UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO: CONHECIMENTO E INCLUSÃO SOCIAL LANA FERREIRA DE LIMA INCLUSÃO SÓCIO-EDUCACIONAL E DIVERSIDADE: DEBATE CONCEITUAL E DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO-LEGAL NO BRASIL APÓS 1988. Belo Horizonte 2012 LANA FERREIRA DE LIMA INCLUSÃO SÓCIO-EDUCACIONAL E DIVERSIDADE: DEBATE CONCEITUAL E DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO-LEGAL NO BRASIL APÓS 1988. 2012 Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Educação. Linha de Pesquisa: Políticas Públicas de Educação: Concepção, Implementação e Avaliação. Orientadora: Professora Dra. Rosemary Dore. Co-orientador: Professor Dr. Virgínio Isídro Martins Sá. Belo Horizonte 2012 LANA FERREIRA DE LIMA INCLUSÃO SÓCIO-EDUCACIONAL E DIVERSIDADE: DEBATE CONCEITUAL E DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO-LEGAL NO BRASIL APÓS 1988. 2012 Tese defendida e aprovada em 30 de março de 2012, pela Banca Examinadora composta pelos seguintes professores: _____________________________________________ Profa. Dra. Rosemary Dore – FAE/UFMG - Orientadora __________________________________________________ Prof. Dr. Virgínio Isidro Martins Sá – Universidade do Minho Co-orientador _________________________________________ Profa. Dra. Priscila Augusta Lima – FAE/UFMG _____________________________________________ Profa. Dra. Maria de Lourdes Rocha Lima – FAE/UFMG __________________________________________ Prof. Dr. Roberto Fini – Universidade de Verona __________________________________________ Prof.Dr. Marco Antonio Mondaini de Souza - UFPE AGRADECIMENTOS A DEUS fonte de amor e de todas as minhas realizações, conquistas e inspirações, e que me fortaleceu durante todo esse processo. À Profª Drª Rosemary Dore, pelos seus profundos e seguros conhecimentos que foram essenciais para a realização desta pesquisa e pela sua amizade sincera, que tantas vezes soube ser compreensiva e companheira. Ao Prof. Dr. Apolônio Abadio do Carmo, amigo de todas as horas, interlocutor competente, pelas contribuições, apoio e amizade. Não tenho palavras para agradecer tudo que fez e me ensinou desde a graduação em Educação Física. Um exemplo como pessoa e profissional formador de professores, bem como na luta pela inclusão social e educacional das pessoas com deficiência. Ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, através dos professores, especialmente àqueles de quem fui aluna, pelo seu trabalho sério, comprometido com a educação, com uma sólida formação com um projeto de sociedade que promova a paz, respeite a diversidade e defenda incondicionalmente a dignidade e os direitos de cada ser humano. Aos Professores da Banca de qualificação e defesa – Marco Antonio Mondaini de Souza, Antônia Vitória Soares Aranha, Virgínio Isidro Martins Sá, Roberto Fini, Priscila Augusta Lima, Maria de Lourdes Rocha Lima – por terem participado de minha defesa e pela disposição em contribuir com uma leitura atenciosa, com apreciações críticas e com importantes sugestões e contribuições. A todos os integrantes do Projeto de Pesquisa e Estudos “Educação Profissional no Brasil e Evasão Escolar”, que de forma direta e indireta contribuíram com minha formação e elaboração desta tese. À Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais por ter fornecido os dados quantitativos referentes à inclusão escolar dos alunos com deficiência e a formação dos professores que atuam na rede regular de ensino do referido Estado. À Miriã pela ajuda na elaboração das tabelas e gráficos dos dados apresentados na pesquisa. Às minhas colegas e amigas de linha de pesquisa e de turma de mestrado e doutorado com quem compartilhei horas de estudos, de dúvidas, de discussões, de alegrias, de angústias e de crescimento intelectual: Izaura, Ana, Mônica, Sandra, Juliana, Lourdinha, Sandro. Como amigos que são me ajudaram com muito apoio e incentivo. À Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão (UFG-CAC) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela oportunidade de acesso à Pós-Graduação pública no Brasil e de realização do doutorado sanduíche na Universidade do Minho, em Portugal, experiências de formação acadêmica que ainda são restritas a tão poucos, em detrimento de tantos; na certeza de que, nos anos que virão, terei a possibilidade de retribuir com meu trabalho. Aos companheiros do Curso de Educação Física do Campus Catalão/UFG, pelo apoio e confiança no meu trabalho. A todos os meus familiares, nas pessoas de meus pais Antônio e Alaíde, de meus irmãos Janete, Enzo e Marques, meus avôs Antônio e Aparecida, meus tios, tias e primos, pelo carinho, força e compreensão, apesar dos sacrifícios que lhes impus para poder realizar esta pesquisa. Ao meu companheiro, pelo amor, amizade, carinho, apoio, paciência, compreensão, por acreditar em mim e estar presente apesar das adversidades, persistindo em me apoiar incondicionalmente e me fazendo acreditar que seria possível concluir mais esta etapa de minha formação acadêmica. À Cristiane pela amizade, apoio e esclarecimentos sobre a inclusão da pessoa com deficiência que me fortaleceram e ajudaram a concluir a pesquisa. À querida Dalva por ter me auxiliado, sempre que necessitei, durante todo o processo de doutoramento, desde o ingresso ao término, mudança de cidade (Catalão-Belo Horizonte - Catalão) até o momento final de entrega do texto da tese. MUITO OBRIGADA MINHA QUERIDA! Que Deus a abençoe sempre! Aos meus amigos e companheiros, presentes no dia a dia, nas pessoas de Clarissa, Karine, Edna, Dalvainha, Roseane, Leomar, Heliany, Neila, Mônica, Ana, Izaura, Sandra, Juliana, Lourdinha, Sandro, pelo companheirismo, boas energias, compreensão, apoio e estímulo que transmitiram em todos os momentos de realização deste estudo. Foi uma tarefa árdua, mas consegui chegar até aqui, não sozinha, mas com a preciosa ajuda de todos vocês. Obrigada!! RESUMO O objetivo desta tese foi o de analisar as concepções de inclusão social e educacional presentes nas políticas públicas nacionais para a formação inicial dos professores, implementadas a partir de 1988 até o ano de 2010, com recorte nas direcionadas para a pessoa com deficiência. Num primeiro momento da pesquisa foi realizado um estudo de documentos internacionais e nacionais (constituições, declarações, projetos, leis ordinárias, decretos, planos, bem como relatórios e informes) produzidos no período estabelecido para estudo. Numa segunda etapa do estudo foi realizado um levantamento de informações constantes da base de dados do INEP/MEC, bem como da SEEMG/SI/SIE/DINE e do CRVP do Estado de Minas Gerais sobre a formação que possuem os professores, o número de matrículas de alunos com deficiência nas escolas regulares e escolas exclusivas, por região, por dependência administrativa e por modalidade de ensino. Os dados obtidos com esta investigação mostram que a concepção de «inclusão social» expressa um processo no qual os diferentes segmentos sociais marginalizados, participando e intervindo nas decisões tomadas pelo Estado, buscam em conjunto construir uma sociedade mais democrática, aspecto que permite considerar que os processos de inclusão não implicam na inserção passiva dos seres humanos numa realidade que já se encontra pronta e acabada, mas, sim, em movimentos e ações desenvolvidos por todas as pessoas na busca da transformação do contexto social em que se inserem. Já a concepção de «inclusão educacional» subjaz a compreensão da educação como um “passaporte para a vida” que garante a possibilidade das pessoas participarem da construção do desenvolvimento social; como uma estratégia para reduzir tanto as desigualdades sociais quanto as educacionais. Os resultados da pesquisa indicam que o tema a «formação de professores» se tornou nas últimas décadas, uma das principais prioridades das agendas internacional e nacional. É evidenciado, ainda, que ocorreu no período analisado um inegável êxito no Brasil de ter conseguido ampliar o acesso das crianças e jovens com deficiência no Ensino Fundamental e com isso a ampliação do acesso às escolas da rede pública, assim como o aumento do número de professores com formação em nível superior bem como daqueles que possuem curso específico em relação aos que não o possuem para trabalhar em escolas que atuam na perspectiva inclusiva. Apesar dos elementos que de certo modo dificultam efetivar a inclusão na sociedade, e, em específico na escola, ao se pensar se há ou não a possibilidade da instituição escolar (passando pelas instituições de ensino superior até as escolas de educação básica e secundária) pode ser inclusiva numa sociedade extremamente concentradora de riquezas que, por consequência, produz o desemprego, a miséria e a exclusão, é possível afirmar que não se pode esperar que a escola consiga sozinha, alcançar esse objetivo. Entretanto, compreendida como uma instituição democrática e um espaço de disputas políticas, ela tem o papel desenvolver ações que contribuam para uma mudança cultural na sociedade. Além disso, há que se considerar que uma escola inclusiva numa sociedade excludente e desigual sempre haverá processos de discriminação e exclusão que estarão constantemente a ser refeitos. Porém, deve ser considerado que existem campos de atuação que contam com certa autonomia e abertura para que os segmentos da sociedade reorientem, optem e façam política. No âmbito da sociedade e, especificamente, da Educação não existe nunca uma determinação, pois os processos sociais não são de determinação. Eles delimitam campos de ação e recursos, mas há opções para a construção de novos espaços de ação. Palavras-chave: Inclusão Social e Educacional; Formação de Professores; Unidade na Diversidade. ABSTRACT The objective of this thesis was to analyze the concepts of social and educational inclusion present in national policies for initial teacher training, implemented from 1988 to 2010, with the cut directed to the disabled person. Initially research was carried out international and national study of documents (constitutions, declarations, projects, ordinary laws, decrees, plans and reports and reports) produced in the period established for the study. In a second stage of the study was a survey of information in the INEP database/MEC and the SEEMG/SI/SIE/DINE and the CRVP the State of Minas Gerais on the training they have teachers, the number of student enrollments with disabilities in regular schools and proprietary schools, by region, by administrative and teaching mode. The data obtained from this research show that the concept of 'social inclusion' expresses a process in which the different marginalized social groups, participating and intervening in decisions taken by the state, seek to jointly build a more democratic society, an aspect to consider that the inclusion processes do not imply the passive integration of human beings in a reality that is already ready and finished, but rather in movements and actions developed by all people in the pursuit of transformation of the social context in which they operate. Whereas the concept of 'educational inclusion' underlies the understanding of education as a "passport for life" that ensures that people participate in the construction of social development; as a strategy to reduce both social inequalities as educational. The survey results indicate that the theme to 'teacher training' has become in recent decades, one of the main priorities of national and international agendas. It is evident also that occurred in the period analyzed an undeniable success in Brazil have managed to expand access of children and youth with disabilities in elementary school and thus increased access to public schools, as well as increasing the number of teachers with training in higher education and those with specific course than those who do not have to work in schools that work in the inclusive perspective. Despite the elements in a way difficult to effect the inclusion in society, and in particular at school, when considering whether or not the possibility of the school (through the higher education institutions to the schools of basic and secondary education) can be inclusive in an extremely concentrating society of wealth that, consequently, produces unemployment, poverty and exclusion, it is clear that one can not expect that the school can alone achieve this goal. However, understood as a democratic institution and a space of political disputes, it has the role to develop actions that contribute to a cultural change in society. Furthermore, it must consider that an inclusive school in exclusionary and unequal society there will always be discrimination and exclusion processes that are constantly being remade. However, it must be considered that there are fields of activity that have a certain autonomy and openness to the segments of society reorient, choose and make policy. In the context of society and specifically of Education there is never a determination as social processes are not determining. They delimit action and resource fields, but there are options for the construction of new spaces of action. Keywords: Social Inclusion and Education. Teacher Training. Unity in Diversity. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AEE - Atendimento Educacional Especializado ANFOP - Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação ANPAE - Associação Nacional de Política e Administração da Educação ANPED - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação BIRD - Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento BM - Banco Mundial CAC - Campus Catalão CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CEB - Câmara da Educação Básica CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe CES Câmara de Educação Superior CNE - Conselho Nacional de Educação CONSED - Conselho Nacional de Secretários de Educação CONAE - Conferência Nacional de Educação CONEB - Conferência Nacional da Educação Básica CRUB - Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras CRVP - Centro de Referência Virtual de Professores EPT - Educação Para Todos EPU - Educação Primária Universal FORUMDIR - Fórum Nacional de Diretores de Faculdades/Centros de Educação ou Equivalentes das Universidades Públicas Brasileiras IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IES - Instituições de Ensino Superior INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira LDBEN - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC - Ministério da Educação NEBA - Necessidades Básicas de Aprendizagem ODM - Objetivos de Desenvolvimento do Milênio ONU - Organização das Nações Unidas OREALC - Oficina Regional de Educação da Unesco para América Latina e o Caribe PAED - Programa de Apoio à Educação para a Diversidade PARFOR - Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PDE - Plano Decenal de Educação PNE - Plano Nacional de Educação PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PRELAC - Projeto Regional de Educação para América Latina e o Caribe SAEB Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica SEE - Secretaria de Educação Especial SEESP - Secretaria de Educação Especial SESu - Secretaria de Educação Superior UFG - Universidade Federal de Goiás UFU - Universidade Federal de Uberlândia ULBRA - Universidade Luterana do Brasil UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância UNITRI - Centro Universitário do Triângulo USP - Universidade de São Paulo SUMÁRIO INTRODUÇÃO - ......................................................................... 16 CAPÍTULO I – O problema de estudo, sua importância e abordagem metodológica............................................................................. 1.1. O problema de estudo......................................................... 1.2. Inclusão social: abordagens teóricas e políticas..................... 1.3. Procedimentos Metodológicos............................................... a) Primeira etapa – identificação, seleção e organização dos documentos........................................................................ b) Segunda etapa – sistematização dos dados............................ c) Terceira etapa – referencial teórico e análise dos dados................................................................................. 26 26 31 53 56 61 62 CAPÍTULO II – Unidade na diversidade: dialética da igualdade e das diferenças sociais....................................................................... 64 CAPÍTULO III – A presença da concepção de inclusão social e educacional nas políticas públicas de formação de professores: 1988- 2010......................................................................................... 3.1. A concepção de inclusão social e educacional no contexto internacional.............................................................................. 3.2. O conceito de inclusão no contexto da América Latina e do Caribe....................................................................................... 110 111 137 3.3. A concepção de inclusão social e educacional no contexto brasileiro................................................................................... 3.4. Alcances e limites das políticas públicas para a inclusão: a questão da formação de professores e a pessoa com deficiência................................................................................. 149 173 CONCLUSÃO.............................................................................. 197 REFERÊNCIAS............................................................................ 204 ANEXOS.................................................................................... 221 INTRODUÇÃO Esta pesquisa tem como objeto de estudo as concepções de inclusão social e educacional presentes nas políticas públicas nacionais para a formação inicial dos professores, implementadas a partir de 1988 até o ano de 2010, com recorte nas direcionadas para a pessoa com deficiência. O vínculo da concepção de inclusão à pessoa com deficiência não quer dizer que a inclusão esteja restrita somente a este segmento social. No conceito de inclusão, encontram-se todas as pessoas, independentemente de suas condições e diferenças físicas, intelectuais, sociais, emocionais, lingüísticas e étnicas. Assim, no âmbito da inclusão educacional, também as crianças originárias de culturas nômades, que vivem nas ruas, que não são assistidas por nenhum programa social, que são negras, devem ser acolhidas no espaço escolar. O foco específico na pessoa com deficiência, neste estudo, deve-se ao fato de ser uma área em que permanecem muitos desafios e dilemas, principalmente no que diz respeito à formação de professores. O objetivo da presente pesquisa é o de analisar as relações entre os princípios de inclusão social e educacional e as metas atribuídas pelo Governo brasileiro aos cursos de formação de professores para atuar na Educação Básica, e com a função social da escola brasileira, no período de 1988 a 2010. A metodologia adotada foi o estudo da legislação educacional e de documentos oficiais, de âmbito internacional e nacional, particularmente, aqueles direcionados à formação de professores. No que diz respeito à inclusão educacional, o foco foi dado às pessoas com deficiência. As razões e os desejos que sustentam este estudo estão relacionados ao desenvolvimento de reflexões iniciadas em outros momentos de nossa trajetória intelectual e acadêmica, como a pesquisa de mestrado sobre a «relação teoria e prática» na formação inicial do professor, especificamente do profissional da área de Educação Física, no ano de 2000, e o exercício profissional no campo da formação de professores realizado nos últimos dez anos. O conceito de «formação» tomado como paradigma desta pesquisa refere-se ao processo interativo e dinâmico de aprendizagem, situado em tempos e espaços limitados e precisos, que por sua vez fornece aos professores em formação meio para elaborar pensamentos autônomos que adquirem sentido no quadro das suas histórias de vida (NÓVOA, 1995). Os debates e as políticas educacionais, na atualidade, têm privilegiado temas que representam novos desafios para a formação de professores, tais como, por exemplo, «inclusão», «diversidade», «diferença», «justiça», «cidadania» e «direitos humanos». Assim, a formação de professores, especialmente a partir dos anos oitenta, tornou- se o principal ponto de pauta de seminários, congressos, conferências, publicações, propagandas governamentais, políticas públicas de educação, ganhando espaços sempre mais significativos junto a organismos internacionais, como o Banco Mundial (BM) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cidadania (UNESCO) (GÓMEZ, 1995; FELDMANN, 2009). Nesse quadro, muitos países constituíram comissões com vistas, não só a discutir, mas também a elaborar propostas de reforma para os anacrônicos e insatisfatórios cursos e Instituições de Ensino Superior (IES), responsáveis pela formação de professores. Além disso, tinham também como objetivo responder à demanda de inclusão de pessoas com deficiência na escola regular, um direito legal e constitucional que não tem sido atendido. Historicamente, as pessoas com deficiência têm sido alvo de mecanismos e procedimentos de segregação, e até mesmo de exclusão, tanto na sociedade como também nos sistemas de ensino. A exclusão das pessoas com deficiência do acesso a serviços (saúde, habitação, alimentação, trabalho, por exemplo) que lhes garantam condições dignas de vida tem origens remotas, relacionadas ao contexto da organização econômica, social, política e cultural de cada sociedade, bem como ao conceito de homem e de educação que historicamente se transforma. Nos séculos dezesseis e dezessete, no Brasil, por exemplo, as pessoas com deficiências eram abandonadas em espaços nos quais eram devoradas ou mutiladas por animais, ou mesmo eram encaminhadas para as Santas Casas de Misericórdia. Já no século dezoito quando ocorre um grande crescimento das cidades, e concomitantemente do número de crianças abandonadas ao ponto de superar a capacidade de assistência das Casas de Misericórdia, inicia-se a prática de abandonar os recém- nascidos em locais públicos. Nesse momento as crianças que apresentavam deficiências são relegadas às «rodas dos expostos»24. A partir do século dezenove, apesar das dificuldades, é preciso considerar algumas iniciativas de educação especial que começaram a ser desenvolvidas como a fundação, em 1854, do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, atualmente o Instituto Benjamim Constant, e três anos depois, em 1857, o Instituto dos Surdos-Mudos, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos. Nessas instituições as crianças e jovens com 24 A roda dos expostos refere-se a um mecanismo tristemente famoso, utilizado para abandonar ou expor as crianças recém-nascidas e, com isso, evitar que fossem mortas ou devoradas por animais. Por isso, representava a maior esperança de sobrevivência para essas crianças, pois ali eram não só alimentadas, mas assistidas e muitas vezes instruídas para, em seguida, ao estarem aptas para enfrentar a vida, serem liberadas. Esse mecanismo foi utilizado na Europa desde a Idade Média e no Brasil é uma das instituições de mais longa vida, por ter sobrevivido aos três grandes regimes de nossa história: Colônia, Império e República, sendo extinta definitivamente na década de 1950 (LYRA; OLIVEIRA, 2011). deficiência eram inseridas, por apresentarem comportamentos dissonantes das expectativas dominantes na sociedade. Além disso, cabe considerar que numa sociedade pouco urbanizada e, ainda, apoiada no setor rural, tanto a educação popular quanto a das pessoas com deficiência não era considerado um motivo de preocupação por aqueles que governavam o País (JANNUZZI, 2006; TEZANI 2008). O desconhecimento sobre as deficiências foi um dos aspectos que mais fortemente contribuiu para que as pessoas com algum tipo de deficiência, e assim por serem diferentes, fossem ignoradas e marginalizadas dos diferentes espaços sociais (MAZZOTTA, 2003). Devido aos estereótipos e preconceitos com que as pessoas com deficiência são tratadas, elas carregam consigo o estigma da incapacidade seja de ordem física, mental ou mesmo sensorial. Por isso, têm sido condenadas a conviverem com muitas dificuldades, e às vezes à impossibilidade, de ter acesso ao conhecimento historicamente produzido pela humanidade. A mudança no que diz respeito ao locus em que deve ser realizada a educação da pessoa com deficiência ocorre principalmente a partir da aprovação de diversos documentos internacionais, de forma mais específica a Declaração Mundial sobre Educação Para Todos (1990) e a Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre Necessidades Educativas Especiais (1994), que reafirmam os direitos à educação de cada indivíduo, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Especificamente em relação ao conceito de «inclusão», destaca-se o debate das políticas sociais a partir dos anos noventa do século passado. Em suas diferentes expressões (social, educacional, econômica, entre outras), a ideia de «inclusão» aparece acompanhada de uma aura de «inovação», «transformação», «mudança» «revolução». É como algo que poderia levar a superar a ordem social dominante e a dar respostas para a exclusão aí existente por meio da inserção de todos os indivíduos numa sociedade em que a diversidade teria deixado de ser uma exceção. É nessa perspectiva que, ao final do século vinte, a UNESCO assume como sua prioridade promover discussões sobre a necessidade de universalizar a Educação Básica de qualidade e criar uma política de educação que desse a todas as crianças a oportunidade de obter e manter um nível aceitável de conhecimentos. Desse modo, nos documentos e declarações internacionais, aprovados a partir da década de noventa do século vinte, os governos dos diferentes países são conclamados a dar prioridade política e orçamentária à melhoria de seus sistemas educativos. O foco é a Educação Básica, tendo em vista atender a todas as crianças, independentemente de suas diferenças ou dificuldades individuais. As novas exigências atribuídas à Educação Básica requerem a adequada formação profissional de educadores, como passa a ser enfatizado nos documentos e declarações internacionais. Nestes são reconhecidas as dificuldades de implementar políticas de inclusão escolar, principalmente quando são considerados aspectos de ordem estrutural, bem como o preparo dos professores para lidar com a heterogeneidade de alunos que passam a ter acesso à escola. Nesse contexto, a formação de professores para atender à política de inclusão na Educação Básica tornou-se uma das prioridades das agendas internacional e nacional. Organismos internacionais, como BM e UNESCO, chegaram a reconhecer a exigência de formar um profissional capaz de mobilizar seus conhecimentos com vistas a responder às necessidades e aos desafios impostos pela educação inclusiva. Documentos como a Declaração Mundial sobre Educação Para Todos (1990) e a Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre Necessidades Educativas Especiais (1994) reconhecem que a educação ofertada nas escolas apresenta graves deficiências. Assim, destacam a importância de assegurá-la como direito fundamental e universal, bem como salientam a necessidade de transformações nos sistemas de ensino, como também no perfil do professor. Entretanto, quais foram as condições apresentadas para concretizar esse direito com sucesso, de modo a que todas as crianças possam ter acesso aos bens culturais produzidos pela humanidade? A inclusão social é compreendida como um conjunto de meios e ações que visam a oferecer aos diferentes segmentos sociais o acesso a bens e serviços (cultura, lazer, habitação, saúde, renda mínima, emprego, alimentação, educação) que lhes assegurem uma vida digna na sociedade, por meio da concretização de seus direitos, necessidades e potencialidades. É nessa perspectiva que a inclusao assume centralidade no mundo contemporâneo, sendo assimilada pela linguagem da legislação e do discurso político. Nos diferentes países, as concepções de inclusão social e educacional têm sido adotadas como eixos norteadores das políticas públicas no âmbito da cultura, da política e de práticas inclusivas nos sistemas de ensino. A dimensão legal, contudo, não assegura direitos, especialmente numa realidade em que a educação da pessoa com deficiência tem reduzida expressão política no contexto da educação geral, reproduzindo talvez a pequena importância que se concede a esse segmento social em nossas políticas sociais. Desse modo, se a legislação fundamental já está dada, resta fazer cumpri-la. Incluir não se restringe apenas a inserir uma criança ou jovem com deficiência numa escola ou sala do ensino regular, conforme estabelecem as leis. É preciso que lhes seja assegurado, pelo menos, um ambiente adequado para recebê-los e profissionais qualificados e aptos a exercer tal função. A formação de professores configura-se como a base para a inclusão das pessoas com deficiência na Educação Básica, nível de ensino considerado prioritário pela Conferência de Jomtien (1990), no sentido de garantir a todas as pessoas, no mínimo, as necessidades básicas de aprendizagem (NEBA)25. Esta é a justificativa para centrar este estudo na formação de professores para atuar na Educação Básica, junto aos alunos com deficiência. Apesar da existência de muitos estudos sobre a inclusão e a formação de professores, em nível nacional e internacional, as razões que levaram à rápida adoção de termos como «inclusão», «inclusão social e educacional», bem como sobre possibilidades de se concretizar a escola inclusiva, ainda não foram suficientemente esclarecidas. Além disso, o estudo de conceitos e princípios de «inclusão social e educacional», em seus aspectos históricos, sociais, culturais e políticos, é fundamental à compreensão não só do que está implícito na inserção da criança e do jovem com deficiência na escola regular, como também nas metas e diretrizes para a formação inicial de professores. A delimitação temporal deste estudo relaciona-se ao fato de que o movimento de inclusão educacional se inicia nos países desenvolvidos na segunda metade dos anos oitenta do século vinte, embora de forma incipiente. Toma impulso nos países subdesenvolvidos na década de noventa do século passado e se fortalece em todos os países nos primeiros dez anos do século XXI. A partir desse período, a universalização da educação escolar de qualidade se torna uma exigência não só política, mas também econômica e social para as sociedades democráticas. Outro aspecto considerado na delimitação temporal diz respeito ao fato de que, no cenário brasileiro, a marca principal do ano de 1988 foi a promulgação da atual Constituição Federal, também conhecida como a 25 As necessidades básicas de aprendizagem foram definidas pela UNESCO, em 1990, e compreendem tanto a leitura e a escrita, a expressão oral, o cálculo, a solução de problemas, quanto conhecimentos, habilidades, valores e atitudes, elementos esses considerados necessários para que os seres humanos possam sobreviver, desenvolver plenamente suas potencialidades e trabalhar com dignidade. “Constituição Cidadã”. Foi a sétima Carta Magna aprovada no país, desde a Independência (1822), e é considerada não só um divisor de águas entre a ditadura e a democracia, como também a mais completa, principalmente, no sentido de garantir os direitos à cidadania e a proteção dos interesses do povo brasileiro contra o arbítrio e o autoritarismo – adotando como cláusulas constituintes da Lei os princípios da igualdade, da liberdade e da justiça, e a alternância de poder. Tornou-se, desse modo, a base para a criação de um novo Brasil, de oportunidade e justiça social para todos. Já o ano de 2010, marca o cenário brasileiro, com o término do Governo Luiz Inácio Lula da Silva, o qual, durante os oito anos de mandato, construiu e deixou para o país um inegável legado econômico, social, cultural, político e diplomático. Embora não tenha representado uma quebra radical das estruturas de poder que encontrou no país, as tentativas de responder a demandas dos segmentos sociais subalternos implicaram muitas tensões durante seu governo, o qual promoveu inúmeros programas sociais, tais como o «Programa Fome Zero26» e «Programa Universidade para Todos27» (PROUNI). Considerando que o termo «inclusão» evoca o reconhecimento dos direitos de todas as pessoas e do valor de todas as culturas, o tema aqui discutido foi orientado pelas seguintes questões: 26 O «Programa Fome Zero» foi criado pelo governo federal brasileiro pela Lei n° 10.689/2003, em substituição ao Programa Comunidade Solidária, e consiste num conjunto de mais de trinta programas complementares cujo objetivo é o combate da fome e de suas causas estruturais. Suas ações são desenvolvidas a partir de quatro eixos articuladores: acesso aos alimentos, fortalecimento da agricultura familiar, geração de renda e articulação, mobilização e controle social. Disponível em: . Acesso em: 21 nov. 2010. 27 O PROUNI é um programa criado no ano de 2004 e institucionalizado pela Lei nº 11.096/2005, tendo por finalidade a concessão de bolsas de estudos integrais e parciais a estudantes de cursos de graduação e de cursos seqüenciais de formação específica, em instituições privadas de educação superior, para estudantes da rede pública com renda per capita familiar máxima de três salários mínimos. As instituições que aderem ao programa recebem como contrapartida, a isenção de alguns tributos. Disponível em: . Acesso em: 21 nov.2010. http://pt.wikipedia.org/wiki/Governo_federal http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasileiro http://pt.wikipedia.org/wiki/Programa_Comunidade_Solid%C3%A1ria  Como compreender a emergência do conceito de inclusão no âmbito do Estado e da sociedade civil?  Como compreender o ideário da inclusão numa sociedade marcada por processos de exclusão? É possível realizar a inclusão nessa sociedade?  Como compreender o investimento, pela classe hegemônica, em programas de inclusão social e educacional direcionados para os segmentos da sociedade que historicamente estiveram excluídos do acesso a melhores condições de vida, como por exemplo, as pessoas com deficiência?  Como explicar o processo de democratização da escola num contexto caracterizado pelo conceito de inclusão como acolhimento e aceitação da diferença?  A partir do conceito de hegemonia de Gramsci como poderíamos compreender as concepções de inclusão social e educacional, difundidas amplamente no campo da educação?  Quais os empecilhos (objetivos e subjetivos) que inviabilizam a inclusão e quais os elementos que a viabilizam no contexto brasileiro?  Quais são os desdobramentos, prioridades e compromissos associados às concepções de inclusão social e educacional, no que diz respeito às políticas públicas nacionais para a formação de professores da Educação Básica, formuladas e implementadas no Brasil, no período de 1988 a 2010?  A concepção de inclusão social, em específico a de inclusão educacional, tem sido capaz de assegurar a todas as pessoas, em específico as pessoas com deficiência, o acesso, a permanência e a terminalidade em uma educação de qualidade no Brasil? A hipótese que norteou esta pesquisa foi a de que os princípios de inclusão educacional são incompatíveis com as metas dos cursos de formação docente e com a função social atribuída à escola brasileira, contribuindo para naturalizar as diferenças sociais e perpetuar as práticas de exclusão social e educacional. A realização desta pesquisa teve o seguinte percurso de estudos: A) identificação do aparecimento das concepções de inclusão social e educacional, e dos princípios que as sustentam (inclusão, diversidade, eqüidade de oportunidades, diferença, igualdade de direitos e cidadania), nas políticas educacionais no período de 1988 a 2010; B) identificação da perspectiva histórico-filosófica que fundamenta as concepções de inclusão social e educacional que orientou a formação profissional de professores da Educação Básica, no período de 1988 a 2010; C) análise da concepção de inclusão social e educacional nas políticas públicas nacionais para a formação de professores da Educação Básica, no período de 1988 a 2010. A apresentação dos resultados da pesquisa realizada foi estruturada em três capítulos, precedida pela presente Introdução. Seguindo-se à Introdução, encontra-se o I Capítulo, no qual é explicitado o tema examinado, sua importância, as questões que suscita, bem como a organização metodológica do trabalho investigativo. A análise dos princípios sobre a «diferença», que fundamentam o conceito de «inclusão», é realizada no Capítulo II. Aí, foram reconstruídos os referenciais que orientam o conceito de «inclusão social e educacional», seja do ponto de vista histórico, seja no confronto com outras fontes teóricas. Nesse capítulo, portanto, apresentamos o percurso teórico e metodológico que nos permitiu responder às indagações relacionadas ao problema que pesquisamos. No Capítulo III, é focalizada a emergência das concepções de inclusão social e educacional nas políticas públicas, abordando-se mais especificamente sua presença nas políticas para a formação de professores, investigando-se documentos internacionais e nacionais que tratam do tema. Serão abordados, ainda, os vínculos entre concepções de inclusão social e educacional, e sua presença nas políticas públicas implementadas no Brasil, no período em estudo, bem como os obstáculos para realizar os objetivos de inclusão social e respeito à diversidade, proclamados nas políticas públicas nacionais para a formação de professores e para o atendimento das pessoas com deficiência. Nas Considerações Finais, são retomados os aspectos que constituem o eixo de análise desta pesquisa, apresentando seus alcances e limites, bem como indicando novos percursos a serem trilhados para avançar o entendimento do tema. CAPÍTULO I O PROBLEMA DE ESTUDO, SUA IMPORTÂNCIA E ABORDAGEM METODOLÓGICA 1. 1. O problema de estudo Neste estudo, a «inclusão» é entendida como uma forma democrática de organização da sociedade que visa a garantir às diferentes formas da existência humana (pobre, rico, negro, branco, homem, mulher, pessoas com deficiência, pessoas não-deficientes) o acesso às condições objetivas para o desenvolvimento físico, cultural e econômico. Contudo, ele se limita à análise das políticas públicas nacionais para a formação inicial de professores para atuar na Educação Básica, voltada para a inclusão das pessoas com deficiência (física, auditiva, visual e intelectual) no ensino regular. O interesse pela análise da concepção de inclusão social e educacional, presente nas políticas públicas, com recorte na formação inicial dos professores está relacionado ao nosso percurso acadêmico- profissional e com leituras realizamos sobre os referidos temas. Inicialmente destacamos como elemento motivador, para o desenvolvimento deste estudo, a realização de nossa pesquisa de mestrado concluída no ano de 2000, a partir da qual, observamos que, na última década do século passado, ocorreram mudanças substanciais nos campos econômicos, político, cultural, científico e tecnológico de todos os países. Desse modo, no contexto atual, vivemos num mundo tecnologicamente globalizado, no qual prevalecem as dimensões econômicas e pragmáticas assim como os princípios da individualidade, da competitividade, do Estado mínimo, da máxima eficiência, produtividade e excelência de forma que as instituições de ensino são pressionadas, a cada vez mais, adotar o mercado, e não a sociedade, como referência central para a definição de aspectos como: o conhecimento a ser transmitido; as formas de financiamento e gestão de suas atividades; bem como o perfil do egresso que se pretende formar. Devido às mudanças que ocorreram nos campos econômicos, político, cultural, científico e tecnológico tanto a educação quanto a formação de professores tornaram-se aspectos cruciais das políticas públicas, pois a melhoria do sistema educacional e, conseqüentemente, da qualidade de ensino passou a ser considerada o meio principal para se garantir a formação de profissionais com capacidade de operar no mundo globalizado (LIMA, 2000). Nossa experiência como docente em quatro Instituições de Ensino Superior (IES) foi outro aspecto que fortaleceu nosso interesse pelo objeto em foco. Destacamos, assim, nossa atuação nos anos de 2000 e 2001 como docente nos cursos de Pedagogia, História, Matemática e Educação Física na Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), na cidade de Itumbiara/GO. Já no período de 2000 a 2002, atuamos como professora substituta no Curso de Educação Física da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). E, nos anos de 2001 e 2002, ministramos disciplinas no Curso de Educação Física do Centro Universitário do Triângulo (UNITRI). Atuar como professora naquelas três instituições de ensino nos possibilitou o contato com alunos de diferentes contextos e regiões, muitos dos quais já atuavam com o ensino. Os alunos nos relatavam os desafios lançados pela inclusão bem como a insegurança e o despreparo que sentiam para desenvolver suas atividades no âmbito escolar, com crianças e jovens com deficiência, em situação de risco social, trabalhadoras, com problemas familiares e vítimas de violência. A partir do segundo semestre de 2002, passamos a atuar como professora efetiva no Curso de Educação Física no Campus Catalão da Universidade Federal de Goiás (UFG/CAC) e assumimos a Coordenação do Curso de Especialização em Educação Física Escolar, no período de 2003 a 2007. Nessa última instituição, ministramos a disciplina de Estágio Curricular Supervisionado I, no 5º e 6º períodos do Curso de Educação Física e ao acompanharmos os alunos nas atividades de estágio verificamos, assistematicamente, que muitas escolas públicas, assim como os docentes, se encontram despreparados para lidar com a questão da inclusão relativa não só aos alunos com deficiência, mas também frente a outras singularidades da existência humana (etnia, gênero, raça, religião, crianças em situação de risco, crianças violentadas ou violentas, crianças trabalhadoras etc.), tanto no que se refere a aspectos físico- estruturais quanto teórico-metodológicos. A opção por trabalhar com o universo das pessoas com deficiência foi motivada pelo fato de que, historicamente, nas relações entre os homens, no modo de produção capitalista, esse grupo de pessoas sempre foi discriminado e marginalizado (CARMO, 1991). Assim, esse segmento social foi tomado como referência para apresentar o problema da inclusão social do ponto de vista empírico. Nas diferentes culturas, o tratamento dado às pessoas com deficiência foi marcado tanto por atitudes de tolerância, aceitação, apoio e assimilação quanto pelo de eliminação, menosprezo ou mesmo destruição. A maior atenção para esse segmento vem ocorrendo de forma lenta e concomitante às alterações econômicas, políticas e culturais efetuadas em todo o mundo. Especificamente em relação à educação das pessoas com deficiência, a história evidencia que tem sido marcada por diferentes momentos histórico-conceituais, como a exclusão social, a segregação, a integração social e, mais recentemente, pela inclusão (CARMO, 1991). O cenário da educação inclusiva se configura a partir da década de noventa do século vinte, ganhando relevo com a realização de duas grandes conferências (Conferência Mundial sobre Educação para Todos, 1990 e Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: acesso e qualidade, 1994) que nortearão as políticas públicas em âmbito mundial, contribuindo para difundir o paradigma da inclusão social e educacional, bem como para assegurar à educação um novo e estratégico papel na sustentabilidade dos países envolvidos com a agenda neoliberal. Além disso, a educação passa a ser considerada, em diferentes documentos internacionais e nacionais, como um elemento promotor da “redenção social”, de forma que todos os grupos identificados como excluídos, marginalizados ou em situação de desigualdade social devem ter acesso aos serviços educacionais (GARCIA, 2004). Com isso, “[...] recoloca-se a importância estratégica da educação escolar que atinja todas as pessoas como indivíduos singulares e como membros de um corpo social nacional e internacional [...]” (CURY, 2005b, p. 4). O tema da inclusão social e educacional merece ser debatido e enfrentado por todos aqueles que estão envolvidos com a educação (professores, pais, gestores e dirigentes educacionais), por diversos aspectos. Em primeiro lugar, a formulação e aprovação de documentos legais como, por exemplo, a Declaração Mundial sobre Educação Para Todos (1990) e a Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre Necessidades Educativas Especiais (1994), contribuíram, sem dúvida, para a melhoria das condições da vida humana e a maior inserção dos diferentes segmentos sociais na escola e, em específico, das pessoas com deficiência. Isso ocorreu porque aquelas políticas tinham como ideal realizar a educação para todos, o qual foi abarcado pelo Brasil na Constituição de 1988 e depois sistematizado nos documentos elaborados após a Declaração de Salamanca. Em segundo lugar, no contexto nacional, vem ocorrendo um aumento progressivo das matrículas dos alunos com deficiência nas escolas regulares. Embora seja inegável a ampliação da educação, continuam persistindo muitos problemas, no que se refere, por exemplo, à formação do profissional que irá atuar na chamada escola inclusiva. Trata- se de uma formação que demanda, urgentemente, preparar as instituições escolares para se tornarem aptas a atender adequadamente esse segmento de alunos. Finalmente, o histórico de exclusão de boa parte da população em nosso país mostra a necessidade de estudos que analisem as políticas públicas nacionais assentadas em concepções de inclusão social e educacional, voltadas para a formação inicial de docentes, focalizando seus princípios e suas finalidades, tanto no contexto internacional quanto nacional, com recorte naquelas direcionadas para as pessoas com deficiência. Dada a importância da discussão das concepções de inclusão social e educacional, na sociedade brasileira, marcada pela desigualdade social e pela diversidade, consideramos relevante examinar o padrão de racionalidade/normalidade das políticas elaboradas até a década de 1980 do século passado, por entendermos que ele permanece nas atuais políticas públicas, elaboradas a partir dos anos 1990, e que têm como eixo a inclusão social e educacional. As políticas de inclusão social e educacional apresentam uma dificuldade de ordem epistemológica, e até mesmo prática, por desconsiderarem as inúmeras identidades culturais que constituem o meio social, esquecendo que a pluralidade é uma condição humana. Tendo, nos últimos anos, nos voltado exclusivamente à formação inicial de professores para atuar na escola pública, pelo reconhecimento do direito da pessoa com deficiência a uma educação de qualidade, este trabalho teve como questão central problematizar as concepções de inclusão social e educacional buscando verificar se os princípios e valores que as sustentam são compatíveis com as metas atribuídas, por meio das políticas públicas nacionais, aos cursos de formação de professores da Educação Básica e à função social da escola brasileira. 1.2. Inclusão social: abordagens teóricas e políticas Estudos sobre a inclusão social e educacional, como por exemplo, de pessoas com deficiência, após muitos anos de exclusão, marginalização e esquecimento social deste segmento social, vêm ganhando maior freqüência no âmbito das pesquisas em diferentes áreas do saber. Têm não apenas a finalidade de refletir sobre os problemas que as circundam, mas também de produzir meios e condições que proporcionem a melhoria da qualidade de vida deste segmento da sociedade. O objeto deste estudo é o de focalizar as concepções de inclusão social e educacional, presentes nas políticas públicas nacionais para a formação inicial dos professores, implementadas a partir de 1988 até o ano de 2010, com recorte nas direcionadas para a pessoa com deficiência. O termo inclusão social, aqui, se refere às ações públicas voltadas para os grupos de indivíduos como idosos, negros, ciganos, crianças que moram na rua, minorias étnicas e lingüísticas, pessoas com deficiência, que são excluídos ou têm um acesso reduzido aos bens materiais, educacionais, culturais e aos recursos econômicos. Privilegia-se a ação pública voltada a proporcionar a esses indivíduos a oportunidade e a condição de serem incorporados à parcela da sociedade que não só usufrui desses bens, como também vive com uma adequada qualidade de vida, como cidadãos plenos, dotados de conhecimentos, meios e mecanismos que lhes permitem participar, de forma consciente, da vida política (MOREIRA, 2006). As políticas públicas de inclusão examinadas neste trabalho são aquelas que estão na esteira das políticas públicas sociais, as quais compreendem o planejamento e a implementação, pelo Governo, de ações e projetos que ampliem as possibilidades de acesso de diferentes segmentos da sociedade a aspectos relativos à renda mínima, habitação, lazer, emprego e educação. Trata-se, portanto, de examinar políticas elaboradas como resposta às lutas reivindicatórias de diferentes grupos de indivíduos pelo acesso aos direitos sociais. Os defensores do processo de inclusão social (SASSAKI, 1997; MOREIRA, 2006; EDLER CARVALHO, 2007; 2010) têm em vista promover mudanças nos planos social, econômico, político e cultural, com a finalidade de assegurar aos segmentos da sociedade que se organizam em torno de uma determinada identidade (negros, mulheres, indígenas, pessoas com deficiência, homossexuais, ciganos, dentre outros) o acesso a direitos, como, por exemplo, trabalho, habitação, cultura, sufrágio universal e educação. A inclusão educacional está enredada na inclusão social e também envolve a questão da garantia de direitos, de participação e de cidadania. Tem como princípio fundamental a realização de mudanças na escola para que todos aqueles que nela ingressam sejam beneficiados, independentemente de suas diferenças e necessidades educacionais. Contudo, a inclusão na escola tem especificidades, mesmo que esteja relacionada à questão mais ampla da inclusão social. Falar em inclusão educacional remete, portanto, ao reconhecimento e à garantia de «direitos humanos», os quais, neste estudo, são considerados direitos inerentes a qualquer pessoa; são universais (por pertencerem igualmente a todos os membros da humanidade, além do limite territorial ou de qualquer singularidade social, racial, étnica, cultural, política ou econômica); são inalienáveis (dentro dos limites legais); indivisíveis e interdependentes (MUÑOZ et al., 2006). Por isso, a realização dos «direitos humanos» é algo desejável e um fim a ser perseguido. Contudo, a sua concretização requer concessões por parte de todos os segmentos de uma sociedade, o que implica, por sua vez, um jogo de preferências pessoais, de opções políticas e de visões de mundo. Os «direitos humanos» caracterizam-se, segundo Bobbio (2004), por apresentarem duas grandes características. A primeira diz respeito à sua mutabilidade: eles se transformam no decorrer da história, devido a mudanças que ocorrem nas condições históricas, nas necessidades e nos interesses tanto do grupo dominante quanto do grupo subalterno, bem como dos meios para torná-los concretos. Assim, os direitos declarados como absolutos, num determinado momento histórico, em outro podem ser limitados ou ampliados. Um exemplo de mudanças que ocorrem no âmbito dos direitos humanos são os direitos sociais, o direito à diversidade e à diferença, que passaram a ser proclamados com grande ênfase nos diferentes países e nos documentos legais internacionais mais recentes. Já a segunda característica dos direitos humanos se refere à sua diversidade, existindo direitos com pretensões diferentes entre si e até mesmo incompatíveis. Desse modo, há direitos que valem para todos os indivíduos indistintamente e em qualquer situação, como os direitos fundamentais, mas há também aqueles direitos que são antinômicos porque a efetivação de alguns deles impede a realização integral de outros (BOBBIO, 2004). O exame dos documentos e textos internacionais e nacionais que tratam historicamente da fundamentação da inclusão educacional permitiu identificar a relação entre seus respectivos conteúdos e as políticas públicas implementadas no Brasil para reformar a educação, a partir da década de noventa do século passado. As políticas que interessam a esta pesquisa são particularmente aquelas dirigidas à formação inicial de professores para atuar com a inclusão no ensino regular, com ênfase nas pessoas com deficiência. Os documentos focalizados neste estudo como, por exemplo, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96 - LDBEN), as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica em Nível Superior, Curso de Licenciatura, de Graduação Plena, o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica, mais especificamente aqueles direcionados para as pessoas com deficiências tais como a Resolução nº 02 que institui as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica e a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, enfatizam a perspectiva de garantir oportunidades iguais a todas as pessoas para o acesso à Educação Básica, e mesmo à Educação Superior. Tal ênfase se deve ao fato de afirmarem que, apesar de avanços no campo legal em relação à inclusão educacional, ainda permanecem problemas como o de acesso, a permanência na e a qualidade da escola na realidade educacional de vários países. A existência de desigualdades sociais e de pessoas cujos direitos à educação é evidenciada na Declaração Mundial sobre Educação Para Todos (1990), ao afirmar que a garantia da universalização do acesso à educação e a promoção da eqüidade tem como premissa superar as disparidades educacionais. Para superar as “disparidades” seria preciso, de acordo com a citada Declaração, que as nações assumissem o compromisso de não deixar nenhuma pessoa (pessoas com deficiência, trabalhadores, ricos ou pobres, povos indígenas, minorias étnicas, raciais e lingüísticas, dentre outros) ser discriminada no acesso à educação. Os grupos excluídos - os pobres: os meninos e meninas de rua ou trabalhadores; as populações das periferias urbanas e zonas rurais; os nômades e os trabalhadores migrantes; os povos indígenas; as minorias étnicas, raciais e lingüísticas: os refugiados; os deslocados pela guerra; e os povos submetidos a um regime de ocupação - não devem sofrer qualquer tipo de discriminação no acesso às oportunidades educacionais. [...] As necessidades básicas de aprendizagem das pessoas portadoras de deficiências requerem atenção especial. É preciso tomar medidas que garantam a igualdade de acesso à educação aos portadores de todo e qualquer tipo de deficiência, como parte integrante do sistema educativo (UNESCO, 1990, p.4, destaque nosso). Existem diversos aspectos que influenciam o acesso de todos à educação, tais como a rigidez das estruturas econômicas, a concentração da riqueza produzida, o progresso técnico, a desigualdade regional e social, a diferença entre as necessidades de aprendizagem manifestadas pelos vários indivíduos. O fato é que o sistema educacional ainda não conseguiu universalizar o acesso à educação, pois enfrenta dificuldades para associar e garantir o ingresso, a permanência e a conclusão do ensino básico, com qualidade, às pessoas afetadas pelas profundas desigualdades sociais, como é destacado no Plano Decenal de Educação (1993). [...] o sistema educacional vem mostrando incapacidade de associar o acesso, a permanência com qualidade e equidade para uma clientela afetada por profundas desigualdades sociais. A Região Nordeste, as zonas rurais, as populações de baixa renda e a clientela que ingressa precocemente na força de trabalho devem ser foco prioritário das ações. Da mesma forma, os indígenas devem receber atenção diferenciada, levando-se em conta os aspectos lingüísticos e culturais, além dos métodos de aprendizagem próprios de suas comunidades. Como também os portadores de necessidades especiais de educação, cujo contingente é ainda expressivo no Brasil (BRASIL, 1993, p. 33). A asserção de que o sistema educacional não tem conseguido assegurar a todas as pessoas acesso à permanência na e conclusão da sua escolaridade com qualidade é reafirmada por Duk (2006) ao ponderar que, embora as reformas educacionais na América Latina tenham promovido a expansão da Educação Básica, as desigualdades de oportunidades educacionais ainda são mantidas. Para a referida autora, os sistemas educacionais ainda não conseguiram dar respostas eficientes “[...] às diferenças sociais, econômicas, geográficas, lingüísticas, culturais e individuais [...]” (Ibid., p. 58) dos alunos. A conseqüência dessa incapacidade aparece numa elevada taxa de analfabetismo funcional, de repetência e evasão escolar na América Latina. Esse é também o entendimento de Guimarães-Iosif (2009), para quem, não obstante a significativa expansão do acesso à escola, ainda são poucos os brasileiros que chegam a concluir a Educação Básica e prosseguir estudos no Ensino Médio ou mesmo no Ensino Superior. A autora considera que existe uma demora do governo e de toda a sociedade em implementar políticas e ações voltadas para a educação dos brasileiros principalmente daqueles que historicamente foram marginalizados e expropriados de seus direitos. A ausência de políticas nessa direção, para ela, contribuiu não só para o avanço das desigualdades sociais no país como também para “[...] a manutenção da pobreza daqueles que têm sido mantidos à margem dos direitos sociais, principalmente, do direito à educação de qualidade” (GUIMARÃES-IOSIF, 2009, p. 21). Para fundamentar seus argumentos, a autora utiliza dados estatísticos do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) que evidenciam a estreita relação entre a desigualdade social e a desigualdade educacional. Segundo Guimarães-Iosif, os alunos da escola pública brasileira, em relação aos da escola privada, enfrentam maiores dificuldades para se manter e/ou concluir seus estudos, em virtude da repetência, evasão ou do envolvimento em situações de risco. Essa condição, para ela, se torna mais dramática quando estão envolvidas as crianças e jovens pobres, índios, negros ou afrodescendentes das periferias de grandes centros urbanos. A profunda pobreza e a desigualdade da população mundial levaram as organizações internacionais, tais como a UNESCO, a fixar, nos anos noventa do século vinte, várias metas a serem alcançadas até o ano de 2015, tais como a redução do número de pessoas que vivem em situação de pobreza extrema (menos de um dólar por dia), a garantia da educação primária universal, a eliminação da desigualdade por sexo na educação até o ano de 2005, a redução da mortalidade infantil e materna, o acesso universal aos serviços de saúde e a implementação de estratégias nacionais de desenvolvimento sustentável em todos os países. A finalidade dessas metas é a de reverter a perda de recursos ambientais até 2015, devendo ser alcançadas por meio da implementação de estratégias para promover o crescimento econômico e a redução das desigualdades de renda; a superação das desigualdades baseadas no sexo, etnia, raça ou posição social; a igualdade entre os sexos; as bases políticas e jurídicas para um desenvolvimento inclusivo; a eliminação de barreiras sociais bem como o reforço do capital social dos pobres28. Com vistas à redução da pobreza, a UNESCO apresenta três frentes de trabalho: promover oportunidades materiais aos pobres no tocante a empregos, escolas, água, saneamento e outros serviços que sustentam a saúde e os conhecimentos essenciais para o trabalho; facilitar a autonomia das pessoas oriundas das classes pobres, através do fortalecimento da participação das mesmas nos processos políticos e nas decisões locais, bem como por meio da eliminação das barreiras sociais e 28 Cf. Relatório sobre o desenvolvimento mundial 2000/2001: luta contra a pobreza – panorama geral (BANCO INTERNACIONAL DE RECONSTRUÇÃO E DESENVOLVIMENTO (BIRD), BANCO MUNDIAL (BM), 2001). institucionais que resultam de distinções baseadas no sexo, etnia e condição social; e ainda aumentar a segurança por meio de ações que reduzam a vulnerabilidade das pessoas a riscos como catástrofes econômicas e naturais, doenças, incapacidade e violência. Quanto ao desempenho da América Latina e do Caribe, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) realizou uma avaliação do alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Em relação ao primeiro objetivo, que é o de reduzir à metade (entre 1990 e 2015) a proporção de pessoas com renda inferior a US$1/dia, a CEPAL informa que ocorreu uma redução da pobreza na América Latina e Caribe em cerca de quatro pontos percentuais (de 22,5% para 18,6%) entre 1990 e 2004. Considera, porém, que o mencionado avanço foi menor do que o necessário para o cumprimento, no ano de 2015, daquela primeira meta do Milênio. Além disso, o progresso verificado em relação à primeira meta teria sido satisfatório no item referente à redução da fome e da desnutrição infantil, sendo possível aos países da região latino-americana cumprir a meta da erradicação da fome (CEPAL, 2010). Já em relação ao segundo objetivo, que trata da garantia da conclusão de um ciclo completo do Ensino Fundamental até o ano de 2015, a região da América Latina e do Caribe apresentava, no começo dos anos noventa do século vinte, taxas líquidas de matrícula na Educação Básica superiores a 90%29. Os valores das taxas continuaram progredindo, de modo que vários países de desenvolvimento intermediário conseguiram garantir o acesso ao ensino fundamental de mais de 95% das crianças. Nos países de menor desenvolvimento o avanço das taxas foi mais lento, ocorrendo um ligeiro retrocesso em Honduras e no Paraguai. Não obstante o alcance de níveis elevados de acesso da população à Educação Básica, superando até mesmo os de outras regiões em 29 Cf. CEPAL, 2010. desenvolvimento, os países continuam enfrentando numerosos desafios em matéria de educação, pois na região o ritmo de crescimento não é suficiente para universalizar a Educação Básica até o período previsto. Se as tendências atuais persistirem, nenhum país alcançará a meta no ano 2015, nem mesmo os que conseguiram avanços um tanto maiores que os demais, como a Bolívia e o México. Mais de 6% das crianças da América Latina e do Caribe não completariam a educação básica em 2015. Em 10 países, de um total de 18, este índice estaria próximo de 5% (Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Panamá, Peru, Uruguai e Venezuela). Em quatro países ele se elevaria a uma cifra entre 7% e 12% (Bolívia, Brasil, Paraguai e República Dominicana) e, em El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, entre 18% e 31% dos meninos e meninas não completariam a educação básica (CEPAL, 2010, p. 4). É neste cenário que são pensadas, no âmbito de cada país, ações e políticas públicas para ampliar a proteção aos grupos sociais subalternos, bem como a difusão da concepção de inclusão social30 e educacional. As políticas de inclusão são também públicas de caráter social. Começaram a ser implantadas nas últimas décadas do século vinte, em âmbito mundial, e abrangem questões como renda mínima, habitação popular, emprego e formação profissional. Além disso, constituem um tipo de resposta a aspectos que têm sido a base de muitos movimentos sociais, quais sejam: etnia, gênero, deficiência orientação sexual, entre outros temas que se inscrevem na história da luta pelo reconhecimento dos direitos de todas as pessoas e que expressam o embate vivido por diferentes forças e interesses sociais num determinado momento histórico. As políticas públicas dirigidas a esses segmentos da sociedade são apresentadas como solução, parcial ou total, para uma série de 30 Cf. Relatório sobre o desenvolvimento mundial 2000/2001: luta contra a pobreza – panorama geral (BIRD, BM, 2001). problemas identificados como «exclusão social», «apartheid social», «marginalização social» (GARCIA, 2004). Alguns termos que têm marcado os textos das atuais políticas públicas de caráter social são «inclusão», «sociedade inclusiva», «diversidade» (física, sensorial e sociocultural), «diferença», «eqüidade», «exclusão», «pobreza», «capital social», «proteção social», «necessidades básicas de aprendizagem», «necessidades educativas especiais». O termo «inclusão» é recente na produção teórica especializada, ou mesmo em documentos relativos a políticas públicas, emergindo no início da década de noventa e tendo suas raízes ligadas ao próprio processo de lutas pelos direitos das pessoas com deficiência31 (SASSAKI, 1997; GARCIA, 2004; MENDES, 2006; BARROS, 2009). Sassaki (1997) evidencia que é a partir de 1981 que o conceito de «inclusão» foi, de forma lenta, sendo definido por todas as pessoas, de todos os setores sociais, que participavam e acompanhavam a luta das pessoas com deficiência. Para o referido autor, o conceito relativo à sociedade inclusiva foi introduzido nos espaços especializados na discussão da deficiência, principalmente a partir de 1995, porém, hoje, tornou-se válido em outros espaços nos quais se encontram presentes pessoas com outras condições atípicas. Sassaki (1997) menciona, ainda, que foi realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Copenhague, no período de seis a doze de março de 1995, a «Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Social». Nesse evento, três temas centrais foram objetos de discussão: a erradicação da pobreza, a promoção do pleno emprego e da integração social. Da Cúpula resultaram dois documentos: a «Declaração de 31 Conforme evidencia Bisseret (1971, 1979) termos como deficiente e deficiência são genericamente utilizados, sob várias denominações, nos diferentes períodos da história da humanidade, constituindo-se assim em uma palavra que sustenta um sistema de normas e de valores bem como de interpretações simbólicas da forma como as sociedades se organizam. Copenhague sobre Desenvolvimento Social» e o «Programa de Ação da Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Social», este último integrado por dez compromissos que os Governos signatários assumiram com vistas a promover o desenvolvimento social em seus países. Na ocasião, o Brasil apresentou relatório nacional elaborado pelo Governo com a participação da sociedade civil, no qual foram contemplados os temas centrais de Copenhague (BRASIL, 2000). Aquele evento foi importante porque, primeiramente, de modo distinto das demais conferências da agenda social da ONU, realizadas na década de noventa do século passado, foi o primeiro grande encontro internacional cuja finalidade foi a de tratar o tema do desenvolvimento social. A abordagem desse assunto possibilitou aos governantes presentes, ou aos seus representantes, reconhecer a importância do desenvolvimento social e do bem-estar de toda a humanidade e dar prioridade para esses dois temas, a partir do século XXI. Um segundo ponto a ser considerado é que foi o primeiro grande evento a tratar do tema do desenvolvimento social num período “[...] em que o neoliberalismo, como alternativa "eficiente" ao chamado Estado- Providência, e o culto do mercado, como fator de regulação "natural" da convivência social, configuram a ideologia dominante em escala planetária” (ALVES, 2001, p. 181). Ao firmarem a «Declaração de Copenhague sobre Desenvolvimento Social» (1995), os governos e os representantes dos países reconheceram e se comprometeram a elevar o desenvolvimento social em todo o mundo, com a finalidade de garantir a todo ser humano, principalmente àquele que sofre com a pobreza, o desemprego e a exclusão social, o exercício de seus direitos, a fim de que possa levar uma vida satisfatória (ONU, 2001). Além disso, no relatório32 da «Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Social», a ONU menciona o conceito de «sociedade inclusiva» (SASSAKI, 1997). Trata-se de uma concepção, afirma Sassaki, segundo a qual a sociedade deve mudar e se basear no respeito aos direitos e às liberdades fundamentais de todas as pessoas, à diversidade cultural e religiosa, à justiça social e às necessidades especiais de grupos vulneráveis e marginalizados, bem como à participação democrática e à vigência do direito. No citado documento, portanto, a palavra «inclusão» foi relacionada às pessoas com deficiência, por se referir ao fato de que a sociedade (e em específico a escola) deveria se modificar e estar aberta às particularidades de todas as pessoas, indiscriminadamente, oferecendo- lhes condições e oportunidades iguais para realizarem seu potencial humano. Para alcançar esse objetivo, a escola deveria passar por uma reorganização e uma reestruturação do sistema comum de ensino. Na atualidade, o termo «inclusão» agrega um número cada vez maior de grupos marginalizados que integram as fronteiras da exclusão social. Abrange não apenas a inserção de pessoas com deficiência aos distintos espaços sociais (escola, trabalho, lazer, cultura, política saúde), mas também diferentes segmentos da sociedade, vítimas de atos de segregação, os quais ocorrem ora por questões relativas ao sexo, ao gênero, à raça, à etnia, a cor, a diferenciações em sua compleição física ou cognitiva, ora por aspectos religiosos, políticos, culturais, de saúde ou mesmo econômicos. A «inclusão» implica em transformar as estruturas das instituições sociais para possibilitar a inserção de todos os indivíduos e, em específico, as pessoas com deficiência, que historicamente foram discriminados e que tiveram negados seus direitos como cidadãs (BARROS, 2009). 32 Cf. Relatório da ONU sobre a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social. Tradução por: Sperber S.C. Ltda. E Nikolaus Karwinsky. São Paulo: Fundação Konrad- Adenauer-Stiftung, 1995. No decurso do século vinte, o termo «inclusão» surge num contexto marcado pela crítica feita à modernidade por pensadores pós- modernistas33 como François Lyotard (1986) e Boaventura de Sousa Santos (2009), dentre outros. São intelectuais que colocam em dúvida e questionam as metanarrativas, bem como no acesso e controle da realidade objetiva por meio do conhecimento e do método, o triunfo da razão, a educação baseada na missão cultural de uma elite como responsável por orientá-la. A respeito deste último aspecto, Bauman (2001) afirma que a classe dominante e administradora das empresas capitalistas, pelo menos por duzentos anos, não só dominaram o mundo como também delimitaram e restringiram as alternativas de trajetórias da vida humana, pois sua visão do mundo é que alimentava e dava substância ao seu discurso. Lyotard (1986) e Santos (2009), por exemplo, apresentam críticas incisivas ao projeto moderno, afirmando que, apesar das inegáveis conquistas ocorridas nos campos da ciência e tecnologia, e que deveriam levar o homem à emancipação e liberdade, passou-se a exigir do mesmo “[...] sacrifícios imensos que, no limite, implicam a submissão total do ser humano [...]” (GOERGEN, 2001, p.18-19). No centro das críticas feitas pelos autores pós-modernos ganha destaque, ainda, o fato de que o pensamento moderno ocidental “[...] salienta-se por sua capacidade de produzir e radicalizar diferenças [...]” 33 Conforme afirmam Goergen (2001) e Freitas (2005), o termo ‘pós-modernidade’ é intrinsecamente conflitante e contraditório, pois abre espaço para um leque de discussões e questões tais como: já saímos da modernidade ou não? Já estamos na pós- modernidade? A pós-modernidade expressaria uma ruptura radical com a modernidade? A pós-modernidade seria uma mudança no interior da modernidade ou apenas um modismo com dias contados?. A partir dessa compreensão seria incoerente tratar a «pós- modernidade» ou «pós-moderno» como um movimento coeso e articulado, pois há nele variadas posições assumidas pelos teóricos que se auto-definem como pós modernos. Em face disso, neste estudo nos referiremos ao ‘pós-modernismo’ conforme este vem sendo tratado por autores como Lyotard (1986) e Santos (2009), isto é, como um fenômeno do tempo histórico atual que é marcado por incertezas em relação aos meta-relatos/meta- narrativas os quais dizem respeito aos grandes esquemas histórico-filosóficos de verdade e liberdade, história e progresso, razão e revolução, ciência e industrialismo criados na era moderna. (SANTOS, 2009, p. 24), bem como por manter o monopólio de uma distinção e superioridade de determinadas culturas e/ou segmentos da sociedade em relação a outros. A crítica pós-moderna tem importância porque não só chama a atenção para profundas mudanças na sociedade capitalista pós-industrial como, também, contribui para redesenhar as fronteiras políticas, sociais e culturais do modernismo. Além disso, enfatiza, concomitantemente, a política de diferença racial, étnica e de gênero, aspecto esse que favorece a abertura para a multiplicidade de vozes de outros grupos culturais e aposta na diferença como forma de resistência (GIROUX, 1993; GOERGEN, 2001). O principal objetivo da crítica feita pelos pós-modernos é a defesa de aspectos como a autonomia, a liberdade de escolha, a auto- afirmação do ser humano, bem como do direito de toda pessoa de ser e permanecer diferente (BAUMAN, 2001). No âmbito das reflexões dos autores situados no campo do pós- modernismo, como, por exemplo, Santos (2009), são questionadas as noções de «identidade», de «universalidade», de «verdade» e de «normalidade». Tais noções, para ele, tomam como referência, em contraposição ao todo, uma experiência particular, um conjunto de valores, normas e conhecimentos que são desenvolvidos e que passam a atuar no sentido de naturalizar a relações sociais. Ao colocar em xeque aquelas noções, os autores pós-modernistas questionam, também, a prática, presente na sociedade, de difusão de uma cultura dominante de referência, que desconsidera o fato de que a realidade é diversa e que seus membros são diferentes em termos de classe, gênero, raça (HALL, 2000). Portanto, uma prática que sustenta existir uma forma natural de ser, tanto no âmbito da sociedade quanto do indivíduo, e que, por isso, trata e vê os demais modos de ser e de organização social como inferiores, primitivos, diferentes. […] Las otras formas de ser, las otras formas de organización de la sociedad, las otras formas del saber, son transformadas no sólo en diferentes, sino en carentes, en arcaicas, primitivas, tradicionales, premodernas. Son ubicadas en un momento anterior del desarrollo histórico de la humanidad, lo cual dentro del imaginario del progreso enfatiza su inferioridad. Existiendo una forma “natural” del ser de la sociedad y del ser humano, las otras expresiones culturales diferentes son vistas como esencial o antológicamente inferiores e imposibilitadas por ello de llegar a “superarse” y llegar a ser modernas (debido principalmente a la inferioridad racial) […] (LANDER, 2005, p. 24). Nos países latino-americanos, o direito à educação, desde as primeiras ocasiões em que foi anunciado, referiu-se a explicações baseadas em aspectos como atraso e inferioridade cultural, deficiências e situações sociais adquiridas e/ou insuperáveis. É o que mostra Puiggrós (2010, p.18) ao enfatizar que os povos latinoamericanos “[…] tenían que adoptar el modelo de los países que habían triunfado. El derecho a la educación de nuestros pueblos se reducía a la sustitución de las propias culturas por la cultura dominante [...]”. Levando-se em conta a crítica feita à modernidade, o conceito de «inclusão» se fundamenta em valores humanitários universais e no acolhimento da diversidade social (BARROS, 2009), mostrando ser imperativo o reconhecimento da singularidade de cada segmento social (deficientes, idosos, mulheres, crianças, desempregados, homossexuais, etc) que tem lutado não só pela igualdade de direitos e deveres como também pela oportunidade de acesso aos fundamentos de uma vida digna (o que envolve o acesso à educação de qualidade, ao lazer, à habitação, à saúde, ao emprego, à alimentação e ao transporte), portanto, o direito a uma cidadania igualitária para todos. Nesse contexto marcado pelas críticas pós-modernas a educação passa a ter um papel fundamental nas decisões tomadas pelo Estado, visando a garantir profissionais qualificados exigidos pelo modelo de desenvolvimento adotado, como também no que se refere à ideia de «inclusão». Isso porque uma das grandes questões que se impõe atualmente à sociedade é o desafio de promover e garantir a inclusão do «Outro» nos diferentes espaços sociais. Uma tal garantia acarreta, como consequência, resolver problemas como o da discriminação racial, a dificuldade dos diferentes grupos sociais para conviverem com as suas diferenças (étnicas, de gênero, geracionais bem como as diferenças mentais e físicas). O destaque dado pelas políticas públicas à questão da inclusão e a crescente abertura da sociedade para a diversidade, para o diferente, nas últimas décadas, se deve, em boa parte, à própria atuação dos diferentes movimentos sociais (negros, mulheres, gays, lésbicas, índios, migrantes, moradores de periferia urbana) (CASTELLS, 1999; HALL, 2000; HARVEY, 2001). Eles surgiram a partir dos anos sessenta e setenta, lutando pelo direito de acesso aos bens sociais necessários para garantir uma vida digna e participativa na sociedade, bem como o respeito pela diferença. Aqueles movimentos sociais se tornaram as principais fontes de resistência à exploração econômica, à dominação cultural e à repressão política (CASTELLS,1999). Conscientes de seus direitos no âmbito da educação, da saúde, da moradia e da terra, passaram a reclamar uma sociedade que não só rompesse com seus modelos de exclusão, considerasse a realidade intercultural e multiétnica (HALL, 2000). Apesar do fortalecimento do discurso em defesa do direito à educação, bem como da proposição e difusão de políticas sociais fundamentadas ao reconhecimento da diversidade e das diferenças humanas, ainda existem formas segregacionistas no meio social (seja na escola, no mundo do trabalho, do lazer ou da cultura) que se realizam em detrimento da almejada «eqüidade» e implica a oferta de oportunidades diferenciadas com vistas à busca da igualdade (NOVAIS, 2005; BARROS, 2009). Para Veiga-Neto (2010), a noção da «inclusão», nos últimos anos, juntamente às noções de «direitos humanos», «democracia» e «cidadania», tornou-se um imperativo o qual ninguém se arrisca a contestar e questionar. Desse de modo, “[...] qualquer problematização que se pense fazer sobre as políticas e as práticas de inclusão logo é vista como uma posição autoritária, conservadora, reacionária [...]” (VEIGA- NETO, 2010, p. 14). Os elementos apresentados até o momento mostram que as discussões realizadas em âmbito mundial, a partir aproximadamente dos anos sessenta em diante, sobre a situação dos indivíduos que não têm tido a possibilidade não só de participar de forma democrática da organização da sociedade como também de ter acesso às condições objetivas para o desenvolvimento físico, cultural, educacional e econômico passa a ser repensada pelos governos dos diferentes países. Tal fato dá origem a um intenso movimento de reformas políticas oriundas de orientações de agências internacionais como, por exemplo, o BM, que enfatizam a questão da igualdade de oportunidade, eqüidade e inclusão social e que vão atingir a estrutura dos diferentes serviços públicos, bem como a forma de gestão do Estado nos países em desenvolvimento (MARI, 2006). A partir, mais especificamente, da realização da Conferência Mundial sobre Educação para Todos (1990) e da Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: acesso e qualidade (1994) tem lugar a popularização dos termos «educação para todos», «eqüidade», «diversidade», «inclusão», «inclusão social» e «educação inclusiva». Tais termos passam a estar presentes na legislação relacionada às reformas sociais implantadas em diferentes países, a partir da década de noventa do século vinte. Eles contribuem para difundir o paradigma da inclusão social e educacional, bem como para assegurar à educação um novo e estratégico papel na sustentabilidade dos países envolvidos com a agenda neoliberal, bem como com a função de organizar meios inclusivistas de acesso ao e de permanência no ambiente escolar e social. Trata-se, portanto, de “[...] educar para as diversidades sociais, culturais, econômicas, étnicas, biológico-físico-sensoriais [...]” (ROSS, 2002). Nesse cenário, as políticas educacionais atribuem à escola a finalidade de buscar orientar suas ações em consonância com o discurso da «inclusão», que tem como princípio a diversidade, como característica da existência humana, a democratização do ensino de qualidade e a igualdade de oportunidade para todos. A chamada «educação para todos» (EPT) torna-se um imperativo no contexto das políticas econômicas e sociais neoliberais, elaboradas por organizações internacionais, assim como naquelas elaboradas no Brasil. A justificativa para tal imperativo, na educação, estaria, segundo a Declaração Mundial sobre Educação Para Todos (1990), na sua importância fundamental para o progresso pessoal e social, para a superação da pobreza e das mazelas sociais, bem como por possibilitar à população exercer sua cidadania e adquirir conhecimentos e habilidades indispensáveis para se inserir no mercado de trabalho (SARDAGNA, 2007). Assim, é implantada uma reforma no setor educacional brasileiro com a finalidade de melhorar a qualidade da educação oferecida em todos os níveis de ensino, estruturar um sistema educacional articulado em seus níveis e modalidades, reduzir o alto índice de analfabetismo e também para ampliar a oferta de vagas, possibilitando, com isso, universalizar o ensino e reduzir as desigualdades sociais e regionais. A finalidade daquelas mudanças propostas para a educação, segundo Oliveira, D. (2009), era, sobretudo, a de elevar a escolaridade da força de trabalho e a qualidade do ensino ministrado nas instituições educativas com a perspectiva de estabelecer condições que possibilitassem ao Brasil garantir sua competitividade, eficiência e produtividade, aspectos estes demandados pelo mercado e pelo capital. Um dos pontos cruciais dessa reforma é a formação de professores, conforme apontam, por exemplo, os textos dos documentos legais aprovados na Conferência Mundial sobre Educação para Todos (1990) e na Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: acesso e qualidade (1994). Nesses documentos, afirma-se que os professores constituem o recurso mais caro e poderoso para a melhoria da qualidade da educação, para o desenvolvimento das escolas inclusivas e, ainda, o meio principal para garantir a formação de profissionais com capacidade de operar no mundo globalizado. É nessa perspectiva que, no âmbito das políticas públicas do setor educacional, a partir da década de noventa do século passado, para fazer face ao contingente de alunos que ingressou na escola “[...] a reforma na formação de professores veio na seqüência da prioridade de universalização do ensino fundamental” (MAUÉS, 2003, p. 98). Entretanto, a chamada «inclusão educacional» tem gerado uma confusão no papel desempenhado pelas instituições de ensino, as quais hoje, mais do que nunca, tiveram que construir mecanismos para responder às exigências sociais dos segmentos da sociedade até então excluídos do acesso à educação. Com isso, a escola tem assumido o papel não só de transmissora de um saber sistematizado e historicamente acumulado, como também de incluir socialmente os indivíduos que buscam nela ingressar, por meio do desenvolvimento de atividades de assistência pedagógica, social e psicológica, alimentação, segurança e qualificação para os postos de trabalho. As políticas públicas fundamentadas na concepção da inclusão social e educacional, formuladas no Brasil a partir do final dos anos oitenta do século passado e implementadas na década seguinte, introduziram uma confusão de papéis dos sujeitos que atuam na escola, levando-os a se debruçar, por exemplo, sobre questões como segurança pública, emprego/desemprego, saúde, assistência social e alimentação. A escola passou a ser compreendida não só como espaço de ensino, mas, também, como lugar da promoção de justiça social, como elemento capaz de corrigir desequilíbrios presentes na estrutura social e econômica da sociedade. Por isso, deveria atuar em áreas como distribuição de renda (por meio de programas sociais como Bolsa-Família e o ProJovem, entre outros) e políticas de saúde (por meio de participação na efetivação de certas políticas de saúde - vacinas, exames médicos - e alimentação - através da merenda escolar) (OLIVEIRA, D., 2009). Paralelamente ao fato de a escola assumir novas funções, coloca-se em xeque a sua capacidade de exercer com competência o papel de sistematizadora e socializadora dos conhecimentos produzidos historicamente, oferecendo uma educação de qualidade para todos, por meio da organização de ações que contemplem as necessidades de aprendizagem de crianças, jovens e adultos com ou sem deficiência. A esse respeito, Carmo (2006) considera que, no contexto atual, parece existir uma contradição entre os objetivos e as metas que a sociedade espera que a escola alcance. Isso porque, embora a sociedade anseie que as instituições de ensino socializem e individualizem os alunos, bem como lhes ensine valores e conhecimentos hegemônicos, concomitantemente, respeitando os estatutos históricos, as habilidades, as capacidades e valores individuais de cada aluno, a instituição escolar ainda não conseguiu estabelecer a ponte entre os objetivos, interesses e as culturas conflitantes. Apesar do discurso em defesa dos «direitos humanos», bem como da proposição e difusão de políticas sociais fundamentadas no reconhecimento da diversidade e diferenças humanas, o que se observa é a ocorrência, ainda, de formas segregacionistas no meio social (seja na escola, no mundo do trabalho, do lazer ou da cultura) em detrimento da tão almejada eqüidade, que implica a equiparação de oportunidades de acesso a recursos e oportunidades no meio social, assim como na distribuição de ganhos e perdas. O objetivo presente nos documentos que trazem a concepção de inclusão de tornar acessível a todas as pessoas, independente de suas habilidades e condições, os meios para a qualidade de vida digna colide tanto com a tendência excludente da dinâmica social quanto com a estrutura e organização do processo educativo. Ambas estabelecem critérios e conceitos que, apoiados em parâmetros estatísticos e comparativos, ou em peculiaridades da forma e/ou função das estruturas físicas das pessoas, acabam por instituir a desigualdade e separar o aluno «ideal» do «diferente» (FERREIRA, M.; FERREIRA, J., 2004). Nesse quadro, ao mesmo tempo em que a escola busca desempenhar suas tarefas, a Universidade, responsável pela formação inicial e continuada dos professores, vem sendo criticada por ser considerada muito «teórica» e distante da realidade e das demandas das escolas, da sociedade e das novas exigências do mundo do trabalho. Além disso, a Universidade tem sido responsabilizada pelo despreparo dos egressos ao término de seus estudos, por não conseguirem obter sucesso durante seu percurso de formação e, com isso, os professores passaram a ser responsabilizados pelos problemas enfrentados no ambiente escolar, conforme destacam os autores Leão e Da Costa (2005), por exemplo. Essas são, entre outras, as razões pelas quais os professores tornaram-se o foco central de muitas das políticas implementadas no setor educacional, nos últimos anos, conforme veremos no Capítulo III, e passaram a ser mais diretamente responsabilizados pela aprendizagem e pelo desempenho dos alunos, bem como pelos problemas enfrentados no ambiente escolar. Como exemplo do argumento de que os professores passaram a ter maior centralidade nas políticas públicas, encontra-se a matéria publicada na Revista Nova Escola, intitulada “A formação docente é prioridade para o ministério”. Ali, o ministro da Educação, Fernando Haddad, aponta, dentre outros aspectos, para a necessidade das universidades públicas prepararem mais e melhores os professores para o Ensino Fundamental e salienta que a área da formação de professores é uma área de destaque em investimento dentro da política do Ministério da Educação (MEC) (GROSSI; PELLEGRINI, 2008). O tema da «inclusão», assim como o da «diversidade» (cultural, social, de gênero, de capacidades, etc.), «diferença», «educação para todos», «igualdade» e «direitos humanos», se constitui em um aspecto central das políticas públicas implementadas, principalmente no âmbito da educação e, mais especificamente, na formação de professores, como atestam, por exemplo, documentos como a Declaração Mundial sobre Educação Para Todos (1990), a Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre necessidades educativas especiais (1994), o Plano Nacional de Educação (2001-2011). A educação, assim, é tida como um fator que possibilita efetivar os direitos humanos que são consagrados em diferentes políticas internacionais e que têm sido acordadas nas políticas brasileiras. Praticamente todos os documentos e textos, internacionais e nacionais, que tratam da fundamentação da inclusão educacional, baseados na justiça e no reconhecimento da igualdade básica dos seres humanos, enfatizam a necessidade de dar prioridade, nas políticas públicas educativas, aos grupos mais desfavorecidos e vulneráveis pela condição de pobreza, minorias étnicas, alunos com dificuldades de aprendizagem, pessoas com deficiência, mulheres, analfabetos maiores de quinze anos, dentre outros, com a finalidade de reduzir as desigualdades e proporcionar-lhes uma vida mais digna. A análise sobre a concepção de inclusão social e educacional presente nas políticas públicas direcionadas para a formação de professores e dos princípios a ela associados (inclusão, diversidade, eqüidade de oportunidades, diferença, igualdade de direitos e cidadania), com foco na inserção das pessoas com deficiência no ensino regular, demanda a utilização de instrumentos conceituais e metodológicos que permitam estabelecer relações entre as ideias e os aspectos econômicos, políticos e culturais que contribuíram para o surgimento dessa concepção e sua incorporação nas políticas públicas, de modo a apreender a interdependência entre todos os aspectos envolvidos no objeto, foco desta pesquisa, em seu movimento dialético. O referencial teórico que permitiu captar esse movimento foi o pensamento de Antonio Gramsci por meio, especialmente, dos conceitos de «hegemonia», «Estado», «sociedade civil» e o «princípio da unidade na diversidade». O referencial do pensador sardenho é rico e contribui para elucidar a situação de exclusão social em que vive uma grande parcela da população, exclusão que se expressa, também, no âmbito da educação pública, especialmente para as pessoas com deficiência, um dos aspectos abordado nesta pesquisa. Além disso, permite entender o papel fundamental dos professores no processo de formação de uma nova cultura. 1.3. Procedimentos Metodológicos Esta pesquisa foi desenvolvida com base na combinação de duas ordens de estudos: a qualitativa e a quantitativa. Do ponto de vista qualitativo, foram utilizados dois tipos de delineamentos que se interrelacionam, o estudo bibliográfico e o documental. Entre os objetivos que conduziram a um estudo de caráter bibliográfico está a busca de informações, uma vez que em relação ao problema focalizado elas se encontram muito dispersas. A pesquisa bibliográfica abrangeu o universo de trabalhos teóricos desenvolvidos em campos como, por exemplo, o da filosofia, política, história, sociologia e antropologia, permitindo identificar contribuições de diversos autores sobre o assunto examinado (GIL, 1996). A pesquisa bibliográfica sobre o tema da formação de professores e a inclusão educacional das pessoas com deficiência, políticas de inclusão social e educacional foi realizada a partir da consulta a livros, dissertações, teses, artigos em diferentes revistas e anais de congressos científicos nacionais e internacionais. A pesquisa documental, por sua vez, embora se assemelhe à pesquisa bibliográfica, teve como diferença essencial a natureza da fonte de dados, pois valeu-se de materiais que ainda não receberam tratamento analítico ou que poderiam ser reelaborados, conforme os objetivos da pesquisa (GIL, 1996). Assim, os documentos constituíram a fonte primária para coleta dos dados deste estudo, os quais foram obtidos por meio da consulta a sites do governo brasileiro e de organismos internacionais. Segundo Quivy e Campenhoudt (2008), dentre as várias razões para o desenvolvimento de uma pesquisa com base em documentos, está o fato de esse material permitir obter informações úteis para ampliar o conhecimento de aspectos macrossociais, demográficos e sócio- econômicos, ideológicos e culturais, bem como analisar mudanças sociais e o desenvolvimento histórico de fenômenos sociais. Para Lüdke e André (1986) a pesquisa que tem como base para coleta de dados ‘documentos’ se constitui em uma abordagem valiosa, pois possibilita não só complementar informações, mas, também, desvelar aspectos novos de um problema ou tema de estudo. Essa é também a avaliação de Flick (2009), quando discute a utilização de documentos como fonte de dados, salientando que eles não se configuram apenas como uma simples representação dos fatos ou da realidade, mas são um meio de comunicação e são produzidos (por alguém ou por uma instituição) visando ao alcance de objetivos específicos. A opção pela análise de documentos deve levar em conta o conteúdo, o contexto, a utilização e a função dos mesmos, pois eles possibilitam apreender a construção de um evento ou processo a partir de uma versão específica e, normalmente, mais ampla. O estudo de documentos relativos às concepções de inclusão social e educacional presentes nas políticas públicas nacionais para a formação inicial dos professores, com recorte nas direcionadas para a pessoa com deficiência se configurou de singular importância para a apreensão das diretrizes oficiais, concepções, justificativas e fundamentação que norteiam a implementação da política de inclusão, pois os documentos elaborados em âmbito internacional e nacional é que passaram a orientar as ações não só governamentais em cada país, mas, também, numa perspectiva micro, no âmbito dos cursos de formação de professores e na prática pedagógica dos mesmos. Quanto às informações quantitativas, foram considerados dados censitários educacionais e indicadores de matrículas referentes às pessoas com deficiência, bem co