UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA Irislane Pereira de Moraes ARQUEOLOGIA ‘NA FLOR DA TERRA’ QUILOMBOLA: Ancestralidade e Movimentos Sankofa no Território dos Povos do Aproaga - Amazônia Paraense Belo Horizonte, Minas Gerais 2021 Irislane Pereira de Moraes ARQUEOLOGIA ‘NA FLOR DA TERRA’ QUILOMBOLA: ANCESTRALIDADE E MOVIMENTOS SANKOFA NO TERRITÓRIO DOS POVOS DO APROAGA - AMAZÔNIA PARAENSE Versão Final Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial para a obtenção do título de Doutore em Antropologia, área de concentração em Arqueologia. Linha de Pesquisa: Arqueologia do Mundo Moderno e Contemporâneo. Orientação: Profa. Dra. Mariana Petry Cabral Belo Horizonte, Minas Gerais 2021 As imagens audiovisuais e textuais produzidos e co-criadas no percurso desta caminhada de pesquisa com os Povos do Aproaga são in memoriam de todes Pretos Dantes que (re)existem entretempos nessas ancestrais paisagens amazônicas, em especial à Gil Herculano dos Santos, LuCiane dos Santos (autora do desenho acima), D. Baruca (Barbara Aires da Silva), S. João Henrique dos Santos, S. Vergino dos Santos e S. “Joãozito” (João da Luz Santos). Em vida e compromisso de luta dedico este trabalho à todas as comunidades quilombolas da Diáspora Africana, na pessoa de D. América Maria dos Santos. MO DUPÉ! DWÁ! (AGRADECIMENTOS) Mo Jubá! Mo dupé! Eu saúdo e agradeço mi Orixás e Ancestrais que me possibilitaram (re)existir nessa Diáspora Africana, desta vez em terras amazônicas. Como nosses mais velhes sempre ensinam em nossas comunidades, “o que o colonialismo e a escravidão separaram, Orixá e a ancestralidade (re)unem!”. Axé! E venho em paz. HTP \o/. Sabe aquela paz interior de aos poucos compreender o porquê dessa nossa jornada aqui no Ayê (terra)? Pois é! Dentro de mim, vibra uma força tamanha, emana uma gratidão incomensurável, pois percebo a cada dia e no próprio movimento da vida, a plena e intensa conexão restabelecida com nossa ancestralidade e com a memória de quem somos. Dwá NaTuReza! Mo dupé Ori mi, Mo jubá olori mi Ossain, Mo jubá Yá mi Yemonjá. Mo dupé Oxum por me confirmar sua ekedji. Saúdo e reverencio com gratidão pela energia e proteção constante que me faz seguir caminhando com boa sorte essa minha jornada aqui no Ayê. Adupé minha egbé, o Ilê Axé Yabá Omi(ACIYOMI)! Agradeço e peço a benção de todes mais velhes, mais noves e iguais. Em especial, saúdo às nossas Iyás que diariamente nos cuidam e ensinam um saber ancestral na prática: minha Iyá Nalva d’Oxum, a Iyá Simone d’Oyá, e minha querida mãe-pequena Tânia d’Ogum, Motumbá?! Saúdo ainda a minha mais velha, ekedji Oba, Motumbá?! Orixá Mo dupé pelo ensinamento, zelo e compromisso com nossos Orixás. Entre les yaos da nossa Comunidade, Gratidão eternas à Gabby d’Obaluayé e a Nazaré d’Ewá pela irmandade construída e vivenciada na prática do axé; agradeço também as minhas filhas-pequenas Thiane Barros e Naiara Silva pelo carinho, cuidado e aprendizado recíproco. Com nossa egbé em cada ume de vcs, tenho vivido e compartilhado o retorno a Orixá, a volta as nossas origens e saberes ancestrais. Isso possibilita nos cuidarmos mutuamente, trocarmos afetos e aprendizados, e poderosamente crescermos enquanto Povo Tradicional de Matriz Africana na Amazônia. Olorum mo dupé! Oxalá bosi fuô Egbé mi! Axé!!! Agradeço a minha família natural, em especial minha mãe Aparecida, a minha maninha Priscila, Antônio, Tamires e ao mano Rafael pelo amor e carinho. Saudação carinhosa a família Ferreira Pereira, a cada tie e prime... Em especial, gratidão e respeito a nossa grande matriarca, Aurentina Ferreira Pereira (Dona Nega), minha avó tão linda, sábia e sagita, que nos seus mais de 80 anos é minha referência diária de amor a vida e no cuidado das plantas! Ainda, seguindo na linhagem de minha avó materna, agradeço à todes mi avós e tataravós enquanto ancestres minhas mais remotas, dentre les quais a memória de minha avó ‘D. Nega’ ainda me permitiu saber pelo menos seus nomes: D. Vitalina Ferreira Pedroso, D. Virginia e D. Romana. A benção minhas mais velhas?! Ainda na família, Moraes, desde um lugar estranhamente novo, agradeço a meu Pai, Isaías Texeira de Moraes. Este meu velho, um migrante maranhense vindo de Caxias e agricultor nato radicado em Marabá a partir da década de 1970. Apesar da ausência e reprodução de padrões sociais que nos atravessam a memória e trajetória pessoais, tenho acolhido como seu o legado da firmeza do Ser e fazer das coisas. Assim como uma velha árvore tipo carvalho bem consolidada na terra ao longo do tempo e das adversidades. O senhor me inspira principalmente no amor em cultivar a terra e sou muito grata por isso, pois cuidar da terra e cultivar plantas tem sido um grande movimento de cura para mim. Espero, algum dia, podermos conversar sobre isso também. E quando a gente entende que o que nos une perpassa pelo amor, respeito e ancestralidade, bem como, pela experiência de gestar e fazer crescer a vida implica em cuidado? Gente, a própria expressão constituinte de ‘família’ se expande, e nesse sentido agradeço também mi parentes de axé e de vida compartilhada. Gratidão Família! Em especial mi filhes César Filho (Núbia Waka Waka) e Queiton Carmo (Ketu); com amor e gratidão saúdo minha mãe afetiva no Amapá, Lourdes Vulcão; a meu egbomi no Axé e na arqueologia Mario Polo e minha mana mais nova, Luciana Costa. Ah Luciana! Desde aquele primeiro campo de arqueologia, tenho a plena certeza de que nos reencontramos pelo axé de nossos orixás e ancestrais. Nossos vínculos foram restabelecidos e seguem firmes. É isso, seguimos juntes e Fortes! Axé! Agora no quilombo, agradeço aos Povos do Aproaga na pessoa da velha América dos Santos. Matriarca da Taperinha e herdeira direta dos Pretos Dantes. Assim, toda gratidão e máximo respeito a todes Pretos Dantes pela permissão e ensinamentos concedidos para caminharmos, (re)conhecermos e vivenciarmos a ancestralidade negra neste território aquilombado por suas descendências, nomeadamente as comunidades de Nova Ipixuna, Taperinha, Sauá-mirim, Benevides e Alegre Vamos. Nessa Caminhada Sankofa no território tradicional quilombola dos Povos do Aproaga, muitas foram as pessoas com quem aprendi, a cada uma delas sou eternamente grata, entre as quais destaco: Manoel Clauderi Coutinho da Luz “Cléo”, liderança comprometida e visionária na luta quilombola de seu Povo em defesa da vida e território tradicional. Agradeço a Sra. Edilena Santos Silva que sempre nos acolheu em sua casa e cotidiano no DER/Santana do Capim. No quilombo do “Pixuna” toda minha gratidão é para o sr. João da Conceição, o “Pitada” e sua esposa rainha D. Rosa Santos, a “Bené”, este casal tão lindo e amoroso que há mais de uma década nos acolhe em suas comunidades da maneira doce e cuidadosa. Aliás essa doçura e leveza também se estende a sus filhes, crianças que amo com coração pleno e sorriso aberto. Essas crianças do quilombo sempre foram meus mestres, me ensinaram tanto nessa caminhada de pesquisa pelo (re)existir. Dentre elus agradeço de todo meu coração e invoco o nome de Luciana dos Santos “Tia Preta”, Luciane dos Santos “Ciane” (in memoriam), Luciene dos Santos “Rita”, João Paulo dos Santos e Juliana Santos. Muitas festas fizemos e ainda vamos fazer mais para celebrarmos a vida manifesta, afinal a brincadeira de bem viver está sempre garantida com as crianças do “Pixuna”. Festa garantida em terra ou no igarapé, em especial no que depender também de Jonny, Lorran, Lorrany, Edivandro Carmo da Cunha o “Jonathas”, Maria de Jesus Conceição Gomes “Esmeralda”, Viviane e Vanessa! Erê mi! Valeu gente! Ainda no Capim, minha saudação e agradecimentos a les velhes de Santana do Capim e DER, em especial a les narradories da memória Preta e quilombola na região: a Dona Lorença, Seu Castilho e dona Isolina. Na comunidade de Benevides a todes mais uma vez, em especial a professora Ana Cristina Ferreira da Silva, pela acolhida em sua casa e por compartilhar suas histórias com as coisas dantes. Obrigada também a sua tia Noemia Lopes Cruz, “Noca” pelas conversas feitas na beira do rio Capim, que pessoa mais amável e poderosa! Ainda na Comunidade de Benevides, gratidão à juventude envolvida nos trabalhos das oficinas de arqueologia e comunidade, em especial: Luciana Lopes de Jesus, Ivanilza Amaro Lopes “Vanda”, Paulo Ricardo da Conceição Silveira “Tigrão”, Raimone Oliveira da Costa e Taíse dos Passos de Jesus...Todes vocês em comunidade são o fundamento e dão maior sentido a este trabalho pesquisa comunitária. Trabalho este que tanto me ensinou, e pretende também contribuir na luta e caminhada antirracista a partir do campo do conhecimento na Universidade. Assim, em cada nome ora mencionado, em gratidão fluente eu cumprimento a todes quilombolas do Território dos Povos do Aproaga, quilombolas dantes, de agora e les que estão por vim. Nesse mesmo sentido de resistência coletiva, agradeço ainda a cada amigue de fé e de luta que vamos reencontrando nas encruzilhadas da vida. Amigues esses que inicialmente reencontrei em Marabá-Pará, minha Terra Natal e fronteira amazônica de muitas existências e lutas, assim, saúdo em especial a Joseline Trindade, Eric de Belém, Rose Bezerra, Raimundinho, Jane e Thiago Martins, Ailce Margarida, e a Vanda Melo, esta minha comadre, obrigada também pela honra de ser didinha de Yansã Barbara. A todes vocês irmandade e militância amazônica, um abraço caloroso para renovar as forças e resguardar a ternura. Por falar em cuidado, na resiliência comprometida para viver em equilíbrio e promovendo curas do Ser, agradeço pelo trabalho fundamental e cotidiano das psicólogas Lívia Arrelias e Mirian Aldebaran. Gente, como retribuir a vocês? Gratidão pelo cuidado e por nos mostrarem na prática que a clínica antirracista e holística é real e totalmente possível nas nossas vidas. Agradeço a Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), pela minha liberação a qualificação e bolsa de estudos (CAPES/PRO-DOUTORAL). Saudações afetuosas e acadêmicas a mi parceiries quando atuando no Centro de Pesquisas Arqueológicas do Amapá (CEPAP-UNIFAP), a Dra. Jucilene Amorim e Helyelson Moura, e com muito apreço em nome da querida profa. Dra. Cecilia Bastos a agradeço a cada colega do colegiado do curso de História, pela compreensão e apoio para a minha liberação para esta qualificação doutoral. Da resistência quilombista dentro da Universidade amapaense, agradeço a todes participanties do nosso querido e aguerrido Núcleo de Estudos Afro- brasileiros (NEAB-UNIFAP), em especial a profa. Piedade Lino Videira, a amiga e ekedji Elane Albuquerque, Joelma Menezes (Quilombo do Rosa), Enilton Ferreira e Alzira Nougueira. Ah sim Alzira, tú és amor da cabeça aos pés! Em todas as lutas contra o racismo e pela implementação das Políticas de Ações Afirmativas na UNIFAP, eu só posso agradecer a vocês pela ternura, dedicação e referência que são para todes nós. Ainda no Amapá, agradeço a amigues e ex-alunos no ensino de arqueologia na UNIFAP, especialmente, a Lucas Marcel, Juliana Belfor, Karina Nylmara e Sabrina Bentes, e a Bê! Benedita Sardinha, amo muito. Aliás, reencontrar vocês após anos afastada de Macapá, foi a alafia maravilhosa para que eu e minha companheira, Suzanny Rodrigues, pudéssemos nos reencontrar nessa gira da vida. Então RA-inha, todo meu amor e agradecimento especial por seu apoio na reta final deste trabalho. Sob a luz do sol, a partir da filosofia africana e afrodiaspórica, agradeço a intelectuais negres, assim como aos prof. Renato Noguera, prof. Tata Uã Flor Nascimento, Mestre Jayro Pereira, por abrirem caminho e contribuírem na formação crítica e nos acessos ao múltiplo conhecimento negro africano e ancestrálico. Nessas formações afrocentradas, agradeço a profa. Katiúscia Ribeiro que em meio a pandemia do coronavírus teve força e coragem de compartilhar companhia na sua barca e nos possibilitou entendimento e movimentos de curas, especialmente fazendo-me chegar a SBA AnaSou e ao Kemetic Yoga, Salve Ana!, afinal a revolução que somos é uma jornada que começa pelo Espírito, totalmente cardiografada pelos nossos sentidos equilibrados em Maat. Em busca das palavras ideais para expressar tamanha gratidão a vocês nossos mais velhos e referencias potencias, eu digo bendito dia! DWA pela partilha! DWA NTR! ANK UDJA SENEB \o/ !!! No PPGAN-UFMG, agradeço aos colegas de turma, tanto de mestrado como de doutorado, pelas discussões, conversas e resistência diária para enfrentar a colonialidade do saber e do racismo institucional abertamente estruturados e praticados na Universidade. Nossas saudações cabanas, são a Mayara, Jaqueline, Thiago, Daniel, Suelen, Ric, Edgar e tantos estudantes que lutaram e lutam até hoje pela real implementação das Políticas Afirmativas na Pós-graduação da UFMG. Aliás, toda nossa gratidão à Aninha das Mercês, que além de realizar um trabalho hercúleo na secretaria do Programa, por vezes nos acolheu em seu lar para vivermos momentos de alegria e afeto, ao som de samba e músicas marcantes. Nóh! Sempre vou lembrar da galera cantando emocionada a canção “Naquela Mesa”, de Nélson Gonçalves, a pedido e em homenagem a sua mãezinha Dona Alice. Na aridez da academia, essas são lembranças alegres que sempre vou ter no coração. Agradeço também aos professores do PG, em especial Dr. Andrei Isnardi e Dr. Carlos Magno pelas importantes discussões em sala de aula e na minha primeira banca de qualificação. Ao prof. Andrei agradeço ainda por compreender e me apoiar na mudança e fase de transição de orientação para a então responsabilidade da profa. Dra. Mariana Petry Cabral. Ah! Mariana, nossos caminhos sempre têm se encontrado, seja na UFPA, no Amapá ou na UFMG... Essa conexão é um presente, assim, enquanto orientadora e ao mesmo tempo “irmã mais velha” na arqueologia, agradeço pela acolhida em sua casa, pelas discussões profícuas, ensinamentos e apoio fundamental em cada etapa de nossos encontros e realização desta tese. Ogum Mo dupé por tua força e apoio em tudo. Nesta versão final, registro meus agradecimentos de todo coração pela arguição atenta e profunda da Banca de defesa, muito obrigada a Dra. Rosinalda Correa da Silva Simoni, a Dra. Patrícia Marinho de Carvalho (irmãs de luta também na Rede de Arqueologia Negra – NEGRArqueo), a Dra. Joseline Simone Barreto Trindade e Dra. Magda dos Santos Ribeiro, que junto a desobediência epistêmica e política que veia este trabalho, concordaram unanimemente pela presença de um examinador especial da comunidade, cito o Sr. Manoel Clauderi Coutinho da Luz (Cléo), então, presidente da Associação Quilombola Unidos do Rio Capim (AQURC). Infelizmente com a pandemia do novo coronavírus não foi possível fazermos a defesa de maneira presencial para que mais pessoas da comunidade estivessem presentes na ocasião para apreciar o trabalho final apresentado, a não ser de maneira online, mas ainda assim, foi mais justo contar com sua participação como examinador comunitário. Afinal, espero pelo dia que as comunidades tradicionais sejam não apenas devidamente consultadas e livre-esclarecidas em relação as pesquisas realizadas em seus territórios, mas também sejam equânime e categoricamente as avaliadoras dos respectivos resultados de trabalhos, garantidas as suas especificidades etnicorraciais e culturais. Axé! Ainda em Beagá, agradeço pela leveza, beleza admirável e afeto fluente de Gabi Meneses. Contigo encontro Luisa Matias, gratidão lindeusas do meu coração!! Gratidão eterna para Dóris Faustino e família pelas vivencias compartilhadas. Na sua pessoa agradeço mais uma vez aos ancestrais e toda a irmandade pelos momentos de alegrias e aprendizados experienciados em coletividade, especialmente no âmbito do Centro de Convivência Negra (CNN-UFMG), então conquistado durante o movimento nacional de ocupações das Universidades. Uma ocupação dentro de uma ocupação gente, movimento negro sempre é vanguarda da luta. E depois da aula na UFMG, sempre tive acolhimento afetuoso de Aninha e Marco Llobus, tudo bem regado de boas conversas e comidas à moda minera. Nas caminhadas pela Lagoa do Nado e aulas de dança cigana, agradecimentos a Marta Matos e Dona Ana amante do carimbo ao ponto de levantar de uma cadeira de roda para dançar os ritmos paraenses, seres de luz, a vocês minha terna gratidão. Em nossas terras Amazônicas de Belém do Pará, também agradeço imensamente a Gilberto Mendonça, pelo “Artevismo” e “cinema de guerrilha”, com certeza sua prática diária faz do audiovisual e do cinema uma forma de luta, uma poética de resistência amazônica. No mesmo sentimento, minha gratidão imensa a Léo Oliveira e a mandigueira CUTIMBÓIA (Associação Cultural dos Quilombos da Floresta) pela ginga e tantos treinos na Terra Firme, bem como, pelas oficinas de capoeira Angola ministradas no quilombo. Agradeço especialmente a Auri Ferreira pela parceria de tantos momentos, pela criatividade engajada de sempre e, particularmente, pela realização das oficinas de fotografia e identidade visual e pela edição especial do seu Projeto “Cria Preta” na comunidade quilombola de Nova IPixuna. Em Belém do Pará, também agradeço a minha sempre e estimada professora. Rosa Acevedo-Marin por nos abrir um caminho rumo ao Capim e apoiar imensamente minha formação acadêmica, sempre orientada pela ética e compromisso social com as comunidades e Povos Tradicionais. Sua dedicação e trabalho nos inspiram e representam um grande legado de luta e conhecimentos que importam. Ainda na nossa amada Belém, agradeço a Nazaré Trindade pelas sempre preciosas leituras de revisão das versões desde quando iniciei a dar forma as ideias e trabalho de pesquisa. A Glenda Consuelo, minha grande amiga dos tempos da especialização em arqueologia, eu agradeço pela partilha momentos históricos e, por conseguinte ainda lutar pela vida de maneira extraordinária e inspiradora. Para a realização das atividades de campo, agradeço mais uma vez pelo companheirismo de Gabby Hartemann e Luciana Costa, afinal foram muitas as etapas de campo e experiências compartilhadas. Juntes somos arqueólogues em movimento para reparação e reverência devida a nossa ancestralidade também nesse mundo visível e materializado de energias com a qual arqueologia tem (sim) lidado na sua prática acadêmico-cientifica. Gratidão a Karla Bianca Oliveira pela parceria, paciência e prontidão para a produção dos mapas, e a Vitória Carolina Pinheiro que se engajou desde o primeiro momento na empreitada de montar a arte de identidade visual para a Associação Quilombola Unidos do Rio Capim (AQURC). Obrigada ainda Rodrigo Aquiles Souza que mesmo chegando na reta final do trabalho conseguiu somar imprescindíveis forças na estruturação previa da proposta do site da AQURC. Na pessoa de vocês eu agradeço e saúdo a nossa pioneira Rede de Arqueologia Negra e a todes arqueologues negres no Continente e nas Diásporas! Alegres são os nossos reencontros, gloriosos somos enquanto Povo que conhece e conta sua própria História. Axé!!! Na trilha de confluências e saberes, que este trabalho feito como uma porção de histórias, sons e imagens afrodiaspóricas interconectadas pela ancestralidade, seja lido, ouvidas e sentido ao som de “Tambores de Mina” materializado pela sequência musical feita pelo Mawaca no pot-pourri magistral que reúne as canções N´Kosi Sikel´iAfrika – hino da África do Sul, Cangoma um jongo eternizado na voz de Clementina de Jesus e Sansa Kroma, canto tradicional do Gana que conta como Seres Pássaros vem à terra para cuidar das gentes, crianças porventura desamparadas. Pelo que agradeço imensamente a Ethos Produtora de Arte e Cultura Ltda. por licenciar o uso desse fonograma Tambores de Mina1 na composição da trilha sonora do nosso vídeo documentário com os Povos do Aproaga. Afinal, sei que corro risco de não citar nominalmente todes que são parte e apoioadories deste trabalho, mas como ‘evocar nomes’ para (re)conhecimentos é inclusive parte da metodologia construída neste trabalho, tentei registrar ao máximo e até nisso agradeço pela compreensão de todes. Chegar até aqui, escrever e defender a tese em meio a pandemia do coronavírus e do apagão do Amapá, significa tanto que agradecer a minha comunidade estendida é mais que um mantra para mim. Durante todo o doutorado, trabalho de campo e escrita da tese recebi muito apoio e tenho contado com parceria em parte dos trabalhos que em muito se expandem para além da tese, porquanto, ela materializa apenas parte da realização coletiva de nossos sonhos e movimentos afrorreferenciados. Para nós, arqueologia Sankofa é realidade. Orixá Mo Dupé! Adupé Egbé! Axé!!! Obrigade Ancestrais que foram, estão e hão de vim... Dwá! Ank Udja Seneb! \o/ #VIDAS NEGRAS IMPORTAM!!! 1 Para ouvir o citato fonograma Tambores de Mina, acessar em: https://youtu.be/1n2L7FstmxU. A explosão não vai acontecer hoje. Ainda é muito cedo... ou tarde demais. Não venho armado de verdades decisivas. Minha consciência não é dotada de fulgurâncias essenciais. Entretanto com toda a serenidade, penso que é bom que certas coisas sejam ditas. Essas coisas, vou dizê-las, não gritá-las. Pois há muito tempo que o grito não faz parte da minha vida. Faz tanto tempo... Por que escrever esta obra? Ninguém a solicitou. E muito menos aqueles a quem ela se destina. E então? Então, calmamente, respondo que há imbecis demais neste mundo. E já que o digo, vou tentar prová-lo. (Frantz Fanon em Pele Negra, Máscaras Brancas, 2008 [1952]: 25) (...) O que poderia o sujeito negro dizer se ela ou ele não tivesse sua boca tapada? E o que o sujeito branco teria de ouvir? Existe um medo apreensivo de que, se o sujeito colonial falar, a/o colonizadora/or terá de ouvir. Seria forçada/o a entrar em uma confrontação desconfortável com as verdades da/o “Outro/a”. Verdades que têm sido negadas, reprimidas, mantidas e guardadas como segredo. Eu gosto muito deste dito “mantido em silêncio como segredo”. Essa é uma expressão oriunda da diáspora africana e anuncia ao momento em que alguém está prestes a revelar o que se presume ser um segredo. Segredos como a escravização. Segredos como o colonialismo. Segredos como o racismo. (Grada Kilomba, em Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano, 2019[2008]:41). RESUMO Este trabalho versa essencialmente sobre conhecimento, ou seja, acerca dos modos de conhecer e gerarmos (re)conhecimentos. Emerge em distinção afrontosa ao modo de conhecer ocidental branco cis-hetero cristão moderno, ora hegemônico na academia com sua respectiva (re)produção sistemática de violências epistêmicas, individualismos, invisibilidades e silenciamentos. Trata-se, portanto, de um aquilombamento em múltiplas dimensões, que para tanto, tenho me afrorreferenciado nesta pratica de desobediência epistêmica e existencial. Enquanto arqueólogue, reivindico e demarco a urgência de (re)fazermos também a arqueologia como um modo de conhecer elaborado a partir de uma prática decolonial e conforme perspectivas afrorreferenciadas. Em movimentos Sankofa a própria tese faz-se uma experiência coletiva, práxis de (re)conhecimentos de existências e saberes orgânicos, por sua vez Orientada pela ancestralidade que me constitui e reverencio no Terreiro e em coletividade afrodiaspórica. Para além do alcance de objetivos formais da arqueologia, tencionamos a prática e reflexividade da relação de conhecimento como condições de possibilidade e decorrente de vivências coexistênciais entre seres e saberes orgânicos negro-quilombolas. Assim, a própria produção e troca de conhecimentos deriva de confluências contracolonialistas e dos movimentos de andança Sankofa, compartilhados em especial com as comunidades quilombolas dos Povos do Aproaga. Nesse contexto, os Povos do Aproaga são como se autodenominam algumas comunidades quilombolas (re)existentes na Amazônia Paraense, baixo curso do Rio Capim. Enquanto que Sankofa é uma imagem-potência de origem africana adotada nessa caminhada de (re)conhecimentos, pois possibilita comunicar as reivindicações concernentes aos direitos de nós gentes afrodiaspóricas em relação à reparação da violência sofrida com a escravidão, colonização e o racismo, de afinal podermos voltar às nossas origens e ancestrais, de colocarmos em afroperspectiva as nossas memórias e temporalidades, de maneira que realmente nos interessem e façam sentindo em nossas histórias e comunidades de matrizes africanas. Palavras-chave: Arqueologia Sankofa. Povos do Aproaga. Quilombolas. Diáspora Africana. Ancestralidade. Amazônia. ABSTRACT This work is essentially about knowledge, that is, about the ways of knowing and generating knowledge. It emerges in a daring contrast to the modern cis-hetero white Western Christian way of knowing, now hegemonic within academia through its systematic (re-)production of epistemic violence, individualisms, invisibilities and silences. It is, therefore, an aquilombamento [maroon-ing] in multiple dimensions, for the purpose of which I have come back to African references through the practice of epistemic and existential disobedience. As an archaeologist, I claim and point to the urgency of also re-making archeology as a way of knowing elaborated from the standpoint of decolonial practice and according to afro-referenced perspectives. Within Sankofa movements, the dissertation itself becomes a collective experience, a praxis of the acknowledgement of existences and organic knowledge, in turn guided by the ancestrality that constitutes me and which I honor in Terreiro and in Afrodiasporic collectives. Beyond the achievement of formal goals in archeology, we point to the practice and reflexivity of the knowledge relationship as conditions of possibility and resulting from coexisting experiences between Black Quilombola beings and knowledge. Thus, the production and exchange of knowledge itself derives from counter-colonialist confluences and from the sankofa walking movements, shared especially with the Quilombola communities of the Aproaga Peoples. In this context, the Peoples of Aproaga are as they call themselves some Quilombola communities in the Pará State Amazon, based on the Capim River. While Sankofa is a potency-image of African origin adopted in this journey of (ac-)knowledge(-ment), as it makes it possible to communicate concerns about the rights of us Afrodiasporic people in relation to the reparations of the violence suffered with enslavement, colonization and racism, and after all we can return to our origins and ancestors, to put in afro- perspective our memories and temporalities, in a way that really interests us and is meaningful within our stories and communities of African origin. Keywords:; Sankofa Archeology. Aproaga People. Quilombolas. African Diaspora. Ancestrality. Amazon. LISTA DE IMAGENS Imagem 1. Desenho dos Pretos Dantes (dedicatória), elaborado por LuCiane em julho de 2011. Fonte: Moraes, 2012..................................................................................p.06 Imagem 2. Orientação ilustrada para acesso de material on-line via QRcode..........p.36 Imagem 3. João Paulo dos Santos e a potência da (auto)imagem quilombola.........p.39 Imagem 4. Maria de Jesus Conceição Gomes, a “Esmeralda” quilombola...............p.39 Imagem 5. João Paulo, teus olhos revelam companheirismo...................................p.40 Imagem 6. Lorrana Santos.......................................................................................p.40 Imagem 7. Mira “Esmeralda” (Maria de Jesus Conceição Gomes) ..........................p.41 Imagem 8. Ariana / “Mariazinha” & Lorrana..............................................................p.41 Imagem 9. Juliana Silva Santos ..............................................................................p.42 Imagem 10. “Tia Preta” (Luciana Silva Santos) .......................................................p.42 Imagem 11. Ariana/ “Mariazinha” se diverte no igarapé Ipixuna...............................p.43 Imagem 12. Kawane, a “Kakau”...............................................................................p.44 Imagem 13. Aline & Lorrana, durante o Ensaio de Identidade Visual........................p.44 Imagem 14. Edivandro Carmo da Cunha, o “Jonathas”...........................................p.45 Imagem 15. Lorran Santos da Silva.........................................................................p.45 Imagem 16. Viviane Carmo da Cunha......................................................................p.46 Imagem 17. “Tia Preta” (Luciana da Silva Santos) ...................................................p.47 Imagem 18. “Duda” & “Esmeralda”...........................................................................p.48 Imagem 19. “Rita & “Dijé” (Luciele Silva Santos & Maria de Jesus Santos) .............p.48 Imagem 20. Ariana “Mariazinha” nas ruínas do Casarão do Aproaga......................p.49 Imagem 21. Jamilly Luz, nas ruínas do Casarão do Aproaga...................................p.50 Imagem 22. Valéria do Carmo da Cunha, no igarapé Domingos Dias – Aproaga .....p.51 Imagem 23. “Tia Preta” no igarapé Domingos Dias – Aproaga.................................p.51 Imagem 24. Viviane do Carmo Cunha nas comportas da memória, igarapé Domingos Dias – ruínas do Aproaga ........................................................................................p.52 Imagem 25. “Jonny” (Edivanderson do Carmo da Cunha) .......................................p.53 Imagem 26. Adinkra Sankofa nas suas duas expressões gráficas.....................p.1 e 75 Imagem 27. Profa. Dra. Whitney Battle-Baptiste no centro e participantes da V SIA MAE/USP (2017) ..................................................................................................p.108 Imagem 28. Sede da Fazenda Cajueiro e intrusamentos do Território Quilombola dos Povos do Aproaga .................................................................................................p.113 Imagem 29. Vista do Casarão do Aproaga a partir do rio Capim. Acervo da AQURC/Ano ≃ 1980..............................................................................................p.122 Imagem 30. Arte escolar Capinhense com imagem Casarão do Aproaga..............p.124 Imagem 31. Mapa de delimitação do Território Quilombola reivindicado ..............p.128 Imagem 32. Cartografia social do Território dos Povos do Aproaga elaborado em parceria com o PNCSA. Fonte: Moraes, I. P. (2012) ..............................................p.131 Imagem 33. O poço reconhecido por LuCiane nas ruínas do antigo engenho Aproaga. Foto: Rosa Acevedo-Marin.................................................................................... p.139 Imagem 34. Desenho elaborado por LuCiane dos Santos, Comunidade de Nova Ipixuna, trabalho de campo 2011...........................................................................p.142 Imagem 35. A obra Pretos Dantes de Luciane Santos. Nova Ipixuna, Trabalho de campo julho 2011. Fonte: Moraes (2012:133) ..................................................p.6 e 144 Imagem 36. In memoriam de LuCiane dos Santos, Nova Ipixuna, 2010 ................p.148 Imagem 37. I Oficina “Arqueologia e Comunidade”, Escola de Nova Ipixuna ........p.164 Imagem 38. I Oficina “Arqueologia e Comunidade” no Sauá-mirim........................p.167 Imagem 39. Identidade Visual da Cutimboia..........................................................p.168 Imagem 40. Roda da I Oficina de Capoeira Angola, Escola de Nova Ipixuna ........p.171 Imagem 41-42. Serigrafia das camisetas da II Of. Capoeira Angola.....................p.173 Imagem 43. Treinél Léo Oliveira e participantes da I oficina de Capoeira.............p.174 Imagem 44. Of. Fotografia e Identidade Visual na Escola Nova Ipixuna.................p.175 Imagem 45. Lorran na prática da Oficina de Fotografia e Identidade Visual ..........p.176 Imagem 46. Viviane e sua boneca Abayomi ..........................................................p.178 Imagem 47. Exposição “(Auto)imagens quilombolas”............................................p.179 Imagem 48. Crianças quilombolas na brincadeira de “pula-saco”..........................p.180 Imagem 49. “Esmeralda” com sua peconha na escalada do mastro deslizante .....p.181 Imagem 50. Fotocolagem “Conhecer e Bem-viver com Quilombolas do Aproaga/Rio Capim”, in memoriam ............................................................................................p.183 Imagem 51: A boca da noite começava o Cine Quilombo.....................................p.185 Imagem 52. Salve! Dona América Maria dos Santos \o/.........................................p.187 Imagem 53. D. América em foto de documento de identidade, exp. 16.09.1993....p.188 Imagem 54. Gráfico preliminar dos ancestres genealógicos de D. América.......... p.189 Imagem 55. A América quilombola lembra o legado do seu avô, o velho Gi ..........p.191 Imagem 56. Gilberto Mendonça instrui Adryelle Monique, I Oficina de Audiovisual e Mídia Móveis .........................................................................................................p.192 Imagem 57. Equipe de captação sonora no caminho de Benevides ......................p.193 Imagem 58. Prática de campo da I Of. Audiovisual no Retiro de Farinha................p.194 Imagem 59. Luciana Costa e “Tia Preta” estudam as coisas dantes ....................p.198 Imagem 60. Equipe da VI Oficina de Estudo da Coleção Quilombola ....................p.199 Imagem 61-62. Tia Preta e Luciana Costa na Mostra Pública da Coleção.............p.200 Imagem 63-64: Peças estudadas da Coleção Quilombola de Coisas dantes........p.201 Imagem 65. Layout da proposta inicial de um site da AQURC................................p.202 Imagem 66. Identidade Visual criada com a AQURC.............................................p.203 Imagem 67. A Tijoleira, marca as mãos de quem constrói os tempos dantes.........p.203 Imagem 68. Iris e Juliana evidenciam coisas dantes na Tapera da Velha Julieta ...p.207 Imagem 69-70. Coisas dantes aflorando na terra quilombola de Alegre Vamos ....p.212 Imagem 71. A Chave de Alegre Vamos, ou sobre permissões para se adentrar taperas dantes ...................................................................................................................p.213 Imagem 72. Lideranças quilombolas indicam as Taperas dos Pretos Dantes. Oficina no Sauá-Mirim.......................................................................................................p.215 Imagem 73-74. As coisas dantes afloram no caminho da Ponta Velha...................p.217 Imagem 75. Antonico e o tijolo dantes no caminho da Ponta Velha.......................p.218 Imagem 76. Caminhada na Ponta Velha com a guiança de D. Terezinha .............p.219 Imagem 77-78. Coisas dantes existentes na Ponta Velha .....................................p.220 Imagem 79. D. Terezinha ergue a Espada de Ogum na Ponta Velha.....................p.221 Imagem 80. Ariana “Mariazinha” media o fazer arqueológico na comunidade .......p.224 Imagem 81. Barracão de Festas do S. Lucico........................................................p.225 Imagem 82. Lorran brinca com a fogueira no quintal de casa.................................p.227 Imagem 83. Coisa dantes no quintal de casa, Terreirão de Nova IPixuna..............p.227 Imagem 84. Entre casas e as Taperas, histórias da gente .....................................p.229 Imagem 85. Oficina Arqueologia e Comunidade: Genealogia Ancestrálicas.........p.230 Imagem 86. Pitada mostra orgulhoso a Certidão de óbito do seu bisavô paterno, o velho Gi .................................................................................................................p.232 Imagem 87. Documento da Certidão de óbito de Gil Herculano dos Santos, datado em 09.04.1938.............................................................................................................p.233 Imagem 88. João Paulo e a tijoleira no caminho do Pixuna Velho .........................p.239 Imagem 89-90. Os tocos (esteios) do Barracão do Pixuna Velho ..........................p.240 Imagem 91. Pitada abre o caminho e nos guia pelo Pixuna Velho .........................p.241 Imagem 92-93. Pitada arma a quebra-cabeça.......................................................p.242 Imagem 94. D. Rosa reconhece as plantas na Tapera do velho Barrão .................p.243 Imagem 95-96. Coisas dantes da tapera da velha Ana Lopes................................p.244 Imagem 97. Cartografia de Nova Ipixuna e as taperas dantes do Pixuna Velho ....p.247 Imagem 98. Sandália “dupé” antiga a beira do caminho velho...............................p.248 Imagem 99. Caminhantes ao pé da caxinduba, Pico do Massagana......................p.249 Imagem 100. Estruturas de edificação da Tapera da velha Julieta.........................p.250 Imagem 101-102. As coisas dantes na Tapera da velha Julieta............................p.251 Imagem 103-104. Base e corpo do frasco de medicamento em vidro fumê............p.252 Imagem 105. D. Dulci na guiança rumo a tapera da velha Luisa ............................p.253 Imagem 106. “Preta” ouve e relembra as histórias da sua vó velha Luisa ..............p.254 Imagem 107. A casa abandonada com a pichação de “careta” ..............................p.257 Imagem 108. Anuncio de festa no “Terreirão do Pitada” ........................................p.258 Imagem 109-110. Arqueologia Sankofa na Flor da Terra quilombola com as crianças do Pixuna...............................................................................................................p.259 Imagem 111. O Museu Vivo do Pixuna começou na tapera do velho Gil ................p.260 Imagem 112-113. Preta mostra moeda-lembrança da tapera da vó Luísa / Pitada e as telhas dantes na tapera da v. Julieta.....................................................................p.261 Imagem 114-115: Peregun e comigo-ninguém-pode nas taperas de Nó Benedito e do velho Gil ................................................................................................................p.262 Imagem 116. Caminhantes quilombolas na Tapera da Capela - Pixuna Velho.......p.263 LISTA DE SIGLAS Associação Quilombolas Unidos do Rio Capim...............................................(AQURC) Fundação Cultural Palmares.................................................................................(FCP) Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária....................................... (INCRA) Programa de Pós-graduação em Antropologia................................................(PPGAN) Universidade Federal do Amapá .....................................................................(UNIFAP) Universidade Federal de Minas Gerais..............................................................(UFMG) LISTA DE QUADROS QUADRO 1. Oficinas e Atividades Afrocentradas realizadas em Julho de 2018 ....p.159 QUADRO 2. Letras dos Corridos de Capoeira Angola ...........................................p.171 SUMÁRIO ORIENTAÇÃO PARA CAMINHADAS .................................................................................................. 26 PORQUE “EU NÃO ANDO SÓ! ” ........................................................................................................ 27 1 MOVIMENTO “INFÂNCIA, ANCESTRALIDADE E (AUTO)IMAGENS QUILOMBOLAS” ........ 38 2 MOVIMENTO “(RE)CONHECIMENTOS, VIOLÊNCIA EPISTÊMICA E AFRODECOLONIALIDADES NA ARQUEOLOGIA” ........................................................................... 55 2.1 RESILIÊNCIA PARA AFRORREFERENCIAR O CONHECIMENTO E AQUILOMBAR A LINGUAGEM ............ 55 2.2 ‘LUGAR DE FALA’ E UM CERTO MODO DE SER NA ARQUEOLOGIA ................................................... 64 2.3 OGUN IÊ: ABRINDO OS CAMINHOS PARA UM FAZER DE ARQUEOLOGIA SANKOFA ............................ 75 3 MOVIMENTO “ESCREVIVÊNCIAS’ E (AUTO)ARQUEOLOGIA NO FAZER ARQUEOLÓGICO” ..............................................................................................................................80 3.1 DOR E VIOLÊNCIA DO COLONIALISMO NA CIÊNCIA [ARQUEOLÓGICA] .............................................. 80 3.2 “…VOCÊ SABE O QUE ESTÁ ESCAVANDO?!”: (AUTO)ARQUEOLOGIA DAS GENTES .......................... 87 3.3 CONFLUÊNCIAS CONTRACOLONIALISTAS E REENCANTAMENTOS DA VIDA .................................... 102 4 MOVIMENTO “AGÔ PRETOS DANTES E ANCESTRALIDADES QUILOMBOLA” ................ 114 4.1 AGÔ?!... ................................................................................................................................... 114 4.2 POVOS DO APROAGA E A (RE)EXISTÊNCIA QUILOMBOLA NA AMAZÔNIA PARAENSE ....................... 115 4.3 “NÃO HÁ ANCESTRAL QUE QUEIRA SER ESQUECIDO!”: LUCIANE, OS PRETOS DANTES E OS SENTIDOS DA PESQUISA NO CAPIM ......................................................................................................................... 138 5 MOVIMENTO “ARQUEOLOGIA, ANCESTRALIDADE E ‘CONFLUÊNCIAS CONTRACOLONIALISTAS’ NO QUILOMBO” .................................................................................. 153 5.1 “ARQUEOLOGIA E COMUNIDADE”: CONFLUÊNCIAS DE SABERES E MEMÓRIAS QUILOMBOLAS ....... 163 5.2 CAPOEIRA ANGOLA NO QUILOMBO: SALVE CUTIMBOIA! ............................................................. 168 5.3 FOTOGRAFIA, IDENTIDADE VISUAL NEGRA E O PROJETO “CRIA PRETA” NO QUILOMBO ............... 174 5.4 ESPIA! PRODUÇÃO E MOSTRA AUDIOVISUAL QUILOMBOLA ....................................................... 182 5.4.1 Da velha América Quilombola e o Real Maravilhoso do filmar Sankofa ............. 186 5.4.2 Oficina de Produção Audiovisual na Comunidade de Benevides e Sauá-mirim 192 5.5 A COLEÇÃO QUILOMBOLA DE COISAS DANTES DO APROAGA: REPRESENTATIVIDADE NEGRA E ENGAJAMENTO COMUNITÁRIO NA ABORDAGEM ARQUEOLÓGICA ............................................................... 196 6 MOVIMENTO “ARQUEOLOGIA SANKOFA NA ‘FLOR DA TERRA’ QUILOMBOLA”........... 208 6.1 CAMINHADAS E CONVERSAS-MEMÓRIA NAS TAPERAS DOS PRETOS DANTES ....... 209 6.1.2 Arqueologia Sankofa na Ponta Velha: quilombolas apontam o rumo da caminhada.................................................................................................................................213 6.1.3 As plantas como presença nas Taperas ta Velha: (re)conhecimentos compartilhados ......................................................................................................................... 219 6.2 ARQUEOLOGIA SANKOFA DE NOVA IPIXUNA AO PIXUNA VELHO ................................................... 223 6.2.1 Das casas e habitar quilombola ............................................................................... 223 6.2.2 Cartografias e Genealogias Ancestrálicas: situando nomes de Pretos Dantes e as suas taperas no Pixuna Velho ................................................................................................. 229 6.3 CAMINHADAS COM S. “PITADA” E D. ROSA NO PIXUNA VELHO: EVIDENCIANDO TAPERAS E COISAS DANTES.................................................................................................................................................236 6.4 CAMINHADAS COM D. DULCI E A PRETA: (RE)CONHECENDO AS TAPERAS DAS VELHAS JULIETA E DA (VÓ) LUISA. ........................................................................................................................................... 249 6.5 PIXUNA VELHO: CONFLUÊNCIAS QUILOMBOLAS EM UM MUSEU VIVO ............................................ 258 7 CONSIDERAÇÕES CONTÍNUAS ............................................................................................. 264 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................................... 270 9 APÊNDICE ................................................................................................................................. 287 9.1 FICHA DE ABORDAGEM DA COLEÇÃO QUILOMBOLA DE COISAS DANTES DO APROAGA ................ 288 9.2 TERMO DA LICENÇA DE SINCRONIZAÇÃO PARA REPRODUÇÃO DO FONOGRAMA “TAMBORES DE MINA” (POT-PORRI DE N´KOSI SIKEL´IAFRIKA / CANGOMA/ SANSA KROMA) NO DOCUMENTÁRIO DOS POVOS DO APROAGA. ............................................................................................................................................ 289 9.3 SLIDES DE APRESENTAÇÃO DA I OFICINA “ARQUEOLOGIA E COMUNIDADE” ................................ 291 9.4 MINI-CURRÍCULO DA EQUIPE COLABORADORA NAS ATIVIDADES DA PESQUISA AFROCENTRADA ..... 299 9.5 CINE QUILOMBO: S INOPSES E LINKS DOS PRINCIPAIS FILMES EXIBIDOS ................. 301 9.6 GENEALOGIA PRELIMINAR PRETOS DANTES E DESCENDENTES ............................... 303 9.7 NOMES DA GENEALOGIA PRELIMINAR E PARENTESCO COM GIL HERCULANO ...............................311 26 ORIENTAÇÃO PARA CAMINHADAS Para darmos início a essa caminhada de leitura e compartilhamento de conversas e conhecimentos, permitam-me, em disponibilidade amorosa quero sugerir uma breve atividade de abertura e autocuidado às pessoas caminhantes que seguirão comigo nesta jornada... de certo, é facultado, mas tenho certeza que fará bem, em muitos propósitos. Então, quando tirares o tempo para ler este trabalho, antes de avançar ou em algum intervalo oportuno, que tal fazer um “escalda-pés?!” Isso mesmo, recomendo um banho com ervas cheirosas e relaxantes em seus preciosos pés. Caso nunca tenhas feito, uma pesquisa rápida na internet ajuda, mas desde já indico um roteiro básico a seguir. Para tanto, tome uma bacia média na qual possas repousar seus pés confortavelmente. Decida se durante o banho vais permanecer em uma posição sentada ou deitada. Antes, providencie algumas ervas cheirosas e relaxantes, como lavanda, alecrim, manjericão, ou se preferir use óleo essenciais correspondentes. Coloque a bacia a frente de suas pernas e adicione uma porção razoável de água morna, na temperatura tolerável para a pele e o suficiente para encobrir os seus pés, inseridos logo após quando despejar a água na bacia com as ervas. Quando realizar estes passos, podes fechar os olhos e sentir o banho como uma delicadeza consigo mesmo. Enquanto isso, se possível tome consciência da sua respiração, e procure respirar profundamente. Durante um momento, inspire o ar pelo nariz e vá expirando o ar pela boca.... Enquanto mantém esse ritmo de respiração mais calma, movimente os pés nas águas, esfregando um ao outro como uma massagem e vá sentindo o calor e o frescor das ervas sobre eles. Faça isso até que água esfrie, o cheiro vá se esvaindo e tenha se passado algum tempo. Se preferir e tiver disposição, antes de dispensar a água, podes aproveitar ao final para fazer uma massagem na planta dos seus pés. Certamente cada pessoa pode incrementar na culminância deste cuidado, por exemplo, adicionando uma música relaxante ao fundo, colocar alguns sais de banho ou algumas bolinhas de gude na água para massagear os pés durante o banho. Mas 27 o central deste primeiro movimento é nos darmos tempo e cuidado, diante de qualquer tarefa a ser realizada. Ao se propor fazer isso, considere por exemplo, o quão importante são os nossos pés para nos sustentar firmes na terra e para nos levar adiante em nossas caminhadas na vida, segundo a direção de nossas cabeças (Ori) PORQUE “EU NÃO ANDO SÓ! ” Este trabalho se baseia em vivências quilombolas e aquilombadas do conhecimento. Um conhecimento vivo e guiado pela ancestralidade. Portanto, apresento na forma escrita apenas uma porção possível do aprendizado vivido, refletindo antes nosso Ser e lugar no mundo de maneira conjunta e comunitária. Em sua dimensão acadêmica, esta tese se localiza no campo do conhecimento científico, especialmente da arqueologia. De alguma maneira, eu pratico a arqueologia desde pelo menos meus 15 anos, ido dos anos 2000, o que devo relatar um pouco mais a frente. Por ora, pontuo que enquanto arqueólogue de formação, atualmente também estou professora de Arqueologia no curso de História da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Assim, de antemão, posso dizer que faz “um bom tempo” que a arqueologia me atravessa, por isso na travessia deste doutorado foram muitos os entraves, mas entre tudo que caminhamos até aqui, e deste movimento de palavras iniciais, cabe o primeiro ‘travessão’ da conversa: ___“Nossos passos vêm de longe!”. Nossa Caminhada é Sankofa, e o (re)conhecimento alcançado é porque eu não ando só. Mobilizo epistemologias e práticas que me orientam enquanto pessoa e coletividade, para perceber, (re)conhecer e coproduzir saberes e reflexões que façam realmente sentido para mim e para aqueles com quem estou em relação de compromisso de pesquisa e também de pertencimento comunitário. Esses saberes, por sua vez, extrapolam a disciplinaridade da própria arqueologia e mais amplamente o modo de fazer científico convencional, pois prezo 28 por uma relação de pesquisa e escrita afrorreferenciada2 e decolonial, ou nos termos do filósofo negro Renato Noguera (2012a, 2012b; 2013; 2014; 2015), busco realizar meu trabalho segundo uma constante afroperspectividade. Esta é uma noção ética e conceitual pluriversalista elaborada por este intelectual que resumidamente pode ser entendida como “... o conjunto de pontos de vista, estratégias, sistemas e modos de pensar e viver de matrizes africanas” (NOGUERA, 2012a:147). Por isso, para esta tese considerei fundamental caminhar através de uma abordagem metodológica, mais dialógica e socialmente referenciada com/pelas pessoas e comunidades quilombolas e tradicionais com as quais vivo e estou em conexão não só de pesquisa, mas em profunda relação de existência afrodiaspórica. Nesse sentido, também ressalto que entendo Comunidade a partir da afroperspectividade, tal qual apontado por M. Ramose (1999) e R. Noguera (2012a), sendo constituída por pelo menos três seguimentos sócio-temporais de coletividade existencial, ou seja, pelas pessoas que estão presentes (vivas), pelas que estão para nascer (gerações futuras/futuridade) e pelas que faleceram, ou melhor em nossos termos afrorreferenciados, que já mudaram do plano físico para o espiritual e voltaram para a massa de origem (ancestrais/ancestralidade). A intencionalidade é que essa movimentação possibilite um modo de conhecer e de produzir conhecimento que seja mais verdadeiro e honesto, isto é, mais representativo do que somos e consideramos ser uma realidade possível de estudo e conhecimento, então vivenciada por mim a partir de muitos pertencimentos e lugares, entre estes também o acadêmico-arqueológico. Nesse movimento, cada vez mais tenho entendido que mesmo na prática arqueológica isso significa afrocentrar tanto as minhas (inter)relações de pesquisas, quanto o próprio modo de pensar e de viver o mundo. É como se pesquisar na verdade fosse “apenas” ser presente e atente à vida, ou seja, com a consciência de existir e 2 Em termos gerais, trata-se das referências oriundas das culturas, modos de ser/estar no mundo, filosofias e saberes africanos e afrodiaspóricos, acerca dessa abordagem conferir entre outros autores conferir os estudos de Adilbênia Machado (2019; 2020). 29 perceber a partir de um tempo e lugar determinado, particularmente um lugar e temporalidade afrorreferenciados. Compreendo desta maneira que não é possível fazer algo como a pesquisa arqueológica, ou quaisquer outras coisas na vida, sem que isso seja concernente e coerente com o que somos em plenitude. Senão surge a representação e junto a ela a dor, culpa, frustação (...). Antes de entender isso eu sentia um peso, como uma “camisa de força” que me obrigava a deixar de ser quem eu sou para poder fazer certas coisas, como meu trabalho acadêmico, tal como essa tese em arqueologia. Apesar disso, nossas gentes afrodiaspóricas, na força de nosses ancestrais e com resiliência diante das opressões coloniais têm empreendido o que mestre Jayro Pereira se refere como a reontologização do Ser, outrora fragmentado e violado pelo racismo e colonialismo. Nesse sentido, nos termos de Simas&Rufino (2019:12), também consideramos, o colonialismo como espectro do terror, da política de morte e desencanto que se concretiza na bestialidade, no abuso, na produção incessante de trauma e humilhação, é um corpo, uma infantaria, uma máquina de guerra que ataca toda e qualquer vibração em outro tom. Apesar disso, um refazimento do Ser é possível, e tem sido realizado através das tecnologias e saberes ancestrais que herdamos ao longo de gerações de resistências e aquilombamentos nas comunidades tradicionais de matrizes africanas, tais como os Terreiros3. Por isso, na minha experiência cada vez mais tenho consciência de quem sou. Sou Omo Orixá, tenho Orí e Egbé. Conforme entendimento ontológico Ubuntu presente na filosofia Bantu, ‘Sou porque nós somos’. Assim, o meu Ser é, sendo, e se 3 De acordo com Barros (2009:51) a palavra Terreiro, junto a outras denominações correntes como “roças”, “casas-de-santo”, “casas-de-candombé”, são usadas para nomear tantos os espaços como as comunidades de matrizes africanas que cultuam os Orixás, ou seja, designa um conjunto espacial, social e cultural, uma associação liturgicamente organizada sendo composto de: a) construções diretamente associadas aos mundos dos orixás, espaço sagrado; b) habitação dos praticantes, espaço privado de moradia, porém de propriedade comunal; c) Espaço verde onde são cultivados os vegetais sagrados, que pode ser: árvores e arbustos, utilizados como local de culto especial, ou ainda as ervas sagradas, utilizadas tanto na medicina fitoterápica do grupo como nas diversas cerimônias. 30 recompõe na comunidade. Existe em curso um refazimento mais profundo do Ser a partir de conexões ancestrais, e isso transborda para todas as dimensões da vida. Agora, com forças e ciências reestabelecidas, não quero e nem vou deixar de ser quem eu sou apenas porque estou na academia, ou fazendo arqueologia. Existir parece uma declaração de guerra, existi. Esse é já um movimento social e político de grande envergadura. “Pisa ligeiro. Pisa Ligeiro. Quem não pode com formiga, não assanha formigueiro”. Este é um canto de guerra e de mobilização, tão consagrado nas ações de lutas de muitos movimentos sociais que me inspiram desde cedo de como se deve assuntar o modo de ser e atuar em coletividade4. Uma formiga sozinha é mais facilmente esmagada, mas junto de seu formigueiro, torna-se possível resistir, construir trilhas para seguir sem perder o rumo, organizar defesas e em conjunto causar muitas mudanças no ambiente ao seu redor. É sobre isso que estou falando. De não termos nossas essências violadas, quando no exercício de um trabalho, mas sim de nutri-las, ou se for o caso, refazê-las em conjunto nessa prática. Assim, a arqueologia que mude com minha presença, pois ela, assim como tudo no mundo, não tem em si um jeito ou uma forma única e universal de ser e de fazer. As coisas estão sempre vibrando, em transformação. Portanto, quando digo que não deixarei de ser quem eu sou ou nem vou recalcar os meus pertencimentos para estar, por exemplo, na arqueologia, na realidade não se trata de ser imutável ou irredutível no meu modo de ser, mas de garantir o direito a pluralidade de existência que temos no cosmos, mas que historicamente nos é negada por estruturas e modelos convencionados hegemonicamente pela sociedade branca ocidental moderna. Desse ponto de vista, considero que podem e devem tornar-se mais equilibradas (todas) as relações de coexistências, assim como a minha com tudo mais que existe, eu (re)conheça ou não. Entre tempos e de lugares diferenciados, também na arqueologia, tenho aperfeiçoado e buscado realizar as minhas potencialidades no 4 Pisa Ligeiro, entre outros títulos, dá nome a um documentário sobre a luta indígena, em virtude da mesma canção entoada pelo povo Xucuru-Kariri durante uma manifestação em Pernambuco. Direção: Bruno Pacheco de Oliveira. Produção e Roteiro: João Pacheco de Oliveira. Realização: Museu Nacional/LACED. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FseTLA9D4jg. Acessado em 22.12.20. 31 intuito de subverter camadas de colonialidades que historicamente soterram, negam e esfacelam (nossas) ontologias. Na pesquisa acadêmica isso traz um diferencial, pois sou Sujeite e atuo conforme meus pertencimentos não hegemônicos. A reconstrução do meu Ser deriva de uma afrodiáspora na Amazônia e se fundamenta na ancestralidade viva e presente em cada um de nós. Sabe o que citei nos agradecimentos? Pois é, e reitero mais uma vez o que dizem nosses mais velhes em nossas comunidades “o que o colonialismo e a escravidão separa(ram), Orixá e a ancestralidade (re)unem!”. Isso não é uma ilusão romântica ausente de conflitos e possíveis contradições inerentes, mas trata- se da produção consciente e restauração da realidade que de fato queremos e vivemos, Axé! Nesse interim, em termos teórico-acadêmicos tenho ainda me afrorreferenciado, principalmente a partir das produções de intelectuais negras, quilombolas, de Terreiro e afrodiaspóricos entre os quais destaco: Whitney Battle- Baptiste com sua fundamental construção de uma arqueologia negra feminista; Gabby Hartemann na emergência de uma arqueologia afrodecolonial e não-binária; Grada Kilomba a partir da busca de cura para as feridas provocadas pelo colonialismo e episódios de racismo cotidianos; bell hooks, com a educação e o amor como pratica política e liberdade; Todos os dias respiro e aprendo com os ensinamentos de Mestre Antônio Bispo Santos, intelectual do saber orgânico quilombola engajado nas reais e urgentes confluências de contracolonização; Na poética do existir na luta, me renovo com Conceição Evaristo e seu imensurável legado manifesto em escrevivências. Esse legado epistemológico negro e quilombola possibilita curas profundas para nós. De maneira geral considero, e quem ler a tese poderá notar também, que ela possui e está organizada em pelo menos dois núcleos essenciais complementares, qual sejam: o (auto)arqueológico, pois vou construindo uma narrativa a partir da retomada de algumas vivências arqueológicas e/ou que são atravessadas pela arqueologia ao logo de parte da minha trajetória acadêmica, num exercício e reflexão profunda do meu Ser e Pensar na arqueologia, o que de alguma maneira referenda a emergência de uma (auto)arqueologia. E junto a isto, o etnográfico, que sigo escrevendo como ápice do trabalho critico reflexivo desenvolvido organicamente do meu lugar pessoal e coletivo, onde busco compartilhar a experiência teórico- 32 metodológica afrorreferenciada na pratica arqueológica de base comunitária no Território dos Povos do Aproaga. Além disso, pontuo que, por questões de tempo e espaço, obviamente não foi possível fazer a transposição didática e etnográfica de toda a experiência de campo tal como desejado, apesar do que, apresentamos substancialmente as formas próprias e efetivamente realizáveis ao longo da pesquisa. De toda forma, cabe destaque para a proposição de uma Arqueologia Sankofa na qual é possível tanto i) a reflexividade de le Sujeite do conhecimento e seu lugar de fala e pertencimento; ii) a busca da representatividade etnicorracial como diretriz na formação de equipe de pesquisa; iii) o reconhecimento de sistemas de conhecimento propriamente afrodiaspóricos (tal como o é a Capoeira Angola, a epistemologia de Terreiro) para a constituição da relação comunitária de pesquisa; iv) a assunção das crianças enquanto Sujeites de conhecimentos comunitários e real manifestação da ancestralidade quilombola; quanto, v) a realização de cartografias sócio-genealógicas, ou seja, o aprofundamento da genealogia e gráfico de parentesco dos Pretos Dantes do Aproaga mediante a evocação reverente de seus nomes como percepção de suas presenças nas taperas dantes e demais paisagens do território quilombola. Nesse contexto, a tese na sua forma escrita tenta mostrar como o trabalho fluiu através de movimentos diversos, corporificado em um certo caminhar Sankofa e orientado pela ancestralidade, conforme veremos logo mais a seguir. Esses movimentos de arqueologia Sankofa se conformam nas encruzilhadas da existência e redes de conhecimentos, tal como uma movimentação exúrica5, motivada tanto pelos pertencimentos e pelas referências citadas acima, quanto das experiências vivenciadas desde o trabalho de campo de muitos anos até esta versão final da tese. 5 No sentido que vem e deriva de Exu, Orixá (deidade africana de origem Yorubá) do Movimento, dos Caminhos e Encruzilhadas, da comunicação, o principio criativo e dinâmico da vida. Para uma percepção mais aprofundada conferir entre outras referências, as de Juana E. dos Santos (2012) e na arqueologia, a de Luciana de C.N. Novaes (2019). 33 Além dos agradecimentos, um breve preâmbulo para iniciar a caminhada e uma introdução onde busco mostrar que não ando só e sou em coletividade, os demais movimentos da pesquisa nomeados e organizados assim: 1. Movimento “Infância, Ancestralidade e (Auto)Imagens Quilombolas”; 2. Movimento “(Re)Conhecimentos, Violência Epistêmica e ‘Afrodecolonialidades’ na Arqueologia”; 3. Movimento “Escrevivências’ e (Auto)Arqueologia no Fazer Arqueológico”; 4. Movimento “Agô Pretos Dantes e Ancestralidade Quilombola”; 5. Movimento “Arqueologia, Ancestralidade e ‘Confluências Contracolonialistas’ no Quilombo”; 6. Movimento “Arqueologia Sankofa na ‘Flor Da Terra’ Quilombola”. No que se refere à forma e linguagens, em grande parte desse percurso escrito tento me abster da forma de falar distanciada e não situada, típico do texto acadêmico com sua metalinguagem alienante, assim recorro à “linguagem evocativa que convoca o contexto e simultaneamente aprecia a existência”6 de quem enuncia. Afinal, a riqueza e especificidade de cada experiência inerente a diferença colonial vivida politicamente por muitos sujeitos históricos, expande a base do que podemos contar como repertório e abordagem na geração de teorias na academia. Nesse sentido, devo indicar a les leitories que o próprio texto apresenta certa mudança multivalente nas posições de minhas subjetividades autodefinidas as quais são base e acionadas como pertencimentos legítimos para enunciação de entendimentos derivados da minha experiência de vida e reflexão, os quais ora se complementam com as construções ontológicas e epistemológicas afrodiaspóricas coletivas/visadas ao longo do trabalho. Portanto, peço a compreensão acerca da necessidade de muitas vezes ao longo do texto justapor o uso da fala ora em primeira, ora em terceira pessoa. Apesar do que isto trata-se apenas uma ressalva contextual, pois no geral opto praticamente pela primeira pessoa do plural, não para me distanciar através de um ‘nós’ frígido e escamoteado, mas para que seja possível reconhecer 6 Cf. GILLIAM & GILLIAM (1995:526). 34 que muitas vezes falamos por meio e com outras pessoas, visto que somos Orientades por referências, seres e repertórios coletivos diversos. Para nós o plural é também dos mundos possíveis, a partir das pluralidades de falares, pensares e Seres. Para pluriversar esta perspectiva assumida, também indico que é como se canta na letra da canção ‘carta de amor’ interpretada por Maria Bethânia, em que o “Eu” se enuncia justamente porque é coletivo e diverso no seu Ser sendo: “... eu não ando só! Eu tenho Zumbi, Besouro, o chefe dos Tupis... Sou tupinambá, tenho Erês, caboclo Boiadeiro. Mãos de cura, morubichabas, cocares, arco-Íris!...”7 Além disso, enquanto sugestivas reservas com a linguagem normativa, decidi pela modificação de termos referentes na língua vigente que coercitivamente generificam binariamente as pessoas. Considerando que para a maioria de nós isso ainda é um aprendizado, referencio entre outros trabalhos, as orientações colhidas de Héliton Diego Lau (2017:2-3): Para “neutralizar” adjetivos e substantivos, como “aluno”, “bonita”, “entre outras”, utilizarei a vogal “e”. Então estas palavras serão escritas e faladas da seguinte forma: “alune”, “bonite” e “entre outres”. E no caso de “professores”, por exemplo? Palavras no plural consideradas masculinas terão a letra “i” no meio. Então será escrito e falado “professories”. Uma possível variação pode ser a exclusão do “e” ficando “professoris”. Preposições, como “de” e “da” serão substituídas por “du”, por exemplo: “Este lápis é du Iraci”. A respeito dos artigos definidos (“o”, “a”, “os”, “as”), serão substituídos por “le” e “les”. Por exemplo: “Les professories já estão na sala de reunião”. Os indefinidos (“um”, “uma”, “uns”, “umas”), utilizarão a letra “e” no final, ficando da seguinte forma: “ume”, “umes”. Pronomes possessivos (meu, minha, seu, sua, meus, minhas, seus, suas) faço um “empréstimo” do espanhol, ficando: mi, su, mis, sus. Obviamente, trata-se de um exercício, um deslocamento, mesmo que experimental e com limitações de minha parte, pois estou praticando a própria linguagem, mas o empreendi mesmo assim, uma vez que modificações como estas pelo menos reiteram e nos forçam a mais tentativas de dizeres e falares não transfóbicos e cisnormativos, opressões e supostos consensos já tão reificados nos 7 Trecho da música “Carta de Amor” de Paulo Cesar Pinheiro e Maria Bethânia. Disponível em: https://youtu.be/Zi2cb9cK4M8. Acessado em 01.03.2020. 35 discursos da língua que falamos por herança colonial, o português. Afinal, conforme assinala Joana P. Pinto, Os enunciados sobre língua no Brasil constroem performativamente consensos hegemônicos, ao mesmo tempo em que estão expostos a deslocamentos. Os consensos operam o contexto prévio da ideologia nacionalista e monolíngue, articulada tanto com aspectos plurais dos usos e políticas linguísticas durante a formação do Brasil quanto com aspectos comuns às experiências coloniais (PINTO, 2012:173). Outrossim, em alguns momentos do texto, uso outros recursos como negrito e o parêntese no meio de algumas palavras para vermos sentidos embutidos, e no intuito de demonstrar as múltiplas outras ideias que certas situações verbalizadas provocam e podem assumir, conforme a experiência também de les leitories. Enquanto que as palavras em itálico, geralmente indicam a modificação intencional para a linguagem neutra8 ou o uso de termos e noções não propriamente autorais, tal como os conceitos comunitários quilombolas e os conceitos de muitos autories usades como referências teórico-metodológicas referidos por citação direta e/ou em nota de rodapé. Quando esses termos conceituais não autorais ocorrem nos títulos ou subtítulos do trabalho, uso as aspas simples para demarca-los, pois costumeiramente as transposições posteriores dos textos acabam suprimindo o itálico, por isso para não correr riscos de usos não mencionados, sinalizei de antemão esses termos conceituais que subsidiam nosso trabalho. No que diz respeito às imagens, são fundamentais e expressão de serem mais e para toda a vida. Disputam, complementam, ocupam espaço e visibilidade com plenitude, tanto que muitas vezes nascem e se criam de maneira autônoma, bem mais que eu possa conceber neste momento formal de síntese da tese. Porquanto, concebo a imagem como presentificação e deferência do Ser nesta conversa-texto, como mecanismo de produzir reconhecimentos de coexistências, e uma forma primorosa de gerarmos memórias e acervos, principalmente quando referente a povos quilombolas 8 Como se nota no conjunto do texto segui modificando parte da linguagem escrita e exercitando colocações mais neutras, não obstante, na exceção de substantivos que escolhi não transitar destaco a designação Pretos, pois na formulação etnográfica “Pretos Dantes”, se efetiva enquanto categoria de autoidentificação coletiva baseada na ancestralidade da comunidade e demarca a estratégica consciência da identidade etnicorracial politicamente atualizada pela memória e sobremaneira acionada na história de luta do Povos do Aproaga. 36 e afrodiaspóricos. Por isto também, as fotos estão em dimensão aquilatada ao espaço do texto na página. Assim, embora eu utilize amplamente imagens audiovisuais transcritas para este formato escrito do trabalho, também tentei expandir e conectar o trabalho com alguns acervos de conteúdo na web, apesar de fundamentalmente me basear nas imagens audiovisuais geradas no trabalho de campo. A proposta é, sempre que possível ou viável, estarmos em conexão com outras informações que o formato escrito não comporta e/ou é diferenciado em sua constituição em relação à imagem. Inclusive, a partir desta mesma preocupação, temos empreendido a criação de um site para onde possam confluir parte desse acervo audiovisual comunitário da AQURC, conforme indico no corpo do texto. Sermos e estarmos em rede é um modo próprio de vida e resistência. Dessa forma, existe um exercício de conexão em curso voltado a nos reconectarmos em rede, entremeando as palavras e imagens audiovisuais que emergem das vivências, reflexões e interatividade com as tecnologias de comunicação e visibilidade. Por isso sugeri, para quem porventura disponha de acesso internet, o acesso dos links também com QRcode postos em certos trechos da tese que vinculam certos acervos que considero imagem ou sonoramente pertinentes, mas que acabam não constando integralmente no formato de texto. Neste caso, através de um celular com câmera é possível usar um leitor de QRcode e ter mais uma forma de acessar os materiais extratextos. Imagem 2: Orientação ilustrada para acesso de material on-line via QRcode. Fonte: Adaptado da internet. 37 Por fim, solicito e desde já agradeço a compreensão da leitura por possíveis falhas de forma e/ou de conteúdo pendentes de aperfeiçoamento que eventualmente remanesçam nesta versão final. Diante tudo, reitero a importância de se pensar cada passo da vida com o sentido percebido primeiramente pelo coração. Sinta, a ancestralidade africana nos guia mesmo nas concepções do amor, como tão bem nos ensinou a intelectual Sobonfu Somé (2007). Com amor9 e respeito desejo a todes nós uma jornada de estudo guiada pelos saberes afroancestrais. 9 Para expressar conceitualmente o que me refiro a amor neste trabalho, praticamente seria necessário um outro trabalho argumentativo, como manifesto, o qual não tenho espaço ou tempo para realizar nesse momento. Porém para não deixar essa lacuna tão grande, desejo comungar das palavras de Henrique Vieira presentes em seu livro “O amor como Revolução” (2019), pois compartilho em parte de sua reflexão acerca do amor, tal qual nos excertos escolhidos a seguir: O Amor se descortina como minha ligação à humanidade e à natureza. É gerada então, dentro de mim, uma reverencia profunda diante de tudo que existe. Dá vontade de encostar na lua, de ir ao ponto mais fundo do mar, de ver o amanhecer e contemplar o pôr do sol. De sair pela rua redistribuindo abraços. De chorar com os que choram e festejar (p.44) com quem está em festa. É triste uma sociedade que considera esta postura ingenuidade, delírio ou caretice. Cabe ainda dizer que o amor não significa, em hipótese alguma passividade diante das injustiças. O amor, no seu sentido mais profundo, tem relação direta com inconformidade, desobediência e subversão. O amor é uma atitude política revolucionaria porque amar é se ligar a humanidade, e não estou falando em termos abstratos [...] Do fundo do meu peito dá vontade de gritar que a luta pela terra é um verdadeiro ato de amor! Sim, pois é o amor que clama por justiça, por igualdade e vida plena para todas as pessoas. E o que falar do racismo estrutural que prevalece em nosso sistema social? E a violência histórica e cotidiana contra as mulheres e LGBTs? Como reagir ao massacre sobre os povos indígenas e quilombolas? E o genocídio da juventude negra, o encarceramento em massa, a violência do Estado? Nenhuma dessas realidades se justifica se tomarmos o amor como atitude e caminho para nos ligar à humanidade. Amar, portanto, é não se conformar (p.45) com o que impede a plenitude da vida do outro, é optar prioritária e preferencialmente pelas pessoas que são alvo das injustiças. A melhor forma de expressar amor por toda a humanidade, esse conceito genérico, porém legitimo, e que existe na nossa projeção, é assumir um compromisso com as pessoas ao nosso redor, e no contexto da sociedade, se posicionar ao lado de quem não é contemplado pelas estruturas de poder e privilégio. Assim, o amor desobedece às regras e leis injustas, posicionando-se contra o que maltrata a vida. Foi por amor que os negros não se conformaram com a escravidão, desobedeceram aos senhores escravocratas e subverteram uma ordem desumana. [...] Amar não é tirar a humanidade dos injustos, mas apontar suas injustiças. Não é tirar a humanidade dos opressores, mas denunciar seus privilégios. É não desumanizar os ricos, mas afirmar categoricamente o absurdo do acúmulo desenfreado de riquezas e a insensibilidade da ostentação. É também apontar (p.46) a necessidade de os poderosos partilharem o poder. [...] Não desumanizar significa não reproduzir ciclos de ódio e práticas de violência. Porém não significa ficar calado, ser omisso, abaixar a cabeça e se conformar. O amor é revolucionário. Toda construção humana carrega limites e injustiças. Nenhum modelo de sociedade é perfeito. Nossos arranjos políticos, econômicos e sociais sempre criam mecanismos que maltratam pessoas. O amor é, então, aquela pulsão que grita contra o que apequena a vida, o amor é o que coloca em xeque toda pretensa normalidade. O amor é sempre abertura para um futuro mais pleno. O amor se revela nos atos mais singelos e nas grandes ações políticas, está na janela da casa da minha avó, no carinho de minha mãe, na trajetória de um jovem negro preso e tido como louco, e no morador de rua. O amor reforça os laços sociais, é um agente transformador poderoso, e sua força está tanto nos pequenos gestos quanto nas grandes ações. O amor se revela, só precisamos olhar, enxergar e praticar! (p.47). 38 1 MOVIMENTO “INFÂNCIA, ANCESTRALIDADE E (AUTO)IMAGENS QUILOMBOLAS” Nas trilhas das memórias negras e quilombola dos Povos do Aproaga, os primeiros passos destes movimentos Sankofa tem sido em honra a les Pretos Dantes, de les Ancestrais. Em paisagens amazônicas aquilombadas, buscamos reencontrar suas histórias, seus eventos recontados, suas casas e moradas, como se diz no Capim, as suas Taperas Dantes. (Re)conhecemos suas faces, elaboramos (auto)imagens quilombolas. Algo antigo emerge a medida que o futuro se aproxima para nós que aqui estamos. A minha criança interior desperta, meu coração transborda de amor e alegria, pois recebo tanto afeto e (re)conhecimentos nessas andanças e vivências aquilombadas. Criança, um modo de ser extraordinário que se abre a conhecer vida com alegria. Nós, crianças, caminhamos juntes, (co)criamos imagens dessas existências e de suas presenças. As crianças são presença. Vida, alegria e doçura do Ser. Este Ser quilombola, são as crianças das comunidades que compõem o Território dos Povos do Aproaga que me ensinam todos os dias: vamos brincar no igarapé? Jogar capoeira? Foi nesse movimento do brincar, na ginga do corpo como casa do espirito que entendi e neste ensaio faço breve relato: a ancestralidade está sempre presente. Em comunidade nos relembramos que nosses ancestrais sempre voltam, por isso amamos nossas crianças. Hoje eu sinto, percebo em cada olhar aceso de criança, a certeza que temos e somos ancestrais. O poder da infância está nessa confluência, na conexão das dimensões material e espiritual da vida, como bem nos ensina o filosofo negro Renato Noguera (2019). Sentimos. Quilombo é Ancestral! Por isso, são as crianças que me ensinam a aprender viver e reconhecer os ancestrais, são suas (auto)imagens que abrem esta caminhada Sankofa na “Flor da Terra” Quilombola. Beji Bejiró! Erêmi! Axé! 39 Imagem 3. João Paulo Imagem 4. “Esmeralda” 40 Imagem 5. João Paulo, teus olhos revelam companheirismo Imagem 6. Lorrana 41 Imagem 7. Mira “Esmeralda” Imagem 8. Ariana / “Mariazinha” & Lorrana Imagem 9. Juliana Silva Santos Imagem 10. “Tia Preta” (Luciana Silva Santos) 43 Imagem 11. Ariana/ “Mariazinha” 44 Imagem 12. Kawane, a “Kakau” Imagem 13. Aline & Lorrana 45 Imagem 14. Edivandro Carmo da Cunha, “Jonathan” Imagem 15. Lorran Santos da Silva 46 Imagem 16. Viviane Carmo da Cunha 47 Imagem 17. “Tia Preta” (Luciana da Silva Santos) 48 Imagem 18. “Duda” & “Esmeralda” Imagem 19. “Rita” & “Dijé” 49 Imagem 20. Ariana “Mariazinha” 50 Imagem 21. Jamilly Luz nas ruínas do Casarão do Aproaga 51 Imagem 22. Valéria do Carmo da Cunha Imagem 23. “Tia Preta” no igarapé Domingos Dias – Aproaga 52 Imagem 24. Viviane do Carmo Cunha 53 Imagem 25. “Jonny” 54 há de nos restar a crença na precisão de viver e a sapiente leitura das entre-falhas da linha-vida. Apesar de … uma fé há de nos afiançar de que, mesmo estando nós entre rochas, não haverá pedra a nos entupir o caminho. Das acontecências do banzo a pesar sobre nós, há de nos aprumar a coragem. Murros em ponta de faca (valem) afiam os nossos desejos neutralizando o corte da lâmina. Das acontecências do banzo brotará em nós o abraço a vida e seguiremos nossas rotas de sal e mel por entre salmos, Axés e aleluias. (Apesar das Acontecências do Banzo, de Conceição Evaristo)10 10 Acessado em Portal Geledés, disponível em: https://www.geledes.org.br/conceicao-evaristo-apesar- das-acontecencias-banzo/ 55 2 MOVIMENTO “(RE)CONHECIMENTOS, VIOLÊNCIA EPISTÊMICA E AFRODECOLONIALIDADES NA ARQUEOLOGIA” Se wo were fi na wosan kofa a yenki (Não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu) 11 2.1 Resiliência para Afrorreferenciar o Conhecimento e Aquilombar a Linguagem Nós que cultuamos a ancestralidade consideramos que praticamos e somos herdeiros de um legado ancestral composto de múltiplos conhecimentos. Embora muitas vezes não saibamos ou não lembremos disso, pois durante séculos e de muitas formas temos sido compelidos a esquecê-lo e a retirá-lo da nossa consciência. Apesar da ignorância imposta pela violência colonial e pelo racismo, possuímos saberes que são e sempre serão (re)transmitidos por nossa ancestralidade. Em outras palavras, nós, enquanto ancestralidade manifesta no presente tempo, corporificamos memórias de saberes e fazeres conquistados por nosses ancestrais, os quais por sua vez, são praticados e aprimorados por nós a cada geração ao longo de nossas existências. Ancestralidade tem sido, portanto, fundamental e inspiradora de muitos trabalhos ligados à diáspora africana, tal como podemos observar no emblemático dossiê da “Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no DF e Entorno” (2017:6), quando ressaltam: […] a ideia de ancestralidade está ancorada no “agora”, isto é, o que entendemos como “tempo presente” seria a consciência de que já fomos e que seremos. Ancestralidade, portanto, não se refere à concepção de um passado distante, mas a uma consciência de estar no mundo por dentro dos elos que fazem a ligação de temporalidades que articulam experiências e deveres. Tal percepção sugere que a consciência de estar vivo nos impõe uma condição de responsabilidade com o que foi e com o que virá e esta ideia confere a cada um de nós uma noção de conexão com uma possível totalidade, calcada numa plena sensação de pertencimento a uma comunidade. 11 Provérbio de origem Akan, citado por E. Nascimento (2008:32). 56 Eis aí o ponto de equilíbrio e conexão para continuarmos a conversa. O Conhecimento guiado pela ancestralidade implica um (auto)conhecimento de si, em meio ao (re)conhecimento do nós em comunidade. Porquanto, praticar a profundeza desse conhecimento em uma dimensão ancestral torna-se uma das maiores jornadas que empreendemos enquanto seres humanos no mundo. Em certa medida, considero que o conhecimento humano se deriva do estado de consciência e da percepção, ou seja, do quê e como damos sentido ao que percebemos. Nesse interim, a nossa percepção se molda segundo sistemas culturais e temos como base do Ser um corpo físico que garante e materializa a particularidade existencial de cada Ser. Essa particularidade do Ser se torna possível através de um contínuo bioancestral que nos constitui. Ao mesmo tempo essa percepção que parte da pessoa/Ser se completa e desagua na sua existência coletiva, na comunidade na qual o Ser existe particularmente. Assim, quando me refiro a noção de Ser, estou considerando-o segundo uma noção filosófica e existencial concernente a cada entidade que compõe o cosmo, ou seja, cada unicidade do todo cósmico. Para o filosofo sul-africano Mogobe Ramose (1999:7), “...epistemologicamente ser é concebido como um movimento perpétuo e universal de compartilhamento e intercâmbio das forças da vida” enquanto que: Ontologicamente, o Ser é a manifestação da multiplicidade e da diversidade dos entes. Essa é a pluriversalidade do ser, sempre presente. Para que essa condição existencial dos entes faça sentido, eles são identificados e determinados a partir de particularidades específicas. Assim, a particularidade assume uma posição primária a partir da qual o ser é concebido. Essa assunção da primazia da particularidade como modo de entender o ser é frequentemente mal colocada como a condição ontológica originária do ser (RAMOSE, M. 2011:11). Esse Ser por sua vez na sua dimensão física anima um corpo bioancestrálico. A noção de corpo físico associa-se a integralidade do ser e inclui não apenas a mente, mas o coração como epicentro de cardiografias do pensamento e percepções do cosmos e de todos os seres. Porquanto, esta possiblidade de um Ser Sensível segundo o coração, existe e é real, sobremaneira quando pluriversamos a experiência humana para além da existência e cosmologia concebida pelo Ocidente e sua razão branca ocidental moderna, violentamente tornada universal ao longo da história. 57 Nesse interim, cabe ressaltar que essa crítica filosófica e epistemológica para uma concepção mais pluralista das experiências do ser e do pensar, deriva e se fortalece nas contribuições da filosofia africana e afrodiaspóricas, que no Brasil temos acessado nas discussões de pensadores negros como Renato Noguera (2012b), a partir de suas palavras, entendemos a pluriversalidade como a assunção da primazia das particularidades específicas na configuração dos saberes. A pluriversalidade é o reconhecimento de que todas as perspectivas devem ser válidas; apontando como equívoco o privilégio de um ponto de vista (NOGUERA, 2012b: 64). Portanto, as mudanças emergentes são por sua vez paradigmáticas, posto que tanto se insurgem múltiplas e legitimas formas de conceber o conhecimento, quanto a sua elaboração e apreensão não se limita a mente racional, mas pode derivar da percepção sensitiva e sensível, e está baseada no coração. Em contraposição a um racionalismo exacerbado, universalista e desencantador do cosmo, existe uma determinada atitude e/ou postura para alcançarmos e produzirmos conhecimento de maneira ‘cardiografada’, a qual possibilita que experiências de trajetória de sujeites conhecedories, palavras e sentimentos sejam dosados antes e durante alguma ação de (re)conhecimento. Essa cardiografia do conhecimento a que me refiro também se inspira nas discussões oriundas da filosofia africana e pensamento negro afrodiaspórico. Renato Noguera ao tratar acerca da ética da serenidade, inicialmente elaborada por Amenemope (pensador do Kemetic / Egito Antigo 12), argumenta assertivamente como o coração pode emergir “como sede do pensamento, das ações e do caráter”. Ao tomarmos o coração nesse sentido filosófico e espiritual, o próprio pensar torna-se uma atividade cardíaca, ou seja, pensar não deve estar separado do sentir e vice-versa13. Nas palavras de Noguera (2015): 12 Segundo perspectivas afrocêntricas, trata-se na realidade de Kemetic, a terra preta do vale do Hapi (rio Nilo), designação esta ligada a transliteração dos fonemas kmt (Cf. MORAES, M. 2019; DUARTE, 2019). 13 Além das referências de R. Noguera (2013 e 2015) acerca dessa possibilidade da cardiografia do pensamento, o sugiro o vídeo correlato “Documento Kemetic 2: Filosofia Africana - Cardiografia do Pensamento” disponível em: https://youtu.be/BXsRm40tusU acessado em 05.08.20. 58 a cardiografia é a técnica de ajuste da balança e mensuração e reescrita das palavras a partir do parâmetro da verdade. Cardiografar quer dizer fazer que as palavras que passem pelo coração sejam equilibradas, harmônicas, isto é, tenham o mesmo “peso” da verdade. Para cumprir esse objetivo, as cinco provisões (audição, leitura, pesquisa, exame e firmeza) acima mencionadas são indispensáveis e devem ser praticadas (p.124). Assim, considero ainda que no caso do ser humano, a depender do tempo- espaço em que se vivencia essa percepção, torna-se possível a produção e reativação de conhecimentos de maneira histórica e culturalmente diferenciada. Vale ressaltar ainda que essa potencial diferenciação de como percebemos e produzimos conhecimento, não se refere à hierarquizações e/ou superioridades de Ser algum em particular, tão pouco do conhecimento produzido e adquirido em decorrência da sua percepção consciente e refletida a partir de realidades localizadas e corporificadas. Na dimensão física da existência, cada Ser habita e habita um corpo e, como reflete o antropólogo educador Eduardo Oliveira, torna-se premente “...reconhecer que o corpo é filosofia encarnada e cultura em movimento” (OLIVEIRA, E. 2005:15). Nesse sentido, o nosso corpo em sua integralidade cada vez mais é reconhecido como base fundamental da percepção e de vivencia do conhecimento, bem como da interação que cada Ser pode estabelecer conscientemente consigo e com o mundo sensível da natureza e do cosmo. Porquanto, tudo que existe na natureza tem em si uma potência vital. Uma força de ser e conhecer a partir de sua própria integridade física e metafísica. Assim, a vida tomada como a plenitude de toda forma de existência, possibilita e se apresenta como um fluxo contínuo de conheceres distintos dos/entre os seres, humanos e não- humanos. O conhecimento quando radiografado pelos sentidos permite e se faz pela vivacidade e encantamento da existência dos Seres e das coisas percebidas. Posto que “o contrário da vida não é a morte, mas o desencanto”, já afirmaram sabiamente L. Simas & L. Rufino (2019:5). Ademais, cada Ser ocupa um lugar de existência e possui o direito de ser plenamente. Em outras palavras, viver é também co-existir com diversas cosmopercepções estabelecidas mutuamente pelos seres entre si. A (co)existência 59 em equilíbrio consigo e com a natureza do cosmo é uma base fundamental para a paz plena a qual dissipa impulsos e violências. Aqui pontuo, venho em paz e permaneço na busca de equilíbrio. Fazer uma arqueologia guiada pela ancestralidade é me permitir a sensibilidade do fazer e a cardiografia do pensar. Em tudo aqui, pulsam meus pensamentos lentamente radiografados. Eis outro aspecto fundamental, não somos os únicos seres nesse movimento de existir, ou seja, tudo que existe é digno e potencialmente capaz de demarcar legitimidade em torno de sua própria existência cósmica. Uma planta, uma pedra, um rio, uma mata, uma cobra, cada um de nós mesmos, para vivermos em equilíbrio, temos que reaprender a coexistir. Conhecer pressupõe vida e coexistir com sentimento, e vice-versa. Isso é conhecimento, vivido e provida. Com palavras de encante, Luiz Simas e Luiz Rufino (2019:11) em “Flecha no Tempo”, assim se expressam numa reflexão poética a esse respeito: “O sentir e o pensar não estão deslocados, pois o que é o ser se não uma vibração que vagueia no arrebate ritmado e ganha corpo através do sopro? Na ciência do encante, ser é um todo”. Apesar dessa perspectiva possível e real “o homem branco se distanciou do sentir” (SIMAS, L. & RUFINO, L., 2019:11). Na sociedade moderna e ocidentalizada em que vivemos contemporaneamente, ao logo dos últimos cinco séculos a experiência do saber foi e tem sido reduzida e organizada em um sistema de conhecimento hierárquico, segmentado e hegemonicamente pautado pela razão branca ocidental cristã. Conforme a intelectual negra Sueli Carneiro (2005) analisa em sua tese, essa episteme moderna ocidental se instrumentaliza através de dispositivos de poder14 para se consolidar e reproduzir pela morte programada do conhecimento e o desencantamento da vida. 14 Na definição da noção de dispositivo, Foucault assim afirma: “através deste termo tento demarcar, em primeiro lugar, um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o nãodito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos (Foucault, 1979, p. 244, apud Carneiro, S. 2005: 38). 60 No que se refere aos processos de subjetivação do Sujeito, CARNEIRO (2005) demonstra ainda que o Ser branco ocidental se funda pela condição de não-ser do Outro, via uma aniquilação ontológica orquestrada pelo extermínio tanto físico quanto epistêmico de quaisquer outras culturas e sujeitos, por sua vez classificadas como inferiores e despossuídas da condição de humanidade, ou seja, da capacidade inerente de fazer ciência à luz da razão racionalista. Sob a égide da violência esse deslocamento da condição de humanidade usurpada de povos e culturas não brancas/europeias se complementa com a assunção de uma outredade racializada, ou seja, da classificação social dos povos colonizados segundo o conceito de raça, onde ser branco é considerado superior, e as demais existências, indígenas e africanas, por exemplo, são tratadas como inferiores e tidas como violáveis. No que se refere a compreensão de raça no campo discursivo que reifica diferenças para a desigualdade social, ou seja, como uma categoria sócio-histórica de classificação humana, o intelectual Stuart Hall (2015) nos explica que, raça é um dos principais conceitos que organiza os grandes sistemas classificatórios da diferença que operam em sociedades humanas. E dizer que raça é uma categoria discursiva é reconhecer que todas as tentativas de fundamentar esse conceito na ciência, localizando as diferenças entre as raças no terreno da ciência biológica ou genética, se mostraram insustentáveis. Precisamos, portanto — diz-se — substituir a definição biológica de raça pela sócio-histórica ou cultural (HALL, 2015:1). Nesse contexto, a Ciência e suas disciplinas cientificas não foram imunes a esse modelo racional moderno e raciológico que ao longo da história colonial justificou a colonização de povos não-europeus e/ou não-brancos, instaurando para isso processos de aniquilação física e étnico-cultural, ou seja, o genocídio desses povos. Posto que ao lado desse genocídio, morte programada por pressupostos racistas, temos no âmbito do conhecimento e da educação um correlato equivalente em operação, o qual intelectuais negras como Sueli Carneiro (2005) discutem sob a designação de epistemicídio. Em conformidade com as palavras da referida autora: Para nós, porém, o epistemicídio é, para além da anulação e desqualificação do conhecimento dos povos subjugados, um processo persistente de produção da indigência cultural: pela negação ao acesso à educação, sobretudo de qualidade; pela produção da inferiorização intelectual; pelos diferentes mecanismos de deslegitimação do negro como portador e produtor de conhecimento e de rebaixamento da capacidade cognitiva pela carência 61 material e/ou pelo comprometimento da autoestima pelos processos de discriminação correntes no processo educativo. Isto porque não é possível desqualificar as formas de conhecimento dos povos dominados sem desqualifica-los também, individual e coletivamente, como sujeitos cognoscentes. E, ao fazê-lo destitui-lhe a razão, a condição para alcançar o conhecimento “legítimo” ou legitimado. Por isso o epistemicídio fere de morte a racionalidade do subjugado ou a sequestra, mutila a capacidade de aprender etc. É uma forma de sequestro da razão em duplo sentido: pela negação da racionalidade do Outro ou pela assimilação cultural que em outros casos lhe é imposta. Sendo, pois, um processo persistente de produção da inferioridade intelectual ou da negação da possibilidade de realizar as capacidades intelectuais, o epistemícidio nas suas vinculações com as racialidades realiza, sobre seres humanos instituídos como diferentes e inferiores constitui, uma tecnologia que integra o dispositivo de racialidade/biopoder, e que tem por característica específica compartilhar características tanto do dispositivo quanto do biopoder, a saber, disciplinar/ normalizar e matar ou anular. É um elo de ligação que não mais se destina ao corpo individual e coletivo, mas ao controle de mentes e corações (CARNEIRO, S. 2005:97, grifo meu). A partir da definição da noção de epistemicídio, noto é que a racionalidade ocidental ao se tornar hegemônica através da violência colonial torna-se também impeditiva e anulatória de outras racionalidades que porventura operem entendimentos e conhecimentos a partir do sentir e da experiência. Enquanto aquela se impõe como universal, esta resiste na sua particularidade não-hegemônica. Outrossim, o existir do Ser em seus próprios termos, é o que podemos tomar como pressuposto razoável de partida. Essa é uma questão chave que queremos delinear a partir deste espaço: guiar-se pelo sentir de um coração pautado na ética da serenidade e coletividade existencial, sendo que isto não deixa de ser também uma racionalidade produtora de conceitos epistêmicos fortes e legítimos para contextos sociais, instituições e culturas determinadas, afinal, a relacionalidade contextual do sentir abre espaço e oxigena possibilidade da diversidade do cosmo e dos seres se manifestarem em plenitude. Entretanto, muitas vezes à revelia dessas possiblidades, nas Universidades devido a vigência de tal epistemologia colonialista branca hegemônica, apesar de estudarmos e se produzir escolarização das pessoas, na maioria das vezes temos nos tornados e/ou permanecido seres humanos ignorantes; não apenas porque não temos praticado o conhecimento construído ao longo de gerações, mas principalmente, porque ignoramos outros saberes que não estão sob chancelas de 62 acadêmico-científicas, e mesmo na própria academia não ocorre horizontalidade entres os conhecimentos produzidos pelos diversos Sujeitos que a constituem. Apesar disso, sabemos e enunciamos que o conhecimento não se restringe à academia e seus estudioses, pois a atitude de conhecer surge e demanda constantemente também uma dimensão prática e experiencial, pois se consolida e se expande em sentido pleno no movimento, no fluxo da vida do qual se origina e para o qual se destina, como que numa retroalimentação caótica em dimensão e complexidade. Por isso, não basta apenas saber, afinal sabedoria é na realidade a prática de conhecimentos. É percepção do fluxo de Ser vivo, experiência e exercícios de aprendizados conscientes apreendidos e realizados em tempo-espaço diferenciados, em circunstâncias particulares e localizadas. O intelectual Eduardo Oliveira quando discute acerca da construção criativa da educação no Brasil, também realça essa distinção entre conhecimento e sabedoria, enquanto educador e filósofo, assim ele reflete: O filosofo é um amigo do saber ou amante da sabedoria porque faz a experiência da sabedoria. Conhecer é reter informações, dominar técnicas e reflexões. Sabedoria é mais! Sabedoria é viver o que se conhece. Conhecimento é o que norteia a educação vigente. Sabedoria é o que norteia a educação afro-indígena. O conhecimento, na educação formal, foi reduzido a uma técnica de informação. Reduzido a um modelo semiotizado sob a lógica do Capital. A sabedoria é já uma ética. A sabedoria nunca é mesquinha e não se aninha em si mesma. Ela é uma sensibilidade socializada. O conhecimento uma experiência indiv