UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
Especialização Lato Sensu em Comunicação:
Processos Comunicativos e Dispositivos Midiáticos
Hugo Rafael Souza Rocha
ANA PAULA VALADÃO E DIANTE DO TRONO NO FAUSTÃO:
um acontecimento e a reconfiguração do campo religioso brasileiro
Belo Horizonte
2012
Hugo Rafael Souza Rocha
ANA PAULA VALADÃO E DIANTE DO TRONO NO FAUSTÃO:
um acontecimento e a reconfiguração do campo religioso brasileiro
Monografia apresentada ao curso de Especialização
Lato Sensu em Comunicação: Processos
Comunicativos e Dispositivos Midiáticos, da
Universidade Federal de Minas Gerais, como
requisito para obtenção de título de Especialista em
Comunicação.
Orientadora: Profa. Dra. Luciana de Oliveira
Belo Horizonte
2012
1. Introdução
O interesse em realizar esta pesquisa surgiu de uma inquietação pessoal, advinda de
observações feitas nos últimos anos: o aumento da execução de músicas religiosas em
programas de televisão, acompanhado da presença cada vez mais frequente de cantores
religiosos nesses mesmos produtos midiáticos de grande alcance. Antes restritos aos
ambientes religiosos, esses artistas conquistaram espaço em programas de alcance massivo,
denotando algumas mudanças: na composição do quadro religioso brasileiro; na relação
desses programas televisivos com o meio gospel e com o próprio público; na forma de
tratamento dispensada pelas grandes corporações comunicativas às figuras públicas do meio
cristão; na própria imagem/caracterização trazida pelos artistas evangélicos nestes ambientes
antes de se apresentarem.
A intenção é observar tais participações sob a ótica do conceito de acontecimento, no
sentido proposto por Louis Quéré, conforme a formulação de França e Almeida (2008, p. 20):
“o acontecimento se mede pela sua capacidade objetiva de afetar, por aquilo que de fato ele
traz como potencial de mudança, e pela maneira como se insere no domínio da vida e das
práticas sociais”. Em outras palavras, vamos procurar elucidar como tais participações podem
ser entendidas como fruto de um acontecimento mais amplo: a reconfiguração do campo
religioso brasileiro, especialmente a partir da década de 1970.
Nesse contexto de exposição da música e de artistas religiosos na televisão brasileira,
destaca-se a aparição do grupo evangélico de Belo Horizonte, Diante do Trono. Nosso
interesse volta-se de forma mais atenta para a líder do grupo, a pastora e cantora Ana Paula
Valadão, cuja aparição em programas de auditório e telejornais da Rede Globo, suscitou-nos
outra percepção: a líder religiosa é apresentada ao público, nos discursos dos apresentadores,
por meio de sua imagem pública, com discursos próximos aos utilizados para introduzir e
apresentar artistas populares, considerados celebridades. Destaque para a construção do
discurso, a valorização do carisma, a escolha de músicas de sucesso.
Grande parte das pesquisas cuja temática é o meio evangélico, conforme lembra
Mariano (1999), tem se caracterizado por uma visão determinista, assumindo uma polarização
entre crítica excessiva e posição defensiva. Dessa maneira, a referida pesquisa se justifica no
sentido de fugir de tais modelos, uma vez que busca perceber, sem valorar, as nuances de um
fenômeno antigo (a música evangélica) em um novo posicionamento, bem mais próximo do
público em geral.
Diante do exposto – e tendo como luz o conceito de acontecimento –, pretendemos
elucidar como a apresentação de Ana Paula Valadão e do Diante do Trono no programa
Domingão do Faustão, da Rede Globo, se insere no campo problemático suscitado pela
alteração sofrida pelo campo religioso nacional, percebendo como se dá o olhar da mídia
sobre Ana Paula, sobre o grupo e sobre o público.
2. Acontecimento e celebridade: algumas definições
2.1 O caráter hermenêutico e a dupla vida do acontecimento
Em nossa vida, individual e coletiva, somos confrontados com acontecimentos das
mais diversas naturezas. Há acontecimentos espontâneos, que surgem sem que sequer
esperemos, mas há também aqueles devidamente pensados e planejados, incluindo aqueles
sobre os quais exercemos controle com determinado objetivo e/ou expectativa (QUÉRÉ,
2005). A respeito dos acontecimentos, há também:
[...] aqueles que se produzem devido às modificações que, em permanência, atingem
as coisas e aqueles que nos sucedem. Há aqueles que ocorrem no dia-a-dia sem que
lhes atribuamos um valor particular e aqueles que se revestem de especial
importância. Que são mais marcantes, ao ponto de poderem tornar-se referência
numa trajectória de vida, individual ou colectiva, na medida em que correspondam a
experiências memoráveis e, até mesmo, a rupturas e a inícios (QUÉRÉ, 2005, p. 59).
Apesar de a nossa vida ser permeada por acontecimentos, não são todos que ganham
espaço na mídia. Na perspectiva do sociólogo francês Louis Quéré (1997), citado por Simões
(2011), aqueles que nos são apresentados pela mídia “não são as imagens puras e simples do
que ocorre no mundo” (p. 2). Para o autor, esses acontecimentos são fruto de “um processo
socialmente organizado, e socialmente regulado, de dar forma a, de encenar e de dar sentido
às informações” (QUÉRÉ [1997], citado por SIMÕES, 2012, p. 2). Nesse sentido, é
necessário considerar que todo acontecimento tem o poder de causar afetação, em diferentes
medidas, tanto no mundo quanto naqueles que entram em contato com ele, sendo essa uma
forma de mensurá-lo: “O acontecimento se mede pela sua capacidade objetiva de afetar, por
aquilo que de fato ele traz como potencial de mudança, e pela maneira como se insere no
domínio da vida e das práticas sociais” (FRANÇA; ALMEIDA, 2008, p. 20).
Em sua análise, Quéré (2005) chama atenção para a necessidade de se tratar o
acontecimento como um “fenómeno de ordem hermenêutica”, considerando-se o seu poder de
intervenção na experiência. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que o acontecimento pede
para ser compreendido – por meio de causas –, ele também é responsável por fazer
compreender as coisas, o que, para o pesquisador, atribui ao acontecimento “um poder de
revelação”. O acontecimento, nessa perspectiva, carrega o potencial de revelar e apontar
novas situações problemáticas ou ainda situações que demandem soluções e intervenções.
Para Quéré (2005), “o acontecimento apresenta [...] um carácter inaugural, de tal forma que,
ao produzir-se, ele não é, apenas, o início de um processo, mas marca também o fim de uma
época e o começo de outra” (p. 60).
Antes se restringir à ordem daquilo que apenas ocorre, o acontecimento está naquilo
que acontece a alguém; e, para Quéré (2005), ao afetar uma pessoa, o acontecimento suscita
também respostas e reações. Ainda nessa perspectiva, ao introduzir algo de novo ou de
inédito, o acontecimento altera, em alguma medida, o mundo como nós o conhecemos;
independentemente de sua importância ou previsibilidade, sua ocorrência sempre fará emergir
algo novo.
Quando se verifica um acontecimento, torna-se possível, por meio dele, perceber um
contexto e também a dimensão do passado, que só passa a existir a partir do acontecimento.
Segundo Quéré (2005), esse passado é relativo ao acontecimento, e também exclusivo dele e
da “maneira pela qual ele é percebido, identificado e descrito” (p. 62). Para o autor, é ao
provocar novos sentidos que o acontecimento torna possível compreender o seu passado e o
seu contexto, evidenciando o seu potencial de revelar e fazer descobrir.
Outro aspecto que merece atenção para compreensão do conceito de acontecimento
proposto por Quéré (2005) é a passibilidade, ou seja, a suscetibilidade que o indivíduo tem de
ser afetado, de sofrer o acontecimento. Para o autor, a passibilidade permite também a
individualização do acontecimento, que, nesse sentido, pode:
[...] atingir sujeitos, individuais ou colectivos, fazer vítimas e sobreviventes,
provocar, nos indivíduos e nas colectividades, sensações, emoções e reacções,
satisfazer ou desiludir, alegrar ou horrorizar, satisfazer ou desesperar, aterrar ou
traumatizar, alterar as “vivências” para o bem ou para o mal, resolver a situação das
pessoas ou colocar-lhes novos problemas (QUÉRÉ, 2005, p. 67).
O processo de individualização do acontecimento se dá em etapas, por meio de um
percurso interpretativo composto por três aspectos centrais: 1) a escolha de uma descrição, 2)
a construção de uma narrativa, 3) a normalização, que reduz a indeterminação do
acontecimento e o torna passível de ser comparado a outros acontecimentos da mesma ordem
(QUÉRÉ [1995], citado por SIMÕES, 2011, p. 4). Por meio da afetação nos indivíduos a ele
relacionados, o acontecimento, ao suscitar esses novos problemas apontados por Quéré,
projeta também novo sentido sobre o mundo, sendo ele mesmo a origem desse novo sentido.
Dessa forma, por meio de sua individualização, o acontecimento não fica restrito ao momento
da ocorrência, mas continua a ocorrer enquanto for capaz de produzir efeitos sobre aqueles
que por ele são afetados. Ao ser afetada, no entanto, “uma pessoa não se limita a suportar o
acontecimento, responde-lhe” (QUÉRÉ, 2005, p. 68). Na perspectiva desenvolvida pelo autor,
esses efeitos – e também suas respostas – são vistos na ordem do sentido, e não na ordem
causal, o que só é possível observar por meio da consideração de que o acontecimento
acontece a alguém, não sendo um fato isolado da experiência. Nas palavras de Quéré (2005),
o “acontecimento é sempre uma porção do mundo de que se faz a experiência” (p. 70). Além
disso, “ele depende de nós: podemos compreendê-lo de outra maneira, fazer dele um outro
acontecimento e reconfigurá-lo através da maneira como o apropriamos” (p. 69).
A importância do acontecimento está nas suas consequências, pela forma como
participa da vida social e a transforma, afetando também o comportamento daqueles que o
sofrem (FRANÇA; ALMEIDA, 2008). Dessa forma,
Em face do acontecimento, os sujeitos se colocam em exame, problematizando as
percepções que têm de si mesmos e do mundo, tensionando e atualizando juízos e
pontos de vista. Sujeitos não apenas sofrem um acontecimento: eles o enfrentam e
oferecem respostas, transformando-se e transformando sua visão de mundo a partir
da confrontação estabelecida (FRANÇA; ALMEIDA, 2008, p. 6).
Junto aos apontamentos sobre o caráter hermenêutico do acontecimento, Quéré (2012)
também distingue o acontecimento em dois momentos: o acontecimento existencial e o
acontecimento-objeto. O primeiro representa as “mudanças contingentes que se produzem
concretamente no nosso entorno” (QUÉRÉ, 2012, p. 24), enquanto o segundo representa
objetos que podem ser de consciência, pensamento, discurso, investigação ou julgamento.
Ao acontecimento existencial, segundo Quéré (2012), a primeira reação do indivíduo
seria a de adaptar-se, por meio de “reações espontâneas, baseadas nos hábitos, na percepção
direta e na emoção” (p. 24). Dessa forma, o acontecimento existencial não se encontra isolado
do entorno e, por isso mesmo, não pode ser visto e observado como objeto. O acontecimento-
objeto, para o autor, é aquele que é encarado como uma “ocorrência recortada”, que se
apresenta isolada do próprio contexto. Dessa maneira, tal acontecimento suscitaria nossa
atenção, em uma busca pelo seu conteúdo e, mais ainda, pela sua significação. Na perspectiva
de Quéré, as duas formas coexistem na experiência, sendo passíveis de serem transformadas,
quando existenciais, em acontecimentos-objeto. Esses, por sua vez, assumem o lugar do
acontecimento-existencial e são passíveis de identificação, compreensão, explicação e
avaliação, por isso mesmo sendo produzidos pela comunicação.
Mais do que anunciar os acontecimentos, nomear e dar a cada um deles uma
identificação ou categorização, a comunicação, para Quéré (2012), os controla, atenuando os
seus efeitos e tornando-os objeto de julgamento. Para o autor,
Os acontecimentos não são, em primeiro lugar, representações, mas mudanças
existenciais apreendidas sob o aspecto do seu happening e experimentadas
simultaneamente sob o prisma de suas qualidades imediatas e de seu
condicionamento externo. E a experiência do acontecimento é uma experiência de
tais mudanças, combinando as dimensões do afeto, do conhecimento e da prática. A
percepção imediata dessas mudanças não as representa; elas é que são efetivamente
percebidas e experimentadas. Mas a experiência do acontecimento é também uma
experiência de acontecimentos-objeto que solicitam nossa atenção em diversos
graus. A recepção desses acontecimentos configurados no universo do discurso não
deixa de ocorrer no domínio da experiência (QUÉRÉ, 2012, p. 37).
É, portanto, na experiência, e por meio do poder de afetação, que o acontecimento se
constitui. Sua distinção, nesse sentido, reside na maneira como ele entra na experiência de
alguém, causando rupturas e transformações. “O acontecimento é desorganizador; ele abala
pontos de vista estabilizados e suscita novos arranjos” (FRANÇA; ALMEIDA, 2008, p. 2).
Em suas formulações teóricas sobre o acontecimento, Quéré faz uso da noção de
campo problemático, presente na obra de seu conterrâneo, o filósofo Gilles Deleuze. Segundo
Quéré (2005), além do seu poder de esclarecimento, o acontecimento também possui um
“sentido discriminatório”, o que implica dizer que, por meio da sua observação, é possível
identificar de qual campo ele faz parte, além de perceber a situação na qual o acontecimento
está inserido, em relação a um problema pesquisado. Para Reis e Marques (2007),
O campo problemático pode ser definido como a dimensão onde se produz a
observação do acontecimento, procurando-se perceber que sentido esse último
possui em relação a uma situação compreendida em sua totalidade. Ele circunscreve,
então, “o domínio sob o qual podemos ver a tipicidade de um dado acontecimento,
encontrar acontecimentos comparáveis, identificar causas e efeitos, definir a
situação, construir um passado e um futuro e, assim, estruturar o campo prático
associado ao acontecimento” (Quéré,1995, p.104) (REIS; MARQUES, 2007, p. 4).
Do outro lado, segundo os autores, estaria o campo prático, que define quem é afetado
pelo acontecimento e também a forma como se dá essa afetação, bem como possíveis formas
de entendimento, ação e resolução de problemas vinculados ao acontecimento. A situação do
acontecimento em um campo problemático seria, nessa perspectiva, parte do processo de
enquadramento de um acontecimento, aliada à sua definição, configurando-se como aquilo
que pode apontar “possíveis desdobramentos em um campo prático de busca por soluções”
(REIS; MARQUES, 2007, p 4). Para Lana e França (2008), “o campo problemático aberto
pelo acontecimento exige uma investigação que vai levar ao sentido produzido” (p. 5).
As noções de acontecimento e de campo problemático aqui apresentadas se justificam
na medida em que pretendemos perceber a visibilidade alcançada pela música evangélica nos
últimos anos como acontecimento inserido em um campo mais amplo, em que se pode
observar a reconfiguração do campo religioso brasileiro a partir dos anos 1970. Nossa
perspectiva pretende entender o surgimento e a formação do grupo Diante do Trono a partir
desse campo problemático, com enfoque no fortalecimento da imagem pública de sua líder,
Ana Paula Valadão, cuja presença e exposição nos aparatos midiáticos despertam o nosso
interesse. Dessa forma, trataremos no tópico seguinte dos conceitos de personagem e imagem
pública, bem como de celebridade.
2.2 Personagem pública, imagem pública e celebridade
A vida de uma personagem pública, tal qual a vida de cada pessoa comum, é permeada
de ocorrências diversas, que vão desde fatos ligados à vida pessoal até aqueles relativos à sua
atuação profissional. Por meio dessa perspectiva, Lana e Simões (2012) acreditam que há uma
associação entre acontecimentos e pessoas públicas, que atuam em alguns momentos como
protagonistas e, em outros, como “agentes secundários” na relação com esses acontecimentos
em sua vida pública. Personagem pública, segundo as autoras, é aquela que possui “um rosto
específico”, passível de ser identificado dentre as demais pessoas. Ela “pode ser identificada
por meio de enredos e imagens de um ‘eu’ específico, que ficam disponíveis de maneira
publicizada para um grande número de indivíduos” (LANA; SIMÕES, 2012, p. 213).
A disponibilidade de narrativas sobre personagens públicas, na vida contemporânea, é
cada vez maior. Nesse espaço de visibilidade proporcionado pela mídia, personagens como
esportistas, modelos e participantes de reality shows coexistem com “figuras públicas
tradicionais”, representadas por políticos, porta-vozes e, entre eles, os líderes e figuras
religiosas (LANA; SIMÕES, 2012). Cabe aqui ressaltar a importância dos meios de
comunicação no processo de construção dos acontecimentos e também da própria vida social.
Em relação à imagem pública, Simões (2011) acredita que a mídia contribui para configurar
as imagens públicas das celebridades:
A imagem pública, por sua vez é entendida como um complexo simbólico que
caracteriza um indivíduo ou grupo. Ela é constituída a partir dos posicionamentos
assumidos por uma figura pública e pelas relações entre esta e outros atores na vida
social. Na sociedade mediatizada, esse complexo é, em grande medida, constituído
pela mídia (SIMÕES, 2011, p. 14).
Celebridades, na perspectiva de Marshall ([1997] citado por Simões, 2009), são
aquelas personagens públicas que ocupam o espaço de visibilidade da mídia e, aliado a isso,
são construídas por meio do discurso. Para Simões (2009), não é possível pensar em
celebridades como “entidades pré-estabelecidas”, uma vez que elas surgem por meio de
diferentes interações, que envolvem, além delas – “estrelas em potencial” –, também os
indivíduos, a mídia e o contexto social, no qual “se localizam aqueles atores sociais que
alçarão o lugar da fama” (SIMÕES, 2009, p. 76). A autora ainda ressalta a importância de
considerar que a construção da imagem pública de uma celebridade não se dá apenas por meio
da mídia, sendo fundamental pensar em um processo relacional: “é na interlocução entre
mídia e sociedade que a imagem pública é constituída, controlada e atualizada” (SIMÕES,
2011, p. 6-7). Outra consideração importante acerca da imagem pública é a sua constante
construção. De acordo com Gomes (2004), citado por Simões (2011), a “imagem pública não
é uma entidade fixa, definitiva, sempre igual a si mesma e assegurada para todos os seres
reais” (p. 6).
A clássica noção de carisma, desenvolvida por Max Weber, também pode ser acionada
para a compreensão da construção da imagem pública de uma celebridade. Carisma, para o
sociólogo alemão, é o conjunto de “dons específicos do corpo e do espírito, [...] não acessíveis
a todos” (Weber [1982], citado por SIMÕES, 2012, p. 424). Além do caráter pessoal do
carisma, constituído pelas qualidades e dons do indivíduo carismático, Simões (2012) ressalta
a importância da dimensão social, que exige o reconhecimento dos dons pelas pessoas
comuns, a fim de se submeterem à pessoa carismática. Na perspectiva da autora, “é esse
reconhecimento que impulsiona a ‘devoção afetiva’ (Weber, 1979) dos sujeitos em relação ao
líder carismático” (SIMÕES, 2012, p. 424). As pessoas públicas portadoras de carisma
ofereceriam os seus dons em troca de reconhecimento e atribuição de valor por parte do outro.
Nesse sentido, tais personagens, a fim de ampliar seu alcance junto aos demais, ofereceriam
habilidades socialmente valorizadas como dons (LANA, 2012, p. 84).
Por fim, outra abordagem que utilizaremos em nossa análise diz respeito a dois
estatutos de personagem pública. O primeiro seria formado por pessoas que correspondem ao
próprio acontecimento, ou seja, as ocorrências de suas vidas ocupam as discussões cotidianas,
alimentam a mídia, tornando possível pensar a própria celebridade como acontecimento. O
outro estatuto se refere a pessoas que ganham notoriedade por meio de acontecimentos,
obtendo destaque e visibilidade e tornando-se “centro das atenções”, devido à situação de
exposição vivenciada (LANA; SIMÕES, 2012).
No processo de constituição da fama e das várias pessoas públicas ao longo dos
séculos, [...] uma característica é marcante em todos os períodos: a experiência de (e
com) tais personagens é estruturada e ordenada a partir de acontecimentos (LANA;
SIMÕES, 2012, p. 216).
A análise desenvolvida pelas autoras enquadra as celebridades, por meio desses
estatutos, em duas categorias: a primeira delas é a das celebridades-acontecimento, formada
por pessoas cujas ocorrências da vida pessoal alimentam a mídia, fazendo-nos pensá-las como
o próprio acontecimento, como é o caso de nosso objeto de estudo, a pastora e cantora Ana
Paula Valadão. A segunda categoria compreende celebridades que se originam por meio de
acontecimentos, sendo construídas a partir da visibilidade trazida por esses acontecimentos.
3. Breve passagem histórica
3.1 Recomposição do religioso e do campo religioso brasileiro
A maior visibilidade da música gospel em espaços seculares – midiáticos ou não –,
bem como a mudança na relação dos fiéis (ou não) com os artistas evangélicos, em especial
nos últimos dez anos, não são um fenômeno isolado, mas acompanham outro quadro: o da
reconfiguração do campo religioso brasileiro a partir da década de 1970. Nossa perspectiva
enxerga essa recomposição religiosa como acontecimento, na medida em que o fato de a
adesão à fé católica ter deixado de ser crucial na construção identitária do brasileiro, conforme
aponta o antropólogo francês Pierre Sanchis (1997), inaugura um novo panorama, não só
religioso, mas também social, abrindo espaço, inclusive, para um maior alcance da música
religiosa na sociedade secular. Tal fenômeno de recomposição, marcado pela multiplicação
das denominações evangélicas e, também, de seus seguidores, está inserido em um contexto
ainda mais amplo, da própria reconfiguração do “religioso”. Sanchis (1997) acredita que isso
ganha força em um momento em que “parece instaurar-se, ambígua mas incontestável, senão
uma 'volta do Sagrado', pelo menos a volta a um certo sagrado” (p. 11).
Para Sanchis, a religião diz respeito à ação e à vida, nasce da “efervescência” criadora
do social, e contribui para manter as condições de criação desse social. Nesse sentido,
podemos refletir a respeito da visão do sociólogo francês Durkheim, citado por Sanchis
(1997), para quem a experiência religiosa pode contribuir para que as pessoas superem as
dificuldades da existência, evidenciando seu caráter não apenas espiritual, mas também social:
[...] quando um homem vive da vida religiosa, ele pensa participar de uma força que
o domina mas que, ao mesmo tempo, o sustenta e o eleva acima de si próprio.
Apoiado nela, parece-lhe que pode enfrentar as dificuldades da existência, que pode
até dobrar a natureza e seus desígnios (DURKHEIM, citado por Sanchis, 1997, p.
15).
De acordo com Sanchis (1997), há na sociedade uma “proclamação da necessidade e
da permanência da religião”. Para o autor, é por meio de uma criação e de uma recriação
constantemente renovada do “sagrado” que a sociedade não apenas se expressa, mas também
emerge e se afirma como sociedade, logo, não sendo possível dissociar religião e vida social.
Essa religião emergente na contemporaneidade, fruto da recomposição do “sagrado”, segundo
Sanchis, não deve repetir os modelos religiosos passados, nem mesmo pretender anular a
influência, cada vez mais forte, da razão. Na atual conjuntura social, segundo o autor, urge
uma necessidade de a religião conjugar e conciliar elementos pré-modernos, modernos e pós-
modernos, a fim de garantir a sua existência na contemporaneidade.
Essa reconfiguração do religioso apontada por Pierre Sanchis ocasionou também
mudanças na composição do campo religioso do Brasil. Na primeira metade do século
passado, ser brasileiro passava quase que inevitavelmente pela assimilação e pela consequente
confissão da fé em Deus mediada pela Igreja Católica. Naquele momento da história, segundo
Sanchis (1997), um fiel presbiteriano, batista ou pentecostal, a título de exemplo, sentia-se
exilado em um espaço cultural estranho e, por vezes, até mesmo hostil. Esse domínio católico,
o qual o autor denomina “monolitismo”, hoje não pode mais ser observado no país – com
exceção, talvez, de Minas Gerais, principalmente em cidades do interior, onde o cenário
religioso ainda é majoritariamente católico –, onde o pluralismo religioso institucional é
notadamente visível: basta caminhar pelas ruas das cidades brasileiras e notar a variedade de
placas de denominações evangélicas, principalmente pentecostais e neopentecostais. De
acordo com dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a
população católica no Brasil diminuiu de 73,6% no ano 2000 para 64,6%. Os evangélicos, que
eram 15,4%, hoje representam 22,2% da população. Dentre eles, os pentecostais foram os que
mais cresceram: passaram de 10,4% em 2000 para 13,3% em 2010 (ver Anexo I).
Outro fenômeno apontado por Sanchis em “As religiões dos brasileiros” (1997) é a
alteração na forma de relacionamento do indivíduo com a religião. Para ele, é preciso
observar também “as maneiras diversas de aderir a esses consensos, de pertencer a esses
coletivos, de compartilhar dessas visões do mundo e de adotar a orientação desses etos” (p.
29). Conforme destaca o autor, hoje as pessoas podem aderir a uma determinada religião sem
necessariamente assimilar tudo o que lhe é proposto, daí a diversidade nas formas de se
relacionar inclusive com os artistas religiosos, o que abre espaço para novas formas de
assimilação e consumo da música religiosa, em meios midiáticos ou não.
Também merece destaque, segundo Sanchis (1997), a diversidade do protestantismo
histórico brasileiro, que fica um tanto apagada diante da efervescência das denominações
pentecostais, que tendem a apresentar as denominações evangélicas como portadoras de
pouca pluralidade. Para o autor, é preciso fugir da observação simplista de que haveria apenas
uma troca de religião, do catolicismo ao pentecostalismo; em muitos segmentos sociais
populares, essa mudança representa o trânsito entre duas culturas: a tradicional, representada
por manifestações religiosas históricas católico-afro-brasileiras, e a moderna, da escolha
individual, percebida na mudança de opção religiosa de parte significativa da população.
Mediante a exposição feita até aqui, cabe ressaltar que estudos mais recentes nas
Ciências Sociais não têm ignorado essa recomposição do quadro religioso brasileiro. De
acordo com Oliveira (2000), o estudo de temáticas relacionadas às religiões ganha cada dia
mais relevância no meio acadêmico. Em primeiro lugar, segundo a autora, por questões de
ordem empírica, em função do surgimento de novas formas de expressão da espiritualidade.
Outro ponto destacado por ela seria o maior interesse da academia por estudos sobre essas
temáticas, principalmente no que tange à sua relação com a vida social e com a experiência
midiática. Para a autora, “esses fenômenos começam a ser alardeados para o grande público
através dos meios de comunicação de massa, com incessantes matérias em revistas, jornais e
televisão” (OLIVEIRA, 2000, p. 8). Por fim, na perspectiva da autora, há que se considerar,
nas análises dessa temática, a intersecção entre as esferas econômica e religiosa, bem como as
fronteiras entre liderança religiosa e celebridade.
Essa recomposição do campo religioso brasileiro aqui apresentada abriu espaço para o
crescimento das denominações evangélicas. Sendo a vertente neopentecostal a que mais
cresceu nas últimas décadas, segundo Mariano (1999), é importante perceber a influência de
características suas – como o espaço dado às manifestações artísticas, como a música e a
dança, e o uso da mídia como meio de evangelização (para ficar naqueles que, aqui, nos
interessam) – em outras denominações. Para isso, trataremos nos tópicos a seguir da formação
do Diante do Trono e do perfil de sua líder, Ana Paula Valadão.
3.2 O Diante do Trono
O Ministério de Louvor Diante do Trono foi criado no ano de 1998, em Belo
Horizonte, sob a liderança da pastora e cantora da Igreja Batista da Lagoinha, Ana Paula
Valadão. Em 15 anos de existência, o grupo lançou mais de 30 álbuns e vendeu mais de sete
milhões de cópias. Desde 2010, o grupo faz parte do casting da gravadora Som Livre. O
primeiro trabalho do grupo foi gravado em 31 de janeiro de 1998, com a presença de cerca de
sete mil pessoas. Sob o título Diante do Trono, o CD foi responsável por dar nome ao grupo.
Desde então, a banda grava um trabalho por ano pertencente à série Diante do Trono
(atualmente no número 15), entre outros projetos.
Desde 2002, em Brasília, quando o grupo obteve recorde de público em evento
realizado na capital federal, com 1,2 milhões de pessoas presentes ao evento, as gravações são
realizadas em diferentes cidades do país. O maior público foi obtido no ano de 2003, no
Campo de Marte, em São Paulo, quando cerca de dois milhões de pessoas compareceram à
gravação do sexto álbum da série Diante do Trono. Além de já ter feito shows em todos os
estados brasileiros, o grupo contabiliza dezenas de viagens internacionais a países como
Estados Unidos, Israel, Rússia, Turquia, Suíça, Alemanha, Inglaterra, Polônia, Albânia,
Indonésia, Guatemala, Japão, Itália e Finlândia.
3.3 Quem é Ana Paula Valadão
Ana Paula Machado Valadão Bessa nasceu em Belo Horizonte, no dia 16 de maio de
1976, filha de Márcio Roberto Vieira Valadão, pastor presidente da Igreja Batista da
Lagoinha, e de Renata Machado Valadão. É a mais velha de três irmãos, seguida pelo irmão
André e pela caçula Mariana. Casada com Gustavo Bessa, Ana Paula é mãe de dois filhos:
Isaque e Benjamim. Além de cantora, é compositora, pastora, escritora e, eventualmente,
apresenta programas de televisão.
Antes de se tornar pastora e de resolver se dedicar totalmente às atividades da igreja,
Ana Paula começou a estudar Direito, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), até
1996, ano em que resolveu abandonar o curso para se dedicar ao estudo de teologia no Christ
for the Nations Institute – escola sediada nos Estados Unidos que tem o objetivo de formar
líderes de equipes de música para igrejas evangélicas.
4. Ana Paula Valadão e Diante do Trono no Faustão: participação e reverberações
A análise que aqui pretendemos parte da premissa de que o grupo Diante do Trono e,
em especial, a sua líder Ana Paula Valadão, no status de personagem pública, podem ser
percebidos como ocupantes de lugar de destaque no que se refere à exposição e à presença em
produtos midiáticos, situados no campo problemático instaurado por meio da reconfiguração
do campo religioso brasileiro. Essa alteração significativa na composição religiosa nacional
abriu espaço para a exposição da música gospel em cenários/ambientes não-religiosos, sendo
o Diante do Trono, sob liderança de Ana Paula, um dos precursores dessa nova fase da música
evangélica. Em entrevista ao portal Lagoinha.com1, o hoje cantor de música gospel Lázaro
afirmou que Ana Paula “foi usada pra mudar a história da música evangélica no nosso país”.
Para o ex-integrante do grupo cultural baiano Olodum, Ana Paula representa o início de uma
nova fase do evangelho no Brasil e teria sido por meio do crescimento do Diante do Trono
que muitos outros artistas do meio gospel teriam se desenvolvido e alcançado destaque.
Sob essa ótica, vamos observar a participação de Ana Paula Valadão, e do grupo
Diante do Trono, no programa Domingão do Faustão, por meio dos processos centrais
apontados por Quéré (1995), citado por Simões (2011), como fundamentais para a
individualização do acontecimento. Para isso, vamos utilizar cinco etapas, também
empregadas pela autora, em nossa análise. São elas: 1) a descrição, que situa o acontecimento
em um quadro da experiência, permitindo dizer aquilo que ocorreu em determinado contexto;
2) a narração, que nos permite compreender os agentes e ações que configuram o
acontecimento; 3) a estruturação de perspectivas temporais, que nos permite situar o
acontecimento em determinado espaço-tempo; 4) a constituição de um contexto de fundo, que
aponta o contexto ao qual o acontecimento está ligado, auxiliando em sua compreensão; e 5) a
recepção no quadro de uma experiência, que nos permite observar os públicos que se
configuram em relação ao acontecimento. Antes disso, falaremos de alguns momentos do
programa exibido no dia 24 de outubro de 2010.
4.1 O programa
Integrante desde 2010 do casting da gravadora Som Livre, pertencente às
Organizações Globo, Ana Paula Valadão e o grupo Diante do Trono participaram do
programa Domingão do Faustão na noite do dia 24 de outubro de 2010. Durante 16 minutos, a
líder do grupo esteve no palco da atração ao lado de outros integrantes, cantando sucessos e
respondendo a perguntas do apresentador Fausto Silva e também da plateia.
Como pessoa pública ligada à religião, Ana Paula Valadão, portadora de carisma,
conforme a concepção weberiana, ofereceria seus dons em troca de reconhecimento do
público ordinário. A atribuição de valor ao trabalho da cantora pode ser vista já na abertura da
participação, quando o apresentador Fausto Silva diz que o grupo liderado por ela está
acostumado a grandes públicos, citando alguns como exemplo.
Pode-se perceber, ao longo da participação, um enfoque na líder quando o
1 SANTOS, Adriana. “A música está no meu sangue”. Lagoinha.com, Belo Horizonte, 13/10/2008. Disponível
em .
apresentador, ao convidar o grupo ao palco, diz primeiramente o nome de Ana Paula para,
apenas em seguida, falar o nome do grupo. Em meio à execução da primeira música, o
apresentador repete a citação: Ana Paula Valadão e, depois, Diante do Trono. Durante o
período de entrevista, Ana Paula é questionada a respeito da história do próprio grupo, mas
também sobre questões de cunho pessoal, como o abandono da faculdade de direito para
cursar teologia nos Estados Unidos. Além disso, a cantora aproveita para falar dos efeitos
benéficos da música feita por ela na vida das pessoas, evidenciando o caráter espiritual de seu
trabalho, como algo diferenciado, dotado de uma aura permeada pelo carisma.
Um dos integrantes da plateia a fazer pergunta, identificado como Samuel, de Belo
Horizonte, cumprimenta os integrantes da banda pelo nome, demonstrando ter acompanhado
o grupo desde a sua cidade-natal e denotando conhecimento sobre o grupo. Em sua fala, diz
acompanhar o trabalho do grupo desde criança, o que evidencia o sucesso do grupo como
fruto de um processo desenvolvido ao longo dos anos, ligado ao processo de reconfiguração
do campo religioso brasileiro. Se antes, segundo Sanchis (1997), ser brasileiro implicava ser
criado na religião católica, hoje isso não mais ocorre, como no caso do jovem, que era levado
pela mãe aos eventos do grupo evangélico desde criança. Além de se dirigir a Ana Paula
como “senhora”, sinal de respeito, enquanto fã, o rapaz pergunta sobre o grupo ser o maior de
música gospel da América Latina, atribuindo valor ao trabalho desenvolvido.
A mudança na forma de se relacionar com a religião apontada por Sanchis (1997)
também pode ser demonstrada em uma das respostas formuladas por Ana Paula a outra
questão da plateia, sobre as normas e proibições impostas pelas igrejas evangélicas. Sanchis
acredita que hoje as pessoas aderem a uma religião sem adotar todas as práticas propostas por
ela: Ana Paula, em sua resposta, diz que os costumes diferentes das igrejas não devem ser
criticados e que, na contemporaneidade, é possível achar uma igreja adequada a cada pessoa.
Outro aspecto percebido é a escolha de duas das canções de maior sucesso de Ana
Paula: Preciso de Ti e Tempo de Festa. Esse tratamento é comumente dispensado a cantores
populares que participam do programa. A escolha da primeira canção, pertencente ao 15°
álbum mais vendido da história do país2, ajuda a demonstrar o aumento da relevância e do
consumo da música evangélica na sociedade brasileira. Nos tópicos a seguir, abordaremos a
aparição de Ana Paula no programa, alinhando tal participação às etapas de individualização
do acontecimento apontadas por Quéré e às formulações acerca dessa participação.
2 RIBEIRO, Tadeu. Preciso de Ti é o 15º álbum mais vendido do Brasil. Portaldt.com, 03/09/2012. Disponível
em .
4.2 Descrição
A participação de Ana Paula Valadão no Domingão do Faustão foi descrita, em
matéria publicada no site Portal DT3, como “um dia muito especial para o gospel nacional”.
Mesmo com outros artistas evangélicos de renome, como Aline Barros, já tendo participado
do programa e de a participação da própria Ana Paula não ser novidade em programas de TV,
tanto de alcance local quanto nacional, a presença no palco da atração dominical comandada
pelo apresentador Fausto Silva é destacada como única, revestindo-a como capaz de tornar
aquele domingo específico em uma data especial para o meio evangélico brasileiro. Ainda na
mesma matéria, Ana Paula Valadão descreve o evento como uma oportunidade de entregar
uma mensagem: “estamos indo à Globo entregar a mensagem que o nosso Rei mandou
divulgar a todos!”.
Em seu blog oficial4 (ver Anexo II), o programa Domingão do Faustão descreve a
participação tomando como referência o tempo de estrada do grupo e ressalta que, após 12
anos de história, é a sua primeira apresentação no palco do programa. A publicação oficial,
incluída na categoria “Parada de sucesso” (que abriga publicações referentes a participações
de músicos de carreira secular que passam pelo programa), evidencia que, para o Domingão
do Faustão, a presença do Diante do Trono é tida como ordinária no caráter de musical, não
havendo separação e nem mesmo qualquer citação, na publicação do blog, ao fato de o artista
ser do segmento evangélico.
4.3 Narração
Como falamos anteriormente, Ana Paula Valadão é considerada por outros artistas
evangélicos como uma das responsáveis pelo fortalecimento da música evangélica e sua
crescente aparição em espaços não-religiosos. Dessa forma, sua participação no Domingão do
Faustão pode ser vista, por meio da dimensão narrativa, como uma forma de levar a religião
evangélica a um número maior de pessoas, visão compartilhada pela própria artista: “Creio
que é uma oportunidade ímpar de alcançar milhões e milhões de brasileiros com apenas uma
3 RIBEIRO, Tadeu. Diante do Trono ministra hoje no Faustão "Preciso de Ti" e "Tempo de Festa". Portaldt.com,
24/10/2010. Disponível em .
4 DOMINGÃO do Faustão. Diante do Trono canta no Domingão do Faustão. Globo.com, 24/10/2010.
Disponível em .
Palavra e o louvor ao Senhor Jesus!”5.
A presença de Ana Paula Valadão e de outros artistas evangélicos em programas da
Rede Globo também é percebida como uma forma de a emissora participar de um fenômeno –
a presença da música gospel em espaços não-religiosos – já presente em outras emissoras de
televisão aberta brasileiras. Em matéria publicada no Jornal da Tarde, intitulada “A música
gospel chega à Globo”6 (ver Anexo III), a participação de artistas evangélicos em programas
como o Domingão do Faustão é explicada como uma tentativa de a emissora carioca aderir ao
gênero responsável por parte considerável dos lucros de grandes gravadoras, como a Sony
Music, para quem, segundo o diretor Maurício Soares, citado na matéria, o gospel
representaria 10% do faturamento anual.
4.4 Perspectivas temporais
Essas formas adotadas pela mídia para descrever e narrar a participação de Ana Paula
Valadão em programas da Rede Globo ajudam a situar as aparições no espaço-tempo, e
evidenciam seu caráter temporal: ao mesmo tempo em que buscam resgatar o passado que
levou à abertura do espaço para artistas evangélicos na emissora, os discursos tentam explorar
possibilidades que surgem a partir dessa exposição. A temporalização que se dá aqui, na
articulação da ocorrência específica da participação do Diante do Trono no Faustão, permite
situá-la em uma linha temporal (SIMÕES, 2011). Essa articulação remete ao que acredita
Quéré (2005): apenas por meio do acontecimento é possível perceber o passado, uma vez que
esse é relativo a ele, o acontecimento; nisso reside seu potencial de fazer descobrir, de revelar.
A percepção de Sanchis (1997) sobre a recomposição do campo religioso, com o
crescimento das denominações cristãs pentecostais, também é vista em matérias como a do
Jornal da Tarde, que citam pesquisas do IBGE, que apontam crescimento dos grupos
evangélicos no país. Além disso, o destaque dado por esses cristãos às expressões artísticas,
em especial à música, também pode nos ajudar a entender essa maior aparição dos cantores e
da música evangélica. Uma breve pesquisa no site de compartilhamento de vídeos Youtube
mostrará várias participações de Ana Paula Valadão em programas de televisão. Um exemplo
5 RIBEIRO, Tadeu. Diante do Trono ministra hoje no Faustão "Preciso de Ti" e "Tempo de Festa". Portaldt.com,
24/10/2010. Disponível em .
6 NUNES, Aline. A música gospel chega à Globo. Jornal da Tarde, São Paulo, 16/12/2011. Disponível em
.
é o canal Alcibíades2327, criado e mantido por um fã do Diante do Trono, que disponibiliza
vídeos da banda e de outros artistas evangélicos em programas de televisão, entre outras
apresentações. Em 2012, o canal já conta com cerca de seis mil vídeos, além de mais de cem
mil inscritos e cerca de 190 milhões de exibições. Pouco mais de um ano após a participação
no Faustão, Ana Paula apareceu na lista das cem personalidades escolhidas pelo público em
“O maior brasileiro de todos os tempos”, programa produzido pelo SBT em parceria com a
BBC. Ela ocupou a 97ª posição, sendo a única representante do meio musical evangélico8.
Em entrevista ao jornal Extra9 (ver Anexo IV), o diretor de núcleo da Rede Globo
Luiz Gleiser afirmou que a emissora não pode “virar as costas para as expressões culturais do
nosso povo” e, por isso, “a maior produtora cultural do Brasil” estaria abrindo espaço para os
artistas evangélicos, considerando a importância que a música produzida por eles teria
assumido nos últimos anos. Estudo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM),
citado em matéria da Época Negócios10 (ver Anexo V), revelou que, apenas em 2011, o
mercado evangélico movimentou R$ 12 bilhões; apenas o setor fonográfico é responsável por
girar cerca de R$ 2 bilhões por ano, sendo bem menos afetado pela pirataria: 15% contra 60%
do mercado de produtos não-religiosos. Dessa forma, o espaço cedido em programas como o
Domingão do Faustão e o Caldeirão do Huck (no qual Ana Paula Valadão e o Diante do
Trono estiveram presentes em 31 de dezembro de 2011, no programa especial de fim de ano)
representaria, nas palavras do diretor, uma abertura feita “aos poucos”, culminando na
realização de um especial de fim de ano com artistas evangélicos exibido em 2011, o Festival
Promessas, que ganhou versões locais e terá sua segunda edição nacional realizada em 2012.
4.5 Constituição de um contexto de fundo
O contexto de um acontecimento também se relaciona à forma como esse é percebido,
descrito e narrado, não existindo se não for em relação a ele (QUÉRÉ, 2005). Nesse sentido,
as percepções da mídia em relação à presença de artistas evangélicos em programas de
7 Acessível em http://www.youtube.com/alcibiades232.
8 COSTA, Ana Paula. Ana Paula Valadão está entre as 100 personalidades mais votadas para programa no SBT.
Super Gospel, 14/07/2012. Disponível em < http://www.supergospel.com.br/noticia_ana-paula-valadao-esta-
entre-as-100-personalidades-mais-votadas-para-programa-no-sbt_3948.html>.
9 SOUZA, Ana Carolina de. Globo promove show evangélico para virar especial de fim de ano: Festival
Promessas será no Aterro. Extra, Rio de Janeiro, 22/10/2011. Disponível em < http://extra.globo.com/tv-e-
lazer/globo-promove-show-evangelico-para-virar-especial-de-fim-de-ano-festival-promessas-sera-no-aterro-
2857078.html>.
10 CAPELO, Rodrigo. Quem é o consumidor evangélico? Época Negócios, 29/11/2012. Disponível em
.
televisão, em especial os da Rede Globo, perpassam por um contexto formado pela
reconfiguração do campo religioso brasileiro aliada à importância comercial adquirida pela
música gospel, que pode ser identificada por meio dos processos de descrição, de narração e
de temporalização, conforme apontados nos tópicos anteriores. Em relação à reconfiguração
do campo religioso brasileiro, pode-se perceber que ela implica um maior espaço dado aos
grupos religiosos, inclusive pela mídia. Ao mesmo tempo em que a abertura da mídia estaria
inserida no campo da reconfiguração religiosa brasileira, essa mesma reconfiguração
revestiria o público evangélico do caráter de consumidor, justificando uma maior exposição
de artistas e produtos do segmento gospel em programas populares de televisão.
Nesse contexto, os objetivos também são distintos: se, por um lado, os artistas e o
público evangélico enxergam a participação nesses programas como oportunidade de divulgar
a religião, como fica evidente na fala11 de Ana Paula Valadão; por outro, a televisão, no caso,
a Rede Globo, percebe a oportunidade de se aproximar do público evangélico, levando em
consideração sua importância enquanto telespectador-consumidor. Nessa perspectiva, pode-se
perceber a própria mídia e, especificamente, a Rede Globo, sendo afetada pela reconfiguração
religiosa e adaptando-se a essa nova formatação sócio-religiosa nacional.
4.6 Recepção no quadro de uma experiência
O acontecimento é mensurado de acordo com a sua capacidade de afetar e também
pela forma com que se dá a sua inserção na vida e nas práticas sociais (FRANÇA,
ALMEIDA, 2008). Dessa forma, é preciso atentar para como se dá a recepção no quadro da
experiência, ou seja, é preciso perceber os públicos que se configuram em relação ao
acontecimento (SIMÕES, 2011). Levando-se em consideração o poder de afetação dos
acontecimentos, que torna possível mensurá-los, é necessário lembrar aqui a existência de
vários públicos na recepção dessa participação de Ana Paula Valadão e do grupo Diante do
Trono no Domingão do Faustão. Além do público habitual do programa dominical
comandado por Fausto Silva, pode-se perceber também a existência de outros públicos, como,
por exemplo, evangélicos que não possuem uma relação específica com o grupo.
Por outro lado, a plateia da atração do programa, no dia da exibição da participação do
Diante do Trono, era formada por fãs, que puderam interagir por meio de perguntas que, em
alguns casos, evidenciaram a relação de admiração estabelecida com a artista gospel. Sobre
11 RIBEIRO, Tadeu. Diante do Trono ministra hoje no Faustão "Preciso de Ti" e "Tempo de Festa".
Portaldt.com, 24/10/2010. Disponível em .
sua relação com os fãs, Ana Paula Valadão, em entrevista à revista IstoÉ12, diz ser paciente e
gostar da “troca com eles”, sendo reticente, no entanto, à invasão do seu próprio espaço por
alguns deles. Pode-se perceber também, nessa relação, a dimensão do carisma: nessa
perspectiva, Ana Paula seria dotada de dons físicos e espirituais, não acessíveis a todos, o que
geraria uma devoção afetiva por parte dos fãs, como pode-se perceber na parte do programa
em que a plateia pode fazer perguntas, inclusive de cunho pessoal, ao convidado.
5. Considerações finais
A reflexão apresentada nesta análise nos permite perceber algumas mudanças em
nossa sociedade no que tange aos fenômenos da ordem da religião. A recomposição do campo
religioso brasileiro evidencia também uma adaptação dos veículos da mídia a essa nova
realidade, que pode ser percebida por meio de uma tentativa de aproximação e relacionamento
com os evangélicos. Além da abertura de espaço em programas de televisão de alcance
massivo a artistas do meio evangélico, como Ana Paula Valadão e o Diante do Trono, pode-se
perceber um maior interesse dos grandes grupos de comunicação em investir em produtos
voltados ao público evangélico, como fica visível por meio da contratação de figuras
religiosas por gravadoras tradicionais, como a Som Livre (pertencente às Organizações
Globo) e a Sony Music. A criação de um especial de fim de ano na Rede Globo, o Festival
Promessas, também nos mostra um novo tratamento dado ao público evangélico, que passa a
ser visto como mercado consumidor de produtos específicos.
O acontecimento Ana Paula Valadão e sua aparição no programa Domingão do
Faustão ilustram bem todo o cenário instaurado apresentado acima. Sendo tratada com
requintes de grande estrela em um dos programas de maior alcance da televisão aberta
brasileira, a participação da pastora alargou os caminhos para a nova forma com a qual o
campo religioso tem sido tratado no cenário midiático atual. Prova disso é a subsequente
proliferação de aparições semelhantes, em outros programas de apelo massivo, além da
ampliação do investimento da Rede Globo em estratégias e formatos adaptados a esse cenário
em que a religião católica não pode mais ser vista como a inclinação natural do brasileiro.
Além disso, percebe-se uma mudança no modo de olhar para esses personagens da
religião, tanto por parte da mídia, quanto pela sociedade em geral. Ao mesmo tempo em que
são líderes espirituais, dantes marginalizados, eles agora aparecem na mídia com potencial de
12 LOES, João; CARDOSO, Rodrigo. A rotina dos popstars da fé. IstoÉ, São Paulo, 30/05/2012. Disponível em
< http://www.istoe.com.br/reportagens/209097_A+ROTINA+DOS+POPSTARS+DA+FE>.
citar tendências e estabelecer discursos aos quais é atribuído valor e também relevância social.
Tais transformações demonstram como os veículos de mídia têm buscado se aproximar do
indivíduo religioso que emerge nesse novo cenário espiritual. Cenário esse em que fica menos
visível a distinção entre líder religioso e celebridade-acontecimento e, também, entre a missão
de transmitir uma mensagem religiosa e a figura de quem a enuncia.
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Anexo I
Disponível em:
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2012-06-29/com-mais-16-milhoes-de-fieis-em-10-anos-evangelicos-sao-222-dos-brasileiros.html
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2012-06-29/com-mais-16-milhoes-de-fieis-em-10-anos-evangelicos-sao-222-dos-brasileiros.html
Anexo II
Disponível em:
http://tvg.globo.com/programas/domingao-do-faustao/programa/platb/2010/10/diante-do-trono-canta-no-domingao-do-faustao/
http://tvg.globo.com/programas/domingao-do-faustao/programa/platb/2010/10/diante-do-trono-canta-no-domingao-do-faustao/
Anexo III
Disponível em:
http://blogs.estadao.com.br/jt-variedades/a-musica-gospel-chega-a-globo/
Anexo IV
Disponível em:
http://extra.globo.com/tv-e-lazer/globo-promove-show-evangelico-para-virar-especial-de-fim-de-ano-festival-promessas-sera-no-aterro-2857078.html
http://extra.globo.com/tv-e-lazer/globo-promove-show-evangelico-para-virar-especial-de-fim-de-ano-festival-promessas-sera-no-aterro-2857078.html
Anexo V
Disponível em:
http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Visao/noticia/2012/11/quem-e-o-consumidor-evangelico.html
http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Visao/noticia/2012/11/quem-e-o-consumidor-evangelico.html