Revista do Departamento de Geografia, Volume Especial – Eixo 11 (2017) 259-267 259 Solos e Evolução da Paisagem em Ambiente Periglacial na Península Barton, Antártica Marítima Soils and Landscape Evolution in Periglacial Environment on the Barton Peninsula, Maritime Antarctica Davi do Vale Lopes Universidade Federal de Minas Gerais davivlopes@hotmail.com José João Lelis Leal de Souza Universidade Federal do Rio Grande do Norte jjlelis@gmail.com Fábio Soares de Oliveira Universidade Federal de Minas Gerais fabiosolos@gmail.com Carlos Ernesto G. R. Schaefer Universidade Federal de Viçosa carlos.schaefer@ufv.br Recebido (Received):18/03/2017 Aceito (Accepted): 02/06/2017 DOI: 10.11606/rdg.v0ispe.132721 Resumo: As baixas disponibilidade de água líquida e temperatura na Antártica condicionam a formação de solos incipientes. Condições climáticas menos severas na Antártica Marítima permitem o maior desenvolvimento de solos, com maior cobertura vegetal e intemperismo químico mais significativo. A Península Barton, localizada na Ilha Rei George (Antártica Marítima), possui solos derivados de litologias diversas, com destaque para o basalto/andesito piritizado, representando a área de maior extensão de materias sulfídicos na região. O objetivo deste trabalho foi analisar o papel do relevo na gênese de solos sulfatados e sua relação com a evolução da paisagem. Os solos foram classificados de acordo com a Soil Taxonomy e WRB/FAO. Foram descritos três perfis em toposequência e analisados seus atributos morfológicos, físicos, químicos e mineralógicos. A crioclastia está presente como um processo pedogenético, mas o que se destaca é o grau evolutivo dos solos associado à acidificação pela oxidação dos sulfetos. Esse processo promove a liberação de elementos como o Fe, que são mobilizados por influência do relevo. Consequentemente, formam-se níveis encouraçados, isto é, horizontes petroplínticos, caracterizando uma transformação da cobertura pedológica. A gênese destes solos demonstra que a paisagem periglacial é dinâmica e de profundo interesse das investigações pedogeomorfológicas. Palavras-chaves: Oxidação; Sulfetos; Pedogênese; Concreções; Pedogeomorfologia. Abstract: Antarctic soils are characterized by low development degree due to low liquid water content. Compared to mainland, Maritime Antactica has a mild climate. These milder conditions allow a much greater development of soils and more significant chemical weathering. The study area is Barton Peninsula, the second largest ice-free area of King George Island (Maritime Antarctica). The Barton Peninsula has soils derived from different lithologies, with basalt / andesite (with pyrite) standing out. This study aimed to evaluate the role of relief in the genesis of sulfated soils. Three pedons were selected, described, sampled, and classified according to Soil Taxonomy and WRB/FAO. Morphological, physical, mineralogical and chemical analysis were performed. The Barton soils present polygenic evolution. The rock shattering caused by freezing and thawing is present as a pedogenetic process. However, the evolution degree of the soils is substantially associated with the acidification by sulphide oxidation. This process promotes the release of elements, such as Fe, which are mobilized by the relief. Consequently, duricrusts (i.e. petroplintic horizons) are formed, characterizing a transformation of the pedological cover. The genesis of these soils shows that the peri-glacial landscape is dynamic and of deep interest in soil-geomorphological investigations. Keywords: Oxidation; Sulfides; Pedogenesis;Concretions; Soil-Geomorphology. Revista do Departamento de Geografia Universidade de São Paulo www.revistas.usp.br/rdg Volume Especial – XVII SBGFA / I CNGF (2017) ISSN 2236-2878 Revista do Departamento de Geografia, Volume Especial – Eixo 11 (2017) 259-267 260 INTRODUÇÃO A Antártica pode ser compartimentada em porção continental e marítima (BEYER E BÓLTER, 2002) e é conhecida como o continente dos superlativos: mais frio, mais ventoso, mais seco, mais alto, entre outros, ainda que tais condições não sejam homogêneas. Entre os arquipélagos que compõem a Antártica Marítima, as Shetlands do Sul possuem clima oceânico frio, com chuvas de verão frequentes e moderada amplitude térmica anual, varindo entre 8 ºC e 10 ºC. A temperatura média anual é de aproximadamente -3ºC. As áreas livres de gelo estão localizadas onde as temperaturas médias anuais excedem -2 ºC (SERRANO E LOPEZ-MARTINEZ, 2000). Condições climáticas menos severas na Antártica Marítima permitem o desenvolvimento de solos mais profundos, maior cobertura vegetal e intemperismo químico mais significativo em comparação com a Antártica Continental (CAMPBELL E CLARIDGE, 1987). A maior diversidade de processos repercute numa variedade de tipos de solos, com destaque para aqueles associados à dinamica do permafrost, os solos ornitogênicos e os solos sulfatados (FRANCELINO et al., 2011; MICHEL et al., 2014). Nas Shetlands do Sul encontra-se Rei George, a maior ilha do Arquipélago. A Península Barton (PB) (62º14’S 58º46’W) localiza-se a sudoeste da Ilha Rei George, na Baía de Maxwell, e possui área aproximada de 12 km2. Nesta península é comum a presença de rochas enriquecidas em sulfetos que, uma vez expostos aos agentes intempéricos, são afetados por oxidação, criando condições favoráveis ao intemperismo geoquímico e culminando na gênese dos solos sulfatados. Souza et al., (2014) registraram que na Ilha Seymour os solos ácidos sulfatados são os mais desenvolvidos. Na Península Keller, também Ilha Rei George, Simas et al., (2006) relataram presença de solos ácidos, horizontes sulfúricos, minerais de argila que indicam intemperismo químico mais avançado e desestabilização de minerais primários em áreas de oxidação de sulfetos. Ainda assim, poucos estudos abordam os solos sulfatados da Antártica e mais escassos ainda são os estudos que buscaram compreender o papel do relevo na sua gênese. Face ao exposto, o objetivo deste estudo foi analisar, a partir de atributos fisicos e químicos, o papel do relevo na gênese de solos sulfatados na Península Barton e, da mesma maneira, como tais solos interagem com a evolução da paisagem em dominio peri-glacial da Antártica Marítima. MATERIAL E MÉTODOS Área de Estudo A Península Barton localiza-se no arco Mesozoico-Cenozoico da Ilha Rei George, Arquipélago das Shetlands do Sul e compreende uma sequência terciária formada por lavas e rochas vulcanoclásticas (basáltica e andesíta), com intrusões de granodiorito e diorito na parte oeste (ARMSTRONG, 1995; YEO et al., 2004). A Formação Sejong, vulcanoclástica, é a mais antiga unidade geológica, possuindo afloramentos ao longo da costa (Figura 1). Além dela, a faixa costeira apresenta depósitos quaternários descontínuos em razão da presença dos corpos intrusivos. A geomorfologia da área apresenta importantes distinções (LOPES-MARTINEZ et al., 2012). Nas porções central e oeste da Península (próximo à estação de pesquisa sul coreana King Sejong), os vales são mais amplos e os canais de drenagem mais organizados. Ao norte, próxima à geleira, o relevo é mais escarpado. As plataformas médias (16 - 60 metros de amplitude altimétrica) ocorrem principalmente ao sul da Península, voltadas para a Baía de Maxwell e sob a Formação Sejong. As plataformas mais elevadas (61 - 105 metros de amplitude altimétrica) são mais descontínuas, com muitos corpos plutônicos intercalados, desenhando escarpas íngremes. Áreas de depósitos marinhos elevados (106 - 260 metros de amplitude altimétrica) coincidem com os dois principais campos de solos poligonais. Entre os picos mais elevados, destaca-se Noel Hill (Baekdubong). Revista do Departamento de Geografia, Volume Especial – Eixo 11 (2017) 259-267 261 Figura 1: A – Mapa de localização da Península Barton na Ilha Rei George, Antártica Marítima. B - Mapa litológico da Península Barton com a indicação da localização dos perfis de solos amostrados e imagens ilustrativas dos respectivos ambientes. Trabalho De Campo, Coleta e Caracterização dos Solos O estudo envolveu a seleção de uma vertente com uniformidade litológica e onde a presença de solos sulfatados fosse verificada. Armstrong (1995) identificou que na porção norte ocorre abundante associação de sulfetos com andesitos e, por isso, essa área foi priorizada para investigação. Após reconhecimento em campo, foi selecionada uma topossequência, onde três trincheiras foram abertas, respectivamente na alta (P1), média (P2) e baixa encosta (P3) (Tabela 1). Foram descritos os perfis das faces a montante e amostras deformadas foram coletadas. Após transporte, as amostras foram destorroadas, secas e peneiradas (malha de 2 mm). Separou-se as frações granulométricas pelo método da centrífuga com uso de solução de Na2CO3 em pH 9,5 como dispersante. O pH, nutrientes trocáveis e textura foram determinados em amostras de terra fina seca ao ar (TFSA) (EMBRAPA, 1997). Cátions trocáveis, Ca2+, Mg2+ e Al3+ foram extraídas com 1M KCl e P, Na+ e K+ com extrator Mehlich-1 (dupla diluição 0,05 mol/L de HCl em 0,0125 mol/L de H2SO4) (EMBRAPA, 1997). Os teores dos elementos (Al3+ , Ca2+ e Mg2+) nos extratos foram determinados por espectrometria de absorção atômica e emissão de chama (Na+ e K+) e fotocolorimetria (P). O carbono orgânico total foi determinado via combustão úmida (YEOMANS E BREMNER, 1988). Os solos foram classificados de acordo com a Soil Taxonomy (SSS, 2014) e World Reference Base for Soil Resources - WRB (IUSS, 2014). A mineralogia foi analisada no Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS), em Campinas-SP. A linha utilizada foi X-ray powder diffraction (XPD), dedicada a materiais policristalinos. Utilizou-se o equipamento de difração de raios-X HUBER, no modo de operação de alta resolução. Os resultados foram interpretados através de padrões de literatura (BRINDLEY E BROWN, 1980). Revista do Departamento de Geografia, Volume Especial – Eixo 11 (2017) 259-267 262 Tabela 1: Aspectos gerais dos perfis que compõem a topossequência estudada na Península Barton. Perfil Altitude (m) Coordenadas Geográficas Descrição Geral Soil Taxonomy WRB/FAO Imagem P1 160 0409394 / 3100246 Relevo plano, porção superior da topossequência. Área extensa e representativa da parte mais elevada da plataforma. Observou-se rochas quebradas, porém em profundidade encontra-se maior presença de partículas finas. Os fragmentos são muito amarelados. Não se observou água minando no perfil. Typic dystrocryepts Haplic Leptic Cambisol P2 83 0409476 / 3100799 Relevo suave ondulado, porção média da topossequência. Superfície com coloração extremamente amarelada. O perfil apresentava mosqueados. Ausência de cobertura vegetal. Canais de drenagem próximos indicando drenagem superficial e subsuperficial. Typic sulfaquepts Hyperthionic Leptic Cambisol P3 10 0408974 / 3100616 Relevo declivoso, porção inferior ou baixa da topossequência. O perfil está no contato com o domínio litorâneo, próximo as águas da Marian Cove. Presença de horizonte petroplíntico. Ausência de cobertura vegetal. “Sulfuric” petraquepts Orthothionic Petroplinthic Cambisol RESULTADOS Os resultados das análises fisicas e químicas são apresentados, respectivamente, nas Tabelas 2 e 3. Os solos das porções alta e média da topossequência são mais homogêneos em termos de cor e apresentaram predomínio de matiz 10YR na maior parte dos horizontes, bem como altos valores de croma (Tabela 2). Alguns horizontes na base de P3, na porção baixa, apesentaram matiz mais avermelhada (2,5YR) intercalada com zonas acinzentadas e amareladas, revelando um solo de coloração variegada, sobreposto por um nivel concrecionado (Csm). O predominio de cores amareladas é semelhante ao que foi observado em outros solos sulfatados (FRANCELINO et al., 2011; SIMAS et al., 2006; SOUZA et al., 2014) e, tal como nestes estudos, solos com essa coloração são mais argilosos que outros solos da Antártica . Tais características corroboram com a indicação de Campbell & Claridge (1987) da importância de considerar a cor como um atributo fundamental no estudo de solos em dominios polares, inclusive do seu grau evolutivo. De maneira geral, os solos situados na porção alta da topossequência são mais argilosos nos horizontes superiores. Nas porções média e baixa essa relação se inverte, com maior conteúdo de argila em profundidade (Tabela 2). A presença do nível concrecionario parece exercer uma influência na textura destes solos. A classe textural variou de franco-argilosa, franco-argilo-siltosa a franco-arenosa nas porções alta e média e franco-arenosa a areia na porção baixa. Revista do Departamento de Geografia, Volume Especial – Eixo 11 (2017) 259-267 263 Tabela 2: Atributos morfológicos e fisicos dos solos da topossequência Tabela 3: Atributos químicos dos solos da topossequência Hor. Prof. AG AF Silte Argila S+A Classe Textural Cor (seco) Nome (seco) Cor (úmida) Nome (úmida) P1 - Typic Dystrocryepts (Haplic Leptic Cambisol) A 0-5/7 33 19 26 22 48 Franco-Argilo-Arenosa 10YR 8/4 very pale brown 10YR 5/6 yellowish brown B1 5/7-22/52+ 45 11 22 22 44 Franco-Argilo-Arenosa 10YR 8/6 yellow 10YR 5/8 yellowish brown B2 21-33 51 17 17 15 32 Franco-Arenosa 10YR 8/4 very pale brown 10YR 3/4 dark yellowish brown B3 33-51+ 64 8 10 18 28 Franco-Arenosa 10YR 7/6 yellow 10YR 5/8 yellowish brown P2 - Typic Sulfaquepts (Hyperthionic Leptic Cambisol) Aj 0-10 46 17 18 19 37 Franco-Arenosa 10YR 6/8 yellow 10YR 5/6 yellowish brown Bjv 10-25+ 31 10 29 30 59 Franco-Argilosa 10YR 7/8 10YR 8/6 yellow Yellow 10YR 5/8 10YR 7/6 yellowish brown yellow P3 - “Sulfuric” Petraquepts (Orthothionic Petroplinthic Cambisol) A 0-20/29 60 14 13 13 26 Franco-Arenosa 10YR 7/4 very pale brown 10YR 4/6 dark yellowish brown Bj 20/29-36/40 89 4 3 4 7 Areia 5YR 5/6 yellowish red 2.5YR 2,5/3 dark reddish brown Csm 36/40-90/94 - - - - - - - - - - 2Bj1 90/94-130 69 6 13 12 25 Franco-Arenosa 10YR 8/3 yellow pale brown 10YR 4/6 dark yellowish brown 2Bj2 130-140/165 13 41 27 19 46 Franco-Arenosa Gley 1 8/10Y light greenish gray Gley 1 7/10Y light greenish gray 2Bjv3 140/165-220+ 40 29 14 17 31 Franco-Arenosa 2,5YR 8/4 10YR 8/4 pale yellow very pale brown 5Y 7/3 10YR 4/6 pale yellow dark yellowish brown Hor. pH P K Na Ca 2+ Mg 2+ Al 3+ H+Al SB t T V m CO P-Rem Cu Mn Fe Zn Ni Pb H2O mg.dm-3 cmolc.dm-3 % dag.Kg-1 mg.L-1 mg dm3 P1 - Typic Dystrocryepts (Haplic Leptic Cambisol) A 5.44 6.6 35 78.8 3.1 0.81 1.7 4 4.34 6.04 8.34 52.0 28.1 0.13 27.4 2.19 14.6 482.3 1.79 0.68 1.3 B1 4.64 7.3 13 26.5 2.77 0.39 2.6 6.3 3.31 5.91 9.61 34.4 44 0.26 14.6 0.7 1.5 195.7 0.69 0.36 2.01 B2 5.49 9.8 27 99.0 3.96 0.87 0.4 3.5 5.33 5.73 8.83 60.4 7 0.26 22.5 3.35 14.9 630.2 3.55 0.6 0.36 B3 4.68 7.1 13 36.5 0.48 0.55 1.5 4.8 1.22 2.72 6.02 20.3 55.1 0.13 23.8 1.57 4.9 305.7 2.13 0.55 2.52 P2 - Typic Sulfaquepts (Hyperthionic Leptic Cambisol) Aj 3.21 5.1 1 32.5 3.26 0.38 6.9 15.5 3.78 10.68 19.28 19.6 64.6 0.26 10.8 1.83 2.8 815 0.44 0.83 0 Bjv 3.1 11 0 34.5 3.4 0.32 6.6 12.4 3.87 10.47 16.27 23.8 63 0.9 7.4 2.21 2.7 899.5 0.49 0.76 0 P3 - “Sulfuric” Petraquepts (Orthothionic Petroplinthic Cambisol) A 4.25 10.7 13 70.8 2.62 0.14 5.1 9.2 3.1 8.2 12.3 25.2 62.2 0.13 11.6 4.59 2.3 628.4 0.49 0.51 0 Bj 3.99 2.9 3 26.5 2.79 0.12 2.7 7.8 3.03 5.73 10.83 28.0 47.1 0.13 20.7 1.66 1.1 678 0.26 0.58 0 Csm - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 2Bj1 3.9 18.8 13 54.7 2.99 0.13 4.8 9.7 3.39 8.19 13.09 25.9 58.6 0.26 16.6 3.84 2.9 262.1 0.58 0.77 0 2Bj2 3.55 80.3 7 14.4 2.58 0.14 5.1 9.2 2.8 7.9 12 23.3 64.6 0.13 17 0.7 1.2 342.3 0.21 0.59 0 2Bjv3 3.3 82.8 0 14.4 2.67 0.16 3.5 10.6 2.89 6.39 13.49 21.4 54.8 0.13 8 0.57 0.9 1208.1 0.26 0.93 0 Revista do Departamento de Geografia, Volume Especial – Eixo 11 (2017) 259-267 264 Quimicamente, embora os solos possam ser majoritariamente descritos em toda a topossequência como pobres em carbono orgânico, distróficos, com alta saturação por alumínio e ácidos (Tabela 3), algumas diferenças entre as distintas posições devem ser destacadas. Os solos das porções média e baixa apresentam menores valores de pH, quase sempre inferior a 4, bem como maiores valores de saturação por alumínio. Na saturação por bases, apenas em dois horizontes de P1 os valores foram superiores a 50%, condizentes com os maiores valores de pH encontrados. Sobre os micronutrientes, os solos apresentam teores elevados de Fe, principalmente na porção baixa. O mesmo acontece com o Cu (4,59 mg.dm3) e Ni (0,93 mg.dm3). Na porção alta foram verificados os maiores valores de Mn (14,6 mg.dm3) e Pb (2,52 mg.dm3) (Tabela 3). Mineralogicamente, os três solos da topossoquência são semelhantes. O difratogramas dos horizontes Aj e Bjv de P2 são apresentados como representativos (Figura 2). Foram identificados picos de minerais secundários como goethita (2,21; 2,42; 2,61 Å) e natrojarosita (2,76; 3,06; 3,12; 5,98 Å). Os picos 1,46; 1,62; 2,46; 2,58 Å sugerem a presença de maghemita. Em relação às fases minerais primárias, foram identificados picos da clorita (1,56; 2,82; 7,98 Å), feldspato (3,72; 3,95; 3,96; 6,23; 6,60 Å), magnetita (1,44; 1,60; 2,90; 2,97 Å) e pirita (1,64; 1,89; 2,25 Å). Essa paragênese condiz com a gênese dos solos associada aos andesitos ricos em sulfetos. Figura 2: DRX da fração argila dos horizontes Aj e Bjv de P2, representativo da mineralogia dos solos da topossequência. An=Alunita, Ah=Anidrita, Cl=Clorita. Fz=Feldspato, Gt=Goethita, Ld=Lepidocrocita, Mg=Magnetita, Mh=Maghemita, NaJ=Natrojarosita, Pg=Plagioclásio, Py=Pirita. P1 foi classificado como Typic dystrocryepts (SSS, 2014) ou Haplic Leptic Cambisol (IUSS, 2014). Embora a superfície seja pedregosa, no interior do perfil, como visto, o conteúdo de partículas finas (silte + argila) chama atenção. P2 foi classificado como Typic sulfaquepts (SSS, 2014) ou Hyperthionic Leptic Cambisol (IUSS, 2014). Apresenta horizonte sulfuric (pH entre 3,5 e 4,0) dentro de 50 cm, estando sua condição ácida relacionada à alta saturação por alumínio observada. P3, por fim, foi classificado como “Sulfuric” petraquepts (SSS, 2014) ou Orthothionic Petroplinthic Cambisol (IUSS, 2014). O pH inferior a 4 sugere a indicação do horizonte sulfuric, o que favorece a maior mobilidade iônica. Possui contato lítico dentro de 50 cm e a camada de concreção entre 38 – 92 cm é continua, denotando a presença de horizonte petroplíntico. DISCUSSÃO Tanto do ponto de vista morfológico quanto analítico, os resultados mostram a inegável influência do material de origem na gênese dos solos estudados, considerando que a presença dos sulfetos e a maneira como os mesmos são alterados responde por grande parte dos atributos observados. Contudo, os resultados mostram também um importante papel do relevo, principalmente no que se refere à dinâmica e mobilidade dos constituintes, resultante na formação de distintas feições conforme a posição na paisagem. Os dois aspectos serão discutidos a seguir. Considerando o pH dos solos analisados, toda a cobertura pedológica pode ser entendida como “solos ácidos sulfatados”. Ocorrem valores de pH inferior a 4,0, acompanhados por elevados valores de Al trocável e coloração amarelada, indicadora da presença de minerais sulfatados e óxidos; confirmada na análise mineralógica. Comparado aos estudos desenvolvidos por Simas et al. (2008) e Souza et al. (2014), alguns horizontes identificados neste estudo estão entre os mais ácidos já registrados na Antártica (Tabela Revista do Departamento de Geografia, Volume Especial – Eixo 11 (2017) 259-267 265 4). Essa acidez gerada por frentes de sulfurização criou as condições necessárias para o intemperismo geoquímico que, associado a crioclastia intensa, foram responsáveis pela gênese destes solos. Tabela 4: Valores de pH em H2O de solos ácidos sulfatados da Antártica Marítima. Dados Local Id do perfil Hor. Prof. (cm) pH Soil Taxonomy / WRB-FAO Simas et al., 2008 Península Keller, Ilha Rei George K24-SH AC 0–20 5.0 Sulphuric Haploturbel Simas et al., 2008 K24-SH C 20–60 4.4 Sulphuric Haploturbel Souza et al., 2014 Ilha Seymour P4 Aj 0-5 5.0 “Sulfuric” Anhyorthel/“Thionic” Cryosol P4 Cj1 35-40 3.2 “Sulfuric” Anhyorthel/“Thionic” Cryosol P4 Cj2 40-55 3.1 “Sulfuric” Anhyorthel/“Thionic” Cryosol P4 Cj3 55-88 3.5 “Sulfuric” Anhyorthel/“Thionic” Cryosol P7 Cj 8-38 3.6 Sulfuric Aquiturbel/Oxyaquic–Gelic Cryosol P18 Cfj2 55/60-100 3.3 Sulfuric Aquorthel/“Thionic”–Haplic Cryosol P19 Cj1 30/35- 55/60 3.3 “Sulfuric” Haploturbel/“Thionic”–Turbi Cryosol P20 Cjf2 25/60-100 3.6 “Sulfuric” Haploturbel/“Thionic”–Turbi Cryosol P21 Crj1 50/55- 70/75 3.7 “Sulfuric” Anhyorthel/“Thionic”–Salic Cryosol P21 Crjf2 70/75-120 3.0 “Sulfuric” Anhyorthel/“Thionic”–Salic Cryosol Presente estudo Península Barton, Ilha Rei George P2 Aj 0-10 3.2 1 Typic sulfaquepts / Hyperthionic Leptic Cambisol P2 Bjv 10-25 3.1 Typic sulfaquepts / Hyperthionic Leptic Cambisol P1 2B2 130- 140/165 3.5 5 “Sulfuric” Placic petraquepts / Orthothionic Petroplinthic Cambisol P1 2B3 140/165- 220+ 3.3 “Sulfuric” Placic petraquepts / Orthothionic Petroplinthic Cambisol Num estudo na mesma peninsula, Lee et al. (2004) havia destacado o baixo grau de intemperismo dos solos, mesmo daqueles em áreas de rochas com sulfetos. Os resultados aqui obtidos sinalizam o contrário, pois é fundamental que os atributos dos solos sejam avaliados considerando as caracteristicas do ambiente antártico. Assim, embora em termos taxonômicos ocorra uma cobertura pedológica cambissólica em toda a topossequência, o que, para as condições tropicais denotaria sua jovialidade, para o contexto antártico a presença de horizonte B, ainda que incipiente, sinaliza um avançado grau evolutivo. A profundidade dos solos, sua mineralogia, atributos químicos e físicos reiteram essa constatação, corroborando com os estudos que incluem os solos sulfatados como exemplos de uma das maiores expressões do intemperismo químico na região. Sobre a influência do relevo na gênese destes solos, os atributos sugerem que a variação altimétrica não representa o componente controlador do grau evolutivo, de maneira que na posição mais alta da topossequência os solos sejam mais evoluidos que na posição mais baixa. Ao contrário, tendo o pH, m e V como indicadores, o que se observa é que os solos das porções mediana e baixa podem ser considerados como mais intemperizados, o que está relacionado à dinâmica de movimentação das soluções ácidas. A acidificação gerada pela oxidação dos sulfetos tem um papel importante no intemperismo mineral e solubilização de consituintes químicos, como o Fe e outros íons (FRANCELINO et al., 2011). Contudo, o relevo exerce importante influência na dinâmica de transporte de soluções e mobilização desse Fe (no perfil e na vertente). As concreções localizadas na base da topossequência sugerem isso, indicando que sua formação está relacionada a uma dinâmica pedológica mais complexa que aquela até entao considerada para o ambiente antártico. Na base da vertente, por exemplo, é preciso dimensionar a influência do spay salino e da própria maré na criação de condições favoráveis à precipitação do Fe, elevando o pH e contribuindo com a formação do pavimento concrecionário. De outra maneira, a oxidação de sulfetos por si só já oportuniza a neoformação de hidroxidos de ferro, tal como descrito na gênese de gossans (TAYLOR & EGGLETON, 2001). Quaisquer que sejam os mecanismos que expliquem as ocorrências observadas em Barton, tema de pesquisa em execução, há que se considerar que as variações observadas na topossequência sinalizam para o importante papel do relevo na gênese e evolução dos solos de áreas peri-glaciais. Revista do Departamento de Geografia, Volume Especial – Eixo 11 (2017) 259-267 266 A gênese de concreções ferruginosas constituindo horizontes encouraçados, ou petroplínticos, está geralmente associada a dois conjuntos de processos. O primeiro seria a acumulação relativa de ferro através do intemperismo in situ de rochas, onde essa concentração ocorreria a partir da perda geoquímica dos demais constituintes. A segunda, por sua vez, seria pelo enriquecimento absoluto de ferro em áreas de descarga do lençol freático (Goudie, 1973; McFarlane, 1976), no qual o ferro é transportado pelas águas subterrâneas em solução e/ou como quelatos e se acumula em ambientes hidromórficos, bordas de planaltos, sopés de vertentes, etc (Tardy, 1993). Em ambos, contudo, as condições climáticas tropicais são sempre destacadas, com climas úmidos a semi-úmidos apontados como fundamentais. É fato que os processos de laterização demonstram sua maior expressão nas regiões tropicias e produziram e/ou produzem nelas seus materiais mais característicos. Entretanto, sob condições muito particulares, como as observadas neste estudo, materiais semelhantes podem ser produzidos em outros contextos ambientais, como a Antártica. Para isso uma combinação de fatores, dentro o quais se destaca o papel do relevo, foi fundamental. Esse cenário abre possibilidades para a interpretação dos processos pedológicos na Antártica como nunca antes, suscitando pesquisas sobre as transformações pedológicas numa concepção biogeodinâmica (BOCQUIER, 1973) e ampliando os conhecimentos e relação destes com a evolução da paisagem no domínio peri-glacial. CONCLUSÕES A evolução da paisagem na Península Barton está diretamente ligada à combinação de processos de intemperismo físico, como a crioclastia, já amplamente conhecido e discutido para os solos da Antártica, mas também ao intemperismo químico acentuado. Em áreas com rochas sulfetadas, a exposição dos sulfetos gera oxidação e promove a acidificação dos solos, mobilizando constituintes que, associados ao papel do relevo, criam feições e produtos sui generis , transformando a cobertura pedológica. As principais propriedades nos solos influenciadas pela oxidação de sulfetos foram cor, textura e pH. Estas propriedades indicam presença generalizada de sulfatos e óxidos, confirmados pelas análises mineralógicas e texturais. Como resultado, tem-se solos com horizontes sulfúrico e petroplíntico, sendo que o ultimo reforça a influência do relevo e consequentemente mobilização de constituintes no perfil e na paisagem. Assim, sua gênese não deve ser compreendida apenas como resultado da influência do material de origem in situ, mas sim a partir de uma redistribuição numa concepção pedogeomorfológica. Considerando as condições antárticas, a Península Barton apresenta intemperismo químico significativo em áreas de solos sulfatados, incluindo solos que estão entre os mais ácidos encontrados na Antártica Marítima. Estes ambientes apresentam paisagens singulares e geoformas poligenéticas, demonstrando que a Antártica reprersent um laboratorio de destaque para estudos pedológicos. REFERÊNCIAS ARMSTRONG, D. C. Acid Sulphate Alteration in a Magmatic Hydrothermal Environment, Barton Peninsula, King George Island, Antarctica. Mineralogical Magazine, v. 59, n. 396, p. 429–441, 1995 BEYER, L.; BÓLTER, M. Geoecology of Antarctic Ice-Free Coastal Landscapes. Springer- Verlag, Berlin Heidelberg, 2002. 420 p BOCQUIER, G. 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