecida esta criatura. Já a vira, sem o tílburi, na rua ou na sala, à missa ou a bordo nem sempre homem, alguma vez mulher, vestida de seda ou de chita.50 A princípio, parece que Aires reconhece o cocheiro de outras viagens, pois a “criatura” não lhe era desconhecida. Na frase seguinte, todavia, percebemos que não se trata de uma pessoa concreta, afinal, não há ser humano capaz de preencher todas aquelas características listadas. O que Aires reconhece é alguma coisa que ultrapassa fronteiras, diferenças sexuais e distinções sociais, algo que pode ser observado nos espaços públicos (rua) e no âmbito privado (sala), nas atividades sagradas (missa) e laicas (a bordo), nos homens e mulheres, nos ricos (seda) e nos pobres (chita). Uma possibilidade seria de que se trata de alusão ao ânimo republicano ou ao 48ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. [1908] São Paulo: Nova Cultural, 2003. Cap. CXV. 49ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. [1908] São Paulo: Nova Cultural, 2003. Cap. LXVI 50ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. [1908] São Paulo: Nova Cultural, 2003. Cap. LX. 32 desânimo monarquista, o resultado de quase vinte anos de propaganda contra a Monarquia e a favor da República. É digno de nota que a manifestação militar que colocou fim ao II Reinado, mesmo restrita a uma parte da cidade, não enfrentou contestação na Corte ou nas províncias. Duas possibilidades, não excludentes, parecem- nos plausíveis para essa aceitação. A primeira seria a adesão de parcela da opinião pública a algumas teses republicanas. A segunda seria a corrosão da legitimidade monárquica como resultado do proselitismo republicano. Nesse caso, estaríamos diante do indício de que haveria algo mais (ou além) das articulações civis e militares para explicar a derrubada de D. Pedro II. A mobilização de grupos excluídos teria levado a uma redefinição do local e da forma de fazer política. Na última década do Império, segundo Mello, houve uma ressignificação da rua e a progressiva valorização da opinião pública. A opinião pública era vista [no final da década de 1880] como a verdadeira representação do povo brasileiro, diferente daquela que saía fraudulentamente das urnas e ocupava as tribunas oficiais. Era ela, pois, a fonte legítima e única da soberania. E o bombardeio da propaganda ensurdecedora dos dois últimos anos do Império conseguiu a introjeção de uma cultura em que a república era entendida como o governo da opinião pública. 51 A condição de marginalizados era o que unificava grupos distintos que se opunham à Ordem Saquarema, explorando as novas estruturas de oportunidades políticas decorrentes, abertas com a crise do final dos anos 1860.52 Marginalizados pelas instituições políticas imperiais, os grupos que o compõem [o movimento intelectual da geração de 1870] expressam seus dissensos e projetos recorrendo a estruturas de mobilização alternativas. Esse caráter quase clandestino de suas atividades deu-lhes uma feição necessariamente parainstitucional, fragmentária. Tiveram de criar o próprio locus para sua expressão. Seus fóruns foram associações estudantis; a imprensa independente; as sociedades e clubes; os meetings, eventos, conferências, efemérides; os manifestos.53 A rua, até então identificada com o mundo da desordem, adquire novo significado. 51MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007. p. 214. 52ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 95. 53ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 268. 33 A rua foi ressignificada. Adquiriu um sinal positivo como o espaço do uso público da razão – da crítica, nos termos da época – e como o lugar da verdadeira representação popular. A rua passou a disputar, e vantajosamente no final da década [de 1880], com o Parlamento, o locus do fazer político, num claro avanço do conteúdo republicano que a experiência do Primeiro Reinado e da Regência hesitou em assumir.54 Voltemos à “criatura” encontrada por Aires. Destaquemos que ela não se restringe a um espaço, condição social ou gênero. Nossa hipótese é que essa criatura seria a opinião pública, exígua mas bombardeada, explorada e dilatada pelos grupos (o plural aqui é importante) que se opunham à tradição imperial na e pela campanha republicana. Assim, promovia-se a desconstrução parcial, ou seu abalo, do senso comum que autorizava a Monarquia. A ordem política é posta à prova, denunciada como insuficiente e incapaz de produzir avanços sociais, como antiquada e arcaica, em suma, desnaturalizada. Parte do que foi endereçado a essa “criatura”, nessa campanha, pode ser identificado nos poemas levantados por esta pesquisa. Em obras sobre o final do Império ou sobre o início da República, o tratamento dado ao tema da campanha republicana recebe referências sumárias. Nas análises centradas no Império, este tema, por ser o apagar das luzes, não merece atenção. Naquelas que têm a República como objeto, a campanha é praticamente ignorada por ser anterior a essa implantação. É ilustrativo disso o pouco espaço que a História Geral da Civilização Brasileira dedica ao tema.55 No volume em que trata do “Do Império à República”, não chega a haver um capítulo, e o primeiro volume sobre a República inicia-se com os governos militares. O mesmo pode ser afirmado acerca do livro Da Monarquia à República, de Emília Viotti da Costa.56 Entre os “momentos decisivos”, encontramos as origens e a Proclamação da República, mas não a campanha. Em Da Monarquia para a República, Moraes dedica um pequeno capítulo introdutório ao tema.57 Por estar na passagem do Império para a República, o tema tem sido negligenciado, na perspectiva de que está aquém ou além das análises que tratam do Império ou da República.58 54MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007. p. 29. 55HOLANDA, Sérgio B. de. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1972. T. II, v. 5. 56COSTA, Emília V. da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Unesp, 2010. 57MORAES, Evaristo de. Da Monarquia para a República (1870-1889). Brasília: Editora UnB, 1985. 58No Banco de Teses da Capes, foram procurados os termos: “campanha republicana”, “propaganda republicana”, “poesia republicana”, “poemas republicanos” e “imprensa republicana”. Para a primeira expressão, foram encontrados dois registros, porém com abordagens não condizentes com o escopo da presente tese. Para os três seguintes, nenhum registro foi encontrado. Para o último, cinco registros foram 34 A não consideração da campanha tem como efeito explicar a mudança de regime a partir das transformações econômicas e sociais sofridas pelo Império a partir dos anos 1870 ou nas crises e questões dos últimos anos da Monarquia. A modernização ocorrida a partir da década de 1880 teria inviabilizado sua continuidade. As novas exigências econômicas e sociais teriam gerado a necessidade de uma nova organização política, uma vez que a Monarquia revelava-se incapaz de atendê-las. Nessa linha, as razões de ordem econômica, social, política e intelectual são invocadas para dar conta do fim do Império.59 As explicações que valorizam as crises (questão militar, questão religiosa, abolição, descrédito da monarquia), buscam fundamentalmente explicar a Proclamação a partir de causas imediatas. Essa linha interpretativa ganhou os primeiros contornos imediatamente à Proclamação com O Advento da República no Brasil, de Ottoni, no entendimento de quem:60 Quatro são, a meu ver, as causas principais que determinaram e precipitaram a mudança de governo, realizada no dia 15 de novembro de 1889. 1ª A abolição da escravidão doméstica; 2ª A evolução natural da ideia democrática; 3ª As queixas e descontentamento da oficialidade do exército; 4ª O descrédito que a Política Imperial lançou sobre a instituição monárquica.61 A chave para a compreensão do processo se encontraria na influência positivista, na questão militar, na questão religiosa, nas crises de gabinete, nas dissenções partidárias, no desgaste do poder pessoal do Imperador decorrente das suas intervenções no jogo político, do apoio dinástico à Abolição sem indenização, dos problemas de saúde de D. Pedro II e na possibilidade de um III Reinado. Assim, toda a miríade de lideranças e incidentes é arrolada para mostrar como o Exército fez a República.62 localizados, porém, de períodos e locais diversos daqueles que são tratados neste trabalho. 59Ver, entre outros, HOLANDA, Sérgio B. de. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1972. T. II, v. 5, espec. o Livro Quinto (O caminho da República); COSTA, Emília V. da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Unesp, 2010, espc. Cap. 10 (Sobre as origens da República). 60OTTONI, C. B. O advento da República no Brasil. Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1890. 61OTTONI, C. B. O advento da República no Brasil. Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1890. p. 3. 62Esse é o caso das análises que enfatizam a chamada Questão Militar e as consequências políticas da Abolição, presentes principalmente nas primeiras obras que trataram do tema, tais como BUARQUE, Felício. Origens Republicanas – Estudos de gênese política em refutação ao livro do Sr. Dr. Affonso Celso O Imperador no exílio. Recife: Francisco Soares Quintas, 1891; OURO PRETO, Visconde de. O advento da dictadura militar no Brasil. Paris: F. Pichon, 1891; MONTEIRO, Tobias. Pesquisas e documentos para a História. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1913, p. 55-198; MORAES, Evaristo de. Da Monarquia para a República (1870-1889) [1936]. Brasília: Editora UnB, 1985; VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: ABL, 2006; HOLANDA, Sérgio B. de. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1972. T. II, v. 5. p. 283-360 e COSTA, Emília V. da. Da Monarquia à 35 As ênfases distintas em um ou outro evento do processo, como indicadas acima, aparecem arroladas conjuntamente nas diferentes interpretações apontadas. Isso porque a questão central nessas análises consiste em indicar, ou explicar, as razões que levaram à queda da Monarquia. O foco central é apontar os elementos que explicam o fim do II Reinado. E, nesse caso, mesmo quando se aborda a história e atuação do partido republicano e do republicanismo, a forma como se deu a Proclamação da República coloca essa atuação em segundo plano. O 15 de novembro não seria compreensível pela atuação dos republicanos, mas pela crise oriunda do descontentamento dos militares, tendo em vista o papel decisivo da tropa na derrocada da Monarquia. Em O advento da República no Brasil, Ottoni reconhece, com pesar, a importância dos militares na Proclamação. (...) Eu peço licença aos revolucionários triunfantes para dizer, que em vez da proclamação da República pela força armada, assistindo o povo bestializado, como disse um dos chefes, mais quisera eu esperar o advento, quando proviesse da evolução democrática, que houvesse manifestado a sua vitalidade nos comícios, nas urnas e no parlamento.63 O último chefe de gabinete, visconde de Ouro Preto, é taxativo na avaliação que faz da participação dos militares na instauração da República. Em resposta a Ottoni, trata o fim da monarquia como O advento da dictadura militar no Brasil.64 Essas nomeações distintas para o que foi inaugurado a 15 de novembro, República e dictadura, indicam diferentes perspectivas dos autores, em função das convicções políticas, se republicano ou monarquista. Os acontecimentos do dia 15 de novembro foram tratados de diferentes formas, chamados de golpe, de revolução e de parada militar. A justificativa para essas distintas formas de perceber o movimento está associada à convicção política dos autores.65 No entanto, só essa filiação não as explica. A convicção política pode esclarecer a atitude, de comemoração ou condenação dos acontecimentos, mas não nos parece suficiente para o entendimento das diferentes nomeações. Há que considerar o papel preponderante, naqueles eventos, dos militares. Como admitiu Aristides Lobo: “Por ora, a cor do Governo é puramente militar, e deverá República: momentos decisivos. São Paulo: Unesp, 2010, espec. Cap. 11 (A Proclamação da República). 63OTTONI, C. B. O advento da República no Brasil. Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1890. p. 96. Ênfase no original. 64OURO PRETO, Visconde de. O advento da dictadura militar no Brasil. Paris: F. Pichon, 1891. 65Sobre esses diferentes juízos dos monarquistas e dos republicanos, ver COSTA, Emília V. da. Sobre as origens da República. In: ______. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Unesp, 2010. p. 387-448. 36 ser assim. O fato foi deles, deles só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula”.66 Em O ocaso do Império, Vianna após destacar a pouca adesão à causa republicana, afirma que “é impossível, portanto, fugir à conclusão de que, pela ação exclusiva dessa congérie de idealistas desorganizados, seriam inexplicáveis os acontecimentos decisivos de 15 de novembro”.67 A atuação de Deodoro e da tropa, instigados e associados aos republicanos, na inauguração da República no Brasil, teve, entre outros, o efeito de ofuscar o trabalho de propaganda, de divulgação e convencimento feito pelos republicanos ao longo das duas últimas décadas do Império. Mesmo concordando com a perspectiva de Vianna e de outros testemunhos e autores que destacam a pouca adesão da população ao republicanismo, a propaganda não pode ser ignorada. A questão não diz respeito ao grau de penetração junto à opinião pública, mas do trabalho de difusão das teses não monarquistas ou mesmo antimonárquicas e do esforço despendido para o convencimento da população. Discutindo tal questão, Moraes, após discorrer sobre os progressos da propaganda, pondera: Mas tudo isto não exclui esta indiscutível verdade: – a conspiração de que resultou a República no Brasil foi uma iniciativa essencialmente militar. Tal dizendo, não se confirma, todavia, que a queda do Império foi devida a um simples movimento de tropas. Como vimos, a ambiência estava preparadíssima. Apenas seria, de todo em todo, impossível o fato por mera inciativa popular, pelo exclusivo impulso dos republicanos.68 No último capítulo que trata “Do Império à República”, Holanda afirma que relativamente à parte que à ebulição militar dos fins da monarquia se deve atribuir no advento da República, é talvez mais fácil exagerá-lo do que dar-lhe as justas proporções. Certamente não se deveu apenas a esta ebulição a derrocada e a queda do Império.69 Em que pesem os fundamentos diferentes, os dois autores concluem que só o movimento das tropas não seria suficiente para explicar o fim da Monarquia. Nos dois autores, a mobilização dos militares e sua importância para a Proclamação não são 66LOBO, Aristides. Cartas do Rio. Diário Popular. São Paulo. 18. Nov. 1889. In: CARONE, E. A Primeira República (1889-1930) – Texto e contexto. São Paulo: Difel, 1969. p. 288-289. 67VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: ABL, 2006. p. 108. 68MORAES, Evaristo de. Da Monarquia para a República (1870-1889) [1936]. Brasília: Editora UnB, 1985. p. 71-72. 69HOLANDA, Sérgio B. de. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1972. T. II, v. 5. p. 348-349. 37 negadas, mas relativizadas: teria produzido esse efeito pelo avanço da propaganda (Moraes) ou pelas visíveis mostras de fragilidade da Monarquia (Holanda). Tal ponto é de suma importância para este trabalho, na medida em que enfatiza que há de se considerar outros processos na explicação do fim do Império, além do visível elemento militar no dia 15. Dois trabalhos recentes oferecem importantes e valiosas contribuições para o estudo dos processos que marcaram as duas últimas décadas do Império e sua derrocada: Idéias em Movimento e A República Consentida.70 Ambos fogem da tentação de restringir o processo à política institucional ou às mudanças econômicas, à visão reducionista da política e da economia. Assim, resgatam as transformações da sociedade brasileira em um amplo movimento que expande o número de questões e de atores no processo. O papel ativo dos sujeitos, suas influências, as novas oportunidades sociais e políticas em confronto com a impermeabilidade da Ordem Saquarema, mudanças na sociabilidade, na circulação de pessoas e juízos são algumas das variáveis que as autoras mobilizam para analisar o fim da Monarquia. A mobilização social, os debates e circulação das ideias, a exploração das possibilidades da exígua esfera pública são valorizadas neste processo. Nesta tese, defendemos que o 15 de novembro torna-se incompreensível, se não se considerar a campanha republicana, por meio do trabalho sistemático nos jornais, clubes, reuniões e comícios para apresentar a República como forma de governo melhor, superior e mais adequada ao Brasil que a Monarquia. Analisando a geração de 1870, Alonso afirma a importância estratégica da atividade de imprensa como a “arena na qual os grupos (…) podiam expressar suas opiniões sem coerção do Estado ou constrangimento social direto”. Considera essa arena, mesmo que exígua, como uma “esfera pública do mesmo gênero daquela que se estava constituindo na Europa contemporânea”, analisada por Habermas, em Mudança estrutural da Esfera Pública.71 “As associações e jornais geraram um espaço público que extrapolava as dimensões da sociedade política da elite imperial”,72 continua a autora. Em análise com outra perspectiva, Mello afirma não só a existência da (exígua) 70ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002 e MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007. 71ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 276 72ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 283. 38 opinião pública, como defende ter sido esta alvo do “bombardeio da propaganda” republicana, que a identificava como “a fonte legítima e única da soberania”.73 Nessas atividades de contestação política da Ordem Saquarema e da Monarquia, “corria também a deslegitimação simbólica do regime”74 e “facultou-lhes [aos intelectuais da geração de 1870] desarmar os pilares da legitimação do Segundo Reinado”.75 A propaganda republicana, também entendida como a contestação da Monarquia, foi importante para dessacralizar e abalar a legitimidade dessa mesma Monarquia. Torna-se, assim, imprescindível para entendermos sua derrocada. “As formas variadas, difusas, imprevisíveis de contestação foram decisivas no enfraquecimento do regime: roubaram aos poucos sua legitimidade”, afirma Alonso.76 Introduzir mudanças na Ordem Saquarema a partir do parlamento mais parecia trabalho de Sísifo. O arranjo institucional revelava-se impermeável a iniciativas neste sentido. A ordem imperial prezava-se de ser superior à “desordem” que lhe antecedera. Esta construção do passado recente como era “revolucionária” manteve acesos os perigos que questões centrais, como a escravidão e a federação, continham e alimentou a convicção de qualquer alteração de princípio implicaria desfazer a inércia natural do regime que a custo se estabilizara. Donde a aversão ao novo e a opção pelas vias lentas, não no sentido de alterar a essência, mas de completar a obra civilizadora do Império. Daí a prudência, a refração quase que a qualquer mudança, evitando a todo custo reformas constitucionais. E a opção pela via gradualista, ponderada — discussão nas duas câmaras e no Conselho de Estado, pareceres de eminências no assunto (…).77 Nesse quadro, as transformações pretendidas só podiam ser implementadas se tivessem um forte apoio extraparlamentar, como demonstrou o abolicionismo. Nessa busca, os republicanos promoviam a difusão de suas ideias através da imprensa, de conferências, de livros. No entanto, quase 20 anos após a publicação do Manifesto, ainda não haviam conseguido constituir e mobilizar a opinião pública para a mudança da forma de governo. A atuação dos republicanos e seus simpatizantes foi responsável por um trabalho subterrâneo, que em muito abalava a imagem da Monarquia, que destacava seus inconvenientes e suas desvantagens. Certamente, foram responsáveis por 73MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007.p. 214. 74ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 287. 75ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 293. 76ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 296. 77ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 56. 39 uma sensibilização à causa, mas não o suficiente para provocar uma mobilização pela mudança. As imagens de um imperador velho, beirando a senilidade, que vivia no mundo das estrelas, de uma herdeira fraca e de um príncipe consorte inescrupuloso devem muito ao trabalho dos defensores da República. A ironia dirigida aos republicanos, em 1888, como já mencionado, indica bem as dificuldades que enfrentavam: “Cresçam e apareçam!”78 Cidadãos de farda e Casacas A proclamação da República em 15 de novembro pode ser pensada como relacionada a dois processos paralelos: a atuação do Partido Republicano e a questão militar. A propaganda republicana era feita “por conta de alguns moços, sem ordens expressas dos chefes, sem programa estabelecido” e “livres de qualquer disciplina partidária”.79 Nesse processo, os republicanos nunca deixaram de ser plurais. Por mais que pretendessem o contrário, sempre foram um apanhado de pessoas com afinidades e diferenças. As divergências de todos os tipos (pessoais, doutrinárias, estratégicas, regionais) demonstram isso de forma exemplar. As divergências e competições, umas de caráter pessoal, outras de índole doutrinária, que separavam, pouco mais ou menos, os chefes. Da primeira espécie era a ojeriza patente entre Lopes Trovão e Silva Jardim. Da segunda, o dissídio entre este último e os outros mentores republicanos, que não lhe aceitavam as ideias favoráveis ao regime unitário e a necessidade da ditadura militar.80 As divergências internas ao partido, que se desdobravam em propostas distintas para a implantação da República, emergiram em vários momentos a pretexto de diferentes questões. A opção pela evolução e consequente recusa à revolução foi declarada por Bocaiuva e apoiada pelos ouvintes em 1881, quando da apresentação de sua candidatura na Assembleia Geral do Partido, 78O Correio do Povo reproduz, na edição de 17 novembro de 1889, p. 1, um telegrama que teria sido dirigido a João Alfredo como resposta ao comentário a ele atribuído: “Conselheiro. Crescemos e aparecemos. Viva a República!” Segundo Afonso Celso, não foi João Alfredo autor destas palavras, mas “o deputado João Penido quem lhe completou o pensamento, pronunciando em aparte o cresça e apareça.” CELSO, Afonso. Oito anos de Parlamento. Brasília, Unb, 1981. p. 109. 79MORAES, Evaristo de. Da Monarquia para a República (1870-1889). Brasília: Editora UnB, 1985. p. 121. 80MORAES, Evaristo de. Da Monarquia para a República (1870-1889). Brasília: Editora UnB, 1985. p. 121. 40 Neste ponto, diz o orador, toda a franqueza é necessária e toda a clareza pouca. Como reformador e propagandista o orador está e pretende ficar no terreno da evolução social repudiando absolutamente todo e qualquer apelo à revolução material. Se o partido republicano tem ideias e intuitos revolucionários, se está disposto a prescindir dos meios legais para utilizar em benefício da sua causa todos os meios, ainda aqueles de que possam resultar o transtorno social e a guerra civil, não posso eu ser o seu representante; tem que procurar outro. (Não apoiados.)”81 Cinco anos depois, tese contrária foi defendida pelo Clube Republicano do Pará, segundo a qual “para quebrar o trono do rei é necessário despedaçar o tronco dos algozes”, após associar o cetro ao chicote e o trono ao tronco. Afirma também o direito de insurreição e trata a inauguração da República como a “revolução vinda de baixo”.82 Em 1888, o Partido Republicano de Pernambuco defendeu que “o regímen republicano exerce-se no campo da ação prática, pela concentração das forças políticas, isto é, pela ditadura, tão forte quanto responsável, incumbida de permitir a livre expansão de progresso, garantindo a ordem social”.83 O esboço do que deveria ser o governo republicano, feito por Bocaiuva em maio de 1889, caminha no sentido oposto ao apresentado pelo partido pernambucano. No manifesto que lançou após sua eleição para o Congresso Federal Republicano, encontra- se a seguinte passagem: O regímen do governo republicano é a fórmula prática da democracia. Unitário ou federal, este regímen pressupõe o governo do povo pelo povo. A soberania nacional como a única fonte dos poderes legítimos; o sufrágio universal, como o instrumento pelo qual a vontade do povo se pode manifestar, tais são os dois fundamentos do regímen institucional republicano, cuja síntese é universalmente expressada por este glorioso lema: liberdade, igualdade, fraternidade.84 O recurso à violência e ao regicídio motivou artigos de Mendonça no qual contestava Bocaiuva. Ele [Bocaiuva] condena sem reservas o assassinato, o regicídio; nós o reprovamos nas nossas atuais condições políticas. Ele o condena, pois, 81BOCAIUVA, Quintino. Apresentação do candidato escolhido pelos eleitores republicanos. In: ______. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. II. p. 564. Ênfase no original. 82Manifesto do Clube Republicano do Pará (1886). In: PESSOA, Reynaldo C. A Idéia Republicana no Brasil, através dos documentos. São Paulo: Alfa-Omega, 1973. p. 67-83. 83Manifesto do Partido Republicano de Pernambuco – 1888. In: PESSOA, Reynaldo C. A Idéia Republicana no Brasil, através dos documentos. São Paulo: Alfa-Omega, 1973. p. 109. 84BOCAIUVA, Quintino. Ao Partido Republicano Brasileiro. In: ______. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. II. p. 620. Ênfase no original. 41 como um crime e uma infâmia, até na Rússia, até contra toda a abominável tirania do czarismo; ai, nós o reconhecemos, para os democratas russos, como um sagrado direito, tão bom direito e tão legitimo, já o dissemos, como o direito que tem o indivíduo de matar em própria defesa o agressor que o vai matar.85 A correspondência de Marinho a João Pinheiro (21 de fevereiro de 1889), na qual reclama da indisciplina, precipitação, deslealdade e equívocos de Jardim, mostra como as divergências pessoais e políticas se mesclavam.86 O relato da reunião entre republicanos no Rio de Janeiro, feito por Mendonça, em Caricaturas Instantâneas, demonstra as divergências (e rompimento) entre Bocaiuva e Silva Jardim em relação ao “partido”.87 A cisão entre os dois foi tornada pública no manifesto que Jardim publicou em 25 de maio de 1889, no qual declara: cumpro um dever de coerência, de respeito à opinião pública e à de meus correligionários, de amor à causa da República e da minha Pátria, vindo declarar que não reconheço a chefia do Partido Republicano brasileiro, ultimamente suposta conferida ao Sr. Quintino Bocaiuva, jornalista, redator de O País, e membro desse Partido, Vice-Presidente do deposto Conselho Federal, reeleito há tempos para a direção da política republicana nacional.88 A questão da forma de governo da República aparece como questão de fundo nesse manifesto. O governo defendido por Jardim, em maio de 1889, assume forma diversa daquele apresentado por Bocaiuva, senão vejamos. Temos dito que queremos “instituir a ditadura revolucionária” com o programa republicano da “ditadura prática, e da mais plena liberdade espiritual”. (...) Isto é, uma Presidência poderosa, instituída pela vontade popular, a princípio por aclamação, confirmada em seguida pelo sufrágio universal — capaz de ser Autoridade (com A grande) na qual se deposita uma cautelosa confiança, inteiramente responsável, punível, continuamente fiscalizada pela assembleia nacional, câmara financeira, e pela opinião pública, por meio de todos os seus órgãos, tornada assim o delegado representativo da Pátria, e pois governo, na combinação feliz dos dois elementos que esta palavra resume: — Poder e Povo; — programa verdadeiro e prático do Partido Republicano, que prometo em breve desenvolver.89 85MENDONÇA, Lúcio de. Comunismo e regicídio (Ao “Globo”). In: ______. A caminho (Propaganda Republicana). Rio de Janeiro: Lammert & Cia, 1905. p. 196. Ênfase no original. Este artigo foi publicado n'O Globo, no dia 6 de fevereiro de 1882. 86JARDIM, Antonio da S. Propaganda Republicana. Rio de Janeiro: Casa Rui Barbosa, 1978. p. 463-467. 87MENDONÇA, Lúcio de (Juvenal Gavarni). Uma reunião de republicanos nas vésperas da República. In: ______. Caricaturas Instantâneas [1896]. Rio de Janeiro: S. A. A Noite, s/d. p. 177-188. 88JARDIM, Antonio da Silva. Manifesto Silva Jardim ao país e ao Partido Republicano. In: ______. Propaganda Republicana. Rio de Janeiro: Casa Rui Barbosa, 1978. p. 355. 89JARDIM, Antonio da Silva. Advogados? In: ______. Propaganda Republicana. Rio de Janeiro: Casa 42 O rompimento entre Bocaiuva e Jardim se tornou público. O primeiro permaneceu no partido e segundo foi dele excluído, desfecho que sugere ser Bocaiuva uma liderança inconteste. O testemunho oferecido por Medeiros e Albuquerque, possivelmente em 1889, vai no sentido oposto: “Todos os republicanos estavam descontentes com Quintino. Ele tinha, de fato, estranhas complacências com a política dominante e chegara a defender uma candidatura não-republicana – a do banqueiro Mayrink – contra um republicano.”90 A questão da escravidão também produziu posicionamentos diferentes entre os republicanos. O Congresso do Partido Republicano Paulista (1873) diz ser a escravidão um problema social e “que não nos pertence exclusivamente”, propondo dois pontos a serem observados na sua solução: 1.º — Em respeito ao princípio da união federativa cada província realizará a reforma de acordo com os seus interesses peculiares mais ou menos lentamente, conforme a maior ou menor facilidade na substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre. 2.° — Em respeito aos direitos adquiridos e para conciliar a propriedade de fato com o princípio da liberdade, a reforma se fará tendo por base a indenização e o resgate. 91 Em Quod Cæsaris, Cæsari,92 Mendonça assume tom e “opinião radical, absolutamente, incondicionalmente infensa à infâmia social do cativeiro humano”: Repetimos – não é como republicanos que temos que ver com o momentoso problema: não é tese política se deve, ou como deve, extinguir-se a escravidão no Brasil. Como cidadãos e como escritores públicos, observando o assumpto de um ponto de vista superior a quaisquer conveniências partidárias, afigura-se-nos monstruoso o nosso estado, e entendemos que é vergonhosa toda demora em nos absolvermos desta longa e tremenda culpa.93 A falta de unidade do partido aparece como uma preocupação contínua nos diferentes textos consultados. Esta constante revela o quanto o partido estava longe da coesão, bem como a preocupação e disposição dos republicanos em reverter este Rui Barbosa, 1978. p. 362. 90ALBUQUERQUE, Medeiros de. Quando eu era vivo...– Memórias 1867 a 1934. Porto Alegre, Livraria do Globo, 1942. p. 78. 91Manifesto do Congresso do Partido Republicano Paulista (1873). In: PESSOA, Reynaldo C. A Idéia Republicana no Brasil, através dos documentos. São Paulo: Alfa-Omega, 1973. p. 63-66. 92MENDONÇA, Lúcio de. Quod Cæsaris, Cæsari. A caminho (Propaganda Republicana). Rio de Janeiro: Lammert & Cia, 1905. p. 296-298. 93MENDONÇA, Lúcio de. Quod Cæsaris, Cæsari. A caminho (Propaganda Republicana). Rio de Janeiro: Lammert & Cia, 1905. p. 296-297. 43 quadro. O melhor exemplo dessa inquietação foi a intervenção de Bocaiuva na Assembleia do Partido Republicano em 1º de julho de 1873.94 Sua longa fala gira em torno do tema da desorganização e da falta de unidade partidária. Afirma sua existência, levanta os problemas que acarreta e, por fim, propõe mudanças para a reversão da “defeituosa organização”. Para “a realização dos seus gloriosos destinos”, faz-se necessária a união de todos em um pensamento comum, esforço solidário, acordo recíproco e ação conjunta. As paixões e intuitos individuais devem desaparecer diante da razão coletiva. Obreiros do futuro e soldados de uma ideia, a nossa missão impõe-nos o dever da subordinação às leis e à disciplina indispensáveis ao movimento dos corpos morais e únicas que podem assegurar a regularidade das suas funções, assim como a harmonia das forças físicas encerra o segredo do equilíbrio do sistema planetário. A bandeira é uma só; um só deve ser o exército. Todas as forças disseminadas devem convergir para o mesmo foco de ação assim como todas as inteligências gravitam para a mesma aspiração. Disciplinar, portanto, a nossa conduta, uniformizando os nossos meios de ação, reunindo os nossos recursos esparsos, fecundando o nosso esforço pela divisão do nosso trabalho, distribuindo a nossa ação, levando a todos os pontos onde ela possa ser útil, difundindo a nossa ideia pelo aproveitamento de todas as inteligências, de todas as dedicações, tal nos parece ser o mais poderoso meio de estender e consolidar a nossa propaganda.95 Ressalta, entretanto, que a subordinação reivindicada não é a sujeição a uma vontade, mas “a adesão firme e sincera a um programa que será nossa lei”.96 Após esse preâmbulo, Bocaiuva divide sua intervenção em tópicos. No primeiro – “Da organização do partido” –, defende a união de todos os republicanos, unificando os esforços da causa comum sem prejuízo da independência. Conclui que “um partido de propaganda que não deseje ser um agitador estéril, deve considerar-se um pequeno Estado no seio do grande Estado que se propõe a transformar”.97 No segundo – “Da qualificação” –, propõe que a qualificação no partido deve ser geral, sem distinção de sexo, idade, de cor, religião ou nacionalidade. Em “Da divisão 94BOCAIUVA, Quintino. Assembléia do Partido Republicano. In: ______. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. II. p. 396- 415. 95BOCAIUVA, Quintino. Assembléia do Partido Republicano. In: ______. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. II. p. 399. 96BOCAIUVA, Quintino. Assembléia do Partido Republicano. In: ______. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. II. p. 400. 97BOCAIUVA, Quintino. Assembléia do Partido Republicano. In: ______. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. II. p. 402. 44 do trabalho”, terceiro tópico, trata da articulação das diferentes iniciativas dos membros do partido em prol da causa comum. Nesse sentido, propõe a criação de serviços de propaganda em todas as localidades, em todas as esferas sociais e de “comissões especiais que se incumbam por um plano metódico, de reunir a arregimentar todos os elementos dispersos que podem ser proveitosos à causa comum”.98 Ao tratar “Da imprensa”, defende que a “proliferação dos jornais republicanos tem sido prejudicial à nossa causa” porque pequenos jornais têm pouca influência nas localidades. A partir desta premissa, sugere que, para a propaganda, a existência de três grandes jornais (um ao norte, outro no sul e um na capital) seria melhor. Nesse tópico, o tema da disciplina partidária é retomado: “Nessas condições a disciplina, a coesão, a unidade de esforços, a uniformidade do plano estratégico, a justa distribuição das forças em obediência a um princípio de comando são essenciais e imprescindíveis.”99 Nos dois últimos tópicos – “Da caixa geral do partido” e “Do regímen da nossa propaganda” –, trata-se da questão da fonte de recursos para a propaganda do partido e da importância da propaganda por “sermos um partido de discussão e não de conspiração”. Ao longo do detalhamento das propostas que visam à organização do partido, Bocaiuva aborda o tema da propaganda. Tal como a questão anterior, diferentes textos e autores tratam do tema. O ponto que nos interessa é destacar que havia uma forte preocupação e discussão sobre a propaganda. Por mais que a falta de coesão tenha funcionado, segundo a avaliação dos próprios republicanos, como um entrave à divulgação das ideias, havia um esforço e uma valorização das atividades que visavam a dar publicidade ao partido e à sua bandeira. A justificativa, o sentido e os meios da propaganda foram afirmados nos seguintes termos: Vivendo em um país que foi constituído o patrimônio de uma família privilegiada, aonde o governo da sociedade tornou-se o monopólio das facções alternativamente favorecidas pela graça especial do soberano, aonde a soberania popular sofismada e anulada é impotente para influir na direção dos negócios públicos; aonde a política tornou-se a profissão de uma classe, cumprindo apenas ao povo obedecer às leis em que não colaborou e pagar os impostos que ele não concorreu para votar, é conveniente e indispensável despertar por todos os modos a vida pública, chamar todas as profissões sociais à comparticipação dos negócios do 98BOCAIUVA, Quintino. Assembléia do Partido Republicano. In: ______. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. II. p. 403. 99BOCAIUVA, Quintino. Assembléia do Partido Republicano. In: _____. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. II. p. 406. 45 Estado, ilustrando-as pelos cursos populares de instrução no estudo das questões sociais; interessando-as pelos debates públicos nos negócios políticos; doutrinando-as, enfim, pela imprensa.100 É interessante notar que, na justificativa acima, a descrição das condições sociais nas quais a propaganda iria ocorrer, consiste em uma avaliação republicana da monarquia. Bocaiuva fala em uma linguagem atraente para a plateia, que partilha tais premissas por ser parte do movimento republicano. É também digno de nota que a campanha não visava convencer, atrair a população pelos bons argumentos ou boas razões, mas doutriná-la. Tratemos da chamada Questão Militar, que marcou o final do Império. As crises decorrentes da insatisfação dos oficiais com os gabinetes culminaram com o conflito com o gabinete Ouro Preto. A princípio, não havia uma questão propriamente dita, mas quebra da hierarquia e insubordinação de alguns militares. Como declarou o próprio Ouro Preto a respeito do caso Benjamin Constant, tratava-se simplesmente de aplicar medidas disciplinares aos oficiais que haviam quebrado a hierarquia. Ouro Preto teria advertido Cândido de Oliveira: “devia tê-lo [Constant] preso; só assim poderia ser corrigida a falta de um oficial que se pronuncia contra seus superiores diante deles, e ainda mais de oficiais estrangeiros”.101 Tudo se reduziria a um problema legal e constitucional: os militares são subordinados ao gabinete e devem acatar suas ordens. No entanto, por incompetência de uns ou habilidade de outros, a solução legal ficou inviável quando o problema emergiu como questão política. Nesse embate, os militares, com o aporte do Positivismo, cresceram politicamente e transformaram um descontentamento de oficiais com o gabinete em um enfrentamento entre o Exército e o poder constituído. A relação entre esses dois focos de descontentamento, os republicanos e os militares, nas últimas décadas do século XIX, não correspondia a uma parceria, mas a ações independentes. No entanto, isso não impedia que o clima, a crise, a instabilidade, enfim, o arsenal de um fosse aproveitado pelo outro. De outra forma, ambos são partes integrantes da crise que assolou o Império, tanto como responsáveis quanto como evidência e efeitos da mesma. Os embates na Corte entre oficiais e ministros evidenciavam uma fragilidade política que estimulava a ação dos republicanos; as 100BOCAIUVA, Quintino. Assembléia do Partido Republicano. In: _____. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. II. p. 409. 101VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1959. p. 169. 46 críticas e as denúncias destes, além de seu trabalho de proselitismo político, podiam aparecer, por sua vez, como deixas para os oficiais descontentes. O encontro dos dois processos – campanha republicana e questão militar – se deu no final de 1889, quando os republicanos se aproximaram dos militares insatisfeitos da Corte.102 Dois depoimentos, conflitantes quanto a datas, confirmam a iniciativa dos republicanos cariocas em se aproximarem dos militares insatisfeitos com o objetivo de instaurar a República. No dia 7 de novembro, Medeiros e Albuquerque foi contatado por Aristides Lobo e incumbido de ir a São Paulo levar cartas que inteirassem os paulistas das articulações em andamento na Corte. Senhor de todos os pormenores [dos planos para o levante do dia 10], cabia-me contá-los a Glicério e Campos Sales, para que estivessem prevenidos. Um deles devia mesmo vir imediatamente para o Rio. Levava apenas cartas de Aristides e Quintino, que me acreditavam como enviado especial.103 O depoimento de Campos Sales endossa que a inciativa teve sua origem no Rio de Janeiro e que os paulistas só foram informados a dias da data marcada para a tomada do poder. No dia 6 de novembro de 1889, recebi uma carta de Aristides Lobo, entregue com todas as precauções por seu sobrinho, o ardoroso republicano Francisco J. da Silveira Lobo, na qual me dava parte do que se passava no Rio de Janeiro, das confabulações entre republicanos e algumas altas patentes do Exército, e me prevenia para que dispusesse os elementos paulistas de modo a poderem intervir com eficácia no momento oportuno, visto que, ponderava ele, o movimento revolucionário ganhava terreno e tudo indicava a proximidades da ação decisiva.104 Dois desdobramentos são possíveis a partir do exposto acima. O primeiro diz respeito à questão quem usou quem na Proclamação. O segundo, à relação que pode ser estabelecida entre o 15 de novembro e o que existia de pensamento republicano no Brasil. Parte dos críticos da República no Brasil insiste em nomear o 15 de novembro como aquartelada. A ideia que se pretende afirmar é de que a República teria sido contaminada pela forma “espúria” pela a qual originou. O visconde de Ouro Preto, 102MONTEIRO, Tobias. Pesquisas e documentos para a História. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1913. p. 199; COSELECCHI, José E. O Partido Republicano Paulista. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 33-34. 103ALBUQUERQUE, Medeiros de. Quando eu era vivo...– Memórias 1867 a 1934. Porto Alegre, Livraria do Globo, 1942. p. 79. 104SALLES, Campos. Da propaganda à Presidência. Brasília, Editora UnB, 1983. p. 26-27. 47 chefe do último gabinete e que foi destituído por Deodoro, afirmou: que não perdurará e menos fará a felicidade da pátria a república, que se levantou sobre os broqueis da soldadesca amotinada. Vem de uma origem criminosa, realizou-se por meio de um atentado sem precedentes na história e terá uma existência efêmera, se não falham os supremos princípios da moral e da justiça.105 Ao contrário da previsão, a República perdurou, assim como os juízos negativos acerca de sua origem. Em um texto de 1960, encontramos a mesma avaliação negativa. Ela [a República] veio nesse ano porque não encontrou da parte dos monarquistas a reação armada que os acontecimentos lhes indicavam e impunham. Mais uma vez, viu-se, em 15 de novembro de 1889, minoria vitoriosa pelo poder das armas impor seus desejos e pontos de vista à nação. Isto é verdade porque os republicanos chegaram ao poder através de uma revolução que não contou com o apoio popular, quer no Rio de Janeiro, quer nas demais localidades brasileiras. (...) É patente que a República só conseguiu sobreviver no País com o apoio das espadas de Deodoro e Floriano Peixoto, porque lhe faltavam raízes na formação nacional e na opinião pública brasileira (...).106 Ora, uma República que não tem suas raízes na opinião pública, que não se fundamenta na adesão popular, seria uma República que, já na sua origem, mostrar-se-ia como equívoco. Com a crítica à Proclamação, pretendia-se atingir a própria ideia e o projeto de República. Independentemente de como sejam referidos os eventos de novembro de 1889 (golpe, aquartelada, complô), isso não diz respeito à República. O 15 de novembro e a República não são a mesma coisa. Como enfatiza Carvalho, o fato de ter sido a proclamação um fenômeno militar, em boa parte desvinculado do movimento republicano civil, significa que seu estudo não pode, por si só, explicar a natureza do novo regime. (…) De outro lado, seria incorreto desprezar os acontecimentos de 15 de novembro como se fossem simples acidente.107 Identificar os dois, tanto para diminuir quanto para enaltecer a República, tratando-os como acontecimento único, parece-nos uma armadilha. O primeiro corresponde a um evento, a um episódio, já a segunda corresponde ao trabalho de difusão de uma ideia, de um projeto político, por pelo menos 20 anos. A distinção não nos autoriza, entretanto, a negar qualquer relação entre os dois, afinal, a inauguração da República no Brasil ocorreu com a Proclamação. 105OURO PRETO, Visconde de. O advento da dictadura militar no Brasil. Paris: F. Pichon, 1891. p. 104. 106JOSÉ, Oiliam. A Propaganda Republicana em Minas. Estudos Sociais e Políticos. Belo Horizonte, nº 12, FDUFMG, 1960. p. 161-162. 107CARVALHO, José Murilo de. Formação das Almas. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p. 35-36. 48 Houve, como dissemos acima, o encontro de dois focos de descontentamento com a política imperial. Um colocava em questão a própria existência da Monarquia, enquanto o outro questionava as políticas adotadas em relação ao Exército e quem deveria comandá-lo. Um contrapunha República à Monarquia, enquanto o outro, cidadãos de farda a casacas.108 A distinção e diferença entre ambos os processos, as demandas que os motivavam, bem como os sujeitos que mobilizavam podem ser percebidos nos relatos dos acontecimentos. É pertinente afirmar que os participantes dos acontecimentos do dia 15 não tinham certeza do caráter, nem do alcance destes. Não havia clareza do que haviam feito ou participado e de suas implicações. Os acontecimentos do dia 15 devem ser colocados no plural: proclamações da República e “guerra dos vivas”, enfatizando as diferentes perspectivas e projetos dos sujeitos envolvidos, como faz Carvalho.109 A incerteza se explica pelo fato de que essas definições não antecederam à mobilização, mas a seguiram. Na tarde do dia 15, os republicanos estavam apreensivos diante da ausência de “um ato positivo que proclamasse a República” e da fala de Constant sobre uma consulta à nação para que esta decidisse seus destinos. Em 1913, Monteiro apontava quatro motivos para a insegurança dos protagonistas do 15 de novembro quanto ao seu desfecho. A falta de uma declaração de Deodoro acerca da República propriamente dita; a falta de adesão à República, até o dia 16, do Comandante de Armas da Bahia; as dúvidas sobre o posicionamento da Marinha; e, por fim, o fato de o navio que transportava a família real ainda não ter arreado a bandeira imperial.110 Os republicanos, receando pelo pior, procuraram influenciar Deodoro “a abalar em favor da República a sua sensibilidade de emotivo”. Foi esta iniciativa que, segundo Vianna, garantiu a República: “Sem este grupo de entusiastas e dedicados, tudo parece indicar que a república seria, a 15 de novembro, uma tentativa abortícia, com uma duração momentânea, de relâmpago (...).”111 Duas outras iniciativas tomadas ainda no dia 15 podem ser consideradas como evidências das dúvidas que pairavam no ar, bem como tentativas de consumar a queda da Monarquia. No Rio de Janeiro, 108VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1959. 109CARVALHO, José Murilo de. Formação das Almas. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p. 36. 110MONTEIRO, Tobias. Pesquisas e documentos para a História. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1913. p. 210-211. 111VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1959. p.180. 49 (...) o povo reunido em massa na câmara municipal fez proclamar, na forma da lei vigente, (...) o Governo Republicano. Convencidos de que os representantes das classes militares que virtualmente exercitam as funções de governo no Brasil, sancionarão este ato, esperam os abaixo-assinados a pronta e imediata proclamação da República.112 Em São Paulo, a Comissão Central do Partido reuniu-se no escritório de Campos Sales e Bernardino de Campos e, segundo nota do Correio Paulistano (15 nov. 1895), “deliberou desde logo prestigiar o movimento do Rio, proclamando aqui a forma de governo”.113 O relato de Lobo de que “o povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava” e que “muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada” deve, então, ser tomado com precaução. Talvez devamos entender por “povo” não só a “arraia-miúda”, mas o conjunto da população que não estava diretamente envolvido nas articulações ou conspiração. Coselecchi afirma que, “para São Paulo, mais do que para o Rio de Janeiro, vale a assertiva de Aristides Lobo”.114 Figuras proeminentes do movimento republicano, como Silva Jardim, Antonio Olinto e João Pinheiro, também devem ter ficado “bestializados” com a notícia da Proclamação. “Ignorávamos em Ouro Preto tudo que se tramava no Rio”, relatou Olinto,115 surpreendido com o telegrama que recebeu quando se preparava para jantar. Jardim só soube do que estava ocorrendo por intermédio de seu vizinho, que voltava da cidade na manhã do dia 15. Por causa de suas divergências com Bocaiuva, ele não fora informado dos planos nem das articulações entre republicanos e militares.116 Alguns jornais, em suas edições nos dias seguintes ao 15 de novembro, não fazem referências aos eventos do Campo de Santana como a Proclamação. O Tymbira não faz qualquer alusão à Proclamação nas edições entre o final de 1889 e o início de 1890. A primeira referência à Proclamação só apareceu na edição de 15 de maio de 1890. A leitura destas edições por um leitor desavisado não o levaria a concluir que a Monarquia fora derrubada. A Nação, na edição dos dias 15 e 16 de novembro, noticia os 112PORTO, Manoel E. C. Apontamentos para a História da República. [1890] São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 75. 113COSELECCHI, José E. O Partido Republicano Paulista. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 58. 114COSELECCHI, José E. O Partido Republicano Paulista. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 34. 115Apud JOSÉ, Oiliam. A Propaganda Republicana em Minas. Estudos Sociais e Políticos. Belo Horizonte, nº 12, FDUFMG, 1960. p. 140. 116MONTEIRO, Tobias. Pesquisas e documentos para a História. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1913. p. 209-210. 50 eventos não em termos de mudança de forma de governo, mas em “deposição de ministros pelo exército” e da “situação extremamente difícil”. O Correio do Povo não tem edição no dia 15 de novembro, mas na do dia 16 traz a Proclamação e os primeiros decretos do governo Provisório. O juízo de Lobo não pode ser usado, então, como argumento contra os republicanos e a República, pois muitos dos que assistiram, acompanharam e participaram dos eventos daquela manhã não tinham certeza de estar promovendo ou assistindo à queda da Casa de Bragança. Insistimos: esta definição só foi feita nas horas seguintes, conforme os relatos da época. O 15 de novembro — Proclamação, golpe, aquartelada ou desfile — não se presta, portanto, como alegoria ou metáfora para a República ou para o grau de adesão popular à sua causa, seja enaltecendo-a ou denegrindo-a. A fragilidade organizacional dos republicanos colocara-os como reféns dos militares na Proclamação, que teria sido levada a cabo pelos homens de farda e não pelos republicanos históricos – de atuação secundária. Reforça este argumento o fato de terem sido militares os primeiros presidentes, constituindo a chamada República da Espada. Os militares, no embate que travavam com o Gabinete Ouro Preto, teriam se utilizado dos republicanos para alcançar o poder, ao acenar com a possibilidade de mudança da forma de governo. Nesta linha de raciocínio, para os republicanos, o 15 de novembro teria sido uma falsa vitória. O apoio do Exército teria custado a direção da iniciativa. Os militares implantaram a República, conforme a entendiam. Se, na perspectiva da década seguinte à Proclamação, a descrição acima procede, o mesmo não pode ser dito para as fases posteriores. Apesar da instabilidade e turbulência inicial, os republicanos, já na passagem do século, assumiram o comando da República e lhe deram o formato institucional possível dentro do que pretendiam. O caos, as indefinições, as idas e vindas que marcaram a República até Campos Sales, foram substituídos por um arranjo político capaz de fortalecer a presidência em uma federação.117 A descentralização como apresentada no Manifesto Republicano foi substituída pela Política dos Governadores, mas a federação permaneceu. Se o balanço final é favorável aos republicanos, pois conseguiram recuperar o 117JANOTTI, Maria de Lourdes M. Os Subversivos da República. São Paulo: Brasiliense, 1986. QUEIROZ, Suely R. R. de. OS Radicais da República. São Paulo: Brasiliense, 1986; LESSA, Renato. A Invenção Republicana – Campos Sales, as bases e a decadência da Primeira República Brasileira. Rio de Janeiro: Vértice/IUPERJ, 1988. 51 comando político que os militares haviam monopolizado, a questão de quem foi usado por quem pode ser recolocada. Talvez devêssemos pensar que foram os republicanos que se aproveitaram do descontentamento militar. Nesse caso, aquilo que era a princípio uma disputa de poder interna à Monarquia foi transformado em ação política antimonárquica. O descontentamento de lideranças militares com o status político que lhes era atribuído e/ou com o tratamento que vinham recebendo de alguns ministérios assumiu cores de oposição política e desfecho de contestação dinástica. E mais: ao agirem assim, os republicanos estavam compensando a ausência de uma mobilização popular em prol da mudança da forma de governo. Assim, o recurso ao (ou manipulação do) Exército pode ser compreendido como estratagema. O 15 de novembro e a não participação popular A ausência de participação popular na derrubada da Monarquia tem sido apontada como indício da apatia da população. Com base no depoimento de Lobo, duas noções têm sido reafirmadas: que o povo brasileiro não se interessava pela política e/ou que a bandeira republicana não o sensibilizou. Daí a Proclamação ter sido feita através de um golpe militar, que mais parecia uma aquartelada e/ou um desfile, com o povo bestializado assistindo àquela encenação, expressão grandemente difundida na historiografia. O ato inaugural da República já conteria, assim, toda a fragilidade que veio a se manifestar nos anos seguintes. Uma res publica sem povo. Esta pode ser considerada a questão de fundo de análises como as de Vianna,118 na qual a inexistência do povo torna imperiosa a sua criação por uma elite dirigente. A tese da apatia, do desinteresse popular pela política e seus temas, de certo apolitismo do povo brasileiro, da falta de sentimento coletivo, foi uma caracterização do Brasil pela negativa questionada por Carvalho, em Os Bestializados.119 No lugar de procurar o povo no 15 de novembro, Carvalho o busca em um acontecimento próximo, a Revolta da Vacina. A eclosão dessa revolta não confirma a tese da falta de interesse pelas questões da política, pelo coletivo, pelo contrário, indica claramente que a participação popular ocorria quando seus valores e práticas eram ameaçados. De outra forma, a ausência de participação indicada até então estaria sendo baseada não nos valores de uma população, mas naquilo que a teoria, a historiografia ou as lideranças 118VIANNA, Oliveira. Problemas de organização e problemas de direção. Rio de Janeiro: Record, 1974. 119CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Cia das Letras, 1987. 52 consideravam como o comportamento válido. O foco estava no lugar errado e a conclusão era, em decorrência, viciada. Como afirma o autor, o que tínhamos não eram bestializados, mas bilontras. A segunda noção decorrente da observação de Lobo, a de que a causa republicana não tinha adesão popular, aparentemente, é incontestável. No entanto, acreditamos que deva ser relativizada. A falta de adesão explícita através de atos e ações concretas no 15 de novembro não pode ser traduzida como indiferença à causa republicana. A participação no evento, no episódio, nos acontecimentos deste dia, não deve ser extrapolada e tomada como indicador do grau de adesão à República. A performance do dia 15 não corresponde ao ápice de um plano montado pelos republicanos. Como dito anteriormente, esses souberam usar um descontentamento militar com o gabinete, transformando-o em algo maior, o fim da Monarquia. Se a atuação nesse dia fosse inequívoco indicador de uma adesão total e visceral às propostas republicanas, as dúvidas dos protagonistas sobre o alcance e o sentido do que haviam promovido naquela manhã não teriam ocorrido. No entanto, os relatos indicam o contrário. Ora, sendo assim, é mais do que compreensível que, para a população, aquilo tenha parecido uma parada militar – porque isto é o que de fato foi. De outra forma, só na noite do dia 15 é que aquela manifestação militar foi elevada à condição de Proclamação da República. A falta de ação ou de um papel mais ativo no evento específico não permite tirar conclusões para além do seu significado concreto: a participação em um evento. A adesão ou não à bandeira republicana deve ser procurada em outros locais e acontecimentos. Para além dessas considerações, é fundamental não perder de vista a dinâmica da política no Império. O jogo político era mais próximo a uma situação hobbesiana, em que a vontade do mais forte prevalecia pelo uso da força e da intimidação. Não havia um cenário público em que as divergências fossem debatidas e explicitadas, no qual as contendas fossem resolvidas pelo convencimento ou pela astúcia. Os embates e discordâncias entre iguais no Parlamento eram suplantados e sufocados por um poder extraparlamento, extra-ágora: o quarto poder, o Poder Moderador. Sendo assim, essa dinâmica não cria ou reforça uma noção de território público como integrante da política. Pelo contrário, a política aparece como a prevalência momentânea da vontade individual e particular do Imperador, denominada 53 “poder pessoal”. Nomeá-la dessa forma reduzia o Imperador, “chefe supremo da nação e seu primeiro representante”,120 a um indivíduo que exercia o poder arbitrariamente, a um tirano. O problema não está, parece-nos, no fato de uma vontade se impor sobre as demais, mas na forma como isto se dava. Insistimos, não decorria do convencimento ou da astúcia, mas da força, da simples imposição, da coação, da intimidação. A vontade última a prevalecer era a do Imperador, que tinha a prerrogativa de nomear e destituir gabinetes. O Poder Moderador representava a ultima ratio do Imperador. A política aparecia como a vontade imperial e não como o acordo/desacordo das individualidades, grupos, organizações que constituíam a sociedade. As regras políticas ficavam sempre à mercê dessa vontade. A insatisfação com essa preponderância, entendida como a negação da política, é uma das ideias centrais do Manifesto Republicano:121 As condições da luta política hão variado completamente de certo tempo a esta parte. Já não são mais os partidos que pleiteiam, no terreno constitucional, as suas ideias e os seus sistemas. São todos os partidos que se sentem anulados, reduzidos a impotência e expostos ao desdém da opinião pela influência permanente de um princípio corruptor e hostil à liberdade e ao progresso de nossa pátria.122 Em sentido oposto, os novos liberais na década de 1880 buscam contornar os obstáculos constitutivos da Ordem Saquarema e do poder pessoal de Pedro II, isto é, do Poder Moderador. Invertendo a lógica das críticas liberal e republicana, esse poder “deixava de se apresentar como a raiz de todos os males, para se tornar o caminho da reforma”.123 Enquanto uns pretendiam acabar com o poder pessoal do monarca, outros queriam usá-lo como caminho das mudanças, oposição que esconde a concordância básica: a vontade do monarca sempre se impunha. É claro que o monarca não dispensava o apoio dos políticos e das lideranças. Podemos dizer que, de certa forma, ele dependia desse apoio. No Império, para ocupar cargos ou ter suas propostas implementadas como políticas de governo, era mais eficiente gozar da intimidade da família imperial do que atuar no Parlamento ou na praça pública. O efeito disso é que décadas de tal prática impediram que a política fosse 120BRAZIL. Constituição Política do Império do Brazil (de 15 de março de 1824). art. 98. 121Manifesto Republicano (1870). PESSOA, Reynaldo C. In: _____. A Idéia Republicana no Brasil, através dos documentos. São Paulo: Alfa-Omega, 1973. p. 36-62. 122Manifesto Republicano (1870). PESSOA, Reynaldo C. In: _____. A Idéia Republicana no Brasil, através dos documentos. São Paulo: Alfa-Omega, 1973. p. 41. 123ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 119. 54 percebida como o espaço do coletivo, do público propriamente dito, identificando-a com a vontade privada e particular dos poderosos. Se, nas monarquias constitucionais, a coroa representa a continuidade do Estado e os gabinetes a perenidade dos governos, no Brasil, à medida em que os gabinetes eram nomeados e destituídos pelo monarca, essa representação ficou comprometida. E mais, a dissociação entre governo (gabinetes ministeriais) e coroa tendeu a desaparecer, uma vez que o Poder Moderador destituía e instituía governos à sua vontade. O elemento que deveria representar a estabilidade capaz de sobreviver às crises e constantes trocas governamentais, bem como garantir a permanência a despeito das transformações sociais e oscilações políticas — a Coroa —, interferia de tal forma no jogo político que passou a ser o próprio foco da instabilidade. O Imperador, ao fazer política, atuou mais como um partido do que como coroa. O problema é que, ao agir assim, despia a mística do corpo do rei como coletivo e imortal, prevalecendo somente o rei como mortal e individual. Atuava na prática como mais um “grupo” que buscava se impor aos demais, estando sujeito, portanto, aos ataques próprios dos conflitos e disputas da política partidária. Em resumo, perdia as prerrogativas de monarca e se tornava partidário sem abrir mão da coroa e se tornar um partido, ou seja, perdia as garantias da casa real sem adquirir a elasticidade e o pragmatismo próprios dos partidos. Dadas as características da política imperial, a supremacia de uma vontade particular — a do Imperador — sobre as demais, a população não só não participava como poderia entender que este jogo não lhe dizia respeito. Por mais que estivesse sujeita aos efeitos da política, das trocas de gabinetes, sua exclusão sistemática fazia com que atuasse como espectadora. Como definia a Constituição de 1824, eram cidadãos mas não eleitores, nem elegíveis. “Cidadãos”, mas passivos, em nome de quem se fala. Os privilégios da fala e da ação políticas institucionais eram restritos aos que acresciam à condição de cidadãos valores de bens de raiz. Ao longo de décadas da política imperial, a Ordem Saquarema teve como pressuposto a exclusão dessa população e, como efeito, o seu afastamento. É digno de nota que a população só participava da política imperial sob a forma de assalto, isto é, revolta. Não havia formas nem canais institucionais para a participação dos pobres. Não havia capilaridade entre o mundo da política e o mundo da rua. Poderíamos afirmar mais: dentre as prerrogativas da elite no Império, estava incluída a possibilidade de participar da política, fazendo 55 com que a ordem social e a política se sobrepusessem. Ora, sendo assim, é mais do que razoável que essa população ao assistir o 15 de novembro tenha (não) atuado como sempre o fez nas trocas de gabinetes: observando e esperando. A “apatia” da população, normalmente tida como falta de adesão à República, pode ser vista também como falta de apoio ao Império. Nunca é demais afirmar: assistiram bestializados não só à Proclamação da República mas também à derrubada da Monarquia. Nesse sentido, podemos afirmar que, se não houve adesão à República, também não houve defesa da Monarquia. Uma mudança social na qual a população atuou de forma mais incisiva e significativa talvez tenha sido quando da Abolição da escravidão. Pelo menos, é o que podemos inferir pelos festejos que marcaram a semana de 13 a 20 de maio de 1888.124 A estratégia dos abolicionistas, que buscaram ultrapassar os limites da política institucional, certamente muito contribuiu para isto.125 Por outro lado, não podemos desconsiderar que a questão da escravidão era muito próxima da população e possuía visibilidade e concretude para qualquer habitante do Império. Diferente, portanto, das trocas de gabinete, que apareciam como uma questão distante, que só indiretamente chegaria ao homem comum. Ainda mais porque essas trocas não se traduziam em mudanças significativas, eram mais troca dos grupos no poder do que de orientação de governo. “Se há muito riso quando um partido sobe, também há muita lágrima do outro que desce, e do riso e da lágrima se faz o primeiro dia da situação, com no Gênese”, resume Machado de Assis.126 Os partidos, uma vez no poder, atuavam de forma mais semelhante do que os discursos inflamados faziam crer. De tal semelhança entre partidos, há vários registros. Em 1876, na crônica “Tipos Políticos”, publicada em O Globo, Gibon afirmava que o Partido liberal era “demagogo e quase socialista na oposição, partido regular em nome e áulico no poder.” Em Esaú e Jacó, Batista lembra que o “visconde de Albuquerque ou de outro senador que dizia em discurso não haver nada mais parecido com um conservador que um liberal, e vice-versa”.127 Intérpretes do Império confirmaram este juízo. Vianna identifica aí a inconsistência dos partidos, meros “agregados de clãs 124MIRANDA, J. A. et al. Maio de 1888 — Poesias distribuídas ao povo, no Rio de Janeiro, em Comemoração à Lei de maio de 1888. Rio de Janeiro: ABL, 1999. 125ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 117-118. 126ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. [1908] Cap. XLVII. 127ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. [1908] São Paulo: Nova Cultural, 2003. Cap. XLVII. 56 organizados para a exploração em comum das vantagens do Poder”.128 Mattos a atribui ao fato de os saquaremas exercerem uma direção e uma hierarquia em relação aos luzias.129 Independentemente das razões, havia, ao que tudo indica, enorme semelhança entre os partidos, o que nos leva a crer que as mudanças de gabinete na Corte não se faziam sentir no cotidiano das camadas populares ou pobres livres. O abolicionismo, por seu turno, tratava de uma questão mais concreta e próxima da população. Algo que era vivido por ela no seu dia-a-dia, que era constitutivo de sua experiência existencial. Já o republicanismo discutia abstrações da política que, na dinâmica imperial, não envolviam as pessoas comuns. Não faziam parte de seu cotidiano, apareciam como um mundo à parte, um jogo reservado aos machos ricos e brancos. A propaganda republicana tinha, portanto, que traduzir para a linguagem e experiências cotidianas do homem comum os temas da política e da República. Essa situação pode explicar a passividade popular quando da derrubada do Império, que, talvez para essa população, não lhe dissesse respeito, estando mais próximo a uma troca de gabinete, que o discurso republicano queria admitir. Em todo caso, o que nos parece relevante é buscar identificar como as ideias de República e de Monarquia estavam sendo apresentadas e requalificadas junto à população através da campanha republicana. Uma política da escrita130 Para que nossa proposta possa ser levada a cabo, faz-se necessário um aporte teórico que trate dos efeitos dos discursos no mundo social, das variáveis que produzem sua credibilidade e seu reconhecimento, bem como do uso da literatura como fonte em uma análise histórica. A discussão presente nas próximas páginas, baseada principalmente em Jacques Rancière, Pierre Bourdieu e Wolfgang Iser, pretende construir uma base teórica que permita subsidiar a análise desses poemas na perspectiva da problemática indicada anteriormente. Em A Economia das Trocas Lingüísticas, Bourdieu131 discute a representação como variável cons/instituinte do social. Suas proposições nos parecem de grande relevância para o trabalho que pretendemos fazer. 128VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: ABL, 2006. p. 16. 129MATTOS, Ilmar R. de. O Tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec, 1987. p. 129-133. 130Este subtítulo é uma adaptação do título do livro de Jacques Rancière (Políticas da escrita. São Paulo: Editora 34, 1995). 131BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 81-125. 57 Ao longo desta tese, o conceito de representação será tratado conforme definição de Bourdieu, explicitada quando problematiza a busca de critérios “objetivos” da identidade “regional” ou “étnica”. Defende o autor que, na prática social, tais critérios constituem objeto de representações mentais – vale dizer, de atos de percepção e de apreciação, de conhecimento e reconhecimento, em que os agentes investem seus interesses e pressupostos – e de representações objetais, coisas (emblemas, bandeiras, insígnias, etc.) ou atos, estratégias interessadas de manipulação simbólica tendentes a determinar a representação (mental) que os outros podem construir a respeito tanto dessas propriedades como de seus portadores.132 Na construção do mundo social, as palavras adquirem poder estruturante (“sua capacidade de prescrever sob a aparência de descrever, ou então, de denunciar sobre a aparência de enunciar” – nos termos do sociólogo). A linguagem e os esquemas de percepção e de pensamento por elas propiciados tornam-se poder instituinte. Este poder ou dimensão do discurso não se encontra no universo linguístico stricto sensu, mas na sociedade em que está inserido. O poder das palavras é um poder delegado. Elas tornam-se poderosas, capazes de orientar e informar a percepção da realidade, por tornarem-se falas autorizadas e serem reconhecidas como tais pelos ouvintes.133 Assim, um discurso de contestação política é também uma contestação cognitiva. As ações somente são possíveis se houver uma visão de mundo que as vislumbre como críveis, possíveis, legítimas ou necessárias. Sendo assim, pretendemos fugir de uma concepção que põe a objetividade de um lado e a subjetividade de outro. Entendemos que as formas de perceber o mundo social têm um efeito definidor do mesmo. Precisamos incorporar na análise do social os efeitos da teoria na própria constituição dessa dinâmica. Denúncia e enunciado, prescrição e descrição confundem- se nas falas. Na instituição de uma nova percepção do social, apresentada como fundamentada na razão e/ou em valores mais aceitáveis, as novas representações exibem, como enunciados e descrições, o que pode ser percebido como denúncias e 132BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 107-108. A mesma ideia foi explicitada em “Identidade e a representação – Elementos para uma reflexão crítica sobre a ideia de região”. In:_____. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand-Brasil, 1989. p. 112. 133“(...) A autoridade que se reveste a linguagem vem de fora, com bem o demonstra concretamente o cetro (skeptron) que se oferece ao orador que vai tomar a palavra na obra de Homero”. BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 87. 58 prescrições. Isto é, escondem-se, em uma suposta objetividade racional falas que são subjetivas e valorativas, como comenta Bourdieu. Desse modo, o poder instituinte dos poemas, que supomos existir, deve ser procurado na sociedade, no cetro, buscando-se a identificação da dinâmica que os autorizava. Isto não significa que serão tratados como secundários. Nosso interesse é articular uma produção discursiva que, por sua vez, instituía uma representação (e destituía outra), entendida como contestação política e cognitiva. Ao mesmo tempo, buscaremos destacar as forças/atores sociais que tornavam essa fala autorizada, legítima e reconhecida por aqueles a quem era dirigida. A questão não é se a liberdade – um dos temas recorrentes nos poemas – é ou não um valor, mas como deve ser entendida e a quem se aplicaria. Mais do que difundir ideias, os poemas davam concretude, forneciam as balizas para compreensão de valores abstratos. A palavra, o ato de nomear, transforma o mundo exterior, material e objetivo, ao dotá-lo de significado (valor, utilidade). Se isto é verdadeiro para o mundo das “coisas”, dos objetos inanimados que nos cercam, é ainda mais para o universo das práticas sociais. As representações podem contribuir para produzir o que aparentemente descrevem.134 A ação política tem como objetivo produzir e impor representações (...) do mundo social capazes de agir sobre esse mundo, agindo sobre as representações dos agentes a seu respeito. Ou melhor, tal ação visa fazer ou desfazer os grupos (...) produzindo, reproduzindo ou destruindo as representações que tornam visíveis esses grupos perante eles mesmo e perante os demais.135 Decorre disto que a subversão política é também uma subversão cognitiva, ou seja, visa destituir uma visão de mundo, substituindo-a por outra, pretendendo, assim, romper com a ordem e produzir um novo senso comum. Os poemas revelam a existência de outras falas, juízos e opiniões acerca da República como proposição política para a organização da sociedade brasileira. Os poemas e seus autores agiam como comentários e comentaristas sociais, problematizando, denunciando, criticando e registrando comportamentos, episódios, acontecimentos, proposições e práticas da vida em sociedade através dos jornais. Assim, eram responsáveis pela circulação de temas e ideias no espaço coletivo, conformando 134BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 107. 135BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 117. 59 um espaço público no qual esses temas circulavam, influenciando uma opinião pública e constituindo representações acerca do bom e do mau governo, do justo e do injusto. O texto literário fornece uma sugestão de inteligibilidade, de ordenamento e desvendamento do mundo. Ele estabelece relações, desde hierárquicas até causais, entre as várias manifestações do/no mundo. “Não consideramos o texto aqui como um documento sobre algo que existe – seja qual for a sua forma –, mas sim como uma reformulação de uma realidade já formulada”.136 A “página em branco” na atividade da escritura, segundo Michel de Certeau, constitui um espaço “próprio” [que] circunscreve um lugar de produção para o sujeito. Trata-se de um lugar desenfeitiçado das ambigüidades do mundo. Estabelece o afastamento e a distância de um sujeito em relação a uma área de atividades. Oferece-se a uma operação parcial, mas controlável. Efetua-se um corte no cosmos tradicional, onde o sujeito era possuído pelas vozes do mundo. Coloca-se uma superfície autônoma sob o olhar do sujeito que assim dá a si mesmo o campo de um fazer próprio.137 A literatura transforma o turbilhão de acontecimentos, aparentemente aleatórios, o caos que marca a vida das pessoas, em algo dotado de sentido(s). Ao oferecer uma perspectiva ampla, a literatura permite ao sujeito enxergar de fora o mundo em que se encontra imerso. Esse entendimento do literário não nos leva a vê-lo como análise do real. Uma análise pretende ser uma explicação objetiva baseada em evidências do real, já a literatura, não. Entretanto, não podemos desconsiderá-la como forma de produzir uma inteligibilidade sobre o suposto real. Mesmo não sendo consensual entre os teóricos do literário, a defesa da literatura como produtora do real, como construtora da “realidade”, é um entendimento plausível e defensável. Em O Demônio da Teoria, Antoine Compagnon faz um exaustivo levantamento sobre diferentes proposições acerca das “relações entre a literatura e realidade”, ou seja, da mimèsis.138 Interessa-nos destacar, nesse longo apanhado, a legitimidade de entender a mimèsis como (…) conhecimento, e não como cópia ou réplica idênticas: designa um conhecimento próprio ao homem, a maneira pela qual ele constrói, habita o mundo. Reavaliar a mimèsis, apesar do opróbrio que a teoria literária 136ISER, Wolfgang. O ato da leitura – Uma teoria do efeito estético. São Paulo: Edit. 34, 1996. v. 1, p. 16. 137CERTEAU, Michel de. Usos da língua. In: _____. A Invenção do Cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 225. 138COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria – Literatura e senso comum. Belo Horizonte: Edit. UFMG, 2001. Espec. Cap. III, O mundo. 60 lançou sobre ela, exige primeiro que se acentue seu compromisso com o conhecimento, e daí com o mundo e a realidade.139 Após uma breve discussão sobre as proposições de Paul Ricoeur, Northrop Frye, Terence Crave e Carlo Ginzburg, afirma o estudioso francês que a mimèsis “(…) constitui uma forma especial de conhecimento do mundo humano, segundo uma análise da narrativa muito diferente da sintaxe que os adversários da mimèsis procuravam elaborar, e que inclui o tempo do reconhecimento.”140 O jogo mimético constitui um dizer sobre o mundo, descolando deste as ambiguidades que turvam a compreensão daquele que está sujeito aos seus impactos e que busca compreendê-lo, ainda que crie novas ambiguidades, próprias do texto literário. Uma análise supõe uma separação, decomposição de um problema em “n” partes. Estas, reduzidas à menor dimensão possível, são examinadas separadamente para serem posteriormente reunidas na síntese ou solução. Além da decomposição, a análise sugere a fundamentação em evidências objetivas e/ou empíricas todas devidamente demonstradas e citadas. A criação literária, não sendo arbitrária (ninguém escreve a partir do nada), não autoriza a estabelecer, entretanto, uma relação direta e linear entre o mundo objetivo e tal criação. A escrita da literatura está marcada pela subjetividade do autor e pode ser entendida como apropriação simbólica do mundo. O conhecimento do mundo é feito por um sujeito concreto, marcado por uma cultura e por valores, que atribui significados àquilo que vê, que observa. Não constitui um receptor passivo diante de uma janela, mas um sujeito que filtra, hierarquiza, valoriza, despreza, ignora, relaciona, resgata, supõe, complementa e, principalmente, imagina e ficcionaliza. Caso contrário, só veria o caos, uma imensa quantidade de eventos aleatórios desfilando diante de si. Além disso, não nos esqueçamos da importância do estilo ou da forma do texto na literatura. Os textos literários seguem, muitas vezes, preceitos estéticos e retóricos, cuja justificativa não se encerra na transitividade. Tais composições não se limitam à eficácia da comunicação, como um texto acadêmico ou administrativo. Elas jogam com palavras, figuras de linguagem, sons, citações que pretendem produzir um efeito no 139COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria – Literatura e senso comum. Belo Horizonte: Edit. UFMG, 2001. p. 127. 140COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria – Literatura e senso comum. Belo Horizonte: Edit. UFMG, 2001. p. 133. 61 leitor. Espera-se desses textos um trabalho linguístico, um jogo linguageiro ou espessura de linguagem, não cobrados dos escritos que não se pretendem literatura. Em “La ficionalización: dimensión antropológica de las ficciones literarias”, Wolfgang Iser se propõe a tratar “la ficcionalización como medio de realizar lo posible”.141 Assim, as ficções são entendidas não como o irreal, nem como o oposto da realidade, mas como “condiciones que hacen posible la produción de mundos, de cuya realidad, a su vez, no puede dudarse.”142 O argumento do teórico alemão sobre a ficcionalização nos parece extremamente útil, uma vez que não a restringe à literatura. Assim, a ficção é tratada como indissociável da própria compreensão do mundo, ao “quê” de imaginação que fornece sentido e empresta lógica a este próprio mundo. Afirma que (…) no podemos hablar de ficción como tal, porque ésta sólo puede describirse en virtud de sus funciones, es decir, de las manifestaciones de su uso y los productos que resultan de ello. Esto es evidente incluso a primeira vista: en epistemología encontramos ficciones a modo de presuposiciones; en la ciencia son hipótesis; las ficciones proporcionan la base de las imágenes de mundo y los supuestos por los que guiamos nuestras acciones son también ficciones. En todos estos casos, la ficción desempeña una tarea distinta: desde posturas epistemológicas es una premisa; en las hipótesis, es una prueba; en las imágenes de mundo, es un dogma cuya naturaleza ficcional debe quedar oculta, si se quiere evitar que la base se vea afectada; y en nuestras acciones diarias, es una antecipación.143 O autor, ao longo do texto, estabelece o próprio e específico da ficção literária. Para nossa discussão, interessa também a afirmação das ficções não literárias, ditas do mundo ordinário, suposições, hipóteses e pressupostos.144 Com base nas considerações acima, criam-se condições para responder à seguinte indagação: de que modo tratar os poemas como fontes na análise histórica? É 141ISER, Wolfgang. La ficionalización: dimensión antropológica de las ficciones literárias. In: DOMINGUEZ, Antonio Garrido (Comp.). Teorias de la ficcion literaria. Madrid: Arco/Libros, 1997. p. 44. 142ISER, Wolfgang. La ficionalización: dimensión antropológica de las ficciones literárias. In: DOMINGUEZ, Antonio Garrido (Comp.). Teorias de la ficcion literaria. Madrid: Arco/Libros, 1997. p. 45. 143ISER, Wolfgang. La ficionalización: dimensión antropológica de las ficciones literárias. In: DOMINGUEZ, Antonio Garrido (Comp.). Teorias de la ficcion literaria. Madrid: Arco/Libros, 1997. p. 46. 144ISER, Wolfgang. La ficionalización: dimensión antropológica de las ficciones literárias. In: DOMINGUEZ, Antonio Garrido (Comp.). Teorias de la ficcion literaria. Madrid: Arco/Libros, 1997. p. 62. 62 esta uma questão chave da qual depende o andamento da nossa pesquisa sobre a campanha republicana. A relação entre poesia e história perpassa diferentes e longas tradições, que precisam ser referidas. Uma delas145 é a que tomava história e poesia como gêneros discursivos distintos, definidos a partir do que cada um deles trataria. A história abordaria o acontecido e a poesia, o verossímil, os possíveis. Segundo o que foi dito se apreende que o poeta conta, em sua obra, não o que aconteceu e sim as coisas quais poderiam vir a acontecer, e que sejam possíveis tanto da perspectiva da verossimilhança como da necessidade. O historiador e o poeta não se distinguem por escrever em verso ou prosa; caso as obras de Heródoto fossem postas em metros, não deixaria de ser história; a diferença é que um relata os acontecimentos que de fato sucederam, enquanto o outro fala das coisas que poderiam suceder.146 Uma outra tradição excluía a poesia da política, especificamente da politeia, por considerá-la perigosa e portadora de fabulações que poderiam tolher a virtude dos guerreiros. No livro III, as críticas de Platão à poesia aparecem como uma censura, em função dos efeitos perniciosos que causaria nos combatentes e nos cidadãos, levando-os a temer mais a morte que a escravidão. Rogaremos a Homero e outros poetas não nos levem a mal que eliminemos estas passagens e as outras semelhantes. Não que lhes falte poesia ou sejam desagradáveis aos ouvidos das gentes: porém, quanto mais belas, mas perigosas de ouvir em qualquer idade pelos que, destinados a ser livres, devem temer mais a escravidão que a própria morte. (…) Assim também devemos proscrever os nomes odiosos e terríveis de Cocito, Estígio, manes, infernos e outros semelhantes, que dão arrepios aos que os ouvem. É possível que sejam úteis de outro ponto de vista: é de temer, porém, que, pelo horror que inspiram, entibiem e quebrantem o ânimo de nossos guerreiros.147 Já no livro X, a restrição à poesia leva à recusa de sua “entrada em um Estado que se deve governar por leis sábias”148 e, por conseguinte, à justificação da seguinte decisão: “tivemos razão de desterrá-la, de vez, de nossa república”.149 Na obra platônica, na continuidade do diálogo com Glauco, Sócrates declara: “Estamos, pois, persuadidos 145Aqui não inseridas a partir de uma ordem cronológica. 146ARISTÓTELES. Poética. Aristóteles. São Paulo: Nova Cultural, 2000. (Os pensadores). p. 47. 147PLATÃO. A República. Bauru, SP: EDIPRO, 2001. p. 92. 148PLATÃO. A República. Bauru, SP: EDIPRO, 2001. p. 399. 149PLATÃO. A República. Bauru, SP: EDIPRO, 2001. p. 402. 63 de que esta espécie de poesia [imitativa, lírica ou épica] é indigna de nossos cidadãos e que nada tem de sério nem de chegado à verdade (…).”150 Uma terceira tradição considerava a poesia (e a literatura) por demais subjetiva e imaginativa para ser usada como fonte histórica, já que tratava mais da visão do autor do que do “mundo”. Disto resultou que a poesia (e a literatura em geral) foi excluída do rol das fontes históricas pelas correntes historiográficas que, no século XIX, pretenderam dar cientificidade aos estudos históricos. Assim, a palavra “literatura” sofre um deslizamento de sentido no século XIX que marca a “passagem de saber para uma arte”.151 Sobre esta mudança, Rancière afirma que “no século XIX, essa palavra literatura, que designava um saber, passará a designar seu objeto. A literatura se torna propriamente a atividade daquele que escreve.”152 O deslizamento apontado por Rancière pode ser relacionado ao surgimento da Sociologia como disciplina, de acordo com a interpretação de Wolf Lepenies em As Três Culturas.153 Segundo essa análise, no século XIX, assiste-se ao “confronto entre a fria razão e a cultura dos sentimentos, que caracteriza a concorrência entre as ciências sociais e a literatura”, na “competição entre ambas pela primazia de ser a doutrina de vida apropriada para a sociedade industrial.”154 Essas tradições e prescrições foram re-avaliadas a partir de mudanças no entendimento da literatura, da política, do mundo, das fontes históricas e de suas relações. Essas mudanças permitem, a nosso ver, lançar mão de fontes literárias, especificamente poemas, para proceder a uma análise histórica. Nas considerações seguintes, buscamos indicar alguns autores e teses que permitem esse empreendimento. Não é nosso objetivo fazer um histórico exaustivo do estado da arte, o que consideramos já tenha sido feito por Luiz Costa Lima e Compagnon, entre outros.155 Na passagem do século XVIII para o XIX, surge um novo regime de identificação da arte de escrever.156 A despeito deste deslocamento e das teorizações correlatas, defende Rancière que: 150PLATÃO. A República. Bauru, SP: EDIPRO, 2001. p. 403. 151RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Edit. 34, 1995. p. 25. 152RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Edit. 34, 1995. p. 25. 153LEPENIES, Wolf. As Três Culturas. São Paulo: Edusp, 1996. 154LEPENIES, Wolf. As Três Culturas. São Paulo: Edusp, 1996. p. 23. 155LIMA, Luiz da Costa. História. Ficção. Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2006; COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria – Literatura e senso comum. Belo Horizonte: Edit. UFMG, 2001. 156RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Edit. 34, 1995. p. 20. 64 A literatura não existe nem como resultado de uma convenção nem como efetuação de um poder específico da linguagem. Ela existe na relação entre uma posição de enunciação indeterminada e certas fábulas que põem em jogo a natureza do ser falante e a relação da partilha dos discursos com a partilha dos corpos.157 Assim, seria próprio da literatura intervir na relação entre práticas, entre formas de visibilidade e modos de dizer que recortam um ou vários mundos, tornando-a política por definição, o que Rancière nomeia como “política da literatura”. Esta expressão implica, entonces, que la literatura interviene en tanto que literatura en ese recorte de los espacios y los tiempos, de lo visible y lo invisible, de la palabra y el ruido. Interviene en la relación entre prácticas, entre formas de visibilidad y modos de decir que recortan uno o varios mundos comunes.158 A novidade do termo “literatura” não reside em uma linguagem particular, mas em uma nova maneira de ligar o dizível e o visível, as palavras e as coisas.159 Em suma, a literatura intervém diretamente na divisão do mundo, no modo como este é percebido e aceito, nos critérios e princípios de visão e di-visão. Isto a transforma em atividade política por excelência, não entendendo por isto a atividade política dos literatos e menos ainda seus textos políticos stricto sensu. Sobre esta última relação, Rancière a trabalha em três textos (e momentos) distintos, tanto em relação à literatura, quanto em relação à escrita e à poesia. O primeiro deles, o prefácio de La Politique des Poètes, publicado em 1992, afirma que Sans doute le titre de la politique des poètes demande-t-il quelques éclaircissements. On ne l'entendra pas, bien sûr, au sens d'une anthologie qui rassemblerait des spécimens significatifs de telle ou telle forme d'intervention de poètes dans le champ de la politique. Clairement, les articles définis de la politique de poètes visent l'appartenance du concept même du poète à la conceptualisation de la politique comme dispositions de l'agir humain et de la communauté humaine antérieure à toute constitution. Lors même qu'aucun article de loi constitutionnelle n'a à le prendre en compte, le poète appartient à la pensée de la politique.160 Já no prefácio de Políticas da Escrita, encontramos a afirmação de que Não é porque a escrita é o instrumento do poder ou a via real do saber, em 157RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Edit. 34, 1995. p. 45. 158RANCIÈRE, Jacques. Política de la literatura. Buenos Aires: Libros de Zorzal, 2011. p. 16-17. 159RANCIÈRE, Jacques. Política de la literatura. Buenos Aires: Libros de Zorzal, 2011. p. 23-24. 160RANCIÈRE, Jacques (Dir.). La politique des poètes – Pourquoi des poètes en temps de détresse? Paris: Albin Michel, 1992. p. 9. 65 primeiro lugar, que ela é coisa política. Ela é coisa política porque seu gesto pertence à constituição estética da comunidade e se presta, acima de tudo, a alegorizar essa constituição. Pelo termo de constituição estética deve-se entender aqui a partilha do sensível que dá forma à comunidade. Partilha significa duas coisas: participação em um conjunto comum e, inversamente, a separação a distribuição dos quinhões.161 Sintetiza o filósofo, “a escrita é política porque traça, e significa, uma re-divisão entre as posições dos corpos, sejam eles quais forem, e o poder da palavra soberana, porque opera uma re-divisão entre a ordem do discurso e a das condições”.162 No terceiro texto do mesmo autor, encontramos a presença das mesmas teses. A reprodução destas citações tem por finalidade marcar a defesa e o entendimento da dimensão política dos poetas, da escrita e da literatura. O argumento de fundo nos parece coincidente e não sofreu modificações em função do que se dizia político. Assim, os poetas, a escrita e a literatura são políticos porque interferem na partilha do sensível “que define al mundo que habitamos: la manera en que éste se nos hace visible y en que eso visible se deja decir, y las capacidades e incapacidades que así se manifiestan”.163 Mais ainda, são políticos porque participam da definição do que é 161RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Edit. 34, 1995. p. 7. A definição do conceito de partilha do sensível foi feita de forma detalhada em entrevista posterior. A citação é longa mas justifica-se em função da clareza da definição: “Denomino partilha do sensível o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. Essa repartição das partes e dos lugares se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividade que determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte nessa partilha. O cidadão, diz Aristóteles, é quem toma parte no fato de governar e ser governado. Mas uma outra forma de partilha precede esse tomar parte: aquela que determina os que tomam parte. O animal falante, diz Aristóteles, é um animal político. Mas o escravo, se compreende a linguagem, não a 'possui'. Os artesãos, diz Platão, não podem participar das coisas comuns porque eles não têm tempo para se dedicar a outra coisa que não seja o seu trabalho. Eles não podem estar em outro lugar porque o trabalho não espera. A partilha do sensível faz ver quem pode tomar parte no comum em função daquilo que faz, do tempo e do espaço em que essa atividade se exerce. Assim, ter esta ou aquela 'ocupação' define competências ou incompetências para o comum. Define o fato de ser ou não visível num espaço comum, dotado de uma palavra comum etc. Existe portanto, na base da política, uma 'estética' que não tem nada a ver com a 'estetização da política' própria à 'era das massas', de que fala Benjamin. Essa estética não deve ser entendida no sentido de uma captura perversa da política por uma vontade de arte, pelo pensamento do povo como obra de arte. Insistindo na analogia, pode-se entendê-la num sentido kantiano – eventualmente revisitado por Foucault – como o sistema das formas a priori determinando o que se dá a sentir. É um recorte dos tempos e dos espaços, do visível e do invisível, da palavra e do ruído que define ao mesmo tempo o lugar e o que está em jogo na política como forma de experiência. A política ocupa-se do que se vê e do que se pode dizer sobre o que é visto, de quem tem competência para ver e qualidade para dizer, das propriedades do espaço e dos possíveis do tempo”. RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível: Estética e política. São Paulo: EXO experimental org.; Edit. 34, 2005. p. 15-17. Ênfases no original. Parte dessa citação será retomada posteriormente. 162RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Edit. 34, 1995. p. 8. 163RANCIÈRE, Jacques. Política de la literatura. Buenos Aires: Libros de Zorzal, 2011. p. 20. 66 palavra deliberativa e o que é grito de prazer ou dor, e de quem está apto a proceder esta definição.164 Essa última frase remete a considerações em torno das mudanças no entendimento e percepção da política, pois esta, assim como a literatura, também sofreu alterações, deixando de ser tratada exclusivamente na sua dimensão e manifestação institucional e/ou estatal. Há décadas, deixou de ser aceita só como a atividade dos partidos, governos e ideologias na luta pelo poder institucional, por cargos e postos de mando. A atividade política, seja para manter, tomar ou resistir ao poder, deixou de ser pensada como exclusividade de organizações e instituições políticas em termos restritos. A dominação e a resistência a ela passaram a ser identificadas nas microrrelações, nas salas de aula, no discurso médico, no cotidiano e em termos culturais,165 pelo controle e domesticação dos corpos, por marcar (ou excluir) a presença dos corpos, de temas e assuntos como públicos. Por conseguinte, “a subversão política pressupõe uma subversão epistemológica, uma conversão da visão do mundo”, a desconstrução de uma legitimidade e sua substituição por outra.166 A política pode ser tratada, então, como “la constitución de una esfera de experiencia específica donde se postula que ciertos objetos son comunes y se considera que ciertos sujetos son capaces de designar tales objetos y de argumentar sobre su tema”.167 Nesse entendimento, a questão premente é “saber quién es apto para juzgar lo que es palabra deliberativa y lo que es expresión de desagrado. En cierto sentido, toda la actividad política es un conflicto para decidir qué es palabra o grito, para volver a trazar las fronteiras sensibles con las que se certifica la capacidad política”.168 Trata-se de uma definição que é sempre marcada pelo litígio e conflito, já que envolve disputa pela posse da fala autorizada que des-autoriza, a posse do cetro. A especificidade do discurso de autoridade “reside no fato de que não basta que ele seja compreendido (…), é preciso que seja reconhecido enquanto tal para que possa exercer seu efeito próprio”.169 164RANCIÈRE, Jacques. Política de la literatura. Buenos Aires: Libros de Zorzal, 2011. p. 16. 165Dentre os vários autores que contribuíram para a construção desta nova abordagem do político e da política, destacamos Richard Hoggart, Michel Foucault, Cornélius Castoriadis, Edward Thompson, Michel de Certeau, Pierre Bourdieu e Jacques Rancière, entre outros. 166BOURDIEU, Pierre. Descrever e prescrever. In: _____. Economia das trocas lingüísticas. São Paulo: Edusp, 1998. p. 118. 167RANCIÈRE, Jacques. Política de la literatura. Buenos Aires: Libros de Zorzal, 2011. p. 15. 168RANCIÈRE, Jacques. Política de la literatura. Buenos Aires: Libros de Zorzal, 2011. p. 16. 169BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 91. Ênfase no original. 67 Para além de serem recursos para a instituição e exercício do poder, os discursos, as falas autorizadas, ao serem reconhecidas como tais, colaboram para produzir a partilha do sensível e também formam e informam a percepção do mundo. Assim, é necessário incluir no real as lutas entre as representações que sobre ele se constroem,170 isto porque a “realidade” é o lugar de uma luta permanente para definir a “realidade”,171 o que conforma o mundo social. Ou seja, “as representações que os agentes sociais possuem das divisões da realidade e que contribuem para a realidade das divisões.”172 Em uma perspectiva que vise superar a dicotomia entre objetivismo e subjetivismo, o mundo social pode ser compreendido como resultante do encontro das propriedades objetivas e das representações subjetivas.173 As representações e construções discursivas sobre o mundo que nos cerca acabam por conformar nossa percepção deste mundo e, por conseguinte, o próprio mundo. A disputa pelas di-visões do mundo acaba por construir as divisões do mundo. Nos discursos sobre o mundo, sobre os princípios de visão e divisão, o que está em questão é a suposta ontologia do mundo em que vivemos. O discurso que consegue assim aparecer, como falando das coisas como elas seriam de fato, produz, ao ser reconhecido, a visão de mundo por ele teorizada. Há aqui uma dupla questão. De um lado, as propriedades que conferem autoridade a uma fala; de outro, o efeito desta fala autorizada em produzir o que aparentemente descreve. O mundo social não é dado, objetivo apenas, mas relacional. É construído no e pelo cruzamento entre as propriedades objetivas e as representações acerca das mesmas. Nomear, nesse sentido, seria modificar o mundo social na medida em que estabelece conexões entre práticas e “coisas” objetivas e ideias sobre estas práticas e “coisas”. Ou seja, como o mundo social é relacional, nomear é estabelecer (ou romper) ligações, é estabelecer links, construir uma significação.174 Não é demais recordar 170BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 108. 171BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 112. 172BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 114. Ênfase no original. 173A crítica a esta dicotomia entre objetivismo e subjetivismo ou ao que denomina “visão substancialista” foi feita por Bourdieu em vários textos, dentre os quais destacamos “Linguagem e poder simbólico” (A Economia das Trocas Lingüísticas), “Espaço Social e Poder Simbólico” (Coisas ditas), “Espaço social e espaço simbólico” (Razões Práticas) e “A identidade e a representação” (Poder simbólico). 174LEVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. Rio de Janeiro: Edit. 34, 1993. p. 72. 68 Bakhtin: o que ouvimos e falamos não são palavras, mas ideias.175 E ideias são construídas na rede hipertextual, nas conexões fractais.176 A nomeação estrutura e orienta nossa visão do mundo social. “Ao estruturar a percepção que os agentes sociais têm do mundo social, a nomeação contribui para construir a estrutura deste mundo, de uma maneira mais profunda quanto mais amplamente reconhecida (isto é, autorizada)”.177 Ao modificar a percepção do mundo social, a nomeação pode ser diretamente pensada como política. Isto porque interfere na forma como são aceitos (ou recusados) os princípios de visão e di-visão deste mundo. Ou seja, informa nossa percepção do mundo e, assim, informa nossa aceitação (ou rejeição) às divisões deste mesmo mundo e, assim, a nomeação se torna parte das lutas sociais. Neste sentido, parecem-nos muito reveladoras as análises do discurso regionalista levadas a cabo por Bourdieu.178 Ao tratar o discurso regionalista como discurso performativo que produz o que aparentemente descreve, a região e a identidade regional, Bourdieu permite a conclusão de que “o mundo social é também representação e vontade”. Assim, as representações que os agentes sociais possuem das divisões da realidade e que contribuem para a realidade das divisões179 se tornam objeto de disputa entre grupos, tanto na busca do reconhecimento da condição de fala autorizada, quanto pelo poder associado a esta condição, o de poder modificar (ou manter) a “realidade” através das mudanças (ou afirmação) dos princípios norteadores da percepção do mundo social. Segundo Bourdieu, as lutas simbólicas a propósito da percepção do mundo social podem 175“Na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial”. BAKHTIN, Mikhail (V. N. Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem: Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1999. Ênfase no original. Um adendo que se pode fazer a esta conceituação é que, apesar de não ouvirmos palavras e, sim, ideias, cada palavra traz em seu bojo uma carga específica de sentido, não havendo, portanto, sinônimos perfeitos. 176LEVY, Pierre. Imagens de sentido. In: _____. As tecnologias da inteligência. Rio de Janeiro: Edit. 34, 1993. p. 21-27. 177BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 81. 178Ver BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand-Brasil, 1989, espec. p. 116; BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. espec. p-111-112 179BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 114. 69 adquirir duas formas diferentes. Do lado objetivo, pode-se agir através de ações de representação, individuais ou coletivas, destinadas a valerem determinadas realidades (…). Do lado subjetivo, pode agir tentando mudar as categorias de percepção e apreciação do mundo social, as estruturas cognitivas e avaliatórias: as categorias de percepção, os sistemas de classificação, isto é, em essência, as palavras, os nomes que constroem a realidade social tanto quanto a exprimem, constituem o alvo por excelência da luta política, luta pela imposição do princípio de visão e divisão legitimo, ou seja, pelo exercício legítimo do efeito de teoria.180 A subjetividade e intencionalidade dos textos e seus autores – que, por algum tempo, foram consideradas fatores limitantes, que inviabilizavam seu uso como fonte histórica – podem ser vistas, assim, de um outro ângulo. A suposta fragilidade e inconsistência dessas fontes pode ser tratada como qualidade; sob uma nova perspectiva, aquilo que as excluía do rol das fontes aceitáveis pode ser visto como o que as autoriza na análise dos processos sociais. A intenção, implícita ou declarada, consciente ou não, e a subjetividade de um texto podem ser analisadas à luz de uma finalidade e/ou disputa por interferir nas formas de ver e perceber o mundo social. Mais do que uma distorção que coloca em xeque sua validade, temos, então, uma intencionalidade que pretende interferir nos princípios de visão e de di-visão do mundo social. A parcialidade pode ser lida como prescrições, como expressão de um locus social e de uma proposta de intervenção no mundo social. Podemos afirmar, portanto, que a noção de documento como comprovação de veracidade foi substituída pela de monumento, no qual a intencionalidade ocupa o primeiro plano.181 Temos, então, uma situação de um mundo social (ou partilha do sensível) no qual as representações deixam de ser desvios para se tornarem (des)constitutivas das práticas e definidoras do que é palavra e do que se configura, segundo certa tradição, apenas como grunhido, mera expressão de dor ou de prazer, em que a subjetividade das fontes não desautoriza seu uso na análise dos processos históricos e sociais. No presente trabalho, tais conclusões são importantes na medida em que se pretende realizar a análise das representações da República e do Império que os republicanos fizeram circular nas duas últimas décadas do século XIX. Como essas 180BOURDIEU, Pierre. Espaço social e poder simbólico. In: _____. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 161-162. Ênfase nossa. 181Ver LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: _____. História e Memória. Campinas: Edit. Unicamp, 2003. p. 525-541. 70 representações assumiram a forma de poemas, é oportuno considerar uma das diferenças entre poesia e história, já indicadas anteriormente, presentes na Poética de Aristóteles.182 Os poetas não estariam limitados a falar do mundo e das coisas como (presumivelmente) aconteceram ou são. A liberdade criativa dos poetas seria maior que a dos historiadores, pois esses seriam obrigados a tratar do que foi ou aconteceu. Novamente, se isto pôde excluir o uso da poesia como fonte para o historiador, já que esta tratava apenas do verossímil, as mudanças apontadas anteriormente, das fontes e da percepção do mundo, parece-nos autorizar seu uso. Mais ainda, por falar do que poderia ter ocorrido, ou seja, do que não é ou não aconteceu, podem indicar importantes elementos para entendermos o posicionamento dos autores-atores acerca da sociedade em que viviam. Em outras palavras, os poetas tratariam, desta feita, de possíveis, o que poderia servir para romper com o realismo183, a sujeição do mundo como se nos apresenta ou aparece. Neste sentido, os poemas que nos interessam, aqueles produzidos e publicados no final do século XIX como críticas à Monarquia e/ou elogios à República, podem nos indicar tanto a percepção dos atores acerca do mundo social, quanto indicar um trabalho para desnaturalizar a organização política existente. Esse trabalho pode ser entendido como produzindo uma (re)configuração da partilha do sensível, nos termos de Rancière, ou para (re)definir a realidade, nos termos de Bourdieu. Tratava-se de uma atividade que buscava redesenhar o legítimo e o ilegítimo, o aceitável e o condenável, configurando a subversão cognitiva, “uma conversão da visão de mundo”, pressuposta em uma subversão política.184 Ainda pode ser entendido como esforço no sentido de modificar as condições que tornam um discurso eficaz, ou seja, as propriedades do discurso, daquele que o enuncia e da instituição que o autoriza a pronunciá-lo.185 Neste último ponto, essa operação tanto pode qualificar o discurso dos que falavam pela República e contra a Monarquia, quanto desqualificar o discurso dos que falam pela Monarquia. 182ARISTÓTELES. Poética. Aristóteles. São Paulo: Nova Cultural, 2000. (Os pensadores). p. 47. 183Não se discute aqui a corrente literária de mesmo nome, mas uma postura em que a mímese é entendida como reprodução do vivido. 184BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 118. 185BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 89. 71 Os jornais186 A pesquisa ficou restrita aos jornais publicados na Corte. Em um Estado centralizado nos moldes do Império, a dinâmica e as mudanças políticas, muitas vezes, irradiavam da capital (centro do poder) para as províncias. O centro geográfico do poder (pessoal do Imperador) correspondia ao epicentro político do Império. Era da Corte que saíam aqueles que iriam exercer o poder, por delegação do monarca, nas demais regiões. Assim, parece-nos que aqueles que queriam se fazer ouvir na política deveriam aí se fazer notar. Esta importância e centralidade da capital do Império aparece em declaração de Silva Jardim: “as revoluções feitas no interior do país abortaram todas. O Rio de Janeiro monopolizou a vida nacional”.187 Os acontecimentos, as relações pessoais, os conchavos e as desavenças ocorridas na Corte tinham forte influência na definição da vida política do resto do Império. As províncias, no mais das vezes, recebiam e se acomodavam às transformações que se propagavam da capital, o que não impediu a ocorrência de tensões e/ou contestações à Corte. Desde meados do século, com o fim da Revolução Praieira (1848), não encontramos o recurso às armas nas divergências com o poder central. As discordâncias e enfrentamentos das províncias com a Corte produziam crises políticas, como a de 1868-79, e não mais revoltas armadas. O recurso à violência como expediente político durante o Segundo Reinado ficou restrito a movimentos populares como a Guerra dos Marimbondos (1851-1852), a Revolta do Quebra-Quilos (1874-1875) e a Revolta do Vintém (1880), por exemplo. As críticas enfáticas dos republicanos à centralização atestam que, nas últimas décadas do II Reinado, a Corte se impunha sobre as províncias. Em 1873, Bocaiuva, como já assinalamos, defendeu a existência de três grandes jornais republicanos, um ao norte, outro ao sul e um terceiro na Corte, reconhecendo assim a centralidade desta na dinâmica política do império.188 A aceitação nas províncias da Proclamação ocorrida no Rio de Janeiro confirmaria essa hierarquia. Com base neste entendimento, optamos por assim restringir geograficamente a pesquisa. No levantamento feito junto à Biblioteca Nacional, encontramos por volta de 800 186As considerações deste subcapítulo são uma versão modificada de comunicação apresentada no XIV Encontro da ANPUH-MG, ocorrido em Juiz de Fora no ano de 2004. 187Apud MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007, p. 55. 188BOCAIUVA, Quintino. Assembleia do Partido Republicano [1873]. In: _____. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986, v. I, p. 406. 72 títulos de jornais para as décadas de 1870 a 1890. A maioria dos títulos localizados não cobre todo o período da pesquisa. Alguns jornais não passavam dos primeiros números, enquanto outros duravam anos. Havia ainda aqueles que, mesmo tendo o formato e o visual de um jornal, correspondiam mais a uma folha ou publicação comemorativa, com edição única ou em datas especiais para celebrar algum evento ou acontecimento. Um exemplo dessa situação é o jornal O Tiradentes, publicado somente nos dias 21 de abril, ao longo do período de 1882 até 1894. Numerosos jornais intitulados Judas faziam parte das comemorações da Semana Santa, editados no sábado de aleluia como “queimação” do Judas. Temos ainda a edição extraordinária do Correio da Tarde em homenagem a Rio Branco, em 30 de julho de 1879. O Vinte e cinco de Março (1884) foi publicado especialmente para a comemoração da Abolição no Ceará. No dia 21 de maio de 1888, representantes de vários jornais fluminenses escreveram conjuntamente o Imprensa Fluminense como parte das comemorações pela abolição da escravidão. Em abril de 1889, foi publicado Gavroche, especialmente dedicado à memória de Tiradentes, trazendo na capa um desenho da cabeça de Tiradentes e a reprodução de um trecho de sua condenação. Em 5 de julho de 1885, foi publicado Victor Hugo, com o objetivo de testemunhar que “a mocidade de nossas academias também partilhou o abalo violento que a todo mundo civilizado acaba de causar o passamento de Victor Hugo”. Esses “jornais” não se constituem necessariamente em publicação periódica, mesmo que tenham a forma padrão (tamanho e número de páginas, tipos gráficos, etc.) dos jornais. O jornal era, por excelência, o meio de comunicação do século XIX. Na ausência de outros meios que pudessem lhes fazer concorrência, os jornais tratavam de tudo um pouco. Traziam matérias sobre diversos assuntos: política internacional, reforma da política imperial, partidos políticos, ciências, críticas à Monarquia, “instrução popular” e “instrução da mulher”, “conferências populares”, traduções, “literatura”, crítica, “folhetim”, notas policiais, movimento do porto, avisos de correspondência, divulgação científica, saúde, entre outros.189 A imprensa periódica se prestava a uma imensa miscelânea de assuntos e formas textuais. Até onde podemos afirmar, não havia tema ou prática social que não merecesse 189Um quadro da diversidade e mudanças da imprensa no período final do Império pode ser encontrado em: SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999, p. 223-250 e MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007, p. 76-82. 73 uma coluna nos jornais. Havia folhas especializadas ou que se dedicavam primordialmente a um único assunto e outras que dividiam suas páginas entre vários possíveis. A característica básica dessa imprensa pode ser descrita como “pluralidade”. Plural pelo sem-número de jornais, pelo amplo espectro de assuntos cobertos (pela imprensa em geral ou por um único jornal), pelos diferentes objetivos pretendidos e pelos editores e instituições que a estes se vinculavam. Apesar da diversidade apontada, pode-se perceber uma estrutura comum. As seções dos jornais tendem a repetir certo padrão: editoriais, colunas analíticas assinadas, folhetim, literatura, poemas, ineditoriais, anúncios, publicações a pedidos, notas, entre outros. A publicação de literatura era, com raras exceções, uma constante nos jornais e dava-se em uma multiplicidade de formas e tratamentos possíveis. Os periódicos chegam a exercer influência decisiva sobre certa literatura, sendo o folhetim romanesco a mais conhecida.190 Poesia, poemas e poetas de todas as modalidades e estilos, versando sobre todos os assuntos, com filiações estéticas, filosóficas e políticas as mais diferentes, faziam-se notar. A poesia nos jornais era atividade à qual muitos dedicavam tempo, papel e pena, de colegiais a poetas consagrados. Entre as diferentes temáticas a que se dedicavam os poetas, encontramos expressiva produção a que chamaremos de “social e política”. Essa produção versa sobre temas como liberdade, escravidão, justiça, organização política, corrupção, representação, crítica política e social, entre outros. Tratava de aspectos próprios da vida organizada em sociedade, que estão além da esfera individual e privada. Essa prática ou característica não constituiu em invenção do século XIX, muito menos de poetas “engajados” nas campanhas abolicionista e republicana. Os subtítulos dos periódicos constituíam uma necessidade para informar ao público sobre qual(is) tema(s) estes se dedicavam. Tais ferramentas são esclarecedoras do amplo espectro de assuntos e interesses cobertos pela imprensa. À guisa de exemplo, podemos citar os seguintes subtítulos: “Órgão da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão” (O Abolicionista), “Periódico litterário, crítico e scientífico” (Aerólitho), “Órgão dos interesses da Paróchia do Espírito Santo” (O Alfinete), “Publicação quinzenal, scientífica, litterária, commercial, industrial e noticiosa” (A América), “Semanário dedicado aos homens de espírito” (O Anecdotista), 190CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Publifolha, 2000. p. 29-30. 74 “Redigida por alguns alumnos do Mosteiro de S. Bento” (A Aplicação), “Periódico político, satyrico, scientífico e litterário” (Aspiração Nacional), “Órgão dedicado as pessoas que soffrem de hypocondria” (O Badalo), “Club dos Fenianos” (O Basculho), “Periódico crítico, satyrico e noticioso” (O Bisturi), “Jornal do Collégio Santa Thereza” (Chrysálida), “Periódico litterário, recreativo e noticioso” (O Cometa), “Periódico artístico, litterário, crítico e noticioso” (D. Pedro V), “Órgão do S. Euterpe Commercial Tenentes do Diabo” (O Diabo da Meia-Noite), “Folha conservadora, política, noticiosa e commercial” (Diário da Tarde), “Órgão democrático, crítico, litterário, noticioso e commercial” (Direito do Povo), “Pamphleto humorístico, litterário e scientífico, defensor das classes oprimidas” (A Formiga), “Folha política, commercial, litterária e industrial” (Jornal da Corte), “Folha illustrada, lunática, hyperbólica e satyrica” (O Mundo da Lua), “Periódico consagrado ao progresso mental e material brasileiro” (A Propaganda) e “Órgão dos interesses geraes” (Revista Financeira). O título do jornal, por outro lado, também nos informa a linha editorial e/ou tema ao qual se dedica. O Abolicionista e o Lincoln, por exemplo, são nomes que explicitam a bandeira do jornal: o fim da escravidão. O mesmo ocorre com o Brasil Americano (1875-1876), que explica seu título com a divisa “somos brasileiros e queremos ser americanos”. A amostra acima permite afirmar que os periódicos eram utilizados por diferentes grupos e instituições, tais como escolas, sociedades recreativas, grupos e partidos políticos e até uma alfaiataria (Gazetinha Águia de Ouro, 1882) e um restaurante (O Democrata, 1889). Os príncipes Pedro, Luiz e Fernando publicavam também seus jornais (Larangeiras, Correio Imperial, Correio Assu e Correio Mirim). Encontramos jornais com orientações, perfis, objetivos e público alvo dos mais diferentes. É interessante notar que não só as questões políticas e/ou sociais motivavam os editores. Os jornais dedicavam-se a questões das mais variadas. O Anuncio, por exemplo, era uma publicação, como o próprio nome indica, especializada em anúncios. Já Os Galegos no Brasil (1886) se dedicava à crítica e sátira dos portugueses, o que motivava a publicação d’Os Portugueses no Brasil (1886), em defesa dos mesmos. O Tempo (1886) pretendia atuar como “vulgarizador dos conhecimentos gerais da ciência, como dever imperioso de nossa época”. Entendiam seus editores que era preciso “completar as noções elementares com a explicação 75 racional dos fenômenos naturais e a utilidade e mecanismo das instituições sociais”. Havia também publicações dirigidas ao público feminino. Entre estas, encontramos aquelas que dão um tratamento tradicional ao tema, identificando a mulher com a rainha do lar, com a mãe sempre disponível. O Recreio das Moças (1876, 1877), o Archivo das Famílias (1881, 1882), a Bibliotheca Doméstica (1885) e O Bisbilhoteiro (1889) são alguns exemplos. Encontramos, por outro lado, jornais que assumiam uma postura claramente feminista, como O Echo das Damas (1879-1888), e, ainda, a tônica feminista imbricada com a temática republicana, como o República das Moças de 1879 (figura 1, p. 76). Esse jornal traz na capa de seu primeiro número o desenho de uma sala na qual cinco mulheres aparentemente se dedicam à leitura e ao debate. No primeiro plano, uma das mulheres se encontra sentada no sofá, no canto esquerdo, e outra, na cadeira, no canto direito; três delas estão em pé: duas no meio da cena e uma atrás da mesa que se encontra no fundo da sala. Sobre a mesa há um livro e, acima do sofá, temos um busto como decoração do ambiente. Essa imagem está retratando uma reunião, composição que é comumente usada para mostrar homens. Ou seja, a imagem mostra mulheres em uma atitude e ambiente pouco usuais porque associadas à atividade e atitude identificadas com o mundo masculino. Completa essa inovação visual e lhe dá o toque republicano a legenda que a acompanha: Já que aos homens falta valor para derrubarem essa carunchosa monarquia, sejamos nós as defensoras dos direitos do povo, e tomem eles a direção dos negócios domésticos. Viva a República! Viva o belo sexo! (12 out. 1879). Os objetivos também eram variados: noticiário informativo, propaganda política, sátira, humor, “progresso material”, “interesses gerais” e hipocondria. Por último, observemos que alguns desses jornais, o Jornal da Corte e a Revista Financeira, por exemplo, cobrem uma gama de assuntos tão ampla que se torna difícil sua classificação. Os jornais traziam com frequência, em seu primeiro número, uma declaração daquilo que seria seu programa e/ou seu objetivo. Essa apresentação ao público constitui valiosa fonte de informação e nos permite reafirmar o amplo espectro de assuntos e temas coberto pelos jornais. A Tribuna do Povo (1880) pretendia “a educação intelectual do povo”; O Paladino (1881), “proporcionar aos alunos do Club uma agradável diversão para a inteligência”; a Revista Complexa (1878-1880), “desenvolver 76 Figura 1: República das Moças 77 assuntos verdadeiramente sérios”; o Atirador Franco (1881) atacava a “corrupção, a decadência moral e o abatimento do caráter nacional”; O Cacete (1881) queria “incomodar o poder público [e] despertá-lo da letargia”; o Heróe (1880-1881) era “consagrado exclusivamente à classe operária”. O Estandarte declarava que “nossa cruz é — a liberdade, a nossa divisa — a justiça. (...) Procuramos harmonizar o progresso do nosso país com o ideal dos povos adiantados, que se resume em uma síntese admirável — self government”. O Constitucional se pautava pela “defesa dos grandes interesses e princípios inscritos na gloriosa bandeira do Partido Conservador” (1889). O Raio pretendia a “guerra aos republicanos”, pois a República é “a causa de todas nossas misérias públicas. (...) Ela é a destruição da família, a violência que mata a propriedade, a arbitrariedade exercida sobre todas as formas, n’uma palavra é tudo e nada!!...” (1889). Podemos supor que essa situação decorria da não definição/constituição do jornalismo, da crítica política, da literatura e do humor como campos distintos.191 Assim, todos podiam se dedicar à atividade de escrever em jornais e/ou de publicá-los, independentemente de sua formação intelectual e/ou profissional. O “jornalismo” era uma aventura a que muitos se dedicavam, como observou uma nota do Jornal da Noite: Nesta, como em todas as terras, nem a lei, nem o povo, exigem habilitação para que um indivíduo seja jornalista. Qualquer mau carroceiro, tendo dinheiro, compra uma traquitanda de tipos e deita jornal na rua. Dá sua opinião a tudo e a todos, fala mal disto e bem daquilo, dá por paus e pedras, porém como está escrito em letra redonda, chama-se opinião da imprensa, opinião pública.192 A indefinição dos campos de conhecimento permitia que literatura e política se sobrepusessem e se mesclassem com e na atividade jornalística. A polêmica Alencar- Nabuco é expressiva desta situação.193 Em 1875, um senador do Império e o filho de Nabuco de Araújo (deputado geral e futuro conselheiro) travaram pelos jornais uma célebre polêmica. O pretexto foi a crítica que Nabuco dirigiu à peça O Jesuíta, de autoria de Alencar. Ao longo do debate, duas visões de cultura e civilização são confrontadas a pretexto de pensar o Brasil. Registre-se acerca da polêmica que o 191ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 29-30; MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007. Espec. Cap. 1. 192Jornal da Noite. Rio de Janeiro. 23 novembro 1881, p. 1 193COUTINHO, Afrânio (org.). A Polêmica 1Alencar-Nabuco. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1965. 78 pretexto foi literário; os contendores, políticos; o palco, a imprensa; e explicitou duas matrizes políticas. Esta é a evidência mais acabada da sobreposição das atividades política, literária e jornalística na sociedade brasileira da segunda metade do século XIX. “No Brasil da segunda metade do século XIX não havia um grupo social cuja atividade exclusiva fosse a atividade intelectual”, afirma taxativamente Alonso,194 destacando a falta de autonomia do campo intelectual e de sua separação do político. Mais do que a presença dos diferentes e diversos assuntos nos jornais, o que chama a atenção é que a imprensa periódica constituía suporte e veículo para publicidade das grandes questões da época. Talvez esteja nesse ponto a explicação para o fato de a maioria dos jornais trazer, em suas páginas, textos de diferentes tipos e formatos. Não só inúmeros assuntos aparecem nos periódicos, mas um mesmo jornal muitas vezes trata de numerosos temas. Nesse caso, a explicação pode estar na falta de definição dos campos e na ausência de uma profissionalização do jornalismo. De todo modo, quer nos parecer que os jornais eram primordialmente veículos de opinião. No século XIX, constituíam instrumentos de visibilidade, fóruns de discussão e tribunas.195 Os subtítulos apontados anteriormente permitem supor que os grupos e sujeitos que objetivavam participar dos debates públicos e/ou interferir na direção e organização social e do poder buscavam um jornal como suporte. Os jornais eram responsáveis pela definição dos termos de um debate, pela circulação de um repertório de questões que mereciam ser discutidas, dos instrumentos e procedimentos para esta discussão, bem como dos valores e interlocutores envolvidos no debate. Os jornais, na sua pluralidade, constituiriam, neste caso, algo próximo à ideia de campo. O uso da noção de campo exige uma explicação do conceito, mesmo que mínima. Estamos lançando mão da conceituação de Pierre Bourdieu, especialmente aquela que se encontra em Meditações Pascalianas. Nesse texto, afirma o sociólogo que: cada campo se caracteriza pela busca de uma finalidade específica, capaz de favorecer investimentos igualmente absolutos por parte de todos os que (e somente estes) possuem as disposições requeridas (por exemplo, a libido sciendi). Participar da illusio, científica, literária, filosófica, ou 194ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 30. 195CARVALHO, José. M. de. As conferências radicais do Rio de Janeiro: novo espaço de debate. In: CARVALHO, José. M. de (org.). Nação e cidadania no Império: novos horizontes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. 79 qualquer outra, é o mesmo que levar a sério (…) os móveis dessa competição os quais, nascidos da lógica do próprio jogo, conferem seriedade ao jogo, mesmo que possam escapar ou parecer “desinteressados” ou “gratuitos” àqueles que por vezes são chamados de “profanos” ou àqueles envolvidos em outros campos (...).196 A aceitação pelos jogadores, entendidos como os integrantes do campo, dos “princípios de visão e de divisão”, nos termos do autor, que definem o pensável e o impensável, confina os agentes a seus próprios móveis de interesse, que se tornam invisíveis para um observador externo ou de outro campo.197 Constitui-se, desta feita, o acordo no terreno do desacordo,198 um mercado comum das ideias no qual o desentendimento torna-se possível.199 Jornais e jornalistas partilham e instituem as regras do jogo ao praticarem o jornalismo. Definem uma agenda de temas “obrigatórios”, um índex dos proibidos, uma forma de abordá-los, uma hierarquia e um ethos “profissional”. Os jornais eram também responsáveis pela ampliação do debate político. Por meio da imprensa periódica, alcançava-se (e buscava-se envolver e mobilizar) um público para além dos estreitos limites institucionais da Câmara e do Senado. O debate intelectual podia assim ser expandido além da elite política, abrindo espaços para manifestação de outros grupos e setores marginalizados no jogo político institucional. Houve, desta feita, uma ampliação daqueles que poderiam participar do jogo. A elite, presente nas duas câmaras, perdia o monopólio do debate em torno de temas e questões, embora mantivesse sua prerrogativa de legislar e decidir.200 Os jornais tornavam-se, desse modo, veículos para expressão e publicização das opiniões, verdadeiras tribunas, ao mesmo tempo em que permitiam que grupos e/ou atores marginalizados ganhassem voz e visibilidade. A inquietação política e social podia se manifestar através da exígua esfera pública em constituição.201 A exploração das oportunidades que essa esfera 196BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p. 21. Itálico no original. 197BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p. 117. 198“Embora os homens cultivados de uma determinada época possam discordar a respeito das questões que discutem, pelo menos estão de acordo para discutir certas questões”. BOURDIEU, Pierre. Sistemas de ensino e sistema de pensamento. In: _____. Economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1987. p. 207. 199RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento – Política e filosofia. São Paulo: Edit. 34, 1996. p. 11-12. 200ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 87-104. 201“Esfera pública burguesa pode ser entendida inicialmente como a esfera de pessoas privadas reunidas em um público; elas reivindicam esta esfera pública regulamentada pela autoridade, mas diretamente contra a própria autoridade, a fim de discutir com ela as leis gerais da troca na esfera fundamentalmente privada, mas publicamente relevante, as leis do intercâmbio de mercadorias e do trabalho social”. HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984, p. 80 oferecia, através de conferências, meetings, cursos livres, da publicação de jornais e panfletos, teve como efeito ampliá-la. A circulação de textos e ideias, fora dos espaços institucionais sacramentados pela Ordem Saquarema, era informada e informava a esfera pública incipiente no final dos oitocentos. Nessa chave, a campanha pode ser pensada como investimento de particulares na produção e circulação de um entendimento comum, de uma opinião, sobre os temas da política que reputava como importantes. A aceitação da relevância dos assuntos escolhidos seria o primeiro desses entendimentos. A produção de um discurso dirigido a particulares, compreendidos como sociedade civil em oposição ao establishment, implica um reconhecimento da sua existência e relevância de sua opinião na política, ao mesmo tempo que um chamamento à participação. Uma questão que deve ser colocada diz respeito ao público do jornal, a quem era dirigido e quem o lia. Isso porque, sabidamente, na sociedade Imperial, a alfabetização não era universal, pelo contrário, a parcela da população letrada era reduzida. Nossa tendência é considerar que só a elite tinha acesso ao conteúdo dos jornais. Esse estaria fora do alcance da grande maioria dos pobres livres no século XIX. Tal questão deve ser discutida, por vários motivos. O primeiro é a própria existência de periódicos que pretendiam alcançar a opinião pública e mobilizá-la contra a escravidão. Os vários jornais abolicionistas, o número especial da Imprensa Fluminense, os relatos das comemorações populares em frente às redações, em maio de 1888, parecem-nos ser evidências de como o jornal atingia a opinião pública.202 A maioria dos anúncios dos jornais trazia ofertas de produtos ou serviços para pessoas de posses, membros da elite ou dos setores médios (profissionais liberais, funcionários públicos de escritório). Por sua vez, a existência de anúncios com ofertas de empregos domésticos nos parece ser evidência de que os jornais atingiam pessoas que não eram da elite. Anúncios da Gazeta de Notícias mostram que populares também tinham acesso a informações veiculadas pelos jornais. As ofertas de empregos, pelo seu 42. Esse conceito foi sintetizado, por um comentarista, da seguinte forma: “A esfera pública é um espaço comum em que, supostamente, os membros da sociedade se encontram através de uma variedade de meios – imprensa, electrónica e também encontros face a face – para discutirem assuntos de interesse comum e, deste modo, serem capazes de formar a seu respeito uma mente comum. Digo ‘um espaço comum’ porque, embora os meios sejam múltiplos, como também as trocas que neles têm lugar, eles se encontram, supostamente e em princípio, em intercomunicação”. TAYLOR, Charles. Esfera Pública. LusoSofia - Biblioteca On-line de Filosofia e Cultura, Covilhã, 2010, p. 1. 202MIRANDA, J. A. et al. Maio de 1888 — Poesias distribuídas ao povo, no Rio de Janeiro, em Comemoração à Lei de maio de 1888. Rio de Janeiro: ABL, 1999 81 conteúdo específico, tinham como alvo a parcela pobre da população da Corte, indivíduos sem posses. Estamos falando de empregos domésticos que envolviam tarefas exercidas ou identificadas, em sua maioria, com o trabalho escravo. Assim é que entendemos a existência de ofertas como as seguintes, publicadas na Gazeta de Notícias, em novembro de 1875: Precisa-se de uma criada, na Rua do Senhor dos Passos n. 91. Precisa-se de uma pessoa livre para cozinhar em uma pequena casa de família; podendo dormir fora; na ladeira do Seminário n. 19. Placa. Precisa-se de uma criada de meia idade que lave, engome e cozinhe, para um casal sem filhos; no largo da Carioca, n. 3. Precisa-se de uma boa criada para casa de pouca família; na rua dos Inválidos n. 106. Loja. Precisa-se de uma pequena, branca ou de cor; para entreter uma criança de peito (...). Esses anúncios permitem afirmar que, por maior que fossem as limitações decorrentes do custo do jornal e/ou do analfabetismo da população, seu público não era exclusivamente constituído por membros da elite letrada. Se podemos imaginar que esses anúncios alcançavam um público maior que a elite, então, também podemos supor que o mesmo ocorria com as demais informações veiculadas pelos jornais. 82 II. Os poemas da política O poeta na Grécia arcaica era “funcionário da soberania” e árbitro supremo entre o louvor e a censura, a memória e o esquecimento, a serviço da comunidade dos “semelhantes” e “iguais”.203 A poesia, desde a Grécia antiga, pode ser considerada, portanto, pertinente à política. “A poética é, logo de saída, política”, pois “pertence a uma experiência política do sensível”, assevera Rancière.204 Pode-se entender por “partilha do sensível o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa, portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas”,205 como já indicamos. Assim, estamos trabalhando com a premissa de que os poemas que encontramos em nossa pesquisa e que tratam de temas da política colaboram para constituir e instituir um comum partilhado e as partes exclusivas da sociedade e política do Brasil na segunda metade do século XIX. No Brasil, desde a colônia, encontramos poetas e poemas tratando de questões correlatas. Lembremos de alguns exemplos de séculos e regiões diferentes: o “Boca do Inferno”, as Cartas Chilenas, Castro Alves, o Poema Sujo. No século XIX, Candido indica a emergência do escritor militante, quando o nativismo e o civismo tornaram-se pretextos para a criação literária, critério de dignidade e de valores a transmitir: “O escritor começou a adquirir consciência de si mesmo, no Brasil, como cidadão, homem da polis, a quem incumbe difundir as luzes e trabalhar pela pátria”.206 Parcela da poesia dos jornais e da atividade dos homens de letras da segunda metade do século XIX no Brasil era dedicada especialmente às questões que marcaram a conjuntura do final do Império, a saber, a Abolição e a República. Em conferência sobre sua geração literária, Olavo Bilac afirma que: “(...) não nos limitamos a adorar e a cultivar a Arte pura, não houve problema social que não nos preocupasse, e, sendo ʻhomens de letrasʼ, não 203DETIENNE, Marcel. Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. p. 18-21. 204RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Editora 34, 1995. p. 107. 205RANCIÈRE, Jacques. A Partilha do Sensível: Estética e política. São Paulo: EXO experimental org.; Editora 34, 2005. p. 15. Ênfases no original. 206CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Publifolha, 2000. p. 72-73. 83 deixámos de ser ʻhomensʼ”.207 A preocupação do grupo citado levou à constituição de uma poesia de combate ou social.208 Tal produção poética constituía-se em uma das dimensões do debate político, bem como do proselitismo pelo fim da escravidão e da Monarquia. A produção em questão informava, era informada e formava o debate e a mobilização pelo fim da Monarquia nas últimas décadas do Império. Esses textos são parte integrante da ação política de grupos marginalizados pela Ordem Saquarema209 com vistas à sua reforma e/ou superação. Para os objetivos de nossa discussão, entendemos, baseados em Bourdieu, que: Esta ação tem como objetivo produzir e impor representações (mentais, verbais, gráficas, teatrais) do mundo social capazes de agir sobre esse mundo, agindo sobre as representações dos agentes a seu respeito. Ou melhor, tal ação visa fazer ou desfazer grupos (…) produzindo, reproduzindo ou destruindo as representações que tornam visíveis esses grupos perante eles mesmos e perante os demais.210 Ao darem visibilidade e ampla circulação ao conjunto de recursos simbólicos que marcava a forma pela qual essas questões eram tratadas, os poemas se constituem em atividade constitutiva e constituinte da esfera pública.211 No conjunto dos poemas, encontramos a formatação de um universo do debate político, o repertório de questões, os conjuntos de valores e de argumentos que serviam de lastro e de moeda de troca. A linguagem não é aspecto secundário e passivo na interação dos sujeitos com o mundo que os cerca. “Ela cria ou ‘constitui’ a sociedade assim como é constituída pela sociedade”.212 Nomear algo, ou seja, estabelecer uma correlação entre um vocábulo e uma coisa ou prática, implica tanto a apropriação da coisa nomeada quanto colocá-la em 207BILAC, Olavo. Sobre a minha geração literária (No banquete offerecido pela sociedade do Rio de Janeiro no Palace-Théatre, — Rio de Janeiro). In: _____. Ultimas conferencias e discursos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1924. p. 80. 208MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007. p. 108. 209A ideia de grupos marginais foi trabalhada por Ângela Alonso em Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. 210BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In:______. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 117. 211Não nos interessa, aqui, a discussão dos limites e dinâmica desta esfera pública. Diferentes autores trabalham com a noção de uma incipiente esfera pública em formação no Brasil dos novecentos, tais como Marcello Basile (O Império em construção: projetos de Brasil e ação política na Corte regencial. Rio de Janeiro, PPGHIS-UFRJ, 2004), Ângela Alonso (Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002) e Maria Tereza Chaves de Mello (A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007). As conferências, meetings, publicações e circulação de impressos (jornais e brochuras, principalmente) podem ser interpretadas como evidências da existência de uma esfera pública em formação. 212BURKE, Peter. A História Social da Linguagem. In: _____. A Arte da Conversação. São Paulo: Unesp, 1995. p. 42. 84 relação a toda uma rede de ideias, conceitos, práticas, símbolos. Faz, em último caso, inseri-la em uma rede hipertextual, para usarmos a metáfora de Lévy.213 Se considerarmos a crítica de Bourdieu à visão substancialista e sua defesa do mundo como relacional,214 o ato de nomeação revela-se como uma ação que interfere e modifica as representações aceitas e partilhadas na sociedade nos seus princípios de visão e de divisão. No limite, configura mesmo sua instituição, sua incorporação em um universo simbólico, em uma série, que faz com que deixe ser uma coisa para se transformar em algo para nós, ou seja, o mundo social. “Uma coisa nomeada não é mais inteiramente a mesma, perdeu a sua inocência”.215 No que tange a esse entorno, as palavras possuem um poder estruturante, de ordenar e hierarquizar o aparente caos. A palavra manifesta e torna evidente para os que a ouvem (ou leem) o útil e o nocivo, a virtude e o vício, o justo e o injusto.216 Ao nomear o inominado, a palavra altera o mundo, confere objetivação a experiências difusas, tornando-as comuns e comunicáveis, sensatas e socialmente aceitas.217 Assim, os poemas estabeleciam temas e termos para o debate no mercado das ideias. Os poetas dos jornais pretendiam ser, tais como os gregos, os árbitros do louvor e da censura. Marcavam o que deveria ser lembrado e silenciavam sobre o que deveria ser esquecido; denunciavam o que precisava ser corrigido, prescreviam o que deveria ser instituído e elogiavam o que deveria ser mantido. Indicavam quais personagens deviam ou não ser imitados e quais enunciados convinham ou não àquilo que deveria ser a sociedade.218 Atuavam diretamente sobre a moeda de troca do “comércio da palavra [que] é o laço de toda a sociedade doméstica e civil”.219 Essa produção dava concretude às abstrações políticas e filosóficas que justificavam a Abolição e a República. Conceitos como liberdade, justiça, direito, eram atualizados e ganhavam significados em linguagem próxima da população não intelectualizada. Esses conceitos e suas implicações eram transpostos para a experiência do cotidiano desta população. Mais do que simples tradução, operava-se uma 213LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. Rio de Janeiro: Editora. 34, 1993. p. 70-73. 214BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: ______. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 81-125. 215SARTRE, Jean-Paul. Que é a Literatura? São Paulo: Ática, 1999. p. 20. 216RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento – Política e filosofia. São Paulo: Editora 34, 1996. p. 17. 217BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 119. 218RANCIÈRE, Jacques. Políticas da Escrita. São Paulo: Editora 34, 1995. p. 107. 219ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 5. 85 transformação das ideias. Em outras palavras, não havia preocupação em manter fidelidade absoluta com o universo conceitual, filosófico ou teórico do discurso republicano. A esse, os poemas acrescentavam (ou modificavam) aspectos, noções, ideias, justificativas, valores, personagens e linguagens. Assim, mais do que nos tratados de teoria política, nos poemas é que, em parte, definiu-se, para o grande público, o que se pretendia com as reformas e seus limites. As ideias ou noções que a população tinha das bandeiras do final do Império podem em boa parte ser buscadas nesses poemas. As publicações de membros do movimento republicano, seus diversos manifestos e mesmo as conferências e meetings tinham alcance limitado. Artigos longos e linguagem abstrata demandavam tempo para leitura e eram de difícil reprodução. Colaborou para isso a orientação oficial do partido: “não bastava falar à imaginação e ao sentimento, não bastava a evocação das paixões que entusiasmam e das visões que seduzem; era mister falar à razão nacional”, defende Bocaiuva, ao tratar da missão do Partido Republicano.220 A opção de “ficar no terreno da evolução social, repudiando absolutamente todo e qualquer apelo à revolução material”, teria reforçado uma situação de hermetismo.221 Tais encaminhamentos oficiais sinalizam um receio da mobilização das massas que potencialmente resultasse em levante popular. Os poemas, nesse ponto, caminhavam em outro sentido, dirigiam-se ao grande público e os alcançava, mobilizando aquilo que Bocaiuva rejeitara. As centenas de poemas veiculados pelos jornais entre 1870 e 1890 confirmam um esforço no sentido de ampliar o público alcançado pela e na campanha. Os poemas levantados alcançam a cifra de três centenas e tratam da organização social e política do Império.222 Dada a dimensão deste universo e diante da dificuldade de analisar com minúcias todos eles, fomos obrigados a proceder uma dupla opção metodológica. A primeira foi apresentá-los em seu conjunto, oferecendo de modo panorâmico os temas que abordam e a maneira como o fazem. Já a segunda opção, decorrente dessa primeira, foi escolher os poemas mais expressivos para proceder uma análise verticalizada em número reduzido de textos, já que seria impossível analisar a 220BOCAIUVA, Quintino. O que se deve fazer [1872]. In: _____. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986., v. I, p. 347. 221BOCAIUVA, Quintino. Apresentação do candidato escolhido pelos eleitores republicanos em Assembléia Geral do Partido a 15 de agosto de 1881. In: _____. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986., v. I, p. 564. Ênfase no original. 222Ver Anexo 1 (Relação nominal dos poemas localizados) e Anexo 3 (Tabela: poemas por periódico e ano) 86 todos detalhadamente. Essa opção pretendeu conciliar dois aspectos importantíssimos para o trabalho. De um lado, demonstrar o quão significativa foi a prática de publicação dos poemas, seja pela quantidade ou pelo universo de questões que tratavam; de outro, explorar o tratamento dado às questões abordadas na construção de uma representação das práticas sociais e políticas do Império. A pesquisa privilegiou jornais e poemas que criticavam ou condenavam a organização política e social tal como existia sob o Império. Apesar desta aparente unidade, procedemos uma separação dos textos em função dos temas e de seu tratamento. Delimitamos um primeiro conjunto que se pauta por críticas genéricas às condições sociais e/ou políticas existentes, mas não chega a explicitar nem uma crítica à monarquia, nem um elogio à república. A crítica é, antes de mais nada, expressão de um descontentamento difuso, que não estabelece claramente um nexo entre a queixa que o poema veicula e a forma de governo. No segundo conjunto, foram agrupados os poemas que apresentam claramente uma denúncia da Coroa como injusta e/ou tirânica. Neste, as adversidades e problemas são diretamente relacionados à existência da Monarquia. A desqualificação foi acompanhada pelo resgate de antecedentes do movimento republicano e buscava separar a ideia de liberdade, dissociando-a da Monarquia e do 7 de Setembro e produzindo uma nova economia do tempo histórico. Nesse sentido, a recuperação dos movimentos e protagonistas das lutas anteriores à publicação do Manifesto Republicano promoveu a “republicanização” das lutas desde o período colonial até o II Reinado ao tratar os combates e personagens como precursores do partido. Temáticas recorrentes nos poemas foram percebidas, capazes até de resultar em novos conjuntos, para além dos dois estudados. Estes poderiam ser divididos da seguinte maneira: a presença da liberdade como tema principal, levando a um terceiro conjunto. Um quarto agrupamento, tendo em vista a apresentação dos chamados valores republicanos, posto que há, de um lado, uma divinização e personalização; e, de outro, a exposição destes como coerentes com o cristianismo. A escravidão como metáfora, isto é, como equivalente da condição de súdito comporia, por fim, o quinto grupo. Tais agrupamentos não foram efetivamente trabalhados como conjuntos ao longo da tese. Todavia, a recorrência de temáticas aponta para o estabelecimento desses lugares- comuns no palco de discussões que se formava via poemas. Desse modo, acredita-se 87 que a divisão acima possa ser um campo frutífero para o desenvolvimento de futuros trabalhos com o mesmo corpus. Na análise dos dois grupos principais acima citados, é possível perceber com clareza os enunciados, as denúncias, as descrições e prescrições que constituíram essa empresa que buscava desqualificar a monarquia e propor sua substituição pela república. Se naquilo que explicitamente declaram, os poemas permitem estabelecer essa separação e classificação, o mesmo não pode ser dito se analisarmos a presença dos vocábulos e recursos linguísticos a que recorrem. De modo geral, a sensibilidade de uma ruptura não representava um fiat lux, uma dissociação absoluta com a tradição de séculos. Os discursos do progresso e da inovação como necessidades convivem com evidências da sobrevivência de arcaísmos e da tradição. Ou seja, aparentemente, há uma discrepância entre o que é explicitamente dito nos poemas e a utilização dos recursos linguísticos disponíveis para verbalização da negação de uma ordem. A falta de uso de recursos originais para valorizar e justificar algo novo revela, a despeito da novidade que se buscava alcançar, uma continuidade de certas formas de ver o mundo. Nos poemas, o elogio explícito do que será, do porvir, da novidade, da busca do novo pelo novo, não impede a presença formal de continuidades, o que parece indicar que nem sempre este conteúdo foi acompanhado por mudanças linguísticas “coerentes”. Os adjetivos derivados ou associados à monarquia permanecem como elogiosos, mesmo na denúncia desta e defesa das qualidades da república. E a nobre democracia, Fulminando a tirania, Seu reino formará.223 Neste pequeno exemplo, observemos que a nobre democracia formará um reino. A democracia e/ou a república a ser instituída conformaria um futuro nomeado como a forma política da qual pretende ser negação e superação. Mais do que meras palavras, poderíamos ver aqui uma continuidade com a ideia da política como território da imposição. A democracia constituiria um reino, ou seja, não seria um modo de convivência de cidadãos portadores de direitos, mas a imposição de um padrão ao qual 223710319 O Povo. A República. (Os poemas estão reproduzidos no Anexo 7 e identificados por seis dígitos seguidos de seu título. Os dois primeiros números indicam o ano da sua publicação; os dois seguintes, o mês; os dois últimos, o dia. Assim, “O Povo” foi publicado em 19 de março de 1871). 88 todos deveriam se sujeitar, subordinar-se. Não traria a emancipação e a participação, mesmo que restrita, dos homens e mulheres no jogo e atividade política. A presença do discurso do moderno e da novidade com elementos “tradicionais” e de continuidade não parece ser uma singularidade dos poemas. É possível sugerir que não seja nem uma característica do século XIX, mas parte do processo histórico. A despeito dessa ressalva, parece-nos importante indicar que a encontramos na imprensa da Corte no final do século XIX. A título de exemplo, os anúncios de máquinas elétricas dividem as páginas dos jornais com os de “bichas hamburguesas” (sanguessugas) e de videntes. O anúncio veiculado na página 4 da edição de 15 de dezembro de 1875 é profundamente esclarecedor nesse sentido. Trata-se de um anúncio de campainhas elétricas da loja Ao Grande Mágico (figura 2, p. 89). O produto é anunciado e justificado como economia de tempo, “time is money!!”, de ganhos em termos de elegância e asseio. A eletricidade e a velocidade modernas são promessas do anúncio: meio de comunicação rápido, que nunca falha, e que tornaria desnecessário percorrer distâncias para chamar, falar ou mandar. Há, em nosso entendimento, elementos que associam a campainha elétrica ao progresso. No entanto, essa relação aparece ao lado de elementos do não-moderno, cuja superação se daria por meio do produto. Dois elementos constantes no impresso nos levam a tratá-lo na chave da permanência de elementos não-modernos, em associação com as novidades do mundo moderno. O primeiro é o próprio nome da loja na qual a campainha está sendo vendida: Ao Grande Mágico. O segundo é o desenho que consta no anúncio. Nele, aparece um serviçal sob o quadro de campainhas indicativas do serviço que está sendo solicitado – porteiro, cocheiro, criado, mucama, copeiro ou cozinheiro. Tendo em vista a data do jornal, podemos supor que o negro representado é um ex-escravizado, pois usa calçados. O homem à porta e a mulher no quarto são brancos. Das três pessoas constantes no desenho, só o serviçal é negro. A condição social e a identificação racial estariam se sobrepondo. Nesse sentido, podemos supor que, em uma sociedade na qual a escravidão era uma instituição, os negros escravizados ou livres partilhavam de condição social próxima: a exclusão. Nesta linha de interpretação, estamos considerando que o anúncio sugere uma modernização conservadora, ou seja, inovações técnicas modernas e manutenção do status quo. 89 Os poetas, de ocasião ou de ofício, autores dos poemas que analisamos, pretendiam falar em nome do povo, apresentavam-se como porta-vozes desta entidade, seus tribunos ou funcionários. Entretanto, a identidade entre o projeto e o povo só seria estabelecida através do discurso, a exemplo do que ocorreu na Revolução Francesa, uma vez que, se só o povo é soberano, o poder estaria nas mãos daqueles que são reconhecidos como falando em seu nome, daqueles que apropriam pela palavra a vontade do povo. Teríamos, assim, uma “competição dos discursos para apropriação da Figura 2: Campainhas elétricas 90 legitimidade”.224 Somente através da apresentação e reconhecimento públicos, por meio da palavra como expressão da vontade do povo, é que os republicanos construiriam a legitimidade política. Há, então, distintas construções em curso. A do povo como soberano, a da República como o bom governo e a dos republicanos como aqueles que podem falar da República e em nome da vontade do soberano. Os poemas podem ser tidos como parte da subversão cognitiva necessária à subversão política. A (inov)ação política só é possível se os sujeitos acreditarem na legitimidade de sua iniciativa e na possibilidade de sua eficácia, assim, não há ação ou mudança política que não seja acompanhada de uma subversão herética. A subversão herética explora a possibilidade de mudar o mundo social modificando a representação desse mundo que contribui para sua realidade, ou melhor, opondo uma pré-visão paradoxal (…) à visão comum que apreende o mundo social como mundo natural. (…) Contribui praticamente para a realidade do que anuncia pelo fato de enunciá-lo, de prevê-lo e de fazê-lo prever; por torná-lo concebível e sobretudo crível, criando assim a representação e a vontade coletivas em condições de contribuir para produzi-lo.225 Os poemas contribuem para transformar a significação e o valor simbólico da escravidão e da Monarquia. Ambas eram apresentadas como injustas, relativas à falta de liberdade, ao atraso, frutos do privilégio, como manifestações da mesma carência, como dois lados da mesma moeda. Assim, um senso comum que as tinha como naturais e morais estava sendo solapado, apresentando-as como decisões e opções políticas indefensáveis moralmente. Os poemas, então, são responsáveis pela significação e circulação da ideia de República e do ser republicano, do abolicionista e da abolição para a grande parte da população do Império e da Corte. A poesia primordialmente era oral, tinha um componente religioso e consistia em uma das formas de alcançar a verdade (alethéia).226 A cultura cristã ocidental manteve a poesia como atividade intelectual, depurando-a das demais características. A forma escrita se impôs, transformou-se em arte e em uma escrita do mundo. A poíesis grega (ação de fazer algo) foi transformada na arte de escrever versos. “A poesia pura de nosso tempo esqueceu o auditor e visa principalmente a um leitor atento e reflexivo, 224FURET, François. Pensar a Revolução Francesa. Lisboa: Edições 70, [1988]. p. 76-77. 225BOURDIEU, Pierre. Descrever e prescrever. In: _____. Economia das trocas lingüísticas São Paulo: Edusp, 1998. p. 118. 226DETIENNE, Marcel. Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. 91 capaz de viver no silêncio e na meditação o sentido do seu canto mudo”.227 Essas mudanças dizem respeito à valorização e ao entendimento da poesia, mas não implicaram mudanças morfológicas. A métrica, o ritmo, o refrão, a recapitulação, como requisitos da enunciação verbal às exigências da memorização e da audição, sobreviveram a essas mudanças. Mesmo as musas foram mantidas, talvez as únicas divindades pagãs que o cristianismo tenha aceitado em sua convivência. A forma escrita não tirava as qualidades e propriedades que a poesia possuía na origem oral. Na poesia, a palavra, que “antes representa do que expressa o significado”, não funciona do mesmo modo que na prosa.228 A sonoridade das palavras na/pela declamação sempre foi mais importante do que sua forma visual ou sua disposição na folha impressa (à exceção talvez da Poesia Concreta). No Brasil, escritores e poetas no século XIX prefiguravam mais um ouvinte do que um leitor. Os literatos não escreviam, falavam de pena em punho. Dispensando a página impressa, os poemas circulavam pela palavra oral (saraus, recitais, auditórios), formando um público de ouvintes maior que o de leitores, defende Candido.229 Em Dispersa Demanda, Costa Lima radicaliza esta tese, ao afirmar que, no Brasil do século XIX, forma-se uma cultura auditiva. “A forma escrita da literatura fazia-se sucursal de uma circulação permanentemente oral”, assevera o autor.230 Os poemas adquirem mais relevância à luz das considerações acima. A oralidade seria marca fundamental, mesmo que tenham vindo a público na forma impressa. O uso excessivo de exclamações, inclusive nos títulos, reforça tal entendimento. Uma vez aceita esta ideia, podemos concluir que os poemas circulavam por meio da memorização e repetição que a rima e a métrica facilitavam. Ou seja, sua recepção não ficava restrita ao púbico leitor que tinha acesso ao jornal. A cultura auditiva contribuía para sua propagação, já que havia um público predisposto a ouvir, ou seja, uma espécie de “plateia” preexistente. Versando o descontentamento: as críticas sob o Império O seguinte pedido anuncia a publicação de alguns poemas no jornal A Reforma, em 1869, até mesmo antecipando alguns de seus futuros “alvos”: 227CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Publifolha, 2000. p. 29. 228SARTRE, Jean-Paul. Que é a Literatura? São Paulo: Ática, 1999. p. 15. 229CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Publifolha, 2000. p. 74. 230LIMA, Luiz da Costa. Da existência precária: o sistema intelectual brasileiro. In: _____. Dispersa demanda: ensaios sobre literatura e teoria. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981. p. 7. 92 Tenho uma coleção de perfis políticos. É uma galeria de contemporâneos em versos de pé quebrado, que em momentos de descanso escrevo para imortalizar, à guisa de Bérenger, os nossos grandes vultos sociais da atualidade. Consente-me a publicação d'El-Rei nas colunas de seu jornal, senhor redator da Reforma? Vai o primeiro perfil. É a fotografia do – Casusinha das dúzias. Em seguida enviarei o retrato do Coxo; depois irão os demais paxás da situação. Erasmo.231 Nas edições seguintes de A Reforma, não encontramos, como era de se esperar, os poemas prometidos. Interessa-nos destacar, todavia, que a prática de elaborar poemas sobre figuras públicas, “grandes vultos sociais da atualidade”, parecia ser uma constante. A esse respeito, em 1896, o Gazeta de Notícias trazia a seguinte nota: CARICATURAS INSTANTÂNEAS Brevemente começaremos a publicar uma série de pequenos estudos sobre homens do nosso país, escritos por um antigo jornalista, hoje arredado da imprensa, mas em plena atividade em elevadas funções políticas. Cada artigo será acompanhado de uma ilustração de Julião Machado, o brilhante caricaturista da Bruxa. O escritor usará o pseudônimo de Juvenal Gavarni, e a primeira série ocupar-se-á de caricaturas políticas.232 O título da nota, “Caricaturas Instantâneas”, é também o nome dos “estudos sobre homens do nosso país”. Os estudos prometidos em 1896 se aproximam dos perfis políticos de 1869, apesar do intervalo de 27 anos entre os dois. Ambos tratam de figuras públicas na chave da denúncia e da sátira, sendo as personalidades públicas referidas de forma cifrada e, principalmente, na forma de poemas. Este é um ponto importante para nosso trabalho: a crítica e as tomadas de posição sobre temas políticos, que marcavam os jornais no século XIX no Brasil, davam-se também na forma de poemas. Ao longo do 231A Reforma. Rio de Janeiro. 23 dez. 1869. p. 3. 232Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 18 agosto 1896. p. 1. Continua a apresentação: “1ª série – Políticas – por Juvenal Gavarni. I- Prudente e demorado [Prudente de Morais]; II- O grilo; III- Feito a machado [Ubaldino de Amaral]; IV- Caboclo bom; V- Glyceroleo; VI- Pimenta malagueta; VII- O langrista [Medeiros e Albuquerque]; VIII- Um saco de princípios; IX- Filho de Papai [Afonso Celso]; X- O Alarido; XI- Raposo Manhoso [Coelho Rodrigues]; XII. O cipreste; XIII- O homem dos sete instrumentos; XIV- O príncipe [Quintino Bocaiuva]; XV- O cahe-pr'a-cá; XVI. Melado de Campos; XVII- Narciso; XVIII- O marreco; XIX- Sabiá da praia; XX- Cimourdain; XXI- Gauvain [Júlio de Castilhos]; XXII- Diógenes; XXIII- Animal de sangue frio; XXIV- Frei Antônio; XXV- Numa Roumestan; XXVI-Commigo é nove; XXVII- Gracchulus.” A segunda caricatura, publicada em 3 de setembro de 1896, tratou de Cesário Alvim sob o título de O Caniço. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 3 setembro 1896. p. 1. As Caricaturas foram publicadas em livro em 1939 e trazem a seguintes indicações de caricaturas e das pessoas que tratavam, além da indicadas acima: O Guaiamu, José do Patrocínio; De cabo a general, Francisco Glicério; O profeta vermelho, Rangel Pestana; O caipira, Campos Sales. MENDONÇA, Lúcio de (Juvenal Gavarni). Caricaturas Instantâneas [1896]. Rio de Janeiro: S. A. A Noite, 1939. 93 período da pesquisa, a visualização dessa prática foi uma constante. No poema enviado ao redator de A Reforma, em 1869, Casusinha das duzias233, há uma tripla referência a José de Alencar, Ministro da Justiça entre julho de 1868 e janeiro de 1870. Casusa era o apelido de infância de Alencar – essa é a primeira referência. A segunda está na autoria do poema – Erasmo, que foi o pseudônimo usado por Alencar na publicação das Cartas Políticas.234 Assim, o mesmo pseudônimo aparece em um texto que critica o Ministro da Justiça e autor das Cartas Políticas. A terceira se encontra no corpo do texto: Quem é esse fanadinho, Pequenino De cara patibular? Não conheces? Nunca o viste? Na verdade é coisa triste Não conhecer o Alencar. E puf, paf, puf Tará, pá, pum O casusinha das dúzias Não é peixe, nem mutum. O Casusa é um portento, Monumento Da moderna geração: Nas letras não tem igual, É poeta sem rival Na nossa pobre nação. E puf, paf, puf Tará, pá, pum O Casusinha Alencar Não é peixe, mas mutum. Em janeiro de 1870, O Quinze de Julho publicou outro poema com o mesmo título, “Casusinha das dúzias”,235 desta feita, assinado por Os Bóródóbós. A alusão a Alencar, explícita no título, é reforçada pela citação de seu nome no corpo do texto: Meu turíbulo é mais modesto, e se fumega no altar, vai ao nariz desonesto... não do Antão... mas do Alencar! O poema reproduz o estribilho “tará, pá, pum / do peixinho e do mutum”, daquele homônimo publicado em A Reforma em dezembro de 1869. O pseudônimo de Alencar, em Cartas Políticas e que fora apropriado em 1869 na crítica a ele dirigida, 233691223 Casusinha das dúzias. A Reforma. 234ALENCAR, José de. Cartas de Erasmo. Rio de Janeiro: ABL, 2009. 235700101 Casusinha das dúzias. O Quinze de Julho. 94 aparece por meio da pergunta: Não ouves a voz de Erasmo, e do passado o sarcasmo, de seu pai a maldição? Os dois poemas são, portanto, uma crítica à atuação de Alencar na frente do Ministério e dialogam entre si. Ambos trazem críticas à política no Império. Indiretamente, portanto, é mais o próprio Império que aparece execrado nesse poema, no contexto mais amplo de uma prática política condenável do que seu alvo direto, o ministro Alencar. Mesmo não havendo elementos que nos permitam classificar o texto como republicano, sua existência não é estranha à questão. A data e o título do jornal podem ser entendidos como expressão do descontentamento que se seguiu à queda do gabinete Zacarias em 1868. Lembremos que a crise que seguiu ao fim deste gabinete deixou transparecer um descontentamento com o Imperador, segundo Vianna.236 Nesses poemas, há pelo menos duas ideias que merecem destaque. A primeira é a denúncia que fazem: as práticas que marcariam o Império estariam em desacordo com o que deveria ser. Assim, entendemos as perguntas exclamativas que o compõem. São recursos retóricos para colocar em evidência a situação que se pretende denunciar. A segunda é a noção de um futuro em que a justiça será feita. A redundância é um risco, mas a projeção de um futuro afirma o transitório do presente e a possibilidade de ser corrigido, de ser depurado. No caso concreto, além destas ideias, encontramos referência a um futuro ajuste de contas, quase uma vingança das vítimas do presente ou em seu nome. A jandaia, transformada em gavião, pode comer a ninhada, “mas conta já com a bicada que os bem-te-vis-te-darão”. A injustiças e o abuso do poder do presente terão respostas em um futuro próximo – é o que podemos depreender. As “Caricaturas Instantâneas” de 1896 também tratam os personagens sob a forma de códigos, sendo nomeadas por apelidos ou alcunhas, em uma referência cifrada aos retratados. Nelas, Prudente de Morais é “Prudente e demorado”; Ubaldino de Amaral, “Feito a machado”; Medeiros e Albuquerque, “O langrista”; Afonso Celso, “Filho de Papai”; Coelho Rodrigues, “Raposo Manhoso”; Quintino Bocaiuva, “O príncipe”; Júlio de Castilhos, “Gauvain”; Cesário Alvim, “O Caniço”; José do Patrocínio, “O Guaiamu”; Francisco Glicério, “De cabo a general”; Rangel Pestana, “O 236A ideia republicana como força organizada data da reação liberal à queda do Gabinete Zacarias em 1868. VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: ABL, 2006. p. 08-14. 95 profeta vermelho”; e Campos Sales, “O caipira”. Para efeito da análise a seguir, é importante frisar este ponto: os poemas e as caricaturas assumem modos de crítica e/ou crônica política. Servem como recursos para atacar, elogiar, denunciar ou defender uma posição, uma personalidade e/ou uma ideia. É ponto pacífico na historiografia que, no Brasil da segunda metade do século XIX, os jornais se constituíam em importante componente do debate político.237 As coletâneas de artigos publicados na imprensa atestam a pertinência desta afirmação.238 Tal prática adentrou o período republicano, tendo em vista, no exemplo, a publicação de Caricaturas Instantâneas por Mendonça.239 O ponto que nos interessa destacar é que, nesse debate, os poemas constituíram um dos recursos para publicizar e explicitar uma posição e/ou oposição. Encontramos vários exemplos que podem ser assim caracterizados. No contexto da campanha republicana, os poemas que veiculam críticas às autoridades, personalidades públicas, protestos ou denúncias adquirem relevância. Em primeiro lugar, por resgatar um quadro geral em que estão inseridos. Em segundo, por considerar que as críticas à organização social, aos desmandos políticos e às injustiças, mesmo genéricas ou dirigidas aos gabinetes, colaboram para a desconstrução da monarquia como o reino da ordem, do justo e do correto. Em sendo assim, os poemas que explicitam críticas genéricas ao existente devem ser resgatados. “Só o pobre é sacrificado” Nesse sentido, é interessante resgatar um poema – O Progresso240 – anterior ao Manifesto de 1870 e que veicula críticas que não podem ser consideradas como parte da campanha republicana. Sua publicação data de agosto de 1869, na seção Lundus, de O Trovador. O periódico, como o próprio nome sugere, define-se pelo gênero textual que 237Ver, entre outros, CARVALHO, José. M. de. Radicalismo e republicanismo. In: ______ e NEVES, Lúcia M. B. P. das. Repensando o Brasil dos oitocentos: cidadania, política e liberdade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 19-48; MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007; ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. 238Ver ALBUQUERQUE, Medeiros de. Quando eu era vivo...– Memórias 1867 a 1934. Porto Alegre, Livraria do Globo, 1942; E MENDONÇA, Lúcio de. A caminho (Propaganda Republicana). Rio de Janeiro: Lammert & Cia, 1905. 239Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 18 agosto 1896. p. 1. As caricaturas foram reunidas e publicadas em livro em 1939: MENDONÇA, Lúcio de (Juvenal Gavarni). Caricaturas Instantâneas [1896]. Rio de Janeiro: S. A. A Noite, 1939. 240690829 O Progresso. Trovador. 96 publica, trovas. Para além da formalidade que define a trova, interessa-nos ser um gênero popular. Esta característica é reforçada pela seção em que o poema se encontra – Lundus –, que também tem forte apelo popular. O poema tem três partes com críticas à administração municipal, ao tráfico de influências e às eleições. Anda tudo à revelia, As ruas esburacadas; Em cada canto imundice As sarjetas empossadas. Além da sujeira, das “águas sujas”, a denúncia aborda o tratamento diferenciado dispensado ao infrator, se rico ou pobre. O último paga a multa municipal “cheio de mágoa”, enquanto aos primeiros Mas se for rico. Dizem: – este não, porque me pode Dar demissão. Essa situação serve de pretexto para os versos seguintes denunciarem o tratamento desigual dispensado ao rico e ao pobre quando infringem a lei: A justiça não se faz Ao rico ou ao barão; Só p’ra o pobre a justiça, Para o rico a posição. A explicação é dada nos versos seguintes, os que têm padrinho são protegidos, não são punidos e conseguem empregos. Quem não tiver Um bom padrinho; Não passará d’um biscainho. Só tem emprego Os afilhados, Os protegidos Dos magistrados. A proteção aparece como chave na descrição da sociedade, o acesso desigual a empregos e justiça são suas consequências. A penalização do pobre e o privilégio do rico, marcas desse corpo social, são referidos no poema, em tom de ironia, como patriotismo. A eleição é o único momento no qual o pobre é lembrado em primeiro 97 lugar: “Mas quando chega a eleição, / p'ra o pobre correm primeiro”. No entanto, as promessas eleitorais não são cumpridas: Depois de finda Essa eleição; O que prometem Eles não dão. É interessante frisar que o poema inicia suas denúncias tratando da fiscalização municipal, passa pelo tratamento desigual dispensado ao pobre, quando comparado ao que o rico recebe, aborda o apadrinhamento e termina com a crítica ao oportunismo dos candidatos nas eleições. Ou seja, a denúncia percorre um trajeto de uma situação específica e termina apontando uma dinâmica geral. Esse gradiente não impede que o poema seja visto abordando a mesma situação injusta – o tratamento dispensado ao pobre – nas condições concretas apontadas. Ou seja, as conjunturas concretas indicadas seriam manifestações da mesma constante. A quadra final reforça essa hipótese. Desse sujeito Vejo eu aos mil; No malfadado Nosso Brasil. A política sob o Império aparece marcada pelo privilégio, fruto do arbítrio. A cidade é descrita sob a égide do negativo: ruas esburacadas, imundice e sarjetas empossadas, mas a solução do problema recairia sobre o pobre. Quem não tiver O seu quintal; Paga essa multa Municipal. Pois se puser À rua água; Lá vai o pobre Cheio de mágoa. Ou seja, aqueles que não têm quintal pagam a multa, a saber: o pobre. Mas, completa o poema, a injustiça não decorre só da falta de posses (ou quintal), mas da relação de dependência que têm os fiscais e os ricos. Em outras palavras, do tráfico de influências que marca as relações sob a monarquia. O que essa situação permite vislumbrar é um quadro mais amplo da sociedade imperial como orientada pelo privilégio dos ricos: “Só p'ra o pobre a justiça, / para o 98 rico a posição”. Ter um padrinho, ter a proteção de um poderoso ou magistrado, aparece como a condição para um bom emprego. Caso contrário, não passará de um biscainho. O pobre, ignorado sistematicamente, a quem não é dado emprego nem nada, que paga as multas, é lembrado à época das eleições. Aos pobres recorrem “c'o nome impresso/ n'um cartãozinho” para pedir votos. Mas, após as eleições, “o que prometem/ eles não dão”. Nisso consistiria “O Progresso” da sociedade do Império do Brasil, como sugere o título do poema. A injustiça que favorece os ricos é, desta feita, objeto da denúncia de “O Progresso”. A crítica ao que está instituído pode ser interpretada como voltada ao Império, pois, ainda que a denúncia dos excessos não implique necessariamente condenação deste, também não deixa de sê-lo. Observemos que, na melhor das hipóteses, revela um descontentamento ou inconformidade com aquilo que existe. Assim, favorece falas e propostas que pretendam corrigir os abusos. Em último caso, permite o estranhamento ao instituído, desnaturaliza-o e favorece a busca por arranjos substitutivos, na medida em que entende que a monarquia permite a existência de práticas injustas e condenáveis. A denúncia sobre o tratamento diferenciado dispensado aos ricos e aos pobres se faz presente em “Será verdade?”, publicado em Echo Popular em 1869.241 Com quadras precedidas de uma pergunta – o título é uma interrogativa –, podemos supor que o poema visava induzir ao questionamento das regras tácitas da sociedade. O texto estabelece em seu início uma contraposição entre uma natureza generosa e práticas sociais marcadas pela iniquidade. Assim, a afirmação das belezas da terra que, de tão formosa, rivaliza com o Japão, é contraposta, nas primeiras quadras, ao “bucho de tubarão” dos governantes. As situações descritas nos versos seguintes constituem-se em denúncias. – Será verdade o que? Os homens que cá governam, Só servem para cavar fossos, Os ministros repimpados!... Os pequenos pagam impostos. (…) – Será verdade o que? 241690912 Será verdade? Echo Popular. 99 Que eu tenho comenda no peito Não sofro dano nenhum Mas tu que não tens nada Pagas igual a qualquer um... (…) – Será verdade o que? Que quem é rico e tem dinheiro É qual Deus verdadeiro Só o pobre é sacrificado Por esses grandes do estado. O fecho do poema caminha no mesmo sentido de “O progresso”. A partir das situações descritas, o Império é apresentado como o antiprogresso: Os amigos libertinos Nos trouxeram este progresso E depois em seu regresso Nos virão os divinos. Essas críticas são reafirmadas na edição seguinte do Echo Popular. Um novo poema, com título próximo – “Sera Verdade” –, é publicado. As diferenças ficam primeiramente por conta da pontuação: enquanto o primeiro título é uma pergunta, o segundo aparece como afirmação. Uma segunda diferença acontece pela indicação de autoria no segundo. O fato de só este último estar “assinado” por O Corsário sugere tratar-se de um só poema publicado em duas partes. Dada a forma padrão e a estrutura das frases/versos, estamos tratando a ambos como sendo um questionamento, como indutores a uma dúvida. A falta de indicação de continuidade no que seria a primeira parte, no entanto, deixa indagações. Afora isso, os dois se aproximam por explicitar críticas à organização do Império. – Será verdade que: Um dia fui no tesouro Selar certos papeizinhos, Porém, oh, que caterva? Que me aparecem meirinhos. (…) – Será verdade que: Em todas as repartições 100 Há tantos vagos e impostores Isto me parece farsa – comédia – A formação de tantos doutores. – Será verdade que: A guerra que nos tem assolado Tem sido só ao tesouro Pelos grandes do estado. (…) – Será verdade que: Oh, meu Sr. de estado Eu não faço negócio E por isso pagar não posso Esta grande exorbitância Dos-mandões do poder Eu pagar não posso querer. As repartições são dominadas por meirinhos, impostores e doutores, que se constituem em senhores do Estado e “mandões do poder”. Esses levam a cabo uma guerra contra o tesouro. Não bastasse esse assalto, ainda cobram exorbitâncias para “selar certos papeizinhos”. O ponto a se destacar é a descrição do Estado como controlado por “mandões” que assaltam o tesouro. Não houve o estabelecimento de uma inequívoca relação entre a situação denunciada e a monarquia, tampouco esta foi negada. O ponto que merece ser enfatizado, no entanto, é que o poema, mais que injustiças, denuncia a relação estabelecida entre a riqueza (ou sua ausência) e privilégios (ou falta de direitos). Os promotores dessa situação são nomeados como “homens que cá governam”, “ministros repimpados”, “homens de senhoria” e “esses grandes de estado”. A condição social está sendo apresentada como questão política na medida em que a denúncia apontada não se reduz à falta de dinheiro do pobre, mas à sua falta de direitos e à sua manutenção nessa condição pelos que dela tiram proveito. A crítica/denúncia adquire um tom mais grave, mais do que ser o imposto elevado e mais do que resultar em benefício de poucos. A questão é que os mandões e grandes citados usam do poder para se manterem como tais. Em outras palavras, aqueles que ocupam posições no Estado usam-nas para seu proveito e para manter excluídos os demais. No limite, sugere-se que temos uma aristocracia sustentada às expensas do Estado e por meio da exploração dos pobres. O Estado seria mero pretexto para mascarar uma apropriação sistemática do alheio. 101 A crítica aos agraciados com títulos de nobreza ou altos postos da magistratura motiva o poema “Epigrama”.242 A polêmica acerca da nomeação a ser dada a um animal, que foi trazido para a cidade, um macaco, foi resolvida pela “polícia da terra” com a seguinte decisão: – Este bicho p'ra ser homem Falta-lhe só a razão, Portanto, deve chamar-se Comendador ou barão. Esses notáveis são apresentados, portanto, como carentes de razão, ou seja, irracionais. A descrição negativa, se interpretada a contrapelo, pode sugerir a importância que a razão adquiria na segunda metade do século XIX no Brasil. Em todo caso, é importante frisar que o texto colabora para minar o capital simbólico dos notáveis, pois nega a pretensa superioridade e distinção política e cultural que os diferenciaria dos demais habitantes. A crítica não questiona prioridades ou comportamentos políticos na administração da coisa pública, mas desqualifica parte do que seria a elite do Império. Problemas no fornecimento de água na Corte é a questão de fundo de “Extorsão/Falta d'água”243, publicado em 1874. A questão grave que o poema denuncia é que, enquanto o cidadão sofre com essa falta, há água com fartura no Paço Imperial. Os termos da denúncia a fazem mais grave, pois são os “cidadãos” que foram privados da água e não a “população”. A quadra que segue a primeira denúncia reforça o agravante. Esses cidadãos são os mesmos que o fisco incansável não esquece de cobrar e “chuchar”. Corre água em borbotão!!! Lá no Paço de Bragança; Mas nós cá, o cidadão: D' esta pinga não alcança. Do fisco a voraz cobrança, A chuchar nosso dinheiro; Não esquece, não descansa; De [ilegível] o brasileiro. Desta feita, a falta d'água é tratada como denúncia ao privilégio e à injustiça de que os cidadãos estariam sendo vítimas nessa crise específica, a de abastecimento na 242730817 Epigrama. D. Pedro V. 243740119 Extorsão / Falta d'água. A República. 102 Corte. A corrupção, aparentemente, é o tema de “Moralidade”.244 Como o poema é cifrado, não há nele elementos que permitam identificar a qual caso concreto se refere, embora não haja dúvidas de se tratar de um escândalo envolvendo apropriação indevida de valores. O autor da ação, no entanto, não é indicado, o que não permite precisar ser uma pessoa pública ou cidadão comum. Como o que nos interessa é indicar a existência de uma representação negativa sobre as práticas políticas no Império, não nos pareceu relevante identificar a situação específica que motivou a publicação. A solidariedade ao acusado é indicativa de cumplicidade – sugere: E os tais defensores!! Que dizem, não furtou! Querem com ele comparar-se! Com quem, provado; roubou. São tão bons, larápios, Como quem dos pobres furtou; Os que apoiam e defendem Como quem pediu e roubou. A última quadra apela aos bons que se mantenham como tais e não se misturem com os “velhacos”: Separem-se os homens de bem, Assim procede quem o é; Sejam firmes e honestos, De velhaco quem não é. A moralidade, que nomeia o poema, pode ser entendida tanto como ironia ao comportamento dos larápios, incluindo quem furtou e os que o defendem, quanto como defesa da separação dos bons, indicada no final. Para nossa questão, as duas possibilidades reforçam o argumento da existência de uma representação negativa sobre a coisa pública. Defensores e defendido, no poema, aparecem como larápios que furtam dos pobres. Em 1875, o drama Os Lazaristas teve sua encenação no Brasil proibida pelo Conservatório Dramático Brasileiro. Sua execução foi, entretanto, planejada para outubro, no Teatro São Luiz, destinada aos associados de uma sociedade dramática. A presença da força policial para garantir que a proibição fosse respeitada terminou em conflito com populares na noite de 13 de outubro. Esse acontecimento serviu de 244750808 Moralidade. O Globo. 103 pretexto para a publicação de um periódico que assumiu o mesmo nome do drama proibido. Entre os gemidos agonizantes de um povo inofensivo imolado à sanha brutal do despotismo policial, e por baixo das espadas homicidas da força pública que representava a farsa-tragédia no dia 13 do corrente surgiu – O Lazarista. (…) O Lazarista, vem pois à luz da publicidade exprobrar os erros e desmandos dos que infelizmente dirigem este malfadado país digno de melhor sorte e advogar os interesses de um povo livre.245 Coerente com estes objetivos, o periódico publica em seu terceiro número o poema “Quem sou eu?”.246 O longo texto-charada lista, a título de pistas, as atitudes, comportamentos, práticas e grupos que o “eu” do título tem preferência e as que rejeita. Vejamos: Fujo sempre à hipocrisia, À sandice, à fidalguia; Das manadas de Barões? Anjo Bento, antes trovões. (…) Digo muito disparate, Mas só rendo obediência À virtude, à inteligência: (…) Os birbantes mais lapuzes, Compram negros e comendas, Têm brasões, não – das Calendas, E, com tretas e com furtos Vão subindo a passos curtos; Fazem grossa pepineira, Só pela arte do Vieira, E com jeito e proteções, Galgam altas posições! (…) Não tolero o magistrado, Que do brio descuidado, Vende a lei, trai a justiça – Faz a todos injustiça – Com rigor deprime o pobre Presta abrigo ao rico, ao nobre, E só acha horrendo crime No mendigo, que deprime. (…) Eu bem sei que sou qual grilo De maçante e mau estilo; E que os homens poderosos 245O Lazarista. Rio de Janeiro. 21 outubro 1875. p. 1. 246751028 Quem sou eu? O Lazarista. 104 Desta arenga receosos Hão de chamar-me – tarelo, Bode, negro, Mongibelo; Porém eu que não me abalo, Vou tangendo o meu badalo Com repique impertinente, Pondo a trote muita gente. (...) As indicações fornecidas para a obtenção da resposta à pergunta do título podem ser consideradas como parte da crítica política e social que trabalhamos. A hipocrisia, a sandice, a fidalguia, o arrivismo, a subserviência, a desonestidade e a falsidade são rejeitadas; já a virtude e a inteligência são louvadas. Com a sugestão de serem as práticas condenáveis associadas à elite, o poema ataca esta própria elite. As altas posições não representariam uma maior dignidade, mas resultariam da compra de comendas, da proteção e da arte do Vieira. Os subornos e o tráfico de influência na Justiça são os temas de “Viva a moralidade”.247 A felicitação que o título sugere transforma-se em ironia com o desenvolvimento do poema. “A justiça d'esta terra/ Eu a compro com dinheiro”, o que faz com que “Dos tribunais julgadores/ Tenho sempre ganho votos”. A desonestidade instituída e transformada em rotina é apresentada como sendo a “moralidade” da Justiça. O déficit do orçamento, que devora “o aflito povo”, é o tema de “O corte no orçamento”.248 Para obter a redução das despesas públicas, é proposto o não pagamento dos parlamentares que faltam às sessões legislativas. “Aos cofres do tesouro abandonando/ O cobre que assim ides levantando/ Nos dias que faltais”: é o que se pede aos deputados. Ao senado, solicita-se trabalho mais produtivo: Aos distintos nestores do senado Igual pedido faz A nação que fenece de anemia, Vendo fugir o tempo em fantasia, Em discussão falaz. A solicitação tem como justificativa principal a necessidade de obter uma redução dos custos. Ao longo do texto outras ideias interessantes se fazem presentes. A primeira é tratar os deputados como “senhores da nação representantes”, ou seja, pontua a atividade parlamentar como delegação da nação, em nome de quem são solicitadas as 247751128 Viva a moralidade. Gazeta de Notícias. 248770518 O corte no orçamento. O Globo. 105 mudanças no pagamento. Há também a comparação do trabalho do deputado com um artesão: “Se quando o artesão não comparece/ Ao ponto da oficina/ O dia de labor se lhe desconta”. Neste caso, o que se pede é um tratamento isonômico entre representantes e representados, que ambos estejam sujeitos às mesmas regras no que diz respeito aos descontos por falta. A questão de fundo que emerge é uma crítica geral ao parlamento, em que há faltas em excesso e discussões falaciosas, dispendiosas para a nação e para o povo brasileiro. Se as críticas apresentadas até aqui eram sutis ou insinuantes, sugeriam mais do que declaravam, aquela realizada em “Os coribantes” consiste em um vitupério explícito e taxativo.249 O “Poemeto realista dedicado aos aventureiros sociais” não economiza termos para descrever o que é censurável. O Canto I, dedicado aos políticos palacianos, lança mão de expressões como “vis trampolineiros”, homens de duas frontes”, “almas de duas vistas”, “assassinos perdidos da consciência sã”, “hipócritas, truões, almas negras do vício, geradas nos balcões”, “heróis da iniquidade”, entre outras. Nesta longa condenação, não faltam termos pejorativos para desqualificar os aventureiros sociais e políticos palacianos, que vendem a consciência, a honra, a honestidade e que limpam as “botas com os códigos das leis”. A questão de fundo que suscita a reprovação seria o abandono dos princípios em função das benesses do poder, obtidas pela subserviência aos poderosos. As críticas à dinâmica política e social do Império são reveladoras da permanência e transversalidade da preocupação e descontentamento com o jogo político do período, a despeito das variáveis de data, veículo e autoria. Em alguns casos, a crítica aparecia em colunas autorais e permanentes. Este foi o caso de “A musa do povo”, assinada por Octaviano Hudson, com críticas à política e à monarquia. Neste momento, somente nos interessam os poemas que fazem reprimendas às práticas e dinâmicas políticas sem vínculos a uma proposta específica de governo. A recusa ao novo e o apego ao conservadorismo são denunciados em outubro de 1877.250 Não há razão de queixa, eu afianço A pátria marcha bem, Quanto pior melhor, eis o meu lema, Bons efeitos aguardo de tal tema, Respeitá-lo convém! 249770601 Os coribantes. Revista Academica. 250771024 Musa do povo / Quanto pior melhor. O Globo. 106 A inclinação às formas consagradas e rotineiras da política era uma das marcas da Ordem Saquarema. O apego à ordem, entendida como rejeição às mudanças, estaria na base dos descontentamentos que informavam os textos em análise. Em sendo assim, este poema representa uma novidade, pois a própria resistência governamental é denunciada como prejudicial ao Brasil: Que chegue até a fase mais caduca, Ao estado senil, Andando de gatinhas. Desmamado? Quem pode prescindir deste bocado? Responda-me o Brasil. A incapacidade de obter o consenso no governo é o tema de “A nova Babel”.251 A situação específica que o governo enfrentava era a falta de água que atingia o Rio de Janeiro e a seca no Nordeste. A forma como os atores são nomeados pode ser vista como uma desqualificação daqueles que pretendem ser governo: “carneiros silente (sic)”, “gansos”, “perdiz”, “coro de baratas” e “sapo a dançar”. A inoperância dos governantes resultaria da incapacidade do monarca: “N'esta nova Babel ninguém se entende,/ O próprio dono d'ela o que pretende/ Não pode definir!” O servilismo dos grupos políticos ao rei indeciso completa o quadro na nova Babel: E vai assim o povo acreditando Em tais liberalões Quer um, quer outro são da mesma estofa, Carregam para o amo a mesma alcofa Lambendo-lhe os tacões! Ameaças aos eleitores para que votassem no partido liberal foi denunciada em “Derrubada”.252 Demissões já ameaçam Ao povo que não votar No tal partido da touca No partido do Gaspar. Que de prisões vamos ter Na campanha eleitoral! A prática era comum no Império. O partido governista controlava o processo eleitoral de modo a obter sua vitória. Os aliados e apadrinhados dos rivais eram, por 251771101 Musa do povo / A nova Babel. Gazeta de Notícias. 252780802 Derrubada. Diário da Tarde. 107 conseguinte, excluídos e alijados dos cargos que ocupavam até então, sendo substituídos por aliados do partido da situação. Além da coação aos eleitores, o poema traz um juízo acerca do partido liberal que merece ser destacado. Não vos fieis em promessas Nem tão pouco em ameaças, Promessas de liberais São simples, meras chalaças. A quadra final complementa a acusação de coação ao buscar desacreditar as ameaças do partido. Ao dar publicidade ao recurso considerado espúrio, as intimidações aos eleitores, o poema poderia pretender constranger os liberais e anular a ameaça. Ao afirmar que as intimidações são chalaças, o poema buscaria torná-las inócuas em seus efeitos. A “Derrubada”, denunciada no poema anterior, foi tratada em “O Capanga”.253 Se, naquele, o pretexto foi o caso concreto das eleições provinciais de Paraíba do Sul, neste, o motivo é um tipo social ou personagem por meio do qual os poderosos controlavam os resultados eleitorais e intimidavam os eleitores. Em um discurso na primeira pessoa, o capanga diz o que e como faz seus serviços: Sou um grande cabalista eleitoral E disputo com ardor cada eleição: Cédulas no bolso, pau na mão, (…) Se o adversário quer, ah! fico então Sanguinário, feroz, só faço o mal... (…) E se o bruto se atreve, não me aterro... O “depoimento/apresentação” do capanga é interrompido no terceto final do soneto, com a chegada de seu mandante: Mas o chefe lá vem: vou encontrá-lo, As ordens receber, mostrar-lhe o ferro Que tanta gente matou p'ra sustentá-lo. Os dois poemas anteriores, apesar de todas as diferenças, caminham no mesmo sentido: dar publicidade à coação dos eleitores. Em ambos, o tratamento dispensado sugere que a intimidação era um desvio, uma aberração, um procedimento ilegítimo e ilegal que distorcia a vontade do eleitor. Um recurso de que os poderosos lançavam mão 253790127 O Capanga. Correio da Noite. 108 para se manterem no poder. A crítica subjacente aos poemas pode ser entendida como uma defesa das eleições livres. A denúncia do uso da violência, associada à da falta de virtudes públicas dos mandatários, é o mote de “Está tudo suspenso” publicado em 1884.254 O texto solicitava uma “faxina” na Câmara Municipal: Ponhamos tudo na rua A poder de vassourada, Basta já de falcatrua Ponhamos tudo na rua; A iniciativa de “Maciel furibundo” de sanear a casa legislativa estaria a enfrentar resistência violenta: Mas lá fora os Paquidermes Dão coices de toda sorte, De arrancar couro, epiderme O poema termina declarando a falta de moralidade da Câmara Municipal. Essa gente sempre em guerra Sem direito e sem moral, Vergonhas da nossa terra, Ó Câmara Municipal. A crítica feita em relação ao legislativo municipal é semelhante àquelas veiculadas a pretexto da Assembleia Geral e do Senado. A atividade política estaria sendo exercida por pessoas sem as qualidades necessárias para tal e que usavam dos cargos para obter vantagens pessoais. O tema é recorrente e atinge as diferentes instâncias de poder. O orgulho do soldado que se apresenta como tendo qualidades necessárias para defender a nação aparece em “O Canto do Veterano”.255 Neste poema, já é possível perceber alguns juízos que irão nortear a ideologia do soldado como o cidadão fardado. O ex-combatente da guerra com o Paraguai, honrado e nobre, que defendeu a nação nos campos de batalha, estaria apto a fazê-lo também na política. Sou soldado! nobre sou Sendo o braço da Nação! – O meu sangue a minha vida, Minha honra, o corpo meu, 254840226 Está tudo suspenso. O Bambino. 255780917 Canto do veterano. Diário da Tarde. 109 É só dela, – d'outrem não! Oh tudo farei por ela, Pela pátria do meu ser. À pergunta – Vontade poder, coragem, Nobreza que não se curva, Como eu, – quem é que tem? é oferecida sonora resposta: “Ninguém!”. O poema mais do que afirma o direito do ex- combatente, o soldado, a participar da política: defende sua primazia de único a possuir virtudes para defender a liberdade considerada ameaçada. Essa visão do cidadão, mais apto e mais virtuoso, informa e é informada pelo entendimento de que os grupos políticos pretensamente rivais pouco se distinguem na defesa dos interesses públicos. Em outras palavras, os grupos políticos e homens públicos seriam vistos como sempre defendendo seus interesses privados em detrimento dos supostos interesses nacionais ou patrióticos. A bem-aventurança dos vencedores, dos sem-vergonha, dos vis, dos ladrões, dos baixos, dos assassinos na política brasileira, é o mote do pastiche de Mateus 5, 3-12, publicado no Correio do Dia em dezembro de 1880.256 O poema termina tratando dos apadrinhados e escolhidos: Bem-aventurados Os escolhidos, Que da política São protegidos. Porque só esses Bons afilhados, Saem senadores, Saem deputados. Essa bem-aventurança sugere que os apadrinhados e escolhidos, que se tornam senadores e deputados, são “recrutados” dentre aqueles listados no poema, ou seja, ladrões, vis e assassinos. Os parlamentares não possuiriam, portanto, as virtudes dos homens públicos, muito pelo contrário, destacar-se-iam por práticas e comportamentos condenáveis. Os efeitos desta dinâmica seriam tanto a semelhança, constantemente 256801219 [Sem título]. Correio do Dia. 110 denunciada entre os membros dos partidos, quanto o descaso com o bem público, que os poemas afirmam. Na explicação de como se forma o estadista brasileiro, identificamos reclamação análoga à anterior, em “Carapuça”.257 A diferença é que, agora, a ascensão política foi atribuída e condicionada a: Se de nobre ou ricaço filho for Há de em regra, por força, ser doutor, Tenha, ou não tenha jeito para a ciência. Homem rico, mas pobre inteligência, Cabala em eleições, sai eleitor, Juiz de paz, depois vereador, E pensa logo em ter excelência. Novamente, não seriam os méritos ou virtudes que permitiriam o progresso crescente na carreira política, após a cabala eleitoral inicial, mas a herança e influência familiar, ou seja, ser rico. A falta de mérito foi referida: ser doutor, “tenha, ou não tenha jeito para ciência”, na pobreza de inteligência. A docilidade em relação ao governo e o apego à ordem coroam a carreira: Em corpo e alma governista inteiro, Anda sempre de um, para outro lado. Vai p'ra Geral. Mostra-se ordeiro Sai ministro e depois cai no senado. Eis formado o estadista brasileiro! Por se tratarem de queixas, o pastiche da bem-aventurança e a “Carapuça” podem ser também relacionados ao ressentimento de uma geração que, a despeito de sua formação intelectual, sente-se marginalizada e preterida na Ordem Saquarema.258 A reprovação e oposição aos gabinetes e aos governantes foram uma constante, afinal, o grupo que transformava os jornais em tribunas da oposição eram os alijados do poder. Os argumentos mobilizados caminhavam da corrupção, à inoperância, à incapacidade e à falta de princípios daqueles que participavam, em maior ou menor grau, do poder: chefes de gabinetes, ministros, deputados, senadores, magistrados e potentados locais. Os poemas que analisamos indicam uma empresa no sentido de 257810413 Carapuça. A Revelação. 258Ver a este respeito ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002, e MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007. 111 desqualificar ou minar o capital simbólico do grupo (ou pessoa) ao qual era dirigida. Buscava-se desconstruir uma representação que os autorizava a comandar, substituindo- a por outra, na qual apareceriam como incapazes. Ter padrinhos era importante não só para o ingresso e ascensão na carreira política, mas permitia ao apadrinhado, em certos casos, considerar que “a lei é uma pulha”.259 Com este título, foi publicado por três dias consecutivos um poema que denuncia a ilegalidade de ser conselheiro da guerra e senador concomitantemente. Como, na data do poema, o Ministério da Guerra era comandado por Afonso Pena, poderia ele ser o caso-pretexto para a denúncia. No entanto, Pena não foi senador e, sim, deputado, o que excluiria essa possibilidade. O que interessa destacar, no entanto, é a afirmação do poema de que padrinhos poderosos “autorizava[m]” o afilhado a ignorar a lei: Um conselheiro da guerra Que no Senado se encosta Disse: “é pena que esta lei Me force a largar a pasta! Mal qual lei nem qual Cabaça Como tenho bons padrinhos Mando a lei plantar batatas Vou correr dois carrinhos!” Em alguns poemas, o simples ataque às posições do grupo rival parecia não ser suficiente para desqualificá-lo e apresentar seu grupo como o mais virtuoso. Isso porque o descrédito de um grupo não produzia necessariamente o aumento do capital político daquele que o atacava. Assim, era importante uma comparação entre as posições de cada grupo em relação às questões da ordem do dia. Essa comparação foi apresentada no poema “Paralelo entre corcundas e liberais”, que, como o título explicita, pretendeu apresentar a antítese entre os corcundas e liberais.260 O corcunda, designação genérica para os partidários do absolutismo, “é um malvado”, “inimigo do povo” e do Rei, opõe-se à Constituição, “é hipócrita ardiloso”, “quer o antigo Despotismo”, “quer que a força e que a vingança / formem uma autoridade”. O Liberal é virtuoso, “ama Justiça e Razão”, “quer que o Rei viva seguro / unido com a Nação”, “não quer a Liberdade infrene”, segue a Santa Religião, protege a 259820608 A lei é uma pulha. O Globo. Publicado integralmente nas edições dos dias 8, 9 e 10 de junho de 1882. 260790701 Paralelo / Entre corcundas e liberais. O Arauto. 112 propriedade, “quer que não haja outra força / à das Leis superior”, sempre seguindo e se fiando pela Constituição. Ao longo das sete quadras, dedicadas à descrição de cada um dos tipos políticos, parecia esperar convencer o leitor da superioridade das teses liberais. A prescrição da última estrofe sobre o liberal pode ser assim interpretada: O Liberal quer que s'ameno Pela Constituição: Veja-se assim qual dos dois Segue partido mais são. A publicação desta “antítese”, pontuando de forma didática as diferenças entre os dois grupos políticos, chama a atenção por diversas razões. A necessidade de esclarecer a população quanto às teses defendidas por corcundas e liberais pode ser vinculada às atuações semelhantes dos partidários dos dois grupos. Do ponto de vista concreto e prático, as diferenças teóricas apontadas não ficariam evidentes para um observador externo ao parlamento. Por mais que, de fato, os grupos, quando colocados efetivamente diante das questões que marcavam o cenário político do final do século XIX, atuassem de forma semelhante, era importante que aparecessem como diferentes para os eleitores. Esta era a condição para angariar simpatia e apoio que produzissem votos quando das eleições. A iniciativa da explicação só se justifica se considerarmos que, para o poeta, a opinião da população tinha peso na política. Ter como interlocutor a população significava reconhecer a existência de uma opinião pública, mesmo que reduzida e incipiente, e sua relevância. A aproximação com os eleitores na busca de votos foi apresentada em tom jocoso em “Dá cá um abraço”.261 Ao “ilustre conselheiro / que ama a Bahia” e “chefe do partido novo”, é pedido “um abraço bem apertadinho”. Se o abraço amarrota e quebra o colarinho, produz resultados importantes: Sem ti ninguém sabia que o abraço Pode em tudo influir, Vou fazer propaganda a tal respeito Dá cá mais um abraço, dá com jeito Não te ponhas a rir! Os ganhos para “o partido que abraça o Zé povinho” não foram indicados. Podemos supor, no entanto, que se tratava de ganhos eleitorais. A opinião pública, que 261811123 Dá cá um abraço. O Globo. 113 se buscava esclarecer e orientar no “Paralelo” anterior, aparece aqui como o eleitor que demanda um corpo-a-corpo. “Do ministério nefasto” Em alguns poemas, as queixas são dirigidas nominalmente a um gabinete ou ministro. Por mais pontuais e particulares que sejam as denúncias ou contestações, nesses casos, é importante frisar que reforçam a noção geral de que a organização política e social é marcada pelo privilégio, troca de favores e nepotismo. Ainda em 1869, A Reforma publica “Endiabradinhas”,262 no qual o favorecimento de parentes é abordado. Sabe arranjar os parentes O grande Itaboraí; Em finanças, em política, E no mais... borra se aí... (…) Na pasta da agricultura Mostrará o ministrinho Como cresce a parasita Que se intitula: – sobrinho! O Ministério Itaboraí é descrito como marcado pelo nepotismo e gastos excessivos no poema “Ano mau”:263 O governo do visconde Quer dizer: – cofre vazio, O Lopes não sei aonde... Muitos sobrinhos e um tio! Por conseguinte, a continuidade do Ministério seria uma ameaça ao Império: Este amplivago império Por certo não se aguenta Se o maldito ministério Passa o ano de setenta! Tal como no caso da oposição a Alencar, aqui a oposição ao Gabinete lança mão do poema como recurso para publicizar a crítica. Em “A canção do trapeiro”,264 denuncia-se a ascensão ao governo de ambiciosos 262691224 Endiabradinhas. A Reforma. 263700101 Ano mau. A Reforma. 264710902 A Canção do trapeiro. Rabeca. 114 que abandonam seus “projetos fabulosos” em função da ambição e interesses particulares. – Porque um sentimento sentem Ao dolo, à fraude os instiga E como tarde os castiga, Nessa rapina da história Têm o dinheiro por glória, Tendo por pátria a barriga. Em função da data, 2 de setembro, poderíamos sugerir que a “Canção” era dirigida ao gabinete Rio Branco (7 mar. 1871-25 jun. 1875). Ainda sob esse governo, encontramos um poema que sugere a continuidade de práticas condenáveis, apesar das trocas de gabinete, ao tratar da “Caída, e a organização do ministério atual”:265 Ministério desgraçado! Já foi muito despedaçado Por que não quiseram, ser atado! Para apanhar o próprio pecado. Os que saíram não eram pedaço! Mas do que é composto o aço; Há de cair aos pedaço (sic)! Todos eles são mui do regraço. A anistia aos bispos, em setembro de 1875, é o tema de “Anistia / Puff”.266 Esta é tratada na forma de “ditério chulo”: Cessem a musa séria a rima sublimada, Por que vem a cena o que é chulo, o que é chalaça; O Rei que forme a tropa e dê parada E aos bispos seja outorgada mais alguma graça. A anistia é apresentada como vitória do conservadorismo, do catolicismo, que, no contexto, aparece como acinte à razão: Repiquem sinos, senhores Lazaristas... Dancem as gentis irmãs de “caridade” E frei Góes, frei Mendes e outros papistas Proclamem a inquisição nesta cidade! Complementa a denúncia a atribuição da anistia à vontade do monarca e à passividade subserviente do povo: 265720423 A Caída, e a organização do ministério atual. A Republica. 266750925 Anistia / Puff. O Globo. 115 Sem protestos dos Supremos Que dirigem a “Relação”?! Deu-se o escândalo como vimos À face da nação!... E o povo de bom humor! Obedece ao seu senhor!!!... Para além da crítica à própria anistia, é interessante frisar que o poema a considera um escândalo, uma imposição da vontade do rei, que o povo acatou passivamente. Ou seja, há aqui um questionamento da vontade do monarca, tornado público na forma de poema e que sugere haver um descompasso entre a vontade do rei e os brios da nação. A crítica à vontade do rei não caminhou no sentido de questionar a instituição monárquica, embora tenha ficado próxima a isso. Em 1875, os confrontos entre a força policial e populares, por ocasião da tentativa frustrada de apresentação do drama Os lazaristas, proibido pelas autoridades, como indicado anteriormente, são o tema de duas “cartas” de João Simplício dirigidas à sua Tia Xiririca. Ambas foram publicadas em O Lazarista, nos dias 21 e 24 de outubro de 1875, respectivamente. Na primeira das cartas, após um resumo da “calamidade”, “guerra” e “cena triste” ocorrida no dia 13,267 tece considerações sobre os envolvidos: E depois desse sarilho, O povo que é maltrapilho Vagabundo e desordeiro Tomou muita pranchada Dessa gente desalmada Manso como um cordeiro! Titia da minha'alma, Eu canto e bato palma Por ter salvado a vida; Levei quatro pescoções Pranchadas e trambolhões Dessa coorte bandida! E o governo que é carola Não tendo senso na bola Não ouviu este clamor! E o chefe senhor Calmon Que tem gana do Maçom Quer ser Desembargador! Nessas estrofes, há algumas ideias importantes. A primeira é a ironia na 267751021 Cartas de João Simplício à sua tia de Xiririca. O Lazarista. 116 descrição do povo que, explicitamente nomeado como vagabundo e desordeiro, sofreu as agressões como um cordeiro, mesmo correndo risco de vida. A forma como o povo não reagiu, passivo e manso, nega a descrição em itálico, provocando o efeito irônico. Ou seja, o “povo desarmado”, “inerme gente”, foi vítima “dessa gente desalmada”, “dessa coorte bandida” que compõe as tropas policiais. “Os morcegos da urbana” deveriam zelar pela ordem, porém, atuaram no sentido contrário, arbitrária e violentamente. Isso nos leva ao segundo ponto, a motivação atribuída aos agentes oficiais. O governo teria agido por zelo religioso ao proibir a representação do drama, em uma possível alusão à princesa Izabel, e com insensatez ao não ouvir os protestos contra a censura. O chefe de polícia estaria motivado por ambições pessoais, pois queria ser desembargador, para o que quer se mostrar fiel ao governo. A carta encerra-se dizendo que o “tal pimpão”, chefe de polícia, quer “da gente dar cabo”. A segunda carta, publicada três dias após a primeira, fornece um outro quadro, ao descrever as repercussões dos conflitos.268 O povo e a imprensa reagiram aos abusos policiais, as autoridades falavam em demissões “da Trindade policial” e Andava o chefe assustado Com medo de ser filado Pela gente ofendida! Três dias o povo em massa Andou pelas ruas à caça Desses morcegos pimpões; Mas o chefe que não é corça Mandou logo buscar força Em todos os batalhões. Após comoção e protestos, tudo volta à normalidade, sem maiores consequências para os envolvidos: Afinal veio a bonança E a gente da governança Aqui vive na Indolência. (…) Qual minha tia, é tudo peta O macaco de careta Não morre, ouvi dizer. Agora se a coroa Quisesse tirar a proa Podia mui bem fazer. 268751024 Cartas de João Simplício à sua tia de Xiririca. O Lazarista. 117 A decisão de fugir para o sertão, anunciada na carta anterior é abandonada, pois Isto aqui já sossegou Toda a imprensa se calou Até o povo está calado. Nesta segunda carta, a denúncia se volta para passividade do governo, imprensa e povo. Após a comoção inicial na qual o povo sai às ruas, a imprensa critica “do chefe a imprudência” e todos se calam. A indiferença e a falta de vontade da coroa em mudar a situação são apontadas. Assim, as cartas fazem críticas aos governantes, autoridades policiais, coroa, imprensa e povo. No limite, atribui responsabilidades a todos, autoridades e vítimas, pelo acontecido, afinal, todos teriam sido omissos. Essa atribuição tem significados distintos. Às autoridades, equivale a uma acusação de cumplicidade. Às vítimas, um convite à ação. Ainda sobre os confrontos do dia 13 de outubro, O Lazarista publicou “Ao corpo escolástico”.269 Apesar do título, o poema se dirige às vítimas, entre as quais o enunciador se coloca, o que se revela pelo uso da primeira pessoa do plural. A polícia é tratada como um morcego que “quer nosso sangue chupar” e como “estes cães esfomeados,/ Que nos procuram morder!...” A força policial é nomeada como “bandos desenfreados”, “vis celerados”, “monstro de fardeta” e “covardes salteadores”. Tal descrição negativa autoriza a conclusão pela arbitrariedade da ação, indevida e violenta. Os policiais agiram como bandidos e, portanto, a vingança é legítima e está autorizada. Reação que, coerente com a epígrafe, os versos finais incitam: Vinguemos pois este insulto Pela Polícia assacado E do sangue derramado Peçamos reparação! No dia 30 de março de 1877, sexta-feira, foi publicada na seção “Publicações a pedido” da Gazeta de Noticiais a seguinte nota: Mote a prêmio O juiz que tem pancada, Larga a vara e vai-se embora. A pessoa que melhor glosar o mote acima, durante o próximo futuro mês, obterá do Caetaninho uma sentença favorável, tenha ou não justiça, e obterá provisão para advogar ou solicitar, saiba ou não coisa alguma do fôro. 269751024 Ao corpo escolástico. O Lazarista. 118 O Observador270 Anúncio intrigante este – e que merece comentários sobre dúvidas e certezas que provoca. As dúvidas são inúmeras. A primeira delas diz respeito à situação específica à qual se refere. Não nos foi possível identificar o juiz, nem o ato que motivou o concurso. A única pista da nota é o nome daquele que daria o prêmio, Caetaninho. A segunda é relativa ao significado do mote. “Pancada” e “vara” são termos polissêmicos, o que gera a plurissignificação da frase. O primeiro verso do mote pode ser uma referência a um juiz que teria dado mostras de insanidade por sua atitude, uma pessoa amalucada, ou que teria usado da agressão física em alguma sessão do tribunal, dado golpes. O segundo verso pode ser uma ordem para que o juiz deixe a circunscrição na qual trabalha, vara cível, criminal ou de família, ou para que largasse o instrumento que teria usado para aplicar os golpes, um pedaço de madeira. A certeza é tratar-se de uma ironia e um gracejo, sob o pretexto de alguma atitude questionável ou absurda de um juiz. Neste caso, a nota teria um tom de denúncia, ao dar visibilidade ao comportamento condenável do magistrado. Concomitantemente, possuía também um tom jocoso pelo prêmio que era oferecido ao melhor glosador. As duas dimensões se completam e podem ser consideradas parte integrante do descontentamento que apontamos e que assume a forma de poemas. O concurso motivou vários glosadores gozadores a escreverem versos na Gazeta de Notícias, reforçando e propagando a denúncia.271 A provocação ultrapassou os limites da Corte: uma glosa foi publicada n'O Espirito-Santense em 5 de maio.272 A defesa do juiz apareceu em poucos poemas, acusando ou desqualificando o acusador,273 ou atribuindo a denúncia à quadrilha que teve interesses contrariados.274 O concurso, as respostas e as reações que suscitou demonstram a prática de tratar 270Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 30 março 1877. p. 2. (Itálico no original). 271770406 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770408 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770409 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770410 Mote. Gazeta de Notícias; 770412 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770414 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770414 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770415 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770417 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770418 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770420 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770421 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770422 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770423 [Sem título1]. Gazeta de Notícias; 770423 [Sem título2]. Gazeta de Notícias; 770424 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770425 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770426 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770427 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770428 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770429 O juiz que tem pancada. Gazeta de Notícias; 770503 [Sem título]. Gazeta de Notícias; 770510 Um juiz que tem pancada. Gazeta de Notícias e 770519 O juiz que tem pancada. Gazeta de Notícias. 272770505 [Sem título]. O Espirito-Santense. 273770421 Devaneio. O Globo; 770427 Devaneio. A Reforma; 770427 Juiz que tem pancada. O Globo; 770428 Juiz que tem pancada. O Globo e 770429 [Sem título]. Gazeta de Notícias. 274770429 [Sem título]. Gazeta de Notícias. 119 de questões de ordem política nos jornais por meio de poemas. Neste caso, ficam patentes tanto a circulação das críticas entre vários periódicos, quanto a existência do confronto de posições acerca do mesmo evento. Os poemas da Gazeta de Notícias fizeram coro com a denúncia, enquanto os publicados n'O Globo e n'A Reforma defendiam o juiz ou questionavam a motivação do acusador. O fim do gabinete de Caxias foi comemorado em “Caiu! Caiu! Caiu!”.275 A repetição e as três exclamações fornecem dados de como o poema festejou a mudança. O texto é longo e aborda vários pontos interessantes. Por ora, interessa-nos apenas o que contém de crítica próxima às apontadas acima. A queda do ministério cria um quadro no qual, Já pode a brasileia pátria De alegria exultar; Já pode o brasileiro povo Hosanas mil entoar; Porquanto os sete feitores De tanto clamor autores, Agora jazem de rastros; – Vinde ver, ó juventude, A cadavérica atitude Do ministério nefasto! O governo que se encerra foi comparado a feitores e responsabilizado por gerar clamor. Por isso, seu fim é motivo de júbilo popular. Interessa frisar, portanto, que governo aparece como a negação dos interesses da pátria e do povo. A hipótese de que o motivo de euforia se devia ao fim de um longo período de gabinetes conservadores, que se iniciou com Itaboraí em 1868, deve ser afastada em função da nota em asterisco: “Esta poesia havia sido feita supondo subir outro ministério do mesmo credo”. No dia 12 de janeiro, novo poema homônimo foi publicado na Gazeta de Notícias.276 O novo texto segue a mesma linha do anterior, tratando do fim do gabinete conservador. Cada uma das pastas ministeriais foi tema de um soneto em que foi feito um balanço da atuação de cada ministro. Se o saldo apresentado é sempre negativo, é digno de nota que mais do que os ministérios, os ministros é que foram avaliados. Há, desta feita, um componente personalista na crítica política publicizada. Em janeiro de 1878, algum desconhecido escreveu “a giz n'um paredão da 275780110 Caiu! Caiu! Caiu! Gazeta de Notícias. 276780112 Caiu! Caiu! Caiu! Gazeta de Notícias. 120 Glória” o seguinte: Raiou o mês de janeiro O sol tão forte e tão quente Que d'esde o dia primeiro Fez murchar a flor da gente. Esta quadra serviu de mote para uma glosa no dia 10 de janeiro.277 O texto do muro pode ser entendido como referência ao calor intenso que marcava aqueles dias. No entanto, o glosador o usa para tratar da política. Lembremos que esse janeiro marcou o fim do gabinete Caxias e de uma sequência de gabinetes conservadores. Nessa chave, no mês de janeiro, teria raiado a liberdade com a ascensão dos liberais. No poema que comemorava a derrota eleitoral dos conservadores, há uma nota que sugere uma relação entre este grupo e a flor da Glória.278 Supondo ser a relação plausível, na glosa, o verso “fez murchar a flor da gente” pode ser entendido como derrota dos conservadores, e “o sol tão forte e tão quente”, uma alusão às eleições. O mesmo mote foi usado para outra glosa, publicada no mesmo jornal no dia 12 de janeiro, que contestava a primeira.279 Ambas têm em comum, além do mote, sua apropriação como metáfora política. Enquanto a primeira saúda o murchar da flor, a segunda adverte ser precipitada esta conclusão. A glosa do dia 10, termina com a quadra: Negando o orvalho à rosa Flor da estrada, de repente, – Apesar de tão viçosa Fez murchar a flor da gente. Ao que adverte a glosa do dia 12: A gente boa e sisuda Acha ser muito imprudente Quem diz que o sol d'esta terra Fez murchar a flor da gente. A relação explícita entre os dois textos nos parece aspecto importante a ser considerado para nosso trabalho. Até aqui, insistimos na afirmação de que havia uma problematização da dinâmica política do Império sob a forma de poemas publicados em 277780110 [Sem título]. Gazeta de Notícias. 278780110 Caiu! Caiu! Caiu! Gazeta de Notícias. A relação sugerida pela nota não foi referida em nenhuma das fontes por nós consultada. A única ligação localizada entre flores e a política do Império foi a presença da flor-de-lis, tradicional símbolo da monarquia, especialmente a francesa, na heráldica da Monarquia brasileira. No brasão do Príncipe Imperial, existem, desde de 1864, três flores-de-lis. 279780112 [Sem título]. Gazeta de Notícias. 121 periódicos. As duas glosas demonstram que chegou a acontecer um diálogo entre os poemas. De outro modo, não só havia um conjunto de discursos que problematizavam e contestavam a ordem vigente, mas estes, às vezes, configuravam um debate. O peso da imprensa no debate político causou mal-estar e celeuma, no começo de 1882, no início do gabinete Martinho Campos. A oposição e as críticas que sofria nas páginas dos periódicos motivaram-no a declarar seu desdém ao jornalismo e a jornalistas: O Sr. conselheiro Martinho considera a imprensa jornalística sem valor algum, como representante da opinião nacional; os jornais são escritos por meia dúzia de moços inexperientes.280 Essa relação tensa entre o chefe do governo e os jornalistas repercutirá em alguns poemas. As chuvas torrenciais que castigavam a Corte e a metáfora de que o governo era uma canoa281 foram usadas como recursos para caracterizar o gabinete que se iniciava. Ah! meu caro Quintino, a pátria hoje soluça E sobre um mar de pranto e triste se debruça! Parece que a natura em lágrimas pungentes! Chora e lamenta assim os inocentes. O Jardim da Infância – à beira mar plantado, Está, oh! meu Quintino, em águas sepultado Apenas a canoa do nosso Pai Martinho Salvou podre cebola deixada no vasinho! A noite desce lenta, a noite pavorosa, Sobre a Pátria infeliz, a Pátria lacrimosa.282 Tendo em vista a declaração de Martinho Campos sobre a imprensa, as críticas veiculadas após março de 1882, podem ser vistas na chave da reação dos jornalistas em defesa de seu grupo. Este é o caso do poema acima, que tem como título uma dedicatória “A Quintino Bocaiuva”. Ora, este foi um jornalista ativo, diretor de redação d'O Globo e militante do Partido Republicano, o que possibilita uma leitura do poema como resposta ao juízo de Martinho Campos. A sequência da nota, citada anteriormente, na qual O Globo reproduziu a manifestação de Campos sobre a imprensa, revela mais do que uma discordância ou defesa da atividade atacada. 280O Globo. Rio de Janeiro. 1 março 1882. p. 3. 281Vários nomes ou referências foram utilizados para se referir a Martinho Campos. Canoa, devido à expressão que usou para falar do governo; queixada de burro, que ele disse encontrar nos correios após uma enchente; cebola, alusão a uma flauta artesanal que foi associada a sua figura, e bacalhau, sem razão identificada. 282820302 À Quintino Bocaiuva. O Globo. 122 A opinião de S. Ex. está acima de todos os órgãos até aqui conhecidos da nação. Se a imprensa e a maioria da câmara pensarem de um modo e S. Ex. de outro, será a própria opinião que o digno ministro executará e não a dos outros órgãos da vontade nacional.283 Nesse desentendimento, há uma disputa que vai além da afirmação da relevância da imprensa, e/ou de sua seriedade, ou da oposição política a um gabinete. Os termos da nota permitem perceber uma contenda acerca do peso da vontade nacional, da opinião pública, nas tomadas de decisão do governo. Há também a noção de que a imprensa, tal como a câmara, representa esta vontade. Assim, a imprensa não seria uma atividade “reles, indigna, prosaica, chata, de mau gosto”, como teria dito Campos,284 mas expressão da vontade nacional. Há aqui uma disputa do “cetro”, de acordo com análise de Bourdieu.285 Dentre as manifestações de oposição a Campos localizadas, “Do eito ao senado”286 mescla críticas com pequeno histórico de sua carreira e termina por pedir que volte para a roça: Vai para roça… Anda, cede, O povo todo te pede Martinho não sejas mau. O cenário criado pela incapacidade política de Campos poderia, segundo o poema, “te ser um calvário!” Após adverti-lo dos riscos que corre, incita-o novamente deixar a corte e o governo: Vai p’ra roça marombista, Não nasceu para estadista Quem nasceu para vigário. As desordens de seu governo, atribuídas à sua atuação, seriam trapalhadas resultantes de alguém que “tem pancada na cabeça” ou “o vício de tomar vinho”.287 O poema “Salta – Martinho” conclui que, em um caso ou no outro, Só vejo um remédio a dar: Que é mandá-lo amarrar E sacudi-lo no hospício. 283O Globo. Rio de Janeiro. 1 março 1882. p. 3. 284Esta seria a “opinião pitoresca e fútil do sr. Martinho Campos”, de acordo com Adelino Fontoura. Ver “Quintino Bocaiuva”. Gazetinha. Rio de Janeiro. 29-30 maio 1882. p. 3. 285BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. In: _____. A Economia das Trocas Lingüísticas – O que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 1998. p. 81-125. 286820310 Do eito ao Senado. O Globo. 287820330 Salta Martinho. O Globo. 123 Nos dias 6 e 7 de junho de 1882, na “Seção Livre” de O Globo, página 3, foi publicado um poema com o título de “Vitória à Natividade / Mote a prêmio”.288 A glosa foi publicada com título de “Mote a prêmio”, no dia 12 de junho.289 Os textos são cifrados, com referências relacionadas a questões em evidência naquele momento. 290 As personalidades aludidas na publicação de 12 de junho são os ministros do chamado “Ministério Ceboleiro”, ou seja, o gabinete de Campos. Aparentemente, o mote tratava de uma crítica ao envolvimento direto de Martinho Campos na concorrência pública para a concessão da estrada de ferro de Vitória a Natividade. A ressalva acerca da opacidade do texto é importante e, apesar dela, pode-se perceber que se travava de uma acusação ao chefe de gabinete por ter favorecido os ingleses na concorrência. Os versos iniciais do mote permitem levantar esta hipótese: Um inglês da Inglaterra Namorou o Frei Martinho!… E casaram-se à capucha!… O poema “Cebola”, publicado pela Gazeta do Povo da província de São Paulo e que O Globo republicou, também traz críticas a Martinho, na forma de uma advertência ao monarca.291 Dom Pedro! Toma cautela! Ele, mexendo a panela, Logra até um guarda urbano! Dom Pedro! Toma cautela! Cautela co'este magano! Independentemente da situação concreta que informa o poema, interessa-nos destacar o aviso ao rei de que Martinho não seria confiável. Dois poemas publicados em 1889 funcionam como evidência da permanência do recurso e dos temas que foram apontados nas páginas anteriores: “O programa liberal”292 e “Nobreza e fidalguia”.293 No primeiro, encontramos a queixa quanto à demora do Partido Liberal em publicar seu programa. Esta reclamação sugere que houve uma promessa ou expectativa 288820606 Vitória à natividade / Mote a prêmio. O Globo. 289820612 Mote a prêmio. O Globo 290Sabe-se que, por definição, todo texto poético é ambíguo e multissignificativo. Entretanto, na chave em que estamos trabalhando, queremos indicar com “cifrado” que não é possível recuperar imediatamente, por meio do poema, o seu referente. 291820617 Cebola. O Globo. 292890605 O Programa Liberal. O Constitucional. 293 890807 Nobreza e Fidalguia. República Brazileira. 124 de que o programa fosse divulgado. Neste caso, parece-nos que informar a opinião pública acerca dos planos partidários havia se tornado uma obrigação e não mais um direito. Em um poema anterior, os liberais, de bom grado e por iniciativa própria, comparavam-se aos corcundas para atrair simpatizantes, apresentando suas teses sobre os temas ditos importantes. No poema de 1889, os liberais são cobrados quanto a esta publicação, cobrança que sugere resistência do partido em divulgar seus planos. Isto já transpõe a raia, Os limites da decência; Tenham santa paciência... – Olha o programa que saia! – Recusa esta que só faz sentido se houvesse o receio de terem seus atos questionados futuramente. Em todo caso, a cobrança pública para que se dê divulgação a um programa de partido nos parece reforçar a hipótese de que, no final do Império, a opinião pública adquiriu importância e peso político. A nota que antecede o poema reforça esta possibilidade: “Acreditamos antes que essa obra tivesse sido feita para não ser executada; mas para não ser publicada, isso é que não.” No segundo poema, “Nobreza e fidalguia”, a ascensão social e política de quem “só vive de trapaça”, “sempre astutos como um rato” “e que furtos aos criados encomenda” – dos não virtuosos, portanto –, foi retomada. Aquele que só vive de trapaça E à custa da viúva vai comendo, Ou que de órfão, com ardil – e traça Depois de farto o bucho, quando passa, Cortejos, saudações estão chovendo; E logo em prêmio do cruel labor É feito oficial, comendador! A injustiça do tráfico de influência, que premia os vis e interdita os competentes, parece-nos ser a questão de fundo. O poema faz coro, desta feita, com os outros analisados anteriormente. A política no Império, a corrupção e a desigualdade de oportunidades se retroalimentariam. Ao longo das décadas de 1870 e 1880, como se pôde ver, a crítica política por meio de poemas em jornais e periódicos foi uma constante. Versos foram publicados com comentários negativos e denúncias genéricas e específicas. No primeiro caso, os alvos foram a forma como o poder era organizado, o acesso desigual a bens materiais e 125 simbólicos, a premiação com o apadrinhamento e a corrupção, entre outros. No segundo, eram dirigidos a personalidades públicas ou a situações específicas. Essas críticas, no contexto em que foram produzidas, podem ser entendidas como informando e informadas pela crise que marca o Império a partir da década de 1870. O Império, que até então havia gozado de relativa estabilidade, começa a enfrentar resistência e dissidências políticas, sejam motivadas pela crise de 1868 ou pelas mudanças sociais em curso. Ou seja, textos críticos colaboram para criar um caldo de cultura de oposição aos governos e de contestação aos mesmos. Até aqui foram analisados os poemas que questionavam práticas políticas e sociais, mas que não colocavam em questão a monarquia como instituição. Nosso intuito foi mostrar que a discussão e debate político por meio de poemas era recorrente, um expediente frequente na política do Império, recurso este que também será utilizado pelas críticas à monarquia como instituição e forma de governo, colaborando para minar sua legitimidade, para dessacralizar a figura do monarca. “Sede rei mas sede irmão!”: as críticas ao Império As críticas políticas tratadas no capítulo anterior não chegam, como já expusemos, a questionar a monarquia e nem o monarca. Pautavam-se por denunciar as mazelas de uma sociedade, os males da política tal como era praticada no período, o apadrinhamento e a corrupção. Estes aspectos negativos eram relacionados à falta de virtude dos homens públicos ou aos vícios do sistema político. Em alguns dos poemas que trouxeram a público essas denúncias, no entanto, é possível perceber a sugestão, quase uma insinuação, de que a monarquia favorecia os acontecimentos ou práticas condenadas. Assim, queixas tangenciavam a monarquia. Nas “escavações poéticas para instrução do povo”, de 1868 a 1876, as trocas de gabinetes foram apresentadas como “As derrubadas de El-rei”.294 O fim dos governos liberais resultava não dos efeitos das urnas, mas da ação dos “sapadores reais” na Corte e nas províncias. Os liberais deixavam o poder por conta, então, das “derrubadas de El- rei”. As falas dos sapadores ou do “supremo general / desse exército danado” explicitavam que a vontade real era superior às leis: “Silencio, plebeus, tremei; “A régia vontade é lei 294760111 As derrubadas de El-Rei. A Bibliotheca dos Bonds. 126 “Sois escravos, nós senhores, “Somos bravos sapadores “Das derrubadas de El-rei. (…) “Meu régio capricho é lei; “Por isso o poder vos dei; (…) “Abaixo leis e orçamento, “Sou eu orçamento e lei; A crítica se dirigia ao uso do poder moderador, identificando-o como poder pessoal. O poder privativo do monarca foi posto em questão, apesar de ser constitucional, e identificado como arbitrário. O poema termina aventando o risco de que as derrubadas poderiam se voltar contra o rei e culminar na sua queda. Nas lutas da nossa idade, Entre reis e a liberdade, É d'esta afinal vitória; A d'eles é transitória! Bons sapadores, sabei; Moderai esse machado... Pode El-rei ser derrubado Nas derrubadas de El-rei. O poema fala em possibilidade. Inferimos que um monarca que se submete às leis seria aceitável. A monarquia não foi, portanto, posta em questão, mas, sim, o uso de uma prerrogativa que atropelava o parlamento e os partidos. É significativo que o período coberto por essas “escavações poéticas” tenha como marco inicial a crise que provocou a dissidência liberal no bojo da qual foi publicado o Manifesto Republicano em 1870. Em julho de 1877, denúncias de corrupção de membros do gabinete apareceram na imprensa. Como sempre acontecia nestes casos, apareceram pedidos dos rivais para que os acusados renunciassem aos cargos, o que foi rejeitado pelos implicados. Neste contexto, Octaviano Hudson dedicou quatro publicações de “A musa do povo” ao tema. As críticas que veiculou condenam a corrupção, como era de se esperar. No entanto, a novidade é que, na forma como apresenta o problema, este vai além das individualidades transgressoras. Dois poemas foram publicados no dia 19 de julho com títulos quase idênticos e insistiam na renúncia dos acusados. Um trazia o título “Larguem a pasta” e foi publicado na Gazeta de Notícias295; já o outro foi publicado n'O Globo com o título de 295770719 Musa do povo / Larguem a pasta. Gazeta de Notícias. 127 “Larguem as pastas”.296 No primeiro, a interlocução se dá com a musa da pátria e não a do povo, como se esperava. Inicia-se indagando se a musa vê a “morte moral” que mancha todo o Império. A segunda indagação equivale à atribuição de responsabilidade pela situação: Onde o sistema imprime em cada nome Um enorme borrão E n'esse mar imenso de torpeza A rir-se da nação? Na explicação contida nesta segunda pergunta, o problema foi apresentado como decorrente do sistema. Nesta lógica, o poema conclui com um pedido para que Rei, governo, por Deus, larguem a pasta, De tanta afronta à honra, basta, basta, É muita humilhação! No poema publicado n'O Globo, a musa é convidada a contemplar a “pátria desditosa” no presente e visualizar um “destino melhor”. Diante da “quadra fatal”, Só nos pode salvar uma república Neste transe moral. A defesa dos acusados foi contestada sob o significativo título de “Escárnio!”297 A corrupção deixaria transparecer que fizeram “deste Brasil, Musa, um leilão”. A distinção entre governo, governantes e a pátria foi afirmada: A pátria está acima de nós todos, A pátria não é vossa! Essa dissociação é ideia fundamental para que seja concebível que a nação peça o fim do governo. Estamos assistindo, parece-nos, a afirmação da existência de uma opinião pública que deve ser considerada. A permanência do governo, vislumbra o poema, pode produzir um levante que dê cabo do mesmo: Não zombeis da nação nem deste povo Jungido à manivela. Oh! se um dia acordar deste letargo, O cálix achareis um pouco amargo; Mercadores – cautela! O último dos poemas a pretexto dessas denúncias de corrupção tem por título a 296770719 Musa do povo / Larguem as pastas. O Globo. 297770720 Musa do povo / Escárnio. O Globo. 128 recomendação “Salvai a honra pessoal!”298 Encontramos aqui a mesma sugestão dos poemas do dia 19 de julho: renunciem, larguem as pastas. A novidade é o fundamento, salvar a honra e Ainda dar provas de civismo E servir ao país; Mas... para reaver esse conceito É preciso deixar... é de direito... A pátria vo-lo diz! A insatisfação do povo chegou a tal ponto que a renúncia não pode reverter o estrago: Para fazer calar a voz do povo É preciso outro altar, um templo novo, Sede construidores. O “novo altar” e o “novo templo” podem ser entendidos como uma nova organização política, ou seja, a negação da monarquia seria a única forma de calar o povo, de cessar sua indignação justa. No conjunto destes quatro poemas da “Musa do povo”, um caso de corrupção que, em outros momentos, teve consequências atreladas aos indivíduos imputados, apareceu como crise institucional. A monarquia, ou seja, o sistema foi apontado como responsável pela “morte moral” que tornou o ar impuro, irrespirável. A solução não passaria pela troca de ministros ou de gabinetes, mas pela construção de um novo templo, isto é, pela república. A “Musa do povo”, diante da insistência com que pedia “larguem a pasta”, recebeu uma resposta sob o provocativo nome de “Musa do bobo”, assinado por Margarida Senior.299 Esta segunda Musa visa desqualificar o autor dos poemas anteriores, “grande poeta cabeleira”, que teria “estilo mui chão” e dizia asneira em tudo que pensava. “Musa do bobo” parodia e subverte o poema “Larguem a pasta”, pedindo ao moço que largue a pena. Stá Pégaso ferido nos seus brios Por ter mais um irmão! Por favor ao parente largue a pasta, Largue a pena, seu moço, basta, basta, É muita amolação!!! 298770722 Musa do povo / Salvai a honra pessoal. Gazeta de Notícias. 299770722 Musa do bobo / Largue a pasta. Gazeta de Notícias. 129 A dicotomia entre a coletividade, nomeada sempre no singular, e o governo ou maus políticos aparece de forma lapidar em “Ao Brasil”.300 O paradoxo entre a grandeza e passado heroico da pátria e sua decadência presente ocupa grande parte do texto. Tu que outr'ora fizeste estremecer, Curvar-se ao teu olhar nações estranhas, Hoje tremes e à face os povos cospem-te O escárnio, a irrisão! De glória esse brilhante, áureo padrão, Conquistado co'o sangue dos teus filhos Chafurdou-se no pó da ignomínia P'ra nunca mais brilhar! A decadência resulta da ação de aventureiros, de “filhos traidores”, de “filhos cruéis” que escravizam a pátria. Há, desta feita, um diagnóstico e suas causas. A solução, por conseguinte, seria se livrar destes filhos ingratos e ouvir os “filhos dedicados”. Os filhos traidores deveriam sofrer castigo exemplar com “suplícios infamantes”. Estes “novos judas” seriam os responsáveis pelo (des)governo, o que explica as estrofes seguintes: Que este governo, iníquo, prepotente, Que calca aos pés as leis, que sacrifica Do povo o bem estar, Que transforma o poder em tirania, E faz da pátria que lhe deu o mundo Imundo lupanar; Depois de ser por ti exautorado, Seja sem piedade arremessado, No chão que te cavou! Ordena que essa horda de sicários Seja afogado sob o lodo impuro Em que te chafurdou! Na sequência, o discurso radicaliza e condena a monarquia. Esta seria o governo dos Judas, dos traidores e aventureiros. A coroa, que se justificava como garantia da liberdade, foi acusada de ser a sua negação, de se transformar em tirania. Assim, o fim da monarquia foi reclamado em nome dos princípios que, durante décadas, apresentaram-se como sendo a garantia: dignidade e liberdade. Para que monarquia, se o monarca Não sabe a c'roa sustentar na fronte, Não tem dignidade!? 300790628 Ao Brasil. Aspiração Nacional. 130 Acabamos com o jugo dos tiranos! Aos pés despedacemos cetro e c'roa Brademos – LIBERDADE! (…) Pátria! pátria querida! não hesites! Escuta as vozes de estremados filhos, Que vão mudar-te a sorte! Despedaça os grilhões com que te prendem! Sus! soltemos o brado entusiasta De – liberdade ou morte! Operava-se uma desvinculação entre Império e pátria. A nação existia apesar da coroa e não devido a ela. Os valores e princípios que deveriam orientar e guiar os homens na vida pública foram personificados como participantes de uma orgia, “A orgia do século”:301 Vai alta a grande orgia: ao lado da Justiça Se assenta a Corrupção, que aos poucos a embriaga; Sorri-lhe o Despotismo aos gritos da Cobiça, Que o Vício sem pudor nos braços seus afaga. No chão dorme o Direito e ébrio se inteiriça, Cantando coplas vis; a Inspiração divaga E a própria Consciência estulta se espreguiça, E num gesto de bacante as luzes já apaga. Diante do bordel, surge uma luz, um tremor, que desperta um, ruboriza outra, “e o Crime cai por terra à voz – Revolução!...” Nesta prosopopeia, o século descrito foi aquele no qual a Justiça, o Direito, a Inspiração e Consciência se tornaram inócuos e impotentes pela ação da Corrupção, do Despotismo, da Cobiça e do Vício. O quadro é geral da época e, portanto, também do Brasil, podemos inferir. Hipótese plausível, tendo em vista as denúncias de corrupção, desmandos e arbítrio que emergiram nas duas últimas décadas do Império. No poema, os valores foram despertados e as mazelas afastadas pela chegada radiante e estrondosa da Revolução. Novamente, estamos diante de uma representação da sociedade brasileira do final do século XIX, em que uma ação saneadora aparece como imperativo e só possível através da mudança radical e não mais de reformas. A opção não-monárquica também informa o poema “Minha Musa”:302 A musa que m’inspira, a deusa dos meus sonhos, Meu anjo divinal 301771207 A orgia do século. A República. 302780308 Minha musa. O Globo. 131 É musa que nasceu em solo americano, Tão livre qual nasceu as águas do oceano: É musa liberal! A filiação aos “dogmas liberais” por si não autoriza esta hipótese. Menos ainda a aspiração “apaixonada da santa liberdade”. Estas ideias poderiam tranquilamente ser, e eram, defendidas por qualquer membro do partido liberal. O que nos permite considerar o poema como não monarquista é a sua origem americana. As referências à América no debate político da época eram uma das marcas do republicanismo. “Somos da América e queremos ser americanos” – foi declarado nas conclusões do Manifesto Republicano de 1870. Além do que, com o fim do Segundo Império Mexicano em 1867, o Brasil se tornou a única monarquia das Américas. Um quadro de escândalos e crime, poder nas mãos dos injustos, conversão dos homens em bajuladores e o “abate da virtude”: desta forma profundamente negativa “O Brasil de hoje” foi caracterizado em 1880.303 Essa situação extrema haveria de findar quando o povo “erguer a livre e sacrossanta bandeira da igualdade”. Conclamou o poema: Eia, pois, Brasileiros! Às armas! Avancemos! Calquemos o grilhão da fera monárquica, Que a turba sanguinária e o manto imperial Abatem-nos à ferros de dia para dia! A reversão da situação seria possível desde que nos livrássemos da “fera monárquica”. Mais uma vez, as críticas e a percepção de uma conjuntura como sendo marcada pelo desmando, corrupção e crimes autorizavam a proposição do fim do Império. A Revolta do Vintém, também chamada de guerra, ocorrida entre dezembro de 1879 e janeiro de 1880, foi o tema de um longo poema publicado em 1881, “O imposto do vintém”.304 O poema é composto por três partes, “I O Principal”, “II Parêntesis” e “III O dia de janeiro!”. A primeira parte imagina as reflexões indignadas do monarca diante da manifestação contra o aumento das passagens dos bondes, que o contestavam. Pois que! leproso cão ousa sujar-lhe a perna! A sombra dar um passo! o diamante régio Sentir manchas na luz de sua grande esfera! (…) 303800110 O Brasil de Hoje. O Estandarte. 304810109 O imposto do vintém. O Atirador Franco. 132 Duvidar um instante Da grande inteligência, em Londres triunfante De um rei que honra o país como honrara a Garção, Duvidar do saber, da vasta ilustração... “O Principal” descreve a população diante do palácio, dos portões fechados e protegidos por guardas. A multidão teria desistido de avançar convencida de que não havia o que atacar: – Está morto o sistema e descoberto o réu! – – Disse a Filosofia. A multidão venceu Voltando para o lar, sentia-se a grandeza, Das profundas lições da Convenção Francesa. No “Parêntesis”, temos uma reunião do monarca com sete “grandes auxiliares” para enfrentar os protestos. O terror, o pânico e o medo deveriam ser espalhados. Era urgente turbar a calma poderosa, Agitar a paixão feroz, tempestuosa! Pelas ruas rolar a grossa artilharia, Gritar: revolução! horrores! anarquia! A repressão foi o plano definido como resposta ao levante: Eliminar a chapa – o povo soberano! Levantada a questão: a forma do extermínio, Na equação do rei entrara o morticínio. Finalmente, na terceira parte, “O dia de janeiro”: “dia de infâmia e luz! tremenda antítese!” A violência que recaiu sobre a população atingiu também o Direito, a Justiça e feriu a Liberdade. A infâmia do dia resvala, sugere o poema, no ministro, no sistema, na dinastia toda. Assim, surgiu a luz com que o poema encerra: “A conclusão: a guilhotina, a roda!” Ao longo dos versos, a Revolta do Vintém foi transformada em conquista da soberania do povo. O monarca e monarquia aparecem como tendo perdido a legitimidade, seja no levante inicial, seja na repressão orquestrada ou no conflito final. A resposta dada pela coroa no “dia de janeiro” reforçou e reafirmou o juízo da filosofia: o sistema acabou e o rei é réu. A revolta, nesse poema, seria a manifestação concreta da solução sugerida nos vários poemas anteriores para os problemas estruturais da sociedade e da política brasileira: a revolução. A novidade, parece-nos, dá-se pela acusação à reação 133 monárquica de produzir a revolta. Afinal, foi dela a decisão de “turbar a calma poderosa” que se seguiu à volta ao lar. Em um registro com humor sutil, o acesso desigual às posições sociais foi denunciado em “Canção”.305 Nesta paródia de “Canção do Exílio”, o desejo de conseguir um bom emprego, com bom salário, ocupa o lugar da saudade do texto original. Minha terra tem empregos Melhores que os de paxá... Só os cobres qu'eles rendem, Dão p'ra tudo quanto há; – Mas de todos o trabalho, Em obtê-los é qu'está. A solução para as dificuldades, a superação dos obstáculos seria a república. Em cismar que dia e noite M'empenhando um não apanho, Passo a ser republicano, Pois assim muitos têm ganho – Empregos de bom quilate E bolas de bom tamanho. A república imaginada se aproxima das utopias da fartura, em que o desempregado do Império poderia se tornar ministro, deputado, senador, nobre e teria brasão, cupê e ordenança. Nessa “Canção”, é interessante frisar que, apesar do tom jocoso, a república aparece como a solução do problema, a reversão de um quadro de desigualdade. O antagonismo república-monarquia é recorrente e constitutivo do discurso republicano, no entanto, o que individualiza a oposição nesse texto é a questão do emprego e nisto consiste a sua novidade. A separação entre monarquia, de um lado, e nação e pátria, de outro, foi tratada em vários poemas, alguns dos quais invocavam a insatisfação do povo com os desmandos, arbitrariedades e corrupção para propor, pedir ou até mesmo exigir uma resposta positiva do monarca que revertesse as queixas. De outro modo, pedia-se ao rei que promovesse modificações no sentido de atender aos apelos populares, que corrigissem aquilo que o povo entendia estar errado. Os poemas que desenvolveram esta linha de argumentação nos parecem uma evidência da existência e da importância que a 305811217 Canção. O Aspirante. 134 opinião pública vinha adquirindo nas décadas finais do Império, como já tivemos chance de comentar. Ao invocar essa opinião como justificativa para a demanda, os poetas deixam transparecer que este era um argumento plausível ou, em último caso, possível. A existência da insatisfação nos parece ponto pacífico: a Guerra do Vintém deixou isto claro. O que queremos destacar é que, ao usar o descontentamento popular como fundamento ao pedido de mudança na política monárquica, os poetas deixam transparecer que naquele momento esta seria uma razão considerável. A opinião púbica existiria e não deveria ser ignorada. A indignação e incômodo, decorrentes de um governo marcado pelo abuso, pela transgressão, dominado por homens desonestos e bajuladores, apareceram no poema “ao Brasil”, analisado páginas acima.306 O poema “Ao imperador”, cujo título sugere diálogo com esse anterior, traça um quadro semelhante.307 A epígrafe que o antecede anuncia o tom do que viria a seguir: Este governo, iníquo, prepotente, (…) E faz da pátria que lhe seu o mando Imundo lupanar. O incômodo do povo com o governo maléfico e prejudicial, que só traz benefícios a seus membros e com “a perdida liberdade”, constitui uma ameaça possível de ser revertida por iniciativa real. A ameaça que paira sobre o Brasil é pintada com cores fortes, já na primeira estrofe: Por toda a parte do Império Bradam mil vozes, Senhor! Soou o solene instante, De despertar o gigante Do seu profundo torpor! O perigo que é reforçado com a indagação: não vedes Que a Brasileira Nação É um dormente vulcão, Que ainda pode erupir?! Se o poema é profundamente crítico e hostil ao governo, não o é em relação ao 306790628 Ao Brasil. Aspiração Nacional. 307830525 Ao Imperador. O Novo Conservador. 135 monarca. Este é tratado com respeito e veneração. “Um monarca / tão ilustrado e bondoso,” E não vos lembrai, Senhor, Que antes do Imperador Vós deveis ser nosso irmão? Este é conclamado a exercer seu papel, destituir o governo, dar um basta ao descaso, restituir a paz e a harmonia entre população e governo. Expurgai vosso governo D'esses vermes que o corroem; D'esses abutres famintos, Que a liberdade destroem! Expulsai os embusteiros E vereis os Brasileiros Vosso nome abençoarem; E vereis da pátria filhos, P'r'aumento dos vossos brilhos A vida sacrificarem! O pleito dirigido ao monarca era que, considerando a insatisfação popular, a “justa indignação”, substituísse o governo. Falando diretamente ao rei: “dai ao povo liberdade!” A iniciativa real produziria apoio popular e, entendemos nós, reforçaria o credo monarquista. Diferentemente dos demais poemas desta parte, a crítica às condições políticas e/ou sociais não redundou na opção não monárquica. Pelo contrário, o rei foi instigado a usar de seu poder para corrigir os rumos de um governo iníquo, prepotente e tirânico, nos termos da epígrafe. No entanto, é de se destacar que há aqui indícios que nos permitem pensar na redução de sua sacralidade. Primeiramente, o rei que usualmente é tratado em termos de pai da nação, que confere unidade ao corpo social, foi por duas vezes referido como irmão. O segundo sinal seria que, ao considerar a insatisfação e implementar uma política de acordo com a vontade da nação, o rei teria seu nome abençoado. Haveria aqui uma inversão: o rei, que deveria abençoar do alto de sua potestade, seria abençoado pelos brasileiros. Hipoteticamente falando, estaríamos assistindo à transformação do “Imperador Constitucional, e Defensor Perpétuo do Brasil” em rei dos brasileiros. “Ao imperador” merece ainda mais alguns comentários, principalmente em 136 relação à parte das condições de enunciação. O jornal O Novo Conservador teve seu primeiro número publicado no dia 17 de maio de 1883, apresentando-se como “um jornal político, agrícola, comercial, noticioso e literário”, com o slogan “Justiça Ordem e Legalidade”. No jogo político partidário, assume-se explicitamente como defensor do partido conservador e rival do partido liberal, ao qual acusa de promover “imorais descalabros”, “de rebaixamento moral de caráter” e “de pseudo-políticos e falsos patriotas”. Curiosamente, na sua apresentação, invoca o teórico da vontade geral quando declara que “O NOVO CONSERVADOR terá como epígrafe o – vitam ependere vero de J. J. Rousseau”.308 Essas considerações são interessantes por indicar que o poema dirigido “Ao imperador” em nada pode ser caracterizado como antimonarquista. Assim, a sugestão para que o imperador siga e acate a opinião púbica se torna mais significativa como evidência de sua existência e do peso político que começava a adquirir. Em suma, os poemas analisados nas páginas acima indicam que, paralelamente à crítica chamada por nós de genérica, que expressa um descontentamento com a organização social e política, havia outra que dirigia esta insatisfação à monarquia. Enquanto as queixas genéricas explicitavam um descontentamento, as segundas, com mediações distintas, relacionam as queixas à monarquia. Entretanto, dada a forma como essa ligação foi feita, não podemos considerá-las republicanas ou antimonárquicas. Podemos, sim, perceber mudanças que evidenciam a corrosão da sacralidade do rei, tanto ao acusá-lo diretamente pelos desmandos, quanto ao defender que se submeta à vontade da nação. A monarquia, de acordo com esses poemas, não seria mais a garantia da estabilidade, da liberdade ou de um futuro grandioso. Em alguns poemas, vimos a indicação contrária, como a razão e causa da instabilidade. Não por ser monarquia, mas por ser permissiva e incapaz de coibir os abusos e as iniquidades. Desse modo, configura-se um grupo de textos que, ao tratar das questões sociais, atribuindo responsabilidades ao monarca, mas sem diretamente pretender derrubá-lo, mostra-se em parte diverso do grupo a seguir: os detratores declarados da monarquia. 308O Novo Conservador. Rio de Janeiro. 17 maio 1883. p. 1. A expressão latina correta é vitam impendere vero, cuja tradução seria dedicar a vida à verdade. A frase, na verdade, pertence a Juvenal, poeta latino do início do século II, e consta nas Satires. Rousseau a usa pela primeira vez como sendo sua na Lettre à M. d'Alembert sur les spectacles (1758). DENT, N. J. H. Dicionário Rousseau. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. p. 56. 137 III. “O peso dos tiranos” No capítulo anterior, dedicamo-nos aos poemas que publicizavam críticas às condições políticas e sociais. Marcados em sua maioria pela crítica genérica ao arranjo político, às condições sociais, alguns poemas associaram as condições adversas ao regime monárquico. No presente capítulo, trataremos dos poemas que explicitaram críticas à monarquia como instituição e que podem, nessa medida, ser considerados republicanos. Indicam, assim, uma sequência inversa daquela encontrada no anterior. Ali, a insatisfação com as condições caminhou no sentido de pôr em questão a monarquia; aqui, a descrença na (e a denúncia da) Coroa é o pressuposto que os leva a denunciar as mazelas da sociedade como resultantes do regime. Se a monarquia é a razão dos problemas, consequência lógica, a república é apresentada como sendo a solução. Poemas antimonárquicos e republicanos se confundem, desta feita.309 No soneto publicado em fevereiro de 1871 – “Os Divinos”310 –, notam-se alguns elementos que se tornaram lugares comuns na crítica à monarquia: Um dia há de raiar a plena liberdade, Em que o mundo sacuda o peso dos tiranos; Que honras, títulos vãos de falsos soberanos, Sirvam só de irrisão para a sociedade! Em primeiro lugar, vê-se a liberdade como valor e princípio negados pela monarquia. Em segundo, a monarquia, na medida em que nega a liberdade, é identificada com a tirania. Em terceiro, percebe-se a certeza de um futuro não muito distante no qual esta distorção será corrigida, ou seja, a república substituiria a monarquia como forma de governo. O descontentamento com o presente e a denúncia do que existe informam a projeção de um futuro, que seria a correção e negação das suas distorções. A monarquia, que se pretende acima da consciência, é desqualificada no poema, 309Em alguns poemas, povo, pátria e nação se equivalem e dizem respeito à mesma ontologia. Em outros, as propriedades e os direitos mobilizados na sua descrição sugerem entendimento diverso. As eventuais distinções e suas implicações entre as três denominações não serão abordadas por nós por se situarem além do escopo deste trabalho. 310710214 Os Divinos. A República. 138 quando se assevera que, “sem razão, a torpe fidalguia” afirma suas qualidades de virtude, sabedoria, justiça, bondade e presciência. “Os divinos” do título seriam, assim, humanizados. Povo soberano A contestação da monarquia passa pela afirmação da primazia de outro sujeito que não o rei, de outro soberano: “O povo”.311 Elevar o povo à condição de “rei” é a contrapartida da negação da monarquia e denúncia da usurpação do poder pelo tirano. Essa afirmação abre e fecha o poema: Ei-lo! É o povo que passa Com fé no coração, Dos livres forte empunhando O sagrado pavilhão. (…) Rei só ele, e soberano, Ante o qual treme o tirano – Vigora a justiça – a lei. Os reis não só usurpam um poder que não lhes pertence, como confiscam a liberdade. Por isso, o governo da nação deveria ser o governo da liberdade. A nação livre seria a negação da tirania. Não há coroas, nem cetros Ante o poder da nação; Onde vive a liberdade Todo homem é cidadão O livre em sua passagem Não vai render vassalagem Ao despotismo de um rei; Rei só ele, e soberano, Ante qual treme o tirano, Vigora a justiça, a lei. Os direitos do povo em oposição ao do rei aparecem como decorrentes das mudanças do entendimento do poder operadas no último século.312 Um poder real que desconsidere o povo seria um anacronismo, pois Saltou da Enciclopédia a ideia santa Dos direitos do povo a eternidade, 311710319 O Povo. A República. 312830421 [Sem título]. Tiradentes. 139 Prodigiosa e boa tempestade Que pelas eras cresce e se adianta: O direito não só se encontra afirmado, como se espalha em um movimento progressivo. O tempo passou, e a história não mais autoriza monarcas que tudo podem. Já não encontra bases para a planta O direito divino – a impiedade; E, na pele dos reis a Liberdade Aponta a lepra que à Moral espanta: A “ideia santa” que “cresce e se adianta” exigia que a monarquia fosse modificada. A Liberdade, isto é, o direito do povo, poria a descoberto os malefícios da monarquia, a lepra, incompatível com a moralidade. Se o poder do rei aparece como reduzido, o do povo aparece como direito inconteste. A crítica ao direito divino do primeiro passa pela afirmação do direito do segundo. A dissociação entre monarca e pátria, por um lado, e povo, por outro, torna-se condição sem a qual a crítica à monarquia seria impossível. Pátria, povo e nação precisam ter uma existência própria e independente da figura real. Enquanto o rei for a garantia da unidade social, da comunidade do reino, seu questionamento como instituição é inconcebível, pois seria colocar a existência da sociedade em questão. A dissolução da “corporeidade do social”, nos termos de Lefort, seria a condição sine qua non para que monarca e monarquia pudessem ser questionados.313 O trono como ameaça à pátria aparece no soneto “Agonia da época”, publicado em 1883.314 É interessante notar que aquilo que foi apresentado como garantia da unidade da pátria e da civilização seja destacado como perigo. Um “pavoroso rio”, fundo e bravio, desce do alto sombrio, “o trono – gerador desta serpente”. A Probidade e o Brio ficam horrorizados e, juntamente com o trabalho, “atirados na corrente”. Vejo as águas cercando tenebrosas Ilha pequena, aonde desterrada A pátria existe; e as águas furiosas 313LEFORT, Claude. A imagem do corpo e o totalitarismo. In: _____. A Invenção Democrática. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 117. “Mas se é preciso falar em uma desincorporação do indivíduo é preciso, não menos, reparar na separação da sociedade civil fora de um Estado, ele mesmo, até então, consubstancial ao corpo do rei. Ou se quiser, reparar na emergência de relações sociais, não apenas econômicas mas jurídicas, pedagógicas, científicas que têm seu próprio fim; e ainda reparar mais precisamente no desintrincamento que se opera entre a instância do poder, a instância da lei, a instância do saber, a partir do momento em que se apaga a identidade do corpo político”. (p. 118). 314831009 Agonia da Época. O Intransigente. 140 Irão a ilha transformar em nada! Presa do trono às garras sanguinosas A pátria vai aos poucos devorada! A imagem é poderosa, as virtudes são afugentadas pelo trono, o trabalho é descartado. Na sequência, o trono prende a pátria e a deixa ser devorada. A monarquia estaria triplamente relacionada à destruição da pátria: ao constranger as virtudes; ao cercá-la pelo “rio serpente” que gera; por prendê-la, impedindo que fuja das “águas furiosas”. Destruição e morte seriam o saldo da monarquia. A “Agonia da época” consistiria na agonia da pátria. Assim, a luta contra a monarquia aparece como a defesa da nação. Em outubro de 1885, O Constituinte trouxe em suas páginas um poema com o instigante título de “Denúncia à história”.315 Seus versos estão divididos em três grandes partes. No preâmbulo, é elogiado “um homem” em acesso de cólera contra a injustiça: Eu me refiro a um homem que procura Marchar do Bem na progressiva escala, E cujos ódios – são virtude pura, Quando o Mal sobe a um trono, estruge e fala. Uma segunda parte, nomeada como “I”, gira em torno da denúncia e da condenação do escravagismo: Monstro horrível, com a fronte carregada De longos crimes, maldições legítimas, Salta os lares, vem tomar a estrada! E na terceira e última parte, denominada “II”, há críticas ao governo e, de forma passageira, à monarquia, em função da dificuldade em implementar medidas que acabassem com o escravismo. Fazem a agiotagem pequenina De seus deveres com o escravizado! Fazem lei – sobre lei – mais assassina, E tudo feito... ao imperial agrado. Mas, aonde? em que furna se pretendem Esses malvados esconder da história? Eles que tudo prostituem, vendem? Trata-se de um poema longo e que exige algumas considerações. O tema 315851018 Denúncia à história. O Constituinte. 141 principal é a escravidão, ou melhor, a defesa veemente de medidas que mitiguem a sorte do escravizado. Sua publicação se deu no dia 18 de outubro, exatamente 20 dias após a aprovação da lei 3270, conhecida como Lei dos Sexagenários, após um longo trâmite que se iniciou no Gabinete Dantas em 1884. O amplo intervalo entre a apresentação da proposta e sua aprovação se explica pela resistência que enfrentou na Câmara.316 O poema nos parece tratar deste problema ao condenar o escravagismo e se referir às dificuldades em aprovar reformas relativas à escravidão. Em sendo esta hipótese plausível, o homem cujos ódios são virtudes, de que fala o poema, pode ser interpretado como alusão a Joaquim Nabuco, militante da causa abolicionista, responsável pela inclusão da abolição na pauta do parlamento.317 No que diz respeito às críticas que veicula e à discussão aqui apresentada, o poema realiza duas operações importantes. A primeira: associar escravagismo e monarquia. A segunda: acusar ambos de defensores de privilégios, de patrocinarem crimes que atentam contra a liberdade. Sobre os escravizados, os argumentos apresentados trazem implicitamente noções importantes, quiçá, inovadoras para a época. A nomenclatura “escravizados” seria a primeira, na medida em que destaca uma condição provisória e relacional. As pessoas não seriam escravas, mas estariam escravizadas. A afirmação de que os escravocratas tratam “os irmãos como alimária” seria a segunda. Escravizados e livres partilhariam, nessa lógica, de uma natureza. O que os distinguiria, a privação da liberdade, não foi relacionada a nenhuma suposta distinção ontológica. Todos eram homens. A terceira inovação foi o tratamento dado à transgressão do escravizado. A pergunta que “parece surgir de todo canto”, referida no poema, indicaria não ser exatamente um crime a fuga ou enfrentar a justiça “que não respeita Vedas e Evangelho”. As considerações acima funcionam como agravantes nas acusações dirigidas a escravistas e monarquia. Governadores sem patriotismo 316Sobre as dificuldades do gabinete Dantas nessa questão, ver: MONTEIRO, Tobias. Pesquisas e documentos para a História. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1913, espec. “Evolução abolicionista. O ministério Dantas.” p. 55-110. 317“Desde a iniciativa de Nabuco em 1878, nunca mais o problema saíra do parlamento, embora não lograsse desde logo forçar-lhe o exame definitivo”. MONTEIRO, Tobias. Pesquisas e documentos para a História. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1913, p. 64; “Nabuco trazia idéias radicais, e foi sob o fascínio da sua personalidade e da sua eloqüência que o pensamento emancipador, ainda subsistente no projeto Dantas, fez-se impetuosamente pensamento abolicionista”. VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: ABL, 2006, p. 58. 142 Filhos – da corrupção do velho mundo – Que se chama entre nós – o monarquismo, Que somente sabeis cortar a fundo Nos sagrados direitos populares E amais o crime de que sois oriundo; Sois uma raça indigna d'estes ares, De vos banhar a luz americana, D'estas riquezas vastas, singulares! A crítica a governadores e ao monarquismo é um petardo: filhos da corrupção, amantes do crime, ceifadores de direitos e indignos de viver na América. O poema termina com uma previsão funesta de um acerto de contas com os impuros. Atacados por moléstias que aniquilam e fuzilados por raios e maldições, Eternos hão de ali viver chorando Um olhar compassivo e o seu tormento Somente acabará n'um dia – quando O Planeta ficar sem movimento. As diferenças entre povo e rei caminhariam no sentido de uma oposição e uma dicotomia. A relação entre ambos seria de antagonismo quando dizia respeito à política: o rei estaria ocupando um lugar e exercendo um poder que pertenceria ao povo. A recuperação pelo povo daquilo que seria seu, mas foi usurpado pela monarquia, foi abordada em “Rebate”.318 O soneto tanto pelo título quanto pelas palavras iniciais pode ser visto como uma resposta aos defensores da monarquia, entendida como a primazia do rei. E tudo isto é do povo! Esses galões, a farda, Os fogosos corcéis cobertos de platina, Esse carro dourado, essa espada assassina, O cetro, o diadema, o palácio, a espingarda! Ao povo pertenceria aquilo que o rei detinha, assim é afirmado na primeira quadra. O povo não estaria confiscando algo, mas reavendo o seu por direito. A indumentária, o luxo e a riqueza, os símbolos e os instrumentos do poder que o monarca usava eram do povo. Mais do que bens ou objetos materiais, esta recuperação pode ser interpretada como sendo a própria recuperação da soberania. O povo, no entanto, não se move, apesar de próximo à situação limite – “já não pode esperar, que a morte já não tarda”. O duplo roubo pela monarquia explicaria a 318860810 Rebate. Revista Federal. 143 passividade: a dos bens e a do ânimo e forças. O elogio a este povo informa uma identidade e indica como se deve agir, “levantando o sufrágio, erguendo barricadas”. A descrição inicial se torna uma prescrição quando instiga o “povo americano” a colocar “um ponto final das tuas agonias!” O “Rebate” pode ser lido, então, como o bater de volta, resposta e reação do povo a um regime que é a usurpação de seus direitos e que o mantinha “sob as unhas cruéis das aves de rapina”. A monarquia vitimava povo, a pátria e nação – esta era tônica dos poemas analisados no presente capítulo. Elementos diferentes foram mobilizados nas várias denúncias que encontramos na pesquisa. Algumas vezes falou-se em direitos e liberdade, noutras, em usurpação e exploração, além de corrupção e miséria. Construía- se e publicizava-se uma representação negativa da Monarquia, paralelamente à positiva de povo-vítima virtuoso. Há poemas que simplesmente afirmam esta incompatibilidade, como em “Pobre pátria”.319 O texto nos conta sobre o enfrentamento entre um condor e uma nuvem. A ave quer voar livremente pelo céu azul sob o sol, mas é impedida pela nuvem. Não! – Responde no alto uma nuvem de informes Proporções, que nodoa a abobada zulada – Embebedar-te-ia no vinho da alvorada, Irias te abrasar na fornalha do Ocaso! Não! Só hás de espraiar o teu voo – no raso Horizonte vulgar que circunscreve os montes! A imensa nuvem disforme, que mancha o céu, tolhe o condor e o proíbe de voar, como era de seu desejo. A descrição da nuvem funciona como antítese da beleza da ave e reforça o antagonismo entre as duas. A segunda quer ganhar os céus, a primeira quer prendê-la no “horizonte vulgar”, ou seja, uma quer a liberdade que a outra cerceia. O condor resiste e investe contra a nuvem, e “o rubro sangue heroico escorre-lhe das penas”. As razões para manter o condor entre os montes indicam zelo, sugerem impedir que se embebedasse ou ardesse em brasa. Os versos finais explicam à pátria a metáfora do poema: Pátria, o Condor és tu; esse retrato é teu. 319880101 Pobre Pátria. Gazeta Nacional. 144 A nuvem plúmbea e má que as asas te arrebenta Chama-se Monarquia – a instituição odienta! Sob acusações de responsável pelo atraso, de anacrônica e de negar a liberdade, a Monarquia foi denunciada como obstáculo que impedia que a pátria alçasse voos mais altos. Sob a justificativa de protegê-la, a pátria é mantida em um cárcere a céu aberto, restrita ao que está ao “horizonte vulgar”. Confirma-se, assim, a representação da pátria como vítima, que o título sugere. “A chaga que se chama fome” Em uma elocução dirigida “Ao Imperador”, o sofrimento do novo sujeito que se insinuava como o soberano foi posto em destaque.320 E mais, a penúria o levava a afrontar a figura do rei. Senhor! Senhor, o que fareis? O povo Se não chora, também já não sorri; E ousa-vos fitar-vos já! Que olhar sinistro!... Quanta interrogação flameja ali! A privação do povo é contraposta às benesses do monarca, e seus “áulicos sequiosos” se tornam escândalo denunciado. O problema mostra-se mais grave na medida em que, na lógica do texto, é a bonança de um que produz a miséria dos outros. A monarquia sofre dupla acusação: permitir e produzir as condições de extrema pobreza em que se encontra o povo. Ah! Chaga que se chama fome, sede De justiça e de pão. Por sobre o império – Suprema afronta ao céu e à humanidade – Vê-se estendida a púrp’ra de Tibério. (…) Nestes banquetes, onde o servilismo Sempre oferece ao rei um gozo novo, Não sentis que na taça que vos servem Não há néctar, mas sim sangue do povo? A situação descrita coloca o povo como o grande penalizado, mas não o único prejudicado. Talvez nem fosse o que mais perderia com a situação. Ao povo caberia o recurso da revolta, de restabelecer o “auriverde pendão que nos honrava”. O rei, ao consentir que o povo fosse submetido a tamanha adversidade, criaria uma situação que ameaçava seu trono e a instituição monárquica. 320710613 Ao Imperador. A República. 145 Tendes o manto, e nós sentimos frio! Tendes um cetro, e nós... Nem um bordão! Tendes na testa um diadema de ouro; Nós... Uma chaga só no coração! (…) Vosso trono é um degrau de um precipício. Vosso dossel promete desabar. Deixai esta bastilha de damascos, E à luz do século vinde vos lavar. A operação em curso possuía várias facetas. Dissociar povo, nação e imperador era a primeira. A segunda produzia um antagonismo entre os dois: o rei era tratado como sendo o antipovo. Esta oposição era informada pelo acesso desigual a bens materiais (a fartura do rei, contraposta à miséria do povo) e simbólicos (o confisco da liberdade por parte do monarca). No poema já parcialmente analisado, “O corte no orçamento”, dedicado “aos srs. representantes da nação”, pede-se que os deputados deixem de receber pelas sessões que faltarem e aos senadores que sejam mais objetivos nas discussões e deliberações.321 Dois argumentos fundamentam o pedido: economia para redução do déficit público e isonomia com os artesãos das oficinas. Estes quando faltam ao trabalho têm seus dias descontados. A redução do déficit tem como pressuposto a certeza de que o ônus recai sobre a nação. Oh! Seis contos de réis a cada dia Em que não há sessão: Para um país que está arrebentado É aumentar a dor ao desgraçado Sem dó, nem compaixão. Por isso, humilde vos implora O aflito povo Que façais o desconto, e sem demora… Urge atender ao déficit que o devora, O déficit velho e novo! Os “representantes da nação” deveriam se sujeitar às mesmas regras que os demais trabalhadores, não podendo a representação onerar o representado. O país arrebentado e a “nação que fenece de anemia” são razões que tornam urgente a redução do déficit. Assim, a penúria da população, decorrente da organização política, e suas instituições constituem o pano de fundo do poema. 321770518 O corte no orçamento. O Globo. 146 “No fogo da corrupção” A canção que um espectro pálido entoa ao lado do sepulcro, sorrindo da cegueira dos homens, traduz-se em denúncia das condições da “nação abatida” e foi apresentada em “Tira-Dentes”.322 A nação é descrita como abatida, tendo se curvado a um poder prematuro e que Dorme, nação abrasada No fogo da corrupção! O canto aponta a ausência de liberdade e incita mocidade e povo a lutarem para restabelecê-la. Coragem, que a monarquia Tem por base a tirania E tem por arma a traição! Essas testas coroadas Que rolem despedaçadas Na lama, no pó do chão! Oh! povo, tu que és gigante Faz do gigante conquistas! (…) O trono despedaçai, Um'outra era encetai – Não era de corrupção! A monarquia foi equiparada à tirania, deixando de ter qualidades que a justificassem. Ato contínuo, o canto pede as cabeças coroadas, a destituição dos reis. O recurso à violência seria o expediente possível, e legítimo, contra um governo que responde com “gritos de metralha” ao pleito por liberdade. A queda do rei, mais do que o início de um novo governo, marcaria o começo de uma nova era. A antinomia entre povo e monarca foi elevada ao extremo. Ao povo compete o direito e o dever de sublevação como expediente para reinstituir a liberdade sequestrada. A monarquia como ameaça à pátria foi reafirmada em “Corruptum genius”, em 1874.323 Descrito pelas qualidades que lhe faltavam, os malefícios do presente foram destacados. Miséria! Perdem-se os gritos saídos das bacanais! Riem dos rostos aflitos os espectros infernais! 322740815 Tira-Dentes. Labaro Academico. 323740901 Corruptum Genius. A Idea. 147 O vício se ostenta aos dias!... – A crença, a ideia... utopias – que o egoísmo venceu! Pátria! rasgaram-te o peito! Sobre teu corpo desfeito um bando negro desceu! A luta para corrigir a situação é necessária, porém a capacidade de resistência da coroa é grande. Desgraça! Lutas sem forças Contra um presente sem fé! Queres erguer-te das brumas? Detêm-te!... o trono é de pé! Tremes!! algemam-te os braços!... Vês? Erguidos nos espaços o cinismos e a corrupção!... Venderam teu nome santo entre o escárnio do teu pranto no mais nojento balcão!! A permanência do trono dificulta as lutas necessárias para restabelecer o justo e o correto, embora o poema não nomeie desta forma. A falta de fé e o cinismo se complementam, produzindo a corrupção, o sofrimento, que é desprezado, e a venda da pátria, situação extrema em que o trono tira proveito em – e com – seu prejuízo. A existência da pátria, entendida como o conjunto dos habitantes, independentemente da coroa, caminha próximo à noção de sua superioridade em relação ao trono. Opera-se uma inversão da lógica política tradicional: a coroa é que devia fidelidade à pátria e não o contrário. A corrupção, o cinismo e a falta de fé, que marcam o Império, autorizam e pedem esforços da nação para sua superação. A divergência entre aquilo que a coroa supostamente busca e o que se torna foi descrito nos seguintes termos em 1874:324 (...) que o régio sólio se procura o capitólio vai transformado em Marnel! A diferença entre a forma como a monarquia se apresenta e justifica sua existência e o que seria na prática mereceu inúmeros poemas. Insistiam estes em retratar, por meio de imagens como lodaçal e lama, um governo marcado pela corrupção e pelo desmando. 324740915 Sete de setembro. Labaro Academico. 148 A mesma ideia foi apresentada no poema que tem como título a síntese do que o Império teria se tornado, “Farsa sobre farsa”.325 Os primeiros versos indicam a falta que o marcaria, através das perguntas: Ó casta deusa antiga, ó cívica virtude, te esteriliza o seio a pátria servitude? (…) A túnica ressolta, os cândidos adornos que te velavam, deusa, os nítidos contornos, a fronte rugente, que mão poluta e ousada enodoá-los veio? A impotência da virtude cívica sob o Império está assim afirmada. Se a primeira parte do poema fala da “deusa antiga” e da mácula que sofreu, a segunda parte, sem indicar casos concretos, desenha um quadro negativo da sociedade do Império: Do parlamento à rua e da tribuna à praça é vasto o lodaçal em que fermenta a massa da multidão informe!... Que importa a podridão! Te eleva à arquibancada do fórum nacional, e, à rija gargalhada do coro dos burgueses, a rápida ascensão dos histriões reclama. Ouves um estertor? É que estrebucha o drama, é que hoje o semi-deus-elástico o programa impõe dos entremeses! E os novos arlequins, acrobatas da frase! É tudo gente boa, e assim entre nós quase custosa mantença. A crítica, semelhante a de outros poemas, aponta o “lodaçal” e a “podridão” da sociedade imperial. Não há, de forma direta, a sugestão de que o problema estivesse restrito a um grupo social ou à elite beneficiária da situação. Embora certos tipos sejam nomeados, como os “burgueses”, os “histriões” e “os novos arlequins, acrobatas da frase”, eles não nos parecem suficientes para associar o “lodaçal” à elite ou aos beneficiários do Estado. Há, todavia, a indicação de que esta “gente boa” custaria caro para a nação. A ausência de um povo-vítima virtuoso parece corroborar a nossa interpretação. A referência ao povo aparece na expressão “lívida canalha” e na pergunta: “não tem ela a prisão e os jogos de navalha?”, o que é bem distinto de um povo ordeiro e pacífico, 325750901 Farsa sobre farsa. A Idea. 149 sujeito aos desmandos de uma elite gananciosa apoiada por um rei despótico. O Sete de Setembro como fraude é um dos motivos do poema homônimo publicado em 1885.326 A data marcaria o início, na América, mais de um reinado e menos da libertação de um povo. A monarquia criada, então, teria reprimido as aspirações do povo, instaurado a corrupção e cerceado a liberdade. Ela representaria a substituição de uma velha dominação por outra nova. Podemos inferir que, no poema, os problemas indicados (repressão, cerceamento e corrupção) não seriam desvios, mas elementos constitutivos das monarquias Não ouvis reboar a artilharia?... São risos infernais do tigre Monarquia Por ter calcado aos pés a aspiração de um povo; Por ter criado um Rei no vasto mundo novo! Daí foi que saltou a fera Corrupção, Rugindo ferozmente em contorções estranhas, As fauces estendendo ao peito da Nação! Chegara até nós aquelas grandes sanhas Do monstro que sangrou a Liberdade, Fazendo-a padecer essas mágoas tamanhas! A monarquia, inaugurada no 7 de Setembro, é apresentada como ônus ao Brasil, razão pela qual não haveria o que comemorar, pois “não é justo folgar quando a nação arqueja!” Grandes ameaças pairam sobre o país e todas decorrentes da monarquia. As artes, a indústria e a lavoura beiram o abismo. O Comércio enfraquece: a Fraude dá-lhe botes, O Crédito vacila aos golpes dos calotes; E tudo assim na grande inundação, Do rio caudaloso – a nossa corrupção. Não há a negação de que teria havido uma mudança, mas que esta mudança não se traduziu em benefício para o povo ou a nação. E quando tudo sofre e tudo se desloca, O povo brasileiro aquela data evoca? …....................................................... Não! felizmente não! As festas d'este dia Não pertencem ao Povo e sim à Monarquia! 326850907 Sete de Setembro. Já Sei Já Sei. 150 “Os dois prisioneiros” A sociedade cindida – entre aqueles que nada têm e os que vivem na fartura às custas dos primeiros – seria marca do século, segundo o poema “Canalha!”:327 O século é de trevas, lutas e misérias! Da mola [?] social o esquálido aparato Faz o século tremer, faz rir o insensato Que folga de achar vida em crises deletérias... Em cima, chove a lama que os grandes alimenta, Em baixo, o fraco chora, o pobre se lamenta! Enquanto que para os de baixo “a lágrima é conforto, é amplo benefício...”; os de cima “recebe[m] sobre a face a imunda recompensa!” Aos últimos, se sobra conforto, faltam-lhes virtudes, “em cima o vício é nobre, o crime é dignidade”. Esta caracterização é de suma importância para o que nos interessa nesta tese. À injustiça da desigualdade das condições de vida, foi acrescida a usurpação, recebendo agora um novo complemento: a falta de predicativos morais. Os de cima foram reduzidos a exploradores inescrupulosos, que mantêm suas posições graças à manutenção dos de baixo na miséria e na penúria. A sociedade fragmentada entre dois grupos foi apresentada de forma lapidar em “A canalha”.328 O acesso desigual aos bens e direitos foi repetido várias vezes, juntamente com a indicação de que a privação de um resultava da expropriação feita pelo outro. O poema dedicado “aos operários” consiste em elocução na qual o grupo se apresenta, distingue-se do outro e, nessa nomeação, finda por produzir o grupo distinto. Ao indicar as práticas e comportamentos que diferenciam os dois conjuntos, classificando e apontando similitudes e distinções, o poema nomeia e classifica e, portanto, contribui para produzir aquilo que é seu pressuposto. A primeira estrofe oferece a chave do que será o restante do poema. Somos nós quem pagamos o luxo dos divinos Nós da última camada, Enquanto damos ouro, a vida e o futuro Vive n'um pardieiro, sombrio lar, escuro, Nossa família amada. De um lado, um “nós” que trabalha e vive com a família na privação; de outro, um “eles”, que vive na opulência graças à exploração sobre os primeiros. O enunciador 327730130 Canalha. A Republica. 328770131 A canalha. Gazeta de Notícias. 151 se apresenta de muitas maneiras, sempre no coletivo, como “nós”. “Somos quem pagamos os gozos da nobreza”, “os homens do trabalho”, “quem levanta colunas, palácios, monumentos”, “o poviléu, as turbas, / os filhos da desdita”, “os órfãos da fortuna”; “sim, somos a – CANALHA, – sem títulos de nobreza”, nomes diferentes que indicam a penúria social e material. Material, pois não têm acesso à fortuna e riqueza que geram e ainda pagam o luxo dos outros; social, na medida em que são tratados como ralé, os “da última camada”. Os ditos “outros”, que vivem do fruto do trabalho dos primeiros, também são nomeados de várias formas. Eles seriam a nobreza, os “corvos de batina”, reis, fidalgos, “galgos de coleira”, “vampiros infernais”, “raça felina” e barões. Sob a variedade de indicações, encontra-se a prática que unifica todos estes segmentos: a exploração. Vós podeis explorar o pão dos infelizes, Roubar ouro a milhões; (…) Vós podeis arrancar de nossas algibeiras, Por tributos lesivos, O produto dos braços, de tantas mãos calosas; (…) O poema informa e é informado por uma visão da sociedade como profundamente cindida em dois grupos antagônicos: de um lado, a elite, que vive às custas do trabalho alheio e, de outro, os realizadores do trabalho, ou seja, os que trabalham e nada têm e os que nada trabalham e tudo têm. O luxo de uns produz a penúria dos outros – pode-se inferir a partir do poema. A representação que percebemos no texto poderia mesmo ser atribuída a uma influência saint-simoniana ou marxista. Nada foi encontrado, porém, que permita esta conclusão. No contexto em que foi produzida, é possível tratá-la como constitutiva das críticas e denúncias da sociedade imperial durante a campanha republicana. Essa sociedade era acusada de ser marcada pela injustiça e distorção dos valores da liberdade e igualdade. A denúncia da divisão social, em benefício do monarca e dos monarquistas, consistia em um recurso importante para desqualificar o Império. A tolerância à desigualdade e sua produção eram apresentadas como inaceitáveis e corroíam a legitimidade do regime que as aceitava. Um último comentário sobre o enunciador do poema se faz necessário. Ao se assumir como canalha, designação negativa, o estigma foi subvertido e transformado em 152 distinção, o que permite considerar o poema no conjunto “da revolução simbólica contra a dominação simbólica”, nos termos de Bourdieu.329 As qualidades atribuídas aos homens da “última camada” foram um expediente para desnudar a desigualdade e o acesso desigual aos bens materiais e simbólicos na sociedade sob a monarquia. Em relação “aos de cima”, recurso semelhante também foi usado, enfatizando sua subserviência em relação ao monarca. Às virtudes dos primeiros, correspondia a mesquinhez dos segundos. A hierarquia social não correspondia a das qualidades individuais: aqueles da “última camada” seriam superiores moralmente aos da elite imperial. Essa acusação, ao ser associada a grupos e a suas práticas individualistas e condenáveis socialmente, deporia duplamente contra a monarquia. Primeiramente, por produzir e estimular o servilismo; em segundo lugar, pela torpeza da aristocracia que se presta à adulação. As falhas dos apoiadores da realeza são transferidas para a instituição apoiada. Só um regime baixo necessitaria de subservientes para se manter. A existência de dois grandes grupos sociais, que tinham relações desiguais com a monarquia, foi retomada na fábula “Os dois prisioneiros”.330 O “sentimento vário” de duas aves que se encontravam aprisionadas em gaiolas é seu mote, anunciado na primeira quadra: N´uma gaiola risonho O canário gorjeava, Em outra o condor tristonho No sol os olhos cravava. Diante da mesma situação, privação da liberdade, conforto e segurança da gaiola, as duas aves têm reações distintas. Isto satisfazia o canário, mas não o condor, pois ambos possuíam pretensões e valores diferentes. O primeiro, abria mão da liberdade pela segurança, enquanto o segundo, não. Pois aí o ágil passarinho Cortês, guloso, sofista, Comparava o rude ninho À gorda ração de alpiste; O negro condor sedento De sol, de espaço, de dia, 329BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand-Brasil, 1989. p. 125. 330730717 Os dois prisioneiros. A República. 153 Era como o Pensamento Curvo aos pés da tirania. Nessa fábula com elementos alegóricos, dedicada a Joaquim Nabuco, interessa- nos destacar alguns pontos. O primeiro: estamos lendo-a como alusão à sociedade do Império. Segundo: desenha-se a existência de dois grupos que, partilhando a mesma situação, a privação da liberdade, mantêm relações antagônicas em relação à monarquia. Um, renuncia à liberdade pela segurança, enquanto que o outro se mantém fiel a este valor e princípio.331 Ou seja, a aceitação da monarquia era a aceitação da privação da liberdade. E, por último, conota a contínua busca pela liberdade, apesar da tirania. Este ponto pode ser interpretado como o elogio da batalha e dos batalhadores pela liberdade, ou seja, aos que se batiam contra a monarquia. A representação negativa de uma elite arrivista e subserviente aparece em “César... ou seu cavalo”.332 A referência nos parece clara: trata-se de alusão ao Imperador Caio Júlio César Augusto Germânico, também conhecido como Calígula, e seu cavalo, Incitatus. “Bezerro fatal” e “fantástico hipogrifo” são referências a quem “traz no peito imperial comenda”. A reação das pessoas quando este sai em desfile dá conta da crítica a que nos referimos acima. Quando ele sai à rua – um burburinho soa, disputam – entre si – os nobres figurões a honra de enfeitar-lhe a poderosa proa! Sua pompa, impacto – “espectro do poder – confunde as multidões” – e adereços revelam o prestígio, que causa inveja e deixa transparecer a vilania da aristocracia. E a sela do senhor – e as mantas purpurinas – grãs-cruzes – a estrelar, cobertas d'oiro e prata, e as rédeas de veludo, aureoladas, finas, fazem fúrias de inveja – ao corpo aristocrata dos condes e barões – que rastejando a lama, vão beijar d'alimária a luzidia pata! E se a voz do senhor – um estribeiro chama, 331Esta opção nos remete à discussão acerca da construção da Ordem Saquarema, na qual, após crises associadas aos diferentes entendimentos e disputas em torno da liberdade, prevaleceu a tese conservadora que buscava conciliar liberdade com civilização. Ver MATTOS, Ilmar R. de. O Tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec, 1987. 332800124 César... Ou seu cavalo. O Estandarte. 154 aparece um marquês – desapertando as cilhas... diz um duque: “senhor, já preparei a grama!” O poema termina em um juízo genérico, que pode ser interpretado como alusivo ao Império. Em sendo assim, sua grandeza e glória estariam sendo desconstruídas pela ironia presente entre o início e o final dos dois versos finais. eis a glória, eis o Deus – dos histriões pandilhas! curvai-vos, medalhões! Oh! manequins de arame! A aristocracia do Império foi denunciada como corrupta, servil e gananciosa, sendo representada em vários poemas como carente de qualidades que justificassem sua distinção e dignidade. Os ataques ao regime eram também dirigidos aos membros da elite imperial, pois eram com ele identificados. Tornava-se impossível desqualificar o primeiro sem implicar a segunda. A simbiose entre coroa e elite estava sujeita às vicissitudes da roda da fortuna: o regime e seus seguidores partilhariam as mesmas (faltas) de qualidades. Os poemas representavam os componentes da elite mais como lacaios e serviçais do que como nobres e aristocratas. Em agosto de 1889, o descrédito do grupo foi abordado em “Nobreza e fidalguia”.333 O excesso de nobres, a subserviência que os marcava e a fraude que teriam se tornado foram destacados: A realeza, nos salões dourados Nobreza e fidalguia espalha a rodo, Ser lacaios do rei e seus criados De fátuos imbecis é hoje engodo; No venturoso cortejo todos vergados, Despem o brio, rojam pelo lodo. O lodo em que os nobres se arrastam, nos salões dourados da realeza, pode ser interpretado como alusivo à própria Monarquia. Neste caso, a crítica pode ser considerada como indo além da denúncia de que se partilha a mesma decadência. O regime teria atraído para perto de si, na tentativa de criar um grupo de apoio, aqueles que estariam dispostos a apoiar a Coroa, independentemente de seus méritos, contanto que fossem beneficiados. Um governo não virtuoso só obtinha apoio de grupos e pessoas que partilhavam esta mesma qualidade. Por outro lado, a proximidade com uma 333890807 Nobreza e Fidalguia. República Brazileira. 155 aristocracia servil e preocupada com seus interesses particulares reforçaria as características negativas da Monarquia. A aristocracia e seus títulos aparecem no poema de tal modo que não poderiam ser adjetivados como nobreza e fidalguia. A distribuição de títulos teria se tornado uma grande feira, tendo o dinheiro substituído a virtude como justificativa para a nobreza. O comportamento servil dos nobres teria transformado os símbolos da distinção em motivo de escárnio e zombaria. Do galardão, que a sábia lei primeira Aos saber, à virtude consagrara Abriu-se a desprezada, grande feira, E a riqueza indolente ao peito alçara. O servilismo, a adulação rasteira Das fardas no lavor a engastara E agora o prêmio que o valor vestia Cobrem de apupo, escárnio, zombaria. No conjunto e em relação aos demais poemas, “Nobreza e fidalguia” pode ser interpretado como integrante da crítica à Coroa. Entretanto, a bem da verdade, se tomada isoladamente, a crítica que veicula pode estar informada por uma perspectiva monarquista. A crítica ao dinheiro – “riqueza indolente” –, como substituto da virtude e do trabalho encrustado nas fardas, pode ser relacionada a uma crítica que reclama o retorno de uma sociedade de ordens, em que os grupos seriam qualitativamente distintos. “Medonha estação” Em manifestação precoce, a separação da província paulista foi saudada como o início de um novo tempo em “À província de S. Paulo”.334 Elevada à condição de vanguarda, “faróis” que guiam “o povo abatido” no combate ao “cesarismo”, deixar o Império seria a realização da tese do Manifesto Republicano: “Centralização – Desmembramento. Descentralização – Unidade”. Os termos usados nas descrições da monarquia e do início da vida sob a república são reveladores da forma como estas estavam sendo representadas. O Brasil, sob o Império, teria fardo e sofrimento: 334730731 À província de S. Paulo. A República. Qualificamos como prematura essa manifestação, pois o separatismo paulista só teria ganhado força e expressão na década de 1880. Lúcio de Mendonça trata da questão em 1884 e publica A Pátria Paulista só em 1887. HOLANDA, Sérgio B. de. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1972. T. II, v. 5. espec. p. 275-279. 156 E é noite longa e sombria Esta fatal agonia Que pesa sobre a Nação! A República, Essa irmã da caridade! Da meiga fraternidade Que não se esquece dos seus. A nova forma de governo seria também a inauguração de uma nova sociedade. E o Brasil ressurgirá Desta medonha estação; Emancipada a Nação A República virá. A república, como superação e negação da monarquia, não se ateve à questão da política institucional. Seria a emancipação da Nação, pensada não nos moldes da oposição à metrópole, de contestação do estatuto colonial, mas como conquista de direitos, da liberdade, pelos membros da sociedade, que se tornariam cidadãos no sentido amplo do termo. O infortúnio a que o povo estaria submetido motivou pedidos para um futuro diferente, como na “Musa do povo”, de 16 de julho de 1877.335 O poema abre com um “Deus vos guarde”, que a diva musa teria exclamado ao ver a liberdade. Após indicar várias situações em que a expressão “Deus vos guarde” foi usada como saudação ou simplesmente repetida, termina com a estrofe seguinte: “Deus vos guarde” por toda a eternidade Oh musa de Jesus! “Rompe o cendal que envolve o triste povo Dá-lhe um dia de glória, um dia novo À sombra d'uma cruz! Para o “triste povo”, solicita-se um “dia de glória”, um “dia novo” – é o que nos interessa neste momento. O pedido para um futuro reforça a ideia de um presente de martírio e suplício, o que explicaria a tristeza do povo. Em uma leitura a contrapelo, a súplica por um dia novo e de glória, feita em nome de um povo triste, só vem confirmar quão penoso era o presente no qual o futuro foi desejado. As referências religiosas na estrofe reproduzida não devem autorizar a conclusão de se tratar de um poema religioso, pelo menos em termos estritos. O poema foi 335770716 Musa do povo. Gazeta de Notícias. 157 publicado na coluna “Musa do povo”, de Octaviano Hudson, autor que mereceu as seguintes palavras quando de sua morte: Foi compositor tipográfo, foi pedagogo, foi político, foi jornalista, trabalhando sempre em humilde esfera mas sempre impulsionado pela febre da propaganda em favor de tudo que lhe parecia nobre e grande.336 A seção “Musa do povo” foi publicada em vários jornais com sátiras e provocações poéticas sobre temas e acontecimentos da política e sociedade do Segundo Reinado. A produção de Hudson na imprensa em nada se aproxima do discurso religioso stricto sensu. Sua marca é a crítica política e social, mesmo que mobilize elementos da religião, como nos parece o caso em questão. “O jugo do infamante despotismo” Em abril, maio e junho de 1873, um mesmo poema foi publicado por três periódicos diferentes sob dois nomes, apesar de o texto ser o mesmo. A primeira publicação, com que trabalharemos, deu-se na Revista Academica com o título de “Aos monarquistas”.337 As marcas da monarquia como a negação da liberdade, identificando-a com a tirania e com sofrimento do povo, foram reafirmadas. Dirigido aos monarquistas, adverte-os: Lede, vós outros tão cegos, As páginas que já vão: Quanto sangue derramado; Que nefanda corrupção! Aqui o plebeu gemendo A fome, o frio sofrendo; Ali, – um nobre bebendo Das orgias no salão!... A privação da nação que, no poema anterior, beneficiava o rei, neste poema, traduz-se em vantagens para um grupo, a nobreza. Os monarquistas a quem o poema se dirige aparecem como corresponsáveis pelos desmandos e injustiças, já que deles se beneficiam. Pesa contra os monarquistas aquilo que os define como tais, o apoio e defesa que oferecem ao regime injusto e tirânico. Ah! Que passado tristonho 336Necrologia. O Paiz. Rio de Janeiro. 13 fevereiro 1886. p. 2. 337730415 Aos monarquistas. Revista Acadêmica. Republicado n'A República com o título de “A liberdade”, na edição do dia 6 de maio de 1873, páginas 3-4; e novamente republicado com o mesmo título n' O Brado Nacional, na edição de 16 de junho de 1873, página 4. 158 Que a realeza nos traz; Mais sombrio do que a morte, Mais infeliz, mais falaz... E ainda existe no mundo Quem dedique amor profundo A esse monstro oriundo Da mente de Satanás!... A definição negativa da monarquia foi, assim, argumento para denunciar o rei, seu primeiro e maior beneficiário, e também os nobres. O regime a ser superado, para o bem da nação, deixava de ser apontado como decorrente de um indivíduo coroado. Passava a incluir o grupo que social que o apoiava por ser favorecido pela estrutura injusta. A monarquia como tirania aparecia, às vezes, como um dado, não carecendo de demonstração ou argumentação que fundamentasse a identificação. A oposição, ou mesmo dicotomia, entre monarquia e liberdade era reafirmada nesses casos. Não luz o sol da liberdade altivo P'ra que a um senhor a cerviz dobra; Não é livre quem sofre resignado O jugo do infamante despotismo.338 Ser súdito equivalia a se submeter a um jugo, a curvar a coluna e a perder a liberdade, na lógica do poema. E diz se livre o povo obcecado Que, só ele, entre todos que o rodeiam No vasto continente americano Inda suporta um rei, a monarquia? Será livre o Brasil aonde impera Um único poder absoluto?! Ó mentira, irrisão, ridículo absurdo!! Duas particularidades do Brasil foram destacadas: ser única monarquia nas Américas e ter só um poder, absoluto por sinal. Duas singularidades que transformavam em mentira a afirmativa de que o povo no Brasil seria livre. A falta de liberdade e o poder absoluto não precisaram ser demonstrados, foram apresentados como dados, axioma, como pressuposto. O poder moderador, que nos artigos dos jornais republicanos aparece como a grande evidência do despotismo, não foi sequer citado. O poema, neste sentido, atacava a legitimidade da coroa não pelo convencimento ou pelo argumento, mas por afirmar uma associação de modo a naturalizá-la. 338730716 [Sem título]. A República 159 No debate sobre as mudanças eleitorais em 1873, a posição de Pedro II foi alvo de reprovação em a “Grande questão do dia”.339 Merece atenção o nome da “seção” em que foi publicado o texto, “Piparotes”, ou seja, advertências e pequenas estocadas na forma de versos para provocar os leitores sobre temas importantes. O poema é curto, seis versos, e pelos termos que utiliza merece ser reproduzido integralmente. Não quer eleição direta Nosso rei e com razão Pois sua derrota é certa Triunfando a ilustração: Portanto fique indireta Continue a ser mandão. A derrota certa do rei nas eleições é uma afirmativa fundamental. Ou seja, sua posição de monarca e imperador já se encontraria corroída e poderia ser desnudada por uma eleição direta. A sugestão, presente no poema, de que o poder e/ou prestígio do rei sairia reduzido em uma eleição teria como pressuposto que a aprovação dos cidadãos era importante para manutenção deste poder. Ora, estamos diante de situação em que a existência e importância da opinião pública aparece como assente, como já indicamos por vezes em outros momentos do presente texto. O imperador, mais do que os governos, estaria na sua dependência. Com a recusa da eleição e consequente manutenção do poder real, o monarca continuaria “a ser mandão”. Primeiramente, é importante frisar a presença do verbo continuar, indicando a manutenção de uma situação, ou seja, o rei era mandão. Este adjetivo, embora próximo, traz conotações distintas de outros, tais como despótico, tirânico e autoritário. Se estes últimos podem ser descritos como formas do exercício e de organização do poder, o primeiro sugere uma prepotência e arrogância por parte do mandatário. Estaríamos, assim, diante de um comentário que evidencia a perda da sacralidade do imperador, de sua autoridade. O 7 de Setembro suscitava manifestações antimonárquicas, por ser uma data em que a casa dinástica se apresentava como libertadora do Brasil. Como estava em curso uma empresa que visava corroer sua legitimidade, a efeméride merecia atenção especial dos poetas republicanos. No poema dedicado à data em 1874,340 a comemoração é posta em questão na 339730518 Piparotes / Grande questão do dia. A República. 340740901 Sete de setembro. A Idea. 160 primeira estrofe: “e a pátria – louca vítima – aplaude seu algoz”, sendo este a monarquia que surge após a independência. A opção monárquica, quando do rompimento com Portugal passa ser tratada como um erro. O Brasil independente surgiu, por conseguinte, sob a égide do equívoco, a monarquia não garantia a liberdade. A responsabilidade por esse pecado original recai sobre Bonifácio Andrada. Eu perdoo teu erro, ó sábio e grande Andrada, porque do pátrio amor a flâmula sagrada guiou eu pensamento, encheu teu coração, (…) Mas tu erraste o alvo o dia que quiseste povo e Imperador cobrir co'a mesma veste, fugindo da anarquia ao vórtice... talvez... Lançaste o teu país (fatal, cruel provança!) às mãos reais, febris de atônita criança, que ungira o despotismo em sangue português. Não há a condenação do autor mas do ato. Os nobres móveis relevariam o resultado funesto. A ideia que nos interessa é a impossibilidade de cobrir povo e Imperador “com a mesma veste”, a sugestão de serem incompatíveis. A coexistência era impraticável pois que deixa o livre arbítrio aos pés da monarquia, a filha régia, vil que mata o que gerou. O investimento na desconstrução do 7 de Setembro como o início da liberdade do Brasil trabalha no sentido de apontar o equívoco das comemorações.341 No entanto, temos aqui não a presença do erro, mas da mentira. O ataque nos parece mais direto. Não há o que comemorar, pois os discursos e as falas sobre esse dia se reduziriam a mentiras que visavam ludibriar o povo. Ouvem-se gritos na praça mentindo aos povos altivos!... – Quebrar os ferros, cativos repetem falsos sicários!... Mentira! no diadema falsário rei traz o lema de nossa servidão! Sinistra a face dos nobres sobre nós, míseros pobres, derrama frouxo clarão! A crítica à concentração do poder nas mãos do rei aparece em expressões como 341740915 Sete de setembro. Labaro Academico. 161 “semi-deus-elástico”.342 Em poema que advertia sobre os riscos da centralização do poder monárquico, o rei foi chamado de “supremo general”.343 Versos simulando serem declarações suas assumiam uma convicção no poder supremo do monarca: “Minha vontade é lei”, “meu régio capricho é lei” e “sou eu orçamento e lei”. Embora isolados do poema, esses versos reafirmam a incriminação da monarquia como despótica. No dia 16 de junho de 1877, um anúncio da Marinha convidava os interessados em fornecer itens para o hospital durante o segundo semestre a enviarem suas propostas até o dia 19.344 Entre os itens a serem contratados, constava “raspadeira de cabo de osso”. O anúncio serviu de mote ao poema “Raspadeira de osso”, publicado no dia seguinte.345 A contradição entre a condenação da raspadeira de osso pelo Código do Comércio e o anúncio da Marinha foi explorado em tom jocoso. Interessam-nos os versos da terceira estrofe: Eu julguei que o artigo desse Código Tinha uso geral Mas enganei-me, oh céus, não é verdade, Para raspar há plena liberdade, À sombra imperial! A proibição do Código não valeria para a Marinha, pois estaria autorizada pelo Imperador. A lei não se aplicaria aos que estão à sua sombra. A ligação com o monarca, mesmo que tênue, permitiria que o preceito legal não fosse observado. Ainda que indiretamente, estamos diante da crítica que destaca que a lei não seria aplicada igualmente a todos. O Imperador e aqueles que agem a seu comando poderiam desrespeitá-la. Ou seja, estaríamos diante de um poder que não acataria as regras de direito, portanto, despótico. O Império como sendo tirania foi reafirmado no poema dirigido ao povo com o significativo título de “Ave populus”.346 O poema é composto de cinco décimas, sendo as quatro primeiras questionamentos e a última, uma afirmação. As interrogações podem ser consideradas como recursos para destacar o que se pretende denunciar. Logo no início, o enunciador se coloca a questão sobre seu canto e sobre o 342750901 Farsa sobre farsa. A Idea. 343760111 As derrubadas de El-Rei. A Bibliotheca dos Bonds. 344O Globo. 16 junho 1877. p. 3 345770617 Raspadeira de osso. O Globo. 346770825 Ave populus. O Progresso. 162 Que dizer da vida, Por mim descrida[?]...347 Na sequência, o despotismo é destacado e a reação do povo, problematizada. À tirania que o oprime, o povo se submete ou resiste? Viste, quão tacanha, Mísera, a façanha Do vil despotismo; Com o tiranismo Oprime este povo? E curvas, romano, Sob o trono e o dano D'um cetro mesquinho; Ou provas vizinho Dos Tupis o renovo? A dúvida sobre a reação do povo adquire sentido com a décima que aponta sua passividade. A aceitação da tirania resultaria do esquecimento dos ideais herdados das lutas passadas e do equívoco de acreditar que o passado (a fortuna das crenças herdadas) pertence ao déspota. Em silêncio apanhas Bordoadas tamanhas! Sofrendo, não pensas Esquecer as crenças, Intactas herdadas? Cordeiros julgais, Que fortunas tais, Ao César pertence, Que, déspota vence As faltas passadas? As interdições que o tirano impõe controlam e constrangem as ações dos indivíduos. A crítica ao governo despótico aparece com a indicação de como a vida das pessoas é afetada. Não se trata de uma questão de política institucional, de preceitos de teoria política. A forma como o assunto é apresentado transformaria os desmandos do poder em um problema que atingia as pessoas comuns, produzindo “um povo sem mente”. É culpa – o pensar – Crime, se falar; No ler – a rotina, Domina a batina 347A primeira parte do poema é claramente uma questão que o enunciador se coloca. No entanto, há um problema com a pontuação, falta uma interrogação final. O verso final que encerra a frase traz uma exclamação. 163 Em covarde plateia! A tirania não se restringe a controlar o que se pensa e se fala no presente. Busca também interferir na memória e controlar a história das “crenças passadas”: Mais tarde os vindouros Nos pedindo os louros Em seu nome e glória: – Nas laudas da História: Infame epopeia – Desse modo, nota-se que a tirania do presente tenta controlar as rememorações do passado. Até este momento da tese, os poemas focalizados defendem ser o Império uma tirania, destacando seus efeitos práticos tanto na política institucional quanto na vida das pessoas. Notar-se-á, a partir de agora, um leve deslocamento na abordagem da Monarquia como tirania. O foco deixa de ser as dinâmicas da política do presente e recai no início ou instauração do Império. O poema sobre Tiradentes, publicado no periódico homônimo em 1883,348 fala em origem criminosa dos reis e das dinastias. Como monarquia equivale a tirania, a origem desta também se encontra no crime. Uma observação se faz necessária. Os versos e o periódico fazem parte de uma grande empresa para resgatar e promover o culto a Tiradentes como mártir e precursor da república, como indicaremos adiante. O jornal foi publicado na cidade do Rio de Janeiro, ao longo das décadas de 1880 e 1890, sempre no dia 21 de abril. Essas condições de enunciação conferem especificidade aos artigos e poemas veiculados em suas páginas. Todos giravam em torno do personagem e do objetivo declarado. No entanto, parte dos poemas ali publicados expressa a contestação à monarquia na chave em que estamos trabalhando. No poema em questão, encontramos elementos que indicam e corroboram as representações da monarquia como tirania. No poema, um “grande criminoso” espreita à noite o lar do cidadão. Aguarda a aplicação de um “código demente” e se enche de entusiasmo, com as “perversões do crânio de um gorila”, quando um condenado é posto ao seu alcance. “Pois bem chegou a minha hora...”, declara. De um salto vence, esmaga, e o passo triunfante 348830421 Tiradentes [2]. Tiradentes. 164 Assenta ao coração do povo agonizante. Eis a origem cruel dos reis, das dinastias! Agita a escuridão as cortinas sombrias, Sacode à claridade as serras da poeira, E enquanto fecha o povo os olhos na cegueira, Silva um laço no ar... o estrangulador! Além da atribuição da origem criminosa, a monarquia foi associada às trevas, tanto pela escuridão que agita, quanto pela cegueira do povo. Do mesmo modo, a passagem a vincula à violência ou coação física, seja quando esmaga na vitória ou quando “silva o laço”. Não houve desenvolvimento das ideias, nem detalhamento das relações, mas a associação foi feita. O passo seguinte consistirá em tratar o monarca, independentemente do título que carrega ou de como o recebeu, como equivalente a tirano. Sagrado, coroado, um rei ou imperador, Da noite para o dia aparece na terra! Em toda a parte lavra a tirania – a guerra! A paz é uma tormenta, um pesadelo, o espectro Que aterroriza a espada e empalidece o cetro! A calma não convém! Devassidão ou morte! A galé um é princípio; e a unha do mais forte Enterra-se no corpo anêmico das massas! Três noções estão sendo afirmadas nesta passagem. A primeira é que a tirania precisaria da guerra para sua sobrevivência como tal, a paz a enfraqueceria. A segunda é que a dilatação, para não dizer depravação, dos costumes lhe é vital. Sua divisa, em uma possível referência ao Grito do Ipiranga, seria “devassidão ou morte!” Depravação e guerra, no entanto, podem ser condições necessárias à manutenção da tirania, mas não seriam suficientes. A terceira e última ideia diz respeito à repressão que exerce sobre o povo fragilizado. A repressão, por deplorável que seja, corresponde a uma esperança, pois só se faz necessária onde há resistência. A tirania não alcança estabilidade que lhe garanta longevidade. É constantemente colocada em xeque. Portanto, a luta pela liberdade é possível e imperiosa. Da calma se levanta um valente adversário Que faz voar em fumo o pano do cenário Rubras decorações da peça condenada... É da razão a luz, a lâmina sagrada! 165 O par monarquia e tirania estava de tal modo difundido que aparecia em momentos improváveis. Em 1883, n'O Novo Conservador, foi publicado um poema que alertava sobre os riscos, para a monarquia, que representavam os liberais no poder.349 O momento parecia oportuno, pois a publicação coincidia com o fim do gabinete Paranaguá. O poema conclamava o Imperador a expurgar do governo “esses vermes que o corroem”. Jornal e poema eram explicitamente monarquistas e contrários ao partido liberal. Tudo isto não impediu que, na sua epígrafe, extraída de “Ao Brasil”,350 a tirania fosse denunciada. A descrição negativa do Império apareceu quando da comparação da História do Brasil com a da Argentina, presente em “Justicia, Verdad y Patria”, publicado em maio de 1888 e dedicado “ao povo argentino”. Longo elogio aos argentinos, que resistiram à tirania quando das lutas pela independência, ocupa a primeira parte. Povo! chegou-te aos lábios o destino De amarguras as taças mais cruentas, Mas, rolaram no chão despedaçadas Por teu pulso latino! Das procelosas crises lutulentas Entre as conturbações ensaguentadas, Sempre viril em face dos tiranos, Na conquista de tua liberdade, Meteste, a suspender a tempestade, Ombros americanos! A História argentina e sua conquista da liberdade servem de contraponto ao que teria ocorrido no Brasil. O desenho de um quadro desalentador da vida sob a Monarquia ocupa toda a segunda parte do poema, sendo o sujeito poético a primeira pessoa do plural. Enquanto no país do Prata tivemos “ombros americanos”, aqui tínhamos “espectros aterrados”. Agora, nós. Espectros aterrados, Dentro de um valo escuro, condenados, Cada um de nós o seu momento espera De ir honrar o banquete imperial, No entanto, Oitenta e nove nos dissera Como devera estrangular-se a fera, Despedaçar-lhe o salto imperial. A condenação, entendida como privação, aparece junto à referência à Revolução 349830525 Ao Imperador. O Novo Conservador. 350790628 Ao Brasil. Aspiração Nacional. 166 Francesa. A adversativa entre as duas ideias nos permite falar que a condenação resultou do não uso da experiência de 89. O “valo escuro” em que nos encontrávamos seria resultado da omissão ou de não ter sido aproveitada a oportunidade para estrangular a fera imperial. As estrofes seguintes autorizam esta interpretação. Nelas, por duas vezes, somos chamados de “fracos”. Na primeira metade do século, perdemos três oportunidades de conquistar a liberdade, ou seja, recusar a monarquia: 1817, 1824 e 1835. Na síntese traçada, após perdermos a primeira possibilidade, teríamos inviabilizado o aproveitamento das demais. Fracos! a voz de Dezessete ouvimos E, temerosos, para trás seguimos, Fomos beijar as púrpuras de um trono, Arrastando no lodo um corpo vil! E, dos clarins de Vinte e quatro ao entono Dormimos da miséria um podre sono, Um sono estrepitoso de... imbecil! Fracos! de Trinta e cinco o santo grito Nos encontrou nas furnas do precito, Sem leves sombras de um sentir humano Tendo a lama em lugar de um coração! O receio e consequente recuo diante da Revolução Pernambucana nos teria levado ao podre sono em que nos encontraram os clarins da Confederação do Equador. Teria nos encontrado com “lama em lugar de um coração” o “santo grito” da Farroupilha. Assim, perdemos os “corcéis do Progresso Americano”, tornamo-nos “um povo quase morto e frio”, com a “monarquia para nos devorar”. Nossa dor só é aliviada quando a Monarquia “nos atira um baraço no pescoço” e um de nós sobe do “inferno para a luz”. As condições em que teríamos nos deixado enredar são tão adversas que a morte tornou-se alívio, pois cessa o sofrimento. Sob a Monarquia, somos Vergastados sem dó, cruelmente, Preso à corda como mansa ovelha, Com a marca – imperial – a ferro quente. A terceira e última parte trata brevemente da possibilidade e esperança de reversão do quadro. Por influência e estímulo de “americanas almas”, Recebamos d'América o batismo! Depois... travada a nobre luta humana 167 Da conquista de nossa liberdade Com as explosões da força mexicana, Seria viso na moderna idade Falarem entre si dois povos grandes Como o Amazonas falaria aos Andes! Alguns comentários se fazem necessários. Se o poema constitui um ataque frontal à Monarquia, ponto pacífico no nosso entendimento, é também uma defesa de uma solidariedade e especificidade da América. O adjetivo “americano” foi usado como significando, mais do que uma referência geográfica, uma alusão à liberdade e à república. Novamente, encontramos aqui um eco do Manifesto de 1870, América e Monarquia seriam realidades antagônicas. O segundo ponto diz respeito à data em que o poema foi publicado, 15 dias após a abolição. A mobilização popular e os festejos em torno da aprovação da lei e sua capitalização política pela Regente trouxeram um alento ao Império.351 Este pôde se apresentar como acatando a opinião pública, bem como capaz de promover reformas modernizadoras. O perigo de um Terceiro Reinado começava a ser vislumbrado e temido.352 Não encontramos no poema referências ou alusão ao 13 de Maio, omissão ou ausência que, mesmo sem ser esclarecida, merece ser destacada. “Terrível noite” No longo poema “Terribilis nox!”, a guerra com o Paraguai e o sequestro da liberdade sob o Império são apresentados como parte de uma longa noite sombria.353 O poema é dividido em quatro partes, a saber: I, Prima verba; II, O Prata; III, O Império; IV, Pesadelo; V, Vítimas e algozes; e VI, Ultima verba, algumas das quais traziam epígrafes. Ao longo do desenvolvimento, encontramos passagens que reforçam a convicção de que havia um processo de desqualificação do Império como governo. 351Sobre as festas que marcaram a semana de 13 a 20 de maio de 1888, ver: PIMENTEL, T. V. C. et al. As festas da igualdade. In: MIRANDA, J. A et al. Maio de 1888 — Poesias distribuídas ao povo, no Rio de Janeiro, em comemoração à Lei de 13 de maio de 1888. Rio de Janeiro: ABL: 1999. Sobre os ganhos políticos da monarquia, ver: MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007, p. 190-194. 352“Os 50 anos de um reinado meticuloso, estéril e suspeitoso que se fecha com a libertação dos escravos, ideia vitoriosa por ser de vontade nacional, mas arteiramente realizada para servir de ocasião de pedestal ao trono da nova soberana, é o início de uma fase nova”. Manifesto do Congresso do Partido Republicano Paulista de 1888. In: PESSOA, Reynaldo C. A Idéia Republicana no Brasil, através dos documentos. São Paulo: Alfa-Omega, 1973. p. 97. “O 13 de maio, decretado com efeito, sob o gabinete João Alfredo, permite estabelecer-se um armistício entre a Coroa e os que batem contra o 'emperro' do regime. Passados, porém, os aplausos diante dêsse ato, voltou logo à tona o mêdo do reinado de Isabel I e do Conde d'Eu (…).” HOLANDA, Sérgio B. de. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1972. T. II, v. 5, p. 353. 353740801 Terribidis nox! A Idea. 168 A primeira parte consiste em um chamamento ao poeta cidadão para que saia da indiferença, “mais do que nunca hoje é crime”, e ocupe posto de combate. […] “A pátria anseia! Porque fugir ao ermo, se ele pede o óbulo d'uma ideia? O abutre do poder o espaço mede, e sobre o peito do Brasil que dorme aguça noite e dia a garra informe! Na convocação ao poeta, transparece uma ameaça eminente sobre o Brasil. Perigo representado pelo “abutre do poder”, possível alusão ao símbolo usual da realeza, a águia. Na segunda parte, o rio da Prata lamenta a incursão do governo brasileiro na região. Atribui à ambição e ao despotismo o ataque brasileiro às suas margens, que representariam o oposto do que sonharam Washington e Bolívar. Vergonha! Ao despotismo que voraz se insinua e se desdobra acaso, do civismo legar quereis a vossa maior obra, forjar-me mil cadeias? Filhos! que pretendeis. Ah! sonho horrível perturba-me as ideias! Tanta ambição em vós será possível! O “abutre do poder”, se ameaça o Brasil, causa dano ao Prata. É interessante notar a inversão, em relação aos poemas dedicados aos Voluntários da Pátria, do lugar atribuído a essa guerra. Os voluntários foram saudados como defensores do Brasil e a guerra apresentada como o restabelecimento da liberdade na região.354 O Império mais uma vez aparece como incompatível com as Américas, o que foi reafirmado na interpelação aos dois libertadores do continente. A liberdade em torno da qual o Brasil construiu sua história e que foi abandonada, vilipendiada, encarcerada pela monarquia, é o tema da terceira parte, “O Império”. O militarismo e belicismo da monarquia, como forma de ostentação da realeza, e o impacto sobre a nação são denunciados na abertura: Armas! mais armas! Redobrai a força dos fervidos vulcões! Que importa que a nação se esgote e estorça, 354700225 [Sem título]. A Reforma; 700226 À Chegada dos voluntários da pátria, em fevereiro de 1870. A Reforma; 700322 Saudação. A Reforma. 169 se é preciso ostentar as realezas nas bocas dos canhões? A monarquia não só desviou o Brasil de sua trajetória, como provocou sua decadência. A esperança de glória, que nasceu com a vitória sobre a “ambição torpe” no 7 de Abril de 1831, passou como um sonho. O Brasil, nos capachos do rei hoje arquejante, aberta a fauce, a garra recortada, dobras-te cortesão, a língua estendida e desbotada, o olhar de fogo incerto e vacilante aos lustres do salão!! Isto porque “o Império nos mata e nos corrompe”, afirma, e também nos onera. Quanto nos é pesada a majestade como cara nos é sua grande imagem, seu áureo pedestal. Ao final, o Império é amaldiçoado diante da possibilidade de nova “tempestade”, que exigia o sangue de mais brasileiros: “Quer mais sangue? pois sangre seus ministros!...” Em “O pesadelo”, parte IV, O gênio guarani ergue-se, clama, e de Humaitá as derrubadas torres, contemplando em delírio, então exclama: Seguem-se versos nos quais a guerra, sua barbárie e o “mar de sangue” que produz perdem sua dimensão heroica. À batalha – “infâmia, fratricida intento” –, sucedem “os mortos [que] surgem ao clarão da lua”. A comemoração da vitória pela “multidão servil de conselheiros”, que dão hurras ao grão senhor, é tratada na parte V, “Vítimas e algozes”. Os festejos e brindes são interrompidos por “alguém que não fora convidado”, são vossas legiões pálidas, mortas à fúria do revel! E os espectros em marcha entram nas salas os membros rotos aos furor das balas! Ó revés! ó lição! Em cada órbita nua a ira aviva fulgor estranho que ao través cintila: “Fidalgos dai lugar a este conviva!” 170 E uma sombra faminta, passa, oscila! A sombra da nação!!... A guerra que sobrecarrega a nação e trai o sonho de liberdade na América revela sua face injusta. Enquanto os conselheiros e seu senhor festejam a vitória, os que estiveram no campo de batalha, como voluntários da pátria, aparecem imolados e famintos. Traídos e desprezados, trazem sua ira aos salões da corte e consigo mesmos a sombra da nação. O discurso sobre a guerra foi subvertido, se comparado àquele que a seguiu imediatamente. Não teria sido um momento de glória da pátria e de seus defensores, mas um delírio imperial contra a liberdade, que trouxe imenso ônus à nação. É interessante que, nessa chave, o ex-combatente não chega a ser um herói, mas aparece como um injustiçado e abandonado, que teria motivos para um acerto de contas com a monarquia. O descontentamento do ex-combatente após o término da guerra contribui para a construção da ideologia do soldado-cidadão em oposição aos casacas.355 Na “Ultima verba”, parte VI, o poeta, sensibilizado com o sofrimento da pátria, pede que receba seu canto no “coração fraternal”. Termina o poema anunciando um novo tempo de liberdade e felicidade para a nação. Ânimo! Firme! Meu povo! A liberdade já vejo te oferecer consórcio novo, trazendo eterna n'um beijo a vida e a honra a sorrir! (…) Galga, pátria a serrania, que esta pálida agonia certo um dia findará! Em minh'alma já se acende entusiasmo radiante. O sol que em Boston esplende fulgirá também ovante do Rio Grande ao Pará. O longo poema consiste em um investimento na desqualificação da legitimidade 355Ver o poema 780917 Canto do veterano. Diário da Tarde; OTTONI, C. B. O advento da República no Brasil. Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1890., espec. a 3ª Parte. “Depois da guerra do Paraguai, este sentimento de distinção de classe se intensificou ainda mais e repassou-se mesmo de um certo sentimento de superioridade. Então, os militares, vindos das duras provações da guerra, sentiam-se como que purificados pela grandeza e pela heroicidade da obra realizada – e tudo isto lhes dava uma arrogante convicção de serem superiores a nós outros, amolentados sibaritas de casaca, pela moralidade, pela austeridade, pela abnegação, como pela simplicidade e pobreza de seu viver”. VIANNA, Oliveira. O Ocaso do Império. Rio de Janeiro: ABL, 2006, p. 117. 171 monárquica. O Império é denunciado como atentatório à liberdade da nação e do continente americano. Por conseguinte, pratica uma dupla traição à história, daqueles que defenderam seus direitos em 1831 e dos que empreenderam as lutas de libertação do Novo Mundo. A guerra no Prata foi tratada em termos de expansão do despotismo e sacrifício da nação. O governo do Brasil em nada aparece como defensável. É desenhado como tendo as marcas do arbítrio, do abuso e da exploração. Sua substituição fica assim não só autorizada, mas se torna um ato de justiça para constituir um novo pacto e restabelecer a liberdade perdida. Na produção que buscava evidenciar as razões pelas quais a monarquia não deveria permanecer, há um sem número que resgatou as lutas do passado, identificando- as com a luta contra o Império. Como se pôde notar, interessaram-nos as descrições negativas da sociedade e da política do Brasil na segunda metade do século XIX. “Não mais do povo os gemidos” Nos periódicos pesquisados, encontramos poemas que desqualificavam e denunciavam a monarquia, mobilizando argumentos os mais diferentes. A crítica ao instituído, ao existente, mereceu maior atenção, trabalho e produção dos poetas do que o detalhamento da República futura. Pressupunha-se ser esta o governo da virtude, da liberdade, da justiça, da moral pública e da democracia, ou seja, tudo aquilo que o Império não era. No entanto, poucos poemas são explícitos neste sentido. Que a república seria um ganho e avanço para a sociedade brasileira, todos parecem concordar, mas há um silêncio intrigante sobre como e o quê seria exatamente este novo governo. O poema “República” tangencia essa questão.356 O título é enganoso, pois dedica mais tempo a imaginar a chegada da república do que a explicar suas qualidades. O pouco que caminha nesse sentido o faz pela negativa, ou seja, apresentando-a como o oposto da monarquia. A República aparece como o momento de acerto de contas do povo ultrajado, momento em que se vingará da tirania. Assim, aparece em um trecho: Hoje... amanhã... mais um dia O trono da tirania Deve rolar-nos aos pés, 356750820 Republica. Brazil Americano. 172 Em outro, Tremei, tiranos! É tempo Da terrível expiação, (…) Tremei, tiranos! Que o trono Tremer já deve talvez, Que a nossos pés rolar hão de Vossas coroas de rei!... Quando não houver mais reis, ou seja, com a república, Não mais do povo os gemidos Devem bater contra os céus... Já vemos torcer em ânsias O corvo dos Prometeus!... Nessa passagem, afirma-se explicitamente o que parecia lógico: a república será o fim dos sofrimentos causados pela monarquia. Nesse sentido, a república aparece menos como forma de governo e mais como um momento futuro, em que o povo não estaria sujeito à penúria. Quase um mês após a Proclamação, o jornal República Brasileira publicou o poema “Avante”,357 que havia sido escrito em janeiro de 1888. Mesmo com a República já instituída, a tônica do poema ainda age no sentido de desqualificar a Monarquia, chamada de boçal. Apresenta-a como um governo “que nos suga e atrofia”, cujo objetivo fundamental seria “abater nossa soberania”. Os poucos versos dedicados ao novo governo afirmam valores e princípios como sendo evidentes. Junto do combate à tirania: Há também outro querer De ordem primordial; – Ao lado da liberdade, Instalar a igualdade, É um supremo ideal. O poema fora escrito em 1888, mas publicado em dezembro de 1889. Mesmo que tenha uma motivação “arqueológica”, a julgar pela nota que o antecedeu, interessa- nos destacar que repete o padrão da campanha. A Monarquia é vil, tirânica, espúria, despótica, um “pólipo danado”, e comandada por um “régio caudilho”. A República, por oposição, seria seu contrário, o governo da virtude, da honradez, do interesse público, orientada pelo princípio da liberdade, ao que o poema acrescenta a igualdade. 357891212 Avante. Republica Brazileira. 173 O que nos chama a atenção é que não houve detalhamento do que seria esse governo virtuoso quando o povo recuperasse o que lhe pertencia por direito, a soberania e a liberdade. Não se pouparam tinta, papel, versos e adjetivos na crítica ao Império e pouco se dedicou a explicar como seria o novo governo. A campanha foi marcada, desta feita, por uma agenda negativa, que permite afirmar que foi mais antimonárquica que republicana – no que, aparentemente, foram bem sucedidos, afinal, ninguém foi às ruas para defender o monarca, o que pode ser interpretado como perda da legitimidade do poder. A monarquia foi constantemente acusada de não possuir ou respeitar os valores nomeados como corretos e justos. Nos textos, os termos e a forma como liberdade, justiça, direito, entre outros, deixavam transparecer sua positividade, como se fossem autoexplicativos. Aparentemente, não havia a necessidade nem de defender a superioridade dessas ideias, nem de explicitar em que consistiam. Foram apresentadas como dados transcendentes que as pessoas razoáveis e justas deveriam seguir e defender. Os republicanos (ou antimonarquistas) apresentam a república como a forma coerente com os direitos naturais que precedem, e deveriam informar, a organização social, procedimento este que tem como desdobramento a desnaturalização da monarquia. Ao mesmo tempo apresentam a monarquia como o contrário e negação da ordem natural e da evolução histórica. Temos, assim, um esforço no sentido da desconstrução da legitimidade monárquica e da apresentação da república como legítima e justa. A república seria a negação da monarquia, seria o regime justo, democrático e virtuoso. Enquanto a persistência do Império só traria males para o Brasil, a implantação da república seria seu ingresso na modernidade, na senda do progresso e da regeneração moral. No que tange à República, devemos destacar que esta era apresentada como um imperativo, com base em duas linhas de argumentos. A primeira era que esta forma de governo correspondia às práticas e aos valores fundamentais em uma sociedade, tais como justiça, direito, liberdade, felicidade. A leitura dos poemas sugere que República e sociedade seriam, se não sinônimos, formas equivalentes de nomear a mesma substância. Isto porque uma sociedade na qual faltassem aqueles valores republicanos seria uma forma incompleta de sociedade, pois não se prestaria a garantir a finalidade da 174 vida coletiva. A segunda linha de argumentação apresenta a República como o governo do povo. A soberania seria, na República, retornada a quem de direito: o povo. Esta mudança implicaria o fim do arbítrio e do privilégio característicos da Monarquia. No entanto, subsistem alguns problemas nessa proposição. Na primeira parte da equação, a ambiguidade de povo, pelas distintas noções associadas a este vocábulo, é o primeiro. Por povo, podemos entender o conjunto dos habitantes de um território ou dos membros de uma cidade (civitas ou polis). Na segunda hipótese, a ênfase é deslocada da qualidade dos indivíduos que o compõem e recai na relação que pode ser estabelecida com a civitas. Em Roma, havia o populus, composto por patrícios que participavam da gestão dos negócios públicos, e a plebe, que estava excluída do jogo político. Havia e há, então, duas noções de povo, em função da associação existente entre os atributos de propriedade e de nascimento e o exercício da política. Essa associação foi parcialmente reafirmada pelo liberalismo, que associava a pobreza à imperfeição moral dos indivíduos e à falta de talento.358 No século XIX, os estudos sobre a psicologia das multidões realimentaram a visão negativa do povo ao destacar sua falta de racionalidade.359 Portanto, povo carrega uma visão pejorativa sobre a parcela pobre da população, sendo equivalente a populacho, ralé, arraia-miúda, desclassificados, classes perigosas, multidão, massa e malta. Há toda uma história que identificava povo e pobreza com incapacidade (moral, intelectual e econômica), ameaça e/ou caos. A equação passava, em primeiro lugar, então, por reconstruir a ideia de povo, definindo o que era ou quem o constituía. Quando os poemas eram escritos ou falados, lidos ou ouvidos, o que se entendia por povo? O conjunto imaginário dos brasileiros representado pelo índio nos desenhos de D’Agostini na Revista Ilustrada? Os homens razoáveis, de posses, diplomas e pele branca? Ou a população carioca, composta de negros, mulatos, pobres, capoeiras, malandros, que podia ser observada da janela das redações ou do bonde? Em segundo lugar, forjava uma nova imagem capaz de apresentá-lo como virtuoso. Fazia-se necessário depurá-lo de toda a carga negativa que sempre lhe foi associada e pintá-lo com novas cores e atributos. Assim, o povo concreto, 358MACPHERSON, C. B. A Teoria Política do individualismo possessivo. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1979; HOBSBAWM, Eric J. A carreira aberta ao talento. In: _____. A Era da Revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. 359Ver, por exemplo, LE BON, Gustave. Psicologia de las Multitudes. Buenos Aires: Albatros, 1952; e TARDE, Gabriel. A Opinião e as Massas. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 175 a plebe rude, o pobre das ruas, foi dissociado do povo soberano, idealizado e virtuoso. Enquanto este oferecia toda a legitimidade para ação, reserva moral última, aquele aparecia como algo a ser corrigido, formado e educado, ambiguidade que irá marcar o discurso republicano: ao surgir como porta-voz do povo, como falando em seu nome, retira-lhe a autonomia, a iniciativa e não lhe reconhece a capacidade de decisão. Uma segunda questão pode ser colocada nos seguintes termos: como estabelecer essa identidade entre projeto político republicano e povo? Nos poemas, o povo, por ser depositário da soberania, parece-nos corresponder a uma abstração próxima à vontade geral. “A soberania é indivisível pela mesma razão que é inalienável, pois a vontade ou é geral, ou não o é; ou é do corpo do povo, ou somente de uma parte”.360 É em nome de uma coletividade, apresentada no singular, que se fala e que a mudança é defendida. Esse coletivo aparece como fundamento último do poder, como capaz de conferir legitimidade à proposta política republicana. Povo é uma ideia poderosa, que corresponde a todos e a ninguém, não se reduz à soma dos indivíduos. A questão operacional de enorme dificuldade é como, com base em quê e em quais indicadores pode-se dizer que o povo concorda, quer ou aceita este ou aquele governo ou regime. Durante a Revolução Francesa, a questão da representação e da soberania alimentou muita discussão e debate,361 nos quais se tentou equacionar esta operação. Unidade e indivisibilidade da vontade geral,362 consentimento de todos, soberania nacional, soberania popular ou vontade da maioria363 foram diferentes propostas para viabilizar um governo que pudesse se apresentar como sendo do povo. A princípio, essa entidade sugere mais uma qualidade do que uma quantidade, não equivaleria à ideia de maioria, não seria quantificável. Lembremos que, tal como a vontade geral, povo também é um indivíduo coletivo. A República é apresentada como forma de organização social justa e ideal, baseada na igualdade e na liberdade; aparece como panaceia para todos os males e, muitas vezes, como sinônimo de democracia. Assim, é contraposta às formas “tirânicas” do poder, entendendo-se por estas todas as formas de monarquias, no sentido 360ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social ou Princípios do Direito Político. Rousseau. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 45. 361BAKER, Keith Michael. Soberania. In: FURET, F. & OZOUF, M. Dicionário Crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989; RAYNAUD, Philippe. Democracia. In: FURET, F. & OZOUF, M. Dicionário Crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. 362ARENDT, Hannah. Da revolução. São Paulo: Ática/Brasília: Unb, 1988. p. 60-61. 363SIEYÈS, Emmanuel Joseph. O que é o Terceiro Estado? In: BASTOS, A. W. (org.) A Constituinte Burguesa – Qu'est-ce que le Tiers État? Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2001. 176 etimológico da palavra. Ou seja, o poder de todos (República) é contraposto ao poder de um só (Monarquia). Nos poemas, todas as formas monárquicas são tratadas como tirânicas, não havendo gradação nem distinções entre autocracia, monarquia, reino, realeza, império, presença ou ausência de Constituição e/ou Parlamento. Todas as coroas são jogadas na vala comum do arbítrio e do despotismo. A República sempre é apresentada como um porvir, o futuro que nos aguarda e que devemos alcançar. No entanto, esse futuro é justificado não pelo que é, mas pelo que não é, ou seja, a Monarquia, o arbítrio, a tirania, o privilégio. Nesse caso, não seria a República que nos puxaria em direção a um futuro promissor, mas a Monarquia que nos empurraria ao seu encontro. Como o Angelus Novus, de Klee, na já citada leitura de Walter Benjamin, a tempestade que sopra do passado é que nos arremessa ao futuro. Por outro lado, o que se pretende é o rompimento com o presente, o porvir é valorizado por ser o que é – o porvir. Essa busca do futuro, apresentado sempre como positividade e conquista, como realização do progresso, é um dos componentes da modernidade.364 A consciência da ruptura com um passado do qual se busca um distanciamento autorizava a busca pela novidade, tida sempre como um ganho, bem como o rompimento do mundo social com o natural e a disposição em agir no sentido de acelerar o tempo e antecipar o futuro. Antiguidade e tradição deixavam de justificar a manutenção e a permanência para, pelo contrário, fundamentar a ruptura, a mudança. “Sempre foi assim, por isso deve continuar” foi substituído por “sempre foi assim, por isso deve mudar”. O discurso a favor da República tornava-se uma afirmação de valores e práticas (justiça, liberdade, igualdade), de uma finalidade (sua implementação) e de uma afinidade (com a vontade do povo). A campanha republicana, através dos poemas, evitava assim a definição e detalhamento da proposta da nova organização social e/ou política. Valores, finalidade e povo apareciam como um tripé de sustentação da República. O tratamento dado à democracia não chega a ser uma definição, o que não caberia em um poema. No entanto, há um jogo de palavras/ideias que a vincula e a associa a valores positivos como igualdade, justiça, racionalidade, direito, liberdade (livre exame) e soberania popular (consenso unânime da vontade popular). Por 364BERMANN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia das Letras, 1986. p. 15. 177 conseguinte, a negação da democracia, ou sua inexistência, seria a vigência do oposto desses valores e/ou princípios. Isto posto, pensamos que os poemas analisados dão a ver as questões expostas, funcionando como grande palco de discussão e, mais ainda, de configuração da sociedade como é desejada. 178 IV. Economia do tempo histórico A desqualificação da monarquia e consequente qualificação da república com base nas associações e dissociações dessas com a liberdade e com a ordem dos direitos naturais podem produzir releituras e outras formas de pensar a História do Brasil. Surge, assim, um conjunto de poemas que trata do que chamaremos de a economia do tempo histórico. Os poemas sugerem, ou permitem vislumbrar, uma periodização da História do Brasil que tenha reforçado a identificação da monarquia com a tirania e tenha permitido que seus críticos se apresentassem como defensores da liberdade. Na construção dessa economia, o 7 de Setembro se tornou o acontecimento tomado como referência e que possibilitou estabelecer uma relação entre monarquia e liberdade. Para além das discussões teóricas e eruditas das academias, clubes e institutos, essa ligação aparecia claramente nos poemas. Neles, o 7 de Setembro é tratado como marco da liberdade em dupla dimensão. Na sua via negativa, o rompimento com o Portugal e com o estatuto colonial é colocado em evidência. Portugal e o “ser colônia” se aproximariam, pois a ênfase recaía sobre a sujeição do Brasil. Assim, o período anterior é caracterizado essencialmente pela falta de liberdade. Nessa representação, a colônia seria o Brasil não livre. A sociedade colonial, em sua especificidade, diversidade e suas vinculações com a sociedade portuguesa, desaparece. A sociedade anterior a 1822 é simplificada e reduzida a única dimensão: não livre, sujeita à dominação portuguesa. Nessa construção, percebemos uma noção de continuidade. O Império seria a colônia com governo autônomo, já que a ausência deste seria a característica fundamental da sociedade pré-1822. A sociedade brasileira era sempre apresentada como unidade, um imenso todo sem fragmentação ou subdivisões. A permanência da condição de escravizados dos negros a despeito da independência não é referida. A ênfase recai exclusivamente para a dimensão política (externa) do ser colônia: o Brasil (pensado como composto por brancos livres) sem liberdade. A colônia seria o Brasil dominado, mas, nunca é demais insistir, seria o Brasil. E este é concebido como definido pela visão da boa sociedade, excluindo os pobres e os que na colônia ou no 179 pós-independência continuam sendo mandados: negros, pobres e mulheres. Só os brancos livres podem ocupar a esfera pública e, desta feita, definem o que seria o Brasil: eles próprios. Se, nessa dimensão negativa, podemos perceber uma ideia de continuidade histórica, na via positiva do 7 de Setembro, há claramente a noção de ruptura. Isto porque, nesta dimensão, pretende-se afirmar que a independência marcaria o início da era de “liberdade” do Brasil. O rompimento com Portugal aparece como o momento de fundação de um novo tempo, de conquista e aquisição daquilo que nos faltava: a “liberdade”. Assim, o evento só institui a novidade por estar no marco da ruptura. Ele é a própria demarcação de um divisor no tempo histórico, pois expressa e institui a separação entre a história da Colônia e do Império ou entre a falta e a garantia da “liberdade”. Nesta leitura/representação, a ruptura novamente só diz respeito à sociedade política concebida como masculina e branca por excelência. A liberdade que nos faltava pode ser reduzida à dominação externa, confundido-se com autonomia política do Brasil face a Portugal. Nesse desenho da História do Brasil, uma vez rompida a dominação externa, o sujeito que ganha a liberdade e passa a viver um novo tempo, em outros patamares, seria a nação. É, portanto, a alusão a um todo ou coletividade que permite a contraposição ao estrangeiro, externo, a Portugal. A menção externa é que permite contrapor os dois momentos da História, entendidos como opostos quando relacionados à entidade nomeada como Brasil. De um lado, temos a percepção de uma coletividade que, concebida desta forma, não comporta ou não vislumbra subdivisões; de outro, temos um contraponto que também é um todo (Portugal). A conquista da liberdade, por estar referida ao externo, faz com que as divergências, divisões e conflitos internos desapareçam ou não sejam referidos no discurso que enaltece a data. O sujeito libertado é concebido como dotado de uma unicidade e coesão porque contraposto a algo que lhe é exterior. O 7 de Setembro ganha lugar privilegiado a partir do qual podemos vislumbrar toda uma lógica da economia do tempo histórico, bem como a ênfase em um conflito externo que obscurece outros. Trata-se de um momento que indica a passagem e ruptura entre um tempo marcado pela privação e um futuro definido pela autonomia, o 7 de Setembro pode ser compreendido como central nesta construção. 180 A associação entre a liberdade, que o marco histórico institui, e a monarquia é feita por meio da dinastia. Se o acontecimento é inaugural e pode ser reconhecido como uma passagem de suma importância na nossa História, seus realizadores se tornam heróis fundadores desse novo tempo. Entre estes, destaca-se a figura de Pedro I, que aparece como o grande responsável pela independência. A centralidade dessa figura permite que todas as virtudes e consequências positivas de sua iniciativa possam ser transferidas para seus descendentes: a família real, a dinastia de Bragança. Dois desdobramentos importantes podem ser vistos aqui. O primeiro é a construção da independência como decorrente da iniciativa real; a segunda é a leitura do Brasil como conduzido à liberdade pelas mãos de um herói, de um tutor, de alguém que atua em seu nome. Assim, a conquista da liberdade, entendimento da independência, aparece quase como uma dádiva da realeza. O príncipe regente teria nos presenteado com a liberdade e assumido a defesa dos interesses do Brasil diante das pretensões dominadoras das cortes portuguesas, promovendo o rompimento dos laços de subordinação com Portugal, o que justificaria o título de “defensor perpétuo do Brasil”. Os poemas que expressam e constituem parte da empreitada de viabilizar a república, inversamente, buscavam desacreditar a monarquia. A grande dificuldade nos parece localizar-se no fato de que o valor que os republicanos pretendem ser portadores é o mesmo que a monarquia aparecia como associada: a liberdade. Assim, a luta política passava por um processo de expropriação, inversão e uma nova economia do tempo histórico. A expropriação correspondia a uma reconstrução simbólica capaz de retirar da casa dinástica o monopólio da liberdade. Se assim não fosse, a luta contra o regime careceria de justificativa ética e/ou moral. Como lutar contra uma instituição que aparece e é vista como defensora da liberdade? O ato ou tentativa de expropriar passa, desse modo, pela inversão que pretende transformar a representação da monarquia quando relacionada à ideia de liberdade. Tal representação deveria ser invertida, ao transformar o Império em sua negação, em ameaça à liberdade e não mais em sua garantia. De outro modo, todo o trabalho consistiria em destruir um senso comum politicamente favorável à Monarquia e substituí-lo por outro, no qual a legitimidade e a virtude da casa imperial fossem questionadas e, no limite, desacreditadas. 181 Se, para os monarquistas, o Brasil teria conquistado a liberdade com a independência em 1822, promovida por Pedro I no Ipiranga, os republicanos caminhariam no sentido oposto. Estes afirmam que a liberdade ainda não tinha sido conquistada, uma vez que o 7 de Setembro fora uma manobra para manter o poder dinástico. Enquanto a monarquia insiste na tecla de uma liberdade já conquistada, os republicanos falam de sua conquista no porvir. Este deslocamento tem como efeito estabelecer uma dupla continuidade entre o período colonial e o Império. Assim, não haveria dois períodos, mas um só, tendo em vista a ausência da liberdade que permanece a despeito de 1822. Esse redesenho da História do Brasil é informado por outra noção de liberdade. Esta já não se baseia nos vínculos entre Brasil e Portugal, ou seja, na oposição a uma dominação externa. O foco recai sobre as relações políticas entre os membros da sociedade brasileira e o governo nacional. Já não se trata de uma denúncia da condição colonial, mas dos abusos da Coroa. No limite, foi essa mesma noção de liberdade que permitiu a denúncia da Monarquia como tirania. Por conseguinte, as lutas pela liberdade ocorridas desde 1500 fazem parte de um todo do qual a luta dos republicanos é a atualização. Esses poemas podem ser interpretados como parte da construção da narrativa republicana da História do Brasil. O Calendário da Republica (figuras 3 e 4, p. 182 e 183), apresentado n'A República em janeiro de 1872, sintetiza essa narrativa, bem como a nova economia do tempo histórico proposta pelos republicanos. Tal trabalho foi levado a cabo em várias frentes. Uma delas consistiu em denunciar todos os desmandos dos responsáveis pelo regime, seus atos de violência e crueldade, bem como a (falta) de qualidade dos mesmos. As pessoas do Imperador, da regente e de seu consorte se tornaram alvos privilegiados nesse processo. Inúmeros poemas podem ser lidos neste sentido: desqualificar a monarquia pela desqualificação das pessoas que a compõem. A História do Brasil foi redefinida na busca de estabelecer rupturas e continuidades coerentes com o projeto republicano. Concretamente, buscou-se estabelecer uma linha de prosseguimento entre a colônia e o império. Assim, a independência perdia seu status de marco fundador, deixando de ser referida como o início da era de liberdade para o Brasil. Mais ainda, sob a mesma ótica que orientava a construção histórica da monarquia, o tema da liberdade, a colônia e o império passam a 182 ser tratados como continuidade e permanência. Assim, a defesa da liberdade, bem como todos os movimentos, revoltas e revoltosos das lutas pela sua instituição no passado tornavam-se atuais e urgentes. Estava aberta a porta pela qual os republicanos podiam lutar contra a monarquia em nome de um valor apresentado por esta como sendo sua portadora, garantia e promotora. O elemento que permite apresentar o Império como continuidade da colônia foi a permanência da dinastia, principalmente por meio das figuras dos dois imperadores do Brasil. Mais ainda, o 7 de setembro teria sido uma manobra ou golpe da família real para garantir sua permanência no poder a despeito da ruptura entre a colônia e Portugal. A insatisfação dos colonos, na sua recusa em aceitar as pretensões das Cortes, teria sido Figura 3: Calendário republicano (1) 183 apropriada por Pedro I que, assumindo a condução do desagrado com Portugal, promove separação formal e legal. Neste sentido, o 7 de setembro não marcaria nem ruptura nem conquista da liberdade, mas um golpe contra as aspirações separatistas dos brasileiros ao manter no governo do Brasil a mesma dinastia que governava a metrópole. O fim do estatuto colonial foi acompanhado da permanência da subordinação à mesma casa dinástica, o que inviabilizou que se traduzisse em conquista da liberdade para os brasileiros. A independência perdia assim seu brilho, seu status de marco fundador da liberdade no Brasil, representando, na prática, a continuidade da subordinação dos brasileiros a um governo estrangeiro. A supressão da dominação colonial não Figura 4: Calendário republicano (2) 184 representou a criação de um governo de brasileiros para o Brasil. Em outubro de 1871, aparece em A República um poema que denuncia a monarquia como negação da liberdade.365 Debalde a vil lisonja, o servilismo Busca no bronze eternizar teu nome Que o tempo só respeita e não consome A virtude, o saber, o patriotismo. Sempre credo, e falaz o despotismo Embora dos heróis o lugar tome Só ali ficará até que assume Enérgica reação, nobre civismo Do mártir Xavier a sombra errante Adejaste ameaçadora sobre a fronte Sem sossego te ondar um só instante. A vítima do algoz aí jaz de fronte! Quem sabe se em futuro não distante Nova luz brilhará neste horizonte. Em “A mentira de bronze”366, observamos a busca da desconstrução da monarquia como equivalente à liberdade e de Pedro I como seu conquistador. No poema, originalmente publicado em 1862, encontramos não só a negação da associação entre Império e liberdade, mas também o resgate e a atualização da luta pela autonomia, tal como levada a cabo pelos inconfidentes. A estátua daquele que busca tomar o lugar dos heróis teria sua origem no servilismo e na lisonja. Mas essa iniciativa é infrutífera, pois, se o bronze é eterno, só ficará ali até a reação do nobre civismo. Como a estátua foi erigida no local onde Tiradentes foi enforcado, Pedro I ficará sem sossego, ameaçado pela sombra do alferes. A estátua que buscava marcar e instituir essa memória é significativamente nomeada de “mentira”. Como contraponto a essa, temos o resgate 365711001 Mentira de Bronze. A República. 366Na edição de A República, a autoria do poema não é indicada. Encontramos a informação de ser Pedro Luís o seu autor e de que sua publicação aconteceu por ocasião da inauguração da estátua equestre de Pedro I em 1862 (CUNHA, Euclides da. Obras Completas. Rio de Janeiro, Nova Aguillar, 1995. V. I. p. 400). A expressão que nomeia o poema teria sido cunhada por Theóphilo Ottoni (CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas. São Paulo: Cia das Letras, 1990, p. 60, e ARGOLLO VALDETARO, Zina Maria de Teive e. Lições da ciência do belo: os Saquaremas e a conformação dos brasileiros. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2008, espec. o capítulo 2). Na segunda página da edição de O Diário do Rio de Janeiro do dia 15 de abril de 1862, a expressão aparece no corpo do texto “Inauguração da estátua, e a medalha da independência”. Em Origens Republicanas, Felicio Buarque reproduz manifestação de Theophilo B. Ottoni sobre a inauguração da estátua equestre em que a questão da memória e do significado de 1822 e de 1831 é colocada de forma explícita. Ver: BUARQUE, Felicio. Origens Republicanas – Estudos da gênese política em refutação ao livro do Sr. Dr. Affonso Celso O Imperador no exílio. Recife: Francisco Soares Quintas, 1894. p. 195-206, espec. p. 196 e 197. 185 da figura de Tiradentes como o defensor e guerreiro da liberdade ainda não conquistada. A recusa a Pedro I e à estátua que motivou o poema é referida de forma sumária em alguns outros textos, como no seguinte: Não ressurgirão estátuas De aparato oficial, Que livre o povo só ama O que é na pátria imortal...367 “Mentira de Bronze” pode ser considerado parte da empresa levada a cabo para desconstruir a representação do Império como resultado e fiador da liberdade, substituindo-a pela ideia oposta, como sua negação. Nos poemas especialmente dedicados ao 7 de Setembro, é possível perceber esse investimento. O que estava em questão era uma releitura do passado, parece-nos ponto pacífico. No entanto, temos que considerar que esse retorno era informado por uma perspectiva de futuro. Como já dito, é a ideia de futuro que nos remete ao passado. O porvir, recorrente nos poemas e falas republicanas, ou a possibilidade de um futuro que corrigisse os desmandos da Monarquia, fez com os republicanos olhassem para o passado. Parafraseando Kermode, os republicanos, tal como os poetas, encontravam-se in medias res.368 O futuro que desejavam os levava a reler o passado na chave do que esse autor conceitua como ficção concordante: a releitura do passado, tendo em vista torná-lo coerente com o presente, percebido este como crise, habilitando-o para o futuro.369 O presente, então, era visto como problema a ser superado. A relação entre esses momentos seria de oposição, de negação: o porvir da liberdade como negação da tirania presente. A projeção produzia um movimento de reavaliar, reler e reinterpretar o passado de modo a tornar o futuro possível. Busca-se explicar o presente marcado pela adversidade. Assim, a crise do presente, a Monarquia contra a qual se insurgem os republicanos, apareceria como desvio de um processo interrompido indevidamente. Nessa leitura, é como se a história desde sempre indicasse que seríamos uma república, mas, por um acidente lamentável, teríamos sido dela afastados. A sequência da citação feita acima é esclarecedora: “También morimos in mediis rebus, y para hallar sentido en 367710319 O Povo. A República. 368“Los hombres, al igual que los poetas, nos lanzamos 'en el mismo medio', in medias res, cuando nacemos.” KERMODE, Frank. El sentido de un final. Barcelona: Gedisa, 2000. p. 18. 369KERMODE, Frank. El sentido de un final. Barcelona: Gedisa, 2000. p. 63, 67, 98-99. 186 el lapso de nuestra vida requerimos acuerdos ficticios con los orígenes e con los fines que puedan dar sentido a la vida y a los poemas”.370 O poema dedicado “Ao Sete de Setembro”, publicado em 1873, reconhece e comemora este dia como o da liberdade.371 Não aparece, a princípio, novidade no tratamento do tema. No meio do texto, no entanto, uma referência a Tiradentes o transforma em um precursor da conquista da liberdade, a que se dirige: Por ti somente foi que os bravos filhos De Santa Cruz no solo americano Verteram tanto sangue, E que de Xavier os lassos membros Foram pasto ao furor dos assassinos Quando tudo era exangue! Ainda em 1873, outro poema “Sete de Setembro” trata “deste dia imortal”.372 No desenvolvimento, a mudança operada neste dia foi tratada como “a mão de Deus sob o Ipiranga”. Referência permite aproximá-lo à versão oficial. Em 1874, o poema dedicado à data é antes um lamento do que uma comemoração.373 A liberdade, cuja musa torna-se interlocutora do narrador, é afirmada como princípio e valor fundamental. O desenvolvimento do texto, entretanto, permite entrever uma dissociação entre a liberdade e o 7 de setembro. O que deveria ser a conquista da liberdade se tornou uma frustração com a instauração da Monarquia. Dirigindo-se a Andrada, o sujeito poético reconhece o “pátrio amor” que o guiou e aponta-lhe o erro de querer e permitir um imperador. A Monarquia e povo aparecem como marcados pelo antagonismo. Indaga Aonde o rei governa, aonde o povo impera? Que escada de Jacó na terra unir poderá o trono e a choupana – extremos nivelar? Mérito e privilegio, e graças e direitos, quem pode degraus tais, de fogo dos eleitos subir com passo firme, as plantas a queimar? Questão retórica, que aponta para a incompatibilidade entre monarquia e povo, o luxo de poucos e a privação dos demais. Assim, o 7 de setembro marca, antes de mais nada, uma frustração, um engodo ou equívoco. A recuperação da liberdade foi adiada, mas é 370KERMODE, Frank. El sentido de un final. Barcelona: Gedisa, 2000. p. 18. 371730703 Ao Sete de Setembro. A Luz. 372730907 Sete de Setembro. A República. 373740901 Sete de setembro. A Idea. 187 sonho possível e luta necessária. Heliótropo humilde em cava soledade, voltado para as leis buscando a liberdade, dorme o povo a sonhar, sem ver aquele sol... Ó pátria, quando, pois, banindo o medo insano, verei o teu navio em próspero oceano, a vista já do porto, à luz de outro farol? Ainda em 1874, um segundo poema sobre o “Sete de Setembro” foge completamente à linha dos anteriores.374 A data que o nomeia sugere ser também seu tema, o que não ocorre. Não há único verso dedicado a ela. O poema trata do conflito entre povo e monarca pela conquista da liberdade. De um lado, temos “as massas populares”, a “destemida populaça”, e, de outro, a “nefasta hierarquia”, a “estéril monarquia” e os “vis usurpadores”, os dois grupos se enfrentando em uma disputa acirrada pela liberdade. Enraivecida estremece aglomerada na praça destemida populaça exigindo – liberdade; vaticino sanguinário vem n'um hino mortuário cair à fronte do rei; os bravos – frontes erguidas fitando enormes feridas ao sangue dizem: correi! Desse confronto, no qual a liberdade é exigida, o povo jogará por terra “essa estátua bronzeada”. A única conexão possível entre o poema e a representação da data é a liberdade que aparece pela negativa. A liberdade, não existente, corresponde ao anseio do povo e o motivo pelo qual ele se revolta. Nesse sentido, o poema reforça a ideia de que o 7 de setembro seria um engodo. O poema revela-se anticomemoração, denuncia a ausência daquilo que a data supostamente marca – uma conquista já ocorrida –, bem como aqueles que festejam a efeméride. Cantai, cantai vis escravos em torno desse traidor, desse infame usurpador das glórias de uma nação! 374740915 Sete de setembro. Labaro Academico. 188 Beijai a planta sangrenta dessa imagem agourenta, dessa infâmia bronzeada! Cantai, cantai desgraçados, com os pulsos algemados com a alma escravizada! As celebrações são apontadas como a imagem de vítimas louvando o algoz. Mais ainda, o dominador é também traidor e usurpador, ou seja, sequestrou um bem que não lhe pertencia e, nisto, consiste sua traição. A busca da autonomia não se apresentava como luta encerrada e, sim, atual. A presença das expressões bronze, “estátua do rei” e “estátua bronzeada” pode ser interpretada como alusiva à estátua equestre que motivou o poema “Mentira de Bronze”, o que permite relacionar o texto à nova economia do tempo em construção. O dia 7 de setembro, como o dia em que a liberdade foi conquistada é afirmado explicitamente no poema de 1875.375 A estrofe inicial é a saudação ao dia da liberdade: Ei-lo, surgiu o sol do nosso maior dia! brasileira epopeia radiante ele ilumina! A nossa independência relembra a todo instante! Em tudo esplende galas faz tudo deslumbrante! A data marca – e por isso deve ser lembrada – nossa epopeia na conquista da independência, o que equivale, no texto, à liberdade. Esta está sendo pensada na chave da exterioridade em relação a Portugal e ao passado colonial. Não se trata, portanto, da liberdade como direito do cidadão, mas como autonomia do Estado, o término da “vassalagem”. O tratamento do poema ao tema em tudo se aproxima da lógica que informou a estátua equestre de Pedro I. A liberdade já foi conquistada e o foi por seu mérito. Do Ipiranga junto à margem reboou altivo, ingente o brado nobre, eloquente que pôs termo à vassalagem de um povo culto, que a imagem da pátria – então – alta via já com sua autonomia! pois, do século o progresso 375750907 Sete de setembro. O Globo. 189 no Brasil já tendo ingresso, ser livre o Brasil devia! A menção ao “brado nobre”, que “reboou altivo” no Ipiranga, aponta o lugar e o sujeito do término da vassalagem, referências que confirmam a sugestão acima. Neste caso, não haveria conflito entre a monarquia e a liberdade. Pelo contrário, aí estaria sua origem de “Santa Cruz, o grande Império”. O mesmo jornal, O Globo, trouxe, no dia 24 de setembro, outro poema sobre o mesmo tema e com o mesmo título.376 O desenvolvimento do texto traz lógica idêntica ao poema anterior. A liberdade que comemora foi conquistada, nesse dia no Ipiranga, por “heróis esclarecidos” e se identifica com a independência. INDEPENDÊNCIA OU MORTE foi o brado Que os filhos dos heróis, dos retratados Dos peitos patrióticos soltaram!.... Esses versos comemoram a liberdade alcançada através do grito do Ipiranga dado por D. Pedro I. Os raios do sol da liberdade desse dia dos “tiranos deslumbra os olhos” e “do despotismo os ferros despedaça”. Essas ideias são importantes para nossa tese, pois se prestam às justificativas e elogios à monarquia. A libertação e a monarquia não seriam opostas e, sim, complementares. O libertador foi o primeiro monarca e a libertação, a negação da tirania e do despotismo. Registremos que a independência foi considerada a negação daquilo que os republicanos acusavam a Monarquia de ser: tirânica. É importante frisar que essa abordagem do 7 de setembro, mais afeita à versão oficial, está sendo discutida aqui como mostra da necessidade que os republicanos tinham de desconstruir uma visão arraigada, trabalhando para a denegação da representação de Pedro I como herói. O 7 de Setembro como marco da liberdade aparece em dois poemas publicados no Echo Popular em 1884. Ambos tratam a data como sendo aquela na qual o Brasil conquistou sua autonomia. O primeiro tem os seguintes versos: As cadeias que teus pulsos magoavam Quebraram-se ao raiar deste almo dia; Ergue os olhos, bendiz a tua estrela 376750924 Sete de setembro. O Globo. 190 Que mudou em prazer tua agonia!377 A agonia da dominação, da privação da liberdade, teria chegado ao fim nesse dia, o que justifica a comemoração, o despertar em festivais, como consta no poema. No desenvolvimento, o texto pede o fim da escravidão, condição para o povo brasileiro se tornar “grande e venturoso”. O segundo poema, um soneto, assume o mesmo tom do primeiro.378 Desde o dia majestoso, que ressumbra A esperança da glória sobre um povo; Sacudiu o Brasil, gigante novo, O jugo do poder, qu'além se obumbra! Ambos enaltecem o dia e o comemoram. No entanto, é digno de nota que o sujeito que conquista a liberdade é, nos poemas, o povo brasileiro e o Brasil. Não há nada no poema que possibilita relacioná-lo à casa dinástica. O último poema que localizamos sobre o 7 de Setembro foi publicado em 1885 no jornal Já Sei, Já Sei,379 sendo republicado n'O Constituinte no dia 3 de outubro do mesmo ano. Em relação à disputa sobre o lugar e o status do 7 de Setembro e de D. Pedro I, que informava o que chamamos de nova economia do tempo histórico, esse texto é profundamente pertinente. Os primeiro versos anunciam a abordagem do tema: “Silêncio foliões!... Essa alegria é crime!” Na sequência, a data é denunciada como engodo: O Sete de Setembro a vil mentira exprime; É a data miseranda em que a grosseira farsa – Independência ou Morte – apareceu na praça, Ao rufo do tambor, ao toque do clarim! O povo estremeceu! É que tocava o fim Da velha escravidão e a nova começava! A farsa consiste em ser o oposto do que se declara. Mais do que a libertação, esse dia marca o início de outra servidão. No desenvolvimento seguinte, a monarquia é denunciada como sendo responsável pelas misérias e pela “grande inundação” da corrupção, aspectos abordados em outra parte desse trabalho. O Sete de Setembro é ressignificado: de libertação, torna-se sinônimo de 377840907 Sete de Setembro. Echo Popular. 378840907 Sete de Setembro [2]. Echo Popular. 379850907 Sete de Setembro. Já Sei, Já Sei. 191 escravidão. A monarquia brasileira, que a data inaugura, é pintada como um monstro que “sangra a liberdade”. Subjacente a essa desqualificação, uma operação sutil está em curso: desloca-se do passado para o futuro, tendo 1822 como referência, o parâmetro de avaliação que permitiria aferir a liberdade. Essa operação destaca a continuidade entre Colônia e Império. Em alguns poemas analisados, havia um antes, a dominação colonial ou portuguesa, e um depois, o Brasil independente. No poema, há a sugestão de haver tempo único, o da dominação. Por ser o Império continuidade em relação à Colônia, as lutas contra a metrópole seriam também as lutas contra o Império. Nesse sentido, é interessante notar o resgate de Tiradentes nessa desconstrução: Do grande Xavier a plebe se lembrava: Não era morto ainda aquele grande exemplo Que no Brasil tentou erguer augusto templo! Como dito acima, a permanência da dominação atualizava as lutas anteriores a 1822. Por outro lado, Tiradentes aparece como o projeto de “augusto templo”, antagônico e alternativo ao do Império. De outro modo, representaria uma proposta que pretendia mais do que trocar a velha dominação por uma nova. Este desenho do Império foi acompanhado pelo resgate das lutas contra a dominação portuguesa ao longo do período colonial e associado às contendas contra o governo imperial. As lutas contra os governos, tanto português quanto do Império, aparecem como equivalentes. Tal forma de apresentar a questão destacava que, sob a ótica daqueles que ambicionavam a liberdade, o 7 de Setembro não seria um divisor de águas. A redução do status desse, sua diminuição, é o processo que permite apontar a continuidade da dominação pós-1822, o que autorizava a indicar outra continuidade: a das batalhas pela liberdade. Nesse sentido, é significativo o calendário republicano reproduzido por A República em janeiro de 1872 (figuras 3 e 4, p. e ). Mais do que um calendário civil ou uma peça utilitária para se localizar no tempo, nos dias e meses de 1872, esse artefato pode ser relacionado à busca e à instituição de uma memória republicana ainda no Império. Cobrindo o período que vai de 1720 a 1851, em cada mês é destacado um acontecimento da história política. Por exemplo, para janeiro, temos “Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, fuzilado a 13 de janeiro de 1825 – Reinado de Pedro II”, e para 192 fevereiro, “Dr. Joaquim Nunes Machado, assassinado em combate a 2 de fevereiro de 1849. Reinado de Pedro II”.380 Duas considerações nos parecem relevantes. A primeira diz respeito à economia do tempo subjacente ao calendário, estabelecedora de uma linha de continuidade que atravessa toda a história do Brasil, ou seja, entre dois momentos ditos qualitativamente distintos de uma mesma sociedade: o Brasil colônia e o independente. Ao proceder assim, unifica as duas temporalidades, fundindo-as em uma única. Desconsidera, desta feita, o marco da independência que separaria a Colônia do Império. Pelo contrário, coloca-os na mesma temporalidade. O que fundamenta e permite essa operação – e esta é nossa segunda consideração – parece ser a continuidade da luta contra a ausência de liberdade sob o governo monárquico, entendido como despotismo. Os acontecimentos destacados no calendário autorizam essa leitura. Nesses, fuzilamentos (de Frei Caneca de Padre Roma, de Padre Miguelito e de Domingos Martins), assassinatos (de Nunes Machado e de Libero Badaró), enforcamentos (de Raticliff e de Tiradentes) e o esquartejamento de Felipe dos Santos são lembrados como parte do calendário republicano na medida em que marcam momentos importantes na luta pela liberdade. O texto que destaca os protagonistas injustiçados também denuncia o perpetrador, o algoz. Houve enforcamento no reinado de Maria I, fuzilamento no de João VI e no de Pedro I e assassinato no de Pedro II. Os acontecimentos destacados têm em comum o fato de representarem diferentes manifestações da luta contra a tirania, bem como a evidência desta mesma tirania. Essa nova economia do tempo histórico fundamenta e é complementada pela efeméride destacada para setembro: “Farsa do Ipiranga, 7 de Setembro de 1822. Regência do Príncipe da Beira”. O marco que fundamentava a associação entre o império e a liberdade é denunciado como farsa, e aquele que exerce o poder não é nomeado como príncipe do Brasil, mas da Beira. Ou seja, não houve independência, conquista da liberdade, mas tão somente uma encenação, uma apropriação do discurso da liberdade por aqueles contra os quais ele era dirigido. Portanto, Colônia e Império podem ser apresentados como a mesma realidade, o que justifica e torna legítimo, não necessariamente nesta ordem, a luta em prol da liberdade. A continuidade da monarquia traduz a continuidade do despotismo, o que justifica a continuidade da luta em favor da 380 A República. Rio de Janeiro. 1 de janeiro de 1872. 193 liberdade. Esta forma de organizar o tempo tem como suposto que a repressão aos movimentos que buscavam a liberdade e de seus líderes faz parte de um todo: o embate entre os defensores e os rivais da liberdade. Mais ainda, o republicanismo, que o apreço, defesa e luta pela liberdade evidenciam, seria constitutivo da nação. Em um texto dos primeiros anos da República, Felício Buarque defendeu que “o regímen republicano foi o ideal dos brasileiros, através de todas as manifestações de sua vida íntima. A verificação decorre de todo seu movimento, a começar desde o período colonial até o reinado do segundo imperador”.381 É a permanência da repressão que autoriza a desconsiderar a noção de ruptura subjacente às comemorações oficiais do 7 de Setembro. Mais ainda, esta continuidade é inseparável da continuidade da luta pela liberdade que o suposto marco pretendeu transformar em passado. Lembremos que os poemas que tratam o 7 de Setembro como marco fundador do Brasil livre o apresentavam como o ápice, momento privilegiado e final das lutas contra a dominação portuguesa. Daí ter como efeito legitimar a coroa identificada com o monarca-herói-libertador, ao mesmo tempo em que tornava as lutas anteriores como resolvidas e passado histórico. Por sua vez, os poemas que pretendem desconstruir tal imagem permitem perceber a busca de inventar uma tradição que possibilitasse a construção de um futuro. A ruptura com a tradição imperial implicava construir uma nova tradição ou, pelo menos, uma nova galeria de heróis e acontecimentos coerentes com os valores e práticas que pretendiam defender. A recuperação e o resgate das lutas do passado se deram principalmente através da evocação de seus protagonistas. Os antigos combatentes pela liberdade eram citados como heróis e guias da luta do presente. Na ação contra a Monarquia, recebiam o tratamento de heróis da causa da liberdade. No poema “À República”,382 protagonistas de movimentos díspares e de tempos muito diferentes são invocados para orientar a ação: Tiradentes (1746-1792), Nunes Machado (1809-1849) e Otoni (1806-1869). Tiradentes – agora... Oh, grande Otoni, Despertai todos vós... Nunes Machado Onde estás?... Não ouvi este rumor?... 381BUARQUE, Felicio. Origens Republicanas – Estudos da gênese política em refutação ao livro do Sr. Dr. Affonso Celso O Imperador no exílio. Recife: Francisco Soares Quintas, 1894. p. 18-19. 382710425 À República. A República. 194 Somos nós, que bradamos altamente Que queremos ser livres da tutela D’um único senhor! O resgate, o elogio e o culto de pessoas que foram identificadas com os combates contra o domínio dos Bragança, seja no período colonial ou independente, foram uma constante. Os conflitos ocorridos no Pará por ocasião de sua adesão à independência em 1823, o Massacre de Brigue Palhaço e a prisão de Felipe Patroni foram tema de sete poemas.383 Todos foram publicados em O Paraense, o que facilita a compreensão desse resgate. Os poemas elogiam os protagonistas e denunciam a violência do massacre. No entanto, notamos que promove uma inversão dos acontecimentos na medida em que a adesão do Pará à independência foi resultado de uma incursão militar a mando da Corte do Rio de Janeiro. Encontramos quatro poemas dedicados à Revolução Praieira e a Pedro Ivo;384 dois com referências à Farroupilha;385 quatro dedicados a Teófilo Otoni;386 e dois com referências a diferentes acontecimentos (1817, 1824 e 1835)387 e pessoas (Tiradentes, Pedro Ivo, Líbero Badaró e Cláudio Manoel).388 O contraponto dessa economia é que os governos português (na colônia) e imperial (no Brasil independente) se assemelham quando analisados sob o prisma da ausência de liberdade. Assim, podemos dizer que os poemas promovem também uma “republicanização” dos movimentos sociais e/ou políticos da história do Brasil até o final do século XIX. Esses dois processos têm como centro o movimento da Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes. Localizamos 41 poemas dedicados ao mártir mineiro.389 Em grande 383810815 Hecatombe. O Paraense; 810815 Patroni. O Paraense; 820815 Ao 15 de agosto. O Paraense; 820815 Aos Mártires. O Paraense; 820815 Aos paranaenses. O Paraense; 820815 Apoteose. O Paraense e 820815 Liberdade. O Paraense. 384740430 À Memória de Pedro Ivo. Lábaro Acadêmico; 740530 Revolução. Labaro Academico; 740630 Revolução. Labaro Academico; 771004 O cortejo. A República e 780110 Caiu! Caiu! Caiu! Gazeta de Notícias. 385770518 O corte no orçamento. O Globo e 880528 Justicia Verdad y Patria. Gazeta Nacional. 386700211 T. B. Otoni. A Reforma; 700407 À morte do patriota. A Reforma; 710520 Nondum Lucebat. A República e 710617 Theophilo Ottoni. A República. 387880528 Justicia Verdad y Patria. Gazeta Nacional. 388750820 Republica. Brazil Americano. 389710422 À memoria de Tiradentes. A República; 710904 Agonia e glória. A Luz; 721229 Visão do Enforcado. A República; 730327 O Brasil. O Brasil; 730703 Ao Sete de Setembro. A Luz; 730907 A Tiradentes. A República; 740815 Tira-Dentes. Labaro Academico; 740901 Corruptum Genius. A Idea; 750820 Republica. Brazil Americano; 770907 A liberdade. Gazeta de Notícias; 780110 Caiu! Caiu! Caiu! Gazeta de Notícias; 790427 [Sem título]. Echo Social; 791020 Tiradentes. A América; 810417 Tira- 195 parte desses, Xavier, como chamado em alguns poemas, é o motivo principal e, em outros, é referido. A Inconfidência é sutilmente citada em dois poemas por meio de alusões a Gonzaga e a Cláudio.390 A grande maioria foi publicada no periódico Tiradentes, nos dias 21 de abril, ao longo da década de 1880. Outros jornais, como A República, a Gazeta de Notícias e O Combate, por exemplo, também trouxeram poemas dedicados ao chamado “mártir da inconfidência”. Os títulos também são variados, como por exemplo, “Tiradentes”, “A Cabeça do Mártir” e “ Ao Grande Mártir Mineiro”. As quatro dezenas de poemas dedicados a Tiradentes inviabilizam, nos limites do presente trabalho, a análise pormenorizada de todos. Optamos, por conseguinte, por indicar, em linhas gerais, a apresentação e tratamento do tema inscrito na maioria. Eles, de certa forma, complementam-se, pois todos são elogios a Xavier. Não há, em relação a esse tema, divergência. Os poetas que escreveram sobre ele o entendiam como dotado de qualidades superiores, como exemplo a ser seguido. Em longo poema, “À memória de Tiradentes”,391 publicado em 1871, o tratamento e associações encontradas nos demais poemas já se fazem presentes: exaltação a Tiradentes e injúria a seus algozes. A figura do herói imolado pelo bem da pátria, do defensor da liberdade barbaramente assassinado, do redivivo que fala aos que o abandonaram, que os chama à razão, que os impele a deixarem o “letargo”, aparece nesse texto. Em oposição a ele, são denunciados os inimigos da liberdade e do povo, os mercenários, os tiranos, tratados metaforicamente (hidra e serpente, por exemplo). Facilitou essa dicotomia a sentença ter sido dada em nome de “Dª Maria, a louca”.392 A virtude extrema aparece encarnada em Tiradentes e a sua negação, nos seus rivais. O tom genérico das descrições e metáforas de seus algozes e antípodas permitiam, a nosso ver, que fossem atualizadas e associadas às denúncias e acusações dirigidas à dentes. A Revelação; 810421 Tiradentes. O Atirador Franco; 810806 Ultimatum. O Futuro; 820421 A Liberdade. Tiradentes; 820421 A Tiradentes. Tiradentes; 820421 Ao Tiradentes. Tiradentes; 820421 Joaquim Silvério. Tiradentes; 820421 Tarpeia e Capitólio. Tiradentes; 820517 Hino a Tiradentes. O Relâmpago; 821001 A Lopes Trovão. O Combate; 820421 A Cabeça de Tiradentes. Tiradentes; 820421 A Cabeça do Martyr. Tiradentes; 830421 ST. Tiradentes; 830421 Tiradentes [1]. Tiradentes; 830421 Tiradentes [2]. Tiradentes; 840325 Ao Ceará [2]. O Acarapé; 840421 Soneto. Tiradentes; 840421 [Sem título] [2]. Tiradentes; 840421 Tiradentes. Tiradentes; 840601 É tempo. Echo Popular; 850421 Silva Xavier. Tiradentes; 850421 Tiradentes. Tiradentes; 850421 V. Tiradentes; 860421 A Cabeça do Mártir. Tiradentes; 860421 A Liberdade. Tiradentes; 860421 Tiradentes. Tiradentes; 880421 Ao Grande Mártir Mineiro. Tiradentes e 881123 Lívida canalha. A Metralha. 390730630 O Povo. A República e 740901 Corruptum Genius. A Idea. 391710422 À memória de Tiradentes. A República. 392840421 Tiradentes. Tiradentes. 196 Monarquia. Tiradentes é tratado como o defensor da liberdade e inimigo da tirania393 que devora a pátria.394 Os poemas dão destaque ao sofrimento do herói. O enforcamento e esquartejamento, que visavam conservar para a posteridade a memória de “tão abominável réu”, eram subvertidos.395 A posteridade manteve na memória a abominável sentença e o sacrifício do “venerando” herói.396 A recuperação dessa memória, que a tirania quis sufocar, produziria monumentos em sua homenagem.397 O destaque ao,s detalhes da pena e de sua execução permite uma aproximação à via sacra, pelo detalhamento e falas que a acompanham, e elevam o condenado à condição de mártir398 ou de santo.399 Inversamente, sua humanização é recurso para realçar o sofrimento a que foi submetido.400 O redivivo é uma imagem recorrente. Tiradentes, sua alma, seu espectro, seu fantasma e seu espírito reaparecem e falam para o presente, questionam as condições de vida existentes. A liberdade poética permitia situações inverossímeis historicamente. O espectro que se ergue do “seio de um sepulcro carcomido” é uma delas.401 Aquele que se ofereceu em sacrifício estaria pedindo aos vivos que honrassem sua memória. A morte em nome da pátria, que teria sido omissa, o sentido do sacrifício, é trabalhado de modo a que a culpa e arrependimento motivassem a ação no presente.402 Assim, eventualmente novos Tiradentes (no plural) poderiam surgir e continuar a luta pela liberdade em “insurreições legítimas”.403 A continuidade de sua luta seria também uma vingança à injustiça de que foi vítima.404 A morte de Tiradentes não seria a morte de um indivíduo, mas o assassinato de uma ideia, de um projeto, o que transforma a pátria na grande vítima da sentença da Coroa portuguesa. O abominável réu torna-se, ao fim, o exemplo e guia de todos que, no presente e 393820421 A Liberdade. Tiradentes e 860421 A Cabeça do Mártir. Tiradentes. 394840421 [Sem título 1]. Tiradentes. 395730907 A Tiradentes. A República e 820421 A Cabeça de Tiradentes. Tiradentes. 396840421 Soneto. Tiradentes e 860421 A Cabeça do Mártir. Tiradentes. 397820517 820421 Tarpeia e Capitólio. Tiradentes e Hino a Tiradentes. O Relâmpago. 398820421 A Cabeça do Mártir. Tiradentes; 820421 A Tiradentes. Tiradentes; 830421 Tiradentes [2]. Tiradentes e 840421 Tiradentes. Tiradentes. 399830421 [Sem título]. Tiradentes. 400850421 Tiradentes. Tiradentes. 401740815 Tira-Dentes. Labaro Academico. 402810421 Tiradentes. O Atirador Franco; 850421 V. Tiradentes; 860421 21 de Abril. Tiradentes e 860421 Amor da Pátria. Tiradentes. 403820421 A Tiradentes. Tiradentes e 820421 A Tiradentes. Tiradentes. 404830421 [Sem título]. Tiradentes e 840421 [Sem título 2]. Tiradentes. 197 no futuro, anseiam pela liberdade:405 A História o assinalou: A Verdade castiga-o, A Justiça o condena, a Indignação fustiga-o A Honra o esbofeteia e a Liberdade santa Aponta-o como exemplo às raças que levanta. Nessa chave, é interessante indicar dois anúncios, no jornal A Republica, que ofereciam ao público obras sobre a Inconfidência. O primeiro406 apareceu em janeiro de 1873 e oferecia um panfleto “mais bem escrito que o Libelo do Povo”. Ao longo dos meses de maio, junho e julho de 1873, foi ofertado o processo do julgamento de Tiradentes.407 405820421 Joaquim Silvério. Tiradentes. 406A República. Rio de Janeiro. 5 janeiro 1873. p. 4. 407A República. 5-6 maio 1873. Rio de Janeiro. p. 4. 198 A inconfidência e Tiradentes ocupam locus privilegiado, capaz de promover deslocamentos de suma importância. O primeiro seria o de fornecer lastro histórico às reivindicações de liberdade dos republicanos. Nesse sentido, aproximar-se-ia dos demais eventos resgatados e cultuados por estes. O segundo seria o de afirmar uma pretensão de liberdade, que passava pela separação de Portugal e que ainda não havia sido alcançada. Essa operação permitia apresentar a monarquia como resultante e parte da repressão portuguesa aos grupos separatistas e/ou que lutaram pela liberdade no período colonial. De outra forma, a independência promovida pela dinastia foi antecedida e viabilizada pela repressão da coroa portuguesa a esses movimentos. A prisão e execução dos líderes e dos participantes das revoltas anteriores permitiram que a dinastia se apresentasse como a realizadora da nossa independência. A proximidade temporal e a pretensão separatista permitem contrapor o 21 de Abril ao 7 de Setembro. A independência do Brasil era parte do projeto dos inconfidentes contra o qual se posicionou e atuou a família real de que o Império seria a continuidade. O círculo, assim, se fechava: o Império não seria a ruptura com a falta de liberdade, que definiria a dominação colonial portuguesa, mas seu prosseguimento, garantido graças à repressão às sedições que pretendiam o rompimento com aquela dominação. Essa operação tem um duplo alcance: de um lado, questionava as comemorações e saudações ao Império como início do Brasil livre e, por outro, permitia acusá-lo de continuidade, de conivente e de praticante da repressão e de usurpador do sonho de liberdade dos brasileiros. Em contraposição ao “Império-ruptura-liberdade”, os republicanos constroem e fazem circular a imagem do “Império-continuidade-tirania”. O resgate e a associação das lutas contra a dominação portuguesa e daquelas contra a monarquia são possíveis na medida em que são informados e informam a visão dessas ações sob o denominador comum de serem combates pela liberdade. Se o sentido das lutas é comum, então as estruturas de poder contra quais se opõem também o são. As duas dimensões da similitude (entre os combates e o poder) são complementares, são duas manifestações da mesma substância: a continuidade. À permanência da tirania, teríamos a permanência das lutas pela liberdade. As lutas contra a tirania-monarquia são assim atualizadas e integram as ações pela liberdade-república. Em novembro de 1888, praticamente 18 anos após a publicação do Manifesto Republicano, a “organização do Partido Republicano” foi apresentada como parte desse 199 processo de luta pela liberdade. A lógica subjacente ao Calendário Republicano ficou explícita na edição de 23 de novembro de 1888 do jornal A Metralha, “folha de propaganda republicana” e de “distribuição gratuita” (ver figura abaixo). 200 As lutas anteriores e a criação do partido são tradadas como processo único: o de constituição da “pátria republicana”. O contínuo que teve início em 1792, com a “Revolução Mineira”, prolonga-se até o período 1870-1888 e se completa com a “organização do Partido Republicano”. As indicações dos eventos vêm acompanhadas do nome de seus protagonistas, os heróis, e dos governantes responsáveis pela sua repressão, referidos como réus. No último acontecimento da lista, a organização do partido, o protagonista indicado é “toda a nação”. Temos, assim, duas novidades que merecem ser postas em destaque. A primeira, indicada acima, é a linha de continuidade entre as lutas contra o domínio português, o Reino Unido e o Império, e a criação do Partido Republicano. A segunda, é que esse último aparece como sendo um movimento de toda a nação. Todo esse quadro conforma a “pátria republicana” que dá título à página. O efeito deste processo foi fornecer, portanto, um ponto de apoio para o discurso da liberdade, um novo fundamento, alternativo ao discurso do 7 de Setembro, ao discurso monárquico. Isto foi particularmente visível no resgate, leitura e (re)escrita da Inconfidência. No território comum da ideia de liberdade e sua associação à separação de Portugal, 1822, a forma concreta como esta ocorreu, pôde ser contraposta a 1789, como deveria ter ocorrido. Por ter sido reprimido por aqueles que promoveram 1822, 1789 continuava atual, seria um projeto pelo qual ainda teríamos de lutar. O fato de a dinastia não estar mais no além-mar e o Brasil não ser mais uma colônia não mudava o essencial: a busca/instituição da liberdade ainda que tardia. Mesmo que este tardia correspondesse a quase 100 anos. Se para os monarquistas, a História do Brasil até então podia ser descrita como constituída por dois momentos distintos, para os republicanos era um momento só. História, progresso e evolução são tratados como equivalentes, uma trindade laica que promete um futuro grandioso, em último caso, por ser mais do que o presente. Mesmo sendo um truísmo, vale a pena destacar os deslocamentos implícitos nessa lógica e que orientam os poemas. O primeiro diz respeito à ênfase no porvir, no futuro. As iniciativas e avaliações do presente informam e são informadas pelo olhar colocado adiante no tempo. A referência no futuro e a ideia de progresso permitem contestar a organização do Império, servem de contraponto e medida do que existe, do instituído. Assim, o presente assume por antecipação uma roupagem de passado, perde sua 201 atualidade, aparecendo como algo que deve e que será superado, algo transitório destinado a ser substituído por um futuro melhor. O futuro assume assim uma dupla significação: indica um tempo e uma organização. Os textos, ao tomarem o futuro como foco, promovem o abandono do passado como referência existencial. O passado e o presente não nos aprisionariam e limitariam nossas possibilidades históricas, não estabeleciam limites, pelo contrário, abriam possibilidades e impunham modificações. Essa mudança epistemológica ou de referencial liberta o homem do passado, da história, e traduz a incorporação de uma sensibilidade própria do século XIX. As mudanças e inovações positivas são tratadas como inerentes à própria história da humanidade, obrigando as sociedades a sempre se transformarem, sob o risco de ficarem para trás, defasadas. Se o tempo é mudança constante, se futuro sempre traz mais e novas mudanças, a não modificação significa permanecer no passado. Uma mudança implícita, nessa lógica, é que a contemporaneidade ou modernidade implica atualizar-se constantemente, sob pena de ser superado pelo tempo, pelo progresso. Nessa chave, a antecipação do futuro ou as iniciativas no sentido de acelerar a história são positivas. Acelerar a história não é acelerar o tempo, mas agir no sentido de instituir ou criar condições para a realização das práticas e sociabilidade positivas que o futuro promete. O futuro (“o porvir”) aparece sempre como uma melhora, um avanço e uma conquista. Essa perspectiva presente nos poemas republicanos tem como efeito transformar o presente em passado. Se o futuro é toda essa promessa, o presente assume por antecipação a imagem de atraso e tradição arcaica. A expectativa de futuro aparece não como continuidade do presente, mas como sua negação, do mesmo modo que esse é tratado como continuidade do passado. A lógica temporal é, assim, subvertida em função de um projeto que pretende substituir o existente em um futuro próximo, em nome de uma continuidade com as lutas do passado. O porvir está sendo atado ao passado e dissociado do presente. No limite, essa economia do tempo vai produzir e colocar em circulação a imagem do Império como o arcaico e antimoderno, explorando ao máximo a imagem dos cabelos brancos de Pedro II. O segundo deslocamento é relativo ao estatuto da história nesses poemas. Se por um lado, ela aparece como como laica e humana – já que são os homens que fazem a história –, por outro, é também mostrada como realização de divindades laicas, tais 202 como Liberdade, Razão, Justiça, Revolução etc. A humanidade seria guiada e inspirada por grandes valores e princípios e não pela tradição, pelo costume fruto de preconceitos e/ou superstições. Há aqui uma ruptura e uma continuidade com o pensamento que é contestado. A ruptura fica por conta da inovação pretendida, que busca fundamentar a evolução, o caminhar histórico, a partir de valores laicos por excelência. Mais ainda, a história não seria a realização desses valores, mas da ação dos homens na busca de sua implantação. Os homens são representados como senhores dos destinos, sujeitos da história. A continuidade, por outro lado, resulta de um tratamento divinizador dos valores que devem orientar um bom governo, uma boa sociedade e a história. Algumas vezes, tais valores são nomeadamente divindades (“deusa Liberdade”, por exemplo), noutras, são tratados como divindades e/ou individualidades, processo evidenciado pelo uso da maiúscula. A Liberdade, a Verdade, a Revolução e a Justiça, mais do que valores, são entidades que devem nos inspirar e intervir no porvir histórico. Assim, a história da humanidade aparece nos poemas republicanos como associada à realização de princípios eternos que pairam acima dos homens e do tempo. Inversamente, os homens é que aparecem como subordinados a esses princípios. Nesse sentido, podemos sugerir uma continuidade no tratamento metafísico da história. Os monarquistas vão buscar outra relação com o tempo. Para esses, a relação “passado, presente e futuro” se dá em outros termos. A legitimidade monárquica resulta de uma economia do tempo que afirma ser o presente fruto de uma ruptura com o passado colonial. O Império é a sociedade brasileira que resultou de sua libertação do jugo colonial. No limite, seria a própria libertação da sociedade brasileira e seu nascimento enquanto tais. O futuro que nos aguarda, nessa lógica, seria a continuidade do presente, ou seja, a evolução da atual organização política e social. Em termo concretos, a monarquia entraria no século XX na forma de um terceiro reinado. O presente já seria o futuro. As consequências dessas duas leituras do tempo histórico, de monarquistas e republicanos, são múltiplas. A mais óbvia é o peso dado à história como fonte de legitimidade da política. O uso presente da história a transforma em uma questão política, pois seria a fonte que autorizaria a permanência de grupos no poder.408 Outra implicação é a discussão do status do 7 de setembro de 1822. Para os monarquistas, essa 408FERRO, Marc. A História Vigiada. São Paulo: Martins Fontes, 1988. 203 data marca o evento fundador do Brasil moderno e livre. É a própria ruptura efetivada por Pedro I. Já para os republicanos, a data não teria maior significado não fosse o tratamento que os monarquistas lhe dispensam. Por constituir um ponto de apoio para a coroa, torna-se alvo de crítica dos republicanos. Assim, uns procuraram elevá-la a evento fundador, outros buscam denunciá-la como mentira. A denúncia se, por um lado, reduz o status do 7 de setembro, por outro, busca resgatar o passado que a dinastia quis encampar: a Inconfidência Mineira. 7 de Setembro e Inconfidência Mineira passam a ser dois acontecimentos em torno dos quais assistimos à tentativa de construção de duas versões avessas da história. Dois acontecimentos antagônicos prestam-se a usos políticos semelhantes (arma de combate) a dois rivais na disputa pelo poder. 204 Conclusão Esta tese teve como motivação uma inquietação e um incômodo. A insistência em que a não participação popular na instauração da República era frisada por parcela da historiografia ocasionou tais sensações. A ausência constatada pelo republicano Aristides Lobo, insuspeito, portanto, no imediato à proclamação, foi argumento dos críticos da República, à esquerda e à direita. A República nascia com um pecado original. Desta feita, tal sistema, entre nós, teria nascido já maculado, pois, faltava-lhe o mais importante. Nomeações como golpe, aquartelada ou mesmo ditadura foram utilizadas para indicar essa origem torta. As análises sobre a Proclamação da República, que destacavam a ausência do povo, priorizavam, na explicação da derrocada da Monarquia, os acontecimentos dos últimos anos do Império e seus protagonistas. A inteligibilidade acerca da mudança do regime operada em 15 de novembro era buscada nas crises dos momentos finais do Império: o encontro da chamada questão militar com o partido republicano e a insatisfação dos escravocratas, que se sentiram lesados com a Abolição sem indenização, em um contexto de desânimo com o credo monárquico. Tal matriz explicativa foi parcialmente definida, em 1891, por Cristiano Otoni, em O Advento da República no Brasil. O III Reinado, temido pelos republicanos, começava a ser desenhado desde a Abolição. Diante da ameaça de o projeto republicano ser adiado, ou inviabilizado, com o início do reinado de Izabel e da possibilidade de implantar a República por meio de conspiração, as lideranças do Partido agiram guiadas pelo oportunismo. “No contexto de exacerbação da crise, de volatilidade de posições e redesenho de alianças, Bocaiuva demonstrou o quanto tinha incorporado a filosofia geral do oportunismo”.409 Se considerarmos que a articulação viabilizadora do dia 15 de novembro foi feita secretamente, pois se tratava de uma conspiração, percebe-se que o público não teria como saber e participar.410 Tudo foi mantido em segredo para evitar reação do 409ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 319. 410CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p. 49. 205 governo. Acrescente-se que, segundo vários depoimentos, nem os protagonistas sabiam que estavam a instaurar a República na manhã do dia 15 no Campo de Santana. A história dos anos subsequentes teria confirmado a mácula inicial da República sem povo. Implicitamente, havia a convicção de que o desenho institucional e político definido na década de 1890 seria realização de algo que estava contido na sua inauguração, quadro agravado por ter a história da Proclamação se confundido com a memória e narrativa republicana nesse período. Nos primeiros anos da República, a ideia de ser um salto qualitativo na História do Brasil se consolidou. Os republicanos produziram narrativas nas quais apareciam patriotas abnegados em defesa da pátria e não defendendo projetos e pontos de vista. O problema é que os protagonistas diretos não estiveram presentes na vida pública nos anos subsequentes. Benjamin Constant havia falecido quando a Constituinte o declarou “fundador da República Brasileira” em 1891. Deodoro, após atritos com o Congresso que o havia eleito, renuncia e não termina o mandato. Bocaiuva se retira da vida pública para, segundo suas próprias palavras, plantar batatas. O acaso, que permitiu a aproximação desses homens públicos no final de 1889, afastou-os nos anos seguintes. Essa ênfase em explicar a República com base em tais articulações ofuscou dimensões importantes do republicanismo no Brasil. Por mais constante e presente que tenha sido a atuação de Bocaiuva, ele não era o partido. Este era maior e mais plural do que os defensores da liderança de Bocaiuva querem fazer crer. O Príncipe, como era chamado, tinha desafetos dentro do partido além de Silva Jardim. Nas vezes em que tentou impor uma linha de conduta ao partido, sempre foi atropelado pelas diferenças internas. Soma-se a isso, o fato de que a bandeira da república abrigava grupos e concepções diferentes. Na contestação da Ordem Saquarema, mobilizaram-se liberais republicanos, novos liberais, positivistas abolicionistas e federalistas científicos, segundo Alonso.411 Ou seja, o republicanismo era mais plural e diversificado do que o fetiche da chefia institucional fazia crer. O trabalho de proselitismo político, sustentado nos jornais, conferências e meetings, explorava e ampliava a exígua esfera pública. A rua e a opinião pública foram ressignificadas ao longo da campanha republicana.412 Essa é referida, mas ou atribui-se a 411ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 165-262. 412MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Edur, 2007. p. 214. 206 ela escassa importância, ou ela é identificada com a atividade de poucos militantes do partido. No entanto, o que o povo sabia sobre república, e é esta a questão, era o que tinha sido compartilhado nos quase 20 anos de campanha. A ausência da participação popular, apontada nos juízos sobre a República, estava, portanto, sendo buscada no lugar e momento errado.413 A ausência na Proclamação é compreensível, a nosso ver, pelo caráter de segredo e conspiração que assumiram as articulações entre civis e militares no segundo semestre de 1889. A interrogação sobre a não participação popular precisava, então, ser repensada. A demanda que nos orientou caminhou no sentido de investigar o que foi colocado para o público fora do partido como sendo a República. A partir disso, poderíamos reformular a questão. Nossa opção foi buscar a resposta à questão nos jornais, mais especificamente, nos poemas sobre a república (ou contra a monarquia) que esses jornais veiculavam. Entendíamos que esses textos se prestavam a difundir a proposta republicana para o público não intelectualizado e iletrado do Império, ou seja, o grande público. Os poemas são ritmados; no mais vezes, curtos; possuem rimas – elementos que facilitariam sua difusão para além da forma impressa. Em uma sociedade na qual os poetas e escritores falavam de pena em punho,414 com forte tradição de auditório415 e marcada por uma cultura auditiva,416 poemas se tornavam recursos para propagar ideias e problematizar o mundo. Pesquisando os jornais, encontramos centenas de poemas que podem ser considerados integrantes da campanha. Poemas que tratavam de assuntos outros havia em número maior. Escrever poesia e publicá-la fazia parte da cultura do final do Império.417 De modo geral, os poemas tratavam de diferentes questões, mas algumas ideias apareciam como recorrentes. A monarquia era equiparada à tirania, o que justificava e autorizava a sua contestação. Era a negação da liberdade, seu antiprincípio. Construía-se uma representação do governo na qual a refutação deste se tornava necessária, legítima e possível. A apresentação de um futuro, distinto e oposto ao presente monárquico, era apontada como superação dos problemas existentes sob o Império. A valorização da 413CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p. 35. 414CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Publifolha, 2000. p. 74. 415CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Publifolha, 2000. p. 76. 416LIMA, Luiz da Costa. Da existência precária: o sistema intelectual no Brasil. In: _____. Dispersa demanda: ensaios sobre literatura e teoria. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981. p. 7-16. 417ADORNO, Sérgio. Os Aprendizes do poder. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1988. p. 171. 207 liberdade era o elemento comum que unia o presente sob a Coroa tirânica e a república do porvir. Coerentes com essa premissa, os poemas evidenciam um trabalho sistemático para desqualificar a monarquia. Produzem e fazem circular uma representação do Império como marcado pela desigualdade, injustiça e iniquidade. As práticas políticas institucionais, o sistema político, a estrutura de poder, os governantes, a nobreza, o tráfico de influência, o apadrinhamento, contribuíam para uma sociedade injusta marcada pela penúria material e política. Homens sem liberdade, mantidos na miséria – poderia ser o resumo da imagem que esses poemas trazem. O acesso desigual aos bens materiais e simbólicos aparecia como injustiça que só ocorria sob a Monarquia. A história do Brasil sofreu uma releitura concebida pelos republicanos, e novas ficções concordantes foram concebidas de modo a produzir outra relação entre Império e colônia. Para a Monarquia, 1822 marcava o início de uma nova fase da história do Brasil, a da liberdade. Os republicanos investem contra essa ideia de ruptura, destacando a continuidade que atravessa 1822. A ausência de liberdade, a tirania instaurada pós-1822, fundamentava a supressão do marco da Independência. O 7 de Setembro é denunciado como farsa e traição. O Império se tornava, nessa chave, a continuidade do domínio colonial; do mesmo modo, as ações contra a metrópole se tornavam combates republicanos. Na busca de lastro para o projeto de uma futura organização política e social, assistimos ao resgate dos movimentos, sedições e revoltas ocorridos na história do Brasil como sendo antecedentes da república. Essas lutas apareciam então como já contendo o futuro, o presente no qual os republicanos falavam e o próprio republicanismo. As especificidades de cada movimento desapareciam sob o denominador comum da luta pela liberdade, ou contra o poder instituído. O resgate e o elogio dos combates passados produziam a visão de que as revoltas eram dotadas de positividade e se mostravam como expedientes aceitáveis. Esse ponto se revelou profundamente não consensual entre os republicanos. Ao lado da defesa da revolução, levada a cabo por Mendonça, Jardim e alguns partidos provinciais, por exemplo, havia a defesa intransigente da evolução, feita por Bocaiuva. Os poemas primavam, dessa forma, por promover uma imagem negativa da monarquia. Não havia qualidade nas condições políticas e sociais sob o Império. Este 208 não só permitia os abusos, como os promovia e deles vivia. Obcecados em falar mal do que existia, não houve explicações ou detalhamento da organização a ser instituída em sua substituição. Podemos entender que seria tudo aquilo que a Coroa não era, que, ao condenar essa ou aquela prática como monárquica, implicitamente afirmava-se que a república não as teria. Desta feita, os poemas primavam por ser mais antimonarquistas do que pró-república. Duas possibilidades para a omissão nos poemas acerca da república podem ser aventadas. A primeira é que a denúncia da monarquia existente seria mais produtiva, pois mobilizava o incômodo da população com os infortúnios concretos por ela vividos. O recurso à demonização do poder é sempre mobilizador, ao permitir canalizar politicamente as insatisfações e descontentamentos contra aqueles que governam. A liberdade foi transformada em divindade, em entidade a-histórica, que pairava sobre os homens; a república, não. Outra possibilidade seria atribuir a ausência à falta de clareza do que seria uma república ou a república após a derrocada da monarquia, falta não decorrente do desconhecimento, mas da dificuldade em promover uma definição que agradasse a todos os grupos e pessoas que a queriam. Um eventual detalhamento poderia causar mais estragos e defecções ao movimento do que sua omissão. A condenação da Monarquia, nesse caso, seria a agenda mínima capaz de conciliar a maior mobilização com o menor custo político. Há que se considerar também que os poemas foram escritos por pessoas as mais diferentes, com motivações diversas em locais e momentos distintos. Lembremos que o Partido Republicano não consistia no único agrupamento político que contestava a monarquia, como indicado acima. A omissão que estamos indicando não resultou de opção consciente ou orientação de um centro decisório. Ocorreu, em certa medida, de modo espontâneo, sugestão que nos parece plausível e indicativa de que a rejeição à Monarquia era mais mobilizadora do que a defesa da república. As pessoas reagiam e se sensibilizavam mais com os infortúnios da vida presente do que com o desenho de uma sociedade futura. Em todo caso, os poemas permitem afirmar que a pauta republicana nas duas últimas décadas do Império era fundamentalmente antimonarquista. O movimento se regulava por uma agenda negativa. Os contestadores da ordem não compartilhavam uma 209 identidade, mas um antagonista.418 Tal pauta transformava a conquista da liberdade, que não era detalhada, em uma panaceia. Todos os problemas eram atribuídos à sua ausência. A agenda mínima não resultava em adesão à república, mas em rejeição à monarquia. Insistia e propagava a insuficiência desse sistema, seus limites e incapacidades. Nesse sentido, pode ter sido mais eficaz para desconstruir e corroer a legitimidade monárquica do que agir para construir uma convicção. Mobilizava mais a repulsa e condenação do que a adesão. Voltando ao incômodo que motivou esta tese, podemos concluir que não houve participação popular quando da Proclamação porque a campanha não investiu nisso. A mobilização popular, a tese da revolução, causava receio. O fantasma das revoltas durante a Regência ainda assustava os membros do partido. Por outro lado, naquilo que marcou a campanha, ela teria sido bem sucedida, posto que foi pautada pela desconstrução da Monarquia. Nisso, pode-se dizer que foi vitoriosa, pois não houve protestos pela permanência do imperador. Ninguém foi às ruas apoiar a República recém-inaugurada – e que não estava sob ameaça –, mas, principalmente, ninguém saiu de casa para defender a Monarquia. Esta tese é parte de uma longa jornada. Em certa medida, teve seu início na década de 1990, com a pesquisa “Poesia Republicana em Minas Gerais (1885-1900)”, concluída em 1992 com apoio da Fapemig.419 Continuou com a publicação de Maio de 1888, sobre os poemas elaborados e distribuídos em papéis avulsos para comemorar a Abolição.420 Na busca de sistematizar o problema que a consideração da linguagem das fontes – percebida na pesquisa – colocava, foi criado, em 2005, o Grupo de Estudo e Trabalho em História e Linguagem – GETHL, com a participação voluntária de alunos da graduação em História da UFMG. Em 2009, o GETHL passou a contar também com a participação de pós-graduandos da PPGH e do PosLit - UFMG, adquirindo um caráter interdisciplinar, e foi cadastrado no CNPq como grupo de pesquisa. O fio condutor desta jornada tem sido o uso de fontes literárias, poemas especialmente, na análise histórica, 418ALONSO, Ângela. Idéias em movimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 323. 419PIMENTEL, Thaïs V. C. et al. Relatório de pesquisa – Poesia republicana em Minas Gerais (1885- 1900). Belo Horizonte, 1992 (mimeo.). 420MIRANDA, J. A. et al. Maio de 1888 — Poesias distribuídas ao povo, no Rio de Janeiro, em Comemoração à Lei de maio de 1888. Rio de Janeiro: ABL, 1999. 210 bem como a relação entre Linguagem e História. A particularidade dessas fontes nos aproximou das discussões sobre linguagem e de suas relações e contribuições para o estudo dos processos históricos. Esta tese identificou-se ora com Ulisses, ora com Penélope. Com o primeiro, pela dificuldade em chegar a Ítaca, entendida como uma resposta que colocasse um ponto final na busca de soluções para aquelas relações. Com a segunda, pelo constante retomar do ponto de partida, após sermos obrigados a abandonar possibilidades que tinham parecido promissoras. Uma finalização de tese, bem como de qualquer trabalho de maior fôlego, é um processo duplo em que se encerra algo que, ao mesmo tempo, produz novos incômodos. Muitos claros continuam existindo com o ponto final. Tal característica é da natureza mesma de uma pesquisa histórica, um trabalho que, em certa medida, se consolidou, mas deixa ainda pistas para que investigações outras possam surgir. As fontes levantadas para esta tese renderiam – e esperamos que rendam – diversas outras análises, sejam elas dissertações, teses ou artigos, dada a pluralidade de temas, visões e interpretações que suscitam. É humanamente impossível tratá-los exaustivamente em um único trabalho. Todavia, cremos que a centelha está lançada. Que novos olhares se voltem para a aventura da escrita desses poemas, que encenaram uma agitada cena pública nos fins do século XIX. 211 Referências Fontes Primárias ALBUQUERQUE, Medeiros de. Quando eu era vivo...– Memórias 1867 a 1934. Porto Alegre, Livraria do Globo, 1942. ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. [1908] São Paulo: Nova Cultural, 2003. BILAC, Olavo. Sobre a minha geração literária (No banquete offerecido pela sociedade do Rio de Janeiro no Palace-Théatre, — Rio de Janeiro). Ultimas conferencias e discursos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1924. pp. 69-81. BOCAIUVA, Quintino. Idéias políticas de Quintino Bocaiuva. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986. v. II. BUARQUE, Felicio. Origens Republicanas – Estudos da genes política em refutação ao livro do Sr. Dr. Affonso Celso O Imperador no exílio. Recife: Francisco Soares Quintas, 1894. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. 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Otoni 700225 [Sem título] 700226 À Chegada dos voluntários da pátria, em fevereiro de 1870 700322 Saudação 700407 À morte do patriota 700617 [sem título] 700721 Aurora arts 700801 O Século 701023 Salve! 710327 Glória e humanidade 710422 À memória de Tiradentes 710425 À República 710520 Nondum Lucebat 710601 Ao Povo 710613 Ao Imperador 710617 Teofilo Otoni 710814 A escrava 710828 Sete de setembro 710902 A Canção do trapeiro 710904 Agonia e glória 711001 Mentira de Bronze 711001 O Guião Negreiro 711018 A Independência do Brasil 711204 Trevas e luz 720423 A Caída, e a organização do ministério atual 720524 A Mulher Ideal 721229 Visão do Enforcado 730315 Surrexit 730327 O Brasil 730405 À vitória final 730415 Aos monarquistas 730515 Saudação aos Palmares 730518 Piparotes / Grande questão do dia 730526 Os Escravos no Eito 730630 O Povo 730703 Ao Sete de Setembro 730704 A Bandeira apedrejada 730710 A “Revolução” 730713 Excelsior 730716 [Sem título] 730717 A República Universal 730717 Os dois prisioneiros 730731 Gênio da Liberdade 730731 À província de S. Paulo 730817 Epigrama 730825 Voz do Porvir 730907 À Tiradentes 730707 Sete de Setembro 730915 Saudação 731004 O Tiradentes 740119 Extorsão / Falta d´água 740131 Soneto 740430 À Memória de Pedro Ivo 740530 Revolução Seis de Março 740630 Revolução 740701 Naturæ vox 740730 Liberdade igualdade e fraternidade 740801 Terribilis nox! 740815 Tira-Dentes 740820 O Brasil e o Imperador 740831 Uma esmola! 740901 Corruptum Genus 740901 Sete de setembro 740915 Sete de setembro 750112 O1º de dezembro 750312 A musa da conciliação 750628 O Homem – Grandezas e misérias 750701 Bandeira enlutada 750808 Moralidade 750820 República 750901 Farsa sobre farsa 750907 Sete de setembro 750924 Sete de setembro 220 750925 Anistia / Puff 751021 Cartas / de João Simplício à sua tia de Xiririca 751024 Ao corpo escolástico 751024 Ao Povo 751024 Cartas / de João Simplício à sua tia de Xiririca 751028 Quem sou eu? 751101 Instrução 751128 Viva a moralidade 751229 Ei-lo de pé 760101 Dois jornais de grande formato 760111 As derrubadas de El-rei 760118 Fábrica de pólvora 760204 O escravo 760505 Tristezas / Tavares Bastos 760506 A Tavares Bastos 760507 A Tavares Bastos 760507 O canto do escravo 760704 Hino do centenário 760704 Hino do centenário 760704 O Centenário Americano 760705 A Voz dos Moços 760705 O hino do centenário 760710 O escravo 760717 Ao Centenário Americano 760730 [Sem título] 760814 Ave Libertas 760907 Ao dia aniversário da Independência do Brasil 760909 Animação! 761001 O escravo 761029 Colégio Abílio – A S. A. Imperial Regente 761031 Colégio Abílio – A S. A. Imperial Regente 770101 A populaça 770131 A canalha 770204 Barra Mansa 770316 O condor da imprensa 770406 [Sem título] 770408 [Sem título] 770409 [Sem título] 770410 Mote 770412 [Sem título] 770414 [Sem título] 770415 [Sem título] 770417 [Sem título] 770418 [Sem título] 770420 [Sem título] 770421 Devaneio 770421 [Sem título] 770422 [Sem título] 770423 [Sem título 1] 770423 [Sem título 2] 770424 [Sem título] 770425 [Sem título] 770426 [Sem título] 770427 Devaneio 770427 Juiz que tem pancada, Largue a vara, vá- se embora! 770427 [Sem título] 770428 Juiz que tem pancada, Largue a vara e vai- se embora! 770428 [Sem título] 770429 O juiz que tem pancada 770429 [Sem título] 770503 [Sem título] 770505 [Sem título] 770510 Um juiz que tem pancada 770518 O corte no orçamento 770519 O juiz que tem pancada 770524 Deus e Democracia! 770601 Os coribantes 770604 Ao ilustre O. Hudson 770617 Raspadeira de osso 770701 Eu quero ser ateu 770705 Às romarias 770716 Musa do povo 770719 Musa do povo / Larguem a pasta 770719 Musa do povo – Larguem as pastas 770720 Musa do povo / Escárnio! 770722 Musa do bobo / Largue a pasta 770722 Musa do povo – Salvai a honra pessoal! 770726 A ideia nova 770727 O. D. 770825 Ave populus 770902 Versos 770907 A liberdade 770926 À chegada de SS. MM. Imperiais 770927 Musa do povo 771004 O cortejo 771004 O cortejo 771024 Musa do povo / Quanto pior melhor 771025 À França 771101 Musa do povo / A nova Babel 771114 Musa do povo / Duas experiências 771207 Alarma 771207 A orgia do século 771213 O grito dos Livres 780110 Caiu! Caiu! Caiu!... 780110 [Sem título] 780112 [Sem título] 780112 Caiu! Caiu! Caiu! 780308 Minha musa 780331 Homenagem Democrática 780802 Derrubada 780917 Canto do veterano 781201 A Liberdade 790125 Ladainha do Querosene 790127 O Capanga 790427 As Escolas 790427 [Sem título] 790628 Ao Brasil 790701 Paralelo / Entre corcundas e liberais 790706 Canção da escrava 790813 A liberdade 791001 O século marcha 221 791020 Tiradentes 800110 O Brasil de Hoje 800124 César... Ou seu cavalo 800205 A voz universal 800207 A Escola Republicana 801219 [Sem título] 810101 Escravagista 810106 Aos positivistas 810109 O imposto do vintém 810306 O Direito 810313 John Brown 810413 Carapuça 810417 Tira-dentes 810421 A consciência 810421 Tiradentes 810427 Nunes Machado 810506 Terribilis dea 810528 À Imprensa 810806 Ultimatum 810815 Hecatombe 810815 Patroni 811008 Musa da imprensa 811015 Nova luz, nova razão! 811108 Ignorância e culpa 811123 Dá cá um abraço 811130 Educai a mulher 811217 Canção 820101 [Sem título] 820302 A Quintino Bocaiuva 820310 Do eito ao Senado 820330 Salta – Martinho 830421 A Cabeça de Tiradentes 820421 A Cabeça do Mártir 820421 A Liberdade 820421 Ao Povo 820421 Ao Tiradentes 820421 A Tiradentes 820421 Joaquim Silvério 820421 Tarpeia e Capitólio 820427 Século de Ferro 820517 Hino a Tiradentes 820606 Vitória à Natividade 820608 A lei é uma pulha 820612 Mote a premio 820617 Cebola 820708 O Trabalho 820815 À Minha terra 820815 Ao 15 de agosto 820815 Aos Mártires 820815 Aos paranaenses 820815 Apoteose 820815 Liberdade 820901 La Fraternité 820930 Vinte e Oito de Setembro 821001 A Lopes Trovão 821111 [Sem título] 830101 A escravidão e o Cristo 830201 Na Roça 830321 Fortaleza 830331 Fragmento de um poemeto 830421 [Sem título] 830421 Tiradentes [1] 830421 Tiradentes [2] 830525 Ao Imperador 830804 O canto africano 831009 Agonia da Época 831027 Aos escravocratas 840127 A Rede 840226 Está tudo suspenso 840325 25 de março 840325 A abolicionista cearense 840325 A liberdade 840325 À libertação do Ceará 840325 Ao Ceará 840325 Ao Ceará 840325 Glória aos jangadeiros cearenses 840330 25 de março 840330 À minha terra 840330 Livre Ceará 840330 [Sem título] 840419 Libertas quæ sera tamen 840421 A Africana 840421 Soneto 840421 [Sem título 2] 840421 Tiradentes 840601 É tempo!... 840907 Sete de Setembro 840907 Sete de Setembro 850421 Silva Xavier 850421 Tiradentes 850421 V 850606 A Imprensa 850907 Sete de Setembro 851018 Denúncia à História 860421 21 de Abril 860421 A Cabeça do Mártir 860421 A Liberdade 860421 Amor da Pátria 860421 Avante! 860421 Coragem! 860421 Tiradentes 860421 Visão da Liberdade 860810 Rebate 871217 A mestiça 880101 Pobre Pátria 880106 Hosana! 880108 22 de Maio – Victor Hugo 880410 O liberto 880421 Ao Grande Mártir Mineiro 880515 Síntese 880517 Liberdade 880517 Salve 880520 À Augusta Princesa Imperial Regente pela Abolição da Escravidão no Brasil 880520 À Augusta Princesa Regente 880522 Sem título 222 880528 Justicia, Verdad y Patria 880629 D. Isabel, a Redentora 880822 Bem Vindo! 881123 Lívida canalha 890413 O parto da montanha 890605 O Programa Liberal 890807 Nobreza e Fidalguia 890815 Na Barricada 890818 Nobreza e Fidalguia 890907 A independência do Brasil 890907 Salve!... 891024 Fabulário do “Correio do Povo” / O Pato- Marreco, a Anta e o Tigre Preto 891028 Fabulário do “Correio do Povo” / Os animais na Bolsa 891031 Fabulário do “Correio do Povo” / O Tigre- Preto. D. Raposo e o Lavrador 891104 Fabulário do “Correio do Povo” / O Asno, o Raposo e o Tigre Preto 891109 Fabulário do “Correio do Povo” / O Asno de Buridan 891207 Tiradentes e a Posteridade 891212 Avante 900421 O sonho de Tiradentes 900421 Tiradentes 223 Anexo 2: Relação nominal dos jornais consultados A América: Publicação quinzenal, scientífica, litterária, commercial, industrial e noticiosa. 1879-1880. A Bibliotheca dos Bonds. 1876. A Harmonia: Órgão de Externato Hewitt. 1884-1886. A Idéia: Jornal de sciências e lettras. 1874-1875. A Lanterna: órgão do povo. 1883. A Liberdade: Jornal defensor dos direitos do povo. 1879. A Luz: Jornal litterário e instructivo. 1873. A Metralha: Folha de propaganda republicana. 1888. A Reforma: Orgão democratico. 1869-1870. A República: Propriedade do Club Republicano. 1870-1874. A República. 1877-1878. A Revelação. (Continuado por: Diário do Brazil). 1881. A Verdade: Órgão dedicado aos interesses geraes. 1888. Archivo do Retiro Litterário Portuguez no Rio de Janeiro. 1870. Aspiração Nacional: Periódico político, satyrico, scientífico e litterário. 1879. Aurora Litterária. 1876. Aurora: Jornal litterário. 1878. Correio da Noite. 1879. Correio da Tarde. 1879. Correio do Povo: Órgão republicano. 1889-1890. Correio Imperial. 1887- 1888. Cruzada: Órgão da Sociedade Amor e Trabalho. 1883. D. Pedro II. Jan. 1870-1874. D. Pedro V: Periódico artístico, litterário, crítico e noticioso. 1871, 1873. Diário da Tarde: Folha conservadora, política, noticiosa e commercial. 1878. Echo Popular: Publicação quinzenal, litterária, crítica e scientífica. 1884. Echo Popular. 1869-1871. Echo Social: Publicação semanal crítica, humorística e litterária. 1879. Gazeta de Notícias. 1875-1878. Gazeta Nacional: Órgão republicano. 1887-1888. Gazetinha Águia de Ouro. 1882-1883. Imprensa Barramansense: Periódico imparcial dedicado aos interesses municipaes. 1888-1889. Já Sei Já Sei: Jornal opportunista. 1885. Jornal da Noite. 1871. Jornal da Noite. 1881-1882. Lincoln: periódico do Club Gutemberg consagrado a propaganda abolicionista. 1883. O Acarape: publicação commemorativa da libertação do Ceará . 1884. O Adversário: Órgão do Grêmio Litterário Arthur de Oliveira. 1884. O Amigo do Escravo: Órgão abolicionista. 1883-1884. O Amigo do Povo: Jornal político, commercial e noticioso. 1873. O Amigo do Povo: Jornal republicano. 1877. O Arauto. 1879. O Aspirante: Periódico litterário e artístico dos alumnos do Lyceo de Artes e Offícios. 1881-1882. O Atirador Franco. 1881. O Bambino. 1884. O Bicho: Periódico crítico e litterário. 1882-1883. O Brazil: Órgão constitucional. 1873. O Combate. 1880-1882. O Cometa: periódico litterário, recreativo e noticioso. 1883. O Constitucional. 1889. 224 O Constituinte: Órgão da democracia e das emprezas industriaes de utilidade geral. 1885. O Espinho: Jornal crítico e de propaganda. 1882-1883. O Estandarte. 1880. O Futuro: Amor a verdade – ódio a mentira. 1881. O Futuro: Hebdomadário acadêmico-republicano. 1881. O Globo. 1875-1878, 1881-1882. O Intransigente: Órgão republicano. 1883. O Lazarista. 1875. O Luzeiro: Órgão do commércio e lavoura. 1879-1880. O Município Neutro. Diário político, lietterário e noticioso. 1889. O Município Neutro. Jornal político e dedicado ao commérco, à lavoura e à indústria. 1881. O Novo Conservador. Jornal político, agrícola, commercial, noticioso e litterário. 1883. O Paladino: Órgão do Clube d. Alumnos de Minerva. 1881. O Paraense: em memória dos mártyres da independência do Pará. 1881-1882. O Progresso: Folha miscellânea. 1877. O Progresso. 1886. O Quinze de julho: órgão conservador. 1870. O Radical Acadêmico: Órgão democrático, scientífico e litterário de alguns estudantes da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. 1870. O Relâmpago. Periódico de crítica e de censura. 1882. O Scenário: Periódico do Club Familiar Gymnásio da Juventude. 1881-1883. O Tymbira: Periódico litterário e recreativo. 1889-1892. Rabeca. 1870-1871. República Brazileira. Freedom! and Liberty! 1889. Revista Academia: Jornal político, litterário e scientífico. 1873. Revista Acadêmica: Órgão do Instituto dos Acadêmicos. 1877. Revista Theatral. 1885. Tiradentes. Commemoração anual. 1882-1886, 1888, 1890. Vinte e Cinco de Março: Homenagem de alguns typógraphos à Província do Ceará. 1884 225 Anexo 3: Tabela – Poemas por periódico e data 226 227 228 Anexo 4: Poemas citados na análise 690829 O Progresso...........................................................................................................232 690912 Será verdade?........................................................................................................233 690919 Será verdade..........................................................................................................234 691223 Casusinha das dúzias.............................................................................................235 691224 Endiabradinhas......................................................................................................236 700101 Ano mau................................................................................................................236 700101 Casusinha das dúzias.............................................................................................236 700211 T. B. Otoni.............................................................................................................238 700225 [Sem título]............................................................................................................239 700226 À Chegada dos voluntários da pátria, em fevereiro de 1870.................................240 700322 Saudação................................................................................................................240 700407 À morte do patriota................................................................................................241 710214 Os Divinos.............................................................................................................241 710319 O Povo...................................................................................................................242 710422 À memória de Tiradentes......................................................................................244 710425 À República...........................................................................................................248 710520 Nondum Lucebat...................................................................................................249 710613 Ao Imperador.........................................................................................................251 710617 Teófilo Otoni.........................................................................................................252 710828 Sete de setembro....................................................................................................254 710902 A Canção do trapeiro.............................................................................................254 710904 Agonia e glória......................................................................................................255 711001 Mentira de Bronze.................................................................................................255 711018 A Independência do Brasil.....................................................................................256 720421 Senis Brasiliensis Recordationes...........................................................................257 720423 A Caída, e a organização do ministério atual........................................................258 721229 Visão do Enforcado...............................................................................................258 730130 Canalha!.................................................................................................................260 730327 O Brasil..................................................................................................................261 730415 Aos monarquistas..................................................................................................264 730518 Piparotes / Grande questão do dia.........................................................................264 730630 O Povo...................................................................................................................265 730703 Ao Sete de Setembro.............................................................................................266 730716 [Sem título]............................................................................................................267 730717 Os dois prisioneiros...............................................................................................268 730731 À província de S. Paulo.........................................................................................268 730817 Epigrama...............................................................................................................270 730907 À Tiradentes..........................................................................................................271 730907 Sete de Setembro...................................................................................................271 731004 O Tiradentes..........................................................................................................272 740119 Extorsão / Falta d´água..........................................................................................273 740430 À Memória de Pedro Ivo.......................................................................................273 740530 Revolução Seis de Março......................................................................................274 740630 Revolução..............................................................................................................277 740801 Terribilis nox!........................................................................................................278 740815 Tira-Dentes............................................................................................................282 740820 O Brasil e o Imperador..........................................................................................284 740901 Corruptum Genus..................................................................................................285 740901 Sete de setembro....................................................................................................286 740915 Sete de setembro....................................................................................................287 229 750808 Moralidade.............................................................................................................289 750820 República...............................................................................................................290 750901 Farsa sobre farsa....................................................................................................291 750907 Sete de setembro....................................................................................................292 750924 Sete de setembro....................................................................................................293 750925 Anistia / Puff..........................................................................................................294 751021 Cartas / de João Simplício à sua tia de Xiririca.....................................................295 751024 Ao corpo escolástico..............................................................................................296 751024 Cartas / de João Simplício à sua tia de Xiririca.....................................................297 751028 Quem sou eu?........................................................................................................297 751128 Viva a moralidade..................................................................................................299 760111 As derrubadas de El-rei..........................................................................................300 760907 Ao dia aniversário da Independência do Brasil.....................................................301 770131 A canalha...............................................................................................................302 770204 Barra Mansa..........................................................................................................303 770406 [Sem título]............................................................................................................303 770408 [Sem título]............................................................................................................303 770409 [Sem título]............................................................................................................303 770410 Mote.......................................................................................................................304 770412 [Sem título]............................................................................................................304 770414 [Sem título]............................................................................................................304 770415 [Sem título]............................................................................................................304 770417 [Sem título]............................................................................................................304 770418 [Sem título]............................................................................................................305 770420 [Sem título]............................................................................................................305 770421 Devaneio................................................................................................................305 770421 [Sem título]............................................................................................................305 770422 [Sem título]............................................................................................................306 770423 [Sem título 1].........................................................................................................306 770423 [Sem título 2].........................................................................................................306 770424 [Sem título]............................................................................................................306 770425 [Sem título]............................................................................................................306 770426 [Sem título]............................................................................................................307 770427 Devaneio................................................................................................................307 770427 Juiz que tem pancada, Largue a vara, vá-se embora!............................................307 770427 [Sem título]............................................................................................................307 770428 Juiz que tem pancada, Largue a vara e vai-se embora!.........................................308 770428 [Sem título]............................................................................................................308 770429 O juiz que tem pancada.........................................................................................308 770429 [Sem título]............................................................................................................308 770503 [Sem título]............................................................................................................308 770505 [Sem título]............................................................................................................309 770510 Um juiz que tem pancada......................................................................................309 770518 O corte no orçamento............................................................................................309 770519 O juiz que tem pancada.........................................................................................310 770601 Os coribantes.........................................................................................................310 770617 Raspadeira de osso................................................................................................311 770716 Musa do povo........................................................................................................311 770719 Musa do povo / Larguem a pasta...........................................................................312 770719 Musa do povo – Larguem as pastas.......................................................................312 770720 Musa do povo / Escárnio!......................................................................................313 770722 Musa do bobo / Largue a pasta..............................................................................313 230 770722 Musa do povo – Salvai a honra pessoal!...............................................................314 770825 Ave populus...........................................................................................................315 770907 A liberdade.............................................................................................................316 770926 À chegada de SS. MM. Imperiais..........................................................................317 771004 O cortejo................................................................................................................317 771024 Musa do povo / Quanto pior melhor.....................................................................318 771101 Musa do povo / A nova Babel................................................................................319 771207 A orgia do século...................................................................................................320 780110 Caiu! Caiu! Caiu!..................................................................................................321 780112 [Sem título]............................................................................................................322 780112 Caiu! Caiu! Caiu!..................................................................................................323 780308 Minha musa...........................................................................................................324 780331 Homenagem Democrática.....................................................................................325 780802 Derrubada..............................................................................................................326 780917 Canto do veterano..................................................................................................327 790127 O Capanga.............................................................................................................327 790427 [Sem título]............................................................................................................328 790628 Ao Brasil................................................................................................................329 790701 Paralelo / Entre corcundas e liberais.....................................................................330 791020 Tiradentes..............................................................................................................331 800110 O Brasil de Hoje....................................................................................................333 800124 César... Ou seu cavalo...........................................................................................334 801219 [Sem título]............................................................................................................335 810109 O imposto do vintém.............................................................................................336 810413 Carapuça................................................................................................................337 810417 Tira-dentes.............................................................................................................338 810421 Tiradentes..............................................................................................................340 810806 Ultimatum..............................................................................................................341 810815 Hecatombe.............................................................................................................342 810815 Patroni...................................................................................................................343 811123 Dá cá um abraço....................................................................................................344 811217 Canção...................................................................................................................345 820302 A Quintino Bocaiuva.............................................................................................346 820310 Do eito ao Senado..................................................................................................347 820330 Salta – Martinho....................................................................................................347 820421 A Cabeça de Tiradentes.........................................................................................347 820421 A Cabeça do Mártir................................................................................................348 820421 A Liberdade...........................................................................................................352 820421 Ao Tiradentes.........................................................................................................353 820421 A Tiradentes...........................................................................................................353 820421 Joaquim Silvério....................................................................................................354 820421 Tarpeia e Capitólio................................................................................................355 820517 Hino a Tiradentes...................................................................................................356 820606 Vitória à Natividade...............................................................................................356 820608 A lei é uma pulha...................................................................................................357 820612 Mote a premio.......................................................................................................358 820617 Cebola....................................................................................................................359 820815 Ao 15 de agosto.....................................................................................................360 820815 Aos Mártires..........................................................................................................361 820815 Aos paranaenses....................................................................................................362 820815 Apoteose................................................................................................................363 820815 Liberdade...............................................................................................................364 231 821001 A Lopes Trovão.....................................................................................................365 830421 [Sem título]............................................................................................................366 830421 Tiradentes [1].........................................................................................................366 830421 Tiradentes [2].........................................................................................................367 830525 Ao Imperador.........................................................................................................368 831009 Agonia da Época....................................................................................................369 840226 Está tudo suspenso.................................................................................................370 840325 Ao Ceará [2]..........................................................................................................371 840421 Soneto....................................................................................................................372 840421 [Sem título 2].........................................................................................................372 840421 Tiradentes..............................................................................................................373 840907 Sete de Setembro...................................................................................................373 840907 Sete de Setembro [2].............................................................................................374 850421 Silva Xavier...........................................................................................................374 850421 Tiradentes..............................................................................................................375 850421 V............................................................................................................................376 850907 Sete de Setembro...................................................................................................377 851018 Denúncia à História...............................................................................................378 860421 A Cabeça do Mártir................................................................................................380 860421 A Liberdade...........................................................................................................381 860421 Tiradentes..............................................................................................................382 860810 Rebate....................................................................................................................382 880101 Pobre Pátria...........................................................................................................383 880421 Ao Grande Mártir Mineiro....................................................................................383 880520 À Augusta Princesa Imperial Regente pela Abolição da Escravidão no Brasil.....384 880520 À Augusta Princesa Regente.................................................................................384 880528 Justicia, Verdad y Patria........................................................................................385 881123 Lívida canalha.......................................................................................................386 890605 O Programa Liberal...............................................................................................387 890807 Nobreza e Fidalguia...............................................................................................387 890818 Nobreza e Fidalguia...............................................................................................388 890907 A independência do Brasil.....................................................................................389 890907 Salve!.....................................................................................................................390 891212 Avante....................................................................................................................391 232 690829 O Progresso Trovador. Rio de Janeiro. 29 agosto 1869. p. 95. 233 690912 Será verdade? – Será verdade o que? Minha terra tem belezas Que eu mesmo não sei contar, As coisinhas que ela tem Fazem tudo se espantar? – Será verdade o que? Minha terra é tão formosa Que rivaliza com o Japão, Os homens que a governam Tem bucho de tubarão. – Será verdade o que? Os homens que cá governam, Só servem para cavar fossos, Os ministros repimpados!... Os pequenos pagam impostos. – Será verdade o que? Esta terra é uma república Mas, tem nome de Império Assim querem os senhores Que se trepam no poderio. – Será verdade o que? Que eu tenho comenda no peito Não sofro dano nenhum Mas tu que não tens nada Pagas igual a qualquer um... – Será verdade o que? Os grandes impostos aqui Há uma tal prostração Oh! que dor de coração Como assim eu nunca vi. – Será verdade o que? Os homens de senhoria Aqui tem tanta ousadia Sem culpa e sem agravo O pobre aqui será escravo? – Será verdade o que? Que quem é rico e tem dinheiro É qual Deus verdadeiro Só o pobre é sacrificado Por esses grandes do estado. – Será verdade o que? Os amigos libertinos Nos trouxeram este progresso E depois em seu regresso Nos virão os divinos. Echo Popular. Rio de Janeiro. 12 Setembro 1869. p. 3. 234 690919 Será verdade. – Será verdade que: Tudo corre às maravilhas Quem quiser apreciá-las Entre nas repartições Pois lá tudo são galas. – Será verdade que: Um dia fui no tesouro Selar certos papeizinhos, Porém, oh, que caterva? Que me aparecem meirinhos. – Será verdade que: Há uma certa sociedade Que de radicalismo o nome tem, Reunindo-se em clube aos domingos Mas não é com o propósito fazer bem. – Será verdade que: Em todas as repartições Há tantos vagos e impostores Isto me parece farsa – comédia – A formação de tantos doutores. – Será verdade que: A guerra que nos tem assolado Tem sido só ao tesouro Pelos grandes do estado. – Será verdade que: Eu me vejo quase doido Com estas coisas assim, Todos choram, todos lastimam, O remédio estará em mim? – Será verdade que: Estes lançadores ineptos Com cinismo devotado; Fica pagando só $200... Que pela lei foi decretado – Será verdade que: Oh, meu Sr. de estado Eu não faço negócio E por isso pagar não posso Esta grande exorbitância Dos-mandões do poder Eu pagar não posso querer. – Será verdade que: Por hoje me deixo ainda De fazer algumas perguntas, Até o dia 1º de outubro Em que farei todas juntas. – Será verdade que: Nos campos do Paraguai A minha vista perdi! Triste de mim que a mortalha Me não cobriu logo ali. – Será verdade que: Se a minha espada valente Senti cair-me da mão Se já não posso ir na frente Defender esta nação. – Será verdade que: Em vão levanto a cabeça Tentando mirar o céu Sempre esta nuvem espessa Sempre o mesmo escuro véu. – Será verdade que: Foi a maldita em Tuití Onde os olhos eu perdi Triste de mim que a mortalha Me não cobriu logo ali? O Corsario. Echo Popular. Rio de Janeiro. 19 Setembro 1869. p. 2-3. 235 691223 Casusinha das dúzias 236 237 Erasmo. A Reforma. Rio de Janeiro. 23 dezembro 1869. p. 3 691224 Endiabradinhas Sabe arranjar os parentes O grande Itaborahy; Em finanças, em política, E no mais... borra se aí... Se o barão de Muritiba É nobre ministro militar, Porque motivo o chanfalho Anda nas mãos do Alencar? Na pasta da agriculura Mostrará o ministrinho Como cresce a parasita Que se intitula: – sobrinho! O Cotegipe medita Alguma grande esparrela... Em vindo maio os colegas Que se aguentem nas sela... Como! Ainda cinco meses Esta gente há de durar? Só se sair em janeiro Senador Alencar? Paciência, pobre povo! Não tarda muito o mergulho Do ministério e gazeta Que malsina o mês de julho! A Reforma. Rio de Janeiro. 24 dezembro 1869. p. 3. 700101 Ano mau Aturar no ano novo O mesmo Itaboraí Que boas festas, meu povo, Eu tenho pena de ti! O governo do visconde Quer dizer: – cofre vazio, O Lopez não sei aonde... Muitos sobrinhos e um tio! Este amplivago império Por certo não se aguenta Se o maldito ministério Passa o ano de setenta! A Reforma. Rio de Janeiro. 24 dezembro 1869. p. 3. 700101 Casusinha das dúzias 238 O Bóróbódós. O Quinze de Julho. Rio de Janeiro. 1 janeiro 1870. p. 3. 239 700211 T. B. Otoni – Uma vez desleal aos seus princípios Ninguém jamais o viu! A. P. Caldas. Levanta impávido a sobranceira fronte! – Moisés do povo – vem ditar-lhe a lei! Gigante, ergue-te, a multidão te busca! Ergue-te! Fala, – democrata-rei! – Fala, que as turbas em silêncio escutam! A teu aceno travará a luta! Roja no pó do despotismo o trono, Só levantado pela força bruta! Mas, não!... Seus lábios congelou a morte, Da promissão ele não viu a terra... E a turba muda, que guiava OTTONI, Pranteia o chefe n'um gemer, que aterra!... Porque morreu?... – Evocai do túmulo Os sacros manes do – tribuno rei... – Levanta a fronte sobranceira! Fala! – Moisés do povo, vem ditar-lhe a lei! Não vês que cospem tuas crenças intimas, Da liberdade enegrecendo a luz?... Rasga a mortalha, imortal brasílio! Conduz o povo ao seu Sinai, conduz! Curvas a frontes, o maior respeito Hão de votar-te, – democrata rei! – Sobre teu túmulo, sem compradas honras, Teu credo explica a esta nova grei! Mas, não: não pode sem calor de vida Cadáver frio do sepulcro erguer-se É morto OTTONI, – da liberdade o astro, – O sol dos livres – foi além perder-se! Oh! como é justa essa dor pungente Que aflige a todos por morrer um só! Nobres soldados da cruzada santa, Beijai chorando d'essa campa o pó!... Levanta a fronte sobranceira! Fala! – Moisés do povo, - vem ditar-lhe a lei! Responde à lira do sepulcro o brado “– É morto OTTONI – o democrata rei – “– do sono eterno não o desperte o povo, “Do gênio a pátria se destaca além... “Onde brilhar da liberdade o astro, “De OTTONI o nome brilhará também. –” João F. Ramos Filho. A Reforma. Rio de Janeiro. 11 fevereiro 1870. p. 4. 240 700225 [Sem título] Ao passarem os voluntários pela praça do Comercio, em sua entrada triunfal de anteontem, o Sr. Dr. Pinto Junior recitou dali a seguinte poesia: A Reforma. Rio de Janeiro. 25 fevereiro 1870. p.1. 241 700226 À Chegada dos voluntários da pátria, em fevereiro de 1870 A Reforma. Rio de Janeiro. 26 fevereiro 1870. p.3. 700322 Saudação Aos voluntários da Pátria recitada pelo Sr. Dr. Pinto Junior, de uma das janelas do escritório do Sr. Desembargador Pacheco à rua da Alfandega ao passarem dos dois batalhões 23 e 30. Basta! Basta de sangue, Que o sangue do tirano já correu; Caiu por terra exangue, O monstro que o Brasil acometeu! Da pátria voluntários, Briosas legiões de lidadores, D'essa horda de sicários, Valentes denodados vencedores; O povo agradecido, De santo amor da pátria arrebatado, Ei-lo aqui reunido, Vem saudar-vos contente entusiasmado. 242 Bravos filhos do povo, D'este valente povo americano, Salvar, jurai de novo, A liberdade e o povo soberano. Baluarte inexpugnável Os vosso peitos são contra os tiranos; Na luta interminável, Sois bravos, sois leões, mas sois humanos. Jamais será escravo, Um povo a quem defende o destemido, O legendário e bravo Nos campos de batalha enobrecido! Esse Osório imortal, O mais belo ornamento do Cruzeiro; Será sempre fanal, Da glórias d'este povo brasileiro! Da pátria voluntário, Filho da glória, irmão da heroicidade, Aceita por sudário, O brasileiro pendão da liberdade! A Reforma. Rio de Janeiro. 22 março 1870. p. 3. 700407 À morte do patriota I Vós que fostes e sois da liberdade Vassalos tão fieis como ele foi, As cinzas cortejai, com humildade Do tribuno e do herói! Folguem embora os reis, em quantos os povos Por Otoni e outros trajam luto, Que cada dia mil triunfos novos Recebe a liberdade por tributo Vede – de outr´ora a misera cativa, A bela Espanha – como fala ao brio Dos povos livres, lhes mostrando altiva O seu trono vazio... Vede a Irlanda, essa mártir, como ainda, Da escravidão a saciar o abutre, De ver surgir festiva a aurora linda Dos seus triunfos – a esperança nutre! E da mártir Polônia tendo a historia, Com sangue nobre e generoso escrita, Vereis que dos valentes na memória Da liberdade a imagem sempre habita! Fantasmas do passado – Tiradentes, Nunes Machado e outros, exultai! Que um nobre irmão dos vossos descendentes A vós unir-se vai!... Por mortalha – ele leva essa bandeira Que todos defendestes com denodo, E por nênias na hora derradeira Os prantos mereceu do Império todo. D´elle nos fica: o nome venerando E seu trono – a tribuna – hoje vazia, A cujo lado prostra-se chorando Um povo – da saudade na agonia! ….................................................. E vós todos que sois da liberdade Vassalos tão fieis, como ele foi, As cinzas cortejai, com humildade, Do tribuno e do herói! Modesto da Gloria. A Reforma. 7 abril 1870. p. 3. 710214 Os Divinos Um dia há de raiar a plena liberdade, Em que o mundo sacuda o peso dos tiranos; Que honras, títulos vãos de falsos soberanos, Sirvam só de irrisão para a sociedade! A descrença maior que nutre a humanidade Desde os tempos remotos até nosso anos, Que aos povos tem cercado de tantos desenganos 243 E sempre a que provém da falta de igualdade. Um rei jamais atende a voz da consciência! E quando ela reclama sua autonomia, Ele ainda se julga acima dessa essência! “Nele está a virtude, a sã sabedoria, a justiça, a bondade, – até a presciência!” assim diz, sem razão, a torpe fidalguia. Otaviano Hudson. A República. Rio de Janeiro. 14 fevereiro 1871. p. 3. 710319 O Povo Ei-lo! É o povo que passa Com fé no coração, Dos livres forte empunhando O sagrado pavilhão. Ensinai-o na passagem A render a vassalagem Ao despotismo de um rei; - Rei só ele, e soberano, Ante o qual treme o tirano – Vigora a justiça – a lei. Se ainda há povo humilhado Que à púrpura vai beijar, Hão de em breve os reis do trono Até o povo baixar. Deus fez homens, não escravos, Instrumentos vis, ignavos Da protérvia e corrupção; Pelo instinto à humanidade Deus inspira a liberdade, Não quer povos na opressão. De Guilherme Tell a flama Vive sempre a palpitar; De Washington a Lincoln Nunca a ideia há de acabar. Como a Itália cada povo Há de ter no mundo novo Um Garibaldi imortal; Uma voz audaz, fremente, Como a voz sempre potente De Mazzini – seu rival! Sim! no solo onde o Amazonas E o Paraná vão ao mar, Saem das campas os mártires, Liberdade! – vêm bradar Trazem as brisas frementes Uma voz do Tira-Dentes, E a ela responde além Uma outra – a dos Andradas, E as turbas dizem pasmadas: Não tarda – a aurora lá vem! Virá dia em que teu seio Há de tornar-se um vulcão, Sepultando em tuas lavas Instrumentos de opressão. Nesse dia a liberdade, Bradando à humanidade, Fará ressurgir nações; Escravos, de pé, remidos, Verão por terra partidos Pesados, duros grilhões. Nesse dia então o povo Sua epopeia há de ter; Nela os filhos do futuro Irão ideias beber; E a nobre democracia, Fulminando a tirania, Seu reino formará; E então o puro civismo, Radiante de heroísmo, Uma virtude será. O estandarte da igualdade Ante a lei há de surgir; Por ele ciências, artes Hão de todas reflorir; Por ele os tronos, quebrados, Serão logo transformados Em bancadas de instrução; E os cetros envelhecidos, Pelo heroísmo fundidos No rijo arado serão. Da realeza entumecida 244 Há de o manto alfim tombar, E no moderno papiro Em folhas mil se tocar: – Nessas folhas em que a lava Do pensar ardente grava Da ideia o símbolo imortal; Nessas folhas em que a infância No livro bebe a fragrância Da virtude e da moral. Oh! Este dia esplendente Não está longe o arrebol; Nele, oh povo, há de sorrir-te Da liberdade o farol. Neste dia a fria terra, Que os seus mártires encerra, Hás de vê-la palpitar; Esses manes gloriosos Respirarão jubilosos Ao triunfo popular. Não ressurgirão estátuas De aparato oficial, Que livre o povo só ama O que é na pátria imortal... S’inda o povo ao Tira-Dentes E aos Andradas esplendentes Monumentos não ergueu, É que a estrela do seu norte, Num Moisés altivo e forte, Inda não lhe apareceu. Mas que importa! – Avante, oh povo! Não descreia do teu Deus; Luta, aprende, sofre, espera Co’os olhos fitos nos céus. Na Canaã do progresso Alcançará teu ingresso As vozes de um Josué; Das ruínas de um passado Surgirá emancipado Vencedor, sempre de pé! Deus é justo. O sangue mártir Não roreja à terra em vão; Do martírio nasce a palma, Surge a cruz da remissão. Povo! os teus exploradores Os teus infames traidores Não te podem resistir; Não vem longe o grande dia Da nobre democracia; Fé em Deus – ela há de vir. Não há coroas, nem cetros Ante o poder da nação; Onde vive a liberdade Todo homem é cidadão O livre em sua passagem Não vai render vassalagem Ao despotismo de um rei; Rei só ele, e soberano, Ante qual treme o tirano, Vigora a justiça, a lei. Pelotas, Dezembro de 1869. Tavares Junior. A República. Rio de Janeiro. 19 março 1871. p. 3. 245 710422 À memória de Tiradentes 246 247 248 J. Carlos do Patrocínio. A República. Rio de Janeiro. 22 abril 1871. p. 3. 249 710425 À República1 Saúdo a ideia gigantesca e nobre Que como jorro de Moisés rebenta Ao colosso da América do Sul... É tempo de bebermos nesta fonte, Expelindo de nós eternamente O opróbrio de Saul. Tiradentes – agora... Oh, grande Otoni, Despertai todos vós... Nunes Machado Onde estás?... Não ouvi este rumor?... Somos nós, que bradamos altamente Que queremos ser livres da tutela D’um único senhor! É santa a aspiração, – é justa a causa, Quando nada – enobrece, – enche d’orgulho, Ao que sobre estas áreas sacrifica... Venha o cálix embora transbordando De fezes, d’armaguras, de martírios... Inda assim não se abdica! Já surge a tempestade, o mar se agita, Em cada coração, em cada crânio, Uma fibra e um átomo de mais Parece despontar, pulsar de acordo, Por virtude desta ideia grandiosa Que foi de nossos pais! Demula-se o patíbulo degradante, Que aviltou nossa honra e nossos brios, Do qual serve de base à liberdade... Somos todos irmãos, – iguais em tudo Pois, só temos, no mundo, um rei supremo... O rei da eternidade! Onde foi, em que seio mais robusto, D’entre povos novéis – neste universo, Tamanha aspiração já rebentou? Onde foi, em que parte, onde, em que tempo, Um brado estridente de – república – Acaso se escutou? Sem que custasse aos ímpios um suplício, A escravos um assombro, aos reis um frio, Remorsos gotejantes de suores; Ao passo que aos atletas do futuro Só cercam delícias inefáveis, – Os prazeres maiores? Onde foi que a verdade se plantasse E a crença de um povo florescesse Da liberdade à sombra do pendão, Que mais de um peito nobre não sentisse, Veemente, esforçado, ardente, altivo, Pulsar-lhe o coração? Sus! Avante, falange denodada, Mocidade brilhante – esperançosa, Verdadeiros profetas do porvir! Combatei pela ideia e pela glória, Pela pátria, por nós, pelos vindouros, Q’a luz há de surgir!... Um sargento Garcia inda é possível Que transpondo os umbrais do régio paço, Qual outra Cristina assim desperte: Intruso, restitui-nos o que é nosso, – A pátria, a liberdade, e, foge, – foge, Pedaço humano inerte! Sim, sus! Avante, mocidade ardente, Profetas do futuro grandioso... O estridor do canhão não vos assuste... A vida, é como a dor, sem liberdade, Desta à glória, – a jornada é limitada, – Embora muito custe!... Josué, há de ao som de mil trombetas, Com o povo outra vez associado, Fazer a sua entrada em Jericó, Mas agora somente tendo em vista Expelir desta mística cidade, O novo faraó! Daqui eu vos saúdo; e se essas vozes Podem cheias de ardor transpor os mares Nesse esforço que faz meu coração; Inscrevei-me também no grande livro, Que há de um dia encerrar esta legenda: – Brasil, – já sois uma nação!... Lycurgo de Paiva. A República. Rio de Janeiro. 25 abril 1871. p. 1-2. 1 Poesia na qual Paiva declara sua adesão à causa republicana. 250 710520 Nondum Lucebat2 (A Theophilo Ottoni) 2 Nota explicativa que apresenta o poema: “Da Propaganda de S. Paulo transcrevemos para as nossas colunas uma poesia que a redação daquela folha inseriu, acompanhado-a com as seguintes palavras: 'Em outro lugar publicamos um bela poesia, dedicada à memória de Theophilo Ottoni, por um eminente cidadão, amigo do povo como o saudoso tribuno e a síntese das mais puras simpatias da mocidade brasileira.' É escusado declinar o nome de José Bonifácio, o moço.” 251 A República. Rio de Janeiro. 20 maio 1871. p. 3. 252 710613 Ao Imperador – Fere-me, mas ouve-me – (Temístocles a Eurípides) Senhor! Senhor, o que fareis? O povo Se não chora, também já não sorri; E ousa-vos fitar-vos já! Que olhar sinistro!... Quanta interrogação flameja ali! É do direito a cólera sagrada Que acende aquele olhar... No vilipêndio Muita vez tal olhar produz coriscos... Uma faísca basta para tal incêndio. Tendes o manto, e nós sentimos frio! Tendes um cetro, e nós... Nem um bordão! Tendes na testa um diadema de ouro; Nós... Uma chaga só no coração! Ah! Chaga que se chama fome, sede De justiça e de pão. Por sobre o império – Suprema afronta ao céu e à humanidade – Vê-se estendida a púrp’ra de Tibério. E vós dais beija-mão! Baixeza extrema Em que a Roma dos césares não cabe; Cena burlesca em que o senhor se mostra – Lobo feito pastor... Não há reis pai. Nestes banquetes, onde o servilismo Sempre oferece ao rei um gozo novo, Não sentis que na taça que vos servem Não há néctar, mas sim sangue do povo? Não vos abrasa a boca tal falerno?! Nós não gozamos; vós... Não padeceis! Bebe Calígula per’las diluídas, E vós... Do povo as lágrimas bebeis! Eis que às vezes, coagindo os povos A tomarem no ombro a cruz da glória, Faze de um rei acuado no Ipiranga Um herói – condenado pela história. Tendes um trono, e nós temos a forca! Prá nós – miséria; fausto para vós. E não vos apiedais?... não tendes medo?... E Luís XVI, e Maximiliano, Cujo sangue, ainda fresco, é uma ameaça, Não vos dirão que apenas Tira-dentes Não tem cabeça para rolar na praça? Tão acercado d’áulicos sequiosos. A quem não farta o fisco; a extorsão; Tornaste-vos o chefe de dois bandos Que vão talando a infeliz nação. E o povo – Jó – contempla indiferente Dos bandidos a sórdida contenda. Não sobeja carniça a tais hienas! Cada qual que melhor a pátria venda. Ora um, ora outro, ao vosso lado Qual deles terá sido mais fatal? Daí o que quer que seja nesse paço Que o assemelha a outro chacal. Do auriverde pendão que nos honrava, O estrelado farrapo que nos resta Já não pode cobrir a chaga negra Que este país desventura infesta. Vosso trono é um degrau de um precipício. Vosso dossel promete desabar. Deixai esta bastilha de damascos, E à luz do século vinde vos lavar. Impaciente ali o chão escarva Brônzeo corcel de glória esfomeado; Toma-lhe as rédeas, cavalgai-o; é tempo, Ele sabe o caminho do passado. Não temais o deserto, esta povoado; D. Izabel lá está, mais Napoleão. A convivência é boa, em dentro em pouco Melhor será... Prossegue a emigração... Apiada deixai aí mesmo a estátua; Ela empunha uma carta de alforria Que os desonra, que é nossa infâmia, E o povo deve e quer julgá-la um dia. Um dia há de vir, e que não tarda, Embora a corte faça um escarcéu, Ainda mesmo com a corda no pescoço, Vemos a sombra de Washington no céu. V. (Do Americano de Pernambuco) A República. Rio de Janeiro. 13 junho 1871. p. 2-3. 253 710617 Teófilo Otoni Ao Ilmo. sr. dr. Eloy Benedito Otoni Encore une pierre que tombe Du temple de la liberté. (Béranger) É tempo de chorar! e aos ventos que sacodem Atada na corrente uma águia prisioneira A mortalha mostrar dos mártires da pátria Porque dessa mortalha o povo faz bandeira! É tempo de chorar! Há muita cinza esparsa Ao pé de muita cruz erguida em descampado... Viajantes da noite, é tempo!... já se agita No seio do presente as sombras do passado!... Cubramos o semblante! ao peso vergonhoso Das bençãos oficiais o Potestal se amolga!! Cubramos o semblante... ali os túmulos se cavam pr´a o brios da nação... É o imperador que folga!... É tempo de chorar! Na pedra do sepulcro Que guarda Xavier – o protomártir santo Quero os lábios ungir, depor a minha lira E aqueles ossos nus umedecer de pranto! Quero ali desfolhar as lágrimas de um povo, Do passado evocar as múmias do heroísmo Que, como aves do mar, dali talvez espiem A luta das estrelas com a luta de um abismo! Mas... que vejo, meu Deus!... Oh prole de Abissinos Nem as cinzas poupastes ao rei da populaça?! E o futuro lavou de tanta infâmia a nodoa! Mártir! da apoteose a estátua tens na praça!... ….................................................... É tempo de chorar! Ventos da sombra Eu vos entrego minha lira rude Ao pé dos ciprestes! Levai aos povos do porvir meus cantos, Como para o céu vós sacudi as nuvens; Eu não vos peço mais!... Eu não vos peço mais... Entre as ruínas Também resvala dos clarões nascentes A pérola da luz... E Deus recolhe as lágrimas dos pobres Para plasmar constelações de estrelas Com que coroe a cruz!... Ligai a artéria e vós tereis a morte! Erguei a barreira ao ímpeto dos rios Tereis – a inundação! Contra o porvir qu´invade, erguei-vos Césares! Que a serpente do cetro estrangulando Ei-la, a revolução! (*) II Pátria! porque dorme a noite Na túnica deste céu? Sucede um canto maldito Ao grito de quem morreu! Bravo! bravo! as águias morrem Para os abutres crescerem! Para a hienas roerem Muito cadáver lá vai! Vitélio, que tendes fome, O banquete vos convida! Podeis em corpos sem vida Banquetear-vos... Folgai... N semblante do presente Mais uma ruga si afunda; A glória vai gemebunda Nos ciprestes murmurar... Porque esses prantos na terra? Diz o céu ao ma que corre... Silencio! é Otoni que morre! Deixai o povo chorar!... Silencio! é Otoni que morre! Deus apaga uma por uma As bolhas da rósea escuma Que a liberdade deixou No vasto espelho das ondas, No dorso deste Oceano Cujo manto americano Um paço negro forjou!... Oh Pátria! melhor fora Ser um túmulo o teu berço! Que do dilúvio submerso Não te viessem erguer P´ra seres pasto de vermes, P´ra se arrancar de uma boca Gargalhadas, quando louca Vias Machado morrer!... Melhor te fora que o peso Dos Andes te estrangulasse Do que ligarem-te à face Um lábio que queima e ri! Do que sobre teus cabelos Lançarem as cinzas quentes Do corpo de Tira-dentes E brandarem-te: Aplaudi! 254 Atira a noite no espaço A sua poeira de estrelas Mas quem pode desprendê-las Do tabernáculo do céu? Portugal lançou tuas cinzas, Oh Mártir! aos quatro ventos... E a glória, dos firmamentos, Uma por uma as colheu!... Se quando as sombras nos mares Se amontoa mais e mais, As vezes Deus prende um astro No manto dos temporais; A glória vendo que nos mundos Rola uma noite pesada, Desprende a c´roa estrelada Da fronte de seus heróis, E suspende uma centelha Na fronte de um seu eleito, Soprando-lhe largo no peito A chama ingente dos sóis!... E foi das cinzas de Mário Que Caio Gracho se ergueu... Das cinzas de Tira-dentes O tribuno... ele nasceu!... III Dentre os cerros que, primeiros, De chamas se coroaram, Quando os mandos se abalaram Ao grito: Revolução! Dessa Niobe da pátria, De quem uma negra vaga Roubou a prole e Gonzaga, Nas garras da traição!... Ele surgiu, grande, ousado, Na fronte um raio de luz, Único, em meio a escravos Que ia abalar uma cruz! E foi – nas asas ardentes Do ardente patriotismo Fechar a boca do abismo, Sobre ele um cetro quebrar! Que ao próprio peso do mundo Um povo não se esmigalha! Nem todo o manto é mortalha Para a América enterrar!... Silencio! Povo, de joelhos! Passa um homem, cai um rei! No marmor de vossas glórias Mais um triunfo escreverei!... Mais ao pé daquele trono Uma criança dormia... E o crepúsculo de um dia Prenunciava um arrebol... E longe, viu-se o tribuno Fito o olhar neste renovo... Olhai! é um filho do povo Que aguarda o raio do sol!... A aurora ergueu-se? mentira? Que a aurora clareia o chão... E aquelas asas sopraram O gelo da corrupção!... E do povo se arrancava Um grito que amaldiçoava A tríplice irradiação Desse lábaro incendido Que Nunes havia ungido Apertando-o no coração!... E o tribuno, que é dele? Otoni em frente do trono Mostrava ao povo a que sono Se abria os lábios do rei... Deste rei que aperta os braços O assassino de Machado; que com manto estrelado Apaga as letras da lei!... IV Depois a voz emudece... Abre-se um tum´lo... desceu!... O Brasil enxuga o pranto... E olha tristonho p´ra o céu!... …............................................ Um dia viu-se nas ruas De mão em mão carregado Um catafalco enlutado Entre gemidos passar!... Que grito é esse nos ventos? Diz o céu ao mar que corre... – Silencio! é Otoni que morre! Deixai o povo chorar!... São Paulo, Outubro de 1869. * Liez une veine, vous avez la maladie ; entravez un fleuve, vous avez l'inondation ; barrez l'avenir, vous avez les révolutions . (V. Hugo – Napoléon Le Peti) [Nota no original] Brazilio Machado. A República. Rio de Janeiro. 17 junho 1871. p. 2-3. 255 710828 Sete de setembro D. Narciza Amalia. A Luz. Rio de Janeiro. # 52, Ano I. p. 416. 710902 A Canção do trapeiro Porque será que ao governo Subindo os ambiciosos De projetos fabulosos Tem sempre cheio o caderno? – Porque um sentimento sentem Ao dolo, à fraude os instiga E como tarde os castiga, Nessa rapina da história Têm o dinheiro por glória, Tendo por pátria a barriga. Rabeca. Rio de Janeiro. 2 setembro 1871. n. 46. 256 710904 Agonia e glória A Luz. Rio de Janeiro. # 1, Ano II. p. 8. 711001 Mentira de Bronze Debalde a vil lisonja, o servilismo Busca no bronze eternizar teu nome Que o tempo só respeita e não consome A virtude, o saber, o patriotismo. Sempre credo, e falaz o despotismo Embora dos heróis o lugar tome Só ali ficará até que assume Enérgica reação, nobre civismo Do mártir Xavier a sombra errante Adejaste ameaçadora sobre a fronte Sem sossego te ondar um só instante. A vítima do algoz aí jaz de fronte! Quem sabe se em futuro não distante Nova luz brilhará neste horizonte. A República. Rio de Janeiro. 1 outubro 1871. p. 4 257 711018 A Independência do Brasil Miguel Dragueiro. D. Pedro II. Rio de Janeiro. 18 outubro. 1871. p. 3. 258 720421 Senis Brasiliensis Recordationes Libertas quæ sera tamén... Mineiro. A República. Rio de Janeiro. 21 abril 1872. p. 3. 259 720423 A Caída, e a organização do ministério atual José de Almeida Barreto Bastos. A República. Rio de Janeiro. 23 abril 1872. p. 4. 721229 Visão do Enforcado À propósito da estátua de Tiradentes Ao Dr. Bandeira Gouveia Arrojado cadáver no infinito, De suor e de glória gotejante, Vede-o – em frente das plantas de gigante Leva o enforcado o turbilhão de sóis! Rasga no espaço interjeições profundas... Lá no fundo dos céus negros se agita: Neles guardando a – irradiação bendita – Com o calcanhar divino dos heróis! E as reações dos firmamentos grandes Beijam tremendo aquele crânio imenso, Pelos cabelos da amplidão suspenso, Qual se à si Deus tirasse a este Sansão, Como se salva os afogados míseros E ele um náufrago foi da nossa História!... Mas... Olhai: – os relâmpagos da glória São os corvos do corpo de Titão!... – E esse vulto que rola aos quatro ventos, E esse grande e sublime desgrenhado Donde vem?... Das gargantas do passado? E essa corda arremessa-o... no porvir!... [ilegível] entre os grupos severos dos profetas, no clarão funeral de cem cometas, D’harpa do abismo ao colossal rugir!... Ascensão de espantar!... Trevas imensas, Vós que oporíeis ao repelão bravio, Que vos bastona perenal e frio, – Punho de bronze a martelar a luz, Com que ele amassa a eternidade póstuma; – Vinga no Olimpo que deixou deserto Seu martírio titão – na história aberto, Batendo no espaço com seus braços nus?! Belo e sacro furor!... As tempestades, Invejando-lhe os válidos arrancos, 260 Experimentam em torno de seus flancos A brilhante cintura dos trovões... E em roda os Uragans passam bradando Cheios de raios, de explosões, de gritos “Salve o rei dos tremores infinitos – – Estrelador dos grandes turbilhões!... –” E sobre eles o vulto eterno e vago Sobe... e a cada estrebucho estranho cresce! Dos véus de altura o mais extenso eis que desce Do vulto longo que a embalar-se vai... E os anjos pasmos, pouco a pouco em trevas, Julgam, por baixo do fantasma incrível, Da eternidade o eclipse impossível Tatear na sombra que sobre ele cai! Mas Ah! O vulto arrebatado, ingente, Que em seus olhares, como céu, profundos, Enfia os séculos, atravessa os mundos, No giro doido em que se cria só; Senta no vento o alongamento estranho; (Través da insânia que o circunda augusta) Da mão de Deus, por sobre a corda injusta, Que do baraço lhe desata o nó!... E esse cadáver o senhor transporta Sobre os ombros, pelo azul a dentro De idéias tuas, tabernáculo e centro, Que entre seus braços como um filho cai, Sofre afinal a operação ignota, Que a etérea flama pelo ser destila; E.. sacro bronze – transformada a argila, Das rúbias forjas – do infinito sai! E hei-lo de novo sobre a terra atônita! Mas desta vez um outro laço o prende: E a lógica de Deus que alto o suspende Sobre os destinos das nações – atual: Traz o verbo na mão; – preso aos cabelos O relâmpago audaz republicano Exteriora essa tua... – o Gênio Humano. E – o futuro... o seu bronze pedestal!... Angelo Carrara. A República. Rio de Janeiro. 29 dezembro 1872. p. 3. 261 730130 Canalha! (A palavra do Império) 262 Américo Petroleiro. A República. Rio de Janeiro. 30 janeiro 1873. p. 4. 730327 O Brasil I Meu Brasil, os teus encantos, Tuas glórias vou cantar; A estranhos vou desdobrar Os teus maiores paramentos; Vou cantar tua grandeza, Deslindar os teus brasões, Como um exemplo às nações Ergo teu manto de arminhos! O rio da Grécia e da Itália Não é mais paro e formoso Do que o teu, jardim mimoso, Teu clima intertropical; O teu sol altivo resplendido O teu luar tão poeta! Ó minha terra dileta Não tens no mundo rival! O teu céu tem mais estrelas, Os teus prados têm mais flores, Tuas filhas mais primores E mais amores também! São mais doces teus frutos, Teus arvoredos frondentes, Teus caudais rios mais potentes Que muitos mares d’além! Os teus pássaros mais canoros Que os de todo o mundo são! Tem mais suave expressão Tem mais tristeza e harmonia O seu cantar mavioso! 263 A patativa mimosa, E o jandai amorosa, E o sabiá, que poesia! Dei, minha terra, um esboço Do quanto tu és gentil; Não pintor, bem Brasil Para melhor te pintar; Por isso deixo em relevo Teus dotes mais mimosos E vou cantar os famosos Triunfos teus vou cantar. II Minha pátria, a tua história Já de há muito está escrita, A tua grandeza é vista Mas vamo-la nós recordar; Exumar teu passado Tuas ações façanhosas, Teus feitos d’armas valorosas Tuas glórias memorar! Os holandeses outr’ora Sentiam o teu poder; Tu os soubeste vencer No Pernambuco gentil; E que o digam as muralhas Das fortalezas aluídas Onde milhares de vidas Sacrificaste, Brasil! Diga-o a sombra valente De Maurício de Nassau, De Adrien Patrick a nau, De Giesselin e de Schoppe; Digam-no as hostes guerreiras Batidas, rotas, vencidas, Aquelas hostes aguerridas Que se abateram de golpe! Os fortins da Paraíba, Da Bahia as fortalezas De todo o teu norte as devesas E os castelos derrocados Qu’inda em seus muros de pedra Mesmo arruinados, derruídos Lembram-te os louros colhidos Por teus valentes soldados! Diga-o Mathias d’Albuquerque, André Vidal, Camarão, Azevedo o capitão, João Fernandes Vieira, E o heroico Rebelinho Que proezas que fizeram, As palmas que então colheram Para a terra brasileira! III Nas campinas do Pará, Nos campos de Tucuju Os Brasileiros a sós Com seu Noronha guerreiro Combateram os ingleses, Os britânicos orgulhosos, Morderam terra, raivosos, Aos golpes do Brasileiro! E mais, Brasil,... combatia Nas várzeas do Macapá Os franceses a quem já Tínhamos vencido uma vez! E os descendentes de Cid, Os espanhóis arrogantes Os teus indígenas pujantes Os levaram de revés! Ai! durante longos anos Minha terra bem amada, Foste da Europa invejada E batalhou ela em vão! Tu terias de ser livre E no dia, rica rainha, E por isso, à pátria minha, Venceste a sua ambição! Por mais poderosa que seja Do mundo qualquer nação Tem sentido a tua ação, Sendo banida daqui! Sempre que intenta lesar-te Ou alguma afronta fazer-te Pois em vão tenta vencer-te Fica vencida por ti! Ai! meu Brasil, tua história É tão nobre e grandiosa Que a minha harpa ferrujosa Não os pode decantar! Mas, Brasil, deixa qu’eu cante Tuas glórias mais modernas; Tuas lides hodiernas; Teus perfumes, teus amores; Deixa que o poeta mesquinho Lembre à Europa vaidosa Que és tu, minha garbosa Sultana por entre as flores! IV Um dia no Universo Te sentiste despertar E a nova vida pulsar Por todo o teu sul e norte; Na campinas do Ipiranga 264 Te ergueste independente Proclamando ativamente Ou – independência ou morte! Ó terra de liberdade Do valor e da poesia Hás de vir a ser um dia A primeira das nações! Hás de também, como a França, Como a Rússia poderosa, Ser a balança famosa Das políticas dissensões! Como tu amas ser livre Tira-Dentes no-lo diz; E Gonzaga o vale infeliz; Silva Alvarenga e Peixoto, E ainda muito vulto nobre, Muita sombra do passado, Muito poeta soldado De tempo mui remoto! Diz também a sombra augusta De um Bonifácio Andrada, E a cabeça ilustrada De um Visconde de Cairu, De Evaristo Veiga e outros, Vidas que apregoa a fama, José Basílio da Gama Durão e – Caramuru! Não és só terra das musas, Nem jardim de olentes flores, Teus heróis, teus defensores Meu Brasil independente! No teu céu há mais estrelas Que no azul céu da Itália Mais poetas que a Castália Nação audaz e valente! Teu valor se acha escrito No passo do Tonelero, Que o valente brasileiro Ousado soube transpor! E mais a mais demonstrando Lá está em Monte-Caseros Aonde teus cavaleiros Vingaram teu pundonor! Lá está no Rio da Prata, Nos mares de Paiçandu, Em Curupaiti – Curusú Em Riachuelo eternal; Proclamam-o Cuevas, Mercedes, Tuiuti, tudo esclarece, e, O Brasil se enobrece Com sua história imortal! Dizem-no as turbas valentes Do Lopes do Paraguai! E agora, Europa, ousai Ofender nossa altivez! Ver-te-has de novo vencida, Derrotada ante a coragem Do Brasil, cuja passagem Sentiu Solano Lopes ! Os teus guerreiros preclaros, As tuas filhas formosas, Tuas províncias garbosas Mostram bem teu existir! És a vergôntea orgulhosa Da grande latina gente E chamada nobremente A ter brilhante porvir! Acorda, Gonçalves Dias, Desperta, Álvares de Azevedo, Quebra o tumulo do lajedo Ó Casimiro de Abreu, Ressuscita, Mont’Alverne, E todos vós juntos n’um poema Reis da lira co’um diadema Vinde c’roar novo Anteu! Oh! pátria, não, mais não posso! A minha tuba é mesquinha Para cantar-te, rainha, Como te mereces ser; Basta que este hino termine Resumo tua história, Arquivando esta outra glória, – Humaitá – vens de vencer!... Niterói – Março – 1868 J. O Brasil. Rio de Janeiro. 27 março 1873. 265 730415 Aos monarquistas3 Qual formosa casta virgem Lá dos espaços azuis; E qual meteoro ingente, Que clarões derrama a luz; Assim surge a Liberdade, Sublimada divindade, Irmã da fraternidade, Nos santos abraços da cruz. E qual tufão fugitivo, Ao longe, fraco a bramir; E qual colosso d’argila Em pedaços a cair; Assim tomba a tirania Do remorso n’agonia, Inerte, pesada e fria, Ante as glórias do porvir... Lede, vós outros tão cegos, As páginas que já vão: Quanto sangue derramado; Que nefanda corrupção! Aqui o plebeu gemendo A fome, o frio sofrendo; Ali, – um nobre bebendo Das orgias no salão!... Acolá – o rei altivo Julgando-se Jeová, A flutuar sobre os homens No vale de Josafá, Abre do estado o tesouro, Recompensa o vício em ouro; Porém, castigo, desdouro, Só aos bons costumes dá!!... Mas além, – os jesuítas Fratricidas e sandeus Lançam nas piras, malditos, Os filhos dos prometeus! Por toda a parte – clamores Em todo o peito só dores, E tantos, tantos horrores Em nome de um terno deus! Ah! Que passado tristonho Que a realeza nos traz; Mais sombrio do que a morte, Mais infeliz, mais falaz... E ainda existe no mundo Quem dedique amor profundo A esse monstro oriundo Da mente de Satanás!... Mas eu vejo no calvário Um grande foco de luz Eu vejo brotarem flores Sobre a lama dos pares Eu vejo o povo contente Seguir a senda esplendente Que só o seio do Onipotente A Liberdade conduz. Liberdade! Oh! Liberdade! Filha querida do céu! Como te adoro pousada Nas grimpas desse escarcéu! Como és bela, oh! Potestade, Resguardando a humanidade Ao longo da eternidade Com teu alvo e divino véu! 1873. Antonio Rosa da Costa. Revista Acadêmica. Rio de Janeiro. 15 abril 1873. p. 61-64. 730518 Piparotes / Grande questão do dia Não quer eleição direta Nosso rei e com razão Pois sua derrota é certa Triunfando a ilustração: Portanto fique indireta Continue a ser mandão. A República. Rio de Janeiro. 18 maio 1873. p. 3. 3 Republicado n'A República com o título de “A liberdade”, na edição do dia 6 de maio de 1873, páginas 3-4; e republicado com o mesmo título n' O Brado Nacional, na edição de 16 de junho de 1873, página 4. 266 730630 O Povo Passagem ao astro valente Que na América surgiu! – Oceano – banhando a terra Onde a pantera dormiu. Nas cordilheiras sombrias, De envolta nas penedias Que vão o espaço ferir – eis desperta a tribo ousada Firma na glória passada – – ressurgindo no provir. Salve!... Do antro das serras Em cada pedra a rolar A vanguarda dos valentes Salta ao grupo popular. Penhascos rolando aos mares Lanças partidas nos ares... Incêndio varando os céus!... – [ilegível] de abismos beira, Embrulhados nas bandeiras Que era o paládio dos seus. Trema – estúpida bastilha De mandões descomunais! Diante da bíblia do povo Curvam-se altares reais! – Não!... O genovês ardente Alçando o pendão virente Às plantas de escravos reis, Hoje, negava o batismo À terra do despotismo Escorado pelas leis. Não!... As solidões postadas Do continente – a brotar O cedro da liberdade Vai ao infinito roçar! E o algoz de um povo que é bravo, – Carrasco... pálido, escravo... Vacila... curva o cerviz. É o coveiro maldito Dançando ao som do delito Sobre a ossada do – país! Passagem à terra dos livres Que vem salvar a nação! São os caboclos tostados Pelos sóis de Camarão. Dessas frontes no cansaço, Cintila o eterno mormaço Da história aberta, dos seus... Passagem!... É o povo que surge É o mar bravio que ruge Solto dos freios de Deus. Liberdade! Luz! Progresso! Brada a turba do Stentor – Liberdade – rasga a terra, Abre as asas do condor – Gigante – da raça pampa, C’os pés firmados na campa Despedaça o mausoléu!... – Agripa – da inteligência, C’o as mãos à cada existência Levanta um templo no céu. Lá se espedaça a cadeia Em que agoniza a nação! Estala a cruz do martírio Solta o escravo da opressão! Abrem-se as lousas sombrias E as cariátides frias Eng (sic) incidam-se de luz É Tiradentes que acorda Repelindo a infame horda C’o a força dos braços nus. E mais além... Dentre as cinzas – de Andrada o busto imortal. E Cláudio, rasgando as nuvens Sobre brônzeo pedestal! E amanhã quando o futuro O fruto colher maduro Na seara dos fiéis Achará de (sic) envolto ao fundo Uma cruz salvando o mundo – E um grilhão quebrado aos pés. Pelotas. Lobo da Costa. A República. Rio de Janeiro. 30 junho-1 julho 1873. p. 3. 267 730703 Ao Sete de Setembro Américo Vespucio. A Luz. Rio de Janeiro. Ano II. p. 344. 268 730716 [Sem título]4 J. J. da Nobrega. A República. Rio de Janeiro. 16 julho 1873. p. 3. 4 Nota que antecede o poema: “Um nobre e prestante amigo e correligionário enviou-nos a poesia patriótica, que inserimos em seguida. É um nobre e patriótico coração que assim expanda sobre a pátria.” 269 730717 Os dois prisioneiros5 (A Joaquim Nabuco) Luiz Guimarães Junior. A República. Rio de Janeiro. 17 jul. 1873. p. 3-4. 730731 À província de S. Paulo És formosa Gironda Rediviva nestes dias Tendo nos lábios o flúmen Das Sagradas profecias; No coração incendido É-se poema dolorido Dos martírios do passado, Das opressões do presente, E o grito enorme – pungente De um povo inteiro prostrado! Berço mater do heroísmo Qu´embalou a liberdade! Serás também a primeira A fulgir na imensidade; Que os meteoros erguidos Mostram sempre aos oprimidos Os trilhos da salvação; E é noite longa e sombria Esta fatal agonia Que pesa sobre a Nação! Ligados aos dois abutres Dois poderes infernais Nas trevas consorciados Erguem-se as frontes fatais 5 Apresentação que antecede o poema: “Como prenúncio da sua próxima chegada às plagas natais, onde deve aportar em breve, a bordo do Galícia, o festejado e mimoso poeta Luiz Guimarães Júnior manda-nos como ecos da sua alma entristecida pelas saudades da pátria, os delicados versos que em seguida publicamos. Luiz Guimarães, ainda na flor dos anos, conquistou já um posto glorioso na literatura nacional e apesar de se haver internado pelas sombras da diplomacia e achar-se no Chile tão perto dos gelos eternos o poeta revela que nem os protocolos, nem os gelos dos Andes conseguiram enregelar a sua musa ou abafar as nobres aspirações do seu espírito alta e graciosamente literário.” 270 – A coroa e o jesuíta Com sua raça maldita; Este acendendo as fogueiras Aquele abrindo o sudário Onde está nosso Calvário; Estas são suas bandeiras! Reverdece uma esperança Um lampejo purpurino Um canto de luz celeste, Um bafo de peregrino. – É o verbo santo, infinito Que solta o povo proscrito: A República, meu Deus! Essa irmã da caridade! Da meiga fraternidade Que não se esquece dos seus. E tu S. Paulo, iluminas De rastros d´ouro o caminho, És sempre o mártir ardente, Sem manto, sem ter arminho, – És o Apóstolo hebreu Gigante qual Briareu, Voas, propagas, transmites As doutrinas de Jesus Que à República conduz, Sem nunca teres limites. Tuas razões são imensas E voas nas amplidões; Nem os ventos da procela Produzem-te comoções; Tens a palavra – o exemplo Emanados de teu Templo, Ensinas o que é civismo, Guias o povo abatido, Sequestrado, perseguido, Combates do Cesarismo. É tempo das energias Das Ilíadas dos brios É temo da redenção Dos ergástulos sombrios; O povo quer luz, quer vida Tens a voz esmorecida, Mas será logo trovão No meio da tempestade Ao ruir da majestade Nas crateras do vulcão! Sejamos os Girondinos Neste berço de heróis; – Essas lavas do Ipiranga Hão de ser nossos faróis, Hão de ser; que o novo dia Precipita a monarquia, E o Brasil ressurgirá Desta medonha estação; Emancipada a Nação A República virá. J. A. De Barros Júnior. A República. Rio de Janeiro. 31 julho 1873. p. 3. 271 730817 Epigrama Basilio d'Almeida. D. Pedro V. Rio de Janeiro. 17 agosto 1873. p. 4. 272 730907 À Tiradentes Narciza Amalia. A República. Rio de Janeiro. 7 setembro 1873. p. 1. 730907 Sete de Setembro Brasil, exulta ao menos seus filhos Que em sangue não mancharam teu batismo! Ergueu-se a mão de Deus sob o Ipiranga Quando o esteio aluiu do despotismo! Intacta conserva a nobre herança! Do amor da pátria que enobrece as almas; Que nunca o pranto vil de olhos escravos Deste dia imortal te manche as palmas! Felix da Costa. Folhetim da República. A República. Rio de Janeiro. 7 setembro 1873. p. 1. 273 731004 O Tiradentes Oferecida aos redatores da “República” Propugnadores de uma causa santa, Leia, indulgentes essa minha história; Sou um desconhecido, um exilado, Sem proteção, sem título, sem glória. Em poucas linhas, n´um resumo quero Narrar do inconfidente o nobre fato; Mostrar eu quero ao povo, ao mundo inteiro À quanta injustiça o homem está sujeito. O Tiradentes, esse herói mineiro, Cuja fama [ilegível] hoje s'intenta, Amou da [ilegível] pátria a liberdade, E dela foi vítima sangrenta. Invejando d'América6 o sistema, Que [ilegível] povo no governo, Assim também [ilegível], Dar essa lei do [ilegível] moderno. Mas seu [ilegível]sublime intento! [ilegível] [ilegível] O [ilegível] atentado não s' exprime. Quando a grande nação7 do velho mundo O [ilegível] E [ilegível] aqui o Tiradentes Com o [ilegível], e o mais cruel cinismo. [ilegível] os costumes ali surgem Os assassinos escritores Que [ilegível] puder manchar pretendem Do ilustre [ilegível] ínclitos labores. Ao poder absoluto, à monarquia, Aquele que [ilegível] épicos cantos, [ilegível] no com horror, com vilania. Ó mau filho rebelde que renega [ilegível] amigos pelo mundo, Tão nobre ação no bronze [ilegível] descrita! E [ilegível] verso foi-se decantando. Mas o bronze, falaz mentira erguido Em memória d'um filho grandioso Não pertence ao herói que comemora 6 Estados unidos [Nota no original]. 7 A França, primeira potência da Europa [Nota no original]. 274 – Pertence ao grande [ilegível]d'um crime honroso. – Aquele que nos rouba a liberdade [ilegível] Aquele que pretende libertar-nos É morto, tão vilmente esquartejado. Um dia!... tenho fé, tenho essa crença!... O povo vingador fará justiça! A dos vis mercenários!... n'esse dia Compensada será muita injustiça. Então meu Deus!... impérios, reis e tudo Se precipitará no negro abismo; Formosa surgirá – a liberdade, Atirando p'ra longe o monarquismo. Livres uma nova era se levanta!... Povo de cidadãos fraternizados, Debaixo dos preceitos da igualdade Da pátria cuidaremos dedicados. Rio Preto, 7 de setembro de 1873. P. C. A República. Rio de Janeiro. 4 outubro 1873. p. 4. 740119 Extorsão / Falta d´água Ora pois, nada mais resta; Está clara a situação... O Pedro ilumina a festa Do Santo Sebastião. Corre água em borbotão!!! Lá no Paço de Bragança; Mas nós cá, o cidadão: D' esta pinga não alcança. Do fisco a voraz cobrança, A chuchar nosso dinheiro; Não esquece, não descansa; De [ilegível] o brasileiro. O nosso rei que é cavalheiro, E d' imensa nomeada! Vai mandar seu conselheiro Nos dar já água comprada(sic). [Ilegível] .A República. Rio de Janeiro. 19-20 janeiro 1874. p. 3. 740430 À Memória de Pedro Ivo Um monumento se alevanta ousado Que afronte os Evos que campeie altivo! Uma coluna ao bravo Pedro Ivo, Nobre Guerreiro, Popular soldado! Avulte, avulte o bronze agigantado, Surge do herói o busto redivivo! E ainda ameaçador, imperativo, Zombe do vil tirano desalmado! Sil, em despeito de seu negro plano, No forte pedestal este eloqüente Letreiro grave o Povo alegre e ufano; O patriota, o campeão potente, Ei-lo aqui! Soube ser pernambucano, A sua terra amou, e a sua Senda! Lábaro Acadêmico. Rio de Janeiro. 30 abril 1874. p. 4. 275 740530 Revolução Seis de Março 276 277 Labaro Academico. Rio de Janeiro. 30 maio 1874. p. 4. 278 740630 Revolução C. R. J. Labaro Academico. Rio de Janeiro. 30 junho 1874. p. 4. 279 740801 Terribilis nox! 280 281 282 J. E. Teixeira de Souza. A Idea. Rio de Janeiro. 1 agosto 1874. p. 29-31. 283 740815 Tira-Dentes A Aprígio de Meneses 284 R. de O. e S. Labaro Academico. Rio de Janeiro. 15 agosto 1874. p. 4. 285 740820 O Brasil e o Imperador Dr. Hamvutando de Oliveira. D. Pedro II. Rio de Janeiro. 20 agosto. 1874. p. 3. 286 740901 Corruptum Genus A J. E. Teixeira de Souza Vicente de Souza. A Idea. Rio de Janeiro. 1 setembro 1874. p. 45. 287 740901 Sete de setembro F. A. Ferreira da Luz. A Idea. Rio de Janeiro. 1 setembro 1874. p. 45. 288 740915 Sete de setembro [1874] A Gustavo Fontoura 289 T. Tupv. Labaro Academico. Rio de Janeiro. 15 setembro 1874. p. 4. 290 750808 Moralidade O Globo. Rio de Janeiro. 8 ago. 1875. p. 3. 291 750820 República Mariano de Oliveira. Brazil Americano. Rio de Janeiro. 20 agosto 1875. p. 4. 292 750901 Farsa sobre farsa Julho de 1875. J. E. Teixeira de Souza. A Idea. Rio de Janeiro. 1 setembro 1875. p. 82. 293 750907 Sete de setembro E. N. P. O Globo. Rio de Janeiro. 7 set. 1875. p. 3. 294 750924 Sete de setembro J. Ferreira Villela. O Globo. Rio de Janeiro. 24 set. 1875. p. 2. 295 750925 Anistia / Puff8 Cagliostro. O Globo. Rio de Janeiro. 25 setembro 1875. p. 3. 8 Não localizamos a sequência do poema. 296 751021 Cartas / de João Simplício à sua tia de Xiririca O Lazarista. Rio de Janeiro. 21 Outubro 1875. p. 4. 297 751024 Ao corpo escolástico F.: Mali.: O Lazarista. Rio de Janeiro. 24 Outubro. 1875. p. 4. 298 751024 Cartas / de João Simplício à sua tia de Xiririca O Lazarista. Rio de Janeiro. 24 Outubro 1875. p. 4. 751028 Quem sou eu? Quem sou eu? que importa quem? Sou um trovador proscrito, Que trago na fronte escrito Esta palavra – Ninguém! – A. E. Zaluar – Dores e Flores. Amo o pobre, deixo o rico, Vivo como o Tico-tico; Não me envolvo em torvelinho, Vivo só no meu cantinho: Da grandeza sempre longe, Como vive o pobre monge. Tenho mui poucos amigos, Porém, bons, que são antigos, Fujo sempre à hipocrisia, À sandice, à fidalguia; Das manadas de Barões? Anjo Bento, antes trovões. Faço versos, não sou vate, Digo muito disparate, Mas só rendo obediência À virtude, à inteligência: Eis aqui o Getulino Que no pletro anda mofino. Sei que é louco e que é pateta Quem se mete a ser poeta; Que no século das luzes, Os birbantes mais lapuzes, 299 Compram negros e comendas, Têm brasões, não – das Calendas, E, com tretas e com furtos Vão subindo a passos curtos; Fazem grossa pepineira, Só pela arte do Vieira, E com jeito e proteções, Galgam altas posições! Mas eu sempre vigiando Nessa súcia vou malhando De tratantes, bem ou mal Com semblante festival. Dou de rijo no pedante De pílulas fabricante, Que blasona arte divina, Com sulfatos de quinina, Trabuzanas, xaropadas, E mil outras patacoadas, Que, sem pinga de rubor, Diz a todos, que é DOUTOR! Não tolero o magistrado, Que do brio descuidado, Vende a lei, trai a justiça – Faz a todos injustiça – Com rigor deprime o pobre Presta abrigo ao rico, ao nobre, E só acha horrendo crime No mendigo, que deprime. – Neste dou com dupla força, Té que a manha perca ou torça. Fujo às léguas do lojista, Do beato e do sacrista Crocodilos disfarçados, Que se fazem muito honrados, Mas que, tendo ocasião, São mais feroz que o Leão. Fujo ao cego, lisonjeiro, Que, qual ramo de salgueiro, Maleável, sem firmeza, Vive à lei da natureza; Que, conforme sopra o vento, Dá mil voltas num momento. O que sou, e como penso, Aqui vai com todo o senso, Posto que já veja irados Muitos lorpas enfunados, Vomitando maldições, Contra as minhas reflexões. Eu bem sei que sou qual grilo De maçante e mau estilo; E que os homens poderosos Desta arenga receosos Hão de chamar-me – tarelo, Bode, negro, Mongibelo; Porém eu que não me abalo, Vou tangendo o meu badalo Com repique impertinente, Pondo a trote muita gente. Se negro sou, ou sou bode Pouco importa. O que isto pode? Bodes há de toda a casta, Pois que a espécie é muito vasta. Há cinzentos, há rajados, Baios, pampas e malhados, Bodes negros, bodes brancos, E, sejamos todos francos, Uns plebeus, e outros nobres, Bodes ricos, bodes pobres, Bodes sábios, importantes, E também alguns tratantes Aqui, nesta boa terra Marram todos, tudo berra; Nobres Condes e Duquesas, Ricas Damas e Marquesas, Deputados, senadores, Gentis-homens, veadores; Belas Damas emproadas, De nobreza empantufadas; Repimpados principotes, Orgulhosos fidalgotes, Frades, Bispos, Cardeais, Fanfarrões imperiais, Gentes pobres, nobres gentes Em todos há meus parentes. Entre a brava militança Fulge e brilha alta bodança; Guardas, Cabos, Furriéis, Brigadeiros, Coronéis, Destemidos Marechais, Rutilantes Generais, Capitães-de-mar-e-guerra, – Tudo marra, tudo berra – Na suprema eternidade, Onde habita a Divindade, Bodes há santificados, Que por nós são adorados. Entre o coro dos Anjinhos Também há muitos bodinhos. O amante de Siringa Tinha pelo e má catinga; O deus Midas, pelas contas, Na cabeça tinha pontas; Jove quando foi menino, Chupitou leite caprino; 300 E, segundo o antigo mito, Também Fauno foi cabrito. Nos domínios de Plutão, Guarda um bode o Alcorão; Nos lundus e nas modinhas São cantadas as bodinhas: Pois se todos têm rabicho, Para que tanto capricho? Haja paz, haja alegria, Folgue e brinque a bodaria; Cesse pois a matinada, Porque tudo é bodarrada! Getulino. O Lazarista. Rio de Janeiro. 28 Outubro. 1875. p. 3-4. 751128 Viva a moralidade O mestre alfaiate. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 28 novembro 1875. p. 4. 301 760111 As derrubadas de El-rei Escavações poéticas para instrução do povo (Período de 1868 a 1876.) L. Alves de Lima. A Bibliotheca dos Bonds. Rio de Janeiro. 11 janeiro. 1876. p. 3-5. 302 760907 Ao dia aniversário da Independência do Brasil Dr. J. C. Magalhães. O Globo. Rio de Janeiro. 7 setembro 1876. p. 1. 303 770131 A canalha Aos operários Octaviano Hudson. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 31 janeiro 1877. p. 3. 304 770204 Barra Mansa Um senhor que vale dez Que tem grande erudição Queira ao menos por um mês Suspender a amolação. Não rouba tempo aos meninos, Que precisa de instrução; Faça pausa nos seus hinos, Pare um pouco de amolação. Já se sabe que o senhor Pelos versos tem paixão, Mas, amigo… por favor Pare um pouco a amolação. Faça versos, mas por ora Não lhes dê publicação; Poupe a gente, poupe a aurora, Pare um pouco a amolação, Se escrever, use de traje Que lhe empresta a inspiração, Largue as vestes de Bocage, Pare um pouco a amolação. Disse um bobo a reparar N’uma sua produção: Toca a ler, toca a agüentar A tremenda amolação. O Globo. 4 fevereiro 1877. p. 3. 770406 [Sem título] O juiz que tem pancada Larga a vara vai-se embora Não é coisa imaginada, Pois existe na verdade, Para nossa infelicidade, Um juiz que tem pancada. De raça degenerada, É feio visto por fora, A bolsa já tem sonora, Mas não deixando d'errar, P'ra algum castigo evitar. Largue a vara vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 6 abril 1877. p. 3. 770408 [Sem título]9 Mote O juiz que tem pancada Larga a vara, vai-se embora Que sentença mal lavrada Com erros e entrelinhados Imitou o mal das vinhas O juiz que tem pancada. Mas foi logo reformada! A relação de agora, Já não é como de outr'ora, Sabe punir com rigor, E se o juiz tem pudor, Largue a vara, vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 8 abril 1877. p. 1. 770409 [Sem título] Mote O juiz que tem pancada Larga a vara, vai-se embora Glosa Teve uma herança estimada, Do finado Mal das Vinhas, Não depressa essas coisinhas, O juiz que tem pancada. Tal deixa tão calculada, A sorte lhe não piora, Antes o estilo melhora; Mas não querendo o legado, Do seu colega chorado, Largue a vara, vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 9 abril 1877. p. 3. 9 “Errata. – O 2º verso da 1ª quadra da décima publicada no domingo 8, leia-se entrelinhas por entrelinhados.” (Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 10 abril 1877. p. 2.) 305 770410 Mote O juiz que tem pancada Larga a vara, vai-se embora Já é muita catanada Oh! meu caro Redator Mande à missa por favor O juiz que tem pancada, Ele de bom não tem nada, Mas o que fazer agora? Com versos não se melhora. Antes pedir ao governo Que diga a esse estafermo Largue a vara, vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 10 abril 1877. p. 2. 770412 [Sem título] O juiz que tem pancada Larga a vara, vai-se embora Basta já de versalhada, Pois é muita crueldade Já merece piedade, O juiz que tem pancada. Que sentença malfada, DE desgostos causadora, De tantos males autora. Viva o juiz muito aflito, E para não ter conflito, Largue a vara, vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 12 abril 1877. p. 3. 770414 [Sem título] Mote O juiz que tem pancada Larga a vara, vai-se embora Glosa Que demônio de estralada, Todo dia a se falar Que não pode bem julgar O juiz que tem pancada! Senhor governo, é já amassada. Veja se ao povo melhor A sorte que tem agora, Diga a esse estroinha (sic): “Amigo, se tem vergonha, Largue a vara, vai-se embora.” Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 14 abril 1877. p. 3. 770415 [Sem título] Mote O juiz que tem pancada Larga a vara, vai-se embora Glosa Podem dizer que é maçada, Que com isso nada sinto, Pois não há? Digam que minto!!! O juiz que tem pancada? Que diz à rapaziadada (sic), Se lá no fórum há hora, Em que esse lord'espera, Não pratique coisa que Force a se lhe dizer você Largue a vara, vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 15 abril 1877. p. 2. 770417 [Sem título] O juiz que tem pancada Larga a vara, vai-se embora. Tanta asneira e assuada Se faz a um magistrado Pelo povo apelidado O juiz que tem pancada Por dar só sentença errada, É já muito, passa fora, A justiça é tal senhora, Que precisa de amparo, Juiz que no acertar é raro, Largue a vara, vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 17 abril 1877. p. 3. 306 770418 [Sem título] “O juiz que tem pancada “Larga a vara, vai-se embora.” Fofo, de louca vaidade, Da vista curta, espantada, É grande calamidade “O juiz que tem pancada.” Triste horda excomungada O rico, o pobre a deplora! Que me contestem agora; Quem julga sem reflexão Não é magistrado, não; “Largue a vara, vai-se embora” Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 18 abril 1877. p. 3. 770420 [Sem título] O juiz que tem pancada Larga a vara, vai-se embora. Qual enfermo, que gemendo, Leva existência arrastada, Demente, julga tremendo, O juiz que tem pancada. Respiração abafada, Falando como quem chora, Grosseiro, sempre zangado; Mal dizendo a toda hora, Se não for mui descaçado, Largue a vara, vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 20 abril 1877. p. 3. 770421 Devaneio Com mil bombas! Farei versos d'arrombas! Ao amigo ex-bombeiro Em estilo galhofeiro Mote “O juiz que tem pancada Larga a vara e vai-se embora” Glosa Quem faz matinada Na Gazeta que o tolera? – É um mísero patacoada Que à probidade faz guerra! E, em linguagem que revela Ser pilhado na tratada Que o vendelhão deu-lhe querela; Por isso é que se esgoela, E chama a pessoa ilustrada: “O juiz que tem pancada.” Oh! que garoto oh! que ratão, É o tal marvote (sic) sanhudo!... O mascarado do entrudo... Condecorado charlatão. Dom Quixote paspalhão, Que tira partido em tudo; A guisa de bom farsola Velhaqueia e faz estudo E diz ao juiz sisudo: “Largue a vara, vai-se embora.” O sabre de meu pai. O Globo. Rio de Janeiro. 21 abril 1877. p. 3. 770421 [Sem título] O juiz que tem pancada Larga a vara e vai-se embora. Amarga a dor da saudade, Traz nossa alma atribulada; Fúria requinta em maldade, O juiz que tem pancada. Tem a bola transtornada Tudo que faz empiora, Mau juiz sem instrução, Impossível se melhora Errando sempre a lição, Largue a vara e vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 21 abril 1877. p. 3. 307 770422 [Sem título] O juiz que tem pancada Larga a vara, vai-se embora. S. Bento deu badaladas, E S. José respondeu Misericórdia! morreu O juiz que tem pancada. Assim ontem se dizia. Mas na praça da Harmonia, Um vendelhão diz: Melhora; O que corre tão somente, É que o juiz está demente, Largue a vara vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 22 abril 1877. p. 2. 770423 [Sem título 1] O juiz que tem pancada Larga a vara, vai-se embora. Dos tempos fatais que correm Tudo vai por caçoada, Só há quem diga: é maçada “O juiz que tem pancada. Se um gemido acaso ouve Que, súplice, a moral implora, Caso grave e muito sério, Diz-se logo que é graçola. Não se ouve como outr'ora Dizer ao juiz que amola “Largue a vara, vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 23 abril 1877. p. 3. 770423 [Sem título 2] O juiz que tem pancada Larga a vara, vá-se embora. P'ra circunscrever o fogo Nunca jamais poupei nada, Circunscrevemos também O juiz que tem pancada. Nas suas mãos a justiça Quem a conhece? não mora! Faça como fiz c'o fogo: Largue a vara, vá-se embora. A crioula. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 23 abril 1877. p. 3. 770424 [Sem título] O juiz que tem pancada Larga a vara vai-se embora Tem a cara deslavada Olha a gente como boi Mostra sempre o que é e foi O juiz que tem pancada! Com a mente desvairada Se alguém justiça lhe implora Escarnece, quase chora Manda o coitado sair Em vez de deferir Largue a vara vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 24 abril 1877. p. 3. 770425 [Sem título] O juiz que tem pancada Larga a vara vai-se embora. Há já muita barulhada, No Farani e nos cartórios; Dá causa a tais falatórios, O juiz que tem pancada. Ao Sr. ministro se implora, Que por sua clemência Atenda a que tem demência, Juiz, senhor, que só erra, Cala a boca, sobe a serra, Largue a vara vai-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 25 abril 1877. p. 3. 308 770426 [Sem título] Mote O juiz que tem pancada Larga a vara, vá-se embora Glosa Ó que lei tão malfadada!! A tal chamada da entrância; Faz com que crie arrogância O juiz que tem pancada; Se não fosse essa danada Lei que ainda vigora Não estav'ele até agora Agarrado na cadeira; Não faça, senhor, mais asneira!... Largue a vara, vá-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 26 abril 1877. p. 3. 770427 Devaneio Sem trovoada sem raio Fulminarei o ex-bombeiro... Farei versos ao lacaio Sempre em estilo galhofeiro. Mote O juiz que tem pancada Larga a vara e vai-se embora. Glosa Um biltre de tal ralé... Que tem divisas, tem farda! Eu juro com firme fé; Que a palmatória, ou chicote Ficará pago no mote: O juiz que tem pancada. Eu vou rimando sextilhas; Calco bem a minha espora... Cinjo-te, a albarda, aperto as silhas, Enquanto tu dizes oh! farroupilhas, Ao juiz a quem jamais senão desdara (sic): Largue a vara e vai-se embora. O chanfalho de meu pai. A Reforma. Rio de Janeiro. 27 abril 1877. p. 3. 770427 Juiz que tem pancada, Largue a vara, vá-se embora! É canalha descarada, Quem ergue a voz descontente, Para alcunhar insolente O juiz que tem pancada! Se o juiz não fizesse nada A quadrilha assoladora, À corja que em tão má hora Lhe caiu sobre pressão; Não venham dizer-lhe não, Largue a vara vá-se embora! O Globo. Rio de Janeiro. 27 abril 1877. p. 3. 770427 [Sem título] O juiz que tem pancada Larga a vara e vá-se embora. A época é já passada; Em que só por ser morgado Eleva-se a magistrado, Um juiz que tem pancada Se a constituição vale nada Se ela já não vigora, Acaba-se com tal senhora A estroina que se aguente, Embora lhe diga agente Largue a vara vá-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 27 abril 1877. p. 3. 309 770428 Juiz que tem pancada, Largue a vara e vai-se embora! Forte cáfila danada! Chamará um juiz ilustrado, Por não lhe ser afeiçoado, O juiz que tem pancada! Terra infeliz, desgraçada, Em que se escuta caipora, Bradar um sujeito podre Que d’orgulho é mesmo um odre Largue a vara vá-se embora! O Globo. Rio de Janeiro. 28 abril 1877. p. 3. 770428 [Sem título] Mote O juiz que tem pancada Larga a vara, vá-se embora. Glosa Não está má a caçoada Deveras, eu gosto d'ela Meteu-se em boa barrela O juiz que tem pancada. Acabem com essa maçada Não tenham pejo, vergonha, Digam a essa pamonha O que ninguém disse até agora: “Vá plantar na roça abóboras Largue a vara, vá-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 28 abril 1877. p. 3. 770429 O juiz que tem pancada Lutar com as ondas do mar, Sentir sede, sofrer fome, Nada d'isto me consome, Nem me faz desesperar Quero alegre suportar, De sarnas, grande camada; Quero ter alma magoada, E até vida de monge, Mas mande Deus p'ra bem longe O juiz que tem pancada. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 29 abril 1877. p. 2. 770429 [Sem título] O juiz que tem pancada Larga a vara, vá-se embora. Glosa A quadrilha em debandada Que do foro a vida suga, Chama o juiz que os pôs em fuga, O juiz que tem pancada. Mal segura, apavorada, Essa malta sai à espora Vendo o estado que melhora Das nossas leis e justiça; E contra o juiz grita a liça Largue a vara, vá-se embora. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 29 abril 1877. p. 3. 770503 [Sem título] Todos os dias seguidos, E há três meses seguros, Vê-se em grande apuros, Da corte certo juiz; Que pobre moço infeliz, Todos dão-lhe bordoada, Tem a vida condenada; Está de todo perdido, E por todos conhecido, O juiz que tem pancada. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 3 maio 1877. p. 3. 310 770505 [Sem título] Mote O juiz que tem pancada Larga a vara, vá-se embora Glosa Dos tempos fatais que correm Tudo vai por caçoada, Só há quem diga: é massada “O juiz que tem pancada. SE um gemido acaso ouve Que, súplice, a moral implora, Caso grave e muito sério, Diz-se logo que é graçola, Não se ouve como outr'ora Dizer ao juiz que amola “Largue a vara, vá-se embora. O Espirito-Santense. Vitória. 5 maio 1877. p. 3. 770510 Um juiz que tem pancada O juiz é sábio e rico, D'isso tem seus documentos, Não gosta de ninharias, Não recebe emolumentos, São nobres seus sentimentos, É da raça afidalgada, Tem a fronte altanada, E tanta ciência infusa, Que, parece, por confusa, Um juiz, que tem pancada. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 10 maio 1877. p. 3. 770518 O corte no orçamento Aos srs. representantes da nação Senhores da nação representantes, Distintos deputados, Daí exemplo d’amor e civismo Em face do terrível pauperismo De vinte e um estados! Se quando o artesão não comparece Ao ponto da oficina O dia de labor se lhe desconta, Vós que vos tendes em subida conta De gente superfina; Também deveis sofrer a mesma pena Vós que as leis formulais; Aos cofres do tesouro abandonando O cobre que assim ides levantando Nos dias que faltais! Oh! Seis contos de réis a cada dia Em que não há sessão: Para um país que está arrebentado É aumentar a dor ao desgraçado Sem dó, nem compaixão. Por isso, humilde vos implora O aflito povo Que façais o desconto, e sem demora… Urge atender ao déficit que o devora, O déficit velho e novo! Aos distintos nestores do senado Igual pedido faz A nação que fenece de anemia, Vendo fugir o tempo em fantasia, Em discussão falaz. A gratidão do povo brasileiro Verterá sobre vós; Té das campas, surgindo agradecidos Vos cobrirão de bençãos comovidos Os brasileiros avós. Octaviano Hudson. O Globo. 18 maio 1877. p. 3. 311 770519 O juiz que tem pancada Que desgraçada quadra! Nunca vi juiz assim! Apanha como um mastim, E não se queixa nem ladra! Onde está seu pundonor? Pois vê a honra ultrajada, Vê sua toga manchada, É a tudo indiferente? E que o chamem consente – O juiz que tem pancada. Gazeta de Noticias. Rio de Janeiro. 19 maio 1877. p. 2. 770601 Os coribantes Poemeto realista dedicado aos aventureiros sociais por Píndaro Revista Academica. Rio de Janeiro. Julho 1877. p. 17. 312 770617 Raspadeira de osso Eu dou golpes nos costumes E cuidam que é nas pessoas. Nicolao Tolentino O Código do Comércio em um artigo Condena a raspadeira, Entretanto ela entra, coitadinha, Por proposta em anúncios da marinha Com réguas de madeira. Eu julguei que o artigo desse Código Tinha uso geral Mas enganei-me, oh céus, não é verdade, Para raspar há plena liberdade, À sombra imperial! Em vista de propostas, dos anúncios, O Código falhou, Não há crime em usar instrumento Porque ele auxilia o movimento De quem se equivocou! Octaviano Hudson. O Globo. 17 junho 1877. p. 2. 770716 Musa do povo Octaviano Hudson. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 16 julho 1877. p. 3. 313 770719 Musa do povo / Larguem a pasta Octaviano Hudson. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 19 julho 1877. p. 2. 770719 Musa do povo – Larguem as pastas Octaviano Hudson. O Globo. Rio de Janeiro. 19 julho 1877. p. 3. 314 770720 Musa do povo / Escárnio! Octaviano Hudson. O Globo. Rio de Janeiro. 20 julho 1877. p. 2. 770722 Musa do bobo / Largue a pasta Margarida Senior. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 22 julho 1877. p. 3. 315 770722 Musa do povo – Salvai a honra pessoal! Octaviano Hudson. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 22 julho 1877. p.3. 316 770825 Ave populus Latombe. O Progresso. Rio de Janeiro. 25 agosto 1877. p. 4. 317 770907 A liberdade Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 7 setembro 1877. p. 2. 318 770926 À chegada de SS. MM. Imperiais Viva Dom Pedro Segundo Glosa Salve! Oh, grande esclarecido, Imperador do Brasil! Salve! Seja vezes mil! Depois de ter percorrido Diversas nações do mundo, Vem com saber mais profundo, Regressando a seu país, Viva a nobre imperatriz! Viva Dom Pedro Segundo! Por ter o mais sapiente De todos os reis da terra, Há de evitar sempre a guerra Desastrosa a toda gente; Por ser em tudo prudente, Não ser qual Nero, iracundo Por ser benigno, e oriundo D’alta estirpe de reis nobres, Por ser protetor dos pobres, Viva Dom Pedro Segundo! Manoel Margarido. O Globo. 26 setembro 1877. 771004 O cortejo “Quem vem lá? [Ilegível] Sentinela de granito, Fitando o olhar potente No horizonte infinto. É o lenho mercenário Fende as ondas com pujança, Restitui ao [Ilegível] O renovo de Bragança. “[Ilegível] “Mártires da liberdade, “Sacudi [Ilegível] – [Ilegível] “[Ilegível] “[Ilegível] “[Ilegível] “[Ilegível] “Exigi o vosso sangue, “Levantai plangentes vozes; “Recebi dignamente “O filho e neto de algozes! …......................................... Do pégo (sic) profundo ressurgem esparsos Os membros sangrentos de um corpo gigante; Aqui é o tronco, além a cabeça Fincada n'um poste, padrão infamante. E os membros esparsos do corpo inanido Se [Ilegível] movidos por mão invisível; E surge o fantasma, esquálida a frente Com voz estridente, aspecto horrível: “Oh tu, que descendes (contraste da outra) “D'aquela Maria de sangue manchada! “Contempla, se podes, os restos exangues “Da vítima livre da fera cr'oada.” Que vulto é aquele que surge das ondas Que dúplice aureola o busto adornado? Levita de Cristo, do povo levita, O peito, de balas lhe vêm traspassado: “Perdão! – clama ele. É um sacerdote. “Assim o ordena a voz do Criador! “Perdão para os algozes que assombram o mundo, “Invertem, deturpam as leis do senhor!” “Vingança! repetem mil vozes frementes, “À raça maldita não cabe o perdão!” E os vultos sinistros no pégo se afundam Clamando vingança com voz de trovão. Aqui é um tronco com [Ilegível] empunhando Espada [Ilegível] de sangue [Ilegível], Sangrenta cabeça de aspecto horrendo Suster na sinistra da coroa pendente: “Contempla o presente que à fera espanhola “Por mão de algoz teu pai enviou: “Que o mar espantado de tanta crueza !A plagas desertas raivoso arroja.” Além, um fantasma sereno e sublime, Olhai radiante a fronte celeste; O sangue lhe jorra de [Ilegível] ferida, E tinge do mártir [Ilegível] veste; “Eu sou Pedro Ivo, a quem cruamente, “Qual nero, qual Brontes, negaste perdão; 319 “No colo inda sinto mão do carrasco, “Do pulso me pende o medonho grilhão!” Assim, um a um, o negro cortejo P'ra o barco alteroso seus passos avança E o lúgubre coro de fúnebres vozes Percute o espaço, clamando vingança! “Vingança! repetem mil vozes frementes, “À raça maldita não cabe o perdão!” E os vultos sinistros no pégo se afundam Clamando vingança com voz de trovão. …......................................................... E o lenho mercenário De sua carga orgulhoso, Da formosa Guanabara Fende o colo majestoso. E os hossanas de glória, O ribombar do canhão, Anunciam a chagada Do senhor desta nação. E (desprezando a história) Ante mortal tão feliz, O povo, leão que dorme, Humilha a nobre cerviz. Setembro, 1877. B. F. A República. Rio de Janeiro. 4 outubro 1877. p. 3. 771024 Musa do povo / Quanto pior melhor Eu dou golpes nos costumes E cuidam que é nas pessoas. Nicolao Tolentino Não há razão de queixa, eu afianço A pátria marcha bem, Quanto pior melhor, eis o meu lema, Bons efeitos aguardo de tal tema, Respeitá-lo convém! Nada de alterações, a tais mudanças São sempre muito fatais Na valha de Siracusa, estude o povo Mais ruim do que o velho é sempre o novo Governo de pardais! Nada de alterações, essas mudanças Atrasem a nação: Quero um governo eterno, bem comprido, Que à força de viver encanecido Se arrime a um bordão! Que chegue até a fase mais caduca, Ao estado senil, Andando de gatinhas. Desmamado? Quem pode prescindir deste bocado? Responda-me o Brasil. Octaviano Hudson. O Globo. 24 outubro 1877. p. 3. 320 771101 Musa do povo / A nova Babel Octaviano Hudson. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 19 julho 1877. p. 2. 321 771207 A orgia do século (A Fontoura Xavier) Vai alta a grande orgia: ao lado da Justiça Se assenta a Corrupção, que aos poucos a embriaga; Sorri-lhe o Despotismo aos gritos da Cobiça, Que o Vício sem pudor nos braços seus afaga. No chão dorme o Direito e ébrio se inteiriça, Cantando coplas vis; a Inspiração divaga E a própria Consciência estulta se espreguiça, E num gesto de bacante as luzes já apaga. Mas eis que tudo tudo treme, à luz da nova aurora, Na porta do bordel, esplendorosa e santa, Surgia majestosa estranha aparição!... E ao vê-la, finda a orgia: a Consciência cora, Alteia-se o Direito, o Brio se levanta E o Crime cai por terra à voz – Revolução!... Afonso Celso Jr. A República. Rio de Janeiro, 7 dezembro 1877. 322 780110 Caiu! Caiu! Caiu!... Líbero Badaró Júnior. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 10 janeiro 1878. p. 2. 323 780112 [Sem título] Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 12 janeiro 1878. p. 2. 324 780112 Caiu! Caiu! Caiu! Líbero Badaró Júnior. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 12 janeiro 1878. p. 2. 325 780308 Minha musa Pedro José Ribeiro. O Globo. Rio de Janeiro. 8 março 1878. p. 3. 326 780331 Homenagem Democrática Ao capitão José Maria Vaz Lobo, chefe do Partido Liberal de Irajá O radical. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro. 31 março 1878. p. 2. 327 780802 Derrubada Diário da Tarde. Rio de Janeiro. 2 agosto 1878. p. 2. 328 780917 Canto do veterano Honório Santarém. Diário da Tarde. Rio de Janeiro. 17 setembro 1878. p. 3. 790127 O Capanga D. E. Correio da Noite. Rio de Janeiro. 27 janeiro 1879. p. 4. 329 790427 [Sem título] Laura F. Da Cruz. Echo Social. Rio de Janeiro. 27 abril 1879. pp. 3-4. 330 790628 Ao Brasil Filius Malli. Aspiração Nacional. Rio de Janeiro. 28 junho 1879. p. 3. 331 790701 Paralelo / Entre corcundas e liberais Antítese O Arauto. Rio de Janeiro. 1 julho 1879. p. 2. 332 791020 Tiradentes 333 Silvestre de Lima. A América. Rio de Janeiro. 20 outubro 1879. p. 13. 334 800110 O Brasil de Hoje F. O Estandarte. Rio de Janeiro. 10 Janeiro. 1880. p. 4. 335 800124 César... Ou seu cavalo 1 Math. Carvalho. O Estandarte. Rio de Janeiro. 24 Janeiro. 1880. p. 4. 336 801219 [Sem título]10 Correio do Dia. Rio de Janeiro. 19 Dezembro. 1880. p. 3. 10 Nota que antecede o poema: “Uma folha da Bahia, publicou os seguintes versos:” 337 810109 O imposto do vintém 1º de janeiro de 1880. 338 Mathias Carvalho (Do Combate). O Atirador Franco. Rio de Janeiro. 9 janeiro 1881. p. 5. 810413 Carapuça Moço que no Brasil vir a existência, Se de nobre ou ricaço filho for Há de em regra, por força, ser doutor, Tenha, ou não tenha jeito para a ciência. Homem rico, mas pobre inteligência, Cabala em eleições, sai eleitor, Juiz de paz, depois vereador, E pensa logo em ter uma excelência! Para a Provincial então levado Em corpo e alma governista inteiro, Anda sempre de um, para outro lado. Vai p’ra Geral. Mostra-se ordeiro Sai ministro e depois cai no senado. Eis formado o estadista brasileiro! A Revelação. Rio de Janeiro. 13 abril 1881. p. 4. 339 810417 Tira-dentes11 11 Republicado em O Atirador Franco, 21 de abril de 1881, páginas 7 e 8, sob o título de Homenagem a Joaquim José da Silva Xavier, o Tira-Dentes; no Diário Fluminense, 18 julho 1884, página 2, com o título Tira-dentes, e no Tiradentes, 21 de abril de 1885, página 4, com o título de Joaquim José da Silva Xavier – O Tiradentes. 340 Pedro Luiz. A Revelação. Rio de Janeiro. 17 abril 1881. pp. 1-2. 341 810421 Tiradentes A. Moreira de Vasconcelos. O Atirador Franco. Rio de Janeiro. 21 abril 1881. p. 7. 342 810806 Ultimatum Towivure. O Futuro. Rio de Janeiro. 6 agosto 1881. p. 3. 343 810815 Hecatombe Aos mártires de 20 de outubro de 1823 José O. Pereira de Mello. O Paraense. Rio de Janeiro. 15 agosto 1881. p. 8. 344 810815 Patroni Iganacio de Moura. O Paraense. Rio de Janeiro. 15 agosto 1881. p. 8. 345 811123 Dá cá um abraço Dai-me um abraço ilustre conselheiro Que ama a Bahia Dá-me um abraço bem apertadinho Perdão se amarrotei-te o colarinho Nos estos d’alegria. Sem ti ninguém sabia que o abraço Pode em tudo influir, Vou fazer propaganda a tal respeito Dá cá mais um abraço, dá com jeito Não te ponhas a rir. Tu és o chefe do partido novo Avante, sim, senhor. O partido que abraça o Zé povinho, Traz quebrado constante o colarinho Um abraço, doutor. O Globo. Rio de Janeiro. 23 novembro 1881. p. 3. 346 811217 Canção François Seul. O Aspirante. Rio de Janeiro. 17 dezembro 1881. p. 4. 347 820302 A Quintino Bocaiuva S. O Globo. Rio de Janeiro. 2 mar. 1882. p. 3. 348 820310 Do eito ao Senado12 Na roça juiz de paz, Na roça vereador Na roça como doutor Na roça deu sofá e az, Na roça foi o primaz, Na roça nome criou. – Se a roça tanto o amou, Pergunto muito mansinho: – Porque diabo, Martinho – Na roça não se ficou? Que felicidade para nós, Ai que ventura maldita Se o homem tivesse a dita De ficar entre os cipós, No meio de cegos nós. O país não se acharia! Feliz o negro seria Sem duras sovas de pau, Sem troncos e bacalhau. Vai para roça… Anda, cede, O povo todo te pede Martinho não sejas mau. É meu amigo o Gaspar, O Motta não é de graça, Ninguém pode com chalaças Hoje em dia governar. Se a canoa soçobrar No meio d’este sussurro, Quem tem a culpa Casmurro? Tu somente; pois sabias Que o país, onde vivias, Caveira tinha de burro. Veste pois o teu fraque De riscadinho azulado, Põe teu chapéu desabado E não te metas em fraque. Em burro que não empaque Monta, que este cenário Pode te ser um calvário! Vai p’ra roça marombista, Não nasceu para estadista Quem nasceu para vigário. B. de Cebolas. O Globo. 19 março 1882. p. 3. 820330 Salta – Martinho13 Ou tem pancada na bola Este meu salta Martinho Ou trouxe lá de cebolas O vício de tomar vinhos; Se vai neste caminho, Se continua no ócio Só vejo um remédio a dar: Que é mandá-lo amarrar E sacudi-lo no hospício. O Globo. Rio de Janeiro. 30 março 1882. p. 3. 820421 A Cabeça de Tiradentes Raimundo Corrêa. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1882. p. 8. 12 Este poema foi uma das reações às declarações de Martinho Campos desqualificando a atividade de jornalista e a imprensa. 13 Este poema foi uma das reações às declarações de Martinho Campos desqualificando a atividade de jornalista e a imprensa. 349 820421 A Cabeça do Mártir (Canto épico) 350 351 352 J. Norberto*. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1882. pp. 6-8. * “Correspondendo ao nosso convite, enviou-nos este trabalho o autor, que o extraiu de sua coleção Cantos Épicos, cuja edição se acha esgotada. (Nota do Colecionador.)” (Nota no original). 353 820421 A Liberdade Antonio Camargo. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 abril 1882. p. 5. 354 820421 Ao Tiradentes Antonio Figueira. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 abril 1882. p. 2. 820421 A Tiradentes Ernesto Sena. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 abril 1882. p. 2. 355 820421 Joaquim Silvério (Inconfidência) Mathias Carvalho. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 abril 1882. p. 4-5. 356 820421 Tarpeia e Capitólio A memória de Tiradentes A. L. do Bomsucesso. Tiradentes. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 21 Abril 1882. p. 4. 357 820517 Hino a Tiradentes B. Guimarães. O Relâmpago. Rio de Janeiro. 17 Maio 1882. p. 1. 820606 Vitória à Natividade14 Um inglês da Inglaterra Namorou o Frei Martinho!… E casaram-se à capucha!… Coronel foi o padrinho! Oh! Que inglês danado este!… Mas que Martinho finório!… Fizeram do bom Maneco Celebrante do casório!… Bacalhau do Peixe Frito. O Globo. 6 junho 1882. p. 3. 14 Publicado integralmente nas edições dos dias 6 e 7 de junho de 1882. 358 820608 A lei é uma pulha15 Um conselheiro da guerra Que no Senado se encosta Disse: “é pena que esta lei Me force a largar a pasta! Mal qual lei nem qual Cabaça Como tenho bons padrinhos Mando a lei plantar batatas Vou correr dois carrinhos!” Matto Grosso. O Globo. Rio de Janeiro. 8 junho 1882. p. 3. 15 Publicado integralmente nas edições dos dias 8, 9 e 10 de junho de 1882. 359 820612 Mote a premio16 Um que há de contar a história. O Globo. Rio de Janeiro. 12 junho 1882. p. 4 16 O mote foi publicado como poema n'O Globo, na edição de 6 de junho de 1882, página 3, com o título de Vitória à Natividade (ver 820606 Vitória à Natividade) 360 820617 Cebola B. S. O Globo. Rio de Janeiro. 17 junho 1882. p. 3. 361 820815 Ao 15 de agosto A briosa Província do Pará Poesia recitada no dia 15 de agosto de 1881 na primeira sessão solene comemorativa da Independência do Pará. J. B. do Carmo Leal. O Paraense. Rio de Janeiro. 15 agosto 1882. p. 6. 362 820815 Aos Mártires A. O Paraense. Rio de Janeiro. 15 agosto 1882. p. 7. 363 820815 Aos paranaenses J. Pontes de Carvalho. O Paraense. Rio de Janeiro. 15 agosto 1882. p. 7-8. 364 820815 Apoteose A F. Alberto Patroni Alcibiades Furtado. O Paraense. Rio de Janeiro. 15 agosto 1882. p. 7. 365 820815 Liberdade Alexandre. O Paraense. Rio de Janeiro. 15 agosto 1882. p. 8. 366 821001 A Lopes Trovão17 O Combate. Rio de Janeiro. 1 outubro 1882. p. 3. 17 Edição especial de O Combate em homenagem a Lopes Trovão por ocasião de sua partida para a Europa. 367 830421 [Sem título] Mathias Carvalho. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1883. p. 7. 830421 Tiradentes [1] 21 de abril de 1792 – 21 janeiro de 1793 Euclides Freitas. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 abril 1883. p. 5. 368 830421 Tiradentes [2] Mathias Carvalho. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1883. p. 7. 369 830525 Ao Imperador Filius Malli. O Novo Conservador. Rio de Janeiro. 25 Maio 1883. p. 3. 370 831009 Agonia da Época18 I Vejo passar-me nos pés a água fremente19 Em largo espaço – um pavoroso rio; Vem do alto descendo,20 o alto é sombrio O trono – o gerador desta serpente: E o rio é fundo e caprichosamente Estende as margens, a correr21 bravio; Temer22 de horror a Probidade e o Brio E o trabalho atirados na corrente! Vejo as águas cercando tenebrosas23 Ilha pequena, aonde desterrada A pátria existe; e as águas furiosas Irão a ilha transformar em nada! Presa do trono às garras24 sanguinosas A pátria vai aos poucos devorada! Mathias Carvalho. O Intransigente. Rio de Janeiro. 9 outubro 1883. p. 3. 18 Poema republicado sem o título no Tiradentes em 21 de abril de 1884, na página 3. As notas seguintes indicam as diferenças identificadas entre essa primeira publicação e a de 1884. 19 “fervente”. 20 “correndo”. 21 “rugidor,”. 22 “Tremem”. 23 “temerosas” 24 “unhas”. 371 840226 Está tudo suspenso A... O Bambino. Rio de Janeiro. 26 fevereiro 1884. p. 3. 372 840325 Ao Ceará [2] Carlos Reimar. O Acarape. Rio de Janeiro. 25 março 1884. p. 2. 373 840421 Soneto Candido José da Mota. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1884. p. 6. 840421 [Sem título 2] Mathias Carvalho. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1884. p. 8. 374 840421 Tiradentes Generino dos Santos. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1884. p. 4. 840907 Sete de Setembro Deus a poesia deu, por alvo a pátria. A. Herculano Desde o dia majestoso, que ressumbra A esperança da glória sobre um povo; Sacudiu o Brasil, gigante novo, O jugo do poder, qu'além se obumbra! Avante! Gerações!... segui à penumbra! Oh!... Santa Liberdade! eu bem te louvo! Germina em adusto tronco inda o renovo! Do rubor celipotente a luz deslumbra! Perplexo o leão, lá na floresta, Da caverna contemplou na soledade Os hinos festivais da [ilegível]ante festa! Do espaço resvalou a potestade Trazendo uma coroa na sua destra, E lançou-a aos heróis da Liberdade.... Evangelista Figueiró. Echo Popular. Rio de Janeiro. 07 setembro 1884. p. 3. 375 840907 Sete de Setembro [2] Acorda povo de heróis, desperta em festival; Mira o céu da pátria e vê lá no horizonte Como o sol nos arrebóis da fresca aurora Traz de luz resplendente ornada a fronte! As cadeias que teus pulsos magoavam Quebraram-se ao raiar deste almo dia; Ergue os olhos, bendiz a tua estrela Que mudou em prazer tua agonia! Brasil, és livre, sê grande e piedoso! Da senda do progresso segue o norte Extingue em teu seio a escravidão Que teu brilho será ainda mais forte! Um povo que ama a Deus, à liberdade, Que compõe-se de heróis, fiéis e bravos, Será somente grande e venturoso Quando tornar em livres os seus escravos. Amelia Cordeiro. Echo Popular. Rio de Janeiro. 07 setembro 1884. p. 3. 850421 Silva Xavier Luiz José Pereira da Silva. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1885. p. 8. 376 850421 Tiradentes Mathias Carvalho. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1885. p. 3. 377 850421 V Mathias de Carvalho. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1885. p. 8. 378 850907 Sete de Setembro25 Já Sei Já Sei. Rio de Janeiro. 7 setembro 1885. p. 1. 25 Republicado em O Constituinte, 3 outubro de 1885, página 1. 379 851018 Denúncia à História 380 O Constituinte. Rio de Janeiro. 18 outubro 1885. p. 8. 381 860421 A Cabeça do Mártir Ao cidadão Mello 382 Generino dos Santos. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1886. p. 6. 860421 A Liberdade Fragmento do poemeto “Riel” Mathias Carvalho. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1886. p. 1. 383 860421 Tiradentes Francisco de Castro. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1886. p. 5. 860810 Rebate Mathias Carvalho. Revista Federal. Rio de Janeiro. 10 agosto 1886. p. 7. 384 880101 Pobre Pátria Izidoro Martins Junior. Gazeta Nacional. Rio de Janeiro. 1 janeiro 1888. p. 2. 880421 Ao Grande Mártir Mineiro Izidoro Martins Junior. Tiradentes. Rio de Janeiro. 21 Abril 1888. p. 5. 385 880520 À Augusta Princesa Imperial Regente pela Abolição da Escravidão no Brasil B. de M. Chrysálida. Rio de Janeiro. 20 maio 1888. p. 4. 880520 À Augusta Princesa Regente Chrysálida. Rio de Janeiro. 20 maio 1888. p. 2. 386 880528 Justicia, Verdad y Patria Ao Povo Argentino 387 Mathias Carvalho. Gazeta Nacional. Rio de Janeiro. 28 maio 1888. p. 2. 881123 Lívida canalha Ratcliff. A Metralha. Rio de Janeiro. 23 novembro 1888. p. 4. 388 890605 O Programa Liberal26 O Constitucional. Rio de Janeiro. 5 Junho 1889. p. 1.. 890807 Nobreza e Fidalguia Fabio. República Brazileira. Rio de Janeiro. 7 Agosto 1889. p. 2. 26 Texto que antecede o poema: “Não há meio de fazer sair o programa liberal, votado aos 23 de Maio último, como disse o Diário de Notícias. A ansiedade pública é geral e imensa. A deserção para o voto em separado do Sr. Ruy Barbosa já começa a operar-se. Não é possível que o partido liberal faça um programa para ficar sem gente. Acreditamos antes que essa obra tivesse sido feita para não ser executada; mas para não ser publicada, isso é que não. Em todo caso os poetas já começam a fazer trovas, que explicam o desprestígio da prosa empregada para que o novo programa, espécie de novo reforma de secos e molhados, venha a lume. O mote – Olha o programa que saia já foi assim glossado:” (Itálicos no original) 389 890818 Nobreza e Fidalguia Fabio. República Brazileira. Rio de Janeiro. 18 Agosto 1889. p. 2. 390 890907 A independência do Brasil O sócio Antonio José Nunes Garcia. Revista da Sociedade Commemorativa da Independência do Império do Rio. Rio de Janeiro. 1889. p. 36-37. 391 890907 Salve!... Henrique G. d'Oliveira. Revista da Sociedade Commemorativa da Independência do Império do Rio. Rio de Janeiro. 1889. p. 34. 392 891212 Avante27 I Se abater os privilégios, Q'inda ostenta a fidalguia Espúria e improvisada Pela boçal monarquia, D'um povo altivo é dever; Há também outro querer De ordem primordial; – Ao lado da liberdade, Instalar a igualdade, É um supremo ideal. II Ergamos todos a destra, Juremos perante o mundo – Não consentir outra rei Depois de Pedro Segundo. Ensinar nosso filhos Detestar régios caudilhos, Abalar o trono vil Seja nossa aspiração – Constitui obrigação, D'um povo altivo e viril! III O solo da pátria exige Que de sua grande extensão, Sejam varridos os déspotas Por justa revolução; À este Pólipo danado Que nos tem tanto sugado, Que se chama – monarquia, – Ditai, ao povo o decreto Para que seja completo O termo da tirania. IV Esta forma de governo Que nos suga e atrofia, Só tem por fim abater A nossa soberania; Juremos perante o mundo O desprezo mais profundo Consagrar à realeza. Corramos a praça pública Brasileiros – Viva a República Entoando a Marselhesa. Rio 26 de Janeiro de 1888. José Francisco da Conceição. Republica Brazileira. 12 dezembro 1889. p. 3. 27 Último paragrafo do texto que antecede o poema: “Como é preciso que o governo e o povo, que de agora em diante vai tomar conta de seus destinos, saibam quais foram os apóstolos da sua liberdade, resolvemos transcrever em nossa coluna a patriótica poesia, aliás transcrita já em jornais de outras localidade da província de S. Paulo.”