BASE – Revista de Administraçao e Contabilidade da Unisinos 15(2):111-128, abril/junho 2018 Unisinos - doi: 10.4013/base.2018.152.03 Este e um artigo de acesso aberto, licenciado por Creative Commons Atribuiçao 4.0 Internacional (CC BY 4.0), sendo permitidas reproduçao, adaptaçao e distribuiçao desde que o autor e a fonte originais sejam creditados. RESUMO Este artigo analisou o formato dos relacionamentos interorganizacionais como influenciado pelo uso de mecanismos de governança por meio da aplicaçao da Qualitative Comparative Analysis of Fuzzy Sets (fsQCA), uma tecnica pouco usual que permite a ana lise comparativa sistematica de casos complexos. O campo emprico foi o caso do soro do queijo em uma aglomeraçao localizada em Minas Gerais. Foi desenvolvido um estudo de caso envolvendo treze laticnios. O estudo teve natureza qualitativa e finalidade descritiva. A principal conclusao que se pode extrair das ana lises e que as empresas participantes dessa aglomeraçao adotam uma maior diversidade de mecanismos de governança como forma de aprimorar as relaçoes interorganizacionais dentro da aglomeraçao e nas respectivas redes de suprimentos. Outro aspecto e o entendimento, por parte das empresas, da importancia de haver um fluxo informacional para alimentar as decisoes estrategicas. O estudo permitiu concluir que a compreensao das relaçoes entre as caractersticas do arranjo institucional e os mecanismos de governança possibilita a ana lise dos aspectos que estruturam e definem decisoes coletivas, os papeis e as funçoes dos atores envolvidos e as relaçoes que sao estabelecidas nos arranjos cooperativos. O entendimento dessas dinamicas contribui para a compreensao sobre a governança e a formataçao dos relacionamentos em situaçoes de interdependencias horizontais entre atores heterogeneos. Palavras-chave: instituiçoes, cooperaçao, governança. ABSTRACT This paper analyzes the inter-organizational relationships as influenced by the use of the gover- nance mechanisms Applying Qualitative Comparative Analysis of Fuzzy Sets (fsQCA). The empirical case that illustrates the discussion was an agglomeration of whey producers located in the State of Minas Gerais. A multiple case study involving thirteen dairy companies was developed. The study was qualitative and descriptive in its nature. The relations between the characteristics of the institutional arrangements and the adoption of governance mechanisms were analyzed ARRANJO INSTITUCIONAL E A ADOÇÃO DE MECANISMOS DE GOVERNANÇA: APLICAÇÃO DA QUALITATIVE COMPARATIVE ANALYSIS OF FUZZY SETS (FSQCA) INSTITUTIONAL ARRANGEMENT AND THE USE OF GOVERNANCE MECHANISMS: APPLYING QUALITATIVE COMPARATIVE ANALYSIS OF FUZZY SETS (FSQCA) 1 Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade e Ciencias Economicas. Av. Pres. Antonio Carlos, 6627, 31270-901, Belo Horizonte, MG, Brasil. OSMAR VIEIRA DE SOUZA FILHO1 Universidade Federal de Minas Gerais osmar.br@gmail.com RICARDO SILVEIRA MARTINS¹ Universidade Federal de Minas Gerais ricardomartins.ufmg@gmail.com ROBERTA DE CÁSSIA MACEDO¹ Universidade Federal de Minas Gerais roberta.c.macedo@gmail.com 112 BASE – REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE DA UNISINOS ARRANJO INSTITUCIONAL E A ADOÇÃO DE MECANISMOS DE GOVERNANÇA: APLICAÇÃO DA QUALITATIVE COMPARATIVE ANALYSIS OF FUZZY SETS (FSQCA) INTRODUÇÃO Este estudo pretendeu contribuir para uma melhor compreensao das influencias das caractersticas dos arranjos institucionais na adoçao de mecanismos de governança que estimulem a colaboraçao nos relacionamentos entre empresas interdependentes. Esta pesquisa se justifica pelas contribuiçoes teoricas e metodologicas aportou para a area de estrategias de gerenciamento dos relacionamentos interorganizacionais, da gestao de redes de suprimentos e das aglomeraçoes de empresas em espaços geograficos. Uma contribuiçao do estudo foi analisar as relaçoes entre arranjos institucionais, adoçao de mecanismos de governança e relacionamentos interorganizacionais em aglo- meraçoes em espaços geograficos. Muitos estudos abordam a relaçao entre custos de transaçao e governança em am- bientes de redes de suprimentos. No entanto, poucos estudos analisam tais relaçoes considerando o arranjo institucional em vigor, entendido como sendo a estrutura de regras e normas dentro da qual atores interdependentes competem ou cooperam. Os estudos de aprovisionamento sustenta- vel e gestao da cadeia de abastecimento estao crescendo. No entanto, varios estudiosos criticaram a falta de desen- volvimento teo rico que acompanha essa literatura. Alem do mais, conforme Grob e Benn (2014), estudos de gestao de redes de suprimentos tem proliferado sem o desenvolvimento teo rico adequado de suporte dos estudos da area. Alem do mais, a Teoria Institucional e frequentemente usada para uma diversidade de tema e tambem pode ser adequada para os principais objetos da area de Operaçoes e Gestao da Cadeia de Suprimentos (O&SCM). Alem disso, ha uma lacuna no entendimento de como os relacionamentos interorganizacionais se formatam a partir das influencias das caractersticas dos arranjos institucionais na adoçao de mecanismos de governança que respondam a estes custos. A cooperaçao e a competiçao existem como re- sultados destas influencias, e a compreensao destas dinamicas enriquecera a tomada de decisao quanto a configuraçao ideal de regras e mecanismos. Por fim, compreender as influencias sobre a formataçao dos relacionamentos interorganizacionais permitira a prescri- çao de praticas e modelos de gestao que favoreçam e reforcem a cooperaçao nos ambientes de aglomeraçoes, permitindo a ex- ploraçao das sinergias potenciais entre os atores envolvidos nas relaçoes horizontais caractersticas destes arranjos coletivos. Esta analise e de especial importancia nos contextos onde as instituiçoes nao possuem a solidez necessaria para otimizar os resultados obtidos por atores interdependentes, como no caso de aglomeraçoes. Tais casos sao bastante tpicos nos con- textos de pases emergentes, uma vez que nestas situaçoes ha carencia de instituiçoes consolidadas (Hoskisson et al., 2000). Portanto, este estudo pretende tambem contribuir com a investigaçao dos arranjos institucionais em situaçoes de aglomeraçao no contexto de um mercado emergente. Enquanto instituiçoes determinam as oportunidades existentes em uma sociedade, as organizaçoes sao criadas para tirar vantagem de tais oportunidades (North, 1990). De certa forma, pode-se entender que as oportunidades existentes serao decorrentes do modo como as instituiçoes sao criadas e desenvolvidas pelo conjunto de atores envolvi- dos no contexto em ana lise. Sendo assim, a compreensao das dinamicas existentes entre as instituiçoes (regras e normas em vigor) e os mecanismos utilizados pelas empresas para explorar as oportunidades ajudara na proposiçao de formatos de relacionamentos interorganizacionais que favoreçam a mu- dança institucional, em busca de reforçar os laços cooperativos possveis nas situaçoes de arranjos coletivos. Alem do mais, o estudo foi realizado tendo por base a Teoria dos Arranjos Institucionais. Tal arcabouço foi desen- volvido como uma especie de mapa para analisar como as instituiçoes afetam os incentivos confrontando atores e seu comportamento resultante em situaçoes de arranjo coletivo (Ostrom, 2005). Desta forma, a Teoria dos Arranjos Institucio- nais abre oportunidades importantes para estudos que avancem using fsQCA. The main conclusion is that the participants of the arrangement adopt a bigger diversity of governance mechanisms as a way to improve the inter-organizational relationships inside the cluster and related supply chains. The intensification of the interactions between the participants of the arrangement is dependent on the existence of a flow of information established between them. The study allows one to conclude that understanding the relationship between the characteristics of the institutional arrangement and the mechanisms of governance enables the analysis of the aspects that structure and define a collective decision-making, the roles and functions of the actors involved, and the relationships that are established in cooperative arrangements. Understanding these dynamics is essential to understand the governance and the relationships in situations of horizontal interdependencies between heterogeneous actors. Keywords: institutions, cooperation, governance. 113 VOLUME 15 · Nº2 · ABRIL/JUNHO 2018 OSMAR VIEIRA DE SOUZA FILHO  RICARDO SILVEIRA MARTINS  ROBERTA DE CÁSSIA MACEDO no campo das relaçoes interorganizacionais, que e o objetivo principal desse estudo. Nao foram identificados na literatura estudos que tenham feito aplicaçao da ana lise do arranjo institucional nos moldes propostos pela IAD – Institutional Analysis and Development, como e denominado este modelo de ana lise – em situaçoes de redes de suprimentos ou de aglomeraçoes. Portanto, abre-se uma oportunidade para discutir a efetividade de uma nova ferramenta analtica para o campo de estudos da gestao dos relacionamentos interorganizacionais e da gestao de cadeias de suprimentos, ao mesmo tempo em que se aponta um carater inovador do trabalho. Por fim, outra justificativa para este estudo e a ana lise dos aspectos interrelacionados do arranjo institucional, da go- vernança e das relaçoes interorganizacionais em uma situaçao em que a rede de suprimentos esta em fase de organizaçao. Este e o caso do soro do queijo. O desenvolvimento de novos produtos a base de soro do queijo levou a uma mudança de seu status mercadologico, de subproduto para produto com alto valor agregado. Considerando o contexto e a lacuna, este estudo propoe investigar como as caractersticas do arranjo institucional influenciam a diversidade de mecanismos de governança utilizados para estimular a colaboraçao nos relacionamentos interorganizacionais em aglomeraçoes de empresas. Portanto, o campo emprico desta pesquisa e uma rede de suprimentos em formaçao no Brasil, a de soro de queijo. Tal objeto representa uma oportunidade mpar para avaliar as dinamicas de formata- çao dos relacionamentos interorganizacionais em situaçoes em que os fluxos de informaçoes, produtos e serviços, bem como as respectivas decisoes, ainda estao sendo implantados. A tecnica utilizada para ana lise de dados foi a Abordagem Qualitativa Comparativa (QCA), que e uma abordagem metodologica pouco usual na pesquisa em Operaçoes. Este artigo esta estruturado em quatro sessoes distintas. A primeira apresenta a introduçao e a problematica do estudo. A segunda traz uma breve revisao da literatura. A terceira sessao descreve as escolhas metodologicas. A quarta sessao apresenta a ana lise dos dados e a discussao central. Por fim, na quinta sessao sao apresentadas as conclusoes do estudo. REVISÃO DA LITERATURA A evoluçao da Teoria Institucional ampliou o esco- po das instituiçoes sob as quais as organizaçoes devem se adaptar (North, 1990). Segundo Scott (2008), ate os anos de 1970 a literatura dava enfase quase exclusiva nos processos de conformaçao das organizaçoes ao ambiente regulatorio. O Novo Institucionalismo propos a inserçao de tres importantes mudanças: a inclusao de instituiçoes culturais, a diferenciaçao entre instituiçoes e organizaçoes e o foco em transaçoes. Scott (2008) atribui a Meyer e Rowan o credito de te- rem sido os primeiros a ir alem das instituiçoes regulatorias, incorporando elementos culturais das instituiçoes como sendo influentes na estrutura organizacional, incluindo sistemas cognitivos e crenças normativas. A segunda mudança e ilustrada por North (1990), que metaforicamente define as instituiçoes como sendo as regras do jogo e as organizaçoes como sendo os jogadores partici- pantes do jogo. A terceira mudança emerge do Novo Institucionalismo na economia, que considera a influencia das instituiçoes nas estru- turas e no desempenho das organizaçoes individuais, incluindo a influencia dos custos de transaçao na execuçao de transaçoes nos mercados ou nas firmas, e as consequentes mudanças nas fronteiras das mesmas (Williamson, 1996). Sendo assim, o Novo Institucionalismo se preocupa com a interaçao entre instituiçoes, organizaçoes e escolhas estrategicas (Peng et al., 2008). Segundo North (1990), instituiçoes sao as restriçoes socialmente impostas que limitam as interaçoes humanas, sendo compostas de regras formais (leis, regulaçoes, etc.), restriçoes informais (convençoes, normas de comportamento e codigos de conduta) e as caractersticas de aplicaçao de am- bas. Scott (2008) contribui com este entendimento, afirmando que instituiçoes impoem restriçoes ao comportamento pela definiçao de limites legais, morais e culturais, desencadeando legitimidade de atividades ilegtimas. Instituiçoes fornecem diretrizes e recursos para a tomada de açao, bem como proi- biçoes e restriçoes as açoes. Scott (2008) mapeou os processos institucionais em tres pilares: regulatorio, cultural-cognitivo e normativo. Esta tipologia e frequentemente empregada nos estudos das restri- çoes, com a terminologia sendo abreviada para regras formais (o pilar regulatorio) e restriçoes informais (os pilares cultural- -cognitivo e normativo). Os esforços das organizaçoes para maximizar eficiencia sao limitados pelos pilares regulatorios e cognitivos, levando muitas vezes a decisoes satisfatorias, ao inves de otimizadoras do desempenho, dadas as limitaçoes cognitivas da racionalidade limitada. Ha duas visoes sobre a construçao de instituiçoes: natu- ralista ou baseada em agentes (Scott, 2008). Na primeira, ins- tituiçoes nao sao criadas por açoes com proposito executadas por agentes interessados em sua criaçao; ao inves, emergem do comportamento coletivo dos atores confrontando situaçoes si- milares. Na segunda visao – baseada em agentes – e importante identificar atores particulares ou agentes causais. Neste caso, a institucionalizaçao e produto do esforço poltico de atores para atingir seus objetivos. A força relativa dos atores que apoiam, enfrentam ou tentam influencia-la afetara o sucesso de um projeto de institucionalizaçao e a forma resultante. Atores frequentemente trabalham para criar instituiçoes que reflitam, protejam e desenvolvam seus interesses, e que as partes frequentemente necessitam de instituiçoes para obter ganhos de açoes cooperativas (Guler e Guillen, 2010). No en- tanto, algumas consideraçoes enfraquecem a habilidade dos atores para atingir seus propositos: efeitos mu ltiplos gerados 114 BASE – REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE DA UNISINOS ARRANJO INSTITUCIONAL E A ADOÇÃO DE MECANISMOS DE GOVERNANÇA: APLICAÇÃO DA QUALITATIVE COMPARATIVE ANALYSIS OF FUZZY SETS (FSQCA) pela instituiçao criada podem trazer efeitos indesejados; os objetivos originais dos designers poderiam ser apenas de curto prazo, enquanto o resultado (a instituiçao) provoca efeitos de longo prazo; presunçao de que atores e seus interesses permanecerao imutaveis, quando na verdade atores entram e saem e interesses mudam. TEORIA DOS ARRANJOS INSTITUCIONAIS A Teoria dos Arranjos Institucionais foi desenvolvida por Elinor Ostrom e Vincent Ostrom, com a colaboraçao de diversos outros pesquisadores interessados em compreender como os agentes se comportam em situaçoes de açao coletiva e as bases institucionais que informam tais acordos (Basurto et al., 2010). Elinor Ostrom introduziu a ideia que, sob certas situaçoes, instituiçoes se desenvolvem para auxiliar no gerenciamento de recursos, sem que, por exemplo, seja necessario o papel coercitivo dos governos. Esses estudos revelam que, desde que o conjunto de princpios e de regras de arranjos coletivos esteja bem definido, sejam aceitos e respeitados por todos, consegue-se estruturar as relaçoes humanas de tal modo que a gestao de recursos seja mais eficaz. Ostrom (2005) buscou identificar quais sao os elemen- tos constituintes comuns das interaçoes sociais, sejam elas ocorridas em mercados, hierarquias, redes ou outras situaçoes comuns na vida cotidiana dos indivduos. Como resultado, a autora afirma que a teoria permite avaliar os componentes que formam as estruturas que afetam o comportamento e os resul- tados alcançados por indivduos interdependentes, sempre que forem chamados a agir de uma maneira organizada. Segundo Ostrom (2005), para atender a situaçoes de interdependencia entre atores heterogeneos, a açao coletiva e implementada com o uso de instituiçoes que definem um conjunto de regras e normas efetivamente aplicadas por um grupo de indivduos para organizar as suas atividades. E tarefa desafiadora mapear casos concretos em busca de compreensao dos fatores e direcionadores da racionalidade de sistemas complexos (Aligica, 2014). Para tal fim, e preciso desenvolver uma maneira metodica de investigaçao, e a Teoria dos Arranjos Institucionais oferece um instrumento analtico como resposta a este desafio, conhecido como Institutional Analysis and Development (IAD). O IAD identifica os tipos principais de variaveis estrutu- rais que estao presentes em algum grau em todos os arranjos institucionais, mas cujos valores diferem de um tipo de arranjo institucional para outro (Ostrom, 2005). A parte crucial deste modelo e a identificaçao da situaçao da açao. Sempre que dois ou mais participantes sao confronta- dos com um conjunto de açoes potenciais que produzem algum resultado, eles estao em uma situaçao da açao (Ostrom, 2005). Essa situaçao refere-se ao espaço social onde participantes com diversas preferencias interagem, trocam bens e serviços, resolvem problemas, exercem a dominaçao uns dos outros, ou lutam entre si (Ostrom, 2005). Ela e formada por sete clusters de variaveis: (i) O conjunto de participantes; (ii) Posiçoes que ocupam na arena de açao; (iii) Resultados potenciais das açoes adotadas; (iv) Custos e benefcios relativos a açoes e resultados; (v) Ligaçoes açao-resultado, ou seja, riscos e incertezas relativos as açoes; (vi) Controle exercido pelo participante; (vii) Nvel de informaçao possuda pelo indivduo a res- peito da situaçao da açao. Participantes tomarao decisoes e executarao açoes res- tringidas pelas informaçoes e regras dentro da instituiçao, tais decisoes e açoes levarao a obtençao de resultados - inclusive interaçoes (Bushouse, 2011). Interaçoes sao resultados das decisoes tomadas pelos atores dentro da situaçao da açao, baseada nas restriçoes im- postas pelas regras e incentivos da instituiçao (Ostrom, 2005). Para que se configure uma situaçao da açao, participantes devem ocupar posiçoes, e deve haver açoes potenciais que os participantes podem realizar, a fim de atingir determinados resultados (Ostrom, 2005). Todos os participantes devem ter acesso a algumas informaçoes comuns a respeito da situa- çao. Os custos e benefcios associados as açoes e resultados sao entendidos como incentivos ou impedimentos externos. O modo como afetam as escolhas dos participantes dependem da posse inicial de recursos e do padrao de avaliaçao utiliza- do pelos participantes. Em algumas situaçoes a posiçao dos participantes e “grosseiramente” desigual, possibilitando ha alguns poder substancial em relaçao a outros (Aligica, 2014). Estas variaveis sao chamadas por Ostrom (2005) de working parts das situaçoes da açao, e sao fundamentais e suficientes para descrever a estrutura da situaçao. A partir da ana lise da situaçao da açao, e possvel para o analista institucional identificar as caractersticas do arranjo institucional. GOVERNANÇA E MECANISMOS A governança em um contexto de cadeia de suprimen- tos se refere a um conjunto de instrumentos de coordenaçao (Grandori e Soda, 1995) utilizados para introduzir ordem em relaçoes de interdependencia entre atores, nas quais conflitos potenciais ameaçam interromper ou impedir oportunidades para obtençao de ganhos conjuntos (Williamson, 1999). O termo governança expressa que algumas firmas na cadeia estabelecem e/ou reforçam os parametros sob os quais outros na cadeia irao operar (Humphrey e Schmitz, 2001). Uma cadeia sem governança seria apenas uma serie de rela- çoes de mercado. Sendo assim, afirmam que a governança se refere a relacionamentos interorganizacionais e mecanismos institucionais atraves dos quais a coordenaçao de atividades extra-mercado na cadeia e obtida. 115 VOLUME 15 · Nº2 · ABRIL/JUNHO 2018 OSMAR VIEIRA DE SOUZA FILHO  RICARDO SILVEIRA MARTINS  ROBERTA DE CÁSSIA MACEDO Estruturas de governança em cadeias de suprimentos se justificam tambem a partir dos erros de coordenaçao criados pelo oportunismo dos agentes envolvidos nas transaçoes (Jap e Anderson, 2003) ou pelas incertezas de mercado que afetam e limitam a racionalidade dos atores economicos na tomada de decisoes. Mesmo quando um determinado membro da cadeia de suprimentos opera em um nvel otimo, problemas advindos da coordenaçao entre os membros podem resultar em desempenho deficiente da cadeia de suprimentos como um todo (Ghosh e Fedorowicz, 2008). Tais problemas de coordenaçao frequen- temente sao resultado da falta de efetivo compartilhamento de informaçoes entre os membros. Parceiros devem concordar com a existencia de uma estrutura comum de governança capaz de conduzir os relacionamentos e reduzir as ameaças do oportunismo nas transaçoes (Heide, 1994). Em um mesmo ambiente economico-institucional, e possvel haver mais de uma forma de governança ao mesmo tempo, dependendo dos diversos arranjos institucionais esta- belecidos em diferentes cadeias de suprimentos concorrentes (Mazzoleni, 2011). Ainda, segundo o autor, nem todas as for- mas de governança sao competitivas em todos os ambientes economico-institucionais. Mecanismos de governança devem ser desenhados para resolver potenciais conflitos entre metas estabelecidas por membros independentes (Ghosh e Fedorowicz, 2008). Con- fiança, poder de barganha e contratos sao tres importantes elementos que moldam a governança dos relacionamentos interorganizacionais e reduzem os riscos e incertezas nos relacionamentos (Alvarez et al., 2003). Mantino (2010) fala sobre tres tipos basicos de formas de governança, que nao existem em estado puro e que se sobrepoem de alguma maneira: Mercado, Hierarquia e Rede. A intensidade de controle exercida por quem detem a gover- nança determina o grau de coordenaçao, e sugere a existencia de cinco tipos diferentes de governança: mercado, contratos, aliança baseada em relaçoes, aliança baseada em equidade e integraçao vertical, sendo os dois u ltimos um desdobramento do mesmo tipo hierarquico de governança. A forma de governança de mercado e baseada em res- postas individuais a indicaçoes de preços por parte dos agentes economicos (Mantino, 2010). Nesta forma de governança, com- pradores e vendedores nao sustentam nenhum relacionamento de dependencia entre eles (Mazzoleni, 2011). No tipo de governança baseado em hierarquia, existe uma empresa que controla e coordena a execuçao das transaçoes, exercendo o poder hierarquico sobre as partes (Jap e Anderson, 2003). A estrutura hierarquica gerencia os problemas de coor- denaçao de duas formas: (i) pelo potencial de estabelecer um sistema efetivo de recompensa e puniçao conferido pelo direito de propriedade, e (ii) por proporcionar uma cultura organizacio- nal compartilhada que oferece normas e valores comuns mais adequadamente alinhados a seus interesses (Brown et al., 2000). Na governança em rede, o foco do controle se torna o relacionamento entre os envolvidos, sendo a transaçao apenas um elemento da ana lise. Desta maneira, o controle e a coordenaçao envolvem a construçao e manutençao dos relacionamentos e o estabelecimento de objetivos mu tuos e dos parametros informais de avaliaçao da efetividade destes relacionamentos para os envolvidos. A governança em rede pode ser definida como en- volvendo um conjunto seleto, persistente e estruturado de empresas e agencias autonomas, envolvidas na criaçao de produtos e serviços, baseados em contratos implcitos e com prazo indeterminado, a fim de adaptarem-se a contingencias ambientais e coordenar e salvaguardar as trocas (Jones et al., 1997). Estes contratos sao socialmente – nao legalmen- te – obrigato rios. Os membros da rede nao constituem uma industria inteira, mas um subconjunto no qual as trocas sao frequentes entre eles, mas relativamente raras com outros membros; tais trocas repetidas criam e recriam a estrutura da rede. As trocas dentro da rede nao sao uniformes, tampouco aleato rias, pois seguem um padrao definido, refletindo uma divisao do trabalho. Ainda, os padroes de adaptaçao, coor- denaçao e salvaguardas nao sao derivados de estruturas de autoridade ou de contratos legais. No ambiente de rede as transaçoes nao sao discretas, uma vez que produtos e serviços conjuntamente desenvolvidos e/ou transacionados tendem a demandar investimentos espec- ficos e de longo prazo (Nassimbeni, 1998). Portanto, contratos relacionais e a estrutura mais comumente usada para governar trocas em redes de suprimentos (Nassimbeni, 1998). HIPÓTESES DO MODELO TEÓRICO Relacionamentos interorganizacionais sao estrategias de resultados comprovados para que as empresas atinjam estagios avançados de desenvolvimento em seus negocios. Isso ocorre pela criaçao de vantagens cooperativas atraves de idiossincrasias, complementaridade e combinaçoes de recursos possveis nestas relaçoes (Lorenzoni e Lipparini, 1999). No caso especfico do soro, ganhos de economias de escala e de melhoria da qualidade sao possveis atraves das operaçoes de concentraçao do soro para reduzir o volume pela retirada de lquidos, preservando materiais so lidos. No entanto, as empresas enfrentam a necessidade de investir em ativos especializados para tais operaçoes que po- dem se tornar, assim, ativos estrategicos. Portanto, uma açao estrategica para empresas deste negocio pode ser a criaçao de ativos especializados, a partir da conjunçao de ativos proprios com ativos de parceiros em alianças (Teece, 1986). A possvel complementaridade dos parceiros em situaçoes de cooperaçao considera dimensoes de natureza estrategica e de natureza organizacional. Trata-se de um arranjo que possibilita um fluxo de conhecimento e apropriaçao de recursos gerados na relaçao entre parceiros (Dyer e Singh, 1998). 116 BASE – REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE DA UNISINOS ARRANJO INSTITUCIONAL E A ADOÇÃO DE MECANISMOS DE GOVERNANÇA: APLICAÇÃO DA QUALITATIVE COMPARATIVE ANALYSIS OF FUZZY SETS (FSQCA) A governança e seus mecanismos desempenham um pa- pel importante na criaçao das rendas relacionais, pois influen- ciam a criaçao de valor. Os acordos podem ser autorregulados, sem intervenientes, ou regulados por uma terceira parte, por exemplo, agencias de apoio ao desenvolvimento. No caso especfico do soro do queijo, esforços conjuntos seriam uteis para reduzir as assimetrias de informaçao perante clientes, as incertezas quanto ao destino a ser dado ao soro e o oportunismo nas relaçoes com compradores, desde que operando de maneira conjunta e coordenada. Empresas em situaçoes de vulnerabilidade de mercado podem obter na formaçao de alianças estrategicas os recursos necessarios para anular tais vulnerabilidades (Eisenhardt e Martin, 2000). Em alguns casos, as interaçoes entre os atores do cluster pro- movem a adoçao de mecanismos de governança que facilitam o desenvolvimento de inovaçoes para o conjunto de empresas (Cassiolato e Lastres, 2003). A vantagem competitiva das aglomeraçoes na econo- mia global e derivada de fatores que sustentam o dinamismo das relaçoes paradoxais de cooperaçao e competiçao entre empresas do cluster (Porter, 1998). Para isso, e preciso haver uma congruencia entre os requisitos do processo produtivo e as caractersticas sociais e culturais de um grupo de pessoas, que se desenvolve ao longo do tempo (Becattini, 1991). As agencias podem funcionar como auxiliares no au- mento das reservas locais de economias de aglomeraçao, atuando como ferramentas sociais e polticas que promovem as externalidades regionais (Scott, 2008; Fuini, 2012). Atuam para fortalecer a governança territorial, entendida como o processo institucional e organizacional de construçao de uma estrategia para compatibilizar os diferentes modos de coordenaçao entre os atores geograficamente proximos (Fuini, 2012). Assim, e cada vez mais comum no Brasil a aposta em agencias de apoio ao desenvolvimento de aglomeraçoes se que fazem dialogar os atores para superar metodos produtivos e organizacionais defasados (Fuini, 2012). Logo, entende-se o papel destas agencias na construçao de estrategias que garantam apoio tecnico e institucional necessa rio para que concentraçoes de pequenas empresas se tornem competitivas. Sendo assim, considerando-se a relaçao entre as con- diçoes causais derivadas das declaraçoes institucionais e a adoçao de mecanismos de governança formulam-se as hipo- teses da pesquisa: (i) Percepçao da existencia de adequado apoio por parte de agencias de apoio ao desenvolvimento; (ii) Valorizaçao das açoes de coordenaçao conjunta dos esforços e formaçao de associaçao de laticnios; (iii) Percepçao da existencia de uma atmosfera de coo- peraçao e confiança entre os laticnios; (iv) Entendimento que informaçoes relevantes contribuem para mudanças nas regras de remuneraçao, na melho- ria da qualidade e aumento dos volumes de soro. METODOLOGIA A logica de pesquisa utilizada foi indutiva e a natureza e aplicada. Esta pesquisa e classificada como qualitativa quanto a abordagem do problema. Sendo assim, as evidencias da pes- quisa foram de carater qualitativo e foram analisadas a partir desta caracterstica. Quanto a finalidade do estudo, a pesquisa pode ser classificada como descritiva. O procedimento tecnico escolhido para esta pesquisa foi o estudo de caso. Csillag et al. (2012) fazem uma apropriada caracteriza- çao da pesquisa na area de Operaçoes e Gestao da Cadeia de Suprimentos (O&SCM), que apoia a compreensao do contexto desta pesquisa. Esta area tem forte tendencia quantitativa, especialmente por modelos de pesquisa operacional e modelos estatsticos oriundos da aplicaçao de surveys. No entanto, a pesquisa qualitativa tem ganho espaço, pois tem sido percebida a necessidade de inclusao de topicos de novos metodos e tec- nicas de pesquisa para abarcar o contexto atual da produçao de bens e serviços, a participaçao do cliente e a criaçao do valor, dentre outros aspectos. Nesse aspecto a opçao pelo uso dos estudos indutivos tem contribudo mais para a evoluçao dos estudos de casos na area. ESTUDO DE CASO: O MÉTODO E OS CASOS ESTUDADOS Estudos de caso representam a estrategia preferida quando sao colocadas questoes do tipo “como” e “por que”. No caso do presente estudo, o contexto a ser explicado, retomando os objetivos anteriormente anunciados, e o de como as caractersticas do arranjo institucional influenciam a diversidade de mecanismos de governança utilizados para estimular a colaboraçao nos relacionamentos interorga- nizacionais em aglomeraçoes de empresas. Tal situaçao e contextos sao justificados quando o pesquisador tem pouco controle sobre os eventos e o foco se encontra em fenome- nos contemporaneos inseridos em algum contexto da vida real. A necessidade pelos estudos de caso surge do desejo de se compreender fenomenos sociais complexos. Ou seja, o estudo de caso permite uma investigaçao para se preservar as caractersticas holsticas e significativas dos eventos da vida real (Yin, 2009). A pesquisa analisou o caso do soro do queijo em laticnios de Minas Gerais. A emergencia de um mercado para o soro do queijo gera oportunidades que afetam o setor de laticnios, uma vez que permite simultaneamente a destinaçao ambien- talmente correta e a geraçao de valor a partir do subproduto. No entanto, para realizar tais benefcios, os laticnios enfrentam problemas associados a inexistencia da rede de suprimentos que beneficie e distribua o soro do queijo dentro dos requi- sitos desejados pelos clientes de custo, qualidade e nvel de serviço. Essa realidade e verificada especialmente no caso dos pequenos e medios laticnios, que tem dificuldades em investir 117 VOLUME 15 · Nº2 · ABRIL/JUNHO 2018 OSMAR VIEIRA DE SOUZA FILHO  RICARDO SILVEIRA MARTINS  ROBERTA DE CÁSSIA MACEDO estruturas proprias de beneficiamento e distribuiçao em razao da escala insuficiente. Sendo assim, o setor de negocios envolvendo a produçao de queijo no Brasil se encontra em um momento historico bastante interessante no que se refere ao soro do queijo, vislumbrando a emergencia de um mercado para o ate entao subproduto. Ao mesmo tempo, o setor lida com restriçoes cada vez mais severas quanto ao seu descarte inapropriado, e com a inexistencia da cadeia de suprimentos necessaria para seu beneficiamento e consequente geraçao de valor. Para os pequenos e medios laticnios, o problema se torna ainda mais grave. O processamento do soro do queijo exige que o laticnio possua uma estrutura de resfriamento e armazenamento dedicada. Alem disso, para viabilizar o custo de transporte, e necessario que o soro do queijo percorra distancias relativamente curtas ate algum ponto de beneficiamento, seja ele uma estaçao de concentraçao ou uma planta de secagem do soro. A inexistencia destes pontos de beneficiamento funciona como uma restriçao severa a entrada dos pequenos e medios laticnios no mercado de comercializaçao de soro. Parte da soluçao para este problema esta na formaçao de arranjos coletivos entre os laticnios, aproveitando-se das capacidades de geraçao de externalidades positivas existentes nas aglomeraçoes deste setor. Tais arranjos coletivos permi- tiriam as pequenas e medias empresas desenvolverem, em conjunto, atividades que de forma isolada nao conseguiriam, obtendo, assim, maior competitividade. Esse contexto torna o setor lacteo proprio a um estudo dessa natureza, pois e um arranjo em formaçao, com a vantagem de nao ser necessario se recorrer a memoria dos agentes. Pode-se inserir nos fatos enquanto estes estao se desenvolvendo. Para este estudo, partiu-se da suposiçao que as empre- sas selecionadas sejam geradoras de soro do queijo, ou seja, laticnios que produzam queijos em geral. Alem disso, para que sejam verificadas açoes de governança que afetem o negocio do soro do queijo, e preciso que esse produto tenha um razo- avel grau de significaçao na operaçao geral da empresa. Para isso, a geraçao de soro nao deve ser pontual, representando um volume diario da ordem de 5.000 litros ou mais. Alguma variaçao nos volumes em funçao da sazonalidade da produçao e esperada, mas optamos por considerar empresas que gerem soro ao longo de todo o ano – produçao constante. A fim de permanecer obedecendo ao criterio de homo- geneidade dos casos, conforme preconizado pelos parametros da Abordagem Qualitativa Comparativa – QCA (Berg-Schlosser e De Meur, 2009), de que os casos devem ser comparaveis dentro de dimensoes especficas, foi feita uma opçao relativa a area geografica de localizaçao dos laticnios. Minas Gerais foi desde o incio o Estado escolhido para o estudo, uma vez que abriga o maior numero de laticnios e e lder na produçao lactea nacional (Martins et al., 2013). As empresas participantes do estudo sao laticnios produtores de queijos diversos. Todas estao localizadas na mesorregiao do Campo das Vertentes, no Estado de Minas Gerais. Esta mesorregiao e compreendida por tres microrregi- oes geograficas: Lavras, Sao Joao Del-Rei e Barbacena. Estas microrregioes totalizam 36 municpios. Outro aspecto importante para a homogeneidade dos casos e que foram considerados apenas empresas que estejam na camada inicial da cadeia de suprimentos, ou seja, que geram soro do queijo a partir de produçao propria de queijo. Assim, nao foram pesquisadas empresas que compram soro do queijo para beneficiar ou para revender. Por outro lado, nao se fez nenhuma distinçao quanto ao destino atual dado ao soro do queijo. E sabido que os laticnios adotam, principalmente, uma ou mais de uma dentre as seguintes açoes para escoamento do soro do queijo: comercializaçao in natura; resfriamento e comercializaçao do soro fluido; resfriamento, concentraçao e comercializaçao do soro concentrado; doaçao para produtores rurais do soro fluido; uso na produçao propria de ricota, bebidas lacteas, etc.; alimentaçao de rebanho proprio. Estas informaçoes eram obtidas durante as entrevistas para fins de levantamento de dados, ao inves de serem tratadas como criterios de seleçao de casos. Para entender os mecanismos de governança ado- tados, era importante ter o maximo de heterogeneidade no que se refere ao destino do soro dentro do pequeno numero de casos escolhidos. Para Berg-Schlosser e De Meur (2009), e preciso ir alem dos dois criterios gerais para seleçao de casos na QCA (suficiente homogeneidade do universo de casos considera- dos e maxima heterogeneidade dentro desse universo). Para os autores, a inclusao de cada caso deveria ser justificada a partir da base teo rica do estudo. Nesse sentido, foi levado em consideraçao a existencia de uma associaçao de laticnios da regiao do Campo das Vertentes, em Minas Gerais. Essa associaçao foi criada para ajudar os laticnios dessa area geografica especfica a explorar oportunidades do associa- tivismo, dentre elas a possibilidade de encontrar destinaçoes mais interessantes para o soro do queijo. A instituiçao responsavel por iniciar e coordenar essa iniciativa foi o Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pe- quenas Empresas do Estado de Minas Gerais (SEBRAE-MG). Os pesquisadores tiveram oportunidade de participar de uma das açoes decorrentes dessa iniciativa do SEBRAE- -MG, quando este pesquisador participou de um esforço de treinamento e consultoria em logstica para um grupo de 10 laticnios da Regiao do Campo das Vertentes. A iniciativa e organizaçao coube ao Sebrae, com contrapartida financeira dos laticnios participantes. O corpo teo rico deste estudo adota a visao da IAD para a ana lise institucional. A pergunta de pesquisa aborda diretamente o tema da influencia do arranjo institucional na adoçao de mecanismos de governança nas empresas estudadas. Segundo a IAD, e possvel identificar mu ltiplos nveis de ana lise institucional – nvel operacional, nvel da escolha coletiva e 118 BASE – REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE DA UNISINOS ARRANJO INSTITUCIONAL E A ADOÇÃO DE MECANISMOS DE GOVERNANÇA: APLICAÇÃO DA QUALITATIVE COMPARATIVE ANALYSIS OF FUZZY SETS (FSQCA) nvel constitucional (Ostrom, 2005). O nvel operacional de ana lise envolve as situaçoes de suprimentos, produçao, dis- tribuiçao ou consumo de bens e serviços pelos indivduos sob ana lise – neste estudo, os laticnios sao os indivduos. As regras neste nvel sao presumidamente fixas. No entanto, adotou-se a logica de querer analisar como as situaçoes operacionais sao interligadas a uma situaçao mais profunda, em busca de indicaçoes de potencialidades de cooperaçao e associaçao para concretizaçao de uma cadeia de suprimentos para beneficiamento e comercializaçao do soro do queijo. O nvel da escolha coletiva e onde os indivduos tomam decisoes a respeito das atividades cotidianas. Aqui, o enfoque esta nas decisoes a respeito das escolhas de regras que governam as atividades operacionais. Em arranjos de cadeias de suprimentos gerenciados, a coordenaçao explcita dos atores e decidida fora das situaçoes operacionais cotidianas, e isso determina uma mudança de regras do jogo. A experiencia de organizaçao de uma associaçao com fins de implantaçao de um arranjo coletivo e de criaçao de regras de escolha coletiva aponta para a decisao de limitar o universo de casos a laticnios localizados na area geografica de abrangencia da referida associaçao. Pelos relatos, esta parece ter sido uma iniciativa pioneira para laticnios no Estado de Minas Gerais, e foi baseada em iniciativas similares do Sebrae em outros setores de negocios, como os produtores de cafe , por exemplo. Sendo assim, o pesquisador optou por considerar essa limitaçao geografica, e todos os casos estudados envol- veram empresas localizadas na regiao denominada Campo das Vertentes, ou muito proximas a esta regiao. O tamanho da comunidade de produtores de queijo com volume acima de 5.000 litros/dia, localizados na mesorregiao do Campo das Vertentes, e de 29 empresas, segundo informa- çoes obtidas informalmente junto ao Polo de Excelencia do Leite, que, por sua vez, as obteve fazendo levantamento de empresas cadastradas junto aos orgaos de registro e inspeçao federal e estadual. Destes, foram procurados 20 laticnios. No entanto, considerando a impossibilidade de alguns e o desinteresse de outros em participar do estudo, a amostra final foi formada por 13 laticnios geradores de soro do queijo localizados na mesorregiao do Campo das Vertentes. A Tabela 1 apresenta as caractersticas destes 13 casos estudados. Para efeitos de assegurar o anonimato as empresas que participaram do estudo, foram omitidos nomes, respectivas Caso Volume diario de soro no momento da entrevista (l/dia) Destino dado ao soro Caractersticas dos clientes E1 30.000 Usado na produçao propria de ricota Ricota vendida a redes de supermercados E2 40.000 Vendido para beneficiadores Grande porte (Kerry) e medio porte (Ita e fabricantes de doce) E3 35.000 Venda e produçao propria de ricota Grande empresa E4 8.000 Doaçao a produtores rurais para alimentaçao animal Pequenos produtores do entorno E5 12.000 Doaçao a produtores rurais para alimentaçao animal Pequenos produtores do entorno E6 30.000 Usado na produçao propria de ricota Ricota vendida a redes de supermercados E7 60.000 Vendido para beneficiadores Grande porte (Laticnio Porto Alegre) E8 100.000 Vendido para beneficiadores Kerry (cliente exclusivo) E9 10.000 Consumo proprio na alimentaçao animal Consumo proprio E10 8.000 Doaçao a produtores rurais para alimentaçao animal Pequenos produtores do entorno E11 30.000 Produçao propria de ricota e doaçao para produtores rurais Ricota vendida a redes de supermercados; soro doado a pequenos produtores do entorno E12 26.000 Consumo proprio na alimentaçao animal e doaçao a tres produtores rurais vizinhos Pequenos produtores do entorno E13 60.000 Vendido para beneficiadores Kerry e Laticnio Porto Alegre Tabela 1. Caractersticas dos Casos Estudados. Table 1. Characteristics of Studied Cases. Fonte: Dados da Pesquisa. 119 VOLUME 15 · Nº2 · ABRIL/JUNHO 2018 OSMAR VIEIRA DE SOUZA FILHO  RICARDO SILVEIRA MARTINS  ROBERTA DE CÁSSIA MACEDO localidades ou descriçoes mais aprofundadas, como o tipo de queijo fabricado, tempo de atividade do laticnio, dentre outras informaçoes, pois isso facilitaria qualquer tipo de identificaçao. COLETA DE DADOS Foram elaborados questionarios semiestruturados para a realizaçao das 13 entrevistas com laticnios que operam como membros no negocio do queijo, uma vez que o soro do queijo e um subproduto da produçao do queijo. As entrevistas foram orientadas pelo cluster de variaveis suportadas teoricamente, a partir de perguntas abertas e foram realizadas no perodo de agosto a novembro de 2014. As unidades de ana lise deste estudo foram as relaçoes estabelecidas entre as empresas participantes da cadeia de suprimentos do soro do queijo. Os tomadores de decisao das empresas formam as unidades de observaçao. TÉCNICA DE ABORDAGEM QUALITATIVA COMPARATIVA Antes que esta ana lise possa ser empreendida, fez-se necessaria a obtençao das caractersticas do arranjo insti- tucional e a identificaçao dos mecanismos de governança utilizados pelas empresas no gerenciamento das relaçoes interorganizacionais. Foi feito uso de uma ana lise tematica dos dados das entrevistas, explorando a gama de respostas dos participantes e o grau de concordancia mostrado com a literatura. A tecnica utilizada para estas ana lises individuais das entrevistas gravadas dentro de sumarios tematicos foi o metodo Framework. No entanto, por restriçoes relativas ao tamanho e ao escopo deste texto, este estagio inicial da ana lise dos dados foi omitido do artigo. Tendo como ponto de partida os resultados da ana lise tematica, o presente artigo se debruça sobre a co- dificaçao das entrevistas em conjuntos difusos, em preparaçao para ana lise pela Qualitative Comparative Analysis of Fuzzy Sets (fsQCA) ou QCA. Para Rihoux e Ragin (2009), a QCA e tanto uma estra- tegia de pesquisa quanto um conjunto de tecnicas especficas para ana lise de dados. Esse tipo de metodo permite a ana lise comparativa sistematica de casos complexos, desde que os casos sejam transformados em configuraçoes, ou combina- çao especfica de fatores – ou condiçoes – que produzem um determinado resultado de interesse (Rihoux e Ragin, 2009). A QCA usa a logica Booleana para propor relacionamentos teoricos entre condiçoes e os resultados. Ela enfatiza a explora- çao de relacionamentos entre as condiçoes guiados pela teoria, descrevendo um numero pequeno de casos (Ragin, 2008). Os escores de filiaçao fuzzy abordam o grau pelo qual diferentes casos pertencem a um conjunto, incluindo dois estados definidos qualitativamente: plena filiaçao (escore “1”) e plena nao-filiaçao (escore “0”) (Ragin, 2009). O autor determina que escores proximos a “1”, por exemplo, “0,8” ou “0,9” indicam filiaçao forte, mas nao completa; escores menores que “0,5”, mas superiores a “0” indicam que o objeto esta mais fora que dentro de um conjunto, mas ainda sim sao membros fracos do conjunto; e, finalmente, escore igual a “0” indica plena nao-filiaçao ao conjunto. O ponto de escore igual a “0,5” indica a maxima ambiguidade na avaliaçao do caso, e tambem e ancorado em uma avaliaçao qualitativa. Segundo Ragin (2009), ha tres operaçoes comuns em conjuntos fuzzy, que sao a NEGAÇAO, a logica E e a logica OU. A negaçao no caso de conjuntos crisp e a troca do escore de filiaçao pelo de nao-filiaçao, e vice-versa, usando a logica dicotomica caracterstica deste tipo de conjunto. No caso dos conjuntos fuzzy, mantem-se o mesmo princpio matematico, mas os valores numericos relevantes nao estao restritos a valores booleanos “0” e “1”; ao inves, eles se estendem a va- lores entre esses extremos. O ca lculo da filiaçao de um caso na negaçao de um conjunto fuzzy A (ou seja, nao-A) e feito pela subtraçao do escore da filiaçao ao conjunto A ao valor “1”, ou seja: (filiaçao no conjunto nao-A) = [1] – (filiaçao no conjunto A), ou ~A = [1] – A, onde o smbolo “~” e usado para indicar negaçao. A logica E e alcançada ao se tomar o mnimo escore de filiaçao de cada caso nos conjuntos que sao combinados. Tal escore mnimo de filiaçao indica o grau de filiaçao de um caso em uma combinaçao de conjuntos, usando a logica da “ligaçao mais fraca”. Dois ou mais conjuntos podem ser unidos atraves da logica OU – a uniao de conjuntos. Nesse caso, a atençao do pesquisador ira para o maximo escore de cada filiaçao individual, sendo esse valor aquele a ser considerado como escore para o caso no conjunto uniao. DEFINIÇÃO DAS VARIÁVEIS DO MODELO A ana lise dos dados referentes a situaçao da açao e das declaraçoes institucionais, feitas em atividades de pesquisa localizadas fora do escopo deste estudo, permitiu que fossem identificadas algumas caractersticas que moldam o arranjo institucional em ana lise. Estas caractersticas foram tratadas como sendo as variaveis causais para a adoçao dos mecanismos de governança no negocio do soro do queijo. Variaveis sao condiçoes, na linguagem da QCA, que podem ser causais ou resultado (Rihoux e Ragin, 2009). A estrutura desta tecnica de ana lise requer que um resultado seja avaliado na fsQCA (Ragin, 2008), assim, sera considerado como resultado a adoçao de mecanismos de governança por parte das empresas. Para proceder a ana lise fsQCA, o primeiro passo foi codificar todas os conjuntos fuzzy de interesse do estudo. O Quadro 1 apresenta as caractersticas do arranjo institucional em ana lise e o respectivo codigo para ana lise fsQCA definido pelos autores. Para todos os casos, o escore 1 sera adotado para alto grau de adoçao do mecanismo de governança e da força das 120 BASE – REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE DA UNISINOS ARRANJO INSTITUCIONAL E A ADOÇÃO DE MECANISMOS DE GOVERNANÇA: APLICAÇÃO DA QUALITATIVE COMPARATIVE ANALYSIS OF FUZZY SETS (FSQCA) instituiçoes. Segundo a literatura, instituiçoes sao classificadas entre formais e informais (North, 1990; Hodgson, 2006; Rogers, 2012), estas duas classificaçoes nao indicam substituiçao, mas complementaridade, uma reforça a outra (Scott, 2008; Rogers, 2012), e a complexidade das instituiçoes contribui favoravelmente para a adoçao de mecanismos de governança (Williamson, 1996; North, 1990; Ostrom, 2005). Sendo assim, o modelo ideal para esta ana lise pressupoe que a robustez do arranjo institucional afete positivamente a adoçao de uma maior variedade de mecanismos de gover- nança. As condiçoes causais (variaveis independentes) foram codificadas individualmente de forma a expressar robustez, quando proximo de 1, ou fraqueza ou inexistencia, quando proximo de 0. Ainda, para todas as condiçoes e para os componentes que formam o item resultado (MECGOV) foram adotadas es- trategias individuais de definiçao do tamanho da escala. Esta estrategia e dependente da quantidade de detalhes presentes na resposta dada pelo entrevistado. Uma condiçao pode ser formada por mais de um conjunto fuzzy, ou seja, mais de uma questao do instrumento de pesqui- sa. Nesses casos, tais conjuntos foram reduzidos usando-se o Metodo de Compensaçao (Ragin, 2009). Este metodo toma a media dos resultados de cada conjunto fuzzy componente de uma condiçao para cada caso analisado, a fim de permitir que um alto desempenho em um conjunto compense pelo fraco desempenho em outro conjunto. Assim, cada pergunta foi codificada isoladamente, formando conjuntos fuzzy separados. Posteriormente, foi tirada a media dos resultados para definir o escore para a condiçao de primeira ordem. Finalmente, as condiçoes GOVE, LEGAL, FISCAL, POSSE, ASSOC e INFO2 foram eliminadas, uma vez que mostraram variaçao insuficiente na tabela verdade para contribuir para a ana lise (Rihoux e Ragin, 2009). Condiçao Codigo fsQCA Nao percebem governos como sendo entraves GOVE Sentem-se protegidos pelo sistema legal LEGAL Sentem-se apoiados pelos orgaos de fiscalizaçao FISCAL Sentem-se apoiados pelas agencias de apoio ao desenvolvimento APOIO Valorizam açoes de coordenaçao conjunta de esforços e de formaçao de associaçao de laticnios COORD Apontam uma atmosfera de confiança e propcia ao aumento da cooperaçao com outros laticnios COOP Acreditam que formaçao de associaçao seria uma estrategia efetiva para a coordenaçao das atividades entre empresas do negocio do soro ASSOC Possuem as informaçoes que gostariam sobre o negocio do soro do queijo POSSE Entendem que o acesso a informaçoes contribuiria para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes de soro INFO1 Entendem que o acesso a informaçoes contribuiria para o desenvolvimento de arranjos coletivos no negocio do soro do queijo INFO2 Adotam diversidade de mecanismos de governança MECGOV Quadro 1. Condiçoes Causais. Chart 1. Causal Conditions. Casos APOIO1 COORD2 COOP3 INFO14 MECGOV5 1 0,00 0,34 0,75 0,25 0,25 2 1,00 0,34 0,50 1,00 0,50 3 0,00 0,00 0,38 0,00 0,25 4 0,00 0,17 0,00 0,00 0,00 5 0,00 0,34 0,63 0,25 0,25 6 1,00 0,34 0,38 0,50 0,25 7 0,00 0,17 0,50 1,00 0,75 8 1,00 0,75 0,25 1,00 1,00 9 1,00 0,34 0,75 0,25 0,50 10 0,00 0,34 0,75 0,00 0,00 11 0,00 0,34 1,00 0,50 0,25 12 1,00 0,34 1,00 0,75 0,50 13 1,00 0,50 1,00 1,00 0,75 Tabela 2. Codicaçao Fuzzy para as Condiçoes Causais. Table 2. Fuzzy Coding for Causal Conditions. Notas: 1 APOIO: Sentem-se apoiados pelas agencias de apoio ao desenvolvimento, 2 COORD: Valorizam açoes de coordenaçao conjunta de esforços e de formaçao de associaçao de laticnios, 3 COOP: Apontam uma atmosfera de confiança e propcia ao aumento da cooperaçao com outros laticnios, 4 INFO: Entendem que o acesso a informaçoes contribuiria para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes de soro, 5 MECGOV: Adotam diversidade de mecanismos de governança. Fonte: Dados da Pesquisa. 121 VOLUME 15 · Nº2 · ABRIL/JUNHO 2018 OSMAR VIEIRA DE SOUZA FILHO  RICARDO SILVEIRA MARTINS  ROBERTA DE CÁSSIA MACEDO A Tabela 2 apresenta os resultados finais das condiçoes a serem analisadas na fsQCA. RESULTADOS TABELA-VERDADE PARA ANÁLISE DOS CONJUNTOS FUZZY As tabelas verdade sao usadas para avaliar o argumento de suficiencia causal, baseado na força do relacionamento (Ragin, 2008; 2009). As linhas da tabela verdade represen- tam as configuraçoes causais, e os valores 1 ou 0 nas celulas indicam as condiçoes individuais pelas quais as combinaçoes causais sao designadas como subconjuntos dos resultados – para estes, o escore sera 1. Para aqueles abaixo do ponto de corte da consistencia, nao sendo subconjunto do resultado, o escore atribudo sera 0. Foram analisadas as tabelas verdade para a presença e ausencia do resultado. Os treze casos, quatro condiçoes causais e uma condiçao resultado produziram uma tabela verdade para a presença do resultado com 16 linhas, que e consequencia de haver dois possveis resultados (0 e 1) elevado a potencia 4 (numero de condiçoes causais). Destas, 11 resultaram em nenhum caso atendendo aquela configuraçao especfica de condiçoes, podendo ser excludas da ana lise. As cinco configuraçoes restantes foram listadas em ordem decrescente de consistencia, que e o grau pelo qual a filiaçao aquela configuraçao de condiçoes causais e um conjunto consistente da filiaçao ao resultado. O determinante fundamental para a construçao da tabela verdade na fsQCA e o resultado da consistencia a ser usado como ponto de corte para determinar qual combinaçao causal passa a consistencia teorica do conjunto fuzzy e qual nao passa (Ragin, 2009). Foi adotado o ponto de corte para a consistencia como sendo 0,80. Na construçao da tabela verdade, a coluna MECGOV (Adotam diversidade de mecanismos de governança) foi inicial- mente deixada em branco, para que o pesquisador inserisse o resultado adequado (0 ou 1) segundo o ponto de corte 0,80. As configuraçoes com consistencia superior a este ponto receberam o resultado 1, enquanto as demais receberam o resultado 0. A Tabela 3 apresenta o resultado da construçao da Tabela Verdade para a presença do resultado. A adoçao dos procedimentos de ana lise gerou os resulta- dos apresentados na Tabela 4. Foram adotados procedimentos de minimizaçao da soluçao. A ana lise gera soluçoes divididas em tres classificaçoes: Soluçoes complexas tratam os rema- APOIO1 COORD2 COOP3 INFO14 NUMBER5 MECGOV6 Consistencia 1 1 0 1 1 1 0,953368 1 0 1 1 2 1 0,896057 1 0 1 0 1 1 0,811688 0 0 1 0 3 0 0,353357 0 0 0 0 2 0 0,323276 Tabela 3. Tabela Verdade para a Presença do Resultado. Table 3. Truth Table for Presence of Result. Notas: 1 APOIO: Sentem-se apoiados pelas agencias de apoio ao desenvolvimento, 2 COORD: Valorizam açoes de coordenaçao conjunta de esforços e de formaçao de associaçao de laticnios, 3 COOP: Apontam uma atmosfera de confiança e propcia ao aumento da cooperaçao com outros laticnios, 4 INFO1: Entendem que o acesso a informaçoes contribuiria para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes de soro, 5 NUMBER: Numero de empresas, 6 MECGOV: Adotam diversidade de mecanismos de governança. Fonte: Dados da Pesquisa. APOIO*~COORD*COOP + APOIO*COORD*~COOP*INFO1  MECGOV (1) Sentem-se apoiados pelas agencias de apoio ao desenvolvimento (APOIO)*~ Valorizam açoes de coordenaçao conjunta de esforços e de formaçao de associaçao de laticnios (COORD)* Apontam uma atmosfera de confiança e propcia ao aumento da cooperaçao com outros laticnios (COOP) + Sentem-se apoiados pelas agencias de apoio ao desenvolvimento (APOIO)*~ Valorizam açoes de coordenaçao conjunta de esforços e de formaçao de associaçao de laticnios (COORD)* Entendem que o acesso a informa- çoes contribuiria para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes de soro (INFO1)  Adotam diversida- de de mecanismos de governança (MECGOV) (1) Quadro 2. Contexto Analtico das Condiçoes Causais APOIO, COORD, COOP. Chart 2. Analytical contexto for Causal Conditions APOIO, COORD, COOP. 122 BASE – REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE DA UNISINOS ARRANJO INSTITUCIONAL E A ADOÇÃO DE MECANISMOS DE GOVERNANÇA: APLICAÇÃO DA QUALITATIVE COMPARATIVE ANALYSIS OF FUZZY SETS (FSQCA) nescentes como sendo todos falsos, contra fatuais; Soluçoes parcimoniosas incorporam fatores remanescentes de qualquer ordem; soluçoes intermediarias incorporam apenas os fatores remanescentes que possam ser tratados como casos contra fatuais “faceis” (Ragin, 2008). Nas tres categorias de soluçao, o menor valor acima do corte foi 0,811668. Para cada categoria de soluçao, foram apresentadas soluçoes e respectivos valores de consistencia e cobertura. A consistencia mede o grau pelo qual os termos da soluçao e a soluçao como um todo sao subconjuntos do resultado, ou seja, o grau pelo qual uma soluçao leva a um resultado. As soluçoes com as mais altas consistencias sao as que quase sempre levam a ocorrencia do resultado. A cobertura mede quanto do resultado e coberto por cada termo da soluçao e pela soluçao como um todo. Das categorias apresentadas, foi escolhida como melhor soluçao a expressao do Quadro 2. Tal soluçao apresenta con- sistencia de 0,88 e cobertura de 0,62. Ou seja, a consistencia e alta o suficiente para afirmar-se com confiança que a soluçao leva ao resultado, e a cobertura indica que 62% dos casos estao cobertos por esta soluçao. A expressao do Quadro 2 pode ser simplificada, consi- derando as regras normais da QCA. Observa-se, por exemplo, que as condiçoes COORD e COOP aparecem na primeira parte da expressao, enquanto suas negaçoes aparecem na segunda parte. Isso demonstra que qualquer valor da condiçao contribui para o resultado. Logo, ambas podem ser excludas da expres- sao, que passaria a ser representada pelo Quadro 3. Esta expressao da soluçao pode ser traduzida como “[a presença da percepçao do adequado apoio das agencias de apoio ao desenvolvimento] ou [a presença da percepçao do adequado apoio das agencias de apoio ao desenvolvimento, combinada com a presença do entendimento que informaçoes relevantes contribuem para mudanças nas regras de remune- raçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes do soro] levam a presença da adoçao de maior diversidade de mecanismos de governança”. O proximo passo e identificar os valores da soluçao para cada caso, como demonstra a Tabela 5. A logica booleana preve que, quando conjuntos sao com- binados usando o operador “E” (quando se usa o smbolo de asterisco na expressao), o resultado da combinaçao e o menor escore dos conjuntos. Quando ocorre o uso do operador “OU”, o resultado da combinaçao reflete o maior escore dos conjuntos. Os casos E8, E13, E7, E2, E9 e E12 possuem filiaçao tanto a soluçao quanto ao resultado, sendo que estes tres u ltimos estao posicionados na fronteira da ambiguidade no conjunto resultado. Seis casos nao estao filiados simultaneamente aos dois conjuntos. O caso E6 e o unico que constituiu uma exceçao a esta ana lise, ja que apresenta filiaçao ao conjunto da soluçao, mas nenhuma filiaçao ao conjunto resultado. A elaboraçao da tabela verdade para a ausencia do resultado possibilita modelar a ausencia de um determinado comportamento, por exemplo, alto desempenho. Este fenomeno e denominado causalidade assimetrica, que significa que a explicaçao quanto a presença de um resultado nao implica que esta explicaçao automaticamente pode ser considerada para a ausencia deste mesmo resultado (Wagemann e Schneider, 2010). A QCA interliga condiçoes e resultado atraves das rela- çoes conjunto-teoria, e tais relaçoes sao assimetricas (Ragin, 2009). Tal fenomeno da causalidade assimetrica justifica a ana lise individual da ausencia do resultado. Seguindo-se os mesmos procedimentos descritos an- teriormente, foi preparada a tabela verdade combinando as mesmas condiçoes causais e a ausencia do resultado. Nesta tabela verdade, tres configuraçoes apresentaram consistencia superior a 0,8, e receberam o resultado 1, enquanto as outras duas restantes receberam o resultado 0. A tabela verdade esta apresentada na Tabela 6. A Tabela 7 apresenta os resultados da ana lise da tabela verdade para a ausencia do resultado. A escolha entre o balanço mais adequado entre consistencia e cobertura da soluçao e feita pelo pesquisador, a luz do seu conhecimento emprico e teorico sobre a situaçao (Ragin, 2008). Sendo assim, como duas soluçoes apresentaram consistencia equivalente, optou-se por aquela com maior cobertura, sendo a soluçao apresentada no Quadro 4. Tal soluçao apresenta consistencia de 0,92 e cobertura de 0,77. Ou seja, a consistencia e suficiente para afirmar-se que a soluçao leva ao resultado, e a cobertura indica que 77% dos casos estao cobertos por esta soluçao. Inclusive, pode-se afirmar que a soluçao encontrada para a ausencia do resultado possui maior consistencia e maior cobertura do que a soluçao encontrada para a presença do resultado. Ambas, no entanto, APOIO + APOIO*INFO1  MECGOV (2) Sentem-se apoiados pelas agencias de apoio ao desenvolvimento (APOIO) + Sentem-se apoiados pelas agencias de apoio ao desenvolvimento (APOIO) * Entendem que o acesso a informaçoes contribuiria para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes de soro (INFO1)  Adotam diversidade de mecanismos de governança (MECGOV) (1) Quadro 3. Contexto Analtico da Condiçao Causal APOIO. Chart 3. Analytical contexto for Causal Condition APOIO. 123 VOLUME 15 · Nº2 · ABRIL/JUNHO 2018 OSMAR VIEIRA DE SOUZA FILHO  RICARDO SILVEIRA MARTINS  ROBERTA DE CÁSSIA MACEDO possuem consistencia suficiente para permitir a presença de relacionamentos entre a teoria e os conjuntos analisados. A expressao da soluçao acima pode ser traduzida como “[a ausencia da presença do entendimento que informaçoes relevantes contribuem para mudanças nas regras de remu- neraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes do soro, leva a ausencia da adoçao de maior diversidade de mecanismos de governança]”. O proximo passo e identificar os valores da soluçao para cada caso, como pode ser observado na Tabela 8. Model: MECGOV = f(apoio, coord, coop, info1) Algorithm: Quine-McCluskey True: 1 COMPLEX SOLUTION frequency cutoff: 1.000000 consistency cutoff: 0.811688 Raw coverage Unique cov. Consistency apoio*~coord*coop 0,52381 0,268571 0,859375 apoio*coord*~coop*info1 0,350476 0,095238 0,953368 solution coverage: 0.619048 solution consistency: 0.878378 PARSIMONIOUS SOLUTION frequency cutoff: 1.000000 consistency cutoff: 0.811688 Raw coverage Unique cov. Consistency Apoio 0,714286 0,714286 0,60000 solution coverage: 0.714286 solution consistency: 0.60000 INTERMEDIATE SOLUTION frequency cutoff: 1.000000 consistency cutoff: 0.811688 Raw coverage Unique cov. Consistency coop*apoio 0,571429 0,15619 0,726392 info1*coord*apoio 0,510476 0,095238 0,967509 solution coverage: 0.666667 solution consistency: 0.755939 Tabela 4. Ana lise da Tabela Verdade para Presença do Resultado. Table 4. Analysis of the Truth Table for Result Presence. Fonte: Elaborado pelos Autores. ~INFO1  MECGOV (3) Entendem que o acesso a informaçoes contribuiria para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes de soro (INFO1)  Adotam diversidade de mecanismos de governança (MECGOV) (3) Quadro 4. Contexto Analtico da Condiçao Causal INFO. Chart 4. Analytical contexto for Causal Condition INFO. 124 BASE – REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE DA UNISINOS ARRANJO INSTITUCIONAL E A ADOÇÃO DE MECANISMOS DE GOVERNANÇA: APLICAÇÃO DA QUALITATIVE COMPARATIVE ANALYSIS OF FUZZY SETS (FSQCA) Os casos E8, E7 e E13 apresentam ausencia de filiaçao tanto a soluçao quanto ao resultado. Os casos E2 e E12 estao filiados a soluçao, mas na fronteira da ambiguidade quanto a filiaçao ao conjunto resultado. Os casos E4, E10, E1, E5 e E3 estao filiados simultaneamente aos dois conjuntos. Os casos E6 e E11 estao filiados a condiçao resultado, mas na fronteira da ambiguidade quanto a filiaçao a soluçao. Por fim, o caso E9 esta filiado a soluçao, mas na fronteira da ambiguidade quanto a filiaçao a condiçao resultado. Nenhum caso se afasta totalmente da explicaçao apontada como soluçao. DISCUSSÃO E IMPLICAÇÕES DOS RESULTADOS A partir da elaboraçao das tabelas-verdade e posterior ana lise dos conjuntos fuzzy pelo metodo fsQCA, foi possvel aceitar as hipoteses 1 (Percepçao da existencia de adequado apoio por parte de agencias de apoio ao desenvolvimento) e 4 (Entendimento que informaçoes relevantes contribuem para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da quali- dade e aumento dos volumes de soro). Mas, nao foi possvel aceitas as hipoteses 2 (Valorizaçao das açoes de coordenaçao conjunta dos esforços e formaçao de associaçao de laticnios) e 3 (Percepçao da existencia de uma atmosfera de cooperaçao e confiança entre os laticnios). O poder de explicaçao das relaçoes entre as condiçoes causais e a presença da condiçao resultado foi igual a 0,88, medido pelo ndice de consistencia da soluçao encontrada; e foi igual a 0,92 para a relaçao entre as condiçoes causais e a ausencia da condiçao resultado. Tais ndices asseguram que a soluçao escolhida e suficiente para a ocorrencia do resultado. Portanto, as caractersticas do arranjo institucional que estao associadas com a maior diversidade no uso de meca- nismos de governança para as empresas em estudo sao: (i) a percepçao do adequado apoio por parte das agencias de apoio ao desenvolvimento de empresas participantes no negocio do soro do queijo; e (ii) o entendimento que informaçoes rele- vantes contribuem para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes de soro disponibilizados. Considerando a informaçao extrada da literatura de que a robustez do arranjo institucional favorece a adoçao de maior diversidade de mecanismos de governança (Williamson, 1996; North, 1990), a relaçao ideal entre as condiçoes pode ser traduzida no Quadro 5: No entanto, a soluçao encontrada pelo algoritmo roda- do para ana lise fsQCA mostrou a seguinte expressao para a presença do resultado: APOIO + APOIO*INFO1  MECGOV (5) Caso APOIO1 INFO12 Soluçao MECGOV3 E1 0,25 0,25 0,25 0,25 E2 1,00 1,00 1,00 0,50 E3 0,00 0,00 0,00 0,25 E4 0,00 0,00 0,00 0,00 E5 0,25 0,25 0,25 0,25 E6 1,00 0,50 1,00 0,25 E7 0,00 1,00 1,00 0,75 E8 1,00 1,00 1,00 1,00 E9 1,00 0,25 1,00 0,50 E10 0,00 0,00 0,00 0,00 E11 0,00 0,50 0,00 0,25 E12 1,00 0,75 1,00 0,50 E13 1,00 1,00 1,00 0,75 Tabela 5. Valores da Soluçao para a Presença do Resultado. Table 5. Values of the Solution for the Presence of Result. Notas: 1 APOIO: Sentem-se apoiados pelas agencias de apoio ao desenvolvimento, 2 INFO1: Entendem que o acesso a informaçoes contribuiria para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes de soro, 3 MECGOV: Adotam diversidade de mecanismos de governança. Fonte: Dados da Pesquisa. APOIO1 COORD2 COOP3 INFO14 NUMBER5 MECGOV6 Consistencia 0 0 0 0 2 1 1,0000 0 0 1 0 3 1 1,0000 1 0 1 0 1 1 0,8961 1 0 1 1 2 0 0,7634 1 1 0 1 1 0 0,6114 Tabela 6. Tabela Verdade para Ausencia do Resultado. Table 6. Truth Table for Absence of Result. Notas: 1 APOIO: Sentem-se apoiados pelas agencias de apoio ao desenvolvimento, 2 COORD: Valorizam açoes de coordenaçao conjunta de esforços e de formaçao de associaçao de laticnios, 3 COOP: Apontam uma atmosfera de confiança e propcia ao aumento da cooperaçao com outros laticnios, 4 INFO1: Entendem que o acesso a informaçoes contribuiria para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes de soro, 5 NUMBER: Numero de empresas, 6 MECGOV: Adotam diversidade de mecanismos de governança. Fonte: Dados da Pesquisa. 125 VOLUME 15 · Nº2 · ABRIL/JUNHO 2018 OSMAR VIEIRA DE SOUZA FILHO  RICARDO SILVEIRA MARTINS  ROBERTA DE CÁSSIA MACEDO A soluçao demonstra que qualquer valor para as con- diçoes causais COOP e COORD favorecem o aparecimento do resultado MECGOV. Os demais elementos da soluçao apoiam o modelo ideal apresentado como hipotese. A condiçao causal COORD esta associada com aspectos ligados a coordenaçao de atividades executadas por outras empresas participantes do negocio do soro do queijo. Um as- pecto que sobressai na ana lise dos casos e que nenhuma das Model: ~MECGOV = f(apoio, coord, coop, info1) Algorithm: Quine-McCluskey True: 1 COMPLEX SOLUTION frequency cutoff: 1.000000 consistency cutoff: 0.896104 Raw coverage Unique cov. Consistency ~apoio*~coord*~info1 0,523871 0,15871 0,9420 ~coord*coop*~info1 0,510968 0,145806 0,9612 solution coverage: 0.669677 solution consistency: 0,926786 PARSIMONIOUS SOLUTION frequency cutoff: 1.000000 consistency cutoff: 0.896104 Raw coverage Unique cov. Consistency ~info1 0,774194 0,774194 0,923077 solution coverage: 0.774194 solution consistency: 0.923077 INTERMEDIATE SOLUTION frequency cutoff: 1.000000 consistency cutoff: 0.896104 Raw coverage Unique cov. Consistency ~info1*~coord 0,685161 0,685161 0,928322 solution coverage: 0.685161 solution consistency: 0.928322 Tabela 7. Ana lise da Tabela Verdade para Ausencia do Resultado. Table 7. Analysis of the Truth Table for Absence of Result. Fonte: Dados da Pesquisa. APOIO*COORD*COOP*INFO1  MECGOV (4) Sentem-se apoiados pelas agencias de apoio ao desenvolvimento (APOIO)*Valorizam açoes de coordenaçao conjunta de esforços e de formaçao de associaçao de laticnios (COORD)*Apontam uma atmosfera de confiança e propcia ao aumento da cooperaçao com outros laticnios(COOP)*Entendem que o acesso a informaçoes contribuiria para mudanças nas regras de remuneraçao, na melhoria da qualidade e aumento dos volumes de soro (INFO1)  Adotam diversidade de mecanismos de governança (MECGOV) (4) Quadro 5. Contexto Analtico das Condiçoes Causais APOIO, COORD, COOP, INFO. Chart 5. Analytical contexto for Causal Conditions APOIO, COORD, COOP, INFO. 126 BASE – REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE DA UNISINOS ARRANJO INSTITUCIONAL E A ADOÇÃO DE MECANISMOS DE GOVERNANÇA: APLICAÇÃO DA QUALITATIVE COMPARATIVE ANALYSIS OF FUZZY SETS (FSQCA) empresas adota ate entao açoes de coordenaçao de esforços conjuntos, independente de destinaçao dada ao soro, volume produzido, dentre outras caractersticas. As iniciativas que ocorreram para a formaçao de uma associaçao de laticnios nesta mesorregiao foram coordenadas pelo SEBRAE-MG, conforme os relatos apontaram de forma bastante frequente. Sendo assim, os escores da codificaçao fuzzy relativos as atuais açoes de coordenaçao sao absolutamente homogeneos. Ademais, foram homogeneos tambem os escores rela- tivos as pretensas açoes de coordenaçao a serem adotadas futuramente pelas empresas. Quando a ana lise recai sobre a perspectiva de adotar açoes de coordenaçao de empresas no mercado de soro, parece nao haver qualquer influencia sobre tais perspectivas a partir dos distintos portes das empresas, medidos pelo volume de soro gerado. A exceçao a esta constataçao e a empresa E8, que esta efetivamente assumindo um papel de captador regional de soro, colocando em operaçao uma planta de concentraçao de alta capacidade e fechando acordos de compra de soro com laticnios vizinhos. Alem disso, a empresa atuou ativamente no grupo que se associou sob a coordenaçao do SEBRAE-MG, e alimenta a expectativa desta associaçao ainda se consolidar. Assim, esta empresa E8 recebeu escores mais altos na codificaçao fuzzy. Como ilustraçao desta homogeneidade, a empresa E7 teve escore na condiçao COORD equivalente ao obtido pelas empresas da outra ponta da classificaçao – 0,34 pontos. Por esta homogeneidade, a condiçao causal COORD perdeu seu poder de afetar diretamente o resultado MECGOV, por isso seus elementos surgiram de maneira a se anularem na expressao da soluçao. No caso da condiçao causal COOP, cujos elementos presentes nas duas partes da expressao tambem se anularam na soluçao final, o ocorrido foi uma questao de aleatoriedade nos escores dos casos. Empresas com intensa utilizaçao de mecanismos de governança apresentaram escores menores que empresas com baixa utilizaçao, mas sem apresentar um padrao de relaçao inversamente proporcional. As demais condiçoes causais analisadas – INFO1 e APOIO – para a presença do resultado estao representadas na expressao da soluçao, tal como previsto na formulaçao da hipotese para o modelo ideal. Ou seja, a relaçao entre as condiçoes causais e o resul- tado aponta para uma confirmaçao das proposiçoes teoricas de que a existencia de apoio por parte de agencias voltadas para o desenvolvimento dos negocios atua como ferramentas alavancadoras de externalidades regionais, dentre elas a cria- çao de um ambiente propcio para fortalecer a governança intra-grupos (Fuini, 2012). No entanto, quando a ana lise recai sobre a ausencia da adoçao de grande diversidade de mecanismos de governança, a condiçao que isoladamente e capaz de explicar o resultado e a negaçao da condiçao causal INFO1, com ndice de consisten- cia equivalente a 0,92. Logo, a ausencia de adoçao de grande variedade de mecanismos de governança esta associada com a ausencia do entendimento sobre o efeito positivo do acesso a informaçoes relevantes sobre o negocio do soro nas regras de remuneraçao, no aprimoramento da qualidade e no aumento dos volumes disponveis do soro. CONCLUSÕES As empresas entendem que o ambiente institucional lhes e hostil, considerando baixo o grau de controle sobre as açoes de comercializaçao ou beneficiamento do soro, encarando go- vernos e o sistema legal como entraves e a regulaçao ambiental como alem de um limite aceitavel. Este quadro institucional concorre para aumentar a pre-disposiçao das empresas a coo- perarem e atuarem de forma mais proxima, bem como a aceitar agentes que promovam a integraçao. Dessa forma, mecanismos que favoreçam a cooperaçao e a coordenaçao sao positivos no fortalecimento das empresas enquanto grupo e favorecem a uniformizaçao de mecanismos de governança. A adoçao de uma maior diversidade de mecanismos de governança e uma forma de aprimorar as relaçoes interorgani- zacionais dentro da aglomeraçao e nas respectivas cadeias de suprimentos. Afinal, elas se sentem adequadamente apoiadas e estimuladas neste sentido pelas agencias de apoio ao desenvol- vimento e reconhecem a importancia dos fluxos de informaçoes relevantes como maneira de aprimorar seu posicionamento no negocio do soro do leite. Agencias de desenvolvimento normalmente atuam como ferramentas sociais e polticas de promoçao da cooperaçao entre atores para obtençao de vantagens competitivas. O papel Casos ~INFO1 ~MECGOV E1 0,75 0,75 E2 0,00 0,50 E3 1,00 0,75 E4 1,00 1,00 E5 0,75 0,75 E6 0,50 0,75 E7 0,00 0,25 E8 0,00 0,00 E9 0,75 0,50 E10 1,00 1,00 E11 0,50 0,75 E12 0,25 0,50 E13 0,00 0,25 Tabela 8. Valores da Soluçao para a Ausencia do Resultado. Table 8. Solution Values for No Result. Fonte: Dados da Pesquisa. 127 VOLUME 15 · Nº2 · ABRIL/JUNHO 2018 OSMAR VIEIRA DE SOUZA FILHO  RICARDO SILVEIRA MARTINS  ROBERTA DE CÁSSIA MACEDO principal e fortalecer a governança territorial pela dissemina- çao de estrategias de compatibilizaçao dos diferentes modos de coordenaçao adotados por atores heterogeneos. O papel desempenhado pelo SEBRAE-MG no fomento da cooperaçao entre concorrentes auxiliou na disseminaçao do ideal do compartilhamento de estrategias e esforços de coordenaçao. Isso resultou na constataçao que uma das caractersticas mais importantes do arranjo institucional e que existe uma atmos- fera de confiança entre os laticnios, propcia ao aumento da cooperaçao entre eles. Para as empresas que participaram do esforço de criaçao da associaçao ocorrido ha alguns anos nesta mesorregiao, ha maior expectativa por iniciativas que fomentem esses ideais acima citados. Para elas, isso incrementara as possibilidades de beneficiamento do soro do queijo e a consequente geraçao de rendas relacionais a partir da cooperaçao. Dessa forma, estas empresas tendem a adotar maior diversidade de mecanismos de governança nas relaçoes interorganizacionais. Outro aspecto relacionado a adoçao de maior diversidade de mecanismos de governança implica procurar encontrar parceiros para projetos especficos ou tem finalidade especfica e e o entendimento por parte das empresas da importancia de haver um fluxo informacional para alimentar as decisoes estra- tegicas. E a oferta de contrapartidas. A ausencia de adoçao de grande variedade de mecanismos de governança esta associada com a ausencia do entendimento sobre o efeito positivo do acesso a informaçoes relevantes sobre o negocio do soro nas regras de remuneraçao, no aprimoramento da qualidade e no aumento dos volumes disponveis do soro. Nesse sistema de interaçoes, o fluxo de informaçoes e o adequado apoio para a coordenaçao de esforços conjuntos funcionam como mecanismos alimentadores das relaçoes cooperativas, e devem ser estimulados como meio de atingir objetivos de desenvolvimento de inovaçoes para o conjunto das empresas, desenvolvimento de ativos especializados, geraçao de rendas relacionais e, sobretudo, acelerando a implantaçao das cadeias de suprimentos no negocio do soro do queijo. A utilizaçao da QCA como metodo de ana lise das relaçoes identificadas trouxe significativas contribuiçoes para o estudo. A tecnica permitiu que os casos fossem analisados de maneira aprofundada. Ao apresentar as condiçoes causais traduzidas em conjuntos difusos, foi possvel entender de maneira abrangente e particular como os casos se diferenciam nos aspectos de ana lise. A contribuiçao para o desenvolvimento de proposiçoes teoricas sobre o tema se torna evidente. A ana lise das caractersticas do arranjo institucional do soro do queijo foi feita de forma independente de outros arranjos que envolvem as mesmas empresas, notadamente a da produçao de queijo. Sendo assim, aspectos importantes do negocio do queijo podem afetar as regras e elementos do caso do soro do queijo, bem como os mecanismos de governança utilizados pelas empresas. A compreensao das dinamicas seria ampliada caso o negocio do queijo fosse tambem analisado. Sendo assim, e conveniente que se avance no estudo das in- fluencias de outras atividades em arranjos institucionais que ocorram de forma paralela. REFERÊNCIAS ALIGICA, P.D. 2014. Institutional Diversity and Political Economy: The Ostroms and Beyond. Oxford, Oxford University Press, E-book Edition, 256 p. ALVAREZ, S.A.; BARNEY, J.B.; DOUGLAS, A.B. 2003. Trust and its alternatives. 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