Marina Alves Amorim PARA ALÉM DE PARTIDAS E DE CHEGADAS: migração e imaginário entre o Brasil e a França, na contemporaneidade Belo Horizonte Rennes (França) FAFICH/UFMG Université de Rennes 2 2009 2009 Marina Alves Amorim PARA ALÉM DE PARTIDAS E DE CHEGADAS: migração e imaginário entre o Brasil e a França, na contemporaneidade Tese apresentada ao Curso de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais e ao Curso de Doutorado em Letras da École Doctorale “Arts, Lettres, Langues” da Université Rennes 2 – Université d’Haute Bretagne, como requisito à obtenção do título de Doutora em História e de Doutora em Letras. Áreas de concentração: História e Letras Orientadoras: Profa. Dra. Thaïs Pimentel Profa. Dra. Rita Godet Belo Horizonte Rennes (França) FAFICH-UFMG Université Rennes 2 2009 2009 Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Programa de Pós-Graduação em História Tese de doutorado intitulada “Para além de partidas e de chegadas: migração e imaginário entre o Brasil e a França, na contemporaneidade”, de autoria da doutoranda Marina Alves Amorim, aprovada pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores1: ____________________________________________________________ Profa. Dra. Rita Godet – Université Rennes 2 – Orientadora ____________________________________________________________ Profa. Dra. Thaïs Pimentel – FAFICH/UFMG – Orientadora ____________________________________________________________ Prof. Dr. Jean-Yves Mérian – Université Rennes 2 ____________________________________________________________ Profa. Dra. Gláucia Assis – FAED/UDESC ____________________________________________________________ Profa. Dra. Lucília Delgado – PUC-Minas ____________________________________________________________ Profa. Dra. Maria Alice Nogueira – FaE/UFMG ____________________________________________________________ Prof. Dr. Eduardo Paiva Coordenação do Programa de Pós-Graduação em História da FAFICH/UFMG Belo Horizonte, 21 de dezembro de 2009. 1 Doutoramento desenvolvido junto à Université Rennes 2 – Université d’Haute Bretagne, em Cotutela Internacional de Tese com a Universidade Federal de Minas Gerais, no âmbito do Colégio Doutoral França- Brasil. O Convênio de Cotutela Internacional de Tese assinado entre as duas instituições para reger o desenvolvimento desse trabalho se encontra em anexo. (Ver Anexo A.) Aos meus pais, mais uma travessura. AGRADECIMENTOS Contei com a colaboração de muitas pessoas e instituições, ao longo dos quatro anos de doutoramento, e não posso deixar de agradecê-las. Muita obrigada, de todo coração, à: Adélia G. . Agnès P. . Albert P. . Alexandra Montes . Ana G. . Anderson S. . André Midani . Ângela N. . Annïck B. . Antônio de Amorim . Benjamin C. . Brigitte Thierion . Caio M. . CAPES . Cecília C. . Cédric R. . Célia A. . Charles L. . Cité Universitaire Internationale de Paris . Claire Bodenan . Denis Thierion . Departamento de História da FAFICH/UFMG . Département de Portugais de la Faculté de Lettre de l’Université Rennes 2 . Dominique G. . DRI/UFMG . École Doctorale “Arts, Lettres, Langues” de l’Université Rennes 2 . Eduardo M. . Eduardo Paiva . Elizabeth B. . Elvira S. . Emerson S. . Érica D. . ERIMIT/PRIPLAP . FAFICH/UFMG . Fátima Guilloux . Fernand G. . Flávio Amorim . Fondation Haraucourt . Francisca G. . Francisca Prates . Frederico Cardoso . Gabriel Marçal . Gérard D. . Gercilene Teixeira . Glenda B. . Gláucia Assis . Guilherme S. . Guillaume L. . Gustave L. . Heloísa Starling . Iara S. . Inácio R. . Inez Salim . Irene F. . Jacqueline C. . Jean M. . Jean-François Bodenan . Jean-François Chougnet . Jean-Yves Mérian . José S. . Josephine L. . Kelly S. . Lair G. . Laurence Bouvet-Levêque . Leonardo R. . Lídia E. . Lígia P. . Louis B. . Lucília Neves . MAE . Maison du Brésil . Marcel B. . Maria Alice Nogueira . Marie A. . Marinês L. . Marion L. . Mário Rosa . Mathieu G. . Mercês Amorim . Morena N. . Nádia L. . Nancy dos Santos . Natércia Viana . Nicolas L. . Nicole G. . Nila Rodrigues . Nina Soares . Norma Guedes . Patrick R. . Paula F. . Philippe Cahuzac . Philippe S. . Pierre G. . Programa de Pós- Graduação em História da FAFICH/UFMG . Regina Duarte . Regina Helena da Silva . Regina Pontieri . Rita Godet . Roger Guilloux . Roxana Eminescu . Ruy Amaral . Sílvio L. .Sandra Amora . Sandrine Brenugat . Thaïs Pimentel . Titane . UFMG . Ugo Maubert . Université Rennes 2 . Vanessa dos Santos . Virginie B. . Viviane P. . Vicente P. . Yann M. . Yann Aubin . Yves N. Chaque homme, poète ou non, se choisit une ou deux villes, patries idéales qu’il fait habiter par ses rêves, dont il se figure les palais, les rues, les maisons, les aspects, d’après une architecture intérieure, à peu près comme Piranèse se plaît à bâtir avec pointe d’aquafortiste des constructions chimériques, mais douées d’une réalité puissante et mystérieuse. Qui jette les fondements de cette ville intuitive? Italia, Théophile Gautier 6 RESUMO O objeto de estudo desta pesquisa histórica é o imaginário contemporâneo de franceses sobre o Brasil e de brasileiros sobre a França. Considerando o imaginário como sendo não o oposto do real, mas uma das duas facetas que o compõe, propõem-se desvelar o imaginário que, hoje, interliga o Brasil e a França, sem perder de vista seu histórico através dos tempos. O ponto de partida escolhido, para tanto, é o próprio imaginário de brasileiros e de franceses, tangenciados através de entrevistas de história oral. De um lado, foram entrevistados quinze franceses que moram ou moraram no Brasil, seis franceses que viajavam ou viajaram pelo país e seis franceses que aqui nunca estiveram; por outro, foram entrevistados dezoito brasileiros que moram ou moraram na França, quatro brasileiros que viajavam ou viajaram pelo país e seis brasileiros que lá nunca estiveram. Para completar, foram entrevistados cinco franco-brasileiros. No momento de análise das fontes, optou-se por dar centralidade aos depoimentos concedidos pelos migrantes, sejam eles franceses que moram ou moraram no Brasil ou brasileiros que moram ou moraram na França. E, dentre os migrantes temporários, são os que se deslocaram no globo para estudar que mereceram atenção especial. Perseguiu-se a resposta para cinco perguntas, ao longo da tese. O que levaria brasileiros a se mudarem definitivamente para Rennes (França)? O que faria com que franceses viessem a se radicar em Belo Horizonte? Porque brasileiros partiriam para estudar na França? Porque franceses viriam estudar no Brasil? O que as razões do migrar diriam acerca do imaginário sobre o lugar escolhido como destino migratório? É através das entrelinhas dessa viagem em direção ao outro que é a migração, portanto, que se tentou abarcar o imaginário sobre esse outro do sujeito que migra. Palavras-chave: migração, imaginário, Brasil, França, história contemporânea, casamento misto. 7 ABSTRACT The object of this historical research is the contemporary images of the French about Brazil and of Brazilians about France. Considering the imaginary not as the opposite from what is real but as one of its aspects, this research proposes to unveil the imaginary which currently interconects Brazil and France, without losing sight of its historical perspective. For this purpose, the selected starting point is the Brazilian and French imaginary itself, surfaced in oral history interviews. Fifteen French citizens who live or have lived in Brazil were interviewed, along with six others who were traveling or have once traveled to Brazil and six who have never been here; eighteen Brazilian citizens who live or have lived in France were also interviewed, along with four Brazilians who were traveling or have traveled to France and six ones who have never been in France. Ending the row, five French Brazilians were interviewed. When analysing the reserach sources, migrant testimonies were given priority, considering as this either the French who live or have lived in Brazil or the Brazilians who live or have lived in France. And, among the temporary migrants, special attention was granted to those who have moved to study. The answer to five questions was pursued along this thesis. What would take Brazilians to permanently move to Rennes (France)? What would make the French settle in Belo Horizonte? Why would Brazilians go study in France? Why would the French come to study in Brazil? What would the migration motives say about the chosen place’s imaginary as a migration destination? It is therefore by means of this journey, represented by the migration, that we have tried to catch the imaginary about the other as seen by the migrant. Keywords: migration, imaginary, Brazil, France, contemporary history, mixed marriage. 8 RESUMEN El objeto de estudio de ésta investigación histórica es el imaginario contemporáneo de franceses sobre el Brasil y de brasileños sobre Francia. Considerando el imaginario no como siendo el opuesto del real, pero un de los dos elementos que lo constituye, se propone a desentrañar el imaginario que, hoy, conecta Brasil y Francia, sin perder de vista el histórico por los tiempos. Se eligió como punto de partida el imaginario de brasileños y franceses, que se conoció a través de entrevistas de historia oral. Fueron entrevistados quince franceses que viven o vivieron en Brasil, seis franceses que viajaban o viajaron por Brasil y seis franceses que aquí nunca estuvieron; también fueron entrevistados dieciocho brasileños que viven o vivieron en Francia, cuatro brasileños que viajaban o viajaron por el país y seis brasileños que allá nunca estuvieron. Para completar fueron entrevistados cinco franco-brasileños. Al analizar las fuentes, se eligió por como centro los testimonios concedidos por los migrantes, sea ellos franceses que viven o vivían en Brasil o brasileños que viven o vivían en Francia. Entre los migrantes temporales, aquellos que viajaron para estudiar merecieron atención especial. Se buscó respuestas para cinco preguntas en ésta tesis. ¿Cual son los motivos que hicieron a brasileños cambiarse a Rennes (Francia)? Cuales motivos hicieron que franceses viniesen a vivir en Belo Horizonte? Por qué brasileños partieron para estudiar en Francia?. ¿Por qué franceses vendrían a estudiar en Brasil? Lo que los motivos de migrar revelan sobre el imaginario del lugar elegido como destino migratorio? Es a través de las entrelineas de éste viaje en dirección al otro que es la migración, que se trato e conocer el imaginario sobre este otro sujeto que migra. Palabras-clave: migración, imaginario, Brasil, Francia, historia contemporánea, matrimonio mixto. 9 RÉSUMÉ2 L’objet de cette recherche de type historique est l’imaginaire contemporain des Français vis- à-vis du Brésil et des Brésiliens vis-à-vis de la France. Concevant l’imaginaire non pas comme l’opposé du réel mais comme l’une des deux facettes qui le compose, nous nous proposons de dévoiler l’imaginaire qui, aujourd’hui, relie le Brésil et la France, sans perdre de vue sa dimension historique. Le point de départ retenu est l’imaginaire même de Brésiliens et de Français tel qu’il se donne à voir à travers les entretiens d’histoire orale que nous avons réalisés. D’un côté, ont été interviewé quinze Français qui habitent ou qui ont habité au Brésil, six Français qui voyageaient ou qui avaient voyagé dans ce pays ainsi que six Français qui n’y avaient jamais mis les pieds ; de l’autre, dix-huit Brésiliens qui vivent ou qui ont vécu en France, quatre Brésiliens qui voyageaient ou avaient voyagé dans ce pays et six autres Brésiliens qui n’étaient jamais allés dans ce pays. A ces entretiens s’ajoutent ceux de cinq Franco-Brésiliens. Au moment de l’analyse des sources nous avons choisi de centrer notre recherche sur les témoignages des migrants, aussi bien de Français qui vivent ou qui ont vécu au Brésil que de Brésiliens qui vivent ou qui ont vécu en France. Et, en ce qui concerne les migrants temporaires, nous nous sommes particulièrement intéressés à ceux qui l’ont fait pour des raisons d’études. Notre fil conducteur était la recherche de réponses à cinq questions. Qu’est-ce qui conduisaient les Brésiliens à s’installer définitivement à Rennes (France) ? Et les Français à Belo Horizonte (Brésil) ? Pour quelles raisons les Brésiliens iraient étudier en France ? Et les Français au Brésil ? Qu’allaient montrer de l’imaginaire concernant le pays de destination les raisons qu’ont poussé ces sujets à migrer ? C’est entre les lignes de ce voyage vers l’autre que constitue la migration que nous avons tenté de saisir l’imaginaire sur cet « autre » du sujet qui migre. Mots-clé: migration, imaginaire, Brésil, France, histoire contemporaine, mariage mixte. 2 Conformément à la Convention de Cotutelle Internationalle de Thèse signée entre l’Université Rennes 2 – Université d’Haute Bretagne et l’Universidade Federal de Minas Gerais pour réger le développement de cette recherche (Article 6), « lorsque la langue de rédaction de la thèse n’est pas le français, la thèse sera completée par un résumé substantiel en langue francçaise ». Ce résumé substantiel se trouve ci-joint. (Voir “Anexo B”.) 10 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Quadro 1 - Entrevistados ....................................................................................................33 Quadro 2 - Classificação dos países, segundo a quantidade de casais mistos compostos por um francês e uma estrangeira e por uma francesa e um estrangeiro residentes na França em 2005..........................................................................................143 Quadro 3 - Inventário dos elementos que compõem o imaginário de brasileiros sobre a França apresentados pelos brasileiros que nunca estiveram no país entrevistados ...................................................................................................214 Quadro 4 - Inventário dos elementos que compõem o imaginário de franceses sobre o Brasil apresentados pelos franceses que nunca estiveram no país entrevistados .........................................................................................................................220 11 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Franceses registrados no Consulado Honorário de Belo Horizonte por local de nascimento .......................................................................................................57 Tabela 2 - Franceses registrados no Consulado Honorário de Belo Horizonte nascidos na França por sexo ................................................................................................57 Tabela 3 - Quantidade de casais mistos compostos por um(a) francês(a) e um(a) estrangeiro(a) residentes na França em 2005, por local de origem do cônjuge estrangeiro ......................................................................................................140 Tabela 4 - Quantidade de casais mistos compostos por um(a) francês(a) e um(a) estrangeiro(a) residentes na França em 2005, por país e por sexo do migrante .........................................................................................................................142 12 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior CNPq - Conselho Nacional de Pesquisa CPDOC/FGV- Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas DEA - Diplôme d’Études Approfondies ERILAR - Équipe de Recherches Interlangues “Mémoire, Identités, Territoires” FAFICH/UFMG - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IEP - Institut d’Études Politiques INSEE - Institut National de la Statistique et des Études Économiques ISER - Instituto Superior de Estudos da Religião MAE - Ministère des Affaires Étrangères ONG - Organização Não-Governamental PACS - Pacte Civil de Solidarité PALOP - Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa PHO/FAFICH/UFMG - Programa de História Oral da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais PRIPLAP - Pôle de Recherches Interuniversitaires sur les Pays de Langue Portugaise 13 PUC-Minas - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto UFSCAR - Universidade Federal de São Carlos UHB - Université d’Haute Bretagne USP - Universidade de São Paulo 14 SUMÁRIO Resumo .......................................................................................................................................6 Abstract ......................................................................................................................................7 Resumen .....................................................................................................................................8 Résumé .......................................................................................................................................9 Lista de Ilustrações ...................................................................................................................10 Lista de Tabelas .......................................................................................................................11 Lista de Abreviaturas e Siglas ..................................................................................................12 Sumário ....................................................................................................................................14 PARTE INTRODUTÓRIA: O PONTO DE PARTIDA Prólogo ……………………………………………………………………………………….18 Introdução …………………………………………………………………………………....21 A. O Imaginário: um outro real ...................................................................................21 B. O Objeto de Estudo, os Objetivos da Pesquisa, a Metodologia de Trabalho e o Corpus Documental ................................................................................................26 C. História & Presente ................................................................................................41 D. A Estrutura da Tese ................................................................................................44 Capítulo 1 – Quem são eles? …………………………………………………………………47 1.1. “Brasileiros de Rennes” e “Brasileiros em Rennes”: um retrato...........................47 15 1.2. “Franceses de Belo Horizonte” e “Franceses em Belo Horizonte”: impressões ..56 PARTE I: IMAGINÁRIOS CASADOS Capítulo 2 – A História de Nádia ……………………………………………………...……..66 Capítulo 3 – Em Busca do Eldorado ……………………………………………………........93 Capítulo 4 – O Brasil e “a Brasileira” ………………………………………………………119 PARTE II: OUTROS ENTRE-OLHARES Capítulo 5 – Entre Usos e Abusos………………………..…………………………………146 Capítulo 6 – Estudantes-Turistas............................................................................................176 Capítulo 7 – Inventariando o Imaginário ...............................................................................205 PARTE FINAL: O PONTO ONDE ESTAMOS Considerações Finais ..............................................................................................................228 Referências Documentais .......................................................................................................241 Fontes Primárias .........................................................................................................241 Fontes Secundárias .....................................................................................................245 Referências Bibliográficas ....................................................................................................248 16 Glossário ................................................................................................................................258 Anexos ...................................................................................................................................259 Anexo A – Convenção de Cotutela Internacional de Tese entre a Université Rennes 2 –Haute Bretagne (França) e a Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (Brasil) .....................................................................................................................................259 Anexo B – Résumé Substantiel de la Thèse en Langue Française …………………266 Anexo C – Roteiros de Entrevista …………………………………………………..288 Anexo D – Trabalhos historiográficos sobre as relações entre o Brasil e a França levantados junto à CAPES e ao Centre de Recherche sur le Brésil Contemporain ..292 Anexo E – Quadro Comparativo dos Sistemas de Ensino no Brasil e na França …..295 PARTE INTRODUTÓRIA: O PONTO DE PARTIDA 18 PRÓLOGO Vivi entre o Brasil e a França, de 2004 à 2009. Ao longo desse período, permaneci por quase quatro anos no exterior, subdividos em uma estadia de dois anos e um mês e duas estadias de nove meses cada uma, entremeadas por duas voltas à terra natal, a primeira de um ano e a segunda de seis meses. Já havia atravessado as fronteiras em outras ocasiões e, inclusive, já conhecia Paris. No entanto, essa foi a primeira vez que permaneci por tanto tempo do outro lado e que não contava com a proteção intrínseca à condição de turista, essa carapaça que nos protege de um contato mais profundo com a alteridade. O ponto de partida desta tese é esse encontro com o outro vivido. “– D’où vient votre joli accent?” “– Moi? Je suis Brésilienne, moi.” O que quer dizer em português, “– De onde vem o seu sotaque bonito?” “– Eu? Eu sou brasileira.” Uma das grandes surpresas, das muitas que preencheram os meus primeiros meses na França, foram as reações dos franceses, ao saberem que eu era brasileira. Definitivamente, pelo menos para uma boa parte deles, o Brasil parecia ter uma espécie de aura. Não era raro que dessem logo um sorriso, apesar de serem, em geral, tão sérios. Também via desfilar com freqüência diante 19 de mim toda uma série de clichês. Às vezes, era o país do sol, das praias, do carnaval, das mulheres, do futebol. Às vezes, o país das favelas, da violência, da pobreza, dos meninos de rua. E outros mais. Muitos contavam histórias fantásticas ou abomináveis sobre o Brasil, que ouviram de outros franceses, que assistiram na televisão. Ou, então, falavam do desejo, dos planos, do medo de conhecer o lugar. Alguns acreditavam estar diante da brasileira que povoa o imaginário, uma mulher fácil, fogosa, sem pudores... Para além disso, a situação costumava não ser menos constrangedora. Afinal, como vinha de um país radicalmente marcado pelas mazelas sociais, era difícil para eles enxergar uma jovem com seis anos de estudos superiores, que tinha acesso aos mesmos bens culturais e de consumo que os jovens franceses da classe média intelectualizada. O Brasil também estava na moda. Os franceses usavam sandálias Havaianas e pulseirinhas do Senhor do Bonfim, faziam aulas de capoeira, escutavam Seu Jorge. Que espanto ao me deparar com a vitrine Frénétique Brésil (Frenético Brasil) da loja Printemps, em Brest! Algo havia mudado, nesse sentido, desde 2001, quando passei uma curta temporada em Paris e eram outros os ditames das passarelas. Seria o Ano do Brasil na França que se aproximava, fazendo com que o país estivesse na moda? Ou o ano só seria do Brasil justamente porque o país estava na moda? Ou ainda o ano seria do Brasil pelos mesmos motivos pelos quais o país estava na moda? Diante desse quadro, retomei algumas leituras dos tempos da graduação em história, como Viagem à Terra do Brasil de Léry (1578; 2007) e As Singularidades da França Antártica de Thevet (1558; 1978). De repente, tornei-me uma leitora voraz de relatos de viagem. Buscava compreender, a partir dessas leituras, aquele imaginário que envolvia o Brasil, com o qual me deparava cotidianamente na França. Tentava apreender a construção desse imaginário, ao longo dos cinco séculos de relações França-Brasil. Comparava as minhas experiências do dia-a-dia, enquanto brasileira na França, com os relatos de outros tempos. Procurava abarcar as diferenças e as similitudes entre o imaginário dos franceses sobre o Brasil, nos séculos passados, e o imaginário dos franceses sobre o Brasil, em pleno século XXI. Em relação às similitudes, em especial, ora me divertia, ora me enraivecia, ao constatar a contemporaneidade de velhos mitos, sendo que, muitas vezes, a continuidade vinha camuflada de ruptura e vice-versa, fazendo, por exemplo, com que a selvageria do Brasil canibal se transfigurasse naquela do Brasil violento. E, claro, não deixava de tentar estabelecer um contraponto a tudo isso, questionando-me sobre o imaginário brasileiro sobre a França, na mesma medida em que me questionava sobre o imaginário francês sobre o Brasil. 20 Nascia, assim, o projeto de pesquisa para o doutoramento Devaneios sobre o Outro: o imaginário francês sobre o Brasil e o imaginário brasileiro sobre a França, no século XXI. Tal projeto foi desenvolvido, no âmbito do Colégio Doutoral França-Brasil (CDFB), junto ao Pôle de Recherches Interuniversitaires sur les Pays de Langue Portugaise (PRIPLAP), um dos componentes da Équipe de Recherches Interlangues “Mémoire, Identités, Territoires” (ERIMIT) da École Doctorale “Arts, Lettres, Langues” da Université Rennes 2 – Université d’Haute Bretagne (UHB), a partir de setembro de 2005, em Cotutela Internacional de Tese com o Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a partir de março de 2006. Ele foi orientado pelas Professoras Rita Godet e Thaïs Pimentel, contando com os financiamentos do Ministère des Affaires Étrangères (MAE), entre novembro de 2006 e junho de 2007, e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), entre novembro de 2007 e julho de 2008, assim como entre fevereiro e outubro de 2009. O trabalho que lerão é fruto da pesquisa desenvolvida. 21 INTRODUÇÃO A. O Imaginário: um outro real A valorização do imaginário, de acordo com Boia (1998), é um dos traços mais marcantes da sensibilidade histórica atual. Mais críticos em relação à razão, à ciência e ao materialismo, os historiadores, assim como os profissionais de outras áreas das ciências humanas, na verdade, teriam compreendido que o imaginário envolve a vida humana em sua totalidade. Dessa maneira, as pesquisas científicas ou os projetos políticos, por exemplo, dir- lhe-iam respeito, tanto quanto a criação artística ou as práticas místicas. Em meio a esse movimento de valorização, o autor afirma que antropólogos, filósofos, psicanalistas, psicólogos, sociólogos, conceberam o imaginário como um domínio à parte, dedicando-lhe centros de pesquisa, publicações e eventos científicos, e desvelando suas estruturas. Os historiadores, em especial, também teriam concedido um novo lugar para o imaginário nas suas pesquisas. Porém, eles não se identificariam com as teorizações 22 promovidas pelos demais, nem tampouco buscariam construir uma teoria específica como eles. Cada historiador, na prática, afinaria a sua problemática particular, sendo grande o contraste entre a multiplicidade de pesquisas e obras que se propõem a analisar imaginários históricos, e a ausência de teorizações sobre o imaginário elaboradas por historiadores. Seria empiricamente, sobretudo, que o imaginário estaria sendo abordado pela historiografia. Poderíamos falar da existência de histórias do imaginário no plural, não de uma história do imaginário no singular. Dentre as raras discussões teóricas sobre o imaginário produzidas no campo da história, duas merecem destaque, além do tratado de Boia (1998), intitulado Pour une Histoire de l’Imaginaire: o ensaio A História do Imaginário, escrito por Patlagean (2001); e o prefácio da obra O Imaginário Medieval, de autoria de Le Goff (1994). De acordo com Patlagean (2001, p.291), “o domínio do imaginário é constituído pelo conjunto das representações que exorbitam do limite colocado pelas constatações da experiência e pelos encadeamentos dedutivos que estas autorizam”. Isto é, a ele pertenceria tudo que ultrapassa a incontestável realidade concreta, percebida diretamente através da experimentação empírica ou da dedução lógica. Falar em imaginário significaria, assim, falar do falso, do não-verificado ou do inverificável. Le Goff (1994), por sua vez, responsável por pesquisas importantíssimas sobre o imaginário medieval, preocupa-se antes em precisar o que o imaginário não é, ao prefaciar a sua obra. Ele não deveria ser confundido nem com a representação, nem com o simbólico, nem com a ideologia. No entanto, o autor não deixa de esboçar, nas entrelinhas, uma definição, contrapondo-se à Patlagean (2001): o imaginário não se opõe ao real, o imaginário é, conforme observaremos em seguida, um outro real. O imaginário é muito frequentemente confundido com aquilo que designamos por meio de termos vizinhos cujos âmbitos se interpenetram parcialmente mas que devem, todavia, ser cuidadosamente distinguidos. Em primeiro lugar, a representação. Este vocabulário, de uma grande generalidade, engloba todas e quaisquer traduções mentais de uma realidade exterior percebida. A representação está ligada ao processo de abstração. [...] O imaginário pertence ao campo da representação mas ocupa nele a parte da tradução não reprodutora, não simplesmente transposta em imagem do espírito mas criadora, poética no sentido etimológico da palavra. [...] Mas o imaginário, embora ocupando apenas uma fracção do território da representação, vai mais além dele. A fantasia – no sentido forte da palavra – arrasta o imaginário para além da representação, que é apenas intelectual. 23 Depois, temos o simbólico. Só se pode falar de simbólico quando o objecto considerado é remetido para um sistema de valores subjacente – histórico ou ideal. [...] Quando Victor Hugo diz de Notre-Dame, vista por Quasimodo, "A catedral não era para ele somente a sociedade mas também o universo, mas também toda a natureza", cria uma catedral simbólica, espelho dos três mundos que o genial corcunda nela decifra, e também uma catedral imaginária ("toda a igreja ganhava algo de fantástico, de sobrenatural, de horrível; olhos e bocas se abririam aqui e além…"), pois este exemplo mostra bem como estas categorias do espírito podem unir-se e até, em parte, sobrepor-se sem haver necessidade de se renunciar a distingui-las – justamente para bem se poder pensá-las. Igual distinção é necessária entre o imaginário e o ideológico. O ideológico é empossado por uma concepção do mundo que tende a impor à representação um sentido tão perversor do "real" material como do outro real, do "imaginário" [grifo nosso]. [...] Qualquer que seja a parte de invenção conceptual neles contida, os sistemas ideológicos, os conceitos organizadores da sociedade forjados pelas ortodoxias reinantes (ou pelos seus adversários), não são sistemas imaginários propriamente ditos [...] (LE GOFF, 1994, p.11-12). Boia (1998) discorda de Le Goff (1994), no que diz respeito aos limites do universo do imaginário. O autor relembra que não existe representação idêntica ao objeto representado, já que toda imagem supõe uma intervenção do imaginário; defende que os símbolos não só pertencem ao imaginário, mas talvez constituam sua expressão mais concentrada e significativa; e afirma que as ideologias podem ser legitimamente interpretadas como mitologias secularizadas. No entanto, Boia (1998) vai ao encontro da definição apresentada à contrapelo por Le Goff (1994), segundo a qual o imaginário é um outro real. Para ele, o imaginário é uma realidade interna ou mental que possui suas características próprias, tão real quanto a realidade externa ou tangível, com a qual dialoga e com a qual compõe as duas faces de uma mesma moeda. Vejamos: l’imaginaire est un produit de l’esprit. Sa concordance ou non concordance avec ce qui se trouve au-dehors est chose secondaire bien que non dénuée d’importance pour l’historien. […] L’imaginaire se mêle à la réalité extérieure et se confronte avec elle; il y trouve des points d’appui ou, par contre, un milieu hostile; il peut être confirmé ou répudié. Il agit sur le monde et le monde agit sur lui. Mais, dans son essence, il constitue une réalité indépendante, disposant de ses propres structures et de sa propre dynamique3 (BOIA, 1998, p.16). 3 O imaginário é um produto mental. Sua concordância ou discordância com o que se encontra fora dele é coisa secundária, embora não sem importância para o historiador. [...] O imaginário se mistura à realidade externa e se 24 A definição apresentada relativiza justamente a dicotomia entre real e imaginário. Para Boia (1998), o imaginário se relaciona com a realidade tangível, evidentemente. Todavia, o imaginário não seria uma simples deformação ou paródia da realidade tangível. A matéria- prima manipulada pelo imaginário, embora não se distancie do mundo concreto, seria fundida e colada segundo princípios que lhe são próprios. Ou seja, não seria a matéria-prima, mas as estruturas que importariam, e tais estruturas gozariam de uma autonomia incontestável. Indo além, o autor lança mão dos arquétipos, enquanto elementos constitutivos do imaginário. A seu ver, a história do imaginário pode ser definida como uma história dos arquétipos, sabendo que as permanências mentais aí se cristalizam. Tratar-se-ia, portanto, de uma história estrutural. Contudo, vale frisar, é mencionada antes uma complementaridade do que uma oposição entre estruturalismo e historicismo. L’histoire de l’imaginaire est une histoire structurelle car, finalement, même les plus sophistiquées des construction de l’esprit peuvent être simplifiées, décomposées et réduites à l’archétype. Mais une histoire très dynamique aussi, précisément parce que les archétypes sont des structures ouvertes, qui évoluent, se combinent entre elles, et dont le contenu s’adapte sans cesse au milieu social changeant. Histoire des archétypes, structurelle et dynamique: nulle contradiction entre ces termes. Tout déséquilibre en faveur ou en défaveur de l’un ou de l’autre fausserait gravement la perspective4 (BOIA, 1998, p.18). Uma vez que a discussão entre estruturalistas e historicistas nem sempre foi tranqüila (ao contrário, basta lembrar a querela entre o próprio medievalista Le Goff e o sociólogo Durand, dois grandes nomes do imaginário na França), Boia (1998) se apressa em explicitar os pontos de divergência e convergência, entre aqueles que acreditam nas regularidades e mesmo nas permanências do imaginário, e aqueles que privilegiam as suas diversidades e transformações, defendendo o seu ponto de vista. confronta com ela; aí encontra pontos de apoio, ou, ao contrário, um meio hostil; podendo ser confirmado ou repudiado. Ele age sobre o mundo e o mundo age sobre ele. Mas, na sua essência, constitui uma realidade independente, dispondo de suas próprias estruturas e da sua própria dinâmica (Tradução nossa). 4 A história do imaginário é uma história estrutural, porque, finalmente, mesmo as mais sofisticadas construções mentais podem ser simplificadas, decompostas e reduzidas ao arquétipo. Mas uma história muito dinâmica também, precisamente porque os arquétipos são estruturas abertas, que evoluem, combinam-se entre si, e seu conteúdo se adapta sem cessar ao meio social instável. História dos arquétipos, estrutural e dinâmica: nenhuma contradição entre esses termos. Todo desequilíbrio em favor ou em desfavor de um ou de outro falsearia gravemente a perspectiva (Tradução nossa). 25 Se radicalizada, é verdade que a opção estruturalista pelas formas cristalizadas do imaginário anularia simplesmente a história, ou lhe permitiria se ocupar apenas de detalhes anedóticos. Afinal, o objeto histórico é o devir ou o vir a ser. Entretanto, as demais ciências humanas teriam se tornado mais sensíveis à história, mesmo porque sua metodologia de trabalho protegeria contra a armadilha das semelhanças aparentes. E, por outro lado, os historiadores, seduzidos pela longa duração, teriam começado a se interessar pelas estruturas duráveis, mesmo que a longa duração não signifique atemporalidade, inscrevendo-se no tempo. Refus ou valorisation du temps? Refus ou valorisation des compartiments spatiaux? Longue durée ou phases de rupture inscrites dans un cadre temporel plus ou moins restreint? […] en vérité, on ne devrait pas poser le problème en termes de choix entre l’immutabilité et le mouvement, entre uniformité et spécificité. […] Archétypes, modèles et manifestations spécifiques ne sont que trois niveaux d’une même construction5 (BOIA, 1998, p.20). É pelo universo do imaginário, tal como ele foi delineado teoricamente por Boia (1998), que esta tese se envereda. Cuidamos de começar pela apresentação da definição adotada, pois compreender o que se entende por imaginário é essencial para a compreensão da delimitação e abordagem do objeto de estudo em questão. Todavia, vale destacar que, como veremos em seguida, intencionamos historiar imaginários históricos – aqueles que interligam o Brasil e a França, e, em certa medida, o Novo e o Velho Mundo –, sem nos preocupar em construir um tratado teórico sobre o imaginário. 5 Recusa ou valorização do tempo ? Recusa ou valorização dos compartimentos espaciais? Longa duração ou fases de ruptura inscritas em um quadro temporal mais ou menos restrito? [...] na verdade, não se deveria colocar o problema em termos de escolha entre imutabilidade e movimento, entre uniformidade e especificidade. [...] Arquétipos, modelos e manifestações específicas são somente três níveis de uma mesma construção (Tradução nossa). 26 B. O Objeto de Estudo, os Objetivos da Pesquisa, a Metodologia de Trabalho e o Corpus Documental O imaginário de franceses sobre o Brasil e o imaginário de brasileiros sobre a França, na contemporaneidade, configuram o objeto de estudo desta pesquisa histórica. Em outras palavras, o que interessa são as formas hoje concedidas ao Brasil pelos franceses e à França pelos brasileiros, no âmbito dessa outra realidade, dessa realidade interna ou mental, que é o imaginário, conforme tão bem definiu Boia (1998). Objetiva-se, em um primeiro momento, desvelar esses imaginários, que supomos históricos, o que quer dizer filhos de um tempo determinado, datados. E, em seguida, vislumbrar os seus processos de construção, ao longo da história, ou seja, pelo tempo afora. Olha-se, então, para o presente, mas sem perder de vista as relações estabelecidas entre o Brasil e a França, desde o século XVI. Foi construído um foco de análise: os próprios imaginários de franceses e brasileiros, tangenciados através de entrevistas orais. Isso porque, considerando o objeto de estudo e os objetivos centrais da pesquisa, acreditamos que é fundamental conversar com franceses e brasileiros, escutar o que têm a dizer, uma vez que, em história contemporânea, contamos com essa possibilidade. Nessa perspectiva, os relatos de franceses que moram ou moraram no Brasil, que viajaram pelo país, ou que aqui nunca estiveram, seriam reveladores do imaginário de franceses sobre o Brasil. Os relatos de brasileiros que moram ou moraram na França, que viajaram pelo país, ou que lá nunca estiveram, da mesma forma, revelariam o imaginário de brasileiros sobre a França. Notem que são as nacionalidades (franceses ou brasileiros), bem como o fato de ter experimentado ou não o outro país (migrantes e turistas ou “os que nunca estiveram”), e a natureza dessa experiência (migração ou viagem turística), que determina a categorização dos entrevistados. A polarização pelo país de origem possibilita analisar, ao mesmo tempo, a maneira como somos vistos pelos franceses e também a maneira como os vemos, instaurando um diálago entre ambas. Por outro lado, priorizamos as experiências individuais nos moldes anunciados, partindo da hipótese que, no que concerne ao par imaginário e alteridade, o encontro com o outro poderia ser radicalmente decisivo. 27 Por fim, uma vez concluída a realização das entrevistas, no momento de análise das fontes, optou-se por dar centralidade aos depoimentos dos migrantes permantentes e temporários, que, na sua grande maioria, deslocaram-se entre o Brasil e a França em função de um casamento misto ou de uma temporada de estudos. O volume, a complexidade e a riqueza do corpus documental produzido exigiam um recorte. Além disso, esses foram os dois grupos que se mostraram mais interessantes: na medida em que o imaginário sobre o outro parecia funcionar como um importante elemento mediador do processo migratório, tal processo se apresentava como um meio privilegiado de atingí-lo. Dessa maneira, ao querer abarcar a realidade mental que é o imaginário, escolhemos como realidade tangível as trajetórias de vida, em especial, a parte dessas trajetórias que é marcada pela migração, pela eleição de um novo lugar para se viver, em detrimento da terra natal. Valendo lembrar que, de acordo com Boia (1998), realidade mental e realidade tangível, ou imaginário e, no caso, trajetórias de vida, compõem as duas facetas do real, e se constituem na relação que mantêm uma com a outra, sendo, portanto, capazes de se revelar mutuamente. Não se pode deixar de apontar ainda que pensamos em abordar também um segundo foco de análise, o Ano do Brasil na França, transcorrido em 2005. Ao longo do desenvolvimento da pesquisa, começamos a nos questionar se, ao trabalhar em duas frentes, não estávamos, na verdade, construindo duas teses. No momento do exame de qualificação, ocorrido em outubro de 2007, os professores que compunham a banca julgaram que a documentação oral produzida era consideravelmente mais rica que a documentação coletada e produzida acerca da temporada cultural brasileira. Sem negar o valor dessa última, eles sugeriram, ao menos, uma maior exploração daquela primeira, que sozinha sustentaria o argumento central. Diante desse quadro, e considerando também que o trabalho devia ser concluído em quatro anos, terminamos por abandonar o segundo foco de análise proposto no projeto. O Ano do Brasil na França não deixou, no entanto, de servir como contexto para o desenvolvimento da pesquisa, o que nos obriga a apresentá-lo minimamente. Afinal, foi em 2005 que entramos em contato com a comunidade brasileira de Rennes. Trata-se, em princípio, de um negócio de Estado. O Governo Francês promove temporadas culturais estrangeiras na França, desde 1985, com o objetivo de fomentar aproximações diplomáticas. Um país é celebrado a cada ano, tendo 2005 sido dedicado ao Brasil. Na prática, estamos falando de uma programação oficial composta por trezentos e trinta e sete eventos, sem contar as reapresentações, que percorreram duzentos e vinte e oito 28 cidades francesas, atingindo um público total de mais de quinze milhões de pessoas, o que equivale a cerca de um quarto da população do país. Tal programação foi elaborada por um Comitê Misto, composto por um Comissariado Francês e um Comissariado Brasileiro designados, respectivamente, pelos Governos da França e do Brasil. Uma vez lançada a idéia da temporada cultural brasileira, a sociedade civil francesa dela se apropriou, construindo uma intensa programação extra-oficial de eventos. Dessa forma, o Ano do Brasil na França não pode ser considerado apenas o negócio de Estado que é na origem, já que ultrapassou as formalidades políticas e encontrou eco junto à população. Na cidade de Rennes, por exemplo, aconteceram onze eventos oficiais, cinco nacionais e quatro locais, sendo que um desses últimos é constituído, na verdade, por três eventos. Por outro lado, aconteceram na cidade vinte e oito eventos extra-oficiais. Deles, cinco foram promovidos por associações, quatro por companhias artísticas dirigidas por brasileiros, três por universidades, dois pelo Collectif Brésil – entidade que congrega treze associações, companhias artísticas e Organizações Não-Governamentais (ONG) de Rennes que trabalham com o país –, um por iniciativa individual; dois são eventos que fizeram parte de festivais, dois do programa televisivo nacional. A programação oficial, dessa maneira, não abarca nem um terço dos eventos transcorridos em Rennes. Indo além, a temporada cultural brasileira é ainda um momento em que as relações entre a França e o Brasil, entre franceses e brasileiros, intensificam-se, em função e a partir dela. Evento oficial, em um primeiro momento, evento extra-oficial, em um segundo, o Ano do Brasil na França se transfigura, enfim, em um recorte temporal privilegiado, pois mobiliza os imaginários, fazendo com que venham à tona. É nesse sentido que ele não deixou de nos interessar6. Como já foi dito, acreditamos que o objeto de estudo e os objetivos centrais da pesquisa impõem conversar com brasileiros e franceses, escutar o que eles têm a dizer, considerando que isso é possível em história contemporânea. Lançamos mão da história oral, enquanto mecanismo de estruturação e registro dessas conversas, produzindo fontes históricas orais que compõem o corpus documental analisado. Entretanto, vale dizer que temos em mente que essa é uma metodologia de trabalho, e não uma simples técnica. 6 As fontes históricas coletadas ou produzidas acerca do Ano do Brasil na França foram utilizadas como fontes secundárias, ajudando a traçar, sobretudo, o retrato da comunidade brasileira de Rennes. Elas estão listadas no item “Referências Documentais”. Caso algum pesquisador tenha interesse em consultá-las, como se trata de um conjunto documental disperso e de difícil localização, basta estabelecer contato pelo e-mail ninaaamorim@gmail.com. 29 Para alguns, a história oral é uma técnica. Geralmente envolvidos na constituição de acervos orais ou no desenvolvimento de pesquisas que utilizam entrevistas apenas de forma eventual ou como fonte de informação complementar, os defensores da história oral como técnica se interessam pelas experiências de gravação, transcrição e conservação de depoimentos, bem como pelo aparato que as cerca (gravadores, transcribers, modelos de organização, etc). Para outros, a história oral é uma disciplina. Ou seja, ela conta com um conjunto próprio de técnicas de pesquisa, de procedimentos metodológicos e de conceitos teóricos que lhe garantem o status de disciplina à parte. Por fim, para um terceiro grupo, a história oral é muito mais abrangente e complexa do que uma técnica, mas também não pode ser vista como uma disciplina que possui objeto próprio e capacidade de gerar soluções teóricas (AMADO; FERREIRA, 1998). Metodologia, a história oral [...] apenas estabelece e ordena procedimentos de trabalho – tais como os diversos tipos de entrevista e as implicações de cada um deles para a pesquisa, as várias possibilidades de transcrição de depoimentos, suas vantagens e desvantagens, as diferentes maneiras de o historiador relacionar-se com seus entrevistados e as influências disso sobre seu trabalho – funcionando como ponte entre teoria e prática. Esse é o terreno da história oral – o que, a nosso ver, não permite classificá-la unicamente como prática. Mas, na área teórica, a história oral é capaz apenas de suscitar, jamais de solucionar, questões; formula as perguntas, porém não pode oferecer as respostas. As soluções e explicações devem ser buscadas onde sempre estiveram: na boa e antiga teoria [...]. Aí se agrupam conceitos capazes de pensar abstratamente os problemas metodológicos gerados pelo fazer histórico (AMADO; FERREIRA, 1998, p.xvi). Entrevistamos quinze franceses que moram ou moraram no Brasil e dezoito brasileiros que moram ou moraram na França; seis franceses que viajavam ou viajaram pelo Brasil e quatro brasileiros que viajavam ou viajaram pela França; seis franceses que nunca estiveram no Brasil e seis brasileiros que nunca estiveram na França. Embora não estivesse previsto no projeto de pesquisa, entrevistamos também cinco franco-brasileiros, filhos de casais mistos, isto é, compostos por um(a) brasileiro(a) e um(a) francês(a), ou filhos adotivos de franceses nascidos no Brasil. Acreditávamos que eles, se considerados filhos dos dois mundos, poderiam trazer para a pesquisa um novo olhar. Na prática, porém, isso não ocorreu, pois o país onde passaram a maior parte da vida termina por ocupar um lugar preponderante na conformação de seu imaginário. Já a opção de entrevistar, sobretudo, franceses que moram ou moraram no Brasil e brasileiros que moram ou moraram na França, deveu-se, mais uma vez, à idéia de que, no que concerne às relações entre imaginário e alteridade, o encontro com o 30 outro poderia ser radicalmente decisivo. Essa nossa outra hipótese também não se confirmou. Se a experiência da migração termina de fato tornando mais ricos os depoimentos dos migrantes, não é pelo poder que o contato com outro tem de revolucionar o imaginário que carregam consigo, mas sim pela força com que esse imaginário vem à tona na relação com o outro, ajudando a definir essa relação e até mesmo a identificar quem é o outro. Todos os entrevistados moravam em Belo Horizonte ou em Rennes, no momento de realização das entrevistas, entre 2006 e 2007. Vivendo entre essas duas capitais, e levando em conta que os deslocamentos pelo interior do Brasil e da França implicavam um custo financeiro então impraticável, adotamos esse recorte. No entanto, parte dos entrevistados são brasileiros que moravam em Rennes ou passeavam pela cidade, mas provinham dos mais diversos cantos do Brasil e não somente de Belo Horizonte; são brasileiros que tinham morado em outras cidades da França ou viajado por outros cantos do país, e não somente morado em Rennes ou passeado pela cidade; são franceses que moravam em Belo Horizonte ou passeavam pela cidade, mas provinham dos mais diversos cantos da França e não somente de Rennes; são franceses que tinham morado em outras cidades do Brasil ou viajado por outros cantos do país, e não somente morado em Belo Horizonte ou passeado pela cidade. Sendo assim, os dados e as análises apresentadas não dizem respeito exclusivamente aos dois centros urbanos mencionados. Preocupamo-nos em entrevistar sujeitos com perfis diferentes uns dos outros, sem seguir regras rígidas para escolhê-los. Para começar, sabíamos que, querendo trabalhar os entre-olhares, devíamos envolver no desenvolvimento do trabalho franceses e brasileiros em um número mais ou menos proporcional. Além disso, quatro grupos de entrevistados deviam ser construídos, contemplando migrantes, turistas, “os que nunca estiveram” e franco- brasileiros. No caso dos migrantes, as primeiras entrevistas foram realizadas com pessoas chaves, como a então presidente da Associação Brasil no Feminino, que é uma associação que agrupa mulheres brasileiras que moram em Rennes. Em seguida, o avançar da pesquisa (o que inclui a realização das entrevistas, mas também as leituras, as conversas exploratórias, a observação de campo e as trocas com outros pesquisadores) permitiu identificar o tipo de pessoa ou de perfil que era preciso buscar para compor um universo o mais heterogêneo possível, na medida em que nos apresentou os brasileiros radicados na França e os franceses radicados no Brasil. Já no que concerne aos demais grupos de entrevistados, atemo-nos em selecionar pessoas com trajetórias de vida e situação sócio-econômica distintas umas das outras. Vale reforçar, por fim, que a tese não trabalha com a idéia de representatividade 31 quantitativa, ou seja, o que importa não é o número de entrevistas realizadas, nem o quanto esse número é representativo de um universo dado. Ao todo, foram realizadas sessenta entrevistas, que totalizam cerca de quarenta horas de gravação, sendo que a menor delas tem uma duração de cinco minutos e a maior de duas horas aproximadamente, e a duração média de cada uma é igual a mais ou menos quarenta minutos. Aquelas realizadas na França foram gravadas em fita magnética e digitalizadas; já aquelas realizadas no Brasil foram gravadas diretamente em formato digital. Todas elas foram transcritas e encaminhadas aos entrevistados para a correção, mas somente alguns deles nos retornaram a transcrição corrigida. A gravação e a transcrição seguiram as normas técnicas apresentadas no manual de história oral elaborado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) (ALBERTI, 1989). O conjunto documental deverá ser doado ao Programa de História Oral (PHO) da FAFICH/UFMG, que mantém um acervo de documentos orais aberto ao público7. Foram elaborados, enfim, quatro roteiros de entrevista, um para cada grupo de entrevistados: migrantes, turistas, “os que nunca estiveram” e franco-brasileiros. Sem constituir uma camisa de força, eles nortearam o processo de produção das fontes. Os roteiros destinados aos migrantes e aos turistas são bastante semelhantes, diferenciando-se apenas em função da natureza do deslocamento entre o Brasil e a França, que pode ser uma mudança de país ou um passeio no estrangeiro. Em ambos os casos, buscamos, primeiramente, reconstruir o que era o Brasil ou a França para o entrevistado, antes de conhecer, de fato, o lugar. Questionamos também sobre a decisão de partir para o Brasil ou para a França, a organização da viagem de ida e a expectativa em torno dela, a chegada no país e as primeiras impressões. Em seguida, pedimos que contassem a experiência vivida no Brasil ou na França, e perguntamos qual a nova imagem do lugar construída a partir dessa experiência. Àqueles que retornaram, indagamos também sobre a decisão de voltar para a França ou para o Brasil, a organização da viagem de volta e a expectativa em torno dela, o reencontro com a terra natal. Procuramos, além disso, conhecer a opinião do entrevistado sobre o Brasil dos franceses e a França dos brasileiros. E, finalmente, pedimos notícias do Ano do Brasil na França, da comunidade francesa no Brasil e da comunidade brasileira na França, bem como indicações de outros possíveis entrevistados. 7 A referência completa das sessenta entrevistas realizadas se encontra no item “Referências Documentais”. Caso algum pesquisador tenha interesse em consultá-las e elas ainda não tenham sido doadas ao Programa de História Oral da FAFICH/UFMG, basta estabelecer contato pelo e-mail ninaaamorim@gmail.com. 32 Já os roteiros que guiaram as entrevistas realizadas com “os que nunca estiveram” e os franco-brasileiros são bem mais curtos. Aos brasileiros que nunca foram na França e aos franceses que não conhecem o Brasil, perguntamos, basicamente, quais as imagens que lhes vinham em mente, quando falávamos “França” ou “Brasil”, e exploramos como eles acreditavam ter apreendido essas imagens. No que diz respeito aos franco-brasileiros, fizemos perguntas com o objetivo de conhecer suas trajetórias de vida entre o Brasil e a França8. Resta apresentar os sessenta entrevistados. Por hora, faremos isso através de um quadro, organizado respeitando a ordem alfabética. Ele permitirá ao leitor, inicialmente, visualizar o universo de sujeitos envolvidos no desenvolvimento da pesquisa e, depois, ao longo da leitura da tese, identificar um ou outro desses sujeitos com alguma rapidez. Posteriormente, a medida que as histórias entrarem na construção da análise, uma nova apresentação, essa na forma de texto e um pouco menos suscinta, terá lugar. 8 Os quatro roteiros de entrevista podem ser consultados em anexo. (Ver Anexo C). 33 QUADRO 1 Entrevistados Nome Local de Nascimento Ano de Nascimento Período passado no Brasil ou na França Cidade de Destino Motivo do Deslocamento Profissão Atual Perfil do Entrevistado Adélia Arco Verde/PE 1952 1977-1978 1991-1995 1999 - ... Besançon Rennes Rennes Estudo (Licence) Casamento Misto Casamento Misto Dona de Casa Brasileira que mora na França Agnès Le Havre (prox.) 1986 2007 - ... Belo Horizonte Estudo (Estágio de Graduação) Estagiária da Aliança Francesa Francesa que mora no Brasil Albert Rennes (prox.) 60 anos (aprox.) Várias estadias curtas, a partir de 2000 Rio de Janeiro Turismo Guia Turístico Francês que viajou pelo Brasil Ana Recife 1985 1991-1995 1999 - ... Rennes Família (Trabalho do Pai) Estudante (Curso Preparatório para o Baccalauréat) Franco-brasileira Anderson São Paulo 1981 - - - Empregado do Carrefour Brasileiro que nunca esteve na França 34 Ângela Santo André/SP 1949 1971-1972 1974-1978 1983-1986 1996-1997 2006-2007 Paris Paris Paris Paris Paris Estudo (Intercâmbio Universitário) Estudo (Maîtrise, DEA) Estudo (Doutorado) Pesquisa (Pós-Doc) Pesquisa (Pós-Doc) Professora Universitária Brasileira que morou na França Annïck Belém 30 anos (aprox.) 2000 - ... Vivier-sur-Mer Dol-de-Bretagne Rennes Dupla Nacionalidade Desempregada Franco-brasileira Benjamin Nantes 1975 - - - Gerente de Hotel Francês que nunca esteve no Brasil Caio Rio de Janeiro 1976 2000 - ... Rennes Casamento Misto Dono de Casa Brasileiro que mora na França Cecília Belo Horizonte 1980 1984-1988 2004-2005 Toulouse Toulouse Família (Doutorado dos Pais) Família (Mestrado do Marido) Estudante (Mestrado) Brasileira que morou na França Cédric Rennes (prox.) 1978 2004-2005 Rio de Janeiro Estudo (Master) Estudante (Doutorado) Francês que morou no Brasil Célia Juíz de Fora/MG 1983 2004-2005 Paris Estudo (Intercâmbio Universitário) Estudante (Mestrado) Brasileira que morou na França 35 Charles Paris 1984 2007 - ... Belo Horizonte Estudo (Intercâmbio Universitário) Estudante (Graduação) Francês que mora no Brasil Dominique Paris 75 anos (aprox.) 1963 - ... Belo Horizonte Casamento Misto Engenheiro Agrônomo Aposentado Francês que mora no Brasil Eduardo Belo Horizonte 1977 1998-1999 Paris Família (Pós-Doc da Mãe) Pequeno Empresário Brasileiro que morou na França Elizabeth Bretagne 1946 1986 1992 2002 Paraíba/Pernambuco Tour pelo País Tour pelo Nordeste Adoção do Filho Passeio com o Filho Professora de Colégio Francesa que viajou pelo Brasil Elvira Salvador 1953 2004 - ... Rennes Família (Trabalho do Filho) Dona de Casa Brasileira que mora na França Emerson Salvador 1983 2004 - ... Rennes Trabalho Jogador de Futebol Brasileiro que mora na França Érica Belo Horizonte 1980 2005 Lyon Estudo (Curso de Línguas) Professora de Inglês Brasileira que morou na França Fernand Chelun (prox. Rennes) 1946 1978-1985 Recife Trabalho (Adido Pedagógico do Consulado da França) Professor de Colégio Francês que morou no Brasil Francisca Belo Horizonte 1973 1992 Besançon Trabalho (Estágio em uma trupe de teatro) Atriz Franco-brasileira 36 Gérard Charrante Maritime 1950 1998 - ... Belo Horizonte Trabalho (Abertura de Empresa) Empresário Francês que mora no Brasil Glenda São Tiago/ MG 1939 - - - Dona de Casa Brasileira que nunca esteve na França Guilherme Belo Horizonte 1982 - - - Porteiro Brasileiro que nunca esteve na França Guillaume Paris 1978 2006 - ... Belo Horizonte Trabalho (Engenheiro) Engenheiro Pequeno Empresário Francês que mora no Brasil Gustave Nantes 1950 2000 - ... Belo Horizonte Casamento Misto Policial Aposentado Francês que mora no Brasil Iara Belo Horizonte 1978 2001 2006 Paris Vallenciennes Turismo Trabalho (Engenheira) Engenheira Brasileira que morou na França Inácio Sabará/MG 1954 1990 - ... Paris Rennes Casamento Misto Bailarino Brasileiro que mora na França Irene Belo Horizonte 1944 2000 - ... Rennes Casamento Misto Artista Plástica Brasileira que mora na França Jacqueline Rennes 1923 - - - Comerciante Aposentada Francesa que nunca esteve no Brasil Jean Paris 1964 1989 - ... Belo Horizonte Paixão pelo Brasil Empresário Produtor Cultural Francês que mora no Brasil 37 João São Paulo 1983 2001 Paris Turismo Estudante (Mestrado) Brasileiro que viajou pela França José Belo Horizonte 1983 - - - Estudante (Graduação) Brasileiro que nunca esteve na França Josephine Paris 1944 1978-1979 Brasília Família (Trabalho do Marido) Médica Francesa que morou no Brasil Kelly São Luís 1983 2004 - ... Rennes Família (Casamento Misto da Mãe) Estudante (Ensino Técnico de Primeiro Grau) Brasileira que mora na França Lair Belo Horizonte 1933 1959-1963 Paris Estudo (Doutorado) Professora Universitária Aposentada Brasileira que morou na França Leonardo Belo Horizonte 1975 - - - Professor de Colégio Brasileiro que nunca esteve na França Lidia Dinan 1980 2002 Porto Alegre e Sul do Brasil Turismo Professora de Francês Francesa que viajou pelo Brasil Lígia São Paulo 1950 1972 2002 2006 - ... Paris Paris Rennes Turismo Trabalho (Pesquisa) Estudo (Pós-Doc) Professora Universitária Brasileira que mora na França Louis Guimguamp 1946 1986 1996 2002 Paraíba Tour pelo Brasil Tour pelo Nordeste Adoção do Filho Passeio com o Filho Jornalista Francês que viajou pelo Brasil 38 Marcel Paraíba 1986 1986 - ... Rennes Família (Adoção por Família Francesa) Estudante (Ensino Técnico de Primeiro Grau) Franco-brasileiro Marie Rennes 1944 - - - Professora de Colégio Aposentada Francesa que nunca esteve no Brasil Marion Quimper 1984 - - - Estudante (Master) Francesa que nunca esteve no Brasil Marinês Recife 1956 1988 2006 Tour pela França Turismo Médica Brasileira que viajou pela França Mathieu Rennes 1987 - - - Estudante (Graduação) Francês que nunca esteve no Brasil Morena Belo Horizonte 1980 1998 2001 2006 - ... Paris Paris Lyon (prox.) Rennes Turismo Turismo Au Pair Estudante (Licence) Estudante (Licence) Brasileira que mora na França Nádia Olinda/PE 1968 2004 - ... Rennes Casamento Misto Faxineira/ Babá Brasileira que mora na França Nicolas Mayenne 1966 1995-2000 São Carlos Trabalho (Químico) Estudo (Pós-Doc) Professor Universitário Francês que morou no Brasil Nicole Saint Brieuc 1974 Rio de Janeiro Turismo Arquiteta Francesa que viajou pelo Brasil 39 Patrick Rennes 1978 - 2006 - Salvador - Turismo Advogado Francês que nunca esteve no Brasil Francês que viajou pelo Brasil Paula Belo Horizonte 1969 1994 - ... Rennes Estudo Bailarina Brasileira que mora na França Pierre Recife 1982 1991-1995 1999 - ... Rennes Família (Trabalho do Pai) Estudante (Graduação) Franco-brasileiro Philippe Paris 1987 2006 - ... Belo Horizonte Estudo (Intercâmbio Universitário) Estudante (Graduação) Francês que mora no Brasil Sílvio Norte de Minas 1964 1996 - ... Rennes Casamento Misto Pequeno Empresário Brasileiro que mora na França Vicente Belo Horizonte 60 anos (aprox.) Longo período, entre a época da ditadura e muito recentemente Paris e outras cidades do interior da França Exílio Aposentado por invalidez Brasileiro que morou na França Virginie 40 anos (aprox.) 1995-2000 São Carlos Família (Trabalho do Marido) Professora Universitária Francesa que morou no brasil Viviane Belo Horizonte 1987 - - - Estudante (Graduação) Brasileira que nunca esteve na França Yann Rennes 40 anos (aprox.) 1984 1987 Juçaral/PE Trabalho Voluntário Francês que morou no Brasil 40 Yves Bretagne 1978 Vários períodos, desde o final dos anos 90 Mato Grosso, sobretudo Estudo (Maîtrise, DEA, Doutorado) Professor Universitário Francês que morou no Brasil 41 C. História & Presente Um dos traços de originalidade da pesquisa é pensar historicamente as relações Brasil- França na contemporaneidade. Consultando o catálogo de teses sobre o Brasil, defendidas na França entre 1983 e 2006 (CENTRE DE RECHERCHE..., 2007), e o banco de dissertações e teses, defendidas no Brasil a partir de 1987 (COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO..., 2007), observamos que, no que diz respeito às relações entre o Brasil e a França, análises sobre períodos mais recentes da história estão por ser feitas. Dos quarenta e um trabalhos historiográficos preocupados com a temática levantados, onze fazem referência ao século XX, sendo que apenas um está voltado para a segunda metade do século: L’Image Politique du Brésil à travers la Presse Française et Brésilienne de 1979 à 1992, de autoria de Bourrier (2003)9. Na verdade, essa é uma questão que atravessa o campo da história como um todo. Heródoto, considerado o pai da história, concedeu um lugar central aos testemunhos oculares, apoiando-se, primeiramente, no que via, e, em seguida, no que escutava de pessoas que viram (HARTOG, 1993a). Tucídides, por sua vez, acreditava que o saber histórico significava “ver com clareza”, no sentido estrito. Para ele, só o “olho” podia levar ao conhecimento, uma vez que a “orelha” não era confiável. Não é por acaso, portanto, que narra um evento que testemunhou, a Guerra do Peloponeso (HARTOG, 1993b). Divergências à parte, tanto para um quanto para o outro, fato é que a história é contemporânea (NOIRIEL, 1998). A história enquanto ciência do passado é obra que se institucionalizou somente no século XIX. Foi a Escola Positivista que baniu a atualidade dos domínios da história (POMIAN, 1992). [...] como escrever uma história sem arquivo, [...] sem exaustividade, [...] cujos termos não se conhecem? Quando o primado do que está escrito, a obsessão de ler tudo e uma lógica teleológica dominam a escrita da história, a tarefa se torna impossível (DUMOULIN, 1993a, p.173). 9 Os quarenta e um trabalhos historiográficos que abordam as relações entre o Brasil e a França levantados estão listados em anexo. (Ver Anexo D). 42 Somente no momento em que a Escola dos Annales transforma a velha ciência do passado em uma ciência do homem e das sociedades humanas no tempo, o contemporâneo voltou a encontrar um lugar legítimo na história. O passado apartado do presente dos positivistas deixou de fazer sentido, porque o historiador se conscientizou que trabalha no presente, sendo ele a chave das suas interrogações sobre o passado (DUMOULIN, 1993a). A noção de fonte histórica se alargou, e, considerando que a história é escrita com fontes, esse alargamento teve um grande impacto. Fontes históricas já não significavam os documentos oficiais guardados pelos arquivos, o que liberou os historiadores dos prazos de acesso à documentação estabelecidos por essas instituições. Eles podiam fazer história a partir de fontes de outra natureza, e podiam até mesmo produzir fontes (DUMOULIN, 1993b). Contudo, é inegável que, mesmo com essa revolução na historiografia, o positivismo deixou marcas profundas. Na década de 1930, os numerosos artigos da Revista Annales dedicados ao presente não foram escritos por historiadores. Em 1978, Le Goff afirma que a conquista da contemporaneidade pela história era algo a ser feito urgentemente. Somente na década de 1980, esse quadro começa a se transformar. Um indício é a fundação, na França, do Institut Historique du Temps Présent (IHTP), laboratório do Centre National de Recherche Scientifique (CNRS). Todavia, muitos (inclusive muitos historiadores) ainda continuam acreditando que a história é a ciência do passado, e que, portanto, história e presente compõem um antagonismo. Sendo que tal crença termina por determinar, obviamente, a produção historiográfica (TREBITSCH, 1992). Uma importante questão terminológica necessita de esclarecimento. História do tempo presente e história contemporânea são sinônimos. No século XIX na França, uma certa consciência nacional e política com origens na Revolução Francesa convencionou que o marco inicial da história contemporânea era justamente a revolução, tendo essa convenção se institucionalizado de tal forma a ponto do termo história contemporânea se tornar algo ambígüo. E, uma vez que a história contemporânea deixou de designar tão somente a história do tempo atual, do tempo em que vivemos, passando a designar também a história que começa com a Revolução Francesa, foi preciso criar um outro termo, no caso história do tempo presente (TREBITSCH, 1992). Mas a história do tempo presente se define apenas em função de um recorte temporal? L’histoire du temps présent [...] se définit à la fois comme une période et une démarche, celle d’un historien impliqué dans son Zeitgeist, affronté à 43 une documentation d’un autre type, à la fois proliférante et lacunaire, contraint de se situer dans sa relation aux acteurs et sa confrontation permanente aux mécanismes de mémoire. Aux distinctions admises entre le XIXe et XXe siècle, voire, plus récemment, entre un “premier” et un “second XXe siècle”, se substitue une périodisation à géométrie variable, le temps présent couvrant “une séquence historique marquée par deux balises mobiles”, la durée d’une vie humaine (celle des témoins) en amont, en aval une frontière “souvent délicate à situer, entre le moment présent – l’actualité – et l’instant passé”. Sur le plan méthodologique, l’utilisation de sources nouvelles, l’approche comparatiste et pluridisciplinaire entretenue par le dialogue et l’échange avec les autres sciences humaines, la volonté de réintroduire la longue durée dans le temps présent, et d’y repérer les mécanismes de représentation et les relations complexes entre ruptures et continuités, sont autant de pratiques rompant avec l’historiographie traditionnelle. Dans cette démarche, il y a comme une réponse à l’appel à “la conquête de l’histoire contemporaine par l’histoire nouvelle” lancé en 1978 par Jacques Le Goff10 (TREBITSCH, 1992, p.65). 10 A história do tempo presente […] se define, ao mesmo tempo, como um período e um procedimento, esse de um historiador implicado no espírito do seu tempo, confrontado com uma documentação de outro tipo, ao mesmo tempo abundante e lacunar, constrangido de se encontrar em relação com os atores e em confrontação permanente com os mecanismos da memória. As distinções admitidas entre o século XIX e XX, e mesmo mais recentemente, entre um “primeiro” e um “segundo século XX”, sobrepõe-se uma periodização com uma geometria variável, o tempo presente cobrindo “uma sequência histórica marcada por duas balizas móveis”, a duração de uma vida humana (essa das testemunhas) de um lado, de outro uma fronteira “frequentemente delicada a situar entre o momento presente – a atualidade – e o instante passado”. Sobre o plano metodológico, a utilização de novas fontes, uma abordagem comparativa e pluridisciplinar alimentada pelo diálogo e a troca com as outras ciências humanas, a vontade de reintroduzir a longa duração no tempo presente, e de localizar aí os mecanismos de representação e as relações complexas entre rupturas e continuidades, são as práticas que rompem com a historiografia tradicional. Nesse movimento, há uma espécie de resposta à chamada “à conquista da história contemporânea pela história nova” lançada em 1978 por Jacques Le Goff (Tradução nossa). 44 D. A Estrutura da Tese A tese está estruturada em quatro partes. A primeira delas, introdutória, foi intitulada O Ponto de Partida, porque revela as origens do trabalho e o universo que ele pretende desbravar, enfim, o lugar do qual se parte para a sua construção. Além de apresentar as razões que levaram ao desenvolvimento da pesquisa (Prólogo) e precisar o projeto de doutoramento, o corpus documental e a estrutura do texto (Introdução), o que foi feito até o momento, buscou-se descrever, nessa parte inicial, quem são os brasileiros radicados em Rennes e os franceses radicados em Belo Horizonte, a saber: em sua maioria, de um lado, brasileiras casadas com franceses e estudantes em mobilidade internacional, e, de outro, aparentemente, franceses casados com brasileiras e franceses em missão de estudo ou trabalho. É tecido um retrato minucioso do primeiro grupo, enquanto, em se tratando do segundo, é proposto apenas um conjunto de impressões. O que um leitor apressado poderia julgar como sendo um desequilíbrio da pesquisa demonstra, tão somente, um desequilíbrio real entre os migrantes, pois, se Rennes abriga um número considerável de brasileiros que mantém estreitas relações entre si, vivem, em Belo Horizonte, uns poucos franceses que não se organizam em comunidade (Capítulo 1: Quem são eles?). A parte que segue, Imaginários Casados, volta-se para as entrevistas do que se convencionou chamar “brasileiros de Rennes” e “franceses de Belo Horizonte”, ou seja, os migrantes permanentes entrevistados, com o intuito de compreender o imaginário de brasileiros sobre a França e o imaginário de franceses sobre o Brasil, na contemporaneidade, sem deixar de estabelecer um diálogo entre ambos. Isso quer dizer que, buscando responder porque os sujeitos envolvidos no desenvolvimento do trabalho migraram, tentou-se abarcar o seu olhar sobre a terra para onde partiram. São reconstruídas, em especial, histórias de amor que têm levado muitas mulheres brasileiras e um certo número de homens franceses a cruzar o Atlântico, desvelando o imaginário casado que escondem e que não deixa de estar nas suas raízes. O Capítulo 2 (A História de Nádia), para começar, trás para a tese um fragmento considerável da transcrição da entrevista concedida por Nádia, uma brasileira que se mudou para Rennes para se casar com um francês. Optou-se por incluir no texto ao menos um dos muitos depoimentos recolhidos, na impossibilidade de incluir todos eles, não só para que o 45 leitor se desse conta da riqueza das fontes trabalhadas, mas também para que ele tivesse acesso à história de migração contada pelo próprio sujeito que a viveu. Isso porque concordamos com Sayad (1998), quando ele afirma que, na verdade, o discurso do pesquisador e o discurso do informante constituem dois discursos que são um só, pois, se o pesquisador constrói a fala do informante ao lhe colocar questões, é o informante que produz, com os meios que lhe são próprios, o que o pesquisador virá a traduzir para uma outra linguagem. Em seguida, o Capítulo 3 (Em Busca do Eldorado) analisa a entrevista de Nádia e dos demais “brasileiros de Rennes” entrevistados. Na esteira de um quadro migratório internacional mais amplo, em que o Brasil emerge como país de emigração, desde o final do século passado, muitos dos nossos compatriotas têm deixado a terra natal em busca dos países centrais, dentre eles a França, que lhes aparece como uma espécie de Brasil às avessas com um quê de Eldorado dos tempos globalizados. Casar com um estrangeiro é, nessa perspectiva, uma estratégia utilizada para migrar. O Capítulo 4 (O Brasil e “a Brasileira”), em contraposição, se preocupa com o outro lado da moeda. Se tantos brasileiros sonham em ganhar o centro do mundo, porque motivos franceses migrariam para o Brasil? As histórias dos “franceses de Belo Horizonte” entrevistados ajudam a compreender que, para além das relações afetivas estabelecidas com “nativas”, “nativas” essas que têm sua feminilidade concedida na imbricação com a nacionalidade, o próprio país emerge com formas femininas no imaginário francês, confundindo-se com uma certa imagem da brasileira. Perdidos de amores por uma mulher ou pelo Brasil, esses homens se deslocam no globo. A segunda parte da tese, Outros Entre-olhares, concentra-se nas entrevistas concedidas pelo que denominamos “brasileiros na França” e “franceses no Brasil”, ou seja, pelos migrantes temporários, pessoas que, embora residissem em outro país, nele se encontravam apenas de passagem, visto que deveriam lá permanecer por um tempo definido de antemão. É a partir dessas entrevistas, cotejadas com aquelas dos franceses que nunca estiveram no Brasil e dos brasileiros que nunca estiveram na França, que se procura pensar o imaginário contemporâneo entre os dois países em questão. Novos entre-olhares vêm, então, somar-se àquele trabalhado na Parte 1. Vale dizer, por fim, que, mais uma vez, o porque da migração é destacado como forma privilegiada de acessar o imaginário acerca do lugar para o qual se migra, no que concerne aos migrantes temporários. O Capítulo 5 (Entre Usos e Abusos) e o Capítulo 6 (Estudantes-Turistas) esmiuça as trajetórias de migração dos estudantes brasileiros e franceses em mobilidade internacional 46 entrevistados. Os brasileiros que partem para estudar na França, personagens centrais do primeiro dos dois capítulos, deslocam-se em busca de um diploma ou de uma formação valorizadas no Brasil, que podem lhes garantir a manutenção de uma posição de classe ou até mesmo lhes permitir uma ascensão social. O valor atribuído ao título ou à experiência no exterior não está necessariamente ligado à qualidade do curso lá realizado, mas é do âmbito do simbólico e decorre de um lugar conferido ao país estrangeiro no imaginário dos brasileiros. A França, mais uma vez superior ao Brasil, ganha, agora, ares de metrópole cultural nas entrevistas. Os franceses que partem para estudar no Brasil, por sua vez, sobre os quais o segundo capítulo mencionado acima se debruça, vivem em uma sociedade onde a reprodução das elites é feita internamente e enxergam no nosso país a antítese do trabalho. Quando vêm estudar aqui, eles não têm em mente um projeto bem consolidado de formação e sim as belas praias ensolaradas, como se tirassem férias no paraíso e não viajassem em função dos estudos. Por sua vez, o Capítulo 7 (Inventariando o Imaginário) constiui um verdadeiro inventário de todos os elementos associados, à França, pelos brasileiros que nunca estiveram no país e, ao Brasil, pelos franceses que nunca estiveram aqui entrevistados. E o que o inventário nos permite reencontrar são as mesmas imagens sobre a França e o Brasil, respectivamente, apresentadas pelos migrantes permanentes e temporários, nos capítulos anteriores, como se o imaginário se deslocasse com o sujeito e fosse através desse filtro que ele vivesse a experiência da alteridade. Para concluir, a parte final da tese, intitulada O Ponto Onde Estamos, retoma de maneira resumida para o leitor o percurso transcorrido e esboça os possíveis desdobramentos da pesquisa, sem deixar de elaborar uma pequena análise crítica do trabalho. Quanto aos desdobramentos, são apontadas três possibilidades: 1. pensar o imaginário sobre o Brasil, a partir da África; 2. traçar o perfil das brasileiras e dos franceses envolvidos na trama dos casamentos mistos; 3. estudar as trajetórias escolares dos franceses que vêm estudar no Brasil. 47 Capítulo 1: QUEM SÃO ELES? 1.1. “Brasileiros de Rennes” e “Brasileiros em Rennes”: um retrato Mudei para Rennes, em agosto de 2005, e lá permaneci, em um primeiro momento, até setembro de 2006. Ao longo desse período, cruzei com muitos brasileiros. A capital da Bretanha possui cerca de duzentos mil habitantes, ou seja, trata-se de uma cidade pequena, ao menos para alguém que nasceu e cresceu em uma grande metrópole latino-americana, o que facilita os encontros. Além disso, como os imigrantes brasileiros que abriga mantêm uma intensa relação entre si, um conhecido costuma sempre levar a outros, principalmente quando se participa de forma ativa do grupo e não como um simples observador externo. Entre 2005 e 2006, por fim, ocorreram o Ano do Brasil na França e a Copa do Mundo de Futebol da Alemanha, bastando um concerto de um artista ou um jogo da seleção, para a descoberta de novos compatriotas. A comunidade brasileira de Rennes foi se revelando diante dos meus 48 olhos, e eu fui tecendo impressões a seu respeito, a cada contato estabelecido com um brasileiro. Não poderia desconsiderar esse processo, mesmo que não o tenha previsto de antemão, porque ele ajudou a definir os entrevistados e a construir as análises, ao longo do desenvolvimento da pesquisa. A universidade constituía o meu espaço por excelência em Rennes, na medida em que foi o doutoramento que justificou a minha mudança para a cidade e me conferiu um estatuto no seu seio. Portanto, é natural que servisse como cenário para parte dos meus encontros com brasileiros, a não ser que eles por ela não transitassem, o que não é o caso. São vinte e três, ao todo, os brasileiros que conheci na universidade, somados aos universitários brasileiros que conheci pela cidade.  Dez graduandos, a saber:  quatro alunos de instituições de ensino superior brasileiras ou européias em intercâmbio universitário (três mulheres e um homem);  seis alunas regulares, duas que chegaram na França como au pair (Morena é uma delas), duas como estudante de línguas, uma como intercambista universitária e uma como esposa de um francês, e, estando no país, decidiram se matricular na faculdade.  Quatro doutorandas, sendo que:  uma desenvolvia o “doutorado sanduíche” com o financiamento da CAPES;  três eram alunas regulares, apesar de não residirem em Rennes (uma morava em Paris e duas no Brasil).  Seis professores de renomadas universidades brasileiras, em missão de trabalho ou pesquisa, são eles:  uma professora visitante;  duas pós-doutorandas bolsistas da CAPES (Lígia é uma delas);  três conferencistas (dois homens e uma mulher).  Duas professoras universitárias, tendo elas migrado para a França porque se casaram com um francês. 49  Uma senhora que não possui nenhum vínculo formal com a universidade, apenas costuma participar de eventos por ela promovidos. Trata-se de uma antiga exilada política que, após a anistia, optou por permanecer na França. Notem que os brasileiros que conheci que freqüentam a universidade em Rennes são, em geral, pessoas que estão de passagem pela cidade, devendo nela permanecer o tempo de um evento científico, de algumas reuniões de orientação, de uma missão de trabalho ou pesquisa, de um intercâmbio universitário, de um curso superior. Isso os diferencia dos outros brasileiros que viria a encontrar, aqueles que vivem em Rennes de forma mais ou menos definitiva; ali, têm uma história e um futuro pela frente, marido/esposa, filhos e/ou uma carreira profissional, enfim, um lastro. São “brasileiros em Rennes”, em contraposição aos “brasileiros de Rennes”. No início de fevereiro de 2006, fui convidada para participar de um programa da rádio universitária. Iriam fazer uma emissão especial sobre o carnaval do Brasil, e, além de músicas carnavalescas, gostariam de escutar os depoimentos de alguns brasileiros. Conheci, nessa ocasião, Adélia e Nádia, duas senhoras que decidi entrevistar posteriormente. Pernambucanas, elas estavam presentes para falar do carnaval de Recife e Olinda. Mencionaram a existência, em Rennes, de uma associação composta por mulheres brasileiras. Foi assim que descobri a Associação Brasil no Feminino. Brasil no Feminino est une Association qui regroupe des femmes brésiliennes ou qui parlent ou comprennent le portugais. […] Nous avons créé Brasil no Feminino en 2000 pour aider à l’intégration des femmes brésiliennes, ainsi que leurs familles, dans la vie quotidienne française. Nous avons aussi le but de promouvoir la culture brésilienne […]. L’envie d’accueillir d’autres brésiliennes est née de notre expérience personnelle: quand on arrive dans un pays étranger, l’adaptation n’est pas toujours facile! […] Les activités que nous faisons entre nous ou avec des français nous permettent d’une part de mieux connaître le Brésil, de transmettre notre culture à nos enfants, de garder notre langue, et d’autre part, d’accepter et de respecter les différences culturelles et d’échanger avec les personnes du pays qui nous accueille11. 11 Brasil no Feminino é uma associação que reúne mulheres brasileiras ou que falam ou compreendem o português. [...] Nós criamos Brasil no Feminino em 2000, para ajudar na integração das mulheres brasileiras, assim como de suas famílias, na vida cotidiana francesa. Nós temos também o objetivo de promover a cultura brasileira [...]. O desejo de acolher outras brasileiras nasceu da nossa experiência pessoal: quando a gente chega em um país estrangeiro, a adaptação não é sempre fácil! [...] As atividades que nós fazemos entre nós ou com franceses nos permitem, por um lado, conhecer melhor o Brasil, transmitir nossa cultura aos nossos filhos, preservar nossa língua, e, por outro lado, aceitar e respeitar as diferenças culturais e trocar com as pessoas do 50 A Associação Brasil no Feminino congregava, em 2006, quarenta e seis inscritas. Dois anos mais tarde, reunia vinte e seis aderentes e trinta e três simpatizantes, isto é, cinqüenta e nove membros no total, sendo que surgiam vinte novos nomes. Dessa maneira, entre 2006 e 2008, passaram sessenta e seis mulheres pela associação. Se excluirmos uma albanesa, uma argelina, uma colombiana, uma francesa e uma portuguesa, computamos sessenta e uma brasileiras (vinte e quatro originárias da região sudeste, vinte e uma da região nordeste, seis da região norte, cinco da região sul, uma da região centro-oeste e quatro com origem não explicitada)12. Residindo em Rennes, conheci trinta e três dessas sessenta e uma brasileiras. Vinte cinco delas eram casadas com franceses (dentre elas, Adélia, Irene, Nádia, a mãe de Kelly e a irmã de Caio). As demais eram seis estudantes (dentre elas, Morena), uma franco-brasileira nascida no Brasil (Annïck) e uma exilada política. Ou seja, as “mulheres casadouras”, por assim dizer, pareciam constituir a maioria absoluta na associação. Se considerarmos os sobrenomes das vinte e oito outras brasileiras que não conheci, observamos que quinze delas possuem um sobrenome tipicamente francês, o que é um forte indício de casamento misto13. O número de “mulheres casadouras” subiria, então, para quarenta (vinte e cinco brasileiras casadas com franceses que conheci mais quinze brasileiras que possuem um sobrenome tipicamente francês), em um universo composto por sessenta e uma pessoas14. país que nos recebe. (Tradução nossa). – In: REALISE PARA IMPRENSSA de um evento extra-oficial do Ano do Brasil na França promovido pelo Collectif Brésil: Á la Découverte des Brésils. Apresenta cada uma das associações, companhias artísticas ou entidades que fazem parte do Collectif Brésil e que irão expor as atividades que desenvolvem no evento, dentre elas a Associação Brasil no Feminino. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. f.7. 12 LISTAGEM: relação dos membros da Associação Brasil no Feminino em 2006. Contém, além dos nomes completos, seus endereços, telefones, e-mails, data de nascimento e Estado de origem no Brasil. Concedida pela Associação Brasil no Feminino. 7 f.; LISTAGEM: relação das aderentes da Associação Brasil no Feminino em 2007. Contém, além dos nomes completos, seus endereços, telefones, e-mails, data de nascimento e Estado de origem no Brasil. Concedida pela Associação Brasil no Feminino. 2 f.; LISTAGEM: relação das “simpatizantes” da Associação Brasil no Feminino em 2007. Contém, além dos nomes completos, seus endereços, telefones, e- mails, data de nascimento e Estado de origem no Brasil. Concedida pela Associação Brasil no Feminino. 2 f. 13 Alguns poderiam apontar que o sobrenome francês poderia ser um indício também de uma ascendência francesa. Todavia, como essas dezesseis mulheres possuem apenas um sobrenome e não pelo menos dois, o que é algo corrente na França, mas muito raro no Brasil, essa possibilidade nos parece remota. 14 Vale dizer, no entanto, que o fato de não possuir um sobrenome francês não exclui necessariamente a possibilidade da existência de um casamento misto. Na França, o código civil já permite que a mulher mantenha o seu sobrenome ao se casar, e existe uma alternativa ao casamento, o Pacte Civil de Solidarité, conhecido como PACS, que não prevê a mudança de sobrenome. Além do mais, as pessoas podem viver juntas sem oficializar a sua união, e as mulheres podem se separar, retomar o nome de solteira e permanecer no país. É muito provável, sendo assim, que a estimativa apresentada seja inferior ao número real de casos. 51 A hipótese de que a Associação Brasil no Feminino agrupava, sobretudo, esposas de franceses viria a ser confirmada por Adélia, então presidente da entidade: A grande maioria são casadas ou vivem com franceses, aqui. Que é o meu caso, não é? E é o caso da maioria. Senão, estudantes. E tem muitas [estudantes] que vêm, fica um ano ou dois. Aí, conhece a Associação, fica na Associação, depois, volta. É... mas a maioria... a maioria vivem aqui e são casadas com franceses. São poucas... Na verdade, a maioria dos brasileiros, aqui, são mulheres brasileiras casadas com franceses. E são três ou quatro casais onde é o contrário, onde é a mulher que é francesa (Entrevista concedida por Adélia, p.42). Adélia não só confirmou a minha hipótese, como foi além, afirmando que as tais “mulheres casadouras” eram maioria absoluta também em Rennes. A comunidade brasileira da cidade, portanto, seria composta basicamente por esposas de franceses, e a Associação Brasil no Feminino, na medida em que congrega uma boa parte delas, conformaria seu núcleo duro e constituiria uma chave privilegiada para a sua compreensão. A propósito, consegui localizar, entre agosto de 2005 e setembro de 2006, apenas quatorze homens brasileiros radicados em Rennes.  Doze deles são “brasileiros de Rennes”, sendo que:  oito são casados com franceses ou européias (dentre eles, Caio, Inácio e Sílvio);  quatro são franco-brasileiros nascidos no Brasil, tendo lançado mão da nacionalidade francesa herdada do pai para migrar legalmente para a França.  Os outros dois são “brasileiros em Rennes”, a saber:  um é jogador de futebol, devendo permanecer na cidade somente enquanto durar o seu contrato de trabalho;  um é estudante no Brasil, em intercâmbio universitário por um ano letivo. O Ano do Brasil na França forneceu novos elementos para a compreensão da comunidade brasileira de Rennes. Isso porque trouxe os brasileiros estabelecidos na cidade 52 para a cena pública, como espectadores dos eventos promovidos e também como promotores de eventos. Aconteceram, em Rennes, ao longo de 2005, trinta e nove eventos, no âmbito do Ano do Brasil, onze oficiais e vinte e oito extra-oficiais. Quinze deles foram obras dos brasileiros que vivem na cidade, inclusive alguns que fizeram parte da programação oficial, sendo que cinco foram realizados por associações (quatro pela Associação Brasil no Feminino); quatro por companhias artísticas dirigidas por brasileiros; três por instituições de ensino superior, em especial, por departamentos que contam com professores brasileiros que estudam o Brasil; dois pelo Colletif Brésil, entidade então presidida por Inácio15; e, finalmente, o último foi uma iniciativa individual de Caio16. A programação do Ano do Brasil, por um lado, reforçou a importância da Associação Brasil no Feminino, responsável por uma quantidade considerável de eventos. Por outro lado, chamou à atenção para a presença de artistas brasileiros em Rennes. 15 O Collectif Brésil é composto pelas seguintes associações, companhias artísticas e ONG: 1. Acteurs dans le Monde Agricole et Rural (AMAR); associação que promove encontros entre atores do mundo rural francês e brasileiro, com o objetivo de desenvolver a agricultura familiar; 2. Les Amis de Juçaral, associação que sustenta projetos sociais em Juçaral, cidade do interior pernambucano; 3. Associação Brasil no Feminino; 4. Breizh-il, associação que busca fomentar trocas científicas e técnicas entre a Bretanha e o Brasil; 5. Comité Catholique contre la Faim et pour le Développement, associação que financia projetos desenvolvidos em países periféricos, dentre eles o Brasil, que beneficiam as populações mais vulneráveis desses países; 6. Ladaïnha, companhia de capoeira; 7. Mascarade; associação intercultural que se interessa pela cultura sob todas as suas formas, em especial pelo teatro, trabalhando com o teatro do oprimido proposto por Augusto Boal; 8. Pélican, associação humanitária de médicos de Rennes responsável por um centro de saúde em Salvador; 9. Terra Brasil, associação envolvida com a criação de uma cooperativa de costureiras em Campos Sales, cidade do interior cearense; 10. Terre des Hommes/France, ONG que trabalha para o desenvolvimento durável, socialmente justo, ecológica e economicamente duráveis, nos países centrais e periféricos, sendo parceira da Federação para a Organização da Assistência Social e a Educação, presente em oito Estados brasileiros, e apoiando a luta da população capixaba contra a multinacional Aracruz Celulose, empresa que planta eucalipto; 11. Transat, grupo de forró composto exclusivamente por franceses; 12. Lusitânia, associação que tem por objetivo a divulgação das culturas lusófonas, dentre elas a brasileira; 13. Viajando, associação que denuncia as condições de vida das populações excluídas no Brasil. 16 CLIPPING composto pelos 92 artigos sobre o Ano do Brasil na França publicados pelo Jornal Ouest France, ao longo de 2005. Foi construído a partir da Base de Dados Europress, acessada na Biblioteca do Centre Georges Pompidou em Paris. 139f.; PANFLETO da exposição de artes plásticas do Coletivo Chave Mestra, que foi promovida pela Associação Brasil no Feminino em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França. Concedido pela Associação Brasil no Feminino.; PANFLETO da exposição de artes plásticas “Trois Racines Culturelles... à Fleur de Peau”, que foi promovida pela Associação Brasil no Feminino em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França. Concedido pela Associação Brasil no Feminino.; PANFLETO da Festa Junina promovida pelas Associações Brasil no Feminino e Les Amis de Juçaral em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França. Concedido pela Associação Brasil no Feminino.; PANFLETO do Carnaval Breizh-Brasil, evento promovido pelo Collectif Brésil em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França. Concedido pela Associação Brasil no Feminino.; PANFLETO do evento À la Découverte des Brésils, promovido pelo Collectif Brésil em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França. Rennes: Collectif Brésil, 2005. Concedido pela Associação Brasil no Feminino.; PROGRAMA do 10e Festival Le Grand Soufflet, festival que contou com eventos do Ano do Brasil na França em 2005. Concedido pela Associação Brasil no Feminino.; PROGRAMA do Ano do Brasil na França em Rennes elaborado pelo Collectif Brésil. Concedido pela Associação Brasil no Feminino.; PROGRAMA do Ano do Brasil na França em Rennes elorado pela Ville de Rennes. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. 53 Ao entrevistar Inácio, bailarino que dirigia a Companhia de Dança Ochossi (sic) e presidia o Collectif Brésil, vivendo já há muitos anos na cidade, foi possível compreender que existia ali uma verdadeira rede de artistas brasileiros: [...] quando eu fui no Brasil, eu encontrei a Paula. Donc [então], a Paula tinha idéias de ir pros Estados Unidos, “mas quem sabe eu posso passar na França?” [...] Donc [então], a Paulinha, quando passou, au lieu de aller [d’aller] aux États-Unis [ao invés de ir para os Estados Unidos], ela veio direto, foi na França. Ficou morando comigo e fizemos coisas juntos. Em 94, aí, eu já tava tão avançado com as coisas do Brasil, tava acontecendo tão bem, que eu criei [a] Semana Cultural Brasileira, com a minha associação que chamava França-Brasil, Échanges Artistiques [Trocas Artísticas] França-Brasil. Eu criei uma Semana Brasileira, à Renna [em Rennes], cultural. Foi, em 94, a primeira... 93, a primeira Semana Brasileira, à Renna [em Rennes]. E, aí, em 94, no ano de 94, eu convidei... discutindo, ta-ta-ti, ta-ta-ta, donc [então], a mãe da Paula, que é Irene [...]. A Paula, quando veio a primeira vez, ficou morando comigo, e já arranjou um marido, e já teve um filho, e, voilà [eis que], a Paula ficou. E, depois, veio a Irene, que deu interferências. Não veio a Irene sozinha. Veio a Irene, veio a A., com dança brasileira, e veio outros. A... a Irene veio e acabou ficando também. Casou aqui também, e voltou pro Brasil, ficou dois anos no Brasil, e, depois, voltou e acabou ficando. [...] E... quando... daí a pouco, em 95, veio o A. da Companhia Ladaïnha, que é um capoeirista. Que veio, que morou comigo também um tempo, que, depois, acabou fixando résidence [residência] em Renna [Rennes]. Criou a Companhia Ladaïnha e faz capoeira pra tudo quanto é lado da Bretagne [Bretanha]. Mais tarde, veio a A., que é uma paulista que conheceu a Paula na universidade, que tava morando em Paris e que decidiu de vir pra Renna [Rennes]. [...] donc [então], a A. veio com o amigo [ami; namorado] dela e ficou morando lá em casa. E, como ela era dançarina, então, ela começou a trabalhar comigo. O namorado virou bailarino. Eu eduquei ele na dança; virou bailarino também. Criou-se uma outra companhia, mais tarde, que se chama Ubí (Entrevista concedida por Inácio, p.15-17). Consegui mapear, em Rennes, quatro companhias de dança – a Companhia Dana, a Companhia Kassen K, a Companhia Ochossi (sic) e a Companhia Ubí – e duas companhias de capoeira – a Companhia Brasil-Armorique e a Companhia Ladaïnha – dirigidas por brasileiros, além de duas artistas plásticas brasileiras (Irene é uma delas). Se é inegável que a comunidade brasileira de Rennes é formada majoritariamente por mulheres casadas com franceses, acredito que ela possui dois eixos. O primeiro sendo a Associação Brasil no Feminino, o segundo sendo justamente esse conjunto de artistas, que, embora se dividam em várias companhias e mantenham algum diálago com a Associação Brasil no Feminino, articulam-se como um grupo independente. Sendo que o que une o grupo 54 não é apenas a arte, mas também o próprio processo migratório, sustentado, muitas vezes, por laços profissionais estabelecidos na terra natal. Não por acaso Inácio fala de dois lados: o seu, composto por artistas brasileiros, e um outro, composto por brasileiros que não fazem parte da cena artística da cidade. Ah, mas, nessa época, eu conheci também o... o... L. [brasileira que sucedeu Adélia na presidência da Associação Brasil no Feminino], os Amigos de Juçaral [fundada pelo marido de L.], que c’était [era] uma associação importante, que existe déjà [já] há muitos anos antes de que eu chego. Mas que... era pouca gente que conhecia, outro público, mas não no meio cultural, artistique [artístico], da vila [ville; cidade] não. E, aí, entrei em contato. Donc [então], trabalhei com eles, também colaborei. E fiquei conhecido de todo mundo, e todo mundo conheceu o meu outro lado. E, aí, os Amigos de Juçaral também começaram a ser conhecido pra todo mundo (Entrevista concedida por Inácio, p.16). A grande maioria dos quatorze homens brasileiros que localizei em Rennes, por sua vez, parece se dividir entre esses dois eixos, ora compondo o grupo de artistas brasileiros (é o caso de Inácio), ora gravitando em torno da Associação Brasil no Feminino (é o caso de Caio). Apenas três (dentre eles, Sílvio) se descolam dessa lógica, mantendo pouco ou nenhum contato com brasileiros. Um traço perpassa todo o processo migratório do Brasil para Rennes. Considerando os vinte e três brasileiros que conheci que freqüentam a universidade na cidade, das quatro que são “brasileiras de Rennes” – uma das graduandas, as duas professoras universitárias e a exilada política –, três são esposas de franceses. A Associação Brasil no Feminino é composta majoritariamente por brasileiras casadas com franceses. Das sessenta e uma brasileiras inscritas na entidade entre 2006 e 2008, ao menos quarenta parecem ser “mulheres casadouras” – as vinte e cinco que conheci mais as quinze que possuem um sobrenome tipicamente francês. Os artistas brasileiros radicados na capital da Bretanha, em geral, também migraram para a França porque se casaram com um(a) francês(a) ou um(a) europeu(européia): dos nove localizados, seis possuem esse perfil. Quanto aos quatorze homens brasileiros, dos doze deles que são “brasileiros de Rennes”, oito são casados com franceses(as). Se cada pessoa for computada uma única vez, já que algumas delas aparecem em mais de um dos grupos acima, ao menos quarenta e nove “brasileiros de Rennes”, de um total de setenta e um mapeados, possuem uma história de migração mediada por uma união mista. Sendo que treze mulheres que fazem parte da Associação Brasil no Feminino não 55 foram consideradas esposas de franceses, embora acredite que grande parte delas o seja, porque desconheço suas histórias pessoais e elas não carregam um indício do matrimônio no sobrenome. Por fim, não podemos deixar de apontar a existência de dois espaços brasileiros em Rennes, o Restaurante Hot Brasil e o Bar Buteco. O primeiro deles funciona, há mais de dez anos, no mesmo local e com o mesmo nome. É de propriedade de Sílvio e da sua esposa francesa, tendo eles comprado o estabelecimento de uma brasileira que se mudava da cidade. Já o segundo pertence à um outro mineiro que também se encontrava radicado na Bahia antes da migração para a França, sendo que, até pouco tempo atrás, ele se chamava Bar Maracas e era administrado por uma senhora do Amazonas que é viúva de um francês. Chamamos esses dois espaços de brasileiros não simplesmente porque eles têm brasileiros como donos, mas antes porque fazem questão de se integrar no circuito de bares e restaurantes de Rennes enquanto tal. O Hot Brasil, restaurante de nome bastante sugestivo, visto os sentidos posíveis do adjetivo empregado, em tudo lembra as pousadas do litoral nordestino, entretanto, faz questão de incluir na decoração, principalmente na parte que é visível do exterior, elementos que permitem uma rápida associação com o país, como a bandeira nacional, por exemplo. Seu cardápio propõe aos clientes, que são na sua grande maioria franceses, alguns dos mais conhecidos pratos típicos do país, em especial, os do Nordeste, dentre eles, a muqueca baiana e o bobó de camarão. Já o Buteco faz, sobretudo, parte do circuito da comunidade brasileira na cidade, assim como do de franceses que a freqüentam ou nutrem uma relação especial com o Brasil. É lá, por exemplo, que eles costumam assistir aos jogos da Copa do Mundo de Futebol. O lugar, que é conhecido pelos concertos de chorinho e forró, tem os vidros exteriores cobertos por uma espécie de decalque gigante da Baía de Guanabara. 56 1.2. “Franceses de Belo Horizonte” e “Franceses em Belo Horizonte”: impressões A Embaixada da França no Brasil nos forneceu uma lista dos franceses registrados no Consulado Honorário da França em Belo Horizonte, órgão que abarca todo o Estado de Minas Gerais, contendo local de nascimento, sexo e categoria sócio-profissional17. Sendo assim, se não foi possível apresentar dados quantitativos referentes à população brasileira estabelecida em Rennes18, no que diz respeito à população francesa estabelecida em Belo Horizonte, poderemos fazê-lo. Encontram-se cadastrados no Consulado Honorário da França em Belo Horizonte seiscentos e noventa e nove franceses (100%), sendo que, deles, apenas duzentos e sessenta de fato nasceram na França (37,2%). Dos quatrocentos e trinta e nove restantes (62,8%), trezentos e noventa e dois nasceram no Brasil (56,08%), quarenta e cinco nasceram em outros países (6,44%), em especial nas antigas colônias francesas ou nos Departamentos e Territórios Franceses Ultramarinos19, e o local de nascimento de dois cidadãos não foi identificado na listagem (0,29%). Quanto ao sexo, dos duzentos e sessenta franceses com registro no Consulado Honorário da França em Belo Horizonte nascidos na França (100%), cento e sessenta e um são homens (61,92%) e noventa e nove são mulheres (38,08%). Optamos, enfim, por não abordar a categoria sócio-profissional, porque somente em alguns pouquíssimos casos ela foi de fato mencionada na lista. As tabelas que seguem ajudam a melhor visualizar os números apresentados anteriormente: 17 LISTAGEM: relação dos franceses registrados no Consulado Honorário da França em Belo Horizonte em 2007. Contém sexo, cidade de nascimento e categoria social profissional, identificando cada francês registrado por um número e não pelo nome. Concedida pela Embaixada da França em Brasília. 12f. 18 Solicitamos ao Institut National de la Statistique et des Études Économiques – INSEE, espécie de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) francês, os dados quantitativos referentes à população brasileira estabelecida em Rennes. Infelizmente, em função das regras que limitam a difusão das informações sobre os imigrantes na França até mesmo para pesquisadores, nossa solicitação não pode ser atendida. Junto ao Consulado do Brasil em Paris, tampouco conseguimos ter acesso aos dados que nos interessavam, uma vez que a instituição não se preocupa em realizar recenseamentos populacionais. É perceptível, entretanto, que o número de brasileiros na cidade é pequeno, se comparado ao número de imigrantes originários de outros países, como, por exemplo, da Argélia, do Marrocos e da Tunísia. 19 Os Territórios Franceses Ultramarinos são: Guadalupe, Guiana Francesa, Martinica, Maiote, Nova Caledônia, Polinésia Francesa, Reunião, São Pedro e Miquelão, Terras Austrais e Antárticas Francesas, Wallis e Futuna. 57 TABELA 1 Franceses registrados no Consulado Honorário da França em Belo Horizonte por local de nascimento França Brasil Outros Países País não identificado Total 260 (37,2%) 392 (56,08%) 45 (6,44%) 2 (0,29%) 699 (100%) 37,2% 62,8% 100% TABELA 2 Franceses registrados no Consulado Honorário da França em Belo Horizonte nascidos na França por sexo Sexo Masculino Sexo Feminino Total 161 61,92% 99 38,08% 260 100% É verdade que os dados fornecidos pela Embaixada da França no Brasil englobam apenas os franceses cadastrados no Consulado Honorário da França em Belo Horizonte, podendo existir franceses estabelecidos em Minas Gerais que não se cadastraram. Outro problema é o fato deles se referirem ao Estado como um todo e não somente à Belo Horizonte, estando a pesquisa circunscrita à cidade. No entanto, na nossa opinião, esses dados oficiais merecem ser levados em consideração, apesar das suas limitações, desde que isso seja feito de maneira crítica. Afinal, trata-se de um recenseamento que envolve parte dos sujeitos entrevistados, o único ao qual tivemos acesso. E, na medida em que não foi possível realizar uma descrição qualitativa detalhada dos “franceses de Belo Horizonte”, como veremos mais adiante, os números da Embaixada se tornam ainda mais preciosos. Denominamos “brasileiros de Rennes” os brasileiros que não estão de passagem por Rennes, mas, conforme indica a preposição, são de alguma forma de Rennes. Isso porque possuem raízes bem fincadas na cidade, mesmo que tenham nascido em um outro país. Ali, vivem de forma mais ou menos definitiva; plantaram uma história e vislumbram um futuro; 58 têm marido/esposa, filhos e/ou uma carreira profissional. Em contraposição, os “brasileiros em Rennes” foram caracterizados pelo fato de estarem de passagem por Rennes por um período bem determinado, mesmo que lá residam. É o caso, por exemplo, daqueles que permanecem na cidade enquanto desenvolvem suas pesquisas de doutoramento. Podemos falar da existência de “franceses de Belo Horizonte” e “franceses em Belo Horizonte”, nos mesmos moldes. Retomando a análise, observem que é ínfimo o número de franceses que vivem em Belo Horizonte. Segundo o último senso do IBGE, a população da capital mineira equivale a 2.412.937 habitantes (INSTITUTO BRASILEIRO..., 2007). A Embaixada da França no Brasil, por sua vez, aponta a existência de seiscentos e noventa e nove franceses em Minas Gerais. E, se considerarmos apenas aqueles nascidos na França, o número se reduz para duzentos e sessenta. Suponhamos que todos esses duzentos e sessenta franceses residam na cidade, o que certamente não corresponde à realidade. Nesse caso, os franceses representariam, então, 0,01% da sua população. O local de nascimento dos franceses com registro no Consulado Honorário da França em Belo Horizonte merece atenção especial, além disso. Notem que apenas 37,2% deles nasceram na França, tendo 56,08% nascido em território brasileiro. Esses dados indicam que, na verdade, a maioria deles não são imigrantes franceses, mas franco-brasileiros, isto é, filhos de imigrantes franceses nascidos no Brasil. Numerosos seriam eles, e também cuidadosos para com a nacionalidade francesa que herdaram de um dos pais ou dos pais, pois se preocupam com a manutenção do registro consular. Vale lembrar que, atualmente, muitos são os brasileiros que, lançando mão da ascendência européia, migram para a Europa. (Esse é o caso, por exemplo, de Annïck.) Por fim, enquanto a comunidade brasileira de Rennes é basicamente composta por mulheres, os duzentos e sessenta imigrantes franceses estabelecidos em Minas Gerais, segundo a Embaixada da França no Brasil, são em sua maioria homens – 61,92% de homens contra 38,08% de mulheres. Não poderíamos deixar de nos questionar, então, sobre a possível existência de um número considerável de casais mistos, compostos, sobretudo, por brasileiras e franceses, assim como foi verificado em Rennes. Foi possível apresentar dados quantitativos referentes à população francesa estabelecida em Belo Horizonte, o que não conseguimos fazer no que diz respeito à população brasileira estabelecida em Rennes. Todavia, não poderemos descrever qualitativamente os 59 “franceses de Belo Horizonte”, tal qual o fizemos com os “brasileiros de Rennes”. Colocamos diante do leitor, nesse último caso, um retrato, aquele que nos foi sendo revelado com riqueza de detalhes, não só em função do desenvolvimento da pesquisa, como também pela própria vivência enquanto brasileira na cidade. Já no primeiro caso, nós nos contentaremos em relatar um conjunto de impressões, construídas no ritmo da busca pelos entrevistados e da realização das entrevistas. Uma imagem que, embora bastante incompleta, fornece algumas pistas interessantes, sobretudo quando justaposta àquelas esboçadas pelos próprios franceses. Basicamente, é a universidade que determina a passagem de brasileiros por Rennes. Um intercâmbio, a graduação, o doutorado, o pós-doutorado, uma missão de trabalho na universidade, fazem com que muitos deixem o Brasil e aportem na cidade, lá permanecendo até mesmo por alguns anos. Em Belo Horizonte, os estudos também constituem fator determinante da passagem de franceses. Localizamos, na capital mineira, alguns intercambistas universitários e universitários que cumpriam seu estágio obrigatório. A universidade não explica sozinha, todavia, a dinâmica em questão, como acontece na outra margem do Atlântico. A França conta com um Consulado Honorário, uma Aliança Francesa e algumas multinacionais na cidade, como o Carrefour e a Vallourec & Mannesmann. E esses “pedaços de França” justificam as histórias de certos “franceses em Belo Horizonte”. É o caso, por exemplo, do diretor da Aliança Francesa, que deverá permanecer no Brasil enquanto ocupar o cargo, ou seja, por quatro anos. Mas, vale dizer que, contrariando as expectativas iniciais, numa época em que mesmo os cargos de comando das multinacionais são confiados aos “nativos”, é pequeno o número de expatriados franceses. Na maioria das vezes, eles vêem à Belo Horizonte para trabalhos muito pontuais ou meras visitas técnicas, o que torna difícil encontrá-los para uma entrevista. Outra prática comum, utilizada tanto pelas multinacionais quanto pelos braços do MAE, o correspondente francês do nosso Ministério das Relações Exteriores, é a contratação de franceses já fixados na cidade, na maioria das vezes em função de um casamento misto, ou mesmo de brasileiros que mantêm relações privilegiadas com a França, como é o caso até mesmo do Cônsul Honorário. Quanto aos “franceses de Belo Horizonte”, tivemos grandes dificuldades em localizá- los. O grande número de habitantes da capital mineira associado ao pequeno número de imigrantes franceses nela radicados constituiu o primeiro empecilho. O segundo empecilho encontrado diz respeito a forma de organização dos imigrantes: eles mantêm pouca ou mesmo 60 nenhuma relação entre si, vivendo entre brasileiros. Dessa maneira, o contato com um francês não fornece, necessariamente, pistas de outros franceses. Apesar das dificuldades de localização, foi possível entrever que os “franceses de Belo Horizonte” parecem ser em sua maioria homens que se mudaram para a cidade porque se casaram com uma brasileira. Dessa maneira, o quadro observado em Rennes emerge como que refletido em um espelho. Por um lado, os imigrantes são, em geral, homens e não mulheres; por outro, o processo migratório continua mediado, na maioria das vezes, por um casamento misto entre uma brasileira e um francês. Para concluir, vejamos o que dizem os próprios entrevistados, quando lhes perguntamos quem são, afinal, os franceses radicados na capital mineira: …mais j’ai l’impression que c’est un cadre courant. Ils rencontrent une Brésilienne et ils font tout pour rester ici. En général, ils divorcent au bout de dix ans, mais il y a beaucoup d’hommes… Français qui… qui viennent ici parce qu’ils ont trouvé la femme de leur vie. […] Et… c’est pour ça que la relation amoureuse… c’est… c’est un… c’est définitive dans la… dans la… dans l’expérience au Brésil, je… je crois20 (Entrevista concedida por Agnès, Parte 2, 28-29min.). Il y a... une Française qui tra... qui fait un stage à l’Alliance Française, justement, de Belo Horizonte: Agnès. [...] Elle est en stage à l’Alliance Française, depuis le mois de janvier, je crois. [...] D’autres Français? [...] Il y a un autre qui est à la PUC [PUC Minas], qui fait de la géographie et qui s’appelle... Philippe. Il fait un échange universitaire, mais il fait plus longtemps qu’il est là. Ça fait déjà, je crois, un an, quelque chose comme ça21 (Entrevista concedida por Charles, 17-18min). Les… les… les gens, actuellement, je crois qu’ils… ils viennent, mais on ne les voit pas beaucoup. C’est des cas… des cas… [inaudible], des cas de… de mariage. Un Français qui vient vivre ici, ou des Français. Mais… Parce qu’on met entre parenthèses les… les gens qui… qui viennent pour des… des emplois… des emplois temporaires, pour les entreprises. Qui, d’ailleurs, ne s’intègrent absolument pas au Brésil, ah? On ne… on ne les voit pas. Ils viennent ici… ici, et, puis, après, ils s’en vont. Oui, enfin, disons, ils peuvent rester un petit peu, ils apprécient, mais, enfin, c’est… Mais des gens qui vivent vraiment ici, c’est différent. C’est comme un autre monde. Mais… [silence] Je… je… enfin, je… j’ai un certain nombre d’amies qui vivent en France. Qui sont Brésiliennes et qui vivent en France. Qui sont mariées là-bas, et qui sont là. Et qui se plaisent, et qui travaillent. Bon, [le 20 ...mas eu tenho a impressão que é algo recorrente. Eles encontram uma brasileira e fazem tudo para ficar aqui. Em geral, eles se divorciam dez anos depois, mas tem muitos homens... franceses que... que vêm para cá porque eles encontraram a mulher da vida deles. [...] E... é por isso que a relação amorosa... é... é um... é definitiva na... na... na experiência no Brasil, eu... eu acredito (Tradução nossa). 21 Tem... tem uma francesa que tra... que faz um estágio na Aliança Francesa de Belo Horizonte: Agnès. [...] Ela faz um estágio na Aliança Francesa, desde o mês de janeiro, eu acho. [...] Outros franceses? [...] Tem um outro que está na PUC, que faz geografia e que se chama... Philippe. Ele participa de um intercâmbio universitário, mas faz mais tempo que ele está aqui. Faz, eu acho, um ano já, alguma coisa assim (Tradução nossa). 61 mariage], ce n’est pas seulement mon cas. Bon, c’est… c’est… Il y en a. Il y des gens qui viennent ici et se marient aussi après, mais… qui se marient aussi après, mais… Il y a des gens qui peuvent venir en… Des gens qui viennent en coopération technique, généralement, je ne sais pas, ils rentrent. Ils rentrent, parce qu’ils ont de… ils sont encore en cours d’études. Ils sont en cours d’études. La… la… l’intérêt, enfin, dynamique, c’est le stage, le… quand ils sont encore en cours d’études, etc. Alors, là, on a des files importantes, ah? […] La communauté française, elle est… elle est un peu distendue. C'est-à-dire, donc, on se retrouve pour les élections. […] Alors, on se retrouve aussi, quand l’Ambassadeur… Il y a une semaine, l’Ambassadeur est venu ici. […] Et… il y a quelques uns. Mais il n’y a pas, par exemple, une communauté, comme les Italiens ou les... Les Italiens ont une communauté très forte. Ils sont plus nombreux aussi. Les Italiens, ils ont une communauté très structurée. Il n’y a pas ça22 (Entrevista concedida por Dominique, 29-32min.). Bon, il y a… il y a des… des Français sur deux formes. Il y a quelques Français, à ma connaissance, qui viennent… pour… en tant que cadres. Je n’ai rencontré pas mal, moi, en avion, ah? Comme je voyageais pas mal de temps. […] Donc, j’ai rencontré beaucoup des gens, y compris des… des footballeurs Français qui venaient pour… faire part des… des… des clubs. J’ai connu des gens qu’étaient plus des cadres, qui venaient là pour… une période, comme chez Renault. Des cadres de chez Renault. J’ai vu des gens… Des gens, comme nous, qui venaient pour… [silence] investir sur le… sur le Brésil, c’est très rare. Très rare. Je dirais, c’est peu des gringos qui font ça. C’est… c’est des gens qui n’ont… qui n’ont pas… qui n’ont pas froids aux yeux. Je dirais presque qu’ils sont un peu inconscients. Mais ça existe! Mais, généralement, qu’est-ce que… qu’est-ce qu’est là ce sont des… des… des… des… des firmes importantes, comme Lafarge. Comme la… Comment ça? Le? Ah! Il y a beaucoup des… des… des choses françaises, até [y compris] sur Belô [Belo Horizonte], ah? Non, mais Lafarge. Vous avez… Comment l’autre là? Leroy Merlin. Carrefour… Uf! C’est des groupes financiers, ça ne m’intéresse pas, ah? C’est personne. Il n’y a pas des têtes à… il n’y a pas des visages à donner, là, dans ces choses là. Mais des micro-entreprises? On arrive à voire quelques… Lafarge, si, oui, déjà. Si, mais c’est pareil. Ce sont des groupes. Bon, détachés des... des... des sièges sociaux. Michelin. [inaudible] Sofitel. On trouve quelques gens qui viennent là, mais ce sont des délégations d’entreprise. Des… des… 22 As… as… as pessoas, atualmente, eu acredito que elas… elas venham, mas a gente não as vê muito. São casos… casos… [inaudível], casos de… de casamento. Um francês que vem viver aqui, ou franceses. Mas… Porque a gente coloca entre parênteses as… as pessoas que... que vêm para... empregos... empregos temporários, para as empresas. Que, aliás, não se integram de jeito nenhum no Brasil, heim? A gente não… a gente não os vê. Eles vêm aqui… aqui, e, depois, eles vão embora. Sim... Enfim, digamos, eles podem ficar um pouquinho, eles apreciam, mas, enfim, é... Mas as pessoas que vivem verdadeiramente aqui, é diferente. É como um outro mundo. Mas… [silêncio] Eu… eu… enfim, eu… eu tenho um certo número de amigas que vivem na França. Que são brasileiras e que vivem na França. Que são casadas lá e que estão lá. E que gostam, e que trabalham. Bom, [o casamento] não é somente o meu caso. Bom, é… é… Há alguns casos. Tem pessoas que vêm aqui e se casam também depois, mas… que se casam também depois, mas… Tem pessoas que podem vir em… As pessoas que vêm em cooperação técnica, geralmente, eu não sei, eles voltam para a França. Eles voltam, porque eles tem… eles estão ainda estudando. Eles estão estudando. O... o... o interesse, enfim, dinâmico é o estágio, o... quando eles estão ainda estudando, etc. Então, nesse momento, a gente tem um grupo importante, heim? […] A comunidade francesa, ela é… ela é um pouco dispersa. Isso quer dizer, então, que a gente se encontra para as eleições. […] Então, a gente se encontra também quando o embaixador... Na semana passada, o embaixador veio aqui. […] E… tem alguns. Mas não há, por exemplo, uma comunidade, como os italianos ou os... Os italianos tem uma comunidade muito forte. Eles são mais numerosos também. Os italianos, eles tem uma comunidade muito estruturada. Não existe isso (Tradução nossa). 62 des aventuriers comme nous, il n’y en a pas. Je ne connais pas, en tout cas. Mais il y en a! […] Bon, qu’est-ce qu’il y a, qu’est-ce qu’il y a, à mon avis, ce sont les… les choses plus général de relationement, de relations entre… entre les… les… les peuples. Vous avez des gens qui ce sont connus en France et qui repartent, soit avec le Brésilien soit avec la Brésilienne. Pour vivre ici. Mais, généralement, ils remmènent la Brésilienne au pays, comme en Allemagne, en France, au Portugal. Ces couples mixtes préfèrent se exporter que de… Mais, peut-être, par la suite, sur les vieux jours, ils reviennent. Ça c’est sur. Ils reviennent23 (Entrevista concedida por Gérard, 26-29min). Bah, j’ai connu Agnès, il y a un mois, complètement par hasard, au Café com Letras. Et j’ai connu, en fait, deux stagiaires – que j’ai plus au moins cadré – de la Fédérale. Ce sont deux stagiaires de... de mon ancienne école d’ingénieurs, l’École des Ponts, qui sont venus ici, à la Fédérale. Et, à la Fédérale, il n’y avait personne pour les encadrer, quoi, donc. C’est C. et S.. [...] Ils sont encore là. C’est C. et S.. Et, donc, ils sont venus ici, devant étudier de l’eau et l’air avec un des profs de la... de la Fédérale, mais que, finalement, n’a pas eu le temps. Après, donc, il devait avoir deux étudiants en maîtrise qui devaient s’occuper d’eux, mais, en cascade, personne avait le temps. Et, du coup, à la fin, il y a eu un ami de la Fédérale qui m’a dit: “Donc, Guillaume, il y a deux Français qu’arrivent. Ils veulent travailler dans le domaine de l’eau ici. Est-ce que tu ne pourrais pas s’occuper d’eux?” Et, donc, j’ai dit: “Oui, pourquoi pas?” Et, voilà, j’ai connu ces deux Français là. Qui sont ici pour quelques mois, quoi. Pour les études. Et, sinon, j’ai connu Jean, par hasard, une soirée, quoi. Voilà les Français qui je connais ici. Et que je fréquente assez peu encore24 (Entrevista concedida por Guillaume, Parte 2, 14-15min). 23 Bom, tem… tem dois tipos de franceses. Eu tenho conhecimento que há alguns franceses que vêm… para… enquanto funcionários de empresas. Eu encontrei um certo número no avião, heim? Como eu viajava muito. […] Então, eu encontrei muita gente, inclusive jogadores de futebol franceses que vinham para… fazer parte de… de… de clubes. Eu conheci gente que era funcionário de empresa, que vinha aqui para… um período, por exemplo, na Renault. Funcionários da Renault. Eu conheci gente… Gente, como nós, que vem para… [silêncio] investir no… no Brasil, é muito raro. Muito raro. Eu diria que são poucos gringos que fazem isso. É… é gente que tem… que tem... que tem coragem. Eu diria quase que eles são um pouco inconscientes. Mas existe. Mas, geralmente, quem… quem está aqui são… firmas importantes, como a Lafarge. Como a… Como que é ? O ? Ah ! Tem muitas… muitas coisas francesas até em Belô [Belo Horizonte], heim? Não, mas Lafarge. Vocês têm… Como é o outro lá ? Leroy Merlin. Carrefour… Uf ! São grupos financeiros, isso não me interessa, heim ? Não é ninguém. Não há cabeças… rostos para mostrar, nessas coisas aí. Mas micro-empresas ? A gente consegue ver algumas… Lafarge, para começar. Não, é a mesma coisa. São grupos. Bom, filiais. Michelin [inaudível] Sofitel. A gente encontra algumas pessoas que vêm aqui, mas são delegações de empresa. Aventureiros como nós, não há. Eu não conheço, em todo caso. Mas há ! […] Bom, o que existe, na minha opinião, são as… as coisas mais gerais de relacionamento, de relações entre… entre os… os… os povos. Você tem gente que se conheceu na França e partem, seja com o brasileiro, seja com a brasileira. Para viver aqui. Mas, geralmente, eles levam a brasileira para o país deles, como na Alemanha, na França, em Portugal. Esses casais mistos preferem se exportar que… Mas, talvez, depois, na velhice, eles voltam. Isso é certo. Eles voltam (Tradução nossa). 24 Bem, eu conheci Agnès, tem um mês, completamente por acaso, no Café com Letras. E eu conheci dois estagiários – que eu mais ou menos orientei – da Federal. São dois estagiários da... da minha antiga escola de engenheiros, a Escola de Pontes, que vieram para a Federal. E, na Federal, não tinha ninguém para orientá-los, então. É C. e S.. Eles estão ainda aqui. É C. e S.. E, então, eles vieram para cá, para estudar a água e o ar com um dos professores da Federal, mas que, finalmente, não teve tempo. Depois, então, dois estudantes de mestrado deveriam ajudá-los, mas, novamente, ninguém tinha tempo. Resultado, no fim, tinha um amigo da Federal que me disse: “Então, Guillaume, tem dois franceses que chegaram. Eles querem trabalhar na área de águas, aqui. Você não poderia ajudá-los?” E, então, eu disse: “Sim, porque não?” E eis que eu conheci esses dois franceses 63 Il y en a des... des Français qui sont professeurs de l’UFMG. Il y en a deux. Il y a un autre qu’est arrivé parce qu’il avait rencontré une Brésilienne. Donc, il est venu s’installer au Brésil. Mais je ne les fréquente pas beaucoup. Alors... Mais c’est vrai que la majorité des... des Français au Brésil ce sont des hommens, ah? Il n’y a pas beaucoup de femmes25 (Entrevista concedida por Gustave, 11min). Mulheres não ficam muito aqui não. As francesas. Olha, muitos casais não aguentam a... muitos casais não aguentam a... a pressão da mulher brasileira, aqui. [risos] A mulher brasileira, aqui, é muito, muito charmosa, muito... Há uma... um... uma brincadeira de... de sedução perpétua, ainda que não haja nenhuma... nenhum objetivo atrás dessa... dessa sedução. E sempre é assim. É trocar beijinho. É só... Faz parte da relação. A mulher, quando ela chega, aqui, ela se olha no espelho. Antes de sair... Ela tem um certo... Há um charme. Há uma coisa assim. Que a francesa não tem. A francesa, ela vive muito com aquela coisa do eu quero ser considerada pelo que eu sou e não pelo que eu apareço [aparento]. Então, atrás de uma frase muito bonita e linda, há um certo descaso também. Então, muita francesa que eu conheci aqui, quando chega: “Ah, mais les femmes Brésiliennes, je ne les supporte pa ! C’est toujours vernis, c’est toujours nanana, salon!” [“Ah, mas as mulheres brasileiras, eu não as suporto! É sempre esmalte, sempre nananã, salão!”] E isso incomoda. Ai, eu fico olhando: “Porque que ela está tão incomodada com isso? Não tem nada a ver com nada.” “Alguém te levou de força para o salão? Fez tua unha e teu cabelo? É você que se lambuza de creme? Não. Então, porque que você está com tanto ódio?” Ai, fiquei pensando. Falei: “Já sei!” Fiquei observando o número de casais franceses que desmon... que se despacharam aqui. Posso te citar, olha [faz sinal com a mão indicando muito]. [...] Francesa casada com brasileiro é a coisa mais rara que eu conheço. Conheço alguns, mas é raríssimo! Porque o brasileiro, há um... quer a gente queira ou não, há uma... um fundinho de machismo. A mulher brasileira aceita, porque é um fundinho lá no fundo, faz parte da cultura, não morde ninguém, é uma coisinha lá. O barrigão, a cervejinha e o Faustão, sabe? Aquele homem meio... [Representa como seria o homem.] Mulher francesa já invocaria com isso. Já é uma coisa... A toa! O que tem de incômodo o cara ver televisão e gostar de futebol? A francesa é chata. Eu sei porque eu relacionei [risos] com as duas. Francesa é... francesa é... francesa é... Não é só... não é só uma relação de mulher, é quase uma relação... quase uma associação. Você tem... você está lidando com um sócio26 (Entrevista concedida por Jean, Parte 4, 1-3min). Conheço... conheço uma. Mulher. Eu a encontrei num fórum de discussão dos... france... dos franceses no Brasil. Mas nunca encontrei ela. Falei só no MSN [programa de bate-papo virtual]. E já tem um ano que eu... Tipo, a cada semana, eu falo com ela no... no MSN, mas eu nunca encontrei ela. Ela em questão, que estão aqui por alguns meses para os estudos. Além disso, conheci Jean, por acaso, em uma noite dessas. São os franceses que eu conheço aqui e que encontro muito pouco (Tradução nossa). 25 Tem... franceses que são professores da UFMG. Lá, tem dois. Tem um outro que chegou porque ele tinha conhecido uma brasileira. Então, ele veio viver no Brasil. Mas eu não os encontro muito. Então... Mas é verdade que a maioria dos... dos franceses no Brasil são homens, hein? Não tem muitas mulheres (Tradução nossa). 26 Em relação às colocações feitas por Jean, na tentativa de buscar uma explicação para o pequeno número de casamentos entre francesas e brasileiros, não podemos deixar de apontar que, na nossa opinião, o machismo do homem brasileiro levantado pelo entrevistado não se encontra na raíz do problema. Conforme veremos no Capítulo 4, para começar, uma maioria de casamentos mistos envolvendo franceses (e não francesas) não é uma exclusividade do Brasil. Além do mais, um número considerável de francesas se casa, por exemplo, com homens de origem árabe, sendo eles considerados extremamente machistas. 64 mora, aqui em BH [Belo Horizonte]. Faz... Não sei. Faz dois anos, eu acho. [...] E. Ela casou com um brasileiro27 (Entrevista concedida por Philippe, 15min). 27 Tentei, insistentemente, localizar a francesa casada com brasileiro mencionada por Philippe, mas não obtive sucesso. PARTE I: IMAGINÁRIOS CASADOS 66 Capítulo 2: A História de Nádia [...] Bom, é... eu me chamo Nádia, né? É... Agora, eu tô com trinta e oito anos, né? Em 2004, eu estava com trinta e seis. Iria completar trinta e seis, em junho. E... eu trabalhava como telefonista na Telemar, que é uma empresa de telecomunicações, lá no Brasil. Já faziam três anos e alguns meses. É. Três anos e... É, três anos e alguns meses que eu trabalhava na empresa. E... [silêncio] ...sempre... Tenho dois filhos, né? Tenho uma filha com dezoito anos, que se chama C.; um filho com quinze, que se chama L.. E sempre fui mãe solteira. Sempre tive minha vida sozinha. Sempre procurando, buscando arrumar um... Porque meu sonho era sempre ter um marido, ter uma casa. Acho que é o sonho de toda mulher, né? E... não era nem exatamente casar, mas era ter o meu lar, ter... Sabe aquela coisa assim de família? E nunca tive sorte com relacionamento. Sempre... Sabe aquela coisa? Eu sempre tentei, tentei, tentei e quebrei a cara! E, às vezes, cheguei até a quebrar a cara, literalmente. E, depois, eu falei, eu disse: “Ah, tô sozinha mermo. Seja o que deus quiser! Um dia vai aparecer!” E, um certo dia, é... uma amiga minha, que... Ela é sobrinha de uma cantora de côco lá, popular na minha terra. De L. do Côco. Que é ex-nora de S. do Côco, tão famosa, da rola, né? Da rola do côco. E V., V. 67 essa menina, ela disse: “Nádia, vai vir um grupo de franceses pra... que L. vai fazer um show. E... Vamu lá? De repente, tu sai do caritó?” Começou a tirar onda comigo, né? “Tu paquera lá, e quem sabe, né?” Aí, eu disse: “Tá certo. Quando...” Isso ela me falou acho que era num... depois do carnaval, ali por fevereiro. E ela não sabia exatamente quando é que esse pessoal chegava. Disse: “Quando chegar esse negócio, eu te aviso.” Passou. Foi fevereiro, março. Eu disse: “Ei, muié, cadê os homi?!” E ela dizia: “Ah, eu não sei não. Quando chegar, eu te aviso.” Um belo dia, eu tava em casa... Um sábado, né? Porque eu trabalhava por escala. E, nesse sábado, coincidentemente, eu não trabalhei. Porque, às vezes, coincidia d’eu trabalhar no sábado. Ela chegou e disse: “Olha, é hoje! Daqui a dez minutos, eu passo pra te pegar, pra gente ir pra festa!” Aí, eu disse: “E é assim é?!” E eu tava naque... Sabe aquele dia que você não tá bem, você olha pro espelho parecendo uma alma? Aí, eu disse: “Tá certo. Eu vou.” Aí, saí, botei uma roupa, fui nas carreiras. E fui lá pra... Era no Mercado de Alferes Barbosa. Um grande mercado que tem lá. E o rapaz que tava recebendo os franceses era J. A., que morou um tempo aqui. Que ele veio fazer estudos, aqui em Angers. Eu não conhecia ninguém, aqui, das pessoas que eu... Quer dizer, não conhe... Eu tinha alguns amigos franceses, mas ninguém que eu tivesse um contato contínuo. Aqui em Rennes, piorou. Nunca imaginei falar... falar francês! Nunca imaginei. Não sabia... Só sabia o que todo mundo sabe: bonjour [bom dia], merci [obrigada]. Porque a gente... Eu moro numa cidade que é turística, então. E... essas coisas a gente sempre aprende o básico. Do inglês e do francês. Mas, assim, falar uma frase completa, eu não era capaz, não sabia. [...] Aí, no dia, eu fui pra soirée [festa]. Cheguei lá. Aí, conheci o rapaz, o J. A., que tava organizando a festa. Ele disse: “Ah, você vai me ajudar!” Eu não sabia nem exatamente o que era essa festa. Eu pensei que era uma festa pra todo mundo, mas, realmente, era uma festa privada. Porque o marido de L., hoje, Yann, ele organiza um... sempre, a cada ano, ou tem uns períodos, que ele organiza grupos pra levar pro Brasil, pra conhecer. E eles faziam parte de uma associação, que são “Os Amigos de Juçaral”. Eu não sabia nem que existia Juçaral. É uma villagezinha [petit village; vilarejozinho] à trinta quilômetros da minha casa, e eu nunca ouvi falar. Tanto... Quando eu cheguei lá, aí, quando eu vi, foram chegando as pessoas. Cada um... Tudo gente assim da minha idade. Assim, de... de quarenta... de trinta e cinco pra cima. Não tinha ninguém novinho, né? Muitos casais. E, no meio dessa turma toda, tava D.. E eu comecei... Comecei a paquerar outros, né? Mas muito sem graça. E, de repente, [inaudível]: “Ah, aquele ali é gatinho!” Porque ele já chegou, depois, com o grupo, né? 68 Eram umas vinte e poucas pessoas. E a gente fez a festa, pra dançar côco, não sei o quê, servir comida e bebida. Eu fui... eu fui pra... eu fui pra... Não sabia nem o que era. E, quando chegou lá, J. disse: “Ah, vamu ajudar?” E a gente começou, porque era pouca gente, né? E a gente tem esse negócio mesmo de ajudar. E sem falar nada. E J. traduzindo. E eu sei que a gente servindo. Aí, quando eu olhei D... Eu só lembro do sorriso dele! Aí, eu disse: “Ah, é esse que eu quero.” Só que minha colega [risos], e outra, filha da menina que canta, tavam também de olho nele. Aí, disseram: “Não, é meu!” Eu disse: “Minha gente, oh, vocês parem de frescura, porque eu sei que nenhuma das duas tão...” Uma era apaixonada por um boyzinho. E ela era muito novinha também: A.. E a outra... e a outra era super apaixonada por um cara, que ela tá, inclusive, até hoje, com ele. A V.. Eu disse: “V., você fica na tua. Eu tô... eu tô sorteríssima! Com o coração aberto, assim como uma rosa! Então, deixe pra mim. É esse que eu quero.” Só que ele não deu nem bola pra mim. Aí, pronto. Fiquei paquerando. Aí, fiquei olhando, olhando ele. Final da noite, tinha tomado umas. Ele muito devagar, não me convidou pra nada. Terminou que outra turma me convidou pra ir continuar a festa no Recife Antigo, que é um pólo que tem lá turístico. A gente foi. Mas me convida... Antes disso, tinham me convidado pra ir com eles conhecer Juçaral, no domingo. Isso era no sábado. Essa festa. [...] Eu falei: “Eu vou. Eu vou segurar esse grupo que ficou comigo, assim fazer amizade, mais interessada em poder ir, no outro dia, conhecer Juçaral.” Porque, na verdade, eu queria ir pra praia. Mas, como o pessoal falou: “Ah, vamos pra Juçaral, não sei o quê?” Eu digo: “Juçaral?! No interior?! Fazer o quê?!” Porque, até então, eu não conhecia a história do... da associação que trabalha pra ajudar a creche, lá. Então, eu disse: “Ah, eu vou...” Usei o... a... a outra pessoa que tinha me convidado pra ir pra soirée [sair] de cobaia, né? Porque os outros... Eles tinham um ônibus. Então, eles seguiram no ônibus. E esses ficaram fora. E disse: “Ah, vamu fazer a festa?” Eu fui com eles, né? Eu tava afim de fazer também. Só que nenhum interessante pra mim. O que eu queria era o tal do D.. Aí, no domingo seguinte, nós fomos pra Juçaral. Eu cheguei lá no hotel, fiquei esperando eles. Tomaram café da manhã. E eu fui, né? Agora, morrendo de vergonha. [...] Não falava nada de francês! A única pessoa que falava... Minha filha, eu olhava pra ele. Aí, me lembrava de uma palavra. Falava uma palavra em inglês, duas em espanhol... Em gestos. Língua universal dos gestos. Porque eu não sei. Eu não sei. Eu fico, às vezes, pasma, assim. Eu não sei. Inclusive, eu conseguia conversar com os amigos dele. Contei história de Olinda; como era a cidade, como não era. Isso na noite, depois. E eu digo: “Meu deus, como é que eu consegui me comunicar?” Eu não sei não, eu acho que tinha que ser, sabe? Acho que... Sei não. Eu sei que... 69 Bom, e, depois, aí, quando eu conheci eles, eu comecei a me interessar pelo... por francês. Mas eu digo, é muito difícil de aprender, quando você não tem grana, né? Porque eu tentei pesquisar tudo, mas eu não tinha dinheiro. [...] J. não foi pra... pra esse encontro no domingo, né? Eu fui sozinha. Só eu de brasileira. A única pessoa que falava português era o Yann, o marido da L.. Então, eu fui me colando nele, né? Onde eles iam, eu sei que eu ia seguindo, assim. E, bom, o pessoal... Tinha uma menina que fala... uma das moças que... francesas que falava espanhol. E eu morrendo de vergonha, porque as pessoas ficavam me olhando: “Meu deus, o quê que ela tá fazendo aqui, não sei o quê?” Eu sei que eu tava lá! Toda perdida, mas eu tava. No final da tarde... Passeamos, conhecemos a creche, e... é... conhecemos a escola, que, lá, eles cuidam. Depois, no final da tarde, depois do almoço, a gente foi caminhar, num lugar que chama Pedra da Pimenta, uma paisagem belíssima da cana-de-açúcar. E, lá, ele... onde ele subia, eu subia atrás. Ele me dava a mão, eu subia. Eu só olhando pra ele. Tinha hora que eu chegava perto dele, assim pra querer dar um beijo, mas me controlando, né? No domindo à noite, quando nós voltamos... É... no ônibus, né? Viemos no ônibus. Chegamos já no Recife, eram dez horas da noite. E, quando chegamos, eles estavam no hotel, aí, me convidaram pra jantar. Aí, eu aceitei, né? Agora, isso eu sem um tostão no bolso! Lisa, né? Fazer o quê? Nessa... nessa noite, eles foram jantar, eles pagaram... Eu ainda lembro. Quando eles pagaram a conta, foi um salário meu do mês todo. [risos] Falei: “Ai, meu deus, com o que vocês gastaram aqui, eu passo o mês todo [risos] pra receber.” Mas, bom, é outra realidade, né? Depois... Aí, começou. Fomos tomar mais uma. Eu sei que, nessa história de tomar mais uma, eu fiquei pra dormir no hotel. Mas D. nada comigo, né? Eu dormi num quarto que não era com ele. De manhã, fiquei paquerando ele e tudo, mas vim embora, porque eu tinha trabalho. Na segunda-feira. Na segunda-feira, eu não tive contato com eles, porque eles iam embora pra outra cidade. Pra outra... pro Cabo de Santo Agostinho. Fazer uma visita lá, conhecer um pólo aquático lá, um negócio desses. Na terça-feira, eu querendo encontrar com eles, eu disse: “Pronto, esse homi não sabe falar francês, eu não sei... ele não sabe falar português, eu não sei falar francês, como é que eu vou fazer?” Aí, eu sabia que o último dia deles era terça-feira, dia treze. E eu sabia que era J.. E eu não conhecia o J.. Eu conheci naquele dia. Digo: “Meu deus, como é que eu vô fazer? O quê que vai parecer? Vai parecer que eu tô caçando homem.” E não era isso. É que eu queria o... Queria ele! Era ele o que eu queria! Aí, liguei pra minha amiga. Eu disse: “E aí? Hoje, tem alguma coisa?” Porque, na terça-feira, no Recife, tem uma festividade que se chama Terça Negra. É um larguinho lá, que eles batizam os estrangeiros, né? É uma festa de culto africano. Tem afoxé, maracatu, um monte de 70 coisa. Numa praça assim. Ao ar livre, né? E J. reservou um sobrado que tem lá, que era... fazia parte do Movimento Negro Unificado, pra gente fazer uma outra soirée [festa], que seria a despedida deles. Aí, comida, bebida, a mesma coisa, né? Aí, a gente ia receber. Aí, eu larguei... eu largava do trabalho, às oito horas. Mais ou menos às cinco horas, eu liguei pra minha amiga. Ela disse: “Olha, vem t’imbora pra me ajudar!” Eu liguei pra ela, falando com ela: “Diga aí!” Ela disse: “É, vai ter outra soirée [festa], não sei o quê.” Aí, J. escutou ela falando no telefone o meu nome. E J. falou: “Ah, é Nádia? Pois diga à ela que venha, pra me ajudar.” Aí, eu sai do trabalho, com um salto desse tamanho, caminhando pela avenida de pedra. Imagina? Eu andei uns três quilômetros, pra chegar na casa dele. Ainda bem que eu trabalhava no Centro. Aí, cheguei na casa dele, pegamos os... as panelas, as bebidas, tudo que tinha, e fomos arrumar lá o setor que ia ter a festa. Quando os franceses chegaram... Eu já vi o ônibus passando, porque eu já conhecia, né? Aí, eu disse: “Eles chegaram.” J. disse: “Eita, tá apaixonada!” Eu gelei tanto! A mão tremia! Eu não conseguia servir os copos de bebida! Eu tomei logo duas caipirinhas, duas batidas de maracujá e respirei. E todo mundo subindo, subindo, subindo. Ele foi o último a subir. Aí, quando eu fui lá embaixo, que eu fui dar boa noite à ele, aí, passei assim. [A entrevistada representa a forma como passou diante de D..] Antes disso, eu perguntei à J. se eu podia levar um amigo meu. Porque eu tinha um amigo que fala francês. [...] Aí, meu amigo... Eu disse: “Meu amigo, olha, tu presta atenção, se eles vão falar qualquer coisa mal de mim. Quando tu perceber qualquer coisa, tu me fala.” Pronto, meu amigo ficou lá, alguns momentos. Aí, começamos a servir e tudo. Aí, eu não consegui! Aí, cheguei perto de D.. Eu disse à ele. Perguntei à meu amigo: “Como que a gente fala que eu tô afim dele, que eu quero ficar com ele, sabe?! É isso que eu quero.” Aí, meu amigo pegou e me disse lá em francês, que eu nem me lembro o que era. Na hora... E eu falei pra ele: “J’ai envie de toi. [Eu te quero.]” Sei lá! Era uma coisa assim! E eu falei pra ele! Aí, eu... Não. Eu perguntei se ele queria ficar a noite comigo. Aí, ele disse: “Não sei. Eu vou pensar.” Eu disse: “Poxa, ainda está difícil?!” Aí, eu: “Tá certo.” E tome caipirinha, tome batida pra lá, pra cá. Mas aquele vou pensar, mas com cara de deboche. Assim, ele tava já... Ele sabia já que eu tava afim dele, e ele tava querendo também, mas, sabe? E foi mais gostoso assim. Aí, foi no dia treze de abril. Nessa terça-feira, né? Aí, ficamos pra lá. E eu só... Chegava perto dele, aí, tocava. Passava perto dele e acariciava a mão. Passava a mão o cabelo, sabe? Eu... eu joguei todas as minhas armas. Eu disse: “É hoje ou nunca!” E, no final das contas... Ele ia embora. Na quarta-feira, ele tava indo pra outro Estado, pra João Pessoa. De João Pessoa, ele ia pra Natal, e, de Natal, ele ia embora. Eu só ia vê-lo por e-mail ou por telefone. 71 Mas tu sabe que essas coisas esfriam, né? Quando você num... Porque, do jeito que ele ficou comigo um final... um dia, ele poderia ter ficado com outra. Chegava em Natal, outra. Quer dizer, ele tava como turista. De repente... Eu disse: “É porque tinha que ser.” Aí, bom, quando chegou na noite... Finalmente, quando chegou na hora tchan, que terminou a soirée [festa] pra eles... Porque a festa, lá na rua, termina de meia noite. Então, meia noite, cada um pega o seu... o seu rumo. Aí, Yann começou a chamar as pessoas pra irem embora, né? E eu falei: “Yann, pergunta pra ele, se ele vai ficar comigo ou não, porque eu tô esperando é isso.” Aí, Yann perguntou pra ele em francês. Aí, ele respondeu que sim. Aí, Yann: “Olhe, tome conta do meu amigo.” Aí, a gente pegou um táxi, e eu levei ele pro paraíso, né? [inaudível] Aí, fomos. Foi a primeira vez que ele viu um motel. Ah, de verdade. Aí, pronto. Aí, ficamos, passamos a noite juntos. Na quarta-feira de manhã... Não dormimos praticamente, né? Aí, ele me pediu pra eu ir no hotel com ele, porque ele queria fazer uma foto minha. Como recordação. Aí, tava nublado o dia! Na quarta-feira. Fomos. Porque dez horas... Isso eram sete horas da manhã. Eu ia trabalhar às... Que horas? Ah, não, eu ia trabalhar às duas, nesse dia. Ele... Então, fomos lá no hotel. Eles iam viajar às dez. Aí, ele foi no hotel, pegou a câmara. Nós fomos na beira da Praia de Boa Viagem, ele tirou uma foto minha. Era o único filme que ele tinha. Ele: “Merda! É o último filme, não sei o quê.” Bom, eu sei que... Olha, eu entendia... A gente... Olha, eu não sei o que a gente fazia pra entender não. Morrendo de vergonha, porque... Eu não sei como é que era não, eu só sei que a gente conseguia se comunicar. A gente conseguiu ficar junto, tudo. Aí, ele foi comigo até a parada do ônibus. Nesse dia, eu não tinha um centavo no bolso! Assim, tinha a passagem, mas dinheiro eu não tinha, né? [...] E, depois, de manhã, ele me deu vinte euros de presente. Porque era meu... Eu falando que o meu aniversário era em junho, aí ele disse que não ia tá aqui e que queria me dar um presente. Eu fiquei com tanta raiva! Porque eu achava que ele tava querendo, sabe? Trocar... Achando que eu era prostituta, alguma coisa assim, e me dando dinheiro. Aí, eu fiquei brava! Eu disse: “Não! Não sei o quê! Bábábá!” Aí, ele disse: “Não! Não! Não!” E pra explicar? Até eu entender o que era cadeau [presente], né? Eu já tinha ficado toda intochicada (sic). Aí, eu disse: “Ah!” Aí,, eu... Ele botou no meu bolso. Botou no meu bolso. Aí, eu fui peguei o ônibus. Ele ficou comigo na parada do ônibus, se despediu. “Tchau, né?” Aí, quarta-feira, ele partiu pra João Pessoa. E eu, no trabalho, começando a mirabolar. “Ah, não vou perder esse homem não. Esse homem vai embora. E, depois, como é que vai ser? Ele vai perder o contato! Vai esfriar! Ele vai arrumar outra! Eu vou arrumar outro! O negócio não... É ele que eu quero! É ele que eu quero, sabe?! É ele que eu quero, e eu não vou deixar não.” Quando foi na quarta-feira... Tudo isso eu pensando, na quarta-feira, no trabalho. 72 Na quinta-feira, eu passei, antes de ir trabalhar... Porque eu trabalhava, às duas horas da tarde. Passei na agência, pra ver quanto é que tava a cotação do euro. Tava alta, nessa época. Eu sei que vinte euros deu sessenta e sete reais. Passei na agência... No mesmo caminho, eu passei na agência de viagem, perguntando quanto era uma passagem pra Natal. [...] Dava trinta... trinta e um. Não, era menos. Dava... Não, era vinte e sete parece. Vinte e sete. Vinte e sete e vinte e sete deu cinqüenta e quatro, né? Deixa as contas pra lá! Bem, deixa as contas pra lá! Eu sei que me sobrou ainda acho que uns dez euros. Reais, né? Com esse dinheiro. Aí, eu preocupada. Porque eu gosto de sair de casa e deixar tudo nickel [nos trinques], né? Aí, faltava fazer feira, assim. E eu sem dinheiro. Eu quase, sabe? Não... No Brasil, tu sabe, que a gente recebe dinheiro, no dia primeiro, mas, no dia quinze, já tá todo mundo liso, né? Aí, eu... E eu começando a mirabolar. Eu disse: “Eu tenho que dar um jeito!” Aí, fui pro trabalho. Cheguei no trabalho. Eu trabalhava de duas às oito. E comecei a pensar. Eu digo: “Eu tenho que saber...” Mas eu não sabia onde eles iam ficar em Natal, não sabia aonde eles estavam em João Pessoa. Comecei a ligar pra João Pessoa. Liguei... liguei pro... pro irmão de L., lá de Juçaral, que eu só tinha visto no dia que eu fui lá visitar. Perguntei o hotel que eles tavam. Ele disse que não sabia, porque eles não tavam se encarregando da viagem, a partir de... depois do Pernambuco. Só até Pernambuco. Então, não sabia. Mas ele me deu... Acho que foi J. que me deu. Não. Eu perguntei a J., J. não sabia. Eu perguntei à ele, mas parece que ele me deu o nome do hotel. E, como eu trabalhava na companhia telefônica, eu botei no... no anuário lá, e descobri o nome do hotel. Liguei pra lá, e perguntei, e o cara me confirmou. Só que, na hora que eu liguei, isso na quinta-feira, eles já tinham saído. Eles tinham partido pra Natal, já na quinta- feira. E eu já mirabolando de quê? De ir atrás dele, no final de semana. Mas eu não sabia nem até quantos dias ele iria ficar. A única coisa que eu escutei eles falando entre eles era Morro do Careca. Porque era a única coisa em português que eu entendi. Mas não sabia nome de hotel, não sabia nada. E como o Centro de Natal eu conhecia bem, porque foi onde eu fiquei [quando eu fui lá]. O Morro do Careca eu conhecia bem também, que é um ponto turístico. Mas bom, liguei e o rapaz disse assim: “Ah, eles já saíram. Foram embora.” “E você sabe me dizer pra onde eles vão em Natal?” Ele disse: “Ah, minha Senhora, não sei não.” Eu disse: “Me lasquei.” Liguei pro motorista do ônibus, porque, por sorte, o irmão de L. me deu o número dele. Só que o telefone dele não respondia fora do Estado, porque não tinha crédito, né? Aí... Você sabe que, fora do Estado, não... não recebe, quando não tem crédito no cartão. [...] 73 Liguei pra T., que é o irmão de L., de novo. Ele disse: “Olha, a única coisa que eu tenho é o número do dono do ônibus, que foi alugado aqui.” Porque eles foram com o mesmo ônibus. Minha sorte. Peguei o número do homi. O homi todo tapado! “Ah, num sei. Ah, num sei. Ah, o motorista não ligou pra mim.” Eu disse: “É, eu já tentei ligar pra ele, mas só que não responde.” “Ah, num sei. Ele ligou pra mim hoje, mas eu num sei aonde é que ele tá não. É, eu sei que é em Natal. Mas num sei...” O homi não sabia nada, finalmente. Eu disse: “O Senhor num sabe nem o nome do hotel? Porque, aí, mais fácil.” Ele disse: “Olha, eu tenho um papel aqui. Pera aí.” Aí, acho que ele correu. Eu escutei só “tutututú”. Daqui a pouco, lá vem o homi com o papel. Ele disse: “Tá um poquinho muiado.” Eu digo: “Tá certo.” Aí, começou a ler. Ele disse: “É Miranda. Miranda.” Eu disse: “Miranda? Bom. Miranda? Pode ser. Eu num sei.” Procurando, botei na tela Miranda. Nada. Hotel Miranda. Nada. Eu disse: “O quê que eu faço?” Comecei a ligar... Raiva! Invés d’eu... Eu trabalhando... Eu fiquei tão louca, que eu, trabalhando... Eu trabalho com todos os Estados do Brasil, né? No sistema de telefonia. Então, eu podia descobrir o telefone de qualquer pessoa. Mesmo que fosse número caché... escondido. A gente tinha um sistema que a gente acessava. Saí procurando. Eu disse: “Mas o pobrema é se o... o estabelecimento tiver no nome de pessoa física.” Porque, às vezes, acontece. O nome comercial é um, mas é registrado no nome do proprietário. Aí, eu disse: “Me lasquei.” Aí, invés d’eu botar Rádio Táxi de Natal, eu liguei pruma amiga minha de Natal. Imagina? Que... que lerdera! Pra ela me dar o número da Rádio Táxi. Depois, eu parei, eu pensei: “Menina, não precisa não! Eu trabalho aqui! Eu tenho um sistema aqui! Pra quê que eu tô ligando pra ti?!” Ela: “Quá!” - começou a rir. Mas eu também não expliquei pra que era. Mas, de toda forma, ela me deu. Aí, eu liguei pruma Rádio Táxi de Natal, com o intuito de perguntar... é... se tinha um hotel... num... perto do Morro do... A única coisa que eu sabia é que era perto do Morro do Careca, e que se chamava Miranda. Porque eu tinha uma reserva pra ir, mas eu tava em Recife, “e eu perdi o papel. E eu preciso ir. Inclusive, eu tô precisando de um táxi pra ir me buscar. Quanto é que custa?” [risos] Porque eu tinha que primeiro atiçar o... o interesse deles. Porque, se eu ligasse só por..., eles iam dizer: “Ah, minha filha, aqui não é Informações.” Eu ligava... Eu liguei toda gentil, né? Pedindo desculpa. “Mas é porque eu queria... ia precisar de um táxi, e eu queria um táxi com segurança. Por isso que eu ligava para a Rádio Táxi, que é uma Companhia de Táxi, né?” Aquela coisa. Todo aquele... aquele filme, né? Eu trabalhava na Telemar, né? Tinha toda a lábia do mundo! E a moça... Aí, elas diziam o preço, né? E diziam: “Olha, Miranda a gente não conhece não.” Aí, teve uma bendita que me disse: “Olhe, tem o Miramar e o Mirante.” O Miramar eu conhecia, que era um hotel muito grande. Eu sabia que eles não iam pra um hotel muito grande. Eles iam pra um hotel mais simples. Aí, eu disse... “Ah, então... Então, você pode me dar o número do Miran... do Mirante?” Ela disse: “Ah, eu não tenho o número dele não, mas fica na rua tal.” Aí, eu anotei o nome da rua. Quando eu coloco no sistema o nome da rua tal, não entra. Não tinha nada que era hotel nessa rua. Eu disse... 74 Agora, isso... Eu comecei a pesquisar era cinco horas da tarde. Eu largava, oito horas da noite. E as horas se passando. Quando chega... foi chegando um certo momento... Nada de bater naquela rua. Aí, na rua que ela me deu, tinha um outro hotel, com outro nome. Eu disse: “Vai ver que tem dois nomes, né?” Quando eu liguei, aí, eu pedi desculpas à moça do hotel. Isso eu já tinha... Também, antes de ligar pro hotel, eu já tinha ligado pra umas duas ou três Rádio Táxi, né? Até que uma me deu mais ou menos o nome do hotel. Aí, era... Aí, o Mirante. Aí, ela fez assim: “Olha, o Mirante, ele... a entrada dele é meio difícil, porque é por trás da igreja, não sei o quê. Eu não tô muito...” Aí, eu pedi desculpa, porque tava ligando, mas porque eu tava precisando, porque tava perdida. Inventei logo uma história. Aí, ela me deu o nome da rua dele principal. Só que não era esse acesso. Aí, eu botei na tela, e nada de Mirante. Eu disse: “Sabe do que mais? Eu vou começar a procurar debaixo pra cima, invés de cima pra baixo.” Os números, né? Aí, comecei ligando. Isso, eu ligando... Imagina eu ter... eu tá ligando pra vinte números? Assim, números que eu olhava assim, que eu via que era de hotel, uma coisa assim, eu ligava e jogava o caô. Pra perguntar se tava chegando um grupo de franceses, bababá, e se era esse. Quando eu vi TP. TP é telefone público. Aí, tinha TP Bar e Restaurante Mirante. Eu disse: “Bom, se o nome é parecido, deve ter alguma coisa.” Liguei, alguém atendeu no orelhão. Eu disse: “É do Hotel Mirante?” Aí, o homem, com um sotaque assim de paulista: “Ah, moça, eu não sei não, tô chegando aqui agora. É um ore... um telefone público. Eu vou chamar alguém.” Aí, chamou o dono do hotel. Aí, eu disse: “É do... do... do Hotel... É perto... Por acaso esse telefone, ou o Senhor conhece se tem, aí nessa redondeza, um hotel chamado Mirante?” Ele disse: “É aqui mesmo, minha filha!” Só que o número de cima... Se eu não tivesse achado o telefone público, o número após era o número do hotel. Porque é Bar, Restaurante e Hotel Mirante. Fica bem colado com o Morro do Careca. Aí, eu disse: “Eu não acredito.” Aí, ele disse: “O quê, minha filha?!” Seu P., o nome do homi. Aí, falei com ele: “Não, é porque o grupo que tava em Recife... Eles foram pra João Pessoa, e estão indo pra aí. É aí mesmo?” Ele disse. “É. Olha, tá tudo pronto!” Ele jurando que eu era uma das organizadoras da viagem, né? “Olhe, tá tudo pronto! Nós estamos só esperando só eles chegar!” Isso era quase sete horas da noite. “Eles tão previsto pra chegar aqui, sete horas da noite.” Eu disse: “Ah, e o Senhor tem um telefone?” Ele disse: “Tenho.” Quando ele deu o número, já era o número em ci... Que eu já tinha na minha lista, né? Aí, eu disse: “Tá. Então, eu ligo de dezenove horas, porque eu preciso falar com um dos componentes do grupo, que é o único que fala português.” “Não, tá certo! A Senhora pode ligar!” 75 Aí, liguei dezenove horas. Nada dele chegar. Aí, falei com o filho do homi, um tal de P.. Disse: “Não, num chegou não.” Aí, eu disse: “Tá bom. E que horas eles chegam?” “Olha, tá previsto pra chegar a qualquer momento.” E eu ia largar... E sete horas, né? Eu já estava nervosa. Porque a hora tava passando super rápido, e eu ia largar às oito. Nesse meio tempo... E isso eu fazendo as escondidas. Porque eu não podia fazer coisa particular no trabalho. Mas... Era um risco que eu tava correndo. [...] Isso, eu comecei a comentar, logo cedo, antes duma turma largar... Porque tinha turmas que largavam, enquanto eu estava lá, né? Então, eu comecei a comentar que eu tava com dor na barriga. Porque eu já fiquei imaginando. O meu pensamento era: trocar o dinheiro, comprar a passagem, e ir atrás dele lá, à quatrocentos quilômetros da minha casa. Então, na minha cabeça, tava tudo armado. O quê que eu ia fazer? Eu nunca tinha faltado ao trabalho. Em três anos e meio de trabalho, eu nunca havia faltado. Então, eu pensei. Eu disse: “O quê que eu vou fazer? Eu vou fazer tudo isso. Vou organizar as coisas em casa. Deixar tudo pronto: feira feita, tudo organizadinho. Vou dizer à minha mãe que foi ele que mandou me chamar.” Porque, se eu dissesse que seria eu que tava indo sozinha, minha mãe ia ficar preocupada, ia começar com pensamento negativo. Eu disse: “Não. Vou jogar tudo pra dizer que é ele.” E, como ela sabia que eu já tinha ido outras vezes pra Natal. E eu tinha uma amiga também em Natal. Só que eu nem liguei pra essa minha amiga. Mas levei o telefone, porque num caso de emergência, né? Aí, finalmente, minha amiga... minha chefe disse: “Nádia, você pode fazer uma hora a mais, uma hora extra, até nove horas?” Ah, era tudo que eu queria! Porque eu largava às oito. Até pegar ônibus, chegar em casa e fazer a ligação. Ia gastar interurbano, né? E o tempo ia ser muito corrido. Eu não sabia qual era a programação deles. Mas dito e feito. Quando deu... sete e quarenta mais ou menos, que eu liguei, aí, finalmente, eles tinham chegado. Mas eles tavam sendo recebidos. Aí, eu falei pro rapaz... Eu tava conhecendo já todo mundo da recepção lá: P., P., Seu P.. Aí, eu disse... eu disse: “Olhe, talvez eu tenha que ir praí, não sei o quê.” “Ah, pode vir, minha filha!” O homem super gentil, né? Aí, eu disse: “O Senhor fale pra Yann que ele atenda uma ligação de... É, oito e meia, eu ligo. É Nádia, de Recife. Que eu vou ligar, oito e meia, que ele espere.” Pronto. Eu tava tão ansiosa! As mãos che... gelava! Eu não conseguia nem falar direito. Aí, finalmente, quando eu liguei, às oito e meia, quem atendeu já foi Yann. Mas Yann fala tão portu... bem português, o marido de L., principalmente quando ele tava no Brasil, que ele já pega o sotaque e tudo, que, quando ele atendeu “alô”, eu nem... Aí, eu disse: “P.?” – pensando que era o rapaz, que eu tava tão habituada a falar com o rapaz. Aí, ele disse: “Não, um momento.” Quando ele falou “não, um momento”, eu disse: “Yann, é tu?” Aí, ele disse: “É, sou eu.” Aí, eu disse: “Olha, é Nádia.” Ele disse: “Diga, minha filha!” Eu disse: “Olha, eu tô... eu tô ligando pra você, já faz... desde não sei que horas.” Aí, contei a 76 história. Resumi. “O problema é o seguinte: eu tô querendo ir pra aí. Só tenho passagem de ida, não tenho dinheiro pra hospedagem, não tenho dinheiro pra restaurante, não tenho dinheiro pra nada. Tenho o dinheiro pra passagem de ida. Pra voltar... Eu... Pra ir... É, só tenho o dinheiro de ida, não tenho dinheiro pra nada. Eu durmo no ônibus, durmo na areia da praia, faço qualquer coisa. E, pra voltar, eu volto com o Seu N..” Porque eu sabia que o ônibus tava lá. O ônibus tinha que voltar, e o ônibus era de Recife. Chegando em Recife, eu me virava, né? Porque, o ônibus lá pra casa, eu tinha. Aí, eu disse... “Só que eu preciso saber se... o D., ele quer que eu venha também, porque, na...” Ele disse: “Pode vir, que ele é meu companheiro de quarto.” Quer dizer, já tinha comentado alguma coisa. Que tinha gostado de ficar comigo e tudo, né? Mas eu quis prevenir também, porque ele teve já um problema de infarto. O D.. Quando eu conheci ele, ele... ele tava com quarenta e um. E, com quarenta anos, ele teve um infarto, sabe? Stresse [sic], um monte de coisa. Aí, eu tive medo. Eu disse: “Meu deus...” Ele tomava remédio. Toma ainda remédio, né? Pro coração, colesterol, tudo. Eu disse: “Ai, meu deus, se eu chegar a fazer...” Não sabia até que tipo de emoção ele teria, mas eu disse: “Bom, é melhor eu previnir, né? Vai que o homi tem um troço.” [risos] Sei lá! Eu pensei um monte de coisa! Aí, quando Yann disse: “Ah, pode vir. Ele é meu companheiro de quarto.” Ele disse: “Olha, só não sei se vai... vocês vão poder ficar no mermo hotel. Porque o hotel tá cheio. Mas vocês ficam em outro perto, não tem pobrema. Você vem.” Aí, eu disse: “É sério?!” Ele disse: “Que horas... E, quando você chegar, a gente não vai tá aqui. A gente vai tá... Porque a gente vai fazer um passeio de bugre.” Eu disse: “Não tem pobrema. Eu só vou chegar, no final da tarde. Não tem problema não. Se não tiver, eu espero. Não tem problema.” Aí, pronto, já comecei a tremer, né? Aí, terminei. Fiquei... Aí, cheguei... Eu tava toda radiante. Aí, terminei meu... fechei meu serviço. Cheguei em casa, falei pra minha irmã. Minha irmã, nessa época, prestava serviço num pronto socorro. Eu disse: “Olha, tu vai, amanhã, arrumar uma ficha pra mim, e eu vou pro médico.” Porque, se eu fosse no meu médico particular, que eu tinha direito da empresa, eles não dão... Pra eles darem um... um... un arrêt de trabalho [uma licença médica], você tem... Atestado. Você tem que tá morta já, com o bofe pra fora, né? Aí, eu disse... E tu sabe que médico do sistema público, você chega lá, joga uma conversa, pá. Ainda mais que era amigo da minha irmã. Aí, finalmente... Já deixei minha sacolinha pronta. Nove horas da manhã, saí com a minha irmã, pra ir pro posto de saúde. Nove? Nove? Oito horas. O médico chegou, às dez. Aí, atendeu as pessoas que tavam na frente assim mais grave, né? E, quando foi minha vez... Eu lá. Eu sem batom. Tinha acabado de acordar, né? Aquela cara assim. Aí... Eu já tive problema de labirintite. Mas faz muito tempo. Ela perguntando o quê que eu tinha, eu disse: “Ah, dor aqui, dor ali, tontura.” Tudo que era maladie [sintoma], assim de malaise [tontura], eu disse, né? Mão fria, não sei o quê. Ela disse: “Você tem regras?” Eu digo: 77 “Ah, tá... tá chegando.” Mentira. Já tinha ficado boa, né? Ela disse: “Ah, então, é isso.” Ela achou que era mal estar, enchaqueca. E eu disse: “Porque eu trabalho com telecomunicação. Então, recebo muita ligação, é muito stress.” Então, ela... ela disse que era stress, junto com menstruação, com tudo, que ia chegar. Ela deu um diagnóstico perfeito! Tudo que eu queria. Aí, me deu a sexta e o sábado. Porque eu trabalhava, inclusive, no sábado. Aí, eu disse: “Tudo que eu queria.” Sai do... de lá era onze... era dez e quarenta, quase onze horas. Cheguei em casa, peguei a sacola. Já tinha previnido minha mãe, né? Que eu ia. Isso na própria quinta... na quinta-feira... Isso foi na sexta. Na quinta-feira, eu já arrumei um cheque com uma amiga, fiz a feira pra casa. Feira de final de semana, né? Sala... verdura, carne, essas coisas. Meus filhos, eu sempre tive uma relação com eles, que eu sempre dizia: “Olha, eu tô... Eu não vou deixar de viver a minha vida por causa de vocês. Porque, um dia, vocês vão crescer, vão criar asa, e vão voar. Então, se eu... se eu tiver uma chance, e eu puder agarrar, eu vou agarrar. E vocês já tão grande.” Então, assim, eu pensava também no meu futuro. Penso nos meus filhos, na educação deles, no futuro deles. Mas eu também pensava em ter uma vida pra mim. Porque, ah... daqui a pouco, eles vão casar, tudo, e, se eu não tivesse corrido atrás da minha felicidade, o tempo ia passar, e eu ficar: “Ah, aquele dia que aconteceu isso.” E eu já tinha perdido outras oportunidades, antes. Eu disse: “Não. A próxima que vier, eu vou agarrar com unhas e dente.” E foi o que aconteceu. Então, quando... eu peguei o atestado, peguei a minha bolsa... Morrendo de fome, né? Porque já era quase onze horas. Corri pra rodoviária. Quando cheguei na rodoviária, já eram onze e quarenta. Aí, o ônibus tinha saído de dez... onze e qua... onze e meia. Pra coisa. Então, foi... Era sessenta e sete. A passagem foi trinta e sete. Agora, que eu lembro. A passagem foi trinta e sete. Porque, a passagem de volta, eu não paguei. A passagem foi trinta e sete, e eu fiquei com trinta. Então, quando eu cheguei na rodoviária, eu perdi o ônibus. Então, eu tive que almoçar na rodoviária. Aí, eu comi bem pouquinho, né? Comi cinco real. Bem pouquinho, porque era... Só tinha self-service; não tinha prato feito. Aí, eu disse: “Bom, tem que comer bem pouquinho, só pra não ficar com fome, né?” E comprei uma garrafinha d’água. Porque, com água, você agüenta com fome, né? Porque eram quatro horas de viagem de ônibus. Eu sabia que, pra ir pro Centro de Natal, tinha uma parada antes da rodoviária. Porque... era como... Por exemplo, era como se o ônibus passasse aqui no Centro, passasse aqui nessa rua, perto pra onde eu queria ir. E, depois, ele ia pro outro lado da cidade! Quer dizer, se eu viesse da rodoviária pra onde eu queria ir no Centro, eu ia pagar muito mais caro de táxi. Enquanto que ele passava no meio do caminho, o que ficava bem mais perto, né? [...] Aí, na rodoviária mesmo, eu conheci uma moça. Perguntei pra onde... se ela ia pra Natal. Ela falou que sim. E eu disse: “E você vai pra que... que altura?” Ela disse: “Não, eu vou pro Centro. Pro Praia 78 Shopping.” E eu conhecia aonde era o Praia Shopping. Não era muito distante. Até um ônibus eu podia pegar. Mesmo se eu não soubesse, mas eu perguntava. Pra ir pro Morro do Careca. Eu disse: “Vamos dividir um táxi?” Eu sabia que era... O rapaz da rádio táxi, na época que eu liguei, tinha me dito que era vinte e cinco, né? Então, eu tava... Eu tinha ainda... Acho que eu tinha vinte. Ou era quinze. Eu disse: “Bom, em todo caso, eu gasto dez e fico com cinco.” Porque eu já tinha gasto dez. Aí, quando chegamos na... nessa parada, que era [inaudível], que é uma parada que fica central, o taxista veio nos receber. A gente perguntou quanto é que dava até o Morro do Careca, parando no Praia Shopping. Porque o Praia Shopping era antes do Morro do Careca. Foi tudo abençoado! Aí, ele: “Dezessete”. Então, eu digo... Foi dezessete? Não. Ele disse que dava... quatorze. Era sete. Eu sei que... Era... era quatorze. Eu disse: “Não, vamu fazer quinze. Sete e cinquenta pra cada um.” Porque eu achei tão baratinho, e o homem tão gentil. Aí, a gente: “Sete e cinquenta pra cada um.” Não, era dezesseis que dava. Uma coisa assim. Sete e cinquenta pra cada um, pra dar quinze. Foi isso mesmo. Aí, fechou. Aí, deixamos a moça em casa, e ele me deixou no hotel. Quando cheguei no hotel, parecia um labirinto. Ele me deixou... Porque o acesso do hotel... Por isso que eu não achava. O nome da rua é outro. E a frente do hotel é na beira mar mesmo! O carro não entra, porque é a areia da praia! Você desce do hotel, tá na praia. Aí, o rapaz me deixou lá em cima. Ele disse: “É ai. Pode descer.” Aí, eu sai descendo o labirinto, né? Tchoin, tchoin, tchoin. Quando eu chego embaixo... Que justamente a parte que é... Porque, em cima, são os quartos. A parte que é o restaurante é justo que dá pra praia. Aí, só tinha um rapaz e o dono do bar. E o rapaz que tava na... na cadeira, era o motorista do ônibus. Porque ele já me conhecia. Quando eu cheguei: “Boa noite, Seu N.”. E o rapaz... Ele não foi pro passeio, porque ele tava com dor de dente. Então, ele ficou lá. Aí, eu cheguei. Eu: “Boa noite, Seu P., eu sou Nádia, a moça que ligou, não sei o quê.” Aí, ele disse: “Ah, eu tava lhe esperando! Olha, a gente arrumou um quarto pra você.” Mas era pra mim e D., né? Só que ia acertar, quando ele chegasse. Porque Yann já tinha falado com ele que eu ia pra ficar com um dos rapazes, né? Eu não ia ficar no mesmo quarto. Aí: “Ah, tá tudo arrumado!” Eu disse: “Oh, Seu P., antes de tudo, me dê uma cerveja.” Na época... Eu ainda tinha... Foi... Eu tinha... Eu gastei... Eu tava com trinta, gastei cinco. Eu tava com vinte cinco. Aí, gastei sete e cinqüenta do táxi. Fiquei com quinze e alguma coisa. Não sei. Só sei que a cerveja era dois conto. Eu disse: “Me dê uma Skol aí, bem gelada!” Tomei. Aí, o Seu N., quando ele olhou pra mim, ele: “O quê que tu tá fazendo aqui?!” Porque ele não... Ele não sabia da história. Porque, no... no dia que eu fiquei com D., no último dia... Ele num tava, nesse dia, 79 porque nasceu o filhinho dele. Então, ele não foi acompanhar o pessoal, naquela noite. Porque, como eles iam ficar realmente em Recife, ele preferiu ficar aquela... ser substituído naquela noite, e, nos outros dias, que a viagem ia ser longa, ele ir. Porque, aí, ele ganhava mais, entendeu? Então, ele não viu o que... o que aconteceu, nesse período que ele não tava. Aí, quando ele me viu, ele: “Quê que tu tá fazendo aqui?” Aí, eu disse: “Seu N., deixa eu pegar uma cervejinha, que eu vou lhe contar a história.” Aí, contei toda... Ele disse: “Bem que eu percebi! Porque, lá em Juçaral, você tava sempre olhando pra ele. E teve uma hora que você ficou pegando umas camisas, um óculos, que era dele.” Eu sabia que era dele, e fiquei perguntando: “De quem é? De quem é?” Mas era justo pra segurar e ter o prazer de dar na mão dele, entendeu? De dar [inaudível]. Aí, ele disse: “Ah, mas que bom, que não sei o quê!” Isso, eles não estavam lá. O grupo. O grupo tinha ido viajar. Na... no passeio do bugre. Tava previsto... Eu cheguei lá era, exatamente, cinco e quarenta. Quando eu cheguei... Era pra eles terem chegado cinco e meia, mas houve um atraso, porque teve um dos ji... dos bugre que quebrou. Eu sei... Quando... Eu tava na segunda cerveja, era mais ou menos umas seis e quinze, seis e vinte, começaram a chegar o povo. Ah! E ninguém sabia que eu ia. Quem sabia... D. sabia que ia ter uma surpresa. Yann não falou que era eu. E todo mundo chegando: “Nadia? Nadia?” [Pronuncia em francês.] Sabe? Tinha gente que sabia, mas tinha gente que não sabia. E todo mundo... E eu morrendo de vergonha. Disse: “Ai, meu deus. E agora?” E eu sem saber de nada, né? Falar? Ria, era tudo. Aí, eu disse: “Ai, meu deus!” O pessoal chegando, e me olhando. E eu lá, rouge [vermelha], né? Na segunda cerveja. Aí, quando ele chegou. A coisa mar linda do mundo! Aí, ele chegou. O... o bugre dele foi o último, porque foi justamente o bugre dele que quebrou. E um outro bugre, porque ficou dando apoio ao bugre dele. Aí, ele chegou. Ele chegou assim embaixo da escada, e parou assim, e num... Sabe? Com quem diz: “Não tô acreditando.” Com um tênis assim na mão, um negócio assim na mão. Aí, eu corri, dei um abraço nele, um beijo, né?! Porque a gente, um dia antes, dois dias antes, tinha feito maior amor, né? Aí, ele ficou super contente! Aí, ele ficou rico, né?! Pagou uma rodada de... de caipirinha pra todo mundo. Aí, ficamos lá. E o homi arrumou um... um quarto no mesmo hotel. Aí, ficamos no hotel. Foi maravilhoso! A gente foi jantar... Fiquei com eles até o domingo. Aí, no domingo, ele... Isso, cheguei lá na sexta, né? Fiquei sexta à noite, o sábado o dia todo. No domingo, acho que era à tarde... Acho que às quatorze horas, mais ou menos. A gente fez um tour lá na cidade. Olhamos artesanato, pra eles comprarem. E ele veio embora, no domingo de tarde. A gente se despediu. Aí, de lá, eu vim embora com o Seu N., né? Pra Recife. Mas, aí, desse momento pra cá... Depois que ele foi embora, aí, foi quando eu comecei a pensar... E, antes disso, a amiga dele, que tava com a gente... 80 Os amigos mais próximos sabiam que ele tinha sido divorciado. Que ele tinha tido uma relação, depois, com uma namorada, mas que não deu certo. Tinha tido um infarto. Sabe? Alguém... Tavam achando bom que ele tivesse encontrado alguém, e estavam querendo que... E deu certo. E teve... Eu sempre lembro de uma amiga dele que chama V. Ela... Lá em Natal, no último dia da gente ficar lá, quando a gente tava comprando artesanato, e ela disse assim: “Porque que você não... não vem na França?” Agora... É... “Você não pensa em vir na França?” Agora, isso, aquilo: eles falando portunhol e eu falando francenhol, sabe? Mas, assim, no sentido... Não era na... na linguagem normal, mas, assim, eu entendia: “Porque que você não vem na França?” Eu com vergonha de dizer: “Porque eu não tenho dinheiro, né?” E eu não queria jamais dizer assim: “Ah, se ele paga a minha passagem.” Essas coisas assim, eu não queria. Eu queria ir... vir, mas eu com os meus próprios esforço [sic], entendeu? E eu... “E porque não?” Eu disse: “Eu nunca pensei.” E, realmente, eu nunca pensei em sair do Brasil, pra vir num país. Muito menos na França. Nunca pensei. [...] Então, assim, eu disse: “Porque não?” Foi daí que eu comecei a me interessar por meu amigo que falava muito bem o francês. Só que ele me deu alguns toques, mas muito pouco, porque ele não tinha muito tempo. E eu comecei a me interessar... Eu disse: [...] Tentei me informar na Aliança Francesa, mas era muito caro. Era um salário mínimo, pra fazer o curso de um mês, que era o intensivo lá que eles falam. Aí, eu disse: “Ah, seja o que deus quizer! Eu vou ver o quê que dá.” [...] Aí, então, ele veio embora, né? Então, eu fiquei super “abaxocada” assim. Não era... não era aquela história de coup de foudre [paixão avassaladora]. Porque a gente já tinha uma certa idade. Então, a gente já tinha experiências amorosas. Mas sabe aquela coisa que você olha assim, e você diz: “É... é... é... é isso que eu quero. E... vamos ver o quê que vai dar.” E parece que... Como... como diz Paulo Coelho, quando você quer uma coisa, o universo todo conspira pra que aquilo... Quando você pensa positivo. Então, tudo conspirou pra que desse realmente certo. Foi por isso que, quando eu fui pra Natal, eu botei na minha cabeça: “Eu não vou dizer a minha mãe.” Porque o povo do Nordeste, e normalmente mãe, é aquela coisa assim: se você sai sozinha, atrás de um homem... Se eu fosse dizer: “Ah, mãe, eu tô indo embora pro... pra Natal, passar um final de semana, pra encontrar com ele, e ele não sabe.” Ela ia ficar pensado: “Ah, meu deus do céu, minha filha! E se acontecer alguma coisa?! E se esse homem não sei o quê?! E se esse homem não lhe quiser?!” Então, eu preferi dizer pra ela... Eu omiti a parte que fui eu que tomei a iniciativa, né? Porque, senão, ela ia poder ficar... Eu não queria pensamentos negativos, sabe? Eu acredito muito nisso, na força do pensamento. Então, eu disse: “Não. Tem que dar tudo certo.” Não falei pra ninguém que tinha sido... Mesmo pra colegas minhas, eu só vim falar depois. E mesma coisa foi com a história de vir pra cá. 81 Então, passou. Em abril, começamos a escrever, né? E-mails. Ele trabalhava. Tinha o e-mail do trabalho dele. Primeiro que o primeiro e-mail mandou errado, né? Porque ele escreveu pra mim, eu entendi a letra errada. Porque eu não sabia ler francês, né? Quer dizer, era... era agento, eu botei agentes. Bom, aí, depois, eu consegui falar com Yann. Yann respodeu pra mim em português. Agora, o problema, né? Que eu escrevia em português. A única coisa que eu sabia falar... falar era “salut, bébé, mon amour [oi, neném, meu amor]”. [gargalhadas] Aí, eu escrevia pra Yann, Yann traduzia e dava pra ele. Ficava naquele, né? É. Pois é. E ficava, às vezes, até com vergonha. Porque eu queria falar umas coisas bem picantes, mas eu ficava com vergonha. Yann ia ler aquilo! E ficamos. Nós nos correspondíamos, toda semana. Às vezes, mais de uma vez... por dia. Às vezes, duas, três vezes por semana. Se passasse... Uma vez, passou uma semana sem ele me escrever. Eu já fiquei louca! De vez em quando, eu ligava! Mas era caro pra ligar. Ele nunca ligava pra mim. No começo. Aí, só eu que ligava. Eu cheguei a pagar uma continha cara, viu? De telefone. Mas eu digo: “Ah, eu me viro pra pagar. Eu quero é falar com ele.” Só pra escutar a voz dele. Porque ele só tinha telefone, aqui, celular, né? Só que foi-se... Abril, maio. E, a partir de maio, eu já comecei a cogitar. Eu disse: “Porque não ir pra...” Aí, comecei a perguntar ele: “Se um dia eu fosse na França, como seria? Como... como seria a recepção? Como eu poderia fazer?” Ele dizia... Aí, ele dizia: “Minha cama é muito grande pra mim sozinho.” Porque ele mandava em francês. Aí, eu corria atrás do meu amigo, corria atrás de J.. Eu corria atrás de tudo quanto era gente que falava francês, pra me traduzir, e escrever minha resposta, né? Eu ficava, às vezes, com vergonha de... de não falar tudo, porque... De tanto... de tanto lê o que ele escrevia pra mim, aí, eu repetia as frases dele, entendeu? Mudava alguma coisa. Aí, eu não... não tinha paciência, aí, botava em português. Eu sei que... Ainda... Ele guarda e-mails ainda. Ele tem ainda e-mails que eu... que eu mandei pra ele. E eu tenho e-mails... e-mails... uma pasta só com e-mails dele também. Então, era muita onda. Tinha coisa que eu não entendia. Eu... eu lembro até hoje. Uma vez, ele falou pra mim “desolé”. Porque ele passou muito tempo sem me escrever, né? Aí, ele: “Désolé, je n’ai pu pas t’escrire [sic]... t’écrire, je ne sais pas [Sinto muito, eu não pude te escrever, não sei o quê.]”. Agora, eu sei. Só que, antes, eu pensava que “desolé” era que eu tava desolada, eu tava triste. [risos] Mas “desolé” é o quê? Sinto muito. Aí, eu disse: “Je suis désolée aussi [Eu estou “desolada” também.].” [risos] Nada a ver o que eu respondi com o que ele estava dizendo! [gargalhadas] Ai, meu deus do céu, foi muito engraçado! Aí, foi quando meu colega... Uma vez, ele escreveu para mim “ma puce”. Aí, eu disse a meu amigo: “O que é “puce”?” Ele disse: “Olha, Nádia, 82 é uma... uma forma carinhosa de falar. Mas, no pé da letra, quer dizer pulga.” Eu disse: Vixe, como é que a pessoa chama a outra de pulga?!” [gargalhadas] Então, essas coisas. E, de tanto escrever, algumas palavras, eu já fui pegando a prática, né? Isso tudo por internet. Eu chegava, entrava no sistema escondido, pra poder entrar na internet, e ficava me comunicando. E chegou um certo momen... E eu comecei a cogitar a possibilidade de... “Porque não ir?” Comecei a pensar seriamente nisso, né? Eu disse: “Se eu pedir demissão na empresa, eu vou perder. Se eu...” Eu tava começando... Eu tava começando também a ficar cansada daquele trabalho, sabe? Que tava uma monotonia só, muita pressão, uma chefe muito chata, é... o salário muito pouco pra responsabilidade. Porque eu tava na... no setor de... de fraudes. Eu tava fazendo análise de fraudes, de pessoas que fraudavam a empresa. Então, a gente mexia muito com dinheiro. Tinha vez que a gente tinha que cancelar fatura de dezoito mil reais, sabe? Era fatura de gente... de traficante, de não sei o quê, que usava nomes de pessoas que não tinha nada a ver. Então, a gente tinha que fiscalizar, tinha que fazer uma vistoria. Era um trabalho de detetive! [...] E era muito sério. Porque, se a gente cancelasse uma... uma... uma conta que realmente o cliente usou, depois, se a auditoria batesse em cima, e desse algum rolo, quem ia pagar era a gente, né? Assim, teve vários casos de demissão. Porque você tinha que ter, sabe? Fechamento correto mermo. [...] Então, era muita responsabilidade e o salário era muito pouco. A gente não ganhava... Quando eu entrei na empresa, a gente ganhava dois salários mínimos. Entrei em 2001. Em 2004, o meu salário... só... não tava nem um salário e meio. Quer dizer, eu entrei com dois salários... O salário, sabe? Estacionou duma forma, que não tava mais dando, não tava... Quando eu entrei lá, o salário era trezentos e dois. Quando eu sai de lá, tava trezentos e quarenta e sete. E o mínimo tava trezentos. Vê que... que coisa? E o sindicato, sabe? Não enxergavam! Eles não enxergavam que a gente tava com o salário defasado, pra... em relação ao que a gente tinha no início do trabalho. Porque como é que tu é contratado com dois salários, e, de repente, tudo aumenta, e o teu salário permanece naquela estatismo, sabe? Naquele mesmo valor, praticamente. Então, isso... Bom, mas tu sabe aquela história. Tu sai, hoje; amanhã, tem dez na tua vaga, né? Então, como eu precisava trabalhar, eu tinha meus dois filhos pra sustentar, então, eu disse: “Bom, vou me aguentando por aqui, até...” Aí, pra enganar a gente, o quê que eles faziam? Eles davam prêmios. Davam cartão de ticket de cem reais de abono, sabe? Sempre tavam dando prêmios. Pra poder a gente... O que não era salário. O que não entra como salário. É como benefício, mas não... Pra... pra eles, era bom. Porque, pra eles, era dedutivo no imposto da empresa. Mas, pra gente, dava como prêmio. Acabava-se no mesmo dia. Então, comecei... Como diz a história, começa a ter abuso do trabalho. Final... Isso em abril. Final de maio, eu já comecei a ver a possibilidade de me demitir. Mas só que eles não iam me demitir. Então, eu cheguei pro meu chefe, no mês de... final de maio. Foi muito rápido. Porque... do... de quando eles parti... Ele veio embora no dia dezessete de abril. Aí, maio, junho, julho, 83 agosto, setembro. Mais ou menos no final de maio, eu cheguei pro meu chefe, e disse à ele: “Olha, eu tô pensando em ir embora. Só que eu tô precisando de dinheiro.” Aí, contei a história. “Eu quero ir pra França.” Ele: “Tá. Eu vou ver o quê que eu faço por você.” Só que, na verdade, ele não acreditou. Eu comecei a pedir isso, no final de maio. Passou junho, nenhuma resposta. Um monte de gente foi demitida na minha frente. E nada de eu... de mim ser demitida. “Merda. O quê que eu faço?” E esperando, né? Aí, o cabra saiu de férias em julho. Eu disse: “Eu mereço.” No começo de julho. Esperei até o... Isso sem... sem vontade de trabalhar. Sabe aquela coisa que você num tava mais afim, sabe? Eu num tava mais afim, num tava mais afim! E comecei a cogitar a possibilidade. Então, teve um amigo que me ajudou também, me deu uma parte do dinheiro. Porque, sozinha, eu não ia poder pagar a passagem, né? Mas eu não quis pedir dinheiro à D. pra passagem. Eu sempre trabalhei, desde os dezenove anos. E, como eu nunca tive marido, então eu fui muito independente nesse ponto. Mesmo que... Se ele chegasse e me oferecesse, tudo bem. Eu poderia até aceitar. Porque, depois, eu ia dizer: “Não. Foi você que me ofereceu. Eu não lhe pedi nada.” Mas, como ele sabia que eu queria ir, e ele não ofereceu, também eu não quis pedir, né? E foi até melhor assim. Eu disse: “Não, eu vou ter o prazer. Porque, se por azar não der certo, ele não vai ter que passar na minha cara que tá...” Sabe? Mesmo que ele teja me hospedando, mas a passagem fui eu que paguei. Então, como hóspede, eu posso pagar com trabalho. Eu posso fazer uma faxina, eu posso... Entendeu? Eu comecei assim: “Mas, a minha passagem, eu pago.” Então, um amigo me ajudou numa parte. Um grande amigo meu. É... Que eu... eu não contei que era pra vir por causa dele. Eu falei que vinha, porque eu queria trabalhar numa Associação. Porque eu já... Né? Pensei na... na Associação que tinham aqui. Mas, assim, eu disse que eu queria... Eu joguei uma conversa que eu queria mudar de vida. Que chegou o momento, que meus filhos já tavam grandes, que eu queria jogar... é... morar na Europa. Mas eu não quis dizer exatamente: “Ah, eu vou, porque eu conheci um francês, porque eu tô afim dele.” Porque eu não queria que ninguém pensasse, sabe? Negativo. Que ficasse pensando que... que eu ia quebrar a cara, que eu ia... Porque as pessoas diziam: “Ah, mas tu num conhece o cara. Tu não sabe o que ele vai fazer contigo.” Porque, no Brasil, também tem muito essa imagem. Você conhece um estrangeiro, você vai pro estrangeiro, e você num sabe se o cabra é um matador, se o cabra... As pessoas pensam muito isso: “Ah, porque teve uma brasileira que foi morta, teve um cara que espancava. Isso e aquilo outro.” Então, você fica muito... Eu disse: “Não, não quero.” E, como eu conheci ele, conheci os amigos dele, disse: “Não é possível.” Poderia até ser. Que ele fosse um cara doido, que me maltratasse e tudo. Eu digo: “Eu vou ver.” A minha segurança também foi porque tinha L.. Então, nesse meio tempo, L. começou a se comunicar comigo também. Porque ela é da mesma... da mesma... A mulher de Yann. Porque, como ela é da merma região, então a gente se identificou. E sempre eu ligava pra ela, pra... Então, era a segurança que eu 84 tinha. Ela dizia: “Não, Nádia, pode vir. A gente vai lhe receber, a gente vai lhe ajudar.” Então, foi me incentivando isso, né? Então, finalmente, o meu chefe não... voltou das... das férias, em agosto. No fim... Meados de agosto, eu tava em contato com uma amiga, que me deu o contato de outra amiga, pra comprar a passagem mais barata. Porque ela trabalhava na Varig. Então, eu já tava com a passagem. Eu... O meu chefe não me demitiu, antes do... Eu fui demitida no dia seis de setembro. Minha passagem tava marcada pro dia vinte e seis. De setembro. Vinte dias pra fazer tudo. Pra a recisão do contrato, pra fazer tudo que eu tive que fazer. Então, a passagem tava comprada, mas eu não tinha mala, eu não tinha roupa. Eu tinha que deixar dinheiro em casa pra família, entendeu? Então, o que foi que aconteceu? Quando eu... é... Uma parte do salário que eles me pagaram, junto com minhas férias, eu segurei. Eu não gastei. Eu arrumei mala emprestada. J. me emprestou, né? Eu não tinha... Eu não trouxe nenhuma roupa de frio, porque eu não tinha! Roupa de frio que a gente tem no Brasil é uma camisa de algodão, né? Aí, trouxe alguns... Ainda mais no Nordeste! Um calor de quarenta graus, né? Imagina? Em pleno mês de abril [setembro]! Aí, finalmente... Eu sei que, quando eu sai... quando... Aí, passei esse tempo todinho falando pro meu chefe. Quando foi em julho... em final de julho, que ele voltou, começo de agosto, eu disse... Não, já em agosto que ele voltou. Eu falei: “M., é aí? Eu tô precisando! Eu vou viajar! Eu já tô com a passagem comprada! Eu tenho que ir!” Ele disse: “Você não tá brincando não?” Eu disse: “Não, não tô brincando não.” “Mas você nunca faltou.” “Sim. Mas eu tô falando com você, porque eu tô sendo honesta com você. Eu não quero ficar perturbando na empresa, eu não quero tá faltando. Eu quero que você me demita.” Porque eu sei que a empresa grande. E, de vez em quando, ela demitia pessoas assim, pra renovar o quadro. Então, quem tava realmente querendo. E, nessa época, tava justamente... Ela demitiu eu e mais um outro rapaz que tava indo pra Londres. Um outro funcionário que tava vindo estudar. Aí, ele disse: “É mermo?” Eu disse: “É.” Ele disse: “Tá certo. Então, no final do mês, eu lhe dou sua demissão.” Aí, foi minha sorte. Porque, senão, eu ia... eu ia perder. Eu ia ter que deixar o trabalho. Porque eu já tava com a passagem. Mas eu disse: “Não. Vai dar certo.” Aí, o dinheiro que eles me pagaram de férias, tudo assim, aí, eu tive que deixar reservado pra o pessoal lá de casa, né? Porque meus filhos. Tem que pagar telefone, água, luz. Porque eu sempre fui... Eu morava com a minha mãe e meus dois filhos, mas eu sempre fui a base. Eu... Minha mãe tem a pensãozinha dela do salário mínimo, mas, assim, o pesado lá de casa sou eu que pago, né? Telefone... Ainda hoje, eu mando dinheiro pros meninos, pra pagar telefone, feira, essas coisas assim. Então, eu não queria viajar e deixar, em hipótese alguma, que meus filhos passassem dificuldade, né? Nenhum aperto. Principalmente, em termos de alimentação. Aí, eu disse: “Bom...” 85 Finalmente, eu... Quando eu sou... eles me deram a recisão... Me demitiu no dia seis. Eu deixei de trabalhar... Trabalhei só até o dia seis. Dia sete foi feriado e o banco tava de greve. Minha recisão foi dia quatorze. Eu imaginei... Eu imaginei, eu disse: “Bom, não é possível que, até o dia vinte, o banco...” Porque era... Começou com uma greve de advertência. Que advertência da gota foi essa? Que, depois eu cheguei aqui, um mês depois que tava aqui, foi que a greve acabou. Aí, minha filha, imagina eu sem... A sorte que o dinheiro que eu... que entrou na minha conta, eu tinha o cartão e eu podia sacar. Mas o que eu tinha que dar entrada, pra receber, por exemplo, o dinheiro da recisão, de não sei o quê, eu não pude. Eu tinha que dar entrada no seguro desemprego. Perdi o seguro desemprego. Perdi, agora, por falta de informação, tu acredita? Porque o seguro desem... Me disseram que eu... eu só podia dar entrada no seguro desemprego, depois que desse entrada no Fundo de Garantia. E, pra dar entrada no Fundo de Garantia, a Caixa Econômica tava fechada. O quê que aconteceu? Quando eu voltei no Brasil, pra receber o Fundo de Garantia, que eu achei que tava... que eu podia receber, o rapaz disse que não. Porque o Ministério tava aberto, era só cento e vinte dias... Depois de cento e vinte, perdia. E não dependia do Fundo de Garantia. Ou seja, eu pudia... eu pudia ter dado entrada no Fundo de Garantia [seguro desemprego], ter recebido minhas cinco parcelas. Deixado com a minha irmã. Porque, como eu tenho o Cartão Cidadão, eu dava entrada, assinava o que tinha que assinar, e, depois, ia cair na minha conta. Então, eles tinham o meu cartão, eles iam... iam... Cinco meses que eles iam receber um salário mínimo no mínimo. Porque eu ia... eu ia receber mais. Eu ia receber uns trezentos e pouco. O meu salário não... não passava de dois... de dois, mas, pela... era sempre mais um pouquinho. Eu ia receber uns trezentos... Era... porque era... era trezentos e pouco que eu ia receber. Uns trezentos e vinte, não sei. Uma coisa assim. Mais do que o mínimo. Pouquinha coisa mais do que o mínimo. Aí, cinco parcelas. Perdi. Par contre [em compensação], quando eu cheguei lá, eu pensei que o Fundo de Garantia eu só ia receber daqui a três anos, né? Porque o prazo tinha passado de dar entrada. Que já fazia um ano que eu tava aqui. Porque, depois que eu vim para cá, eu só voltei um ano depois pro Brasil, né? Fiquei aqui. [D.] sabia. Sabia que eu vinha. Ele disse que me recebia. Que a cama dele era minha cama, que a casa dele era minha casa, e que ele ia me receber. Só... só que, pra ele, também era como se fo... Ele disse que não realizava [il ne réalisait pas; ele não acreditava] que eu vinha realmente. Era como um sonho. Fazia parte do presente, dum papel cadeau [papier cadeau; pacote], como diz a história, entendeu? E eu falando pra ele que eu vou, que eu vou, que eu vou. Ele sabia. “Ah, vou lhe esperar, tudinho.” Naquela... Eu tava tão segura de mim! Assim, que ele ia me receber, que ia dar tudo certo, que eu... Eu tava com medo só de passar na fronteira de Portugal. Porque o pessoal falava: “Ah, em Portugal, eles 86 perguntam...” Eu não tinha cartão de crédito internacional. Só tinha o cartão nacional do Brasil. Não tinha dinheiro. Todo o dinheiro que eu tinha era quinze euros. [gargalhadas] A única coisa que eu tinha era o hébergement [documento que atestava que o namorado iria recebê-la]. Porque eu disse à ele: “Mande um papel, dizendo que tá me recebendo.” Porque eu sabia que eles pediam isso, às vezes, na fronteira, né? Eu... O que eu tinha medo era de ser... de ser mandada embora, de não poder entrar na Europa, porque eu não tinha dinheiro, né? Mas eu disse assim: “Mande.” Aí, ele mandou pra mim, pelo... pelo Sedex. Uma semana antes d’eu viajar, ele me mandou o hébergement [documento que atestava que iria recebê-la]. Então, isso me assegurou. Porque, com isso aí, ele tava garantindo que ia me receber. Só que eu pensei o que: “Venho como turista os três meses que eu tenho direito, né? Se desse pra renovar...” Porque aí... Eu cheguei em setembro. Outubro, novembro, dezembro. Aí, eu pensei o quê: “Dezembro...” Dia trinta e um... Era dia vinte e oito de... vinte e sete de dezembro que acabava o meu visto de turista. Então, eu disse assim: “Bom...” Depois que eu cheguei aqui, né? “Eu vou na Suiça, não sei o quê.” Eu achava que, no máximo, eu renovava. Ou, então, eu renovaria... os três meses, aqui mesmo, como turista. E voltaria, em março, pro Brasil, arrumaria os papéis, se fosse o caso da gente casar, fazer qualquer coisa, e voltaria, né? Em junho, pensei. Eu pensei assim. Eu não pensei em vir e ficar direto não. Eu pensei em vir, dar certo. E eu voltar no Brasil, resolver o que tivesse que resolver. Depois, voltar com tudo já certo. Mas, aí, foi tudo ao contrário. Aí, fiquei um período sem papel [sans papier; ilegal], né? [tom de voz baixo] Mas confiando nele, porque... a gente... Eu não queria forçá-lo a casar. E... teve muito stress assim, no começo. Porque ele acostumado a ser solteiro. Assim, eu... eu chegando, com aquele costume sulamericano, sabe? E não queria também forçá-lo a casar. E minhas amigas tudo casada, a maioria das meninas daqui, e faziam: “Ah, mas ele tem que casar, ele tem que aceitar a sua situação, não sei o quê.” Eu disse: “Mas eu não vou forçar o homi a casar. Vai que ele casa, se arrepende, e depois vai jogar na minha cara, né?” Aí, não. E eu não tava segura que ele gostasse de mim, sabe? E num... E ele também tava com medo, porque ele já tinha saído de uma situação. Já tinha sido casado, tava divorciado. Tinha saído de uma relação com uma moça, que, logo depois do casamento, ele... ele conheceu. E que também ele ainda tava apaixonado. Porque ele não ia... não é porque ele me conheceu que ele ia, né? Então, ele não me conhecia. A gente passou... Um final de semana é muito bom! Fazer amor é maravilhoso! Mas, assim, ele não sabia quem era Nádia, nem Nádia sabia quem era D.. Então, imagina: ele acostumado, aqui, a viver sozinho nessa casa, e de repente chegar uma mulher, “pru”, mudar tudo, sabe? Então, a gente tinha que dar tempo ao tempo, pra um se acostumar com o outro. Mas assim... Ele foi me buscar no aeroporto, sabe? Me apresentou a família. A família dele me recebeu, desde o primeiro dia, super bem. Ninguém fez assim nenhum... Não teve nenhum indício de... de... 87 de preconceito, sabe? De... Ao contrário, fui muito bem recebida. Isso foi o que também me... me... me deu força. Eu, depois que cheguei aqui, eu não posso dizer... Lógico, tem dias que eu estou triste, penso nos meus filhos com saudade. A gente chora. Mas, assim, uma depressão? E de dizer assim: “Ah, j’en ai marre [estou de saco cheio] de tá aqui!” Não. Porque, às vezes, eu esqueço que tô na França. Eu não sei. Às vezes, eu não sei se... se eu já vivi... Eu não sei se eu acredito nessas coisas de tempos passados. Porque, sabe? Parece que eu sempre vivi aqui. Se os meus filhos tivessem aqui, se a gente vivesse aqui... [silêncio] A gente... a gente é brasileira, a gente viveu, a gente sabe como é a vida no Brasil. [...] Mas, em Rennes... Eu não sei se eu fosse pruma outra cidade. Também não sei. Porque eu gosto dele, porque tem os brasileiros aqui. A gente tem uma comunidade legal. Eu tenho uma vida, sabe? Legal. Consegui. Desde que eu cheguei aqui, eu trabalho. Eu tenho...! Eu tenho tanta coisa que eu faço, que eu... Eu tenho tanta atividade, que eu não tenho tempo de deprimir. [...] Agora, eu tenho tudo direitinho. Graças à deus, eu tenho o meu séjour [a minha carteira de residente]. Ai, tô tão contente! [...] Fiquei! Sem papel [sans papier; ilegal]! Morrendo de medo! Mas não foi exatamente sem papel [sans papier; ilegal]. Escu... Quando chegou no mês de... é... no mês de dezembro... é... D., ele é muito cabeça dura. Então, ele tem um amigo, que a prima do amigo é adjunta ao Maire [Prefeito] daqui. Então, ela falou que ia mandar uma carta pra prefeitura [Préfecture], que ia pedir essa... Justamente... Porque o que a gente queria não era casar. O que a gente queria era ficar o mais tempo possível, pra se conhecer, vivendo junto. E, depois, a gente fazer alguma coisa oficial, entendeu? Mas, pra isso, a gente queria... é... pedir... O que a gente pensou era o quê? Pedir uma prorrogação do séjour [período de permanência sem visto]. Sem eu ter que ir pro Brasil. Então, foi isso. Aí, ela me pediu a xerox do meu registro civil traduzido. Porque eu já tinha papel traduzido aqui. Pediu uma letra de motivação [lettre de motivation; carta de motivação]. Então, eu não... eu não podia escrever dizendo: “Ah, porque eu conheci um cara no Brasil e tô afim de viver com ele.” Eu escrevi minha motivação. Eu conhecia a... a... o... a Associação, né? O Brasil no Feminino. Na época, ela me... a moça me pediu pra... Eu... Quando eu conheci a Associação, eu fui convidada... Eu já, já cheguei participando de atividades, aqui. Participando, pra dançar, pra fazer qualquer coisa. E teve um momento que eu fiquei até um pouco chateada, mas depois passou. Porque isso é tudo é fase. E quando a gente também não sabe o estatuto, nada das coisas. Mas, aí, eu fui orientada a pedir uma carta da Associação, dizendo que eu... Como eu cheguei... é... Eu tava aqui, em dezembro. Então, que eu conhecia a Associação, e que eu estava querendo participar como bénévole [voluntária], nas atividades do ano 2005, que era o Ano do Brasil. Então, seria mais barato pegar uma pessoa que já estava aqui, do que pagar passagem pra alguém vir de lá fazer atividade, entendeu? Então, foi essa minha ligação: 88 que eu fiquei motivada, que eu queria participar das atividades do Brasil na França como bénévole [voluntária] e não sei o quê. Aí, a Associação me negou essa carta. Então, eu escrevi uma carta de próprio punho, dizendo que eu tava aqui e não sei o quê. E man... entreguei isso à mulher. Só que, até então, eu não sabia que a... que a administração, aqui, era tão burocrática e tão demorosa. Então, antes de completar o... o... antes da data que... Aliás, foi no dia nove de dezembro. O meu visto terminava dia vinte e alguma coisa. Eu achei que eu teria alguma resposta antes. Então, essa Senhora, ela mandou... é... Isso é certo que ela mandou, porque eu acho que ela não teria porque mentir. No dia nove de setembro [dezembro], eu estive pessoalmente com ela. Eu, D., e o primo da mulher dele. Primo dele por..., né? De consideração. E ela nos recebeu. Entreguei tudo na mão dela e ela anotou. Ela... Eu perguntei se precisava do passaporte. Ela disse: “Não. Só precisa disso.” Segundo... Aí, passou três semanas. Nenhuma resposta. O primo ligou pra ela e perguntou se ela tinha alguma novidade. Ela falou que tinha mando pra Prefeitura, com o cartãozinho dela. Isso já foi passando... Aí, passou o mês de dezembro. Eu morrendo de medo de sair, morrendo de medo de ser controlada [d’être controlée; de cair em uma batida policial]. Mas fiquei. [tom de voz baixo] Mas a minha chance [sorte]! Eu tinha um endereço declarado, desde que eu cheguei aqui. Que era esse endereço, desde que eu cheguei. Era ele o responsável por mim. Quando ele fez o meu hébergement [documento que atestava que iria recebê-la] na Mairie [Prefeitura], os documentos eram tudo dele. Tem um amigo nosso que trabalha na... na polícia, que trabalhava justamente no Setor de... [silêncio] Rensei... Renseigne... Renseignements [Informações]? Pronto. É isso. E ele disse que, quando tem algum problema com estrangeiros, eles fazem enquete [enquête; investigação]. E ele disse que não tinha nenhuma enquete com o meu nome. Então, isso era um bom sinal. Ou bom ou mau, né? Mas não tinha nenhuma enquete. Então, em todo o caso, eu não tava totalmente ilegal, porque... Eu não tinha um papel, o recépissé [documento provisório], nem provas que eu tava... eu tinha pedido essa prorrogação do séjour [período de permanência sem visto], por essa dama [madame; senhora], que é uma pessoa do meio político. É aquela história: usou de... É. Sabe? Como eles chamam? Braço longo, aqui. Eles chamam... tem um termo que dizem isso, né? Não foi... Eu não sabia como funcionava. Então, eu fui por eles, né? O cara era um professor, todo assim. E a mulher me recebeu, tudo. Eu disse: “ça va marchar [ça va marcher; vai funcionar].” De toda forma, eu tava ilegal, mas eu tinha uma cobertura. Porque eu disse: “Bon, si ça... si ça arrive qualquer chose [Bon, si ça arrive quelque chose; Bem, se acontecer alguma coisa], eu posso dizer Madame [Senhora] Fulana de Tal... Ela vai ter que pelo menos dizer: “Não, é verdade”. Mesmo que eu vá ser expulsa, mas...” Eu ia... eu ia contar a minha história, e eles iam ver que tinha um papel. Não era culpa minha, se não tinha nenhuma resposta. Mas que o papel tinha sido enviado. 89 Esperei. No mês... Aí, se passou dezembro, janeiro, fevereiro, março, abril. Nenhuma resposta. [tom de voz baixo] E eu aqui, sabe? Aí... Assim... Eu não fiquei deprimida, mas eu comecei a me estressar. Principalmente com ele. Eu digo: “E não vai fazer nada?! Que situação é essa?! Já faz seis meses que eu tô aqui, oito meses que eu tô aqui, e você não toma nenhuma decisão! Como é que eu faço?! Eu não posso sair na rua! Eu tenho medo!” Ele disse: “Ah, mas você não tá fazendo nada demais. Você não anda com ninguém.” Eu disse: “Vamos resolver! Vamos resolver!” Ele já tinha ido na Mairie [Prefeitura], pego os papéis pro casamento. Só que ele disse que já fez um casamento uma vez e... Sabe? Não era o que ele queria fazer. Eu sei que o tempo se passando e eu comecei... Sabe? A ficar com raiva, assim. Porque ele tinha que tomar também uma decisão. Poxa, eu já tinha me sacrificado, já tinha vindo pra cá, já tinha deixado minha família, minhas origens lá, tentado, sabe? Tudo porque eu queria ter uma relação com um cara e era ele o cara que eu queria. E a gente já tava... Seis meses? Eu acho que já tava de bom tamanho, pra saber se a gente podia ou não viver uma vida junto. E eu não queria fazer mariage branco [mariage blanc; casamento de fachada]. Porque, se eu quizesse fazer mariage branco [mariage blanc; casamento de fachada], como eles chamam assim casar só por papel [papier; legalização da permanência no país], eu tinha feito com outra pessoa. E eu queria casar com um homem que gostasse de mim, que me amasse, e que a gente quizesse fazer uma vida junto. Então, finalmente, no mês de junho, aí, ele resolveu: “Vamos fazer o PACS.” Preparamos todo papel. Só que ele ligou lá, marcou tudo, só que ele esqueceu de perguntar se... Ele... A gente... Ele perguntou o que precisava, tudo. Preparamos os papel. Só que [risos], quando ele chegou lá pra marcar a data, a mulher falou assim: “Não, só tem vaga em outubro.” “Ah! Outubro?! Puxa vida! E aí?” Isso era em junho. Outubro ça veux dire que [quer dizer que] ia fazer um ano já que eu tava clandestina. Então, o quê que aconteceu? Eu... Mas, enquanto isso, eu me virava. Eu sempre tava na casa das meninas, ajudando, fazendo uma coisa, fazendo outra, pra ganhar um dinheirinho. E, com esse dinheirinho que eu fui ganhando, eu já fui juntando, porque eu queria voltar no Brasil. Eu queria ver meus filhos. Queria regularizar, sabe? Deixar dinheiro pros meus filhos, comprar as coisas que... Eu tava decidida, depois desse momento... Eu fui... Depois que eu cheguei aqui, comecei a viver com ele, e comecei a conhecer as coisas, eu fiquei decidida assim: “Eu quero ficar aqui. Se não der certo com ele, 90 eu vou tentar de uma outra forma. Só não vou me prostituir, nem roubar. Mas, assim, eu quero ficar aqui. Se as meninas me apoiarem, se as meninas... Sabe? Eu fico. Só se não der mesmo!” [...] Eu sempre fiquei tralhando [ilegalmente]... É. Pra poder ganhar um dinheirinho, né? Então, eu tomava conta dos filhos das colegas, fazia faxina na casa das colegas. É assim que funciona. Pra poder ganhar. Então, todo mês... Eu nunca precisei... Desde que eu cheguei aqui, eu nunca precisei dizer: “Ah, me dá o dinheiro pro meu absorvente. Me dá...” Ao contrário. Falta um pão, falta uma coisa, eu vou no supermercado e compro. Então... eu sempre... Sabe? Falta... Ultimamente... A gente faz feira, mas, muitas vezes... A gente faz feira, porque a gente tem aquele dia que a gente faz a feira do mês. Mas tem coisa que falta, e que eu reponho, e que ele nem percebe. Ainda não tô pagando aluguel, essas coisas toda, porque ainda não tô com o meu salário fixo, né? Tô ganhando pouquinho, agora. Mas, a partir de setembro, quando eu começar realmente a trabalhar... Isso faz parte do PACS também. A gente tem um contrato que diz que a gente divide as coisas. Então, aí, eu já vou ganhar um... um SMIC [salário mínimo] assim net [líquido] mesmo. Então, eu já vou começar a repartir as coisas com ele. Mas, é como eu disse à você, eu sempre... Aí, desde que eu cheguei... Na primeira semana que eu cheguei, eu já comecei a fazer esses biquinhos e nunca parei. Tinha dia que eu tava super ocupada! Porque, como tu sabe, né? A gente faz uma faxina legal. Então, todo mundo gosta. E eu sempre fui muito dinâmica. Então, meu tempo... Como eu não tinha filho, então o meu tempo era muito mais livre. Então, eu tomava conta do filho de M. quatro dias por semana, fazia faxina também nesses dias. Então, tava sempre ocupada. Então, no final do mês, eu sempre tinha mais ou menos quinhentos conto. Então, eu juntava. Mandava, a cada dois meses, dependendo da necessidade, trezentos ou duzentos pros meus filhos. Porque lá, tu sabe, quando... quando tá baixo, era ruim, mas, quando tá numa cotação alta, era bom. Então, fiquei nesse período, durante um ano, fazendo isso. Mas, assim, não era porque eu queria, era porque... eu não queria que ele tomasse uma decisão só pra regularizar o papel [papier; a permanência no país]. É porque... A gente tava querendo fi... Eu queria ficar com ele, realmente. Porque, se eu não quizesse ficar com ele, eu teria deixado, teria arrumado outro. Teve... Eu tive proposta de gente que chegou pra mim e disse: “Ah, pra lhe ajudar, se você quizer, a gente...” Um homossexual. Que eu frequen... [conheço]... Eu ia num... Que era amigo em comum de amigas minhas. E chegou a me propor isso. “Se você quizer, se você tiver dificuldade, a gente faz um mariage blanc [casamento de fachada].” Mas eu disse: “Não, mas não é isso que eu quero. Eu quero ele. Se não der com ele. Aí, se ele disser não, eu não te quero, eu não quero, não vai dar certo, aí sim eu vou tentar um...” [...] 91 Quando foi no... no PACS... quando fomos fazer o PACS, no mês de junho, só tinha data pra outubro. Então, ficou marcado pra outubro, né? Vinte de outubro. Imagina? [tom baixo de voz] E eu querendo ir pro Brasil, querendo ir pro Brasil! Já tinha reservado até minha passagem pra ir pro Brasil, porque eu achava que eu ia fazer o negócio em junho, né? Aí, eu digo: “Bom, seja o que deus quizer.” Marcamos o PACS pro dia vinte. Fui pra o Tribunal... [...] Porque foi no dia vinte de outubro. E, no dia seguin... no mesmo dia, nós fomos na Prefeitura [Préfecture]. E eu tava com a... a viagem marcada pra ir pro Brasil no dia primeiro de novembro. E cheguei lá a mulher pediu um monte de papel. Até envelope de carta, provando que eu tava aqui, com carimbo, né? Do Brasil. Queria... Aí, ela queria... A mulher pediu faturas de doze meses, no meu nome e no dele. Mulher, se eu não tinha papel, se eu tava um ano sem papel, como é que eu podia ter uma fatura em comum com o homi? Eu não trabalhava, eu não declarava. Como é que eu podia ter uma fatura em comum com ele? Não tinha. O banco não aceita nenhum... Ninguém aceita. Tanto é que, assim que a gente fez o PACS... Assim que a gente fez o PACS, o D. me botou no HLM [moradia social] e tudo. Mas, antes, eu... eu não existia oficialmente. Então, eu não podia. Eu não trabalhava, eu não declarava, eu não tinha nada. Eu num... A gente não tinha PACS, não tinha nada. A gente só morava junto. Mas eu não era francesa. Se eu fosse francesa, a gente podia ter coisa em comum. Mas eu não era. Aí: “Minha Senhora, a gente não pode ter.” Ela disse: “Ah, nesse caso, eu vou deixar o dossiê aqui.” Me pediu três fotos. Na verdade, eram quatro fotos. [tom de voz baixo] “Eu vou deixar o dossiê aqui, e vai ser estudado pelo chefe. Que ele não tá aí agora. E a Senhora vai ser comunicada.” Não me deu récépissé [documento provisório], não me deu nada. Deixou lá meu dossiê, com xerox do passaporte, tudo, tudo, tudo. Um monte de papel deste tamanho. Eu disse: “Sabe de uma coisa? Vou me esquentar não. Vou pro Brasil.” Eu já tinha pago a passagem. E eu queria ver meus filhos, sabe? Eu disse: “Vou pro Brasil.” Aí, viajei com uma pasta pro... pro Brasil. Com tudo que era papel. Certificado de hébergement [documento que atestava que o companheiro iria recebê-la]. Outro. D. fez outro pra garantir. Com o papel do PACS. Viajei com uma pastinha cheinha de papel. Porque eu disse: “Bom...” Eu vinha por Portugal, né? “Portugal não tem nada a ver com a França. Mas, se por acaso eles questionarem, eu tô... eu tô com um papel francês. Então, o francês vai ler que o PACS é... tem os mesmos... os mesmos direitos do casamento. Tem algumas coisas que são diferentes, mas, em termos legais, de... de... de séjour [carteira de residente] tem o mesmo valor. [...] Passei quarenta e cinco dias no Brasil. Quando eu voltar... E eu perguntando: “D., se por um acaso chegar alguma carta, pra eu ir na Prefeitura [Préfecture]...” Porque, quando eles ligam, pedem pra você ir logo, né? “Você vai lá, diz que eu tô... tive um problema, tive que ir pro Brasil, papapá, papapá.” Nada. 92 Quando a gente... quando eu cheguei... Na segunda-feira, logo que eu cheguei, eu disse: “Amor, vamu na Prefeitura [Préfecture].” Chegando lá, já foi uma outra Senhora que nos atendeu. Aí, eu falei: “Minha Senhora...” Aí, a gente explicou, né? Que a gente tinha dado a entrada no séjour [carteira de residente], depois do PACS. Aí, expliquei tudo. A mulher... a mulher foi lá, pegou o dossiê. Tava lá embaixo no armário. Ninguém tinha nem tocado. [tom de voz baixo] Aí, ela abriu o dossiê e disse: “Non, c’est bon. Il manque qu’une photo. [Não, está certo. Falta somente uma foto.].” Faltava só uma foto. “Não, você é pacsée [fez o PACS]. Você não tem nada? Nem um récépissé [documento provisório]?” Eu disse: “Não.” Aí, a mulher me deu na hora. A segunda Senhora. Depois que eu voltei do Brasil. Me deu, na hora, o récépissé [documento provisório], com o direito de trabalhar. Aí, que alívio! Fiquei tão contente, nesse dia! Foi o melhor... foi o dia mais feliz! Assinei... Depois... Lógico, enquanto eu tava no período de turista. Mas, assim, foi o dia mais fe... Foi melhor do que o dia do PACS! Porque eu tava, sinceramente... [...] Aí, pronto, fiquei esperando pra receber a carta, pra fazer o exame médico, tudo que tem que ser. E pagar o selo, que é duzentos e vinte euros. [tom baixo de voz] Né? Fui paguei e pronto. Aí, recebi. Depois que eu paguei... Aí, não. Recebi o primeiro séjour [carteira de residente]. Isso foi em janeiro. Aí, fiquei janeiro... janeiro, é. Janeiro, fevereiro, março, abril. Em abril, terminava o primeiro séjour [carteira de residente]. É. Porque, de início, é aquele... o azulzinho, né? O récépissé [documento provisório]. Pronto. Aí, o récépissé [documento provisório]. “Se você num receber nenhum comunicado nesse período, você vem aqui, pra gente renovar, pra não perder a validade.” Aí, perdia no dia vinte e quatro. No dia vinte e um, eu recebi a carta. Era uma sexta- feira. Pra ir fazer exame médico. Aí, fui fazer exame médico, tudinho. Eles me deram o exame médico. Tudo ok. Aí, no dia vinte e quatro, era segunda. Aí, eu corri pra Prefeitura [Préfecture]. Quando eu corri pra Prefeitura [Préfecture], o meu sé... Aí, ela... Paguei o selo. Aí, ela me deu... renovou o sé... o récépissé [documento provisório], que valia até julho. E disse: “Quando a carta tiver pronta, você... é... vai receber uma convocação em casa.” Aí, eu recebi. Três semanas depois, eu recebi a carta me convocando pra ir lá. Aí, disse que eu não precisava nem fazer fila. Aí, cheguei, apresentei a carta. Aí, eles me deram a carterinha de um ano. Lá na auditora... auditrice... auditora, né? ...auditora lá do negócio de imigrantes, ela me disse que eu vou, durante cinco anos, renovar esse de um ano. É. Durante cinco anos. E, no quinto ano, eu posso pedir a nacionalidade. Isso, se o Sarkosy não mudar, né? [...] (Entrevista concedida por Nádia, p.2-37) 93 Capítulo 3: EM BUSCA DO ELDORADO Três são os perfis dos estudantes brasileiros na França propostos por Brito (1991). Do primeiro deles, “ceux qui viennent chercher un deuxième souffle” (“aqueles que vêm tomar fôlego”), fazem parte os professores das grandes universidades brasileiras liberados dos seus cargos para cumprir uma missão de estudos no exterior. Em contraposição, o segundo perfil, que a autora denomina “les parieurs” (“os apostadores”), agrupa aqueles para os quais a estadia na França não configura o desdobramento de um projeto consolidado de formação, mas uma oportunidade que não se pode deixar de aproveitar. Esse é o caso, por exemplo, das esposas dos professores universitários que aproveitam a estadia do marido para estudar, começando a traçar uma carreira acadêmica autônoma. Enfim, o terceiro perfil, “les oiseaux migratoires” (“os pássaros migratórios”), define-se antes pelo desejo de se afastar de um contexto problemático no Brasil que pela formação a ser desenvolvida na França, uma vez que a decisão de partir se trata tão somente de uma solução para uma situação de crise. Os estudos no exterior funcionam, então, como uma estratégia para migrar. 94 Os “brasileiros de Rennes” que entrevistamos, dentre os quais se encontra Nádia, muito se assemelham aos “oiseaux migratoires” de Brito (1991). Quando nos questionamos sobre os reais motivos que levaram esses indivíduos a mudar do Brasil para a França, concluímos que, de fato, é no ponto de partida e não no lugar de destino que devemos buscar uma resposta. E ela, na maioria absoluta dos casos, também se encontra em um contexto que os empurra para fora, na esteira de um quadro migratório internacional mais amplo. O que distingue uns e outros é apenas a estratégia utilizada ao longo do processo. Enquanto uma parte elege os estudos como caminho para a migração, os nossos entrevistados enxergam no casamento com um estrangeiro uma possibilidade de deixar a terra natal e ganhar o centro do mundo. [...] na origem da imigração encontramos a emigração, ato inicial do processo, [...] o que chamamos de imigração, e que tratamos como tal em um lugar e uma sociedade dados, é chamado, em outro lugar, em outra sociedade ou para outra sociedade, de emigração; como duas faces de uma mesma realidade, a emigração fica como a outra vertente da imigração, na qual se prolonga e sobrevive, e que continuará acompanhando enquanto o imigrante, como duplo do emigrante, não desaparecer ou não tiver sido definitivamente esquecido como tal […] (SAYAD , 1998, p.14). No que diz respeito ao imaginário, considerando a característica que melhor define tanto os “oiseaux migratoires” quanto os “brasileiros de Rennes” – o desejo de se afastar de um contexto problemático –, as entrevistas realizadas nos permitem compreender o imaginário de brasileiros sobre a França, na sua relação com a realidade vivida por eles no Brasil, lembrando que, como sustenta Boia (1998), o imaginário é uma realidade interna ou mental que dialoga com a realidade externa ou tangível, constituindo-a e sendo por ela constituída. As dificuldades financeiras cotidianas que assolavam os sujeitos no Brasil e os seus desdobramentos das mais diversas naturezas, somados às heranças de um passado colonial, terminam por desenhar no imaginário, conforme veremos ao longo do capítulo, uma França que carrega em si algo do velho mito do Eldorado: o país, juntamente, na verdade, com os demais países centrais, encarna um certo Brasil às avessas, engendrando o lugar da riqueza por excelência. Caminhamos, assim, na direção apontada por Hartog (1999). O autor defende que, quando Heródoto fala dos Citas, seu discurso não constitui uma pista para a reconstrução da história desse povo, mas uma fonte para a compreensão do imaginário grego. Ou seja, ao falar 95 do outro, é a si mesmo que ele revela. E isso nos leva a questionar quem é o outro. Boia (1998) concorda com Hartog (1999), ao esboçar uma definição. Segundo o autor, trata-se, geralmente, de uma pessoa ou de um grupo de pessoas observados através de um filtro, o imaginário de quem observa. Dos dois atores implicados no jogo da alteridade, conseqüentemente, quem dita as regras, ao contrário do que se poderia pensar, não é aquele que é observado, e sim aquele que observa e que encontra no outro um pretexto ou um álibe para alimentar os seus fantasmas e os seus projetos. Notem ainda que optamos por tentar abarcar o imaginário que envolve o Brasil e a França na contemporaneidade, através dos processos migratórios entre os dois países experimentados pelos entrevistados. Querendo atingir a realidade mental que é o imaginário, portanto, escolhemos, como realidade tangível, as trajetórias de vida, em especial, a parte dessas trajetórias que é marcada pela migração, pela eleição de um novo lugar para se viver em detrimento da terra natal. Trata-se, sem dúvida, de um caminho profícuo, se pensarmos que o imaginário sobre o outro pode funcionar como um importante elemento mediador do processo migratório, o que faz desse processo um meio de atingí-lo. Valendo lembrar que, de acordo com Boia (1998), realidade mental e realidade tangível, ou imaginário e, no caso, trajetórias de vida, compõem as duas facetas do real, e se constituem na relação que mantêm uma com a outra, sendo, portanto, capazes de se revelar mutuamente. Foram entrevistados oito “brasileiros de Rennes”: Adélia, Caio, Inácio, Irene, Kelly, Nádia, Paula e Sílvio. Será proposta, em seguida, uma leitura do imaginário contemporâneo de brasileiros sobre a França, tendo como ponto de partida esse conjunto de entrevistas. Nádia tinha trinta e cinco anos, em abril de 2004, quando conheceu o turista francês com quem passou a dividir a vida na França, cinco meses mais tarde. Era telefonista da Telemar, sendo que o seu salário equivalia a menos de dois salários mínimos, mais alguns prêmios eventuais. Mãe solteira, vivia com a mãe, que recebia como pensão outro salário mínimo, e com os dois filhos, uma de dezesseis e um de treze anos, em Olinda, sua cidade natal. A entrevistada apresenta muito francamente, ao longo da sua fala, as dificuldades financeiras que faziam parte da sua vida cotidiana no Brasil, bem como as restrições e os malabarismos que essas dificuldades lhe impunham. Por exemplo, uma das suas preocupações, no momento em que planejava viajar para Natal atrás do turista com quem passara uma noite, era a feira que precisava fazer antes de ir, problema que resolveu pedindo 96 um empréstimo a uma amiga. Além disso, vale dizer que ela não podia arcar com todas as despesas dessa viagem, mas somente com a passagem de ida, e isso porque havia ganhado vinte euros de presente (ou como pagamento) do francês. Contava com o “namorado”, que nem mesmo sabia da sua chegada, para o hotel, a alimentação e os passeios. E pensava em voltar para Olinda no ônibus de turismo alugado pelos estrangeiros. Nádia sentia fome, quando chegou na rodoviária de Recife para tomar a condução em direção à Natal, mas, por falta de dinheiro, contentou-se com um pouco de comida e uma garrafa de água mineral, o suficiente para agüentar o percurso. Tratou também de encontrar com quem dividir um táxi do ponto de chegada em Natal até o hotel onde os franceses se hospedavam, na tentativa de minimizar os gastos. A história de Nádia e do atual companheiro começa em fevereiro de 2004, quando uma amiga lhe anuncia a chegada de um grupo de turistas franceses. A entrevistada insiste em buscar na força do destino uma explicação para o que viria a acontecer, a partir de então, até setembro de 2004, data da sua migração para a França. “Eu disse: ‘é porque tinha que ser!’” (Entrevista concedida por Nádia, p.10) Não questionamos de forma alguma os seus sentimentos pelo companheiro, mas sabemos que mesmo o amor está longe de ser obra do acaso. Conforme alerta Girard (1974), ninguém se casa com qualquer um. Na vida de Nádia, entre fevereiro e setembro de 2004, o que vemos se desenrolar é um projeto, o de se casar com um estrangeiro e, assim, deixar para trás uma vida difícil. A entrevistada é, antes de tudo, na nossa opinião, senhora do seu destino. A questão que se coloca, inicialmente, é a escolha de um par, em meio ao grupo de turistas. Escolhido o francês, era preciso seduzí-lo. Em seguida, o encontro sexual fortuito devia ser transformado em uma relação amorosa. Restava, enfim, oficializar a união. Para tanto, Nádia não mediu esforços. Basta dizer que, além de tomar toda a iniciativa no flerte, ela foi capaz de um verdadeiro trabalho de detetive para descobrir em que hotel seu “gringo” estava hospedado em Natal, última cidade brasileira por ele visitada, e, depois de toda uma história para conseguir uma licença médica e os recursos necessários, ir ao seu encontro sem prevení-lo. Também se desdobrou para financiar uma viagem para a Europa, abrindo mão do emprego de telefonista, deixando no Brasil os dois filhos adolescentes e a mãe idosa. Sem falar que a entrevistada permaneceu em situação ilegal na França, entre setembro de 2004, data da sua chegada no país, e outubro de 2005, data da conclusão do PACS, aguardando que seu companheiro se decidisse pelo casamento, ou melhor, ganhando meios para poder negociar com ele a oficialização da união. E foi obra dela, sobretudo, a alimentação do laço 97 frágil estabelecido com o estrangeiro, pois foi quem cuidou de iniciar o contato pela internet, encontrando uma saída para o retorno do primeiro correio eletrônico, foi quem investiu em ligações telefônicas internacionais, apesar dos seus custos elevados não combinarem com um orçamento reduzido. Não é por acaso que Nádia se agarrou ao turista francês, como se ele fosse, por assim dizer, a sua tábua de salvação. O estrangeiro representava para ela uma possibilidade, diante das dificuldades enfrentadas no Brasil. Uma possibilidade de “mudar de vida”, segundo as palavras da própria entrevistada. Ele encarnava, ao mesmo tempo, uma porta de saída, uma porta de entrada e uma ponte, permitindo o acesso a um outro mundo, que nada tinha, em princípio, daquela dura realidade cotidiana. E era essencialmente isso, aliado, é claro, às características físicas, que lhe conferiam ares de príncipe encantado, de bom partido, ou, em outros termos, que lhe valorizava no mercado matrimonial, provocando uma paixão das mais avassaladoras. Nesse sentido, algumas falas de Nádia, pinçadas aqui e ali, são preciosas, o que nos leva a retomá-las. Eu joguei uma conversa que eu queria mudar de vida. Que chegou o momento, que meus filhos já estavam grandes, que eu queria jogar... morar na Europa. (Entrevista concedida por Nádia, p.23) A gente... a gente é brasileira, a gente viveu, a gente sabe como é a vida no Brasil. [...] Eu tenho uma vida, sabe? Legal. Consegui. Desde que eu cheguei aqui [...]. (p.27) Depois que eu cheguei aqui, [...] e comecei a conhecer as coisas, eu fiquei decidida: “Eu quero ficar aqui. Se não der certo com ele, eu vou tentar de outra forma.” (p.31) Mas eu disse: “[...] Se não der certo com ele; aí, se ele disser não, eu não te quero, não vai dar certo; aí, sim, eu vou tentar um... [mariage blanc; casamento de fachada].” (p.32) “Aí, a mulher me deu na hora. A segunda senhora. [...] Me deu na hora o récépissé [documento provisório] com direito de trabalhar. [...] Fiquei tão contente, nesse dia! Foi o melhor... foi o dia mais feliz! [...] Foi melhor que o dia do PACS!” (p.36-37) Mas, afinal, que outro mundo é esse ao qual o turista francês dá acesso? Quando perguntamos à Nádia, quais as suas primeiras impressões da França, ao chegar no país, ela nos respondeu: 98 [...] realmente, uma coisa que me chocou, [...] aqui, foi os SDF [moradores de rua]. Eu não imaginava que, na França, tinha mendigos na rua, como tem no Brasil, sabe? É uma coisa que me chocou. [...] Porque, para mim, Primeiro Mundo, Europa, era tudo perfeito. Não tinha falha, entendeu? É como passa na télé [TV]. [...] Mas, quando eu vi... eu subi na Place Sante Anne [Praça Sant’Ana], que eu vi aqueles SDF [moradores de rua], eu... eu... me chocou muito. Me chocou muito, porque eu não esperava de encontrar. [...] Então... é... eu pensava o quê? Que, chegando aqui na França, eu não ia ver mendigo na rua, sabe? Eu não ia ver gente catando lixo, sabe? Que não existia... A miséria que eu era acostumada a ver no Brasil, que eu não ia encontrar aqui. (Entrevista concedia por Nádia, p.38- 40) O outro mundo ao qual o turista francês dá acesso não é simplesmente a França, país de onde é originário. São os países centrais, que englobam a França, e são concebidos em contraposição ao Brasil, mais especificamente aquele Brasil da entrevistada. Silva e Blanchette (2005) criticam as análises maniqueístas elaboradas acerca do turismo sexual, análises essas que atribuem um papel de vilão ao turista estrangeiro e um papel de vítima à brasileira envolvidos na trama, negando às mulheres um lugar ativo na construção dos seus destinos, impossibilitando a visão da multiplicidade de homens que a categoria turista sexual encerra e terminando por ocultar os nexos entre turismo internacional, sexo e migração que operam no Brasil28. Tomando como ponto de partida uma pesquisa etnográfica realizada na Help, casa noturna de Copacabana que faz parte do roteiro do turista em busca de sexo no Rio de Janeiro, os dois estudiosos ampliam o debate sobre o turismo sexual, ao observar como as viagens e mesmo as mudanças para o exterior para se prostituir, namorar ou casar fazem parte da vida cotidiana das profissionais do sexo que trabalham no estabelecimento, e ao desvelar como as meninas envolvidas nesses deslocamentos compartilham com o parceiro a autoria de suas histórias e não são simplesmente vítimas indefesas ou seres passivos traficados. Na verdade, o casamento misto é utilizado como estratégia para migrar pelas freqüentadoras da Help, conforme Silva e Blanchette (2005). Isso porque, em um momento em que as fronteiras entre os países se tornam cada vez mais difíceis de serem transpostas, especialmente para os pobres, o marido estrangeiro emerge, para elas, não somente como uma 28 “No plano do senso comum, o turismo sexual é sinômino do comportamento normativo dos turistas estrangeiros que freqüentam as metrópoles costeiras brasileiras. De acordo com esta noção, turista sexual é aquele que busca parceiras nas praias do Brasil, seja qual for a qualificação legal e/ou social de tal busca. É mister salientar que a concepção popular é preferencialmente aplicada àqueles estrangeiros que alugam os serviços de prostitutas. Todavia, seu uso pode ser expandido para contemplar qualquer estrangeiro.” – In: SILVA; BLANCHETTE, 2005, p.253. 99 possibilidade de sair do mercado do sexo, mas também de atingir a Europa ou os Estados Unidos, onde, caso o relacionamento fracasse, pensam que poderão, ao menos, ganhar mais pelos programas. Longe de ocupar o lugar que muitas pesquisas sobre a temática teimam em lhes atribuir, essas mulheres cultivam, então, essas relações com “gringos”, lançando mão de artimanhas que visam, em última instância, a mobilidade internacional e a ascensão social. Escutemos uma conversa travada por um dos antropólogos com uma prostituta e uma funcionária da Help, ao longo do desenvolvimento da pesquisa de campo: [Funcionária:] Você está ótima! Nem parece que está grávida. [...] [Silva:] Nossa! Você está grávida? [Prostituta:] Sim [...]. Demorei seis meses para pegar aquele americano, mas finalmente consegui. Agora estou esperando ele voltar para os Estados Unidos para eu ir embora junto. [Silva:] Mas ele sabe que o filho é dele? Ele vai assumir? [Prostituta:] Lógico! Ele não é nem besta de não assumir. Estou cuidando muito bem do meu americanozinho aqui (alisando a barriga) e vou para os Estados Unidos me casar com o pai dele. [Funcionária:] Cuida mesmo, porque você teve uma sorte de ouro (SILVA; BLANCHETTE, 2005, p.271). E o casamento misto, vale dizer, não é uma estratégia para migrar utilizada apenas pelas profissionais do sexo. Meihy (2004), por exemplo, apresenta a história complicada de uma migrante brasileira radicada em Nova Iorque, sendo que, também nesse caso, como veremos através do excerto da entrevista em que ela conta como se deu a sua mudança para os Estados Unidos, o estrangeiro funcionou como um passaporte para o centro do mundo. A firma foi crescendo e começou a ter contatos mais importantes e até com firmas internacionais... De vez em quando, aparecia um gringo por lá e foi assim que conheci o Mike, um americano que trabalha para uma firma daqui dos Estados Unidos... logo comecei a flertar com ele e acompanhar o cara para baixo e para cima... ele queria alguém para falar português, para praticar, e eu logo pensei: é a minha chance... vou em frente... Fui... o cara ficou ligado em mim e me tratava diferente do resto dos homens brasileiros... Mesmo na firma, comecei a notar que as pessoas começaram a me tratar melhor, pois era vista como uma “namoradinha brasileira” do gringo... o interessante é que nessa época eu estava namorando o Aldo, um cara do time dos pobres, e as coisas iam indo até que bem... ele falava em casar e tudo mais... E eu? Eu queria mais é o americano, que não era feio, era rico e estava a fim de mim... Terminei com o Aldo [...]. 100 Ainda em BH, com o gringo, tudo era bom e eu achava que ia dar certo porque ele gostava de mim – eu achava, né? –, me dava presentes, levava para pizzaria, cinema, motel e tudo mais. “Tô arrumada”, pensei. Foram três meses de muita alegria depois que deixei o Aldo e fiquei só com o Mike. Mudei do apartamento que morava para o hotel dele e vivia uma vida de casada... de casada rica e moderna. Logo ele falou em vir para os Estados Unidos e me levar... era a glória. Imagine, eu pobrona, que nunca tinha saído de Minas, ir, casada, para os Estados Unidos... Mais ou menos casada, né?, porque ele dizia ser separado, com duas filhas... mas isso nem importava. Eu ia para os Estados Unidos: só pensava nisso... Mike parecia apaixonado e até eu estava um pouco balançada por ele... esqueci rapidinho o Aldo... O visto não foi problema porque a firma declarou que eu vinha a trabalho, e o Mike arranjou tudo. Pagou passagem, comprei umas roupinhas melhores e tive até festinha de despedida. “Coisa fina”, achava: festa no escritório, festa com as amigas... e lá vinha eu “pros States”. “Eta mineirinha de sorte”, pensava eu... (MEIHY, 2004, p.197-198). Retomando a análise, embora Silva e Blanchette (2005) coloquem em questão, por um lado, a equação vítima e vilão; eles reiteram, por outro, um aspecto apontado pela maioria das análises acerca do turismo sexual, afirmando que, na base do fenômeno, encontram-se desigualdades estruturais sobrepostas, entre os sexos, entre uma feminilidade brasileira concebida como mulata exótica e sexy e uma masculinidade estrangeira vista como branca e rica, e entre os países periféricos e centrais. Iremos nos ater, por hora, à última das desigualdades apontadas pelos autores, que, no fundo, engloba a penúltima. Seja para os turistas que visitam o Rio de Janeiro em busca de sexo, para os estrangeiros residentes na cidade ou para os “nativos”, o que inclui as meninas da Help, a capital carioca, segundo Silva e Blanchette (2005), não escapa de uma certa ordem mundial, fazendo sentido somente enquanto um pastiche do lugar de onde saem todos aqueles “gringos”. É isso, sobretudo, que explica porque alguns estrangeiros são tidos pelas brasileiras como sendo extremamente atraentes. Afinal, eles são originários dos países centrais, em relação aos quais o Brasil não passa de uma cópia mal feita. Trata-se do “aqui dentro” e do “lá fora” de que nos fala DaMatta (2005, p.57): “[...] o ‘lá fora’ é o local onde tudo de bom acontece [...]; ao passo que o ‘aqui dentro’ é o centro desinteressante de rotinas e práticas primitivas, atrasadas ou, como se dizia no meu tempo de estudante universitário, ‘subdesenvolvidas’”. E observem que, assim como propõe Chauí (2000), ao falar da nossa identidade nacional incompleta e lacunar, a primeira dessas categorias (“aqui dentro”) opera com a falta, a privação e o desvio, fazendo sentido somente enquanto uma aproximação imperfeita e inacabada da segunda (“lá fora”), que trabalha, por 101 sua vez, com o pleno ou com o completo. Para DaMatta (2005), esse seria um contraste decisivo do nosso elaborado universo espacial, sendo que ele envolve realidades, fantasias e percepções. Conforme afirmamos anteriormente, não questionamos os sentimentos de Nádia pelo companheiro, tampouco o dos demais “brasileiros de Rennes” entrevistados, mas sabemos que mesmo o amor está longe de ser obra do acaso. Tal afirmativa merece ao menos uma rápida incursão pelas discussões sociológicas sobre o amor e a constituição dos casais. Girard (1974) insiste que ninguém se casa com qualquer um. Houve uma época em que o casamento estava ligado aos bens, ao dote, ao nome e mesmo à propriedade da terra, possuindo um papel essencial na reprodução das estruturas sociais e na manutenção das hierarquias, dos poderes e das fortunas. Os tempos mudaram e, a partir do século XIX, no Ocidente, são os sentimentos que estão em jogo na escolha de um marido ou de uma esposa. No senso comum, o destino ou o acaso promovem o encontro de um casal, nessa nova realidade. E a mágica desse encontro, a paixão que ele desencadeia, levam duas pessoas para o altar. Entretanto, segundo o autor, sob a aparência de uma liberdade total, mora uma multiplicidade de fatores que determinam as combinações possíveis entre os indivíduos, dessacralizando, assim, todas as justificativas que costumam povoar as cabeças (ou os corações) dos enamorados. Os dados estatísticos analisados indicam muito claramente que um indivíduo, independente da sua posição social, tende a se casar com um dos seus pares, e, quando foge à regra, com alguém pertencente a uma classe próxima à sua. Um forte determinismo parece continuar a escrever, então, as histórias de amor. Nessa perspectiva, uma pessoa procura identificar na outra, de acordo com Girard (1974), os signos de uma pertença de classe, na tentativa de defender os seus interesses sociais no momento da conquista. E, ao mesmo tempo, mobilizar “todas as suas armas”, como diz Nádia em sua entrevista. Por isso, os sociólogos falam em um mercado de matrimônios. O capital feminino mais valorizado nesse mercado, para o autor, é o físico e o caráter, enquanto o masculino é a excelência social. Um casamento, por sua vez, torna-se possível pela junção de um mesmo nível de capital feminino e masculino. O que explica até mesmo as uniões entre pessoas provenientes de classes distintas, considerando que tudo depende da soma dos capitais trocados serem considerados equivalentes por quem efetiva a transação. Mas tudo isso se passa desapercebidamente, inclusive para os sujeitos envolvidos, na opinião de Girard (1974). As formas de sociabilização e de sociabilidade conduzem mulheres 102 e homens em direção aos seus “destinos” amorosos, pois a pertença social não só ensina hábitos e gostos semelhantes, como também aproxima aqueles que os possui, promovendo afinidades espontâneas que são vividas como simpatia. Embora peculiares, as história de Caio, de Inácio, de Irene, de Kelly, de Paula e de Sílvio, ou seja, dos demais “brasileiros de Rennes” que entrevistamos exceto Adélia29, recontam, em grande medida, a história de Nádia e de tantos outros brasileiros. Todas elas são casos de migração econômica mediados por um casamento misto. Pertencentes às camadas populares ou às camadas médias, esses brasileiros vivenciavam, no momento anterior à migração, situações pouco ou nada confortáveis do ponto de vista da manutenção do lugar que ocupavam na pirâmide social. O romance com o(a) estrangeiro(a) funcionou, então, como uma possível escapatória. E, quanto mais complicado o contexto vivenciado pelo entrevistado, mais desesperadamente ele se agarrou ao projeto de se casar com um(a) estrangeiro(a) e, dessa maneira, migrar para um país central ou ser autorizado a nele permanecer. Na França de Nádia, não havia espaço para mendigos, para pessoas que catam lixo na rua, para a miséria, enfim, para as mazelas sociais que lhe assombravam cotidianamente no Brasil. O outro é reduzido ao mesmo; o mesmo se revela no outro. Em 29 Adélia conheceu o marido, enquanto estudava na França. Professora de francês no Brasil, havia solicitado ao MAE uma bolsa para prosseguir seus estudos no país e obtido uma resposta positiva. A entrevistada parecia destinada a ser professora universitária, entretanto, em função do casamento, abandonou a bolsa de estudos, bem como a vida profissional, e retornou ao Brasil, para onde seu marido pediu para ser enviado em missão de trabalho. Eles só vieram a se estabelecer na França, anos mais tarde, e, mesmo assim, não de forma definitiva. O que parece explicar a trajetória de Adélia não é a mesma lógica que explica as demais, mas sim certa condição feminina que ainda encontra algum eco na sua geração. Vejamos alguns excertos da entrevista: “[...] e eu pleitei para... para... uma bolsa na França. E obtive a bolsa. Então, eu vim para Bensançon. Normalmente, eu vinha para dois anos. Era uma bolsa, para fazer a licenciatura, e, depois, fazer uma maîtrise. Só que, quando eu cheguei em Bensançon, eu conheci Fernand, alguns meses depois. Em janeiro. Eu cheguei em outubro. Eu conheci janeiro... Fernand, em janeiro. E, finalmente, eu deixei a minha bolsa para lá. Eu fiz só um ano de bolsa, e deixei a bolsa para lá. E Fernand conseguiu um trabalho, em Recife. E foi por isso que eu deixei a bolsa, e voltei para Recife.” (Entrevista concedida por Adélia, p.5); “E, quando terminou o sexto ano... Fernand só podia ficar seis anos. Que eram contratos de dois anos, renováveis a cada... uma... duas vezes. Aí, ele pediu uma prorrogação por mais um ano, e ele conseguiu do Ministério a prorrogação. Então, na verdade, nós ficamos sete anos em Recife.” (p.10); “A gente foi para... para Bolívia, para La Paz. Fernand foi nomeado. E, lá, o sistema era o mesmo. Ele ficava... Ele ficou três contratos de dois anos. Então, ficamos seis anos.” (p.11); “Aí... aí, nesse caso, Fernand tinha que voltar, porque já fazia dois anos... doze anos, mais de doze anos, que ele estava fora do país, e... e o Ministério... é... é... exige que... que os funcionários voltem depois de dois anos... doze anos, que fique um certo tempo antes de repartir, antes de voltar ao estrangeiro.” (p.12); “Foi mais Fernand do que eu. Ele inventou que a gente tinha que estudar. Aí, eu me inscrevi na Universidade. [risos]” (p.13); “Depois, a gente... Fernand foi nomeado para a Colômbia. Aí, lá vai a gente, outra vez, com as bagagens. [risos]” (p.16); “Lá, eu não consegui trabalhar. Porque, para dar aulas de português, como Bogotá é uma cidade muito grande, era... era muito complicado os ho... Eu... eu teria que trabalhar à noite. Era aonde tinha mais aulas. Então, eu não trabalhei. Porque, primeiro, eu já levava muito tempo para chegar até o local de trabalho. Depois, era a hora que o Fernand e as crianças chegavam. Então, eles iam ficar o dia fora, e eu ficava a noite fora. [risos] Então, eu achei que não valia à pena trabalhar.” (p.16); “Porque o meu marido... [risos] ...se aposentou, e tem um monte de projetos no Brasil. Projetos com associação. Ele já trabalha aqui com as associações. Ele fez estudos nesse setor associativo. Então, ele quer ir para o Brasil, e... Bom, e a gente sempre pensou também que, quando ele se aposentasse, a gente iria para o Brasil, entende?” (p.23). 103 geral, os “brasileiros de Rennes” entrevistados projetavam na França o seu próprio Brasil às avessas, no momento da partida. Tratava-se, para eles, de algo como um Eldorado dos tempos globalizados. Realidade vivida no Brasil e França imaginária (que não é menos real, mas apenas faz parte de uma faceta da realidade que é interna) caminham, portanto, de mãos dadas, indissociáveis. Caio é negro, o que, no Brasil, costuma ser indício de uma determinada pertença social. Sua mãe é nordestina, originária do interior do Estado do Maranhão, tendo migrado para o Rio de Janeiro, seguramente, em busca de melhores condições de vida. Sua trajetória escolar parece ser a mais longa da família. No Brasil, chegou a começar a faculdade de letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Na França, concluiu um curso técnico de nível superior em turismo. Tudo indica que foi através da escola, em um primeiro momento, e do casamento com o francês, em um segundo, que o entrevistado ascendeu socialmente. Quando conheceu Albert, no Reveillon do Milênio, no Rio de Janeiro, sua cidade natal, devia se equilibrar nos estratos mais baixos das camadas médias, vivenciando uma situação tão complicada quanto a de Nádia, no momento que antecedeu sua migração para a França. Ora professor de português ou de espanhol (com curso superior incompleto), ora vendedor em uma empresa de turismo, ora costureiro, ora organizador de festas, ou seja, sem uma profissão fixa ou uma ocupação que lhe garantisse uma renda considerável, era, sem dúvida, com muitas dificuldades que conseguia viver na zona sul da capital fluminense. Quatro meses depois do encontro com o “gringo”, em abril de 2000, Caio, que no momento de realização da entrevista tinha vinte e nove anos, desembarcava na França. Em princípio, deveria passar somente um mês com o namorado, mas foi prolongando a estadia, tendo retornado ao Brasil apenas duas vezes, desde então. É preciso dizer ainda que esse é o seu segundo relacionamento com um estrangeiro, pois morou com um suíço na Suiça30, e que a sua irmã31, mais recentemente, também se casou com um francês e vive em Rennes. 30 Quando trabalhava em uma agência de turismo, Caio parece ter ganhado ou comprado por um preço reduzido ou com condições de pagamento especiais um bilhete aéreo para viajar para a Suíça, onde vivia um amigo que também havia migrado em função de um casamento misto. Ao longo do curto período que devia permanecer no país em férias, o entrevistado iniciou um relacionamento com um suíço, o que o levou a desistir da volta para o Brasil. Pouco tempo depois, esse homem com quem se envolveu, tomado de ciúmes e medo de que ele o deixasse, teria se apropriado do seu passaporte, mantendo-o trancafiado em casa. Somente seis meses depois, no momento em que acompanhava o parceiro em uma missão de trabalho nos Estados Unidos, Caio teria conseguido se libertar dessa situação e embarcar para o Rio de Janeiro. 31 Aparentemente, a irmã de Caio, ciente da nova vida que a união com um francês lhe proporcionava, resolveu procurar por homens de Rennes na internet. Foi assim que conheceu o seu primeiro namorado francês e terminou se mudando para a cidade, deixando, no Rio de Janeiro, as duas filhas pequenas e a mãe. Tendo esse 104 Também Inácio é negro. Sua mãe era lavadeira; seu pai trabalhava como operário na Siderúrgica Belgo Mineira; seu irmão é diretor de teatro. Nasceu em Sabará, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, mas, quando conheceu a francesa com quem veio a se casar, o entrevistado, que é bailarino profissional, morava em Salvador. Migrou para a França, em 1990, quando tinha trinta e seis anos, porque sua companheira engravidou e se recusava a dar a luz no Brasil. Estabeleceu-se, primeiramente, em Paris, tendo se mudado para Rennes, um ano mais tarde. Conseguiu sua carta de residente com validade de dez anos, ao chegar no país, e, desde então, nunca pensou em voltar para casa, a não ser a passeio, o que faz com alguma regularidade. Nem mesmo quando se divorciou da esposa, cogitou tal alternativa, isso porque acredita que, no Brasil, não poderia ter a mesma condição sócio-econômica que possui na França. No momento de realização da entrevista, dirigia a Companhia de Dança Ochossi (sic) e presidia o Collectif Brésil. Já Sílvio, que tem quarenta e dois anos, nasceu no Vale do Jequitinhonha, região mais pobre do Estado de Minas Gerais. Começou a viajar pelo Brasil, para fugir do exército, que não o dispensou do serviço militar. Vivia das temporadas de verão, nos balneários turísticos do litoral do país. Quando conheceu a esposa francesa, estava em Porto Seguro. O entrevistado migrou para a França, em 1996, também porque sua mulher engravidou e tinha muito receio em dar a luz no Brasil, sendo que nunca mais voltou ao país. É propriétario e cozinheiro do Hot Brasil. Vale dizer que, enquanto Nádia se coloca como sendo senhora do seu destino, Inácio e Sílvio, tal como estruturam seus relatos, parecem ter encontrado, por acaso, uma espécie de bilhete premiado da loteria: a francesa que engravida e decide ter o filho na França. O significado que eles atribuem à sorte, entretanto, é exatamente o mesmo que a entrevistada atribui ao seu projeto. Paula, que é originária de Belo Horizonte, tem o mais alto nível de escolaridade do grupo. Ela é bailarina graduada em dança pela Universidade de Campinas (UNICAMP). Concluída a universidade, fazia planos de migrar para os Estados Unidos, sendo que sempre pensou em trabalhar fora do Brasil. Por intermédio de Inácio, terminou escolhendo Rennes como destino, em 1994, quando tinha vinte e quatro anos. Matriculou-se, inicialmente, na universidade, para viabilizar a permanência na França. Logo em seguida, engravidou de um francês e se casou com ele, o que veio a legalizar sua situação como imigrante permanente. relacionamento naufragado, tratou de encontrar um outro “candidato à marido estrangeiro”, com o qual vive atualmente. 105 Notem que é no momento de inserção no mercado de trabalho, um período delicado para os jovens, ainda mais quando se trata do meio artístico, que Paula migra. Diferentemente dos outros, além disso, a entrevistada afirma que a idéia da migração antecede o casamento com um estrangeiro. Ela dirige uma companhia de dança contemporânea, desenvolvendo trabalhos também no Brasil, o que a trás ao país uma vez por ano. Foi localizado um certo número de casamentos mistos envolvendo pessoas da mesma família. Na verdade, uma vez que um membro da família se casa com um estrangeiro e transforma a sua vida de forma positiva, sua trajetória parece se transformar em exemplo para os demais, e, porque não dizer, em estratégia de ascensão social do grupo. Além disso, possuir um parente no exterior parece facilitar o casamento de uma pessoa com um estrangeiro, na medida em que pode lhe proporcionar viagens internacionais antes impensáveis, na grande maioria das vezes financiadas por quem mora fora, e lhe garantir uma inserção social para além das fronteiras. Vejamos a história de Irene, que é artista plástica e, no momento de realização da entrevista, tinha sessenta e dois anos. Mãe de Paula, esteve na França pela primeira vez para acompanhar o nascimento da neta mais velha. Conheceu, nessa ocasião, um francês com quem acabou se casando. O casal se estabeleceu em Tiradentes, cidade histórica mineira, onde a entrevistada trabalhava com artes plásticas e projetos sociais. Em 2000, quando estavam de passagem por Rennes, Irene e o marido se separaram. Apesar da separação, sem falar francês e doente, ela optou por permanecer na França, onde conta com a assistência do governo francês, o que lhe permite, inclusive, viajar todos os anos para o Brasil. A história da família de Kelly também pode ser utilizada como exemplo. A entrevistada nasceu em 1983, em São Luís do Maranhão. Mudou-se para a França, em 2004, juntamente com o irmão mais novo, através de um processo de reagrupamento familiar, e não mais retornou ao Brasil. Sua mãe tinha se casado com um francês, em 2002, e residia, desde então, nas proximidades de Rennes. Atualmente, Kelly é estudante de um liceu profissional e prepara um diploma técnico de primeiro grau. Já sua mãe é faxineira em uma escola. Vale dizer que uma das suas tias é casada com um francês e outra é casada com um suíço. Sendo que foi a primeira delas que apresentou o padrasto, um amigo solteirão do marido, a sua mãe, quando ela foi lhe visitar. Pelo que foi possível perceber ao longo do desenvolvimento da pesquisa, o processo de migração econômica de brasileiros para a França mediado por um casamento misto parece 106 ser marcado por uma série de traços. Grande parte deles perpassa as histórias de Caio, Inácio, Irene, Kelly, Nádia, Paula e Sílvio, a saber: 1. o casal é composto, na maioria das vezes, por uma brasileira e um francês; 2. o(a) brasileiro(a) que compõe o casal costuma possuir traços físicos que indicam uma origem africana ou indígena; 3. os membros do casal se conhecem, em geral, quando o(a) francês(a) viaja pelo Brasil ou reside no país, ou quando o(a) brasileiro(a) vai visitar um membro da sua família na França que é casado com um(a) francês(a) que conheceu no Brasil; 4. como os membros do casal geralmente não falam uma mesma língua no momento em que se conhecem, o primeiro contato é basicamente sexual; 5. poucos meses costumam separar o primeiro encontro do casal da migração do(a) brasileiro(a) para a França; 6. como nem sempre a oficialização da união acontece concomitantemente ao processo migratório, é relativamente comum que o(a) brasileiro(a) permaneça ilegal na França por um certo período; 7. o(a) brasileiro(a) que se casa não tem problemas graves de adaptação na França, na maioria dos casos, haja visto que passa a usufruir de melhores condições de vida que aquelas que usufruia anteriormente no Brasil; 8. no momento que antecede a migração, o(a) brasileiro(a) vive uma situação complicada no Brasil que o impulsiona a partir; 9. o casamento com o(a) francês(a) e a migração para a França são significados como uma solução para os problemas vividos no Brasil; 10. a França emerge no imaginário, em contraposição a realidade vivida no Brasil, sendo associada com os países centrais; 11. mesmo que o casal venha a se divorciar, que o membro francês faleça ou que o processo de migração seja extremamente problemático, o(a) brasileiro(a) tende a permanecer na França; 107 12. muitas das brasileiras que se casam com franceses se encontram fora do mercado matrimonial brasileiro, no momento em que ocorre o casamento, seja pela idade mais avançada ou pelo fato de possuírem filhos de outros relacionamentos; 13. no mercado matrimonial francês, o que agrega valor às brasileiras que se casam com franceses é a imagem da brasileira, imagem essa que povoa o imaginário francês e encontra eco no Brasil, junto, inclusive, às próprias “brasileiras casadouras”; 14. se a brasileira que casa com um francês tem filhos de outros relacionamentos, eles migram para a França, algum tempo depois da mãe, através de um processo de reagrupamento familiar, ou permanecem no Brasil, usufruindo da nova situação de vida da mãe. Les raisons de partir sont multiples, politiques, économiques, culturelles. Le choix de la France répond à une attraction liée à une longue histoire entre les pays, une proximité géographique, une fuite dans l’urgence, un choix de liberté, [la chance d’avoir un conjoint français,] et surtout l’opportunité d’y trouver du travail. Ainsi, émigrer est un phénomène dont les facteurs dépassent l’individu mais qui cependant se vit à l’échelle individuelle (REPÈRES, s.d., p.3)32. O Brasil deixa de ser um país de imigração e passa a ser um país de emigração, ao longo do século XX. Ou seja, se, desde o início da colonização portuguesa até meados do século passado, o país se definia, em termos de movimento populacional, essencialmente como terra de acolhida, para pessoas vindas da Europa, mas também da África e da Ásia, a partir das décadas de 1980 e 1990, o país começa a se destacar como um ponto de partida: um grande número de brasileiros tem seguido em direção aos Estados Unidos e ao Canadá, à Europa Ocidental, ao Japão e à Austrália33. 32 As razões da partida são variadas; políticas, econômicas, culturais. A escolha da França responde a uma atração ligada a uma longa história entre os países, uma proximidade geográfica, uma fuga urgente, uma escolha de liberdade, [a sorte de ter um cônjuge francês,] e, sobretudo, a possibilidade de encontrar trabalho por lá. Assim, emigrar é um fenômeno causado por fatores que ultrapassam o indivíduo, mas que, no entanto, é vivido em escala individual (Tradução nossa). 33 Segundo Patarra e Baeninger (1995, p.78), três seriam os tipos de movimentos populacionais internacionais que envolvem o Brasil na contemporaneidade: “aqueles voltados para a extensão de uma área agrícola fronteiriça (caso dos brasiguaios), um outro que corresponde à saída de brasileiros para o exterior, principalmente para os Estados Unidos e Japão (ligados à uma mobilidade social truncada no país de origem), e, o último, referente à chegada de imigrantes coreanos e de mão-de-obra semi-clandestina de determinados grupos étnicos na Região Metropolitana de São Paulo.” Não estamos negando a existência desses outros dois fluxos migratórios mencionados pelas autoras, mas apenas nos centrando no principal deles. 108 Uma série de acontecimentos, que se desenrolaram ao longo da primeira metade do século XX, abalaram o fluxo migratório em direção às Américas, marcado pelas grandes levas de imigrantes, no final do século XIX e início do século XX, fazendo com que o número de estrangeiros, em especial de europeus, que desembarcavam no Brasil despencasse de quase um milhão e duzentos mil, entre 1890 e 1899, para pouco mais de cento e dez mil, entre 1940 e 1949. Tais acontecimentos são a Primeira Grande Guerra (1914-1918), a Crise de 1929, a Grande Depressão da década de 1930 e a Segunda Grande Guerra (1939-1945). Isso porque, por um lado, a crise política e econômica tornava o cenário mundial pouco propício para as migrações internacionais, e, por outro, com a decorrente baixa das taxas de natalidade, não existia um excedente demográfico para alimentar as levas migratórias (BASSANEZI, 1995; BRITO, 1995; KLEIN, 1999; PATARRA; BAENINGER, 1995). Embora o Brasil tenha intensificado seu processo de industrialização, após a Revolução de 1930, ou seja, em meio à diminuição do fluxo migratório, começando, assim, a substituir as importações por produtos nacionais, a necessidade de mão-de-obra gerada por esse processo foi suprida principalmente pelas migrações internas, que começaram a ganhar força no período. O crescimento populacional do país gerava braços suficientes para alimentar a sua expansão econômica e as exigências dele provenientes. Com as vias e os meios de transporte melhor estruturados e o barateamento dos custos de deslocamento, as pessoas podiam migrar com facilidade de uma região para outra do país (BRITO, 1995). O desenvolvimento da economia experimentado pelos países centrais, após a Segunda Grande Guerra, determinou uma inversão nas rotas de migração. Se, antes, elas partiam do centro em direção à periferia do capitalismo, a partir de então, é da periferia para o centro que elas vão se encaminhar. Em um primeiro momento, foram fluxos de curta distância que se estabeleceram, entre o México e os Estados Unidos ou entre Portugal e a França, por exemplo. Posteriormente, surgiram fluxos de longa distância entre ex-colônias e suas antigas metrópoles, como entre o Vietnã e a França ou entre Moçambique e Portugal. Nos anos 1970, esses fluxos migratórios, que interligam países periféricos e países centrais, intensificaram-se enormemente, fazendo com que a década funcionasse como uma espécie de divisor de águas. As origens dessa transformação se encontram em uma dependência do trabalho estrangeiro gerada pela expansão econômica. Como a população ativa dos países centrais não crescia suficientemente para atender às necessidades de mão-de-obra do mercado, cabia aos imigrantes os empregos menos valorizados socialmente (BRITO, 1995). 109 O Brasil permaneceu distante desse processo, até a década de 1980, conhecida como década perdida. Os Governos Sarney (1985-1989) e Collor (1990-1992) foram marcados por uma grave crise econômica e por uma sucessão de medidas frustradas, que tinham como objetivo a estabilização da economia sem perder de vista a globalização e o pagamento da dívida externa (Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor I e Plano Collor II). Encurralados entre uma inflação galopante, altos índices de desemprego, baixos salários, a perda de poder aquisitivo e a decorrente generalização da miséria, perdidos em meio à quantidade de planos econômicos e desiludidos com os seus resultados, os brasileiros começaram, então, a engrossar as filas de migrantes que deixavam suas terras natais e ganhavam o centro do mundo. Na verdade, a migração se tornou, para muitos, a única possibilidade de ascensão social. Foi em meados dos anos 1980 que os “brasucas” começaram a invadir Nova Iorque, cidade que abriga a maior comunidade brasileira no exterior. Também data dos anos 1980, o início da chegada da primeira onda de imigrantes brasileiros em Portugal, país que acolhe a nossa maior comunidade na Europa (BÓGUS, 1995; BRITO, 1995; FAUSTO, 2007; MARGOLIS, 1994; MEIHY, 2004; VITÓRIO, 2007). A migração de brasileiros para Rennes, que não por acaso começou nesse período histórico, não constitui, então, um fenômeno isolado. Ela se encaixa, ao contrário, em um processo mais amplo, no qual pessoas oriundas de países periféricos partem em direção aos países centrais, em um contexto em que o lema em vigor deixou de ser “fazer a América”, e como tal deve ser compreendida. Indo além, enquanto participantes de um mesmo movimento, que é global, certamente existe algo em comum, inclusive no que diz respeito ao imaginário sobre o outro, entre todos esses brasileiros que ganham mundo, entre essa massa de migrantes do nosso tempo, embora eles possuam cada qual a sua história de vida. Sendo assim, compreender o imaginário contemporâneo de brasileiros sobre a França, a partir das trajetórias de migração dos “brasileiros de Rennes”, impõe pensá-lo em meio à trama da migração internacional. De acordo com Margolis (1994), autora do primeiro estudo de fôlego realizado sobre a comunidade brasileira de Nova Iorque, os brasileiros que viviam na Big Apple, no final da década de 1980 e início da década de 1990, época em que desenvolveu sua pesquisa, em muito se diferem daqueles que tivemos a oportunidade de conhecer em Rennes. Eles, para começar, dividiam-se uniformemente entre homens e mulheres (54% de homens e 46% de mulheres), sendo que, durante o início do movimento migratório, nos anos 1960, a proporção entre os sexos era bem menos equilibrada e pendia para o sexo masculino (70% de homens e 110 30% de mulheres). Além disso, a sua caracterização racial estava acentuadamente inclinada para o extremo mais claro do espectro das cores (83% de brancos, 8% de pardos e 8% de pretos). Esses brasileiros também eram indiscutivelmente jovens (36% com menos de trinta anos, 43% na faixa dos trinta anos e 5% com mais de cinqüenta anos). Quanto ao estado civil e aos possíveis casamentos mistos, a maioria deles permanecia solteira (60% de solteiros, 24% de casados e 16% de separados, divorciados ou viúvos), e vale dizer que aqueles que tinham se casado tendiam a se unir a outros brasileiros (80% eram casados com brasileiros e 20% com pessoas de outras nacionalidades). Em geral, eles não tinham filhos (66% não os tinham, enquanto 34% sim), e, do contrário, esses residiam no Brasil. E, por fim, pertenciam, originalmente, às camadas sociais mais abastadas, em especial, à camada média-média (somente 10% pertenciam às camadas populares). A antropóloga aponta dois motivos que explicam porque os brasileiros radicados em Nova Iorque, no período estudado, não provinham dos extratos sociais mais baixos da população. Era através do visto de turista que os imigrantes brasileiros costumavam entrar nos Estados Unidos. Para conseguí-lo, eles eram obrigados a apresentar uma série de documentos às autoridades estadunidenses que comprovassem que não tinham a pretensão de permanecer no país para trabalhar, como, por exemplo, títulos de propriedade, a carteira de trabalho assinada, o comprovante de renda ou um extrato da caderneta de poupança. Enquanto os mais pobres precisavam pagar por documentos falsos, o que encarecia ainda mais um processo que já não era barato, os mais ricos tinham chances de possuir alguns desses documentos ou de conseguí-los entre os seus familiares e amigos mais próximos. Por outro lado, esses últimos contavam com melhores recursos para se inteirar dos meios de obtenção de passaportes e vistos, das tarifas aéreas e outros custos de transporte, dos prós e contras da mudança, assim como com uma desenvoltura mais adequada para enfrentar a entrevista consular. Os mais pobres, diante desse quadro, precisavam despender mais dinheiro e encarar maiores riscos para migrar, arcando com os custos da documentação falsa para a obtenção do visto de turista e com as conseqüências de serem, eventualmente, pegos portando essa documentação, ou utilizando a rota mexicana, isto é, a porta de entrada dos Estados Unidos que é a fronteira com o México, uma alternativa menos cara, mas mais perigosa (MARGOLIS, 1994). Todavia, Margolis (1994), lançando mão das análises propostas por Piore (apud MARGOLIS, 1994), destaca que os mais ricos costumam abrir caminho para os mais pobres, quando se fala em migração. Isso quer dizer que os mais ricos migrariam primeiro para exterior, e que, somente depois de estabelecidas as redes de informação que facilitam o 111 processo migratório – agências de viagem especializadas, falsificadores de visto, etc –, os mais pobres se tornariam capazes de migrar. Sendo assim, a sua pesquisa se debruçaria sobre uma primeira leva de brasileiros que se deslocava em direção à cidade de Nova Iorque, leva essa que começou a se constituir nos anos 1960, intensificou-se ao longo dos anos 1970, para realmente ganhar uma escala significativa em meados dos anos 1980. E ela deveria ser seguida por uma outra leva, composta por brasileiros das camadas populares, brasileiros esses que, conseqüentemente, teriam algo em comum com os nossos “brasileiros de Rennes”. Outro estudo importante sobre os brasileiros de Nova Iorque foi desenvolvido por Meihy (2004), dez anos mais tarde. Ele confirmou as suspeitas de Margolis (1994). Ao longo da década de 1990, os brasileiros da cidade mudaram de perfil: “[...] aos poucos, foram deixando de ser as [camadas sociais] economicamente privilegiadas para dar lugar aos pobres, cada vez mais pobres, que caçam nos Estados Unidos as oportunidades de algum sucesso que não encontraram no Brasil” (MEIHY, 2004, p. 22). Em termos de grau de escolaridade, por exemplo, em dez anos, a porcentagem de brasileiros radicados em Nova Iorque que possuem o curso superior completo caiu de quarenta e seis (46%) para dezessete por cento (17%), o que é um forte indício da popularização da corrente migratória entre o Brasil e os Estados Unidos (MARGOLIS, 1994; MEIHY, 2004). Não por acaso, então, Vitório (2007), na obra Imigração Brasileira em Portugal, menciona a existência de duas fases, no que concerne a migração de brasileiros para Portugal. A primeira delas, que se estende de 1989 à 1996, composta por profissionais qualificados, como dentistas, publicitários, técnicos em informática e audiovisual, empresários, etc, atraídos por nichos de mercado em expansão e pela estabilidade e bons salários que eles poderiam proporcionar, representou para os empregadores e para a sociedade em geral uma valia. O migrante da primeira fase entrou por canais legais no país, teve suas competências e qualificações reconhecidas, concorreu em pé de igualdade com os nacionais por melhores salários e estatutos sociais. Já a segunda fase, que começou em 1997, arrasta pessoas com no máximo o ensino médio completo e que procuram qualquer tipo de emprego. Quem tem chegado em Portugal, em meio a essa segunda fase, na maioria dos casos, possui contratos temporários de trabalho ou apenas um visto de turista com duração de seis meses, ocupando postos no comércio, na restauração e na construção civil, sem quaisquer benefícios além do salário acordado. Foram mapeados setenta e um “brasileiros de Rennes”, entre setembro de 2005 e setembro de 2006. Quarenta e nove deles mudaram para a França porque se casaram com 112 um(a) francês(a), seis são franco-brasileiros que lançaram mão da dupla nacionalidade para residir legalmente no país, uma é exilada política e desconheço as trajetórias de migração de quinze sujeitos. Conversamos informalmente com trinta e sete desses setenta e um “brasileiros de Rennes” mapeados, a saber: trinta e dois casados(as) com franceses(as) (vinte e seis mulheres e seis homens), quatro franco-brasileiros (três homens e uma mulher) e uma exilada política. As impressões que seguem têm como base essas conversas informais, apontando na mesma direção da segunda leva de migrantes brasileiros radicados em Nova Iorque identificada por Margolis (1994) e Meihy (2004), ou da segunda fase da migração brasileira para Portugal demarcada por Vitório (2007). Dos trinta e sete “brasileiros de Rennes” com quem conversamos, ao menos vinte e três, faziam parte, aparentemente, das camadas populares no Brasil. Com menos de dois salários mínimos que ganhava como telefonista, mais a pensão de um salário mínimo que sua mãe recebia por mês, Nádia, sua mãe e seus dois filhos sobreviviam. C. era prostituta; M. e V. empregas domésticas. A. trabalhava como recepcionista em um hotel de Belém; M. no comércio em Salvador. Sílvio vivia nos balneários do litoral, fazendo de tudo um pouco. Foi assim que ele, hoje proprietário de um restaurante especializado em comida brasileira, aprendeu a cozinhar. O pai de R. é motorista de táxi. Já a mãe de Inácio era lavadeira e seu pai era operário da Siderúrgica Belgo Mineira. O pai de L. confiou a filha a um padre e uma freira, tendo também entregue os seus irmãos para outras pessoas criarem. A mãe de Caio, por sua vez, assim como muitos outros nordestinos, migrou da região norte para a região sul do país, em busca de melhores condições de vida. E. e M., ambas originárias de Belo Horizonte, nasceram e residiam em bairros pobres da cidade. V. migrou, primeiramente, de Alagoas para o Rio de Janeiro, onde vivia na Baixada Fluminense. Vi algumas fotos da última viagem de W. ao Brasil. Assim, conheci um pouco da sua vida antes da migração: a casa simples em que morava no Amapá, os rostos dos seus familiares que lá ficaram. A., que é esposa de R., está muito satisfeita com o emprego de babá, assim como as irmãs J. e J. com os de faxineira. Pelo que foi possível constatar, através das histórias de uma outra brasileira que migrou para a França e dos estudantes brasileiros que trabalham por meio período para financiarem seus estudos no exterior, é muito duro ocupar esses postos profissionais, dependendo da origem social da pessoa. Finalmente, Annïck, C., L., M. e S., pela forma de se expressarem em português e em francês, pela desenvoltura ao falar, pelos modos de se portar, tiveram pouca instrução formal e freqüentaram espaços de socialibilidade populares. 113 Vilma, uma brasileira que vive na França desde 1988 e que não tivemos a oportunidade de conhecer, publicou, em um livro de memórias de migrantes, sua trajetória de vida (VILLE DE RENNES, 2007). Ao longo do texto, acolhido com muitas reservas pela Associação Brasil no Feminino, ela faz algumas afirmações acerca da origem social da comunidade brasileira de Rennes, que, embora nos pareçam radicalizadas ao extremo, reiteram as impressões construídas ao longo do desenvolvimento da pesquisa. La communauté brésilienne est très présente à Rennes. Elle est surtout composée de femmes mariées à des Français. [...] Toutes les femmes viennent des quartiers pauvres du Brésil. Comme moi, elles sont parties pour mener une vie meilleure. [...] Beaucoup renient [...] leurs origines pauvres parce qu’elles ont honte de dire qu’elles viennent d’une favela34 (VILLE DE RENNES, 2007, 107-109). É interessante salientar que, se em Nova Iorque ou em Portugal os pesquisadores identificam duas ondas migratórias de brasileiros, uma primeira composta por membros das classes sociais mais favorecidas e uma segunda composta por membros das classes sociais menos favorecidas, confirmando os estudos que afirmam que, em se tratando de migração, os ricos costumam abrir caminho para os pobres, no caso de Rennes, desde a década de 1980, quando nossos compatriotas lá começaram a se fixar, são brasileiros pouco abastados, em sua grande maioria, que têm chegado à cidade. Não podemos negar, dessa maneira, que o casamento misto tem um impacto na escrita das histórias de migração pelos sujeitos. Ele facilita o deslocamento internacional de homens e mulheres pertencentes às camadas populares, na medida em que a esposa ou o marido estrangeiro financia, muitas vezes, as passagens aéreas e os eventuais gastos junto ao serviço de migração, possui uma infra-estrutura no país de destino para acolher os seus parceiros, permite a legalização da permanência no exterior e, conseqüentemente, o acesso ao mercado formal de empregos e à assistência social. É verdade que os “brasileiros de Rennes” costumam exercer funções pouco valorizadas socialmente, ou seja, as mesmas que cabem aos imigrantes brasileiros ilegais em Nova Iorque ou em Portugal. Entre as mulheres, por exemplo, é comum trabalhar como babá ou faxineira. Mas eles o fazem em um outro contexto. Residindo legalmente na França, têm direito ao salário mínimo em vigor, ao seguro 34 A comunidade brasileira é muito ativa em Rennes. Ela é composta, sobretudo, de mulheres brasileiras casadas com franceses. […] Todas as mulheres vêm de bairros pobres do Brasil. Como eu, elas partiram em busca de uma vida melhor. […] Muitas renegam […] suas origens humildes, porque elas têm vergonha de dizer que vêm de uma favela (Tradução nossa). 114 desemprego, ao serviço de saúde, à aposentadoria, etc. Casados com franceses, não são obrigados a residir nas famosas pensões de imigrantes, em que muitos dividem um espaço pequeno e insalubre, e possuem, além disso, uma outra inserção na sociedade de acolhida, por fazerem parte de uma família local. Seguindo adiante, os brasileiros que invadem Nova Iorque são definidos por Margolis (1994) como sendo peregrinos em busca do sonho americano. Isso porque, segundo a autora, em um pequeno tópico de um capítulo que dedica ao nosso olhar sobre os Estados Unidos, intitulado sugestivamente de O País do Leite e do Mel, o país se confunde com uma espécie de terra prometida, no imaginário dos “brasucas” (MARGOLIS, 1994). Meihy (2004) constata que, ao indagar seus setecentos entrevistados brasileiros sobre a decisão de migrar para Nova Iorque, deparou-se com uma resposta relacionada tanto com uma desesperança na terra natal, quanto com uma crença na existência de uma terra de oportunidades ilimitadas. Embora esse não seja o foco de análise adotado pelo autor, ele menciona também que uma das possibilidades para pensar a comunidade brasileira radicada na cidade seria tomá-la como mais um grupo de candidatos ao “Eldorado pós-moderno” que é os Estados Unidos (MEIHY, 2004). Observem que os Estados Unidos, país que abriga a nossa maior comunidade no exterior, emergem, para os brasileiros que vivem em Nova Iorque, com ares de terra prometida, de Eldorado. A expressão terra prometida faz alusão a uma história bíblica. Deus prometeu à Abrão, que mais tarde passou a ser chamado de Abraão, que entregaria Canaã aos seus descendentes. Foi para lá que Moisés, ao fugir do Egito, guiou os hebreus. Coube à Josué, empreender a conquista do lugar. Comparada com os desertos que a circundavam, Canaã era uma terra de fartura, uma “terra que mana leite e mel” (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002, p.106), o que explica porque os cristãos assim designam também o paraíso terrestre. Em um trecho da Bíblia, ela é descrita da seguinte forma: Eis que Iahweh teu Deus vai te introduzir numa terra boa: terra cheia de ribeiros de água e de fontes profundas que jorram no vale e na montanha; terra de trigo e de cevada, de vinhas, figueiras e romãzeiras, terra de oliveiras, de azeite e de mel; terra onde vais comer pão sem escassez – nela nada te faltará!, – terra cujas pedras são de ferro e de cujas montanhas extrairás o cobre. Comerás e ficarás saciado, e bendirás a Iahweh teu Deus na terra que ele te dará (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002, p.269). 115 Já o Eldorado está relacionado com a lenda do homem dourado. Em uma tribo indígena do continente sulamericano, que vivia em uma região muita rica em ouro, o novo chefe, no ritual de posse, tinha o seu corpo todo coberto por ouro em pó e devia lavá-lo em um lago, sendo que, enquanto fazia isso, os demais membros da tribo lançavam nas águas ouro e jóias. El Hombre Dorado, ou simplesmente El Dorado, despertou a cobiça dos ocidentais, em especial, dos espanhóis. Eles se lançaram, então, na busca por esses índios, acreditando que, ao encontrá-los, teriam acesso a uma riqueza sem limites. Com o tempo, o termo El Dorado terminou se estendendo para toda uma região, o Eldorado, onde o ouro seria abundante ao extremo (LEY; DE CAMP, 1961). As histórias contadas pelos “brasileiros de Rennes” que entrevistamos coincidem com as colocações feitas por Margolis (1994) e Meihy (2004) acerca do olhar sobre os Estados Unidos característicos dos membros da comunidade brasileira de Nova Iorque. Também para eles é a busca de uma espécie de terra prometida ou desse Eldorado dos tempos em que vivemos que está em questão. Tal como foi possível observar através da história contada por Nádia, a França imaginária, que reencarna esses mitos ajustando-os para um novo contexto, é definida, sobretudo, nas entrelinhas das falas sobre o Brasil. Ou seja, ao descrever a vida cotidiana no país de origem, as dificuldades que a permeiam (realidade externa ou tangível), descreve-se, concomitantemente, as esperanças depositadas no país de destino, desvelando o imaginário que o envolve (realidade interna ou mental). Brasil e França existem, então, para esses brasileiros, um em relação ao outro, ou, indo além, um em oposição ao outro. Sendo que, se, de um lado, temos um país tido como pobre, subdesenvolvido, selvagem, do Terceiro Mundo, do outro, temos um país tido como rico, desenvolvido, civilizado, do Primeiro Mundo35. É interessante sublinhar como esse imaginário sobre o outro, tal como ele se apresenta entre o Brasil e os Estados Unidos ou a França, faz parte da migração contemporânea e mesmo a engendra. Sayad (1998) demonstra, ao analisar a entrevista de um argelino radicado na França, como a experiência migratória costuma ser organizada e relatada por uma série antitética, em que a terra de acolhida conforma a terra natal e vice-versa, na medida em que uma não é nada 35 Considerando que os termos Primeiro e Terceiro Mundo não fazem mais sentido, depois da queda do muro de Berlim e o fim dos países socialistas dependentes da ex-URSS, utilizamos essas expressões somente porque elas são empregadas a exaustão pelos entrevistados. 116 mais que o extremo oposto da outra. Quando o seu entrevistado diz “Que Deus me faça sumir desta terra! A terra da ‘estreiteza’, a terra da pobreza, a terra da miséria, a terra ‘torta’, ‘invertida’, a terra do declínio, [...] a terra incapaz de segurar os seus, a terra abandonada por Deus...” (SAYAD, 1998, p.30), ele não só caracteriza negativamente a Argélia, mas faz, em contraposição, afirmações positivas sobre a França, lugar para onde deseja migrar. Podemos ler, então: “Que Deus me carregue para esta terra! A terra da ‘largueza’, a terra da riqueza, a terra da extrema riqueza, a terra ‘direita’, ‘desinvertida’, a terra da ascensão, a terra capaz de segurar os seus, a terra abençoada por Deus...”. E, segundo Brito (1995, p.63), esse imaginário sobre o outro é que vai possibilitar a migração. ...a expectativa de sucesso na migração vem alimentada por uma ilusão [um imaginário] sobre as condições do país de destino, que ultrapassa a realidade [externa ou tangível]. E sem “ilusão migratória” [imaginário] a motivação para emigrar não acentua suficientemente os benefícios econômicos, sociais e psicológicos da migração. Sem estes, os custos se transformam em obstáculos intransponíveis. Resta explorar as conexões entre colonização, migração e imaginário, para concluir o capítulo. Sayad (1998) identifica uma profunda correlação entre colonização e migração, ao analisar o movimento migratório existente entre a Argélia e a França, movimento esse que considera exemplar, pois não somente ele é o mais antigo com origem nos países periféricos, mas surgiu e se desenvolveu ainda em meio a um contexto colonial (os argelinos, inicialmente, cruzavam as fronteiras como franceses), tendo terminado por constituir a maior população de imigrantes não-europeus na terra de acolhida. A tese defendida pelo autor é de que não se pode pensar a imigração sem remontar todo o seu curso, ou seja, sem levar em conta a emigração e até mesmo o que se encontra acima dela, no caso, a colonização. Dessa maneira, a história da migração entre a Argélia e a França, por exemplo, teria começado, na verdade, em 1830, data da tomada de Alger pelos franceses. E o mesmo seria válido para todas as outras antigas colônias de exploração, na medida em que a oposição em vigor entre um mundo da imigração e um mundo da emigração se confunde com uma outra oposição entre os países centrais e os países periféricos, sendo que ela foi forjada pelo sistema colonial. Enfim, a migração seria vestígio, sobrevivente, filha ou lembrança da colonização, para ficar 117 com apenas algumas das palavras escolhidas pelo estudioso para dar conta da existência e da dimensão da correlação que identifica. Se tal tese perpassa a introdução e todos os oito textos que compõem A Imigração ou os Paradoxos da Alteridade, dando-lhes sustentação, ela é explorada de forma particular por Sayad (1998) em Imigração e Convenções Internacionais, Capítulo 8 do livro mencionado, mas também artigo publicado no final dos anos 1970, um momento de grande debate na França em torno da decisão governamental de suspender a chegada de trabalhadores estrangeiros, modificar as regras para a renovação das carteiras de residentes para imigrantes e começar a adotar medidas para se livrar da sobrecarga de mão-de-obra com origem para além das fronteiras. Antes de tratar do caso Argélia-França, o autor discute o que considera ser uma das armadilhas da migração contemporânea: transação bilateral de direito, ela é resolvida unilateralmente pelo parceiro dominante, justamente porque as duas partes envolvidas são tão desiguais. E, ao fazê-lo, demonstra como uma das funções de possuir um império, e não das menos importantes, era fornecer à metrópole, quando necessário, um suplemento de soldados e trabalhadores. Sendo que, mesmo depois da descolonização, na medida em que os processos de independência não foram capazes de abolir relações de dominação definidas ao longo do período colonial, as antigas colônias continuaram a funcionar como reserva de mão-de-obra. São os imigrantes provenientes dos países periféricos que irão resolver o que Sayad (1998) chama de problema do excesso de empregos pobres ou para os pobres enfrentado pelos países centrais, porque (como não são apenas indivíduos, mas também o país dominado de onde vêm) são os únicos capazes de fazer isso e pelo menor custo econômico, social e político. E como compreender o “aqui dentro” e o “lá fora” de DaMatta (2005), esse contraste decisivo do nosso elaborado universo espacial, que se encontra plenamente imbuído de um outro contraste, o que opõe países centrais e países periféricos, sem considerar o nosso passado colonial? Não podemos nos esquecer, de fato, daquilo que DaMatta (2005 p.57) chamou de imaginação colonizada, e que teimamos em denominar de imaginário colonizado36. 36 Sobre a distinção entre imaginação e imaginário: “A maior parte dos problemas do mundo das imagens, de fato, foram tratadas, durante longo tempo, ao abrigo da palavra ‘imaginação’, que designava a faculdade de engendrar e utilizar imagens. Com o declínio de uma certa psicologia filosófica (em meados do século XX), e sob a pressão das ciências humanas, o estudo das produções imagéticas, de suas propriedades e de seus efeitos, a saber o imaginário, suplantou progressivamente a questão clássica da imaginação. Em outras palavras, o mundo das imagens obteve vantagem sobre sua formação psicológica.” (Tradução nossa) (WUNENBURGER, 2003, p.6). 118 Uma densa, atuante e ainda não estudada imaginação colonizada percebe e impõe uma percepção verticalizada do mundo. Há um suposto “centro” de civilização e superioridade e uma periferia que “desce” desse centro e termina no local onde estamos. O ideal, nessa hierarquia de espaços, seria viver “lá fora” (e, por implicação ideológica, lá em cima) – em Paris, Londres, Nova York e, dependendo da pessoa, Roma ou Berlim –, mas infelizmente somos obrigados a estar nesse Brasil amarga e injustamente percebido como bárbaro, desordenado, pobre e, no limite – haja ingratidão! –, desmerecedor de nossas vidas. Falar em imaginário colonizado significa apontar que a nossa realidade mental, engendrada no contexto da colonização, continua imbuída do mundo colonial e do lugar que o Brasil nele ocupava em relação aos demais países. Ele define, assim, a começar, a nossa forma de pensar o outro e de pensar a nós mesmos. Nas palavras de Chauí (2000, p.27-28), a “identidade nacional” pressupõe a relação com o diferente. No caso brasileiro, o diferente ou o outro, com relação ao qual a identidade é definida, são os países capitalistas desenvolvidos, tomados como se fossem uma unidade e uma totalidade completamente realizadas. É pela imagem do desenvolvimento completo do outro que a nossa “identidade”, definida como subdesenvolvida, surge lacunar e feita de faltas e privações. [...] Assim, a identidade do Brasil, construída na perspectiva do atraso ou do subdesenvolvimento, é dada pelo que lhe falta, pela privação daquelas características que o fariam pleno e completo, isto é, desenvolvido. Nessa perspectiva, a migração contemporânea brasileira ganha novo lastro, além disso. O dito imaginário colonizado, que, ao mesmo tempo, é estruturado por uma certa ordem mundial e ajuda a estruturá-la, funcionaria como mais um fator que expulsa os brasileiros da sua terra natal e os atrai para o centro do mundo. Em outras palavras, a contar pelo seu imaginário, migrar seria uma tendência “natural” dos brasileiros, afinal, para eles, o ideal é viver em Paris, Londres ou Nova Iorque, com tudo que isso implica. Valendo lembrar que, conforme alerta Brito (1995), o imaginário parece ser sempre mediador indispensável e decisivo do processo migratório. 119 Capítulo 4: O BRASIL E “A BRASILEIRA” A França se tornou precocemente uma terra de imigração, ao contrário dos seus vizinhos, como por exemplo a Itália, que, até muito recentemente, alimentavam com uma parte da sua população os movimentos migratórios internacionais. Inclusive, no final do século XIX e início do século XX, período marcado pela chegada de grandes levas de imigrantes europeus nas Américas, menos de quinhentos mil franceses cruzaram o Atlântico, número irrisório se comparado aos cinco milhões de italianos. Pessoas das mais diversas origens, na verdade, têm aportado na França, há mais ou menos dois séculos. Inicialmente, elas provinham, sobretudo, da Europa, em especial, dos países mais próximos, a saber: Bélgica, Itália, Alemanha e Suiça. Aos poucos, a geografia da imigração foi se expandindo, ganhando, nessa ordem, o resto da Europa, as antigas colônias francesas e o mundo inteiro, com destaque para a Polônia, Portugal, a região do Magreb e a Turquia. Isso explica porque, ao se tentar estabelecer marcos históricos, fala-se em: 1891, “o tempo dos vizinhos”; 1931, “o 120 reservatório europeu”; 1975, “a expansão colonial”; e 1999, “as migrações globalizadas” (REPÈRES, s.d.). O Brasil, por sua vez, conforme vimos no capítulo anterior, deixou de ser uma terra de imigração, transformando-se em uma terra de emigração, ao longo do século XX. As grandes levas migratórias do final do século XIX e início do século XX foram freadas pela Primeira Grande Guerra (1914-1918), a Crise de 1929, a Grande Depressão da década de 1930 e a Segunda Grande Guerra (1939-1945), e nunca mais retomaram a força anterior. No final do século XX, com a crise econômica e as dificuldades de controlá-la que marcaram os Governos Sarney e Collor, os brasileiros passaram a figurar entre a massa de migrantes originários dos países periféricos que rumam em direção aos países centrais. Dessa maneira, os franceses que se estabeleceram no Brasil, alguns deles nossos entrevistados, caminharam na contra-mão das correntes migratórias internacionais. Porque motivos eles trocaram a França pelo Brasil, se tão poucos franceses costumam deixar sua casa, se tantos brasileiros sonham em ganhar os Estados Unidos, a Europa, o Canadá, o Japão e a Austrália? Eis a questão central que iremos explorar nesse capítulo, sempre com o intuito de pensar o imaginário que entrelaça o Brasil e a França na contemporaneidade, tomando como ponto de partida experiências de migrantes entre esses dois países. Muitos brasileiros parecem não compreender porque alguns franceses migraram para o Brasil. Vejamos, por exemplo, a primeira pergunta que colocam, tão logo descobrem estar diante de um francês que optou por viver aqui, segundo três dos “franceses de Belo Horizonte” que foram entrevistados. Bon, d’abord, ils me demandent qu’est-ce que je fais… je fais là! [rit] Pourquoi… pourquoi je reste là, que tout le monde cherche à… à partir de ce pays37 (Entrevista concedida por Gérard, 18min29-18min37). Ils me disent tous: “Pourquoi vous êtes venus ici? Parce que la France, c’est jolie; c’est ceci, celà.” […] Bon, et bien sûr qu’ils me disent: “Mais, là-bas, il y a du bon vin. On mange bien. Il y a tout!”38 (Entrevista concedida por Gustave, 13min12-13min53). Muitas vezes, as pessoas falam: “Você é francês? O quê?! Você largou a França para vir morar aqui?! [...] Mas é o meu sonho [mudar pra lá]! [...] Nossa, tem que ser muito louco para deixar um país como a França para 37 Bom, para começar, eles me perguntam o que eu estou fazendo… eu estou fazendo aqui! [risos] Porque... porque eu estou aqui, se todo mundo quer deixar esse país (Tradução nossa). 38 Todos me dizem: “Porque você veio para cá? Porque a França é bonita; é isso, é aquilo.” [...] Bom, e é claro que eles me dizem: “Mas, lá, tem bons vinhos. A gente come bem. Tem tudo!” (Tradução nossa). 121 vir morar aqui.” (Entrevista concedida por Jean, Parte III, 06min52- 07min23). Em uma terra de emigrantes, o que o Brasil se tornou a partir das últimas décadas do século passado, não poderia ser diferente. Aliás, a incompreensão diante da decisão dos franceses de migrar para o país só vem a reforçar que, embora a nossa história seja profundamente marcada pelo movimento populacional contrário, a emigração já constitui a realidade dos brasileiros, e, enquanto tal, considerando a relação dialógica estabelecida entre o real e o imaginário, pode ser utilizada como uma fonte fecunda para a análise do seu imaginário sobre o outro, em especial quando se trata de um destino migratório por eles apreciado. Os brasileiros que se surpreendem, ao encontrar franceses radicados nessa margem do Atlântico, parecem concordar, implicitamente, com os estudiosos que buscam nas push-pull forces uma explicação para os movimentos migratórios. De acordo com essa teoria, como descreve Klein (1999), por detrás do migrante, escondem-se fatores que o expulsam de sua terra natal e que o atraem para outro lugar, o peso de cada um deles e a maneira como se equilibram, sendo que as condições econômicas são os fatores de expulsão e de atração mais importantes. O estranhamento causado pelos migrantes franceses, tendo em vista essa perspectiva teórica, é patente, pois, contrariando as expectativas, seu deslocamento se estende de um país rico para um país pobre. Mesmo que as tais push-pull forces ditem o tom dos movimentos populacionais internacionais contemporâneos, elas não dão conta das suas múltiplas facetas, seja em termos de origem e destino, natureza (temporária ou permanente), componentes ou condicionantes econômicos, sociais e étnicos, o que abre espaço para novos e variados esquemas interpretativos, conforme alerta Bilac (1995). É verdade que, pelo simples fato de serem franceses, os “franceses de Belo Horizonte” encontram, no Brasil, múltiplas facilidades de inserção no mercado de trabalho e na vida social. Inclusive, alguns, não somente conquistam um posto muito rapidamente, apesar do ínfimo domínio da língua portuguesa (é o caso de Dominique), mas passam a exercer funções mais interessantes do que aquelas que exerciam na França (é o caso de Jean); não somente se integram com tranqüilidade (é o caso de todos eles), mas começam a freqüentar um meio social ao qual não tinham acesso no seu país de origem (é o caso de Gustave). “[...] o imigrante alemão ou inglês será tratado de maneira diferente do peruano ou brasileiro em praticamente todos os países do mundo” (VAINER, 122 1995, p.50). A sua migração, todavia, não é pautada, aparentemente, por esse objetivo ou por um outro qualquer de ordem econômica, ao menos não da mesma maneira que a migração da maioria dos “brasileiros de Rennes”. E não podemos nos esquecer da discussão acerca dos nexos entre colonização, migração e imaginário elaborada no capítulo anterior. Um dos laços que amarra esses três pontos é o que DaMatta (2005) chamou de imaginação colonizada, e que nós chamamos de imaginário colonizado. É através dessa lente, marcada de forma radical por um passado colonial, que vemos Paris, Londres ou Nova Iorque e que nos definimos em relação à esses lugares, sempre nos colocando em uma posição de inferioridade e idealizando o outro. Também nessa perspectiva, o espanto dos brasileiros, diante dos imigrantes franceses, faz sentido. Eles se espantam porque, simplesmente, como disse um dos entrevistados, não conseguem conceber que alguém possa mudar da França para o Brasil, quando sonham em fazer o contrário. Retomemos a questão inicial – Porque motivos franceses trocariam a França pelo Brasil, se tão poucos deles costumam deixar sua casa, se tantos brasileiros sonham em ganhar os Estados Unidos, a Europa, o Canadá, o Japão e a Austrália? –, escutando as histórias dos “franceses de Belo Horizonte” que entrevistamos. Dominique, que tem aproximadamente setenta e cinco anos e nasceu em Paris, mudou- se para o Brasil, em 1963. Ele conheceu Lair, em Paris, quando ela, que é professora aposentada da UFMG e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), desenvolvia seu doutoramento. Defendida a tese, o casal de namorados decidiu se casar e se estabelecer em Belo Horizonte, o que levou o entrevistado, que não falava português na época, a abandonar o cargo de agrônomo que ocupava há sete anos, mesmo sem qualquer garantia de encontrar um novo emprego. Vale dizer que, anos mais tarde, embora tenha se divorciado da esposa, Dominique fez a opção de permanecer no país. Gérard, por sua vez, veio para o Brasil, em 1998, juntamente com o irmão mais novo. Então proprietários de duas fábricas de bolos e biscoitos, uma localizada na França e outra em Portugal, eles decidiram sacrificar a sede francesa para abrir uma filial no país. É a mesma lógica adotada pelas grandes multinacionais que determinou a decisão: aumentar os lucros, transferindo a produção dos países centrais, onde os impostos e também a mão de obra têm um custo mais elevado, para os países periféricos. Entretanto, Gérard e o irmão não estavam preparados para a empreitada. Tinham um bom capital para investir, mas esse era 123 seguramente irrisório, em comparação com o das grandes multinacionais, o que não lhes garantia acordos privilegiados com o Governo Brasileiro para a instalação da empresa. Cuidaram de estudar o terreno, porém não o suficiente. Basta dizer que fizeram uma única viagem exploratória, com uma duração de dez dias, e escolheram a cidade de Belo Horizonte para a implantação, levando em consideração o conselho de um francês que conheceram, francês esse que era casado com uma mineira. Além disso, ao longo da entrevista, percebe-se que eles agiam como se fossem se instalar na Europa, embora estivessem se instalando no Brasil, pois partiam do pressuposto que o funcionamento interno do país era parecido com o daquele com o qual estavam habituados. A abertura da filial brasileira, obviamente, não deu certo. Enquanto o seu irmão decidiu voltar para Portugal, depois do ocorrido, reassumindo a direção da outra empresa da família, Gérard, ao contrário, decidiu permanecer aqui. O entrevistado afirma que gosta do Brasil a tal ponto que é impensável, para ele, retornar para a Europa. O que pretende é se naturalizar brasileiro. Vale dizer que nasceu em 1950, no Departamento da Charrante Maritime. Já Gustave esteve no Brasil, pela primeira vez, em 1997. Visitou o Rio de Janeiro, Petrópolis e Búzios, nessa ocasião, voltando para a França encantado com o país e com vontade de nele terminar os seus dias. Aquele era, além do mais, um lugar de clima mais aprazível e custo de vida menos exorbitante. Em dezembro de 1999, conheceu a esposa brasileira, quando ela, que é professora de história e filosofia do ensino médio, viajava pela França. Uma oportunidade, como diz! Terminaram passando três semanas, em sua casa em Nantes, cidade onde nasceu, em 1950. Depois, o entrevistado foi encontrá-la, em Paris. Decidiu, então, pedir a aposentadoria antecipada à Compagnie Républicaine de Sécurité (CRS), onde trabalhava como policial, e migrar para o Brasil. Gustave desembarcou em Belo Horizonte, em abril de 2000. Finalmente, Jean, nascido em 1964, em Paris, vive na capital mineira, desde 1989. Esteve no Brasil pela primeira vez, em 1986, quando viajava pelas Américas. Nessa ocasião, conheceu a Amazônia, Belém, Brasília, Belo Horizonte, o Rio de Janeiro, o litoral nordestino e São Luiz. Apaixonado pelo país, fez três tentativas de migração, duas delas frustradas. Tentou, em 1987, estabelecer-se como educador social, já que essa era a sua profissão em Paris. Entretanto, conforme afirma o entrevistado, tratava-se de um trabalho que, na época, era considerado uma vocação, sendo exercido por padres e freiras. Em 1988, procurou se fixar como professor de línguas, pois era trilíngüe, falando francês, espanhol e inglês, mas os salários oferecidos eram muito baixos. Por fim, com o dinheiro de um ano de muito trabalho 124 na França, conseguiu mudar para o Brasil como proprietário de uma casa noturna. Vale dizer que, entre 1986 e 1989, aprendeu a falar o português, freqüentando a comunidade brasileira de Paris, pois, assim que voltou da sua primeira viagem, fez questão de estabelecer contato com brasileiros com esse objetivo. Notem que, por detrás dos processos migratórios dos quatro “franceses de Belo Horizonte” que entrevistamos, há uma história de amor, seja ela por uma brasileira, pelo Brasil ou por ambos. Uma relação subjetiva alimenta, então, a atração pelo Brasil. Analisemos com mais vagar a entrevista de Jean, em que o que está em questão, inicialmente, é o Brasil e não uma mulher. Para tanto, foram escolhidos excertos em que o entrevistado narra a sua primeira viagem, e também aqueles em que ele explica a sua opção por permanecer aqui, apesar de uma série de problemas que reconhece no país. Aí, fui pros Estados Unidos. Trabalhei, ganhei um dinheiro, e, de lá, fui pingando. Cai: México, Belize, Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Equador, [silêncio] Colômbia de novo e Brasil. Por Tabatinga, por Benjamin Constant. Entrei no Brasil pelo Amazonas. Então, até que foi uma história de amor bem particular, porque [silêncio] não há mais o impacto do exótico, de quem pega um avião em Londres, Roterdam ou Paris, e chega aqui. Aí, tem o impacto. Tudo é diferente, tudo é lindo. Eu não tive esse impacto, porque, quando cheguei na Amazônia Brasileira, já tinha três, quase quatro meses, de Amazônia Equatoriana, Peruana, ah... Colombiana. Então, na realidade, Amazonas [Amazônia] é Amazonas [Amazônia]. A paisagem é a mesma, o transporte é o barco, e... o modo de vida é bem parecido. Ainda assim, quando eu entrei no Brasil, foi uma... foi uma coisa. Não sei, não se explica. Não é... não é... não é muito racional. Porque, pelo fato de ser de mãe espanhola, eu falo espanhol fluente, e o único país da América Latina [em] que eu não poderia comunicar era o Brasil. Então, a priori, deveria até [ser] o contrário. Ter me... ter me... Como falaria? Não rejeitado, mas eu ia ficar menos à vontade, menos... menos prático, e a minha convivência ia ser mais complicada. Então, a priori, era para eu não gostar tanto assim. Mas foi isso. Foi no Amazonas, não falava a língua, e ainda assim apaixonei. Assim, fiquei aqui. [grifos nosso] Porque o objetivo era: ou eu descia pelo Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Paraguai e Brasil, e voltava pra... pra Europa. Ou eu descia pelo Brasil. Brasil, Uruguai; Uruguai, Argentina; Paraguai, Chile, Bolívia, e ia subindo. Aí, eu resolvi descer pelo Brasil. Conclusão, eu não vi o resto da América Latina. Acabei travando aqui, e fiquei aqui até hoje (Entrevista concedida por Jean, Parte I, 04min26- 06min28). Mas eu... eu viajei. Eu já... eu fui pra Índia, eu fui pra China, o Egito, a Turquia. Ah... toda a Europa de l’Ouest [Ocidental]. Na época, tinha o muro de Berlim. Não era como hoje, não se viajava muito pra Europa de Leste. Então, viajei muito. Não é... Brasil, não apaixonei porque era a primeira viagem [grifo nosso]. Eu, desde os dezesseis anos, é... que eu pedi de 125 aniversário uma viagem pra Tailândia e nunca mais parei. Tailândia, China, Índia, Egito, [inaudível] (Parte I, 06min38-07min10). Eu conheço muitos franceses que ficam um ano e vão embora. Quando você vem de turista, você não tem compromisso. Você não tem compromisso com... com nada. Você tá lá, com o teu pacote de dólar no bolso, e vai curtindo. [...] Quando você vem para morar, você vê que... Você descobre um monte de problemas do Brasil, assim que... Eu tô aqui, porque eu amo profundamente! Então, eu tô aqui e ficarei, porque, quando coloca-se tudo na balança, ainda assim vale à pena viver aqui. [...] Amo muito. Amo muito essa terra. Amo muito. O Brasil me deu muita coisa. O Brasil me deu uma família. O Brasil... Minha família é aqui. Meus filhos nasceram no Brasil. Minha... minha companheira é brasileira. Eu a conheci no Brasil. Então, o Brasil me deu muito. Eu amo o Brasil! [grifos nosso] (Parte I, 23min57-26min49). É aquela história... [silêncio] Como falava? Gosto muito dessa frase. Acho que o Vinícius de Morais que falou. “É uma merda, mas é bom.” [risos] É ele que falava isso, não? C. que fala muito isso pra mim. A gente conversava, e ele falava: “Jean, tua frase é essa.” Eu adoro! [grifo nosso] (Parte III, 04min00-04min22). Apenas em dois momentos, Jean utiliza frases que indicam uma decisão racional pelo Brasil. “Então, eu tô aqui e ficarei, pois, quando coloca-se tudo na balança, ainda assim vale à pena viver aqui.” “O Brasil me deu muita coisa. [...] Minha família é aqui. Meus filhos nasceram no Brasil. Minha... minha companheira é brasileira. Eu a conheci no Brasil. Então, o Brasil me deu muito.” Para além dessas duas frases, em que pesa os pontos positivos e negativos de se viver no Brasil, em que reconhece os ganhos que a migração lhe ofereceu, ele fala de uma decisão migratória que não é pautada pela razão, mas cuja marca é a sua ausência. Trata-se, do seu ponto de vista, de paixão, de amor. É através desses sentimentos, os mesmos que ligam, por exemplo, um homem e uma mulher, que o entrevistado justifica o seu processo migratório. “Então, até que foi uma história de amor bem particular [...].” “Ainda assim, quando entrei no Brasil, foi uma... foi uma coisa. Não sei, não se explica. Não é... não é... não é muito racional.” “Mas foi isso. Foi no Amazonas, não falava a língua, e ainda assim apaixonei. Assim, fiquei aqui.” “Brasil, não apaixonei porque era a primeira viagem.” “Eu tô aqui, porque eu amo profundamente!” “Amo muito. Amo muito essa terra. Amo muito.” “Eu amo o Brasil!” “Eu adoro!” Resta saber se o Brasil se confunde com um objeto de desejo apenas no imaginário de Jean e dos demais “franceses de Belo Horizonte” que entrevistamos, ou se essa metáfora seria válida para os franceses em geral. 126 Laplantine (2001) introduz e conclui o ensaio Imaginaires Français du Brésil et Imaginaires Brésiliens de la France, abordando os imaginários entre a França e o Brasil, a partir da imagem de um casal, da relação amorosa. Tal como sugeriu Di Cavalcanti, que, inclusive, é citado ao longo do texto, o Brasil seria, então, uma mulher. O autor chega a utilizar, por exemplo, a expressão “inventaire des rondeurs brésiliennes”, que, em português, significa inventário das formas arredondadas brasileiras... A França, em contrapartida, seria o homem, com o qual o Brasil comporia um casal. E não qualquer casal, uma vez que estaríamos falando de dois países muito diferentes, para não dizer antagônicos ao extremo. Além disso, as palavras, que parecem ter sido cuidadosamente escolhidas, fazem alusão a um tipo de relacionamento que, tradicionalmente, é considerado próprio dos amantes, e não dos namorados ou de uma esposa e seu marido. Citemos parte da introdução e da conclusão do ensaio: Or, il m’apparaît que le Brésil et la France forment un couple dépareillé, constitué de deux sociétés qui n’ont pas du tout la même histoire ainsi que la même dimension et n’avancent pas au même rythme. Entre la France et le Brésil il n’y a pas d’ajustement, d’adéquation, d’accommodation totale ni de résolution dans la conjonction des contraires. Il n’y a pas non plus de “correspondance” au sens baudelairien, ni de résonance dans l’écho ou l’équivalence. Il y a plutôt une non intrication. Cette dernière est tenace mais, nous le verrons, infiniment stimulante. Pour dire les choses différemment, le lien métis entre le Brésil et la France est celui d’un mouvement de vibration et d’oscillation qui échappe à la synchronie de ce qui “tient ensemble” ainsi qu’à la symétrie totale qui serait celle d’une ensemble cohérent. […] Ce qui m’apparaît au contraire, c’est que le Brésil et la France ne s’emboîtent pas, ni ne se superposent. Ils ne “tiennent pas ensemble”, mais sont susceptibles en revanche de s’entre-tenir. Ce qu’il convient alors de “saisir” (dans une expérience qui est d’ailleurs plutôt celle d’un dessaisissement), ce sont les textures, les tournures, les courbures, les tonalités, les modalités, mieux les modulations, de la rencontre. Les relations franco-brésiliennes sont des relations en perpétuel déséquilibre. Ce sont des relations décalées, désaccordées, désynchronisées […]. Le caractère décalé et dépareillé du lien franco-brésilien nous conduit à nous déplacer des liaisons majeures, nécessaires et grandiloquentes vers de toutes petites liaisons, de minuscules bribes de sens et à être attentif non plus au choc des contrastes premiers qui accentuent les contours et produisent de la syncope, de l’exaltation ou au contraire de l’irritation, mais à un rythme et à une vibration plus secrète, discrète et feutrée ainsi qu’à des intensités particulières formées d’écarts infimes de tonalité39 (LAPLANTINE, 2001, p.243-244). 39 Ora, parece-me que o Brasil e a França formam um casal desemparelhado, constituído de duas sociedades que não tem de maneira alguma a mesma história, assim como a mesma dimensão, e não avançam no mesmo ritmo. Entre a França e o Brasil não há ajuste, adequação, acomodação total, nem resolução na conjunção dos contrários. Não há também “correspondência” no sentido baudelairiano, nem ressonância no eco ou na equivalência. Há antes uma não-intrincação. Essa última é persistente, mas, nós o veremos, infinitamente 127 On risque de rater le lien franco-brésilien en le pensant soit comme écart absolu soit comme accord total qui sont à mon avis deux des figures majeures du trucage. C’est en revanche cette petite discordance, source de malentendu et parfois même de malaise, qui constitue aussi le charme de la rencontre. C’est ce léger décalage qui provoque le désir de France au Brésil et le désir de Brésil en France40 (LAPLANTINE, 2001, p.254). A mesma associação elaborada por Laplantine (2001), em que o Brasil ganha formas de mulher e a relação entre a França e o Brasil é pensada enquanto uma relação amorosa, emerge em pelo menos duas obras de Carelli (1989; 1994), um dos grandes pesquisadores das relações culturais entre os dois países em questão, de origem franco-ítalo-brasileira. Em uma delas, o título já é em si significativo. Trata-se de França-Brasil: cinco séculos de sedução (CARELLI, 1989). Já na outra obra, em meio ao prefácio elaborado por Durand, por exemplo, encontramos as seguintes afirmações: Este foi o caso dos franceses, em geral, a partir do fracasso de Villegagnon e, mais especialmente, dos franceses do século XIX e, sobretudo, do século XX que desembarcaram em Salvador, no Recife ou no Rio por pura sedução(CARELLI, 1994, p.12). É dizer o interesse constante de uma tal leitura que não somente está no “cruzamento” objetivo “das culturas”, mas encontra-se, na intimidade de seu procedimento, no “cruzamento” de duas naturezas imaginárias [...] em que, digamos de forma junguiana, o animus francês casa-se sem se confundir com a anima brasileira (CARELLI, 1994, p.12-13). […] culturas livremente casadas em uma simpatia mútua, sem limites e sem restrições (CARELLI, 1994, p.16). estimulante. Para dizer as coisas de outra forma, a ligação mestiça entre o Brasil e a França é aquela de um movimento de vibração e de oscilação que escapa à sincronia do que funciona junto, assim como à simetria total que seria aquela de um conjunto coerente. […] O que me parece, ao contrário, é que o Brasil e a França não se encaixam, nem se sobrepõem. Eles não se casam, mas são suscetíveis de se agarrarem um ao outro. O que convém, então, “apreender” (em uma experiência que é, aliás, antes inapreensível), são as texturas, os contornos, as curvas, as tonalidades, as modalidades; melhor, as modulações do encontro. As relações franco-brasileiras são relações em perpétuo desequilíbrio. São relações deslocadas, em desacordo, desincronizadas [...]. O caráter deslocado e desemparelhado da ligação franco-brasileira nos conduz à nos deslocarmos das conexões maiores, necessárias e grandiloqüentes, em direção às conexões bem pequenas, minúsculas migalhas de sentido, e a estar atento não mais ao choque dos contrastes primeiros que acentuam os contornos e produzem a síncope, a exaltação ou, ao contrário, a irritação, mas a um ritmo e a uma vibração mais secreta, discreta e branda, assim como a intensidades particulares formadas de diferenças ínfimas de tonalidade (Tradução nossa). 40 Corre-se o risco de não compreender a ligação franco-brasileira, pensando-a, seja como uma diferença absoluta, seja como um acordo total, que são, na minha opinião, duas das maiores figuras do engano. É, ao contrário, essa pequena discordância, fonte de mal entendidos e, às vezes, de mal estar, que constitui também o charme do encontro. É esse ligeiro deslocamento que provoca o desejo da França no Brasil e o desejo do Brasil na França (Tradução nossa). 128 Fernand, francês que residiu em Recife entre 1978 e 1985, período em que ocupou o cargo de Adido Pedagógico no Consulado da França da cidade, e fazia planos, no momento da realização da entrevista, de se mudar definitivamente para o Brasil, depois de se aposentar, com a esposa que é brasileira, vai além dos outros entrevistados mencionados acima, e também dos estudiosos. Ele afirma, sem rodeios, que, enquanto a França poderia ser considerada sua mãe, o Brasil poderia ser considerado sua mulher. Je suis plus amoureux du Brésil qui je suis amoureux de la France. Ça ne veut pas dire qui je n’aime pas la France, mais ce n’est pas pareil. C’est... Je veux dire… Je ne peux pas vraiment comparer. L’amour de la France, c’est l’amour de la langue, l’amour de la culture. C’est un passé heureux, extrêmement heureux, que j’ai eu en France. Une connaissance profonde. Quoi? Je veux dire… La France, c’est ma mère, d’une certaine manière, je veux dire. Et, donc, ça c’est irremplaçable, d’autant plus que ça a été un rapport très heureux. Mais le Brésil ce n’est pas ça. C’est un rapport presque plus passionné que la France, même si… Il ne faut pas dire qui j’aime plus, en fait, la France [le Brésil] que le Brésil [la France], mais… Ce n’est pas tout à fait la même… […] C’est ma deuxième femme41 (Entrevista concedida por Fernand, p. 14-15). Esse Brasil-Mulher, ora amante ou prostituta, ora esposa, ecoa, ao longo dos depoimentos concedidos por brasileiros. Morena, por exemplo, contou-nos a situação constrangedora que viveu, assim que chegou na França, para assumir o seu posto de au pair, em uma pequena cidade nas proximidades de Lyon. Na ocasião de um almoço com a família que a acolhia, na casa de um dos vizinhos, o anfitrião, o pai das crianças que pajeava, mais um amigo deles, depois de beberem um pouco além da conta, começaram a falar da brasileira que povoa o imaginário, uma “mulher da vida”, como diz. Sendo que, as mulheres que presenciaram o fato não se manifestaram, adotando uma postura de cumplicidade para com os homens ou de acusação para com a entrevistada. 41 Eu sou mais apaixonado pelo Brasil do que pela França. Isso não quer dizer que eu não goste da França, mas não é a mesma coisa. É… Eu quero dizer… Eu não posso, na verdade, comparar. O amor pela França é o amor da língua, o amor da cultura. É um passado feliz, extremamente feliz, que eu tive na França. Um conhecimento profundo. O quê? Eu quero dizer… A França é minha mãe, de uma certa maneira, eu quero dizer. E, então, isso é insubstituível, ainda mais por ter sido uma relação feliz. Mas o Brasil não é isso. É uma relação quase mais passional que a relação com a França, mesmo se... De fato, não se pode dizer que eu goste mais da França [do Brasil] que do Brasil [da França], mas... Não é de jeito nenhum a mesma coisa... [...] É minha segunda mulher (Tradução nossa). 129 Caio, por sua vez, fala de franceses que viriam ao Brasil em busca de uma esposa brasileira. E, tendo em vista a associação feita com a figura da Amélia, uma das razões que moveriam esses homens seria o fato das brasileiras abraçarem papéis sociais tradicionalmente conferidos à mulher, o que as francesas já não mais fariam. Agora, aqui, quando eu cheguei, e eu falava que eu era brasileira... Na França, né? É... a primeira coisa, lá no campo, o que eu senti foi assim: mulher da vida, sabe? Que eles tinham a idéia. A primeira vez... Porque eu cheguei lá, e o vizinho deles convidou a gente pra almoçar. Me chamou também, e tal. Fomos lá. E, aí, ele já estava mais altinho. O pai dos meninos e ele. E começaram: “Ah, porque mulher do Brasil, que usa biquininho, não sei o quê, não sei o quê.” Eu achei a maior falta de respeito. [...] Aí, pegaram uma Playboy lá, uma hora, não sei o quê. Ele falou: “Playboy”. E, aí, o vizinho virou para mim, e falou: “É brasileira, né?” [...] Aí, eu virei e falei: “Não.” Sabe? Fechei a cara, e falei: “Não. Não é.” E, aí, ele sacou que me ofendeu, e parou de falar, né? Eu... O pai também, depois, parou. O pai dos meninos e tal. Mas eu senti que [era essa] a idéia que eles tinham dessa coisa da brasileira, né? [...] Mas eu fiquei muito incomodada. E eu sentia... eu não senti o apoio do lado feminino, sabe? Porque eu senti que eu fiquei meio centro, ali, dos homens, falando disso. Chegou mais um, e tal, não sei o quê. E as mulheres meio retiradas, mas também não tinham papo, não me colocavam meio no meio, sabe? Nesse dia, senti bem assim. Eu achei muito ruim (Entrevista concedida por Morena, p.19-21). E alguns vão pra se casar. [risos] Verdade, seja dita! [risos] Alguns que... Por exemplo, eu conheci... Não, eu... a gente conheceu um francês, que vem do... do Pays Basque [País Basco]. E ele dizia para gente, ele dizia para minha irmã: “Aqui no Brasil, a gente vive. A gente vive bem. A gente... a gente é o que é. Aqui, as mulheres são...” Como ele dizia? “As mulheres são verdadeiras. Elas não são falsas. E as mulheres, aqui, se ela gosta de você, ela te diz sim, se ela não gosta de você, ela te diz não. Elas não... não são como as mulheres francesas que... que só vêem o dinheiro e a situação da pessoa.” Bom, isso era o que ele dizia. Eu não estou dizendo, não estou botando todo mundo na mesma panela, heim? No mesmo saco de farinha. Isso é o que ele disse. É... A gente até chamava ele de Bilbao, porque ele não gostava de falar o nome dele verdadeiro, porque dizia que também era um nome muito difícil, um nome basco. E Bilbao, ele dizia que o sonho dele era se casar com uma brasileira, porque mulher brasileira é mulher de verdade. [...] É. “Amélia que era mulher de verdade!” [risos] Aí, ele diz que... que as mulheres francesas não. São cheias de... de não-me-toque. E ele não gosta disso, ele gosta de mulher de verdade. É... mas é verdade, tem muito francês que vai pro Brasil pra se casar (Entrevista concedida por Caio, p.23). Uma série de estudos vêm apontando como a feminilidade pode ser significada na sua relação com a nacionalidade, sendo que, no caso do Brasil, mas também de outros países periféricos, esse processo de feminização do lugar é acompanhado por outro de sexualização 130 do gênero, comportando ainda uma certa exotização, tropicalização, etnização e inferiorização inter-relacionadas. Vejamos os resultados de alguns dos trabalhos desenvolvidos por Piscitelli (2005; 2007a; 2007b), uma referência das mais importantes, quando se fala do envolvimento de brasileiras na transnacionalização do mercado sexual. A autora, no artigo Viagens e Sexo On-line, defende que a situação econômica de um país constitui apenas um dos fatores que explica a sua eleição, pelos turistas sexuais, como um novo destino atraente. Viajar, para o turista em busca de sexo, significa ir ao encontro de uma outra mulher, que seria própria de um determinado país ou de uma determinada região e, conseqüentemente, diferente das mulheres de outros lugares, à começar das ocidentais. A reconfiguração da geografia do turismo sexual, então, depende desses estilos de feminilidade associados com as nacionalidades, somados às questões de ordem econômica, que, seguramente, interferem no mercado do sexo, aumentando ou diminuindo a oferta de mulheres. Em meio a esse processo, Piscitelli identifica uma tendência de sexualizar a raça negra e de tomar como ponto de partida para a sexualização traços culturais estereotipados (PISCITELLI, 2005). Em um outro artigo, Sexo Tropical em um País Europeu, a autora explora as histórias de algumas brasileiras de Fortaleza, que conheceram italianos nos cirtuitos de turismo sexual da capital cearense, casaram-se com eles e migraram para a Itália, demonstrando como gênero, nacionalidade, raça, classe social e geração perpassam esses processos migratórios. O início do relacionamento desses casais, de acordo com Piscitelli, é calcado em noções de feminilidade brasileira, e também, é claro, de masculinidade italiana, noções essas que viriam a ser ressignificadas, mais tarde, depois do casamento e da migração. A viagem do turista sexual e a escolha da esposa, por exemplo, justificam-se, em grande medida, pela singularidade conferida à brasileira, em relação às mulheres dos seus outros possíveis destinos turísticos e às italianas: basicamente, “um quê de mulher à moda antiga” (seria menos independente, assumiria todas as tarefas da casa, estaria disposta a engravidar, etc.) e uma sexualidade “natural” exacerbada (PISCITELLI, 2007b). Por fim, no artigo Corporalidade em Confronto, a autora em questão chama à atenção para a maneira como os mesmos conceitos de gênero, nacionalidade, raça, classe social e geração, na Espanha, são lidos pelos empresários do sexo e clientes de prostitutas e manipulados pelas profissionais, em meio a um mercado dominado por estrangeiras vindas de 131 várias partes do mundo. O que importa, tanto para os empresários quanto para os clientes, não é a singularidade e sim a diversidade de mulheres, no que diz respeito ao aspecto físico, à idade, às práticas sexuais, à educação e à nacionalidade. Mas, se existe um ranking construído a partir desses itens, que hierarquiza, nessa ordem, espanholas, mulheres do Leste Europeu, latino-americanas e africanas, a concorrência por clientes é também uma concorrência entre nacionalidades, ou melhor, entre estilos de feminilidade à elas atribuídos. Não por acaso, então, as prostitutas brasileiras, em geral, independente das particularidades da sua inserção no mercado do sexo, identificam como sendo o seu ponto forte uma sensualidade, uma alegria e uma afetuosidade “naturais” (PISCITELLI, 2007a). Os contornos de uma das facetas desse estilo de feminilidade atribuído às brasileiras foram muito bem traçados por Pontes (2004), através de exemplos retirados de propagandas ou programas de televisão veiculados em Portugal e mesmo do design de alguns produtos là vendidos. Os anúncios de uma campanha publicitária do Guaraná Antártica, rebatizado pelos portugueses de Guaraná Brasil, contam com a participação de uma modelo vestida de verde e amarelo, usando um short curtíssimo e jogando um futebol erótico. No cartaz apresentado no artigo, a tal modelo está “matando a bola no peito”, com os seios arrebitados e empinando o bumbum, sendo que, segundo a autora, dependendo da qualidade da impressão, é possível notar, inclusive, que ela não usa sutiã. Em um outro material da campanha mencionado, esse produzido para a televisão, a modelo, depois de beber guaraná, faz um gol e comemora levantando a camiseta e exibindo os seios. Sheila, uma brasileira representada por um ator travestido, é um dos personagens do programa de televisão SIC 10 Horas. No episódio citado pela autora, ela, ao saber que um rapaz que conheceu era estudante de letras, perguntou se ele já havia lido o Kama Sutra e se não estava interessado em praticar. Um outro programa de televisão também possui no seu elenco uma personagem brasileira. Em um dos episódios, aquele abordado no artigo, essa personagem, uma empregada doméstica que encarna o tipo mulher fatal, vestia uma micro- saia e tentava seduzir o filho dos patrões. Já os cartões telefônicos Portugal Telecom para ligar para o Brasil apelam, com alguma freqüência, para a figura da mulata, estampando, lá onde poderíamos encontrar uma foto do Cristo Redentor, o rosto de uma mulher cor de chocolate, com cabelo sarará, um sorriso aberto e os olhos um pouco revirados, muito parecida com a famosa Globeleza. 132 Por detrás da “brasileira portuguesa”, segundo Pontes (2004, p.244), [...] vemos um processo de sexualização da mulher brasileira associado: 1) ao fato de ser imigrante, portanto de um outro grupo étnico-racial exótico, periférico, racializado e de uma classe econômica subalterna; e 2) ao fato de ser brasileira, portanto, oriunda da cultura do carnaval, sexualidade, culto ao corpo e também da pobreza, violência e subdesenvolvimento. Sendo que, na origem dessa brasileira imaginária e desse processo de sexualização, que, vale dizer, não se encerram nas fronteiras de Portugal, encontram-se dois marcos históricos: a colonização e a globalização. Ao procurar compreender a gênese do turismo sexual, esse fenômeno que transforma os países periféricos em uma espécie de bordel dos países centrais, Bem (2005) explora com muita propriedade esses marcos. Coube ao antigo sistema colonial construir uma imagem negativa dos povos não-ocidentais, tanto para os colonizadores quanto para os próprios colonizados. No contexto pós-colonial, os processos migratórios que se estendem da periferia para o centro, os passeios turísticos dos ricos por terras exóticas, e as fotografias dos “outros” veiculadas pela televisão, pelo cinema e pela internet, reconstróem essa imagem negativa legada pela colonização, reatualizando-a em novos quadros. E, se a diferença foi lida como inferior, ela também foi lida como objeto de desejo. No caso do Brasil, a mulher brasileira incorporada no imaginário como objeto de consumo é a mulata/ negra, representada como “picante”, mundana, disponível, pouco emancipada, carinhosa. A subalternidade e a graciosidade são menos destacadas como quando se trata da mulher asiática, dando lugar a uma representação da sexualidade (em combinação com a natureza e os ritmos tropicais) como erotismo explosivo. É o clima tropical, ao lado da generosa paisagem, que fornece o pano de fundo para a representação da mulher como Sexbombe. Comumente, [mesmo quando têm a pele clara,] as mulheres brasileiras são tidas como mulatas ou negras, com corpos provocantes e dourados pelo sol, imersas em permanente transe carnal, imagens extraídas não só do imaginário carnavalesco ao qual se associa o Brasil, mas também da própria história do colonialismo europeu (BEM, 2005, p.103). A segunda faceta do estilo de feminilidade atribuído às mulheres brasileiras é o extremo oposto da primeira. Mesclada à imagem da sexbombe, mais associável com a amante ou a prostituta, encontra-se, surpreendentemente, a imagem da boa esposa e da boa mãe, ou, 133 como aparece na citação acima, da mulher pouco emancipada, o que remete à papéis femininos tradicionais. Silva e Blanchette (2005) afirmam que, se, por um lado, os estrangeiros com quem conversaram no Rio de Janeiro (sejam eles turistas sexuais ou residentes permanentes no país que se enxergam, em contraposição àqueles, como sendo “gringos bons”) idealizam os brasileiros, e especialmente as brasileiras, como dotados de uma sexualidade “natural” exacerbada, por outro lado, eles concebem as relações expostas na cidade, em particular as relações de gênero e as relações familiares, como típicas de um outro tempo, no caso, o passado dos seus lugares de origem. Gosto do Rio, pois aqui as pessoas são como eram antigamente em nosso país – no tempo dos meus avós. Aqui as pessoas pensam na família e nos amigos primeiro e no dinheiro só muito depois. Isso foi uma das razões que acabaram me fazendo casar com uma brasileira: elas sabem valorizar a família, que não é algo que a maioria de americanas sabe mais fazer. [...] [Entrevistado 1] Aqui as mulheres são como eram na Europa anos atrás: sabem tratar bem um homem; não competem com ele. Se vou me casar novamente, vai ser com uma brasileira, pois elas são como as mulheres de antigamente. Querem uma família, não uma carreira. [Entrevistado 2] A cultura americana está passando por algumas modificações e estas têm mudado as relações entre os homens e as mulheres [...] As mulheres fizeram grandes avanços em negócios e em muitas áreas aqui [...] e a independência que as mulheres têm agora faz com que muitas delas não valorizam mais os homens [...] [As mulheres] são a cola da família [...] O americano hoje busca uma mulher que não vai competir com ele, mas que vai complementá-lo [...] A brasileira é bem simples em seus gostos e desejos e vive mais em função da simplicidade da vida e de sua família... [Entrevistado 3] (SILVA; BLANCHETTE, 2005, p.257-258). E, se no intuito de entrever o imaginário de franceses acerca do Brasil, deparamo-nos com “a brasileira”, não somente enquanto mais uma personagem que o povoa, mas como um elemento central para a sua compreensão, ou seja, uma figura incontornável, especialmente para aqueles franceses envolvidos na trama dos casamentos mistos com brasileiras e/ou, em certa medida, casados com o próprio Brasil, é porque ela o simboliza. Nas palavras de Piscitelli (2007, p.729-730), nesse marco [em que o Brasil vem adquirindo visibilidade no exterior] se integra a difusão de um estilo brasileiro vinculado à ousadia das calcinhas e 134 biquínis fio dental [denominados strings brésiliennes ou calcinhas brasileiras, na França] e aos diversos procedimentos para arredondar e arrebitar bundas femininas [etc]. E, na ambiguidade que permeia a construção do estilo nacional vinculado ao Brasil, em um procedimento nada original, as mulheres são construídas como símbolos da essência nacional. Seguindo adiante, a associação das mulheres dos países periféricos, em especial, das brasileiras, com a prostituição, pelos habitantes dos países centrais, está relacionada com três fenômenos, de acordo com Piscitelli (2007a). Trata-se, à começar, de um efeito do turismo sexual, que leva, até os países periféricos, dentre eles o Brasil, turistas em busca de sexo com “nativas”, uma parte delas prostitutas. Além disso, um dos principais espaços de inserção das mulheres migrantes, inclusive das brasileiras, ao desembarcarem nos países centrais, é o mercado do sexo. Sem falar que os meios de comunicação difundem uma certa imagem dos países periféricos que também promove tal associação. Todavia, conforme sugere Pontes (2004), podemos e devemos enxergar a representação da brasileira enquanto sexbombe como responsável por uma demanda por prostitutas brasileiras. E, como, aliás, defende a própria Piscitelli (2005), por detrás do lugar de destaque que o Brasil passou a ocupar, no âmbito da geografia do turismo sexual, encontra- se também um estilo de feminilidade atribuído ao país. E, da mesma maneira que esse estilo de feminilidade atrai turistas em busca de sexo para nossas praias, acreditamos que ele também fomentaria a prostituição de brasileiras no exterior. Podemos pensar os casamentos mistos entre mulheres brasileiras e homens ocidentais, na mesma perspectiva. Um certo número de estrangeiros vêm para o Brasil em busca de sexo, mas termina se envolvendo afetivamente com uma das suas parceiras. Afinal, segundo frisa Piscitelli (2005), se os turistas sexuais alertam incessantemente os seus “companheiros de hobbie” para não confundirem sexo e amor, é porque esse risco existe e termina muitas vezes acontecendo, inclusive com eles próprios. Alguns estrangeiros, além do mais, estão, de fato, a procura de relações afetivas estáveis com brasileiras, quando aportam no país, compondo o grupo que Silva e Blanchette (2005) denominaram de turistas de amor. Por fim, muitas brasileiras residentes no exterior são casadas com estrangeiros, sendo que parte delas migraram em função do casamento e outras tantas se casaram quando já se encontravam fora do país (enquanto estudante internacional ou imigrante ilegal, por exemplo). Em se tratando de Rennes, inclusive, essas mulheres constituem a espinhal dorsal da comunidade brasileira da 135 cidade. É natural, então, que as esposas brasileiras passem a constituir uma referência de Brasil para os estrangeiros e uma base para a permanente reconstrução do estilo de feminilidade que atribuem ao país. Paralelamente, o imaginário acerca da brasileira, que a concebe como boa esposa e boa mãe, em um tempo em que, embora não sem conflitos, a sexualidade já é conjugada com a conjugalidade, encontra-se na origem dos casamentos mistos entre ocidentais e brasileiras, ajudando a definir as escolhas dos homens por esposas. Ele atribui um tal valor à brasileira, no mercado internacional de matrimônios, que, como demonstrou Piscitelli (2007b), permite que as brasileiras negociem essas relações; desestabilizem desigualdades históricas e ultrapassem barreiras sociais quase intransponíveis, como as de classe e raça. Ou seja, da mesma maneira que a representação da brasileira, como quer Pontes (2004), ou o estilo de feminilidade à ela atribuído, como prefere Piscitelli (2005; 2007a; 2007b), constrói um mercado internacional para prostitutas brasileiras, nos países centrais ou dentro do próprio Brasil, o imaginário acerca da brasileira criaria, senão uma demanda estrangeira por esposas brasileiras, ao menos uma grande abertura para elas no mercado internacional de matrimônios. No que diz respeito ao Brasil e à França, especificamente, não seria diferente. O Brasil tenderia a ganhar certas formas femininas, no imaginário francês, através das esposas brasileiras ou de cada uma delas, quase ao ponto de encarná-la(s). Enquanto o imaginário francês, que concebe o país como uma certa mulher, funcionaria como terreno fértil para o casamento misto entre brasileiras e franceses ou para a migração de franceses para o Brasil, que pode ser compreendida como uma espécie de casamento misto, conforme demonstramos anteriormente. Realidade mental (imaginário) e realidade tangível (casamentos mistos) encontram-se, então, radicalmente imbricadas. Indo além, é possível fazer uma associação entre a inserção das brasileiras na transnacionalização do sexo e no mercado internacional de matrimônios. Isso não somente porque, muitas vezes, os turistas sexuais se transformam em maridos ou as prostitutas são levadas para o altar, mas também porque, mesmo quando o casamento misto se produz fora de um contexto de turismo sexual ou de prostituição, é o mesmo imaginário sobre a brasileira que parece enredá-lo, na maioria dos casos. Vale notar, por fim, que a transnacionalização dos mercados do sexo e de matrimônios e os deslocamentos populacionais contemporâneos são processos que se desenvolvem 136 concomitantemente. Acreditamos que essa não é uma simples coincidência histórica, mas que esses três fenômenos mantêm uma estreita relação entre si. A incorporação do Brasil na rota do turismo sexual, de acordo com Piscitelli (2005), data do final do século XX e início do século XXI. Segundo a mesma autora, a partir da década de 1990, a prostituição, na Europa, passou a ser uma atividade dominada por estrangeiras, sendo que, na Espanha, em 2004, quarenta por cento das mulheres que trabalhavam em estabelecimentos vinculados à Asociación Nacional de Clubes de Alterne eram latino-americanas, sobretudo, brasileiras e colombianas (PISCITELLI, 2007a). O aumento do número de casamentos mistos entre brasileiras e estrangeiros, por sua vez, ainda conforme Piscitelli (2007b), também parece ter ocorrido na passagem do século XX para o século XXI. A autora menciona que o Consulado do Brasil em Milão passou a registrar, a partir do ano 2000, uma média de sete a dez solicitações por semana de documentos para viabilizar esses casamentos, o que significa algo em torno de quatrocentas solicitações anuais, somente na região da Itália abarcada pelo órgão. O desenvolvimento da pesquisa em Rennes indicou que as primeiras uniões mistas entre brasileiras e franceses da cidade datam de meados da década de 1980. Porém, é somente na década seguinte que elas deixam de constituir casos isolados, atingindo um número maior de casais. Enfim, retomando os dados apresentados no capítulo anterior, o Brasil deixou de ser um país de imigração e passou a ser um país de emigração, no final do século XX, especialmente a partir dos anos 1980. No que concerne ao par prostituição e migração, de acordo com Piscitelli (2007a), o mercado do sexo tem absorvido boa parte das mulheres dos países periféricos que migram para os países centrais, dentre elas as brasileiras, por um lado. Por outro lado, como aponta Pontes (2004), o fato das brasileiras serem imigrantes nesses países, dado a tendência de se erotizar as classes sociais subalternas, ajuda a explicar a imagem da brasileira, o processo de sexualização ao qual é submetida, e a conseqüente demanda por prostitutas vindas do Brasil. E se a chave do processo se encontra ao menos em parte na condição de imigrante, ele poderia envolver, em princípio, não somente as brasileiras, mas as imigrantes de uma forma mais ampla. Tal associação entre prostituição e migração, inclusive, perpassou outros períodos da história, e não constitui uma particularidade do tempo presente. O final do século XIX e o início do século XX foi marcado pela migração em massa de europeus para as Américas, o que inclui o Brasil. Ao longo desse período, por exemplo, 137 prostitutas européias, com destaque para as francesas ou “afrancesadas”, dominavam o mercado do sexo, ao menos no Rio de Janeiro, segundo Soares (1992). Em 1881, o português Lino d’Assumpção registrava num livro sobre o Rio de Janeiro suas impressões a respeito da prostituição na cidade. [...] esse autor comentava a presença estrangeira no comércio sexual: “O Brasil, acostumado a importar todos os gêneros de primeira necessidade por intermédio de terceiros, aplica o mesmo processo à prostituição”. A observação sugere que as mulheres que se dedicavam à prostituição eram vistas pelos “consumidores” potenciais através da mesma lógica fetichista que cada vez mais guiava interesses e gostos dos brasileiros por produtos europeus na virada do século. [...] Obcecado por uma hierarquia da prostituição, como seus contemporâneos, Lino d’Assumpção conferia grande importância às origens nacionais e raciais das mulheres na definição dos “degraus” da prostituição que ocupavam. É claro que num país cuja elite caminhava no sentido de consolidar sua vocação francófila, a dona do degrau mais alto era “a francesa”. Segundo o jornalista, “a francesa” tinha casa própria, carro e criados, liberdade para insultar a polícia e proteção dos mais importantes políticos da monarquia. No extremo oposto, ocupando o degrau mais baixo, estavam as “poucas negras, algumas mulatas, grande número das nossas mulheres do Minho e Douro, e abundância das das Ilhas”. [...] Lino D’Assumpção também registrava a chegada de outras mulheres no porto do Rio. Eram grupos de mulheres “formosas, brancas como a neve, perfeitos tipos das raças do Oriente”, que saíam de diversos pontos da Europa com “promessas de gozo de vida honesta e trabalhadeira”, mas que, quando chegavam, eram “levadas à força, sem dó nem piedade, para os alcouces pelo cáften!” (SCHETTINI, 2006, p.138). Já no que diz respeito ao par casamento misto e migração, como vimos no capítulo anterior, a parte da pesquisa realizada em Rennes aponta como a união com um estrangeiro vem funcionando como uma porta de saída do Brasil, uma porta de entrada no centro do mundo ou uma ponte entre ambos. Muitos brasileiros (em especial, brasileiras) migram porque se casaram. Outros tantos (mais uma vez, brasileiras, sobretudo) encontram no casamento uma possibilidade de viabilizar a migração ou a legalização da permanência no exterior. A associação parece válida também para os franceses aqui radicados (na sua maioria homens, ao contrário). No entanto, nesse caso, verificamos que casamento misto e migração se confundem, primeiramente, em uma outra perspectiva. Através da relação com uma brasileira e mesmo da mudança para o Brasil em si, que pode ser pensada enquanto uma história de amor, é possível entrever um processo que identifica, no imaginário, o próprio 138 Brasil como sendo uma mulher, ou melhor, como sendo “a brasileira” imaginária. E é esse processo que traria ao menos um certo número de franceses para esse lado do Atlântico. Analisemos, para completar, os dados referentes ao número de casais mistos compostos por um(a) francês(a) e um(a) estrangeiro(a) residentes na França em 2005, por local de origem do cônjuge estrangeiro, dados esses que foram coletados junto ao INSEE. De acordo com eles, podemos classificar os países, agrupamentos de países ou continentes, de acordo com a quantidade de casais mistos compostos por um(a) francês(a) e alguém dessa outra nacionalidade ou originário dessa região, na seguinte ordem: Itália, outros países da União Européia (com quinze países), Portugal, Espanha, Argélia, outros países da Europa, Marrocos, outros países da África, Tunísia, outros países da Ásia, América/ Oceania, Turquia, Vietnã, Cambodja e Laos. Notem que Itália, Portugal e Espanha são os países que mais se destacam na classicação acima. Justamente eles que eram focos tradicionais de emigração, até o momento em que ingressaram na Comunidade Européia, tendo fornecido braços que conformaram a primeira onda de “imigrantes de trabalho” na França, responsável, após o fim da Segunda Guerra Mundial, pela retomada do desenvolvimento no país. Em seguida, destacam-se Argélia, Marrocos e Tunísia, três antigas colônias francesas, sendo que foram pessoas originárias desses países que, por volta de 1960, começaram a substituir a mão-de-obra italiana, portuguesa e espanhola utilizada na França. Vietnã, Cambodja e Laos, que ocupam, respectivamente, a décima quarta, décima quinta e décima sexta posição na classificação, também são antigas colônias francesas, o que é um dado importante quando falamos em migração contemporânea, na medida em que se observa uma tendência migratória que interliga as ex-colônias às suas ex-metrópoles (BÓGUS, 1995). Por fim, conforme outros números do próprio INSEE, os turcos compõem, atualmente, uma das principais comunidades de imigrantes na França42. Uma maior quantidade de casamentos mistos entre franceses(as) e pessoas de certos lugares, então, parece estar relacionada com a existência, na França, de um maior número de imigrantes originários desses lugares, o que possibilitaria um maior número de encontros e de namoros entre eles. 42 INSEE. Recensement mars 2009: nationalités (caractéristiques démographiques). Paris: INSEE, 1999. Disponibilidade e acesso: . 139 Tal hipótese poderia justificar a pouca representatividade do Brasil, em um quadro mais geral. A França abrigava apenas cerca de 10.000 imigrantes brasileiros legalizados, em 1999 – vale reforçar que brasileiros ilegais ou que adquiram a nacionalidade francesa não fazem parte desse universo (REPÈRES, s.d.). Entretanto, embora a hipótese nos pareça realmente válida para os países que contam com um grande contingente de imigrantes na França, no caso do Brasil, e talvez dos demais países que se encontram em situação semelhante, ela apenas ajuda a explicar um fenômeno. Isso porque a associação entre migração e casamento misto se dá, em geral, de maneira diferente. Se, de um lado, temos, sobretudo, a migração seguida de casamento misto; de outro, temos, em especial, casamento misto seguido de migração, sendo que deslocamentos de outras naturezas garantem a maioria dos encontros e dos namoros transnacionais, o que leva o número de casamentos a ser antes dependente deles. Tomando como ponto de partida as histórias dos casais franco-brasileiros que conhecemos em Rennes, podemos apontar os passeios turísticos e as missões de trabalho empreendidas por franceses no Brasil, assim como as temporadas de estudo e as visitas a parentes casados com franceses levadas a cabo por brasileiros na França, como os principais caminhos que levam a constituição desses casais. A tabela que segue apresenta os dados quantitativos coletados junto ao INSEE que deram origem à classificação apresentada e analisada anteriormente: 140 TABELA 3 Quantidade de casais mistos compostos por um(a) francês(a) e um(a) estrangeiro(a) residentes na França em 2005, por local de origem do cônjuge estrangeiro Local de Origem do Cônjuge Estrangeiro Quantidade de Casais Mistos ... 1° Itália 142.674 2° Outros países da União Européia com 15 países 128.760 3° Portugal 119.985 4° Espanha 112.291 5° Argélia 99.908 6° Outros países da Europa 84.104 7° Marrocos 67.311 8° Outros países da África 63.133 9° Tunísia 39.378 10° Outros países da Ásia 36.797 11° América/ Oceania 35.111 12° Turquia 12.291 13° Vietnã 11.880 14° Cambodja 5.305 15° Laos 4.353 FONTE: INSEE. Recensement mars 2009: nationalités (caractéristiques démographiques). Paris: INSEE, 1999. Disponibilidade e acesso: . Dados coletados junto ao INSEE também nos permitem questionar uma idéia que povoa o senso comum de muitos dos nossos entrevistados e também de outros brasileiros e franceses com os quais conversamos durante o desenvolvimento da pesquisa, a de que o pequeno número de casamentos mistos entre brasileiros e francesas teria como explicação o machismo do homem brasileiro. 141 Conforme poderemos observar a partir dos quadros que seguem, são franceses (e não francesas) que costumam se casar com pessoas originárias de outros países. Do total de casais mistos compostos por um(a) francês(a) e um(a) estrangeiro(a) residentes na França em 2005, 70% são compostos por um francês e uma estrangeira. Em se tratando da Turquia, que apresenta o menor número de casamentos envolvendo francesas, esse percentual sobe para 87%. Já em se tratando da Itália, que apresenta o maior número de casamentos envolvendo francesas, ele cai para 55%, o que de toda forma continua a representar mais da metade dos casos. Isso leva a crer que a diferença entre o número de uniões de franceses e brasileiras e de francesas e brasileiros, embora inegável e carregado de significados, não distoa se comparada a um quadro mais amplo. Ainda mais que, se observarmos a classificação dos países ou continentes segundo a quantidade de casais mistos compostos por um francês e uma estrangeira e por uma francesa e um estrangeiro, verificamos que a América e a Oceania, que incluem o Brasil, aparecem na décima primeira e décima colocação, respectivamente, sofrendo uma variação de apenas uma casa. Quanto a buscar uma explicação no machismo do homem brasileiro, diante dos dados, preferimos, então, ter cautela. Afinal, essa não é uma especificidade brasileira. E, além do mais, as francesas se casam com homens de origem árabe, sendo eles tidos, no senso comum, como extremamente machistas. Levantamos a hipótese de que uma maior quantidade de casamentos entre franceses e brasileiras e uma menor quantidade de casamentos entre francesas e brasileiros poderiam estar relacionadas, em um primeiro momento, com um maior número de deslocamentos de franceses e brasileiras entre o Brasil e a França, o que possibilitaria um maior número de encontros entre eles, isso associado, obviamente, a uma tendência das francesas de se casarem menos com estrangeiros e as formas muito peculiares que o nosso país possui no imaginário francês. Dentre os estudantes, por exemplo, se, em Rennes, localizamos uma maioria de mulheres, em Belo Horizonte, foi exatamente o contrário. Haveria, assim, mais possibilidades de que novos casais de franceses e brasileiras surgissem nessas cidades. Vejamos a tabela e o quadro montados com os dados do INSEE: 142 TABELA 4 Quantidade de casais mistos compostor por um(a) francês(a) e um(a) estrangeiro(a) residentes na França em 2005, por país e por sexo do imigrante Casamentos Mistos Sendo a mulher estrangeira Sendo o homem estrangeiro 1° Itália 142.673,62 100% 78.326,21 54,9% 64.347,41 45,1% 2° Outros países da União Européia com 15 países 128.759,6 100% 90.131,72 70% 38.627,88 30% 3° Portugal 119.984,81 100% 90.468,55 75,4% 29.516,26 24,6% 4° Espanha 112.291,36 100% 72.315,64 64,4% 39.975,72 35,6% 5° Argélia 99.907,53 100% 69.835,36 69,9% 30.072,17 30,1% 6° Outros países da Europa 84.104 100% 59.293,32 70,5% 24.810,68 29,5% 7° Marrocos 67.311,33 100% 52.060,95 77,34% 15.250,38 22,66% 8° Outros países da África 63.133,28 100% 48.044,43 76,1% 15.088,85 23,9% 9° Tunísia 39.377,98 100% 26.619,51 67,6% 12.758,47 32,4% 10° Outros países da Ásia 36.797,22 100% 28.812,22 78,3% 7.985 21,7% 11° América/ Oceania 35.110,8 100% 26.017,1 74,1% 9.093,7 25,9% 12° Turquia 12.290,76 100% 10.656,09 86,7% 1.634,67 13,3% 13° Vietnã 11.879,53 100% 9.408,59 79,2% 2.470,94 20,8% 14° Cambodja 5.305,49 100% 4.546,8 85,7% 758,69 14,3% 15° Laos 4.353,46 100% 3.683,03 84,6% 670,43 15,4% Total 963.280,77 100% 670.219,52 69,58% 293.061,25 30,42% FONTE: INSEE. Recensement mars 2009: nationalités (caractéristiques démographiques). Paris: INSEE, 1999. Disponibilidade e acesso: . 143 QUADRO 2 Classificação dos países segundo a quantidade de casais mistos compostos por um francês e uma estrangeira e por uma francesa e um estrangeiro residindo na França em 2005 ... por um francês e uma estrangeira ... por uma francesa e um estrangeiro 1° Portugal 1° Itália 2° Outros países da União Européia com 15 países 2° Espanha 3° Itália 3° Outros países da União Européia com 15 países 4° Espanha 4° Argélia 5° Argélia 5° Portugal 6° Outros países da Europa 6° Outros países da Europa 7° Marrocos 7° Marrocos 8° Outros países da África 8° Outros países da África 9° Outros países da Ásia 9° Tunísia 10° Tunísia 10° América/ Oceania 11° América/ Oceania 11° Outros países da Ásia 12° Turquia 12° Vietnã 13° Vietnã 13° Turquia 14° Cambodja 14° Cambodja 15° Laos 15° Laos FONTE: INSEE. Recensement mars 2009: nationalités (caractéristiques démographiques). Paris: INSEE, 1999. Disponibilidade e acesso: . Concluímos com o poema Elegia de autoria de Donne (apud CAMPOS, 1978, p.144- 147), que corrobora com a idéia que procuramos defender ao longo do capítulo. 144 ELEGIA: indo para o leito Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz; Até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, Canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, Céu cintilante, uma área inda mais bela. Desata esse corpete constelado, Feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor que se derrama De ti a mim, dizendo: hora da cama. Tira o espartilho, quero descoberto O que ele guarda, quieto, tão de perto. O corpo que de tuas saias sai É um campo em flor quando a sombra se esvai. Arranca essa grinalda armada e deixa Que cresça o diadema da madeixa. Tira os sapatos e entra sem receio Nesse templo de amor que é o nosso leito. Os anjos mostram-se num branco véu Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu De Maomé. E se no branco têm contigo Semelhança os espíritos, distingo: O que o meu anjo branco põe não é O cabelo mas sim a carne em pé. Deixa que a minha mão errante adentre Atrás, na frente, em cima, embaixo entre. Minha América! Minha terra à vista, Reino de paz, se um homem só a conquista, Minha mina preciosa, meu Império, Feliz de quem penetre o teu mistério! Liberto-me ficando teu escravo; Onde cai minha mão, meu selo gravo. Nudez total! Todo o prazer provém De um corpo (como a alma sem corpo) sem Vestes. As jóias que a mulher ostenta São como as bolas de ouro de Atalanta: O olho do tolo que uma gema inflama Ilude-se com ela e perde a dama. Como encadernação vistosa, feita Para iletrados, a mulher se enfeita; Mas ela é um livro místico e somente A alguns (a que tal graça se consente) É dado lê-la. Eu sou um que sabe; Como se diante da parteira, abre- Te: atira, sim, o linho branco fora, Nem penitência nem decência agora. Para ensinar-te eu me desnudo antes: A coberta de um homem te é bastante. PARTE II: OUTROS ENTRE-OLHARES 146 Capítulo 5: ENTRE USOS E ABUSOS As temporadas de estudo no exterior marcam as trajetórias de membros das elites brasileiras, desde o período colonial. Houve um tempo em que era a impossibilidade de cursar a graduação, o mestrado ou o doutorado no Brasil, haja visto a inexistência de universidades ou de programas de pós-graduação no país, somada, obviamente, à distinção garantida pela experiência internacional, que ensejava os deslocamentos. E, quando passamos a contar com centros de ensino superior e pesquisa de excelência, o fenômeno, que continuou funcionando como marca de distinção social, ganhou novos contornos, não somente no que diz respeito ao aumento considerável do número de viagens de estudo e sua extensão à novos grupos (no caso, aos estratos mais privilegiados das camadas médias), mas também à ampliação das modalidades possíveis, o que inclui, por exemplo, os intercâmbios culturais de segundo grau e os estágios lingüísticos de curta duração (NOGUEIRA, 2004). 147 É esse contexto que funciona como pano de fundo para as experiências de oito dos quatorze “brasileiros na França” que entrevistamos e que iremos explorar ao longo do capítulo, a saber:  Ângela nasceu no interior do Estado de São Paulo, em 1949, e se estabeleceu em Belo Horizonte, há muitos anos, quando o seu ex-marido começou a dar aulas na cidade. Professora da UFMG, foram os estudos e as pesquisas universitárias que a levaram para a França. No entanto, sem dúvida, a sua história com o país se definiu, em grande medida, ainda na infância, pois seu pai trabalhava em uma empresa francesa e alimentava um olhar todo especial em relação à ele, conjuntamente com toda a família. A entrevistada fez o último ano da licence, a maîtrise, o Diplôme d’Études Approfondies (DEA)43, o doutorado e o primeiro pós-doutorado na Université Paris 5 e o segundo pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), com financiamentos concedidos pelo Rotary Internacional, pelo MAE e pela CAPES. Ou seja, a sua formação acadêmica, ao menos do ponto de vista formal, ocorreu quase inteiramente na França, tendo ela lá residido por mais de dez anos, embora de forma descontínua.  Cecília morou na França, em dois momentos: entre 1984 e 1988, porque os seus pais foram fazer o doutorado em Toulouse; e, entre 2004 e 2005, acompanhando seu ex- marido, que fez uma parte do mestrado também em Toulouse. Foi alfabetizada no país e, ao longo da sua segunda estadia, retomou os estudos de francês. Aos vinte e sete anos, ela é mestranda da Escola de Enfermagem da UFMG, e se prepara para fazer o doutorado em sociologia em Paris, com o financiamento da CAPES. Originária de Belo Horizonte, ressalta que essa foi a forma que encontrou para viver na capital francesa, de onde não gostaria de retornar. Vale dizer que a entrevistada se separou do primeiro marido e estabeleceu um novo relacionamento, em grande medida em função do seu fascínio pela França44. 43 Para maior compreensão da série de diplomas franceses que serão mencionados ao longo dos Capítulos 5 e 6, um quadro que apresenta o percurso educacional na França, comparando-o ao brasileiro, foi anexado à tese. (Ver Anexo F.) 44 “Bom, que é uma das coisas que aconteceu, e que eu digo que mudou muito a minha vida, é que, em Paris, quando eu vi que eu queria isso, essas outras coisas todas que eu não tinha no Brasil, e que eu não estava indo nessa direção, né? De ter... de ter essa vida que me interessava mais, de estar mais em contato com cultura, com outras pessoas diferentes, interessantes e tudo. É... uma das coisas foi perceber que o meu casamento não era exatamente o que eu queria, não combinava mais com os meus objetivos futuros. E, então, uma das coisas foi... 148  Célia nasceu, em 1983, em Juiz de Fora, cidade do interior do Estado de Minas Gerais de onde são originários os seus pais, mas sempre residiu em Belo Horizonte. No momento de realização da entrevista, desenvolvia o mestrado na Escola de Engenharia da UFMG. Ansiando por uma experiência no exterior, a entrevistada procurou se informar sobre as possibilidades de intercâmbio existentes, quando cursava a graduação em engenharia elétrica na mesma universidade. Foi assim que teve notícias de um acordo assinado com uma escola da região parisiense, única possibilidade com bolsa de estudos. Resolveu, então, candidatar-se a uma vaga, e, tendo sido selecionada, esteve na França por seis meses, no ano letivo francês 2004-2005.  Eduardo permaneceu por seis meses em Paris, no final dos anos 1990, quando sua mãe desenvolvia o pós-doutoramento. Aproveitou a oportunidade para fazer um Curso de Civilização Francesa na Sorbonne e explorar a cidade, sendo que chegou a viver com uma francesa que conheceu nesse período. Havia estado lá anteriormente, viajando pela Europa com dois amigos, e foi essa visita turística que o motivou a apostar em uma estadia mais longa. Aos vinte e nove anos, é formado em publicidade pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e tem uma pequena empresa de lentes para óculos em Belo Horizonte, que é sua cidade natal.  Érica é formada em jornalismo pela UFMG, mas trabalha como professora de inglês, em função das dificuldades de inserção no mercado. Em 2005, quando tinha vinte e cinco anos e terminava a graduação, vendeu o carro para financiar uma viagem de três meses para o exterior. Pensava em ir para o Québec, entretanto, como teve o visto negado, terminou embarcando para a França. Lá, foi recebida por um rapaz de Lyon, que tinha morado na sua casa em Belo Horizonte, alguns anos antes, como intercambista do Rotary Internacional. Aproveitou o último mês de estadia no país, para fazer um curso de francês na Aliança Francesa.  Lair é professora aposentada da UFMG e da UFOP. Na altura dos seus setenta e três anos, ocupa um lugar de destaque no cenário educacional de Belo Horizonte, cidade onde nasceu, pois, para além da longa trajetória acadêmica, concebeu e fundou uma das suas primeiras escolas infantis ditas alternativas. Entre 1959 e 1963, morou em Paris, onde desenvolveu a sua tese de doutorado, com o financiamento da CAPES. em Paris, foi conhecer outras pessoas, inclusive o meu namorado atual, que, apesar de ser brasileiro, vive muito mais nesse mundinho parisiense, francês, que me interessa, né? Mas... é, a França, eu acho que representa um pouco de tudo isso, para mim. Representa o que eu quero da minha vida.” (Entrevista concedida por Cecília, p.14-15). 149 Vale dizer que já era professora universitária, nesse momento. Casou-se com um francês que conheceu na França, no caso, o entrevistado Dominique.  Lígia tem cinqüenta e cinco anos, nasceu em São Paulo e é professora da Universidade de São Paulo (USP). Ela esteve na França, pela primeira vez, em 1972, quando era au pair na Bélgica. Nessa ocasião, passou um final de semana prolongado em Paris, com o então namorado. Mais recentemente, em 2002, esteve na capital francesa em missão de pesquisa. E, no momento da realização da entrevista, desenvolvia o seu pós-doutorado em Rennes, enquanto bolsista da CAPES. A escolha do país como destino, quando busca conhecer outros modos de reflexão e de interesse acadêmicos, está relacionada com o fato da entrevistada falar francês e dela ter sido mais marcada pela produção científica francesa, ao longo da sua formação. Vale dizer que, depois, viria a trabalhar como professora convidada, na Université Rennes 2.  Morena se mudou para a França, em 2006. Inicialmente, foi au pair, em uma pequena cidade nas proximidades de Lyon. Seu interesse, nesse primeiro momento, não era propriamente o aprendizado da língua, e sim a viagem e o contato com uma outra cultura, tanto é que não escolheu o país de destino. Formada em letras pela UFMG, preparava-se, quando a entrevistamos, para retomar os estudos universitários em Rennes. Tendo se candidatado para fazer um master em artes cênicas e um master em artes plásticas, foi aceita para cursar o último ano da licence em artes cênicas. Posteriormente, viria a se casar com um francês e abandonar o master professionnel em direção teatral que cursava em Paris. É originária de Belo Horizonte e tinha vinte e seis anos. Já havia visitado a capital francesa por duas vezes, quando se mudou para a França. Iremos nos restringir aos estudantes, como foi possível observar. Três são os motivos que justificam tal opção. Por um lado, em Rennes, a universidade constitui o principal pólo de atração dos brasileiros que estão de passagem pela cidade. Por outro lado, é ainda a universidade, juntamente com os órgãos da diplomacia e as empresas multinacionais, que parece ser responsável pelo trânsito de franceses por Belo Horizonte. Localizamos, além do mais, na capital da Bretanha, um certo número de franceses que tinham estudado no Brasil e, na capital mineira, muitos brasileiros que tinham estudado na França. Isso ocorreu pelo fato de circularmos pelo meio acadêmico, mas também porque parte significativa da dinâmica dos 150 deslocamentos entre os dois países aparenta estar diretamente relacionada com a academia. Optar pelos estudantes, dessa maneira, é privilegiar um dos grupos centrais, quando se fala em “brasileiros na França” e “franceses no Brasil”; mais que isso, é se voltar para o único grupo, dentre os migrantes temporários, que permite elaborar uma reflexão de mão dupla, ou seja, acerca do imaginário de brasileiros sobre a França e do imaginário de franceses sobre o Brasil. Finalmente, ao nos darmos conta dessa centralidade, entrevistamos, em Rennes, uma série de estudantes brasileiros e de franceses que viajaram para o Brasil para estudar, e, em Belo Horizonte, uma outra série de estudantes franceses e de brasileiros que viajaram para a França para estudar. Constituímos, assim, um conjunto documental acerca de um grupo bem delimitado, mas que não deixa de ser, ao mesmo tempo, amplo e diverso, na medida em que reúne quinze entrevistas concedidas por sujeitos de diferentes perfis. Manteremos, ao longo dos Capítulos 5 e 6, o eixo de análise adotado anteriormente. Quando esmiuçamos as histórias contadas por Nádia e pelos demais “brasileiros de Rennes”, assim como aquelas contadas por Jean e pelos demais “franceses de Belo Horizonte”, buscamos abarcar o imaginário que envolve o Brasil e a França na contemporaneidade, a partir das trajetórias de vida dos entrevistados, mais precisamente dos processos migratórios por eles experimentados. O mesmo será feito, em relação aos “brasileiros na França” e aos “franceses no Brasil”, que podem ser encarados como migrantes temporários, lembrando que migrar é um fenômeno ocasionado por fatores que ultrapassam o indivíduo, mesmo que seja vivido em escala individual. Feitas essas considerações preliminares, passemos à análise. Não por acaso um dos livros de Cunha (2007), que discute a formação do sistema universitário brasileiro, intitula-se A Universidade Temporã, conforme alerta Mendonça (2000). O ensino superior surgiu tardiamente no nosso país; sua real institucionalização ocorreu somente na primeira metade do século passado, entre 1920 e 1940. O Brasil, ao longo de quase todo o período colonial (1500-1822), constituiu uma exceção na América Latina. Enquanto a Espanha espalhou universidades pelas suas colônias, ao ponto delas contarem com quase trinta no momento das independências, Portugal nos limitou às universidades européias, em especial, a de Coimbra e a de Évora, únicas então existentes na metrópole. E as inúmeras tentativas frustadas de começar a ministrar cursos de nível superior nos colégios jesuítas denunciam a intencionalidade dessa limitação. Na verdade, ela seria um dos fortes vínculos que sustentava a dependência da colônia, na medida em que garantia a conformação da elite brasileira nos moldes que melhor convinham ao colonizador (MENDONÇA, 2000). 151 Com a vinda da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, foram criados alguns cursos de nível superior e até mesmo algumas instituições de ensino superior. No Rio de Janeiro, criou-se, em 1808, a Academia de Marinha e o Curso de Anatomia e Cirurgia; em 1810, a Academia Real Militar; em 1812, o Laboratório de Química; em 1813, a Academia de Medicina e Cirurgia; e, em 1814, o Curso de Agricultura. Na Bahia, criou-se, em 1808, a Cadeira de Economia e o Curso de Cirurgia, Anatomia e Obstetrícia; em 1812, o Curso de Agricultura; e, em 1817, o Curso de Química e o Curso de Desenho Técnico. Além disso, foram criados, em 1809, em Pernambuco, o Curso de Matemática; em 1817, na antiga Vila Rica, atual Ouro Preto, o Curso de Desenho e História; e, em 1821, em Paracatu, cidade do interior de Minas Gerais, o Curso de Retórica e Filosofia. O que justificou o surgimento desses cursos e instituições foi uma demanda premente. Tornado sede do império português, o Brasil precisava contar com uma certa infra-estrutura que garantisse a vida da corte. A defesa militar passou também a ser uma questão importante. E era preciso suprir as lacunas do ensino ministrado nas aulas régias (MENDONÇA, 2000). Poucas foram as iniciativas, no que concerne ao ensino superior, durante o Império (1822-1889), tendo os sucessivos governos quase que se restringido à manutenção das obras de Dom João VI. Em 1826, começou a funcionar, no Rio de Janeiro, a Academia Imperial de Belas Artes, fundada, aliás, por uma missão francesa, da qual fazia parte Jean-Baptiste Debret. Um ano mais tarde, foram inaugurados cursos jurídicos, em São Paulo e em Olinda. O Curso de Engenharia foi separado da Academia Militar, em 1874, dando origem à Escola Politécnica. Por fim, em 1875, ocorreu a instalação da Escola de Minas de Ouro Preto, projeto do engenheiro francês Claude-Henri Gorceix (MENDONÇA). Mesmo assim, a Universidade de Coimbra continuou a ser o centro formador por excelência da fina flor da mocidade, até a segunda metade do século XIX, o que levou Anísio Teixeira a chamá-la de “universidade brasileira”. Nossos primeiros cientistas, as principais lideranças dos movimentos de independência e quase toda a intelligentzia do período imperial estudaram nessa instituição (MENDONÇA, 2000). Se é verdade que, a partir do fim da Regência (1831-1840), começou a ocorrer uma diversificação das trajetórias de formação da elite, Portugal não deixou de ser uma passagem obrigatória de imediato, pois é de lá que se costumava rumar para outros centros, principalmente para a França (BRITO, 1996). Foi somente na primeira metade do século passado que o país passou a contar com quatro universidades. Em 1920, foi criada a Universidade do Rio de Janeiro, a partir da agregação de três faculdades isoladas. Em 1927, surgiu a Universidade de Minas Gerais, 152 também constituída da mesma maneira. A USP, primeira instituição de ensino superior brasileira a ultrapassar os limites e as ambições da formação profissional, foi fundada em 1934, com forte presença de uma missão francesa, da qual fazia parte Claude Lévi-Strauss. Um ano mais tarde, também com um novo espírito, tivemos o surgimento da Universidade do Distrito Federal, que viria a ser absorvida, em 1937, pela Universidade do Brasil, essa de cunho mais conservador (MENDONÇA, 2000). Brito (1996), na tentativa de estabelecer marcos históricos afinados com o desenrolar das relações entre o ensino superior brasileiro e o internacional, menciona, em princípio, dois períodos, são eles: 1. 1500-1840, quando a formação universitária é feita inteira ou majoritariamente em Portugal; 2. 1840-1930, quando ela passa, gradualmente, a ser realizada no Brasil, sendo que, no que concerne a circulação de estudantes brasileiros no exterior, a metrópole perde, de maneira progressiva, a hegemonia frente a outros centros europeus. Um indício dessa transformação é o local de estudo dos ministros da época. Todos eles tinham estudado em Coimbra, até o final do Primeiro Reinado (1822-1831). No início do Segundo Reinado (1840-1889), eles se dividiam em dois grupos quase equivalentes, aqueles que passaram por Portugal (45%) e aqueles que provinham de instituições brasileiras (55%). Já a partir de 1853, nenhum deles possuía uma bagagem portuguesa. E, quanto a diversificação das destinações no estrangeiro, entre 1831 e 1889, cinco ministros (8%) freqüentaram universidades em outros países, provavelmente na França. No que diz respeito à pós-graduação, Cury (2004) demonstra como o desenvolvimento de programas de mestrado e doutorado no Brasil ocorreu atrelado ao exterior, reconstruindo esse processo desde o início do período republicano, com particular interesse pela segunda metade do século XX, quando ele passa a ser resultado de uma verdadeira política governamental de impacto. A qualificação de professores e de pesquisadores de um país nem sempre pôde ser realizada plenamente com os próprios meios internos. No caso do Brasil, de formação colonial peculiar que não estimulou a formação autóctone de intelectuais e pesquisadores, de seletividade sociopolítica que exclui contingentes enormes, houve impedimentos estruturais para uma afirmação autônoma e ampliada do ensino superior (CURY, 2004, p.112). O início da pós-graduação no Brasil, na verdade, associa Estado, progresso da ciência e referências internacionais. A começar, por meio da concessão de um número significativo 153 de bolsas de estudos por agências de fomento públicas (em especial, a CAPES, o Conselho Nacional de Pesquisa ou CNPq e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo ou FAPESP, fundadas, respectivamente, em 1951, 1949 e 1962), professores e pesquisadores foram enviados ao exterior para cursar o mestrado e o doutorado. E, depois do seu retorno ao país, receberam as condições necessárias para recriarem, disseminarem e continuarem a desenvolver o que haviam aprendido, com o intuito de fomentar a fundação e a consolidação de programas de pós-graduação. Por outro lado, no momento de se estruturar o sistema, o que ocorreu no início da ditadura militar, adota-se como modelo um paradigma exógeno, o estadunidense – com os seus dois níveis de grau, o mestrado e o doutorado; suas áreas de concentração e de domínio; sua sistemática de cursos e créditos; sua duração variável; seus exames de qualificação; seu domínio em língua estrangeira; seu método de acompanhamento dos estudos e pesquisas por um orientador; sua exigência da dissertação para o mestrado e da tese para o doutorado. Ou seja, diante da necessidade de formar seus próprios cientistas, docentes e técnicos, mais uma vez, é para fora que o Brasil se volta (CURY, 2004). Atualmente, os programas de pós-graduação das nossas universidades formam e titulam a maior parte dos brasileiros que concluem o mestrado e o doutorado, e as agências de fomento do país investem pesadamente nesses programas. Se houve um tempo em que eram concedidas bolsas de estudo para o desenvolvimento do mestrado no exterior, nota-se que até mesmo os financiamentos para doutorados plenos para além das fronteiras escasseiam, uma vez que contamos com um sólido sistema interno. Tem se apostado, preferencialmente, nos “doutorados sanduíches” e nos pós-doutoramentos, que não só são estadias mais curtas e menos dispendiosas, mas são marcados antes pela perspectiva de troca entre pesquisadores e de inserção do que produzimos no movimento internacional da ciência (CURY, 2004). Apesar disso, é interessante notar que a política de qualificação no exterior das agências brasileiras de fomento à pesquisa continua bastante agressiva. Entre os anos 1990 e 2000, a CAPES concedeu 2697 bolsas de doutorado pleno. Se considerarmos que o CNPq e as agências estaduais oferecem mais ou menos a mesma quantidade de bolsas, quase nove mil bolsas de doutorado pleno foram concedidas, ao longo do período. Os estudantes que receberam financiamentos da CAPES, nos últimos dez anos, escolheram quarenta e um destinos diferentes, cobrindo todos os cinco continentes. A França, particularmente, ocupa o segundo lugar entre os destinos mais escolhidos (com 1812 bolsas), atrás dos Estados Unidos (com 2185 bolsas) e na frente da Grã-Bretanha (com 1091 bolsas) (CURY, 2004). 154 Teríamos saído de uma época de dependência para com o exterior e entrado em uma de interdependência, segundo Brito (2004). Todavia, é importante destacar que o Brasil se insere nesse movimento internacional de produção da ciência enquanto um país periférico. Dados de 2004 apresentados por Ennafaa (2004-2005) demonstram a assimetria do fluxo internacional de estudantes: 62% dos estudantes em mobilidade internacional são originários dos países periféricos e se encontram em um país central, 30% provêm de um país central e escolhem um outro país central como destino, somente 8% provêm de um país central e se deslocam para países periféricos; os Estados Unidos recebem acima de 25% dos estudantes em mobilidade internacional, mais que a Inglaterra, a Alemanha e a França reunidas, enviando apenas 2% deles. Ou seja, vivendo no centro do mundo, os americanos não precisam se preocupar em viajar para conhecer o que vem sendo feito em outros lugares, difundir os resultados dos seus trabalhos e intercambiar com os seus pares em uma escala global. Esse não é o nosso caso, e também não é o caso de outros países que ocupam lugar semelhante ao do Brasil na ordem mundial. O histórico construído permite compreender como as temporadas de estudo no exterior constituem práticas culturais bastante enraizadas entre nós. Até 1808, aqueles que não estavam destinados ao sacerdócio deviam, obrigatoriamente, deixar o Brasil, para ingressar no ensino superior. Embora a chegada da corte portuguesa (1808) tenha levado ao surgimento de alguns cursos superiores e mesmo de algumas instituições de nível superior, cursos e instituições esses que sobreviveram à proclamação da independência (1822) e aos quais vieram se somar, ao longo do Império (1822-1889), algumas novidades em termos de educação superior, a Universidade de Coimbra continuou a funcionar como “universidade brasileira”, nas palavras de Anísio Teixeira, até a segunda metade do século XIX. Tal quadro começou a se transformar apenas a partir de meados do século passado, certamente de maneira mais significativa após 1920, com a criação das primeiras universidades no Brasil. Mas isso no que concerne à graduação, pois precisaríamos esperar até a segunda metade do século XX, para assistir à consolidação dos nossos programas de pós-graduação. Sendo que eles foram criados, em grande medida, por pesquisadores que desenvolveram o mestrado e o doutorado no exterior, de acordo com moldes estadunidenses. Na verdade, como faz questão de frisar Brito (1996), o surgimento de universidades e mesmo de programas de mestrado e doutorado no Brasil não significou o fim da participação estrangeira na formação superior dos brasileiros, mas antes uma complexificação dos itinerários formativos das elites. A possibilidade de cursar a graduação no país, em um 155 primeiro momento, irá somente transferir para um outro nível de ensino esse aporte dos países centrais. Mais tarde, com a organização do nosso sistema de pós-graduação, ele seria deslocado de novo da formação para a pesquisa. Além disso, possuir um diploma nacional não impede as temporadas de estudo no exterior. Possuí-lo, ao contrário, vai antes exigir essa complementação, entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, por exemplo, na medida em que ela garantia um aperfeiçoamento técnico ou científico e, sobretudo, o contato com as correntes de idéias e as elites internacionais. Dentro desse processo de complexificação das trajetórias escolares de membros das camadas mais privilegiadas da sociedade brasileira que inclui o estudar fora do país, encontram-se, na nossa opinião, também os intercâmbios culturais de segundo grau e os intercâmbios universitários para estudantes de graduação, bem como os cursos de língua de curta duração e os programas de estágio ou trabalho no estrangeiro. Isso porque essas modalidades recentes de internacionalização dos estudos, voltadas para uma clientela cada vez mais jovem, parecem desenhar não um novo fenômeno e sim os novos contornos de um processo de reprodução social que nos acompanha desde o período colonial. Nogueira (1998; 2004; 2008) se dedicou à análise das experiências internacionais de escolarização de filhos de professores universitários e empresários de Belo Horizonte. Para a autora, trata-se de uma nova faceta da nossa realidade educacional, que não pode ser desprezada quando se fala em educação das elites, em função do seu vertiginoso aumento nas últimas décadas entre jovens oriundos de meios sociais favorecidos. Cerca de sessenta mil estudantes viajaram do Brasil para o exterior para estudar, em 2007, sendo que 10% deles cursavam o segundo grau e participavam de um intercâmbio cultural (NOGUEIRA, 1998). E o que move os pais que investem em “uma dose de Europa ou Estados Unidos para cada filho”, nas palavras de um entrevistado de Nogueira (1998, p.118) que deu título ao seu artigo? A internacionalização dos estudos, não importa em qual nível de escolarização, funciona como uma estratégia educativa de determinados grupos, visando a manutenção das fronteiras estabelecidas entre eles e os grupos detentores de menor capital cultural e econômico, segundo a autora, que retoma as idéias defendidas por Bourdieu (2001). Com a democratização do acesso à educação, o sucesso escolar de pessoas pertencentes às camadas sociais mais baixas e o aumento do número de diplomados no mercado de trabalho, ocorre uma desvalorização dos títulos, em função da sua banalização. Sendo assim, aqueles que antes 156 se distinguiam dos demais pela sua posse vêem a posição que ocupam ameaçada, e são levados a reformular rapidamente suas estratégias escolares e a tentar garantir a exclusividade sobre elas, voltando-se para níveis de ensino mais elevados, estabelecimentos mais seletivos ou tipos de escolarização mais raros, como é o caso dos estudos no exterior (NOGUEIRA, 1998; 2008). Os pais que financiam um intercâmbio cultural não fogem à regra. Eles têm em vista a super preparação dos filhos para obter sucesso no mercado escolar e no mercado de trabalho. Não por acaso a grande maioria dos estudantes secundaristas que parte para o exterior ruma para um dos países centrais onde se fala o inglês45. Por ser a língua mais rentável em uma série de mercados, ele é considerado um saber mínimo obrigatório pelas famílias dos intercambistas. E essas últimas, acreditando na superioridade da aprendizagem de um idioma em um país que o tem como língua oficial, não se contentam em custear cursos livres, o que também fazem e desde muito cedo (NOGUEIRA, 1998; 2008). De fato, os jovens que partem para viver seis meses ou um ano nos Estados Unidos, na Inglaterra, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia ou na Irlanda, uma vez de volta ao Brasil, convertem a experiência internacional em vantagens escolares e profissionais: eles obtêm ainda melhores resultados em inglês no colégio; conseguem uma excelente pontuação na prova de língua estrangeira do vestibular, que, diga-se de passagem, é obrigatória nas universidades federais, independentemente do curso superior para o qual se candidata; quando estão na faculdade, têm boa desenvoltura na leitura de livros e artigos publicados em inglês; podem postular, mais tarde, postos de trabalho que exigem a fluência em língua inglesa; em uma entrevista para um emprego, contam com o trunfo de dominar bem o idioma, etc (NOGUEIRA, 1998; 2008). Para além dessa perspectiva utilitarista, a temporada de estudos fora do Brasil possui uma outra dimensão mais subjetiva, que é garantir aos filhos uma formação cultural e uma abertura de horizontes e de espírito. Ou seja, a própria viagem, o contato com outras culturas e, mais que isso, a vivência em um país central, assumem um caráter formativo. Esses outros objetivos fomentam uma ampliação do capital cultural do jovem, que não somente reflete na 45 Para se ter uma idéia em termos quantitativos, dos estudantes de nível pré-universitário que deixaram o Brasil para estudar no exterior em 2001, 35,04% embarcaram para os Estados Unidos, 19,74% para a Inglaterra, 18,4% para o Canadá, 9,06% para a Austrália, 6, 28% para a Nova Zelândia e 0,15% para a Irlanda, o que significa quase 90% do total. Entre os anos de 1997 e 1998, dos jovens belorizontinos que participaram de programas de intercâmbio cultural, 57,4% seguiram para os Estados Unidos, 13,2% para a Inglaterra, 10,3% para o Canadá, 7,3% para a Nova Zelândia e 2,9% para a Austrália, o que equivale a mais de 90% do total (NOGUEIRA, 1998, p.362-363). 157 escola, embora muitas vezes não de modo imediato ou visível, mas possui uma rentabilidade social e pode se desdobrar também em termos econômicos (NOGUEIRA, 1998; 2008). O intercâmbio de segundo grau, então, estabelece clivagens entre os que aprenderam uma língua estrangeira, especialmente o inglês, em um país onde a população fala essa língua, e os que aprenderam o mesmo idioma no Brasil; entre os que dominam um savoir faire cultural e os que não o dominam. Poderíamos acrescentar ainda duas outras marcas de distinção social, uma primeira que divide aqueles que possuem trajetórias escolares marcadas pela internacionalização e aqueles que não as possuem, e uma segunda entre aqueles que já moraram em países centrais e aqueles que não tiveram essa experiência, o que, sem dúvida, carrega um significado positivo em um país periférico como o Brasil, onde estudar e morar no estrangeiro ainda é algo muito pouco comum, sendo que se estabelece uma relação toda especial com o centro do mundo (NOGUEIRA, 1998; 2008). Brito (1991), ao tentar compreender as razões que levam os brasileiros a buscar um diploma de pós-graduação na França, em sua tese de doutoramento, caminha ao encontro do que diz Nogueira (1998; 2008). Segundo a autora, também para esses brasileiros a temporada de estudos fora do país serve como marca de distinção com um valor não negligenciável no mercado de trabalho. Se até os anos 1970, a graduação garantia aos brasileiros o acesso a maior parte dos empregos mais valorizados, inclusive o de professor universitário, com a elevação do nível de qualificação da população provocada pela Reforma Universitária de 1968 e pelo surgimento paralelo de um sistema de ensino superior privado, a pós-graduação se impõe, já nos anos 1980, como título necessário para aqueles que querem se diferenciar em meio à massa de graduados que briga por um bom posto ou que trabalha em um determinado estabelecimento. Ou seja, o mestrado e o doutorado, sobretudo quando eles são obtidos em uma instituição renomada no estrangeiro, pelo menos até muito recentemente, eram capazes de blindar quem os possuía em um processo seletivo e conferir um estatuto privilegiado aos que já tinham conquistado um lugar ao sol (BRITO, 1991). Nas palavras de alguns de seus entrevistados: Je pense que le doctorat à l’étranger a un effet certain sur le poste que tu peux avoir, un effet magique, certes plus grand que le doctorat effectué au 158 Brésil, pour meilleur qu’il puisse avoir été. Le rendement symbolique du diplôme étranger est plus grand que celui du diplôme national46. (F-1) La valeur symbolique de mon doctorat, si je l’avais fait à E., en Angleterre, avec toutes les critiques que j’ai sur le système anglais de formation, serait plus grande que la valeur de mon doctorat effectivement fait au Brésil. Le fait de faire un doctorat à l’étranger lui donne une importance beaucoup plus grande, même s’il est fait dans un centre brésilien important, comme le CBPF47. (F-19) Alors j’ai commencé à me rendre compte que l’Université au Brésil n’était pas la seule voie pour une ascension professionnelle. C’est là qui intervient un cours à l’étranger, c’est un cours universitaire avec un plus, c’est à l’étranger48. (F-13) Quand je suis rentrée, c’était une époque de grande agitation politique dans l’Université, juste après le processus de redémocratisation du pays. Alors, comme je rentrais et que j’avais un statut acquis par le fait des études à l’étranger, tous les groupes désireux de prendre la direction de l’école se disputaient mon adhésion...49 (F-9) ...quand on a le doctorat au Brésil dans ma discipline c’est comme si on n’avait rien, on n’est pas consideré un vrai physicien quand on a un doctorat au Brésil. J’ai essayé d’avoir une bourse de jeune chercheur, de me faire financer quelques projets par le CNPq, sans succès, même des projets intéressants qui impliquaient des possibilités de coopération entre les Universités de M. et de N., le travail avec des gros ordinateurs du CBPF, rien à faire... ils m’ont répondu que je parte faire un post-doc à l’étranger, que j’aurais peut-être une chance après...50 (F-19) Quand je suis rentrée, il y avait des gens qui voulaient organiser des réunions, des conférences, pour que j’expose ce que j’avais appris et vu ici. J’ai refusé, tu ne rentres pas dans ton pays pour dicter des normes...51 (F-9) (BRITO, 1991, p.129-131). 46 Eu acho que o doutorado no exterior tem um efeito garantido sobre o emprego que você pode conseguir, um efeito mágico, certamente maior que o doutorado feito no Brasil, por melhor que ele possa ter sido. O rendimento simbólico do diploma estrangeiro é maior que o do diploma nacional (F-1) (Tradução nossa). 47 O valor simbólico do meu doutorado, si eu o tivesse feito em E., na Inglaterra, com todas as críticas que tenho sobre o sistema inglês de formação, seria maior que o valor do meu doutorado feito no Brasil. O fato de fazer um doutorado no exterior lhe dá uma importância muito maior, mesmo se ele é feito em um centro brasileiro importante, como o CBPF (F-19) (Tradução nossa). 48 Então, eu comecei a me dar conta de que a universidade no Brasil não era a única via para uma ascensão profissional. É aí que intervém um curso no exterior. É um curso universitário com algo mais: é no exterior (F- 13) (Tradução nossa). 49 Quando eu voltei, era uma época de grande agitação política na universidade, logo depois do processo de redemocratização do país. Então, como eu chegava e eu tinha um status adquirido pelo fato dos estudos no exterior, todos os grupos desejosos de tomarem a direção da escola disputavam minha adesão… (F-9) (Tradução nossa). 50 …quando a gente tem o doutorado no Brasil, na minha disciplina, é como se a gente não tivesse nada. A gente não é considerado um verdadeiro físico, quando a gente tem um doutorado no Brasil. Eu tentei conseguir uma bolsa do CNPq de jovem pesquisador sem sucesso. Mesmo se os projetos eram interessantes e previam possibilidades de cooperação entre as universidades de M. e de N., o trabalho com grandes computadores do CBPF, nada feito… Eles me responderam, dizendo que eu devia fazer um post-doc no exterior, assim eu teria, talvez, uma chance, depois… (F-19) (Tradução nossa). 51 Quando eu voltei, tinham pessoas que queriam organizar reuniões, conferências, para que eu expusesse o que eu tinha aprendido e visto aqui. Eu recusei. Você não volta para o seu país para ditar regras (F-9) (Tradução nossa). 159 Em relação aos estudantes brasileiros que não atribuem, em princípio, um valor qualquer ao diploma estrangeiro, considerando que são funcionários públicos e não trabalham nem têm a pretensão de trabalhar na universidade, uma minoria dentre os entrevistados, Brito (1991) faz questão de ressaltar que, nesse caso, o prestígio que a temporada de estudos fora do país lhes garante está ligada antes ao fato de morar na França em si que propriamente a um título valorizado no mercado. Escutemos o que diz mais um de seus entrevistados: Le diplôme n’a aucune importance, c’est plus une question d’assurance personnelle, du point de vue émotionnel... Quando nous arrivons là-bas, tout est la France, tu sais?! Ce qu’on met, tout, tout. L’autre jour, j’avais une petite robe brésilienne et tout le monde a dit: “Ah, que c’est joli, c’est français?”52 (F-2) (BRITO, 1991, p.138). Uma leitura da formação das elites internacionais elaborada por Wagner (2002), tomando como ponto de partida a realidade das escolas internacionais – que Nogueira (2008) com muita perspicácia definiu como uma espécie de internalionalização in loco, já que ela permite o acesso a uma formação bilíngue, um currículo e um diploma internacionais sem exigir o deslocamento geográfico – ajuda-nos a compreender essa hierarquia entre os estudos realizados no Brasil e os estudos realizados em certos países do mundo ou entre um diploma brasileiro e um determinado diploma estrangeiro, que permeia toda a discussão apresentada até o momento. Se o sistema educativo é um dos centros, por excelência, de produção e reprodução do nacional, as escolas internacionais, que se ocupam da formação dos filhos dos altos funcionários e dos homens de negócio em exercício no exterior, apontariam, em princípio, na direção da construção do transnacional, na medida em que misturam alunos de diversas nacionalidades, marcados por uma nova cultura ligada à globalização das trocas e aspirantes a um diploma internacional conferido por uma fundação de Genebra, o Baccalauréat International. Todavia, ao realizar uma pesquisa junto às escolas internacionais da região parisiense, Wagner concluiu que, para as famílias de expatriados, a superação do nacional caracteriza apenas a esfera do trabalho, sendo que a esfera educacional permanece, de uma forma muito peculiar, a ele submetida (WAGNER, 2002). 52 O diploma não tem nenhuma importância, é mais uma questão de segurança pessoal, do ponto de vista emocional... Quando nós chegamos lá, tudo é a França, você sabe?! O que a gente veste, tudo, tudo. Outro dia, eu usava um vestidinho brasileiro e todo mundo falou: “Ah, como é bonito! É francês?” (F-2) (Tradução nossa). 160 A vantagem dos alunos das escolas internacionais está antes na acumulação das competências lingüísticas e culturais de vários países que na negação das referências e dos saberes de um país, segundo a autora. Dessa maneira, por um lado, a cultura internacional não pode ser definida como uma cultura mundial mais ou menos unificada, que substitui as culturas nacionais. Ela é, ao contrário, o resultado da soma das culturas nacionais. Soma harmoniosa, vale dizer, pois opta-se pelas dimensões consensuais das identidades. Por outro lado, o aluno e sua família emergem como representantes do seu país, e, de um enraizamento nas origens da parte deles, depende a riqueza da formação escolar. A educação internacional, então, mantém uma relação com o nacional, que é marcada, ao mesmo tempo, pela distância e pela apropriação. E, para os alunos internacionais, o nacional não constitui um princípio de identificação exclusivo, funcionando como um recurso lingüístico, cultural e social, que eles devem aprender a mobilizar internacionalmente (WAGNER, 2002). A cultura internacional está baseada na valorização de culturas nacionais múltiplas; entretanto, diferentes culturas nacionais não têm necessariamente o mesmo valor na cultura internacional. A hierarquia existente entre os países pode ser ilustrada, por exemplo, a partir das posturas adotadas frente ao aprendizado das línguas (WAGNER, 2002). 1. Todas as escolas internacionais da região parisiense privilegiam o inglês e impõem o francês, alegando sua importância para a integração da criança ou do jovem no meio em que vive. Mas o ensino da língua do país em que está localizada a escola depende da importância dessa língua em um quadro mais amplo. Assim, enquanto os liceus franceses promovem o bilingüismo na Espanha e na Inglaterra, eles oferecem apenas cursos facultativos de grego ou holandês na Grécia e na Holanda. 2. O Baccalauréat International reconhece somente três línguas de trabalho, sendo que, em 1991, 86% dos candidatos optaram pelo inglês, 12,9% pelo espanhol e 4,3% pelo francês. Foram as escolas anglófonas e as universidade americanas e inglesas, sobretudo, que o elaboraram, o que faz com que a formação ministrada pelas escolas internacionais se inscreva nas tradições educativas dos Estados Unidos e da Inglaterra, preparando tanto para a prova que lhe confere quanto para o ingresso nas universidades desses países. Dessa maneira, se os americanos, por exemplo, podem permanecer na sua própria língua e, mais que isso, no seu próprio sistema educativo, enquanto acumulam recursos escolares, sociais e simbólicos internacionais, os alunos 161 da maioria absoluta dos países precisam encarar a acumulação de referências culturais múltiplas como via de acesso à cultura internacional. 3. Nem todas as nacionalidades dispõem de escolas internacionais, sendo que, quanto maior a importância atribuída à língua de um país, maior a quantidade de escolas internacionais ele terá. Em Paris, as escolas americanas são mais numerosas e importantes. Quase três quartos do total de alunos das escolas internacionais do mundo estão matriculados nas escolas anglófonas, estando elas esparramadas pela maioria das grandes cidades. As escolas americanas têm maior poder de atração, contando, em geral, com menos da metade de alunos americanos. 4. Os expatriados que contam com uma língua materna reconhecida, como é o caso dos anglófonos, preocupam-se em transmití-la aos filhos, independente da ligação que mantêm com o país de origem. No entanto, não é raro que os expatriados que possuem uma língua materna com pouca utilidade fora do seu país, depois de alguns anos de residência no estrangeiro, parem progressivamente de utilizá-la com os filhos. Da mesma maneira que as culturas nacionais não possuem o mesmo valor no âmbito da cultura internacional, a cultura internacional não possui o mesmo valor no âmbito de cada cultura nacional. As famílias levam em conta não somente a hierarquia entre os países, mas também o valor das diversas formações dentro do seu próprio país, fazendo com que as escolhas educativas varie de acordo com a nacionalidade. O Baccalauréat International, nessa perspectiva, impõe-se com mais facilidade onde a passagem por instituições educativas no exterior faça parte das condições de reprodução das elites. Não por acaso, dentre os candidatos ao diploma de Genebra, encontra-se um número importante de jovens dos países periféricos. A Índia, o Irã e a Nigéria ocupam, desde 1970, a décima-primeira, a décima- segunda e a décima-quarta posição, considerando o número de candidatos apresentados. O número de candidatos originários da América Latina (México, Colômbia e Brasil), mas, sobretudo, dos países do Sudeste Asiático (Coréia do Sul, Filipinas e Taiwan), aumentou bastante, desde 1982 (WAGNER, 2002). Para dar conta da diversidade das relações nacionais com o internacional, convém, portanto, fazer intervir dois fatores. O primeiro diz respeito ao reconhecimento internacional do nacional e opõe nacionalidades dominantes, que podem enfatizar o valor internacional de seus atributos nacionais, aos originários de países dominados do ponto de vista econômico 162 e político que, pelo contrário, devem recalcar os atributos nacionais de sua identidade e assimilarem-se aos modelos dominantes. O segundo fator refere-se ao reconhecimento nacional do internacional e opõe as nacionalidades para as quais os investimentos internacionais vão no sentido das exigências do sistema nacional escolar e social, às nacionalidades para as quais essas escolhas educativas são mais arriscadas na competição nacional. A capacidade dos Estados para produzirem sua própria definição da excelência social, capacidade que, em parte, depende do poder político e econômico do país, determina assim definições contrastantes do internacional (WAGNER, 2002, p. 181). Mais uma vez, deparamo-nos com uma análise que tangencia as discussões apresentadas nos Capítulos 3 e 4 acerca do universo espacial brasileiro (o “aqui dentro” e o “lá fora”) de DaMatta (2005) e da identidade brasileira incompleta e lacunar de Chauí (2000), ambos garantidos por um imaginário colonizado que também produzem. Wagner (2002) busca justamente em uma certa ordem mundial a chave para a compreensão das escolas internacionais, afinal é ela que também explica o lugar internacional do nacional e o lugar nacional do internacional, os dois fatores que dariam conta da diversidade das relações entre os países e mesmo definiriam múltiplas definições do estrangeiro. É Ângela que nos permite melhor compreender como tudo isso é vivido na escala individual. A começar, porque ela, que, hoje, é professora titular e se encontra em plena maturidade intelectual, permaneceu fora do país por mais tempo para estudar que os demais entrevistados, tendo cursado o último ano da graduação na França e lá desenvolvido todas as suas pesquisas de pós-graduação (maîtrise, DEA, doutorado e pós-doutoramentos). Isso fez com que o impacto dessas temporadas de estudo no exterior se tornasse muito mais palpável no seu caso, chegando ao ponto, segundo a própria entrevistada, da sua história de vida se confundir com as passagens por Paris, na medida em que essas últimas são capazes de explicá-la. Além disso, nossas questões de pesquisa coindidem com velhas reflexões de Ângela, enquanto constituem uma novidade para o restante. Isso porque ela tem quase cinqüenta anos e já fez análise; precisou pensar à respeito, quando participou de um trabalho acerca dos estudantes brasileiros na França; é socióloga e esse assunto lhe interessa. Finalmente, o depoimento que nos concedeu possui um outro diferencial importante frente aos demais. Ele é o único que contém pistas mais consistentes sobre o processo de construção do imaginário de um brasileiro sobre a França e permite vislumbrar, então, como, em um outro nível, esse imaginário colonizado que identificamos se reproduz e é, ao mesmo tempo, reiterado. 163 Chama à atenção, em meio a história contada por Ângela, a sua dificuldade em voltar para o Brasil, ao final de cada temporada de estudos na França, o que significa também uma facilidade em deixar a terra natal e, indo além, até mesmo uma vontade de deixá-la. Da primeira vez, quando permaneceu um ano em intercâmbio universitário em Paris, ela diz que chorou muito, no momento da partida, pois não queria retornar. Mas, como a bolsa do Rotary Internacional acabava e era obrigada a fazer isso, procurou descobrir, ao menos, uma forma de garantir uma nova estadia. Foi assim que se inteirou à respeito dos financiamentos concedidos pelo MAE e cuidou de cumprir as exigências para cursar a maîtrise e o DEA na Université Paris 5. A entrevistada fala que, enquanto está estudando fora, mesmo se as ausências se prolongam por três ou quatro anos, como foi o caso por duas vezes, tem por hábito não viajar para o Brasil à passeio, isso porque, diferentemente de brasileiros que conhece, não sente necessidade alguma. Aliás, se muitos sofrem na França, ela frisa que sofre sempre é para ir embora do país, considerando que a tristeza que sentiu, em um primeiro momento, veio a se repetir, mais tarde. Ah! Nossa! Eu chorei muito! Eu não queria vir embora. E eu não querer vir embora explica o que aconteceu no imediato [uma segunda temporada de estudos]. Eu não queria vir embora. A minha constatação era... Assim, hoje, eu diria. Naquela época, não tinha essa expressão. “Estão tirando o doce da criança. Da boca da criança.” Porque eu achava pouco! Eu estava gostando tanto de tudo, que eu não queria vir embora! Eu queria ficar lá. Mas a bolsa acabava. Porque essa bolsa é só de um ano. Então, não tinha como eu ficar lá (Entrevista concedida por Ângela, p.16). Bom, então, eu tinha que vir embora. Eu só pensava naquilo, quando eu vim embora. Que era como voltar. “Como é que eu ia fazer para voltar para lá?” (p.16) Aí, eu fiquei quatro anos seguidos. Para você ver a minha coisa. Isso as pessoas ainda falam: “Como que você consegue?” [...] Eu fiquei quatro anos sem vir para o Brasil! Da outra vez, fiquei três. Eu... e sempre não entedendo, assim, porque que as pessoas ficam tão chorosas: “Ah, eu preciso ir lá!” Eu nunca tive isso (p.18). Olha o quê que eu quero te dizer... Até hoje, eu vejo brasileiro que vai para lá, na mesma situação, fazer pós-doc, e que sofre. Eu nunca sofri nada. Eu, ao contrário, entendeu? Sofre assim: “Ai, aqui, eu sofro falta de comer feijão com arroz! Ai, o sol me faz tanta falta! Ai, lalalalalá!” Eu nunca senti. O meu problema é quando vai chegando a hora de vir embora. Eu sempre fico triste. Essa última vez que menos, que eu já senti... Mas, aí, eu já localizo uma coisa da idade, sabe? De [inaudível]. Que eu localizei. Mas é a primeira vez que eu não... na hora de vir embora, eu não apronto uma choradeira muito grande (p.20). É. Eu nunca venho. [risos] (p.29) 164 A dificuldade de Ângela em voltar para o Brasil, ao final de cada temporada de estudos na França, é tão marcante em seu depoimento que nos levou a questionar porque a entrevistada, tendo todas as condições para tal, não optou por fazer uma carreira universitária internacional, o que lhe permitiria fixar residência em Paris e não ter que se submeter ao retorno à terra natal, que sempre lhe causou tanto sofrimento. Na verdade, depois de muito ler e reler a sua entrevista, percebemos que, apesar de não querer voltar (ou seja, de querer ficar), ela termina sempre voltando, considerando que é no Brasil que poderia tirar melhor proveito da formação realizada no exterior. Se, lá fora, Ângela não passaria de uma simples pesquisadora brasileira, aqui, a entrevistada é uma pesquisadora diplomada na França, com tudo que uma e outra coisa implicam. E vale dizer que ela soube mobilizar muito bem os valores atribuídos à certos diplomas estrangeiros no Brasil, certamente ajudada por todo um contexto de expansão e consolidação do sistema universitário e dos programas de pós- graduação, de maior escassez de pós-graduados, de títulos internacionais ainda mais raros, etc. Vejamos alguns excertos preciosos do seu depoimento: Eu tenho uma grande... eu sinto uma dívida com a França. A França foi fundamental. Depois, quando eu fui fazendo concursos, entrevistas para ser aceita aqui ou ser aceita lá, eu sempre verbalizei isso. Eu... eu tive uma alavanca, em relação à minha geração, que vem do fato dessa precocidade que eu fui exposta, entendeu? Então, eu comecei... Eu me saía sempre bem. Eu tinha lido... Quando eu cheguei aqui, nos anos 70, o que os pesquisadores em educação nem sabiam que existia, eu já tinha lido. Eu tinha o livro. Eu já tinha lido, eu já tinha discutido. Então, eu trazia novidades. Durante muito tempo, para o meu campo... [...] Até hoje, acontece isso um pouco. Eu me transformei numa grande divulgadora da sociologia da educação. Não vou dizer nem francesa, francófona. Porque isso supõe a Suíça, supõe a Bélgica. Então, é isso. Era como se eu fosse lá e trouxesse de lá para cá. Até hoje, eu funciono um pouco assim. Aí, eu comecei a traduzir. Eu traduzo, eu divulgo. [...] Aí, eu fui para o Canadá francês. Isso me deu... Eu tive uma bolsa rápida para o Canadá. Fiquei lá (Entrevista concedida por Ângela, p.43-44). Agora, isso está misturado com a minha história. Eu não teria tido a trajetória acadêmica que eu tive, se não tivesse essa passagem precoce pela França (p.44). Ele diz uma coisa. Eu acho que ele exagera um pouco, mas eu acho que ele tem razão. Só tirando o exagero. Que ele sente que os franceses, os acadêmicos franceses, hoje, respeitam mais os acadêmicos brasileiros. Eu só acho que ele exagera, mas eu acho que eles respeitam mais. Vai nesse sentido, na medida em que o Brasil, cientificamente, começou a se fazer mais respeitar. Nós temos instituições, hoje, importantes. Nós publicamos mais, nós mandamos... [...] Mas isso é em relação aos países latino- americanos ou do Terceiro Mundo. Nós somos, dos latino-americanos, os que mais enviamos bolsistas. Então, essa política agressiva de bolsas no 165 exterior que o governo brasileiro tem e que ninguém tem, nem o México tem, isso é uma coisa que eles admiram e respeitam, entendeu? Então, eu acho que o A. tem razão. Hoje, ser pesquisador brasileiro na França não é tão pequenininho assim. Já é maior (Entrevista concedida por Ângela, p.58). Isso posto, resta perguntar o que a França representa no imaginário de Ângela. O seu pai trabalhou, por toda a vida, em uma empresa francesa, a Rodhia, sob o comando direto de franceses, e, por isso, teve, inclusive, que aprender o francês. Ela cresceu, então, escutando as suas falas sobre os franceses, vendo os seus livros da Aliança Francesa. Além disso, começou, cedo, a estudar o francês, e recebeu grandes incentivos da sua parte para fazê-lo. Na opinião da entrevistada, para o pai, a França era um país superior ao Brasil, em função da sua realidade profissional, o que reforçava os resquícios dos anos dourados da influência cultural francesa no nosso país (terminados com a Segunda Grande Guerra e o imperialismo estadunidense na América Latina) que a mãe carregava consigo. E tudo isso se transmite para os filhos, seja de maneira implícita ou, como no seu caso, explícita, afirma. Tanto é que aprendeu a gostar da França. Mais que isso, aprendeu a idealizá-la. Sendo que, na primeira oportunidade, seguiu para um intercâmbio universitário em Paris, intercâmbio esse que foi extremamente celebrado pelos seus familiares. É no espaço de socialização primária, a família, que são lançadas as bases do imaginário de Ângela sobre a França. Todavia, vale frisar que a entrevistada participa de forma ativa e não de forma passiva da construção desse imaginário, que é do grupo familiar, mas que também é seu. Isso porque, muito precocemente, ela o abraça e, como vai estudar francês e, depois, estudar em Paris, é provável que vire uma peça chave nesse processo de construção, incorporando nele, inclusive, pelo menos três outros espaços: a Université Paris 5, a cidade de Paris e a França em si. O meu pai [...] foi a vida toda químico da Rodhia. Eu sou paulista. Sou nascida no ABC, em Santo André. E a Rodhia tem uma empresa em Santo André. É uma das primeiras indústrias químicas do Brasil. Depois, ela virou têxtil também. Tinha a... a... a Rodhia Química e a Valisère, que vem de Val d’Isère [cidade francesa localizada nos Alpes]. Meu pai, a vida inteira, trabalhou lá. Ele começou como office-boy. Depois, ele fez o curso de química industrial e ele se tornou químico. E, com isso, antes mesmo de casar com a minha mãe, ele já era... ele já trabalhava lá. Portanto, quando eu nasci, ele já era funcionário da Rodhia. Em um tempo em que, muito diferente de hoje, os executivos eram franceses. Então, ele trabalhava diretamente sob o comando de um francês. [...] 166 Ele teve que fazer Aliança Francesa. Ele estudava na Aliança. E eu, pequenininha, cresci vendo aquele livro do Mauger [sobrenome do autor]. [...] Era um livro de capa dura azul, ah... que tinha histórias do Monsieur Vincent [Senhor Vincent], que morava na Place d’Italie [Praça da Itália]. Eu sei que, pequenininha, eu via o meu pai estudando francês. Falando propriamente não, mas falando muito dos franceses. Às vezes, até falando mal, porque ele queixava da... das inadaptações, desadaptações culturais. Que ele não conseguia muito... ah... sistematizar isso, elaborar isso, mas ele queixava. Enfim, eu estou querendo te falar que a França foi alguma coisa que entrou na minha casa, desde que eu era pequenininha, via o meu pai. E, logo, ah... eu... logo, eu comecei a estudar francês. Ele me colocou na Aliança. Eu es... Quer dizer, logo? Isso eu não lembro a idade que eu tinha. Mas eu já devia estar naquilo... naquilo que, na época, a gente chamava ginásio. E, possivelmente... Eu não tenho lembrança muito clara, mas... ah... para... No imaginário dele, esse país tinha alguma coisa de superior. Era o país dos superiores, pelo menos dos superiores dele. Era o país da indústria onde ele trabalhava. E alguma forma de transmissão disso para gente existia. E eu penso que isso casava com coisas que também eu imagino que se transmitam de pais para filhos de alguma forma. Eu estou me lembrando particularmente de uma... uma... Dessas vezes que eu morei na França, a minha mãe foi duas vezes lá. Na última que ela foi (ou na primeira, já não me lembro), eu me lembro dela fazendo a seguinte observação... A gente passeando, ali perto do Louvre, e ela me dizendo. E eu sentindo ela assim meio que emocionada. E ela me dizendo: “Nos livros que eu lia na minha juventude, a heroína passeava nas Tulherias.” E ela... a emoção dela de estar no lugar das... onde as heroínas dos romances que ela lia [passeavam]. Então, eu imagino que isso tudo uma família transmite. Quer dizer, mais que imaginar, né? Porque eu trabalho com transmissões familiares na sociologia da educação. [risos] Eu sei que isso se transmite. Implicitamente, sutilmente, nada... Não necessariamente passando pelo verbo, não explicitado, mas se transmite. Mas, no caso do meu pai, era mais do que implícito. Era alguma coisa muito clara. Então, fato é que eu comecei a fazer... estudar francês, e me lembro que ele me presenteou... Olha, como são essas coisas simbólicas. Com uma caneta tinteiro que tinha sido dele, e tinha... Na minha memória, isso está um pouco... Mas eu me lembro de que tinha alguma coisa. Deve ter sido alguma... algum prêmio, porque eu vivia ganhando prêmios da Aliança Francesa. [...] Eu imagino que ele me deu essa caneta tinteiro, em um dos momentos que eu tive alguma distinção [risos], algum prêmio da Aliança Francesa. O fato é que eu comecei a estudar francês cedo. Amava a língua! Gostava muito. Era uma coisa que eu... Eu fazia com o maior prazer os meus deveres de francês! E, enfim, cultivei, e eles certamente tiveram muito a ver com isso, um... uma idealização desse país, um... alguma afeição por esse país. E, nisso, eu tinha dentro de mim uma enorme ânsia de conhecer o país, né? Afinal de contas, era o país que o meu pai... Quer dizer, tem tudo de... de... de um lado de identidade aí, né? De identificação com o pai. Porque era o país que, possivelmente, para o meu pai, tinha o maior significado de todos. Eu comecei a fazer faculdade, lá na... lá em Santo André. E eu estava no... no terceiro ano. É, no terceiro ano do curso, quando eu descobri que o Rotary, que é um organismo norte americano que você deve conhecer, dava bolsas de estudo em várias modalidades. E uma dessas modalidades é uma modalidade que se chamava... Eu não sei se essa modalidade ainda existe. 167 Pré-graduação. Que exigia que a pessoa fosse... ah... estivesse cursando faculdade, mas que não tivesse se formado ainda, que ela estivesse no fim. Ela iria... ela iria concluir os estudos no país de escolha dela, portanto ela não podia ser graduada ainda. E, então, eu tive essa notícia, e claro que não passou outro país pela minha cabeça. E eu tive a bolsa. Foi a minha primeira ida. Então, eu tinha vinte e... ah, vinte e um. [...] Ah, quero te falar! Isso eu acho que é importante para você. Que você pode imaginar a celebração disso na família, né? Nossa, foi uma coisa assim. O orgulho! Paterno, mais paterno do que materno. É claro que, cada vez que eu me aproximava mais da França, eu me inscrevia mais afetivamente com o meu pai, entendeu? Olha, é uma mecanismo assim... Ele ficou completamente exultante e orgulhoso da filha que ia... Sobretudo porque são famílias, tanto dele como dela, que têm origem em uma classe média. A minha mãe em uma classe um pouquinho mais alta, mas o meu pai em uma classe média baixa. Então, isso são signos de ascenção social, de ascenção cultural. Ele mesmo nunca foi à universidade, e, de repente, a filha dele não só tinha ido, mas como ia fazer universidade em Paris. Bom, enfim, foi... A família toda se mobilizou. E, naquela época, viajar para o exterior era alguma coisa. [risos] Porque isso foi em 71. A situação já mudou demais! Era uma... uma grande viagem isso! Era... era na época em que as pessoas que viajavam para a Europa, os parentes iam esperar no aeroporto ou levar no aeroporto. [risos] Era coisa assim (Entrevista concedida por Ângela, p.3- 7). É certamente com os olhos daquela filha de um certo senhor que trabalhava em uma multinacional francesa, daquela aluna da Aliança Francesa que pertencia a uma família que nutria uma relação muito particular com a França, que Ângela desembarcou em Paris, para o seu ano de intercâmbio universitário de graduação. Tanto é que, para além do encantamento que a viagem provoca, a entrevistada não encontrou grandes dificuldades em sair pela primeira vez do aconchego da casa dos pais, para enfrentar um outro país, localizado na outra margem do Atlântico. Ou, se de fato as encontrou, tendeu a minimizar esse aspecto da temporada de estudos no exterior, ao longo do seu depoimento. Isso nos dá a medida do quanto uma experiência real pode ser formatada pelo imaginário e não funcionar como um motor de transformação dessa realidade interna. O viajante carrega consigo, então, o seu imaginário sobre o outro, e é através dele que enxerga a terra de acolhida53. 53 Inúmeros autores defendem o que acabamos de pontuar, em especial, ao tratar da descoberta das Américas ou da descoberta do Brasil. Cito, por exemplo, Souza (1994, p.21, p.50): “Entretanto, o achado não foi, de imediato, apreendido na sua novidade: nas ilhas caribenhas, Colombo buscava, inquieto, os traços asiáticos que lhe assegurassem ter chegado à terra do Grande Cã, chamando índios aos aborígenes que encontrava, procurando associar o que via às narrativas de viagem de Montecorvino, Pian del Carpine, Polo e tantos outros exploradores medievais que, do século XIII até fins do século XIV, percorrem a Ásia e a região do Índico beneficiando-se da ‘Pax Mongolica’. Todo um universo imaginário acoplava-se ao novo fato, sendo, simultaneamente, fecundado por ele [...].”; “Colombo acreditava em monstros, leitor da Imago Mundi do cardeal D’Ailly. Este falava de povos ‘cujos costumes decaíram da natureza humana’, de ‘homens selvagens antropófagos, com feição disforme e horrível, nas duas regiões extremas da Terra [...]: trata-se de seres dos quais é difícil precisar se são homens ou bestas’. Colombo pensava que, mais para o interior da terra que 168 Então, eu fui muito prevenida no sentido de que eu ia gostar, entendeu? [risos] É difícil te falar isso! Então, eu gostei (Entrevista concedida por Ângela, p.7). Então, eu te falei: eu fui prevenida para gostar. [...] Não vejo muita aleatoriedade nisso. Eu escolhi gostar da França. Quer dizer, eu escolhi por razões de ordem que eu já te expliquei (p.13-14). Mas eu senti, eu lembro que eu senti, ah... nos primeiros dias, [inaudível] uma certa... Ai, como a gente chama isso? Agora, eu não... Não é saudade, porque ainda não deu saudade. Eu senti um pouco solidão. Acho que... acho que é isso. E isso se agravou porque essa menina mais velha estava preparando o casamento, e a família vivia vinte e quatro horas o casamento da filha. Então, eles... Eu, eles, de vez em quando, eles lembravam de mim. De vez em quando! […] Eu me lembro de, às vezes, eu estar lá com problema, assim... Problema? [grifo nosso] Precisando... Tinha tido problemas com a inscrição na faculdade. E a discussão, na hora do... da mesa, era se as demoiselles d’honneur [damas de honra] deviam vestir marinho ou noir [preto]. E eu achava aquilo de uma futilidade! […] Porque eu falava: “Gente, olha eu aqui! Vocês não queriam olhar um pouquinho para mim? Perguntar...” Eu tive um desarranjo intestinal, nos primeiros dias, evidentemente por causa da mudança de alimentação. Mas eles só pensavam se tinha que ser azul marinho, qual é o texto que ia ser lido lá na... na... na celebração, o... o... o vestido do Dior (p.9-10). Então, foi isso que eu te diria, quando você falou assim: “Você sofreu?” Essas coisinhas assim de uma menina que sempre viveu com a sua família, e de repente se viu lá em um... em um país. Um outro susto que eu tive foi... Sustinho assim também [grifos nossos] (p.10). E eu me lembro que, na matrícula, eles me deram... Paris 5 já. Me deram lá um negócio, um papel que eu tinha que preencher e devolver na hora, e que era a complicação! Nesse dia, eu meio que me... Como é que a gente chama? Apavorei. Mas nada que... nada demais [grifo nosso] (p.11). E, depois, mas aí já é uma outra história, quando o curso começou... Mas, aí, é uma história do ponto de vista científico. Eu não sei se te interessa. Que foi o baque! Bem, porque lá eu fui... Eu fazia pedagogia. Lá, eu continuei. Porque, supostamente, essa bolsa você se forma lá, né? Eu continuei. Só que lá não chama pedagogia, lá chama sciences de l’éducation [ciências da educação]. Então, eu entrei. O mesmo curso que eu fazia aqui. Mas... ah... o salto, o salto de orientação teórica. Porque, aqui, a gente estava... Mas isso aqui é uma coisa bem ligada à política. A gente estava... Eu fiz o meu curso em um momento duro da ditadura, e... onde determinados autores eram banidos, e... em particular na minha faculdade, e chego lá em um momento em que o marxismo estava em altíssima ascensão. Eu me lembro... Isso é uma coisa que eu me lembro. Eu me lembro... Eu ainda estava acho que na casa da família. Nos primeiros passeios que eu dei em Paris, tinham affiches [cartazes] na cidade enormes que comemoravam a Comuna de Paris. Porque era 1971, exatamente o centenário da Comuna de Paris. Tinha feito cem anos em 1971. E eu não sabia o quê que era a Comuna de Paris. Eu nunca tinha estudado. Porque a descobrira, depararia com homens de um só olho, e outros com focinhos de cachorro. Em 8 de janeiro de 1492, viu três sereias pularem fora do mar, decepcionando-se com seu rosto: não eram tão belas como pensara. Na direção do poente, escrevia a Santágel, as pessoas nasciam com rabo.” 169 gente estuda a Revolução Francesa, mas a Comuna de Paris não estuda. Pelo menos a minha... [risos] no meu curso de história, eu não tinha estudado a Comuna de Paris. E isso foi só alguma coisa que se refletiu lá, porque na... na minha bibliografia e do curso que eu mais gostei [...]. Mas a bibliografia dela [da professora da disciplina que mais gostou] não é... não tinha só Marx, tinha Lênin. Então, aquilo para mim... [...] Eu tinha que ler O Estado e a Revolução do Lênin. No curso. Era a bibliografia do curso. Não era reunião de DA, de Diretório Acadêmico, era bibliografia de curso. Então, aí, sim. Aí, foi um... Mas eu sentia como se eu tivesse crescendo. Hoje, até acho que eu não diria isso. [risos] Mas, na época, eu via então o Brasil, assim, lá atrás. “Nossa, que curso que eu fiz! Meu Deus, o que a gente lia?! A gente lia uma literatura conservadora, para não dizer reacionária! Agora, sim. Agora, eu estou na ponta dos meus estudos, porque eu estou lendo...” E os livros que saíam? Em 71, tinha saído um livro de dois sociólogos que até hoje eu gosto muito, mas que, na época, eram maoístas. Eles tinham sido alunos do Althusser e continuaram um pouco a... Muito conhecidos. Que é o Baudelot e o Establet. Eles tinham acabado de publicar um livro chamado A Escola Capitalista na França. E esse livro era um pouco a Bíblia. Eles, junto com o Bourdieu, eram a Bíblia dos meu colegas lá na universidade. E você imagina eu, a ingênua, caindo lá? Eu pensei: “Eu tenho que fazer uma nova alfabetização.” Foi uma alfabetização teórica para mim. Uma nova. Eu tinha que entrar no clima! E além do que um clima que eu reconhecia e legitimava, entendeu? Então... Mas isso tudo... Quer dizer... Eu ia te falando, assim: “Tirei de letra.” [grifo nosso] Não sei se isso é exagerar. Porque, na hora de fazer seminário, eu ficava nervosa, claro. E não só por causa da língua. E não só por causa da língua, é porque eu achava que eles eram mais adiantados do que eu, entendeu? Eles liam Lênin, e eu não... mal sabia, precisava ir lá ver, estudar história da revolução bolchevique, entendeu? (Entrevista concedida por Ângela, p.11-13) Primeiro, foi chegar em uma cidade mais adiantada. É assim que eu via, entendeu? Eu via mais... mais adiantada no sentido de... no sentido civilizatório mesmo. De civilização. Ali, estavam as luzes, no sentido do Iluminismo, das luzes, né? O pensamento. A cidade... Bonita e eficiente. Por exemplo, uma coisa que, até hoje... Mas isso até hoje, né? O meio de transporte. Eu fascinei! Porque você podia atravessar a cidade de metrô. Assim, em vinte minutos, você ia do extremo oeste ao extremo leste, ou de norte a sul. Os ônibus. Enfim, o funcionamento da cidade. [...] Eu vi assim signos de desenvolvimento (p.14-15). Agora, tem também, claro, um outro lado que Paris inspira, e claro que isso eu estou certa de que não é só para mim, o lado do glamour. Sem dúvida, né? O fato de que os bens de luxo, refinamento, a sofisticação no Brasil, ainda está associado com a França. A gente toma... quando toma uma boa bebida, toma um champanhe francês; quando usa uma grife é inspirada... Então, ainda tinha isso. Isso para uma menina de vinte anos. Que não era refratária, e não sou até hoje... [risos] ...refratária a esse... a esse glamour (p.15). Passados tantos anos, depois de sucessivas estadias na França, Ângela afirma que continua idealizando o país e que é com dificuldades que consegue adotar uma visão mais crítica à seu respeito, sendo que os seus amigos chegam a observar esse fato e procuram 170 ajudá-la nesse exercício. Mesmo assim, a entrevistada insiste que a sua postura mudou, em relação àquela da juventude. Não discordamos do que diz, até mesmo porque o contexto não é mais o mesmo, em uma escala global. Todavia, é preciso pontuar um possível senão: a França não teria aparentemente perdido um pouco da superioridade no seu imaginário, porque a sua longa experiência no país terminou por lhe permitir usufruir do imaginário brasileiro sobre a França? Nessa perspectiva, para além das transformações nas relações franco-brasileiras e no lugar que a França e o Brasil ocupam no mundo, para além também do amadurecimento que os anos de vida costumam proporcionar, encontra-se um deslocamento que é do lugar que Ângela ocupa entre os dois países em questão e não uma verdadeira reconfiguração do seu imaginário. Por exemplo, se, hoje, não pensa, como antigamente, que os franceses sabem tudo e que ela não sabe nada, talvez seja, simplesmente, porque saiba tanto quanto eles, já que aprendeu junto com eles. Algumas palavras utilizadas, enfim, servem de indício tanto da manutenção de uma hierarquia, ao nível do imaginário, quanto da utilização de medidas próprias dos países centrais para a construção dessa hierarquia. Essas palavras aparecem em negrito, abaixo. Eu até hoje idealizo um pouco a França, viu? Eu tenho que fazer uma luta epistemológica. Mas as pessoas que me cercam me ajudam (Entrevista concedida por Ângela, p.7). Eu tenho muita dificuldade de ver. E os meus amigos me falam isso, e eles têm toda razão. Eu tenho muita dificuldade de ver o negativo. Eu preciso me forçar (p.44). Banalizou as... as distâncias, na medida em que barateou. Isso é banal. Hoje, ir para Europa não é mais nenhum acontecimento. Todo mundo vai, né? Todo mundo vai, vai com mais facilidade. Mas não é isso que você quer saber. Você quer falar para o meu... Para o meu estado de espírito, né? Não é para o meu bolso, nada disso. [silêncio] Eu acho que quebra um pouco a reverência. Quebrou um pouco a reverência. Porque, a primeira vez, era atitude de reverência. Eu não estava indo para o país superior? A língua superior. Embora isso, no teu imaginário, isso ainda bata, porque você não não... [...] Ah... isso... isso bate no teu imaginário, de um maneira ou de outra. Agora, o que eu te digo é o seguinte: aquela atitude de reverência, mesmo científica... Eu achava que eles sabiam tudo e eu não sabia nada. Hoje, eu já... Não é bem assim. Eu consigo ver mais equilibradamente, mais objetivamente, os pontos em que eles... Vou falar... estou falando da sociologia, heim? É o lugar sobre o qual eu consigo falar. Eu consigo ver os pontos em que eles são mais fracos, e nós somos mais débeis. Mas eu não acho que se trate de uma relação tão assimétrica assim. Mais. É como se essa distância tivesse diminuído, né? Mas isso do ponto de vista científico. Do ponto de vista da reverência mais geral, eu acho que... É. Mesmo cultural. A idade vai te fazendo relativizar. Você não tem mais aquela... entusiasmo juvenil, entendeu? Que te faz achar... Então, hoje, eu... Enfim, eu olho menos assim. [...] Mas eu olho menos assim, como se eles 171 estivessem lá em cima e eu estivesse aqui embaixo. Você consegue ver mais equilibradamente as vantagens e desvantagens de uma coisa ou outra, de um... de um país menos desenvolvido para um mais desenvolvido [grifos nossos], inclusive culturalmente. Eu acho que te dá mais um... É mais equilibrado (Entrevista concedida por Ângela, p.40-42). As histórias dos demais brasileiros entrevistados que estudaram ou, no momento de realização da entrevista, estudavam na França, exceto a de Morena, permitem vislumbrar lampejos do que a história de Ângela mostra de uma forma muito evidente. Ao escutar o relato de Cecília, temos a impressão que é uma Ângela mais jovem que fala, em um aspecto fundamental. Por um lado, ela possui o mesmo fascínio pela França e diz que sente vontade de se instalar definitivamente no país, e, por outro, para a sua tristeza, a mesma consciência de que é no Brasil que está o seu futuro profissional, sendo que é aquela vontade que a levava, naquele momento, a se preparar para cruzar o Atlântico, e é essa consciência, tudo indica, que a trará de volta para casa. Célia, ao contrário, retornou com muita facilidade para o Brasil, ao final da temporada de estudos em Paris. Entretanto, ela compreende o seu valor no mercado de trabalho brasileiro com muito apuro. Tanto que, como os pais não lhe ofereceram o intercâmbio de segundo grau que gostaria de ter feito, uma vez na faculdade, tratou de se informar sobre os intercâmbios de graduação e fazer o necessário para conseguir uma vaga com bolsa, inclusive, investir em um curso de francês. Essa é uma experiência que a entrevistada queria incluir no seu currículo, porque acredita, tanto quanto Ângela, que ela faz a diferença. No caso de Eduardo, os seis meses de Curso de Civilização Francesa na Sorbonne foram um investimento da sua mãe e não propriamente seu. Professora da UFMG, ela sempre dizia para o filho que, um dia, a família ia morar em Paris, o que justificava, inclusive, a sua matrícula em uma escola de francês, desde muito cedo. Quando parte para fazer o seu pós- doutorado em Paris, é ela quem se movimentou para levar os dois filhos junto, quem definiu os estudos que eles fariam lá, apesar da idade de ambos. Trata-se de “uma dose de França para cada filho”, vamos dizer. É a lógica de pensamento da sua mãe que caminha ao encontro da de Ângela. Algumas particularidades marcam a história de Érica. O seu interesse, para começar, não era propriamente na França, já que, em princípio, era para o Canadá que ela pretendia viajar, o que não aconteceu somente porque teve o visto de turista negado. Na verdade, a entrevistada queria passar três meses no exterior, em um lugar onde se fala francês, mas não 172 em qualquer um: no Québec, na França, na Bélgica ou na Suíça, ou seja, em um país central, não lhe interessando, por exemplo, ir para a Martinica. E o valor da temporada fora no Brasil é do âmbito do prestígio. Um diploma ou mesmo os estudos na Aliança Francesa contavam pouco, o que contava era a estadia em si. Apesar das particularidades, por detrás do deslocamento, encontra-se a mesma estratégia de distinção social. Lair afirma que era impensável para ela não fazer o doutorado em Paris. Formada em letras com habilitação em francês, professora da UFMG em um tempo que os Programas de Pós-Graduação estavam ainda em formação no Brasil, não havia melhor destino a ser cogitado, nos anos 1950. E é interessante notar que a temporada de estudos no exterior trouxe à ela não somente a distinção do diploma internacional, que lhe permitiu, sem dúvida, ascender na carreira acadêmica, mas também um marido francês, sendo que, para a sua família, por exemplo, isso era o que realmente importava. Já Lígia nos parecia se afastar completamente das histórias contadas pelos demais entrevistados, em um primeiro momento. Ir para a França fazer suas pesquisas soava, então, como uma forma de fugir das inúmeras responsabilidades administrativas da universidade, das querelas internas do seu departamento na faculdade, que lhe roubavam um tempo precioso de trabalho, ainda mais porque ela não ostentava maiores ambições, além de defender a sua tese de livre-docente, e estava prestes a se aposentar. Posteriormente, não no momento da entrevista, mas na ocasião de uma conversa informal, viemos a compreender que essa era apenas uma face da moeda. Diante da possibilidade de dar algumas aulas na Sorbonne, a entrevistada não só ficou animadíssima, como se empenhou para que isso de fato acontecesse, insistindo em mandar correios eletrônicos e em ligar para um professor de Paris que não lhe retornava, o que não era do seu feitio. Por fim, Morena é realmente o único caso do grupo que se destaca. É a história de Nádia e não a história de Ângela que ela nos faz lembrar. A entrevistada decidiu procurar por um posto de au pair, pouco tempo depois de se separar do primeiro marido e assim que foi despedida da escola onde dava aulas, sendo que não escolheu o destino, bastando-lhe a decisão de partir. Se para muitos estudantes universitários de francês, a experiência pode ser considerada parte da formação acadêmica, esse não parece ser o seu caso, haja visto que afirma que não tinha interesse em aprender o francês. Terminado o contrato de trabalho, Morena se candidatou para fazer um master em artes cênicas ou um master em artes plásticas, na Université Rennes 2, apesar de dizer que não possui qualquer pretensão acadêmica, ponderando que, caso não fosse aceita para cursar nenhuma deles, iria se inscrever em um 173 curso intensivo de francês para estrangeiros. Nesse processo, em que o mais importante aparenta ser adquirir o estatudo de estudante para poder permanecer legalmente na França, ela terminou matriculada para fazer o último ano da licence em artes cênicas. Um pouco mais tarde, quando se encontrava em Paris em função de um master professionnel em direção teatral, casou-se com um francês e abandonou os estudos. A pretensão do casal é de residir na França. Listamos, em seguida, os traços que parecem perpassar o processo de migração temporária de brasileiros para a França em função de uma temporada de estudos, traços esses que foi possível apreender através das histórias dos entrevistados Ângela, Cecília, Célia, Eduardo, Érica, Lair, Lígia e Morena: 1. os estudantes brasileiros na França costumam pertencer aos extratos mais elitizados da população do Brasil; 2. eles se encontram, em geral, na universidade ou já concluíram o ensino superior, partindo para participar de um intercâmbio de graduação, cursar a pós-graduação (maîtrise, DEA, master, doutorado ou pós-doutoramento), fazer um curso de línguas ou trabalhar como au pair para aprender o francês; 3. os estudantes brasileiros na França podem ser subdividos em dois grupos, um que possui financiamento para desenvolver os seus estudos no exterior e outro que não o possui; 4. os bolsistas, sejam eles do Governo Brasileiro ou do Governo Francês, partiriam para a França em busca de um diploma estrangeiro valorizado ou de uma experiência no exterior que pode fazer a diferença no mercado de trabalho, o que quer dizer que possuiriam um projeto de formação bem traçado; 5. já aqueles que não possuem bolsas de estudos conformariam dois sub-grupos, um primeiro que partiria em busca do prestígio que a estadia no exterior confere e um segundo que utilizaria a temporada de estudos como possível estratégia matrimonial e de migração; 6. enquanto os bolsistas, não sem conflitos, tendem a voltar para o Brasil, que é onde a temporada de estudos no exterior lhe abre portas, os não-bolsistas podem se 174 transformar em migrantes permanentes, especialmente a partir de casamentos estabelecidos com franceses; 7. a França emerge no imaginário, sobretudo, ainda com um quê de metrópole cultural escolhida pelo Brasil, o que de fato foi entre o século XIX e XX. Por fim, não podemos deixar de comparar as histórias dos “brasileiros de Rennes”, analisadas no terceiro capítulo da tese, com as histórias de alguns estudantes brasileiros na França. Pelo que a entrevista de Morena permitiu observar (e também a de Paula, que aparece no Capítulo 3, além das trajetórias de outras brasileiras que conhecemos, embora não as tenhamos entrevistado), os estudos no exterior vêm sendo utilizados como uma estratégia para migrar do Brasil para o centro do mundo. E os relacionamentos com estrangeiros, construídos enquanto se é estudante internacional, funcionam como uma forma de garantir a permanência definitiva lá fora. Brito (1991), em sua tese de doutorado sobre estudantes brasileiros na França, já havia identificado outros casamentos entre brasileiras que estavam no país para estudar e franceses, sendo que elas, assim como Morena, Paula e as demais não-entrevistadas, não possuíam financiamentos do Governo Brasileiro, afirmavam não ter pretensões acadêmicas e se encaxaivam no perfil que a autora denominou de “pássaros migratórios”. Tal perfil, vale lembrar, define-se pelo desejo de se afastar de um contexto problemático no Brasil e não pela formação a ser desenvolvida na França, uma vez que a decisão de partir constitui tão somente uma solução para uma situação de crise. É interessante notar que esses “estudantes casadouros”, também mulheres em sua grande maioria, possuem percursos migratórios que se aproximam daqueles dos “brasileiros de Rennes”. Todavia, existem algumas diferenças fundamentais que parecem marcar os percursos dos dois grupos, são elas: 1. o(a) brasileiro(a) parece viver um momento tão complicado quanto, por exemplo, Nádia, no momento que antecede a migração, o que o(a) impulsiona à partir, mas não pertence às camadas populares, nem aos estratos mais baixos das camadas médias, e sim aos estratos medianos ou mesmo mais privilegiados dessas últimas; 175 2. se para os “brasileiros de Rennes” o casamento com um francês e a conseqüente migração para a França são vistos como uma solução para os problemas enfrentados no Brasil, para os “estudantes casadouros”, embora esse caráter se mantenha, trata-se apenas de uma solução mais fácil e que é, ao mesmo tempo, carregada de glamour; 3. então, a França não emerge simplesmente como um Eldorado pós-moderno para esses “estudantes casadouros”, na medida em que essa imagem vem cotejada com uma outra, a da França-metrópole cultural; 4. diferente de Nádia e dos seus pares, os(as) brasileiro(as) envolvidos(as) na trama, em geral, são jovens e não possuem filhos de outros relacionamentos, encontrando-se dentro do mercado matrimonial no Brasil, o que quer dizer que conferem maior valor a um possível cônjuge francês que a um possível cônjuge brasileiro, e isso não somente porque ele lhe abre as portas de um país central, mas também porque ele encarna o país glamoroso que a França representa para eles; 5. o casal se conhece, na maioria dos casos, quando o(a) brasileiro(a) reside na França em função dos estudos, e isso nos faz pontuar como essa temporada no exterior para estudar pode ser utilizada como estratégia matrimonial que se desdobra em estratégia de migração; 6. os membros do casal falam uma mesma língua, no momento em que se conhecem, o francês, garantindo que o primeiro contato não seja apenas sexual; 7. o(a) brasileiro(a) não permanece ilegal na França, pois mantém o estatuto de estudante até a oficialização da união com o francês; 8. uma vez oficializada a união, o(a) brasileiro(a) costuma abandonar os estudos, o que parece indicar que eles eram utilizados apenas como uma forma de permanecer legalmente na França; 9. o(a) brasileiro(a) que se casa, geralmente, possui o terceiro grau incompleto ou mesmo o diploma universitário, o que pode acarretar sérios problemas de adaptação na França, pois têm dificuldades em se estabelecer profissionalmente na sua área e, muitas vezes, precisam se sujeitar a realizar trabalhos pesados e de baixo-status social. 176 Capítulo 6: ESTUDANTES-TURISTAS Apenas 8% dos estudantes em mobilidade internacional, sejam eles originários de outros países periféricos ou de países centrais, escolhem um destino como o Brasil para realizar uma etapa dos seus estudos, enquanto 62% deles provêm de um país periférico e se encontram em um país central e 30% se deslocam entre países centrais, considerando os dados acerca do fluxo internacional de estudantes apresentados por Ennafaa (2004-2005). Sendo assim, os franceses que vêm para o Brasil por razões acadêmicas, assim como aqueles franceses que migram definitivamente para essa margem do Atlântico (Capítulo 4), caminham na contra-mão de uma tendência. Porque razões eles viriam para o Brasil? Cédric, que é originário de uma pequena cidade nas proximidades de Rennes, possuía vinte e oito anos, e fazia o doutorado em letras na Université Rennes 2, no momento de realização da entrevista. Ele morou no Rio de Janeiro, entre 2004 e 2005, tendo estudado, por quatro meses, na Universidade Gama Filho, e estagiado, por seis meses, no Hotel Sofitel de 177 Copacabana. Tais atividades faziam parte de uma pós-graduação que desenvolvia em Bayonne (master em Gerenciamento Franco-latino-americano), sendo que foi ele quem escolheu o país de destino na América Latina. Chama à atenção, ao longo da trajetória escolar do entrevistado, as inúmeras temporadas de estudo no exterior. Seja quando cursava a graduação curta em comércio (Diplôme Universitaire de Technologie ou DUT em Comércio), a faculdade de tradutor e intérprete (licence em Línguas Estrangeiras Aplicadas) ou a pós-graduação (maîtrise não especificada e master em Gerenciamento Franco-latino-americano), ele sempre optou por realizar seus estágios obrigatórios em outros países, mesmo quando isso não era necessário. Foi assim que permaneceu por três meses na Costa do Marfim, um ano letivo em Porto Rico, três meses nos Estados Unidos, outros três meses em Porto Rico e um ano letivo no Brasil. Sendo que a pesquisa para o doutoramento previa uma viagem à Argentina, ao Uruguai e ao Brasil. Avant, j’avais été en… en Côte d’Ivoire, en Afrique. J’avais été fait un stage de trois mois là-bas54 (Entrevista concedida por Cédric, p. 3). Je voulais partir à l’extérieur pour apprendre l’espagnol, dans un premier temps. Parce que j’ai toujours été passionné par les langues, et je voulais vraiment apprendre l’espagnol bien comme il fallait, quoi. Parce que… Bon, l’espagnol, ça faisait plusieurs années que je l’apprenais à la fac, mais je voulais vraiment le pratiquer dans un pays. Et je n’avais pas envie d’aller en Espagne non plus. Donc, c’est-à-dire, j’étais attiré par l’Amérique Latine. Donc… donc, j’ai regardé la liste des pays qu’on… qu’on me proposait, et le plus insolite qui m’a… C’est le plus insolite qui m’a attiré, en fait, et c’était Porto Rico. Une toute petite île de rien de tout, dans les Caraïbes. Et, du coup, voilà. Donc, du coup, je suis parti à Porto Rico, un an55 (p.3). Donc, en licence, j’ai fait un stage, en Californie, de trois mois. J’étais toujours… toujours attiré par… par l’Amérique, en fait. Même par l’Amérique au sens large, quoi. Je voulais voir toute l’Amérique, du… de 54 Antes, eu tinha estado na… na Costa do Marfim, na África. Eu tinha estado lá, para fazer um estágio de três meses (Tradução nossa). 55 Eu queria ir para o exterior, para aprender o espanhol, em um primeiro momento. Porque eu sempre fui apaixonado por línguas, e eu queria realmente aprender o espanhol como se deve. Porque… Bom, o espanhol, tinha vários anos que eu estudava na faculdade, mas eu queria realmente praticá-lo em um país. E eu não tinha vontade de ir para a Espanha, para completar. Então, isso quer dizer que eu estava interessado pela América Latina. Então… então, eu olhei a lista de países que… que me propunham, e o mais insólito que me… É o mais insólito que me atraiu, de fato, e era Porto Rico. Uma ilhazinha de nada no Caribe. Et, de repende, eis que... Então, de repente, eu fui para Porto Rico, por um ano (Tradução nossa). 178 l’Alasca jusqu’à la Patagonie, quoi. Donc, je me suis dit: “Je vais aller au États-Unis, quoi.”56 (Entrevista concedida por Cédric, p.5). Et, l’année suivante, en maîtrise, j’ai refait mon stage à Porto Rico. Donc, après ça, je suis rentré. J’ai commencé… J’ai fait… Je me suis inscrit à mon master. Donc, un master à Bayonne, dans le sud de la France, que s’intitulait Management Franco-Latino-américain. Donc, c’était six mois de cours en France, et un an en Amérique Latine. Et, là, j’ai choisi le Brésil57 (p.6). C’est… c’est un… c’est un virus le Brésil. Une fois qu’on… qu’on a pris la maladie, on ne peut plus s’en passer. C’est ce que m’a même motivé pour… pour faire… pour m’inscrire au doctorat, en fait. Parce que j’avais tellement envie d’y retourner que… que je cherchais des prétextes pour pouvoir y retourner. Le meilleur que j’ai trouvé c’est ça, c’est le doctorat. Alors, que je n’ai pas prévu, ah? De… de faire un doctorat, après mon master. Mais… mais voilà58 (p.20). Não há dúvidas de que os estudos caminham de mãos dadas com as viagens, na trajetória de formação de Cédric. Para sermos mais exatos, com as viagens para países localizados fora da Europa e, de maneira especial, nas Américas. Estudando, ele esteve na América do Sul, na América Central e na América do Norte; em um país americano de língua portuguesa, outro de língua espanhola e um terceiro de língua inglesa; isso sem contar a África. É possível apontar uma conotação profissional para as suas estadias no estrangeiro. Afinal, enquanto aluno do curso de tradutor e intérprete com habilitação em espanhol, um intercâmbio de graduação em um país hispânico pode ser considerado uma estratégia. Levando em conta a importância do inglês no mundo dos negócios, que é a especialidade do entrevistado, a estadia nos Estados Unidos também pode se explicar. E a escolha pelo estágio em uma empresa francesa no Brasil e não em uma empresa qualquer, por fim, sem dúvida deve carregar alguma intenção nesse sentido, mesmo que se trate apenas de uma sondagem de possibilidades de trabalho. 56 Então, na licence, eu fiz um estágio, na Califórnia, de três meses. Eu continuava… continuava interessado pela… pela América, na verdade. Pela América, em sentido amplo. Eu queria ver toda a América, do… do Alasca até a Patagônia. Então, eu disse para mim mesmo: “eu vou para os Estados Unidos”. (Tradução nossa). 57 E, no ano seguinte, na maîtrise, eu fiz outro estágio em Porto Rico. Então, depois disso, eu voltei. Eu comecei… Eu fiz… Eu me matriculei no master. Então, um master em Bayonne, no sul da França, que se intitulava Gerenciamento Franco-latino-americano. Então, eram seis meses de curso na França e um ano na América Latina. E, nessa ocasião, eu escolhi o Brasil (Tradução nossa). 58 É… é um… é um vírus o Brasil. Uma vez que a gente… que se pegou a doença, não se pode mais ficar sem. É mesmo o que me motivou para… para fazer… para me inscrever no doutorado, de fato. Porque eu tinha tanta vontade de voltar lá que… que eu procurava pretextos para poder fazer isso. O melhor que eu encontrei foi esse, foi o doutorado. Sendo que eu não tinha previsto, heim? De… de fazer um doutorado, depois do meu master. Mas… mas é isso (Tradução nossa). 179 Todavia, é interessante notar que Cédric poderia ter escolhido a Espanha como destino, tendo em vista o aperfeiçoamento do espanhol, e faz questão de dizer que, dentre os países hispânicos, esse era o único para o qual não gostaria de ir. Das cinco temporadas de estudo no exterior, nenhuma se dá em um país europeu, na verdade. E é pelo mais insólito que afirma ter optado. Ou seja, o anseio de partir para um país longínquo também perpassa sua história. Por fim, vale destacar o último dos excertos citado. O entrevistado afirma que se inscreveu no doutorado para poder voltar ao Brasil. Isso nos leva a questionar em que medida suas viagens são decorrentes dos seus estudos ou, ao contrário, seus estudos funcionam como um meio para as suas viagens. Mesmo porque, com exceção da primeira estadia em Porto Rico, ele mesmo não apresenta uma justificativa profissional para os demais deslocamentos. Nós é que tentamos, acima, construir algumas hipóteses nesse sentido. Charles é estudante de engenharia elétrica de uma instituição de ensino superior da região parisiense, a mesma que Célia freqüentou quando esteve na França. No momento de realização da entrevista, ele se encontrava em Belo Horizonte, em intercâmbio de graduação na Escola de Engenharia da UFMG por um semestre letivo. O entrevistado nasceu em 1984, sendo que, embora seja originário de Paris e more na cidade em função dos estudos, mudou-se ainda bebê para Lyon e lá viveu a maior parte do tempo. Quando perguntamos à Charles porque estava no Brasil, ele nos respondeu: Parce que, dans la… dans notre faculté, on avait la possibilité de partir à l’étranger. Et c’était une destination… Enfin, la plus part des destinations dont on avait le choix, c’était surtout en Europe. Donc, l’Alemagne, l’Espagne, l’Italie. Et, moi, je pensais que, pour partir à l’étranger, ça serait plus intéressant d’aller dans un pays un peu plus loin, en Amérique du Sud, avec une culture plus différente, plus… plus… plus enrechissant, quoi? Et… et aussi parce que... c’était facile de partir au Brésil. On n’avait pas forcement besoin d’être bien classé dans l’école pour pouvoir partir. [inaudible] cette possibilité. Bien sûr, en général, j’aime bien voyager. J’ai pas mal voyagé, et, du coup… Enfin, pour moi, c’était une... une occasion d’aller au Brésil et de rester pendant six mois là-bas, donc59 (Entrevista concedida por Charles, 1min05-1min57). 59 Porque, na... na nossa faculdade, a gente tinha a possibilidade de ir para o exterior. E era para um destino... Enfim, a maior parte dos destinos que a gente podia escolher era, sobretudo, na Europa. Então, Alemanha, Espanha, Itália. E eu achava que, se era para ir para o exterior, seria mais interessante ir para um país um pouco mais longe, na América do Sul, com uma cultura mais diferente, mais... mais... mais enriquecedora. E... e também por que... era fácil vir para o Brasil. A gente não tinha, necessariamente, que estar bem classificado na escola para poder vir. [inaudível] essa possibilidade. Claro, em geral, eu gosto bastante de viajar. Eu viajei um 180 Dois elementos se destacam na resposta de Charles. O primeiro deles é o quanto o intercâmbio universitário de graduação é concebido como uma oportunidade de viajar para um país longínqüo (localizado fora da Europa), e lá permanecer por um período considerável, assim como para Cédric. Sendo que a distância, nesse caso, está relacionada tanto com a localização geográfica da terra natal e do destino escolhido, quanto com uma suposta diferença cultural extrema existente entre ambos. Vale dizer, ainda, que se trata de uma oportunidade de viajar sem custos, na medida em que todos os estudantes que entrevistamos possuíam bolsas de estudo francesas, exceto dois deles, que realizaram dois pós- doutoramentos na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) cada um, com financiamentos do CNPq e da FAPESP. Já o segundo elemento diz respeito à facilidade com a qual se obtém uma das vagas para estudar nas universidades brasileiras. Inclusive, para além de um certo rendimento acadêmico, que, segundo Charles, não é exigido, sequer se parece levar em conta o domínio do português, pois nenhum dos estudantes franceses entrevistados falavam a língua, quando desembarcaram no Brasil. A realidade encarada pelo intercambista, dessa maneira, opõe-se àquela que conhecemos, considerando que, aqui, para participar de um intercâmbio de graduação, geralmente, é preciso demonstrar um bom desempenho na universidade e a proficiência lingüística, além de custear quase toda a viagem, o que inclui passagem aérea, moradia, alimentação, seguro saúde, etc (NOGUEIRA, 2008). Não sabemos qual o número de candidatos por vaga do processo seletivo enfrentado por Charles, mas podemos fazer uma suposição, a partir de dados da UFMG. Na seleção de 2007 realizada pelo Departamento de Relações Internacionais (DRI) da universidade, nenhum estudante se interessou pelas duas vagas de intercâmbio universitário de graduação ofertadas pela Venezuela, enquanto apenas um se interessou pelas seis outras vagas ofertadas pela Colômbia. Dos países periféricos, apenas o Chile se destacava, com a marca de 1,2 candidatos por vaga. Os dados demonstram uma nítida preferência por certos países do mundo, como os Estados Unidos (NOGUEIRA, 2008). E, como vimos no início do capítulo, de acordo com Ennafaa (2004-2005), essa não seria uma particularidade brasileira. Dessa maneira, é provável que o Brasil, se não fossem as bolsas de estudo concedidas que devem aumentar um pouco a demanda, ocupasse lugar semelhante à Colômbia e à Venezuela, na relação de candidatos por bocado, e, então... Enfim, para mim, era uma... uma oportunidade de vir para o Brasil e de ficar durante seis meses lá, então (Tradução nossa). 181 vaga do processo seletivo enfrentado pelo entrevistado. Mesmo porque, caso a procura dos estudantes por um intercâmbio universitário de graduação no país fosse elevada, o nível de exigências tenderia também a ser elevado. Se comparamos a resposta de Charles e a resposta de um jovem africano que cursava a graduação no Brasil, os dois elementos de destaque na fala do estudante francês ficam ainda mais marcantes: “O campus é bom e oferece um ambiente agradável para os estudos e para a convivência. As pessoas são receptivas, alegres e estão sempre dispostas a ajudar”, diz Délcio de Jesus Machado, graduando de Ciências da Computação, proveniente de Luanda. “Vejo no curso a oportunidade de ocupar ótimos cargos em meu país e a possibilidade de complementar a formação, equivalente ao curso técnico em informática.” (FONSECA, 2009) Délcio, quando questionado acerca dos motivos que o trouxeram para o Brasil, deixa claro que sua presença no país se justifica por um projeto de estudo, visando a obtenção de um diploma valorizado em Angola. Segundo Fonseca (2009), estudar e se formar no exterior, em especial, no Brasil, tido, por uma série de motivos, como uma espécie de irmão mais velho de Angola, é o sonho de muitos jovens angolanos e de suas famílias. A temporada nas universidades brasileiras têm por objetivo a realização de uma formação de qualidade, que não só garante bons empregos na terra natal, mas também possibilita uma contribuição diferenciada na reconstrução do país, que esteve em guerra civil até muito recentemente. Vejamos com atenção quatro outros excertos da entrevista de Charles, excertos esses que são reveladores das expectativas depositadas pelo entrevistado na temporada de estudos no Brasil: Et… je ne sais pas, la première impression était… On n’imaginait pas le Brésil, enfin, comme... comme quand on est arrivé. Mais aussi c’est peut- être du fait qu’on arrivait à Belo Horizonte. Et je pense que ce n’est pas… ça ne correspond pas à l’image qu’on sentait plus dans d’autres villes, par exemple, à Rio. On allait à Salvador et... Bon, à l’arrivée, je ne sais pas, ça rassemblait vraiment à une grande ville un peu européenne, quoi, avec de batiments neufs. Ça aurait pu être au Portugal. Ça aurait été la même chose, quoi. Mais, oui, donc, on est arrivé… Non, pas de plages. Il pleuvait, en plus. Donc, on est arrivé, en… en se disant qu’on allait essayer de partir en vacances. Donc, du coup, on est parti, au carnaval, à... à Salvador. La première impression… Mais, la première impression... Déjà, qu’il manquait 182 du soleil. [rit] On s’attendait plus de soleil. Et, je ne sais pas, que la ville... serait plus joyeuse, plus de… d’ambiance, plus de… plus de… de fête, quoi60 (Entrevista concedida por Charles, 2min57-4min10). Bahia, c’est… Bah, c’est pareil. Là, on est arrivé là-bas, on nous a dit que c’était un carnaval très populaire, qu’avait beaucoup de jeunes, etc. Et, on s’est dit: “À Salvador, ça doit être beaucoup de la musique…” Enfin, on s’attendait à de la musique brésilienne, je pense, un peu plus ancienne, de rythmes plus de samba. Et, à Salvador, il y a que de rythmes un peu africains. Enfin, l’ambiance était… était vraiment enorme, quoi. Vraiment beaucoup, beaucoup d’ambiance. Mais je crois qu’on a été un peu deçu par la musique. Parce que c’était de trios élétricos délachés. Ça, c’était un peu… On ne s’attendait pas autant de ça au carnaval au Brésil, quoi. On pensait qu’il y avait de rythmes plus… Plus brésiliens, j’allais dire, mais l’axé, c’est brésilien aussi. Donc, plus anciens, quoi61 (4min35-5min21). Avant de partir, aussi, on m’avait dit que les Brésiliens allaient être super chaleureux, que tout le monde allait nous parler, etc. Et… moi, je suis allé en… en Afrique, il y a deux ans. Au Burquina, au Togo et au Bénin. Et j’étais… Enfin, j’étais presque déçu du Brésil pour ça, quoi. [rit] Parce que les gens, finalement, sont assez froids, ils ont du mal à nous parler. [...] Enfin, je ne sais pas, moi, quand je suis parti en Afrique, vraiment, tout le temps (et, quand je dis tout le temps, c’est systematiquement), il y avait au moins une, deux personnes avec nous qui nous parlaient, qui nous… enfin, qui nous parlaient de tout, tout le temps, quoi. [inaudible] qu’ici, on peut très bien aller dans un bar, sans que tout le monde commence à s’intéresser à nous, nous démander, nous poser de questions62 (13min08-14min20). Enfin, après le carnaval, on est allé un peu au nord de Salvador, sur de plages. Donc, là… Enfin, c’est là, pour moi, où j’ai découvert le… le Brésil comme… comme je l’attendais, quoi. Donc, les grandes plages, le 60 E... eu não sei, a primeira impressão foi... A gente não imaginava o Brasil, enfim, como... como a gente chegou. Mas também é, talvez, porque a gente chegou em Belo Horizonte. E eu acho que não é... não corresponde à imagem que a gente sentia mais nas outras cidades, como, por exemplo, no Rio. A gente ia à Salvador e... Bom, na chegada, eu não sei, parecia de verdade com uma grande cidade um pouco européia com prédios novos. Poderia ser em Portugal. Teria sido a mesma coisa. Mas, sim, então, a gente chegou... Não, nada de praias. Chovia, para completar. Então, a gente chegou, dizendo uns aos outros que a gente tentaria viajar de férias. Então, a gente viajou no carnaval para Salvador. A primeira impressão... Mas a primeira impressão... Para começar, faltava sol. [risos] A gente esperava mais sol. E, eu não sei, que a cidade... seria mais alegre, com mais energia, mais... mais... festa (Tradução nossa). 61 Na Bahia, foi… Ah, foi a mesma coisa. Lá, quando a gente chegou lá, as pessoas nos disseram que era um carnaval muito popular, que tinha muitos jovens, etc. E a gente disse uns aos outros: “Em Salvador, deve ter muita música…” Enfim, a gente esperava encontrar música brasileira, eu acho, um pouco mais antiga, com ritmos mais de samba. E, em Salvador, só tem ritmos um pouco africanos. Enfim, a energia era… era, realmente, enorme. Realmente, muita, muita energia. Mas eu acho que a gente ficou um pouco decepcionado com a música. Porque eram trios elétricos largados. Isso foi um pouco... A gente não esperava tanto disso, no carnaval no Brasil. A gente pensava que tinha ritmos mais… Mais brasileiros, eu ia dizer, mas o axé é brasileiro também. Então, mais antigos (Tradução nossa). 62 Antes de vir, também, tinham me dito que os brasileiros seriam super calorosos, que todo mundo iria falar com a gente, etc. E… eu estive na… na África, tem dois anos. No Burquina, no Togo e no Benin. E eu fiquei… Enfim, eu fiquei quase decepcionado com o Brasil por isso. [risos] Porque as pessoas, finalmente, são bastante frias, elas têm dificuldade em falar com a gente. [...] Enfim, eu não sei, quando eu viajei para a África, realmente, o tempo todo (e, quando eu digo o tempo todo, é sistematicamente), tinha ao menos uma, duas pessoas perto de nós, que falavam conosco, que nos… enfim, que nos falavam de tudo, o tempo todo. [inaudível] aqui, a gente pode muito bem ir a um bar, sem que todo mundo comece a se interessar por nós, nos abordar, nos colocar questões (Tradução nossa). 183 soleil, les palmiers, tout ça63 (Entrevista concedida por Charles, 5min35- 5min49). À começar, é a decepção com a chegada em Belo Horizonte que chama à atenção: a capital mineira parecia com “uma grande cidade um pouco européia com prédios novos”; poderia se passar por uma cidade portuguesa, por exemplo; não tinha praias; era menos alegre, menos festiva e com um clima mais hostil do que se esperava. Em seguida, o entrevistado aponta uma outra decepção, essa com o carnaval de Salvador, pois o axé dos trios elétricos não correspondia à música que embalava o imaginário acerca do Brasil, o samba. Na penúltima citação, mais uma decepção: os brasileiros eram menos calorosos do que se esperava; ao contrário, eram bastante frios e tinham dificuldades em abordar desconhecidos, diferentemente dos africanos; sendo assim, em um bar ou outro lugar qualquer, as pessoas não demonstravam uma grande curiosidade frente ao estrangeiro. Lendo o primeiro, o segundo e o terceiro excertos a contrapelo, conseguimos identificar, minimamente, a expectativa de Charles, quando embarcou para o Brasil. Para ele, era para um país muito diferente da Europa e semelhante à África que rumava, marcado pela praia e pelo sol, pela alegria e pela festa, pelo samba, por uma gente que lhe esperava de braços abertos. Tanto é que, somente nas praias do litoral baiano, o entrevistado se dá por satisfeito, pois é lá que encontra o seu Brasil, com suas praias ensolaradas, amplas e cheias de coqueiros. Será que ele contava passar um semestre letivo por lá? É quase desnecessário dizer, diante do quadro esboçado, que o relato de Charles segue ao ritmo das viagens por ele empreendidas com grande freqüência, viagens essas que têm como destino, especialmente, cidades ou reservas naturais (Rio de Janeiro, Salvador, Ilha Grande, Ilha do Mel...) que costumam fazer parte do roteiro dos turistas estrangeiros pelo Brasil. Isso vem a reforçar a idéia de que a temporada de estudos, na verdade, funciona como uma oportunidade de viajar pelo país. E deixa a entender também que o estudante se encontrava embebido de um imaginário a seu respeito, que fazia dele, sobretudo, um destino turístico atraente – definitivamente, não era com formação de qualidade e com o seu futuro profissional que ele estava associado –, embora não forneça pistas acerca do processo de construção desse imaginário. 63 Enfim, depois do carnaval, a gente foi um pouco ao norte de Salvador, nas praias. Então, foi lá... Enfim, foi lá, para mim, onde eu descobri o... o Brasil como... como eu o esperava. Então, as praias grandes, o sol, as palmeiras, tudo isso (Tradução nossa). 184 MacCannell (1976), na [...] análise que faz do turista moderno como um “estruturalista” arquétipo, considera precisamente que o turista encontra a motivação para as suas deslocações no desejo de recuperação mitológica das estruturas tradicionais que conferiam à vida um sentido de totalidade e que foram demolidas pela modernidade. O turista procura recapturar os totens de um tempo e de um mundo que idealiza como míticos, aos quais ele já não pertence. Um tempo e um mundo pré-modernos, cuja autenticidade deriva da sociabilidade dos seus residentes, imaginados pelo turista para refazer a perda dos referentes simbólicos que a modernidade legou. Move-se, em suma, em busca do “outro autêntico”, procurando encontrar nesse processo o “eu autêntico” [...] que existe na imaginação do turista (MacCANNELL apub PERALTA, 2003, p.88-89). O autor foi bastante criticado por Cohen (apub PERALTA, 2003), que defende que muitos turistas estão apenas interessados no mero divertimento. A experiência de Charles parece demonstrar que essas duas análises tão divergentes sobre o fenômeno do turismo podem se casar perfeitamente uma com a outra. Pois, se, por um lado, o entrevistado busca com muita clareza um “outro autêntico”, ao viajar para o Brasil; por outro lado, ele está sim interessado em se divertir por seis meses, trocando um semestre acadêmico na sua universidade de origem, em princípio, por uma estadia prolongada em praias como as do litoral baiano, e, posteriormente, por um grande tour pelo país. Os brasileiros que vão estudar na França também têm em mente as viagens que farão, não tanto pelo país, mas pela Europa, especialmente pelas capitais européias e alguns destinos turísticos valorizados, como Florença ou Veneza. No entanto, o que a pesquisa permitiu observar é que, com exceção, talvez, dos estudantes de francês e dos jovens au pair, o objetivo principal desses estudantes não parece ser viajar. A viagem, aparentemente, vem à reboque de um projeto de formação e, muitas vezes, emerge como uma de suas facetas, sendo, por exemplo, o doutorado em uma universidade francesa, a razão principal do deslocamento. Agnès e Philippe escolheram o Brasil como destino de formação, tomando como referência uma experiência prévia como turista no país. A entrevistada nasceu em 1986, em uma pequena cidade próxima ao Havre. É estudante do Institut d’Études Politiques (IEP) de Lille, e desenvolve, na Aliança Francesa de Belo Horizonte, seu ano de estágio obrigatório no exterior, sendo responsável por um curso de conversação e pela organização das atividades culturais. Já o entrevistado faz faculdade de geografia em Paris, sua cidade natal. No momento de realização da entrevista, tinha vinte anos e era aluno intercambista da PUC- Minas, devendo permanecer matriculado na instituição por um ano letivo. 185 Em linhas gerais, os discursos de Agnès e de Philippe são muito próximos um do outro, no que concerne essa questão da viagem turística enquanto motivação para a temporada de estudos. Vejamos, então, alguns excertos da entrevista de apenas um deles: Et, puis, ensuite, en… en 2003, je suis partie au Brésil une première fois, pour voyager. […] et je me suis retrouvée au Brésil, pendant trois semaines. [...] En fait, c’est un groupe, un groupe de… un groupe de jeunes encadré par de moniteurs. Et… et, donc, on est parti, on a voyagé. C’est un voyage encadré, mais on… on a voyagé de Rio à Salvador en transport en commun. Donc, c’est… À seize ans, tu imagines? C’est une expérience unique! Unique, unique. Et… et, donc, là, j’ai… j’ai… j’ai beaucoup… Enfin, ça m’a… ça… C’est le voyage qui m’a plus marqué. Et j’ai eu envie de revenir, parce que… j’avais envie de vivre avec… avec ce peuple qui est si spontané64 (Entrevista concedida por Agnès, Parte I, 3min49-5min). Bah… eh… Donc, en rentrant dans cet École, à Sciences Po, je savais qu’en troisième année je… je devais partir. Et… et, donc… […] Donc, bon, déjà, je suis revenue du… je suis revenue du… du Brésil, en 2003, et j’ai mis six mois, avant de redescendre sur terre. Je… Vraiment, j’étais dans un état de bien être, pendant six mois. Et… le… le Brésil, la première fois, m’avait marqué, parce que j’avais l’impression de vivre vraiment. C’était pendant les vacances aussi, mais… Il n’y a aucune contraite pour le corps, tu sais? Tu… J’ai… j’ai passé trois semaines dans l’eau, pratiquement, avec du soleil, et j’ai… Enfin, c’était vraiment une impression de bien être65 (Parte I, 9min31-10min15). Mais je… je suis restée avec la saudade do Brasil jusque à Noël. Jusqu’à Nöel, voilà. Et, donc, ensuite, il a fallu…L’année dernière, il a fallu que je choisisse une destination. Et, puis, bah, le Brésil s’est imposé, parce que je voulais… Pendant cette année à l’étranger, je voulais apprendre une…une autre langue, et le… le portugais m’intéressait beaucoup. Et, puis… et, puis, le… Je ne voyais pas un autre pays pour passer… pour passer cette année à l’étranger. C’était… Parce que… parce je suis… j’étais passionnée par le Brésil. Donc, quand on m’a dit : “Tu as le choix parmi tous les pays du monde!”66 (Parte II, 0min33-1min16). 64 E, depois, em seguida, em… em 2003, eu vim para o Brasil uma primeira vez, para viajar. […] e eu me vi no Brasil, durante três semanas. […] De fato, é um grupo, um grupo de… um grupo de jovens sob a responsabilidade de monitores. E… e, então, a gente veio, a gente viajou. Era uma viagem organizada, mas a gente… a gente viajou do Rio à Salvador de ônibus. Então, é… Com dezesseis anos, você imagina? É uma experiência única! Única, única. E… e, então, nessa ocasião, eu tive… eu tive… eu tive muita… Enfim, isso me… isso… Foi a viagem que mais me marcou. E eu tinha vontade de voltar, porque… eu tinha vontade de viver com… com esse povo que é tão espontâneo (Tradução nossa). 65 Bem… é… Então, entrando na faculdade, na Ciência Política, eu sabia que, no terceiro ano, eu… eu devia ir para o exterior. E… e, então… […] Então, bom, antes de mais nada, eu voltei do… eu voltei do… do Brasil, em 2003, e eu levei seis meses para voltar para a terra. Eu… Realmente, eu fiquei num estado de bem estar, durante seis meses. E… o… o Brasil, a primeira vez, me marcou, porque eu tinha a impressão de viver de verdade. Era nas férias também, mas… Não tem nenhum desconforto para o corpo, sabe? Você… eu… eu passei três semanas dentro d’água, praticamente, com o sol, e eu… Enfim, era realmente uma impressão de bem estar (Tradução nossa). 66 Mas eu… eu fiquei com a saudade do Brasil, até o natal. Até o natal, isso. E, então, depois, foi preciso… O ano passado, era preciso que eu escolhesse um destino. E, depois, bem, o Brasil se impôs, porque eu queria… Ao longo desse ano no exterior, eu queria aprender uma… uma outra língua, e o… o português me interessava 186 Os relatos de Agnès e Philippe mencionam antes uma vontade de permanecer por um período maior no Brasil, de poder reviver de maneira prolongada as experiências da viagem turística, que, propriamente, um projeto de formação bem traçado a ser desenvolvido no país. Mais tarde, é possível (e até provável) que o intercâmbio ou o estágio de graduação venha a adquirir um significado nas suas trajetórias acadêmicas e profissionais. Todavia, na origem, o que move os deslocamentos dos dois estudantes, e também dos demais franceses, parece ser algo de outra natureza. Nas suas próprias palavras: Sim, eu tinha a possibilidade de ir pra qualquer outro país europeu, Coréia do Sul e Brasil. Eu escolhi o Brasil. Por razões profissionais? Oficialmente, sim. Mas, não. Pra mim, não. Não foi, assim, inscrito num projeto profissional não (Entrevista concedida por Philippe, 5min22-5min45). Parce que… parce que les… les jeunes… les jeunes Français qui… qui vont au Brésil… bah, ont… C’est souvent… c’est souvent les Français qui… qui ne sont pas rationnels, qui ne pensent à leurs… que à leurs carrières. Puisque que, moi, mes camarades qui… qui veulent… qui veulent gagner de millions, qui… qui sont très rationnels, ils sont partis au Canada, aux États-Unis67 (Entrevista concedida por Agnès, Parte II, 22min31-23min17). Considerando a análise de Wagner (2002) acerca do lugar nacional do internacional e do lugar internacional do nacional e sua relação com o processo de internacionalização do mercado escolar apresentada no capítulo anterior, as falas de Philippe e Agnès, assim como as de Cédric e Charles, não surpreendem. Afinal de contas, em um país como a França, onde é o sistema nacional de ensino, com suas Grandes Écoles e grandes corporações, que, tradicionalmente, consagra as elites, as competências internacionais podem constituir antes um peso que um trunfo para quem as possui, apesar da inegável evolução recente do seu valor. Em especial, quando se trata de ir estudar em um destino como o Brasil, que se encaixa no que a autora denomina de países dominados, ou seja, que não conseguem enfatizar o valor internacional dos seus atributos nacionais, devendo, ao contrário, recalcá-los e assimilar-se a outros modelos. muito. E, depois… e, depois, o… Eu não via um outro país para passar… para passar esse ano no exterior. Era… Porque… porque eu… eu era apaixonada pelo Brasil. Então, quando me disseram: “Você pode escolher entre todos os países do mundo!” (Tradução nossa). 67 Porque… porque os… os jovens franceses que… que vem para o Brasil… bem… São sempre… são sempre os franceses que… que não são racionais, que não pensam nas suas… somente nas suas carreiras. Porque, os meus colegas que… que querem… que querem ganhar milhões, que… que são muito racionais, eles foram para o Canadá, os Estados Unidos (Tradução nossa). 187 A análise de Wagner (2002) também nos ajuda a compreender os diferentes significados atribuídos à temporada de estudos no Brasil pelos estudantes franceses e pelo estudante angolano. O lugar ocupado pelo país frente aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) é muito distinto daquele que ocupa frente à França. Da mesma maneira, ele confere, internamente, aos PALOP e à França lugares que não se equilavem. Ou seja, estamos diante de duas relações do nacional com o internacional e vice-versa que nada tem a ver uma com a outra. No que concerne ao caso Brasil-PALOP, a começar, não podemos deixar de destacar a língua portuguesa, o processo de colonização lusitano e os laços culturais e étnico-raciais que unem os dois países. Para além disso, é importante lembrar o papel político desempenhado pelo Brasil, quando do reconhecimento da independência de Angola, em 1975, sinalizando um processo de atração das antigas colônias portuguesas de ultramar para a sua órbita e atendendo a algumas demandas políticas dessas jovens nações independentes (FONSECA, 2009). Merece atenção, ao longo dos três excertos da entrevista de Agnès citados um pouco mais acima, o momento em que a entrevistada afirma que, depois da viagem turística para o Brasil, levou, de fato, seis meses para voltar para a França (“[...] eu levei seis meses para voltar para a terra.”), sendo que a sensação de bem estar experimentada no país a acompanhou durante o custoso retorno. O que caracteriza essa sensação de bem estar, para ela, é a impressão de “viver de verdade” e a sensação de liberdade (“Não tem nenhum desconforto para o corpo, sabe?”), experimentadas nas três semanas de férias, passadas quase inteiramente dentro d’água e sob o sol dos trópicos. Esse momento da entrevista de Agnès se casa com um excerto da entrevista de Philippe, para além, é claro, daqueles da entrevista de Charles que citamos anteriormente, a saber: Para mim, foi a minha primeira viagem fora da... da... da Europa. Então, foi um pouco particular. Eu cheguei lá, eu lembro, do aeroporto até no hotel que ficava em Copacabana, eu via essa... essa paisagem, esse... esse sol, essas praias. [...] Tinha no... no [na] van... Eu tava com um grupo de... de jovens. Tinha um [uma] bossa nova, que tava tocando dentro. Então, para mim, foi... foi mágico, assim, quando eu cheguei no Rio. Foi mágico, mágico. Fiquei três semanas. Eu fui no Rio; depois, na Ilha Grande. E eu fui em Salvador, depois (Entrevista concedida por Philippe, 3min27-4min12). 188 Boia (1998), ao tentar elaborar um breve inventário dos refúgios imaginários que o homem costuma construir para fugir da sua vida concreta, explora três das direções mais freqüentes, sendo elas a Idade de Ouro, as utopias e os milenarismos. No que concerne à primeira solução, o autor retoma a obra de Delumeau (2002a; 2002b), para reconstruir uma história do paraíso que desemboca no fenômeno contemporâneo do turismo. Écoutons ce que dit un personnage des Nouvelles du Paradis, roman publié par David Lodge en 1991 [traduit en portugais par l’Editora Gradiva] (et dont l’action se passe dans le décor “paradisiaque” de Hawaii): “La thèse que je défends dans mon livre est que le tourisme est un substitut de rites religieux. Les voyages touristiques comme pèlerinages séculiers. Autant de grâces accumulées que de sanctuaires culturels visités. Les souvenirs remplaçant les reliques. Les guides des voyages se substituant aux livres de piété [...] Le tourisme est la nouvelle religion de la planète [...] Ça va être le sujet de mon prochain livre, le tourisme comme mythe du paradis.” Preuve à l’appui: une couverture en couleurs “représentant une plage tropicale – mer et ciel bleu éclatant, sable blanc aveuglant, avec, un peu plus loin, quelques silhouettes humaines nonchalantes étendues à l’ombre d’un palmier vert”68 (BOIA, 1998, p.143). A Idade de Ouro é o mais antigo e o mais universal dos mitos a-históricos, de acordo com Boia (1998). Fazendo alusão a uma realidade original, ela questiona a história, considerada responsável por corromper uma obra terminada, um mundo de harmonia e uma condição humana feliz. Todavia, não existe uma Idade de Ouro, mas várias, cada uma própria de uma cultura e de um tempo, o que lhe confere uma historicidade e a reconcilia, assim, com a história. Delumeau (2002a; 2002b) tenta justamente abarcar essa dimensão histórica do mito, quando se propõe a historiar o paraíso. O que o autor (DELUMEAU apud BOIA, 1998) destaca, ao longo da sua obra, enquanto apresenta as diferentes concepções que o homem foi concedendo ao “jardim das delícias” e aos “mil anos de felicidade”, é o deslocamento do paraíso no tempo e no espaço (sendo que, em alguns casos, o tempo se metamorfoseia em espaço e vice-versa), assim como o processo de secularização, multiplicação e banalização que sofreu. 68 Escutemos o que diz um personagem de Notícias do Paraíso, romance publicado por David Lodge em 1991 [traduzido para o português pela Editora Gradiva, um ano mais tarde] (e cuja ação se passa no cenário “paradisíaco” do Hawai): “A tese que eu defendo no meu livro é que o turismo é um substituto de ritos religiosos. As viagens turísticas como peregrinações seculares. Tantas graças acumuladas quanto de santuários culturais visitados. Os souvenirs substituindo as relíquias. Os guias de viagem substituindo os livros de santos […] O turismo é a nova religião do planeta […] Isso vai ser o tema do meu próximo livro, o turismo como mito do paraíso”. Como prova: uma capa colorida “representando uma praia tropical – mar e céu azul esplendoroso, areia branca que cega, com, um pouco mais longe, silhuetas humanas preguiçosas estendidas debaixo da sombra de uma palmeira verde” (Tradução nossa). 189 Somente dentro da tradição judaico-cristã, podem ser apontadas três suposições acerca da localização temporal. O paraíso se encontraria no início dos tempos, segundo o Genesis, encarnando, portanto, um mundo irrecuperável, que podemos apenas reviver como nostalgia. Já no Apocalipse, ele estaria, ao contrário, no fim dos tempos, marcado justamente pela restituição do paraíso perdido, com o fechamento de um ciclo. A terra prometida do Êxodo, por fim, também conhecida como a terra do leite e do mel, nada mais é que o paraíso na terra (DELUMEAU apud BOIA, 1998). O paraíso terrestre se deslocou geograficamente. Tracemos de forma muito resumida esse processo, centrados na Idade Média. Em princípio, ele se encontrava no oriente, cercado por uma muralha de fogo, situada no alto de uma montanha, separada das regiões habitadas por vastos espaços de água69. Na medida em que o homem “descobria” o mundo, foi se tornando mais acessível e começou a migrar. Um muro ordinário substituiu a muralha de fogo; depois, um muro coalhado de portas. Nos mapas, o Éden aparecia, ora em um lugar, ora em outro, até que, junto com Colombo, desembarcou nas Américas70. E o deslocamento no espaço, se pensado em uma outra perspectiva, pode implicar também um deslocamento no tempo, considerando que viajar pelo globo em busca do paraíso significa também viajar, algumas vezes, atrás de um outro tempo e, certamente, viajar atrás de um tempo imune à história (DELUMEAU apud BOIA, 1998). Se os homens viviam como deuses ou em comunhão com ele(s) no paraíso, o sagrado e o profano não tinham ainda se separado um do outro. As diversas concepções de paraíso que atravessam a história reúnem esses dois pólos, mas também oscilam entre eles. Com o passar do tempo, que inclui uma desacralização do mundo ocidental, observa-se que o profano termina por predominar frente ao sagrado, até inventar um paraíso sem deus, que se manifesta antes como um sonho de abundância, liberdade e alegria de viver, e, hoje, invade o mundo através da propaganda turística ou da mídia, nas suas mais diversas formas. Vale dizer que o Eldorado é identificado como um passo dentro desse processo e que tal secularização também pressupõe uma sexualização (DELUMEAU apud BOIA, 1998). Malgré l’enthousiame de Colomb [...] les grandes découvertes ne réussirent pas à localiser l’Éden. Elles offrirent, par contre, des arguments en faveur des paradis sécularisés. Le XVIe siècle inventa l’Eldorado, Empire fabuleux caché et protégé par la forêt équatoriale sud-américaine, symbole suprême 69 Ver Le Goff (1997). 70 Ver Holanda (2000). 190 de la richesse. Le bon sauvage contribua à son tour à prolonger et à multiplier l’Âge d’or, dans bon nombre de contrées et d’îles lointaines. Sa carrière culmina au XVIIIe siècle avec le mythe tahitien (polynésien). Celui-ci concentra tous les traits de l’Âge d’or, moins la réligion: décor exotique, climat “paradisiaque”, hommes et femmes d’une beauté surprenante, abondance, inutilité de tout effort, liberté absolue, et surtout liberté des moeurs, liberté sexuelle... 71 (BOIA, 1998, p.142) Migrando de um lugar para outro e, sobretudo, secularizando-se, o paraíso termina por se multiplicar e, conseqüentemente, por se banalizar. Ele pode estar, hoje, nos quatro cantos da terra. Mais que isso, é acessível a qualquer um que possa pagar para chegar até lá. Vivemos no tempo em que a indústria do turismo, alimentada por toda uma carga simbólica construída ao longo do tempo e pelo imaginário acerca de determinados lugares, produz e vende paraísos na terra (AOUN, 2001). Na verdade, os franceses que entrevistamos não estariam em busca de um desses paraísos contemporâneos, quando decidiram empreender uma temporada de estudos no Brasil? Nicolas acalentava o sonho de viver um período na América Latina, desde a época do colégio, quando começou a estudar espanhol. Para ele, naquele tempo, o lugar representava a floresta e a sua vontade era de ver o que tinha restado das populações indígenas pré- colombianas... Assim que terminou o doutorado em química, solicitou uma bolsa de estudos francesa para fazer um pós-doutorado no Brasil, lançando mão dos contatos estabelecidos com um professor da UFSCAR que conheceu em um congresso. Pouco depois, o Governo Francês lhe comunicou que as Nações Unidas procurava um pesquisador da sua área, para participar de uma missão de trabalho de dois anos, em São Carlos. Tendo se candidatado para a vaga e sido selecionado, mudou-se para a cidade do interior paulista, em março de 1995, e lá permaneceu, até o final do ano 2000. O entrevistado ingressou na UFSCAR como pós- doutorando, quando a missão de trabalho terminou, e fez dois pós-doutoramentos na instituição, cada um deles com uma duração de dois anos, um como bolsista do CNPq e outro como bolsista da FAPESP. Sua vontade era de se estabelecer definitivamente no Brasil, o que 71 Apesar do entusiasmo de Colombo […] as grandes descobertas não conseguiram localizar o Éden. Elas ofereceram, entretanto, argumentos em favor dos paraísos secularisados. O século XVI inventou o Eldorado, império fabuloso escondido e protegido pela floresta equatorial sulamericana, símbolo supremo da riqueza. O bom selvagem contribuiu, por sua vez, para prolongar e multiplicar a Idade de Ouro, em bom número de terras e ilhas longínqüas. Sua carreira culminou no século XVIII com o mito taitiano (polinésio). Esse concentrou todos os traços da Idade de Ouro, menos a religião: cenário exótico, clima “paradisíaco”, homens e mulheres de uma beleza surpreendente, abundância, inutilidade de todo o esforço, liberdade absoluta, e, sobretudo, liberdade de costumes, liberdade sexual… (Tradução nossa). 191 só não fez porque a sua companheira preferia voltar para a França. Nicolas nasceu em 1966, no interior do Departamento da Mayenne. Atualmente, é professor da Université Rennes 1. Vem com alguma regularidade ao Brasil, seja para passear, rever os amigos ou trabalhar, e, no momento de realização da entrevista, presidia a Association Breizh-il, voltada para as trocas científicas entre a Bretanha e o país, e era secretário do Collectif Brésil. Virginie soube dos planos de Nicolas de fazer o pós-doutorado no Brasil, assim que começaram a namorar e ele ainda estava no segundo ano do doutorado. Em 1995, quando o companheiro, de fato, embarcou para o país, ela redigia a sua tese em química, o que a impediu de acompanhá-lo, em um primeiro momento. Veio lhe fazer uma visita, assim que possível, e, uma vez o trabalho concluído, mudou-se para São Carlos, onde residiu entre o final de 1995 e meados do ano 2000. A razão primeira da migração da entrevistada é, sem dúvida, Nicolas. Entretanto, ela afirma que também sonhava com a aventura, que significava como uma mudança radical de vida, uma viagem para uma outra cultura e a possibilidade de conhecer coisas novas, sendo que associava o destino com o sol, a festa e a praia. Desenvolveu dois pós-doutoramentos na UFSCAR, cada um deles de dois anos, enquanto bolsista da FAPESP. Se o casal voltou para a França, é porque Virginie desejava que os filhos, um deles brasileiro, convivessem com os familiares. É originária da Bretanha, e tem aproximadamente quarenta anos. Também é professora da Université Rennes 1, participa da Association Breizh-il e vem com alguma freqüência ao Brasil, para passear, visitar os amigos ou trabalhar. A história de Nicolas e Virginie é, em princípio, em tudo distinta daquela dos demais entrevistados. Primeiramente, os dois se encontravam em outro momento da vida e do percurso acadêmico, quando embarcaram para o Brasil, pois possuíam cerca de trinta anos, viviam um relacionamento estável e já haviam terminado o doutorado. Além disso, aqui, desenvolveram suas pesquisas de pós-doutorado, sendo que, embora o pós-doutoramento possa ser identificado como parte da formação do professor universitário, também constitui um dos meios que ele costuma utilizar para se inserir no mercado de trabalho ou mesmo um momento da sua vida profissional. A porta de entrada de ambos na UFSCAR, que é caracterizada por eles pela qualidade da sua produção científica, é o mesmo processo seletivo das universidades e das agências de fomento públicas enfrentado por qualquer brasileiro. Não há dúvidas acerca do profissionalismo com o qual encaravam suas temporadas de estudo no país: trabalhavam nas suas pesquisas, davam cursos, participavam de congressos e estabeleciam parcerias internacionais, chegando a possibilitar tanto uma instalação definitiva 192 no Brasil, quanto uma valorização da experiência vivida no país na univeridade francesa de origem. As viagens, que dão o tom das demais entrevistas, ocorrem, sobretudo, durante as férias e os feriados, ou aliadas com os congressos e os cursos em outras localidades, constituindo um tema secundário nos relatos. Por fim, é preciso dizer que os entrevistados se incomodavam com a imagem que seus colegas franceses tinham da nossa terra, imagem essa que nos permite compreender melhor a postura dos outros estudantes, e ajudaram, inclusive, a desconstruí-la. Vejamos um excerto da entrevista de Virginie: Alors, quand j’ai fini ma thèse ici, et que j’ai dit que je partais au Brésil et que j’allais essayer de trouver un post-doctorat, tout le monde rigolait! Parce, pour eux, le Brésil c’était les serpents, la jungle, le foot, le carnaval et c’est tout! Moi, je savais que c’était différent, parce que Nicolas, il trava… il travaillait déjà là-bas. Donc, je savais que c’était pas que ça. Et les gens: “Oui, tu vas partir en vacances.” Alors, je pense, en fait, que les gens m’enviaient beaucoup, au laboratoire, parce que c’est vrai que ça fait rêver. Mais ils croyaient pas du tout que j’aillais travailler. Bon, ensuite, à partir du moment où j’ai commencé mon post-doc là-bas, ah? Donc, à partir de… les premières mois que j’ai bossé [inaudible], et, puis, après, à partir de juin, avec ma bourse, à chaque fois que je revenais ici en vacances, j’allais voir mes collègues, enfin, mes… mes amis de la fac, ou mes pro… mes anciens professeurs, ou mon ancien directeur de thèse, et tous avaient la même reaction! “Mais tu n’es pas bronzée?! Oh!” Et je leurs dit: “Mais je travaille. Je ne suis pas à la plage! Je travaille!” “Oui, tu travailles. Mais comment tu peux travailler? Il ne doit rien avoir dans le laboratoire.” Et je n’arrêtais pas de leurs dire: “Mais venez voir. Il y a plus de choses, dans le laboratoire où je suis, que là, à Rennes! Il y a dix fois plus d’argent, dans le laboratoire...” Enfin, quand je dis dix fois plus, je… Oui, je pense que je n’exagere pas. “…dix fois plus d’argent, là, dans le laboratoire où je suis là-bas, que ici!” Mais les gens ne voulaient pas me croire. Tu vois? Ils croiaient que je… Pour eux, c’était… Enfin. Par contre, quand j’ai monté la collaboration, et, donc, les professeurs qui étaient ici sont venus là-bas, là, je pense qu’ils ont failli tomber par terre, en voyant le laboratoire à São Carlos! En voyant tout le matériel qu’on avait! En voyant tout l’argent qu’on avait! Et, là, ils ont commencé à… […] Et c’est là qui a commencé a changé l’image du Brésil. Parce que, avant, ils pensaient que, au Brésil, on ne faisait pas de recherche, enfin. Et, donc, les deux… les deux anci… mes deux profs qui sont allés là-bas, que je connais tous… plus d’autres profs qui sont venus dans d’autres collaborations, ils ne sont pas revenus! Jamais ils auraient imaginé qu’il y avait autant… […] Donc, après, quand je revenais ici en vacances, on ne me faisait plus ce genre de remarques, parce qu’ils avaient vu, tu vois?72 (Entrevista concedida por Virginie, 46min48- 49min11). 72 Então, quando eu terminei minha tese, aqui, e que eu disse que eu ia para o Brasil e que eu ia tentar fazer um pós-doutorado, todo mundo ria! Porque, para eles, o Brasil era as serpentes, a floresta, o futebol, o carnaval e só. Eu sabia que era diferente, porque o Nicolas, ele traba... já trabalhava lá. Então, eu sabia que não era assim. E as pessoas: “Sim, você vai tirar férias.” Então, eu acho, na verdade, que as pessoas tinham muita inveja de mim, no laboratório, porque é verdade que isso faz sonhar. Mas eles não acreditavam que eu ia trabalhar. Bem, em seguida, a partir do momento que eu comecei meu pós-doc lá, heim? Então, a partir de... os primeiros meses que 193 Apesar de todas as diferenças que separam as histórias de Nicolas e Virginie daquelas dos demais entrevistados, são eles que nos forneceram a peça do quebra-cabeça que faltava. Pois, se os dois intercambistas e a estagiária não chegaram a utilizar a palavra paraíso, ao longo das suas respectivas entrevistas, contentando-se em fazer alusões a ela, eles o fizeram, no momento em que afirmaram que, caso tivessem se estabelecido definitivamente no Brasil, ou venham a se estabelecer no país depois da aposentadoria, teriam escolhido ou iriam escolher João Pessoa ou uma cidade parecida para viver. Citemos mais um excerto da entrevista de Virginie: Bah, on a fait, tout de suite, en fait, le Nordeste. João Pessoa. Et João Pessoa, de tout qu’on a fait… Quand on a visité João Pessoa… On est allé là-bas, en fait, pour le travail, ah? On a été… J’étais indiquée pour faire un cours sur le… dans mon domaine et Nicolas aussi. Quand on est arrivé à João Pessoa [inaudible], j’ai dit à Nicolas: “non, si on doit rester au Brésil, c’est là que je vais vivre.” Parce que il y avait… il y avait tout. João Pessoa, pour moi, c’était la plage. Pas trop d’immeubles, par rapport à d’autres autres villes en bord de mer, ah? Et, puis, ce climat. Et la ville, je la trouvais très jolie. Et, donc, c’était… João Pessoa, pour moi, ça reste, vraiment… Si ce n’est pas le paradis, c’est [inaudible]. [rit] […] Mais, sinon, si un jour on doit retourner vivre au Brésil, pour notre retraite, comme dit Nicolas, si on n’arrive pas à y aller avant, ça serait vraiment à un endroit comme João Pessoa où j’allais vivre73 (Entrevista concedida por Virginie, 40min40-43min41). eu trabalhei [inaudível], e, depois, a partir de junho, com a bolsa, cada vez que eu voltava de férias, eu ia ver meus colegas, enfim, meus... meus amigos da faculdade, ou meus pro... meus antigos professores, ou meu antigo orientador de tese, e todos eles tinham a mesma reação! “Mas você não está bronzeada?! Oh!” E eu lhes dizia: “Mas eu trabalho. Eu não vivo na praia! Eu trabalho!” “Sim, você trabalha. Mas como você pode trabalhar? Não deve ter nada no laboratório.” E eu não parava de lhes dizer: “Mas venham ver. Tem mais coisas, no laboratório onde eu estou, que aqui, em Rennes! Tem dez vezes mais dinheiro, no laboratório...” Enfim, quando eu digo dez vezes mais, eu... Não, eu acho que eu não exagero. “...dez vezes mais dinheiro, no laboratório onde eu estou, lá, que aqui!” Mas as pessoas não queriam acreditar em mim. Você vê? Eles acreditavam que… Para eles, era… Enfim. Mas, quando eu montei a colaboração, e, então, os professores que estavam aqui foram lá, eu acho que eles quase caíram duros, vendo os laboratórios de São Carlos! Vendo todo o material que a gente tinha! Vendo todo o dinheiro que a gente tinha! E, nesse momento, eles começaram a… [...] E é, nesse momento, que a imagem do Brasil começou a mudar. Porque, antes, eles pensavam que, no Brasil, não se fazia pesquisa, enfim. E, então, os dois… os dois anti… meus dois professores que foram lá, que eu conheço… mas outros dois professores que foram em outras colaborações, eles não voltaram! Nunca eles teriam imaginado que tinha tanto… [...] Então, depois, quando eu vinha aqui de férias, ninguém fazia mais esse gênero de comentário, porque eles tinham visto, você entende? (Tradução nossa). 73 Bem, a gente foi, logo, ao Nordeste. João Pessoa. E João Pessoa, de tudo que a gente visitou... Quando a gente visitou João Pessoa... A gente foi até lá, de fato, para trabalhar, heim? A gente foi... Eu fui indicada para dar um curso na... na minha área e Nicolas também. Quando a gente chegou em João Pessoa, [inaudível] eu disse à Nicolas: “não, se a gente deve ficar no Brasil, é aqui que eu vou morar”. Porque tinha... tinha tudo. João Pessoa, para mim, era a praia. Não muitos imóveis, em relação à outras cidades da costa, heim? E, depois, o clima. E a cidade, eu achei muito bonita. E, então, era... João Pessoa, para mim, continua sendo, verdadeiramente... Se não é o paraíso, é [inaudível]. [risos] [...] Mas, se um dia a gente for viver lá, quando estivermos aposentados, como 194 De fato, o que as falas revelam é que a temporada de estudos no Brasil só ganhou uma grande conotação profissional, quando Nicolas já estava em São Carlos em missão de trabalho e tinha visitado os laboratórios da UFSCAR. Ou seja, o emprego ou a pesquisa que, terminada a tese, serviam como um meio para a aventura e uma espécie de trégua ou tomada de fôlego antes de encarar a profissionalização, de repente, terminam por ganhar a cena. Não por acaso Virginie menciona que, diferentemente dos seus colegas franceses, sabia que aventar a possibilidade de fazer um pós-doutorado no Brasil não era uma loucura, apesar de, assim como eles, associar o país à velhos clichês que não combinam com trabalho, como a aventura, o sol, a praia e a festa. Isso porque o companheiro já estava aqui e conhecia de perto a realidade. É interessante notar também o esforço feito pelos entrevistados para que a temporada de estudos no Brasil recebesse o devido valor na França. Foi preciso estabelecer parcerias com a universidade francesa de origem e trazer alguns dos seus professores em missão de trabalho, para convencê-los de que se desenvolvia pesquisa de qualidade no país. Esse movimento, sem dúvida, deve ter facilitado a reinserção profissional dos entrevistados nessa instituição, quando eles voltaram para a terra natal, ou, ao menos, garantido que o período passado no exterior fosse considerado de maneira positiva, no concurso para docente que enfrentaram. O que demonstra que, enquanto estratégia profissional, a não ser que se pretenda migrar definitivamente, o pós-doutorado no Brasil é um passo arriscado para um francês, na medida em que uma passagem pelo país não tem valor no mercado de diplomas na França. E contribui para a compreensão da ligeireza com a qual muitos encaram as temporadas de estudo por aqui. Afinal, porque investir em um título acadêmico desvalorizado? França (2008) defende que, se os franceses não podem ser considerados vanguarda, no que tange à expansão marítima européia do século XV e XVI, coube à eles a construção literária e a invenção filosófica do Novo Mundo, em especial, do Brasil. E, considerando que os discursos criam os objetos que põem em cena, para o autor, coube aos franceses também uma espécie de construção dessas terras. Isso porque, como procura demonstrar, os documentos produzidos em torno da França Antártica74, dentre os quais se destacam as obras diz Nicolas, se a gente não conseguir ir antes, seria verdadeiramente em um lugar como João Pessoa que eu ia viver (Tradução nossa). 74 Vale lembrar que a França Antártica foi uma efêmera colônia francesa, que ocupou a Baía de Guanabara, entre 1555 e 1560. Foi fundada por Nicolas Durand de Villegagnon, que partiu do Havre em direção ao Brasil com aproximadamente seiscentos homens, em um contexto de reforma e contra-reforma. A investida foi financiada 195 Singularidades da França Antártica de Thévet (1558; 1978) e História de uma viagem feita à terra do Brasil de Léry (1578; 2007), constituem o mais consistente, amplo e divulgado conjunto de relatos sobre o Novo Mundo e o Brasil que circulou pela Europa, na segunda metade do século XVI. Sendo que esse pioneirismo lhes garantiu uma outra vantagem, muito mais sólida e profunda: a de dar nome às coisas e às gentes do Brasil, a de inventar essas coisas e essas gentes, não somente consolidando certas percepções dos europeus em relação à elas e estabelecendo um vocabulário e um padrão narrativo para o que escreveriam à respeito, por um tempo razoavelmente longo e que, talvez, ainda perdure, mas também definindo, em grande medida, o nosso olhar sobre nós mesmos. É o que o autor percebe através da leitura de cerca de trezentos relatos de viajantes (franceses ou não) que visitaram o Brasil, ao longo dos três séculos que seguiram à chegada de Cabral, e também das obras dos homens de cultura da época, como Montaigne. Para França (2008), vários são os traços que os relatos sobre a França Antártica transformam em lugares comuns sobre o Brasil. Porém, mais que identificá-los um a um, o autor procura desvelar as bases sobre as quais repousam todos eles, que seria uma oposição entre a exuberância e a prodigalidade da terra e o caráter vicioso e corrompido dos seus habitantes. Nessa perspectiva, então, trata-se de identificar na natureza dos trópicos indícios de um certo paraíso terrrestre. Vale dizer que Souza (1994) já havia chamado à atenção para a tendência do Velho Mundo em edenizar a natureza do Brasil e demonizar os homens que nela viviam, durante os seus três primeiros séculos de existência, sem, entretanto, atribuir aos franceses um papel de destaque na conformação dessa tendência75. Carvalho (1998) também discute o que denomina “razão edênica” e “razão satânica”. Ele discorre sobre a surpreendente vitalidade entre nós brasileiros desses dois pólos opostos, a partir dos dados coletados por duas pesquisas de opinião realizadas na década de 1990, uma de âmbito nacional e outra limitada ao Estado do Rio de Janeiro. De um lado, o autor dá um salto dos séculos XVI, XVII e XVIII para o século XX. De outro, ele deixa de se preocupar com o olhar do estrangeiro sobre nós para se preocupar com o nosso próprio olhar à respeito. Mas faz isso enxergando uma certa continuidade, seja entre um tempo e outro, seja entre uma pelo Amiral Coligny, que possuía uma verdadeira estratégia para estabelecer refúgios protestantes nas Américas (CARELLI, 1994). 75 Tanto França (2008) quanto Souza (1994) são enfâticos em afirmar que, algumas vezes, ocorreu justamente o contrário, ou seja, uma detratação da terra e uma exaltação da sua gente, e que, inclusive, uma mesma pessoa chegou a apontar nas duas direções em seus escritos. Falar em tendência significa identificar o caminho adotado com mais frequência e não o único caminho adotado. 196 perspectiva externa e uma perspectiva interna, o que confirma as hipóteses de França (2008). No que tange à terra, que é o que mais nos interessa nesse momento, Carvalho (1998) conclui: [...] ao final do século XX, [...] o motivo edênico ainda predomina entre os entrevistados que conseguem apontar alguma razão para seu orgulho, tanto na pesquisa nacional como na do Rio de Janeiro. Independente das várias maneiras de tabular as respostas, o motivo edênico está sempre em primeiro lugar. No caso da pesquisa Cpdoc/ISER, ele representa, consistentemente, o dobro do segundo motivo alegado, características do país. Tabulando os dados recolhidos por uma pesquisa de opinião sobre o Brasil realizada na França em 200576 da maneira como faz Carvalho (1998) em seu artigo, podemos comparar esses dados com aqueles das duas pesquisas de opinião analisadas pelo autor. Se ele se surpreendeu com o edenismo revelado diantes dos seus olhos, ainda mais se surpreenderia com aquele que se revelou diante dos nossos, uma vez que os índices observados são ainda maiores. Enquanto a Vox Populi demonstrou que 25% (considerando apenas a primeira resposta dada ou considerando a média das três respostas dadas) dos brasileiros encontram na natureza um motivo para ter orgulho do Brasil, e o CPDOC e o Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER) demonstraram que 26% (considerando apenas a primeira resposta) dos fluminenses fazem o mesmo, a empresa de pesquisa Louis Harris 2 (LH2) demonstrou que 35,82% dos franceses vão buscar na natureza uma ou mais respostas, quando questionados acerca do que o Brasil evoca para eles. Os franceses associam o país, especialmente, com o sol, o clima ameno, o mar, a praia, a areia, o café, as mulheres bonitas (tidas por Carvalho como parte da natureza), o calor, a Amazônia, um país bonito, as riquezas naturais, um país grande, um país da América do Sul, as florestas, as paisagens, os rios, o Pão de Açúcar, o pulmão da terra, um país distante. Sendo que os cinco primeiros itens listados – o sol, o clima ameno, o mar, a praia e a areia – abarcam quase a metade das respostas dadas. Ou seja, como afirmou Nelson Rodrigues (1997, p.14), com a ironia que lhe era própria: “Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem.” E essa paisagem corresponde àquela pintada pelos entrevistados. Dito que o Brasil foi concebido, sobretudo, como paraíso pelos franceses que aqui aportaram no século XVI, a partir da retomada de alguns dos inúmeros trabalhos 76 RELATÓRIO de uma pesquisa de opinião sobre o Ano do Brasil na França encomendada pelo Governo Francês à empresa Louis Harris 2. Intitulada L’Année du Brésil en France: perceptions et répercussions, a pesquisa foi desenvolvida no final de 2005 e seus resultados divulgados em dezembro do mesmo ano. Concedido pela Embaixada do Brasil em Paris. 22p. 197 desenvolvidos à respeito; demonstrado que essa imagem parece perdurar, entre os franceses, em geral, e, de forma especial, entre os estudantes que entrevistamos, a partir da análise de uma pesquisa de opinião e das fontes construídas; resta tentar compreender o processo de permanente atualização do mito. Faremos isso, dentro das limitações dos dados que dispomos. Quando questionados acerca das raízes da visão que tinham sobre o Brasil, nossos entrevistados, na grande maioria das vezes, enfatizavam a grande atração que sentiam pelo país, comparavam a força dessa atração em relação à outros países do mundo, mas costumavam não conseguir explicá-la. Tudo se passa como se o imaginário que carregam fosse construído para além deles e definisse, inclusive, os itens que enumeram na tentativa de encontrar uma resposta à nossa pergunta. Por exemplo: Eu não sei. Eu sempre fui, assim, atraído pelo Brasil, sem saber porque. Tipo, as cores, o... o verde, o amarelo, o futebol, assim, a música. Não... São... são coisas, assim, que eu não... que eu nunca... soube expinar [explicar] (Entrevista concedida por Philippe, 1min-1min20). Dentre os estudantes, somente Agnès apresenta pistas que pemitem elucidar a construção do seu imaginário sobre o Brasil. Para além da sua experiência enquanto turista no país que já abordamos e da temporada de estudo em desenvolvimento, a entrevistada busca, primeiramente, no gosto do pai por música, uma explicação para a sua paixão. Natal, música de Chico et Roberta, uma dupla de cantores mirins brasileiros completamente desconhecida no Brasil, e a lambada são os sons que marcaram a sua infância. Mais tarde, entraram em cena a bossa nova, os clássicos da Música Popular Brasileira (MPB) e cantores como Carlinhos Brown. Vale destacar a paisagem que ela, escutando as músicas sem falar o português, logo sem compreender as suas letras, escolhe como pano de fundo, o que, sem dúvida, reforça a idéia central defendida nesse capítulo: uma praia, que idenfitica com o Rio de Janeiro, cheia de bruma e de cores verdes, marcada pela alegria de viver. Ma première rencontre avec le Brésil, ça a été vraiment la musique. Parce que mon père aime beaucoup la musique, et il rammène tout le temps de disques à la maison. [Il] même aime beaucoup la musique brésilienne. Donc, toutes les semaines, depuis que je suis petite, j’entends… j’entends ça. Et ce n’est pas rationnel comme… Ce n’est pas très rationnel, mais c’est vraiment… c’est là que… que le Brésil est rentré en moi. Il y a… il y a des choses qui marquent; qui sont suptilles, mais qui marquent comme… Il y avait une chanson, quand j’étais petite, ça devrait être en 1980. Chico et 198 Roberta. Je ne sais pas si tu te rappelles. [rit] Il y avait une chanson qui s’appellait Natal. Natal. Et… et ma mère avait acheté le… le CD… le vinil. Mais je l’ai écouté en boucle, en boucle, en boucle. Ensuite, c’est la lambada. [rit] Et, après, j’ai commencé à écouter beucoup de musique… de la bossa nova. Et, puis, je me suis intéréssée aux… aux classiques: Caetano Veloso, Vinícius de Morais, tout. Et… et, puis, Carlinhos Brown, et tout ça, et tout ça. Et c’est vraiment la musique que j’ai écouté le… le plus. Et voilà77 (Entrevista concedida por Agnès, Parte I, 2min20-3min42). Bon… bah, c’était surtout Rio. C’est… [silence] Enfin, quand j’écoutais la chanson “Àgua de beber; àgua de beber, Camará”, moi, je voyais une plage, avec de la brume, beaucoup de couleurs vertes, et… et, voilà, une douceur de vivre. Oui, c’est ça78 (Parte I, 5min45-6min13). Em seguida, Agnès, que nasceu nas proximidades do Havre, porto da Normandia, aponta a relação muito particular mantida entre a didade e o Brasil. Lá, o país conta com um Consulado Honorário e uma seção de comércio internacional na universidade. A cada dois anos, além disso, uma corrida de barcos deixa o local, em direção à Salvador, na Bahia. Sendo que uma série de festividades, com a presença de artistas brasileiros, marca a sua partida, fazendo dele um mini-Brasil. O que a entrevistada não disse é que essa relação particular que identifica vem de longa data. No início do século XVI, os marinheiros franceses, em especial, os normandos, já conheciam o Brasil. Suas expedições constantes às terras brasileiras sustentavam o ativo comércio de pau-brasil, na cidade de Rouen, capital da Normandia, ao longo da primeira metade do século XVI. Sendo que a mediação da extração da madeira era feita por franceses muito jovens, deixados além mar para aprenderem a língua dos índios e servirem de intérpretes. Não por acaso, então, Rouen ofereceu ao Rei Henri II, quando da sua visita à cidade, em 1550, um espetáculo representando a vida no Brasil, composto por trezentos atores, dos quais cinqüenta eram verdadeiros “selvagens” e os outros duzentos e cinqüenta eram marinheiros que conheciam as suas maneiras. Todos eles se encontravam nús, com a 77 Meu primeiro encontro com o Brasil foi, realmente, a música. Porque meu pai gosta muito de música, e ele leva, sempre, discos para a casa. Ele gosta muito da música brasileira. Então, todas as semanas, desde que eu era pequena, eu escuto… eu escuto isso. E não é consciente… Não é muito consciente, mas foi, sinceramente... foi assim que… que o Brasil entrou em mim. Tem… tem coisas que marcam; que são sutis, mas que marcam enquanto… Tinha uma canção, quando eu era pequena, devia ser em 1980. Chico e Roberta. Eu não sei se você se lembra. [risos] Tinha uma canção que chamava Natal. Natal. E… e minha mãe tinha comprado o… o CD… o vinil. Mas eu a escutei repetidas vezes. Depois, foi a lambada. [risos] E, em seguida, eu comecei a escutar muita música… bossa nova. E, depois, eu me interessei pelos… pelos clássicos : Caetano Veloso, Vinícius de Morais, tudo. E… e, depois, Carlinhos Brown, e tudo isso, e tudo isso. E é, realmente, a música que eu escutei… mais. É isso (Tradução nossa). 78 Bom… era, sobretudo, o Rio. É… [silêncio] Enfim, quando eu escutava a canção “Água de beber; água de beber, Camará”, eu via uma praia, com uma bruma, muitos tons de verde, e… e, é isso, uma doçura de viver. Sim, é isso (Tradução nossa). 199 pele pintada e coberta de plumas, enquanto o cenário era uma tentativa de reconstrução da floresta virgem com seus animais exóticos. O capitão Binot de Paulmier de Gonneville parte de Honfleur, cidade localizada a vinte e cinco quilômetros do Havre, em 1503, tendo aportado na costa brasileira, em 1504. De lá, ele retorna com o índio Essomericq, filho do chefe dos índios carijós, que adota e casa com uma filha da aristocracia normanda, a quem transmite seus títulos de nobreza. O próprio Havre também ocupou um papel de destaque, no que tange às investidas francesas, em especial, normandas, pelo Novo Mundo, no século XVI. Ém 1555, é da cidade que Villegagnon seguiu, juntamente com cerca de seiscentos colonos, para fundar a França Antártica, tentativa malograda do país em estabelecer uma colônia na Baía de Guanabara (CARELLI, 1994). O Ano do Brasil também aparece na listagem de Agnès, construída na busca pelas raízes do seu envolvimento com o nosso país. Durante a celebração, esteve presente em uma conferência sobre o comércio franco-brasileiro e outra sobre a música brasileira, ambas ocorridas no Havre. Também viajou para Paris, especialmente para assistir a alguns espetáculos da estação cultural. Em uma dessas visitas à capital francesa, inclusive, dançou forró pela primeira vez. E, embora não tenha comparecido, em 2005, ao grande concerto brasileiro na Praça da Bastilha que marcou as comemorações do aniversário da Revolução Francesa, escutou a transmissão ao vivo do evento feita por uma rádio, juntamente com uma amiga de origem portuguesa, também ela fascinada pelo Brasil, enquanto descansavam em uma praia da viagem de bicicleta que empreendiam juntas. Por fim, a entrevistada menciona a convivência com três estudantes brasileiros, no IEP de Lille. Todos eles eram intercambistas universitários e provinham da cidade de Recife. Ah, oui, j’ai oublié de te dire que… au Havre, la ville où j’habite, et c’est pour ça aussi que j’ai beaucoup aimé le Brésil, il y a une course de bateau qui fait Le Havre-Salvador de Bahia. La Course… la Crozade Jacques Vabre. […] Et, donc, tous… tous les deux ans, elle part du Havre. Et, tous les deux ans, le Havre se transforme en Petit Brésil. Où… où… Donc, il y a de… souvent des artistes Brésiliens qui viennent, il y a de batucada dans les rues. Et… et, donc, depuis longtemps, je… Je suis passionnée de… de bateau. Donc, il y avait les deux : bateau, Brésil. Et, donc… et, donc, j’avais rencontré des Brésiliens, à cette occasion. Et… et, sinon, pendant l’Année du Brésil en France, j’allais souvent à Paris. À… à Paris, pour voir des… des spectacles. Et je me souviens d’avoir dansé, pour la première fois, le forro, à Paris. [rit] Et, donc, j’avais rencontré des Brésiliens. C’était un samedi. J’étais partie… Je devais avoir dix-sept ans. Je… j’étais partie… j’étais partie, en train, à Paris, pour… juste pour aller danser le forro [rit] et tout ça. Et, puis, à l’uni… à l’université où je suis maintenant, il y a des 200 échanges avec l’université de Recife. Et, donc, l’année dernière, j’ai passé pas mal de temps avec… avec… trois Brésiliens, deux Brésiliens et une Brésilienne79 (Entrevista concedida por Agnès, Parte II, 14min02-15min29). Le Havre est une ville très liée avec le… le Brésil. Il y même un Consulat Honoraire du Brésil. Il y a… L’université, là-bas, a une Section Commerce Internationale spécialement tournée vers le Brésil. Et, donc, je suis allée à quelques conférences sur le… sur le commerce franco-brésilien. Et sur la musique brésilienne. Et, donc, j’avais… j’avais été à deux… à de conférences, là-bas. Sinon, mon Année du Brésil, ça a été cette soirée de forro. Et, puis, ah… bah, le fameux 13 juillet 2000… 2005. Donc, le concert. Je… je ne suis pas allée, parce que j’avais prévu de faire un… voyage en vélo avec une copine, mais… mais j’étais très déçue de ne pas y être. Mes parents y étaient. Et… et, donc, c’était retrasmi à la radio. Et on avait fait… Donc, ce jour-là, on avait roulé toute la journée en vélo. Et, le soir, on s’était posée sur une plage, et on avait écouté cette soirée brésilienne, toute la soirée! J’étais avec une copine, Karina, qui, elle, est d’origine portugaise. Et, donc, depuis qu’on a quinze ans, on rêve ensemble du Brésil, on rêve d’y aller. Et cette année, elle est à Brasilia, elle aussi. Donc, on était toutes les deux ensemble. C’était magique! C’était… Voilà80 (Entrevista concedida por Agnès, Parte II, 16min11-17min35). É impossível não comparar o deslocamento dos estudantes franceses e dos estudantes brasileiros e os seus imaginários em relação ao Brasil e à França, pontos trabalhados ao longo dos Capítulos 5 e 6. Salta aos olhos a discrepância entre os dois grupos. Enquanto os brasileiros partem, geralmente, em busca de uma formação e de um diploma valorizados no Brasil, tendo em vista, sobretudo, a distinção no mercado de trabalho e a conquista de postos interessantes ou a ascensão na carreira profissional; os franceses seguem, na sua maioria, em 79 Ah, sim, eu esqueci de lhe dizer que… no Havre, a cidade onde eu moro, e é por isso também que eu gosto muito do Brasil, tem uma corrida de barcos que faz Le Havre-Salvador da Bahia. A Corrida… a Cruzada Jacques Vabre. […] E, então, a cada… a cada dois anos, ela parte do Havre. E, a cada dois anos, o Havre se transforma em um Brasil em miniatura. Onde… onde… Então, tem… sempre, artistas brasileiros que vêm, tem batucada nas ruas. E… e, então, faz muito tempo, eu… Eu sou apaixonada por… por barcos. Então, tinha os dois: barco, Brasil. E, então… e, então, eu encontrei brasileiros, nessa ocasião. E… e, além disso, durante o Ano do Brasil na França, eu ia sempre para Paris. Para… para Paris, para ver… espetáculos. E eu me lembro de ter dançado, pelo primeira vez, forró, em Paris. [risos] E, então, eu encontrei brasileiros. Foi num sábado. Eu fui… Eu devia ter dezessete anos. Eu… eu fui… eu fui para Paris de trem, para… apenas para ir dançar forró [risos] e tudo isso. E, depois, na uni… na universidade onde eu estou agora, tem trocas com a universidade de Recife. E, então, o ano passado, eu passei bastante tempo com… com… três brasileiros, dois brasileiros e uma brasileira (Tradução nossa). 80 O Havre é uma cidade muito ligada com o… o Brasil. Tem até um Consulado Honorário do Brasil. Tem… A universidade, lá, tem uma Seção de Comércio Internacional especialmente voltada para o Brasil. E, então, eu fui à algumas conferências sobre o… sobre o comércio franco-brasileiro. E sobre a música brasileira. E, então, eu fui… eu fui a duas… à conferências, lá. Além disso, meu Ano do Brasil, foi essa noite de forró. E, depois, ah… claro, o famoso 13 de julho 2000… 2005. Então, o show. Eu… eu não fui, porque eu tinha previsto de fazer uma… uma viagem de bicicleta com uma amiga, mas… mas eu fiquei bem triste de não ter ido. Meus pais foram. E… e, então, foi transmitido pela rádio. E a gente tinha feito… Então, esse dia, a gente andou de bicicleta o dia inteiro. E, de noite, a gente foi para uma praia, e a gente escutou esse show brasileiro, a noite inteira! Eu estava com uma amiga, Karina, que é de origem portuguesa. E, então, desde que a gente tem quinze anos, a gente sonha com o Brasil juntas, a gente sonha de ir para o Brasil. E, esse ano, ela está em Brasília. E, a gente estava juntas. Foi mágico ! Foi… É isso (Tradução nossa). 201 busca de férias no paraíso, utilizando os estudos como meio para viajar para um país longínquo e lá permanecer por um período considerável. De um lado, então, temos uma estratégia de ascensão social clara, e, do outro, uma janela da “civilização” para o desconhecido, para o insólito, para o mito. Mas se a temporada de estudos no Brasil é, em princípio, pouco valorizada na França, ela poderia significar a profissionalização de franceses no Brasil, mesmo que os estudantes não pareçam se deslocar com esse objetivo? O contato com “franceses de Belo Horizonte” nos possibilitou compreender que, em função da nacionalidade, eles encontram, aqui, múltiplas facilidades de inserção no mercado de trabalho e na vida social, como vimos anteriormente. Eles conquistam postos muito rapidamente, apesar do ínfimo domínio do português; passam a exercer funções mais interessantes do que aquelas que exerciam na França; integram-se com facilidade; e começam a freqüentar um meio social ao qual não tinham acesso no seu país de origem. Dentre os estudantes que entrevistamos, Valérie e Nicolas não se instalaram como professores universitários no Brasil, nas melhores condições possíveis, porque optaram por voltar para a terra natal, apesar das dificuldades que enfrentaram no retorno. Embora sejam necessárias outras pesquisas para verificar essa hipótese, acreditamos que a internacionalização do mercado escolar pode levar a internacionalização do mercado de trabalho, incorporando desigualdades de âmbito global na disputa local por empregos e promovendo assim, para além do que se convencionou chamar fuga de cérebros e do sub-emprego de pessoal altamente qualificado originário dos países periféricos, o escoamento do excesso de mão de obra qualificada dos países centrais para lugares como o Brasil. Procuramos testar a idéia defendida no Capítulo 4, junto aos franceses entrevistados que estavam ou estiveram no Brasil para estudar. Também para eles, que não mantêm um relacionamento com uma “nativa”, o país se confundiria com “a brasileira”? Em que medida essa imagem teria motivado seus deslocamentos para a outra margem do Atlântico? Optamos, para tanto, por tomar apenas as entrevistas de Charles e Philippe. Isso porque Cédric e Nicolas são casados e já se relacionavam com as atuais esposas, quando aportaram por aqui. Acreditamos que esse fato pode enviesar as falas, definindo o dito e o não-dito, sobretudo porque conhecemos as mulheres de ambos, tendo sido uma delas, inclusive, entrevistada, ao longo do desenvolvimento da pesquisa. Passado um semestre da sua chegada no Brasil, Philippe viajou para a França, para passar o natal com a sua família. Nessa ocasião, ao visitar a turma de amigos da faculdade, 202 eles demonstraram curiosidade justamente com relação às mulheres, o que parece ser sintomático. É interessante notar que, no momento de realização da entrevista, Philippe namorava, há quatro meses, uma brasileira. Tipo assim: “Oh, as mulheres! Oh!” Bastante isso. [...] Os amigos? Eu vi vários amigos. Tipo: “E, lá? Cê pegou alguém?” Assim, esse tipo de coisa assim (Entrevista concedida por Philippe, 17min19-18min17). Charles, por sua vez, não tocou no assunto. Entretanto, não podemos deixar de nos questionar se uma certa imagem da brasileira não faz parte, implicitamente, do seu Brasil, país associado, antes da partida, com praias amplas e cheias de coqueiros, sol, alegria, festa, samba e gente acolhedora. Tudo se passa como se ele fornecesse alguns elementos de uma paisagem, e esses poucos elementos acionassem o seu todo, de imediato. Para utilizar a expressão em francês que tão bem traduz a idéia, ça fait parti du décor: o paraíso sem deus inclui não apenas belas mulheres, mas também uma liberdade extraordinária de costumes, até mesmo os sexuais. Um dado interessante é que, dos três intercambistas franceses de graduação que aportaram no Departamento de Engenharia Elétrica da UFMG com Charles, em 2007, um se casou com uma brasileira, apesar da pouca idade, e se estabeleceu no Brasil. Além disso, apesar de não possuírmos dados quantitativos à respeito, observamos, ao longo do desenvolvimento da pesquisa, que, curiosamente, a maioria dos franceses que vêm para Belo Horizonte para estudar são homens, enquanto a maioria dos brasileiros que vão para Rennes para estudar são mulheres. É possível também aproximar os deslocamentos dos estudantes franceses e dos “brasileiros de Rennes”, assim como o imaginário de cada um desses dois grupos, em relação ao Brasil e à França, respectivamente. No Capítulo 3, defendemos que os “brasileiros de Rennes” migram em busca de uma espécie de Eldorado, mito que encarna a riqueza sem limites, lançando mão, em geral, de um casamento com um estrangeiro. A mesma imagem foi acessada por Meihy (2004), para discorrer acerca da decisão de mudar para Nova Iorque tomada por brasileiros radicados na cidade. O autor utiliza também, na sua análise, a expressão terra prometida, que faz alusão a um lugar de oportunidades ilimitadas. Tal expressão foi, além disso, escolhida por Margolis 203 (1994), ao abordar o olhar dos “brasucas” frente aos Estados Unidos. Quanto aos estudantes franceses, é em busca de um certo paraíso que eles parecem se lançar. Se o Eldorado pode ser considerado um passo, dentro do processo de secularização do paraíso, conforme defendem Delumeau (2002a; 2002b) e Boia (1998), se tanto a terra prometida quanto o paraíso são exaustivamente descritos de maneira muito semelhante, sendo uma e outro definidos como a terra do leite e do mel, então, tanto os “brasileiros de Rennes”, quanto os estudantes franceses que entrevistamos, não estariam em busca do paraíso, quando se deslocam entre o Brasil e a França? Acreditamos que sim. Eles parecem caminhar atrás do paraíso que identificam no outro. Entretanto, conformam-no cada um a sua moda. Para os estudantes franceses, como vimos, o Brasil se confunde com as fotografias dos cartões postais (praia, sol, coqueiros, verde); temperadas com uma sensação de bem estar, uma certa liberdade e uma alegria de viver; embaladas pelo samba, pela bossa nova e pela festa; completadas por um povo acolhedor e por belas mulheres. Já para os “brasileiros de Rennes”, o que está em jogo é a França-país central, concebida em contraposição ao complicado Brasil que enfrentam no cotidiano e que não deixa de ser um paraíso para eles. Não por acaso, uma das nossas entrevistadas francesas utiliza exatamente essa palavra para definir como a primeira brasileira que conheceu em Rennes, também ela casada com um francês, enxergava o seu país: Alors, la première Brésilienne qu’on a connu, qu’habitait sur le… sur le… dans le quartier, elle… C’était une histoire qui n’a pas… qui ne s’est pas bien terminée. Mais elle avait son… son mari… Enfin, celui qui est devenu son mari est allé au Brésil faire un tour. Jeune homme, je ne sais pas. Elle est tombée amoureuse. Je ne sais pas, enfin, qu’est-ce que s’est passé. Toujours est-il qu’elle s’est dit: “Je vais aller tenter ma chance en France.” Elle est arrivée ici, sans tambour ni trompette. Et, puis, bah, elle a épousé son… son… son ami. Mais, bon, la situation a été très difficile, parce qu’ils n’étaient pas du tout sur la même longueur d’onde et tout ça. C’était… Ils n’avaient pas les mêmes aspirations. Enfin, on sentait bien, quoi. Enfin, ça… Alors, ils sont partis, ils sont revenus, ils sont partis, ils sont revenus, et, après, au bout d’un certain temps, chacun a fait sa vie de son côté, quoi. Mais avec elle on a appris beaucoup. Beaucoup, beaucoup sur la façon de voir, sur la… Mais, à Rennes, c’était… c’était de venir au paradis, quoi! Enfin, au paradis? Qu’est-ce qu’elle croyait être le paradis. C’était ça pour elle [très bas]. Ah, oui, là, c’était… C’était dur pour elle, oui. Parce que… Et je pense qu’elle avait sa fierté. Et puis elle était… elle est passée… elle avait… Je ne sais pas qu’est-ce qu’elle avait comme diplôme. Pas grand chose, je suppose. Mais elle a fait un… un diplôme d’esthéticienne, et, puis, bah, elle se débrouillait. Enfin, elle a [inaudible], mais… mais ils n’étaient pas sur la même… Enfin, c’était… Elle… elle s’est mariée, bah, parce qu’il fallait qu’elle aie une situation claire ici, mais [silence]… […] Je ne sais pas 204 trop, mais, enfin, il y a eu trop de différences entre eux. C’était quoi… Oui, ça a été difficile. Là, on s’est aperçu que… Mais c’était plus… Bon, elle, elle est venue. Elle s’est un peu imposée, quoi. Mais parce qu’elle, elle avait, certainement, une vision de la France… C’était il y a vingt ans, ah? Une vision de la France [silence] idyllique. Et, puis, la France c’était pas ça, quoi. Enfin, c’était pas ça, surtout que… Oui81 (Entrevista concedida por Elizabeth, p.38-39). 81 Então, a primeira brasileira que a gente conheceu, que morava no… no… no bairro, ela… Foi uma história que não… que não terminou bem. Mas ela tinha o seu… seu marido. Enfim, aquele que virou seu marido foi ao Brasil à passeio. Moço, eu não sei. Ela se apaixonou. Eu não sei, enfim, o que aconteceu. Fato é que ela disse para si mesma: “eu vou tentar a minha sorte na França”. Ela chegou aqui, sem ser anunciada. E, depois, ela se casou com o seu… seu… seu namorado. Mas, bem, a situação foi muito difícil, porque eles não estavam de jeito nenhum na mesma onda e tudo isso. Era… Eles não tinham as mesmas aspirações. Enfim, a gente percebia bem. Enfim, isso… Então, eles terminaram, eles voltaram, eles terminaram, eles voltaram, e, depois, passado um certo tempo, cada um fez a sua vida de um lado. Mas com ela a gente aprendeu muito. Muito, muito sobre a forma de ver, sobre a… Mas Rennes era… era vir para o paraíso! Enfim, o paraíso? O que ela achava ser o paraíso. Era isso para ela [muito baixo]. Ah, sim, aqui, era… Era duro para ela sim. Porque… E eu acho que ela tinha o seu orgulho. E, depois, ela era… ela virou… ela tinha… Eu não sei o que ela tinha como diploma. Não muita coisa, eu imagino. Mas ela fez um… um curso de esteticista, e, depois, ela se virava. Enfim, ela [inaudível], mas eles não estavam na mesma… Enfim, era… Ela… ela se casou, porque era preciso ter uma situação clara, aqui, mas [silêncio]… […] Eu não sei direito, mas, enfim, tinha diferenças demais entre eles. Era… Sim, foi difícil. Nesse momento, a gente percebeu que… Mas era mais… Bom, ela, ela veio. Ela se impôs, um pouco. Mas porque ela tinha, certamente, uma visão da França… Isso faz vinte anos, heim ? Uma visão da França [silêncio] idílica. E, depois, a França não era isso. Enfim, não era isso, sobretudo porque… Sim (Tradução nossa). 205 Capítulo 7: INVENTARIANDO O IMAGINÁRIO “Une pierre, deux maisons, trois ruines, quatre fossoyeurs, un jardin, des fleurs, un raton laveur, une douzaine de huîtres, un citron, un pain82…” (PRÉVERT, 1992, p.131). Em um dos seus poemas, Inventaire, que quer dizer inventário em português, Prévert deixa sua imaginação fluir e associa coisas que não possuem, em princípio, nenhuma ligação entre si, constituindo, dessa forma, uma lista aberrante. Ao entrevistar brasileiros que nunca estiveram na França e franceses que nunca estiveram no Brasil, julgamos, em um primeiro momento, estar diante de um inventário à la Prévert. “Os que nunca estiveram”, tal como lhes denominamos, quando incitados a falar de um país sem o ter experimentado de antemão, com o intuito de que viessem a revelar, assim, o imaginário com o qual envolvem esse outro país, elencavam elementos aparentemente desconexos, aproximando-se do famoso inventário elaborado pelo poeta francês. 82 Uma pedra, duas casas, três ruínas, quatro coveiros, um jardim, flores, um guaxinim, uma dúzia de ostras, um limão, um pão... (Tradução nossa). 206 A medida que as entrevistas (doze, ao todo) foram sendo retomadas, para escuta, transcrição, revisão da transcrição e, finalmente, análise, nossa idéia inicial de que elas conformavam uma lista foi se reforçando, por um lado. Por outro, se, à primeira vista, não enxergávamos nada além da falta de nexo dos elementos listados, aos poucos, fomos entrevendo o conjunto racional de tudo que para um grupo de pessoas está relacionado à França ou ao Brasil. O que antes fazia alusão ao inventário de Prévert, portanto, ganhou contornos que são próprios de qualquer inventário, seja ele referente aos bens de um indivíduo, ao acervo de uma biblioteca, etc83. O inventário de um museu, por exemplo, é a lista pormenorizada de todos os objetos que compõem o seu acervo. Nele, não é feita nem classificação dos objetos museológicos, nem julgamento do sentido desses objetos na coleção do museu. A lista apresentada pelos entrevistados, da mesma maneira, parece constituir um inventário de todos os elementos que, no seu entender, diz respeito a um dos dois países em questão. E esses elementos não seriam desconexos, como se suspeitou. Eles, tão somente, emergiriam dentro dos limites de um inventário, que não vai além da listagem, dificultando a apreensão da relação que podem estabelecer entre si e até mesmo da relação que estabelecem com um determinado país. Vale dizer que é em um museu imaginário que Gastal (2005) afirma que uma pessoa vai acessar o que para ela está relacionado com algo, quando questionada à respeito. Por exemplo, ao ler um conto, suponhamos que a única informação dada pelo autor acerca do contexto em que se passa a história seja a frase “fulano estava em Nova Iorque, no dia onze de setembro”. Iremos, de imediato, ao menos visualizar imagens dos dois aviões se chocando contra as torres gêmeas, do edifício World Trade Center desabando e das pessoas que se encontravam nas proximidades correndo desesperadas. Podemos também nos lembrar da história contada por aquele conhecido que, nesse dia, estava na cidade; enfim, buscar, no nosso “museu imaginário”, elementos que relacionamos com o evento. Para a autora, então, acumulamos experiências visuais e outros conhecimentos sobre uma variedade de coisas, e, 83 Vale dizer que, a palavra inventário, segundo Houais e Villar (2001, p.1643), significa: “1. DIR. SUC. descrição detalhada do patrimônio de pessoa falecida, para que se possa proceder à partilha dos bens 2. a ação intentada para a arrecadação e a posterior partilha desses bens (o i. do meu tio ainda está correndo na justiça) 3. p. met. o documento ou papel em que estão enumerados e descritos esses bens 4. DIR.CIV. DIR. PRC. no caso de separação judicial, descrição e avaliação dos bens do casal, quando estes não entram em acordo quanto à partilha dos bens 5. DIR. COM. descrição e avaliação de todos os bens, ativos e passivos, de uma sociedade comercial 6. levantamento minucioso dos elementos de um todo; rol, lista, relação (o i. das qualidades e defeitos de um político) (o i. dos monumentos artísticos de uma cidade) 7. qualquer descrição detalhada, minuciosa de algo i. cultural levantamento dos bens considerados representativos de uma cultura com vista a sua preservação. i. de personalidade PSIC método para determinar os traços de caráter e personalidade de uma pessoa que consiste em um sistema de afirmações simples ou questões cujas respostas serão analisadas e avaliadas quantitativamente em função de categorias específicas”. 207 por um motivo ou outro, acionamos esses acervos. Se caminhamos nessa perspectiva, mais que um simples inventário, as entrevistas apresentam o inventário de um museu muito particular, que se encontra nessa outra dimensão da realidade que é o imaginário, e, ao mesmo tempo, engloba elementos que a povoam. Construir uma análise dessa espécie de inventário do imaginário (ou de museu imaginário) entre a França e o Brasil, promovido por brasileiros que nunca estiveram na França e por franceses que nunca estiveram no Brasil, é o desafio enfrentado no Capítulo 7. Começaremos por apresentar o inventário que é obra dos seis “brasileiros que nunca estiveram” entrevistados. Glenda (nascida em 1939, em São Tiago/MG), ao ser questionada sobre a França, afirmou que, para ela, “a França é um país mais desenvolvido, um país de Primeiro Mundo, um país que tem... As pessoas têm mais oportunidade... é... para tudo, para estudo, para trabalho” (Entrevista concedida por Glenda, p.4-5). A entrevistada não aponta, porém, como chegou até essa definição. Anderson (nascido em 1981, em São Paulo), por sua vez, contou que trabalha no Carrefour, empresa francesa com filiais em Belo Horizonte, e que, em função disso, tem contato com franceses em missão de trabalho, embora não diretamente. É assim que o entrevistado construiu seu imaginário acerca da França. Todavia, esses não são elementos que explicam apenas um processo de construção. De acordo com a entrevista, a França é o país da empresa onde Anderson trabalha, é o país dos superiores que vêm para avaliar e ditar regras, nada mais. É por isso que, quando caracteriza os franceses, ele se refere, na verdade, àqueles franceses do Carrefour. “[...] eu não acho eles muito simpatizantes com os brasileiros não.” (Entrevista concedida por Anderson, p.3); “Você vê que eles não são simpatizantes assim, entendeu?” (p.3); “Resumidamente, eles se sentem superiores.” (p.3); “Por mais que você se esforce, por mais que você dê o melhor de si, lá, para eles, eles vêem assim: ‘Ah, não vai ser nunca o que a gente espera, porque, tipo assim, é brasileiro que está fazendo.’” (p.3); “É difícil agradar eles, ali.” (p.3); “Eles são até um pouco meio arrogantes.” (p.4). Também é no espaço do trabalho, sobretudo, que Guilherme (nascido em 1982, em Belo Horizonte) moldou seu imaginário sobre a França. Antigo empregado da Livraria Leitura, o entrevistado diz que, quando escuta o nome do país, é da literatura francesa que se lembra, primeiramente. Em especial, de Victor Hugo, escritor de quem gosta muito, e do seu livro O Último Dia de um Condenado, afinal esse foi um dos primeiros livros que leu com 208 prazer, um dos responsáveis pelo fato dele gostar de ler. Uma das suas colegas de trabalho na livraria esteve na França à passeio. Ela viajou para a Holanda, e terminou estendendo a viagem. Foi na livraria, além disso, que Guilherme conheceu um francês, estudante em intercâmbio universitário na UFMG. Conversando com ele, aprendeu algo acerca do país. Trata-se, por exemplo, de um lugar pequeno, se comparado ao Brasil. E aprendeu também algo sobre o olhar francês frente ao Brasil. “Ele falava: ‘Ah, não, mulher brasileira é linda demais!’” (Entrevista concedida por Guilherme, p.3); “Tinha algumas coisas que ele comentava, sabe? Que ele gostava muito daqui. [...] porque o pessoal aqui é muito receptivo, gosta muito assim de agradar.” (p.3); “Ele falou que estava gostando, que... é um país, né? Muito bom. Pelo tempo que ele ficou aqui, ele... ele estava gostando muito!” (p.3); “Ele falou assim que teve a oportunidade de conhecer Ouro Preto, as outras cidades históricas de Minas, e gostou bastante. Falou assim que a... É muito diferenciado, né? Por causa do... da história mesmo (p.3).” Somente a Torre Eiffel emerge, ao longo da entrevista de Guilherme, de forma completamente independente da livraria onde trabalhou. O entrevistado, nesse caso, menciona as imagens do monumento que vê nos filmes, sem identificar, entretanto, quais filmes são esses. Ele explica, por fim, porque sabe dizer tão pouco à respeito da França: é dos Estados Unidos que escuta mais falar; são os Estados Unidos que precisa conhecer melhor. Já Viviane (nascida em 1987, em Belo Horizonte) estrutura seu discurso sobre a França a partir da sua primeira viagem para lá, em preparação no momento de realização da entrevista. Ela fala que sempre ansiou por conhecer a Europa, e, uma vez tendo a oportunidade de fazê-lo, incluiu o país em seu roteiro turístico, considerando que se trata de uma passagem obrigatória. Como estuda francês, seria também a ocasião de praticar a língua. E sente vontade de conhecer o lugar, que imagina “[...] que deve ser bonito, que deve ser legal” (Entrevista concedida por Viviane, p.3). Os planos de Viviane e da amiga, com quem viajaria de mochila nas costas, eram de ficar seis dias em Paris, hospedada, se possível, na casa de uma amiga de uma tia que é casada com um francês, três dias na região de Toulouse, e passar pela Côte d’Azur, já que pretendiam seguir da França para a Itália. A entrevistada apresenta também as expectativas em torno da viagem: Oh, eu imagino que eu vou achar muito bonito, mas que eu vou achar o povo muito chato! [risos] Ah, pelo menos... Não, todo mundo fala que eles são muito grossos! Não sei, eu estou achando que eles devem ser mesmo, 209 porque o povo fala tanto! É, mas eu não tenho certeza não. O meu pai não acha. Mas tem muita gente que acha (p.5). Enquanto descreve os projetos para a viagem que se aproxima, Viviane menciona duas vezes a expressão “todo mundo fala que”, a primeira para justificar porque incluiu a França no seu roteiro turístico, e a segunda para explicar de onde surgiu a idéia de que os franceses são antipáticos. Além disso, ela cita a paixão do pai pelo país, a opinião contrária à maioria que ele tem sobre os franceses. A entrevistada, na verdade, está cercada de pessoas que conhecem a França. Seu pai, sua tia, alguns amigos do seu pai, dois amigos seus, uma amiga de uma tia, lá moram ou moraram, por exemplo. É em contato com brasileiros que estiveram no país que ela parece ter construído seu desejo de viagem. Porque, para Viviane, a França é, sobretudo, isso: um lugar do qual escutou muito falar, em especial, o pai, e que, por isso, gostaria de conhecer; o lugar que está prestes a visitar. E esse seu desejo de viagem se materializa em Paris. “Ah, eu penso em Paris! [risos] Ah, e… e… e… com seus prédios pequenininhos, bonitinhos e tal” (Entrevista concedida por Viviane, p.3). Um fato que não pode deixar também de ser destacado é que a entrevistada estuda francês. Decidiu fazê-lo por se tratar de uma outra língua latina, de ter com quem praticar (o pai), e de pretender fazer especialização na França. Seu professor é francês. Ele imigrou para Belo Horizonte, porque se casou com uma brasileira, e prefere residir no Brasil. Os alunos parecem não compreender essa sua preferência. Quando o questionaram, por exemplo, acerca da violência, ele respondeu, simplesmente, que não a via da mesma forma que os brasileiros. É por isso que julga seu olhar sobre o país positivo demais. Passando adiante, José (nascido em 1983, em Belo Horizonte) escolhe duas mulheres, a ex-namorada que fala francês e uma amiga francesa, para estruturar o seu discurso sobre a França. Eu namorei com uma mulher muito mais velha do que eu. Ela era vinte e dois anos mais velha. Eu tinha quinze e ela tinha trinta e sete. [risos] E ela era uma mulher extremamente inteligente. E ela era muito charmosa e glamorosa. Ela tinha estudado francês na sua vida (Entrevista concedida por José, p.4). Eu conheci uma francesa. [silêncio] [...] Eu viajei. Eu, o A. e o L., a gente foi para Ouro Preto, no show da Maria Betânia. Aí, eu conheci ela lá. A gente estava na casa de umas meninas lá, e eu conheci ela lá. Ela chama A. Aí, depois, chegou aqui, eu encontrei com ela aqui nas Letras. Ela também 210 estava fazendo intercâmbio aqui e tal. [...] criamos uma amizade bacana (p.7-8). É na relação com a namorada que falava francês que José vai buscar uma justificativa para a sua escolha pela graduação em letras, com habilitação em língua francesa. Também para o que a França significa para ele. Afinal, foi quem lhe apresentou Racine e Verlaine. Quando namoravam, eles costumavam escutar músicas francesas. E o entrevistado sonhava com a França, nessa época. Sonhava que era um cidadão do século XVIII, e, quando pensava nesse século, pensava no país, com seu charme e glamour, sua delicadeza e sensibilidade. O namoro acabou, mas a sua ligação com o lugar permaneceu, sendo que ele continuou encarnando o amor e a poesia. José sonhava ainda em imigrar para a França, quando escolheu fazer a graduação em letras. E esse outro sonho não parece relacionado ao namoro com a mulher que falava francês, caminhando antes ao encontro do que afirmou Glenda em sua entrevista. O país ganha, então, algo de terra de oportunidades, sem que seja explicitado uma razão para tanto. Porque, durante muito tempo, eu sonhei em ir para a França, mas, hoje, talvez, eu nem sonho tanto mais. Sonhei. Desejei. Eu desejei ir. Para trabalhar lá. Poder dar aula de literatura brasileira lá. Seria um grande sonho, uma grande realização. Inclusive, no início do meu curso, eu... eu fui muito movimentado por esse desejo (Entrevista concedida por José, p.5-6). A amiga francesa viria a questionar os sonhos de França do entrevistado. Depois que eu conheci ela, um pouco da imagem com relação à França mudou. Anteriormente, era uma... uma cidade linda, um sonho, tudo que eu já falei, glamur. Depois que eu conversei com ela, a coisa ficou um pouco mais realista. Ela falou assim: “Oh, na França também tem preconceito. É... na França também tem pobreza. Na França, as pessoas são muito solitárias.” É... e ela adorava o Brasil. Assim, ela era apaixonada com o Brasil (p.7). Aí, ela me falou assim: “Então, faz o seguinte, pensa em, um dia, em fazer uma... um intercâmbio para França, para você ter um contato direto. Talvez... talvez a França não seja isso que você tanto sonha.” Aí, eu falei: “É mesmo” (p.8). 211 A partir do contato com a amiga francesa, José passou a ter dúvidas a respeito do que pensa sobre a França. No entanto, o velho imaginário persiste, pois, embora ele faça uma alusão aos conflitos nas periferias das grandes cidades francesas ocorridos recentemente, conflitos esses que em nada combinam com seus sonhos de França, ele volta a falar em uma terra de oportunidades, em um lugar de charme. Mas ainda é um lugar de oportunidades. Ainda é um lugar para se... para ta... para, talvez, ser muito feliz. Para realizar um bom trabalho, desempenhar um bom trabalho (Entrevista concedida por José, p.8). [...] a França ainda é esse lugar do charme, é o lugar do diferente. Você pode pôr uma meia azul, uma calça vermelha, ah... uma blusa amarela, e está lindo. Você pode acordar, sair para a rua de manhã sem pentear o cabelo, que tanto faz. Você põe só um pauzinho assim na cabeça, e está uma gracinha (p.13). Outros dois pontos da entrevista merecem ser destacados, mesmo que não sejam centrais. José menciona ter conversado com outros franceses em intercâmbio na universidade, já que, assim como o próprio entrevistado, eles viviam na moradia universitária. Entretanto, foram contatos superficiais esses, que se encerravam nos seguintes comentários: “No Brasil, as mulheres são bonitas.” (p.10); “Aqui faz muito calor, né?” (p.10). Além disso, o entrevistado fala da idéia que os seus parentes que não mantêm qualquer relação com a França têm do país. “A França para eles é um lugar de luxo [...], [lugar de] tomar vinho e andar de blusão. [risos] É, de pulôver. [...] É o lugar de amor, é o lugar de você fazer viagem turística.” (p.14) “Aí, eu inventei uma Paris, uma França que era Paris, e que para mim bastava na verdade, né?” (Entrevista concedida por Leonardo, p.4) Por fim, Leonardo (nascido em 1975, em Belo Horizonte) narra como fez de uma cidade todo um país, e busca definir o que seria essa cidade-país para ele, enumerando toda uma série de elementos que não podem ser excluídos do inventário. É na adolescência que o entrevistado identifica seu primeiro contato com a França, ou melhor, com a França que é Paris. Em seguida, ele segue apontando vários outros momentos da sua trajetória em que, por um ou outro motivo, aproximou-se do país, sendo que, em todos eles, a imagem inicial persistia, e ia assim se reforçando. Vejamos o que Leonardo diz: 212 É... a primeira lembrança que eu tenho, assim mais forte, foi na minha adolescência que eu cismei que eu queria ser existencialista. [risos] Que eu queria estudar os franceses, principalmente Sartre, Simone de Beauvoir. [...] Então, eu comecei a ler os escritores franceses. Então, muito texto literário do Sartre, que falava um pouco dos... do bairro. E era... e é muito de Paris na verdade, né? (p.2) Então, quando eu comecei a gostar de... me interessar por filosofia, eu fui ler uma coisa ali. “Ah, o cara morou aqui. O cara morou ali.” Aí, eu inventei uma Paris, uma França que era Paris, e que, para mim, bastava na verdade, né? Então, foi um pouco por esse caminho (p.4). Um dos focos também bastante fortes é que, quando eu comecei a gostar de cinema, eu vi muito filme francês: La Nouvelle Vague, Godard, Truffaut. E acho que, por exemplo, o Truffaut tem um filme chamado Os Incompreendidos que ele fala muito da cidade. Então, assim, que é um menino que se forma na cidade. Então, ele passa por vários processos de formação, assim, dentro da cidade. [...] E... e acho que o cinema trouxe mais essa imagem de Paris também. Então, assim, visualmente, era isso que se apresentava (Entrevista concedida por Leonardo, p.4). Ano passado, eu li Madame Bovary. [...] Então, essa coisa. Que é já diferente, né? Que é França, mas é algo mais campestre, é uma coisa diferente. Mas sempre no sonho de ir à Paris. Então, ainda assim, Paris muito forte, né? (p.6) Claro que está muito associado também [...] ao que chegou para mim... é... de um... do turismo mesmo, né? De uma França... Do que se vende para turista, do quê que se apresenta para turista mesmo. Então, aquela coisa, a Torre Eiffel e tudo mais. Mas mais nesse aspecto: Paris, principalmente (p.3). Mas tinha essa visão assim: “Ah, assim como Londres tem lá... tem aquilo; em Portugal, tem alguns elementos; a França tem isso aqui.” Então, são alguns edifícios, algumas instituições, o Louvre, alguns artistas, e, ali, você vai montando... Pelo menos para mim, tem um pouco isso. Montando um quebra-cabeça (p.4). E que Paris, afinal, é essa de que fala Leonardo? Ele chega a defini-la, em um determinado ponto da entrevista. Então, a... a... eu fui construindo uma imagem da França que era Paris. Que era essa coisa de um centro... de um grande centro intelectual, moderno. É... principalmente os anos 20 e 30. Então, uma produção de arte moderna, os pintores, os encontros nas ruas, na praça, e tudo mais. Então, essa imagem... ficou uma imagem muito forte, para mim, dessa França urbana, dessa França... é... talvez bastante moderna politicamente, artisticamente. E de uma discussão filosófica. Então, ficou, para mim, essa coisa idealizada (p.3). 213 Notem também que a idéia da França enquanto um lugar de formação perpassa o discurso de Leonardo, a medida que ele expõe o que para ele seria o país, e como ele foi desenvolvendo isso. Em um outro momento da entrevista, quando não existe qualquer alusão à Paris, essa associação é, inclusive, feita de maneira explícita. É... depois, quando eu fui estudar... [silêncio] pensei em estudar teatro também, tinha muito essa questão do teatro na Europa, com o foco na França. Fui para a faculdade e, ali, por uma questão acadêmica do curso de história, essa questão da historiografia, dos textos ainda também franceses, e esse gosto mesmo pela história cultural, Escola dos Annales. Então, foi ainda muito esse foco. Então, assim, para mim, é... durante momentos diferenciados, a França ela se apresentava para mim como esse espaço... é... de formação, de aprendizado, assim intelectual (Entrevista concedida por Leonardo, p.3). Todavia, se, por um lado, a França se confunde com um espaço formativo no imaginário de Leonardo, por outro, é ao longo do seu processo de formação, desenvolvido por completo no Brasil, que ele constrói seu imaginário acerca da França. E, nesse caso, não estamos nos restringindo apenas à educação formal, incluindo aquilo que o entrevistado denominou de buscas. O quadro que segue retoma o inventário apresentado acima na forma de texto. Se, em um primeiro momento, buscamos dar centralidade aos sujeitos, agrupando os elementos incorporados ao inventário por cada entrevistado; agora, optamos por rearranjar esses elementos por tema, destacando assim quais os contornos atribuídos à França pelos “brasileiros que nunca estiveram”. Identificamos, então, quatro figuras centrais: a França- Eldorado; a França-Metrópole Cultural; a França-Destino Turístico e a Douce France. Para além disso, notamos o fato dos franceses com quem estabeleceram contato e dos conhecidos brasileiros que estiveram ou estão na França terem sido incorporados ao inventário pelos entrevistados de maneira significativa. 214 QUADRO 3 Inventário dos elementos que compõem o imaginário de brasileiros sobre a França apresentados pelos brasileiros que nunca estiveram no país entrevistados 1. A França-Eldorado - país de Primeiro Mundo - país mais desenvolvido (que o Brasil) - país onde as pessoas têm mais oportunidades (que no Brasil) - lugar de oportunidades, de realizar um bom trabalho e de ser muito feliz - país para onde sonha em migrar - país importante, mas hierarquicamente inferior aos Estados Unidos 2. A França-Metrópole Cultural - literatura francesa - escritores franceses - Victor Hugo - Jean Racine - Paul Verlaine - Madame Bovary - O Último Dia de um Condenado - cinema - filme francês - La Nouvelle Vague - Jean-Luc Godard - François Truffaut - Os Incompreendidos - filosofia - existencialismo - Simone de Beauvoir - Jean-Paul Sartre - curso de história - historiografia francesa - História Cultural - Escola dos Annales - teatro - músicas francesas - língua francesa - curso de francês - graduação em francês - espaço formativo - país onde quer fazer a especialização - Paris - França do século XVIII 3. A França-Destino Turístico - país para onde vai viajar em breve - país que é passagem obrigatória para turistas na Europa - país que gostaria de conhecer (porque deve ser bonito e legal) - o que se vende da França para turista - Paris (com os seus predinhos bonitinhos, pequenininhos e tal) - Côte d’Azur - Toulouse - Torre Eiffel - Museu do Louvre 215 4. A Douce France - amor - beleza - charme - cidade linda - delicadeza - fora do comum - frio - glamour - imagens dos filmes - luxo - poesia - sensibilidade - sonho - vinho 5. Outras Imagens - Carrefour - crise na periferia das grandes cidades 6. Franceses - franceses que trabalham para o Carrefour e vêm em missão de trabalho ao Brasil (não simpatizam com os brasileiros, são antipáticos, sentem-se superiores aos brasileiros, acreditam que os brasileiros não são capazes de atender as expectativas, são difíceis de agradar e um pouco arrogantes) - francês em intercâmbio universitário na UFMG (dizia que a França é um país pequeno, se comparado ao Brasil; achava as mulheres brasileiras lindas; gostava do Brasil, porque o povo é acolhedor e cordial, porque o país é muito bom, porque permaneceu bastante tempo por aqui; teve oportunidade de conhecer as cidades históricas de Minas e gostou muito, porque são lugares especiais do ponto de vista histórico) - franceses em intercâmbio universitário na UFMG (acham as brasileiras bonitas, acham que no Brasil faz muito calor) - francesa em intercâmbio universitário na UFMG (chamou à atenção que a imagem que o entrevistado tinha da França não era realista, para o fato de que, no seu país, também tinha preconceito e pobreza, além das pessoas serem muito solitárias; propôs uma viagem à França ao amigo, para que ele pudesse verificar o seu sonho, a partir da realidade do país; adorava o Brasil) - francês que dá aulas de línguas (é casado com uma brasileira e tem filhos que nasceram no Brasil; prefere morar no Brasil que na França, o que seus alunos não conseguem compreender; não vê a violência no Brasil como os brasileiros, o que leva a crer que seu olhar sobre o Brasil seja positivo em demasia) - franceses devem ser chatos, pois todo mundo diz que eles são muito grossos - franceses têm má fama com a maioria das pessoas 216 7. Brasileiros na França - pai que morou na França (adora o país; sempre fala de lá, mostra fotos, fica lembrando; tem uma opinião positiva acerca dos franceses) - tia, alguns amigos do pai e dois amigos seus que moraram na França - a amiga de uma tia que é casada com um francês e mora em Paris - amiga com quem viajará para o país - ex-namorada que tinha estudado francês (muito mais velha, extremamente inteligente, charmosa e glamorosa) - colega de trabalho que viajou para o país Caminharemos, em seguida, no sentido contrário, apresentando o inventário elaborado pelos seis “franceses que nunca estiveram” entrevistados. Jacqueline (nascida em 1923, em Rennes), quando questionada acerca do Brasil, diz apenas que o país deve ser bonito. Como não viajou muito, sempre esteve completamente absorvida pelo trabalho e pelos cuidados com o marido doente, não há espaço em sua vida para outras realidades, além daquela que a envolve diretamente. Já Benjamin lista uma série de imagens que lhe vêm em mente, em se tratando do Brasil: futebol, festa, favela, meninos de rua, biocombustível e mulheres ocupando a cena política. É em função da Copa do Mundo e dos brasileiros que jogam em times de futebol na França que o entrevistado associa o país com o esporte. Quanto às demais imagens, ele as apreendeu assistindo televisão. Conhece alguns franceses que fizeram turismo pelo Brasil (seu padrinho e os pais de um amigo do irmão), mas ainda não teve a oportunidade de conversar com eles à respeito da viagem. E acredita que, se os brasileiros são tão fascinados por televisão quanto os franceses, eles devem conhecer os problemas da França, e ter, conseqüentemente, uma visão crítica sobre o país. Da mesma maneira que Benjamin, Mathieu (nascido em 1987, em Rennes) elenca o que para ele está relacionado com o Brasil, a saber: florestas localizadas mais ao norte do país, uma desigualdade social que se revela na mistura de favelas com pessoas ricas, praias, mulheres bonitas, grandes cidades, uma mestiçagem maior que a existente na França, e uma diversidade linguística – o português emerge, em um primeiro momento, como a principal língua falada, e, em um segundo, como o resultado de uma mistura de línguas. 217 O entrevistado também se preocupa em justificar como compôs essa lista. Os elementos apontados foram vistos em mapas ou na televisão (embora seja tecida uma crítica acerca da veracidade das informações divulgadas pela mídia), ditos por brasileiros que vivem em Rennes ou pelos pais do amigo Marcel, aprendidos no último ano da escola. A esposa de Yann e outros brasileiros que teve a oportunidade de encontrar nas festas por ela promovidas são aqueles que vivem em Rennes mencionados por Mathieu, vale dizer. Trata-se, sobretudo, de pessoas casadas com franceses. E, se elas permanecem na França, é porque se sentem bem no país, apesar de acharem os franceses um pouco resmungões. Finalmente, o entrevistado conta que Marcel e seus pais o convidaram para ir ao Brasil, que ele pensou a respeito e chegou à conclusão que poderia ser uma boa experiência, afinal, viria a conhecer um país distante e bem diferente da França. Do inventário de Marie (nascida em 1944, em Rennes), fazem parte imagens do carnaval do Rio de Janeiro, com seus desfiles de escola de samba; as favelas, uma grande pobreza, religiosos que desenvolvem trabalhos sociais, enfim, o que a entrevistada denomina as dificuldades do Brasil; uma idéia de calor e de praia muito fortes; imagens do Rio de Janeiro, com o Cristo Redentor e as suas famosas praias, em especial, Copacabana; Brasília, ou melhor, a construção da cidade e a transferência da capital para lá, que soavam, em princípio, como uma loucura total; o café, que, quando criança, ouviu falar que servia de combustível para as locomotivas no país. São mencionados ainda o presidente Lula e a vitória da esquerda; algo muito forte, na sua opinião, pois foram muitos anos de governo de direita, apesar da extrema desigualdade social; algo que considera sinômino de esperança no mundo, principalmente para as pessoas que se preocupam com ele, a ponto da entrevistada tomar o rosto de Lula como sendo o rosto da esperança. Em seguida, Marie, assim como Benjamin e Mathieu o fizeram, parte em busca das origens desse inventário, sendo que, em meio a essa busca, novos elementos vêm à tona. É através do filme Orfeu Negro, dirigido por Marcel Camus e estrelado por Marpessa Dawn (artista negra muito bonita, segundo ela), que a entrevistada afirma ter recebido as primeiras imagens do Brasil. C’était très fort, je trouve. Pour moi, le film a beaucoup marqué. Parce que j’ai trouvé ça beau, j’ai trouvé ça tragique, bien sûr, et… […] Donc, déjà il y avait la… la dualité : un monde très vivant, très… très métissé, et… en 218 même temps, très dur. Sous une apparence de gaîté, de… de folie un petit peu, un monde assez dur84 (Entrevista concedida por Marie, p.3). Além do cinema, são mencionadas as imagens veiculadas pela televisão, os artigos publicados nos jornais, como fonte para a construção do seu imaginário sobre o Brasil. Lembra ainda que participou de uma atividade promovida por uma associação que ajuda crianças da cidade de Juçaral, em companhia da vizinha brasileira que é casada com um francês. Nessa ocasião, teve a oportunidade de estar com vários brasileiros. Esse foi o grupo mais alegre que já viu em sua vida, sendo que se trata de uma alegria que é diferente de tudo que conhece. Para ela, essa é a grande marca do Brasil: ser feliz, acima de tudo. Marion (nascida em 1984, em Quimper) inicia seu relato, concordando com Marie. “Alors, spontanément comme ça, quand je pense au Brésil, je pense aux couleurs, à la... la joie de vivre des Brésiliens. Je n’ai jamais pu imaginer le Brésil de façon triste. Jamais, jamais85” (Entrevista concedida por Marion, p. 2). Em um segundo momento, a entrevistada separa as imagens freqüentemente relacionadas com o Brasil pelos franceses, que também aparecem nos jornais, na televisão, e mesmo em guias de viagem como o Guide du Routard, em dois grupos, um composto por imagens que considera positivas e outro por imagens que considera negativas. De um lado, dessa maneira, encontram-se o carnaval, em especial, o carnaval do Rio de Janeiro; as praias; as frutas, a polpa do côco; a floresta, os índios. De outro lado, a criminalidade, a pobreza; os meninos de rua que se drogam e vivem abandonados; a mulher brasileira que, por ser sempre mostrada em trajes de carnaval, costuma ser tomada por uma prostituta. Em um terceiro momento, Marion critica o quadro por ela pintado. O Brasil equivale a muitas vezes a França, e não seria o carnaval que o resumiria. Ele tem graves problemas sociais, é verdade, mas nisso não se diferencia dos demais países do mundo, inclusive da própria França. É um país emergente, logo, tende a se desenvolver, e, aliás, tem feito isso muito bem, não podendo ser encerrado na imagem de uma mulher de fio dental. Alguns membros da família da entrevistada moram no Brasil. Ela possui uma amiga brasileira em Rennes, que é estudante no IEP da cidade. E gostaria de conhecer o país, pelo 84 Foi muito forte, eu achei. O filme foi muito marcante para mim. Porque eu achei bonito, eu achei trágico, obviamente, e... [...] Então, já existia a... a dualidade: um mundo muito vivo, muito... muito mestiço, e... ao mesmo tempo, muito duro. Sob uma aparente alegria, uma certa loucura, um mundo bem duro (Tradução nossa). 85 Então, assim espontaneamente, quando eu penso no Brasil, eu penso nas cores, na... na alegria de viver dos brasileiros. Eu nunca pude imaginar o Brasil de modo triste. Nunca, nunca (Tradução nossa). 219 qual é fascinada. Além do mais, pelo fato de ser filhas de africanos originários de Angola e de São Tomé e Príncipe, fala português, o que lhe facilitaria a viagem; e, uma vez no Brasil, poderia visitar seus parentes. Patrick (nascido em 1978, em Rennes), enfim, estrutura sua entrevista em torno da figura da noiva brasileira. Ela constitui o primeiro elemento que lhe vem em mente, em se tratando do Brasil, mas também, no que diz respeito ao seu imaginário sobre o país, funciona como uma espécie de divisor de águas. Antes de conhecer a noiva, o entrevistado confessa que tinha uma visão caricatural do Brasil. O país, para ele, estava associado com sol, futebol, mulheres; os campeões esportivos Ayrton Senna e Pelé; a Amazônia e o processo de desmatamento da floresta; violência; a bandeira nacional, as cores verde e amarela. Ou seja, sua visão se resumia às imagens que a televisão lhe mostrava. Através da noiva brasileira, Patrick entrou em contato com a literatura produzida no Brasil. Ele menciona como exemplo o último livro de autoria de um escritor brasileiro que leu: Bahia de Todos os Santos de Jorge Amado. E diz que o país começou a se confundir com os cenários descritos nos livros, com os seus personagens. Jorge Amado, para retomar o mesmo exemplo, deu-lhe uma certa idéia do que é o Nordeste. A noiva lhe apresentou ainda outros brasileiros que moram em Rennes. São estudantes; casais mistos compostos, em geral, por uma brasileira e um francês; brasileiros que estão na França temporariamente, por motivos profissionais; e um jogador de futebol, Emerson. Todos essas pessoas também lhe vêm à mente, quando o assunto é Brasil. Eles que acham o clima da França insuportável, que julgam que os franceses são tristes e sentem dificuldades em estabelecer contato com eles. O entrevistado começou, além disso, a estudar o português, já que faz planos de se casar com uma falante da língua. Patrick estava prestes a viajar para o Brasil pela primeira vez, no momento de realização da entrevista. Iria realizar um desejo de todos, na sua opinião. Ele conclui seu relato, falando das suas expectativas em relação à viagem. Em se tratando de Salvador, cidade natal da noiva, são as imagens dos guias turísticos que consultou que o entrevistado espera encontrar: o Pelourinho, que guarda o passado colonial, com suas igrejas barrocas e fachadas coloridas. Faz planos também no que diz respeito às pessoas. A família da noiva, nessa perspectiva, aparece em primeiro lugar. Logo em seguida, é em torno do caráter mestiço do brasileiro que há anseios. Ele acredita que vai ver pessoas de origem européia, africana e 220 indígena; pessoas diferentes fisicamente daquelas com as quais convive cotidianamente. E está preparado para se deparar com uma pobreza maior que aquela que existe na Europa, com uma grande desigualdade social. Rearranjaremos, por fim, os elementos do inventário apresentados pelos “franceses que nunca estiveram” da mesma maneira que fizemos anteriormente com aqueles apresentados pelos “brasileiros que nunca estiveram”. Nesse caso, as figuras centrais são: o Brasil-Paisagem; o Brasil-Samba, Carnaval e Futebol; o Brasil-Problema; o Brasil-Esperança; e, com menor destaque, o Brasil-Cult. Vale dizer ainda que, além de incluir no inventário os brasileiros com quem tiveram a oportunidade de encontrar e os conhecidos franceses que estão ou estiveram no Brasil, os entrevistados mencionam uma série de imagens indefinidas, afirmando, por exemplo, que, quando pensam no país, algo que lhes vêm em mente são as fotos dos guias de viagem. QUADRO 4 Inventário dos elementos que compõem o imaginário de franceses sobre o Brasil apresentados pelos franceses que nunca estiveram no país entrevistados 1. O Brasil-Paisagem - Rio de Janeiro - Cristo Redentor - Copacabana - praias do Rio de Janeiro - Nordeste - Salvador - Pelourinho - igrejas barrocas - fachadas coloridas - Amazonia - florestas localizadas mais ao norte do país - praia - sol - calor - cores - polpa do côco - café - frutas - mulheres - mulheres bonitas - mulheres de fio dental - mulheres sempre mostradas em trajes de carnaval (e que, por isso, são associadas com prostitutas) - índios - pessoas diferentes fisicamente dos franceses - país que deve ser bonito - país muito maior que a França - país longínquo 221 2. O Brasil-Samba, Carnaval e Futebol - carnaval - carnaval do Rio - desfiles de escolas de samba - festas - futebol - Copa do Mundo de Futebol - jogadores de futebol brasileiros que jogam em times franceses - campeões esportivos brasileiros - Pelé - Ayrton Senna - alegria - alegria fora do comum - ser feliz acima de tudo: uma visão de mundo - mundo muito vivo 3. O Brasil-Problema - país de contrastes - desigualdade social extrema - favelas - meninos de rua (que se drogam e vivem abandonados) - violência - criminalidade - problemas sociais graves - associação que ajuda as crianças de Juçaral - religiosos que desenvolvem trabalhos sociais - desmatamento - grandes cidades - histórico de governos de direita - mundo muito duro, sob uma aparente alegria e folia 4. O Brasil-Esperança - Lula (rosto da esperança no mundo) - vitória da esquerda - esperança para todo o mundo - biocombustível - mulheres no poder - mestiçagem - mundo muito mestiço - pessoas de origem européia, africana e indígena - país emergente - país em desenvolvimento 5. O Brasil-Cult - literatura brasileira - escritores brasileiros - personagens dos livros - Jorge Amado - Bahia de Todos os Santos - filme sobre o Brasil - Orfeu Negro (trouxe as primeiras imagens do país; filme marcarte, porque bonito, forte e trágico) - Marcel Camus - Marpessa Dawn (artista negra muito bonita) 222 8. Outros Brasis - português - país onde se fala várias línguas - bandeira do Brasil - as cores verde e amarela - Brasília (soava como uma loucura total) - a construção de Brasília - a transferência da capital para Brasília 9. Imagens Indefinidas - o que viu na televisão - o que viu no cinema - o que leu nos jornais - o que leu nos livros - o que os brasileiros que vivem em Rennes contaram - o que os pais de Marcel explicaram - o que ouviu dizer - o que aprendeu no último ano da escola sobre o país - o que viu nos mapas - o que viu nos guias de viagem - fotos dos guias de viagem - imagens deturpadas/ caricaturais veiculadas pela mídia - imagens caricaturais que tinha até conhecer a noiva - país diferente da França - país que foi convidado à conhecer pelos pais do amigo Marcel - país que pensa em visitar - país que os franceses desejam, em geral, conhecer - viagem para o Brasil que se aproxima 10. Brasileiros - esposa de Yann, que é brasileira - brasileiros que freqüentam as festas organizadas pela esposa de Yann, que são, em sua grande maioria, mulheres brasileiras casadas com franceses (se permanecem na França, é porque estão bem no país) - a vizinha brasileira, que se mudou para a França porque se casou com um francês - brasileiros que encontrou em um dia de atividades proposto por uma associação que ajuda crianças da cidade de Juçaral (as pessoas mais felizes que já viu em sua vida) - amiga brasileira que estuda na IEP de Rennes - a noiva brasileira - brasileiros que conheceu, depois que começou a namorar a noiva brasileira: estudantes, brasileiras casadas com franceses, pessoas que se encontram na França por motivos profissionais, Emerson (acham que os franceses são reclamões, que o clima da França é insuportável, que as pessoas são mais tristes na França que no Brasil; têm dificuldades em estabelecer contatos com franceses) - família da noiva que é brasileira - brasileiros que imagina que irá encontrar, ao longo da sua viagem para o Brasil que se aproximava (imagina que mais abertos ao outro que os europeus e que são mestiços) 223 - os brasileiros, sendo fascinados por TV como os franceses, conhecem os problemas da França e têm uma visão crítica acerca do país 11. Franceses no Brasil - Yann, que é casado com uma brasileira - pais do amigo Marcel, que o convidaram a conhecer o Brasil - padrinho e pais de um amigo do irmão que fizeram turismo no país - pessoas da família que migraram para o Brasil Surpreendentemente, os brasileiros que nunca estiveram na França entrevistados concebem uma França imaginária semelhante àquela dos brasileiros que moram ou moraram na França. Da mesma maneira, os franceses que nunca estiveram no Brasil entrevistados têm, no imaginário, um Brasil parecido com o dos franceses que moram ou moraram no Brasil. Mesmo que os relatos dos migrantes sejam muito mais ricos e complexos, se comparados aos dos “que nunca estiveram”, as imagens que uns e outros encerram em seu cerne são as mesmas. Ou seja, acreditando, em um primeiro momento, que um real encontro com o outro poderia fazer a diferença, no que concerne às relações entre imaginário e alteridade, compreendemos, a partir do desenvolvimento da pesquisa, que, na verdade, o imaginário viaja junto com quem se desloca e define o outro que ele encontra no destino, porque define as suas experiências do outro. Nossos entrevistados são todos Colombos que descobrem a América, pensando desembarcar nas Índias... A França-Eldorado dos “brasileiros de Rennes” é muito bem pintada por Glenda e José. Da mesma maneira, a França-Metrópole Cultural, a França Destino-Turístico e a Douce France que, imbricadas, movem os estudantes que partem para uma temporada de estudos no país não é menos fielmente apresentada por Guilherme, José, Leonardo e Viviane. Como se esses “brasileiros que nunca estiveram na França” constituíssem embriões daqueles que moram ou moraram, enquanto esses últimos seriam os desdobramentos dos primeiros. Leonardo, por exemplo, não teria algo de uma Ângela em potencial? Ângela, por sua vez, não carrega consigo algo de um Leonardo? Um ponto interliga todas essas Franças que perpassam o conjunto dos depoimentos, estruturando o imaginário de brasileiros sobre o país. Enquanto uns se voltam para o exterior, no caso, para a França, buscando a solução para a vida difícil que levam no Brasil (“brasileiros de Rennes”), outros, sonhando com Paris, choram porque, ao cabo de uma temporada de estudos, precisam voltar para o Brasil, que é onde poderão realmente lucrar com 224 seus diplomas franceses (“brasileiros na França”). Ou seja, o brasileiro, seja ele membro das camadas populares ou das elites, está voltado para fora. É no estrangeiro, pensado sempre como melhor que a terra natal, e não dentro do próprio Brasil que ele se realiza. Uma das nossas entrevistadas francesas que residia em Belo Horizonte foi capaz de notar isso com muita perspicácia. Façamos das suas palavras as nossas: Et j’ai été très surprise aussi par... Parce que, ici, à l’Aliance Française, ce sont des étudiants qui sont assez aisés. Et ils ont une meilleure connaissance de la France et de l’Europe que... que... que moi. Et le... le... J’ai vraiment réssenti ça. C’est que le... le Brésilien a la tête... Le Brésilien de classe superieure a la tête tournée vers l’Europe et... et le dos vers l’Amérique Latine. C’est... Quand... quand les éléves, ici, vont en vacances, ils... ils ne vont pas à Buenos Aires ou à Valparaiso. C’est Londres, Madrid, Rome. Et... et je... Enfin, je trouve ça intéressant, puisque, avant, les... les élites brésiliennes avaient, évidement, les idées et, puis, les yeux tournés vers l’Europe. Les gens allaient faire leurs études là-bas. Et... et... et, donc, ça n’a pas vraiment changé cette... cette image. Et ils... ils demandent aussi: “Mais, vous, qu’est-ce que vous venez faire là? Vous avez les meilleures universités en France et pour quoi vous venez passer un an là?”86 (Entrevista concedida por Agnès, Parte II, 21min23-22min27) No que concerne aos franceses, é da mistura do Brasil-Paisagem e do Brasil-Samba, Carnaval e Futebol, delineados pelos “franceses que nunca estiveram”, que nasce a idéia de vir estudar aqui dos “franceses no Brasil”. Sendo que, como o país está relacionado no imaginário com elementos que não rimam com trabalho, ou melhor, que configuram a antítese do trabalho, o deslocamento desses sujeitos não é o desdobramento de um projeto bem consolidado de formação, fazendo com que eles sejam identificados antes com turistas do que com estudantes, ou, como preferimos denominar, com estudantes-turistas, pois desfrutam de férias prolongadas por meio do estatuto de estudante. O avesso da terra natal do trabalho, da rotina, da monotonia e do insosso, então, é o destino das paisagens paradisíacas, do calor, dos prazeres de toda ordem e da festa. Na verdade, é como avesso mesmo da França, como descontinuidade, como alteridade, que o 86 E eu fiquei muito surpresa também com… Porque, aqui, na Aliança Francesa, os estudantes são dos extratos privilegiados da população. E eles conhecem melhor a França e a Europa que… que… que eu. E o… o… Eu realmente percebi isso. É que o… o brasileiro tem a cabeça… O brasileiro de classe alta tem a cabeça voltada para a Europa e… e as costas voltadas para a América Latina. É… Quando… quando os alunos, aqui, saem de férias, eles… eles não vão para Buenos Aires ou para Valparaíso. É Londres, Madri, Rome. E… e eu… Enfim, eu acho isso interessante, porque, antes, as… as elites brasileiras tinham, evidentemente, as idéias e, depois, os olhos voltados para a Europa. As pessoas iam estudar lá. E… e… e, então, na verdade, essa imagem não mudou. E eles… eles perguntam também: “mas, você, o que você veio fazer aqui? Você tem as melhores universidades na França e porque você vem passar um ano aqui?” (Tradução nossa). 225 Brasil é pintado para encarnar mitos, como o do paraíso, para acolher fantasmas e projetos, como se funcionássemos como uma janela utilizada para sair do próprio mundo que só se explica pelo que esse mundo é. Terra de contrastes, aqui, cabem as imagens as mais paradoxais, como, por exemplo, a do Brasil-Problema e a do Brasil-Esperança, imagens paradoxais essas que se mesclam com outras. E a diferença, tantas vezes abominada e crucificada, também é objeto de desejo. Nessa perspectiva, “a brasileira”, que não passa de uma brasileira imaginária, é o símbolo máximo do Brasil. Ela encarna nas suas formas, nas suas promessas de gozo e perdição, o Brasil- Paisagem, o Brasil-Samba, Carnaval e Futebol, o Brasil-Esperança e, porque não, o Brasil- Problema. Se caminhamos nessa direção, os casamentos mistos entre franceses e brasileiras, que se multiplicam em proporção geométrica, algo que rompe a cena na tese e constitui objeto que merece ser melhor estudado, funciona como a realidade externa de uma realidade mental muito específica, sendo que cada uma dessas facetas do real se nutre uma da outra. Ou seja, da mesma maneira que a França pode virar Eldorado, quando a realidade cotidiana no Brasil é dura, casais franco-brasileiros podem surgir, porque um outro casamento, esse da ordem do imaginário, se não provoca, ao menos propicia, essa união. Uma brasileira, pelo simples fato de ser brasileira e carregar nas costas o peso do olhar do outro, é potencialmente sedutora para um francês. E uma mulher pode jogar com esse imaginário, pode usá-lo ao seu favor, colando-se na representação da brasileira, se isso lhe assegura sucesso no mercado matrimonial. Da mesma maneira, um homem que chega do norte é também, sobretudo, o país de onde é originário, o que tem um significado em uma terra em que as pessoas continuam com os olhos voltados para a Europa e as costas voltadas para a América Latina, um significado que pode ser e é mobilizado na busca por uma parceira. E, nesse exercício de ser o que o outro espera que eu seja para garantir relações que se desdobram em migrações, de compor histórias de amor enraízadas nos entre-olhares entre o Velho e o Novo Mundo, alteridade e identidade se misturam e, ao mesmo tempo, reproduzem-se, perpetuando um determinado imaginário. Finalmente, o imaginário francês também parece continuar impregnado de uma passado colonial, assim como o dos brasileiros. Afinal, não é o Brasil do Lula, que ocupa um novo lugar na cena mundial, aquele que vem à tona nos relatos, seja dos “franceses de Belo Horizonte”, dos “franceses no Brasil” ou dos “franceses que nunca estiveram”. Ao contrário, na base de seus deslocamentos para o Brasil, enquanto migrantes permanentes e migrantes 226 temporários ou enquanto pessoas que somente contemplam um quadro de longe, encontram- se elementos que muito mais fazem lembrar os primeiros relatos franceses sobre o Brasil, escritos no século XVI. PARTE FINAL: O PONTO ONDE ESTAMOS 228 CONSIDERAÇÕES FINAIS A tese Para além de partidas e de chegadas: migração e imaginário entre o Brasil e a França, na contemporaneidade se propôs a investigar o imaginário francês sobre o Brasil e o imaginário brasileiro sobre a França, em pleno século XXI. Considerando o imaginário como sendo não o oposto do real, mas sim uma realidade interna ou mental que, juntamente com outra, essa externa ou tangível, conforma as duas facetas do real, facetas essas que se constróem e se reconstróem em um diálogo contínuo uma com a outra, objetivou-se desvelar o imaginário que, hoje, entrelaça o Brasil e a França, sem perder de vista seu histórico através dos tempos. O ponto de partida escolhido para mergulhar no objeto de estudos e tentar dar conta dos objetivos propostos foi o próprio imaginário de franceses e de brasileiros, tangenciado por meio de entrevistas de história oral. Isso porque se acredita que, querendo compreender os entre-olhares de franceses e brasileiros, na contemporaneidade, é fundamental conversar com eles, escutar o que têm a dizer, já que, em história contemporânea, é possível fazê-lo. 229 Em seguida, a partir da hipótese de que, em se tratando do par imaginário e alteridade, o encontro com o outro poderia ser radicalmente decisivo, definiu-se três grupos de entrevistados: migrantes, turistas e “os que nunca estiveram”, expressão utilizada para denominar brasileiros que nunca estiveram na França e franceses que nunca estiveram no Brasil. Posteriormente, já em meio ao desenvolvimento da pesquisa, criou-se um quarto grupo, compostos por franco-brasileiros, ou seja, filhos de casais mistos formados por um(a) francês(a) e um(a) brasileiro(a) ou filhos adotivos de casais franceses nascidos no Brasil. Enquanto, por um lado, foram entrevistados quinze franceses que moram ou moraram no Brasil, seis franceses que viajavam ou viajaram pelo país e seis franceses que aqui nunca estiveram; por outro, foram entrevistados dezoito brasileiros que moram ou moraram na França, quatro brasileiros que viajavam ou viajaram pelo país e seis brasileiros que lá nunca estiveram. Considerou-se que os primeiros possibilitariam entrever o imaginário atual de franceses sobre o Brasil, e os últimos, da mesma maneira, permitiriam trilhar o caminho inverso, revelando o imaginário contemporâneo de brasileiros sobre a França. Foram entrevistados, para completar, cinco franco-brasileiros, tendo em mente que, enquanto filhos dos dois mundos, eles poderiam aportar um novo olhar para a pesquisa. Vale dizer que essa complexificação esperada não ocorreu, na medida em que o país em que se reside a maior parte do tempo, ao longo da infância e da adolescência, de maneira especial, parece ser preponderante na formatação do imaginário sobre o outro, até mesmo quando se possui um pai ou uma mãe estrangeiro. Isso porque encerraria o sujeito em uma diversa gama de espaços formativos e círculos de sociabilidade próprios desse lugar e carregados da sua visão de mundo, espaços e círculos esses que seriam muito poderosos na construção da sua identidade, se comparados ao cotejamento que a família mista possibilitaria. Por fim, no momento de análise das fontes, optou-se por dar centralidade, na tessitura da tese, aos depoimentos concedidos pelos migrantes, sejam eles franceses que moram ou moraram no Brasil ou brasileiros que moram ou moraram na França. E, dentre os migrantes temporários, isso quer dizer, aqueles que permanecerão ou permaneceram no estrangeiro por um tempo bem determinado, são os que se deslocaram no globo para estudar que mereceram atenção especial. Diante de um corpus documental extenso, rico e complexo, composto por sessenta entrevistas e que exigia um recorte, as opções acima se justificam, primeiramente, porque as entrevistas dos migrantes se revelaram mais interessantes para trabalhar as questões de 230 pesquisa postas. Se o encontro de um sujeito com um novo mundo se mostrou incapaz de provocar uma verdadeira revolução no seu imaginário à respeito desse mundo, ele se mostrou eficaz em mobilizar esse imaginário e trazê-lo à tona. Na verdade, conforme o trabalho verificou, o imaginário viaja com o sujeito e é através dele que se enxerga e se define a alteridade, enfim, que se vive a experiência do outro. Observou-se, além do mais, que o imaginário é fundamental no processo migratório, porque as formas como um lugar nele é concebido impulsionam ou freiam esse processo. E já que o imaginário acerca do lugar para onde se migra constitui um dos elementos que explicam o processo migratório, a reconstrução desse processo não deixa de ser um meio de acessá-lo. A atenção especial concedida aos estudantes internacionais, por sua vez, levou em consideração quem são os brasileiros encontrados em Rennes e os franceses encontrados em Belo Horizonte, as cidades em que foi desenvolvida a pesquisa. Nas duas margens do Atlântico, eles emergem, em meio aos migrantes temporários. Dar-lhes um lugar de destaque, portanto, significa privilegiar um núcleo importante, em se tratando dos migrantes temporários, tanto em Rennes, quanto em Belo Horizonte. Mais que isso, significa dar voz ao único núcleo, em meio aos migrantes temporários, que permite estabelecer um diálogo, entre uma ponta e a outra, já que ele existe em ambas as cidades. Uma sucessão de recortes sobrepostos, dessa maneira, refinou o objeto de estudo dessa pesquisa histórica, que é o imaginário francês sobre o Brasil e o imaginário brasileiro sobre a França, na contemporaneidade. Escolheu-se como ponto de partida, dentre os tantos possíveis, o próprio imaginário de franceses e de brasileiros, tangenciados através de entrevistas orais. Definiram-se três grupos de entrevistados, aos quais vieram se somar um quarto grupo: migrantes, turistas, “os que nunca estiveram” e franco-brasileiros. (Esses grupos desnudam a centralidade concedida às nacionalidades, o que é um sintoma do anseio de pensar o como somos vistos em diálogo com o como vemos. Além disso, eles demonstram a importância concedida à experiência do outro e à natureza dessa experiência, o que faz sentido quando se considera a hipótese inicial de que ela poderia revolucionar o imaginário.) Deu-se, enfim, prioridade, na análise, às experiências dos migrantes permanentes e dos migrantes temporários, sendo que, em se tratando desses últimos, concedeu-se maior atenção aos estudantes internacionais. A história oral foi a metodologia de pesquisa escolhida. Isso significa que ela estabeleceu e ordenou os procedimentos de trabalho, funcionando como uma ponte entre a 231 teoria e a prática. No que concerne ao aspecto metodológico, merecem destaque os três itens elencados abaixo.  Foram elaborados quatro roteiros de entrevista, cada um voltado para um dos grupos de entrevistados: migrantes, turistas, “os que nunca estiveram” e franco-brasileiros. Esses roteiros nortearam o processo de construção das fontes históricas esmiuçadas, mas não o cercearam.  A definição dos sujeitos envolvidos no desenvolimento da pesquisa não seguiu regras rígidas, sem deixar, no entanto, de ser conduzida de maneira criteriosa. Para começar, sabia-se que era preciso entrevistar franceses e brasileiros, em um número mais ou menos equivalente, tendo em vista a intenção de promover um diálogo equilibrado. Tinha-se consciência também da necessidade de compor quatro grupos de entrevistas, que representassem os quatro grupos de entrevistados: migrantes, turistas, “os que nunca estiveram” e franco-brasileiros. Sem deixar de ter esses dois pontos em mente, e considerando o retrato dos brasileiros radicados em Rennes e as impressões acerca dos franceses radicados em Belo Horizonte, construídos a partir de algumas entrevistas- chaves, das conversas exploratórias, de trocas com outros pesquisadores e da leitura da bibliografia, saiu-se, então, à caça de um conjunto de entrevistados que desse conta da hetereogeneidade que perpassa a realidade. Além disso, a preocupação em construir uma amostragem diversa do ponto de vista do perfil sócio-econômico não deixou de fazer parte do processo de definição dos entrevistados.  A gravação e a transcrição das entrevistas, finalmente, seguiram os parâmetros definidos pelo CPDOC/FGV, núcleo pioneiro de história oral no Brasil. Denominou-se “brasileiros de Rennes”, os brasileiros que migraram de forma mais ou menos definitiva para Rennes. Da mesma maneira, denominou-se “franceses de Belo Horizonte”, os franceses que migraram de forma mais ou menos definitiva para Belo Horizonte. Esses dois grupos se contrapõem à outros dois, o dos “brasileiros em Rennes” e o dos “franceses em Belo Horizonte”, que são constituídos por brasileiros e franceses em deslocamento internacional por um período específico. Ao fazer alusão aos migrantes brasileiros na França ou aos migrantes franceses no Brasil, sejam eles permanentes ou temporários, ultrapassando, assim, as fronteiras de Rennes e de Belo Horizonte, utilizou-se, 232 respectivamente, as expressões “brasileiros da França” e “brasileiros na França” ou “franceses do Brasil” e “franceses no Brasil”. A pesquisa permitiu traçar um retrato dos brasileiros que vivem em Rennes. Os “brasileiros de Rennes” são, majoritariamente, mulheres brasileiras casadas com franceses, valendo dizer que, também dentre os homens brasileiros localizados na cidade, também é o casamento misto com um(a) francês(a) que costuma justificar a migração que marca suas trajetórias. Organizados em comunidade, esses sujeitos participam de um núcleo central, a Associação Brasil no Feminino ou um grupo de artitas brasileiros, ou gravitam em torno de um deles. Já os “brasileiros em Rennes” são estudantes, sobretudo, dentre os quais se localizou jovens au pair, estudantes de francês, intercambistas universitários, doutorandos e pós-doutorandos. Três polarizações dão forma, então, ao retrato dos brasileiros que vivem em Rennes: migrantes permanentes X migrantes temporários, mulheres X homens e Associação Brasil no Feminino X artistas brasileiros. Na outra margem do Atlântico, o quadro esboçado possui contornos muito menos nítidos. Aparentemente, os “franceses de Belo Horizonte” são, em sua maioria, homens franceses casados com brasileiras. E os “franceses em Belo Horizonte”, por sua vez, são estudantes franceses ou franceses em missão de trabalho, também eles homens, em especial. Vale dizer que o desequilíbrio dos dados apresentados, no Capítulo 1, não é sinal de um desequilibrio na coleta de dados, como um leitor apressado poderia vir a pensar. Na verdade, acreditamos que ele é antes consequência de um desequilíbrio real entre “brasileiros de/em Rennes” e “franceses de/em Belo Horizonte”. Se, de um lado, temos um grupo relativamente numeroso e bem estruturado, de outro, temos um grupo bastante pequeno e conformado por sujeitos desconexos. Perseguiu-se a resposta para cinco perguntas, ao longo da tese. O que levaria brasileiros para Rennes? O que traria franceses para Belo Horizonte? Porque brasileiros partiriam para estudar na França? Porque franceses viriam estudar no Brasil? O que as razões do migrar diriam acerca do imaginário sobre o lugar escolhido como destino migratório? É através das entrelinhas dessa busca do outro que é a migração, portanto, que se tentou abarcar o imaginário sobre esse outro do sujeito que migra. Compreender os motivos que fazem com que brasileiros se mudem para Rennes e o seu imaginário sobre a França, impõe pensá-los em meio à trama das migrações internacionais contemporâneas. De 1980 para cá, o Brasil já não é mais um país de imigração e sim um país 233 de emigração. Os anos 1980, conhecidos como década perdida, foram marcados pela desesperança no Brasil, em função de uma grave crise social e econômica que assolou o país. É nesse contexto que os brasileiros começaram a ganhar o mundo, partindo em direção aos Estados Unidos, à Europa Ocidental, ao Japão, ao Canadá e à Austrália. Os “brasileiros de Rennes” engrossam a fila dos que buscam o centro do mundo. Antes de mais nada, o que eles desejam é deixar o Brasil e a dura realidade que faz parte da sua vida cotidiana. E, se o país aparece, no imaginário, como sendo a terra da miséria, ou, como preferem os entrevistados, do subdesenvolvimento, do Terceiro Mundo, a França emerge como sendo a terra da riqueza, ou, também de acordo com os entrevistados, do desenvolvimento, do Primeiro Mundo. Antônimo do Brasil que enfrentam, a França imaginária, assim como os demais países centrais, ganha, ares de Eldorado dos tempos globalizados. A particularidade das histórias de migração dos “brasileiros de Rennes”, frente às histórias de migração de brasileiros que escolheram outros destinos migratórios, como, por exemplo, os Estados Unidos, é a estratégia mais utilizada para migrar. Na maioria dos casos, é através do casamento misto com um(a) francês(a) que o(a) brasileiro(a) desembarca na França. Retomemos os pontos identificados que parecem caracterizar essas histórias de migração econômica misturadas com histórias de amor: 1. o casal é composto, na maioria das vezes, por uma brasileira e um francês; 2. o(a) brasileiro(a) que compõe o casal costuma possuir traços físicos que indicam uma origem africana ou indígena; 3. os membros do casal se conhecem, em geral, quando o(a) francês(a) viaja pelo Brasil ou reside no país, ou quando o(a) brasileiro(a) vai visitar um membro da sua família na França que é casado com um(a) francês(a) que conheceu no Brasil; 4. como os membros do casal geralmente não falam uma mesma língua no momento em que se conhecem, o primeiro contato é basicamente sexual; 5. poucos meses costumam separar o primeiro encontro do casal da migração do(a) brasileiro(a) para a França; 6. como nem sempre a oficialização da união acontece concomitantemente ao processo migratório, é relativamente comum que o(a) brasileiro(a) permaneça ilegal na França por um certo período; 234 7. o(a) brasileiro(a) que se casa não tem problemas graves de adaptação na França, na maioria dos casos, haja visto que passa a usufruir de melhores condições de vida do que aquelas que usufruia anteriormente no Brasil; 8. no momento que antecede a migração, o(a) brasileiro(a) vive uma situação complicada no Brasil que o impulsiona a partir; 9. o casamento com o(a) francês(a) e a migração para a França são significados como uma solução para os problemas vividos no Brasil; 10. a França emerge no imaginário, em contraposição a realidade vivida no Brasil, sendo associada com os países centrais; 11. mesmo que o casal venha a se divorciar, que o membro francês faleça ou que o processo de migração seja extremamente problemático, o(a) brasileiro(a) tende a permanecer na França; 12. muitas das brasileiras que se casam com franceses se encontram fora do mercado matrimonial brasileiro, no momento em que ocorre o casamento, seja pela idade mais avançada ou pelo fato de possuírem filhos de outros relacionamentos; 13. no mercado matrimonial francês, o que agrega valor às brasileiras que se casam com franceses é uma imagem da brasileira, imagem essa que povoa o imaginário francês e encontra eco no Brasil, junto, inclusive, às próprias “brasileiras casadouras”; 14. se a brasileira que casa com um francês tem filhos de outros relacionamentos, eles migram para a França, algum tempo depois da mãe, através de um processo de reagrupamento familiar, ou permanecem no Brasil, usufruindo da nova situação de vida da mãe. Já os “franceses de Belo Horizonte”, ao contrário dos “brasileiros de Rennes”, caminham na contramão do movimento migratório internacional contemporâneo, em que uma massa de pessoas oriundas de países periféricos, dentre eles o Brasil, ganha os países centrais. Esses migrantes não são empurrados para fora de sua terra natal por problemas econômicos, idealizando mais além um lugar-solução, eles, simplesmente, caem loucos de amores por uma brasileira, mulher que associam com uma certa brasileira imaginária, ou pelo Brasil, ele mesmo concebido no imaginário com formas femininas, e terminam vindo se instalar do outro lado do Atlântico. Ou seja, enquanto, em uma direção, a migração é, sobretudo, a busca por 235 uma vida melhor, na outra, ela só faz sentido quando se considera uma determinada relação subjetiva. De acordo com tal relação, o Brasil é uma mulher, mais que isso, é “a brasileira”, e, ao mesmo tempo, às brasileiras, é atribuída uma certa imagem do Brasil: elege-se a mulher como símbolo da nação e se define a feminilidade na sua imbricação com a nacionalidade. Ora amante ou prostituta, ora boa esposa, esse Brasil-brasileira ou essa brasileira-Brasil é objeto de desejo, ao ponto de promover deslocamentos no globo. Notem que o casamento misto é, em última instância, mais que o evento que garante a migração para a França de um bom número de brasileiros (em especial, de brasileiras) e a migração para o Brasil de um certo número de franceses (homens, majoritariamente). Ele termina por funcionar como metáfora de uma relação estabelecida também ao nível do imaginário. Na verdade, da mesma forma que a dura realidade tangível leva os “brasileiros de Rennes” a projetar um Eldorado na França, no âmbito da realidade mental; uma realidade mental que tem como personagem central “a brasileira” termina por funcionar como terreno fértil para casamentos entre franceses e brasileiras. Ou seja, na origem de histórias de amor, encontra-se um imaginário casado. Em uma época em que as fronteiras entre os países se tornam cada vez mais difíceis de serem transpostas, sobretudo para pessoas das camadas populares, as brasileiras têm mobilizado a seu favor esse imaginário francês sobre o Brasil, no mercado matrimonial. Ao fazê-lo, elas jogam com a identidade e a alteridade, incorporando a brasileira imaginária e contribuindo, assim, para a sua perpetuação. Mas se o marido francês funciona, ao mesmo tempo, como uma porta de saída do Brasil, uma porta de entrada nos países centrais e uma ponte entre ambos, a mulher brasileira não deixa de ser uma janela para um mundo de prazeres e de excessos, tão avesso da França do trabalho, da rotina, da monotonia, do insosso. Talvez, ela também surja como aquela mulher que a francesa já não se sujeita mais a ser, porque, simplesmente, tem outras prioridades, no momento da busca por um parceiro, ou porque tem menos possibilidades de negociar com ele os papéis de gênero tradicionais. Eis porque os franceses, quando desembarcam nas nossas praias carregados de euros e, aqui, vivem vida de rei, deixam-se seduzir. Eles, na verdade, já estão seduzidos de antemão, e, considerando que a conjugalidade já é conjugada com a sexualidade, vêem naquelas “nativas” calientes e submissas boas esposas em potencial. E não se pode negar o impacto que o casamento misto possui nas trajetórias de migração. Ele facilita, especialmente, os deslocamentos de brasileiras pobres, diminuindo, de maneira considerável, os seus custos, já que quem costuma financiar a migração é o cônjuge 236 estrangeiro, cônjuge estrangeiro esse que também garante acolhida no país de destino, o que inclui não apenas uma casa para morar, mas também a inserção em uma família local e um melhor trânsito pela nova realidade. Mais que isso, o casamento misto possibilita a permanência legal no exterior, assim como o acesso à seguridade social (assistência médica, seguro desemprego, pensão por invalidez, aposentadoria, assistência social, etc). É chegada a hora de se voltar para os estudantes internacionais. Mais uma vez, enquanto os brasileiros que partem para estudar na França não escapam de uma tendência, os franceses que vêm estudar no Brasil o fazem, haja visto que a maioria absoluta dos estudantes em mobilidade internacional (62%) é formada por pessoas dos países periféricos que escolhem um país central como destino, enquanto apenas uma pequena minoria (8%) é composta por pessoas que caminham na direção contrária, ou seja, que se deslocam para estudar em países periféricos, sendo oriundas de países centrais. Os brasileiros que viajam para estudar na França estão interessados, em geral, em uma formação e em uma experiência valorizadas, no Brasil, nos mercados escolar, profissional e social, o que não quer dizer, necessariamente, de melhor qualidade. Imersos em um processo de banalização dos diplomas, em decorrência de um outro processo, esse de democratização do acesso à escola, eles acreditam que a estadia lhes garante uma distinção social que pode ser mobilizada na busca por um bom emprego e na conquista de prestígio, garantindo-lhes uma pertença de classe ou lhes permitindo até galgar novos extratos sociais. E eles não se enganam, pois, em um país periférico, a reprodução das elites ocorre, tradicionalmente, no estrangeiro. No imaginário, a França continua sendo um país superior ao Brasil, como no caso dos “brasileiros de Rennes”. No entanto, os contornos à ela concedidos já não lhe conferem um quê de Eldorado e sim de metrópole cultural, o que, de fato, o país representou, entre o século XIX e a primeira metade do século XX, ou seja, entre o momento em que Portugal foi perdendo esse posto e aquele em que os Estados Unidos passaram a ocupá-lo. Tudo se passa como se resquícios desse período sobrevivessem, de alguma maneira, no imaginário. Um grande conflito marca a estadia desses estudantes brasileiros no exterior, podendo ser bem visualizado quando do seu retorno para a terra natal. Se a volta para o Brasil é tantas vezes motivo de sofrimento para quem vai estudar na França, é porque, mesmo sem querer, o brasileiro se vê obrigado a voltar. Somente em casa, ele vislumbra um futuro promissor, chancelado pelo diploma francês. Em Paris, ele é somente mais um estrangeiro, competindo em desvantagem com os nacionais. Tal como aquele brasileiro pobre que deseja migrar para fugir de uma realidade dura, esse outro brasileiro pertencente às camadas mais elitizadas da 237 sociedade também se encontra de costas para o Brasil, pois é fora do país que ele se projeta e se realiza. A temporada de estudos na França também funciona para os brasileiros, em especial, para as brasileiras, como uma maneira de se inserir no mercado internacional de casamentos e brigar por cônjuges franceses, cônjuges esses que, pelo simples fato de serem originários de um país como a França, são mais valorizados. De fato, muitas que deixam o Brasil para estudar sem possuir um projeto bem consolidado de formação terminam se casando e migrando de forma definitiva. Nesse caso, a mobilidade internacional garante um prestígio social de outra ordem, o de possuir um “maridão” francês e o de viver em Paris. Retomamos, em seguida, os traços que parecem perpassar o processo de migração temporária de brasileiros para a França, em função de uma temporada de estudos. 1. os estudantes brasileiros na França costumam pertencer aos extratos mais elitizados da população do Brasil; 2. eles se encontram, em geral, na universidade ou já concluíram o ensino superior, partindo para participar de um intercâmbio de graduação, cursar a pós-graduação (maîtrise, DEA, master, doutorado ou pós-doutoramento), fazer um curso de línguas ou trabalhar como au pair para aprender o francês; 3. os estudantes brasileiros na França podem ser subdividos em dois grupos, um que possui financiamento para desenvolver os seus estudos no exterior e outro que não o possui; 4. os bolsistas, sejam eles do Governo Brasileiro ou do Governo Francês, partiriam para a França em busca de um diploma estrangeiro valorizado ou de uma experiência no exterior que pode fazer a diferença no mercado de trabalho, o que quer dizer que possuiriam um projeto de formação bem traçado; 5. já aqueles que não possuem bolsas de estudos conformariam dois sub-grupos, um primeiro que partiria em busca do prestígio que a estadia no exterior confere e um segundo que utilizaria a temporada de estudos como possível estratégia matrimonial e de migração; 6. enquanto os bolsistas, não sem conflitos, tendem a voltar para o Brasil, que é onde a temporada de estudos no exterior lhe abre portas, os não-bolsistas podem se 238 transformar em migrantes permanentes, especialmente a partir de casamentos estabelecidos com franceses; 7. a França emerge no imaginário, sobretudo, ainda com um quê de metrópole cultural escolhida pelo Brasil, o que de fato foi entre o século XIX e XX. Retomemos ainda as diferenças fundamentais que distinguem os “estudantes casadouros”, que são também, em sua grande maioria, mulheres, dos “brasileiros de Rennes”, frutos, sobretudo, de histórias de migração econômica marcadas por um casamento misto. Isso porque, se a união com um francês que desemboca na instalação definitiva na França aproxima os seus percursos, eles não deixam de possuir as suas particularidades. 1. os “estudantes casadouros” parecem viver um momento tão complicado quanto os “brasileiros de Rennes”, no momento que antecede a migração, o que os impulsiona à partir, mas não pertencem às camadas populares, nem aos estratos mais baixos das camadas médias, e sim aos estratos medianos ou mesmo mais privilegiados dessas últimas; 2. se para os “brasileiros de Rennes” o casamento com um francês e a conseqüente migração para a França são vistos como uma solução para os problemas enfrentados no Brasil, para os “estudantes casadouros”, embora esse caráter se mantenha, trata-se apenas de uma solução mais fácil e que é, ao mesmo tempo, carregada de glamour; 3. então, a França não emerge simplesmente como um Eldorado pós-moderno para esses “estudantes casadouros”, na medida em que essa imagem vem cotejada com uma outra, a da França-metrópole cultural; 4. diferentemente dos “brasileiros de Rennes”, os(as) brasileiro(as) envolvidos(as) na trama, em geral, são jovens e não possuem filhos de outros relacionamentos, encontrando-se dentro do mercado matrimonial no Brasil, o que quer dizer que conferem maior valor a um possível cônjuge francês que a um possível cônjuge brasileiro, e isso não somente porque ele lhe abre as portas de um país central, mas também porque ele encarna o país glamoroso que a França representa para eles; 5. o casal se conhece, na maioria dos casos, quando o(a) brasileiro(a) reside na França em função dos estudos, e isso nos faz pontuar como essa temporada no exterior para 239 estudar pode ser utilizada como estratégia matrimonial que se desdobra em estratégia de migração; 6. os membros do casal falam uma mesma língua, no momento em que se conhecem, o francês, garantindo que o primeiro contato não seja apenas sexual; 7. o(a) brasileiro(a) não permanece ilegal na França, pois mantém o estatuto de estudante até a oficialização da união com o francês; 8. uma vez oficializada a união, o(a) brasileiro(a) costuma abandonar os estudos, o que parece indicar que eles eram utilizados apenas como uma forma de permanecer legalmente na França; 9. o(a) brasileiro(a) que se casa, geralmente, possui o terceiro grau incompleto ou mesmo o diploma universitário, o que pode acarretar sérios problemas de adaptação na França, pois têm dificuldades em se estabelecer profissionalmente na sua área e, muitas vezes, precisam se sujeitar a realizar trabalhos pesados e de baixo-status social. Como uma temporada de estudos no Brasil não fornece um diploma ou uma experiência valorizada no mercado escolar, profissional e social francês, já que, na França, a reprodução das elites ocorre dentro do próprio país, o deslocamento dos estudantes franceses que vêm estudar aqui não pode seguir a mesma lógica que o dos estudantes brasileiros que viajam para estudar no exterior. O que eles buscam é o alhures, o distante, o diferente, o insólito, a aventura, as férias, o paraíso... Longe de demonstrar um projeto bem consolidado de formação, ao contrário, o período passado no Brasil é a antítese do trabalho, pois funciona como uma trégua do tempo e do lugar por ele caracterizado: suas universidades de origem. Observem que, mais uma vez, o país emerge no imaginário como sendo uma janela para o avesso da França. Algo que também não pode deixar de ser destacado é como tanto o Brasil como a França são concebidos enquanto paraíso, no jogo dos entre-olhares entre franceses e brasileiros. Se o Brasil ensolarado das grandes praias com palmeiras é paradisíaco para os estudantes franceses, a França-Eldorado não deixa de sê-lo para os “brasileiros de Rennes”. Em meio a uma dessacralização do mundo, o profano foi ganhando cada vez mais espaço frente ao sagrado, até o ponto de se inventar um paraíso sem deus, sonho de abundância, liberdade e alegria de viver. Tanto o Eldorado, quanto um processo de secularização que pressupõe uma sexualização, encontram espaço nesse novo paraíso. 240 A pesquisa desenvolvida identifica ainda os imaginários contemporâneos que interligam o Brasil e a França como sendo um imaginário colonizado (daqui para lá) e um imaginário colonizador (de lá para cá). Isso quer dizer que eles foram forjados no contexto da colonização, em que o Brasil ocupou lugar de colonizado e a França de colonizador, definindo maneiras de olhar a si mesmo (identidade) e maneiras de olhar o outro (alteridade) em sintonia com esses lugares. A França é um Eldorado, para os “brasileiros de Rennes”. Mas quantos países pobres foram necessários para fazer um país rico? A migração internacional do nosso tempo, marcada pelo fluxo em massa de pessoas originárias dos países periféricos para os países centrais, e que tem como um dos elementos que ajuda a engendrá-la o imaginário, é filha da colonização, é retorno das caravelas. Afinal, a ordem mundial na qual o mundo está imerso e que se encontra na base desse movimento populacional, tem como origem o passado colonial. E a dura realidade que empurra para fora da terra natal e faz enxergar miragens no horizonte é apenas a expressão, ao nível micro, dessa ordem mundial. Indo além, é possível falar em imaginário colonizado e colonizador, porque a relação que se estabelece é de tipo colonial, ou seja, entre uma metrópole e sua colônia e vice-versa. Não por acaso, no mercado de diplomas no Brasil, certos diplomas estrangeiros, dentre eles os franceses, possuem maior valor que um diploma brasileiro, o que faz com que a elite continue indo estudar na Europa e tenha começado, no século passado, a eleger os Estados Unidos como destino para os estudos. Esse maior valor não está relacionado, necessariamente, com a qualidade da formação que levou à titulação; muitas vezes, ela pode ser mesmo de pior qualidade. Ele é da ordem do simbólico e está relacionado com o lugar em que o diploma é outorgado. Um diploma de Paris, por exemplo, cidade que ainda continua encarnando para muitos a capital cultural, é considerado, em princípio, melhor que um brasileiro, pelo simples fato de ser francês e parisiense. No sentido contrário, como não enxergar por detrás dos deslocamentos dos “franceses de Belo Horizonte” e dos estudantes franceses que vêm estudar no Brasil um imaginário colonizador, se eles insistem em encerrar o Brasil como janela para o mito, os mesmos que já apareciam nos relatos de Thevet e Léry, ambos datados do século XVI? O país é “a brasileira”, o país é paraíso... 241 REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS Fontes Primárias A., Célia. Belo Horizonte, Brasil, 17 abr. 2007. 1 áudio digital (36min52). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. A., Marie. Rennes, França, 27 jul. 2006. 1 áudio digital (07min17). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. B., Annïck. Rennes, França, 12 jul. 2006. 1 áudio digital (22min19). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. B., Elizabeth. Rennes, França, 21 ago. 2006. 1áudio digital (01h16min53). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. B., Glenda. Belo Horizonte, Brasil, 20 abr. 2007. 1 áudio digital (8min42). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. B., Louis. Rennes, França, 28 ago. 2006. 1 áudio digital (34min53). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. B., Marcel. Rennes, França, 13 set. 2006. 1 áudio digital (18min52). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. B., Virginie. Rennes, França, 13 set. 2006. 1 áudio digital (01h20min26). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. C., Benjamin. Rennes, França, 21 set. 2006. 1 áudio digital (07min34). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. C., Cecília. Belo Horizonte, Brasil, 12 abr. 2007. 1 áudio digital (33min57). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. C., Jacqueline. Rennes, França, 25 jul. 2006. 1 áudio digital (06min23). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. D., Gérard. Belo Horizonte, Brasil, 26 jun. 2007. 1 áudio digital (42min48). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. D., Érica. Belo Horizonte, Brasil, 13 abr. 2007. 1 áudio digital (23min22). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. D., João. Belo Horizonte, Brasil, 15 abr. 2007. 1 áudio digital (31min07). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. E., Lidia. Rennes, França, 8 ago. 2006. 1 áudio digital (30min32). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. F., Paula. Rennes, França, 7 set. 2006. 1 áudio digital (46min53). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. 242 G., Adélia. Rennes, França, 13 e 20 jul. 2006. 1 áudio digital (01h27min03). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. G., Ana. Rennes, França, 11 jul. 2006. 1 áudio digital (8min56). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. G., Dominique. Belo Horizonte, Brasil, 17 mai. 2007. 1 áudio digital (39min09). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. G., Fernand. Rennes, França, 20 jun. 2006. 1 áudio digital (01h27min59). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. G., Francisca. Belo Horizonte, Brasil, 11 mai. 2007. 1 áudio digital (32min19). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. G., Lair. Belo Horizonte, Brasil, 5 mai. 2007. 2 áudios digitais (42min30, 1min23). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. G., Mathieu. Rennes, França, 29 ago. 2006. 1 áudio digital (06min39). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. G., Nicole. Rennes, França, 21 set. 2006. 1 áudio digital (12min17). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. G., Pierre. Rennes, França, 7 jul. 2006. 1 áudio digital (45min25). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. L., Charles. Belo Horizonte, Brasil, 26 abr. 2007. 1 áudio digital (18min26). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. L., Guillaume. Belo Horizonte, Brasil, 19 jun. 2007. 2 áudios digitais (26min06, 27min14). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. L., Gustave. Belo Horizonte, Brasil, 20 jun. 2007. 1 áudio digital (22min31). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. L., Josephine. Rennes, França, 19 set. 2006. 1 áudio digital (34min44). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. L., Nádia. Rennes, França, 8 jun. 2006. 1 áudio digital (01h53min03). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. L., Nicolas. Rennes, França, 9 set. 2006. 1 áudio digital (01h54min). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. L., Marinês. Rennes, França, 4 set. 2006. 1 áudio digital (01h09min13). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. L., Marion. Rennes, França, 19 jul. 2007. 1 áudio digital (13min46). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. L., Sílvio. Rennes, França, 26 jul. 2006. 1 áudio digital (33min16). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. M., Caio. Rennes, França, 11 jul. 2006. 1 áudio digital (57min13). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. M., Eduardo. Belo Horizonte, Brasil, 24 abr. 2007. 3 áudios digitais (10min01, 8min38, 17min10). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. M., Irene. Rennes, França, 21 ago. 2007. 1 áudio digital (45min34). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. 243 M., Jean. Belo Horizonte, Brasil, 18 jun. 2007. 4 áudios digitais (30min54, 19min43, 2min15, 12min04). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. M., Yann. Rennes, França, 12 jul. 2006. 1 áudio digital (55min32). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. N., Ângela. Belo Horizonte, Brasil, 19 abr. 2007. 1 áudio digital (01h25min54). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. N., Morena. Belo Horizonte, Brasil, 7 ago. 2006. 1 áudio digital (01h01min36). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. N., Yves. Rennes, França, 20 e 26 set. 2009. 1 áudio digital (02h09min30). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. P., Agnès. Belo Horizonte, Brasil, 16 mai. 2007. 2 áudios digitais (10min36, 41min55). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. P., Albert. Rennes, França, 4 set. 2006. 1 áudio digital (01h34min45). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. P., Lígia. Rennes, França, 4 jul. 2006. 1 áudio digital (01h13min11). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. P., Vicente. Belo Horizonte, Brasil, 2007. 2 áudios digitais (01h12min19, 23min37). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. P., Viviane. Belo Horizonte, Brasil, 30 abr. 2007. 1 áudio digital (07min55). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. R., Cédric. Rennes, França, 23 jun. 2006. 1 áudio digital (35min45). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. R., Inácio. Rennes, França, 15 jul. 2007. 1 áudio digital (54min17). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. R., Leonardo. Belo Horizonte, Brasil, 15 abr. 2007. 1 áudio digital (18min44). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. R., Patrick. Rennes, França, 27 jul. 2006. 1 áudio digital (8min53). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. R., Patrick. Rennes, França, 06 set. 2006. 1 áudio digital (23min). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. S., Anderson. Belo Horizonte, Brasil, 6 mai. 2007. 1 áudio digital (04min43). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. S., Elvira. Rennes, França, 21 set. 2006. 1 áudio digital (15min57). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. S., Emerson. Rennes, França, 12 set. 2006. 1 áudio digital (20min11). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. S., Iara. Belo Horizonte, Brasil, 12 abr. 2007. 1 áudio digital (12min16). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. S., José. Belo Horizonte, Brasil, 18 abr. 2007. 1 áudio digital (24min14). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. S., Kelly. Rennes, França, 30 ago. 2006. 1 áudio digital (18min51). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. 244 S., Leandro. Belo Horizonte, Brasil, 23 abr. 2007. 1 áudio digital (4min33). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. S., Philippe. Belo Horizonte, Brasil, 18 jun. 2007. 1 áudio digital (19min15). Entrevista concedida a Marina Alves Amorim. 245 Fontes Secundárias ATA DE REUNIÃO do Comitê Misto do Ano do Brasil na França. Referente ao Segundo Comitê Misto de Organização da Primeira Fase, a reunião ocorreu nos dias 17 e 18 de maio de 2004. Documento concedido pelo Ministério da Cultura do Brasil. 4f. ATA DE REUNIÃO do Comitê Misto do Ano do Brasil na França. Referente ao Segundo Comitê Misto de Organização da Segunda Fase, a reunião ocorreu nos dias 28 e 29 de junho de 2004, em Brasília. Documento concedido pelo Ministério da Cultura do Brasil. 5f. ATA DE REUNIÃO do Comitê Misto do Ano do Brasil na França. Referente ao Terceiro Comitê Misto de Organização, a reunião ocorreu nos dias 27 e 28 de setembro de 2004, em Paris. Documento concedido pelo Ministério da Cultura do Brasil. 4f. ATA DE REUNIÃO do Comitê Misto do Ano do Brasil na França. Referente ao Quarto Comitê Misto de Organização, a reunião ocorreu nos dias 16 e 17 de novembro de 2004. Documento concedido pelo Ministério da Cultura do Brasil. 7f. ATA DE REUNIÃO do Comitê Misto do Ano do Brasil na França. Referente ao Quinto Comitê Misto de Organização, a reunião ocorreu nos dias 20 e 21 de janeiro de 2005, em Paris. Documento concedido pelo Ministério da Cultura do Brasil. 4f. ATA DE REUNIÃO do Comitê Misto do Ano do Brasil na França. Referente ao Sexto Comitê Misto de Organização, a reunião ocorreu no dia 21 de março de 2004, e tratou da conclusão dos trabalhos. Documento concedido pelo Ministério da Cultura do Brasil. 4f. ATA DE REUNIÃO do lançamento do Ano do Brasil na França em Rennes. A reunião ocorreu no dia 20 de outubro de 2004, sob coordenação da DAC-Rennes. 11f. BRASIL. Ministério da Cultura. Espaço Brasil: catálogo geral. Brasília: MinC, 2005. 220p. CLIPPING composto pelos 40 artigos sobre o Ano do Brasil na França publicados pelo Jornal Estado de Minas, ao longo de 2005. Foi construído a partir do arquivo do Jornal Estado de Minas, acessado pelo sítio http://www.uai.com.br. 56f. 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Concedida pela Associação Brasil no Feminino.7 f.. LISTAGEM: relação das “simpatizantes” da Associação Brasil no Feminino em 2007. Contém, além dos nomes completos, seus endereços, telefones, e-mails, data de nascimento e Estado de origem no Brasil. Concedida pela Associação Brasil no Feminino. 2 f. LISTAGEM: relação dos franceses registrados no Consulado Honorário da França em Belo Horizonte em 2007. Contém sexo, cidade de nascimento e categoria social profissional, identificando cada francês registrado por um número e não pelo nome. Concedida pela Embaixada da França em Brasília. 12f. PANFLETO da exposição de artes plásticas do Coletivo Chave Mestra, que foi promovida pela Associação Brasil no Feminino em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. PANFLETO da exposição de artes plásticas “Trois Racines Culturelles... à Fleur de Peau”, que foi promovida pela Associação Brasil no Feminino em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. PANFLETO da Festa Junina promovida pelas Associações Brasil no Feminino e Les Amis de Juçaral em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. PANFLETO do Carnaval Breizh-Brasil, evento promovido pelo Collectif Brésil em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. PANFLETO do evento À la Découverte des Brésils, promovido pelo Collectif Brésil em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França. Rennes: Collectif Brésil, 2005. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. PROGRAMA do 10e Festival Le Grand Soufflet, festival que contou com eventos do Ano do Brasil na França em 2005. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. PROGRAMA do Ano do Brasil na França em Rennes elaborado pelo Collectif Brésil. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. PROGRAMA do Ano do Brasil na França em Rennes elorado pela Ville de Rennes. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. REALISE PARA IMPRENSA de um evento extra-oficial do Ano do Brasil na França promovido pelo Collectif Brésil: Á la Découverte des Brésils. Apresenta cada uma das associações, companhias artísticas ou entidades que fazem parte do Collectif Brésil e que irão expor as atividades que desenvolvem no evento. Concedido pela Associação Brasil no Feminino. 20 f. 247 RELATÓRIO de uma pesquisa de opinião sobre o Ano do Brasil na França encomendada pelo Governo Francês à empresa Louis Harris 2. Intitulada L’Année du Brésil en France: perceptions et répercussions, a pesquisa foi desenvolvida no final de 2005 e seus resultados divulgados em dezembro do mesmo ano. Concedido pela Embaixada do Brasil em Paris. 22p. VILLE DE RENNES. Parcours de Vie: témoignages de Rennais d’origine étrangère. Tome 2. Rennes: Ville de Rennes, 2007. 248 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBERTI, Verena. História Oral: a experiência do CPDOC. Rio de Janeiro: FGV, 1989. 202p. 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L'Image de l'Autre: étrangers, minoritaires, marginaux dans les rapports, vol.I, Stuttgart, 1985, p.60-106. 258 GLOSSÁRIO Au pair: jovem que trabalha na casa de uma família no estrangeiro, em troca de moradia, da alimentação e de um pequeno salário, geralmente com o objetivo de aprender ou praticar a língua falada no país e conhecer uma outra cultura. Baccaleuréat International: diploma de ensino médio reconhecido por vários países do mundo que permite o acesso à universidade nesses países. As escolas internacionais preparam seus alunos para fazerem as provas que conferem esse diploma. Diplôme d’Études Approfondies (DEA): diploma universitário francês, que funcionava como o primeiro ano do doutoramento e exigia, geralmente, um ano de estudos. A partir de 2004, com a criação do percurso licence, master, doutorado, deixou de ser atribuído, tendo sido substituído pelo master recherche. Diplôme Universitaire de Technologie (DUT): diploma universitário francês sancionado depois de dois anos de ensino superior. É orientado para a inserção profissional dos alunos, mas também propõe um sólido embasamento teórico que permite a continuação dos estudos. Grandes Écoles: instituições de ensino superior francesas independentes do sistema universitário, que recrutam por concurso e se destinam a formar as elites intelectuais e os dirigentes da nação. Licence: diploma universitário francês de primeiro ciclo, geralmente atribuído após três anos de estudo, que prepara, tanto para a inserção profissional, quanto para o ingresso na maîtrise ou no master. Maîtrise: diploma universitário francês de segundo ciclo, geralmente atribuído após um ano de estudo, que preparava para o ingresso no DEA ou no DESS e prepara, atualmente, para o ingresso no master. Tende a desapararecer, com a reforma que criou o percurso licence, master, doutorado. Master: diploma universitário francês de segundo ciclo, geralmente atribuído após dois anos de estudo. Subdivido em master 1 e master 2, ele prepara para o ingresso no doutorado, quando se trata de um master recherche, mas não corresponde exatamente ao mestrado brasileiro. Pode também estar voltado para a inserção profissional, sendo denominado, nesse caso, de master professionnelle. Master Professionnelle: ver master. Master Recherche: ver master. Pacte Civil de Solidarité (PACS): contrato que pode ser estabelecido, na França, por duas pessoas solteiras, do mesmo sexo ou de sexos diferentes, separadas por mais de três graus de parentesco, para organizar sua vida em comum. 259 ANNEXOS ANEXO A – Convenção de Cotutela Internacional de Tese entre a Université Rennes 2 – Haute Bretagne (França) e a Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (Brasil) 260 261 262 263 264 265 266 Anexo B – Résumé Substantiel de la Thèse en Langue Française AU DELA DES ALLERS-RETOURS : migration et imaginaire entre le Brésil et la France dans la contemporanéité Chaque homme, poète ou non, se choisit une ou deux villes, patries idéales qu’il fait habiter par ses rêves, dont il se figure les palais, les rues, les maisons, les aspects, d’après une architecture intérieure, à peu près comme Piranèse se plaît à bâtir avec pointe d’aquafortiste des constructions chimériques, mais douées d’une réalité puissante et mystérieuse. Qui jette les fondements de cette ville intuitive? Théophile Gautier La thèse Au-delà des allers-retours : migration et imaginaire entre le Brésil et la France dans la contemporanéité s’est proposée d’investiguer l'imaginaire français sur le Brésil et l'imaginaire brésilien sur la France, en plein XXIe siècle. Considérant l'imaginaire comme étant non pas l’opposé du réel mais une réalité interne ou mentale qui, conjointement à l’autre, externe ou tangible, modèle les deux facettes du réel, facettes qui se construisent et se déconstruisent dans un dialogue continu, l’objectif était de dévoiler l'imaginaire qui relie aujourd’hui le Brésil et la France, sans jamais perdre de vue son parcours historique à travers les temps. Le point de départ choisi pour s’immerger dans l'objet d'étude et pour essayer de rendre compte des objectifs envisagés a été le propre imaginaire des Français et des Brésiliens, auquel nous avons accédé par des entretiens d'histoire orale. Et, cela, parce que, si l’on veut comprendre ces regards croisés des Français et des Brésiliens dans le présent, il est fondamental, nous semble-t-il, de parler avec eux, d'écouter ce qu’ils en ont à dire, une fois que, en histoire contemporaine, il est possible de le faire. A partir de l'hypothèse selon laquelle, puisqu’il s’agit du couple imaginaire/altérité, la rencontre avec l'autre peut être radicalement décisive, trois groupes d’interviewés ont été définis : les migrants, les touristes et « ceux qui n'y sont jamais allé», expression utilisée pour appeler les Brésiliens qui n'ont jamais été en France et les Français qui n’ont jamais mis les pieds au Brésil. Ultérieurement, à un point déjà avancé de la recherche, un quatrième groupe 267 est venu d’y ajouter, un groupe composé de Franco-Brésiliens, ou soit, d’enfants de couples mixtes, composés d’un(e) Français(e) et d’un(e) Brésilien(ne), et d’enfants nés au Brésil et adoptés par des couples français. Ont été questionnés ainsi, d'une part, quinze Français vivant ou ayant vécu au Brésil, six Français qui voyagent ou avaient voyagé dans ce pays et six Français qui n’y sont jamais allés ; de l’autre, dix-huit Brésiliens qui vivent ou ont vécu en France, quatre touristes Brésiliens en France et six Brésiliens qui ne connaissaient pas ce pays. Le dépouillement des premiers entretiens permettait, de la sorte, d’examiner l'imaginaire actuel des Français sur le Brésil. L’analyse des derniers faisait, de la même manière, le chemin inverse, et révélait l'imaginaire contemporain de Brésiliens sur la France. L’échantillon d’interviewés fut complété avec cinq Franco-Brésiliens, ayant à l'esprit le fait que ces enfants des deux mondes pourraient témoigner d’un nouveau regard sur la question, utile à notre démarche. Il faut dire que l’approfondissement attendu ne s'est pas produit : l’enquête a confirmé, si besoin était, que le pays où l'on habite pendant l'enfance et l'adolescence reste particulièrement prépondérant dans la construction de l'imaginaire sur l'autre, même en présence d’un père et/ou d’une mère étrangère. Et, cela, parce que l’environnement culturel de l’enfance confine le sujet dans un univers composé d’une série d'espaces formateurs et de cercles de sociabilité propres à ce lieu et chargés de sa vision du monde, espaces et cercles extrêmement contraignants dans la construction de l’identité, par rapport à l’interaction sociale que la famille mixte rendrait possible. Finalement, lors de l’analyse du corpus, nous avons opté pour donner la priorité, dans la structure de la thèse, aux témoignages des migrants, qu’ils soient Français vivant ou ayant vécu au Brésil ou Brésiliens établis en France, à présent ou par le passé. Et, parmi les migrants temporaires, c’est-à-dire, ceux qui restent ou sont restés à l'étranger pour un temps bien délimité, ce sont ceux qui parcourent le monde pour leurs études qui ont fait l’objet d’un surcroît d’attention. Face à un corpus documentaire étendu, riche et complexe, composé de soixante entretiens, et qui exigeait un découpage, les options formulées ci-dessus se justifient, tout d’abord, parce que les entretiens des migrants se sont révélés plus intéressants par rapport aux questions posées par la recherche. Si la rencontre de l’individu avec un nouveau monde n’a pas vraiment provoqué une révolution dans son imaginaire, elle s’est en revanche avérée efficace pour mobiliser cet imaginaire et le faire émerger à la surface. En effet, comme ce travail le démontre, l'imaginaire voyage avec l’homme et c’est à travers lui que se perçoit et 268 se définit l’altérité, à travers lui que se vit, enfin, l'expérience de l'autre. Il a été, en outre, confirmé le fait que l'imaginaire est fondamental dans le processus migrateur, car la façon dont un lieu est conçu par l’imaginaire stimule ou freine ce processus. Et, dans la mesure où l'imaginaire relatif au lieu de destination du migrant constitue un élément déterminant dans l’explication du processus migratoire, sa reconstitution devient un moyen d’y accéder. L'attention accordée aux étudiants en mobilité nous a imposé, à son tour, la prise en considération des identités particulières : Qui sont ces Brésiliens rencontrés à Rennes et qui sont les Français de Belo Horizonte, villes où la recherche fut menée ? Des deux côtés de l'Atlantique, ils se distinguent parmi les migrants temporaires. Dans cette catégorie, leur octroyer une place prééminente signifie donc privilégier un noyau essentiel, aussi bien à Rennes qu’à Belo Horizonte. Plus encore, cela veut dire donner la parole à la seule catégorie de migrants temporaires qui permet d'établir le dialogue entre les deux lointains espaces, puisqu’on la retrouve dans les deux villes. Une série de découpages superposés a ainsi affiné l'objet de l'étude de cette recherche historique sur l'imaginaire français sur le Brésil et l'imaginaire brésilien sur la France, dans la contemporanéité. Nous avons choisi comme point de départ, parmi tous ces possibles, l’étude du propre imaginaire de Français et des Brésiliens, mis en relation par des entretiens oraux. Ont été interviewés, trois groupes, auxquels vint s'ajouter un quatrième, composé de migrants, de touristes, de ceux « qui n’y sont jamais allés » et de Franco-Brésiliens. (Ces groupes révèlent la place centrale accordée à la nationalité, ce qui se traduit par un désir de réfléchir sur la manière dont nous sommes perçus, en dialogue avec la manière dont nous percevons l’autre. En plus, ils illustrent l'importance accordée à l'expérience de l'autre et à la nature de cette expérience, ce qui fait sens par rapport à l'hypothèse de départ, selon laquelle une telle rencontre pourrait révolutionner l'imaginaire.) Nous avons, enfin, donné la priorité, dans l'analyse, aux expériences des migrants permanents et des migrants temporaires, en donnant la priorité, par rapport à ces derniers, aux étudiants en mobilité internationale. La méthodologie choisie pour cette étude est celle de l’histoire orale. C’est elle qui fonde et régit les démarches de la recherche et fonctionne comme un pont entre la théorie et la pratique. En ce qui concerne l'aspect méthodologique, trois éléments méritent d’être explicités : 269  Quatre guides d'entretien furent élaborés, un pour chacun des groupes d’interviewés, celui des migrants, celui des touristes, le groupe de « ceux qui n’y sont jamais allés » et les Franco-Brésiliens. Ces guides ont orienté le processus de construction des sources historiques à dépouiller, sans toutefois l’enclore.  La définition des sujets impliqués dans le développement de la recherche n'a pas suivi des règles rigides, étant, néanmoins, soumise à des critères judicieux. Nous savions, dès le départ, qu'il fallait questionner des échantillons de Français et de Brésiliens, en nombre plus ou moins équivalent, pour que le dialogue entamé soit équilibré. Nous étions aussi conscients de la nécessité de constituer quatre catégories d'entretiens, correspondants aux quatre groupes d’interviewés : les migrants, les touristes, « ceux qui n’y sont jamais allés » et les Franco-Brésiliens. Avec ces deux impératifs à l'esprit et en considérant le portrait des Brésiliens établis à Rennes et les observations concernant les Français établis à Belo Horizonte – construits à partir de quelques entretiens-clés, de conversations exploratoires, d'échanges avec d’autres chercheurs et de l’étude de la bibliographie – nous sommes alors allés à la rencontre d’un échantillon représentatif de sujets capables de rendre compte de l’hétérogénéité qui traverse la réalité. De plus, la préoccupation d’établir un échantillon varié du point de vue du profil socio-économique a toujours fait partie du processus de sélection des interviewés.  L'enregistrement et la transcription des entretiens ont suivi les paramètres définis par le Centre de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) de la Fundação Getúlio Vargas (FGV), référence pionnière de l'histoire orale au Brésil. Avant de passer aux résultats de la recherche, nous utiliserons un tableau pour présenter les soixante personnes interviewées. 270 TABLEAU 1 Interviewés Prénom Lieu de Naissance Année de Naissance Période passée au Brésil ou en France Ville de Destination Motif du Déplacement Profession Profil de l’interviewé Adélia Arco Verde/PE 1952 1977-1978 1991-1995 1999 - ... Besançon Rennes Rennes Étude (Licence) Mariage Mixte Mariage Mixte Femme au Foyer Brésilienne qui habite en France Agnès Le Havre (prox.) 1986 2007 - ... Belo Horizonte Étude (Stage Universitaire Obligatoire) Stagiaire à l’Alliance Française Française qui habite au Brésil Albert Rennes (prox.) 60 ans (approx.) Plusieurs séjours de courte durée, à partir de 2000 Rio de Janeiro Tourisme Guide Touristique Français qui a voyagé au Brésil Ana Recife 1985 1991-1995 1999 - ... Rennes Famille (Séjour Professionnel du Père) Étudiante (Cours Préparatoire Baccalauréat) Franco- Brésilienne Anderson São Paulo 1981 - - - Employé à Carrefour Brésilien qui n’est jamais allé en France 271 Ângela Santo André/SP 1949 1971-1972 1974-1978 1983-1986 1996-1997 2006-2007 Paris Paris Paris Paris Paris Étude (Échange Universitaire) Étude (Maîtrise, DEA) Étude (Doctorat) Recherche (Post- Doc) Recherche (Post- Doc) Professeur d’Université Brésilienne qui a habité en France Annïck Belém 30 ans (approx.) 2000 - ... Vivier-sur-Mer Dol-de-Bretagne Rennes Double Nationalité Au Chômage Franco- Brésilienne Benjamin Nantes 1975 - - - Gérent d’Hôtel Français qui n’est jamais venu au Brésil Caio Rio de Janeiro 1976 2000 - ... Rennes Mariage Mixte Homme au Foyer Brésilien qui habite en France Cecília Belo Horizonte 1980 1984-1988 2004-2005 Toulouse Toulouse Famille (Doctorat des Parents) Famille (Mestrado du Mari) Étudiante (Mestrado) Brésilienne qui a habité en France Cédric Rennes (prox.) 1978 2004-2005 Rio de Janeiro Étude (Master) Étudiant (Doctorat) Français qui a habité au Brésil Célia Juíz de Fora/MG 1983 2004-2005 Paris Étude (Échange Universitaire) Étudiante (Mestrado) Brésilienne qui a habité en France Charles Paris 1984 2007 - ... Belo Horizonte Étude (Échange Universitaire) Étudiant (Licence) Français qui habite au Brésil 272 Dominique Paris 75 anos (approx.) 1963 - ... Belo Horizonte Mariage Mixte Agronome à la Retraite Français qui habite au Brésil Eduardo Belo Horizonte 1977 1998-1999 Paris Famille (Post-Doc de la Mère) Entrepreneur (PME) Brésilien qui a habité en France Elizabeth Bretagne 1946 1986 1992 2002 Paraíba/ Pernambuco Divers endroits Divers endroits au Nordeste Adoption du Fils Voyage avec le Fils Enseignante Française qui a voyagé au Brésil Elvira Salvador 1953 2004 - ... Rennes Famille (Séjour Professionnel du Fils) Femme au Foyer Brésilienne qui habite en France Emerson Salvador 1983 2004 - ... Rennes Travail Footballeur Brésilien qui habite en France Érica Belo Horizonte 1980 2005 Lyon Étude (Cours de Langue) Professeur d’Anglais Brésilienne qui a habité en France Fernand Chelun (prox. Rennes) 1946 1978-1985 Recife Travail (Attaché Pédagogique du Consulat de la France) Enseignant Français qui a habité au Brésil Francisca Belo Horizonte 1973 1992 Besançon Travail (Stage dans une troupe de théatre) Actrice Franco- Brésilienne Gérard Charente Maritime 1950 1998 - ... Belo Horizonte Travail (Ouverture d’une Entreprise) Entrepreneur (PME) Français qui habite au Brésil 273 Glenda São Tiago/ MG 1939 - - - Femme au Foyer Brésilienne qui n’est jamais allée en France Guilherme Belo Horizonte 1982 - - - Guardien Brésilien qui n’est jamais allé en France Guillaume Paris 1978 2006 - ... Belo Horizonte Travail (Ingénieur) Ingénieur Entrepreneur (PME) Français qui habite au Brésil Gustave Nantes 1950 2000 - ... Belo Horizonte Mariage Mixte CRS en Retraite Français qui habite au Brésil Iara Belo Horizonte 1978 2001 2006 Paris Vallenciennes Tourisme Travail (Ingénieur) Ingénieur Brésilienne qui a habité en France Inácio Sabará/MG 1954 1990 - ... Paris Rennes Mariage Mixte Danseur Brésilien qui habite en France Irene Belo Horizonte 1944 2000 - ... Rennes Mariage Mixte Artiste Brésilienne qui habite en France Jacqueline Rennes 1923 - - - Épicière en Retraite Française qui n’est jamais venue au Brésil Jean Paris 1964 1989 - ... Belo Horizonte Passion pour le Brésil Entrepreneur (PME) Producteur Culturel Français qui habite au Brésil João São Paulo 1983 2001 Paris Tourisme Étudiant (Mestrado) Brésilien qui a voyagé en France 274 José Belo Horizonte 1983 - - - Étudiant (Graduação) Brésilien qui n’est jamais allé en France Josephine Paris 1944 1978-1979 Brasília Famille (Séjour Professionnel du Mari) Médecin Française qui a habité au Brésil Kelly São Luís 1988 2004 - ... Rennes Famille (Mariage Mixte de la Mère) Étudiante (BEP Carrières Sanitaires Sociales) Brésilienne qui habite en France Lair Belo Horizonte 1933 1959-1963 Paris Étude (Doctorat) Professeur d’Université en Retraite Brésilienne qui a habité en France Leonardo Belo Horizonte 1975 - - - Enseignant Brésilien qui n’est jamais allé en France Lidia Dinan 1980 2002 Porto Alegre et Sud du Brésil Tourisme Professeur de Français Française qui a voyagé au Brésil Lígia São Paulo 1950 1972 2002 2006 - ... Paris Paris Rennes Tourisme Travail (Recherche) Étude (Post-Doc) Professeur d’Université Brésilienne qui habite en France Louis Guimguamp 1946 1986 1996 2002 Paraíba Divers Endroits Divers Endroits au Nordeste Adoption du Fils Voyage avec le Fils Journaliste Français qui a voyagé au Brésil Marcel Paraíba 1986 1986 - ... Rennes Famille (Adoption par une Famille Française) Étudiant (CAP Carreleur) Franco-Brésilien 275 Marie Rennes 1944 - - - Enseignante à la Retraite Française qui n’est jamais venue au Brésil Marion Quimper 1984 - - - Étudiante (Master) Français qui n’est jamais venue au Brésil Marinês Recife 1956 1988 2006 Tour de France Tourisme Médecin Brésilienne qui a voyagé en France Mathieu Rennes 1987 - - - Étudiant (Licence) Français qui n’est jamais venu au Brésil Morena Belo Horizonte 1980 1998 2001 2006 - ... Paris Paris Lyon (prox.) Rennes Tourisme Tourisme Au Pair Étudiante (Licence) Étudiante (Licence) Brésilienne qui habite en France Nádia Olinda 1968 2004 - ... Rennes Mariage Mixte Femme de Ménage/ Assistente Maternelle Brésilienne qui habite en France Nicolas Mayenne 1966 1995-2000 São Carlos/ SP Travail (Chimie) Étude (Post-Doc) Professeur d’Université Français qui a habité au Brésil Nicole Saint Brieuc 1974 Rio de Janeiro Tourisme Architecte Française qui a voyagé au Brésil 276 Patrick Rennes 1978 - 2006 - Salvador - Tourisme Avocat Français qui n’est jamais venu au Brésil Français qui a voyagé au Brésil Paula Belo Horizonte 1969 1994 - ... Rennes Étude Danseuse Brésilienne qui habite en France Pierre Recife 1982 1991-1995 1999 - ... Rennes Famille (Séjour Professionnel du Père) Étudiant (Licence) Franco-Brésilien Philippe Paris 1987 2006 - ... Belo Horizonte Étude (Échange Universitaire) Étudiant (Licence) Français qui habite au Brésil Sílvio Nort de l’État de Minas 1964 1996 - ... Rennes Mariage Mixte Entrepreneur (PME) Brésilien qui habite en France Vicente Belo Horizonte 60 ans (approx.) Longue période, entre la dictadure militaire et très récemment Paris et d’autres villes de l’intérieur de la France Exilé Politique Retraite pour Invalidité Brésilien qui a habité en France Virginie 40 ans (approx.) 1995-2000 São Carlos/ SP Famille (Séjour Professionnel du Mari) Professeur d’Université Française qui a habité au Brésil Viviane Belo Horizonte 1987 - - - Étudiante (Graduação) Brésilienne qui n’est jamais allée en France Yann Rennes 40 ans (approx.) 1984 1987 Juçaral/PE Bénévolat Français qui a habité au Brésil 277 Yves Bretagne 1978 Plusieurs périodes, à partir de la fin des années 1990 Mato Grosso, principalement Recherche de Terrain Doctorat en Co- tutelle avec l’UnB Maître de Conférence Français qui a habité au Brésil 278 Nous avons appelé « Brésiliens de Rennes » les Brésiliens immigrés de manière plus ou moins définitive dans cette ville. Parallèlement, ont été appelé « Français de Belo Horizonte » les Français s’étant installés plus ou moins définitivement à Belo Horizonte. Ces deux groupes s'opposent à deux autres, définis comme étant celui des « Brésiliens à Rennes » et celui des « Français à Belo Horizonte », groupes constitués par des Brésiliens et respectivement par des Français en déplacement à l’étranger pour une période déterminée. Pour nous référer aux migrants brésiliens en France ou aux migrants français au Brésil, permanents ou temporaires, qui dépassant les frontières de Rennes et de Belo Horizonte, nous avons employé, sur le modèle précédant, les expressions « Brésiliennes de France » et « Brésiliens en France » ou « Français du Brésil » et « Français au Brésil ». Ce travail de recherche a permis de tracer un portrait des Brésiliens vivant à Rennes. Les « Brésiliens de Rennes » sont, pur la plupart, des femmes brésiliennes mariées à des Français, et il faut dire que les hommes brésiliens localisés dans cette ville y sont aussi, dans leur majorité, suite au mariage mixte avec une Française. Organisés en communauté, ces individus participent d'un noyau central ou gravitent autour d'un noyau, à savoir, l'Association « Brésil au Féminin » ou un groupe d'artistes brésiliens, le premier étant le plus important. Les « Brésiliens à Rennes » sont surtout des étudiants. Parmi eux, se distinguent : les jeunes au pair, les étudiants en français, en échange universitaire et en licence, les doctorants et les post-doctorants. Trois catégories d’oppositions donnent ainsi forme au portrait des Brésiliens qui vivent à Rennes : migrants permanents vs migrants temporaires, femmes vs hommes et l’Association « Brésil au Féminin » vs les artistes brésiliens. Sur l’autre rive de l'Atlantique, le tableau esquissé présente des contours beaucoup moins précis. Les « Français de Belo Horizonte » sont, principalement, des hommes français mariés à des Brésiliennes, les « Français à Belo Horizonte » étant, à leur tour, des étudiants français ou des Français en mission professionnelle, eux aussi essentiellement des hommes. Le déséquilibre des données présentées au Chapitre 1, qu’un lecteur pressé pourrait prendre pour le résultat d'un déséquilibre dans le recueil des données, n’en est pas un : il s’agit, en réalité, d’une conséquence du déséquilibre effectif entre les « Brésiliens de/à Rennes » et des « Français de/à Belo Horizonte ». Si, d'un côté, il y a un groupe relativement grand et bien structuré, de l'autre, apparaît un groupe relativement petit, constitué par des individus dépourvus de connexions entre eux. Tout au long de la thèse, nous avons cherché à donner les réponses à cinq questions fondamentales : Qu’est-ce qu’attire les Brésiliens à Rennes ? Par quoi les Français sont-ils 279 séduits à Belo Horizonte ? Pourquoi les Brésiliens ont-ils choisi d’étudier en France ? Qu’est- ce que pousse les Français à venir étudier au Brésil ? Qu’est-ce que les causes de ces migrations nous enseignent-elles sur l'imaginaire concernant le lieu de destination migratoire? Ainsi, c'est entre les lignes de cette quête de l'autre qu’est la migration que nous avons essayé d'atteindre l'imaginaire sur cet autre du sujet qui migre. Comprendre les raisons qui font que des Brésiliens aménagent à Rennes et accéder à leur imaginaire sur la France exige de les situer dans la trame des migrations internationales contemporaines. Depuis 1980, le Brésil n’est plus un pays d'immigration mais, au contraire, d'émigration. Les années 1980, connus comme « la décennie perdue », ont été marquées, au Brésil, par la désespérance face à la grave crise sociale et économique qui a dévasté le pays. C'est dans ce contexte que les Brésiliens ont commencé à courir le monde, en partance vers les États-Unis, l'Europe Occidentale, le Japon, le Canada et l'Australie. Les « Brésiliens de Rennes » grossissent les rangs de ceux qui cherchent le centre du monde. Ils cherchent avant tout à quitter le Brésil et la dure réalité de leur vie quotidienne. Et, si le pays natal apparaît, dans l'imaginaire brésilien, comme étant la terre de la misère ou, selon l’expression préférée des interviewés, celle du sous-développement, du Tiers-Monde, la France apparaît comme terre de la richesse ou, toujours selon les interviewés, du développement, du Premier Monde. Antonyme du Brésil qu’ils affrontent, la France Imaginaire, tout comme les autres grandes puissances, gagne le statut d'Eldorado des temps mondialisés. La spécificité des histoires de migration des « Brésiliens de Rennes » – par rapport aux histoires de migration des Brésiliens qui ont choisi d’autres destinations migratoires, comme les Etats-Unis – c’est la stratégie la plus employée pour migrer. Dans la majorité des cas, c'est en vue d’un mariage mixte avec un(e) Français(e) que le/la Brésilien(ne) débarque en France. Voici les caractéristiques que nous avons pu identifier de ces histoires de migration économique entrelacées à des histoires d'amour : 1. Le couple est composé, dans à la majorité des cas, d’une Brésilienne et d’un Français ; 2. Le/la Brésilien(ne) qui entre en couple a, d'habitude, des caractéristiques physiques qui rappellent une origine africaine ou indigène ; 3. Les membres du couple se connaissent, en général, quand le/la Français(e) voyage au Brésil ou y habite ou quand le/la Brésilien(ne) vient visiter un membre de sa famille en France, un parent marié à un(e) Français(e) qu’il avait connu au Brésil ; 280 4. Comme les membres du couple ne parlent généralement pas la même langue au moment de la rencontre, le premier contact est d’habitude sexuel ; 5. Peu de mois séparent, la plupart du temps, la première rencontre du futur couple de la immigration en France du/de la Brésilien(ne); 6. L'union étant rarement officialisée au moment de l’immigration, il est fréquent que le/la Brésilien(ne) reste illégalement en France pour une période plus ou moins longue; 7. Le/la Brésilien(ne) qui se marie rencontre rarement de problèmes sérieux d'adaptation en France, ayant vite compris, dans la majorité des cas, le bénéfice tiré des conditions de vie bien meilleures que celles dont elle jouissait précédemment au Brésil ; 8. L’époque qui précède la migration est, pour le/la Brésilien(ne), celle d’une situation conflictuelle qui le/la pousse à partir ; 9. Le mariage avec un(e) Français(e) et la venue en France sont envisagés comme la solution aux problèmes vécus au Brésil ; 10. En opposition à la réalité vécue au Brésil, la France émerge dans l'imaginaire associée aux autres grandes puissances ; 11. Même lorsque le couple divorce, après le décès du membre français ou quand le processus de migration est extrêmement problématique, le/la Brésilien(ne) a tendance à rester en France ; 12. Nombreux sont les Brésiliennes mariées à des Français qui, au moment où le mariage a lieu, se trouvent exclues du marché matrimonial brésilien, soit de par l'âge avancé, soit pour avoir eu des enfants d'autres unions ; 13. Sur le marché matrimonial français, la valeur ajoutée, dans le cas des Brésiliennes qui se marient avec des Français, est l’image mythique de la Brésilienne qui peuple l'imaginaire français et trouve écho au Brésil aussi, auprès des Brésiliennes en quête d’époux ; 14. Si la Brésilienne qui épouse un Français a des enfants d'autres unions, les enfants émigrent vers la France quelque temps après leur mère, dans le cadre de la procédure de regroupement familial, ou restent au Brésil, mais en bénéficiant de la nouvelle situation de leur mère. 281 Au contraire des « Brésiliens de Rennes », les « Français de Belo Horizonte » prennent le chemin inverse au mouvement migratoire international contemporain, caractérisé par l’émigration massive de personnes originaires des pays peu développés, entre lesquels le Brésil, vers les grandes puissances. Ce ne sont pas les problèmes économiques qui poussent les « Français de/à Belo Horizonte » à quitter leur terre natale, en idéalisant le Brésil comme « lieu-solution » : ils tombent tout simplement amoureux fous d’une Brésilienne, une femme qui, pour eux, incarne la Brésilienne imaginaire, ou du Brésil lui-même, conçu dans l'imaginaire avec des formes féminines, et finissent par s'installer de l'autre côté de l'Atlantique. Ce qui veut dire que, du Brésil vers la France, le migrant est surtout à la recherche d’une vie meilleure, alors que dans l'autre direction, la migration s’explique seulement lorsqu’on prend en considération une relation subjective. Dans une telle relation, le Brésil est une femme, plus encore, il est « la Brésilienne », sachant qu’on attribue aux Brésiliennes une certaine image du Brésil. La femme devient, ainsi, le symbole de la nation et sa féminité se définit dans son imbrication avec la nationalité. Tantôt amante, tantôt prostituée, tantôt bonne épouse, ce Brésil-Brésilienne ou cette Brésilienne-Brésil est l’objet du désir, au point de promouvoir des dislocations sur la planète. Il faut noter que le mariage mixte est, en dernière instance, la circonstance majeure qui régit l’immigration en France de bon nombre de Brésiliens et, en particulier, de Brésiliennes, et d'un nombre raisonnable de Français, principalement des hommes. Le mariage finit donc par fonctionner comme métaphore d'une relation établie aussi au niveau de l'imaginaire. En fait, de la même manière que la dure réalité concrète emmène les « Brésiliens de Rennes » à situer leur Eldorado en France, dans le contexte de la réalité mentale ; une réalité mentale qui a comme personnage central « la Brésilienne » finie par fonctionner comme terrain fertile pour les mariages entre Français et Brésiliennes. Ce qui veut dire que, à l'origine des histoires d'amour, il se trouve un imaginaire marié. A une époque où les frontières entre les pays deviennent de plus en plus difficiles à traverser, surtout pour les ressortissants des couches populaires, les Brésiliennes mobilisent en leur faveur, sur le marché matrimonial, cet imaginaire français sur le Brésil. En le faisant, elles jouent avec l'identité et l’altérité, en incorporant la Brésilienne imaginaire et en contribuant ainsi à la perpétuer. Mais, si le mari français fonctionne en même temps comme une porte de sortie du Brésil, une porte d'entrée dans un pays développé et un pont entre les deux espaces, la femme brésilienne ne reste pas moins une ouverture vers un monde de 282 plaisirs et d'excès, tout ce qu’il y a de contraire à la France du travail, de la routine, de la monotonie, de la fadeur. Elle surgit aussi peut-être comme cette femme que la Française refuse dorénavant d’être, simplement parce qu’elle a d’autres priorités au moment où elle cherche son compagnon ou parce que les possibilités de négocier avec lui les rôles traditionnels sont minimes. Voici pourquoi, lorsque les Français débarquent sur nos plages, les poches pleines d'euros, pour y vivre comme des rois, ils se laissent séduire. Eux, en vérité, ils sont séduits d'avance, et, en considérant que la conjugalité peut enfin être conjuguée avec la sexualité, ils voient dans ces « indigènes » calientes et soumises de potentielles bonnes épouses. L'impact que le mariage mixte a sur les trajectoires de la migration est indubitable. Il facilite tout particulièrement le déplacement des Brésiliennes pauvres, en diminuant de manière considérable son coût, puisque le financement est presque toujours pris en charge par le conjoint étranger, lequel garantit aussi l’accueil dans le pays d’arrivée, ce qui inclut non seulement un toit mais aussi l'insertion dans une famille locale et une meilleure intégration dans la nouvelle réalité. De surcroît, le mariage mixte rend possible la poursuite légale du séjour à l'étranger, ainsi que l'accès à la protection sociale (assistance médicale, indemnité de chômage, pension d’invalidité, retraite, assistance sociale, etc.). Nous aborderons maintenant le cas des étudiants en mobilité internationale. Celui-ci met en évidence les tendances suivantes : la majorité absolue (62%) est composée de personnes de pays peu développés qui choissent de se rendre dans un pays développé alors qu’une faible minorité seulement (8%) est composée de personnes faisant le chemin inverse. Une fois de plus, les Brésiliens qui vont étudier en France n’échappent pas à la tendance majoritaire, alors que les Français venus étudier au Brésil s’inscrivent clairement dans la tendance minoritaire. Les Brésiliens qui viennent étudier en France sont attirés, en général, par une formation et une expérience valorisantes au Brésil, sur les marchés scolaire, professionnel et social, ce qui ne veut pas dire, nécessairement, de meilleure qualité. Immergés dans un processus de banalisation des diplômes, conséquence d'un autre processus, celui de la démocratisation de l'accès à l'école, ils pensent que le séjour à l’étranger leur garantit une distinction sociale mobilisable dans la recherche d’un bon emploi et dans la conquête du prestige ; démarche qui vise à maintenir un niveau social voire accéder à la classe supérieure. Et ils ne se trompent pas, car, dans les pays moins développés, la reproduction des élites se fait, traditionnellement, hors de chez soi. Dans l'imaginaire des « Brésiliens de Rennes », la 283 France continue à être un pays supérieur au Brésil. Toutefois, ses contours actuels ne lui confèrent plus l’aura d'un Eldorado mais plutôt celle de métropole culturelle, ce que la France était, en fait, au XIXe siècle et durant la première moitié du XXe, c'est-à-dire, entre le moment où le Portugal a perdu cette qualité et le moment où les États-Unis l’ont reprise à leur compte. Tout se passe comme si des résidus de cette période survivaient, d’une certaine manière, dans l'imaginaire. Un grand conflit marque le séjour des étudiants brésiliens à l'étranger, un conflit qui devient conscient au moment du retour à la terre natale. Si le retour au Brésil est aussi souvent motif de souffrance pour celui qui a fait des études en France, c'est parce qu’il se sent forcé d’y retourner, même lorsqu’il n’en a pas l’envie. Il s’aperçoit que seulement une fois à la maison que s’ouvre devant lui un avenir prometteur, scellé par le diplôme français. À Paris, il n’est qu’un étranger de plus, en compétition désavantageuse avec les natifs. Tout comme le Brésilien pauvre qui migre pour fuir la dure réalité du pays, l’autre, le Brésilien issu des élites de la société, tourne le dos au Brésil, car c'est hors du pays qu’il se projette et se réalise. Le séjour pour études en France fonctionne aussi, pour les Brésiliens et en particulier pour les Brésiliennes, comme un moyen de pénétrer le marché international des mariages et de conquérir un conjoint français, conjoint qui, par le simple fait d'être originaire d’un pays développé, est plus valorisé. En fait, beaucoup de ceux qui quittent le Brésil pour étudier sans un projet bien consolidé de formation finissent par se marier et par s’exiler définitivement. Dans ce cas, la mobilité internationale garantit un prestige social d'un autre ordre, celui d’avoir un « super-conjoint » français et de vivre à Paris. Sont développés, dans la suite du travail, les éléments prépondérants dans le processus de migration temporaire de Brésiliens vers la France pour un séjour d'études : 1. Les étudiants brésiliens en France appartiennent, en général, aux couches privilégiées de la population; 2. Ils sont, en général, inscrits à l'université ou ont déjà conclu le cycle complet de l'enseignement supérieur et partent pour parachever leur formation en maîtrise, DEA, master, doctorat ou post-doctorat, suivre un enseignement linguistique ou travailler au pair pour apprendre le Français ; 284 3. Une minorité seulement semble être constituée par de Brésiliens plus jeunes, qui n'ont pas encore achevé l'enseignement secondaire et qui participent à un échange entre les établissements respectifs ; 4. Les étudiants brésiliens en France peuvent être divisés en deux groupes, l’un, composé de ceux qui disposent d’un financement pour poursuivre les études à l'étranger, l’autre, formé de ceux qui n’ont pas cette chance ; 5. Les boursiers du Gouvernement Brésilien ou du Gouvernement Français viennent en France à la recherche d'un diplôme étranger valorisant ou pour acquérir une expérience qui fera la différence sur le marché du travail, ce qui veut dire qu’ils ont déjà un projet de formation bien construit lorsqu’ils se déplacent ; 6. Ceux qui ne bénéficient pas de bourses d'études se divisent, eux aussi, en deux sous- groupes, le premier, constitué par ceux qui partent à la recherche du prestige conféré par un séjour à l’étranger, et le second, qui réunit les utilisateurs du séjour d’études comme possible stratégie matrimoniale et de migration ; 7. Alors que les boursiers, non sans conflits intérieurs, tendent à retourner au Brésil, lieu où les études à l'étranger sont susceptibles d’ouvrir des portes, les non-boursiers peuvent devenir plus facilement des migrants permanents, particulièrement à partir de mariages conclus avec des Français ; 8. La France surgit dans l'imaginaire encore avec son aura de métropole culturelle d’élection pour le Brésil, ce qu’elle était aux XIXe et XXe siècles. L’étude traite encore des différences fondamentales entre les étudiants candidats au mariage – majoritairement des femmes – et des « Brésiliens de Rennes », dont l’histoire est surtout une histoire de migration économique marquée par un mariage mixte. Et, cela, parce que, si l'union avec un Français, qui débouche sur l'installation définitive en France, rapproche leurs parcours, elle fait état en même temps de particularités bien déterminées : 1. Les « étudiants candidats au mariage » semblent avoir vécu des situations tout aussi compliqués que les « Brésiliens de Rennes », dans les temps antérieurs à leur départ, mais ils n'appartiennent ni aux couches populaires ni aux couches moyennes mais bien aux sous-catégories privilégiés de ces dernières ; 285 2. Si, pour les « Brésiliens de Rennes », le mariage avec un Français est la conséquence de la migration vers la France sont aperçus comme solution aux problèmes à affronter au Brésil, pour les « étudiants candidats au mariage », sans que cette fonction soit absente, il s'agit seulement d'une solution de facilité et qui a, en même temps, plus de glamour ; 3. La France n’apparaît donc pas simplement comme un Eldorado postmoderne, pour ces « étudiants à marier », dans la mesure où cette image vient escortée par une autre, celle de la France Métropole Culturelle ; 4. A la différence des « Brésiliens de Rennes », les « étudiants à marier » impliqués dans la trame sont, en général, des jeunes et n’ont pas de descendance d'autres unions, se trouvant de droit sur le marché matrimonial intérieur du Brésil, ce qui veut dire qu’ils confèrent une plus grande valeur à un possible conjoint français qu’à un probable conjoint brésilien, et, cela, non seulement parce que le premier lui ouvre les portes d'une grande puissance mais aussi parce qu'il incarne le glamour que la France représente; 5. Le couple fait connaissance, dans à la majorité des cas, à l’époque où le Brésilien vient habiter en France pour ses études, et c’est ce qui confirme l’hypothèse du séjour d’études à l'étranger utilisée comme stratégie matrimoniale, doublée par une stratégie de émigration ; 6. Les membres du couple parlent la même langue, le Français, au moment de la rencontre, ce qui fait que le premier contact n’est pas uniquement sexuel; 7. Le Brésilien ne reste pas illégalement en France, car il garde son statut d'étudiant jusqu'à l'officialisation de l'union avec le ressortissant Français ; 8. Une fois l'union officialisée, le Brésilien a coutume d’abandonner les études, ce qui semble indiquer que les études n’étaient qu’un prétexte pour pouvoir séjourner en France en toute légalité ; 9. Le Brésilien qui se marie, en règle générale, n’a pas achevé ses études, parfois, il n’a même pas décroché un premier diplôme universitaire, ce qui peut causer de sérieux problèmes d'adaptation en France et provoquer des difficultés à s'établir professionnellement dans son secteur d’activité, étant ainsi souvent obligé a effectuer des travaux lourds et de statut social inférieur. 286 Etant donné que les études au Brésil ne fournissent pas un diplôme valorisant, ni le séjour une expérience significative sur les marchés scolaire, professionnel et social français, puisqu’en France la reproduction des élites a lieu à l'intérieur même du pays, le séjour des étudiants français venus étudier au Brésil ne suit pas la même logique des étudiants brésiliens étudiant à l'étranger. Ce qu'ils cherchent, c’est l’ailleurs, le lointain, le différent, l'insolite, l'aventure, les vacances, le paradis… Loin d’afficher un projet de formation bien bâti, la période passée au Brésil est, pour l’étudiant français, l'antithèse du travail, fonctionnant donc comme une trêve dans le temps et dans l’espace par le labour caractérisé : leurs universités d'origine. A remarquer le fait que, encore une fois, le Brésil surgit dans l'imaginaire comme une ouverture vers le contraire de la France. Il ne faut pas oublier, par conséquent, le fait que les représentations imaginaires, tant de la France que du Brésil, s’imposent comme des métaphores du Paradis, dans le jeu des regards croisés entre les Français et les Brésiliens. Si le Brésil ensoleillé des grandes plages aux palmiers est paradisiaque pour les Français, la France-Eldorado est tout aussi paradisiaque pour les « Brésiliens de Rennes ». En pleine désacralisation du monde, le profane a gagné de plus en plus de terrain sur le sacré, jusqu'au point de s'inventer un paradis sans dieu, rêve d'abondance, de liberté et de joie de vivre. Aussi bien l'Eldorado que le processus de sécularisation, qui présuppose une sexualisation, se retrouvent dans ce nouveau paradis. Enfin, notre travail de recherche arrive à identifier les imaginaires contemporains qui relient le Brésil et la France comme étant, l’un, un imaginaire colonisé (d'ici vers là-bas) et, l’autre, un imaginaire colonial (depuis là-bas). Cela veut dire qu'ils ont été forgés dans le contexte de la colonisation, où le Brésil occupait la place du colonisé et la France celle du colonisateur, places qui définissent la manière de se regarder soi-même (identité) et le regard que l’on porte sur l'autre (altérité), en accord avec ces places alors occupées. La France est un Eldorado pour les « Brésiliens de Rennes ». Mais combien de pays pauvres a-t-il fallu pour faire un pays riche ? La migration internationale de notre temps marqué par le flux massif de populations originaires de pays sous-développés vers les pays riches, une des sources de production de l'imaginaire, est fille de la colonisation : c’est le retour des caravelles. Après tout, l'ordre mondial dans lequel baigne la planète et qui se trouve à la base de ces déplacements de populations, a comme origine le passé colonial. Et la dure 287 réalité qui pousse hors de la terre natale et fait entrevoir des mirages à l'horizon n’est rien d’autre que l'expression, au niveau micro-historique, de cet ordre mondial. Si on veut aller encore plus loin, on peut dire que, s’il est possible de parler d’imaginaire colonisé, c’est parce que la relation qui s'établit est de type colonial, c'est-à-dire, entre la métropole et sa colonie et vice versa. Et ce n’est pas par hasard que, sur le marché des diplômes, au Brésil, certains diplômes étrangers, parmi lesquels les français, ont bien plus de valeur qu’un diplôme brésilien, ce qui fait que l'élite continue à aller étudier en Europe et, au siècle passé, avait déjà élu les États-Unis comme destination pour les études. Cette plus grande valeur ajoutée n'est pas en rapport direct avec la qualité de la formation diplômante. Bien souvent, elle est même de moindre qualité. La plus grande valeur est de l'ordre du symbolique, et elle est liée à l’espace où le diplôme a été accordé. Un diplôme parisien – puisque cette ville continue à être, pour beaucoup, la capitale culturelle du monde – est considéré, par exemple, supérieur à un diplôme brésilien, de par le simple fait d'être français. A l’opposé, comment ne pas reconnaître, derrière les déplacements en sens inverse des « Français de Belo Horizonte » et des étudiants français venus étudier au Brésil, un imaginaire colonisateur, puisqu’ils s’obstinent à réduire le Brésil à son mythe, mythe déjà présent dans les histoires de Thevet et de Léry, datant du XVIe siècle toutes les deux ? Notre pays est « la Brésilienne », notre pays est le Paradis… 288 Anexo C – Roteiros de Entrevista  Migrantes 1. Para começar, eu gostaria que você se apresentasse e que me contasse um pouquinho da história da sua vida, até o momento em que o Brasil/ a França começou a fazer parte dela. Você poderia fazer isso? 2. O que era o Brasil/ a França para você, antes da migração? Qual a imagem que você tinha do país, antes de conhecê-lo? 3. Qual o motivo da sua mudança para o Brasil/ a França? 4. Como transcorreu a mudança para o Brasil/ a França? 5. Quais as suas primeiras impressões do Brasil/ da França, ao chegar no país? 6. Você poderia me contar a história desse tempo passado no Brasil/ na França? 7. Para os migrantes temporários que já tinham retornado à terra natal: E quando você voltou para a França/ o Brasil? O que significou voltar para a França, depois do período vivido no Brasil/ na França? 8. Para os migrantes permanentes: Você viaja para a França/ o Brasil de tempos em tempos? Em caso afirmativo, você poderia me contar a história dessas viagens? O que significa reencontrar a terra natal por reves períodos? 9. O que é o Brasil/ a França para você, hoje, depois da experiência vivida? 10. Para os migrantes temporários que já tinham retornado à terra natal: Você ainda mantém relações com o Brasil/ a França? Em caso afirmativo, quais? 11. Para os migrantes permanentes: Você planeja voltar a viver na França/ no Brasil? Em caso afirmativo, quando e porque? Em caso negativo, porque? 12. Você conheceu/ conhece outros franceses/ brasileiros que viviam/ vivem no Brasil/ na França? Em caso afirmativo, quem são essas pessoas? 13. Você gostaria de me indicar alguém para que eu possa entrevistar? Em caso afirmativo, quem e porque eu deveria entrevistar essa pessoa? 14. Na sua opinião, o que os franceses e os brasileiros, em geral, pensam acerca do Brasil e da França, respectivamente? 289 15. Quando você dizia/ diz que era/ é migrante francês/ brasileiro, qual a reação das pessoas no Brasil/ na França? 16. O que foi o Ano do Brasil na França para você? 17. Você tem algo algo a acrescentar?  Turistas 1. Para começar, eu gostaria que você se apresentasse e que me contasse um pouquinho da história da sua vida. Você poderia fazer isso? 2. O que era o Brasil/ a França para você, antes da viagem turística? Qual a imagem que você tinha do país, antes de conhecê-lo? 3. Qual o motivo da sua viagem para o Brasil/ a França? 4. Como transcorreu a viagem para o Brasil/ a França? 5. Quais as suas primeiras impressões do Brasil/ da França, ao chegar no país? 6. Você poderia me contar a história desse curto período passado no Brasil/ na França? 7. E quando você voltou/ voltar para a França/ o Brasil? O que significou/ significará o fim da viagem e a volta para casa? 8. O que é o Brasil/ a França para você, hoje, depois da experiência vivida? 9. Você planeja voltar à França/ ao Brasil? Em caso afirmativo, quando e porque? Em caso negativo, porque? 10. Você mantém relações com o Brasil/ a França no cotidiano? Em caso afirmativo, quais? 11. Você conheceu/ conhece franceses/ brasileiros que viviam/ vivem no Brasil/ na França? Em caso afirmativo, quem são essas pessoas? 12. Você gostaria de me indicar alguém para que eu possa entrevistar? Em caso afirmativo, quem e porque eu deveria entrevistar essa pessoa? 13. Na sua opinião, o que os franceses e os brasileiros, em geral, pensam acerca do Brasil e da França, respectivamente? 290 14. Quando você dizia/ diz que era/ é francês/ brasileiro, qual a reação das pessoas no Brasil/ na França? 15. O que foi o Ano do Brasil na França para você? 16. Você tem algo algo a acrescentar?  “Os que nunca estiveram” 1. Para começar, eu gostaria que você se apresentasse e que me contasse um pouquinho da história da sua vida. Você poderia fazer isso? 2. Quando eu digo Brasil/ França, quais são as imagens que lhe vêm imediatamente? 3. Como essas imagens que enumerou chegaram até você? 4. Você escuta pessoas ao seu redor falando sobre o Brasil/ a França? Em caso afirmativo, quem são essas pessoas e o que elas dizem à respeito? 5. Você conhece franceses/ brasileiros que mantém relações com o Brasil/ a França? Em caso afirmativo, quem são eles e quais relações eles mantém? 6. Você conhece brasileiros/ franceses radicados aqui na França/ no Brasil? Em caso afirmativo, quem são eles e porque eles migraram? 7. Você gostaria de me indicar alguém para que eu possa entrevistar? Em caso afirmativo, quem e porque eu deveria entrevistar essa pessoa? 8. Na sua opinião, o que os franceses/ os brasileiros, em geral, pensam acerca do Brasil/ da França? 9. O que foi o Ano do Brasil na França para você? 10. Você tem algo algo a acrescentar?  Franco-brasileiros No que diz respeito aos franco-brasileiros, os roteiros de entrevista foram montados caso à caso. Procurávamos identificar, no momento da marcação da entrevista, o local de nascimento, os períodos vividos em cada um dos dois países, as eventuais viagens realizadas em um dos dois países, bem como as nacionalidades do pai e da mãe. O roteiro era montado, 291 então, a partir desses dados, com o objetivo de conhecer a trajetória do sujeito entre os dois mundos. Em seguida, colocávamos as seguintes questões: 1. O que é o Brasil e a França para você, hoje? 2. Você mantém relações cotidianas tanto com a França quanto com o Brasil? Quais relações? 3. Em qual dos dois lugares você planeja seguir a sua vida? Porque? 4. Você conheceu/ conhece franceses/ brasileiros que viveram/ vivem no Brasil/ na França? Em caso afirmativo, quem são essas pessoas? 5. Você gostaria de me indicar alguém para que eu possa entrevistar? Em caso afirmativo, quem e porque eu deveria entrevistar essa pessoa? 6. Na sua opinião, o que os franceses e os brasileiros, em geral, pensam acerca do Brasil e da França, respectivamente? 7. Quando você diz que é franco-brasileiro, qual a reação das pessoas no Brasil/ na França? 8. O que foi o Ano do Brasil na França para você? 9. Você tem algo algo a acrescentar? 292 Anexo D – Trabalhos historiográficos sobre as relações entre o Brasil e a França levantados junto à CAPES e ao Centre de Recherches sur le Brésil Contemporain AGUIAR, José Otávio. Points de vue étrangers: a trajetória de vida de Guido Thomaz Marlière no Brasil (1808-1836). 2003. 298f. Tese (Doutoramento em História). UFMG, Belo Horizonte, 2003. ALVES, Ana Maria de Alencar. 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