Monografia
“A INDUSTRIALIZAÇÃO DA CONSTRUÇÃO HABITACIONAL ATRAVÉS DO
SISTEMA CONSTRUTIVO PAREDES DE CONCRETO FABRICADAS IN LOCO”
Autora: Michelle Cristina de Freitas Costa
Orientador: Prof. Dr. Roberto Braga Figueiredo
Dezembro/2013
Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Engenharia
Departamento de Engenharia de Materiais e Construção
Curso de Especialização em Construção Civil
MICHELLE CRISTINA DE FREITAS COSTA
“A INDUSTRIALIZAÇÃO DA CONSTRUÇÃO HABITACIONAL ATRAVÉS DO
SISTEMA CONSTRUTIVO PAREDES DE CONCRETO FABRICADAS IN LOCO”
Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Construção Civil
da Escola de Engenharia da UFMG
Ênfase: Gestão e Tecnologia na Construção Civil
Orientador: Prof. Dr. Roberto Braga Figueiredo
Belo Horizonte
Escola de Engenharia da UFMG
2013
“O homem se torna muitas vezes o que ele próprio
acredita que é. Se insisto em repetir para mim
mesmo que não posso fazer uma determinada
coisa, é possível que acabe me tornando
realmente incapaz de fazê-la. Ao contrário, se
tenho a convicção de que posso fazê-la,
certamente adquirirei a capacidade de realizá-la,
mesmo que não a tenha no começo.” (Mahatma
Gandhi)
iv
AGRADECIMENTOS
A Deus, pela dádiva da vida e pelo privilégio de ter por perto fontes de
ensinamentos.
Aos meus pais, pela educação e formação do caráter.
A Universidade Federal de Minas Gerais por ser transformadora de pessoas, por
abrir portas, mostrar caminhos e realizar sonhos.
Aos professores do curso de especialização em Construção Civil do
Departamento de Engenharia de Materiais e Construção da Universidade Federal
de Minas Gerais, pela transmissão do saber e por serem fontes de inspiração.
Ao Professor, Dr. Roberto Braga Figueiredo, meu orientador, pela atenção,
paciência, auxílio e incentivo.
À Ivonete, Ariela e Gilmar, funcionários tão prestativos, por contribuírem mesmo
que de forma indireta, para que esse trabalho se viabilizasse.
Aos colegas de classe por compartilhar experiências e conhecimentos.
Ao engenheiro Diêgo Guerra Lopes, meu grande companheiro, pela
compreensão, apoio e carinho.
v
SUMÁRIO
LISTA DE FIGURAS ........................................................................................................ vii
LISTA DE TABELAS .........................................................................................................ix
LISTA DE ABREVIATURAS.............................................................................................. x
LISTA DE SÍMBOLOS E ANOTAÇÕES ............................................................................xi
RESUMO ......................................................................................................................... xii
1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 1
1.1. Considerações Gerais ............................................................................................ 1
1.2. Justificativa ............................................................................................................. 2
1.3. Objetivo .................................................................................................................. 3
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ....................................................................................... 4
2.1. A Industrialização da Construção Habitacional no Brasil .................................... 4
2.2. Contextualização da Alvenaria Estrutural ........................................................... 8
2.3. As Paredes de Concreto Fabricadas in Loco.................................................... 19
2.4. A NBR 16.055:2012 .......................................................................................... 20
2.5. O Sistema Construtivo Paredes de Concreto ................................................... 22
2.5.1. Fundação ................................................................................................... 27
2.5.2. Armaduras ................................................................................................. 29
2.5.3. Instalações Hidráulicas e Elétricas ............................................................ 32
2.5.4. Sistema de Fôrmas .................................................................................... 34
2.5.5. Concretagem ............................................................................................. 41
2.5.6. Acabamento .............................................................................................. 46
2.6. Desempenho Térmico e Acústico do Sistema Paredes de Concreto................ 48
2.7. Viabilidades do Sistema Construtivo Paredes de Concreto .............................. 51
3. ANÁLISE CRÍTICA ................................................................................................... 55
vi
4. CONCLUSÃO .......................................................................................................... 60
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 61
vii
LISTA DE FIGURAS
Figura 2.1: Conjunto habitacional Vila Kennedy na década de 60 ................................... 6
Figura 2.2: Catedral de Chartres, construída na idade média .......................................... 9
Figura 2.3: Casa feita de pau a pique ............................................................................. 11
Figura 2.4: Edifício Martinelli inaugurado em 1929 em São Paulo.................................. 12
Figura 2.5: Conjunto habitacional Cidade Alta no Rio de Janeiro, década de 70 ........... 13
Figura 2.6: Alvenaria estrutural em blocos de concreto .................................................. 14
Figura 2.7: Alvenaria estrutural em blocos de cerâmica ................................................. 15
Figura 2.8: Alvenaria estrutural em blocos sílico-calcário ............................................... 15
Figura 2.9: Tubulações elétricas sendo embutidas no sistema de alvenaria estrutural .. 17
Figura 2.10: Conjunto habitacional sendo construído com o sistema Paredes de
Concreto ......................................................................................................................... 23
Figura 2.11: Tipologias estruturais construídas com o sistema Paredes de Concreto .... 24
Figura 2.12: Etapas de execução do sistema Paredes de Concreto .............................. 26
Figura 2.13: Fundação tipo Radier ................................................................................. 27
Figura 2.14: Fundação tipo sapata corrida ..................................................................... 28
Figura 2.15: Execução das armaduras no sistema Parede de Concreto ........................ 30
Figura 2.16: Procedimentos gerais para montagem das armaduras .............................. 31
Figura 2.17: Uso de espaçador plástico para ligação de eletroduto na armadura .......... 32
Figura 2.18: Uso de distanciador plástico na armadura .................................................. 32
Figura 2.19: Montagem da rede elétrica no sistema Paredes de Concreto .................... 34
Figura 2.20: Fôrma de alumínio monoportáveis .............................................................. 35
Figura 2.21: Fôrma metálica e compensado ................................................................... 35
Figura 2.22: Fôrma plástica ............................................................................................ 36
Figura 2.23: Montagem de fôrmas no sistema Paredes de Concreto ............................. 39
viii
Figura 2.24: Utilização de desmoldante .......................................................................... 40
Figura 2.25: Desfôrma .................................................................................................... 40
Figura 2.26: Limpeza das formas ................................................................................... 41
Figura 2.27: Pontos de concretagem no sistema Paredes de Concreto ......................... 44
Figura 2.28: Aplicação de concreto no sistema Paredes de Concreto ........................... 45
Figura 2.29: Superfície do sistema Paredes de Concreto após a retirada das fôrmas ... 46
Figura 2.30: Revestimento feito diretamente sobre as Paredes de Concreto ................. 47
Figura 2.31: Acabamento em alvenaria estrutural e em Paredes de Concreto ............... 48
Figura 2.32: Interação entre elementos característicos de ambientes construtivos ........ 49
Figura 2.33: Espessuras mínimas das paredes necessárias ao isolamento acústico ..... 50
ix
LISTA DE TABELAS
Tabela 2.1: Tipos de concreto usado no sistema construtivo Paredes de Concreto ...... 43
Tabela 2.2: Comparativo entre prazos de execução ...................................................... 52
Tabela 2.3: Comparativo entre custos de materiais e mão de obra ................................ 53
x
LISTA DE ABREVIATURAS
ABCP: Associação Brasileira de Cimento Portland
ABESC: Associação Brasileira de Serviços de Concretagem
ABNT: Associação Brasileira de Normas Técnicas
BNH: Banco Nacional de Habitação
FDS: Conselho Curador de Desenvolvimento Social
IBTS: Instituto Brasileiro de Telas Soldadas
IPT: Instituto de Pesquisas Técnicas
NEPAE: Núcleo de Ensino e Pesquisa da Alvenaria Estrutural
NBR: Norma Brasileira Registrada
SFH: Sistema Financeiro da Habitação
SINAT: Sistema Nacional de Aprovações Técnicas
UFRGS: Universidade Federal do Rio Grande do Sul
UNESP: Universidade Estadual Paulista
xi
LISTA DE SÍMBOLOS E ANOTAÇÕES
hh/m
2
= Homem hora por metro quadrado
Kg/m
2
= Quilograma por metro quadrado
MPa = Mega Pascal
tf/m³ = Tonelada força por metro cúbico
xii
RESUMO
As alterações nas políticas públicas Brasileiras ocorridas nas últimas duas
décadas, atrelado à mudança de comportamento do governo federal em relação à
construção habitacional e as estratégias de investimentos anunciadas para a
infraestrutura e serviços no país, têm feito o setor de edificações sofrer
alterações bastante profundas principalmente no que diz respeito à tecnologia
empregada. Para suprir as atuais demandas da construção brasileira,
especificamente as do setor da construção habitacional, tem-se feito necessário
utilizar de uma construção mais industrializada que contemple métodos
construtivos mais eficazes, com características de produção em escala,
velocidade de execução e melhor custo benefício. O sistema construtivo Paredes
de Concreto Fabricadas in Loco, possui essas características e por isso tem se
apresentado como solução a tais necessidades. A revisão bibliográfica feita neste
trabalho apresenta o processo de industrialização da construção habitacional no
Brasil e ainda o sistema construtivo Paredes de Concreto Fabricadas in Loco,
bem como seu processo de execução, comparando esse sistema com a
tradicional alvenaria estrutural. Ao final do estudo, através de uma análise crítica,
é mostrado que o sistema construtivo Paredes de Concreto Fabricadas in Loco,
não só é um sistema construtivo vantajoso para as empresas construtoras que
visam à produção em escala, como também pode ser um agente capaz de
alavancar a industrialização da construção habitacional no Brasil.
Palavras-chave: construção habitacional, industrialização da construção,
paredes de concreto.
1
1. INTRODUÇÃO
1.1. Considerações Gerais
A industrialização da construção habitacional no Brasil se deu em 1966 com a
criação do Banco Nacional de Habitação (BNH) (BONDUKI, 2007). O programa
criado para atender o déficit habitacional da época, fez com que o mercado da
construção introduzisse no país a industrialização e a pré-fabricação,
evidenciando o uso de mecanização intensiva e novos processos construtivos
(BARROS, 1998). Nesse período, a alvenaria estrutural como conhecemos hoje,
que havia sido desenvolvida a pouco mais de uma década e estava sendo
disseminada por todo o mundo, chegou ao Brasil e foi largamente utilizada no
programa (KALIL, 2004).
Também foi na década de 60 que surgiu pela primeira vez no Brasil, o uso das
Paredes de Concreto Fabricadas in Loco (LORDSLEEM JUNIOR, 1998). A
tecnologia foi utilizada em construções do BNH como processo construtivo
inovador. Com a extinção do BNH na década de 80, o processo de
industrialização da construção habitacional brasileira desacelerou e o uso das
Paredes de Concreto na construção civil não se desenvolveu.
Atualmente, após décadas de baixo investimento em infraestrutura e habitação, o
setor da construção civil no Brasil tem recebido grandes investimentos por parte
do governo com eventos como Copa do Mundo, Copa das Confederações,
Olimpíadas e Paraolimpíadas e ainda com a criação do Programa Minha Casa,
Minha Vida, que pretende entregar para famílias de baixa e média renda, milhões
de unidades habitacionais. Nesse sentido, surgiu a exigência de uma resposta
rápida das construtoras para a execução e entrega das edificações e uma grande
demanda pela construção de moradias, para sanar o déficit habitacional
brasileiro (MOREIRA, 2009).
2
Com esses grandes investimentos em infraestrutura e principalmente diante da
retomada dos programas de habitação popular, com uma demanda habitacional
nunca tida antes no país, para ser entregue em tão curto prazo, as construtoras
se deram conta de que a alvenaria estrutural como conhecemos hoje, processo
construtivo mais usado no Brasil atualmente, não tem conseguido mais atender
as necessidades do mercado da construção habitacional. Esse fator tem feito
diversas empresas construtoras investirem na modernização dos meios de
produção acarretando uma crescente industrialização nos canteiros de obras
evidenciando assim, uma retomada do processo de industrialização da
construção habitacional no país (MARTINS E BARROS, 2005).
Nesse contexto foi retomado também o uso do sistema construtivo Paredes de
Concreto Fabricadas in Loco. De um modo geral esse sistema usa fôrmas do
tamanho de casas, que são montadas no local da obra e depois “recheadas” com
concreto, já com as instalações hidráulicas e elétricas embutidas. A inserção das
Paredes de Concreto Fabricadas in Loco, como processo construtivo
industrializado, na execução de edifícios e casas, tem se apresentado como uma
possibilidade de solução para a problemática habitacional e dando notáveis
contribuições para o processo de industrialização da construção (MISURELLI E
MASSUDA, 2009).
1.2. Justificativa
A construção civil é o único setor da economia nacional que não se industrializou
de forma notável. Especialmente no setor da construção habitacional, a
intensificação dessa industrialização tem se feito necessária para suprir a
demanda atual do governo federal, por construção de moradias.
Para potencializar esse processo de industrialização da construção habitacional
e consequentemente atender a demanda posta, surge à necessidade de uma
3
prática construtiva mais eficaz que a construção convencional, que tenha rapidez
de execução, fabricação em série, redução de perdas de materiais e custos
baixos, sem deixar de ser racionalizada.
A alvenaria estrutural como conhecemos hoje, apesar de ser um processo
racionalizado, não tem conseguido atender as necessidades do mercado, por não
possuir todos os requisitos construtivos necessários ao atendimento da demanda
habitacional. Ela não tem se mostrado mais economicamente viável para esse
novo mercado. Todavia, o sistema Paredes de Concreto Fabricadas in Loco
possui as características de processo industrializado e atende aos requisitos
citados, podendo ser uma alternativa tecnológica capaz de alavancar a
industrialização da construção habitacional.
1.3. Objetivo
Este trabalho tem por objetivo evidenciar o sistema construtivo Paredes de
Concreto Fabricadas in Loco como um agente potencializador no processo de
industrialização da construção habitacional no Brasil.
4
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
Neste capítulo serão apresentados levantamentos realizados em artigos técnicos
e científicos, dissertações, teses, anais, periódicos e livros.
2.1. A Industrialização da Construção Habitacional no Brasil
O termo “industrialização”, por si só, pode ser entendido como um processo que
visa o aperfeiçoamento do desempenho de uma determinada atividade industrial.
Para Sabbatini (1989) o processo de industrialização visa aperfeiçoar a atividade
construtiva buscando o desempenho ótimo. Desta forma, o desenvolvimento de
métodos, processos e sistemas construtivos é uma atividade integralmente
incorporada ao processo de industrialização.
Com relação à “industrialização da construção”, há pelo menos 40 anos atrás já
se falava em conceituar tal termo e, vários autores já estudavam sobre o assunto.
Não havia um entendimento consensual entre o meio técnico a respeito de um
conceito para industrialização da construção. Vários conceitos foram
estabelecidos e em sua maioria estava implícito a noção de que o processo de
industrialização constituía-se em um modelo abstrato para o desenvolvimento
racional da indústria da construção civil (SABBATINI, 1989).
Ao falar da industrialização da construção habitacional, Sabbatini (1989, p. 52)
propôs e adotou a seguinte definição de industrialização:
"INDUSTRIALIZAÇÃO DA CONSTRUÇÃO é um processo
evolutivo que, através de ações organizacionais e da
implementação de inovações tecnológicas, métodos de trabalho
e técnicas de planejamento e controle, objetiva incrementar a
produtividade e o nível de produção e aprimorar o desempenho
da atividade construtiva."
5
Atualmente o conceito para industrialização da construção ainda permanece
variável de acordo com a visão de cada autor, sobre o que é o processo de
industrialização. Seja qual for o conceito utilizado nos dias atuais para designar
industrialização da construção, esses conceitos ainda se fundamentam nos
mesmos princípios dos conceitos estabelecidos por Sabbatini (1989) e seus
contemporâneos, ou seja, de que a industrialização da construção é um processo
que se remete ao desenvolvimento, a evolução dos modos de se construir.
Conforme posto por Farah (1996), verifica-se que desde os anos 20 já se
constituía ideia de transformação dos métodos de trabalho na construção civil,
onde se buscava produção em escala e moradias padronizadas, ou seja, já se
idealizava a industrialização da construção. Nesta década Le Corbusier (1923)
propunha que a industrialização da construção habitacional, deveria espelhar-se
no modelo Fordista de produção:
“... impossível esperar pela lenta colaboração dos sucessivos
esforços do escavador, do pedreiro, do carpinteiro, do
marceneiro, do colocador de ladrilhos, do encanador... as casas
devem ser erguidas de uma só vez, feitas por máquinas em uma
fábrica, montadas como Ford monta os carros, sobre esteiras
rolantes.”
Nos anos 50, em todo o mundo, a alvenaria convencional, processo de
construção usado de forma empírica e predominante até então, começou a dar
espaço à alvenaria estrutural, um processo construtivo industrializado,
dimensionado segundo métodos de cálculo racionais e de confiabilidade
determinável, que possibilitava um alto nível de organização na construção, ou
seja, racionalização (SABBATINI, 2003).
No Brasil, a industrialização da construção habitacional se deu por volta de 1966,
com a criação do BNH, um programa criado para atender o déficit habitacional da
época. Se tratou da primeira vez em que o Brasil teve uma política a nível
nacional voltada para a questão da habitação. Essa política buscava a produção
6
em massa de unidades habitacionais. Surgiu então à necessidade de buscar
novas tecnologias construtivas para atender tamanha demanda (BONDUKI,
2007). Segundo Barros (1998), nessa época, o mercado, voltado para a
industrialização e a pré-fabricação, começou a fazer uso de mecanização
intensiva e novos processos construtivos. Foi nesse período que a alvenaria
estrutural foi introduzida no Brasil como nova técnica construtiva e se tornou
sinônimo de industrialização na construção civil (KALIL, 2004). Nos vinte e dois
anos de funcionamento do BNH, o Sistema Financeiro da Habitação (SFH),
financiou a construção de 4,3 milhões de unidades novas, números bem
expressivos para a época. Com o fim do regime militar em 1985, por conveniência
política do novo governo, o BNH foi extinto em 1986 e toda a estrutura de caráter
nacional, referente à industrialização da construção habitacional começou a
desacelerar-se (BONDUKI, 2007). A figura 2.1 evidencia a construção em escala
de conjuntos habitacionais na década de 60.
Figura 2.1: Conjunto habitacional Vila Kennedy na década de 60
Fonte: Catherine Osborn, 2013
Em 1990, aconteceu o processo de abertura econômica do Brasil, quando foi
iniciada a abertura do mercado brasileiro às importações, sob o argumento de
preparar as empresas brasileiras para o processo de competição mundial. Na
7
mesma década, em 1994, foi implementado o Plano Real visando à estabilização
econômica. Segundo Martins e Barros (2005), essa abertura de mercado
contribuiu para a evolução do setor da construção, na medida em que permitiu as
construtoras à importação de produtos e tecnologias. No início da década de 90
começou-se a observar uma crescente industrialização nos canteiros de obras,
devido ao investimento na modernização dos meios de produção, por parte das
construtoras. No entanto, conforme observado por Amorim (1999), no final da
década de 90, apesar do aperfeiçoamento organizacional das construtoras ter
revelado alguns avanços importantes, naquela época, o apoio governamental era
bastante tímido e de um esforço de pesquisa também diminuto e ainda, a má
formação básica de mão de obra, inexperiência por parte dos profissionais,
acabou impedindo um progresso mais rápido do setor da construção. Em outras
palavras podemos dizer que a industrialização da construção, especialmente o
segmento habitacional, nesse período começou a desacelerar.
Em 2008, o Brasil foi atingido pela maior crise do capitalismo nos últimos 80
anos, uma crise econômica mundial desencadeada pelos Estados Unidos por
causa de especulações imobiliárias. O governo brasileiro na tentativa de reparar
os danos provocados pela crise, como o desemprego e a desaceleração do
crescimento econômico do país, adotou algumas medidas de combate à crise.
Dentre essas medias estava o investimento no setor da construção civil. Assim
em Março de 2009, foi anunciado pelo governo federal o grande carro chefe da
economia brasileira, o programa Minha Casa, Minha Vida, um plano habitacional
voltado para a população de baixa renda e para a classe média (MANTEGA,
2009).
Em 2010, na primeira fase do programa, foram contratadas mais de 1 milhão de
moradias. No final de 2013, o programa alcançou 3 milhões e 240 mil unidades
contratadas desde o seu lançamento. Bilhões de reais já foram aplicados pelo
governo federal no Minha Casa, Minha Vida (ROUSSEFF, 2013). De acordo com
Aliski (2013), para a segunda fase, pretende-se construir cerca de 2,750 milhões
8
de casas e apartamentos até o final de 2014. O Conselho Curador de
Desenvolvimento Social (FDS) anunciou que, em 2014 o Governo Federal
destinará mais R$ 1,168 bilhão ao Programa Minha Casa, Minha Vida. Trata-se
de uma iniciativa ousada, uma vez que nunca foram levantadas tantas moradias
em tão pouco tempo no país. Nesse contexto surgiu à necessidade de se utilizar
de novas técnicas construtivas, mais rápidas e eficientes e, desta forma a
industrialização da construção habitacional no Brasil, começou a ser retomada.
O governo federal investiu ainda recursos públicos e privados no valor atual de
28,1 bilhões no setor chamado de “grandes eventos”, que compreendem Copa do
Mundo, Copa das Confederações, Olimpíadas e Paraolimpíadas, competições
que estão sendo realizadas no Brasil desde 2013 e perdurarão até 2016
(PORTAL BRASIL, 2013). Isso inclui obras de desenvolvimento da infraestrutura
nacional.
Atualmente o Brasil vive um momento onde a industrialização da construção civil
tem sido determinante para atender as necessidades de obras habitacionais e de
infraestrutura. Principalmente no que tange ao déficit habitacional, podemos dizer
que industrializar a construção civil é o modo que as construtoras estão
encontrando para executar a elevada demanda de moradias (MOREIRA, 2009).
2.2. Contextualização da Alvenaria Estrutural
A alvenaria estrutural é o mais antigo sistema construtivo usado pela
humanidade. Desde os tempos bíblicos já se construía com tijolos feitos de barro
ao sol. Os egípcios usavam alvenaria de pedra e, na idade média, pontes e
catedrais construídas com alvenaria estrutural perduram até hoje (CAMPOS,
2006). A alvenaria estrutural daqueles tempos não era como a alvenaria
estrutural como conhecemos hoje. Inicialmente o sistema desenvolveu-se através
do simples empilhamento de unidades como tijolos ou blocos. Vãos eram
9
executados com peças auxiliares, como vigas de madeira ou pedra. As teorias e
cálculos eram utilizados de forma empírica, sem pesquisas e estudos e, por isso,
esse tipo de alvenaria ficou conhecido como alvenaria convencional (KALIL,
2004).
Com o passar do tempo, as técnicas usadas na alvenaria convencional foram se
aperfeiçoando. Alternativas para a execução de vãos por exemplo, foram
descobertas possibilitando obras de grande beleza principalmente em países
Europeus (KALIL, 2004). Todavia na alvenaria convencional, não se tinha
conhecimento de técnicas de racionalização. A alvenaria predominava como
material estrutural e essas estruturas eram superdimensionadas não tendo
nenhuma garantia de segurança estrutural (KALIL, 2004). Na figura 2.2 vemos a
imagem de um dos ícones da arquitetura da idade média, a catedral de Chartres,
construída entre os anos de 1145 e 1194.
Figura 2.2: Catedral de Chartres, construída na idade média
Fonte: Espaço Cultural Santo Graal, 2013
10
A alvenaria convencional foi substituída pela alvenaria estrutural tal qual a
conhecemos hoje somente em 1950. Ainda segundo Kalil (2004), nessa época
surgiram códigos de obras e normas com procedimentos de cálculo na Europa e
América do Norte, o que acarretou em um crescimento marcante da alvenaria
estrutural em todo mundo.
A alvenaria estrutural se diferencia em vários aspectos da alvenaria
convencional, mas certamente a diferença maior esteja na ausência de pilares e
vigas (Ramos, 2008). Sabbatini (2003) coloca que a diferença fundamental entre
a alvenaria convencional e a alvenaria estrutural, é que nesta última há
dimensionamento e construção racional, enquanto que na alvenaria convencional
a estrutura é dimensionada e construída empiricamente.
No Brasil, desde a sua descoberta até o início do século XIX, as técnicas
utilizadas nas construções eram adaptações das técnicas trazidas pelos
Europeus. As técnicas utilizadas não envolviam nenhum conhecimento teórico ou
de pesquisa devido à ausência de qualquer ciência aplicada (forma empírica), em
outras palavras utilizava-se a alvenaria convencional. Várias casas eram feitas
artesanalmente pelos próprios moradores ou com a ajuda da vizinhança. Foi
muito comum nesse período construções feitas de barro, adobe, taipa de pildo,
pau a pique, pedra e cal e às vezes tijolo e cal (BARROS, 1998). A figura 2.3 nos
mostra um exemplo de casa construída em pau a pique.
11
Figura 2.3: Casa feita de pau a pique
Fonte: Jornal da USP, 2007
De acordo com Barros (1998), no final do século XIX já se utilizava tijolos
maciços nas paredes de alvenaria. Com a criação de escolas militares e de
engenharia pela corte portuguesa surgiu a aplicação de teorias e métodos
científicos às técnicas já estabelecidas. Segundo Vargas (1994) as obras eram
esboçadas e construídas por mestres portugueses ou por militares, “oficiais de
engenharia”. Nessa época, a Europa empregava largamente o uso de sistemas
de estruturas de aço e, com a facilidade de importação da época, esse sistema
acabou sendo trazido para o Brasil e utilizado em grandes obras nacionais, como
Viaduto Santa Efigênia e a Estação da Luz, em São Paulo, até os anos 20
(CAVALHEIRO, 2013).
Apesar de mundialmente o uso do concreto armado ter se iniciado após a patente
do cimento Portland por John Aspdin em 1824, no Brasil o concreto armado só
começou a ser utilizado em 1904, conforme coloca Vasconcelos e Carrieri Junior
(2005). Com a instalação da indústria de cimento Portland no Brasil, logo após a
primeira guerra mundial, o uso de estruturas em concreto armado pode ser
consagrado principalmente em prédios de grande altura, como o Edifício
Martinelli em São Paulo, com 30 andares, conforme pode ser visto na figura 2.4.
12
Naquela época as unidades de alvenaria produzidas no Brasil, limitavam-se ao
emprego em alvenarias de vedação (CAVALHEIRO, 2013).
Figura 2.4: Edifício Martinelli inaugurado em 1929 em São Paulo
Fonte: Intacta Engenharia, 2013
A alvenaria estrutural como conhecemos hoje, foi difundida no Brasil em 1966,
com a criação do BNH (BARROS, 1998). Foram construídos os primeiros prédios
em alvenaria estrutural armada de blocos de concreto, com quatro pavimentos, o
Conjunto Habitacional Central Parque da Lapa. Na década de 70 já era possível
encontrar conjuntos habitacionais com maior número de pavimentos, como o
conjunto habitacional Cidade Alta, construído através do BNH, conforme ilustrado
na figura 2.5. No Brasil na década de 80 a alvenaria estrutural encontrava-se no
seu auge, devido à disseminação dos conjuntos habitacionais.
13
Figura 2.5: Conjunto habitacional Cidade Alta no Rio de Janeiro, década de 70
Fonte: Ação Comunitária do Brasil, 2005
Vários conceitos são postos para definir alvenaria estrutural. Para Kalil (2004), a
alvenaria estrutural é um sistema construtivo que utiliza peças industrializadas,
de dimensões e peso que as fazem manuseáveis. Essas peças, industrializadas,
são ligadas por argamassa de forma a tornar o conjunto monolítico e podem ser
moldadas em: cerâmica, concreto ou sílico-calcário. O Núcleo de Ensino e
Pesquisa da Alvenaria Estrutural (NEPAE) da Universidade Estadual Paulista
(UNESP) (2000) defini alvenaria estrutural como sendo um sistema construtivo
racionalizado, onde elementos que desempenham função estrutural (tijolos,
blocos, pedras, armaduras, dentre outros) são de alvenaria e projetados segundo
modelos matemáticos preestabelecidos.
No método construtivo de alvenaria estrutural, as paredes funcionam como
elementos estruturais à edificação. As paredes são autoportantes, ou seja, são
capazes de suportar o peso da obra sem a necessidade de vigas e pilares,
influenciando desta forma, na redução de custo final da obra e tempo de
execução. O sistema em alvenaria estrutural não possibilita a passagem de
grandes vãos, fazendo com que o sistema se limite à plasticidade do projeto, ou
seja, as paredes não podem sofrer alterações sem que a estrutura seja afetada
(SCHMID, 2013). Até mesmo pequenas reformas devem ser previamente
analisadas e aprovadas por um especialista.
14
Na mesma referência feita pelo NEPAE/UNESP para conceituar alvenaria
estrutural, é posta a seguinte classificação para a alvenaria estrutural:
Em função ou não da presença de armaduras:
Armada;
Parcialmente armada;
Não armada.
Em função do tipo de material empregado (blocos ou tijolos):
Concreto;
Cerâmica;
Sílico-calcária.
A figura 2.6 ilustra o processo construtivo em alvenaria estrutural do tipo
concreto.
Figura 2.6: Alvenaria estrutural em blocos de concreto
Fonte: Núcleo de Apoio Pedagógico à Educação a Distância - UFRGS, 2011
A figura 2.7 ilustra o processo construtivo em alvenaria estrutural do tipo
cerâmica.
15
Figura 2.7: Alvenaria estrutural em blocos de cerâmica
Fonte: Paula Magrini - Revista Casa & Construção, 2008
A figura 2.8 ilustra o processo construtivo em alvenaria estrutural do tipo sílico-
calcária.
Figura 2.8: Alvenaria estrutural em blocos sílico-calcário
Fonte: Núcleo de Apoio Pedagógico à Educação a Distância - UFRGS, 2011
16
As definições postas por Camacho (2006), para as classificações de alvenaria
estrutural são as seguintes:
Alvenaria estrutural armada: é aquela em que, por necessidade estrutural,
os elementos resistentes, possuem uma armadura passiva de aço,
suficiente para absorver os esforços calculados, além daquelas armaduras
com finalidade construtiva ou de amarração;
Alvenaria estrutural não armada: é aquela que emprega como estrutura
suporte, paredes de alvenaria sem armação. Reforços metálicos são
colocados apenas com finalidades construtivas, como por exemplo em
cintas, vergas, contravergas e na amarração entre paredes, a fim de
prevenir problemas patológicos como fissuras e concentração de tensões;
Alvenaria estrutural parcialmente armada: é aquela que utiliza como
estrutura suporte, paredes de alvenaria sem armação e paredes com
armação. As paredes com armação se caracterizam por terem os vazados
verticais dos blocos preenchidos com graute (micro concreto) e
envolvendo barras e fios de aço. De uma forma geral essa definição é
empregada somente no Brasil.
Há ainda a alvenaria estrutural protendida que, conforme Camacho (2006)
descreve, é uma alvenaria reforçada por uma armadura ativa que submete a
alvenaria a esforços de compressão.
De acordo com Schmid (2013), na alvenaria estrutural a passagem de ferros,
fiações, conduítes ou canos é feita através dos furos de encaixe dos blocos. As
esquadrias devem ter medidas padronizadas e compatíveis com as medidas dos
blocos a serem utilizados. As fundações são similares às especificadas nas
construções convencionais e definidas a partir do estudo do solo e os
revestimentos são de menor espessura. A execução das instalações hidráulicas e
elétricas é realizada juntamente com a etapa de alvenaria. Como essas
17
instalações ficam embutidas nas paredes, conforme vemos na figura 2.9, há
dificuldades de alterações posteriores, sendo necessário quebrar boa parte do
bloco.
Figura 2.9: Tubulações elétricas sendo embutidas no sistema de alvenaria estrutural
Fonte: Paula Magrini - Revista Casa & Construção, 2008
Ramos (2008) ressalta que a mão de obra deve ser qualificada, uma vez que a
alvenaria estrutural mal feita poderá implicar em trincas, desnivelamento de
portas, vidros de janelas, entre outros. Na alvenaria estrutural não há
necessidade de se rebocar internamente, geralmente as paredes internas são
revestidas com uma camada fina de gesso, gerando grande redução de custo. Já
as paredes externas, por estarem expostas a intempéries, há a necessidade de
um revestimento mais resistente, fazendo-se necessário a utilização do chapisco
e reboco. Se a mão de obra não for qualificada os custos com revestimentos
podem aumentar consideravelmente.
18
Camacho (2006) descreve que a alvenaria estrutural pode trazer a seguintes
vantagens técnicas e econômicas:
Menor diversidade de materiais empregados;
Redução da mão de obra especializada, como armadores e carpinteiros;
Simplificação das técnicas de execução;
Maior rapidez de execução;
Economia de fôrmas;
Eliminação de interferências no cronograma executivo.
Ainda segundo Camacho (2006), a redução de custos gerada pela utilização da
alvenaria estrutural pode chegar até 30% devido à simplificação das técnicas de
execução e economia de fôrmas e escoramentos. Para o autor, o sistema de
alvenaria estrutural apresenta também algumas desvantagens como por exemplo:
Limitação do projeto arquitetônico pela concepção estrutural, que não
permite a construção de obras arrojadas;
Impossibilidade de adaptação da arquitetura para um novo uso;
Mão de obra qualificada e bem treinada e sob constante fiscalização;
Requer área considerável para armazenar e dispor os materiais.
Para a ABCP (2010), a alvenaria estrutural é bastante utilizada na construção de
conjuntos habitacionais no Brasil. No entanto esse sistema é marcado pelo tempo
de execução lento, com atividades artesanais, demanda alta de mão de obra e
grande geração de resíduos.
Segundo Franco (1992), a alvenaria estrutural, devido a sua simplicidade, é
capaz de permitir uma diminuição de custos imediata além de facilitar as
operações de execução do edifício. Nesse tipo de sistema há uma redução dos
investimentos fixos, como por exemplo compra de equipamentos. Com isso tem-
se uma maior flexibilidade quanto definição de cronogramas e fluxos de caixa.
Nos últimos anos, segundo o autor, muitas soluções foram tentadas na busca
pela eficiência e produtividade. Os processos em alvenaria estrutural estão entre
19
as poucas experiências de sucesso e se tornaram predominantes na construção
habitacional de interesse social.
2.3. As Paredes de Concreto Fabricadas in Loco
Os primeiros registros da utilização do sistema construtivo Paredes de Concreto
Fabricadas in Loco datam da década de 70. Nesta mesma época, com os
grandes programas habitacionais desenvolvidos pelo BNH, verificou-se a
importação de novas tecnologias e o interesse crescente de construtoras e
fabricantes de materiais pelos processos construtivos não convencionais. Dentre
esses processos estava a alvenaria estrutural e a produção de paredes maciças
de concreto produzidas no local nos seguintes sistemas: Outinord de fôrmas
metálicas; e os sistemas de fôrmas metálicas e de madeiras Geo-sistem e
Preford. Somente a alvenaria estrutural e o sistema Outinord é que se
consolidaram como tecnologia viável e persistiram durante a década de 80,
mostrando bom potencial de avanço (LORDSLEEM JUNIOR, 1998).
Contudo, naquela época no Brasil, principalmente com as limitações financeiras
da época, não houve continuidade de obras nesses padrões e, a falta de escala
não permitiu que esse tipo de processo construtivo se consolidasse no mercado
da construção civil (LORDSLEEM JUNIOR, 1998). Há pouco mais de dez anos,
segundo Robusti (2007), o sistema construtivo Paredes de Concreto Fabricadas
in Loco começou a ser amplamente utilizado no México em um modelo adotado
por esse país para erradicar seu déficit habitacional, numa meta de 6,5 milhões
de moradias em seis anos. Países como Colômbia e Chile já adotam largamente
esse sistema construtivo.
Pelo menos desde 2007, a indústria da construção começou a ser beneficiada
pela grande demanda por edificações e pelo crescente acesso da população ao
crédito. Desta forma, assim como ocorreu na época do BNH, o Brasil encontrou-
20
se mais uma vez diante da imperativa necessidade de aumentar a produtividade
da construção habitacional através da industrialização. O país atentou ser
necessário executar projetos cada vez mais rápidos, utilizando sistemas
construtivos econômicos sem comprometer a qualidade e o desempenho das
edificações. O Brasil passou então a se basear no modelo de construção
habitacional adotado pelo México e, o método construtivo Paredes de Concreto
Fabricadas in Loco voltou a ser utilizado pelas construtoras brasileiras
(MOREIRA, 2009).
Para estudar melhor essa “nova” tecnologia que deu base à chamada construção
industrializada, ainda em 2007, algumas instituições de grande respeito no meio
técnico, como a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), a Associação
Brasileira de Serviços de Concretagem (ABESC) e o Instituto Brasileiro de Telas
Soldadas (IBTS) se reuniram e introduziram o debate sobre as edificações feitas
com Paredes de Concreto Fabricadas in Loco, sistema construtivo que ficou
conhecido popularmente como “Paredes de Concreto”. (COMUNIDADE DA
CONSTRUÇÃO, 2008). Desde então a ABCP, ABESC e o IBTS desenvolvem
ações de pesquisa sobre edificações feitas com Paredes de Concreto Fabricadas
in Loco.
Hoje o sistema construtivo Paredes de Concreto Fabricadas in Loco encontra-se
em expansão no Brasil principalmente por oferecer condições técnicas e
econômicas capazes de ajudar a cumprir a meta de moradias do programa Minha
Casa, Minha Vida (MOREIRA, 2009).
2.4. A NBR 16.055:2012
Os trabalhos iniciados em 2007 pelo “Grupo Parede de Concreto”, formados pela
ABCP, ABESC, IBTS, institutos de pesquisa e empresas privadas, segundo a
Revista Téchne (2012), resultaram em uma norma específica no âmbito ABNT
21
(Associação Brasileira de Normas Técnicas). Em 10 de Maio de 2012 entrou em
vigor a NBR 16.055 – Parede de Concreto Moldada no Local Para a Construção
de Edificações – Requisitos e Procedimentos, elaborada pela Comissão de
Estudos CE-02:123.05, do CB-2, coordenada pelo engenheiro Arnoldo Wendler.
De acordo com a Comunidade da Construção (2008), o sistema construtivo
Paredes de Concreto demandou das empresas e instituições interessadas em
seu desenvolvimento, um intenso trabalho de pesquisa, para que seu modelo de
cálculo estrutural pudesse se transformar em uma nova norma técnica.
Antes da publicação desta norma os cálculos estruturais para as Paredes de
Concreto eram baseados na NBR 6118 – Projeto de Estruturas de Concreto –
Procedimento (antiga NB-1), no entanto se trata de um sistema estrutural
diferente. Paredes de concreto não são a mesma coisa que pilares com paredes.
Há alguns atenuantes, mas por outro lado, é preciso se preocupar com algumas
questões de contorno não detalhadas na NBR 6118 (CORSINI, 2012). Desta
forma para a criação da NBR 16.055 – Parede de Concreto Moldada no Local
Para a Construção de Edificações – Requisitos e Procedimentos, foram
aproveitados conceitos da ABNT como a NBR 6118 entre outras, além de
referências normativas buscadas fora do Brasil.
A NBR 16.055:2012 vale para edificações de qualquer planta, altura e número de
pavimentos, desde que feitas com paredes de concreto moldadas no local com
fôrmas removíveis. Dessa maneira, os projetos executados pelo sistema
construtivo Paredes de Concreto não têm mais a característica de “tecnologia
inovadora” e ficam dispensados de atender às diretrizes do Sistema Nacional de
Aprovações Técnicas (SINAT), para obter financiamento da Caixa Econômica
Federal e do Banco do Brasil (ABESC – IBTS, 2013). A normalização técnica é
uma grande aliada de empresas e consumidores porque garante que produtos e
serviços atendam a critérios reconhecidos e aceitos de segurança e qualidade.
22
2.5. O Sistema Construtivo Paredes de Concreto
Segundo Lordsleem Junior et al. (1998), o sistema construtivo Paredes de
Concreto é um sistema racionalizado de painéis monolíticos de concreto,
moldado no local, e que apresenta inovações na execução da vedação, dos
sistemas prediais e no assentamento das esquadrias. São utilizadas fôrmas
duplas para moldar no local as vedações de concreto armado. Estas vedações,
além de possuir função estrutural, pois nesse sistema não se usa colunas nem
vigas, ainda podem incorporar, durante o processo de produção, as instalações
elétricas, hidráulicas e as esquadrias.
Para a Comunidade da Construção (2008), Paredes de Concreto Fabricadas in
Loco, é um sistema construtivo racionalizado, o qual permite fazer um
planejamento completo e detalhado da obra. Tal sistema reduz as atividades
artesanais e improvisações, contribuindo dentre alguns fatores, para a diminuição
do número de operários no canteiro.
Basicamente o sistema emprega um jogo de fôrmas, tela de aço e o concreto que
irá constituir a parede. A moldagem de paredes no local utilizando fôrmas
preenchidas com concreto é uma tecnologia que oferece as condições desejáveis
de escala e velocidade para a construção de grandes e médios conjuntos
habitacionais. O sistema de Paredes de Concreto Fabricadas in Loco beneficia-
se da padronização e da repetitividade das estruturas, desta forma, quanto mais
estruturas e pavimentos iguais, mais rápidos e regulares serão os ciclos de
concretagem. (COMUNIDADE DA CONSTRUÇÃO, 2010). A figura 2.10 nos
mostra um conjunto habitacional sendo construído pelo sistema Paredes de
Concreto Fabricadas in Loco.
23
Figura 2.10: Conjunto habitacional sendo construído com o sistema Paredes de Concreto
Fonte: Ecopore, 2013
Misurelli e Massuda (2009) colocam que uma das características principais desse
sistema construtivo é a moldagem in loco dos elementos estruturais, tais como
vedação e estrutura. Em apenas uma única etapa de concretagem as paredes
são moldadas permitindo que, após a retirada das fôrmas, as paredes já
contenham em seu interior todos os elementos embutidos, como por exemplo
tubulações elétricas e hidráulicas, elementos de fixação, caixilhos de portas e
janelas, entre outros.
Ainda segundo Misurelli e Massuda (2009), o sistema possibilita a construção de
casas térreas, assobradadas, edifícios de até cinco pavimentos padrão, edifícios
de oito pavimentos padrão com esforços de compressão, de até 30 pavimentos
padrão e com mais de 30 pavimentos, considerados casos especiais e
específicos. A figura 2.11 mostra as tipologias possíveis no sistema Paredes de
Concreto.
24
Figura 2.11: Tipologias estruturais construídas com o sistema Paredes de Concreto
Fonte: Adaptação feita pela autora, 2013
É importante salientar que embora o sistema seja usado, sobretudo em obras
habitacionais, não é limitado a elas. O sistema é recomendado para
empreendimentos que tenha alta repetitividade podendo ser utilizado em obras
de pequeno, médio e alto padrão devido a sua grande versatilidade (ABCP,
2010).
Ainda para os autores Misurelli e Massuda (2009), os principais benefícios do
uso das Paredes de Concreto são:
Velocidade de execução;
Prazos de entrega e custos programados;
25
Industrialização do processo;
Maior qualidade e desempenho técnico;
Economia de materiais;
Mão de obra não especializada.
A espessura de parede mais usada no sistema Paredes de Concreto é de 10 cm.
A NBR 16.055:2012 especifica que a espessura mínima das paredes com altura
até 3 m deve ser de 10 cm. É permitido espessura de 8 cm apenas em paredes
internas de edificações de até dois pavimentos. Em paredes com altura maiores,
a espessura mínima deve ser 1/30 do menor valor entre a altura e metade do
comprimento equivalente da parede (CORSINI, 2012).
Assim como em toda atividade industrial o sistema construtivo Paredes de
Concreto Fabricadas in Loco se divide em etapas de execução:
Execução da fundação;
Colocação das armaduras;
Montagem das fôrmas;
Concretagem;
Retirada das fôrmas;
Acabamento.
A figura 2.12 apresenta as principais etapas de execução do sistema Paredes de
Concreto. A seguir será apresentada uma breve descrição dessas etapas.
26
Figura 2.12: Etapas de execução do sistema Paredes de Concreto
Fonte: Adaptação feita pela autora, 2013
Segundo a ABCP (2010), o sistema construtivo Paredes de Concreto é totalmente
sistematizado uma vez que se baseia inteiramente em conceitos de
industrialização de materiais e equipamentos. São características desse sistema
a mecanização, a modulação, o controle tecnológico e a multifuncionalidade, o
que permite que a obra se assemelhe a uma linha de montagem como na
indústria automobilística.
27
2.5.1. Fundação
A escolha do tipo de fundação depende do local do empreendimento, de acordo
com o clima, solo e geografia. No sistema Paredes de Concreto não existem
restrições quanto ao tipo de fundação a ser adotado. Podem ser empregados os
sistemas de fundações em sapata corrida, conforme mostra a figura 2.13, radier
(laje de apoio), conforme figura 2.14 e blocos de travamento para estacas ou
tubulões conforme especificações de projeto. Todavia a seleção do tipo de
fundação deve contemplar parâmetros de ordem geral como aspectos de
segurança, estabilidade, durabilidade da fundação, alinhamento e nivelamentos
(COMUNIDADE DA CONSTRUÇÃO, 2008).
Figura 2.13: Fundação tipo Radier
Fonte: Gethal Sistemas Construtivos, 2013
28
Figura 2.14: Fundação tipo sapata corrida
Fonte: Clube do Concreto, 2013
Independentemente da tipologia da fundação, esta deverá ser executada com
alinhamento e nivelamento rigoroso, permitindo a correta montagem do sistema
de fôrmas. Diferenças de níveis acarretará descontinuidade no alinhamento
superior das paredes. Recomenda-se que seja executada uma laje/piso na cota
do terreno, de forma a constituir um apoio ao sistema de fôrmas e eliminar a
possibilidade de se trabalhar no terreno bruto. É interessante que essa laje/piso
seja construída excedendo a dimensão igual à espessura dos painéis externos
das fôrmas, para permitir o apoio e facilitar a montagem dos moldes. A fundação
com laje tipo radier é mais utilizada em casas com Paredes de Concreto. Se a
opção for por este tipo de fundação, recomenda-se construir a calçada externa na
mesma concretagem. (COMUNIDADE DA CONSTRUÇÃO 2008).
Linhas de nylon e spray ou pó colorido são utilizados para marcação de linhas
nas lajes. Essas linhas são usadas no piso de apoio e nas lajes para marcar a
espessura da parede e os pontos de prumadas. É importante ressaltar que as
fundações são construídas contendo embutidas às tubulações hidrossanitárias
(COMUNIDADE DA CONSTRUÇÃO, 2008).
29
2.5.2. Armaduras
De acordo com Misurelli e Massuda (2009), a armação no sistema Paredes de
Concreto além de atuar como estrutura, serve de suporte para as instalações
elétricas e hidráulicas durante a concretagem e a cura. As armaduras devem
atender a três requisitos básicos:
Resistir a esforços nas paredes;
Controlar a retração do concreto;
Estruturar e fixar as tubulações elétricas, hidráulicas e de gás.
A armação mais usual adotada no sistema Paredes de Concreto é a tela
eletrossoldada, posicionada no eixo vertical da parede. No entanto a NBR
16.005:2012 não proíbe o uso de barra ou treliça para a armação de lajes e
paredes. Geralmente as barras são utilizadas como reforços em regiões de maior
tensão, como as bordas e vãos de portas e janelas, e como auxílio na fixação e
sustentação dos painéis de tela. Em edifícios mais altos as paredes devem
receber duas camadas de telas soldadas, posicionadas verticalmente, e reforços
verticais nas extremidades das paredes (MISURELLI E MASSUDA, 2009).
A figura 2.15 nos mostra um exemplo de armadura utilizada no sistema Paredes
de Concreto. Na mesma figura 2.15 é possível observar a fundação tipo radier
contendo as tubulações hidrossanitárias.
30
Figura 2.15: Execução das armaduras no sistema Parede de Concreto
Fonte: Gethal Sistemas Construtivos, 2013
A NBR 16.055:2012 estabelece que em paredes de até 15 cm pode-se utilizar
uma tela centrada, no entanto paredes com mais de 15 cm ou qualquer parede
sujeita a esforços horizontais ou momentos fletores aplicados, deve-se utilizar
armação com duas telas (CORSINI, 2012).
Abaixo a figura 2.16 ilustra os procedimentos gerais para montagem das
armaduras no sistema Paredes de Concreto.
31
Figura 2.16: Procedimentos gerais para montagem das armaduras
Fonte: Adaptado da Comunidade do Concreto, 2010
Segundo a Comunidade da Construção (2010), nas paredes que apresentarem
vãos de porta e janelas, as telas deverão ser posicionadas sem consideração
daquelas aberturas. Os cortes deverão ser feitos após o posicionamento de uma
face dos painéis das fôrmas. O material que sobrar poderá ser utilizado nos
pontos necessitados de reforços. Ainda segundo Misurelli e Massuda (2009), os
tubos e eletrodutos são fixados às armaduras, evitando-se que desloquem
durante o adensamento e lançamento do concreto. É imprescindível a colocação
de distanciadores e espaçadores plásticos para garantir o posicionamento das
telas e a geometria dos painéis.
A figura 2.17 ilustra o uso de espaçadores e a figura 2.18 ilustra o uso de
distanciadores, ambos utilizados no sistema Paredes de Concreto.
32
Figura 2.17: Uso de espaçador plástico para ligação de eletroduto na armadura
Fonte: ABCP, 2010
Figura 2.18: Uso de distanciador plástico na armadura
Fonte: Núcleo Parede de Concreto, 2012
2.5.3. Instalações Hidráulicas e Elétricas
Para as instalações hidráulicas a NBR 16.055:2012 coloca que as tubulações
verticais podem ser embutidas nas Paredes de Concreto, desde que atendidas
simultaneamente às seguintes condições:
Quando tubos metálicos não encostarem nas armaduras, de forma a evitar
corrosão galvânica;
Quando a diferença de temperatura no contato entre a tubulação e o
concreto não ultrapassar 15°C;
Quando a pressão interna na tubulação for menor que 0,3 MPa;
Quando o diâmetro máximo for de 50 mm;
Quando o diâmetro da tubulação não ultrapassar 50% da espessura da
parede, restando espaço suficiente para, no mínimo, o cobrimento adotado
33
e a armadura de reforço. Admite-se tubulação com diâmetro de até 66% da
espessura da parede e com cobrimentos mínimos, desde que existam telas
nos dois lados da tubulação com comprimento mínimo de 50 cm para cada
lado.
Devido à dificuldade de atender a todos esses critérios e principalmente pelo fato
da norma não permitir a passagem de tubos de grandes diâmetros dentro do
sistema Paredes de Concreto, o mais comum nos empreendimentos é passar as
tubulações verticais por fora das paredes através de shafts, de forma que essas
tubulações permaneçam aparentes. Esteticamente pode não ser o ideal, mas
esse procedimento facilita reformas e a manutenção caso ocorra problemas,
como por exemplo obstruções ou infiltrações e ainda evita paredes com
espessuras diferentes. As tubulações horizontais, quando existentes, são
embutidas no sistema de rebaixamento das lajes (NÚCLEO PAREDE DE
CONCRETO, 2012).
Vale ressaltar que a NBR 16.055:2012 não admite tubulações horizontais, a não
ser trechos de até 1/3 do comprimento da parede, não ultrapassando 1 m, e
desde que esse trecho não seja considerado estrutural. A norma também não
permite tubulações verticais e horizontais nos encontros de paredes (CORSINI,
2012).
Com relação às instalações elétricas, as caixas de passagem, interruptores e
tomadas, são fixadas nos painéis das fôrmas das Paredes de Concreto, por meio
de gabaritos, conforme posição indicada em cada projeto. Um exemplo dessa
aplicação pode ser vista na figura 2.19. Preenchimento com papel ou pó de serra
se faz necessário nas caixas que apresentarem orifícios, de forma a evitar que o
concreto penetre nas mesmas e obstrua a passagem dos eletrodutos
(COMUNIDADE DA CONSTRUÇÃO, 2010).
34
Figura 2.19: Montagem da rede elétrica no sistema Paredes de Concreto
Fonte: Metro Modular, 2013
No caso de lajes, os eletrodutos devem ser posicionados logo após a montagem
das fôrmas de laje e antes da concretagem (COMUNIDADE DA CONSTRUÇÃO,
2010).
2.5.4. Sistema de Fôrmas
Para Misurelli e Massuda (2009), as fôrmas são estruturas provisórias que irão
moldar o concreto fresco, de forma a compor a parede estrutural. De acordo com
a Comunidade da Construção (2008), os tipos de fôrmas mais comum no sistema
Paredes de Concreto são:
Fôrmas Metálicas: Utilizam quadros e chapas metálicas tanto para
estruturação de seus painéis como para dar acabamento à peça
concretada. A figura 2.20 mostra um exemplo de utilização de fôrma de
alumínio;
35
Figura 2.20: Fôrma de alumínio monoportáveis
Fonte: Comunidade da Construção – Produtos e Serviços, 2013
Fôrmas Metálicas e Compensado: São compostas por quadros em peças
metálicas (aço ou alumínio) e utilizam chapas de madeira compensada ou
material sintético para dar o acabamento na peça concretada. A figura
2.21 mostra um exemplo de utilização de fôrma metálica e compensado;
Figura 2.21: Fôrma metálica e compensado
Fonte: Comunidade da Construção, 2013
36
Fôrmas Plásticas: Utilizam quadros e chapas feitas em plástico reciclável,
tanto para estruturação de seus painéis como para dar acabamento à peça
concretada, sendo contraventadas por estruturas metálicas. A figura 2.22
mostra um exemplo de utilização de fôrma plástica.
Figura 2.22: Fôrma plástica
Fonte: Metro Modular, 2013
Seja qual for o tipo de fôrma utilizada, todas devem resistir a todas as pressões
do lançamento do concreto até que este adquira resistência suficiente para a
desfôrma. As fôrmas também devem ser estanques e manter rigorosamente a
geometria das peças que estão sendo moldadas (MISURELLI E MASSUDA,
2009).
A fôrma de alumínio é o tipo mais empregado nas edificações que utilizam o
sistema Paredes de Concreto. Esse tipo de fôrma tem um custo elevado, devido
ao seu material de fabricação, mas esse custo equilibra-se com o custo benefício
uma vez que as fôrmas de alumínio podem ser utilizadas até 2.000 vezes,
permitindo que o custo das mesmas seja absorvido e o custo do metro quadrado
caia consideravelmente (CORSINI, 2012). Além disso, as fôrmas de alumínio
possuem leveza e flexibilidade, possibilitando ganhos de produtividade e
37
diferentes combinações geométricas. A fôrma de alumínio, aplicada à execução
do molde das Paredes de Concreto, é constituída por um sistema de painéis
fabricados com chapas e perfis metálicos estruturados (SILVA, 2009).
Em geral os painéis da fôrma de alumínio possuem largura máxima de 60 cm,
porém podem ser construídos módulos maiores. A espessura das fôrmas variam
entre 5 e 7 mm. A altura é limitada pelo pé direto da edificação, podendo variar
entre 2,60 m e 3,00 m. O sistema possui placas de fechamento para os vãos de
portas e janelas, como gabaritos. O índice de produtividade na montagem das
fôrmas de alumínio é de 0,30 hh/m
2
. Em uma casa com 36 m
2
de área, com área
de fôrma de 200 m
2
, considerando as duas faces da parede, a montagem das
fôrmas pode ser concluída em um dia, de 10 horas, com uma equipe de sete
homens. Os painéis da fôrma de alumínio são montados manualmente e cada
painel pesa menos de 18 kg/m
2
, já com os vãos para as portas e janelas. O
sistema de fôrmas pode ser empregado para diversos tipos de concreto e não
possui restrições quanto ao uso de vibrador (SILVA, 2009).
Segundo Misurelli e Massuda (2009), o projeto de fôrma deve abordar o
detalhamento dos seguintes itens:
Posicionamento dos painéis;
Equipamentos auxiliares;
Peças de travamento e prumo;
Escoramento;
Sequencia de montagem e desmontagem.
Ainda para os autores Misurelli e Massuda (2009), a montagem das fôrmas deve
começar assim que as seguintes etapas estejam concluídas:
Nivelamento da laje de piso (construção da fundação);
Marcação de linhas de paredes no piso de apoio;
Montagem das armaduras;
Montagem das redes hidráulica e elétrica.
38
A montagem do sistema de fôrmas segue a sequência do projeto original, que
geralmente atende a sequência padrão:
Posicionamento dos painéis de fôrma;
Montagem dos painéis internos primeiro e painéis externos em seguida ou
a opção de montagem pareada;
Colocação de caixilhos nas portas e janelas;
Colocação de grampos ou pinos de fixação para conectar os painéis
(interno e externo);
Posicionamento de escoras de prumo, para manter os painéis em pé e
permitir o ajuste milimétrico do prumo das paredes posteriormente;
Colocação de ancoragens para absorver as pressões que o concreto,
ainda no estado plástico, deverá exercer sobre as fôrmas;
Fechamento das fôrmas.
Em média o tempo de montagem das formas até a concretagem é de um dia. Na
figura 2.23 pode ser visto o processo de montagem das fôrmas.
39
Figura 2.23: Montagem de fôrmas no sistema Paredes de Concreto
Fonte: Gethal, 2013
Venturini (2011) faz uma observação importante, antes da montagem da fôrma é
necessário à aplicação de desmoldante em todos os painéis que compõem a
fôrma. O desmoldante tem a função de garantir a retirada da fôrma sem
danificações, após a concretagem, possibilitando a reutilização da mesma. A
ABCP (2010) diz que cada tipo de fôrma requer um tipo de agente desmoldante.
Em fôrmas de alumínio, o desmoldante ideal é aquele a base de parafina líquida
e água. A figura 2.24 ilustra o processo de utilização de desmoldante no sistema
de fôrmas.
40
Figura 2.24: Utilização de desmoldante
Fonte: Projeto de Casas, 2011
Para a Comunidade da Construção (2008), a desfôrma deve ser feita quando o
concreto atingir a resistência e a elasticidade prevista no projeto. A retirada das
fôrmas deve ser feita sem choques, evitando assim o aparecimento de fissuras. A
figura 2.25 mostra o processo de retirada das fôrmas.
Figura 2.25: Desfôrma
Fonte: Metro Modular, 2013
41
Misurelli e Massuda (2009) colocam que após a retirada das fôrmas, estas devem
passar por uma limpeza de forma a remover a película de argamassa (cimento +
água + areia) aderida nas superfícies dos painéis. Essa limpeza deve ser feita de
maneira minuciosa, podendo ser executada com espátula, conforme podemos
visualizar na figura 2.26 ou ainda com jato de água.
Figura 2.26: Limpeza das formas
Fonte: Revista Equipe de Obras, 2011
2.5.5. Concretagem
Antes da NBR 16.055:2012 entrar em vigor, segundo a Comunidade da
Construção (2008) era recomendado o uso de quatro tipos de concreto para o
sistema Paredes de Concreto:
Tipo L1 - Concreto Celular: Esse tipo de concreto é uma mistura composta
por areia, brita, cimento Portland, água e minúsculas bolhas de ar. A
adição dessas bolhas de ar permite a esse material adquirir a propriedade
de concreto leve, com massa específica menor que a dos concretos
convencionais (1.500 a 1.600 kg/m³), e bom desempenho térmico e
acústico. Concreto recomendado para estruturas de Paredes de Concreto
42
com até dois pavimentos desde que a resistência especificada seja igual à
resistência mínima de 4 MPa;
Tipo M - Concreto com alto teor de ar incorporado (até 9%): Esse tipo de
concreto possui características mecânicas, térmicas e acústicas similares
ás do concreto celular, mas recomendado para o sistema Paredes de
Concreto de residências térreas e assobradadas com a resistência mínima
igual a 6 MPa;
Tipo L2 - Concreto com agregados leves ou com baixa massa específica:
Esse tipo de concreto é preparado com agregados leves e possui bom
desempenho térmico e acústico, mas possui desempenho inferior ao do
concreto tipo L1 e M. Recomendado para o sistema Paredes de Concreto
que necessite de resistência de até 25 MPa;
Tipo N - Concreto convencional ou auto adensável: Esse tipo de concreto
possui maior fluidez e plasticidade, eliminando a necessidade de vibração
e, sua alta viscosidade evita a segregação dos materiais. Além disso, sua
aplicação é muito rápida se feita por bombeamento. Recomendado como a
melhor alternativa para o sistema Paredes de Concreto é o mais utilizado
pelas construtoras. A resistência mínima a compressão é de 20 MPa.
A tabela 2.1 apresenta os tipos de concretos recomendados no sistema Paredes
de Concreto, antes de entrar em vigor a NBR 16.055:2012.
43
Tabela 2.1: Tipos de concreto usado no sistema construtivo Paredes de Concreto
Fonte: Comunidade da Construção, 2008
Atualmente a NBR 16.055:2012 estabelece o uso de concreto comum ou
autoadensável, com densidade normal de 2,0 tf/m³ a 2,8 tf/m³, com resistência
característica à compressão aos 28 dias entre 20 MPa e 40 MPa. Desta forma a
norma vale para projetos que especifiquem concreto comum ou autoadensável
que atendam a parâmetros específicos. Todavia, a norma não se limita a esses
dois tipos de concreto. É notado que alguns empreendimentos ainda utilizam
outros tipos de concreto como o L1, no entanto sistemas que utilizarem concreto
celular por exemplo, ou qualquer outro sistema que não se enquadre nos
requisitos da norma, devem obter um documento de avaliação técnica no âmbito
do SINAT (CORSINI, 2012). Para o autor, no sistema Paredes de Concreto, o
ideal é usar concreto autoadensável uma vez que não se pode lançar um
concreto pouco plástico porque não se conseguirá vibrá-lo.
No sistema Paredes de Concreto a etapa de adensamento consiste em utilizar
concreto com alta fluidez para preencher os vazios das fôrmas, à semelhança de
um líquido enchendo um recipiente. A massa fluida deve caminhar
homogeneamente pela fôrma e preencher todos os vazios sem nenhuma
dificuldade (COMUNIDADE DA CONSTRUÇÃO, 2010). Desta forma o
lançamento do concreto deve ser bem planejado. A Comunidade da Construção
44
(2008, p. 87) escreve em Parede de Concreto - Coletânea de Ativos 2007/2008,
um critério de escolha de pontos para lançamento do concreto:
“O lançamento deve ser iniciado por um dos cantos da
edificação, até que uma significativa parcela das paredes
próximas ao ponto esteja totalmente cheia. Em seguida, muda-se
a posição em direção ao canto oposto, até que se complete o
rodízio dos quatro cantos opostos da estrutura. Finaliza-se a
concretagem com o lançamento na linha mais elevada das
fôrmas e dos oitões, para o caso de habitações térreas.”
A figura 2.27 nos mostra o esquema de pontos de concretagem a serem
utilizados no sistema Paredes de Concreto.
Figura 2.27: Pontos de concretagem no sistema Paredes de Concreto
Fonte: Comunidade da Construção, 2008
Para Misurelli e Massuda (2009), a aplicação do concreto nas fôrmas deve
obedecer a um planejamento detalhado, levando em consideração as
características do concreto que será utilizado, a geometria das fôrmas, o layout
do canteiro e as características do empreendimento. O concreto deve ser lançado
o mais próximo possível de sua posição final. A utilização de bomba para
lançamento do concreto reduz a probabilidade de falhas de concretagem. Um
45
exemplo desse procedimento pode ser visto na figura 2.28. Não deve haver
interrupções com duração superior a 30 minutos, no lançamento do concreto. A
NBR 16.055:2012 recomenda que em estruturas inclinadas, como por exemplo
escadas, a concretagem seja feita de forma ascendente, ou seja, da menor cota
para a maior. A concretagem da laje só é realizada após a concretagem de todas
as paredes.
Figura 2.28: Aplicação de concreto no sistema Paredes de Concreto
Fonte: Ecopore, 2013
A etapa de adensamento do concreto deve ser muito cuidadosa. A NBR
16.055:2012 coloca que deve se ter maiores cuidados quanto maiores forem a
densidade de armadura e a altura de lançamento do concreto, como por exemplo
quando a altura de queda livre do concreto ultrapassar os 2 m. É imprescindível a
utilização de uma técnica de lançamento significativa que garanta que todo o
concreto preencha todos os espaços das fôrmas, inclusive nos pés das paredes,
e evite a formação de ninhos ou segregações de materiais. Após o lançamento o
concreto deve ser vibrado de forma a evitar à ocorrência de falhas por ar
aprisionado e, deve-se evitar ainda a vibração da armadura.
46
2.5.6. Acabamento
De acordo com Misurelli e Massuda (2009) não existem restrições quanto ao uso
de qualquer tipo de revestimento no sistema construtivo Paredes de Concreto,
sendo exigido apenas o cumprimento das especificações do fornecedor do
material. Os painéis das fôrmas de alumínio não possuem rebites, emendas ou
marcas na face que faz contato com o concreto, o que proporciona um
acabamento liso da superfície concretada. Algumas rebarbas, decorrentes da
junção dos painéis, são removidas com auxílio de espátula, logo após a
desfôrma. Os furos decorrentes dos pinos de travamento dos painéis são
preenchidos com argamassa cimentícia. Quando necessário, é utilizado uma
feltragem para retirar os sinais superficiais e então é feita a impermeabilização e
posteriormente a pintura. Na figura 2.29 tem-se um exemplo de superfície lisa
após a retirada das fôrmas.
Figura 2.29: Superfície do sistema Paredes de Concreto após a retirada das fôrmas
Fonte: Gethal Sistemas Construtivos, 2013
47
Geralmente utiliza-se nas áreas secas, um fundo de gesso e posteriormente uma
textura rolada, apenas com a finalidade de regularizar porosidade das paredes e
dar uma melhoria estética. Nas áreas molhadas a aplicação do revestimento é
feita diretamente sobre as paredes conforme ilustrado na figura 2.30 (ABCP,
2010).
Figura 2.30: Revestimento feito diretamente sobre as Paredes de Concreto
Fonte: Gethal Sistemas Construtivos, 2013
Uma das características marcantes que compõem o sistema construtivo Paredes
de Concreto é a grande redução da espessura das camadas de revestimento.
Não há necessidade de chapisco ou reboco como acontece por exemplo no
sistema de alvenaria estrutural de blocos, como se nota na figura 2.31. É
recomendado que o acabamento seja iniciado após a cura úmida da parede
(COMUNIDADE DA CONSTRUÇÃO, 2008).
48
Figura 2.31: Acabamento em alvenaria estrutural e em Paredes de Concreto
Fonte: HESKETH, 2009
2.6. Desempenho Térmico e Acústico do Sistema Paredes de Concreto
Segundo Borges (2008) a palavra desempenho é utilizada de forma coloquial por
toda a sociedade e possui um significado um tanto amplo. Ao falar de
desempenho aplicado à indústria da construção, o autor coloca que:
“O edifício é um produto que deve apresentar determinadas
características que o capacitem a cumprir objetivos e funções
para os quais foi projetado, quando submetidos a determinadas
condições de exposição e uso; assim, ele é considerado um “bem
comportado” quando atende aos requisitos para o qual foi
projetado.”
Na NBR 16.055:2012 não é mencionado o desempenho térmico e acústico das
paredes que compõem o sistema construtivo Paredes de Concreto. Para Borges
(2008) a explicitação do desempenho desejado de uma construção, através de
requisitos, critérios e métodos de avaliação, não se constitui tarefa fácil. As
necessidades dos usuários são subjetivas, crescentes, variáveis com o tempo e
por região, além de serem baseadas em expectativas que os próprios usuários
49
têm em relação ao produto e à empresa que lhes fornece esse produto. Todavia,
Wendler (2009) expõe algumas considerações sobre o desempenho térmico e
acústico do sistema construtivo Paredes de Concreto.
Wendler (2009) coloca que o desempenho térmico depende das características
de todo o ambiente construído, como por exemplo fachada, cobertura, piso,
aberturas para ventilação, tipologia da edificação, etc. e não só do material das
paredes. Segundo a NBR 15.575:2013 Edificações Habitacionais – Desempenho,
a edificação deve reunir características que atendam às exigências de
desempenho térmico, considerando-se as zonas bioclimáticas definidas na NBR
15.220 - Desempenho Térmico de Edificações.
De acordo com Wendler (2009), o desempenho térmico dos tipos de concretos M,
L2, N, L1, citados no item 2.5.5 – Concretagem, deste trabalho, foi testado de
acordo com as oito zonas bioclimáticas definidas para o Brasil e de acordo com a
característica do ambiente construído, representado na figura 2.32. Segundo
avaliação do Instituto de Pesquisas Técnicas (IPT), o desempenho foi
considerado satisfatório para todas as regiões brasileiras.
Figura 2.32: Interação entre elementos característicos de ambientes construtivos
Fonte: Wendler, 2009
50
Com relação ao desempenho acústico Wendler (2009) coloca o seguinte:
“Os níveis de ruído admitidos na habitação devem proporcionar
isolamento acústico entre o meio externo e o interno, bem como
entre unidades condominiais distintas, além de proporcionar,
completamente, isolamento acústico entre dependências de uma
mesma unidade, quando destinadas ao repouso noturno, ao lazer
doméstico e ao trabalho intelectual.”
O desempenho acústico depende da massa específica e espessura das paredes
e, ainda interfere nesse desempenho fugas de som como portas, janelas, caixas
de passagem, entre outros. As espessuras mínimas das paredes, necessárias ao
isolamento acústico, podem ser vistas na figura 2.34 (WENDLER, 2009).
Figura 2.33: Espessuras mínimas das paredes necessárias ao isolamento acústico
Fonte: Wendler, 2009
A espessura mínima empregada no sistema Paredes de Concreto tem 10 cm.
Segundo o Wendler (2009), todos os tipos de concretos citados neste trabalho
anteriormente, foram testados e aprovados no requisito desempenho acústico.
Vale ressaltar que NBR 15.575:2013 Edificações Habitacionais – Desempenho
atrela o desempenho acústico ao nível de ruído externo existente no momento da
realização do projeto. Foram criados parâmetros distintos, por exemplo para
áreas mais silenciosas e para ruas muito barulhentas, com grande circulação de
51
veículos. Para a norma em questão, a edificação deve atender ao limite mínimo
de desempenho estabelecido nas partes 3, 4 e 5 da NBR 15.575:2013.
Constitui ainda observação importante, atentar que a literatura fala dos testes de
desempenho térmico e acústico feitos nos tipos de concretos utilizados no
sistema Paredes de Concreto e não no elemento unidade habitacional como um
todo, depois de pronto.
2.7. Viabilidades do Sistema Construtivo Paredes de Concreto
Para Sampaio (2009), o sistema de fôrmas para Paredes de Concreto é um passo
importante na modernização da construção civil, devido à agilidade que
proporciona à obra, a economia e a melhor precisão nos dimensionamentos e
geometrias.
O custo de um jogo de fôrma pode variar muito, dependendo do seu material de
fabricação, mas em média esse custo varia entre R$ 500 mil e R$ 600 mil. O
sistema construtivo Paredes de Concreto que utiliza fôrmas de alumínio tem um
custo mais alto se comparado a outros tipos de fôrmas, mas esse valor é
amortizado uma vez que as fôrmas de alumínio, como já citado no item 2.5.4 –
Sistema de Fôrmas, podem ser utilizadas até 2.000 vezes (JUSTUS, 2009).
Segundo Justus (2009), com apenas um jogo de fôrma, é capaz de se construir
quatro casas por semana. Desta forma, o tempo de construção de uma casa
utilizando o sistema de alvenaria estrutural, que é em média setenta dias, no
sistema Paredes de Concreto esse número cai para vinte dias.
Referente aos prazos de execução, cálculos feitos pela Bairro Novo, marca da
Odebrecht Realizações Imobiliárias, empresa da Organização Odebrecht,
constatou que no sistema de alvenaria estrutural, a construção de uma unidade
52
composta por duas casas de três quartos, levaria no mínimo quatro dias para ser
concluída se vinte homens estivessem trabalhando para executá-la, já
considerando a elevação da alvenaria e o revestimento das paredes. Se o tempo
de cura da alvenaria para posterior aplicação do revestimento for levado em
conta, esse prazo poderia se estender ainda mais. Em contra partida, com a
utilização do sistema Paredes de Concreto, para construir a mesma unidade
habitacional, utilizando da mão de obra dos mesmos 20 homens, gastaria se um
dia, usando um segundo dia para estucagem (correção de falhas). Esse
comparativo pode ser visto na tabela 2.2 (PINI, 2010).
Tabela 2.2: Comparativo entre prazos de execução
Fonte: Criado pela autora, 2013
Com relação aos custos de material e mão de obra gastos na alvenaria estrutural
e no sistema Paredes de Concreto, nota-se que a proporção entre esses custos
inverte de um sistema para outro, conforme podemos verificar na tabela 2.3.
Ainda segundo constatações da Bairro Novo, na alvenaria estrutural são gastos
R$ 4,3 mil com materiais e R$ 12,1 mil com mão de obra enquanto que no
sistema Paredes de Concreto são gastos R$ 12,4 mil com materiais e R$ 5,6 mil
com mão de obra (PINI, 2010).
53
Tabela 2.3: Comparativo entre custos de materiais e mão de obra
Fonte: Criado pela autora, 2013
Nota-se neste comparativo que o custo do sistema Paredes de Concreto em
relação à alvenaria estrutural é de aproximadamente 9%. Em termos econômicos,
o que justifica o uso do sistema construtivo Paredes de Concreto é o ganho em
escala. Apesar de mais caro o sistema aumenta a velocidade e a produtividade
da obra (PINI, 2010).
No sistema construtivo Paredes de Concreto, como se necessita de um menor
número de operários se comparado com a alvenaria estrutural, é considerável
também a redução com custos indiretos como refeições, vale transporte e
encargos sociais. Além disso, o treinamento de mão de obra pode ser
simplificado no sistema Paredes de Concreto, o que minimiza a escassez de
operários qualificados (PINI, 2010). O processo construtivo industrializado pode
reduzir em até 70% o uso de mão de obra (JUSTUS, 2009).
Além da velocidade e da economia de custos, o sistema construtivo Paredes de
Concreto reduz em 20% a geração de resíduos, inclusive por não ter etapas de
quebras de paredes para embutir instalações e por não utilizar fôrmas de madeira
(JUSTUS, 2009).
A eliminação de etapas construtivas e a padronização são outras vantagens do
sistema construtivo Paredes de Concreto. No método tradicional de construção
um mesmo projeto pode ter diferenças, dependendo de fatores regionais como a
qualidade dos tijolos e a qualificação da mão de obra. Para Justus (2009), o
54
custo benefício no sistema Paredes de Concreto pode chegar até 10% em
relação à alvenaria estrutural. Segundo o autor, a Votorantim Cimentos prevê que
70% do mercado total de habitação popular no Brasil será construído pelo
sistema construtivo Paredes de Concreto, já a ABCP, com uma projeção mais
conservadora, considera que seja 50% apenas. Todavia são números bem
significativos.
55
3. ANÁLISE CRÍTICA
A problemática do déficit habitacional no Brasil é fato notável que vem tentando
ser resolvida pelo menos desde 2009, quando o governo federal atentou-se para
o problema e resolveu tomar medias de solução como a criação do programa
Minha Casa, Minha Vida. Nesse mesmo período o país já sabia, ou pelo menos
começava a saber, dos investimentos em infraestrutura que estavam para
acontecer, em decorrência de grandes eventos como Copa do Mundo,
Olimpíadas e outros mais. Nota-se que nesse instante o mercado da construção
civil no Brasil começou a passar de desacelerado, principalmente devido aos
reflexos da crise econômica ocorrida em 2008, para superaquecido. O programa
Minha Casa, Minha Vida, por sua magnitude, fez com que diversas construtoras
se voltassem para o mercado da construção habitacional.
Tendo em vista que o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, estabelece
prazos de entregas, um tanto curtos frente a inúmeras habitações a serem
construídas, as construtoras se deram conta de que a alvenaria estrutural na
forma como conhecemos hoje - com tempo de execução lento, atividades em
quase sua totalidade artesanais, que demandam índices elevados de mão de
obra e onde se predomina o desperdício - tem se mostrado como um processo
construtivo defasado, inviável para atender um número muito elevado de
construções de habitações, em um prazo acirrado. Desta forma, a solução
encontrada foi buscar novas tecnologias construtivas que produzissem em
escala, com velocidade e a custos baixos, ou seja, tecnologias que
industrializassem a construção habitacional.
É necessário fazer uma ressalva para salientar que, se industrializar a construção
significa implementar inovações tecnológicas, métodos de trabalho e técnicas de
planejamento e controle, de forma a incrementar a produtividade e o nível de
produção além de aprimorar o desempenho da atividade construtiva, como
colocado por alguns autores, o processo de industrialização da construção no
56
Brasil ocorre então desde que a alvenaria estrutural foi introduzida no país. A
alvenaria estrutural se diferencia do método de construção convencional,
utilizado no Brasil desde a descoberta do país, pelo fato de ser racionalizada e,
racionalização é indispensável na industrialização, podendo dizer até que são
sinônimos.
Então a questão não é exatamente buscar uma tecnologia que industrialize a
construção habitacional, até porque se somente assim o fosse, a alvenaria
estrutural, que já possui característica de ser industrializada, poderia atender
perfeitamente. A questão é buscar uma tecnologia que potencialize a
industrialização da construção habitacional. Em outras palavras, que acelere
essa industrialização. Desde que a alvenaria estrutural surgiu e foi difundida pelo
mundo como sendo um processo racional, a industrialização da construção
ocorre, porém a passos lentos. Somente nos anos 60, com a criação do BNH é
que se notou uma intensificação dessa industrialização, mas duas décadas
depois ela se desacelerou. Com isso o setor da construção civil, pelo menos no
Brasil, tem sido conhecido como o setor que menos se industrializou. Nessa era
de superaquecimento do mercado da construção, principalmente frente á essa
demanda habitacional, tem-se sentido a falta dessa industrialização intensificada.
Felizmente, com o avanço da tecnologia, as construtoras têm encontrado no
mercado diversos sistemas construtivos capazes de fazer com que a construção
civil no Brasil consiga sair desse patamar de menos industrializada e ao mesmo
tempo atenda a demanda habitacional.
Um desses sistemas é o sistema construtivo Paredes de Concreto Fabricadas in
Loco, popularmente conhecido como Paredes de Concreto. Trata-se de um
sistema muito viável para fabricação em alta escala, capaz de construir mais de
uma unidade habitacional por dia, utilizando de pouca mão de obra, não
necessariamente especializada, e com bom custo benefício. Vale ressaltar que o
sistema Paredes de Concreto não é uma tecnologia recente, contudo é uma
57
tecnologia que ultimamente tem recebido intenso investimento por parte de
empresas do setor da construção civil justamente por atender as premissas
necessárias ao atendimento da demanda habitacional atual.
O sistema construtivo Paredes de Concreto tem um custo mais elevado que a
alvenaria estrutural, podendo chegar a 10%. Mas de uma forma geral a produção
em escala, ao final do processo, permite que o sistema Paredes de Concreto
tenha um custo benefício maior. Como no sistema Paredes de Concreto se
constrói em média o dobro de casas que na alvenaria estrutural, mesmo que o
custo de produção desse sistema seja 10% maior, o lucro que a empresa terá por
vender um número maior de unidades habitacionais, será praticamente o dobro
do lucro que teria se tivesse utilizado o processo de alvenaria estrutural.
O sistema construtivo Paredes de Concreto tem se difundido de forma tão eficaz
e relativamente rápida que estudos se voltaram para esse processo tecnológico
com o intuito de estudar melhor a tecnologia e, o resultado colhido foi a criação
da NBR 16.055:2012 – Parede de Concreto Moldada no Local Para a Construção
de Edificações – Requisitos e Procedimentos, que normatizou o sistema trazendo
mais segurança e qualidade. Tal fato representa uma consequência característica
de processos industrializados. A industrialização trás consigo oportunidade de
desenvolvimento para os nichos de mercado que estão ao redor do setor onde
ela está acontecendo. Podemos comparar como um efeito dominó.
A utilização intensificada do sistema Paredes de Concreto acaba mudando a
projeção de outros setores da construção, por exemplo o setor cimentício, que
provavelmente necessitará produzir muito mais cimento para suprir a demanda
de concreto em função do uso do sistema construtivo. Vejamos ainda os
fabricantes de fôrmas para as Paredes de Concreto. Com a intensificação desse
sistema construtivo, surge uma demanda maior por fôrmas, o que faz com que
esse mercado invista em novas tecnologias, possibilitando fôrmas mais eficazes,
de diferentes tipos de materiais, que atenda a vários tipos de projetos, etc. Toda
58
a cadeia produtiva que envolve os processos de construção de um determinado
sistema, como por exemplo o sistema Paredes de Concreto, tende a ser
transformada a partir do momento que esse sistema for se desenvolvendo.
Desta forma, o sistema Paredes de Concreto está se tornando uma grande
oportunidade de evolução do mercado da construção civil brasileira,
especialmente da construção habitacional. Isso implica dizer que ele tem sido um
potencializador, um acelerador do processo de industrialização da construção
habitacional. É notável que esse sistema construtivo tem contribuído fortemente
para isso.
O que não se deve fazer é deixar que esse momento de desenvolvimento da
industrialização da construção, principalmente da construção habitacional,
definhe como ocorreu no período de extinção do BNH. Por isso é imprescindível
que diferentes competências como governo, empresas, universidades, institutos
de pesquisa e entidades do setor, se reúnam visando à promoção de ações
inovadoras na construção civil brasileira. Outra medida a ser tomada para fazer
com que a construção industrializada tenha um desenvolvimento consistente e
duradouro e não entre em estagnação, é buscar desfazer ou ao menos reduzir, a
barreira cultural de que, as edificações que não sejam de alvenaria estrutural, ou
seja, que não utilizem de blocos, e ainda são feitas em escala, são habitações de
arquitetura repetitiva, desagradáveis esteticamente e frágeis.
Para que essa mudança cultural ocorra, um possível caminho é mostrar que o
sistema construtivo Paredes de Concreto não possui somente vantagens de
velocidade de execução e melhor custo benefício, mas que também possui outras
vantagens, como por exemplo conforto, qualidade, praticidade, diversificação e
resistência. Essas vantagens só poderão ser mostradas se elas existirem de fato
e, para verificar se elas existem, é necessário intensificar os estudos a respeito
do sistema construtivo em questão. Ao decorrer deste trabalho foram
apresentadas diversas vantagens, características positivas e viabilidades a
59
respeito do sistema Paredes de Concreto. Entretanto, em sua maioria são
características de desempenho econômico-financeiro, de prazos, de
racionalização do sistema, que muito interessa às empresas construtoras. Deve
haver uma preocupação também em mostrar e discorrer sobre os requisitos de
desempenho e as necessidades de interesse do usuário do sistema construtivo,
aquele que vai morar na habitação, mas pouco se encontra na literatura a
respeito. Há muitos estudos e um marketing muito grande em cima do sistema
construtivo Paredes de Concreto salientando, e com toda a razão, as viabilidades
e vantagens de se utilizar desse sistema. Todavia essa visão precisa mudar a
ponto de se estudar e ressaltar também um outro lado do sistema Paredes de
Concreto.
Os requisitos carentes de estudos seriam os requisitos já especificados na NBR
15.575:2013 Edificações Habitacionais – Desempenho, como conforto térmico e
acústico, resistência a estanqueidade, segurança estrutural, e outros mais, porém
específicos para o ambiente construído de Paredes de Concreto. As
necessidades seriam por exemplo, boa estética, diversificação, facilidade de
reparos, durabilidade, qualidade, etc. Não foi encontrada na literatura uma
abordagem sistemática e aprofundada desses assuntos, específicas do sistema
Paredes de Concreto. Se o sistema construtivo Paredes de Concreto resolver
apenas o problema da demanda habitacional e atender somente aos requisitos
econômico-financeiros das construtoras, em termos de viabilidade do negócio, e
não atender ao público alvo, de nada esse sistema estará contribuindo para
potencializar a industrialização da construção habitacional, pois poderá ser
rejeitado pelo mercado consumidor.
60
4. CONCLUSÃO
Salientou-se neste trabalho a necessidade de se buscar uma tecnologia que
potencialize a industrialização da construção habitacional no Brasil e, ressaltou-
se que o sistema construtivo Paredes de Concreto Fabricadas in Loco tem se
apresentado como uma tecnologia capaz de atender a tal requisito.
Capaz de construir mais de uma unidade habitacional por dia, utilizando de
pouca mão de obra, não necessariamente especializada e, com bom custo
benefício, o sistema construtivo Paredes de Concreto Fabricadas in Loco é um
sistema construtivo muito viável para fabricação em alta escala.
O sistema construtivo Paredes de Concreto Fabricadas in Loco é um sistema
mais caro, mas que possui maior velocidade e produtividade, apresentando um
ganho na produção em escala. Desta forma, a economia dos custos no sistema
Paredes de Concreto, ao final do processo, é de cerca de 10% em relação ao
sistema de alvenaria estrutural.
Observou-se que toda cadeia produtiva que envolve os processos de construção
de um determinado sistema, como por exemplo o sistema Paredes de Concreto,
tende a ser transformada a partir do momento que esse sistema for se
desenvolvendo.
Por fim, este estudo abordou sobre a importância de averiguar e difundir o estudo
sobre as necessidades e os requisitos de desempenho de interesse do usuário
do sistema construtivo Paredes de Concreto.
61
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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62
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