UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS (FAFICH) PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL (PPGCOM) DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL USOS SOCIAIS DAS RÁDIOS ZAPATISTAS: O mapa noturno da construção da autonomia nas mediações comunicativas da cultura. Ismar Capistrano Costa Filho Março de 2016 Belo Horizonte – MG ISMAR CAPISTRANO COSTA FILHO USOS SOCIAIS DAS RÁDIOS ZAPATISTAS: O mapa noturno da construção da autonomia nas mediações comunicativas da cultura. Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Comunicação Social. Área de Concentração: Comunicação e Sociabilidade Contemporânea Linha de Pesquisa: Processos Comunicativos e Práticas Sociais Orientadora: Profª. Drª. Ângela Cristina Salgueiro Marques Belo Horizonte 2016 301.16 C837u 2016 Costa Filho, Ismar Capistrano Usos sociais das rádios zapatistas [manuscrito] : o mapa noturno da construção da autonomia nas mediações comunicativas da cultura/ Ismar Capistrano Costa Filho. - 2016. 339 f. : il. Orientadora: Ângela Cristina Salgueiro Marques. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Inclui bibliografia. 1. Comunicação – Teses. 2. Rádio – Teses. 3. Rádio comunitária - Teses. 4. Cultura – Teses. 5. Autonomia – Teses. I. Marques, Ângela Cristina Salgueiro. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título. DEDICATÓRIA Dedico esta tese a todas e todos que acreditam e lutam por um mundo mais justo, pela sustentabilidade ambiental e pela democratização da comunicação, em especial, ao amigo-irmão Sérgio Lira (in memoriun) com quem aprendi a força do sorriso, da fé na vida e do convívio em comunidade. AGRADECIMENTOS A Deus, a energia que nos mantém firmes até nos momentos mais difíceis. À minha família, Anunciada, Iafa, Caio, que sempre torceram e acreditaram na minha jornada e, em especial, meu pai Ismar que um dia me levou para cursar Jornalismo em Fortaleza e me pediu para levar os estudos a sério (acho que levei a sério demais!). Aos anjos desta caminhada, Ângela Marques, Débora Silva, Peter Rosset, Maria Elena, Victor Sosa, Ayaco Saito, Magno Fernandes e Maria Antonieta, que me acolheram, me apoiaram nas horas mais duras e me mostraram luzes até quando tudo parecia completamente escuro. Aos amigos, Márcio Aurélio, Catarina Oliveira, Gober Gomez, Ana Lúcia, Edgard Patrício, Amanda Capistrano e José Sóter, que me ajudaram a transformar dificuldades e problemas em boas gargalhadas. Aos entrevistados, nesta pesquisa, que militam nos movimentos sociais, que fazem rádios livres e comunitárias, que vivem em coletivos e comunidades autônomas pelo tempo dedicado e pelos ensinamentos. Aos professores, Vera França, Regina Helena, Simone Rocha, Ricardo Fabrino, Nilda Jacks, Wiltold, Graziela Vianna que nas aulas, nas conversas e na qualificação me ensinaram o quanto ainda tenho de apreender. Aos colegas da Faculdade 7 de Setembro, em especial, Adelmir Jucá, Edmilo Soarez, Ednilton Soarez, Dilson Alexandre, Kátia Patrocínio e Vania Tarja pela força e apoio. Aos Grupos de Pesquisa do Intercom Rádio e Mídia Sonora e Comunicação para Cidadania pelo estímulo e atualização, em especial, a Luiz Ferraretto e Cicilia Peruzzo. Aos colegas das disciplinas do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social (PPGCOM) da UFMG e do doutorado em Antropologia do Ciesas Sureste e aos auxiliares de pesquisa Valentin Val e Leonardo Toledo pelo acolhimento e o conhecimento partilhado. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ao PPGCOM da UFMG e ao Ciesas Sureste que viabilizaram esta investigação. A humanidade acha na luta contra a injustiça uma escala que a eleva, que a torna melhor, que a converte em mais humana. (Subcomandante Marcos) Há que endurecer-se, mas sem perder a ternura jamais. (Che Guevara) Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar. (Eduardo Galeano. Livro dos Abraços.) Resumo A pesquisa aqui apresentada investiga como as rádios mexicanas Frecuencia Libre e a Radio Rebelde estão envolvidas na construção da autonomia política zapatista a partir da perspectiva dos usos sociais dos meios, por meio de um mapeamento das mediações e do estudo da constituição de um imaginário radical autonômico marcado pelas articu- lações com outros grupos e povos pela conquista da justiça social. Busca-se saber como as comunidades autônomas se apropriam de rádios comunitárias; qual a relação entre as matrizes culturais das comunidades e a escuta de programas; e em que medida a comu- nicação radiofônica é apropriada e entrelaçada ao imaginário dos ouvintes. Para tanto, foram traçados dois eixos conceituais de reflexão. O primeiro problematiza os estudos de recepção, os usos sociais dos meios e os sentidos culturais, tendo como referências autores latino-americanos, como Martín-Barbero, Guillermo Orozco, Jorge González, Galindo Cárceres, Itânia Gomes, Nilda Jacks, Veneza Ronsini, entre outros. Esses estu- dos nos permitem olhar para as rádios zapatistas como fenômenos de comunicação po- pular, produzidos pelos excluídos dos meios massivos num contexto marcado por con- flitos, contradições sociais, lutas históricas e uma inevitável diversidade e mestiçagem cultural. A análise, que parte das mediações elencadas por Martín-Barbero, requer a ob- servação de quatro elementos estruturantes do processo comunicacional: as matrizes culturais, as competências de recepção, as lógicas de produção e os formatos dos meios. Através da relação entre estes elementos e as dinâmicas das rádios não comerciais, é possível observar as mediações configuradas pelas institucionalidades, as tecnicidades, as ritualidades e as sociabilidades das emissoras. O mapa noturno dos usos sociais das rádios zapatistas construído por estas mediações - alimentadas pelas relações entre ma- trizes culturais, temporalidades, endereçamentos, lógicas de produção, competências e sentidos culturais – permite o deslocamento necessário até as práticas culturais que cir- cundam e relacionam-se à atuação das rádios. De forma geral, as institucionalidades são investigadas a partir das tensões entre a autonomia e a política governamental, entre a resistência e a perseguição e entre o mercado e a sustentabilidade, e os conceitos e as práticas dos meios livres, alternativos e comunitários. Neste momento, também analiso as matrizes culturais das emissoras a partir dos endereçamentos produzidos pela enunci- ação radiofônica. Para pensar as tecnicidades nas rádios zapatistas, traço interfaces entre a oralidade, predominante nas comunidades rurais e na linguagem do rádio, e as caracte- rísticas da tecnologia e das técnicas radiofônicas. Já as coordenadas referentes às rituali- dades abrangem as diferentes temporalidades sociais das emissoras e dos ouvintes que criam, a partir desta relação, ritmos de escuta e emissão. Por fim, por meio da socialida- de, a pesquisa investiga as apropriações dos ouvintes das rádios zapatistas imergindo nos mundos possíveis criados através dos sentidos culturais da recepção. O segundo eixo teórico que sustenta a reflexão aqui realizada articula as noções de autonomia e po- lítica agonística. O processo de construção da autonomia é discutido com o auxílio da abordagem de autores que pesquisam e militam no movimento zapatista, como John Holloway, Enrique Ouviña, Hector-Diaz e Gustavo Estava. Também recorro a Cornelius Castoriadis e Chantal Mouffe para ampliar as noções dos conflitos políticos e imaginá- rio radical autonômico, presentes no objeto. A reflexão teórica foi realizada paralela- mente a quatro imersões de campo, em julho de 2013, janeiro e julho de 2014 e julho a dezembro de 2015 e uma visita pré-exploratória em janeiro de 2011, momentos em que se fez pesquisa documental, registro da programação das emissoras e entrevistas com três grupos de atores sociais. Primeiro, em julho de 2013, dialoguei com oito intelectu- ais e lideranças políticas relacionadas de alguma maneira aos zapatistas, aos meios li- vres ou às comunidades indígenas no intuito de conhecer o papel do zapatismo, a orga- nização das comunidades autônomas e a importância do rádio neste processo político. Cinco produtores e apresentadores da Frecuencia Libre formaram o segundo grupo. Nestas entrevistas, realizadas entre julho e agosto de 2015, questionei sobre a história dos programas, os processos de produção, a audiência, a participação no coletivo e o pa- pel da emissora no município. Não foi possível realizar estas entrevistas com os produ- tores da Radio Rebelde por falta de autorização não justificada da Junta de Bom Gover- no do Caracol Rebeldia e Resistência pela Humanidade em Oventic, organização políti- ca responsável pela emissora. O terceiro grupo entrevistado é composto pelos receptores das duas emissoras, subdivididos em doze ouvintes da cidade de San Cristóbal de Las Casas e cinco da comunidade de San Isidro de La Liberdad, entrevistados em janeiro e julho de 2014. Apresento os sentidos da escuta das rádios zapatistas não só com base nas narrativas dos receptores entrevistados, mas de seus relatos de vida e nas condições socioculturais observadas. Para a análise das institucionalidades e tecnicidades que per- passam a produção das emissoras, foram realizadas gravações da programação da Radio Rebelde e da Frecuencia Libre de três semanas consecutivas, sendo a primeira entre 9 a 30 de julho de 2013 e a segunda de 20 de julho a 10 de agosto de 2015. Depois foi sele- cionada uma edição de cada programa da Frecuencia Libre e um programa de cada dia da semana, não necessariamente consecutivos, da Radio Rebelde (dado que sua progra- mação não possui grade fixa de programas) com o conteúdo mais diverso possível. As emissões selecionadas foram transcritas para análise dos endereçamentos e das matrizes culturais (racional-iluminista e simbólico-dramática). A contribuição das rádios zapatis- tas para a construção da autonomia vai além das temporalidades diferenciadas, das lógi- cas de resistência e das matrizes culturais simbólico-dramática dos povos originários e racional-iluminista dos intelectuais que constituem seus endereçamentos, programações e organizações. Encontra-se também nos sentidos dados às emissoras pelos ouvintes a partir das apropriações em seu cotidiano, memórias e imaginários. Palavras-chave: rádios livres, rádios comunitárias, zapatismo, uso social, sentidos culturais, mediações, autonomia. Resumen La tesis aquí presentada investiga cómo las radios mexicanas Frecuencia libre y Radio Rebelde están involucradas en la construcción de autonomía política zapatista considerando la perspectiva de los usos sociales de los medios, a través de una cartografía de las mediaciones y del estudio de la constitución de un imaginario radical autonómico marcado por las articulaciones con otros grupos y pueblos por la conquista de la justicia social. La investigación busca saber cómo las comunidades autónomas se apropian de radios comunitarias; cuál es la relación entre las matrices culturales de las comunidades y la escucha de programas; y en qué medida la comunicación radiofónica é apropiada y articulada al imaginario de los oyentes. Por lo tanto, fueron trazados dos ejes conceptuales de reflexión. El primero problematiza los estudios de recepción, los usos sociales de los medios y los sentidos culturales, teniendo como referencias autores latino-americanos, como Martín-Barbero, Jorge González, Galindo Cáceres, Itânia Gomes, Nilda Jacks, Veneza Ronsini, entre otros. Estos estudios permiten mirar para las radios zapatistas como fenómenos de comunicación popular, producidos por los excluidos de los medios masivos en un contexto marcado por conflictos, contradicciones sociales, luchas históricas y una inevitable diversidad y mestizaje cultural. El análisis, que parte de las mediaciones propuestas por Martín- Barbero, requiere la observación de cuatro elementos estructurantes del proceso comunicacional: las matrices culturales, las competencias de recepción, las lógicas de producción y los formatos de los medios. A través de la relación entre estos elementos y las dinámicas de las radios no comerciales es posible observar las mediaciones configuradas por las institucionalidades, las tecnicidades, las ritualidades y las sociabilidades de las emisoras. El mapa nocturno de los usos sociales de las radios zapatistas construido por estas mediaciones – alimentadas por las relaciones entre matrices culturales, temporalidades, direccionamientos, lógicas de producción, competencias y sentidos culturales – permite el desplazamiento necesario hasta las prácticas culturales que circundan y se relacionan a la actuación de las radios. De forma general, las institucionalidades fueron investigadas a partir de las tensiones entre la autonomía y la política gubernamental, entre la resistencia y la persecución y entre el mercado y la sustentabilidad, y los conceptos y las prácticas de los medios libres, alternativos y comunitarios. En este momento, también analiza las matrices culturales de las emisoras a partir de los direccionamientos producidos por la enunciación radiofónica. Para pensar las tecnicidades en las radios zapatistas, traza interfaces entre la oralidad, predominante en las comunidades rurales y en el lenguaje del radio, y las características de la tecnología y de las técnicas radiofónicas. Ya las coordenadas referentes a las ritualidades abarcan diferentes temporalidades sociales de las emisoras y de los oyentes que crean, a partir de esta relación, ritmos de escucha y emisión. Por fin, por medio de la socialidad, la investigación estudia las apropiaciones de los oyentes de las radios zapatistas sumergiéndose en los mundos posibles creados a través de los sentidos culturales de la recepción. El segundo eje teórico que sustenta la reflexión aquí realizada articula las nociones de autonomía y política agonística. El proceso de construcción de la autonomía es discutido con el auxilio del abordaje de autores, investigadores y militantes del movimiento zapatista, como John Holloway, Enrique Ouviña, Hector Diaz y Gustavo Estava. También recurri a Cornelius Castoriadis e Chantal Mouffe para ampliar las nociones de los conflictos políticos e imaginario radical autonómico, presentes en el objeto. La reflexión teórica fue realizada paralelamente a cuatro inmersiones de campo, en julio de 2013, enero y julio de 2014 y de julio a diciembre de 2015 y una visita pre-exploratoria en enero de 2011, momentos en que se hizo la investigación documental, registro de programación de las emisoras y entrevistas con tres grupos de actores sociales. Primero, en julio de 2013, dialogé con ocho intelectuales y líderes políticos relacionados de alguna manera a los zapatistas, a los medios libres o a las comunidades indígenas con el fin de conocer el papel del zapatismo, la organización de las comunidades autónomas y la importancia de la radio en este proceso político. Cinco productores y presentadores de Frecuencia Libre formaron el segundo grupo. En estas entrevistas, realizadas entre julio y agosto de 2015, cuestioné sobre la historia de los programas, los procesos de producción, la audiencia, la participación en el colectivo y el papel de la emisora en el municipio. No fue posible realizar estas entrevistas con los productores de Radio Rebelde por falta de autorización de la Junta de Buen Gobierno del Caracol Rebeldía y Resistencia por la Humanidad en Oventic, organización política responsable por la emisora. El tercer grupo entrevistado es compuesto por los receptores, subdivididos en trece oyentes de la ciudad de San Cristóbal de Las Casas y cinco de la comunidad de San Isidro de La Libertad, entrevistados en enero y julio de 2014. Presento los sentidos de escucha de las radios zapatistas no sólo con base en las narrativas de los receptores entrevistados, sino, de sus relatos de vida y en las condiciones socioculturales observadas. Para el análisis de las institucionalidades y tecnicidades que atraviesan la producción de las emisoras, fueron realizadas grabaciones de la programación de Radio Rebelde y de Frecuencia Libre de tres semanas consecutivas, siendo la primera del 9 al 30 de julio de 2013 y la segunda del 20 de julio al 10 de agosto de 2015. Después fue seleccionada una edición de cada programa de Frecuencia Libre y un programa de cada día de la semana, no necesariamente consecutivos, de Radio Rebelde (dado que no posee una programación fija) con el contenido más diverso posible. Las emisiones seleccionadas fueron transcritas para el análisis de los direccionamientos y de las matrices culturales (racional-iluminista y simbólico-dramática). La contribución de las radios zapatistas para la construcción de la autonomía va más allá de las temporalidades diferenciadas, de las lógicas de resistencia y de las matrices culturales simbólico – dramática de los pueblos originarios y racional – iluminista de los intelectuales que constituyen sus direccionamientos, programaciones y organizaciones. Se encuentra también en los sentidos dados a las emisoras por los oyentes a partir de las apropiaciones en su cotidiano, memorias e imaginarios. Palabras-claves: radios libres, radios comunitarias, zapatismo, uso social, sentidos culturales, mediaciones, autonomia. LISTA DE FIGURAS E TABELAS Figura 1: Foto da entrada do Caracol Oventic. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 2: Foto da tenda no Caracol Oventic. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 3: Foto do salão de Festa do Caracol de Oventic. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 4: Foto da junta de Bom Governo do Caracol de Oventic. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 5: Foto da clínica de saúde no Caracol Oventinc. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 6: Foto do escritorio das Mulheres pela Dignidade no Caracol Oventinc. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 13: Foto da comunidade San Isidro de la Libertad. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 14: Foto da comunidade de San Isidro de la Libertad. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 14: Foto do centro dos Autônomos. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 15: Foto da comunidade de San Isidro de la Libertad. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 16: Foto dos taxis para Chatoj. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Figura 17: Foto da trilha de acesso a San Isidro de La Libertad. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Tabela 1: Grade da programação da Rádio Frecuencia Libre em junho de 2015. Autoria: Ismar C. Costa Filho. Tabela 2: Lugares e tempos de escuta dos ouvintes entrevistados na pesquisa. Autoria: Ismar C. Costa Filho. SUMÁRIO INTRODUÇÃO.....................................................................….............................……..6 1 USOS SOCIAIS DAS RÁDIOS ZAPATISTAS...............................................….…. 29 1.1 Recortes e condições da pesquisa……..........................…..............................….….37 1.2 Trajetórias metodológicas..….….…..…….….…………….…….….….….……….51 1.2.1 Exploração de inspiração etnográfica..……..….….….….….…….……...….…...52 1.2.2 Endereçamentos das rádios..….…….…….….….………….……….….………...62 2 MEIOS LIVRES, RÁDIOS COMUNITÁRIAS E LÓGICAS DE RESISTÊNCIA....66 2.1 Das rádios piratas britânicas às emissoras indígenas mexicanas….………………..67 2.2 Rádios livres e comunitárias…………………………………….………………....73 2.3 Frecuencia Libre, pela liberdade de expressão……………………………….…....77 2.4 Radio Rebelde, a voz da mãe terra……………………………….………………...84 2.5 Lógicas de resistências das rádios zapatistas……………………..………………...86 3 MATRIZES E RESISTÊNCIAS NOS ENDEREÇAMENTOS DAS RÁDIOS ZAPATISTAS................................................................................…...................…......90 3.1 Matrizes culturais simbólico-dramática e racional-iluminista……………………...91 3.2 Matrizes culturais nos endereçamentos da Frecuencia Libre………………………...95 3.3 Matrizes culturais nos endereçamentos da Radio Rebelde……….…………...……..106 3.3.1 Autonomia nas matrizes culturais dos endereçamentos da Radio Rebelde….….118 4 FORMATOS E ORALIDADE NAS RÁDIOS ZAPATISTAS…............….............132 4.1 Apropriações tecnológicas………………………………………………………...133 4.2 Formatos da Radio Rebelde…………………………………………………..………...135 4.3 Formatos da Frecuencia Libre………………………………….…………..……...…..140 4.4 Modos de percepção das rádios zapatistas……………………………..………...142 5 TEMPOS E LUGARES DAS RÁDIOS ZAPATISTAS...........…....……................147 5.1 Territorialidades e temporalidades……………………………………..………...148 5.2 Temporalidades dos ouvintes e das rádios zapatistas……………...………...…...150 6 ESCUTA, MUNDOS POSSÍVEIS E SENTIDOS CULTURAIS...……...…..........162 6.1 Outra informação, outra cultural…..………………………………….………......166 6.2 Outro mundo possível…..………….………………………………….……….....176 6.3 Autonomia é vida……..………………………………………………..………...184 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................……..................195 REFERÊNCIAS..............................…….................................................…...............203 APÊNDICE I – ENTREVISTA COM MILITANTES E INTELECTUAIS..…….....214 APÊNDICE II – ENTREVISTAS COM PRODUTORES DA FRECUENCIA LIBRE….......…..…........….….….…..….…..…..….…….….……....…….………………....236 APÊNDICE III – TRANSCRIÇÃO DA PROGRAMAÇÃO DA RADIO REBELDE…....………….……..….…….…..………….…..……...……….....….….255 APÊNDICE IV – TRANSCRIÇÃO DOS PROGRAMAS DA FRECUENCIA LIBRE…..…….……….………….…………….…….…………..…….….…..……..…..…….286 APÊNDICE V - QUESTIONÁRIO COM OUVINTES……..……….…...………....315 APÊNDICE VI – ENSAIO SOBRE AS DIFICULDADES DE CAMPO…..………318 APÊNDICE VII – MANUAL DA OFICINA DE RÁDIO COMUNITÁRIO E POPULAR….…..……….…….……….……..……..…..……………..….…..…..…322 6INTRODUÇÃO A pesquisa aqui apresentada tem como tema central o uso social de rádios na construção da autonomia política proposta pelo movimento insurgente Exército Zapatista de Libertação Nacional, cuja primeira aparição pública ocorreu em janeiro de 1994 no estado mexicano de Chiapas. A construção da autonomia, entendida como processo que se constitui na interseção entre ações políticas e práticas de resistência, auto-afirmação, independência, autogoverno e sustentabilidade, é uma das preocupações fundamentais dos zapatistas, ao lado da tentativa de tecer articulações, compreendidas como relações transitórias e circunstanciais entre diferentes grupos sociais, sempre marcadas pelos conflitos e pelos acordos, resultados das negociações conflitivas, mas que podem construir práticas participativas e emancipatórias. Para introduzir esta investigação, tratarei inicialmente de justificá-la social - através da história e do contexto social da região - pessoal e academicamente. Em seguida apresentarei a problemática e os problemas deste estudo que criam o desenho metodológico com seus recortes, eixos teóricos e métodos para, por fim, traçar os objetivos. A repercussão internacional que o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) ganhou quando, na madrugada do primeiro dia de 1994, tomou os municípios de San Cristobal de Las Casas, Osconsingo, Las Margaritas, Altamiro, Chanal, Oxchuc e Huixtán no Estado de Chiapas, sudoeste mexicano, reivindicando terra, trabalho, educação, saúde, moradia, alimentação, liberdade, independência, democracia, justiça e paz mostra uma das dimensões da relevância do objeto. Não só porque a ação militar ocupou Prefeituras, Câmaras, delegacias e quartéis das cidades, manteve prisioneiro o ex-governador chiapaneco general Absalón Castellanos Domínguez, em sua chácara e declarou guerra contra o Exército Federal Mexicano, mas também porque criou, através da Internet, a rede de solidariedade nacional e internacional em apoio aos ideais zapatistas e pelo fim da guerra, de modo a evitar mais mortes como a sangrenta batalha do mercado de Osconsingo que vitimou letalmente mais de 100 rebeldes. O movimento tornou-se assim referência nas lutas pelas transformações sociais do final do século XX, época marcada pelo ceticismo revolucionário depois da queda do muro de Berlim e da decadência das experiências soviéticas do chamado socialismo real. Segundo o escritor 7uruguaio Eduardo Galeano (apud AURELIANO; OLIVEIRA, 2002), o século XX não poderia terminar sem este levante. Para entender as motivações e a importância da insurgência zapatista e as peculiaridades do movimento, é necessário resgatar não só sua história do final do século passado, como também a dos povos que habitam a região antes mesmo da colonização e compreender suas atuais configurações. A primeira razão da insurgência zapatista, segundo os pesquisadores Tamara Villarreal Ford e Geneve Gil (2001), é uma reação às mudanças constitucionais de 1992 para viabilizar a entrada do México no Tratado do Livre Comércio Norte-Americano (Nafta), que permitiram a venda das propriedades agrícolas comunais ameaçando a existência das terras coletivas. Ameaça semelhante foi a causa da revolução liderada por Emiliano Zapata e Pancho Villa em 1917, inspiração do movimento chiapaneco. O Exército Zapatista foi formado inicialmente por sobreviventes do movimento estudantil, vítimas do massacre da Praça das Três Culturas em Tlatelolco na Cidade do México em 19681 que, como saída revolucionária, tentaram implantar em todos Estados do país, desde a década de 1970, a Frente de Libertação Nacional (FLN). Os estudantes e professores universitários participantes dos protestos de 1968 tinham uma ideologia “lutar por uma democracia em que o povo trabalhador e explorado tome as decisões por si mesmo e se prepare para dar fim a um sistema repressivo, autoritário e excludente” (CASANOVA, 2011, p. 269, tradução minha). Por razões não totalmente determinadas, o movimento sobreviveu somente em Chiapas. De acordo com o pesquisador italiano Emílio Gennari (2002), as condições hostis das selvas Lacandona, da Fronteira e de Los Altos (altitude elevada, vegetação quase impenetrável, frio, umidade e dificuldades de encontrar alimentos), a miserabilidade da região (Estado mais pobre do México) e as articulações com as comunidades indígenas do entorno, nas décadas de 1980 e 1990, formaram uma barreira protetora ao 1 O massacre da Praça das Três Culturas, Tlatelolco, na Cidade do México, conforme o especial Archivos Abiertos da Revista Processo, publicado em 1º de outubro de 2006, aconteceu no dia 2 de outubro de 1968, quando durante a realização dos Jogos Panamericanos do México, estudantes universitários, principalmente da Universidade Autônoma do México (Unam), realizaram protesto contra a limitada democracia no país que mantinha há quase 60 anos um mesmo partido no poder. Para evitar uma negativa repercussão internacional, os manifestantes foram encurralados no local e muitos foram fuzilados pelo Exército Mexicano. Os jornais, emissoras de rádio e TV do país foram proibidos de noticiar o assunto. Muitos sequer circularam no dia seguinte. Até hoje o número de vítimas fatais é indeterminado pela falta de investigação e apuração do caso. Segundo o Governo Federal, 20 pessoas foram mortas no episódio. Já o correspondente do The Guardian, John Rodda, estimou a cifra de 325 assassinados. 8movimento, que logo criou seu braço armado porque acreditavam que, através da guerrilha, poderiam vencer o autoritarismo instalado há mais de sete décadas no governo do país. Para sobreviver na região, foi necessário muito mais do que o conhecimento militar, adquirido nos manuais de guerrilha dos marines estadunidenses, mas sobretudo a cooperação dos indígenas que, além do fornecimento de mantimentos em troca de proteção, ensinaram como cruzar as selvas de maneira quase invisível. Esta cooperação não se baseava apenas em trocas, mas, do movimento de 1968, prevaleceu o princípio democrático de criar articulações com os mais diferentes grupos populares. “É necessário que exista – afirmava um documento de 1977 – a mais ampla democracia, que consiste numa grande participação de ideias e opiniões sobre o ponto que se está tratando” (CASANOVA, 2011, p. 270, tradução minha). Assim, foi tecida a aproximação entre os remanescentes de 1968 e os indígenas da região. Os povos de descendência maya, tsotsiles, isoetales, choles e tojobales se instalaram na região depois de expulsos das terras mais férteis, no centro do México, durante o expansionismo colonial iniciado no século XVII. De acordo com o historiador mexicano Zebadúa González (1999, p. 21, tradução minha), tiveram de organizar-se em pequenas comunidades dado o isolamento geográfico provocado pelo terreno montanhoso, tornando deslocamentos de 25 km numa caminhada de um dia inteiro. Chiapas sempre se encontrou desde o princípio na periferia das rotas de exploração e da conquista espanhola. Isto permitiu algumas comunidades gozar durante um tempo se não de uma completa independência, sim de um certo isolamento (...) a pobreza destas comunidades em relação com as civilizações mais ricas dos centros do México e, inclusive, da península de Yucatán e de seus vizinhos mais ao sul, na Guatemala condicionou-se pelas elevações montanhosas de mais de 1000 metros de altura com passos difíceis de cruzar. Estas pequenas comunidades tiveram de construir, além de sua sustentabilidade, seu autogoverno. O isolamento geográfico não determinou, entretanto, um isolamento social. Os indígenas da região se articulam desde antes da colonização através do comércio e especialização em suas produções. Conforme o antropólogo Georg Collier (1976), há uma tradição ocupacional reforçada pelas dificuldades de importação, devido à distância da capital mexicana e dos grandes centros produtores e pelas dificuldades de transporte. Em seu estudo, ele destaca a predominância de produções étnicas como os utensílios domésticos em Ametenango, os tecidos de lã e as destilarias em Chamula e a 9extração do sal em Zinacantan e Ixtapa. A partir da colonização, a tradicional cidade San Cristobal de Las Casas e a capital Tuxtla Gutierrez se tornaram os centros comerciais, antes concentrados na região de Soconusco. As comunidades articuladas, segundo o antropólogo mexicano Fábregas Piug (2006a), formaram as etnias tsotsil, tseltal, tojobal, chole e zóque que possuem identidades próprias, construídas por traços compartilhados. O primeiro é a cultura predominantemente rural e fragmentada em pequenos agrupamentos. Conforme dados de Piug (2006a), o Estado de Chiapas possui 19.455 localidades, agrupadas em 118 municípios. Apenas 144 destes lugares possuem mais de 2.500 moradores. A população chiapaneca de 4.796.580 de habitantes, segundo senso de 2010 do Instituto Nacional de Estadística y Geografía (Inegi)2, constitui-se de 51% de origem rural, sendo 1/4 pertencente a alguma etnia indígena, o dobro da média mexicana. De acordo com Piug (2006a, p. 32), a crença no alter ego humano – “animais companheiros, gêmeos, com quem se compartilha o destino” -, a busca do equilíbrio entre o homem e a natureza, fonte de saúde e enfermidades, e o conhecimento empírico acumulado por séculos e partilhado oralmente caracterizam estas culturas, que possuem agricultura e pecuária como principais atividades. As plantações de milho, feijão, trigo, batata, hortaliças, pimenta e frutas e os rebanhos de caprinos e ovinos garantem o autoconsumo e seus excedentes são armazenados e comercializados para gerar renda. Os ovinos não podem ser abatidos, nem sua carne consumida, porque as crenças ancestrais os têm como animais sagrados, ademais de garantirem a lã para a produção de tecidos. Os povos originários de Chiapas são marcados, de acordo com Zebadúa (1999), por seu espírito rebelde, como testemunha a revolta zóque em 1693 e a rebelião tseltal de 1712, motivada por um movimento messiânico que pregava que a Virgem Maria apareceu, em Cancuc, para crianças, mandando que os indígenas se insurgissem contra os espanhóis, o que se transformou no mais violento enfrentamento, levando à extinção da obrigatoriedade de tributos para os indígenas. Assim, o movimento guerrilheiro instalado na região depois do massacre de 1968 encontrou um fértil espaço para prosperar sua luta social contra a falta de democracia e as injustiças sociais. 2 Disponível em acesso em 10 de setembro de 2015. 10 Além da reação contra o autoritarismo numa conjuntura política oligárquica, dominada há quase sete décadas por uma só agremiação conservadora, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), o levante zapatista também resultou de uma luta agrária para garantir o direito ancestral à terra dos povos originários, comprometido não só pelo avanço dos interesses comerciais, mas pela falta de terras para os trabalhadores agrícolas. “Em toda a parte oriental de Chiapas, os campesinos experimentavam uma escassez de terra devido ao crescimento populacional combinado com o estancamento da redistribuição de terras” (DER HARR, 2005, p. 4, tradução minha). Antes do levante de janeiro de 1994, os zapatistas haviam tomado 60 mil hectares dos landinos, proprietários de terras não indígenas, que possuíssem mais de 50 hectares. O EZLN justifica as expropriações como uma reparação aos povos ancestrais indígenas. “(...) tal política foi crucial na construção da força zapatista local, já que os novos centros permitiram aos zapatistas manter uma notável presença local e conter a erosão de suas bases” (DER HARR, 2005, p. 8, tradução minha). A crise das fazendas de café é outro motivo da insurgência. O modelo econômico, baseado na produção cafeeira, entrava em decadência, trazendo insegurança para os indígenas que trabalhavam como campesinos dos latifúndios e levando os peões livres a dedicar-se às construções de grandes obras, como estradas e hidroelétricas. A situação era gerada não só pela queda no preço do produto no mercado internacional, mas porque Chiapas se tornava uma região que começava a priorizar a produção extrativista de energia e madeiras. O interesse empresarial na região tornou-se claro, em 1971, quando um decreto do presidente Luis Escheverría Álvarez expropriou mais de 600 mil hectares de terras ocupadas por indígenas das etnias tsotsiles, tseltales, tojobales, zóques e choles em benefício do povo originário quase extinto, os lacadones, que não possuía mais de 500 famílias. Detrás do decreto havia um grande negócio de políticos e madeireiros. Todos se apresentaram como a Companhia Florestal Lacandona S.A. Esta se apressou em firmar um contrato com os ‘legítimos donos’ da terra. Adquiriram o direito de extrair 35.000 metros quadrados de madeira (...). A selva se tornava monopólio da companhia (CASANOVA, 2001, p. 272, tradução minha). A situação estimulou a organização militar das comunidades indígenas ligadas ao FLN para a defesa de seu território. Os povos indígenas já possuíam, desde seus ancestrais mayas mais remotos, o espírito guerreiro e rebelde, como nas citadas revoltas zóques de 11 1693 e a tseltal de 1712. Esse espírito subversivo foi reorganizado com a ação pastoral desde a década 1960, após o Concílio do Vaticano II e a Conferência dos Bispos Latino- americanos em Medellín, que decidiram pela prioridade dos pobres e jovens para construção de um mundo novo baseado em valores como justiça social, igualdade e solidariedade. O bispo de San Cristóbal de Las Casas, Samuel Ruiz, decidiu criar uma missão com centenas de catequistas, dezenas de diáconos, religiosos e sacerdotes para evangelizar e libertar politicamente os indígenas da região, organizando-os em Comunidades Eclesiais de Base (Cebs). Para Casanova (2001, p. 238, tradução minha), as Cebs “(...) lhes deram as bases de uma cultura democrática em que começassem por representar-se por si mesmos para respeitar os demais e para construir com todas as organizações que representaram os interesses comuns”. Estas organizações indígenas passaram a ser para muitas comunidades a única instituição social existente dado à descrença com relação à política eleitoral, marcada pela ausência, corrupção, ameaças e violência estatais. Após o conflito armado nos primeiros meses de 1994, de acordo com a pesquisadora Gemma Van DER HARR (2005), cerca de 70 mil hectares do território chiapaneco passam a ser controlados pelas comunidades articuladas, que posteriormente se tornam 38 Municípios Autônomos em Rebeldia Zapatista (Marez), com sua segurança feita pelo EZLN e gestão pelas comunidades organizadas em assembleias populares e conselhos administrativos eleitos e revogados a qualquer momento pelas mesmas. Segundo Felice e Muñoz (1998), é a primeira guerrilha, na América Latina, que após conquistar o poder o transfere para os civis, não permanecendo no comando e apoiando a construção de uma organização democrática. O Exército passou, desde 2003, a tratar apenas das questões relativas a segurança da região, tendo uma atuação política limitada aos comunicados e discursos, sem poder de decisão, do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena (CCRI) e de lideranças como subcomandantes Marcos e Moisés e comandantes Tacho, Ramona, David e Esther. Os Municípios Autônomos em Rebeldia Zapatista (Marez) compõem os Caracóis, no total de cinco e tendo suas sedes situadas nas localidades de Oventic, Roberto Barrios, La Realidad, Morelia e Garrucha. Criados em agosto de 2003, são administrados por uma Junta de Bom Governo (JBG), formada por representantes dos Conselhos de vários 12 municípios para um mandato de três anos. Os Caracóis são responsáveis pela “(...) condução da administração da justiça, da saúde comunitária, da educação, da habitação, da terra, do trabalho, da informação e da cultura, da produção, do comércio e do trânsito local” (BRANCALEONE, 2009, p. 18, tradução minha). Segundo Brancaleone (2009), a JBG possui as seguintes missões: equilibrar o desenvolvimento dos Marez; julgar as denúncias contra os Conselhos Autônomos; acompanhar a realização de projetos e tarefas comunitárias nos municípios autônomos; atender as visitas da sociedade civil nacional e internacional na visita às comunidades; promover e aprovar a participação de companheiros e companheiras dos Marez em atividades fora das comunidades rebeldes; registrar pessoas, comunidades e sociedades de produção e comercialização zapatistas; decidir quais comunidades receberão apoios externos e defender os princípios da gestão zapatista - “mandar obedecendo” e “tudo para todos e nada para nós”. Figura 1: Entrada do Caracol de Oventic Figura 2: Tendano Caracol Figura 3: Salão de Festa do Caracol de Oventic Figura 4: Junta de Bom Governo Caracol Oventic 13 Figura 5: Clínica de saúde no Caracol Oventinc Figura 6: Escritório das Mulheres pela Dignidade Os territórios dos Caracóis não são espaços contínuos numa comunidade autônoma, podendo haver algumas famílias não aderentes ou até ligadas ao Governo Federal ou Estadual. Os sentidos sobre esses espaços alteram-se de forma tal que, num mesmo lugar, as instituições zapatistas podem ser vistas como autoridades ou como adversários. Esta multiterritorialidade, se por um lado significa a tolerância zapatista, baseada no princípio de Emiliano Zapata, “terra para quem trabalha”, por outro agrava, em algumas situações, os conflitos, principalmente com a atuação de paramilitares acobertados pelo Exército Federal e por famílias não aderentes ao movimento. Nesta perspectiva, percebe-se a história do EZLN como a passagem do antagonismo político, do confronto com o Governo e o Exército Federal, para a política agonística de articulações de composições e acordos. A linha política do grupo (zapatistas) entendo que não tem havido nenhuma atividade militar. Nesse sentido, creio que a construção da autonomia por 14 parte do movimento zapatista tem sido um processo não violento e isso creio que sim é um fato importante, nos últimos 10 anos (...)3 Estas articulações zapatistas ampliaram-se com a construção do Acordo de San Andrés pela Comissão de Concórdia e Pacificação (Cocopa), liderada pelo bispo de San Cristóbal de Las Casas, D. Samuel Roriz e pela Comissão Nacional de Intermediação (Conai) do Congresso Nacional. As discussões não se restringiram aos grupos de trabalho das comissões, pois o EZLN convocou outras lideranças e intelectuais para discutir, muito além de suas questões locais, uma legislação indígena que garantisse não só a autonomia das comunidades, mas o reconhecimento, como partícipes das decisões nacionais. A própria Declaração da Selva Lacandona, divulgada durante o levante de 1o de janeiro de 1994, foi redigida ampliando os ideais zapatistas além das questões regionais e indígenas, incluindo todos os povos explorados. Nestas discussões, a democratização da comunicação esteve presente defendendo os meios “não como um artigo de consumo controlado pelos centros do poder político e comercial, mas como um recurso social que deve ser produzido, gerado e difundido de maneira plural e equitativa (...)” (Centro de Meios Livres, 2013, p. 20). Os zapatistas reivindicaram também uma nova Lei Federal de Rádio, Televisão e Cinematografia que incorporasse os interesses dos povos indígenas, demanda apoiada em 1996 pelo Foro Nacional Indígena. De acordo com os pesquisadores Massimo Di Felice e Cristobal Muñoz (1998), as relações zapatistas com o que eles denominam de sociedade civil foram aprofundando- se com a realização da consulta nacional em 1995 sobre a transformação do EZLN num partido político e sua estratégia eleitoral que resultou na criação de um braço civil e nacional do movimento - a Frente Zapatista de Libertação Nacional (FZLN) - e da rejeição na participação nos processos eleitorais. Assim, para fazer parte da FZLN havia duas restrições: não ser filiado a partido político, nem pertencer ao Governo. A orientação consolidava não só a autonomia política externa, que será discutida na seção seguinte, mas ainda a ideia de um movimento construído pela base. O EZLN opta, diferentemente da maioria dos movimentos insurgentes, por não tomar o poder de cima, porém construir por baixo, nas organizações populares e no cotidiano, novas relações sociais mais justas. Desta forma, a comunicação torna-se estratégica não só para a 3 Thomas Zapf, da Organização Não Governamental Sipaz, entrevista concedida 14 de julho de 2013, San Cristobal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução livre. 15 visibilidade pública, mas para promover a participação, compartilhando os informes, as mobilizações e as decisões coletivas e estimulando o protagonismo dos povos originários na apropriação de tecnologias e linguagens dos meios. Em 1996, o EZLN promove uma articulação nacional e internacional com a realização do "Encontro Intercontinental pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo na Selva da Fronteira". O evento resultou na 2ª. Declaração de La Realidad que convoca a formação de uma rede intercontinental de comunicação alternativa contra o neoliberalismo e pela humanidade. “Esta rede intercontinental buscará tecer canais para que a palavra caminhe todos os caminhos que resistem” (CENTRO DE MEDIOS LIBRES, 2003, p. 21). Por ocasião da votação da lei indígena no Congresso Nacional, que aprovou uma legislação que descumpriu os acordos de San Andrés, o EZLN realizou, em 2001, a Marcha da Cor da Terra, que percorreu os quase 800 km entre San Cristobal de Las Casas e a Cidade do México, a fim de sensibilizar a sociedade e os congressistas para o tema. Na caminhada, vários comunicados foram publicados e diversas reuniões, discursos, assembleias realizadas e várias rádios livres foram nascendo, como a Radio Zapote. Em 14 de fevereiro de 2002, o EZLN funda suas emissoras, as Rádios Insurgentes, com transmissão diária em Frequência Modulada (FM) desde Los Altos, Selva de Fronteira e Selva Lacandona e semanalmete, em Ondas Curtas (OC). Com o esvaziamento da FZLN e o que o porta-voz do EZLN, subcomandante Marcos, chama de “fim da moda zapatista”, o movimento vivencia um momento mais discreto10 com certo fechamento, a fim de organizar internamente suas comunidades até 2005, quando foi publicada a Sexta Declaração da Selva Lacandona4. O comunicado reafirma o distanciamento dos zapatistas à política partidária eleitoral, mas convoca todos os simpatizantes – inclusive os meios comunitários e livres - a fazerem parte da “Otra Campaña”, um movimento que busca reunir os coletivos, as organizações civis, as entidades e os cidadãos na construção de um México democrático, justo, pluriétnico e multicultural. Assim foi não só legitimada a ação de coletivos simpatizantes e de comunidade não zapatistas aderentes ao zapatismo, mas também as diversas apropriações do zapatismo, que não é exclusividade do EZLN. Com a Sexta, os zapatistas 4 Disponível em , acesso em 10 de outubro de 2015. 16 (...) permitem que outras organizações5 possam ser aliados sem ser bases zapatistas e isso permitiu uma saliência do zapatismo que não tinham antes. Por exemplo, se uma comunidade deixasse de ser base de apoio, por mais duro que fosse, tinha que ir aliar-se com o Governo porque não havia uma alternativa intermediária. A raiz da Sexta permite que uma organização seja aliada zapatista e consiga financiamentos do Governo6 A declaração incentivou a organização dos meios livres que realizaram, em setembro de 2005, sua primeira plenária de coalização e, em fevereiro de 2006, o “Encontro Outra Comunicação, outra informação, outra cultura, outra arte”, em Tlaxcala, quando defenderam que “a tecnologia deve buscar também o caminho de baixo, para o tecido desta rede que se faz visível na Otra Campaña” (CENTRO DE MEDIOS LIBRES, 2003, p. 29, tradução minha). A partir de 2006, os zapatistas diminuem as articulações com a sociedade civil para construir a transferência da administração dos Marez para os civis. Como parte deste processo, as emissoras de rádio passam a ser geridas pelas comunidades, transformando as Rádios Insurgentes em emissoras comunitárias, como explica um Comunicado da Junta do Bom Governo de La Realidad: “Queremos ter em cada município uma radiodifusora para cobrir mais povos onde não chega o sinal” (CENTRO DE MEDIOS LIBRES, 2003, p. 30, tradução minha). Depois do declínio da Otra Campaña em 2011, o movimento volta a ter uma aparição pública mais intensa em 21 de dezembro de 2012, na manifestação da Voz do Silêncio, quando, no dia que marca o final do calendário maya7, mais de 40 mil zapatistas marcham silencionsamente pelas ruas das principais cidades de Chiapas com a mensagem: “Escutaram? Esse é o som do fim do velho mundo e do começo de um novo mundo que estamos construindo!”. No final deste dezembro, o Comitê Clandestino Revolucionário em Rebeldia (CCRR), núcleo dirigente do EZLN, lançou um comunicado que indica “maior presença no Congresso Nacional Indígena e nos movimentos alternativos e, de novo, volta a marcar distância de todos os partidos políticos” (RODRIGUEZ, 2013, p. 188, tradução minha). Neste período, a 5 É importante deixar claro que as comunidades aderentes à Sexta podem receber financiamento do Governo, mas as dos Marez não. No entanto, na prática, o Governo não financia as comunidades simpatizantes porque exige para dar qualquer recurso a adesão política. 6 Peter Rosset, assessor internacional da Via Campesina, entrevista concedida em 11 de julho de 2013, San Cristobal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução minha. 7 O calendário maya é uma das principais heranças destes povos pré-hispânicos que habitaram as regiões hoje conhecidas como sul do México, Guatemala, Honduras, Belize e El Salvador. Tem início em 11 de agosto de 3114 a.C.e segue até 12 de dezembro de 2012. É organizado em unidades temporais crescentes. Cada 20 dias completam o que corresponderia a um ‘mês’. 17 mensagem zapatista circula intensamente também em rádios livres de várias localidades, como nas emissoras Rádio Zapote, na Cidade do México, Guardiones de La Memoria de Acteal, em Cheneló, e Frecuencia Libre e Votón Zapata, em San Cristóbal de Las Casas. Em 2013, nas vésperas da comemoração dos 20 anos do levante, o EZLN convoca a sociedade civil para participar da Escolita, uma formação nas comunidades zapatistas durante uma semana que permita não só conhecer, mas viver o zapatismo no cotidiano de um Município Autônomo em Rebeldia Zapatista (Marez) e discutir os princípios e valores do movimento. O militante da Organização Não Governamental Promedios8, Paco Vasquez, define o momento como a possibilidade de (...) conhecer a vida em resistência zapatista. Eles têm desenhado um modelo de intercâmbio de maior profundidade. Estão convidando a sociedade para conhecer as experiências das Juntas de Bom Governo como concretização da luta pela autonomia indígena. Vão poder compartilhar com maior profundidade a vida zapatista com essas pessoas que estão indo para esse encontro chamado Escolita Zapatista. Vão poder compartilhar com famílias algo como uma semana. Isso é inovador porque sai dos espaços formais.9 O evento recebeu convidados do mundo inteiro, sendo realizado em cinco localidades e teve, em sua primeira etapa, três edições. Sua segunda etapa seguiu em 2015 para quem concluiu a anterior. O processo de construção da autonomia zapatista, compreendida como o autogoverno, a autodisposição, a autodefinição e a autodelimitação das comunidades articuladas, conforme será explorado no item 3.3.1 desta tese, afirma-se, em primeiro lugar, como um modo de agir e ser que busca produzir sujeitos e territórios emancipados, sem estarem isolados. Em segundo lugar, o processo autonômico enseja a ruptura junto ao sistema de governo e eleitoral mexicanos, consolidada não só pelo levante e pela 8 A ONG se define, em sua página na Internet, como “una organización que surge del encuentro entre comunidades campesinas indígenas del sureste mexicano y sociedad civil de los Estados Unidos, la ciudad de México y Oaxaca. Se inició en 1997 con una serie de consultas a líderes de comunidades indígenas del estado de Chiapas. En cada uno de estos encuentros, los líderes resaltaron la importancia de la información en su lucha por los derechos humanos, la democracia, las reformas territoriales y el respeto por los derechos de los pueblos indígenas. La intención es impulsar esfuerzos conjuntos con el objetivo de que las comunidades tengan la oportunidad de apropiarse de conocimiento en comunicación que posibilite ser un medio para construir desarrollo y autonomía. Con este objetivo se da paso a la constitución de una organización binacional y multicultural que hoy se conoce como Promedios/Chiapas Media Project, que provee equipo de video, computadoras y capacitación a comunidades indígenas marginadas en el sureste de México, lo cual les permite crear sus propios medios de comunicación”. Disponível em acesso em 5 de maio de 2014. 9 Entrevista com Paco Vasquez, militante da ONG Promedios, entrevista concedida em 23 de julho de 2013, San Cristobal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução minha.. 18 consulta nacional, mas também pela descrença na cultura política vigente, que, para o EZLN, está baseada na cooptação e corrupção de lideranças comunitárias para manutenção do poder na mão das famílias dominantes. Esta ruptura apresenta-se em diferentes formulações autônomas de influências anarquistas que consideram que “(...) os partidos manipulam aos votantes e mantêm um controle elitista das opções do eleitorado. E os partidos carecem de mecanismos efetivos para que os militantes controlem os dirigentes: a democracia intrapartidária brilha por sua ausência” (ESTAVA, 2011, p. 133, tradução minha). Até os partidos de oposição aos governos federais das últimas décadas, que apoiam movimentos populares e sindicais, estão, de acordo com os zapatistas, como o Partido Revolucionário Democrático (PRD), corrompidos pela lógica capitalista. Duas situações foram fundamentais para esse ceticismo: a participação do PRD na aliança que aprovou, em 2001, no Congresso Nacional a legislação indígena diferente da proposta do Acordo de San Andrés e a eleição do candidato do PRD para o Governo de Chiapas que perdeu o controle do partido com a filiação dos conservadores antes adversários, rendendo-se aos interesses de fazendeiros e empresários. “O problema é que o PRD em Chiapas nunca foi PRD, mas uma fração do PRI que não conseguiu chegar ao poder com PRI, passou para o PRD que não teve uma história como em outros Estados, mas o PRI que chegou era maior e se apoderou do PRD”.10 Nesta observação de campo, notei também as dificuldades do movimento zapatista que, segundo Der Harr (2005, p. 18), podem ser resumidas em duas situações problemáticas. A primeira refere-se ao distanciamento das relações com o governo. Como destaca essa autora, “a resistência pesa muitíssimo sobre a população civil zapatista. Enquanto a população rural não zapatista tem acesso a toda uma gama de créditos e apoios assistenciais do governo, os zapatistas em boa medida têm que autosustentar-se”. O movimento zapatista desgasta assim economicamente suas bases, agravando internamente conflitos culturais e geracionais. Mesmo que os membros que permanecem na resistência estejam convencidos de suas escolhas e não se deixem levar por benefícios materiais de curto prazo, as abdicações pesam principalmente sobre a economia das famílias. Durante minha visita ao Caracol Rebeldia e Resistência pela 10 Entrevista com Peter Rosset, concedida em 11 de julho de 2013 em San Cristobal de Las Casas. Tradução minha. 19 Humanidade, em julho de 2013, um atendente da venda de produtos das cooperativas zapatistas, identificado como Manoel, defendeu o seguinte argumento: “não lutamos só pela melhoria de nossas vidas, queremos mudar o sistema capitalista”11. Sem apontar possíveis motivos, a pesquisadora mostra que a segunda dificuldade do movimento consiste em “(...) chegar a alianças firmes com outras organizações sociais e políticas” (DER HARR, 2005, p. 19, tradução minha). A Frente Zapatista de Libertação Nacional (FZLN) acabou por esvaziar-se. A Otra Campaña também teve semelhante fim. Além de levar-se em conta os naturais refluxos e esvaziamentos das mobilizações e movimentos sociais, é necessário, segundo Der Harr (2005, p. 19), pensar o zapatismo não como um “(...) projeto acabado e mais como um composto de várias arenas onde se negociam alinhamentos, se vão construindo discursos dominantes e se sancionam comportamentos”. É preciso também analisar as inevitáveis contradições entre uma ideia isolacionista de autonomia e as articulações, algo que, a partir do estudo dos usos sociais das rádios zapatistas, pode indicar algumas tensões na ideologia do zapatismo. Observei em campo que um dos prováveis motivos para as dificuldades de articulações do movimento zapatista deriva do clima de guerra na região, promovido pelo Governo, que, ao invés de se confrontar diretamente, apoia grupos paramilitares que tentam tomar terras e acessos a recursos naturais e ameaçam a integridade das comunidades zapatistas. As questões de segurança ganham, neste contexto, uma preponderância tal que não só dificultam as relações com outras instituições e pessoas, muitas vezes, hostilizando injustamente os “desconhecidos”, mas também criam uma disciplina no movimento que frequentemente rejeita a crítica externa, que restringe os debates aos espaços internos e que participam de discussões públicas com posições muito fechadas e quase intransigentes. Percebi que essa postura do movimento frente ao clima de guerra, conflitos e violência instalados na região se reflete em sua comunicação que se aproxima, em alguns momentos, de doutrinação para uma verdade inquestionável, comprometendo a participação plural e a diversidade que não existe nas transmissões na mesma proporção que há em suas assembleias, coletivos, comissões e junta. A partir das vivências em campo, também descobri que a Rádio Insurgente de Los Altos tinha transformado-se na rádio comunitária Rebelde, com o slogan “a Voz da Mãe 11 Informação oral obtida em julho de 2013, Caracol Rebeldia e Resistência pela Humanidade, Oventic, Chiapas, México. Tradução livre. 20 Terra”. Compreendi ainda que os ideais do movimento estão além das comunidades zapatistas. Apresentam-se também em coletivos autônomos que atuam, principalmente, nas cidades e que se apropriam de meios de comunicação livres. Dentre estes, destaca- se, na região, a Rádio Frecuencia Libre, no ar desde 2002 na cidade San Cristóbal de Las Casas, como um espaço para diversos movimentos e atores sociais e gerida por um coletivo autônomo aderente à Sexta Declaração Zapatista. O objetivo da investigação, então, passou a analisar os usos sociais destas duas emissoras específicas. A escolha das rádios se deve não só à sua representatividade junto às comunidades locais, mas também às condições do acesso. O primeiro critério de corte foi a emissora ser aderente ou pertencente a algum movimento zapatista e abrir espaço permanente na programação para mensagens das comunidades zapatistas. O segundo foi a possibilidade de sintonizá-la na base da pesquisa, San Cristóbal de Las Casas. E o terceiro está relacionado a encontrar ouvintes da emissora, disponíveis para realização de entrevistas. Por rádio zapatista, esta pesquisa compreende então uma emissora que seja de uma organização aderente ao zapatismo (não necessariamente de propriedade ou controle do EZLN ou comunidade zapatista) e tenha na programação conteúdo referente ao movimento. O problema desta tese questiona como as rádios zapatistas estão envolvidas nesta construção da autonomia política. Para isso, análise será realizada a partir da perspectiva dos usos e apropriações, de um mapeamento das matrizes culturais, lógicas de produções, formatos e competência da recepção envolvidas nos processos de produção e escuta, e do estudo da constituição de um imaginário marcado pelas articulações com outros grupos e povos e pela conquista da justiça social. Busca-se saber como as comunidades e coletivos autônomas se apropriam de rádios comunitárias; qual a relação entre as matrizes culturais das comunidades e a escuta das rádios; e em que medida as rádios participam da construção do imaginário autonômico. A investigação também busca compreender outros possíveis usos das emissoras, como o lúdico e o tradicional. Esta investigação construiu a reflexão a partir de dois eixos conceituais. O primeiro eixo problematiza os estudos de recepção, os usos sociais dos meios, a etnografia e os sentidos culturais, tendo como referências autores latino- americanos, como Martín Barbero, Guillermo Orozco, Jorge González, Galindo 21 Cárceres, Itânia Gomes, Nilda Jacks, Veneza Ronsini, entre outros. Esses estudos nos permitem olhar para as rádios zapatistas como fenômenos de comunicação popular, produzidos pelos excluídos dos meios massivos num contexto marcado por contradições sociais, lutas históricas e uma inevitável diversidade e mestiçagem cultural. Defendemos que a produção de um mapa noturno12 dos usos sociais das rádios zapatistas permite uma análise das emissoras citadas, além da tecnologia e das mensagens, mas a partir das apropriações dos ouvintes pesquisados de modo a buscar pontos de convergência e divergência, além da diversidade de endereçamentos e reproduções do turbulento contexto social e político investigado, que será esclarecido no capítulo seguinte. Traçar um mapa noturno das rádios zapatistas é reconhecer que esta reconstrução é uma turva visão das vivências e experiências retratadas, não só pelos limites da linguagem e do conhecimento científico, mas pela própria opacidade do contexto, entrecortado por tramas que estão, por vezes, além da percepção dos sujeitos, inclusive de pesquisadores. Mesmo neste caminho obscuro, o percurso das mediações das rádios zapatsitas é traçado nas relações entre emissão, produção, mensagens, recepção, usos, apropriações, espaços, tempos e entornos sociais. O primeiro trajeto parte das emissoras e contexto sociocultural apresentado nas institucionalidades; seguido pelas apropriações da tecnologia radiofônica e a relação com os modos de percepção dos ouvintes, desenvolvido nas tecnicidades; pelas temporalidades sociais das rádios e receptores e terminando nas relações entre receptores e ambientes sociais onde transitam as mensagens, abordadas nas socialidades. De forma geral, a institucionalidade será investigada a partir das tensões entre a autonomia e a globalização, entre a resistência e a perseguição e entre o mercado e a sustentabilidade, e os conceitos e práticas dos meios livres e das rádios comunitárias. Para pensar a tecnicidade nas emissoras zapatistas, traçamos interfaces entre a oralidade, predominante nas comunidades rurais e na linguagem do rádio, e as características da tecnologia e das técnicas radiofônicas. Já as coordenadas referentes às ritualidades abrangem as diferentes temporalidades sociais das emissoras e dos ouvintes que criam, a partir desta relação, hábitos de escuta. Por fim, por meio da socialidade, a 12 O termo mapa noturno é o nome dado por Martín-Barbero (1989; 2002) aos possíveis resultados de uma análise baseada em seu modelo teórico dos usos sociais dos meios que busca compreender as relações entre lógicas de mercado, matrizes culturais, formatos dos meios e competências culturais. O autor justifica o termo pela opacidade dos fenômenos sociais necessários para compreender os processos comunicacionais. 22 pesquisa investiga as apropriações dos ouvintes das rádios zapatistas imergindo nos mundos possíveis dos sentidos culturais da escuta. O segundo eixo teórico que sustenta a reflexão aqui realizada articula as noções de autonomia e política agonística. O processo de construção da autonomia é discutido com o auxílio da abordagem de autores que pesquisam e militam no movimento zapatista, como John Holloway, Enrique Ouviña, Hector-Diaz e Gustavo Estava. Também recorro a Cornelius Castoriadis, que define a autonomia como a autoinstituição lúcida da sociedade por indivíduos que a compreendem como um projeto indissociavelmente pessoal e coletivo. Desta maneira, é possível relacionar autonomia e articulação, dois conceitos de origens rivais - anarquismo e marxismo respectivamente -, mas necessários para entender a impossibilidade do isolamento na autoinstituição social e as condições da realidade investigada. A partir da noção de articulações, desenvolvida por Ernesto Laclau e Chantal Mouffe (2004), pode-se entender as construções sociais como resultado da formação e tensionamento de hegemonias, que se evidenciam em conflitos inevitáveis13. Tal abordagem, conferida pelo agonismo político formulado por esses dois autores, nos possibilita alcançar e compreender a situação de tensão e violência, chamada por Virillo (2009) de uma guerra de baixa intensidade14, marcada por ameaças, sabotagens e atuação de grupos paramilitares treinados pelo Exército Federal para expulsar os zapatistas de seus territórios. A reflexão teórica foi realizada paralelamente a quatro imersões de campo em julho de 2013, janeiro e julho de 2014 e de julho a dezembro de 2015 e uma visita pré- exploratória em janeiro de 2011, momentos em que se fez pesquisa documental, registro da programação das emissoras, imersão de inspiração etnográfica e entrevistas com dois grupos de atores sociais. De um lado, dialoguei com os intelectuais e as lideranças 13 Por hegemonia, compreendo, a partir das reflexões do filósofo italiano Antonio Gramsci (2002), a capacidade um grupo político de formar um bloco para exercer o poder, a partir de transações e seduções de outros grupos. Nesta perspectiva, a predominância de um grupo significa a existência de uma oposição (contra-hegemonia) mesmo que não explícita ou não organizada e de um processo negociação cultural. Nesta perspectiva, orientam-se as reflexões dos conflitos inevitáveis e acordos possíveis de Mouffe e Laclau. 14 Os aderentes e simpatizantes do movimento zapatista, que tive contato, rechaçam denominar o conflito de Guerra de Baixa Intensidade. Chamam de “guerra suja” porque, segundo Peter Rosset, é baseada nas táticas de contrainsurgência desenvolvidas na América Central pelo Exército Estadunidense. Ao invés do confronto direto, o Governo treina e arma grupos paramiliatares para atacar a guerrilha. Em troca, ganham benefícios, como a propriedade das terras dos insurgentes. O que tem ocasionado, em Chiapas, constantes hostilizações, ameaças, agressões, desalojamentos de comunidades inteiras e inclusive mortes. Mesmo ciente do eufemismo do termo, adoto este termo para diferenciar das guerras tradicionais. 23 políticas relacionadas de alguma maneira aos zapatistas, aos meios livres ou às comunidades indígenas. Estas entrevistas forneceram um panorama geral do contexto social, político e econômico dos coletivos, do zapatismo, dos meios livres, da Frecuencia Libre, da Rádio Rebelde, de Chiapas e do México. De outro lado, buscou-se entrevistar ouvintes das duas rádios pesquisadas. Para preservar a intimidade e a segurança dos ouvints entrevistados, troquei seus verdadeiros nomes por fictícios, ainda que eles tenham autorizado a publicação de suas identidades. Nessas entrevistas sobre a escuta das emissoras e o contexto dos entrevistados houve vários problemas, pois as respostas eram secas e rápidas, o que pode estar relacionado a dificuldades de entendimento por causa da língua, da estranheza da minha presença nas comunidades e de dificuldades de refletir sobre o ato corriqueiro de escutar o rádio. Tais respostas monossilábicas vieram sobretudo dos entrevistados de comunidades indígenas, o que me impeliu a buscar alternativas de coleta de dados, como a exploração dos registros dos diários de campo, a observação participante e os relatos das histórias orais de vida. Procurou-se, então, observar todos os gestos e ações dos pesquisados para encontrar os significados, valores e símbolos dos universos culturais investigados, permitindo reconstruir, nos relatos de histórias de vida, o encontro dos pesquisados com o zapatismo e com o rádio, de modo a compreender os universos culturais articulados a partir de seus percursos pessoais. Nas conversas que exploraram os relatos da história de vida dos pesquisados, sem a utilização do gravador e com uma relação mais descontraída, pode-se encontrar respostas mais profundas que revelaram as origens da aproximação dos pesquisados com os movimentos sociais, mostrando interseções entre os universos culturais do zapatismo, seus repertórios simbólicos e sua escuta das emissoras. A análise das produções das emissoras foi feita através das interpelações e propostas de escutas das mesmas a seus ouvintes - chamadas de “endereçamentos”, conceito aprofundado no capítulo seguinte -, possibilita compreender suas mensagens e formatos dos meios, impedindo de fraturar o processo de recepção e de emissão, mesmo que o direcionamento desta pesquisa aponte para o primeiro. De modo geral, busquei compreender a programação radiofônica, partindo do pressuposto de que a locução, as vinhetas, as músicas, os quadros e os programas das rádios zapatistas são partes integrantes de um conjunto de símbolos organizados que refletem universos culturais 24 não estanques e que fazem circular várias percepções, valores, imaginários e signos de pertencimento relacionados aos repertórios dos ouvintes. A partir do levantamento detalhado de dados históricos, culturais e sociais sobre o contexto em que os sons são produzidos, sobre os produtores e os ouvintes dos mesmos, procura-se construir uma imersão crítica nos textos sonoros, gravando-os, transcrevendo-os e categorizando-os, sem perder de vista a relação intercultural entre meus valores, enquanto pessoa e pesquisador (e de todo meu repertório teórico) e a cultura do grupo pesquisado. Esta imersão se faz necessária para que o deslocamento dos meios às mediações não perca as imprescindíveis raízes nos objetos estudados ao relacioná-los com as práticas culturais que os circundam. A proposta teórico-metodológica, baseada nos usos sociais e na reflexão agonística da política - além da pesquisa bibliográfica relacionada à temática, e dos modos de endereçamentos da programação das emissoras -, utiliza-se de entrevistas, observação, registro e interpretação de diários de campos e relatos de história de vida. Estes métodos triangulados formam uma abordagem de inspiração etnográfica, compreendida como a vivência em campo, com postura de alteridade, descrita densamente em diários, gravações e fotos, interpretadas nesta tese. O objetivo destes métodos é, como será desenvolvido adiante, chegar ao deslocamento necessário até as práticas culturais que circundam e relacionam-se à atuação das rádios, proposto por Martín-Barbero. A motivação para as escolhas destes conceitos, métodos e objeto nutriu-se de minha participação em movimentos da Igreja Católica engajados na transformação social, a partir da visão advinda da Teologia da Libertação15. A militância não só influenciou na minha decisão de cursar a graduação em Comunicação Social, como também no enfoque conferido à minha formação e atuação profissional, que priorizou trabalhos em comunicação popular, como a participação na fundação de rádios comunitárias no 15 A Teologia da Libertação (TL) é uma concepção católica que considera necessário construir sinais definitivos do Reino de Deus na terra, através da justiça social e da promoção dos direitos fundamentais das pessoas, por isso possui seus aderentes engajados politicamente em movimentos de transformação social. Segundo Jorge Santiago da Ong Demi (Desarollo Economico y Social de los Mexicanos Indígenas) em entrevista realizada no dia 18 de julho de 2013, a prática existe no México desde a década de 1960, apesar de sua teorização surgir posteriormente. No Brasil, a prática e a teoria da TL surgiram após a redemocratização a partir principalmente das práticas das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) e das reflexões de Frei Beto e Leonardo Boff. Na década de 1990, com a proibição do último de publicar textos pelo Vaticano e a reforma eclesiásticas nas dioceses, a prática perde espaço, situação também observada em Chiapas por Jorge Hernandez, do Cientro de Defensa de Los Derechos Humanos Fray Bartolomeu de Las Casas. 25 interior do Ceará no final da década de 1990, no engajamento na mobilização pela Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), da qual participei como delegado estadual em dezembro de 2009, e na diretoria da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço), na primeira década dos anos 2000. Também direcionei minhas prioridades de pesquisa e docência nesta área, tendo defendido minha dissertação de mestrado, em 2008, sobre os ouvintes da Rádio Favela pela Internet e ministrando a disciplina de Comunicação Comunitária em cursos de Jornalismo de Instituições de Ensino Superior de Fortaleza, no Ceará. Nesta atividade, descobri, através de discussões sobre a apropriação da internet por movimentos sociais, a atuação do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZNL) em Chiapas, México, como pioneiro nas mobilizações pela rede mundial de computadores. Minhas leituras me levaram a questionar como, em pleno século XXI, depois da queda das experiências chamadas de socialismo real no Leste Europeu, no aparente triunfo de sociedades de consumo desenfreado e insustentável, ainda há comunidades que se organizam para resistir a este cenário embasando-se em valores como a dignidade, a justiça social, a participação coletiva, a equidade de gênero e a pluralidade cultural? A partir desta inquietação, busquei aprofundar meus estudos sobre o caso, o que me levou a descobrir a existência das Rádios Insurgentes nas comunidades zapatistas. Além da radiodifusão ser minha área de interesse e de atuação profissional não docente, a carência de pesquisas publicadas nas línguas portuguesa, espanhola e inglesa sobre estas emissoras fortaleceu minha decisão de pesquisa, trazendo o seguinte questionamento: qual o papel das emissoras das comunidades zapatistas na defesa dos valores deste movimento? A abordagem teórico-metodológica, acumulada a partir de meus estudos e experiência de pesquisa, de compreender o processo comunicacional como um conjunto de práticas culturais realizadas por instituições, profissionais, tecnologias, receptores, tempos e espaços relacionados com o mesmo, levou-me a reelaborar esta questão para as relações dos ouvintes e do contexto de produção e escuta. Assim, me preocupa saber: qual o uso que os ouvintes fazem das transmissões, tecnologias e mensagens destas rádios em sua vida cotidiana? O que os motiva e o que significa para eles escutar estas emissoras? Quais os espaços que transitam essas emissoras e ouvintes? Qual a relação entre a programação das rádios e os universos culturais dos ouvintes? Como as comunidades se apropriam destas transmissões? Quais as matrizes culturais, 26 temporalidades, modos de percepção, lógicas de produção e formatos que a escuta e produção destas emissoras refletem? Adentrar neste estudo pode significar uma reflexão de como esta experiência contribui para a organização de meios comunitários que participem da construção de ruptura e luta pela justiça social, sustentabilidade, semelhante aos desafios dos zapatistas. Parte-se da premissa de que a mensagem de autonomia difundida pelos discursos do movimento zapatista serve não só como uma reflexão para os meios livres mexicanos, mas como uma possível reviravolta nos conceitos e práticas da comunicação comunitária latino- americana, incluindo a brasileira. Esta relação proposta significa assim um movimento de intercâmbio entre as experiências de pesquisa e militância na comunicação comunitária local e as vivências de estranhamento e identificações no mundo zapatista e realidade chiapaneca. Outra contribuição desta pesquisa é a apropriação da proposta teórico-metodológica dos usos sociais dos meios de Martín-Barbero, não só por investigar todos os aspectos do mapa noturno, provando sua viabilidade na investigação prática, mas também por utilizá-la para avaliar mediações massivas não comerciais, o que levou à necessidade de promover adaptações e ampliações conceituais a fim de dar conta de um fenômeno comunicacional popular e alternativo. Contribuir com a abordagem dos usos sociais busca fortalecer um saber consolidado localmente que possa compreender as problemáticas da América Latina a partir dos conhecimentos que priorizem esta realidade. Esta pesquisa então reflete inevitavelmente a presença de meus múltiplos traços. Como professor, preocupei-me em explicar os conceitos utilizados, de modo a quase utilizar um exagerado didatismo. No entanto, esta arqueologia do modelo teórico, a qual tive de frear, a fim de não perder o objeto, colabora para apontar caminhos para quem deseja percorrer trajeto semelhante. Durante a pesquisa, notei a carência de referências para a utilização deste modelo teórico-metodológico dos usos sociais dos meios. Assim, proponho este trabalho como uma contribuição para outros semelhantes. Esta investigação também mostra minha crença na necessidade da transformação das relações sociais para a construção de um mundo mais justo e sustentável. O deslocamento do militante para o pesquisador me foi possível, além da constante 27 vigilância e dos alertas da orientação, porque, mesmo como ativista, defendo a necessidade da constante autocrítica até mesmo de nossas atuações, crenças e projetos. Nestas condições, esta pesquisa possui os seguintes objetivos: - Compreender a apropriação do rádio por comunidades e coletivos de inspiração zapatista, a fim de entender como configuram um projeto autonômico e como se articulam com o contexto histórico, político e econômico do controle estatal e mercadológico dos meios de comunicação. - Investigar os traços das matrizes culturais dos povos originários, dos diversos outros atores e movimentos sociais envolvidos no contexto de produção e recepção das emissoras. - Analisar como a programação e as mensagens das rádios são organizadas nesta relação com as matrizes culturais e condições políticas, os formatos, a plástica, a locução, as informações, as músicas e como refletem nas temporalidades e ritmos sociais da emissão e escuta. - Conhecer os sentidos criados pelos ouvintes a partir das apropriações das emissoras em seu cotidiano, memórias e imaginários. Para chegar a estes objetivos e construir o mapa noturno dos usos sociais das rádios zapatistas, a presente tese está organizada em seis capítulos. O primeiro capítulo apresenta o desenho teórico-metodológico dos usos sociais dos meios e da política agonística, esclarecendo os pressupostos conceituais desta investigação. Já o segundo capítulo trata dos contornos históricos e políticos das rádios comunitárias no México, chegando às discussões sobre meios livres, comunicação popular, comunitária e autônoma e das lógicas de produção envolvidas nos conflitos constantes da regulamentação, liberdade e fiscalização. As matrizes culturais que resgatam os traços simbólico-dramáticos e racional-iluministas dos endereçamentos da programação da Frecuencia Libre e Radio Rebelde compõem respectivamente o capítulo 3. O capítulo seguinte discute a apropriação da tecnologia radiofônica pelos coletivos produtores das emissoras, conformada em formatos, que refletem os sensoriuns da oralidade e da escrita, e no papel social que desempenham ouvintes, movimentos e 28 produtores. Os tempos e lugares pelos quais transitam as rádios zapatistas são analisados, no quinto capítulo, através dos ritmos e hábitos da programação e da escuta. O traçado do mapa é completado, no sexto capítulo, com o estudo dos sentidos construídos pelos ouvintes a partir de suas memórias, vivências cotidianas e imaginários. A pesquisa conclui que a apropriação da tecnologia radiofônica pelo coletivo Frecuencia Libre e pelas comunidades zapatistas de Oventic criam lógicas de resistências, excluídas do mercado e da legalidade estatal, que entrelaçam as informações e críticas políticas da matriz racional-iluminista e as músicas, poesias e contos de origem simbólico-dramática. As emissoras possuem formatos e ritmos diferenciados do padrão comercial que são apropriados nos diversos lugares e tempos de escuta. Os ouvintes, por sua vez, conectam suas memórias, cotidiano e imaginários à escuta das emissoras. 29 1 USOS SOCIAIS DAS RÁDIOS ZAPATISTAS A exposição do referencial teórico-metodológico desta pesquisa está dividida em três momentos. O primeiro discute o modelo teórico-metodológico dos usos sociais dos meios adotado. Em seguida, apresento as condições e recortes da pesquisa para, por fim, chegar aos métodos e técnicas utilizadas no trabalho de campo empreendido. A escolha metodológica parte da busca de uma abordagem que possibilite compreender fenômeno das rádios zapatistas, mantidas por excluídos dos meios massivos no contexto latino- americano, marcado por contradições sociais, lutas históricas e uma inevitável diversidade e mestiçagem cultural. Por isso, a abordagem do filósofo hispano- colombiano Jésus Martín-Barbero16 revela-se como importante marco teórico, uma vez que compreende o fenômeno da comunicação para além da produção massiva e, por ser construída no contexto regional, possibilita uma apreensão mais adequada das diversas ambiguidades do continente. Segundo a pesquisadora brasileira Nilda Jacks (1996), o autor faz parte da corrente de Estudos de Recepção que, na década de 1990, foram reunidos no Pensamento Comunicacional Latino-Americano em cinco grupos: estudos do enfoque integral das audiências, desenvolvido pelo pesquisador mexicano Guillermo Orozco; do consumo cultural, desenvolvidos pelo antropólogo argentino Garcia Canclini; da recepção ativa, conduzidos pelo Centro de Indagación y Expressión Cultural y Artística (Ceneca) no Chile, liderado por Valerio Fuenzalida e Maria Elena Hermosilla; das Frentes Culturais, conduzidos pelos mexicanos Jorge Gonzalez e Galindo Cáceres e do uso social dos meios de Martín-Barbero. No Brasil, conforme levantamento realizado por um grupo de pesquisadores coordenados por Jacks (2014), de 2000 a 2009, das 5.715 pesquisas realizadas nos 44 cursos de pós-graduação em Comunicação apenas 209 tratam de 16 A abordagem de Martín-Barbero faz parte, segundo a pesquisadora brasileira Immacolata Lopes (1990), do Pensamento Comunicacional Latino-Americano (PCLA), construído desde meados do século XX, a partir de iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) de promover a comunicação como elemento de desenvolvimento dos países, na época denominados, de terceiro mundo. Tendo o Centro Internacional de Estudos Superiores de Comunicação para América Latina (Ciespal) como principal ponto irradiador e articulador, as pesquisas inicialmente se desenvolveram a partir de perspectivas consideradas, na década de 1960, “(...) funcionalistas descritivas com base em métodos comparativos (...) e de estudo de comunidade (difusão de inovações), dentro da linha de pesquisa de Comunicação e Desenvolvimento”. Na década de 1980, elas passaram a adotar uma abordagem “(...) com forte influência gramsciana, com metodologias qualitativas; temáticas: novas tecnologias de comunicação, transnacionalização, cultura e comunicação popular” (LOPES, 1990, p. 44 – 45). É neste contexto, que se inserem as contribuições de Martín-Barbero. 30 recepção, sendo 49 teses e 160 dissertações. Na década passada, houve um crescimento de mais de 400% em relação à década de 1990, que teve 45 trabalhos. A pesquisadora separa estes estudos em três abordagens: sociodiscursiva, comportamental e sociocultural. A primeira, com 32 pesquisas de mestrado e doutorado do período, realiza análise de discurso ou semiótica dos receptores. Já as 65 investigações comportamentais estudam as diversas reações nos públicos a partir de estímulos provocados pelos produtos dos meios. A abordagem sociocultural, que reúne a maior parte dos trabalhos num total de 112, analisa o processo de recepção desde as múltiplas relações sociais e culturais. “Mais do que o estudo do fenômeno de recepção em si mesmo, pretendem problematizar e pesquisar, seja do ponto de vista teórico ou empírico, sua inserção social e cultural” (Escosteguy apud JACK, 2014, p. 13). Nesta abordagem, inclui-se a proposta teórica-metodológica dos usos sociais dos meios de Martín-Barbero (1998), utilizada nesta pesquisa. De acordo com o levantamento, a última década representa a consolidação dos estudos acadêmicos sobre recepção que possibilitam perceber que as “(...) práticas no cotidiano das pessoas têm importância crescente para reconhecer não mais só o protagonismo de seus atores, mas as múltiplas mediações que estruturam e consolidam essas mesmas práticas” (JACKS, 2014, p. 9). Destas 209 pesquisas de recepção desenvolvidas nos cursos de pós-gradução em Comunicação, 104 investigaram a televisão, 26 a internet e 19 o rádio, seguido por 12 sobre o jornal e 11 sobre a revista. Nas pesquisas sobre a recepção do rádio apenas cinco foram teses de doutorado. No total, cinco utilizaram a abordagem sociodiscursiva e duas a comportamental. A maioria dos trabalhos foram feitos com base na abordagem sociocultural e realizados como dissertações em mestrado trazendo, segundo Anna Knewitz (2014, p. 113), deficiências supostamente causadas pelo “(...) fato de a maioria das pesquisas ter sido realizada no mestrado, quando os pesquisadores, além de inexperientes, contam com pouco tempo para desenvolver seus trabalhos”. Em relação à década de 1990, quando foram realizadas apenas 10 investigações sobre o rádio nos cursos de pós-graduação de Comunicação, as pesquisas avançaram não só na quantidade, mas na excelente contextualização dos objetos. “Em geral, (...) eles costumam fazer amplas e profundas informações acerca dos seus distintos públicos de análise (...)” (JACKS, 2014, p. 114). 31 Dada a distância dos objetos e da carência teórico-metodológica destas pesquisas, nossa investigação buscou, em teses sobre outros meios, inspiração e referências. Entre estas, destaca-se “Mundos possíveis e telenovela: memórias e narrativas melodramáticas de mulheres encarceradas”, de Valkíria John (2014), que ajudou na operacionalização metodológica e na apreensão do conceito de sentidos culturais, de Galindo Cáceres. As teses “A tecnicidade como mediação empírica: a reconfiguração da recepção de telenovela a partir do Twitter”, de Mônica Pieniz (2013); “A leitura jornalística na contemporaneidade: novas e velhas práticas dos leitores de Zero Hora”, de Anna Knewitz (2010) e “Jornalismo e identidade cultural: a construção da identidade gaúcha em Zero Hora”, de Ângela Felippi (2008) colaboraram para a análise respectivamente das tecnicidades, das ritualidades e das institucionalidades do mapa nortuno de Martin- Barbero (1998). Todas estas pesquisas foram realizadas no doutorado em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sob a orientação da professora Nilda Jacks. E por fim, a tese “Formas do telejornal: um estudo das articulações entre valores jornalísticos e linguagem televisiva”, de Juliana Freire Gutmann (2010), orientada por Itânia Gomes no doutorado de Comunicação e Cultura na Universidade Federal da Bahia, contribui para operacionalizar o método dos modos de endereçamentos. Todas estas teses possuem como referência a proposta teórico-metodológica de Jesus Martín-Barbero (1998). Analisar a comunicação a partir dos usos sociais dos meios, desenvolvida pelo autor, exige, ao menos, dois deslocamentos. O primeiro, definido através do gesto de perder o objeto para encontrar o caminho, requer pensar a comunicação não somente como um processo restrito à emissão e recepção. O trânsito de informações, ideias, valores, ideologias, tradições, representações, memórias, territorialidades, interesses, formatos, lógicas e temporalidades, que antecedem e sucedem a produção e audiência midiáticas, compõem indissociavelmente o processo. Fraturá-lo pode significar não só uma análise descontextualizada e anacrônica, como também inconsequente. Assim, a proposta de passar dos meios para as mediações reivindica analisar a comunicação como uma prática cultural envolta num ambiente simbólico repleto de interesses e disputas. As mediações culturais da comunicação desenvolvem-se nos conflitos, contradições, apropriações, reconfigurações, criações, redesenhos e reproduções das representações e da realidade. Significa que a forma de relacionar-se com a comunicação não está restrita aos meios, mas envolve considerar os 32 comportamentos e valores socialmente partilhados que comunicam. A comunicação está inevitavelmente nesse espaço de ambiguidades, hegemonias, determinações e indeterminações. Analisar as rádios zapatistas, nesta perspectiva, significa aglutinar na pesquisa, além da tecnologia, emissão e mensagens, os ouvintes e os contextos de escuta e de produção que, como será definido adiante, compreende os eixos das institucionalidades e socialidades. O segundo deslocamento, chamado por Martín-Barbero (2004) de mediações comunicativas das culturas, apresenta como os meios de comunicação impactam na vida social não só pelas influências nas agendas, opiniões, valores e conhecimentos sobre a realidade, mas na gestação de comportamentos e ritmos sociais adquiridos pelo uso dos meios. Há, por vezes, distâncias intransponíveis entre os interesses da produção e os resultados da mesma com suas brechas e fissuras; entre a mensagem veiculada e a apropriação feita pelos receptores e entre a recepção e o sentido cultural das mensagens. Não é só observada a centralidade da mídia na vida pública, mas, com o advento das tecnologias móveis e em rede, nas subjetividades e na forma de organizar e agir no cotidiano, que acabam transformando a sociedade e o movimento dos meios para as culturas. Esta perspectiva será observada nas tecnicidades e ritualidades. Martín-Barbero encontra nesta relação conflituosa entre símbolos, signos, palavras, estruturas, sujeitos, ação, mundo e realidade, a chave para compreender a comunicação como mediação não no sentido de intermediar, como critica Raymond Williams (2006), mas como o trânsito e apropriação nos diversos espaços, tempos, fluxos e fragmentos dos cotidianos dos sujeitos e das instituições, isto é, os processos sociais e culturais que dão sentido às interfaces promovidas pelos, e com, meios de comunicação entre os diferentes âmbitos da vida cotidiana. O pesquisador mexicano Guillermo Orozco (2000, p. 115, tradução minha) explica este movimento, defendendo que a recepção da TV não está restrita ao ato de assistir programas televisivos, pois abrange “(...) um processo que sai do quarto de ver televisão, através das iniciais apropriações (...), que logo são reapropriadas com a contribuição de outros (...) em contextos específicos que, mais do que só contextualizá- las, as conformam em direções definidas”. A pesquisadora Sarah Berkin (2000, p. 99) esclarece que “a apropriação está gestada pela dupla capacidade que têm os sujeitos de 33 diferenciar e apreciar estas práticas (...)”. O conceito de apropriação, encontrado nas investigações de Certeau (1994) e que será aprofundado no capítulo 4, aponta para a ação de tomar o do outro como seu, redesenhando-o e reconfigurando-o. No caso da comunicação, é tomar os significados originários, transformando-os em sentidos articulados ao contexto. É um processo que não só pode transformar internamente o receptor, mas também pode gerar uma mudança nos meios e mensagens. Articulados às táticas, resistências e subjetivações possibilitadas pelo universo cultural dos ouvintes, as tecnologias e os significados propostos pelas emissoras podem ser redesenhados, de sorte tal, podendo distanciar-se até opostamente da intencionalidade original. Esta abordagem desloca assim a comunicação dos elementos primários (emissão, meio, mensagem e recepção) para as práticas culturais. Por cultura, compreende-se, a partir da antropologia interpretativista, o simbólico que permeia as vivências, ou seja, um processo que, segundo Itânia Gomes (2004), configura o modo de ser da vida cotidiana e “ordinária” das pessoas. O que, para Clifford Geertz (1994), constitui os mecanismos de controle simbólico dos comportamentos sociais. Para os pesquisadores mexicanos Galindo Cáceres e Jorge González, a cultura é o campo das representações simbólicas, formadoras do sentido que constitui “(...) a relação, o vínculo entre o humano e o não humano, o que une homem e cosmos” (GONZÁLEZ apud GRISA, 2003, p. 39). Esta realiza a inter-relação entre presente, passado e futuro. Trata-se de um processo cotidiano, empírico, não necessariamente especializado, formal e científico que abarca todo o humano, inclusive no plano material. Mesmo criticado como um conceito vago ou ausente de delimitação rigorosa, como o faz Veneza Ronsini (2012), a ideia de mediação possibilita refletir os deslocamentos, nas pesquisas de uso social, dos meios à comunicação e da comunicação às culturas. Para Nilda Jacks (2008), a mediação permite assim entender o lugar estratégico da comunicação na sociedade, superando a noção de que esta é regida somente pelo mercado. Para isso, a proposta de Martín-Barbero17 inevitavelmente confere saliência à 17 Martín-Barbero (2002) revela que a ideia de construir o conceito de mediações, que relaciona comunicação e cultura, teve origem em suas leituras do educador brasileiro Paulo Freire e em suas tentativas de compreender a defasagem entre o que era dito no rádio e compreendido pelos ouvintes, e entre o que era veiculado no cinema e TV e era assistido pelos espectadores. A partir dos estudos de extensão rural, Freire (LIMA, 2004) diferencia a transmissão da comunicação. A primeira é por ele caracterizada como um ato vertical e autoritário, já olhar para a comunicação deve, de acordo com o educador, construir um inevitável processo de reciprocidade, mesmo que negada pelo âmbito da emissão. A recepção pode subverter as tentativas de controle do emissor quando se apropria dos significados e usos 34 recepção como um componente imprescindível da comunicação. Não é possível pensar esse processo sem os públicos, os endereçamentos, os contratos de leitura, os universos culturais, as comunidades interpretativas ou as práticas sociais dos receptores. Assim, esta pesquisa realiza estes deslocamentos não restringindo suas observações ao processo primário que conecta emissor, meio e mensagem das rádios zapatistas e buscando as vivências, experiências, imaginários e contextos sociais e políticos das emissoras e ouvintes. A análise que parte das mediações, elencada por Martín-Barbero, requer a observação de quatro elementos estruturantes do processo comunicacional: as matrizes culturais, as competências de recepção, as lógicas do mercado e os formatos industriais. As primeiras se relacionam às memórias coletivas, aos modos e transmissão de saber. As tradições, as representações e o imaginário dos grupos sociais compõem parte do ambiente onde recepção e produção se processam, intensificando possibilidades de reações e conformações dos públicos diante dos meios. O pesquisador chileno Guillermo Sunkel (1987), de quem Martín-Barbero toma a definição de matrizes culturais, as define como uma configuração histórico-estrutural dos valores e significados que circulam em determinadas realidades sociais, orientando os relatos populares. As matrizes culturais criam diversos sentidos sobrepostos sobre um mesmo lugar e tempo, construindo as múltiplas territorialidades dos espaços. Estes tecidos possibilitam que as mensagens transitem em fluxos diferenciados pelos universos culturais dos receptores. Os sentidos de tempo, de acordo com Martín-Barbero (1998), variam de acordo com as dimensões de cada contexto. Enquanto o tempo da matriz popular-rural é vivido na cotidianidade e nos ciclos sazonais das colheitas e festas, o da industrial-urbano busca unificar e homogeneizar os hábitos pelo calendário oficial de fusos, meses e anos que marca o ritmo de produção capitalista. Já os modos e transmissão do saber diferenciam-se entre o popular e o industrial. O primeiro se caracteriza pelo mundo descentrado, horizontal e ambivalente das superstições e misticismo. O saber industrial, por sua vez, propõe-se vertical, uniforme e centralizado na escola, que substitui a influência dos pais por uma pedagogia que neutraliza e intelectualiza o aprendizado. Ronsini (2012) alerta que há uma inevitável mestiçagem e cumplicidade entre estes valores dos meios de destas mensagens e meios. 35 comunicação massivos18 e os do imaginário subalterno, que em rádios não comerciais como as zapatistas possuem contornos diferenciados. As competências culturais da recepção são as possibilidades de apropriação dos meios e mensagens pelos receptores condicionadas pelo habitus e subvertidos pela inventividade do cotidiano e pelos sentidos culturais. O primeiro, de acordo com o sociólogo francês Pierre Bourdieu (2007), se constrói pela relação entre as estruturas estruturantes (sistema de produção, classe social, educação) e as estruturas estruturadas (as apropriações das condições sociais por um determinado grupo social), criando gosto de necessidade para as classes subalternas e gosto de luxo para os privilegiados socialmente. Essas condições abrem possibilidades para leituras mais críticas, conformadas ou alteradas dos meios. No entanto, as competências de recepção não são só reproduções sociais. Há uma criação muda e coletiva nas culturas populares, conforme afirma Michel de Certeau (1994). As táticas dos desprivilegiados constroem gambiarras, bricolagens, resistências, adaptações e usos que modificam os significados gestados pelas classes dominantes. Enquanto as estratégias são os planos de quem está no controle, as ações de quem está no lugar tido como dominado constituem as táticas. A inventividade do cotidiano é marcada por essa criatividade da adaptação à precariedade que possibilita a apropriação, isto é, tomar mensagens e meios do outro como suas, subvertendo sentidos. A competência de recepção também é possibilitada pela apropriação a partir dos sonhos e desejos que se cruzam às memórias e vivências cotidianas nos imaginários articulando os contextos sociais e subjetividades. Galindo Cáceres (1997) propõe o estudo dos sentidos culturais da recepção a partir desta relação entre passado, presente e futuro dos receptores inseridos em seu universo cultural. Esta pesquisa, diante da impossibilidade de acesso a dados socioeconômicos, dado o forte clima de desconfiança, analisou estas competências no nível dos sentidos relatados nas entrevistas e observados nos contatos com os entrevistados. Já as lógicas de mercado referem-se às rotinas e processos de elaboração dos conteúdos e gestão dos meios que obedecem às gramáticas industriais como automação, 18 Martín-Barbero (2004, p.54) utiliza a palavra massivo para evitar a impressão sugerida pelo termo “meios de comunicação de massa”, que poderia significar objetos culturais feitos pela massa. O autor esclarece que comunicação massiva “é a negação do popular na medida em que é uma cultura produzida para as massas, para sua massificação e controle, isto é, uma cultura que tende a negar as diferenças verdadeiras, conflitivas, reabsorvendo e homogeneizando as identidades culturais de todo o tipo”. 36 serialização, padronização, segmentação e lucratividade. É, como define, Ronsini (2012), a administração que organiza os meios de comunicação conforme os interesses políticos e econômicos. Assim como qualquer indústria, o principal objetivo é a obtenção de lucros, algo que pode ser subvertido pelos ethos dos profissionais, pela normatização legal, pelos movimentos sociais e pelas pressões das audiências. Estas lógicas, numa pesquisa de emissoras não comerciais, como as rádios zapatistas, precisam ser revistas para verificar as relações de poder e os processos e rotinas de produção específicos das mesmas. Para isso, a relação desta com o padrão comercial é desejável, a fim de reconhecer os sinais diacríticos, compreendidos como as diferenças das identidades entre o comercial, o popular e o comunitário Assim aqui ampliamos, a partir das próprias exigências de compreensão do objeto, o conceito de lógicas de mercado para lógicas de produção, a fim de incluir as relações não comerciais de emissoras como as rádios zapatistas, em seu processo de organização e gestão às margens do mercado e da legalidade. Nesta mesma perspectiva, constituem-se os formatos industriais que buscam realizar uma relação entre o código de produção e a expectativa dos receptores. Aqui o conceito também será alargado para "formatos dos meios", a fim de incluir as produções das estações analisadas que supostamente não seguem a lógica de mercado e consequentemente não devem configurar-se como industriais. No entanto, assim como a definição original, os formatos representam a transformação das formas simbólicas em discursos, quadros, eventos e programas. Já os gêneros, para Martín-Barbero, são mais amplos, podendo ser compreendidos como chaves de leituras, estratégias de comunicabilidade que tentam indicar os sentidos possíveis de recepção. “Não é algo que ocorra no texto, mas sim pelo texto (...) se define tanto por sua arquitetura interna quanto por seu lugar na programação” (MARTÍN-BARBERO, 2001, p. 314). Os formatos, os conteúdos e os gêneros constroem os endereçamentos das mensagens, que interpelam os receptores para determinados sentidos e “(...) que estabelecem relações entre o remetente e o destinatário (...) a forma como as organizações midiáticas se dirigem às suas audiências” (NATANSCHN, 2006, p. 103). Essas formas de se dirigir às audiências podem ser caracterizadas como as “construções simbólicas peculiares com modos distintos de endereçamento da mensagem” (MARQUES; ROCHA,2006, p. 38), 37 compreendidos como a negociação entre os interesses do emissor e as expectativas do receptor, a partir do contexto sociocultural e político-econômico, na produção discursiva. Segundo Itânia Gomes (2005, p. 3), os endereçamentos demonstram como há uma “(...) relação de interdependência entre emissores e receptores na construção do sentido do texto televisivo”. Já Sarah Berkin (2000, p. 100, tradução minha), reconhece a produção dos meios como um momento que resulta “(...) de uma leitura onde incorpora um conhecimento do receptor e se condensa numa programação que busca abarcar a aceitação de um público mais amplo possível”. Para isso, os endereçamentos são analisados a partir da adaptação do método de John Hartley (2000) para o rádio, na observação dos seguintes elementos: os mediadores (locutores, comentaristas, repórteres...), temática (assuntos abordados), papel social (expectativa criada junto à audiência), recursos técnicos (efeitos sonoros, trilhas, vinhetas, blocos e intervalos), linguagem radiofônica (oralidade), texto verbal (interpelações diretas à audiência). As relações entre estas matrizes, temporalidades, endereçamentos, lógicas de produção, competências culturais presentes na proposta teórica de Martín-Barbero (1998) constroem a institucionalidade (lógicas de produção e matrizes culturais), a tecnicidade (formatos e lógicas de produção), a ritualidade (lógicas de produção e competências da recepção) e a socialidade (matrizes culturais e competências da recepção) que são os operadores teóricos, ou o mapa noturno como denomina o autor, utilizados para refletir acerca dos usos sociais das rádios zapatistas nesta pesquisa, definidos adiante. 1.1 Recortes e condições de pesquisa Para desenvolver as reflexões que dão corpo à investigação aqui proposta, esta pesquisa precisou fazer recortes de ordem temporal e espacial em seu campo empírico. O primeiro foi durante o período de coleta de dados. Optei por realizá-la em quatro períodos diferentes, tendo, na última etapa, uma estadia de cinco meses, possibilitada pelo intercâmbio com o Centro de Investigación y Estudios Superiores en Antropologia Social del Sureste Mexicano (Ciesas Sureste), através do Programa Nacional Doutorado Sanduíche (PNDS) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes). As três primeiras imersões, mesmo sendo curtas, entre 20 dias a um mês, nos 38 ofereciam a possibilidade de construir um panorama mais amplo das dinâmicas locais, estabelecendo um intervalo entre as visitas de modo a ter um tempo para refletir sobre cada investida de campo, tomando um distanciamento das experiências vivenciadas e reconfigurando questões e rumos da pesquisa. Então, além da pesquisa pré-exploratória realizada em janeiro de 2011, estive em campo nos meses de julho de 2013, janeiro de 2014 e julho de 2014. Durante o período de intercâmbio, além estudar no Ciesas Sureste com antropólogos especializados em pesquisa com povos da região, pude ampliar as investigações, checar os dados e escrever a tese durante agosto a dezembro de 2015. Nestes períodos, foi criada uma rede de contatos cativados através da Internet nos momentos que antecediam e que sucediam as idas ao México. A cada imersão, a pesquisa logrou um nível de profundidade maior, sobretudo com relação à compreensão do imaginário zapatista e dos modos de vida dos povos chiapanecos. A pré-exploração de campo, feita em janeiro de 2011, antes do início do doutorado, buscou conhecer a viabilidade do projeto quando foram realizadas duas entrevistas - uma com o assessor internacional da Via Campesina19, Peter Rosset, e outra com o militante da Organização Não-Governamental (ONG) Promedios, Paco Vasquez - e uma tentativa de visita ao território zapatista, precisamente ao Caracol20 Resistência e Rebeldia pela Humanidade, em Ovetink, que não foi autorizada pelas autoridades locais. A primeira imersão da pesquisa ocorreu em julho de 2013 quando, já concluídas as disciplinas do curso de doutorado, foram realizadas dez entrevistas com lideranças políticas e intelectuais (as entrevistas que fui autorizado a gravar estão disponíveis no Apêndice I) escolhidos a partir da disponibilidade de contato no período e na notória participação e acompanhamento do movimento zapatista. As conversas, realizadas em San Cristóbal de Las Casas, Zinacantán e Cidade do México, trataram principalmente 19A Via Campesina, fundada em 1993, na Bélgica, define-se assim em seu site: “es el movimiento internacional que agrupa a millones de campesinos y campesinas, pequeños y medianos productores, pueblos sin tierra, indígenas, migrantes y trabajadores agrícolas de todo el mundo. Defiende la agricultura sostenible a pequeña escala como un modo de promover la justicia social y la dignidad. Se opone firmemente a los agronegocios y las multinacionales que están destruyendo los pueblos y la naturaleza. La Vía Campesina comprende en torno a 164 organizaciones locales y nacionales en 73 países de África, Asia, Europa y América. En total, representa a alrededor de 200 millones de campesinos y campesinas. Es un movimiento autónomo, pluralista y multicultural, sin ninguna afiliación política, económica o de cualquier otro tipo.” (disponível em , acesso em 22 de setembro de 2015). 20 Caracol é uma divisão territorial e política, criada pelo movimento zapatista, caracterizada pelo conjunto de Municípios Autônomos em Rebeldia Zapatista (Marez) agrupados numa determinada região e coordenados por uma Junta de Bom Governo (JBG). 39 sobre o contexto histórico do levante de 1994 e sobre a conjuntura política atual do zapatismo, das comunidades e coletivos e dos meios livres. Também realizei visitas ao Caracol Resistência e Rebeldia pela Humanidade e às comunidades aderentes ao zapatismo, Sociedad Civil de Los Abejas de Acteal e a San Isidro de La Libertad. Nessa ocasião, também foram registradas, durante três semanas, as transmissões da manhã e da noite da programação da Radio Rebelde Zapatista. No segundo mergulho em campo, em janeiro de 2014, realizei exploração de inspiração etnográfica na comunidade de San Isidro de La Libertad, onde ministrei uma oficina de rádio, visitei novamente a Sociedad Civil de Los Abejas em Acteal e fiz cinco entrevistas com ouvintes da Rádio Rebelde, localizados na Assembleia da comunidade de San Isidro de La Libertad, quando busquei compreender seus hábitos, preferências e motivações de escuta articuladas às memórias e imaginários. Os ouvintes entrevistados foram voluntários, não havendo qualquer seleção quanto a idade, sexo ou escolaridade, mesmo assim houve uma diversidade, sendo uma adolescente e um jovem com o ensino fundamental completos e três adultos com ensino fundamental incompleto. Nesta ocasião, não foi possível o registro das transmissões da Radio Rebelde, porque não consegui sintonizá-la. Conforme informações obtidas por meio de Peter Rosset, em conversa informal, a emissora provavelmente estaria com problemas em seu transmissor e, por isso, teria ficado fora do ar. Não foi possível checar as informações, uma vez que o Caracol em Oventic não estava recebendo visitas, devido à realização da Escolita. Na terceira imersão em julho de 2014, a pesquisa avançou nas entrevistas, conversando com 11 ouvintes, já previamente contatados através de questionários aplicados por meio de correio eletrônico a membros de movimentos políticos, artísticos e culturais aderentes ou simpatizantes ao zapatismo, das rádios Rebelde e Frecuencia Libre, em San Cristóbal de Las Casas. Adotei pauta semelhante às entrevistas com os ouvintes de San Isidro de La Libertad. Também prossegui com a imersão nesta comunidade. Mais uma vez, não foi possível registrar as transmissões da Radio Rebelde, pois havia outra emissora evangélica interferindo em sua frequência. Segundo Rosset, em entrevista concedida em 11 de julho de 2013, essa interferência faz parte de uma guerrilha eletrônica promovida pela contra-insurgência, apoiada pelo Governo Federal. 40 Na última imersão de campo, entre julho e dezembro de 2015, gravei em três semanas de julho dos programas transmitidos ao vivo pela Frecuencia Libre. Realizei com produtores desta emissora que atenderam a meu convite, cinco entrevistas sobre a história (disponíveis no Apêndice II), a organização, o planejamento, a apresentação, as relações políticas e as expectativas dos programas. Aproveitei ainda a estadia para cursar uma disciplina de Metodologias de la Antropologia no Ciesas Sureste, que me possibilitou compreender melhor os desafios da pesquisa na região. Já o recorte espacial se concentrou em San Cristóbal de Las Casas e na comunidade de San Isidro de La Libertad, localidades onde consegui condições de pesquisa (acesso, permissão e contatos de ouvintes, lideranças e produtores) e era possível sintonizar as rádios Rebelde e Frecuencia Libre. A primeira é um município de 190.000 habitantes, segundo o censo do Instituto Nacional de Estadística y Geografía (INEGI) de 2010, distante cerca de 912 km da Cidade do México e a 85 km da capital do Estado de Chiapas, Tuxtla Gutierrez, que é, conforme o antropólogo mexicano Fábregas Piug (2006a, p. 61), a mais conhecida cidade do Estado, inclusive a nível internacional21. Para ele, no município, “(...) tido como conservador, se tem implantado uma sociedade de visão cosmopolita, internacionalizada, que exige consumos e produtos culturais específicos”. San Cristóbal de Las Casas não é só ponto de partida para o turismo arqueológico e natural em Chiapas, mas também para os contatos políticos pela concentração de vários coletivos, ONGs e espaços zapatistas, como a Universidade da Terra, pertencente ao EZLN, e o TierrAdentro, um centro cultural com lojas das cooperativas e ONGs aderentes ao zapatismo, livraria, restaurante e escritórios de movimentos simpatizantes. É esse entrelaçamento entre a tradição cultural e as ações políticas que atrai parte dos visitantes curiosos em conhecer “o outro mundo possível” do zapatismo. Na verdade, o município, como qualquer metrópole, possui várias cidades dentro da mesma. Entre elas, uma que é movimentada pelos turistas nos calçadões de Guadalupe, Carmén e Santo Domingo; outra das moradias, produtos e transportes populares dos mercados; outra dos shoppings e dos bairros residenciais mais ricos e mais outras das sete 21 Por isso, a cidade possui uma arrojada estrutura turística com mais de 80 hotéis, dezenas de agências de viagem e centenas de bares, cafés, boates e restaurantes. Há saídas diárias de excursões para as ruínas arqueológicas de Palenque, para os cânions do Sumidero, para cachoeiras como Salto Azul e para cidades tradicionais como San Juan Chamula, Zinacatán, Comitán de Dominguez e Chiapa de Corzo. 41 universidades e as várias hospedarias dos estudantes. Por isso, o porta-voz do EZLN, subcomandante Marcos, defende que San Cristóbal de Las Casas é a capital cultural de Chiapas onde se encontram diferentes modos de vida dos povos originários, dos campesinos, dos mestiços, dos europeus e dos visitantes de todo o mundo. Para ele, a capital Tuxtla Gutierrez não passa de um depósito e um celeiro do capitalismo (FELICE; MUÑOZ, 1998). Por estes motivos e por questões geográficas – os deslocamentos entre as cidades chiapanecas são demorados e caros devido, sobretudo, ao relevo acidentado e à elevada altitude (San Cristóbal de Las Casas está situada na região de Los Altos a 2260 metros acima do mar) -, esta pesquisa recorta o estudo das rádios zapatistas sintonizadas no entorno deste município. San Cristóbal de Las Casas possui duas emissoras de rádio autorizadas em Amplitude Modulada (AM), a estatal Rádio Uno e a comercial Suprema Rádio, possuindo programações mais endereçadas para a zona rural. Em julho de 2014, foi possível sintonizar 29 emissoras em Frequência Modulada (FM) no Centro Histórico desta cidade. Onze destas são emissoras autorizadas, incluindo repetidoras de estações sediadas em outros municípios e das emissoras AM que também possuem autorização para transmitir em FM. Pelo menos, outras 18 são rádios não autorizadas pelo poder concedente que incluem nove evangélicas, três católicas e cinco com características comerciais. Segundo o jornalista Leonardo Toledo, em conversa informal em julho de 2014, há um só senhor conhecido como Pájaro Loco que possui quatro estações não autorizadas em sua casa com finalidades comerciais. O jornalista acredita também que há muito mais emissoras no município, possíveis de serem sintonizadas somente nos bairros. Apenas uma se autodefine como uma rádio comunitária, a Frecuencia Libre 99,1 Mhz do coletivo do mesmo nome e aderente ao zapatismo. Tive informação de outra rádio comunitária que transmite na cidade: trata-se da Rádio Votón Zapata 96,1 Mhz do coletivo com o mesmo nome que, no entanto, não será pesquisada, pois, além de não conseguir sintonizá-la a partir de janeiro de 2014, não localizei ouvintes suficientes22 da mesma para entrevistas e o coletivo negou-se a ceder informações para esta investigação. Quando consegui sintonizá-la, em julho de 2013, sua programação se restringia à veiculação de músicas e algumas campanhas educativas, não tendo 22 Considerei a necessidade de ao menos cinco ouvintes de cada emissora para realizar a análise das competências de recepção com o alcance de uma diversidade de sentidos e enquadrar-se na média mínima das pesquisas registradas pelos estudos de Jacks (2008; 2014). 42 programas definidos, nem locutores, aproximando-se mais das características de canal de áudio do que emissora de rádio23. Figura 7: Catedral San Cristóbal de Las Casas (SCLC) Figura 8: Andador de Santo Domingo em SCLS Figura 9: Visão panorâmica de SCLC Figura 10: Mercado de Santo Domingo em SCLC Figura 11: Centro Cultural TierrAdentro Figura 12: Universidad de la Tierra em SCLC 23 Os canais de áudio são serviços fonográficos que “‘(...) possibilitam o acesso a vários canais de música com estilos diferentes, porém, quase sempre sem apresentação de vinhetas e demais fatores que caracterizam esteticamente uma programação de rádio’ (BUFARAH JUNIOR, 2003, p. 2). Nestes canais, geralmente oferecidos pelos sites provedores de Internet, o internauta pode ouvir uma programação já pré-estabelecida ou criar a sua a partir dos arquivos disponibilizados somente para sua escuta. Este serviço não pode ser considerado como rádio, pois, além de não ter programação e plástica definidas, segundo Faus Belau (TRIGO-DE-SOUZA, 2002), é necessário ter intencionalidade." (COSTA FILHO, 2008, p. 49). 43 Além de San Cristóbal, a comunidade de San Isidro de La Libertad é outro espaço da investigação, onde consegui encontrar e entrevistar ouvintes da Radio Rebelde, através de convite feito pessoalmente por mim durante a assembleia da comunidade, em julho de 2013. A mesma surgiu de uma cisão, em 2008, na localidade indígena da etnia tsotsil, oficialmente pertencente ao município de Zinacantán, situado há 12 km de San Cristóbal de Las Casas. No entanto, antes desta cisão, uma primeira insurgência inspirada no zapatismo, aconteceu contra a comunidade originária, Chajtoj. Após o levante do EZLN em 1994, um dos jovens à época, engajado no movimento social da Teologia da Libertação e vocacionado a ser sacerdote dominicano, conhecido hoje como Dom24Josiano decidiu conhecer mais um pouco sobre o zapatismo participando de um encontro em Oventic, em 1994. Desde então criou laços com o EZLN, formando às escondidas uma base de apoio ao movimento em sua localidade. Inicialmente as autoridades de Chajtoj aceitaram a aproximação, mas, ao final de 1994, determinaram que os simpatizantes do zapatismo não podiam mais participar das assembleias e missas, nem seus filhos irem à escola. Segundo revela a assembleia da comunidade, reunida em 22 de julho de 2012 com o fim de relatar coletivamente sua história para a antropóloga Sandra Zamora25, houve inclusive enfrentamentos físicos, resultando na cisão em 1995, quando San Isidro constituiu sua assembleia, suas autoridades e construiu uma capela e um centro comunitário num terreno doado. A comunidade de San Isidro, com cerca de 50 famílias, permaneceu aderente ao zapatismo, chegando a eleger um de seus membros, Dom Marco, representante municipal de Zinacantán, em 1997. Em 1998, recebemos uma informação do EZLN que se formaram comunidades autônomas e já se queria formar o município autônomo, porém houve desacordo e não funcionou. Já estavam nomeadas as pessoas para o conselho autônomo, mas a pessoa eleita como presidente autônomo passou a outra organização e aí houve desacordo com o EZLN e aí se desuniu a gente. Uns anos depois, a comunidade de San Isidro teve outra separação. Os que levavam a luta zapatista queria explicitar a adesão ao EZLN, e outro grupo queria ficar com o município porque ganhavam os apoios de PROCAMPO. Todo havíamos feito parte do PRD do município de Zinacantán que nos 24 O título de Dom na comunidade de San Isidro de La Libertad é utilizado para os chefes de famílias e donos de suas próprias casas. Confere respeito e uma certa autoridade. Em San Cristóbal de Las Casas, percebi em poucas ocasiões sua utilização, como uma empregada doméstica referindo-se ao dono da casa em que trabalha. 25 A história está registrada na monografia de conclusão de graduação em Antropologia da Universidade Autônoma de Chiapas (Unach) de Sandra Ramos Zamora, orientada por María Elena Torres Martinez, intitulada de “La educación autónoma como sistema holístico y la interculturalidad dialogada en San Isidro de La Libertad, Zinacantán, Chiapas”, defendida em maio de 2014. 44 protegeu um pouco da repressão do governo, porém para finais de 2004 já quizemos ser declarados grupo autônomo ou independente. De aí em assembleia nos separamos de San Isidro, nos dividemos; só houve separação, ainda não havia nome. Um grupo quer seguir com o mesmo nome de San Isidro, outro queria uma comunidade independente do município. Nós não vamos deixar de ser autônomos e se chamou grupo independente, mas não pensam formar outra comunidade, a ideia é seguir com a autonomia. (ZAMORRA, 2014, p. 58). No entanto, apesar de várias tentativas de acordos mediados pela Prefeitura Municipal e pelo Centro de Derechos Humanos Fray Bartolomeo de Las Casas, os simpatizantes do zapatismo foram expulsos da Igreja, da Assembleia e seus filhos, da escola. Diante da situação, o conselho paroquial de Zinacantán decidiu, em 2006, fechar a capela de San Isidro enquanto houvesse conflito. Sem poderem batizar seus filhos, os zapatistas locais apelaram para o bispo de San Cristóbal de Las Casas que visitou a comunidade e afirmou não poder contrariar a decisão do conselho. Somente em 2007 foi realizada, por sarcedots dominicanos, uma única celebração eucarística com primeira comunhão e de um batismo coletivo. Os conflitos políticos e territoriais são geralmente acompanhados, na região, por disputas religiosas. A exclusão de determinados grupos de uma comunidade ou a separação dos mesmos geralmente segue uma expulsão da capela local ou a adesão a uma igreja protestante. Por isso, é comum conflitos entre católicos e evangélicos, motivados não por questões de fé, mas políticas ou econômicas. Notei que a situação ocorre pelo poder de agregação das igrejas, que localmente são controladas pelas assembleias comunitárias Depois de várias tentativas de acordo e mútua tolerância, em 20 de novembro de 2008, as 37 famílias simpatizantes do zapatismo decidiram criar uma nova comunidade, com o nome de San Isidro de La Libertad. Estas três comunidades não possuem território contínuo, pois há famílias pertencentes aos diferentes grupos que são vizinhas uma das outras. Apesar da cisão, há acordos, criados depois de conflitos, para o uso da energia elétrica, água encanada e dos poços e estradas. San Isidro de La Libertad construiu um centro dos autônomos que possui um prédio de madeira e alvenaria (onde se situa uma capela que também é um salão para reunião da assembleia), uma cozinha comunitária, um quarto para abrigar convidados, e uma sala atualmente servindo para as aulas da escola secundária. Há, neste centro, outro pequeno prédio no qual está o centro de saúde e uma terra comunal em que se criam caprinos e se plantam algumas culturas para 45 investimentos na comunidade. O local fica no centro geográfico da localidade, permitindo uma proteção maior do patrimônio coletivo pelas famílias autônomas que o rodeiam. Segundo José, professor da escola primária da comunidade, o prédio onde funciona o Centro dos Autônomos começou construído por ele quando era catequista para ser uma espécie de salão paroquial para as reuniões e celebrações. Com a cisão, foi doado para a comunidade que o ampliou. A autoridade da comunidade é formada por três casais eleitos, até hoje sempre por acordo, para um mandato bienal pela assembleia da qual podem participar todos os autônomos. Entre eles há, segundo a antropóloga María Elena Torres Martínez, do Ciesas Sureste, que realiza uma pesquisa-ação na comunidade26, uma maioria de moderados, formada por 20 famílias e as restantes são aderentes a Sexta Declaração do EZLN. Conforme Dom Josino, para conseguir o acordo fundante da comunidade e evitar maiores conflitos, San Isidro de La Libertad não é formalmente aderente ao zapatismo, apesar das famílias mais simpatizantes participarem das diversas atividades do movimento e apoia-lo sempre que possível e necessário, como na organização da Escolita. Na última imersão, realizada no segundo semestre de 2015, percebi uma aproximação maior com o movimento, inclusive com a participação de zapatistas de outras comunidades aderentes nas assembleias dominicais e reuniões de formação política após o encontro comunitário. A comunidade vive basicamente de duas produções: a agricultura e a confecção de tecidos. A primeira atividade é realizada pelos homens que arrendam um terreno, próximo à Tuxtla Gutierrez, capital chiapaneca, chamado por eles de tierra caliente, cerca de 50 km de distância de suas localidades. Eles não se dedicam integralmente às plantações em suas próprias terras porque, além do relevo acidentado, o frio, de acordo com Dom Lúcio, atrapalha o crescimento das culturas que são basicamente de milho e feijão. As plantações acontecem em julho, quando os homens ficam, ao menos, três 26 A antropóloga Maria Elena Martinez realiza pesquisa-ação em San Isidro de La Libertad sobre a educação indígena. Possui como objetivo assessorar a escola local nas turmas multiseriadas do ensino fundamental e do ensino médio, utilizando a metodologia do Instituto Nacional de Educação Popular, inspirada na educação libertadora de Paulo Freire. Segundo Martinez, seu contato com a comunidade aconteceu acidentalmente quando participava da Marcha das Mulheres em 2009, em San Cristóbal de Las Casas. Ela foi fantasiada do “monstro” do capitalismo com logotipos de grandes empresas pregadas na fantasia. Algumas mulheres da comunidade foram “salvá-la” arrancando os logotipos. Desde então, ela foi convidada para visitar San Isidro de La Libertad e passou a ter um vínculo emocional com os indígenas, colaborando para uma de suas maiores necessidades, a educação. 46 semanas longe de suas comunidades. Em setembro, eles retornam para fazer, durante uma semana, limpeza no local e em novembro colhem os cereais que são comercializados através da cooperativa dos zapatistas, sediadas no Centro Indígena de Capacitación Integral (Cideci), en San Cristóbal de Las Casas. A renda é dividida entre todos os sócios do empreendimento comunitário, representando a principal fonte de recursos econômicos da comunidade. Há, no entanto, famílias que não vivem da agricultura, mas os homens trabalham em obras temporárias, como a construção civil de casas e de estradas, como é o caso de Dom Juan e Diego, que participaram de nossa pesquisa. Já as mulheres realizam durante todo o ano a confecção de tecidos, como toalhas de mesa e sobretudos estampados com desenhos de flores que são vendidos para comerciantes de Zinacantán e San Cristóbal de Las Casas. Apesar de não ser a principal renda das famílias, a atividade possibilita compras cotidianas (como açúcar, lanches, transporte...) dando um poder econômico às mulheres nas famílias. Mesmo com rituais bastantes patriarcalistas - como por exemplo, nas refeições comunitárias, as mulheres não sentam na mesa com os homens, mas comem no chão - e com a exclusão feminina nas conversas em espanhol que elas pouco praticam, notei nas casas das famílias um certo protagonismo e liderança das mulheres, situação confirmada pela antropóloga María Martínez. No entanto, raramente elas fazem contatos com pessoas externas à comunidade, tarefa assumida pelos homens. Nesta pesquisa, por exemplo, exceto a adolescente Maria, nenhuma outra mulher de San Isidro de La Libertad se dispôs a ser entrevistada. Figura 13: Comunidade San Isidro de la Libertad Figura 14: Comunidade de San Isidro de la Libertad 47 Figura 14: Centro dos Autônomos Figura 15: Comunidade de San Isidro de la Libertad Através da colaboração da investigadora do Ciesas Sureste, esta investigação realizou pesquisa sobre o uso da Radio Rebelde entre membros de San Isidro de La Libertad. As autoridades permitiram em assembleia, ocorrida em 21 de julho de 2013, através de requisição presencial, que essa investigação se realizasse lá. Aproveitei para atender o desejo da comunidade de realizar Oficina de Rádio Comunitário27, feita em dois módulos, em janeiro e julho de 2014. Após o segundo módulo, ajudei a fundar a Radio Independencia, em 31 de julho de 2014. A emissora tem como objetivo fortalecer a autonomia da comunidade. A programação foi planejada pelos dez participantes do segundo módulo da Oficina com minha assessoria. No entanto, como em 5 de agosto de 2014 retornei para o Brasil, eles reconfiguraram não só a programação como o local onde se situa a estação. A Radio Independencia foi transferida a casa de Dom Josiano e transmitindo somente um programa, a Voz da Autonomia, apresentado por ele, passando o resto do dia apenas tocando músicas aleatoriamente. Pela falta de participação e audiência da comunidade na emissora, decidi não incluí-la como objeto de pesquisa e continuar nossa atuação apenas como militante para tentar aproximar a rádio da escola que poderia produzir conteúdos partilhando o conhecimento. 27 Realizei a Oficina de Rádio Comunitário entre os dias 10 e 12 de janeiro de 2014 e 28 e 31 de julho de 2014. A metodologia foi horizontal, buscando incentivar a participação de todos e todas para partilhar suas experiências sobre o rádio, tendo uma apostila (disponível no Apêndice VII) como guia. Foram discutidos os seguintes assuntos: características do rádio, linguagem radiofônica e rádio comunitária. Também escutamos transmissões da Rádio Insurgente e os participantes gravaram contos e informes. Participaram cinco pessoas, entre jovens estudantes e lideranças donos de casa. O curso foi ministrado em espanhol com tradução sequente em tsotsil realizada por um dos participantes: o professor da escola de ensino fundamental José, para facilitar a compreensão dos conteúdos e discussões. Na Oficina, dados foram colhidos através de dinâmicas no grupo e na observação participante. 48 Assim, recortamos a pesquisa em duas emissoras que atenderam aos seguintes critérios: ser sintonizadas em San Cristóbal de Las Casas, ter a gestão de um coletivo autônomo e aderente ao zapatismo, veicular mensagens das comunidades zaptistas e possuir, ao menos, cinco ouvintes disponíveis para dar entrevista à pesquisa. A primeira estação é a Radio Rebelde, que surge a partir das Rádios Insurgentes organizadas pelo EZLN desde fevereiro de 2005, em Los Altos (próximo a San Cristobal de Las Casas), Selva Tseltal e Selva da Fronteira (vizinho a Guatemala). Apresentadas como “a voz dos sem voz”, as Rádios Insurgentes visavam mostrar “os avanços do processo de construção da autonomia nas zonas zapatistas e promover a difusão da palavra e a música das comunidades indígenas”28. Havia também uma transmissão semanal em Ondas Curtas (OC) que tinha“(...) como objetivo informar (...) os eventos atuais em Chiapas, os avanços na construção da autonomia zapatista que se realiza através das Juntas de Bom Governo (JBG) e dos Marez”29. Como parte do projeto de autonomia zapatista, desde 2008, teve início a transferência das rádios para os governos civis, processo que se consolidou em 2012, quando as emissoras mudam de nome e consolidam suas novas programações. A gestão das rádios pelos Caracóis contribui para organização dos mesmos, que gerenciam os espaços a partir das demandas locais e tomam as decisões priorizando as comunidades autônomas articuladas e não a estrutura político-militar do EZLN. A Radio Rebelde transmite diariamente das 7 às 11h e das 17 às 21h. Apesar da pesquisa não ter tido acesso à mesma e a seus ouvintes mais próximos geograficamente - o que se deveu ao fato de não conseguir autorização da Junta de Bom Governo do Caracol Rebeldia e Resistência pela Humanidade para isso -, é importante dizer que a emissora era sintonizada, até 2013, nos municípios de San Cristóbal de Las Casas, Zinacatán e Cheneló, locais onde transitei e onde busquei seus receptores. A segunda emissora pesquisada, a Frecuencia Libre, transmite desde 22 de março de 2002 em San Cristóbal de Las Casas. A rádio foi uma das primeiras em FM do município, mantida sem autorização do poder concedente por ativistas culturais - músicos, poetas, produtores de eventos - e militantes políticos – aderentes ou simpatizantes ao zapatismo. Como explica o jornalista Leonardo Toledo, 28 Disponível em, acesso em 15 de junho de 2010. Tradução minha. 29 Idem. 49 Foi uma combinação de várias circunstâncias, havia um grupo de gente que levava várias intenções, como rádio-aficionados, que queriam fazer sua estação de rádio de qualquer forma. Eram músicos, gostavam de áudio, que haviam conseguido um transmissor e estavam fazendo experimentos, colocavam no ar o transmissor e colocavam música. Eles viam dessa rota, da rota rádio-aficionados, assim neutros, e se juntaram com um grupo de gente que estava trabalhando em organizações não governamentais que queria fazer uma rádio com conteúdos, radio que levasse as mensagens das organizações e falava como das questões políticas. Juntaram-se os dois, uns que sabiam fazer rádio e outros que tinham conteúdos e decidiram lançar esta iniciativa da rádio cidadã, em 200230. Para organizar a emissora, os fundadores criaram, de acordo com o comunicador do coletivo Koman Ilel31 que possuiu um programa na emissora, Jaime Zlittler, um coletivo, denominado também de Frecuencia Libre, formado por pessoas e por representantes de entidades associados, mas todos têm o voto com mesmo peso. Para participar do coletivo, é necessário submeter sua proposta de filiação, apadrinhada por algum dos participantes, à plenária. Os membros do coletivo aprovam os programas que podem ser apresentados por entidades ou pessoas não filiadas e que, além de se responsabilizarem pelo horário, rateiam os custos de manutenção da rádio. Além das Rádios Rebelde e Frecuencia Libre estarem em locais fechados e sigilosos, as condições de pesquisa são hostis. A região vive o que o filósofo mexicano A. Virillo (2002) denomina de guerra de baixa intensidade. Segundo ele, após o cessar fogo do governo em 1995, por limitações legais e estratégicas, o Governo Mexicano tem apostado em ações de contra-insurgência que vão desde tentativas de cooptação, intimidação e deslegitimação de lideranças rebeldes até treinamento e apoio a ataques de grupos paramilitares. O controle das informações e o silêncio são armas fundamentais nessa batalha. Por isso, mesmo quando conquistava acesso e confiança das fontes, as informações restringem-se aos conteúdos que podem ser divulgados publicamente, porque a segurança das mesmas e a minha podem ser comprometidas. 30 Entrevista concedida em 23 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 31 Koman Ilel é um coletivo de comunicação surgido em 2009, com a participação inicial de seis militantes políticos, indígenas e comunicadores que assim se define em sua página na Internet: “KOMAN ILEL es un colectivo de comunicación ciudadana, comunitaria y alternativa hecha desde un enfoque de comunicación popular. La colectividad que construimos es sobre todo una forma de trabajo y de mirar el mundo que se expresa en nuestro nombre que en maya tsotsil significa ‘mirada colectiva’. Una mirada múltiple, libre, independiente y crítica que trabaja con una profunda convicción política por la construcción de una vida digna y autónoma” (Disponível em , acesso em 5 de maio de 2014). 50 As rádios estão localizadas em lugares confidenciais, pois além de não terem autorização do governo mexicano para transmitir, algumas, provavelmente, segundo Peter Rosset, encontram-se nas áreas das antenas de Internet do EZLN, comunicação estratégica do movimento. Todas as entrevistas de membros das comunidades autônomas precisaram ser permitidas anteriormente pelas autoridades locais que, muitas vezes, acompanham as mesmas, causando constrangimentos para entrevistado e entrevistador. Já os ouvintes inseridos nesse clima de guerra estão frequentemente intimidados e amedrontados ao falar sobre o assunto. Senti-me também ameaçado por suspeitas de vigilância a minhas atividades, por sobrevoos rasantes de um helicóptero do Exército Mexicano em meu alojamento na manhã da véspera de iniciar a capacitação de rádio em San Isidro de Libertad, além do arremesso de uma pedra no teto do local durante a realização da mesma (sobre as dificuldades de campo escrevi um ensaio disponível no Apêndice VI). A língua foi outro obstáculo dado que, nas comunidades indígenas, o espanhol é um segundo idioma no qual poucos possuem fluência. Como é aprendido somente nas escolas, as mulheres que, muitas vezes, não frequentam aulas só falam suas línguas originárias. Os deslocamentos até as comunidades constituíram-se em mais um empecilho. Além do demorado tempo das viagens, devido ao relevo montanhoso, não há transporte público organizado. Geralmente são taxis-lotações e caminhonetes que realizam o serviço, não possuindo horários fixos de partidas, pois precisam complementar a quantidade máxima de passageiros para sair. Para agravar, muito destes transportes passam distantes das comunidades de destino, por exemplo, os taxis-lotações que fazem a rota mais próxima de San Isidro de La Libertad passam há cerca de 4 km de distância da localidade. O restante do percurso é necessário fazer a pé, andando por terrenos íngremes e trilhas acidentadas. O que me ocasionou uma série de desgastes físicos, como lesão em meu joelho direito, além que as condições hostis da zona me acometeram de virose, provavelmente Febre Chikungunya, não comprovada por ainda não haver exames disponíveis à época. Figura 18: Taxis-lotação Figura 17: Trilha de acesso a San Isidro de La Libertad 51 1.2 Trajetórias metodológicas Para dar conta da diversidade, riqueza e contradições do campo, além da pesquisa bibliográfica e documental - que possibilita a reflexão sobre a realidade investigada a partir do acúmulo de conhecimentos de outros pesquisadores e, principalmente, para o esforço denominado por Galindo Cáceres (1997), de significação, - este estudo realiza explorações de inspiração etnográfica32 e análise dos endereçamentos das emissoras. 1.2.1 Explorações de inspiração etnográfica Este método inspira-se na etnografia, compreendida como a vivência do pesquisador no campo para realizar uma descrição densa do contexto social. Por descrição densa, Clifford Geertz compreende a apresentação das “estruturas significantes que estão por trás e dentro do menor gesto humano” (TRAVANCAS, 2005, p. 98), caminho pelo qual se pode chegar às matrizes e sentidos culturais. A etnografia consiste, nesta abordagem, em “(...) ‘deixar-se levar' pelo encontro de uma determinada situação, seja ele qual for” (CAVALCANTI, 2003, p. 118) para desvelar o mundo em densidade e novidade. Para Roberto Da Matta, esta é a experiência da alteridade “(...) cuja consequência maior é o 32 De acordo com Galindo Cáceres (1998), a etnografia surge do encontro entre o racionalismo e o empirismo no projeto da ciência positiva europeia que busca, no final do século XIX e início do século XX, compreender os traços culturais do não europeu, principalmente africano e asiático. A partir da década de 1950, para Cáceres (1998, p. 350, tradução minha), este método reflete a decadência do otimismo e da soberba do século anterior após a Segunda Grande Guerra Mundial, deixando de ser uma fórmula para explicar e compreender amplamente as culturas para tornar-se “(...) um ofício descritivo, fino e potente que faz confluir subjetividade e objetividade no estar entre estranhos e no revelado a conhecidos e desconhecidos (...)”. Esta é a perspectiva adotada na presente investigação. 52 entendimento do universo humano como sendo sempre construído, contingente e, portanto, nunca determinado e necessário” (MATTA apud TRAVANCAS, 2003, p. 18). Esta viagem, segundo Galindo Cáceres (1998, p. 347), começa como um trajeto interior de busca do outro, causando “(...) um estranhamento do que não está em si mesmo (...)”, mas na invisibilidade da rotina e do costume. “O indispensável é que o investigador viva a vida do outro com o outro”. Para isso, precisa possuir um compromisso com o externo a si, com a comunidade pesquisada, com a academia e com seu mundo de referência, permitindo-se ser afetado por práticas, costumes e experiências alheias às suas. No movimento do observado às paisagens e situações próprias, “então se produz o milagre: o outro começa a ser compreendido”. Essa é uma relação de múltiplos sentidos. Primeiro, a compreensão do outro parte inevitavelmente da perspectiva da cultura e linguagem do investigador, pois o primeiro não é um mero transmissor de falas, uma vez que interpreta o que observa. “O etnógrafo faz uma aposta de sentido (...) toca os fios invisíveis do mistério do visível” (GALINDO CÁCERES, 1998, p. 348). Em outro sentido, a pesquisa afeta o investigador que constrói uma nova identidade, articulando às suas experiências o que lhe era estranho e distante. O encontro da antropologia com a comunicação, para a pesquisadora brasileira Ilana Stronzenberg (apud TRAVANCAS, 2003, p. 23), se dá a partir da perplexidade da antropologia ao descobrir as diferentes culturas e da perplexidade da Comunicação ao se deparar com os avanços das tecnologias de informação. “Por não ter fronteiras conceituais e metodológicas rígidas, é que ele (o estudo da comunicação) pode se constituir num campo de experimentações estratégicas para as ciências humanas e sociais". A etnografia da comunicação surge nos Estados Unidos da América, na Escola de Chicago33, como oposição ao paradigma funcionalista e a seus métodos quantitativos e para compreender os impactos das rápidas transformações ocasionadas pelo desenfreado crescimento urbano na cidade estadunidense. Consolida-se com seu uso na Sociologia 33 A Escola de Chicago é criada no início do século XX buscando dar conta das profundas transformações vividas pela efervescência da metrópole estadunidense, através de uma sociologia urbana, fazendo uma leitura da realidade a partir das dinâmicas da vida ordinária, com influência dos pensadores europeus G. Simmel e G. Tarde. Ambos afirmam que as práticas comunicativas revelam uma dinâmica interacional de agregação e segregação. Seus principais pesquisadores são G. Mead, J. Dewey, R. Park, E. Burgess , C. Coley e H. Bwmer, E. Goffman e J. Becker. 53 das Notícias, nos Estudos Culturais da Escola de Birmingham34 e nas pesquisadas de recepção do Pensamento Comunicacional Latino-americano. O método pode produzir um “(...) rico relato descritivo das vidas e dos valores daqueles que são submetidos à pesquisa” (SILVEIRA, 2006, p. 24), podendo estudar os modos, as negociações e as interações que envolvem os meios e a sociedade, englobando-as num sistema sociocultural. A etnografia da recepção35, para o pesquisador Fabrício Silveira (2006, p. 24), por partir do mundo vivido, é um lugar privilegiado para o entendimento global do processo e fluxo comunicacionais. Neste campo, “(...) se permite certas ‘liberdades metodológicas’ e que, nessa margem de flexibilidade, nesse movimento (...), faz certas coisas com o método etnográfico, submetendo-o determinados usos talvez muito típicos”. Já Veneza Ronsini (2012) defende uma etnografia crítica da audiência como forma de enxergar, além da inventividade e subversão do receptor, também o que há de reprodução social na recepção. Esta pesquisa não adota a postura de nenhuma destas etnografias porque não tem como dar conta de descrever densamente as diversas culturas que transitam emissoras e receptores das rádios pesquisadas, mas a postura de uma exploração de inspiração etnográfica, como define Carla Barros (2008, p. 201-202) 34 Os Estudos Culturais surgem na década de 60 do século XX através do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), da Universidade de Birmingham (Inglaterra). Tendo Raymond Williams, Richard Hoggart e Edward Thompson como fundadores, segundo a pesquisadora brasileira Ana Carolina Estecoguy (in SILVA, 1999), a cultura é compreendida por eles como uma rede de práticas e relações que constituíam a vida cotidiana dentro da qual, mesmo com resistências, os meios de comunicação massivos possuem nas atuais sociedades uma inevitável presença. De característica interdisciplinar, os Estudos Culturais se desenvolveram em vários campos além da comunicação, como História, Geografia, Literatura, e em diversos países como Índia, Austrália e EUA. Stuart Hall, David Morley, Janice Radway e Ien Iang são alguns dos principais pesquisadores da geração atual do CCCS. 35 Além deste tipo, Silveira (2006) elenca a etnografia dos estudos de produção e rotinas produtivas, a Netnografia, a etnografia dos multimeios e documentação, a etnografia da comunicação urbana e a etnografia do consumo da comunicação. A primeira, chamada por Isabel Travancas (2005) de etnografia do mundo dos jornalistas e do mundo dos publicitários, tem Gaye Tuchman como principal expoente, com a observação do contexto político e do ambiente social escolhidos, da trajetória dos produtos midiáticos e na observação participante extensiva, isto é, além do local de trabalho dos produtores. Já a Netnografia, desenvolvida, entre outros, por Simone Sá e André Lemos, busca descrever e interpretar as experiências de sociabilidades das redes, em função ou na Internet. O registro fotográfico ou de vídeo, como fenômenos de representação e narrativa do real, compõem a etnografia dos multimeios e documentação. A etnografia da comunicação urbana compreende a sociabilidade urbana, a comunicação visual, a interação, a conversação e as dialogias. Por fim a etnografia do consumo, construída por Everardo Rocha (1995), busca descrever e interpretar a experiência e a vivência proporcionadas ao pesquisador pela expressão cultural dos meios de comunicação massivos, possibilitando a leitura dessa “(...) instância espetacular e mágica que seriam (...) como uma mitologia moderna” (SILVEIRA, 2006, p. 26). 54 Na pesquisa de "inspiração etnográfica", o pesquisador não chega a fazer uma imersão total junto ao grupo estudado, vivendo na comunidade e participando intensamente do seu dia a dia por um tempo prolongado, como na etnografia tradicional. De modo alternativo, procura-se criar uma agenda de pesquisa que contemple um período longo de campo em que sejam realizadas visitas periódicas que mantenham o contato entre pesquisador e pesquisado de modo a permitir com o tempo a construção de uma relação que envolva confiança e ética, como no modelo tradicional. A inspiração etnográfica desta pesquisa não só relaciona as observações, o diário de campo e as entrevistas semi-estruturadas, mas também busca compreender e descrever, a partir de uma mirada compreensiva da alteridade, os aspectos culturais dos ouvintes e das emissoras que possam ser relacionados às apropriações e os trânsitos de emissões e recepções nos vários ambientes sociais. É o que Catarina de Oliveira (2015, p. 51) destaca, recuperando Malinowski, quando menciona acerca de como não enxergar só o esqueleto de determinadas organizações sociais, mas chegar a carne e sangue das culturas. Para a autora, o método permite encontrar "detalhes e histórias, conflitos e tensões, crenças e memórias colhidos na pesquisa etnográfica". Esta é uma inevitável exigência do modelo teórico-metodológico dos usos sociais de Martín-Barbero, dado que para deslocar-se dos meios para as mediações é imprescindível olhar o contexto sociocultural dos pesquisados relacionado às práticas comunicativas. Assim minha imersão em campo serviu para observar os comportamentos sociais das comunidades estudadas, suas tradições, costumes, ritos, relações, símbolos, valores sociais e modos de vida para articular à escuta, aos endereçamentos e à produção das rádios zapatistas pesquisadas. Desta maneira, foi tecida a articulação entre culturas, meios e receptores, a partir dos tempos e lugares de circulação e apropriação das mensagens. Para fazer esta exploração de inspiração etnográfica, a pesquisa triangula três técnicas básicas: a observação, o diário de campo e a entrevista. A primeira é, para Galindo Cáceres (1998, p. 351, tradução minha), o coração do trabalho configurando-se hermeuticamente na percepção consciente, atenta e crítica do campo. Não só os gestos mais discretos dos pesquisados e o contexto, mas “(...) uma atenção especial até de sua consciência reflexiva linguística”. É o esforço de chegar ao outro compreendendo que esse percurso é construído por sua linguagem que reflete e se insere na realidade”. Fiquei também atento para minhas relações no grupo, pois a “(...) simples presença pode alterar a rotina do grupo (...) embora haja um enorme espaço para a subjetividade do cientista social neste tipo de pesquisa, os dados são formas objetivas e têm própria vida” 55 (TRAVANCAS, 2005, p. 103). Mesmo sendo um trabalho silencioso e pretensamente discreto, procurei sempre esclarecer seus objetivos e seus limites na relação com a comunidade para evitar falsas expectativas e de como, por exemplo, contribuir rapidamente para a melhoria de vida na região e construir uma relação de confiança e cordialidade. Já o registro no diário de campo – e outros instrumentos como o áudio, o vídeo e a foto – dá a possibilidade de não só guardar o que pode escapar da memória, mas também de resgatar elementos do empírico para depois tentar entendê-los. Assim como a observação, o diário de campo registra além do “(...) mundo do outro, o próprio mundo interno tocado por que lhe é alheio” (GALINDO CÁCERES, 1998, p. 357). A entrevista se constitui como a construção de um diálogo possível (MEDINA, 1986), compreendido como o movimento de troca (dia) de conhecimentos (logos) entre entrevistado e entrevistador. É uma técnica, para Jorge Duarte (2005), de exploração de um assunto, a partir de informações, percepções e vivências do entrevistado, permitindo maior flexibilidade. O investigador observa, conforme recomenda a pesquisadora Isabel Travancas (2005, p. 106) não só as respostas, mas “(...) a maneira como o entrevistado se expressa; o tom de voz que usa; o seu entusiasmo ao falar de determinados assuntos (...)” numa dinâmica aberta porque “(...) novas questões podem estar surgindo, (...) e ele (o entrevistador) não julga seu discurso (do entrevistado), suas atitudes, suas escolhas. Ele escuta. Ele não está em busca de uma resposta verdadeira”, no entanto, não deixa de observar o que considera contraditório, incompleto, inconsistente ou incoerente em seu discurso. Nesta pesquisa, foram entrevistados sujeitos que podem ser identificados como pertencentes a três grupos. O primeiro reuniu intelectuais e lideranças políticas relacionadas de alguma maneira aos zapatistas, aos meios livres ou às comunidades indígenas. Foram feitas oito entrevistas semi-estruturadas, muitas com duração superior a uma hora e algumas com mais de um encontro. Os contatos eram feitos diretamente ou intermediados pelos auxiliares de pesquisa, o antropólogo argentino Valentin Val36 e o 36 Valentin é formado em Antropologia Cultural pela Universidade Nacional de La Plata e cursou mestrado em Antropologia Social no Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropologia Social del Sureste Mexicano (Ciesas Sureste). Ele milita no coletivo de comunicação Koman Ilel com a produção de vídeos comunitários. 56 jornalista mexicano Leonardo Toledo37 que, por viverem em San Cristóbal de Las Casas e militarem em movimentos de meios livres, facilitaram o encontro do pesquisador com os sujeitos contactados. As sugestões dos entrevistados eram discutidas anteriormente comigo e, assim, planejava a agenda e me preparava para as mesmas. Estas entrevistas serviram principalmente para ter ideia do contexto social, político e econômico dos coletivos, do zapatismo, de Chiapas e do México, através de perguntas que questionavam o papel do zapatismo, a organização das comunidades autônomas e a importância do rádio neste processo político. Os locais das entrevistas geralmente eram os escritórios dos entrevistados ou a Cafeteria do TierrAdentro, espaço comercial ocupado por simpatizantes zapatistas, no centro de San Cristóbal de Las Casas. Estas ocorreram principalmente na primeira imersão de campo, em julho de 2013, com os membros do Centro de Direchos Humanos Fray Bartolomeo de Las Casas, Jorge Hernandez; Via Campesina, Peter Rosset; das ONG Promedios, Paco Vasquez, Si Paz, Thomas Zapf e Idemasc, Jorge Santiago e membros de coletivos Frecuencia Libre Leonardo Toledo, Radio Zapatista Alexandre Carrillo e Koman Ilel Jaime Zlittler e o jornalista Gaspar Morquecho. Os produtores e apresentadores da Frecuencia Libre formaram o segundo grupo. Nestas entrevistas, questionei sobre a história do programa, os processos de produção, a audiência, a participação no coletivo e o papel social da emissora. Não foi possível realizar estas entrevistas com os produtores da Radio Rebelde por falta de autorização da Junta de Bom Governo do Caracol Rebeldia e Resistência pela Humanidade em Oventic. Estive na sede desta por duas ocasiões, em julho de 2013 e janeiro de 2014, não conseguindo sequer ter a solicitação recebida pela mesma38. Segundo um informante membro de uma comunidade aderente ao zapatismo, que pediu para não ser identificado, a autorização para pesquisas científicas nas comunidades está suspensa 37 Leonardo Toledo é graduado em Comunicação Social pela Universidad Autonoma Metropolitana e cursou o mestrado em Antropología Social na Escuela Nacional de Antropología Social. Além de trabalhar na assessoria de comunicação da Universidade Ecosur, ele faz parte dos coletivos de comunicação Frecuencia Libre e Fotógrafos Independentes. 38 Situação semelhante aconteceu com duas outras pesquisadoras que mantive contato. Lia Rodrigues, que realizava doutorado em Educação na Universidade Nacional do Autonoma do México (UNAM), passou todo o ano de 2010 tentando autorização para estudar as escolas zapatistas. Apesar de conseguir ser atendida pela Junta de Bom Governo, obteve uma resposta somente dois anos depois quando pode visitar limitadamente uma escola de um caracol, podendo somente observar sem fazer entrevistas. Já Claudia Serrano que tentou estudar as rádios zapatistas, no doutorado em Sociologia na Universidade Autonoma de Chiapas (UNACH), buscou durante todo o ano de 2014 a autorização e até 2015 não conseguiu sequer uma resposta da JBG. 57 desde 2010, por dois motivos. Primeiro, porque os relatórios se tornam públicos possibilitando o acesso do Governo aos mesmos – o que pode comprometer a segurança e a organização - e, segundo, porque todas as informações públicas das comunidades já foram coletadas em investigações anteriores estando disponíveis nos acervos das universidades. Mesmo não havendo registro de qualquer pesquisa sobre a Radio Rebelde, a permissão de ao menos entrevistar os produtores da emissora e seus ouvintes nos Marez não nos foi concedida, nem sequer avaliada, sem qualquer justificativa oficial para isso. Para compreender as institucionalidades da Radio Rebelde, foi realizada pesquisa documental nas publicações do EZLN sobre rádios e meios livres, disponíveis na internet e em impressos. Obviamente, esta saída não superou o desnível de profundidade entre os dados obtidos para a construção textual da Rádio Rebelde e aqueles utilizados para análise da emissora de San Cristóbal de Las Casas, na qual tive informações colhidas diretamente com os produtores dos programas. No estudo da estação do Caracol Zapatista tive que limitar-me às informações dos documentos do EZLN e dos endereçamentos da programação. Os produtores dos programas da Frecuencia Libre entrevistados foram: Leonardo Toledo do "Debate Cultural", Gabriel Garcia do "Objetos Prohibidos", Damaso Ramirez de "La Hora Sexta", Claudia Serrano de "En El Camino nos Encontramos", Noé de "Sinestesia" e Guadalupe Cardenas de "Espacios de Esperanza". Apesar de várias tentativas, não consegui entrevistar os produtores de três programas que estavam sendo veiculados: “Hablemos Chiapas”, “Fueras Máscaras” e “Karmantra”. O terceiro grupo de entrevistados é composto pelos receptores, subdivididos em ouvintes da cidade de San Cristóbal de Las Casas e os da comunidade de San Isidro de La Liberdad que, como já esclarecido, terão preservadas as suas identidades pela utilização de nomes fictícios por medida de protetividade a suas seguranças e intimidade. Perguntei a eles basicamente sobre suas preferências de escuta (programas, horários e aparelhos), motivo de escuta destas emissoras e sua relação com o rádio, o zapatismo ou com os movimentos de autonomia. Os primeiros foram encontrados a partir de um questionário (ver Apêndice V) aplicado pelos ajudantes da pesquisa, Valentin Val e Leonardo Toledo, junto a pessoas que militam em coletivos, movimentos 58 sociais, culturais, educativos e que, por isso, pudessem ter alguma experiência de escuta com as rádios zapatistas da região. A partir das respostas dos questionários, o pesquisador realizou entrevistas com 12 ouvintes no mês de julho de 2014, que normalmente transcorreram num clima de diálogo, exceto algumas que tiveram situações de constrangimento dos pesquisados, conforme serão esclarecidas adiante. Estes ouvintes por serem participantes destes movimentos predominantemente já possuem uma experiência com comunicação (produção de meios, curso de graduação, assessoria) e têm formação de nível superior. Procurei alternativas (como indicação de ouvintes pelos locutores e contatos do telefone da emissora), mas dado o clima de desconfiança da região não obtive êxito de entrevistar os ouvintes em nenhuma outra. Já os cinco ouvintes da comunidade de San Isidro de La Libertad pouco renderam nas entrevistas iniciais, muitas sendo rápidas e, algumas vezes, com respostas monossilábicas. O problema ocorreu, primeiro, pelas dificuldades da língua39. O espanhol é, conforme já destacado, deficitariamente utilizado por muitos deles, que, no cotidiano, falam no idioma maya tsotsil. E, em segundo lugar, provavelmente pela desconfiança da presença de um estranho, numa situação de tensão e violência política que, por mais que tentasse me familiarizar e tivesse recomendações de pessoas da confiança dos pesquisados, inevitavelmente não deixava de ser um estrangeiro e poder gerar problemas de segurança. A pesquisadora mexicana Martha Renero (2000, p. 125, tradução minha), atribui este tipo de dificuldade à diferença de capitais culturais entre o investigador e o investigado, levando a “questionar o papel do investigador na geração de conhecimento em torno à interação deste gênero midiático com seus públicos no contexto da cultura popular, anônima e iletrada”. Ela cita, como exemplo, o fracasso na mobilização e participação em grupos de discussão em suas investigações. Esta pesquisa encontrou os seguintes instrumentos para compensar o deficit das entrevistas: a observação e os relatos de história de vida. A primeira compõe o instrumental da etnografia. Conforme anteriormente esclarecido. Consiste em observar todos os gestos dos pesquisados para buscar os significados, valores e símbolos de seu universo cultural. As não respostas, o uso de equipamentos eletrônicos – principalmente 39A compreensão do espanhol não foi problema para mim, mas o entendimento do espanhol do entrevistador, muitas vezes, causou rápidas dificuldades, logo solucionadas pelos ajudantes de pesquisa. Quanto mais demorada a entrevista e mais cansativa, mais dificuldades de falar o idioma castelhano, eu tinha. 59 sonoros -, as relações entre os membros dos grupos, os alimentos consumidos, o vestuário utilizado, os lugares de trânsito dos pesquisados (casas, ruas, escolas) e a participação na Oficina de Rádio Comunitária eram avistados para a construção do diário de campo e relacionados nos momentos de significação da pesquisa. Nem sempre era possível a apreensão imediata em notas, pois este simples ato inibia e alterava drasticamente o comportamento dos entrevistados, causando-lhes tensão, por isso tive de concentrar-me e atentar-me para memorizar e posteriormente documentar. Como o mergulho no campo “(...) requer indubitavelmente o estranhamento (de si e do outro) como condição de conhecimento” (CAVALCANTI, 2003, 119), é preciso transpor a barreira do isolamento diante do estranho. Senti também dificuldades de adaptação em campo, não só com as pessoas desconhecidas, os diferentes idiomas, os costumes, os alimentos e a elevada altitude de 2.260 metros acima do nível do mar, o clima inóspito – que chegou, em janeiro de 2014, a uma sensação térmica negativa com umidade superior a 90% -, mas também com os próprios lugares que não me remetiam a nenhuma memória, nem sequer imaginária. Somente o encantamento com o novo me confortava diante dos deslocamentos inevitáveis, das distâncias intransponíveis, das solidões interativas40 e da necessidade de perseverança em meio aos constantes imprevistos, de criatividade mesmo nas situações mais desfavoráveis, de rigor e de disciplina até em momentos de dispersão pela exaustão que me obrigava, por vezes, trabalhar de domingo a domingo em três turnos com poucas horas de descanso, a me deslocar por transportes irregulares e a caminhar quilômetros por trilhas. No entanto, muitas proximidades foram encontradas, principalmente, no trabalho campesino, na relação com a natureza e na militância por um mundo mais justo. Cultivei, diante de todas as distâncias e proximidades, um profundo respeito pelos pesquisados, seus conhecimentos, suas histórias de vida, seus costumes e suas posições políticas, mesmo que contrárias as minhas. Esta relação entre pesquisados e investigador permitiu perceber “(...) e com muito pouca certeza – o que eles (pesquisados) percebem ‘com’ ou ‘por meio de’ ou ‘através de’, ou qualquer outra coisa 40 Termo utilizado pelo sociólogo francês Dominique Wolton (2003) para definir a condição de usuários da Internet que possuem destreza para interagir através da rede, mas perdem o manejo do contato com as pessoas presencialmente. Neste caso, utilizo, como metáfora para explicar minha condição de estar constantemente interagindo com investigados, mas fora dos momentos de pesquisa está geralmente solitário. 60 semelhante” (CAVALCANTI, 2003, p. 133). Como a antropóloga brasileira Maria Cavalcanti (2003, p. 134) testemunha conhecer, a etnografia é um processo de desconhecer aspectos do pesquisado para poder conhecer antropologicamente: “(...) só a distância no tempo e a reflexão podem clarear o que foi desconhecido, ou seja, a posteriori, com uma pesquisa concluída, quando o que foi possível conhecer traçou os seus contornos”. Além da observação, os relatos orais das histórias de vida foi outra técnica utilizada para superar as dificuldades de argumentação dos ouvintes durante as entrevistas, reconstruindo o encontro dos pesquisados com o zapatismo e com o rádio e buscando compreender os universos culturais revelados a partir de seus percursos pessoais. A técnica consistiu em conversar, sem gravar para evitar a inibição dos pesquisados, sobre suas vidas sempre buscando relacionar os acontecimentos narrados com os temas de interesse na investigação. A fala sobre suas próprias vidas sem a utilização do gravador rendeu bem mais do que as entrevistas formais. Conforme Grisa (2003), a história oral é uma proposta técnico-metodológica associada à história social que resgata acontecimentos não documentados. Já a história de vida, para o pesquisador, parte da biografia de indivíduos para reconstituir as informações sobre o coletivo onde se insere o entrevistado. “Só estudando as vidas individuais se pode documentar as conexões entre o desenvolvimento da personalidade e a história social” (GRISA, 2003, p. 290). Esta biografia pode ser construída através de diversos documentos e indícios, mas neste caso específico dá-se através da oralidade por ser o único meio disponível e pela competência dos ouvintes de falar de si. De acordo com Grisa (2003, p. 293), “a história de vida recupera uma relação comunicativa de significação e ressignificação do pessoal, do familiar e do social”. A técnica possibilitou o que Cristina Gobbi (2005) denomina de mergulho singular no passado para renovar o presente, humanizar a pesquisa e reconstruir ou desconstruir as teorias a partir de temas do cotidiano. Desta forma, perguntei sobre a trajetória de vida dos ouvintes pesquisados, suas experiências de escuta e de participação na história da comunidade. No entanto, como foram recortados apenas estes aspectos específicos para compreender a escuta radiofônica, restringi a relatos de história oral de vida a partir das reflexões de Daniel Berteaux (2005, p. 20). Segundo o autor, diferente da biografia, esta técnica consiste em “(...) reduzir o campo de observação a um tipo particular de trajetória ou de contexto”. Assim, “o recurso dos 61 relatos de vida permite captar desde o interior e em suas dimensões temporais”. A história oral também nos possibilitou resgatar, reconstituída através das entrevistas dos produtores da Frecuencia Libre, a origem da emissora, que ainda não estava documentada. Além dos ajudantes de pesquisa, a antropóloga e professora do Ciesas Sureste, Maria Elena Torres Martinez, intermediou minha entrada na comunidade de San Isidro de La Liberdad, em Zinacantán. O assessor internacional da Via Campesina, Peter Rosset, foi a fonte primária que me colocou em contato com outras fontes, como María Elena (ex- esposa dele), Valentin Val e Paco Vasquez, que, por sua vez, indicou Leonardo Toledo. Cheguei a Peter Rosset por recomendação de Pedro Staide do Movimento Sem Terra (MST), que realiza intercâmbio com o EZLN, mediado pela Via Campesina, e do qual fui professor no curso Jornalismo da Terra, promovido pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária nos anos de 2010 a 2014. No entanto, além do MST, fiz dezenas de outros contatos com militantes e pesquisadores que estudam, atuam, atuaram ou teriam contatos em Chiapas, como John Downing, Azalia Hernández, Galindo Cáceres, Cícilia Peruzzo, Lawrence Grossberg, Alex Khasnabish, Tamara Villarreal Ford e Todd Wolfson. 1.2.2 Endereçamentos das rádios Outro método utilizado na pesquisa para dar conta de analisar as mensagens das rádios zapatistas foram os modos de endereçamento, definidos como as interpelações e convites dos meios aos receptores, no conteúdo de sua programação, para gerar uma identificação entre o produto e a audiência. Os modos de endereçamento, conceito originário da teoria cinematográfica, foram utilizados pioneiramente como operador de uma pesquisa sobre televisão na investigação do britânico David Morley (1999), do Center of Contemporany Cultural Studies (CCCS) de Birmingham, sobre o programa Nationwide. De acordo com ele, os estudos de recepção precisam analisar como as leituras individuais se articulam em estruturas e conglomerados culturais. Para verificar a variação da recepção segundo fatores sociodemográficos (sexo, idade, etnia e classe), marcos e identificações culturais e tema das mensagens, Morley realiza o estudo da 62 assistência dos programas em grupos focais de telespectadores com estas diferentes características. A partir das respostas, ele percebe como alguns receptores aceitam a forma, mas não a ideologia41. “O conceito de ‘modos de endereçamento’ designa as específicas formas e práticas comunicativas de um programa que constituem o que se referiria na crítica literária como ‘tom’ ou ‘estilo’” (MORLEY, 1999, p. 262). Esta relação entre formas e ideologia num discurso parte dos estudos de Raymond Williams (2009) nos quais a forma consiste na organização dos conteúdos culturais que refletem a sociedade que as molda, e uma prática comunicativa relaciona-se ao aspecto cultural da política, isto é, os símbolos, valores, comportamentos sociais do posicionamento hegemônico e das relações de poder de um determinado grupo. Os endereçamentos estão assim, para Morley, nas formas que interpelam determinado público a partir de elementos de seu universo cultural, buscando uma identificação entre um produto massivo e o receptor. Os endereçamentos propõem certas leituras a partir da criação de laços de identificação com o público. “O modo de endereçamento estabelece a forma da relação que o programa propõe para-com sua audiência” (MORLEY, 1999, p. 262). Já para a pesquisadora estadunidense Elizabeth Ellsworth (2001, p. 19), deve-se falar em modos de endereçamentos no plural. Primeiro, porque os produtos dos meios não propõem somente uma forma de recepcioná-los. “As posições de ver filmes não são aleatórias, mas relacionais (...) essas posições sociais não constituem, nunca, uma posição única ou unificada”. Citando Masterman, a autora lembra que, “nos meios visuais, nós, como membros do público, somos compelidos a ocupar uma posição física particular, em virtude do posicionamento da câmera (...) somos também convocados a ocupar um espaço social” (ELLSWORTH, 2001, p. 18). Os espaços sociais propostos nos produtos dos meios possibilitam naturalizar a experiência de recepção a partir dos diversos contextos sociais da audiência. O segundo motivo de falar em modos de endereçamentos no plural deve-se à apropriação que o receptor faz dos endereçamentos dos meios, podendo compreendê-lo de forma diferente da proposta original. Há, nesta situação, uma negociação dos significados dos meios entre meios e audiências. 41 Um exemplo da diferença entre forma e ideologia, constatada na pesquisa de David Morley sobre o Nationwide, foi a recepção de um quadro do programa, quando gerentes de banco aceitaram as ideias favoráveis a estas instituições financeiras, mas rechaçaram o formato demasiadamente “popular”. Já os sindicalistas aprovaram a forma, mas se contrapuseram à ideologia. 63 Os públicos não são simplesmente posicionados por um determinado modo de endereçamento. Entretanto, para dar qualquer sentido a um filme ou para desfrutá-lo até mesmo minimamente, eles têm que se envolver com seu modo de endereçamento. Ainda que de forma mínima ou oblíqua (...) inclusive em sua decisão de simplesmente recursar-se a ver o filme. (ELLSWORTH, 2001, p. 24) A autora propõe uma distinção entre "espectadores dominantes”, aqueles que correspondem modelo de público idealizado pelos meios, e “espectadores marginais”, que resistem aos endereçamentos preferenciais. Para compreender os endereçamentos, o pesquisador australiano John Hartley (2000) observa três formas de aproximação: o mediador, que possui uma empatia com o público; a voz do povo, que procura uma autencidade ao meio a partir da opinião das pessoas comuns, e a sondagem firme, que pergunta a um especialista o que a audiência gostaria de saber. Na análise de telejornais, Itânia Gomes (2005) amplia estes operadores para mediador, temática, pacto sobre o papel do jornalismo, contexto comunicativo, recursos técnicos, recursos da linguagem televisiva, formatos de apresentação, relação com as fontes de informação e texto verbal. Na análise dos endereçamentos das emissoras zapatistas, levando-se em conta as características do meio radiofônico, são consideradas as proximidades da mensagem com os receptores a partir de seis elementos. Primeiro, estão os mediadores, compostos locutores, repórteres, comentaristas que participam dos programas e fazem a intermediação e buscam criar familiaridade, proximidade e credibilidade com os receptores. A temática são assuntos abordados, estilos e letras das músicas tocadas na programação que indicam tipos de receptores idealizados e universos culturais próximos. Já o papel social consiste na expectativa criada junto à audiência, que a emissora se propõe atender, como a informação, o entretenimento, a memória e o conhecimento proposto. Por sua vez, os recursos técnicos são compostos pela plástica radiofônica presente na organização dos efeitos sonoros, trilhas, intervalos e blocos e vinhetas. A linguagem radiofônica está presente na proposta de criar imagens acústicas, conversas mentais e a oralidade mediatizada42. Por fim, o texto verbal entendido como a forma de interpelar diretamente a audiência, através do conteúdo transmitido, e construir credibilidade. Através da análise destes elementos, é possível observar vários 42 Segundo Júlia Oliveira (1999), a oralidade mediatizada se refere à reconstituição da oralidade pelos meios de comunicação, como o rádio. 64 detalhes da programação que apontam não só para os conteúdos, formatos e plástica, mas para a relação proposta com a audiência e para as expectativas dos emissores sobre a recepção. Para utilizar o método dos endereçamentos, servi-me principalmente de duas técnicas. Primeiro, realizei gravações da programação da Radio Rebelde e Frecuencia Libre de três semanas consecutivas das emissoras, sendo a primeira de 9 a 30 de julho de 2013 e a segunda de 20 de julho a 10 de agosto de 2015. A distância temporal ocorreu porque não consegui sintonizar posteriormente a Radio Rebelde, como explicado anteriormente, em julho de 2015 e porque a decisão de investigar a Frecuencia Libre só foi consolidada depois das entrevistas com os ouvintes de San Cristóbal de Las Casas, em julho de 2014, que apontaram a escuta desta emissora. Durante as gravações realizei anotações sobre a programação, como o horário de início e término, temas e elementos de cada bloco, aspectos técnicos - como utilização de vinhetas, efeitos sonoros, falhas etc – em meu diário de campo. Depois escolhi uma edição de cada programa da Frecuencia Libre e um de cada dia da semana, não necessariamente consecutivos, da Radio Rebelde que tivesse o conteúdo mais diverso para transcrever (disponíveis nos Apêndices IV e III) e analisar com mais profundidade os endereçamentos através dos mediadores, texto verbal, temáticas, papel social, recursos técnicos e linguagem radiofônica. Apesar da similaridade com a análise de conteúdo, o método dos endereçamentos levou-me a buscar imprescindivelmente os dados do texto em relação ao contexto, aos receptores, às estruturas sociais e às relações de poder, dado que parto do pressuposto de “(...) compreender a relação de interdependência entre emissores e receptores na construção do sentido do texto (...)” (GOMES, 2007, p. 21). Foi possível assim superar análises baseadas tão somente em frequências, regularidades, palavras-chaves, quantidades e encontrar nos conteúdos os deslocamentos das mediações comunicativas até as práticas culturais da recepção, tempos, lugares e contextos sociais que propõe Martín-Barbero. Neste capítulo, apresentei a proposta teórico-metodológica dos usos sociais dos meios de Martín-Barbero, contextualizando este tipo de pesquisa no Brasil e definindo as mediações. Em seguida, mostrei os recortes do objeto e as condições de campo, esclarecendo minhas imersões no México, os lugares transitados e os critérios da escolha das emissoras. Por fim, discuti a trajetória metodológica, caracterizando-a como 65 uma exploração de inspiração etnográfica, por meio da interseção entre observação, confecção de diário de campo e realização de entrevistas, e definindo a análise dos endereçamentos. O modo como esta metodologia foi sendo construída ao longo dos contatos com as comunidades visitadas entrelaça-se com e torna possíveis as análises das institucionalidades das emissoras que seguem no próximo capítulo. 66 2 MEIOS LIVRES, RÁDIOS COMUNITÁRIAS E LÓGICAS DE RESISTÊNCIA A primeira questão que me surgiu ao investigar as rádios Rebelde e Frecuencia Libre foi sua organização institucional. Diferente da clara definição – que, por vezes, obscurece a compreensão do fenômeno - de rádios comunitárias no Brasil43, encontrei o constante trânsito, no México, deste termo com o de meios livres para classificar estas emissoras. Para compreendê-las, percorri então, primeiramente, a análise das institucionalidades que, para Martín-Barbero (1998), se distinguem pela relação entre as matrizes culturais e as lógicas de mercado. Assim, inicialmente apresento neste capítulo as lógicas de produção que permeiam o contexto mexicano e as especificidades locais para entender quais interesses acolhem os discursos das rádios zapatistas e procurando inclusive encontrar aquelas lógicas que não estejam submetidas aos interesses privados para, nos capítulos seguintes, discutir as matrizes culturais a partir dos endereçamentos das estações. Dois estudos das institucionalidades nos usos sociais inspiram esta pesquisa. Primeiro, o pesquisador mexicano Enrique Sanchez Ruiz (2000, p. 56) propõe, para analisar as institucionalidades, um enfoque histórico-estrutural que “tenta descrever, explicar e compreender o fluxo de acontecimentos sócio-históricos a partir da articulação complexa e cambiante entre a biografia, as instituições e as estruturas sociais (...)”. Esta abordagem multidimensional encontra-se na encruzilhada de diversas disciplinas acadêmicas como história, política, economia, sociologia e antropologia. O segundo foi a tese de doutorado de Angela Felippi (2008), que investiga as institucionalidades do Jornal Zero Hora do Rio Grande do Sul a partir da relação entre a matriz cultural do tradicionalismo gaúcho, suas histórias e atuais configurações, e da estrutura do veículo, 43 No Brasil, a lei 6.612 de 1998 regulamenta o serviço de radiodifusão comunitária como emissoras que transmitem por Frequência Modulada (FM) de propriedade de associações comunitárias e fundações sem fins econômicos, de caráter público e não pró-seletista. Estas emissoras recebem uma autorização que lhes trazem uma série de restrições, como potência de no máximo 25 watts, atuar somente num bairro ou vila, não entrar em rede, canal único para cada município e receber apenas doações e apoios culturais, restritos a veiculação do nome e endereço do apoiador, sendo vetado qualquer tipo de propaganda que mencione produtos, serviços, preços, promoções e prazos de qualquer empresa. Esta situação dificulta a viabilidade de emissoras mantidas por comunidades empobrecidas, muitas tendo que ceder sua programação à Igrejas Protestantes ou à grupos políticos que as mantenha. A distribuição dos canais para associações ligadas a parlamentares federais agrava as condições das rádios comunitárias brasileiros que, segundo o pesquisador Venício Lima (2007), cria um “coronelismo eletrônico de outro tipo”. 67 que também inclui o regaste histórico, as relações de mercado e os aspectos organizacionais do Zero Hora. Estes aspectos organizacionais, mercadológicos e legais dos meios, de acordo com Nilda Jacks (2008, p. 35), compõem as lógicas de mercado que podem ser pensadas em “(...) duas ordens contrapostas: o regime estatal, que concebe os meios como serviço público, e o regime de mercado, que converte a liberdade de expressão em comércio”. Conforme Veneza Ronsini (2012), neste aspecto deve-se considerar também as questões da mundialização da cultura e da crise das instituições. Assim, se faz necessário colocar nesta relação entre privado e público a internacionalização da economia que enfraquece não só as fronteiras e os mercados locais, mas também o poder estatal por sua carência de legitimidade, seja o enfraquecimento de sua atuação social seja por sua submissão a interesses econômicos empresariais. Para olhar a realidade das emissoras zapatistas, amplio o conceito de “lógicas de mercado” para “lógicas de produção”, a fim de dar conta também das contradições sociais, marginalizações e subversões a este mercado, gestados não só pela exclusão social dos povos originários e pobres da região, mas também pelas organizações e lutas por transformações sociais. No caso específico das rádios zapatistas, como emissoras não autorizadas pelo poder estatal, analiso ainda as tensões entre a resistência e a perseguição, o mercado e a sustentabilidade, a autonomia e a política governamental e os conceitos e as práticas dos meios livres e comunitários. Assim, esta investigação começa resgatando a história das rádios livres desde as primeiras contestações dos radioamadores, passando pelas rádios mineradoras bolivianas, as rádios piratas europeias e escolas radiofônicas mexicanas, buscando não somente chegar às definições de meios livres e rádios comunitárias, mas localizar o residual destas experiências nas rádios zapatistas a fim de analisar a história e a organização da Frecuencia Libre e da Radio Rebelde. 2.1 Das rádios piratas britânicas às emissoras indígenas mexicanas A primeira configuração necessária para analisar as lógicas de mercado é a compreensão do sistema legal do rádio no México. Por radiodifusão sonora, entende-se a transmissão de sinais elétricos em ondas hertzianas moduladas numa determinada frequência e 68 decodificados como sons nos aparelhos receptores. As sintonias estão organizadas em Amplitude Modulada (AM), Frequência Modulada (FM), Ondas Curtas (OC) e Ondas Tropicais (OT)44. No México, tal atividade é regulada pelo Estado Federal, através do Instituto Federal de Telecomunicações (IFT). Conforme a Ley Federal de Telecomunicaciones e Radiodifusión de julho de 2014, há quatro tipos de autorizações para transmitir os sinais radiofônicos, chamadas de outorgas: as concessões para uso comercial, para uso público (órgãos governamentais), para uso privado (experimentos, testes e comunicação direta limitada) e para uso social (entidades comunitárias e povos indígenas). Segundo Botello Hernandez e Virginia Ávila (2013), das 2.145 emissoras que operavam em 2012, 1.739 eram comerciais, captando 9% dos gastos totais de investimento publicitário no país, e apenas 415 públicas. As transmissões em AM eram realizadas por 855 estações e as de FM por 1.199. Além da melhor qualidade, as emissoras em FM possuem custos menores em relação às AM, podendo perder apenas no raio de alcance de seus sinais. Gisele Ortriwiano (1985) classifica este sistema legal como misto, pois podem transmitir tanto emissoras de órgãos públicos como de instituições privadas, diferente do sistema monopolista, no qual só emissoras estatais podem transmitir e do sistema privado, no qual há só estações de instituições particulares. No entanto, desde as primeiras experiências de radiodifusão no mundo, já havia grupos que contestavam as legislações radiofônicas. Peter Burke e Asa Briggs (2004) relatam que os primeiros civis a se apropriarem da tecnologia radiofônica, chamados de radioamadores, questionaram, nos Estados Unidos, a Lei do Rádio sancionada em 1912, a qual restringia suas transmissões a ondas de 200 metros, e, na Inglaterra, a necessidade de licença dos Correios para realizarem suas emissões. Já as estações radiofônicas sem autorização do poder concedente têm como percussora, segundo Machado, Magri e Masagão (1987), a Radio Sutatenza em 1947 na Colômbia, uma emissora criada por um sacerdote para oferecer educação básica integral aos campesinos. A iniciativa foi seguida pelo movimento das rádios mineiras na Bolívia e das piratas na Inglaterra. As primeiras nascem após a Revolução do Chaco45 em 1952, 44 Os canais de rádio estão organizados em quatro faixas, a Frequencia Modulada (FM) que, no México, funciona de 87 Mhz a 108 Mhz, caracterizada pela melhor qualidade de áudio e o menor alcance, comparada a Amplitude Modulada (AM), entre 810 Khz 1800 Khz. Já as Ondas Curtas (OC) e as Ondas Tropicais (OT) servem para transmissões de longo alcance, até mesmo intercontinentais, possuindo baixa qualidade de áudio. 45 A revolução do Chaco foi considerado o período de modernização política, econômica e cultural da Bolívia, ocorrido entre 1952 e 1964, quando o Movimento Revolucionário Nacional (MRN) governou o país promovendo uma reforma política, com a universalização do voto, inclusive para as mulheres, e uma 69 tendo a Rádio Bolivar como a pioneira a difundir a experiência deste movimento. Emissoras, como a Voz do Mineiro na Mina Siglo XX, serviam para organizar os mineradores, uma das principais atividades econômicas do país na época e atenuar o isolamento de minas distantes das cidades. Em oposição ao movimento destas rádios, os grupos conservadores bolivianos agiram em duas frentes: a criação de suas próprias emissoras, como a Rádio Sucre, e a interferência nas frequências das estações mineiras, obrigando-as a constantemente mudarem de canal e criando uma guerrilha eletrônica, assim como acontece hoje em várias regiões, inclusive atualmente em nossa base de pesquisa, San Cristóbal de Las Casas. Com a decadência da produção mineradora e o golpe militar da década de 1980, estas rádios começaram a extinguir-se. No entanto, inspiraram a Rádio Rebelde de Cuba que transmitia contrainformações às versões do Governo do ditador militar Fulgencio Baptista, que presidiu o país de 1940 a 1944 e de 1952 a 1959, e notícias e músicas da revolução comunista liderada pelo irmãos Fidel e Raul Castro e por Che Guevara na ilha caribenha que, por sua vez, inspiram alguns meios livres mexicanos, como a rádio homônima do Caracol de Oventinc, objeto de nossa pesquisa, principalmente, em sua programação musical. Já na Inglaterra, no final da década de 1950, conforme Burke e Briggs (2004), surgem as rádios piratas. Instaladas em navios na zona ultramarina, onde a legislação de radiodifusão não vigorava, lançavam suas ondas para o continente a fim de conquistar, sobretudo, o público jovem, tocando o nascente Rock’n’Roll e tendo uma locução descontraída e muitas vezes até cômica. As emissoras rompiam com o padrão comportado e “engessado” das rádios oficiais à época pertencentes, na Inglaterra, ao Governo britânico que possuía o monopólio legal do setor. “A Rádio Caroline, transmitida do mar do Norte, foi a primeira de um conjunto de estações a desafiar as autoridades e transmitir principalmente música popular para a Grã-Bretanha (...)” (BURKE; BRIGGS, 2004, p. 229). Além desta emissora, destacaram-se no Mar do Norte as rádios Merkir transmitindo para a Dinamarca, Nord para Suécia, Verônica para Holanda e Atlanta para Inglaterra. De acordo com Machado, Magri e Masagão (1987), estas estações se caracterizam como rádios piratas porque, mesmo não tendo outorgas, não buscavam mudanças sociais, como a democratização da comunicação, mas, assim como as rádios comerciais, visavam principalmente à obtenção de lucros, “saqueando” reforma agrária, com o assentamento de milhares de famílias. 70 o mercado publicitário, situação vivenciada hoje no espectro do campo pesquisado, no qual, conforme anteriormente relatado, localizei 29 emissoras em FM, sendo que ao menos 18 não possuem autorização, sendo cinco destas com características comerciais. Desde este episódio histórico, os meios livres costumam opor-se às rádios comerciais não autorizadas, em alguns casos, chamando-as de piratas, posição assim herdada pelos meios livres mexicanos. Leonardo Toledo, do coletivo da Frecuencia Libre, diferencia, desta maneira, esta emissora das demais não autorizadas. Segundo ele, Frecuencia Libre tem um objetivo comunitário, enquanto as dezenas de piratas que existem em San Cristóbal de Las Casas, buscam somente o lucro. No México, a experiência de emissora não autorizada precursora foi, em 1955, a rádio em Ondas Curtas da Escola Radiofônica de Tarahumara. Conforme Mendez Rosas (2005), no final da década seguinte do fenômeno das rádios piratas europeias, nos anos 1960, as estações das escolas radiofônicas se proliferam com o objetivo de utilizar a tec- nologia para transmitir educação integral básica para os campesinos, principalmente in- dígenas, seguindo o modelo da rádio colombiana Sutatenza e tendo apoio do Fomento Educativo e Cultural, uma organização criada e gerida pelos jesuítas. Em 1965, a Rádio Huayacocotla de Veracruz inicia suas transmissões em OC buscando combater a falta de investimento na educação que, para eles, era a fonte do subdesenvolvimento, da pobreza e da injustiça. No mesmo período, também em Veracruz, um grupo de jovens transforma um transmissor de um velho navio na Rádio Teocelo. Com apoio da população local e do Fomento Educativo e Cultural, ligado na época à Universidade Iberoamericana, tor- naram a emissora numa estação educativa. As rádios mexicanas sem autorização legal passaram, na década de 1970, a sofrer uma instabilidade nas transmissões devido à per- seguição e constantes fechamentos realizados pelos órgãos de fiscalização. Para sobre- viver à repressão, intensificaram a participação popular na programação e, na década de 1990, se engajaram na defesa dos campesinos contra o abuso de caciques e fazendeiros. Além da repressão, o Governo Mexicano reagiu contra a expansão das escolas radio- fônicas com a criação das rádios do Instituto Nacional Indigenista (INI) em 1979. Fo- ram instaladas 20 estações localizadas em 15 estados, tendo como objetivo propagar uma versão governamental da cultura indígena, abordando temas como justiça, educa- ção, saúde e música. 71 Nas experiências recentes de rádios sem autorização legal no México, segundo Feldman (2008), se destacam a Radio Axocotzin em Tlaxcalancingo, originada em 2008 como resposta à expropriação de terrenos comunitários; a Radio Plantón da Cidade de Oaxaca, criada no mesmo ano para cobertura do movimento da Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca de ocupação de prédios públicos em defesa de professores grevistas e a Radio Totopo, no ar desde 2005, fortalecida pela luta contra os prejuízos à fauna, causados pela produção de energia eólica em Juchitán. Já as experiências de emissoras sem autorização, destacadas pelo Centro de Medios Libres de México, são a Radio Zapata que, em 1994, transmitia as mensagens do EZLN durante o levante a partir de algum lugar de Chiapas; a Radio Zapote, fundada em 2001, na Cidade do México, para dar cobertura a Marcha da Cor da Pele dos zapatistas e as Radios Insurgentes, emissoras zapatistas que transmitiam em OCs e em FM, desde locais desconhecidos da Selva Lacandona, de Los Altos e da Selva da Fronteira, veiculando as informações do movimento para o país e para o mundo. De todas estas emissoras citadas, apenas as rádios de Tarahumara e a Zapata não mais transmitem, as demais, mesmo tendo sofrido mudanças – como as Rádios Insurgentes transformadas em emissoras das comunidades locais – resistem num ambiente de repressão, hostilidades e batalhas legais. Na década de 2000, a Associação Mundial de Rádios Comunitárias no México (Amarc México) relata violências e ameaças contra as emissoras sem autorização e seus comunicadores. Dentre os casos de violência a locutores, a Amarc México (2008) destaca a ameaça de morte de Arabella Jiménez, da La Voladora Radio de Amecameca em dezembro de 2006; o ferimento a tiro de Abel Sánchez Campos, da Radio Emilio Santiago na comunidade de San Antonio em janeiro de 2007 e o alvejamento a tiros da casa de Melesio Melchor Ángeles, da Zaachia Radio na cidade Zaachia em 2008. Já as principais violações contra as emissoras envolvem a Radio Plantón que teve seus equipamentos apreendidos e três de seus locutores presos durante o despejo dos professores grevistas que ocupavam o Palácio Municipal na Cidade de Oaxaca em junho de 2006; a Radio Tierra e Liberdad que teve seus materiais detidos pela Polícia Federal em Monterrey em 2007 e a Radio Totopó que teve seu estúdio invadido por militares da Marinha que levaram seus equipamentos em Juchitán em 2014. Outra forma de perseguição às emissoras sem autorização é a interferência em suas frequências. Assim como nas rádios mineradoras bolivianas da década de 1950, 72 estações de grupos contrários às rádios, muitos destes ligados a partidos políticos que comandam o governo federal, estadual ou municipal, lançam sinais mais potentes na mesma frequência, com a programação de outra emissora ou sem a transmissão de som, para restringir ou bloquear as emissões originais. Como não possuem proteção legal pela falta de concessão pública, estas rádios são obrigadas a trocar de frequência como faz constantemente a Radio Tierra e Liberdad de Monterrey ou resistem na mesma sintonia, mesmo tendo o alcance de seu sinal diminuído, como o caso da Radio Rebelde de Oventic. Outra forma de combate às rádios não autorizadas é o controle da legislação que dificulta ou as impede de regularizar-se. A nova Lei Federal de Telecomunicações e Radiodifusão promulgada em julho de 2014, que pela primeira vez reconhece as rádios comunitárias e indígenas como emissores de uso social, traz, para o advogado Luis Fernando García, que conduz demandas judiciais de dez emissoras de Oaxaca contra a nova legislação, desrespeito aos direitos dos povos originários. Ele denuncia que “no caso específico dos povos indígenas, se atenta contra sua seguridade jurídica e contra o direito destes povos de ter meios de comunicação próprios, garantidos na Convenção Americana sobre Direitos Humanos”46. Para ele, estas comunidades não devem necessitar de autorização estatal para operar suas rádios. A Amarc México se pronunciou também contra a previsão da Lei de confiscar, sem o devido processo judicial, os equipamentos das estações não autorizadas. Segundo a entidade, é uma sanção desproporcionada. Outra medida que restringe a atuação das emissoras de uso social é a limitação das fontes de financiamento. Além de doações da comunidade e de organizações sociais e da comercialização de gravações, estas rádios só podem veicular publicidade estatal, o que deverá torná-las assim dependente dos governos, dificultando a pluralidade política e a diversidade cultural em suas programações e gestão. A nova legislação foi aprovada num ambiente conflituoso onde os interesses dos grandes conglomerados de radiodifusão foram preservados. Enquanto emissoras de uso social ficaram limitadas a 10% do espectro, não há restrição às comerciais. Outro exemplo foi a limitação, prevista na Lei, da predominância de empresas de telecomunicações que não podem deter mais 50% do mercado consumidor, obrigando, por exemplo, a Telmex do magnata Carlos Slim colocar parte de seu conglomerado a 46 Jornal La Jornada, 14 de outubro de 2014, p. 18, Cidade do México. 73 venda. Já para a radiodifusão, a Lei não prevê a mesma restrição. Se houvesse, a principal rede de TV mexicana, Televisa, seria obrigada a desmembrar-se, pois detém, em média, 70% da audiência do México. As disputas revelaram a condução hegemônica dos empresários da radiodifusão no processo de elaboração da Lei, que exerceram pressões sobre a coalização de partidos (PRI, Verde e PAN) que aprovaram a legislação e sob o Governo do Presidente Enrique Pieña Nieto do PRI, partido que se manteve durante 75 anos no poder e retornou na eleição de 2012, depois de dois mandatos governados pelo PAN. Segundo Ford e Gil (2001), para ficar tanto tempo no poder, o Partido contou com o apoio irrestrito da Televisa, considerada o Ministério da Cultura não oficial do México. A nova lei reflete não só a continuação da aliança, como também as articulações entre os conglomerados de radiodifusão que conquistam reconhecimento jurídico, trânsito político no poder estatal e investimentos econômicos, podendo prosperar em seus negócios, em troca da predominância da agenda de notícias e das versões dos fatos favoráveis aos governantes. Mesmo que não represente um controle homogêneo das opiniões dos públicos nem uma postura monolítica das emissoras, a manobra possibilita o fortalecimento dos discursos hegemônicos e a criação e consolidação dos blocos dominantes. 2.2 Rádios livres e comunitárias As emissoras sem autorização do poder concedente e sem fins lucrativos são denominadas, por Machado, Magri e Masagão (1987), de rádios livres que, além de contestar as restrições legais para transmitir, buscam romper com esta concentração dos canais nas mãos de grupos privilegiados política e economicamente. Surgem a partir da reação de excluídos dos meios de comunicação, concentrados nas mãos de famílias, empresas ou governos que buscam impor discursos sociais alinhados a seus interesses. Como os meios constroem e fazem circular as predominantes informações, ideias, valores e opiniões tornam-se instrumentos e, por vezes, agentes na formação, consolidação e manutenção das hegemonias. Por isso, os grupos que estão no poder buscam monopolizá-los em seu domínio por meio da viabilidade econômica, concentrando os investimentos publicitários, e do processo de legalização, distorcido por precariedade da legislação, tráfico de influência e força do poder econômico nas 74 decisões governamentais. De acordo com a Amarc México (2008, p. 7), “96% do total dos canais de televisão comerciais estão em mãos de duas famílias. Das rádios, 86% estão em mão de 13 grupos empresariais (...)”. Por sua vez, os grupos contra- hegemônicos lutam contra a situação por meio de críticas, denúncias, mobilização e ação direta, através da organização de meios sem autorização legal, estando sujeitos, por isso, a punições, como interdição, apreensão de equipamentos, multas e até prisões de seus responsáveis. Para Machado, Magri e Masagão (1987, p. 32), a rádio livre é muito mais do que só uma contestação ao sistema legal de radiodifusão, deve ser espaço para “invasão” por qualquer ouvinte, possibilitando “(...) dar a palavra a interlocutores menores (...) introduzir nas antenas a palavra viva, cheia de força, indecisão e desejo”. Deve representar ruptura assim também com a dinâmica de construção das versões dos meios pertencentes aos grupos hegemônicos, multiplicando as vozes e versões e horizontalizando as decisões. Segundo John Downing (2001), as rádios, por ele denominadas de mídia radical, têm características semelhantes: a ruptura com o controle hegemônico das informações e opiniões pelas indústrias culturais; a sensibilidade às vozes e aspirações dos excluídos; a independência ao poder estatal e religioso e o papel inovador. Por outro lado, Cicília Peruzzo (1998, p. 128) chama a atenção para a idealização destas experiências. Segundo a autora, nem sempre as rádios livres são expressões de um contexto de luta, veículos de conteúdo crítico-emancipador, espaço de expressão democrática, instrumento das classes subalternas ou protagonismo popular. “Essa postura de opor os meios populares aos massivos sofreu uma profunda revisão (...). Apesar de serem campos de conflitos e terem suas especificidades, sob a ótica do receptor não se estabelece esse antagonismo”. Além disso, Peruzzo alerta que muitos meios massivos incorporaram a linguagem dos meios populares – e vice-versa - e vários grupos contra-hegemônicos passaram a ocupar espaços nas programações dos meios massivos. Há ainda uma reprodução, em muitos meios de grupos contra-hegemônicos, de relações verticais e centralizadoras, seja pela atuação de lideranças autoritárias que tentam perpetuar-se no poder, seja pela cultura de acomodação que dificulta a participação na gestão, produção e conteúdo destes meios. A autora rompe assim com 75 uma visão homogênea do popular, admitindo que as experiências de rádios não autorizadas fazem parte de uma frente cultural, onde se disputam e se intercambiam sentidos com os meios inclusive os massivos. Peruzzo especifica, no campo dos meios livres, as rádios comunitárias, estações que lutam para, assim como as emissoras livres, romper com a concentração dos meios nas mãos de grupos hegemônicos. A diferença entre a classificação destas experiências como comunitárias ou livres reside na questão legal e na definição de comunidade. As rádios comunitárias podem estar legalizadas, existindo em muitos países como o México previsão para isso, enquanto as livres se contrapõem ao sistema legal de radiodifusão, não possuindo autorizações do poder estatal. Já a definição de comunidade é um debate enraizado desde nas primeiras discussões sociológicas. De acordo com Raquel Recuero (2005), o primeiro autor a conceituar o termo foi Ferdinand Tönnies que a opunha à sociedade. Enquanto comunidade (Gemeinschaft) representava as relações sociais baseadas em laços afetivos, costume e religião nas famílias, aldeias e vilas, a sociedade (Gesellschaft) era a deturpação da mesma nos grandes aglomerados urbanos, sendo baseada em relações frias, mecânicas e egoístas em metrópoles, estados e mundo. Emile Durkheim segue a definição de Tönnies, no entanto discorda da ideia de sociedade como deturpação das relações comunitárias, sendo, para o sociólogo francês, uma evolução natural. Max Weber, por sua vez, conceitua comunidade e sociedade como ações sociais. Para ele, estas organizações não se excluem, havendo comunidades nas sociedades. A ação social comunitária é fundada numa relação emocional, afetiva ou tradicional de laços de pertencimento, compreendidos como o reconhecimento da ligação mútua entre os membros. Recuero mostra ainda que, segundo Beamish, há dois significados para esse sentimento fundador da comunidade: o de compartilhar um mesmo lugar físico, como a vizinhança, bairro, vila ou cidade ou o de ter interesses comuns, seja profissionais, sociais ou religiosos. Este último forma comunidades baseadas em relações espirituais, “(...) propostas comunitárias que têm por princípio a comunhão e a partilha entre os indivíduos. Altera-se o conceito tradicional de comunidade, especialmente no que se refere ao vínculo com o território (...)” (PAIVA, 2003, p. 65). Não é a institucionalização, mas o pertencimento que forma uma comunidade que, mesmo não sendo reconhecida juridicamente, pode existir como uma organização básica que possibilite a permanência e os laços entre seus membros. Recuero sintetiza as 76 características da comunidade, a partir do estado da arte que ela desenvolve sobre o assunto, em grupo social que possui um projeto em comum, um caráter corporativo de mútua defesa, a permanência em frequentes encontros, as formas de comunicação para garantir as trocas de autodefinição e mútuo reconhecimento e os laços de pertencimento já expostos. As comunidades baseadas em interesses comuns se fortalecem, para Raquel Paiva (2007, p. 72) com o avanço dos dispositivos informacionais que “(...) transformam os pré-requisitos de contiguidade e distância em variáveis de importância cada vez menor, fazendo com que as relações humanas prescindam do espaço (...)”. Desta maneira, a comunicação comunitária torna-se fundamental para aproximar os distantes e criar solidariedade, cooperação, mobilização e organização em relações de localidade ou de interesses comuns. Uma maior força política, melhor poder de barganha e impacto social podem ser uma conquista da comunidade com o uso destes meios como jornais de bairro, murais, carro volante, vídeo popular, páginas na internet, rádios comunitárias, entre diversas outras invenções criativas. O processo de construção de um meio comunitário nem sempre é linear, isto é, surgindo do despertar da comunidade para a necessidade de tê-lo para fortalecer-se. Por vezes, pode ser uma iniciativa isolada de alguns aficionados na tecnologia dos meios que posteriormente conquista a participação e o engajamento mais amplo. As rádios comunitárias, para Márcia Vidal Nunes (2007, p. 95), devem ser assim caracterizadas “pela participação popular em sua administração, na elaboração da programação e na pluralidade cultural, representando, deste modo, as mais diversas tendências presentes num grupo social”. Segundo Cicília Peruzzo (2004), há diferentes níveis de participação. O primeiro se dá nas mensagens que trazem sugestões da comunidade, como avisos, pedidos musicais, recados e alôs. É uma participação restrita às decisões editoriais já tomadas pela direção dos meios e amplamente utilizadas na comunicação massiva, principalmente, para legitimar uma pretensa popularidade. Já a participação produção de conteúdos permite, através de capacitações, seja em oficinas seja na convivência cotidiana, dos receptores que assim passam a produzir material a ser veiculado ou publicado nestes meios. Nos níveis mais aprofundados, está a participação no planejamento, quando, através de conselhos, encontros ou reuniões, a comunidade 77 pode sugerir ou modificar a atuação do meio, e a participação na gestão, quando a direção dos meios é escolhida e está subordinada à assembleia da comunidade. Participar, na perspectiva de política agonística de Mouffe (2004), é pulverizar as hegemonias, tornando-as mais fluidas e instáveis, dando visibilidade a uma diversidade maior de discursos que tornem mais evidentes os conflitos inevitáveis e acordos necessários. A comunidade, nesta situação, tem uma configuração mais cambiante e possivelmente mais engajada a partir do reconhecimento da corresponsabilidade de todos, que possuem voz e poder de decisão. Os meios comunitários não só devem ressoar esta configuração, mas se tornam espaços destes conflitos, acordos e articulações. Nos casos das rádios analisadas, percebo pulverização das hegemonias na Frecuencia Libre, dado que o coletivo possui diversos interesses, seja do grupo político mais ligado aos zapatismo, seja dos produtores culturais mais engajados com as promoções artísticas locais, seja dos cidadãos interessados em sua liberdade de expressão e no direito social à informação47. 2.3 Frecuencia Libre, pela liberdade de expressão As características de meio livre e rádio comunitária podem ser percebidas na Frecuencia Libre que rompeu, em San Cristóbal de Las Casas, com uma concentração midiática de 30 anos, tempo que somente existiram duas emissoras autorizadas48, Rádio 1, AM 1100 Khz estatal, e WM, AM 690 Khz, comercial. De acordo com Gabriel García, um dos fundadores da emissora e atualmente apresentador do programa Objetos 47 A Liberdade de Expressão é um conceito definido em diversas lutas sociais de distintos momentos históricos e presente em várias legislações que, na Declaração Universal dos Direitos Humanos, está prevista no artigo 19 como: “o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão”. Já o Direito Social da Informação foi definido pela Unesco, através do Relatório MacBride, publicado em 1980, que denunciou a concentração no fluxo de comunicação nos países desenvolvidos, como o direito de receber informações plurais e transmitir suas informações locais. 48 Segundo Gabriel García, um dos fundadores da Frecuencia Libre e apresentador do programa Objetos Prohibidos, em entrevista concedida no dia 2 de agosto de 2015, no segundo semestre de 1995, existiu, em San Cristóbal de Las Casas, a Radio Rebelde, uma ação do governo em rebeldia do advogado e jornalista Amado Avedaño, que foi candidato ao Governo de Chiapas, por iniciativa da Assembleia Estatal do Povos Chiapanecos e derrotado nas eleições daquele ano, conforme seus apoiadores, por condições inequitativas. Em protesto ao resultado, um grupo de indígenas lhe entregou um bastão do poder do Estado e ele e seu grupo tentaram construir um governo paralelo baseado em críticas às ações do Governo Oficial. A emissora tinha como finalidade propagar as críticas e reuniu alguns futuros fundadores da Frecuencia Libre. 78 Prohibidos, a Frecuencia Libre, nasceu em 22 de março de 2002, quando um grupo de pessoas com interesses diferentes entre artísticos, comerciais e políticos, quis fundar uma FM em San Cristóbal de Las Casas. O lançamento da rádio foi um ato público na Praça da Catedral que, durante quase todo o dia, contou com apresentação de músicos, poetas e discursos de intelectuais e políticos. García explica que “nunca fomos uma rádio clandestina. Desde o início, por mais que não tivéssemos um endereço público, todos sabiam quem eram os responsáveis pela emissora”49. A veiculação da Frecuencia Libre, conforme Leonardo Toledo, causou frisson na cidade. Divulgada por panfletos distribuídos nas ruas e pelos taxistas que a ouviam e multiplicavam sua escuta, o crescimento da audiência levou a rádio comercial WM a denunciar, um mês depois de sua inauguração, a Frecuencia Libre por concorrência desleal e uso de canal não autorizado na Secretaria Nacional das Comunicações e Transportes. A fiscalização só não fechou a estação porque um chamado do locutor que fazia o programa no momento mobilizou os ouvintes, que fizeram uma corrente de proteção na sede da rádio impedindo a ação dos agentes. A denúncia também mudou a história da Frecuencia Libre. Os fundadores que formavam o conselho gestor, com a participação de dois representantes dos locutores, começaram a abandonar a emissora por temor do processo judicial, gerado a partir da denúncia da Rádio WM. Como recorda García: Esse grupo inicial queria que a rádio funcionasse de uma determinada maneira, mas nós que estavamos colocando no ar. Éramos outra gente. Não achávamos isso justo. Então este grupo começou a desertar, começaram a deixar com medo da demanda judicial, a não participar. Nós que estávamos fazendo a rádio, a agarramos. Não foi de uma vez. Foi um processo, o tempo que eles vão saindo. Nós que fazíamos os programas, éramos dois que participávamos deste grupo. E eu fui um dos nomeados para participar desta reunião que, brincando, chamávamos a reunião dos notáveis, um pouco assim.50 Os dissensos acompanham a rádio, mesmo antes da denúncia. García revela que um dos fundadores que havia feito o transmissor não aceitou algumas decisões do conselho gestor e, por isso, decidiu retirar-se da emissora e levar o transmissor. O grupo fundador acordou que iria comprar o aparelho para terem independência. Este espírito foi herdado quando os locutores apropriaram-se da rádio criando um coletivo formado predominantemente por produtores culturais e ativistas políticos. Os mesmos criaram a 49 Entrevista com Gabriel García concedida em 19 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas (Tradução minha). 50 Idem. 79 base de meio livre, comunitário com uma gestão participativa, sem finalidades econômicas e aderente, desde 2006, à Sexta Declaração da Selva Lacondona51 do EZNL. Apesar de atualmente, como alerta a apresentadora Claudia Serrano52, do programa "Y en el Camino nos Encontramos", a rádio não ser totalmente zapatista, observei ainda uma forte participação de aderentes ao zapatismo na programação e no coletivo. Considero a emissora como zapatista não só pela adesão formal de seu coletivo, mas porque, com a Sexta Declaração, a ideia de zapatismo se pulverizou representando todos e todas que se organizam democraticamente em coletivos autônomos não partidário que lutam por justiça social, inspirada e autoidentificada ao exemplo zapatista. Diferente de ser uma comunidade ou município base do zapatismo, os aderentes se apropriam e flexibilizam o conceito do movimento. A Frecuencia Libre não é uma rádio do EZLN ou de bases zapatistas, porém se caracteriza, apesar de defasagens e diferenças a serem apresentadas nas análises que seguem, como uma rádio como espaço para as ações do Exército e das comunidades zapatistas e aderente ao zapatismo, conceito que se tornou, na última década difuso e “impuro” devido as diversas apropriações. A denúncia contra a Frecuencia Libre também trouxe, além da democratização de sua gestão e propriedade, duas outras consequências. Para resistir à perseguição, a emissora passou a funcionar nas casas dos membros do coletivo, mudando-se semanalmente. Segundo García, essa presença nos bairros aproximou a emissora dos moradores de periferia. As constantes mudanças também multiplicaram os problemas técnicos. Em instalações improvisadas e precárias, ao menos três transmissores foram totalmente inutilizados no período. A queima dos aparelhos significou não só meses fora do ar para arrecadar os recursos para a compra de novos, como também mudanças na programação porque muitos produtores desistiam de continuar seus programas ou porque o coletivo 51 A Sexta Declaração da Selva Lacandona do EZLN, publicada no mês de junho de 2005, amplia a luta do movimento não só para todos os povos indígenas, inclusive os que não pertencem às bases e aos municípios zapatistas, como também para todos e todas trabalhadores e trabalhadores. O texto convida para “um programa nacional de luta, mas um programa que seja claramente de esquerda, ou seja, anticapitalista, ou seja, antineoliberal, ou seja, pela justiça, democracia e a liberdade para o povo mexicano”. Quem concorda em construir este programa é convidado a ser aderente ao zapatismo, ampliando e tornando difuso este conceito, incluindo desde a comunidades zapatistas até coletivos de hortas orgânicas que se contrapõem ao consumismo neoliberal e se identificam como aderentes à Sexta. 52 Entrevista com Claudia Serrano, concedida no dia 22 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 80 decidia inovar para a reinauguração da emissora. “(...) passamos como até seis meses buscando recursos para ajeitar o transmissor. E nesse tempo, quando finalmente voltamos a funcionar a rádio, uma companheira ou um companheiro diziam que não queria mais fazer o programa”53. Gabriel Garcia até já tentou registrar as dezenas de programas, apresentadores, coletivos, ONGs e associações que passaram pela emissora, mas segundo ele, perdeu-se em algum de seus discos de arquivos eletrônicos. Entre buscar a legalização, defendida principalmente pelos ativistas culturais, ou resistir como meio livre, proposta dos militantes políticos, o coletivo decidiu - ainda que provisoriamente - pela última opção refugiando-se, em 2004, num espaço ocupado pelo zapatismo no centro histórico de San Cristóbal de Las Casas e contando com manifestações de apoio da comunidade. Desde então, ficaram protegidos e não foram mais incomodados. Para Toledo, “(...) se supõe que (a invasão) a esse lugar seria como uma declaração de guerra desnecessária”54 aos zapatistas. Assim o princípio de rádio livre, independente do Estado prevalece na emissora. Atualmente o coletivo Frecuencia Libre possui 13 membros, entre representantes de grupos e indivíduos. Eles se reúnem mensalmente para avaliar, ratear os custos e tomar decisões. Mesmo buscando acordos, os dissensos não são raros, alguns inclusive persistem, como por exemplo, a posição sobre a veiculação de propaganda de cooperativas aderentes ao zapatismo. Noé, apresentador do programa Sinestesia, defende que a emissora tenha o apoio financeiro destes projetos de produção comunitária. Temos conversado muito sobre se colocamos spots de publicidade para cooperativas etc. (...) Talvez cheguemos a um acordo que cooperativas sim porque pessoalmente o trabalho colaborativo, assim como o têxtil, tem uma renda para seus membros e certo nível de lucro para seguir produzindo. Eu não vejo nenhum problema de conservar o mesmo critério para a rádio. Bem não temos ninguém trabalhando para rádio. Se quebra a rádio, temos que conseguir com nossos próprios fundos, etc etc.55 García é radicalmente contrário. Segundo ele, a emissora não tem qualquer finalidade econômica, por isso mesmo não estão cometendo nenhum delito, dado que a autorização só é necessária para uso particular e a destinação do canal da Frecuencia Libre é o 53 Entrevista com Gabriel Garcia concedida em 19 de agosto de 2015, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 54 Entrevista com Noé, concedida em 30 de julho de 2013 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 55 Entrevista com Guadalupe Cardenas, concedida em 12 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 81 serviço público para promoção da arte e do debate político. Novamente as discussões se inflamaram na reunião de agosto de 2015 e, diante da falta de acordo, nenhuma decisão foi tomada. Apesar de serem de diferentes lugares de San Cristóbal de Las Casas, de diversas áreas de atuação e várias orientações políticas, os membros do coletivo constroem, ainda que num ambiente conflituoso, um sentimento de pertencimento ao interesse comum de manter Frecuencia Libre, como espaço de enunciação e escuta dos excluídos. Desta maneira, define a apresentadora do programa "Espacios de Esperanza", Guadalupe Cardenas, uma das fundadoras da emissora: Frecuencia Libre é uma rádio que tem sabido receber o novo. Incorpora-lo a sua dinâmica de rádio e enriquece-se com o novo que chega. Eu sou uma das poucas fundadoras e tenho visto tudo o que tem passado. Então o que digo é que Frecuencia Libre já aprendeu ser uma rádio cidadã e comunitária. Já sabe incorporar o novo e o que já sabe tirar de sua equipe o que não serve. Sempre tem gerado um conflito, desestabiliza um tempo. Isso não vai acabar com FL. Nada do que chega da diversidade enfraquece a rádio. Ao contrário, nos enriquece. O que pode destruir a FL são as ameaças, a hegemonia, as forças repressoras. Isso pode acabar com a rádio. Mas a diversidade que chega à rádio com vontade de trabalhar, de fazer rádio, isso é bem-vindo.56 Damaso Ramirez, apresentador do programa "La Hora Sexta", concorda que a pluralidade de vozes é a principal contribuição da emissora. É permitir que cada um de nós tenhamos nossa palavra sem que nos estejam questionando o que vamos dizer. Sem uma estrutura de poder que diga quais os programas que têm, o que podemos colocar... ou não. É bem uma mirada mais ampla que nós devemos dizer como ser humano. Está escutando o que estão afora para produzir. Não somos nós que marcamos pautas, nem esperamos, as pessoas é quem nos diz as pautas que deveremos dar. É a grande contribuição da 99.1.57 Claudia Serrano, do programa "En El Camino nos Encontramos", completa a ideia da emissora como “(...) um espaço de difusão das ideias, um espaço cultural, um espaço de informação e um espaço alternativo, sobretudo”58. Gabriel García vai além. Para ele, o papel histórico da emissora é mostrar que qualquer um pode fazer rádio. A emissora possui um regulamento que, quando estava finalizando a pesquisa de campo, em novembro de 2015, foi atualizado. O primeiro aprovado em 2008 é extenso e detalhado possuindo 11 artigos no formato de Estatuto. Já o último possui apenas quatro 56 Idem 57 Entrevista com Damaso Ramirez, concedida no dia 8 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 58 Entrevista com Claudia Serrano, concedida no dia 22 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 82 itens em três páginas no formato de Manual de Uso. Conforme estudo comparativo o regulamento de 2008 define a emissora como uma rádio comunitária, cidadã e independente para a construção de uma sociedade justa, igualitária e democrática. O atual afirma: Missão: Frecuencia Libre é um território radiofônico autônomo, ocupado e construído por um grupo diverso de pessoas organizadas num coletivo que exercem seu direito à liberdade de expressão, desde de San Cristóbal de Las Casas. Objetivos: Dialogar com as pessoas, movimentos sociais e culturais e com os povos; apartidário e sem fins de lucro mediante a ação comprometida, diversa e transformadora. Construir um espaço livre de manifestações sexistas, classistas ou racistas (...)59 O coletivo deixa claro, nesta apresentação, que a emissora é autônoma e apartidária, afirmando suas características de aderente à Sexta Declaração Zapatista. A denominação de rádio comunitária e cidadã foi retirada, mas utilizam a identificação rádio livre, aproximando-se das recomendações dos coletivos de comunicação aderentes ao zapatismo como será explicado no item seguinte. Seus objetivos ficaram mais específicos, não sendo uma rádio que luta pela transformação social, como previa o regulamento de 2008, mas uma emissora que busca diálogo com os movimentos que lutam para isso e livre das manifestações classistas, racistas e sexistas. No novo regulamento, não há previsão, como no anterior, sobre a adesão ao Pacto Político livre da violência contra as mulheres, nem sobre regras no manejo com os equipamentos no Estúdio, nem sobre as consultas por meio da Internet, nem sobre as sanções aos membros, nem sobre o ingresso dos integrantes, transferindo essas decisões para a Assembleia do Coletivo. Apesar da ausência no marco regulatório, Leonardo Toledo diz que para fazer parte do coletivo é necessário ter a recomendação de algum dos membros e sua proposta de filiação ser aprovada pelos demais membros. Gabriel García explica que a necessidade de recomendação é por questões de segurança para garantir que o novo membro não venha sabotar ou espionar o grupo. Observei que tal exigência pode, no entanto, fechar o coletivo, diminuir sua pluralidade e dificultar suas articulações. Algo que, pelo clima de tensão, se multiplica pelas demais organizações políticas da região. Num ambiente de hostilidades e conflitos deste nível, as relações comunitárias inevitavelmente se 59 Manual de Uso da Frecuencia Libre, aprovado na Assembleia do Coletivo de novembro de 2015. 83 desgastam, muitas vezes, aproximando-se de guetos fechados. Esse paradoxo entre aproximações e segurança permeia o ambiente de guerra de baixa intensidade e alimenta mais uma problemática que esta pesquisa se depara depois das explorações de campo: até que ponto são possíveis articulações, acordos e construções comunitárias em situações de conflitos armados? A Frecuencia Libre busca evitar isso, segundo García, a partir da transparência em seus critérios de participação na gestão e produção e em suas articulações, mesmo que limitadas, entre diferentes grupos adversos, como algumas ONGs e coletivos. No entanto, García esclarece que é possível fazer um programa sem fazer parte do coletivo. Para isso, é necessário que a proposta seja aprovada pelos membros e o apresentador ou a organização responsável pelo programa dê uma contribuição para emissora, podendo ser uma doação mensal em dinheiro para a manutenção da rádio ou em trabalho para a mesma. Este tipo de participação é prevista em ambos os regulamentos como colaboradores. Há ainda integrantes do coletivo, únicos que possuem o poder deliberativo nas assembleias do coletivo e os apoiadores solidários, nova figura que aparece somente no mais recente regulamente, sendo definidos como pessoas que realizam contribuições materiais, econômicas, conceituais e tecnológicas. As audiências também estão previstas neste último regulamento como "as pessoas, os povos e comunidades de Los Altos de Chiapas, com cobertura radiofônica e de qualquer outro lugar em que tenham acessos a programação através de outros meios e tecnologias"60. Além da Assembleia Deliberativa do coletivo, há Assembleia consultiva que reúne integrantes, colaboradores e apoiadores solidários, os Grupos de Trabalho (Produção e Programação, Hardware e Software, Finanças, Convocatórias e Capacitação) que são permanentes e Comissões que são temporárias. As últimas estão com a tarefa de elaborar um protocolo de segurança para emissora e um consenso sobre a solicitação de concessão pública. Participam dos Grupos de Trabalho e Comissões os integrantes do coletivo. De acordo com Leonardo Toledo, toda essa estrutura é muito recente ainda está em implantação. A organização anterior, baseada na Assembleia e em três comissões permanentes (Produção, Finanças, Programação e Técnica, Monitoramento do Pacto Político e Comissão Coordenadora) pareceu-me verticalizada com uma coordenação centralizadora. Já a nova parece propor-se mais horizontalizada e descentralizada. 60 Manual de Uso da Frecuencia Libre, aprovado na Assembleia do Coletivo de novembro de 2015. 84 2.4 Radio Rebelde, a voz da mãe terra Mesmo sem dados sobre a estrtutura organizativa da Radio Rebelde, observei que a emissora herda o histórico do EZLN de defesa dos meios livres. Desde sua primeira aparição pública, em janeiro de 1994, os zapatistas defendem a construção de meios de comunicação próprios, originados nos processos de organização para a luta, como a Frecuencia Libre. “Queremos ter em cada município uma rádio para cobrir a mais povos aonde não chega o sinal” (CENTRO DE MEDIOS LIBRES, 2008, p. 30. tradução minha). A partir da criação do braço civil do zapatismo, a Frente Zapatista de Liberação Nacional (FZLN), em 1997, a preocupação foi reforçada. “Formar uma rede de comunicação estatal, regional, nacional e setorial (...) criar meios de comunicação próprios, críticos, positivos e de qualidade para consegui-lo. Impulsionar rádios comunitárias rurais e urbanas” (CENTRO DE MEDIO LIBRES, 2008, p. 24, tradução minha). Na etapa seguinte do movimento, com a organização da Otra Campaña61, o apelo foi para articular os meios de comunicação. Como resposta ao convite zapatista, os meios livres realizaram sua primeira plenária de coalização em setembro de 2004. “A tecnologia deve buscar o caminho abaixo para o tecido desta rede que se faz visível” (CENTRO DE MEDIOS LIBRE, 2008, p. 29, tradução minha). A ideia de formar redes regionais, nacionais e internacionais de comunicação altermundista persiste inclusive nos documentos zapatistas Plano La Realidad–Tijuana de 2006 e 2ª. Declaração da Selva de Lacandona. Desde a Otra Campaña, os zapatistas passam a referirem-se como meios livres e não mais como alternativos. A diferença entre os termos reside, para eles, no sentido de que meios alternativos podem ter a denominação somente pela questão tecnológica, significando uma tecnologia não convencional, como alto-falantes, murais, TV de rua, volantes. Assim, nem todos os meios alternativos são outra forma fazer de comunicação, baseada nos processos de participação horizontal e democrática e que busque transformações sociais para a construção de um mundo mais justo. Já o termo meios 61 Otra campaña foi uma mobilização zapatista para uma alternativa a campanha eleitoral de 2005. Ao invés de construir plataformas eleitorais, o EZLN convidou a sociedade civil para organizar-se em grupos a fim de construir um programa nacional das esquerdas contra o neoliberalismo, conforme conclamado na Sexta Declaração da Selva Lacandona. 85 livres conota a independência e autonomia destes em relação ao poder político e econômico. O Centro de Medios Libres do México explica que termos como meios cidadãos, alternativos, independentes correspondem a outros momentos ou outras tradições da luta. Para eles, no contexto do zapatismo, há três formas de comunicação do movimento: buracos do sistema, comunicação popular e meios livres. O primeiro é uma tática baseada em localizar as brechas dos meios de comunicação massivos, através de jornalistas honestos e críticos, espaços de participação das audiências, programas sobre cidadania, boletins para a imprensa e entrevistas coletivas, para conquistar espaços nos grandes meios de comunicação. Já a comunicação popular é uma tática de comunicação de pessoa a pessoa, nas ruas, nas comunidades como forma de romper como o cerco informativo. Por fim, “os meios livres são a tática baseada em construir meios de comunicação desde os processos de luta, comunidade em luta e resistência, organizações de luta e movimentos sociais” (CENTRO DE MEDIOS LIBRES, 2008, p. 36, tradução minha). São representados pela rádio livre e comunitária, a TV comunitária, as agências de notícias e as redes que se formam com a confluência de alguns ou todos os anteriores. A Radio Rebelde, como uma emissora do Caracol Resistência e Rebeldia pela Humanidade, assim como a Frecuencia Libre, caracteriza-se como um meio livre, sem autorização do poder concedente e com programação afastada de interesses comerciais e político- partidários. No entanto, possui uma participação de gestão limitada aos zapatistas desta região. Sua coordenação é realizada pelo coletivo da emissora, formado por membros escolhidos nos municípios autônomos. As decisões sobre a emissora cabem a este colegiado que fornece pouca informação de seus processos por estar num ambiente não só de perseguição pela falta de autorização, assim como a Frecuencia Libre, mas por ter que lidar com constantes ameaças da contra-insurgência, que vão desde ameaças até ataques de grupos paramilitares e do Exército Federal. Mais uma vez as questões de segurança, violência e conflitos armados cerceiam não só as possibilidades de investigação da pesquisa, mas da própria ampliação de participação nas emissoras. A investigação não pôde observar nesta pesquisa uma participação à nível de gestão na Radio Rebelde, devido a esta estrutura fechada de organização da emissora. A participação possibilitada pelas mensagens de ambas as emissoras será analisada a partir dos endereçamentos das matrizes culturais no capítulo seguinte. 86 2.5 Lógicas de resistências das rádios zapatistas Perceber-se que as lógicas de produção dos meios livres e rádios comunitárias zapatistas analisadas, a partir dos dados colhidos no campo e da análise histórico-estrutural, se caracterizam como resistências, compreendidas, segundo Martín-Barbero (2004), como experiências de reelaboração dos meios pelos oprimidos. A primeira resistência está nas táticas de existir mesmo em situações de perseguição pela falta de autorização do poder estatal, como buscar abrigo em locais protegidos, escondidos ou mudar constantemente de endereço. São saídas encontradas para conviver com estas condições. Em seguida, há uma resistência contra as ameaças, seja da guerrilha eletrônica de interferir nos canais seja do ataque, da espionagem e da sabotagem. Para isso, as emissoras optam por um relativo isolamento dos grupos e pessoas desconhecidas. Ao mesmo tempo que as rádios zapatistas se fecham por questões de segurança, seu conteúdo busca irradiar uma mensagem de inclusão da diversidade, como será analisado em seguida. Outra resistência localiza-se na contraposição à lógica de mercado predominante baseada na audiência e na venda publicitária que permeia não só os espaços exclusivos, mas o próprio conteúdo editorial dos meios massivos. Ao invés de articulações com os grupos econômicos e políticos para o desenvolvimento das mesmas, as rádios zapatistas analisadas buscam a solidariedade para sobreviver. Além do trabalho voluntário para manter-se, as rádios contam com o apoio de pessoas e coletivos, como o Centro de Mídia Independente (CMI), o Koman I’lel e o Promedios. Este último conseguiu a doação do transmissor da Frecuencia Libre por ativistas ingleses, que mandaram as peças do mesmo separadas, para evitar apreensão, através de um navio mercante da Europa ao México. Ainda assim, as emissoras sofrem com problemas técnicos e financeiros. A Radio Rebelde, por exemplo, passou quase dois meses de 2014 fora do ar por provável pane em seu transmissor. A Frecuencia Libre já chegou a ficar seis meses fora do ar pelo mesmo motivo em 2003 e, pelo menos, mais outras cinco vezes ao longo de sua história. A emissora nem sempre consegue iniciar sua transmissão às 9 horas porque o voluntário responsável de ligar os equipamentos, por vezes, está impossibilitado dado que necessita realizar no horário outras atividades remuneradas para seu sustento. Atrasos, faltas e problemas técnicos (como dificuldades em veicular 87 uma música ou o som do telefone ou microfones) são comuns na programação de ambas as emissoras. Damaso explica a situação pelas limitações de fazer uma rádio livre sem apoio de comerciais. Não fazemos comerciais. Não vendemos programas, não fazemos negócio. Então os companheiros que fazem seus programas de seu próprio bolso (...) quando se quebra algum equipamento passamos dois a três meses sem transmitir porque nos custa juntar do salário que temos, pois nos três meses cada um contribui com o que tem (...) ou fazemos festas ou rifa para juntar o dinheiro que nosso salário não alcança. Então tudo o que se falta tiramos de nossos bolsos. Então as pessoas que fazem a 99.1 a fazem por amor. Por amor às pessoas, por amor do que gostam de fazer.62 Além das dificuldades econômicas, Noé aponta dois motivos para estas características das emissoras: a ruptura com a lógica de mercado e a sobrecarga de militância dos membros. Não queremos ser igual rádio comercial, não queremos lucrar com a rádio. Não queremos ter o mesmo formato. E outro, eu creio também que é acidental. (...) é uma combinação de não ter tanta gente que produza.(...) Todos estamos a maior parte de tempo em outros espaços. Estou a maior parte de tempo em Promedios, por exemplo, e assim cada um de nós está em diferentes em lugares.63 Por sua vez, Guadalupe Cardenas critica os atrasos e faltas. Creio que isso não está bem. Eu creio que é algo que temos que corrigir. Mas assim está funcionando e tem sido assim sempre. (...) Eu creio que devemos ter respeito com a audiência porque as pessoas se queixam. As pessoas que nos escutam quando nos encontram dizem: “o que passou com a Frecuencia Libre?”. Já com um tom de brincadeira, que não gosto, dizem “tu estás na rádio que não transmite, não é?”. Isso para mim é muito forte, muito preocupante.64 Para Gabriel García, mesmo as dificuldades sendo compreensíveis, é necessário que os produtores da emissora amadureçam para seu compromisso social na estação. Então, outra questão é que às vezes no interior do coletivo não se dimensiona a importância de ter uma rádio. Ainda não nos tem ficado suficientemente claro que temos um meio em nossas mão que, ademais não é nosso. Estamos usando o espectro elétrico que é um bem comum. E se vem ai posso colocar a música que gosto e dizer as coisas que quero, eu tenho de pensar nas questões: eu tenho que dar uma retribuição por esse uso do espaço radioelectrico que não é nosso. Eu digo que é algo temos tentado trabalhar, refletir, é algo que tentamos fazer como formas, normas, regras de estar na 62 Entrevista com Damaso Ramirez, concedida no dia 8 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 63 Entrevista com Noé, concedida no dia 30 de julho de 2015 em San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução minha. 64 Entrevista com Guadalupe Cardenas, concedida no dia 12 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 88 rádio, mas isso é uma das coisas que têm de ficar bem claras. Estamos usando um bem comum. E esse bem comum há de usa-lo de quem é e quem lhe dá esse bem comum que é a sociedade.65 Esta situação confirma que, como defende Martín-Barbero, as resistências são como terrenos de lutas e, por isso, de instabilidades sociais, algo presente na organização das emissoras e explícito nas ideias dos produtores da emissora. Neste capítulo, esta pesquisa apresentou aspectos das práticas de resistência das emissoras, partindo da definição de suas lógicas e da história das rádios livres. Em seguida, os conceitos de meios livres e rádios comunitárias foram explicados e diferenciados. O capítulo resgatou ainda a história da Frecuencia Libre e sua atual configuração organizativa e mostrou as posições do movimento zapatista sobre os meios de comunicação, contexto em que se insere a Radio Rebelde. Por fim, discutiu as resistências que serão desenvolvidas nos capítulos seguintes a partir do estudo das mensagens através da relação entre as matrizes culturais e os endereçamentos de suas programações. 65 Entrevista de Gabriel Garcia, concedida em 19 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 89 3 MATRIZES E RESISTÊNCIAS NOS ENDEREÇAMENTOS DAS RÁDIOS ZAPATISTAS Além das disputas nas lógicas de resistência da produção das emissoras, há distintas matrizes culturais na programação da Radio Rebelde e da Frecuencia Libre. Observei esta situação a partir do percurso de aproximação e escuta das emissoras. Este capítulo apresenta a definição destas matrizes e as localizaremos nos endereçamentos dos programas da Frecuencia Libre. As entrevistas com os apresentadores serviram para contextualizar e esclarecer os dados colhidos e analisados. Dos 15 programas semanais, não consegui nas três semanas de gravação (20 de julho a 17 de agosto de 2015) registrar nenhuma vez os programas "Mujeres de Ojos Grandes" e "Hijas de Lilh" sobre o feminismo, "Fueras máscaras" sobre o machismo, "Planeta Musical Sur" sobre músicas da América do Sul (produzido na Argentina), "Panorama Musical" sobre músicas variadas e "Karmantra" sobre rock'n'roll que, segundo Leonardo Toledo, provavelmente seus apresentadores deveriam estar de férias. Dos nove registrados, não logrei entrevistar os produtores ou apresentadores apenas do "Hip Hop" e "Hablemos Chiapas". As características de todos os programas gravados serão adiante descritas. Figura 1 – Grade da programação da Rádio Frecuencia Libre em junho de 2015. Apesar de atrasos, problemas técnicos, precariedades materiais e faltas, a lógica de resistência permite abrir espaços para diversos atores sociais desde ONGs a coletivos, incluindo cidadãos comuns, na Frecuencia Libre. Em julho de 2014, a emissora possuía 15 coletivos, associações, ONGs ou pessoas diferentes apresentando um programa. Há uma diversidade, mas sem fortes dissensos políticos. Os programas sobre arte e cultura, como “En el Camino nos Encontramos” e “Hip hop” não apresentam explicitamente posições políticas. Já “Hablemos Chiapas” e “Espacios de Esperanza” tratam de 90 política, sem ser aderentes ao zapatismo. Outros, como o “Sinestesia” y “Debate Cultural” que, apesar de críticos aos governos e da política eleitoral não se posicionam claramente como aderentes ao zapatismo. Ao contrário “Objetos Prohibidos” e “La Hora Sexta”, são claramente ligados ao movimento. Mesmo com essa diversidade, nenhum possui uma postura de oposição ou, ao menos, crítica ao zapatismo. A rádio tem 26 horas apresentadas ao vivo das 70 horas transmitidas (9h às 22h de segunda a domingo), concentrando-se principalmente no sábado e depois das 17h nos dias úteis da semana, horários considerados no rádio comercial como menos nobres, pois o público radiofônico, segundo décadas de pesquisa de audiência, se concentra principalmente nas manhãs. O restante dos horários é preenchido pela difusão de músicas variadas, podendo ser alternadas por campanhas educativas ou de mobilização, promovidas por movimentos sociais. Segundo Leonardo Toledo, não há uma política editorial para as músicas e as campanhas executadas. “São canções que os movimentos e colaboradores trazem e colocamos para tocar aleatoriamente”66. Geralmente as músicas tocadas são rock britânico e estadunidense da década de 70, jazz, músicas clássicas e tradicionais latinas, como francesas, portuguesas, argentinas e brasileiras, inclusive alguns clássicos da Música Popular Brasileira (MPB). No período observado, não consegui registrar nenhuma campanha educativa. 3.1 Matrizes culturais simbólico-dramática e racional-iluminista Para avançar na compreensão das institucionalidades desta programação, Martín- Barbero (1998) propõe analisar as mensagens, gêneros, estilos e formatos a partir das matrizes culturais. O filósofo hispano-colombiano herda este conceito das investigações do pesquisador chileno Guillermo Sunkel (1987) sobre os jornais populares e sindicais que, nesta pesquisa, é também compreendido a partir das leituras que os pesquisadores brasileiros Márcia Amaral (2005) e Antônio Barros e Cristiane Bernardes (2011) fazem do autor. Para Sunkel (1987, p. 2, tradução minha), as matrizes culturais criam “determinada expressão tanto em nível da linguagem e estética como em nível dos conteúdos”, possibilitando tornar visíveis os atores, conflitos e espaço. Representam, 66 Entrevista com Leonardo Toledo concedida em 23 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 91 assim, uma configuração histórico-estrutural dos valores e significados que circulam nas realidades sociais. Uma matriz cultual possui um papel social de orientar os relatos “(...) que ativam uma memória que as coloca em contato com diversos imaginários” (AMARAL, 2005, p. 7). Estas narrativas podem ser percebidas nos formatos e conteúdos das emissoras. Segundo Sunkel, as matrizes atuam na construção do popular. Conforme Jorge González (2001), o popular deve ser compreendido como frentes culturais, que constituem-se em espaços sociais transclassistas onde se distinguem, relacionam-se e tensionam diversos valores, significados e discursos que constroem as hegemonias e as contra-hegemonias. Esta arena de disputas culturais possui quatro principais elementos constitutivos: os sentidos sociais, a hegemonia, a legitimação social e as identidades sociais, conceitos acessórios frequentemente utilizados na análise destas matrizes. O primeiro elemento consiste no modo de interrogar a totalidade das relações sociais: o que significam diferentes gestos, comportamentos e símbolos em determinado ambiente, grupos e situações? Sentidos sociais ”(...) implicam, quanto menos uma assimilação, uma seleção criativa, uma reacomodação e uma série de esquemas interpretativos ou co-presentes de nomear ao mundo, de ordena-lo.” (GONZÁLEZ, 2001, p. 7, tradução minha). González chama a atenção para o fato de que, além do predominante ordenamento discursivo do mundo, há contradiscursos dentro dos processos sociais. Já a hegemonia é uma construção social e histórica “(...) de um bloco de classes mais ou menos solidamente aliado, para converter sua cultura, sua maneira de definir e interpretar o mundo e a vida, em ponto de referência e valoração comum (...)” (GONZÁLEZ, 2001, p. 9, tradução minha). Referindo-se a Raymond Williams, Gonzalez (2001 p. 10, tradução minha) completa que a hegemonia “é resultado de uma tensão entre forças distintas, equilíbrio precário que deve ser constantemente renovado em todos os âmbitos da vida social e coletiva”. O conceito tem assim a semelhante perspectiva de hegemonia da política agonística, eleita como um dos pressupostos desta tese, a qual, para Chantal Mouffe (2004), é tecida por discursos que pretendem gerir os conflitos inevitáveis, por meio de relações precárias - as articulações - presentes desde o processo de distinção dos grupos sociais, baseados na oposição entre nós e eles. Assim como Mouffe, González (2001, p. 10) considera “(...) não é possível a existência de uma sociedade concreta sem que entre 92 suas classes intermediem uma relação de hegemonia (...)”. A hegemonia conduz as identidades sociais, formadas pelo conjunto de significantes comuns, constantemente construídas internamente e distinguidas externamente pelas formas culturais, características de cada grupo, e cria a legitimação social, baseada na adesão dos agentes aos valores culturais dominantes, naturalizando as raízes da dominação. As relações e embates destas identidades buscando a legitimação e a construção de hegemonia, numa determinada situação, como feiras, festividades e mercados, ou em conceitos, como o de culturas populares, constituem as frentes culturais, lugares marcados pela distinção, disputas, fronteiras, aproximações, conflitos, determinações e contestações. Culturas populares compreendem, assim, uma diversidade de manifestações e conceitos, tornando-se esta arena de luta pela conquista do significado sobre as mesmas que legitimem práticas e valores de determinados grupos. Em minha investigação de mestrado (COSTA FILHO, 2008), observei ao menos cinco concepções e manifestações para o popular: o folclórico, o industrial, o subversivo, a inventividade e a reprodução. O primeiro origina-se, de acordo com Martín-Barbero (1998), do resgate romântico das tradições rurais na urbanidade, ocasionado pelos fluxos migratórios do campo para cidade. Transformado em política cultural, o folclore pode engessar as manifestações culturais num conjunto de tradições conservadoras, desconhecendo as dinâmicas mudanças e vivacidades destas manifestações. Já o popular industrial, na concepção de Theodor Adorno e Max Horkheimer (1985), consiste na transformação de elementos das manifestações do cotidiano (arte, comportamentos, vestuários) em produtos massivos. Estes são fabricados, como em qualquer indústria, por meio da automação, padronização, serialização e lucratividade, com o fim de conquistar grandes audiências. O subversivo são as inversões dos valores predominantes que se dão, para Stuart Hall (2004), através de negociações, lutas ou resistências. Por sua vez, a liberdade criativa das práticas do dia-a-dia, baseada em bricolagens, gambiarras, remendos e táticas dos desprivilegiados compõem as invenções do cotidiano para Michel de Certeau. Por fim, o gosto de luxo e de necessidade, refletem as estruturas estruturantes – as condições sociais – sobre as estruturas estruturadas – realidade social -, chamadas por P. Bourdieu de habitus. Mesmo que contraditórias, essas concepções do popular revelam diferentes visões e interesses sobre a significação do mesmo. Para Sunkel (1987, p. 14, tradução 93 minha) não se deve, por isso, realizar “o estudo do popular em si, mas do popular em relação (...)”. Os diferentes conceitos das culturas populares são configurações possíveis para as matrizes culturais entre as quais o autor destaca duas principais: a simbólico- dramática e racional-iluminista. A primeira surge da concepção religiosa do mundo, criando uma visão mais cultural do popular estruturado na riqueza de imagens e pobreza de conceitos. “A linguagem é rica em imagens e pobre em conceitos e os conflitos históricos são apresentados como interpessoais. A estética é sensacionalista e melodramática” (AMARAL, 2005, p. 7). Os dramas das liras populares e a exaltação das cores vermelha da luta, sangue e sofrimento e o dourado do prazer, riqueza e bem-estar representam esta matriz que possui uma forte influência sobre os povos originários do continente. Por isso, para Martín-Barbero (1998, p. 315 - 316), o melodrama é uma das chaves de construção do popular na América Latina, tornando-se um “filão do imaginário coletivo e da memória popular” e possibilitando reconhecer as sociabilidades. Já a matriz racional-iluminista tem “(...) base no Iluminismo e no racionalismo, desenvolvidos na Idade Moderna na Europa e seus elementos básicos são: a razão – meio de atingir os objetivos – e o progresso – fim da história de qualquer cultura” (BARROS e BERNARDES, 2011, p. 19). Fundamenta-se, de acordo com Sunkel (1987), nas ideologias de corte iluminista, principalmente, o marxismo, o anarquismo e o liberalismo, expressando “elementos como a razão, o progresso, a educação e a ilustração” (AMARAL, 2005, p. 7) em suas narrativas sociais que buscam superar a barbárie e construir a civilização. Sua é linguagem abstrata, conceitual e sua estética é séria, tecendo certa unidade através da generalização e da abstração. Sunkel (1987, p. 3) explica que esta matriz “se introduz na cultura popular como um elemento ‘derivado’ ou externo sobre uma matriz cultural pré-existente: a simbólico-tradicional”, por conseguinte, guarda uma concepção religiosa de mundo diacrônica, não mais baseada na oposição entre bem e mal, paraíso e inferno e perdão e condenação, mas em termos de certo e errado e eficiente e ineficiente. As definições de matrizes de Sunkel (1987) apontam, em certa medida, para uma dicotomia e um binarismo das raízes das expressões culturais entre o popular e o intelectualizado, o europeu e o regional, o colonizado e o colonizador. No entanto, não 94 as enxergo como maniqueístas nem como totais. São duas matrizes, entre tantas possíveis, que foram elegidas pelo autor para uma análise comparativa entre os jornais populares (conhecidos também como jornalismo marrom) e as publicações sindicais chilenos. Sunkel adverte que as oposições entre estas não significam superioridade de uma em relação a outra. Mesmo com essa limitação, estes operadores conceituais servem para revelar contradições que caracterizam - o que Martín-Barbero chama de – mal estar cultural do continente latino-americano, profundamente marcado por culturas que vivenciam estas ambiguidades, principalmente entre a oralidade e a escritura e o acadêmico e o popular. Por isso a análise dos endereçamentos das rádios a partir destes operadores podem revelar estas contradições regionais. 3.2 Matrizes culturais nos endereçamentos da Frecuencia Libre A Frecuencia Libre se constitui uma emissora com uma matriz cultural predominantemente racional-iluminista dado que, como será apresentada a seguir, seus programas analisados são baseados principalmente na crítica política por meio de uma argumentação silogista ou irônica de seus apresentadores. Poucos recursos artísticos tradicionais são utilizados nos programas analisados, que se aproximado gênero de jornalismo opinativo67. No entanto, sua programação está organizada de maneira bem diferenciada das rádios comerciais devido à lógica de resistência baseada no voluntariado, no trabalho militante político não necessariamente profissionalizado, na falta de autorização legal e na ausência de investimento publicitário. A emissora possui uma grade de programação com poucos horários cobertos por programas (conforme figura abaixo). Vários foram os problemas técnicos relatados, tais como pelos apresentadores do programa "Hablemos Chiapas" de 25 de julho de 2015, que não conseguiram veicular uma música anunciada e no programa "Sinestesia" do mesmo dia, que passou quase uma hora sendo apresentado sem veicular o som dos microfones, sendo o problema explicado pelos locutores somente quando perceberam que havia algo errado. Segundo Noé, mudanças nos canais da mesa de áudio causaram a falha. 67 Segundo José Marques de Melo (1991), o jornalismo opinativo caracteriza-se por expressar ideias, análises e comentários dos autores e da linha editorial do veículo. 95 Mesmo sem o padrão de uma produção industrial das rádios comerciais, a matriz racional-iluminista configura-se no conteúdo da emissora, voltado principalmente para as notícias e os comentários políticos críticos. Os programas “Objetos Prohibidos”, “La hora sexta”, “Hablemos Chiapas”,“Sinestesia” e “Debate Cultural” são os que melhor representam este perfil. Estão divididos por temáticas noticiosas normalmente intercaladas por uma música. Não há divisão entre fatos e opinião. As informações são apresentadas enquanto comentadas, sempre com uma linha crítica ao Governo e, por vezes, aos regimes políticos e ao modo de produção capitalista. Os dois primeiros estão diretamente ligados ao zapatismo, sendo o que o "Objetos Prohibidos" é apresentado por um simpatizante, Gabriel García, que tem uma relação com o movimento desde o início de sua organização, quando era médico nas comunidades da Selva de Lacandona e da Fronteira, e o outro por um remanescente da Otra campaña em San Cristóbal de Las Casas, Damaso Ramirez, que acompanhou pessoalmente o levantamento de 1º de janeiro de 1994 no Centro Histórico de San Cristóbal de Las Casas, quando decidiu atender o “chamado zapatista” para a construção de outro mundo. O programa “La Hora Sexta”, no ar desde 2006, possui um tom um pouco formal, como o de apresentadores de radiojornais mais tradicionais com voz empostada68, leitura de roteiro técnico69 e comentários rápidos. Utiliza constantemente recursos técnicos como vinhetas. Busca criar um certo clima de radiojornalismo tradicional para conquistar credibilidade com os ouvintes. A vinheta de abertura do programa o apresenta da seguinte maneira: La Hora Sexta tem como finalidade difundir os princípios da Sexta Declaração da Selva Lacondona e do EZLN. Nos organizamos para difundir que outro mundo é possível a partir da construção e da transformação da realidade, por meio do caminho de nossas práticas diárias individuais e coletivas.70 Surgiu de uma iniciativa do coletivo La Otra História y Otros Saberes, formado a partir da convocação da Sexta Declaração da Selva de Lacandona “(...) e neste espaço vimos a necessidade de ter um lugar onde podemos debater e dar voz ao EZLN e alguns 68 A voz empostada é a entonação da voz que possibilite a melhor compreensão possível com a pronuncia acentuada de todas as sílabas e a flexão vocal que possibilite a máxima emissão de sons graves, médios e agudos. 69 Roteiro técnico consiste numa lauda que contém a redação de tudo que os locutores vão falar e a orientação de todos os recursos técnicos que vão ser veiculados. É previamente preparado através de pesquisas junto a documentos, fontes e internet. 70 Programa La Hora Sexta, da Rádio Frecuencia Libre 99,1 FM de San Cristóbal de Las Casas das 10h às 11h10 do dia 8 de agosto de 2015. 96 companheiros e companheiras de nosso coletivo fizeram contato com a 99.1”.71 Há dois anos o coletivo foi dispersando-se, segundo Damaso, por principalmente compromissos dos participantes com suas famílias, e ele acabou ficando só no programa. Só entre aspas porque, como se pode escutar no programa, tem companheiros e companheiras que estão sempre reportando coisas (...) minha mirada não é de repórter (...) mas como um enlaçador, porque a tarefa que faço é enlaçar entre os diferentes grupos que formam parte da Sexta Declaração da Selva Lacondona.72 Nos programas registrados, a participação ao vivo de representantes de movimentos sociais foi constante, como do Centro de Direchos Humanos Fray Bartolomeo de Las Casas e dos desabrigados da comunidade Guarnabi, no dia 18 de julho de 2015; da comunidade Barnavil - ameaçada de despejo -, no dia 25 de julho; e da Associação dos Pais e Mães de Família da Escola da Zona 92, no dia 8 de agosto. Damaso Ramirez explica que não há um contato direto com o EZLN que, conforme ele, está em suas bases nos diferentes Caracóis. “Concretamente, eles fizeram um chamado aos homens e mulheres do país e do mundo que considerassem que as coisas não estão bem que podíamos participar e construir um mundo diferente. E nesta medida, há sim um compromisso moral da minha parte (...)”73. Suas fontes de conteúdo do programa são principalmente as mensagens que recebe pelo e-mail e seus contatos diários na cidade, pois atua como dirigente da Coordienación de Colonias e Bairros de Zona Sur de San Cristóbal de Las Casas. "La Hora Sexta", para ele, está claramente endereçado para simpatizantes do zapatismo e participantes de movimentos sociais. Este também é, segundo o apresentador Gabriel García, o público ao qual está endereçado o Programa "Objetos Prohibidos". Sua locução tem um estilo mais livre do que de Damaso, sem empostação da voz, fazendo a leitura de notícias, comunicados seguidos de comentários. Ele não utiliza roteiro técnico, pouco executa vinhetas, no entanto mantém sempre um tom sério e, por vezes, didático, buscando explicar com clareza para conquistar a confiança dos receptores. García recorda que está desde o início da rádio, em 2002, quando participava do programa "Fueras Máscaras", do coletivo homônimo de homens que questionam o machismo. Poucos meses depois se juntou com amigos para fazer o programa de opinião "Apontes y Recortes", a partir de 71 Entrevista com Damaso Ramirez, concedida em 8 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 72 Idem. 73 Ibidem. 97 janeiro de 2003. Pouco tempo depois o transmissor queimou, a emissora passou seis meses fora do ar e, quando retornou, seus colegas decidiram que não mais queriam fazer o programa. Então, Garcia decidiu criar o "Objeto Prohibidos" que, além dos comunicados zapatistas e informes coletivos, traz notícias de meios que ele considera progressistas, como o jornal La Jornada e a revista Proceso, e narrativas dos povos, mitos, poesias indígenas e literatura engajada como Eduardo Galeano. Ele considera que o programa é de crítica social feita através do relato dos fatos e de questionamentos como no programa de 20 de julho de 2015: Em que tipo de país estamos vivendo?! Por que enquanto o Chapo está livre, para ele, não há forças militares, para ele, há privilégios. Para o criminoso mais procurado do mundo, há privilégios e, para um pobre líder comunitário, vão centenas de militares... Por favor, em que país creem que estamos?74 Ambos programas intercalam o texto verbal com canções revolucionárias que tratam das lutas sociais, do zapatismo e movimentos sociais, como "La Luna", tocada no "Objetos Prohibidos": Eu fui à revolução... Eu fui. Eu fui à revolução a lutar pelo direito. Para sentir sobre meu peito uma grande satisfação, Mas eu vivo num rincão cantando-lhe minha amargura. Porém com a fé segura e anunciando-lhe ao destino Que é o homem campesino nossa esperança futura.75 Na terceira semana de julho de 2015, os programas "La Sexta" e "Objetos Prohibidos" dedicaram mais da metade da transmissão lendo e comentando um comunicado do Comitê Clandestino Revolucionário em Rebeldia Insurgente (CCRRI) do EZLN em conjunto com o Congresso Nacional Indígena (CNI)76 sobre o ataque do Exército Mexicano às autodefesas de Santa Maria de Ostula, que vitimaram fatalmente uma criança e feriram outras seis pessoas, entre elas, um menino de 11 anos, no dia 19 de julho anterior no Estado de Michiocan, causando repercussão em todo o México. Estes programas trazem uma clara interpelação para os ouvintes não só apoiarem a causa zapatista, mas para tratarem o movimento como uma referência nas lutas sociais, tendo sua palavra como guia de leitura da realidade. Os comunicados são lidos como uma 74 Programa Objetos Prohibidos, da Rádio Frecuencia Libre 99,1 FM de San Cristóbal de Las Casas das 20h às 21h do dia 20 de julho de 2015. 75 Idem. 76 Disponível em acesso em 25 de julho de 2015. 98 espécie de escrituras quase religiosas não no sentido transcendental, mas de que não são questionados, nem criticados, tendo assim o claro papel de partilha das informações e uma espécie de doutrinação dos simpatizantes zapatistas. Outros autores, como o pesquisador argentino Hermán Ouviña (2011), chamam este tipo de enunciação de irradiação77, quando a mensagem é apresentada, junto com o exemplo de vida dos interlocutores, não para convencer ou persuadir, mas para tocar quem por ela se identifique. O programa "Hablemos Chiapas" também dedicou a maior parte de sua veiculação desta semana ao assunto, lendo parte do comunicado do EZLN e CNI. A produção é uma iniciativa dos membros do coletivo do "Yo Soy 132" de Tuxtla Gutierrez, um movimento de origem universitária, criado na campanha eleitoral de 2012, a partir de vídeos de estudantes contra o desprezo do então candidato à presidência do México, Pieña Nieto, aos protestos ocorridos na Universidade Iberoamericana, no dia 11 de maio daquele ano, durante sua visita à instituição localizada na cidade do México. Ele os acusou de ser umas trinta pessoas com mais de 50 anos que eram infiltrados de partidos de oposição. Como resposta, 131 jovens postaram vídeos no Youtube apresentando sua carteira de identidade para comprovar que não tinham mais de 50 anos, nem eram filiados a partidos políticos. Em apoio, milhares de outros jovens publicaram vídeos dizendo Yo Soy 132 (Eu Sou o 132). O movimento se organizou e, em 23 de maio de 2012, publicou sua declaração afirmando-se apartidário, pacífico, estudantil, social, político, plural, humanista, de caráter permanente e cidadão. Hoje atuam buscando principalmente a democratização dos meios de comunicação e a justiça social, organizados em todos os estados mexicanos e em mais de 50 cidades de outros países. O programa trata de oferecer uma visão crítica aos principais assuntos da semana repercutidos nos grandes meios e dar visibilidade a notícias dos movimentos contra- hegemônicos. Possui dois apresentadores que, como nos programas anteriores, mesclam leituras de notícias, comunicados, comentários e músicas de protesto. Na transmissão de 18 de julho de 2015, eles se definiram como “(...) uma das sementes que surgiram, nós juntamos ou formamos o grupo 'Hablemos Chiapas' justamente nas mobilizações do 77 Ouviña (2011) propõe que a noção de irradiação seja utilizada preferencialmente à conscientização, uma vez que define melhor a partilha das luzes das vivências, experiências e conhecimentos, que se opõe à ideia vertical e paternalista de conscientização. 99 132, e buscamos, e trabalhamos e cremos que o trabalho vai ser pouco a pouco, que vai ser transformando pouco a pouco nosso entorno”78. Já o "Debate Cultural" trata os fatos de uma maneira também crítica, mas com predominante tom irônico. No programa de 25 de julho de 2015, o locutor do programa Leonardo Toledo, com a participação de um colega identificado como Davi, ironizaram o processo eleitoral em Chiapas com as aparições públicas que, além de terem uma péssima produção estética, não traziam nenhuma proposta política. Criticaram ainda a forma como os meios de comunicação noticiaram a fuga do narcotraficante “El Chapo Guzman”, mais preocupados com a repercussão internacional do que a incompetência do Estado. Trouxeram notícias sobre a ocupação de um antigo matadouro público por artistas que querem transformar o local num centro cultural, não deixando de fazer críticas à secretaria de cultura local que não se dedica à expressão criativa. Ainda trataram de assuntos diversos como a morte de Dom Sebastian e do cantor Xavier Craven e sobre as primeiras fotografias de plutão que, segundo Toledo, “é bem diferente de San Cristóbal, um dos lugares mais fotografados do mundo – qualquer ângulo que você tire uma foto aqui já foram tiradas pelo menos outras 30 vezes”79. Leonardo Toledo não utiliza vinhetas durante o programa, somente na abertura. A leitura de notícias ou textos escritos ocupa a menor parte do tempo. O estilo é como um bate-papo informal entre dois amigos que se encontram numa praça ou numa mesa de bar. Há algumas interpelações aos ouvintes, como questionamentos e exclamações. Neste programa, há um claro endereçamento para um público intelectualizado e com um humor refinado para partilhar uma consciência crítica. O programa "Sinestesia", apresentado pelo militante da ONG Promedios, Noé, junto com convidados, normalmente ativistas culturais, traz notícias dos movimentos de música independente, de documentários não ficcionais e de vídeos produzidos por meios livres, comunidades ou ativistas artísticos e políticos. Possui um tom descontraído e, por vezes, irônico como o "Debate Cultural", através de um bate-papo entre o apresentador e um convidado. Comentam, informam e entrevistam sobre festivais, filmes, músicas e experiências de associações, ONGs e coletivos que 78 Programa Hablemos Chiapas, da Rádio Frecuencia Libre 99,1 FM de San Cristóbal de Las Casas das 20h às 21h do dia 18 de julho de 2015. Tradução minha. 79 Programa Debate Cultural, da Rádio Frecuencia Libre 99,1 FM de San Cristóbal de Las Casas das 16h20 às 18h do dia 18 de julho de 2015. Tradução minha. 100 produzem este tipo de conteúdo. Trazem notícias diversas, como, no programa de 25 de julho de 2015, a de um estudo que concluiu que metade dos músicos de sucesso teriam problemas mentais. Sobre o assunto, fizeram comentários cômicos. Raramente utilizam vinhetas, mas executam constantemente gravações com depoimentos e entrevistas a produtores de vídeos e música. Segundo Nóe, “não temos um padrão a seguir. Cada programa pode ter um formato totalmente diferente. Às vezes, levamos um cantor para falar o programa quase todo sobre suas músicas. Outro fazemos mais informativo com gravações”80. A forma livre e o conteúdo apresentado buscam claramente chegar a um público jovem que aprecia a música e o audiovisual que não são produzidos pelos conglomerados midiáticos. Já os programas "Espacios de Esperanzas", "En el Camino nos Encontramos" e "Hip hop", diferente dos anteriores, não são noticiosos. O primeiro, apresentado por Guadalupe Cardenas, conhecida como Lupita, uma das fundadoras da Frecuencia Libre, e Arturo Arreola, presidente da ONG do Instituto de Desarollo Sustentable de la Mesoamerica81 (Idesmac), responsável pelo horário, define-se como uma rádio-revista que apresenta iniciativas comunitárias que possibilitam uma emancipação social, partindo da ideia, como esclarecida no programa, de que: Experiências que se estão construindo em todas as partes e que nos permitem uma coisa que creio que é muito importante: celebrar nossos espaços de esperança, compartilhar nossos espaços de esperança, fazermos sentir que não estamos sós, que é muito importante acompanharmos este processo. Mesmos que as forças hegemônicas sejam tão poderosas, esta é uma maneira excelente de darmos confiança entre todos e todas.82 Segundo Lupita, “o programa cumpre a tarefa de apresentar experiências dos grupos que estão construindo alternativas ao patriarcado e ao neoliberalismo (....) como um reconhecimento a estas experiências (...) e para que sirvam de inspiração a outros 80 Entrevista com Noé, concedida no dia 30 de julho de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 81 Em sua página na internet, o Idesmac se define como “uma Associação Civil, sem fins de lucro fundada em 1995. Criada por um grupo de profissionais com experiência em Planejamento Participativo, Agroecologia, Manejo de Recursos Naturais, Trabalho com Grupos de Mulheres e Sistemas de Informação Geográfica (SIG), alguns dos quais, desde 1989 vinham colaborando juntos em projetos orientados à Conservação e Desenvolvimento Comunitário na Selva Lacandona” (Tradução minha disponível em , acesso em 23 de setembro de 2015). 82 Programa Espacios de Esperanzas, da Rádio Frecuencia Libre 99,1 FM de San Cristóbal de Las Casas das 10h às 11h do dia 18 de julho de 2015. Tradução minha. 101 grupos”83. A veiculação utiliza-se de uma entonação de locutores tradicionais e da predominante leitura de textos. O "Espacios de Esperanza" é divido em quatro partes, uma sobre uma iniciativa chiapaneca, outra sobre uma do sul mexicano, a seguinte sobre uma nacional e a última sobre uma internacional. Geralmente além de relatar a experiência comunitária, colocam uma entrevista gravada com algum participante do movimento e uma música relacionada à região ou à temática, por exemplo, ao apresentarem a cooperativa de produtores de café orgânico Nuvens de Oro da cidade Huaxtpec em Chiapas, puseram um depoimento de um dos agricultores que contou a história da comunidade e, em seguida, tocaram a música "Ojala Llega Café" de uma das banda de rock mexicano mais famosa Café Catvba. De acordo com Lupita, “a produção deste programa é muito cara . Não porque investimos dinheiro, mas sim porque colabora muita gente na produção. Pessoas que fazem tradução, que buscam entrevistados, que fazem as entrevistas”84. O programa está claramente voltado para convocar os ouvintes a acreditarem nas transformações sociais protagonizadas pelos excluídos política e economicamente. Além das gravações utiliza-se de vinhetas de abertura e passagem. Mesmo que, de acordo com Lupita, não possua, para isso, um roteiro técnico, sua apresentação é claramente lida e planejada. Interpela constantemente os receptores para a participação através do e-mail, telefone e whatsapp, algo que os demais programas analisados geralmente só fazem ao final, dificultando a participação dos ouvintes que necessitariam saber dos contatos desde o início para poderem enviar mensagens ou ligar durante a transmissão. A literatura e a música do continente americano são os recortes do programa no "En el Camino nos Encontramos" que em cada edição trata de uma temática diferente, como o amor e o desamor (21 de julho de 2015) e os alimentos (4 de agosto de 2015). A locutora, Cláudia, com voz suave e introspectiva, convida os ouvintes a uma terna e fraternal relação, toca música de um determinado país americano relacionada ao tema, seguida da leitura de trechos de um escritor desta nação. Normalmente ela apresenta a perspectiva musical e literária da temática de cinco a sete diferentes países. Busca, desta maneira, um claro vínculo com os públicos interessados nas culturas escritas e musicais do continente, possuindo para isso a preponderância da escrita, com a leitura dos textos 83 Entrevista com Guadalupe Cardenas, concedida no dia 12 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 84 Idem. dos escritores americanos e alguns comentários. Ela explica que a motivação do programa surgiu primeiro porque, desde quando chegou a San Cristóbal de Las Casas, para fazer mestrado, vinda da Colômbia tornou-se ouvinte da emissora, dado que em seu povo Zapatoca, ajudou a fundar a rádio comunitária local. “(...) eu como apaixonada pelo rádio, fiquei buscando o que há para ouvir de bom, pois eu, como outras pessoas me indicaram, comecei a ouvir. A Frecuencia Libre é a única que oferece uma opção diferente, diversa, cultural também”. Segundo, porque, no seu doutorado em Sociologia, que cursava no momento, ao tentar estudar as rádios das comunidades zapatistas acabou, por dificuldades de acesso, como nesta pesquisa85, decidindo estudar a Frecuencia Libre e recebeu o convite de amigo que fazia parte do coletivo da emissora para fazer um programa e acompanhar o grupo. A temática do programa se voltou para sua área de interesse e pesquisa, cultura, arte e música. (...) temas que temos trabalhado foi o trabalho, o sonho, gênero. Estou pensando os homens, as mulheres e as crianças, as músicas. Tudo isso através da música. Sai um tema em cada programa e tocamos as canções e através destas canções vamos descobrindo histórias e fazemos a viagem por toda a América Latina por causa do tema, uma perspectiva de uma história mais popular e tratando de resgatar alguns textos que gosto, inclusive poemas, investigações científicas, acadêmicas, mesmo que há muito não gostam.86 No programa sobre o Amor e o Desamor, do dia 20 de julho, por exemplo, a terceira música tocada “Desde Lejos” foi da banda boliviana Awatiñas, seguida por uma gravação de Pablo Neruda e uma poesia do chileno, assim apresentado: E seguimos baixando mais ao Sul para pensar agora na poética do amor. E para ele tem que pensar em Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto. O reconhecem por esse nome? Quer dizer, com Pablo Neruda, que assim se chamava, um nomezão, esse era seu nome completo, o chileno, o Prêmio Nobel de Literatura de 1971, aquele que escreveu “Vinte poemas de amor e uma canção desperado” e seus cem sonetos de amor, entre tantas poesias.87 A apresentadora enuncia que o programa é voltado para todos, inclusive os mais jovens e adultos. “Mas na verdade, penso que ninguém me ouve porque quero ter mais 85 Antes da entrevista, Claudia conversou bastante comigo sobre a identificação entre nossas pesquisas, não só nos objetos, mas também nos processos e principalmente das dificuldades diante das hostilidades das fontes. Ela desafabou sua frustação por se sentir tratada como uma espiã pelas Juntas de Bom Governo dos Caracóis, quando na realidade queria realizar uma investigação que reconhecesse a importância da comunicação radiofônica zapatista. Deu-me algumas dicas de aproximação e escuta das mesmas, como fazer um curso de língua tsotsil em Oventic. 86 Entrevista com Claudia Serrano, concedida no dia 22 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 87 Programa Y En El Camino Nos Encontramos, da Rádio Frecuencia Libre 99,1 FM de San Cristóbal de Las Casas das 18h às 19h do dia 20 de julho de 2015. Tradução minha. 103 comunicação de via dupla. Alguém que me mande mensagem. Me diga algo. Às vezes acontece sim, mas são meus amigos (risos)”88 Outro programa de característica artística e musical é o "Hip Hop", que traz canções deste estilo musical, originário na década de 60, na periferia de New York, como contestação à segregação étnica, à discriminação contra os negros e de apoio às lutas sociais lideradas por Malcon X e M. Luther King. Como os apresentadores explicam no programa de 29 de julho de 2015: (...) movimento bem bonito, que num princípio se pensava que era um modismo, as pessoas pensavam que isso como veio, iria passar, e ao contrário ao que eles imaginam, desde finais dos 60, a princípio dos 70 até hoje em dia podemos dizer que já não é uma moda. (...) E bem, claro, a medida que foi crescendo mais, no auge, e que foi gostando o público em geral o que era o hip hop se foi desviando ao que é a comercialização. Então, hoje em dia não se canta tanto o que era o fundamento e a base real do hip hop que era de protesto.89 Contudo, na América Latina, manteve, em muitas manifestações, o conteúdo original, sendo esse o tipo musical veiculado na Frecuencia Libre, principalmente o hip hop de grupos mexicanos e centro-americanos. O programa possui dois apresentadores e um DJ90 que, além de tocar as músicas, por vezes, fala. Normalmente, são tocadas sequências com três músicas e os locutores conversam informalmente, com uso frequente de gírias, comentando sobre a letra das canções contextualizando-as histórica e geograficamente ou sobre os grupos que as produzem. Os comentários possuem curta duração, predominando o conteúdo musical. Trazem também canções produzidas localmente, como as gravadas no estúdio Dementes Produciones ou bandas nacionais, como Caballeros del Plan G e Conrol Machete. Eles utilizam frequentemente vinhetas de abertura e passagem como a que identifica o programa e o estilo: “hip hop é uma música de origem afro-americana com um ritmo sincopado se junta a uma letra de 88 Entrevista com Claudia Serrano, concedida no dia 22 de agosto de 2015 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 89 Programa Hip Hop, na Frecuencia Libre, 99.1 FM, em 29 de julho de 2015, das 18h20 às 20h, sintonizado em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 90 DJ é o diminutivo para disque-joquei, que, conforme Balsebre (1994), é aquele que cavalga nas músicas, principalmente no formato dos 40 principais sucessos, a partir década de 40, nos Estados Unidos com as seguintes características: comentários monossilábicos, fala fora do ritmo das músicas para não irritar o ouvinte, mantem o volume da música, ajustar-se à música e nunca o contrário. Na década de 60, com a ascensão da Disco Music, DJ passou a ser o técnico de som responsável por executar as músicas nas festas, algumas vezes, mixando-as. No caso do programa Hip Hop da Frecuencia Libre, o termo se refere a última acepção, entretanto o disquei-jóquei do programa não mixa as músicas. 104 carácter provocador, sarcástico e suspicaz”91. Possuem uma interpelação a um público jovem, crítico, questionador e revoltado com a realidade social e com os sistemas políticos, econômico e social. A partir destes endereçamentos analisados, é possível notar que a matriz cultural preponderante na Frecuencia Libre, a racional-iluminista, predomina nas veiculações informativas e nas expressões de arte erudita e contemporânea da emissora. As notícias veiculadas constantemente, mesmo com visão diferenciada dos conglomerados de meios e algumas informações excluídas destes, seguem o padrão desenvolvido nas indústrias culturais de tratar de fatos ocorridos num determinado tempo atual e lugar que possuam relevância social, isto é, importem para a vida social (MARQUES DE MELO, 1991). Os comentários críticos utilizam o silogismo presente na educação escolar tradicional, a capacidade de contextualização histórica, desenvolvidas seja pela história social seja pela historiografia, e os argumentos filosóficos e sociológicos como lutas de classes, hegemonia, mudança social, opressão e exclusão. Os programas culturais também estão envoltos nesta matriz, porque a cultura, que frequentemente prevalece, pertence ao âmbito da arte erudita, como e a literatura, e das contemporâneas, como o cinema, a fotografia e o vídeo. A programação ainda traz traços do racional-iluminista na postura de irradiação das mensagens zapatistas e das críticas políticas principalmente nos programas “Objetos Prohibidos”, “Hablemos Chiapas” e “La Hora Sexta” que resgatam o espírito de “trazer luz” e “clarear a verdade”, fortes características do movimento de Iluminista. A escolaridade dos apresentadores da emissora reforça uma forte presença do acadêmico. Dos sete programas analisados, apenas dois locutores não cursaram nível superior (“Hip Hop” e “La Hora Sexta”). Esta predominância do racional-iluminista não significa a ausência de traços do simbólico-dramático na programação da Frecuencia Libre, como a oralidade e algumas músicas, principalmente no programa “Hip Hop”. As rimas dos rapers, além das críticas e das denúncias, apresentam a dramaticidade da vida nas periferias, do preconceito, da marginalização e da exclusão social. As gírias e os conflitos destas músicas representam o simbólico da urbanidade. Segundo Gabriel García, há também contos de comunidades indígenas em seu programa, “Objetos Prohibidos”, porém no período analisado não foi 91 Programa Hip Hop, na Frecuencia Libre, 99.1 FM, em 29 de julho de 2015, das 18h20 às 20h, sintonizado em San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução minha. 105 registrado nenhum. Assim, pouco se localiza as expressões das culturas tradicionais e dos povos originários, algo abundante nos endereçamentos da Radio Rebelde como segue no próximo item. 3.3 Matrizes culturais nos endereçamentos da Radio Rebelde Diferente do que ocorre na Frecuencia Libre, as matrizes simbólico-dramática e racional-iluminista se entrelaçam na Rádio Rebelde, sobretudo nos idiomas, contos, poemas, músicas, mensagens e traços estéticos. A partir do contexto da emissora apresentado anteriormente, o simbólico-dramático se revela pelos elementos da tradição dos povos indígenas, reconfigurada na colonização – principalmente pela evangelização católica - presentes na programação. Já a dimensão racional-iluminista se apresenta no conteúdo reflexivo crítico de origem técnico-acadêmico, como as discussões sobre autonomia, exploração dos trabalhadores, capitalismo e direitos, tendo como origem a presença dos universitários e militantes remanescentes do massacre de 1968, organizados desde a década de 1970 na Frente de Libertação Nacional (FLN) na região. A Radio Rebelde tem uma programação carregada de traços do tradicional que vão desde a locução nas línguas de origem maya, tsotsil e tseltal, que traduzem as interpelações do espanhol, às músicas tradicionais de comunidades indígenas, passando por conteúdos ligados aos valores da relação com o ambiente e a saúde. Como a emissora não possui divisão em programas, analiso as matrizes culturais a partir de cinco formatos, definidos desta maneira pelos locutores e locutoras durante o período de registro da Radio Rebelde: contos, poesias, músicas, comunicados e mensagens. Além da reflexão sobre os endereçamentos destes conteúdos, neste capítulo será discutida a noção de autonomia, como articuladora das matrizes culturais da Radio Rebelde e da organização social dos povos zapatistas, a partir de uma mensagem da emissora sobre o assunto, das entrevistas com militantes e intelectuais locais e das contribuições de autores mexicanos, sul-americanos e europeus que estudam a temática. O principal elemento tradicional presente na programação da Radio Rebelde, conforme já citado, é a locução em línguas originárias, o tsotsil e o tseltal. Normalmente, os locutores falam primeiro em espanhol e posteriormente traduzem para os idiomas 106 indígenas. De acordo com Fábregas Piug (2006b), a maioria dos membros das etnias tsotsiles, tseltales, choles e tojobales é monolíngue. 52,8% dos tsotsiles e 57% dos tseltales falam apenas suas línguas originais. Apesar dos dialetos variantes, estes idiomas são inteligíveis por todos que os dominam. Mesmo sem localizar dados específicos sobre questões de gênero, a pesquisa notou que as mulheres são mais constantemente monolíngues, porque poucas frequentam a escola, onde se aprende o espanhol. Esta relação cria uma aproximação destes mediadores que se direcionam também para os ouvintes falantes das línguas nativas. Observou-se também que em casa e entre os membros das comunidades falantes, utiliza-se somente suas línguas originárias. Esta predominância certamente é um dos motivos que leva a Radio Rebelde a possuir sua programação bilíngue. Somente em cinco momentos do registro da emissora, observei conteúdos em uma só língua, sendo nos contos veiculados. Destes, apenas dois foram só em espanhol. O que levou a locutora a pedir perdão por não ter a tradução para o tsotsil ou tseltal. Os demais foram em línguas mayas, não havendo pedido de desculpas por isso. Os locutores parecem que, nestes idiomas, possuem mais facilidade de comunicar-se. Em nenhuma programação registrada se observou pausas ou gaguejo nas locuções em tsotsil ou tseltal, algo largamente notado nas apresentações da locução, principalmente das mulheres, em espanhol – e pouco observado na locução dos homens -, que aparentam dificuldades de pensar e se comunicar no idioma dos colonizadores. Já a locução em espanhol, que guia a apresentação dos programas, demonstra dois traços. O primeiro é a inevitável presença das culturas europeias no tradicional popular da região. O segundo é a necessidade de articulação entre indígena e mestiço, rural e urbano, ancestral e moderno da programação. Os locutores sempre utilizam um tom cordial e informal, com vozes naturais, sem empostação, saudando constantemente os ouvintes com interjeições como “Oxalá que esteja gostando de nossa programação!”, “Que tenha um bom dia de trabalho!” e “Esteja tudo bem com você!”. Não é anunciada nenhuma forma de contato com a emissora, certamente, porque a mesma fica em lugar inacessível para os ouvintes e estando desconectada da internet, sequer possui site. Os apresentadores fazem também o claro papel de ponte entre o conteúdo da emissora e os ouvintes, geralmente, anunciando o que vai ser executado em seguida e explicando o que foi tocado. Raramente há comentários e não observei a veiculação de nenhuma notícia jornalística. Há apenas 107 uma vinheta frequentemente executada, geralmente na virada de hora com o texto padrão: “Esta é a Radio Rebelde, voz da mãe terra, que transmite desde algum lugar dos povos zapatistas no Caracol Insurgente em Rebeldia e Resistência pela Humanidade, zona Altos de Chiapas. Frequência Modulada 107.1 de sua rádio”. A vinheta possui várias versões. Cada uma intercala trechos de músicas em diferentes estilos como rock, cumbia, norteña, tradicionais indígenas etc. A locução utiliza sempre o recurso técnico do fundo musical, tendo cada locutor sua música característica, que toca alguns segundos antes de ficar em BG92. No período de registro da programação da Radio Rebelde, foram encontrados cinco contos: “Como o noivo namora a noiva”, “O rei do mau”, ‘Histórias de Madalena da Paz”, “O coiote” e outro cujo nome não foi identificado devido a falhas na captação do sinal. Enquanto os dois primeiros foram narrados somente em espanhol, os últimos foram somente em tsotsil. “Como o noivo namora a noiva” possui uma série de aconselhamentos de como um jovem deve aproximar-se de sua pretendente, exemplificando como saudá-la, como elogiá-la e as possíveis reações dela. Aparenta ser um conjunto de aconselhamentos tradicionais. Já “O rei do mau” tem o tom de amedrontamento e denúncia, buscando “iluminar” e esclarecer os ouvintes das vicissitudes do capitalismo, como drogas, consumismo, televisão, individualismo e pobreza: (...) Sou o que acaba com tua cultura. Como gosto quando vejo que sofre! Ra ra ra! Que alegria me dá! Gosto quando não tem o que comer. Quando trabalha só para ti mesmo. Como gosto de quando briga com seus irmãos. Gosto quando queres organizar-se e atrapalho. Sabe quem sou eu? Que alegria! Como desfruto! Como gosto quando tu jovem, jovenzinha usa drogas. Como gosto quando tua família está em briga. Que feliz! Sou tão feliz! Gosto quando tu jovem está seguindo a moda. Segue, segue-la! (...) Gosto quando assiste televisão e aprende tudo. (...) Sabe quem sou? Sou o sistema capitalista.93 Ambos não são interpretados pelos locutores da emissora e são reproduções de gravações, como releva a própria apresentação. Seus narradores fazem constantemente uso de onomatopeias de sons de animais, passos, toque na porta etc. 92 BG significa Background, ou seja, fundo musical que é executado com volume inferior ao som principal, possibilitando-o compreende-lo. Serve principalmente para manter um ritmo e um clima à locução e identificar determinado programa ou locutor. 93 Rádio Rebelde 107,1 FM, gravada em 16 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução minha. 108 No conto “O Coiote”, há recursos técnicos de efeitos dos sons dos ambientes da história ao fundo da narração, como a correnteza de rio e os insetos na floresta. Esse padrão estético mostra um claro endereçamento para o tradicional campesino dos povos indígenas. A dramaticidade é o elemento desta matriz que compõe os contos que se estruturam a partir de conflitos, seja na dificuldade de um jovem de cortejar sua pretendente seja na degradação social promovida pelo capitalismo. A construção textual destas produções baseadas na dicotomia entre exploradores-explorados e rapaz-moça revela a lógica da oposição, outra característica da matriz simbólico-dramática. Estas produções apresentam, como papel social, lições morais sobre as relações entre gêneros e sobre a consciência política. Enquanto o primeiro “Como o noivo namora” traz apelos mais sentimentais ligados ao amor, ao cortejo tradicional, à conquista do amor e às emoções, como paixão e medo, o último, “O rei do mau”, faz o questionamento e a crítica racional, de origem racional-iluminista, sobre o capitalismo e as injustiças sociais. No entanto, este conto não deixa de ter elementos do simbólico- dramático, principalmente na interpretação entusiasmada do narrador e do ritmo oral com uma cadência de trova do texto. Os contos interpelam claramente para o fortalecimento da identidade e da memória dos povos originários não só pela língua, mas por ser uma forma historicamente presente nestas culturas populares, ao mesmo tempo que relacionam as mesmas ao espírito crítico, autônomo e rebelde do zapatismo94. 94 Os contos também foram exercícios realizados na Oficina de Rádio Comunitário em San Isidro de La Libertad. Esta capacitação foi planejada a partir de um acordo com esta comunidade que, em contrapartida à colaboração a pesquisa – permitindo a entrevista de ouvintes da Radio Rebelde - solicitou ajuda para montar uma rádio. A Oficina teve duas etapas: uma primeira na qual discutimos as características, as linguagens e os gêneros do rádio e produzimos contos e spots, realizada nos dias 10 a 12 de janeiro de 2014 (Manual e relatório da Oficina no Apêndice X). A segunda etapa, nos dias 28 a 31 de julho de 2014, foi voltada para a produção de notícias, entrevistas, enquetes, planejamento de programa e plástica radiofônica e técnicas de sonoplastia e operação de áudio (Manual e relatório da Oficina no Apêndice XI). Os participantes, convidados na Assembleia da comunidade e através de mobilizações interpessoais (visitas às casas, conversas cotidianas, telefonemas), eram de gerações diversas, tendo a presença desde jovens estudantes da escola secundária até lideranças comunitárias. Para trabalhar com esta diversidade, agrupamos os participantes em equipes heterogêneas. O método de ensino utilizado foi o dialógico, baseado em Paulo Freire (1983), quando se procurou não só estimular a participação, mas a corresponsabilidade de todos na realização das capacitações. Durante a primeira Oficina, pude observar a destreza dos participantes em criar, sem a mediação da escrita, memorizar e interpretar os contos. Sem muito esforço, a adolescente Guadalupe, estudante da escola secundária local, elaborou uma história sobre a semente e o bebê, exortando a importância de cuidar das crianças para a prosperidade agrícola da comunidade. Já Dom Josiano, agricultor e liderança local, com a mesma facilidade, apresentou um sobre o lobo e o coelho, significando a luta dos poderosos, representados pela força do lobo, contra os fracos, representados pela astúcia do coelho. O adolescente Pablo, estudante da escola secundária, apresentou habilmente seu conto sobre o sonho e a dificuldade da emigração de jovens 109 As poesias, apresentadas frequentemente pela manhã na Radio Rebelde, são gravações que intercalam as locuções e músicas. Não são interpretadas pelos locutores de nenhum dos horários registrados, parecendo serem interpretadas pelos próprios autores, dado a segurança das performances, aparentando não serem lidas por terceiros. Durante o período observado, foram veiculadas oito diferentes poesias. Destas, apenas três possuíam mais de cinco versos. A primeira trata sobre as injustiças sociais, através do personagem Antônio Pobreza. Antônio não ganha o necessário. Passa fome as crianças de sua mãe. Não alcança pagar o aluguel. Muito menos para a escola. Trabalha 20 horas, mas nunca melhora. Quer um aumento e lhes sobem os impostos. Pede melhor saúde, mas melhora ataúde. Quer justiça aí vai a polícia. Te mata por montão e termina no panteão.95 A segunda poesia, com mais de cinco versos, aborda a juventude, convocando-a lutar contra os exploradores. Jovens rebeldes, dignos lutadores, unamos nossas forças, nossa agressividade para acabar com os exploradores. Juntemos nossas raivas para vencer o inimigo de nosso povo. Defendemos com fuzis, manchepes e baronetes, se necessário, para morrer com elas se é preciso96 E a terceira versa sobre a educação dos jovens defendendo que as Escolas não são só prédios, mas crianças e educadores. Apesar desta última ser identificada pelos locutores como mensagem, possui rima e métrica em seu texto sendo classificada, nesta pesquisa, então como a mensagem e poesia. Já as poesias curtas são “A palavra nunca morrerá”, “A palavra que vive”, “Uma indignação” e “Bomba, bomba”. As duas primeiras expressam a crença e a esperança na palavra revolucionária. Já as duas últimas fazem críticas políticas genéricas ou mais específicas, como: “Bomba, bomba, Lopes indígenas para os Estados Unidos da América. Enquanto o primeiro possui mais traços do simbólico- dramático e mítico relatando a importância da mulher, das crianças para a fertilidade da comunidade, os dois últimos se apresentam mais como reflexões críticas, guardando traços também do tradicional, seja na fábula do primeiro, seja na estória narrativa fantástica do segundo. 95 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 16 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 96 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 18 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 110 Obrador97 é um cachorro labrador. Calderón98 não tem razão quando faz matança na nação”99. Assim como no conto “O rei do mau”, estes poemas apresentam o elemento racional- iluminista da crítica social, baseada no moralismo do bem contra o mau, alimentando um imaginário de um inimigo a ser derrotado, o capitalismo. Aliado a estas lições, há uma estética nos versos, na rima e na métrica da oralidade de matriz simbólico- dramático. A apresentação por não locutores, provavelmente pelos próprios autores, é uma forma de demonstrar uma autenticidade popular das produções, possuindo o papel social endereçado não só de afetar sentimentos, mas também de reforçar o imaginário radical, que será abordado em seguida, a partir da identidade originária da comunidade e do zapatismo. A música é outro conteúdo predominante veiculado na Radio Rebelde que possibilita, segundo Amarnd Belsebre (1994, p. 89), “evocar as imagens que estão dormidas em nós”, compondo também assim o imaginário zapatista. A primeira hora da programação das tardes da emissora dedica-se às músicas de marimba, que são composições instrumentais geralmente no estilo de cumbia mexicana100, tocadas com o instrumento homônimo, típicas do pôr do sol do Zócalo (Praça Principal) de San Cristóbal de Las Casas, onde se apresentam vários grupos principalmente no restaurante localizado no coreto do local. O intuito das músicas é claramente de entreter, como explicita a locução do horário. Esta parte da programação demonstra que a Radio Rebelde também possui um endereçamento lúdico que, além de entreter, pode criar laços de pertencimento inclusive com comunidades não zapatistas. A marimba é um instrumento afrodescente que virou símbolo regional e ritmo que se tornou tradição local. “A população africana e 97 López Obrador foi o principal líder de oposição aos partidos que governam o México. Candidatou-se nas últimas duas eleições presidenciais pelo Partido de la Revolución Democrática (PRD), tendo sido derrotado em 2006 por uma baixa margem de votos, menos de um por cento de diferença. Obrador atribuiu o resultado a fraudes eleitorais. Atualmente ele fundou e lidera o Partido Movimento por la Regeneración Nacional (MORENA). 98 Presidente do México de 2006 a 2011 pelo Partido de la Acción Nacional (PAN) que quebrou, pela primeira vez, o ciclo de governo de 75 anos do Partido Revolucionario Institucional (PRI). 99 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 16 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 100 A cumbia é uma dança e um ritmo originado na Colômbia durante um longo período de mestiçagem entre elementos africanos (sensualidade, instrumentos musicais), indígenas (instrumentos musicais) e espanhóis (canto, poética e vestuário) que se popularizou na América Latina durante a década de 40. A cumbia mexicana funde elementos do som montuno cubano, do mambo, de ritmos locais (como a música norteña e el huapango) ao estilo colombiano. É um forte componente cultural nos meios de comunicação e nos bailes, sendo atualmente conhecida como cumbia sonidera. 111 afrocaribenha que subiu durante a época colonial ao que é hoje o estado de Chiapas, trouxe consigo a marimba num modelo primário que se foi transformando ao passo das transformações de Chiapas” (PIUG, 2006a, p. 29). Neste caso, a estética da música predomina sobre a mensagem semântica, porque “(...) a informação estética da música constitui um universo significativo muito grande” (BELSEBRE, 1994, p. 92). A matriz simbólico-dramática da marimba produz proximidades entre as múltiplas identidades. Nos dias 22, 23 e 24 de julho de 2013, o registro da programação observou também músicas tradicionais das comunidades, como San Juan Chamula, conhecida por sua população ser em todo México hábeis vendedores e San Pedro Polhó, um dos maiores municípios autônomos do Caracol Rebeldia e Resistência pela Humanidade. As canções são interpretadas nas línguas originárias, possuindo longa prosa de introdução que apresenta a localidade e culminam por um encerramento reafirmando suas identidades locais. Além das canções das comunidades, foram apresentadas as músicas de dança que são somente instrumentais, servindo para as apresentações de grupos típicos em festas locais. Ambas normalmente compõem os festejos das comunidades que os realiza no dia de seus santos padroeiros. Essa é uma característica do sincretismo religioso que marca o simbólico-dramático dos povos originários da região. O catolicismo é reconfigurado de maneira tal a servir como elo com o mundo colonial e, ao mesmo tempo, reafirmar as identidades originárias. Este sincretismo, para Piug (2006a), representa uma forma de resistência dos povos originários, explorados e oprimidos desde a colonização espanhola. Ao invés de opor-se explicitamente ao catolicismo dos colonizadores, os povos originários apropriam-se dos ritos, templos e sentidos, incorporando elementos dos cultos de seus antepassados. Piug chama este fenômeno de ritual mudado e teologia desejada101. O zapatismo também tem seu imaginário tecido pela religiosidade, principalmente, na relação de respeito com a “mãe terra” que motiva os discursos não só 101 Esta investigação pode observar em duas ocasiões este sincretismo, chamado de Catolicismo Tradicional. A primeira na celebração mensal da memória do massacre de Acteal, em Chenalhó, distante 50 km de San Cristóbal de Las Casas, no dia 22 de janeiro de 2013, quando a missa teve sua liturgia alterada para incorporar manifestações ancestrais, como danças, preces e bênçãos e foi ativamente concelebrada por sacerdotes não pertencentes à Igreja Católica. A segunda observação se deu no templo de San Juan Chamula, município há 9 km de San Cristóbal de Las Casas. A Igreja local, que possui todos os aspectos arquitetônicos católicos, tem seu interior redesenhado, não possuindo bancos e, em seu lugar, o chão está quase completamente coberto por largos capins, exceto em alguns ciclos onde as famílias constroem no solo seus altares com santos, velas e outros objetos e onde realizam ajoelhadas ou sentadas suas orações, cânticos e lamentos em voz alta nas línguas originárias. Neste templo de catolicismo tradicional, além da missa dominical, há outros cultos, inclusive com sacrifícios de animais, como me revelou o antropólogo Valentin Val, ajudante desta pesquisa numa conversa informal sobre o assunto. 112 de preservação do meio ambiente e da saúde como harmonia com a natureza, mas da defesa das propriedades dos povos originários e da recuperação das terras, concentradas em latifúndios, através da reforma agrária. Além das músicas tradicionais, observei outra autodefinição de um estilo musical, as canções revolucionárias classificadas pelos locutores como de três tipos, veiculadas em diferentes sequências de uma hora: - Canções revolucionárias nacionais: são compostas por canções de grupos mexicanos não chiapanecos de três temáticas diferentes. A primeira reúne questões históricas que reconstituem períodos passados das várias revoluções da história mexicana, sempre na perspectiva favorável aos indígenas, camponeses e agricultores e seus mártires. A segunda temática destas músicas trata de outros movimentos revolucionários mexicanos, como por exemplo, sobre a Comuna de Oaxaca102, veiculadas no dia 22 de julho de 2013, nas canções “Insurgente de Oaxaca” e “Oaxaca Gritou”. Já a terceira aborda críticas sociais ou canções de apoio ao zapatismo de mexicanos como “Un Mundo Donde Quepan Muchos Mundos” da banda Hechos Contra El Decoro, grupo de hip hop formado desde 1995, cujos integrantes se autodefinem como músicos militantes que circulam também no circuito comercial de shows, festivais e álbuns. A letra exalta a ternura, a dignidade e a luta dos hombres y mujeres de maiz (homens e mulheres de milho), como a humanidade é definida no conhecimento ancestral dos povos mayas, dado a importância do cereal nestas culturas. Vem baixando do monte para abraçar a cidade. A conquista, a memória te vão convocar. Saem das sombras para dançar Míralos por onde baixam. Já chegam mulheres e homens de milho e de terra carregados de ternura com dignidade. Veem baixando do monte para abraçar a cidade. A conquista e a memória te vão a convocar. Mulheres e homens de milho e de terra 102 “O levante conhecido como ‘Comuna de Oaxaca’ ocorreu no México de junho a novembro de 2006. A explosão da insatisfação popular foi provocada por uma decisão repressiva encolerizada do governador Ulises Ruiz Ortiz (PRI) contra os protestos de professores da rede estadual e membros de organizações sociais que ocupavam há mais de três semanas o zócalo da capital, em prejuízo da imagem turística e da reputação política do “cacique” local, o governador priísta. (...)Na madrugada do dia 14 de junho é colocado em ação um plano atroz: a mando do governo de Ulises Ruiz, milhares de policiais estaduais desalojam violentamente os 30 mil ocupantes que estavam dormindo em barracas nas dezenas de ruas do Centro Histórico. O contragolpe popular vitorioso na manhã do mesmo dia, somado à indignação pelos seguidos abusos de poder do chefe do executivo estadual, propiciam a criação de uma frente única de dezenas de organizações políticas e sociais de todo o estado, apoiada na mobilização de centenas de milhares de oaxaquenhas e oaxaquenhos que atendem ao chamado das Megamarchas. Surge a Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) para exigir “Fora Ulises!” (TERRIBAS, Bruno. Comuna de Oaxaca: as mulheres tomam (as antenas d)o céu de assalto, reportagem disponível em , acesso em 25 de julho de 2015). 113 carregados de ternura com dignidade. Exército Zapatista de Libertação Nacional. Sabem que não há data marcada. Esses dias são todos os dias. Sabem que não há palácio de inverno a tomar. Tem que conquistar nossas vidas.103 Estas músicas apontam para a aproximação dos zapatistas com outros movimentos, grupos e coletivos nacionais e com a história de lutas e revoluções do México, reforçando o sentimento de pertencimento à nação mexicana, claramente defendido pelo EZLN que não se identifica como separatista, mas como construtor de um novo México plural, multicultural e justo. - Canções revolucionárias chiapanecas: retratam a luta e os ideais zapatistas nas comunidades autônomas e no EZLN. São canções produzidas localmente principalmente nos Municípios Autônomos em Rebeldia Zapatista (Marez). Várias destas veiculadas na programação das emissoras foram reunidas no álbum El fuego y la palavra, conjunto de quatro discos lançados em março de 2009. O CD, denominado de El fuego traz músicas revolucionárias internacionais de cantores como Manu Chao, Hecho Contra el Decoro, Fermín Muguruza e Sargento Garcia. Já o disco Palabra possui autores e compositores mexicanos e estrangeiros, que não necessariamente aderem ao movimento zapatista, mas refletem o clima social da trajetória do movimento, com canções de Café Tacvba, Pedro Guerra, Nina Galindo, Leon Cháves e Rafael Catana. Já as músicas de grupos mexicanos de ska e reggae104 que combinam seu estilo musical com o compromisso social, estão reunidos no CD Resistência com músicas de Maldita Vecindad, Salario Mínimo, Salón Victoria, Tijuana No, Tremenda Korte, Los Rastillos e Panteón Rococó. Por sua vez, o disco Dignidad traz os músicos das comunidades zapatistas em gravações de campo, mixadas e remasterizadas. O blog das Águascalientes, organização regional dos zapatistas, que existiu até 2003, responsável à época pelas relações externas das comunidades dos zapatistas e absolvida hoje pelos Caracóis, apresenta da seguinte maneira os álbuns: Toda mobilização social que marque uma época tem sua música de fundo: suas canções, seus hinos, um “soundtrack”. Quer dizer, o som que capta seu espírito e o evoca. A mobilização nacional e internacional – gerada pelo 103 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 18 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 104 O ska é um estilo musical afro-caribenho, originado na década de 1950 na Jamaica que possuía letras com críticas à marginalização e à discriminação e com incentivo à diversão em harmonia. O reggae, com um ritmo mais lento, tem origem a partir deste estilo na década seguinte, tendo o cantor Bob Marley com seu principal ícone. 114 Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) tem a sua (...). Trata-se de 82 canções que testemunham e celebram o levante zapatista e seu impacto social e político.105 Nas canções das comunidades zapatistas presentes no álbum El Fuego y La Palabra, além do rock, das músicas norteñas e das cumbias locais, destacam-se os corridos, uma narrativa tradicional popular em forma de trova parecida com as músicas dos repentistas no Brasil. Os corridos zapatistas geralmente contam histórias dos mártires do movimento zapatista. “7 de agosto de 2002” é um destes exemplos veiculados na Rádio Rebelde. O ano de 2002 chegou. Em 7 de agosto mataram um companheiro. O mataram na traição. O mataram em sangue frio. Companheiro José Lopez. Nunca se sabe quem. Um companheiro valente. Autoridade de seu povo. Honesto e preocupado pelo bem estar de seu povo. José disse a sua esposa: “Prepara pois a comida porque vou olhar nossa comunidade. Vou regressar logo para comer com meu filhos”. Nunca provou sua comida. A morte o esperava. O que disse a sua esposa foram suas últimas palavras. Os endereçamentos destas músicas interpelam para, primeiro, uma aproximação com a realidade local que fortaleça os laços de pertencimento com as comunidades. Segundo, constituem-se como narrativas que fazem um registro histórico e, por fim, realizam uma espécie de catarse social, quando promovem um desabafo coletivo contra as injustiças vividas pelas comunidades locais. Estas canções interpelam, assim, para a construção das identidades de resistência e lutas zapatistas, presentes nos laços de pertencimentos entre membros dos grupos, no papel histórico do levante e na partilha da dor, sofrimento, conquistas e utopias. Além disso, fazem apelo para a mobilização coletiva em prol da luta emancipatória. - Canções revolucionárias internacionais: reúnem canções críticas ao capitalismo ou de apoio ao movimento zapatista de artistas não mexicanos, como espanhóis, chilenos, cubanos, argentinos, entre outros. Entre estas músicas, temos, por exemplo, a veiculação do Hino da Unidade Popular do bloco político de esquerda marxista chileno que levou o Salvador Aliende à presidência do país em 1970. A canção traz um incentivo à luta pela 105 Publicado em , acessado em 4 de abril de 2015. Tradução minha. 115 justiça social, à mobilização popular de campesinos, operários, mulheres, estudantes, mineradores, empregado e à esperança da vitória. Venceremos! Venceremos! Mil cadeias terão que romper. Venceremos! Venceremos! Ao fascismo sabemos vencer. Campesinos, soldados e operários. A mulher da Pátria também. Estudantes, empregados, mineradores. Cumpriremos com nosso dever!. Semearemos as terras de glória. Socialista será o porvir!. Todos juntos seremos a história. A cumprir! A cumprir! A cumprir!106 Por mais que o conteúdo destas músicas seja de reflexão crítica da matriz racional, interpelando claramente para o engajamento político pela transformação social iluminista e predominem sobre a estética – ao contrário das canções de marimba -, seus estilos remetem ao simbólico-dramático das músicas populares como cumbia, durangueza, corridos e rancheras107. Resulta assim dessa combinação uma tensão entre a característica dos conteúdos das letras, geralmente mobilizadoras de ações e reflexões que acionam um ponto de vista moral e/ou moralizante, e os ritmos estético-expressivos que as envelopam, que geralmente despertam e alimentam as raízes da cultura local, estimulando a tradição. Outro conteúdo identificado como predominantemente racional-iluminista são os comunicados e as mensagens da programação que têm, por sua vez, um caráter informativo. Ainda assim, possuem resíduos do simbólico-dramático em ideias como a natureza sagrada na mensagem, o equilíbrio entre o homem e o ambiente na saúde e a importância da educação tradicional. Os primeiros são informativos das Juntas de Bom Governo (JBG) ou do Conselho de Comando Revolucionário Insurgente (CCRI) do Exército Zapatista, também publicados no site Enlace Zapatista108. Nas veiculações registradas em julho de 2013, observou-se dois comunicados no dia 24. O primeiro da JBG do Caracol Rebeldia e Resistência pela Humanidade de Oventic, sobre o surgimento dos caracóis, que comemoraram seus 10 anos no dia 5 de agosto de 2013. E 106 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 16 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 107 O pasito durangese foi criado no Estado de Durango por conjuntos musicais que se consolidou em Chicago quando estes migraram para os Estados Unidos. Com ritmo acelerando e alegre, mistura influências da cumbia mexicana com o merengue. Já os corridos são manifestações folclóricas musicais e literárias do México que possuem prólogo, anedota, lição de moral e despedida organizados em métrica e rima. Por sua vez, as canções rancheras é um gênero tradicional originado na década 1910, período pós- revolucionário como símbolo nacional, tipicamente interpretados pelos mariachis, sobre temáticas campesinas sendo extremadamente emocionais. Sobre a cumbia, ver a nota 34. 108 Disponível em , acesso em 10 de fevereiro de 2014. Tradução minha. 116 outra sobre a educação autônoma do CCRI que a diferencia da governamental, possibilitando a história e a situação em que vivem os povos originários. Já as mensagens são curtas, durando de 15 a 45 segundos. Aparentam ser depoimentos gravados de pessoas comuns e editados com fundos musicais. Novamente, a utilização da apresentação por pessoas que não são locutores demonstra uma interpelação de aproximação e de participação na emissora. As temáticas tratam sobre saúde, sobre o trabalho coletivo e sobre a dignidade das mulheres. Além de uma contextualização histórica, este gênero faz questionamentos. Mensagem e pergunta aos povos indígenas que não entendem nem querem entender a justa causa da luta zapatista (...), até quando se darão conta que desde mais de 500 anos, somos vítimas e de dominação e exploração, vítimas de humilhação e discriminação, vítimas de marginalização e esquecimento dos que tem poder e dinheiro, por que muitos de vocês estão pondo seus corações, sua confiança e sua esperança em nossos opressores e explorados? Por que se entregou de corpo e alma aos que estão chupando o sangue de nossos corpos como os maus governantes, os altos funcionários, os pecuaristas e os proprietários de terra que tanto dano fazem a nossos povos? Por que vendem sua dignidade por migalhas que caem pelas mesas dos patrões?109 E também realiza exortações para mudança de comportamento, de consciência e de atitudes. Por isso, queremos convidar a todos os companheiros e companheiras, jovens zapatistas, a todos os povos e regiões que decidam e analisem trabalhar nas diferentes áreas que há em sua comunidade onde em sua região porque quando os jovens participamos com ânimo dos trabalhos de nossa organização assim animamos as crianças para que também comecem a participar para que damos o bom exemplo na luta. Por isso, convidamos aos companheiros e companheiras, bases de apoio responsáveis por regionais das comunidades donde não há começado os trabalhos com as crianças, se organizem e nomeiem seus representantes para que comecem seus trabalhos com as crianças e jovens. À comunidades e regiões zapatistas onde já se há iniciado os trabalhos com os jovens e crianças, lhe dizemos não desanimem, sigam a diante com os estudos políticos para que vão tomando consciência da realidade que vivemos. Não esqueçam que as crianças e jovens somos o futuro de nossos povos.110 Além da temática da juventude, percebe-se a veiculação de mensagens sobre o meio ambiente, como apresentado no programa do dia 22 de julho de 2013 sobre a exploração 109 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 13 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 110 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 13 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 117 e destruição das montanhas por serem lugares de riquezas; sobre a saúde comunitária, como a mensagem que atribui a causas das doenças ao desequilíbrio entre das pessoas com a natureza, promovido pela colonização europeia, veiculados no mesmo dia, e ou- tro, em formato dramatizado, executado no dia 24 de julho de 2013, sobre o direito do atendimento dos indígenas em hospitais e clínicas públicas. 3.3.1 Autonomia nas matrizes culturais dos endereçamentos da Radio Rebelde Por fim, encontrei a mensagem mais rica para a compreensão das matrizes articuladas na programação da Radio Rebelde: sobre a autonomia que, transmitida na manhã do dia 23 de julho, nos guiará no aprofundamento das reflexões. Para isso, a mensagem sobre autonomia será desmembrada em cinco partes que introduzem as reflexões dos pesquisadores mexicanos que investigam esta temática (Benjamin Arditi, Ana Ceceña, John Holloway, Raquel Aguilar, Barcena e Reys), junto a autores de outros países que discutem o assunto (Castoriadis, Mouffe, Negroni, Ezequiel Adamoski e Hermán Oviña). Inicialmente, o texto define a autonomia como “(...) a base fundamental da forma de vida dos povos originários, ou seja, o mais importante para a vida e a existência dos povos”111. Este trecho revela a ideia que remonta à matriz simbólico-dramática da tradição originária. Conforme já apresentado na Introdução, as comunidades dos povos mayas quando chegaram à região hoje conhecida como Chiapas tiveram de organizar- se, através de uma autogestão política e uma relativa independência, principalmente, devido ao relevo acidentado que tornava os deslocamentos em grandes empecilhos para as aproximações. O comércio se tornou a principal atividade articulatória destas pequenas comunidades que gozavam de uma relativa independência. Autonomia “quer dizer que os territórios onde vivem os povos indígenas devem se organizar e governar sós sem a intervenção dos maus governos e dos partidos políticos, sem imposições e manipulações de pessoas alheias que só buscam seus próprios 111 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 23 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 118 interesses”.112 Já neste momento, a mensagem da Radio Rebelde revela elementos da matriz racional-iluminista da autonomia. Cultivada principalmente a partir da organização da Frente de Libertação Nacional (FLN) na década de 70 na região, conforme Claudio Albertani (2011), a ideia de ruptura com o sistema político tem como base a tradição mais antiga, no anarquismo, a ruptura com a ordem social; no marxismo libertário, a superação da manipulação e no pensamento de Cornelius Castoriadis, a autoinstituição política. Segundo Massimo Modonesi (2011), a primeira, representada por Bakunin, Reclus, Kropotkin, Malatesta e Flores Magón, defende que o proletariado não se restringe aos operários, mas abrange também os campesinos, artesãos e marginais. As forças revolucionárias devem, por isso, aceitar a adesão inclusive de sujeitos que não participassem dos movimentos operários. A posição causou dissenso com o marxismo predominante no século XIX, provocando a saída dos anarquistas da Associação Internacional dos Trabalhadores. No Marxismo, para o sociólogo italiano, autonomia significa independência da classe trabalhadora, como defendem os filósofos alemães Frederic Engels e Karl Marx “(...) uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um condicione o livre desenvolvimento de todos (...) de cada qual segundo suas capacidades, a cada qual segundo sua necessidade” (ENGELS; MARX, 1985, p. 129). A principal expressão da autonomia nas experiências socialistas está, para Modonesi, no Conselhismo, defendido por Rosa Luxemburgo, e vivenciado nas práticas de autogestão dos sovietes na Rússia bolchevista, nas rebeliões da Polônia, Alemanha Oriental e nas instituições socialistas da Iugoslávia e Argélia. Esses conselhos se caracterizam como o “(...) conjunto de práticas e experiências de autodeterminação que se descolam em direção da ocupação e autogestão das fábricas” (MODONESI, 2011, p. 32, tradução minha) quando os operários tomam as decisões sobre as empresas, inclusive elegendo sua diretoria. Já para Cornelius Castoriadis (2006), a autonomia é uma construção lúcida, uma vez que qualquer imposição ou pressão impossibilita a mesma, na qual cada um toma consciência que sua autodeterminação só pode ser garantida na formação e participação ativa em coletivos. Por isso, é um processo de subjetivação que se realiza em novas práticas e ações de cada sujeito e uma nova forma social, pois “não se pode querer a 112 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 13 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 119 autonomia sem querê-la para todos, já que sua realização não pode conceber-se plenamente mais que como empresa coletiva” (NEGRONI, 2011, p. 205). Para surgir, a autonomia necessita de um imaginário radical, e é possível percebê-lo na Radio Rebelde, principalmente, nas canções revolucionárias e nas poesias sobre as lutas sociais, compreendido como o “fluxo de representações, desejos e afetos amplamente imotivados” (NEGRONI, 2011, p. 203) que se transforma em imaginário instituinte, isto é, forma de energias criadoras de sentidos definidores dos coletivos, das instituições e dos significados que se partilham e cristalizam. Aqui, então, o significado de “radical” está ligado à força de criação e de renovação dos modos de agir tendo em vista a necessidade de dar forma a um comum que articule os zapatistas. Mas também os contos e poesias podem difundir conteúdos nos quais a noção de “radical” se aproxima de uma tentativa de construir enunciados que privilegiam o antagonismo e o aumente das distâncias entre os grupos, como mencionado na análise do conto “o Rei do mau”. É um processo de autoinstituição no qual se questionam as leis e instituições sociais. Castoriadis (2006, p. 65) explica que o imaginário possibilita a unicidade aos grupos sociais. “(...) essa própria unidade decorre da coesão interna de um tecido de sentido, ou de significações que penetram toda a vida da sociedade, dirigem-na e a orientam: o que chamo as significações imaginárias sociais”. O filósofo esclarece que o imaginário está encarnado nas instituições e as anima. Por instituições, ele entende “(...) o conjunto das ferramentas, da linguagem, dos métodos de fazer, das normas, dos valores etc” (CASTORIADIS, 2006, p. 64). O jornalista Gaspar Munheca, um dos participantes do movimento estudantil de 1968 na Cidade do México, entrevistado para esta pesquisa no dia 12 de julho de 2013, observa a construção de parte deste imaginário desde um núcleo duro dos zapatistas, que estão nos Caracóis, tomam coletivamente as decisões, buscando vivencia-las rigorosamente. Os imaginários refletem as matrizes culturais, seja nos aspectos de esperança e resistência dos povos sociais, seja na crença marxista nas lutas para as mudanças sociais. O cientista político Benjamin Arditi (2011, p. 296, tradução minha) define o imaginário radical da autonomia como o impossível que, para ele, não é “(...) aquilo que jamais poderia suceder e nunca vai ocorrer, contudo mais bem ao efeito presente, atual, de algo que estritamente falando não é possível num campo dado da experiência, porém que 120 impulsiona a gente a atuar como se o fosse”. Essa força mobilizadora impulsionou as lutas pelas democracias na América Latina e a mobilização dos bolchevistes na revolução russa. Demonstra “(...) que é possível criar outro mundo onde quem assume os novos nomes encontraram seu lugar ou, para usar os termos do próprio Rancière, seu dissenso mostra a presença de dois mundos alojados num só” (ARDITI, 2011, p. 298, tradução minha). Já a socióloga mexicana Raquel Aguilar (2011, p. 355, tradução minha) denomina o imaginário radical de dimensão utópica, uma energia vital capaz “(...) de dotar-se de fins e realizar atividades para consegui-los, pondo empenho para alcança-los”. A utopia é capaz de modificar as formas simbólicas, isto é, os significados compartilhados e divergentes ou até contraditórios, que por sua vez possibilitam cambiar as estruturas sociais, as instituições, convenções e práticas, seguindo os traços básicos de determinada forma. As emissões radiofônicas das rádios zapatistas, então, não só alimentam um imaginário de luta e resistência, como também sustentam diferentes ideários ligados e utópicos da autonomia e emancipação dos povos do mundo inteiro, como mostra a continuação da mensagem sobre autonomia da Rádio Rebelde: (...) os povos (...) vão pensar e decidir como só vão trabalhar e vão semear suas terras sem seguir o que está dizendo e controlando o governo e também decidir a que preço vão vender seus produtos. Como povos devem entender e administrar suas próprias escolas, clínicas, hospitais, seus próprios médicos e meios de comunicação.113 Como uma transformação popular, deve construir-se desde baixo, uma “(...) mudança de estado que quebra o fluxo da energia vital da sociedade, reconfigurando as formas e debilitando-se nas estruturas e instituições assim conformadas”. (AGUILAR, 2011, 357, tradução minha). O assessor da Via Campesina e ouvinte da Rádio Rebelde, Peter Rosset, em entrevista, explica que o trabalho dos zapatistas é um trabalho de formigas que, através do diálogo e da conscientização, vai minando o poder autoritário para construir o poder da participação social e da horizontalização das decisões e relações que ofereçam alternativas próprias e amplas a partir do local. Conforme Modonessi, o horizonte desta transformação do projeto da autonomia é a emancipação, definida por ele como a autoregulação social. Raquel Aguilar (2011, p. 355 - 356, tradução minha), por sua vez, especifica a emancipação social como “trajetória individual e coletiva 113 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 13 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 121 autonomamente decidida, realizada por grupos diversos e polifônicos de homens e mulheres que compartilham formas de vidas similares e que estão sujeitos a específicas relações de subordinação, exploração, opressão e dominação (...)”. Ela explica que, em determinado momento, esses grupos “(...) são capazes de dotar-se de fins comuns, de organizar-se por si mesmos para deliberar e decidir, empenhando-se em subtrair-se ou em confrontar a ordem dominante”. Para ela, emancipação não é um lugar onde se chega nem uma meta que se alcança, mas a trajetória mesma. Benjamin Arditi (2011, p. 304, tradução minha) completa que “a emancipação é uma tarefa de Sísifo, quer dizer, acaba não terminando nunca e, uma e outra vez, seremos chamados a tentar de novo”. Esta política emancipatória, para ele, “(...) é a prática que busca interromper a ordem estabelecida – e portanto, que aponta a redefinir o possível com o objetivo de instaurar uma ordem menos desigual e opressiva, seja a nível macro ou nas regiões locais de uma microfísica do poder” (ARDITI, 2011, p. 3, tradução minha). De acordo com Jorge Santiago da ONG Idemasc, este ideal de emancipação é compreendido pelas comunidades como a construção de um novo “viver melhor” a partir do local e do fortalecimento da memória histórica da resistência, da identidade emancipada e da dignidade. "(...) significa a transformação por sujeitos transformadores sem partidos e sem armas que buscam mudar a estrutura de poder"114. Castoriadis (2006, p. 16) partilha a ideia de autonomia como emancipação quando define autonomia como “(...) projeto de sociedade onde todos os cidadãos têm a mesma possibilidade efetiva de participar da legislação, do governo, da jurisdição e por fim da instituição da sociedade. Este estado de coisas pressupõe mudanças radicais nas instituições atuais”. Na continuação da mensagem sobre a autonomia, a Radio Rebelde deixa clara esta intenção. A autonomia é a faculdade, a capacidade e a possibilidade, quer dizer, a força, o pudor, a inteligência dos povos originários para tomar decisões sobre os diferentes níveis de sua forma de vida comunitária, política, econômica, social, cultural, religiosas e territoriais.115 De acordo com o filósofo, diferente desta ideia de autonomia, as sociedades atuais não vivem em regimes democráticos, mas em oligarquias liberais, baseadas na semi-adesão 114 Entrevista com Jorge Santiago, concedida no dia 18 de julho de 2013 em San Cristobal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução minha. 115 Radio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 13 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 122 indolente da população, nas representações eleitorais, que têm sua organização social privatizada. Para reverter a situação, é necessário, segundo Negroni (2011, p. 208), “(...) a reabsorção do político, como poder explícito na política, atividade lúcida e deliberante que tem como objetivo a instituição explicita da sociedade (...)”. Reconhece-se, desta maneira, no espaço público, como defende Mouffe (2004), os conflitos inevitáveis para, a partir desta consciência, construir as articulações e os acordos necessários na política, isto é, no convívio entre os diferentes. A democracia agonística torna-se, desta maneira, “o único regime político trágico que corre riscos, que afronta a possibilidade de autodestruição” (CASTORIADIS, 2005, p. 201). Para a autora, haverá tantos ideais de democracia e cidadania quantos discursos hegemônicos possíveis, que predominam sobre outros através de negociações, concessões e imposições, práticas observadas em campo nas constantes assembleias e reuniões dos coletivos que tomam decisões depois de longas discussões e debates. O jornalista e antropólogo Gaspar Morquecho, que acompanha a política da região desde a década de 1970, explica que essa é a base da organização das comunidades zapatistas: as discussões e decisões coletivas nas assembleias. "Desta maneira, a democracia é construída por baixo, desde o dia-a-dia de cada povo"116. A radicalização da democracia consiste assim em aceitar esta diversidade, pulverizar as hegemonias e promover articulações, compreendidas como relações contingentes e temporárias entre os diferentes que, através da política, deixam de ser inimigos para tornar-se adversários. Já a pesquisadora mexicana Ana Ceceña (2011, p. 392, tradução minha) defende a conquista de uma hegemonia das não-hegemonias, pois para autora “a hegemonia então não é uma construção coletiva, mas uma liderança a partir da qual pode ir-se conformando uma ampla corrente de interpretação do mundo e uma práxis correspondente, gerados e difundidos desde um centro mobilizador”. Ela considera necessária a construção de um magma social que protagonize a ruptura ou a bifurcação, uma hegemonia que dissolva as hegemonias. Esse magma, para o sociólogo mexicano John Holloway (2011), deve partir da ideia de mudar o mundo sem tomar o poder. Ele diferencia o “poder-sobre” do “poder-fazer”. Enquanto o primeiro representa os laços de subordinação e imposição, o segundo se 116 Entrevista com Gaspar Morquecho, concendida em 13 de julho de 2013, San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução minha. 123 realiza de maneira independente do poder estatal e dominante. Busca a prefiguração, quer dizer, a revolução deve acontecer no cotidiano, nas práticas do aqui e agora, no hoje e não somente num discurso do que será o mundo quando as classes dominadas tomassem o Estado. O ativista, comunicólogo e ouvinte da Radio Rebelde, Jaime Zlittler, explica que os coletivos zapatistas, como o Koman Ilel do qual ele participa, não ficam esperando ou procurando projetos com o governo. Segundo ele, procuram sustentar suas ações com cotização das despesas, com a venda de camisas, discos, vídeos, produtos da agricultura de comunidades autônomas. O que Manuel Castells (2013) observa na máxima dos movimentos altermundistas: “não proponha, faça!”. A autonomia rechaça as relações de poder-sobre e de dominação e busca a construção de uma nova prática de relações estabelecidas coletivamente quando cada um contribui com sua dedicação e potencialidades. É “(...) o contra e o mais além, o poder fazer ao antipoder, a negação com a afirmação” (REYS, 2011, p. 163, tradução minha). Para Holloway (2011), a autonomia é uma revolta contra o trabalho abstrato que é uma atividade desprovida de especificidade, contendo uma relação de dominação e voltado para a troca por outras mercadorias, isto é, comercializado. A luta anticapitalista dos trabalhadores abstratos é representada pelo movimento sindical e pelo partido revolucionário que “(...) está atrapalhada dentro de uma prisão organizacional e conceitual que efetivamente estrangula qualquer aspiração à mudança revolucionária” (HOLLOWAY, 2011, p. 328). Para o autor, o desgaste desta mobilização é resultante das próprias fissuras da lógica do poder-sobre a que este trabalho está submetido. Ele defende assim que a política emancipatória esteja na valorização do trabalho útil, representado pelos movimentos autonomistas, que produz valores de uso, existente em qualquer sociedade, pelo poder-fazer, independente do mercado. O trabalho útil estaria presente nas sociedades capitalistas como uma fissura de desgaste do tecido da dominação em, contra e mais além do trabalho abstrato. A luta autonômica, de acordo com Holloway, sempre existiu de forma subterrânea e subversiva, antiverticais e orientadas para a participação de todos, lutando por muitos mundos num só mundo, de maneira fragmentada e caótica e representada nas “(...) revoltas múltiplas contra a usurpação desta lógica de nossas vidas e nossas atividades (...) das forças de produção contra as relações de produção” (HOLLOWAY, 2011, p. 329). 124 Este poder-fazer pode prefigurar-se também em “escraches, corte de estradas, pontes e ruas, bloqueio de acessos a empresas e instituições estatais, ocupações de prédios, queima de comissárias e processos de deliberação pública (...) formas mais efetivas e contundentes (...)” (OUVIÑA, 2011). O que John Downing (2002, p. 51) chama de infrapolítica, a ação dos desprivilegiados que, se sentindo injustiçados, atuam disfarçadamente em sabotagens, boicotes e tramas. Uma forma de resistência marcada por elementos como: (...) a lisonja fingida, a estupidez dissimulada, o mexerico hostil, o boato malicioso, os encantamentos mágicos, as ameaças anônimas, as canções, as narrativas folclóricas, os gestos, as anedotas, a rezinga, os incêndios premeditados, a sabotagem, o atraso e a omissão em retornar ao trabalho após o intervalo do meio-dia. Desta maneira, o imaginário do ser autônomo, construído pelas matrizes racional- iluminista e simbólico-dramática, significa ter uma nova gramática normativa, caracterizada por um novo modo ser de estar no mundo que rompe com as lógicas predominantes do poder-sobre e do consumismo, buscando o autoconsumo e uma nova relação com o mercado. Esta estratégia, para Castells (2013, p. 203), significa a opção dos autônomos pelo “(...) valor de uso da vida sobre o valor comercial, e que estão engajados em autoprodução, cooperativismo, redes de trocas, moeda social, ética bancária e redes de solidariedade recíproca”. Sob esse aspecto, Jaime explica que não é possível sair do mercado, mas enfrenta-lo de outra maneira. Também há formas de enfrentar de outra maneira ou produzir de outra maneira. Também a gente que nos cerca não é uma questão de competição de mercado, mas de dar algo que seja como um reconhecimento de trabalho. Que tenha um sentido. (...) não é só o consumo de algo porque está bonito, mas tenha um conteúdo e uma mensagem e que a forma de produzir seja distinta. Vá dentro de toda uma coletividade. Geralmente tentamos fazer coisas com material reciclado e de forma artesanal também e pois tudo a ideia de um produto que compra porque apoia um trabalho.117 A partir do exemplo da produção e do consumo cotidiano não só se vivencia a autonomia, mas irradia-se o convite para a construção de novas relações sociais. Como defende o pesquisador argentino Hermán Ouviña, “o valor do gesto reside no exemplar que é extraordinário” (OUVIÑA, 2011, p. 301). 117 Entrevista com Jaime Zlittler, concedida no dia 15 de julho de 2013 em San Cristobal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução minha. 125 Este processo de irradiação para construção da organização autônoma depende de um processo de subjetivação no qual, além da construção de um projeto de vida e de um modo de ser no mundo, “(...) as instituições que, interiorizadas pelos indivíduos, facilitem (...) a participação efetiva em todo poder explícito existente na sociedade” (REYS, 2011, p. 161). Castells (2013) denomina esse processo de construção de indivíduos autônomos conectados com outros em redes descentralizadas. Castoriadis (2006) chama de adesões lúcidas e voluntárias, pois a participação imposta configura-se como contradição performativa e serve apenas para disfarçar o autoritarismo. Numa organização coletiva, até o vanguardismo das lideranças pode ser rechaçado, tendo, muitas vezes, os cargos ocupados rotativamente em mandatos revogáveis a qualquer momento e as representações realizadas por porta-vozes que se alternam. Estes cargos e representações estão constantemente submetidos à avaliação da assembleia, principal espaço de decisão e discussão política, que possibilita a participação de todos os membros da organização. A assembleia possui assim “todo poder na tomada de decisão em assuntos que implicassem a totalidade do coletivo” (CASTELLS, 2013, p. 103) que mesmo com decisões precárias, ineficientes ou com impasses (...) são importantes, pois são as curvas de aprendizagem da nova democracia (...) somos lentos por que vamos longe (...) Há raízes da nova vida se espalhando por toda parte, sem um plano central, mas se movendo e estabelecendo redes, mantendo o fluxo de energia, esperando a primavera (CASTELLS, 2013, p. 116). Além de articular e respeitar a adesão lúcida e voluntária dos indivíduos, as organizações autônomas buscam resgatar e defender os laços de pertencimento comunitários enraizados na memória social e ou no imaginário instintuinte. A relação com outras organizações deve ser uma preocupação não só para evitar o isolamento, mas “(...) instâncias de articulação e confluência em níveis locais, regionais, pluri- identitários e cambiantes” (OUVIÑA, 2011, p. 279). Jaime explica: “o vínculo entre nós e os demais não deve ser de dependência, mas uma solidariedade”118. Busca-se, desta maneira, de acordo com Barcenas (2011), a construção de uma sociedade pluriétnica onde o poder se disperse, o que Paco Vasquez assim esclarece: 118 Entrevista com Jaime Zlittler concedida no dia 15 de julho de 2013 em San Cristobal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução minha. 126 Não é somente uma questão linguística ou cultural para quererem preservar sua dança, sua música, sua forma de falar. É uma demanda que se integra com o desejo das comunidades de serem reconhecidas a nível nacional, como parte da nação e do México, como uma nação pluricultural e multiétnica, com uma representação equilibrada a nível midiático, legislativo e a nível de uso e desfruto dos recursos naturais e dos territórios que se pode ter uma convivência pacífica. Somos parte dessa nação e queremos ser parte íntegra e amplamente. Não queremos somente aparecer nas telas com nossas danças e tradições ou que se conheça nossa língua ou se escute nossa música, não. Queremos poder participar do debate nacional, participar das decisões que nos compete e compete aos demais. E tem uma convivência com os demais povos integralmente e não somente dos processos folclóricos.119 Esta construção de uma sociedade pluriétnica e multicultural onde caibam vários mundos, é possível para Barcenas (2011), desde que cada grupo conquiste sua autonomia a partir da autodefinição, autodelimitação e autodisposição. A primeira é a possibilidade de determinar por si mesmos quem são as pessoas que os constitui. A segunda característica é a definição, por si mesmos, dos limites de seu território. Já a última, é promover a organização social da maneira que mais lhes convenha, desenhando seu próprio desenvolvimento (BARCENAS, 2011). É o que revela a parte seguinte da mensagem sobre autonomia da Radio Rebelde. Os povos originários têm sua própria cultura, sua forma de pensar, de entender, de atuar, de falar, de viver e de conviver em suas vidas familiares e coletivas. Como todo povo originário tinha suas próprias crenças. Suas formas de comunicar-se com seus deuses e de relacionar-se com a natureza. E essa a vida dos povos originários que devem ser valorizada e respeitada.120 Assim, se constrói o descentralismo, definido como o controle popular da autogestão comunitária e não, do que chama Gustavo Estava (2011), de ações de descentralização, promovidas por um Estado manipulador e corrupto. Conforme ele, a descentralização estatal é uma forma de cooptar as comunidades, senão ao menos suas lideranças, para desarticular e desmobilizar. Já o desecentralismo implica reconhecer jurídica e socialmente o direito de cada comunidade de autogerir-se e autoafirmar-se como segue mensagem sobre autonomia da Radio Rebelde: Sem autonomia nenhum povo pode existir. Sem suas terras seria um povo totalmente oprimido, escravos e a qualquer momento podiam ser 119 Entrevista concedida em 10 de janeiro de 2011 em San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México. Tradução minha. 120 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 13 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 127 exterminados. Autonomia é um direito de todos os povos originários de qualquer parte do mundo de autogovernar-se, a ter sua própria identidade como povos, decidir sobre seus territórios, sobre seus recursos naturais e sobre suas vidas concretas... Como povos devem ter sua autodeterminação, ou seja, os povos originários decidir livremente sobre suas vidas, suas condições econômicas, políticas.121 Reys (2011, p. 162) resume assim a ideia de autonomia: “(...) significa a autodetermina- ção social em e por meio das formas organizacionais de resistência que antecipam em seu método de organização o propósito da revolução: a emancipação humana”. O autor chama também atenção para os desafios da autonomia. O primeiro é o rechaço ao van- guardismo e às lideranças, que pode, por um lado, levar à inercia do movimento caso falte quem tome iniciativas e, por outro, gerar desconfianças quando alguém se põe à frente de responsabilidades e tarefas. Ouviña (2011) considera que, por isso, os conflitos internos precisam ser explicitados e terem transparência para construir as articulações possíveis. Já Reys sugere a criação de um núcleo avançado que tenha o papel de animar a participação coletiva e colaborar com a organização comunitária. Assim será possível vencer outro desafio: a necessidade de eficiência da gestão. Por mais que os objetivos sejam utópicos ou de longo prazo, Ouviña defende que é imprescindível atender necessidades cotidianas e concretas e criar táticas para atuar nas brechas e contradições sociais. Para isso, é preciso superar a terceira dificuldade: a distribuição de recursos nos coletivos, principalmente os cognitivos, partilhando os conhecimentos num contínuo processo de formação horizontalizada. Já as poucas ligações destes grupos que podem isola-los é, para Reys, o principal desafio dos coletivos e comunidades autônomas. Ele defende que o fortalecimento dos laços de pertencimento seja realizado concomitantemente às alianças articuladas e estáveis com outros grupos. Ouviña chama esse processo de irradiação, compreendida como a partilha das luzes das vivências, experiências e conhecimentos, que se opõe à ideia, que ela considera vertical e parternalista, de conscientização. O historiador argentino Ezequiel Adamovky (2011) reflete também sobre outras duas limitações da autonomia. Primeiro, necessita de uma energia social para concretizar-se num mundo em que a sobrecarga de informações e atividades raramente apreendidas e interpretadas, a cultura do individualismo e os mecanismos políticos assimétricos 121 Rádio Rebelde, 107,1 Mhz, gravado em 13 de julho de 2013, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 128 enfraquecem as mobilizações sociais. Segundo, o poder-sobre não é só colonizador, mas consegue ser um eficiente organizador social, principalmente numa sociedade com amplas conexões, tornando impossível sua existência sem o mercado e o Estado. “Os vínculos principais que produzem a vida social hoje estão estruturados através do mercado e do Estado. (...) não há sociedade fora deles. (...) Uma força puramente destrutiva da ordem social (...) não contará nunca com o apoio de grupos importantes da sociedade” (ADAMOVSKY, 2011, p. 222). Para reverter a situação, o autor sugere a criação de uma interfase de transição, através de uma ou várias instituições que reúnam as organizações autônomas que seja formada por porta-vozes dos coletivos participantes, promova debates amplos, decida a partir de consensos ou maioria qualificada, tenha facilitadores rotativos, distribua as contribuições econômicas, cognitivas e comunicativas entre todos os membros, participe de eleições legislativas para criar modos de inserção das questões do movimento junto ao poder institucional, realize ações diretas e crie uma estratégia insurrecional. A proposta aproxima-se das ideias de autonomia articulada da Sexta Declaração da Selva Lacondona, na qual a comunicação, como as rádios zapatistas, cumpre o fundamental papel de irradiação, partilha e articulação das ideias autonômicas. O projeto autonômico zapatista, nesta perspectiva, propõe-se distanciar da ideia de isolamento. Autonomia significa, desta maneira, independência que possibilite equidade para as relações. Como antecipei na Introdução e estenderei nas Considerações Finais, minhas observações de campo apontam para limitadas articulações da autonomia zapatista, percebidas principalmente em duas situações: primeira, no fechamento dos Caracóis e comunidades não só para pesquisadores e intelectuais, mas até mesmo outros movimentos122. Segunda, pela recusa de qualquer crítica ao movimento em seus meios de comunicação. Não só nunca vi nenhum argumento contraditório ao zapatismo na Radio Rebelde e programas zapatistas da Frecuencia Libre, mas também no próprio site do movimento Enlace Zapatista há uma clara advertência no formulário de comentários: "tod@s aqueles que não estão de acordo com La Sexta ou a Comissão Sexta do EZLN, têm a liberdade de escrever seus comentários contra em qualquer outro lugar do 122 Acompanhei como tradutor a visita do coordenador pedagógico do Movimento Sem Terra (MST) no Ceará ao Caracol Rebeldia e Resistencia por la Humanidad em Oventinc, no dia 21 de outubro de 2015. Na oportunidade, ele pode visitar algumas instalações do Caracol inclusive a sede da Junta de Bueno Gobierno, porém não pode dialogar com seus membros que estavam presentes e disponíveis, porque não havia tratativas anteriores sobre o motivo e o assunto da conversa. 129 ciberespaço"123. Os aderentes entrevistados, como Gaspar Morquecho, justificam as medidas por questões de segurança e para o fortalecimento interno, necessários para organização autônoma e as relações paritárias na região. A autonomia não só é uma temática constantemente presente na Radio Rebelde, no imaginário, nos discursos e nas práticas zapatistas, mas é também um articulador entre as matrizes simbólico-dramática e racional-iluminista tanto da emissora como das vivências destas comunidades. Essa articulação se dá, por exemplo, entre as ideias de participação política em processos reflexivos e decisórios, e a valorização dos mitos tradicionais da Mãe Terra e das crenças religiosas e folclóricas. Possibilita também configurar uma situação diferente da pesquisada por Sunkel (1987) no Chile no qual os impressos ditos revolucionários - de sindicatos, partidos e grupos marxistas - possuíam predominantemente o aspecto racional-iluminista. dificultando criar laços e sentimento de pertencimento com leitores; e os impressos comerciais populares – o jornalismo marrom – apelavam constantemente para os elementos simbólico-dramáticos, conquistando grandes públicos e gerando identificação com os leitores. A Radio Rebelde, no material colhido, revela conseguir uma articulação entre ambas as matrizes, não deixando de resgatar e valorizar as raízes tradicionais dos indígenas, ao mesmo tempo que convida para a reflexão e para a crítica social, algumas vezes, de maneira impositiva e dogmática. Como define o assessor da Via Campesina e ouvinte da emissora, Peter Rosset, o próprio lema da Radio Rebelde, “a voz da mãe terra”, resgata os elementos dos povos originários e do meio ambiente que não podem ser menosprezados na luta pela transformação social. Já ausência desta articulação entre as duas matrizes na Frecuencia Libre, aproxima a programação da mesma dos impressos revolucionários investigados por Sunkel. No entanto, a perspectiva da audiência sobre esta relação só poderá ser percebida nas socialidades, apresentadas ao final desta tese. Desta maneira, o discurso público da Frecuencia Libre é o instrumento para a cidadania, compreendida aqui como a lúdica participação, de origem racional-iluminista, na cultura e nas decisões sobre a vida comunitária e política da cidade, do Estado, do país e do mundo. Já a Radio Rebelde cria mais explicitamente, mesmo que não possua canais de 123 Disponível em: acesso em 10 de agosto de 2015. 130 participação, o discurso público de identidade comunitária na programação, através principalmente dos endereçamentos de suas canções, poesias e mensagens produzidos por comunicadores não especializados em comunicação. Também reforça o imaginário e as práticas de autonomia que buscam irradiar as ideias enraizadas tanto nas matrizes culturais simbólica-dramáticas dos povos originários como nas racional-iluministas das discussões dos anarquistas, marxistas e autonomistas (como Holloway, Estava, Castoriadis) sobre o tema. Ambas as emissoras sustentam esses discursos através das lógicas de resistência, da falta de autorização legal, da ausência de finalidade econômica, de trabalho voluntário, de solidariedade, cooperação e de reconhecimento do papel do rádio como meio que se aproxima das culturas populares e do cotidiano. A discussão dos conceitos de matrizes culturais, articulados aos endereçamentos e às lógicas de produção, neste capítulo, permitiram perceber não só que as emissoras constroem espaços de resistências, mas contribuem para irradiar e prefigurar a autonomia como outro mundo possível. Para avançar no mapa noturno dos usos socias das rádios pesquisadas, será analisada, no capítulo seguinte, como a autodisposição, a autogestão e a autodefinição se refletem nos formatos da programação das emissoras. 131 4 FORMATOS E ORALIDADES NAS RÁDIOS ZAPATISTAS Após refletir sobre as lógicas de resistências, as matrizes culturais e o conceito de autonomia, que caracterizam as institucionalidades das rádios zapatistas, esta pesquisa investiga a apropriação do rádio, no contexto zapatista, para responder às seguintes questões que se desdobram de nosso problema central: como a tecnologia radiofônica possibilita a comunicação zapatista? Qual a apropriação que as comunidades fazem das emissoras zapatistas? Qual a relação dos formatos das estações pesquisadas com os formatos industriais predominantes nas emissoras comercias? Quais as vantagens e limitações do uso desta tecnologia de comunicação para partilhar a mensagem zapatista? Seguir estas questões serve para traçar as tecnicidades do mapa noturno dos usos sociais da Frecuencia Libre e Radio Rebelde e avançar na reflexão de como o rádio contribui para construção da autonomia zapatista. As tecnicidades, de acordo com Martín-Barbero (1998), articulam as lógicas de mercado e os formatos industriais a partir do conceito de sensorium de Walter Benjamin, compreendido como a conexão entre “as inovações (tecnológicas) com os modos de percepção e experiência social” (JACKS, 2008, p. 38). Benjamin (1994, p. 5) explica que “o modo em que a percepção sensorial do homem organiza – o medium em que ocorre – é condicionado não só naturalmente, como também historicamente”. Assim, há qualidades sensoriais de ordem fisiológicas (visão, audição, tato...) que são apropriadas, potencializadas ou atenuadas a partir dos usos, consolidados por processos culturais, econômicos e políticos. Para o filósofo alemão, “em grandes épocas históricas altera-se, com a forma de existência coletiva da humanidade, o modo da sua percepção sensorial” (BENJANMIN, 1994, p. 8). Na perspectiva desta investigação, que parte de um princípio da relação entre comunicação e culturas, conforme esclarecido no primeiro capítulo, considero que estas mudanças acontecem não só em largos períodos históricos, mas em cada grupo social que possui suas próprias relações com o contexto mundial e com o uso das tecnologias. Veneza Ronsini (2012) define as tecnicidades como as práticas comunicativas mediadas pelas diferentes linguagens, técnicas de produção e práticas dos receptores. Jacks (2008, p. 38) explica que, “para Martín-Barbero, a técnica extrapola a ordem instrumental e sedimenta os saberes e a constituição das práticas”. O pesquisador mexicano Guillermo 132 Orozco (1996, p. 93) defende, neste sentido, que cada meio tem sua tecnicidade específica, que “media a percepção do sujeito ao organizar a negociação de significados com os conteúdos”. Para ele, a tecnicidade se manifesta na potencialidade do veículo que se entende “(...) em sua dupla dimensão de instrumento e racionalidade substantiva de conformação e transformação formal dos referentes que veicula cada meio” (OROZCO, 2000, p. 115). A pesquisadora brasileira Mônica Pieniz (2013) investigou, nesta perspectiva, o trânsito das audiências no qual os receptores se tornaram emissores com suas postagens no Twitter sobre as novelas “Passione”, “Insensato Coração” e “Fina Estampa”, veiculadas na Rede Globo de Televisão. Para Pieniz (2013, p. 43), as tecnicidades possibilitam compreender a inovação dos formatos industriais e das formas de receber as mensagens midiáticas. “Existem possibilidades de novos usos sociais dos meios, que propiciam uma lenta formação de novas esferas do público, com novas formas de imaginação e criatividade social”. Para ela, a mediação tecnológica deve deixar de ser instrumental para se converter em estrutural. “A tecnologia remete hoje não somente aos aparatos, mas aos novos modos de percepção (...). A própria pressão tecnológica está suscitando a necessidade de encontrar e desenvolver outras racionalidades e ritmos de vida e de relacionamentos” (PIENIZ, 2013, p. 42). Para pensar este conceito nas emissoras zapatistas de cunho não comercial é necessário, assim como foi realizado com o conceito de lógicas de mercado - ampliado para lógicas de produção -, fazer um deslocamento das tecnicidades massivas para as tecnicidades dos meios comunitários. Ao invés de discutir identidades fluídas, ideologia dominante, cultura universal e vivência fragmentada e heterogênea, como propõe Veneza Ronsini (2012), serão pensadas as apropriações das tecnologias pelos excluídos, a oralidade como modo perceptivo e a construção da autonomia, através da tecnologia radiofônica. Assim, parto da definição de tecnologia como um processo de apropriação social e individual, para, em seguida, discutir os formatos das rádios Rebelde e Frecuencia Libre e, por fim, os modos de percepção do rádio baseados na oralidade, alcance imediato e imagem acústica para o uso do meio na promoção da autonomia. 4.1Apropriações tecnológicas 133 Tecnologia, segundo Peter Burke e Asa Briggs (2004), é um produto do desenvolvimento da ciência utilitarista e industrial desde o século XIX. As invenções e descobertas do conhecimento aplicadas à indústria passam a servir não somente para o acúmulo de saber e a melhoria da qualidade de vida dos privilegiados usuários, mas também para a lucratividade empresarial. A história do rádio demonstra como é um percurso de apropriações, reconfigurações e redesenhos das tecnologias por diversos atores sociais que disputam não só significados, mas usos124. O processo de desenvolvimento tecnológico possui, como seu motor, a apropriação, compreendida, a partir de Certeau (1994), como tomar para si algo de outrem. De acordo com a pesquisadora mexicana Delia Druetta (2013, p. 12), os educadores Vygotski e Leóntiev definem esse processo não como simplesmente transferir algo externo a um plano interno preexistente, mas “(...) processos mediante os quais o plano interior se transforma”. Diferente da adaptação biológica, a apropriação é uma dinâmica que reflete as condições históricas dos sujeitos e seu grupo social e não se limita à posse, uso e redesenho de objetos ou recursos, mas também na ressignificação e reconfiguração de seus sentidos socialmente partilhados. Assim, este processo modifica tanto o sujeito que exerce a ação de tornar-se dono, como as práticas culturais do entorno. Estes educadores discutem a apropriação como parte de sua perspectiva da educação permanente e transversal de transformar a cultura material e intelectual da sociedade. Citando Proulx, Délia Druetta (2013, p. 21), reconhece como condições da apropriação de uma tecnologia “(...) o domínio técnico e cognitivo do artefato; a integração 124 Mesmo tendo experiências anteriores como as do Padre Landel de Moura no Brasil, o meio se consolida, segundo Briggs e Buke (2004), no início do século XX, pelas pesquisas das ondas eletromagnéticas impulsionadas principalmente através do empreendedorismo da Marinha Real Britânica, lideradas pelo italiano Guigliemo Marconi, com a finalidade de dar mobilidade ao principal meio de comunicação da época, o telégrafo. Mesmo depois da primeira transmissão, em 1901, a radiotelegrafia de Marconi não obteve o êxito esperado, pois na impossibilidade de codificar os sinais, a comunicação perdia seu precioso sigilo, algo danoso para as mensagens comerciais e mais ainda para as militares. Em meio a esse fracasso, a primeira apropriação da radiotelegrafia ocorre, por iniciativas de inventores e cientistas, chamados de radioamadores, que associaram as transmissões por ondas eletromagnéticas à telefonia. Transmitindo as vozes pela invisível atmosfera, a radiofonia possibilita a troca mensagens entre seus usuários realizando uma nova apropriação, a expansão do som para inúmeros ouvintes, através das estações radiofônicas, como KDKA de Pitsburg, Estados Unidos, em 1920. Nas mãos de sociedades e clubes, a radiodifusão das primeiras décadas do século XX, objetiva principalmente a propagação da arte erudita e do conhecimento científico. A potencialidade do meio o torna também comercial, pois existindo grandes públicos há a possibilidade de lucro com publicidade. A luta pela legalização já remonta a este período quando alguns radiodifusores questionam e resistem à obrigatoriedade de autorização do Governo para suas veiculações, sendo assim os precursores de mais uma apropriação, as rádios livres. 134 significativa do objeto técnico na prática cotidiana do usuário; o uso repetitivo desta tecnologia que possibilite a criação (ações que geram novidade na prática social)”. Num nível coletivo, a apropriação social exige que “os usuários estejam adequadamente representados no estabelecimento de políticas públicas e, ao mesmo tempo, sejam tidos em conta nos processos de inovação”. Há assim, ao menos, três níveis de apropriação: o geral, que envolve as atividades e motivações que as conduzem, por exemplo, na produção dos meios; o intermediário, presente nas ações e metas associadas aos meios, como na criação dos conteúdos dos meios e o baixo, configurado nas operações realizadas pelos sujeitos que lhe servem para alcançar determinados objetivos, perceptível na recepção dos meios. Esses processos das tecnicidades das rádios zapatistas se observam tanto na elaboração dos formatos dos conteúdos, como nos modos de percepção dos receptores e no papel social das emissoras, como dos aparatos e lugares de escuta. 4.2 Formatos da Radio Rebelde Por formatos, Martín-Barbero (2002, p. 16) compreende padrões que as emissoras criam para organizar seu conteúdo. “Os formatos, em troca, funcionam como operadores de uma combinação sem conteúdo, estratégia puramente sintática” (MARTIN-BARBERO, 2002, p. 16). Na Radio Rebelde, estão agrupados em mensagens, comunicados, músicas (de marimba, tradicionais, revolucionárias chiapanecas, revolucionárias nacionais e revolucionárias internacionais), poesias e contos, conforme apresentados no capítulo anterior. Estes formatos são expressões não só da autoclassificação que demonstram as matrizes culturais dramática-simbólica das comunidades zapatistas, como também revelam o processo de apropriar-se do modo de fazer e organizar o conteúdo do rádio. O padrão de organização do conteúdo desta emissora diverge dos formatos predominantes nas rádios comerciais, reunidos por Mário Kaplún (2006) em musicais, noticiários, conversa, diálogo, entrevista, radiojornal, radio-revista, mesa redonda, rádio- reportagem, radiodrama e radionovela e, por Arthur Ferrareto (2001) e McLeish (2001), em informativos (nota, reportagem, radiojornal, documentário, painel, debate, radio- revista) e de entretenimento (musical, humor, drama e auditório). 135 Diferente dos meios massivos comerciais que, para Martín-Barbero (1998), espelham preponderantemente interesses econômicos e condições do mercado, a apropriação dos formatos na Radio Rebelde reflete os valores, principalmente, do pertencimento comunitário e da relação com a terra. Não há fragmentação e a heterogeneidade da emissora em programas, que possuem uma identidade e um horário próprio. Os formatos na Radio Rebelde configuram uma perspectiva de coesão, assim como a organização das comunidades. Há diferentes conteúdos, mas que não estão vinculados a fragmentos heterogêneos de horários e podem estar em qualquer hora de transmissão podendo ser executados a qualquer momento, ou seja, são rotativos. Não há programa igual ao outro, dia após dia, como no padrão industrial, nem semana após semana como na Frecuencia Libre. São como membros de comunidades autônomas que podem participar e se manifestar em qualquer assembleia. Estes formatos (contos, poesias, músicas, mensagens e comunicados) existem como formas culturais independentes da tecnologia radiofônica. A Radio Rebelde, nesta perspectiva, reflete a vivência dos povos originários, buscando adequar seu padrão aos saberes que circulam e não o contrário. O caráter naturalizado dos formatos possibilita criar uma maior familiaridade dos ouvintes com a emissora e, por conseguinte, pode reforçar os laços dos receptores com a memória social e com a vida comunitária. Por fim, a ruptura da Radio Rebelde com os formatos industriais demonstra não só que estas formas de organização do conteúdo do rádio não são universais, mas que o processo de uso pelas comunidades zapatistas, em suas lógicas de resistência, isto é, excluídos da predominante lógica de mercado, revela a característica autônoma de autodefinição na organização do conteúdo da emissora. Conforme define Barcenas (2001), este traço possibilita a determinação das identidades por si mesmos. Na programação da Rádio Rebelde, os nomes e os agrupamentos de seus conteúdos não são deliberados por um padrão exógeno técnico-comercial, mas definidos a partir das próprias condições culturais das comunidades que se apropriam do modo de fazer rádio. Os formatos autodefinidos da emissora possuem a oralidade como modo de percepção predominante. Walter Ong (1993) define a oralidade como a comunicação que tem como base a fala, que, por sua vez, significa, segundo Fernand Saussure (1996), a dupla articulação dos sons que possibilita criar palavras, frases e discursos, dando condições 136 de uma complexa comunicação. De acordo com Ong (1993, p. 8), “a fala é inseparável de nossa consciência”. Os falantes pensa assim a partir das possibilidades de nosso idioma, de nosso repertório de palavras e da relação sintática entre as mesmas. Os formatos da Radio Rebelde são organizados preponderantemente na perspectiva da oralidade primária, conceituada pelo autor, como a fala experimentada sem a vivência escrita, dado que são produzidos em comunidades que possuem o tsotsil e o tsetal como línguas maternas, que raramente utilizam a codificação escrita. Esta cultura oral se caracteriza, conforme Martín-Barbero (2004, p. 73), pelos relatos populares que promovem a “comunhão entre a memória e experiência e modo de conta- la”, articulando a cotidianidade com os arquétipos das matrizes culturais. A expressão oral constitui-se um processo criativo que produz e acrescenta novos sentidos, envolvendo emocionalmente os receptores. Na América Latina, a oralidade torna-se, para o autor, a principal fonte de conhecimento e circulação de sentido, desde os povos originários mais remotos até as matrizes populares da cultura massiva, como no radioteatro, dramas originados pelos payadores - poetas populares, denunciando as injustiças e o sofrimento vivido pelos campesinos. A tecnologia radiofônica passa a ocupar assim o espaço da narração de estórias coletivas de povos. Desta maneira, torna- se fundamental estabelecer uma relação entre a rádio-audiência e a ‘leitura auditiva’ que durante tanto tempo constituiu a leitura popular. Na América Latina, essa experiência moderna tardia se acha atravessada por um especial e profundo mal-estar. A desmistificação das tradições e dos costumes, desde quando, faz bem pouco tempo, nossas sociedades elaboravam seus “contextos de confiança”, leva ao desmoronamento da ética e à desarrumação do hábitat cultural (MARTÍN-BARBERO; REY, 2004, p. 31). Segundo o autor, o “mal-estar cultural” se expressa nos usos diferenciados das tecnologias porque não há, em nosso continente, a vivência e o hábito da escrita, da qual se origina e se produz estes meios eletrônicos. Se por um lado, esta situação nos dificulta o proveito de todas as potencialidades destas tecnologias, por outro, abre possibilidades para a inventividade criativa dos redesenhos e reconfigurações, presentes no que Michel De Certeau (1994) chama de bricolagens, gambiarras e táticas dos desfavorecidos. Assim, os formatos da Radio Rebelde não só demonstram a falta de domínio das técnicas industriais de produção radiofônica, mas a apropriação pela oralidade, sem o predomínio da escrita, desta tecnologia, organizando seus conteúdos 137 em formas presentes nas mais remotas culturas orais, como as poesias, contos e canções. Estas possibilitam a circulação, nestes grupos do conhecimento, da identidade e da arte, através de táticas de memorização como as rimas, as fábulas, a melodia. Martín-Barbero (1998, p. 327), ainda completa que “a oralidade não é mera ressaca do analfabetismo”, mas “ponte entre a racionalidade expressivo-simbólica e a informativo-instrumental”, captando a densidade de condições de existência do popular. O rádio serve assim para, além de resgatar a leitura coletiva, traduzir informações técnicas e racionalizadas em sentidos emocionais e compreensíveis para as culturas populares de tradição oral. Mesmo podendo ter sua codificação escrita, os contos e as poesias são os dois formatos que mais refletem a presença da oralidade primária na programação da Radio Rebelde que realizam o resgate da leitura coletiva. Os primeiros, segundo Walter Ong (1993, p. 8), são formas artísticas de origem oral que se caracteriza pelo relato de estórias, mitos e lendas, antigas e recentes redesenhadas ou recém-inventadas. De acordo com o autor, há um pensamento e um universo de comunicação próprios da oralidade, baseados no som articulado, nas imagens mentais e na gesticulação. Já para o pesquisador mexicano Ezequiel Maldonado (2001, p. 17), que investigou a relação entre o conhecimento zapatista e as culturas orais, a oralidade manifesta a concepção de vida individual e social, mantendo a espontaneidade, a memória coletiva e o saber tradicional da comunidade. “Pode ser usada para transmitir sua história tanto lendária ou mítica, como recente, para ensinar normas de comportamento de grupo e suas formas de organização social e religiosa, para compreender a relação do homem com a natureza (...)”. O autor defende o caráter coletivo dos contos que são relatos feitos para serem expostos em encontros presenciais de várias pessoas, podendo ser modificados de acordo com ou pelo público. Segundo ele, os contos zapatistas, como do “Velho Antônio”, que foi publicado em vários livros e em dezenas de idiomas, possivelmente são relatos primeiramente expostos a coletivos e, depois de “testados”, ganharam sua versão escrita. É possível que os contos veiculados na Radio Rebelde também possuam a mesma dinâmica. A oralidade dos contos, além de partilhar o conhecimento socialmente, interpelam à criação uma imagem acústica que, conforme o pesquisador uruguaio Mario Kaplún (2006, p. 70), é estimulada pela “(...) capacidade de sugerir, de alimentar a imaginação do ouvinte com uma variada proposta de imagens auditivas”. 138 Já as poesias, segundo Maldonado (2001, p. 18), também possuem origem oral, que utilizam recursos como rima e métrica para facilitar a memorização e fazer circular conhecimentos e narrativas nas comunidades orais. “Esta oralidade foi produzida com o efeito de repetição de aspectos chaves que impõem determinado ritmo e musicalidade”. Os recursos da poesia, além de fortalecerem a memória social, também possibilitam um maior envolvimento do ouvinte através da cadência do ritmo de sua interpretação. As canções também criam semelhante modo perceptivo dado que, além de trazerem nas letras as articulações da fala, podem ter a rima e métrica da poesia, ajudando na memorização pela cadência. A melodia da musicalidade traz ainda um envolvimento emocional, muitas vezes, inconsciente, podendo ajudar a relaxar, animar, alegrar, entristecer... e provocar uma catarse, isto é, uma fuga da realidade. A oralidade da Radio Rebelde interpela principalmente para o papel do rádio como um meio de expressividade e fortalecimento do conhecimento expressivo-simbólico, originado na matriz simbólico-dramática. Já as canções trazem ingredientes e elementos renovados para alimentar o imaginário radical. Reconstituem as cenas de enunciação e fazem com que os sujeitos pensem sobre sua própria linguagem e modo de ver o mundo, constituindo-se uma reflexividade fundamental à emancipação. Já a oralidade secundária, reconstituída a partir da escrita, apresenta-se predominantemente na programação da Radio Rebelde nos comunicados e mensagens. São explícitas leituras de textos escritos, inclusive, algumas vezes, com discrepâncias de interpretação. Os primeiros são produzidos para publicação no site Enlace Zapatista125, que, por isso, perdem a potencialidade de criação de imagem acústica e a cadência da oralidade, uma vez que o texto para a internet não possui essa preocupação fundamental126. Já as mensagens são elaboradas para a Radio Rebelde, notadamente, como textos escritos devido à complexa sintaxe das frases formadas, por vezes, por mais de uma oração, e por algumas dificuldades de interpretação dos locutores. Há, no entanto, alguns endereçamentos para criar imagens acústicas como dramatizações e interpelações aos ouvintes (questionamentos e interjeições). Tanto mensagens como comunicados podem apresentar um conhecimento racional mais aprofundado da 125 Disponível em , acesso em 1 de setembro de 2015. 126 O texto da Internet, conforme Pierre Lèvy (1994), volta-se principalmente para promover enlaces com outras páginas, formando assim um hipertexto e possibilitando uma leitura de pilhagem, quando o leitor acessa simultaneamente vários conteúdos fazendo seu próprio caminho de leitura. 139 realidade, a partir de argumentações baseadas em silogismos que fazem digressões históricas ou que relacionam os diversos elementos de uma realidade em configurações sincrônicas. 4.3 Formatos da Frecuencia Libre Na Frecuencia Libre, predomina este tipo de conhecimento racional-iluminista, a partir da oralidade secundária presente, principalmente através da preparação de roteiros técnicos que preveem tudo o que vai ser falado e que vai ser executado e da leitura de notícias e comunicados disponibilizados em outros meios, principalmente, impressos e internet. Os programas “En el Camino nos Encontramos” e “La Sexta” possuem maior presença deste planejamento. O texto escrito está, no primeiro, não só nos trechos da literatura americana, que exploram as temáticas, mas desde as saudações aos comentários. Somente no dia 4 de agosto de 2015 o registro desta pesquisa pode perceber este programa sem o roteiro técnico completo, dado ter sido marcado pela urgência do assassinato de cinco jovens, na Cidade do México, no dia 31 anterior, por supostas motivações políticas, entre eles uma chiapaneca participante do Movimento YoSoy132, Nadia Vera, e o fotógrafo Rubén Espinosa da revista Proceso, especializado em cobertura sobre a violência contra jornalistas127. A locutora leu mensagens de movimentos sociais e de colegas dos jovens sobre o crime e demonstrou de maneira emocionada sua indignação. O programa “La Sexta”, por sua vez, possui roteiro escrito, mas há espaços para longos comentários improvisados e para entrevistas sem roteiro, como no dia 25 de julho de 2015, com os ocupantes da Praça da Catedral de San Cristóbal de Las Casas, das comunidades de Florecilla e de Llalos128, desabrigados de sua terra por ameaças político-religiosas. De acordo com o apresentador Damaso Ramirez, nem sempre é possível fazer o roteiro completo, muitas vezes, como no dia 8 de agosto de 2015, sendo preparadas apenas algumas anotações da sequência dos conteúdos, gravações e textos de 127 Mais informações em: , acesso em 5 de agosto de 2015. 128 Mais informações em , acesso em 12 de agosto de 2015. 140 notícias e mensagens que ele recebe no e-mail do programa e pesquisa na internet. Esta programação baseada na oralidade secundária, com preponderância ao texto escrito, demonstra um acúmulo de saber intelectual que possibilita, conforme Martín-Barbero (2004), a tradução do conhecimento informativo-instrumental para o expressivo- simbólico das culturas populares. O locutor atua didaticamente apresentando as notícias e mensagens, explicando-as e tornando-as inteligíveis, inclusive para quem não tem o costume da leitura. Os programas “Objetos Prohibidos” e “Hablemos Chiapas” intercalam a escrita com a oralidade primária mais constantemente. Mesmo tendo a maior parte do programa através dos comentários, sempre leem longos textos como comunicados de comunidades e coletivos, artigos e notícias de revistas e jornais. Já o “Sinestesia”, o “Hip Hop” e o “Debate Cultural” possuem uma acentuada ausência da escritura. O primeiro traz duas ou três notas informativas curtas que são lidas. O restante do conteúdo é apresentado através de entrevistas, comentários e conversa entre os locutores e convidados. O programa “Hip Hop” apresenta, predominantemente, canções que se aproximam bastante das poesias. A melodia, por vezes composta pela simples repetição de 5 a 8 acordes, deste estilo musical, possui somente o papel de fundo musical das letras que, através das rimas e das métricas, transmitem uma mensagem de crítica e protesto social. A participação dos locutores e DJ neste programa também carece de textos escritos, sendo realizadas através de rápidos comentários improvisados e bate- papo, acentuadamente com gírias, sobre as canções e os grupos musicais tocados. O “Debate Cultural” é o programa que mais se aproxima da conversa oral, realizada entre o locutor Leonardo e um convidado. Inclusive, as notícias apresentadas neste programa dispensam o texto escrito, sendo a reprodução da memória deles sobre os acontecimentos. Esta oralidade traduz de forma mais espontânea o saber técnico- industrial, buscando popularizá-lo. A organização dos conteúdos da Frecuencia Libre em programas a aproxima das emissoras comerciais. No entanto, diferente destas que buscam a divisão dos horários para criar expectativa e fidelização da audiência, este formato reflete, na Frecuencia Libre, a configuração do coletivo e da história da rádio, baseado na conquista de espaços para os diferentes atores sociais. Já na plástica, percebe-se a ruptura da 141 emissora com o formato comercial. Ao invés da divisão dos programas entre blocos e intervalos, estes mantêm um padrão predominante diferenciado: colocar as músicas como um intervalo entre as falas dos apresentadores, entrevistados e convidados. Há assim, mesmo com a coincidência na organização dos programas, um distanciamento do padrão do formato comercial de rádio, criado pelas lógicas de resistências da emissora que, por um lado, refletem a precariedade das condições de produção (falta de recursos econômicos e trabalho somente voluntariado) e, por outro, uma contraposição à lógica de mercado das emissoras comerciais. Esta apropriação demonstra um forte traço da autodisposição autônoma nos formatos da Frecuencia Libre. Como define Barcenas (2011), a característica significa a deliberação do grupo de como organizar-se. Esta opção da Frecuencia Libre de conscientemente romper com o padrão técnico-comercial, mesmo sem seus formatos terem relação da identidade comunitária dos povos originários, como no caso da Radio Rebelde, representa, por isso, marcas da autonomia em sua programação. 4.4 Modos de percepção das rádios zapatistas Além da oralidade, autodefinição e autodisposição nos formatos, a Frecuencia Libre e a Rádio Rebelde podem colaborar com a construção da autonomia devido principalmente a três características dos modos de percepção da tecnologia radiofônica. O primeiro traço é o alcance da transmissão das ondas hertzianas que possibilita a escuta em lugares localizados a quilômetros de distância de maneira instantânea, isto é, no momento que a mensagem é emitida. O rádio “(...) pode chegar a milhares de pessoas de uma só vez e penetra na intimidade de seus lugares (...)” (KAPLÚN, 2006, p. 55). No caso da Frecuencia Libre, este alcance é limitado, segundo Gabriel Garcia, pela baixa altura de sua antena, aos bairros na proximidade do Centro Histórico de San Cristóbal de Las Casas, num total de 5 km de diâmetro de propagação do sinal. Mesmo assim tem a possibilidade de ser sintonizada por mais de 50 mil ouvintes, por causa da densidade populacional da cidade. 142 Já a Radio Rebelde, mesmo com um potente transmissor, que estimo de 2.000 watts129, não conseguia ultrapassar, em julho de 2015, os municípios de Bochil, Puerto Cate, Soyaló, San Andrés Larráinzar, Jitotol, El Bosque e Cacate, chegando a, no máximo, 30 mil ouvintes, devido à interferência de uma rádio evangélica no canal da mesma, conforme expliquei anteriormente. Este alcance, através de uma recepção instantânea, dá condições ainda de transmitir ao vivo informações urgentes, como no dia 30 de julho, em que Noé fez uma gravação durante uma entrevista coletiva, convidando a população de San Cristóbal de Las Casas para participar da marcha dos pais de Ayotzinapa130 em protesto contra o desaparecimento de seus 43 filhos, estudantes de uma escola normalista em 26 de setembro de 2014. O convite foi transmitido no mesmo dia pela Frecuencia Libre, única emissora local a divulgar e cobrir o evento. A instantaneidade possibilita a transmissão do imprevisível, do surpreendente e das notícias de última hora, acentuando a sensação da vivência do presente na escuta da emissora. Junta-se a esse alcance a possibilidade da emissora ser recebida por quem não possui o domínio da escrita e pode estar realizando outras atividades simultaneamente, como deslocando-se, cozinhando, estudando ou trabalhando, algo indesejável no modo perceptivo de outros meios como os impressos e a televisão. A característica do alcance possibilita assim não só a comodidade de receber as mensagens onde quer que se possa sintonizar o sinal, mas cria a percepção de aproximação do atual e longe, onde as distâncias espaciais podem ser rompidas, sem a perda do tempo da locomoção. A aproximação do distante cumpre duas tarefas imprescindíveis para construir a autonomia: a mobilização e a irradiação. A primeira configura-se pela informação necessária que motive a participação em ações que, no caso da autonomia zapatista, são cruciais para a prefiguração de eventos – protestos, bloqueios, marchas, atividades exemplares... Já a irradiação é, como mencionado, de acordo com Herman Ouviña (2011) e Mabel Reys (2011), um processo de partilha de experiências e conhecimentos. Diferente da ideia vertical da conscientização, na qual o explícito convencimento e a persuasão diretos são indispensáveis, neste processo, as rádios autônomas apresentam as ideias como um outro mundo possível: mandar obedecendo, pluralidade, autogestão, 129 Realizei o cálculo da potência do transmissor a partir da distância do ponto de transmissão para o ponto de escuta mais distante a partir da tabela disponível em , acesso em 10 de agosto de 2015. 130 Mais informações em: , acesso em 5 de agosto de 2015. 143 sustentabilidade e justiça social como narrativas peculiares que podem gerar identificação com as vivências dos ouvintes, levando a interiorizá-las e criando o que Castoriadis (2006) denomina de imaginário radical. Esta energia criadora de sentidos definidores dos coletivos, das instituições e dos significados partilhados potencializam-se através do modo de percepção da imagem no rádio, segunda característica que destaco do modo perceptivo desta tecnologia. Conforme o filósofo alemão Adolph Armenh (2005, p. 62; 71), o rádio possibilita “(...) o ouvinte ‘contemplar’ com sua própria imaginação o que está ‘falando’ (...), sentindo- se fortemente induzido a imaginar visualmente o espaço real ausente’ (...)”. A imagem sonora é criada, de acordo com o autor, pela onipotência da palavra, através da força de descrição de lugares, formas e sensações como olfativas, degustativas e táteis, ativando as memórias dos receptores que criam mentalmente, a partir de suas experiências, as imagens. Kaplún (2006) acrescenta os efeitos sonoros e a música como fatores que colaboram para a construção da imagem no rádio, pois favorecem a formação de cenários acústicos, dando à descrição e dramatizações radiofônicas ritmo e complementos com sons de objetos e de seres animados. Na Radio Rebelde, a imagem acústica aparece principalmente nos contos e nas mensagens dramatizadas. Os primeiros formam este modo perceptivo por meio das ricas descrições e interpretações, algumas vezes acompanhadas por onomatopeias. Já as mensagens dramatizadas, além da interpretação, possuem um enredo com personagens, efeitos sonoros e trilhas musicais que criam um conjunto de sons capaz de reconstituir espaços multidimensionais. O que, de acordo com Belsebre (1994, p. 64), Abraham Moles chama de paisagens sonoras: “(...) conjunto de elementos constituídos num espaço, o espaço sonoro (...) no contexto da comunicação radiofônica e a percepção imaginativo-visual do radiouvinte (...)”. Na Frecuencia Libre, a imagem sonora é criada, principalmente, por meio da conversa imaginária com os ouvintes e entre os apresentadores dos programas. Este contato reconstitui uma relação que permite os receptores da emissora imaginar quem são os locutores, criando uma percepção visual de alguém familiar, ainda que nunca os tenham visto. A conversa mental forma assim imagens de uma bate-papo cotidiano entre amigos. 144 Este envolvimento constrói a terceira característica que contribui para o imaginário de autonomia: a relação de identificação entre o rádio e os ouvintes. Segundo Kaplún (2006, p. 81), a companhia invisível, que o meio proporciona, é criada através da presença que a voz humana proporciona. O rádio simula uma comunicação interpessoal porque tem uma escuta predominantemente individual. O locutor pode ser percebido pelo ouvinte assim como um amigo distante que o descontrai, traz-lhe informações e “(...) explica o mundo que o rodeia e dá chaves para entendê-lo e desenvolver-se nele”. Esta relação possibilita também, para o pesquisador uruguaio, criar uma empatia, projetando a pessoalidade do receptor no apresentador, principalmente, quando ele simula uma constante interação, prevendo possíveis reações e respostas da audiência e conversando constantemente com a mesma. Estes elementos se potencializam com o forte sentido emocional. “O rádio propicia mais à palavra-emoção do que a palavra- conceito” (KÁPLUN, 2006, p. 74). Reagimos psicologicamente ao som antes de analisa-lo. “O ouvido é ‘o sentido da interioridade’ (...) A reação imediata é fruto de uma consciência ligada às lembranças e às projeções, abandonando-se em parte o presente” (COSTA FILHO, 1994, p. 78). Na Frecuencia Libre, a relação de identidade é sutil, presente nos endereçamentos para um público consciente, crítico, irônico e intelectualizado. Já a Radio Rebelde, além de fortalecer, em seus endereçamentos, o pertencimento como povos originários, busca essa identidade em constantes interjeições e questionamentos feitos aos ouvintes, principalmente, nas locuções com as felicitações de “oxalá que esteja gostando de nossa programação!” e “Que tenha um bom dia!” e saudações dirigidas especificamente para comunidades e pessoas que estão indo, voltando ou trabalhando. A mensagem da autonomia é apresentada de maneira cordial e o imaginário tem maior possibilidade de se irradiar. A tecnologia radiofônica apropriada pela Frecuencia Libre e pela Radio Rebelde contribui para o fortalecimento da autonomia através do modo de percepção deste meio baseado, principalmente, na oralidade que resgata elementos dos saberes populares, não só dos povos originários por meio dos contos, poesias e canções, mas também da conversa dialogada que se torna uma troca de conhecimentos e das notícias e comentários que traduzem o informacional-técnico para o expressivo-simbólico, a partir de versões dos zapatistas e movimentos autônomos. A apropriação dos formatos radiofônicos reforça também a autodefinição autônoma da Rádio Rebelde, através do 145 resgate das formas culturais das comunidades zapatistas e da autodisposição autônoma do coletivo Frecuencia Libre que decide romper com o padrão dominante nas emissoras comerciais. O uso do rádio nestes projetos também colabora para a irradiação do imaginário radical e prefiguração, por meio do alcance imediato, das imagens sonoras e da comunicação afetiva. Neste capítulo, as tecnicidades foram definidas a partir da discussão sobre as apropriações tecnológicas. Em seguida, os formatos da Frecuencia Libre e Radio Rebelde foram analisadas nesta perspectiva e, para finalizar, a reflexão relacionou os modos de percepção e as lógicas de resistência. O mapa noturno segue assim localizando os tempos criados por estes formatos, lógicas e matrizes das emissoras e apropriados pelos ouvintes. 146 5 TEMPOS E LUGARES DAS RÁDIOS ZAPATISTAS A organização dos formatos da Frecuencia Libre e Rádio Rebelde proporcionam, além da ruptura com o padrão e a lógica industrial, o rompimento com a temporalidade e os ritmos sociais predominantes nas sociedades urbanas industrializadas. Para compreender a relação entre as emissoras e o tempo, avanço a análise das ritualidades, proposta no mapa noturno dos usos sociais de Martín-Barbero (1998), como a articulação entre os formatos industriais e as competências de recepção. A organização do tempo é fundamental para a conquista da autonomia, pois possibilita o controle do calendário e agendas que marcam as relações sociais, como será desenvolvido adiante. Os meios de comunicação, especialmente o rádio, possuem um papel preponderante, por colaborar com a criação dos ritmos sociais e com a construção de sentidos sobre o presente, o passado e o futuro na cotidianidade. Assim, neste percurso do mapa, será apresentada a definição de ritualidades, relacionados tempo e território e analisados os ritmos das emissoras pesquisadas e os tempos e lugares de escuta das mesmas. De acordo com Jacks (2008, p. 37), a ritualidade, configurada no âmbito de ação dos receptores, constitui-se pela memória, seus ritmos, formas e cenários de interação e repetição que constroem as gramáticas de ação nas relações estabelecidas com os formatos industriais. Já para os meios, “implica uma capacidade para colocar regras nos jogos entre significação e situação, alertando, entretanto, que uma coisa é a significação da mensagem e outra é o sentido que adquire quando o receptor apropria-se dela”. Orozco (1996) explica que ritualidade não são só as ações adotadas rotineiramente, mas as que se repetem com alguma frequência na audiência. Ronsini (2012, p. 92) enumera as seguintes possibilidades de pesquisa a partir deste conceito: os diferentes trajetos de recepção, o modo de ver, ouvir e ou ler os textos com relação no cotidiano, os modos de simbolização do lugar, os ritmos do cotidiano, o poder relativo dos meios, os costumes, identidades de classe, dispositivos midiáticos e a mídia como protagonista na racionalização, naturalização e banalização das ideologias. Ela resume como a “(...) ação do poder políticos dos meios (...) apropriada pelos receptores para justificá-lo, contrapô-lo ou negociar com ele”. No caso das rádios zapatistas, sigo o deslocamento de formatos industriais para formatos dos meios, a fim de contemplar a apropriação do rádio pelos produtores destas 147 emissoras, excluídos do regime de mercado. Já a competência de recepção será analisada a partir dos lugares de escuta onde se negociam os sentidos dos tempos propostos pelas emissoras que possuem, conforme analisado nas tecnicidades, um alcance em diversos espaços. 5.1 Territorialidades e temporalidades Os meios possuem, conforme Pross (1989), o papel de interpretação do calendário, termo grego que designa o “livro de contas” e de compromissos sociais. A organização do tempo representa um controle social das atividades cotidianas e da vida pública. “Quem controla o calendário controla indiretamente o trabalho, o tempo livre e as festas” (LE GOFF, 1992, p. 494). Mesmo tendo, por vezes, proximidades com a ordenação da natureza, como o claro e o escuro (dia e noite), trocas climáticas (férias de verão) e mudanças de estação (primavera, outono, inverno e verão), o tempo é orientado simbolicamente a partir da ordem sociopolítica. Na Idade Média, o poder eclesiástico predominava no calendário. Na contemporaneidade, o ritmo da produção industrial se sobrepõe na organização do tempo oficial. Há, entretanto, diferentes temporalidades vivenciadas numa mesma época que se relacionam aos diversos sentidos sociais que circulam nos territórios, nas relações hegemônicas e na contra-hegemonia. Para Rogério Haesbaert (2007), o território se constitui por uma combinação de dimensões funcional e simbólica. A primeira representa a exploração de recursos naturais para a satisfação de necessidades ou acúmulo de riquezas. Já a dimensão simbólica cria vínculos entre os lugares e as pessoas que se apropriam de significados como reconhecimento mútuo, pertencimento e abrigo. O processo identitário configurado sobre os territórios, definido como territorialidade, serve como estratégia para criar e manter controle sobre parte de uma superfície, sobre as conexões, a disciplinarização dos espaços e a organização do tempo. Enquanto a territorialidade envolve predominantemente aspectos simbólicos, podendo existir até sem território (como a terra prometida dos judeus), o território só existe nas dimensões material e simbólica, não existindo assim território sem espaço físico e sem territorialidade. 148 Para o geógrafo brasileiro Milton Santos (1994, p.8), o território habitado, espaço banal de encontro de todos, “cria novas sinergias e acaba por impor, ao mundo, uma revanche”. As apropriações pelos diversos grupos desenvolvem diferentes significados e usos, possibilitando a existência e coexistência no “espaço do acontecer solidário que define usos e geram valores de múltiplas naturezas pressupondo coexistências" (SANTOS, 2000, p. 122). Geram-se assim os inevitáveis laços horizontais de coabitação, solidariedade e convivência. O território é também, de acordo com Santos, lugar de verticalidades, de controle remoto pela ordem global, onde se realiza o acontecer da produção agrícola ou urbana racionalizada funcional; o complementar da relação entre cidade e campo e entre cidades e o hierárquico da racionalização das atividades que se faz sob um comando, uma organização. O geógrafo denomina o controle de lugares remotos de “globalitotalitarismo”. As relações entre os territórios criam territorialidades contíguas que possuem aspectos de vizinhanças sucessivas e territorialidades em rede pela ligação a pontos distantes e trocas informacionais. Ambas as relações desenvolvem territórios compartilhados e multiterritorialidades. Os territórios compartilhados, segundo Santos, são vários papéis específicos vivenciados em espaços limitados, possibilitando no cotidiano cooperações e conflitos. A vivência destes papéis é possível pelos múltiplos sentidos que podem receber um mesmo território. Já os diversos pertencimentos por diferentes territórios geram, conforme Haesbaert, a multiterritorialidade. (...) o homem por ser um animal político e um animal social é também um animal territorializador (...) a relação entre o indivíduo ou o grupo humano e o território não é uma relação biunívoca. Isto significa que nada impede este indivíduo ou este grupo de produzir e de ‘habitar’ mais de um território (HAESBAERT, 2007, pag. 35) Os meios de comunicação possibilitam as conexões entre os lugares que criam a multiterritorialidade. Os sentidos sobre os territórios, construídos em determinados universos culturais trazem consigo significados e formas de se organizar no tempo, ritos e ritmos sobre o cotidiano. As temporalidades estão inevitavelmente localizadas nas territorialidades. No campo de pesquisa, pude notar diferenças entre os tempos da academia, marcados com um certo rigor; os tempos dos intelectuais e comunicadores entrevistados, raramente pontuais; e os lentos tempos das comunidades indígenas organizados 149 inclusive com fusos diferenciados. Nos Municípios Autônomos em Rebeldia Zapatista, as comunidades seguem o fuso da Frente de Combate Sul Oriental, duas horas a menos do que a hora oficial do México e três horas a menos do que a hora de verão. Esta última, por exemplo, não é seguida por nenhuma comunidade indígena que transitamos, pois eles diziam continuar na “hora velha” ou “hora de Deus”. No entanto, além dos fusos diferenciados, há ritmos sociais diversos. Em San Cristóbal de Las Casas, uma cidade onde se encontram indígenas e mestiços, mas que segue o calendário industrial - mesmo não possuindo indústrias - dificilmente encontrei pontualidade, inclusive no comércio que atende aos turistas. Como nos orientou o antropólogo Valentin Val, auxiliar desta pesquisa, quando alguém desta cidade marca algum compromisso às 9 horas, significa que pode ser a partir das 9 horas, ou seja, entre 9h e 9h59min. Já em San Isidro de La Libertad, além desta pouca pontualidade, há uma divisão do ano, diferente da urbanidade marcada principalmente pelo ano novo, carnaval, semana santa, férias de verão, natal e revellión. A comunidade divide seu ciclo anual na festa da Santa Cruz (dia 5 de maio), único dia que se pode consumir bebida alcoólica no Centro dos Autônomos; as plantações de verão (julho); a limpeza da terra (setembro); a colheita (novembro) e a festa do Natal (dezembro). Nesta época, as pessoas realizam atividades diferenciadas, não só sobre os territórios que circulam, mas trocam a relação lenta com o tempo por um ritmo mais acentuado. Assim como em San Cristóbal de Las Casas, os domingos são os dias que se diferenciam da semana em San Isidro de La Libertad, não só porque muitos não trabalham, mas porque celebram a palavra na capela. No entanto, diferente da cidade marcada principalmente pelo lazer e o descanso, na comunidade autônoma é o dia que as pessoas se reúnem na assembleia para discutir o contexto local e, por vezes, regional e nacional, seguido de uma refeição coletiva. 5.2 Temporalidades dos ouvintes e das rádios zapatistas Como é inevitável participar destes tempos e territórios, os meios cumprem, de acordo com Pross (1989), o papel de comunicar estes ritmos, criando sentidos e climas diferenciados para as manhãs, noites, semana e fim de semana. A pesquisadora brasileira Mônica Nunes (1993, p. 33) esclarece que “a obrigatoriedade da comunicação 150 e da participação produz (...) carência psicofísica, traduzida em desconhecimento (...). Para suprir o deficit gerado pelo desconhecimento, busca-se a informação”. O radiojornalismo tonifica a atualidade com as notícias de presente. A instantaneidade das transmissões, que ocorrem frequentemente ao vivo, ancora a recepção inevitavelmente no tempo atual. Nas emissoras informativas, as notícias do último momento, do último turno ou da última semana (no caso de programas semanais) predominam, obedecendo, por vezes, a recomendação de uma linguagem verbal no tempo presente, inclusive para tratar de fatos passados (ORTRIWANO, 1995). O atual parece eterno neste tipo de programas, mesmo com a inevitável fugacidade do meio. Assim como o som, o que se transmite no rádio se dispersa no momento que é recebido, não havendo como retroceder, a não ser gravando a programação, situação improvável na escuta radiofônica. “O som só existe quando abandona a existência. Não é simplesmente perecendo, mas, em essência, evanescente, e se lhe percebe desta maneira” (ONG, 1993, p.33). A transmissão radiofônica hertiziana só existe assim no presente. Esta relação com o atual pode ser percebida na Frecuencia Libre que trata dos acontecimentos mais recentes nos programas, principalmente em “Objetos Prohibidos”, “Hablemos Chiapas”, “La Hora Sexta”, “Debate Cultural” e “Sinestesia”, que possuem características jornalísticas. Estes programas apresentam, analisam, comentam ou ironizam os principais acontecimentos para seus produtores, ocorridos na última semana, intervalo de tempo que são apresentados. Já na Radio Rebelde, os comunicados do EZLN e das Juntas de Bom Governo possuem o papel de atualizar, dando sentido aos fatos acontecidos no presente, principalmente as ações do Governo Mexicano contra comunidades zapatistas ou membros destas. A atualização da hora é outra forma de ancorar a programação radiofônica no presente, tornando a transmissão do meio um relógio invisível que ajuda muitos ouvintes se localizarem temporalmente. Diferente da Frecuencia Libre, em que só observei o anúncio da hora automático (por uma gravação do software de automação radiofônica) nos horários que não há programas, na emissora do Caracol de Oventic os locutores interpelam constantemente não só com a hora da Frente de Combate Sul Oriental, como também mencionam o tempo: “Bom dia para você que está indo agora trabalhar!” e “Que você esteja bem neste final de tarde!”. Há, nestas saudações, uma estreita relação entre o tempo e a rotina campesina, acompanhada pela emissora. 151 Além de marcar o presente, funcionando como uma espécie de relógio invisível, o rádio também possibilita resgatar o passado. O papel de reminiscência do meio é possível, principalmente, pela veiculação de músicas e estórias antigas. Nunes (1993, p. 39) explica esta função ritual do meio como “o eterno retorno ao princípio das coisas busca, acima de tudo, dirimir a duração do tempo profano (...) e assegurar a própria regeneração do tempo no tempo mítico. Regenerar o tempo é renovar a si mesmo. Esgarçar as bordas da finitude humana”. Escutar uma música ou um relato do passado não é só uma recordação, mas uma forma de criar uma segurança no presente, pois assim como os desafios anteriores foram superados ou sublimados, os atuais também poderão ser. Desta maneira, o rádio busca, para Pross (1989), suprimir a carência psicofísica emocional gerada pelo calendário. Os contos da Radio Rebelde servem para apresentar estórias, mesmo de um tempo imemorável, que leve segurança emocional de como agir diante das inevitáveis imprevisibilidades. O “Rei do Mau” traz explicações de quem criou e cria as desagregações da vida comunitária e familiar, o sistema capitalista. Já “Como Noivo Namora a Noiva” resgata os exitosos cortejos para as relações amorosas. As canções revolucionárias, como o corrido “7 de Outubro” - sobre a morte de uma autoridade de uma comunidade zapatista - também revive não só a memória do assassinato, mas dos feitos do personagem. Na Frecuencia Libre, o programa “En el Camino nos Encontramos” é o que mais se aproxima desta reminiscência quando apresenta uma memória da literatura e da música do continente americano sobre as temáticas de cada edição. Quando o programa fez, por exemplo, em 6 de agosto de 2015, um especial sobre as mortes da ativista e antropóloga chiapaneca Nadia Vera e do fotojornalista Rubén Espinosa rememorou violências de motivação política, semelhantes com fotógrafos em vários países da América Latina. A Frecuencia Libre e a Radio Rebelde também cumprem o papel de significar o futuro, através da criação do imaginário radical da autonomia. “A ritualização promete a certeza de que o universo continua como está. O mundo por vir se vai construindo e não será diferente do presente” (NUNES, 1993, p. 35). O programa “Espacios de Esperanzas” da emissora sancristobalense possui uma clara mensagem de que é possível construir e alcançar um mundo melhor a partir de experiências que rompem com a 152 lógica de produção capitalista. Este imaginário está enraizado em mensagens sobre sustentabilidade, contra-hegemonia, autogestão e conservação ambiental. Na Radio Rebelde, esta relação com o futuro é mais constantemente anunciada nas canções revolucionárias, nas poesias e nos comunicados que trazem a mensagem de vitória dos oprimidos, como bem representa o Hino da Unidade Popular: “Venceremos! Venceremos!/ Mil cadeias terão que romper/ Venceremos!”. Além de fortalecer o imaginário radical, as emissoras investigadas possibilitam uma relação com o tempo que pode contribuir para a vivência da autonomia. Como o controle do tempo representa um poder social, romper com a hora oficial significa também negar o poder estatal, reforçando o sentido de autodeterminação das comunidades autônomas. A Radio Rebelde também, neste sentido de autodisposição, possui um ritmo próprio de locução diferente das emissoras comerciais. As pausas e silêncios após uma música ou uma gravação, conhecidos no padrão técnico como falhas, intitulados no jargão radiofônico como “buracos”, são constantemente observados na estação e tratados naturalmente pelos apresentadores, chegando até 15 segundos, conforme observado no dia 24 de julho de 2013. Diferente do que acontece quando há algum defeito técnico, a locução não pede desculpas. Passar 5 a 15 segundos em silêncio parece não significa um erro nesta emissora, porque o programa não busca o ritmo frenético das rádios comerciais que transmitem ininterruptamente um som após o outro. O horário fraturado de transmissão, estando no ar das 5h às 9h e das 17h às 20h, do Fuso da Frente de Combate Sul Oriental é mais uma característica de autonomia na temporalidade da Radio Rebelde. A emissora não só se distingue do padrão comercial que transmite 24 horas ou, ao menos, das 6 da manhã à meia noite diariamente, como dedica sua programação aos horários da rotina campesina do amanhecer do dia (quando se desperta e se prepara para o trabalho) e do final do dia (quando se retorna do trabalho e se descansa). Esta organização parece desconsiderar a ideia de simultaneidade no trabalho, de escutar o rádio enquanto se faz, ao mesmo tempo, outra atividade laboral. Além dos produtores estarem possivelmente envolvidos em outros compromissos no horário em que não há transmissão, presume-se que os ouvintes estejam trabalhando das 9h às 17h e, por isso, impossibilitados de escutar a emissora. 153 Alguns receptores entrevistados acolhem naturalmente esse horário fraturado. Dom Josiano e o professor José da comunidade de San Isidro de La Libertad afirmam que só escutam rádio antes de ir ao trabalho e quando chegam em suas casas. Apesar do primeiro ter de um rádio portátil para a audiência, só ouve quando “tem tempo”, isto é, quando não estão trabalhando ou realizando outras atividades laborais. Já o ouvinte John, que mora na cidade de San Cristóbal de Las Casas, desconhecia a fratura do horário da Radio Rebelde. Pensava que, quando ligava o rádio de seu carro e não a sintonizava, era porque a emissora estava com algum defeito ou fora do alcance da mesma. “Como não conseguia sintonizar pensava que a emissora tivesse mudado de frequência”131. Os constantes atrasos dos locutores e ausências de programas - mesmo que alguns membros da Frecuencia Libre considerem acidentais, como Noé e Damaso, e outros como indesejados, como Guadalupe -, representam também uma quebra com o ritmo industrial da produção radiofônica, na qual, nas rádios comerciais, cada minuto significa “faturamento”. Na Frecuencia Libre, cada instante representa compromisso dos movimentos e das pessoas participantes do coletivo que produzem os programas. Como concorrem com vários outros compromissos e atividades militantes, poucos são os horários que podem ser ocupados e o tempo não é marcado com rigorosa pontualidade, pois possui muito mais um papel político do que econômico. Mesmo com constantes faltas ou atrasos, os programas criam forte vínculo com os ouvintes, por vezes, maiores do que a própria programação. Dos 11 receptores da Frecuencia Libre entrevistados (Mark, Francis, Ana, Pablo, Pedro, Beatriz, Raul, Artur, Jacob, Victor, Vicenzo), quatro são ouvintes de um programa específico e não ouvintes de toda a programação da emissora. Jacob escuta a emissora por causa do “Debate Cultural” porque, para ele, “é informal e tem um conteúdo mais jornalístico”132. Artur também escuta preferencialmente este programa porque “faz um resumo de tudo que ocorre em San Cristóbal, em Chiapas, México e mundo (...) com a cultura, a ciência e questões políticas também”133. Já Ana, quando morava num bairro que conseguia sintonizar a emissora, escutava o programa “La Hora Sexta”, que traz as 131 Entrevista com John (nome fictício), realizada no dia 13 de janeiro de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 132 Entrevista com Artur (nome fictício), realizada no dia 17 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 154 informações sobre os zapatistas que “estão em nível mundial logrando bastante neste caminho até a autonomia, por isso são um exemplo”134. O poeta Pedro, por sua vez, ouvia o programa do qual, às vezes participava e que existiu até 2013, “Entre Poesia y Música”. Para os três primeiros, o sábado está marcado não só pelo início do final de semana, mas por ser um dia de escuta de seus programas radiofônicos favoritos. A escuta semanal também é uma característica dos ouvintes da Frecuencia Libre. Dos 11 ouvintes da emissora entrevistados, conforme tabela abaixo, apenas dois afirmaram ouvi-la diariamente. O restante escuta algumas vezes na semana. Já entre oito ouvintes entrevistados da Radio Rebelde, três não escutam diariamente a estação. De 18 ouvintes entrevistados, oito escutam só a Frecuencia Libre e sete somente a Radio Rebelde. Os demais escutam as duas emissoras. Dos ouvintes da emissora de Ovetink, cinco fazem parte da comunidade de San Isidro de La Libertad. Os outros vivem ou transitam em San Cristóbal de Las Casas. Cheguei até estes ouvintes, conforme mencionado anteriormente, de duas maneiras: em San Isidro, por meio de convite pessoal para a entrevista na assembleia da comunidade e, em San Cristóbal de Las Casas, através de questionário enviado por e-mail para os contatos dos ajudantes da pesquisa, Valentin Val e Leonardo Toledo, que militam nos movimentos culturais e políticos. De 132 mensagens enviadas por eles, 23 responderam os questionários (disponível no Apêndice V), que tinham como objetivo apenas identificar e localizar os receptores e seus hábitos de escuta (qual emissora, aparelho utilizado, frequência e tempo de escuta), e 14 concordaram em ser entrevistados. Para manter o anonimato dos ouvintes entrevistados não será divulgado os dados completos dos questionários, somente as informações analisadas neste e no próximo capítulo. Os ouvintes de San Isidro de La Libertad que participaram da pesquisa foram entrevistados no Centro dos Autônomos. Foram ao menos dois encontros com cada entrevistado, sendo o primeiro gravado e o segundo uma conversa mais informal, sem gravador, por termos notado que o aparelho os intimidava. Já os ouvintes de San Cristóbal de Las Casas foram entrevistados no Café do Centro Cultural TierrAdentro, na Universidade da Terra, na Universidade Ecosur e no Bar Palicate. Só conseguimos um encontro com 133 Entrevista com Ana (nome fictício), realizada no dia 15 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 134 Idem. 155 cada um pela sobrecarga de atividades alegadas por todos, que só concordaram em fornecer mais informações por seus contatos na internet ou por celular, expediente que raramente foi utilizado. Tabela 2: Lugares e tempos de escuta dos ouvintes entrevistados na pesquisa Ouvinte Localidade Aparelho e lugares Emissora Frequência de escuta Programa mais escutado 1 – Josiano San Isidro de La Libertad Som com alto- falantes em casa. Radio Rebelde Entre 3 a 4 horas diárias Não se aplica, pois a emissora não possui programas 2 – José San Isidro de La Libertad Som com alto- falantes em casa. Radio Rebelde Entre 3 a 4 horas diárias Não se aplica, pois a emissora não possui programas 3 – Maria San Isidro de La Libertad Som com alto- falantes em casa. Radio Rebelde Algumas vezes por semana Não se aplica, pois a emissora não possui programas 4 – Juan San Isidro de La Libertad Celular no trânsito. Radio Rebelde Algumas vezes por semana Não se aplica, pois a emissora não possui programas 5 – Diego San Isidro de La Libertad Som com alto- falantes em casa. Radio Rebelde Entre 3 a 4 horas diárias Não se aplica, pois a emissora não possui programas 6 – John San Cristóbal de Las Casas Rádio do carro no trânsito. Radio Rebelde Algumas vezes por mês Não se aplica, pois a emissora não possui programas 7 - Vicenzo San Cristóbal de Las Casas Rádio do carro no trânsito e som com alto-falantes em casa e trabalho. Frecuencia Libre Algumas vezes por semana Objetos Prohidos e La Hora Sexta 8 – Victor San Cristóbal de Las Casas Rádio do carro no trânsito; Rádio portátil em casa e trabalho. Radio Rebelde Frecuencia Libre Algumas vezes por semana Não recorda 9 – Jacob San Cristóbal de Las Casas Rádio do carro no trânsito. Frecuencia Libre Algumas vezes por semana Debate Cultural 10 – Artur San Cristóbal de Las Casas Internet em casa. Frecuencia Libre Algumas vezes por semana Debate Cultural 11 – Raul San Cristóbal de Las Casas Som com alto- falantes; Rádio do Carro; Celular; Internet. Radio Rebelde Frecuencia Libre Algumas horas diárias. Um noticiário que não recorda o nome que era apresentado pelas manhãs 156 12 - Sebastian San Cristóbal de Las Casas Som com alto- falantes em casa. Celular na rua; Internet em casa e no trabalho, Radio Rebelde Algumas vezes na semana. Não se aplica, pois a emissora não possui programas 13 – Beatriz San Cristóbal de Las Casas Som com alto- falantes; Celular em casa ou no trabalho. Frecuencia Libre Algumas vezes por semana Não recorda 14 – Pedro San Cristóbal de Las Casas Rádio portátil em casa ou na rua. Frecuencia Libre Algumas vezes por semana Entre Prosa y poesias Debate Cultural 15 – Pablo San Cristóbal de Las Casas Som com alto- falantes em casa. Frecuencia Libre 2 a 3 horas diárias Debate Cultural 16 – Ana San Cristóbal de Las Casas Som com alto- falantes em casa. Frecuencia Libre Algumas vezes por semana La Hora Sexta 17 – Francis San Cristóbal de Las Casas Aparelho portátil na rua; Som com alto- falantes em casa. Frecuencia Libre Radio Rebelde Algumas vezes por semana. Não tem preferido. 18 – Mark San Cristóbal de Las Casas Som com alto- falantes em casa. Frecuencia Libre Algumas vezes por semana. Não recorda Os tempos de escuta também se relacionam às territorialidades, que envolvem, no rádio, além dos sentidos dos lugares, os aparelhos receptores utilizados. Até a década de 1950, de acordo com Ferraretto (1998), o rádio era “assistido”, geralmente, em família ocupando o espaço da sala de estar e reunindo várias pessoas. Com o advento da televisão, que, com sua popularização passou a ocupar o lugar do rádio na casa, o meio se reinventou principalmente com sua miniturização possibilitada pela invenção do transistor. O espaço social predominante do rádio passou a ser não mais a escuta coletiva, mas cada indivíduo que se apropriara de aparelhos receptores portáteis, tendo com eles uma relação íntima e pessoal. A programação é afetada com esta mudança, ao invés dos espetáculos (novela, programas de auditório e humor), as emissoras passaram a ter um conteúdo mais voltado para ser um ritmo e um pano de fundo do cotidiano do ouvinte, predominando músicas e rápidas notícias. A Internet passa, desde 1992, a ser novo espaço de escuta do rádio a partir da convergência viabilizada pelos programas de computadores de codificação de áudio, como o Streaming, e o aumento da velocidade e banda de conexão, possibilitando a 157 transmissão das emissoras em tempo real pela rede mundial. Com isso, o rádio extrapola o alcance das ondas hertzianas, podendo ser escutadas em qualquer lugar do planeta conectado à rede. Mesmo com a abrangência mundial, as rádios continuam predominantemente tendo um apelo regional, pois ainda assim na Internet, podem resgatar o local no global, reatando laços de pertencimentos, mesmo de pessoas distantes135. Em minha pesquisa de mestrado (COSTA FILHO, 2008), investiguei os ouvintes da Rádio Favela136 de Belo Horizonte pela Internet e localizei cinco ouvintes dos nove pesquisados que, mesmo morando na cidade, preferiam escutá-la pela rede mundial devido a comodidade de não precisar utilizar outro aparelho e escolhiam a emissora local, entre milhares disponíveis na rede mundial, por já conhecer suas características de rádio contestatória, crítica e com diversidade musical. Entre os dezoito ouvintes das emissoras zapatistas entrevistados, encontrei três que escutam a Radio Rebelde coletivamente e outros dois que ouvem a Frecuencia Libre pela Internet. A escuta coletiva pôde ser observada na casa do professor José, da estudante Maria e de Diego, na comunidade de San Isidro de La Libertad. O primeiro mora com a esposa e dois filhos pequenos (menores de cinco anos), junto com seu pai e mãe e outros dois irmãos. A casa possui, além da sala e cozinha, quatro cômodos, sendo um para ele e sua família, outro para seus pais, mais um para seus irmãos e uma pequena venda onde sua esposa trabalha. Na sala, seu pai, uma das autoridades fundadoras da comunidade, tem um som com alto-falantes137 o qual utiliza principalmente para escutar a Radio Rebelde. “Quando ele liga o som, escutamos a emissora mesmo sem querer”138. A escuta de José é involuntária. No entanto, a emissora passa a ser não só pano de fundo e ritmo para seu cotidiano, como para sua venda e 135 Martín-Barbero (1998) já nota esta qualidade tecnológica com a apropriação do gravador na década de 1980 pelos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos para receber sons de sua terra natal, através de gravações das festividades, de parentes e de amigos. 136 Rádio Favela é uma emissora criada 1983 por jovens do movimento negro no bairro Aglomerado da Serra de Belo Horizonte que ficou conhecida pela resistência contra a repressão da fiscalização do Ministério das Comunicação e da Polícia Federal, pela programação que rompeu com o padrão das rádios comerciais predominantes na época e pelas ações contra o ascendente narcotráfico na região, sendo reconhecida com prêmios da Organização das Nações Unidas (Onu), Ministério da Saúde e Assembleia Estadual de Minas Gerais. Tornou-se, por isso, inspiração para o movimento das rádios comunitárias, principalmente, após o lançamento do filme “Uma Onda no Ar” que retrata a história da emissora. 137 Aparelho geralmente equipado com toca-disco laser (CD), rádio (FM e AM), entrada para memória (pen drive) e caixa de som. 138 Entrevista com José (nome fictício) em 10 de julho de 2014, em Zinacantán. Tradução minha. 158 como sinal diacrítico, isto é, de diferenciação, da posição política de sua família, aderente ao zapatismo. Maria também mora com os pais e duas irmãs. Ela escuta várias emissoras, entre estas a Radio Rebelde, como pano de fundo enquanto está cozinhando ou cuidando das irmãs. O rádio em sua casa está sempre ligado, seja por ela, sua mãe ou seu pai. Diego também escuta no som de sua casa quando retorna do trabalho. Ele realiza, diferente da maioria da comunidade, trabalhos esporádicos na construção civil. A emissora serve para relaxar depois da labuta. Pude notar que a escuta coletiva da Radio Rebelde, além de pano de fundo, serve, nestes casos, também para identificar-se politicamente para incluir outros ouvintes, possibilitando ampliar o papel de irradiação da emissora, discutido no capítulo anterior. Já a escuta individual, nesta comunidade, é a realizada por Dom Juan e Dom Josiano. O primeiro é ex-autoridade da comunidade que articulou à pesquisa-ação junto da professora doutora Maria Elena Martinez, do Ciesas Sureste. Ele não possui som em casa tendo o rádio em seu celular como única forma de escutar a Radio Rebelde. Geralmente ele a ouve quando vai trabalhar. Juan, assim como Diego, não trabalha na agricultura, mas em trabalhos esporádicos, principalmente, de construção civil. Ele reclama da dificuldade de sintonizar a emissora, pois sua escuta acontece em diferentes lugares, muitos destes, com fraco sinal de captação. Mas ele afirma que escutar a emissora em seu cotidiano traz motivação para a luta. Pela mesma razão, Dom Josiano a escuta em seu celular. Mesmo sua casa possuindo um aparelho de som com rádio, ele prefere escutar em seu celular para não incomodar a todos e para ouvir enquanto transita pela comunidade. Entre os ouvintes de San Cristóbal de Las Casas, não localizei a escuta coletiva. Mesmo em diferentes suportes (carro, celular, som com altofalantes, aparelho portátil e computador), sempre escutam individualmente. O ouvinte John, como já mencionado, escuta em trânsito, através do receptor de seu automóvel. Como nem sempre há coincidência entre o horário que ele se locomove no carro e a transmissão da Radio Rebelde, ele lamenta que pouco consegue escutar a emissora. Há uma clara discrepância entre a temporalidade da rádio e a sua. A mesma situação é vivenciada por Jacob, Raul e Vicenzo que escutam também no som de seus automóveis a Frecuencia Libre quando conseguem alcançar o sinal. O primeiro critica a pequena abrangência da emissora. “Só 159 conseguimos sintonizá-la praticamente no Centro de San Cristóbal”139. Já os dois últimos escutam por meio de vários aparelhos, além do som do carro, como som com alto-falantes e celular. A multiplicidade de suportes é também vivenciada por Sebastian. A escuta pela internet é a principal forma de recepção do fotógrafo Artur. Ele explica que mora num bairro afastado donde fica a emissora, por isso tem dificuldades de alcançar seu sinal. Com a transmissão pela internet, foi possível fidelizar-se como ouvinte, principalmente quando está descarregando suas fotos no computador e editando-as. Por fim, Beatriz, funcionária de uma ONG; Ana, militante de um coletivo e cantora; e Pedro, poeta e aposentado, costumam, respectivamente, ouvir as emissoras principalmente no celular, som com alto-falantes e aparelho portátil. A escuta individual serve principalmente para prover informação e companhia, cumprindo o papel de atualização das notícias alternativas e de criação da imagem acústica de uma conversa mental, conforme discutido no capítulo anterior. O primeiro papel se localiza na tarefa de irradiação da autonomia que pode gerar a partir das informações a adesão autoconsciente, muito mais do que um convencimento ou uma conscientização. Já a conversa mental contribui com a criação do imaginário radical de autonomia através da simulação de um diálogo entre locutor e ouvinte que partilha ideias, informações, opiniões e experiências sobre as comunidades autônomas. As ritualidades dos ouvintes das rádios zapatistas nos vários territórios revelam ainda usos de diferentes suportes. Em San Isidro de La Libertad, os receptores costumam utilizar somente um aparelho, geralmente o som com os alto-falantes. Já os escutantes de San Cristóbal de Las Casas ouvem em múltiplas plataformas. Destes 13 ouvintes da cidade, apenas cinco (John, Jacob, Ana, Pedro e Pablo) costumam escutar em um só aparelho e destes, três (John, Jacob e Pedro) utilizam tecnologias móveis que lhes permitem ouvir em diferentes lugares. Esta audiência nômade não significa a desvalorazição do local, mas a multiterritoralidade, onde a escuta, pode ganhar diferentes sentidos. Ouvir a emissora no trabalho ou no trânsito significa para os ouvintes entrevistados um pano de fundo enquanto realizam suas atividades principais, o que lhes leva geralmente a uma escuta desatenta. Já em casa, mesmo realizando outras 139 Entrevista com Jacob (nome fictício), realizado em 19 de julho de 2014 em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 160 atividades, a audiência radiofônica pode ser mais atenta, por vezes a principal ação do momento. No território urbano, percebi uma temporalidade de escuta mais fragmentada, mesmo com a possibilidade de audiência simultânea, seja através do receptor do carro ou da Internet, a maior parte dos ouvintes da Frecuencia Libre escutam tão somente um ou outro programa. Não ouvem a programação toda da emissora num determinado horário que podem, refletindo a própria organização da rádio e, por sua vez, revelam as temporalidades do coletivo. Pelo contrário, tentam adequar seu cotidiano para escutar os programas que gostam. Já no território rural autônomo, a escuta está ligada aos ciclos sazonais do dia. Não se reconhece programas, até mesmo porque a Radio Rebelde não os possui, mas tão somente horários de escutar o rádio, durante o tempo livre antes e depois da jornada de trabalho. As temporalidades da Frecuencia Libre e Radio Rebelde indicam rupturas com o tempo industrial. O que fortalece a autodeterminação e autodisposição das emissoras. Além do mais, a relação com o passado, presente e futuro cria, respectivamente, uma memória das lutas sociais, uma irradiação com a atualização das informações e mobilizações e o imaginário radical das transformações sociais. Apropriadas por uma escuta em diferentes tempos e ritmos, as emissoras contribuem, desta maneira, para a construção da autonomia zapatista que será mais amplamente respondida por meio do estudo dos sentidos culturais que seguem. 161 6 ESCUTA, MUNDOS POSSÍVEIS E SENTIDOS CULTURAIS A contribuição das rádios zapatistas para a construção da autonomia vai além das temporalidades diferenciadas, das lógicas de resistência e das matrizes culturais simbólico-dramática dos povos originários e racional-iluminista dos intelectuais que constituem seus endereçamentos, programações e organizações. Encontra-se também nos sentidos dados às emissoras pelos ouvintes a partir das apropriações em seu cotidiano, memórias e imaginários. Para desenvolver estas ideias, avançamos no mapa noturno de Martín-Barbero (1998) em direção à relação entre as matrizes culturais e as competências da recepção que constituem as sociabilidades. Além de defini-las, serão exploradas as últimas, uma vez que as matrizes culturais já foram desenvolvidas no Capítulo 2, e refletir sobre os diversos sentidos das emissoras zapatistas encontrados nos depoimentos dos ouvintes pesquisados. Tenho como inspiração deste capítulo a tese “Mundos possíveis e telenovela: memórias e narrativas de mulheres encarceradas”, de Valquíria John (2014, p. 10) e a dissertação “Os sentidos culturais da escuta: rádio e audiência popular” (1999), editada como livro “Histórias de Ouvinte: a audiência popular no rádio”, de Jairo Grisa (2003). A primeira estudou os sentidos culturais das telenovelas, criados por presidiárias de uma penitenciária feminina no município de Itajaí, no Estado de Santa Catarina. A pesquisadora buscou “(…) compreender como a telenovela medeia o cotidiano (dos ouvintes), mundos que vão além dos limites impostos pelas grades e como estes mundos se relacionam com as temporalidades da prisão, bem como de suas memórias”, relacionando as propostas teóricas dos usos sociais de Martín-Barbero com a de mundos possíveis de Galindo Cáceres. Já Grisa também aplicou a metodologia do último para refletir sobre os sentidos culturais de ouvintes de um programa popular da Rádio Guaíba de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Para isso, o autor entrelaçou as memórias, as rotinas de vida e os desejos dos receptores investigados. Segui, nesta pesquisa, a relação das propostas de usos sociais dos meios de Martín- Barbero e sentidos culturais de Galindo Cáceres, compreendendo a última como um operador conceitual das socialidades. Este eixo do mapa noturno é definido como “o cenário onde os receptores atuam e interatuam, onde exercem suas práticas e seu habitus, onde a subjetividade e as identidades constroem-se e reconstroem-se, com o 162 fim de entender o que se passa no mundo da recepção” (JACKS, 2008, p. 36). Conforme Orozco (1996), este estudo analisa a apropriação dos sentidos dos meios pelos receptores. Já para Ronsini (2010, p. 72), nas socialidades, investiga-se as tradições culturais e a cultura massiva, as relações cotidianas e a formação das identidades, sensibilidades e imaginários e a negociação com a ordem vigente. Assim, “(...) o papel do analista da recepção é compreender os vínculos entre a estrutura de poder que regula o processo singular de dar sentido aos formatos industriais (discursos, gêneros, programas e/ou grades de programação) e suas matrizes culturais (...)”. Ela completa que os eventos socioculturais condicionam nossa apropriação emocional dos objetos. A autora faz dois alertas sobre esta proposta metodológica: primeiro, que não se pode observar somente as competências dos receptores, desprezando o poder dos meios e, segundo, deve-se fazer um estudo crítico da audiência onde além das apropriações, reconheça-se as reproduções. Para entender as competências de recepção, esta pesquisa trilha o caminho dos sentidos culturais nos mundos possíveis, desenvolvido por Galindo Cáceres (1997). O investigador mexicano parte da premissa de que o conhecimento se organiza nas diferentes espacialidades e temporalidades, permitindo, por isso, várias versões sobre uma mesma realidade. A principal preocupação de uma pesquisa deve ser encontrar a multiplicidade destas e evitar uma visão única. Para isso, precisa acompanhar a dinâmica social e desapegar-se de um discurso unívoco. Assim, Galindo Cáceres propõe três níveis de pesquisa: configuração, trajetória e energia. O primeiro é um eixo sincrônico, buscando dar conta das representações que caracterizam a própria vida e a experiência cultural, que são inevitavelmente móveis. “O que o mundo em si seja não é um assunto pertinente aqui: o que o mundo parece ser, sim” (GALINDO CÁCERES, 1997, p. 36, tradução minha). Já a trajetória considera a mutabilidade da realidade, proporcionada pelo movimento diacrônico da história. Por fim, o nível da energia busca apreender a ação da própria vida sintetizando o tempo presente e os movimentos desta realidade. Para realizar esta proposta, o pesquisador mexicano aponta três etapas do conhecimento. A exploração se dá no contato do investigador com a realidade que produz um fluxo de impressões e expressões, registrados no diário de campo. A elaboração dos mapas 163 detalhados, traçados a partir da exploração em todas as dimensões e versões possíveis, inclusive nas contraditórias, compõe a etapa da descrição, seguida pela significação, um momento de sintetizar, configurar e teorizar as experiências vivenciadas em campo. Esta teorização deve chegar aos sentidos culturais que reúnem os diversos significados, valores e símbolos gestados a partir da inter-relação entre temporalidades e espacialidades agrupando as múltiplas memórias, usos e imaginários. Os sentidos culturais contêm, “(...) no presente o princípio organizador da experiência cotidiana; (...). No passado, (...) raiz e a conexão com o que já foi um dia vivido. No que se refere ao futuro, funcionam como escape, sonho, evasão (...)” (GRISA, 2003, p. 45). Este operador conceitual busca cercar-se do sentido próprio da vida, na etapa da configuração; da memória, na etapa da trajetória e do imaginário, na etapa da energia, possibilitando compreender as práticas culturais como “o que foi, o que é e o que será e também o que nunca foi e nunca será, porém é possível” (GALINDO CÁCERES, 1997, p. 40). Entender os sentidos gestados pelos receptores, nesta proposta, significa assim levar também em conta a diversidade de versões construídas a partir dos diferentes universos culturais. Para se deslocar até estas, alcançando a relação entre as condições históricas da trajetória, as apropriações cotidianas do sincrônico e a imprevisibilidade do imaginário, Cáceres convida a pensar em termos contrafactuais, ou seja, considerar as versões de o-que-poderia-ter-sido (HAWTORN, 1995) se tivéssemos outras variáveis que condicionassem uma configuração diversa da atual. O conceito de contrafactual possui três raízes. A primeira vem da filosofia, a partir dos estudos da lógica modal e da metafísica. “(…) em qualquer ciência, a noção de 'causa' que precede um efeito traz implicitamente uma indicação da possibilidade que se atualizaria (ou seja, do estado de coisas que ocorreria) caso a 'causa' não ocorresse” (PESSOA JR, 2000, p. 176). Significa pensar sobre o “(…) que não ocorreu, mas é perfeitamente cabível em termos lógicos, ou seja, que poderia ter acontecido” (JOHN, 2014, p. 58). Na literatura, o contrafactual se apresenta na possibilidade de levar o leitor a um outro mundo, construído a partir de suas vivências, memórias e contexto social. Tem como base a polissemia, isto é, as diversas interpretações que leitores possuem sobre um mesmo texto. Nesse sentido, “(…) cada novela é um pacto entre o autor e seu leitor. O autor conta algo como se tivera sido verdade, e o leitor lê o contato e o aceita como se tivesse 164 sido verdade” (DEL PASO 2008, 44, tradução minha). Já na história, é um exercício reflexivo para pensar “o que teria ocorrido se…?”, podendo não só imaginar possíveis alternativas, mas também avaliar o peso de determinados acontecimentos para o presente. “É um esforço teórico (...) de reconstruir a história desviando ficticiamente a rota seguida em qualquer de suas bifurcações, buscando inclusive em tais representações lições para o porvir” (PALÁCIOS CRUZ, 2004, p. 81, tradução minha). Na perspectiva de contrafactualidade, os sentidos culturais, entendidos como a apropriação dos significados pelos receptores, são as outras possibilidades de compreender a realidade que, muitas vezes, divergem da visão do pesquisador por serem constituídas em contextos e matrizes totalmente diversos. Para aproximar-se destas, a investigação precisa considerar as diversas probabilidades de versões sobre a realidade, devido às diferentes trajetórias históricas, variados contextos socioculturais e o poder de agência dos receptores. Esta proposta de mundos possíveis não só busca conjugar trajetórias, configurações e energias, ao encontrar nos contrafactuais as probabilidades dos diferentes caminhos históricos que criam determinadas condições atuais e de possibilidades de transformação futura, como pode revelar as competências de recepção nas diversas matrizes culturais. Neste ponto, a teoria de Galindo Cáceres articula-se às mediações comunicacionais da cultura de Martín-Barbero porque, assim como o filósofo colombiano, o pesquisador mexicano compreende a comunicação como um processo de deslocamento dos textos aos vários universos culturais em que transitam. Este caráter mutável das explicações que dependem dos contextos revela a lógica das contrafactualidades. Neste leque de possibilidades de versões sobre a realidade, residem as competências dos receptores, que correlacionam, criam, mudam e confrontam os sentidos existentes nas vivências dos sujeitos e nos significados oferecidos pelos textos. Para isso, os sentidos da escuta das rádios zapatistas será apresentado não só com base nas narrativas dos receptores entrevistados, mas de seus relatos orais de vida e nas condições socioculturais exploradas com inspiração etnográfica nos diversos territórios e tempos transitados. Para isso, os ouvintes foram reunidos em três diferentes grupos com as seguintes versões sobre as emissoras: “Outra informação, outra cultura”, “Outro mundo possível” e “Autonomia é vida”. A primeira reflete os sentidos dos ouvintes que 165 escutam as emissoras porque possuem informações ou expressões artísticas culturais alternativas. São ouvintes que não aderem ao zapatismo, mas possuem uma visão crítica dos meios de comunicação massivos. Já o segundo grupo reúne ouvintes aderentes ao zapatismo, mas que vivem na cidade, ou seja, fora de condições de uma autonomia mais completa. Os demais ouvintes vivem em comunidades autogestionadas, autodispostas e autodeterminadas na zona rural, aderentes ao zapatismo. 6.1 Outra informação, outra cultura Dos 18 ouvintes entrevistados, reuni seis neste grupo: Victor, Artur, Beatriz, Jacob, Pedro e Mark. Eles ouvem somente a Frecuencia Libre, moram na cidade e possuem alguma memória que os motiva escutar uma rádio livre mesmo que não sejam aderentes, nem militem em movimentos zapatistas. Ainda que em diferentes intensidades, eles nos revelaram informações sobre seu passado, presente e expectativas para o futuro que nos permitiram criar versões sobre os sentidos possíveis de suas escutas. As diferenças de profundidade nas informações pessoais fornecidas pelos entrevistados foram causadas pelos diversos níveis de desenvoltura de cada um. Não os forcei a falar sobre assuntos que notei constrangedores e que evitaram tratar. Por isso, além dos sentidos, irei descrever como o contato foi realizado para compreender as condições destas narrativas. O fótografo Victor vem da cidade de Comintán de Dominguez, município distante 92 km de San Cristóbal de Las Casas, que possui uma população de 141 mil habitantes, segundo o censo de 2010 do Instituto Nacional de Geografia y Estadística do México (INGE). Encontramo-nos acidentalmente num café de um amigo brasileiro no Centro Histórico. Já o estava procurando sem sucesso, através de e-mail, porque ele tinha respondido o questionário aplicado por Leonardo Toledo. Sem saber que era um ouvinte da Frecuencia Libre e um dos meus possíveis pesquisados, comprei duas fotografias suas. Começamos a conversar e descobrimos a coincidência. De pronto, ele se colocou a disposição para entrevista, que realizamos na cozinha do café que estava desativada e mais tranquila. Tivemos uma mútua identificação porque ele, como eu, é formado em Comunicação e trabalhou em rádio, por isso nossa entrevista fluiu bastante com mais de 40 minutos de conversa. 166 Suas recordações da escuta do meio remontam aos cinco anos de idade quando um tio era locutor numa emissora comiteca140 e durante as férias o levava ao estúdio para acompanhar ao vivo seu programa. Para Victor, era o momento mais divertido da época. Quando chegava as férias meu tio colocava um programa chamado Paulo Assassino. Eu era pequeno e tinha medo. E as vozes eram impressionantes. E depois fui conhecer como fazia um programa local, que agora é nacional “A hora de Caderro”, que passava “La llorona”, “El Caderro”.141 Outra lembrança é a escuta do avô, ouvinte de um programa noturno que lia cartas. A passagem de ouvinte para produtor de rádio não tardou. Ainda quando cursava o ensino médio, em 1998, participou de um programa radiofônico feito por um grupo de jovens que se organizavam para dar assistência social aos mais carentes, através de campanhas de doação e atividades culturais. A presença do rádio em sua vida foi decisiva para a escolha sua carreira. Victor se formou em Comunicação e durante o curso realizou estágio numa emissora comercial, seguindo sua carreira profissional numa estação estatal, onde sofreu com as restrições editoriais contra as críticas, principalmente, aos grupos que estavam no comando político do município, estado e país. A situação forçou sua saída da emissora. Apesar de continuar fazendo produções de vinhetas e spots num estúdio caseiro para rádios da Região da Fronteira e da Guatemala, pouco tempo depois, a frustração com a rádio estatal o motivou a mudar sua atuação para a fotografia e seu domicílio para San Cristóbal de Las Casas. No entanto, na nova cidade, Victor não demorou para ter um novo encontro com o rádio. Em 2009, quando trabalhava num restaurante enquanto buscava viabilizar o projeto de montar uma galeria de arte, ele encontrou, zapeando o dial durante as solitárias folgas dos sábados, a Frecuencia Libre. “Me chamaram a atenção as músicas que colocavam, porque não eram tão convencionais, tão populares”142. Com o passar do tempo, a escuta lhe revelou uma emissora livre das restrições editoriais que lhe fizeram sair do rádio. “A Frecuencia Libre é crítica, é livre. Se escutas outra estação de rádio, é assim: são católicos, são evangélicos, são comerciais”143. Juntando o apreço pela liberdade de expressão com o interesse pela arte, o “Debate Cultural” se tornou seu 140 Nascido em Comitán de Dominguez 141 Entrevista com Victor (nome fictício), em 22 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 142 Idem. 143 Ibidem. 167 programa preferido por defender “a liberdade de se manifestar, desde sua crítica, desde seu ponto de vista, desde os parâmetros locais”144. Sua única queixa contra a estação é o baixo alcance. “Só pega em algumas quadras do centro da cidade”.145 Sobre o zapatismo, Victor revelou que suas principais recordações são do levante de 1o de janeiro de 1994. Na época, ele era criança e lembra que passou vários meses sem poder ir ao centro de Comitán. “Tinha uns 9 anos e vi passando os helicópteros. Ficamos fechados uns seis meses. Minha mãe dizia: 'Não pode sair'. Se fôssemos ao centro, pediam para nos retirar. Eu via as notícias e me causava um choque”146. Sua família foi contrária ao movimento e sempre se posicionou contra a autonomia dos povos originários. Somente quando jovem ele passou a ter uma visão mais “esquerdista” e compreendeu melhor o zapatismo. No entanto, apesar de revelar que não participa de nenhum coletivo aderente, na entrevista, não deixou explícita qual sua posição a respeito do tema, mesmo tendo sido questionado. A liberdade de expressão é claramente o sentido que conecta a escuta de Victor com seu passado, presente e futuro. Ouvir a Frecuencia Libre, para ele, é como uma espécie de revanche contra as restrições e a censura que o fizeram abandonar o rádio. Possibilita imaginar como o rádio seria se não houvessem restrições editoriais. As críticas que ele não podia falar na emissora estatal onde trabalhou, na rádio livre, ele escuta frequentemente. É também uma forma de catarse, ou seja, um alívio do stress causado pelo controle estatal, empresarial ou religioso ao qual quase todas as estações da região estão submetidas. Além do mais, é uma esperança. Ele crê que uma rádio livre contribui para a pluralidade social, pois “sem liberdade de expressão, não há democracia”147. Sua conexão com o rádio, influenciada desde criança por seu tio, ampliada pela escuta do avô e pela atuação em grupos de jovens, tornou ainda o meio sua principal companhia quando acabara de chegar num lugar desconhecido e solitário. Assim como Victor, Artur é fotógrafo, trabalhando atualmente como câmera e editor de vídeo numa universidade, e vem de outro município vizinho, Tenejapa, que possui 41 mil habitantes, segundo o censo do INGE de 2010, estando a 28 km de San Cristóbal de 144 Ibidem. 145 Ibidem. 146 Ibidem. 147 Ibidem. 168 Las Casas. Ele é mais um ouvinte que localizei através de questionário aplicado por Leonardo. Marcamos de nos encontrar em seu trabalho. Iniciamos a entrevista em sua sala, uma ilha de edição, onde várias outras pessoas trabalhavam. O que me fez sentir a inadequação do local, convidando, por isso, a irmos a outro lugar. Entrevistei-o então numa mesa ao ar livre da cantina da universidade. No horário, o local estava muito tranquilo com pouquíssimas pessoas sendo atendidas ou transitando. Tivemos uma relação de cordialidade e confiança. Creio não só pela recomendação de Leonardo, como também por ele trabalhar numa instituição onde acompanha sempre atividades de entrevista como essa, devendo compreender sua importância. Nossa conversa se entendeu por quase 30 minutos. Artur revelou que a memória de sua comunidade foi a principal motivação para ouvir a Frecuencia Libre. Seus pais e avôs lhe contavam sobre um passado mais próspero e justo, quando Tenejapa era autônoma, nas décadas de 1950 e 1960, possuindo seu próprio sistema político, jurídico e legal. “Gosto muito da vida em autonomia, porque tem muita liberdade até certo ponto de exercer certas coisas e também há um coletivismo, uma coletividade para muitas atividades, inclusive econômicas”148. Assim, quando em 2005 chegou a San Cristóbal de Las Casas para buscar oportunidades profissionais que lhe faltavam em sua cidade natal, começou a procurar emissoras para escutar e se identificou com a Frecuencia Libre, devido à independência de seu conteúdo e de sua gestão. A estação passa desde então a alimentar no cotidiano as lembranças do passado imaginado. (…) é uma maneira como me conecto ao passado, se eu não o vivi diretamente, o viveram meus avôs, meus papais e eu fiquei com a recordação, a memória, ou seja, me trato de imaginá-lo como uma coisa muito perfeita. Mas de algum modo, inconsciente, talvez, uma conexão profunda com minhas lembranças tenha enfocado meu interesse até a Rádio Frecuencia Libre. Todas as coisas que tem que ver com autonomia e autosuficiência me chamam a atenção, é muito familiar para mim, por isso, me perfilo neste lado.149 Além da conexão com as memórias imaginadas, a escuta da estação lhe cultiva a expectativa de que, no futuro, sua terra seja novamente autônoma. “Meu sonho ou minha esperança seria que Tenejapa voltasse a ser um município autônomo que foi antes 148 Entrevista com Artur (nome fictício), em 17 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 149 Idem. 169 e que eu pudesse participar desta comunidade”. O sentimento de autonomia possibilitado pela escuta da emissora sublima assim a frustração de uma forçada migração pela situação de injustiça e pobreza à qual hoje sua cidade está submetida. Ele pode alimentar assim, ouvindo a Frecuencia Libre, um imaginário de transformações que criem lá condições para seu regresso ou que cogite a possibilidade de nunca ter deixado de ser autônoma e ele nunca migrado. O programa preferido de Artur é o Debate Cultural. Gosto muito do Debate Cultural porque faz um resumo de tudo o que ocorreu em San Cristóbal. Vai assim como por níveis, a nível local, nacional e internacional. Então tocam temas que me interessam muito que tem que ver com a cultura, com a ciência (…) os temas se põem sobre a mesa e já um começa a discutir e interpretar a informação de acordo ao que te dão (…)150. Ele também gosta do programa “La Hora Sexta”, espaço zapatista na programação da emissora. Para Artur, o movimento resgata a autonomia que sua comunidade e outros municípios indígenas tiveram no passado. Entretanto, ele não participa de coletivos zapatistas, nem gostaria que sua comunidade aderisse ao movimento, porque a autonomia de Tenejapa tem outra origem histórica enraizada na organização local. Já antropóloga Beatriz, funcionária de uma ONG, foi um contato conseguido através de Valentin Val que lhe aplicou o questionário. Marcamos de nos encontrar num Café no Centro Histórico. Era de manhã cedo e logo ela me falou de sua pressa porque tinha de entrar no trabalho em pouco tempo. Combinamos então 20 minutos de entrevista, mas a mesma se estendeu por pouco mais de 30 minutos. Como antropóloga, ela pareceu compreender a importância não só da entrevista, mas também da pesquisa. Expressou de maneira clara suas recordações e opiniões, sendo muito enfática em seus gestos e tom de voz. A escuta da Frecuencia Libre por Beatriz alimenta uma memória de uma época mais recente de sua vida. Ela veio da capital chiapaneca Tuxtla Gutierrez em 1997 para cursar a graduação. Sua participação em movimentos estudantis marcou sua trajetória na universidade. (…) tínhamos uma organização de fóruns, encontros, ao final dos 90 até os anos 2000. Havia muitos encontros, muitos fóruns, muitíssimas conferências, viam gente de toda a América Latina e de todo o mundo a compartilhar aulas, 150 Ibidem. 170 a compartilhar conferências sobre os movimentos sociais no mundo e Chiapas.151 Neste contexto, o rádio era a principal referência. “A Frecuencia Libre, como rádio comunitária, era, sem dúvida, muito importante para nossa formação. (…) misturava música, poesia, literaturas, textos de análise, de ensaio e era muito rico (…)”152. A emissora não só lhe possibilitava acesso às informações, mas motivação para a militância social, através das canções revolucionárias, das entrevistas e dos programas de coletivos. Segundo ela, sua geração vivia a efervescência do zapatismo quando pessoas do mundo inteiro vinham a San Cristóbal de Las Casas conhecer e discutir sobre o movimento. Atualmente, ela parece não ter uma posição muito segura sobre o zapatismo e os movimentos autônomos. Não sei… Hoje em dia me mantenho menos informada do que antes. Por isso não consigo localizar de que maneira que poderia funcionar. Explico... Porém definitivamente hoje é mais necessário, necessitamos destes movimentos de luta, deste tipo de resistência. Creio que mais do que nunca o mundo está de pernas para cima. Não digo que em 94 não foi válido. Creio que foi. Mas hoje em dia, parece que se vai perdendo cada vez mais nosso sentido de humanidade. Nosso sentido de conjunto. (...) Temos, por isso, que fazer as lutas mais radicais para poder efetivamente gerar uma mudança, uma transformação.153 Uma das consequências desse atual afastamento dos movimentos autônomos é que Beatriz raramente escuta a Frecuencia Libre. Ela acredita que a internet substituiu o papel de prover informações alternativas. “(...) os avanços e os meios de informação e de desinformação estão a todo o tempo nos manipulando (...) na internet”154. Ela demonstrou se revoltar porque, mesmo com tanto acesso à informação, os jovens não a usam para a organização e mudanças sociais. “Não tínhamos o acesso tão brutal que agora tem com a tecnologia. No entanto, os jovens têm e não estão aproveitando”155. Ainda que não seja mais ouvinte assídua da Frecuencia Libre, Beatriz, além da memória que possui da rádio associada a sua militância nos movimentos estudantis, reconhece o papel de uma rádio livre nas comunidades. “Muitos espaços só têm isso. Em muitas comunidades, em muitos estados do México, de América Latina e do mundo só tem 151 Entrevista com Beatriz (nome fictício), em 21 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 152 Idem. 153 Ibidem. 154 Ibidem. 155 Ibidem. 171 isso: uma rádio comunitária que lhes informa e que de alguma maneira os orienta… que lhes dá voz”156. A escuta da emissora pode construir imaginariamente uma continuidade de sua militância estudantil. Da mesma forma que Beatriz, as recordações da vida universitária motivaram Jacob a escutar a Frecuencia Livre. Ele vem da Cidade do México onde cursou Comunicação Social na Universidade Autônoma do México (Unam). Ele foi um contato obtido através de questionário aplicado por Leonardo Toledo. Também nos encontramos num Café no Centro Histórico de San Cristóbal de Las Casas. Ele me aparentou estar desconfiado e um pouco inseguro, por isso a entrevista rendeu pouco, não só em tempo, menos de 20 minutos, mas também em conteúdo. O momento mais tenso pareceu quando perguntei o que ele pensa sobre os movimentos autônomos. Além de fugir do assunto, ficou agitado e encerramos o encontro pouco depois. No entanto, sua entrevista revelou que, apesar de não ter uma militância estudantil ativa, ele escutava Radio Zapote “para ter outro tipo de informação”. A emissora foi criada, em 2001, durante a marcha da Cor da Pele, liderada pelo EZLN quando lutavam pela aprovação no Congresso Nacional da Lei dos Povos Indígenas, negociada durante os acordos de paz de San Andrés. Após a mobilização, um grupo de jovens que criaram o veículo formaram um coletivo e continuaram transmitindo até hoje. Quando Jacob se mudou para San Cristóbal de Las Casas, em 2008, a fim de encontrar um lugar mais tranquilo para viver, a referência da emissora da Cidade do México lhe acompanhou, incentivando-o a escutar uma rádio livre no novo domicílio. Apesar de ainda escutar a Frecuencia Libre, principalmente no trânsito, ele critica a programação. “As músicas são aborrecidíssimas”157. Por isso sua preferência é o programa “Debate Cultural”, que toca pouca música e “porque é informal e tem um conteúdo mais jornalístico”. Mesmo não tendo participado de movimentos sociais nem de comunidades autônomas, diferente dos ouvintes anteriormente apresentados, o sentido da escuta de Jacob é claramente pela informação alternativa à veiculada nos grandes conglomerados de meios, cultivado por sua formação crítica construída durante seu curso de graduação. A emissora possibilita reviver sua memória estudantil. 156 Ibidem. 157 Entrevista com Jacob (nome fictício), em 19 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 172 Outro ouvinte encontrado a partir de questionário aplicado por Leonardo Toledo, foi Pedro, um poeta aposentado de origem espanhola. Marcamos a entrevista num bar cultural, localizado no Centro Histórico de San Cristóbal de Las Casas. Ao chegar, ele me perguntou sobre a pesquisa. Pareceu-me muito desconfiado. Compreendi sua apreensão principalmente por ser estrangeiro e, por isso, proibido pela Constituição Mexicana de manifestar-se sobre política, condição logo recordada por ele antes de começar a entrevista. Assim, decidi não perguntar sobre autonomia nem zapatismo. Antes de iniciarmos, ele pediu uma cerveja, convidou-me a beber também. Recusei agradecendo-lhe. Como o bar, mesmo antes da chegada dos clientes, já tinha um som com volume alto, subimos até a sacada do local. Nossa entrevista foi no ar livre num lindo por do sol. Eu estava visivelmente exausto e com fortes dores no joelho, causadas por ter regressado, no dia anterior, de cansativas atividades na comunidade de San Isidro de La Libertad. Comentei com Pedro sobre como me sentia e ele me aconselhou a usar pomada de arnica no joelho e descansar porque era “o único remédio contra o cansaço”. Depois disso, ele ficou bem mais à vontade e conversamos de maneira mais descontraída. De início, explicou-me que emigrou há mais de 15 anos de Madrid, já tendo vivido em outros Estados mexicanos. Em sua cidade natal, era ouvinte assíduo da rádio livre La Luche, da qual participou como repórter de um programa sobre migrantes latino- americanos. Entrevistava argentinos, mexicanos, peruanos, chilenos, entre outros, que viviam nas proximidades de seu bairro. Tratava não só sobre questões culturais, mas também sobre as dificuldades de viver no exterior, muitas vezes, sem documentação e sem trabalho fixo. Desde então, reconhece a importância de uma rádio livre. “Gosto tanto da produção, do fazer coletivo, do fazer diferente, que há liberdade de expressão. Alguém dizia que, para que tenha liberdade de expressão, tem primeiro que ter liberdade de pensamento. Algo que é interessante”158. Quando chegou a San Cristóbal de Las Casas, Pedro tratou logo de buscar uma emissora que lhe preenchesse o costume de escutar uma rádio livre. “(...) quando chego em qualquer lugar vou escutar a rádio para saber o que há por aí. Se não conhece o lugar, alguns vão pegar um mapa, um guia turístico… Nós vamos agarrar um rádio para saber 158 Entrevista com Pedro (nome fictício), em 19 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 173 o que há (risos)”159. A inevitável identificação com a Frecuencia Libre ocorreu porque “interessa escutar outro tipo de música, outro tipo de palavra, ou seja, comprometida socialmente e que ofereça outro tipo de alternativa política, cultural, musical. A Frecuencia Libre tem um pouco de tudo isso”. Por isso, passou rapidamente de ouvinte para produtor da emissora, tendo participado dos programas “Mujeres de Ojos Grandes” e “Debate Cultural”. Mesmo não estando mais envolvido diretamente com a emissora, continua ouvindo-a para conhecer as convocatórias dos movimentos sociais e as questões sobre as artes plásticas, literárias e teatral. Ao contrário de Jacob, o poeta aprecia a música da Frecuencia Libre. “Sobretudo quando começou. Era o único lugar que se podia escutar algo diferente. Sim, a música é boa, interessante”160. O sentido da escuta de Pedro está na conexão de sua memória de ouvinte e produtor de uma rádio livre em Madrid, seu interesse atual na arte não comercial e sua esperança nos movimentos sociais que possibilitam a liberdade de pensamento e expressão. A memória de rádios livres europeias também marca o sentido da escuta do antropólogo e professor universitário Mark, migrante alemão há mais de 5 anos. Consegui entrevistá- lo durante um seminário internacional na Universidade da Terra em julho de 2014, espaço zapatista localizado na Colônia de San José, na periferia de San Cristóbal de Las Casas. Ele havia respondido o questionário aplicado por Valentin Val, mas não retornava minhas solicitações para uma entrevista enviadas por e-mail. Aproveitei o evento para buscar os possíveis entrevistados. Com ajuda de conhecidos, localizei-o e marcamos um encontro logo após a conferência do dia. Conversamos num jardim do local, no cair da noite e na chegada do frio mais forte, o que obviamente incomodou mais a mim do que a ele. Apesar de me parecer inicialmente muito fechado, nossa conversa rendeu quase 40 minutos de uma cordial relação. Mark acompanhou as primeiras transmissões de rádios livres do mar do norte no final da década de 1960. Na época, seu interesse pelas emissoras era musical, ou seja, escutar estilos que não tocavam nas emissoras comerciais. Já nos anos de 1980, a escuta de rádios livres lhe manteve informado e motivado para sua atuação no movimento “Okupa”, que lutava para garantir moradias sociais em casas antigas no Centro de 159 Idem. 160 Ibidem. 174 Berlim. Seu interesse pelos movimentos sociais vem de sua consciência pela diversidade. (…) uma diversidade numa frente comum porque lutávamos pela mesma causa. Isso me pareceu muito importante, de não estar num gueto de estudantes, mas de conviver com outra gente e conhecer outros modos de vida, outras culturas, (…) através desta luta compartilhada. Então com isso, senti uma melhor qualidade de vida também. Essa possibilidade de conectar com outra gente que normalmente não teria conhecido e compartilhar e conviver com elas.161 Neste sentido, as rádios livres “representam uma alternativa ao sistema capitalista de produção que se sustenta em suas próprias lógicas de incrementar lucratividade a todo custo”162. Por isso, quando chegou ao município chiapaneco, em 2009, logo conheceu a Frecuencia Libre, no que ele considera o “auge da emissora” e assim se tornou seu ouvinte. Apesar de hoje em dia dificilmente escutar rádio, porque assim como Beatriz prefere obter informações pela Internet, reconhece a importância da estação que possui “(…) a missão de verdadeiramente informar sobre coisas que a outros grupos políticos não lhe convêm te informar”. Sua escuta está claramente conectada, além da sua memória de militância estudantil, a uma consciência política que reflete os valores de sua formação acadêmica, como a diversidade e a interculturalidade. Ele acredita que as lutas sociais podem promover a convivência entre os diferentes que buscam superar suas condições de exploração ou opressão. A alteridade do conteúdo informativo e artístico da Frecuencia Libre marca o sentido da escuta destes ouvintes. A crítica e a liberdade de expressão são os principais valores que conectam este grupo à emissora. Há, desta maneira, uma estreita relação da competência dos receptores, encontrada nestes sentidos culturais, com a matriz cultural racional- iluminista da rádio que, através de seus endereçamentos questionadores, irônicos, subversivos e críticos – conforme mostrados no capítulo 3 - apresenta um conteúdo alternativo às emissoras comerciais. Por conseguinte, a estação atende uma demanda dos ouvintes que precede a escuta. Os receptores entrevistados, vindos de outras cidades ou países, marcados por experiências relacionadas a movimentos políticos, estudantis ou culturais se apropriam da Frecuencia Libre por encontrarem em sua programação semelhanças com suas vivências. Há uma clara relação de suas escutas com um passado 161 Entrevista com Mark (nome fictício), em 18 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 162 Idem. 175 perdido, descontinuado, mas não esquecido. Assim, a emissora colabora ainda para, no cotidiano, alimentar suas expectativas de mudanças e transformações sociais, mesmo que tão somente imaginadas e quase inalcançáveis. Há outras duas características que reúnem estes ouvintes. Primeiro, todos possuem formação superior na área de humanidades ou trabalham diretamente com a academia. Relacionam-se assim com a mesma matriz cultural predominante na Frecuencia Libre. Segundo, neste grupo de ouvintes, não encontrei uma identificação da estação como uma rádio zapatista, mesmo que a programação constantemente apresente programas, músicas ou informações deste movimento. Exceto Artur, os demais ouvintes não têm uma relação direta com as lutas sociais de autonomia dos povos originários. Por isso, atenuam os endereçamentos zapatistas veiculados na emissora, acentuando, por sua vez, seu caráter independente, crítico e contestatório. 6.2 Outro mundo possível Os ouvintes reunidos neste grupo – John, Raul, Pablo, Vicenzo e Ana - além de partilharem a escuta das emissoras pesquisadas, moram na cidade e são explicitamente simpatizantes do zapatismo ou aderentes à La Sexta Declaración. Exceto Pablo, todos foram encontrados a partir dos questionários aplicados por Valentin Val. Assim como no grupo anterior, exploro não só os usos das emissoras, como também suas memórias e expetativas, descrevendo as condições do diálogo. John é professor universitário e assessor de movimento social internacional. Nosso encontro se deu de maneira descontraída porque já nos conhecíamos desde quando fui pela primeira vez em San Cristóbal de Las Casas. Apesar disso, ele demonstrou um pouco retraído para falar sobre questões pessoais. John, mesmo tendo nascido e crescido nos Estados Unidos, também possui nacionalidade mexicana, devido à descendência materna. Formou-se em biologia, tendo seguido a carreira de pesquisador e professor em agroecologia numa universidade de San Cristóbal de Las Casas. Ele nos revelou que seu interesse pelos movimentos sociais vem de sua participação em organizações estudantis nas décadas de 1960 e 1970, quando militou contra a Guerra do 176 Vietnã e em solidariedade aos presos políticos dos Panteras Negras163. Neste período, também apoiou a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) na Nicarágua164 onde trabalhou como assessor do Ministério da Reforma Agrária e Desenvolvimento Agropecuário durante o primeiro governo revolucionário deste movimento. Entre idas e vindas, acabou estabelecendo-se em San Cristóbal de Las Casas, onde acompanhou a organização do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). “Só não vi o levante de 1o de janeiro de 1994 porque estava em viagem”. A partir de sua militância na região, o zapatismo se tornou uma inspiração. “Creio que a construção da autonomia pelos zapatistas é um exemplo muito distinto do que se tem conseguido em outros lados”165. Para aproximar-se deste movimento e escutar suas vozes, ele passou a ouvir esporadicamente suas emissoras, tendo acompanhado a mudança da Rádio Insurgente para a Radio Rebelde. Segundo ele, esta última reflete a palavra dos povos originários, sendo uma construção a partir das bases. “O próprio slogan 'voz da mãe terra' revela que a emissora tem uma organização popular”166. John explica que escuta principalmente no trânsito. “Uma vez me surpreendi quando tomei um táxi que estava sintonizado na emissora”167. Esta é uma das recordações que ele tem da programação, um debate sobre agroecologia. Apesar de as emissões serem em tsotsil, John compreendia os resumos em espanhol e alguns termos falados na língua europeia, como agrotóxicos, ecologia, químicos, entre outros. Ele também lembra de um debate sobre as mulheres e das mensagens sobre o mau governo dirigidas a comunidades não zapatistas. Agrada-lhe a variedade das músicas e dos temas revolucionários. Considera também importante repetir alguns programas para que possa chegar a um público mais amplo. 163 O Partido dos Panteras Negras surgiu na década de 1960, em Oakland, Estados Unidos, na luta contra o racismo se diferenciando do pacifismo de Martir Luther King e a religiosidade islâmica de Malcon X. Além dos direitos civis equânimes para negros e brancos, o movimento defendia o direito de autodefesa armada dos oprimidos. Informações do artigo Partido dos Panteras Negras de Wanderson Silva Chaves disponível em acesso 10 de outubro de 2015. 164 A Frente Sandinista de Libertação Nacional foi criada, na Nicarágua, em 1960, sob influência da Revolução Cubana, com o objetivo de derrubar o imperialismo estadunidense e seus aliados no país. Depois de mais de 20 anos de guerrilha, principalmente na zona rural, um de seus líderes, Daniel Ortega foi eleito presidente em 1984, tendo de governar um país arrasado pelos conflitos e pelo bloqueio comercial do Estados Unidos. Informações do artigo Revoluções Sandinistas: sonhos e desilusões, disponível em , acesso em 10 de outubro de 2015. 165 Entrevista com John (nome fictício), em 13 de janeiro de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 166Idem. 167 Ibidem. 177 O sentido da escuta de John liga-se mais a suas vivências recentes do que à memória de sua militância política estudantil ou de sua participação no governo sandinista. Ele possui a crença de que o zapatismo é uma alternativa que deve inspirar outras comunidades, por isso acompanha a organização para partilhar os conhecimentos em suas práticas no movimento social que participa e na docência universitária. Reconhece também um forte vínculo entre a experiência zapatista, suas palavras veiculadas na Radio Rebelde e a preservação ambiental, conectando assim escuta à consciência política e à formação profissional. O interesse pelo zapatismo de outro entrevistado, Raul, também surgiu pela relação entre o meio ambiente e a organização política. Ele vem de uma colônia no Distrito Federal mexicano que possuía muitos bosques, degradados durante sua infância e adolescência. O que comoveu a toda a família dele. “Assim, quando tive acesso a um comunicado indígena dos zapatistas notei a preocupação deles com a terra, os irmãos e a cultura da família”168. Desde então despertou o interesse pelo movimento. Mas só quando cursou comunicação na Universidade, adquiriu uma consciência política crítica, iniciando a participação em movimentos como a greve estudantil da Unam na década de 2000 e a Coluna de Oaxaca. Desde então, tornou-se ouvinte das emissoras que transmitiam informações sobre estes movimentos, como a rádios Ké Huelga169 e a Platón. Em 2003, mudou-se para San Cristóbal de Las Casas para cursar mestrado em Antropologia, passando a apoiar mais proximamente o zapatismo e a viver num coletivo autônomo. Começou a escutar assiduamente emissoras livres que conseguia sintonizar, Radio Insurgente, Radio Rebelde, Frecuencia Libre e Votón Zapata. Nas duas primeiras, buscava informações sobre as comunidades autônomas e gostava dos contos do subcomandante Marcos. Já na Frecuencia Libre acompanhava sempre o noticiário apresentado pela manhã, que não mais existe, e, na Votón Zapata, a transmissão dos eventos. Segundo ele, sua relação com o rádio sempre foi bilateral porque, gosta de escutar e produzir. O que lhe levou logo a apresentar um programa na Frecuencia Libre entre 2011 e 2012. 168 Entrevista com Raul (nome fictício), em 17 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 169 A Radio Ké Huelga transmitia na Cidade Universitária, em 102,1 FM, no ano de 1999, por cargo do Conselho Geral da Greve da Unam. A emissora continua a transmitir na internet em , acesso em 12 de outubro de 2015. 178 Nosso encontro foi durante um seminário realizado na Universidade da Terra em julho de 2014. Ele trabalhava na transmissão pela internet em tempo real do evento e também ajudava a cuidar do filho de uma amiga, por isso a conversa foi interrompida várias vezes, mas rendeu quase uma hora. O sentido da escuta de Raul está relacionado à sua militância cotidiana no coletivo que, além de aderente à Sexta Declaração, constantemente faz coberturas de mobilizações zapatistas, como a Marcha do Silêncio, a Escuelita e a homenagem ao professor Galeano170. As emissoras o aproximam não só das vivências cotidianas do engajamento político, trazendo informações das comunidades aderentes e o espírito rebelde do zapatismo, mas também fortalece sua esperança de construir um mundo mais justo e sustentável, onde o meio ambiente seja respeitado e outros bosques não sejam destruídos como foi o da sua comunidade quando adolescente. Ana também participa de um coletivo aderente à Sexta Declaração em San Cristóbal de Las Casas que trabalha com a produção de vídeos alternativos. Ela é cantora, tendo vindo da cidade de Querateno, localizada no centro-norte do México. Mesmo tendo-lhe enviado vários e-mails sem resposta, consegui entrevistá-la também durante o Seminário na Universidade da Terra, em julho de 2014, porque foi localizada por colegas. Ela demonstrou-se desconfiada e fechada, evitando de falar sobre sua vida pessoal e com respostas muito curtas e secas. O que me levou a não insistir neste assunto, por isso não tive conhecimento das memórias que podem relacionar-se à sua escuta. No entanto, Ana revelou que ouve a Frecuencia Libre porque a emissora traz “coisas diferentes de outros tipos de rádios, coisa diferente que te fazem ter consciência, informação do que está passando nos outros lados, coisas que não vão transmitir em outros meios comerciais, da gente, a realidade que se vive”171. Além de informar, a emissora serve para motivá-la no engajamento pela autonomia. “A rádio livre é uma possibilidade de chegar à população e com esta informação que transmitem para contar 170 Professor Galeano é o pseudônimo de José Luis Solís López que lecionava na Escolita Zapatista. Ele foi assassinado em 2 de maio de 2014 no território zapatista do Caracol de La Realidad. A Junta de Bom Governo informou que foram paramilitares pertencentes à Central Independente de Obreros Agrículas y Campesinos Histórica (CIOAC-H), ao Partido Verde Ecologista de México (PVEM) e ao Partido Acción Nacional (PAN). Segundo o informe, ele foi alvejado com três tiros quando estava rodeado, desarmado e rendido. 171 Entrevista com Ana (nome fictício), em 15 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 179 a realidade que está passando com a gente (...) então é uma motivação”172. Em sua opinião, a autonomia é uma meta a alcançar, a partir das práticas diárias, “não depender do sistema, do capitalismo”. Os zapatistas são exemplos nesta luta, porque “estão em nível mundial logrando bastante neste caminho até a autonomia”173. Desta maneira, o programa de sua preferência na Frecuencia Libre é “La Hora Sexta” no qual, em 2010, chegou a contribuir participando da produção e apresentação. Ainda que hoje dia dificilmente consiga sintonizar a emissora, porque está morando numa colônia onde o sinal não chega, o sentido de sua escuta está relacionado com a militância no coletivo. A rádio lhe traz informações necessárias para participar das mobilizações e subsídios para sua formação política. Também motiva a esperança na conquista da autonomia que, para ela, é uma construção cotidiana e coletiva. O rádio cumpre o papel de motivar e partilhar as vivências. “Mundos posibles” é o coletivo de defesa da agroecologia do qual participa Pablo e o levou a fixar-se em San Cristóbal de Las Casas. Ele é antropólogo e, assim como Pedro, veio de Madrid. Sua militância neste grupo o levou a ser entrevistado várias vezes na Frecuencia Libre. A emissora lhe chamou a atenção porque “é mais crítica e com vários pontos de vista, creio. (…) inclusive com programas culturais que não tem (...) em outras rádios. Fala de poesia, de cultura local, porém não oficial, a que está criando alternativas. É o que gosto mais”174. Desde então, a estação lhe serviu de referência para saber o que acontecia na região, conectado-o com o país. O programa “Poesia e Música”, o jornalístico matutino – que não são mais apresentados - e as canções contestatórias foram os conteúdos que mais o levaram a se identificar com a emissora, mas, assim como Jacob, logo se aborreceu com a repetição musical. Atualmente pouco escuta a emissora, mas reconhece a importância de uma rádio como a Frecuencia Libre. “Creio que o importante é conectar os grandes discursos com a cotidianidade. Creio que a rádio tem um bom papel nisso. (…) é importante para dar pluralidade e romper com o sentido hegemônico”175. 172 Idem. 173 Ibidem 174 Entrevista com Pablo (nome fictício), em 15 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 175Idem. 180 A escuta da emissora liga-o com sua militância social em defesa da produção agroecológica e com crença de que a sustentabilidade ambiental só pode existir com democracia e dignidade, “o básico do ser humano”. Além disso, resgata a memória da atuação política contestatória na adolescência. Ele lembrou que seus amigos lhe influenciaram para ter uma perspectiva mais crítica quando participavam da luta contra o serviço militar obrigatório na Espanha e pelo pacifismo, tendo em seguida despertado o interesse para o meio ambiental. Eu já pensei várias vezes sobre isso. Foi sobretudo por amigos. Quando era jovem de 15 e 16 anos e havia amigos que tinham problema porque tinham que fazer o serviço militar e a havia um movimento de insurreição e anti- militarismo por ai onde fui aprendendo. Fui participando. Então, no final de 80 e 90, ai foi quando fui pouco a pouco me envolvendo em movimentos políticos com o anti-militarismo176. Esta entrevista foi muito tranquila, sendo realizada num café no Centro Histórico, sugerido por mim. Ele, além de muito atencioso com as perguntas, também foi muito solícito com minha investigação, inclusive ajudando-me a localizar outros ouvintes a serem entrevistados. Mesmo eu tendo evitado perguntar sobre autonomia devido à sua condição de migrante, ele falou espontânea e abertamente que o zapatismo foi um dos motivos que o fez mudar-se para San Cristóbal de Las Casas. Veio apaixonado pelo movimento principalmente porque deu um “ar fresco” à esquerda, depois da queda do socialismo soviético. Para ele, os zapatistas “romperam com muitos cercos fechados de muitos discursos e da forma de fazer, de ser mais transversal sobre o terreno onde estar. Mais do que conseguir uma utopia, que também é importante, é trabalhar onde estás, com a gente que está”177. Vicenzo é outro migrante europeu que apoia o zapatismo e é engajado num coletivo em San Cristóbal de Las Casas que ajuda a construir padarias e fornos em comunidades autônomas. Ele também trabalha como pizziaolo num restaurante, sendo procedente de Roma. Chegou em 2006 ao México a fim de acompanhar a Coluna de Oaxaca. Na Itália, já militava em movimentos anarquistas libertários, como “Ocupa”, onde escutava uma rádio livre de Roma. Por isso, “quando vim para cá sabia que tinha de sintonizar isso, que a informação boa é a não comercial”178. Conheceu, em sua militância na Itália, o 176 Ibidem. 177 Ibidem. 178 Entrevista com Vicenzo (nome fictício), em 16 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 181 zapatismo e, por isso, decidiu fixar-se no México a fim de contribuir com esta luta. De acordo com ele, a autonomia (...) é uma inspiração, um horizonte, ou seja, é o caminho que estamos, por isso, em Chiapas, estamos com os zapatistas que representam uma sociedade autônoma, ou seja, as pessoas decidem o que querem (…) em assembleias mais horizontais possíveis. Tomam decisões coletivas. E quando há divergências se conformam com o que decidem em paz.179 As rádios livres já se constituem, para ele, em uma manifestação de autonomia. “(…) a disciplina de ter uma rádio, de fazer uma rádio, ter assembleias já é fazer política desde abaixo. Já é ser coletivo. Já é ser autonomia”180. Ele destaca também a capacidade de diálogo das emissoras com a base, ou seja, são expressões de uma comunidade. Vicenzo conheceu a Frecuencia Libre através de cartazes fixados nas ruas, quando chegou à cidade. Passou a ouvir principalmente os programas do sábado, como “Hablemos Chiapas” e “La Hora Sexta”. “O que mais gosto é no sábado que passam as notícias dos movimentos sociais. Às vezes, não tenho tempo de ler os jornais, me chega uma informação e outra informação mais específica dos movimentos sociais em San Cristóbal”181. A escuta da emissora não só lhe traz notícias alternativas como complementa sua formação política. “Às vezes topas com uma boa transmissão que alguém te conta algo que não sabes nada desse argumento ou, às vezes, alguém está trabalhando igual a ti e não conhecias (...)”182. O sentido da escuta de Vicenzo liga-se sobretudo à sua vivência e militância nos movimentos sociais da região. Além de atuar neste coletivo, ele está sempre presente em marchas, manifestações, seminários, conferências e eventos da região. Sua participação, muitas vezes, não se restringe à assistência. Acompanhei intervenções e atuações dele em várias manifestações. Sua crença na autonomia como um horizonte a atingir e seu histórico de militância em movimentos políticos na Itália completa sua apropriação da Frecuencia Libre. Seu imaginário está fortemente marcado com a convicção que a construção autonômica deve-se não só pelo discurso, mas também pelo exemplo cotidiano da prefiguração, isto é, de colocar em prática as crenças políticas, que as 179 Idem. 180 Ibidem. 181 Ibidem. 182 Ibidem. 182 rádios livres dão quando se organizam coletivamente. A compreensão destes sentidos culturais dele foi possível por conseguir sua participação espontânea e aberta na entrevista. Vicenzo não se importou, por exemplo, em falar sobre política e sobre militância, mesmo que sua condição de migrante não permita manifestações públicas sobre o tema no México. Ao final da entrevista, ele pediu para não publicar algumas informações. Tranquilizei-o garantindo não só o sigilo das mesmas como também seu anonimato. Nosso encontro aconteceu durante um seminário na Universidade da Terra e lá mesmo conversamos, cerca de 30 minutos, enquanto ele cuidava de uma banca onde vendia livros zapatistas. A participação em coletivos autônomos na cidade marca o sentido da Frecuencia Libre destes ouvintes. A vivência da autonomia em territórios urbanos não só é peculiar como possui uma série de limitações. Como comenta Vicenzo, “na cidade está difícil. Difícil porque vivemos num tecido de interindependência, de zonas do governo, do mercado e de tudo. Então o que buscamos… o que tentamos é ter uma visão de autonomia”183. Há um claro reconhecimento destes ouvintes sobre a dificuldade da construção da autonomia na cidade, o que torna este projeto muito mais um horizonte e uma meta. As rádios livres cumprem então o papel de fortalecer esta visão não só com as informações dos movimentos autônomos, mas com o imaginário das mensagens, dos contos e das canções revolucionárias conforme lembradas por estes receptores. Diferente dos ouvintes reunidos em “Outra informação, outra cultura”, este grupo não só claramente reconhece as emissoras como expressões da autonomia zapatista, como as usam para suas militâncias políticas em defesa do movimento, participando da programação para informar sobre as mobilizações e formar politicamente a audiência. Em comum, os ouvintes apresentados até aqui possuem uma relação com as rádios por meio da matriz cultural simbólico-dramático das canções, poesias e contos, que alimentam seus desejos, sonhos e esperanças num mundo mais justo. Também reconhecem o elemento racional-iluminista das emissoras, nas quais as informações, as críticas, os debates e os questionamentos são os principais endereçamentos buscados na escuta. 183 Ibidem. 183 6.3 Autonomia é vida Os ouvintes reunidos neste terceiro grupo, além de aderentes e receptores principalmente da Radio Rebelde, vivem em comunidades autônomas na zona rural. Estas possuem autogestão democrática e horizontal, através de assembleias; autodisposição organizativa com participação aberta para todos membros e oposta ao sistema de governo partidário eleitoral; autodefinição e autodelimitação de suas identidades e territórios (características explicadas no Capítulo 3). Dos sete ouvintes aqui reunidos, cinco são de San Isidro de La Libertad, onde realizei trabalho de campo e tive mais de um contato. Os outros dois, Sebastian e Francis, encontrei apenas uma vez, através de questionários aplicados respectivamente por Valentin e Toledo e os entrevistei durante seminário na Universidade da Terra, em julho de 2014. O primeiro pertence a uma comunidade indígena autônoma aderente à Sexta Declaração em Acteal, localidade do município de Chenalhó, onde ocorreu a mais sangrenta chacina da região, em 22 de dezembro de 1998, após o levante, vitimando 43 pessoas incluindo crianças e mulheres grávidas. Sebastian já participou da mesa diretiva e atualmente coordena a comissão de Comunicação de sua comunidade. Sebastian também faz parte de um coletivo da cidade de San Cristóbal de Las Casas, por isso constantemente transita entre a zona urbana e rural. Mesmo vivendo numa área recentemente atendida pelo serviço de energia elétrica e que possui poucos pontos de acesso à rede mundial de computadores, ele tem uma sólida formação e habilidade na produção de meios massivos, como rádio, internet e vídeos, preferindo atualmente atuar nos últimos, através da produção de documentários sobre comunidades autônomas e da transmissão de eventos e mobilizações. Ele recorda que seu interesse por comunicação começou ainda na adolescência, por curiosidade e pela necessidade organizativa de sua comunidade. O massacre de Acteal também marca sua memória não só como produtor, mas também como ouvinte. “(...) foi uma grande motivação para fazer algo, trabalhar algo com os meios de comunicação, contribuir para que não se suceda mais massacres, mais agressões”184. Desde então, tornou-se ouvinte assíduo das rádios Rebelde e Guardianes de La Memoria 185, quando 184 Entrevista com Sebastian (nome fictício), em 16 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 185 Idem. 184 está em sua comunidade, e raramente das rádios Frecuencia Libre e Votón Zapata, quando está em San Cristóbal de Las Casas, por isso seus sentidos aqui retratados estão relacionados tão somente à primeira emissora. Para ele, o primeiro papel da rádio comunitária é a educação porque trata da mãe terra que é muito mais profundo. Não se vê em aulas de ecologia, de agroecologia ou educação ambiental numa universidade, mas que a mãe terra te mete muito mais além do que uma educação oficial. (...) tendo uma relação direta com ela, por exemplo, quando se semeia o milho186. Autonomia, em sua visão, está ligada diretamente à vivência em harmonia com o meio ambiente. Ele reconhece o papel da Radio Rebelde para isso porque, através dos contos, canções tradicionais e mensagens, fortalece esta relação de respeito com a mãe terra, que os povos originários possuem. “Um programa de rádio (...) chega a muitas casas e corações, dizemos nós”187. Além do alcance, a oralidade e a simultaneidade são outras características do rádio que colaboram para essa contínua educação, porque “essa é a maneira como se transmite, como se educa, como se conversa e, ademais a rádio pode ser escutada trabalhando, caminhando...”188. Sebastian possui um sentido da Radio Rebelde relacionado ao papel educativo do rádio, uma educação para autonomia, compreendida como a relação harmônica com o meio ambiente, herdada dos povos originários ancestrais. O zapatismo, para ele, é um movimento que resgata este modo de vida, reconhecendo, por isso, como diz o próprio slogan da Radio Rebelde, a emissora como uma voz da mãe terra. Encontrei uma forte coincidência entre as respostas dele e os endereçamentos da emissora, demonstrando não só a memória de escuta, mas a proximidade entre os universos culturais da audiência e transmissão. Nossa entrevista com Sebastian também foi realizada depois de diversas tentativas desde 2012, quando visitei Acteal. A principal dificuldade era a falta de autorização da mesa diretiva de sua comunidade para isso. Mesmo sem esta resposta, entrevistei-o por mais de 30 minutos, contando com sua atenção e simpatia. Outro entrevistado encontrado durante o seminário na Universidade da Terra foi Francis. Conversamos enquanto ele cuidava de seu filho, sendo por isso um contato apressado e interrompido várias vezes. Ele procede do Estado Guanajuato no centro do 186 Ibidem. 187 Ibidem. 188 Ibidem. 185 México, tendo se formado lá em Comunicação. Atualmente vive num ejido189 no norte de Chiapas aderente ao zapatismo, onde além de dedicar-se à agricultura, colabora no processo organizativo da comunidade. Ele já havia trabalhado no setor de Comunicação do Centro Fray Bartolomeo de Las Casas e num coletivo de mulheres no campo. Este envolvimento com os movimentos da região o tornou ouvinte, quando residia em San Cristóbal de Las Casas, das rádios Frecuencia Libre, Rebelde e Insurgente e Votón Zapata. Francis reconhece uma distinção entre Frecuencia Libre e Radio Rebelde já observada na análise dos endereçamentos das matrizes culturais. Para ele, a primeira é uma rádio mais intelectualizada com uma forte relação com a escrita e a segunda é mais dos povos originários que privilegia a oralidade. Assim, ele diferencia as duas últimas emissoras: “A Frecuencia Libre não é tão popular. É um gosto mais seleto, mais intelectual. E a Rádio dos companheiros é uma rádio mais… Essa é uma rádio do povo, dos povos. A Frecuencia é uma rádio de coletivos”190. Ele revela assim uma admiração pela Radio Rebelde “(...) porque compartilha todas as práticas transmitidas pelos companheiros, comunicados, canções dos povos em resistência”191. A oralidade, para ele, é fundamental nesta emissora, explicando que sua escuta era motivada (…) pelo conteúdo de muitas falas do tenente-coronel, agora Subcomante Moisés que fazia reflexões sobre diferentes temas. Isso eu gosto muito. Isso passava muito na 107,1. A palavra é central. Mesmo que tu não saibas ler e escrever, tu podes receber a palavra. A lógica dos povos é uma cultura muito mais oral. Encanto-me com a oralidade e é assim que fazemos o trabalho com nossos povos. Assim faço meu trabalho no meu povo, através da oralidade. Assim se faz a transmissão da memória, da cultura... Ter uma ferramenta tecnológica, como a rádio, que permita retransmitir essa oralidade, para mim, é uma questão fundamental e estratégica.192 Já a Frecuencia Libre possui, segundo ele, um papel de multiplicar vozes de diferentes grupos. O programa “La Hora Sexta”, no qual participou como colaborador em seu início, era o preferido por seu envolvimento com o zapatismo. O Exército Zapatista é o movimento que tem contribuído para o mundo nisso (autonomia). É que ele recupera dos povos e muitos povos têm seus planejamentos. Porém o importante da autonomia zapatista são todas as ramas que se converteu (...) a educação, o governo, principalmente, a justiça. 189 Ejido são terras comunais, de propriedade e uso coletivo. 190 Entrevista com Francis (nome fictício), em 17 de julho de 2014, em San Cristóbal de Las Casas. Tradução minha. 191 Idem. 192 Ibidem. 186 É uma autonomia muito completa e integrada porque vai caminhando muito na contra-corrente porque está em meio ao assédio do Estado. Possui uma lógica de insurgência desde 1994193. Francis revela que sua identificação com os movimentos sociais surge, desde de sua adolescência, quando participou de grupos católicos ligados à Teologia da Libertação, que lhe cultivou uma consciência social crítica e o motivaram para a militância política. O sentido de sua escuta está articulado à educação neste ambiente, complementada por sua formação em Comunicação e alimentada por sua prática de engajamento contemporâneo. A escuta da rádio fortalece então sua crença no modelo de autonomia zapatista como um caminho a seguir e que o motivou a trocar a cidade pela vida campesina. Diferente de Francis e Sebastian, que possuem destreza com a escrita e conhecimento em tecnologias da comunicação, os ouvintes de San Isidro de La Libertad, exceto o professor José, têm pouca educação formal e saber especializado. O primeiro entrevistado da comunidade foi Juan, durante nossa primeira visita à localidade. Foi uma entrevista tensa pois, além de não estar acostumado a relacionar-me com povos originários falantes de uma língua por mim desconhecida, estava acompanhado somente por duas autoridades locais, que aparentemente fiscalizavam o conteúdo de nosso diálogo. Depois conversamos, ao menos, mais duas vezes, quando estávamos mais descontraídos, durante nossos encontros na localidade. Ele, assim como todos os outros receptores que contactei em San Isidro de La Libertad, nasceram e viveram a maior parte do tempo neste povo. Seu encontro com o zapatismo se deu desde o levante de 1994, intensificando-se quando o EZNL iniciou articulações para tornar a comunidade base do movimento. Com a cisão de San Isidro em 2008, devido ao fato de parte dos membros optarem por receber benefícios do Governo Mexicano em troca de apoio eleitoral, ele decidiu partir de lá, indo morar em Playa Del Carmen, onde trabalhou numa loja de roupas e artesanatos para turistas. Nesta época, tornou-se ouvinte mais assíduo do rádio, visto que era sua principal companhia na nova cidade, onde também desenvolveu mais seu espanhol e aprendeu algumas palavras em inglês e italiano. Quase dois anos depois, Juan decidiu voltar a San Isidro de La Libertad, onde se casou e passou a trabalhar na construção civil. Ele também iniciou uma militância mais ativa 193 Ibidem. 187 nas assembleias e atividades comunais e uma participação mais frequente nos eventos promovidos pelos zapatistas e aderentes, principalmente na Universidade da Terra. O costume de escutar rádio o seguiu, agora animado pela reogranização autônoma de sua comunidade e pelo som da rádio dos zaptisas em Los Altos. Segundo ele, esta emissora é “importante para transmitir a voz dos companheiros e companheiras e para ter ânimo na luta”194. As mensagens sobre a cultura, o meio ambiente, as canções tradicionais e revolucionárias e as denúncias contra o mau governo são os conteúdos que mais gosta na emissora. A Radio Rebelde possui o sentido de ânimo para a militância pela construção da autonomia, vivida cotidianamente que, para ele, não é um futuro a ser perseguido, mas um presente que necessita ser consolidado e garantido para o amanhã. A emissora o conecta também à sua memória social principalmente com a locução na língua originária. “Falar em tsotsil serve para não perder nossas raízes”195. Assim como Juan, Diego trabalha com construção civil e é ouvinte da Radio Rebelde. Quando jovem fez parte de um grupo musical. Apresentava-se na região de Los Altos, tocando músicas rancheras, norteñas e cumbia mexicana. Ao casar-se teve de abandonar a música e dedicar-se à agricultura para o sustento da família. “Às vezes, me recordo. Quero cantar, quero dançar porque quando se está em grupo se ensina a dançar, animando as pessoas”196. Durante o levante zapatista de 1994, ele estava na lavoura. Estava eu trabalhando em Miraflores, semeando milho. Quando cheguei já tinham comissões. Companheiros que vinham dar conselhos para lutar, formar uma nova sociedade, organizar-se. Gostei muito disso e me integrei com os companheiros que estavam nas bases zapatistas.197 Para ele, autonomia significa independência. “Quero estar livre do sistema de governo para estar vivendo com autonomia, como agora estamos. É que eu gosto mais de viver independente”198. Sua preferência musical e opção política o tornaram ouvinte da Radio Rebelde. Antes já escutava as emissoras de San Cristóbal de Las Casas, tanto a governamental como a estatal. “Mas quando nasceu a Radio Rebelde comecei a escutar as conversas e as canções da emissora. Gosto muito (…) porque me dá ânimo. Chego do 194 Entrevista com Juan (nome fictício), em 15 de julho de 2013, em Zinacantán. Tradução minha. 195 Idem. 196 Entrevista com Diego (nome fictício), em 13 de janeiro de 2014, em Zinacantán. Tradução minha. 197 Idem. 198 Ibidem. 188 trabalho cansado, deito na minha rede. Fico a escutar a rádio. Fico contente com as canções, com a conversa”199. A escuta de Diego está duplamente motivada, por um lado, pelas palavras dos zapatistas. “Estão orientando. Assim palavras boas para o povo, para a comunidade, para família”200. Por outro, resgata sua memória de cantor, como se escutando diariamente a emissora depois do trabalho pudesse, através das lembranças, reviver o passado que descontinuou. Estas duas motivações tornam a Radio Rebelde num ânimo para seu cotidiano. Pude acompanhar seu dia-a-dia durante a Oficina de Rádio da qual ele participou ativa e empolgadamente. Além da entrevista, conversamos várias vezes sobre suas experiências de cantor e militância política. Outro ouvinte de San Isidro de La Libertad que fez parte de um grupo musical é o professor José. Ele é filho de uma das principais lideranças locais que esteve a frente das duas cisões dos autônomos. Ainda pré-adolescente foi enviado pelo pai para estudar o ensino fundamental nos caracóis zapatistas. Além de sofrer com a distância da família, teve de adaptar-se à rigorosa vida de estudos. “Na educação zapatista, não se ensinam só as matérias convencionais, como espanhol, matemática, história e ciências. Aprendemos também tsotsil, tsetal, carpintaria, agricultura, culinária, costura, mecânica, elétrica...”201. Ao terminar a escola secundária e regressar à comunidade, José decidiu seguir a carreira musical cantando num conjunto de música jovem popular. Suas apresentações o fizeram viajar por todas as regiões de Chiapas durante dois anos. Ele saiu da banda quando eles decidiram se reestruturar para tocar música eletrônica. De volta à comunidade, casou-se e se tornou professor da Escola Primária, que funcionava no Centro dos Autônomos. José também é catequista e ministro da palavra, conduzindo semanalmente as celebrações católicas da comunidade. Sua atuação o tornou promotor de educação, sendo responsável pela escola da comunidade. Sobre o zapatismo, José disse não possuir mais uma opinião formada. Notei que ele ainda sofre com os forçados deslocamentos a que foi submetido na adolescência e com a pressão que tem por assumir muitas responsabilidades na comunidade. Várias vezes ele se queixou de enxaqueca, que o persegue frequentemente mesmo tendo feito diversas consultas e 199 Ibidem. 200 Ibidem. 201 Entrevista com José (nome fictício), concedida em 10 de janeiro de 2014, em Zinacantán. Tradução minha. 189 exames. Demonstra possuir um forte desejo de consumo, inclusive adquirindo um automóvel para poder constantemente passear e fazer compras em San Cristóbal de Las Casas, algo incomum em sua localidade, uma vez que quase todos os carros que encontrei servem tão somente para transporte de passageiros ou da produção agrícola. José é ouvinte involuntário da Radio Rebelde porque seu pai, com que divide a moradia, constantemente liga o rádio em alto volume. Ele explica que não se incomoda, pois, assim como Diego, gosta das canções que tocam a verdade. Ele também reconhece o papel da rádio na organização social. “Ajuda a comunidade autônoma para podermos comunicar e nos escutar”202. O sentido da Radio Rebelde é também o ânimo tanto na vida pessoal como comunitária. José acredita numa forma de autonomia que não necessariamente seja aderente ao zapatismo, mas que venha do modo de vida dos povos originários que se autorganizam independente de governos centrais e sistemas políticos, por isso o que mais valoriza na emissora são as músicas tradicionais e os contos que contribuem para o resgate das culturas dos povos originários. A música mantém viva sua memória, não só de quando participava de um grupo musical, mas também da animação vivenciada cotidianamente. A entrevista com José foi cordial, mas suas respostas foram secas e curtas. Como participou da Oficina de Rádio, tendo o papel de traduzir para tsotsil minhas falas, cultivamos uma relação de amizade, tendo, por isso, conversado várias outras vezes. O que possibilitou entender um pouco mais sua vida para relacionar com sua escuta. Conversamos também com sua prima, Maria, estudante da secundária, ouvinte da Radio Rebelde e participante da capacitação que realizei na comunidade. Ela, assim como José, nos respondeu de forma muito breve e retraída. No entanto, sempre deu respostas muito seguras. Após a entrevista a então autoridade local da época, foi questionar-lhe reservadamente sobre o que eu tinha perguntado e o que ela tinha respondido, gerando um constrangimento para ambos. Não consegui uma aproximação posterior, mas através de informantes, que já pesquisaram e trabalharam na escola da comunidade, pude compreender melhor a articulação entre sua vida a escuta. Maria também ouve involuntariamente a Radio Rebelde quando seus pais sintonizam o som da casa. Normalmente, está cozinhando ou cuidando de seus irmãos mais novos. 202 Idem. 190 Não é a única emissora que ouve, porque gosta de músicas dançantes, como o reggaeton, que raramente toca na estação dos zapatistas. “Eles põem mais músicas de banda e românticas que também gosto”203. Além da preferência musical, ela se encanta com as mensagens sobre autonomia, principalmente em forma de contos. “Autonomia é uma nova vida que começa”204. O sentido desta ideia, para ela, está relacionado à maternidade. Numa das atividades da Oficina de Rádio, Maria criou um conto que fala sobre a atenção da comunidade com um bebê encontrado na floresta. Enquanto a criança era cuidada, o milho – principal lavoura da região – crescia. Quando não, a plantação se perdia. A conclusão de seu conto é que a autonomia é como um bebê que deve ser cuidado sempre. A relação deste tema com a maternidade e a fertilidade revelam aspectos da visão feminina da autonomia. Maria me revelou que sonha em ser professora da comunidade. Algo que, para vários de seus docentes é possível, pois afirmam que ela está capacitada. No entanto, como ainda não se casou, pelas tradições da comunidade não pode assumir cargos, pois é considerada uma criança. Por ter mais de 15 anos, já está numa idade avançada para o matrimônio, pois normalmente, na região, as mulheres casam-se até os 14 anos. Por isso, vive o dilema de ser necessária na comunidade por sua competência em áreas de educação e comunicação, querer contribuir e não poder assumir responsabilidades, por causa tradições autoritárias. Há nesta situação um claro conflito entre os ideais de equidade e justiça da autonomia zapatista205 e o patriarcalismo predominante em muitos povos originários, diante do qual ela se posiciona discretamente contrária. Observei, por exemplo, que durante as festas na comunidade, enquanto as mulheres comiam sentadas no chão, os homens ocupavam os lugares nas mesas. Maria se negou a ficar no chão, saindo do salão para comer sozinha sentada no pátio. A autonomia e a escuta da Radio Rebelde, para ela, significam assim a esperança de nascer uma nova vida, na qual o cuidado com a terra, a mulher, a comunidade e as crianças possa ser prioridade. 203 Entrevista com Maria (nome fictício), em janeiro de 2013, em Zinacantán. Tradução minha. 204 Idem. 205 Logo após o levante de 1994, o EZLN decretou a Lei Revolucionária das Mulheres que prevê o direito das mulheres de decidir se querem ou não casar-se e com quem e se querem e quantos filhos vão ter. Também garante direito equânime de participar da luta revolucionária e todos os assuntos da comunidade sendo eleitas livre e democraticamente. Ainda prevê castigo severo a qualquer maltrato ou violência às mulheres. 191 Já Josiano é agricultor, pai de três filhos e um dos mais empolgados ouvintes da Radio Rebelde que entrevistamos. Várias vezes o observei escutando a estação em seu celular. Durante a Oficina de Rádio e a instalação da emissora da comunidade, foi um dos mais ativos e engajados, tornando-se posteriormente o responsável pela mesma. Entrevistei e conversei com ele várias vezes. Josiano nos revelou que era vocacionado a sacerdote dominicano, quando o Exército Zapatista se insurgiu contra o Governo mexicano em 1994. Procurou então seu orientador espiritual, Padre Pablo, para compreender o que se passava, sendo indicado a participar de uma reunião em Oventic com os zapatistas. Convencido pelas palavras sobre a autonomia, articulou a visita do EZLN a sua comunidade. O que depois possibilitou torná-la numa base do movimento e hoje autônoma. Desde a década de 80, escutava emissoras de movimentos revolucionários, como a Radio Rebelde de Cuba, através das Ondas Curtas (OC). “Quando estive num curso na Diocese de San Cristóbal, me comentaram que há movimentos em outros países que transmitem em rádio (…) como Cuba que se levantou, se libertou e fez sua transformação coletiva também”206. Antes só conseguia ouvir a emissora no rádio de sua casa ao acordar ou antes de dormir. Agora com as rádios comunitárias dos zapatistas, pode escutar em qualquer lugar através dos aparelhos portáteis e do celular. O que o tornou um ouvinte assíduo da Radio Rebelde. “Escuto o que é real. O que transmite em rádios oficiais não sei se é certo ou se não é certo”207. As mensagens da emissora são seu conteúdo preferido. “(…) sei que são verdadeiras, claras, como um ânimo para as comunidades que se transmite”. Através de um conto criado na Oficina de Rádio, Josiano esclareceu sua ideia de autonomia como a luta de um coelho contra uma raposa. Nesta estória, a última sente inveja do primeiro, porque possui um violão e toca belas canções, por isso tenta roubar- lhe o instrumento e tirar sua liberdade, mas o coelho como é mais ágil e consegue escapar. Ele explicou que o coelho representa os povos autônomos, o violão as rádios comunitárias e a raposa o “mau governo”. A escuta e a produção radiofônica aparecem assim intimamente conectadas à sua ideia de autonomia, que só existe com a possibilidade de livre manifestação do pensamento e da vida comunitária. Seu sentido 206 Entrevista com Josiano (nome fictício), em janeiro de 2013, em Zinacantán. Tradução minha. 207 Idem. 192 também está associado à sua participação nos movimentos eclesiásticos ligados à Teologia da Libertação durante a juventude. “Aí há as informações de como se formaram as associações, como se formaram os grupos coletivos e também da palavra de Deus”208. A apropriação da Radio Rebelde por Josiano realiza uma conexão entre sua vivência cotidiana da autonomia, seu desejo de livre expressão das comunidades e sua fé na construção da justiça social como sinais do Reino de Deus na terra. Em comum, os ouvintes deste grupo possuem uma forte relação com o simbólico- drámatico, reconhecendo na emissora principalmente seus endereçamentos sobre a relação entre as pessoas e a terra, a tradição de autonomia dos povos originários e a palavra verdadeira. Diferente dos ouvintes dos grupos anteriores, que valorizavam constantemente a multiplicidade das vozes ou as informações alternativas veiculadas nas mensagens, comunicados ou debates das emissoras, a palavra é tratada com o sentido de verdade, quando vem do conhecimento ancestral que cultiva a séculos esta relação com a terra, com o local, possuindo esta relação de territorialidade. O ânimo para a vida em autonomia foi outra motivação da escuta da Radio Rebelde lembrada pela maior parte destes ouvintes. Esta apropriação se refere à conexão entre a vida e autonomia, pois não se trata de um ideal a ser conquistado, uma utopia ou um futuro imaginado, mas uma luta travada diariamente para consolidar a democracia e a participação na gestão comunitária, para enfrentar a contra-insurgência, para produzir em cooperativas, para ter a participação de todos nas assembleias e ações coletivas, para articular-se e mobilizar-se nas atividades conjuntas com outros povos e coletivos autônomos, para garantir a educação e a saúde que não são responsabilidades de um governo distante, mas da própria comunidade. O ânimo significa a energia que o rádio resgata na memória, nas palavras e nas canções necessárias para essa vivência cotidiana, ou seja, a força e a disposição para enfrentar, persistir, resistir e avançar nestes desafios impostos pela vida comum e autônoma. 208 Ibidem. 193 CONSIDERAÇÕES FINAIS Um processo de pesquisa é um deslocamento, um trânsito, um trajeto. E assim foi esse meu percurso de 4 anos no doutorado. Não só porque viajei mais de 50 mil quilômetros entre Fortaleza, Belo Horizonte e San Cristóbal de Las Casas, mas também porque enfrentei profundos deslocamentos pessoais e acadêmicos. Junto com isso, uma nova forma de enquadrar meu objeto de pesquisa se fez necessária: a passagem do romantismo ingênuo sobre o movimento zapatista à frustração derivada das diversas hostilidades que seus integrantes revelaram diante de minha investigação e da mudança da ideia de cidadania para autonomia. Não foi fácil não só pelas dificuldades vivenciadas, mas porque nunca encontrei a segurança de trajetos prontos sobre os quais pudesse trilhar ou me abrigar. Talvez por isso a metáfora do mapa noturno de Martín-Barbero seja também tão adequada a essa pesquisa. A opacidade caracteriza as condições de produção do conhecimento, que são inevitavelmente imprevisíveis, porque não dá para saber antecipadamente onde chegar. Ainda mais quando se vai sozinho para o estrangeiro sem cooperação institucional, sem financiamento e quase sem conhecidos (como nas três primeiras imersões), pesquisar uma região marcada por uma guerra dissimulada e suja. O estranhamento imprescindível para qualquer imersão etnográfica se tornou, para mim, quase insuperável e, muita vezes, insuportável. Por isso, sempre me questionei se minha turva e distanciadíssima visão não comprometia completamente as possibilidades desta pesquisa. Diversas vezes me perguntei: como alguém vai realizar uma investigação num campo totalmente estranho que nem mesmo os 'nativos' recomendam nem muito menos se atrevem a fazer?. Entretanto, antes de desistir, lembrei-me de um dos princípios de minha postura pessoal e acadêmica: a alteridade. O que me motivou a pensar que, por mais diverso que fosse o olhar, mais rico poderia ser o conhecimento construído. Sem dúvida, essa foi uma das principais motivações que me fizeram superar muitas das dificuldades: se tenho de escutar e respeitar as diferenças, preciso também respeitar minha condição de diferente e meu esforço para ser coerente e honesto com a realidade pesquisada. A metodologia escolhida e construída ao longo do trajeto trilhado também me ajudou a acolher essa diversidade. Aprendi como a proposta de Martín-Barbero se adéqua a esta 194 investigação, não só por ser um saber local, sem bairrismo nem isolacionismo, mas por estar aberta para receber os vários métodos e leituras que possibilitem a compreensão do campo. Mesmo que com clara inspiração nas contradições regionais, ele nos mostra como o conhecimento está inevitavelmente articulado com contribuições de todas as partes, como as de Ricouer, Sunkel, Certeau, Benjamin, Williams... Entendi ainda o equívoco das críticas que o acusam de vago e impreciso. Esse é o preço da abertura e da possibilidade de empoderar quem vai trilhar caminhos que só suas próprias pernas podem sentir. Assim, minhas andanças justificaram e costuraram os diferentes conceitos, métodos e técnicas utilizadas, pois foram evocados pelas necessidades de compreender o campo e, sobretudo, de construir um olhar comunicacional que desse conta da imensa riqueza observada, vivenciada e recortada como objeto. O que é mais adequado e urgente do que forçar o encaixe de uma a realidade a um modelo teórico- metodológico enclausurado e pré-concebido. No entanto, não deixei de encontrar uma forte ambiguidade na proposta do filósofo hispano-colombiano: por que o autor que busca compreender a comunicação além dos meios utiliza os operadores conceituais, das lógicas de mercado e dos formatos industriais, que reduzem a mirada a quase somente meios massivos comerciais? Então enfrentei outro dilema: como utilizar esses conceitos numa pesquisa sobre rádios livres e comunitárias, excluídas do mercado, da legalidade estatal e com uma programação totalmente diferente das emissoras comercias? Fui logo advertido pela professora Regina Helena: “a teoria somos nós quem construímos. Os conceitos não são estanques. Nós os modificamos e atualizamos a partir de nossas vivências em campo. Por que senão qual o sentido tem de pesquisarmos? Só para confirmar o que já foi escrito?”. Por isso, tive segurança em ampliar as lógicas de mercado para lógicas de produção e os formatos industriais para formatos dos meios a fim de dar conta do voluntariado, da cooperação e de outros padrões (ou até mesmo a ausência destes) na programação radiofônica zapatista. Creio que é uma contribuição desta pesquisa para que a metodologia dos usos sociais possa melhor acolher objetos como meios comunitários, livres e alternativos. Durante a pesquisa também me deparei com outros conceitos obscuros que me desafiavam. Sempre tive de lidar com respostas e ideias que iam além das memórias dos 195 produtores, militantes e ouvintes. Eles me falavam de outro mundo possível, de esperança, de sonhos, de fé… que se conectavam às lembranças, mas não se limitavam a estas. E por isso, minha orientadora Ângela Marques me advertia sobre o papel das rádios na construção do imaginário, mas parecia um conceito turvo, por quanto mais lesse e tentasse desvendá-lo. Também me encantava o operador conceitual de sentidos culturais de Galindo Cáceres, principalmente o entrelaçamento deste com os dados apresentados nas pesquisas de Jairo Grisa e de Valkíria John. Esta abordagem me apontava para uma profunda humanização dos estudos de recepção. No entanto, não via como encaixá-lo no mapa dos usos sociais. Mesmo sem destreza para manejá-los não desisti destes operadores, porque possuía uma forte intuição que me ajudariam a ampliar e enriquecer a reconstrução das vivências em campo. Foi então, enquanto estava transcrevendo a entrevista de Artur, que veio o insight. Ele afirmou que a rádio o conecta com um passado imaginado da autonomia de seu povo que talvez nunca tenha existido. Percebi que aí residiam os imaginários: nos contrafactuais de outros mundos possíveis que nunca existiram, talvez nem existirão, mas que criamos para motivar e animar nossas vidas. Imaginamos, por vezes, realidades paralelas para acomodar esperanças e sonhos que, mesmo nunca realizando-se, continuam existindo em algum lugar de nossas mentes e também, nas comunidades, em estórias e vivências compartilhadas pelo coletivo. E é nestes imaginários onde reside uma das principais competências dos receptores: criar outras versões possíveis a partir do repertório simbólico do universo cultural de cada um, conectando assim subjetividades com socialidades. Desta maneira, foi possível, no último capítulo, ligar matrizes culturais, competências de recepção, imaginários e sentidos culturais, outra contribuição autêntica desta investigação. O que possibilitou respostas para o problema central proposto nesta pesquisa. Os usos sociais das rádios zapatistas contribuem para a construção da autonomia, porque os ouvintes apropriam-se das mesmas conectando suas histórias, esperanças, lutas, sonhos, desejos e compromissos à escuta dos sons das mesmas, que trazem exemplos e mensagens autonômicas. Os usos sociais das rádios pesquisadas contribuem para a construção do projeto zapatista autonômico, porque os ouvintes, ao se apropriarem das emissões e mensagens, criam novos sentidos e reconfiguram as formas de percepção presentes em seu cotidiano e memória, permitindo assim que as liberdades 196 individuais e coletivas floresçam; que se produza um comum que unifique, sem apagar as diferenças e discordâncias. Nesse sentido, as apropriações e criações de novos sentidos (sobretudo os ficcionais, das canções, poesias e contos) redefinem o horizonte que podem equilibrar as hegemonias e contra-hegemonias. Autonomia traduz, então, a emancipação política, ou seja, a possibilidade de participar dos processos decisórios nas assembleias horizontais, de resignificar a realidade e de conviver com outros povos na esfera política, para além das trocas culturais, com reivindicou Paco Vasquez. A emancipação também reflete a valorização do modo de vida local, das resistências de um modo de ser no mundo que procura romper com a lógica do capital e do neoliberalismo, a partir de um trabalho que tenta promover a pluralidade, as articulações contingentes e temporárias, e a interseção entre o movimento e todos os povos que lutam por espaços autonômicos e não hierarquizados de subsistência e de enunciação coletiva. Os imaginários apresentam ainda narrativas dos povos originários que integram imprescindivelmente trabalho, meio ambiente, religiosidade e política. Em San Isidro de La Libertad, consegui encontrar um forte sentido de harmonia entre a luta pela autonomia, a fé e a terra, pois é onde se colhe o sustento, estão abrigadas as moradias, crescem as crianças e descansam os antepassados. A luta pela terra e por suas tradições vivas se torna assim um compromisso que transcende o político, chegando a ser religioso. Esta batalha também está inevitavelmente associada à liberdade dos povos de escolher quem são (autodefinição), como se organizam (autodisposição), quais as decisões que tomam (autogoverno) e que regras seguem (autonomia). Nem mesmo as igrejas condicionam os cultos, tendo de adaptar-se às práticas locais, caso queiram permanecer nas comunidades. Pois assim como a mãe terra não admite controle de seus ciclos, de sua produção e de sua geografia, sendo qualquer tentativa de contrariar isso motivo de desequilíbrios, a comunidade deve viver sem interferências externas. Essa, para mim, é a principal ambiguidade e desafio da autonomia zapatista hoje: como a independência não compromete as articulações, a transparência e a pluralidade dos dissensos? A falta destes pode levar, de um lado, ao isolacionismo e, de outro, comprometer a democracia. Uma relação pró-seletista com outros grupos gera preconceitos e discriminações, muitas vezes, injustificados. Ao mesmo tempo que pode 197 criar um aparente clima de união, também pode radicalizar os conflitos com os opostos. Sem construir acordos com o outro, os adversários se tornam inimigos a serem aniquilados e, como adverte Chantal Mouffe (2004), o papel da política é exatamente o contrário. Os conflitos precisam ser transparentes, pois é o caminho para alcançar os acordos e articulações, mesmo que sejam transitórias e temporárias. Exigir o respeito à diversidade, base da autonomia, enquanto se isola e trata os diferentes como inimigos, é atualmente uma das principais contradições do zapatismo. Como apontei anteriormente, o fechamento dos Caracóis aos “estrangeiros” e pessoas que ali não residem, somado à pouca reflexividade diante das críticas endereçadas ao movimento, constituem ponto frágil do projeto autonômico dos zapatistas. Isso senti não só na programação da Radio Rebelde do Caracol Zapatista, como nos programas dos aderentes na Frecuencia Libre. A veiculação de críticas ao zapatismo ou a quaisquer mensagens deles é tida quase como uma declaração de guerra. Quem os critica, não só deve fazer isso fora dos espaços deles, mas é considerado um inimigo que deve ser isolado e excluído. Talvez, por isso, as pesquisas científicas, inevitavelmente críticas, os incomodem. Essa falta de relações plurais, além de limitar a democracia às assembleias internas, fragiliza a proposta zapatista, pois age como se fosse possível a diversidade somente com os não tão diferentes. No entanto, é preciso compreender o contexto de guerra ao qual estes povos estão submetidos. Os assassinatos, agressões físicas e desalojamentos de comunidades são situações reais e frequentes. As ameaças, xingamentos e hostilidades não só de oposicionistas, mas também grupos para-militares acontecem cotidianamente. Então, surge outra questão que me perseguiu, em vários congressos onde apresentei minha investigação: é possível uma comunicação não autoritária e não vertical numa zona de guerra? Não resta dúvidas que se torna uma tarefa mais difícil e embaraçosa. É um processo, uma construção e uma conquista, que pode dissipar a guerra à medida que avança. Percebi, por isso, a importância de mediadores como o Centro de Derechos Humanos Fray Bartolomeo de Las Casas, a diocese de San Cristóbal de Las Casas e a ONG Sí Paz. Mesmo que com uma democracia limitada pela guerra de baixa intensidade, as rádios pesquisadas representam a luta pela palavra, uma conquista imprescindível para a 198 autonomia. Falar com suas próprias vozes possibilita não só o fortalecimento da estima e dos costumes locais, mas a participação nas discussões públicas sobre os acontecimentos da região e do país a partir de suas próprias versões. No entanto, não é uma tarefa simples. Não só pelas dificuldades de sustentabilidade econômica e legal dos meios livres (especialmente as rádios comunitárias), mas pela falta de recursos humanos disponíveis para assumir as atividades de produção. Os poucos que se dedicam a elas, por exemplo na Frecuencia Libre, estão sobrecarregados e alguns desgastados, principalmente, pela ausência de contato com os ouvintes, ocasionada pelo sigilo da localização da emissora, dificuldades de manejo das tecnologias de comunicação digital e provavelmente pela reduzida audiência. Na comunidade de San Isidro de La Libertad, onde participei da fundação da Radio Independencia, notei a falta de pessoal disponível para gerir a emissora. A maioria estava sobrecarregada com o trabalho para o sustento familiar e várias outras tarefas comunitárias (esse é o preço a pagar pela reivindicação da auto-manutenção e ausência de consumo de bens fora dos limites das comunidades). Alguns membros, principalmente as mulheres, demonstraram timidez e não se sentiam capazes de apresentar um programa e falar no rádio. O que me leva a crer que a luta pela palavra é também uma forma de empoderamento dos sujeitos sociais. A democratização da comunicação é um desafio enfrentado também no Brasil. Lutamos pela conquista do direito humano de comunicar-se por quaisquer meios, pela quebra do monopólio da fala dos conglomerados midiáticos, pela valorização das culturas e artes locais, por limites ao consumismo insustentável da publicidade comercial, pelo fortalecimento dos meios comunitários e pela pluralidade de versões sobre a realidade. Mas diverso de acá, em Chiapas, a luta não é por uma legalização difusa através de uma norma heterogênea, mas pelo respeito às leis e normas de cada comunidade. Isso demonstra uma diferença fundamental dos movimentos sociais de lá para os brasileiros. As lutas não são para a conquista e a inclusão no Estado e suas instituições, mas por uma nova forma de organização política, baseada no respeito à democracia das próprias comunidades que se articulam umas com as outras em redes não hierárquicas. Isso aponta para uma saída para a falta de credibilidade e para a apatia diante das democracias representativas, estruturadas na delegação de poderes para mandatários que podem fazer exatamente o contrário do que se comprometeram nos pleitos eleitorais, tornando essas consultas totalmente inócuas. Ora, se a democracia necessita da ampla 199 participação, engajamento e compromisso de todas e todos é preciso que a organização popular seja respeitada e suas decisões tenham poder sobre o âmbito local e coletivo. Promover a participação social tão só em eleições e consultas pode ser um engodo, chamado por Castoriadis, de oligarquias liberais, o qual leva à descrença. Mesmo num ambiente em que a tomada das decisões comunitárias tenham efetivo poder, como nos territórios autônomos pesquisados, o engajamento na vida comunitária ainda é um desafio, porque o individualismo, muitas vezes, predomina. A luta é irradiar para a participação nos coletivos como única forma de garantir a liberdade e a realização pessoal. É uma árdua tarefa não só porque exige uma mudança de referências e valores, mas porque não pode ser uma doutrinação autoritária e vertical. Para isso, exige a partilha da palavra e o exemplo de uma coerência entre discurso e ações. A vida em coletivos e os meios livres se constituem em um caminho possível e fundamental para esse trabalho de base. Primeiro porque o resgate da vida comunitária permite fortalecer os sujeitos diante dos apelos, da exclusão e da opressão da sociedade de consumo, muitas vezes, simplesmente por encontrarmos onde encostarmos nossos ombros com os dos outros e segundo porque a visibilidade, nas rádios comunitárias, Internet e vídeo popular, que a palavra, baseada no exemplo vivo, ganha, multiplica as possibilidades de criar a autoconsciência para uma revolução que não é só social, mas pessoal, realizada no íntimo do cotidiano de cada um. Revelo que me encantou a felicidade nos olhos e no espírito de muitos participantes de coletivos que conheci. Pessoas que estavam quase completamente às margens do consumismo que vivam da forma mais simples possível, mas me pareciam emanar uma inegável energia e satisfação com a luta por um mundo mais justo. Creio, por isso, que são exemplos não só da militância política e da construção de uma legítima democracia, mas da sustentabilidade necessária para um mundo ameaçado, em vários sentidos, pelo desenfreado consumo. Quanto aos objetivos propostos, cheguei as seguintes conclusões: - As rádios investigadas refletem aspectos da autonomia não somente na autogestão das emissoras, mas também nos endereçamentos com mensagens que fortalecem informações sobre as lutas e irradiam o imaginário autonômico, através de músicas, 200 contos, poesias e prosas literárias. A apropriação das emissoras por comunidades e coletivos aderentes ao zapatismo servem tanto de voz para os movimentos contra- hegemônicos, como para a diversidade de culturas que pouco espaço e possuem nos meios comerciais, como o vídeo alternativo, a arte revolucionária, o hip hop e as culturas de povos originários. - As matrizes culturais nas rádios pesquisadas apontam para uma forte presença racional-iluminista da crítica social, dos questionamentos políticos, das ironias, da leitura de comunicados, notícias e mensagens escritas. Já o simbólico-dramático dos povos originários circulam na oralidade dos contos, poesias, línguas, canções tradicionais, diálogos entre apresentadores e a conversa imaginária com os ouvintes. - Há rupturas com os formatos padronizados pelas emissoras comerciais, tendo assim indícios de uma autodisposição na organização dos conteúdos com formas culturais próprias das comunidades originárias, no caso da Radio Rebelde, e dos coletivos, no caso da Frecuencia Libre. Possuem assim temporalidades diferenciadas refletindo o cotidiano das comunidades rurais e da organização dos movimentos sociais. - A apropriação das emissoras pelos ouvintes pesquisados demonstram que a escuta revela conexões com suas memórias, vivências cotidianas, sonhos, esperanças e expectativas. Desta maneira, as emissoras tanto podem representar alternativas de informação e cultura aos meios comerciais, como uma fé na construção de um mundo mais justo ou um ânimo para a vida em autonomia. Por fim, sei que há muito mais para escrever sobre as experiências que tive, mas como nos ensina Paul Ricoeur (2010), os sentimentos e as vivências são infinitos, mas as palavras são limitadas, existindo sempre uma defasagem entre o que se diz e o que se vive. O que torna o conhecimento sempre inesgotável e aberto ao novo. Tenho, por isso, total desapego para o contraditório às ideias desta tese. Até mesmo porque, como os contrafactuais, esta é apenas umas das versões criadas, num determinado sentido cultural, dos vários mundos possíveis instaurados pelas rádios zapatistas e pelos sentidos produzidos a partir de seus usos. 201 REFERÊNCIAS ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. A dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1985. ADAMOVSKY, Ezequiel. Problemas de la politica autónoma: pensando la passaje de lo social a lo político in CECEÑA, Ana et al. Pensar las autonomías. Cidade do México: Sísifo ediciones, 2011. AGUILAR, Raquel. 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Se por um lado há muito realinhamento com as forças politicas com o PRI e com o PV, no caso de Chiapas que uma figura que está usando o PRI, por outro lado, as forças de esquerda tem que se readaptar a essa nova realidade. Então eu creio vamos ver o EZLN tomando novas iniciativas e posicionando-se e ouros movimentos também reposicionando-se porque se mudou o conexo politico. E parece o que vai estabelecer o PRI e para os que deixam maior cooptação e para os que não se deixam, maior repressão. Então o que acontece e que estamos ou vamos estar num ambiente de maior polarização ou talvez um momento de polarização. Temos que ver o que se passa na guerra com o narco. Creio que a população votou no PRI pensando que só o PRI poderia conversar com o narco para reduzir a violência, porém até agora não há evidências que podem ou vão faze-lo, mas vamos ver. Porém há expectativa popular do que vai passar com a guerra. - O PRI de hoje é diferente do PRI de vinte anos atrás? -Sempre houve diferentes correntes no PRI, mas o PRI que está governando hoje é o PRI salinista de Carlos Gotari Salinas que por um lado há colocado muitos tecnocratas que parecem modernos, por outro, reforçam os mecanismos de controle que parece mais com o velho PRI, mas abandonaram a parte mais social-democrata do PRI. São bastante neoliberais mais com elementos de corporativismo que aparentam serem mais sociais-democratas no sentido de programas sociais. Porém com certeza esse é um setor do PRI que domina talvez desde a presidência de Carlos Salinas para cá e que totalmente controlam. O atual presidente é um professor desse setor. - E aqui em Chiapas qual a relação do governo com as comunidades indígenas? Há mudanças? - Bem se vamos aqui em Chiapas por termos eleitorais, os distritos das comunidades indígenas votaram em quase sua totalidade no Partido Verde Ecológico, que é o Partido que criou o PRI para uma aliança aqui, e os municípios não indígenas votaram no PRI. Dentro do PRI houve uma negociação porque Chiapas tem um PRI indígena e um PRI mestiço. O PRI mestiço tem os votos do PRI e o PRI indígena tem os votos do Partido Ecológico. Porém esses acordos internos que foram impostos ao PRI salinista ao PRI Estadual e que são muito frágeis. Inclusive os rumores falam na possível destituição do atual governador nos próximos meses, um governador interino, uma reacomodação de forças porque a candidatura do atual governador foi imposta por Salinas ao PRI tradicional de Chiapas que nunca estiveram de acordo com a imposição de fora e além do mais no PRI chiapaneco há diferentes correntes que disputam entre si também, muito forte e repressor também e do ex-governador Algore XXX que segue disputando o controle no Estado, mas a outra parte do PRI e do nacional não quer que ele regresse, se destituem o governador não voltaria o setor de Algore, porém tudo isso são rumores. O que se sabe é que o governador não tomou o controle do Estado estamos operando quase sem Estado no sentido que não há unidade de ação. Acabam de destituir o secretário de governo que é um senhor não casteano que estava promovendo conflitos muito violentos em Agosuinan e Caranza e conflitos com os professores, 213 mantendo conflitos constantes para perpetuar-se dando uma visibilidade e provavelmente orientado pelo PRI nacional que o sacou daqui e mandou a outra zona. Se pode dizer que é muito instável. Não há dúvidas que continuará o PRI em Chiapas, mas não sabemos a configuração de quem ficará o PRI nacional ou o PRI Estatal que não estão de acordo. Mas se em algum momento as organizações não zapaistas, mas que tem alguma marca social de, mesmo que de mentira, de esquerda que se apresentam assim que antes votaram no PSD, todas fizeram um pacto nessas eleições e todos votaram no PV Ecológico, ou seja, todos passaram de suas bases, esperando algum tipo de pagamento, ou seja, candidaturas, cargos no Governo, financiamentos, algo... e não está muito claro que já chegou. Então, outro fator de instabilidade foram as organizações que foram capazes de mobilizar os votos indígenas não zapaistas em Chiapas para o PV Ecológico. Imagino que agora não estão muito contentes com o resultado porque não há chegado o pagamento. Isso também faz com que tudo esteja muito incerto. - Então PRD não esta destruído? - O problema que o PRD em Chiapas nunca foi PRD, mas uma fração do PRI que não consegui chegar ao poder com PRI passou para o PRD que não teve uma história como em outros Estados, mas o PRI que chegou era mais grande e se apoderou do PRD. - Nessa instabilidade política como está a transferência para Governos civis nos municípios autônomos? - Isso já se passou faz tempo a transferência das Aguascalienes onde mandava o EZLN para os Caracóis onde mandam os governos civis. Estamos numa tendência de consolidação da autonomia civil nos Caracóis, onde há uma desproporção espacial, mas a tendência é a consolidação da autonomia. Há áreas de crescimento como Los Altos, há áreas de maior dificuldade como a Selva, mas eu diria que a tendência é a consolidação da autonomia na saúde, educação, produção, comércio, administração da justiça, autogoverno... - Mas agora os zapaistas estão fechados para a sociedade civil... - Eu diria que da Sexta Declaração para cá estão mais abertos. Desde a outra campanha e o restou da Sexta, permitem que outras organizações possam ser aliados sem ser bases zapaistas e isso há permitido uma saliência dos zapatismo que não tinham antes. Por exemplo, se uma comunidade deixasse de ser base de apoio, por mais duro que fosse, tinha que ir aliar-se com o Governo porque não havia uma alternativa intermediária. A raiz da Sexta permite que uma organização seja aliada zapatista e consiga financiamentos do Governo. Em meu modo de ver, o Zapatismo está mais aberto depois da Sexta que permite ter uma política que alianças que não tinham antes da Sexta. Há um revés na contra-insurgência, em algum momento o zapatismo estava mais fechado e perdiam base para a contra-insurgência. Então responde o zapatismo com a Sexta para evitar que rapidamente essas comunidades sejam cooptadas pela contra- insurgência. Então o Governo responde atacando os aliados porque qualquer manual de contra- insurgência orienta que é mais eficaz golpear os aliados que são mais frágeis, mais suscetíveis a intimidações, do que o núcleo duro porque o torna mais duro. - A guerra de baixa intensidade esta principalmente dirigida aos aliados... - Exato. Para conseguir o isolamento político. Mas qualquer guerra de baixa intensidade ou de contra- insugência é um código de revés mudam as estratégias de ambos os lados, conforme vai evoluindo a guerra ou o conflito. - Há alguma relação dessa estratégia zapatista com os coletivos tanto aqui em San Cristóbal ou em Cidade do México que são independentes, mas partilham alguns valores zapatistas? - Se falamos do zapatismo, ou neozapatismo, como queiram, uma de suas colunas vertebrais são os povos indígenas e coletivos de jovens, universitários ou não... Subcomandane Marcos em entrevista na Outra 214 Campanha diz que há três colunas vertebrais, os povos indígenas e elementos da velha esquerda que não foram pela alternativa eleitoral. Se pode dizer que mais fracos são setores como sindicatos e organizações campesinas e ele diz com clareza, há um balanço desigual de forças na Outra Campanha que se chama a Sexta. Estamos falando das forças afins do zapatismo a nível nacional. - Até que ponto esses coletivos colaboram com a difusão das ideais zapatistas? - Eu creio que não há uma coordenação muito próxima, mas há uma afinidade filosófica muito próxima que são básicas para a disseminação das ideais, mesmo que não tenham nenhuma coordenação próxima. São inspirados no zapatismo, então automaticamente vão divulgar e disseminar as ideias. - A apropriação dos meios de comunicação por esses coletivos é muito forte também... - Neste mundo dos coletivos estão os coletivos de comunicação alternativa ou altercomunicação. Eu poderia dizer que em nível nacional os coletivos têm uma afinidade com maior ou menor grau. Há os que estão mais próximos ou os que estão menos próximos. Mas em geral o mundo dos meios alternativos tem muita afinidade com o zapatismo mais do que com a velha esquerda. - Podemos chamar alguns desses coletivos de zapatistas? - Há alguns que usam neozapatismo, nesse mundo... não sei o que significa. Mas há como uma constelação na esquerda mexicana onde se pode encontrar o zapatismo, o Congresso Nacional Indigena, muitos coletivos, incluindo os de meios alternativos, não sei se o nome é neozapatismo, mas há como uma constelação de afinidades. Isso sim é real mesmo que não tenham uma coordenação próxima, se movem com ideias similares e são inspirados uns pelos outros, apoiam as iniciativas uns dos outros. - Subcomandante Marcos disse que o zapatismo deixou de ser uma moda (risos de Peter) como foi na década de 90. Esses coletivos são uma possibilidade de reconquistar essa visibilidade perdida? - Creio que Subcomandante disse que as modas são passageiras, caem e se vão. Então, o que se passa com as modas é que não está se construindo abaixo, nas bases, o que não se passa com o zapatismo que é muito mais lento e muito menos altos e baixos do que as modas. Têm altos e baixos sim, mas com menor intensidade de flutuação. - É a construção de México profundo? - Sim se pode dar muitos nomes. Mas está bem aliviado de não estar em moda e se pode concentrar na construção abaixo (risos). Há reversos na construção de abaixo, mas é um trabalho que leva mais tempo ou seja é um trabalho de formiga. - Como tu avalias essa construção de abaixo hoje? - Penso que vai avançando mesmo que a conjuntura política é muito desfavorável para os movimentos sociais, muito, muito desfavorável. Está muito bem que o EZLN está impulsando esse trabalho de formiga abaixo, mas creio que a correlação de forças para os movimentos sociais em geral não é boa. A maneira que o PRI retomou o poder, a maneira que estão retomando as relações corporativistas e clientelistas, em uma cultura política muito favorável a esse tipo de controle, que é a cultura política mexicana, coloca em desvantagens esses movimentos. Outra perspectiva que e a zapatista, coloca que esses setores suscetíveis a esse tipo de controle nunca eram base para esse trabalho de formiga ou não suas bases, mas seus dirigentes não eram. Então se não tem uma visão ampla desse trabalho de formiga, não se importa tanto a conjuntura que se tem que proceder o trabalho de formiga. Eu não tenho muita clareza se a conjuntura, que vai e vem, como uma moda (risos), vai ser um impedimento para esse trabalho de formiga. 215 - Esse trabalho de formiga se dá principalmente nas Assembleias, nos municípios autônomos? - Se dá, no Congresso Indígena, nos coletivos de jovens e não jovens e se vai tecendo um tecido social e isso é um processo lento. A construção da confiança é um processo lento porque não há muita coordenação nem proximidade física. Por exemplo, desde que os zapatisas não viajam abertamente pelo território nacional, desde quando se suspendeu a segunda saída da Outra Campanha, creio que é um impedimento físico real que se torna mais lento o trabalho. Creio que com a Escolita, os coletivos retomam um trabalho mais direto e se nota no comunicado que a escolinha não vai ser voltada para os povos indígenas, mas vai haver uma segunda atividade mais direcionada aos povos indígenas e com a cátedra... como se chama... (Cataron Chaves – diz Valentin) esta se retomando e também com o comunicado em solidariedade aos povos Iaques esta se retomando uma relação com o CNI e espero que dê mais vida ao CNI porque o CNI que está decadente, agora espero que tenha um impulso maior, mais energia. Espero. É meu desejo. - Obrigado, Peter. - Como não. ______________________________________________________________________________ 23 de julho de 2013, San Cristobal de Las Casas Entrevista com Paco Vasquez - Como está avaliando hoje depois de 20 anos de levantamento a conjuntura política de Chiapas? - Creio que há um momento muito importante neste ano porque se completa dez anos dos governos autônomos zapatistas. Há muita expectativa que qual a apresentação dos avanços que fazem. Há muita expectativa em agosto de conhecer a vida em resistência zapatista. Tem desenhado um modelo de intercambio de maior profundidade. Estão convidado a sociedade para conhecer as experiências das juntas de Bom Governo como concretização da luta pela autonomia indígena. Vão poder compartilhar com maior profundidade a vida zapatista com essas pessoas que estão indo para esse encontro chamado Escolita Zapatista. Vão a poder compartilhar com famílias algo como uma semana. Isso é inovador porque sai dos espaços formais. Claro que vai haver um espaço formal de celebração onde as juntas de bom Governo vão compartir com as famílias. Isso vai ser muito interessante porque é a primeira vez que abre um espaço formal com essas características. Se tinha aberto esses espaços para prestadores de serviços sociais, observadores de paz, mas não para a sociedade com esse objetivo de conhecer a profundidade da cotidianidade da resistência. Então isso é algo importante e novo e pela primeira vez teremos aniversário, em fins desse ano, se completam 20 anos da luta zapatista. Se completa um ciclo muito amplo que se passou em 20 anos, onde se tem estádio muito distintos, desde a declaração de guerra, os diálogos de paz... (interrupção)... depois vem o rompimento do diálogo quando se tinha a expectativa de mudanças legislativas muito profundas, quando se nota que essa estratégia é uma forma de desgaste para o governo ganhar tempo e que há se prolongado uma guerra de baixa intensidade bem estabelecida. Hoje está muito claro que desde o final de 94, há uma estratégia do governo de tomar uma rota de desenvolvimento desta guerra de baixa intensidade. Hoje vemos todos os documentos e toda progressão até esse momento. De outro lado, vemos que o movimento está construindo, na prática, suas propostas, desde a consolidação dos municípios autônomos e todos os projetos que o governo tem, construindo alternativas de saúde, educação, produção, um sistema de distribuição de justiça e dos recursos naturais, etc, etc... Podemos ver um processo bastante avançado e redondo desde a lutar podemos escutar o que estão propondo e pensando deste processo desde o interior ao exterior. - Tu crês que a Escolita vai avançar em relação a Outra Campanha e Frente Zapatista? - Sim. Em a história do movimento zapatista é uma história aberta de oferecer sempre canais de diálogo com a sociedade civil, oferecer espaços de intercâmbio com todas as organizações que tenham uma visão 216 minimamente próxima das declarações da Selva Lacondona que implica nas plataformas políticas que o EZLN vai construindo. São convites que fazem. Cada uma dessas declarações são plataformas que o EZLN vai construindo junto com a sociedade civil. Elas dizem assim. Nós analisamos a situação desta forma e temos a seguinte posição diante dessas situações. Se há algo que se aproxime de nossas ideias, queremos conversar com vocês, queremos dialogar com vocês, queremos construir em conjunto com vocês. Isso foi o que tentaram com a Frente, com a consulta, com a Outra Campanha e isso entendo pelos textos que li que estão fazendo. Temos uma análise se alguém coincide com ela vamos construir juntos alternativas ao modelo que estamos vendo, à problemática que estamos identificando. Na minha maneira de ver a Escolita é claramente um espaço de intercâmbio, uma nova modalidade, um espaço de diálogo com a sociedade civil de fazer compreender-se com a sociedade organizada, independente dos partidos políticos. E suponho que levará a novos caminhos e construções, mas não se sabe onde se chega. - Qual o papel dos meios livres, nesse momento da Escolita, de 10 anos dos Caracóis, de 20 anos de levantamento? - Olha, o papel dos meios não há mudado. É dizer as necessidades dos movimentos sociais e da sociedade civil nesse conjunto. Segue sendo a mesma. O papel dos meios de comunicação é permitir que haja esse fluxo de informação e impedir que o Estado feche as comunidades, isolando e gerando desinformação na sociedade. Sabemos que há o propósito de isolar os zapatistas e qualquer outro movimento social no país há sido muito eficiente. O Estado tem acordos com os meios corporativos que dominam o espectro neste país e, em geral, no mundo, dos interesses políticos e econômicos. O México tem essa situação. Há um esforço do Estado de dominar os meios, controlar as informações e, em caso dos movimentos sociais, de isolar-los e impedir que possam comunicar-se com a população. Então a responsabilidade que temos segue a mesma que temos sempre de gerar fluxo limpos e claros para que as problemáticas desse movimento e de qualquer outro, as problemáticas cidadãs se discutam abertamente. Nesse caso concreto, podemos ver que tudo que está relacionado ao zapatismo está silenciado. Se há utilizado propaganda negra para denegrir o movimento. Se diz que o zapatismo está ligado ao narco. Há semeado super facilmente ou deixado semear super facilmente contra o zapatismo para gerar ou dizer que os zapatistas estão utilizando formas de financiamento como os colombianos, etc. Está tentando veicular com movimentos radicais extremistas como os extremistas espanhóis ou bascos. Se há tentado gerar uma imagem negativa nos meios. Se tu observas os meios o que há publicados nos últimos cinco anos sobre o movimento zapatista é única e exclusivamente propaganda negra sem dar espaço para diálogo. Sabemos que as corporações que controlam a comunicação no México são fortes aliadas do Governo. Televisa por exemplo tem forte aliança com PRI. Compraram o Governo através da Televisa. Se por exemplo, tu dados muito forte e simples que Televisa foi anistiada de uma dívida de 3 bilhões de pesos. Está muito claro a relação entre meios mexicanos e políticos. Cada um das forças ativistas atuais tem uma relação com um dos meios e negociam seu apoio. Os meios livres seguem como oportunidade de ter uma informação que não está vinculada a esses interesses e não vou por na mesa o mito que não temos um interesse. Cada um dos meios tem seus interesses. Cada um dos jornalistas têm sua postura e isso é o interessante que tenhamos uma visão dos diferentes interesses e posturas. A diversidade de opiniões para mim é fundamental. Eu creio que seria um engano de tentar convencer a audiência que eu como periodista sou neutro. Claro que não cada um tem seu interesse. O importante para uma sociedade saudável é que todas as vozes se escutem. O problema atual é que todas as vozes estão silenciadas e só se escuta as vozes do poder. Isto é o que está gerando o desequilíbrio e que os meios livrem devem mudar. No caso específico dos meios zapatistas, nosso trabalho será dizer nesses aniversários os avanços que tem a autonomia e como está organizada, resolvendo seus problemas a partir de suas práticas organizativas. E não permitir que se siga fechada pelo cerco informativo e se isole esse movimento. Queremos que se conheça que sim é possível organizar a sociedade de maneira mais equitativa e mais justa. Não creio tampouco que é perfeito o movimento zapatista. Claro que tem seus problemas organizativos, de justiça, que seja... Como qualquer outro movimento tem suas dificuldades ou problemas, porém é uma alternativa real e viável. Isso, creio que é uma das mensagens mais importantes que devemos difundir. Depois poderá reconhecer 217 suas falhas e erros, podendo corrigi-los ou não. Isso é uma história. O fundamental para mim é reconhecer que temos alternativas ao modelo dominam que são muito mais justas e democráticas se quisermos utilizar a palavra. - Como pensa que deve ser a articulação desses meios livres, por exemplo, com a rede? - Aqui em San Cristóbal estamos fazendo um esforço, como em muitos lugares do mundo, de ter uma rede que permita que a informação gerada localmente tenha uma difusão regionalmente ou nacionalmente. Que haja também uma articulação para que a informação não seja repetitiva que seja equilibrada, que não haja temas que sejam superexplorados e outros que estejam obscurecidos. É importante que tenhamos uma articulação entre os meios independentes e os jornalistas independentes para que não tenhamos grande visibilidade de uns temas e pouca de outros. É importante para nós a articulação a largo prazo em termo de audiência, em termos de gerar informação diversa ampla e plural que todos os temas importantes para a sociedade tenham algum nível de cobertura e se não conseguimos ter que tenhamos consciência que não estamos conseguindo, que estamos tendo certos ecos em nossa cobertura. É pela limitação de recursos que temos. Mas pelo menos, devemos ter definido o que conseguimos, o que não conseguimos. E por outro lado as redes permitem muito a retroalimentação, a aprendizagem de uns e outros que a experiência de umas pessoas possibilite que outras não precisem ter todo o trabalho de investigação para obter um resultado completo e que deem possibilidade de acesso a tecnologias, quero dizer a práticas organizativas para ter os recursos tecnológicos. Permite também o compartilhamento de recursos. A articulação de redes permite que um pequeno meio comunitário local ou um jornalista independente tenham assessoria de outros grupos. Então, em muitos sentidos a articulação em redes é muito importante, cuidando sempre com o respeito a autonomia de cada grupo e indivíduo, mas otimizando as potencialidades que todos temos. - Para encerrar, em sua opinião, qual a importância dos movimentos sociais, como os coletivos, para a causa zapatista? - Creio que primeiro precisamos compreender bem o que estão propondo os zapatistas. Precisamos entender o que estão propondo a sociedade e não querer que eles sejam reflexos de nossas próprias expectativas. Creio que ai está o problema dos movimentos que se convertem no santo que cura todos os milagres. Temos de reconhecer que eles têm um projeto que compartilha com a sociedade, mas não são eles os únicos responsáveis para um projeto de vanguarda e que não são infalíveis que também podem se equivocar, não? Creio que precisamos entender isso para melhor nos relacionar com os zapatistas que é um movimento emblemático para o México e a América Latina. Tendo essa compreensão, poderíamos planejar um diálogo mais equitativo e mais organizado. Agora temos de reconhecer que sendo um modelo, um ícone das lutas no Continente recebem muita pressão do Estado. O movimento dos zapatistas em Chiapas tem uma grande visibilidade. Por isso, não devemos esquecer de outros movimentos que não tem a mesma visibilidade, mas merecem nossa atenção e solidariedade. Porém devemos lembrar que os zapatistas continuam tendo um importante imaginário no continente. Esse é um equilíbrio complicado porque desde meu ponto de vista. Esse contexto segue como uma bandeira que continua dando esperança as pessoas. Tratar de manter um equilíbrio saudável com um processo que é simbólico para as lutas, que significa inspiração e esperança para muita gente e todos nos apontarmos para esse movimento como se fosse o único na região e no país. Creio que há ai um balance que podemos fazer concretamente. Os zapatistas estão conseguindo resistir e persistir com uma construção cotidiana de uma alternativa muito respeitável. Mas além das críticas e das falhas que eles podem estar resolvendo ou não, o feito de seguir existindo como uma brecha no sistema é algo de muito respeito que devemos reconhecer antes de discutir se o zapatismo é ou não uma referência. É em si mesmo que o sistema não está fechado que há possibilidades que construir outras formas de organizações sociais mais justas e com maior dignidade para as pessoas. 218 - Assim é uma prova que os movimentos sociais de comunicação não é só um instrumento, mas participes desse processo de construção mais coletivas. - Sim. Creio que os movimentos, as ONGs devem refletir a prática de um outro movimento que propõe que outro mundo é possível. Creio que devemos escutar, aprender, conhecer e depois compartilhar e tampouco creio que o zapatismo não é uma forma de solução para nada mais além para os próprios zapatistas. _______________________________________________________________________________ 14 de julho de 2013. Entrevista a Thomas, SIPAZ. - O que es Sipaz? - Es una organización internacional como su nombre lo indica: Servicio internacional para la paz. Inició vinculado al levantamiento armado en el 94. SIPAZ fue impulsado en el 95 después de una visita de una delegación de personas de EEUU, Europa y América Latina, que vinieron a conocer la situación, eso entiendo fue en el primer semestre del 95, después de una ofensiva militar contra el EZLN, y después de esa visita se constato que habían condiciones para establecer la organización acá, todo a raíz de un llamado que había hecho el obispo de la diócesis de San Cristóbal , que se llama Luis García de que los ojos del mundo también deberían estar en Chiapas para poder prevenir violaciones de derechos humanos con la presencia de observadores internacionales. La organización se forma a raíz de la visita de esa organización y existe como tal acá en Chiapas. Esta es la sede… - Quién formaba la organización? - Ijole..eso yo no sabría decirte porque yo no estuve… - Eran personas de otras instituciones? - Eran personas vinculadas a diferentes iglesias en EEUU, gentes de instituciones que trabajan en el tema de transformación positiva de conflictos y de no violencia activa. es algo que también está marcado en el perfil y en el trabajo de SIPAZ. - Cómo está actuando hoy la organización? - SIPAZ pues tiene varias actividades que realizamos. Hay que señalar que el principal trabajo lo realizamos aquí en Chiapas, pero también, de manera puntual estamos en Oaxaca y en Guerrero y para diferentes actividades en la ciudad de México, principalmente para reuniones con otras organizaciones de la sociedad civil, o para citas de relaciones públicas con estas autoridades federales, en trabajo de SIPAZ lo dividimos en tres ejes, el primero, es el de acompañamiento y observación internacional, en ello estamos en el campo principalmente en Chiapas, sobre todo en la zona norte, una parte de la zona norte que abarca mas o menos la zona baja del municipio de Tila, es la región de los pueblos Choles, y a parte en menor medida, en la zona de los altos aquí que es la región “tsotsil”. Y en la zona baja de Tila, SIPAZ comenzó en el 95 -96 en un proyecto con varias organizaciones de derechos humanos, que se llamaba la estación norte, que era justamente un trabajo de atención al conflicto en la zona, porque fue la zona donde se formo uno de los grupos paramilitares en la época de los 90 y donde hubo más de 100 desapariciones, asesinatos, y el desplazamiento temporal de alrededor de 4000, 5000 personas en el contexto de conflicto, ahí en esa zona seguimos visitando las comunidades con las que hemos tenido contacto desde ese entonces; obviamente la situación ha cambiado, pero es una situación todavía de falta de justicia, hubo algunos procesos judiciales contra líderes de paz y justicia pero no se ha hecho alguna forma de reparación del daño y además los autores materiales de los asesinatos o desapariciones forzadas no has sido procesados. EL eje dos es el que llamamos la difusión de información, sensibilización hacia el..(incomprendido) y que consiste en varias actividades. Una es la elaboración del informe trimestral, o sea, un informe de unas 8 páginas que publicamos cada 3 meses, que en Chiapas publicamos impreso, lo difundimos con las comunidades que visitamos, con las organizaciones con las que tenemos contacto, también con las autoridades y lo publicamos de forma digital en nuestra página web, en español, en inglés en francés y en alemán. A parte de eso tenemos de eso un blog, que es como el medio más actualizado, porque ahí difundimos información sobre hechos, eventos que han ocurrido, que tienen que ver o con conflictos, o con situaciones de derechos humanos, o con los procesos organizativos aquí en Chiapas, principalmente pero también en Oaxaca y en Guerrero. Y el tercer eje es el que llamamos promoción de paz que tiene tres vertientes, una es la de educación para la 219 paz, que consiste en talleres sobre transformación positiva de conflictos, principalmente el análisis de los conflictos que pueden ser personales pero también de organizaciones. La segunda vertiente es el trabajo con actores religiosos, porque una característica que se ha visto a lo largo del conflicto es que hay diferencias religiosas, que no necesariamente son el fondo o la raíz de un problema o de un conflicto entre dos partes, pero suelen ser como los más visibles. - Perdón, la cuestión religiosa es una cuestión más visible del conflicto…? - A manera de ejemplo te voy a explicar..La masacre de “Acteal” que ocurrió en el 97..Una buena parte de los medios tradicionales retomo la versión del gobierno de hablar de un conflicto entre comunidades y que tenía una característica religiosa, y que las víctimas eran católicas y los perpetradores de la masacre eran evangélicos, ese elemento que sí, de algunos de los que participaron como victimarios en la masacre eran evangélicos, pero no es el fondo del problema, el fondo del problema es más político que es la formación y el adiestramiento de grupos paramilitares, por lo menos para esa época, para contrarrestrar el avance de procesos organizativos de oposición en ese entonces considerados EZLN y el proceso de autonomía pero por otro lado también las abejas, organización pacífica o no violenta con base en la fé católica que estaba buscando con otros medios lo mismo que los zapatistas, entonces ahí se puso la etiqueta que era un conflicto religioso cuando en el fondo no lo es. La tercer vertiente del trabajo de promoción de paz está en la articulación con organizaciones locales y nacionales, hasta internacionales, que trabajan en el tema de derechos humanos o de transformación positiva de conflictos y de no violencia activa. Ese es a grandes rasgos el trabajo que hace SIPAZ. - Cuál es la importancia de los colectivos neo-zapatistas acá para esta transformación en pro de la no violencia? Están cambiando los colectivos que asumen de alguna manera la cuestión zapatista? - El trabajo que nosotros hacemos en esa parte de talleres de transformación de conflictos se ha hecho en la zona de los altos donde hubo participación de personas de iglesias evangélica y de las abejas eso fe a principios de este siglo, 2000, 2001, más o menos por esas fechas, creo que incluso antes poco después de la masacre de “Acteal” en el 98, 99, eso fue más como un proceso de acercar a las partes no en términos de mediación sino más bien bajar la tensión, y se ha hecho también talleres que han consistido en obras de títeres en la zona baja de Tila por ahí en los años de 2002, 2003 hasta el 2005 más o menos, con grupos afines al zapatismo no hemos hecho ese tipo de talleres porque depende también del contacto que estableces con ellos y que tan abiertos están a participar en ese tipo de actividades o si se plantea la necesidad por la misma situación de ellos en sus comunidades, es más bien un trabajo que hemos hecho con personas con las que ha habido un cercamiento previo. - La cuestión de la autonomía política de las comunidades es un tensionamiento para la violencia, es posible tener autonomía sin armamento? - Bueno teniendo el actor EZLN que tiene su parte política civil y su parte política militar, obviamente ahí está el punto que tanto pesa que sea un actor armado, hay que reconocer que desde los primeros 12 días que hubo una situación de guerra declarada del gobierno mexicano y que después de 12 días se declaro el cese de fuego el EZLN no ha vuelto a una cuestión o lucha armada, puede ser que haya habido algún tipo de incidente donde los zapatistas hayan respondido a alguna agresión o hayan actuado de manera violenta con armas, pero digamos en la línea política del grupo entiendo que no ha habido ninguna actividad militar. En ese sentido creo que la construcción de la autonomía por parte del movimiento zapatista ha sido un proceso no violento y eso creo que si es un factor importante, en los últimos 10 años, el establecimiento de las juntas de buen gobierno, que aparte de ser órganos de gobierno que se ocupan de cuestiones educativas de salud , también ha sido instancias para la resolución no violentas de conflictos, entre zapatistas y no zapatistas, pero también donde ambas partes del conflicto no eran zapatistas, ese es un planteamientos que ellos han hecho desde el anuncio de la creación de las juntas de buen gobierno, y entiendo es un papel que han cumplido hasta la fecha, y eso creo q también es algo de su caminar como pueblos indígenas, su forma de resolver los conflictos que justamente es una forma no violenta, y en ese sentido si hay esa parte… - ¿….están caminando para una actuación más política y menos guerra? - Yo creo en muchos de los conflictos en ciertas regiones la mayoría de los conflictos han sido agrarios, por colindancias de tierras, por pertenencia de la tierra a algún grupo u otro, e incluso entre organizaciones sociales e indígenas, y ha habido un trabajo de las juntas de buen gobierno de resolver los conflictos por la vía del diálogo de los acuerdos, y entiendo que la gran mayoría, que luego no se llegan a conocer, porque son conflictos muy locales, entre dos comunidades o dentro de una comunidad, cuando hay disposición de las partes de llegar a un acuerdo, de dialogar, no hay necesidad de publicar alguna denuncia de hacerlo público, por es un modo no? y entiendo que si ha habido de conflictos que se han resuelto de esta forma. 220 - Cuál es la importancia de la comunicación para esta autonomía, para que haya paz? cual es repercusión por ejemplo de los informes en las comunidades? - Es algo que creo que es un poco difícil evaluar que impacto a final de cuentas tienen, se inició ese trabajo de divulgación de la información a través del informe en los 90, este justamente para poder darles una herramienta a las personas en las comunidades, una información neutral, imparcial, que no fueras rumores, que no fuera algún intento de manipular la información por algún otro autor. creemos que sigue siendo una herramienta importante, más también, hoy no hay muchos colectivos o organizaciones que dan de forma gratuita,.. sabemos que hace 10 años eran quizás más organizaciones todavía que entregaban casetes, entregaban, boletines, informes, al menos por lo que hemos visto, somos pocos los que seguimos entregando ese tipo de información, también la entregamos cada vez que la publicamos, lo entregamos en los cinco caracoles, pasamos a hablar con las juntas de buen gobierno, a entregarles cierta cantidad de informes, y en algunas ocasiones nos han dado al menos el agradecimiento, bueno muchas gracias por estar atento a lo que está pasando acá, y muchas gracias por llegar hasta acá a entregarnos en boletín..Pensamos que si sigue siendo algo importante para las comunidades, donde el acceso a la información es más complicado obviamente que en las ciudades o en las cabeceras municipales y por lo mismo seguimos dándole peso a ese trabajo. - Y como es la producción de la información de estos boletines? - Es algo que todo el equipo se encarga de hacer, somos en Sipaz, 6 personas, es todo el equipo donde participa en la construcción del informe, obviamente no es que los 6 estemos escribiendo todos los artículos juntos, pero cada quien da su opinión hasta tener una versión final, consensuada y que luego se manda a imprimir… - Como es la dinámica de producción trimestral, aprovechan los informes del blog? - Obviamente aprovechamos del blog para ver cuales serian los temas que pensamos importante mencionar para el último trimestre…el boletín tiene un formato establecido, la primera parte es un artículo que habla de los últimos acontecimientos de los últimos 3 meses que consideramos relevante, el 2do artículo es lo que llamamos el enfoque, que se enfoca en un tema específico, sobre la cual queremos dar una palabra o difundir. La tercera parte es un artículo más corto de más o menos una página, que habla más de algún evento, de algún acontecimiento en donde hemos estado presentes, del cual queremos difundir la información, pero que es más acotada que el enfoque. Y la cuarta parte son las actividades que realizamos, entonces también es una forma de hacer transparente las actividades que realizamos como organización. - Y las radios, reciben también sus boletines, tiene relación con ellas? - Nosotros como SIPAZ no tenemos un vínculo directo con radios comunitarias. puede ser que a través de otras organizaciones que si trabajan el tema o tienen vínculo directo con alguna radio comunitario, pueda ser que ahí si les llegue, esté el boletín, pero nosotros tal cual no hemos establecido, bueno actualmente no tenemos ese vínculo con esas radios.. - Pregunto eso porque probablemente la cuestión del analfabetismo es un impedimento para acceso de los pueblos indígenas a esta información, y las radios amplían esta posibilidad de acceso… - Si seguramente, y más cuando es en su idioma propio lo que nosotros consideramos es que en las comunidades donde difundimos el informe, casi siempre, o creemos que siempre, hay al menos una persona que si sabe leer el español, y que en general hemos visto que varias personas se juntan para la lectura del informe, para reflexionar, o si algo no es muy comprensible, pues aclarar esto..pensamos que si es un medio más difícil de acceso para los comunidades en el sentido en que no todos saben leer, ahí hay q tomar en cuenta la cuestión de género, en la mayoría de los casos son más los hombres que las mujeres que saben leer, pero sí de algún modo para entender la información para obtenerla, en la lectura, siempre encontraran las compañeras y los compañero en las comunidades. - EL regreso del PRI aumentó las tensiones? el regreso del PRI al poder nacional aumentó las tensiones en las comunidades indígenas? - Ahí creo que hay que tomar en cuenta otro factor, que en Chiapas con las elecciones del año pasado de alguna forma regreso el PRI, el nuevo gobernador Manuel Velasco cuello es militante del partido verde ecologista en México, pero al final es una coalición o alianza electoral que habían hecho, y en Chiapas la fuerza del partido verde de una manera sorprendente que tal vez más se explica por la difusión de.…no sé si tanto su trabajo político en las comunidades, pero es un hecho llamativo que aquí aparecen más el verde que el PRI pero en muchos casos son los mismos políticos que antes estaban en el PRI, qua ahora están en el verde. Y para el primer trimestre del 2013 si hemos notado un aumento en la conflictividad ciertamente, que no se si atribuirlo al regreso del PRI a nivel nacional o a la coyuntura particular que prevaleció o prevalece en el estado todavía. hay que considerar que el actual gobernador es el más joven de todos los gobernadores, y que inició su administración con muy pocos nombramientos de secretarios 221 nuevos, es decir que continuo con secretarios del anterior gobernador y han sucedido varias situaciones en el 1er semestre de 2013, que pensamos o ubicamos más como la mano del gobierno estatal en ese aumento de la conflictividad en varias comunidades que relación con el gobierno federal. Hay otro factor que habría que mencionar también que es el posicionamiento de alguna forma del EZLN el 21 de diciembre del año pasado con la marcha del silencio en simultanea en 5 ciudades aquí en Chiapas y una serie de comunicados que publicó a partir del 30 de diciembre, pensamos que la cruzada nacional contra el hambre y la pobreza extrema que se da a conocer en el municipio de las margaritas aquí en Chiapas es como una respuesta, al memos el acto de hacerlo en un municipio donde tiene una fuerte presencia el EZLN, sí es como algo mediático para señalar sí, al menos desde el discurso oficial, que se está atendiendo los rezagos sociales, habrá que ver si realmente da esos resultados que el gobierno federal dice que va a tener. pero en ese sentido, si respondió al acto que hizo el EZLN el 21 de diciembre, es llamativo también la fecha porque es el 21 de enero que se hace ese acto en las margaritas, otro punto, es el nombramiento de una persona que ha sido integrante de la comisión de concordia y pacificación, de la llamada COCOPA, que fue una instancia que estuvo muy involucrado cuando los diálogos de San Andrés, y cuando se terminó la primer mesa con los acuerdos de San Andrés, Jaime Martínez??…que fue nombrado comisionado, de lo que antes fue la comisión para el diálogo y paz en Chiapas de parte del gobierno federal, pero que se le cambió el nombre y con eso el foco de atención, ahora es el comisionado para la atención de los pueblos indígenas, entonces, puede también ser interpretado como restarle importancia al conflicto armado interno en Chiapas que todavía no está resuelto y desviar la atención pues digamos una problemática que de por sí existe en el país, las condiciones en las que vive la gran mayoría de la población indígena, entonces si ha habido varios cambios, la conflictividad en el estado la vemos más vinculada a la política o a actos de omisión del gobierno estatal (que) o del gobierno federal, pero sí la coyuntura ha cambiado. - ¿Cómo el mundo está viendo Chiapas hoy? - Como los propios zapatistas dicen, ya no están de modo, yo creo que la atención fue mucho mayor en los años 90, quizás más o menos hasta la marcha del ….de la tierra??? en marzo del 2001, cuando una delegación del movimiento zapatista, se movilizó hacia la ciudad de México para exigir el cumplimiento de los acuerdos de San Andrés, creo que hasta entonces hubo bastante atención al conflicto de acá, pero, entiendo que otros movimientos sociales, o hasta revolucionarios, en otros países si han desplazado el movimiento zapatista del foco de atención, al menos para mucha gente a nivel internacional, incluso para el propio país de México ha perdido algo de importancia o visibilidad más que nada quizás. Porque poco se ha informado o se está informando del movimiento a menos que sea el subcomandante insurgente marcos el que está hablando, por las propias habilidades que tiene como vocero del movimiento pero en general no se presta mucha atención a las denuncias de las juntas del buen gobierno sobre algunos conflictos específicos. En ese sentido ha perdido esa atención, pero no sé si eso es del todo negativo porque a final de cuentas el movimiento ha logrado consolidar un proceso de autonomía en estos 10 años ya casi. ..Con el decimo aniversario de las juntas de buen gobierno en agosto próximo y la construcción de los municipios autónomos..pues al final para ellos, para los propios militantes del movimiento zapatista como que ha sido, o lo que nosotros hemos visto, ha sido un avance, en ese sentido, no sabría decirte si realmente es del todo negativo que haya perdido atención o la mirada de otros países. Obviamente si pierde algo de proteccion que si ha habido antes, cuando hubo más interés mediático en Chiapas, pero al final de cuentas han logrado consolidar un movimiento desde el 94, o sea, visiblemente desde hace casi 20 años. _______________________________________________________________________________ 15 de julho de 2013. Entrevista com Jaime - Como surge o coletivo Komanilel? - Surge da necessidade de alguns “compas” de trabalhar a comunicação de forma mais autônoma. Compas que já vem trabalhando comunicação comunitária, meios livres e independente, mas desde de organizações como ONGs e nossa ideia era trabalhar a comunicação de uma forma mais autogestionada. É assim como surgiu em 2009. Tu estavas na formação? Sim, já quando se formalizou, digamos. Tinha mais quantos contigo? - Como mais seis, creio. 222 Hoje, são quantos? - Nove. A autonomia tu crês que é maior num coletivo do que numa ONG? - Eu creio que sim. E esse é o sentido de estarmos aqui que se cultiva e se constrói de uma forma mais congruente. Um coletivo que não busque uma dependência de um financiamento externo, mas que dado um motor e um trabalho. Um trabalho que constrói o trabalho. Há outras maneiras, mas nós buscamos assim. Sermos autogestionado. A questão da autonomia está muito ligada a sustentabilidade autogestionada para vocês? - Sim. Que o vínculo entre nós e os demais não seja uma dependência, mas uma solidariedade. A sustentabilidade não está dependente do mercado? - Pois sim. Como tudo no mundo. Tampouco pode sair. Também há formas de enfrentar de outra maneira ou produzir de outra maneira. Também a gente que nos cerca não é uma questão de competição de mercado, mas de dar algo que seja como um reconhecimento de trabalho. Que tenha um sentido. Pois sim. Não está sempre ligado nem tem uma relação dependente e de equidade e formas de voltas um pouco. Quais as formas de dar as voltas? - Nós tentamos levando coisa para onde há buscas de alternativas. Este então não é só o consumo de algo porque está bonito, mas tenha um conteúdo e uma mensagem e a forma de produzir é distinta. Vá dentro de toda uma coletividade. Geralmente tentamos fazer coisas com material reciclado e de forma artesanal também e pois tudo a ideia de um produto que compra porque apoia um trabalho. Também tem outro sentido. Tem um valor distinto. A questão é um muito sensível aqui? - Sim. É uma preocupação um trabalho que se faz com a terra e sua defesa e ter uma relação distinta com ela. Por isso, tentamos fazer algo como cultiva alguma coisa, ter proximidade com o campo. Mesmo que não seja diretamente porque não temos terra, nem tampouco propriedades. Mas sim as pessoas que trabalhamos são campesinos e a defesa da terra é uma preocupação porque sem isso não podemos construir outras coisas, não podemos sequer viver. Pois também os problemas que se tem trazido é uma falta de respeito com a terra e a natureza que vivemos separados dela. A ideia é vermos como algo do mesmo. Quais as principais atuações que o coletivo trabalha? - Fazemos vídeo de documentários, reportagens. Fazemos coisas de áudio, pois temos rádio e também fazemos cápsulas, spots e também materiais que dependemos o trabalho. Fazemos também coisas gráficas, como serigrafias e coisas digitais e impressões, textos. Temos várias páginas na web e temos cuidado com a manutenção dessa página e das redes sociais como Facebook e twitter. Sempre essas produções estão relacionadas com outros grupos, principalmente comunidade indígenas? - Basicamente sim. Creio que nunca fazemos nada sobre nós mesmos. Fazemos algo que fala sobre outros grupos. Fazemos uma posição de solidariedade e companheirismo de certas lutas e processos. Estamos relacionados com algumas lutas, algumas situações, dependente do tema que há. Por exemplo, fazemos algo sobre a luta pela liberdade de alguns presos, como Alberto Pakistan. Ficamos ao lado e fazemos algo que pode ser útil ou com algumas comunidades que estão em alguma luta ou numa onda de promover a cultura, por exemplo, de dar a conhecer-se e como são suas vidas. Só sempre produções colaborativas ou há produções que só vocês fazem? - Tentamos que ser colaborativos pela forma que trabalhamos ou pela maneira que chegamos com quem trabalhamos. Nunca passa como algo completamente desligado, mas também como o trabalho jornalismo e há de fazer coisas rápidas de que a forma mais colaborativa que quiséssemos ou do que pegar uma entrevista e uma informação. Mas geralmente fazemos um trabalho que não seja como os periodistas que pegam uma notícia e vão. Sempre temos uma relação com a gente que vamos lá. Então pois sim, podemos dizer que nesse sentido é colaborativo. Mas fazem formações e oficinas? - Sim, também. É uma preocupação porque os meios precisam de gente e povos e também necessitam certas ferramentas e conhecimentos que pelo trabalho que fazemos e as formações que temos, manejamos mais do que algumas pessoas. Essa é nossa ideia de dar conhecimento para que a gente se aproprie e as use. Então, esses processos dependem do momento e com que faz, alguma produção em conjunto ou oficinas formais ou processos de acompanhamento a seu trabalho. Depende do formato que precisam um processo de formação no processo de capacitação. - Como chegam as demandas ao coletivo? - Depende da situação, da organização, do pedido em específicos. Depende dos contatos, mas geralmente é por uma solicitação que chega por correio eletrônico, chamada telefônica ou chamar na porta: há isto. 223 Ou que vai saindo algumas propostas que nós podemos estar envolvidos em algum processo que deveríamos fazer isso. Depende da situação. Qual o critério para atender ou não às solicitações? - Primeiro, tem que ser coincidente com que pensamos, sentimos ou trabalhamos. Digamos no contexto peculiar porque há muita disputa política e diferenças e conflitos entre grupos. Então sempre precisamos saber quem é esse grupo com quem está e com quem trabalha. Se tem uma coincidência com o que planejamos. Em seguida, é se temos tempo, porque temos que atender outros compromissos. Não tempo de atender outros. - Qual a relação desse coletivo com os ideais zapatistas? - Sim de fato temos bastante. No sentido, os princípios que o zapatismo promove estamos de acordo. - Foi uma inspiração? - Sim de certa maneira e segue sendo uma busca de coincidir com essas ideias e com as práticas que é o mais importante. E digamos que somos parte do zapatismo amplo e não do zapatismo do EZLN porque não somos parte da organização, mas somos o que chamam de neozapatismo ou o movimento mais amplo da sociedade civil. Então coletivos que desde ai contribuem e colaboram. Na experiência que tem até agora, qual a importância da comunicação para a autonomia? - É muita, não? Digamos que, no princípio, uma das demandas importantes era a informação. Pois nós interpretamos não só a informação, mas como comunicação. Manter um povo informado de maneira que possam tomar decisões de forma mais adequada e também expressar-se dar a conhecer suas perspectivas, poder reivindicar a realidade que os meios hegemônicos tentam etiquetar. Poder mostrar isso, dar informações próprias, promover suas próprias maneiras de ver o mundo e isso é importante. Esse é o nosso trabalho. Poder propiciar ferramentas para que as pessoas por um lado, vejam o que acontecer para tomar decisões que possibilitam a construção de uma democracia real e poder dar seu ponto de vista que se possa dar a conhecer dos povos e gente que lutam que por vezes é muito calada pelos meios grande. É também possibilitar ferramentas para que essas vozes saiam. E nessas comunidades que o coletivo trabalha, há alguma dificuldade de conseguir a participação? - A questão da participação é um problema sim. Esses são grupos que é difícil que haja recursos. Isso implica que tem de trabalhar muito e muitas vezes trabalhar em condições que não são adequadas. Há de sair para trabalhar com outros. Os trabalhos que fazem conosco nunca se remunera. Isso faz com que, às vezes, tenha que abandonar o trabalho ou participar pouco ou faze-lo esporadicamente. Digamos que isso é um objetivo, manter-se constante para nós igual, por isso a questão da sustentabilidade. Isso é uma dificuldade, mas também um objetivo. E também tem coisas a nível estrutural que se discutam a nível cultural e social, como, por exemplo, a participação das mulheres é algo mais complicado. Há muita disposição da gente que está engajada, tem uma consciência e um compromisso, mas também as questões econômicas e sociais têm seu peso e um objetivo para aliviar-se. - A acomodação, a cultura da passividade não é um problema? - Para as comunidades que trabalhamos não. Geralmente estão organizadas. Tem um trabalho político. Tem uma consciência política e um compromisso social. Então isso não é um problema, mas o tempo, a disposição, o dinheiro, essas coisas. Como surgiu a ideia da Frecuencia Libre no coletivo? - Não te posso dizer muito, mas como uma ideia de construção de espaços de cidadania, da comunicação comunitária para impulsionar a cidadania, que é uma peculiaridade deste coletivo. Há outros grupos mais que surgiram a partir de uma militância política. Essa rádio foi um lugar que coincidiram organizações sociais, ONGs, coletivos, grupos de jovens, estudantes e outros... um pouco com esse conceito da comunicação cidadã, de rádios cidadãs. Não estava quando começou em 2000. Nosso coletivo não administra a rádio, participamos a organização da emissora, mas que administra é outro coletivo, o Frecuencia Libre, que há pessoas de vários coletivos. Alguns são de outros grupos e alguns são dos que iniciaram, muitos outros já saíram. E há dois tipos de participação. As pessoas que estão no coletivo e gente, como nós, que temos um espaço na rádio. O programa de vocês é de notícias como está organizado esse programa? - É um resumo semanal de notícias de Chiapas, México e Internacional que tem como intenção de fornecer informações que apoio, retratem e ajudem a dimensionar e a fortalecer as lutas dos povos organizados daqui. Por isso, também um noticieiro bilíngue. No princípio, era espanhol e tsotsil. Agora é espanhol e tsetal. As vezes é difícil conseguir alguém para te acompanhar antes tinha um companheiro que traduzia para tsotsil, agora o outro fala tsetal. O trabalho é uma compilação de notícias da semana. Há uma junta editorial que decidem quais são as mais importantes e descartam outras e para acomodar que dure o tempo que é de duas horas e meia e o programa (nome em tsotsil) que significa, em tsotsil, há uma razão para as coisas. 224 Como é a seleção das notícias? A linha editorial? - Primeira é que seja uma informação deles, os povos em luta, em resistências e que tenha a ver com a gente que trabalhamos. No primeiro momento, são comunicados e boletins de imprensa de organizações e coletivos e demais que são como irmãos nossos e logo é a recompilação de notas que tem a ver com essa gente nossa. Por exemplo, são questões eleitorais não nos metemos. A menos que sejam coisas que tenham a ver com os espaços que lutamos ou onde se lutam as organizações. Quer dizer, tal candidato prometeu em sua campanha que vai cumprir os acordos de San Andrés. Então isso é algo importante. Não porque dizemos que vai ser, mas porque a gente que está dizendo vai ser e também o tratamento tenta ser mais pela ótica dos movimentos sociais. Não tanto desde o governo, desde os grupos que estão no poder. Neste sentido, as primeiras fontes que usamos são as dos meios livres. Daqui e do mundo. E com um enfoque também dos direitos humanos, luta pela terra, pelo território, da defesa e vai basicamente por ai. Também evitando “amaredismo” (jornalismo marrom) como vimos nos vídeos onde informação diz mataram um tanto. Esse tipo informação não é importante, mas tampouco deixamos de dá-las. Muitas que acompanhamos são os feminicídios, informação é importante, triste, mas não deixamos de passar direto, mas vamos dizer “matou dessa maneira”, como uma “nota roja”, mas não vamos deixar de tratá-los. Vimos que para nós é importante buscar comunicar a esperança, as conquistas e vitórias importantes dos processos de organização e lutas dos povos. Então é um pouco retratar o que fazem os povos organizados e o que defendem e o que estão realizando e a informação que é importante para esses povos para essas organizações que se mantenham organizadas e estar fortalecendo sua luta. Vocês fazem reportagens externas? São decididas pela junta editorial? - Nós como coletivo estamos constantemente gerando informações e indo reportar fazendo transmissões ao vivo, gravações. Então, geralmente, isso vai para o noticieiro e assim também participamos de uma rede de meios livres que fazem o mesmo. Então durante a semana estamos fazendo o trabalho de coleta a informação e na quinta é como um momento de síntese por dizer. O que se foi gerando durante toda a semana se apresenta num momento. E a questão de não tratar da questão eleitoral, é uma descrença neste processo como os zapatistas? - Sim. Para nós, não é um campo de disputa. É como algo que está abandonado, podre e não confiamos, não cremos, não votamos. Não há solução por vias eleitorais? - Para nós, não. E isto é um pouco do posicionamento porque estamos na autonomia e tem que ver com o zapatismo. Sentimos que não tem sentido algum. Entrar por ai porque já temos sido decepcionados muitas vezes. A única maneira que tivemos a ver com o processo eleitoral anterior, este que passou agora, foi porque como surgiu o movimento 132 e organizaram um debate cidadão e sentiram necessidade de transmitir e nos convidaram. A discussão que fizemos foi que era algo que não tinha a ver com o processo eleitoral porque era algo que estava organizando desde a gente e algo que poderíamos apoiar porque não era algo que tinha de ver com os candidatos. E aí entramos e transmitimos. E nada mais do que isso. E por exemplo, temos nos inquietado um pouco com a violência que gera o processo eleitoral em Oaxaca. Mas porque está surgindo nos municípios que tem má assistência nos projetos e tem a ver com a desarticulação da Rede Organizada. Então por isso que temos dado seguimento e um pouco por reportar e que está havendo essa violência devido ao processo eleitoral. Mas não estamos metido. Nunca buscamos informação sobre candidato, quem é e tampouco alertando em que votar ou não votar. Em nossa perspectiva essa é uma informação que confunde que tapa as coisas importantes e para nós coletar as informações que não estão na agenda midiática hegemônica e geralmente está confundida com esses processos eleitorais. Quando há eleições aqui, todos vão lá e é como uma tampa. Para isso é que serve. No coletivo, vocês têm a posição de não votar e não fazer campanha? - Não é uma decisão do coletivo, mas uma coincidência de posições de cada um. E creio que é muito do que acontece aqui. Há muitas coisas não é que há um regulamento muito claro porque não há necessidade, pois as coincidências surgem de uma postura pessoal e mais bem se gera na prática. Quase não fazemos esse debate como coletivo. Algo como não tomar álcool ou não introduzir drogas ilegais aqui isto são posicionamento que fazem parte do regulamento, decididos coletivamente. Mas as questões mais ideológicas são coincidências como mais de sentido em comum do que um posicionamento declaratório. Como participam os ouvintes no programa de vocês? - Primeiro com os comentários. Temos um telefone no estúdio, uma conta no Twitter, no Facebook, no email e ai irão mandando comentários. E a outra é que muitos ouvintes pertencem a coletivos, organizações e geralmente estão mandando informações para participar. Às vezes que já inclusive nos dizem, nos pedem espaço. Parte do noticieiro está divido em secções que chama microfone aberto e é como um espaço de denúncias e entrevista. Todo o tipo de informações que convidamos as pessoas de organizações para dizer o que fazem. Se querem falar algo, convidamos ou conhecem que conhecem 225 sobre alguma informação também vão. Muitos são ouvintes que escutam o programa porque participam de nossos espaços. Há pessoas que escutam em outros locais do país. Passam também em rádios no DF, Guadalaraja e geralmente estamos em contato por via eletrônica. Que nos vão mandar comentário. Há dificuldades dessa participação? Há um medo de participar dessas iniciativas alternativas? - Eu creio que não. Medo não. O problema que acontece nos meios livres é por estar na sociedade e ter seu trabalho que não fechamos no autoconsumo. Nos faltam o trabalho de pessoas que não estão comprometidas e não estão na luta. Por um lado, estamos a ver a Frecuencia Libre. É uma rádio que tem um transmissor pequeno e não chega muito longe. Tem uma programação que está fechada em certo público e a gente de San Cristobal é muito conservadora. Tem sua rádio que escuta e ponto. São as rádios que sempre tem existido. São as rádios tradicionais que chamamos. Há muita concorrência com outras rádios que são evangélicas. Há muitíssimas rádios evangélicas. A audiência está setorizada. Muito dividida e quem quer escutar nossa rádio é porque querem porque a busca. É difícil que uma dona de casa ou qualquer pessoa comum a escute. Eu tenho falado com alguns taxistas e quando escutam é porque se aborrecem porque estão muitas horas. Então mudam, mudam e só quando encontram algum atrativo que escutam. Há muitas gente pela tradição política do país e todo, quando ouvem coisas negativas sobre o governo ou coisas assim muito de lutam, mudam porque não tem consciência. Isso é um objetivo porque a cultura política do país busca deslegitimar a mobilização, portanto a marcha e o mesmo e o mesmo, sempre o mesmo. Às vezes passam no tipo de mensagem que formamos. Tem um formato, uma maneira de construir-se que não é atrativo, mas há um certo tipo de audiência. Então é algo que é como “mordemos a corda”. É como algo que só nós podemos colocar de pé porque não temos sido capazes de construir um tipo de informação que rompa essas fronteiras que só nós temos construído. Isso é um objetivo que buscar. Sobre a relação com Las Abejas como começou? - Há companheiros das Abejas que são fundadores do coletivo. Então desde aí. Digamos que nascemos irmãos de alguma maneira e por isso sempre temos trabalhado ali. Como atendem as demandas de comunicação deles? Como participam? - Depende dos momentos do momento e das situações, mas digamos que trata bastante ao acompanhamento da área da comunicação e apoio a capacitação e também produções em conjunto. Também digamos assessoria de algumas coisas ou consulta. Estamos lá como precisam de algo. Digamos que basicamente acompanhamento ao trabalho de comunicação e sua capacitação. Qual a participação do coletivo na criação da Rádio? - Pois também. Quando começamos a trabalhar com a Associação havia uma rádio. A rádio “Chanopom” era a rádio da Associação que se trabalhava. Juntos trabalhamos com essa rádio. A organização teve uma divisão bastante forte no ano de 2008 e começou a dividir vários trabalhos que faziam e uma foi a rádio que acabou saindo da organização. Terminou ficando com a outra organização nova que se separou que também se chama Organización de las Abejas e onde trabalhamos é a Sociedade Civil de Las Abejas que é a autônoma. A outra está com os partidos políticos. E por questões de dinheiro e de coisas políticas a rádio foi para lá. Então muito a ver essa organização Boca de Polén. Eles foram meio que orquestraram a saída da Rádio. Então a Sociedade ficou sem rádio e desde 2009 houve a intenção de construir uma nova rádio e estava formando gente e se conseguiu um transmissor pequeno estava transmitindo e agora é fazer uma rádio maior. Bom estamos no processo desde o princípio. Desde antes que tivera a necessidade dessa nova rádio. A principal necessidade da rádio para a comunidade é autonomia? - Sim que seja a parte de trabalho da organização, em todos os sentidos, de informar... Assim também funcionava a outra, comunidade tal deixa a mensagem que na terça vão matar uma vaca... Tal lado disse que seu familiar que viajar está a voltar... Coisas de rádios comunitárias. A questão também de dar a informação a comunidade para fora. Diversos comunicados, dar as mensagens de paz, que trabalhe a terra, coisas deste tipo. Há também uma parte mais da autonomia e do processo organizativo, pois tem uma área que se integra jovens. É como se ter uma mão a mais na comunidade porque não se ficam só na rádio. Liga também o pessoal que faz vídeos, áudios ou checar um problema que tem em tal comunidade, vão fazer uma denúncia, vão os de comitê jurídico, vão da mesa diretora e vão alguém da comunicação. Também fazem parte da coordenação da organização. Então é um pedaço da organização. Informações sobre o Estado e país se veiculam também? - O noticieiro que fazemos passamos lá. E também por isso fazemos bilíngue. E nós fazemos mais do que programa de rádio. Fazemos resumos dos textos e mandamos para que eles façam no momento que queiram. Como é tratada a questão musical em seu programa na Frecuencia Libre na Rádio de Los Abejas? 226 - A Frecuencia Libre tem seus gostos com muita trova e há tudo. Por exemplo, há um programa de metal. Depende de cada programa. Nós em específico depende também de data se for aniversário de Che, tocamos o que tem há ver com isso. Eu também estava num site que se compartilha música, de músicas livres, sem direito do autor, e muitas vezes de lutas de várias partes do mundo (rebelsound.org). Desde aí, vamos tirando bastante música. Há também compas que trazem e põe sua música. Fazem compilações de várias partem e nos levam. Enquanto as Abejas tocam conforme o gosto de suas comunidades. Como tem espaço para músicas de alabanças, como músicas religiosas, da palavra de Deus porque é importante para eles. Há músicas tradicionais. Músicas rancheiras, nortenhas, músicas revolucionárias, também põem bastante e há um fenômeno novo que se chama base rock. É música tradicional, misturada com rock, jazz, elétrico. Pop music, reggeaton quase não. Não gostam. É uma proibição ou por que não está no gosto? - Olha é da música pop de lá é a romântica porque gostam muito. O pop que gostam é a música nortenha, o pasito... essa é a música que gostam de montão: durangense e música de banda. Para encerrar, tua licenciatura foi em jornalismo? - Não em Ciências da Comunicação. O enfoque é mais em Ciências Sociais, com o enfoque de Comunicação em Universidade Íbero-Americana. Tua monografia de licenciatura foi sobre os Abeja. Qual a problemática que estudou e quais conclusões? - Sobre o massacre de Acteal como um feito e um discurso social que tinha gerado uma mudança na entidade política da organização dos Abejas e um pouco para entender de onde vinha isso e como se utilizava. Chamava muito a atenção que o impacto social e de identidade que tem o massacre de Acteal na organização. Sempre, sempre estão mencionando. O próprio local, não tem como pensar sobre o assunto. - Exato. Digamos basicamente sobre isso. A rádio ajuda de alguma maneira para tratar e conviver com essa memória? - Sim, porque é algo muito profundo a reflexionar. Sempre está se recordando, trazendo a memória e depende do setor uma questão muito transformadora, como sangre que tem trazido a vida, como tem que seguir a diante. Há muitas coisas juntas, misturadas, questão católica dos mártires, como mais tradicional da vida e da morte, as atividades da terra, o que coloca a organização para frente, fruto... o sangue que banha a terra, a fertilidade. Eles falam explicitamente sobre isso? - Sim, na rádio e nos comunicados. Todos. Abertamente, publicamente, tudo que se diz. A terra sagrada dos mártires que foi banhada pelo sangue. E há muitas coisas como tipo histórias dos sonhos, isto de acontecer, depois. O catequista que morreu que sonhou que depois vai florescer tudo. Acteal é um pouco do que deu sua vida. Fizeram a organização. Então é isso algo que está em todos, nos locutores, nos líderes que vão ser entrevistados. Esse como um sentido comum. Um discurso que está presente e ademais se interpreta de diferentes maneiras. A gente das Igrejas interpreta de uma forma, os mártires. Há que interpretam mais como mártires da luta ou a gente que deu sua vida pelo processo da luta ou algo assim. Há também distintas. Há cápsulas de rádio que se diz isso. Que se fala um pouco disso. Isso desde antes desde a outra Rádio. Isso é uma cultura mais ampla dos povos que estão resistindo. Por exemplo, há muitas histórias contaram nossos ramos, nossas raízes e mesmo assim vamos florescer. Ai tá a metáfora que o massacre se trata assim. Não é só por Acteal, mas pela cultura tsotsil, da resistência, do movimento indígena, da cultura política mexicana que mártires há muitos, mártires de 68, mártires de atengo, Tem essa cultura política de martirizar a gente e de fazer motor de luta. É algo que acontece. ______________________________________________________________________ 23 de julho de 2013 Entrevista Leonardo Toledo – Frecuencia Libre. - Cómo inició Frecuencia Libre? - fue una combinación de varias circunstancias, había un grupo de gente que llevaba varios intentos radio- aficionados, que querían hacer su estación de radio de cualquier forma eran músicos, les gustaba el asunto del audio, que habían conseguido un transmisor y habían estado haciendo experimentos, echaban a andar el transmisor y ponían música, ellos venían de esa ruta de la ruta radioaficionado, así neutro, y se juntaron con un grupo de gente que estaba trabajando en organizaciones no gubernamentales que si quería hacer una radio con contenidos, radio que dijera como los mensajes de las organizaciones y hablara como de las cuestiones políticas, se juntaron los dos, unos que sabían hacer radio y otros que tenían contenidos y decidieron lanzar esta iniciativa de la radio ciudadana. en 2002. 227 El año pasado cumplió 10 años. tuvieron una serie de discusiones y reuniones de qué debería ser y por donde, y no tardó mucho, en la planeación y preparación de todo fueron como seis meses y luego ya la sacaron al aire, fue todo un suceso porque hicieron, porque repartieron flayers: “volantes”, y le avisaron a todos sus amigos, no había redes sociales, más era todo boca en boca, pero el día que la sacaron al aire, yo no estaba en ese entonces, era público, en un día se conoció en toda la ciudad, en todo el pueblo, porque uno de los que estaba participando trabajaba con los taxistas, entonces vía la radio que tienen los taxis se empezó a distribuir, entonces todos los taxis traían “puesta” la estación, y entonces toda la ciudad se enteró así en un día, eso fue bien bonito, además.. Hacía 30 años que solo habían dos estaciones en San Cristóbal, la WM, la comercial digamosle, que funciona en el 690 de am y la RA?? que es la estación del estado, pública, que ahora se llama radio 1, que esta como en el 110 de am también, esas dos estaciones era lo único que había en todo el cuadrante, los últimos 30 años que recuerdo, siempre fueron esas dos en AM. - pero acá siempre se escuchó las radios de otras regiones porque es … - No..Habían gente que usaba radios de onda corta que tenían mucha recepción..pero… ni en Am ni en Fm se recibían más que esas dos, porque esta como en un hueco..no llegaba radio de Tuxtla. - Entonces fue un diferencial, una sorpresa la entrada de radio libre? si, fue una super sorpresa , entonces toda la gente de la ciudad la estaba oyendo porque era algo nuevo, no habían escuchado algo diferente. Y era divertido porque no eran esas voces “engoladas”… - Y no hubo represión cuando…? - sí, fue la radio privada la WM que metió una denuncia por competencia desleal y uso de frecuencias no autorizadas y ellos mismo fueron los que hicieron la denuncia y que motivo la persecución, a estos chavos que ya habían hecho experimentos antes con su transmisión los de la secretaría de comunicaciones ya los conocían, cuando llegaron la primera vez los de comunicaciones y transportes, ya los saludaron, - Qué pasó? tu otra vez? ya se habían conocido, ya le habían dicho que estaba prohibido, hubo una primera advertencia, que llegaron solo los civiles y después de eso lo que hicieron fue cambiarse de casa cada semana, movían el transmisor, la antena, y todo, una vez a la semana cada uno de los integrantes del colectivo ponía su casa, a cada quien le tocaba una semana cuidar el transmisor y la antena y así estuvieron “itinerando” la ciudad varios meses porque una vez llegó la policía a la casa de uno del colectivo, y ella en el micrófono convocó la gente va venir la policía y nos quieren cerrar la radio que es de todos los ciudadanos y empezó a llegar gente de toda la ciudad de diferentes colonias y radios, la rodearon, la protegieron, y ya la policía no pasó..estuvo muy emocionante. Eso fue en 2003, la persecución fuerte en el inicio. Y luego, estas demostraciones que había apoyo de la comunidad hizo q bajara mucho la persecución y también como que los denunciantes, la familia Ruiz narvaez , de la Am, dijeron que no era competencia, porque les preocupaba que les quitaran anunciantes, cuando vieron que la radio no tenía fines de lucro, no vendía publicidad, desde el principio se dijo en el colectivo se dijo que no se iba a hacer negocio, como todos tenían un salario a nadie le preocupaba que se necesitara como dinero, no. - Pero la radio tenía que tener una sustentabilidad, etc..? - Esa discusión todavía sigue…pero casi todo el mundo venia de esta militancia de izquierda muy entregada y con el zapatismo… – incluso los músicos? - …No..bueno, justo ante esto la persecución policiaca, y las necesidades, luz, teléfono, un grupo empezó a plantear la necesidad de legalizarse, vamos a solicitar el permiso siguiendo las pautas que marca la ley, y otro grupo, el más zapatista, dijo no, tenemos que resistir y este es nuestro derecho, el aire es de todos podemos usarlo, y fueron discusiones muy intensas durante muchos meses de qué hacer, sobre todo el lado de los músicos, querían la legalización, no quería tener problema con la policía, vamos a solicitar el permiso y los otros estaban mas en una cosa de resistencia, más que de una sobrevivencia de la radio, querían marcar, dejar claro que no iban reconocer al gobierno y ocasionó que se fue dividiendo el colectivo, 2003, 2004, los músicos y los operadores fueron los primeros que empezaron a salir..ante la presión y el estrés de la policía mucha gente, unos se salieron solitos… tenía otro componente: San Cristóbal, la gente que participa activamente en proyectos de este tipo, es muy móvil, están un mes, un año, entonces había gente que estaba haciendo buen trabajo, y de pronto dicen, no ya conocí una uruguaya, me voy a Uruguay, conocía una finlandesa.. no sé..las razones eran como muchas.. o de trabajo..Entonces, eso hizo que mucha gente se fuera solito, y otros por las divisiones que hubo por diferentes estrategias de sobrevivencia, y otro el grupo que quedó es no queremos nada, queremos sobrevivir y sufrir, cosa más católica de que si no sufro no vale la pena… entonces no se planteó nunca hasta ahora, bueno, se planteo de diferentes formas el asunto de la sobrevivencia, la que permanece hasta hoy fue la que cada integrante del colectivo pusiera un dinero mensual - El colectivo es formado por personas o por organizaciones? 228 - Se supone que personas, hay algunos que la persona representa una organización, participan en el colectivo como persona pero son enviados por su organización, tienen el mismo peso y mismo voto.. - Y como se integra el colectivo? - En principio fue cerrada y discreta la convocatoria, yo te invito.. y posteriormente hubo un momento donde la radio se invitaba a todos..debe haber sido en 2004, hasta 2005, pero luego vienen las divisiones entonces unos se llevan la transmisión, que solo pasa música, como era su interés desde el principio; y luego hubo otra división que tuvo que ver con otra división mas política tenían diferencias de accionar político, pero se hizo otra radio, que era como un clon, programas muy parecidos y la misma música, leían los mismo comunicados del zapatismo, para mí era muy chistoso porque eran los mismos haciendo la misma radio, pero estaban peleados, no? y ellos tenían mejor consola y mezcladora de sonido. - Cuando la radio frecuencia libre se estabilizó? - Debe haber sido…ijole no me acuerdo..donde está ahorita, que es la parte de atrás de una cafetería.. - Ya estaba en un local? - Tuvo varios pero seguían siendo como las casas de los mismos del colectivo, nunca tuvo un local propio, hasta que se cambio donde esta ahorita, eso ayudó mucho a asentarla, ya no había el problema de las rentas de las casas y los niños, ya tenía su local y el mismo centro comercial donde está le daba como cierta cobertura, ya no era tan fácil que se llevaran el equipo, porque habia como un parapeto, una barricada, previa, aún entonces siguió habiendo muchos procedimientos de seguridad. -. .. y hubo también una barricada turística, es un escándalo la policía adentro.. - y defendido por la etiqueta zapatista, se supone que ese lugar.. sería como una declaración de guerra innecesaria..Entonces ahí ya no hubo, dejaron de haber problemas dentro del grupo, ya era muy pequeño el grupo, ya todos estaban de acuerdo más o menos..y se sostuvo, han salido personas, hemos entrado otros, pero ya se mantiene en un solo lugar y el equipo sigue siendo el mismo. - Hoy en día cuales son los criterios de participación de alguna organización o persona en la programación? - Hasta el año pasado el requisito era llenar un formato un documento que tenia 8 preguntas, cual es el objetivo de tu programa? de que va tratar? que horarios? preguntas generales, pero tenias que tener un padrino adentro del colectivo, alguien te tenía que recomendar..entonces ya el colectivo revisa la propuesta por lo general no me ha tocado que digan q no, todas las propuestas que llegan dicen que si, a veces la discusión se pone difícil, cuando la persona que llega tiene como antecedentes..- a una vez trabajó para el gobierno… salen todos los trapos, si lo conocen varios del equipo, es más difícil a uno le puedes caer mal, a otro le quitaste una novia, no sé. esas veces se ponen más complicadas, cuando nadie lo conoce le dicen que sí y adelante, pero este año se está cambiando, hacerlo mucho más participativo, tanto los programas que sean más abiertos al público, como la producción, de crear programas, de tener bloques y espacios se trata de hacerlo mucho más abierto, se están viendo los mecanismos, es la intención, no es sencillo para este grupo que ha hecho esto diez años de un modo, cambiar la perspectiva ha sido complicado, porque mucho tiempo si fue como órgano de difusión de partido, no era de un partido, pero funcionaba así, tenía que seguir la línea del zapatismo, crear consciencia… - Hoy es más plural? - Es un poco más plural… - Hay posibilidad de una persona que no representa una organización tener un programa? - Sí, yo soy como el ejemplo.. - Tu programa es cultural, cuales son los contenidos que frecuentemente abordas? - Tenemos como cinco sesiones o 4 que es como el chisme local de San Cristóbal… fulanito hizo una exposición y sacó un nuevo disco del grupo de mi amigo y las dinámicas al interior, luego a nivel estatal ya se vuelve como una especie de critica a las políticas institucionales culturales, entonces se habla de la obra de teatro pero se dice si el gobierno hizo o no hizo , si invirtió o no invirtió, lo mismo a nivel nacional, y a nivel internacional ya son muchísimas más cosas que tengan que ver con Chiapas, qué pasó en algún lugar del mundo que tiene que ver con lo que estamos hablando.. y tenemos otra sesión que es mas de capricho que es la cultura que se hace fuera del planeta tierra, cultura espacial, es un poco así la dinámica, los sábados de 4 a 6..2 horas.. - Estuve escuchando la programación de frecuencia libre, no tiene programa en todos los horarios, tu sabes cuales son los programas? - No me sé toda la programación.. hay uno o dos que no están actualizados, pero más o menos son los que ahí aparecen.. – doce programas tal vez? 229 – Yo creo que más. De los más viejitos hay uno que se llama desde tu ventana, que es de rock, con comentarios sobre el autor y el disco del rock de los 60s 70s. uno que se llama de la Patagonia al rio bravo que es como de análisis político, nacional e internacional. - Noticiero no tiene.. Hay un programa de noticias que lo transmiten los viernes, debe ser, el viernes se le dio a esta organización (¿??? no se entiende el nombre) un bloque completo, ellos trasmiten todo el día. Ellos tienen su programa de noticias, tienen un programa de chistes, de crónicas, tienen varios programas distribuidos en todo el viernes, eso es un experimento que se hizo el año pasado, decirles ustedes que están produciendo audio tomen este bloque y transmitan, o sea ellos no forman parte del colectivo, ni van a las reuniones, ellos hacen su propia cosa pero les abrimos la frecuencia el viernes. = La frecuencia libre tuvo un noticiero hace muchos años, casi desde que nació, y hace como 3 años pasaron varias cosas, había, se retransmitía el noticiero de un comentarista del DF, Miguel Angel Granados Chapa y después de eso seguía el noticiero local, pero, él se murió, y también la que hacía el noticiero local tuvo problemas, también se le murió su pareja y se deprimió no quiso hacer más nada, y su equipo mantuvo el noticiero un tiempo pero después ya no aguantaron entonces se quedó sin noticiero la frecuencia libre. Lo que yo decía era necesitamos tener un noticiero, no tiene sentido tener una radio si no hay una posición editorial que por lo general la dan los noticieros, pero no había nadie dispuesto a hacer un noticiero diario, fue un gran conflicto porque estábamos pasando en lugar de …., retransmitiendo Carmen Aristegui y estaba este asunto que transmite desde una estación comercial y responde aunque sea como de izquierda, responde a ciertos intereses comerciales y no nos..o sea estábamos trabajándoles sin sentido. - Los horarios que no tienen programación, como hacen? - Todo lo hace Zara, que es este programa para radio: Zara. ella lo hace todo, se programan bloques musicales por género, y hay intervalos para la hora para los promocionales de los otros programas y se pasan capsulas muchas que vienen de radialistas apasionados, y otras que son producciones locales, pero que pueden estar programadas. - Y como se da la selección de esas músicas, tiene un criterio..? - no, tristemente no.. - Mas no son músicas comerciales.. - algunas sí, otra no, hay mucha trova, creo que el 50 % del disco duro es trova, y hay otro pedazote que es rock gringo inglés 60s 70s y lo demás es música africana, salsa, variada, no hay criterio, toda la música que se puede… no tiene creative commons, si es de Sony, todo eso , no está restringido ni limitado por eso, entonces los que hacen la programación ya tienen como los bloques y la hacen a partir de la música que hay que podemos conseguir, hay poco trabajo ahí en la renovación de la fonoteca, casi nadie se ha metido.. - Y 10 años después, qué cambio en la radio frecuencia libre, principalmente su papel hoy en San Cristóbal? es la única radio diferente hoy? yo acá conseguí sintonizar cerca de 12 radios.. - después de que frecuencia libre logra sobrevivir, después de esos primeros años de persecución, cuando ya se estableció, cuando no la cerraron luego de dos años, hubo como un boom en San Cristóbal, entre los que salieron de frecuencia libre, hicieron sus propias radios, y mucha gente que vio que se podía empezaron a hacer sus propias radios la gran mayoría con intereses comerciales, y luego llegó la segunda invasión de radios religiosas..este de radio religiosas tendrá de 5 años para acá.. - entonces estas radios religiosas tal vez no sean autorizadas? - No, ninguna, siguen siendo las dos que estaban siguen siendo las dos que están autorizadas, las únicas que tienen permiso, todas las demás son sin permiso, son libres y ha sido como la gran mayoría, si están buscando tener reconocimiento, casi todas, hace 3 años hubo una fiebre de operativos policiacos de radios en Chiapas, decomiso de equipos, cárcel, em Tuxtla, metieron a la cárcel a un menor de edad a un chavo de 16 años, que es quien estaba operando en ese momento la radio y estuvo en la cárcel, estuvo, fue feo..debe haber sido 2011 o 2010..al final del sexenio pasado del gobernador sabinas.. - En ese tiempo tratamos juntarnos se convocó a todas las radios que estábamos en esta situación, y fue muy difícil porque estaban los que no querían tener problemas y querían negociar por abajo, y los que eran completamente rebeldes, medio rebeldes, los grados de rebeldía importaban también..hubo una reunión, éramos cincuenta y tantas radios de todo el estado juntas y ya no pudo haber otra porque empezó a hacer, yo con ustedes sí, yo con ustedes no, y no hubo acuerdo, y no hubo chance de seguir consolidando a todas las radios, porque no hay ni siquiera una visión de si son radios comunitarias, radios comerciales, sociales, como hay de todo, no se logró cohesionar… - Y no hay una lucha para una ley de radios comunitarias? porque México tiene, parece que 3 o 4 radios fueron autorizadas pero con muchas restricciones. 230 - En Oaxaca, las redes comunitarias están mucho más organizadas que aquí y si hay acuerdo de que si tiene que haber una ruta legal, y entonces han estado trabajando con diputados locales ahí de Oaxaca trabajando una ley de telecomunicaciones estatales, y el año pasado se hizo esta reforma federal de telecomunicaciones donde ya muchas de las restricciones que habían para radios comunitarias desaparecen ya va ser mucho más fácil, y hay como por las interpretaciones que se han hecho de la reforma va ser más sencillo, pero falta el periodo de la ley especifica, eso todavía no está, entonces no hay modo de aplicar de solicitar el permiso ni nada, entonces se está esperando que llegue. se supone que fue toda una victoria, porque en medio del proceso de reforma constitucional todas las radios comunitarias se pronunciaron porque hubiera el reconocimiento, porque decía radios sociales, la nueva categoría es radio social porque entran todas, pero se exigió que también dijera radios sociales y comunitarias, entonces ya dice eso la constitución, la radio comunitaria ya tiene un reconocimiento constitucional que no habían tenido nunca, ahora solo falta esperar como lo reglamentan. - Y el colectivo frecuencia libre que piensa sobre eso? - No hay acuerdo, lo que hemos logrado platicar, es que si no hay una intención deliberada de estar sin permiso, fuera de la ley o como se llame, hay un reconocimiento claro tambien de todos de que es un derecho que se está ejerciendo, pero todavía no esta claro si queremos hacer ese procedimiento legal o queremos que nada más se reconozca y ya, o sea, si lo queremos pedir o queremos que no lo den, como esta diferencia semántica rara. ahí estamos, pero estamos esperando que dice el reglamento, la ley. - Como esta entonces el papel hoy de la radio frecuencia libre en el contexto de muchas radios? - Hay mucho ruido, como se dice prendes la radio y son muchísimas estaciones, incluso a los lados de frecuencia libre hay dos estaciones con transmisores mucho más poderosos que el de frecuencia libre entonces invaden la señal, no ha propósito, solo porque su transmisor es más grande entonces nos toman, hemos tenido problema que la antena se mueve y la mitad de la ciudad ..porque además no tenemos un equipo técnico, pocos saben, casi nadie, sabe moverle al transmisor o a la antena o que cable va con que cable..y todo eso y entonces ahí hay muchos problemas según yo, ellos dicen que no, se debe hacer más trabajo técnico con la radio; y los programas, también desde mi perspectiva muy personal, se han ido quedando viejos, ya no están hablando con la sociedad, son como un monólogo todos, o son muy musicales, y hablan de música, hay gente que le gusta esta música, son los que mas interacción tienen los programas de música, pero los programas de análisis ya se volvieron una especie de monólogos, donde el locutor llega y dice la verdad, y como catequizando, pontificando, y hace mucha falta la construcción de programas más comunitarios, mas de servicio con la comunidad, de intercambio con la sociedad, de esos programas apenas estamos construyendo nuevos, están entrando nuevos grupos de jóvenes que están tratando de hacer estos espacios pero todavía no agarran suficiente vuelo, pero esa es la tendencia, como reencontrarse con la ciudad..con el municipio a partir de volverlos a escuchar, hacer este diálogo y no sólo el monologo unilateral, yo lo veo en ese periodo de transición, más que pontificar a favor de una causa.. - Pero no tener una programación cohesionada con la presentación y los horarios, no compromete la repercusión, la audiencia? - sí..entre otras cosas hemos estado trabajando en un nuevo blog donde ya todo este organizado, porque tampoco hay mucho..hasta el año pasado no se había trabajado en Facebook , seguimos sin estar en Twitter, nuestra página no es muy clara, es bastante confusa, pero esa si nos ha tomado más tiempo porque ahí si estamos más perdidos, por donde tendría que ser, como colectivo, cada uno tiene una idea clara de lo que debe ser el blog, pero como colectivo no hay mucho…nadie quiere como tener más responsabilidades, ya está muy sobrecargado porque somos muy pocos, y todos pasamos de los 40, yo soy de los más jóvenes entonces si ya es como difícil conciliar todo y de pronto algunos salen dos semanas, un mes…y la integración de jóvenes ha sido muy a distancia, hubo toda esta cosa, esta sensación de que era un grupo muy cerrado, la integración de nuevas personas ha sido difícil, a pesar que decimos vengan, no viene nadie… - Era cerrado por cuestiones de inseguridad. - Si, era por eso.. no era por ser envidiosos. - Como en el caso de… no quieren dejar de ser ellos, no quieren ser parte del colectivo y siguen haciendo su propia marca, entonces ellos no se encargan de abrir transmisiones, ni de cerrar transmisiones y de hechos nos critican, cuando nos encontramos en encuentros nacionales, aparecen y dicen no se ha logrado mucho esa integración con los nuevos programas, no hemos encontrado el engrane necesario, estamos en eso, hay la disposición seguro pasará, pero es muy lento, nos reunimos una vez al mes, se toman las decisiones urgentes y las importantes se van dejando. - Muchas gracias Leonardo. 231 ______________________________________________________________________ Resumo das entrevistas com lideranças e intelectuais Entrevistado Principais informações Peter Rosset (Via Campesina) - Política Institucional: reacomodação de força no momento de polirazação, volta do clientelismo neoliberal do PRI que procura cooptar os setores sociais e respostas da esquerda autônoma. O Governo ataca os aliados dos zapatistas para buscar o isolamento político - Zapatismo: tendência de consolidação da autonomia na saúde, educação, produção e comércio, justiça e autogestão com crescimento em Los Altos e enfraquecimento na Selva. Abertura para ter comunidades aliadas não zapatistas que podem receber apoio do governo, criando uma alternativa intermediária. Colunas do zapatismo: povos indígenas, coletivos de jovens e a velha esquerda que não se engaja na alternativa eleitoral. A construção do zapatismo é desde baixo, um trabalho de formiga, muito lento e com muitos altos e baixos - Coletivos: pouca coordenação com o núcleo duro do zapatismo (desde que os zapatistas não viajam abertamente pelo território nacional com a suspensão da segunda saída da Outra Campanha), mas afinidades filosóficas. Jorge Santiago (Desmi) - Conjuntura nacional: As riquezas naturais e a população de Chiapas a disposição do progresso mexicano e a liderança do país na América Central e no Pacífico com a China e Malásia. Nova geração do PRI com mais repressão militar, mas com poucos recursos para o fisiologismo polítcio - Autonomia: relações que dê alternativas próprias e amplas a partir do local. Construção de um novo viver melhor. Construir a memória histórica da resistência, da identidade emancipada e da dignidade. Nova ciência: saúde, produção e visão de mundo. Dificuldade: mercado e gestar o próprio trabalho. As ONGs possibilitam implementar projetos locais ligando com o global. Libertar os territórios dos agrotóxicos. Transformação de sujeitos transformadores sem partidos e sem armas. Mudar a estrutura de poder. Fazer algo juntos sem maiores pretensões. Mudança na estrutura de poder. - Zapatismo: tentar outra vez uma mobilização ampla e refinada com unidade interna. - Teologia da libertação a prática existia antes da teoria de Gustavo Guiterrez. Paco Vasquez - Autonomia: resolver os problemas das comunidades a partir de suas práticas organizativas. - Zapatismo: não se pode mensurar uma possível diminuição do zapatismo, pois não ocupam territórios contínuos e a Marcha do Silêncio com 40 mil zapatistas em San Cristóbal, Las Margaritas, San Andrés e Palenque demonstrou a ampliação do movimento. “Não creio tampouco que é perfeito o movimento zapatista. Claro que tem seus problemas organizativos, de justiça, que seja... Como qualquer outro movimento tem suas dificuldades ou problemas, porém é uma alternativa real e viável. Isso, creio que é uma das mensagens mais 232 importantes que devemos difundir”. “(...) construção cotidiano de uma alternativa muito respeitável” - Escolita: apresentação dos avanços dos Caracóis na concretização da autonomia indígena. Espaço de intercâmbio. - Diálogo zapatista: rompimento do diálogo quando se havia expectativas de mudança legislativas, estabelecendo a Guerra de Baixa Intensidade. “Se há algo que se aproxime de nossas ideias, queremos conversar com vocês, queremos dialogar com vocês, queremos construir em conjunto com vocês”. “Precisamos entender o que estão propondo para sociedade e não querer que eles sejam reflexos de nossas próprias expectativas (...) tendo essa compreensão, poderíamos planejar um diálogo mais equitativo e mais organizado”. - Meios livres: dizer para a sociedade o que está acontecendo nos movimentos sociais, fluxo de informação livres, limpos e claros, impedir o fechamento e o isolamento das comunidades, promover a diversidade de opiniões, evitar o silenciamento das vozes pelo poder. Thomaz - Situação de guerra: 100 desaparecimentos, assassinatos e 4000 a 5000 pessoas temporariamente desabrigadas. Situação de falta de justiça. Falta de justiça. - Questão religiosa: “uma característica que se há visto a longo do conflito é que há diferenças religiosas que não necessariamente são o fundo ou a raiz (militarização e problemas agrários) de um problema o de um conflito entre as duas parte, porém pode ser como os mais visíveis. - Acteal: visão superficial massacre de católicos por evangélico. Problema raiz: formação e adestramento de grupos paramilitares. - Zapatismo: “a linha política do grupo entendo que não tem havido nenhuma atividade militar. Nesses sentido, creio que a construção da autonomia por parte do movimento zapatista tem sido um processo não violento e isso creio que sim é um fato importante, nos últimos 10 anos, o estabelecimento das Juntas de Bom Governo, que como parte de órgãos de governo se ocupam de questões educativas, de saúde, também tem sido instâncias para resolução não violentes de conflitos, entre zapatistas e não zapatistas (...)”. Não está mais tão visível. Não se dão atenção a muitas denúncias das Juntas sobre alguns conflitos específicos. Meios livres: “poder dar-lhes uma ferramenta às pessoas nas comunidades, uma informação neutra, imparcial, que não fora rumores, que não for com algum intento de manipular a informação por algum outro autor”. Jaime - Autonomia dos coletivos: não busca independência de um financiamento, mas que seu trabalho construa o trabalho. Os vínculos com outras organizações não seja a dependência, mas a solidariedade. Relação com o mercado: não dá para sair do mercado, mas pode-se produzir e consumir de outra maneira que tenha uma mensagem distinta. - Ecologia: “a defesa da terra é uma preocupação porque sem isso não podemos construir outras coisas, não podemos sequer viver”. - Horizontalidade no trabalho: sempre manter uma relação com as pessoas que se trabalha. Coincidência com o que se pensa, sente ou trabalha. - Coletivos autônomos: inspiração no Zapatismo e parte do zapatismo amplo. 233 - Participação: dificultada pela falta de recursos, tempo e mulheres. - Frequência Livre: espaço de comunicação cidadã e comunitária onde coincidiram várias organizações sociais, ONGs, coletivos, estudantes. Toca de tudo de trova a metal. - Meios livres: “é importante buscar comunicar a esperança, as conquistas e vitórias importantes dos processos de organização e lutas dos povos”. As pessoas de San Cristobal são muito conservadoras. Tem suas rádios e ponto. - Espaço eleitoral: não é um campo em disputa, é um espaço podre. A cultura política do país busca deslegitimar a mobilização. - Rádio Guardiões da Memória da Sociedade Civil das Abelhas de Acteal: nasceu depois da cisão da comunidade que tinha uma rádio Chanopom que foi para a Organização Civil das Abelhas que é ligada a partidos políticos. Tocam o gosto da comunidade (dançantes, religiosas, tradicionais, revolucionárias, nortenhas, base rock. Não gostam de pop rock nem reggaeton. - Rádios comunitárias autônomas: recados da comunidade, informação para fora da comunidade, denúncias. - Massacre de Acteal: gerou um discurso político que mudou na entidade política de organização e uma memória sobre o martírio, o banho de sangue na terra, a fertilidade, seguir a diante, transformação... na cultura política mexicana e indígena, o martírio é fazer um motor de luta. 234 APÊNDICE II - ENTREVISTAS COM PRODUTORES DA FRECUENCIA LIBRE 30 de julho de 2015. Entrevista com Noé - Estava escutando teu programa e vi tratar sobre o conceito de soberania audiovisual. Me explica o que é esse conceito. É sobre ele que trata teu programa¿ - O programa Sinestesia Rádio está dedicado ao cinema não ficcional, documental, e a música independente, de produções independentes. Eu também sou parte do coletivo Pró-medios. E fomos condicionados à semana de soberania audiovisual. E participamos, faz uma semana, na cidade do México do encontro latino-americano e encontramos o pessoal do Peru. Eles que estão realizando este ano a Semana de Soberania Audiovisual. Nós também temos essa curiosidade de saber o que é isso porque ninguém aqui chama assim. Bem, é uma tentativa de fazer uma memória histórica do que há sido o cinema militante ou cine comunitário ou vídeo participativo como agora o chama. E aí faz uma mirada a quem há produzido cinema vinculado a movimento social, desde dos mesmos lugares onde se faz as coisas. Com propostas particulares, proposta de produção coleitva. A tentativa da semana do cinema de autoexistência audiovisual, é como reconhecer desde América Latina, e produzir desde abaixo esse outro cine que, pelo menos, nos últimos 30 e 40 anos, contra ou frente ao cine comercial e as grandes produtoras. Aí está um posicionamento: se faz cinema para transformar ou para ganhar. E nós que nos dedicamos ao Promedios para a formação de comunicadores populares e a produção de cinema documental. Nos parece boa a proposta para fazer a conversação aqui em San Cristóbal. E bom junto com Koman Ilel que estão aqui em Chiapas, que agora estão em DF, aceitamos participar da Semana de Autoexistência Audiovisual, um pouco como explicava um companheiro de Peru. Todos se por num rolho e todos se agregarem. Um pouco isso. - Como começou o programa Sinestesia¿ - É uma história muito larga. Vou tentar resumir porque, antes de viver aqui em San Cristóbal, tinha vindo aqui uns anos. E num desta idas estive trabalhando num projeto de vídeo e música e intervenção numas ruas que denominamos de “São Pra Levar” com produções em Youtube. Isso foi em 2010, 2011. Duramos dois anos produzindo. Como nós fazemos vídeo e outros que não. Convocamos a vários amigos que fazem vídeo documental que são (não entendi) e são produtores e algo que não queríamos fazer como medo e dor. Quando lançamos essa proposta os fatos relacionados com as desaparições, a guerra contra o narco eram escandalosos. Era muito desencarnado e muito do que nós produzíamos em vídeo, eram notas informativas. Muitas destas notas eram dolorosas, dão pouca esperança e muito dolor. E nós dissemos com outros amigos, precisamos tocar essa outra parte que é também uma posição política que abandonemos o que seja. Então decidimos sair com os músicos nas ruas e nós filmamos e lançar na internet. Aí vim para cá e tivemos a intenção com outros amigos do São Pra Levar de fazer mais coisas, de fazer (não entendi), um documentário. Quando cheguei aqui encontrei com vários amigos e incorporei a 99 e me parecia que era um bom momento para retomar essa ideia que falar de músicos independente e músicos locais, músicos que tem uma carga – não todos – de um posicionamento político e também resgatar o cinema documental na rádio porque desde meu ponto de vista – eu já estou nisso – há mais de vinte anos e tenho visto isso de cine documental há vários anos com amigos sobre cine documental, discussões com quem com qual volume, mas toda essa discussão se sucede num espaço que está... no melhor dos casos aparece num noticiário de festival e não aparecia na rádio. Um meio que chega a muita gente. Eu dizia que a possibilidade de falar do cine documental. O que está havendo e já que há uma 235 produção altíssima de produções audiovisual, independente se são documentário ou mera gravação solta de registrar. Dizíamos que era um bom ponto. Um bom momento. Então o programa é parte de uma ideia mais grande. Nós fazemos produção de vídeo. Neste instante, estou terminando uma edição com músicos aqui em San Cristóbal. Agora não nos chamamos São Pra Levar porque não é a mesma gente, mas a ideia é continuar com o projeto Sinestesia. O Sinestesia Rádio é uma parte do projeto Sinestsia. A ideia a longo prazo é gerar um webmapa que nos mostre canções, texto, áudio, paisagem sonora, etc de San Cristóbal. E Sinestesia Rádio é uma parte igual está tomando seu próprio rumo. - Como a música aparece no Sinestesia Rádio porque estes últimos só trataram de cinema¿ - Gosto muito dos músicos e busco reconhecê-los. Está seguindo a recomendação de alguns amigos. O que faço é programar uma música ou um músico no programa. Em geral, latino-americano, independente. É uma constância que cada peça musical que está vinculada ao movimento tem que sair no programa. O que sai no Chile dos protestos sai no programa. O que sai no Brasil contra a Copa Mundial sai no programa. Não há definição de gênero. E um pouco de resgatar para mim a cena musical aqui de San Cristóbal que é vasta e muito variada, é muito diversa e muito volátil porque passam muito músicos e se vão. Escuta uma semana músicos de músicas vulcânica que se vem, mas fcam cinco ou seis dias e se vão a Cancun. E outro que gosto muito é com os músicos de jazz que a cena musical mais importante em San Cristóbal e é muito curioso. No programa às vezes, convidamos músicos para participar ao vivo ou promotores da música que tem seus foros, aqui em San Cristóbal, e então vamos variando. Não é que cada sábado vá escutar sobre música. No próximo sábado seguiremos falando sobre cine documental, os eventos, as promoções... um pouco de cine e no encontro latino-americano comunitário e trazemos muitas entrevistas de que faz cine documentário em Peru, Chile que não se conhecem ou se conhece muito pouco. E tão às vezes se coincide que há uma apresentação de um disco. Então será o tema da semana. Isso se define por algum evento na semana. Algum evento em particular ou alguma apresentação que consideramos, em nossos critérios de produção, enquanto produção musical e cine. Por exemplo, Camilo Moreno apresenta seu disco. Isso dialoga com o que compartilhamos. Isso é o que o lançamento de seu disco se faz on line e descarrregável antes de apresentar seu disco físico e apresentá-lo. Isso gera uma plataforma. Ele diz: “meu disco está livre antes que sai no mercado e antes que seja lançado no mercado”. Isso é comunicação direta com quem lança a iniciativa, um pouco pelo perfil político do programa e da rádio, tomamos essa iniciativa. Então dizemos: “toda a música deste programa vai ser de Camila Morena”. Tomamos essa iniciativa de está fora do mercado. - O programa de rádio começou em 2011? - Não. O programa começou em 1º de fevereiro de 2014. Temos um ano e meio. - Tua relação com a produção cultural é bem larga. - É sim. Sobretudo em vídeo. Já estudei cine documental e cheguei fazendo cine aqui. E me meti a forma gente com vários objetivos e desde então a sido isso. E por ter estado em 2012 no primeiro fórum documental Ibero-Americano como promoveu o Festival de Vozes contra o Silêncio. Sempre um dos temas que é uma constante é a promoção que teu filme chegue a alguma audiência e a outra é a promoção. Quem promove o cine documental. Como o posiciona no público. Tem sido rico trabalhar a questão da produção cultural, promoção. Outro coletivo de fotografia Independente estamos bem metidos desde de 2012. Eu desde 2012, mas o coletivo nasce em 2001. A 99.1 conheço desde de sua fundação por vários companheiros. - Mas tu és aqui de San Cristóbal? - Não, eu vim para cá em 1997, mas estive fora uns anos por formação e outras coisas. E regressei em 2012. 236 - Quem tu pensas que são teus ouvintes? - Para minha surpresa é muito variado, sobretudo, por desgraça, a nível de internet. Por desgraça, a nível de frequência radiofônica não temos como saber que escutando por rádio. Por internet, é mais óbvio, dependendo da distância tu sabes se estás em Oaxaca ou se estás em Madrid. No coletivo, fazemos um diagnóstico: quem são nos ouvintes? Não temos mecanismo para saber que estão nos escutando e que programa escutam. Eu o que vou olhando, com a resposta de alguns conhecidos e desconhecidos, é que um público jovem que não conheço que estão muito interessados na música e alguns no cinema. E outro é alguns que estão metendo-se na produção cultural e música. Alguns que tem foros. Podemos dizer que nosso radioescuta mais esse público de Palicate. Todos os sábados sintonizam o programa e estão dando proposta de entrevistas de grupos. Então digamos que varia porque como às vezes faço entrevista a distância, eles escutam também. Aí a uma realizadora que acaba de teminar um documentário e um tenho feito uma entrevista com ela. Então lá em Jalisco há alguém que está escutando. Ao menos ela e seus amigos. Ou entrevisto outro músico em DF ou outro produto em Oaxaca. Então se multiplica porque entendo que é compartilhar a experiência desde que se relacione com muito de fora para poder olhar melhor o local. Manter-se o que estamos fazendo. O pouco da ideia é essa. Inicialmente planejamos só entrevistar músicos locais, mas é como se não passasse nada aqui, como se não passasse os músicos que passam. Outra coisa que tem em San Cristóbal, além dos músicos que transitam muito, porque são viajantes, também muitos filmes que em outros lugares não chegam. Chegam documentários que, pelo menos, eu entendo que muito nos comentaram que não chegaram por lá e muito que chegam em DF não chegam por aqui. Então muita gente faz um documentário que não sai. Mostrar seus filmes que fez em Peru, ou seja, onde foi feita. Então tem acesso a um filme que não teria acesso. Sabia que existe. Isso ocorre muito em San Cristóbal. Há uma dinâmica. Há um fluxo de muito trânsito. Além da questão cultural dos povos originários, tudo isso. Tem disso até a coisa mais globalizada e cultural. Isso é para mim como um motor do programa de rádio. Porque se tocamos música tradicional também. - Tu crês que a transmissão em internet é tão importante como a transmissão por FM para FL? - Para mim, pessoalmente, a mais importante é a transmissão local. Para mim. Eu penso que é muito importante a conexão a nível mundial, mas que a rádio tem, pelo menos como a 99 está planejada, para mim seu público de maior interesse que estaria mais comprometida é seu público local, uma audiência local. Porque justamente é a que vai dar seu sentido territorial e seu sentido de proteção. Como diziam alguns amigos, se só ficamos com a transmissão da internet, desmontamos a antena e ficamos livres de problemas legais. A vantagem de ter uma frequência em FM é porque tu podes ser escutado por taxistas, por (não entendi), talvez num negócio, qualquer um que não tem o acesso em internet, seja porque não tenha, seja porque não escute rádio porque se vai em táxi não vai levar um computador para escutar ou se está numa loja, talvez não tenha acesso a um computador ou que estão no mercado, etc. Internet para mim é um plus, um extra para a rádio. Sobretudo somos programas que não produzimos tanto. Não tem programas gravados. A maior quantidade de programa que tem são ao vivo como está em vivo. Como estás em vivo há mais possibilidade de se comunicar com alguém. Mas sim... - A FL não tem o mesmo padrão das rádios comerciais, por exemplo raramente tem intervalos, blocos. O que tu pensas disso? - Na verdade, estamos recuperando um formato agora. Temos passado por uma espécie de crise de muitos tipos, mudança de gente, alguns saíram, alguns estão aprendendo e outro tecnológico. Os computadores estão velhos e começaram a morrer pouco a pouco. Começamos ter uma série de problemas. Então tivemos que estruturar tudo. Estamos programando a rádio. O que há o que não há. E já uma nova (não entendi), um novo correio eletrônico. Temos outra coisa que acho muito importante é que entramos ao software livre porque anteriormente só utilizávamos Windows. E a pouco tempo recuperamos os computadores e dizemos: “vamos de uma vez ao software livre”. Vamos retornando o perfil da rádio, da rádio livre. Nesse sentido, se definiu desde seu nascimento que não era uma rádio de lucro que tínhamos 237 que pensar como era sustentável, mas não podíamos lucrar com os programas. Temos conversado muito sobre se metemos spots de publicidade para cooperativas etc. Não temos chegado a um acordo no próximo 15 de agosto teremos uma reunião. Talvez cheguemos a um acordo que cooperativas sim porque pessoalmente o trabalho colaborativo, assim como textil, tem uma renda para seus membros e certo nível de lucro para seguir produzindo, eu não vejo nenhum problema de conservar o mesmo critério para a rádio. Bem não temos ninguém trabalhando para rádio. Se quebra a rádio, temos que conseguir com nossos próprios fundos, etc etc. Por um lado é uma posição política. Não queremos ser igual rádio comercial, não queremos lucrar com a rádio. Não queremos ter o mesmo formato. E outro, eu creio também que é acidental é como fazendo os dois. O outro é uma combinação de não ter tanta gente que produza. Muita gente é capaz de ter seu programa de rádio, mas dificilmente é capaz de produzir um spot. Somos um grupo muito pequeno que produzimos. Não temos um sonoplasta constantemente. Todos somos sonoplastas. Essas coisas fazem e obrigam que seja diferente e é também um posicionamento político do coletivo. Não somos uma rádio comercial. Somos uma rádio que se constrói com a colaboração de todos. E cada um ajuda com o que sabe. - É por esses motivos é por que há muitos atrasos, faltas dos locutores e problemas técnicos? - É um pouco do mesmo. O coletivo da 99 é uma espécie de coletivos dos coletivos. Ainda pertencemos a outros coletivos, uma ONG... Todos estamos a maior parte de tempo em outros espaços. Estou a maior parte de tempo em Pró-medios, por exemplo, e assim cada um de nós estão diferentes. O tempo que temos para dedicar a 99 não é o que queríamos. Tampouco é porque lhe damos uma segunda importância, mas assim com dizia um amigo que trabalha na Anistia Internacional. Além de pagar-me a comida, me exige um monte de coisas. Me põe num monte de dinâmicas. Então não posso estar atento não posso chegar no dia da assembleia. E mais ou menos todos estamos nesta dinâmica porque às vezes que não consigo abrir o Estúdio porque tive que viajar porque teve uma oficina em Tuxtla e já não vai poder vir e essas coisinhas são difíceis de coordenar, nos falha um pouco a coordenação. Provoca que haja esses atrasos. Estamos tentando normalizar outra vez. Isso volto a agarrar o passo. Há gente nova que lhe dá curiosidade de mover rápido os botões da mesa. Mesmo que todos tenham passado por capacitação básica, gera um caos. (...) Pois as vezes as pessoas movem os equipamentos, não sabem. Terminam seu programa e se vá e chega tu, rapaz, não foi o que me disseram. Meu programa já atrasou. Já comecei sem microfone, sem música ou algo que passa. Mas tem a ver com isso. Há muita gente nova que é capaz de ter seu programa, mas não tem capacitação técnica de Estúdio. - Muito obrigado! _________________________________________________________________________________ 8 de agosto de 2015. Entrevista com Damaso Villanueva Ramirez - O programa La hora Sexta é uma iniciativa tua ou de um coletivo¿ - Em princípio foi uma iniciativa de um coletivo. Era um montão de companheiros e companheiras que a partir da convocação do Exército Zapatista Nacional nos constituimos como coletivo. E neste espaço vimos a necessicidade de ter um lugar onde podemos debater e ter dar voz aos nossos companheiros do EZLN e alguns companheiros e companheiras de nosso coletivo fizeram contato com alguns companheiros e companheiros da 99.1. Já tem uns oito ou nove anos atrás e esses... - E como chamava o coletivo de vocês? 238 - Era “La otra história e otros saberes” o nome do coletivo que foi criado a partir da Sexta Declaração da Selva Lacondona. E vários de nós nos organizamos como coletivo e com esse chamado construímos nosso coletivo. E desafortunadamente a vida... Ah, te digo esses companheiros e companheiras eram de Tuxtla, de Chiapa de Corzo, não eram só daqui. Estamos falando de oito anos atrás. E pois a vida, a necessidade de comer, seus filhos não dizem “há¿”, dizem “tenho fome”, as filhas dizem “necessito”. Então, desafortunadamente, cada um foi agarrando suas próprias necessidades por isso. Digamos que pela resistência que vivo aqui em San Cristóbal decidi não abandonar esse espaço. E seguir sustentando. Desde enquanto, tem uma média de 2 anos que fiquei só. E só entre aspas porque como tem escutado no programa tem companheiros e companheiras que estão reportando coisas desde... o exemplo mais claro de hoje mesmo, companheiros de Bardavil, que é uma comunidade de Tenejapa, vieram dizer que voltaram para seu povo porque foram expulsados de lá, tem só quinze dias, e com a agressão dos grupos PRIstas, utilizaram esse espaço para dizer que seguem. - Tu estavas dizendo que o programa é um espaço de enlace. Me explica um pouco. - Porque minha mirada de não é de repórter, inclusive se quer me dar algum título seria de comunicador, mais como um enlaçador porque a tarefa que faço é enlaçar entre os diferentes grupos que formam parte da Sexta Declaração da Selva Lacondona. E sirvo como esse enlaçe para que possa utilizar esses espaço como a rádio e dizer o que não dão chance de dizer em outros espaços, aproximamos das rádios locais e dizem destas coisas não se falam. Próximo às comunidades zapatistas são muito poucos os meios que tomam ou retomam a informação do que sucede em todo os espaços. Então a ideia é ser como um enlace. Um trabalhador de rádio é como parte de um espaço organizado. Cada um tem uma trincheira, quer dizer, trabalha nas ONGs, não sei e nós decidimos ser voz, servir de voz e ajudar a ser escutado. - Como tu planejas teu programa¿ Quais fonte tu buscas¿ - Bom, os mecanismos são vários. As músicas são dos companheiros e companheiros que se aproximam de mim. “Olha tem aqui algo que queria que tu escutastes”. É o que a esquerda, em termos, mais planeja. É o que mais utilizo no planejamento do programa. E o demais, enquanto as pessoas e o que falo no programa, temos um correio lahorasexta@gmail.com. A este correio, os companheiros enviam coisas. O que li hoje os companheiros do 132, que é um processos organizativos dos jovens universitários da cidade do México e também amigos que enviam coisas de Gustavo Estava... enfim que (não entendi) tem uma mirada desde abaixo e da esquerda. Este é o fundamento da Hora Sexta. Com dizíamos desde o princípio nós decidimos seguir um processo político que o EZLN marcou neste país com o chamado e a declaração da Sexta Lacondona e com essa mirada desde abaixo e à esquerda e com a intenção de escutar mais e dar a palavra. Praticamente, desde o pessoal não faço pronunciamento desde minha mirada. Como o que eu creio e deixo de crer, o que faço é apontar algumas coisas desde o que escreve, só como comentários e não digo isso é o que creio, o que penso. É um resgate ao redor do que os companheiros e companheiras que tem, sobretudo, com essa mirada de construir mundos possíveis, donde podemos ter um chefe que nos queira mandar ou ter só a mirada à cima porque também estão dois lados em abaixo e no meio, que seja uma mirada mais ampla. Esse é o mecanismo, em grosso modo, que utilizo na Hora Sexta. O que companheiros e companheiras me enviem e no pessoal o que estou lendo algumas coisas, me atraem e as resgato para poder fazer os programas. Digamos que 60% do programa se compõe pelas vozes dos bairros, das colônias, dos processos organizativos, ONGs inclusive... - Tu fazes um roteiro. - Sim, porém não (risos). Ou seja, depende quando tenho muitas coisas faço uma programação porque minha mirada é mais importante e no tempo no sentido do que está passando neste momento. Isso é o que tomo primeiro não deixo de tomar tudo como a primeira vez que fiz no programa. Sim há uma programação. Sempre dizia porque às vezes quando há algum problema, me chamam sempre e ponho no 239 programa. Não há nenhum inconveniente. Não é o importante ao programa, mas sim poder escutar e falar as pessoas. - La Hora Sexta é uma referência à Sexta Declaração. Há alguma referência entre o programa e o EZNL¿ Há alguma troca¿ - Concretamente, eles fizeram um chamado aos homens e mulheres do país e do mundo que considerassem que as coisas não estão bem que podíamos participar e construir um mundo diferente. E nesta medida, há sim um compromisso moral da minha parte de fazer como essas miradas possam tem ser escutadas pelos ouvidos de nós, que me rodeiam. Digamos rapidamente que essa seria minha trincheira no sentido de dizer que estamos lutando contra um governo repressivo. Contra um estado que ao invés de solucionar os problemas, os faz mais grandes que enfrenta os povos originários com suas dádivas, quer dizer, lhes dá dispensas de frangos, porcos, mas te obriga aceitar sua proposta política e os que não aceitam são, como escutastes hoje são utilizados com seus grupos de choques. Isso é o que acontece em Chiapas com diferentes organizações políticas. Espaços como a Hora Sexta se permite que escute estas outras vozes porque se vais a outros meios, aos meios vendidos, todas essas palavras. Todas essas vozes, não se escuta. - Não há um contato direto com o EZ¿ - Não, não. Eles são um Exército. Estão armados e eles tem suas bases políticas e suas bases físicas em diferentes Caracóis que formam o Exército Zapatistas de Libertação Nacional e os vários povos que formam a eles. Nós na cidade, temos nossas próprias equipes para fazermos nossos trabalhos e dizemos que éramos um coletivo. E assim como coletivos fazemos. Não sou só parte do coletivo da Hora Sexta. Também faço parte de um processo organizativo nos bairros e colônia de nossa cidade. Há uma coordenação dos bairros e colônias do sul no interior de San Cristóbal de Las Casas onde estamos construindo nossa própria moeda que se chama Taquil. Temos mercados, em México, chama de Mercado sobre Rodas, são pequenos mercados que construímos nos bairros, ou seja, todos que tenham o que vender que não seja químico e de fábrica venham, ponham seu negocinho e venda. Não lhe cobramos direito a piso. E a moesa se chama taquil. Taquil em tsotsil e tsetal se chama dinheiro. Então nós podemos chegar com nossos taquilis, não custa nada, são cem taquiles para quem faz parte da estrutura... (mostrou- me o taquil, parecido com um cartão de visita). Também temos estrutura ao lado dos lagos de Maria Azul que nomeamos como lugar sagrado a um lugar que é como um numeral, pretendemos que o governo não possa tocar nesse numeral, que se respeite eles para que os netos e as netas possam continuar tendo água. Falamos de construção de diferentes espaços, de diferentes trincheiras que podemos construir. Temos a cada quarta, oficinas de direitos humanos, no coletivo de mulheres e homens (não entendi) sobre luz e água, enfim construindo desde abaixo e à esquerda, sem patrões, sem direções que as máximas autoridades em todos esses espaços são assembleias gerais. - Como começou tua relação com a mensagem zapatista¿ - Sou habitante de San Cristóbal de Las Casas mais de 30 anos e primeiro de janeiro de 94. Me levantei... Eu sou representante de meu bairro. Alguém chegou a tomar na minha porta no meio da festa bem alcoolizado como às 4 da manhã. E disse: “Oi há uns tipos encapuzados estranhos” e eu estava muito bebo e disse: “não está bem não te preocupe. Já precisa descansar. Não caminhe pela rua. Dorme!” e se foi. E no outro dia de manhã peguei meu fusquinha e pensei: “vou dar uma voltinha”. E foi perto da rua onde este homem me disse que tinha um caminhão no meio da rua e dezenas de homens armados com capuz e ao chegar vi que era certo. E quando foi em outras ruas. Tinha gente que chegava e me dizia: “oi” e me falava sobre o assunto. E ao chegar ao Centro. (pausa) Numa das esquinas muito perto da que estamos conversando, perto de uma farmácia que tem no centro vi um sujeito magro, alto, encapuzado, que então se chamava o difundo subcomandante insurgente Marcos, agora Galeano. Ele estava parado numa esquina e havia um outro montão de gente. Eu não sabia quem era. Só vi um homem bem armardo 240 e outro montão de homens e mulheres que estavas estavam tomando a prefeitura municipal de San Cristóbal de Las Casas. Pregando a Proclamação que foi a primeira chamada do EZNL e a Primeira Declaração da Selva Lacandona e explicavam porque ia a esta guerra. Era mais do que uma guerra. Se todos vão a morrer, porque todos estamos morrendo de fome, de disenteria, de abandono, morrem nossos filhos, nossas mulheres por dezenas, de todo modo estamos morrendo. Então vamos lutar, que valha a pena a morte, por isso saíram combatendo a um exército, tanques. Tomei-me a ver como aviões vinham aqui a San Cristóbal e disparavam os chamados “roquetes”. Saiam dos aviões isso eeee... objetos... sim bombas onde caiam estremeciam. Podemos nos entrerar, em Ocosingo, dezenas de mortos quando companheiros vão chegando e o Exército mexicano vai chegando e vão disparando contra todos. Então a sociedade civil, a desarmada, porque o Exército Zapatista, bem ou mal tinham como defender-se. Não tinham todo o aparato que tinha o Exército para reprimir. Quem se ficou no meio, a sociedade civil, foi a maioria de mortos. Todas estas miradas, pessoalmente, me chamaram muita atenção. Esta primeira chamada esta primeira convocatória que fazia este planejamento: durante muitos anos temos lutandos, temos dito, que a morte está tocando nossas portas cotidianamente e o Estado Mexicano não faz nada para resolver. Voltando a ver onde eu vivo, nossa situação não muda grande coisa. Não morremos de fome, mas morremos da miséria, nos morremos de frio, de necessidades básicas, os Hospitais não nos atendem, a água potável não é potável, é só água entubada, vamos as devastações de nossos bosques. O governo em vez de proteger... e aqui há vários centros comerciais grandes, destes de consórcios, que estão se apropriando. A Coca-cola, Femsa, tem dois poços profundos, que levam 90 mil pipas de 10 mil litros cada uma anualmente deste povo. E neste povo as pessoas não têm água em muitos bairros em muitas colônias. Onde tem água, tem um dia sim, outro dia não e outro dia tampouco. Juntando toda essa mirada no pessoal, estas chamada foi toda interessante. Já o envolvimento total foi quando fizeram as mesas de acordo de San Andrés Larrinzar, povo muito perto de San Cristóbal donde o mau governo se sentou com os diferentes equipes e grupos que formavam a nível nacional e internacional miradas. E os primeiros povos, os povos zapatistas e todos que estavam interessados no Congresso Nacional Indígena, estavam buscando que se respeitasse ao povo mexicano e que se respeitassem os acordos que se firmaram neste momento e que se fizeram onde falavam. Então em respeito aos povos originários, em respeito ao povo mexicano para se tomar os acordos onde as autoridades entendam está aí para mandar obedecendo e não para mandar mandando. Se nós nos mantemos com os mantemos com nossos impostos, eles teriam que nos obedecer. Então, tinham que fazer os que os ordena e não o contrário. Digamos que ao grosso modo... - Então já tinha uma consciência crítica¿ - Eu fazia parte de uma estrutura aqui em San Cristóbal da Coordenação da Zona Sul. Estamos falando em médio de 18 a 20 anos de fazer estes esforços organizativos. Em respeito a terra, a água e aos habitantes de nosso país. - Quem tu pensas que são teus ouvintes, teus escutantes ¿ Qual a expectativa que eles tem¿ - Eu tenho bem claro. Há um grupo de companheiros e companheiras que pertencem a Sexta Declaração da Selva Lacandona. Eles mesmos haviam dito: “Obrigado! Adiante por fazer todo esse trabalho que deveria ser de uma equipe”. Bem se ninguém faz, eu quero e tendo tempo de faze-lo, vou seguir fazendo até que possa. Também os dizia as pessoas do bairro da colônia Sul este espaço serve para fazer chamados para os companheiros e companheiras que se enlace e saibam que estamos fazendo isto. Mesmo por exemplo com escolas, agora há um espaço de resistência que se chama Cevete, que é uma escola em nível da preparatória. Então estes meninos têm seus problemas e vem conversar com seus companheiros. Então há grupos deste povo escutam a Hora Sexta para dizer o que diziam para falar dos mercados, destes mercados. - O que acha você do padrão da rádio¿ O padrão da Frecuencia Libre é diferente das outras. O que tu pensas de como fazer programa na FL¿ 241 - Bem. Dizíamos assim como eu, eu sou um exemplo, meus companheiros e companheiras que fazem programa, fazem como um servidor. Assim em México dizemos que somos como a galinhas porque terminamos pondo de nosso dinheiro porque ninguém nos paga. Não fazemos comerciais. Não vendemos programas, não fazemos negócio. Então os companheiros que fazem seus programas de seu próprio programa, buscam... quando se quebra algum aparato passamos dois a três meses sem transmitir porque nos custa juntar do salário que temos, pois num três meses cada um contribui com o que tem, de um aparato que se decompôs, ou fazemos festas ou rifa para juntar o dinheiro que nosso salário não alcança. Então todo o que se falta sacamos de nossos bolsos. Então as pessoas que fazem a 99.1 a fazem por amor. Por amor as pessoas, por amor do que gosta fazer. É outro ponto que tenha gosto de fazer o que faça. Então 100 por cento que fazemos a 99.1 fazemos por amor, pelo gosto de criar o que podemos criar. Há muitos de meus companheiros que o que fazem é música e falam música e isso o que eles gostam de escutar de rebelar-se. Enquanto outros falam da cultura, da recreação, em meu caso, sou o encarregado das notícias, mais político, mais direto porque finalmente temos medo. Em meu caso, eu até preso por não calar-me, claro. Nos opomos a venda das águas de San Cristóbal de Las Casas. Nos puseram na prisão por sete dias por ter destruído uma antena de telefonia celular que eu cheguei com um empurrão, desbaratei e tirei. O primeiro dia houve uma marcha como de 100 companheiros. No segundo dia, houve uma marcha como de 700 e, cada vez aumentava, e no sétimo dia eram como 3 mil que marchavam. E neste dia me soltaram. Eu sustento que o Estado Mexicano o que pretende é aterrorizar-nos. Então há duas maneiras de reagir diante da repressão. Uma que se assuste tanto e que se meta debaixo de tua cama e nunca mais tire o nariz e só saia para respirar e a outra é esteja tão incomodando, tão enojado, tão claro que não nos calemos e usemos o espaço que temos para não nos calar. - Para encerrar, qual a contribuição que tu consideras que Frequencia Libre dá para a construção da autonomia? - É permitir que cada um de nós tenhamos nossa palavra sem que nos estejam questionando o que vamos dizer. Sem uma estrutura de poder que diga. Qual os programas que tem, o que podemos colocar... não. É bem uma mirada mais ampla que nós devemos dizer como ser humano. Está escutando o que estão afora para produzir. Não somos nós que marcamos pautas, nem esperamos, as pessoas é quem nos diz as pautas que deveremos dar. É a grande contribuição da 99.1. 12 de agosto de 2015 Entrevista com Guadalupe Cardenas - Teu programa é programa de uma ONG. Por que a ONG decidiu fazer esse programa? - O programa Espaço de Esperança é do Instituto para o Desenvolvimento de Mesoamérica. É um programa que surge porque Idemac tem muitos anos trabalhando em Chiapas em comunidade com projetos muito inovadores para a construção da sustentabilidade e, além porque seu presidente que é o doutor Artur Arreola, e o Instituto mesmo está inspirado na figura de (não entendi o nome) dos Espaço de Esperança, como de Boaventura Santos, com epistemologias do Sul. Isso é o que dá sustentáculo ao programa. Então pensando como alternativa ao desenvolvimento está os espaços de esperança. O programa cumpre a tarefa de apresentar experiências dos grupos que estão construindo alternativas ao patriarcado ao neoliberalismo... - E por que colocar essas experiências em rádio? - Primeiro como um reconhecimento com estas experiências que são dignas de ser reconhecidas por todo o mundo. E para sirvam de inspiração a outros grupos para levar a cabo o desenvolvimento desde de outra alternativa não capitalista, não patriarcal. 242 - Quando estavas na fundação de Frecuencia Libre estava também como assessora de Idemac¿ - Não. Minha relação com Idemac tem como seis anos e o programa tem como três anos que iniciamos mais ou menos. Não, mas a Frecuencia Libre tem mais anos. Começou em 2001. Temos quatorze anos no ar. Não quando comecei em Frecuencia Libre não estava em colaboração com Idemac. Sou de um coletivo feminista que trabalhamos em Chiapas tem uns vinte anos. É Cofemo, Coletivo Feminista Mercedes Oliber. Não temos agora programa agora em Frecunecia Libre, mas antes tivemos, dois programas em Frecuencia Libre um que se chamou A que aire e outro que se chamou Vozes de Mulher. Neste instante, não estamos fazendo rádio como coletivo feminista não. - Tu estás está desde a fundação de FL, como tu avalia a rádio para a cá, San Cristóbal¿ - Eu penso que é um coletivo que tem transitado em várias modalidades de funcionamento, mas sempre há mantido o espírito cidadão e comunitário. É um coletivo que tem passado muita gente, que é essa diversidade que é Chiapas e o mundo. O coletivo é um reflexo desta diversidade. Neste momento há enriquecido muito com as contribuições das pessoas que tem passado por aqui. E há momentos que tem passado por crises porque tão diversidade é muito difícil conviver num coletivo. E há gerado problemas, às vezes, tem debilitado a Frecuencia Libre. Mas sempre temos saído. Já Frecuencia Libre é uma rádio que há sabido receber o novo. Incorporá-lo a sua dinâmica de rádio e enriquecesse com o novo que chega. Eu sou uma das poucas fundadoras e tenho visto tudo o que tem passado. Então o que digo que Frecuencia Libre já aprendeu ser uma rádio cidadã e comunitária. Já sabe incorporar o novo e o que não serve já saber sacar de sua equipe. Sempre tem gerado um conflito, desestabiliza um tempo. Isso não vai acabar com FL. Nada do que chega da diversidade, enfraquece a rádio. Ao contrário, nos enriquece. O que pode destruir a FL são as ameaças, a hegemonia, as forças repressoras. Isso pode acabar com a rádio. Mas a diversidade que chega a rádio com gana de trabalhar, de fazer rádio, isso é bem-vindo. Eu celebro que FL a cada ano vem passar por seus microfones, vozes tão diferentes tão diversas. Isso é a rádio e tem mudado muito a cada ano. Mas seguimos e seguiremos. - O que passa é que FL não está pensada como a única rádio que seja para todo o povo. Sabemos que temos um público, uma audiência e é a essa que chegamos. Nossa audiência é a que busca algo que não é comercial, que não é oficial, que não é a voz de direita, que não é a voz capitalista. A gente que busque algo diferente a isso no vai a escutar. E por isso se escuta. Há pessoa que é acostumada a um tipo de música a um tipo de conteúdo, de cultura, que busca mais o comercial o fácil, pois esses não vão nos escutar. Não o fazemos gostar. Somos estranhos. Mas temos um público há muitas pessoas da população que estão buscando uma rádio como FL. E a eles chegamos. - Esse público são as pessoas mais conscientizadas? - Não sei se é isso. Eu creio que são pessoas que estão buscando algo mais diferente, que não crê nas demais vozes. Não é tão pouco uma elite, um setor acadêmico. Não, não. Temos audiência de verdade com o povo sancristobalense, que nos segue, nos buscam. Que estão fazendo rádio ao escutar-nos. Que estão fazendo FL ao escutar-nos. Se fazemos atos públicos, se aproxima, se chegam. E não é essa elite intelectual, gente de esquerda. Não, não. No povo, no povo sancristobalense, há quem nos buscam. E há também intelectuais e acadêmico. Como há intelectuais e acadêmicos que não nos suportam. - Quem é o público, para ti, de teu programa? - Olha. Talvez o programa “Espacios de Esperanza” está pensando chegar a grupos organizados porque estamos apresentando experiências organizadas que constituem uma alternativa. Então pretendemos chegar a esses grupos organizados. Não estamos esperando gerar ações desde o individual. O programa tem uma mensagem clara de gerar espaços de esperança. Sabemos que não é possível construir alternativa 243 desde o individual e senão desde o coletivo. O coletivo é onde se enriquece e onde se pode gerar em colaboração algo diferente. Então pretendemos chegar a organizações a grupos organizados. - Como planeja teu programa¿ Tu fazes um roteiro¿ - Não há um roteiro. O presidente do Idemac e eu que sou a produto nos colocamos em acordo em cada programa que tema vamos tratar, que organizações vamos entrevistar. Sempre temos tratado de cobrir uma organização local aqui em Chiapas, uma nacional e uma internacional. Já temos conseguido cobrir os cinco continentes. Temos tido entrevistas com todos os continentes com traduções. Às vezes o áudio original está no fundo e o áudio em espanhol é o principal. A produção é muito cara deste programa. Não porque investimos dinheiro em efetivo neste programa, mas sim colabora muita gente na produção deste programa. Que traduzem gente. Que buscam gente. Que se faz as entrevistas. Ou seja, muitas pessoas participamos na produção do programa. - Na FL há muitos atrasos e muitas faltas dos apresentadores. O que tu pensas sobre isso? - Sim é certo. Eu o que penso que não está bem. Meu ponto de vista que temos a uma audiência e, na rádio, toca as chamadas dos programas e dizem “escuta-nos tal dia, tal hora” e no tal dia e tal hora não há nada, isso é uma falta de respeito com o público. Mas assim funciona a rádio. A realidade governa. Muitas vezes, as pessoas que nos escutam não nos pode ouvir por falhas técnicas também. Não sempre cumprimos a audiência. Quer seja por questões técnicas a rádio está em silêncio por várias temporadas porque não temos recursos rápido para dizer traga outro computador, mandemos um técnico que ajeite hoje mesmo. Não temos esse dinheiro para isso. A rádio vai funcionando como o coletivo pode sustentar. Não importa se não transmite. Às vezes a rádio não transmite. Não importa. Às vezes falho eu e não há problema. Creio que isso não está bem. Eu creio que é algo que temos que corrigir. Mas assim está funcionando e tem sido assim sempre. Ao princípio, havia mais formalidade de informar ao público. “Em próxima quarta, desculpe, não estaremos no ar”. Se avisava. Ou se pedia em outros programas. “Olha avisa no teu programa que não vou fazer o meu”. Havia um pouco mais de cuidado de informa no ar que tal programa não vai sair. Hoje dia não. Eu creio que não está bem. Eu creio devemos ter respeito com a audiência porque as pessoas se queixam. As pessoas que nos escutam quando nos encontram dizem: “o que passou com a FL?”. Já com um tom de brincadeira, que não gosto, dizem “tu estás na rádio que não transmite, não é?”. Isso para mim é muito forte, muito preocupante. _____________________________________________________________________________ 19 de agosto de 2015. Entrevista com Gabriel Garcia Saltiano - Gabriel, teu programa é um programa de um coletivo ou teu mesmo? - Só eu mesmo que o faço. Inicialmente, era um programa que fazíamos com duas pessoas. Porém com outro nome. Quando o programa começou se chamava “Apontes y Recortes”, pois basicamente um programa de opinião. Não tanto de análise da situação em geral de a cá, San Cristóbal, Chiapas e do mundo também. Fazemos dois anos aproximadamente. - Isso em que ano? - Em 2000... Estamos falando um ano depois que começou a rádio. A rádio começou em 2002. Então Apontes e Recortes começou em Janeiro de 2003. - Foram dois anos e por que terminou? 244 - Olha, a história da FL (Frecuencia Libre) há uma certa periodicidade que os transmissores se queimam ou que se danifica. E não temos a possibilidade de recuperá-lo rapidamente. E passamos como seis meses buscando recursos para ajeitar o transmissor. E nesse tempo, quando ao final que voltamos a funcionar a rádio, a outra companheira e o outro companheiro já disseram que não queria fazer o programa. Houve algumas questões que sucederam e eu me lancei a seguir. Obviamente, Apontes y Recortes era uma ideia que tínhamos criado em várias pessoas e tínhamos tomado um determinado perfil. A ficar eu e nada mais, era melhor fazer outra coisa. Outro tipo de programa e sim sempre com a intenção de refletir a realidade social que ocorre abaixo, com reflexão e opinião. Não me considero analista político. Creio que os são só que vem de Harward e (não entendi o nome) e destes lugares. Não tem que funcionar esse sistema. Eu creio que este sistema não funciona. Mas neste sentido e nesta lógica, estou procurando sempre a lógica desde abaixo. Os “abaixos” que existem aqui em Chiapas e México. - Quais os “abaixos” que tu veicula mais. - Olha, os “abaixos” que caminho mais são com os povos originários. A situação que ocorre com os povos originários, o zapatismo é algo que me marca muito. No entanto, meu programa parte de minha experiência de vida que finalmente acaba refletindo no programa e o que passa com os povos originários da América, eu tenho andado por vários lugares do Sul, isso que chamam de Sul. Então conhecer a realidade dos povos que lutam, neste sistema de exploração, de desprezo. É essa aí a fonte que procuro botar no programa, não partidária, não eleitoral e, às vezes, não tanto, sim os golpes que recebem, as repressões que recebem, ainda que sejam pequenas, creio que uma coisa que tem neste sistema é construir a desesperança cotidiana. Creio que uma coisa que podemos fazer nas rádios comunitárias, cidadã, ou que seja, são coisas pequenas, mas que estão acontecendo nestes lugares que estão ocorrendo, que estão mudando o mundo. - Qual tua relação com o zapatismo? - Te digo minha experiência de vida tem o que ver com o zapatismo. De profissão sou médico e quando venho à Chiapas, desde a Cidade do México, faz uns 30 anos, comecei a trabalhar com comunidade na Selva, no município de Ocosingo, posteriormente em comunidades no município de Las Margaritas que com o tempo com o transcurso de seus próprios processos que vão se integrando também ao zapatismo. Nós notamos isso trabalhando com promotores e promotoras de saúde. Desde a própria força da comunidade melhorar. Responder à enfermidade e melhorar a própria condição de vida. E muito dos companheiros e companheiras que se envolveram com o zapatismo, eram essas companheiras e companheiros que eram nossos promotores de saúde. Pois não só trabalhamos, mas convivíamos eram em suas casas onde comíamos, onde dormíamos. Onde se dava uma outra relação. Não era só ensinar, mas erámos companheiros nas capacitações, na cotidianidade da vida, alguns nos fizemos amigos muito queridos. Então, quando se faz público o zapatismo para nós estava muito claro onde estavam. - Já conhecia antes do levantamento¿ - Sim. Eu não desconhecia o que estava sucedendo, realmente, o que me assombrou foi o tamanho do que estava acontecendo. Como estava trabalhando na época na Zona das Margaridas, eu pensava que era só ali onde estava acontecendo e nada mais. Parece ali, parece em todo canto serro e me dou conta da magnitude da organização e da resposta de tudo isso. Isso foi o que me surpreendeu e não porque apareceu. Creio que o que nós fazíamos, naquela época, era questionar que a saúde não é algo que se consegue só com remédios, só com médicos e hospitais, mesmo que faz falta, é a determinação social da doença que tem de mudar para pode questionar. Os temas das capacitações começava com isso, com uma pergunta assim “por que nos adoecemos disso?”. Aqui são as razões... E podiam ser problemas respiratórios, digestivos, por que se morriam as mulheres. Mas por que nos tocam essas doenças¿ Algo que nos toca viver aqui, viver deste modo... nosso trabalho não vale. E a último é que se começava atrapalhar os sintomas e como se curava. Toda essa reflexão. E por isso lhe digo: o trabalho na rádio eu 245 não posso deixar porque é como se atores que se enfermam, é como partir-me, deste modo. E fazer algo na rádio para que a vida seja diferente, além disso, parece que esses meios. Para ter uma rádio, para ter um meio em nossas mãos. É uma oportunidade magnífica. É uma oportunidade magnífica para colocar nossas apostas das nossas questões de vida. Então e por isso muitas das coisas que tem a ver com o zapatismo com as organizações que aparecem e se fazem público e fazem com que não sejam públicas porque os meios corporativos, os meios comerciais, os meios políticos, do governo, tudo isso tem que ficar oculto. Para isso se precisa ter um meio comunitário, cidadão, livre, ou como queriam chamá-lo. - Por isso que tu tomaste a opção de participar da FL? - A opção de participar da FL foi ao princípio não foi sequer pensando na coisa do zapatismo, né. Mais pensando... naquele tempo eu participava de um coletivo sobre questões de masculinidades, o de Fuera Máscaras. Que também é outro assunto que tem que se subverter. Neste sentido, era comecei a participar da rádio. Nosso objetivo era pôr em debate as formas que nós homens somos. - Como tu faz teu programa? Tu fazes um roteiro? - Olha depende do que está tendo. Sobretudo no último ano que tenho tocado com muita frequência. Não tive tempo de preparar o programa. Chegar e ver o que há na imprensa para revisar o que há. Te comentava que já tenho algumas coisas preparadas, documentos, histórias. O pouco que tenho feito é por poesia, por narrativas, que nada mais seja um programa da conflitividade social. Bom ou má, esse é outro aspecto da vida que para mim são fundamentais. Nos ajudam a pensar a vida de outras maneiras. Coloco muito narrativas dos povos, mitos, histórias, de narradores e narradoras, de poetas indígenas... - E onde tu encontras essas narrativas? - Olha desde a literatura que tenho em casa, dos cavalhinhos de batalha, Eduardo Galeano, todo o que tem. E uma coisa que faço disso que vou fazendo no dia a dia pensando no programa. Quando tenho tempo de preparar algo. Buscar áudios e vídeos com coisas. - Estes últimos programas foram mais noticiosos sobre questões mais urgentes. - Sim, sim, digo é o que a emergência manda. Tem razões os últimos foram sobre essas agressões de Ostulla. Tenho contato com outros compas da rede que compartilhamos informações. E ai onde trato de pôr. Às vezes, há coisas que aparecem nos meios comerciais, Jornada e Proceso, basicamente. Mas também essa outra informação que surge de outros companheiros, de outros coletivos. Não é a informação que aparece. Tem muita gente que dizem que a Jornada e o Processo são, mais ou menos... - De esquerda. - São progressistas! Há um monte de debate sobre o progressismo. Mas tem sua tendência, como qualquer um. Uma das coisas que aprendi na rádio. Não somente na rádio, mas na vida. Que são “palaces”. Tem que posicionar-se. Sim, muito com os compas do Desinformemos, do Subversonies, Huelga, (não entendi) rádio, meios que aqui também participam de evento e aí se compartilha com horizonte. Então, vem a informação. - Para ti, que tu pensas que são teus ouvintes? - Eu penso e que tenho podido ver, quem me escuta são gente que tem algum interesse, seja por participar ou algo, não sei bem, em movimentos sociais. Gente que pude conversar pessoalmente que diz que me escuta que está participando de movimento ou faz parte dos movimentos e de maneira pessoal interessante ter outra mirada, outra visão do que acontece. Me surpreendem que digam: “tu dissestes 246 que...”. Ai eu digo “tu ouves”. E bom em geral são pessoas adultas, não são tão jovens, nem são infantis nem adolescente. Isso está claríssimo. Pouco mais, estou pensando neles quando faço o programa. E... - E pessoas que tenham algum interesse ou participação nos movimentos sociais. - Sim, sim. - Qual a mensagem que teu programa envia para eles? - Ai... Era o que eu dizia anteriormente. Uma é a importância da organização, a importância da autogestão da vida. Muitas das coisas que digo ou planejo, ou às vezes não digo tal qual é que ao menos em México, esta institucionalidade que está constituída é uma institucionalidade que promove a morte. Temos que fazer de nossos próprios espaços de vida. Dos territórios onde gestionamos a vida é nós temos nossa própria maneira, nossa própria forma. Resistência, mas também construções. Não nada mais do que resistências nos termos de resistência passiva. Não mais aguentamos o golpe, mas saímos dessa lógica, saímos dessa lógica que precisamos de partidos, que precisamos de líderes. Gestionemos nossa vida em comum. Para mim, isso é o que eu quero colocar. O mais importante. E que essa gestão – e creio que é algo que temos visto na rádio. Quando entrei na rádio, muita gente pensavam que precisaríamos ser locutores, fazer uma escola de locução. Ter.. Estando dentro da rádio, compreende que não é uma grande ciência. Que há de fazer o que é possível. Se se pode bem, mas as vezes não saem as coisas como queríamos. Qualquer pessoa pode fazer rádio. Quando digo isso, penso no sentido de fazer a rádio no concreto, pegar os cabos, não é algo que necessite um alto especialidade. Há de estar para faze-lo. Às vezes, como te disse a pouco, deixando perder se aprende. Temos deixado perder alguns transmissores. Deixamos perder programas e bem se dá conta disso. E que pode fazer se se faz em coletivo porque o mais simples é dizer eu tenho dinheiro, compro minha rádio e está aqui. Porém não estamos saindo da lógica do sistema. - E qual o papel que tu consideras que tem FL para San Cristóbal? - Olha, eu que uma das coisas que tem FL é isso que acabo de dizer. É mostrar que qualquer pessoa pode fazer rádio. Começamos na FL em dia de FM estava vazio. Só havia uma estação de FM que era de um particular, a Suprema Rádio, 91.5. Em AM, duas, a do Estado que deveria ser pública, mas bem e a privada. Só havia três estações de rádios, duas das quais era do mesmo proprietário. Double M e a Supremo é do mesmo dono. E a Rádio Uno que é a rádio pública, do Governo, põe o que querem o que apareça. E quando surge a FL não havia outra opção. Tivemos um grande arrasto. Tinha muita gente que nos escutava. Com um tempo foi pegando um perfil na FL. Mas te digo que qualquer pessoa pode fazer rádio. Teve gente que passou pela FL, aprendeu mexer no equipamento, começou a aprender fazer locução e depois se integrou ao coletivo. Fizeram outros experimentos radiofônicos também até mostra que pode fazer rádio sem permissão legal. Agora o dial está cheio. Só tem permissão a Suprema, locais creio que só a Suprema. As demais somos que não temos a legalidade, mas ao mostrar que qualquer pessoa pode fazer rádio, o dial se encheu de muito lixo. Tu escutas o dial não tem diferença ou são de Igreja ou são comercial, mas tem o mesmo esquema: a venda do espectro, mas pelas mesmas canções de moda, a mesma lógica de locação, inclusive com o estilinho de alguns locutores, meio engraçadinhos. O que não gosto. - E FL se diferencia disso¿ - De fato, é uma estação de gente estranha com música estranhinha. Digamos que de certo modo. Dentro do que tu escuta no dial, tu escutas aqui e pode ouvir no Brasil, seguramente. O que muda é o idioma, mas a música... é o mesmo, a venda do espaço. - Mas o que tu pensas do padrão da FL, às vezes há atrasos, falhas, faltas... Isso faz parte desta ruptura ou são acidentes. 247 - Eita! Eu penso que é quando se faz as coisas diferentes. Nosso modo de fazer rádio há tido diferenças no largo do tempo. Há várias vezes de fazer rádio com motivações muito diversos. Pode ser que num momento temos tentado, não homogenizar, nem hegemonizar, nos tem custado muito trabalho. Sim temos procurado que uma série de princípio que seja comuns. Por exemplo, o respeito da diversidade, linguagem não sexista, a difusão de música, preferentemente não comercial. Mas alguém diz os Beatles são os mais comerciais que há. Mas digamos que a música que não vai escutar em outras estações que se pode escutar na FL. E algo com os programas principais... A rádio é feito todo pelo voluntariado. Digamos o tempo que fique livre. E do tempo que fique livre qual o que vai dar a rádio. Então outra questão é que às vezes no interior do coletivo não se dimensiona a importância de ter uma rádio. Ainda não nos tem ficado suficientemente claro que temos meio em nossas mão que, ademais não é nosso. Estamos usando o espectro elétrico que é um bem comum. E se vem ai posso colocar a música que gosto e dizer as coisas que quero, eu tenho de pensar nas questões eu tenho que dar uma retribuição por esse uso do espaço radioelectrico que não é nosso. Eu digo que é algo temos tentado trabalhar, refletir, é algo que tentamos fazer como formas, normas, regras de estar na rádio, mas isso é uma das coisas que tem de ficar bem claro. Estamos usando um bem comum. E esse bem comum há de usa-lo de quem é e quem lhe dá esse bem comum que é a sociedade. Uma das discussões que tivemos, nem tanto neste momento, se aceitávamos publicidade ou não, patrocínio e coisas assim e dizemos que não. Que bom então porque estaríamos ocorrendo num delito. Usar o espectro elétrico sem finalidades de lucro, nós da FL não estamos comentendo delito algum inclusive legalmente. Mesmo que não tenhamos a permissão não estamos cometendo delito. - Mesmo com a lei que prevê rádio com usos sociais. - Olha, agora, mas o principal assunto é ter um lucro do espectro radioeletrico. E como FL, como coletivo não fazemos. Isso é uma das coisas que legalmente nos protege. Sabemos que isso não vai ser um escudo. Mas como estava dizendo. As pessoas não têm suficiente tempo dedicado à rádio e está não ter clareza suficiente do papel estratégico do meio que temos em nossas mãos. - Para encerrar, quais tuas recordações da FL. Tu me disse que começou em 2002. E logo com dois anos teve um problema com o transmissor. Como foram esses anos? - A maioria da gente que participava não era radialista nem de profissão nem de formação. Nos interesso a fazer um programa de rádio e fizemos. Havia um monte de gente. Desde de gente que queria a rádio para lucrar. Até nós que dizíamos que não. Que essa não era a ideia de uma rádio comunitária. Tivemos demandas por parte do dono da Suprema. Demandou o grupo que fazia a rádio. - Chegaram a fechar a rádio? - Chegou gente da secretaria de comunicação e transporte querendo fechar a rádio. Ai houve neste momento uma boa resposta da população. Estávamos falando da primeira rádio livre de San Crsitóbal que, além de tudo, surge num ato público, que é também uma resposta a quem dizem que somos uma rádio clandestina. A FL surge num ato público na Praça. Em 22 de março de 2002, fez um ato público na Praça desde manhã até a tarde com cantores com gente dizendo que nasce uma rádio em San Cristóbal, transmitindo neste momento. Nunca fomos clandestinos não temos um domicílio para receber notificações... - Mas se sabia quem eram as pessoas. - Sim, se sabiam que era as pessoas e assim sabem que somos. Não estávamos escondidos. Então nesse momento teve uma boa resposta da população de chegar a Secretaria de Comunicações e querer prender o equipamento. Mas também teve muita presença, principalmente, pelo tipo de programa que tínhamos. Não havia uma linha e não havia nada. Quem chegava a fazer programa. Fazia como queria, como podia. 248 Havia uns companheiros que tinham mais experiência radiofônica. Isso é o assunto que te digo. Esse assunto dos locutores... - Legais? - Bom. É uma categoria. Era assim. - Tinham mais programa do que hoje? - Eu creio que menos. Algo que sempre foi uma rádio que há mais música do que programa. Mas também no interior da rádio começamos a colocar essa discussão e confrontação com a rádio. Isso com problemas sérios. Chegou gente e disse: “esse é meu transmissor e o levo” - Sério? - Sério. Tivemos que pagar o primeiro transmissor. Se supõe alguém tinha posto, mas quisesse o levava. Igual um menino, pego e minha bola e levo. Isso foi nos primeiros meses. A partir disso, desta ação com essa pessoa. Tu queres ter. Vamos ter então a rádio. Mas além de fazer programa de rádio, para que queremos FL¿ Para que queremos um transmissor¿ Ir a pensando a dar argumento e razões até aonde queremos a FL. - E quando regressou depois de seis meses? - Olha a FL tem sido... Se não faço uma má conta, tivemos como seis transmissores queimados. - Que não servia mais para nada? - Sim que não servia nem para a sucata. Então havido várias etapas que temos de parar porque não tínhamos recursos para consertar nosso transmissor. Às vezes, nosso compas de, não recordo a organização, nos emprestaram seu equipamento e com isso seguimos. Não sei se foi Promedios. Tem havido várias ocasiões que aconteceu isso. Então nesses tempos, tivemos que nos cotizar para que se ajeite o transmissor. Temos de pôr apoio, temos de pôr pagamento. E como a decisão não queremos patrocinadores. Não queremos vender o espaço. Tiramos de nosso próprio bolso que fazíamos nosso programa de rádio ou gente que solidariamente contribui. Então temos feito desde rifa ou podemos uma cota ou falamos com amigo e amigas, gente conhecida, a rádio se queimou necessitamos de ajuda para comprar transmissor, equipamentos, computadores. Isso é o que acontece também. Neste de ver como responder ir pensando que dediquemos trabalho. Temos que pôr um pouco o nosso trabalho. - Há quanto tempo a rádio está transmitindo mais tranquila? - Olha, temos tido mais de três anos. Não tivemos problema com o transmissor, mas afortunadamente temos um transmissor pequeno de reserva par se queimar o transmissor grande. Que tenha menor cobertura, menor qualidade de sinal, não se deixa de transmitir. O último que aconteceu foi com os computadores porque todos são computadores doado, velhos, inclusive pensamos que algumas temos de guardar para mostrar a gente que havia discos de computadores com menos de um giga de capacidade. E que as pessoas não creem que existiam. Temos computadores muito velhos, usadas. Não somente a obsolescência programada, com o tempo que tem chegado. Mesmo com altas e baixas não deixamos de transmitir. Talvez seis anos. - E nesse tempo a equipe permanece quase a mesma? - Como um núcleo. E ao redor desse núcleo tem que se vai, quem se regressa a pôr. Tem havido um grupo que tem mantido a rádio. 249 - Houve um tempo de mudava de local? - Sim, ao princípio. - Por causa da fiscalização? - Exatamente por isso, porque nos perseguia a Secretaria de Transportes e Comunicações. - Chegaram a fechar a rádio? - Tentaram. A gente que estava no Estúdio disse um chamado ao ar e se juntou a população a fora. Isso foi no primeiro ano. Mas depois a demanda, não sei em termo legais o que tem havido, A demanda que a Suprema colocou segue vigente. Mesmo ainda que o grupo que foi demandado ninguém mais segue na rádio. Digamos que foi um grupo que organizou a rádio foi um grupo que não fazia programa no ar. Só pôs a rádio. Fomos nós outras pessoas que nos aproximamos e posemos os programas no ar. E deste grupo inicial digamos se foram indo, em parte, pela ameaça da demanda. - Esse grupo era formado por produtores culturais, militantes políticos? - Eu creio que basicamente que queria que houvesse uma rádio. Que se dava conta não havia mais outra que essa que quis fechar a rádio. E houve uma experiência antes por volta de 94 e 95 que foi uma rádio Rebelde, não recordo ao certo. Que foi no Governo Rebelde de Amado Avendaño. Talvez no segundo semestre de 94 e primeiro semestre de 95 que funcionou não de maneira contínua. Não todos os dias, nem todo o dia, mas aproveitando o contexto do movimento zapatista e do governo rebelde de Amado Avedaño. Ai estiveram essas pessoas. Além talvez ouvira falar de Victor Valinda que é o dono de esta 95 que não recordo o nome. Ele fazia transmissores. Ele faz transmissores. Ele é técnico. - O que chamam de Pájaro Loco? (risos) - Sim, é o Pájaro Loco. Ele constrói transmissores. Ele põe estações de rádio. Ele foi do primeiro grupo. Ele foi do primeiro grupo e queria a estação de rádio para comercializar para fazer negócio. Ele é a prova que é um bom negócio. Então esse grupo estava este Victor e havia outras pessoas mais. Mas basicamente, de diferentes profissões e de diferentes interesses, mas queriam fazer uma estação de rádio. (não entendi). E quando vem a demanda. Não sei, acho que a demanda veio quando passou um mês, uma demanda penal. Ainda que ditava a política da rádio. E neste momento que começaram a aproximar-se as pessoas que colocam o programa no ar. - Desde o início havia reuniões? - Não. - Havia um coletivo? - Esse era o coletivo. Ele apontava, diziam coisas. - E como foi a rebelião dos locutores? - Foi esse problema que esse grupo inicial queriam que a rádio funcionasse de uma determinada maneira, mas nós que estávamos colocando no ar, éramos outra gente. Não achávamos algo justo. Então este grupo começou a desertar, começaram a deixar pela demanda, a não participar. Quem estávamos fazendo a rádio a agarramos. Não foi de uma vez. Foi um processo. O tempo que eles vão saindo. De nós que fazíamos o programa éramos dois que participávamos deste grupo. E eu fui um dos nomeados para participar desta reunião que, brincando, chamávamos a reunião dos notáveis, um pouco assim. E por isso durou muito 250 pouco tempo. Fizeram várias reuniões, quiza uma a cada mais. Para mim, o assunto da demanda pesou muito porque disseram foi fulano, foi fulano, foi fulano. Então começaram a ficar desanimados. - Que ano compraram o transmissor¿ - Foi no mesmo ano em 2002. Não posso dizer seguramente agora. (não entendi). Com gente deste grupo inicial que se comprava o transmissor. Compraram o transmissor. - Esse dois anos foram mais os intensos¿ - Em certas coisas porque eu creio que a maneira de fazer a rádio e nos transcursos. Houve momentos muitos interessantes. No momento que tirávamos o transmissor e íamos transmitir nos bairros e, por isso perdemos muitos transmissor porque montar e desmontar o transmissor os danificou, mas isso aproximava a gente dos bairros da rádio em vários ocasiões. Creio que nos primeiros 4 anos. Chegamos inclusive a fechar ruas com permissão da Prefeitura e tudo, transmitindo ao vivo. Em alguns dos atos ao vivo, inclusive dos zapatistas, com o subcomandante e tudo, na praça. Se tinha algum evento no Cideci íamos. Tudo que estava ocorrendo. Os dois primeiros anos foi quando decidimos ter a rádio, compramos um transmissor próprio e vamos começando nos quatro anos primeiros pensando nos rumos da rádio. Inclusive decidir se o coletivo da rádio era aderente ou não a Sexta Declaração. - E é? - O coletivo é. Não a rádio. - Qual a diferença? - A diferença que é que a rádio é mais aberta. - Mas para participar da rádio tem de fazer parte do coletivo ou não? - Não. Essa é uma discussão que estamos fazendo isso. Pode ter gente que pode fazer programa na rádio sem participar do coletivo. Mas tem de retribuir a rádio de alguma forma. Tem de dar uma cota, tem de dar um trabalho. Não pode nada mais usar a rádio porque afinal de contas a eletricidade custa. - Mas isso não seria uma venda de horário? - Não assim. Não está visto deste modo, mas como uma responsabilidade. Quer fazer um programa de rádio que não está no coletivo que respeito o horário que lhe ponha e todo esse rolho e que ponha uma cota. Não é venda de espaço nem do espectro elétrico. O que se chegar a arrecadar é para pagar a eletricidade, por exemplo, ou os equipamentos que falta ou para comprar algo. Não é lucro, por isso não é uma venda. Mas tem de fazer algo pela rádio. Não pode ser chego digo minhas coisas e me vou. Isso em nenhum lugar ninguém faz. - E para participar do coletivo tem de ser recomendado por alguém do coletivo. Isso não fecha muito? - É que tu tiveres um programa alguém do coletivo tem de ser teu contato. Dizer sim esse cara eu o conheço não é espião do governo. Não vão nos fazer a tropeçar. Sim isso e isso é um programa. É decisão desta pessoa se quere ser parte do coletivo ou não. O coletivo tem de aprovar. O coletivo aprova o programa. Este programa está bem ou não está bem. O que for. Não sei temos recebido propostas de programa que desde o princípio temos dito “aí!”, como a Saborosita do quadrante. Não, não aqui temos de saber, necessitamos de mais informações. “O que é a saborosinha do quadrante¿” Não se trata de pôr uma saborozinha em cada estação de rádio. Quais são os tipos de conteúdos planeja colocar no programa¿ Qual o tipo de música que tocarás¿ Que tipo de programa musical, revista, informativo¿ Não sei. O coletivo opina sobre isso. Sobre a proposta do programa. Há uma prisão de que se está disposta a pessoa 251 participar o necessário para que a rádio funcione. Então o coletivo decide esse programa entra ou não entra. Se entra que faça essas mudanças tal e tal coisa e sobre os programas. As pessoas que fazem o programa decidem se querem ser parte do coletivo. Se não, queres fazer parte do coletivo, faça o programa, mas aqui está se responsabilizando de contribuir com a rádio, de dinheiro ou trabalho e dependo da situação. - Por isso ela é mais aberta? - No coletivo. O que seria o coletivo é o que estamos discutindo. O que temos dito, o coletivo é o conjunto de pessoa que decidimos em reunião. Aqui tomamos decisões, gestão e também responsabilidade e se tu não queres fazer parte do coletivo, mas só fazer um programa é um colaborador. Pode estar na assembleia. Pode dizer tua palavra, mas não vai decidir. Não é do coletivo. É colaborador nada mais. Queres decidir bem que tenha mais compromisso. 22 de agosto de 2015 Entrevista com Cláudia Serrano - Teu programa é pessoal ou de coletivo¿ Como começou¿ - Bem, meu programa é pessoal. A princípio me chamou um amigo que se chama Fabian Miral que esteve na Frecuencia Libre. E a apresentação do programa estava feita com Fabian. Mas ele já não pude regressar. E minha sorte que tive ele para ajudar. O controle, a mesa e para mim foi muita ajuda porque aprendi porque só tinha feito rádio antes, eu sou colombiana, eu fiz parte da fundação de uma rádio no meu povo que se chama Zapatoca, Santander. E depois que sai do meu povo, fiz rádio em outros lados, rádio cultural, diferentes histórias, entrevistas. Agora estou pensando em fazer uma segunda parte do seriado com entrevistas. A primeira foi ver alguns temas principais, centrais em que se cruzam diferentes miradas latino-americanas e tudo que vejo sempre é numa dimensão mais ampla da América Latina, talvez levemos dentro aquele sonho bolivariano que somos uma só nação grande. Eu penso isso e assim sim. E essa foi a minha ideia de princípio do programa e, por isso, se chama “En el Camino nos Encontramos” porque nos encontramos porque temos problemas parecidos e para ter sonhos parecidos. Bom e temas que temos trabalhado foi o trabalho, o sonho, gênero, estou pensando os homens, as mulheres e as crianças, as músicas. Tudo isso através da música. Sai um tema em cada programa e tocamos as canções e através destas canções vamos descobrindo histórias e fazemos a viagem por toda a América Latina por causa do tema, uma perspectiva de uma história mais popular e tratando de resgatar alguns textos que gosto, inclusive poemas, investigações científicas, acadêmicas, mesmo que há muito não gostam. Para mim, é importante fazer uma conjunção de temas que podem fazer conjunção a outras pessoas e que seja para toda a cidade também. - Tu és formada em literatura também? Porque tu usas muita literatura também. - Não eu sou socióloga. Estudei sociologia, mas minha linha de interesse sempre foi a sociologia da cultura e a parte com a sociologia da música. Primeira, investigação que tive com a música foi com um cantador colombiano. E foi através da música que via a migração na cidade, a formação do país, entre outras coisas de uma música campesina que se chama música Carangera. Bom e quando cheguei a Chiapas. Eu vim aqui para estudar o mestrado. Eu vinha com a intenção de estudar as músicas com um projeto ambicioso que eu queria era no início estudar a música colombo-venezuelano Coropo e eu sentia que tinha muita relação com as músicas dos astecas daqui em México. E pensava que em algum momento ia fazer um estudo comparativo. Tinha muitas limitações para regressar a Colômbia, fazer um bom trabalho de campo e também não sou música de profissão. Sou melomena, nada mais. E bom entre outras coisas frearam essa minha investigação. 252 - Como se deu o teu contato com o coletivo Frecuencia Libre? - Primeiro como ouvinte porque eu como apaixonada pelo rádio, fiquei buscando o que há para ouvir e bom pois eu, como outras pessoas me disseram, comecei a ouvir. A Frecuencia Libre é a única que oferece uma opção diferente, diversas, cultural também. Tocam música do mundo, inclusive com uma proposta política porque se faz agradável escuta porque caminhas por essa via também. E primeiro como ouvinte. Sempre quis voltar a fazer rádio. Tinha meu projeto guardado em minha cabeça e foi através da minha pesquisa de doutorado e disse “por que não¿ Chegou o momento!”. Meu programa começou em 6 de janeiro deste ano. - Como tu planejas tem programa? Tu fazes um roteiro? - Sim. Faço um roteiro que geralmente, me tira muito tempo. O que faço em geral que tenho desde quando apresentei minha proposta com os temas organizados. Hoje por exemplo foi dos alimentos na América Latina. Na próxima semana, será sobre a riqueza e a pobreza. Bom alguns estão disponíveis na baixa da web da rádio que se pode ouvir. A nova página. Conheces¿ www.frecuencialibre.info. O que faço é o que já tenho o tema desde antes. Tenho um blog que é enelcaminonosencontramos.blogspot.com e uma fan page de Facebook. Bom, as vezes funciona e as vezes não. Tem umas ideias, que alguém pode escrever às vezes não. (interrupção por causa da música, mas continua mesmo com a música muito alta ao fundo). O que faço é que reuno as canções. São dez canções por programa. E são de toda a América Latina sobre o tema. Tendo as canções reúno numa sequência que seria uma linha de ideias e, através desta linha, me vou nas ideias que procuro mas o eixo central são as canções. Bom, o que começo a busca de tudo o que disse com documentos acadêmicos, histórias das pessoas ao redor do tema, entre outras coisas. - Quem tu pensas que são teus ouvintes? - Te digo a verdade? (risos) Eu creio é dirigido a todos, inclusive para os mais jovens e adultos. Mas na verdade, penso que ninguém me ouve porque as vezes queria ter mais a comunicação de via dupla. Alguém que te mande mensagem. Te diga algo. As vezes acontece sim, mas são meus amigos. Pois quem manda mensagens são só meus amigos. Então, não sei que além de meus amigos, alguém me escuta. Não sei. - O que tu pensas sobre o formato da FL? Tem muitos horários sem programa, às vezes se atrasam, se faltam... - Bem isso é um problema porque o sentido é tão libertário, um programa se corre muito de hora ou não se pode chegar. E também como não pode até agora que se possa programar desde tua casa pela Internet. E se não pode chegar não pode programar. Pois isso é um problema. Mas estão vendo que se possa programar a distância, através de um programa que creio que já instalado, mas não sabemos usar (rsrsrsrsrs). E bom há muita música todo tempo. Algo temos planejado. Este ano que eu estava tivemos muitos problemas. Se não se danifica uma coisa, se danifica outra. O computador quebrou como três vezes nesse ano. O streaming na metade do ano não serviu. Entre outros problemas, então quando uma coisa se conserta, outra se danifica. Então não se pode funcionar o tempo todo. Isto te digo porque se tem programado por Radedit ou de Zara para que toquem programas de colaboração de outros meios e que não se tenha só música. Mas como até esta hora não temos um computador fixo. Já não podemos fazer. Então, enquanto chega alguém para programas as músicas, chega alguém para fazer o programa ao vivo, por isso temos tido muitos programas esse ano. - Para encerrar, qual o papel que tu consideras que tem Frecuencia Libre para San Cristóbal¿ - Eu creio que é um espaço de difusão das ideias, um espaço cultural, um espaço de informação e um espaço alternativo, sobretudo. Um espaço por exemplo que tu escutas outra rádio em San Cris e a maioria 253 é evangélicas. E às vezes uma e outra com algum tipo de oferta, mas tudo bem limitada. Tu as liga e diz “aí não” me passa à Frecuencia Libre. Gosto a música que põe pelo menos. Pois para as pessoas – não sei como definí-los (risos) – para além dos que gostam da música romântica antiga ou músicas evangélicas. É a única, quase. 254 APÊNDICE III – TRANSCRIÇÃO DA PROGRAMAÇÃO DA RÁDIO REBELDE Rádio Rebelde 16 DE JULHO DE 2013, manhã 7h30 – 10h 0”00”’ – 10”28”’ Locutores em língua tsotsil 10”29”’ – 10”48”’ TEC COLOCA TRILHA INSTRUMENTAL 10”49”’ – 10”54”’ TEC DEIXA PAUSA 10”55”’ – 12”17”’ TEC COLOCA VINHETA: Trilha média + LOC: Sige en sintonia de la Rádio Rebelde, voz de la madre tierra. + MÚSICA (Escucha la voz de la madre tierra) + LOC: Que transmite desde algun lugar de los pueblos zapatistas en Caracoles insurgentes en rebeldia por la humanidad, zona Altos de Chiapas + MÚSICA (Escucha en dolor de la madre tierra. Tierra está en destruición, no deber descuidar) + LOC: Potencia modulada en 107 punto 1 en FM de su rádio + MÚSICA (Hermano colombiano, hermano cubano ... hermano boliviano, Hermano mexicano, hermano chileno...). 12”17”’ – 12”18”’ TEC DEIXA PAUSA 12”19”’ – 13”00”’ LOC1: Companheiros e companheiras locutores e locutoras que trabalham na cabine das rádios comunitárias aqui viemos conversar junto com os companheiros que nos vai dizer e esperamos que escutem todos os ouvintes, aos companheiros crianças e jovens em cada povo ou em cada comunidade. Espero que escutem o que vão nos dizer e escutemos a todos e todas. 13”01”’ – LOCUTOR JOVEM (LENDO): Mensagem aos coordenadores e coordenadoras de jovens da zona Altos de Chiapas. Companheiros e companheiras, crianças e jovens das diferentes comunidades, povos, regiões e zonas zapatistas, até onde chega o sinal de nossas rádios comunitárias, nos dirigimos a todos vocês para dizer-lhe nossa palavra. Nós somos coordenadores e coordenadoras de nossa zona, mas talvez muitos não sabem os trabalhos com os jovens e menos sabem que existem coordenadores de jovens, porém vamos a contar-lhes como começou. A partir de alguns anos, os mandantes políticos de algumas zonas fizeram um convite aos jovens e jovens de nossas zonas para participar de uma formação política para que os jovens tomem consciência e agarrem a ideia da luta zapatista e participem nas diferentes áreas de trabalho. Com esse convite aos jovens de diferentes comunidades e regiões de nossa zona, começamos a participar na formação política desde fevereiro de 2008 e até a data seguimos preparamos juntos com mais companheiros e companheiras jovens de diferentes regiões. Para seguir a frente o trabalho com os jovens que se iniciou em várias regiões se forma a coordenação geral de jovens desde fevereiro de 2009 e nomearam representantes de jovens de cada comunidade, se planejaram trabalhos e reuniões e assim quis continuar o trabalho em várias regiões com a ideia de promover a participação das crianças e jovens e formar algum dia o movimento juvenil zapatista. Agora como coordenadores e coordenadoras nos dirigimos a vocês para dirigir nossas sensíveis e humilde palavras a todos as crianças e jovens dos territórios zapatistas para explicar a importância e a necessidade da participação das crianças e jovens na luta zapatista, mas também compartilhar o que vimos refletindo sobre a situação dos jovens zapatistas e também para os não zapatistas. Primeiro, que vemos que há muitos jovens que somos filhos ou netos de companheiros zapatistas e isto é muito bom que haja jovens e crianças filhos e filhas de zapatistas porque quer dizer que nossos povos em luta temos um futuro. LOCUTORA JOVEM (LENDO): Mas vemos algo de muito preocupante que está passando com os jovens filhos de zapatistas e as crianças. O que está passando com os jovens de agora que talvez não nos damos conta ou nada nos dizem. Em verdade, eis que como jovens estamos tomando caminhos equivocados que seguramente nos levará a perdição se não reagirmos a tempo ou não olhamos onde está o melhor caminho a seguir porque vemos que muitos jovens estamos caindo no caminho do alcoolismo e das drogas, ou seja, plantação, tráfico ou consumo de drogas e também do vandalismo, da prostituição, do 255 assalto e outras atividades ilícitas, porém quanto jovens já caímos nessas trampas dos maus vícios e são isso que chamamos dos caminhos equivocados porque nada beneficia, ao contrário, só trará morte e destruição para a pessoa, para a família, para a comunidade, para o povo porque os jovens, os que estão metidos nessa más atividades perdem o uso da razão, perdem o interesse e a vontade de fazer o que é benefício para a família e a comunidade e menos pensam para a libertação de nossos povos, já não se interessam participar da organização porque só interessa seus interesses e desejos pessoais, já só causam desordem e divisão na comunidade porque se voltam descontentes, desesperados, descontrolados, prepotentes, já não respeitam a nada, porque já creem que sabem mais, os chingones, e até se rebelam contra os pais e seus irmão da comunidade. Estes comportamentos maus que muitos jovens realizamos muitos vezes não temos a culpa como jovens nem tampouco nossos pais nem nossa comunidade porque os principais causadores são os ricos os poderosos, os capitalistas e os maus governantes que atrás dos meios de comunicação difundem constantemente suas más ideias, suas más políticas e más costumes que em todo momento escutamos na rádio ou ouvimos na televisão, nos filmes, revistas, periódicos e também nas escolas sociais, etc. Companheiros e companheiras jovens, ante essa situação tão preocupante não devemos ficar sem fazer nada porque como crianças e jovens zapatistas não devemos seguir os caminhos equivocados. Devemos fazer algo para mudar essa triste situação e estamos seguros que se pode mudar, mas só se os jovens tomamos consciência, se decidimos prepararmos politicamente para entender a realidade e se temos a vontade de participar em qualquer nível de trabalho em nossa organização e seguir o processo de nossa luta revolucionária. 20”50”’ LOCUTOR JOVEM (LENDO): Por isso, queremos convidar a todos companheiros e companheiras jovens zapatistas a todos os povos e regiões que decidam e analisem trabalhar nas diferentes áreas que há em sua comunidade onde em sua região porque quando os jovens participamos com ânimo dos trabalhos de nossa organização assim animamos as crianças para que também comecem a participar para que damos o bom exemplo na luta. Por isso, convidamos aos companheiros e companheiras, bases de apoio responsáveis por regionais das comunidades donde não há começado os trabalhos com as crianças, se organizem e nomeiem seus representantes para que comecem seus trabalhos com as crianças e jovens. À comunidades e regiões zapatistas onde já se há iniciado os trabalhos com os jovens e crianças, lhe dizemos não desanimem, sigam a diante com os estudos políticos para que vão tomando consciência da realidade que vivemos. Não esqueçam que as crianças e jovens somos o futuro de nossos povos. O futuro de nossa pátria e os continuadores da luta que iniciaram nossos primeiros companheiros que seguiram nossos pais e como crianças e jovens seguimos essa luta e seguir construindo nossa própria história como povos para que sejamos bons jovens e crianças zapatistas e cumprir nossas obrigações dentro de nossa organização de EZLN é necessário tomar em conta os seguintes pontos: 1) Cumprir nossos dever e obrigações de assistir as reuniões e estudos políticos quando convocam os responsáveis locais, regionais ou representantes dos jovens que há em cada comunidade para que ai vão nos explicar o que devemos fazer e o que não devemos fazer. Com o estudo po- lítico entendemos a situação, ou seja, entendemos a realidade que vivemos nos povos originais e todos os povos de nosso país 2) Não metermos em atividades ilícitas como a plantação, o tráfico e consumo de drogas, o alcoo- lismo, o vandalismo, comprar e vender carros ilegais e a prostituição porque tudo isso são cami- nhos que levam a destruição e a perdição de nossas vidas 24”21”’ – 27”23”’ LOCUTORA JOVEM (LENDO): 3) Entender a importância dos trabalhos que se realizam em nossa organização porque são necessários para o fortalecimento de nossa luta e de nossa autonomia porque se não entendemos o sentido e a importância do trabalho não o realizamos ou, em qualquer momento, o deixamos abandonado por qualquer pretexto. 4) Como jovens devemos aceitar qualquer trabalho e compromisso que se realiza dentro de nossa comunidade e nossa região ou município porque só com a participação de todos vamos avançar nessa luta e resistir em qualquer situação difícil. 256 5) Superar todos os obstáculos, dificuldades e problemas que surjam nas diferentes áreas de trabalho porque não há nenhum trabalho que não surjam algum problema. Só se nós resistimos e seguimos a frente com o trabalho porque se não sabemos superar os problemas, deixamos jogado nosso trabalho por qualquer motivo. Deixar jogado um trabalho ou deixar abandonado um trabalho não é ideia zapatista porque significa atraso para nosso trabalho, debilidade para nossa comunidade, para nossa organização e força para nossos inimigos. 6) Aceitar os bons conselhos, orientações e críticas construtivas que dão nossos companheiros e companheiras, autoridades civis ou políticas. Nossos companheiros e companheiras maiores de idade que sabem dar boas orientações e bons conselhos para as crianças e jovens. Companheiros e companheiras, jovens e crianças, também a todos os pais de famílias que nos escutam, estas são nossas palavras como coordenadores e coordenadoras de jovens de nossa zona e esperamos que se entenda um pouco nossa mensagem. É tudo por momento e obrigado por nos escutar. 27”27”’ – 33”06”’ MÚSICA RANCHEIRA REVOLUCIONÁRIO: Recordamos soldados valientes... Venceremos, venceremos... cumpriremos com nosso dever... sembraremos a la tierra e la glória. La justiça terá de vinir... (CORTA ABRUTO) 33”07”’ LOC: Bom, companheiros e companheiras, irmãos e irmãs, muito bom dia a todos e todas que estão nos escutando esta hora da manhã, pois estamos aqui com vocês e estamos aqui para acompanhar-lhes com mais músicas revolucionárias e escutar a programação e a mensagens e temas que estive programando nossa companheira que temos escutado. TÉC AUMENTA BG 2” LOC: Temos escutado este tema sobre os jovens. Oxalá que tenhamos entendido que tenhamos escutado e então vamos seguir com mais músicas revolucionárias. TÉC AUMENTA BG LOC MULHER: Vamos escutando as músicas revolucionárias nessa manhã. Estamos as 9 da manhã e 17 minutos, hora na frente de combate sul oriental. A todos que estão nos escutando nessa manhã nos mandamos uma cordial saudação e então vamos seguir com nossa programação e agora temos uma canção que se chama Heróis e Mártires, canção do Caracol das Montanhas e temos também uma canção de outro Horizonte, que se chama 7 de agosto de 2012. Vamos então escutar, saúde a todos onde quer esteja trabalhando, onde quer que estejam e saudação a todos vocês. Aqui vamos seg com nossas canções revolucionárias. TÉC AUMENTA BG 12”’ LOC MULHER 35”27”’: (tradução em tsotsil) TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA HERÓIS Y MÁRTIRES 38”03“’ - 42”17”’ TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 7 DE AGOSTO 42”28”’ – 47“27”’ – 48”20”’ LOC HOMEM 47”34”’: Bom companheiros, vou dizer-lhe s um verso que se chama Antonio Pobreza: deixa-me dizer-lhes esses versos de poucas vezes que ganha mexicano sofrendo com sua mão quando Antonio não ganha o necessário passa fome as crianças de sua mãe, não alcança pagar o aluguel muito menos para la mascota, trabalha 20 horas, mas nunca melhora, quer um aumento e lhes sobem os impostos, pede melhor saúde, mas melhor ataúde, quer justiça aí vai a polícia, te mata por motão e termina no panteão. Aqui terminar os versos de Antonio e seus fracos por melhorar sua condição, mas tem aumentado sua aflição. TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 48”22”’ – 54”33”’ (FUI A CANTAR UMA MENSAGEM A DOIS POVOS...) TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 54”42”’ – 58”37”’ (PORQUE JÁ COMEÇOU E NADA VAI PARAR) TÉC TOCA MÚSICA SOBRE O MEIO AMBIENTE 58”40”’ – 61”48”’ (EU TE CONTARÉ QUE SÃO OS CULPADOS) 257 TÉC TOCA VINHETA 61”50”’ – 62”15”’ (LOC: Não morrerá a flor da palavra./ Poderá morrer a voz de quem a fala hoje, porém a palavra que vem do fundo da história da terra, já não poderá ser arrancada pela soberba do poder E TOCA INSTRUMENTAL) TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 62”20”’ – 68”54”’ (1º de JANEIRA DE 94, Zapata de novo nasceu). TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRA 68”58”’ – 73”09 (EU CANTO CANÇÃO DE AMOR, POR AMOR A MEU POVO) TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 73”16” – 73”’24”’ (CORTE ABRUTO) TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 73”30” E COLOCA EM BG 74”14”’ LOCUTORA: Estamos às 9 da manhã com 57 minutos, hora da frente de combate sul oriental. Temos escutado as canções e músicas revolucionárias, pois esperamos que tenha gostado, agora vamos seguir com mais músicas e estaremos na... TÉC AUMENTA BG LOCUTORA: Estaremos iniciando esta que é a última hora de nossa programação e onde vamos escutar TÉC AUMENTA BG LOCUTORA: Vamos escutar a seguintes canções, mas vamos terminar a programação revolucionária de Chiapas. Vamos escutar com a última canção que é Quando Saímos a brigar, é uma música de Ecos da Liberdade e tomara que goste desta última música que estaremos escutando e na hora seguinte hora que estaremos, vamos escutar música da revolução mexicana. Oxalá que também goste que nos acompanhe a escutar estas canções que estaremos... TÉC AUMENTA BG LOCUTORA: Que estaremos escutando nessa manhã. Vamos a apresentar a primeira canção TÉC AUMENTA BG LOCUTORA: A primeira canção revolucionária mexicana que se chama Ressucita de Tiguagua e também TÉC AUMENTA BG 5”’ LOCUTORA: E também estaremos escutando outra canção que se chama Tempos amargos. Tomara que goste e saudações a todos vocês onde quer que estejam escutando nesta manhazinha que temos... que estamos... TÉC AUMENTA BG LOCUTORA: Porque o tempo está bem, está TÉC AUMENTA BG LOCUTORA: Como que se diz... Está mais alegre o tempo. Está bem tranquilo. Então Oxalá que assim esteja nas diferentes comunidades e municípios que estão nos escutando nesta hora da manhã. Saudações a todos vocês então. Vamos escutar a canção que havia lhe apresentado e também a seguintes canções que estaremos escutando seguinte hora da programação. Saudações a todos vocês e já estamos às 10 da manhã em ponto TÉC AUMENTA BG 77”08”’ LOCUTORA 77”20”’ – 79”44”’: (tradução em tsotsil) LOCUTORA 79”46”’: Esta se trata de 1994 quando saímos a brigar em diferentes partes em cada município. TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 79”54”’ – 82”32”’(EM ANO DE 94 QUANDO SAÍMOS A BRIGAR...) TÉC PÕE VINHETA (TÉC COLOCA INSTRUMENTAL 2”’/ LOCUTORA (COM ECO): Estamos escutando Rádio Rebelde, voz da mãe terra./ TÉC COLOCA INSTRUMENTAL 3”’/ LOCUTORA: Transmitindo desde algum lugar dos povos zapatistas em Caracol Dois em resistência e rebeldia pela humanidade, zona Altos de Chiapas./ TÉC COLOCA INSTRUMENTAL 3”’/ LOCUTORA: Na frequência 107.1 em FM) 82”35”’ – 83”30”’ TÉC DEIXA PAUSA 5”’ TÉC TOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 83”35”’ – 86”03”’ TÉC DEIXA PAUSA 5”’ 258 TÉC COLOCA MÚSICA DE CRÍTICA AO PORFIRISMO 86”10”’ (HAY CONTENTO TERMOS LLEGADOS, ANTES EN TEMPO DE PORFIRISMO LLORAVAMOS POR EL PATRÓN...) 89”05”’ TÉC COLOCA BG 89”10”’ – 89”33”’ LOCUTOR (HOMEM) 89”33”’ – 96”20”’: Mensagem e pergunta aos povos indígenas que não entendem nem querem entender a justa causa da luta zapatista./ Irmãos de raça, irmãos pobres e indígenas de Chiapas e de todo o México./ Lhes fala um irmão zapatista, um irmão rebelde, um irmão de todos vocês que sabem e conhecem a dor de muitos irmãos./ Escutam irmãos!/ Nós zapatistas nos dizemos rebeldes contra todas as injustiças, contra a opressão, contra a humilhação, contra o esquecimento e o extermínio./ Irmãos indígenas não zapatistas, queria perguntar-lhes a todos:/ Até quando se darão conta que desde mais de 500 anos, somos vítimas e de dominação e exploração, vítimas de humilhação e descriminação, vítimas de marginalização e esquecimento dos que tem poder e dinheiro, por que muitos de vocês estão pondo seus corações, sua confiança e sua esperança em nossos opressores e explorados?/ Por que se entregou de corpo e alma aos que estão chupando o sangue de nossos corpos como os maus governantes, os altos funcionários, os pecuaristas e os proprietários de terra que tanto dano fazem a nossos povos?/ Por que vendem sua dignidade por migalhas que caem pelas mesas dos patrões?/ Por exemplo, quando o governo diz que dá apoio ao povo e entrega umas ojas de lâmina que lhe dizem que é para uma vivenda digna ou para suas letrinas./ Só porque não sabem nem conhecem o que é uma vivenda digna./ Irmão pobre, irmão indígena, a caso queres ser amigo do inimigo e assim trair o povo, a tua raça e entregar os verdadeiros dirigentes dos povos às mãos dos inimigos?/ Acaso te esqueceu a coragem e a valentia de nossos antepassados que preferiram morrer brigando do que viver escravos e humilhados ante os invasores e conquistadores espanhóis e norte-americanos?/ Por que tua coragem e o pouquinho de valor que fica os usa contra os irmãos pobres e não contra as injustiças e os verdadeiros inimigos da humanidade?/ Não pensa que teus irmãos zapatistas que caíram combatendo heroicamente desde antes e depois de 1º de janeiro de 94, derramaram seu sangue por ti e por seus filhos para que um dia não tenha que viver na vergonha e na limosna como até agora vivem?/ Crês que o sangue dos teus irmãos indígenas derramados com honra e dignidade se pode trocar por algumas migalhas?/ Então, por que levanta tuas mãos para receber lismonas ou migalhas que dá o mau governo como o pró-campo, pró-esna, oportunidades e outras coisinhas como os alimentos velhos que vem entregar até com soldados federais que entram suas casa com seus carros, tanques de guerra?/ Não pensa que o mau governo e o Exército estão usando para seja bucha de canhão?/ Quer dizer que vá a frente contra teus irmãos pobres para que os soldados e a polícia não se morram eles, mas só o que vão a ir quando entre irmãos pobres nos matamos, irmão indígenas./ Por que se põe contra teus irmãos zapatistas que só lutam pela verdadeira democracia, por justiça para todos?/ Creem que vão deter a justa causa da luta zapatista?/ Creem que a razão e a justiça vão ser derrotados pela injustiça e a mentira?/ Irmãos, vocês como indígenas e pobres, és o ganham, és o que defendem./ Ao unir-se com os maus governos, com os soldados, com ricos e poderosos, que só matam e escravizam nossos povos, vocês como indígenas e a maioria como analfabetos também, como nós zapatistas./ Quantos mil hectares têm?/ Quantas fincas têm donde produz grandes quantidades de milho e café?/ Quantas cabeças de gado tem para exportação?/ Quantas fábricas têm para produzir grandes quantidades de mercadorias para o mercado nacional ou estrangeiros?/ Quantos milhões pesos ou dólares tem guardados nos bancos nacionais ou estrangeiros?/ Desperta povo meu, desperta irmãos indígenas e olham a realidade que vivemos e que vivem milhões de irmãos pobres que vivem em nosso país e em muitos países do mundo por culpa dos maus governantes, dos ricos, dos poderosos que querem apropriar-se da riqueza do mundo e da vida de toda a humanidade./ Porém já não deixamos enganar com a política dos maus governantes e dos partidos políticos, que só buscam os interesses pessoais e de seus partidos e não para os pobres./ Irmãos e irmãs indígenas, esta é uma pequena mensagem./ Muito obrigado!/ TÉC AUMENTA BG 96”21 - 97”03”’ 259 TÉC PAUSA TÉC PÕE MÚSICA ANTIGA (Desde México me chega una carta por aéreo... La revolución...) 97”10”’ – 101”28”’ TÉC TOCA MÚSICA TRAICIONESS POLÍTICAS (...recordando los señores que morreran en tradición a Madero mataran...) 101”30”’ – 105”04”’ TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO 105”08’” – 106”03”’ (TÉC COLOCA INSTRUMENTAL 3”’./ LOCUTORA (COM ECO): Siga escutando La Rádio Rebelde, você da madre terra./ TÉC COLOCA INSTRUMENTAL 3”’/ LOCUTORA: Transmitindo desde algum lugar dos povos zapatistas em Caracol Dois em resistência e rebeldia pela humanidade, zona Altos de Chiapas./ TÉC COLOCA INSTRUMENTAL 3”’/ LOCUTORA: Na frequência 107 ponto um em FM./) TEC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA (Señores vengo cantar un corrido...) 50”’ E PÕE EM BG 106”03”’ – 106”53”’ LOCUTORA 106”54”’: Bom, companheiros e companheiras, irmãos e irmãs, acabamos de escutar a canção que se chama traições políticas. Acabamos de escutar essa canção e vamos seguir... seguir escutando... escutando mais músicas da revolução mexicana. Estamos às 10 da manhã com 30 minutos, hora da frente de combate sul-oriental. TÉC SOBE BG 3”’ LOCUTORA: Agora vamos escutar... vamos escutar as seguintes músicas revolucionárias da revolução mexicana e vamos escutar uma canção que se chama corrido a Garamidio./ Tomara que goste dessa canção/ E Vamos escutando outra canção que se chama.../ se chama Corrido de San Mora./ Vamos escutar essa canção e.../ TÉC SOBE BG 4”’ LOCUTORA: E oxalá que goste todas essas canções que estamos passando para vocês, companheiros e companheiras, irmãos e irmãs e vamos escutar e estaremos em regresso em.../ TÉC SOBE BG 3”’ LOCUTORA: Em uns momentos mais para seguir escutando músicas revolucionárias, músicas da revolução mexicana./ TÉC SOBE BG 7”’ LOCUTORA: (tradução em tsotsil) COM BG SUBINDO E BAIXANDO TÉC TOCA MÚSICA CORRIDO GARAMIDIO 109”39”’ – 114”32”’ TÉC PAUSA LOCUTORA2 114”40”’ – 115”20”’: Bom, companheiros e companheiras, todos os que nos escutam tenho que duas bombas para dizer-lhes e uma rima./ Disse assim: bomba, bomba, em parte de minha casa, tenho mata de milho/ Mavarilha Savala tem muito comprido o nariz./ (APLUSOS) Bomba, bomba, Lopes Obrador é um cachorro labrador./ (APLAUSOS) Calderón se canção não tem razão/ Quando faz matança na nação./ (APLAUSOS) Tanam, rsrsrs TÉC TOCA MÚSICA CORRIDO EN SAN MORA 115”24”’ – 118”54”’ TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA HISTÓRICA 119”01”’ – 122”35”’ LOCUTOR1 122”45”’ – 123”01”’: Um homem tinha passado pela terra e havia deixado seu coração entre dois homens./ Dois a imagem dos filhos que tem e essa é a voz do criador./ TÉC TOCA MÚSCIA REVOLUCIONÁRIA HISTÓRICA 123”03”’ – 126”12”’ (Voy a cantar un corrido en mi tierra... caió Valentin en la mano del goberno) TÉC TOCA MÚSICA 15” E PÕE EM BG 126”17”’ LOCUTOR2: Dizer às companheiras mulheres zapatistas que olhe agora o que fazem e tomem a sério seus direitos como mulheres./ Isto já escutamos muitas vezes, mas sempre dizendo não é para xingar as companheiras./ É para entendê-las e seu povo e para seus filhos e filhas./ É para necessidade do povo./ É assim quando as mulheres participam de diferentes cargos e trabalhos./ As crianças vão agarrando essa ideia porque veem com seus próprios olhos que sim podem fazer também os trabalhos./ 260 TÉC LEVANTA BG 40”’ 128”01”’ TÉC PAUSA TÉC TOCA MÚSICA 2”05”’ E PÕE EM BG 128”05”’ LOCUTORA1: Vamos escutar a canção que se chama... TÉC AUMENTA BG 2”’ LOCUTORA1: Escutar uma canção de... TÉC AUMENTA BG 10”’ LOCUTORA1: Vamos escutar uma canção de... Doeto Castillo que se chama Lúcio Cavañas e vamos escutar essa... essa canção... e também estaremos escutando outra canção... TÉC AUMENTA BG 4”’ LOCUTORA1: Outra canção que se chama a Marcha de Zapatecas, por isso deixamos com essas canções e com essas canções vamos encerrando nossa programação e ao término destas canções, estaremos encerrando a programação e está chegando a hora de encerrar a programação. Então oxalá acompanhem pela tarde a escutar-nos novamente. E então lhe deixo com essas canções e que tenham muitas ganas nas atividades que estão realizando, saudações a todos vocês e estamos chegando às 10 da manhã com 55 minutos hora da frente de combate sul-oriental. LOC1: (tradução em tsotsil) TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRA LÚCIO CAVAÑAS 133”44”’ – 136”57”’ TÉC TOCA MÚSICA 137”08”’- 145”59”’ E SAI DO AR _____________________________________________________________________________ RÁDIO REBELDE 16/7/13 17H22 TÉC TOCA MÚSICA INSTRUMENTAL CÚMBIA (IGUAL A BANDA TOCA NO CORETO DA PRAÇA DE SAN CRISTOBAL) TÉC TOCA VINHETA 2”54”’ (LOCUTORA COM MUITO ECO: CIDADANIA/ RÁDIO REBELDE/ VOZ DA MÃE TERRA/ QUE TRANSMITE DESDE ALGUM LUGAR DOS POVOS ZAPATISTAS, CARACOL DOIS, RESISTENTES PELA HUMANIDADE QUE ESTÃO NA LUTA/ NA FREQUÊNCIA 107.1 EM FM NO SEU RÁDIO) TÉC TOCA MÚSICA CÚMBIA (FALA DE CERVEJA) 4”04”’ – 14”26”’ PAUSA TÉC TOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA (SEÑOR VENGO CANTAR...) 14”33”’ – 15”05” E COLOCA EM BG PAUSA LOCUTORA (Mesma da manhã) 15”08”’ – 19”00”’: Boa tarde companheiros e companheiras, temos escutado as primeiras músicas, músicas de marimba... TÉC AUMENTA BG.. LOC: vamos seguir escutando músicas de marimba... nesta rádio comunitária de Los Altos... temos outras rádios comunitárias em outros lugares, mas esta é a rádio de Los Altos... Nesta terça, 6 da tarde com 20 minutos hora da frente sul-oriental TÉC SOBE BG... LOC: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA DE MARIMBA INSTRUMENTAL 19”01”’ – 22”35”’ PAUSA TÉC COLOCA VINHETA 22”41”’ – 23”11”’ (TÉC COLOCA, SOBE BG 4”’ E BAIXA./ LOCUTOR: Pela educação autônoma damos nossa vida, nosso trabalho e nosso esforço... tradução em tsotsil TÉC SOBE BG 4”’. PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA DE MARIMBA INSTRUMENTAL 23”15”’ – 27”43”’ PAUSA TÉC COLOCA VINHETA 27”47”’ – 28”47”’ (TÉC COLOCA, SOBE BG 8”’ E BAIXA./ LOCUTORA: Esta é a Rádio Rebelde,/ voz da mãe terra,/ transmitindo em algum lugar dos povos zapatista,/ Caracol Dois/ 261 Resistência e Rebeldia pela humanidade/ TÉC SOBE BG – Deixaria tudo 3”/ Na frequência 107.1 FM de seu rádio/ TÉC SOBE BG 3”’) TÉC COLOCA MÚSICA DE MARIMBA INSTRUMENTAL 28”48”’ – 31”43”’ PAUSA TÉC COLOCA SPOT TÉC COLOCA TRILHA 8”’ E DEIXA EM BG LOCUTORA2: Existe também uma má qualidade nos serviços de saúde que nos dá o mal governo só por sermos indígenas e por falar outra língua materna que para curar-se e ter saúde somente quem tem dinheiro. Comprar planos de saúde que curam mais rápido e os que não contam com o recurso econômico morre mais rápido/ LOCUTOR 3: tradução em tsotil SOBE BG 12”’).31”52”’ - 33”48”’ TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 50”’ E COLOCA EM BG, ENTRA LOCUTOR EM TSOTSIL 2”26”’ E CONTINUA MÚSICA 34”06”’ – 37”12”’ PAUSA TÉC TOCA MÚSICA MARIMBA 37”29”’- 39”54”’ PAUSA TÉC TOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA E PÕE EM BG LOCUTORA: Estamos com 6 horas com 44 minutos, hora da frente de combate sul oriental, temos escutado várias músicas de Marimba, vamos escutar outras músicas mais como esta para rapazes, Otra Ilusión, TÉC SOBE BG 5”’, LOC: (tradução em tsotsil) 39”59”’ – 42”19”’ TÉC TOCA MÚSICA DE MARIMBA 42”20”’ – 46”07”’ PAUSA TÉC TOCA MÚSICA DE MARIMBA 47”03”’ – 54”54”’ PAUSA TÉC TOCA MÚSICA CARACTERÍSTICAS 55”’ E COLOCA EM BG 55”01”’ LOCUTORA: Olá companheiros e companheiras, temos escutado as músicas de Marimba. Oxalá que tenha gostado. São sete da tarde em ponto na frente de combate sul-oriental. Vamos seguir a programação escutando contos. Oxalá que continue nos escutando. Vamos escutar um conto la cote e o coiote em tsotsil. Para que não se sinta mal vamos escutar um conto em espanhol para que goste, mas antes vamos escutar esta última música de marimba para que se prepare para escutar o conto./ (Tradução em tsotil) TÉC TOCA MÚSICA DE MARIMBA 62”02”’ – 65”30” TÉC COLOCA VINHETA ROCK 65”43”’ – 65”50”’ (BG 8”’ E BAIXA./ LOCUTORA: Siga escutando a Rádio Rebelde,/ voz da mãe terra,/ transmitindo em algum lugar dos povos zapatistas,/ Caracol Dois/ Resistência e Rebeldia pela humanidade/ TÉC SOBE BG 5”/ Na frequência 107.1 FM de seu rádio/ TÉC SOBE BG 5”’) PAUSA TÉC COLOCA CONTO EM TSOTSIL COTE E O COIOTE 67”01”’ – 77”30”’ PAUSA TÉC COLOCA VINHETA 77”33”’ – 78”27”’ (BG 8”’ E BAIXA./ LOCUTORA: Está escutando a Rádio Rebelde,/ voz da mãe terra,/ transmitindo em algum lugar dos povos zapatistas,/ Caracol Dois/ Resistência e Rebeldia pela humanidade/ TÉC SOBE BG 5”/ Na frequência 107.1 FM de seu rádio/ TÉC SOBE BG 5”’) TÉC COLOCA MÚSCIA INSTRUMENTAL MÉDIA 78”31”’ – 81”26”’ PAUSA TÉC COLOCA CONTO EM TSOTSIL 81”30”’ – 96”58”’ TÉC COLOCA VINHETA LENTA 96”59”’- 101”16”’ (BG 8”’ E BAIXA./ LOCUTORA: Está escutando a Rádio Rebelde,/ voz da mãe terra,/ transmitindo em algum lugar dos povos zapatistas,/ Caracol Dois/ 262 Resistência e Rebeldia pela humanidade/ TÉC SOBE BG 5”/ Na frequência 107.1 FM de seu rádio/ TÉC SOBE BG 5”’) TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL LENTA 101”17”’ – 103”51”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 24”’ E PÕE EM BG 103”55”’ LOCUTOR: Bom companheiros e companheiras, estamos escutando rádio Rebelde vamos conversar com vocês, é mais ou menos, um conto, uma estória que se chama Rei do Mal, também se chama um Chingo mero mero TÉC TIRA BG LOCUTOR: Ra Ra Ra Ra Sou muito feliz./ Sabe quem sou?/ Sou o tiaso que causa enfermidades./ Sou o tiaso que deixa cada vez mais pobre./ Sou muito feliz./ Ra Ra Ra Ra/ Sabe como disfruto?/ (...) Gosto quando não tem o que comer./ Gosta quando trabalha só para me mesmo./ Quando briga com seus companheiros./ Quando usas drogas./ Quando segue a moda./ (...) Gosta quando assiste televisão e aprende tudo./ (...) Sabe quem sou?/ Sou o sistema capitalista./ TÉC ENTRA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 107”30”’ TÉC ENTRA MÚSICA CARACTERÍSTICA 40” E COLOCA EM BG 107”48”’ – 114”23“’ LOCUTORA: Bem companheiros e companheiras, acabamos de escutar esse conto./ (...) Espero que todos possam refletir um pouco essa mensagem que escutamos./ Peço desculpa a vocês que esse conto e o próximo são em espanhol./ Buscamos, mas só temos em espanhol./ O último conto se chama Conto de um Muchacho./ Oxalá que goste deste conto./Agora estamos 19 horas e 55 minutos da tarde, hora da frente de combate sul oriental./ Encerramos hora para seguirmos a próxima hora com músicas revolucionárias./ LOCUTORA: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 20” E COLOCA EM BG 15”’ E TIRA DO BG 114”24”’ LOCUTOR: Vamos contar um conto de um rapaz que não sabia namorar sua noiva./ (...) Quando encontrar minha noiva o que vou dizer?/ O que interessa lhe dizer./ (...) Se vê-la pela manhã diz bom dia./ (...) Vai dizer que cabelos longos./ Vai dizer que olhos castanhos./ Me gosta cabelos castanhos./ (...) LOCUTOR FAZ ONOMATOPÉIA DE PASSOS E IMITA VOZES DOS PERSONAGENS TÉC COLOCA EFEITO SONOROS DE PÁSSAROS TÉC MÚSICA INSTRUMENTAL 10”’ TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO COM MÚSICAS REVOLUCIONÁRIAS 122”20”’ – 123”49”’ TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 123”50”’ – 126”28”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 40”’ E PÕE EM BG 126”35”’ LOCUTORA2: Temos escutados vários programas (...)./ Escutamos uma hora de contos. Agora vamos escutar as músicas revolucionárias (...)./ Agora são 7 horas e 10 minutos da tarde na frente sul-oriental./ TÉC AUMENTA BG LOCUTORA2: (tradução em tsotsil). TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (VOZ E VIOLÃO) 130”28”’ – 134”40”’ LOCUTORA2: Estamos escutando músicas revolucionárias. TÉC AUMENTA BG LOCUTORA2: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (VOZ E VIOLÃO) 135”05”’ – 137”14”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 137”15”’ – 140”19”’ TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO COM TRILHA MÉDIA 140”24”’ – 141”12”’ 2”21”15”’ TÉC TOCA MÚSICA 263 __________________________________________________________________________________ RÁDIO REBELDE 17/7/13 manhã TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (Dançante “Luta pela educação, pelo trabalho digno, pela terra...”) 0” - 2”38”’ PAUSA TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (Balada sobre Subcomandante Marcos) 2”44”’ – 7”36”’ PAUSA TÉC MÚSICA (Dançante infantil, “Salta chapolin... me gusta de estudiar”) 7”44”’ E PÕE EM BG 8”26”’ LOCUTORA: Esta foi nossa programação de músicas revolucionárias desta manhã. Agora passam dois minutos das onze. Deixo com uma última música Soldado da Cavalaria. Nos encontramos na programação da tarde. TÉC SOBE BG 3”’ E BAIXA LOCUTORA: (tradução em tsosil) TÉC COLOCA MÚSICA (Balada, “Adelante la campaña...) 10”27”’ – 14”40”’ _____________________________________________________________________________ RÁDIO REBELDE 18/7/13 LOCUTOR1: Nós coordenadores de jovens dos Altos de Chiapas, queremos dirigir algumas palavras para compartilhar o que está passando com o jovem. Nós que somos jovens que sofremos com as mesmas condições de desigualdade, de injustiça, descrença, de pobreza e de indignação e exploração do sistema capitalista. Nós jovens vivemos uma situação de dificuldades com o desemprego e os salários injustos. Muitos irmãos jovens se vêm obrigados a sair o Estado ou a migrar para outros países como os Estados Unidos, abandonando suas famílias, comunidades e sua terra de origem. Quando saem de suas comunidades, deixa suas famílias e muitas vezes seus filhos órfãos. Sempre tratam de buscar a unidade e trabalhar para o bem de sua comunidade. Quando estão fora de suas terras, encontra outros amigos e amigas aprendendo outros costumes e ideias negativas de consumidor drogas, álcool de comprar coisas desnecessárias. Tudo isso leva ao vandalismo, a delinquência e a outras atividades ilícitas. De aí começa a crer em outras ideias que levam ao vandalismo, às drogas e ao crime. Muitos nunca regressam a sua terra de origem porque se acostumam e outros já moram fora do país porque cruzam a fronteira de maneira ilegal. E quem consegue regressar já vem com outras ideias, costumes da droga, do vandalismo, do alcoolismo e da prostituição. Começam a causar muita desordem dentro de sua comunidade e assim semeiam e praticam uma cultura da destruição. E assim já não assumem suas responsabilidades com seu povo e desrespeitando suas mães, pais, mais velhos e as autoridades civis. Tudo isso que está acontecendo com os jovens não somos os responsáveis, mas o sistema capitalista e seus representantes, os maus governantes que não tem preocupação para o que acontece com os jovens. Os maus governos atravessam as comunicações por meio da televisão, rádios, revistas e etc com o objetivo de levar a destruição para nossos povos porque os maus governantes nunca nos apontam e nos orientam para bons caminhos. Por isso, nós zapatistas estamos lutando para acabar com esse sistema capitalista dos ricos. Os zapatistas não lutam só pelo zapatismo, nem só para os povos indígenas, mas para todos os pobres desse país. Fazemos um convite para todos os jovens zapatistas, filhos e filhos dos zapatistas, não nos deixemos perder por maus caminhos. Devemos saber que somos o futuro de nossa pátria, de nosso povo e de nossa comunidade. Devemos saber que se tomamos caminhos equivocados que futuro espera nosso povo e nosso país? Pedimos aos jovens que não são zapatistas que tomem em conta nossa luta zapatista. Lutamos para que um dia melhore nossa situação de jovens para o futuro de nosso povo. Já 264 não devemos nos enganar e deixar manipular com as mentiras dos maus governos. Isto é o que queremos dizer e esperamos que entendam as nossas palavras. Obrigado por nos escutar! PAUSA 3”’ TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO HAP 6”29”’ – 7”54”’ PAUSA LOCUTOR2 e LOCUTOR3: (em tsotsil e depois em tsetal) 7”59”’ – 33”52”’ TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO DANÇANTE 33”53”’ – 34”55”’ TÉC COLOCA MÚSICA INFANTIL (Salta Chapolin) 34”57”’ E PÕE EM BG LOCUTORA2: Temos escutado a programação sobre os jovens que se passou em espanhol, depois tsotsil e tsetal. Segue a programação com músicas revolucionárias de Chiapas e internacionais. Vou me despedindo por aqui, mas temos mais duas horas de programação. São quatro horas de programação nesta manhã. Em seguida, vai estar com vocês nossa outra companheira. Saudações a vocês que estão nos escutando em seu trabalho, em suas casinhas, na cidade de San Cristobal, em outras cidades e nos mercados de San Cristobal. Me despido de vocês deixando a música que se intitula Produção Capitalista. São 9 horas e 25 minutos, hora da Frente de Combate Sul Oriental. TÉC SOBE BG 4” LOCUTORA2: (tradução em tsetal) TÉC SOBE BG 15”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA PRODUCTOS CAPITALISTAS (trova com crítica contra a destruição causada pelos produtos capitalistas) 40”08”’ – 44”18”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (trova com críticas aos maus governantes ligados aos traficantes citados Salinas, Calderón, Pieña Nieta) 44”19”’ – 48”16”’ PAUSA TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO LENTA 48”24”’ – 49”29”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (trova de exortação ao povo para a luta) 49”44”’ – 52”26”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 1”20” E PÕE EM BG 52”29”’ LOCUTORA1: Bom dia, companheiros e companheiros! Com muito gosto, estamos nesta manhã com vocês escutando músicas revolucionárias./ Escutamos programa de tema político com mensagens para todos vocês./ Agora vamos continuar escutando músicas revolucionárias./ Só nos resta mais 18 minutos para escutarmos músicas revolucionárias de Chiapas./ Em alguns momentos estaremos em outra programação./ Estaremos escutando as músicas revolucionárias de Chiapas./ Oxalá que continue nos acompanhando nessa última hora e nesses poucos minutos que temos para as músicas revolucionárias./ Então vamos escutar uma música revolucionária dos Jovens Rebeldes e a música se chama A Consciência do Meu Povo./ Saudações a quem está nos escutando nessa hora da manhã às 9 da manhã com 43 minutos./ TÉC SOBE BG LOCUTORA1: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA LA CONSCIENCIA DE MI PUEBLO (dançante com gaita) 57”50”’ – 1’01”42”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (Dançante cumbia com gaita: ‘Adelante estudantes, obreros, campesinos...’) 1’01”52”’ – 1’05”24”’) PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL COM FLAUTA E TAMBORES 60” E COLOCA EM BG 1’05”33”’ LOCUTOR: Mensagem para os irmãos e irmãs não indígenas do México e do mundo./ Irmãos e irmãs do México e do mundo, pedimos que não esqueçam que nossa luta de indígenas zapatistas é como uma pequena semente e pequeno exemplo por dignidade no mundo./ É um sonho para que um dia os 265 trabalhadores do campo e da cidade não tenham que ser explorados, para que não tenham que viver e morrer em condições subumanas, até algum dia reine a justiça, a razão e a liberdade em todos os povos da terra./ Estes ideais dos irmãos zapatistas ajudam a consegui-los organizando-se em seus povos, Estados e países e sendo rebeldes contra todos os planos da morte./ Nascer, fazer e crescer para uma nova vida a humanidade./ Muito obrigado! TÉC AUMENTA BG 15”’ E BAIXA LOCUTOR: (tradução em tsotsil) TÉC AUMENTA BG 35”’ PAUSA 3”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA BALADA (Companheiros militantes, somos guerreiros, somos soldados em Cristo, estamos com as armas em mãos para defender o povo... Seguimos o exemplo de Cristo que fez o sacrifício para que o povo seja livre) 1’11”13”’ - 1’14”52”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA JOVENS PELA EDUCAÇÃO (Trova na voz e violão) 1’14”59” – 1”18”05”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA 10”’ E PÕE EM BG 1’18”10”’ LOCUTORA5: Companheiras, se está grávida ou se sente dor de cabeça e formigando os pés e mãos, pode ser que tenha pressão alta na gravidez./ Essa doença pode ser muito grave./ Pode morrer tu ou teu bebê./ Vá logo a clínica./ As companheiras promotoras de saúde vão te revisar e te dar tratamento se é muito grave./ TÉC AUMENTA BG 9”’ LOCUTORA5: (tradução em tsotsil e tsetal) TÉC AUMENTA BG 18”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 60”’ E PÕE EM BG 1’20”20”’ LOCUTORA1: Bem companheiros e companheiras, acabamos de escutar as músicas revolucionárias de Chiapas./ Agora são 10 horas e 8 minutos na Frente de Combate Sul Oriental./ Agora vamos seguir com a programação das músicas revolucionárias internacionais./ Oxalá que continue na escuta./ TÉC AUMENTA BG 4”’ LOCUTORA1: Vamos escutar a canção a música que se chama Juan sem terra./ Oxalá que goste da música que vamos tocar./ Vamos escutar mensagens e músicas./ Voltamos em alguns momentos./ TÉC AUMENTA BG 3”’ LOCUTORA1: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA BALADA LENTA -1”24”15”’ – 1’27”38”’ PAUSA TÉC TOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO EM MÚSICA MÉDIA INSTRUMENTAL 1’27”42”’ – 1’28”52”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA BALADA MÉDIA 1’28” 56” – 1’32”38”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA ROCK 1’32”46”’ – 1’34”56”’ TÉC COLOCA TRILHA INSTRUMENTAL 9”’ E PÕE EM BG 1’34”58”’ – 1’36”12”’ LOCUTORA: Dizemos aos companheiros homens, principalmente, que colocam as mulheres para fazer algum trabalho na luta./ Todos devemos participar, autoridades, povo, jovens, crianças e anciãos./ Unidos todos em um grande coletivo de ideias e pensamentos./ Devemos trocar com as mulheres nossas atividades porque só assim reconhecemos a importância de todas as atividades./ Esse é um exemplo para os demais e nossos filhos./ TÉC AUMENTA BG 13” PAUSA 266 TÉC COLOCA MÚSICA DANÇANTE CUMBIA (Ese es el perro saltitate...) 1’36”15”’ – 1’39”27”’ TÉC COLOCA MÚSICA DANÇANTE 1’39”39”’ – 1’45”12”’ (saindo do monte para conquistar a cidade... ternura com dignidade... Exército Zapatista de Libertação Nacional). TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 72”’E PÕE EM BG 1’45”13”’ - LOCUTORA: Bem companheiros e companheiras, temos escutado canções revolucionárias internacionais./ Acabamos de escutar a música Um mundo em muitos mundos./ É uma música revolucionária da Espanha./ Pois eles têm também essa música também./ Oxalá que goste desta canção e das outras músicas que temos escutados./ E vamos seguir escutando as músicas revolucionárias./ A próxima é o trem das nuvens./ TÉC AUMENTA BG LOCUTORA: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA DANÇANTE 1’48”50”’ – 1’52”45”’ PAUSA TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO LENTA 1’52”56”’ – 1’53”52” TÉC TOCA MÚSICA DANÇANTE MÉDIA CUMBIA 1’53”53”’ – 1’57”12”’ (esses filhos de putas já vão a pagar...) PAUSA 8”’ LOCUTOR: Boa noite companheiros e companheiras, vou apresentar um bonito poema, se intitula a juventude presente./ Desperta juventude./ Somos o futuro do povo./ Levanta tua mirada porque o teu direito é tua batalha./ Nosso povo está morrendo,/ nossa natureza estão destruindo,/ Não haverá mais pátria para nós,/ se não a defendemos./ Jovens rebeldes, dignos lutadores,/ unamos nossas forças, nossa agressividade para a acabar com os exploradores./ Juntemos nossas raiva/ para vencer o inimigo de nosso povo./ Defendemos com fuzis, manchepes e baionetes,/ se necessário,/ para morrer com elas se é preciso./ Obrigado, companheiros e companheiros!/ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA DANÇANTE CUMBIA 1’58”20” – 2’01”20”’(Marimba zapatista) TÉC COLOCA MÚSICA ROCK 2’01”22”’ – 2’05”38”’ (tem levado o país a miséria...) PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA MÉDIA 2’05”42”’ – 2’09”48”’ (Argentina é teu lugar, é teu país... nascestes e crestes aqui há razão para marchar) PAUSA TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO LENTA 2’10”16”’ – 2’11”11”’ LOCUTORA: Bom companheiros e companheiras, temos escutado músicas internacionais revolucionárias./ A música que escutamos foi Feito em Argentina./ Chegamos ao final de nossa programação./ Oxalá que tenha bons trabalhos nesse dia./ Deixamos com a canção Só peço a Deus./ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA LOCUTORA: (tradução em tsotsil). TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA MÉDIA 2’13”51”’ – 2’18”21”’ (só peço a Deus que o futuro seja diferente... viver numa cultura diferente.…). _____________________________________________________________________________ Rádio Rebelde 19/7/13 TÉC COLOCA MÚSICA BALADA LENTA (Companheiros milicianos e também bases de apoio lhes pedimos um pouco mais de resistência. Não se deixem ganhar. O governo mentiroso...) 0”00 – 4”28”’ TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 32”’ E PÕE EM BG 4”30”’ LOCUTOR: Escutamos canções que foram ao povo de luta. Também escutamos esses temas que foram importantes para todos e todas jovens. Onde que estejam escutando essa programação. Oxalá que essas práticas sejam muito importantes para vocês. Muitos não querem entender essas mensagens e temas. 267 Se não mudar, as coisas vão piorando. Escutamos então e aqui vamos continuar com a programação revolucionária de Chiapas. Antes mandamos uma saudação para os municípios de Las Rosas em suas diferentes comunidades. Muitas saudações e a todos e todas. Seguimos adiante em suas áreas e sabemos onde queremos chegar em nossa luta ao sistema. Uma saudação para as mulheres que não são zapatistas. Não são zapatistas porque não conhecem o zapatismo. Não importa se você é PRIsta ou PANista são as muitas formas de exploração do Governo. O governo nos xinga de muitas formas pedindo dinheiros a outros países para presentear umas coisinhas aqui em Chiapas. O Governo com pouco de dinheiro quer apagar os zapatistas, mas não vai poder porque sabemos de nossa luta aqui em Chiapas e em diferentes países. Vamos escutar duas canções uma sobre o direito das mulheres, Cumbia das Zapatistas e depois vamos escutar a canção Geração de Dignidade e a outra a Minhas Irmãs. Em alguns minutos regresso. Agora são 21 horas com 14 minutos hora da frente de combate sul oriental. TÉC AUMENTA BG 3”’ LOCUTOR: (Tradução em tsotsil) TÉC AUMENTA BG 3” TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 15”14”’ – 20”59”’ PAUSA TÉC COLOCA VINHETA 21”08”’ – 22”17”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 22”22”’ INTRODUÇÃO CANTORA: Bom companheiro e companheira, vamos cantar essa canção que se dedica as mulheres. FINALIZAÇÃO CANTORA: O empoderamento das mulheres só se vê nos rádios e televisões, inclusive em estereótipos. Não se vê uma organização coletiva em colônias, cidades, onde possam se encontrar, discutir e reivindicar seus direitos e sobretudo decidir que sociedade queremos. Nada vai acabar no sistema capitalista. Nós zapatistas estamos praticando e lutando contra o sistema capitalista para que todas as mulheres possam exercer seus direitos. TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 25”12”’ – 27”52”’ FINALIZAÇÃO CANTORA: O empoderamento da mulher é o pensamento de quanto sabemos. Algumas mulheres falam no rádio e na televisão, mas não dizem seus próprios pensamentos. São pagas pelo mau governo para fazer anúncios com palavras adornadas para fazer grande a imagem dos maus governantes capitalistas. TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 27”54”’ – 33”54”’ TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL EM BG LOCUTOR: Bem escutamos essa canção Geração Dignificada. Vamos seguir escutando mais músicas. Nos falta apenas 23 minutos de programação. Uma boa noite para o município Supecananco e Oventic. Um alô a todos os trabalhados das fábricas que produzem açucar. Uma saudação para as comunidades. Vou mandar a canção Carabine 33 e um Novo Amanhecer. TÉC AUMENTA BG 2”’ LOCUTOR: (tradução em tsotsil) PAUSA 4”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 37”27”’ – 42”07”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (Sou da milícia zapatista. Sou um soldado libertador...) 42”12”’ – 46”15”’ PAUSA TÉC COLOCA MENSAGEM DRAMATIZADA 46”26”’ M: Estou terminando de lavar a roupa. H: Traga logo minha comida. 268 M: Aqui está. H: O que esteve fazendo o dia inteiro? M: Estava arrumando a cozinha e estive na reunião do coletivo de mulheres. H: Por que sai quando não estou em casa? F: Boa tarde papai. Boa tarde mamãe. Por que estão brigando? Aprendi na escola que as mulheres têm sempre direito de participar. H: E quem disse isso? F: Minha educadora. Disse que as mulheres têm os mesmos direitos. TÉC COLOCA BATIDA NA PORTA H: Entre! F: Papai e mamãe estão sempre brigando. H2: Sabia que na lei revolucionária estão garantidos os direitos dos homens e mulheres? H: Não sabia disso, meu cunhado. Vou tratar de mudar meu comportamento. H2: Já vou. H: Desculpe minha velha. TÉC COLOCA MÚSICA 4”’ E PÕE EM BG LOC: As mulheres têm todos os direitos e obrigações que ensinam as leis revolucionárias. TÉC AUMENTA BG 10”’ PAUSA 7”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (Escutem companheiros vou lhes contar um ocorrido em novembro de 86, chegaram companheiros na Serra de Chiapas para lutar por toda a nação...) 49”31”’ – 53”42”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 53”43”’ – 58”05”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA EM BG 58”12”’ LOC: Escutamos essas músicas, várias mensagens. Nos vemos amanhã se Deus nos permite. Nos vemos amanhã. LOC: (tradução em tsotsil). TÉC COLOCA HINO ZAPATISTA 1’00”13”’ – 1’04”30”’ ______________________________________________________________________ Rádio Rebelde 20/7/13 TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (sobre educação) TÉC COLOCA VINHETA DE PASSAGEM (Téc efeito inorgânico./ LOC: Está escutando 107,1. A mãe FM de seu rádio./ Téc efeito sample. Téc efeito inorgânico) 25”’ – 45”’ TÉC COLOCA MÚSICA (gravação inaudível 49” – 27”49”’) TÉC TOCA MÚSICA TRADICIONAL INDÍGENA 27”49”’ – 28”47”’ PAUSA 9”’ TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL CARACTERÍSTICA 60” E PÕE EM BG 28”48”’ LOCUTOR: Escutamos as músicas tradicionais Baile de (...), antes passou Baile de San Varsola. Vamos seguir escutando mais nesta manhã. Teremos outras diferentes músicas tradicionais. Estamos sete e trinta e dois. TÉC AUMENTA BG 3”’ LOC: (tradução em tsotsil) 269 PAUSA 5” TÉC TOCA MÚSICA TRADICIONAL 32”00 – 36”58”’ TÉC TOCA MENSAGEM EM LÍNGUA INDÍGENA 37”00”’ – 38”00”’ TÉC TOCA MÚSICA TRADICIONAL 38”02”’ – 43”37” PAUSA 10”’ TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL 43”47”’ – 47”12”’ PAUSA 18” TÉC COLOCA MENSAGEM DRAMATIZADA EM TSOTSIL E ESPANHOL 47”33”’ – 50”40”’ SOBRE O DIREITO INDÍGENA AO ATENDIMENTO À SAÚDE PAUSA 7” TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL 50”47”’ – 52”42”’ PAUSA 15”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 19”’ E PÕE EM BG 52”57”’ LOCUTOR: Escutamos Bailes tradicionais nesta manhã, escutamos também mensagem. Vamos mudar de programação porque estamos às 8 com dois minutos, hora de frente de combate sul-oriental. O que passa para agora é que vamos programar mais músicas para vocês. Para escutar outras canções. Mando saudações para todos e todos. Hoje estamos em 20 de julho. Vamos escutar então músicas revolucionárias TÉC AUMENTA BG 3”’ LOCUTOR: (tradução em tsotsil) TÉC AUMENTA BG 3”’ TÉC COLOCA MÚSICA ROMÂNTICA TROVA 56”02”’ TÉC COLOCA MÚSICA DE ANIVERSÁRIO TROVA 58”53”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 20”’ E PÕE EM BG 1’02”01”’ LOCUTOR: Com estas mañanitas para todos e todos, aqui vamos seguir com a programação. Vamos escutar uma estória. Todos os sábados escutamos estórias. Vamos escutar a estória que se chama TÉC AUMENTA BG 8”’ LOCUTOR: Uma estória de Madalena da Paz. TÉC AUMENTA BG LOCUTOR: (tradução em língua originária) TÉC COLOCA ESTÓRIA EM LÍNGUA ORIGINÁRIA 01’04”37”’ – 01”14”44”’ (A dignidade da terra da Rádio Insurgente). TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL 01”14”45”’ – 01’18”49”’ TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO 01’18”50”’ – 1’19”30”’ TÉC COLOCA ESTÓRIA EM LÍNGUA ORIGINÁRIA 1’19”31”’ – 1’36”17”’ TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO 1’36”36”’ TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL 1’36”37”’ – 1’40”33”’ PAUSA 10”’ TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL 1’40”43”’ – 1’43”13”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARATERÍSTICA 39” E PÕE EM BG 1’43”13 LOCUTOR: Escutamos músicas tradicionais e essas estórias que é do município autônomo Madalena da Paz. Seguramente os que falam castelhano não escutaram porque falam em outro idioma. Em seguida, vamos começar a programação de revolucionárias. Nos faltam poucos minutos para começarmos essa programação. Agora faltam sete minutos para as oito horas na frente de combate sul-oriental. Fiquemos com a música O Horizonte. TÉC AUMENTA BG 3’’ LOCUTOR: (tradução para língua originária) TÉC AUMENTA BG 3” 270 TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 1’47”13” – 1’53”09”’ TÉC COLOCA VINHETA (Não morrerá a flor da palavra. Deverá morrer a voz de quem fala. A palavra que vive como forma de história da terra, já não poderá ser arrancada pela soberba do poder) 1’53”10”’ - 1’53”37”’ PAUSA 8”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 1’53”45”’ – 1’58”54”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 25”’ E BAIXA 1’58”57”’ LOC: Escutamos a música Corrido dos sete companheiros e antes músicas tradicionais. São oito horas com nove minutos na frente de combate sul-oriental. Agora vamos escutar a música La Sexta que oferecemos para o EZLN, depois vamos escutar a mensagem da Junta de Bom Governo e depois vamos escutar a canção Combatente Alegre. Vamos escutar então. Em seguida regresso. TÉC AUMENTA BG 3”’ LOC: (tradução em língua originária) TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA ‘LA SEXTA’ 2’01”44 – 2’10”37 PAUSA 5”’ TÉC COLOCA MÚSICA 3”’ E PÕE EM BG 2’10”42”’ LOCUTORA: Companheiros e companheiras das diferentes comunidades, paradas, ejidos, municípios autônomos, oficiais e cidades, assim como campesinos, trabalhadores, professores, estudantes, motoristas, profissionais e a todos que pertencem a essa zona Altos de Chiapas, México. Antes de começar essa conversa, recebe nossas saudações combativos e revolucionários da parte da Junta de Bom Governo, desejando que estejam bem de saúde e de seus trabalhos, porque sabemos que, muito bem, nessa zona somos a maioria os que trabalha no campo. Estamos aqui com vocês, irmãs e irmãos, neste estúdio de rádio comunitária é para dar a conhecer ou entender nossa palavra e dar informações das juntas de Bom Governo para que escute o que faz o Bom Governo e o que já fez nesses seis anos. Esperamos que entenda a palavra de onde chega o sinal e a transmissão das rádios comunitárias do Povo em Resistência e Rádio Rebelde, a voz da mãe terra. Primeiro, a formação dos setes municípios autônomos que são os seguintes: San Juan de La Liberdad, San Andrés de ..., San Pedro Polhó, San Juan Apóstolo Cancun, Santa Catarina, Madalena de La Paz, Vicente Ferreiro. Assim trabalham alguns anos e vimos que não estava bem, por isso os povos acordaram e concordaram que a Junta de Bom Governo que controle os municípios. Segundo, os dias 8 e 9 de agosto de 2013, é o desaparecimento das Águascalientes porque antes era um centro importante do zapatismo se chamava Águascalientes, mas nesta data não são chamados e se fez a mudança e são chamados Caracóis. É quando se formou as Juntas de Bom Governo dos cinco caracóis. Terceiro, esse nome de Caracol tomamos como símbolo porque caracóis caminham devagar, mas seus passos são seguros. Sua casinha é resistente, aguenta a chuva, o calor, o frio e outras coisas que acontecem. Sua boca é uma botina para fazer e escutar sua palavra e portas para entrar e sair todos os irmãos e irmãs dos diferentes países do México e do mundo. Quarto, companheiros e companheiras, estas autoridades da Junta de Bom Governo não são só dos zapatistas, mas para todos e todas sem distinção de raça, organização, partidos políticos, ideologias e recebem de braços abertos a todos que desejam acudir esse humilde escritório com toda satisfação lhes recebemos com coração aberto para escutar-lhes na sede de Oventic, município autônomo zapatistas, San Andrés de Los Pobres. Quinto, também sabemos que muitos e muitas irmãos e irmãs, se pergunta porque que se chamaram de Bom Governo, pois não há nada nesse mundo bom. É certo, não somos bons, somos gente como vocês, como homens e mulheres humanos. A diferença é a execução da justiça. O bom governo não negocia nem troca por dinheiro a justiça. Unicamente usa a razão e verdade. Já os maus governos trocam a justiça por dinheiro. Essa é a diferença do bom e do mal. Sexto, o bom governo controla todas as áreas de trabalhos que temos nesta zona, como por exemplo, a saúde, a educação, a comunicação, a agroecologia, as cooperativas, os municípios autônomos. As Juntas de Bom Governo tem a obrigação de acompanhar, coordenar, apoiar, proteger cada um dos trabalhos de acordo aos usos e 271 costumes de cada povo, municípios autônomos pertencentes a essa zona. Sétimo, todas essas áreas mencionadas são algumas das demandas dadas a conhecer a toda a nação e como aos maus governos pela prática de San Andrés dos acordos que foram firmados em 23 de fevereiro de 1996, sobretudo, sabemos que no Congresso da União foi rechaçado pelos partidos políticos, independente do partido, todos são um engano para nós pobre. Eles mesmos já demonstraram publicamente ante o povo do México e do mundo, o rechaço total das demandas indígenas, assim como estão nos prejudicando desde 500 anos da conquista dos espanhóis. Sempre temos estado no esquecimento, no rechaço, na descriminação, por essa razão o povo decidiu fazer seu próprio direito e fazer sua própria autonomia sem depender do mau governo. Por essa razão durante esses seis anos, a Junta do Bom Governo tem resolvido muitos problemas como agrários, políticos, sociais e culturais juntamente com outras autoridades oficiais quando há respeito entre ambas as autoridades. Educação já contamos com nossa própria educação autônoma, com nossos próprios programas educativos, tomando em conta a necessidade de cada povo ou região porque os programas educativos do mau governo não nos tem tomado em conta. Esses estão com ideias neoliberais para que sofra e vamos desaparecendo como povo indígena esquecendo nossa cultura, língua e nossa raça. Como fizeram com nossa mais de duzentas línguas indígenas e agora só temos 172. Por isso, irmão e irmãs, vimos que é hora de começar nossa própria educação com nossos próprios programas educativos tomando em conta cada programa de cada povo ou região, por isso é muito importante ou é hora de tomar em nossas mãos a educação para que possamos resgatar na educação imposta pelos ricos. Por essa razão o povo se preparou com seus próprios promotores de educação filho e filhas das bases de apoio zapatista e o mesmo povo nos mantêm promotores e promotoras porque nesse trabalho não recebem nada em troca. A saúde é um tema principal para nós povos indígenas já que o mau governo nunca se preocupou pela saúde dos povos indígenas por isso seguimos sentindo a morte em doenças curáveis, por isso o povo se preparou para a outra saúde onde ficamos, todos sem distinção de raça, ideologias, partidos políticos, nem cor, por isso o povo decidiu construir sua própria clínica e microclínica que estão nos diferentes municípios e regiões desta zona Altos. Do mesmo jeito preparam os filhos e filhas das bases para que eles atendam os pacientes das diferentes clínicas e microclínicas. Hoje assim está promovendo a agroecologia como uma área importante para que coloquemos as consequências que nos recai pelo uso dos clínicos e a importância de seguir conservando e cuidando de nossa mãe terra. Por isso, irmãos e irmãs, é nossa obrigação entender já que estes produtos clínicos são inventados pelos ricos e seguem inventando mais coisas como as sementes transgênicas. Essas sementes no ano seguinte já não podem nascer, temos de comprar de novos e assim pouco a pouco vão desaparecendo nossas sementes nativas. Por isso, como povos indígenas temos que nos preparar nós mesmos, preparar nosso adubo orgânico para conservar nossa mãe terra. Sétimo, meios de comunicação também já contamos com nossos próprios meios de comunicação autônomos porque bem sabemos que com a comunicação do mau governo não estamos tomando em conta como povos indígenas. Assim que esse povo em luta já conta com seus próprios meios sem pedir permissão ao mau governo para que o povo escute realmente as informações verdadeiras do que acontece nos povos indígenas, municípios e cidades. Oitavo, irmãos e irmãs as Juntas de Bom Governo não manejam projetos. Unicamente manejam as doações que nos dão os companheiros e companheiras dos diferentes países do mundo. Solidários desta luta, sabem bem que os povos indígenas em luta estão em resistência. Mas não pedimos nem solicitamos, eles e elas queiram. Assim podemos fazer qualquer trabalho quando estamos conscientes, porque assim trabalhavam anteriormente os antepassados porque o derramamento de recursos e projetos que estão dando o mau governo não era assim. Sabemos bem quando começou e porque começou. Porque não era assim. Antes de tudo esses programas como, por exemplo, Costadle, Vivenda digna, Piso no campo, oportunidades, apoios aos anciões, dispensa aos alunos, merenda escolar, entre outras e etc. Com todas nossas palavras, esperamos que tenha escutado e obrigada! TÉC COLOCA MÚSICA 3”’ (“a junta de Bom Governo...”) 272 PAUSA 4”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA BALADA 2’27”25”’ (Venho contar os combates, um soldado muito valente...) TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 2’31”21”’ PAUSA 4”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA E PÕE EM BG 2’35”54”’ LOC: Bom dia escutamos música revolucionária “A niño guerrillero”. / Escutamos também a mensagem./ Seguimos com a programação dessa manhã./ Vamos escutar se chama TÉC AUEMNTA BG 4”’ LOC: Chama nosso “Panteón no se vende” e a outra canção... TÉC AUMENTA BG 3”’ LOC: Ao comitê grego./ Vão cantar o grupo... de Cancões Zapatista./ No meio das canções temos uma pequena mensagem sobre educação./ Vamos escutar e daqui a pouco regresso./ TÉC AUMENTA BG 4” LOC: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA BALADA 2’39”07”’ PAUSA 3”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA BAILANTE COM GAITA 2’47”46”’ PAUSA 5”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 35”’ E PÕE EM BG 2’51”40”’ LOC: Escutamos estas canções e não vamos esquecê-las. Agora são 10 e trinta hora da frente de combate sul-oriental. Vamos escutar agora Área de trabalho e depois a mensagem nossa educação em espanhol e tsotsil./ LOC: (Tradução em língua indígena) TÉC COLOCA MÚSICA BALADA 2’53”56”’ PAUSA 5”’ TÉC COLOCA MENSAGEM 2’57”29”’ (TÉC COLOCA MÚSICA 40”’ LOC1: A Escola./ A palavra Escola para nós indígena ou não indígena, pobres que não sabemos ler e escrever./ Também os que sabem ler e escrever./ Escola para todos os salões onde chegam as crianças, ou seja, para nossos filhos e filhas./ Isso é para nós a Escola e todos os dias de nossa vida sentimos o que é a escola./ Sentimos as crianças./ Isso é o que se sente sempre, mas sem saber realmente quem é de verdade a escola./ Escola somos nós, crianças que vão receber aulas num lugar construído por nós, seja de madeira ou concreto./ Ou seja, podemos dizer lugar onde recebemos um ensino./ A isso temos confundido com escola./ Por exemplo, se vamos a um templo lhe dizemos Igreja equivocadamente a um edifício construído pelo ser humano./ Mas a verdadeira Igreja somos todos e isso é a verdade./ Então é igual para a Escola./ São todos as crianças e educadores que formam a escola porque todos são seres humanos que pensam o que vão aprender nesses edifícios construídos por nós mesmos, a qual devemos dar aulas aos alunos./ Por isso companheiros e companheiras, irmão e irmãs, que estão nos escutamos./ É bom saber o significado da palavra para que não vamos confundir e pensemos que escola é ter bons salões, quadras de basquetebol e futebol./ O que vão aprender nossos filhos e filhas é o que vão fazer a despertar e conheçam nosso sofrimento como povo./ Então para que ter bons salões se somente nos servem para proteger da chuva, frio, calor e vento?/ Porém não é o que nos ensinam e nos educam, mesmo que vão quere-la quando tenha possibilidade./ Mas devemos ter claro que não são os tetos e as paredes que nos educam, nem o que chega ao estômago quando temos fome./ Não são os salões que nos tiram das injustiças, da marginalização, humilhação, exploração, porém o contrário./ Só há servido para que digam os maus governantes que estão melhorando a educação, fazendo-nos crer que já deram muito dinheiro para a educação e por isso já melhorou nossa situação e que todos somos 273 iguais./ Companheiros e companheiras, irmãos e irmãs, de todos os povos, de todas as regiões, é importante não confundir a palavra escola com construção./ Esperamos que essa explicação tenha entendido o significado da palavra escola./ TÉC COLOCA MÚSICA 10”’ LOC1: (tradução tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA 40”) TÉC COLOCA MÚSICA SOBRE EDUCAÇÃO 3’08”58”’ TÉC COLOCA MENSAGEM DO EZLN SOBRE EDUCAÇÃO (TÉC COLOCA MÚSICA 25” E PÕE EM BG 3’11”40” LOC3: Mensagem sobre a educação autônoma./ Companheiros e companheiras radiouvintes/ das diferentes estações das rádios comunitárias, vamos explicar um pouco sobre a importância da educação autônoma que já existe em algumas de nossas comunidades./ Nossa educação que estamos construindo com todos e todas é muito importante para desenvolver nossa autonomia nas diferentes áreas de trabalhos comunitária na saúde, agroecologia, meios de comunicação, em formação de municípios autônomos e na tomada de consciência de nossos povos, sobretudo, de nossas crianças e jovens./ A educação de nosso povo é fundamental para entender nossa história e a situação que estamos vivendo como povos originários dessas terras e aqui uma educação baseada em nossa realidade, nosso povo não poderá entender a luta que estamos levando a cabo./ Nós os povos originários dessas terras temos parecidos diferentes em tratamentos e exclusão há mais de 500 anos,/ parte da minoria exploradora se encontra no colégio./ As quais nos estão imposto um modelo de educação que não responde aos interesses de nossos povos./ Portanto vemos que o modelo de educação que existe em nossos povos atualmente não está servindo para a formação de nossas crianças e jovens para tomar consciência da realidade que vivemos ./ Ademais não orienta a juventude no amor ao povo e a serviço dos demais./ Nem muito menos existe educação para tomar consciência de nossos direitos./ A razão é clara é fundamental./ Como temos dito, a educação do mau governo só há servido para manter e fortalecer o capitalismo e como é sabido a função principal desse modelo de educação é ser o braço direito do capitalismo explorador da humanidade assim como da natureza./ Por isso, companheiros e companheiras, não nos deixemos enganar com a falsa propaganda do mau governo que nos quer fazer crer que há avanço na educação quando constrói salas, cantinas, dar bolsas para os alunos dos diferentes níveis, quando dar de comer a crianças, alimentos velhos que os chama de merenda escolar ou quando dividem para os alunos canetas, cadernos e borrachas, o qual só há servido para os interesses do mau governo para justificar seus planos e programas e seus milionários gastos que diz que é para a educação, enquanto isso por outro lado, dezenas de milhares de irmãos e irmãs professores reclamam seus direitos para um salário justo ou um programa de educação para seus alunos./ Ademais, sabemos perfeitamente, que isso é só uma estratégia para enganar nossos povos dizendo que tem aula a cada três horas quando sabemos que a verdadeira educação não é só ter um monte de aula nem muito menos pedir./ Ademais o mau governo está investindo recursos do povo quando faz este tipo de propaganda só para nos manter no engano./ Companheiros e companheiras, tudo isso que se disse não é o que necessita nossos povos, a infraestrutura educativa que quere dizer a construção de classes, cantinas e outros espaços não é o que dar conhecimento para entender nossa realidade e nem porque nos pregam que há avanços e povos seguiram a ignorância como forma de vida que nos impõe o capitalismo e a miséria./) TÉC COLOCA MÚSICA DO EZLN SOBRE A EDUCAÇÃO 3’17”26”’ PAUSA 5”’ TÉC COLOCA MENSAGEM DE CRIANÇA CRIANÇA: Venha junto participar de uma vigília pela da liberdade./ Liberdade querer ser um pela vida./ Querer um paladim da justiça e pela liberdade./ Defender com as armas pelo direito./ Nos juntemos 274 também por um algo especial./ Não quero uma vida de prazer e de luxo./ Quero ver essa vida mudar./ Quero um tempo ao direito pelos homens e mulheres que lutam pela paz e liberdade... TÉC COLOCA MENSAGEM DO EZLN SOBRE A EDUCAÇÃO EM TSOTSIL 3’19”45”’ PAUSA 4”’ TÉC COLOCA CUMBIA SOBRE OS CARACÓIS 3’27”43”’ PAUSA 6” TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIDADE EM ESTILO CLÁSSICO 3’31”04 TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA CUMBIA (POR ISSO JÁ COMEÇOU E NADA VAI PARAR) 3”32”26”’ PAUSA 7”’ LOC4: Uma indignação./ Senhor Secal suas palavras parecem ser de desenvolvimento, mas tão só como um rolo que é./ Felipe Calderón.../ TÉC COLOCA MÚSICA 3’37”57”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 20”’ E TIRA 3’41”02”’ LOC: Escutamos essas canções Não basta rezar./ Escutamos também estes temas que foi a rede de trabalho./ Escutamos para todos e todas./ Seguimos com nossas canções nesta manhã./ Vamos escutar essa canção que temos programado, se chama a esperança do subcomandante Pedro e subcomandante Pedro outra canção e se der tempo escutaremos A morte do subcomandante Ramon./ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 2”’ LOC: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 10”’ PAUSA 4”’ TÉC COLOCA MÚSICA 3’43”30”’ PAUSA 7”’ TÉC COLOCA MÚSICA 3’46”39”’ PAUSA 3’” TÉC COLOCA MÚSICA 3’49”33”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 15”’ E TIRA 3’52”56”’ LOC: Bem escutamos a última canção./ Não temos mais tempo para escutar mais canções porque a hora terminou estamos às 11 com um minuto, hora de frente de combate sul-oriental./ Obrigado por sintonizar-nos nesta manhã com nossa programação com canções, temas de educação, mensagens que programei nesta manhã, um bom trabalho e muitas saúde para vocês onde que se encontre em seus trabalhos em diferentes áreas, estamos em sábado./ Então nos encontramos novamente pela tarde./ TÉC AUMENTA BG 3”’ LOC: (tradução em tsotsil) TÉC AUMENTA MÚSICA CARACTERÍSTICA 20”’ TÉC ENCERRA 3’55”35”’ _____________________________________________________________________________ Rádio Rebelde 22/7/13 TEC COLOCA MÚSICA TROVA REVOLUCIONÁRIA 0”00”’ – 4”45”’ TÉC COLOCA MÚSICA BALADA INSTRUMENTAL 44”’ E BAIXA 4”46”’ LOCUTOR: Companheiros e companheiras, irmão e irmãs, muitos bons dias estou novamente com vocês nesta manhã. Estamos numa segunda, 22 de julho do ano de 2013. TÉC AUMENTA BG 4”’ E BAIXA LOC: Pois aqui estamos no início da programação da 107.1 FM. Nesta manhã, estamos para que este programa de músicas revolucionárias e escutamos a primeira canção. Seguimos com todo gosto esta programação com muitas saudações a todos e todas. Já estão despertos. Já saíram ao trabalho, muita 275 saúde para todos então. (...) E temos músicas para todos vocês. Esta se chama Lutadores a meu povo. Este grupo se chama (...) Vamos escutar estas três canções. Em seguida, volto. Estamos às 7 com 3 minutos em frente de combate sul oriental. TÉC AUMENTA BG 4”’ LOC: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA TROVA REVOLUCIONÁRIA 8”22”’ – 12”41”’ TÉC COLOCA MENSAGEM GRAVADA (LOC: Se não sabe, nos pergunta. Se sabe, ensina dignidade./ LOCUTORA: A montanha é um lugar com muita riqueza, por isso querem nos tirar os maus governos para entrega-las para os grandes ricos estrangeiros, recebendo muito dinheiro./ Essa é a terra que nos pertence é muito linda, por isso não vamos deixar que nos tirem./ Defenderemos custe o que custe./ (...) Por isso, junte-se./ Converse com seus vizinhos e digam quando desalojaram de teu povo./ Veja que os querem voltar são os mesmos que nos tiraram./ TÉC COLOCA MÚSICA TROVA REVOLUCIONÁRIA 13”38”’ – 17”29”’ TÉC COLOCA MÚSICA TROVA REVOLUCIONÁRIA 17”30”’ – 20”32”’ TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 15”’ E PÕE EM BG 20”33”’ LOC: Estas canções (...) seguimos escutaremos canções que se chama Corrido de Companheiro e outra Sou Insurgente e outra Insurgente de Oaxaca. Vamos escutar quatro canções e uma pequena mensagem. TÉC AUMENTA BG 4”’ LOC: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 22”18”’ – 26”20”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOULICIONÁRIA 26”25”’ – 30”44”’ TÉC COLOCA MENSAGEM GRAVADA (LOCUTOR4: Uma indignação./ Senhor Fecal, tuas palavras parecem ser de desenvolvimento, mas são tão só como um rolo tens./ LOCUTORA5: Felipe Calderón) TÉC COLOCA MÚSICA TROVA REVOLUCIONÁRIA DE OAXACA 31”07”’ – 34”34” TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 34”40”’ – 38”19”’ TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 27”’ E COLOCA EM BG 38”20”’ LOC: Escutamos essas canções Oaxaca Gritou, o grande problema que teve em Oaxaca. Vamos escutar mais músicas então, antes de fique nossa programação rapidamente: A Aurora de Dux, Retorno ao Federal e A autonomia e a Sexta. Vamos escutar Dois Ventos e outro grupo Canção Revolucionária. Escutaremos então e regresso com mais músicas. TÉC SOBE BG 5”’ TÉC COLOCA MÚSICA TROVA REVOLUCIONÁRIA 39”31”’ – 47”17 TÉC COLOCA MÚSICA BALADA REVOLUCIONÁIRA 47”22”’ – 51”24”’ TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 15”’ E PÕE EM BG 51”24” LOC: Escutamos a última canção A Autonomia. Escutamos várias canções revolucionárias de Chiapas, pois agora vamos mudar a programação. Estamos 7 e 52 minutos frente de combate sul oriental. Começarei rapidamente com Duas manhazinhas porque o tempo vai passando. TÉC AUMENTA BG 4”’ LOC: (tradução e alôs em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA ROMÂNTICA 53”34”’ – 56”02”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIARANCHEIRA 56”04”’ – 59”57”’ TÉC COLOCA INSTRUMENTAL 1”’ E BAIXA 1’03”’ LOC: Compadrezinho e compadrezinha, com esta canção para todos, vamos continuar com nossa programação com o Novo Plano de Governo. Convido para escutar então. LOC: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MENSAGEM REVOLUCIONÁRIA (sobre por quê somos pobres) 1’01”13”’ – 2’09”35”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 2’09”45”’ 276 LOC: Escutamos esse tema de conversa política. Agora vamos retornar com nossa programação porque estamos às 9 e oito minutos, hora da frente de combate sul-oriental. Vamos escutar tradicionais que já tínhamos programados. Essas são músicas de arpa do município de San Cristobal e tradicional de Chamula. Vamos escutar então. Em seguida, regresso. TÉC AUMENTA BG 3” LOC: (tradução em tsotsil) TÉC AUMENTA BG 4” PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL INSTRUMENTAL EM ARPA 2’12”05”’ – 2”15”59”’ TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL INSTRUMENTAL EM ARPA 2’16”00”’ – 2”25”30”’ TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO EM ROCK 2’25”31”’ – 2’26”42”’ TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL DE ARPA COM PERCUSSÃO INDÍGENA 2’26”45”’ – 2”35”08”’ TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 40” 2’35”11”’ LOC: Escutamos essa tradicional de Baile de Santo Antônio. Escutamos também as músicas de arpa. Segamos escutando tradicionais neste quinze minutos que nos restam de San Pedro de Polhó. Em seguida regresso para seguir com essas tradições e tradicionais. Vamos escutar então. TÉC COLOCA BG 3”’ LOC: (tradução em língua indígena) TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL INDÍGENA 2’37”53”’ – 2’45”06”’ (explicação em língua indígena no final de quase três minutos) TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL INDÍGENA 2’45”07”’ – 2’52”11”’ (discurso antes sobre a música religiosa e a proteção de São Tomás aos Abejas) TÉC COLOCA MÚSICA CARACTERÍSTICA 2’52”13”’ LOC: Escutamos a última música tradicional que foi o Baile de São Tomaz. Vamos mudar nossa programação com canções revolucionárias de Chiapas. E esta já começou porque estamos às 10 com um minutos, hora da frente de combate sul-oriental. Antes vamos escutar uma pequena mensagem que não levará muitos minutos. Vamos escutar em espanhol e tsotsil que é sobre a saúde. Vamos escutar em seguida regresso. LOC: (tradução em língua indígena) TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA BALADA (Porque já começou e nada vai parar) 2’53”59”’ – 2’57”39”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA 60” E PÕE EM BG 2’57”45”’ LOCUTORA: Companheiros e companheiras, irmãos e irmãs, de diferentes municípios que sintonizam as rádios comunitárias, nós os promotores e promotoras tem o gosto de convidar-lhes que nos escutem as mensagens fundamentais do programa de saúde comunitária que todos queremos. Para nós que é possível, conseguir, construir, o que chamamos a Outra Saúde. Já que é a única alternativa para conseguir essa mudança que queremos. Somente entendendo o objetivo principal. E estamos lutando por uma saúde. Para nós os promotores e promotoras de saúde queremos explicar-lhes que é muito importante que o próprio comece a organizar-se e desenvolver algumas atividades em forma coletiva que estão enfocadas mais a necessidade do povo marginalizado e explorado, etc. Esses trabalhos são indispensáveis para uma vida melhor que se pode realizar com sua própria forma e esforço em luta. Quer dizer trabalho em autonomia. Mensagem para rádio comunitária: Irmãos e irmãs, companheiros e companheiros, nós como promotores e promotoras de saúde queremos explicar-lhes algumas coisas muito interessante, sobretudo, como povos legítimos e descendentes de uma cultura dos maias e outras mais. É necessário que nós como povos originários dessas terras que agora nos chamam indígenas. Lembremos um pouco como eram a vida dos nossos antepassados. Nossos antepassados como os maias, os olmecas, os otomias e outras mais tinham uma vida mais equilibrada. Quer dizer que os homens e 277 mulheres tinham uma relação e respeito com o meio ambiente, a água, as árvores e os animais. Tinham suas formas de cultivar a terra para alimentar-se e não morrer de fome e como principal fonte de vida. Também tinham sua forma de curar-se para não morrer de doenças e usando as plantas medicinais que se encontravam nos campos e montanhas. Sua forma de defender-se para as guerras são diferentes as condições que viviam. Por isso, tinham mais anos de vida e pouco se morriam de doenças. Claro morriam, mas mais pelas guerras e uns pelas epidemias que apareciam. No entanto, a chegada dos espanhóis, tudo muda. Além de tão violentos e agressivos que são puderam nos derrotar, traziam muitas enfermidades que se desconheciam onde muitos morriam de epidemias e guerras. Desde ai começou a exploração, a opressão e as condições de vida mudam, o respeito à natureza, ao meio ambiente. Nós sabemos que temos a boa saúde precisamos entender: para fazer qualquer trabalho em nossa luta é importante saber e estar claro como era a saúde que viviam nossos antepassados e como os maus governos nos tratam de confundir nossa mente por seus diferentes programas que oferecem às comunidades indígenas. Logo é importante saber que a mera saúde não está nos médicos, hospitais, medicina e equipamentos médicos. Sim a saúde está entre as pessoas, entre as famílias e nos povos. É difícil entender isso, mas para alcançar esse objetivo somente organizando e fazendo acordos e fazemos qualquer atividade que é necessária dentro de nossa luta revolucionária. Esta ideia surge construir um mundo novo de maneira diferente e de forma autônoma. A saúde é um direito e por nenhum motivo pode negar. No entanto, sofremos as explorações e o esquecimento. Mas que tenhamos claro que nosso objetivo não ficará se não alcançar o que merecemos como povos originários, mas que entendemos que fala que é um direito a saúde. Não é algo que esperamos algum milagre de Nosso Senhor que chega desde de cima. Sim um trabalho que implicar esforço e sacrifício, por isso é importante desenvolver nossas próprias alternativas e oportunidades e possibilidades de erradicar as más condições que vivemos os povos. Nós como povos em luta. Os maus governo nos hão tratados de nos enganar de diversas formas que os problemas de saúde se resolverão construindo centros de saúde, hospitais e oferecendo migalhas. Claro que a atenção médica é importante quando alguém já está enfermo, mas isso não é a solução principal. Já que a má saúde que vivemos todos, tem que ver com a pobreza e como resultado a desnutrição. Falta de higiene, falta de uma dieta balanceada e falta de uma moradia digna e ao final há morte dia a dia por doenças evitáveis e curáveis. O mau governo sempre vão nos tratado de enganar com seus alimentos que não servem oferecendo oportunidade para o campo, seguro popular e umas poucas lâminas e etc. Com tudo isso informam os diferentes meios de comunicação como o estatal, nacional e internacional que já há saúde. Mas se analisarmos o que pensamos bem, sua intenção não é melhorar e resolver nossa saúde. Seu verdadeiro objetivo é nos oferecer morte por fome, desnutrição e doenças que não são para morrer e assim nos tratam de confundir para não nos dar conta da realidade e nos organizar com isso, tratam de nos esquecer de curar-nos. Nós sabemos que os maus governos nunca vão resolver nossas necessidades. Agora o que devemos fazer é comprometermos a fazer nós mesmo sem pedir permissão dos maus governos. Só é questão de trabalhar com vontade e decisão. Aceitar e cumprir qualquer cargo que é necessário em nosso luta e devemos ter clareza que essa é nossa tarefa para que verdadeiramente nosso esforço tenha um resultado para o futuro de nossos filhos e filhas. A conservação e respeito de todos os recursos naturais do meio ambiente é muito importante porque se nos damos conta estão desaparecidos os bosques, os animais e muitas fontes de água que agora não há. Nossa terra se sente destruída e tem perdido sua fertilidade por esse motivo não produz o que se alimentava nossos antepassados que agora há muitas doenças que antes não existiam e o que comiam tudo era natural e não conheciam alimentos chácaras e menos utilizavam substâncias químicas em sua terra para produzir. Nós, homens, mulheres, crianças desta geração não conhecemos o que é a mera saúde porque nós sofremos fome, desnutrição, preocupação e maltrato desde que nos formamos no ventre de nossa mãe, por isso assim como se aproveita os maus governos e tratam de nos enganar promovendo seus programas caducos como a merenda escolar, pobreza para o campo e apoio a pessoas da terceira idade, etc. Serve para melhoras as condições que vivemos, mas não é para melhorar 278 a saúde, mas para controlar povos e com isso os povos não tenham nada, não organizar-se e não dar conta das necessidades diárias. TÉC AUMENTA BG 13”’ PAUSA 6” TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA TROVA (dedicada ao comandante Moisés) 3’12”14” TÉC COLOCA MÚSICA 15”’ E PÕE EM BG 3’18”16”’ LOC: (tradução em tsotsil) TÉC AUMENTA BG 10”’ TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIO (Sabemos companheiros que todas as mulheres têm direitos de participação) 3’33”12”’ TÉC COLOCA VINHETA DE IDENTIFICAÇÃO EM MÚSICA CLÁSSICA 3’36”27”’ TÉC TOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA (Companheiros e companheiras dedico essa canção aos lutadores que dedicam a luta...) 3’37”49”’ TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL CARACTERÍSTICA 3’42”43”’ E TIRA LOC: Escutamos essas músicas revolucionárias. Prosseguimos nossa programação com música e uma pequena mensagem e outras duas canções dos caracóis. Vamos escutar e em seguida regresso. TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 3’43”54”’ TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL 3’46”55”’ TÉC COLOCA INSTRUMENTAL CARATERÍSTICA 15”’ E TIR A3’51”39”’ LOC: Escutamos a canção do Animalito. Obrigado por escutar esta programação. Já estamos às 11 horas e um minuto, na frente de combate sul-oriental. Obrigado por sintonizar nossas programações. Escutamos músicas, mensagens e temas. Obrigado por sintonizar! Muita saúde. E então vamos a encerrar nosso trabalho. Siga na sintonia pela tarde. TÉC AUMENTA MÚSICA 3”’ LOC: (tradução em língua indígena) TÉC AUMENTA MÚSICA INSTRUMENTAL CARACTERÍSTICA 50”’ _____________________________________________________________________________ Rádio Rebelde 23/7/13 TEC COLOCA MÚSICA BALADA REVOLUCIONÁRIA 3”53”’ TEC COLOCA MÚSICA 15”’ E DEIXA EM BG LOCUTORA: Autonomia./ Companheiros e companheiras, irmãos e irmãs de todos os municípios, vamos explicar um pouco o que é autonomia./ Porque muitos não entendemos e não sabemos o que dize e o que significa a palavra autonomia./ Quando não entendemos o que é autonomia já é um problema porque pensamos que é algo mal ou algo que dá medo ou algo que podemos fazer./ Os zapatistas falamos de autonomia./ Dizemos que estamos lutando para construir e defender nossa autonomia./ Mas são só os zapatistas que falamos de autonomia, mas sim os povos indígenas de todos os Estados de nosso país, México, mas também de muitos países de nosso continente que se chama América que falam e lutam por defender e construir sua autonomia./ Também muitos estão lutando por autonomia./ Então o que quer dizer autonomia e o que significa para nossos povos./ É muito amplo para explicar o que é a autonomia, mas vamos explicar o mais importante./ TÉC AUMENTA BG 8”’ LOCUTORA: Autonomia é a base fundamental da forma de vida dos povos originários, ou seja, o mais importante para a vida e a existência dos povos./ A autonomia é a faculdade, a capacidade e a possibilidade, quer dizer, a força, o pudor, a inteligência dos povos originários para tomar decisões sobre os diferentes níveis de sua forma de vida comunitária, política, econômica, social, cultural, religiosas e territoriais./ Isto quer dizer que os territórios onde vivem os povos indígenas devem se organizar e 279 governar sós sem a intervenção dos maus governos e dos partidos políticos./ Sem imposições e manipulações de pessoas carrenas que só buscam seus próprios interesses./ Vão pensar e decidir como só vão trabalhar e vão semear suas terras sem está dizendo e controlando o governo e também decidir que preço vão vender seus produtos./ Como povos devem entender e administrar suas próprias escolas, clínicas, hospitais, seus próprios médicos e meios de comunicação./ Os povos originários têm sua própria cultura, sua forma de pensar, de entender, de atuar, de falar, de viver e de conviver em suas vidas familiares e coletivas./ Como todo povos originários tinham suas próprias crenças./ Suas formas de comunicar-se com seus deuses e de relacionar-se com a natureza./ E essa a vida dos povos originários que devem ser valorizadas e respeitadas./ Estão todos onde habitam os povos originários temos terras, água, rios, lagos, montanhas, solo, subsolo e espaços que devem usufruídos, aproveitados, observados, cuidados e protegidos pelos próprios povos originários./ Sem autonomia nenhum povo pode existir./ Sem suas terras seria um povo totalmente ... deprimidos, escravos e a qualquer momento podiam ser exterminados./ Autonomia é um direito de todos os povos originários de qualquer parte do mundo de autogovernar-se, a ter sua própria identidade como povos, decidir sobre seus territórios, sobre seus recursos naturais e sobre suas vidas concretas.../ Como povos devem ter sua autodeterminação, ou seja, os povos originários decidir livremente sobre suas vidas, suas condições econômicas, políticas.../ TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL 9”58”’ – 11”12”’ LOC: (tradução em tsotsil) TÉC COLOCA MÚSICA 24”09 TÉC COLOCA MÚSICA REVOLUCIONÁRIA 24”19” – 28”31”’ PAUSA TÉC COLOCA MÚSICA 20”’ E PÕE EM BG 28”39”’ LOCUTOR: Olá irmãos e irmãs, vocês escutaram .... também escutamos... vamos com outra música que se chama a liberdade e autoria. Vamos com essas músicas mais tarde regressamos com mais músicas./ Agora nove horas com e quatro minutos, hora da frente de combate sul-oriental./ TÉC COLOCA MÚSICA TROVA REVOLUCIONÁRIA 30”49”’ – 34”10”’ PAUSA 7”’ TÉC COLOCA MÚSICA LENTA REVOLUCIONÁRIA 34”17”’ – 41”12”’ PAUSA 7” TÉC COLOCA MÚSICA CUMBIA INSTRUMENTAL 60”’ E PÕE EM BG 41”19”’ LOCUTOR: São nove da manhã com dezessete minutos, hora da frente de combate sul-oriental./ Irmão, irmãs, companheiros e companheiras, acabei de tocar para vocês.../ Nesta terça, vinte e três de julho de 2013./ TÉC AUMENTA BG 15”’ LOCUTOR: Assim que escutamos essas músicas tenho programado .../ Temos essas músicas que são produções de Chiapas./ Também ouvimos mensagens sobre educação, saúde, da luta. Então para quem sabe temos./ TÉC AUMENTA BG 10”’ LOCUTOR: Vamos escutar a canção... TÉC AUMENTA BG 5”’ TÉC COLOCA MÚSICA 45”54 – 52”17”’ TÉC COLOCA MÚSICA TRADICIONAL 52”18 _____________________________________________________________________________ ANÁLISES DOS PROGRAMAS DA RÁDIO REBELDE 280 DATA Locução Técnica Músicas Mensagens Poemas/ Contos 16/7/13 manhã - Bilíngue - Mulher - “Erros” e esquecimentos preenchidos pelo aumento do BG, improvisada, referências aos ouvintes (oxalá que esteja gostando) - Saudação às comunidades zapatistas, apresentação das músicas e das mensagens, hora da frente de combate sul oriental e convite para escutar pela tarde. Vinheta de identificação em vários ritmos com o slogan Voz da mãe terra, nome do caracol. Técnica: corte abrupto33” e 1’13”, locuções intercaladas de BG, pausas de 5’’ depois das músicas. Músicas revolucionárias: 1º de janeiro de 1994, Zapata nasceu de novo, amor a meu povo, te conterei que são os culpados, mensagem a dois povos, heróis e mártires e 7 de agosto (aniversário dos caracóis), críticas ao porfirismo, traições políticas, marcha dos zapotecas. Mensagem aos coordenadores de jovens, mostrando a preocupação com o abandono dos mesmos as suas comunidades e com o aumento da delinquência, exortando-os que são o futuro do país e animando os coordenadores. Mensagem às comunidades não zapatista: crítica às migalhas dadas pelo governo, a pobreza e extorsão a coragem para a luta como os antepassados. Mensagem do direito das mulheres: participação política. Antonio Pobreza e as Pontes a “palavra nunca morrerá”, e “Bomba, bomba” 16/7/13 Tarde - Mulher - Hora da frente de combate sul oriental - Pede desculpas porque um dos contos é só espanhol - Vinheta de identificação com diferentes ritmos - Música caraterística de fundo - Constantes pausas antes e depois das músicas. Músicas: tradicionais tocadas com marimba e revolucionárias na segunda metade do programa. Spots: educação autônoma, mau atendimento de saúde do governo aos povos indígenas. Contos: dois em tsotsil (um sobre o Coite) e dois em espanhol: Rei do Mal e o noivo que não sabia namorar a noiva (sobre como elogiar e agradar uma mulher com efeitos sonoros) com interpretação dramática e onomatopeias. 281 17/7/13 (incompleta) - Bilíngue. - Locutora - Pausas antes e depois das músicas. - Música característica (salta salta chapolin) ao fundo. Músicas: revolucionárias (luta pela educação, trabalho digno e terra; subcomandante Marcos; Adiante a campanha). 18/7/13 - Bilíngue. - Duas locutoras. - Saudações para quem escuta nos trabalhos e em San Cristobal. - Segunda locutora referências para os ouvintes (Oxalá goste desta canção e oxalá tenha um bom dia de trabalho). - Vinheta de identificação em vários ritmos (lento, rap, médio). - Música de fundo infantil (Salta, salta chalin) da primeira locutora; - Pausas antes e depois de algumas músicas. Revolucionárias de Chiapas (crítica contra a destruição da produção capitalista; crítica contra maus governantes; a confiança do meu povo; exortação para o povo na luta; consciência do povo; adiante estudantes, operários e campesinos; exemplo do sangue de Cristo; jovens pela educação) e Internacionais (Um mundo em muitos mundos, marimba zapatista, miséria, Argentina, viver uma cultura diferente). - Jovens:o que está acontecendo com os jovens? Migração, aprendizagem de costumes, ideias negativas e cultura da destruição (drogas, consumismo, alcoolismo, vandalismo, delinquência), promovida pelo sistema capitalista, pelos maus governos e pelos meios de comunicação. - Luta indígena zapatista é uma semente rebelde contra os planos da morte (parece spot). - Spot Pressão alta na gravidez; - Spot Direito das Juventude presente: acabar com os exploradores 282 Mulheres 19/7/13 tarde - Bilíngue - Locutor - Discurso politizado e doutrinador - Saudações: para municípios e comunidades; para mulheres não zapatistas; trabalhadores das fábricas. - Referências a todos e todas - Pausa entre as músicas - Música revolucionária em BG. - Músicas revolucionárias com discursos de introdução e finalização; - Temas: mulheres, soldado libertador, Serra de Chiapas lutando por toda a nação. - Hino zapatista no encerramento. - Mensagem dramatizada sobre os direitos das mulheres. 22/7/13 - Locutor bilíngue - Referência a todos e todas. - Saudações para que saiu para o trabalho e já está desperto - Música instrumental de fundo. - Pausa após a mensagem - Vinheta de identificação. - Revolucionárias: lutadores do meu povo, Ocorrido do Companheiro, Sou Insurgente, Insurgente de Oaxaca, Oaxaca Gritou, Por que somos pobres, porque já começou e nada vai parar, mulheres tem direito a participação - Músicas de Arpa de San Cristobal e Músicas tradicionais de Chamula e San Pedro de Polhó. - Spot: a montanha é lugar de muita riqueza. - Saúde Comunitária: antepassadas viviam em equilíbrio com a natureza e os animais. Os espanhóis trouxeram opressão, exploração, epidemias, doenças. O direito a saúde não é uma dádiva, mas um esforço e sacrifício de erradicar as más condições do povo, como a desnutrição, falta - Ponte ‘Uma de indignação’ 283 de higiene, dieta desbalançada, moradia digna. 23/7/13 (incompleta) - Locutor bilíngue. - Instrumental de pano de fundo. - Músicas tradicionais. - Músicas revolucionários: liberdade e autoria - Autonomia: base fundamental da vida dos povos originários, a inteligência, organizar-se e governar sós sem intervenção, administrar as próprias escolas, clínicas, hospitais, meios de comunicação, crenças 24/7/13 manhã - Locutor bilíngue - Referências a todos e todas. - Música oferecida ao EZLN - Vinheta de passagem com efeitos inorgânicos. - Vinheta tradicional - Música instrumental de fundo. - Pausas de até 15 segundos. - Tradicionais de baile das comunidades. - Músicas revolucionárias (A Sexta, Junta de Bom Governo, soldado valente, menino guerrilheiro, caracóis, cumbia dos caracóis, não basta rezar, já começou e nada vai parar, Subcomandante Pedro e a morte do Subcomandante Ramon - Spot dramatizado sobre o direito indígena de atendimento a saúde. - Mensagem da Junta de Bom Governo (desaparecimento dos Aguascalientes e surgimento dos Caracóis, Bom Governo não negocia a justiça, educação autônoma, saúde autônoma, agroecologia, meios de comunicação autônomos, - Estórias de Madalena da Paz (município autônomo) em língua originária. - Ponte “A palavra que vive” e uma indiginação. - Mensagem sobre Escola que não são prédios, mas as crianças e os educadores. (rimada) - Mensagem de criança: não quero uma vida de luxo, quero um tempo de paz, liberdade e justiça. 284 projetos de doações). - Mensagem do EZLN sobre a educação autônoma (serve para entender a história e a situação que se vive e os direitos, não é o investimento governamental em estrutura). - 285 APÊNDICE IV – TRANSCRIÇÃO DOS PROGRAMAS DA FRECUENCIA LIBRE 18 de julho de 2015 Hablemos Chiapas LOC 1- ….que el Chapo se fugó una vez más, la segunda vez del año, la segunda vez de su historia como el narco más importante, el hombre más buscado después de Osama Bin Laden por el FBI…casi casi como la salida otra, la fuga primera que tuvo por la lavandería, casi hollywoodesco , pues esta vez también un túnel que dicen que costó 50 millones de dólares su construcción. La trascendencia de esto no es realmente su fuga hollywoodesca o si realmente salió por el túnel o salió por la puerta grande, lo que nos deja claro es el poder del narco que existe en este país, tan grande que hizo entrar en contradicción o hizo entrar en ridículo palabras de Peña Nieto en alguna entrevista que tuvo allá en los Estados Unidos, decía que sería inadmisible y realmente lamentable que el Chapo se fugara otra vez y sucedió no?...sucedió que el poder de este personaje, su poder político, su poder económico le abrió, ya sea por el túnel ya sea por las puertas, le abrió… y le dio la salida en uno de los penales de alta seguridad, el penal más seguro no?, el Altiplano no?..y salió no?... INVITADO (INV.)- Donde están los presos más peligrosos, por así decirlo… LOC 1- …políticos… LOC 2 los políticos, que también muchos presos políticos que han externado su opinión en este caso y que han estado detrás de la oreja o visitando a algunas personas en el Altiplano, pues creen casi risible esta versión de las que se está dando por parte de la Procuraduría…que también, nuevamente, como en otros casos, pues la poca claridad y la poca contundencia y la poca eficiencia de la Procuraduría General de Justicia de dar respuesta inmediata a tanto al hecho de que se haya fugado, para dar claridad de las personas que estuvieron involucradas, de los hechos como tal, siempre dan por la mala administración de la información, por el malo manejo de información y por lo tan lentos que son, provocan que estos eventos se conviertan más como mediáticos y se estén dando teorías y teorías que al parecer…que puede ser también una cuestión medida..me refiero a que al no dar certeza provocan que estas cosas se conviertan como mitos y de repente la gente se distrae mucho, y pueden utilizar estas cortinas de humo, donde la Procuraduría, en vez de esta haciendo su chamba, más allá de que se les haya fugado un preso más, y el preso más importante del sexenio, pues también pareciera que es un poco premeditado el hecho de que no den respuesta clara… LOC 1- …o sea, el análisis más allá de que si el Chapo es un antihéroe que si el Chapo es… LOC 2 Podríamos entrar en ese debate que es interesante, porque otra de las cosas que ha pasado es esta cuestión de que la sociedad, no solo la sociedad, incluso la sociedad que está fuera del país… LOC 1- …si, como ese comentario de narcocultura.. LOC 2 - …toma al Chapo, o no sé si sea mi percepción, que posiblemente sea mi percepción, que posiblemente sea mi percepción toma al Chapo como un héroe, sobre todo en estos comentarios que hizo Donald Trump… LOC 1- Francamente lo es no…Como la visión de alguien que se crió desde abajo, que tuvo éxito económico y político, y que ahora es el jefe de jefes, como dirían los tigres del norte. Sumado a eso y 286 dentro de este mismo análisis es además este héroe que llega a corromper al Estado, que se convierte en un narcoestado, que se convierte casi casi en un presidente virtual, donde el análisis este también va en cómo se llega a corromper todo un país, para que la fuga de un personaje así…además d elas torpezas políticas no?... LOC 2 - …institucionales… LOC 1- Sí es cierto que en Mèxico ahora vivimos en una cultura del narco, idolatramos a estos personajes, nos hemos acostumbrado a la muerte. Está este personaje cantante del Comander que sale con sus AKs 47.. LOC 2 …es una cultura que el Comander, y hay todo un sello discográfico y hay toda una industria que promueve justamente la cultura del narco y las televisoras también en este análisis han pasado series y series de personajes que son del narco, no solo en México, en Colombia también…repetimos las mismas telenovelas, y entonces colocamos a estas figuras, a estos personajes ya fuera de la realidad y sobre todo ponderamos ciertos valores a estos narcos…los vemos como justicieros, la gente está pensando que el Chapo va a vengar….el comentario que hizo Donald Trump…y ni solo aquí, también afuera, en Estados Unidos, hay un comentario que hizo otro cantante en una entrega de premios, que dijo… “Cuidado Donald Trump que ahí afuera está el Chapo”. Como intento de esto de venganza, del personaje que viene a reivindicarnos como mexicanos, y creo que esto es digno de análisis en el sentido de sociedad mexicana… como vamos consumiendo esta imagen de narcotraficantes y los vamos caricaturizando… (Habla de que la sociedad va tomando estos personajes como modelos a seguir, incluso los niños, que es más peligroso.) 7”15”- LOC 1: En un país donde no hay gobernabilidad descrédito de las figuras políticas, o de los actores políticos dentro de esta democracia partidista… (Crítica la visita de Peña Nieto a Francia.) 8”57”- LOC 2: …dijo pues la bronca fue que por los derechos humanos teníamos un punto ciego… (cont.) 9”43- LOC 2: Amnistía Internacional sacó un desplegado muy directo y yo creo que muy claro diciendo que los derechos humanos nunca liberaron al Chapo, que lo que liberó al Chapo es la corrupción sistemática que hay en todas las instituciones. LOC 1: (Sigue hablando sobre la repercusión de la visita de Peña Nieto a Francia.) 11”40”: LOC 2: Muchos analistas, muchos programas de televisión están dedicados a decir el descrédito que tiene México a nivel internacional…pero, yo me pregunto qué sería más importante, tener como una visión al exterior, totalmente ajena a la realidad, porque este descrédito no va ajeno a lo que está pasando en el país, y no sería primordial hacer ver al exterior que estamos bien y que se respetan los derechos humanos y que somos un país en progreso cuando lo más importante sería hacerlo, no demostrarlo al exterior… (Ambos locutores continúan hablando sobre la fuga del Chapo, crítica al gobierno de Peña Nieto y al sistema en México.) 15”35”- LOC 1: Y que sumado a esto, igual hablábamos desde un principio sobre la cortina de humo, era tener en claro que además de lo de la huida del Chapo (…) se da por otro lado la primera ronda de licitaciones para la explotación de PEMEX de los recursos petroleros… LOC 2: Se está licitando una zona que es altamente productiva para la explotación del petróleo… 287 LOC 1: Al parecer, que fue como la licitación más transparente del mundo, lo que según mismas palabras del gobierno no funcionó como ellos esperaban, la participación de las empresas fue mínima… LOC 2: Entre ella lo que vamos a hablar, que una de ellas tiene lana de un familiar de Carlos Salinas de Gortari… LOC 1: que ya sabemos que tu privatizas y yo compro (RISAS) (Continúan ambos locutores criticando las privatizaciones en el país.) 26”48”- LOC 1: PRESENTA CANCIÓN DEL BASTÓN, HIP HOP, TITULO: “EL PAIS DE LAS MARAVILLAS” (QUE HABLA SOBRE MEXICO)…. 27:16” – ENTRA CANCIÓN 30: 55” – LOC 1: Bueno pues esto fue El Bastón, con el país de las maravillas. … vamos a hablar de un par de países de las maravillas, entre ellos Guatemala, que está viviendo su primavera, como se había tratado con la primavera árabe, con lo de los indignados allá en España. Pues, a raíz de unos casos de corrupción que llevó hasta la destitución de la vicepresidenta Roxana Baldetti … (Habla sobre los casos de corrupción y la movilización de grupos históricos y la incorporación de la clase media contra el sistema económico y partidista en Guatemala) 34”27”- LOC 1: Nos remite a Grecia, después del histórico NO de hace dos domingos, donde más del 60% del pueblo griego dijo NO a las condiciones que nos estaba imponiendo la Unión Europea… Alemania…el FBI…el Banco Central Europeo… (Hablan sobre la dignidad, voluntad y soberanía del pueblo griego y explica lo ocurrido con el Primer Ministro griego Tsipras. Explica que en ese contexto se da también una nueva escala de movilizaciones de sectores sociales más radicales.) 37”43” – LOC 2 Cuando platicamos de Guatemala, se me vino a la mente lo que pasó aquí con el 132, que hubo movilizaciones bastante fuertes por parte de un grupo, y que surge la movilización del 132 en una Universidad particular allá en el DF, por la visita del Presidente… (Explica la asociación de las manifestaciones del 132 con las redes sociales y la lucha de la clase media.) 40”47”- LOC 2 …Y sí hay respuesta de la sociedad, y sí hay un grupo de personas que a raíz de estas organizaciones han empezado a construir redes y se han empezado a identificar grupos sociales, y a hermanar y a comunicarse. Tenemos por ejemplo aquí a los zapatistas que en las últimas ediciones, sobre todo en la última, tuvo la participación de distintos sectores sociales de todo el país que se han empezado a reconocer y a organizar. Principalmente, muchas de estas organizaciones han tenido detonantes en estos movimientos…el desarrollo de cómo la información fluye a través de las redes… 42”19” (Hablan ambos sobre la trascendencia histórica de estos movimientos sociales para el futuro y las organizaciones que surgen a partir de esos incentivos.) 43”24”- LOC 2: Estos espacios, Hablemos Chiapas, pues es una de esas semillas que surgieron, nosotros nos juntamos o conformamos el grupo de Hablemos Chiapas, justamente en las movilizaciones del 132, y buscamos, y trabajamos y creemos que el trabajo va a ser poco a poco, que va a ser transformando poco a poco nuestro entorno… 288 45”28- LOC 2 La gente se ha empezado a dar cuenta de que se puede organizar, y de que no necesita un Mesías, y que la base fundamental de la transición está en la misma sociedad… (Habla sobre las luchas sociales y que los resultados ya se están viendo, pero es una lucha de poco a poco para lograr los objetivos grandes) 46”50”- LOC 1: Pues les dejamos con una cancioncita, les dejamos con El gran silencio de corrupciones K… para ya regresar despidiéndonos, y nos escuchamos en un ratito…. 47”12”- ENTRA GRABACIÓN, HABLADO: “Respetar la Constitución política de los Estados Unidos Mexicanos y las leyes que de ella emanen, y desempeñar leal y patrióticamente el cargo de Presidente de la República que el pueblo me ha conferido, mirando en todo, por el bien y prosperidad de la Unión, y si así no lo hiciere, que la Nación me lo demande”. 47”43”- ENTRA CANCIÓN: (INSTRUMENTAL) 50”18”- LOC 1: Bueno, regresamos, y ya estamos a punto de despedirnos, gracias a todos y a todas. Les pedimos disculpas por empezar tan tarde las transmisiones de la frecuencia libre y bueno, pues, ya vienen las elecciones del 19, por fin ya se acabó estas caravanas del terror de “vota por quien sabe quién”…y bueno, pues, el mismo circo de siempre, ya se hablaba ayer en Tila hubo golpes y hasta disparos entre el PRI y el VERDE, onda Caín y Abel… 52”00” – LOC 2 (Habla sobre las campañas políticas electorales, que siempre son iguales, pero lo importante es que el pueblo vote lo que crea mejor.) 52”22- LOC 2 (DIRIGIÉNDOSE A LOS OYENTES): Que tengas claro que estas elecciones solo eligen a los gobernantes que están ahí…lo importante es qué vamos a hacer después de estas elecciones. A veces salen mucho de nuestras manos estas campañas que nosotros quisiéramos que tuvieran más participación social, que hubiera mayor debate de ideas, mayor construcción de organizaciones, para regular sobre todo el dinero, o la transparencia de los programas, la construcción de un proyecto social incluyente… 53”31” LOC 1: Pues les agradecemos que nos estén acompañando acá en la Frecuencia Libre y le recordamos que los medios alternativos los hacemos entre todos y todas. Las invitamos y los invitamos a que interactúen por todos los medios posibles con la Frecuencia Libre, sugerencias, críticas y demás, son todas bienvenidas. LOC 2: Está es el número, le repetimos, para esta emisión y también para Debate Libre, es el 9671373096, ya tenemos el Whatsapp habilitado, entonces por ahí nos pueden mandar sus mensajitos, pueden tener un medio de diálogo con todas las emisiones de Frecuencia Libre. La página también ya está disponible, la encuentras como…frecuencialibre.info…ahí encuentras la nueva información de la radio … y el correo es radio99.1@gmail.com. Las cuestiones que estamos tratando de optimizar es sobre todo este diálogo que tenemos con ustedes los que nos escuchan, realmente la radio la hacemos y la construimos para llegar a ustedes, y que ustedes también la tomen como un medio de comunicarse y externar aquello que piensan o creen de lo que está sucediendo. 55”08”- LOC 1: Los dejamos con La Estrella Roja y luego lueguito viene el debate cultural. 55”17”- ENTRA CANCIÓN: 289 _____________________________________________________________________________ 19 de julho de 2015. Objetos Prohibidos HOMBRE (GRABACION): …Fuerza ciudadana en la población de la placita, municipio de Aquilo , Michoacán, y trasladado en helicóptero a la ciudad de Morelia. Es necesario señalar que lo anterior se hizo con traición, pues antes había sido citado por el gobierno, horas después nos enteramos que es acusado de portación de armas, de explosivos del ejército, y por la quema de papelería electoral. Dichos cargos son absolutamente falsos y la acusación de portación de armas no permitidas resulta ridícula, un mero pretexto para privar de la libertad a nuestro compañero, afectar la organización de la comunidad y favorecer los intereses criminales de los caballeros templarios. Punto número 2, unos minutos después, la comunidad de Oztula estableció retenes a lo largo de la carretera federal número 200, a la altura de San Diego y Chelacayen, el crucero de Oztula, el Duin y la Istapiya, quedando dentro del terreno de la comunidad tres pelotones de soldados federales pertenecientes al batallón número 86, destacamento de Morelia, mismo que falsamente se hacían pasar como el batallón número 65 y que estaban amedrentado la población al mismo tiempo que al compañero Zemeibel Diaz era detenido. De manera paralela un grupo perteneciente a la policía federal de dedicó a detener a comunitarios de la comunidad de Aquila , secuestrándole sus armas y radios , así ocurrió también con el tesorero de la comunidad de Oztula, a quien le quitaron su radio de comunicación, un radio como este. Horas después el presidente del consejo de vigilancia también fue despojado de su radio, su sello y sus identificaciones por parte de la Policía Federal. Punto número 3, alrededor de las 5 de la tarde un numeroso grupo de policías estatales, marinos y policías federales, acompañado de dos helicópteros artillados, con lujo de violencia y destruyendo lo que hallaban a su paso, incluidos varios vehículos de la comunidad, pasaron por sobre los retenes de la comunidad, tirando a lazos, golpeando con macanas a quienes estaban a su alcance, arrojando gases lacrimógenos, y deteniendo temporalmente a los comuneros que podían. A su paso se incorporaron con ellos los soldados del ejército mexicano que se encontraban dentro del terreno de la comunidad de Oztula , perteneciente al batallón número 86, a través de las altavoces. De sus tanques se escuchaba: Arriba los caballeros templarios! Precisamente estos soldados al pasar por la encargatura de Iztapiya, en un modo sorprendente empezaron a disparar en contra de las casas y la población civil que se encontraba en el lugar, resultando asesinado, y eso es lamentable, por un impacto de bala en la cara, el niño Idilberto Reyes García, de 12 años de edad, y resultando también herida la niña Yeimy Natalie Pineda Reyes, de 6 años de edad, Edith Balbino Vera, Delfino Alejo Antonio Ramos de 17 años , Horacio Valladares Manuel de 32, José de Nicodemo Macías Zambrano de 21 años y Melecio Cristino Dircio de 60 años. Cuarto, al dicho sentido denunciamos la complicidad de los gobiernos federales y estatales, así como de los altos mandos castrenses con la delincuencia organizada, para atacar y agredir la población de la comunidad de la región. Es sorprendente que mientras las comunidades tienen decenas de vecinos y comuneros asesinados y desaparecidos por el crimen organizado, los jefes del cartel de los caballeros templarios en la región, lo voy a puntualizar, estas personas son las que nos han hecho daño antes de que llegaran a nosotros los policías comunitarios ahora convertidos en fuerza rural. Federico González Medina, alias Lico, el jefe de plaza de la placita que estamos aquí a dos minutos; Mario Álvarez López, alias El Chacal, que estén libres y protegidos por el gobierno. En atención a lo expuesto pedimos a la sociedad civil nacional e internacional así como a los organismos internacionales a estar atentos a lo que pasa en la región, y a no permitir un nuevo asesinato, un nuevo secuestro, un nuevo despojo en contra de las comunidades de la región. A los gobiernos federales y del Estado, les exigimos: Número 1: La libertad inmediata e incondicional del Comandante Zmeíbel Díaz Cepeda y el retiro de los falsos cargos que existen en su contra. Número 2: El castigo de los mandos y de los integrantes de las corporaciones militares y policíacas que asesinaron al niño Edilberto Reyes García y golpearon a diversos comuneros y 290 destruyeron los bienes de la comunidad de Santa María de Oztula . Número 3: La reparación de los daños causados a los bienes de la comunidad de Oztula y la devolución de los siguientes artículos: 4 radios de comunicación, el sello e identificación del consejo de vigilancia, una pistola con registro y 4 juegos de llaves. Número 4: Presentación con vida de los comuneros desaparecidos y el castigo a los autores intelectuales, en este caso, Federico González, alias Lico, y Mario Álvarez López, y materiales de los asesinatos de los comuneros pertenecientes a la comunidad de Oztula y a lo largo de los últimos 4 años. Número 5: El respeto y otorgamiento de garantías para el funcionamiento de la policía comunitaria de los municipios de Aquila, Couayana, Chiniquila y Fualcomana. Chalacaya, Michoacán, 20 de julio del 2015. La Asamblea, autoridades y Comandantes de la comunidad indígena de Santa María de Oztula. Héctor Cepeda Navarrete, Comandante de la policía comunitaria de Couayana.Juan Díaz Alcalá, Comandante de de la policía comunitaria de Aquila. Esteban Aviña Marmolejo, Comandante de de la policía comunitaria de Chiniquila. Germán Ramírez Sánchez, Comandante de de la policía comunitaria de Santa María de Oztula. 6”48” PAUSA 6”57”- LOC (MUJER): Esta fue la palabra de los comuneros y comuneras de Santa María de Oztula, en la costa de Michoacán, en el Pacífico mexicano….por la defensa de sus territorios, que implica limpiar la región de caballeros templarios, y parece ser que por aquí va el asunto…el vox pópulis , demostración en múltiples ocasiones de como el sistema judicial mexicano y las Fuerzas Armadas Mexicanas se han encargado de proteger, de dar cobertura, de permitir, el funcionamiento de las empresas criminales que estaban en aquella región asentadas , principalmente las encabezadas inicialmente por la familia michoacana, posteriormente por los caballeros templarios… Santa María de Oztula, en una defensa de sus territorios, que comenzó públicamente desde el 2009, con el Manifiesto de Oztula, y han ido recuperando sus territorios…esos territorios son ricos en hierro, y se hizo público el año pasado como el cartel criminal de los caballeros templarios, y en sociedad con los chinos…en complicidad con la Marina, con el Ejército, con las Polícías de los diferentes niveles, permitiendo el trasiego de mineral de hierro… que es defendido por los comuneros de Santa maría de Oztula y que formaron sus autodefensas. Y decíamos esto pues que en algunas publicaciones aparece así, es una venganza de este sistema de complicidades en contra de los comuneros para impedir que sigan manteniendo su territorio libre de narcotraficantes, de criminales, y como en algún momento habíamos comentado ya en otras ocasiones, cuando viene de criminales, pues ya no es tan fácil ver la línea que separa al gobierno de los criminales. Preguntamos hace rato como se les debe de llamar a los militares, a los policías que se atreven a disparar contra menores de edad. …..Delgado, de la Revista Proceso, dice: “soldados asesinos” los medios de comunicación, para defender al Ejército, que el general Salvador Cienfuegos, pero no hay activismo que sirva, ni siquiera la defensa misma de Enrique Peña Nieto, si los soldados mantienen su ansia de cometer arbitrariedades, ajusticiamientos, matanzas, cada vez más habituales en México. En un país sin estado de derecho y con autoridades indolentes que escabuyen su responsabilidades, incluidas las políticas, la sociedad está obligada a levantar la voz y a afirmar que de esta crueldad de miembros del Ejército contra civiles en tiempos de paz, no son culpables solo los soldados que la cometen, sino sus miembros y el Comandante Supremo de las Fuerzas Armadas y Presidente de la República. Justo cuando el propio Ejército está también bajo sospecha por la fuga de Joaquín El Chapo Guzmán del penal del Altiplano, cuya vigilancia perimetral estaba a cargo del General Brigadier David Enrique Velarde Sigüenza, Comandante del octavo Regimiento mecanizado, con sede a medio kilómetro de la cárcel, y luego del vergonzoso desfile del Ejército mexicano por los Campos Elíseos, como lo definió el diario francés Le Monde, dos atrocidades involucran a tropas y oficiales del instituto armado. El primero ocurrió el 7 de julio en Zacatecas, donde 7 jóvenes fueron levantados en el municipio de Calea por elementos del 97 batallón de infantería con sede en Fresnillo, y cuatro de ellos aparecieron muertos con 291 balazos en la nuca, mientras que otros tres están en calidad de desaparecidos, aunque este sábado fueron hallados tres cadáveres que podrían ser ellos. El segundo hecho ocurrió en Michoacán el domingo 19, cuando elementos del 86 batallón de infantería abrieron fuego contra una manifestación que presenciaban menores de edad en el puente de la comunidad de Iztapiya, municipio de Aquila, los niños Yeimy Natalie Pineda Reyes, de 6 años de edad, Edilberto Reyes García, de 12, así como Melesio Cristiano, de 60 años, murieron por las heridas de bala. Bueno aquí este texto de Álvaro Delgado del 20 de julio, cuando las informaciones aun no estaban bien clarificadas… (CONTINÚA DANDO DETALLES DE CADA CASO DE ESAS VICTIMAS) Continúa diciendo Álvaro Delgado, en el caso de Zacateca, la propia… admitió que existen indicios de la participación de elementos del ejército en la detención de los 7 jóvenes, y de hecho, fueron detenidos el coronel Martín Pérez Reselis, comandante del 97 batallón de infantería y tres militares más, identificados por pobladores como los autores de la desaparición y presuntamente de las ejecuciones… (CONTINUA HABLANDO SOBRE ESTE TEMA, BASICAMENTE REPITE LOS ELEMENTOS QUE SE DIJERON ANTERIORMENTE SOBRE EL CASO) 16”01”- LOCUTOR (MUJER) CONTINUACION: Un día en su cumpleaños 49, Peña Nieto, Comandante Supremo de las Fuerzas Armadas, elogió a las tropas en el contexto de las nuevas atrocidades que involucran a militares. Dice Peña Nieto: “Por más que a veces algunos se empeñen por manchar el esfuerzo que realizan las Fuerzas Armadas, es de reconocer que nuestro ejército, y nuestra marina, integrada por mujeres y hombres que han surgido del pueblo, trabajan todos los días con esmero, sacrificio, dedicación, a favor de los mexicanos”. Continúa diciendo Delgado: No podía haberse referido Peña a otros que no sean precisamente los militares que en Zacatecas, Michoacán, Estado de México, Guerrero, Jalisco y en cualquier parte del país, agreden, humillan y matan a civiles. Y no hay que olvidarlo, la responsabilidad del ejército a las calles es ahora de Peña Nieto, pero lo inició Felipe Calderón, un tipo llamado fracaso. Esta es la nota de Álvaro Delgado, está escrita para la Revista Proceso, que hace mención a estos dos hechos… Lo que hemos visto en el transcurso de ya casi de 10 años es que es la institución en sí la que está matando, agrediendo a civiles, no hay parte del país donde no haya ocurrido un acto de este tipo… donde se concentra más, hacia el Norte-Centro del país, pero también hay otras partes… hacia el sur, se han sabido de estos casos de vejaciones, de agresiones, incluso de asesinatos por parte del Ejército en contra de civiles. Será que un Ejército así merece respeto? 19”39”- PAUSA 19”50”- TÉC COLOCA MUSICA LUNA NEGRA 30”18”- HOMBRE: Hemos aprendido palabras que no sabíamos que existían, de lugares que no sabíamos, Ayotzinapa, Tanuapo, voy a incluir a Patzingán, aunque sí lo conocíamos, Claytaya, y ahora a este Diccionario de la Ignominia vamos a ponerle la palabra Aquila, o bien la palabra Oztula. Nos vamos al Estado de Michoacán, el saldo, un niño muerto y otros niños heridos, cuál va a ser la versión de todo esto? Bueno, el delito que cometió una persona y que puedes ver todo el despliegue militar para buscar a una persona, qué hizo esa persona? No mató a nadie, no es narcotraficante, no sabe del Chapo Guzmán. Todos estos militares iban por una persona cuyo único delito es ser líder de una comunidad Napa. Cuál es el peligro de tener a un líder de una comunidad Napa? En qué afecta a este país un líder comunitario de un poblado alejado del mundo? Tantos militares para una persona? Su delito, portar arma de fuego. Cuántas personas en este país usan armas de fuego de uso exclusivo del ejército? Cuantas, dime, cuántas, cuántas conoces tú? Yo conozco a muchas. Tantos militares para una persona, que porque cometió delitos electorales, caray!...mientras que el Chapo Guzmán está escapado, evadido, fugado… Cuál es la versión oficial? Qué nos van a decir ahora? Ah! Es que los niños los pusieron como escudo. No, no somos palestinos, señores, no somos palestinos para poner a niños como escudos. Ah, es que entre ellos mismos lo mataron! Quiénes, quiénes lo mataron? Quiero saber quiénes mataron al 292 niño, así de fácil, porque unos dicen que fueron los militares, y otros dicen que fueron grupos de ahí mismo, entonces, de ahí no vamos a pasar, señores, es lo mismo que yo ya viví con Ayotzinapa, con Clataya, y con todas estas palabras que nos llevan a la ignominia… En qué clase de país estamos viviendo?! Porque mientras el Chapo está fuera, para él no hay estas fuerzas militares, para él hay privilegios, para el criminal más buscado del mundo hay privilegios, y para un pobre líder comunitario… van cientos de militares…por favor en qué país creen que estamos?… Lo dije en un Hasta Aquí, hace poco, para la población civil, la fuerza militar, para unos pobres normalistas, la fuerza militar, para unos pobres maestros que no tienen una reforma educativa...la fuerza militar, para unos pobres campesinos que están allí en un lugar que no sé qué, la fuerza militar, y para un pobre hombre comunitario, la fuerza militar, claro que él está en la cárcel y el Chapo está fuera… (SUBE EL TONO A GRITOS)Cuándo va a acabar esta ignominia? Cuándo?!! Cuándo?!!Respóndame cuándo?! Ya hay un niño muerto! Cuántos muertos quieren…? Yo ya estoy hasta aquí…!!! 35”14” TEC COLOCA VIÑETA PROMIOCIONAL DEL PROGRAMA MUSICA INSTRUMENTAL LATINOAMERICANA LOC: Está escuchando usted la transgresora Frecuencia Libre, lo que usted necesita para darse cuenta de lo que está ocurriendo abajo en nuestra comunidad. Escuche la 99.1, Frecuencia Libre, transmitiendo desde san Cristóbal de las Casas, en Chiapas 35”57”- TEC COLOCA CANCION (LA CANCION ES CANTADA POR VARIAS PERSONAS,HOMBRES Y MUJERES, RITMO POPULAR TRADICIONAL) (LA GRABACION ESTA MUY MALA, NO SE ENTIENDE NADA DE LO QUE CANTAN). 43”22”- TEC COLOCA VIÑETA PROMOCIONAL DEL PROGRAMA LOC (niñas): 99.1, Frecuencia Libre 43”49”- LOC (MUJER): lee un texto La noche que devoró a los avispones, de Juan Manuel Vázquez. Esa noche de septiembre de 2014 en Iguala, no solo hubo 43 normalistas desaparecidos, los adolescentes del equipo de futbol de tercera división, Los Avispones de Chilancingo y sus familias quedaron marcados para siempre por las ráfagas de las armas y el olvido de la sociedad. El cuerpo de un hombre de 50 años llegó al panteón cuando terminaba el sepelio de un adolescente. Era una tarde soleada y soporífera de domingo en Chilpancingo, Guerrero. Los deudos entraron con el ataúd a cuestas, con esfuerzo para sostener el peso muerto de un hombre de 140 kilos y 1.70 metros de estatura. Al cortejo y su paso lento lo acompañaban autobuses que sonaban sus bocinas y hacían rugir los motores como homenaje. Una banda de viento caminaba al compás de piezas populares de la Costa Chica de Guerrero. Detrás de la carroza iban a pie los familiares y amigos. Se negaban a subir a los vehículos y avanzaban como si fuera una marcha de protesta. Caminaron desde la casa del difunto hasta el cementerio por el bulevar Vicente Guerrero, una de las principales vías de Chilpancingo, para acompañar a un hombre que pasó la vida al mando de un volante. Los choferes que se cruzaron con aquella procesión tocaron el claxon para decirle adiós. El cortejo que salía del panteón era por un muchacho de 15 años al que habían sepultado una hora antes en un ataúd blanco decorado con flores. Era un futbolista con apariencia de niño, un novato de la tercera división a quien despidió su familia y sus compañeros de equipo. Los dolientes de uno y otro funeral se cruzaron y se miraron sin hablar. Se reconocieron: los unía la desgracia. Ambos difuntos —el hombre, Víctor Manuel Lugo Ortiz, y el muchacho, David Josué García Evangelista— habían muerto por el ataque al autobús del 293 equipo de futbol Los Avispones de Chilpancingo un par de días antes, el viernes 26 de septiembre de 2014, en una noche que empezó con una lluvia insípida que no se atrevía a mojar y que creció hasta convertirse en un aguacero que no daba tregua. Volvían de Iguala después de jugar un partido cuando un comando a la caza de estudiantes de la normal rural de Ayotzinapa abrió fuego contra ellos. Los confundieron. Esa noche, a pocos kilómetros de la emboscada, desaparecieron a 43 normalistas de cuyo destino aún no se tiene certeza y asesinaron a seis personas: tres eran estudiantes, otra era pasajera de un taxi y dos más volvían a casa con Los Avispones. Ellos dos se encontrarían de nuevo un par de días después en la tarde de su entierro. Durante el día, el lugar donde atacaron al equipo de futbol Los Avispones parece una postal rural que inspira tranquilidad. Salvo por las ráfagas sonoras de los vehículos que circulan en ese tramo de la carretera entre Iguala y Chilpancingo, lo demás es un paisaje que invita a tumbarse en el prado a mirar las evoluciones de las nubes. El campo se pierde en el horizonte, al cielo azul lo recorta la irregularidad de los cerros de fondo y a lo lejos, como figuritas de una maqueta escolar, algunas vacas indiferentes. Pero de noche este paraje es otro. En la oscuridad esa estampa pastoral se convierte en un hoyo negro que devora todo. Sólo en estas circunstancias es posible imaginar a un equipo de jóvenes aterrados que, ocho meses antes, se escurrían para salvarse de las balas. Aquella noche de septiembre el autobús de Los Avispones cortaba la oscuridad espesa de la carretera. No era un vejestorio de tercera clase sino un vehículo moderno, un Volvo gris con pantallas y aire acondicionado que alquilaban a la compañía de viajes Castro Tours. El ronroneo del motor arrullaba a un equipo de futbolistas adolescentes, cansados y hambrientos después un partido que habían ganado en Iguala. Dentro del vehículo todo estaba en silencio y a oscuras por las cortinas corridas de las ventanillas. En los monitores la película Los ilusionistas hacía menos tedioso el regreso a Chilpancingo. Algunos muchachos preferían atender los mensajes de sus teléfonos que cada tanto les iluminaban los rostros y que les enviaban sus padres, preocupados por la hora en que tenían que recoger a sus hijos, jugadores de tercera división con edades de entre 14 y 18 años que aún debían pedir permiso. Afuera el ambiente húmedo amenazaba con lluvia. Iguala había quedado pocos kilómetros atrás. Un letrero color verde pasto se iluminó con las luces del autobús que señalaba la desviación a Santa Teresa, un municipio con apenas 659 casas. Era poco antes de las 11:30 de la noche. El médico del equipo vio un movimiento extraño de personas unos metros adelante sobre la carretera. En medio de ese páramo, a esa hora, lo único que podía esperar eran malas noticias. Pensó que podía ser un retén de estudiantes normalistas que buscarían quedarse con el vehículo. Se levantó de un salto para dar instrucciones a los jugadores en caso de que eso sucediera. No pudo decir nada. La primera descarga de balas le arrebató la palabra. Los jugadores recuerdan que los tiros atravesaron la lámina con un ruido sordo, como las palomitas de maíz cuando estallan dentro del horno de microondas. El autobús salió de la carretera y se hundió en un pequeño barranco para encallar frente a un árbol. Los disparos siguieron a pesar de los gritos aislados que pedían a los atacantes que pararan, que sólo eran un equipo de futbol. La respuesta fue más balas. Más ruidos metálicos repetitivos y secos. En el vehículo sólo había chicos aterrados y desperdigados por el piso, entre los asientos y el pasillo, apilados como una camada de crías temblorosas. Uno de ellos pensó que el único refugio en ese momento era rezar y trató de recordar alguna oración. Sólo le salió un balbuceo. Había olvidado todas las plegarias. El capitán del equipo reaccionó tarde y ya no encontró dónde cubrirse, se hincó en el hueco entre su asiento y el respaldo de adelante, con la cabeza reclinada contra la pared del autobús, mientras las balas zumbaban cerca de sus orejas. Todos quedaron mudos en medio de esa granizada de plomo. El fuego cesó de manera súbita. El chofer, Víctor Manuel Lugo, permanecía inmóvil en su puesto al volante, herido de muerte por los primeros tiros que habían entrado por ese costado. El preparador físico recibió una bala en la cara que lo dejó ciego de un ojo y con la nariz rota. El director técnico estaba encorvado, con dos disparos que le habían perforado el estómago. Miguel Ríos, un joven con personalidad de defensa central, se desangraba debido a cinco balazos, aunque recuerda que nunca imaginó que fueran tantos. Estaba seguro que no era grave pues apenas había sentido unos golpecitos suaves y calientes que le dejaron la carne entumida. De los 26 pasajeros, 294 12 estaban lesionados. Al novato de 15 años, David Josué García, la vida se le escapaba por una herida mortal en el cuello. La puerta del autobús quedó atascada por la tierra del barranco en el que habían encallado. Lo supieron cuando los agresores intentaron subir al vehículo: eran policías municipales de Iguala, según la versión que ofrecerían después las autoridades federales. Trataron de abrir a patadas y después a culatazos. Pero la puerta no cedía. En cada sacudida el forcejeo violento se amplificaba por el silencio que el miedo impuso a los tripulantes. Un hombre vestido de negro y encapuchado gritó: “Abran. Ya valió verga, los vamos a matar”, vociferaba mientras golpeaba la puerta. Frente al parabrisas, otro sujeto les apuntaba con un rifle de asalto. Tenía el rostro descubierto pero, recuerda el entrenador del equipo, sin rasgos que lo hicieran memorable. Su cara era como cualquiera de las que abundan en la sierra de Guerrero. El preparador físico, con una herida terrible en el rostro, habló por todos: “Ya no disparen, somos un equipo de futbol, somos Los Avispones de Chilpancingo”. Escucharon algunas risas. Un instante después le respondieron con otra ráfaga. Luego regresó el silencio. Durante unos minutos esperaron en la penumbra dentro del autobús. Inmóviles. Sin hacer ruido por miedo a que los agresores siguieran ahí y volvieran a dispararles. Ese silencio se interrumpía de vez en cuando por el motor de algún auto que pasaba a toda velocidad por la carretera. Uno de ellos se atrevió a mirar afuera y, después de cerciorarse de que se habían marchado, empezaron a arrastrarse hacia las ventanillas. Rompieron los vidrios y saltaron. Uno tras otro se descolgó mientras ayudaban al siguiente compañero. A unos cuantos metros sobre el camino había otros autos baleados. La mayoría de los jóvenes huyó en desbandada hacia los cerros, otros se agazaparon entre la milpa que crecía en el terreno inmenso junto a la carretera. Los más graves sólo se tumbaron en la hierba mientras se desangraban, con la esperanza de que llegarían a rescatarlos. El chofer Víctor Manuel Lugo seguía frente al volante, inconsciente, y moriría horas después en un hospital de Iguala. David Josué García, “El Zurdito”, yacía muerto dentro del autobús. ______________________________________________________________________ 22 de julho de 2015. ESPACIOS DE ESPERANZA LOCUTOR: A Guadalupe Pineda, a Tania Libertad y Eugenia León. Y la primera canción con al que se abrió ese extraordinario concierto fue esta, “Yo vengo a ofrecer mi corazón”. Así que ojalá que, como en aquel entonces, en aquel exitoso concierto, esta canción también nos dé buena suerte en el programa. (0”00” – 0”20”’) LOCUTORA: Así es, esperamos que a ustedes les esté gustando nuestra transmisión y los invitamos a que nos sigan escuchando. (0”21” – 0”27”’) LOCUTOR: Vamos a empezar ahora con el contenido, a explicarles un poco cuál es el contenido del programa. Y en este sentido queremos hacer mención muy rápida d eque hemos pensado que el programa Espacios de Esperanza es una revista radiofónica, y como tal la hemos dividido en cuatros secciones. La primera tratará a cerca de un actor, un compañero o una compañera de alguna de las comunidades de aquí del estado de Chiapas, nos comparta su experiencia en la construcción de un espacio de esperanza. La segunda parte, Cristina… (0”28”-1”16”) LOCUTORA: La segunda parte va a tratar sobre la construcción de espacios de esperanza en el sudeste y pues también tendremos algunas entrevistas con compañeros de organizaciones sociales que han colaborado en este largo tiempo con nosotros. (1”17”-1”30”) LOCUTOR: En la tercera parte, para el resto del país, en concesión entonces de los estados de Guajaca, Veracruz, Tabasco, Quintana Ros, Campeche, Yucatán, también hemos decidido dedicar una parte para escuchar espacios de esperanza en el resto de México. (1”31”-1”52”) LOCUTORA: Bueno y sabemos que no solamente México están construyendo sus espacios por lo tanto tenemos una última sección a nivel internacional y tenemos la presentación de diversas experiencias de Latinoamérica y otros países del sur que están empezando a ser escuchados y pues también lo queremos compartir con ustedes. (1”53”-2”13”) LOCUTOR: Sí, quizás esta parte, la internacional, de nuestro programa, también nos permita crear puentes mas allá de nuestro país, de nuestra región y nos permita escuchar otras voces y otros idiomas. Experiencias que se están construyendo en todas partes y que nos permiten una cosa que creo es muy importante: celebrar nuestros espacios de esperanza, compartir nuestros espacios de esperanza, hacernos sentir que no estamos solos, que es muy importante acompañarnos en este proceso. Aunque las fuerzas hegemónicas sean tan poderosas, esta es una manera excelente de darnos confianza entre todos y todas. (2”15”-3” 03”) SPOT DEL PROGRAMA (3”05”-3”25”) LOCUTOR: Bien, vamos a iniciar entonces el primer tema que vamos a tratar es un tema que a todos los que vivimos en Chiapas, y en el Sudoeste de México nos da un gran orgullo y una gran esperanza. Es el tema de la producción de café, no solo porque esta es una actividad que representa una importante fuente de ingresos y ocupa una gran cantidad de tierras en manos de comunidades y ejidos en Chiapas, en Guajaca, en Veracruz, sino sobre todo, por el gran movimiento alternativo que ha generado en los últimos 20 a 35 años a partir de que comunidades. Organizaciones, productores, empezaron a decidir la construcción de mecanismos nuevos, toda vez que el mercado internacional cambió, y ¿cómo comercializar el café? Entonces una de estas primeras grandes ideas fue la idea del café orgánico. Un café que pudiera producirse sin el uso de agroquímicos, un café que pudiera producirse conservando el 296 suelo, conservando el agua, conservando la naturaleza. La producción de este café orgánico significo también el desarrollo de nuevos mecanismos y nuevas formas de comercialización en los países consumidores de café. Precisamente, el reconocimiento del trabajo de los productores por producir un café orgánico se acordó que fuera compensado por un sobreprecio al precio que establece la bolsa por un café convencional. La expansión del café orgánico en estos últimos años ha sido grande y sostenida y México, pues nos enorgullecemos de eso, es el primer productor de café orgánico del mundo y Chiapas es el principal productor de café orgánico en México. Que significa esto en la vida de las comunidades productoras de café. Significa algo importante porque fundamentalmente implica que para comercializar, tienen que organizarse. Productores individuales no pueden comercializar café orgánico. Por qué, porque para poder hacerlo se necesita una certificación. La gran aportación que este esquema ha dado a los procesos organizativos y de construcción de esperanza es que el proceso certificación de café orgánico, lo llevan a cabo las propias organizaciones, los propios productores que se habilitan y capacitan como inspectores internos, realizan la certificación de café que es avalada después pro un organismo internacional, pero fundamentalmente lo que ha hecho es que desde la planta de producción hasta el contenedor de exportación los productor tengan un extraordinario cuidado, un extraordinaria vigilancia y control de cada grano. Vamos a escuchar una de las experiencias que para nosotros es más entrañable. ¿Por qué? Porque esta experiencia la acompañamos casi desde el principio. Es la de la organización Nubes de Oro que se encuentra su sede en la costa de Chiapas y que ubica en la ciudad de Mapastepec, su centro de operativo. Esta zona exuberante y extraordinaria, con selvas magnificas en las partes bajas y bosques exóticos con amplia diversidad es el hábitat de especies como el Quetzal, el Jaguar y el Pavón, algunas de ellas muy simbólicas y representativa de nuestro estado y nuestra región. La organización Nubes de Oro arrancó como muchas, con un propósito de mejora de vida, de mejora de condiciones de sus socios y hoy, después de más de diez años de trabajo intenso, son una de las organizaciones líderes en cuanto a precios de comercialización. Cuentan además de los certificados orgánicos con el de comercio justo y con el certificado de Birdfriendly, un café amigable con las aves y sobre todo con un liderazgo que también ha permitido abrir otros procesos como el de una caja de ahorros, como el de producción de miel, el de producción de otros tipos de bienes y servicios que provee la región, especialmente los mencionados servicios ecosistémicos como el agua y la biodiversidad. scuchemos entonces a nuestro amigo Armando que fue ex presidente fundador de Nubes de Oro en Mapastepec y con esto arrancamos Espacios de Esperanza. (3”25”-8”47”) LOCUTORA PRESENTA AL ENTREVISTADO Y COMIENZA LAS PREGUNTAS ENTREVISTADO MAURICIO: Se refiere a la cantidad de productores que tienen en el momento, sobre las diferentes variantes y tipos de café que producen y comercializan. (8”53”-10”05”) (10”09”): La situación de los productores, las mejoras que han tenido gracias a la organización. Los diferentes premios que otorgan, los principales clientes, las relaciones entre productores y con los clientes. (16”15”) LOCUTOR: Bueno, acabamos de escucha la entrevista con Mauricio… ex presidente fundador de Nubes de Oro, una de las experiencias que sabemos que se están construyendo en Chiapas. Ahora vamos a escuchar la canción “Ojalá que llueva café”, original de Juan Luis Guerra, es de 1990 y lo vamos a escuchar en la voz de Café Tacuba. Esperemos les guste. (16”15”16”38”) TÉC COLOCA TEMA MUSICA (3”24”): “Ojalá que llueva café”, de Juan Luis Guerra. LOCUTORA: Acabamos de escuchar a Café Tacuba con esta canción que se llama Ojalá que llueva. (20”03-”20”10) 297 SPOT DEL PROGRAMA (20”10”- 20”33”) LOCUTORA: Enseguida vamos a presentar una entrevista con una organización de Talajuri – que se llama Consejo Regional de Energía Popular. Esta organización fue fundada el primero de julio de 1995 allí en Talajuri y, por que surge esta organización, bueno pues surge por la incapacidad que tienen las autoridades estatales y municipales y para resolver los problemas, los que tienen las personas en las comunidades, en las organizaciones; y las personas que se organizaron decidieron implementar diferentes acciones. Una de estas acciones fue una peregrinación que después se convirtió en una marcha y que culminó esa marcha en el cierre, el bloqueo, de la carretera federal. Este plantón exigía que el gobernador del estado de Campeche se presentara. Ya estando en esa reunión de los representantes con el gobernador, pues este gobernador, como hacen todos los gobernadores, retó a los participantes del plantón a que se constituyeran jurídicamente. Entonces, para esta constitución legal, el consejo regional plasmó estas demandas comunitarias, que se plantearon en la organización como una organización mutiétnica, pluricultural y que promueve la participación de las mujeres y de los jóvenes y la lucha por la democracia, esta lucha por la democracia basada en una condición estratégica, que es diferente a lo que otras organizaciones que empiezan a implementar acciones así a lo coyuntural. Pero en esta organización hacen su misión estratégica a través de una capacitación, hacen gestión, ejecución de proyectos productivos, de servicios sociales, servicios culturales, domésticos y comunitarios y también prefieren el bien común, con mucha transparencia, con honestidad y respecto, esos son como los valores que guían la organización, para mejorar la calidad de vida de los socios indígenas y de sus socios mestizos, de los pueblos de esta región de Talajuri. Actualmente, el Consejo regional indígena tiene incidencia en 13 comunidades que están ubicadas en la zona de amortiguamiento y de influencia de la reserva de la biosfera de Talajuri y esta reserva de la biosfera pertenece a este municipio en el estado de Campeche. Y bueno esta reserva está considerada una de las de mayor importancia en todo el país, no solo por sus condiciones territoriales sino también por su biodiversidad. Esta región se encuentra ubicada dentro de las microrregiones más pobres del país según la secretaría de Desarrollo Social. Vamos a escuchar la entrevista. (20 ”34 ”- 23”43”) ENTREVISTADO (JESÚS DE LEÓN ZAPATA): NO SE ENTIENDE LO QUE HABLA EL RUIDO TAPA LA VOZ DEL ENTREVISTADO. (23”43”- 30”51”) LOCUTOR: Acabamos de escuchar a nuestro entrevistado Jesús de León Zapata del club regional de… nos da mucho gusto esta entrevista precisamente porque refleja claramente toda la problemática que ellos han vivido desde el momento de su conformación hasta los logros que han obtenido en estos días. Nos da también la impresión de que estas experiencias de las que hemos estado hablando, pues generan espacios y oportunidades en las que uno se puede ir integrando y que además, generan una forma distinta de relacionarse en una comunidad en la que la gente se siente identificada, en la que la gente puede hacer acciones colectivas, pero además, coincidir en espacios más amplios y vincularse de una forma diferente a todo este proceso del capitalismo. La canción que vamos a escuchar a continuación es de Jorge Reyes y Antonio Cepeda titulada…. (30”51”- 31”45”) TÉC COLOCA TEMA MUSICA INSTRUMENTAL (4” 53”) LOCUTOR: Bueno acabamos de escuchar la música de Jorge Reyes. Quisimos poner esta pieza precisamente para un poco celebrar el gran patrimonio ecológico que representa en Calambul el sitio, esta ciudad maya tan importante y buscamos un referente, un referente musical que nos pudiera remitir a esas épocas de los mexicanos antiguos, de los mayas antiguos. PAUSA 298 LOCUTOR: Vamos a continuar hablando ahora de un espacio de esperanza a nivel nacional. Hemos tenido la suerte de conocer a los compañeros del Frente Democrático Campesino en Chiguagua, compañeras y compañeros que han luchado durante muchos años en una serie de movimientos y movilizaciones que tienen que ver precisamente con la producción rural y con este terrible enfrentamiento que tiene la producción rural en la zona fronteriza de México. Para nosotros que vivimos en el Sur, los referentes de esa forma de producir y comercializar, nos parecen muy lejanos, pero allá, los campesinos y las campesinas no usan machete, usan tractor; no cosecha a mano, tienen sus grandes cosechadoras, pero a pesar de que parecieran ante nuestros ojos como grandes productores latifundistas, viven la misma injusticia y las mismas desigualdades que nuestros campesinos de acá. No es fácil mantener esos sistemas de producción, se requiere una gran inversión, una gran inversión de trabajo, de capital. Esa producción al mismo tiempo, siempre tiene la desventaja de que al otro lado están las grandes extensiones de producción de maíz, las grandes extensiones de producción de alimentos que compiten de manera desleal con las zonas productivas de aquí de México, aun en estas zonas de alta productividad como Chiguagua. El Frente Democrático Campesino en Chiguagua por eso encabezo una de las luchas más emblemáticas y significativas del campo mexicano cuando se puso en marcha el Tratado de Libre Comercio y en especial cuando se previó la eliminación de los aranceles para la importación de maíz. El Frente, desde entonces, hizo grandes movilizaciones, llego a ocupar los puentes fronterizos entre México y Estados Unidos para denunciar las desigualdades que ese acuerdo implicaba para los productores de México. Productores que a pesar de que el Gobierno mexicano en sus cuentas públicas anuncia grandes inversiones y grandes montos de apoyo para el sector agropecuario, en realidad estos siempre van a parar a manos de las grandes compañías transnacionales como GUMA y MASECA que reciben primordialmente esos apoyos en logar de los productores de maíz. Tuvimos la suerte de conocer a Blanca en una comunidad de Zaragoza, llamada Ignacio Zaragoza, en las estibaciones de la sierra TABOMARA. Blanca es una mujer muy emprendedora y en el marco de la organización del Frente Democrático Campesino, se ha dado a la tarea de realizar una caja de ahorros solidaria entre mujeres y hombres de esas tierras que sirve, entre otras cosas, no solo para mantener la producción y comercialización del maíz, sino también para mantener sus propios medios de vida y sus propios proyectos. Desde aquí le mandamos un fraternal saludo a todos los compañeros del Frente Democrático Campesino y, en especial a Blanca y a Arturo que nos recibieron tan fraternalmente pro allá. Así que escucharemos la entrevista con el Frente Democrático Campesino de Chiguagua. (36”38”-41”09”) ENTREVISTA FRENTE DEMOCRÁTICO CAMPESINO DE CHIGUAGUA (Blanca): Sobre qué es el Frente Democrático Campesino. A qué se dedican. Se declaran como organización no partidista y no gubernamentales. Los retos que se plantean con respecto a la democracia. (41”09”-44”17”) (44”19”): Sobre cómo es Zaragoza. Cómo funciona la caja de ahorros en la que ella trabaja allá en Zaragoza, cuales son los objetivos de esa caja de ahorros. Lo que significa para las organizaciones y la población local. (46”48”): Por qué considera que la caja popular de ahorro es un espacio de esperanza en Chiguagua. Camino a la auto sustentabilidad. El trabajo económico que realizan marca todo el trabajo del Frente Democrático Campesino. (48”55”): Mensaje a las organizaciones campesinas y a la audiencia del programa. LOCUTORA: Te agradezco mucho la entrevista y un saludo a todas las compañeras y compañeros del Frente Democrático Campesino de Chiguagua desde aquí desde Chiapa. Muchas gracias (49”43”-49”57”) SPOT DEL PROGRAMA (49”57”-50”19”) 299 LOCUTOR: Y bien, continuamos aquí en su Programa Espacios de Esperanza. Acabamos de escuchar en el Frente Democrático Campesino de Chiguagua a Blanca, que nos comentó como s vienen generando otro tipo de espacios de esperanza desde el Norte del país. Y bueno, hablando específicamente de esto, les dejo con Lucha Villa, actriz y cantante de los años ´30, que nos deleita con “El corrido de Chiguagua”. ¡Que lo disfruten! (50”19”-50”42”) TÉC COLOCA TEMA MUSICA INSTRUMENTAL (3”08”): Yo soy del mero Chiguagua, del mineral, del… y en este corrido, que alegre vengo a cantar. ¡Qué bonito es Chiguagua! Eres mi tierra norteña… LOCUTOR: Acabamos de escuchar a la gran Lucha Villa con este emotivo corrido de Chiguagua que nos hace pensar siempre en las épicas tierras del Norte, donde alguna vez estivo cabalgando Pancho Villa y su histórica división. (50”42”-53”55”) SPOT ANUNCIA SECCIÓN INTERNACIONAL LOCUTOR: Vamos a terminar el programa con la sección internacional. En este caso nos vamos a ir hasta el extremo Sur del continente. Vamos a hablar con una organización de compañeros y compañeros de Argentina. Para nosotros es una razón muy emotiva el pode compartir los micrófonos y la experiencia con ellos y ellas. La organización que nos va a hace runa reseña fue creada en el contexto previo al golpe militar en la Argentina en 1976. Quizás junto con Chile, Uruguay, Brasil y Paraguay, uno de los hechos históricos más dolorosos de la vida del cono sur que significo, entre muchas otras cosas, la imposición de una manera de vida, de una manera de pensar, de una manera incluso de sentir, en aquellas tierras en donde estaban emergiendo en ese entonces muchos ideales nuevos, muchos pensamientos significativos, muchas corrientes valiosas. Nos duele cada uno de las y los desaparecidos. Cada uno de quienes por el oprobioso dictamen de los militares fueron cerrados sus ojos, fueron calladas sus bocas. Este último momento de nuestro programa Espacios de esperanza también va en su recuerdo y su memoria. Y también va dedicado a todas las mujeres y hombres, madres, hermanas, hijas, que incansablemente han seguido buscando a sus desaparecidos. Ahora, en esta época, donde han cambiado tanto las cosas, argentina no sigue mandando, en muchos sentidos y en muchos símbolos, rutas y guías de esperanza. Un saludo entonces, a todos los compañeros del Cono Sur. (53”55”- 56”04”) ENTREVISTADO: Efectivamente, el movimiento ecuménico pro los derechos humanos fue creado en el 76, en vísperas de la dictadura militar. Es una asociación por los derechos humanos que esta constituida por iglesias cristianas, parte en preocupación por la vigencia del pleno uso de los derechos y el compromiso en defensa de la dignidad humana, logrando así la construcción de una sociedad más fraterna, basada en la verdad, la justicia, la solidaridad y una paz integral y auténtica. Fue creada en febrero del 76, y desde ese momento sigue siendo uno de los organismos de derechos humanos más importantes conocidos en Argentina. A continuación los dejamos con Gonzalo, quien nos habla, específicamente sobre el qué hacer de esta organización. (56”06”-56”46”) ENTREVISTADO GONZALO: Edad, lugar donde vive. A qué se dedica la organización para la que trabaja (Movimiento Ecuménico por los Derechos Humanos), cuándo, cómo y por qué surgió. (56”46”-58”49”) (58”49”) Acciones que han desarrollado en argentina a favor de los derechos humanos. _____________________________________________________________________________ 8 de agosto de 2015. LA HORA SEXTA 300 TÉC COLOCA MÚSICA INTRUMENTAL EN BG0”00”’ LOCUTOR: Hoy es un día muy especial para nosotras, para nosotros, porque estamos recordando un excelente amigo que en el espacio, el siempre agradable espacio de -----------, anualmente nuestro estimadísimo compañero y amigo Fernando Mitchel, nunca cayó la masacre que el capitalismo bárbaro, capitalismo sin corazón, hizo en Hiroshima y Nagasaki, hace 70 años. Los que lo recordamos con afecto no olvidamos que él nos llamaba a observar lo que pasaba en este horrible holocausto donde millones, miles y millones de seres humanos vimos lo terrorífico que puede llegar a ser la guerra desatada por estos grupos de poder. En el día de hoy le mandamos un ferviente y caluroso abrazo a donde quiera que esté, porque solo se nos adelantó un poco y nos mostró muchas maneras más de combatir y luchar. Por eso este recuerdo fraterno el día de hoy. Precisamente con respecto a estos asuntos vamos a platicarle un poco; de lo que Marco Roigman escribió al respecto. También les tenemos información pues de todo lo demás, en cuanto a, por ejemplo, lo que nos platica Gustavo Esteban con respecto a la violencia desatada, generalizada. Carrufacio nos comenta del Batallón 27, como están embarrados hasta las orejas con todos los asesinatos y, por supuesto, la terrible y dolorosa noticia de nuestra compañera, del asesinato de la compañera Nadia Dominic Vera Pérez y el dolor que esto genera en muchas de nosotras, en muchos de nosotros; lo mismo las opiniones del Yo soy 123 con respecto a todos estos asuntos, que pues lo que está sucediendo en estos momentos con la convocatoria de la situación del comandante Senmei Verdia, que pues ya todos ustedes han escuchado lo que está sucediendo en la comunidad de Ostula… En fin, vamos a tener pues de qué platicarle el día de hoy y como decíamos, agradecemos en mucho, el que ustedes nos acompañen el día de hoy y como cada sábado. (0”00” – 3”04”’) TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 7”’ E PÕE EN BG3”11”’ LOCUTOR: Y bien, inmediatamente vamos a iniciar pues que platicándoles que el compañero Marcos Roigman nos habla de que en este asunto de las bombas nucleares y que es un eufemismo de que es así como le dijeron los científicos a los cuerpos humanos que estuvieron a menos de 200 metros del epicentro, es decir, donde estuvo…donde cayó la bomba y a 200 metros alrededor. Solo quedaron sombras, la desintegración fue inmediata, el destello de luz y calor generado por la liberación de la energía atómica alcanzó cuatro mil grados centígrados con vientos de mil quilómetros por hora a medida que la onda expansiva cubría las ciudades de Hiroshima y Nagasaki, las casas y edificios explotaban y ardían. Los restos de construcciones vieron fundir metales como acero, hierro, cobre, latón, etcétera. Por primera vez la población civil era el objetivo de la fuerza desatada por la fricción nuclear. Entre las ruinas de Hiroshima se contabilizaron 70 mil muertos, otras tantas personas sufrirían quemaduras a consecuencia de la radioactividad. En medio de la desesperación, los sobrevivientes tampoco pudieron acudir a los centros médicos. Según los datos, en Hiroshima existían 45 hospitales, tres quedaron operativos. En los años posteriores se calcula que en Nagasaki las víctimas superaron las 80 mil personas. Tras su lanzamiento, conseguido el objetivo militar, que fue la capitulación japonesa, científicos de todas las disciplinas, entre ellos los mismísimos japoneses, se dieron a la tarea de tomar nota de los efectos sobre la población. El entonces presidente Truman, responsable del holocausto, pidió un informe, este informe no se supo nunca que pasó con él. Entre las actividades se desarrollaron planes de coballos humanos. Es decir, hacer experimentos con seres humanos para medir el alcance de la radioactividad a medianos plazos. Niños, mujeres, hombres fueron carne de cañón para investigar las alteraciones genéticas, malformaciones fetales y apariciones de tipologías de cánceres, enfermedades relacionadas con la exposición de los rayos Gammas. Estos estudios incluían fotografías y filmaciones, entrevistas y pues todos ellos nos e conoció nunca, fueron tomados como top secret, hasta diez años después que se revelaron todos estos horrores atómicos, como si se tratara de una bienvenida a La muerte, las bombas lanzadas sobre las poblaciones japonesas de Hiroshima y Nagasaki, fueron bautizadas y sacramentadas. La primera, lanzada el 6 de agosto de 1945 sobre Hiroshima, recibió el nombre de “ Little boy”, aludiendo 301 a la inocencia de la infancia. Para la segunda, que lanzaron el 9 de agosto, tres días más tarde, de 1945, el apelativo fue “hombre gordo”. Aún no había tocado tierra, cuando su halo de destrucción había comenzado. La fricción con la atmosfera desataba el holocausto, con una primera explosión de luz y calor. Nada más posarse en la tierra, una segunda explosión cuyo efecto rebote en la superficie, aumento su capacidad destructiva, hizo que La onda expansiva fuera desintegrando, carbonizando y llevándose por delante, sin resistencia, cualquier atisbo de vida. Fue talla descripción de los sobrevivientes que científicos de todo el mundo maldijeron y cuestionaron su uso como arma disuasoria. Quienes habían participado en el proyecto nunca volverían a ser los mismos. El director y jefe del equipo, Robert Openheimer... se alzó como uno de los científicos más relevantes. Sus manifestaciones Le granjearon el odio Del complejo industrial militar estadounidense, hasta ser tildado de procomunista en 1954. Fue sometido a juicio, perdiendo privilegios e impidiéndole el acceso a la instalaciones militares, a la vez que se revocaban sus derechos a consultarla documentación científica que él mismo había ayudado a procesar. Un movimiento por la paz nacía, al tiempo que las bombas atómicas traen bajo el brazo la Idea de un holocausto nuclear. La civilización se despedida de las guerras tradicionales. Estados Unidos y la Unión Soviética se convierten en las primeras potencias nucleares. Hoy se añaden siete países con bombas atómicas declaradas: Francia, Gran Bretaña, China, Pakistán, Israel y Corea Del Norte. Un tratado de no proliferación de armas nucleares encumbre la posibilidad real Del exterminio total. Sin embargo, en estos setenta años, el lanzamiento de ojivas nucleares sobre la población civil no se ha producido. Ha sido suficiente aludir a ellas para desatar los miedos y el pánico durante La Guerra Fría. El momento de máxima tensión ocurrió en 1961, conocido como la crisis de los misiles que enfrentó a Cuba y Los Estados Unidos y la Unión Soviética. Hoy la bomba atómica se sigue construyendo, a pesar de las advertencias y el rechazo mundial de los movimientos por la paz. Si algunos pensaron que esta desaparecería, han comprobado su eficacia para generar guarras convencionales. A setenta años Del holocausto nuclear, los conflictos armados, las guerras de baja intensidad, Copán el escenario internacional, la guerra de Vietnam, conocieron el uso de Napal y el Gas Naranja. La guerra de Iraq puso en funcionamiento bombas inteligentes, nuevos misiles. Ahora los drones, armas que manejan desde un tablero, sirven para combatir el terrorismo, todo esto entre comillas. Estas, todas estas armas, son de destrucción masiva, sin embargo, la bomba atómica, a diferencia de las mencionadas, no requiere ser lanzada. Basta señalar, poseer ojivas nucleares para garantizar participar de guerras más rentables y beneficiosas. El peligro nuclear no ha desaparecido como mecanismo bélico de dominación mundial. La guerra sigue siendo un gran negocio. El poderío nuclear abrió otra etapa en las guerras postmodernas del Neoliberalismo. La paz es una quimera, la guerra cubre hoy todos los espacios de la vida cotidiana. Hiroshima y Nagasaki son minoría viva de un imperialismo que no ha dudado en matar para preservar sus dominios. (3”11”-10”52”) TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 10”50” E PÕE EN BG11”08”’ MUJER: La hora sexta tiene como finalidad difundir los principios de La Sexta Declaración de la selva Lacondona y del EZLN. (11”08-11”16”) HOMBRE: Nos organizamos para difundir que otro mundo es posible a partir de la construcción y la transformación de la realidad, por medio del cambio de nuestras prácticas diarias individuales y colectivas. (11”17-11”27”) LOCUTOR: Ustedes disculparán el lapsus. En este momento estamos haciendo un enlace con nuestros hermanos y amigos Del Centro de Derechos Humanos Frai Bartolomé de las Casas que como ustedes recordarán la semana pasada estuvieron nuestros compañeros de BANABÍ En este espacio planteándonos de lo que iban a hacer y pues en este momento tenemos este enlace desde Banamir. Buenos días compañera. (11”28”-12”01”) 302 ENTREVISTADA DESDE BANAMIR: Habla sobre el regreso temporal de las familias desplazadas después de la agresión del 4 de diciembre de 2011. Retorno sin justicia y sin seguridad. (12”02-13”01”) LOCUTOR: Perdón compañera, nos están haciendo un poco de ruido por el otro espacio. Estamos intentando cerrar. Nos decía entonces, querida amiga, que en estos momentos ya nuestros hermanos de Banabil están ya listos para hacer lo que necesitan hacer en términos de recuperar, limpiar y componer lo que necesitan. ¿Estamos de acuerdo? (13”02”-13”33”) ENTREVISTADA DESDE BANAMIR: Alude al objetivo del retorno temporal: que las familias vengan a trabajar sus tierras y tratar de recuperar sus proyectos de vida. Se refiere a las dificultades que están teniendo: no tienen agua. Como han podido cubrir las necesidades básicas de alimentación, salud, seguridad, transporte: gracias al apoyo de observadores internacionales, de otros pueblos y comunidades. (13”33”-14”45”) LOCUTOR: ¿La situación, ya en términos, digamos, de la seguridad de ustedes, está tranquila, es estable, o los paramilitares siguen en la tarea que el estado les ha encomendado que es molestar todo el tiempo a esos pueblos originarios? (14”46”-15”06”) ENTREVISTADA DESDE BANAMIR: Refiere que no han tenido ningún incidente grave y por qué ha sido posible. (15”07-15”30”) LOCUTOR: estamos teniendo un corte, algunos problemas en el enlace. No sé si nuestros compañeros estén monitoreando desde donde nos están llamando. Estamos en un segundito volviendo al tema. Les decía al principio de la entrevista que nuestros compañeros y compañeras de Banabil habían retornado a su territorio, dado a que los malos gobiernos no han cumplido con el compromiso político que habían adquirido de respetar los derechos de las compañeras y compañeros de Banabil. De tal manera que se vieron obligados a regresar por su propia cuenta para ver la situación que están pasando sus casas. Entonces esta tarea de ver la llegaron a cumplir en estos días. Hace unos días se hizo una reunión en el Centro de Derechos Humanos Frai Bartolomé de las casas, en donde se convoco para que las personas que pudieran apoya a este grupo que regresa a su pueblo pues no fuera agredido, porque como saben estos compañeros han sido permanentemente agredidos por estos malos gobiernos. Vamos a dejarlos con un poquito de música en estos momentos y vamos a hacer el enlace de nueva cuenta con nuestros compañeros de Banabil. Permítanos, por favor. (15”31”- 17”26”) TÉC COLOCA TENA MUSICAL (3”06”): LOCUTOR: Bien queridos amigos, pues también tuvimos un problema allí con la electricidad, con estos benditos aparatos modernos. Ya estamos de nuevo en el espacio con nuestra querida amiga en el enlace. Decíamos entonces, estimada amiga, que la situación está tranquila y afortunadamente no han sido molestados como había sucedido en otras ocasiones. (20”46”-21”18”) ENTREVISTADA DESDE BANAMIR: sobre la expectativa Del cumplimiento de los acuerdos del gobierno de garantizar la seguridad y las exigencias de los desplazados: justicia, verdad y retorno definitivo. Énfasis en lo que posibilitó ese retorno provisional. Llamado a las organizaciones que puedan apoyar. Explica cómo pueden apoyar. Convoca a la proyección de un audiovisual y un encuentro con miembros de las familias, en el Centro Cultural Kinoqui, para conocer más sobre la causa. (21”19-24”12”) LOCUTOR: Muchas gracias estimada compañera, vamos a escucharlo entonces. Muy buenos días, estimado amigo. (24”12”- 24”16”) 303 MIGUEL LÓPEZ GIRÓN, DESPLAZADO FORZADO DE LA COMUNIDAD DE BANABIL: Sobre la satisfacción con el trabajo que han hecho en el lugar. Recuenta lo que han hecho durante toda la semana y los cambios que se encontraron en su comunidad durante su ausencia sin su consentimiento. Alude a la carencia de agua como el principal problema que están enfrentando y al apoyo que han recibido en ese sentido. (24”19”-30”25”) LOCUTOR: Entonces, estimado amigo, las agresiones siguen, continúan de alguna manera, no hay una respuesta del estado en atención a lo que realmente está sucediendo. Ahorita ustedes van a seguir en esta tarea. ¿Hay algún llamado para el apoyo, para los compañeros y compañeras que nos escuchan? ¿Hay acciones para llegar con ustedes? ¿Se puede llegar o cuál es el mecanismo que tienen que utilizar para que las personas que nos están escuchando y que quieran ir a acompañarles y apoyarles, puedan estar con ustedes? (30”25”- 31”00”) MIGUEL LÓPEZ GIRÓN, DESPLAZADO FORZADO DE LA COMUNIDAD DE BANABIL: Convoca a organizaciones y colectivos nacionales e internacionales a que los acompañen. Y explica el procedimiento para ir a apoyarlos. Destaca la inseguridad en la que viven. Instó a que los apoyen con el agua. (31”01”-32”52”) LOCUTOR: Muy bien, pues, entonces para ya sabemos que estos es muy caro para ustedes, amigos. Gracias por esta llamada. Entonces la invitación que hay ahorita es para el martes, que vayan a Kinoqui y escuchen y para con ustedes que se presenten al Centro de Derechos Frai Bartolomé de las Casas, porque se necesita agua y apoyo para que hayan observadores y no los agredan como AL parecer está siendo costumbre de estos grupos priístas y estos malos gobiernos. ¿Así sería, estimado amigo? (32”53”- 33”35”) MIGUEL LÓPEZ GIRÓN, DESPLAZADO FORZADO DE LA COMUNIDAD DE BANABIL: Confirma la cita en el Kinoqui para la proyección Del vídeo que tienen y conocer de su historia. (33”37”- 34”07”) LOCUTOR: Muy bien, amigo. ¿Algo más que se le quede ahí en su corazón para que nuestros amigas, nuestras amigas que están escuchando a través de la 99.1 Frecuencia Libre, puedan compartir con las personas que conviven? ¿Hay alguna invitación, algo más…? (34”08”-34”33”) MIGUEL LÓPEZ GIRÓN, DESPLAZADO FORZADO DE LA COMUNIDAD DE BANABIL: Invitó a las organizaciones y colectivos nacionales e internacionales a enviarles sus mensajes y palabras de apoyo. (34”34”-35”04”) LOCUTOR: Muy bien, pues muchísimas gracias, salúdenos, por favor allí a nuestros amigos, nuestras amiga del Centro de Derechos Humanos Frai Bartolomé de las Casas. Cuídense mucho, por favor y estamos muy atentos a lo que pueda suceder. (35”04”- 35”21”) MIGUEL LÓPEZ GIRÓN, DESPLAZADO FORZADO DE LA COMUNIDAD DE BANABIL: Agradece por el espacio que les dieron en el programa. (35”22”- 35”29”) LOCUTOR: Ánimo, no hay nada que agradecer, pásenla bien. Hasta luego. (35”30”-35”35”) SPOT DEL PROGRAMA: (35”36”-35”57”) LOCUTOR: Bueno, y pues ya escucharon, amigas, amigos, eh, vamos a seguir… TIMBRE DE TELÉFONO 304 LOCUTOR: Hola, hola, hola. Creo que por accidente, volvieron a marcar nuestro número nuestros amigos del Centro de Derechos Humanos Frai Bartolomé de las Casas. Pero no, fue un accidente. Entonces estábamos comentando con ustedes, estimadas, estimados, que escucharon la situación en Banabil que está terrible en términos de que no hay gua para nuestros amigos y que estos malos gobiernos no tienen para cuando dar solución a los gravísimos problemas que hay ya que, como es cucharon ustedes, fueron corridos de sus espacios y les han robado sus casas, sus pertenencias y al parecer todo sigue igual, no hay autoridad en este país, en este estado, en el pobre estado de Chiapas y como ya lo diría alguien por ahí: “pobre de México, tan lejos de Dios y tan cerca de Los Estados Unidos”. Siguiendo con la documentación, las palabras de diferentes que recuperamos y otras que nos llegan a nuestro espacio, les platico de Don Gustavo Esteban. Pero esto va a ser después de un poquito de música. (36”06”-37”50”) TÉC COLOCA TEMA MUSICAL (3”06”): “Estas tierras de... las sembré con un buey FANDO, seme reventó el BARSÓN y sigue la yunta andando. Cuando llegué a media tierra, el arado iba enterrándose…”. (4”16”). LOCUTOR: Pues lo dicho, que siga la yunta andando. Ojalá y el estado entienda que los que deben obedecer son ellos, los que viven de nuestros impuestos son ellos, ellas y que no tienen derecho a decidir por nosotros y pro nosotras. Bueno, en estos asuntos de la violencia desatada por el estado, para nosotros es muy claro que lo que están haciendo en estos omentos es aterrorizar al pueblo mexicano. Lo que están haciendo es callarnos por medio de la violencia porque por medio de la razón… la razón es nuestra y en ese sentido nos dice Don Gustavo Estaba que “este origen de la violencia, como diría Osorio Chong –dice- no será con violencia o enfrentamientos como se eleve la calidad educativa en el país sino con la presencia del trabajo en las aulas. Esto lo saben bien los maestros, pero aunque lo digan, el Secretario de Gobernación no lo sabe, ni el presidente de la República tampoco, ni el gobernador de Guajaca, todos estos tienen una mentalidad bélica, como la que exhibió Gabindo Cue cuando percibió que su ejército de esquiroles estaba listo para sustituir a los nuestros en resistencia. El 25 de julio pasado, confiados en que la sección 22 caería en la trampa de SUS provocaciones, trajeron a Guajaca más de 10 mil efectivos de la policía Federal y la gendarmería… los pusieron aparatosamente en la calle de los Derechos Humanos y el gimnasio Flores Magón. Al reclamar esta ocupación agresiva de la ciudad el Consejo Ciudadano de Guajaca a las autoridades que los estados de fuerza no son convenientes para la gobernabilidad ni la buena gobernanza, máxime cuando la comunidad guajaqueña no olvida la respuesta represiva y autoritaria que el régimen estatal y el municipal aplicaron a los movimientos sociales Del 2006 y 2007. En este espacio de la Policía Federal, tienen un comandante que se conoce como Espartaco, el cual es un apodo enteramente inadecuado para lo que hace en términos de que las operaciones para resguardar la seguridad de las instalaciones del clausurado Instituto Estatal de Educación Pública de Guajaca lo que se llama el IEEP que es el Instituto Estatal de Educación pública de Guajaca, señalaron que estaban resguardando el orden roto con la clausura y que permanecerían en el lugar para evitar enfrentamientos por la protesta de la Sección 22 y para que se cumplieran las instrucciones de los funcionarios. “Tenemos todo. Estamos preparados hasta pro el respeto a los Derechos Humanos”, decía este policía. Por supuesto que esta referencia la hacen por lo que pasó en el 2007 en donde la Suprema Corte de “Injusticia” de la nación designo una comisión para investigar la suspensión de hechos de las garantías constitucionales que ocurrieron en Guajaca en el 2006, pues las autoridades violaron gravemente todos estos derechos y las corporaciones policiacas afectaron a gran número de personas en forma cruel e inhumana produciendo lesionados, torturas y muertos. En el 2009 la corte reconoció en un dictamen que se vive en un régimen en que la fuerza pública actúa de manera excesiva, desproporcionada, ineficiente, improfesional e indolente. Como el estado utiliza a las corporaciones policiacas de manera irresponsable y arbitraria, se sostiene que de nada sirve que se reconozcan en leyes, tratados y discursos, y que en el país no se respeten los derechos humanos y que son constantemente violados. Las violaciones quedan impunes y a las víctimas no se les hace justicia. 305 Parecía una denuncia, que era en realidad confesión de identidad: la corte forma parte de este régimen. Acábense de ida, que sería ilusorio esperar de Ella justicia, porque Noé s su función. Al presentar su dictamen sobre Guajaca, afirmo que las autoridades pueden y deben violar las garantías constitucionales extendiéndolas por tiempo indefinido. Extendió así certificado de impunidad a quienes la violaron. “Considero que su uso de la fuerza pública fue legítimo, aunque tardío”- dicen ellos- “y que el movimiento social había sido el único responsable de los deslizados”. ¡Hágame usted el bendito favor! Para la corte somos culpables los inconformes, los insumisos, vaya, los ciudadanos que usamos todas las vías legales e institucionales y pasamos a la acción directa cuando las, estas acciones legales quedan agotadas. Se trata pues de una postura jurídica aberrante, técnicamente ridícula, éticamente insoportable y políticamente criminal. Estamos en un estado de decepción no declarado que da forma legal a los manifestantes ilegalmente. Hasta ahora los maestros han hecho fracasar todos los operativos en contra de ellos, sin caer en las trampas que les tienden. Por ejemplo el 17 de Julio mostraron un notable autocontrol en una gran marcha. Después se acercaron ordenadamente a las instalaciones que resguarda el famoso Espartaco, para realizar los trámites requeridos en sus asambleas para definir estrategias. Recuerdan con orgullo que el Movimiento magisterial existió por más de una década y que todas esas estructuras creadas a partir de 1992 para que los maestros tuvieran alternativas, ahora están siendo golpeadas y que es cierto que la Sección 22 quedó atrapada en la vorágine de corrupción y violencia autoritaria de los gobernadores como Murat y Ruiz. Es cierto que muchos pueblos y ciudadanos repudian hoy a los maestros por sus corruptelas, ausencias y estrategias de lucha y que muchos maestros merecen ese repudio, pero no los dejaran solos. La agresión que ahora sufren podrá unirlos de nuevo a la gente y preparar su renacimiento. “Para dialogar –decía Machado- escuchar primero, después, escuchar. Y escuchar no es solamente oír, es estar dispuesto a ser transformado por el otro”. En Guajaca, tanto el Gobierno estatal como el federal, piensan que dialogar consiste en dar orden. Nada hay que negociar”, subrayó CHOUFER y, como diría Osorios Chong. La sociedad se construye en la escuela, pero también se construye en las calles, pero no en el callejón de los trancazos AL que el gobierno incita, sino en el camino a la transformación organizada. La lucidez, serenidad y capacidad de gobierno que tanta falta hacen en las esferas gubernamentales, se empieza a demostrar en la sociedad guajaqueña, incluida la Sección 22. Luchamos en el hogar, la escuela y la calle. No cejaremos hasta terminar la ocupación militar y policiaca de Guajaca y establecer, al fin, un orden democrático. (42”06”- 51”09”) TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 51”10” E PÕE EN BG 51”17”’ LOCUTOR: Y ya en los últimos minutos de nuestro espacio, les platico así muy rápidamente que Carlos Flacio nos platica que es importante, vital, es necesario investigar al Batallón número 27 que, el pasado 29 de Julio la secretaría de la Defensa Nacional decidió relevar al Coronel José Rodríguez Pérez de la Comandancia Del 27 Batallón de Infantería de igual a Guerrero. Como ustedes recordarán ellos son el Mando Castrense que firmo las entradas de las bitácoras de los movimientos y salida de los oficiales y tropas los días 26 y 27 de septiembre de 2014 en cuanto esos días fueron los detenidos, desaparecidos de nuestros 43 amigos, compañeros normalistas de la normal Isidro Burgos de Ayocinapas. Según la CEDEN, este relevo forma parte de la política de rotación de mandos que ellos tienen. Para nosotros es claro que lo que intentan es ocultarlo y cambiarlo de espacio y que lo que pretenden estos malos gobiernos es ocultar lo sucedido. La CNDH pidió que se permita entrevistar directamente a nueve de los 38 soldados que rindieron testimonio, que el Coronel José Rodríguez sabe mucho y debe declarar. También se ha solicitado que se investigue a los Mayores Raimundo Barrera y Luis Alberto Rodríguez Chávez, Jefes de Personal y de información respectivamente Del 27 Batallón. Según los organigrama de la unidad sería los superiores inmediatos de dos oficiales que participaron en los hechos: el teniente Vicente Barbosa y el Capitán Miguel Hernández Crespo, ambos presuntamente relacionados con la 306 delincuencia organizada a raíz de una manta firmada por el Cabo Guerreros Gil, supuesto líder de Guerreros Unidos. Existe una confusión si existe un tal Capitán Crespo protector Del narco, que es el mismo de Miguel Hernández Crespo, o si son las mismas personas o ambos están involucrados. (51”18”- 53”55”) TÉC COLOCA MÚSICA INSTRUMENTAL 53”55” E PÕE EN BG 54”02” LOCUTOR: Y ya en los últimos segundos estimados amigos estimadas amigas, hay dolores que estos malos gobiernos como les decía a ustedes, nos crean. Hay terrores que ellos quieren que nosotros tengamos para que nos callemos, para que no construyamos. En este sentido se habla de asesinatos terribles, en este caso de una de nuestras compañeras, Nadia Dominique Vera Pérez, que en paz descanse. “Tantas veces me mataron, tantas veces me morí, sin embargo, estoy aquí, resucitando, como la cigarra”. Esta es una parte de una bellísima canción con la que Tania Ávalos nos habla de la vergüenza terrible de vivir en este país. Una pena incontenible, una rabia desbordante, una impotencia absoluta, estar aquí. Saber que es el estado, con su puño cerrado, con su gesto prepotente, con SUS gobernantes cínicos y megalómanos corruptos hasta la punta Del pelo, el que con toda saña nos asesina, nos arranca cualquier esperanza y nos escupe a la cara con SUS mentiras. “Una vergüenza infinitamente de permanecer sentada escribiendo estas letras – - mientras una madre se duele desde su poesía y su alma sin saber por qué Le arrebataron a su hija, mientras una amiga pierde a su sobrina y contienen su dolor en letras, para solo decir que la ausencia será infinita. Me siento cobarde, cobarde porque solo se me ocurre de nuevo salir a la calle para gritarle a la soberbia sorda de estos asesinos que con sangre se hinchan de dinero, de prestigio y de mierda. Cada letra que te CREA una tormenta, porque nadie cambiara nada, porque nadie podrá regresar a nadie. A Rubén, a Gilberto, a Julio, a Alexander, a Mali… una interminable angustiante y penosa lista de jóvenes, jóvenes, hombres, Mujeres, Estudiantes, creadoras, creativos, críticos, luchadoras, luchadores que eran futuro, que podrían construir otro país. Me avergüenzo irremediablemente y lloro por nosotros, por todos los que nos quedamos en silencio, inmóviles, o hacemos lo de siempre, entre el Twitter, el Face o entre la marcha y la pancarta. Llevamos años, meses, días, soltando consignas que se repiten ahora casi de forma automática. Porque por fuerte que elevemos la voz, ellos siguen si escucharla y una y otra vez disparan”. Es doloroso hablar de esto porque como ustedes saben, desde el primero de agosto los noticieros nacionales e internacionales reportaron que los cuerpos sin vida de un fotoperiodista y cuatro mujeres fueron halladas en un departamento de la colonia Narvat en el DF. Lloramos de rabia e impotencia pro el asesinato de Rubén, compañero de lucha, amigo, maestro. Rubén, uno de los nuestros. Y las primeras imágenes, Nadia, reconocimos tu casa, rogamos que no estuvieras ahí, te llamamos hasta el cansancio, llenamos de mensajes tu Face, vimos cómo las horas devoraban nuestra esperanza, hasta que fue confirmado por nuestros pocos amigos que eras tú. Que estabas ahí. También fuiste torturada y asesinada. Este otro documento es de los compañeros de la universidad de Jalapa, Veracruz, también pro cuestiones de tiempo lo vamos a leer con calma la próxima sesión. Hoy vamos a leerles la última parte que nos platican en donde dice que: “hoy es lunes y no sabemos quién va a cuidar a tus perros, no sabemos quién nos va a cuidar a nosotros. Llenaríamos mares de lágrimas con todo lo que no sabemos, pero hay cosas que tenemos claras, hay cosas que sí sabemos. Tu cuerpo fue mancillado, pero tu lucha y tus ideales se mantienen intactos. No sabemos quién halo el gatillo, pero si sabemos quién Dio la orden, lo sabemos y lo gritamos, conocemos su nombre y apellido, sabemos también que SUS acciones son desesperadas, igual que las de un perro acorralado. Lo décimos hoy y lo diremos siempre, no olvidamos, Np perdonamos, fue el estado, Javier Duarte, fuiste tú” –dicen nuestros amigos del Comité Universitario de Lucha de Jalapa, Veracruz. También los compañeros del Yo soy 132, ellos también nos hablan de todos los asesinatos porque también hay otras, hay otros, que Xenia Quiroz Alfaro de Baja California nos comenta de la compañera colombiana y la trabajadora doméstica que fueron asesinados y violados 307 cobardemente. La rabia y la indignación de nuestro país, los gobiernos de José Duarte en Veracruz, de Miguel Ángel Manser el DF, de Enrique Peñanieto nos han robado, han matado, han asesinado nuestros derechos de vivir en paz. Estos gobiernos han quebrantado el estado de derecho democrático, gobiernan persiguiendo, reprimiendo, golpeando, gobiernan con la ley Del represor, Del criminal, Del déspota. Desde el extranjero se ve cómo los gobiernos de otros países considerados como democráticos y desarrollados son cómplices de esas políticas, todos ellos son responsables de los asesinatos de Rubén, Nadia, Yesenia, de las dos mujeres que faltan por saber cómo se llaman. México es un país de muerte, un régimen que asesina, elimina, desaparece, no debe gobernar. La constitución política y la suprema corte de Injusticia se han vaciado Del más alto propósito de un pueblo: la justicia. Javier Duarte, Miguel Ángel Mancera y Peñanieto, no nos representan y nosotros y nosotras los responsabilizamos pro estos crímenes. Ante la censura, la impunidad y el cinismo de las autoridades, nosotras, nosotros, levantamos la voz para exigir justicia, así como lo hicieron nuestros compañeros y compañeras. Basta de tener miedo. Organicémonos, creemos nuevas vidas para luchar. “Unámonos, cuidémonos, abracémonos”. Esto es lo que nos dicen nuestros compañeros Del 132. (54”03”-62”04”) _____________________________________________________________________________ 29 de julho de 2015. Hiphop290715 TÉC COLOCA ENTRADA: Una necesidad, de protesta en contra de los establecido, de lo establecido… 00”28” PAUSA 00”31”- TÈC COLOCA MUSICA INSTRUMENTAL (TONO SUSPENSO), BAJA A FONDO Y SE MANTIENE: H1: Hace 298 días que partió, cómo se siente en un momento así? H2: Este es nuestro trabajo, y nos han preparado para hacerlo H1: pero no ha sido un sueño difícil de alcanzar? H2: No podemos tener en cuenta los avatares, es este un momento histórico, pero se ha demorado demasiado. H1: Qué esperan encontrar? H2: La respuesta no es nada fácil. Por qué explora el hombre? Para saber más y para demostrarnos que podemos alcanzar objetivos que antes parecían inalcanzables 1”19”- ENTRA CANCION HIP HOP: LETRA: Equipo 33 cambiando la manera de… diferentes desde Chiapas …dialéctica, el ritmo que perdura…mantenemos el nivel…con el rap, que mas da….estilos diferentes, una vez màs…seguimos en lo mismo 2”58” PAUSA 3”02” TÉC COLOCA MUSICA FUERTE Y SONIDO AMBIENTE EN LUGAR ABIERTO 3”18” DIÁLOGO INICIO DE CANCION 308 M: A dónde vas? H: A la calle, regreso tarde M: Toda palabra que dices es calle, cuándo te vas a terminar con esa vida que llevas? …..Ah, explícame….!! 3”30”: ENTRA CANCION HIP HOP LETRA: Mamá no deja de soñar en encontrar en la pared toda clase de estilos….otras veces tras las rejas…cuántas veces aprendí…de todas esas veces nunca he dicho…no creas que estoy loco, mucho menos, eso es pérdida de tiempo, nos matan… y yo muestro mi talento en la acera para cruzar la frontera para ir a donde quiera, y salir de casa, graffiti, llamó a la puerta y yo le dije pasa, invade mi ser, dime si estás de acuerdo y cerramos el pacto…….. …son mis ideales para mí no hay nada errático, sé que no lo entiendes, sé que lo aborreces, y debo disculparme por los días que despierta te mantienes….espera un poco tiempo ya nadie me detiene, en la calle policías….no esperes que yo frene…. 6”10” TÈC COLOCA VIÑETA PROMOCIONAL DEL PROGRAMA MÚSICA DE FONDO ES HIP HOP VOZ: (SONIDO CON ECO) Esto es…esto es… esto es…99.1…Frecuencia Libre….Frecuencia Libre… ENTRA MUSICA DE FONDO ANDINA VOZ: Tu radio...Tu radio…..la radio de todos y todas. 6”41- ENTRA CANCION DE HIP HOP LETRA: Ye ye…eh…bien…libre expreso..Ye Todos podemos si queremos hacer rap, la verdad solo fluye en cantidad, cada letra en mi cabeza, expresa esta libre expresión, con pasión te doy visión en mi canción, y genero la reacción de comprensión, entra la sesión de la libre expresión, el tema es eficaz, así que presta atención, haciendo músicas, colaboración, formulando métricas que esté atento a la razón, escuchando prácticas, críticas, opinión a lo que expreso, proceso es una etapa de progreso, sabes lo que quiere decir eso? entiendes lo que expreso? Las letras de mi rap es mi reflejo, por eso aquí te dejo este consejo, hagas lo que hagas, hazlo siempre con respeto… 11”25” ENTRA CANCION DE HIP HOP (INICIO ES CON VOZ GRAVE, LA MUSICA DEL HIP HOP MEZCLA CON MUSICA ROMANTICA) LETRA: (VOZ GRAVE) Hola, hola qué tal? Cuánto tiempo sin vernos! Parece que fue ayer verdad? (VOZ CANTANTE NORMAL): Cuando rapea el alma ahí el corazón escribe…. si me siento en declive, puedo tenerlo todo y no sentirme libre, déjame soñar que a tu lado es posible. Estoy pensando en ti, como quisiera tenerte cerca de mí y aunque la realidad no es así, pues cuando duermo y me despierto tú no estás aquí. Cinco líneas ya escribí y en la séptima recuerdo los defectos que te apartaron…. ya te fumé ya te bebí… 309 14”30” ENTRA CANCION HIP HOP LETRA: Y cuando sea enterrado en el olvido, dime cuanto falla mientras nosotros pasamos desapercibidos…es una ignorancia escribir sin ningún tipo de vivencia, mediocridad…no vio resistencia… se inventan y se cuentan, un largo camino…con doble hacha filo a los que traen una escritura floja… cuando presumen intelecto y fracasan, sobrepasan niveles que nos causa pena, idiota rechaza…clavados en su memoria implorarán clases de oratoria acabando con la euforia de esos tantos que fallan, estallan al escuchar el estilo que ametralla… 19”15” – ENTRA VOZ DE UNA PERSONA DANDO UN COMENTARIO… …un movimiento bien hermoso, que en un principio se pensaba que era un modismo, las personas pensaban que eso como vino iba a pasar, y contrario a ello, imagínate, desde finales de los 60, a principio de los 70 hasta hoy en día 2010 podríamos decir que ya no es una moda. Algunos lo toman por modismo, algunos creen que el hip hop es una vestimenta, una cuestión, más yo con toda franqueza te digo, yo no pertenezco al Hip Hop, el Hip Hop pertenece a mí, así yo ande en alpargatas o yo ande en guayito, es mi cultura, es lo que me corre por las venas, y no es una moda, igual me entiendes, yo hablo hip hop y vivo hip hop al igual que todos los que estamos aquí presentes, es algo que va mucho más allá de que te vistas bonito o feo o como la gente quiera llamarlo, va mucho más allá, tiene mucha más profundidad. 20”00” TÈC COLOCA VIÑETA PROMOCIONAL DEL PROGRAMA (igual que anterior) 20”24- CONTINÚA HOMBRE HABLANDO SOBRE EL HIP HOP (con fondo musical de hip hop) Y bueno, claro, a medida que fue agarrando más auge y que fue gustando al público en general lo que era el hip hop se fue desviando a lo que es la comercialización. Entonces ya hoy en día no se canta tanto lo que era el fundamento y la base real del hip hop que era la protesta y el crecimiento espiritual y mental de las personas, sino que ahora es más que todo propagandeo, mujeres y dinero y carro y todas esas ridiculeces…. 20”53” TEC COLOCA VIÑETA PROMOCIONAL DEL PROGRAMA M: Frecuencia Libre, 99.1 ENTRA CANCION HIP HOP H: Clandestinos en la zona… (CONTINÚA MUSICA HIP HOP DE FONDO) M: Haciendo eco de la resistencia Hip Hop en San Cristóbal (SE REPITE) H: …con la frecuencia Libre, 99.1 21”21”: ENTRA FONDO DE MÚSICA HIP HOP Señor: A ver sobrino, ya que tanto me hablas, defíneme que es Hip Hop Joven: (EN TONO CANTADO DE HIP HOP) Ya viejo ya ya …. Hip Hop, cultura musical de origen afroamericano que con un ritmo sincopado se adjunta a una letra de carácter provocador, sarcástico y suspicaz. Se expresa de forma recitada, más que cantada, de forma que se puede pues percibir una necesidad masiva de protesta en contra de lo establecido. 310 22”12”: TEC COLOCA VIÑETA PROMOCIONAL DEL PROGRAMA (MUSICA DE FONDO DEL PROGRAMA MEZCLADO CON RAP) H: Escúchanos todos los viernes de 6 a 7 PM por la 99.1, Frecuencia Libre. 22”23”- LOC: Bueno, bandita, con eso empezamos el programa de hoy. Hoy, en Casa Underground sean bienvenidos a este su humilde espacio. Y pues bueno queremos saludar a nuestro compañero en King controles, Lasar… que onda Lasar, como estamos? LASAR: Que onda bandita, buena tarde a todos los radioescuchas…esperemos que nos estén escuchando, estaremos transmitiendo unas rolitas y pues así le estamos dando inicio a esto que es Casa Underground. También tenemos de compañía aquí a la Valium, que nos cayó otra vez..está aquí acompañándonos en la cabina…quieres saludar? VALIUM: Qué onda banda, cómo están? Aquí otra vez de compañía en la 99.1 Casa Underground, pues quédense a escuchar un poco de buen Rap, este…Rap local Rap de Chiapas, pues escúchennos, tómense un cafecito escuchándonos… LASAR: Pues hoy ya pasamos unas cuantas varias rolas y vamos a tratar de que estas rolas sigan pasando. Son producciones independientes de la banda aquí cercana. Pasamos una rola yo creo que del CPU, que apenas está recién salida del horno…el domingo estuvieron en el estudio de Dementes Producciones grabando esa canción, y pues vamos a escuchar otra vez esa rola para que pues nos refresque aquí los sentidos y regresamos a platicar un poco de buen Rap y cómo se fue dando aquí. 24”08” TEC COLOCA CANCION DE HIP HOP (REPITE LA CANCION No. 4, QUE FUE COLOCADA EN 11”25”) 27”07” LOC: Y pues bueno, esa es una canción bien inspirada en los recuerdos del CPU, ha sido ahí la banda que nos está rolando música y pues aún hay mucho más que hacer pero esa es una pequeña probada de lo que está haciendo Dementes Producciones ahorita…y pues bueno, igual una rola que no tenemos el nombre exacto pero pues aquí está la rola del amigo CPU. Y bueno, queríamos hablar un poco de cómo es el contenido del programa, estamos aquí pensando un poco de cómo podemos llenar muchos de esos espacios donde queremos crear conocimiento y hacer pues como el trabajo que hacen los medios de comunicación hoy en día… Pues hoy queremos, quiero hablarles un poco de los orígenes del Rap. Todos sabemos que empezó en Estados Unidos, en el Bronx, en Nueva York y todos estos lados , que era pues una condición social, los que practicaban el rap era a partir de una condición social, de una necesidad de expresar y decir lo que en ese momento pensaban con sus coyunturas y con las formas y modos de vida que tenían en ese entonces…pero bueno yo quiero preguntarles, cuánto saben cuáles fueron los inicios del Hip Hop aquí en México…Pude ver los pocos archivos que están registrados en la web, donde está documentado el Hip Hop aquí en México. Nos dice así como que hay una introducción a partir del break dance, después vino el movimiento grafittero, que yo creo que es uno de los movimientos más grandes también aquí en México, incluso por ejemplo en Oaxaca con los Stensil , no sé, por ejemplo, en siglos muralistas mexicanos…pudiéramos decir que es una de las primeras muestras de esto de ocupar las calles y las paredes, es algo muy chido que empezó a surgir….A partir de los años 80 y 90 cuando empezaron a surgir esto. Una vez, recuerdas que platicábamos sobre cómo empezó los pachucos, te acuerdas?...de estas primeras culturas, los rockeros, los funk… todas estas olas de culturas que empezaron a mostrarse aquí en México, entre tantos esos pues también vino esta onda del Hip Hop…después del break dance y el grafitti vendría el Rap.. Hablando de eso vamos a escuchar otro rola y regresamos a platicar un poco más sobre esto… A ver, 311 Lasar, que nos vas a poner hoy? Sociedad Destructiva… escúchenla y regresamos aquí a la 99.1 Frecuencia Libre… 31”20”: ENTRA CANCION HIP HOP (6) LETRA (INTRODUCCIÓN VOZ MUJER): La verdad es que yo ya estoy harta de que haya basura por todas partes, baches en todas las calles, tanta contaminación, y que no haya agua en mi casa y que todo se vea tan gris, de vivir al día, de no trabajar en lo que me gusta, de que los sueldos sean tan bajos y las cosas cada vez más caras. (VOZ HOMBRE): Hoy te canto a ti persona conocida, omitida y persuasivamente ajena…te contaré una historia de miseria compartida en un país tan loco, y un pueblo lleno de mil miserias, en un presente, un pasado y un futuro…tanta gente enloquecida, esto lo juro….un desorden todas partes, un problema de raíz… este sistema…es una lucha entre el dinero y el poder, todos se queman jugando y nadie quiere perder, la tele, la radio, verdades y mentiras…cuanta gente idiotizada por lo material, no es malo, pero hasta la tumba no lo podrás llevar. Mal, mal, mal pensado, el presente, las drogas, los carros…Cuánta discriminación se vive en este presente, las calles, día por día… (ENTRA VOZ DE MUJER QUE CANTA CON HOMBRE), veo tanta injusticia que se mueve a mi alrededor, la pobreza crece y crece, mientras políticos cada vez mucho mejor…la canasta básica parece ya un sueño… 34”27”- TÉC COLOCA CANCION HIP HOP LETRA: …Parecemos invencibles…infalsificables, genuinos como un gigante… como arde…déjenme aquí a la cama…Producciones es materia el inflamable…cualquier cosa que haga me han acreditado el nombre…modesto nunca he sido, la verdad se desconoce, nunca me han acusado de ser un tanto injusto…pues hago bien…me basto, y al escuchar esos aplausos…y cuando es la razón de ser la mejor opción. Inalcanzables… infalsificables, y si alguien no sabe si eso es fácil que hable, indeleble, somos tinta en tu mente… ENTRA CANCION DEL GRUPO: Caballeros del Plan G 37”28”- LOC: Y ustedes dirán por qué estábamos poniendo música del… desplante, cuando esto es un proyecto local, pues queremos hablar un poco del rap nacional y nos pareció un buen referente Caballeros del Plan G… y pues bueno vamos a seguir platicando acerca de cómo llego el Hip Hop… Lo que pasó, creemos, que poco a poco la banda fue adoptando el Rap como un género musical… también la gente que bailaba break en ese momento lo hacía con cualquier tipo de música… la primera vez que se dio el rap así como lo conocemos fue allá como en Monterrey… en los años 80…Guadalajara, Chihuahua…y a partir de esto se empieza a comercializar mas el género de la música Rap…se empezaron a abrir espacios en radiodifusoras, donde se empezaron a pasar rolas de gente que producía su Rap aquí… (CONTINÚA HABLANDO SOBRE LA EVOLUCION DEL GÉNERO, habla sobre los iniciadores de esa música que provenían de estados Unidos, y la influencia de algunos filmes en la difusión del género.) 40”50- TÉC COLOCA MUSICA DE FONDO DE HIP HOP 41”57- LOC: Estamos escuchando de fondo a Control Machete que prácticamente serían de los primeros pioneros del Hip Hop acá. Después de escuchar un fragmento de la rola de Control Machete, vamos a escuchar una que fue de las primeras canciones producidas en México, donde se daba a conocer el Rap…vamos a escucharla y regresamos a conversar un poco más de esto que es el Hip Hop en México. 312 42”33: TEC COLOCA CANCION HIP HOP EM INGLÊS 44”42” TEC COLOCA CANCION Control Machete ¿Comprendes Mendes? 47”45”- LOC: Y bueno, bandito, eso fue un poco de Control machete, Si me comprendes Mendes. Y bueno ahorita estábamos escuchando un poco de Sindicato del Terror, de los primeros del Rap aquí en México. (CONTINÚA CONVERSANDO SOBRE LA EVOLUCIÓN DEL HIP HOP EN MEXICO Y SU PERSPECTIVA DE DENUNCIA SOCIAL.) 50”24”- MUJER: Aunque déjame decirte también que el grafitti fue más como un habla, como algo para protestar, decir lo que te molestaba. Recordamos que en el 68 usaron mucho el grafitti para decir lo que pensaban, se pintaban perros para que la gente se diera cuenta de la inconformidad que se sentía en ese momento en México. Y hay muchos movimientos estudiantiles hacen eso, o que siguen haciendo eso, referente a que el Hip Hop se refiere a resistencia… (CONTINUA CONVERSANDO CON EL LOCUTOR SOBRE EL TEMA) LOC: Bueno seguimos con la historia, durante estos años surgieron chicanos, cholos, que fueron los primeros en adoptar el rap, el grafitti, y tal vez el break… 52”56”- LOC: Bueno, vamos a escuchar un poco de Rap, de música, vamos a escuchar a la Vieja Guardia, y regresamos. Esto es: Una vida, Vieja Guardia. 53”14”- TEC COLOCA CANCION HIP HOP LETRA: Una vida sin monedas es una vida con problemas… Una vida, sin problemas, te hacen destapar botellas y que bailes con ellas, lágrimas tiradas y largas noches derramadas por decisiones equivocadas, nadie es perfecto, el desahogo no es un defecto, sino un suspiro, para seguir vivo, y combatir al enemigo en terrenos donde no somos bienvenidos, donde pureza nunca ha existido, donde, como te ven te tratan, como te tratan te pagan y si te pagan más mejor te callas. Vamos contracorriente, vivimos endeudados, gastamos más de lo que ganamos… 56”37- TEC COLOCA CANCIÓN DE HIP HOP Dime urbano… integramos una misma familia. Dueños del Viento ha llegado de vuelta otra vez… levantar el movimiento, varios años en esto, soldados por todos lados… criticarnos está demás, hay gusto para todos… tratando de imitar, el tiempo me ha enseñado, las críticas las recibo para analizar, desde estilos diferentes una misma familia… 313 ANÁLISES DOS PROGRAMAS 314 APÊNDICE V - QUESTIONÁRIO COM OUVINTES UNIVERSIDAD FEDERAL DE MINAS GERAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL (PPGCOM) INVESTIGACIÓN “USOS SOCIAIS DAS RÁDIOS ZAPATISTAS” INVESTIGADOR: Ismar Capistrano C. Filho (facebook.com/ismarcapistrano; ismarcapistranofilho@gmail.com) TUTORA: Ângela Cristina Salgueiro Marques APLICADOR DEL CUESTIONARIO: _______________________________________________ Nombre___________________________________________________________________ Profesión_______________________________________ Idad ______________________ Escolaridad_________________________________________________________________ Ubicación (colonia/ Ciudad)___________________________________________________ 1. Escucha o escuchó las ( ) Radios Rebelde ( ) Frecuencia Libre ( ) Votan Zapata 2. ¿Con que frecuencia? ( ) Todos los días ( ) Algunos días de la semana ( ) Algunos días por mes ( ) Hay mucho tiempo. Cuando (mes/ año)? _______________________ 3. ¿Cuánto tiempo pasa oyendo cuando está escuchando? _______________________ 4. ¿Donde acostumbra oír? ( ) En casa ( ) En coche/ transporte ( ) En las calles ( ) En trabajo ( ) Otro hogar. Cual? ________________________________________ 5. ¿Cual equipaje usa? 315 ( ) Sistema estéreo ( ) Radio portable ( ) Radio del coche ( ) Celular 6. ¿O que te gusta en las transmisiones? ¿Por que? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 7. ¿O que piensa sobre las informaciones vehiculadas en la emisora que escucha? ___________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ 8. ¿O que piensa sobre las músicas tocadas en la emisora que escucha? ___________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ 9. ¿Escucha otras emisoras? Cuales? ___________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ 10. ¿Cuál la diferencia entre la radio libre y una radio comercial o oficial? ___________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ 316 ____________________________________________________________________________ 11. ¿O que piensa sobre los movimientos autónomos (coletivos, comunidades, asociacio- nes)? ___________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ 12. ¿O que piensa sobre el zapatismo? ___________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ 13. ¿Ya participó o participa de algún movimiento social? Cual? Cuando? ___________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ¿Tiene disponibilidad para dar una entrevista al investigador brasileño en julio? __________ ¿Cuáles mejores días y horarios?________________________________________________ ¿Cuál tu coreo?______________________________________________________________ ¿Cuál tu teléfono?____________________________________________________________ 317 APÊNDICE VI – ENSAIO SOBRE AS DIFICULDADES DE CAMPO Desabafos de um etnógrafo209 Talvez seja algo muito contraditório falar em desabafos de um etnógrafo porque desabafos são atitudes pessoais e, por vezes, egoístas. Etnografia, ao contrário, é um deslocamento e uma relação com outros. Mas inevitavelmente uma relação consigo mesmo também. Negá- la pode ser não só uma ingenuidade, mas talvez uma irresponsabilidade. Por mais que busquemos textos objetivos, compartilhados, coletivos... o nosso “eu” está sempre presente, desconsiderá-lo ou oculta-lo é transferir ou travestir nossas condições nos outros. Para chegar até este texto foi não só uma decisão, mas um caminho difícil. Não só para despir-me da segurança da terceira pessoa, porém para expor-me dentro de uma referência que me dê segurança de permanecer no ethos acadêmico. Certamente, no final de minha pesquisa de doutorado, fazer uma disciplina de Metodologias, durante o intercâmbio no Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropologia Social del Sureste de México (Ciesas Sureste) foi-me fundamental para esta autorreflexão. Tardiamente, esta matéria me pareceria algo completamente intempestivo, entretanto não o foi, principalmente, por quatro textos que causaram uma forte projeção na minha identidade pessoal e acadêmica. Cultura y Verdad de Renato Rosaldo me tocou não só por ele defender que a força das emoções deve ser observada na etnografia tanto quanto os mecanismos simbólicos da gestão dos comportamentos, mas também por todas suas experiências relatadas. Sim, minha pesquisa já partia deste pressuposto: mais do que a racionalidade, sentimentos são fundamentais na tomada de decisões sociais. No entanto, o autor vai além, ao mostrar como chegou a esta conclusão, narrando sua investigação nos inglots, uma tribo filipina conhecida por permitir a alguém que perdeu um ente querido cortar a cabeça de outrem. Sem dúvidas, nos parece não só estranho, mas bastante cruel este comportamento. Para ele e para os outros investigadores que lá estiveram, também. O que resultava em discrições densas tão somente dos rituais. Até quando Rosaldo, sentiu, durante a investigação, em sua própria pele, o que os inglots sentiam quando perdiam seus entes queridos e iam à caça de cabeças. Numa trilha para o campo da pesquisa, sua companheira e esposa despencou de um desfiladeiro 209 Disponível em acesso em 20 de outubro de 2015. 318 e, ao encontrar seu corpo inerte e sem vida abaixo do abismo, ele já não conseguia respirar direito, não achava chão e tudo parecia completamente sem sentido. Ele viveu a aflição da ira. Este sentimento se transformou na categoria para compreender a caça de cabeça muito além de um simples ritual. As culturas são inevitavelmente compostas por muito mais do que de símbolos e representações. São controles ou organizações sociais das emoções. Na minha pesquisa de doutorado, as tragédias e os traumas não só me marcaram como também foram vivências cotidianas, tão difíceis e duras quando os processos de exploração e significação do trabalho. A dor da aflição me marcou, em outubro de 2012, quando senti a perda de um amigo-irmão que morreu precocemente aos 45 anos. Não me adiantava buscar respostas ou consolação, as memórias eram fortes e instransponíveis. Quanto rock tínhamos escutado, quantas cervejas tínhamos brindado, quantos quilômetros percorremos em nosso Estado e no Brasil na luta pela democratização da comunicação, quantas risadas compartilhamos, quantas palavras falamos em reunião, quantos cursos e oficinas ministramos... e tudo tinha se transformado somente em passado. Já não havia nada mais para retroceder ou mudar. Não podíamos planejar nada, ainda que outras vezes tenha realizado o mesmo sozinho e com outros companheiros em sua homenagem. Não foi nada fácil porque já tinha deixado minha cidade para cursar disciplinas do doutorado; porque tinha deixado um bom emprego de professor para se torna estudante profissional com quase 40 anos de idade; porque estava numa cidade que me parecia totalmente hostil, longe das praias, dos bosques e dos sertões, sem companhias, me sentindo triste e abandonado. Se tudo já não bastasse para compreender a ira da aflição, ao regressar para minha terra, a fim de recomeçar minha vida, minha esposa decidiu unilateralmente separar-se em janeiro de 2013. Não era só 15 anos de uma relação que se acabavam, mas era também minhas rotinas, meu cotidiano e meus planos que se dilaceravam assim de repente, deixando-me completamente sem chão. Mais do que saudades dela, sentia falta do que fazíamos juntos e por mais buscasse refazer, o presente nunca mais se identificaria com o passado. O segundo texto que me marcou foi “Diarios de campo en Melanésia” do clássico antropólogo Malinowski. Bem mais forte do que a pioneira etnografia que ele havia registrado nos Argonautas do Pacífico, seus diários, publicados depois de sua morte e com o consentimento somente de sua esposa, revelaram seu estranhamento e até repulsa com a cultura investigada, suas saudades, angústias e desejos (inclusive pelos corpos desnudos de seus investigados e investigadas), causando espanto no cinismo intelectual criado por detrás da defesa do relativismo, da alteridade e da diversidade. Meus diários certamente 319 não são menos “infames” do que os de Malinowski. Sim, a repulsa pela cultura pesquisada me é inevitável. Depois de quatro anos de idas e vindas, com estadias entre 1 a 5 meses, em Chiapas, México, não suporto mais meu campo de investigação; o medo que assombra uma guerra suja e encoberta que motiva o prestígio e as razões de ambos os lados; as decisões de assembleia que impõem acordos de lideranças mais esclarecidas para maiorias; a autonomia zapatista que, muitas vezes, justifica relações somente com quem lhes convém; os cafés que perambulo todos os dias; o jeito “simpático” e fechado com cheiro de falsidade que paira em muitas das relações pessoais com os mexicanos; a constante solidão que me acompanha; a falta de identificação nas conversas; as tentativas de falar uma língua que nunca vai ser a minha... Tudo isso me enche a cabeça de questionamentos retóricos, os quais já tenho respostas. Para estudar outras culturas, preciso negar a minha ou transformá-la? Um etnógrafo não tem sua própria cultura? Há cultura sem divergência das outras? Há identidades sem sinais diacríticos? Os diários de Malinowski me ensinaram que para compreender e respeitar o diferente, não devemos aderi-lo e aceita-lo cega e falsamente. Lembraram-me também dos ensinamentos da politicóloga britânica Chantal Mouffe que os choques e os conflitos são inevitáveis. Para romper a couraça do cinismo, que, por vezes, transforma nossas pesquisas e posições políticas em discursos hipócritas, precisamos ter transparências e buscarmos os acordos com a humildade de que não vamos persuadir a ninguém nem devemos nos convencer. Que vamos tão somente criar espaços de tolerância e coabitação. Por isso, acordos são decisões transitórias e temporárias. Por fim, este aspecto político da pesquisa me foi possível refletir nos textos “Conecimentos Situados” de Donna Haraway e “Lutas Muchas Otras” de vários autores mexicanos sobre a pesquisa com povos originários. A investigação científica não é só uma disputa entre diferentes visões e linhas de pensamentos, que, em muitos casos, se matam por migalhas acadêmicas, mas também uma relação política entre pesquisador e pesquisados, uma constante negociação de acordos, nos quais podem chegar também a dissensos. Como afirma Haraway, “todo conhecimento é uma condensação num terreno de poder agonístico”. Há conflitos inevitáveis entre “sujeito e ‘objetos’” de uma pesquisa. Como organizar essa relação? Primeiramente reconhecer que pesquisa é inevitavelmente uma intervenção que, além de construir significados num discurso (um livro ou um artigo de pouca utilidade para povos originários e pobres pouco alfabetizados, como explica Andrés Aubry), pode transformar realidades com a troca de conhecimentos, com o intercâmbio de saberes, com a aplicação de teorias na prática e com a mudanças das teorias pelas práticas. Como afirmar Aubry no 320 texto “Otro modo de haber ciencia" deste último livro, “sem regresso ético (a pesquisa) se torna indignamente extrativa – tirando matéria-prima de uma mina – sem benefício para quem a proporcionaram”. Assim como este sociólogo francês, atuou numa pesquisação para a tradução coletiva dos acordos de San Andrés nas línguas indígenas, também mesmo antes de qualquer reflexão teórica, busquei um intercâmbio com as rádios zapatistas investigadas no meu doutorado. Tentei propor um intercâmbio de conhecimentos entre minha experiência de ativista de rádios comunitárias no Brasil desde 1996 com a Rádio Rebelde. Apesar de três idas no Caracol Resistência e Rebeldia pela Humanidade em Oventic, não consegui sequer apresentar minha proposta. Ao contrário, sofri com tratamentos hostis dos zapatistas, como o impedimento de participar da Escolita porque cheguei com três horas de atraso devido os retardos nos diversos voos que tomei desde o Brasil. Assim também desabafou outra amiga doutoranda que tentou investigar o mesmo tema: “somos tratados como espiões, quando queremos somente ajuda-los e reconhece-los”. Qual deve ser a reação de um etnógrafo diante de um conflito como esse? Ter sangue frio, e talvez cheio de falsidade, e dizer: “eles têm sua própria razão, mesmo que não compreendamos”. Existe razão sem mútua compreensão? Obviamente, tenho de separar o “joio do trigo”. Tenho de saber que os zapatistas avançam significativamente na construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, coletiva e autônoma, com uma comunicação que irradia esta mensagem vivida. No entanto, não podemos negar e calar-nos que lhes faltam muito nas relações externas, inclusive com a academia que em momentos cruciais (divulgação dos conflitos em Chiapas, acordos de San Andrés, Marcha da Cor da Pele, La Sexta...) lhe serviu de apoio. Autonomia não pode ser confundida com um isolamento ou com relações somente quando lhes convém tirar proveito. Como lembra o filósofo grego, Cornelius Castoriades, autonomia é uma construção lúcida quando temos de ter consciência que só a alcançamos quando souber construir articulações, relações precárias e temporárias,que possibilitam a inevitável vida em sociedades nossas e outras. Não podemos deixar o medo nos paralisar, nem muito menos nos isolar porque assim a guerra suja e de terror nos terá vencido. 321 APÊNDICE VIII – MANUAL DA OFICINA DE RÁDIO COMUNITÁRIO Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social Belo Horizonte – Minas Gerais - Brasil Taller de Radio San Isidro de la Libertad Enero de 2014 Profesor Ismar Capistrano Costa Filho ismarcapistranofilho@gmail.com 322 1 Conecendo el rádio ¿Ya escuchó radio? O que ti gusta de escuchar en radio? PARTES DEL RADIO  Emisora: - Cabina de transmisión: local donde están las equipajes (micrófono, computadora, mesclador de sonidos, cajas…) e se produce los audios que son transmitidos. - Locutor o locutora: aquel que presenta los programas de radio. 323 - Sonidista: los que ponen las músicas y efectos de sonidos. - Productor: lo prepara y escribe o que se transmite. 324 - Transmisor y antena: aparejo que envía los sonidos por el are.  Receptor: - Aparejo de recepción: portable, de caja, en carro, en teléfono móvil. - Oyente: quien escucha la transmisión. Principales rasgos del radio  Oralidad: es necesario solo poder oír para escuchar el radio.  Alcance: va locales lejos, principalmente, las emisoras de Amplitud Modulada (AM) y Ondas Cortas (OC).  Movilidad del: - Emisor: puede ser transmitido de locales diversos. - Oyente: puede ser escuchado en cualquier hogar. 325  Bajo costo: aparejo barato, bajo investimento para la instalación de una emisora.  Inmediatismo: rápido preparo de la transmisión.  Instantaneidad: el oyente recibe el sonido en lo mismo instante que se transmite.  Autonomía: puede escuchar en la falta de energía eléctrica.  Simultaneidad: es posible hacer otras cosas mientras escuchar el radio.  Imagen acústica: el oyente crea en su mente lo que se escucha en el radio, por medio de diálogo imaginario, efectos sonoros y la interpretación.  Tiempo del radio: no hay o que volver lo que fue dicho.  Participación del oyente: El oyente participa, al menos, enviando cartas o coreo por computadora, llamando por teléfono.  Reproduce música: entretiene al los oyentes.  Recepción individual: El oyente imagina que el radio es una compañía personal.  Sorprendente: No se sabe o que va se reproducir.  Educativo: Pode compartir conocimientos.  Informativo: Envía noticias importantes para las comunidades y personas. 326  Servicio público: Transmite avisos como campaña de vacunación, documentos perdidos, felicitaciones de cumpleaños, noticia de muerte.  Papel político: colabora para a manutención de una organización social o para crítica política. 327 2 Haciendo radio comunitaria ¿Como se hablar en radio? - Preparación: pensar e investigar antes sobre los temas que va hablar. - Simplicidad: hablar de forma que todos y todas puedan comprender. - Dialogo mental: hablar como si estívese platicando personalmente con cada oyente. - Repetición: decir más de una vez las principales informaciones. - Clareza: hablar pausadamente y explayadamente. - Posicionamiento: Alojarse en una distancia de tres dedos unas cuantas pulgadas del micrófono y sentarse con la columna recta y los pies en la tierra. ¿O que es una comunidad? Como surgió mi comunidad? Radio comunitaria - Participación da comunidad:  Gestión: la emisora debe ser administrada por un colectivo con participación de los diversos sectores de la comunidad que debe decidir conjuntamente la programación, los locutores, las músicas, los horarios…  Producción: debe invitar siempre a todos y todas a cualquier momento dar ideas para la programación 328  Mensaje: poner siempre las personas de la comunidad en la transmisión sea con entrevistas, cartas, teléfonos, coreos, visita a la cabina… - Papel social  Educación: presentar temas sobre la salud, el medio ambiente y los derechos colectivos.  Promoción cultural: abrir espacio para los artistas locales (músicos, poetas, contadores de historias, actores…)  Información local y debate publico ¿Cómo gravar en computadora? 1) Abrir la computadora. 2) Conectar el micrófono. 3) Abrir el programa de grabación. 329 4) Seleccionar el botón redondo rojo de grabación. 5) Testar se el sonido del micrófono estar siendo capturado. 6) Seleccionar el botón redondo rojo de grabación de nuevo. 330 7) Al terminar la locución, seleccionar el botón de parada. 8) Seleccionar la opción de guardar (Save) la grabación. 331 9) Elegir un nombre para la grabación e confirmar en salvar de nuevo.