A C O N T E C I MENTO e a CIDADE Isabella Flach Gomes ACONTECIMENTO E A CIDADE, UM CONCEITO PARA O URBANO: PONTOS E RISCOS Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção de título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. Área de Concentração: Teoria, Produção e Experiência do Espaço. Orientadora: Vanessa Brasileiro. Belo Horizonte 2021 1 FICHA CATALOGRÁFICA Ficha catalográfica: Elaborada por Marco Antônio Lorena Queiroz – CRB 6/2155. G633a Gomes, Isabella Flach. Acontecimento e a cidade, um conceito para o urbano [manuscrito] : pontos e riscos / Isabella Flach Gomes. - 2021. 119f. : il. Orientador: Vanessa Borges Brasileiro. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Arquitetura. 1. Cidades e vilas - Teses. 2. Espaço urbano - Teses. 3. Espaços públicos - Teses. 4. Movimentos sociais urbanos - Teses. I. Brasileiro, Vanessa Borges. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Arquitetura. III. Título. CDD 307.76 3 4 AGRADECIMENTOS A todos os funcionários da Escola de Arquitetura, especialmente aos que trabalham na Biblioteca e no departamento de Pós-Graduação. A Universidade Federal de Minas Gerais, pública e gratuita, é um bem comum que deve ser defendido. À minha orientadora, Vanessa Brasileiro, pelas instruções, conversas e leituras precisas. Aos membros da banca intermediária, professores a quem tenho grande admiração, Ricardo Fabrino e Rita Velloso. Continuem sendo sempre uma inspiração aos alunos. E a Guilherme Wisnik, membro da banca final, que aceitou gentilmente o convite. Às minhas companheiras e companheiros teóricos, escritores de livros, teses, dissertações, artigos e textos variados que me ajudaram a compor esta constelação. Esta dissertação é fruto de incontáveis mãos. À minha família, que sempre foi símbolo de acolhimento, calma e força. Às amigas, amigos e amigues feitos antes e durante esta jornada. Em ordem cronológica, do ensino médio, da graduação na Escola de Arquitetura, da vida fora da Arquitetura, do mestrado e, pelo motivo do distanciamento social, do jogo de buraco online. Aos amores. E, finalmente, às cidades. 5 6 Uma cidade dentro da outra O vazio e o caos no tempo de uma mesma respiração… Christine Greiner 7 8 RESUMO - O movimento nas cidades é intenso. Testemunhamos várias insurgências que tomam a cidade como palco principal e como objeto de reivindicações dos movimentos sociais. Acontecimento e a cidade propõe a montagem de uma possível constelação do acontecimento urbano, cujos pontos principais são a teoria virtual (um hiato), que auxilia o pensamento sobre o urbano lefebvriano e que também trata de outras relações e consequências a partir da dupla espaço e sujeito usuário; o acontecimento lido pela tradição pragmática; os movimentos sociais das cidades – nas formas das aglomerações episódicas e das lutas emancipatórias, ambas diretamente ligadas ao espaço material e ao direito à cidade –; os sujeitos que corporificam essas insurgências – afinal, não existe uma separação radical entre a experiência coletiva e individual –; e as esferas e os espaços que pressionam os elementos constelares. Tendo como localização temporal a atualidade do século XXI, as práticas socioespaciais são convocadas e revelam-se como ilustrações teóricas. Elas versam sobre ações desviadas de sujeitos, que se interligam à atualização dos espaços durante e depois do acontecimento. Propõe-se, portanto, um panorama teórico que traça, arriscadamente, várias ligações entre esses pontos constelares e auxilia na leitura dos movimentos sociais que ocorrem nas cidades. Palavras-chave: Acontecimento. Movimentos sociais. Urbano lefebvriano. Constelação. 9 ABSTRACT - The cities’ movement is intense as we witness several insurgencies taking the city as the main stage and as the central object of demands. Event and the city proposes the assembly of a possible constellation of the urban event, in which the main points are the virtual theory, that helps us to think the lefebvrian urban and also deals with other relations from the pair space and user; the event read by the pragmatic tradition; the social movements in the cities – in forms of episodic agglomerations and the emancipatory struggles, both directly linked to the material space and the right to city –; the people that embody these insurgencies – after all, there is no radical separation between collective and individual experience –; the spheres and spaces that pressure the constellar elements. Instead of appearing in a cutout, the social and spatial practices are called upon and revealed as theoretical illustrations within the 21st century. They deal with deviated actions from the people, which are linked to the actualization of spaces during and after the event. Therefore, it is proposed a theoretical overview that traces, riskily, several connections between these constellar points and helps in the reading the social movements of the cities. Key-words: Event. Social movements. Lefebvrian Urban. Constellation. 10 SUMÁRIO - 1 INTRODUÇÃO 13 PARÊNTESIS: O VIRTUAL E O ESPAÇO EM ATUALIZAÇÃO 25 2 O ACONTECIMENTO E O FAZER-CIDADE 33 3 OS MOVIMENTOS SOCIAIS E A VIDA NAS CIDADES 47 4 A DESOBEDIÊNCIA 67 5 A ESFERA E O ESPAÇO 83 5.1 As esferas, as adições e os redesenhos 87 5.2 Os espaços materiais e os acontecimentos urbanos 98 6 CONCLUSÃO 113 REFERÊNCIAS 117 CRÉDITOS DAS IMAGENS 123 11 12 1 INTRODUÇÃO - Primavera Árabe no Egito, Occupy Wall Street nos EUA, manifestações na Praça Syntagma na Grécia, Geração à Rasca em Portugal, Movimento dos Indignados na Espanha, Jornadas de Junho no Brasil, Revolução dos guarda-chuvas na região administrativa especial de Hong Kong, Marcha das Mulheres pela legalização do aborto na Argentina, protestos no Chile, protestos no Sudão, reivindicações BLM pelos EUA e protestos na Bielorrússia, movimentos emancipatórios por moradia nas periferias no Brasil, hortas comunitárias e fazendas urbanas na França, cruising na Inglaterra… Falo de acontecimentos que nunca vivi, em locais onde talvez nunca estive, mas sei que as cidades são lugares de intensos acontecimentos. Um dos maiores pressupostos de uma pesquisa tão extensa quanto essa está na constatação da impossibilidade de uma listagem de todos os acontecimentos. Os movimentos anteriormente citados representam uma porcentagem ínfima diante da miríade de ocorrências insurgentes no século XXI. São exemplos fragmentários da constelação que é o acontecimento: em meio a crises políticas, sociais, econômicas, culturais, tratam de várias manifestações contra a precariedade imposta às pessoas, práticas em curso em prol de mudanças (revoluções ou reformas). É por isso que os sujeitos1 ocupam as ruas, as praças, lotes abandonados, locais de fluxo de veículos, territórios públicos ou privados; para manifestar contra uma condição de vida que não se sustenta mais por diversos motivos. 1 A linguagem e a escrita são ferramentas que servem à manutenção de um sistema hierárquico, mas que também podem ser colocadas à reflexão constantemente. O texto que segue tem como princípio amenizar as distâncias linguísticas, aplicando o modo de escrita de Grada Kilomba em Memórias da Plantação (2019), de maneira a abarcar uma maior quantidade de pessoas. Em tal livro, a autora escreve sobre a problemática da língua portuguesa em reduzir a palavra sujeito ao masculino, sem permitir variações para o feminino ou para outras identidades. A não-inscrição dessas grafias aponta para a condição da não-existência dessas pessoas na própria língua e nos imaginários coletivos. Por concordar com Kilomba, opto por utilizar sujeito em itálico ao longo desse texto. Além da grafia especial de sujeito, os conceitos referenciais também aparecerão em itálico. 13 Guardadas as singularidades de cada movimento, o importante é perceber que talvez exista uma acumulação de experiências, reportada na História e na Comunicação, que faça emergir forças transformadoras de pensamento/ação e que gera essas formas de acontecimentos. De antemão, este texto dissertativo visa expor três pressupostos sobre essas formas de acontecimentos: 1) a Arquitetura urbana é um campo vasto que tem como ponto central a materialidade dos corpos e dos espaços. Logo, apesar de considerar as redes sociais, como Twitter, Tiktok, Facebook e Instagram como elementos importantes para o reconhecimento e mobilização dos sujeitos, as interações digitais não serão examinadas no texto; 2) os movimentos sociais vão muito além de um viés político-econômico-cultural. Tanto é que as reuniões a favor do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016 ou mesmo as reuniões neonazistas do século XXI na Alemanha etc. podem ser entendidas como “assembleias” que reivindicam algo. Mas, para efeitos desta dissertação, a característica intrínseca dos acontecimentos aqui abordados é, por alto, o desejo de vidas menos precárias – ou seja, é necessária uma distinção ética entre os movimentos; 3) por fim, parte-se do pressuposto de que um acontecimento é formado, muitas vezes, por assembleias múltiplas em si mesmas. Públicos com ideias completamente distintas podem se encontrar em consonância em um mesmo espaço-tempo, desde que tenham ao menos uma intersecção. Esta última inferência é essencial para este trabalho, uma vez que 1) mobilizo conceitos muito amplos, que podem significar coisas diferentes para grupos diversos, como democracia, acontecimento, esfera pública, espaço público etc.; 2) e, ainda que tenha pretendido colocar exemplos de movimentos sociais que tendam à esquerda, muitos deles podem apresentar uma morfologia híbrida no espectro político. O que quero dizer é que nem sempre todos os participantes compartilham das mesmas convicções políticas acerca de todos os passos dos movimentos (sem que esse fato represente uma impossibilidade à aglomeração). Isso leva-nos a considerar as possibilidades de transformação dessas insurgências ao longo do tempo, uma vez que as ideias e as ações são pontos passíveis de transfiguração, culminando, em alguns casos, em cooptação ou revés por parte de alguns integrantes. 14 Uma vez que todas as assembleias – e seus interesses de mudança –estão dispostos no espaço-tempo, dão-se embates de interpretações. Em geral, por mobilizarem muitas pessoas, mídia e Estados, a exemplo das assembleias na Bielorrússia em 2020, 2013 no Brasil, 2019 no Chile, as reivindicações são amplamente difundidas ao redor do mundo, sendo vinculadas a uma escala macro. Porém, desejo sinalizar que, para além dessas insurreições veiculadas e divulgadas, existem as revoluções moleculares, as transformações micropolíticas, tão potentes quanto as anteriores. O corpo coletivo pode designar um conjunto pequeno de pessoas da mesma família, do mesmo bairro ou do mesmo movimento social: essas variantes tratam de escalas e de escolhas de difusão por parte dos campos. Seja um acontecimento grandioso que irrompe o tempo de muitas pessoas, seja um acontecimento local, pequeno e trivial que irrompe o tempo daqueles poucos sujeitos, a divisão entre o acontecimento e o cotidiano não é tão rígida quanto a Muralha da China (HELLER, 2008). Na verdade, um está implicado no outro: o acontecimento e as reverberações transformam o cotidiano, enquanto o cotidiano pode ser lido como um substrato do acontecimento – são movimentos de transição, em que o fim de um e o começo do outro encontram-se num espaço nebuloso. Adianto que o esforço de diferenciação entre o “macroacontecimento” e o “microacontecimento” não está no escopo desta dissertação, já que o essencial é perceber que se trata de acontecimentos insurgentes, cujos espaços materiais são centrais para as lutas, isto é, todos sinalizam algum uso subversivo de alguns territórios das cidades, independente de uma avaliação de escalas. Uma vez que o espaço é importante às insurgências desta dissertação, como a Arquitetura urbana poderia interpretar tais acontecimentos? Primeiro, a Arquitetura urbana fala do conjunto de disciplinas que estudam a cidade: planejamento urbano, história urbana, teoria urbana, geografia urbana, comunicação. A teoria do conhecimento do objeto cidade de Walter Benjamin (VELLOSO, 2007) prescreve uma imersão, expondo as relações com demais obras e fenômenos históricos. Pela perspectiva da Arquitetura urbana, estudar a cidade é entender de maneira crítica diversos vetores, com interesse em ler uma cidade não somente pelas formas e planos, mas também pelas práticas espaciais socialmente consolidadas e emergentes. A 15 Arquitetura urbana denota uma experiência espacial e temporal mais profunda dentro do cotidiano (e do acontecimento), para além dos estilos arquitetônicos. “Nela, a forma arquitetônica pode ser qualquer, pois interessam os resíduos e os vestígios deixados por quem a utiliza e ocupa” (VELLOSO, 2010, p. 141-142). Simultaneamente, recorro ao urbano, como interpretado e aplicado por Lefebvre em A revolução urbana (2002, p. 28) e apresentado “não como uma realidade acabada, situada, em relação à realidade atual, de maneira recuada no tempo, mas, ao contrário, como horizonte, como virtualidade iluminadora. O urbano é possível, definido por uma direção”, que acontece em processo e movimento. No livro, Lefebvre aprofunda na análise sobre o porquê o urbano não é visto: o ponto cego é o olho que não se vê (que precisa de um espelho), sendo que essa cegueira está associada à negação do campo que está por vir. Ou seja, opomo-nos à realidade, afastando-a, e assim a impedimos de nascer e desenvolver. Desse modo, o urbano é aquilo que ainda não vemos, ele é virtual, ainda que possamos imaginá-lo simultâneo ao nosso tempo, no qual o germe está aqui e agora e lhe falta a atualização para passar do polo do latente ao polo do manifesto. É uma ocultação; o que olhamos, não enxergamos, “trata-se de uma redução, ao mesmo tempo, social e mental” (LEFEBVRE, 2002, p. 38) que pode ser ultrapassada, por exemplo, com os usos subversivos dos espaços. Por isso, considero os acontecimentos apresentados nesta dissertação como acontecimentos urbanos, que ocorrem nas cidades (territorialidade). Lefebvre entende a cidade como a obra de certos “agentes” históricos e sociais, isto leva a distinguir a ação e o resultado, o grupo (ou os grupos) e seu “produto”. Sem com isso separá-los. Não há obra sem uma sucessão regulamentada de atos e de ações, de decisões e de condutas. Sem mensagens e sem códigos. Tampouco há obras sem coisas, sem um lugar, uma “natureza”, um campo e um meio. As relações são atingidas a partir do sensível, elas não se reduzem a esse mundo sensível e no entanto não flutuam no ar, não fogem na transcendência (LEFEBVRE, 2001, p. 54). 16 O exercício do campo arquitetônico desenvolvido no texto é de um olhar testemunhal2 (MIESSEN, 2010) das outras relações dos agentes e dos grupos com o espaço. No mesmo sentido, Lefebvre (2001, p. 109) sugeriu que os profissionais do campo da Arquitetura urbana possam “inventariar a experiência obtida, tirar lições dos fracassos, ajudar o parto do possível através de uma maiêutica nutrida de ciência”. Este texto se presta a investigar uma possível disposição do inventariado na forma de constelação de pontos e riscos, lidando com o par totalidade-incompletude. A partir do entendimento do que é a cidade e do papel do arquiteto, seria o campo da Arquitetura urbana suficiente para compreender como os acontecimentos se associam ao espaço? Considerando-o como o conjunto de disciplinas, arrisco dizer que sim (ou parcialmente suficiente), afinal, há um alargamento das referências de pesquisa no processo de investigação. Precisamos de outros campos para entender o acontecimento na cidade, os sujeitos insurgentes, as associações entre eles, a relação desses sujeitos com o espaço e as imaginações de outros usos das materialidades da cidade. A relação dos sujeitos com os espaços está ligada a uma rede que também engloba o trabalho, o corpo, o tempo da infância, da juventude, da velhice, o desejo, o sexo… Ao olhar para tais acontecimentos, devemos interpretá-los à luz de Žižek (2012): o autor, quando escreveu sobre o Occupy Wall Street, sugeriu uma aproximação ao movimento de forma como se ele não fosse uma pergunta ou enigma direcionados aos teóricos e, sim, uma resposta. A partir dessa resposta (que o movimento Occupy colocou à esfera pública), os estudiosos deveriam propor as questões pertinentes sobre aquele movimento. Esse, portanto, será o percurso desta dissertação: encontrar ferramentas que possibilitam a pesquisa no campo da Arquitetura urbana, na formulação de perguntas coerentes para os vários acontecimentos urbanos. 2 Testemunha vem de witness: “é importante que a arquitetura nunca ofereça soluções e, sim, visualize e espacialize os conflitos que são a realidade dos contextos. Se considerarmos que esses conflitos estão escapando de nossas vistas, a arquitetura se torna algo como uma testemunha ocular”. Arquitetura como testemunha, assim como os profissionais do campo da Arquitetura urbana. No original: “It is important that architecture can never deliver solutions. However, what can do is visualize and spatialize the conflicts that are the reality of the very nature of its contexts; in fact, even more so considering that these conflicts are disappearing from our visual registers. Consequently, architecture becomes a mode of witness testimony” (MIESSEN, 2010, p. 103). 17 O objetivo desta dissertação está centrado na montagem de uma constelação que auxilia o entendimento dos acontecimentos nas cidades. Acontecimentos esses que são caracterizados por formas diversas de movimentos sociais que têm o espaço da cidade como palco e foco da luta. Como o ponto fulcral é a apresentação das ferramentas teóricas para a análise dos acontecimentos, os movimentos sociais são mobilizados como imagens de um panorama. Além disso, utilizo algumas obras de arte, fragmentos de filmes e peças, que auxiliam o percurso. O método ancora-se na produção de um texto em montagem de imagens, sejam elas textuais ou fotográficas, que interligam as várias teorias dos campos da Ciência Política, Sociologia, História, Comunicação e Arquitetura urbana. Nesse sentido, a lógica fragmentária defendida por Walter Benjamin (2006) dá conta de uma certa totalidade, por isso parte-se de pontos chaves que compõem a constelação do acontecimento, sem a pretensão de esgotar o assunto. A constelação para Benjamin tratava do conjunto de estrelas e os riscos (linhas) que estabeleciam relações entre elas, conformando um agrupamento momentâneo (VELLOSO, 2018). De maneira livre, também associo o risco ao verbo arriscar, caracterizando o momento de traçar as relações entre os pontos constelares como um arriscar-se a todo momento. O delinear desta constelação serve como primeiro passo para o objetivo de se fazer as perguntas coerentes a cada acontecimento urbano. Sobre a estrutura, esta dissertação está dividida em um parêntesis e quatro capítulos: O primeiro, que perpassa todo o texto, expõe um aprofundamento sobre o par virtual- atual. No momento do acontecimento, as denominações como público e privado se encontram suspensas, gerando uma imprevisibilidade, que pode levar a uma radicalização do movimento, uma cooptação, uma reverberação, um debate sobre a materialidade dos espaços etc. O par virtual-atual, que provém da teoria de Lévy (1996), é apresentado, pois essa atualização pode ser considerada uma resposta a alguma questão, sendo que, no sentido inverso, o movimento de virtualização (de formular as questões e perguntas sobre os acontecimentos) estaria ligado ao exercício proposto por Žižek aos estudiosos/filósofos. 18 O primeiro capítulo aborda o conceito de acontecimento, mais especificamente, a análise desenvolvida pelo sociólogo Louis Quéré. O acontecimento3 possui muitas vertentes de interpretação, todavia o pragmatismo de Quéré apresenta uma condensação de ideias que consegue ser aplicada aos movimentos sociais das cidades. Para isso, dois textos salutares foram consultados: “Entre facto e sentido” (2005) e “A dupla vida do acontecimento” (2012), donde é viável denominar como acontecimentos tais insurgências. A partir da caracterização dos acontecimentos, o pragmatismo é novamente convocado para auxiliar numa primeira aproximação com o fazer-cidade, com base em Teresa Caldeira (2001). O segundo capítulo defende a ideia de que alguns movimentos sociais podem ser considerados acontecimentos, baseando-se no texto de Ricardo Mendonça (2007), “Movimentos sociais como acontecimentos: linguagem e espaço público”. A partir da leitura do texto de Mendonça, o capítulo apresenta duas formas de movimentos sociais urbanos e diversas prerrogativas para a mobilização deles: as aglomerações episódicas e as lutas emancipatórias por moradia (e por toda a infraestrutura que compete ao morar na cidade). Estas insurgências têm uma relação direta com o espaço, orbitando ao redor da noção de direito à cidade de Lefebvre (2001), conceito que engloba uma série de direitos que dizem respeito a viver em conjunto nesses territórios. Sobre as aglomerações episódicas, o principal referencial teórico utilizado foi Corpos em assembleia, de Judith Butler (2018), livro em que são discutidas as motivações das assembleias, as noções de público, de povo e a centralidade da materialidade espacial para os movimentos. Outro importante autor consultado foi James Holston com o texto “Rebeliões metropolitanas e planejamento insurgente no século XXI” (2016) e o livro Cidadania insurgente: disjunções da democracia e da modernidade no Brasil (2013), produção que congrega as assembleias e os movimentos emancipatórios que lutam por moradia nas periferias. 3 No século XVI, quando o acontecimento apareceu como “palavra conceito” pela primeira vez, ele continha um significado mais simples, como “aquilo que acontece” (DOSSE, 2010, p. 02). Até o francês moderno seriam adicionados outros sentidos: algo que acontece a algum sujeito, de motivo feliz ou triste; ou uma ruptura, uma alteração no cotidiano (ainda com um tratamento passivo). 19 O terceiro capítulo disserta sobre o momento em que o sujeito decide obedecer a si mesmo, em ato de revolta, participando de uma manifestação, recusando uma ordem, ocupando o espaço. Não seria possível analisar os movimentos sociais apenas pelos processos históricos macroescalares, uma vez que as vontades individuais dos sujeitos também fazem parte da constelação do acontecimento. Para tanto, a coletânea de textos sobre o Desobedecer, de Gros (2018), foi consultada. Como escreve o autor, trata- se da “constituição de um corpo coletivo que exprime a recusa de ser ‘governado assim’ (…) nós fazemos corpo, fazemos sociedade desobedecendo coletivamente, levando um projeto alternativo de viver-junto” (GROS, 2018, p. 143). O início do capítulo apresenta as análises de Gros (2018), Butler (2002) e Kilomba (2020) sobre a peça de Antígona para depois tomar outros exemplos e obras sobre a desobediência. O quarto capítulo, dividido em duas seções, tem como objetivo analisar as esferas e os espaços, como eles se constituem como ideias e como materialidades, sendo centrais aos acontecimentos urbanos. Por existir uma conexão entre a esfera e o espaço, primeiro examinaremos o conceito de esfera pública de Jürgen Habermas (1992). Entretanto, o aspecto mais importante da primeira parte está na constatação de que existem teorias que atualizam e revisam a construção de Habermas e que promulgam os contrapúblicos subalternos – formulados por Nancy Fraser (1992) e Michael Warner (2002). Esses públicos subalternos pressionam pelos redesenhos da esfera pública e reivindicam o direito à cidade por meio das insurgências. A segunda seção aborda a materialidade do espaço, as calçadas, as ruas, as praças, as avenidas: espaços formados por uma infraestrutura que se tornam objetos das lutas. Locais constantemente reivindicados pelos diversos sujeitos e movimentos sociais, pois não existem prerrogativas que assegurem a posse, principalmente, por parte dos membros dos contrapúblicos subalternos ou a possibilidade de uso comum. Portanto, há uma centralidade pela conquista do pertencimento, uma conquista que ocorre pelo uso dos espaços, onde as suposições antecipadas de público e de privado estão suspensas, abrindo lugar a outras práticas, outras ações – tomando Butler (2018) e Lefebvre (2002) como principais pensadores desta seção. 20 E as considerações finais apresentam um apanhado dos conceitos mobilizados (pontos) e as relações (riscos) possíveis entre eles. Não é que o passado lança luz sobre o presente ou que o presente lança luz sobre o passado; mas a imagem é aquilo em que o ocorrido encontra o agora num lampejo, formando uma constelação (…). Passagens Walter Benjamin [N2a, 3] (2006, p. 504) 21 22 23 24 PARÊNTESIS: O VIRTUAL E O ESPAÇO EM ATUALIZAÇÃO A tese de Diego Matos (2014, p. 72) descreve uma sesta memorável do, ainda criança, Cildo Meireles: de repente, ainda acordado, viu o vulto de uma mulher que parecia sair justamente de um canto entre paredes. Ela fez um movimento de aproximação e em seguida recuou desaparecendo novamente. Tal cena para o artista foi extremamente assustadora e o marcou. Ao mesmo tempo em que aquele canto de casa representava-lhe acolhimento ou refúgio, era também o lugar do desconhecido, do estranho. Seria justamente uma zona intermediária, entre sonho e realidade. A visão relatada impulsionou a investigação e feitura das obras Espaços Virtuais: Cantos (1967-1968), do citado artista. Apesar do tom onírico frente a obra, tanto de Meireles quanto da própria crítica à época da exposição, o trabalho nasceu da subversão do módulo euclidiano do espaço. Os desenhos, bem como as maquetes em escala humana, destituíam a razão ortogonal ao mesmo tempo que recriavam as atmosferas dos cantos familiares. Assim, Cildo colocou em cheque a condição da casa como um abrigo, revelando a possível vulnerabilidade da estrutura física e simbólica. Da mesma maneira que o artista fora visitado por uma terrível imagem através do canto, ele remontou o desconforto do infamiliar em sua própria obra. Como de praxe em algumas produções artísticas dos anos 1960, o trabalho dependia diretamente do olhar do espectador. Foram produzidos efeitos visuais da ortogonalidade a partir de planos não-ortogonais, que dependiam da movimentação do observador para que as falsas imagens ortogonais fossem enxergadas. Para entender o trabalho, o participante deveria exercitar sua abstração, colocando-se em um ponto específico na medida em que se tornava real o vir-a-ser “por um pequeno instante de tempo” (MATOS, 2014, p. 71). De acordo com o autor, a virtualidade da obra do artista estava no potencialmente presente, que ativava o sujeito observador a participar da obra. 25 Para Abigail McEwan (2013, p. 40 – tradução minha), a obra Cantos explora o fenômeno da virtualidade por meio das intervenções no espaço euclidiano, desfigurando os ângulos regulares e criando o inesperado. Os planos espacializados operam na lógica do não-objeto, os inserindo no espaço real do mundo somente para transfigurá-los, criando, em alguns casos, ambiguidades estruturais de três dimensões sem solução e deslocamentos dos cantos através de uma paralaxe mental4. A familiaridade com o termo virtual pelas Artes ficou mais forte por volta dos anos 1960, com exemplos de Meireles e Lygia Clark. Entretanto, as primeiras experiências “virtuais” de seres humanos remontam às cavernas de Lascaux, um refúgio que separava as pessoas do ambiente que as cercava, ainda na pré-história. A topografia da caverna criava a imersão, alguns truques de pintura davam a impressão dos desenhos estarem em 3D e a forma das pedras davam profundidade às ilustrações (Ewalt, 2018). Em sintonia, Dubois (1993, p. 116) escreve que as imagens de Lascaux marcaram a origem da pintura e, talvez, de algo primórdio à fotografia, “o resultado, imagem de um contorno por contato, aparece assim como uma sombra conduzida, mas uma sombra em negativo, (…) Podemos pressentir: já-é, de certa maneira, todo o dispositivo da fotografia que está em ação”. Na abertura do livro “O ato fotográfico e outros ensaios”, Dubois insiste na ideia de que a fotografia é uma imagem-ato, uma vez que aquele papel estampado também carrega consigo uma forma de produção, recepção e contemplação. A fotografia de uma obra de arte mostra o limite da visão da câmera, deixando para fora outros elementos. Porém, pretendo fazer uma outra análise: diminuir ainda mais a tela de observação. Assim, na foto de Cantos, um homem passa por um corredor estreito em direção a uma escada. Paredes brancas, rodapés vinho e piso de taco – uma atmosfera familiar. Parece um tanto determinado a entrar naquele canto, mas o bolso da camisa de botão para fora do espaço fornece a indicação de que se trata de uma passagem bastante estreita. 4 No original: “The spatialised planes operate on the logic of the non-object, inserting themselves into the real space of the world only to transfigure it, creating in some cases structural ambiguities irresolvable in three dimensions and, in others, displacements of the corner through a kind of mental parallax”. Cildo apresenta uma série de problemáticas ao espaço real euclidiano. 26 O exercício do recorte indica um antes, no qual se vê a impossibilidade de passagem, pois se trata de um canto fechado e um depois, em que se observa um homem entrando no próprio canto. O canto se transforma em corredor quando construo esse recorte menor, donde se abre uma passagem, mesmo que não se saiba o que estará do outro lado. O reajuste da foto permite que possamos discorrer sobre infraestruturas já materializadas, mas que reflexões ainda não atualizadas. Guilherme Wisnik (2012, p. 110 – grifo do autor) analisa a construção de Cantos da seguinte maneira: Inspirado em um verso de Morte e vida severina que se refere a uma “sala negativa”, Espaços virtuais se realizou também como uma escultura ambiental, com piso de taco, rodapé, uma vassoura encostada na parede, e duas paredes que não se tocam, parecendo serem tragadas pela fresta que se abre entre elas, e nos sugere uma saída inesperada: a passagem para uma espécie de labirinto interior. No mesmo caminho, Wisnik relaciona a impressão de familiaridade e estranhamento do espaço interno de uma residência, mais especificamente, de um canto, a outra obra 27 Espaços virtuais: Cantos, 1967–68. Acervo do artista. Imagem modificada pela autora. do artista, Casa sem casa (2003). Nessa instalação, Meireles decompõe uma residência tradicional ao colocar cada cômodo em um terreno separado de uma esquina, totalizando quatro espaços distantes, ou quatro cantos. “Isto é, uma casa explodida, com seus cômodos todos equipados e abertos para o uso coletivo. Uma casa urbana, portanto, na qual a passagem de um ambiente ao outro suporia a travessia de, pelo menos, uma rua e duas calçadas” (WISNIK, 2012, p. 110). Nesse caso, em vez de nos convidar a um labirinto interno, Meireles nos instiga a pensar como seria a fragmentação de um núcleo do habitar, além de jogar com as escalas do habitar a casa e habitar a cidade. A arte, portanto, apresenta as ferramentas “para tensionar a relação – sempre problemática (…) – entre interioridade e exterioridade, compartimentação e transparência, privacidade e publicidade (WISNIK, 2012, p. 110). Podemos tecer uma intrínseca relação entre a arte de Meireles e os conceitos virtual e atual, investigados pela teoria de Pierre Lévy (1996). A virtualização consistiria em remontar uma problemática a partir de uma solução; contrário à atualização, em que se encontra uma resposta específica a um problema. Lévy (1996, p. 137) escreve que na atualização “Efetua-se um ato que não estava pré-definido em parte alguma e que modifica por sua vez sua configuração dinâmica na qual ele adquire sua significação. A articulação de virtual e do atual anima a própria dialética do acontecimento, do processo, do ser como criação”. Ao pensar o espaço pelo par virtual-atual, podemos considerá-lo como possuidor de processos que levam à resolução de problemas, ou à criação de problemas. O reconhecimento de que todos os espaços possuem a capacidade de receber atualizações por parte dos sujeitos-usuários, ou seja, responder a alguma questão, é perceber que eles também podem ser transformados em sintonia com a transformação dos modos de vida, englobando outros usos do espaço. Sobre a transformação do uso no espaço que desejo divagar. Virtual remete, etimologicamente, a virtualis, virtus, que significam potência e força em Latim. “A árvore está virtualmente presente na semente. Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real, mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes” (LÉVY, 1996, p. 15). Lévy (1996) propõe quatro modos de ser: o virtual e o atual (relativos ao acontecimento); e o possível e o real 28 (relativos à substância). O possível está constituído, mas permanece no limbo, ele se realizará sem que nada mude em sua determinação nem em sua natureza. Ou seja, ele é exatamente como o real, mas ainda lhe falta a existência do último. O virtual se difere do possível, pois esse é estático e constituído, sendo o primeiro um complexo problemático, cheio de nós de forças. O virtual é oposto ao atual, que representa uma resposta às questões do virtual. Retomando o problema inicial, a atualização, com o brotar da árvore, responderá ao complexo de problemas que a semente é – para isso, são necessários vários fatores externos (qualidade da terra, água, nutrientes) e internos (hormônios). Uma vez desabrochada, a forma da árvore é inventada, coproduzida em processo, caso a caso. A atualização, portanto “é a criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e finalidades (…) uma produção de qualidades novas, uma transformação das ideias, um verdadeiro devir que alimenta de volta o virtual” (LÉVY, 1996, p.16-17). De acordo com Sanford Kwinter (2001, p. 08 – tradução minha), o virtual existe como uma diferenciação ou singularidade liberta e, dessa forma, necessita da atualização ativa e integrada: “De fato, o atual não recorda o virtual, como algo pré-formado ou preexistente. A relação aqui não é de similaridade, mas de diferença, inovação ou criação”5. Quando ocorre um acontecimento, há uma atualização no modo de vida dos agentes presentes e, consequentemente, na forma como eles utilizam os territórios aos seus arredores. Reemoldurar uma fotografia nos inspira a imaginar sobre cada aspecto, cada janela de observação que pode ser adquirida por aquela nova quadratura. Haveria também uma continuação do sonho de Cildo, descrito no início do texto: a mulher que aparece no canto convida o menino a adentrar aquele espaço, onde a materialidade não seria um impedimento para a criatividade dos sujeitos, podendo repercutir na própria materialidade fora daquele espaço. 5 No original: “Indeed the actual does not resemble the virtual, as something preformed or preexisting itself. The relation of the virtual to the actual is therefore not one of resemblance but rather of difference, innovation, or creation”. Aqui, assim como Baltazar (2010), traduzo event como acontecimento. 29 Em A revolução urbana (2002), Henri Lefebvre mobiliza o sentido do virtual quando diz do urbano, que também seria uma forma que não possui uma forma específica, sendo uma abstração concreta, vinculada à prática. O fenômeno urbano, como uma abstração, é um objeto virtual e esse ponto de partida amparado pelo virtual apresenta diferenças do pensamento de Lévy (1996). Em algumas passagens, interpreto que Lefebvre (2002) mobiliza o virtual como um processo em sequência: do passado ao atual, do atual ao virtual, enquanto que Lévy (1996) o entende simultâneo aos processos. Todavia, quando Lefebvre constrói a caracterização do “campo cego”, os virtuais de ambos autores se aproximam, porque ainda que o virtual (urbano de Lefebvre) seja algo que está por vir, a cegueira diz de algo que está presente, que poderia ser vista agora. Isso abre à imaginação de que o virtual é simultâneo ao nosso tempo (hic et nunc) também e o que falta seria a atualização do germe para efetivar a passagem do polo do latente ao polo do manifesto. Muitas vezes, os lugares se encontram de determinadas maneiras, indicando usos já conhecidos, mas é necessária uma fagulha, um lampejo, para que um outro olhar incida sobre eles. Uma rotatória que serve como lugar de reivindicações civis; um terreno baldio que abriga uma plantação de alimentos… Além de transformar os pontos da história e do horizonte de expectativas, os acontecimentos também modificam nossa relação com o espaço, uma vez que aquelas novas experiências, atualizadas, ficam gravadas na memória individual e também coletiva: indicando algum caminho do urbano de Lefebvre (2010). Está no acontecimento uma peça do processo da sociedade urbana ainda “virtual” -“Mas esse mundo está ausente, essa sociedade só está diante de nós em estado de virtualidade. Corre o risco de perecer ainda como um embrião. Nas condições existentes, ela morre antes de nascer” (LEFEBVRE, 2001, p.102). O acontecimento, como uma fagulha que foge ao cotidiano e se resolve nele mesmo, cancela os resquícios de constrangimento político, espacial, moral e volta ao dia a dia transformado em reverberações. A ausência de constrangimentos e a possibilidade do florescimento de algo ainda suspenso se relacionam diretamente com a “festa transformando a vida cotidiana. A cidade foi um espaço ocupado ao mesmo tempo pelo trabalho produtivo, pelas obras, 30 pelas festas. Que ela reencontre essa função para além das funções, na sociedade urbana metamorfoseada” (LEFEBVRE, 2001, p.128). Um ponto interessante na obra de Lefebvre é o entendimento da festa, ou a felicidade, como uma categoria ético-política, algo que está diretamente relacionado a uma postura ética de si frente a degradação que pode ser a experiência nas cidades atuais. Como lidar com a diversidade de acontecimentos nas cidades quando a análise espacial pela posse (algo da instância do público-privado) não é suficiente? Como relacionar uma insurreição na tomada de um espaço público (uma praça) com uma horta urbana e com a ocupação de um território para moradias periféricas por meio de lutas insurgentes? Acredito que podemos deslocar o olhar da perspectiva da posse para a perspectiva do processo. Para a Arquitetura, Ana Paula Baltazar (2010) retoma os conceitos de Lévy quando escreve “Por uma arquitetura virtual”. Ao utilizarmos um espaço de uma outra maneira, estamos atualizando-o. Por outro lado, quando um profissional da Arquitetura projeta a materialidade de um espaço, ele não é capaz de abarcar todos os usos6. Ana Paula Baltazar (2010, p. 04) considera o familistério de Godin como precursor da arquitetura virtual, quando foram propostas pequenas facilidades domésticas. A autora escreve: “Embora tais facilidades não impusessem mudanças sociais, eram capazes de acomodá-las” - aqui há um ponto de convergência no que digo sobre outros modos de existir exigirem outros modos de usar o espaço. A materialidade do projeto seguiu o padrão estético da época, podendo ser confundido com um Panóptico, entretanto o garantidor da liberdade era o “evento/event” proporcionado pelos usuários e não a “substância” do projeto. Observar lugares não projetados, como terrenos baldios, margens, baixios dos viadutos e palafitas; territórios modificados pelo trabalho, como praças, rotatórias: todos esses lugares introjetam possibilidades de usos que antes não foram pensados pela população ou mesmo pelo profissional do campo da Arquitetura ou Planejamento urbano. O reconhecimento de que todos os espaços possuem estímulos de 6 A criação de espaços virtuais estaria no processo aberto, em contínuo movimento do projeto e uso e não o espaço construído como um produto acabado. 31 florescências significa que eles também podem ser transformados em sintonia com a alteração dos modos de vida. Imaginar um espaço por sua atualização é deixar um hiato por onde usos infamiliares podem aparecer. 32 Espaços virtuais: Cantos, 1967–68. Acervo do artista. Imagem sem recorte, modificada pela autora. 2 O ACONTECIMENTO E O FAZER-CIDADE - 33 Em 25 de outubro de 2019, a atriz Susana Hidalgo sacou o celular e tirou uma das fotos mais emblemáticas do movimento chileno daquele ano. A imagem retratava cidadãos daquele país, que tomavam a estátua de um “herói” enquanto hasteavam a bandeira Mapuche. Para Lefebvre (2001, p. 68), “A cidade pode se apoderar das significações existentes, políticas, religiosos, filosóficos. Apoderar-se delas para dizer, para expô-las pela via – ou pela voz – dos edifícios, dos monumentos, e também pelas ruas e praças, pelos vazios”. Faz sentido que a população das cidades se aproprie desses espaços, entendendo o território da vida em comum como um processo vivo dos sujeitos que a habitam, fazendo uso dessas estruturas como base dos encontros, das assembleias e das festas. Em Santiago, 1,2 milhão de pessoas saíram às ruas para protestar contra a série de medidas de precariedade em vias pelo governo. A partir do momento em que aquelas pessoas se aglutinaram e reivindicaram suas diferentes pautas de maneira sensorial (visível, audível, corporal) naqueles espaços, passado e futuro se reconfiguraram. O acontecimento grandioso, que desassossega muitas pessoas ou o microacontecimento, que perturba apenas um sujeito são, sem distinção, para Dosse (2010), uma mistura de Esfinge e Fênix. Resgatando criaturas do imaginário7, o acontecimento seria uma Esfinge, cujo passado é inaugurado por ele próprio e, mesmo assim, incompreensível em sua totalidade, pois uma novidade é criada a partir dele (por exemplo com a história dos Mapuche veio à tona, suas tradições e perspectivas). E Fênix como aquilo que instaura o sentido de repercussão do acontecimento, em um renascimento encadeado. Aquele momento, transformado em foto e replicado aos montes no tempo da reprodução digital, configura um 7 Algumas imagens conseguem indicar a construção do conceito de acontecimento até ao que entendemos contemporaneamente: a partir do grego François Dosse (2010) resgatou kairós, cuja imagem era de um efebo de cabelos longos aos quais as pessoas deveriam se agarrar, aproveitando a oportunidade. É no sentido do rompante que o conceito se distanciou de apenas um “resultado” para fundar-se na própria identidade. Enquanto Dosse recorreu a kairós, Deleuze (1974) investigou Aion, o tempo pontual do presente, e Ricardo Fabrino (2007) citou Janus, uma divindade também grega que possuía duas faces em sua cabeça, uma voltada para o futuro e outra para o passado. 34 acontecimento. Um acontecimento das várias facetas articuladas que, no senso comum, caracteriza-se como algo marcante para o qual sempre há um espaço na formação da memória coletiva e individual. Para Vera França e Luciana Oliveira, organizadoras do livro Acontecimentos: reverberações (2012, p.10), certos acontecimentos “desestabilizam a normalidade e convocam novos enquadramentos, eles são geradores de informação e perturbadores de quadros de sentido convencionados pelo hábito”. Nesse mesmo caminho, é possível reconhecer no cotidiano faíscas de possibilidades de mudança e reenquadramentos de pontos de vistas engessados, que só podem ser percebidos com o destarte acontecimental. “Ao quebrar a normalidade e a sequência natural das coisas, o acontecimento alarga o horizonte do possível, aponta alternativas impensadas, convoca passados esquecidos e abre o presente para novos futuros possíveis” 35 Manifestação em Santiago. Autoria: Susana Hidalgo. 2019. Imagem modificada pela autora. (FRANÇA; OLIVEIRA, 2012, p. 09). Em síntese, pode-se perceber que o acontecimento ocorre contra qualquer tipo de expectativa, pois abre possibilidades antes impensáveis, e dessa maneira, reconfigura as interpretações das temporalidades (QUÉRÉ, 2005). Entre várias tradições, França e Oliveira escrevem que as tradições fenomenológica e pragmática8, que estudavam o acontecimento, concordavam em um ponto: ambas consideravam o acontecimento como instaurador de uma nova tela para outros sentidos, subjetivos e coletivos – ou seja, a faceta de instauração de novos sentidos é importante, independente da interpretação mobilizada. Em “Entre facto e sentido”, Quéré (2005) inicia seu texto afirmando que existem diferentes categorias dos acontecimentos: aqueles que estão além do nosso controle (como no caso dos acontecimentos ambientais, como tsunamis, terremotos etc.) e aqueles que são movidos por nossas ações – sendo essencial reconhecer a vontade de mudanças dos próprios sujeitos no decurso da própria experiência. Por isso, Quéré considera os acontecimentos como fenômenos de ordem hermenêutica: “por um lado ele pede para ser compreendido (…), por outro, ele faz compreender as coisas – tem, portanto, um poder de revelação” (QUÉRÉ, 2005, p. 60). Trata-se do poder de abertura e fechamento, revelação de uma situação problemática a ser resolvida ou o contrário, uma resolução a ser problematizada. Para Quéré, o poder hermenêutico vem da revelação do próprio acontecimento por ele mesmo. Tal característica consoa com o fato de que “a principal origem da compreensão do acontecimento está no próprio acontecimento” (QUÉRÉ, 2005, p.61), inclusive da novidade gerada. O acontecimento se distingue de um mero fato, pois o segundo define “aquilo que se passou no mundo, sendo causado por ocorrências determinadas e tendo consequências apreensíveis e mensuráveis” (MENDONÇA, 2007, p. 119), ou seja, aquilo que cessa e é compreendido em sua completude, diferentemente do acontecimento. Para Quéré (2005, p. 07), os fatos estariam atrelados às causalidades, enquanto os acontecimentos, 8 Ambas tradições se preocupavam em entender como se formavam os significados compartilhados no cotidiano. A fenomenologia foi uma corrente filosófica, que tinha como principal pensador Edmund Husserl (1859-1938) e como objeto de estudo a análise das essências, um mundo pré-objetivo para cada sujeito. Já a tradição pragmática se detinha no estudo das ações e nos efeitos concretos que motivam mudanças nas realidades (RIZO, 2011). Nesta seção abordaremos o pragmatismo de Louis Quéré (2005), que resgata Dewey e Mead. 36 dentro de uma ordem hermenêutica, seriam capazes de revelar outros sentidos para o passado e o futuro: é no momento do acontecimento que ele se produz e quando são reveladas “diferentes potencialidades (porque as atualizou) e eventualidades (porque é possível inferi-las do que se passou) preexistentes”. Em outras palavras, é pela ruptura da experiência do cotidiano que o acontecimento abre espaço para que outras interpretações do passado emerjam, possibilitando também que a narrativa da história linear possa ser entendida de diversas formas, pelos farrapos e pela margem – a depender das escolhas dos sujeitos, das instituições e dos campos de estudos. Resgatando o emprego da palavra “atualizou” na frase anterior de Quéré, apresento uma diferenciação entre provável, atual, virtual e possível de modo a elucidar o pensamento quando o autor aplica esses conceitos. Retirado de O virtual, o possível e o provável, de G. G. Granger, Quéré (2005) anuncia a diferença entre as palavras, em que o provável indica o grau da chance de que algo ocorra; o atual é aquilo que se impõe sobre nossa experiência sensível; o virtual é uma potencialidade; e o possível representa o não-atual em sua relação com o atual (aquilo que ainda não se impôs à experiência). No entendimento de Quéré, a partir do deslocamento ocorrido por causa do acontecimento, somos obrigados a rever os possíveis, os não-atuais passados e futuros que ainda não se implicaram na experiência dos sujeitos. Penso que o objetivo de Quéré tenha sido entender o acontecimento como esse rompante que inaugura novas interpretações das temporalidades. Por uma trajetória diferente de Quéré, Žižek (2017, p. 105) cita o francês Henri Bergson a fim de concluir a reflexão sobre as incisões no passado: não seria sobre mudar a materialidade do passado e sim sobre pensar uma dimensão virtual de tal tempo. Ou seja, o novo instaurado no presente cria um passado próprio, de onde foi possível nascer e é essa potencialidade que pode ser inserida ou retirada do passado. Esse acontecimento insere algo de possível no passado, algo que ainda não tinha sido vislumbrado como narrativa. Além do poder hermenêutico, o acontecimento, de acordo com Quéré, apresenta um caráter pragmático, proveniente da coexistência de duas faces do acontecimento: acontecimento-existencial (materialidade) e acontecimento-objeto (significação). A forma de compreensão do acontecimento pela corrente pragmatista tem sido 37 investigada por pesquisadores da Comunicação e Ciência Política e configura-se como uma fonte interessante de interpretação. O pragmatismo foi uma corrente filosófica nascida nos Estados Unidos, cujos autores precursores foram Charles Pierce (1839- 1914), William James (1842-1910) e John Dewey (1859-1952). O alinhavar desses pensadores estava na aliança entre Filosofia (que direcionava a prática social) e as ciências (método) de modo a rebater argumentos fundamentalistas do século XIX. Três características eram definitivas: um conceito deveria ser associado aos efeitos observáveis; os interesses que entravam na definição desse conceito deveriam ser mapeados; e análise social deveria ser orientada pela psicologia social (MURARO, 2008). Contemporaneamente, os pensadores do pragmatismo se interessam mais em empregar essa corrente filosófica quando analisam a significação das experiências, ou seja, como elas se transformam em coisas do pensamento. A todo tempo convertemos uma experiência sensível em uma coisa dotada de significação e essa conversão abre caminhos para a ação. Então, não se trata de uma experiência pré-objetiva, e sim, uma experiência vivida e transformada em significação. No texto “A dupla vida do acontecimento: por um realismo pragmatista” (2012), Quéré explica a diferença entre acontecimento-existencial, que são as reações espontâneas, não isoladas do entorno; e o acontecimento-objeto, recortado do contexto, objetos de consciência, pensamento e discurso. A diferença entre os dois seria o grau de simbolização, uma vez que convertemos os existenciais em objetos com o objetivo prático da compreensão. E é nessa assimilação que se encontra o poder de transformação dos acontecimentos pelos sujeitos, já que possuímos essa capacidade de construir hipóteses do passado, futuro e até mesmo do próprio acontecimento. Quando no espectro da microescala, a possibilidade de mexermos em algo que nos marcou é fornecida pela passibilidade (ser passível de algo). A confrontação de um sujeito com um acontecimento faz com que se assuma riscos, perigos, exposições: é uma travessia, o acontecimento acontece, mas também acontece a alguém, a um corpo que é suscetível ao toque, ao afeto, à perturbação (QUÉRÉ, 2005). “Além de sua experiência original, eles são submetidos a uma experimentação como ideias – seus significados podem ser combinados e reorganizados ilimitadamente pela imaginação” (DEWEY 38 apud QUÉRÉ, 2012, p. 31 – grifo meu). Os acontecimentos, longe de serem apenas representações, são experimentados no imediato (faceta do acontecimento- existencial). Em entrevista, Quéré explica que “Pelo viés pragmatista, entendemos que os acontecimentos são coisas concretas, coisas reais, antes de serem colocadas no discurso. São coisas que ocorrem, que se passam” (LAGE; BARCELOS, 2011, p. 179). Entretanto, uma vivência também pode ocorrer pelo acontecimento-objeto, já que o discurso encontra-se dentro do domínio da experiência – esses objetos do pensamento podem também afetar os sujeitos externos aos acontecimentos (podemos nos mobilizar com a notícia de alguma catástrofe natural ocorrida em outro país ou ao assistir mobilizações de assembleias em outras cidades, por exemplo). “A abordagem pragmatista desenvolve a dupla ideia de que as coisas são sentidas antes de serem colocadas em discurso (…). Nós as transformamos, posteriormente, em objetos do pensamento” (LAGE; BARCELOS, 2011, p. 179). Somente a partir da reflexão pode-se, coletiva ou individualmente, intervir parcialmente no acontecimento, recortá-lo, digeri-lo ou atenuar sua afetação – quando colocados em discursos, os sujeitos podem intervir nos acontecimentos, “dar-lhe um passado e vislumbrar as consequências que ele pode trazer” (LAGE; BARCELOS, 2011, p. 182) e, até mesmo, um sentido individual. Em outras palavras, a maneira como um sujeito interpreta um acontecimento acaba por afetá-lo, uma vez que essa pessoa conversa com outras, expondo opiniões, publicando textos, fazendo palestras etc. Assim, um dos interesses da Comunicação para com os acontecimentos está no fato do acontecimento afetar a experiência individual e coletiva, quando os sujeitos socializam tais efeitos ao revisitarem a memória, tentando encontrar vestígios de um passado de encadeamentos. Entretanto, como sublinha Mead (QUÉRÉ, 2005), essa suposta linearidade proposta pelas análises não é preexistente ao acontecimento. É necessária a ruptura (o acontecimento) para que essa linearidade de causas possa ser parcialmente traçada como uma forma de entendimento e produção do passado. Isso se resume a: “o passado é tão hipotético como o futuro” (QUÉRÉ, 2005, p. 62). Da mesma forma que o passado é referente a algum acontecimento, o futuro também é relativo a uma ruptura, uma vez que ela inaugura novidades. Assim, Quéré (2005) 39 escreve que somos obrigados a rever o sentido do possível das coisas, tanto para o futuro quanto para o passado. A introdução de uma descontinuidade perceptiva nas narrativas, associada à passibilidade dos sujeitos e o poder hermenêutico do acontecimento, produz algo novo. Provém de Mead (apud QUÉRÉ, 2005) a noção de que a totalidade de um acontecimento nunca pode ser explicada por aquilo que o causou, uma vez que outras coisas desembolam de lá, adicionando fatores à conta, além de existirem coisas quase invisíveis às análises. Por exemplo, por mais que juntemos todas evidências causais de Junho de 2013, anteriores à efervescência acontecimental, aquele mundo já não é mais o mesmo e só pode ser compreendido a partir de 2013, em que novas facetas foram reveladas. Por outro lado, um exercício de previsão, ainda no passado, seria algo infundado. Ainda em 2020 pensamos sobre 2013, tentamos desvelar o que ele foi ou, mais especificamente, quais implicações político-sociais e espaciais emergiram daquelas ações. Como se pudéssemos traduzir esse pensamento em uma conta matemática em que o resultado de dois mais dois é igual a cinco, porque o um a mais foi inaugurado (como um lampejo) a partir do momento da ação de somatória (aqui interpretado como o acontecimento). Retomando o caso inaugural do capítulo, as manifestações em Santiago do Chile, por meio da mídia, das redes sociais, pelas conversas, narrativas antes esquecidas por parte da população ou mesmo sobre as demandas populares pela diminuição da desigualdade, da exploração e da precariedade, apareceram ao domínio público amplo. A nova atenção a discursos não hegemônicos ocorreu com o acontecimento e essa camada de conhecimento e reconhecimento transformou a percepção dos sujeitos, dos governos, das esferas, das instituições. A nova camada de conhecimento rememorado, readquirido – seja ele um conhecimento social, espacial ou socioespacial – com a explosão do acontecimento, é o um a mais da conta 2+2=5. É um elemento antes esquecido e recalcado por parte da sociedade, que durante a ação dos movimentos sociais é colocado à avaliação. Após apresentar algumas facetas do acontecimento, agenciadas pelos campos da Ciência Política, Sociologia e Comunicação, como podemos vincular tais 40 acontecimentos ao espaço material, objeto da Arquitetura urbana? Começo com uma pontuação de Quéré (2005, p. 67): Existe também a ideia de mudança, de uma transformação de um qualquer substrato, seja ele um substrato material ou pessoal. Mas a transformação ressentida por um objecto material, no quadro de um acontecimento, não dá lugar a uma experiência “tida” por esse objecto, pela razão simples de que o objecto é, sem dúvida, indiferente a essa transformação. Ou seja, Quéré (2005) não fala de uma essência do espaço que sentiria o acontecimento. O acontecimento que ocorre em algum lugar, pode ficar marcado na materialidade daquele espaço de forma fixa ou temporária (pichações, destruição do patrimônio público, pinturas nas vias, intervenções artísticas), gravadas em registros físicos, como em fotografias ou mesmo na memória dos sujeitos presentes. Tal acontecimento, ruptura, é a origem de um novo sentido que também se manifesta no uso da fisicalidade da arquitetura, são camadas adicionadas pelos sujeitos que deixam as marcas do rompante. Os territórios são também suportes que possibilitam a ocorrência das relações humanas. Uma vez que os usuários são diretamente afetados pelos acontecimentos, eles podem modificar as formas como utilizarão e perceberão tais locais. No caso da escala menor dos sujeitos, é a possibilidade de “interação, confrontação, determinação recíproca” (QUÉRÉ, 2005, p. 68) que configura a ordem hermenêutica e a passibilidade do acontecimento, fazendo com que ambos se transformem, mesmo que de maneiras muito distintas em escalas diferentes. Uma vez que o acontecimento é apoderado pelo social, ele se transforma: “são relativos ao que somos, às nossas capacidades e ao nosso sentido do possível” (QUÉRÉ, 2005, p. 68). Por outro lado, o sujeito pode perder as referências quando atravessa o caos, pois o enfrentamento de um acontecimento gera uma apropriação, uma integração à história daquela pessoa. O conjunto de palavras interação, confrontação, determinação recíproca, transformação, sentido do possível, apropriação e integração podem ser aplicadas à relação entre os sujeitos e o ambiente construído (ainda que não se trate de uma experiência sentida pelo ambiente construído, como escreveu Quéré). Transformar o sentido do possível reestrutura a 41 forma como compreendemos os acontecimentos e como utilizamos a materialidade à nossa volta, adquirindo e formando outros repertórios e usos. Esta discussão me lembra um questionamento de Žižek (2017, p. 11): “Seria um acontecimento uma mudança na maneira como a realidade se apresenta a nós ou uma violenta transformação da realidade em si?”. Considerando o que fora dito por Quéré, a forma como a realidade é vista pelos sujeitos diz mais respeito a eles próprios do que à realidade. Todavia, Žižek atenta para o fato de que o acontecimento não é uma simples mudança, ademais o que modifica é tão somente o parâmetro pelo qual examinamos o acontecimento, circunscrevendo-o em uma dimensão mais social – ou seja, há uma transformação do próprio princípio da avaliação das coisas, dos conceitos, a partir do acontecimento. Avaliação, por exemplo, do que é a cidade, do direito à cidade, de coisas que dizem respeito ao coletivo e ao individual. Passado algum tempo, o que fora acontecimento é incorporado ao cotidiano, posto que há um deslocamento dos critérios quando ele se transforma em acontecimento-objeto. Portanto, seria correto dizer que ambas mudanças ocorrem (como a realidade se apresenta a nós e a transformação da própria realidade), simultaneamente ou não – e isso tem a ver com as perturbações (em algum nível) dos quadros de sentido individuais e coletivos. A concepção pragmática dá atenção ao papel do acontecimento na organização da experiência do sujeito. Tomamos conta da importância do acontecimento para a vida pública, para a política, pois, apesar de ser uma ruptura que vai além da vida cotidiana, ele reverbera na escala mínima, reconfigurando também a maneira como as pessoas lidam com o dia a dia (LAGE; BARCELOS, 2011). E, dentro disso, a reconfiguração da percepção do espaço também pode ser inaugurada a partir de um acontecimento mais facilmente perceptível nas atuações da microescala, como em hortas urbanas coletivas, associações de bairro que cuidam de praças e jardins, arte em espaços públicos, intervenções com pinturas pela cidade e etc. Mas que também pode ser avistada nas revoltas contra a privatização de espaços, nas ações macro das assembleias, mutirões, multidões, passeatas, ocupações. No caso, Quéré (LAGE; BARCELOS, 2011) se interessa pela experiência coletiva, por isso o grande espaço dado a esse autor nesta dissertação. 42 Pensar a cidade e o conjunto de sujeitos que a habitam é pensar a face coletiva dos acontecimentos nos espaços citadinos. De acordo com Rovenir Duarte (2013), o interesse do campo da Arquitetura pelo pragmatismo foi inicialmente suscitado pelo filósofo John Rajchman com o texto “A new pragmatism?” (1997), em que o autor americano, juntando as tradições da terra natal à francesa, chegou ao pragmatismo do diagrama e do diagnóstico. Duarte (2013), citando Rajchman, explica que o diagrama e o diagnóstico foram “convocados”, pois não havia como projetar o futuro, apenas experimentar o presente – algo que se relaciona com o “things in the making”, a máxima de William James. Apoiados na perspectiva pragmática, podemos pensar a experiência dos sujeitos nas grandes cidades, palco dos acontecimentos aqui dissertados. A ideia de “coisas em feitura”, formulada por William James, surgiu no início do século XX como uma crítica ao intelectualismo. Baseando-se em James, o livro The pragmatist imagination, thinking about “things in the making”, organizado por Joan Ockman (2000), é iniciado com a ideia de que pensar sobre as “coisas em feitura” é pensar experimentalmente. Além disso, os textos do livro se relacionam com o futuro de maneira a não projetar ou programar as ações, mas diagnosticar as forças que atuam no espaço. A temporalidade passa a ser central, uma vez que o pragmatismo no campo da Arquitetura urbana se volta ao processo das coisas, ao processo de feitura da materialidade das cidades e o “fazer-cidade”, que consistiria, então, em entender o acontecimento e a cidade no ato de fazer, na experiência material constitutiva da urbe. A autora Teresa Caldeira (In OCKMAN, 2000, p. 225 – tradução minha) escreve que o olhar atento às práticas espaciais e formas de cidadania no “fazer-cidade” contemporâneo nos leva a “encontrar tendências contraditórias”9. A autora denuncia os novos padrões de segregação urbana e retirada de direitos, baseados em enclaves fortificados, espaços públicos abandonados, grupos sociais excluídos. É claro que o contrário também ocorre: novas identidades e cidadanias são reconhecidas, reitera Caldeira (In OCKMAN, 2000, p. 255 – tradução minha) e “focar em transformações recentes na interseção de lugar e 9 No original: “encounter contradictory tendencies”. 43 cidadania significa analisar processos que criam novos espaços democráticos e simultaneamente aqueles que os desfazem”10. O “fazer-cidade” pode significar mais do que apenas construir o ambiente, em meio a essas várias tramas que compõem o conceito, ele se liga ao pertencimento. Como James Holston (2013) explica, o pertencimento ocorre quando a apropriação e a produção (propriedade pelo uso produtivo) instituem um direito sobre a cidade. Ele concerne também ao modo de usar a cidade pelos sujeitos, na experimentação com o espaço, levando em conta fatores externos e internos que operam nas decisões individuais e coletivas. Parte, portanto, de um processo de feitura no passar dos dias, instaurado por um acontecimento, reverberações e prosseguido no cotidiano. Não se trata de um teor essencialista do espaço, mas sim, como os repertórios de ação, seja na construção, seja no uso, são formados e transmitidos no dia a dia. Por essa razão, os acontecimentos e as operações de vida cotidiana associam-se ao conceito de experiência, sendo que a experiência, para John Dewey, denota o entrelaçamento do sujeito com o meio ambiente – e esse seria o movimento de afetação. A vida cotidiana em perspectiva pragmatista situa-se no fluxo interativo desordenado das experiências fracas entre sujeito e meio ambiente. O cotidiano abre a possibilidade da configuração de uma experiência, não constituindo de antemão um vivido integrado e completo (LANA, 2008, p. 03). É nessa brecha que a repercussão de um acontecimento pode aparecer: o sujeito resgata de uma memória distante ou recalcada uma ação possível, um uso quase inédito a um espaço. Descrevo repercussão do acontecimento como forma de descomplicar o exemplo, mas tenho a plena consciência da hibridez entre acontecimento e cotidiano (ambos ocorrem simultaneamente). Relembro a inseparabilidade entre os dois, já comentados na introdução. Agnes Heller (2008) pensa em movimentos de transição entre acontecimento e cotidiano, nos quais um está implicado no outro. Lígia Lana (2008) utiliza a imagem de uma bolha de sabão para exemplificar a fragilidade do cotidiano, que pode ser interrompido a qualquer 10 No original: “to focus on recent transformations in the intersection of place and citizenship means to analyze processes that create new democratic spaces and simultaneously those that unmake them”. 44 momento por um acontecimento11. A autora atenta para a vida contemporânea, da qual o caráter conservador sequestra qualquer novidade, impregnando nossas vidas com discursos manipuladores, paralisantes e precarizantes. Em contrapartida, é somente no acalmar dos ânimos promovido pelo cotidiano que conseguimos decodificar, compreender (ainda que não completamente) e afetar, mais uma vez, os acontecimentos. É também na experiência diária que as narrativas circulam, fato proporcionado pelas mídias, redes sociais, conversas com vizinhos, familiares, reuniões de bairro, palestras. Assim, o acontecimento não está desconectado do cotidiano – ele modifica as práticas da existência, estando sempre à mente. Ambos ocorrem na experimentação do tempo: um provê a seriação, o outro a rompe e “é o corte na continuidade que provoca a possibilidade de novos possíveis a serem configurados” (LANA, 2008, p. 06). A indissociabilidade entre cotidiano e acontecimento está diretamente relacionada aos movimentos de aglomerações episódicas e de emancipação do século XXI, mobilizações em que o par acontecimento e cotidiano se reveza. Os acontecimentos podem ser identificados por uma série de fatores. Com base no texto de Mendonça (2007), os acontecimentos produzem uma ruptura na continuidade da experiência, que afeta os sujeitos (fator ligado à passibilidade do acontecimento), podendo alterar os campos de ação, de reconhecimento e as experiências coletivas. Acontecimento e sujeito se tornam simultaneamente – os acontecimentos transformam o campo de percepção do mundo, ampliando o horizonte dos sujeitos; já o caráter hermenêutico dos acontecimentos dá autonomia ao acontecimento. Há uma imprevisibilidade e uma falta de controle na irrupção da novidade, retomando aqui a operação matemática do 2+2=5, em que o 1 que sobra vem da erupção do acontecimento. 11 Tomando aqui como caráter do acontecimento o rompimento da continuidade da existência: “o acontecimento rompe o decorrer da vivência comum” (LANA, 2008, p. 05). 45 46 3 OS MOVIMENTOS SOCIAIS E A VIDA NAS CIDADES - 47 Como ponto de partida, tomo emprestado um desdobramento analítico de Guilherme Benzaquen (2017) sobre o livro Acontecimento de Žižek (2017). Nele, Benzaquen defende que podemos considerar Junho de 2013 como um acontecimento, visto que somente após o “fim” das jornadas foi possível determinar algumas causas e entender o peso das aglomerações episódicas sobre o campo politico. Tal constatação provém do fato de que o campo da sociologia brasileira não conseguiu (e nem deveria conseguir) prever os movimentos urbanos ou os degringolares após aquele ano. Um acontecimento, entre várias camadas, é aquilo que ocorre subitamente e que se define parcialmente em seguida a própria realização. O início do século XXI pode ser entendido como um tempo em que as aglomerações episódicas ocorreram em cidades como Atenas, Tunes, Cairo, Nova Iorque, Madri, Istambul, São Paulo12, Belo Horizonte, Santiago, Hong Kong, Misk etc. De maneira correlata, outra forma de acontecimento urbano que têm como prerrogativa o direito à cidade e o “fazer-cidade” está na luta emancipatória por moradia, seja ela periférica ou central. Após a marcha em assembleia e a ocupação, caracteriza-se como um acontecimento diário, em que a resistência é constante até que os amparos legais e infraestruturais estejam assegurados. Em apresentação oral durante o encontro Arquisur de 2019 (Belo Horizonte), a arquiteta Izabella Galera (SANTOS; GALERA, 2019) iluminou esta pesquisa quando disse que a ocupação da Izidora (região no vetor norte de Belo Horizonte) reconfigurava a história do movimento social que lá atuava e dos sujeitos ocupantes. O momento crítico da ocupação trazia à tona todo o percurso histórico contra os proprietários das terras, investidores e construtoras, enquanto o resgate do nome Izidora, contrapondo a 12 No artigo “Rebeliões metropolitanas e planejamento insurgente no século XXI”, James Holston (2016) lista o nome de autores que trabalharam na análise de tais levantes (ver nota de rodapé número 3, p. 192). 48 Izidoro13 no masculino, remetia à história de uma mulher escravizada que constituiu a descendência na região, abrindo espaço a uma releitura de um passado que modifica o próprio presente. O início do século XXI também pode ser caracterizado, por exemplo, por algumas outras ocupações apresentadas no Tribunal Internacional de Despejos, que ocorreu em 2016 em Quito: Ilha de Jeju (Coreia do Sul); Bilangalonzo (Congo); e Monte Sinai em Guayaquil (Equador) - não selecionado, mas participante da primeira triagem. Podemos dividir esse montante de acontecimentos em dois tipos, aqueles que lutam pela permanência de algum bem, seja uma ocupação, uma praça, um parque etc. e aqueles que lutam pela criação de um bem, também podendo ser exemplificado pelos mesmos casos citados anteriormente, todos diretamente ligados ao direito de intervir nas cidades. Um acontecimento que ocorre na cidade está vinculado à materialidade das coisas e à maneira pela qual os sujeitos que lá estão usufruem de tais elementos. As aglomerações episódicas colocam à prova questões que referem ao acesso desimpedido às infraestruturas de qualidade das cidades, ao espaço público, à possibilidade de se reunir para protestar etc., chamando atenção às causas e consequências após os acontecimentos no campo político. As lutas emancipatórias, ligadas a movimentos sociais por moradia, também contam com os pontos característicos do acontecimento. Elas instauram uma suspensão do cotidiano com fins de se criar um outro cotidiano, estruturado pela construção material da cidade, que se liga às tensões de esferas privadas e públicas, ao bem-viver, às infraestruturas etc. Existem pontos de aproximação e distanciamento entre essas duas formas de luta. Ambas são convocadas na constelação do acontecimento nas cidades por serem movimentos sociais que ilustram e mobilizam elementos importantes a esta dissertação. Os movimentos sociais aqui apresentados são generalizações sobre a forma da atuação e processo de luta nas cidades; as aglomerações episódicas e as lutas emancipatórias fazem parte de um tapete muito maior das lutas urbanas, que inclusive é tecido em linhas híbridas – ou seja, muitas se relacionam, trocam experiências, se transformam. Ambas formas 13 De acordo Morado Nascimento (2016 – ver nota de rodapé número 14), o nome do Ribeirão Izidora aparecia no feminino até mudar para masculino, Izidoro, em mapas produzidos a partir de 1937. O retorno ao feminino, principalmente como nome da ocupação, lança luz a essas narrativas encobertas. 49 tomam espaço na dissertação, pois a primeira diz dos processos insurrecionais do século XXI, foco inicial do projeto de pesquisa; e a segunda possibilita um pensamento mais alongado sobre as indistinções entre cotidiano/acontecimento; esfera pública/privada; espaço público/privado/comum, evidenciando a tensão entre tais denominações. A partir dos acontecimentos, vários assuntos são postos em debate, seja em meios físicos (como nos jornais e revistas), digitais (redes sociais, sites, blogs) ou mesmo pessoalmente: os movimentos sociais instauram desestabilizadores nos cotidianos de várias classes sociais, campos de estudo, profissões. A noção de “fazer-cidade” (produzida a partir de “coisas em feitura” de William James) estaria diretamente ligada ao direito à cidade. “O direito à cidade não pode ser concebido como um simples direito de visita ou de retorno às cidades tradicionais. Só pode ser formulado como direito à vida urbana, transformada, renovada” (LEFEBVRE, 2001, p. 117-118). O conceito cunhado por Lefebvre em 1968 é um agrupamento de ideias, amplamente discutido e aplicado no conjunto das Ciências Sociais. Como resumo, Lefebvre (2001) escreve que o direito à cidade é uma forma aglutinadora dos direitos, que inclui direitos às liberdades individuais, ao direito de ir e vir, ao habitar, entre outros. Entretanto, quando falamos do direito à cidade, temos que nos delongar na importante questão que orbita o assunto: a constatação de que existem diferentes noções sobre os direitos. Para isso, David Harvey (In HARVEY et al, 2013) apresenta um desenvolvimento de ideias bastante interessante, no qual o conceito do direito de tomar a cidade, por exemplo, ressoaria de modo distinto, por um lado, aos sujeitos insurgentes – significando a reconstrução de uma cidade onde haveria menos desigualdades –, enquanto que para os detentores das propriedades privadas esse direito estaria vinculado à manutenção das propriedades e da moral à época. A partir disso, como poderíamos enfrentar essa multiplicidade de visões? Afinal, todos os agentes estariam em pontos nodais, exercitando, “exercitando” ou até mesmo impedindo o direito à cidade (mas exercitando um outro tipo de direito como, por exemplo, o oficial pelos detentores das propriedades). Harvey sugere o caminho iniciado por Lefebvre (2001) quando diz que a mudança da vida urbana ocorre por meio da mobilização social e pela luta política. Ou seja, a manutenção de um status quo na 50 cidade não representaria o direito de tomar a mesma – enquadraríamos o “exercício” (um discurso de exercício que na prática não é verdadeiro) e o impedimento (que vai contra o direito à cidade, a mobilização social, de maneira explícita) em um tipo de direito que já é garantido. Os casos de “exercício” e de impedimento não serão tratados nesta dissertação. O direito à cidade trata da recursa ao modo de vida em que se perpetuam as desigualdades e da afirmação a outra forma de compartilhamento do cotidiano. Quando um movimento social propõe uma nova forma de vida e a coloca em prática (mais compreensível quando analisamos as lutas emancipatórias, pois existe, com a ocupação territorial, a construção de um cotidiano comum entre as famílias), há uma representação performativa de democracia radical que pode dar forma ao que significa ter uma vida possível de ser vivida, sendo algo maior do que apenas sobreviver. Numa vida que se tenha uma reivindicação mais ampla para o existir, algo também virtual, descoberto e pensado em contínuo processo, possibilitando a exposição do desejo de se montar um outro tipo de sociabilidade. As alianças de corpos distintos projetam ações que reivindicam futuros diferentes, bem como passados diferentes, com o recontar da história com a requerida visibilidade. Trata-se de uma performatividade que reivindica o material – o território – e o imaterial – as alianças, encontros, discursos -, transformando cada vez mais a cidade por meio da mobilização social. A construção do desarmônico, imaginativo e prático, na construção material e imaterial faz frente àqueles que desejam a manutenção de uma cidade desigual. Existem forças fora do alcance, como o jogo da governança das parcerias público-privadas, o empreendedorismo competitivo, a neoliberalização etc., mas, como contraponto, recentes inovações e experimentações prático-políticas nasceram, como no caso dos comuns urbanos. De forma individual ou coletiva, os sujeitos fazem, constroem e reconstroem a urbe por meio das ações do cotidiano. Por essa razão, o direito à cidade não representa uma coisa abstrata. Sobre as aglomerações episódicas, atento-me à seguinte pergunta: em que medida uma aglomeração de corpos em assembleia em um espaço público é um fato a ser comemorado? Judith Butler (2018) afirma que todos aqueles que lutam por democracia, 51 igualdade e mais direitos devem ser aplaudidos, mas, logo em seguida, diz que esses próprios conceitos possuem valores diferentes e heterogêneos. Por isso, deve-se separar a defesa de reunião dos sujeitos da celebração das ideias que são expostas publicamente por aqueles reunidos. Em outras palavras, ainda que o direito de se expressar seja uma prerrogativa (hipótese), a expressão de ódio a grupos vulneráveis, como vemos em reuniões (presenciais e digitais) neonazistas, antiaborto, racistas, homofóbicas etc. deve ser rechaçada. Para que estas assembleias sejam democráticas, elas devem se opor aos preconceitos, às desigualdades, às austeridades, às restrições de direitos conquistados historicamente, aos governos autoritários local e mundialmente. Deixando claro que nenhuma assembleia popular representa o povo em sua integridade, mas cada proposição do povo por meio da assembleia arrisca ou atrai um conjunto de conflitos que, em contrapartida, leva a um conjunto crescente de dúvidas sobre quem o povo realmente é (BUTLER, 2018, p. 172). No caso, Butler constrói o argumento de que nenhuma assembleia é capaz de representar o povo em completude, assim, não há a pretensão de considerar tais assembleias como um conjunto homogêneo, em que os discursos e movimentos são completamente alinhados. As pessoas, em uma mesma assembleia, podem se mover em direções opostas e possuir motivações e objetivos diferentes. Gros (2018, p. 51) escreve em Desobedecer que “Se a maioria é silenciosa, é sobretudo porque para ela é difícil encontrar uma única voz; é silenciosa porque imediatamente cacofônica”. Refletindo sobre tal passagem, podemos pensar também que o resultado não é necessariamente o silêncio quando a maioria é cacofônica14: os ruídos podem ecoar nas assembleias, sendo isso um fator aglutinador, visto que elas aceitariam pautas diversas. Este “sair às ruas” significa se reunir de modo a formar um conjunto de sujeitos, confrontar urgências e colocar as interpretações sobre o campo político à risca. Nesse caminho, é valioso o entendimento de Lefebvre (2002) sobre o urbano – o que envolve o direito à cidade também –, afinal, isso justifica a falta de forma final e a cacofonia 14 Cacofônicos quando existem divergências complexas dentro de uma assembleia que se aglomera por uma causa em comum (por exemplo, quando feministas radicais e mulheres transgênero se reúnem em prol do dia de luta das mulheres, sendo que as primeiras não reconhecem as segundas como mulheres, causando a cacofonia nesse caso). 52 desses movimentos sociais momentâneos, já que o “campo cego” representa o lugar onde tudo ainda é nebuloso e o urbano não passa de uma semente. O urbano como virtual tem a ver com a impossibilidade da linguagem, algo relativo, talvez, à construção de Clarice Lispector (1980, p. 50), em que o “desejo ainda não tem nome”, mas isso não representa um impedimento da tentativa de elaboração e, mais importante, de escritura. A impossibilidade de nomear e conformar o virtual (por causa do “campo cego”) não inibe as práticas sociais que o perseguem. A convivência com a alteridade (e a consequente cacofonia do viver em conjunto) é um dos maiores focos da produção de Judith Butler. É interessante perceber que os primeiros trabalhos de reconhecimento internacional de Butler se preocupavam com a teoria queer e a performatividade de gênero e que, mais atualmente, a autora vem se detendo a uma análise mais generalista, abrindo investigação às questões da vulnerabilidade e precariedade. O ponto central passou a ser: “como viver juntos?”, em que a construção de uma “vida possível de ser vivida” em comunidade deva ser anterior à pergunta de “qual vida eu devo viver”. Para isso, Butler utiliza como ponte o direito de aparecer e a performatividade, que interligam as minorias sexuais LGBTQIA+ e as populações precarizadas, abordando o racismo, xenofobia, machismo etc. Nesse sentido, Butler cobre uma área mais larga, passando da análise de uma experiência circunscrita aos sujeitos LGBTQIA+ à atenção às minorias gerais, questionando qual a vida vivível em meio às diversas demandas, inclusive as do corpo. Por exemplo, ainda que Butler apresente histórias LGBTQIA+ nas obras mais recentes, a associação entre os sujeitos (seja um ou sejam vários) precarizados é quase que imediata. Caminhar é dizer que esse é um espaço público onde pessoas transgêneras caminham, que esse é um espaço público onde pessoas com várias formas de se vestir, não importa o gênero que lhes seja atribuído ou a religião que eles professem, estão livres para se mover sem a ameaça da violência (BUTLER, 2018, p. 59). E pensar que a partir do momento em que estas pessoas saem às ruas, ao espaço não- privado, elas reivindicam que existem, que merecem uma vida vivível e aquele espaço também é delas. Assim, demandas básicas do corpo estão no centro das manifestações 53 dos movimentos como Occupy, Parque Gezi, Jornadas de Junho15 e as lutas emancipatórias – são demandas que exigem o conforto físico dos sujeitos, como abrigo, alimentação, proteção contra a violência, pela circulação nas cidades, pela assistência médica (BUTLER, 2018). Ao mesmo tempo, esse aspecto social fisiológico se relaciona diretamente à Arquitetura urbana das ruas, dos espaços públicos e privados, dos lugares de circulação e convivência das cidades. São os corpos físicos – que sentem fome e saciedade, frio e calor, desconforto e conforto – que conformam uma assembleia que aparece. O aparecimento neste caso não é apenas uma figura de linguagem sobre algo abstrato, mas sim corpos que se movimentam conjuntamente em prol de algo comum. O direito de aparecer no espaço público está vinculado à frase “nós não somos descartáveis” (BUTLER, 2018, p. 32), localizada no núcleo de sentido dessas vidas. Como Butler (2018, p. 33) escreve: “estão reivindicando reconhecimento e valorização, estão exercitando o direito de aparecer, de exercitar a liberdade, e estão reivindicando uma vida que possa ser vivida”. Dentro dessa frase, muitos podem ser os sentidos de uma vida mais vivível, que arriscam, inclusive, ser antagônicos, mas conseguem reunir várias pessoas. Estas assembleias são inscrições espaço-temporais de ruptura no cotidiano que inauguram outras interpretações e que insurgem contra, principalmente, algo descrito por Butler (2018) como a distribuição desigual da precariedade. Desde Quadros de guerra (2015), Butler investiga como a precariedade e a vulnerabilidade operam como lugares de aliança entre grupos que poderiam ser antagônicos, dando forma aos encontros e discursos diversos. A condição da precariedade16 que constitui a vida política e o fato dela ser diferencialmente distribuída deflagram a possibilidade da insurgência, da assembleia e do acontecimento, como maneira de reestruturar a forma de se viver. A precariedade não é uma identidade, é uma condição que produz alianças. Como Butler (2018, p. 66) introduz, esses movimentos focam em encontrar “modos de vida nos quais atos performativos lutem contra a condição precária, uma luta que 15 Considerando as demandas iniciais das Jornadas de Junho, que consistiam em transporte público gratuito, de qualidade e o conjunto do direito à cidade. 16 Butler alerta (2018, p. 78): “O oposto da precariedade não é a segurança, mas luta por uma ordem social e política igualitária na qual uma interdependência possível de ser vivida se torne possível”. E essa interdependência deve ser regida por uma ética da coabitação. 54 busca descortinar um futuro no qual possamos viver novos modos sociais de existência”. Sobre a vulnerabilidade, Butler repensa a condição humana em meios de ação: nenhum sujeito sobrevive sem uma rede de contatos e isso atesta a vulnerabilidade dele próprio. Advogar pelo fato de que todos somos seres vulneráveis é reconhecer que dependemos dos outros, da natureza, do mundo, sendo essas características da resistência e da luta por direitos. Portanto, reivindicar uma vida mais vivível não é o mesmo que se sentir vivo, como escreve Butler (2018); essa reivindicação vem do reconhecimento de uma vulnerabilidade que pode ser traduzida em ação de resistência política. Não tem a ver com fraqueza ou vitimização – a vulnerabilidade é uma constatação que, em vez de paralisar, mobiliza. A vulnerabilidade esclarecida pode gerar uma ação que coloca o corpo no centro da luta, sendo que a resistência tem que ser plural e corporificada para representar os princípios de democracia pelos quais luta. Ela também vai implicar a reunião daqueles que não são passíveis de luto no espaço público, fazendo de sua existência e da reivindicação por vidas vivíveis a demanda por uma vida anterior à morte, algo exposto de maneira simples (BUTLER, 2018, p. 238 – grifo da autora). A precariedade, vulnerabilidade e interdependência são palavras centrais para a concepção de democracia na teoria de Butler. Mas a multiplicidade de visões sobre essas palavras também remete à disputa do significado de democracia, mais acirrado na atualidade. O texto de Mendonça (2018), “Dimensões democráticas nas Jornadas de Junho”, auxilia-nos ao apresentar as várias facetas mais abordadas pelos teóricos da democracia. Essa palavra passou por tantas reformulações, adendos, reescrituras, que, ao mesmo tempo que significa muito, pode ser interpretado como algo esvaziado de significado. Em um trabalho cuidadoso, Mendonça (2018) mapeia sete dimensões, ou eixos estruturadores, que podem nortear uma construção maleável da democracia. São elas: 1) “autorização popular para o exercício do poder político”, ou seja, quando a população autoriza o Governo a representá-la por meio do voto, de sorteios ou outras técnicas; 2) “participação nas decisões e autogoverno”, a primeira como uma dimensão resgatada com muita força dentro do quadrante latino-americano, especialmente a partir dos processos de redemocratização, que, todavia, passou a ser estudada de 55 maneira menos encantada na contemporaneidade (ver a sequência de livros de Miessen sobre a participação no campo político dentro da perspectiva da Arquitetura urbana); 3) “monitoramento e vigilância sobre o poder político”, em outras palavras, transparência e publicidade por meio de instituições que observam e acompanham o poder, essenciais ao quadro democrático; 4) “promoção da igualdade e defesa de grupos minorizados” – ainda que a ideia de igualdade seja tão extensa quanto a de democracia, essa dimensão se relaciona com a defesa de sujeitos à margem quando os direitos de todos são protegidos; 5) “competição política e pluralismo”, assegurando a concomitância de opiniões divergentes e resultando em rupturas da teia que estrutura as opiniões; 6) “discussão e debate de opiniões”, que apesar de aproximar à quinta dimensão, diz respeito aos discursos, debate público e formação de opinião, salientando o papel da mídia e da comunicação; 7) e “defesa do bem comum”, outra ideia bastante ampla17, mas que simboliza o interesse comum dos sujeitos. Todas as insurreições anteriormente citadas tocam algum ponto dessa rede da democracia, seja na participação, na tomada de decisões (testando o limite da democracia representativa), promoção da igualdade (pensando em ações afirmativas) ou no direito de ir à rua manifestar as opiniões abertamente. Apesar de Mendonça (2018) ter analisado as Jornadas de Junho, acredito que alguns aspectos levantados por ele possam ser aplicados em outros movimentos de aglomerações episódicas do século XXI. Seriam eles: pelo fato dessas assembleias terem ocorrido em um momento específico, sendo impossível traçar um começo ou fim; pela “sobreposição entre espontaneidade e organização” (MENDONÇA, 2018, p. 09), característica ímpar apresentada em “Movimentos sociais como acontecimentos” (MENDONÇA, 2007); pela característica comum da grande aglomeração de sujeitos protestando em espaços públicos; e pelo fato de serem movimentos que abrem oportunidade para outros atores políticos em desdobramentos antes impensáveis. 17 Apesar de não estar diretamente citada no artigo de Ricardo Mendonça (2018), a ideia do comum como um bem foi estudada por outros diversos autores até se desenvolver em prática e ação em uma leitura mais atual, como aparece em Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI, de Dardot e Laval (2017) e A commonwealth, de Hardt e Negri (2009). 56 Indagações sobre a efemeridade e propagação desses, aqui considerados, acontecimentos levaram Holston (2016) a se perguntar se as aglomerações episódicas do século XXI são protestos ou movimentos insurgentes, considerando os primeiros como objeções à forma como a cidade é construída e gerida, direcionada às instituições e autoridades; e os segundos como propostas alternativas, que reivindicam direitos desenvolvidos fora da alçada do Estado, como em novas cidadanias. Como resposta, o autor considera que as aglomerações são, na verdade, uma mistura complexa de movimentos insurgentes e protestos, já que reúnem demandas e contestações do modo de vida instituído, mas também colocam propostas de usos de espaços para a construção de uma outra cidade possível. Estas manifestações populares geralmente são efêmeras, acontecimentos que explodem e não permanecem por tanto tempo nas ruas, entretanto, algo delas permanece no cotidiano, como faíscas para outros acontecimentos. Ainda que as aglomerações episódicas apresentadas no início do capítulo tenham emergido de circunstâncias diferentes18, elas podem ser unidas por meio da ideia de uma cidadania insurgente (“fazer acontecer a cidade” e “fazer acontecer a cidadania”) como parte do processo da construção destes levantes metropolitanos (HOLSTON, 2016). Outro ponto de aglutinação é a mudança do alvo de ataque: do século XX para trás os protestos atingiam as fábricas, os locais de produção, e os palácios do governo, locais do poder, enquanto que agora visam os espaços da circulação (HOLSTON, 2016) – física ou digital –, afetando outros aspectos da vida neoliberal e chamando atenção de outras maneiras. Entre características como “ocupação ostensiva do espaço urbano; rejeição da política representativa; a mobilização contra o sucateamento de bens e serviços públicos, a resistência à violência policial; uso de novas mídias sociais; e a emergência de novas esferas” (HOLSTON, 2016, p. 198) participativas, o autor aponta para o desejo de um novo tipo de cidade como principal motivo das insurgências urbanas – ou seja, um cotidiano que leve em conta o real significado de direito à cidade. 18 Holston (2016) lista as principais distinções dos movimentos de insurgência como a reação à crise de 2008 e ao estouro das bolhas imobiliárias na Grécia, EUA e Espanha; e questões governamentais, como na Tunísia e no Egito. 57 Holston afirma que a mistura de elementos como urbanização e neoliberalização produziu uma condição de precarização mundial. Frente a isso, partes das populações vêm a entender suas necessidades básicas não apenas em termos de habitar e sofrer a cidade, mas também em termos de construí-la, de fazer a paisagem da cidade, da sua história, da vida cotidiana e da política como um lugar para eles próprios. Os muitos significados desse fazer frequentemente aglutinam-se na ideia de que eles têm direito ao que produzem, isto é, têm direito à própria cidade (HOLSTON, 2016, p. 195). Por isso, o autor sai em defesa da ideia de uma cidadania enquadrada na cidadania urbana, que, diferente da “nacional”19 e da “humana”, destaca-se ao utilizar o conceito do direito à cidade não como jargão, mas como pilar. “Fazer acontecer a cidade”20 e “fazer acontecer a cidadania” andam juntos e a montagem que constrói a cidade, onde cada sujeito residente é colaborador, constitui uma cidadania que não necessariamente se liga à nacional. Assim, o autor (2016, p. 197-198) considera “a cidadania urbana como uma forma de associação em que o ‘fazer a cidade acontecer’ é, simultaneamente, o contexto e o conteúdo de um sentido de pertencimento, no qual o fazer é entendido como a soma das atividades dos residentes” e o morar junto é sustentáculo da comunidade. Em certa medida, a aglutinação na escala da vizinhança ou da cidade é algo menos abstrata que uma aglutinação nacional. Segundo Holston (2009), a cidadania urbana pode ser compreendida a partir de quatro aspectos: quando a moradia urbana é a base da mobilização social daquele grupo; quando a experiência urbana e os direitos atrelados a ela compõem a agenda; quando a cidade é a principal comunidade política de referência; e quando as moradias, entendidas como contribuições na cidade, legitimam essa agenda. É no domínio da vida doméstica e privada que a cidadania insurgente aparece, por meio da autoconstrução de residências e das demandas pela urbanização dos bairros (HOLSTON, 2009), alcançando a esfera 19 De maneira categórica, Holston (2016, p. 194) desmonta a ideia de que a cidadania nacional seria uma coisa irrevogável quando a analisa como uma forma singular de associação (com uma genealogia específica): como uma definição que agrega, mas que também exclui, baseada no local de nascimento; como uma combinação de elementos que criam divisões de grupos sociais; e como uma ética do pertencimento. Dessa forma, o autor consegue levantar argumentos consistentes para a própria proposição da alternância da cidadania nacional à cidadania urbana. 20 Holston utiliza essa figura de linguagem ao traduzir city-making. Aqui eu a aproximo ao que eu quero dizer do “fazer-cidade” em “things in the making”, apropriada da máxima de William James. 58 pública quando tal acontecimento é vei