ELOISA ELENA RESENDE RAMOS GENEROSO FORMAS IMPERATIVAS EM MÚSICAS ENDEREÇADAS À MULHER: UMA PERSPECTIVA ENUNCIATIVA Belo Horizonte 2014 ELOISA ELENA RESENDE RAMOS GENEROSO FORMAS IMPERATIVAS EM MÚSICAS ENDEREÇADAS À MULHER: UMA PERSPECTIVA ENUNCIATIVA Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção de título de Doutor em Linguística Teórica e Descritiva. Área de Concentração: Linguística Teórica e Descritiva Linha de Pesquisa: Estudos da língua em uso Orientador: Prof. Dr. Luiz Francisco Dias Belo Horizonte 2014 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS FOLHA DE APROVAÇÃO FORMAS IMPERATIVAS EM MÚSICAS ENDEREÇADAS À MULHER: UMA PERSPECTIVA ENUNCIATIVA ELOISA ELENA RESENDE RAMOS GENEROSO Tese submetida à Banca Examinadora designada pelo Colegiado do Programa de Pós-Graduação em ESTUDOS LINGUÍSTICOS, como requisito para obtenção do grau de Doutor em ESTUDOS LINGUÍSTICOS, área de concentração LINGUÍSTICA TEÓRICA E DESCRITIVA – Estudo da língua em uso. Aprovada em 21 de agosto de 2015, pela banca constituída pelos membros: Prof. Luiz Francisco Dias UFMG Prof a Helcira Maria Rodrigues de Lima UFMG Prof a Rivânia Maria Trotta Sant’Ana UFOP Prof a Carolina Padilha Fedatto UNIVÁS Prof a Carla Barbosa Moreira CEFET-MG Belo Horizonte, 21 de agosto de 2015. Dedico este trabalho à memória de meu pai, exemplo de alegria, honestidade e humildade, e também às duas pérolas que se mudaram para a casa do Pai durante este percurso: minhas irmãs Ângela e Angélica. A eles, meu eterno amor e minha eterna gratidão, pelo apoio incondicional e por sempre acreditarem na efetivação deste sonho. AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar a Deus, que não me desampara em tempo algum, sendo minha leal, doce e constante companhia. Ao professor Luiz Francisco Dias, pela orientação e por me despertar para essa nova concepção de estudos linguísticos, provocando-me curiosidade e encantamento. Agradeço especialmente pelo exemplo de sensibilidade, de respeito a cada um de seus orientandos e pela humanidade com que conduz a difícil tarefa de fazer pesquisa. Às professoras Helcira Maria Rodrigues de Lima (UFMG) e Rivânia Maria Trota Santana (UFOP), pela criteriosa leitura do texto de qualificação e pela contribuição para o aperfeiçoamento desta pesquisa. Aos professores da Faculdade de Letras da UFMG e ao do Programa de Pós- Graduação em Estudos Linguísticos, pela competência e pelo profissionalismo com que contribuíram para minha formação. Às minhas filhas Penélope e Tamiris, criaturas lindas com que Deus me presenteou, pela compreensão, apoio incondicional e por entenderem minhas constantes ausências em função deste projeto. A vocês, o meu eterno amor e gratidão. À minha mãe, Edir Resende Ramos, lição de humildade e força, pelas palavras de incentivo, pela força no abraço, pelo apoio e carinho constantes e, especialmente, por nos ensinar, a mim e a meus irmãos, a prática de oração e fé. Aos meus irmãos, José Mauro, Bruno e Abelardo, por dividirem comigo dores e conquistas nesta caminhada. Ao meu esposo, José Horta, por me conceder força nos momentos de fragilidade e por trilharmos uma trajetória longa e linda. Obrigada por você estar ao meu lado em todas as horas, fiel companheiro, pelo amor, pelo carinho, pela força, pela compreensão e pela oração. 6 Aos colegas e à gestão do IFTM, pelo precioso incentivo de afastamento nesses anos; pelas conversas amigas sobre o exercício da docência, sobre o amor, sobre o Brasil, sobre mim, sobre vocês; pelas crenças que nos unem; e por me mostrarem, com o próprio exemplo de profissionalismo, que os caminhos podem ir além do que inicialmente imaginávamos. Aos colegas do Grupo de Estudos da Enunciação, Luciani, Elke, Emiliana, Joana, Priscila, Duarte, Carol e Igor, graças a quem muitas ideias apresentadas aqui foram despertadas. Agradeço também, sinceramente, pela verdadeira amizade que hoje nutro por vocês. Aos funcionários do Pos-Lin, pela eficiência com que conduzem toda a parte burocrática da pós-graduação. À Universidade Federal de Minas Gerais, por ser um espaço de livre pensamento e por me propiciar todos esses anos de pesquisa e aprendizado. À FAPEMIG, pela bolsa concedida e pelo valioso incentivo aos trabalhos de pesquisa no Brasil. RESUMO Propomo-nos a elucidar a configuração sintática e semântica do uso das formas imperativas em trechos de músicas endereçadas à mulher, a partir da perspectiva teórica da Semântica da Enunciação (GUIMARÃES, 2005) e de uma sintaxe de bases enunciativas (DIAS, 2002), que, por sua vez, filia-se a essa semântica. Buscamos compreender o fato sintático na interface entre a dimensão material (orgânica) e a dimensão enunciativa da língua. Assim, enfatizamos o uso do pronome/sujeito em consonância com o verbo na forma imperativa na configuração da pessoalidade para detectarmos o perfil discursivo dessa mulher em três períodos distintos: década de 1950, na década de 1980 e anos de 2000, considerando que esses lugares sintáticos consistem em lugares de configuração de referência (DIAS, 2006a), com o intuito de reconhecermos especificidades enunciativas na constituição de uma referência feminina. Investigamos, precisamente, os traços semântico- enunciativos que reconhecemos como definidores da constituição das sentenças com as quais trabalhamos, a saber, o modo de enunciação, a cena e a própria configuração desses traços, a fim de delinear o perfil da mulher em cada um dos períodos propostos, produzindo a aplicação de uma sintaxe de bases enunciativas. Palavras-chave: formas imperativas; mulher; sintaxe; enunciação. 8 ABSTRACT In this study, we propose to elucidate the syntax and semantics configuration of the use of the imperative forms in musical excerpts addressed to the woman, on the theoretical perspective of Semantics of Enunciation (GUIMARÃES, 2005) and a syntax enunciative bases (DIAS, 2002), wich, in its turn, is affiliated to these semantics. We seek to understand the syntactic fact at the interface between the material (organic) and the enunciative language dimensions. Thus, we emphasize the use of the pronoun/subject in accordance with the verb in the imperative form in the personality configuration to detect the discursive profile of this woman in three distinct periods; in the 1950 and 1980 decades, and in the years 2000, considering that those syntactic places consist of the reference configuration spaces (DIAS, 2006a), in order to recognize the enunciative specificities in the fenale constitution reference. Precisely, we investigate the semnatic-enunciative traits that we recognize as definers of the constitution of the sentence with which we worked, namely, the enunciation mode, the enunciative scene and the proper configuration of these traits, to outline a profile of the woman in each of the proposed periods, producing the application of a syntax enunciative basis. Keywords: imperative forms; woman; syntax; enunciation. 9 A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê. Arthur Schopenhauer SUMÁRIO Página RESUMO ................................................................................................................................. 7 ABSTRACT ............................................................................................................................. 8 CONSIDERAÇÕES INICIAIS .............................................................................................. 12 OBJETIVOS .......................................................................................................................... 17 Geral ................................................................................................................................... 17 Específicos ......................................................................................................................... 17 CAPÍTULO 1 ........................................................................................................................... 18 O IMPERATIVO E SUA DIVERSIDADE DE ABORDAGEM ..................................... 18 1.1 Formas imperativas na perspectiva formal................................................................... 18 1.2 Pragmática e formas imperativas ................................................................................. 26 1.3 Enunciação e formas imperativas ................................................................................. 39 1.4 As formas e a questão da subjetividade: o sujeito na língua ........................................ 43 1.4.1 A pessoalidade e o sujeito na perspectiva enunciativa .......................................... 46 CAPÍTULO 2 ........................................................................................................................... 63 REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................................... 63 2.1 A semântica do acontecimento..................................................................................... 63 2.2 A noção de lugar sintático ............................................................................................ 71 2.3 Formas nominais reforçando o sentido de ordenação .................................................. 79 2.4 Um lugar para as formas imperativas ........................................................................... 83 2.5 As noções de site e place ............................................................................................. 85 2.6 Formas analíticas, formas sintéticas e articulação sintática ......................................... 90 2.7 A noção de pointage ou apontamento .......................................................................... 93 CAPÍTULO 3 ........................................................................................................................... 99 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ...................................................................... 99 3.1 A constituição da referência na configuração do sujeito .............................................. 99 3.2 Inspiração metodológica ............................................................................................ 101 3.2.2 Regularidades na enunciação: pressupostos ........................................................ 106 3.3 Breve percurso sobre os métodos ............................................................................... 107 CAPÍTULO 4 ......................................................................................................................... 109 A MULHER NA CANÇÃO E AS FORMAS DE APREENSÃO DO SEU REFERENCIAL EM UMA ABORDAGEM ENUNCIATIVA ..................................... 109 4.1 As formas, o enunciado e a relação com o simbólico ................................................ 112 4.2 Formas imperativas e a constituição do perfil feminino dos anos de 1950 ................ 117 4.2.1 Formas nominais agregadas à representação de condição feminina ................... 122 4.3 A consolidação do paradoxo: entre Eva e Maria, a mulher ideal ............................... 133 4.3.1 Entre a noção de sintagma e de formação ........................................................... 133 4.3.2 Formações nominais e formas/formações verbais imperativas ........................... 137 4.3.3 Delineando o perfil feminino dos anos de 1980 .................................................. 139 11 4.3.4 A disciplinarização do corpo .................................................................................. 146 4.4 Amante, guerreira, frágil, forte, mãe, profissional, razão, emoção: as múltiplas faces da mulher no mundo da tecnologia ........................................................................................... 149 4.4.1 A configuração da mulher no discurso midiático ................................................ 149 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................ 169 REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 177 ANEXOS ............................................................................................................................. 188 DÉCADA DE 1950 ............................................................................................................. 188 DÉCADA DE 1980 ............................................................................................................. 196 TERCEIRO MILÊNIO (ANOS de 2000) ........................................................................ 207 12 CONSIDERAÇÕES INICIAIS Esta pesquisa se dedica ao estudo das formas verbais imperativas em músicas endereçadas à mulher, numa abordagem enunciativa. O corpus, constituído de fragmentos de letras de músicas mais tocadas em três períodos, nos anos de 1950, 1980 e 2000, justificou-se por propiciar uma análise profícua da utilização das formas imperativas, em consonância com o pronome sujeito, não materializado, na identificação do perfil feminino traçado em cada um dos períodos em estudo. Teremos como suporte teórico a semântica da enunciação, fundamentada em Bally, Benveniste e Ducrot, desenvolvida no Brasil por Guimarães (2005). No âmbito dessa abordagem, Dias (2002, 2009) defende a tese que a configuração orgânica da língua adquire identidade quando agregada a uma dimensão enunciativa. Acreditamos que os estudos destinados à análise das construções gramaticais em determinados gêneros textuais, sobretudo no que se refere à ocupação dos lugares sintáticos e às condições projetadas por fatores enunciativos nos quais se inscreve a sentença, propiciam uma reflexão fecunda no universo da textualidade. Nesse sentido, um estudo da composição musical ganha pertinência por possibilitar uma reflexão nos estudos de gramática, sustentados na relação entre língua e exterioridade, buscando domínios de referência que a sustentam estruturas formais e auxiliam em seu entendimento. Pretendemos, a partir dessas reflexões e dos estudos já desenvolvidos nesse campo teórico sobre os lugares sintáticos, apontar fatores enunciativos que podem contribuir para a identificação do perfil discursivo da mulher. A hipótese deste trabalho foi a de que, por meio de uma análise comparativa do uso da forma verbal imperativa na segunda pessoa do singular, via materialidade pronominal, é possível verificar a constituição de perfis distintos de mulher, suas posturas e seus papéis históricos e socialmente determinados. Compreender o fato gramatical de forma mais ampla constitui uma das projeções atuais dos estudos da Linguística, e continuar explorando esse campo representa contribuição significativa para o enriquecimento dos trabalhos já desenvolvidos nessa área. Por isso, utilizamos como proposta para esta pesquisa uma ampliação da 13 noção de forma linguística, com o intuito de assumirmos uma abordagem segundo a qual unidades alinhadas e estruturadas organicamente são apenas algumas das nuances a serem explicitadas em um estudo de língua na esfera da gramática. Nessa perspectiva, utilizamos uma abordagem gramatical apta a dar conta do funcionamento da língua, “trabalhando a relação entre a configuração orgânica e suas projeções de acionamento enunciativo” (DIAS, 2005, p.121). O trabalho com as formas imperativas no corpus selecionado propicia a invocação de perfis diferentes de mulher, os quais podem ser depreendidos por meio da relação pronome sujeito/forma verbal. No percurso de nossas análises, o intuito foi responder às seguintes questões: 1. Quais são as características específicas das formas imperativas no âmbito de um estudo enunciativo e em outros campos teóricos dos estudos linguísticos? 2. Como se constitui a relação entre formas imperativas e lugar de sujeito nas sentenças, bem como nas composições musicais? 3. Como vai se delineando o perfil feminino de cada período proposto, tendo como âncora a constituição dessas composições musicais? Dito de outra forma: a quem as composições selecionadas se dirigem pela via das formas imperativas? A partir de análises do uso das formas imperativas em músicas endereçadas à mulher, verificamos também que é possível identificar essa mulher, o contexto em que ela se insere nos três períodos, abordando o conteúdo formal dessas construções e a esfera enunciativa de análise, bem como o modo como os verbos na forma imperativa vão exercer papel de destaque, marcando a relação entre o locutor e o seu interlocutor, que ora estão em níveis hierárquicos diferentes, ora no mesmo nível. O impulso inicial deste trabalho foi a questão da interlocução interna (eu/tu) suscitada pela forma imperativa. Uma leitura acurada de Benveniste (2005), portanto, constitui algo relevante para a compreensão da enunciação. Ele trata como o linguístico, ao se estabelecer a enunciação, traz uma realidade de discurso singular que se refere a eu/tu, sendo eu identificado apenas em termos de locução na instância de discurso, tendo sua existência reconhecida no ato em que se proferem as palavras. Na situação de alocução, tu é o alocutário que, na presente instância do discurso, 14 contém tu. Quando se estabelece uma enunciação, usar a língua já é um diálogo, porque usar a língua significa se valer desses pronomes: eu/tu “individuais linguísticos”. E é justamente nessa passagem da língua para o discurso que há a manifestação desses individuais linguísticos. Tomar a forma linguística pelo viés da enunciação já é colocar-se numa relação entre eu e tu, independentemente das pessoas reais. Na medida em que concebemos a forma linguística na relação com o lugar sintático, observamos que o imperativo leva o verbo a sair do estado de infinitivo, há uma instanciação provocada, motivo pelo qual o verbo muda de um estado a outro, a pessoalidade se instala e, ao se instalar, retira-se o verbo de estado de dicionário, justamente na invocação da segunda pessoa. Acreditamos que a maneira de identificar discursivamente essa pessoa encontra-se na enunciação. Consideremos o trecho “Entra, meu amor, fica à vontade e diz com sinceridade o que desejas de mim. Entra, pode entrar, a casa é tua” (RODRIGUES; GONÇALVES, 1950). Os sujeitos gramaticais das formas verbais entra, fica, diz e pode, por exemplo, não aparecem materializados nas sentenças, o que não quer dizer que eles não existam. Há especialidade enunciativa desse elemento sintático, embora não materializado organicamente. Isso é reconhecer no sintático uma base para a enunciação, que é o “lugar”, reforçando a tese de que o que constitui a sintaxe é um estado de lugares sites 1 , e não de termos. A segunda pessoa não aparece materializada, mas é constitutiva, e há um lugar de pertinência para ela, uma porta de entrada para se configurar a relação entre enunciado e sentença. Quando o locutor enuncia entra, diz, fica, é constitutiva a instauração do sujeito na sentença, que pode ser representado por um tu. Essa questão faz emergir algo mais específico para o nosso trabalho. Quem é esse tu? O interlocutor? Entramos na questão da discursividade: lugar de chamamento para o 1 Na língua francesa, site e place equivalem ao termo “lugar”, no português. Quando falamos em site, falamos em lugar qualificado sintaticamente, com determinada (não absoluta) dependência da localização na sentença na língua portuguesa (lugar de sujeito, lugar de objeto), ao passo que place se refere tão somente à localização de um termo na sentença, tendo em vistas as relações de contiguidade (Y depois de X, seguido de Z). 15 histórico, uma questão de apontamento, conceito abordado por Berrendonner, 1990). Esse outro está apontando para quem? Quando se trata das formas imperativas, há enunciados voltados para o outro, ou seja, uma instanciação no lugar do sujeito. E esse outro quem é? Partindo do estudo proposto cujo corpus abarca músicas de três períodos distintos (anos de 1950, 1980 e 2000), tornou possível analisar a identidade desse tu na ocupação do lugar de sujeito em cada período. Via materialidade linguística, acreditamos que as identidades observadas na constituição das formas imperativas foram se delineando de modo diferente em cada período. A escolha do corpus (músicas mais tocadas nesses períodos) se justificou pelo fato de propiciar uma reflexão sobre a representação e construção social do perfil feminino de cada época, o que permitiu uma discussão instigante no que diz respeito ao papel das mulheres na sociedade. Esse perfil foi emergindo do silêncio consubstancial a elas imposto historicamente, bem como da obscuridade e da dissimetria de sua relação desigual com os homens. Considerando que a música constitui uma via de comunicação, emoção, ludicidade, impressões, entre outras, e que essas dependem de um auditório, é natural a utilização das formas imperativas em suas construções, devido ao alto grau de persuasão imbuído nessas formas. Daí o estudo da subjetividade na concepção de Bally (1932), Breal (1999), Benveniste (2005, 2006), e a contribuição de Milner (1989) na constituição de lugares sintáticos, na perspectiva enunciativa da saída do verbo do estado de infinitivo para a constituição da pessoalidade, e de Berrendonner (1990, 2002) na noção de apontamento na identificação dessa subjetividade e no papel que ela exerce nos enunciados das letras musicais. Foi imprescindível estabelecer um parâmetro análogo entre essa questão e outra pertinente: a da relação entre os sexos, sua permanência ou a mudança (constatadas ou desejadas) da ordem das estruturas referentes aos gêneros. Tal temática poderá ser subsidiada pela investigação teórica filiada a Perrot (2012), Bourdieu (2014), entre outros. 16 Por fim, salientamos a consistência da pesquisa no que se refere aos estudos das formas gramaticais com abordagem enunciativa, como contribuição efetiva, inclusive na questão do gênero social e sua importante discussão, que mescla conhecimento de língua e sociedade. Esta tese foi estruturada em quatro capítulos. No capítulo 1, propusemos uma revisão bibliográfica sobre os estudos das formas imperativas no âmbito da tradição, fizemos um percurso nas análises do campo da pragmática e concluímos com uma abordagem que contempla os estudos da enunciação. No capítulo 2, constituído da fundamentação teórica maior que subsidiou a pesquisa, passamos pela semântica do acontecimento proposta por Guimarães (2005), juntamente com a noção de site e place de Milner como proposta de estudo sobre os lugares sintáticos e aprofundada por Dias (2007) no âmbito da enunciação e finalmente a reflexão de Berrendonner no que diz respeito aos estudos dos implícitos e sua relação com a memória e o conceito de apontamento, como auxílio na identificação dos perfis femininos abordados neste trabalho. No capítulo 3, explicitamos o percurso metodológico desta pesquisa. No capítulo 4, com base nas análises das formas verbais imperativas em sua relação com o sujeito, traçamos em três tópicos os perfis de mulher identificados em cada um dos períodos em estudo: anos de 1950, 1980 e 2000. 17 OBJETIVOS GERAL 1. Delinear o perfil discursivo da mulher, por meio da análise do uso de formas imperativas, em músicas endereçadas a ela, compostas em três períodos distintos: anos de 1950,1980 e 2000. ESPECÍFICOS 1. Analisar o uso das formas imperativas numa perspectiva enunciativa. 2. Refletir sobre o uso da segunda pessoa associado ao verbo na constituição formal do gênero musical. 3. Estabelecer uma reflexão a respeito do uso das formas imperativas nas composições musicais, na contribuição para a constituição do perfil discursivo feminino. 18 CAPÍTULO 1 O IMPERATIVO E SUA DIVERSIDADE DE ABORDAGEM Neste capítulo nos propusemos a fazer um percurso nas concepções que norteiam o uso das formas imperativas, quais sejam: a perspectiva formal, a perspectiva pragmática e a abordagem à qual nos filiamos, que é o estudo da semântica da enunciação que propõe uma reflexão sobre a dimensão orgânica associada à dimensão enunciativa da língua. 1.1 FORMAS IMPERATIVAS NA PERSPECTIVA FORMAL Segundo a tradição, o modo imperativo é empregado como afirmativo e negativo. Esse modo verbal é concebido da seguinte maneira: a) a segunda pessoa do singular tu e a do plural vós são derivadas do modo indicativo, eliminando-se o s final do verbo; e b) as primeiras e terceiras pessoas do imperativo afirmativo e todas as demais do imperativo negativo advêm do presente do subjuntivo. Essa acepção demonstra que houve muitas mudanças na concepção das formas imperativas no decorrer do tempo. É o que constataremos a seguir Rivero (1994, p. 92) propõe a classificação das línguas com imperativo dotado de morfologia própria, apresentando dois grupos em função do comportamento: línguas que apresentam imperativo próprio com sintaxe imperativa própria e línguas que apresentam imperativo próprio sem uma sintaxe própria ao imperativo. O autor avaliou os verbos imperativos em relação a dois fatos sintáticos: a) a possibilidade de esses verbos serem negados; e b) a posição dos clíticos em relação aos verbos. Nas línguas estudadas, a forma imperativa verdadeira, que aparece em construções diretivas, sem sujeito manifesto, com morfologia distinta do modo indicativo, não pode ser negada; nega-se apenas a supletiva. No imperativo, o clítico vem antes do verbo (próclise). Com morfologia distinta, sem sintaxe distinta, a forma imperativa pode ser negada. Em relação ao clítico, este aparece após o verbo. 19 No português europeu, temos duas características para o imperativo verdadeiro: a) morfologia distinta do modo indicativo; e b) impossibilidade de negar o imperativo verdadeiro. (1) Faz tudo (2 a pessoa do singular) – Imperativo. (2) Fazes tudo (2 a pessoa do singular) – Indicativo. Em construções negativas: (3) Não brinca! (4) Não brinques (forma supletiva, derivada do subjuntivo). No que diz respeito à posição, os clíticos não podem ocupar a posição inicial, em sentença imperativa ou não. O português europeu pode, assim, ser classificado como língua de imperativo verdadeiro com morfologia e sintaxe distintas. Em termos de tradição gramatical, o português brasileiro (PB) é também classificado parcialmente como língua de imperativo verdadeiro. Exibindo forma imperativa distinta do modo indicativo, também não nega o imperativo verdadeiro, valendo das formas supletivas não fales. Já o português falado difere do europeu, admitindo clíticos em posição inicial em construções imperativas ou não. A distribuição das formas do imperativo no português europeu está associada ao traço {± distanciamento}, o qual, por sua vez, remete a condições semântico-pragmáticas inerentes à interação verbal, em articulação com o sistema pronominal [...] o português brasileiro falado exibe formas imperativas alternativas no contexto discursivo do pronome você [...] com predominância de uma ou outra forma em função de aspectos geográficos, conforme já relatamos (SCHERRE et al., 2007, p. 206). É importante a reflexão sobre o uso pronominal nas distintas regiões para que se possa estabelecer uma correlação com a expressão do imperativo, haja vista a coexistência das duas formas em diferentes regiões, inclusive em cidades de um mesmo estado, como é o caso de Santa Catarina, cujo uso do pronome demonstra um comportamento distinto com equilíbrio do tu/você em cidades como Florianópolis 20 (predomínio do uso do tu com imperativo verdadeiro), Chapecó e Lajes (predomínio do pronome você, com imperativo supletivo), por exemplo. Há uma confluência de formas verbais de 2 a e 3 a pessoas que consiste na gramaticalização parcial da forma de tratamento você como pronome de 2 a pessoa. No PB contemporâneo, não se verifica o uso do imperativo verdadeiro em contexto interacional marcado pelo traço {-distanciamento} e o uso do imperativo supletivo em contexto interacional marcado pelo traço {+distanciamento}. O uso do tratamento você familiar, proveniente de Portugal, consolidou-se desde o século XVII com traços de {-distanciamento}, o que beneficia o uso do imperativo verdadeiro. Esse quadro possibilita inferir que no PB configura-se um processo de sincretismo morfológico na forma do indicativo e no imperativo, cabendo, pois, um aprofundamento a respeito das questões gramaticais e da observação se no PB esse fato pode ser associado ao uso de uma sintaxe própria. A negação não impõe limitação no que diz respeito ao aparecimento de formas alternativas: ambas as formas imperativas podem ser negadas. (5) Ei, não leva a mal. (6) Não tome partido, é ruim para você. Estudos confirmam que as construções imperativas favorecem o uso do imperativo supletivo, contrariamente às construções imperativas afirmativas que favorecem o uso do imperativo verdadeiro. “Há uma correlação entre as estratégias de negação das línguas e a possibilidade de negar o imperativo verdadeiro (ZANUTTINI, 2005)”: línguas cuja negação ocorre em posição anterior ao verbo não negam imperativo verdadeiro, ao contrário das línguas com negação pós-verbal. A negação não impede o uso de ambas as formas de imperativo. É válido ressaltar que no PB coexistem três tipos de construções negativas: a negação pré-verbal, a negação pós-verbal e a dupla negação. A primeira tende a favorecer o uso do imperativo supletivo, já as demais favorecem o uso do imperativo verdadeiro. (7) Não fale comigo desse jeito. 21 (8) Fica assim não. (9) Não esquenta não. A ocorrência da dupla negação e da negação pós-verbal é uma característica que difere o PB do português europeu. Trata-se de uma língua em essência proclítica, admitindo-se a análise segundo a qual o posicionamento dos clíticos no PB se deve a mudanças no nível da prosódia e que os clíticos não necessitam de se apoiar em elementos precedentes. Portanto, qualquer sentença iniciada por clíticos é aceitável. (10) Me dê um único motivo para te perdoar. Há ocorrência gradativa do uso do pronome reto depois do verbo e da presença da forma imperativa verdadeira. (11) Deixa ele à vontade. Estamos, portanto, “diante de formas novas coexistindo com formas residuais associadas a sistema(s) gramatical(is) presentes em outro(s) momento(s) diacrônicos da língua, especialmente para as áreas geográficas em que predomina o imperativo verdadeiro” (SCHERRE et al., 2007, p. 221). Entre os traços do sistema gramatical no PB em relação à inovação estão: a) imperativo verdadeiro associado ao pronome você; b) pronome do caso reto pós-verbal; c) pronomes clíticos proclíticos; e d) negação do imperativo verdadeiro. O sistema novo fica mais evidente com o aumento do imperativo verdadeiro e a alteração nos contextos de uso do imperativo, devido aos clíticos, bem como por meio da relação mais estreita entre a forma do imperativo no contexto do pronome você e o uso do pronome do caso reto à direta do verbo. Devido a esse fenômeno, torna-se impossível a cliticização, portanto é impróprio falar em marcação sintática. Faz-se necessário, pois, levar em conta ocorrências de âncoras discursivas como o vocativo e a sintaxe do sujeito. Esse fato nos leva a crer que o PB não apresentaria traços de línguas de imperativo verdadeiro. Deve-se discorrer sobre o papel do vocativo em concorrência com o sujeito da construção. 22 Em estudos sobre a presença ou ausência do vocativo no uso do imperativo associado à forma indicativa em diálogos de histórias em quadrinhos, Scherre et al. (2007) concluem que a presença do vocativo favorece o imperativo verdadeiro. Esse fato pode ser entendido à luz da perda de distinção da morfologia imperativa e do modo indicativo, o que nos leva a crer que um termo que está na interface entre a sintaxe e a semântica se comporta como suporte que assegura a leitura imperativa e não assertiva. Em síntese, a instauração do discurso dialógico oral possibilita a alternância entre o imperativo verdadeiro e o supletivo. Uma das características do imperativo é o fato de a sentença imperativa ser uma construção sem sujeito expresso (fala/fale comigo). Todavia, em construções como ‘você, fala agora’ pode ocorrer ambiguidade na designação do pronome como sujeito ou vocativo. A mesma construção dita na forma supletiva (você fale agora) é interpretada como imperativa, pois uma oração sem elementos do tipo talvez (talvez você fale agora) é sempre interpretada como imperativa. Certifica-se aí a independência da forma subjuntiva quanto ao contexto/discurso, na configuração da leitura diretiva. Em relação aos problemas de interpretação no âmbito do imperativo verdadeiro, este se correlaciona à sintaxe do sujeito no PB cujas características como inversão do sujeito/verbo pode comprometer o entendimento do sujeito. Constatamos que a distribuição do imperativo verdadeiro está associada a recursos prosódicos e discursivos em articulação com o vocativo em convergência com fatores sintáticos e semânticos, discursivos e prosódicos (fator essencial na identificação dos tipos de frase no PB). A reflexão sobre a expressão do imperativo no PB nos leva a crer que a manifestação das formas do imperativo dito verdadeiro e supletivo nas perspectivas translinguística e transdialetal contribui para examinar propriedades gramaticais inovadoras em relação a outros períodos diacrônicos da língua. Esta análise revela o desenvolvimento de um sistema com propriedades que o diferenciam de várias línguas tidas como base de referência. Na nuance translinguística foram observadas línguas como espanhol, grego, entre outras, e pelo imperativo verdadeiro, o francês. Já a expressão gramatical do imperativo no PB no âmbito transdialetal, na variação 23 das formas conhecidas como verdadeira e supletiva, os dados revelam que o imperativo verdadeiro possui características próprias que o diferenciam das línguas estudadas, forma exclusiva, condicionada pela sintaxe da negação e associada à distribuição dos clíticos. Não se alinha ao francês que demonstra ausência de morfologia imperativa e usa formas supletivas para expressar o imperativo. O imperativo verdadeiro no PB ocorre em estruturas de negação; não apresenta sintaxe específica em relação à posição dos clíticos. A predominância do proclítico em qualquer tipo de sentença, característica esta inovadora do PB, associa-se a pronomes fortes não cliticizados na posição de objeto. O imperativo verdadeiro apresenta sincretismo com o modo indicativo na 3ª. pessoa, que se articula ao pronome sujeito, com a gramaticalização do você que controla a concordância com o verbo na 3ª. pessoa. Isso possibilita a negação do imperativo verdadeiro, mantendo a tendência da negação do imperativo supletivo, dando ênfase ao fato de que a posição da negação à direita do verbo favorece a forma verdadeira. A análise das regularidades confirma a existência de um sistema gramatical no PB com formas variáveis. Identifica-se o uso preferencial do imperativo supletivo, marcada pela sintaxe de negação, revelando um condicionamento discursivo pautado na alternância do clássico tu/você que indica, entre outras perspectivas, o maior ou menor distanciamento. A inovação consiste no uso da forma você, que se manifesta independentemente do maior ou menor distanciamento. Um aspecto instigante é o fato de o imperativo supletivo apresentar tendência sintática concernente aos clíticos que aparecem em estruturas pós-verbais. Essa forma assegura uma leitura imperativa, independentemente do evento discursivo, contrastando com a dependência com âncoras discursivas associadas ao imperativo verdadeiro, sobretudo o uso de recursos prosódicos e de vocativos. Esse contraste suscita reflexões a respeito dos mecanismos linguísticos e extralinguísticos da interpelação dos interlocutores, o que constitui campo de investigação promissora, sobretudo no que diz respeito ao aprofundamento dos aspectos sintáticos, prosódicos e discursivos envolvidos na expressão do imperativo gramatical do PB. Devemos também levar em conta a correlação no PB entre as formas variáveis do imperativo verdadeiro e supletivo, morficamente idênticas às formas do indicativo e do subjuntivo, respectivamente. 24 Reconhecemos que as regularidades depreendem da manifestação das formas linguísticas, no âmbito da variação ou da integração das formas no sistema gramatical, pois revelam que o ser humano é dotado da capacidade de linguagem, cujas propriedades podem e devem ser investigadas. Em pesquisa sobre o uso variável de formas verbais do imperativo em português, Scherre et al. (2007) examinam, em comparação com outras línguas que apresentam o imperativo com morfologia e sintaxe próprias, o chamado imperativo verdadeiro (em português, joga, bate, diz) e o imperativo supletivo (em português, jogue, bata, diga). Os autores apontam a alternância no uso no PB e afirmam que o fato não está relacionado {± distanciamento} ao que rege a distribuição deixe/você/seu vs. deixa/tu/teu nas demais línguas. Em vez disso, a ocorrência simultânea das duas possibilidades no PB evidencia um marcador geográfico. Contudo, embora ressaltem a importância do aspecto geográfico nos estudos sociolinguísticos, os autores propõem reflexões sobre questões transdialetais e translinguísticas “para situar o PB e suas variedades dialetais em relação a um conjunto de línguas para as quais há reflexões sobre a natureza gramatical da estrutura imperativa” (SCHERRE et al., 2007, p. 196). A pesquisa focaliza a segunda pessoa do singular do discurso em estruturas não subordinadas, sem sujeito expresso, características do imperativo gramatical, tomando por base registros das formas tidas como padrão pela tradição gramatical na utilização do imperativo verdadeiro. Diferenças significativas em termos de codificação do traço {± distanciamento} representam a fronteira entre o PB e o português europeu. Esse traço não está gramaticalizado, tanto no uso do imperativo verdadeiro, como no uso do imperativo supletivo, embora se manifeste na alternância entre tu/você em algumas de suas variedades. Braga (2011) afirma que a recorrência do uso da segunda pessoa gramatical tu – a indicativa – com o pronome de terceira pessoa você aponta um fenômeno histórico de variação e mudança linguística. Nas conversações analisadas, observou-se baixa frequência de imperativos, devido ao fato de as condições de interação entre os falantes não favorecerem ordens, pedidos ou sugestões. Também nos anúncios 25 publicitários a variação não ocorre; nestes, as formas originadas do subjuntivo são predominantes. No campo da ficção, a ocorrência de formas imperativas é abundante, por se tratar de uma forma de expressão que favorece a expressão do “reflexo da sociedade”. Para constatar o processo de mudança e os fatores que demonstraram diferentes comportamentos, o autor fez um recorte em intervalos de 25 anos para o período de 1850 a 1975 2 , dando enfoque às relações interpessoais e abordando os aspectos gramaticais e semântico-pragmáticos. Foram avaliadas as variáveis tipos de tratamento, preenchimento e ordem do sujeito, como também a posição do pronome átono. Na esfera semântico-pragmática foram analisadas marcas linguísticas e extralinguísticas, considerando a interferência do grau de formalidade em escolhas no uso do pronome de tratamento, polaridade, tipos de atos de fala, monitoramento por terceiros sobre a conversação, tipo de relação entre interlocutores e posição na hierarquia social. Tudo isso selecionando fatores em ordem de importância. A seleção realizada leva a crer que a relação entre a forma pronominal e forma imperativa enfraqueceu-se ao longo dos anos, pois, em ordem de relevância, foram selecionados neste período tipo de relação entre interlocutores, tipo de ato de fala, polaridade e tipo de tratamento. Dessa maneira, o fator que havia sido selecionado como o mais relevante à variação nos quatro períodos anteriores, passa a ser, entre os selecionados, o de menor peso (BRAGA, 2011, p. 56). Apesar de os dados considerarem o tratamento como fator de menor relevância, o autor considera-o fator principal, por indicar mudança no PB e o enfraquecimento na relação forma verbal e pronome sujeito. Os fatores semântico-pragmáticos como tipo de relação entre interlocutores, tipos de atos de fala e polaridade se sobrepõem aos aspectos gramaticais nesse período na escolha da forma imperativa. As formas indicativas se prestam às relações de menor cerimônia. Nos atos de comando, fatores como cordialidade e rudeza interferem no uso das formas imperativas. A rudeza 2 Artigo resultante da dissertação de mestrado defendida pelo autor, “Desaparecimento da flexão verbal como marca de tratamento no modo imperativo – um caso de variação e mudança no Português Brasileiro”. 26 favorece a indicativa, enquanto a cordialidade favorece a subjuntiva. No conselho, forma de aproximação e intimidade, há o favorecimento do uso indicativo. Nos atos de polidez, como pedido de desculpas, súplica e traços de humildade, as formas subjuntivas são mais favorecidas. Nas peças estudadas pelo autor, as personagens marginalizadas fazem uso do pronome tu, sem que isso interfira na concordância verbal. O mesmo acontece no imperativo. As formas indicativas não podem ser associadas ao uso do pronome tu, mas à imposição da variedade para distinção de diferentes tipos de cerimônia (BRAGA, 2011, p. 60). O autor conclui, assim, que houve enfraquecimento da concordância verbal do pronome sujeito com a forma imperativa. E no período estudado fica evidente o descompasso entre forma imperativa e pronome sujeito, devido a um processo de mudança que acarretou a escolha por uma forma ou outra em função de aspectos semântico-pragmáticos e não gramaticais. Sem dúvida, nessa perspectiva, fazemos um estudo semântico da língua, o que permite extrapolar o âmbito da forma pura e simples. No entanto, esse estudo semântico também não pode ser equiparado a uma abordagem do “nível” semântico da língua, tampouco se aproxima de uma descrição semântica e enunciativa simultaneamente que transcende os aspectos lexicais, proposicionais, textuais, etc. Nesse caso, não podemos afirmar que o locutor, quando enuncia, se apresenta como sujeito da enunciação, isto é, se apresenta nos termos de uma organização linguística específica em uma dada situação espaço-temporal ou que ele produz uma sintaxe da enunciação (cf. FLORES 2013b). Concebê-lo na perspectiva enunciativa como um “ser que fala” é uma proposta limitada. Para nós, o sujeito da enunciação é a própria organização sintagmática, é a própria organização linguística que “denuncia” a presença do homem na língua, tomando de empréstimo o viés proposto por Benveniste. 1.2 PRAGMÁTICA E FORMAS IMPERATIVAS Segundo Condoravdi (2011), a força diretiva do imperativo emerge de uma interação complexa entre fatores convencionais e inferências pragmáticas. Uma das 27 características presentes no uso do imperativo é pensar a força diretiva. Construções diretivas no sentido convencional do imperativo limita a análise empírica. Para o autor, o efeito do uso da forma do imperativo como forma de aproximação pressupõe características singulares: a) expressa um conteúdo relacionado à ação futura do destinatário; b) transmite a vontade do falante em relação ao ato a ser realizado; e c) representa um modo de persuadir o destinatário a realizar alguma coisa. Um modo simples de distinção entre as formas do imperativo está nas regras de denotação semântica, no convencional efeito dinâmico e nas adicionais consequências pragmáticas de um jogo de expressão para produzir o efeito global de imperativo (CONDORAVDI, 2011, p. 3). Segundo o autor, a sentença radical fornece o conteúdo da sentença e governa seu uso da seguinte maneira: a) pelas regras específicas da sentença no jogo da linguagem; b) por meio de uma associação com a convenção; c) como indicador de atitude de base cognitiva de desejo; e d) como um indicador de desejo de concretização em nome de qualquer falante ou destinatário. O autor perpassa distintas teorias e perspectivas, dentre elas o imperativo visto como expressão modal à qual é adicionada uma visão comum, que é um conjunto de condições que asseguram que este modo só pode ser usado em contextos nos quais o modo tem efeito induzido de forma pragmática performativa cuja denotação é a necessidade modal baseada no desejo do falante em relação à ação do destinatário ou à indução da ação, dependendo do contexto fornecido, se é de ordenação ou desejo do falante. Já o contexto de mudança de efeito vai além do senso comum e o efeito pragmático potencial induz a ação ou informação a respeito do entendimento do falante sobre o que é denotação. Outra perspectiva vislumbra o imperativo como sedução no âmbito convencional do termo, expressa propriedades potenciais do destinatário que se encaixam em um parâmetro discursivo especial dos afazeres do destinatário. O modo representa as instruções para o ouvinte atualizar o conjunto de planos que modelam suas intenções, ou denota planos que são adicionados à agenda do ouvinte, assim que a ordem é 28 acatada. O imperativo também é visto como proposições acrescidas aos afazeres do destinatário que modela as propostas de afazeres para acrescentar outras que podem ser aceitas ou rejeitadas. Nessa ótica, a denotação é vista como propriedade potencial do interlocutor, ou proposição sobre as ações futuras do destinatário, ou até mesmo sua ação. O contexto de mudança de efeito impõe ao falante a exigência de que o destinatário adquira essa propriedade, ou o instrui a ter a intenção de realizar, ou de se comprometer a executar a ação, ou de seduzi-lo a levar a proposição como uma prioridade. E no campo do potencial efeito pragmático, temos a informação sobre o desejo do falante. Uma outra concepção é o imperativo concebido como desejo do falante como convenção em pé de igualdade com suas crenças. A denotação está de acordo com as ações futuras do destinatário; o contexto de mudança de efeito aponta o desejo de que a ação do ouvinte seja realizada e o potencial efeito pragmático seduz o destinatário a realizar a ação. O autor reconhece também o conceito de heterogeneidade funcional ou extralinguística que concebe o imperativo como ato de fala que expressa comando, avisos, pedidos, conselhos, permissões, concessões e ofertas. Podem-se observar, pelo menos, cinco tipos de atos de fala no imperativo; ao mesmo tempo, certos tipos de atos de fala são sistematicamente excluídos: (12) Stand at attention! (command). (13) Don’t touch the hot plate (warning). (14) Hand me the salt please (request). (15) Take these pills for a week (advice) (CONDORAVDI, 2007) 3 . Em exemplos como (16) Get a promotion! 4 e 3 Fique em posição de sentido. Não toque na placa de aquecimento. Passe-me o sal, por favor. Tome essas pílulas por uma semana (tradução nossa). 29 (17) I want you to get that promotion 5 , o imperativo não pode ser utilizado como promessa, muito menos para assegurar ao locutor que ele receberá uma promoção. Como podemos observar, a heterogeneidade e a exclusão sistemática de certos tipos de atos de fala, associadas ao imperativo indiscriminadamente, apontam as diferentes forças ilocucionárias na semântica de uma expressão imperativa. Segundo Condoravdi (2007), há estudiosos que tratam melhor da atualização dos afazeres do ouvinte. No entanto, o autor considera que essas propostas apresentam o problema de levar em conta desejos, permissão, convite, ou porque não existe agente da ação, ou até mesmo porque a persuasão parece muito forte. Na denotação de contexto de dependência, Schwager (2006) é o primeiro a levar a sério a heterogeneidade funcional, e para Condoravdi (2007) é a única teoria que dá conta dos fenômenos em sua totalidade. Uma subespecificação parece estar em melhor posição para lidar com a heterogeneidade e prever o aliciamento do locutor. O desejo do falante como algo convencional, a priori tratamento adequado da heterogeneidade funcional, leva em conta que só a informação convencionalizada no desejo do falante pode ser vista como desvantagem. Se duas sentenças imperativas são interpretadas como revisão ou ambas se contradizem, ainda que sejam expressas em tempos distintos, a segunda deve ser interpretada como correção da primeira. (18) Stay inside all day. 6 (19) Okay, go outside and play. 7 Curiosamente sentenças imperativas contraditórias, expressando desejo, são coerentes, ao passo que desejos conflituosos também podem ser coerentemente 4 Os exemplos de 12 a 19 são extraídos do texto de Condoravdi (2007), cuja tradução é nossa. Tenha uma promoção. 5 Eu quero que você tenha uma promoção. 6 Fique em casa o dia inteiro. 7 Ok, vá lá para fora e jogue. 30 afirmados como querer. As sentenças expressas com imperativo são exigidas para ser consistentes, mesmo quando o imperativo não constitui persuasão. Enquanto o imperativo pode expressar mero desejo, em alguns contextos pode não se valer dessa função. (20) Have a good trip and get some work done on the train 8 . Kratzer (1981), em análise da modalidade, afirma que a fonte de ordenação é usada para classificar as palavras na base modal, classificando mundos que transformam as proposições em pedido real. Cada fonte de ordenação pode ser bem consistente e suficiente para a interpretação de modo. Quando duas sentenças são incompatíveis, elas devem ser classificadas estritamente. A estrutura de preferência consiste em ser usada como diretriz para a ação. Às vezes, estruturas de preferências são similares às de desejo, mas não o são. A multiplicidade de estruturas preferenciais consolidadas influencia a decisão de um agente; se este quer agir, ele integra todas as estruturas em uma mais global, resolvendo qualquer conflito. Essas exigências garantem que não há objetivos espúrios e as classificações consistentes são guardadas na efetiva estrutura de preferência. Já em relação aos compromissos, o falante não pode ser levado a fingir a respeito do desejo que ele expressa no imperativo. It is not enough for the speaker to have privileged access (epistemic authority) to the desire he express, it must be impossible for him to lie about it using an imperative. An underspecification account that treats (some) imperatives as assertions about private desires predicts that (at least) those imperatives can be used insincerely for lying (CONDORAVDI, 2011, p. 11). 9 O imperativo é tido como ordem do falante, mas não reconhecido nessa perspectiva pelo ouvinte, assim como ordem explícita como verbo performativo. Isto não quer dizer que o significado convencional da sentença imperativa e das sentenças com um 8 Tenha uma boa viagem e faça algum trabalho no trem (idem). 9 Não é suficiente para o falante ter acesso privilegiado (autoridade epistêmica) para expressar seu desejo. Deve ser impossível para ele mentir sobre isso usando um imperativo. Uma subespecificação que trata (alguns) imperativos como afirmações sobre desejos privados prevê que (pelo menos) os imperativos podem ser usados sem sinceridade (tradução nossa). 31 verbo performativo é a mesma coisa. A expressão do imperativo concebido como ordem traz uma ordenação a respeito do fato, o que é um problema, porque se o falante não tem autoridade, o fato não será executado. Se eu tenho como uma ordem: (21) Sign off on that report 10 . Isto pode não significar uma ordem, pois às vezes você não tem autoridade para assiná-lo ou a ordem falha e a sentença em razão do que eu ordeno que você assine é falsa, uma vez que você assina não apenas porque o falante ordenou, o que, de certa forma, explica o fato de os performativos não poderem ser usados falsamente; um enunciado pode ser expresso como ordem ainda que o falante não tenha autoridade para ordenar. Os verbos performativos, bem como as promessas e a ordem, são analisados como se predicassem algo sobre o compromisso do agente. (22) Ele prometeu me amar a vida toda. Com isso, a verdade das sentenças garante o enunciado. (23) Eu lhe prometo ser fiel. Consequentemente, o enunciado serve como testemunha da própria verdade, por isso não pode ser falso. A falsa relatividade do conceito de ordem também explica por que a sentença (21) é aceita como o falante ordenando que o destinatário assine o relatório, mesmo que ele não tenha autoridade para isso. O compromisso com o discurso, como estado de restrição futura, ou seja, a fala e o comportamento do falante, tudo isso tem a ver com o conjunto legal ou esperado de estados futuros de discurso que restringem o compromisso do agente com o que ele pode ou não dizer sem que falhe. Há autores que assumem que é a assunção de um compromisso que exclui estados futuros de mundo que promovem estados de futuros certos do mundo impossível. Entretanto, compromissos são compromissos de ação, ou seja, um agente pode estar 10 Assine o relatório (tradução nossa). 32 comprometido a agir como se ele estivesse certo de suas preferências efetivas, ou seja, de acordo com suas crenças. Isto é, assumir um compromisso é agir, de certa forma. Não guardar um compromisso significa assumir uma escolha que resulta numa ação ou abstenção desta ação. Podemos caracterizar a assunção de um compromisso como a exclusão de certos afazeres futuros, como não assumir compromissos. O compromisso sem ser assumido não constitui compromisso. A construção de compromissos como compromissos de ação significa características de decisões teóricas, isto é: If an agent is committed to act as though he has an effective preference for p, he is also committed to act as though he believes he is committed to having an effective preference for p. If an agent is committed to act as though he believes that he is committed to having an effective preference for p, he is also committed to act as though he effectively preferred p (CONDORAVDI, 2011, p. 14). 11 O imperativo como atitude de preferência é visto como estrutura de preferência efetiva de um agente. Neste caso, o modo contribui para a denotação e é um modo particular de efeito convencional. Com restrições epistêmicas incertas, o modo funciona quando o falante não está certo a respeito da verdade. Essa perspectiva corresponde a uma sentença radical e tem a mesma denotação que o indicativo, embora cada um esteja associado a uma diferente convenção de mudança de efeito. Na convenção para disposição e compromisso, um enunciado que contém indicativo é como se ele assumisse um compromisso com a veracidade do que fala. Na asserção e no compromisso público a exigência mínima é a regra indicativa para um tipo de asserção, considerando um mínimo efeito de asserção cujas propriedades podem indiscutivelmente ser explicadas como inferências pragmáticas. Juntamente com Gunlogson (2003) e Davis (2009), Condoravdi (2011, p. 16) assume que a asserção é vista como terrenos comuns de um efeito secundário depois de o ouvinte aceitar a asserção. 11 Se um agente se compromete a agir como se ele tivesse uma preferência eficaz para x, ele também se comprometeu a agir como se acreditasse que está empenhado em ter uma preferência eficaz para p. Se um agente se compromete a agir como se ele acreditasse que ele está comprometido a ter uma preferência eficaz para p, ele também se comprometeu a agir como se ele efetivamente preferisse p (tradução nossa). 33 Ao imperativo é atribuída a denotação não especificada e seu significado proposicional é usado no mesmo contexto de mudança de efeito. Há uma inconsistência contextual nessa afirmativa, pois ambas as variantes dão conta de que o fato imperativo tem de ser revisto, a efetiva estrutura preferencial tem de ser consistente, por isso os dois elementos máximos podem ser contextualizados como incompatíveis. A resolução para esse conflito pode ser o reposicionamento, a mudança de elementos na sentença ou a mudança de crenças do falante. No âmbito da heterogeneidade funcional, as diferentes forças ilocucionárias da sentença imperativa surgem com vínculos contextuais, baseados nas condições de contexto resultantes das circunstâncias socioculturais e suposições expressas pelo falante/ouvinte sobre suas metas e desejos. As ordens surgem num contexto em que o falante tem autoridade sobre o ouvinte e a proposição está sob o controle do destinatário. O valor de autoridade para o destinatário é visto como socialmente ou institucionalmente uma obrigação de respeitar as preferências do locutor como suas próprias preferências. Isso significa que o destinatário aceita a proposição p, assumindo o seu controle como compromisso de sua preferência. A advertência a ser feita sobre isso é que quando a proposição é prejudicial ao destinatário o falante pode ter uma autoridade social ou epistêmica sobre o destinatário, ou seja, o falante conhece algo que o ouvinte desconhece ou de que se esqueceu. Um agente é colaborador-padrão quando divide suas metas com seu interlocutor, ou seja, suas vontades pessoais não interferem. Já em relação à permissão, esta possui dois tipos: é como se o interlocutor tivesse um desejo a ser cumprido, ou uma proposição em que o pressuposto em geral não é cumprido. (24) A: Posso sair com meus amigos? B: Sim, vá lá. (25) Tome um pedacinho desse bolo. 34 O falante se comporta como se partilhasse os desejos do ouvinte, mas se ele tem o poder de permitir/proibir, ele o faz. Desejos ausentes, bons desejos e maus desejos podem ser analisados como enunciados sinceros. Preferências não são adequadas para expressar desejos, porque as preferências são construídas como tentações para os ouvintes, caso eles estejam aptos a cumpri-los. As leituras de desejo são possíveis de surgir exatamente se as condições não forem encontradas, por exemplo, quando não há destinatário: (26) Please, don’train! 12 E quando o destinatário não exerce influência na proposição ou o desejo é mau: (27) Drop dead! 13 Our analysis takes the bouletic component of imperatives to be central. Enticement to action arises pragmatically in contexts where this is appropriate. That makes the analysis superior to ones that build enticement into the semantic denotation or conventional context change effect. At the same time, it is more constrained than an account that relies on under specification to derive functional heterogeneity (CONDORAVDI, 2011, p. 21). 14 Os dados discutidos nesse estudo não contribuem para a escolha entre uma ou outra posição, já que ambas advêm do conceito de mudança de efeito. A única forma de tomar tal decisão é observar os casos incorporados/embutidos no imperativo. Uma pista relevante para se observar é se os resquícios do ato de fala boulético estão incorporados e ativos, uma vez que a língua pode variar conforme suas características. Para Lapeyre (1993), a força ilocucionária de uma diretiva que constitui o ato de o falante prescrever alguma ação ao destinatário é que distingue o imperativo de outras 12 Por favor, não chova! (tradução nossa). 13 Morra! (tradução nossa). 14 Nossa análise toma o componente bouletic do imperativo como central. A sedução para a ação surge de forma pragmática em contextos em que isso é apropriado. Isso torna a análise superior àquelas que constroem a persuasão para fins de denotação semântica ou efeito de mudança de contexto. Ao mesmo tempo, é mais restrito do que uma proposição que se baseia em subespecificação para derivar a heterogeneidade funcional (tradução nossa). 35 formas verbais. Contudo, nem todo imperativo se comporta dessa forma, há casos em que a expressão pode sugerir consentimento, permissão, aceitação relutante ou a informação de que alguma coisa pode ser feita. A autora aponta a fragilidade do conceito “disposição favorável a uma determinada ação”, citado por Palmer (1986, p. 29-30), e ilustra com o exemplo a seguir: (28) Ok, do invite them, but if I were you I wouldn´t 15 . O exemplo anterior exprime relutância a uma proposição tida como verdade. A proposição de Davies (1986, p. 51) a respeito do termo “que é a aceitação de uma proposição como verdadeira” contém limitações, pois acaba contemplando exemplos que expressam comando ou desejo forte, tais como: (29) Go and visit Granny at once ou get well soon 16 . A partir disso, a autora propõe uma alternativa capaz de abarcar toda noção de imperativo. Para ela, expressões como crença, possibilidade física, permissão e aceitação só serão utilizadas quando não puderem ser usados termos como conhecimento, necessidade física, obrigação e desejo. Por isso o fato de possível que, acredito que e seus correlatos implicarem possível que não, não sei que demonstra o núcleo da boulomaic modality 17 . I believe that boulomaic modality provides a clue to a semantic feature common to all imperatives: imperatives always express boulomaic modality, that is they indicate the degree of concern of a will towards the content of a proposition being made the case (LAPEYRE, 1993, p. 58). 18 15 Por questões didático-metodológicas, lançaremos mão de exemplos extraídos dos textos originais; quando se fizer necessário, traduzi-los-emos. Os exemplos de 23 e 24 e de 29 a 32 foram retirados do texto de Laypere (1993). Ok, convide-os, mas se eu fosse você não convidaria. 16 Vá visitar a avó de uma vez/fique bem logo. 17 Modalidade boulomaic pode ser parafraseada como algo esperado / desejado / temido / lamentou que... Rescher (1968, p. 24-6) inclui quer sob modalidade boulomaic (ver também Simpson 1993, p. 47-8). Perkins (1983, p. 11) ressalta aulas de modalidade boulomaic como um tipo de modalidade dinâmica por causa da fonte humana, de modo semelhante às deônticas volitivas, modalidades em que um sujeito aspira a influenciar o mundo. Ele varia de não querer a não oposição de querer. 18 Eu acredito que a modalidade boulomaic fornece uma pista para um recurso semântico comum a todos os imperativos: imperativos sempre expressam modalidade boulomaic, eles indicam o grau de 36 Segundo a autora, aceitação não é comum a todas as expressões da forma imperativa. Ela conclui que existem duas formas de definir as características do imperativo em detrimento de outras expressões de boulomaic modality: 1) o desejo do falante; e 2) o tempo do ato de fala. Portanto, os quatro principais tipos de imperativo que correspondem a quatro tipos de boulomaic modality, para a autora, são definidos em consonância com duas variáveis: “Imposição que constitui permissão e obrigação; e não imposição a qual abrange aceitação e desejo”, conforme os exemplos a seguir: (30) Vá para casa, você já executou todo o trabalho de que eu precisava. (31) Venha já para casa! Preciso de sua ajuda. (32) Mate-o se você quiser, mas se eu fosse você não o faria. (33) Tenha um bom dia. Nas expressões que incluem desejo e obrigação, o papel do imperativo é encaixar as palavras no mundo; nas expressões de aceitação e permissão pode-se encaixar ou não as palavras no mundo. Além disso, outro tipo de imperativo nessa concepção pragmática é o que difere um termo de uma força ilocucionária expressa pelo conceito de face ou face-threatening 19 , entendidos aqui como expressão negative face, 20 considerada autoimagem que cada membro de uma sociedade tem de si mesmo no que diz respeito à liberdade de ação e liberdade de imposição. E a positive face, 21 conhecida como autoimagem ou personalidade cuja alegação é a de que os interesses, desejos ou argumentos/alegações devem ser levados em consideração. O face-threatening é utilizado como estratégia de polidez para garantir o bom relacionamento com o destinatário. preocupação com uma vontade que vai em direção a uma proposição a ser executada (tradução nossa). 19 Face ameaçadora (tradução nossa) é uma expressão utilizada como polidez para garantir a manutenção do bom relacionamento entre locutor e destinatário. 20 Face positiva. 21 Face negativa. 37 Um dos pontos de diferença no âmbito da semântica do imperativo reside na polidez, sobretudo no que concerne ao sentido de permissão e obrigação e na acepção de aceitação e desejo, o que pressupõe que o locutor pode levar seu interlocutor a cumprir, a executar aquilo que ele quer. A teoria da polidez de Brown e Levinson (1987) tem como um dos seus pressupostos essa noção de face que se refere à imagem pública do sujeito e que se desmembra em face positiva – que se origina da necessidade de ser aceito, admirado e reconhecido pelo outro – e outra negativa – referente à liberdade de ação. Para manutenção da própria face, bem como da face do interlocutor, e para manter a sintonia das relações sociais, os falantes recorrem a certas estratégias linguísticas de polidez. A análise sobre as interações no dia a dia envolve uma análise do indivíduo em suas relações com outros. As relações interpessoais representam espaço interessante para a observação e análise das estratégias de polidez que entram em jogo nas interações entre os estudantes e o professor. No cotidiano, as ações desses sujeitos, em variados cenários de suas vidas, correspondem aos espaços da materialidade do social e da cultura que eles representam num espaço de interação. Conceitos de polidez positiva e negativa são construídos a partir de uma série de fatores. Dessa forma, os contextos sociais e situacionais desempenharão um papel importante na construção da face. Mediante o estudo das estratégias de polidez a escolha pelas bases teóricas é fundamental. Em certas situações em que a eficiência é mais importante que a polidez, como os casos de emergência, tarefa orientada de interação e chamada de atenção à conversação, a forma de obrigação não é muito comum, como nos seguintes casos: (34) Help! Give me the nails. 22 (35) Listen, I think I’ve got an idea23. 22 * Ajude-me! Dê-me os pregos. 23 Ouça, acho que tive uma ideia. 38 Onde um ou mais fatores não está presente, o desvio do significado de obrigação leva o uso do imperativo a fortalecer a noção de polidez, tornando a frequência do uso da forma mais alta. Quando o locutor não é superior ao interlocutor, o uso denota intimidade. (36) Kiss me, Darling 24 . Se a proposição direta não representa controle do locutor sobre o destinatário não se pode inferir a obrigação por meio do uso. Então a estratégia de polidez positiva sobrepõe à de polidez negativa, demonstrando que o locutor deseja que o interesse do destinatário seja cumprido. (37) Get well soon 25 . Quando tal estratégia não afeta a face negativa, o imperativo não expressa obrigação. Concluindo, uma característica comum no uso de todas as formas imperativas é a boulomaic modality, ou seja, a preocupação que tem o falante com a verdade de sua proposição. Isso interage com outros fatores que corroboram a força de vontade do falante de que uma proposição se torne verdade; o relacionamento entre falante e destinatário; o contexto linguístico e situacional; e o poder do destinatário em fazer com que uma proposição se torne verdade. Em consonância com esses fatores, diferentes tipos de imperativo podem ser identificados por meio de fatores pragmáticos, como aceitação, desejo, permissão e obrigação, fatores que são correlacionados à variação da força ilocucionária que pode ser modificada por uma ampla variedade de significados linguísticos, tais como sujeito explícito: (38) Algum de vocês ajude-me a guardar os livros. Vocativo: (39) Vá dormir, Luísa. 24 Beije-me, querida. 25 Fique bem logo. 39 A ênfase na forma verbal do imperativo: (40) Coma alguns biscoitinhos. E o acréscimo de cláusulas coordenadas: (41) Seja gentil e você irá seduzi-la. Ou justapostas: (42) Diga o que lhe vem à cabeça e você será ignorado. (43) Respeite os outros e você será respeitado. É importante também levar em conta que há ainda perspectivas distintas no tratamento e refinamento da forma imperativa no âmbito da pesquisa cujas subdivisões privilegiam estudos formais, semânticos, pragmáticos dos quais este trabalho necessariamente se servirá de base para o desenvolvimento da noção de uma esfera mais ampla que é a que constitui o plano enunciativo. 1.3 ENUNCIAÇÃO E FORMAS IMPERATIVAS Por meio da reflexão a respeito do conceito de modalidades linguísticas, Lopes (2007) afirma que esta categoria já assume papel importante no plano da enunciação e, ancorando-se em estudiosos que atribuem relevo ao relacionamento do enunciador com seu enunciado, estabelece uma análise pertinente das modalidades linguísticas presentes em receitas culinárias. É possível descrever de que forma o gênero se comporta e como os papéis sociais são distribuídos dentro dele. Realça a importância do tipo de interação estabelecida entre o enunciador e o interlocutor, assinalada em receitas por meio de marcadores modais, destacando o uso de verbos no modo imperativo como forma de discriminar o nível hierárquico entre os interlocutores. Destaca a modalidade presente nas receitas analisadas e o importante papel exercido na determinação dos lugares de cada componente da situação de comunicação. O uso do imperativo pode também revelar uma marca da modalidade deôntica, pode apontar uma apreciação, ou sugestão ou ordem. 40 Conforme asseveramos anteriormente, a ocorrência do verbo na forma imperativa, às vezes, incomoda quem conhece a gramática tradicional, principalmente quando se trata do uso de tu e você. Os pesquisadores da sociolinguística e os da abordagem variacionista vêm se dedicando às mudanças que ocorreram ao longo do tempo nesse âmbito. As gramáticas normativas do português impõem uma diferença formal entre ordem e proibição. Lançando o olhar sobre o discurso emanado nas construções: (44) Ora vai mulher/me deixa em paz (MONSUETO; AMORIM, 1951), notamos que o tempo crônico não se manifesta de forma explícita por meio da forma imperativa, já que este expressa uma condição de “futuridade”, pois nenhuma ação passada ou presente pode ser depreendida dele. Cardoso (2007) e outros autores corroboram a ideia de modalidade como expressão da subjetividade, imprimindo por meio do locutor atitude em relação ao conteúdo do seu enunciado. Valem-se da expressão das modalidades organizadas em torno do sujeito enunciador: modalidades subjetivas, modalidades intersubjetivas e modalidades objetivas. A modalidade subjetiva expressa a relação entre o locutor e o seu enunciado e engloba as modalidades epistêmica e apreciativa. Na modalidade epistêmica o locutor exprime seu grau de certeza ou incerteza em relação ao que diz. Já a modalidade apreciativa vai exprimir a apreciação do locutor com respeito ao que ele enuncia, sua aprovação ou não. No caso das modalidades intersubjetivas, o que o locutor expressa é sua relação com outro interlocutor por meio do enunciado. Aqui o locutor usa o enunciado para dar uma ordem, um conselho, uma sugestão ou pedir que alguém faça algo. Faz parte da modalidade intersubjetiva a modalidade deôntica que exprime uma autorização, ordem, conselho ou permissão do locutor em relação ao seu interlocutor. É com base nesse relacionamento entre os parceiros no processo de comunicação que se sustentam e se efetivam as relações que perpassam o momento em que foram efetivadas as composições musicais. Relativamente estáveis porque, apesar de cada 41 enunciado particular ser individual, eles adquirem uma estabilidade relativa ao gênero ao qual pertencem e seguem regras próprias ao gênero e ao modo em análise. Para os propósitos de nossa pesquisa, esse outro representado pela figura feminina nos períodos propostos expressaria por meio da identificação do pronome você/tu os dizeres voltados para o outro, os quais possuem uma instanciação no lugar do sujeito, instância imaginária que os representam como memorizado (DIAS, 2012b, p. 2). Do ponto de vista discursivo, o que nos permite dizer quem, em relação ao comando da atividade, ou a quem é dirigido o enunciado, única e exclusivamente para além do materializado, em nossa perspectiva, é o acontecimento enunciativo, atualizando enunciações presentes na memória desse enunciado. Essa instância só pode ser levada em consideração se considerarmos a Semântica da Enunciação e os estudos sintáticos que atendem à dimensão enunciativa da língua, além da sua organicidade, mostrando nesses períodos a identidade desse tu, instaurado na ocupação do lugar do sujeito, destacando a instauração do sujeito, do tempo e do espaço. A enunciação, então, deve ser tomada, não como advinda do locutor, mas como operações que regulam o encargo, quer dizer a retomada e a circulação do discurso. Entre outras consequências dessa concepção, levaremos em conta o fato de que um texto dado trabalha através de uma circulação social, o que supõe que sua estruturação é uma questão social, e que ela se diferencia seguindo uma diferenciação das memórias e uma diferenciação das produções de sentido a partir de restrições de uma forma única (ACHARD, 1999, p. 17). O mero ato de falar, pelo fato de exigir a escolha de certos recursos expressivos, em detrimento de outros, e por instaurar certas relações entre locutor e interlocutor, já indica a presença da subjetividade na linguagem. Flores e Teixeira (2008, p. 5) corroboram o pensamento de que a subjetividade caminha junto ao enunciado e que o estudo da enunciação não deve se centrar no sujeito, a priori, por força de explicitação teórica; o dizer de eu instaura a noção de subjetividade. Teoricamente essa noção é necessária para os nossos estudos, no que diz respeito ao delineamento de um perfil de mulher inserida em períodos e contextos histórico-sociais distintos. Dessa forma, tomando a subjetividade como parte do processo comunicativo, torna- se difícil falar em modalidades linguísticas, ou seja, do relacionamento do locutor com seu enunciado, sem antes deixar claro como concebemos a subjetividade. No 42 sentido abordado por Benveniste, temos a presença do locutor no seu enunciado, e Flores (2008) reforça esse posicionamento ao entender que se a enunciação é vista em termos de referência, pode-se afirmar que a modalização é um indicador de subjetividade, já que vai revelar, no enunciado, uma postura do sujeito enunciador. Trataremos os pronomes como pertinentes à sintaxe da língua, bem como às “instâncias do discurso”, isto é, para além da proposta de Benveniste, considerando a polaridade das pessoas na linguagem como condição fundamental, cujo processo de comunicação não é apenas uma consequência totalmente pragmática. Algo muito singular que apresenta um tipo de oposição que encontra equivalência em consonância com a linguagem e numa realidade dialética que integre os termos, definindo-os pelo fundamento linguístico da subjetividade. Os próprios termos dos quais nos servimos aqui, eu e tu, não devem ser tomados como figuras, mas como formas linguísticas que indicam a “pessoalidade”. O eu não denomina, pois, nenhuma entidade lexical. Estamos na presença de uma classe de palavras, os “pronomes pessoais” que escapam ao status de todos os outros signos na linguagem. A que então se refere o eu? A algo de muito singular que é exclusivamente linguístico: eu se refere ao ato de discurso individual no qual é pronunciado, e lhe designa o locutor. É um termo que não pode ser identificado a não ser dentro do que, noutro passo, chamamos a uma instância de discurso que só tem referência atual. A realidade à qual ele remete é a realidade do discurso. É na instância do discurso na qual eu designa o locutor que este se enuncia como sujeito. É, portanto, verdade ao pé da letra que o fundamento da subjetividade está no exercício da língua (BENVENISTE, 2006. p. 284). No tocante ao aspecto enunciativo, o modo imperativo sempre traz um locutor, a pessoa que está ordenando, sugerindo, pedindo, aconselhando a tomar determinada atitude em relação a um determinado interlocutor. As marcas linguísticas da enunciação podem ser vistas por meio dos verbos que revelam a presença do locutor. Assim, somos levados a crer que a modalidade está presente nessa forma verbal, ainda que implícita ou formalmente apresentada como presente ou infinitivo, como em: 43 (45) Não brincar de amor com alguém que ama. Não deve brincar (KAIO; KACIEL, 2013) 26 . Segundo Moura Neves (2000), é importante considerar que o que o imperativo expressa não depende unicamente do verbo, mas do contexto em que é proferida/lida a sentença A entonação das palavras, o tom da voz, para a autora, pode transformar um comando em súplica, por exemplo. Refletir sobre as formas imperativas suscitando um pronome não materializado na sentença pode ser uma tarefa delicada e torna a concepção das modalidades mais abrangentes, englobando diversas categorias gramaticais e atitudes do locutor com relação ao enunciado, assumindo maior ou menor comprometimento ou afastando-se, acatando normas determinadas e posicionamento da atitude do locutor em relação ao conteúdo do seu enunciado. O autor propõe uma classificação das modalidades organizada em torno do sujeito enunciador: modalidades subjetivas; e modalidades intersubjetivas, que exprimem seu grau de certeza ou incerteza em relação ao que diz, a apreciação do locutor em relação ao que ele enuncia e sua aprovação ou não. No caso das modalidades intersubjetivas, o que o locutor expressa é sua relação como interlocutor por meio do enunciado. Aqui o locutor usa o enunciado para dar uma ordem, um conselho, uma sugestão ou pedir que alguém faça algo. Faz parte da modalidade intersubjetiva a modalidade deôntica, que exprime autorização, ordem, conselho ou permissão do locutor em relação ao seu interlocutor. 1.4 AS FORMAS E A QUESTÃO DA SUBJETIVIDADE: O SUJEITO NA LÍNGUA Neste item os destaques são a utilização do pronome, não materializado na sentença, e a combinação com o verbo na forma imperativa, vislumbrando a constituição da pessoalidade na configuração do perfil feminino nos fragmentos propostos. Verificamos a efetivação do endereçamento, considerando ambas as perspectivas discursivas: discurso diretamente endereçado à mulher, ou a utilização do discurso por meio de um interlocutor indireto no envio da mensagem. Utilizamos trechos de 26 Sentença utilizada com intuito de exemplificação, não fazendo parte do corpus em análise. 44 composições musicais dos três períodos para a análise proposta, sem perder de vista a questão da forma desvinculada da tradição, conforme exemplos mencionados anteriormente. Para isso lançamos mão da teoria da subjetividade na enunciação, proposta por Benveniste (2005), Michel Bréal e Bally, e da Semântica da Enunciação de Guimarães (1989, 2002, 2005, 2008), associada à abordagem entre sintaxe e semântica proposta por Dias (2005). A escolha do corpus neste item e os procedimentos metodológicos de análise qualitativa compreendem a análise da categoria de pessoa na constituição das formas imperativas nos trechos de músicas dos períodos referidos. Uma análise ancorada nas categorias de pessoa aponta questões essenciais que elucidam como a composição musical se constrói em uma relação entre sujeitos. O discurso, como enunciação, sempre se dá numa perspectiva interlocutiva entre um eu em direção a um tu no âmbito das formas imperativas. Procuramos, mediante os indicadores de pessoa, construir um suporte que comporte como referência o ato discursivo. Entendemos que os trechos proporcionam um estudo enunciativo caloroso à medida que esse gênero exibe um domínio linguístico bastante complexo e constitui realidade profícua para identificar o efeito da interlocução. Inicialmente, elaboramos um percurso teórico, destacando particularmente os pronomes como ponto de apoio para a manifestação da subjetividade; em seguida, identificamos as marcas linguísticas expressas por meio das marcas de pessoalidade nos trechos que denunciam como a relação entre pronome e formas imperativas se estabelece no contexto musical, ou seja, como se dá a interlocução; e por último, analisamos como se constrói no corpus o perfil feminino, consoante com o status de pessoa, consolidando-se tão somente pela manifestação de um eu em sua relação com um tu do ponto de vista da proposta da semântica da enunciação. A questão da exterioridade na linguagem foi tratada de diferentes maneiras e exige que se distingam posições no interior desse campo, que chamamos de enunciação. A questão do sujeito, na nossa proposta, não é colocada apenas como uma relação entre interlocutores no processo de uso da linguagem como instrumento para realizar um 45 fenômeno, ou para manifestar intenções. Vemos a enunciação como um acontecimento que se dá em relação à língua. Nesta abordagem está incluída a questão do sujeito e o que há nele de linguístico. Adotaremos, portanto, filiações que englobam Breal, Bally, Benveniste e Ducrot, por exemplo. Ducrot se posiciona de maneira singular no que diz respeito à língua, em função de sua formação filosófica. Descreve a significação linguística como uma estrutura, inspirado em Benveniste, considerando as marcas da enunciação na língua. Adota a visão de que na enunciação deve-se levar em conta a língua. Em sua posição estruturalista sustenta a busca de despsicologizar o sujeito na linguagem, o que faz com que ele acabe se inspirando em Bakhtin, no seu conceito de polifonia, tratando-a como acontecimento histórico do aparecimento do enunciado. O que o enunciado significa é o que ele representa de sua enunciação. A importância dada a esses autores se dá pelo interesse de sempre incluírem na língua as marcas da subjetividade. A questão do sujeito torna-se importante como questão de linguagem e de língua. Trabalhando essa distinção, tratamos o sujeito como algo acrescido à linguagem e consideramos o sujeito como constituído na linguagem. Incluímos na discussão a respeito da língua a questão da subjetividade ligada à concepção de enunciação formulada por Benveniste de que a língua pode ser afetada por sua exterioridade. Há uma alteridade constitutiva do sentido que faz a língua funcionar. Esta alteridade é uma memória dos sentidos, é a interdiscursividade. O conceito de interdiscurso é o da análise de discurso. O interdiscurso se define aí como uma relação entre discursos enquanto uma relação que constitui e particulariza os discursos. Ou seja, não se trata de uma relação entre discursos definidos antes e em outro lugar, organizados depois como uma rede (GUIMARÃES, 1996, p. 101). Na concepção de interdiscurso adotada por Orlandi (1992, p. 89), a língua se movimenta em consonância com a memória, provocando posições plurais e dispersas de sujeito. Tomar posição de sujeito é “sempre estar dividido entre o que se supõe saber sobre si e o que é dito na enunciação”. Nessa perspectiva sentido significa efeito de enunciações e cruzamento de interdiscurso no acontecimento enunciativo. 46 Neste trabalho, então, a questão do sujeito se comporta como uma questão linguística, considerando, em linhas gerais, salvo especificidades relativas à consideração sócio-histórica da enunciação, o tratamento da enunciação tal como Benveniste, contudo e sobretudo como uma questão ligada à língua em sua historicidade. Nesse sentido, o sujeito da enunciação não é psicológico, nem uno, mas constitui-se pela presença do interdiscurso no acontecimento. 1.4.1 A pessoalidade e o sujeito na perspectiva enunciativa A gramática tradicional mantém a análise que faz menção à questão da pessoalidade, porém de forma restrita. Em virtude disso, nessa reflexão, construímos uma análise enunciativa das formas imperativas no momento em que instauram, por meio da consonância com o pronome, a categoria de pessoa, a fim de se compreender a língua em uso, sobretudo a representação da subjetividade no enunciado. A teoria postulada por Benveniste (2005c) possibilita um avanço em relação aos estudos sobre a linguagem. Ele situa os estudos da linguagem sob uma perspectiva singular, no momento em que a subjetividade demarca seu espaço no campo enunciativo. A possibilidade da subjetividade ocorre na linguagem, e isso só é possível porque cada locutor se apresenta como sujeito, remetendo a ele mesmo como eu no próprio discurso. Instaurando a subjetividade na linguagem, consequentemente se instaura a categoria de pessoa (ORLANDI, 2008) que é marcada como expressão dessa subjetividade. Além disso, Benveniste entende que a linguagem está de tal forma organizada que permite a cada locutor apropriar-se da língua toda, categorizando-se como eu. Nesse caso, o locutor se apropria do aparelho formal da língua e enuncia sua posição de locutor. Como realização individual, “a enunciação pode se definir, em relação à língua, como um processo de apropriação”. A ação que permite ao locutor mobilizar a língua por si próprio pressupõe um envolvimento do locutor com a língua, articulando caracteres linguísticos da enunciação, os quais apontam indícios dessa relação. Antes da enunciação, a língua é apenas “possibilidade de língua” (BENVENISTE, 2003, p. 83), portanto enunciação 47 consiste em colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização. Dessa forma, “a enunciação supõe a conversão da língua em discurso”. Esse eu, contudo, não é empregado pelo sujeito a não ser que esteja se dirigindo a alguém, que será, na alocução, um tu. Essa polaridade das pessoas é, na linguagem, condição fundamental. No momento em que se declara eu, o locutor assume a língua e implanta o outro diante de si, independentemente do grau de proximidade que atribua a esse outro. Nesse viés, toda enunciação é, direta ou indiretamente, uma alocução e postula um alocutário tu. Segundo o autor, a enunciação fornece as condições necessárias para as funções sintáticas, já que o enunciador, no momento em que se vale da língua para afetar de algum modo o comportamento do outro, dispõe de um aparelho de funções, que são a interrogação, a intimação e a asserção. A interrogação, segundo o autor, é uma enunciação construída para suscitar uma resposta, constituindo um comportamento com dupla entrada. A intimação (ordens, apelos concebidos em categorias como o imperativo, o vocativo) implica uma relação ativa e direta do enunciador com o outro, numa referência necessária ao tempo da enunciação. A asserção, por sua vez, em seu aspecto sintático e em sua entonação, caracteriza a manifestação da presença de um locutor na enunciação. A mobilização da língua e sua apropriação, para o locutor, significam “a necessidade de referir pelo discurso e, para o outro, a possibilidade de co-referir”. A referência é parte integrante da enunciação, como aponta o autor (2006, p. 84). Essas condições vão reger todo o mecanismo de referência no processo de enunciação, criando uma situação muito singular, em que a presença do locutor em sua enunciação faz com que cada instância de discurso constitua um centro de referência interno. A relação constante e necessária entre o locutor e sua enunciação é estabelecida por um jogo de formas específicas, como a emergência dos índices de pessoa (a relação eu-tu), que não se produz a não ser na e pela enunciação, cujo termo eu denota o indivíduo que profere a enunciação e o termo tu, indivíduo estabelecido como alocutário. Seja o parceiro real ou imaginário, individual ou coletivo, o que na maioria das vezes caracteriza a enunciação, nas palavras de Benveniste (2006, p. 87), é o fortalecimento da relação discursiva com o outro, figuras igualmente necessárias, sendo uma o início e a outra o fim da enunciação, sendo essa a estrutura do diálogo. 48 Nesta estrutura, encontramos um locutor que diz eu para um tu e que, assim, se enuncia, instaurando-se no uso da língua. Como podemos, então, diferenciar uma teoria enunciativa de outras perspectivas? É importante reconhecer que, diferentemente de Benveniste (1976, p.82), Ascombre (1976, p. 18) e Foucault (1969, p. 116), enunciação, para nós, não é vista como o lugar do sempre novo, ou seja, não possui esse caráter de irrepetibilidade. À medida que assumimos as condições sócio-históricas do acontecimento, filiamo-nos à definição de histórico, diferente inclusive de Ducrot, que considera a historicidade em seu caráter temporal, pois o caráter de irrepetibilidade é o modo de ver a história como tempo cronológico. Buscamos um conceito de enunciação que a caracterize socialmente, o que abre um espaço de diálogo com a análise e a teoria sobre o discurso que considera o enunciado uma unidade discursiva, uma vez que este constitui elemento de uma prática social e pressupõe uma relação com o sujeito, com o mundo e com outros enunciados. Para Benveniste, a dêixis possui o indicador de pessoa, de cuja referência emerge, a cada vez, seu caráter único e particular. O linguista salienta que “é ao mesmo tempo original e fundamental o fato de que essas formas (pronominais) não remetam à ‘realidade’ nem a posições ‘objetivas’ no espaço ou no tempo, mas à enunciação, cada vez única, que as contém, e reflitam assim seu próprio emprego” (BENVENISTE, 2005, p. 280). O autor, por sua vez, não se opõe ao que é dito sobre a significação dos termos eu e tu. Ele apenas expõe o status puramente linguístico dessas palavras, afirmando que elas se referem à realidade do discurso, pois só podem ser identificadas em termos de locução. Um modelo que analisa a linguagem em seu contexto ilocutário sob uma perspectiva enunciativa, inspirada nesse autor, não pode conceber o homem como fora do mundo, da fala e da sua cultura, visto que “é na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito; porque só a linguagem fundamenta a realidade que é a do ser, o conceito de ego”. Nessa nuance, a noção de sujeito leva à noção de subjetividade, isto é, a propriedade do locutor de se colocar como sujeito. É por meio da fala de um homem com outro homem que encontramos o mundo, e a linguagem permite a própria definição de homem. 49 Se a linguagem compreende o lugar em que o indivíduo se constrói como sujeito, a natureza dos pronomes instituindo o sujeito em consonância com a forma imperativa e as categorias de pessoa na chamada “instância de discurso” implicam o próprio conceito de enunciação, o “colocar a língua em funcionamento por um ato individual de utilização”. Benveniste, em suas reflexões sobre a enunciação, não pretendia criar uma teoria sobre o sujeito, mas ocupou-se inteiramente da significação, contribuindo expressivamente para a questão da subjetividade. O sujeito é o centro de sua teoria da enunciação. Ao falar da subjetividade na linguagem, o autor mostra que a linguagem tão somente se efetiva no momento em que o locutor se apresenta como sujeito, portanto a subjetividade se estabelece apenas nos participantes ativos de um ato de enunciação, neste caso o eu e o tu, sendo o pronome ele não portador do status de “pessoa”. Entendida como “a capacidade do locutor para se propor como “sujeito”, tal prerrogativa teria como condição a linguagem. Assim sendo, a propriedade da subjetividade é determinada pela pessoa e pelo seu status linguístico. A subjetividade é vista materialmente num enunciado através de algumas formas como o verbo, os dêiticos e outras que a língua empresta ao indivíduo que quer enunciar; e quando o faz transforma-se em sujeito. Essas marcas linguísticas têm o poder de expressar a subjetividade; os pronomes e o verbo integram essas duas classes de palavras na categoria de pessoa. No caso das formas imperativas, isto se torna evidente quando do uso do verbo se institui imediatamente a noção de pessoa. E é justamente nos pronomes que a subjetividade vai se delineando e ocupando uma posição privilegiada. Daí, a impossibilidade de fixar essas categorias em classes sem considerarmos a possibilidade de entrada no equívoco, no espaço da dispersão. Essa transição de locutor a sujeito instigou-nos a refletir sobre a categoria dos pronomes eu/tu no funcionamento da língua em que o signo passa a existir. Junto às categorias de pessoa e não pessoa há categorias de espaço e tempo, as quais delimitam a instância contemporânea de discurso que contém eu (BENVENISTE, 2005b, p. 279). Trata-se do momento e do espaço correspondentes à enunciação em cada período proposto, porque a enunciação constitui o espaço de instauração do 50 sujeito, e este é o ponto de referência das relações espaço-temporais. E é nesse fundamento que reside a distinção de sujeitos, ou seja, cada enunciação abre espaço para novos sujeitos, haja vista a ancoragem na perspectiva sócio-histórica da instauração do discurso. Nessa perspectiva, quando temos um exemplo como: (46) Não chore mais, sorria amor, eu trouxe o fim da sua dor, não chore nunca mais, amor, eu sou o sol cercando a chuva do seu olhar sou eu quem cuida. E te peço, por favor, não chore nunca mais, amor. Calma, a sua insegurança não te leva a nada. Eu quero ser teu homem te fazer amada, amar, amar você até você se amar e me amar (PIUNTI, 2014). Os pronomes tu/você assumiram a concordância com os verbos chore e sorria, e embora não materializado na sentença, o locutor/sujeito na instância do discurso instaura imediatamente um tu a quem se destina sua fala. O fundamento que norteia a subjetividade, por meio da manifestação do eu/tu, revela que a categoria de pessoa é essencial para que a linguagem se constitua em discurso. Dessa forma, eu não se refere a um indivíduo, tampouco a um conceito, mas a algo da relação entre o linguístico e o discursivo. Acredita-se que para descobrir e tentar compreender o sujeito e suas representações na teoria enunciativa de Benveniste é importante partir da categoria de pessoa. De acordo com Gomes (2004), “a subjetividade é vista como uma propriedade da língua realizável pela categoria de pessoa”. Da mesma forma, Santos (2002, p. 25) afirma que o princípio da subjetividade se instaura na categoria de pessoa inerente ao sistema da língua, no entanto essa subjetividade está interligada à relação eu/tu, que valida a atribuição de sentido à categoria de pessoa - a intersubjetividade. Verbo e pronome são categorias únicas que se submetem à relação de pessoa, embora o pronome abarque características muito singulares. É necessário, contudo, saber como cada pessoa se comporta mediante outras e qual o fundamento de sua distinção/oposição. A categoria de pessoa é indispensável, a priori, e um dos eixos desta pesquisa. Segundo Benveniste (2005), não se conhece uma língua sequer em que não haja marcação de pessoa de uma ou outra forma. Daí, a conclusão a respeito 51 da categoria de pessoa como imprescindível às noções fundamentais e necessárias ao verbo. Nas duas primeiras pessoas há ao mesmo tempo uma pessoa implicada e um discurso sobre essa pessoa. Eu designa aquele que fala e implica ao mesmo tempo um enunciado sobre o “eu”: dizendo eu, não posso deixar de falar de mim. Na segunda pessoa,“tu”é necessariamente designado por eu e não pode ser pensado fora de uma situação proposta a partir do “eu”; e, ao mesmo tempo, eu enuncia algo como um predicado de “tu” (BENVENISTE, p. 252). A oposição entre os participantes da interlocução nas canções, sobretudo quando da utilização da forma imperativa, é resultante de duas correlações: pessoalidade e subjetividade. Então os pronomes eu/tu não podem ser considerados, como habitualmente, uma “classe unitária” quando se referem à forma e à função, diferenciando o aspecto formal dos pronomes, pertencente à parte sintática da língua, do funcional, considerado característico da instância do discurso, ou seja, da enunciação. Em outras palavras, os pronomes se configuram numa classe da língua que opera no formal, sintático, e no funcional, na exterioridade. Essa visão dos pronomes, também como categoria de linguagem, é dada pela posição que nela ocupam. Tendo em vista o ato de apropriação dessas formas individualizantes, a partir das quais a língua representa instância de possibilidade e se realiza em instância de discurso, olhar as formas permite-nos esse acionamento da língua como um todo em função da enunciação. E é unicamente na enunciação que um pronome como eu adquire uma designação, à medida que um locutor se coloca na relação entre o aparelho formal, que é comum a todos os falantes, e sua enunciação, ao acionar a língua, constituindo daí o discurso. Breal (1999) mostra que o elemento subjetivo aparece na linguagem como necessidade de intervenção do locutor em sua própria fala. O produtor, por vezes, interfere nas ações para refletir sobre elas e manifestar seu sentimento pessoal. Para ele o homem, ao falar, de alguma forma, observa o mundo. Nessa perspectiva, a língua dispõe de todos os recursos para que o falante possa interferir, representando- se naquilo que fala. E são esses elementos que comprovam o caráter subjetivo da 52 linguagem. Utiliza como exemplo desses recursos os expletivos, as conjunções e outros, acrescentando que a função do advérbio não é modificar ou descrever uma ação expressa pelo verbo, mas exprimir a opinião do falante. Para o autor, em um exemplo como: Eliane e Jaime terminaram o namoro, mas felizmente ninguém saiu ferido, o advérbio serve unicamente para demonstrar uma impressão do falante em relação ao término do namoro do casal. Nesse caso, não se trata de a ação expressa pelo verbo ter se dado de uma forma ou de outra, mas da exteriorização da impressão do falante sobre a repercussão do término do namoro. Isso mostra que tais palavras ou expressões exigem o estatuto da subjetividade que decidirá sobre a verdade ou não dos fatos. As conjunções e o discurso indireto também servem como ilustração de elementos subjetivos na perspectiva do autor, diferenciando-se dos fatos, fazendo apelo ao entendimento e se comportando como testemunho da verdade e do encadeamento dos fatos. As conjunções “são, pois, da mesma ordem que as palavras que me servem para expor os próprios fatos” (BREAL, 1992, p. 237). Com relação aos verbos, Breal assevera a relevância da noção de pessoa, sendo a primeira pessoa a que está diretamente ligada ao aspecto subjetivo da linguagem por se contrapor ao mundo; e a segunda, para o autor, não aporta menor subjetividade, por estar relacionada à primeira. Analogicamente, a primeira pessoa do plural exibe a pessoa que fala e a que existe em função dela. A terceira, portanto, é a única isenta de subjetividade, visão similar à de Benveniste. Advérbios e adjetivos, que eventualmente alternamos em nossas construções, representam reflexões ou apreciações lançadas pelo locutor. Essas impressões ou nuanças deixadas pelo narrador existem em qualquer língua e podem ter sido mal compreendidas, segundo Breal, pela falta de consideração do elemento subjetivo. O modo como o elemento subjetivo se manifesta fica latente nas formas imperativas, porque estas unem à ideia de ação a ideia de vontade, desejo daquele que fala. Não são escassos momentos em que se procura em vão, na maior parte das formas do imperativo há a manifestação dessa vontade, desse desejo, pois estes podem estar presentes no tom da voz, no aspecto fisionômico, e podem, inclusive, ser expressos, 53 tornando-se complexa a abstração desses elementos que não devem ser relegados na linguagem. Para Bally a enunciação no que diz respeito ao sujeito está ligada ao pensamento. Este sujeito é representado na enunciação pelo modus do enunciado. Este modus tem um sujeito modal e um verbo modal. Desta maneira o sujeito interessa enquanto é um sujeito constituído por um certo tipo de forma lingüística, não sendo, portanto, nem o sujeito, nem o sentido tratados psicologicamente (GUIMARÃES, 1996, p. 99). Nesse caso, o signo abarca significação/significado. Dias (2007a) afirma que é necessária a compreensão da relação entre o GN-sujeito e o predicado nas cenas referentes ao imperativo nas gramáticas do século XIX. Nessa direção, a significação dos verbos na forma imperativa passa por diversas definições: na primeira fase o GN-sujeito constitui coisa ou pessoa, e à medida que se instaura uma predicação se instaura a proposição. No caso de “Mércia está feliz”, o GN- sujeito “Mércia” recebe a predicação “está feliz”, e isso acarreta uma proposição. Nesse caso, o GN-sujeito é um ser e a predicação diz algo sobre sua existência, isto é, o dizer do predicado flui como uma qualidade inerente ao ser. O verbo de ligação, nas primeiras gramáticas do século XIX, representa a “matriz de todos os verbos” por possibilitar a lógica entre atributo e substância. De acordo com Foucault (1966), substantivo e adjetivo aparentemente constituem a mesma coisa, “mas a cópula fez nascer a ideia da causa pela qual estes nomes foram impostos a esta coisa”. Portanto, afirmar que o substantivo moça e o adjetivo pura coexistem é dizer que estão ligados “em todas ou na maioria de impressões que recebo” (DIAS, 2007a). Nessa visão, dizer é enunciar a existência, avaliá-la e tomá- la como objeto do pensamento, o que explica a pertinência dos verbos no plano dos modos. Daí a ideia de o verbo se relacionar ao “atributo de pessoa ou coisa em quem o atributo existe ou queremos que exista” (MORAIS SILVA, 1802, p. 24). Isso vai distinguir os modos indicativo e imperativo. No caso de “seja você prudente”, o verbo no imperativo colocaria em cena o atributo de ser prudente onde o locutor deseja que exista o seu interlocutor representado pelo pronome você, porta de entrada para o reconhecimento do fato gramatical imperativo. 54 A partir daí surgem as concepções de desejo, comando, pedido, exortação ou declaração do nosso querer a alguém (MORAIS SILVA, 1802, p. 25) e outras similares. Nesse caso, o papel do locutor é essencial para declarar aquilo que deseja que as pessoas ou coisas sejam, façam ou sofram. O imperativo, nessa fase, representaria o lugar onde a relação entre sujeito e predicado se dá por um acionamento do locutor (DIAS, 2007a). Nos meados do século XX, a concepção do fato gramatical imperativo muda. Quando empregamos o imperativo, temos o objetivo de conclamar o nosso interlocutor a executar a ação imposta pelo verbo, sendo aí o modo da exortação, do conselho, do convite, e não efetivamente do comando, da ordem (CUNHA, 1966, p. 465). A concepção de imperativo sai da relação entre locutor e personagem representado pelo GN-sujeito e migra para o modo como a cena ocorre. A locução não é mais determinante, já que esta entra na explicação como elemento da cena. O locutor se dirige a um interlocutor, e isso funciona como um efeito de observação do gramático que pode ser captado por meio de expressões como “cumprir a ação indicada pelo verbo”, fugindo da explicação da forma imperativa como constituição do nexo entre sujeito e predicado, sem afirmar algo sobre o locutor, mas centrando na forma verbal a responsabilidade de contrair especificidade diante dos modos indicativo e subjuntivo. Na terceira fase, conforme Dias (2007a), mais do que um dizer sobre o modo imperativo, este constitui expressão de ordem ou pedido, especializado nos valores ilocucionários. As condições de enunciação da gramática nas três fases contraem diferenças marcantes. Na primeira fase, há uma frágil distinção, tanto entre a discursividade que sustenta a exemplificação e a discursividade da própria autoria das concepções, quanto entre a apresentação dos conceitos e a avaliação. Na segunda fase, há distinção entre a discursividade das concepções e a exemplificação; assim como se distinguem a apresentação dos conceitos e a avaliação, através de comentários ou notas dentro e fora do texto. Na terceira fase, a exemplificação é controlada por demarcação de parâmetros, como modalidade de língua e graus de formalização; e esse controle se estende ao texto como um todo, através de uma textualização desenvolvida em moldes acadêmicos (DIAS, 2007a, p. 54). 55 Antes do século XIX, a visão sobre as formas imperativas era que estas aconteciam quando extraíamos do sujeito o desejo, a efetivação de uma ordem ou comando. Nessa perspectiva, o sujeito já trazia em sua essência a propriedade do comando. A partir do século XIX, o conceito de forma verbal imperativa muda, a forma verbal capta ou expressa a formação da ordem, ou seja, aparecendo uma ordem ou comando no mundo, a forma aí está para cumprir seu papel (DIAS, 2014) 27 . (47) Vai, minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser. Diz-lhe numa prece que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer (JOBIM; MORAES, 1958). O sujeito dos verbos vai e diz (47) impõe a propriedade ao outro. Essa manifestação de imposição do sujeito se garantiu e a forma imperativa até o século XIX era extraída do sujeito; este tinha a propriedade do comando, da ordem. Pelo exemplo (47), podemos observar que o sujeito dessa frase impõe a propriedade ao outro, o que justificava o uso da forma verbal imperativa. Bally discorre sobre a enunciação e a questão do sujeito. Este aparece como sujeito que comunica o pensamento e é representado na enunciação pelo modus do enunciado que contém um sujeito modal e um verbo modal. Nesse viés, o sujeito interessa como forma linguística. O próprio autor afirma que o “signo traz em si mesmo sua significação (seu significado) e é só isto que conta para a comunicação. Ela pode estar em contradição com o pensamento daquele que emprega o signo, e não recobre, então, a noção de realidade” (BALLY, 1932, p. 38). O sujeito que enuncia, o sujeito modal, não corresponde necessariamente ao sujeito do pensamento que se comunica. No exemplo: (48) Madeleine disse que vai se casar, o sujeito do pensamento enunciado é Madeleine, enquanto o sujeito que fala é um eu distinto. Para o autor, deve-se considerar que a língua tem formas para a expressão 27 Discussão dirigida pelo grupo de estudos da enunciação da FALE-UFMG nos dias 29.05 e 05.06.2014. 56 do dictum, a parte objetiva do que se comunica, e do modus, a parte subjetiva do que se comunica. Na história da gramática, podemos pensar no comando da forma verbal imperativa quando se extrai do sujeito um desejo ou a efetivação de um comando; é como se a propriedade do comando fosse constitutiva do sujeito. No caso das formas imperativas, Bally propõe uma análise das formas sintéticas do pensamento, em contraposição às formas analíticas do pensamento, considerando os implícitos, ou seja, elementos que estão presentes em relação a outros que estão ausentes, analisando nove formas de abordar, utilizando as formas imperativas. No percurso desses exemplos, podemos constatar que as expressões vão se condensando e os sentidos vão se constituindo de forma mais acurada, a ponto de uma palavra substituir uma expressão inteira. Há perda de elementos, de expressões, sem que o enunciado perca o essencial, isto é, à medida que se condensa o enunciado, ele vai se tornando mais forte e expressivo. As possibilidades, as modalidades de abrandamento aparecem quando articulamos. Quanto mais sucintos, este fato se torna mais nítido e contundente. Inspirados nos exemplos propostos e adaptados do autor, temos formas analíticas que vão se condensado, até se tornarem cada vez mais sintéticas. Vejamos: (49) Eu quero que você saia. (50) Eu ordeno que você saia. (redução nesse caráter analítico) (51) É necessário que você saia. (52) Você deve sair. (redução maior ainda) (53) Saia. (neste caso, a capacidade analítica reduz e a de síntese avança) (54) Porta afora. (55) Vá. (Fora) 57 (56) Gesto indicando a porta. (57) Pega o sujeito pelo braço e põe para fora 28 . No percurso desses exemplos somos levados a duas constatações: a) à medida que os exemplos vão se condensando, uma palavra vai substituindo as outras. O elemento lógico se funda no outro e a palavra titulada desaparece, até que nos últimos exemplos perdure apenas a palavra titulada, ou, até mesmo, desapareça. O mais interessante é que esse fato não compromete o que há de essencial no enunciado, ao contrário, o enunciado vai se tornando mais expressivo (DIAS, 2014) 29 . Tanto que se pensássemos na pessoa expulsa ou estivéssemos na situação por que ela passa, nos sentiríamos mais confortáveis se fosse utilizado o primeiro exemplo, ou as formas mais analíticas, como: (58) Por favor, seria incômodo se eu te pedisse para você sair? Quanto mais recursos utilizados, quanto mais analíticas e mais atenuadas, mais amenas se tornam as expressões. Essa é uma questão interessante, pois se o objetivo é fazer sair, quanto mais se condensa, quanto mais se sintetiza a expressão, maior é a possibilidade expressiva, embora a forma analítica também possa levar o outro a sair. A questão nos interessa muito, pois verificamos inclusive que à medida que o tempo passa a forma imperativa nos períodos em estudo vai se modificando. Hoje, em termos de ocorrência, ela vai se multiplicando e a forma convencional diminuindo, o que pode ser interessante na reflexão a respeito do perfil da mulher à qual é endereçada a composição musical. Vejamos os exemplos a seguir: 28 (49) Jeveux que tu partes. (50) Jevousordonne de quitter (laréduction de cecaractèreanalytique). (51) Il est nécessaire que vous quittez. (52) Vous devez laisser (encore plus de réduction). (53) jupe (danscecas, lacapacité d'analyse et réduitlasynthèseprogresse). (54) porte endehors. (55) Rechercher (Away). (56) geste indiquantla porte. (57) Prendre le brasdusujet et met em (tradução nossa). 29 Idem. 58 (59) Fica, Dindi, olha, Dindi, as águas deste rio a correr a correr. Minha vida inteira esperei, esperei por você, Dindi, que é a coisa mais linda que existe. Você não existe, Dindi, olha, Dindi, adivinha, Dindi (JOBIM OLIVEIRA, 1959). (60) Vou chamar pra dançar, vem cá mulher, vem cá dançar comigo agarradinho, vem cá. Que você vai gostar, ah vai! Isso, assim, vem pra mim [...] Ai, ai, ai, ai, ai, ai assim você mata o papai. Ai, ai, ai, ai que boca gostosa eu quero mais. As possibilidades expressivas, as modalidades de abrandamento aparecem à medida que articulamos. Quanto mais sucinta é a expressão, a relação interlocutiva adquire um grau maior de força, o que fortalece a ideia de que quanto mais articulatório, mais os lugares sintáticos aparecem. No caso dos exemplos (45) e (46), fica nítida a ideia de comando, embora a forma imperativa não esteja materializada. As expressões Não brincar, não deve brincar e Calma podem ser seguramente substituídas por não brinque em (45) e fique calma, esteja calma em (46), ou algo similar, sem que haja prejuízo do sentido. Isso demonstra um ganho substancial na teoria a respeito da subjetividade formulada por Bally, que é o fato de a conotação da ordem independer da forma convencional, conforme deixa explícito nos exemplos (49), (50), (51), (54), (55) e (56). Apesar da utilização de uma diversidade de formas expressas nesses exemplos, os gestos e as situações são utilizadas como formas imperativas; a conotação de comando e de ordenação é clara. A abordagem enunciativa que propomos fundamenta-se na possibilidade de unir ao plano enunciável uma materialidade articulável, ou seja, visto como sistema de regularidades. O enunciável só pode ser apreensível por meio das unidades que se articulam e se assentam em formas regulares, seguindo parâmetros, de certo modo, estáveis. Nesse quadro, a enunciação é o acontecimento da constituição do enunciado. No acontecimento enunciativo, o articulável adquire formações legíveis, tendo em vista que o enunciável se faz pertinente na relação entre traços de memória (DIAS, 2012), com vistas a significar o presente. Assim as formas da língua são 59 constitutivas da relação que se estabelece entre uma instância de presente do enunciar e uma instância de anterioridade (da memória) (DIAS, 2013A, p. 230). No campo de pesquisa que estamos desenvolvendo, um dos aspectos de sua especificidade se dá no âmbito da forma linguística que atua em consonância com os estudos do enunciado e da sentença, de acordo com as condições de ocorrência da sentença, especialmente as condições de ocupação dos lugares qualificados. Atentemos para o exemplo: (61) Lança, menina, lança todo esse perfume, desbaratina, não dá pra ficar imune ao teu amor que tem cheiro de coisa maluca. Vem cá, meu bem, me descola um carinho que eu sou neném só sossego com beijinho. Vê se me dá o prazer de ter prazer comigo (LEE; CARVALHO, 1980). Um olhar sobre as formas propicia o entendimento da relação entre forma verbal e pronome sujeito. Em uma abordagem enunciativa, ao acionar a língua observamos a relação entre a dimensão material orgânica e a enunciável, entendida como sistema de regularidades em que as unidades se articulam de forma a efetivar articulações socialmente pertinentes, assentando-se em formas regulares, seguindo padrões relativamente estáveis. Nessa perspectiva, “a enunciação é o acontecimento da constituição do enunciado (DIAS, 2013a)”, adquirindo formações legíveis cujo enunciável se estabelece na relação com os traços de memória de enunciados anteriores, atualizando-se para significar o presente. Nessa relação entre uma instância do presente do enunciar e uma instância de anterioridade é que funcionam as formas da língua, o que constitui a materialidade qualificada. Como podemos observar em (61), o verbo ganha especificidade na formação das sentenças. Um olhar sobre as condições de ocorrência da sentença produz o espaço de entremeio. Um desdobramento virtual da referência no lugar de sujeito nos permite dizer que em (61) os lugares de sujeito pertinentes aos verbos lança, desbaratina, vem, descola e vê podem ser afetados por uma força de retrospecção, à medida que aponta para um objeto de memória (BERRENDONNER, 1990, 2002), representado na figura de uma determinada mulher. A força de 60 retrospecção que opera no lugar do sujeito não ocupado e que participa de sua constituição como espaço enunciativamente qualificado nos conduz ao plano de anterioridade no qual o referente deve ser identificado. Podemos observar também em relação à não ocupação do lugar de objeto do verbo desbaratina que o efeito da força de progressão que se dá como construção de objetos de memória apontados na relação com a temática desenvolvida e a circunscrição do referente virtual nesse lugar sintático é determinada pelo extrato da memória em que se dá o relacionamento a dois. Pode-se inferir uma possível confluência e/ou convergência 30 entre o verbo no modo indicativo (expressando uma ação imposta ao interlocutor) e o verbo na forma imperativa (ideia de desejo, comando, conselho, ou algo que expressa vontade do locutor em relação ao que deseja seu interlocutor). Declarar algo não é nada além de expressar nossos desejos, nossas dúvidas ou nossa crença. Essa abundância de recursos aponta indícios de um lugar significativo que se atribui ao elemento subjetivo na linguagem. A expressão desbaratina pode dizer respeito à expressão menina, mas também ao locutor. Essa ambiguidade faz parte da natureza da língua, uma vez que o locutor confere à figura feminina atributos que condizem com o estado de coisas que fomentam o prazer na relação sexual, mas ao mesmo tempo atribui uma sensação ao interlocutor, ou, até mesmo, uma sensação/experiência do locutor no ato da conquista. Assim, do ponto de vista de uma teoria da enunciação, a materialidade linguística prescinde da presença de unidades lexicais, justamente porque ela é qualificada no plano enunciativo. O lugar sintático nesse processo de qualificação é um lugar de contato entre uma memória de ditos e a atualidade do dizer [...] enquanto unidades formais, os lugares sintáticos de sujeito e de objeto se qualificam na medida que funcionam como portos de passagem na rota de circulação de sentidos, de discursos para o enunciado, e deste para os espaços futuros de discursividade, que, por sua vez, serão bases para novos enunciados (DIAS, 2013a, p. 30 O conceito de convergência demonstra duas dimensões de constituição de lugares sintáticos operando numa mesma plataforma orgânica, isto é, num mesmo ponto da seqüencialidade sentencial: o plano da organicidade e o plano do enunciável. Nesse sentido, no plano do enunciável, a base referencial que sustenta os dois lugares sintáticos ganha uma dupla densidade. É no plano da organicidade, por sua vez, que as duas dimensões de constituição de lugares sintáticos se cruzam, e passam a ser orientados para um mesmo ponto (DIAS, 2007C, p. 225). 61 236). Hoje, nos estudos da linguagem, voltarmos para a estrutura representa uma grande ruptura, pois uma questão que se coloca passa pela relação entre memória e atualidade, tendo em vista algo heterogêneo, volúvel, instável. Essa memória de natureza interdiscursiva passa por modos distintos de ver, de conceber, e se constrói nas relações individuais e sociais, haja vista o fato de o mundo ser multifacetado em função da história social que se renova, tornando pertinente um olhar sobre as estruturas vislumbrando essa relação. Os enunciados acontecem, tendo em vista outros enunciados anteriores que aparecem no texto e com os quais não necessariamente precisa estar em consonância, mas podendo contrapô-los, motivando a descontinuidade e a busca das unidades discursivas. O grande desafio desse diálogo é pensar o objeto a partir de categorias que não chamam para o definitivo, esse lugar fechado à análise, de forma a olhar a materialidade e reagrupá-la de outro modo, olhando a singularidade do enunciado e abrindo-se para conhecê-lo. Torna-se latente nas formas imperativas que não há limite bem delineado entre as formas indicativas, subjuntivas e outras, sobretudo quando se trata do elemento subjetivo. Há uma passagem dos modos e dos tempos às pessoas. Ao falar, o indivíduo não consegue observar o mundo de forma desinteressada, e das três pessoas que ele se vale na linguagem, ele reserva de modo absoluto a primeira, estabelecendo sua individualidade diante do resto do mundo, não se distanciando da segunda a quem a primeira interpela. A constituição da pessoalidade é afetada pelo atravessamento do virtual ao atual. O sujeito aciona o verbo, retirando-o do estado de infinitivo. Esse processo é determinado por uma anterioridade de predicação 31 , no que diz respeito à 31 Em nossa perspectiva, o verbo, quando está no infinitivo, em estado de dicionário, é uma virtualidade. Na medida em que é acionado, torna-se uma unidade em perspectiva na língua portuguesa, isto é, recebe as coordenadas de enunciação (particularmente a de pessoa), passíveis de ser materializadas na forma sufixal. A submissão do lugar do sujeito é a condição para que ele receba a coordenada proeminente na predicação: a pessoalidade. A instalação do sujeito, portanto, rege a perspectivação da pessoalidade na predicação. Daí falarmos em anterioridade de predicação 62 instauração da enunciação absorvida pelo verbo, constituída com base “num suposto de existência que, para nós, se sustenta na passagem da instância do virtual para a instância do atual no acontecimento enunciativo” (DIAS, 2009, p. 20). Se o verbo não projeta o sujeito, seu lugar de sujeito provém de um “ponto de partida” (DIAS, 2007, p. 1) que é configurado enunciativamente: a anterioridade de predicação, que representa uma demanda de saturação da unidade sentencial para que se constitua nela uma base de predicação. A submissão ao lugar do sujeito é a condição para que o verbo receba a flexão. Para oferecermos uma exemplificação dessa relação entre sujeito, pessoalidade e anterioridade, definimos pessoalidade como “possibilidade de se recuperar a participação de personagens na cena descrita pelo enunciado” (PEREIRA, 2008). Em Dias (2008b), vemos que formas verbais infinitivas no estado finito propiciam duas leituras: uma especificadora e outra generalizante. Esta última não deve ser confundida com impessoalidade, porque mesmo sendo generalizante possibilita a recuperação das personagens. A forma nominal (FN) funciona como uma personagem da cena, pois atua como indicador de referência em cenas variadas. No entanto, a recuperação dessas personagens aparece, às vezes, de modo difuso, dando margem ao equívoco. No caso dos trechos musicais, a pessoalidade se instala na possibilidade de recuperarmos a participação de um “você/tu”, isto é, de uma segunda pessoa a quem o texto musical é direcionado. Seja pelo uso dos vocativos Dindi, meu amor, amor e menina, extraídos dos exemplos anteriores, ou não, na ausência de um pronome no lugar do sujeito há uma virtualização dos agentes de fica, olha, adivinha (59), vem (60) e chore, sorria e calma (46) nas composições. Essa virtualização caracteriza-se pela possibilidade de projeção de uma identidade na cena, em que a sentença é constituída, perspectiva desenvolvida por Guimarães (2005), sobre a qual falaremos adiante. como característica básica do GN sujeito, apreendido pelas condições de atribuição do lugar sintático (DIAS, 2009a, p. 20). 63 CAPÍTULO 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 A SEMÂNTICA DO ACONTECIMENTO Neste capítulo abordaremos a fundamentação teórica que norteou esta pesquisa. Inicialmente, discorremos sobre a semântica da enunciação de Guimarães (1989, 2002, 2005, 2008) e sobre a sintaxe em bases enunciativas proposta por Dias (2002, 2009a, 2012b, 2013a, 2013d), à qual nos filiamos. Em seguida, faremos uma reflexão sobre os autores que representaram fontes de âncora de grande relevância para os nossos estudos, como as propostas de estudo sobre a subjetividade de Benveniste (2005, 2006), Breal (1999) e Bally (1932), a macrossintaxe de Milner (1989) e as noções de apontamento propostas por Berrendonner (1990, 2002). Os estudos da semântica da enunciação têm nos permitido uma análise mais refinada de aspectos do funcionamento da língua que merecem ser explorados. No âmbito da gramática, há vastos terrenos profícuos a serem observados, para que se possa entender com mais profundidade o papel de fatores enunciativos na constituição das articulações sintáticas. Este é um dos objetivos precípuos do nosso estudo. Na percepção que ora desenvolvemos, a enunciação e a materialidade da língua se imbricam naturalmente na construção de uma identidade para o fenômeno da significação. Para Benveniste (2006), as especificidades enunciativas se dão por meio da relação locutor/língua, enquanto para a perspectiva à qual nos filiamos é o acontecimento que vai configurar a estruturação linguística. A enunciação é um acontecimento no qual se instala uma temporalidade própria. No presente da enunciação, convergem um passado e um futuro: uma memória histórico-social corroborada por enunciações anteriores revela-se na constituição dos sentidos configurados no presente do acontecimento, e essa configuração produz uma latência de futuro que constituirá, sob o signo da regularidade, o corpo memorável de outras enunciações (LACERDA, 2013, p. 30). 64 Assim, seguindo a abordagem que norteia nossa pesquisa, a noção de enunciação como “acontecimento sócio-histórico da produção do enunciado” (GUIMARÃES, 1989, p. 78), tal como ela é compreendida dentro da semântica da enunciação com a qual dialogamos, propicia a reflexão sobre as diretrizes que norteiam o estudo de uma sintaxe de bases enunciativas, o que suscita a reformulação na concepção de histórico, cuja pontualidade tem sido marcada no tempo cronológico. Compreendemos o histórico por uma perspectiva que o coloca na relação constitutiva entre memória e devir, relação essa que passa pelo social. Portanto, quando analisamos uma formulação presente, ela já está constituída pela memória de um passado, como também pelas direções de futuro. Por isso, dizemos que há uma conviviabilidade de tempos na enunciação. Acreditamos que a relação entre sujeito e sentido perpassa um conjunto de conformações imaginárias que passam a relação estabelecida entre um enunciado e a memória de outros anteriores, que só é possível porque o enunciado constitui os signos linguísticos, que se definem de forma relacional (GUIMARÃES, 1989, p. 76). Nesse caso, o acontecimento, ao mesmo tempo em que se vincula à regularidade histórica que o produz, é também passível de reformulação sobre essa regularidade. E isso se dá no acontecimento enunciativo em que o repetível e o novo se expõem, que, no nosso entendimento, dar-se-á na materialidade da sentença. O tempo linguístico, portanto, não pode ser confundido com o tempo crônico. No tempo linguístico somente o presente existiria organizando os acontecimentos em função da intersubjetividade. O fator temporal tem por eixo o locutor e o interlocutor, é em torno do sujeito e para quem ele enuncia, que o tempo presente é definido (MACHADO, 2012, p. 10). Retomemos o que disse Guimarães sobre a textualidade. Esta "diz respeito à posição- autor”, aqui considerada como fundamental à operação enunciativa. Nessa perspectiva, o texto fica aberto à interpretação que percorre as linhas da dispersão, da memória. E analisado enunciativamente, não diz respeito à situação, não pode ser considerado no momento e no lugar em que se deu, mas como a memória do discurso, o interdiscurso que faz funcionar a língua em um presente, isto é, a análise da enunciação está relacionada a algo fora da situação, à memória do dizer à língua. Deste modo, “a análise da enunciação não é ver como uma situação modifica 65 sentidos da língua, mas como o exterior da enunciação constitui sentidos no acontecimento” (GUIMARÃES, 2012), ou seja, como a memória interdiscursiva e a língua significam no presente da história dos sentidos. Observar o acontecimento é, portanto, o objeto específico a ser analisado no processo de funcionamento da linguagem. Analisar os elementos que recebem determinado sentido por sua relação com o que representam no momento em que são enunciados na sentença, o pronome na enunciação, em consonância com o verbo na forma imperativa, como lugar de instauração do sujeito, representa o ponto de partida para entendermos essa mulher a quem o locutor se dirige em tempos e contextos distintos. Adotaremos aqui a enunciação como acontecimento de linguagem que se faz pelo funcionamento da língua. Dois elementos são decisivos para a constituição desse acontecimento de linguagem: a língua e o sujeito que se constitui pelo funcionamento da língua por meio da qual se enuncia algo. Outro elemento importante na constituição do acontecimento é a temporalidade, não se tratando de contexto, situação, mas de uma materialidade histórica do real. O tempo não está num presente de um antes e de um depois. O acontecimento instala sua própria temporalidade (GUIMARÃES, 2002). Para nós, não é o sujeito que temporaliza, mas o acontecimento. O tempo da linguagem não é, portanto, originado do sujeito. Este é tomado na temporalidade do acontecimento, “a qual se configura por um presente que abre em si uma latência de futuro, sem a qual não há acontecimento de linguagem ou significação, nada há aí de projeção ou de interpretável” (GUIMARÃES, 2008). Para que signifique, o acontecimento de linguagem projeta em si mesmo um futuro. A temporalidade constitui o presente e um depois que abre espaço aos sentidos e um passado que não é concebido como lembrança ou recordação pessoal de fatos anteriores, mas no acontecimento que representa memória de enunciações, abrindo a perspectiva de “uma nova temporalização, tal como a latência de futuro” (GUIMARÃES, 2008, p. 15). O espaço de enunciação é, portanto, decisivo para tomar a enunciação uma prática 66 política e não individual ou subjetiva, nem uma distribuição estratificada de características. Falar é assumir a palavra nesse espaço dividido de línguas e falantes. Enunciar é estar na língua em funcionamento. E a língua não funciona no tempo, mas pelas relações semiológicas que tem. No acontecimento, o que se dá é o agenciamento político da enunciação, ou melhor, é o efeito do cruzamento de discursos diferentes no acontecimento. Segundo Orlandi (1996, p. 68), “um acontecimento enunciativo cruza enunciados de discursos diferentes em um texto”. Assim, a enunciação funciona como um acontecimento de linguagem perpassado pelo interdiscurso (p. 70). A posição do sujeito, a posição de onde se fala é o argumento decisivo na concepção de sentido. A apropriação do conceito de interdiscurso na semântica da enunciação, concomitantemente à apropriação de outros conceitos da análise de discurso, possibilitou instalar um lugar para a semântica, considerando a história. Ao mesmo tempo, produziu uma ruptura na filiação ducrotiana em que a história não era considerada. Portanto, a semântica histórica da enunciação possibilitou um trabalho com o conceito de interdiscurso. A modalidade da ordem marcada pelo uso de sentenças imperativas é assinalada não apenas pelos verbos, mas também pela força persuasiva inerente ao gênero música, expressa por meio do enunciado. Essa força persuasiva não depende exclusivamente da relação que existe no enunciado entre locutor e interlocutor. O critério de seleção lexical na assunção das palavras se dá em cenas enunciativas. Uma cena enunciativa caracteriza-se por constituir modos distintos de apropriação da palavra, dadas as relações entre os sujeitos da enunciação e as formas linguísticas. A cena enunciativa é, então, um espaço particularizado por uma deontologia específica de distribuição de lugares de enunciação no acontecimento. Na cena enunciativa aquele que fala ou aquele para quem se fala não são pessoas, mas uma configuração do agenciamento enunciativo. São lugares constituídos pelos dizeres e não pessoas donas de seu dizer. Assim estudá-la é necessariamente considerar o próprio modo de constituição destes lugares pelo funcionamento da língua. Esta distribuição de lugares se faz pela temporalização própria do acontecimento. Neste sentido, a temporalidade específica do acontecimento é fundamento da cena enunciativa (GUIMARÃES, 2002b, p. 23). 67 Podemos verificar pelo uso de verbos, conforme asseveramos anteriormente, que por meio das marcas de modalidade é possível depreender não apenas conotações de ordens ou instruções, em certas passagens elas podem ser tomadas como sugestões, convites ou opiniões do enunciador. Observemos as passagens: (62) Deixe que ela se vá. Não lhe diga que não. Deixe que ela se vá procurar outro amor em vão. Mas, um dia, se ela se cansar e pensar na maldade que fez, certamente ela há de voltar pro meu lado outra vez (GOUVEIA; FERRAZ, 1958). (63) Hum! Mas se um dia eu chegar muito estranho, deixa essa água no corpo lembrar nosso banho. Hum! Mas se um dia eu chegar muito louco, deixa essa noite saber que um dia foi pouco. Cuida bem de mim, então misture tudo dentro de nós. (RABELO; DALTO, 1982) (64) Bota o teu vestido longo, nega, venha antes de chover, bota o teu vestido novo, nega, se tirar me dar prazer (PEDRINHO et al., 2008). Os espaços que vão preencher o lugar do sujeito em (62), (63) e (64) não aparecem materializados nas sentenças, funcionam como personagens da cena, pois atuam como indicadores de referência em cenas variadas. No entanto, a recuperação dessas personagens aparece, muitas vezes, de modo difuso, dando margem ao equívoco. Neste caso, a pessoalidade se instala na possibilidade de recuperarmos a participação de um “você/tu”, isto é, de uma segunda pessoa a quem o texto musical está sendo direcionado. Os espaços de enunciação são espaços de funcionamento da língua que se dividem, redividem, se misturam, desfazem, transformam por uma disputa incessante. São espaços habitados por falantes, ou seja, por sujeitos divididos por seus direitos ao dizer e aos modos de dizer. São espaços constituídos pela equivocidade própria do acontecimento: da deontologia que organiza e distribui papéis, e do conflito, indissociado desta deontologia, que redivide o sensível, os papéis sociais. O espaço de enunciação é um espaço político (GUIMARAES, 2005, p. 3). Assumir a palavra, portanto, é estar no lugar de enunciador/locutor, sendo este o lugar que se representa no próprio dizer como fonte desse dizer e o tempo como 68 contemporâneo desse locutor. Teoricamente, para esse deslocamento Guimarães (2005, p. 18) conduz a uma redefinição das figuras enunciativas, sobretudo a do locutor e a do enunciador, bem como uma nova configuração de falante. Além disso, ele também dá um novo estatuto à figura do falante. Diferentemente de Ducrot, para Guimarães o falante não é considerado empírico em seu aspecto físico, biológico ou psicológico, mas constitui uma figura política constituída pelos espaços de enunciação. E é nessa medida que ele deve ser incluído entre as figuras de enunciação. Do trecho (62) subtende-se que o locutor 32 tem a intenção de sugerir/aconselhar, não ordenar, trazendo algumas marcas da modalidade deôntica por meio do uso dos advérbios e dos termos um dia e certamente. A presença desses elementos, de acordo com Bally (1932), acentua a subjetividade presente nas construções. A concordância com a segunda pessoa observada por meio da alternância no tratamento tu/você é fato que evidencia a relação de intersubjetividade. Nas músicas, esse uso serve para aproximar o locutor do seu interlocutor, permitindo-lhes compartilhar o mesmo espaço discursivo, reconhecendo aqui o Locutor como lugar afetado pelos lugares sociais autorizados a falar, pois de acordo com as ideias de Guimarães (2005, p. 24) para o Locutor se manifestar como origem do que se enuncia é necessário que ele se represente ou seja predicado por um lugar social. Segundo o autor, esses enunciados possuem especificidades em que o Locutor se representa de forma dúbia: assumindo o lugar social de amigo e, simultaneamente, do próprio aconselhado. Ambos, enunciador e interlocutor, se fundem. Na composição (62) em questão, o Locutor aconselha seu interlocutor a deixar que a companheira se vá. Curiosamente, locutor e interlocutor se confundem, constituindo o mesmo elemento enunciativo. É como se a modalidade expressa pela forma imperativa funcionasse como um conselho para si próprio; neste caso, a priori, podemos depreender da forma a modalidade como dirigida para a primeira pessoa, o que contraria o princípio da GT (gramática tradicional), que desconsidera a 32 O Locutor (maiúscula), para Guimarães, só pode falar, enquanto predicado por um lugar social, representado pelo autor como locutor-x (o x representa presidente, governador, padre, etc.). Portanto é importante estabelecer essa distinção entre Locutor e locutor-x. Dessa forma, o Locutor só se configura a partir de um lugar social (2005, p.23). 69 possibilidade de a primeira pessoa dar ordem, sugestão, conselho a si mesma, acarretando a inexistência na gramática de uma forma imperativa relacionada a ela. O locutor manifesta a possibilidade de retorno da amada como algo certo e já com resposta de repúdio a essa possibilidade. Isso mostra que o Locutor fala do lugar social do sujeito que foi injustamente abandonado pela companheira. Essa prerrogativa torna-se clara quando, ao retornarmos ao texto musical, observamos o desfecho: E quando ela voltar, eu então a sorrir lhe direi que me cansei de esperar e que não posso aceitá-la outra vez. Mas esta representação de origem do dizer, na sua própria representação de unidade e de parâmetro do tempo se divide porque para se estar no lugar de L é necessário estar afetado pelos lugares sociais autorizados a falar, e de que modo, e em que língua enquanto falantes. Ou seja, para o Locutor se representar como origem do que se enuncia, é preciso que ele não seja ele próprio, mas um lugar social de locutor (GUIMARAES, 2005, p. 24). Já no exemplo (63), por meio do uso das formas deixa, cuida e misture, podemos inferir que o Locutor fala do lugar social do amante/companheiro que mantém um relacionamento cuja liberdade conota laços estreitos entre o casal, demonstrando certa intimidade e segurança. Desse excerto pode-se abstrair uma conotação de ordem. A tessitura do trecho em (63) possibilita a apreensão de uma situação menos tensa, e um relacionamento mais livre, o que pode ser observado por meio do uso de termos como nosso banho e muito louco. Essa construção ocasionalmente ocorre na década de 1980, como é o caso de: (65) Quem vem com tudo não cansa, Bete, balança, meu amor. Me avise quando for a hora. Não ligue pra essas caras tristes, fingindo que a gente não existe (CAZUZA; FREJAT, 1984), como também em: (66) Me dá um beijo, então, aperta minha mão. Tolice é viver a vida assim sem aventura. Deixa ser pelo coração. Se é loucura, então, melhor não ter razão (SANTOS; SOUZA, 1984) Diferentemente dos textos dos meados do século XX, em que certas categorias eram improváveis de ocorrer, como em Bete balança (65), por exemplo. No caso de haver 70 uma designação como essa, a personagem seria inserida em outro perfil que certamente não mereceria destaque em uma composição musical. Isso permite afirmar que, assim como existe uma discrepância na utilização das formas imperativas na construção da modalidade entre as décadas de 1950 e 1980, é certo que novas possibilidades apareceram em 2000. Vejamos o termo bota no exemplo (64) e a perspectiva de ordenação onde as formas imperativas vão se tornando cada vez mais livres, sem que se perca sua essência, como podemos observar em Calma, exemplo (46), ou: (67) Só as cachorras, as preparadas, as popozudas, o baile todo (TIGRÃO, 2001). Ao considerar os períodos em que foram constituídas as músicas (62), (63) e (67), podemos observar pela própria construção sintática uma distinção no uso dos termos. Como podemos observar, de um período a outro as formas vão se modificando: ora tornam-se rijas, ora mais tênues, ora se dispersam. Parece haver um continuum na diluição/condensação das formas verbais imperativas: cuida/misture (63) e calma (46). Embora os três períodos constituam um amplo escopo de referência, é possível escalonar os elementos ocupantes do lugar de sujeito segundo o modo como produzem tal referência. Tanto em (62) como em (63) e (67), temos a projeção de um você/tu como sujeito da forma verbal imperativa. As FNs constituem um parâmetro de referência associado a um (pré)conceito em relação ao perfil da mulher. Chamamos atenção, portanto, para três modos distintos de configuração da referência o escopo do lugar de sujeito que respaldam a construção do perfil da mulher dos anos de 1950, 1980 e 2000: a projeção de interlocutores, a constituição de parâmetros e a constituição de perfis ajustados a cada período proposto. À medida que esses modos de configuração da referência no domínio do lugar de sujeito produzem efeitos, acreditamos que as sentenças que os abrigam podem ser distribuídas, mantendo, assim, uma regularidade que associa a configuração do lugar de sujeito ao modo de enunciação da sentença. 71 De um lado, teríamos nas sentenças onde são utilizadas as formas imperativas um efeito de interlocução, indicando as possibilidades de ocupação do lugar de sujeito. Ainda que o pronome possa indicar uma referência a uma pessoa, seja qual for, esse pronome não se desprende por completo da identidade linguística que o constitui como forma de pessoa envolvida no discurso (no caso do referente você/tu). A distribuição das sentenças na escala registra esses traços de referência que derivam da pertinência categorial das unidades linguísticas que estão no domínio do lugar de sujeito. Ao associarmos a composição da referência a cada período distintamente na constituição do lugar de sujeito, estamos observando as coordenadas enunciativas de construção dessa identidade na configuração desse lugar sintático, ou seja, estamos observando traços de regularidade. À medida que o pronome sobre cuja materialidade se inscrevem as coordenadas enunciativas restringe o lugar de sujeito da sentença, lidamos com uma regularidade que proporciona mudanças na constituição da organicidade da língua. 2.2 A NOÇÃO DE LUGAR SINTÁTICO Atualmente, uma das características comuns das pesquisas que discorrem sobre a relação entre enunciação e gramática é a tentativa de relacionar categorias gramaticais à textualidade. Segundo esses estudos, a noção de lugar sintático apresenta traços que são sustentados ora pelas formas flexionais (no caso do sujeito), ora pelos traços sintáticos infundidos no verbo, como categoria lexical, ou até mesmo pelas projeções de natureza argumental provenientes da significação do verbo. Nessa perspectiva, os lugares sintáticos seriam ancorados na “constituição orgânica da sentença ou projetada por meio das regularidades de domínios de referência e pelas condições enunciativas de ocupação desses lugares” (DIAS, 2007). As FNs passíveis de ocupação do lugar de sujeito perfazem uma referência específica para cada um dos fragmentos propostos em (62), (63) e (67). Essa análise confirma a nossa hipótese de que o modo de enunciação 33 da sentença, ou seja, o modo como se configura o escopo referencial da sentença, parece determinante para a configuração da referência instalada no lugar de sujeito gramatical. A relação entre modo de 33 Conferir Modos de enunciação e gêneros textuais (DIAS, 2007g). 72 enunciação e configuração do lugar de sujeito faz parte da regularidade da língua, que seria compreendida da seguinte maneira: a constituição do domínio de referência no lugar de sujeito é circunscrito a um perfil de mulher que vive em um contexto histórico-social no exemplo (62), delimitando os referentes que podem ser constituídos na sentença, outro em (63) e outro em (67). Ao tratarmos dos traços de regularidade dos elementos que podem de ocupar o lugar sintático sujeito, levamos em consideração o fato de que as regras que caracterizam o sistema linguístico do português evidentemente possam ser aplicadas à construção das sentenças, afinal elas se valem de morfemas que constam da gramática do português, constituídas por lexemas também constantes do dicionário. O que observamos a respeito do lugar de sujeito nas sentenças em (62) e (63) e (67) confirma a análise que temos feito nesta seção. Os ocupantes do lugar de sujeito constituem uma referência específica, vinculada a uma atualidade enunciativa particularizada. Segundo a regularidade apontada anteriormente, o elemento ocupante do lugar de sujeito em cada uma das sentenças seria responsável pela constituição de uma referência distinta para cada período proposto neste estudo. E por meio da conotação de ordenação, podemos inferir o direcionamento do sentido em função de momentos devidamente marcados e constituídos sócio-historicamente no universo dos gêneros. Para Pêcheux (1998, p. 25), a língua comporta uma estrutura orientada pela ordem simbólica, sinalizando um investimento na sintaxe. Segundo o autor, o simbólico é constitutivo da linguagem. Sendo assim, a estrutura, a construção sintática comporta uma tensão entre duas dimensões: orgânica e simbólica. Para tornar isso mais claro, utilizaremos uma situação inspirada em Dias (2009). (68) Damila comprou um tecido estampado para o casamento de sua sobrinha; ela mesma fez o corte, costurou, montou e vestiu-se lindamente para a festa. Na primeira sentença, temos as FNs Damila e tecido ocupando lugares gramaticais de sujeito gramatical e objeto, respectivamente. Já, na segunda, não podemos afirmar que os lugares sintáticos ocupados sejam correspondentes. No caso do sujeito 73 gramatical dos verbos elencados na segunda sentença, mesmo não manifestos, pressupõe-se uma referência por elipse, constituída por meio de uma ancoragem no período anterior. Contudo, os lugares dos objetos projetados pelas formas verbais em questão contam com um mecanismo para além da retomada por elipse na constituição da referência. Esse fenômeno sinaliza uma tensão entre as dimensões material e simbólica da língua, apontando a necessidade de uma ancoragem em um domínio de memória de outra temporalidade que se instala na enunciação presente. Isso mostra que a gramática propicia a construção de unidades textuais num princípio de regularidade: a repetição lexical e a substituição pronominal são princípios incipientes para dar conta da recorrência com que aparece em textos “e o fato de a língua estabelecer regularidades desse tipo, a partir da tensão entre o orgânico e o simbólico, é por si mesmo um forte indício de que essa tensão seja intrínseca à língua” (LACERDA, 2013, p. 34). Se na primeira sentença o GN-sujeito é tomado como base para a definição da referência no escopo dos lugares de sujeito das formas verbais, na segunda, os lugares de objeto dessas formas não operam com o GN-objeto tecido. Torna-se complicada uma construção parafrásica na segunda sentença do tipo: (69) Damila comprou um tecido estampado, fez o corte do tecido, costurou o tecido, montou o tecido e vestiu o tecido. A constituição da referência no escopo dos lugares de objeto em análise funcionaria de modo a construir uma progressão temática (DIAS, 2009) da sequência textual em (68), o que tentamos desenvolver em (69). Encontramos exemplos similares em Dias (2009, p. 27). (70) Damila comprou o tecido, fez o corte do tecido, montou a peça e vestiu a roupa. O fato de não haver ocupação dos lugares de objeto em algum dos itens da segunda sentença em (68) sustenta essa construção temática de maneira complexa. Diferentemente do que ocorre na projeção dos lugares de sujeito do segundo período, essa construção temática nos lugares de objeto escapa à mera retomada por elipse, potencializando a discrepância entre as dimensões material e simbólica da língua. 74 A discussão a respeito da definitude referencial por ancoragem produzida nas sequências é relevante em nossa discussão. Essa discrepância entre as dimensões orgânica e enunciativa da língua pode fomentar a discussão sobre as regularidades linguísticas, já que defendemos a tese que os elementos linguísticos organizam-se de forma complexa em função das condições de produção enunciativas e essas condições é que vão determinar os recortes de significação constituídos pelas sentenças. Esta organização se submete a regularidades estabelecidas pela língua, associadas às condições enunciativas do dizer. O sistema da língua, comparado a um jogo de xadrez, é governado por regras que o identificam como tal e são “internas” a ele. As regras estão arraigadas na constituição do sistema linguístico, como o estão na concepção do xadrez, resistem ao que lhe é “exterior” e tornam previsível a inventividade do falante ou do jogador [...] Em outras palavras, interessa-nos compreender como os fatores enunciativos, atravessando as regras da língua, produzem regularidades (LACERDA 2013, p. 38). O estudo do fato gramatical, conforme pensado em Dias (2007a), e o conceito de condições operativas nos são pertinentes, haja vista que preveem a existência dos lugares sintáticos e as condições de ocupação desses lugares, prevendo, inclusive, a não ocupação sem perda de efeito de sentido do enunciado. Isso nos leva a crer que o sentido de um enunciado é concernente não apenas à sua estrutura, mas, sobretudo, à história de sentidos desse enunciado e de outros, com os quais se contrapõe, concorda ou simplesmente dialoga, ou até mesmo as coisas sobre as quais ele fala. “O sentido está no potencial das enunciações nas quais essa sentença foi proferida” (DALMASCHIO, 2013). Acreditamos que investigações pautadas em uma perspectiva enunciativa dos atos linguísticos da significação representam suporte à compreensão da constituição dos lugares sintáticos do português. Nesse caso, a enunciação é o acontecimento do dizer que uma atualidade filia-se a uma memória (GUIMARÃES, 2002), sendo motivada pela significação que contrai pertinência em relação à atualidade do dizer. “Essa pertinência, portanto, não é contraída na relação direta entre a formulação linguística e uma realidade referida” (DIAS; LADEIRA 2013). Assim, ao produzir um enunciado/sentença retomamos e evocamos enunciados anteriores. Esse “já-dito” constitui a instância dos discursos conclamados ou modificados na enunciação. 75 Quando produzimos referências a entidades exteriores à linguagem, automaticamente já significamos essas entidades na relação entre a atualidade da instância do referir e a memória, de ordem discursiva, que permite situar a referência sustentada em uma rememoração de enunciações recortadas pelo enunciado, resquícios do passado por ele representados como seu passado. Portanto, uma música endereçada à figura feminina, materializada no uso da forma imperativa, para além de sugestão, convite, pedido ou ordem, opera na relação entre unidade enunciativa e unidade sentencial, em que os dizeres se entrecruzam com o já- dito, tendo em vista o acontecimento enunciativo. A língua funciona de modo a proporcionar essa relação entre a memória e a atualidade do dizer. O funcionamento da língua se dá pela relação que as formas linguísticas em latência contraem com o domínio de memória no acontecimento. As formas da língua são constitutivas da relação que se estabelece entre uma instância de presente do enunciar e uma instância de anterioridade, que se apresenta heterogênea nas diversas abordagens (DIAS; LADEIRA, 2013, p. 91). Nesse cruzamento entre memória e atualidade vão se delineando os lugares sintáticos. A sintaxe é um palco cruzado pelas regularidades dos lugares sintáticos ou funções sintáticas. Nesse sentido, a unidade sintática se constitui de formas que já funcionaram regularmente como suporte de outras unidades e como demanda de formação de outras unidades passíveis de ocorrerem. Acreditamos que a ocupação ou não desses lugares obedecem a condições referentes a essa demanda, oriunda do acontecimento enunciativo. Para que possamos apontar os fundamentos enunciativos da constituição desses lugares nesse tipo de sentença, a noção de flexão, que orienta a passagem do verbo do estado infinitivo para o estado finito, estará em causa. Daí a necessidade de explicitar o conceito de flexão adotado, sob um percurso a respeito das noções de sujeito, ancoradas em outras noções como anterioridade e pessoalidade. Dias (2002) ressalta que na constituição do enunciado sentencial o sujeito representa o lugar sintático responsável pela retirada do verbo de seu estado infinitivo, predispondo-o a receber as variações de flexão. Isso explica a existência do lugar do 76 sujeito não como condição de argumento do verbo, pelo contrário, o verbo é que depende da instalação do lugar do sujeito para ser retirado da sua condição de dicionário. Nos acontecimentos da língua, via oralidade ou escrita, construímos estruturas regulares. Essas construções regulares são as sentenças ou orações. Podemos começar a abordagem dessa regularidade destacando as formas verbais presentes no texto (DIAS, 2010, p. 35). Dentre os verbos utilizados, destacamos as expressões chora, liga, implora e pede em: (71) Chora, me liga, implora/meu beijo de novo/ me pede socorro (COELHO, 2009), Em sua constituição, esses verbos passaram por conjugação, isto é, entraram em sintonia com outras expressões que compõem a sentença. O fato de estarem conjugados indica que eles saíram do estado de infinitivo e manifestaram-se em consonância com a constituição da sentença. Daí serem conhecidos como formas verbais. Isso constitui regularidade. Os verbos, em nossa língua, passam pelas mesmas variações, conforme noções de modo, tempo, pessoa e número. Do ponto de vista da enunciação, os verbos se mobilizam por meio do locutor, saindo do estado de dicionário, adquirindo papel relevante na constituição da sentença (DIAS, 2010, p. 36). A regularidade nas articulações sintáticas representa uma via de entrada para o conhecimento de gramática. A sentença é a face regular da unidade configurada como enunciado. Como tal, ela detém uma geografia de lugares sintáticos nos quais a memória do dizível e uma demanda de atualidade encontram pontos de contato. O enunciado se beneficia dessa relativa estabilidade dos lugares sintáticos. Na perspectiva que estamos desenvolvendo, o olhar sobre a sentença não pode se desvincular do olhar sobre este ponto de contato (DIAS, 2009, p. 13). Dessa forma, a sentença é afetada pelos modos como a memória do dizível, proveniente de enunciados produzidos anteriormente, e a construção enunciativa do dizer em um acontecimento atual entram em harmonia, marcada pela configuração de “percursos temáticos, tornando-se um texto ou sentença pertinente. Isso permite a 77 articulação entre cenas já construídas na memória e cenas em construção na esfera textual em atualidade de enunciação” (DIAS, 2009, p. 13). Em Só as cachorras... as preparadas... as popozudas... o baile todo (67), podemos afirmar que, quando utilizamos designações como cachorras, preparadas, popozudas (71), periguetes, peguetes ou algo similar, tais categorias foram afetadas por um dizível que fora ancorado em memórias de um já-dito que cruza, dialoga e contrapõe discursos sobre o que constitui características referentes ao desempenho sexual feminino. Isso só é permitido se reconhecer por meio de regularidades que consolidaram um modelo imposto de mulher cristalizado socialmente, ou seja, por trás dessas categorias designativas reside um discurso que contrapõe formações nominais como moça comportada e mulher liberada. As representações sociais traduzem a maneira como determinado grupo se reconhece em suas relações com os elementos que o afetam. Para compreender como a sociedade nos é representada, precisamos considerá-la não como indivíduos. Se a sociedade condena certos modos de conduta, é porque esses entram em choque ou não com alguns sentimentos fundamentais que pertencem a sua constituição (DURKHEIM, 1978, p. 79). É constitutiva do verbo na forma imperativa a instauração imediata do atributo de pessoa. Façamos agora uma análise comparativa entre músicas dos três períodos propostos: (72) Escuta, vamos fazer um contrato. Enxuga o pranto barato/que entristece o olhar (CURI, 1955). (73) E voando bem alto (Eva), me abraça pelo espaço de um instante, me cobre com teu corpo e me dá a força pra viver. Segundo Guimarães (2002), a projeção do lugar de sujeito é que está em questão, uma vez que ao ser projetado pelo verbo é aí tomado como fora do plano da organicidade e, mesmo que ele possa ser depreendido da flexão do verbo, na enunciação, considerada como acontecimento de linguagem, a língua é posta em funcionamento, acionando-se essa instância da memória. 78 Vemos que as expressões referenciais definidas, como o pronome (tu/você), realizam enunciados efetivos, numa dada situação de discurso. Isso produz uma reescrituração 34 , determinando sentidos estabelecidos, não somente no plano da organicidade do enunciado, mas fora dele. O pronome refere-se em planos distintos regulados pela constituição da memória do acontecimento de outros dizeres concernentes ao momento social vivido. E a história desses dizeres perpassa por uma relação interdiscursiva, que é a relação com outro (ORLANDI, 1984), isto é, o dizer do outro que se representa ou resgata, na qual o dizer do eu e o dizer do outro entram em sintonia, produzindo recortes e construindo, assim, um espaço para a história que permite a representação ou a retomada do dizer do outro no dizer do eu. Por meio da sentença em que se deixa apreender por essa virtualidade, o lugar sintático do sujeito se instala, projetando uma referência que determina a projeção para contextos distintos. No centro de constituição de referência, onde se dá a relação entre a atualidade e a memória, é que circulam as informações a respeito do perfil da mulher. Segundo Orlandi (1992, p. 89), o enunciável (o dizível) é um já-dito, e como tal é exterior à língua e ao sujeito. “Ele se apresenta como séries de formulações distintas e dispersas que formam em seu conjunto o domínio da memória” dos papéis assumidos pela mulher no interior da sociedade. No exemplo (47) o locutor não se dirige diretamente à pessoa amada. Por meio da utilização do vocativo minha tristeza, podemos inferir certo distanciamento entre o conquistador e a pessoa amada. Elucidando a noção de poder no contexto da construção do enunciado, a mulher é o objeto desejado pelo qual o homem luta, e o apelo é projetado não apenas pelo lugar ocupado pelo verbo, ou o sujeito pronome no enunciado, mas pelas condições de ocupação, que é limitada. Em construções musicais do período em questão, há a preocupação com a obediência ao uso padrão da linguagem, conforme a prescrição da GT, em textos que apresentam 34 Utilizamos aqui uma noção adaptada do conceito de reescritura adotada por Guimarães (2005), que é o procedimento que permite que o texto rediga insistentemente o que já foi dito. “Assim a textualidade e o sentido das expressões se constitui pelo texto por esta reescrituração infinita na linguagem que se dá como finita pelo acontecimento (e sua temporalidade) em que se enuncia”. 79 verbos na segunda pessoa do singular, podendo-se vislumbrar a utilização do verbo em tal modo com propriedade e segurança, sem, como apregoa a tradição, cometer “deslizes” no que diz respeito à norma. Essas posições interlocutivas definem o paradigma discursivo, que é a afirmação do papel da mulher na relação amorosa ancorada nos moldes da sociedade da época. Nesse caso, construir uma perspectiva é construir uma representação. O compromisso com o uso do verbo não está no conteúdo do que foi dito e sim no conteúdo produzido no ato de enunciação. Ao dizer determinadas coisas, você produz uma inserção do produtor/ enunciador (DIAS, 2003). Observando as construções dos outros dois períodos: anos de 1980 e terceiro milênio, a considerar o papel da mulher na sociedade, somos capazes de inferir a ideia de que, com o passar do tempo, na memória histórico-social a mulher ocupa outros espaços, outros lugares. Por meio do uso do verbo percebemos que, para além das noções postuladas pela tradição gramatical, fica cada vez mais nítida uma noção que não pode ser dissociada da perspectiva semântico-discursiva do fato linguístico. Nessa perspectiva, a construção dos textos das composições musicais aponta relações que perpassam novos modelos e paradigmas em que a mulher permanece na posição central da discussão. Paradoxalmente, ao constituir um imaginário de que ela seria o eixo de domínio, o sujeito enunciador a suscita a tomar posturas socialmente determinadas, como podemos observar pelo uso da forma verbal nos exemplos citados anteriormente nos três períodos mencionados. Ao considerarmos três perfis de mulher em três períodos distintos: uma de meados do século XX, outra dos anos de 1980 e uma terceira de 2000, o uso do verbo na forma nominal na produção textual parece socialmente determinado. Para isto, devemos observar a complexidade de uma relação estabelecida entre o estudo dos lugares de memória na sociedade. 2.3 FORMAS NOMINAIS REFORÇANDO O SENTIDO DE ORDENAÇÃO Ao refletirmos sobre a construção sintática do título da música Bete Balanço (65), temos uma relação por dependência 35 , estabelecida entre o núcleo Bete e o adjetivo 35 Conferir em Dias (2012b), texto que aborda relações de articulação por dependência e por 80 Balanço. Nessa relação, o adjetivo se agrega à FN de forma a estabelecer um modo de convergência referencial voltado para o núcleo. Nessa concepção, a FN comporta uma “predicação interna”, em que o núcleo Bete se constitui como dependente da perspectivação Balanço. Dessa maneira, flagramos a constituição da FN com sua base em saliência, apresentada como objeto do enunciar (sobre o balanço de Bete). O efeito que obtivemos é o de que a perspectivação opera na atualidade da FN, ou seja, a enunciação relativa ao balanço de Bete contempla uma forma de apreensão da referência pelo adjetivo. Uma vez que a relação de dependência se dá no âmbito do enunciado, a perspectivação se realiza de forma a agregar informação à referência constituída internamente à FN. Uma abordagem preliminar da expressão que identifica Bete Balanço não se destaca por nenhum atrativo especial, a não ser o fato de que entre balança e Balanço há uma convergência. Especificamente, o que nos chama atenção nessa expressão é o fato de que temos aqui um adjetivo que indica qualidade, estado ou aparência de Bete. Ao mesmo tempo, do ponto de vista da perspectivação, indica-nos que o adjetivo se articula com o núcleo sob o modo da incidência, e não da dependência 36 . Com efeito, o procedimento de focalização temática permite a seguinte conclusão: o efeito de sentido que sobressai é o de que o locutor está promovendo uma avaliação do ponto de vista da sua caracterização, isto é, tomando-a como objeto do enunciar. No entanto, a relação entre o adjetivo e o substantivo, nesse caso, envolve algo mais complexo do que a simples caracterização de Bete. O adjetivo Balanço só poderá ser compreendido à medida que na enunciação incide um reconhecimento por parte do locutor do fato de Bete saber balançar, que se instaurou quando efetivamente se invoca uma memória e marca uma impressão ou avaliação do comportamento de Bete. incidência no âmbito do adjetivo na formação nominal em uma abordagem enunciativa. 36 Segundo Dias (2012), a articulação por dependência se dá “entre elementos que se vinculam no âmbito do enunciado, contraída pelo agenciamento dos locutores no acontecimento enunciativo, ao passo que a articulação por incidência se dá pela relação entre enunciação e enunciado, e também agenciada pelo Locutor”. 81 Nessa direção, temos na verdade uma articulação por incidência. A agregação do adjetivo à FN é permeada pela historicidade específica da relação entre o sujeito e as instituições sociais, que se mostra na (re)incidência do gesto cotidiano testemunha de emoções, esperanças e sofrimentos passados que convinha fazer calar, e pela resistência, fazendo ouvir o desejo carnal de mulheres do povo que esperam que seus companheiros que tenham bom desempenho sexual. O adjetivo Balanço só poderá ser compreendido à medida que na enunciação incide uma avaliação por parte do locutor à postura comportamental de Bete. Assim, enunciar Bete Balanço é invocar uma memória e marcar um pré(conceito). Nessa direção, em vez de uma relação de dependência temos na verdade uma articulação por incidência. A agregação do adjetivo à FN é permeada pela historicidade específica da relação entre o sujeito e as instituições sociais, que se mostra na (re)incidência do gesto que sustenta a articulação do adjetivo em relação aos atributos de Bete, e não ao seu caráter. Essa articulação está diretamente relacionada com a posição em que o sujeito enuncia. Analisar uma questão linguística como a agregação do adjetivo à FN envolve conhecer não apenas o modo como ela se dá no nível das relações estritamente linguísticas (dimensão orgânica), manifestadas na linearidade do dito, mas também no jogo das posições de enunciação. De acordo com Dias (2013), na articulação por dependência essa tensão é situada na relação entre a perspectivação proporcionada pelo adjetivo e a força de convergência em prol da definitude do núcleo, no âmbito da própria constituição temática. Por sua vez, na articulação por incidência a tensão entre o estrutural e o enunciativo se apresenta pela interposição do locutor na perspectivação. A FN Bete Balanço/balança é a incidência àquilo que o locutor evoca como pertinente a um comportamento condizente com a revolta das mulheres contra o machismo que antecede a revolução sexual dos anos de1960. Tal postura e posicionamento masculino referendam a liberação da mulher, o reconhecimento da valorização da sensualidade do ritmo e da movimentação do corpo ocorrida nos anos de1980, embora com certa limitação configurada na atitude de o locutor incitar Bete a dançar. 82 Isso só produz perspectiva porque se constitui pertinência enunciativa, ou seja, porque o gesto de constituir uma formação nominal é motivado por uma relação de inserção do que se diz na atualidade do dizer. Portanto, a enunciação é acontecimento: ela contrai pertinência no enlace de uma memória com uma atualidade. Consideramos, portanto, que procedimentos como anáfora, catáfora, repetição e substituição são provenientes do sentido próprio da textualidade, o que significa que “não há texto sem o processo de deriva de sentidos. Esta deriva enunciativa incessante é que constitui o texto” (GUIMARAES, 2005, p. 28), o que nos leva a crer que procedimentos de textualidade são procedimentos de reescritura, isto é, a enunciação de um texto rediz insistentemente o que já foi dito. Voltar ao dito para continuar dizendo, ou apontar um futuro do dizer, sem ainda ter dito, dá ao sujeito, pela própria injunção à reescrituração, o lugar de seu trabalho sobre o mesmo que o apreende e que ele refaz ao parafrasear, já que a paráfrase é tensionada pelo polissêmico. O processo de reescritura pode parafrasear ou escandir uma sequência para estabelecer um ponto de identificação/correspondência (GUIMARAES, 2005, p. 28). Por meio da leitura anafórica, escande-se a sequência para produzir uma identificação do pronome tu/você com o vocativo Bete, o que nos permite o reconhecimento de Bete como pessoa amada, companheira. Nesse caso, faz funcionar no texto um pré-construído: o da identificação de um indivíduo (pessoa) do sexo feminino. Por outro lado, temos outro pré-construído do que seja uma namorada/amante/liberal. Isso prova que a dêixis não é uma remissão à situação, é, também, um ato de redizer o afetado pelo interdiscurso. No exemplo citado temos a construção de uma paráfrase para balanço/Balanço em consonância com um vocativo que denota afetividade, intimidade, excluindo desse grupo outras figuras femininas do ciclo de convivência desse interlocutor, colocando Bete num patamar privilegiado. Nesse texto, o sentido de Balanço/balança aparece na sua relação com o íntimo, o pessoal, o romanesco, o sexual não por uma separação especificada, mas por um 83 funcionamento designativo que, como veremos, inclui o amoroso/sexual como remetido à categorização de relacionamentos. Podemos concluir também do verbo balançar que a ausência do objeto não significa ausência de predicação (conf. DALMASCHIO, 2013), uma vez que considerando a cena enunciativa podemos observar extratos de ocorrência do verbo que permitem a ocupação com objetos do tipo as ancas/os quadris. Todavia, isso só é possível devido à memória de regularidades que a forma do verbo comporta dos percursos enunciativos por ele passados ao se refletir sobre como se realiza a projeção dos lugares sintáticos. Logo, balançar projeta o lugar sintático de objeto que pode ou não ser ocupado no texto anterior, porque outros extratos de ocorrência desse mesmo verbo permitem (ou não) a ocupação desse lugar. Sendo assim, passamos a considerar que só a projeção do lugar sintático do objeto verbal, vinculada a dado acontecimento enunciativo já pode ser percebida como índice de completude. Diferente da perspectiva tradicional, para nós, não é necessário um termo ocupante do lugar sintático de objeto, para que haja completude semântica (DALMASCHIO, 2013, p. 115). 2.4 UM LUGAR PARA AS FORMAS IMPERATIVAS Nos verbos na forma imperativa apresentados nas composições musicais, embora não haja indexação da nominalidade, os traços de pessoalidade da FN se sobressaem em função de uma identificação por meio da flexão verbal. Isso projeta a necessidade de configuração de uma definitude referencial para constituir condições de demanda por uma base de referência fora da FN em relação à qual o pronome não materializado produza sua ancoragem. A FN, embora projete uma formação referencial, não se constitui efeito de identificação de referente, criando-se dessa maneira uma demanda de identificação em outros espaços de enunciação. Nesse caso, a identificação de personagem, apesar de não ser condensada nos domínios do pronome você recuperável, ainda assim se aplica. Diante disso, compreenderemos que a flexão se dá com a possibilidade de agregação de um morfema flexional à forma verbal infinitiva, tendo em vista a instalação do lugar do sujeito. Um dos critérios para se detectar a flexão é a avaliação da possibilidade de concordância em número e em pessoa (DIAS, 2008b, p. 35). 84 A inserção de um pronome única e exclusivamente para satisfazer critérios de instalação da pessoalidade não é adequada, desencadeando a mera explicitação de pessoa verbal. Em ocorrências de enunciados de composições musicais, o pronome que estabelece concordância com o verbo participa do estabelecimento de um perfil em relação ao qual se pode reconhecer uma identidade para além do presente da enunciação. Constitui-se dessa maneira uma prospecção da identidade referencial (DIAS, 2011). Defendemos a tese que a articulação que se desenvolve na FN, representada pelo pronome, produz uma perspectiva enunciativa na relação entre a atualidade da enunciação e a memória. Sendo assim, nas ocorrências de (72), por exemplo, os verbos escuta e enxuga indicam morfema de segunda pessoa; no caso de vamos este morfema também aponta uma primeira pessoa, representada pelo Locutor que se insere no discurso. Na maior parte das ocorrências, contudo, cria-se uma projeção de identidade no lugar de sujeito, já que não é possível recuperá-lo anaforicamente no texto onde as sentenças foram produzidas. Este tipo de sujeito é classificado como “projeção” (DIAS, 2002), podendo ser visto como o Locutor que fala de seu lugar social de homem traído, porém não por sua esposa, companheira, mas por alguém com quem mantém uma relação informal, haja vista os elementos que podem ser extraídos desse mesmo texto, como cansei de brincar de te amar, quem trai se trai a si mesmo, o que nos permite inferir que a traição de uma mulher é coisa inaceitável, motivo para desqualificá-la, situando-a num patamar de inferioridade, como podemos observar em: não chora, cala, suporta, não penses mais em voltar. Diferentemente disso, cria-se uma demanda de saturação do referente, levando-se a uma ancoragem do lugar do sujeito/locutor no texto, se observarmos a forma verbal vamos, para que o referente seja recuperado, não anaforicamente, mas por meio da inserção de uma entidade no discurso. Esse tipo de sujeito, por sua vez, é classificado como “suporte” (DIAS, 2002). Portanto, acreditamos que a explicitação da flexão é possível, de acordo com as condições enunciativas estabelecidas. Isso coloca em xeque a obrigatoriedade de flexão e da noção pessoal/impessoal, pois, embora todas as ocorrências de formas imperativas possam ser vistas de fato como pessoais, referem-se a uma pessoa do discurso. Em outras palavras, é possível recuperar discursivamente um “alguém”. Este “alguém”, no entanto, pode ser lido como 85 disperso e sem especificação, causando um efeito generalizante, isto é, um você/tu qualquer. No entanto, não se pode considerar esse sujeito apenas de forma generalizante, pois seria uma atitude subjetiva. As personagens que participam do evento, a partir da flexão de segunda pessoa, no entanto, podem estar abarcando um domínio de referência bem mais amplo do que aquele determinado no espaço de interlocução, entre falante e ouvinte, prerrogativa que possibilita uma comparação entre perfis e personagens de períodos e sociedades distintos em vários âmbitos, no que concerne ao aspecto social e histórico. Partindo desse pressuposto, é um equívoco considerar impessoal um verbo flexionado, pois a flexão indica que a sentença em análise constitui-se como lugar de sujeito e, havendo lugar, há uma demanda de referência, seja ela generalizante ou especificadora. Logo, em orações com verbo flexionado, é possível recuperar a participação de personagens na cena, ainda que esta participação seja dispersa. Trata- se do que Guimarães (1989) designa de formas de dispersão do sujeito na enunciação. Diante disso é que nós reconhecemos nessa dupla instanciação do acontecimento: uma do presente do enunciar e uma em que podemos falar da atribuição de lugares sintáticos como o lugar de sujeito, por exemplo. O escopo teórico de referência com vistas a promover atualização e de ocupação dos lugares de sujeito e/ou objeto nas sentenças está diretamente ligado à memória dos dizeres e ao status dos lugares sintáticos. 2.5 AS NOÇÕES DE SITE E PLACE Apresentar essa dimensão enunciativa é considerar relações de sentido constituídas na própria organicidade. Reconhecemos, inclusive, que para se depreender sentido de um texto, seja este em prosa ou verso, é importante saber observar a relação entre língua e enunciação. Os estudos linguísticos tiveram grandes avanços no que diz respeito à diversidade de gêneros e tipos textuais, no entanto o mesmo não se pode afirmar no que diz respeito ao gênero música, sobretudo no ensino de gramática, em especial da sintaxe, cujo ensino circunscreve-se a uma concepção ainda tradicional, 86 que é o estudo de categorias sintáticas e suas funções pautadas na gramática normativa. Milner (1989), em sua teoria posicional, trata a questão da posição e das propriedades absolutas e relacionais e tenta distinguir as propriedades absolutas dos termos e dos lugares. Quando trata das classes gramaticais, o autor defende a distinção das propriedades absolutas dos termos e das etiquetas, isto é, das propriedades dos lugares. Aqui trataremos de etiquetagem, conforme propõe Dias (2012). De quais etiquetas possíveis precisamos para discutir a diferença entre atribuição de lugar sintático e ocupação de lugar sintático? Isso inclui que tipo de classe é aceita nos lugares sintáticos e, também, outro conceito que Milner (1989) não traz de natureza mais semântica, e que nós discutimos, que é essa relação com a memória: o fato de a palavra não aparecer no plano da sentença, mas, ao mesmo tempo, ser passível de ocupação. Isto é mais do que etiquetagem, a etiquetagem é apenas um dos aspectos dos lugares sintáticos, é o aspecto estrutural, orgânico do lugar sintático. Milner trata essa noção de lugares sintáticos como site e place. Site é, para ele, o lugar sintático qualificado e place, a localização, o lugar não qualificado. Em uma sentença é comum ocorrer mudança de place (posição, localização na sentença), sem que isso repercuta em mudança de site (lugar sintático ocupado pelo termo). A atribuição desses lugares depende da projeção dos termos lexicais. Para nós, são as implicações enunciativas que definirão esses lugares; são os modos de enunciação que nos convocarão a situar os sites nas sentenças. Tendo o lugar sintático como lugar qualificado, é importante esclarecer a forma como concebemos o site, lugar sintático sujeito, dado o acontecimento enunciativo. Se o lugar sintático sujeito, tomado como place, corresponde a um lugar projetado pelo verbo e, normalmente, localizado nas sentenças da Língua Portuguesa depois das formas verbais, que elementos orgânicos e enunciativos permitem estudá-lo sob o ponto de vista do site, ou seja, que aspectos influenciam a ocupação e/ou a não ocupação desse lugar na sentença? 87 O fato linguístico vai sendo delineado por meio da tensão entre a unidade, marcada na sequência, ou seja, localizada horizontalmente no âmbito da sintaxe, de um lado, e a verticalidade própria que consideramos num domínio exterior de forças a ser representado, de outro lado. Pensar a ordem das palavras é pensar o sentido geométrico, espacial, no primeiro plano; já no segundo plano esta ordem passa pela localização, o lugar, porém é instituído pela análise. Existe uma teoria para o lugar sintático (DIAS, 2012). O verbo tem potencial de projeção, o que significa pensar esse espaço geométrico e incluir “planos paralelos intercessores”. Uma sentença pautada em outra, em outros planos. Toda vez que produzimos uma sentença, esta produz relações com outro plano. Uma palavra traz outros planos, e isso é o que faz com que haja referência. Se as relações de espaço são apenas lineares, as relações de posição já possuem características mais complexas. Trataremos os sites, inspirados no conceito de Dias (2012), como lugares qualificados, situando-os como sintáticos, não apenas como localização. Se a sintaxe se constitui como a posição de sítios, onde estes estão? Se eles ocupam esses espaços, é legítimo supor ocupação de posições. Como vislumbra o autor, espacial significa apenas interpretação de place, ou seja, antes ou depois do verbo? É necessário, portanto, pensar na relação do espaço como lugar de pertinência, estabelecendo possíveis deslocamentos e vislumbrando a possibilidade de dispersão. Estando as palavras presentes ou não na sentença, você tem a possibilidade de apontá-las. É necessário olhar os espaços para se conhecer as posições. Daí a ligação entre site e place, ou seja, espaço e lugar, o que não ocorre aleatoriamente. Acreditamos que o lugar do sujeito é constituído por um referencial, ainda que não esteja expresso no plano material da sentença e preenchido no plano simbólico por meio de uma memória de dizeres, de uma historicidade de enunciações garantidoras da existência desse lugar/site. Em nossa perspectiva, a referência perpassa a relação entre o linguístico e o mundo exterior. A referência se constitui na relação entre um enunciado atual e os anteriores, na relação entre atualidade e memória, portanto, antes de se configurar 88 como relação entre a linguagem e uma entidade do mundo, é um efeito de sentidos atribuídos por essa relação entre enunciados (LACERDA, 2009, p. 26). Quando se dá a atualização de um acontecimento, ele é afetado pela memória, causando as modificações que o tornam atual, bem como projeção de futuro; por isso a constituição da referência se dá em função da cena enunciativa em que está ocorrendo. Do nosso ponto de vista, no que diz respeito à referência, não é necessário o termo linguístico estar presente materialmente na sentença para ele se relacionar com o seu referente. Há os casos em que o vazio é constitutivo, caso que Dalmaschio (2009) designa como silêncio sintático. Se a sintaxe é justamente essa organização de lugares sintáticos, estes têm suas propriedades absolutas, sua maneira de exigir que as categorias se encaixem neles, mas se encaixem à sua maneira (DIAS, 2012). Por isso Milner combate tanto a ideia de que a sintaxe é a relação entre palavras. A sintaxe é uma relação entre lugares sintáticos, e não uma relação entre itens lexicais. Essa relação entre pertencimento e etiquetagem é uma relação complexa não circunscrita apenas no âmbito teórico. Há circunstâncias empíricas em que a sintaxe deve poder usar etiquetas de posição que não coincidem com o pertencimento categorial dos termos. Um exemplo é quando o lugar do sujeito é ocupado por uma oração, ou, até mesmo, quando da sentença se pode depreender a modalidade deôntica, sem que a forma esteja materializada, como são os casos de Calma (46), no lugar de fique calma, esteja calma; bem como o caso do trecho Bete balança, por favor, me avise quando for a hora (65). Neste último exemplo, podemos dizer que os lugares de objeto das formas verbais balança e avise apresentam-se como silêncio sintático. “No escopo de cada um desses lugares, está constituída uma matiz de apontamento” (LACERDA, 2013), cuja referência poderia ser as cadeiras/os quadris, a hora. Ademais, somos levados a pensar que está constituída, também no escopo dos lugares do objeto em análise, uma referência à relação sexual, uma vez que a imagem mostra que, contrariando a perspectiva tradicional, projetam-se lugares que podem ser ocupados por complementos partícipes desse campo semântico. Isso é uma questão 89 enunciativa, são questões que não se podem responder unicamente do âmbito estrutural da sentença, mas que são postuladas teoricamente. Guimarães (2011, p. 26), por meio do exemplo perna de pau, trata da historicidade dos termos, mostrando que o sentido não é inerente à língua, mas se expande, conforme os falantes vão se apropriando dele em cenas enunciativas. “Em realidade, é importante destacar que o sentido existe na relação entre a língua e a realidade de dizeres instaurados pelos locutores, o que se dá pela propriedade da repetição, com possíveis e previstos efeitos de diferenças”. Nessa acepção há uma convocação da memória de dizeres anteriores. No caso do sujeito, por exemplo, as FNs pertencem a discursos a serem consolidados e passíveis de acontecerem enunciativamente. Assim, o lugar da autoria, que é o lugar da construção da representação do homogêneo que faz texto, é exatamente o lugar da significação da diferença. A autoria é a posição da qual se diz que os diferentes constituem o mesmo. Mas, nesta medida, essa posição é a que constitui os pontos de dispersão que produzem sentido e exigem interpretação. A posição-autor, que constitui texto, imobiliza, no plano da formulação, o que de fato se movimenta pelo interdiscurso, de um lado, e pela impossibilidade, nesta mesma medida, de que as operações de reescrituração sejam operações de identificação, ou mesmo de simples correspondência. O homem agenciou sua linguagem de forma não despretensiosa, já que exprimir um desejo, impor uma ordem, demostrar posse ou superioridade sobre as pessoas é uma forma de esgotar sua faculdade de compreensão e expressão do pensamento. Uma observação análoga pode ser feita sobre os pronomes. Não é suficiente um pronome “moi”: foi necessário ainda um pronome especial para indicar que o moi participa de uma ação coletiva. É o sentido do pronome “nous”, que significa moi e eux, moi e vous etc. Mas isso não é ainda o bastante. Em muitas línguas, foi necessário expressamente um número para indicar que o moi está pela metade numa ação a dois. Isso é a origem e a verdadeira razão de ser do dual na conjugação (in: BRÉAL, 2006, p. 161). Braga (2011, p.56) reforça essa ideia afirmando que, apesar de os dados considerarem o tratamento como fator de menor relevância, este é considerado fator principal, por indicar mudança no PB e o enfraquecimento na relação forma verbal e 90 pronome sujeito. Os fatores semântico-pragmáticos como tipo de relação entre interlocutores, tipos de atos de fala e polaridade se sobrepõem aos aspectos gramaticais nesse período, na escolha da forma imperativa. As formas indicativas se prestam às relações de menor cerimônia. Nos atos de comando, fatores como cordialidade e rudeza interferem no uso das formas imperativas. A rudeza favorece a indicativa, enquanto cordialidade favorece a subjuntiva. No conselho, forma de aproximação e intimidade, há um favorecimento do uso indicativo. Nos atos de polidez, como pedido de desculpas, súplica e traços de humildade, as formas subjuntivas são mais favorecidas (BRAGA, 2011). Daí a predominância do uso das formas indicativas nas composições musicais, haja vista a preocupação com a proximidade, sedução, persuasão. Reconhecemos a exterioridade como constitutiva do fato gramatical, considerando a estrutura formal atualizada na enunciação. Agregamos o gramatical ao discursivo. Nos exemplos citados neste trabalho, os termos ocupantes do lugar do sujeito, ainda que expressos na materialidade da sentença, em nada definiriam a referência desse termo. Isso corrobora a tese que defendemos. Da mesma forma, em casos como o do exemplo Chora, me liga, implora meu beijo de novo, me pede socorro (71), apesar de não existir um elemento ocupante do lugar, a expressão em realce funciona como indicativo da existência do sujeito, embora não haja referente para a expressão. O que existe é uma projeção de uma identidade. Por isso, cremos que os objetos linguísticos podem ganhar identidade em uma dimensão não material, e essa identidade só poderá ser expressa, conforme Guimarães (2005), na enunciação como acontecimento, formador de uma memória de dizeres que perpassam uma sociedade. Essa memória seria um estado de latência em que o “já-dito” pode ser atualizado por um novo dizer a respeito dos papéis atribuídos à mulher. Esse novo dizer, propiciado pelo acontecimento enunciativo, trará a significação ao discurso. 2.6 FORMAS ANALÍTICAS, FORMAS SINTÉTICAS E ARTICULAÇÃO SINTÁTICA Com base nas discussões anteriores, podemos afirmar que a construção discursiva da modalidade é um caminho para a sintaxe e que quanto mais articulatório, maior a probabilidade de os lugares sintáticos surgirem e de a presença do sujeito se tornar 91 mais incisiva. Por outro lado, quanto mais analítico, maior a possibilidade de dispormos de palavras no dizer (DIAS, 2014). Isso quer dizer que a presença do sujeito se torna socialmente marcada. Conforme exemplos propostos por Bally (1932), as palavras, quando convencionalizadas, podem funcionar como sentença inteira, sem que se comprometa o sentido. A tessitura do texto torna-se mais forte, mais expressiva. Portanto, as palavras funcionam como se existissem numa anterioridade, é como se, na sociedade, elas já fossem prontas para “encarnarem a ordem” (DIAS, 2014). No caso de saia (53), é como se o sujeito perdesse a capacidade argumentativa e fosse cristalizado, marcado na expressão: um sujeito social da ordenação. A condensação da sentença pressupõe concomitantemente uma condensação do sujeito. Isso não quer dizer que o que dizemos, o que ordenamos, não seja forte, mas esse é um lugar de maleabilidade, da flexibilidade do ordenamento. Temos a possibilidade de escolher entre a maleabilidade e a dureza, podendo transitar entre algo mais ameno ou mais incisivo; temos a possibilidade de formulação, e entre ambos temos um espaço discursivo, intermediando os dois lados. Bally propõe uma reflexão interessante a respeito desse paradoxo. Signos musicais, o próprio cantar e as condições situacionais também são reconhecidos e marcados pela convenção e reconhecidos socialmente, abarcam uma carga forte de algo que já vem predeterminado. Uma pessoa reconhece um convite, uma ordenação. (74) Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oi. Vem pra quebrar com tudo, vamos dançar com tudo. [...] seja morena, seja loira, vem balançar com tudo. O que significa pensar isso na abordagem que desenvolvemos? O que seria pensar isso na semântica do acontecimento ou na perspectiva da teoria da enunciação a que nos filiamos? O que significa produzir uma carga em nossa fala, nesse ciclo de reconhecimento, nesses ciclos musicais? Esses símbolos produzem um alcance de reconhecimento, automaticamente produzindo pertinência. Se há uma carga forte em algo que produzimos e isso é ancorado em convenções e reconhecido socialmente, ganha-se pertinência em relação e adequa-se ao 92 acontecimento. Uma questão que nos interessa, pensando no acontecimento enunciativo, é que quanto mais caminhamos em direção ao musical mais agregamos canais de pertinência. Podemos observar inclusive a recorrência do verbo vir nas composições propostas, passíveis de ocorrerem no gênero, especialmente se a ordem/comando pressupõe proximidade, intimidade, como são os casos de (60), (61), (64), (74), como também o verbo ir, quando se quer expressar desprezo, ruptura. Isso é visto como comportamento natural, próprio da língua, quando a intenção é exprimir sentimento de aproximação (60), ou distanciamento (44) e (47) em um possível relacionamento. Verbos dessa natureza são muito recorrentes, dada a natureza do gênero cujo aparecimento de expressões condensadoras é muito comum, onde uma palavra, um símbolo e uma interjeição são suficientes para substituir expressões, sentenças inteiras (BALLY, 1932, p. 42). Assim nos deslocamos e nos colocamos pertinentes diante do que o outro diz. É o contrário de se manter alheio ao que o outro disse. O que o outro diz evoca. E quando se encapsula uma expressividade inteira é como se representasse um dizer inteiro, uma forma de se colocar diante do que o outro diz. Essa memória de natureza interdiscursiva, como propõe Orlandi (1989), representa modos de conceber, modos de ver, que se constroem nas relações individuais, embora não se constituam individualmente. O mundo é multifacetado por conta da história, e esses modos de ver o mundo tornam nossa fala pertinente. No trecho (73) Meu amor, olha só hoje o sol não apareceu É o fim da aventura humana na Terra Meu planeta adeus, fugiremos nós dois na arca de Noé. Olha bem, meu amor, no final da odisseia terrestre. Sou Adão e você será minha pequena Eva [...] E, voando bem alto, me abraça pelo espaço de um instante, me cobre com teu corpo e me dá a força pra viver (BIGAZZI; TOZZI; FICARELLI, 1982). Se considerarmos esses exemplos, uma ordem de cunho cronológico, incorremos no equívoco de tratar o acontecimento como um fato no tempo. Sou Adão e você será minha Eva (73). As formas verbais, embora indiquem presente cronológico, não se trata de tempo presente ou passado no seu sentido crônico. Na perspectiva aqui proposta, tratamos o enunciado como algo afetado pelo simbólico, que dialoga com 93 discursos anteriores, pertinentes à Bíblia, que remetem à gênese, por isso consideramos que o fato temporaliza: “O sujeito é tomado na temporalidade do acontecimento[...] de um lado, ela se configura por um presente que abre em si uma latência de futuro, sem a qual não há acontecimento de linguagem” (GUIMARÃES, 2005). Consequente-mente, não há significação ou margem ao interpretável. Esse presente e esse futuro no acontecimento são afetados por um passado memorável que os faz significar, um passado que não representa lembrança ou recordação, mas rememoração de enunciações ou fatos anteriores. 2.7 A NOÇÃO DE POINTAGE OU APONTAMENTO Uma análise dos pressupostos de base teórica ancorada nos fundamentos de uma macrossintaxe contribuiu de forma significativa para complementarmos nossa pesquisa. Para isso utilizamos os estudos de Berrendonner (1990), que contribuíram ricamente com este trabalho, para o entendimento das relações de concatenação e recção. A primeira postula a hierarquia dos espaços a serem ocupados por cada elemento da sentença, já a segunda diz respeito à relação de dependência existente entre um elemento e outro na sentença. Baseados nos pressupostos já explicitados anteriormente, utilizamos também como âncora teórica os estudos da macrossintaxe. Para isso utilizaremos, a priori, as discussões estabelecidas por Berrendonner (1990, 2002a e 2002b), que trabalha com a tese que pressupõe a sintaxe em duas perspectivas: micro e macrossintaxe. Segundo o autor, a microssintaxe está ligada aos elos estabelecidos na sentença, constituindo concatenação e recção, sendo concatenação referente à posição dos constituintes das sentenças, postulando a hierarquia dos espaços a serem ocupados por cada elemento na organização do enunciado. As relações de recção se efetivam como sistemas de dependência regulados pelas características específicas de cada elemento constituinte. Como podemos observar, os estudos da microssintaxe se realizam no âmbito da ligação interna da sentença. Nesta pesquisa o conceito de macrossintaxe nos é promissor, pois representa um dos eixos das reflexões a que nos propomos. Na macrossintaxe, Berrendonner analisa dois níveis distintos que se complementam: o nível da materialidade sentencial e o 94 nível dos implícitos. O autor propõe uma relação de apontamento de um termo em relação a outro que se fundamenta na memória discursiva, “cujos extratos de existência não estão marcados apenas nas formas” (DALMASCHIO, 2013), ao passo que a microssintaxe se apoia no nível das ligações internas. Dessa forma, a macrossintaxe representa a emergência de se instituir uma sintaxe mais complexa, que trabalhe com um elemento marcado na horizontalidade da sentença (seria o que Berrendonner designa como liage, ou seja, ligação, como propõem os estudos da recção), mas que, simultaneamente, sustente a presença de outras marcas situadas em nível da verticalidade, ou seja, da memória, e que o autor descreve como pointage, ou apontamento. Berrendonner (1990) propõe um esquema que se configura como macrossintaxe, que justifica a dimensão da memória discursiva (M) evocada por operações de apontamento, realizadas por elementos internos constituintes da sentença – Clause (C) para dar regularidade às informações de (M). Dessa forma, (M) consiste em um estado de virtualidade que, ao ser convocada por meio da efetivação do discurso, passa por um processo de atualização e, de maneira equivalente, é de novo posta em cena para ser acionada em enunciados futuros. Por meio de um dos exemplos consubstanciais à nossa análise, temos em (63): deixa essa noite saber que um dia foi pouco, cuida bem de mim, então misture tudo, e em (64): Bota o teu vestido longo, nega, venha antes de chover, bota o teu vestido novo, nega. Podemos observar que nas sentenças constituídas de forma verbal imperativa temos a participação do pronome/sujeito não materializado que evoca o acontecimento enunciativo, instigando-nos a lidar com essa noção de apontamento, localizada no nível da memória discursiva, aqui representada pelos exemplos supracitados. Ao considerar uma construção como só as cachorras, as preparadas, as popozudas (67), bem como bota seu vestido longo, nega (64), podemos observar que há um compartilhamento sócio-histórico que permite a ocupação do lugar do sujeito que inspira a instauração dessas formas verbais que muito improvavelmente ocorreriam nos anos de 1950, por exemplo. Essa ocupação nos mostra que a reflexão sobre os 95 lugares é mais importante que a dos termos, por nos levar ao lugar sintático sujeito, focalizando as formas imperativas que têm uma especificidade, que é a não ocupação, o não preenchimento. Esse lugar se dá por instigar uma réplica instigada pelas formas mencionadas. Ampliando a concepção de apontamento ou pointage, sabemos que há um lugar sintático a ser preenchido pelo sujeito, sabemos, inclusive, que tal sujeito é composto pela categoria pronome que remete à segunda pessoa. No caso da forma imperativa, o espaço pode ser preenchido de duas formas: o humano ou o figurativo, e o lugar sujeito constitui lugar de remissão, aponta para um lugar de compreensão. E se há a perspectiva de apontamento e de compreensão, há a necessidade de se pensar discursivamente esta entidade, essa mulher, no caso. Diante dos fatos expostos, assumimos a perspectiva de que, como unidades formais, os lugares sintáticos forma verbal/pronome qualificam-se conforme o espaço de funcionamento onde circulam os sentidos, os discursos, os enunciados, e deste para “os espaços futuros da discursividade, que por sua vez serão bases para novos enunciados” (DALMASCHIO, 2013). Sendo assim, entendemos que, seguindo o conceito de anterioridade de predicação ao pronome/sujeito, cabe a retirada da FV do seu estado de dicionário e ao acontecimento enunciativo cabe regular a ocupação (ou não) desse lugar por meio de fatores que se configuram historicamente a partir de uma tensão entre domínios de memória e atualidade de uso. O pronome/sujeito é, portanto, mais um elemento que se integra a esse tipo de possibilidade, que é a saída da FV do seu estado de infinitivo. Conforme nos afastamos da necessidade de classificar os elementos em estudo, porém segundo a completude ou incompletude de significação a ele pertinente, podemos ampliar os pressupostos, recorrendo às instâncias enunciativas, seguindo o grau de amplitude dos domínios de referências que se instalam no plano do enunciável. Esse fato é determinante para que tenhamos a possibilidade de refletir sobre o perfil da personagem feminina no cenário da música brasileira em três períodos distintos. 96 Para Dias (2009), vemos uma discursividade marcada por incompletudes, entremeios, discrepâncias diversas, sem que isso se efetue como ausência configurada, erro ou defeito, exatamente porque se constitui como um diálogo com (M) por meio de relações de apontamento. Isso possibilita uma visão mais ampla da noção do linguístico, transcendendo essa visão ancorada apenas nos elementos sentenciais, e o coloca no plano afetado pelo deslocamento próprio da força de atualidade que surge do acontecimento do dizer. Nesse viés, escolhemos trabalhar em nossa pesquisa com uma abordagem que considera insuficientes as relações de ligação internas na sentença, se optarmos por nos filiar a um estudo sintático com bases enunciativas. É importante, antes de enveredarmos por este percurso, levar em consideração os elementos marcados pelas articulações sentenciais, associando-os aos apontamentos inscritos na memória do dizer. A enunciação é uma reação, é pensar o que o outro diz. Colocar-se dessa forma enunciativamente é reagir a uma representação. Isso mostra como essas reações podem ser manifestadas de maneira socialmente reconhecida. (75) É créu! É créu nelas! Vambora, que vamo! Vambora, que vamo! Inclusive há casos em que os chamamentos sem forma de interjeição funcionam como retirada da informação do nome, uma questão dêitica. Quando se emite um som como ei/psiu, esse ei é encapsulador no sentido de que eu estou chamando alguém para falar comigo. Na expressão hum (63), tchan, créu (75), encapsulamos sensações que podem evocar memórias de sentimentos e experiências diversos. Isso convoca o interlocutor a estar atento ao que se está dizendo. Esse encapsulamento não é apenas da expressão, mas temático. Encapsular, no caso da música, é encerrar em certas formas físicas de grupos linguísticos o que significa convenção, logo, quanto mais encapsulado mais fixado em convenção, servindo a esse papel de algo sintético. A arte de falar é também a arte de gesticular, de construir, já que é muito difícil a entrada no mundo da escrita, 97 pois nesta nos obrigamos a cortar o gesto, os sinais. A entrada no mundo da escrita é a entrada na capacidade de formular, formular, formular para sair, analisar 37 . Atualmente a entrada no mundo da escrita apresenta características de oralidade. As grandes formulações começam a se perder. As mensagens do dia a dia são microfechamentos que se refletem nitidamente nas composições musicais. Vejamos: (76) Presta atenção em tudo o que a gente faz. Já somos mais felizes que muitos casais. Desapega do medo e deixa acontecer. Eu tenho uma proposta para te fazer: eu, você, dois filhos e um cachorro, um edredom, um filme bom no frio de agosto. E aí, cê topa? (SANTANA, 2014). Para se treinar grandes articulações nos dias atuais, torna-se mais difícil requer grande esforço. As coisas se assentam, portanto nesse processo as coisas acontecem de uma vez, embora estejamos acostumados a ver em partes. Esse é o desafio da frase que concebe sujeito, predicado, complementos, etc. Quando pronunciamos calma (46), cuidado, há uma discursividade na presença dessas formas verbais em nossa fala, que é o papel das formas verbais para além do discurso da cautela, do aconselhamento. Esse é o germe do sujeito/predicado: os objetos são acompanhados de processos e estes são relações dos objetos. Os movimentos são frequentemente dirigidos a relações que se estabelecem entre cuidado e tomar conta ou cuidado e esteja precavido, bem como calma como ato de acalmar-se ou ficar tranquilo e ato de espera. A sentença se constitui à medida que utilizamos essa possibilidade de termos sujeitos identificados na flexão verbal, pois o efeito de sentido se configura mesmo sem a participação desse termo. É importante reconhecer que o que nos permite ampliar a noção de deslocamento é a própria regularidade. Afinal, acreditamos que é “recorrendo ao já-dito que o sujeito ressignifica. E se significa” (ORLANDI, 1995, p. 90). Podemos observar que os vários percursos de sentido do verbo balançar em (65) geram indícios que propiciam a construção de domínios de referência também distintos para ocupação do lugar 37 Discussão do grupo de estudos da enunciação da FALE/UFMG. 98 sintático de objeto. Trata-se de um intervalo entre uma memória de recorrências, neste caso recorrências de lacunas sintáticas a serem preenchidas em predicações das quais esse verbo participa, orientadas para a ideia de rebolar/requebrar, dançar, movimentar (os quadris), propiciada por uma atualidade de utilização do verbo balançar como algo relacionado à cena enunciativa de uma relação sexual. Esse seria, então, o espaço do equívoco, espaço esse em que “os sentidos vão se mobilizando, de forma a não perderem seu caráter de descontinuidade no deslocamento, no equívoco e nas mudanças que os constituem” (ORLANDI, 1995, p. 94). Esse movimento se constitui sócio-historicamente a partir de uma tensão entre memória e atualidade. Como vemos, a interdiscursividade cruza o acontecimento dessa enunciação, quando se analisa o texto. Assim, essa memória discursiva do adjetivo Balanço significa a matéria pela atribuição de um pertencimento: o que aí se diz de ações e quesitos na relação amorosa a propósito da convergência verbo/adjetivo. Enunciar esse texto nesta secção é designar Bete pelo próprio acontecimento enunciativo que estamos analisando sobre o que constitui os sentidos de Balanço/balança. Assim, todo conjunto das referências é produzido pelo funcionamento enunciativo (interdiscurso/língua/acontecimento), e não por uma relação da palavra com seu sentido. Ao mesmo tempo está em funcionamento uma dupla polissemia: balança e Balanço. Pode-se dizer que o funcionamento dessa polissemia se explica se consideramos que a língua tem como memória do interdiscurso do sentido de balançar/balanço/balança o nome que designa os espaços político-institucionais como fundamentalmente da relação sexual, como sentido. Por isso a referência de balança, Balanço, mesmo que se mostre estabilizada pela relação com forma verbal/nome: só se dá como estável por esta relação simbólica, ou seja, de sentido, que, ao mesmo tempo, marca a sua polissemia, inclusive do nome próprio. Pode-se dizer que o funcionamento desta polissemia se explica se consideramos que a língua tem como memória do interdiscurso o sentido (GUIMARAES, 2005, p. 18). 99 CAPÍTULO 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 3.1 A CONSTITUIÇÃO DA REFERÊNCIA NA CONFIGURAÇÃO DO SUJEITO Ancorado em uma análise sintática de bases enunciativas, o estudo da língua passa pela abstração de um sistema de regularidades comprometido com o acontecimento enunciativo. O sistema de regularidades da língua é afetado por uma memória de enunciações que interferem na configuração dos lugares sintáticos da sentença. Na medida em que as sentenças constituem espaço de articulação de enunciados, podemos afirmar que elas emergem possibilidades estruturais que abrigam um potencial enunciativo. Essa perspectiva ganha ancoragem no entendimento de Benveniste (2006 [1974]), para quem a enunciação seria um mecanismo que afeta a língua como um todo. Dessa forma, consideramos os fatores enunciativos em relação à estrutura vista em sua “exterioridade constitutiva”, fomentando a discussão no que diz respeito ao histórico dos recortes de estudo que situam esses fatores como externos ao domínio da sintaxe. É também somente por uma questão didático-metodológica que vislumbramos separadamente o alcance de cada um dos componentes da interface entre o orgânico e o semântico-enunciativo, uma vez que, para nós, esses componentes operam em uma relação de interdependência, conforme Dias (2002, p. 52-53): Acreditamos que “a dimensão simbólica neste caso é projetada da dimensão material”. Palavras, sintagmas, formações nominais e/ou verbais e também as sentenças não são elementos distinguíveis por meio de sua dimensão material. É na relação com o plano do enunciável que esses ‘objetos’ adquirem identidade. Nos estudos desenvolvidos em sintaxe de bases enunciativas, tem-se buscado pensar os fatos sintáticos, mais precisamente a configuração desses lugares, como lugares de constituição da referência. Para isso, observamos a inter-relação entre as dimensões material e simbólica da língua, considerando a constituição da referência no escopo dos lugares sintáticos, tudo isso considerando as relações entre a memória histórica 100 de dizeres e a atualidade do acontecimento do dizer. Nas palavras de Lacerda (2014): A insistência dos contínuos parece ser então um reflexo metodológico da realidade fundamentalmente difusa da dimensão simbólica da língua, esteio da relação entre memória e atualidade que se imprime na organicidade dos lugares sintáticos ao constituírem referência. Em suma, a hipótese dos contínuos seria um desdobramento dessa realidade difusa que é a dimensão simbólica da língua na constituição da referência no escopo dos lugares sintáticos. Os estudiosos de sintaxe de bases enunciativas têm buscado explicações para os fatos sintáticos, sobretudo a constituição dos lugares sintáticos como lugares da configuração da referência. Uma mera noção que ilustra a abordagem dos lugares sintáticos como lugares de constituição de referência é a de modo de enunciação. Os modos de enunciação estabelecem a abrangência da referência que as sentenças abrigam, sendo elas dispostas em função do tipo de referência que constituem. Nessa direção, Ladeira (2010) aborda o fato sintático cuja tradição convencionou designar sujeito indeterminado. A autora também propõe um continuum no âmbito do conceito de indeterminação. Esse escalonamento se dá em diferentes níveis, quais sejam: o da materialidade e o da indeterminação referencial, considerando a ocupação do lugar sujeito. Ao delinear um continuum que vislumbra maior ou menor indeterminação, discorre- se sobre o índice conceitual de referência que opera com a categoria ‘desconhecido’, já produzindo um recorte paramétrico de referência. No sentido de tornar mais claros os traços que se estabelecem do nível mais conceitual de referência ao mais paramétrico, Ladeira (2010) confronta uma escala que vai da definitude referencial à escala de indeterminação. No português, o sujeito indeterminado materializado por meio das formas pronominais projeta uma referência em que o pronome ‘eu’ não se refere ao locutor específico, ou seja, não se filia a um dos participantes da locução, mas constitui uma identidade simbolicamente projetada. A concepção de sujeito indeterminado pressupõe “aquele cuja identidade está projetada no nível simbólico da sentença”. A constituição do escopo de referência dos lugares sintáticos passa por uma escala 101 interna ao modo de enunciação generalizador, chegando às escalas de referência constituídas no âmbito específico de cada lugar, podendo o continuum de centramento ser aplicado ao lugar de objeto e o continuum de indeterminação aplicado ao lugar de sujeito. Para nossa pesquisa, é de suma importância a análise proposta por Ladeira, uma vez que a mulher de que falamos não se trata de um indivíduo no mundo, mas de um agenciamento enunciativo, um delineamento discursivo de um determinado perfil feminino. Esse continuum pode também ser observado por meio da utilização das formas verbais, consoante aos períodos em estudo, possibilitando a apreensão de formas mais analíticas, mais sintéticas ou, conforme salientamos, a condensação/diluição das formas. 3.2 INSPIRAÇÃO METODOLÓGICA Neste item discutiremos algumas orientações que nortearam nossa pesquisa, dentre as quais a identificação do objeto de estudo e a seleção cautelosa das unidades de análise para se efetivar uma pesquisa, de forma que ela se apresente relevante na esfera científica. Fundamentados em Gass e Mackey (2007), afirmamos que o trabalho aqui desenvolvido foi de base linguística, pois “focará a representação da linguagem e a análise linguística e não como a linguagem é processada em tempo real ou usada no contexto”. A coleta de dados para a pesquisa foi inspirada em Dias (2006a), que concebe a exemplificação como algo que deve compor uma rede de ocorrências, embora nossa abordagem não necessite de um princípio dominante de ocorrências. Neste estudo, o corpus exerce papel de auxílio na busca de determinada estrutura em um conjunto de textos efetivos de composições musicais. Assim, podemos constatar que essas ocorrências não representam apenas ilustrações respaldadas na chamada “licença poética”, mas fazem parte do uso efetivo na língua. A construção de novos exemplos, quando necessário, justifica-se pela necessidade de saturar a demanda de dados requerida pela análise a que nos propomos. Essa 102 construção, contudo, não se caracterizará unicamente pelo que Dias (2006a) qualifica como exemplos-ilha, ou seja, aqueles elaborados pelos gramáticos apenas para ilustrar um conceito, embora possam nos servir como ilustração, sem perder de vista o fato de que esse tipo de utilização padece de um processo de particularização que o torna um tanto distante dos demais, o que acarreta a perda da capacidade de generalidade, tornando-se simples demonstração. Sendo assim, trabalhamos também com os exemplos-colmeia propostos por Dias, os quais operam em função da regularidade de suas ocorrências na língua por darem conta das demonstrações do fato linguístico ancorado neles. Os exemplos não aparecerão desgarrados do discurso no qual foram produzidos e inseridos aleatoriamente no texto apenas para demonstrar conceitos de forma, às vezes, bastante artificial; na verdade eles serão convocados para constituir um conjunto de exemplos que formam uma unidade. Porém, estarão devidamente ancorados nos exemplos efetivamente realizados no uso da língua. Assim, tendo como “originador” um dado efetivo da língua (LADEIRA, 2010, p. 16). Daí o uso de outros exemplos que representaram suporte na saturação das possibilidades de ilustrar os meios de utilização das formas imperativas em consonância com o pronome sujeito. Dessa forma, torna-se possível falar sobre os lugares sintáticos no campo da organicidade, bem como do âmbito da enunciação. Assim, de acordo com Dalmaschio (2008), acreditamos que os exemplos, nessa nova proposta de Dias (2006a), visam “legitimar nosso trabalho, que pretende analisar o fato gramatical não apenas enquanto materialidade linguística, categoria sintática constituída organicamente, mas também, como elemento que se constitui nos modos de enunciação que perpassam os usos da língua”. Para nós, a quantidade de ocorrências do fato linguístico não é tão importante, mas sim a regularidade de suas ocorrências no uso efetivo da língua, ou seja, a viabilidade de os exemplos funcionarem em determinados acontecimentos enunciativos. A razão da escolha dos textos musicais se deve ao fato de eles aparecerem correntemente no relativo uso no cotidiano e ainda assim apresentarem com muita frequência essa tendência ao uso paralelo do vocativo com o intuito de marcar a presença do sujeito que, nesse caso, não aparece materializado na sentença. 103 Reconhecidamente, cada metodologia tem, de certa forma, limites, já que “todo o fato tem a autonomia que a teoria lhe confere” (MARCUSCHI, 2001, p. 26). Nessa perspectiva, uma metodologia fundamentada teoricamente deve ser avaliada segundo propósitos de sua adequação em função do problema a ser analisado. Nossa pesquisa baseia-se no pressuposto de que os fundamentos metodológicos só operam de forma eficiente nos entremeios de um problema pertinente e de uma teoria eficaz que o subsidie, isto é, numa metodologia o aspecto quantitativo se apresenta pouco relevante, no entanto contribui para o alcance dos objetivos propostos que se tem em vista (MARCUSCHI, 2001, p. 26, 31). Reconhecemos que tanto a sintaxe quanto a semântica, no status de disciplinas históricas, “não tomam o seu objeto de estudo em estado bruto (LACERDA 2014). Entendemos que a sintaxe se legitima consoante a uma anterioridade de estudos sintáticos, assim como a semântica se constroi conforme uma anterioridade de estudos pertinentes a ela, como um “horizonte de retrospecção” que permeia essas disciplinas e ao qual elas se filiam para adquirir identidade. Da mesma forma, essas disciplinas podem estabelecer uma projeção no campo em que estão inseridas - um “horizonte de prospecção” (AUROUX, 1992). É justamente a filiação a essa anterioridade que possibilita que os trabalhos produzidos estejam incluídos em uma mesma disciplina linguística, a despeito das divergências de concepções teóricas. Vislumbramos um ponto pertinente de convergência à relativa estabilidade que nos possibilita restringir certos trabalhos no âmbito da sintaxe e da semântica. A magnitude e a complexidade do historicismo não devem, contudo, incorrer na crença de conhecimentos circunscritos a parâmetros específicos. Nas palavras de Lacerda: Podemos dizer que a sintaxe e a semântica, justamente em função da historicidade que lhes confere um campo de retrospecção e um campo de prospecção, são também instrumentos dessa estabilidade necessária à ciência linguística, pois circunscrevem pertinências ao conhecimento linguístico. Tal circunscrição mostra-se com mais clareza se temos em vista a unidade de análise dos estudos sintáticos e semânticos (LACERDA, 2014). Estabelecemos uma mediação entre as seguintes vertentes teóricas: uma que parte da produção laboratorial das ocorrências a serem analisadas na teoria norteadora a 104 respeito do imperativo (caso dos exemplos propostos na revisão de literatura), outra que se vale de um corpus já produzido em situações específicas de uso linguístico (exemplo das composições musicais) e, quando necessário, o uso inspirado em decorrência da história de suas repetições. Partir de um pressuposto adotado em análises quantitativas que se baseiam na probabilidade de ocorrências gramaticais representa fugir das relações históricas de produção linguística em função da criatividade como elemento significativo na produção dos dados, o que significa incorrer no equívoco. Consideramos importante basearmos na criação de exemplos que se fundem numa memória histórico- enunciativa, por propiciar o uso voltado para sua efetividade. Uma gramática subsidiada meramente nas ocorrências produzidas e conhecidas “negligencia aquilo que não se pode captar e isso ocorre porque um corpus, enquanto recorte metodológico, nem sempre está apto a dar conta das regularidades históricas de uma língua, passíveis de atualização em acontecimentos enunciativos vindouros” (DALMASCHIO, 2014). Assim, não podemos afirmar que uma coleta de dados selecionados a partir de um corpus específico seja suficiente para apresentar elementos para uma ampla sistematização do fato linguístico a ser analisado. Nossa ideia, portanto, é tentar explorar as contradições entre os caminhos de trabalho aqui apresentados. Em outras palavras, trabalharemos com um grupo de exemplos que se organizarão como âncora a respeito da teoria sobre as formas imperativas, ou seja, a partir de ocorrências previstas em determinado corpus de análise; outros serão criados para que possamos verificar os parâmetros linguísticos que esses exemplos apresentam; e finalmente o grupo do corpus sugerido: formas imperativas utilizadas em composições musicais de três períodos distintos. Dessa maneira, constituiremos nosso corpus inspirados na ideia de exemplos- colmeia, proposta por Dias (2006b), que concebe a exemplificação como algo que deve constituir-se em uma rede de ocorrências. Acreditamos que o emprego desse novo enfoque permitirá apresentar um corpus organizado em torno dos textos integrantes desse gênero, juntamente com os sugeridos pela tradição de uso das formas e aqueles considerados em decorrência do uso e de suas variações, o que 105 também propiciará a construção de enunciados que possibilitem a saturação da demanda exigida pela análise em questão. Não perderemos de vista as ocorrências consideradas na constituição do corpus, como possibilidades analógicas fornecidas por enunciados efetivos da língua. Elaboraremos, então, um conjunto de ocorrências que formam uma unidade. Nessa lógica, ao selecionarmos um corpus com essa característica, optaremos por trabalhar também com o exemplo-colmeia (DIAS, 2006b, p. 52). A opção em trabalhar com exemplos-colmeia torna-se relevante por permitir analisar enunciados em que as formas verbais imperativas sejam vislumbradas, inclusive, em função de suas relações. Dessa forma, os verbos passam a ser discutidos não apenas sob a ótica da tradição gramatical orgânica na sentença, mas também sob as bases enunciativas marcadas pela história de suas ocorrências que estabelecem relações entre si. O uso de determinadas formas verbais, e não de outras, nos fragmentos de composições musicais apresentadas no esforço de análise que empreendemos aqui se justifica pelo fato de permitir a elaboração de um pressuposto a respeito da questão de ordenação, sugestão, conselho, convite, etc., que possa ser aplicado a essa temática de maneira ampla. Os resultados a que pretendemos chegar, portanto, não serão afetados, devido à utilização desse corpus em que se manifeste essa ou aquela forma verbal em destaque. Nossa seleção se deu em função da maior ou da menor produtividade de uso das formas verbais escolhidas. Esse critério nos parece significativo para a organização de um continuum na elaboração, condensação e diluição das formas, sem que se perca de vista a noção imperativa e levando em conta as condições enunciativas na ocupação e/ou na não ocupação do lugar de sujeito. Nessa direção, acreditamos que esse deslocamento na constituição dos exemplos visa legitimar nosso estudo, que pretende discutir o fato gramatical não somente no âmbito da materialidade linguística, categoria sintática constituída organicamente, mas também como elemento que se constitui nos modos de enunciação que perpassam os usos da língua, sem que se perca a importância na constituição das 106 formas como via de filiação à memória de enunciados anteriores em sua virtualidade constitutiva. 3.2.2 Regularidades na enunciação: pressupostos Em princípio, a regularidade funciona como uma espécie de estabilidade que se apreende da interface entre materialidade linguística e enunciação. Martelotta (1991, p. 81) entende as regularidades como algo que funciona na interface entre as normas e as restrições da gramática, expressas nas relações que envolvem ordenação vocabular e de regência, concordância de gênero, número e pessoa e atribuição de modo, tempo, aspecto e voz para os verbos. Para o autor, a regularidade está a serviço do entendimento do processo de gramaticalização. Portanto, a regularidade é entendida como o que acontece na estrutura da língua como indícios de aspectos discursivos e outros contíguos a eles e da relação entre gramática e discurso. Uma forma de vislumbrar a regularidade são os operadores argumentativos que atuam em função de sequencializar sentenças, assumindo posições pré-verbais, típicas de conectivos (MARTELOTTA, 1991, p. 240). Para o autor, a contraparte enunciativa das regularidades que se investem na organicidade da língua seria de natureza discursiva. O locutor, elemento crucial na perspectiva enunciativo-discursiva, é concebido na regularidade linguística como partícipe de uma cena enunciativa. Ele, ao tomar a palavra, assume o lugar que enuncia, o lugar do Locutor [...] “que se representa no próprio dizer como fonte do dizer” (GUIMARÃES, 2002, p. 23-24). Os fragmentos analisados a seguir pertencem a letras das músicas dos períodos estudados: (a) Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora. E conta logo tua mágoa toda para mim. (b) Lança, menina, lança todo esse perfume... Vem cá, meu bem, me descola um carinho. (c) Mexe seu corpo, mas mexe até se quebrar. Então manobra seu corpo, rebola, mãos a obra. 107 Os fragmentos construídos nos três períodos expressam movimentos que parecem apontar um continuum nas atitudes, nas ações femininas, “uma mulher em movimento”. No exemplo (a), as atitudes conclamadas da mulher de encostar, chorar e contar podem ser vistas como algo delicado, sutil, típico da natureza feminina esperada desse período. Já no exemplo (b), podemos observar que semanticamente as ações verbais de lançar, vir e descolar demonstram movimentos que exprimem maior liberdade de movimento. O próprio caráter conotativo do verbo descolar permite depreender das formas verbais maior liberdade de expressão e do uso dos vocábulos nas canções. No exemplo (c), a diferença se efetiva de forma mais contundente na constituição dos verbos nas composições musicais. Os movimentos requeridos da mulher são mais intensos e as formas verbais mexer, manobrar e rebolar têm sentido mais coisificado, isto é, à medida que o tempo passa, a mulher torna-se mais ativa. Essas qualidades podem ser vistas por meio do continuum proposto nas construções: chora, descola, rebola. Com essa análise, podemos defender a tese cuja proposição indica que os traços enunciativos perpassam todos os níveis da língua, inclusive o nível morfológico, como é o caso dos vocábulos exemplificados anteriormente. Os fundamentos apresentados por Martelotta (1991), ainda que compartilhem conosco o intuito de investigar os fatos gramaticais por meio da interface entre materialidade linguística e enunciação, distanciam-se de nossa perspectiva no que diz respeito ao conceito de enunciação. Em nossas análises constatamos muitos pontos comuns com a perspectiva dos traços enunciativos encontrada nesse autor. Entretanto, nossa maior preocupação reside na enunciação como base para a constituição da sentença, ao retirar o verbo de seu estado de dicionário no processo de colocar a língua em funcionamento. Isso não significa que tenhamos nos desvinculado totalmente da proposta de Benveniste, pois, segundo Flores (2010, p. 396): o conceito de enunciação proposto por Émile Benveniste é amplo, não diretivo e, sobretudo, caracterizado por uma não unicidade, já que seus pressupostos não formam um conjunto homogêneo. 3.3 BREVE PERCURSO SOBRE OS MÉTODOS O procedimento metodológico, a priori, restringiu-se à análise das formas verbais imperativas decorrentes de sua utilização em cerca de dez composições musicais 108 mais tocadas nos anos de 1950, 1980 e 2000. A princípio nosso estudo privilegiou as definições do tema “imperativo” partindo dos elementos ocupantes do lugar de sujeito em consonância com a forma verbal. Se por um lado estendemos nossa análise aos elementos ocupantes do lugar do sujeito de modo geral, por outro, o conceito de subjetividade na conjugação com as formas verbais nos levou a estabelecer um recorte mais preciso, tendo em vista que as expressões imperativas também perfilam elementos que, apesar da confluência orgânica, não ocupam o lugar de sujeito. A fim de produzir formulações consistentes para a questão central de nossa proposta de pesquisa, constituímos um corpus formado por sentenças em cuja constituição o lugar de sujeito ganha especificidade. Para constituir um corpus com repertório de sentenças para análise, recorreremos a quatro fontes principais: (i) composições musicais, em sua maioria disponibilizada na Internet, que nos ofereceram exemplares de sentenças de produção escrita; (ii) trechos de exemplos propostos por teóricos e estudiosos do tema do imperativo, bem como da subjetividade, como Bally (1932), Lapeyre (1997), Scherre et al. (2007) e Dias (2009) e (iii) sentenças produzidas em introspecção, elaboradas em sua maioria apenas para construir redes de exemplos, a partir das sentenças recolhidas em umas das fontes citadas. Não se trata, porém, de uma proposta de estudo centrada na singularidade das ocorrências de um corpus, ou seja, não propomos um estudo de caso, tampouco um estudo quantitativo, trata-se de um estudo de abordagem qualitativa. Mais importante do que um corpus constituído por uma amostragem significativa disposta em cada um dos três períodos dados, ou fontes diversas, as sentenças do corpus devem suscitar intervenções e testes de compatibilidade com probabilidade de paráfrase, como propõem Orlandi, Guimarães e Tarallo (1989). Isso permitirá a validação das nossas impressões, para que, ao final desta pesquisa, possamos ter uma representação do fato sintático em análise. Dessa forma, a substituição, o apagamento e a inclusão de novos constituintes nos lugares sintáticos consistem procedimentos metodológicos necessários. Estes se justificam por propiciarem o estabelecimento de parâmetros analógicos e, assim, permitem delinear o papel do lugar de sujeito na constituição enunciativa das sentenças e na composição da pessoalidade estabelecidas pelas formas nominais para a contribuição com o delineamento do perfil feminino de cada período. 109 CAPÍTULO 4 A MULHER NA CANÇÃO E AS FORMAS DE APREENSÃO DO SEU REFERENCIAL EM UMA ABORDAGEM ENUNCIATIVA Neste capítulo faremos uma reflexão sobre os enunciados de letras de música, buscando analisar os traços de adesão dos compositores, como locutores, aos referenciais que constituem socialmente a mulher na relação com o homem, considerando as condições históricas em que as composições musicais foram gravadas. Procuramos captar nuances de percepção da mulher nesses fragmentos nos períodos em estudo, analisando níveis distintos de pertinências na visão masculina, na composição de novos acontecimentos enunciativos relativos ao papel da mulher na relação com a figura masculina. Enfatizamos aqui as formas imperativas utilizadas nas canções analisadas e a instauração imediata do interlocutor na relação com a forma gramatical de segunda pessoa enunciativa, ou seja, a quem é destinada a locução. O destinatário nas letras musicais não é visto como uma pessoa identificada discursivamente pelo locutor, isto é, não é uma referência a um indivíduo no mundo, ainda que o autor da música possa vislumbrar certa mulher em seu processo de alocução virtual quando da composição da letra. A nós interessa efetivamente o perfil feminino que captamos por meio dos referenciais “configurados nas construções nominais utilizadas na própria letra das músicas. As construções nominais têm, com isso, um compromisso com o campo de emergência de entidades extraído da exterioridade” (DIAS; SILVA, 2015). Dias (2011; 2015) discorre sobre as construções nominais, quais sejam, formações nominais (FNs). O autor desenvolve uma visão enunciativa do já conhecido conceito de sintagma nominal ou grupo nominal. Esse conceito de FN propõe uma visão distinta da constituição do sintagma nominal a partir de motivações enunciativas. Isso propicia a constituição de um centro de articulação temática com foco de interesse na enunciação e, consequentemente, traz a memória de sentidos que se agrega a esses nomes. Daí, todo e qualquer tipo de determinação contraída pelo nome representa unidade sintagmática, instituindo as condições de agregação dos traços de atualidade oriundos da construção temática na sua relação com a atualidade do dizer. 110 Conforme discutimos anteriormente, o nosso campo de análise incidiu em fragmentos de letras de músicas mais tocadas na mídia eletrônica nos três períodos no Brasil: década de 1950, década de 1980 e nas décadas iniciais do século XXI. Analisamos nesses períodos a identidade discursiva que emerge dessas composições endereçadas diretamente à mulher, ou músicas que recorrem a um interlocutor intermediário como meio de alcance do apelo à mulher a partir do funcionamento das FNs agregadas às formas imperativas. As bases teóricas deste estudo serão formuladas por meio das discussões da interface entre regularidade linguística e pessoalidade na teoria semântica da enunciação. Em seguida, discorreremos sobre as formas imperativas na constituição do perfil feminino de cada período em questão, buscando os aspectos da discursividade que dão suporte a esses perfis por meio das formas imperativas. A música não possui fronteira, seu poder é dinâmico e sua comunicação permite a manifestação da expressão dos sentimentos e de todas as representações humanas, assumindo várias formas e funções. Nas suas diversas variantes certamente é a expressão que embala, agita, comove e acompanha as diferentes experiências humanas. A escolha por composições musicais permite a inserção na relação com o campo da subjetividade, uma vez que esta está diretamente ligada à emoção, permitindo-nos situar a música em um patamar mais crítico por possibilitar discussões de temas em debate considerados historicamente complexos. O que pode ser definido na música, em seu contexto histórico, social e cultural, combinando abordagens e estéticas antropológicas, é uma questão múltipla, é um sentir, um viver, um interpretar, um expressar, uma inferência a um devir. No entanto, conceituar o termo música não é uma tarefa fácil, e existem outras definições que relacionam a música à questão da estética, da mensagem, da execução e da interpretação e a relacionam também a uma questão fundamental, que é o fato de a música ser agradável, ou seja, sua manifestação sonora ser agradável. Mas definir o que é música não é o objetivo deste trabalho, embora represente atitude pertinente. Essas considerações singelas sobre a música servem para defender a importância do estudo com a colaboração de um corpus que pode contribuir de forma 111 substancial para discussões valiosas a respeito do gênero, da mulher, da sintaxe, da sociedade. Reforçamos aqui que é indissociável a dimensão material da dimensão enunciativa da língua, pelo fato de esta trazer à tona as marcas de historicidade contidas nos elementos exteriores, porém manifestos em seu funcionamento. Aquilo que enunciamos relaciona-se com o passado por meio da memória de enunciações anteriores às quais nos filiamos, o que é fundamental para a produção do sentido que se dá de forma relacional. Analisando os pressupostos utilizados por Orlandi no que diz respeito à lexicografia discursiva, Silva (2014) 38 apresenta conceitos sobre a ciência do léxico, sobretudo os concernentes ao processo de constituição de uma definição. Os conceitos escolhidos foram o de homem e mulher. Para a autora, as lexias revelam pontos de vista sobre o mundo e as ideologias, sendo o lexicógrafo um mediador entre o leitor e a sociedade, às vezes confundindo-se com a comunidade que os representa. O dicionário nada mais é do que isso: as discursividades que atravessam termos como homem/mulher. É a relação de pertinência que modela a discursivização dos termos. Para nós, a enunciação como acontecimento está na base da relação sujeito/objeto. Se o sujeito se constitui como tema, o predicado é a explicitação da relação que se estabelece com ele. Nesse sentido, a palavra mulher forma-se na atualidade tendo memória de algo como sexo feminino, menina, moça, mãe, etc., ou seja, algo que produz o fato que aparece aos olhos, portanto ganha pertinência; a palavra mulher se instala na memória entre uma discursividade do que seja uma mulher e a atualidade, porque houve enunciados que remetem a mulher como virgem, moça de família/mulher da vida, esposa/amante e mãe que reagiram a eles. Foi lido com os olhos do passado, se há reação, há tema sujeito/predicação, há coisas e processos, há, portanto, relações imbuídas na sentença. Antes de haver atualização, já existe a relação entre memória e atualidade. 38 Discussão do grupo de estudos da enunciação da FALE-UFMG no dia 09/10/2014. 112 No seu tratado filosófico sobre o ser, Bally já previa o pensar, o enunciar e como reagir. Para o autor, aquilo que entendemos como processo é o conjunto de coisas que se pode falar sobre o ser, e essa fala produz outros tipos de falas sobre o ser. E isso funciona como uma rede de pertinências. E uma fala sobre o ser (ainda que abstrato) prevê objetos e processos (relações que este objeto adquire em um conjunto global); isso é pertinente, pois mantém relações de diferenças e semelhanças, portanto permite interpretações. Para nós interessa o acontecimento enunciativo. Se existe sentido, é acontecimento, por isso adquiriu pertinência. Há formas nominais que circulam na sociedade e fazem parte dos textos orais e escritos que atuam de forma sensorial. São encontradas em músicas, sobretudo atualmente, representadas por interjeições e onomatopeias, cujo caráter pode ser passageiro, relativas a um grupo ou outro que se formam no seio da vida social. Essas podem mudar as convenções, mas sempre irão se refletir indiretamente nas palavras que pronunciamos e na sintaxe da frase. Esses tipos de construção costumam ser recorrentes nas composições musicais e geralmente aparecem agregadas a formas nominais que contribuem para a constituição do perfil feminino. Por trás de todas as manifestações, há uma articulação, portanto uma sintaxe que se dá no seio das relações sociais, cujos encadeamentos são marcados pela história de enunciações. 4.1 AS FORMAS, O ENUNCIADO E A RELAÇÃO COM O SIMBÓLICO A força ilocucionária expressa pelas formas imperativas abarca quase imperceptivelmente duas formas: modo indicativo e modo subjuntivo. Nessas bases, a constituição da pessoalidade na relação interlocutiva, conforme Braga (2011, p. 56), tornou-se fundamental, haja vista as mudanças no português brasileiro, com o enfraquecimento na relação entre a forma verbal e o pronome sujeito. Os fatores semântico-pragmáticos, como tipo de relação entre interlocutores, tipos de atos de fala e polaridade, são considerados, nessa perspectiva, como preponderantes aos aspectos gramaticais na escolha da forma imperativa, nesse período. Na perspectiva a qual nos filiamos, a constituição da pessoalidade no lugar sintático do sujeito torna-se imprescindível na saída do verbo de seu estado de dicionário, 113 propiciando as condições enunciativas para a formação da sentença enquanto unidade sintática. Nessa saída, o verbo adquire as coordenadas enunciativas em consonância com as perspectivas de pessoalidade 39 constituídas no lugar do sujeito, e assim entra em sintonia com as outras expressões que compõem a sentença. Do ponto de vista de uma semântica da enunciação, os verbos se mobilizam consoante a pessoalidade, saindo do estado de dicionário, adquirindo papel relevante na constituição da sentença. A regularidade nas articulações sintáticas, tendo em vista as formas imperativas, é marcada pela instauração imediata do atributo de pessoa (DIAS; SILVA, 2015). A sentença é uma construção regular da unidade reconhecida como enunciado, constituindo uma representação geográfica de lugares sintáticos, estabelecendo pontos de contato, perpassados pela memória do dizível, e uma demanda de atualidade. O enunciado se beneficia dessa relativa estabilidade dos lugares sintáticos. Para nós, o olhar sobre a sentença não pode se desvincular do olhar sobre esse ponto de contato (DIAS, 2009, p. 13). Conforme constatamos anteriormente, as músicas destinadas ao público feminino ocupam destaque no cenário cultural dos três períodos. Não se verifica, contudo, simetria no uso, no tratamento e, até mesmo, nas flexões verbais. Isso nos leva a crer, pela utilização do verbo na forma imperativa, que entre os interlocutores as relações estabelecidas são distintas, conforme podemos observar em algumas passagens, o que, consequentemente, configura tratamentos, relações e parâmetros também muito discrepantes de relacionamentos, expressos ora no tratamento dado à figura feminina, ora na oscilação da forma verbal, que, por vezes, é utilizada na modalidade culta ou coloquial da língua, como também em sua redução, ou até mesmo na sua desmaterialização. Isso se torna mais visível quando estabelecemos uma analogia entre formas verbais imperativas isoladamente a cada período. Observemos, portanto, o quadro a seguir: Formas Imperativas em Fragmentos de Composições Musicais Anos de 1950 Anos de1980 Terceiro Milênio Encosta/chora Descola/desbaratina Mexe/requebra 39 As perspectivações de número também são constituídas na relação com o lugar do sujeito, mas na ótica de uma semântica da enunciação, a perspectivação de pessoa adquire preponderância. 114 Fica/olha Balança/dança Rebola/manobra Encosta/chora Provoque/misture Empina/enlouquece Para nós, a regularidade das formas representa suporte na compreensão do perfil feminino constituído discursivamente. Aceitar o acontecimento histórico como regulador dos discursos vigentes no âmbito social constitui atitude coerente e pressupõe hierarquias no que diz respeito ao gênero, que poderiam ser expressas pelo tipo de texto, pelo uso da pessoa, por meio de um tratamento mais ou menos cerimonioso. Pode-se observar que a forma imperativa do primeiro ao terceiro período varia em trechos de músicas endereçadas à personagem feminina. Essa variação não se encerra apenas no âmbito social, mas atinge outras variáveis que possibilitam pressupor mudanças em níveis distintos. Pela observação entre as relações estabelecidas nos três períodos, podemos observar o uso de pedido, conselho, comando/ordenação, sugestão e alerta, de maior ou menor polidez, do grau de cordialidade, do nível de aproximação, dentre outros fatores. Isso é um delineador de perfis distintos inseridos em sociedades também distintas, impostos por traços históricos. Se analisarmos a sequência dos termos atentamente e a ordenarmos conforme os períodos estabelecidos, parece haver um continuum no que diz respeito aos movimentos que se requer dela. Nos anos 1950, os movimentos requeridos da personagem feminina traduzem o comportamento esperado dela no período, comportamento este que pressupõe certo recato, pureza, timidez: encosta, chora, conta (80), Olha, fica, adivinha (59). Na década de 1980, exige-se um papel mais dinâmico, porém, pelo uso da forma, a diretividade demonstra certa sutileza e uma atitude sexual mais bem definida, podendo ser confundida ou camuflada em afeto, desejo e carinho: abraça, cobre (73) lança, descola (61), balança (65). Já nos dias atuais, a sociedade exige da figura feminina um movimento maior. Isto se reflete em uma mulher em ação direta, expressa por meio dos movimentos mais explícitos: rebola, mexe, requebra. Uma possível explicação seria o intuito de fazer com que se pense e se aja consoante aos modelos determinados por pessoas e instituições que fomentam e corroboram a perpetuação do poder e sua permanência. Para nós, situados numa perspectiva 115 semântica da enunciação, interessa perseguir fundamentos e atuações dessa relação homem/linguagem e o que ela pode significar na constituição do sentido. Para a investigação da constituição do sentido, o enunciado será o ponto de partida para a unidade de análise, e vamos observá-lo funcionando no texto, o que pressupõe considerar duas questões fundamentais: que as relações estabelecidas tanto internamente com os elementos que o constituem e concomitantemente com outros enunciados com os quais se relacionam são relevantes para a construção do sentido; e que para compreender o acontecimento, como resultado da enunciação, conforme Guimarães (2005), não há como depreender o funcionamento de um texto, caso se considere isoladamente um enunciado. É de crucial importância a relação estabelecida entre as palavras que o constituem, não apenas no âmbito do texto, como unidade significativa, mas também na estruturação do enunciado, pois este adquire pertinência na constituição e na produção de sentido. De acordo com o autor, tanto a língua quanto o sujeito se constituem pelo funcionamento da língua, o que inclui questões simbólicas, políticas, socioculturais e até mesmo linguísticas das relações humanas. Dependendo das relações estabelecidas, as formações discursivas religiosas, científicas, midiáticas, educacionais ou outras ditam o modo como funciona cada cena enunciativa. Uma boa maneira de ilustrar esses exemplos são expressões de tratamento historicamente consolidadas, consoantes rememorações, levando em conta palavras ou expressões concernentes à figura feminina: mulher de família, mulher de rua, amante, a outra, garota de programa, periguete, espera-marido, Maria chuteira, Maria regateira, catilanga, peguete, etc. Temos a liberdade de falar sobre mulher, não só de mulher, mas de mulher maravilha, mulher a quem amamos, mulher de fases. Como não é possível renegociar o tempo todo nosso léxico e criar novos nomes e novos verbos, a mudança intervém de maneira sistemática e nos permite qualificar, modificar, determinar e enriquecer as expressões, possibilitando a definição de classes e relações sempre novas, partindo daquelas que já se encontram no léxico (CHIERCHIA, 2003, p. 328). 116 Para a semântica da enunciação, as relações estabelecidas entre os elementos que compõem as formações nominais indicam que nem sempre essas relações expressam qualidade ou estado, muito menos aparência ou algum tipo de atrativo especial. A modificação/determinação do núcleo em uma formação só pode ser compreendida à medida que a enunciação mobiliza sentidos para além das categorizações estabelecidas tradicionalmente (DIAS, 2013). Analisar as regularidades, a estrutura e o modo como entrecruzam esses discursos é situá-los no âmbito histórico e político, na atuação/caracterização da mulher como gênero. Começamos pelo uso de um recurso recorrente que trata de garantir e validar uma teoria como constitutiva do sentido. Assim, enunciar mulher de família e mulher leviana, é efetivamente reconhecer a mudança que invoca uma memória, marcada naquilo que se observa ao se produzir uma sentença, memória que se atualiza, isto é, juntos a ela lhes são agregados outros recortes de sentido ancorados no acontecimento do dizer por meio da enunciação. Efetivamente, quando se dirige a uma mulher, impondo-lhe inclusive o modo de se trajar, maquiar e se comportar, remete-se a esse perfil feminino disseminado como a mulher de família, a moça casadoira, conforme exemplo (82): faça tudo, mas faça o favor, não pinte esse rosto, limitando as ações femininas ao espaço restrito ao lar, em função de cuidar da família. Por isso, é possível afirmar que três perfis de mulher se apresentam por intermédio de um apontamento de memória (M), concernente com o período e a sociedade em que cada uma está inserida. A leitura dessas composições musicais pode nos levar a compreender essa identidade apontada. É possível identificar três visões de receptores, consoante com a época da composição dessas músicas e o acontecimento histórico do enunciado imperativo e a memória. Há um diálogo com esse sujeito histórico: a mulher investida historicamente. Assim, as sentenças dialogam com (M) e, ao estabelecer esse diálogo, configuram-se três direções: uma mulher da década de 1950, outra da década de 1980 e outra dos anos de 2000. Portanto, em (47) diz a ela que sem ela não pode ser, em (61) Lança, menina, lança todo esse perfume, desbaratina e em (64) Bota o teu vestido novo, nega, venha antes 117 de chover, podemos identificar três tipos de construções que se valem das formas imperativas, distintamente; isso nos leva a pensar que, à medida que vão se constituindo as composições musicais, temos na estrutura indícios de um discurso endereçado a mulheres inseridas em contextos históricos e sociais, cada um com uma singularidade, o que nos permite depreender também papéis sócio-históricos definidos. Olhar a mulher por meio do uso dessas formas, observar a voz de comando, a voz imperativa, é vislumbrar a mulher inserida num discurso de comando/ordenação que a instiga a ser, a se comportar, a se inserir de acordo com modelos e normas de comportamentos ditados em cada um dos períodos referidos. 4.2 FORMAS IMPERATIVAS E A CONSTITUIÇÃO DO PERFIL FEMININO DOS ANOS DE 1950 A regularidade das formas representa a âncora na apreensão do perfil de mulher constituído discursivamente. No exemplo (59), a perspectiva enunciativa quanto às regularidades na constituição do lugar sintático de sujeito na construção imperativa é o foco de nosso interesse. Se um dia você for embora, me leva contigo, fica, Dindi! Olha, Dindi. A noção imperativa extraída das formas verbais leva, fica e olha instaura o lugar do sujeito, responsável pela saída do verbo de seu estado de infinitivo, projetando uma ocupação por meio do pronome tu, não materializado na sentença. Por outro lado, é a figura de Dindi que recebe a configuração discursiva dessa segunda pessoa, conclamada a considerar os apelos do locutor quanto ao reconhecimento do seu lugar ao lado dela. Podemos abstrair das marcas de suposição certo distanciamento: se soubesses..., se um dia for embora... Depreendemos o lugar sintático do sujeito virtualmente concebido pela segunda pessoa como a virtualidade de uma entidade a ser conquistada, que se mostra a certa distância do locutor. Isso se torna mais claro quando nos valemos de outro exemplo, como o (45): Vai, minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser. Diz-lhe numa prece que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer. 118 Esse extrato de letra musical da década de 1950 apresenta aqui um funcionamento da forma imperativa consoante aos modos específicos desse período: a transversalidade da interlocução. A opção por esse modelo de direcionamento denota uma ordem de imperatividade transversal cujo interlocutor, tristeza, é alegórico. O núcleo representado pela FN tristeza abriga o ponto de diretividade do dizer cuja figura feminina é alcançada pela discursividade do papel masculino na música nesse período. O referencial do sentimento do homem representa o foco de alcance da mulher. Para além de um recorte de sentimento, a perspectivação da FN materializada no substantivo tristeza abriga, no âmbito dos relacionamentos, em uma abordagem das formas linguísticas, uma visão ampla e complexa que transcende a sua estruturação formal, considerando o papel enunciativo das categorias gramaticais. A composição musical, por sua própria constituição, representa estratégia discursiva de convite à inserção a um mundo cujas características contemplam o prazer e o lúdico como fonte de realização e poder. E discorrendo sobre o papel da mulher nos períodos propostos, podemos vislumbrar o entendimento de rupturas que possivelmente remeterão a algum momento cujo espaço e tempo representam fatores fundamentais para a recorrência a um acontecimento específico na memória de outros enunciados, possibilitando a constituição do discurso. Um estudo sobre a utilização das formas imperativas nos três períodos, ancorado numa teoria da enunciação, permite-nos melhor entendimento no estudo semântico da língua cujo escopo é determinado no enunciado. Defendemos a tese que as formas possibilitam apontamentos orientados sócio- historicamente na composição da sentença, e aqui, especialmente, a utilização da forma imperativa na composição da canção endereçada às mulheres aponta indícios de que as agruras sofridas por grande parte das mulheres brasileiras, exercidas pelo poder masculino, tendem a se perpetuar. As mulheres ainda se submetem aos comandos de uma sociedade orientada por uma cultura machista, centralizada nas figuras dos maridos e dos pais, conforme podemos vislumbrar no exemplo (82), quando da observação de outros trechos, como já desculpei tanta coisa, você não arranjava outro igual... estou de mal com você. Adianta-se aqui um possível 119 abandono, caso ela deixe de se comportar da forma esperada de uma mulher direita, e isso é reforçado na ameaça, isto é, na afirmação de que o parceiro é o que há de melhor, o que a impedia de arranjar algo igual, que dirá melhor. Portanto, não é de se estranhar o uso das formas imperativas nos diversos tipos de construções textuais, especialmente nas mídias, e isso se reflete nas composições musicais. A apreensão da noção imperativa, materializada de uma forma ou de outra, agrega-se a uma subjetividade que pressupõe a constituição da pessoalidade. Uma discursividade da qual se pode extrair o comando de que ela cumpra com os deveres de dona de casa, mãe zelosa, podendo receber de recompensa o tratamento carinhoso, como nos mostra o exemplo a seguir: (78) Acorda, Maria Bonita. Levanta e vem fazer o café, que o dia já vem raiando e a polícia está de pé. A composição musical possui elementos potenciais que contribuem para a centralização do lugar da mulher, prescrevendo a apresentação de sua identidade: frágil ou forte, amada ou desprezada, fiel ou traidora, ignorada ou desejada; isto é, a música, sem fronteiras, refletirá seu cotidiano na esfera social, espelhando sua liberdade ou não nas interpretações e nos estereótipos sobre elas. Tendo em vista a ordem referencial que sustenta as formações nominais projetadas pelas formas verbais imperativas nas décadas em estudo, refletimos sobre a discursividade que constitui os padrões sócio-históricos na composição desses referenciais. Constatamos que aquilo que regula a constituição do perfil feminino das décadas pesquisadas são os cruzamentos de memória e atualidade que operam no domínio referencial. A pessoalidade encontra seu suporte nas FNs que abarcam os contornos de um perfil discursivo feminino, legitimado nos parâmetros vigentes na sociedade da época. Dessa forma, a década de 1950 é marcada por uma ordem fixada na determinação rígida de papéis sociais pertinentes ao homem e à mulher. A figura feminina configurada na mãe, responsável pela educação dos filhos, tinha por obrigação o cumprimento de seu papel da forma mais eficiente possível. O amor e o cuidado com os filhos tornou-se um sacerdócio. A segurança, o fazer e o sentir das crianças eram 120 de responsabilidade da mulher, o que acarretou o discurso de valorização dos atributos femininos que se legitimaram no uso da forma verbal que se efetiva na concordância prescrita pelos moldes gramaticais da tradição: vai, diz (47), olha, fica (59), acorda, levanta (78). Nesse contexto, os estudos históricos sobre as mulheres por meio de uma análise das músicas como uma documentação para recompor um passado de modo significativo contribuíram com essa nova roupagem contemporânea de reconstruir o significado histórico e cultural do objeto estudado, dando sentido à história das mulheres. No exemplo (47), vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser, temos uma composição musical da década de 1950 que permite localizar na memória social, por meio da utilização de formas imperativas, um momento em que a configuração enunciativa se dá não apenas no âmbito da tradição gramatical de pedido, ordem e conselho. Essa concepção ficaria destituída da possibilidade de análise em torno da qual se consolida o modelo de uma situação de conquista numa relação amorosa, cuja mulher é o eixo central da relação e o homem suscitava-a a empreender esforços na efetivação da relação amorosa, como podemos observar no exemplo (59): se um dia você for embora, me leva contigo, Dindi. Postulava-se um comportamento de distância entre o conquistador e a figura conquistada, que ocupava papel “privilegiado” na relação: figura frágil, feminina, mãe, fonte de virtudes, fidelidade e assim por diante. A ela eram dirigidos atributos que a situavam em um patamar de superioridade. Contudo, isto não pode ser inferido, vislumbrando apenas o plano do texto. A utilização das formas verbais em consonância com as formas/formações nominais referentes a ela nos permite depreender algo que está implícito na memória das relações estabelecidas pela realidade social. Considerando o plano enunciativo no texto da década de 1950 por meio do estudo do uso das formas imperativas, podem-se observar, no campo das falas, indícios que denotam as dificuldades do homem no ato da conquista. Enunciados passíveis de ocorrerem em um universo onde a luta entre os sexos pressupõe desigualdade e uma realidade que requer esforço da figura masculina, que para conseguir conquistar o objeto do desejo (a mulher, neste caso), que é difícil, precisa assumir suas 121 fragilidades, o que confere a ele uma posição “aparente” de inferioridade: diga que foi por ela, diga também pra ela. (79) não quero bate-papo com ninguém, enquanto não voltar para o meu bem [...] o meu mundo é triste, só sei chorar. Venha. Mas venha já (SILVA; PORTELA, 1959). Em parte significativa de textos desse período, podemos depreender, por meio do uso das formas em questão, certa subserviência da mulher, de quem o homem conclama a atenção, o carinho, ou, até mesmo, a piedade. Essa prerrogativa se reforça, quando observamos outro elemento que não podemos perder de vista: o alocutário. Podemos conceber, inclusive, que esse tratamento aponta indícios de uma visão de mulher pueril, incapaz, que precisa de cuidado, atenção, provimentos, etc. Isto nos leva a crer em uma discursividade que postula uma posição ambígua de mulher, que ao mesmo tempo goza de superioridade moral e fragilidade física: faz de conta que sou teu paizinho (81). Nos trechos (47), (59) e (81) podemos observar o que um homem espera do comportamento feminino nos anos dourados ou década de 1950. A forma verbal também nos permite refletir sobre o uso, consoante com as prescrições da gramática tradicional: fica, olha, adivinha (59), vai, diz (47), entra, fica, diz (81), materializado na segunda pessoa do singular, uso comum na época. O vocativo era recorrente, tanto pelo uso do nome que comumente intitulava as canções, como Marina, Marilena, Tereza da praia, Maria Bonita, quanto pelo uso de apelidos, na maioria das vezes, carinhosos: Dindi, Maria Bonita, meu amor. Curiosamente, a utilização de categorias designativas parecia uma forma de valorização da identidade feminina por meio do nome. Ao compor uma música a ser endereçada à mulher, instaura-se uma categoria: a de mulheres, e consequentemente a de homens. A categorização de complemento à vida, como algo fundamental, beira o inatingível, conforme podemos verificar nos fragmentos você não existe (59), sem ela não pode ser (47) e diga que foi por ela por causa dela que eu parei de sambar. Portanto, a memória que se traz do feminino não é vista como memória onde se instauram episódios psicológicos, mas participação 122 histórica do enunciado ou memória discursiva, constituindo espaço de divisões, deslocamentos, conflitos e réplicas. Isso só pode ser inferido quando observamos os já-ditos que vigoram na sociedade no âmbito da relação de gêneros. Fazer significar compreende a relação com dizeres que se cruzam entre o que se quer e o que se espera de uma mulher dos “anos dourados”. Na concepção de Haroche (1992, p. 21), não apenas expressos nas cifras, como também nas palavras, no tom e no ritmo, o objetivo é comum: tornar transparente o interior, o comportamento feminino, isto é, a mulher por inteiro. 4.2.1 Formas nominais agregadas à representação de condição feminina Assim, naturaliza-se a dicotomia homem∕mulher que separa em esquema redutor um grupo em detrimento de outro. E essa adscrição, na verdade, não passa de um efeito de discurso cuja materialidade é inscrita na noção de arquivo de Pêcheaux (1997), entendido como a esfera de documentos “pertinentes e disponíveis sobre uma questão” (p. 57), ou seja, a composição discursiva sobre qualquer tema em questão. Esses sentidos são extraídos por meio de leituras de já-ditos (interdiscurso) a respeito da mulher. (80) Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora. E conta logo suas mágoas todas para mim. Quem chora no meu ombro, eu juro que não vai embora (BORGES, 1958). (81) Entra, meu amor, fique à vontade e diz com sinceridade o que desejas de mim. Entra, podes entrar (RODRIGUES; GONÇALVES, 1950). Vejamos outros excertos das composições musicais em (80): amor, eu quero seu carinho, porque eu vivo tão sozinho e os demais trechos do exemplo (81) já que cansaste de viver na rua e os teus sonhos chegaram ao fim... não te darei carinho nem afeto, mas pra te abrigar podes ocupar meu teto, pra te alimentar podes comer meu pão. Dias (2013b) situa os espaços sintáticos como campos de pertencimento que nos permitem aliar a atualidade da formulação e ao memorável de outras enunciações 123 que comparecem no acontecimento enunciativo. Nesse caso, uma FN como meu amor e Dindi é forma qualificada em teoria da enunciação na medida em que participa de um domínio referencial, constituído em espaços regulares na língua (lugar de sujeito na sentença em que se encontra, representado pelo vocativo), e contrai pertinência com esse memorável de enunciações. Enunciações estas que cruzam tratamento de respeito e enaltecimento à figura feminina. Conceber a constituição dos sentidos é a primeira entrada no caminho de compreensão do lugar do sujeito que passa pelas articulações, que aqui são manifestadas na concordância. Com efeito, a noção de referência é desenvolvida em termos de domínio referencial com base no conceito de “referencial” de Foucault, referencial este que não é constituído de “coisas”, de “fatos”, de “realidades”, ou de “seres”, mas de leis de possibilidade, de regras de existência para os objetos que aí se encontram nomeados, designados ou descritos, para as relações que aí se encontram afirmadas ou negadas. O referencial do enunciado forma o lugar, a condição, o campo de emergência, a instância de diferenciação dos indivíduos ou dos objetos, dos estados de coisas e das relações que são postas em jogo pelo próprio enunciado; define as possibilidades de aparecimento e de delimitação do que dá à frase seu sentido, à proposição seu valor de verdade. É esse conjunto que caracteriza o nível enunciativo da formulação (FOUCAULT, 1986, p. 104). Nessa direção, mais importante do que a relação entre a palavra e uma entidade do extrato real ou virtual, encontra-se a pertinência daquilo que se formula como evocação de realidades. O nível enunciativo da formulação na nossa perspectiva encontra nas FNs, principalmente, um lugar privilegiado de constituição do campo de emergência daquilo que se evoca. Denominamos domínio de referência a esse campo de emergência proposto por Foucault. Dessa maneira, as formações nominais e verbais constituem-se como formulações de referencial, vale dizer, formulações de pertinência para o enunciado. As formas retratam nada mais que o espelho ou reflexo da história social de suas enunciações. A discursivização pode ser observada por meio das formas nominais circunscritas às ações femininas da época, tais como: sonhos, carinho, afeto, teto (81), formas devidamente incorporadas ao discurso relativo à proteção à mulher. 124 Portanto, uma forma é na língua o que se tornou a história de suas enunciações, como pudemos ver anteriormente. Desse modo, considerar conselho, sugestão, comando, ordenação, convite é considerar a memória que a língua evoca em seu funcionamento e as marcas de seu passado. O que uma forma é naquele momento carrega a marca de como ela funcionou nas enunciações em que a língua se pôs a funcionar (GUIMARÃES, 1996, p. 27). Em (81) podemos depreender indícios de um possível abandono; mediante a volta dela, ele, “generosamente”, está disposto a abrigá-la em seu domicílio, podes entrar (permissão), cuidar da companheira como se fosse seu progenitor, faz de conta (sugestão), que sou seu paizinho, tu és a filha pródiga que volta, isto é, ele a perdoa, porém sem que ela requeira carinho ou afeto, pois esse tipo de tratamento só é permitido àquelas que meritocraticamente aceitaram as condições de puras, submissas. O tratamento cortês, carinhoso e respeitoso prescinde da memória do histórico de enunciações pertinentes ao tratamento feminino, mesmo confrontado com um comportamento feminino não condizente com as normas impostas na sociedade na época. Desse tipo de relação, pode-se verificar por meio de elementos circunscritos ao universo domiciliar a relação paternal/filial: paizinho, filha, etc. Isso se observa a partir do momento em que ele começa a impor suas condições: voltastes, estás bem, estou contente, só me encontraste muito diferente. Ele a aceita de volta com ressalva, já que ele é quem foi abandonado. Esse efeito de sentido que pode ser depreendido das formas da língua é determinado socialmente por meio da linguagem, dos elementos apreensíveis, quando exprimidas nas palavras do falante. “Entretanto, esta evidência é um efeito ideológico de apagamento da história e da memória que constituem o dizer sobre a mulher” (DIAS; SILVA, 2015), o que também está presente na forma inusitada apresentada nos exemplos (47), (59) e (81). A presença de um eu na constituição do enunciado em concordância com minha tristeza, posso, meu nome, suporto (47), minha vida, me leva, esperei (59), mim, meu ombro, juro (80), etc., um tu representado, muitas vezes, por meio do endereçamento indireto a ela. 125 A cada nova enunciação, sentidos são produzidos, reproduzidos e até mesmo esquecidos de modo a proporcionarem um cruzamento de dizeres em meio à criação de dizeres novos. Assim durante a enunciação há uma (re)construção discursiva e é através da memória discursiva, do interdiscurso, que emergem as práticas que subsidiam essa (re)construção (DALMASCHIO, 2014, p. 22). Na configuração do sentido do termo mulher, há de se pensar na questão da humanidade, cujas mulheres compartilham a construção histórica, elemento formador de sentido das relações humanas tanto no âmbito biológico como no subjetivo. Ao observarmos nas relações sociais o território ocupado, verificamos que a questão cultural estabeleceu uma hierarquização nas relações de gênero, acarretando uma história diferente para homens e mulheres: a eles a condição de poder, de proteção, de permanecer, de agir, de relacionar: paizinho, teto, pão, afeto (81), ombro, carinho (81); e a elas a condição de servir, obedecer, esperar, respeitar: acorda, levanta, vai fazer o café (78), não chores, cala, suporta (72), não pinte (82) (conforme veremos a seguir), enfim, uma condição de limitação, recebendo, em contrapartida, os “privilégios” concedidos ao sexo feminino como “respeito”, “proteção” e sustento garantidos pelos homens: encosta, conta, chora (80). Tais formas nos permitem uma leitura de mundo no entender de Orlandi (1993, p. 7), como algo similar à ideologia de que o sujeito lança mão para significar e apontar possibilidades de sentido, neste caso, constituídas por meio do uso da forma imperativa em situações passíveis de serem interpretadas discursivamente por meio de filiações teóricas que assumimos aqui como referência para os nossos estudos. Se os sentidos podem ser constituídos por meio dos elementos internos na materialidade linguística, a relação com o que está fora da linguagem faz parte de sua própria construção (DALMASCHIO, 2014, p. 20-21). A subjetividade manifestada na pessoalidade é reconhecida por meio da concordância com a forma imperativa em sua relação com tu, e é confirmada pelo reforço por meio dos vocativos minha tristeza, Dindi, o que confere status de pessoa (tu). A partir das marcas de pessoa, podemos constatar que não necessariamente o sentimento expresso pelo locutor tenha de ser recíproco, uma vez que a situação inerente ao exercício da linguagem, que é a da troca e do diálogo, confere ao discurso dupla função: para o locutor representa uma realidade de abandono que causa o 126 efeito de amor não correspondido no exemplo (47) e o enaltecimento, a idealização da pessoa amada, inserindo-a num patamar de superioridade, conforme o exemplo (59). Segundo Dias e Silva (2015), a composição do discurso no campo musical se vale do caráter lúdico dos textos que a ele se associam, o que aparenta descomprometimento com as verdades que dão suporte à autoridade do discurso endereçado à mulher, contudo ela não escapa das regiões sócio-históricas caracterizadas pelos seus campos de verdade. As mulheres deveriam fazer inúmeros ajustes para preservar o tradicional ideal de pureza e de submissão, combinando com a exigência de eficiente dona do lar: acorda, levanta, vem fazer o café. Dessa maneira, existia na década de 1950 um conflito entre a visão tradicional do papel social feminino e a nova realidade. Nesse panorama, os papéis e os lugares sociais femininos se reconfiguravam. Novos modelos de ser mulher despontavam, convivendo ambiguamente com os tradicionais. As mocinhas mais recatadas dedicavam-se ao lar e à família; as mais despojadas preferiam investir em si mesmas, contudo com objetivos práticos geralmente voltados ao domicílio: o companheiro, os filhos e os pais. Paradoxalmente, surgiam as que abdicavam desse modelo tradicional imposto socialmente e se rebelavam, não deixando ao parceiro outra alternativa, senão suplicar a volta da “amada”: vai, minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser (47), se um dia você for embora, me leva contigo, Dindi (59), faz de conta que sou teu paizinho (81). O abandono por parte delas era mal visto, a ponto de serem desclassificadas, demonstrando revolta do companheiro: me deixe, ora vai mulher (44), não chora, cala, suporta (72), deixe que ela se vá, não lhe diga que não (62). As revistas da época estereotipavam as jovens em moças de família e moças levianas. A primeira seguia à risca os princípios morais aceitos pela sociedade, portava-se corretamente, respeitava os pais, preparava-se para o casamento, mantinha sua ingenuidade e inocência sexual, ou seja, mantinha-se virgem até o casamento. Já as levianas eram jovens que se permitiam ter intimidades físicas com homens; esse tipo de moça tinha sua reputação manchada. 127 A mídia, aí representada por revistas, em sua maioria, legitimava esse modelo ideológico, transmitindo às leitoras/ouvintes que a primeira era “para casar”, teria uma vida plena e feliz, cuidando dos filhos e do marido. E era a esta mulher idealizada que as composições musicais se destinavam. Podemos inclusive analisar outros excertos da música citada em (59) que legitimam o perfil desejado pelos homens para a constituição da família: A minha vida inteira esperei...é a coisa mais linda que existe... se soubesses do bem que te quero... o mundo seria lindo, Dindi. O propósito maior dela era a felicidade dele, assim o esposo era o chefe, detentor de poder sobre a família, expressos nas FNs que se agregam ao locutor: abrigo, teto, alimento (81). Em contrapartida, como podemos verificar, grande parte das produções em que se utilizava o vocativo tinham o propósito maior de enaltecer a figura feminina: Dindi (59), meu amor (81), e a ela era reservado um espaço “privilegiado”. Sempre e na maioria das composições da época, a ela eram atribuídos esses valores. Analisemos a música de Dorival Caymmi, composta quase à chegada dos anos de 1950, cujas influências podem ser demarcadas na década em estudo: (82) Marina, morena, Marina, você se pintou, Marina, você faça tudo, mas faça o favor. Não pinte esse rosto que eu gosto, que eu gosto e que é só meu (CAYMMI, 1947). Na década de 1950 a mulher era dotada de funções e responsabilidades com o marido e com a casa, que representa bem mais que uma simples moradia, é o lugar onde ela “reina” no seu sagrado casamento. Há várias questões que podem ser refletidas no âmbito da música nesta análise com uma visão sociológica, que contribui e serve de apoio aos estudiosos da forma verbal no estudo da língua e da textualidade, como: me aborreci, me zanguei, já não posso falar e quando eu me zango, Marina, não sei perdoar. Eu já desculpei tanta coisa, você não arranjava outro igual (82). As formas verbais referentes ao locutor demonstram irritação, poder e autoridade, em detrimento do grande esforço que ela teria para conquistar alguém como ele: não arranjava. Isso confirma o grande abismo que demarca a separação entre homens e mulheres. 128 No trecho, podemos constatar uma convicção dos costumes vigentes na sociedade da época no que diz respeito ao papel da mulher. As formas verbais imperativas, como podemos verificar em faça, não pinte (82), manifestam-se por meio de expressões que conotam ordem/opressão/proibição: faça, não pinte. Comporte-se assim, ou será punida: quando me zango... não sei perdoar... eu já desculpei tanta coisa, você não arranjava outro igual... estou de mal com você... É, portanto, na relação com a história de enunciações constituída por elementos do enunciado imperativo que se encontra o escopo referencial capaz de proporcionar o entendimento dos efeitos de sentido da forma em questão, necessários para o entendimento da condição de significar em diversos acontecimentos enunciativos. Isto é, no domínio sócio- histórico de suas regularidades de sentido, a forma impõe uma mulher modelo, submissa, do lar, esposa exemplar, virgem e casta, modelo de santidade versus homem com autoridade, poder e supremacia. As formas da língua dão suporte à significação, confrontando-se com a memória discursiva e o presente do acontecimento. Nessa direção, a memória da língua comporta uma latência, uma condição para o confronto entre a instância do dizível histórico e a instância de um presente. É possível captar as articulações formais constituídas segundo padrões estáveis, capazes de dar suporte à apreensão do enunciável. Uma mulher tinha, consoante à sua condição feminina, de ser frágil. Assim o homem não acreditava que ela poderia ter discernimento dos seus deveres no que se diz respeito à reputação do seu lar. Isso comprova o quanto lhe é importante o julgamento da sociedade em relação ao seu lar. Seu marido não quer que os outros pensem que sua casa está corrompida pela imoralidade na sua ausência, consequentemente a proibição à maquiagem, “não pinte esse rosto”, como algo que foge à natureza feminina. As letras das canções interpretadas nos anos de 950 trazem à tona uma história de limitação, divisões de papéis, fragilidades, sensibilidades e um mundo de comportamentos que classificavam as mulheres como sujeitos que se permitiam viver nas condições de submissão ao relacionamento amoroso, ao penoso papel da traição, do abandono, da espera pelo homem amado. E quando se compunha uma música em que a mulher endereçava a mensagem ao homem, essa se fazia em forma de mendicância. 129 (83) Ouça/vá viver a sua vida com outro alguém/hoje eu já cansei/ de pra você não ser ninguém (MAYSA, 1956). O acontecimento produz diferença na sua própria ordem, ele temporaliza. Instala sua própria temporalidade. Não está no presente de um antes e um depois do tempo. Quem produz o sentido é o acontecimento. O passado desse discurso é um passado de ditos anteriores, e não o passado cronológico. Quando produzimos uma fala de um ou outro jeito, já estamos orientados a pensar o seguinte: há na relação entre homens e mulheres sentimentos, disputas, relações de poder que permitem que produzamos discurso de um determinado modo. Não se esperava da mulher a iniciativa do abandono, e quando isso ocorria provocava-se a ira do parceiro: vai, vai mesmo... tenha a santa paciência... ponha a mão na consciência... deixe-me viver em paz (85), deixe que ela se vá (62), não chora, cala, suporta (72). Nessa perspectiva, quando o locutor diz entra, podes entrar (81), essa conotação de permissão só é permissão enquanto determinada historicamente e a linguagem o designa como processo histórico, prática política que cruza pressupostos de polidez ao tratar uma mulher e legitimação da supremacia masculina, que podem ser abstraídas a partir de suas estruturas sintáticas e seu funcionamento semântico- discursivo e da configuração da temporalidade do acontecimento. De um lado, a dispersão desses enunciados reporta a procedimentos cavalheirísticos que remetem à relação entre os gêneros; de outro, ao silenciamento em torno das relações díspares que permeiam o discurso endereçado a ela, como podemos verificar em outros trechos da canção como: podes ocupar meu teto, podes comer meu pão, só me encontraste um pouco diferente... não te darei carinho. A história de enunciações do verbo “poder” para além da conotação de permissão, imbuída na ação presente como condição de futuridade, é também a história da opressão, da adscrição de gênero, isto é, o abandono é algo socialmente aceito, quando parte do homem. Nas expressões como faz de conta (81), deixe (59), cala (72), ainda que a forma verbal se desprenda do compromisso com a ordenação, esta se dá, seja no presente, ou na forma infinitiva podes entrar, faz de conta (81), não brincar (45) que possibilita uma condição de futuridade, o que abre espaço para novos acontecimentos, novas possibilidades na língua. Ao mesmo tempo, a forma 130 imperativa aliada às formas nominais que a sustentam, como paizinho, teto, pão, carinho (81), céu, nuvens, folhas (51), nada mais é que um cruzamento de ditos anteriores que entrecruzam o discurso do amor apaixonado, da saudade que não se esgota, da perda: deixe que ela se vá (62), não chora, cala, suporta (72), abordando as experiências daquelas que as vivenciaram. Uma mulher, presa ao contrato do matrimônio, devia respeito ao nome dos seus pais e ao do seu marido. A fidelidade, portanto, era um processo natural, com uma visão religiosa que representava o sentimento que estabelece confiança entre o casal. Gozar de um lar privilegiado por ser bem visto aos olhos do Senhor também era sinal de decência, por isso o adultério era radicalmente condenado e, quando ocorria, era considerado como fraqueza moral, que é corroborada pela imagem estereotipada, adúltera, pervertida. Nota-se que as mulheres que fugiam do procedimento correto, da moral e dos bons costumes eram punidas, e isso se reflete nas composições musicais, conforme podemos notar em: deixe que ela se vá... procurar outro amor em vão (62), escuta (alerta), vamos (ação conjunta) fazer um contrato: enxuga o pranto barato que te entristece o olhar (ordem)... Escuta, o nosso amor é um fracasso, já me domina o cansaço de brincar de te amar [...] Quem trai, se trai a si mesmo no riso, no abraço, no beijo, no olhar. Escuta, quando fechares a porta, não chores, cala, suporta, não penses mais em voltar (72). Em caso de traição, a sociedade legitimava na mulher uma autoimagem negativa, desmerecedora de respeito da sociedade, referendada nas expressões depreciativas como pranto (feminino) barato (banalização do sentimento de dor, do choro). Ela se enxergava em uma posição de que seria praticamente impossível encarar a sociedade, caso ela perdesse o marido, já que o casamento deveria ser eterno, quando realizado na igreja. Portanto, o julgamento e a autocondenação eram automáticos. Observemos a conotação de ordenação expressas nas formas imperativas. Escuta, não chores, cala, suporta, não penses (72), deixe que ela se vá (62). As unidades se articulam em formas que qualificam uma sintaxe de pertinências enunciativas. Nessa direção, os pronomes tu/você, pressupostos referentes das formas verbais imperativas, constituem unidades que abrigam uma articulação em formas regulares da nossa língua, constituindo concordância, que por sua vez transfere essa 131 informação de número. A ausência de um referente delineado não constitui entrave para que tenhamos acessibilidade à figura feminina, tendo em vista que as condições que produzem sentido entre as unidades da língua encontram-se no texto, tais como: nosso amor, riso, beijo, abraço, olhar. Em parâmetros sintáticos, a FN que se constitui como ocupação do lugar de sujeito gramatical para as formações verbais (FV) não chora, cala, suporta (72) é conhecida. Os determinadores da FN que ocupa o lugar de sujeito das formas verbais exercem o papel de evocar o caráter memorável do substantivo que será situado no presente da enunciação. A configuração dos referenciais dessas formações nominais e verbais abordadas deu-se a partir da incidência de termos perspectivadores identificáveis nas formas agregadas como fracasso e barato, que possibilitam o lugar de entrada das imagens evocadas na FN, prevendo a existência de um determinado tipo de mulher, à medida que projeta uma descrição da relação amorosa que fracassa. Disso tudo se pode depreender que para além de ordenação, as formas verbais indicam uma proibição, uma condenação de todo e qualquer tipo de atitude, sem abrandamento. A “ela”, punição. Sendo assim, a identidade sintática de uma língua assenta-se nesse padrão regular, aliado à pertinência enunciativa das formações consubstanciadas nesse sistema de regularidades. A materialidade linguística pode prescindir da presença de unidades lexicais, justamente porque ela é qualificada no plano enunciativo. Por isso, falamos em sintaxe de pertinências enunciativas. (DIAS, 2013, p. 392). Ao adotar a perspectiva de uma sintaxe de pertinências enunciativas, as formas qualificam-se no domínio referencial, tendo em vista uma referencialidade. As formas da língua do ponto de vista de uma qualificação enunciativa permite desenvolver conceitos como FN e FV, que mais do que uma proposta enunciativa do conceito de sintagma dá suporte a essa dinamicidade da relação entre memória e atualidade que a perspectivação opera no interior das formações. (84) É impossível, é muito mais, você arruinou a minha vida. Me deixe em paz. 132 No exemplo (84), o vocativo mulher agregado à FN que ocupa o lugar de sujeito produz efeito incomum que perpassa o cenário da separação, quando se associa a elementos como iludir, apaixonar, dor, impossível, arruinou, produzindo o engate da pertinência enunciativa, constituída como índice de memória que recebe uma perspectiva que a situa no campo da pertinência, da atualidade, do novo, produzindo- se assim as condições para o acontecimento enunciativo. Retomemos os exemplos (62) Deixe que ela se vá, não lhe diga que não. Deixe que ela se vá, procurar outro amor em vão e (61) Vem cá, meu bem, me descola um carinho eu sou neném só sossego com beijinho. Vê se me dá o prazer de ter prazer comigo. As sentenças produzem um recorte de referência presente no acontecimento enunciativo. Assim, em (62) o locutor traz consigo o valor histórico-social associado ao conceito de relacionamento, mas faz referência ao fato específico de o locutor não considerar a pessoa amada tão importante, já que aconselha ao interlocutor que a deixe ir para experimentar algo que ele, de antemão, já prevê que será uma investidura fracassada. Tal atitude pressupõe uma distinção valorativa no que diz respeito ao gênero. Em outras palavras, uma mulher que abandona um homem se dá mal, e isto é observado também nos exemplos (72) não penses mais em voltar, podes comer meu pão, não te darei carinho nem afeto, pela impossibilidade de reconciliação, bem como no exemplo a seguir: (85) vai, vai mesmo. Eu não quero você mais, nunca mais. Tenha a santa paciência, ponha a mão na consciência. Deixe-me viver em paz. Sai de vez do meu caminho (ALVES, 1958). Identifica-se o componente do perfil de uma pessoa específica, representada pelo pronome você (não materializado na sentença), que também constitui um parâmetro de referência associado ao âmbito comportamental. Além disso, a marca linguística de interlocução identifica a figura do alocutário, participante da cena enunciativa que poderíamos vislumbrar para a sentença, vinculando a referência produzida pelos grupos nominais ocupantes do lugar de sujeito a um acontecimento enunciativo particularizado, a uma atualidade de enunciação específica que cobra da mulher um determinado comportamento, configurados em expressões como paciência, consciência, me deixa em paz. 133 Posta em funcionamento por um sujeito assumido aí como locutor, a FN produz uma diferença na sua própria ordem, onde o passado já não mais se representa cronologicamente, mas como uma rememorização de produções anteriores que os sujeitos interpretaram como passado. Passado este que confronta termos como Dindi e meu amor com mulher. E quando esse locutor fala, já não é dono de seu dizer, que se temporaliza no acontecimento. Sabe-se que não era comum nesse período utilizar esse tipo de tratamento, a não ser em contextos que sugeriam desqualificação; ora, vai, mulher. Isso se confirma quando em outros trechos da composição deparamos com expressões do tipo: você arruinou a minha vida, ora vai, mulher. No caso das composições, o sujeito transfigurado em locutor não fala no presente no tempo, embora se represente assim, pois ele só se constitui sujeito enquanto afetado pelo interdiscurso, por uma memória de sentidos estruturada pelo acontecimento que faz a língua funcionar, portanto falar é estar nessa memória que faz significar sentidos de papéis que se constituem como universo dos gêneros. 4.3 A CONSOLIDAÇÃO DO PARADOXO: ENTRE EVA E MARIA, A MULHER IDEAL É importante reafirmar que perceber a significação por meio da exterioridade da língua não representa deixar de lado o sistema linguístico; ao contrário, é relevante associar a ele elementos enunciativos na constituição do sentido (DALMASCHIO, 2014, p. 23). Neste item iremos abordar o perfil enunciativo da mulher na década de 1980. 4.3.1 Entre a noção de sintagma e de formação A década de 1980 é considerada como de vitórias significativas no sentido da chegada do poder e da mídia, representada até então, em sua maioria, pelas revistas, porém tanto as revistas femininas, que constituíam grandes incentivadoras desse comportamento dito moderno, como toda a mídia, incluindo aí as composições musicais, ora incentivavam e apoiavam atitudes progressistas e transgressoras das mulheres, ora sugeriam restrições e punições para aquelas que infringissem as regras da sociedade. Isso se torna latente quando analisamos composições típicas dos anos de 1980: 134 (86) Deixa eu te amar, faz de conta que sou o primeiro, na beleza desse seu olhar eu quero estar o tempo inteiro (AGEPÊ; VAMILO; SILVA, 1984). Portanto, não podemos ignorar as especificidades do papel que as formas verbais adquirem na interface entre enunciado e sentença. Um olhar apurado sobre as condições de ocorrência da sentença leva-nos a observar o lugar projetado para o sujeito afetado por uma força de progressão. Os modos de legitimação da construção e cristalização dos discursos sobre a expressão faz de conta leva-nos a observar a constituição da significação contraída pela formação verbal, uma vez que a forma verbal faz isoladamente participaria de outro acontecimento enunciativo. O interesse pelas construções nucleadas por um verbo, conhecidas como sintagmas verbais (para nós, formações verbais), reside na possibilidade de elas apresentarem informações sobre o real. No interior da formação verbal, observamos o papel determinante da expressão fazer de conta na constituição do domínio referencial responsável pela distinção do sentido de designações como fazer fita, fazer charme, fazer hora, etc. Constituir um sintagma verbal acarreta a realização de uma operação cuja determinação possa enriquecer o modo como se apresenta uma ação do mundo real (CHIERCHIA, 2003, p. 325-326). Para a semântica da enunciação, expressões como fazer de conta (fingir), fazer fita (fazer hora, adiar), fazer charme (se fazer de difícil) e fazer hora (brincar, adiar, embromar) desafiam a visão composicional proposta pela semântica formal. Podemos distinguir essas expressões compostas com o mesmo núcleo verbal, vislumbrando uma construção que vai além de qualificar, modificar e enriquecer as expressões verbais. Assim, o que é interessante para uma semântica da enunciação é a história das enunciações de que faz parte o verbo fazer em si. A expressão faz de conta (86) composta nos anos de 1980 não opera apenas no sentido de modificar, qualificar e enriquecer o núcleo verbal, mas no sentido de mobilizar sentidos referentes ao comportamento feminino da década de 1980, sentidos esses relativos à permanência de valores como o privilégio dado àquelas que se mantinham virgens até o casamento, enfatizando a importância da dita primeira 135 vez. Essa ideia se consolida, quando observamos nos demais trechos da composição os elementos a ela agregados como pureza, perfeição, primeiro. Na década de 1980 a virgindade ainda constituía tabu, dava-se especial importância ao casamento. O universo de mulheres que se casavam virgens se tornava cada vez mais escasso, e mitificavam-se histórias sobre a primeira noite. Podemos perceber que o sexo antes do casamento era tema velado no discurso dos veículos de comunicação, portanto era mal vista a mulher que mantinha relações sexuais fora do casamento. E se isso ocorria, no conflito interior, ela acabava se sentindo culpada e desmerecedora de um matrimônio legitimado por vias convencionais. Fato comum era a ocorrência de expressões consideradas na época como desqualificadoras: amor que tem cheiro de coisa maluca (61), essa boca muito louca (90), sou Adão e você será minha Eva (73, menção à visão pecaminosa da mulher, oriunda à gênesis), mulher é bicho esquisito (91). Para Lima (2003), “no torvelinho dessas mudanças, emerge, no Brasil, uma novidade no discurso dos periódicos destinados a mulheres de classe média: a otimização do trabalho fora das cercanias domésticas e o sexo prazeroso como assunto a ser tratado por elas.” Tanto que agora (em 1980) tornara-se comum as mulheres externalizarem seus desejos, suas mais íntimas vontades nas músicas como locutor feminino que fala de um lugar social da liberação sexual. Agora eram elas que davam o comando: (87) Agora vem pra perto, vem, vem depressa, vem sem fim dentro de mim que eu quero sentir o seu corpo sobre o meu. Vem, meu amor, vem pra mim, me abraça devagar, me beija e me faz esquecer (CÂNDIDO; FILHO, 1989). (88) Diz pra eu ficar muda, faz cara de mistério, tira essa bermuda que eu quero você sério [...] hum eu quero você, como eu quero (TOLLER, 1984). A agregação de expressões como mim, quero, meu, me (87) e eu, quero (88) em consonância com as formas imperativas invoca uma historicidade específica da relação do sujeito com as instituições sociais que se mostra na incidência do gesto cotidiano da época, que evoca da mulher a iniciativa na relação, adicionando uma 136 carga informativa determinada não apenas pelo nexo que o verbo mantém, mas motivada por um gesto informativo de uma entidade externa à linguagem no campo da postura histórica e socialmente determinada. Por meio dessas formas verbais, invoca-se a figura do interlocutor na forma gramatical da segunda pessoa, que, conforme discutimos anteriormente, não se trata de um indivíduo no mundo. A demanda de identificação discursiva dessa segunda pessoa é evocada pelo locutor e os referenciais configurados nas construções nominais presentes na sentença direcionada a ela permitem a captação do perfil feminino. Ainda com a disseminação dos textos e das imagens no silêncio contínuo e inesgotável do cotidiano do ocidente, a apropriação social do discurso se dá em instâncias discursivas distintas, lugares de fala, posições de autoridade que legitimam ou segregam, restringem ou ampliam as hierarquias e os valores definidores de sentido e de lugares sociais. No período anterior (década de 1950) poderíamos afirmar que seria pouco provável uma construção com essa estrutura que passa a ser comum nos anos de 1980: Quem vem com tudo não cansa, Bete, balança, meu amor, me avise quando for a hora (65). As expressões balança e avise revelam um convite ao prazer no ato sexual, o que pode ser confirmado na expressão que reporta ao clímax: a hora. A construção dos enunciados (87) e (88), que agora partem de sujeitos/locutores representantes do grupo feminista, possibilita a identificação das condições de produção de um enunciado que cruza com um já-dito no âmbito do relacionamento, o qual pressupõe a “investida” por parte do homem, sendo rejeitada a iniciativa feminina de aproximação no relacionamento amoroso. Essa atitude, consequentemente, irá fomentar uma visão depreciativa da mulher, conforme salientamos anteriormente. Portanto, tal construção parece uma marca da resistência. Nesse ponto, reside o caráter relacional dos elementos do discurso. Um enunciado só existe pressupondo outro: “Algo sozinho nunca é linguagem. Algo só é linguagem com outros elementos e nas suas relações com o sujeito. Isto dá o caráter inescapavelmente histórico da linguagem” (GUIMARÃES, 1989, p. 74). Entendemos a noção de enunciação como acontecimento de linguagem que se faz pelo funcionamento da língua, que também não pode ser vista como algo pontual e linear, mas como um complexo de elementos históricos cujos entrecruzamentos possibilitam a construção de um estado de coisas que são relacionais e que são postas 137 em funcionamento naquilo que já fora estabelecido anteriormente. Isso pressupõe atos de construção e reconstrução concomitantes, ou seja, acreditamos que há uma gama de discursividades que opera no entremeio da resistência e da mudança sobre a atualidade, produzindo um movimento de ancoragem para entendermos o novo. 4.3.2 Formações nominais e formas/formações verbais imperativas A noção de formas verbais tem como âncora a constituição de um domínio referencial. À medida que nos afastamos da concepção formal, o conceito de domínio referencial ganha destaque, não como referencial relacionado a coisas, fatos, realidades, seres, mas de possibilidade de operações, pautadas em regularidades. O referencial do enunciado abriga lugares, condições, campos de emergência e instâncias de distinção dos indivíduos no próprio jogo político, ou na trama evocada pelo enunciado que restringe à frase seu sentido e seu valor de verdade (FOUCAULT, 1986, p. 104). Nessa direção, a FV imperativa se agrega a nomes ou designações, no sentido de adquirir pertinência para constituir sentido, ou seja, precisa se submeter a regras de existência. A enunciação irá torná-las pertinentes aos acontecimentos linguísticos, tendo em vista as ocorrências históricas que as materializam. Assim, uma FV é uma formação das condições em que a construção verbal baliza um domínio referencial em consonância com a segunda pessoa verbal. Tendo em vista o conceito de forma verbal como apresentamos aqui, expressões como lança, desbaratina, descola (61), balança (65), cuida (63) e cobre (64) adquirem identidade segundo um domínio referencial dominado pela perspectiva de enunciar a FV nesse período como implicação na participação do acontecimento em que uma atualidade é convocada pela possibilidade de mudança na atitude que se espera da figura feminina. Nessa abordagem, o domínio referencial produz as condições para os recortes de sentido, tendo em vista a própria constituição enunciativa da formulação da FV. Mudanças ocorreram no âmbito do gênero na década de 1980. Estas não apagam o reconhecimento de um passado e uma projeção de futuro. Efetivaram-se conquistas 138 no mercado de trabalho, na inserção nas universidades e também na luta pela liberdade sexual, mas ao contrário do que se pensa a preocupação das defensoras dos direitos femininos é a banalização da sexualidade feminina. Não se discutia mais o direito da mulher em relação ao seu corpo, o que preocupa é a mulher ter se tornado um objeto em prol da publicidade, conforme podemos inferir de: (89) Vem, amor que a hora é essa. Vê se entende a minha pressa. Não me diz que eu tô errado. Eu tô seco, eu tô molhado. Deixa as contas que no fim das contas o que interessa pra nós... (TOLLER; ISRAEL; FORTUNATO, 1984). Com a intervenção da psicanálise emerge o que se poderia identificar como uma rejeição às práticas autoritárias e repressivas sobre as mulheres e o questionamento à obrigatoriedade de exercer o sexo dentro dos limites do casamento, trazendo à discussão um conjunto de pesquisas preocupadas em revelar a presença das mulheres na vida social, reinventando suas práticas cotidianas, criando estratégias informais de sobrevivência. Portanto, o imperativo também é representado pelas construções com o locutor representante do grupo feminino, como forma diferenciada de resistência à dominação masculina, como é o caso de vem pra perto, vem e (87) diz pra eu ficar muda, faz cara de mistério, tira essa bermuda (88). As impressões sobre o passado passam por um processo de discursivização no que diz respeito aos direitos da mulher para produzir efeitos de sentido e provocar outras discursividades. Um olhar sobre as formas revela-se no seu acionamento pelo locutor. Observemos na representação desse perfil de mulher, por meio do vocativo referente a ela, inclusive, o “convite ao prazer”, o incentivo à liberação sexual, o dito “respeito” à mulher liberada, profissional e àquela que paga suas próprias contas, deixe as contas que no fim das contas (89), podendo se relacionar com quem lhe convier, sem amarras, sem cobranças, porém também sem vínculo mercantilista na relação. Essa mulher já não pode ser designada como mulher da vida, prostituta, promíscua ou coisa parecida no campo da sexualidade, mas também está distante da eleita, esposa fiel, mãe, virgem, rainha do lar, exemplo de modelo comportamental e desejado nos anos dourados. É a moça livre. Assim, enunciar tais formas/formações designativas representa atitude além da denominação/ categorização. É um ato 139 político que só poderá ser compreendido por meio da mobilização de sentidos que perpassam a mudança, a transformação do quadro pertinente à história dos gêneros, lugar onde se inscrevem os modos de reconhecimento e a filiação a uma memória de sentidos que marcam resistência e, consequentemente, o apagamento de um período a outro. A agregação a esses adjetivos é marcada pela historicidade nas relações entre o sujeito e as entidades sociais que se manifesta na (re)incidência dos gestos cotidianos, nas músicas cotidianas endereçadas à figura feminina ao (re)nomear as mulheres pela exigência que se atribui a ela, sobretudo no âmbito profissional, afetivo, sexual, educacional, comportamental. Por isso, a referência de balança/Balanço em (65), ainda que se mostre estável por meio da relação entre a forma verbal imperativa e o adjetivo, evidencia que, embora não se possa estabelecer uma relação de convergência bem definida no funcionamento designativo dessas palavras, como na composição musical em questão, o discurso sobre balançar é o lugar de organização do discurso sobre o espaço da sexualidade: o quarto, o motel, o espaço privativo da relação amorosa. O motel e o quarto do casal são lugares de configuração do ato sexual. O ato/designação balança/Balanço expande-se enunciativamente para fora de si, como dança. O que podemos dizer é que a textualidade constitui-se exatamente porque “dizer é reescriturar um dito” (GUIMARÃES, 2005). Portanto o ato de parafrasear se faz como constituinte do polissêmico nesses pontos de identificação. O ato de dizer de novo é inexoravelmente o dizer de uma não correspondência. 4.3.3 Delineando o perfil feminino dos anos de 1980 Na constituição do perfil feminino, observamos que a projeção da identidade feminina é definida em processos históricos e culturais. Essas práticas cristalizam-se em forma de textos dirigidos a ela, representações da ordem do discurso, os quais circulam socialmente, constitutivos da ação social. O que se observa é a coexistência de valores conservadores em relação ao gênero, à sexualidade e à vida familiar convivendo com a pseudo-euforia da liberação nas escolhas e com a diversidade nas relações domésticas, sexuais e de parentesco. Isso é tão latente que a ideia de compromisso, casamento, legitimação oficial do 140 compromisso, dificilmente aparecerá nessas construções: deixa ser pelo coração (66), vê se me dá o prazer, me aqueça, me vira de ponta cabeça, me faz de gato de sapato (61), vamos deixar tudo rolar (90), minha cara, pra que tantos planos (63), o teu futuro é duvidoso, eu vejo grana, eu vejo dor (65), me abraça pelo espaço de um instante (73). As expressões imperativas já aparecem totalmente destituídas de rigidez na forma, e aliadas às expressões que as constituem tornam-se impregnadas de coloquialismo: vê se me dá, vamos deixar tudo rolar, me abraça, me cobre. Sendo assim, uma questão básica adquire relevância diante do quadro de desafios que se apresentam na análise de expressões como fazer e seus elementos circundantes, por exemplo, fazer de gato e sapato (61) e fazer de bobo: como conceber o acontecimento da relação entre memória e atualidade se, à primeira vista, as unidades lexicais, nesse caso o verbo fazer, funcionam tradicionalmente, independentes quanto às possibilidades de acesso à memória daquilo que significou antes e em demais lugares em outros discursos? É necessário pensar a relação entre língua e enunciação. Uma língua adquire sua identidade na relação entre a dimensão do enunciável e a dimensão da materialidade morfossintática, e é concebida como um sistema de regularidades (GUIMARÃES, 2007, p. 96) que conduz essa relação. Nessa direção, Dias (2013a: 230) afirma que “aquilo que é enunciável só é apreendido como tal em caso de unidades que se articulam de maneira a construir formulações socialmente pertinentes”. Entretanto, a articulação de unidades só cumpre o seu papel de apreender o enunciável se ela se assenta em formas regulares, combinadas segundo padrões relativamente estáveis. Assim, as formas da língua são constitutivas da relação estabelecida entre uma instância de presente do enunciar e uma instância de anterioridade (da memória). Daí a pertinência na utilização de termos como: fazer de conta, fazer fita, fazer hora e a possibilidade do surgimento de outras. Para o autor as formas linguísticas dão suporte à significação quando elas se confrontam com a memória discursiva e com o presente do acontecimento. Nesse caso, “a memória da língua comporta uma latência, uma condição para o confronto entre a instância do dizível histórico e a instância de um presente”. No dizer de Guimarães (1996, p. 32), por ser latente, a memória da língua “pode ser sempre outra 141 coisa, para isso bastando que outras enunciações a façam derivar, mesmo que imperceptível-mente”. Os exemplos apresentados indicam que a constituição de uma construção nominal não é exatamente motivada por um gesto de informação a respeito dessa entidade fora da linguagem como se apresenta um objeto, um ser, um fato, uma realidade, mas representa algo mais na ordem do sentido do que seja a afirmação das propriedades dessa entidade exterior à linguagem. Constatamos que a configuração do acontecimento tem força impulsionadora do sentido. A significação vai-se constituindo discursivamente nesse novo espaço de conviviabilidade de tempos, onde enunciamos afetados pelo simbólico, não como seres físicos, nem meramente do mundo físico (GUIMARÃES, 2002, p. 11), o que possibilita pressupor a criação de um cenário mediante o qual o acontecimento de linguagem faz a língua funcionar, o que Guimarães designa como cena enunciativa. Nesta, “quem fala e para quem se fala” não representam pessoas, mas, como dissemos antes, uma configuração de agenciamento enunciativo. Esses lugares do dizer temporalizados na enunciação dividem-se, transformam-se e constituem o lugar da disputa, onde homens e mulheres se representam nas enunciações de que fazem parte. Essas construções tentaram desmitificar o tema “sexualidade da mulher”, assunto proibido até então. Incorporando avanços, apontavam uma representação da mulher mais liberada e menos marginal. Expressões verbais como abraça, cobre, vem e deixa ser podem ser consideradas como uma exigência de que ela assuma a iniciativa do movimento em direção a ele: me. A frutífera venda do tema sexo teria como diferencial a revolução sexual, que modernizara as relações de gênero. É a mulher buscando crescimento em todos os sentidos, trocando experiências afetivas e explorando seu potencial como mulher. E a ela era suscitado um comportamento livre, sem repressões, sempre e sobretudo no âmbito da sexualidade, conforme podemos verificar também em: vem, amor que a hora é essa, vê se entende a minha pressa (89). (90) Essa boca, muito louca pode me matar. Se isso é coisa do demônio eu 142 quero pecar. Fecha a luz, apaga a porta, vem me carinhar. Diz aí, pra minha tia que eu fui viajar. Diz que fui pra Nova York ou pra Bagdá (RAMIL, 1980). O desenvolvimento desse conceito de formação nominal como alternativa ao conceito de sintagma nominal, no sentido de compreender as construções nominais na perspectiva de uma semântica da enunciação, tem como suporte a constituição de um domínio referencial como destaque, conceito inspirado em Foulcault (1986, p. 104): um ‘referencial’ que não é constituído de ‘coisas’, de ‘fatos’, de ‘realidades’, ou de ‘seres’, mas de leis de possibilidade, de regras de existência para os objetos que aí se encontram nomeados, designados ou descritos, para as relações que aí se encontram afirmadas ou negadas. O referencial do enunciado forma o lugar, a condição, o campo de emergência, a instância de diferenciação dos indivíduos ou dos objetos, dos estados de coisas e das relações que são postas em jogo pelo próprio enunciado; define as possibilidades de aparecimento e de delimitação do que dá à frase seu sentido, à proposição seu valor de verdade. É esse conjunto que caracteriza o nível enunciativo da formulação, por oposição ao seu nível gramatical e seu nível lógico... Nesse sentido, essas formações nominais congregam nomes, designações concebidas não apenas em termos informativos das entidades, mas por meio de um campo de emergência das entidades nomeadas: “Uma entidade exterior à linguagem precisa de adquirir pertinência para ser nomeada, isto é, precisa se submeter a uma regra de existência” (DIAS, 2013, p. 15). Assim, FNs como Balanço (91), Frígida (92) e bicho esquisito (91) assumem compromisso não com a entidade em si, mas com o campo de emergência de entidades recortado da exterioridade, e a enunciação se incumbirá de torná-las pertinentes aos acontecimentos linguísticos, considerando-se as intervenções históricas que as fazem emergir. As determinações contraídas pelo nome na FN é condição de agregação de uma atualidade a uma memória. Portanto, atrás dessa expressão moça livre: Bete, balança... me avisa (65), me dá... aperta (66), me aqueça, me descola (61), utilizada aqui como designação para um determinado perfil de mulher, funciona a perspectivação de uma atualidade pertinente na relação com a memória, como traço de anterioridade proveniente do nome “moça” que gerou cruzamentos discursivos que acarretaram formações designativas como moça de 143 família, moça para casar, moça leviana, moça de rua. A confirmação da exigência de que essa moça livre tome com liberdade a iniciativa é ratificada pela constante presença do pronome me, sobre o qual a ação exigida dela recai. Afirmar o caráter livre de uma mulher constitui acontecimento enunciativo à medida que a pertinência da memória de mulher é tematizada e captada pela FN, sob a forma de diferenciá-la de outras associadas à memória de mulher em cada período em que se inscreve. Lançar à expressão moça o traço livre é distingui-la de outras, fazendo emergir um traço do passado das mulheres que ainda não tinham evocado na memória que sustenta a significação desse nome nuclear: a rejeição àquelas que transcendiam do espaço privado ao público, seja por meio de profissionalização, educação ou outros motivos. Nesse viés, o acontecimento enunciativo abre espaço para que os traços de memória compareçam na atualidade do dizer, tendo em vista a formulação de encaixes de dependência nas articulações em torno do nome. Nomes pertinentes ao universo feminino, corroborados por expressões que cruzam informações circunscritas ao comportamento feminino e que são recorrentes nos textos musicais, tais como: filha pródiga, teu paizinho, abrigo, teto (composições da década de 1950), beijo, perfume, segredo, aventura (músicas mais tocadas na década 1980) e cintura, fissura, avião, cachorras, corpo, perninha (anos de 2000). Quando comparadas às do terceiro milênio, notamos que a principal temática das composições musicais é sexo, cujo assunto na década de 1980 começava a deixar de ser tabu. As revistas, nessa época, representavam uma amiga, que ouvia e entendia os problemas femininos, como se tivesse intimidade com as mulheres. A própria argumentação utilizada faz a mulher ter a revista como melhor amiga, “pois ela tem coragem de falar de um tema tão complicado, e esclarecer suas dúvidas. A mulher, geralmente, sozinha em sua preocupação a respeito do tema sexo, não se sente mais sozinha, pois tem a revista para ouvi-la e entendê-la” (TEIXEIRA; VALÉRIO, 2008). Podemos observar que quando se trata do tema “mulher” o tópico “sexo” ainda continua uma das vias de maior interesse dos assuntos que versam o mundo. Assim, os veículos de comunicação se representam como profissionais e psicólogos dispostos a apresentar uma profusão de técnicas de como melhorar o prazer com o 144 intuito de impressionar o parceiro. Contudo, a ideia de que o sexo é parte de uma relação duradoura, cuja crença é que a prática sexual “pode trazer, perpetuar ou mesmo revitalizar o amor” e o matrimônio, some da pauta das discussões afetivas. Pelo exemplo (61), Lança, menina, lança todo esse perfume, desbaratina, não dá pra ficar imune (LEE; CARVALHO, 1980), podemos verificar que a mulher, aos poucos, saía do mundo privado, mas padecia com a dificuldade de entender o mundo controverso da política, que exigia dela um papel “masculino”, ou seja, que ela dominasse a sua sexualidade, buscando a quebra de tabus e a busca pelo prazer sexual: me avise quando for a hora. A reivindicação do locutor me avise demonstra preocupação com a satisfação sexual feminina, corroborada pela expressão a que se agrega: a hora, expressão que remete claramente ao ato sexual. Isso permite afirmar o papel importante da mídia para a nova sociedade, que de um lado pode informar, divertir ou orientar, e de outro lado, reforçar preconceitos e estereótipos. Expressões como lança, desbaratina (61), cuida, misture (63), balança, (65), abraça e cobre (73) deixam preexistentes em nossa cultura marcas que influenciarão os relacionamentos e/ou ajudarão a estabelecer novos padrões, reafirmando imagens e promovendo mudanças estruturais na sociedade. Mudanças que se presentificam na língua e reforçam o caráter paradoxal no âmbito dos relacionamentos. (91) Por isso não provoque, é cor de rosa choque, não provoque, é cor de rosa choque (LEE; CARVALHO, 1983). É o mundo da ansiedade, da ruptura, da resistência. Homens e mulheres, nesse espaço de disputa, representam-se, configuram-se e são reféns do próprio dizer. Se antes a capacidade de reproduzir traduzia a feminilidade e o feminino se expressava na maternidade, base de distinção dos papéis que se traduzem em desigualdades hierárquicas entre homens e mulheres, em 1980 o mundo, a mulher e o homem querem mais. Assim, na cena enunciativa vão se delineando os dizeres que se configuram em lugares de enunciação e na materialidade linguística recorrente na língua, e é esse espaço que garante aos locutores de seu lugar de pertinência dizerem certas coisas e não outras. Lugares estes destinados por quem e para quem se fala. O locutor fala do 145 lugar social masculino: o lugar do respeito à liberação e ao desejo sexual feminino, haja vista os interesses pessoais do grupo dominante. Paradoxalmente, o discurso também se dá no plano da dominação: você (a mulher) agora é livre, paga suas próprias contas e não precisa mais de um provedor: paizinho, teto, abrigo (81), mas em contrapartida terá o amante, o objeto de seu desejo: balança, descola, me dá (beijo). Não é de se estranhar o desaparecimento da noção de compromisso, matrimônio, ou algo similar no âmbito da discursividade, ou seja, a ela também são impostas as normas de conduta, que irão se repercutir no mercado, no domicílio, na cama. Definida como esposa, mãe e filha (ao contrário dos homens para os quais ser marido, pai e filho é algo que acontece apenas), [as mulheres] são definidas como seres para os outros e não como seres com os outros. Assim, ao contrário do sujeito masculino, o sujeito feminino é um ser “dependente”, destituído de liberdade para pensar, querer, sentir e agir autonomamente (CHAUÍ, 1985, p. 25). Há uma visão que aponta a impossibilidade do domínio da razão pela mulher, conforme Michele Perrot em sua teoria sobre os estereótipos elaborados no século XIX, ancorados no discurso naturalista, que insiste na existência dessas duas espécies com atributos e aptidões diferenciadas. Aos homens, o cérebro, símbolo da lucidez, da capacidade de decisão; às mulheres, o coração, a sensibilidade, os sentimentos. Para a autora, a ausência da história das mulheres se revela, devido ao privilégio à cena pública, em especial a política e a guerra, espaços reservados ao homem, por excelência. (PERROT, 1988, p. 177). No exemplo (63), se analisarmos o texto como um todo, além da ordenação imposta no pedido de cuidar do locutor, cuida bem de mim, então misture tudo dentro de nós, fica evidente a manutenção de valores patriarcais, onde homens continuam mantendo o controle sobre o relacionamento, valendo-se do discurso de liberação, especialmente, para demonstrar acordo com a liberação sexual, contudo dentro dos parâmetros ditados pela sociedade machista, como podemos ver no trecho: Hum, minha cara, pra que tantos planos, se quero te amar e te amar e te amar muitos anos, descartando toda e qualquer possibilidade de compromisso oficial como em (90): Diz que fui pra Nova York ou pra Bagdá [...] Eu já sei que qualquer dia tudo 146 vai dançar, bem como em outros citados anteriormente. Podemos inferir que como estes, grande parte dos textos demonstra uma despreocupação com o futuro do relacionamento afetivo, evidenciando claramente a efemeridade das relações, estando estas circunscritas ao âmbito da relação sexual. A representação simbólica da mulher como esposa, mãe, dona-de-casa e afetiva, no entanto assexuada, é camuflada por vias sofisticadas, embora o momento de crescente urbanização e desenvolvimento comercial e industrial solicitasse a presença das mulheres nas ruas e exigisse a sua participação ativa no mundo do trabalho (RAGO, 2013). Por meio dessa discussão, podemos verificar que além do papel de esposa e mãe destinava-se à mulher outro papel: o de mestra. A educação do sexo feminino visava, sobretudo, à disciplinarização do corpo. Para a mulher deste período, recusar o casamento, a maternidade, a família e manifestar independência, era uma atitude essencialmente estranha àquela sociedade. A transgressão pela mulher do papel que lhe era destinado não significava, aos olhos da Medicina Social, apenas um rompimento das normas sociais, mas sim uma violação da própria natureza. Ou seja, significava "loucura" (CUNHA, 2000, p. 145). É importante perceber que ainda era forte a visão sobre a função sexual da mulher. Esta, não raras vezes, destinava-se à procriação e não ao prazer, problema para o qual justificava a classificação das mulheres como loucas, quando reivindicavam prazer. E, nesta ótica, diversas ainda eram internadas por “desvios” no comportamento sexual ou por frigidez, especialmente as casadas: calma, Betty, calma... Betty frígida, (92) Calma, Betty, calma, você deve fazer de leve, calma Betty, calma, assim você me machuca (MESQUITA; BARRETO, 1983). 4.3.4 A disciplinarização do corpo Nessa visão, a mulher da década de 1980 é uma mulher ambígua que oscila entre ousadia, sensualidade, pudor e recato, provocação e timidez, passividade, dependência ou omissão, demonstrando constrangimento na exposição do corpo. Autores que investigaram imagens de mulheres em capas de revistas nessa década analisaram o olhar como algo carregado de sentido, sendo lançado diretamente ao outro, sugerindo segurança e altivez. 147 Expresso por meio da forma verbal imperativa, às composições musicais cabia o papel de ensinar à mulher moderna o caminho da sedução: Calma (92), balança (65), abraça, beija (87). A figura feminina torna-se valorizada quando é liberada sexualmente, a sedução é vista como algo acessível, mesmo àquelas que não gozam de atributos físicos reconhecidos como perfeitos e propiciam o conhecimento das técnicas da sedução. “Se na década de 1980 a mulher já podia ser independente financeiramente, ela ainda dependia emocionalmente do marido para ser feliz” (FREITAS; TEMER; TUZZO, 2012, p. 148). Por isso a mídia a incitava com dicas para afastar todo e qualquer perigo de perdê-lo e ficar sozinha. Observemos outro exemplo de música composta na década de 1980: Me aqueça, me vira de ponta a cabeça, me faz de gato sapato, me deixa de quatro no ato (61). Observamos que o patriarcado não se restringe a um sistema de dominação, delimitado pela ideologia machista. Para além, ele constitui um sistema de exploração. A ideologia machista, na qual se filia esse sistema, induz o homem a dominar a mulher e ela a se submeter. Dada sua condição de macho, o homem conclama a mulher a assumir um papel sexualmente bem definido, e ao mesmo tempo se submeter aos desejos masculinos, destino natural da mulher: Eu ordeno, ela faz: me aqueça, me vira de ponta a cabeça (61), em contrapartida ela é dona do comando: me abraça , me cobre (73). (SAFFIOTI, 2004, p. 69). Essa perspectiva, embora as conceba como vítimas, define as mulheres como sujeito inserido numa relação desigual de poder com os homens. Mulheres se submetem à violência não por permissividade, mas por coação: cuida bem de mim (63), vem, amor que hora é essa, vê se entende a minha pressa (89), vem cá, meu bem, me descola um carinho (61). No exemplo (63), o desejo de cuidado não constitui unicamente pedido, é uma forma de camuflar a visão de obrigatoriedade de cuidar, e bem, do parceiro. Para além do desejo de ter uma mulher mais livre, descolada, liberal, ele a quer no papel tradicionalmente a ela imposto nos 1950. Zelar pelo parceiro é fundamental. A pressa mencionada em (92), para além de ansiedade com relação ao ato sexual, demonstra frenesi, anseio dele para que ela goze de maior liberdade em lidar com o corpo, a libido, a sensualidade. Em (61), a mulher já é tratada sem cerimônia. Tudo funciona 148 como se soltar-se, liberar seu prazer, fazer de seu corpo o que lhe convier, constituísse atitude natural, inerente à condição feminina. Dos três excertos citados, podemos depreender da forma verbal sentidos que orientam para uma sociedade em que o imperativo funciona como obrigação, proibição, camuflado em sugestão. Mas, Gregori (1993) reconhece inclusive que o medo da violência também alimenta a cumplicidade da mulher. Salienta que é no corpo que o medo se instaura. A autora não tem a pretensão de culpar a mulher de sua participação na efetivação de sua vitimização. O que lhe interessa é “entender os contextos nos quais a violência ocorre e o significado que assume”. Ao relativizar o binômio dominação- vitimização, Gregori inaugura um dos debates mais importantes que acompanha os estudos feministas sobre violência contra as mulheres no Brasil. Torna-se complexo compreender o fenômeno da violência como algo isento de uma relação de poder. Mesmo no caso de condenação, os papéis sociais femininos e masculinos são manipulados pelas mulheres e apropriados pelos operadores do direito, de forma a preservar a imagem tradicional da instituição familiar e do casamento. Em ambas as situações, “a análise mostra que as mulheres têm um papel ativo na condução dos processos: ao invés de se colocarem no papel de vítima, as mulheres exercem poder para construir variadas versões dos fatos e para de alguma forma alterar sua situação” (SANTOS; IZUMINO, 2005, p. 11). Fazer análise semântica de palavras requer tanto uma investigação da associação entre uma palavra e outra, quanto a atenção ao histórico de acontecimento desse enunciado. Ao mostrar o funcionamento das palavras na enunciação, podemos verificar como a língua se organiza para funcionar no acontecimento. Assim, os sentidos vão se delineando, as formas vão se constituindo na presença ou ausência na sentença e a ordem se faz. Seja na violência de gênero, contra as mulheres, doméstica, familiar ou conjugal, não se pode excluir elementos sociais, tais como o papel da mulher nessas relações. 149 4.4 AMANTE, GUERREIRA, FRÁGIL, FORTE, MÃE, PROFISSIONAL, RAZÃO, EMOÇÃO: AS MÚLTIPLAS FACES DA MULHER NO MUNDO DA TECNOLOGIA Neste item, buscaremos uma reflexão a respeito das formas nominais designativas propostas por Dias (2013), dando enfoque às formas que regem essas construções em cenas distintas. Lançaremos um olhar especial sobre a questão da significação, discorrendo sobre o papel de fundamental importância na constituição do domínio referencial no que diz respeito ao estudo da adjetivação∕qualificação∕designação. Observamos que a aparente simples atitude de designar, ou dar nomes aos indivíduos, acarreta implicações que reportam a relações históricas de determinação, conforme assevera Guimarães (2005). A referência, para nós, representa algo de natureza simbólica que ultrapassa os limites materiais do acontecimento, uma vez que sua configuração se dá no interior de um acontecimento da língua. Esta não funciona de forma autônoma, mas afetada por domínios históricos que permeiam a enunciação. Assim, sintagmas/formações e sentenças remetem a objetos reconhecidos não apenas por meio da observação das estruturas da língua, mas da intersecção entre organicidade em consonância com enunciações históricas, “portanto de saberes e de imaginários que já ressoam socialmente – que um referente define” (DIAS, 2007). 4.4.1 A configuração da mulher no discurso midiático Os domínios históricos da enunciação reportam a domínios de memória e às discursividades que dão suporte às instituições sociais. “E os lugares sociais de enunciação são sustentados pelas instituições”. Nos anos de 1950, as instituições representativas das vozes que configuram esse espaço de divisões, disjunções, deslocamentos, réplicas, polêmicas, conflitos são, em sua maioria, as revistas femininas. O Brasil viveu um crescimento vertiginoso na esfera urbana e uma industrialização que ampliou as possibilidades de educação, trabalho e acesso às informações, ao lazer e ao consumo tanto para homens quanto para mulheres. Todavia, com todos esses avanços, os papéis sociais masculinos e femininos se perpetuam. 150 O homem a inseria numa redoma, abrindo-lhe espaço efetivo em seu coração. A mulher eleita era tida em sua pureza angelical, coroada com sensibilidade e com qualidades que a distinguiam das demais. O seu amor era, portanto, de grande valia para a instrumentalização da iniciativa e da vaidade masculina. E quando, por qualquer motivo, ele a tinha longe do seu domínio, implorava-lhe que voltasse, e do retorno da amada dependia toda a estrutura psicológica, afetiva, emocional: o meu mundo é triste, só sei chorar. Venha. Mas venha já (79), diz-lhe numa prece, que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer (47). O ideal de mulher da classe média dos anos de 1950 se mantém, criado no estereótipo feminino designado por moça de família, dona de casa, mãe e esposa dedicada. A consolidação da mulher no mercado de trabalho e o acesso à informação e educação consolidados na década de 1980 fizeram emergir uma mulher mais liberada. Este estereótipo naturalmente é representado nas músicas e assume a responsabilidade de apresentar um novo estilo de vida à mulher. A mulher moderna é sexy, independente e poderosa, mas ainda precisa se enquadrar a um padrão de beleza e de comportamento e casar de branco, véu e grinalda. “Tudo se passa como se a nova legitimidade do poder feminino só pudesse se afirmar socialmente, moldando-se à imagem arquetípica do feminino” (LIPOVETSKI, 2000). Mesmo com todas as conquistas, a mulher não se libertou das amarras da tradição que a impelia a manter resquícios do ideal de mulher burguesa, sendo desafiada, a todo o tempo, a negociar com os estereótipos representados pela mídia, que projeta a condição feminina filiada a valores que representam a mulher a partir de modelos socialmente construídos e aceitos, “mais especificamente, os paradigmas “encarnados” por duas mulheres centrais na tradição católica, Eva e Maria, a mulher objeto e a mulher-mãe” (TONDATO, 2011). Houve muitos avanços e conquistas no que concerne ao entendimento do universo feminino, sobretudo no campo da sexualidade, tema que passou a fazer parte do discurso midiático brasileiro marcado pelas repercussões dos movimentos feministas, que historicamente relutam até hoje em assumir rótulos como rainha do lar. 151 Ao falar de sexo, com um discurso aparentemente progressista em favor da maior liberdade sexual feminina, as composições musicais, assim como a mídia, se converteram em uma busca eterna pela intensificação do prazer da mulher, que hoje é mais aberta e liberada e busca um corpo feminino perfeito. A cena enunciativa onde se desencadeiam os modos específicos de acesso ao dizer configura-se na relação de lugares de ocupação de quem fala e para quem se fala. Os modos específicos de acesso à palavra são de crucial importância em cada um dos períodos em estudo, dadas as relações entre as figuras da enunciação e as formas linguísticas. A cena enunciativa é um lugar simbólico por meio do qual passam a valer direitos e deveres que, em boa medida, visam a orientar a relação daquele que fala com aqueles para quem se fala, relação que demanda representações do locutor, com produção de efeitos de sentido [...] A deontologia diz respeito, ainda aos princípios histórico-sociais que orientam o(s) investimentos de um locutor com a construção de um arranjo de palavras, expressões, sentenças constitutivas de uma cena. Nesse sentido, a constituição de referência numa cena enunciativa não é um gesto individual, unicamente linguístico, tampouco aleatório, mas sujeito ao que entendemos por deontologia da enunciação, ou seja, constituir referência numa cena enunciativa é um gesto sujeito a dissensões histórico-sociais que afetam toda e qualquer tomada da palavra (DIAS, 2007, p. 261). Dessa forma, o espaço político, a cada período, é marcado pelo embate de uma série de esferas do saber, seja ele jurídico, político, educacional, religioso, etc., cada qual representando fins, necessidades e normas comuns que regulam cada campo ou que se apresentam por vezes singulares. Trata-se de um espaço heterogêneo e político, no sentido de estabelecer o equívoco. Neste, os sujeitos são divididos por seus direitos ao dizer e aos modos de dizer (GUIMARÃES, 2002). No terceiro milênio as mulheres gozam de maior autonomia e liberdade, e timidamente vão se libertando do imaginário construído acerca das relações afetivas, mercadológicas, profissionais, familiares, etc. Uma mulher altiva e segura de si surge. Se antes um decote representava ousadia, agora o corpo aparece quase que completamente desnudado. Entre a tradição e a modernidade, o visual demonstra uma mulher extremamente provocante. A nudez atualmente já não choca mais. O 152 corpo feminino e a cor do cabelo e da roupa, que ora sugeriam a conservação de um modelo clássico, de uma mulher do período helênico, hoje se desmantelam com a nudez do corpo e os gingados sugestivos como projeção do ato sexual. A análise das letras de música dos anos de 2000 demonstra uma regularidade de ordem distinta da dos demais períodos. Ao considerar o avanço da mulher em vários âmbitos da esfera social - profissional, sexual e educacional - podemos verificar, por meio do uso da forma imperativa nos textos musicais, uma convergência para a noção distinta da dos textos construídos nas décadas de 1950 e de 1980. Dos textos a ela direcionados, depreendem-se alguns vestígios da “exigência” de que ela assuma uma postura mais bem definida sexualmente, cujo sucesso da relação dar-se-á conforme sua capacidade de sedução. E isso pode se tornar mais nítido quando observamos o investimento contínuo da mídia em direção a uma pressuposta de subserviência da figura masculina aos desígnios da mulher que continua determinando a relação, numa postura “dominadora”, cujos atributos conferidos e aprovados pela mídia lhe renderão sucesso e eficácia no ato da conquista. Em grande parte das composições atuais observamos, em comparação às mais tocadas dos períodos anteriores, uma despreocupação com o uso da norma prescrita pela gramática tradicional na flexão das formas verbais, que numa mesma composição ora oscilam na forma subjuntiva, ora na indicativa, como em (71), não venha (você), chora, liga, implora (tu) ilustrada aqui, e o uso excessivo de vocábulos coisificadores e de onomatopeias, é créu (75) [...] oi, oi, oi (74), prerrogativa que nos convida, mais uma vez, a uma reflexão a respeito do ato de produção, em função das modificações histórico-sociais, manifestadas nas forças que sofreram alterações e que obviamente refletir-se-ão na língua. Atualmente, o espaço ocupado pelas músicas na mídia no que diz respeito aos valores disseminados geralmente nada tem a ver com aquelas privilegiadas pela sociedade em meados do século XX, e pouco tem a ver com as da década de 1980. Acreditamos que a flexibilidade imposta pela própria constituição do gênero musical propicia melhor entendimento da gênese da categoria verbo na sua forma imperativa, quando empreendemos esforços no sentido de produzir reflexões que norteiam a configuração desse tipo de uso no lugar de memória, “onde as relações entre o que 153 somos e a língua que falamos vão sendo moldadas nas formas silenciosas de pensarmos o sentido da própria ação” (DIAS, 1996, p. 197). Isso sustenta a tese de que o fato linguístico tem uma realidade material orgânica e, ao mesmo tempo, enunciativa, sendo atualizada numa memória de marcação no instante da enunciação. Desse modo, saber o que significa uma forma é dizer como seu funcionamento é parte da constituição do sentido do enunciado. Partindo do pressuposto de que as formas verbais imperativas utilizadas nas composições de músicas são significativas para o estudo do advento da representação social da mulher, hoje a mulher não mais se adequa ao estereótipo tradicional de rainha do lar, predominante até o final da década de 1950, nem ao modelo imposto pelas necessidades mercadológicas à moça livre. A análise das letras de música dos anos de 2000 demonstra, diferentemente das dos outros dois períodos em estudo, uma regularidade de outra ordem. As formas marcam a sexualidade feminina como tema central do discurso midiático nos dias atuais, consequentemente o das composições musicais; quanto mais sintéticas, mais contundentes: Vai, vem, mexe, rebola, requebra, calma, cuidado, sai, só as, chega, até se desmaterializarem. Não há publicidade, não há propaganda, sem uma ilustração musical pertinente que corrobora o momento, o incentivo, o apelo ao universo feminino a adaptar-se, ajustar-se ao que requer a sociedade em que ela se insere. Observemos o exemplo a seguir: (93) Mexe seu corpo, mas mexe até se quebrar. Me deixa loco quando seu joelho dobra, ma. (sic) Mexe seu corpo, mas mexe até se quebrar. Então, manobra seu corpo, rebola, mãos à obra (CABAL; CRIZZ, 2004). Temos nesse extrato de letra de música recente uma diretividade marcante na constituição do imperativo. O discurso é endereçado diretamente a ela, porém de um referencial relativo ao corpo. A perspectiva que marca a configuração das letras de músicas na modernidade, analisadas em nosso corpus, sobretudo as mais populares, isto é, as mais tocadas do terceiro milênio, indica que a proporção do alcance da mulher reside na possibilidade de alcance do olhar sobre sua estrutura física, traduzida em olhos, mãos, órgãos sexuais e por que não nos cinco sentidos? 154 As formas imperativas evocam um tu que adquire identidade nos referenciais constituídos nas FNs seu corpo, seu joelho, teu vestido, demarcando a medida de alcance do olhar masculino, que se manifesta de maneira bastante direta nos dias atuais. O elemento lexical não é marcado organicamente na sentença, preenchendo o lugar do sujeito, contudo o elemento responsável pela perspectivação de pessoalidade de segunda pessoa a que se submete o verbo é uma projeção de identidade extraída das próprias bases lexicais dos verbos, que abrigam FNs como seu corpo (93), perninha (exemplo 98 a seguir), choro, ligação, imploração (71), vestido (64), etc., assim como dos próprios verbos mexe, manobra, rebola. Configuram-se aqui referenciais de uma dinâmica de relacionamento entre mulher e homem que pressupõe um alcance quase gestual por parte dele em relação a ela. Esse apelo à maior liberdade sexual, que foi levada a cabo em toda sua essência para incentivar as mulheres a cuidar mais do corpo, chega ao extremo nos anos de 2000, por meio da busca pela intensificação do prazer e pela perfeição estética, tornando-se uma verdadeira obsessão, cujo limite é a autoflagelação. Freitas, Temer e Tuzzo (2012) analisam a representação social contraditória da mídia em suas discussões sobre o perfil feminino, as quais promovem a formação de estereótipos que auxiliam na difusão e construção de uma imagem social da mulher. Neste ponto é importante destacar que a representação nunca é neutra e deve ser compreendida a partir da posição que os indivíduos ocupam na sociedade, uma vez que as ideias hegemônicas sobre determinados temas ou grupos sociais que circulam no meio social são também expressões concretas das relações sociais que se estabelecem em um contexto histórico específico (TEMER; TUZZO, 2012, p. 145). Isso funciona de forma a reafirmar a hegemonia de certos grupos sobre outros. À mídia, para além de instituição social, cabe fabricar, reproduzir e disseminar modos de ver o mundo, representando papel fundamental na produção da nova unidade social, que fundamenta a ilusão de que os grupos sociais retratam e refratam a visão social e a imagem do estereótipo. São eles que promovem a convenção, impondo uma organização ao mundo social e coibindo toda e qualquer forma de flexibilidade 155 de pensamento na adoção, avaliação ou comunicação de uma realidade ou alteridade em função da manutenção e reprodução das relações de poder. Segundo Lysardo-Dias (2007), por trás de toda atividade comunicativa centram-se representações estereotipadas. O que não é diferente na mídia, tampouco nas composições musicais. Quando recorre a estereótipos para representar grupos sociais, a mídia reduz uma gama de especificidades de um povo, gênero e classe social a meros atributos, possivelmente ancorados em um saber intuitivo a respeito do outro e do discurso do senso comum, responsável por estratificar impressões universais acerca de homens, mulheres e crianças. (94) Então, deixa eu te provar, te fazer feliz. Não ouve os outros, baby, só ouve o Lino Crizz. Suas amigas falam que o Cabal não presta. Não, só presta, atenção que eu quero te levar pra outro lugar pra gente fazer o que seus pais não iam gostar (CABAL, 2006). Ainda que o pronome tu possa indicar a referência, construindo uma possível determinação, ao se referir a uma pessoa do sexo feminino, esse pronome não se desprende por completo da identidade linguística que o constitui como forma de pessoa envolvida no discurso (segunda pessoa). Isso confere ao sujeito gramatical da forma verbal imperativa o potencial de referência ao interlocutor propriamente dito e o de fazer a projeção de um perfil, tendo como escopo uma referência específica de mulher partícipe desse período singular que é o terceiro milênio. Diferentemente de outras propostas, a semântica da enunciação reconhece e centra- se nas regularidades, ou seja, sobre as injunções enunciativas que constituem a materialidade da língua, expressa aqui, principalmente, nas formas que se revelam em seus entremeios. Falar de sexo nos anos de 1950 representava tabu para as mulheres, no entanto hoje é assunto obrigatório não só na mídia, como também na canção, cuja grande parcela tem o sexo como tema central. O advento da modernidade que apregoa a disseminação da mulher liberada acarretou verdadeira obsessão pelo sexo, cuja quantidade se sobrepôs à qualidade. A canção promove a concepção de que à medida que se fala, se conhece e se pratica melhor é, ou seja, a quantidade passa a ser 156 confundida com qualidade: só as cachorras, as preparadas (67), vem pra quebrar com tudo (74), é créu, é créu nelas (75) e outras. Se a FV imperativa instaura imediatamente a segunda pessoa, esta não aparece como um elemento materializado lexicalmente no lugar do sujeito como determinante dessa pessoalidade a que o verbo se inscreve. Há uma projeção de identidade nas próprias bases lexicais dos verbos que abrigam FNs como gata, cachorras, popozão, créu, cheiro, boca, perninha, tchutchuca e outros, conforme os exemplos extraídos do período. Essas categorias apontam a configuração de referenciais de uma dinâmica de relacionamento da mulher com o homem também indicadora de um alcance que beira o gestual por parte do homem em relação à mulher. Após tantas lutas e opressões, o grande impacto em todo o mundo ocidental, a inserção e o acesso maior à informação e à educação fizeram emergir uma nova mulher brasileira, “liberada” sexualmente por meio do uso do contraceptivo e independente financeiramente. A mulher que aqui designamos do terceiro milênio é uma mulher contestadora das definições essencialistas de feminilidade, construídas como base nas experiências de mulheres das classes média e alta, e uma mulher “tecnologizada” que vai assumindo a cada dia uma verossimilhança com a máquina, a coisa, o animal, como podemos verificar em: empina (96) só as cachorras [...] as popozudas (67), mexe [...] manobra (64), vem melar, vem lamber (99), é créu nelas (75). Como podemos observar, há uma repetição, tomada por uma regularidade. Esta regularidade concede à memória o estatuto de social. Ainda que haja repetição e regularização no discurso, a memória não é autônoma, é necessária a atualização, sendo recuperada quando textualizada. Portanto, créu, tchaco, lepo... lepo, créu, nada mais são do que a representação sintética, ou seja, o encapsulamento de orientações de ações traduzidas nas FVs qualificadas no campo do discurso da sexualidade que presentificam uma mulher em constante movimento. A memória que não é fielmente reproduzida, mas representa ponto de partida para o entendimento de uma regularidade desses elementos. 157 Torna-se claro o efeito que singulariza os sujeitos por meio de construções designativas, desestabilizando e abrindo um espaço para o equívoco, isto é, lugares- outros, representados socialmente pelas instituições: igreja, escola, mídia, etc. Essa escolha nada mais é que o acontecimento enunciativo que recorta memoráveis, projetando nomes disponíveis no mundo como contemporâneos, afetados pelo interdiscurso e tomado pelo político como norteadores das relações sociais e das divisões inscritas na linguagem. O espaço de réplicas que se instaura na enunciação aloja-se no centro do dizer, materializado por processos de designação, os quais incidem nos silenciamentos (GUIMARÃES, 2005). Em uma prática de (re)(des)construção, vão se configurando as formas de designação: nomes de pessoas, ruas, bairros, cidades, etc., inscritas nas diferentes sedimentações, práticas políticas que acarretam modos distintos de dizer (RASIA, 2006. p. 180). No caso das canções, isso se dá nos apelidos carinhosos nos anos de 1950: Dindi, Maria Bonita, nos anos de 1980 nas categorias a ela designadas e nos anos de 2000. Nessa perspectiva, na relação entre FN e FV observamos as determinações contraídas por sinônimos referentes à prática sexual feminina, consoante ao acontecimento histórico em cada uma dessas designações. Especificamente, no interior da FN verificamos o papel crucial do adjetivo na constituição do domínio referencial, responsável pelos diferentes sentidos nas designações apresentadas. Por meio de estruturas sintáticas, designações como as que ocorrem no campo da sexualidade feminina é que dão conta de tornar presente a memória do que é ser mulher, em tempos e períodos, e dão conta, inclusive, da polarização moça de família/mulher da vida nos anos de 1950, ou a mulher mais complexa dos anos de 1980, que ficou entre esposa x amante, até transcender no terceiro milênio à mulher estratificada, inclusive por meio do corpo, cuja designação unificada torna-se difícil sob o risco de enfrentar punições e censuras no âmbito do politicamente correto. 158 4.4.2.1 A estratificação∕qualificação por meio do corpo Uma coisa curiosa a despeito da qualificação do corpo feminino e da crescente coisificação da mulher é a utilização recorrente de neologismos e até mesmo de elementos qualificadores que remetem ao mundo animal e que se repetem de uma composição a outra como empina, mexe, remexe, popozão(uda), rebola, entre outros. Tudo isso em função da ordenação. (95) Vem, vem dançar, empine o popozão, remexe gostoso e vai descendo até o chão. Glamurosa! Rainha do funk. Poderosa! Olhar de diamante. Agita o salão, balança gostoso (MC MARCINHO, 2011). (96) A gata endoidou deu uma empinadinha em mim [...] Empina, empina, empina em mim, empina, empina, empina em mim (MAGALHÃES, 2013). Em sua pesquisa que versa sobre o corpo como fábrica de sonho, Gama e Gama (2009) abrem uma discussão sobre as representações sociais do corpo de mulheres que praticam atividades físicas e se submetem a cirurgias plásticas ou intervenções cirúrgicas corretivas. A cada dia tornam-se significativos os índices de pessoas que procuram clínicas de cirurgia interventiva com o intuito de modificar segmentos de seus corpos que deixaram de agradar visualmente aos próprios gostos. Esse acontecimento da modernidade carreia uma série de questões que buscam maior elucidação por parte da investigação científica. No caso do Brasil, o aumento da busca feminina por atividades esportivas e gímnicas de lazer e saúde instiga-nos à reflexão desses novos fatores a serem considerados, ou, seja, a influência que padrões estéticos midiáticos exercem sobre as representações sociais de corpo. A cada dia essa busca se distancia de um ideal de saúde e lazer, tornando-se critério norteador de práticas que privilegiam demasiadamente a transformação da aparência externa do corpo via treinamento. Tal atitude induz a mulher a acreditar que, alimentando essa tendência, satisfaça o desejo de enquadramento em um padrão singular estereotipado de beleza, disseminado por determinadas esferas sociais. Muitos fatores podem estar contribuindo para o papel 159 que o corpo tem assumido nos discursos imagético-visuais do mundo globalizado contemporâneo. Tal fator pode estar desequilibrando a relação de tensão existente entre aqueles que tradicionalmente sempre buscaram praticar atividades físicas apenas para conservação da saúde e lazer e os que, além desse critério, jamais desvalorizaram a modelagem corporal enquanto motivo de suas ações. Um indício desse desequilíbrio está na imensa quantidade de recursos materiais oferecidos ao grande público pela indústria farmacêutica (cosméticos, complexos vitamínicos) e pela medicina (dietas, tratamentos hormonais, tratamentos à base de raios infra- vermelhos, drenagens linfáticas) sob a promessa de modificarem para melhor os traços corporais naturais, etc. (GAMA; GAMA, 2009). Na perspectiva de Durkheim, a concepção de representações sociais tem caráter coletivo. Referem-se ao modo como uma determinada sociedade elabora e expressa sua realidade. O autor afirma também que tais categorias não são dadas a priori e nem são universais na consciência, elas se processam por meio de regras. Os valores e as normatizações são manifestadas de maneira objetiva e imperativa. No caso da modernidade, institui-se um processo de solidariedade entre os atores e as instituições sociais e, consequentemente, os indivíduos interiorizam as regras sociais de maneira consciente, embora articulando as partes que compõem o todo social (DURKHEIM, 1978, p. 79). Em nossa perspectiva, esses elementos linguísticos se atualizam, estabelecendo relações com outros elementos linguísticos, e essas relações constituem designação. O processo de significação passa por termos do campo semântico ao qual pertencem os animais: arreia, arrocha, empina, cachorras, gata, mexe as cadeiras, orientando o modo como o real é significado na linguagem. Já a referência não é nada além da particularização do que foi designado, ou seja, torna-se particulado na enunciação. O enaltecimento, a exacerbação e o fortalecimento da ideia de que se deve definir bem os músculos, de certa forma, masculinizam a mulher ou fazem com que ela se pareça, inclusive, fisicamente com os homens. Ao mesmo tempo, ridiculariza-a, qualificando-a com termos que lembram animais ou coisas (até frutas); ela tem de ser provada, experimentada, para ser ou não aprovada. E a disputa se perpetua no universo dos gêneros. 160 Mídia e música, por meio da publicidade, ressaltam a imagem do corpo saudável e belo como promotor de formação das identidades coletivas. Isso mostra que o mercado articula meios sutis de dominação, elaborando artifícios em direção à manipulação dos desejos. Assim, as mídias constituem fontes de representações, ligadas ao uso e consumo de imagens e produtos, a ponto de hoje as mulheres tratadas como ícones de beleza na faixa dos 40-60, sem rugas ou flacidez, se tornarem influentes modelos de difusão de signos e informações. O uso intermitente dessas imagens mostra a importância do aspecto visual numa sociedade movida pelo consumo (BERGER, 2008). Portanto, não é de se estranhar o fato de que mulheres se relacionem com seus corpos balizadas em crenças e noções subjetivas. Na realidade brasileira, segmentos do corpo feminino tendem a ser publicitariamente mais privilegiados que outros, “dada a representatividade cultural que possuem no conjunto de crenças, superstições, certezas e consensos que norteiam o imaginário do nosso povo” (SAMARÃO, 2007, promovendo a “bundalização” que produz uma fragmentação imaginária dos corpos em partes: peitos, pernas e rostos transformados em mercadorias passíveis de aprimoramento. (97) Essa gata tem um jogo de cintura. É uma uva bem madura e a galera quer provar. Vagabundo tá na rua da amargura, anda cheio de fissura mas sou eu que vou pegar. Só no sapatinho, ôh, ôh Só no sapatinho, ôh, ôh. Só no sapatinho, ôh, ôh. A reconquista do valor corporal é totalmente ligada à autoestima. Para Freud (1978), atrelamos transformações corporais a fantasias por um corpo perfeito, à perda ou ao aumento da autoestima, e para recuperá-la liga-se a uma gama de produções simbólicas que nos impelem na direção de uma meta a ser alcançada, e enquanto não se consegue representa fonte de angústia existencial. E é recorrente a associação da forma aos sentidos como visão, tato, olfato e paladar, expressos nos termos designativos ou qualificadores como uva madura, fissura (97), corpo quente, chocolate, suado (99), cheiro, lençol (64). A recuperação da autoestima está interligada à melhora de estados e disposições emocionais/afetivas. 161 (98) vou virar de ladinho, levanta a perninha, descendo, subindo 40 . Fico tarado quando vejo o rebolado. Essa mina eu me acabo. E ela empina o popozão. Conforme Le Breton (2003, p. 10), nunca esse corpo-simulacro, descartável, foi tão exaltado quanto na atualidade. Boca, seios, olhos, pernas e genitália moldada constituem órgãos colados em algo que se denomina corpo. Isso nos mostra que no mundo contemporâneo há um convite/sugestão/ordenação/conselho/ implícito em direção à construção do corpo que modela a aparência e camufla o envelhecimento. Em uma sociedade globalizada, bipartida entre vencedores e derrotados, os indivíduos se entregam às compulsões. Nessa emergência, toda espera constitui desespero perante o corpo, especialmente quando o relógio avança, causando uma enorme intolerância àquilo que atrapalhe a busca pela perfeição. “E nada mais distante da perfeição, na atual sociedade, do que a velhice e seus infortúnios” (GAMA, 2009, p. 10). Vimos que no imaginário feminino existe a busca ancestral da felicidade como um dos motores de suas vidas, que perpassam padrões que lhes guiam. As mulheres despendem de quantias significativas e esforços, sejam eles psíquicos, materiais, financeiros, farmacológicos, físicos ou outros, para transformarem seus corpos e com isso gozarem de satisfação estética, que é efêmera. Tal procedimento condiz com certa visão que anda em conformidade com esforços para fins de intervenção cirúrgica. Isso leva à constatação de que em termos estéticos o corpo é consensualmente considerado mudado ou mutável, o que mostra que no horizonte das metamorfoses desejadas situa-se muito distante o processo interior que estas conseguem ocasionar. Nesse sentido, a cirurgia, longe de representar mecanismo de emenda do que faltou, é um processo de intervenção no corpo, ancorado em referências e critérios ditados à mulher moderna. Segundo Bourdieu (1999), é importante a reflexão a respeito da dominação masculina cujo alicerce se deu nas estruturas inscritas na objetividade/subjetividade dos corpos, que se inscrevem nos corpos dos sujeitos dominados, compreendendo 40 Noção imperativa proposta por Bally (1932). 162 gestos, posturas, disposições ou marcas da sua submissão. Por trás da exposição do corpo feminino nas propagandas escondem-se significados e valores que precisam ser analisados à luz da referência a quem eles estão de fato favorecendo mediante a exposição. Em (67) fica clara a disseminação de valores que cultuam a beleza do corpo, a liberação sexual e a exploração da sensualidade/sexualidade. Com o objetivo de investigar essas representações veiculadas, as propagandas de cerveja mostram como a mídia reitera valores dominantes e tradicionais sobre as mulheres, constituindo um tipo de violência simbólica de gênero contra as mulheres dentro da sociedade. Essas representações refletem a realidade por meio dos discursos dominantes, que camuflados no discurso do privilégio da mulher em suas escolhas sexuais se mostram como o imperativo da resolução/redenção ao mundo da concorrência desigual no âmbito do corpo, da idade e da conquista, quando o assunto é sedução. Ou seja, as propagandas de cerveja, utilizam representações sobre as mulheres que circulam na sociedade. São mulheres jovens, com a faixa etária de 20 a 30 anos, brancas, magras e com corpos trabalhados nas academias. As representações nos comerciais refletem padrões estabelecidos socialmente, sendo convencional a construção de estereótipos dos modelos masculinos e femininos. Estes estereótipos (representações de cunho preconceituoso) passam dissimuladamente pelos receptores, os quais não veem necessidade de questioná-las, uma vez que elas se apoiam no senso comum (CRUZ, 2008, p. 1). O estereótipo projeta uma imagem de mulher, aceita e partilhada socialmente. Existe a construção e a disseminação de uma imagem de mulher sexualmente determinada e desejável, aquela que todos os homens desejam possuir, ideia aderida pelas mulheres como modelos que devem ser ou se tornar com o intuito de obter valorização social. Nesse tipo de publicidade há um descompromisso com um discurso crítico sobre a utilização do corpo feminino. As imagens corroboram uma visão passiva da questão. Assim, a imagem que se projeta nas músicas, na televisão, nos jornais e nas revistas reproduz representações de mulheres “antenadas”, modernas, independentes e “coisificadas”: mexe seu corpo, mas mexe até se quebrar (96). 163 A grande questão é que essas propagandas consolidam representações sobre as mulheres que circulam na sociedade. Representações estas legitimadas como realidade no cerne das instituições: estado, escola, mídia e outros, associando comportamentos, valores e atitudes a um ou a outro gênero e contribuindo para a constituição de conceitos que separam “a fêmea” do “macho”, imbricadas e refletidas nas relações de poder entre os gêneros e na produção dessas formas simbólicas, que contribuem para as interpretações, recebidas e valorizadas. A exposição do corpo feminino na publicidade está repleta de significados e valores que precisam ser revistos, tendo em vista a quem eles estão de fato favorecendo com a sua exposição. Nutrimos a memória e a cultura do culto ao corpo como via de significados que são opressores, contudo as interpretamos como libertadoras e transformadoras, “liberdade e coações andam juntas, assim como as valorizações do corpo coexistem com a sua abertura a novos tipos de violência e exploração.” (SANT’ANNA, 2000, p. 36). O corpo significa, na atualidade, algo esteticamente controlado e manipulado. O domínio, a consciência do seu próprio corpo só puderam ser adquiridos pelo efeito do investimento do corpo pelo poder: a ginástica, os exercícios, o desenvolvimento muscular, a nudez, a exaltação do belo corpo [...] tudo isso conduz ao desejo de seu próprio corpo através de um trabalho insistente, obstinado, meticuloso, que o poder exerceu sobre o corpo das crianças, dos soldados, sobre o corpo sadio (SANT’ANNA, 1979, p.146). Segundo Bourdieu (1999, p. 40), mesmo tendo rompido regras e se libertado de valores pautados em orientações patriarcais, a atitude da mulher de expor ou exibir seu corpo não pode ser vista como um sinal de “liberação”, haja vista a história de evidente subordinação aos desígnios masculinos. O olhar masculino é utilizado como forma de julgamento, de avaliação, e isso inferioriza a imagem da mulher. Esta é uma imagem construída em função da aceitação do outro. O lugar de objeto lhe é designado e resignado por conta do desejo masculino. A dominação masculina impõe à mulher um estado de insegurança corporal permanente (p. 82). Delas é cobrada simpatia, feminilidade, sedução e sorrisos, tornando-se objetos de desejo sexual. (99) Corpo quente, tô suado, vem melar e vem lamber. Alto, em cima, alto em cima, em cima, em cima (NALDO, 2007) 164 A canção incita a sensualidade, a sexualidade e generaliza o sentimento, atribuindo à mulher papéis e valores socialmente reconhecidos como femininos: interjeições, pontuações, vocativos traduzidos em sussurros e gemidos reforçam a sensualidade e a erotização da música, afirmando modelos tradicionais, promovendo imagens estereotipadas. As composições musicais, juntamente com o seu universo imagético e simbólico, constituem via de regulação social que reproduz padrões aceitos pela sociedade. A publicidade atinge o senso comum, consequentemente constrói-se um significado do discurso dominante socialmente atribuído à mulher para se tornar um objeto de desejo e consumo a ser provada, saboreada. Dessa forma, as práticas discursivas nas canções contribuem para que a dominação masculina perpetue, fortalecendo a discriminação da mulher no âmbito público e, sobretudo, no privado. Visto de forma avulsa, o corpo fragmentado está presente nas canções e a mulher para ser consumida, assim como qualquer produto passível de consumo. É imprescindível um discurso político contundente sobre os usos do corpo feminino pela mídia e pela canção, pois ao fragmentar a mulher, dando evidência somente a algumas partes do seu corpo, ela não se constitui sujeito: levanta, descendo, subindo (98), formas que remetem ao universo feminino intrinsecamente, como podemos notar em termos a elas agregados como perninha e a tchutchuca. Trazendo dos arquivos da memória e observando os dias atuais, percebemos uma mudança na veiculação de músicas destinadas às mulheres. Podemos considerar que houve um declínio no conteúdo dessas composições no País nos últimos anos. Essa diferenciação estaria relacionada às concessões públicas e ao apelo nos programas televisivos, cada vez mais voltados à exploração das mazelas humanas e ao apelo ao grotesco, mediante o não cumprimento dos códigos de ética, que deveriam regulamentar cada uma das programações. Brazão e Oliveira (2010, p. 25) asseveram que a imagem da mulher-objeto é explorada exaustivamente. Tratado como entretenimento, o corpo feminino é o carro- chefe que move os programas humorísticos, de auditório, novelas, ou até os intervalos comerciais, onde o uso de estereótipos sexistas, entre outros, atua como recurso de humor. Em casos extremos, foram movidas ações no Ministério Público, 165 com multa aplicada, por expor mulheres seminuas em quadros que incitam a eroticidade. Diante do quadro histórico que se perpetua ao longo de décadas, ainda há muito a ser conquistado. Os problemas provenientes das violências deixam feridas que afetam as subjetividades, acarretando a baixa autoestima, o constrangimento, bem como a ausência de autorreconhecimento como sujeito social. Corpo é abrigo, é moradia, é instrumento de defesa. “Entretanto, as manipulações e o controle mercadológico, seja pelas chapinhas e silicones ou por outros artifícios da ditadura estética, de todas essas formas o direito das mulheres ao próprio corpo vem sendo violado” (BRAZÃO, OLIVEIRA, p. 112). Para o feminismo, corpo é abrigo e também possibilidade de resistência, não uma porta para manipulação e venda. Corpo também é experiência, lugar de segredos, espaço de realização do prazer, possibilidade de geração da vida, fonte de conquistas e descobertas, lugar de acolhimento e nunca de violências ou impedimentos. Por fim, o corpo é o lugar onde o ser humano se afirma, sonha e constrói sua história de vida, se desloca, faz sexo, trabalha, luta e resiste (BRAZÃO, OLIVEIRA, 2010, p. 115). Negar ao ser humano a autonomia, traduzida no direito de desfrutar e decidir sobre o seu próprio corpo, é uma violência contra a qual devemos lutar de forma digna, na relação com as outras pessoas e com a sociedade em geral. Negamos a redução dos nossos corpos à condição de mercadoria, seja como produto de primeira qualidade, ou como ponta de estoque ou descartável: Então, manobra seu corpo, rebola (93) não era pra você se apaixonar, era só pra gente ficar, eu te avisei (71). Lutamos para que se estabeleçam limites do ideal de pureza, que subverte o exercício prazeroso da sexualidade em tabu. A submissão de mulheres a seus companheiros, maridos e pais, frutos de uma cultura machista e discriminatória, se perpetua, apesar da evolução da sociedade que fez emergir mulheres chefes de família, empreendedoras, trabalhadoras, etc. A Lei Maria da Penha surgiu nesse cenário em amparo às mulheres para resgatar-lhes a dignidade e, com isso, possibilitar o seu desenvolvimento na sociedade. Ainda hoje é comum encontrar exemplos de mulheres subordinadas aos seus pais ou 166 maridos, sendo impedidas de tomar suas próprias decisões, tal como determinava o ordenamento jurídico brasileiro vigente até a década de 1970, acarretando o impedimento do direito de controle sobre o próprio corpo. O controle jurídico-penal da moral sexual feminina deu-se por meio de (suposta) proteção legal à virgindade e à fidelidade no casamento – esta última ativamente focada na conduta da mulher casada, já que infidelidade é culturalmente execrada, enquanto o homem goza de relativa licença social para dar suas escapadas. A criminalização de condutas ofensivas à virgindade – o crime de defloramento constou da legislação penal até o advento do Código Penal de 1941, ainda vigente – e à fidelidade (notadamente feminina) nunca foi, na realidade, voltada à garantia dos direitos da mulher, mas à defesa dos direitos do homem provedor, senhor e proprietário (o cara) da mulher- esposa ou da mulher-filha (a coisa) (HERMANN, 2007, p. 32/33). A maioria dos autores que abordam a violência contra a mulher defende que as relações entre os sexos são constituídas socialmente, afastando o caráter naturalizado e biológico que há poucas décadas caracterizava as diferenças sexuais e justificava o exercício da dominação masculina sobre as mulheres. Na década de 1960 publica-se o Estatuto da Mulher Casada, que modificou substancialmente os direitos das mulheres no âmbito civil, mas acabou confirmando a tendência conservadora do Estado e da Igreja, e legitimou a superioridade do homem, concedendo-lhe domínio da sociedade conjugal e colocando-o como administrador exclusivo dos bens da família, “tendo somente ele o direito de fixar o domicílio da família, do qual se a mulher dele se afastasse por qualquer motivo poderia ser acusada de abandono de lar, com perda do direito a alimentos e à guarda dos filhos” (YAMAMOTO, 2011, p. 13). As discriminações no âmbito legal seguem no seu artigo 385, atribuindo ao pai a administração dos bens do filho, função que cabe à mãe, somente na falta do cônjuge. O artigo 240 define a condição hierárquica inferior da mulher “ao estabelecer que a mulher assumiria, pelo casamento, com os apelidos do marido, a condição de sua companheira, consorte e auxiliar nos encargos da família” (IBIDEM). Nos dias atuais, as formas de opressão migram entre valores e cultura machista e jornada dupla, ocupações estratificadas e definidas a cada um dos sexos, demarcando 167 as funções femininas e masculinas: à mulher cabe a casa e a maternidade, ao homem, o público e a vida social. Mesmo com a morosa mudança da imagem feminina, o ideal de domesticidade permanece. Concedeu-se a possibilidade de ajuda do homem nas tarefas diárias, mas a responsabilidade da mulher só amplia, pois tem de estar apta a assumir o papel tradicional e o novo. Sem falar na beleza desejada pelas mulheres em todos os períodos, imposta por modelos de perfeição cada vez mais distantes de serem alcançados, ditados pelos veículos de comunicação e pela publicidade, sem muitos resquícios de natural, cada vez mais tecnologizada. Se a mulher tem que ser bela, deve ser principalmente para ter sempre ao seu lado um companheiro (namorado, marido, amante). Tradicionalmente, ela apenas tornava- se atraente para ser conquistada. Agora, ela é quem conquista, num jogo de sedução em que é possível ousar, mas nem sempre se convém. A imagem de moça comportada está dando lugar à de mulher liberada. De conquistada à conquistadora: mexe, manobra (64), remexe, rainha, glamourosa (95), vira, levanta (98). Enquanto a mulher da década de 1980 temia conversar sobre sexo, a mulher de hoje sabe exigir seu prazer e não tem vergonha disso. No entanto, a impressão é que essa mulher ainda apresenta algumas restrições sobre o assunto. “Ter direito de falar de sexo, pensar em sexo, desejar sexo e, claro, fazer muito sexo” (NOVA, 2007, p. 8) é uma afirmação ao se referir ao imaginário feminino a respeito do prazer sexual, o que nos leva a crer que se criou um estereótipo sobre a mulher independente, que vive sua sexualidade ao máximo, sem ter vergonha ou receios. Essa representação demonstra uma disparidade entre o discurso em que a mulher exige seu espaço e expõe sua independência e o discurso que a condena. Ela, muitas vezes, ainda se mostra submissa ao homem, esforçando-se para agradá-lo. Isso é nítido nos três períodos em estudo. A bíblia da modernidade é “Caprichar nas ideias para deixar o namorado louquinho e receber muitos agradecimentos depois...” (Nova, 2007, p. 8). Agradar ao homem parece ser o imperativo da mulher dos anos de 1950, da mulher dos anos de 1980 e da mulher dos anos de 2000. Mulher forte e ao mesmo tempo fraca prova o universo contraditório em que se insere a mulher, cuja fraqueza é vista como sua opção. A impressão que se tem é que a sociedade reconhece na mulher a fragilidade e que isso é inerente à natureza 168 feminina, mas, ao mesmo tempo, “aconselha-a” (conselho, ordem, sugestão?) a lutar contra si mesma e se fortalecer. A obsessão com a aparência também é um imperativo que perpassa a nova ordem. A música mostra a importância dada a beleza, que leva algumas mulheres a se submeterem a dietas perigosas, sob o risco de se sentirem deslocadas, encaixando-se nesses estereótipos da imagem supervalorizada. Ao mesmo tempo, fotos de modelos, roupas e maquiagens evidenciam um corpo livre de gorduras ou imperfeição. “Não se deve fazer dietas radicais, mas para ficar bonita, qualquer sacrifício é válido” (Ibidem). A mulher precisa ser sexy para ser amada, ser lutadora; não amada apenas por um homem, mas aceita no meio social. A beleza hoje se confunde com caráter, personalidade, sucesso e aceitação social. E graças aos avanços tecnológicos e ao sucesso da medicina estética, se não nascer bonita, a mulher pode “se tornar bonita”. Com o advento das cirurgias plásticas e o avanço das indústrias de cosméticos, as mulheres não têm mais desculpas para resistirem a esse novo padrão, especialmente se levarmos em conta que isso representa poder. As mulheres mudaram. Hoje em dia, os direitos tão defendidos, do trabalho e da independência, já foram conquistados. Mas embora essas conquistas pareçam estar estabelecidas, a desigualdade ainda acompanha as mulheres. A diferença de salários, o espanto causado quando elas ocupam lugares tipicamente masculinos, as reclamações sobre a dupla jornada e tantas outras situações diárias mostram que a evolução ainda não chegou ao fim. 169 CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo de comparar canções que conclamam as mulheres a se comportarem desse ou daquele modo em três períodos distintos foi perceber as diferenças da imagem representada em cada uma das épocas. Nessas composições musicais, a relação de representação e pauta para os comportamentos das mulheres aparece de forma clara. Mas, ao mesmo tempo em que incentiva a mulher a tomar atitudes consideradas modernas, seu discurso ainda valoriza as antigas relações de poder e submissão entre homem mulher. Nos anos de 2000, apesar das conquistas já estarem estabelecidas, as canções trazem a representação de uma mulher ainda insegura com sua situação, insegurança essa camuflada, transformada numa característica típica da natureza da mulher. Ela continua sendo um ser frágil, que precisa ser cuidada e que se esforça para agradar ao homem. Para isso, as músicas trazem “conselhos” e dicas, que vão de apelo à liberdade sexual, até sacrifícios para alcançar uma forma física atraente, com o objetivo de conquistar o sexo oposto. Como na década de 1950 e na década de 1980, a mulher dos anos de 2000 continua precisando da aprovação masculina. Se hoje a ela é permitido transitar entre espaço público e privado, trabalhar e se divertir sem a permissão do homem, ela ainda precisa da aprovação masculina quanto a sua aparência. Ser sexy na concepção masculina é agradar ao outro e, consequentemente, um requisito para a realização feminina. Nesta pesquisa nos propusemos a discorrer sobre formas verbais imperativas em associação com o pronome de segunda pessoa, constituindo a noção de pessoalidade na contribuição para o delineamento de três perfis femininos, quais sejam: um dos anos de 1950, outro dos anos de 1980 e outro dos anos de 2000. Na proposta subsidiada pela teoria semântica da enunciação e ancorada por uma sintaxe de bases enunciativas, utilizar elementos como: ai, hum ou uh em uma composição musical representa falar de sintaxe, falar das formas, falar da mulher permeada pela historicidade que perpassa tais termos ou categorias, porque o termo 170 está constituído no universo da sentença, e na relação entre o modus e o dictum que a sintaxe nos permite revelar, conforme Bally (1932). Para o autor, isso é tratar da implicitude. E para nós a sentença reconhecidamente funciona, ainda que de forma sintética e cheia de implicitudes ou lacunas. Isso é enunciação. Diariamente nos deparamos com pequenas coisas sensoriais consideradas passageiras. Um dia surge um tchan, no outro, hum, ou créu, mas todas estas, por mais que mudem, têm esse caráter de grupo. Portanto, é identificador reconhecedor de uma reação ao acontecimento enunciativo. Encontra-se aí presente a raiz de uma frase que contém sujeito e predicado, que emergem do sintático e do implícito sob o viés de explicitude. Quando vemos uma sentença como: subindo, descendo, vai, mexe, risque, calma, alto, em cima, créu, tchan, ai, etc., em nossa perspectiva, é constitutivo que tais objetos se relacionam com um conjunto de coisas. Ao captarmos esses objetos, captamos as relações, e o nosso dizer capta as relações que os objetos mantêm com um conjunto maior. Isso é teoria da enunciação. Para Bally, esse movimento é proveniente de um modus se constituindo em um dictum em processo constante. Isso torna distinta a teoria da enunciação de Bally da teoria da enunciação de Benveniste, que vislumbra o movimento constante de um sujeito se colocando diante de um tu. Para Bally o sujeito se coloca diante do que ele diz, enquanto Breal concebe a subjetividade no movimento contínuo do sujeito se posicionando diante do mundo e do presente no seu dizer. A semântica da enunciação considera o sujeito em relação ao mundo, ao tu, ou ao enunciado. Assim se manifesta na subjetividade. Há uma necessidade de se pensar discursivamente essa entidade, esse tu, essa mulher. A leitura dessas canções nos propicia compreender e identificar três visões de receptores, a se considerar três períodos distintos. E isso só é possível se considerarmos o acontecimento do enunciado imperativo e a memória dessas ocorrências. Dialogamos com um sujeito histórico, uma mulher inserida nos meados do século passado, outra na década de 1980 e a mulher do terceiro milênio. Analisar o uso da forma imperativa analítica, sintética, ou imaterializada na sentença, podendo ser apreendida pelas regularidades que permeiam a sentença, permite encontrar pistas, 171 indícios de uma mulher do passado, outra mulher de 30 anos atrás e a mulher de hoje, ou seja, estudar as formas permite um estudo profícuo da língua, portanto é pertinente. Dessa forma, no âmbito gramatical, é necessário avaliar as variáveis de tratamento, o preenchimento do sujeito o e tratamento despendido a ele. A decisão de lidar com o tipo de tratamento, como fator gramatical, permite detectar até que ponto o pronome/sujeito motivador de uma concordância é determinado pela tradição ou pela relação hierárquica de poder, o que diz respeito ao universo das relações paradoxais no âmbito feminino/masculino. Partindo dessa ordem de referenciais que dão suporte às formações nominais projetadas pelas formas imperativas, é possível analisar a discursividade que constitui os parâmetros sócio-históricos para esses referenciais. Acreditamos que o que sustenta a constituição do perfil feminino são os cruzamentos de memória e atualidade que operam no domínio referencial. A pessoalidade de segunda pessoa encontra sua sustentação nas FNs cuja constituição nos permite entender as nuances de um perfil discursivo de mulher legitimada em seus círculos sociais. Dessa forma, os anos dourados ou década de 1950 são marcados por uma rigidez na orientação dos papéis sociais e espaços pertinentes a homens e mulheres. A mãe, conclamada a ser educadora dos filhos, teria de se munir de todos os artefatos para cumprir seu papel com esmero e rigor. Amar e cuidar dos filhos era obrigação. Os pais não se sentiam seguros do que sentiam ou faziam com seus filhos. Isso constituiria papel feminino. Daí a disseminação de um discurso de valorização das funções femininas, verificado, inclusive, por meio do cuidado com o uso da forma verbal cuja concordância se dá em consonância com a prescrição das gramáticas tradicionais. Na descrição de papéis e funções, entram em cena as revistas femininas, com suas inserções especialistas nos mais distintos assuntos, atuando como conselheiras, à medida que “essas vozes representam lugares sociais e fixação dos sentidos e 172 desempenham um papel decisivo na institucionalização da linguagem: a produção do sedimento de unicidade do sentido” (ORLANDI, 1989, p. 44). Ao compor uma música destinada ao público feminino em 1950, criam-se duas categorias paralelas: a de “mulheres” e a de “homens”. A primeira assumindo o status de complemento à vida, como algo imprescindível, beirando o inatingível, o que pode ser depreendido dos fragmentos das composições musicais da época. Dessa forma, naturaliza-se uma dicotomia homem-mulher da qual não se pode fugir. Trata-se de um esquema redutor que torna positivos os atributos para um grupo em detrimento de outro. Isso é um efeito do discurso. Tais sentidos podem ser resgatados por meio de leituras daquilo que já foi dito (interdiscurso) sobre a mulher e sua condição. Segundo Haroche (1992, p. 21), seja por meio das cifras ou das palavras, do tom ou do ritmo, a proposta é a mesma: tornar transparente a interioridade, o corpo e o comportamento da mulher. Entretanto, esta evidência nada mais é que um efeito ideológico de apagamento da história e da memória que compõem o dizer sobre a mulher. Na verdade, isso está presente de maneira inusitada nos exemplos em estudo. A subjetividade é revelada, sobretudo, por meio da manifestação da pessoalidade, traduzida na concordância com a forma imperativa, porém só ocorre em decorrência do tu, confirmado pelo reforço por meio dos vocativos: minha tristeza (47), Dindi (59), mulher (60), menina (61), minha cara (63), etc., o que confere status de pessoa (tu). É interessante como se define esse status na composição musical. A partir das marcas de pessoa, podemos constatar que não necessariamente o sentimento expresso pelo locutor nos anos dourados tenha de ser recíproco, uma vez que a situação inerente ao exercício da linguagem, que é a da troca e do diálogo, confere ao ato de discurso dupla função: para o locutor, representa uma realidade de abandono que causa o efeito de amor não correspondido e o enaltecimento, a idealização da pessoa amada, inserindo-a em um patamar de superioridade. A possibilidade de apreensão dessas discursividades na composição musical provoca efeitos singulares sobre os leitores/ouvintes, e se encontra na tensão entre a memória e o acontecimento, que oscila entre o retorno a um mesmo espaço dizível e a ruptura, 173 norteada pelos acontecimentos histórico-sociais por que passa a sociedade, implicando novos perfis de mulher. É efetivamente desse mecanismo de síntese imaginária que se valem os discursos das composições musicais destinadas à figura feminina. Por meio da tentativa de “domesticação”, ainda que se valendo de um discurso de valorização do corpo, da profissão, da liberação dos desejos, apaga-se qualquer outro sentido que poderia ser relacionado à condição feminina. Todavia, os sentidos sobre a feminilidade, como podemos verificar por meio de um resgate do percurso histórico e social sobre a mulher, não podem ser domesticados, haja vista o fato de a mulher não se enquadrar efetivamente na norma patriarcal nos dias atuais. A unidade imaginária das mulheres como uma classe circunscrita é resultado de uma injunção à interpretação/nomeação, ou seja, um efeito imaginário e uma própria autoimagem pré-construída na qual suas condições históricas e sociais são desconhecidas e apagadas, fazendo emergir categorias como grupo feminista, gênero e alteridade, que se perpetuam até os dias atuais. Apesar da liberação sexual e das conquistas nas últimas décadas, o ideal romântico se perpetua. A mulher liberada, desnuda, despudorada busca cada vez mais prazer sexual, todavia mantém, intimamente, o sonho de subir ao altar e aguarda apenas a iniciativa masculina de realizar o seu sonho. Logo, por trás do discurso de maior liberdade sexual feminina descortina-se um ideal do amor romântico que se materializa no matrimônio, e a beleza padronizada é um dos fortes requisitos altamente valorizados socialmente. A superexposição do corpo torna-se cada vez mais severa. Ser bonita não é o suficiente, é preciso ser perfeita. Se antes a beleza natural era bem vista, hoje tornar-se bonita, sexy, turbinada é o imperativo, é a ordem. A corrida na busca pela pele, pelos cabelos e pelo corpo perfeitos acarreta lucros inimagináveis à indústria farmacêutica, com credibilidade científica ao discurso que, aliado à mídia, promove o ideário de perfeição a fim de vender uma imagem. A beleza e o culto a ela é algo que pode ser entendido como um traço conservador, porém diferentemente dos anos de 1980, numa menção à liberdade do uso do corpo, da beleza mais voltada ao comportamento e à vaidade, a atenção da mulher se volta 174 para a necessidade de se ter um corpo bonito diante da maior liberdade sexual; nos anos de 2000, o que se impõe é que a mulher, já liberada, atenda a mais uma exigência: ser perfeita e eternamente jovem. A música mantém na atualidade um discurso que concilia elementos progressistas e conservadores, mostrando-se eficiente como defensora da liberdade. Com seu caráter conservador e ao mesmo tempo opressor, perceptível por meio das formas de ordenação, emanadas do imperativo em suas composições musicais tanto da década de 1950 quanto da de 1980, como também nos anos de 2000, por meio da imposição de padrões de beleza femininos, difunde a ideia de que à mulher cabe o papel da sedução por meio de atributos físicos; da idealização do amor romântico, que visa ao casamento como objetivo de vida para todas as mulheres; e da indicação do consumo e da mecanização do corpo por meio de atividades físicas como forma de realização. Cabe ressaltar que na década de 1950 a modernidade era apresentada como caminho da liberdade, felicidade e realização para as mulheres, entretanto tais promessas ecoaram fortemente na década de 1980, e como não se efetivaram, levaram as mulheres a grandes e complexos conflitos e tensões interiores. Hoje, elas enfrentam duplas jornadas de trabalho, administram a casa e os serviços domésticos e ainda precisam se manter não apenas belas, mas perfeitas, turbinadas, popozudas para agradar o outro que, remetendo à sociedade patriarcal, se configura no ideário masculino. Por meio de análises, reflexões e desdobramentos críticos, podemos afirmar que as discursividades emanadas das composições musicais endereçadas à mulher desempenham função significativa na perpetuação de velhas e novas formas de opressão que se configuram em obstáculos que impedem as mulheres e os homens alcançar liberdades mais consistentes, felicidades e realizações menos efêmeras. Ao legitimar esse modelo de sociedade ancorado na rígida distinção de gênero, a música contribui para a manutenção de uma sociedade patriarcal, burguesa e capitalista, que interdita a compreensão das estruturas e dos papéis sociais como construções sociais e históricas, passíveis, portanto, de transformação. E isso leva a crer que, quando o assunto é mulher, a forma imperativa, em vez de conotar pedido, 175 sugestão, convite, conselho, o que sugere a inserção da mulher numa sociedade mais justa, expressa uma ordem, e a ela cabe se enquadrar, sob o risco de, como dissemina a história das mulheres, ser mais uma vez excluída, segregada, discriminada. A Semântica da Enunciação defende a tese de que não apenas as palavras, mas também as formas gramaticais e o plano geral da linguagem trazem à tona uma subjetividade e um direcionamento do dizer. A discussão do conceito de formação nominal e de referencial, bem como a abstração dos traços do sujeito na língua, foi crucial para analisarmos a constituição do sentido nos trechos musicais destinados à mulher. Dessa forma, um estudo semântico ancorado em um modelo de abordagem da enunciação dá condições para que possamos reconhecer a relação entre o sujeito e as conformações sociais que se configuram em paradigmas de inserção social. O interesse de nosso trabalho foi analisar nos fragmentos de texto musical, com o auxílio do estudo sintático das formas imperativas da língua em uso, uma abordagem que possibilitasse a identificação da figura feminina a quem é endereçado o texto musical. Com isso, o conhecimento da organicidade sintática das sentenças, aliado ao estudo de base enunciativa, foi decisivo na análise dos dados, embora o nosso objetivo maior não tenha sido delinear uma determinada mulher no seu contexto histórico e social, mas um perfil discursivo de mulher. Se nos “anos dourados” o discurso religioso ainda alcançava as mídias com suas verdades absolutas, nos anos de 1980, com o processo de industrialização e com a passagem da mulher do espaço privado ao público, esta busca de realização no trabalho e no campo afetivo divide funções e prazer, mas ao mesmo tempo dependente de um casamento para se realizar. Hoje é a vez da ciência que, com seus avanços, bombardeia as leitoras de saberes práticos a serem seguidos, sobretudo no que diz respeito ao aspecto estético, à escultura corporal e ao avanço intelectual, profissional e sexual. O estudo da composição das FNs reforça a tese que os discursos institucionalizam sentidos, pois eles dão suporte aos domínios referenciais que recortam o real. Tem-se assim o campo de pertencimento que construímos nas enunciações do cotidiano, na relação entre a atualidade da formulação e o memorável de enunciações outras que 176 comparecem no acontecimento enunciativo. Tendo em vista esses campos de pertencimento, por meio da análise pudemos compreender que o perfil de mulher na década de 1950 é constituído a partir de um referencial que a situa na distância, e o locutor dirige-se à mulher para considerar, para ver, para sentir. Por sua vez, nos anos de 2000, o perfil da mulher é constituído tendo em conta um referencial que a situa no âmbito dos próprios meios de alcance, pelos sentidos imediatos e marcado por uma forte diretividade, portanto o locutor dirige-se à mulher para fazer, para alcançar, para mover. Se observarmos o continuum que perpassa as atitudes e os movimentos da mulher, podemos afirmar que nos dias atuais ela pode ser considerada uma mulher em constante movimento. Portanto, se há uma virtualidade nas composições musicais expressas por meio da pessoalidade agregada, há uma possibilidade de captação, e o dizer das composições musicais evoca entidades para a atualização. No entanto não se trata de uma captação pelo pronome, mas por uma entidade extraída das discursividades que se atualizam como perfil. E ao discorrermos sobre o perfil feminino de cada período em estudo, discutimos ancorados nas formas da língua. Estas, de fato, nos permitem discutir grandes e complexas questões que recheiam compêndios, simpósios, congressos e outros que mesclam linguagem, gênero e sociedade. Buscar o lugar sintático como forma material qualificada pela relação entre enunciado e sentença constitui porta de entrada a esses fundamentos de uma teoria da enunciação. 177 REFERÊNCIAS ANDINHO, GELEIA. Vira de ladinho. 2006. Disponível em: . Acesso em: 15 ago. 2014. ACHARD, Pierre. Memória e produção discursiva do sentido. In: ACHARD, Pierre et al. Papel da memória. Tradução: J. Horta Nunes. Campinas, SP: Pontes, 1999, p. 11-17. ANDRADE, Silvana Rodrigues. Para além do “teto de vidro”: o trabalho feminino e as representações do “ideal” de mulher executiva. Rio de Janeiro: Cpdoc/FGV. 1. ed., Vol. 1, 2009. BALLY, Charles. Linguistique générale et linguistique française. Francke Berne, 1965 (1932). BANDEIRA, Manuel. Irene no céu. Poesia completa e prosa. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985. BARROSO, Ary. Risque. 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Cadeira vazia Rodrigues e Gonçaves (1950) Entra meu amor fique a vontade E diz com sinceridade o que desejas de mim Entra podes entrar a casa é tua Já que cansaste de viver na rua E os teus sonhos chegaram ao fim Eu sofri demais quando partiste Passei tantas horas tristes Que não gosto de lembrar esse dia Mas de uma coisa pode ter certeza Teu lugar aqui na minha mesa 189 Tua cadeira ainda está vazia Tu es a filha pródiga que volta Procurando em minha porta O que o mundo não te deu E faz de conta que eu sou o teu paizinho Que há tanto tempo aqui ficou sozinho A esperar por um carinho teu Voltaste estás bem, estou contente Só me encontraste um pouco diferente Vou te falar de todo coração Não te darei carinho nem afeto Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto Pra te alimentar podes comer meu pão Voltaste estás bem, estou contente Só me encontraste um pouco diferente Vou te falar de todo coração Não te darei carinho nem afeto Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto Pra te alimentar Podes comer meu pão 3. Me deixe em paz Monsueto e Airton Amorim (1951) Se você não me queria Não devia me procurar Não devia me iludir Nem deixar eu me apaixonar Se você não me queria Não devia me procurar Não devia me iludir Nem deixar eu me apaixonar Evitar a dor 190 É impossível Evitar esse amor É muito mais Você arruinou a minha vida “Ora vai mulher” Me deixa em paz Evitar a dor É impossível Evitar esse amor É muito mais Você arruinou a minha vida “Ora vai mulher” Me deixa em paz Se você não me queria Não devia me procurar Não devia me iludir Nem deixar eu me apaixonar Se você não me queria Não devia me procurar Não devia me iludir Nem deixar eu me apaixonar la...laia...la....la...laia....lala la...laia...la....la...laia....lala Não te darei carinho nem afeto Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto Pra te alimentar Podes comer meu pão 4. Escuta Ivon Curi (1955) Escuta, Vamos fazer um contrato, 191 enxuga o pranto barato, que te entristece o olhar... Escuta, O nosso amor é um fracasso, já me domina o cansaço de brincar de te amar... Teus olhos olham a esmo e te falta coragem de me encarar, quem trai, se trai a si mesmo, no riso, no abraço, no beijo, no olhar... Escuta, quando fechares a porta, não chores, cala, suporta, não penses mais em voltar 5. Ouça Maysa (1956) Ouça, vá viver Sua vida com outro bem, Hoje eu já cansei De pra você não ser ninguém. O passado não foi o bastante pra lhe convencer Que o futuro seria bem grande só eu e você. Quando a lembrança com você for morar E bem baixinho de saudade você chorar, Vai lembrar que um dia existiu Um alguém que só carinho pediu E você fez questão de não dar, Fez questão de negar. 6. Acorda, Maria Bonita Antônio dos Santos (1957) 192 Acorda Maria Bonita Levanta vai fazer o café Que o dia já vem raiando E a polícia já está de pé Se eu soubesse que chorando Empato a tua viagem Meus olhos eram dois rios Que não te davam passagem Cabelos pretos anelados Olhos castanhos delicados Quem não ama a cor morena Morre cego e não vê nada 7. Guarde a sandália dela Sereno e Germano Mathias (1958) Guarde a sandália dela Que o samba sem ela não pode ficar Diga também pra ela Que a escola sem ela não vai desfilar (BIS) Diga que foi por ela Por causa dela eu parei de sambar Diga que toda a favela Chamando por ela se pôs a rezar (BIS) 8. Deixe que ela se vá Gouveia e Ferraz (1958) Deixe que ela se vá Não lhe diga que não, que não Deixe que ela se vá Procurar outro amor em vão 193 Mas um dia se ela cansar E pensar na maldade que fez Certamente ela há de voltar Pro meu lado outra vez E quando ela voltar Eu então a sorrir lhe direi Que me cansei de esperar E que não posso aceitá-la outra vez 9. Chega de saudade Tom Jobim e Vinícius de Moraes (1958) Vai minha tristeza E diz a ela que sem ela não pode ser Diz-lhe numa prece Que ela regresse Porque não posso mais sofrer Chega de saudade A realidade é que sem ela Não há paz Não há beleza É só tristeza e a melancolia Que não sai de mim Não sai de mim Não sai Mas, se ela voltar Se ela voltar que coisa linda! Que coisa louca! Pois há menos peixinhos a nadar no mar Do que os beijinhos Que eu darei na sua boca Dentro dos meus braços, os abraços Hão de ser milhões de abraços Apertado assim, colado assim, calada assim, 194 Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim Que é pra acabar com esse negócio De viver longe de mim Não quero mais esse negócio De você viver sem mim Vamos deixar esse negócio De você viver sem mim. 10. Vai mesmo Ataulfo Alves (1958) Vai, vai mesmo Eu não quero você mais nunca mais Tenha a santa paciência Ponha a mão na consciência Deixe-me viver em paz Sai de vez do meu caminho Dê a outro seu carinho Me abandone por favor ai que dor Você machucou meu peito Não tem mais o direito de mandar no meu amor 11. Cabecinha no Ombro Borges (1958) Encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora E conta logo a tua mágoa toda para mim Quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora, que não vai embora que não vai embora Encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora E conta logo a tua mágoa toda para mim Quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora, 195 que não vai embora porque gosta de mim Amor, eu quero o teu carinho, porque eu vivo tão sozinho Não sei se a saudade fica ou se ela vai embora, se ela vai embora, se ela vai embora Não sei se a saudade fica ou se ela vai embora, se ela vai embora, porque gosta de mim 12. Dindi Antônio Carlos Jobim e Oliveira (1959) Céu, tão grande é o céu E bando de nuvens que passam ligeiras, Pra onde elas vão, ah, eu não sei, não sei... E o vento que toca nas folhas, Contando as histórias que são de ninguém, Mas que são minhas e de você também... Ai, Dindí, Se soubesses do bem que eu te quero, O mundo seria, Dindí, lindo, Dindí, tudo, Dindí... Ai, Dindí, Se um dia você for embora me leva contigo, Dindí, Deixa, Dindí, fica, Dindí... E as águas desse rio, Onde vão, eu não sei... E a minha vida inteira, esperei, Esperei por você, Dindí, Que é a coisa mais linda que existe, Você não existe, Dindí... Deixa Dindi que eu te adore Dindi... 13. Venha já Silva e Portela (1959) 196 Hoje eu não estou de brincadeira Eu passei a noite inteira sem dormir Pensando em meu amor Ela me deixou porque brigamos Nunca nós nos separamos E assim é grande a minha dor Não quero bate-papo com ninguém Enquanto não voltar para o meu bem Não tenho mais assuntos pra falar Tampouco um sorriso para dar Agora para mim mais nada existe O meu mundo é triste só sei chorar Eu quero ter de volta a alegria Pra matar a nostalgia Que ficou em seu lugar Mas venha já Venha já meu amor Venha já Pra matar esta saudade Pra ela não me matar por Nelson de Campos DÉCADA DE 1980 1. Lança Perfume Rita Lee e Roberto de Carvalho (1980) Lança menina, lança todo este perfume Desbaratina não dá pra ficar imune Ao teu amor que tem cheiro de coisa maluca Vem cá meu bem, me descola um carinho Eu sou neném, só sossego com beijinho 197 E ve se me dá o prazer de ter prazer comigo Me aqueça Me vira de ponta cabeça Me faz de gato e sapato e... Me deixa de quatro no ato Me enche de amor, de amor Lança, lança perfume Oh ohohoh lança, lança perfume Lança perfume... 2. Fonte da saudade Kledir Ramil (1980) Esse quarto é bem pequeno Prá te suportar Muito amor, muito veneno Prá pouco lugar O teu corpo é uma serpente A me provocar E o teu beijo a aguardente A me embriagar Essa boca muito louca Pode me matar Se isso é coisa do demônio Eu quero pecar Fecha a luz, apaga a porta Vem me carinhar Diz aí prá minha tia Que eu fui viajar Diz que eu fui prá Nova Iorque Ou prá Bagdá E que isso não é hora de telefonar Eu já sei que qualquer dia 198 Tudo vai dançar Mas a fonte da saudade Nem o tempo vai secar 3. Muito estranho Dalto (1982) Hum! Mas se um dia eu chegar muito estranho Deixa essa água no corpo lembrar nosso banho Hum! Mas se um dia eu chegar muito louco Deixa essa noite saber que um dia foi pouco Cuida bem de mim Então misture tudo dentro de nós Porque ninguém vai dormir nosso sonho Hum! Minha cara, pra que tantos planos? Se quero te amar e te amar e te amar muitos anos Hum! Tantas vezes eu quis ficar solto, Como se fosse uma lua a brincar no teu rosto Cuida bem de mim Então misture tudo dentro de nós 4. Eva Tozzi e Bigazzi (1982) Meu amor, olha só hoje o sol não apareceu É o fim da aventura humana na Terra Meu planeta adeus, Fugiremos nós dois na arca de Noé Olha bem meu amor é o final da odisseia terrestre Sou Adão e você será... Minha pequena Eva (Eva) O nosso amor na última astronave (Eva) Além do infinito eu vou voar 199 Sozinho com você E voando bem alto (Eva) Me abraça pelo espaço de um instante (Eva) Me cobre com teu corpo e me dá a força pra viver... Meu amor, olha só hoje o sol não apareceu É o fim da aventura humana na Terra Meu planeta adeus, Fugiremos nós dois na arca de Noé Olha bem meu amor no final da odisséia terrestre Eu sou Adão e você será... Minha pequena Eva (Eva) O nosso amor na última astronave (Eva) Além do infinito eu vou voar Sozinho com você E voando bem alto (Eva) Me abraça pelo espaço de um instante (Eva) Me cobre com teu corpo e me dá a força pra viver... E pelo espaço de um instante Afinal não há nada mais que o céu azul pra gente voar Sobre o Rio, Beirute ou Madagascar Toda a Terra reduzida a nada, a nada mais Minha vida é um flash de controles, botões anti-atômicos Olha bem meu amor, é o final da odisséia terrestre Sou Adão e você será Minha pequena Eva (Eva) O nosso amor na última astronave (Eva) além do infinito eu vou voar sozinho com você E voando bem alto (Eva) 200 Me abraça pelo espaço de um instante (Eva) me cobre com teu corpo e me dá a força pra viver Minha pequena Eva (Eva) O nosso amor na ultima astronave (Eva) além do infinito eu vou voar sozinho com você... 5. Cor de rosa choque Rita Lee (1983) Nas duas faces de Eva A bela e a fera Um certo sorriso de quem nada quer Sexo frágil Não foge à luta E nem só de cama vive a mulher Por isso não provoque É cor de rosa choque Não provoque É cor de rosa choque Não provoque É cor de rosa choque Por isso não provoque É cor de rosa choque Mulher é bicho esquisito Todo mês sangra Um sexto sentido maior que a razão Gata borralheira Você é princesa Dondoca é uma espécie em extinção Por isso não provoque É cor de rosa choque 201 Não provoque É cor de rosa choque Não provoque É cor de rosa choque Por isso não provoque É cor de rosa choque Não provoque 6. Betty frígida Mesquita et al. (1983) Meu amor não fique assim Não foi sua a minha culpa Por favor, não mude de cor A gente pode tentar outra vez A noite é uma criança Um pouco de amor não cansa, cansa, cansa, cansa É que eu sou frígida Frígida, Betty Frígida, rígida Eu não consigo relaxar Frígida, Betty Frígida, rígida Eu sei que vou conseguir Calma Betty, calma Você deve fazer de leve Calma Betty, calma Assim você me machuca Calma Betty, calma O Juca já fez isso uma vez Meu amor agora já sei Depois de amar como eu te amei Ah, eu pensei que sabia tudo Mas aprendi tudo essa vez Ah, o meu beijo te quebrava os dentes 202 O meu abraço nunca foi quente, quente, quente, quente É que eu sou rústico Rústico, Roni Rústico, só tenho músculos Eu sempre quis te namorar Frígida, Betty Frígida, rígida Agora eu já consegui Calma Betty, calma -Hey Betty, vamos tomar um grapette? -Sim Roni! Calma Betty, calma -Hey Roni, você viu o que aquele boçal escreveu no jornal? -Oh! Eles não sabem de nós E os urubus continuam passeando a tarde inteira entre os girassóis. 7. Como eu quero Leoni e Toller (1984) Diz pra eu ficar muda faz cara de mistério Tira essa bermuda que eu quero você sério Tramas do sucesso mundo particular Solos de guitarra não vão me conquistar Uuuuu! Eu quero você como eu quero (BIS) O que você precisa é de um retoque total Vou transformar o seu rascunho em arte final Agora não tem jeito "cê" tá numa cilada É cada um por si você por mim e mais nada Uuuuu! Eu quero você como eu quero (BIS) Longe do meu domínio "cê" vai de mal a pior Vem que eu te ensino como ser bem melhor Uuuuu! Eu quero você como eu quero 8. Bete balanço Frejat e Cazuza (1984) 203 Pode seguir a tua estrela O teu brinquedo de star Fantasiando em segredo O ponto aonde quer chegar O teu futuro é duvidoso Eu vejo grana, eu vejo dor No paraíso perigoso Que a palma da tua mão mostrou Quem vem com tudo não cansa Bete balança meu amor Me avise quando for a hora Não ligue pra essas caras tristes Fingindo que a gente não existe Sentadas, são tão engraçadas Donas das suas salas Quem tem um sonho não dança Bete Balanço, por favor Me avise quando for embora 9. Pintura íntima Toller, Israel e Fortunato (1984) Vem amor que a hora é essa Vê se entende a minha pressa Não me diz que eu tô errado Eu tô seco, eu tô molhado Deixa as contas que no fim das contas O que interessa pra nós É fazer amor de madrugada Amor com jeito de virada fazer amor de madrugada 204 Amor com jeito de virada Larga logo desse espelho Não reparou que eu tô até vermelho Tá ficando tarde no meu edredon Logo o sono bate Deixa as contas que no fim das contas O que interessa pra nós É fazer amor de madrugada Amor com jeito de virada 10. Último romântico Santos e Souza (1984) Faltava abandonar a velha escola Tomar o mundo feito Coca-Cola Fazer da minha vida sempre o meu passeio público E ao mesmo tempo fazer dela o meu caminho só, único Talvez eu seja o último romântico Dos litorais desse Oceano Atlântico Só falta reunir a zona norte à zona sul Iluminar a vida já que a morte cai do azul Só falta te querer Te ganhar e te perder Falta eu acordar Ser gente grande pra poder chorar Me dá um beijo, então Aperta minha mão Tolice é viver a vida assim sem aventura Deixa ser Pelo coração Se é loucura então melhor não ter razão Só falta te querer 205 Te ganhar e te perder Falta eu acordar Ser gente grande pra poder chorar Me dá um beijo, então Aperta minha mão Tolice é viver a vida assim sem aventura Deixa ser Pelo coração Se é loucura então melhor não ter razão 11. Deixa eu te amar Agepê, Vamilo e Silva (1984) Quero ir na fonte do teu ser E banhar-me na tua pureza Guardar em pote gotas de felicidade Matar saudade que ainda existe em mim Afagar teus cabelos molhados Pelo orvalho que a natureza rega Com a sutileza que lhe fez a perfeição Deixando a certeza de amor no coração Deixa eu te amar Faz de conta que sou o primeiro Na beleza desse teu olhar Eu quero estar o tempo inteiro (2x) Quero saciar a minha sede No desejo da paixão que me alucina Vou me embrenhar nessa mata só porque Existe uma cascata que tem água cristalina Aí então vou te amar com sede Na relva, na rede, onde você quiser Quero te pegar no colo 206 Te deitar no solo e te fazer mulher Quero te pegar no colo Te deitar no solo e te fazer mulher Deixa eu te amar Faz de conta que sou o primeiro Na beleza desse teu olhar Eu quero estar o tempo inteiro (2x) Quero saciar a minha sede No desejo da paixão que me alucina Vou me embrenhar nessa mata só porque Existe uma cascata que tem água cristalina Ai então vou te amar com sede Na relva, na rede, onde você quiser Quero te pegar no colo Te deitar no solo e te fazer mulher Quero te pegar no colo Te deitar no solo e te fazer mulher Deixa eu te amar Faz de conta que sou o primeiro Na beleza desse teu olhar Eu quero estar o tempo inteiro (2x) 12. Bem que se quis Motta e Daniele (1989) Bem que se quis depois de tudo ainda ser feliz mas já não há caminhos pra voltar. E o que é que a vida fez da nossa vida? O que é que a gente não faz por amor? Mas tanto faz, já me esqueci de te esquecer porque o teu desejo é o meu melhor prazer 207 e o meu destino é querer sempre mais, a minha estrada corre pro seu mar Agora vem pra perto vem vem depressa vem sem fim, dentro de mim que eu quero sentir o teu corpo pesando sobre o meu, vem meu amor vem pra mim, me abraça devagar, me beija e me faz esquecer Bem que se quis depois de tudo ainda ser feliz mas já não há caminhos pra voltar. E o que é que a vida fez da nossa vida? O que é que a gente não faz por amor? Mas tanto faz, já me esqueci de te esquecer porque o teu desejo é o meu melhor prazer e o meu destino é querer sempre mais, a minha estrada corre pro seu mar Agora vem pra perto vem vem depressa vem sem fim, dentro de mim que eu quero sentir o teu corpo pesando sobre o meu, vem meu amor vem pra mim, me abraça devagar, me beija e me faz esquecer... Bem que se quis... TERCEIRO MILÊNIO (ANOS DE 2000) 1. Só no sapatinho Gerson Silva (1999) 208 Ela chega vaidosa e sorridente Todo mundo logo sente seu perfume pelo ar Ela dança com um swing diferente Vai pra trás e vai pra frente, vai descendo devagar Essa gata tem um jogo de cintura É uma uva bem madura e a galera quer provar Vagabundo tá na rua da amargura Anda cheio de fissura mas sou eu que vou pegar Só no sapatinho, ôh, ôh Só no sapatinho, ôh, ôh Só no sapatinho, ôh, ôh Estão querendo disputar o meu espaço Invadir o meu pedaço, mas não vou dar mole não Já andaram rastreando o meu caminho Pra saber se eu tô sozinho ou se tô nesse avião Estão querendo me vencer pelo cansaço Pra saber o que é que eu faço, mas quem fala é vacilão Meu tempero, tem amor e tem carinho Vou comendo bem quietinho, pra não dar indigestão Só no sapatinho, ôh, ôh Só no sapatinho, ôh, ôh Só no sapatinho, ôh, ôh 2. Só as cachorras Tigrão (2001) Uh só as cachorras uh uhuhuhuh! as preparadas uh uhuhuhuh! <2X as popozudas uh uhuhuhuh! 209 o baile todo uh uhuhuhuh! pula sai do chão esse e o bonde do tigrão libera a energia e vem pro meio do salão o baile esta tomado eu quero ver você dança tá tudo dominado e o planeta vai grita assim: uh só as cachorras uh uhuhuhuh ! as preparadas uh uhuhuhuh! <2X as popozudas uh uhuhuhuh! o baile todo uh uhuhuhuh! pula sai do chão esse e o bonde do tigrão libera a energia e vem pro meio do salão o baile esta tomado eu quero ver você dança tá tudo dominado e o planeta vai grita assim: uh só as cachorras uh uhuhuhuh ! as preparadas uh uhuhuhuh! as popozudas uh uhuhuhuh! o baile todo uh uhuhuhuh! vem pra cá com o seu tigrão vô te dar muita pressão quando eu vejo um popozão rebolando no salão não consigo respirar fico louco pra pegar 210 melhor tu se preparar que o tigrão vai te ensinar agora e ruim de tu fugir que o tigrão vai te bulir se tu corre por aqui eu te pego logo ali eu vou lutar até o fim vou trazer você pra mim e eu te chamo bem assim uh só as cachorras uh uhuhuhuh ! as preparadas uh uhuhuhuh! as popozudas uh uhuhuhuh! o baile todo uh uhuhuhuh! 3. Mexe seu corpo Cabal e Keizz (2006) Casa cheia, fila na porta O carro para, a gente chega, a fila já corta 10 ou mais, tudo VIP Sabe como a gente faz, você viu o clipe E eu vejo que ela quer celebrar Na pista de dança, enquanto a gente bebe no bar Ela não cansa, ela quer requebrar Então dança, mexe seu corpo até se quebrar Ela olhou pra mim Ela piscou quando viu minha corrente brilhando tipo (bling) Olha, eu sou assim Se gostou, demorô, porque eu tô afim 211 Bem te quer, sabe quem te quer Tá quente né? Mexe seu derriere Você é sexy, quando mexe o ombrinho Então mexe, mexe só um pouquinho, ma Mexe seu corpo, mas mexe até se quebrar Me deixa loco quando seu joelho dobra, ma Mexe seu corpo, mas mexe até se quebrar Então manobra seu corpo, rebola, mãos a obra (Você quer que eu mexa, eu mexo) (Você quer que eu desça, eu desço) (Quer beijar minha boca, eu deixo) Que coisa loca, ma, faz do começo Na fé com o meu time no mic Com boné do Yankees e no pé Timb ou Nike Bermuda ou calça jeans e camiseta branca Você gostou do estilo, ma, você pode ser franca Acha engraçado o jeito que eu falo Mesmo se não entende nada porque o som tá no talo (O que você falou?) Eu falei que eu abalo Quando eu chego e levo "sábado à noite no embalo" Mexe seu corpo, mamacita Mas mexe até se quebrar, você me excita Você a mais bonita, você não acredita Quer que eu faça a parte 2 da "Senhorita"? Só pra provar o que eu sinto Quero te provar, eu quero tirar o seu cinto Quero te pegar e te levar lá fora Te levar embora, te levar agora, ma Mexe seu corpo, mas mexe até se quebrar Me deixa loco quando seu joelho dobra, ma Mexe seu corpo, mas mexe até se quebrar Então manobra seu corpo, rebola, mãos a obra (Você quer que eu mexa, eu mexo) 212 (Você quer que eu desça, eu desço) (Quer beijar minha boca, eu deixo) Que coisa loca, ma, faz do começo Hotel, motel Vem comigo que eu te levo pro céu (Eu vou, eu dou) O que? (Minha mão, me leva que eu tô) (Esperando só você me chamar) Então demorô, mas depois não vem me falar Que quer namorar, por favor, guarda o papo Que eu guardo o seu telefone nesse guardanapo (Você quer que eu mexa, eu mexo) (Você quer que eu desça, eu desço) (Quer beijar minha boca, eu deixo) Que coisa loca, ma, faz do começo 4. Amor de chocolate Naldo (2007) Vodka ou água de coco Pra mim tanto faz Gosto quando fica louca e cada vez eu quero mais Cada vez eu quero mais Whisky ou água de coco Pra mim tanto faz Eu já tô cheio de tesão e cada vez eu quero mais Cada vez eu quero mais 1, 2, 3, 4 Pra ficar maneiro joga o clima lá no alto Alto, em cima, alto, em cima Alto, em cima, alto, em cima Em cima, em cima, em cima, em cima (2x) 213 Eu não tô de brincadeira Eu meto tudo, eu pego firme pra valer Chego cheio de maldade, eu quero ouvir você gemer Eu te ligo e chega a noite, vou com tudo e vai que vai Tem sabor de chocolate o sexo que a gente faz Corpo quente, tô suado, vem melar e vem lamber Só o cheiro, só o toque já me faz enlouquecer Já me faz enlouquecer 5. Dança do créu Mc Créu (2008) É creu é creu neles é creu nelas Bora que vamos, bora que vamos. Pra dançar creu tem que ter disposição Pra dançar creu tem que ter habilidade Pois essa dança ela não é mole não Eu venho te lembrar são cinco velocidades Pra dançar creu tem que ter disposição Pra dançar creu tem que ter habilidade Eu venho te lembrar que ela não e mole não Eu venho te falar que são cinco velocidades A primeira é devagarzinho, e só aprendizado hein É assim o... Creeeuuucreeeuuucreeeuuu se ligou de novo creeeuuu creeeuuucreeeuuu Número dois Creeuucreeuucreeuucreeuucreeuucreeuu, continua fácil né, de novo creeuucreeuucreeuucreuucreeuu creeuu Número três Creuucreuucreuucreuucreuucreuucreuucreuucreuu creuucreuucreuu tá ficando dificil hein.. Creuucreuu 214 creuucreuucreuucreuucreuucreuucreuucreuucreuu creuu .. Agora eu quero ver na quatro hein Creu tá aumentando mané creu creucreucreucreu creucreucreucreucreucreucreucreucreu .. Segura dj vou confessar a vocês que eu não consigo a número cinco hein dj velocidade cinco na dança do creeuu.. creu creucreucreucreucreucreucreucreucreucreu creucreucreucreucreucreucreucreucreucreucreu 6. Até mais ver Pedrinho et al. (2008) Se eu morasse aqui pertinho nega Todo dia eu vinha te ver E trazia um par de cheiro nega Pra derramar em você Bota o teu vestido longo nega Venha antes de chover Bota o teu vestido novo nega, se tirar me dar prazer E quando chego no riacho Vou metendo a mão por baixo e arrancando o girassol Canto sempre um belo xote, dou um cheiro no cangote Por baixo do lençol Já se foi a Lua cheia já é meia noite e meia Até logo, até mais ver Se eu morasse aqui pertinho nega Todo dia eu vinha te ver 7. Chora, me liga Coelho (2009) 215 Não era pra você se apaixonar Era só pra gente ficar, Eu te avisei Meu bem eu te avisei. Você sabia que eu era assim Paixão de uma noite Que logo tem fim Eu te falei Meu bem eu te falei Não vai ser tão fácil assim Você me ter nas mãos Logo você Que era acostumada a brincar com outro coração Não venha me perguntar Qual a melhor saída Eu já sofri muito por amor Agora eu vou curtir a vida Chora, me liga Implora o meu beijo de novo Me pede socorro Quem sabe eu vou te salvar Chora, me liga Implora pelo meu amor Pede por favor Quem sabe um dia eu volto a te procurar 8. Glamourosa Mc Marcinho (2011) Glamourosa, rainha do funk Poderosa, olhar de diamante Nos envolve, nos fascina, agita o salão 216 Balança gostoso requebrando até o chão(2x) Se quiser falar de amor Fale com o Marcinho Vou te lambuzar Te encher de carinho Em matéria de amor Todos me conhecem bem Vou fazer tu vibrar no meu estilo vai e vem Minha catita doida Vou te dar beijo na boca Beijar teu corpo inteiro Te deixar muito louca Vem, vem dançar, empine o seu popozão Remexe gostoso e vai descendo até o chão Glamourosa, rainha do funk Poderosa, olhar de diamante Nos envolve e nos fascina, agita o salão Balança gostoso requebrando até o chão Pretinha, moreninha, russa e loirinha Me deixa doidinho quando dança a tremidinha O funk do meu rio se espalhou pelo Brasil Até quem não gostava quando ouviu não resistiu Mulheres saradas, lindas deslumbrantes Corpo de sereia, olhar bem excitante Se tu não curte o funk pode crê tá de bobeira Bote uma beca esperta e se junte a massa funkeira Glamourosa, rainha do funk Poderosa, olhar de diamante Nos envolve e nos fascina, agita o salão Balança gostoso requebrando até o chão 9. Vem dançar com tudo Moura e Krizz (2012) 217 Quero ver todo mundo balançando! Ninguém pode ficar parado! É só loucura! Mexe, remexe mãos pra cima! Mexe, remexe com tudo! Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oi Vem pra quebrar com tudo Vamos dançar com tudo! Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oi Seja morena ou loira Vem balançar com tudo! Oi, oi, oi! Vem dançar comigo Seguindo o meu ritmo Quero ver balançar! Todos lado a lado Vai ser toda a noite Vem dançar até cansar! (quebra tudo!) Mexe e remexe (balança!) Que é uma loucura (morena!) Vem ao meu lado (ninguém vai!) Ficar parado (quero ver!) Mexe com tudo (balança!) Que é uma loucura (morena!) Vem ao meu lado (ninguém vai!) Ficar parado Oh, oh, oi, oi, oi, oi, oi, oi, oi Vem pra quebrar com tudo Vamos dançar com tudo! Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oi Seja morena ou loira Vem balançar com tudo! Oi, oi, oi! 218 Vem, vem, vem sabes Bem, bem, que é só dançar! Alegria no ar! Dá-me a tua mão, não me digas não Vem dançar (que ninguém vai parar!) Mexe e remexe (balança!) Que é uma loucura (morena!) Vem ao meu lado (ninguém vai!) Ficar parado (quero ver!) Mexe com tudo (balança!) Que é uma loucura (morena!) Vem ao meu lado (ninguém vai!) Ficar parado Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oi Vem pra quebrar com tudo Vamos dançar com tudo! Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oi Seja morena ou loira Vem balançar com tudo! Oi, oi, oi! A galera, a festa tá bombando! Quero ver todo mundo balançando! Comigo, mexendo! (oi, oi, oi!) Mãos pra cima, quebrando, comigo! Mãos pra cima, quebrando! (festa louca!) Hey, hey, hey, hey, todo mundo! Hey, hey, hey, hey, loucura! Vamos balançar! Mexe, remexe, vamos balançar, quebrando tudo! Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oi Vem pra quebrar com tudo Vamos dançar com tudo! Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oi 219 Seja morena ou loira Vem balançar com tudo! Oi, oi, oi! Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oh! Vem dançar com tudo! Oi, oi, oi, oi, oi, oi, oh! Dançar até cansar! (com tudo!) 10. Assim você mata o papai Nico Andrade (2012) Ai aiaiaiaiai, ai aiaiaiaiaiai... Essa mina tá me olhando Acho que tá dando mole Ela tá me provocando já faz tempo Isso não vai prestar, não vai Ela é maravilhosa Tem um sorriso maroto O que será que ela tá querendo ? Vou chamar pra dançar, Vem cá mulher, vem cá Dançar, comigo agarradinho vem cá Que você vai gostar, ah vai Isso, assim, vem pra mim Que delícia tá gostoso demais, Isso não vai prestar, Beija a minha boca .. Ai, ai, ai, ai, ai, ai assim você mata o papai Ai, ai, ai, ai que boca gostosa eu quero mais Ai, ai, ai, ai, ai, ai assim você mata o papai Ai, ai, ai, ai você tá cheirosa demais 220 11. Empinadinha Magalhães (2013) A gata endoidou, então empina em mim vai A gata endoidou e deu empinadinha em mim A gata endoidou e deu empinadinha em mim Empina em mim, empina, empina, empina, em mim Empina em mim, empina empina empina em mim. Relaxa o som, E quando começa tocar ninguém fica parado. Relaxa o som já tá tocando, Homens e mulheres já tão tudo se pegando. Relaxa o som já tá ligado, E quando começa tocar ninguém fica parado. Relaxa o som já tá tocando com Cristiano Araújo, todo mundo tá dançando. A gata endoidou, deu uma empinadinha em mim A gata endoidou, deu uma empinadinha em mim. Empina em mim, empina empinaempina em mim Empina em mim, empina empinaempina em mim. Agora eu endoidei e também vou fazer com ela Agora eu endoidei e também vou fazer com ela Arrocha nela Arrocha ArrochaArrocha nela Arrocha nela Arrocha ArrochaArrocha nela Arrocha nela Arrocha ArrochaArrocha nela (2x) A gata endoidou e deu uma empinadinha em mim A gata endoidou e deu uma empinadinha em mim Empina em mim, empina empinaempina em mim Empina em mim, empina empinaempina em mim. Agora eu endoidei e também vou fazer com ela Agora eu endoidei e também vou fazer com ela Arrocha nela Arrocha ArrochaArrocha nela 221 Arrocha nela Arrocha ArrochaArrocha nela Arrocha nela Arrocha ArrochaArrocha nela. 12. Não brincar de amor Kaio e Kaciel (2013) Você está chorando porque foi você que escolheu assim Bem que eu te avisei pra tomar cuidado não zombar de mim Te amei demais te dei atenção você me esnobou Agora está chorando tá pagando o preço tá faltando amor Agora está chorando tá pagando o preço tá faltando amor Não tô nem aí eu não vou ligar te deixar sofrer Com o sofrimento talvez algum dia possa aprender Não brincar de amor com alguém que ama não deve brincar Hoje você chora não tô nem aí pode chorar Te amei demais te dei atenção você me esnobou Agora está chorando tá pagando o preço tá faltando amor Agora está chorando tá pagando o preço tá faltando amor Não tô nem ai eu não vou ligar te deixar sofrer Com o sofrimento talvez algum dia possa aprender Não brincar de amor com alguém que ama Não deve brincar Hoje você chora não tô nem aí pode chorar Hoje você chora não tô nem aí pode Chorar Hoje você chora não tô nem aí pode chorar 13. Vira de ladinho Bonde do Vinho (2013) Os muleques são dengoso Vem pra cá tchutchuca linda Os muleques são dengoso O vira de ladinho 222 Levanta a perninha Descendo e subindo Tô perdendo a linha O vira de ladinho Levanta a perninha Descendo e subindo Esse é o malha funk Os muleques são dengoso Vem pra cá tchutchuca linda Os muleques são dengoso O vira de ladinho Levanta a perninha Descendo e subindo Tô perdendo a linha O vira de ladinho Levanta a perninha Descendo e subindo Fico tarado Quando vejo o rebolado Dessa mina eu me acabo Ela empina o popozão Dedinho na boca Faz carinha de safada Essa mina é assanhada E tá me deixando doidão Esse é o malha funk Esse é o malha funk Os muleques são dengoso Vem pra cá tchutchuca linda Os muleques são dengoso O vira de ladinho Levanta a perninha Descendo e subindo 223 Tô perdendo a linha O vira de ladinho Levanta a perninha Descendo e subindo Esse é o malha funk Os muleques são dengoso Vem pra cá tchutchuca linda Os muleques são dengoso O vira de ladinho Levanta a perninha Descendo e subindo Tô perdendo a linha O vira de ladinho Levanta a perninha Descendo e subindo Na hora do rala e rola Não existe preconceito Vem pra cá tchutchuca linda Que eu vou fazer do teu jeito 14. Cê topa? Luan Santana (2014) Já pensou, se a gente for Um pouco mais ousado nesse nosso lance? Já pensou transformar Nossa amizade num lindo romance? Presta atenção em tudo que a gente faz Já somos mais felizes que muitos casais Desapega do medo e deixa acontecer Eu tenho uma proposta para te fazer (escuta aqui) Eu, você, dois filhos e um cachorro Um edredom, um filme bom no frio de agosto 224 E, ai, cê topa? Eu, você, dois filhos e um cachorro Um edredom, um filme bom no frio de agosto Diz aí “cê topa”? Presta atenção em tudo que a gente faz Já somos mais felizes que muitos casais Desapega do medo e deixa acontecer Eu tenho uma proposta para te fazer Eu, você, dois filhos e um cachorro Um edredom, um filme bom no frio de agosto E, ai, cê topa? Eu, você, dois filhos e um cachorro Um edredom, um filme bom no frio de agosto Diz aí “cê topa?” 15. Calma Luan Santana (2014) Não chore mais, sorria amor Eu trouxe o fim da sua dor Não chore nunca mais amor, ôô Eu sou o Sol cercando a chuva Do seu olhar sou eu quem cuida E te peço por favor Não chore nunca mais amor Calma a sua insegurança não te leva a nada Eu quero ser seu homem te fazer amada Amar amar você até você se amar, e me amar Calma a sua insegurança não te leva a nada Eu quero ser seu homem te fazer amada Amar amar você até você se amar, e me amar Calma Eu sou o Sol secando a chuva 225 Do seu olhar sou eu quem cuida E te peço por favor Não chore nunca mais amor Calma a sua insegurança não te leva a nada Eu quero ser seu homem te fazer amada Amar amar você até você se amar, e me amar Calma a sua insegurança não te leva a nada Eu quero ser seu homem te fazer amada Amar amar você até você se amar, e me amar Calma a sua insegurança não te leva a nada Eu quero ser seu homem te fazer amada Amar amar você até você se amar, e me amar Calma