QUEM V Ê C ARA N ÃO V Ê A NCESTRALI DADE ARQUIV OS F OTO GRÁFI COS E M EM ÓRIA S IN SURGEN TE S D E BEL O H ORIZ ONTE Prisci la Mesquita Musa QUEM VÊ CARA NÃO VÊ ANCESTRALIDADE: Arquivos Fotográficos e Memórias Insurgentes de Belo Horizonte Versão F ina l Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial para obtenção do título de Doutora em Arquitetura e Urbanismo. Orientadora: Prof. Dra. Renata Moreira Marquez Belo Horizonte 2022 Ficha catalográfica elaborada por Hugo Avelar Cardoso Pires CRB-6 3125 FICHA CATALOGRÁFICA M985q Musa, Priscila Mesquita. Quem vê cara não vê ancestralidade [manuscrito] : arquivos fotográficos e memórias insurgentes de Belo Horizonte / Priscila Mesquita Musa. – 2022. 502 f. : il. Orientadora: Renata Moreira Marquez. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Arquitetura. 1. Fotografias – Teses. 2. Espaço urbano – Teses. 3. Arquivos públicos – Teses. 4. Memória – Teses. I. Marquez, Renata Moreira. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Arquitetura. III. Título. CDD 779 A todas as pessoas que desafiaram os preceitos sociais, morais, éticos, estéticos e intelectuais de seu tempo, abriram os caminhos e tornaram as nossas vidas possíveis. AGRADECIMENTOS Renata Marquez, orientadora sensível, inspiração infinita, foi quem tornou a pesquisa possível das maneiras mais inesperadas e inimagináveis: suspendeu e sustentou o céu dessa tese. Toda a minha reverência. Bruna Piantino, salva-vidas de táticas infindáveis, respiro cotidiano durante o longo tempo em que a nuvem desta tese pairou sobre minha cabeça. Toda a minha gratidão. Companheiras imprescindíveis de pesquisa: Isabel Casimira, Júlia Ferreira da Silva, Maria Beatriz Coelho (Mana Coelho) e Valéria Borges, pela gentileza e generosidade de compartilhar as suas fotografias e cosmovisões de mundo que moveram as estruturas desta pesquisa, uma gama policromática de aprendizados. Alícia Penna, César Guimarães, Gabriela Leandro (Gaia) e Rita Velloso por todas as contribuições preciosas que me ajudaram a encontrar os rumos da pesquisa na banca de qualificação; a que se somaram Josemeire Alves, Wellington Cançado e Junia Mortimer na banca final. Schelton Casimira, companheiro de pesquisa, por toda dedicação e acompanhamento até o fim alongado dessa tese. CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e ao Pro- grama de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFMG - NPGAU, por me oferecer as condições necessárias para o desenvolvimento da pesquisa e por manter a circulação de saberes e afetos em tempos nada favoráveis, em especial, à Maria Paula Borges Berlando a minha admiração e reconhecimento pelo seu trabalho cotidiano impecável e por todo auxílio e cuidado comigo nos anos de mestrado e doutorado. Todas as pessoas batalhadoras da história e da memória, dos museus e dos arquivos, que resistem à ausência e as intempéries mais pavorosas das políticas públicas. Acendem as luzes, limpam a poeira, abrem um sorriso quando aparecemos na portaria, têm a alegria de nos mostrar várias vezes a mesma fotografia e chegam contentes para compartilhar essa ou aquela nova informação. Em especial, Círlei Aparecida Rocha e Ana Paula Silva do APCBH, Márcia Alkmin do APM, Álvaro Américo Moreira Sales, Christiano Quadros e Isabela Tavares Guerra do MHAB, Marcella Furtado e Moacir Pena do MIS BH. Cada pessoa que olhou para a cidade com uma câmera nas mãos, por estar presente, por deixar registrado o testemunho sensível de seu tempo-espaço-história, por todas as ima- gens que aqui compartilho. À Isabel Casimira, Cecília Pederzoli, Júlia Ferreira da Silva, Maria Beatriz Coelho (Mana Coelho), Valéria Borges, João Almeida Ferber, Francisco Soucasaux, Alfredo Camarate, Adolfo Radice, Estevão Lunardi, Igino Bonfioli, Francisco Theodoro Passig, Henrique den Dopper, J. M. Retes, Gines Ginea Ribera, Elias Aun, W. Zats, Barão Hermann von Tiesenhausen, Aldo Borgatti, José Góes, e tantas outras e outros cujos olhares não iden- tificados vemos através de alguns quadros fotografados, em especial, os agentes fotográficos da Assessoria de Comunicação do Município - ASCOM. A cada ser e pessoa visível ou invisivelmente fotografada nas fotografias deste trabalho, por nos endereçar as suas imagens, seja na mais absoluta consciência ou na mais ampliada intuição. Todas as pessoas que empenharam longos pedaços de suas vidas em escrever os livros, fazer vídeo aulas e palestras que li e vi para este trabalho. Colegas do Grupo de Pesquisa Cosmópolis e da ponte entre mundos BR-SW o Projeto Capes Stint - Lutas Urbanas pelo Direito à Cidade e Bens Urbanos: Europa-América Latina, em especial Renata Marquez, Adriano Mattos, Welligton Cançado, Schelton Casimira, Rita Velloso, Miguel Martínez, Donald Mitchell, Ana Paula Baltazar, Heloisa Costa, Junia Ferrari, Jupira Mendonça, Thiago Canettiere, Marina Sanders, Clarissa Campos, Laís Grossi, Timo Bartoll, Phillipe Urvoy. Às pessoas que em vários momentos partilharam comigo seus conhecimentos, pesqui- sas, histórias e imagens e ajudaram de diferentes modos a traçar os percursos deste trabalho, em especial, Laís Grossi, Philipe Urvoy, Daniel Queiroga, Rodrigo Marcandier, Carlos Felipe de Mello, Cecília Pederzoli, Marcelo Pinheiro, Carlos Cândido, Padre Mauro Luiz da Silva, Glaucia Cristine, Dark Andreia, Avelin Buniacá, Neuza Assis e Coletivo Mofo. Colegas das salas e corredores expandidos da Escola de Arquitetura e Design da UFMG, conversas imprescindíveis, aprendizados comunitários, em especial, Junia Mortimer (pelas voltas de bicicleta para não enlouquecer tanto), Tchitcha Adriana Galuppo, Gabriela Pires, Carolina Anselmo, Guilherme Marinho, Joviano Mayer, Leonardo Braga, Louise Rochebois, Felipe Carnevalli, Binho Barreto e Felipe Magalhães. Rita e Francisca por cuidarem generosamente do terceiro andar enquanto estive por lá, e a todas as trabalhadoras que mantêm a escola funcionando cotidianamente. Às parceiras de mergulho nas 634 páginas do livro Potencial History: Unlearning Impe- rialism de Ariella Azoulay: Renata Marquez, Gabriela Moulin, Isabella Beneduci, Isabela Izidoro, Gabriela Pires, Helena Marchisotti, Paula Lobato e Isadora Monteiro. A minha mãe, ao meu pai e as minhas avós e avôs pela vida. A todas as pessoas da família por estarem perto, em especial, Alexandre Musa e Ana Prates pelo incentivo, e à Francisco Musa e Marcela Moreira por me presentearam com uma sofisticada ferramenta de trabalho sem a qual nada disso existiria. Raul Vilela, Júlia Musa, Luísa Musa e Heitor Piantino, pela rebeldia e alegria atraves- sando a dureza dos anos de tese. Rafael Barros e Patrícia Brito, por todo xamanismo e cura em momentos fundamentais. Leda Maria Martins pela sabedoria e Daniel Menezes por tantas trocas. Jacqueline Santos, por renovar constantemente as energias da casa que nos habita. Todas amigas e amigos do Espaço Comum Luiz Estrela, às mãos que abriram os porões e libertaram as histórias do velho casarão. Seguimos na corda bamba de sombrinha. À Tatiana Penna, Vanessa Taveira, Daniel Souza, Luiza Reis, Felipe Pires, Natty Bom Conselho, Pauline, Ana Luiza Diniz, Ciro Martins, Juliana Parreiras e Alice Leite por potencializar ao infinito e além o nosso Núcleo de Memória e Restauração enquanto precisei me ausentar. Roberta von Randow, como se essa tese pudesse ser a que você imaginava fazer. Associação das Arquitetas sem Fronteiras – ASF Brasil, fonte de aprendizado que tangencia esse trabalho. Gabriela Rezende e Laís Grossi, por seguir com a Fresta Arquitetura, Urbanismo e Desenho Gráfico no longo tempo em que precisei me ausentar. Ao time que não joga bola, mas está sempre em campo na minha vida: Baixo Bahia Futebol Social e sua Torcida Desorganizada. Manuel Marquez, pelos dias em que sua mãe não pôde se divertir contigo, porque primeiro lia a minha dissertação e depois essa tese. O que também se estende a Wellington Cançado, Felix e Casquinha. Gal por estar sempre próxima, e Mafalda por chegar no momento exato para levantar os ânimos. A todas e tantas pessoas que contribuíram com este trabalho. É mesmo preciso uma comunidade inteira para escrever uma tese, embora cada equívoco, falha e descontinuidade sejam de minha inteira responsabilidade. Um salve, geral! RESUMO Belo Horizonte, cidade planejada no fim do séc. XIX, erguida sobre o ideário de moder- nidade-colonialista, aliou as imagens técnicas ao urbanismo para criar uma normativi- dade visual, produzir invisibilidades e naturalizar o ponto de vista opressor presente em parte representativa das imagens oficiais encontradas em seus arquivos históricos. No embate empreendido com os arquivos públicos pela busca por imagens históricas de Belo Horizonte que contassem histórias sabidas, mas não arquivadas nas caixas-fortes das instituições, esta tese exercita e discute o trânsito entre saberes e arquivos. Através da pesquisa com oito arquivos e dois museus de destinação pública e da interlocução e colaboração de Isabel Casimira, Júlia Ferreira, Mana Coelho e Valéria Borges – com- panheiras de pesquisa que generosamente compartilharam seus acervos pessoais e comunitários, seus olhares e saberes – elaboro os percursos nos arquivos intitulados Emboscadas, Desvios, Movimentos e Transvualidades para discutir os modos hege- mônicos de ver, as cosmovisões e as memórias e imaginações insurgentes. Sobre, com, contra e através da fotografia, propusemos, coletivamente, um pequeno acervo de narrativas dissonantes e modos de vida que se atravessam e nos possibilitam imaginar cidades potenciais que transvisualizam a fotografia, o arquivo, a cidade e a história. PALAVRAS-CHAVE: Cidade, Produção do Espaço Urbano, Imagem, Memória, Fotografia “O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001” ABSTRACT KEYWORDS: City, Urban Space Production, Image, Memory, Photography Belo Horizonte, a planned city in the late nineteenth century, built on the ideology of modernity-colonialist, allied technical images to urbanism to create a visual normativity, produce invisibilities and naturalize the oppressive point of view present in a represen- tative part of the official images found in its historical archives. In the clash undertaken with the public archives in the search for historical images of Belo Horizonte that tell known stories, but not filed in the institutions’ vaults, this thesis exercises and discusses the transit between knowledge and archives. Through the research with eight archives and two museums of public destination and the interlocution and collaboration of Isabel Casimira, Júlia Ferreira, Mana Coelho and Valéria Borges – research companions who generously shared their personal and community collections, their looks and knowled- ge – I elaborate the paths in the archives entitled Ambushes, Detours, Movements and Transposed images to discuss the hegemonic ways of seeing, the cosmovisions and the insurgent memories and imaginations. On, with, against and through photography, we collectively proposed a small collection of dissonant narratives and ways of life that intersect and enable us to imagine potential cities that transvisualize photography, the archive, the city and history. “This study was financed in part by the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Finance Code 001′′. RESUMEM PALABRAS CLAVE: Ciudad, Producción del Espacio Urbano, Imagen, Memoria, Fotografía Belo Horizonte, ciudad planificada a finales del siglo XIX, construida sobre la ideología de la modernidad-colonialista, alió las imágenes técnicas al urbanismo para crear una normatividad visual, producir invisibilidades y naturalizar el punto de vista opresivo presente en una parte representativa de las imágenes oficiales encontradas en sus archivos históricos. En la lucha emprendida con los archivos públicos en la búsqueda de imágenes históricas de Belo Horizonte que cuenten historias conocidas, pero no archivadas en las bóvedas de las instituciones, esta tesis ejercita y discute el tránsito entre el conocimiento y los archivos. A través de la investigación con ocho archivos y dos museos de destino público y la interlocución y colaboración de Isabel Casimira, Júlia Ferreira, Mana Coelho y Valéria Borges – compañeras de investigación que com- partieron generosamente sus colecciones personales y comunitarias, sus miradas y conocimientos – elaboro los recorridos en los archivos titulados Emboscadas, Desvíos, Movimientos y Transvualidades para discutir las formas de ver hegemónicas, las cos- movisiones y las memorias e imaginarios insurgentes. Sobre, con, contra y a través de la fotografía, propusimos colectivamente una pequeña colección de narrativas y formas de vida disonantes que se cruzan y nos permiten imaginar ciudades potenciales que transvisualizan la fotografía, el archivo, la ciudad y la historia. AB ABF AN APCBH APM ASCOM ASF BDLB BH BN CCNC CPDOC FGV CRAV DJP DOPS DR. DRA. DSLR ED. EI EMAU ETC FIG. FM IEPHA JAF JAO JDF L. MHAB MIS BH MM NCS NPGAU OM P. PA PP. PBH PCG PE S/D SA SI SIAN TG UFMG FUNDO ARTHUR DA SILVA BERNARDES DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO FUNDO ARTHUR BERNARDES FILHO DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO ARQUIVO NACIONAL ARQUIVO PÚBLICO DA CIDADE DE BELO HORIZONTE ARQUIVO PÚBLICO DE MINAS GERAIS ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DO MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE ARQUITETAS SEM FRONTEIRAS BRASIL BIBLIOTECA DIGITAL LUSO BRASILEIRA BELO HORIZONTE BIBLIOTECA NACIONAL COMISSÃO CONSTRUTORA DA NOVA CAPITAL CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL CENTRO DE REFERÊNCIA AUDIOVISUAL DE BELO HORIZONTE FUNDO DERMEVAL JOSÉ PIMENTA DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO FUNDO DEPARTAMENTO DE ORDEM POLÍTICO SOCIAL DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO DOUTOR DOUTORA DIGITAL SINGLE LENS REFLEX, “CÂMERA DIGITAL DE REFLEXO POR UMA LENTE” EDIÇÃO ESCRITÓRIO DE INTEGRAÇÃO ESCRITÓRIO MODELO DE ARQUITETURA E URBANISMO COLEÇÃO EMÍLIA TEIXEIRA DE CARVALHO DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO FIGURA FUNDO FOLHA DE MINAS DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO COLEÇÃO JOÃO DE ALMEIDA FERBER DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO FUNDO JOSÉ APARECIDO DE OLIVEIRA DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO FUNDO JOÃO DORNAS FILHO DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO LOCALIZAÇÃO (REFERÊNCIA PARA LOCALIZAR CITAÇÕES EM E-BOOKS) MUSEU HISTÓRICO ABÍLIO BARRETO MUSEU DA IMAGEM E DO SOM BH COLEÇÃO MUNICÍPIOS MINEIROS DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO COLEÇÃO NELSON COELHO SENNA DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO FUNDO OLEGÁRIO MACIEL DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO PÁGINA FUNDO PEDRO ALEIXO DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO PÁGINAS PREFEITURA DE BELO HORIZONTE FUNDO PAULO CAMPOS GUIMARÃES DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO COLEÇÃO PERSONALIDADES DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO SEM DATA FUNDO FUNDO SECRETARIA DE AGRICULTURA DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO FUNDO SECRETARIA DO INTERIOR DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO SISTEMA DE INFORMAÇÕES DO ARQUIVO NACIONAL COLEÇÃO TIPOGRAFIA GUIMARÃES DO ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS LISTA DE ABREVIAÇÕES SUMÁRIO EMBOSCADA 36 107 226 474 TRANSVISUALIDADES DESVIOS MOVIMENTOS “AS IMAGENS POR TRÁS DO SISTEMA” ANEXOS REFERÊNCIAS 492 “LICENÇA PARA CHEGAR”13 PERCURSOS DA PESQUISA VISUAL14 “QUEM VÊ CARA NÃO VÊ ANCESTRALIDADE” “SE NÃO TIVER A HISTÓRIA NA FOTOGRAFIA OU NO LIVRO, CHAMA QUE NÓS VAMOS CONTAR” “FOTOGRAFO PARA MANTER A COMUNIDADE VIVA” ISABEL CASIMIRA JÚLIA DA SILVA MANA COELHO VALÉRIA BORGES HABITAR IMAGENS CONSTRUIR IMAGENS OCUPAR IMAGENS POTENCIALIZAR IMAGENS “DIZEM QUE É FORÇA DO PROGRESSO” “ASSIM CRESCE A CIDADE HUMANA” “ASSIM QUE ELES NOS VEEM, NADA” “UM MINUTO EU PEÇO” 39 47 65 103 119 150 185 209 248 299 338 393 447 13 “LICENÇA PARA CHEGAR” Há algum tempo tenho a alegria e a honra de poder estar perto do povo de rei- nado1, principalmente com a Rainha Conga do Reinado Treze de Maio, Dona Isabel Cassimira, e, depois de sua partida, com sua filha a então Rainha Conga Isabel Casi- mira. Com elas, aprendi que a nossa presença faz movimentar e é movimentada por outras. Assim, é preciso não apenas anunciar a nossa chegada, mas reverenciar todas as vidas visíveis e invisíveis que cruzam o enredado espaço-tempo que compartilhamos. Nesta pesquisa, reuni muitas fotografias, algumas delas ampliadas ou impressas, vi espaços que já não existem mais, atravessei pontes sobre córregos hoje soterrados, adentrei reuniões familiares, encontros, assembleias e olhei nos olhos de muitas pes- soas desconhecidas que não puderam me olhar de volta e me ver adentrando a sala de visita, o quintal, o mutirão, a manifestação. Convoquei também tantas autoras e autores e ainda ouvi histórias que não foram escritas ou fotografadas. Parte dessas imagens te convido a ver, ouvir e a sentir comigo, assim que esse pequeno pedido de abertura possa ser nosso, por tudo que vamos ver, mas também pelo que não veremos ou sequer somos capazes de enxergar: Peço licença a todas e todos que vieram antes de nós a todas e todos que caminham conosco e a todas e todos que virão depois de nós2 Belo Horizonte. Anos dois mil e vinte, dois mil e vinte um e dois mil e vinte dois. É preciso assinalar que parte significativa da pesquisa foi desenvolvida durante a pandemia de Covid-19. O risco de contágio e as medidas preventivas de distancia- mento social, isolamento e quarentena nos desafiaram a reinventar a vida, mas tam- bém o modo de pesquisar, de compartilhar e de estar juntas. Em muitos momentos, não consegui acessar os arquivos, os museus, as bibliotecas e a universidade. Não consegui me encontrar com as pessoas com quem estou compartilhando este traba- lho – quatro mulheres/referência que vivem e narram histórias da cidade/comunidade 1. Reinado de Nossa Senhora do Rosário, também conhecido como Congado e Congada é uma manifestação religiosa e cultural afrodescendente fortemente presente em Minas Gerais, Belo Horizon- te e Região Metropolitana. A partir de 2011 tive a oportunidade de acompanhar algumas comunidades de Reinado em Belo Horizonte e região metropolitana, sendo elas: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Ibirité, o Reinado Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário no bairro Concórdia, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário Os Ciriacos, em Contagem, e a Irmandade Os Carolinos de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Aparecida. 2. Uma sabedoria passada e transformada a voz e ouvidos, que não possui identificação de autoria. Tomei a liberdade, pedindo licença também por isso, de acrescentar o gênero feminino nas frases. 14 e constroem/construímos juntas esta pesquisa – não pudemos tocar a materialidade das fotografias e ver juntas. Quando os encontros puderam acontecer, eles envolveram uma série de protocolos de segurança que limitaram o nosso contato e dificultaram as nossas conversas. Um furacão de sentimentos e experiências revolvidas lançou cotidianamente a energia, a concentração e as imagens para o ar, para longe. A conjuntura política do país – o crescimento avassalador de muitos tipos de conservadorismo que significam retrocessos em campos indispensáveis para a manutenção e perpetuação das vidas, humanas e não humanas, para organicidade e sobrevivência da terra – ajudou a misturar o vento. Enquanto, ao mesmo tempo, pairou no ar, contraditoriamente, a sensação sufocante de que tudo continua e continuará como sempre esteve, a letalidade imi- nente do real se acomoda em novas normalidades. Sobreviver, manter a esperança e o encantamento vivos para seguir não foi e não é uma tarefa fácil. Ao longo do texto descrevo mais detidamente algumas das limitações que afetaram a pesquisa. Assim, o resultado que aqui apresento é o que foi possível fazer neste tempo pouco favorável. Sugiro leitura da tese em sua diagramação original, clicando neste link ou copiando o endereço: https://drive.google.com/drive/folders/1ANW1JeDyb2oYrexYGf8BI0fkXA6obXjG https://drive.google.com/drive/folders/1ANW1JeDyb2oYrexYGf8BI0fkXA6obXjG?usp=sharing 15 P E RC U RS O S DA P E S Q U I SA V I S UA L 1 A cidade e a audiovisibilidade são campos que apresentam entrelaçamentos e conexões intensas no caso de Belo Horizonte. A cidade republicana foi planejada e construída nos fins do século XIX e início do século XX, teve instituído, junto à Comis- são Construtora da Nova Capital, o Gabinete Fotográfico da Comissão Construtora da Nova Capital. Cabia ao Gabinete registrar o desaparecimento do arraial Curral Del Rei e divulgar os projetos arquitetônicos, urbanísticos e as obras a todo vapor da nova capital; a sua finalidade era divulgar as fotografias para atrair imigrantes nacionais e de outros países, principalmente europeus. Desta maneira, a produção de imagens e a formulação de imaginários sobre o seu território urbano, os modos de vida que nele deveriam se estabelecer e a ele deveriam se adequar foi uma prerrogativa de sua edi- ficação que se repetiu ainda em distintos ciclos de sua construção. Desta feita, trata-se de um horizonte profícuo para pesquisar a confluência entre cidade, os modos de vida urbanos e a imagem fotográfica e fílmica. O objetivo inicial foi pesquisar a partir das imagens, fotografias e filmes de Belo Horizonte, o que seriam as práticas espaciais2 contra a cidade – práticas estas que atuaram por vezes fazendo alianças, por vezes afrontando a lógica e a forma predatória de fazer cidade. Os meios como os diferentes modos de vida conseguiram vazar o campo das hegemonias, das violências, do aniquilamento e reposicionar o que é e o que poderia ser o fazer cidade ou o viver junto. As múltiplas cidades dentro da cidade, o que se constituiu a despeito da experiência cindida por muitas violências e tentativas de dominação e conseguiu desconstruir o consenso em torno da cidade: os espaços comuns, as ocupações urbanas, os bairros populares, os territórios sagrados, as co- munidades quilombolas, as ações políticas dos movimentos sociais e a desobediência cotidiana das existências que teimam em permanecer, que são potências de instabilidade. A fotografia e o filme, as imagens técnicas e o que elas podem produzir no seu entorno – no ato fotográfico e no momento de circulação da fotografia - nesta pesquisa e no meu entendimento, não são simplesmente um objeto de análise. Elas funcionam 1. Em uma das vezes que visitei o Arquivo Público Mineiro – APM, em 2017, e solicitei ver as fotogra- fias e filmes que o arquivo disponibilizava para consulta, Marcia Alkmin, então Secretária Executiva da Associação Cultural do Arquivo Público Mineiro, respondeu dizendo, “Ah, sim! Você está fazendo uma pesquisa visual!”. Ainda sem saber os rumos que o trabalho iria tomar, senti que essa era uma definição possível para a pesquisa que estava começando a desenvolver. 2. Segundo o filósofo Henry Lefebvre a prática espacial é a projeção sobre o terreno da cidade de todos os aspectos, elementos e momentos da prática social. “A prática espacial de uma sociedade se descobre ao decifrar-se seu espaço” (2006). Neste sentido, seriam as práticas que, mesmo que efêmeras, articulam espacialidades visíveis nas imagens. 16 como uma episteme, são modos de conhecer de transmitir conhecimento, memórias, modos de ver e de viver. Uma imagem registrada em um filme ou em uma fotografia contém camadas múltiplas onde podemos estabelecer uma continuidade entre o que está na foto e o que não está; entre o que está presente e o passado inscrito nelas; entre as pessoas e comunidades que partilham as imagens em comum do antes, do agora e do depois; entre os lugares e as políticas da imagem e as suas formas de circulação. Como afirma Rancière no livro O Trabalho das Imagens, “Quando falamos em imagem, falamos de algo que vai além de uma forma visual: falamos de uma estru- tura de mundo comum, construímos um modo de estruturação desse mundo comum” (2021: 45). Assim, interessa olhar para a imagem e buscar refletir sobre como ela age e como podemos agir com ela para além das inscrições que estão contidas no quadro fotografado ou foram estrategicamente deixadas fora dele. Tendo como ponto de partida a proposição de Ariella Aïsha Azoulay sobre a fotografia como encontro: A fotografia ocorre em e através de um encontro entre pesso- as, nenhuma das quais jamais poderá ditar o que será registrado na fotografia e o que permanecerá oculto. A fotografia é a prova de uma ocorrência real, o evento da fotografia, a tomada de uma fotografia que a imagem fotográfica nunca poderia esgotar por si só. Este evento é um convite para mais um evento, a visualização da fotografia, a sua leitura, a participação na produção de seu significado. A potencialida- de da visão futura, outro evento fotográfico, é o que faz a fotografia germinar na escrita da história política potencial. Por um lado, uma fotografia não pode impor limites ao(s) evento(s) fotográfico(s); e, por outro lado, contingente como é, aquilo que é registrado em uma fotografia excede o que os participantes tentaram garantir que fosse capturado. (2019:367) Para pensar os modos de agir da e com as fotografias e os vídeos, retomo o pensamento de Jaques Rancière sobre a relação entre política e imagem. Sendo que a política seria o encontro entre dois processos heterogêneos, o de governo, que esta- belece a distribuição hierárquica dos lugares e funções e consiste em organizar a vida em sociedade, esse processo o autor chama de polícia. E o segundo seriam as práticas que rompem esse ordenamento policial e conseguem estabelecer um mudo comum. Para o autor, a “política é o que desloca um corpo de lugar. A polícia é o que designa um lugar e uma ordem determinada” (2021:25). Podemos pensar em uma política das imagens não quando as imagens mostram populações massacradas, inferiorizadas ou excluídas pela ordem policial, mas quando as imagens “Questionam o lugar que essas populações ocupam na organização dominante do visível – e do invisível” (2021:8). A ordem do visível afeta a participação em um mundo sensível comum. Há um número muito reduzido de pessoas e comunidades que são vistas, ouvidas e têm a existência 17 legitimada, diante de uma maioria que se encontra fora da ordem policial do visível. O trabalho político das imagens seria aquele que se compromete com a mudança de posições e a transformação desse número desigual. Na pesquisa de mestrado Movimentos Imagens elaborei uma reflexão sobre a produção e circulação das imagens dos movimentos de ocupação do espaço de uso público e coletivo a partir de Belo Horizonte. Foi uma investigação acerca da potência expressiva da imagem enquanto desestabilizadora de espaços e tempos socialmente estabelecidos e a sua capacidade de redistribuir o sensível, a partir da análise das relações políticas que se estabelecem entre os seus agentes – fotógrafa, fotografa- do, espectador e câmera, em diálogo, principalmente, com Ariella Azoulay e Jacques Rancière. Constatei, naquela pesquisa, que há uma grande proliferação de fotografias e vídeos dos movimentos sociais e políticos dos anos dois mil até os dias atuais, o que tem a ver com a maior disponibilidade e acessibilidade aos equipamentos de fotogra- fia e vídeo; o estabelecimento da fotografia digital; a possibilidade de difusão através das redes virtuais de divulgação e compartilhamento de imagens; e, principalmente, a propagação do uso das visibilidades da imagem como estratégia de ação. No entanto, quando tentei levar para a dissertação as imagens dos movimentos sociais anteriores ao “novo milênio”, daquelas pessoas que lutaram antes de nós e o experimento de outras cidades que elas fizeram, me deparei com a invisibilidade, com o silêncio e com a ausência. Ao pesquisar fotografias e filmes de Belo Horizonte no Arquivo Publico da Cidade de Belo Horizonte - APCBH, no Arquivo Público Mineiro – APM e no Museu Histórico Abílio Barreto – MHAB, observei que não constavam nas imagens da cidade, ou raramente apareciam nelas, as iniciativas que existiram de outros-modos-de-vida-que-o-urbano-es- petacular, que discordaram, que se opuseram aos repetidos processos de remodelação, redesenho, intervenções estruturais, novos projetos de expansão, renovação urbana, instalação de grandes equipamentos e infraestrutura urbana, demolições de edificações populares e históricas, apagamentos, remoção de vilas e favelas, implosões, expulsão, supressão de árvores, fechamento, cerceamento, entre outros. Projetos e intervenções estes que em grande medida estão mais comprometidos em potencializar a mais valia sobre as benfeitorias urbanas do que de fato gerar qualidade sócio espacial ou quali- dade de vida na cidade. De maneira que, nesta pesquisa, aprofundo a busca por essas imagens que não encontrei no mestrado e em pesquisas anteriores. 18 A perspectiva de pesquisa incialmente atrelada a um ponto de vista contrário ou de embate às narrativas mais conhecidas sobre a cidade diz respeito ao lugar de mundo que ocupo, a experiência com alguns projetos de extensão da PUC Minas no Escritório de Integração - EI, no Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo - EMAU , no movimento estudantil, em coletivos de fotografia3, em alguns movimentos sociais4 de Belo Horizonte e na Associação das Arquitetas Sem Fronteiras Brasil – ASF, o que me levou a ter contato com uma multiplicidade de realidades e olhares e me colocou não só atenta a outros ensaios e às transformações da cidade em que vivo, mas tam- bém às violências solapadas pelo projeto de modernidade colonialista e varridas para debaixo da história também totalitária e universalizante de cidade, de Belo Horizonte. Foram assembleias, reuniões, audiências públicas, ocupações, atos, mani- festações, praias, mutirões, campanhas, greves, envolvimentos de vida cotidiana que reverberam e assumem também o movimento de pesquisa. Participar de alguns movimentos que desafiaram as diversas ações e o jogo de poderes que construíram a cidade e o modo de vida urbano como ele em grande medida está sendo, me levou a imaginar e também a ouvir as histórias contadas por integrantes dos movimentos e moradores especialmente os das gerações que antecederam à minha. Os relatos me fizeram perceber que, mesmo na escassez intencionada de registros de imagens 3. Em 2010, criei junto a algumas amigas o Urbe Coletivo Fotográfico, dedicado à fotografia de rua, que tinha o objetivo de retratar o nosso tempo e o desejo de que pudesse existir um Urbe Coletivo em cada cidade do país – o que chegou a acontecer em São Paulo – a atuação mais intensa do coletivo foi até 2012. Em 2011, criamos com outro grupo o Coletivo Fora das Bordas, também dedicado à fotografia de rua que esteve ativo até 2013. 4. A aproximação primeira se deu no encontro fortuito com a Praia da Estação (ocupação lúdico política da Praça da Estação), em 2010. Em 2011 participei mais ativamente do Movimento Fora Lacerda (movimento contra as ações que favoreciam a especulação imobiliária do então prefeito de Belo Horizonte, Márcio Araújo Lacerda) e do Baixo Bahia Futebol Social (time de futebol feminino de rua que fazia ocupações lúdicas do espaço público) em suas várias ações que me levaram a lugares até então distantes de meu convívio como o Barreiro e a Ocupação Zilah Spósito. Nos anos seguintes, acompanhei e fotografei algumas atividades do Quarteirão do Soul, do Duelo de MCs, do Grito dos Excluídos, da Massa Crítica, do Carnaval de Rua, do Ocupa BH, do Sarau Vira-latas, da Marcha das Mulheres e da Marcha da Liberdade. Em 2012 participei da organização da Marcha das Vadias. Um pouco anterior às Manifestações de Junho de 2013, participei de algumas reuniões e ações do COPAC - Comitê Popular dos Atingidos Pela Copa. Acompanhei também as ocupações do Movi- mento Fica Ficus, na Avenida Bernardo Monteiro e na Pampulha. Em junho de 2013, participei das longas e turbulentas caminhadas até o Mineirão – Estádio Magalhães Pinto - e da Assembleia Popular Horizontal que se configurou durante as manifestações, da Ocupação da Câmara Municipal e de A Ocupação Cultural. Também fotografei o Tarifa Zero, o Salve Santa Tereza, o Brasilinha do Lacerda NÃO! (o Salve Lagoinha), as Manifestações duramente sufocadas de junho de 2014, as ocupações de rua do movimento pelo Parque Jardim América e o Resiste Isidora – movimento das ocupações Rosa Leão, Esperança e Vitória na divisa de Belo Horizonte com Santa Luzia. Em outubro de 2013 participei da ocupação do casarão à Rua Manaus, 348, o Espaço Comum Luiz Estrela, onde atuo atualmente como arquiteta e urbanista. Em 2015, participei do início do Muitas - pela Cidade que queremos que, em 2016, conseguiu eleger vereadoras e ocupou a política institucional com a Gabinetona. Em 2017, iniciei oficinas de formação em patrimônio que culminaram no reconhecimento dos imóveis da ocupação Kasa Invisível como patrimônio da cidade. 19 acessíveis nos arquivos e museus de destinação pública, não faltaram manifestações, ocupações, greves e protestos em outros momentos da história de Belo Horizonte. Com muitas limitações e fragilidades, procuro cultivar um gesto centrífugo mul- tifacetado, tento girar como posso as pequenas engrenagens na universidade, nos arquivos, no texto, mas focando alimentar os ciclos de existência, de insistência, de desobediência, de insurgência, de inquietude e de visibilidade dos movimentos diversos, não apenas sociais ou políticos – estes que buscam outras possibilidades de cidade, de imagem, de arquitetura e urbanismo, de vida. De maneira que esta talvez não seja exatamente uma investigação ativista, mas um ativismo investigativo. Assim há uma relação entre prática, teoria e ideologia que nutrem cada percurso desta pesquisa. Como destacou Timo Bartholl no livro Por uma Geografia em Movimento - a ciência como ferramenta de luta: “A ideia da objetividade e da neutralidade do olhar científico é mais uma invenção-construção (uma ferramenta de dominação) do que algo que possa (ou deveria) existir de fato” (2018:21). Das práticas espaciais contra a cidade, a pesquisa foi ganhando outros desdo- bramentos, de maneira que os caminhos que segui, os lugares que consegui acessar, as companhias que fui ganhando, as alianças que estabelecemos, os agenciamentos, as negociações, as escolhas que fizemos e as imagens que conseguimos compartilhar fizeram com que o percurso de pesquisa se tornasse algo importante. Como afirmou Frei Betto explicando a epistemologia ensinada por Paulo Freire: “A cabeça pensa onde os pés pisam” (1997). Assim, o percurso por onde fui tecendo relações entre pessoas, entre imagens, entre memórias e entre imaginários, foi o chão por onde nossos pés puderam levar a cabeça. Mesmo que algumas vezes a cabeça vertiginosamente pa- receu andar sem os pés, entrelacei, entrelaçamos uma rede de retalhos, processos, experimentações, pensamos e mudamos de ideia, mudamos de direção, um passo depois do outro, assim optei por narrar as emboscadas, os desvios, os equívocos, os desafios, as limitações, os movimentos que fomos traçando conforme elaborei esse texto-caminhada5. Como afirmam Luiz Rufino e Luiz Simas no livro Flecha no Tempo, “O Caminho está implicado à noção de imprevisibilidade e inacabamento. É rigorosa- mente o inverso de ‘estrada’, que pressupõe a rota previamente traçada, como ponto de partida e chegada, sem atalhos” (2019:38). 5. Escrevo em primeira pessoa demarcando as singularidades das experiências deste corpo que escreve, que lê, que vê, que escuta e que sente. Um alguém que está detrás dessas palavras, aqui e agora. Uma perspectiva que assumo enquanto escrevo, nesta primeira pessoa, limitada e composta também de equívocos. No entanto, algumas vezes assumo o eu plural, nós, mas este não pressupõe uma aderência social ampla e consensual. São apenas alguns arranjos a que o eu não se apresentou suficiente para representar o lugar de escrita, pois pensamos de encontro eu e as muitas companheiras e companheiros desta pesquisa. 20 Desta feita, a pesquisa que aqui apresento é composta de quatro percursos: Emboscadas, Desvios, Movimentos e Transvisualidades. Os percursos são qua- tro experiências de/com arquivo, sendo os dois primeiros - Emboscadas e Desvios - empreendidos em arquivos e museus de destinação pública e os dois últimos feitos com arquivos pessoais, íntimos e comunitários – Movimentos e Transvisualidade. As Emboscadas de uma pesquisa feita a partir da aproximação com os arquivos e mu- seus de destinação pública, “As imagens por trás do sistema”,onde busco localizar, reconhecer e nomear as violências das imagens elaborando uma crítica ao acervo de fotografias e filmes existente de e sobre Belo Horizonte. Os Desvios possíveis dentro destas instituições, “Quem vê cara não vê ancestralidade”, onde negocio com os acer- vos existentes me aliando a algumas pessoas fotografadas e suas espacialidades que se desviam do corpo hegemônico dos acervos dos arquivos e museus pesquisados. Até perceber que era necessário me juntar a outras companheiras de pesquisa, “Se não tiver a fotografia, se não tiver a história no livro, chama que nós vamos contar”: reunir e criar um pequeno acervo pessoal-comum-comunitário, colocar em Movimento as fotografias e filmes guardados em acervos íntimos-pessoais-comunitários e que circulam e são transmitidos de diferentes formas. Transvisualidades ou “Fotografo para manter a comunidade viva” foi o exercício de refletir sobre os modos de ver que podem transformar as imagens fotográficas e fílmicas. É um texto final que enlaça todos os percursos anteriores e se abre para possibilidades de um fazer imagem, que pode surgir também através da oralidade, da textualidade e das memórias que a fotografia e o filme podem despertar. Esses percursos não se separam, eles se misturam, se sobrepõem, se cruzam. Cada percurso, um todo de travessias arriscadas de percurso que é a experiência não apenas de realizar uma pesquisa, mas de habitá-la. A proposta de pesquisa visava, a princípio, reunir um acervo de fotografias e filmes a partir das instituições públicas de salvaguarda da memória audiovisual de Belo Horizonte, os arquivos e museus, para diante das imagens buscar os atravessamentos, as conexões, as histórias, as narrativas e tentar refletir sobe os múltiplos fluxos de con- formação da cidade, da cultura urbana e da cultura visual. Em um gesto de metodologia invertida, a pesquisa começa pelas imagens, a visibilidade e a sensibilidade que elas despertam, movimentam e estabelecem, parte delas, tendo em vista as possibilidades e as potencialidades de conhecer e transmitir conhecimento através delas. A proposta, desta maneira, é pensar sobre as confluências possíveis entre imagens, territórios, sa- beres, memórias, imaginários, modos de ver e de ser a partir do complexo sistema que os acontecimentos fotografáveis ou fílmicos podem despertar. Estando eles contidos 21 em uma fotografia ou filme ou não, como apontou Ariella Aïsha Azoulay no texto O que é uma fotografia? O que é fotografia? (What is a photograph? What is photography?)6: O acontecimento fotográfico - não o acontecimento fotografado - pode se dar com o encontro com uma câmera, com uma fotografia ou com o mero conhecimento de que uma fotografia foi (ou poderia ter sido) produzida (...) Fotografia é um evento que sempre acontece entre as pessoas. (2010: 13) Tentei fazer com que a pesquisa fosse uma integrante a mais no acontecimento fotográfico, e assim busquei torná-la um evento ou uma prática compartilhada que acon- tece entre pessoas. Como ressalta Azoulay, só é possível minar as bases do sistema diferencial que produz uma série de opressões e violências em companhia de pessoas de diferentes lugares de mundo e épocas (2019: 15). Assim, segui a caminhada deste trabalho tendo como companheiras as pessoas que estão na ecologia de imagens que cada fotografia pode nos trazer: as fotógrafas, as pessoas fotografadas, as pessoas que tornaram uma visibilidade possível e estão para além do quadro fotografado, as pessoas que guardaram estas fotografias, as pessoas que cuidam dos arquivos públicos ou pessoais, as pessoas que compartilham e transmitem suas imagens. Ao longo dos anos de pesquisa, reuni muitas companhias, mas aprofundei os vínculos – em intensi- dades diferentes – com três grupos em especial: as pessoas que estão no e para além do quadro fotografado ou filmado – as fotógrafas e as fotografadas, as trabalhadoras das instituições públicas e as quatro mulheres que compartilharam seus acervos pessoais/ comunitários e suas narrativas. Comecei a pesquisa por fotografias e filmes em arquivos e museus, públicos e privados, físicos e digitais. Percorri algumas instituições em busca de imagens que pode- riam me permitir tecer algumas narrativas dissonantes e heterogêneas sobre a história e a memória de Belo Horizonte. Sendo elas: o Arquivo Público da Cidade de Belo Hori- zonte - APCBH (1991), o Arquivo Público Mineiro – APM (1897), o Museu Histórico Abílio Barreto – MHAB (1941), o Museu da Imagem e do Som BH - MIS BH (2014)7, o Sistema de Pesquisa de Acervo da Comissão Construtora da Nova Capital de Minas (2004) – que reúne os acervos do APCBH, MHAB e APM –, o Laboratório de Fo- todocumentação Sylvio de Vasconcellos da UFMG (1954), o Arquivo Nacional – AN 6. Alguns textos e livros que trabalho nesta tese estão em outro idioma, em geral espanhol e inglês, e opto por traduzir os títulos dos mesmos deixando a versão original entre parênteses. Quando o texto ou livro é mencionado mais de uma vez no texto, abandono a versão original entre parênteses. 7. Antigo Centro de Referência Audiovisual – CRAV criado em 1992, mas inaugurado apenas em 1995. 22 (1838), a Biblioteca Digital Luso Brasileira - BDLB (2016)8 – que reúne o acervo das Biblioteca Nacional (1810) do Brasil e de Portugal (1796) –, a Brasiliana Fotográfica (2015) – que reúne acervos da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles (1992) – e o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas - CPDOC – FGV (1973)9. Dentro de algumas dessas instituições, encontrei trabalhadoras que não apenas me possibilitaram acesso às imagens, mas são parte constitutiva dessas instituições, elas sabem, lembram e tornam visíveis as imagens muitas vezes inacessíveis aos buscadores dos arquivos e dos museus, ademais são agentes de memória que parti- ciparam ativamente desta pesquisa. Foram elas Círlei Aparecida Rocha e Ana Paula Silva no APCBH, Márcia Alkmin no APM, Álvaro Américo Moreira Sales, Isabela Tavares Guerra e Christiano Quadros no MHAB, Marcella Furtado e Moacir Pena no MIS BH. Em momentos diferentes, elas compartilharam comigo as especificidades de cada uma das instituições, me apresentaram os acervos por trás dos sistemas de busca, investigaram referências complementares e compartilharam fontes de suas próprias pesquisas pessoais. Foi guiada por esses olhares engajados dos arquivos e museus que consegui seguir caminho na topografia acidentada das fotografias institucionais de Belo Horizonte e elaborar este trabalho. 8. Comecei a pesquisa pelas instituições públicas listadas até a inserção desta nota, devido a difi- culdades que narrarei nas páginas seguintes, bem como a impossibilidades de acessar acervos físicos dos arquivos devido à pandemia, ampliei a pesquisa para instituições que guardam acervos privados sendo eles a Brasiliana Fotográfica que possui o acervo do Instituto Moreira Salles (organização sem fins lucrativos) e o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas – CPDOC (instituição de direito privado). 9. Além dos acervos citados mapeei alguns outros que não consegui incluir na pesquisa. O primeiro foi a Hemeroteca Histórica da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, visitei a sala de pesquisa em 2018, a consulta era feita por data de publicação do periódico, não tinha busca textual, o que tornou a pesquisa inviável uma vez que não tinha elaborado anteriormente uma listagem de possíveis aconte- cimentos e era preciso olhar cada jornal por completo para encontrar alguma informação/fotografia. Em um segundo momento, já em 2019, comecei a trabalhar em parceria com Laís Grossi - que desenvolve sua pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFMG intitulada “Espaços de luta em Belo Horizonte: ativismos e práticas espaciais”, sob orientação da professora Heloisa Costa – ela já havia elaborado uma linha do tempo, com a qual pude colaborar, e fez uma segunda pesquisa na Hemeroteca, mas não obteve sucesso. O segundo foi acervo histórico do Jornal Estado de Minas, fiz uma entrevista com o jornalista Carlos Herculano que me indicou entrar em contato direto com a Gerência de Documentação e Informação do Sistema Estaminas de Comunicação – GeDoc, tentei repetidas vezes por telefone, por e-mail, e indo presencialmente ao edifício sede do jornal, mas não obtive sucesso. Também tentei localizar os fotógrafos do Jornal Estado de Minas indicados por Carlos Herculano Lopes: Jorge Gontijo, Sidnei Lopes, Antônio Concessa e Jane de Faria, mas não obtive mui- tas informações. Nos últimos tempos da pesquisa, tive conhecimento também dos acervos dos Diários Associados, da TV Alterosa de Belo Horizonte, do BDMG Cultural, do Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte e o da Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte – Urbel, mas a estes não consegui acesso quando tive disponibilidade para realizá-lo, pois as consultas eram presenciais e foram suspensas devido à pandemia. Deixo o registro nesta nota para possíveis pesquisas futuras. 23 Também me encontrei com as pessoas que estão registradas nas fotografias e filmes, as pessoas que habitam as espacialidades e temporalidades inscritas no quadro fotografado e/ou filmado. Neste sentido, também me encontrei com as pesso- as envolvidas no fazer dessas imagens, as fotógrafas, os fotógrafos e cinegrafistas, pessoas que estão para além do quadro, mas participaram do encontro materializado nas imagens fotografadas e filmadas. Nas instituições, busquei as imagens de pessoas, grupos, coletivos e movimen- tos sociais que conformaram a resistência e a resiliência primeira ao aniquilamento do pequeno Curral Del Rei, depois à imponente urbanização da cidade, às grandes obras - à edificação de seus ordenados arruamentos e majestosos edifícios e monumentos, depois os ciclos repetidos de renovação e a sua evidente negação a tantas formas de existir. A resistência de vida, como o casebre de pau-a-pique do que foi chamado Rancho da Papuda10, o lugar de vida de Maria, uma das mulheres negras do Arraial Del Rei, atropelado pelo Palácio da Liberdade logo nos primórdios de Belo Horizonte, bem como a movimentação de grupos, coletivos e associações contra a demolição do Hotel Mauá na Lagoinha. Abrindo, assim, um vasto e pretensioso território espacial e temporal de pesquisa. A estratégia primeira foi a de pesquisar os registros audiovisuais através dos sistemas de busca feita por palavras-chave. Tanto nos arquivos que possuem sistemas específicos de busca disponibilizados nos computadores das salas físicas de consulta do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte - APCBH, do Museu Histórico Abílio Barreto – MHAB e do Museu da Imagem e do Som BH - MIS BH, quanto nos acervos digitais disponibilizados na rede mundial de computadores do Arquivo Público Mineiro – APM, do Sistema de Pesquisa de Acervo da Comissão Construtora da Nova Capital de Minas, do Laboratório de Fotodocumentação Sylvio de Vascon- cellos, do Arquivo Nacional – AN, da Biblioteca Digital Luso Brasileira – BDLB, da Brasiliana Fotográfica e do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas - CPDOC – FGV. Pesquisei os buscadores com as seguintes palavras-chave: movimento, mo- vimento social, movimento político, manifestação, manifesta, manifestam, protesto, protesta, protestam, revolta, revoltosos, revolução, jornada, levante, passeata, marcha, greve, paralização, assembleia, ato, sindicato, piquete, barricada, populares, população, 10. Rancho da Papuda e Cafua de uma Papuda é a legenda de duas fotografias feitas pelo Gabinete fotográfico da Comissão Construtora da Nova Capital. Essas duas imagens retratam duas mulheres negras do Curral Del Rei, essa forma de referir a essas mulheres evidencia uma violência implícita na linguagem que se perpetua no tempo. 24 operários, operárias, trabalhadores, trabalhadoras, negra, negro, preta, preto, criança, infância, indígenas, índio, mulher, lésbica, gay, travesti, Drag, homossexual, LGBT, rio, árvore, floresta, serra, festa, carnaval, congado, terreiro, quilombo, favela, periferia, luta, resistência, denúncia, desfavelamento, supressão, desmatamento, demolição, remoção, despejo. Fui construindo o emaranhado de palavras-chave à medida que o contato com arquivos e museus se efetivava. Mantive aqui a ordem com que as palavras foram sur- gindo, primeiro as ações, depois as pessoas, os elementos de ordem ambiental e por último já o início de uma distorção no objetivo inicial, procurei as ações destitutivas do poder público que poderiam trazer consigo o gesto oposto, as potências constitutivas da população. Cabe ressaltar que não interessavam apenas as ações dos movimentos sociais, o povo na rua, mas também as muitas formas de resistir, de sobreviver, de aparecer, de visibilizar, de lutar, de existir contra os tantos sistemas de opressões, de apagamentos, de extermínios, o enfrentamento do status quo, estabelecidas dentro e por esse lugar que chamamos de cidade. No entanto, me deparei com os repetitivos resultados: “Sua pesquisa não encon- trou nenhum documento correspondente” no Arquivo Público Mineiro - APM, “Nenhum registro encontrado” no Arquivo Nacional e no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas – CPDOC-FGV, “A busca não retornou resultados” na Brasiliana Fotográfica, “Não foi encontrado nenhum registro que atenda à sua pesquisa!” no Sistema de Pesquisa de Acervo da Comissão Construtora da Nova Capital de Minas. Estas foram frases recorrentes nas pesquisas nestes acervos, mas encontrei frases similares nas outras instituições listadas ante- riormente. Foi a porta fechada dos buscadores de palavras-chave que me fez chegar a esse total de oito arquivos e dois museus pesquisados. Esperançando outras possi- bilidades, fui buscando alternativas e acrescentando arquivos e museus à lista que era inicialmente de dois arquivos e um museu, sendo eles o APCBH, o APM e o MHAB. Encontrei em todas as dez instituições que pude pesquisar alguns poucos registos ou narrativas visuais que pudessem confrontar a vertente amplamente difundida da história enaltecedora do Bello Horizonte e seus homens ilustres. Quando compreendi as limitações da pesquisa feita através de palavra-chave com o objetivo de investigar então que cidade é essa que se guarda nos arquivos e com a expectativa ainda de encontrar algum ponto de fuga escondido no fundo da gaveta, perdido em alguma pasta, decidi pesquisar a quase totalidade dos acervos audiovisuais disponíveis para consulta de algumas dessas instituições. As pastas onde 25 os indexadores cegos classificavam imagens através das palavras-chaves, a fonte, as imagens – por trás, dentro e para além do sistema de busca. Olhei uma a uma, aproximadamente 100 mil fotografias e 536 filmes11. No ANEXO 1 – FUNDOS E CO- LEÇÕES PESQUISADAS – descrevo mais detalhadamente quantas e quais imagens estavam disponíveis para consulta em cada uma das instituições pesquisadas e como foi o processo de pesquisa. Encontrei nos acervos volumosos destas instituições apenas alguns escassos e fragmentários vestígios que poderiam contribuir com os objetivos iniciais de pesquisa, os quais listo no ANEXO 2 – IMAGENS VESTÍGIOS NOS ARQUIVOS E MUSEUS PESQUISADOS. Registros audiovisuais esses muitas vezes com ficha catalográfica incompleta ou mesmo sem registro de data, local, autoria, ou descrição, o que dificultou a identificação de pessoas, territórios se acontecimentos. Visitei as fotografias em diferentes momentos - vi, revi, depois revi de novo muitas delas - em consultas aos acervos iconográficos dos arquivos e museus que se iniciaram durante o mestrado entre 2013-2015 e se intensificaram em 2017-2021 já no doutorado. Os acervos do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte – APCBH, do Arquivo Público Mineiro - APM, do Museu Histórico Abílio Barreto - MHAB vi mais de duas vezes. Sendo que determinadas fotografias se repetem em alguns dos espaços pesquisados, como por exemplo as fotos dos álbuns produzido pelo Gabinete Fotográfico da Comissão Construtora, que estão nas três instituições, com algumas variações entre elas. Parte das fotografias produzidas por Raymundo Alves Pinto e Dr. Tito Livio Pontes, que compõem o Álbum de Bello Horizonte publicado em 1911, estão no APM e MHAB. Fotografias que se tornaram cartões postais estão na Biblioteca Digital Luso Brasileira, no APCBH e no APM. Fotografias contratadas e/ou produzi- das pelo poder público foram reproduzidas e distribuídas em diferentes locais e hoje pertencem a diferentes instituições. 11. O corpo de imagens que consegui acessar é significativo e nos leva a pensar sobre as imagens que essas instituições colocam em circulação. No entanto, cabe esclarecer que consegui acessar apenas as fotografias e filmes que estão disponíveis à consulta, a maior parte destes arquivos e museus possui imagens de doações ainda não processadas, catalogadas, identificadas, restauradas, digitalizadas e disponibilizadas ao público. Um outro ponto importante é que a quantificação de fotografias e filmes que encontrei nos acervos iconográficos estão em constante modificação. Fiz a pesquisa em momentos diferentes, percebi que alguns dos números se alteraram, mas conferi os dados no dia 14 de junho de 2021. As imagens seguem sendo processadas, identificadas, digitalizadas no cotidiano de muitas des- sas instituições e estes números mudam conforme os acervos estão sendo trabalhados. Quantifiquei aqui as imagens que pude acessar porque penso que esse dado ajuda a definir qual foi o universo de fotografias que acessei. 26 Pesquisei também três grupos de troca de fotografias e filmes disponíveis nas redes sociais, com o mesmo intuito com que acessei inicialmente os arquivos e museus. Procurava as imagens dissonantes, mas acabei por ver ainda algumas das mesmas imagens que aparecem nas instituições, e desta maneira pude perceber quais as imagens tendem a circular e quais geram maior engajamento. O primeiro foi o grupo Fotos Antigas de Belo Horizonte12 (com então 131,8 mil membros no dia 27/ 07/ 2021) que foi criado em 2012 a partir da página Fotos Antigas Belo Horizonte e tem o propósito de trocar fotos entre membros para ajudar as pessoas a identificar os lugares desconhecidos através de fotografias antigas. O grupo Belo Horizonte às Antigas!13 (com então 18,3 mil membros no dia 27/ 07/ 2021) foi criado em 2019 e, na definição do grupo, o objetivo é “resgatar a história da cidade através de fotos e filmes que retratem sua arquitetura, suas belezas naturais, seus hábitos, costumes, tradições, sua gente.” Por último o grupo Fatos e Fotos da Antiga Belo Horizonte14 (com então 11,3 mil membros no dia 27/07/2021) foi criado em 2019 com o objetivo de resgatar histórias e fotos antigas da cidade. Os grupos são espaços digitais de troca de memórias, histórias e lembranças impulsionadas pelas imagens, a maior parte delas fotográficas. Cada fotografia é se- guida por uma série de comentários com descrições dos espaços, curiosidades, dados históricos, memórias pessoais, causos, identificação de personagens, narrativas da vida como ela foi, poderia ter sido e debates acalorados. Nos comentários aparecem outras fotos, documentos, textos, relato de pesquisas, trechos de livros. Os membros dos grupos vão ativando coletivamente a memória dos espaços e compartilhando co- nhecimentos, percepções, sentimentos, imaginários. Dentre as fotografias mais compartilhadas, curtidas e comentadas nos três grupos, a maior parte delas são de vistas de edificações, dos monumentos e de es- paços públicos, bem como as vistas panorâmicas que compõem a parcela da cidade delimitada pela Avenida do Contorno15 e alguns bairros como Pampulha e outros da Regional Centro-Sul. A cidade de que os membros se orgulham e a que desperta os comentários mais comovidos é a Belo Horizonte “cartão postal”. Com destaque para o acervo do José Góes do APCBH, as fotos da Coleção Belo Horizonte do MHAB e as 12. Disponível no endereço: https://www.facebook.com/groups/211578045863114. 13. Disponível no endereço: https://www.facebook.com/groups/299719847624421. 14. Disponível no endereço https://www.facebook.com/groups/fatosfotosbh/. 15. A Avenida do Contorno circunda a região central de Belo Horizonte. No plano original elaborado pela CCNC esta avenida, antes nominada de Avenida 17 de dezembro, delimitava a Zona Urbana ra- cionalmente projetada e destinada a ser urbanizada e separava a centralidade da cidade da contígua Zona Suburbana de traçado irregular a ser ocupada pela população de menor poder aquisitivo. https://www.facebook.com/groups/299719847624421/ https://www.facebook.com/groups/299719847624421/ https://www.facebook.com/groups/211578045863114 https://www.facebook.com/groups/fatosfotosbh/ 27 fotografias dos fundos públicos do APM. Embora muitas vezes as imagens não estejam identificadas, consegui reconhecê-las e mapear sua procedência. As pessoas que participam dos grupos apresentam múltiplos interesses, mas é possível perceber a formação de uma comunidade movida pelo sentimento de perten- cimento e identidade manifestado por seus membros nos comentários, principalmente quando se trata de imóveis já demolidos e as vastas espacialidades da cidade que já não existem mais. Para além da cidade planejada, as áreas fora da Avenida do Contorno aparecem nesses grupos quando os membros compartilham os acervos pessoais e as fotos de família, em poucas delas também aparecem as periferias e as presenças que não aparecem com frequência nos acervos oficiais. Ao ver uma quantidade representativa de fotografias e filmes disponíveis para consulta nos arquivos e museus e compartilhadas nos grupos que descrevi, me deparei com a repetição exaustiva de imagens de um território e corpo social específico de Belo Horizonte perpetuada nesses espaços de salvaguarda da memória, com exceção das poucas imagens que listei no Anexo 2. De maneira que perdi um pouco o rumo inicial de pesquisa, caí na emboscada, adentrei em um emaranhado farpado e vertiginoso de questões. Coube organizar algumas imagens e abrir um espaço na pesquisa para pensar e escrever sobre uma espécie de corpo hegemônico de imagens que podem também contar de que maneira a fotografia, bem como os filmes e seus agentes, con- tribuíram para a naturalização e perpetuação de uma forma específica de fazer e de dar a ver a cidade. Como o poder público produziu e/ou organizou e/ou salvaguardou a visibilidade da cidade. Que narrativa é essa que as imagens institucionalizadas dão a ver. Quais histórias são mostradas. Qual o efeito desses registros sobre as pessoas. No primeiro percurso do texto, “As Imagens por trás do Sistema” - Emboscadas, atravesso a reflexão sobre o contato com os arquivos e museus, a vasta gama repetitiva de imagens – ou a seletiva e estratégica falta delas - que pude ver ou perceber nessas instituições. Uma metodologia que consistiu em olhar as fotografias e filmes disponíveis para pesquisa nos acervos audiovisuais dessas instituições e reunir algumas imagens para refletir sobre o campo de forças que está contido no enquadramento de boa parte delas e nas molduras sócio espaciais que a elas se sobrepõem. Uma reflexão sobre audiovisibilidade que as imagens públicas de Belo Horizonte conformam ou ajudam a conformar. Tropeço na cilada de uma narrativa hegemônica, a construção assimétrica e destitutiva de posições no fazer cidade e fazer imagem que instituem as políticas de dominação da cidade, da imagem e do arquivo. 28 A normatividade visual que a maior parte das imagens oficias de Belo Horizonte constituíram ao longo dos anos, a naturalização de um ponto de vista elitista e a exclu- são de toda uma gama de pessoas, grupos sociais e territórios me colocaram diante de visibilidades que explicitam o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios. Questões que poderia imaginar, mas não pensava que se- riam tão evidentes nas imagens. Algumas vezes me vi paralisada diante de uma série de conflitos. Muitas vezes senti que não deveria escrever sobre racismo e opressão de classe, porque embora com algumas singularidades, faço parte de uma parcela mais privilegiada da população. Minha experiência de vida, o meu ponto de vista e o meu lugar de fala é de uma pessoa branca vinda de um contexto de classe média do interior de Minas Gerais. Assim, este trabalho parte desse ponto de vista, não é neutro. Como enfatiza Leonardo Boff, “Cada um lê com os olhos que tem e interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto” (1999:2). As imagens ou a proposital falta delas gritavam aos meus olhos que não pode- riam me refutar das questões de opressão que elas suscitavam, porque seria conivente com as violências implicadas na construção das imagens oficiais. Era preciso trazer essas questões para o centro da discussão porque elas fazem parte da estrutura sócio espacial e da história da cidade da qual também pertenço. Na minha vivência com alguns movimentos sociais, aprendi que, quando se trata de lugares sociais ao qual não pertenço, é preciso assumir o lugar de escuta e de pesquisa. Foi o que fiz, sabendo das muitas limitações do meu ponto de vista parcial e localizado fui ver, ouvir, ler. Como enfatiza Ariella Azoulay, “A escrita da história potencial exige a eliminação da fronteira imaginária que separa a autora e sua posição, observações e ações da- quelas de atores estudados com os quais ela interage” (2019,351). Nunca consegui de fato sair do conflito, caminhei com ele durante toda a pesquisa, mas entendi também a urgência e a necessidade de continuamente desfazer as barreiras e os muros que nos dividem, segregam e descriminam. Também a potência de estender pontes, criar alianças e fazer as diferenças e as palavras circularem, como nos ensina Audre Lorde no livro Irmã Outsider: Nos lugares em que as palavras das mulheres clamam para ser ouvidas, cada uma de nós devemos reconhecer a nossa respon- sabilidade de buscar essas palavras, de lê-las, de compartilhá-las e de analisar a pertinência delas na nossa vida. Que não nos escon- damos por detrás das farsas de separação que nos foram impostas e que frequentemente aceitamos como se fossem invenção nossa. Por exemplo: “Provavelmente eu não posso ensinar literatura feita por mulheres negras – a experiência delas é diferente demais da minha”. E, no entanto, quantos anos vocês passaram ensinando 29 Platão, Shakespeare e Proust? Outra: “Ela é uma mulher branca, o que teria para me dizer?”. Ou: “Ela é lésbica, o que meu marido, ou meu chefe, diria?”. Ou ainda: “Essa mulher escreve sobre os filhos e eu não tenho fi- lhos”. E todas as outras incontáveis maneiras de nos privarmos de nós mesmas e umas das outras. (...) O fato de estarmos aqui e que eu esteja dizendo essas pala- vras, já é uma tentativa de quebrar o silêncio e estender uma ponte sobre nossas diferenças, porque não são as diferenças que nos imobilizam, mas o silêncio. E restam tantos silêncios para romper! (2019:55) Diante das múltiplas imagens que de certa forma produzem invisibilidade e silenciamento, retêm imaginários e ocultam as mais diferentes violências visuais por trás das mais belas fotografias e por debaixo dos mais novos monumentos, entendi que era então necessário mudar os pressupostos da pesquisa, traçar outros percursos e lançar outro olhar para os próprios arquivos institucionais. Tracei, assim, o segundo percurso de pesquisa, “Quem vê cara não vê Ancestralidade” - Desvios, onde fiz o exercício de escavar dentro da pasta de arquivos fotográficos e fílmicos das instituições que pesquisei os vestígios de presenças diversas e as territorialidades que suas apari- ções estabelecem. Procurei nos arquivos e museus a visualidade que a princípio não parecia estar neles e que pode colocar em questão a sua própria lógica de organização e de existência. Tentei localizar a pluralidade de mundos na sua quase ausência de representação. Algumas espacialidades e pessoas que atravessam os acervos. Tam- bém aquelas pessoas que estão nas bordas, nos cantos, nos fundos da imagem e que desafiam a construção consensual da moderna cidade e de sua imagem fotográfica intencionada e posicionada. Desta feita, neste percurso faço uma reflexão sobre as formas de sobrevivência da memória na cultura visual do esquecimento. Cabe ressaltar que esta pesquisa só foi possível porque as fotografias e filmes existiram e existem. Porque os arquivos e museus foram criados, existem e resistem às mais diversas descontinuidades das políticas públicas da cidade, do estado e do país em que a história e a memória são muitas vezes forjadas e raramente são tratadas como prioridade. Nas notas explicativas da terceira edição do livro Belo Horizonte – Memó- ria Histórica e Descritiva do historiador Abílio Barreto em 1996, a equipe responsável deixa assinaladas as dificuldades em lidar com o acervo fotográfico da cidade para a reprodução do livro: A maioria das fotografias originais desapareceu e suas repro- duções, quando existentes, ou são cópias de qualidade insatisfatória 30 ou trazem as marcas da despreocupação com o zelo que a consciên- cia histórica deveria implicar. Os originais encontrados apresentam sinais nítidos de deterioração: densidades rebaixadas, em função de problemas de fixação inadequada; anotações de caneta na face da imagem; dobras, quebras e marcas de presença de fungo e mofo, metalização da prata, entre outros. (1996 [1928 e 1936]:51) Em 1997, Heliana Angotti-Salgueiro ainda aponta que apesar da relevância do Gabinete Fotográfico da Comissão Construtora da Nova Capital, “a produção de milhares de fotos reduz-se hoje a poucos exemplares em mau estado de conservação.” (1997: 177). Muitas destas poucas fotografias que restaram foram restauradas e digitalizadas nos anos que decoram a comemoração do centenário da cidade em 1997. A partir dos grupos de compartilhamento de imagens percebi que era preciso ir além dos arquivos e museus de destinação pública, uma vez que as imagens que procurava, quando elas existem, estão em acervos e coleções - particulares, pessoais, íntimas - estão com moradoras, entusiastas, guardiãs da memória, pesquisadoras, fotógrafas, fotojornalistas, entre outras. Pessoas estas que faziam parte de práticas es- paciais diversas, de movimentos, foram o corpo-câmera de seu cotidiano, de protestos, de greves, de passeatas, criaram imagens em comum. Registros esquecidos no fundo da gaveta, no canto de armário, no porão. Parte deles sequer foi revelada, publicada, compartilhada. Outra parte segue viva, inserida no cotidiano, imagens que estão na parede da casa, sobre o altar, circulam em uma rede de afeto própria. Pensando em retomar a experiência comunitária para visualizar múltiplos horizontes, procurei ampliar assim o esforço de pesquisa e de escuta. Busquei criar oportunidades de ver junto, convoquei outras companhias de pesquisa. Fiz um mapeamento de possíveis interlocutores dentro das possibilidades que a pandemia delineou em diferentes momentos, consegui me encontrar pessoalmente e tive a oportunidade de me aproximar das pesquisas e das imagens de algumas dessas pessoas: Laís Grossi, que desenvolve sua pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFMG intitulada Espaços de luta em Belo Horizonte: ativismos e práticas espaciais, sob orientação da professora Heloisa Costa; Philipe Urvoy pesquisador dos movimentos de ocupação urbana e luta pela moradia dos anos 1960-1980; Daniel Queiroga do movimento Salve a Lagoinha, pesquisador da história e memória do bairro; o jornalista e folclorista Carlos Felipe de Mello, pesquisador da cultura popular em Minas Gerais; a fotógrafa Cecília Pederzoli e o fotógrafo e o histo- riador Marcelo Pinheiro que acompanharam alguns movimentos sociais e sindicais na cidade na década de 1980 e 90, Carlos Cândido que me apresentou algumas fotogra- 31 fias do Sindicato dos Jornalistas; a educadora Valéria Borges, moradora, fotógrafa e pesquisadora da história da Pedreira Padre Lopes; o pesquisador Padre Mauro Luiz da Silva, fundador e curador do Museu dos Quilombos e Favelas MUQUIFU; Mana Coe- lho que fotografou bairros, vilas, favelas e diversos movimentos sindicais das décadas de 1970 e 80; Glaucia Cristine, referência do Kilombo Souza e uma das guardiãs do acervo fotográfico da família e da história do Kilombo; Júlia Ferreira da Silva, matriarca do Quilombo dos Luízes que tem um trabalho cuidadoso com a fotografia em livros manuscritos; Isabel Casimira, Rainha Conga da Guarda Treze de Maio de Nossa Se- nhora do Rosário e referência do Centro Espírita de São Sebastião; Dark Andreia e sua coleção de fotografias familiares da vila Cafezal na Favela da Serra; Avelin Buniacá, socióloga indígena ativista da causa indígena e Neuza Assis da Irmandade Os Carolinos de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Jesus no bairro Aparecida. Conforme a aproximação com essas pessoas se efetivou, ao explicar a pesquisa e mostrar algumas imagens que estava acessando nos arquivos e museus pesquisados, fui sendo atravessada por modos de ver que deslocavam as imagens, os arquivos e a cidade de lugar. Assim entendi que era preciso não apenas buscar outros acervos, mas também me juntar a múltiplos e diversos modos de ver e entender o mundo. Desta feita, a pesquisa assumiu outro movimento, adentrei outro território metodológico, tentando estabelecer um contínuo aprendizado dos modos de ver em companhia, de olhar com. O objetivo inicial era criar um acervo coletivo de imagens e em um segundo momento promover o encontro entre agentes da imagem de vários lugares diferentes em rodas de conversa onde pudéssemos colocar as imagens sobre a mesa, mostrar fotografias e filmes e compartilhar histórias. Cheguei a reunir um modesto acervo a partir das imagens generosamente disponibilizadas por Philipe Urvoy, Cecília Pederzoli, Daniel Queiroga e Glaucia Cristine. No entanto, levando em consideração que a maior parte das imagens está em suporte físico - são fotos impressas, ampliadas, filmes em película, fita VHS, super 8, CDs - devido à pandemia e às medidas de quarentena e distanciamento social não foi possível nos encontrarmos para trabalhar em tempo hábil com tantos acervos, as rodas de conversa presenciais ficaram inviáveis e, em mesma medida avaliei que o encontro virtual com pessoas desconhecidas entre si não seria capaz de criar uma “aliança afetiva” (KRENAK 2016), o que então não faria sentido nesse caso. Diante desse panorama e da impossibilidade de efetivar uma pesquisa mais intensamente coletiva, optei por aprofundar a proximidade com as pessoas com as quais já tinha algum caminho trilhado. Das pessoas com quem estabeleci um contato 32 inicial aprofundei a proximidade, em diversos encontros, com quatro mulheres:Isabel Casimira, Júlia Ferreira da Silva, Maria Beatriz Coelho (Mana Coelho) e Valéria Borges. Isabel Casimira e Júlia Ferreira são pessoas que fotografam, guardam e trans- mitem memórias, algumas delas fotográficas. Isabel Casimira cuida e faz crescer o acervo de imagens que recebeu de sua família. Júlia Ferreira cria e compõe memó- rias e histórias com fotografias de sua família e de outras pessoas. Mana Coelho é foto documentarista, Valéria é fotógrafa, cinegrafista e jornalista comunitária. Parte do acervo de Mana Coelho está no Museu Histórico Abílio Barreto, Valéria Borges é o próprio arquivo vivo que transborda pelos becos da Pedreira Prado Lopes. As duas fotografaram movimentos populares. Valéria fotografa em especial o cotidiano e a luta dos moradores da Pedreira Prado Lopes. Compartilhei com as companheiras de pesquisa as fotografias que aparecem neste trabalho e conseguimos visualizar a capacidade da imagem de nos fazer formular outros sentidos, a sua vinculação com a produção de memórias e a sua capacidade de abalar a maneira como os acontecimentos são narrados dentro e fora dos espaços institucionais. Estas mulheres, cada uma a sua maneira e de seu lugar de mundo, são pensadoras radicais que incansavelmente imaginaram e criaram outras maneiras de viver e nunca deixaram de considerar como o mundo e a cidade poderiam ser, e por vezes são, diferentes. Em contato com elas, reelaborei algumas passagens dos dois primeiros percursos da pesquisa, Emboscadas e Desvios, e no terceiro percurso, Movimentos, reunimos os acervos pessoais-comunitários em álbuns elaborados para ver com cada uma das formas plurais de vida em um exercício de pedagogia do olhar ou do ver. Cada álbum é seguido por um texto transcrito sobre as questões que abor- damos no trabalho e suas próprias imagens em uma espécie de oralidade transcrita e comunitária, “Se não tiver a fotografia, se não tiver a história no livro, chama que nós vamos contar”. Para além do texto transcrito, no trabalho aparecem várias falas e en- sinamentos que anotei no caderno e na mente de vários de nossos encontros. Neste ponto, o trabalho é atravessado não apenas por imagens que podemos ver, mas por aquelas que ouvimos. Assim, buscamos estabelecer outras relações entre o visível e a palavra, entre o visível e o tempo e entre o visível e a visibilidade da cidade. No quarto e último percurso, “Fotografo para Manter a Comunidade Viva” - Trans- visualidades, com as companheiras de pesquisa abro espaço de reflexão sobre as possibilidades de ativação das imagens técnicas pelas cosmovisões, uma tentativa de acessar as realidades não completamente visíveis, nem completamente delimitáveis. Ultrapassar os limites da nossa visão física e os limites impostos para a compreensão 33 de mundo. Fotografias, imagens e imaginários que precisam ser preservados dentro da lógica de alguns espaços e aqueles imaginários vitais que atravessam os tempos, o espaço, sobreviveram mesmo quando foram separadas de sua gente, de seu territó- rio, que algumas vezes deixou para trás as próprias imagens e se refez em realidades diversas, circulou em outras lógicas, passou de uma geração para outra nas histórias contadas na mesa de café, no meio fio da rua, em pedacinhos de papéis colados em cima do altar, carregados com esmero no pingente do pescoço no chaveiro do bolso. Sobre a emboscada da linguagem, o português, me permito tocar no que Nego Bispo define no livro Colonização Quilombo Modos e Significados como “guerra de denominações” (2015: 55), formas de dominação exercidas através da atribuição de nomes, de palavras. Grada Kilomba, por sua vez, no livro Memórias da Plantação, co- loca que “a língua, por mais poética que possa ser, tem também a dimensão política de criar, fixar e perpetuar relações de poder e de violência, pois cada palavra que usamos define um lugar de identidade.” (2019: 14). Embora a língua portuguesa tenha sofrido muitas transformações desde os tempos que atravessou o oceano até o presente, é reinventada todos os dias. As estruturas sociais mais retrógradas ainda estão entra- nhadas na sua conformação, que estabelece alguns padrões e com eles naturaliza, domina, exclui muitas identidades, existências e epistemologias. Apesar da distância de tempo e espaço, o português falado no Brasil ainda apresenta fortes traços não apenas coloniais como também colonizadores. Carla Rodrigues lembra, no texto Mulheres em Estado de Emergência, que “O apagamento constante da imagem opera também na linguagem” (2020). Em diversos momentos sinto a dificuldade de escapar das estruturas racistas, patriarcais e sexistas que a linguagem evidencia, perpetua, naturaliza. Algumas palavras ficam inevitavelmente restritas ao gênero masculino e à estruturação textual que dele decorre. O padrão mas- culino é a régua de representação que deve conter toda e qualquer identidade. Então, na medida do possível, busco palavras que deixam o gênero em aberto, palavras neutras como por exemplo: pessoa. Quando foi impossível trocar por uma palavra de gênero indefinido, onde podem caber muitas identidades, optei por tentar alguns movimentos e transitar entre eles, suprimir os artigos definidos ou invertê-los. Quando se trata de um processo histórico empreendido por homens e que busco problematizar, escrevo no gênero masculino. Desta mesma forma, algumas vezes é importante demarcar a desconstrução de gênero em processo, então assumo o gênero feminino. Também escolho utilizar escravizada, empobrecida, vitimada, porque estas palavras descrevem o processo político a que as pessoas foram submetidas e não a condição naturalizada 34 de suas existências. Como também apontou Grada Kilomba, “Parece-me que não há nada mais urgente do que começarmos a criar uma nova linguagem. Um vocabulário no qual nos possamos todas/xs/ nos encontrar, na condição humana” (2019: 21). Tive contato com uma multiplicidade significativa de fotografias e vídeos. De ma- neira que o desenvolvimento deste trabalho comporta uma duplicidade de linguagens. A escrita é também atravessada pela experiência de conviver com o mundo-imagem dos arquivos, dos acervos pessoais e comunitários. Ele comporta o gesto de vivenciar as imagens e com elas imaginar. Desta feita, assumi o desafio de não apenas pensar, mas também escrever com imagens, que não servem à ilustração do que é textuali- zado, elas expõem, criam, constroem, recortam, sobrepõem a narrativa e a estrutura do que estou tentando elaborar como pensamento. Mobilizo as fotografias e os vídeos ao longo do trabalho criando atravessamentos de diferentes intencionalidades, sequ- ências que dão a ver as visibilidades inscritas nos arquivos de onde tiro fragmentos, crio contrastes, duplas. Tensiono com alguma liberdade as imagens, as legendas e as descrições a elas atribuídas dentro do texto, mas vou descrevendo a intencionalidade de cada uma delas conforme construo os argumentos. Por partir de uma gama múltipla de fotografias e vídeos - de um período extenso de tempo e uma cidade tão enorme e diversa - a pesquisa caminha na corda bamba, equilibrista, cambaleando sobre o risco iminente de cair em generalizações, estere- otipagens, anacronismos, sobrevoos reducionistas, descuidos, entre outros. Tentei pesquisar as referências, os fotógrafos, as datas, os acontecimentos e as informações históricas que as fichas catalográficas, as notações das imagens traziam ou poderiam desencadear, mas muitas vezes isso não foi possível – por falta de informação, mas também pelo volume extenso de imagens. Assim, tropeço e caio em alguns momen- tos. Não apenas devido à falta de informações, mas também por encontrar o muro dos meus próprios limites de pensamento e visão de mundo. Assim, mesmo sem ter qualquer pretensão nesse sentido, é importante assinalar que imagens e as reflexões que as acompanham são seguramente incompletas e insuficientes. Desta maneira, este trabalho sobre a visibilidade de Belo Horizonte construída através de suas ima- gens fotográficas e fílmicas é apenas uma pequena garrafa flutuando em um oceano de possibilidades, foi o melhor que pude fazer, mas desconfio profundamente do meu modo de ver e escrever o mundo. Deixo uma sugestão de navegação, antes de começar a ler cada uma das partes do texto. Primeiro caminhe por entre as páginas e veja as imagens que ressoam por entre a pesquisa. Tenho esse hábito, sempre que abro um livro ou mesmo um texto 35 no computador primeiro vejo todas as fotos, porque elas dão pistas, criam narrativas, contam histórias. Com o tempo fui percebendo que muitas pessoas fazem o mesmo, principalmente as crianças que apostam na sabedoria das imagens. Assim sendo, resolvi dispor as imagens ao longo do trabalho, de maneira que elas conversam com o texto, mas também dialogam entre si, e esse caminho duplo se articula, se cruza, texto-imagem e imagem-imagem. “A S IM AG EN S PO R TR ÁS D O S IS TE M A” EM BOSCADAS METRÓPOLES SUFOCAM, SÃO NECRÓPOLES QUE NÃO SE TOCAM ENTÃO SE CHOCAM COM O SONHO DE ALGUÉM CANANÉIA , IGUAPE E ILHA COMPRIDA • EMICIDA EU NASCI AQUI HÁ QUASE 60 ANOS. NÃO VOU VIVER MAIS 60 ANOS. VOCÊ SEMPRE DISSE QUE LEVARIA TEMPO. LEVOU O TEMPO DA VIDA DO MEU PAI, DA MINHA MÃE, O TEMPO DA VIDA DOS MEUS TIOS, O TEMPO DA VIDA DOS MEUS IRMÃOS, DAS MINHAS IRMÃS, DAS MINHAS SOBRINHAS E SOBRINHOS... QUANTO TEMPO VOCÊ QUER, PARA O SEU ‘PROGRESSO’? JAMES BALDWIN POR CONTAR FICA A HISTÓRIA DOS OLHOS QUE DESVIAM O OLHAR W. G. SEBALD ELES QUE SÃO BRANCOS E OS QUE NÃO SÃO ELES QUE SÃO MACHOS E OS QUE NÃO SÃO ELES QUE SÃO ADULTOS E OS QUE NÃO SÃO ELES QUE SÃO CRISTÃOS E OS QUE NÃO SÃO ELES QUE SÃO RICOS E OS QUE NÃO SÃO ELES QUE SÃO SÃOS E OS QUE NÃO SÃO TODOS OS QUE SÃO MAS NÃO ACHAM QUE SÃO COMO OS OUTROS QUE SE ENTENDAM QUE SE EXPLIQUEM QUE SE CUIDEM QUE SE BRANCOS | PESADO DEMAIS PARA A VENTANIA R ICARDO ALEIXO ACEITAR NOSSO PASSADO – NOSSA HISTÓRIA – É DIFERENTE DE NOS AFOGAR NELA; TRATA-SE DE APRENDER COMO USÁ-LA. JAMES BALDWIN 39 “DIZEM QUE É FORÇA DO PROGRESSO” Foi ainda na graduação, entre 2003-2008, quando morava no Cachoeirinha, bairro contíguo ao bairro Lagoinha, que ouvi muitas histórias da Lagoinha e cruzava por ela todos os dias. Às vezes descia alguns pontos de ônibus antes do meu destino só para caminhar pelo bairro, e quando fiz o trabalho final de graduação no seu entorno, frequentei a Lagoinha assiduamente. Manoel Aparecida de Almeida, proprietário de um dos antiquários da Rua Itapecerica, o Móveis Cupim, me contou a história da demolição da Praça Vaz de Melo, o ponto de chegada do bairro, pequena centralidade comercial e famoso berço do samba e da boemia Belorizontina, em 1981. A cada três frases, ele balançava a cabeça de um lado ao outro em sentido de negação e dizia: “um absurdo, um absurdo!”. Manoel disse não ter sido algo que passou despercebido: os moradores se organizaram e sentiram profundamente o contrassenso daquele desmanche de vidas. Assim, no dia em que as edificações começaram a ser demolidas, tinha tido um protesto onde foram distribuídos 100 mil lenços brancos estampados com a letra da música do conhecido samba Adeus Lagoinha de Gervásio Horta e Milton Horta, este primeiro também conhecido como Lagoinha. Foi assim que imaginei o seguinte acontecimento. A praça estava rodeada de moradores e pessoas de diversos bairros de Belo Horizonte e seu entorno. 100 mil lenços brancos são 100 mil pessoas, uma pequena multidão. As edificações que de- senharam por anos aquela porta de entrada do bairro Laginha, a Praça Vaz de Melo, abrigavam mercearias, armazéns, farmácias, cafés, bares, sobrados da “luz vermelha” e cinema; já mostravam os traços de seu destino infeliz. Algumas estavam sem portas e janelas, sem os letreiros, com as tintas das paredes gastas. A ameaça de demoli- ção feita há anos pela Prefeitura, angústia perpetuada no tempo e no espaço, iria se concretizar. Enquanto as máquinas rompiam as paredes dos imóveis que moldavam a praça, muitas pessoas balançavam os lenços para o alto, em protesto, em despedida, e entoavam o samba em coro alegre, profundo, sentido: Adeus, Lagoinha, Adeus Estão Levando o que resta de mim Dizem que é força do progresso Um minuto eu peço Para ver seu fim 40 Praça Vaz de Melo da folia Da gostosa Boemia E de muito valentão Vou lembrar Joel compositor E os amigos lá da praça Lembrarei com emoção Coisas da matéria eu não ligo Mas preciso de um abrigo Para o meu coração Durante mais de 10 anos procurei algum vestígio de sobrevivência dessas imagens, com moradores da Lagoinha, nos arquivos púbicos, em publicações sobre o bairro, na rede mundial de computadores. Sempre que surgia alguma conversa sobre a Lagoinha, logo perguntava sobre os lenços brancos, o adeus lagoinha, as imagens. Quando vieram as manifestações de junho de 2013, subi no viaduto para fotografar a multidão estimada em 100 mil pessoas que se aglomerava próximo ao Campus da UFMG e, no meio do bombardeio, entre balas de borracha e gás lacrimogênio, parei um segundo: era aquele o tamanho da multidão dos lenços brancos no entorno da Praça Vaz de Melo. Iniciei esta pesquisa tendo em mente que iria empenhar esforços na busca por registros desse dia, fiz uma pesquisa cuidadosa nos arquivos e museus da cidade, do estado e da nação e não tive sucesso. Quando estava fazendo um levantamento de possíveis parcerias interlocuções para o trabalho encontrei Daniel Queiroz, entusias- ta, morador e pesquisador do bairro. Foi ele que me soprou o tão esperado caminho a seguir: “Tem registros desse dia no Museu da Imagem e do Som BH!”. Foi preciso esperar a pandemia arrefecer para conseguir acessar os registros. O filme faz parte do Acervo Rede Globo Negativo, já tinha procurado imagens no MIS BH, mas não tinha conseguido acessá-las porque o título não menciona nem protesto, nem manifestação e sequer tem o nome da Praça Vaz de Melo, é apenas: Implosão Lagoinha JS, e a sinopse diz “Festa, entrevista, implosão. Filmagem feita por todos os cinegrafistas da casa”, data 17-10-1981. São dois rolos de filme em película montados com registros fílmicos de várias câmeras, o arquivo bruto. Foi assim que o acontecimento ouvido e imaginado encontrou o acontecimento filmado. O cordão de segurança era extenso, as placas estavam por todos os lados: atenção, cuidado, perigo. Era possível enxergar a linha de isolamento pela quantidade de pessoas que se aglomerava nos seus limites, as ruas do entorno viraram mirantes temporários. Os jardins de concreto da parte posterior da Rodoviária foram transfor- mados em camarote oficial do evento, ali estavam políticos, empresários, militares, 41 Frames do vídeo Implosão Lagoinha JS 17 -10-1981 Fundo Rede Globo Negativos Acervo MIS/BH 42 personalidades. No andar de baixo, no subsolo, na área de embarque e desembarque da rodoviária, foi improvisado um palco na carroceria de um caminhão onde destacava no alto a faixa Adeus à Lagoinha, sobre o palco alguns sambistas se apresentavam para a multidão que se aglomerava em frente ao caminhão-palco. Vizinhos próximos e os moradores da Lagoinha se organizavam também nas janelas dos edifícios do entorno, nos telhados, lajes, na cobertura da igreja. A Rede Globo posicionou estrategicamente todos os seus cinegrafistas e repórteres para garantir que nenhum dos poucos segundos de implosão fosse perdido, contei 5 ângulos diferentes. Os olhos da cidade, do estado, do país estavam voltados para aquele pequeno espaço tempo. As edificações que desenharam por anos a Praça Vaz de Melo, também conhe- cida como Praça do Bedeco, já tinham sido demolidas no final da década de 1970, como mostram os estudos ainda não publicados de Daniel Queiroz1. A cidade já tinha de alguma forma fechado a porta de entrada da Lagoinha e virado as costas para o bairro. Resistia apenas o último bastião da região da Praça da Lagoinha: três imóveis conectados que abrigavam a Galeria do Comércio, o Mercado Mauá e o Hotel Pano- rama. Neste dia as edificações já estavam “no pelo”, vazias, sem portas e janelas, e tinham 1.200 perfurações cravadas com bananas de dinamite. Diferente dos outros imóveis da praça demolidos à marretada, picareta, corrente de arrasto e tratores, essas edificações iriam acolher a primeira implosão de edifício de Belo Horizonte. Armou-se assim o caloroso espetáculo, a imprensa foi mobilizada com jornalistas, repórteres, cinegrafistas, fotógrafos e foi organizada uma festa no Terminal Rodoviário. A multidão estava vibrante quando a implosão aconteceu, durou 7 segundos, as pessoas batiam palma, comemoravam, gritavam e agitavam no alto, as mãos, camisetas, sombrinha, carteira, algumas poucas tiras de papel que poderiam ser os lenços brancos (não foi possível ver se tinha algo escrito), mas eram poucos. Uma massa densa de poeira subiu e ao invés de se desmanchar no ar, soprou em direção bairro-centro, em direção à cidade e tomou o camarote oficial da Rodoviária. Aconteceu um tumulto em meio ao nevoeiro, a música parou, as pessoas saíram correndo em desespero, caíram, um policial passou carregando uma criança nos braços e uma voz ao microfone dizia “Devagar, não saiam correndo!”. A poeira não chegou na Lagoinha, correu em sentido contrário, dissipou a festa. Na última cena, aparece uma faixa da Escola de Samba Unidos dos Guaranis pedindo passagem para saudar o prefeito Maurício Campos e sua comitiva e uma 1. Os decretos de desapropriação são de 1976, o projeto é anterior, as demolições da região da Praça Vaz de Melo aconteceram de 1979 até 1981. 43 placa de prata é entregue ao prefeito. Das pessoas entrevistadas, algumas se colo- cam maravilhadas com o espetáculo, outras lamentam, um senhor se interpõe, “Não gostei, isso porque, poderia ter dado emprego para mais de 200 trabalhadores para desmanchar isso daí. Nós estamos em uma onda de desemprego em Belo Horizonte, uma vergonha. Agora fazer isso aí em 6 minutos, acabar com esse negócio aí quando milhares de trabalhadores que estão passando fome e poderiam estar ganhando o dinheirinho deles aí. Isso é política, política!”. A contagem regressiva feita por um dos homens que parece ser um dos técnicos responsáveis é acompanhada por uma das câmeras, e depois da implosão o repórter pergunta “E aí, sucesso total?” Ele responde “Sucesso, estou todo emocionado! Tudo correu bem, rapidamente, então a gente fica satisfeito. Eu não tive questão de dúvida da implosão, nenhuma, questão de trabalho muito bem coordenado, a gente fica satis- feito!” Depois que a poeira baixou, a pequena multidão rompeu a corda de isolamento e a população correu para ver os escombros. No local, foi construído um trecho da estação do Trem Metropolitano e o es- trondoso vazio do Complexo Viário da Lagoinha. Era a cidade do período da Ditadura Civil-Militar, a cidade do autoritarismo (1964-1985). Belo Horizonte vivia a intensifi- cação do processo de metropolização com o fortalecimento do eixo industrial Betim/ Contagem e a institucionalização da Região Metropolitana. Este período é marcado pela “urbanização corporativa”, investimento misto de iniciativa pública e privada em obras urbanas, início do pacto com empreiteiras e construtoras. Foram empreendidas grandes obras públicas estruturais de impacto e espetáculo: obras de estruturação de eixos viários - viadutos e túnel - canalização de córregos e rios, a remoção de diversas vilas e favelas, como a Vila Urubu, a Vila Marmiteiros e a Vila São Vicente, a Vila Perrela, entre outras. Foi também o tempo de demolições de imóveis do primeiro ciclo de construção da cidade, como o conturbado caso do Cine Metrópole2 e o desaparecimento dos espaços de uso público e coletivo, como o adro 2. O Metrópole funcionou como cinema de 1942 a 1983, ocupava a edificação construída em 1906 para abrigar o Theatro Municipal da cidade. O estilo eclético original foi substituído, no final dos anos 1930, pelo art déco pelo então prefeito Juscelino Kubitschek. Em 1941 o teatro foi adaptado pelo arqui- teto Raffaello Berti para receber o uso de cinema. Em 1983, a edificação que então pertencia à empre- sa de Cinemas e Teatros Minas Gerais S.A, do empresário Antônio Luciano, foi vendida para o Banco Brasileiro de Descontos – Bradesco. O novo proprietário entrou com pedido de demolição na prefeitura de Belo Horizonte o que desencadeou uma série de manifestações por parte de estudantes da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), representantes da Associação Mi- neira de Defesa do Ambiente (Amda), do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), além de intelectuais e representantes do setor cultural. A movimentação gerou o tombamento provisório por parte do IEPHA, mas esse fato não impediu a sua demolição em setembro de em 1983. Em seu terreno foi construído o edifício que fica na esquina da rua da Bahia com Rua Goiás. 44 de muitas igrejas transformados em estacionamentos de automóveis e edificações comerciais, o qual o poeta Carlos Drummond de Andrade denunciou na poesia Triste Horizonte e afirmou que não voltaria à Belo Horizonte para “ver o que não merece ser visto”. Com a saturação do centro tradicional, foram criados os centros “sofisticados”, a Savassi em meados dos anos 1970, e os Shopping Centers a partir do final da déca- da. Neste mesmo tempo, muitas pessoas viviam em situação de rua, algumas recém chegadas da migração do campo e outras tantas vitimadas pelo processo de remoção de vilas e favelas. O bolo urbano que aparentemente crescia também era para poucos. As intervenções monumentais eram assistidas em loco, no cotidiano, mas também eram criadas festividades e solenidades para o público em geral ter a oportunidade de presenciar a chegada instantânea do que era denominado de desenvolvimento. Os projetos e as obras foram amplamente fotografados e filmados, estavam nas notícias de televisão, nas revistas, nos cinemas, em cartazes fixados por todos os lados, afi- nal era o “progresso” chegando magistralmente no campo do visível. Foi o tempo do silenciamento espetacular na emboscada explosiva do progresso. A imagem à força exercia o seu poder autoritário de convencimento, gerava posicionamentos ambíguos e contraditórios, até que soprou o vento. Em um plano de frente às edificações já arruinadas, a repórter pergunta para o sambista como é que ele, o Lagoinha, estava vendo o fim da Lagoinha. Ele prontamente responde, “O fim da Lagoinha agora eu vou pensar, ver o que eu faço, ver se faço uma música em que eu caí, mas levantei para melhor!”. A repórter rebate, “E o espetáculo, valeu?”. Lagoinha sorri: “Ah, claro que valeu, o povão, a moçada toda prestigiando”. O samba em que a Lagoinha “levanta para melhor” ainda não foi escrito, só existe o adeus. Encontrar com essas imagens de 1981 no MIS BH foi ver as certezas sendo implodidas restando delas apenas o ardido de areia nos olhos que o vento con- trário lançou. Os escombros das imagens que havia formulado junto com a narrativa de Manoel me provocaram a pensar essa espécie de consenso que parece habitar as entranhas da palavra progresso, como ela permeia e sedimenta a história de muitas cidades e de que forma a fotografia e o filme contribuíram para a fixação de sua im- pregnante imagem no cotidiano dos arquivos, dos museus, da cidade e no imaginário de parte da população. 45 Frames do vídeo Implosão Lagoinha JS 17 -10-1981 Fundo Rede Globo Negativos Acervo MIS/BH 46 Vistas - Minas Gerais (Belo Horizonte), 30-04-1972 Fundo Correio da Manhã, SIAN 47 “ASS I M C R E S C E U M A C I DA D E H U M A N A” Em uma conversa virtual para o XV Seminário Internacional da Escola da Cidade (São Paulo) – Espaços para Respirar, Ailton Krenak afirmou que “A constelação de metrópoles faz a segunda camada da terra, uma camada dura, na maioria das vezes de ferro e cimento” (2020). Na foto podemos ver a crosta de cimento por todos os lados, a camada concreta e mais visível da cidade. A linha vermelha superior e infe- rior demarca o recorte, uma edição a ser feita para publicação da fotografia no jornal Correio da Manhã em 1972. As linhas estreitam a moldura e propõem fechar o ângulo de visão nas edificações mais robustas, assim sairão do plano as casas e os quintais dos bairros Centro-Funcionários e a caixa de concreto que um dia foi o vale do ribeirão Arrudas. Dentro das linhas, a “cidade humana” a ser sintetizada em uma imagem vai parecer mais vertical e mais imponente do que ela é. Se as imagens são também um lugar de construção histórica e política de realidades, quais realidades essa imagem mobilizou e colocou em jogo? A “cidade humana” nesta fotografia é uma camada fina - se pensarmos a densi- dade de outras camadas da Terra – que impermeabiliza o solo, cresce alheia a muitas pré-existências e se espraia para fora da moldura da imagem. A “cidade humana”, o modo de vida urbano, atravessa os vales com redes de múltiplas tecnologias, drena água, desfaz montanhas e florestas para extrair diversos tipos de metais, pedras, árvores, a que nomeia de “matéria prima” e ou “matéria bruta”. A “cidade humana” estabelece fora dela uma rede muitas vezes predatória de produção de energia e alimento necessários para suprir a