UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE LETRAS CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM GRAMÁTICA DA LÍNGUA PORTUGUESA: REFLEXÃO E ENSINO - CEGRAE ELLEN CRISTIANE COELHO LIMA ANÁLISE DO ACENTO GRAVE E CIRCUNFLEXO NO LIVRO DIDÁTICO PORTUGUÊS LINGUAGENS DO 6º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL Belo Horizonte 2023 ELLEN CRISTIANE COELHO LIMA ANÁLISE DO ACENTO GRAVE E CIRCUNFLEXO NO LIVRO DIDÁTICO: PORTUGUÊS LINGUAGENS DO 6º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Gramática da Língua Portuguesa: reflexão e ensino, Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito para a obtenção do título de Especialista em Língua Portuguesa. Orientadora: Profa. Dra. Daniela Mara Lima Oliveira Guimarães Belo Horizonte 2023 RESUMO Esta pesquisa tem como objetivo observar o uso do acento gráfico, agudo e circunflexo, no livro didático de Língua Portuguesa: Português Linguagens, do 6º ano do Ensino Fundamental e refletir sobre as práticas pedagógicas que levem o aluno a uma aprendizagem reflexiva do acento gráfico. Este tema é relevante uma vez que são muitos os desafios apresentados no que diz respeito ao domínio das regras de acentuação gráfica pela maioria dos alunos, desde as séries iniciais ao Ensino Médio. Inicialmente, observou-se, na literatura apresentada, como o tema tem sido abordado e quais metodologias são utilizadas para o ensino da acentuação gráfica. O aporte teórico baseou-se em: Bechara (2009); Cagliari (1999); Cegalla (2020); Mattoso Câmara (1970); Marra (2012); Travaglia (2001), dentre outros. Analisou-se, a título de exemplificação, uma obra didática de Língua Portuguesa aprovada no PNLD 2023 do 6º ano do Ensino Fundamental dos anos finais: Português Linguagens. Conclui-se que o livro didático analisado apresenta atividades contextualizadas, no entanto, ele propõe uma abordagem superficial sobre o ensino da acentuação gráfica com ênfase na conceituação e pouca reflexão na diferenciação entre o uso do acento na fala e na escrita. Palavras-chave: ortografia; acento gráfico; livro didático; ensino fundamental. ABSTRACT This research aims to observe the use of the graphic accent, acute and circumflex, in the Portuguese Language textbook: Portuguese Linguagens, for the 6th year of Elementary School and reflect on pedagogical practices that lead the student to reflective learning of the graphic accent. This topic is relevant since there are many challenges presented with regard to mastering the rules of graphic accentuation by the majority of students, from the initial grades to high school. Initially, it was observed, in the literature presented, how the topic has been approached and which methodologies are used to teach graphic accentuation. The theoretical contribution was based on: Bechara (2009); Cagliari (1999); Cegalla (2020); Mattoso Câmara (1970); Marra (2012); Travaglia (2001), among others. As an example, we analyzed a Portuguese language teaching work approved in PNLD 2023 for the 6th year of Elementary School in the final years: Portuguese Languages. It is concluded that the textbook analyzed presents contextualized activities, however, it proposes a superficial approach to teaching graphic accentuation with an emphasis on conceptualization and little reflection on the differentiation between the use of accent in speech and writing. Keywords: spelling; graphic accent; textbook; elementary school. LISTA DE FIGURAS: 1. FIGURA 1: ATIVIDADE SÍLABA TÔNICA E SÍLABA ÁTONA………………...….16 2. FIGURA 2: CLASSIFICAÇÃO QUANTO À SÍLABA TÔNICA…………………….16 3. FIGURA 3: A BUSCA DA IDENTIDADE NA ADOLESCÊNCIA…………………17. 4. FIGURA 4: DE OLHO NA ESCRITA – A HISTÓRIA DE MALALA………………18 5. FIGURA 5: ATIVIDADES DO TEXTO: A HISTÓRIA DE MALALA………………19 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………..…..8 2. REVISÃO DA LITERATURA…. ……………………………………………….…….10 2.1. ACENTO NO PLANO SONORO E NO PLANO GRÁFICO……………………..11 2.2. O ACENTO GRÁFICO NO LIVRO DIDÁTICO……....…………………….…….14 3. METODOLOGIA…………………………………………………..…………………..15 4. ANÁLISE DE DADOS…………………………………………………………….......15 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................20 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................21 7. ANEXOS………………………………………………………………………………..22 8 1. INTRODUÇÃO Este trabalho investiga o ensino da acentuação gráfica no livro didático de Língua Portuguesa, Português linguagens, do 6º ano do Ensino Fundamental. A escolha desse tema se deu pelo fato de que o acento gráfico tem sido um aspecto dificultador para a aprendizagem do aluno, uma vez que, no contexto de sala de aula, é comum encontrar estudantes com dificuldades quanto à acentuação das palavras. Da mesma forma, trabalhos como de Marra (2012) indicam esta, como uma dificuldade persistente ao longo da educação básica. Segundo o autor, além dos desafios em aprender as funções dos acentos e do conhecimento sobre a estrutura da língua, o aluno enfrenta a complexa relação entre a oralidade e a escrita (Marra, 2012, p.13). Tais desafios tem tornado o ensino e a apropriação das regras de acentuação gráfica complexos, o que tem levado muitos alunos concluírem a educação básica sem a compreensão adequada sobre o uso da acentuação. De acordo com Bechara (2009, p.87) “O acento desempenha importante papel linguístico decisivo para a significação da palavra”. Assim, o uso do acento nas palavras não é um termo acessório, mas ela serve para orientar a leitura da palavra e marcar a escrita. Dessa forma, em algumas palavras, a mudança do acento resultará na mudança do sentido. Conforme aponta Cegalla (2020, p.38). Num vocábulo de duas ou mais sílabas, há em geral, uma que se destaca por ser proferida com mais intensidade que as outras: é a sílaba tônica. Nela recai o acento tônico chamado acento de intensidade ou prosódico. O autor ressalta que o acento tônico é um fato fonético e não deve ser confundido com o acento gráfico (agudo ou circunflexo), ou seja, a sílaba tônica nem sempre é acentuada graficamente.” Já Bechara (2009) define a acentuação como o modo de proferir um som ou um grupo de sons com mais relevo que outro e esse relevo se denomina acento. Uma reflexão sobre o ensino do acento gráfico e sua abordagem nos materiais didáticos é imprescindível para melhor compreensão das práticas pedagógicas no ensino da acentuação. Portanto, este trabalho se justifica pela necessidade de pensar o ensino do acento gráfico e contribuir para uma reflexão sobre sua abordagem no livro didático. O material escolhido foi o Livro didático Português Linguagens, volume 6, ano 2018, dos autores: William Cereja e Carolina Dias Vianna. A escolha se deu pelo fato do material ser utilizado no ensino de muitas escolas públicas e particulares da cidade de Belo Horizonte. Ao analisar o material didático, busca-se refletir sobre a 9 metodologia aplicada para o ensino da acentuação gráfica e sua importância para a aprendizagem. Sabe-se que o ensino de conteúdos gramaticais, durante muito tempo, pautou- se em uma visão tradicional e descontextualizada, tendo como prioridade um sistema de regras, desconsiderando, assim, uma compreensão reflexiva sobre a aplicação dos elementos linguísticos em diversos contextos.Como afirma Neves sobre o ensino da gramática na escola: “cabe ativar uma constante reflexão sobre a língua materna, contemplando as relações entre uso da linguagem e atividades de análise linguística e de explicitação da gramática” Neves (2014, p.18). Em relação aos livros didáticos, tem-se como hipótese que aqueles direcionados ao 6º ano, em sua maioria, trabalham o acento gráfico de forma superficial e apresentam pouca reflexão sobre o assunto. De acordo com Travaglia (2001, p.27), “Os alunos muitas vezes apresentam dificuldades em entender a acentuação gráfica devido à falta de exposição a textos variados e à falta de prática na leitura e escrita.” Nesse sentido, é fundamental compreender as metodologias que têm sido aplicadas em sala de aula, observando se o ensino tem desenvolvido nos alunos a capacidade de compreender a importância da acentuação para a compreensão dos significados das palavras e sua aplicação nos contextos de uso. Ao abordar a acentuação gráfica, deve-se estimular não apenas a memorização de regras, mas também o desenvolvimento da habilidade de análise crítica, permitindo que os alunos identifiquem padrões e apliquem o conhecimento em diferentes contextos. Há ainda que se considerar quais os conceitos devem estar sólidos para o aluno aprender a acentuação. A esse respeito, Marra (2012, p.13) afirma: “obrigatoriamente, para se acentuar as palavras de forma correta, o aluno deve dominar as regras de acentuação e o emprego de diacríticos. Além disso, é necessário ter a habilidade de realizar divisão silábica das palavras, de reconhecer a sílaba tônica, de identificar os encontros vocálicos instáveis e estáveis, e de analisar a terminação da palavra.” Diante desse contexto desafiador, Marra (2012) ressalta que todos esses pré- requisitos demonstram que a acentuação gráfica na língua portuguesa tem representado um desafio para os seus usuários. Embora o acento gráfico seja considerado um importante elemento do português escrito, a sua aprendizagem ainda não é consolidada por parte dos alunos. Conforme Couto e Guimarães (2020, p.02). “São identificadas dificuldades quanto à acentuação das palavras ao longo de toda a 10 formação educacional.” Para tal, o presente estudo pauta-se na análise documental, baseando-se no livro didático Português Linguagens, volume 6. E nos autores: Bechara (2009); Collischonn (2005); Cagliari (1997); Couto (2020); Cegalla (2020); Couto e Guimarães (2020) e Marra (2012); dentre outros. Trata-se de uma pesquisa qualitativa e baseada em análise interpretativa dos dados. Compreender as práticas pedagógicas utilizadas para o ensino da acentuação gráfica (acento agudo e circunflexo) nos ajuda a refletir sobre as metodologias utilizadas nos principais materiais que circulam em nosso país, observando se elas têm apresentado propostas inovadoras e eficazes para o tema. Uma vez que os livros didáticos são muito utilizados na educação básica é importante que sua abordagem sobre o uso do acento gráfico contribua para que os alunos compreendam o conteúdo e sua relevância, pois o uso correto da acentuação tem importância na significação, ele é um marcador da palavra e contribui para que o aluno desenvolva uma boa ortografia. 2. REVISÃO DA LITERATURA Embora a acentuação seja um importante elemento da Língua Portuguesa, a sua aprendizagem ainda causa dificuldade entre os alunos, portanto, o domínio das regras de acentuação é essencial para garantir a compreensão e interpretação adequada dos diversos textos presentes no cotidiano. Conforme Cagliari (1999), a acentuação gráfica é uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos alunos no processo de lfabetização e pode persistir mesmo em séries avançadas, exigindo uma abordagem pedagógica cuidadosa. De acordo com Couto e Guimarães (2020, p.7) “Verifica-se a dificuldade na acentuação gráfica, nos diversos níveis de ensino, vista como complicada por parte dos alunos e difícil de ser abordada de forma não tradicional por parte dos professores”. Pode-se perceber que a maioria dos estudantes possuem dificuldade em compreender o uso do acento e sua importância para a significação das palavras. Além disso, o modo como o tema tem sido ensinado nas escolas, de forma geral, tem contribuido pouco para o uso adequado da acentuação nos textos dos alunos. Como apresentado por Marra, (2012, p. 13) “Assim, por não dominar as regras de acentuação e por não saber identificar a tonicidade das palavras, o aluno, ao escrever, erra, por vezes trocando ou omitindo os acentos gráficos nas suas produções textuais. A acentuação 11 gráfica é fundamental para o entendimento do significado das palavras, pois o uso inadequado do acento gráfico pode comprometer o significado da palavra”. Assim, na próxima seção verificaremos a diferença do acento no plano gráfico e no plano sonoro e suas implicações para a compreensão das palavras. 2.1 - Acento no Plano Sonoro e no Plano Gráfico De acordo com Cristófaro-Silva (2017), o termo “acento” refere-se à proeminência da vogal, em uma determinada sílaba, em relação às demais do enunciado. É importante ressaltar que todas as palavras do português possuem acento lexical na fala, entretanto, nem todas as palavras são acentuadas graficamente. Por exemplo, as palavras sacola e médico são foneticamente acentuadas, no entanto, apenas a palavra médico apresenta o acento gráfico. Conforme estudos de Mattoso Câmara, (1970), o acento gráfico possui duas funções essenciais: a função distintiva em que o acento pode distinguir palavras que possuem a mesma cadeia sonora no nível segmental, como por exemplo, as palavras sábia, sabia e sabiá. E a função delimitativa das palavras, ocorre quando o mesmo fonema e o acento permite ao ouvinte diferenciar cada uma das palavras. Ela possibilita o assinalamento do vocábulo fonológico dentro do contínuo da fala, sendo assim, a função delimitativa assinala o início ou o fim dos limites morfológicos. . As regras de acentuação na língua portuguesa favorecem a escrita correta e compreensão do texto, nesse sentido, entender a classificação das palavras quanto à tonicidade ajuda a entender o sistema de acentuação gráfica e aplicar corretamente suas regras no texto escrito. Para Bechara (2009) "A aquisição das regras de acentuação no português é uma tarefa árdua para os aprendizes, pois ela envolve a compreensão de padrões complexos e muitas exceções.“ Seguindo o Novo Acordo Ortográfico, promulgado em 2009, o sistema de acentuação baseia-se, principalmente, na tonicidade das palavras, dessa forma, a classificação das palavras em paroxítonas, oxítonas e proparoxítonas determina a utilização dos acentos. Uma das características do nosso idioma é a predominância de palavras não acentuadas graficamente. Além disso, temos uma tendência natural de acentuar a penúltima sílaba das palavras, caso ela seja uma sílaba tônica, quando não há a presença de acento gráfico. Portanto, enquanto a tonicidade diz respeito à sílaba que recebe maior ênfase na pronúncia da palavra, o acento gráfico é um sinal diacrítico colocado sobre a vogal tônica para indicar a correta pronúncia e a aplicação 12 das regras ortográficas. Ou seja, enquanto na tonicidade, a ênfase pode ser variável, dependendo do contexto comunicativo: ritmo e entonação, na escrita, a acentuação apresenta regras ortográficas relacionadas à marcação de determinadas sílabas por meio de sinais diacríticos, como o acento agudo e circunflexo. Dessa forma, a distinção entre o acento e a tonicidade contribui para o entendimento do sistema de acentuação gráfica da língua portuguesa, Para Cagliari (2002), existe uma dificuldade em compreender a relação entre o acento e tonicidade, esse problema surge principalmente pelo fato de a escola não apresentar a tonicidade das palavras como uma ocorrência da pronúncia e não da escrita. A tonicidade é identificada nas palavras somente quando alguém busca verificar a posição em que se encontra a sílaba tônica. O autor assinala que, durante o processo de alfabetização, a escola não deve abordar a diferenciação das sílabas átonas e tônicas a partir de seu conceito. Ele acredita que elas devem ser estudadas em conjunto com a tomada de consciência dos alunos sobre o ritmo da fala. (Cagliari 2002, apud, Couto 2020). O acento fonológico trata da marcação da tonicidade da palavra, é inerente à língua, enquanto o acento gráfico, por sua vez, trata-se de uma marcação gráfica regulada por regras ortográficas. Este último pode ser representado pelo diacrítico denominado agudo (´) – utilizado nas vogais tônicas abertas-, ou o circunflexo (^) – nas vogais tônicas fechadas,como afirmam Cagliari e Massini-Cagliari (1999,apud, Couto 2020). O estudo cuidadoso desses conceitos contribui para o aprimoramento da escrita e da leitura, fortalecendo o domínio da língua e a expressão eficaz de ideias. Compreender a diferença entre acento e tonicidade favorece o domínio das regras ortográficas do português, evitando equívocos e garantindo a clareza na comunicação escrita. As palavras na Língua Portuguesa podem ser classificadas quanto à sua tonicidade em três grupos: oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. Essa classificação baseia-se na posição da sílaba tônica. 1. Oxítonas: são palavras cuja sílaba tônica é a última sílaba da palavra. Exemplos: café, paletó, sofá. Na escrita, as oxítonas acentuam-se graficamente quando terminam em “a”, “e”, “o” ou “em” e “ens”. 2. Paroxítonas: São palavras cuja sílaba tônica é a penúltima sílaba da palavra. Exemplos: mesa, difícil, casa. A grande maioria das palavras no português é 13 classificada como paroxítona e, em regra geral, não recebe o acento gráfico. 3. Proparoxítonas: São palavras cuja sílaba tônica é a antepenúltima sílaba da palavra. Exemplos: música, sílaba, médico. Todas as proparoxítonas são acentuadas independentemente da terminação da palavra. De acordo com Marra (2012), a maioria das palavras do português não recebe o acento gráfico, ou seja, há uma preferência para a não acentuação gráfica em dois casos: 1) quando a palavra é paroxítona terminada em vogal: casa; 2) quando a palavra é oxítona terminada em consoante: melhor ou em semivogal: papai. Dessa forma, cf. Quednau E Collischonn (2006), a acentuação gráfica ocorre quando a tonicidade das palavras se desvia do padrão preferencial. O autor apresenta quatro princípios em que o acento gráfico é aplicado: 1. Indicar que uma sílaba é tônica: é [‘e] (verbo) diferente de e [i] (conjunção); 2. Indicar a posição da sílaba tônica: cará [ka’ra] diferente de cara [‘kara]; 3. Indicar abertura ou fechamento de som vocálico: cipó [si’po] e capô [ka’po]; 4. Diferenciar sentidos em palavras homônimas perfeitas: pôr [poh] (verbo) e por [preposição]. De acordo com Collischonn (2005, p.143), “a grande maioria das palavras da língua portuguesa tem o acento na penúltima sílaba”, a posição paroxítona, principalmente nas palavras terminadas em vogais. Tal acento, por ser comum, é denominado acento não marcado, sendo a segunda regularidade dos padrões acentuais do português. Segundo, Collischonn (2005, apud Couto 2020), o número de palavras proparoxítonas é reduzido. Além disso, muitas delas são caracterizadas por empréstimos do Latim. Por ser um grupo reduzido de palavras, o acento é definido como marcado. Na próxima seção, abordaremos sobre o uso do livro didático e sua contribuição para o ensino da acentuação gráfica. 2.2. O acento gráfico no livro didático O livro didático tem sido um dos principais aliados no ambiente educacional e tem se apresentado como uma importante ferramenta no processo do ensino- aprendizagem. No entanto, alguns autores falam sobre o seu papel no ensino como um dos elementos, e não o único elemento utilizado no processo de ensino 14 aprendizagem. Lajolo (1996, p.8), apresenta uma reflexão sobre o papel do livro didático: “Os livros didáticos desempenham um papel fundamental na educação escolar, pois, dentre os outros elementos que compõem o processo ensino- aprendizagem, parece ser o de maior influência sobre as decisões e ações do professor.” O uso do livro didático favorece tanto o ensino da acentuação gráfica quanto dos demais conteúdos curriculares. No entanto, ao se fixar apenas no livro didático, o professor deixa de aprofundar-se nos conteúdos e de enriquecer o conhecimento do seu aluno através de materiais diversificados que possibilitem um aprendizado mais eficaz. Em relação ao ensino do acento gráfico, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece as habilidades e competências que os estudantes devem desenvolver ao longo da Educação Básica, incluindo o Ensino Fundamental. Conforme as etapas do ensino fundamental algumas habilidades devem ser alcançadas pelos alunos, como: "Identificar, em textos, as características próprias da acentuação gráfica, da pontuação e da ortografia, bem como seus efeitos de sentido." (BNCC, p. 196); "Analisar acentuação gráfica e seus desvios a partir de palavras oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas, aplicando regras de acentuação e reconhecendo casos de acentos diferenciais." (BNCC, p. 196). "Comparar o tratamento dado ao uso da língua oral e ao uso da língua escrita em diferentes gêneros discursivos, identificando, em textos orais, efeitos de sentido decorrentes da ausência de acentuação gráfica, pontuação e de outros recursos ortográficos." (BNCC, p. 196) Os estudantes podem enfrentar dificuldades em memorizar as regras e aplicá- las corretamente em diferentes contextos. Dessa forma, o ensino da acentuação gráfica no Ensino Fundamental apresenta desafios que requerem uma abordagem pedagógica cuidadosa e efetiva. Para tal, os professores não devem se limitar apenas ao livro didático, mas utilizar outros materiais que abordem o tema de forma criativa e contextualizada.Para Silva, os livros didáticos devem ser “destinados a informar, orientar e instruir o processo de aprendizagem” e não impor um tipo de ensino ao professor (SILVA, 1996, p. 13). De acordo com Soares (2014 apud Couto 2020) “O Livro Didático atua na sala de aula como aliado dos professores durante o ensino.” Em relação ao uso do livro didático, Couto (2020) afirma que: 15 “O livro didático como integrante nos processos de ensino e aprendizagem, não cumpre seu papel de aliado do docente no ensino das questões ortográficas, por não haver uma orientação teórica sobre elas. Além disso, na perspectiva do aluno, a ortografia é abordada de forma mecânica, com foco nas irregularidades, e não propiciam reflexão aos alunos sobre os padrões ortográficos do português. Estes aspectos podem contribuir para a dificuldade de lidar com a escrita ortográfica na escola.” (COUTO, 2020, p. 16). Em virtude disso, conclui-se que o uso do livro didático deve atuar como um auxiliar no processo do ensino da acentuação. No entanto, outros materiais devem ser disponibilizados aos alunos, a fim de que eles construam um conhecimento mais aprofundado sobre o assunto e, a partir daí, compreendam o uso das regras de acentuação. Apresentar aos alunos diferentes gêneros textuais que fazem parte do seu cotidiano, como redes sociais, notícias, contos, tirinhas, a fim de despertar o interesse do estudante em saber como funciona a acentuação gráfica. 3. Metodologia Será realizada análise documental do livro didático: Português Linguagens do 6º ano do Ensino Fundamental dos autores: William Roberto Cereja e Carolina Dias Vianna, publicado pela editora Saraiva, em 2018. O objeto de análise, é dividido em quatro unidades temáticas. Cada unidade é composta por quatro partes, sendo três capítulos e uma última parte chamada de “Intervalo”, totalizando 404 páginas. O tema avaliado, acentuação gráfica, encontra-se na unidade 3: capítulo 2 nas páginas 203 a 205 e nas páginas 228 a 231. E tem como título: “De olho na escrita: sílaba tônica e sílaba átona" (página 203) e “Acentuação gráfica” (página 228). A metodologia será de base documental, a partir de uma análise crítica sobre as atividades. Será realizada uma análise qualitativa considerando as teorias que fundamentam esta monografia. 4. Análise dos dados O Livro escolhido faz parte de uma coleção de livros que contemplam todas as séries dos anos finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano). Esta coleção chega à 10ª edição levando em conta as recomendações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Conforme apresentado na apresentação do livro, essa coleção propõe um caminho intermediário entre o ensino da gramática normativa pautado em uma reflexão crítica baseada na análise linguística atendendo às recomendações da BNCC. O livro inicia o tema na Unidade 3, capítulo 2, no tópico: De olho na escrita, página 203, com uma atividade sobre sílaba tônica e sílaba átona. O primeiro exercício apresenta uma tirinha de Adão Iturrusgaray e propõe a leitura das palavras: “ridícula”, 16 “separado" e “falei" e a identificação da sílaba que foi pronunciada mais forte. Em seguida, a atividade chama a atenção para a posição da sílaba forte como: última, penúltima e antepenúltima e apresenta o conceito de sílaba tônica e sílaba átona. SÌLABA TÔNICA: é a pronunciada com mais intensidade. SÌLABA ÁTONA: é a pronunciada com menos intensidade. FIGURA 1: atividade: Sílaba tônica e Sílaba átona Na página seguinte, o livro trabalha os conceitos das palavras quanto a posição da sílaba tônica como: oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. Figura 2: Classificação quanto a sílaba tônica ( proparoxitona, paroxítona e oxítona) 17 Após, a atividade apresentada, o material propõe a leitura do texto: “A busca da identidade na adolescência” em seguida, seguem exercícios para identificar as sílabas tônicas e classificá-las quanto à sua posição. Baseados nas palavras analisadas, pede-se para responder qual a acentuação é a mais comum entre elas. Figuras 3 - Análise de sílaba tônica a partir do texto: A busca da identidade na adolescência Ao observar essa primeira parte de exercícios sobre a acentuação gráfica desenvolvidos pelo livro didático, pode-se perceber que primeiro é apresentado o conceito de sílaba tônica e posteriormente, são relatadas as regras de acentuação 18 gráfica. Esse tipo de abordagem favorece o desenvolvimento do tema, pois ajuda o aluno a compreender a diferença entre o acento no plano sonoro e no plano gráfico e que somente algumas palavras são grafadas. No entanto, o livro apresenta as regras de acentuação e a sua relação com a tonicidade de forma superficial, o que pode causar no aluno uma confusão conceitual por não mostrar que a sílaba tônica é um aspecto presente na fala e as regras de acentuação presentes na escrita. A compreensão desse aspecto é um fator importante ṕara a aprendizagem do aluno em relação ao tema. Nas páginas 228 a 231, o livro apresenta um outro tópico sobre acentuação.Nessa parte o livro inicia com o texto “eu sou Malala”, o exercício solicita ao aluno que leia algumas palavras retiradas do texto e organize-as em colunas de acordo com a posição da sílaba tônica, ou seja, monossílabos, oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. Na atividade 03, pede-se para observar as terminações de cada palavra incluída na coluna da atividade anterior e após responder as perguntas: Qual a terminação dos monossílabos, das oxítonas, das paroxítonas e quais proparoxítonas são acentuadas? O tópico é finalizado com as regras de acentuação. Figura 4: De olho na escrita – A história de Malala 19 Figura 5. Atividades do texto: A história de Malala Portanto, a análise do material demonstra a dificuldade de sistematizar de forma reflexiva o acento gráfico no livro didático, cabendo, portanto ao professor preencher tais lacunas com uso de atividades apropriadas e pensadas especificamente para o perfil dos alunos com os quais trabalha. 20 4. Considerações Finais: Esta monografia nasceu da observação de aspectos dificultadores relacionados ao ensino da acentuação gráfica, dentre os quais, destaca-se a dificuldade de aprendizagem das variadas regras gramaticais e sua aplicação ao texto escrito. Esses fatoress fatores têm contribuído para que os alunos ao longo da educação básica não compreendam a importância da acentuação gráfica e a sua relevância para a construção do texto. Diante deste contexto, procurou-se analisar um livro didático de 6o ano, em sua abordagem ao acento gráfico. Observou-se no livro didático analisado que o material apresenta atividades que abordam conteúdos de tonicidade e regras de acentuação gráfica, diferença entre as sílabas tônicas e átonas e classificação quanto à silaba tônica. Tais atividades, demonstram pouco aprofundamento do conteúdo, ou seja, os exercícios sobre sílaba tônica e classificação quanto à tonicidade aparecem no livro de forma simples e reduzida, sem levar o aluno a verdadeira reflexão. Esse aspecto, contribui para que o ensino do tema seja pouco voltado à lógica fonológica. Destaca-se a importância de atividades que contemplem o ouvir, o falar e o escrever e que explorem todos os aspectos da acentuação gráfica, a fim de desenvolver no aluno a consciência fonológica. Uma vez que os livros didáticos são utilizados continuamente no contexto educacional, eles devem proporcionar atividades práticas que incentivem a aplicação das regras de acentuação em variados textos, a fim de promover a assimilação do conhecimento. Além disso, a utilização de tecnologias educacionais também podem enriquecer o processo de aprendizagem, através de exercícios interativos que estimulem a aprendizagem de maneira mais dinâmica. Portanto, contextualização da acentuação gráfica no cotidiano dos alunos pode tornar o aprendizado mais significativo, mostrando relevância dessa habilidade também na comunicação escrita. 21 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. BNCC _______. Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais. Língua Portuguesa. Currículo Básico Comum Curricular do Ensino Fundamental. Anos Finais. CBC (2014) CAGLIARI, Luiz Carlos. Acentuação gráfica e outras questões ortográficas. Editora Contexto, 1997. MARRA, Amarildo. Acentuação gráfica: aprenda sem complicar. Edições Lebooks, 2012. COLLISCHONN, G. Sílaba em Português. in: BISOL, Leda (org.). Introdução aos estudos de fonologia do português brasileiro. Porto Alegre: EDIPUCRS, p.135-169. 2005a. COLLISCHONN, G. O acento em português. In: BISOL, Leda (org.). Introdução aos estudos de fonologia do português brasileiro. Porto Alegre: EDIPUCRS, p.135- 169. 2005b. COLLISCHONN, Gisela. Proeminência acentual e estrutura silábica: seus efeitos em fenômenos do português brasileiros. In: O acento em português: abordagens fonológicas / Gabriel Antunes de Araújo [org.] - São Paulo: Parábola Editorial, 2007. CRISTÓFARO SILVA, Thaís. Fonética e Fonologia do Português: Roteiro de Estudos e Guia de Exercícios. 10 ed. São Paulo: Contexto, 2013. MATTOSO CÂMARA Jr., Joaquim. Estrutura da Língua Portuguesa. Petrópolis: Vozes. 1970 CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Coachar. Português: linguagens, 6. -9. ed. Reform. – São Paulo: Saraiva, 2015. __________. Português: linguagens, 7. -9. ed. Reform. – São Paulo: Saraiva, 2015. NEVES, M. H.M. Que gramática estudar na escola? Norma e uso na língua portuguesa. São Paulo: Contexto, 2014. FIGUEIREDO, Laura de; BALTASAR, Marisa; GOULART; Shirley. Singular & Plural: leitura, produção e estudos de linguagem, 6 – 2. Ed. - São Paulo: Moderna, 2015. __________. Shirley. Singular & Plural: leitura, produção e estudos de linguagem, 7– 2. Ed. - São Paulo: Moderna, 2015. LAJOLO, M. Livro didático: um (quase) manual de usuário. Em Aberto, n. 69, p. 2-9, 1996. 22 7. ANEXOS Figura 1: Capa (Fonte: Português Linguagens - 6º Ano – William Cereja e Carolina Dias Vianna). Editora Saraiva, ano 201 23 Figura 2: Catalogação do livro didático 24 25 Figuras: 3, 4, 5, 6 e 7 páginas 230 e 231