PROBLEMA DA INTERPRETAÇÃO DOS ELEMENTOS ANAFÓRiCOS Lúcia Fulgéincio r-ACULDADE DE LETRAS - UFMG 1983 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE LETRAS Dissertação apresentada ao Curso de Pós-Graduação da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Ge- rais, como parte dos requisitos oa- ra a obtenção do Grau de Mestre em Lingüística. Belo Horizonte, maio de 1983. Agradeço especialmente ao Prof. Dr. Mário h. Perini pelo privilégio que tive, du- rante o curso de Mestrado e durante a elaboração desta dis sertação, em poder usufruir de seu conhecimento sólido, de seu raciocínio lúcido e claro, e de uma inigualável capacj^ dade e interesse em ensinar, além de um incentivo constan- te . Agradeço igualmente a meus pais, que souberam incutir em mim o amor pelo estu- do, e que se esforçaram sempre em me proporcionar todas as oportunidades que pudessem contribuir para o meu desenvol- vimento; a Vanda de Oliveira Bittencourt, colega e amiga, que me es timulou a ingressar no curso de Mestrado em Lingüística; à Prof^ iria Maria Renault de Castro Silva, colega muito admirada, pelos ensinamentos ministrados e por ter me aju- dado a concretizar o ideal de pertencer ao corpo docente dcísta Faculdade; a Fernando e Juliana, meus filhos, pelas alegrias que me trazem; a Paulo Roberto, meu marido, que me da forças para conti - nuar; a todos aqueles que, de alguma forma, contribuíram para a realização deste trabalho. RESUMO Neste trabalho é examinada a definição de aná fora com base na característica de "presença do antecedente na 'consciousness'"; são observados exemplos onde não ê pos- sível explicar a interpretação da anáfora com base neste princípio, uma vez que nem sempre os elementos anafóricos possuem o status 'dado' (de acordo com a definição deste ter mo apresentada em Liberate, 1980). É observado também, em al guns casos, o relacionamento das anãforas com conceitos que fazem parte de um esquema evocado, e que são trazidos a um nível mais superficial da memória juntamente com o referen- te do item léxico explícito no texto. São examinados os ti - pos dtí relação anafórico-antecedente, estabeiecendo-se três bases para a interpretação do significado da anáfora: recupe ração literal, reestruturação e inferência pragmática. iii S U M Â R í O INTRODUÇÃO 01 1. Distinção entre antecedente e referente de uma anáfora 04 2. Esquemas 07 CAPÍTULO í comentários a respeito da definição de anAfora 1. Conceituação o tipos de anáforas 13 1.1. Matriz semântica 20 1.2. Anáforas tipo "troço" 23 1.3. Catáforas e exóforas 20 1.4. Conclusão 30 2. li* observação: referentes não presentes na "consciousness" 31 3. 2? observação: o relacionamento de anáforas a itens pertencentes a um esquema 38 3.1. Utilização do esquema na resolução de antecedente não explícito no discurso 33 3.2. Utilização do esquema na resolução de antecedente presente no texto porém ambíguo 3.3. A importância da predicação 47 r 3.4. Extensão da atuação dos esciuemas 53 3.5. Outro caso Jt; atuação do esquema genérico .... 61 3.6. Referêncj.i aiufòri.d a partes do SN 64 IV 4. Conclusão 70 CAPÍTULO II TIPOS DE BASE PARA A RECUPERAÇAO DO ANTECEDENTE DA ANAFOIIA. 1. Introdução V3 2. Classificação 75 2.1. Recuperação de base literal • 70 2.2. Reestruturação , 85 2.2.1. Alguns tipos de reestruturação 86 2.3. Inferência pragmática 99 2.3.1. Inferências: conhecimentos mais generalizados ou mais restritos 101 2.3.2. Alguns tipos de inferência 107 3. Interação das bases para a recuperação de um antecedente 1T1 4. Pontos divergentes e compleraentares deste trabalho com relação aos artigos de Nash-Webber (1977, 1978 e 1980) IV? conclusão 122 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ^27 V iWTRO DUÇ AO Quando se faz um estudo das relações anafóri-- cas, geralmente parte-se do princix^io de que a base para a recuperação do antecedente da anáfora encontra-se no próprio texto, ou melhor dizendo, o antecedente é sugerido pelo tex- to. De qualquer forma, supõe-se que o referente de uraa aná - fora esteja sempre expresso lingüisticarnente, sendo inclusi- ve comum que se procure identificar a qual sintagma se liga um determinado elemento arafórico. É a esse tipo de enfoque que chamamos "clássico", isto é, quando o antecedente, da aná fora é sugerido explicitamente dentro do próprio texto. Porém, podemos observar que a expressão lin - güística muitas vezes não é suficiente para que se possa i - dentificar os referentes dos elementos anafóricos de um dis- curso, ou seja, nem sempre um determinado elemento é mencio- nado explicitamente antes de se fazer referência a ele atra- vés de uma anáfora. Dito de outra forma: é comum que um indi víduo se utilize de uma anáfora no decorrer da sua fala,sem que se possa encontrar, examinado o discurso precedente, men ção anterior a um elemento que tenha o mesmo referente desta anáfora, e que possa funcionar como seu antecedente. O aue procuro estudar aqui sáo outros tipos de bases para a recu.pe • -2- ração cios antecedentes das anáforas além do que está explíci. to no texto. O ouvinte não se concentra i.uilcainentc no que já foi realmente dito para poder identificar a que se refere uma expressão anafórica, mas há casos em que ele se utiliza também de outras fontes que não a própria expressão lingüís- tica mencionada anteriormente. Quando o antecedente não é mencionado no dis- curso precedente, isto não significa que se encontre necessa riamente no ambiente físico. Os casos em que não encontramos o referente expresso lingüisticamente não são sempre casos de dêiticos; o ouvinte pode ter ainda outras bases para a in terpretação das anáforas de um discurso. Segundo Nash-Webber, "Há três (...) maneiras pelas quais as entidades do discurso podem ser evocadas; (1) lingüistica- mente, a partir do discurso explícito; (2) perceg tualmente, a partir do ambiente espaço-temporal i mediate; e (3) inferencialmente, raciocinando a partir da existência de outras entidades particu- lares do discurso." (1978, pág. 7) Procurarei demonstrar aqui alguns dos recur- sos que un\ indivíduo pode utilizar para recuperar o antece- dente de um elemento anafórico. Veremos que quando o falante se utiliza de uma anáfora no seu discurso, por exemplo, um pronome, ele acredita que o ouvinte seja capaz de compreen- der a quê ou a quem ele se refere através de correspondên - cias e ligações feitas neste mesmo discurso, no contexto ex- tra-lingüístico, ou através de inferências propiciadas pelos esquemas que são evocados e que eincrgom na converíUiçíio. Este estudo nos levará, paralcianiente, ti ou - tro ponto que Ge mostra fundaraental na conceituação das aná- foras: o exame das relações das anãforas com as noções de "consciousness", e de dado e novo. Não é meu objetivo, neste trabalho, estudar e apresentar comentários a respeito das condições sintáticas que. estão envolvidas no processo do uso e da resolução das anãforas, sobre as quais já existe uma vasta literatura. Pre tendo, antes, procurar ordenar um dos aspectos da interpreta ção das anáforas, concentrando-me sobretudo na antífora ex — tra-sentencial. O ponto a ser focalizado diz respeito ã rela ção existente entre a anáfora e seu antecedente, principal - mente no que tange ã própria natureza das anáforas, compara- das com os status dado/novo (capítulo I), e também com rela- ção aos tipos de base para a recuperação dos antecedentes das anatoras (capítulo II). A origem dos dados que servem de suporte ao onfoque teórico é bastante assistemática: foram utilizados exemplos obtidos através de gravações da fala espontânea, ou tros foram emprestados de autores que também se preocuparam com o estudo do fenômeno das anáforas, outros foram hipoteti üados, e ainda outros foram obtidos "por acaso", isto é, fo- ram colhidos quando eventualmente eu ouvia algum enunciado que contivesse um emprego interessante de um elemento anafó- rico. Antes de passarmos ao estudo das relações ana • -4- fóricas propriamente dito, vamos tratar primeiramente de duas noções subjacentes a toda a discussão posterior, que são (1) as características que definem o antecedente em con- traposição ao referente da anáfora, e (2) a noção de 'esque- ma ' . 1. Distinção entre antecedente e referente de uma anáfora O relacionamento com o contexto lingüístico e com o ambiente físico são meios dos quais o ouvinte pode se utilizar para captar o significado que o falante tencionou transmitir ao expressar-se através de uma anáfora. Esses pro cessos visam recuperar o referente desta ariáfora, que pode ser caracterizado como sendo a entidade do discurso do falan te que ele pretende que seja captada pelo ouvinte. Nash- Webber define assim a noção de referente pronominal^ ; "Um pronome definido tem então um referente, que é uma entidade do modelo de discurso ("discourse model") do falante, o qual ele presume que tenha um correspondente no modelo de discurso do ouvin- te." (1978, pág. 5) 1 - Não pretendo discutir "aqui o espinhoso- problema■da defi- nição de referente. Para todos os efeitos, adotarei a mesma conceituação expressa por Mash-Webber (1978) e aqui reproduzida. „5- Paralelcimente ao uso de anáforas, o falante utiliza-sc também de descr i çõcs para se referir ci uma entida de. São essas descrições que muitas vezes propiciam o que Charles Chastain (1975) (apud Donnellan, 1978) chama de "ca- deia anafórica", e que consiste numa seqüência de termos con figurados de tal forma que todos se referem a uma mesma ent_i dade sugerida de maneira descritiva. È essa descrição, a qual permite ao ouvinte recuperar o referente de uma anáfora, que é chamada de antecedente desta anáfora; ou, em outras pala - vras: o antecedente é o membro de uma cadeia anafórica que determina o referente de todos os outros membros. Portanto, o referente da anáfora é uma entidade da paisagem mental que é construída no decorrer do discurso; o seu antecedente, por outro lado, é a descrição, transmitida no discurso, que ca - racteriza esse referente. O texto lingüístico, ao elaborar descrições que configuram ou evocam uma determinada entida ■- de, constitui uma das possíveis fontes de antecedentes anafô ricos e, conseqüentemente, de seus referentes. O que é de fundamental importância neste as - pecto é que o antecedente da anáfora não é um elemento do texto, isto é, a anáfora não recupera uma expressão lingüís- tica, mas a idéia cu a noção expressas pela descrição. Como diz Nash-Víebber, as expressões anafóricas não se referem a elementos dentro do texto; o texto, assim como o contexto não-lingüístico, servem so.'i.ente para sugerir os referentes da anáfora. Conseqüentemente, a relação entre a anáfora e seu antecedente é somente indireta. -6- "Pxrovavelmonte o que há de mais importante para sc entender sobre os antecedentes e o fato de eles não são elementos no texto, nias são aqueles sugeridos por ele, sendo que estes conceitos Scio evocados ou construídos na mente do leitor. Isto é, o antecedente de em Ia. Mary gave Sue a T-shirt. b. Sue thanked her for it. não é a seqüência a T-shirt, mas o conceito que o leitor deve ter da camisa que Mary deu a Sue. (1977, pág. 6) Além disso, como assinala Donnellan (1978) , o referente da anáfora compromete-se muito mais com aquilo que o falante tem em mente (ou seja, com a referência do falan - te), do que com aquilo que a expressão lingüística denota (ou seja, a referência semântica). Por exemplo: (1) A -• Aquele velho chato lá do escritório foi, promovido. B - É aquele que tem um bigode horrível? A - É dele mesmo que eu estou falando. Temos al uma descrição definida (aquele velho chato lá do escritório) ã qual se liga uma série de anáforas. Observe-se que elas se relacionam, na verdaüe, ao referente do falante, isto é, ao indivíduo evocado por A . (que pode até nem ser velho e chato), e não a quem quer que possa ser deno tado por essa expressão, ou seja, o referente semântico. Convém assinalar ainda que, muito embora exis ta uma distinção nítida entre o antecedente e o referente da anáfora, muitas vezes esses termos são usados indistintamen- te um pelo outro. 2. Esquemas Um aspecto importante da psicologic'i cognitiva sendo bastante oesenvolvicio nos últimos anos e a cli^ mada "Teoria dos Esquemas". Estudos recentes nessa área fo - ram elaborados por Schank (1978), com o nome de "scripts"; Minsky (1975),com o nome de "frames"; Rumelhart e Ortony (1976),com o nome de "schemata". Vou utilizar a nomenclatura destes últimos autores, traduzindo "schemata" como "esque - mas". Embora haja diferenças entre as coi.ocações de cada um desses autores, há por outro lado uma convergência com rela- ção ao ponto fundamental que orienta esses estudos: trata-se da crença de que a memória tem de ser organizada de forma e. permitir ao indivíduo ter acesso a informações relevantes que se ligam a um estímulo, mas que não estão, elas próprias, explícitas na situação apresentada. Estas informações "adi -- cionais" estão guardadas na nossa memória, interagindo com outras informações, de forma a compor um quadro que define um certo tipo de conhecimento. Quando esse conhecimento é fo calii'^ado na memória, ativam-se simultaneamente essas infor - mações subjacentes ligadas ao conhecimento focalizado. Não é nossa intenção fazer ura exame crítico de cada uma das propostas apresentadas pelos autores que es- tudaram o que aqui chamaremos de "esquemas". Faremos uma bre ve exposição,, ein linhas gerais, dcia postiü.açoes fundi;rr.antais elaboradas por Perini et al. (1982) , que pcxrtirain da posi - ção do Rvimel.hart e Ortony (1576), laas têm procurado elaborar e refinar certos aspeci:os da mesma. Os esquemas são estruturas que representam a uKjanização do conhecimento, armazenado na memória, e se mos tram necessários ao sistema de processamento da informação< ou'seja, desempenham ura papel importante na compreensão. São compostos de informações que estão ligadas umas ãs outras, num processo interativo, compondo uma espécie de circuito mental. Como explica Perini, "Podemos admitir que o sistema de conhecimientos que compõe a nossa memória semântica (a nossa "teoria do mundo") é formado de um grande número de nõdulos, cada nódulo sendo um feixe de traços semânticos e estando relacionado com outros nodu- loG de múltiplas maneiras, de medo a formar uma espécie de "tecido cognitivo"." (texto inédito) Isto quer dizer que o conceito que cada ura tem de "cachorro", por exemplo, além de possuir traços como [(■ animado], [+ quadrúpede], etc, relaciona-se também a ou- tras informações como, por exemplo, raça, cor, fina3 idado (proteção, companhia, orientação de cegos, etc). 7\s expressões lingüísticas, assim como qual — quer tipo de estímulo sensorial, podem ativar uma parte do chamado "tecido cognitivo" - que inclui um nódulo central + os outros Àiódulos que se conectami a ele. É a esta área ativa da na memória por um determinado estímvilo que £;e dá o nome de "esquema". Como explicam Perlni et al., os esquemas sao "fatias do mundo dos conceitos que podem ser ativa das por itens lexicais particulares." (1982, pág- 181) Os esquemas representam o nosso conhecimento a nível de qualquer tipo de conceito, ou seja, os esquemas traduzem o nosso conhecimento a respeito de um objeto, como também de ações ou situações, por exemplo. O fato de os esquemas incluirem o relaciona - mento de diversas informações armazenadas na memória faz com que eles sejam um ingrediente essencial no estabelecimento de inferências. São estas inferências que, muitas vezes, pro movem a coesão textual., possibilitando ri compreensão. Sabe - mos que a integração de sentenças não depende somente ün com preensão daquilo que está expresso explicitamente; depende também de certos conh.ecimentos implícitos, que estabelecem os elos para a ligação lógica das sentenças (ou partes das sentenças). Nas sentenças não estão expressas todas as infor maçces de que o leitor precisa para integrar o texto; muitas dessas informações estão subjacentes e vêm ã tona por inter- médio dos esquemas ativados na mente do leitor ou ouvinte, ficando a seu encargo a tarefa de completar os dados implíci tos. £ iiripoi tan te observar que os constituintes in cluídos num determinado esquema não possuem, todos eles, o mesmo tipo de relacionamento ao nódulo central (isto ó, à área inciis altamente ativada que qualifica o esquema, identi- ficada com o "nome" deste esquema). Podemos estabelecer pelo menos três tipos de constituintes de natureza dJ.ferente que se mostram necessários para a caracterização de \im esquema e, portanto, para a explicação da organização do conhecimento na memória; 1) TRAÇOS : elementos definicionais inerentes ao nódulo central; estão obrigatoriamente preenchidos. Por exemplo; o esquema de 'cachorro' inclui traços como (t animal], [+ quadrúpede], [+ ma- mífero] , etc, 2) VARIÁVEIS: elementos que também caracterizam o esquema, de presença obrigatória, mas que podem não es- tar preenchidos; mesmo quando não estão preen- chidos, entretanto, pressupõe-se a sua presen- ça e potencial preenchimento. Por exemplo: o esquema de 'cachorro' inclui variáveis rotula- das 'raça', 'tamanho' ou 'cor'. Caso essas va- riáveis não sejam preenchidas em determinada i realização do esquema, isto é, se não se espe- cificou a que raça pertence o cachorro, ou qual o seu tamanho e cor, isso não significa que o animal não tenha raça, tamanho e cor. Esses são atributos necessários de qualquer ca chorro, e ignorar isso eqüivale a ignorar o que é um cachorro (não possuir o esquema de ' cachorro'). 3) EXPECTATIVAS; elementos esperados mcis de presença não ne- cessária, Isto ê, cuja ausência em uma rea- lização particular do esquema não destrõi caracterização deste esquema. Por exemplo: pode-se esperar que um cachorro sirva para guardar uma casa, para caçar, que tenha pul gas, etc. Incluirei aqui mais um termo com relação aos componentes do esquema, que vai se mostrar útil no tratamen- to das anáforas: trata-se da noção de "núcleo". 4) nOCLEO : é a parte do esquema correspondente aos tra ços, que servem para definir o nódulo cen - trai. Diremos então que um esquema particu- lar possui o m.esmo núcleo do esquema qenéri CO que lhe corresponde, na medida em que os traços que definem, por exemplo, 'cachorro' (genérico) são idênticos àqueles que defi - nem 'Totó' (um cachorro particular). Os de- mais traços definidores de 'Totó' que não se encontram no núcleo de 'cachorro' (como delimitação de raça, cor, filiação, etc) sao entendidos como va.riaveis do esquema ge nérico que se fixam numa determinada reali- zação particular. Apesar de serem constan ~ tes, estes elementos conti.nuam possuindo a mesma característica das variáveis, ou seja, o não preenchimento (como por exemplo o des conhecimento da filiação de Totó) não dei; - trói a caracterização do nódulo central. Quero dizer que a ignorância do valor de u- iTia variável fixada não implica na ausência do esquema na memória (ou na presença de um esquema seriamente inadequado) - em con- traste com o caso dos traços, visto anteri- ormente, em que a ignorância do valor de um traço eqüivale ã ignorância do próprio es - quema. Por exemplo, se o meu cachorro se chama Totó, é perfeitamente concebível que alguém o conheça bastante bem sem saber seu nome. Mas não se aceitaria a afirmação de que alguém que não sabe que cachorros são animais, ou quadrúpedes, etc, conheça ca - chorros. A descrição que acabo de dar certamente não se aplica a todo e qualquer tipo de esquema encontrado na li teratura - mormente se denominarmos "esquemas", como muitos autores, também conjuntos de regras como as que nos permitem realizar tarefas como distinguir o tipo de texto que temos ã frente (fábula, anedota, dissertação, etc) ou então reconhe- cer no texto um caso de resolução de um problema. Restringi minha descrição, grosso modo, aos esquemas que correspondem a elementos lingüísticos de caráter nominal, pois a investi- gação realizada nesta dissertação se concentra principalmen- te em casos de anáforas de elementos nominais. J /•w COMENTÁRIOS A RESPEITO DA DEFUsIlÇAO DE ANÁFORÂ 1• Conceituarão e tipos de anáforas A anáfora pode ser definida, inicialmente, co mo um elemento que retoma um referente que já estava presente na mente do ouvinte no momento da comunicação. Seguindo a no- menclatura de Chafe (1974), isto quer dizer que o referente da anáfora deve estar presente na "consciousness" dos parti- cipantes do discurso. A "consciousness", por sua vez, é a par te da memória-de-longo-termo (MLT) dos indivíduos que é foca- lizada ou colocada em evidência num determ.inado ponto da con- versação, isto é, aquilo sobre o qual "se está pensando"'^. En tretanto, isto não implica obrigatoriamente na consciência da presença dessas informações na mente dos participantes do dis curso, nem na consciência por parte do falante de que ele es- 2 - Liberate (1980) retoma assim a posição de Chafe: "Para usar outra expressão de Chafe, 'ter na "consc iout^ness" ' significa "estar pensando em"." (Liberate, 1980, pág. ].G) tá oressupondo a presença dessas informações na mento do ou- vinte^. O conhecimento de que determinados itens cstao na ã- rea-foco da MLT não é explícito - o que J-eVou Liberato (1980) a conservar o termo inglês "consciousness", em vez de tradu- zi-lo por "consciência", que dá a idéia de conhecimento ox - plícito. De qualquer forma, o fato de que determinado item se encontra na "consciousness" acarreta cert.as repercussões de ordem lingüística, que justificam falar-se do fenômeno da anáfora. Se dissermos, seguindo Chafe, que um item presente na"consciousness" é dado (em oposição a um item não presente na "consciousness", que é novo), poderemos afirmar que itens dados são expressos lingüisticamente através de formas carac terÍEticas, a que chamaremos "elementos anafõricos", ou mais abreviadamente "anáforas". Toda anáfora deve ser, portanto, I necessariamente um elemento dado. Vejamos um exemplo: (2) Eu aprendia flauta cora um professor que eu tinha, o Ri- - '4 cardo. Ele e maestro também, - anáfora : ele (dado) Aliás, uma das conseqüências da dadidade é justamente a possibilidade de redução, que pode se realizar com uma pronúncia baixa e rápida, cora SNs definidos e com e- 5 lamentos anaforicos , como pode ser verificado nas sentenças 3 - A este respeito veja-se Liberato (1980) págs. 14 - 19. 4 - Estou adotando a convenção de sublinhar a anáfora que se rá analisada em cada exemplo. 5 - A este respeito, veja-se Liberato (1S80), págs. 22 ~ 26. que so seguem: (3) Vou visitar o Jcãc. O João tá doente, (o SN o Joíio da 2v sentença é pronunciado de uma maneira baixa e rápida») (4) Paulo leu um livro muito bom. (4a) Eu acho que o livro é de ficção científica. (4b) Eu acho que ele é de ficção científj.ca. (4c) Eu acho que é de ficção científica. O SN indefinido um livro da primeira sentença, que era novo, se realiza era (4a) como definido - o 1ivro - por se tratar de ura item dado. Em (4b) e (4c) este mesmo ele raento dado é reduzido através do pronome ele em (4b) e da e- lipse em (4c). Parece também que a recíproca é verdadeira, ou seja, todo elemento dado é também uma anáfora, na medida em que a compreensão do item dado depende também da presença de conceitos introduzidos anteriormente na mente do indiví - duo. Por esta razão vou adotar a convenção de chamar 'anáfo- ra' a qualquer item dado, muito embora o uso mais comum res- trinja a denominação 'enãfora' a elementos semanticamente po livalentes, de matriz semântica nula ou reduzida, como ele, isto, aí, etc. O caso típico de anãfora é o dos pronomes e das elipses, como nos exemplos seguintes: a) exemplo de pi-onome: (5) João está doente. Ele vai ter de tomar uma porção de injeções. - anãfora; ele (pronome - dado) - matriz semântica: [+ masculino] , ín- singular] - antecedente: João b) exemplo de elipse: (6) Eu usei lente. Tenho lente lá em casa. Pergunta se eu n ^ consigo usar £ . - anáfora: 0 (elipse - dado) - matriz semântica : nula - antecedente : lente Como já mostraram diversos autores, c po demos ver por exemplo nos casos (5) e (6), o estudo das aná- foras não é um problema exclusivamente sintático, niíis depen- de tam.bém do discurso, já que muitas vezes a anáfora e seu antecedente não se encontram dentro do mesmo período, ^3ostes casos a correta interpretação da anáfora exx^lica-SG da forma seguinte. Para que uma conversação seja conduzida com suces- so, é necessário que se respeitem certas convenções, descri- tas por Grice (1967) (apud Clark e Haviland, 1977) com o no- me de "Cooperative Principle". Estas condições - que os fa - lantes respeitam intuitivamente - associadas à nossa imposi- ção de organização do mundo, nos levara a admitir que duas frases juntas devem formar um texto, e este texto deve con ~ ter alguma lógica. Como assinalam Halliday e Hasan, 6-0 símbolo 0 é colocado para marcar o lugar onde ocorre a elipse. " insistiiaos em interpretar corno texto qualquer pa^ Scigem se hã a mais remota possibilidade de fazõ- Io." (1976, pág. 23) Logo, quando o ouvinte recelJo seqüências como as dos exemplos (5) e (6), ele conclui que a segunda frase de cada exemplo muito provavelmente não é solta, isolada da pre- cedente, mas deve ligar-se de alguma forma à informação trans mitida na sentença anterior. No caso (5), por exemple; é o Princípio Cooperativo que nos diz que e_lo^ da segunda frase õ o João da primeira. Há ainda outros casos de anáforas citados na literatura, como o de vorbos-PRO: (7) Carlos pediu demissão, coisa que eu nunca faria. Pelo que foi possível observar, parece que os verbos-PRO não aparecem sozinhos, mas vêm acompanhados de ou tras anáforas como coisa em (7) e isso em (/'). (7') Carlos pediu demissão. Eu nunca teria coragem de fazer isso. O mesmo acontece inclusive com verbos sem obje to, como no exemplo (8): (8) Carlos adormeceu, mas só o fe^z depois de tirar o meu so- no. Em inglês parece que o comportamento dos ver- bos-PRO é diferente, já gue podem aparecer sozinhos; -18- (9) Chíirlie slept in\mediately; I only dlcl after many hours. Entretanto, em exemplos onde são empregados verbos como Nash-Víebber (1977) marca não o verbo como a- nafórico, mas uma elipse colocada depois dele. Suponho que essa autora, apesar de citar os verbos-PRO como anafóricos, prefira colocá-los, nos seus exemplos, dentro da categoria dos auxiliares. Estes verbos teriam então somente a função de marcar o lugar da anáfora verbal que vem imediatamente depois deles (isto é, não os inclui), indicada formalmente pelo símbolo '0'. Uma análise semelhante seria impossível para o português, uma vez que não há nenhuma razão para se inclu- ir o verbo fazer, por exemplo, entre os auxiliares. Logo, so mos levados a analisar certos usos do verbo fazer (como em (7), (7') e (8)) como verdadeiramente anafóricos, embora se- ja necessário fazer a ressalva de que eles não são "puros", isto é, vêm unidos estruturalmente a outras anãforas. são também um tipo de anáfora os SNs defini - dos no contexto como no exem.plo que se segue: (10) Roberto alugou um apartamento muito bom. Só a cozinha é que é pequena. Em (10) o SN a cozinha é definido pelo contex to como sendo "a cozinha do apartamento que Roberto alugou". Segundo Nash-Webber (1977), o SN a cozinha em (10) é uma anã fora, uma vez que este sintagma não pode ser entendido isola damente, ou seja, ele só pode ser compreendido de forma ade- -19- quada em relação ao contexto no qua3. se insere. Isto quer dJ. zer que, no exemplo em questão, o SN a cozinha só poderá ser interpretado integralmente se estiver ligado ao item ap^irta- mento que aparece na primeira sentença. Caso contrário, não seria possível saber de qual cozinha se está filiando. Convém lembrar, inclusive, que o status defi- nido com que é expresso este sintagma evidencia a capacidade 7 do -ouvinte identificar o seu referente . Ora, no exemplo (10) o ouvinte só poderá identificar a qual cozinha o falante es- tá se referindo se ele puder relacioná-la com o apartamento que Roberto alugou, mencionado na primeira sentença. Halliday e Hasan (1976) tratam também de um outro tipo de anáfora, que seriam as chamadas "anáforas lexi cais", como no exemplo (11). , (11) Henry parece convencido de que se pode ganhar dinheiro produzindo laticínios. Não sei de onde ele tirou essa idéia. (1976, pág. 275) Segundo estes autores, o nome idéia possui u- ma referência generalizada, e exerce uma importante função coesiva. Conforme explicara, um nome genérico em função coesiva é quase sempre acompanhado pelo item referencial o ("the"). Este o é anafórico, e o resultado é que a estrutura in teira o + nome genérico' funciona como um item de referência anafórica. (pág. 275) 7 - Veja-se Chafe (1976), pág. 39. Segundo Halliday e Hasan, nomes genéricos [+ humanos] são usados freqüentemente com referência anafór_i ca a nomes próprios (cf. pág. 277): (12) Roberto parece muito chateado com alguma coisa. Eu acho que você deveria bater um papo com o menino. O item menino refere-se anaforicamente a Ro -• berto. O que evidencia a identidade de referencia e a condi.- ção anafórica de menino é o artigo definido o ("the"), que este autor chama de "anaphoric reference item". Estes itens anafóricos lexicais se relacionam com os seus antecedentes na medida em que suas matrizes semânticas são parte da dos antecedentes^. 1.1. Matriz semântica Convém observar que os SNs definidos no con - texto e as anáforas lexicais já não são tão desprovidos de significado quanto os pronomes e elipses, isto é, a matriz semântica nestes casos é mais complexa, preenchida com um maior número de informações. Poderíamos traçar um còntínuo com relação ao conteúdo de informação veiculado por cada ti- po Qe expressão anafórica, que seria o seguinte: 8 - Quero dizer que, por exemplo em (12), o item Roberto in clui menino, senão no léxico, pelo menos no esauema de quem conhece Roberto. -2] - matriz semântica mais especificada ■y 1) elipse 2) pronomes, verbos-PRO 3) SNs definidos no contexto, anáforas lexicais Geralmente esse fenômeno da especificação da matriz semântica dos elementos anafóricos não é levado em consideração. Mas a matriz semântica é um traço importante na caracterização dos tipos de anáforas, porque é através de Ia que é possível explicar o motivo da impossibilidade de se utilizar indiferentemente qualquer tipo de anãfora num deter minado contexto. Comparem-se as sentenças abaixo; (13) Pedro comprou um livro de mistério. Mas quando chegou em casa viu que a última folha estava faltando, t a última folha (SN definido no contexto) = 'a última folha do livro de mistério que Pedro comprou'] (13') ?Pedro comprou um livro de mistério. Mas quando chegou em casa viu que ela estava faltando. (13'') ?Pedro comprou um livro de mistério. Mas quando che - gou em casa viu que 0 estava faltando. Em (13') e (13'') é praticamente impossível dar-se à anãfora o mesmo significado que em (13). Isto por que a matriz semântica das anáforas nos dois últimos casos (ela e 0) é menos especificada do que em (13), não dando con dições ao ouvinte de conseguir depreender, a partir dos tra- ços semânticos expressos, o referente correto da anãfora. Isto não é evidenciado somente em casos de permuta de pronomes e elipses com ÍSKs definidos no contexto (que estão incluídos, na escala apresentada, no grupo que a- presenta a matriz, semântica nais especitic«da) . A imuossibi- lidade de se usar indiscriminadamente qua].quer tipo de anafo ra pode ser demonstrada também quando se troca um pronome por uma elipse como nos exemplos (14) e (14') abaixo. Mais uma vez a explicação desse fenômeno se baseia na maior ou no nor carga de informação contida na matriz semântica de cada elemento anafórico. (14) Vou na casa do Raul e da Ana porque ela está comemoran- do o seu aniversário hoje. (14') ?Vou na casa do Raul e da Ana porque 0 está comemoran- do o seu aniversário hoje. Na sentença (14') não é possível identificar o antecedente da anáfora porque a elipse não carrega a infor mação f+ feminino] (como acontece com o pronome ela da sen tença (14)), que é o que permitiria ao ouvinte decidir se a anáfora se refere a Raul ou a Ana. Deve-se observar também que, mesmo dentro ds cada tipo, como o dos pronomes, existem aqueles com uma ma triz semântica mais especificada, e outros em que ela contém um menor número de traços. Tsto acontece, por exemplo, com o pronome lhe, que não está caracterizado quanto ao gênero, em ccntx'aposição a gIg , sla. Comparem—se as sentenças (15) e (15 •) ; (15) Antônio vai casar com Jcaqviina dia 20. Vou mandar uin presente pra ela. (15') Antônio vai casar com Joaquina dia 20. Vou mandar-lhe ura presente. O exemplo (15) não é ambíguo, porque o prono- me ela possui o traço [ + feminino], o que não acontece com o pronome lhe (exemplo (15')). Quanto maior o número d.e trci- ços contidos na matriz semântica, maior será a precisão do relacionamento da anáfora ao seu antecedente. Segundo Perini (1981), em casos como (15') o relacionamento da, anáfora se dá preferencialmente coro o tó- pico do discurso e, assim sendo, o ouvinte teria a tendência de interpretar o pronome lhe em (15') como Antônio, c não co mo Joaquina, como ocorre no exemplo (15). 1.2, Ànâforas tioo ''troço" É importante acrescentar ã noção tradicional " 9 ' de anafora que, como todo item dado , o elemento anafórico pode não retomar exatamente o mesmo antecedente expresso no discurso anterior, como nos exemplos (5) e (6), estendendo- se a outros referentes implícitos no texto ou reformulados com base na informação transmitida. Estes casos, doa quais 9 •- Veja-se Liberate (1980), pãgs. 26 - 27. -24- apresento um exemplo a seguir, serão tratados mais detalhada mente em outra segão. (16) A - E a sua irmã, cê Calou que é médica também? B - É, ela tá no quarto ano 0. [ 0 -'do curso de medicina*] Deve-se notar que a recuperação de elementos anafóricüs não se liga exclusivamente ã retomada de elemen - tos linijíiísticos com a mesma referência. Como foi visto no exemplo (16), e como será enfatizado mais adiante, muitas ve zes não há um referente 1ingüisticamente explícito. Para Nash-Webber (1977), os elementos anafór^ COS compreendem, como vimos, os pronomes, verbos-PRO, as e - lipses e "alguns SI3s definidos no contexto'" (izxc) ; Halliday e Hasan (1976) incluem neste elenco também as c)iaraadas "aná- foras lexicais". Todos estes elementos funcionam como um.a er. tratégia usada pelo falante para maximizar a velocidade de transmissão da informagão, uma vez que uma pequena palavra, como um pronome, pode recuperar uma série enorme de informa- ções. Além disso, as anãforas exercem uma importante função coesiva ao relacionar e interligar eleraentos do discurso, dando textura aos enuncicidos. Ao analisarmos o português oral encontramos expressões que julgo tratarem-se de anãforas, apesar de não estarem incluídas entre ot. elementos citados acima. Este é o caso de palavras como coisa, trem, negócio, troço, que não têm sentido próprio, mas que são, com.o os demaií; tipos de anãforas-, semanticamente polivaientes, com uma riiatria H (Ez) . z = [wIbw & (Ex ; A) . P x,w} isto é, informalmente, se para cada A existe um B tal que P é verdadeiro para o par, então existe um indivíduo que pode ser descrito como "o conjun to de Bs [tais que] para [cada] qual existe um A que mantém uma relação P com ele". Já que uma des crição única é atribuível a esse indivíduo, é pos slvel fazer referência a ele através de um prono- me definido. Por exemplo: (16) a. Cada um dos meninos deu uma blusa para Wendy, b. Nenhuma delas assentou, (•«.) existe um indivíduo que pode ser descrito como o conjunto de blusas, cada uma das quais um menino deu para Wendy". Esta é a entidade do discurso ã qual "delas" se refere no exemplo 16b." (1978, págs. 12 - 13) Exemplos como este deixam bem claro o caráter -88- mais cognitivo do que propriamente lingüístico da anáfora (e da referência em geral). Quando se fala em retomada anafõri- ca, não se pode falar da retomada de elementos lingüísticos - isto é, palavras, morfemas, sintagmas - mas antes do "con- ceito" ou do "referente" que lhe corresponde. O elemento lin güístico é antes uma pista, entre outras, que o ouvinte uti- liza para recuperar um referente. Ura outro exemplo em que observamos a aglutina çâo de elementos isolados é o seguinte; (49) João e José encontraram seus alunos no corredor; aí eles foram tomar um cafezinho na cantina. ^ Uma das interpretações do sujeito elíptico do foram é o conjunto formado por João, José e seus alunos. A explicação desse fato parece dever-se a alg'uma çarçicterísti- cá ligada ao tipo de realidade expressa pela primeira oração, ou seja, às expectativas relacionadas ã situação apresentada, já que em outras sentenças não se pode construir um SN desse tipo, formado pela aglutinação de outros SNs: (49') João e José nao encontraram , deixaram seus alunos no corre- dor; aí eles foram tomar um cafezinho na cantina, [eles = 'João e José*] É interessante observar além disso que, em (49') , onde o antecedente da anáfora não inclui o sintagma seus alunos, a interpretação do sujeito elíptico é a mesma -89- do sujeito da primeira oração, e não uma retomada do SN mais próximo. Isto poderia ser atribuído ao efeito da "causalida- de implícita", sugerido por Garvey, Caramazza e Yates (1974) e assim transcrito em Nash-Webber (1977): "(..,) um fator que eles chamam de causalidade im- plícita, que induz a atribuição de um antecedente ao candidato "primariamente responsável por ins tigar a ação ou o estado denotado na oração ante- rior"." (pág. 28) Este princípio, no entanto, me parece muito vago (o que quer dizer "responsável" por uma ação?) e pode, como dizem seus autores, ser anulado por diversos fatores (como passivização da sentença onde se encontra o anteceden- te, negação, etc). Além disso, temos sentenças como (50) O Ivan, o Alfredo abraçou ele porque ele estava indo viajar. onde o pronome ele da segunda oração é ambíguo, e segundo o princípio proposto por Perini (1981) do que o tópico atrai a interpretação das anáforas, é entendido preferencialmente co "mo se referindo a Ivan; mas de acordo com o princípio da "causalidade implícita", esta anáfora só poderia ser inter - pretada como "[ = 'Alfredo']"» já que foi ele o responsável pelo abraço (tomando-se esse termo como oinónimo de "agente"). Assim sendo, prefiro dizer que o que ocorre em (49') é uma tendência em se relacionar as anáforas de um texto ao tópico 490- do discurso, como sugerido por Perini (1981). Há ainda um último exemplo que gostaria de mencionar, de antecedente reestruturado de forma a aglutinar elementos isolados citados no discurso: é o exemplo (51) que se segue, citado em Nash-Webber (1978), pãg. 1: (51) Temos um Ch.Figeac 71, um Fleurie 76, um Okfener Bockstein 71 e um Durkheimer Feuerberg 75 na adega. Vamos servir os 0 alemães no jantar? Nash-Webber interpreta a elipse de (51) como se referindo a 'vinhos'. Acredito, no entanto, que seja mais correto dizer que a elipse retoma os membros do conjunto for mado pela reunião dos diversos elementos citados, sejam eles vinhos ou não. Quem achar que os nomes citados são nomes de uísques, por exemplo, deixou de entender os membros da lis - é ta, mas não deixou de entender a anáfora. Portanto, não há nenhuma informação adicional que o ouvinte deva possuir para identificar o antecedente da anáfora. A suá interpretação não está condicionada ao conhecimento de que os nomes mencio nados são vinhos, embora essa informação, se possuída pelo ouvinte, lhe permita uma compreensão mais precisa e espocif^ ca do enunciado. Assim, se o ouvinte tiver essa informação adicional, saberá que a anáfora se refere aos membros do con junto formado pela reunião dos elementos citados individual- mente e, além disso, saberá também que estes membros do con- junto são vinhos. Note-se que este conhecimento não está li- gado â interpretação da anáfora em si, mas ã interpretação i 9 -91- dos itens Ch. Flgeac 71, Fleurle 76, Okfener Bockstexn 71 e Durkhelmer Feuerberg 75. Para a determinação do referente expresso por todo o sintagma o ouvinte deve computar a informação expres- sa pela anãfora ([ £ = 'membros do conjunto citado'])/ soman do-a ao adjetivo alemães que restringe e delimita alguns dos elementos expressos pela anáfora, obtendo como resultado o sub-conjunto ao qual se refere todo o sintagma. 2 - Estabelecimento de uma função (52) Pedro apanha de sua mulher. No entanto, outros homens nunca se sujeitariam a isso. [ isso = 'X apanhar da mulher de X'] Esse tipo de reestruturação é chamado de fun- ção porque, em lugar de um antecedente específico, temos uma estrutura que contém uma variável. A anãfora se refere não somente a uma única entidade, mas a qualquer elemento que _ I - possa substituir corretamente a variavel que compoe a função. Nash-Webber se refere desta forma a casos como (52): "(...) as funções (...) são semelhantes ã noção ma temática de um procedimento que associa um valor aos seus argumentos. Uma função se diferencia do um "antecedente" tradicional na medida em que não faz referência a um objeto em particular, mas, em vez disso, a uma maneira de definir um novo obje- to, dado um novo conjunto de argumentos." (1977, pág. 8) -92- 3 - Mudança de gênero e número (53) Cleusa e Joaquina são chatas. Sebastião também é 0. t £ = 'chato'] (54) A - Que livro que a Jussara vai comprar? B - Os ^ que a professora pediu. [ ^ = 'livros'] Em (53) a elipse substitui chato, que tem gê- nero e número diferentes do mesmo adjetivo na primeira sen - tença, e que funciona como seu antecedente. O que ocorre em (54) pode ser explicado da se guinte maneira; o falante (A) supõe que Jussara vai comprar somente um livro, o que não é verdade. Esse erro do "conhec^ mento" é relevado pelo ouvinte (B), que enuncia uma anáfora com um antecedente plural. Essa "flutuação" de número entro pergunta e resposta não acarreta problemas na comunicação porque B pode corrigir o seu interlocutor e passar-lhe a in- formação correta de plural através do determinante os. . 4 - Mudança da forma verbal (55) Raquel toma sol todos os dias, e eu nunca 0. [ 0 = 'tomo sol'] (56) Yara prefere roupa sem manga, e eu ^ com manga. [ £ ='prefiro roupa'] -93- Os verbos tomar e preferir das sentenças (55) e (56), respectivamente, são retomados na elipse modifican- do-se a pessoa verbal expressa no antecedente. 5 - Desdobramento Para exemplificarmos este tipo de reestrutura ção vamos tomar um exemplo apresentado em Nash-Webber (1978). (57) Irv e Marta queriam dançar juntos, mas a mãe de Marta disse que ela não podia £. [ £ = 'dançar com Irv'] Desdobramento: a) Irv queria dançar com Marta. b) Marta queria dançar com Irv. Na recuperação da anáfora de (57) só é retomada uma parte do desdobramento b (dançar com Irv), elaborado a partir da ox - pressão dançar juntos. Note-se entretanto que este tipo de roestrutu ração não opera da mesma forma em qualquer caso. Vejamos al- guns exemplos: (58) Alalde e Luís estão querendo namorar, mas a mãe do Alaíde disse que ela não pode 0. j 0 _ I a) 'namorar' l V b) 'namorar com Luís' j ] -94- Poderiamos dizer que, em (58), apesar de ha ver uma possibilidade de não-desdobramento (caso a), parece que o caso b, que inclui o desdobramento, teria um peso maior na interpretação da elipse, isto é, a sentença (58) seria interpretada preferencialmente com o sentido b. (59) Alalde e Luís estão querendo estudar inglês, mas a mãe de Alaide disse que ela não pode f y . rt a) 'estudar inglês' [ £ = / ^ b) 'estudar inglês com Luis' ] Aqui parece que temos as mesmas possibilida - des que em (58) (desdobramento e não-desdobramento), mas (59) é preferencialmente interpretada com o sentido a, onde não é aplicado o desdobramento. A explicação da diferença de preferência com relação ã aplicação do desdobramento parece dever-se ao fato de que o esquema de 'namorar* (exemplo (58)) inclui a variá- vel com, o que não acontece no esquema de 'estudar' (exemplo (59)) . 6 - Retomada de um evento, ação ou estado Também os eventos, ações ou estados podem ser reestruturados de forma a fornecer um antecedente adequado a uma anáfora nominal, como por exemplo em (50): -95- (60) Francisca recebeu uma porção de flores no dia do seu aniversário. Isto a emocionou muito. [ isto = 'o fato de receber uma porção de flores no dia do seu aniversário•1 7 - Aglutinação de predicados Um exemplo de aglutinação de predicados é en- contrado em Webber (1980); (61) Eu sei andar e eu sei mascar chicletes. Jerry sabe 0 também, mas não ao mesmo tempo. Como mostra essa autora, apesar de a intorpre tação da anáfora parecer bastante evidente, o predicado ^ - dar e mascar chicletes, substituído pela elipse, não é toma- do literalmente mas envolve reestruturação; o antecedente de ve ser reconstruído pelo ouvinte, uma vez que ele não está presente no texto da mesma forma com que é retomado: é neces sário reelaborar a informação transmitida, aglutinando os dois predicados citados isoladamente, interrompidos pelo pronome eu. 8 - Recuperação de uma classe através da menção de um parti- cular (34) Maria comprou um curió. Um amigo lhe disse que eles são ótimos para cantar. -96- Este tipo de retomada anafórica já foi discu- tido na seção 3.5., Acrescentaremos aqui somente a justifica tiva da inclusão desses casos dentre os exemplos de reestru- turação. Como vimos, a anáfora nestes casos não tem ba se literal, mas possui um antecedente que é inferido através do esquema de curió. O que nos leva a classificá-los como ca sos de reestruturação é o fato de que o ouvinte utiliza no cômputo do antecedente, o elemento nuclear do esquema; a reso lução da anáfora não envolve nenhum conhecimento extra-lin - güístico, e pode ser determinada simplesmente com base no co nhecimento da lingua. Isto pode ser comprovado pelo fato de que o pronome eles, no exemplo (34) , pode referir-se somente aos curiós (note-se que 'curió* é o núcleo do esquema) compreen- didos como uma classe, e não pode referir-se, por exemplo, aos passarinhos em geral, ou às aves, ou aos oviparos, etc, que são elementos que não repetem o núcleo, mas vêm como que agarrados a ele, compondo o esquema ao qual se ligam.Note-se a má-formação de (62) e (62'): (62) ?0 curió de Maria canta muito. Mas nem todas elas sabem »> ■ cantar. [ elas ='aves•] ' « (62 ) 70s curiós cantam muito. Mas nem todas elas sabem can- tar. [ elas = 'aves'] -97- Note-se ainda a impossibilidade de se reali - zar a operação inversa, ou seja, a recuperação de ura parti cular através da menção de uma classe ou de um genérico: (32') ?Detesto gatos siameses. Ele me arranhou quando eu era pequeno. Este fato pode ser explicado' da seguinte ma - neira: é possível recuperar uma classe ou um genérico a par- tir de um particular porque a classe ou o genérico possuem os mesmos traços definicionais que o particular; o inverso não é possível (recuperação de um particular através da men- ção da classe ou do genérico) porque o particular possui ain da outros elementos definicionais fixos. Por exemplo: 'o ca- chorro da Raquel' possui todas as características da classe dos 'cachorros', e mais algumas outras características parti, culares (que chamamos de variáveis fixadas) como uma determ^ nada raça, uma dada filiação, uma cicatriz na orelha, etc. Logo, a menção de um genérico não é suficiente para definir um único indivíduo particular; por outro lado, a menção do particular é suficientemente definidora para evocar um único conceito genérico que lhe corresponde. 9 - Recuperação do genérico através da menção de um particular (31) Raquel ganhou este presente, e eu ganhei aquele 0. Como vimos na seção 3.4., o particular é com- —98- preendido como uma instanciação do genéricc^ que lhe corres ponde. Semelhantemente ao caso (34) , o ouvinte utiliza na reelaboração do antecedente da anáfora de (31) o elemento nu clear do esquema evocado (presente). Ura fato que corrobora esta análise e descon - firma a hipótese da recuperação literal é a não necessidade de identidade formal entre o elemento antecedente e o elemen to retomado pela anáfora, como se pode verificar em (31') e em (31'•). (31') Raquel ganhou estes presentes, e eu ganhei aquele (32'') Raquel ganhou este presente, e eu ganhei aqueles 0. É certo que devem existir ainda muitos outros exemplos que poderiam ser incluídos nesta seção. No entanto, não é nossa intenção apresentar aqui uma listagem exaustiva de todos os casos em que há a reestruturação do antecedente da anáfora, mas quisemos mostrar somente alguns exemplos que pudessem ilustrar e esclarecer melhor a classificação apre - sentada. Assim sendo, passemos ao terceiro tipo de base para a recuperação do antecedente da anáfora: a inferência pragma tica. -99- 2.3. Inferêncla pragmática A inferêncla pragmática é o tipo de relaclo - namento anafôrlco-antecedente em que só é possível Identifi- car o antecedente da anáfora através da retomada de conheci- mentos (não nucleares) evocados pelo esquema de outras ex - pressões ou situações que compõem o texto. Os casos de anáfo ras classificados como tendo base em uma inferêncla pragmãt^ ca são aqueles em que .o referente é determinado a partir de um conhecimento extra-lingüístico, partilhado entre falante e ouvinte, não presente explicitamente no texto, mas que o falante supõe que o ouvinte seja capaz de inferir. Isto só será possível se, nos esquemas que o ouvinte possui e que são evocados pelo texto, encontra-se a informação adequada que possa funcionar como referente desta anáfora. Sag e Hankamer (1977) utilizam o termo "prag- mática", referindo-se às anáforas, somente no sentido da re- ferência feita ao ambiente físico, isto é, no caso de dêiticos. "(...) chamamos de anáfora 'controlada pragmatica- mente ' (ou 'dêitica ') . " (1977, pág. 120) i. A nossa colocação, por outro lado, baseada na definição do termo pragmática" expressa por Morgan c Green (1980) (transcrita abaixo), estende o seu uso também aos co- nhecimentos que integram um esquema evocado num texto, uma vez que este tipo de conhecimento extra-lingüístico é também -100- utilizado pelo ouvinte na interpretação do significado das anáforas. "O terino pragmática vem sendo usado não somente pa ra problemas relativamente bem definidos como a interpretação e o uso de expressões dêiticas/ mas também para praticamente todo aspecto comunicati- vo do uso da língua não analisável como sentido literal, incluindo certos tipos de inferência, a- tos de fala, atos indiretos de fala, "conversational implicature", e as relações e interações entre o- les." (Morgan e Green, 1980, pág. 114) E também: "Pragmática é então o estudo das "maneiras pelas quais o contexto lingüístico determina as propos^ ções expressas por uma dada sentença naquele con- texto" e inclui o estudo de atos de fala e da for ça ilocucionãria (...); "indexicals"; conhecimen- tos, crenças, expectativas, e intenções do falan- 21 te e do ouvinte (Morgan e Green, 1980, pág. 116) Schank (1978), elaborando o conceito de infe- rência, afirma que a inferência corresponde a um conceito a- dicional, não incluído no texto explicitamente, que o falan- te pressupõe que o ouvinte possua, e que é necessário para se ligar duas informações. 21 - Grifos meus. -101- Observe-se que as inferências (propiciadas pe los esquemas) exigidas para se interpretar corretamente uma determinada anáfora podem conter informações mais generaliza das, comuns à maioria dos falantes da lingua, ou mais parti- culares, partilhadas somente pelos participantes do discurso. Antes de passarmos à mostragem de alguns ca - SOS típicos que exemplificam este tipo de base para a recupe ração do antecedente da anáfora, vamos examinar mais detalha damente o problema das inferências, enfocando o tipo de co nhecimento aí envolvido. 2.3.1 . Inferências; conhecimentos mais generalizados ou mais restritos Schank (1978) estuda as inferências necessá - rias ao entendimento de um texto e apresenta os seguintes e- nunciados como exemplificação: (63) João queria ir ao Havaí. Ele telefonou para seu agente de turismo. (64) João queria ir ao Havaí. Ele telefonou.para sua mãe. A proposta apresentada por Schank considera que as frases (63) e (64) teriam um grau diferente de facili dade de entendimento. Segundo sua argumentaíião as inferências necessárias para a compreensão do encadeamento das frases de -102- cada exemplo seriam mais clara e mais facilmente perceptl - veis em (63) do que em (64). Acredito/ no entanto, que o problema não se coloca de maneira tão generalizante. A meu ver, devem ser considerados outros fatores relevantes nestes enunciados, ou I seja, o recebedor da mensagem e o seu grau de familiaridade ou conhecimento do assunto. .Segundo o meu ponto de vista, (63) e (64) não têm necessariamente graus diferentes de dificuldade no esta- belecimento de inferências. Na verdade, (64) pode ser tão fã cil ou tão difícil de ser compreendida quanto (63) . A variá- vel que interfere na correlação das frases apresentadas li - ga—se fundamentalmente ao indivíduo a quem esta informação é dirigida, ao seu nível de conhecimento do assunto tratado, e conseqüentemente, ã sua capacidade de estabelecer expectati- vas e inferências. É isto que tentarei mostrar a seguir. Tanto em (63) quanto em (64) a primeira frase é idêntica. Logo, se para alguns falantes estes dois enuncia dos não têm a mesma clareza, isto não pode dever—se a proble mas ligados à primeira frase, sejam eles quais forem (sintá- ticos, semânticos, etc). Isto nos leva a crer, naturalmente, como fez Schank, que a dificuldade se concentra na segunda frase, ou melhor, na possibilidade de se estabelecer um elo ligue a primeira frase ã segunda, que é justamente a inferência necessária para a compreensão do texto. No exemplo (63.) esta inferência seria direta. -103- jã que a função de um agente de viagens tem uma ligação es - treita com a situação de ir ao Havaí. Em (64) a situação da viagem não teria uma ligação única ou direta com o fato de telefonar para a sua mãe^ isto é, não se sabe com certeza o porquê do telefonema. O recebedor da mensagem faria então uma série de suposições para relacionar as frases de (64) , mas sem ter a segurança ou a certeza de qual dessas suposi - ções é a verdadeira. A diferença entre (63) e (64) concen - tra-se, portanto, na unicidade da suposição feita para se li gar os enunciados de cada exemplo. O que procuro mostrar aqui é que nem sempre as inferências feitas pelo recebedor são únicas no caso (63) e múltiplas em (64). Suponhamos que a situação de (63) seja relatada a um indivíduo do ambiente rural, cujos conhecimen- tos se restrinjam àqueles ligados ao seu meio. Neste caso o enunciado (63) pode ser até mais imcomp:reensível do que (64), na medida em que, desconhecendo a função de um agente de tu- rismo e a sua participação em viagens, este indivíduo poderá (a) ou fazer diversas suposições para ligar os enunciados (de forma semelhante ao segundo exemplo), ou (b) não fazer nenhuma inferência, o que o levará a uma incompreensão total do texto. Vejamos agora o exemplo (64). Suponhamos que ele seja dito a uma pessoa que esteja bem inteirada do rela- cionamento de João e sua mãe; digamos, por exemplo, que João seja dependente financeiramente de sua mãe. Isto levaria o ouvinte a concluir que o elo que une as seqüências em (64) é -104- único e direto, e se estabelece a partir da expectativa cria da na primeira frase de que, para se fazer uma viagem é ne - cessario que o viajante tenha dinheiro. Sabedor de que a mãe de João lhe fornece dinheiro, o ouvinte poderá inferir que a função da mãe de João em (64) é a de dar dinheiro para a via gem citada, criando uma correlação clara entre as seqüências. Assim sendo, não haveria nenhuma diferença no tipo de infe - rências a serem propostas pelo interlocutor para o entendi - mento dos enunciados (63) e (64). Resumindo, as inferências que o recebedor de- ve fazer para relacionar duas informações apoiam-se na varia vel nível de conhecimento do ouvinte com relação às duas si- tuações isoladamente, que se traduz também como grau de pre- enchimento dos esquemas envolvidos. O conhecimento do ouvin- te desdobra—se nos seguintes pontos, que correspondem a eta- I pas de um processamento; a) tipos de expectativas criadas pelas situações; b) possibilidade de estabelecimento de inferências que promo vam uma ligação qualquer entre as situações; c) possibilidade de estabelecimento de um elo único entro as seqüências. Codificando—se esta variavel (grau de preen — chimento dos esquemas envolvidos), será modificado conseqüen temente o grau de compreensão dos enunciados que formam um texto. Isto significa que, quanto menor o nivel de conheci — mento do assunto, e portanto quanto menor a possibilidade de se privilegiar uma única inferência entre as suposições pos— -105- siveis, menor será o grau de compreensão do texto. Concluímos daí que não se pode falar a priori de maior oú menor dificuldade de estabelecimento de inferên- cias sem se ter em mente o recebedor da informação. É óbvio que, num caso de viagem, a função de um agente de turismo é uma noção mais geral, mais abrangente, do que a noção da função da mãe de João neste contexto. No entanto, esta não é uma noção universal, conhecida por todos os indivíduos. Como vimos, podemos encontrar casos em que a situação mais fre - qüente (maior facilidade no entendimento do texto (63)) seja desconfirmada. O texto (64) poderia ser até mais fácil, de - pendendo da familiaridade do interlocutor com a informação que lhe é transmitida. No texto (63) o que existe é um conhecimento mais geral, e em (64) um conhecimento particular, que não é acessível a qualquer pessoa. Mas se o esquema suscitado na mente do indivxduo inclui as informações que lhe permitem es tabelecer a inferencia adequada em cada caso, seja ele deri- vado de um conhecimento geral ou particular, não haverá difi' culdade na integração do texto (neste aspecto). O que na verdade regula a dificuldade no esta belecimento de inferências é a especificidade do conheclmon- ^ dos assuntos em questão, ou seja, o grau'de preenchimento dos esquemas evocados. Isto significa que, quanto mais defi- nida for a noção que o ouvinte tiver dos fatos envolvidos na situação apresentada, maior será a sua facilidade de fazer as inferências necessárias. -106- Voltemos aos nossos exemplos (63) e (64). (64) nos parece mais difícil porque a informação veiculada não nos é adequada, isto é, não "conhecemos o fato que relaciona a viagem de João ao telefonema à sua mãe. A seqüência (63) , por outro lado, parece ser mais fácil porque é adequada ao tipo de conhecimento mais geral que a maioria dos indivíduos que lê esse texto possui. Como sugere Nash-Webber (1978), o falante faz suposições acerca do conhecimento do ouvinte, e modela a sua fala de acordo com o recebedor da mensagem. "o uso de antecedentes e referentes de anáforas não-explícitos depende de um contrato entre o fa- lante e o ouvinte. Este contrato exige que, se o falante usa uma expressão anafõrica cujo antece - dente ou referente foi derivado inferencialmente, o leitor pode e vai fazer a mesma inferência. (pág. 1) Estaria aí, provavelmente, uma das grandes di ferenças entre a língua oral e a escrita,itrazendo maiores problemas de compreensão para esta segunda modalidade. Quan- do o meio utilizado na comunicação é o oral, o falante geral mente sabe cora quem está falando e pode, conseqüentemente, adequar a maneira de transmitir as informações ao conhecimen to que ele sabe que o ouvinte possui. Na língua escrita, no entanto, esta adequação da mensagem torna-se menos segura, na medida em que o escritor raramente pode certificar-se do conhecimento prévio do leitor. -107- 2.3.2. Alguns tipos de inferêncla I 1 _ Inferências de conhecimentos mais generalizados (17) Ai eu fui entregar os slides pro homem, porque o negócio é carrossel — né?— vai colocando em seqüência. [ negócio = 'projetor de slides'] Como vimos na segão 1.2., neste caso a recupe ração do antecedente da anáfora negócio depende de dois ele- mentos: um (o item slide) introduz o esquema; o outro ( ^ carrossel) é o predicado do elemento anafórico que delimita qual dos elementos pertencentes ao esquema é o referente cor reto da anáfora. Os referentes recuperados com base em inferên cia de conhecimento mais generalizado podem ser expressos não somente através de anáforas tipo troço, mas também atra- vés de outros tipos de elementos anafõricos, como por exem - pio as elipses: (65) O Mário é flautista. Vou pedir para ele tocar ^ na nossa orquestra. [ £ = 'flauta'] i 1 (66) A - Nao vou gravar não porque eu tô inibido. B - Não, ninguém vai ouvir £ não. [ £ = 'a gravação'] -108- 0 termo 'relacionamento morfológico' ("morphologically related") foi usado por Lakoff e Ross (1972) (apud Webber, 1980, pãg. 152) para se referir ao relaciona mento de itens lexicais como flauta - flautista (exemplo (65)) ou gravar - gravação (exemplo (66)). Deve-se notar, en tretanto, que em (65), por exemplo, o antecedente da anáfora não é determinado a partir de uma derivação morfolôgica, de uma regra gramatical, mas a partir de uma inferência baseada no esquema da expressão flautista, 2 - Inferências de conhecimento mais restrito Fui examinar doente fora, fui examinar mãe de alu- no lá no ... lá perto do nosso lote, atrás do Xuá. Lá na coisa. Sei\ Vimos que, como as palavras do tipo troço são ditas na falta do vocabulário conveniente_ou apropriado, na maioria das vezes o antecedente não pode ser encontrado lite ralmente no texto. Note-se que em (21*) não há nenhuma indi- cação do contexto que sirva para indicar o referente da pala vra coisa a um indivíduo que não possua os conhecimentos ne- cessários para estabelecer a inferência adequada. Qualquer estranho que ouça ou leia este diálogo não tem nenhuma pista para poder decidir qual é o conceito que esta anáfora substi tui. É importante notar a resposta de B (Sei), que mostra (21•) A - B - -109- claramente que para ele não houve nenhum problema na compre- ensão do enunciado de A. O referente da anáfora em (21 ') é determinado com base no esquema evocado pela expressão nosso lote, sendo que a sua interpretação baseia-se num conhecimen to mais restrito, partilhado entre o falante e o ouvinte. Ê necessário observar que em muitos exemplos de inferência a interpretação da anáfora depende de algo mais do que a simples evocação do esquema. Nesses casos, a anáfora "solta" não seria base suficiente para a recupera - ção; o que permite a recuperação é a inserção da.anáfora em' uma estrutura sintática particular. Assim, no caso de (21'), coisa não seria interpretável corretamente se ocorresse ime- diatamente apôs aluno, por exemplo. (21'') ?Fui examinar doente fora, fui examinar mãe de aluno lá na coisa. Mas como ocorreu dentro de uma estrutura paralelística, o re lacionamento torna-se possível; (lá perto do nosso lote) + (atrás do Xuá) + (lá na coisa) lugar lugar lugar As limitações deste trabalho nao me permiti — rão investigar mais esse fator, que no entanto merece aten - ção. -110- 3 - SNs definidos no contexto (10) Roberto alugou um apartamento muito bom. Só a cozinha e que é pequena. (67) Fui usar a máquina IBM do meu irmão mas o retrocesso não estava funcionando muito bem. Os SNs definidos no contexto, como o sintagma o retrocesso do exemplo (67) já foram comentados no capitulo anterior, especialmente nas seções 1., 2. e 3.1.; A este re^ peito Webber faz a seguinte observação: "(...) as inferências que incorporam um conhecimen to geral são necessárias para fornecer referentes para os sintagmas nominais definidos que, fora do contexto, não teriam um referente único e portan- to não teriam sentido." (1980) , pág. 150) A interpretação de SNs definidos pode basear- se em conhecimentos mais universais (como no exemplo de núme ro (10)),ou em conhecimentos mais restritos (como no exemplo (67)) . \ -111- 3. Interação das bases para a recuperação de um antecedente Há um aspecto que gostaria de deixar claro com relação às bases para a recuperação do antecedente da a- náfora. Trata-se do fato de que os três tipos de relaciona - mento anafórico-antecedente apresentados (literal - reestru- turação - inferência) não se diferenciam discretamente. Que- ro dizer que, embora seja possível traçar teoricamente as li^ nhas que definem cada um desses parâmetros, há casos em que não é possível estabelecer somente uma única base para a re- cuperação do antecedente da anáfora. Isto porque a distinção entre essas três bases não é nítida, mas trata-se sobretudo de um contínuo, com a interação de fatores dos diversos parâ metros. Examinemos por exemplo o texto seguinte, tomado de Nash-Webber (1978): (68) Cada menina deu uma blusa para Patrícia. Nenhuma delas assentou bem. Como vimos, parece que temos aqui uma reestru turação do antecedente, uma vez que a anáfora não retoma a informação presente no texto de forma literal, nem tampouco esta informação tem de ser acrescida ao texto, como no caso das inferências. No entanto, como é possível saber que o pro nome elas refere-se às blusas e não às meninas? Como c que o falante pode assegurar—se de que tanto ele quanto o ouvinte estariam raciocinando do mesmo modo? Isto é possível porque -112- o esquema do verbo assentar inclui a informação do quo, por exemplo, blusas podem assentar bem. A comprovação disso ó que, se modificarmos a segunda sentença, teremos outras in - terpretações, como pode ser comprovado pelos exemplos que se seguem; (68') Cada menina deu uma blusa para Patrícia. Nenhuma delas soube escolher. [ elas = 'as meninas'] (68'') Cada menina deu uma blusa para Patricia. Elas vieram de toda parte. [ elas = ?] (o pronome é ambíguo, em se considerando somente este texto) Outro exemplo onde a reestruturação do antece dente apoia-se também numa inferência é o seguinte: (69) 6, eu vou dar a minha aula, não sei se os outros vão querer 0. A elipse encontrada depois de querer é uma a— nãfora, e ^ marca o lugar onde o ouvinte deve repor 'dar a àula deles". Neste caso o antecedente é reestruturado de for ma a dar lugar ã função 'X dar a aula de X'. Esta interpreta ção era a correta no diálogo de onde foi extraída a sentença (69), mas não é a única possível. Existe também a possibili- dade de completarmos a elipse da seguinte forma: "não sei se os outros vão querer que eu dê a minha aula".O problema que -113- eu vejo aqui é o seguinte; como é que o ouvinte conseguiu se decidir pela primeira ou segunda interpretação, isto é, quais foram os caminhos que ele tomou, ou em que se baseou a sua decisão? Acredito que o ouvinte só pode se dectcíir se tiver algum outro tipo de conhecimento além daquele expresso pelo texto, Vemos então que, na identificação do signifi- cado de anáforas cujo antecedente foi reestruturado, em al - guns casos o ouvinte pode também lançar mão dos esquemas evo cados pelas expressões lingüísticas. Isto não ocorre somente em c^asos de reestrutu ração, mas também em casos de recuperação literal, que pode se apoiar nos esquemas, como foi mostrado através dos exem - pios (29), (29') e (29**), que repito, analisados na primei- ra parte deste trabalho (seção 3.2.). (29) Mário emprestou o carro a Antônio porque ele não usa mais. (29') Mário emprestou o carro a Antônio porque ele detesta andar a pé. '(29'') Mário emprestou o carro a Antônio porque elo enguiçou e só Antônio sabe consertá-lo. Um outro exemplo onde é necessário o estabele cimento de uma inferência para se isolar um antecedente úni- co dentre os mencionados explicitamente no texto é o que se segue. Desta vez, entretanto, a inferência baseia-se num co- -114- nhecimento mais restrito ao falante e ao ouvinte. (70) A - Encontrei uma porção de gente na festa; o Cláudio, o Evandro, o Joaquim ... B 7 Ele não te falou nada sobre o desquite dele não? Temos ai três possíveis antecedentes para as anáforas ele e dele (considerando-se que ambas têm o mesmo referente). O que permite que A recupere corretamente o ante cedente da anáfora é o fato de poder estabelecer um relacio- namento entre um dos três SNs mencionados (Evandro, por exom pio) e a situação de 'estar se desquitando'. A interpretação correta da anáfora, embora baseada num conhecimento restrito aos interlocutores, reflete o mesmo processo de estabeleci - mento de inferências feito com conhecimento^ mais universais. Isso não impede, evidentemente, que a recuperação possa ser considerada literal. Um estranho que ouça ou leia esse diálogo te- rá duas possíveis reações; ou (a) tenderá a identificar o pronome ele, por exemplo, com Joaquim, que é o SN masculino, singular e humano mais próximo, ou seja, o último mencionado, e que, de acordo com o princípio da recência ("recency") for mulado por Webber (1980, pág. 156) é o mais forte candidato a antecedente da anáfora (realmente não há nenhum elemento lingüístico que impeça que esta identificação seja feita); ou (b) tenderá a não aceitar a sentença, isto é, não conseguirá interpretar a anáfora porque ela viola a condição da unicida de ("univ^ueness"), assim descrita por Clark e Haviland (1977); -115- "A informação dada fornecida pelo falante precisa permitir ao ouvinte computar um antecedente úni - CO. Se o ouvinte encontra dois ou mais anteceden- tes possíveis, ele não será capaz de decidir qual deles é o referente que o falante teve a intenção de transmitir e haverá uma quebra na comunicação. Assim como as violações de propriedade ("appropriateness"), violações de unicidade levam a julgamentos de que o enunciado é inaceitável no contexto." (1977, pág. 9) E ainda: "C. Unicidade 1. Violação pelo falante: Não permitida 2. Estratégia do falante quando encontra viola ção: Nenhuma 3. Conseqüência da violação: o ouvinte julga que a sentença é inaceitável no contexto." (pãg. 10) Pode ser que a condição da recência seja reajL mente importante na recuperação de anáforas que não tenham outra base para a interpretação além do que vera explícito no texto, mas não em casos como (70). Neste exemplo o pronome ele refere-se a Evandro, que é o único candidato a anteceden te que inclui, no seu esquema, a informação de que 'está sc desquitando'. Note—se que, embora pareça às pessoas não par ticipantes do diálogo que houve quebra do principio da unici dade, na verdade isso não aconteceu: havia só ^ possível an tecedente. Mas isso só pode ser comprovado por quem possa ve rificar, entre os esquemas dos nomes mencionados, em qual de les encontra-se uma informação positiva com relção ao desqu^ te do indivíduo que constitui o núcleo do esquema. -117- 4. Pontos divergentes e complententares deste trabalho com relação aos artigos de Nash-Webber (1977> 1978 e 1980) Apesar de a análise feita por Nash-Webber e a que apresentei aqui terem, grosso modo, a mesma diretriz, e- xistem algumas colocações divergentes ou complementares que gostaria de salientar. Em primeiro lugar, vamos retomar uma passagem do seu artigo: "as expressões anafóricas não se referem a segmen- tos no texto, mas a entidades que se presume que estejam na mente do receptor." (1977, pãg. 3) Todos temos que admitir que o referente de uma expressão lingüística (anafórica ou não) se distingue dessa expressão, e é uma entidade mental. Porém Nash-Webber, partindo da observação de que um elemento anafõrico servo, em última análise, para recuperar um referente, e de que um referente é uma entidade mental, acaba, na prática, por ne - gligenciar a base lingüística da recuperação. Como vimos, há casos - como por exemplo em (40) (40) A testemunha temia que o advogado a insultasse. onde há uma recuperação literal do antecedente - em que a forma lingüística com que é expresso um determinado conceito é fundamental no uso e na interpretação da anãfora. A diver- -118- gêncla existente concentra-se então no fato de que a análise aqui proposta considera o processo de estabelecimento da re- lação entre o anafórico e seu antecedente, ao passo que a a- nãlise apresentada por Nash-Webber parte da relação anafóri- ca já "pronta". Em segundo lugar, Nash-Webber chama de "infe- rência" a qualquer tipo de recuperação do antecedente quo en volva raciocínio. Portanto, esta autora não distingue (como fizemos aqui) a recuperação do antecedente com base numa re- estruturação de informações explícitas no texto (decorrente do próprio conhecimento da língua) da recuperação com base em informação extra-lingüística, não presente no texto (mas que pode ser depreendida se os esquemas levantados no texto estiverem preenchidos com a informação adequada que possa funcionar como referente da anãfora em questão). Embora ambos os processos aqui apresentados (reestruturação e inferência)envolvam elaboração mental, a- credito que hã uma diferença fundamental entre esses dois ti pos de relacionamento anafõrico-antecedente (afora o aspecto da localização da informação que é a base para a recuperação do antecedente, isto é, o fato de que no primeiro caso ela se encontra dentro do texto, e no segundo caso fora dele) e que fica encoberta no enfoque apresentado por Nash-Webber ; quando o tipo de raciocínio envolvido implica somente numa reestruturação do antecedente, isto significa que a identifi cação desse antecedente é acessível a qualquer indivíduo que domine convenientemente as regras de estruturação da língua; 1 -119- por outro lado, o tipo de relacionamento anafórico-anteceden te que envolve inferência tem um caráter mais restrito/ uma vez que a anãfora retoma elementos não explícitos no texto, mas que o falante supõe que possam ser identificados pelo ou vinte através das poucas informações veiculadas pela própria anáfora, somadas às informações fornecidas por outros elemen tos do contexto. Essa distinção parece bastante importante, principalmente porque uma conclusão que se pode tirar daí e que as anáforas que têm base em inferência (terceiro tipo da classificação aqui apresentada) devem ser muito menos fre - qüentes na língua escrita do que na oral, uma vez que o es - critor pode supor relativamente pouca coisa com relação ao conhecimento não-lingüístico do leitor, ao passo que na lín- gua falada, especialmente nos casos mais comuns nos quais o falante se dirige a uma pessoa determinada, específica (ou a mais de uma), ele pode'pressupor, com muito mais segurança, diversas informações que ele sabe que o ouvinte possui. O em prego de anáforas com base em inferência é potencialmente um ponto que pode provocar dificuldade ou bloqueio na compreen- são do enunciado escrito. O terceiro ponto, que não é uma divergência, mas uma questão complementar, refere-se ã resposta a uma per gunta importante: quando ê possível o estabelecimento de uma inferência? - ou ainda - em que condições é possível que o ouvinte seja capaz de inferir corretamente o referente de u- ma anáfora, não explícito no texto? Este aspecto do relacio- namento anafórico, não resolvido por Nash-Webber, pudemos ex -120- plicitar a partir da noção de esquemas, uma vez que, ao evo- car juntamente com o seu núcleo elementos não presentes lite ralmente no discurso, o esquema constitui também uma fonte de referentes das anáforas. O ouvinte é capaz de identificar um desses elementos, contidos nos esquemas evocados, como sendo a informação que o falante tencionou transmitir atr^ - vés da anãfora, se o contexto lingüístico for suficientemen- te definido a ponto de delimitar convenientemente um único candidato a referente da anáfora. O quarto ponto a considerar é que o tipo de fenômeno do relacionamento das anáforas a elementos presen - tes nos esquemas evocados não é considerado na literatura lingüística em geral. Apesar de Nash-Webber (19 78) também tratar do problema das inferências relacionadas ã interpreta ção das anáforas, a sua abordagem é diferente da que apresen tamos aqui. Essa autora sugere, a partir das regras apresen- tadas, que se pode usar uma expressão anafõrica para se refe rir a uma entidade E não explicitamente presente no texto quando alguma regra lógica do mundo real nos autoriza a infe rir a existência necessária de E a partir de informações pre sentes no texto. Já o que proponho é diferente. Nenhuma regra lógica do mundo real nos autoriza a inferir, por exemplo,que se há slides, há projetores (como foi mostrado no exemplo (17), páginas 25, 33 e 42), mas esse é um conhecimento náo-ne cessário, acidental, não-lógico. O que dissemos é que a regra fundamental para o estabelecimento de inferências é: pode-se -121- usar uma expressão anafõrica para se referir a uma entidade E não explicitamente presente no texto guando o nosso conhe cimento de um item presente no texto inclui E no seu es - quema. Mostramos também em que condições uma expressão ana- fõrica pode se referir a E (quando E não está explícito no texto); a) condições "cognitivas" (relacionamento de alguma forma a I, isto é, presença de E no esquema de ; b) condições lingüísticas: b1) presença de I no contexto anterior + b2) (em alguns casos controlados) predicado modificado por elemento que também seja relacionado a 1, isto é, que contenha E no seu esquema, Ficam então definidas quais são'as condições que permitt^m o mesmo tipo de raciocínio por parte de todos os participantes do discurso na determinação do antecedente da anáfora. CONC LUSAO Procurei examinar neste trabalho, a partir da observação de certos empregos e resoluções de anáforas, quai são as condições lingüísticas que permitem ao ouvinte inter- pretar a anãfora com o mesmo significado que o falante ten - cionou transmitir. Isto nos levou, inicialmente, a examinar a de finiçâo corrente de anáfora, que limita o seu uso e a sua possibilidade de interpretação ã presença do antecedente da anáfora na "consciousness" do ouvinte, A anãfora seria então necessariamente, um elemento dado. Contrariamente ao que se supunha, verificamos que, embora seja lícito dizer que todo elemento 'dado' é uma anáfora, a recíproca não é verdadeira, ou seja, nem toda anãfora possui o status 'dado', segundo a definição deste termo apresentada em Liberate (1980). Mostramos que a anáfora recupera, em certos casos, elementos não explícitos no texto, mas evocados no es quema ativado por determinado item léxico presente no discur so. Somente a partir da teoria dos esquemas - descritos como -122- -123- conjuntos de entidades cognitivas inter-relacionadas que po- dem ser ativadas por urna expressão lingüística - é que é po£ sível explicar certos fenômenos de anãforas, como por exem — pio a recuperação do genérico a partir do particular, a in — terpretação dos SNs definidos no contexto, e a resolução de outros casos onde o antecedente não está explícito no discur so. Observamos, seguindo essa teoria, que o esque ma de um conceito particular é uma instanciação do esquema genérico que lhe corresponde. Em outras palavras, isto quer dizer que o, esquema particular é compreendido como uma foca- lização especial de uma determinada área do esquema genérico de mesmo núcleo. O núcleo, por sua vez, é compreendido como a soma dos traços que definem um determinado nódulo. Os ele- mentos definicionais de um indivíduo particular, que não es- tão contidos no núcleo do esquema genérico, correspondem a variáveis fixadas deste mesmo esquema genérico. Vimos então que, em situações lingüísticas, é possível dizer que num sin tagma que remete a um referente particular (como por exemplo este gato), o significado da expressão é computado a partir da soma de; [conceito genérico (que é o que dã identidade ao particular)] + [especificador de indivíduo (que confere indi- vidualidade ao particular)]. A noção de esquema,' que não está ainda devida mente desenvolvida na literatura, estando portanto num está- gio inicial de equacionamento metodológico, mostra-se uma questão teórica básica e de fundamental importância na expli -124- cação de certos usos e resoluções de anáforas. A partir da constatação de que é possível o relacionamento de anáforas a elementos não-nucleares que fa- zem parte de um esquema evocado, questionamos o tipo de mate rial presente na "consciousness". Indagamos se a "conscious- 2 2 ness" é realmente uma noção discyeta , e portanto se os ele mentos que estão aí presentes são somente aqueles ativados "diretamente" por um estímulo (comO/ por exemplo, o referen- te de um item léxico, ativado por este mesmo item léxico), ou se, ao contrário, a "consciousness" tem um caráter contí- nuo, sendo que também os elementos que fazem parte de um es- quema, focalizados com maior ou menor realce na memória do ouvinte, podem ser entendidos como presentes na "conscious - ness", em graus diversos. No entanto, independentemente da resposta que se dê a esta questão, ou seja, mesmo se' admitíssemos que a "consciousness" possui ura caráter mais abrangente, que englo baria também os elementos pertencentes a um esquema evocado, ainda assim não poderíamos dizer que toda anáfora tem o seu referente presente na "consciousness" do ouvinte no momento em que é enunciada. Há outros casos de empregos de anáforas em que o referente não está, definitivamente, presente na "consciousness"; são os casos de catáfora e os casos onde. 22 - Ou, pelo menos, se é uma noção descritível em termos bi^ nários; presente x ausente da "consciousness". -125- por exemplo, o discurso se inicia com uma anáfora, sendo que a predicação seguinte é suficientemente delimitadora do sig- nificado a ponto de dirigir o ouvinte na direção do referen- te correto da anáfora. Somos, portanto, obrigados a desvin - cular a noção de anáfora da condição de dadidade. Vimos também que a predicação exerce um papel importante, funcionando como um filtro de ambigüidades em ca sos onde há concorrentes viáveis a referente da anáfora. As- sim, a predicação é fundamental em casos, por exemplo, de an tecedentes explícitos porém ambíguos, em outros em que é fe^ ta a recuperação de um elemento não-nuclear do esquema evoca do, e em outros casos ainda onde o referente não está presen te na "consciousness" no momento da enunciação da anáfora. Além disso, incluímos no elenco dos elementos anafóricos os itens que chamamos de anáforas tipo troço, uma vez que, assim como os pronomes e as elipses, por exemplo, também esses itens são semanticamente polivalentes, contêm uma matriz semântica pouco especificada, e são utilizados em substituição a uma determinada expressão. Mostramos a importância da especificação da matriz semântica na análise dos elementos anafóricos, uma vez que é esta característica que pode explicar a impossibi- lidade do emprego de qualquer tipo de anáfora em determinado contexto, para recuperar um antecedente específico. A partir de todas essas noções, expressas no capítulo I, estabelecemos três tipos de bases em que o ante- -126- cedente se apoia para identificar o significado da anáfora: (a) a recuperação do antecedente literal, onde a anáfora re- I pete características semânticas do item léxico que fun - ciona como seu antecedente (como gênero e número, por e- xemplo); (b) a recuperação do antecedente a partir de uma reestrutura ção da informação transmitida explicitamente; e (c) a identificação do referente a partir de uma inferência pragmática, que tem base, por sua vez, nos esquemas evo- cados pelas expressões lingüísticas explícitas no discur so. Pretendi, portanto, examinar um aspecto refe- rente ao fenômeno do uso e da interpretação das anáforas, que é a relação anafõrico-antecedente. Resta-me a certeza, não de ter equacionado em definitivo um problema tão comple- xo, mas de ter suscitado, por outro lado, novas indagações e reflexões a respeito do uso da língua. t REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CHAFE, W. L. (1973) "Language and Memory", Language, 49, 2. (1974) "Language and Consciousness", Language, 50, 1 . (1976) "Giveness, Contrastiveness, Definiteness, Subject, Topic, and Point of View", in Li, Ch. N., org.. Subject and Topic, Academic Press. CHASTAIN, C. (1975) "Reference and Context", in Gunderson, K., org., Language, Mind and Knowledge, Univ. of Minnesota Press. CLARK, H. H. e HAVILAND, S. E. (1977) "Comprehension and the Given-New Contract", in Freedle, R. O., org., Discourse Production and Comprehension, Ablex. DONNELLAN, K. S. (1971) "Reference and Definite Descriptions", in Steinberg,D. D. e Jakobovits, L. A., orgs.. 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