UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO: CONHECIMENTO E
INCLUSÃO SOCIAL
LANA FERREIRA DE LIMA
INCLUSÃO SÓCIO-EDUCACIONAL E DIVERSIDADE: DEBATE
CONCEITUAL E DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO-LEGAL NO BRASIL APÓS
1988.
Belo Horizonte
2012
LANA FERREIRA DE LIMA
INCLUSÃO SÓCIO-EDUCACIONAL E DIVERSIDADE: DEBATE
CONCEITUAL E DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO-LEGAL NO BRASIL APÓS
1988. 2012
Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em
Educação: Conhecimento e Inclusão Social da
Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito
parcial para a obtenção do título de Doutor em
Educação.
Linha de Pesquisa: Políticas Públicas de Educação:
Concepção, Implementação e Avaliação.
Orientadora: Professora Dra. Rosemary Dore.
Co-orientador: Professor Dr. Virgínio Isídro Martins Sá.
Belo Horizonte
2012
LANA FERREIRA DE LIMA
INCLUSÃO SÓCIO-EDUCACIONAL E DIVERSIDADE: DEBATE
CONCEITUAL E DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO-LEGAL NO BRASIL APÓS
1988. 2012
Tese defendida e aprovada em 30 de março de 2012, pela Banca
Examinadora composta pelos seguintes professores:
_____________________________________________
Profa. Dra. Rosemary Dore – FAE/UFMG - Orientadora
__________________________________________________
Prof. Dr. Virgínio Isidro Martins Sá – Universidade do Minho
Co-orientador
_________________________________________
Profa. Dra. Priscila Augusta Lima – FAE/UFMG
_____________________________________________
Profa. Dra. Maria de Lourdes Rocha Lima – FAE/UFMG
__________________________________________
Prof. Dr. Roberto Fini – Universidade de Verona
__________________________________________
Prof.Dr. Marco Antonio Mondaini de Souza - UFPE
AGRADECIMENTOS
A DEUS fonte de amor e de todas as minhas realizações, conquistas
e inspirações, e que me fortaleceu durante todo esse processo.
À Profª Drª Rosemary Dore, pelos seus profundos e seguros
conhecimentos que foram essenciais para a realização desta pesquisa e
pela sua amizade sincera, que tantas vezes soube ser compreensiva e
companheira.
Ao Prof. Dr. Apolônio Abadio do Carmo, amigo de todas as horas,
interlocutor competente, pelas contribuições, apoio e amizade. Não tenho
palavras para agradecer tudo que fez e me ensinou desde a graduação em
Educação Física. Um exemplo como pessoa e profissional formador de
professores, bem como na luta pela inclusão social e educacional das
pessoas com deficiência.
Ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade
Federal de Minas Gerais, através dos professores, especialmente àqueles
de quem fui aluna, pelo seu trabalho sério, comprometido com a
educação, com uma sólida formação com um projeto de sociedade que
promova a paz, respeite a diversidade e defenda incondicionalmente a
dignidade e os direitos de cada ser humano.
Aos Professores da Banca de qualificação e defesa – Marco Antonio
Mondaini de Souza, Antônia Vitória Soares Aranha, Virgínio Isidro Martins
Sá, Roberto Fini, Priscila Augusta Lima, Maria de Lourdes Rocha Lima –
por terem participado de minha defesa e pela disposição em contribuir
com uma leitura atenciosa, com apreciações críticas e com importantes
sugestões e contribuições.
A todos os integrantes do Projeto de Pesquisa e Estudos “Educação
Profissional no Brasil e Evasão Escolar”, que de forma direta e indireta
contribuíram com minha formação e elaboração desta tese.
À Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais por ter
fornecido os dados quantitativos referentes à inclusão escolar dos alunos
com deficiência e a formação dos professores que atuam na rede regular
de ensino do referido Estado.
À Miriã pela ajuda na elaboração das tabelas e gráficos dos dados
apresentados na pesquisa.
Às minhas colegas e amigas de linha de pesquisa e de turma de
mestrado e doutorado com quem compartilhei horas de estudos, de
dúvidas, de discussões, de alegrias, de angústias e de crescimento
intelectual: Izaura, Ana, Mônica, Sandra, Juliana, Lourdinha, Sandro.
Como amigos que são me ajudaram com muito apoio e incentivo.
À Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão (UFG-CAC) e à
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES),
pela oportunidade de acesso à Pós-Graduação pública no Brasil e de
realização do doutorado sanduíche na Universidade do Minho, em
Portugal, experiências de formação acadêmica que ainda são restritas a
tão poucos, em detrimento de tantos; na certeza de que, nos anos que
virão, terei a possibilidade de retribuir com meu trabalho.
Aos companheiros do Curso de Educação Física do Campus
Catalão/UFG, pelo apoio e confiança no meu trabalho.
A todos os meus familiares, nas pessoas de meus pais Antônio e
Alaíde, de meus irmãos Janete, Enzo e Marques, meus avôs Antônio e
Aparecida, meus tios, tias e primos, pelo carinho, força e compreensão,
apesar dos sacrifícios que lhes impus para poder realizar esta pesquisa.
Ao meu companheiro, pelo amor, amizade, carinho, apoio,
paciência, compreensão, por acreditar em mim e estar presente apesar
das adversidades, persistindo em me apoiar incondicionalmente e me
fazendo acreditar que seria possível concluir mais esta etapa de minha
formação acadêmica.
À Cristiane pela amizade, apoio e esclarecimentos sobre a inclusão
da pessoa com deficiência que me fortaleceram e ajudaram a concluir a
pesquisa.
À querida Dalva por ter me auxiliado, sempre que necessitei,
durante todo o processo de doutoramento, desde o ingresso ao término,
mudança de cidade (Catalão-Belo Horizonte - Catalão) até o momento
final de entrega do texto da tese. MUITO OBRIGADA MINHA QUERIDA!
Que Deus a abençoe sempre!
Aos meus amigos e companheiros, presentes no dia a dia, nas
pessoas de Clarissa, Karine, Edna, Dalvainha, Roseane, Leomar, Heliany,
Neila, Mônica, Ana, Izaura, Sandra, Juliana, Lourdinha, Sandro, pelo
companheirismo, boas energias, compreensão, apoio e estímulo que
transmitiram em todos os momentos de realização deste estudo.
Foi uma tarefa árdua, mas consegui chegar até aqui, não sozinha,
mas com a preciosa ajuda de todos vocês. Obrigada!!
RESUMO
O objetivo desta tese foi o de analisar as concepções de inclusão social e
educacional presentes nas políticas públicas nacionais para a formação
inicial dos professores, implementadas a partir de 1988 até o ano de
2010, com recorte nas direcionadas para a pessoa com deficiência. Num
primeiro momento da pesquisa foi realizado um estudo de documentos
internacionais e nacionais (constituições, declarações, projetos, leis
ordinárias, decretos, planos, bem como relatórios e informes) produzidos
no período estabelecido para estudo. Numa segunda etapa do estudo foi
realizado um levantamento de informações constantes da base de dados
do INEP/MEC, bem como da SEEMG/SI/SIE/DINE e do CRVP do Estado de
Minas Gerais sobre a formação que possuem os professores, o número de
matrículas de alunos com deficiência nas escolas regulares e escolas
exclusivas, por região, por dependência administrativa e por modalidade
de ensino. Os dados obtidos com esta investigação mostram que a
concepção de «inclusão social» expressa um processo no qual os
diferentes segmentos sociais marginalizados, participando e intervindo nas
decisões tomadas pelo Estado, buscam em conjunto construir uma
sociedade mais democrática, aspecto que permite considerar que os
processos de inclusão não implicam na inserção passiva dos seres
humanos numa realidade que já se encontra pronta e acabada, mas, sim,
em movimentos e ações desenvolvidos por todas as pessoas na busca da
transformação do contexto social em que se inserem. Já a concepção de
«inclusão educacional» subjaz a compreensão da educação como um
“passaporte para a vida” que garante a possibilidade das pessoas
participarem da construção do desenvolvimento social; como uma
estratégia para reduzir tanto as desigualdades sociais quanto as
educacionais. Os resultados da pesquisa indicam que o tema a «formação
de professores» se tornou nas últimas décadas, uma das principais
prioridades das agendas internacional e nacional. É evidenciado, ainda,
que ocorreu no período analisado um inegável êxito no Brasil de ter
conseguido ampliar o acesso das crianças e jovens com deficiência no
Ensino Fundamental e com isso a ampliação do acesso às escolas da rede
pública, assim como o aumento do número de professores com formação
em nível superior bem como daqueles que possuem curso específico em
relação aos que não o possuem para trabalhar em escolas que atuam na
perspectiva inclusiva. Apesar dos elementos que de certo modo dificultam
efetivar a inclusão na sociedade, e, em específico na escola, ao se pensar
se há ou não a possibilidade da instituição escolar (passando pelas
instituições de ensino superior até as escolas de educação básica e
secundária) pode ser inclusiva numa sociedade extremamente
concentradora de riquezas que, por consequência, produz o desemprego,
a miséria e a exclusão, é possível afirmar que não se pode esperar que a
escola consiga sozinha, alcançar esse objetivo. Entretanto, compreendida
como uma instituição democrática e um espaço de disputas políticas, ela
tem o papel desenvolver ações que contribuam para uma mudança
cultural na sociedade. Além disso, há que se considerar que uma escola
inclusiva numa sociedade excludente e desigual sempre haverá processos
de discriminação e exclusão que estarão constantemente a ser refeitos.
Porém, deve ser considerado que existem campos de atuação que contam
com certa autonomia e abertura para que os segmentos da sociedade
reorientem, optem e façam política. No âmbito da sociedade e,
especificamente, da Educação não existe nunca uma determinação, pois
os processos sociais não são de determinação. Eles delimitam campos de
ação e recursos, mas há opções para a construção de novos espaços de
ação.
Palavras-chave: Inclusão Social e Educacional; Formação de
Professores; Unidade na Diversidade.
ABSTRACT
The objective of this thesis was to analyze the concepts of social and
educational inclusion present in national policies for initial teacher training,
implemented from 1988 to 2010, with the cut directed to the disabled
person. Initially research was carried out international and national study
of documents (constitutions, declarations, projects, ordinary laws,
decrees, plans and reports and reports) produced in the period established
for the study. In a second stage of the study was a survey of information
in the INEP database/MEC and the SEEMG/SI/SIE/DINE and the CRVP the
State of Minas Gerais on the training they have teachers, the number of
student enrollments with disabilities in regular schools and proprietary
schools, by region, by administrative and teaching mode. The data
obtained from this research show that the concept of 'social inclusion'
expresses a process in which the different marginalized social groups,
participating and intervening in decisions taken by the state, seek to
jointly build a more democratic society, an aspect to consider that the
inclusion processes do not imply the passive integration of human beings
in a reality that is already ready and finished, but rather in movements
and actions developed by all people in the pursuit of transformation of the
social context in which they operate. Whereas the concept of 'educational
inclusion' underlies the understanding of education as a "passport for life"
that ensures that people participate in the construction of social
development; as a strategy to reduce both social inequalities as
educational. The survey results indicate that the theme to 'teacher
training' has become in recent decades, one of the main priorities of
national and international agendas. It is evident also that occurred in the
period analyzed an undeniable success in Brazil have managed to expand
access of children and youth with disabilities in elementary school and
thus increased access to public schools, as well as increasing the number
of teachers with training in higher education and those with specific course
than those who do not have to work in schools that work in the inclusive
perspective. Despite the elements in a way difficult to effect the inclusion
in society, and in particular at school, when considering whether or not
the possibility of the school (through the higher education institutions to
the schools of basic and secondary education) can be inclusive in an
extremely concentrating society of wealth that, consequently, produces
unemployment, poverty and exclusion, it is clear that one can not expect
that the school can alone achieve this goal. However, understood as a
democratic institution and a space of political disputes, it has the role to
develop actions that contribute to a cultural change in society.
Furthermore, it must consider that an inclusive school in exclusionary and
unequal society there will always be discrimination and exclusion
processes that are constantly being remade. However, it must be
considered that there are fields of activity that have a certain autonomy
and openness to the segments of society reorient, choose and make
policy. In the context of society and specifically of Education there is never
a determination as social processes are not determining. They delimit
action and resource fields, but there are options for the construction of
new spaces of action.
Keywords: Social Inclusion and Education. Teacher Training. Unity in
Diversity.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AEE - Atendimento Educacional Especializado
ANFOP - Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da
Educação
ANPAE - Associação Nacional de Política e Administração da
Educação
ANPED - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em
Educação
BIRD - Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento
BM - Banco Mundial
CAC - Campus Catalão
CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior
CEB - Câmara da Educação Básica
CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe
CES Câmara de Educação Superior
CNE - Conselho Nacional de Educação
CONSED - Conselho Nacional de Secretários de Educação
CONAE - Conferência Nacional de Educação
CONEB - Conferência Nacional da Educação Básica
CRUB - Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras
CRVP - Centro de Referência Virtual de Professores
EPT - Educação Para Todos
EPU - Educação Primária Universal
FORUMDIR - Fórum Nacional de Diretores de Faculdades/Centros de
Educação ou Equivalentes das Universidades Públicas
Brasileiras
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IES - Instituições de Ensino Superior
INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira
LDBEN - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
MEC - Ministério da Educação
NEBA - Necessidades Básicas de Aprendizagem
ODM - Objetivos de Desenvolvimento do Milênio
ONU - Organização das Nações Unidas
OREALC - Oficina Regional de Educação da Unesco para América
Latina e o Caribe
PAED - Programa de Apoio à Educação para a Diversidade
PARFOR - Plano Nacional de Formação dos Professores da
Educação Básica
PDE - Plano Decenal de Educação
PNE - Plano Nacional de Educação
PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
PRELAC - Projeto Regional de Educação para América Latina e o
Caribe
SAEB Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica
SEE - Secretaria de Educação Especial
SEESP - Secretaria de Educação Especial
SESu - Secretaria de Educação Superior
UFG - Universidade Federal de Goiás
UFU - Universidade Federal de Uberlândia
ULBRA - Universidade Luterana do Brasil
UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura
UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância
UNITRI - Centro Universitário do Triângulo
USP - Universidade de São Paulo
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO - .........................................................................
16
CAPÍTULO I – O problema de estudo, sua importância e abordagem
metodológica.............................................................................
1.1. O problema de estudo.........................................................
1.2. Inclusão social: abordagens teóricas e políticas.....................
1.3. Procedimentos Metodológicos...............................................
a) Primeira etapa – identificação, seleção e organização dos
documentos........................................................................
b) Segunda etapa – sistematização dos dados............................
c) Terceira etapa – referencial teórico e análise dos
dados.................................................................................
26
26
31
53
56
61
62
CAPÍTULO II – Unidade na diversidade: dialética da igualdade e das
diferenças sociais.......................................................................
64
CAPÍTULO III – A presença da concepção de inclusão social e
educacional nas políticas públicas de formação de professores: 1988-
2010.........................................................................................
3.1. A concepção de inclusão social e educacional no contexto
internacional..............................................................................
3.2. O conceito de inclusão no contexto da América Latina e do
Caribe.......................................................................................
110
111
137
3.3. A concepção de inclusão social e educacional no contexto
brasileiro...................................................................................
3.4. Alcances e limites das políticas públicas para a inclusão: a
questão da formação de professores e a pessoa com
deficiência.................................................................................
149
173
CONCLUSÃO..............................................................................
197
REFERÊNCIAS............................................................................
204
ANEXOS....................................................................................
221
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa tem como objeto de estudo as concepções de inclusão
social e educacional presentes nas políticas públicas nacionais para a
formação inicial dos professores, implementadas a partir de 1988 até o
ano de 2010, com recorte nas direcionadas para a pessoa com deficiência.
O vínculo da concepção de inclusão à pessoa com deficiência não
quer dizer que a inclusão esteja restrita somente a este segmento social.
No conceito de inclusão, encontram-se todas as pessoas,
independentemente de suas condições e diferenças físicas, intelectuais,
sociais, emocionais, lingüísticas e étnicas. Assim, no âmbito da inclusão
educacional, também as crianças originárias de culturas nômades, que
vivem nas ruas, que não são assistidas por nenhum programa social, que
são negras, devem ser acolhidas no espaço escolar. O foco específico na
pessoa com deficiência, neste estudo, deve-se ao fato de ser uma área em
que permanecem muitos desafios e dilemas, principalmente no que diz
respeito à formação de professores.
O objetivo da presente pesquisa é o de analisar as relações entre os
princípios de inclusão social e educacional e as metas atribuídas pelo
Governo brasileiro aos cursos de formação de professores para atuar na
Educação Básica, e com a função social da escola brasileira, no período de
1988 a 2010.
A metodologia adotada foi o estudo da legislação educacional e de
documentos oficiais, de âmbito internacional e nacional, particularmente,
aqueles direcionados à formação de professores. No que diz respeito à
inclusão educacional, o foco foi dado às pessoas com deficiência.
As razões e os desejos que sustentam este estudo estão
relacionados ao desenvolvimento de reflexões iniciadas em outros
momentos de nossa trajetória intelectual e acadêmica, como a pesquisa
de mestrado sobre a «relação teoria e prática» na formação inicial do
professor, especificamente do profissional da área de Educação Física, no
ano de 2000, e o exercício profissional no campo da formação de
professores realizado nos últimos dez anos.
O conceito de «formação» tomado como paradigma desta pesquisa
refere-se ao processo interativo e dinâmico de aprendizagem, situado em
tempos e espaços limitados e precisos, que por sua vez fornece aos
professores em formação meio para elaborar pensamentos autônomos
que adquirem sentido no quadro das suas histórias de vida (NÓVOA,
1995).
Os debates e as políticas educacionais, na atualidade, têm
privilegiado temas que representam novos desafios para a formação de
professores, tais como, por exemplo, «inclusão», «diversidade»,
«diferença», «justiça», «cidadania» e «direitos humanos». Assim, a
formação de professores, especialmente a partir dos anos oitenta, tornou-
se o principal ponto de pauta de seminários, congressos, conferências,
publicações, propagandas governamentais, políticas públicas de educação,
ganhando espaços sempre mais significativos junto a organismos
internacionais, como o Banco Mundial (BM) e a Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cidadania (UNESCO) (GÓMEZ,
1995; FELDMANN, 2009).
Nesse quadro, muitos países constituíram comissões com vistas, não
só a discutir, mas também a elaborar propostas de reforma para os
anacrônicos e insatisfatórios cursos e Instituições de Ensino Superior
(IES), responsáveis pela formação de professores. Além disso, tinham
também como objetivo responder à demanda de inclusão de pessoas com
deficiência na escola regular, um direito legal e constitucional que não tem
sido atendido.
Historicamente, as pessoas com deficiência têm sido alvo de
mecanismos e procedimentos de segregação, e até mesmo de exclusão,
tanto na sociedade como também nos sistemas de ensino. A exclusão das
pessoas com deficiência do acesso a serviços (saúde, habitação,
alimentação, trabalho, por exemplo) que lhes garantam condições dignas
de vida tem origens remotas, relacionadas ao contexto da organização
econômica, social, política e cultural de cada sociedade, bem como ao
conceito de homem e de educação que historicamente se transforma.
Nos séculos dezesseis e dezessete, no Brasil, por exemplo, as
pessoas com deficiências eram abandonadas em espaços nos quais eram
devoradas ou mutiladas por animais, ou mesmo eram encaminhadas para
as Santas Casas de Misericórdia. Já no século dezoito quando ocorre um
grande crescimento das cidades, e concomitantemente do número de
crianças abandonadas ao ponto de superar a capacidade de assistência
das Casas de Misericórdia, inicia-se a prática de abandonar os recém-
nascidos em locais públicos. Nesse momento as crianças que
apresentavam deficiências são relegadas às «rodas dos expostos»24. A
partir do século dezenove, apesar das dificuldades, é preciso considerar
algumas iniciativas de educação especial que começaram a ser
desenvolvidas como a fundação, em 1854, do Imperial Instituto dos
Meninos Cegos, atualmente o Instituto Benjamim Constant, e três anos
depois, em 1857, o Instituto dos Surdos-Mudos, atual Instituto Nacional
de Educação de Surdos. Nessas instituições as crianças e jovens com
24 A roda dos expostos refere-se a um mecanismo tristemente famoso, utilizado para
abandonar ou expor as crianças recém-nascidas e, com isso, evitar que fossem mortas
ou devoradas por animais. Por isso, representava a maior esperança de sobrevivência
para essas crianças, pois ali eram não só alimentadas, mas assistidas e muitas vezes
instruídas para, em seguida, ao estarem aptas para enfrentar a vida, serem liberadas.
Esse mecanismo foi utilizado na Europa desde a Idade Média e no Brasil é uma das
instituições de mais longa vida, por ter sobrevivido aos três grandes regimes de nossa
história: Colônia, Império e República, sendo extinta definitivamente na década de 1950
(LYRA; OLIVEIRA, 2011).
deficiência eram inseridas, por apresentarem comportamentos
dissonantes das expectativas dominantes na sociedade. Além disso, cabe
considerar que numa sociedade pouco urbanizada e, ainda, apoiada no
setor rural, tanto a educação popular quanto a das pessoas com
deficiência não era considerado um motivo de preocupação por aqueles
que governavam o País (JANNUZZI, 2006; TEZANI 2008).
O desconhecimento sobre as deficiências foi um dos aspectos que
mais fortemente contribuiu para que as pessoas com algum tipo de
deficiência, e assim por serem diferentes, fossem ignoradas e
marginalizadas dos diferentes espaços sociais (MAZZOTTA, 2003). Devido
aos estereótipos e preconceitos com que as pessoas com deficiência são
tratadas, elas carregam consigo o estigma da incapacidade seja de ordem
física, mental ou mesmo sensorial. Por isso, têm sido condenadas a
conviverem com muitas dificuldades, e às vezes à impossibilidade, de ter
acesso ao conhecimento historicamente produzido pela humanidade.
A mudança no que diz respeito ao locus em que deve ser realizada a
educação da pessoa com deficiência ocorre principalmente a partir da
aprovação de diversos documentos internacionais, de forma mais
específica a Declaração Mundial sobre Educação Para Todos (1990) e a
Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre Necessidades Educativas
Especiais (1994), que reafirmam os direitos à educação de cada indivíduo,
conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).
Especificamente em relação ao conceito de «inclusão», destaca-se o
debate das políticas sociais a partir dos anos noventa do século passado.
Em suas diferentes expressões (social, educacional, econômica, entre
outras), a ideia de «inclusão» aparece acompanhada de uma aura de
«inovação», «transformação», «mudança» «revolução». É como algo que
poderia levar a superar a ordem social dominante e a dar respostas para a
exclusão aí existente por meio da inserção de todos os indivíduos numa
sociedade em que a diversidade teria deixado de ser uma exceção.
É nessa perspectiva que, ao final do século vinte, a UNESCO assume
como sua prioridade promover discussões sobre a necessidade de
universalizar a Educação Básica de qualidade e criar uma política de
educação que desse a todas as crianças a oportunidade de obter e manter
um nível aceitável de conhecimentos.
Desse modo, nos documentos e declarações internacionais,
aprovados a partir da década de noventa do século vinte, os governos dos
diferentes países são conclamados a dar prioridade política e orçamentária
à melhoria de seus sistemas educativos. O foco é a Educação Básica,
tendo em vista atender a todas as crianças, independentemente de suas
diferenças ou dificuldades individuais.
As novas exigências atribuídas à Educação Básica requerem a
adequada formação profissional de educadores, como passa a ser
enfatizado nos documentos e declarações internacionais. Nestes são
reconhecidas as dificuldades de implementar políticas de inclusão escolar,
principalmente quando são considerados aspectos de ordem estrutural,
bem como o preparo dos professores para lidar com a heterogeneidade de
alunos que passam a ter acesso à escola.
Nesse contexto, a formação de professores para atender à política
de inclusão na Educação Básica tornou-se uma das prioridades das
agendas internacional e nacional. Organismos internacionais, como BM e
UNESCO, chegaram a reconhecer a exigência de formar um profissional
capaz de mobilizar seus conhecimentos com vistas a responder às
necessidades e aos desafios impostos pela educação inclusiva.
Documentos como a Declaração Mundial sobre Educação Para Todos
(1990) e a Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre Necessidades
Educativas Especiais (1994) reconhecem que a educação ofertada nas
escolas apresenta graves deficiências. Assim, destacam a importância de
assegurá-la como direito fundamental e universal, bem como salientam a
necessidade de transformações nos sistemas de ensino, como também no
perfil do professor. Entretanto, quais foram as condições apresentadas
para concretizar esse direito com sucesso, de modo a que todas as
crianças possam ter acesso aos bens culturais produzidos pela
humanidade?
A inclusão social é compreendida como um conjunto de meios e
ações que visam a oferecer aos diferentes segmentos sociais o acesso a
bens e serviços (cultura, lazer, habitação, saúde, renda mínima, emprego,
alimentação, educação) que lhes assegurem uma vida digna na sociedade,
por meio da concretização de seus direitos, necessidades e
potencialidades. É nessa perspectiva que a inclusao assume centralidade
no mundo contemporâneo, sendo assimilada pela linguagem da legislação
e do discurso político. Nos diferentes países, as concepções de inclusão
social e educacional têm sido adotadas como eixos norteadores das
políticas públicas no âmbito da cultura, da política e de práticas inclusivas
nos sistemas de ensino.
A dimensão legal, contudo, não assegura direitos, especialmente
numa realidade em que a educação da pessoa com deficiência tem
reduzida expressão política no contexto da educação geral, reproduzindo
talvez a pequena importância que se concede a esse segmento social em
nossas políticas sociais. Desse modo, se a legislação fundamental já está
dada, resta fazer cumpri-la. Incluir não se restringe apenas a inserir uma
criança ou jovem com deficiência numa escola ou sala do ensino regular,
conforme estabelecem as leis. É preciso que lhes seja assegurado, pelo
menos, um ambiente adequado para recebê-los e profissionais
qualificados e aptos a exercer tal função.
A formação de professores configura-se como a base para a inclusão
das pessoas com deficiência na Educação Básica, nível de ensino
considerado prioritário pela Conferência de Jomtien (1990), no sentido de
garantir a todas as pessoas, no mínimo, as necessidades básicas de
aprendizagem (NEBA)25.
Esta é a justificativa para centrar este estudo na formação de
professores para atuar na Educação Básica, junto aos alunos com
deficiência. Apesar da existência de muitos estudos sobre a inclusão e a
formação de professores, em nível nacional e internacional, as razões que
levaram à rápida adoção de termos como «inclusão», «inclusão social e
educacional», bem como sobre possibilidades de se concretizar a escola
inclusiva, ainda não foram suficientemente esclarecidas. Além disso, o
estudo de conceitos e princípios de «inclusão social e educacional», em
seus aspectos históricos, sociais, culturais e políticos, é fundamental à
compreensão não só do que está implícito na inserção da criança e do
jovem com deficiência na escola regular, como também nas metas e
diretrizes para a formação inicial de professores.
A delimitação temporal deste estudo relaciona-se ao fato de que o
movimento de inclusão educacional se inicia nos países desenvolvidos na
segunda metade dos anos oitenta do século vinte, embora de forma
incipiente. Toma impulso nos países subdesenvolvidos na década de
noventa do século passado e se fortalece em todos os países nos
primeiros dez anos do século XXI. A partir desse período, a
universalização da educação escolar de qualidade se torna uma exigência
não só política, mas também econômica e social para as sociedades
democráticas.
Outro aspecto considerado na delimitação temporal diz respeito ao
fato de que, no cenário brasileiro, a marca principal do ano de 1988 foi a
promulgação da atual Constituição Federal, também conhecida como a
25 As necessidades básicas de aprendizagem foram definidas pela UNESCO, em 1990, e
compreendem tanto a leitura e a escrita, a expressão oral, o cálculo, a solução de
problemas, quanto conhecimentos, habilidades, valores e atitudes, elementos esses
considerados necessários para que os seres humanos possam sobreviver, desenvolver
plenamente suas potencialidades e trabalhar com dignidade.
“Constituição Cidadã”. Foi a sétima Carta Magna aprovada no país, desde
a Independência (1822), e é considerada não só um divisor de águas
entre a ditadura e a democracia, como também a mais completa,
principalmente, no sentido de garantir os direitos à cidadania e a proteção
dos interesses do povo brasileiro contra o arbítrio e o autoritarismo –
adotando como cláusulas constituintes da Lei os princípios da igualdade,
da liberdade e da justiça, e a alternância de poder. Tornou-se, desse
modo, a base para a criação de um novo Brasil, de oportunidade e justiça
social para todos.
Já o ano de 2010, marca o cenário brasileiro, com o término do
Governo Luiz Inácio Lula da Silva, o qual, durante os oito anos de
mandato, construiu e deixou para o país um inegável legado econômico,
social, cultural, político e diplomático. Embora não tenha representado
uma quebra radical das estruturas de poder que encontrou no país, as
tentativas de responder a demandas dos segmentos sociais subalternos
implicaram muitas tensões durante seu governo, o qual promoveu
inúmeros programas sociais, tais como o «Programa Fome Zero26» e
«Programa Universidade para Todos27» (PROUNI).
Considerando que o termo «inclusão» evoca o reconhecimento dos
direitos de todas as pessoas e do valor de todas as culturas, o tema aqui
discutido foi orientado pelas seguintes questões:
26 O «Programa Fome Zero» foi criado pelo governo federal brasileiro pela Lei n°
10.689/2003, em substituição ao Programa Comunidade Solidária, e consiste num
conjunto de mais de trinta programas complementares cujo objetivo é o combate da
fome e de suas causas estruturais. Suas ações são desenvolvidas a partir de quatro eixos
articuladores: acesso aos alimentos, fortalecimento da agricultura familiar, geração de
renda e articulação, mobilização e controle social. Disponível em:
. Acesso em: 21 nov. 2010.
27 O PROUNI é um programa criado no ano de 2004 e institucionalizado pela Lei nº
11.096/2005, tendo por finalidade a concessão de bolsas de estudos integrais e parciais
a estudantes de cursos de graduação e de cursos seqüenciais de formação específica, em
instituições privadas de educação superior, para estudantes da rede pública com renda
per capita familiar máxima de três salários mínimos. As instituições que aderem ao
programa recebem como contrapartida, a isenção de alguns tributos. Disponível em:
. Acesso em: 21 nov.2010.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Governo_federal
http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasileiro
http://pt.wikipedia.org/wiki/Programa_Comunidade_Solid%C3%A1ria
Como compreender a emergência do conceito de inclusão no
âmbito do Estado e da sociedade civil?
Como compreender o ideário da inclusão numa sociedade
marcada por processos de exclusão? É possível realizar a inclusão nessa
sociedade?
Como compreender o investimento, pela classe hegemônica, em
programas de inclusão social e educacional direcionados para os
segmentos da sociedade que historicamente estiveram excluídos do
acesso a melhores condições de vida, como por exemplo, as pessoas com
deficiência?
Como explicar o processo de democratização da escola num
contexto caracterizado pelo conceito de inclusão como acolhimento e
aceitação da diferença?
A partir do conceito de hegemonia de Gramsci como poderíamos
compreender as concepções de inclusão social e educacional, difundidas
amplamente no campo da educação?
Quais os empecilhos (objetivos e subjetivos) que inviabilizam a
inclusão e quais os elementos que a viabilizam no contexto brasileiro?
Quais são os desdobramentos, prioridades e compromissos
associados às concepções de inclusão social e educacional, no que diz
respeito às políticas públicas nacionais para a formação de professores da
Educação Básica, formuladas e implementadas no Brasil, no período de
1988 a 2010?
A concepção de inclusão social, em específico a de inclusão
educacional, tem sido capaz de assegurar a todas as pessoas, em
específico as pessoas com deficiência, o acesso, a permanência e a
terminalidade em uma educação de qualidade no Brasil?
A hipótese que norteou esta pesquisa foi a de que os princípios de
inclusão educacional são incompatíveis com as metas dos cursos de
formação docente e com a função social atribuída à escola brasileira,
contribuindo para naturalizar as diferenças sociais e perpetuar as práticas
de exclusão social e educacional.
A realização desta pesquisa teve o seguinte percurso de estudos:
A) identificação do aparecimento das concepções de inclusão social e
educacional, e dos princípios que as sustentam (inclusão, diversidade,
eqüidade de oportunidades, diferença, igualdade de direitos e cidadania),
nas políticas educacionais no período de 1988 a 2010;
B) identificação da perspectiva histórico-filosófica que fundamenta as
concepções de inclusão social e educacional que orientou a formação
profissional de professores da Educação Básica, no período de 1988 a
2010;
C) análise da concepção de inclusão social e educacional nas políticas
públicas nacionais para a formação de professores da Educação Básica, no
período de 1988 a 2010.
A apresentação dos resultados da pesquisa realizada foi estruturada
em três capítulos, precedida pela presente Introdução.
Seguindo-se à Introdução, encontra-se o I Capítulo, no qual é
explicitado o tema examinado, sua importância, as questões que suscita,
bem como a organização metodológica do trabalho investigativo.
A análise dos princípios sobre a «diferença», que fundamentam o
conceito de «inclusão», é realizada no Capítulo II. Aí, foram reconstruídos
os referenciais que orientam o conceito de «inclusão social e educacional»,
seja do ponto de vista histórico, seja no confronto com outras fontes
teóricas. Nesse capítulo, portanto, apresentamos o percurso teórico e
metodológico que nos permitiu responder às indagações relacionadas ao
problema que pesquisamos.
No Capítulo III, é focalizada a emergência das concepções de
inclusão social e educacional nas políticas públicas, abordando-se mais
especificamente sua presença nas políticas para a formação de
professores, investigando-se documentos internacionais e nacionais que
tratam do tema.
Serão abordados, ainda, os vínculos entre concepções de inclusão
social e educacional, e sua presença nas políticas públicas implementadas
no Brasil, no período em estudo, bem como os obstáculos para realizar os
objetivos de inclusão social e respeito à diversidade, proclamados nas
políticas públicas nacionais para a formação de professores e para o
atendimento das pessoas com deficiência.
Nas Considerações Finais, são retomados os aspectos que
constituem o eixo de análise desta pesquisa, apresentando seus alcances
e limites, bem como indicando novos percursos a serem trilhados para
avançar o entendimento do tema.
CAPÍTULO I
O PROBLEMA DE ESTUDO, SUA IMPORTÂNCIA E ABORDAGEM
METODOLÓGICA
1. 1. O problema de estudo
Neste estudo, a «inclusão» é entendida como uma forma
democrática de organização da sociedade que visa a garantir às diferentes
formas da existência humana (pobre, rico, negro, branco, homem,
mulher, pessoas com deficiência, pessoas não-deficientes) o acesso às
condições objetivas para o desenvolvimento físico, cultural e econômico.
Contudo, ele se limita à análise das políticas públicas nacionais para a
formação inicial de professores para atuar na Educação Básica, voltada
para a inclusão das pessoas com deficiência (física, auditiva, visual e
intelectual) no ensino regular.
O interesse pela análise da concepção de inclusão social e
educacional, presente nas políticas públicas, com recorte na formação
inicial dos professores está relacionado ao nosso percurso acadêmico-
profissional e com leituras realizamos sobre os referidos temas.
Inicialmente destacamos como elemento motivador, para o
desenvolvimento deste estudo, a realização de nossa pesquisa de
mestrado concluída no ano de 2000, a partir da qual, observamos que, na
última década do século passado, ocorreram mudanças substanciais nos
campos econômicos, político, cultural, científico e tecnológico de todos os
países.
Desse modo, no contexto atual, vivemos num mundo
tecnologicamente globalizado, no qual prevalecem as dimensões
econômicas e pragmáticas assim como os princípios da individualidade, da
competitividade, do Estado mínimo, da máxima eficiência, produtividade e
excelência de forma que as instituições de ensino são pressionadas, a
cada vez mais, adotar o mercado, e não a sociedade, como referência
central para a definição de aspectos como: o conhecimento a ser
transmitido; as formas de financiamento e gestão de suas atividades; bem
como o perfil do egresso que se pretende formar.
Devido às mudanças que ocorreram nos campos econômicos,
político, cultural, científico e tecnológico tanto a educação quanto a
formação de professores tornaram-se aspectos cruciais das políticas
públicas, pois a melhoria do sistema educacional e, conseqüentemente, da
qualidade de ensino passou a ser considerada o meio principal para se
garantir a formação de profissionais com capacidade de operar no mundo
globalizado (LIMA, 2000).
Nossa experiência como docente em quatro Instituições de Ensino
Superior (IES) foi outro aspecto que fortaleceu nosso interesse pelo objeto
em foco.
Destacamos, assim, nossa atuação nos anos de 2000 e 2001 como
docente nos cursos de Pedagogia, História, Matemática e Educação Física
na Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), na cidade de Itumbiara/GO.
Já no período de 2000 a 2002, atuamos como professora substituta
no Curso de Educação Física da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
E, nos anos de 2001 e 2002, ministramos disciplinas no Curso de
Educação Física do Centro Universitário do Triângulo (UNITRI).
Atuar como professora naquelas três instituições de ensino nos
possibilitou o contato com alunos de diferentes contextos e regiões,
muitos dos quais já atuavam com o ensino. Os alunos nos relatavam os
desafios lançados pela inclusão bem como a insegurança e o despreparo
que sentiam para desenvolver suas atividades no âmbito escolar, com
crianças e jovens com deficiência, em situação de risco social,
trabalhadoras, com problemas familiares e vítimas de violência.
A partir do segundo semestre de 2002, passamos a atuar como
professora efetiva no Curso de Educação Física no Campus Catalão da
Universidade Federal de Goiás (UFG/CAC) e assumimos a Coordenação do
Curso de Especialização em Educação Física Escolar, no período de 2003 a
2007.
Nessa última instituição, ministramos a disciplina de Estágio
Curricular Supervisionado I, no 5º e 6º períodos do Curso de Educação
Física e ao acompanharmos os alunos nas atividades de estágio
verificamos, assistematicamente, que muitas escolas públicas, assim
como os docentes, se encontram despreparados para lidar com a questão
da inclusão relativa não só aos alunos com deficiência, mas também
frente a outras singularidades da existência humana (etnia, gênero, raça,
religião, crianças em situação de risco, crianças violentadas ou violentas,
crianças trabalhadoras etc.), tanto no que se refere a aspectos físico-
estruturais quanto teórico-metodológicos.
A opção por trabalhar com o universo das pessoas com deficiência
foi motivada pelo fato de que, historicamente, nas relações entre os
homens, no modo de produção capitalista, esse grupo de pessoas sempre
foi discriminado e marginalizado (CARMO, 1991). Assim, esse segmento
social foi tomado como referência para apresentar o problema da inclusão
social do ponto de vista empírico.
Nas diferentes culturas, o tratamento dado às pessoas com
deficiência foi marcado tanto por atitudes de tolerância, aceitação, apoio e
assimilação quanto pelo de eliminação, menosprezo ou mesmo destruição.
A maior atenção para esse segmento vem ocorrendo de forma lenta e
concomitante às alterações econômicas, políticas e culturais efetuadas em
todo o mundo. Especificamente em relação à educação das pessoas com
deficiência, a história evidencia que tem sido marcada por diferentes
momentos histórico-conceituais, como a exclusão social, a segregação, a
integração social e, mais recentemente, pela inclusão (CARMO, 1991).
O cenário da educação inclusiva se configura a partir da década de
noventa do século vinte, ganhando relevo com a realização de duas
grandes conferências (Conferência Mundial sobre Educação para Todos,
1990 e Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais:
acesso e qualidade, 1994) que nortearão as políticas públicas em âmbito
mundial, contribuindo para difundir o paradigma da inclusão social e
educacional, bem como para assegurar à educação um novo e estratégico
papel na sustentabilidade dos países envolvidos com a agenda neoliberal.
Além disso, a educação passa a ser considerada, em diferentes
documentos internacionais e nacionais, como um elemento promotor da
“redenção social”, de forma que todos os grupos identificados como
excluídos, marginalizados ou em situação de desigualdade social devem
ter acesso aos serviços educacionais (GARCIA, 2004). Com isso, “[...]
recoloca-se a importância estratégica da educação escolar que atinja
todas as pessoas como indivíduos singulares e como membros de um
corpo social nacional e internacional [...]” (CURY, 2005b, p. 4).
O tema da inclusão social e educacional merece ser debatido e
enfrentado por todos aqueles que estão envolvidos com a educação
(professores, pais, gestores e dirigentes educacionais), por diversos
aspectos. Em primeiro lugar, a formulação e aprovação de documentos
legais como, por exemplo, a Declaração Mundial sobre Educação Para
Todos (1990) e a Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre
Necessidades Educativas Especiais (1994), contribuíram, sem dúvida, para
a melhoria das condições da vida humana e a maior inserção dos
diferentes segmentos sociais na escola e, em específico, das pessoas com
deficiência. Isso ocorreu porque aquelas políticas tinham como ideal
realizar a educação para todos, o qual foi abarcado pelo Brasil na
Constituição de 1988 e depois sistematizado nos documentos elaborados
após a Declaração de Salamanca.
Em segundo lugar, no contexto nacional, vem ocorrendo um
aumento progressivo das matrículas dos alunos com deficiência nas
escolas regulares. Embora seja inegável a ampliação da educação,
continuam persistindo muitos problemas, no que se refere, por exemplo, à
formação do profissional que irá atuar na chamada escola inclusiva. Trata-
se de uma formação que demanda, urgentemente, preparar as
instituições escolares para se tornarem aptas a atender adequadamente
esse segmento de alunos.
Finalmente, o histórico de exclusão de boa parte da população em
nosso país mostra a necessidade de estudos que analisem as políticas
públicas nacionais assentadas em concepções de inclusão social e
educacional, voltadas para a formação inicial de docentes, focalizando
seus princípios e suas finalidades, tanto no contexto internacional quanto
nacional, com recorte naquelas direcionadas para as pessoas com
deficiência.
Dada a importância da discussão das concepções de inclusão social
e educacional, na sociedade brasileira, marcada pela desigualdade social e
pela diversidade, consideramos relevante examinar o padrão de
racionalidade/normalidade das políticas elaboradas até a década de 1980
do século passado, por entendermos que ele permanece nas atuais
políticas públicas, elaboradas a partir dos anos 1990, e que têm como eixo
a inclusão social e educacional. As políticas de inclusão social e
educacional apresentam uma dificuldade de ordem epistemológica, e até
mesmo prática, por desconsiderarem as inúmeras identidades culturais
que constituem o meio social, esquecendo que a pluralidade é uma
condição humana.
Tendo, nos últimos anos, nos voltado exclusivamente à formação
inicial de professores para atuar na escola pública, pelo reconhecimento
do direito da pessoa com deficiência a uma educação de qualidade, este
trabalho teve como questão central problematizar as concepções de
inclusão social e educacional buscando verificar se os princípios e valores
que as sustentam são compatíveis com as metas atribuídas, por meio das
políticas públicas nacionais, aos cursos de formação de professores da
Educação Básica e à função social da escola brasileira.
1.2. Inclusão social: abordagens teóricas e políticas
Estudos sobre a inclusão social e educacional, como por exemplo, de
pessoas com deficiência, após muitos anos de exclusão, marginalização e
esquecimento social deste segmento social, vêm ganhando maior
freqüência no âmbito das pesquisas em diferentes áreas do saber. Têm
não apenas a finalidade de refletir sobre os problemas que as circundam,
mas também de produzir meios e condições que proporcionem a melhoria
da qualidade de vida deste segmento da sociedade.
O objeto deste estudo é o de focalizar as concepções de inclusão
social e educacional, presentes nas políticas públicas nacionais para a
formação inicial dos professores, implementadas a partir de 1988 até o
ano de 2010, com recorte nas direcionadas para a pessoa com deficiência.
O termo inclusão social, aqui, se refere às ações públicas voltadas
para os grupos de indivíduos como idosos, negros, ciganos, crianças que
moram na rua, minorias étnicas e lingüísticas, pessoas com deficiência,
que são excluídos ou têm um acesso reduzido aos bens materiais,
educacionais, culturais e aos recursos econômicos. Privilegia-se a ação
pública voltada a proporcionar a esses indivíduos a oportunidade e a
condição de serem incorporados à parcela da sociedade que não só usufrui
desses bens, como também vive com uma adequada qualidade de vida,
como cidadãos plenos, dotados de conhecimentos, meios e mecanismos
que lhes permitem participar, de forma consciente, da vida política
(MOREIRA, 2006).
As políticas públicas de inclusão examinadas neste trabalho são
aquelas que estão na esteira das políticas públicas sociais, as quais
compreendem o planejamento e a implementação, pelo Governo, de
ações e projetos que ampliem as possibilidades de acesso de diferentes
segmentos da sociedade a aspectos relativos à renda mínima, habitação,
lazer, emprego e educação. Trata-se, portanto, de examinar políticas
elaboradas como resposta às lutas reivindicatórias de diferentes grupos de
indivíduos pelo acesso aos direitos sociais.
Os defensores do processo de inclusão social (SASSAKI, 1997;
MOREIRA, 2006; EDLER CARVALHO, 2007; 2010) têm em vista promover
mudanças nos planos social, econômico, político e cultural, com a
finalidade de assegurar aos segmentos da sociedade que se organizam em
torno de uma determinada identidade (negros, mulheres, indígenas,
pessoas com deficiência, homossexuais, ciganos, dentre outros) o acesso
a direitos, como, por exemplo, trabalho, habitação, cultura, sufrágio
universal e educação.
A inclusão educacional está enredada na inclusão social e também
envolve a questão da garantia de direitos, de participação e de cidadania.
Tem como princípio fundamental a realização de mudanças na escola para
que todos aqueles que nela ingressam sejam beneficiados,
independentemente de suas diferenças e necessidades educacionais.
Contudo, a inclusão na escola tem especificidades, mesmo que esteja
relacionada à questão mais ampla da inclusão social.
Falar em inclusão educacional remete, portanto, ao reconhecimento
e à garantia de «direitos humanos», os quais, neste estudo, são
considerados direitos inerentes a qualquer pessoa; são universais (por
pertencerem igualmente a todos os membros da humanidade, além do
limite territorial ou de qualquer singularidade social, racial, étnica,
cultural, política ou econômica); são inalienáveis (dentro dos limites
legais); indivisíveis e interdependentes (MUÑOZ et al., 2006). Por isso, a
realização dos «direitos humanos» é algo desejável e um fim a ser
perseguido. Contudo, a sua concretização requer concessões por parte de
todos os segmentos de uma sociedade, o que implica, por sua vez, um
jogo de preferências pessoais, de opções políticas e de visões de mundo.
Os «direitos humanos» caracterizam-se, segundo Bobbio (2004),
por apresentarem duas grandes características. A primeira diz respeito à
sua mutabilidade: eles se transformam no decorrer da história, devido a
mudanças que ocorrem nas condições históricas, nas necessidades e nos
interesses tanto do grupo dominante quanto do grupo subalterno, bem
como dos meios para torná-los concretos.
Assim, os direitos declarados como absolutos, num determinado
momento histórico, em outro podem ser limitados ou ampliados. Um
exemplo de mudanças que ocorrem no âmbito dos direitos humanos são
os direitos sociais, o direito à diversidade e à diferença, que passaram a
ser proclamados com grande ênfase nos diferentes países e nos
documentos legais internacionais mais recentes. Já a segunda
característica dos direitos humanos se refere à sua diversidade, existindo
direitos com pretensões diferentes entre si e até mesmo incompatíveis.
Desse modo, há direitos que valem para todos os indivíduos
indistintamente e em qualquer situação, como os direitos fundamentais,
mas há também aqueles direitos que são antinômicos porque a efetivação
de alguns deles impede a realização integral de outros (BOBBIO, 2004).
O exame dos documentos e textos internacionais e nacionais que
tratam historicamente da fundamentação da inclusão educacional permitiu
identificar a relação entre seus respectivos conteúdos e as políticas
públicas implementadas no Brasil para reformar a educação, a partir da
década de noventa do século passado. As políticas que interessam a esta
pesquisa são particularmente aquelas dirigidas à formação inicial de
professores para atuar com a inclusão no ensino regular, com ênfase nas
pessoas com deficiência.
Os documentos focalizados neste estudo como, por exemplo, a Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96 - LDBEN), as
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da
Educação Básica em Nível Superior, Curso de Licenciatura, de Graduação
Plena, o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica,
mais especificamente aqueles direcionados para as pessoas com
deficiências tais como a Resolução nº 02 que institui as Diretrizes
Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica e a Política
Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva,
enfatizam a perspectiva de garantir oportunidades iguais a todas as
pessoas para o acesso à Educação Básica, e mesmo à Educação Superior.
Tal ênfase se deve ao fato de afirmarem que, apesar de avanços no
campo legal em relação à inclusão educacional, ainda permanecem
problemas como o de acesso, a permanência na e a qualidade da escola
na realidade educacional de vários países.
A existência de desigualdades sociais e de pessoas cujos direitos à
educação é evidenciada na Declaração Mundial sobre Educação Para Todos
(1990), ao afirmar que a garantia da universalização do acesso à
educação e a promoção da eqüidade tem como premissa superar as
disparidades educacionais. Para superar as “disparidades” seria preciso,
de acordo com a citada Declaração, que as nações assumissem o
compromisso de não deixar nenhuma pessoa (pessoas com deficiência,
trabalhadores, ricos ou pobres, povos indígenas, minorias étnicas, raciais
e lingüísticas, dentre outros) ser discriminada no acesso à educação.
Os grupos excluídos - os pobres: os meninos e meninas de
rua ou trabalhadores; as populações das periferias urbanas
e zonas rurais; os nômades e os trabalhadores migrantes;
os povos indígenas; as minorias étnicas, raciais e
lingüísticas: os refugiados; os deslocados pela guerra; e os
povos submetidos a um regime de ocupação - não devem
sofrer qualquer tipo de discriminação no acesso às
oportunidades educacionais. [...] As necessidades básicas de
aprendizagem das pessoas portadoras de deficiências requerem
atenção especial. É preciso tomar medidas que garantam a
igualdade de acesso à educação aos portadores de todo e qualquer
tipo de deficiência, como parte integrante do sistema educativo
(UNESCO, 1990, p.4, destaque nosso).
Existem diversos aspectos que influenciam o acesso de todos à
educação, tais como a rigidez das estruturas econômicas, a concentração
da riqueza produzida, o progresso técnico, a desigualdade regional e
social, a diferença entre as necessidades de aprendizagem manifestadas
pelos vários indivíduos. O fato é que o sistema educacional ainda não
conseguiu universalizar o acesso à educação, pois enfrenta dificuldades
para associar e garantir o ingresso, a permanência e a conclusão do
ensino básico, com qualidade, às pessoas afetadas pelas profundas
desigualdades sociais, como é destacado no Plano Decenal de Educação
(1993).
[...] o sistema educacional vem mostrando incapacidade de
associar o acesso, a permanência com qualidade e equidade para
uma clientela afetada por profundas desigualdades sociais. A
Região Nordeste, as zonas rurais, as populações de baixa renda e
a clientela que ingressa precocemente na força de trabalho devem
ser foco prioritário das ações. Da mesma forma, os indígenas
devem receber atenção diferenciada, levando-se em conta os
aspectos lingüísticos e culturais, além dos métodos de
aprendizagem próprios de suas comunidades. Como também os
portadores de necessidades especiais de educação, cujo
contingente é ainda expressivo no Brasil (BRASIL, 1993, p. 33).
A asserção de que o sistema educacional não tem conseguido
assegurar a todas as pessoas acesso à permanência na e conclusão da sua
escolaridade com qualidade é reafirmada por Duk (2006) ao ponderar
que, embora as reformas educacionais na América Latina tenham
promovido a expansão da Educação Básica, as desigualdades de
oportunidades educacionais ainda são mantidas. Para a referida autora, os
sistemas educacionais ainda não conseguiram dar respostas eficientes
“[...] às diferenças sociais, econômicas, geográficas, lingüísticas, culturais
e individuais [...]” (Ibid., p. 58) dos alunos. A conseqüência dessa
incapacidade aparece numa elevada taxa de analfabetismo funcional, de
repetência e evasão escolar na América Latina.
Esse é também o entendimento de Guimarães-Iosif (2009), para
quem, não obstante a significativa expansão do acesso à escola, ainda são
poucos os brasileiros que chegam a concluir a Educação Básica e
prosseguir estudos no Ensino Médio ou mesmo no Ensino Superior. A
autora considera que existe uma demora do governo e de toda a
sociedade em implementar políticas e ações voltadas para a educação
dos brasileiros principalmente daqueles que historicamente foram
marginalizados e expropriados de seus direitos.
A ausência de políticas nessa direção, para ela, contribuiu não só
para o avanço das desigualdades sociais no país como também para “[...]
a manutenção da pobreza daqueles que têm sido mantidos à margem dos
direitos sociais, principalmente, do direito à educação de qualidade”
(GUIMARÃES-IOSIF, 2009, p. 21). Para fundamentar seus argumentos, a
autora utiliza dados estatísticos do Sistema Nacional de Avaliação da
Educação Básica (SAEB) e do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira (INEP) que evidenciam a estreita relação entre a
desigualdade social e a desigualdade educacional.
Segundo Guimarães-Iosif, os alunos da escola pública brasileira, em
relação aos da escola privada, enfrentam maiores dificuldades para se
manter e/ou concluir seus estudos, em virtude da repetência, evasão ou
do envolvimento em situações de risco. Essa condição, para ela, se torna
mais dramática quando estão envolvidas as crianças e jovens pobres,
índios, negros ou afrodescendentes das periferias de grandes centros
urbanos.
A profunda pobreza e a desigualdade da população mundial levaram
as organizações internacionais, tais como a UNESCO, a fixar, nos anos
noventa do século vinte, várias metas a serem alcançadas até o ano de
2015, tais como a redução do número de pessoas que vivem em situação
de pobreza extrema (menos de um dólar por dia), a garantia da educação
primária universal, a eliminação da desigualdade por sexo na educação
até o ano de 2005, a redução da mortalidade infantil e materna, o acesso
universal aos serviços de saúde e a implementação de estratégias
nacionais de desenvolvimento sustentável em todos os países. A finalidade
dessas metas é a de reverter a perda de recursos ambientais até 2015,
devendo ser alcançadas por meio da implementação de estratégias para
promover o crescimento econômico e a redução das desigualdades de
renda; a superação das desigualdades baseadas no sexo, etnia, raça ou
posição social; a igualdade entre os sexos; as bases políticas e jurídicas
para um desenvolvimento inclusivo; a eliminação de barreiras sociais bem
como o reforço do capital social dos pobres28.
Com vistas à redução da pobreza, a UNESCO apresenta três frentes
de trabalho: promover oportunidades materiais aos pobres no tocante a
empregos, escolas, água, saneamento e outros serviços que sustentam a
saúde e os conhecimentos essenciais para o trabalho; facilitar a
autonomia das pessoas oriundas das classes pobres, através do
fortalecimento da participação das mesmas nos processos políticos e nas
decisões locais, bem como por meio da eliminação das barreiras sociais e
28 Cf. Relatório sobre o desenvolvimento mundial 2000/2001: luta contra a pobreza –
panorama geral (BANCO INTERNACIONAL DE RECONSTRUÇÃO E DESENVOLVIMENTO
(BIRD), BANCO MUNDIAL (BM), 2001).
institucionais que resultam de distinções baseadas no sexo, etnia e
condição social; e ainda aumentar a segurança por meio de ações que
reduzam a vulnerabilidade das pessoas a riscos como catástrofes
econômicas e naturais, doenças, incapacidade e violência.
Quanto ao desempenho da América Latina e do Caribe, a Comissão
Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) realizou uma
avaliação do alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM).
Em relação ao primeiro objetivo, que é o de reduzir à metade (entre 1990
e 2015) a proporção de pessoas com renda inferior a US$1/dia, a CEPAL
informa que ocorreu uma redução da pobreza na América Latina e Caribe
em cerca de quatro pontos percentuais (de 22,5% para 18,6%) entre
1990 e 2004. Considera, porém, que o mencionado avanço foi menor do
que o necessário para o cumprimento, no ano de 2015, daquela primeira
meta do Milênio. Além disso, o progresso verificado em relação à primeira
meta teria sido satisfatório no item referente à redução da fome e da
desnutrição infantil, sendo possível aos países da região latino-americana
cumprir a meta da erradicação da fome (CEPAL, 2010).
Já em relação ao segundo objetivo, que trata da garantia da
conclusão de um ciclo completo do Ensino Fundamental até o ano de
2015, a região da América Latina e do Caribe apresentava, no começo dos
anos noventa do século vinte, taxas líquidas de matrícula na Educação
Básica superiores a 90%29. Os valores das taxas continuaram
progredindo, de modo que vários países de desenvolvimento intermediário
conseguiram garantir o acesso ao ensino fundamental de mais de 95%
das crianças. Nos países de menor desenvolvimento o avanço das taxas
foi mais lento, ocorrendo um ligeiro retrocesso em Honduras e no
Paraguai.
Não obstante o alcance de níveis elevados de acesso da população à
Educação Básica, superando até mesmo os de outras regiões em
29 Cf. CEPAL, 2010.
desenvolvimento, os países continuam enfrentando numerosos desafios
em matéria de educação, pois na região o ritmo de crescimento não é
suficiente para universalizar a Educação Básica até o período previsto.
Se as tendências atuais persistirem, nenhum país alcançará a meta
no ano 2015, nem mesmo os que conseguiram avanços um tanto maiores
que os demais, como a Bolívia e o México. Mais de 6% das crianças da
América Latina e do Caribe não completariam a educação básica em 2015.
Em 10 países, de um total de 18, este índice estaria próximo de 5%
(Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Panamá, Peru,
Uruguai e Venezuela). Em quatro países ele se elevaria a uma cifra entre
7% e 12% (Bolívia, Brasil, Paraguai e República Dominicana) e, em El
Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, entre 18% e 31% dos
meninos e meninas não completariam a educação básica (CEPAL, 2010, p.
4).
É neste cenário que são pensadas, no âmbito de cada país, ações e
políticas públicas para ampliar a proteção aos grupos sociais subalternos,
bem como a difusão da concepção de inclusão social30 e educacional.
As políticas de inclusão são também públicas de caráter social.
Começaram a ser implantadas nas últimas décadas do século vinte, em
âmbito mundial, e abrangem questões como renda mínima, habitação
popular, emprego e formação profissional. Além disso, constituem um tipo
de resposta a aspectos que têm sido a base de muitos movimentos
sociais, quais sejam: etnia, gênero, deficiência orientação sexual, entre
outros temas que se inscrevem na história da luta pelo reconhecimento
dos direitos de todas as pessoas e que expressam o embate vivido por
diferentes forças e interesses sociais num determinado momento
histórico. As políticas públicas dirigidas a esses segmentos da sociedade
são apresentadas como solução, parcial ou total, para uma série de
30 Cf. Relatório sobre o desenvolvimento mundial 2000/2001: luta contra a
pobreza – panorama geral (BIRD, BM, 2001).
problemas identificados como «exclusão social», «apartheid social»,
«marginalização social» (GARCIA, 2004).
Alguns termos que têm marcado os textos das atuais políticas
públicas de caráter social são «inclusão», «sociedade inclusiva»,
«diversidade» (física, sensorial e sociocultural), «diferença», «eqüidade»,
«exclusão», «pobreza», «capital social», «proteção social», «necessidades
básicas de aprendizagem», «necessidades educativas especiais».
O termo «inclusão» é recente na produção teórica especializada, ou
mesmo em documentos relativos a políticas públicas, emergindo no início
da década de noventa e tendo suas raízes ligadas ao próprio processo de
lutas pelos direitos das pessoas com deficiência31 (SASSAKI, 1997;
GARCIA, 2004; MENDES, 2006; BARROS, 2009).
Sassaki (1997) evidencia que é a partir de 1981 que o conceito de
«inclusão» foi, de forma lenta, sendo definido por todas as pessoas, de
todos os setores sociais, que participavam e acompanhavam a luta das
pessoas com deficiência. Para o referido autor, o conceito relativo à
sociedade inclusiva foi introduzido nos espaços especializados na
discussão da deficiência, principalmente a partir de 1995, porém, hoje,
tornou-se válido em outros espaços nos quais se encontram presentes
pessoas com outras condições atípicas.
Sassaki (1997) menciona, ainda, que foi realizada pela Organização
das Nações Unidas (ONU), em Copenhague, no período de seis a doze de
março de 1995, a «Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Social».
Nesse evento, três temas centrais foram objetos de discussão: a
erradicação da pobreza, a promoção do pleno emprego e da integração
social. Da Cúpula resultaram dois documentos: a «Declaração de
31 Conforme evidencia Bisseret (1971, 1979) termos como deficiente e deficiência são
genericamente utilizados, sob várias denominações, nos diferentes períodos da história
da humanidade, constituindo-se assim em uma palavra que sustenta um sistema de
normas e de valores bem como de interpretações simbólicas da forma como as
sociedades se organizam.
Copenhague sobre Desenvolvimento Social» e o «Programa de Ação da
Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Social», este último integrado
por dez compromissos que os Governos signatários assumiram com vistas
a promover o desenvolvimento social em seus países. Na ocasião, o Brasil
apresentou relatório nacional elaborado pelo Governo com a participação
da sociedade civil, no qual foram contemplados os temas centrais de
Copenhague (BRASIL, 2000).
Aquele evento foi importante porque, primeiramente, de modo
distinto das demais conferências da agenda social da ONU, realizadas na
década de noventa do século passado, foi o primeiro grande encontro
internacional cuja finalidade foi a de tratar o tema do desenvolvimento
social. A abordagem desse assunto possibilitou aos governantes
presentes, ou aos seus representantes, reconhecer a importância do
desenvolvimento social e do bem-estar de toda a humanidade e dar
prioridade para esses dois temas, a partir do século XXI. Um segundo
ponto a ser considerado é que foi o primeiro grande evento a tratar do
tema do desenvolvimento social num período “[...] em que o
neoliberalismo, como alternativa "eficiente" ao chamado Estado-
Providência, e o culto do mercado, como fator de regulação "natural" da
convivência social, configuram a ideologia dominante em escala
planetária” (ALVES, 2001, p. 181).
Ao firmarem a «Declaração de Copenhague sobre Desenvolvimento
Social» (1995), os governos e os representantes dos países reconheceram
e se comprometeram a elevar o desenvolvimento social em todo o mundo,
com a finalidade de garantir a todo ser humano, principalmente àquele
que sofre com a pobreza, o desemprego e a exclusão social, o exercício de
seus direitos, a fim de que possa levar uma vida satisfatória (ONU, 2001).
Além disso, no relatório32 da «Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento
Social», a ONU menciona o conceito de «sociedade inclusiva» (SASSAKI,
1997). Trata-se de uma concepção, afirma Sassaki, segundo a qual a
sociedade deve mudar e se basear no respeito aos direitos e às liberdades
fundamentais de todas as pessoas, à diversidade cultural e religiosa, à
justiça social e às necessidades especiais de grupos vulneráveis e
marginalizados, bem como à participação democrática e à vigência do
direito.
No citado documento, portanto, a palavra «inclusão» foi relacionada
às pessoas com deficiência, por se referir ao fato de que a sociedade (e
em específico a escola) deveria se modificar e estar aberta às
particularidades de todas as pessoas, indiscriminadamente, oferecendo-
lhes condições e oportunidades iguais para realizarem seu potencial
humano. Para alcançar esse objetivo, a escola deveria passar por uma
reorganização e uma reestruturação do sistema comum de ensino.
Na atualidade, o termo «inclusão» agrega um número cada vez
maior de grupos marginalizados que integram as fronteiras da exclusão
social. Abrange não apenas a inserção de pessoas com deficiência aos
distintos espaços sociais (escola, trabalho, lazer, cultura, política saúde),
mas também diferentes segmentos da sociedade, vítimas de atos de
segregação, os quais ocorrem ora por questões relativas ao sexo, ao
gênero, à raça, à etnia, a cor, a diferenciações em sua compleição física
ou cognitiva, ora por aspectos religiosos, políticos, culturais, de saúde ou
mesmo econômicos.
A «inclusão» implica em transformar as estruturas das instituições
sociais para possibilitar a inserção de todos os indivíduos e, em específico,
as pessoas com deficiência, que historicamente foram discriminados e que
tiveram negados seus direitos como cidadãs (BARROS, 2009).
32 Cf. Relatório da ONU sobre a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social.
Tradução por: Sperber S.C. Ltda. E Nikolaus Karwinsky. São Paulo: Fundação Konrad-
Adenauer-Stiftung, 1995.
No decurso do século vinte, o termo «inclusão» surge num contexto
marcado pela crítica feita à modernidade por pensadores pós-
modernistas33 como François Lyotard (1986) e Boaventura de Sousa
Santos (2009), dentre outros. São intelectuais que colocam em dúvida e
questionam as metanarrativas, bem como no acesso e controle da
realidade objetiva por meio do conhecimento e do método, o triunfo da
razão, a educação baseada na missão cultural de uma elite como
responsável por orientá-la. A respeito deste último aspecto, Bauman
(2001) afirma que a classe dominante e administradora das empresas
capitalistas, pelo menos por duzentos anos, não só dominaram o mundo
como também delimitaram e restringiram as alternativas de trajetórias da
vida humana, pois sua visão do mundo é que alimentava e dava
substância ao seu discurso.
Lyotard (1986) e Santos (2009), por exemplo, apresentam críticas
incisivas ao projeto moderno, afirmando que, apesar das inegáveis
conquistas ocorridas nos campos da ciência e tecnologia, e que deveriam
levar o homem à emancipação e liberdade, passou-se a exigir do mesmo
“[...] sacrifícios imensos que, no limite, implicam a submissão total do ser
humano [...]” (GOERGEN, 2001, p.18-19).
No centro das críticas feitas pelos autores pós-modernos ganha
destaque, ainda, o fato de que o pensamento moderno ocidental “[...]
salienta-se por sua capacidade de produzir e radicalizar diferenças [...]”
33 Conforme afirmam Goergen (2001) e Freitas (2005), o termo ‘pós-modernidade’ é
intrinsecamente conflitante e contraditório, pois abre espaço para um leque de
discussões e questões tais como: já saímos da modernidade ou não? Já estamos na pós-
modernidade? A pós-modernidade expressaria uma ruptura radical com a modernidade?
A pós-modernidade seria uma mudança no interior da modernidade ou apenas um
modismo com dias contados?. A partir dessa compreensão seria incoerente tratar a «pós-
modernidade» ou «pós-moderno» como um movimento coeso e articulado, pois há nele
variadas posições assumidas pelos teóricos que se auto-definem como pós modernos. Em
face disso, neste estudo nos referiremos ao ‘pós-modernismo’ conforme este vem sendo
tratado por autores como Lyotard (1986) e Santos (2009), isto é, como um fenômeno do
tempo histórico atual que é marcado por incertezas em relação aos meta-relatos/meta-
narrativas os quais dizem respeito aos grandes esquemas histórico-filosóficos de verdade
e liberdade, história e progresso, razão e revolução, ciência e industrialismo criados na
era moderna.
(SANTOS, 2009, p. 24), bem como por manter o monopólio de uma
distinção e superioridade de determinadas culturas e/ou segmentos da
sociedade em relação a outros.
A crítica pós-moderna tem importância porque não só chama a
atenção para profundas mudanças na sociedade capitalista pós-industrial
como, também, contribui para redesenhar as fronteiras políticas, sociais e
culturais do modernismo. Além disso, enfatiza, concomitantemente, a
política de diferença racial, étnica e de gênero, aspecto esse que favorece
a abertura para a multiplicidade de vozes de outros grupos culturais e
aposta na diferença como forma de resistência (GIROUX, 1993;
GOERGEN, 2001). O principal objetivo da crítica feita pelos pós-modernos
é a defesa de aspectos como a autonomia, a liberdade de escolha, a auto-
afirmação do ser humano, bem como do direito de toda pessoa de ser e
permanecer diferente (BAUMAN, 2001).
No âmbito das reflexões dos autores situados no campo do pós-
modernismo, como, por exemplo, Santos (2009), são questionadas as
noções de «identidade», de «universalidade», de «verdade» e de
«normalidade». Tais noções, para ele, tomam como referência, em
contraposição ao todo, uma experiência particular, um conjunto de
valores, normas e conhecimentos que são desenvolvidos e que passam a
atuar no sentido de naturalizar a relações sociais. Ao colocar em xeque
aquelas noções, os autores pós-modernistas questionam, também, a
prática, presente na sociedade, de difusão de uma cultura dominante de
referência, que desconsidera o fato de que a realidade é diversa e que
seus membros são diferentes em termos de classe, gênero, raça (HALL,
2000). Portanto, uma prática que sustenta existir uma forma natural de
ser, tanto no âmbito da sociedade quanto do indivíduo, e que, por isso,
trata e vê os demais modos de ser e de organização social como
inferiores, primitivos, diferentes.
[…] Las otras formas de ser, las otras formas de organización de la
sociedad, las otras formas del saber, son transformadas no sólo en
diferentes, sino en carentes, en arcaicas, primitivas, tradicionales,
premodernas. Son ubicadas en un momento anterior del desarrollo
histórico de la humanidad, lo cual dentro del imaginario del
progreso enfatiza su inferioridad. Existiendo una forma “natural”
del ser de la sociedad y del ser humano, las otras expresiones
culturales diferentes son vistas como esencial o antológicamente
inferiores e imposibilitadas por ello de llegar a “superarse” y llegar
a ser modernas (debido principalmente a la inferioridad racial) […]
(LANDER, 2005, p. 24).
Nos países latino-americanos, o direito à educação, desde as
primeiras ocasiões em que foi anunciado, referiu-se a explicações
baseadas em aspectos como atraso e inferioridade cultural, deficiências e
situações sociais adquiridas e/ou insuperáveis. É o que mostra Puiggrós
(2010, p.18) ao enfatizar que os povos latinoamericanos “[…] tenían que
adoptar el modelo de los países que habían triunfado. El derecho a la
educación de nuestros pueblos se reducía a la sustitución de las propias
culturas por la cultura dominante [...]”.
Levando-se em conta a crítica feita à modernidade, o conceito de
«inclusão» se fundamenta em valores humanitários universais e no
acolhimento da diversidade social (BARROS, 2009), mostrando ser
imperativo o reconhecimento da singularidade de cada segmento social
(deficientes, idosos, mulheres, crianças, desempregados, homossexuais,
etc) que tem lutado não só pela igualdade de direitos e deveres como
também pela oportunidade de acesso aos fundamentos de uma vida digna
(o que envolve o acesso à educação de qualidade, ao lazer, à habitação, à
saúde, ao emprego, à alimentação e ao transporte), portanto, o direito a
uma cidadania igualitária para todos.
Nesse contexto marcado pelas críticas pós-modernas a educação
passa a ter um papel fundamental nas decisões tomadas pelo Estado,
visando a garantir profissionais qualificados exigidos pelo modelo de
desenvolvimento adotado, como também no que se refere à ideia de
«inclusão». Isso porque uma das grandes questões que se impõe
atualmente à sociedade é o desafio de promover e garantir a inclusão do
«Outro» nos diferentes espaços sociais. Uma tal garantia acarreta, como
consequência, resolver problemas como o da discriminação racial, a
dificuldade dos diferentes grupos sociais para conviverem com as suas
diferenças (étnicas, de gênero, geracionais bem como as diferenças
mentais e físicas).
O destaque dado pelas políticas públicas à questão da inclusão e a
crescente abertura da sociedade para a diversidade, para o diferente, nas
últimas décadas, se deve, em boa parte, à própria atuação dos diferentes
movimentos sociais (negros, mulheres, gays, lésbicas, índios, migrantes,
moradores de periferia urbana) (CASTELLS, 1999; HALL, 2000; HARVEY,
2001). Eles surgiram a partir dos anos sessenta e setenta, lutando pelo
direito de acesso aos bens sociais necessários para garantir uma vida
digna e participativa na sociedade, bem como o respeito pela diferença.
Aqueles movimentos sociais se tornaram as principais fontes de
resistência à exploração econômica, à dominação cultural e à repressão
política (CASTELLS,1999). Conscientes de seus direitos no âmbito da
educação, da saúde, da moradia e da terra, passaram a reclamar uma
sociedade que não só rompesse com seus modelos de exclusão,
considerasse a realidade intercultural e multiétnica (HALL, 2000).
Apesar do fortalecimento do discurso em defesa do direito à
educação, bem como da proposição e difusão de políticas sociais
fundamentadas ao reconhecimento da diversidade e das diferenças
humanas, ainda existem formas segregacionistas no meio social (seja na
escola, no mundo do trabalho, do lazer ou da cultura) que se realizam em
detrimento da almejada «eqüidade» e implica a oferta de oportunidades
diferenciadas com vistas à busca da igualdade (NOVAIS, 2005; BARROS,
2009).
Para Veiga-Neto (2010), a noção da «inclusão», nos últimos anos,
juntamente às noções de «direitos humanos», «democracia» e
«cidadania», tornou-se um imperativo o qual ninguém se arrisca a
contestar e questionar. Desse de modo, “[...] qualquer problematização
que se pense fazer sobre as políticas e as práticas de inclusão logo é vista
como uma posição autoritária, conservadora, reacionária [...]” (VEIGA-
NETO, 2010, p. 14).
Os elementos apresentados até o momento mostram que as
discussões realizadas em âmbito mundial, a partir aproximadamente dos
anos sessenta em diante, sobre a situação dos indivíduos que não têm
tido a possibilidade não só de participar de forma democrática da
organização da sociedade como também de ter acesso às condições
objetivas para o desenvolvimento físico, cultural, educacional e econômico
passa a ser repensada pelos governos dos diferentes países. Tal fato dá
origem a um intenso movimento de reformas políticas oriundas de
orientações de agências internacionais como, por exemplo, o BM, que
enfatizam a questão da igualdade de oportunidade, eqüidade e inclusão
social e que vão atingir a estrutura dos diferentes serviços públicos, bem
como a forma de gestão do Estado nos países em desenvolvimento (MARI,
2006).
A partir, mais especificamente, da realização da Conferência Mundial
sobre Educação para Todos (1990) e da Conferência Mundial sobre
Necessidades Educativas Especiais: acesso e qualidade (1994) tem lugar a
popularização dos termos «educação para todos», «eqüidade»,
«diversidade», «inclusão», «inclusão social» e «educação inclusiva». Tais
termos passam a estar presentes na legislação relacionada às reformas
sociais implantadas em diferentes países, a partir da década de noventa
do século vinte. Eles contribuem para difundir o paradigma da inclusão
social e educacional, bem como para assegurar à educação um novo e
estratégico papel na sustentabilidade dos países envolvidos com a agenda
neoliberal, bem como com a função de organizar meios inclusivistas de
acesso ao e de permanência no ambiente escolar e social. Trata-se,
portanto, de “[...] educar para as diversidades sociais, culturais,
econômicas, étnicas, biológico-físico-sensoriais [...]” (ROSS, 2002).
Nesse cenário, as políticas educacionais atribuem à escola a
finalidade de buscar orientar suas ações em consonância com o discurso
da «inclusão», que tem como princípio a diversidade, como característica
da existência humana, a democratização do ensino de qualidade e a
igualdade de oportunidade para todos.
A chamada «educação para todos» (EPT) torna-se um imperativo no
contexto das políticas econômicas e sociais neoliberais, elaboradas por
organizações internacionais, assim como naquelas elaboradas no Brasil. A
justificativa para tal imperativo, na educação, estaria, segundo a
Declaração Mundial sobre Educação Para Todos (1990), na sua
importância fundamental para o progresso pessoal e social, para a
superação da pobreza e das mazelas sociais, bem como por possibilitar à
população exercer sua cidadania e adquirir conhecimentos e habilidades
indispensáveis para se inserir no mercado de trabalho (SARDAGNA,
2007).
Assim, é implantada uma reforma no setor educacional brasileiro
com a finalidade de melhorar a qualidade da educação oferecida em todos
os níveis de ensino, estruturar um sistema educacional articulado em seus
níveis e modalidades, reduzir o alto índice de analfabetismo e também
para ampliar a oferta de vagas, possibilitando, com isso, universalizar o
ensino e reduzir as desigualdades sociais e regionais.
A finalidade daquelas mudanças propostas para a educação,
segundo Oliveira, D. (2009), era, sobretudo, a de elevar a escolaridade da
força de trabalho e a qualidade do ensino ministrado nas instituições
educativas com a perspectiva de estabelecer condições que
possibilitassem ao Brasil garantir sua competitividade, eficiência e
produtividade, aspectos estes demandados pelo mercado e pelo capital.
Um dos pontos cruciais dessa reforma é a formação de professores,
conforme apontam, por exemplo, os textos dos documentos legais
aprovados na Conferência Mundial sobre Educação para Todos (1990) e na
Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: acesso e
qualidade (1994). Nesses documentos, afirma-se que os professores
constituem o recurso mais caro e poderoso para a melhoria da qualidade
da educação, para o desenvolvimento das escolas inclusivas e, ainda, o
meio principal para garantir a formação de profissionais com capacidade
de operar no mundo globalizado. É nessa perspectiva que, no âmbito das
políticas públicas do setor educacional, a partir da década de noventa do
século passado, para fazer face ao contingente de alunos que ingressou
na escola “[...] a reforma na formação de professores veio na seqüência
da prioridade de universalização do ensino fundamental” (MAUÉS, 2003,
p. 98).
Entretanto, a chamada «inclusão educacional» tem gerado uma
confusão no papel desempenhado pelas instituições de ensino, as quais
hoje, mais do que nunca, tiveram que construir mecanismos para
responder às exigências sociais dos segmentos da sociedade até então
excluídos do acesso à educação. Com isso, a escola tem assumido o papel
não só de transmissora de um saber sistematizado e historicamente
acumulado, como também de incluir socialmente os indivíduos que
buscam nela ingressar, por meio do desenvolvimento de atividades de
assistência pedagógica, social e psicológica, alimentação, segurança e
qualificação para os postos de trabalho.
As políticas públicas fundamentadas na concepção da inclusão social
e educacional, formuladas no Brasil a partir do final dos anos oitenta do
século passado e implementadas na década seguinte, introduziram uma
confusão de papéis dos sujeitos que atuam na escola, levando-os a se
debruçar, por exemplo, sobre questões como segurança pública,
emprego/desemprego, saúde, assistência social e alimentação. A escola
passou a ser compreendida não só como espaço de ensino, mas, também,
como lugar da promoção de justiça social, como elemento capaz de
corrigir desequilíbrios presentes na estrutura social e econômica da
sociedade. Por isso, deveria atuar em áreas como distribuição de renda
(por meio de programas sociais como Bolsa-Família e o ProJovem, entre
outros) e políticas de saúde (por meio de participação na efetivação de
certas políticas de saúde - vacinas, exames médicos - e alimentação -
através da merenda escolar) (OLIVEIRA, D., 2009).
Paralelamente ao fato de a escola assumir novas funções, coloca-se
em xeque a sua capacidade de exercer com competência o papel de
sistematizadora e socializadora dos conhecimentos produzidos
historicamente, oferecendo uma educação de qualidade para todos, por
meio da organização de ações que contemplem as necessidades de
aprendizagem de crianças, jovens e adultos com ou sem deficiência. A
esse respeito, Carmo (2006) considera que, no contexto atual, parece
existir uma contradição entre os objetivos e as metas que a sociedade
espera que a escola alcance. Isso porque, embora a sociedade anseie que
as instituições de ensino socializem e individualizem os alunos, bem como
lhes ensine valores e conhecimentos hegemônicos, concomitantemente,
respeitando os estatutos históricos, as habilidades, as capacidades e
valores individuais de cada aluno, a instituição escolar ainda não
conseguiu estabelecer a ponte entre os objetivos, interesses e as culturas
conflitantes.
Apesar do discurso em defesa dos «direitos humanos», bem como
da proposição e difusão de políticas sociais fundamentadas no
reconhecimento da diversidade e diferenças humanas, o que se observa é
a ocorrência, ainda, de formas segregacionistas no meio social (seja na
escola, no mundo do trabalho, do lazer ou da cultura) em detrimento da
tão almejada eqüidade, que implica a equiparação de oportunidades de
acesso a recursos e oportunidades no meio social, assim como na
distribuição de ganhos e perdas.
O objetivo presente nos documentos que trazem a concepção de
inclusão de tornar acessível a todas as pessoas, independente de suas
habilidades e condições, os meios para a qualidade de vida digna colide
tanto com a tendência excludente da dinâmica social quanto com a
estrutura e organização do processo educativo. Ambas estabelecem
critérios e conceitos que, apoiados em parâmetros estatísticos e
comparativos, ou em peculiaridades da forma e/ou função das estruturas
físicas das pessoas, acabam por instituir a desigualdade e separar o aluno
«ideal» do «diferente» (FERREIRA, M.; FERREIRA, J., 2004).
Nesse quadro, ao mesmo tempo em que a escola busca
desempenhar suas tarefas, a Universidade, responsável pela formação
inicial e continuada dos professores, vem sendo criticada por ser
considerada muito «teórica» e distante da realidade e das demandas das
escolas, da sociedade e das novas exigências do mundo do trabalho. Além
disso, a Universidade tem sido responsabilizada pelo despreparo dos
egressos ao término de seus estudos, por não conseguirem obter sucesso
durante seu percurso de formação e, com isso, os professores passaram a
ser responsabilizados pelos problemas enfrentados no ambiente escolar,
conforme destacam os autores Leão e Da Costa (2005), por exemplo.
Essas são, entre outras, as razões pelas quais os professores tornaram-se
o foco central de muitas das políticas implementadas no setor
educacional, nos últimos anos, conforme veremos no Capítulo III, e
passaram a ser mais diretamente responsabilizados pela aprendizagem e
pelo desempenho dos alunos, bem como pelos problemas enfrentados no
ambiente escolar.
Como exemplo do argumento de que os professores passaram a ter
maior centralidade nas políticas públicas, encontra-se a matéria publicada
na Revista Nova Escola, intitulada “A formação docente é prioridade para
o ministério”. Ali, o ministro da Educação, Fernando Haddad, aponta,
dentre outros aspectos, para a necessidade das universidades públicas
prepararem mais e melhores os professores para o Ensino Fundamental e
salienta que a área da formação de professores é uma área de destaque
em investimento dentro da política do Ministério da Educação (MEC)
(GROSSI; PELLEGRINI, 2008).
O tema da «inclusão», assim como o da «diversidade» (cultural,
social, de gênero, de capacidades, etc.), «diferença», «educação para
todos», «igualdade» e «direitos humanos», se constitui em um aspecto
central das políticas públicas implementadas, principalmente no âmbito da
educação e, mais especificamente, na formação de professores, como
atestam, por exemplo, documentos como a Declaração Mundial sobre
Educação Para Todos (1990), a Declaração de Salamanca e Linha de Ação
sobre necessidades educativas especiais (1994), o Plano Nacional de
Educação (2001-2011). A educação, assim, é tida como um fator que
possibilita efetivar os direitos humanos que são consagrados em
diferentes políticas internacionais e que têm sido acordadas nas políticas
brasileiras.
Praticamente todos os documentos e textos, internacionais e
nacionais, que tratam da fundamentação da inclusão educacional,
baseados na justiça e no reconhecimento da igualdade básica dos seres
humanos, enfatizam a necessidade de dar prioridade, nas políticas
públicas educativas, aos grupos mais desfavorecidos e vulneráveis pela
condição de pobreza, minorias étnicas, alunos com dificuldades de
aprendizagem, pessoas com deficiência, mulheres, analfabetos maiores de
quinze anos, dentre outros, com a finalidade de reduzir as desigualdades
e proporcionar-lhes uma vida mais digna.
A análise sobre a concepção de inclusão social e educacional
presente nas políticas públicas direcionadas para a formação de
professores e dos princípios a ela associados (inclusão, diversidade,
eqüidade de oportunidades, diferença, igualdade de direitos e cidadania),
com foco na inserção das pessoas com deficiência no ensino regular,
demanda a utilização de instrumentos conceituais e metodológicos que
permitam estabelecer relações entre as ideias e os aspectos econômicos,
políticos e culturais que contribuíram para o surgimento dessa concepção
e sua incorporação nas políticas públicas, de modo a apreender a
interdependência entre todos os aspectos envolvidos no objeto, foco desta
pesquisa, em seu movimento dialético. O referencial teórico que permitiu
captar esse movimento foi o pensamento de Antonio Gramsci por meio,
especialmente, dos conceitos de «hegemonia», «Estado», «sociedade
civil» e o «princípio da unidade na diversidade». O referencial do pensador
sardenho é rico e contribui para elucidar a situação de exclusão social em
que vive uma grande parcela da população, exclusão que se expressa,
também, no âmbito da educação pública, especialmente para as pessoas
com deficiência, um dos aspectos abordado nesta pesquisa. Além disso,
permite entender o papel fundamental dos professores no processo de
formação de uma nova cultura.
1.3. Procedimentos Metodológicos
Esta pesquisa foi desenvolvida com base na combinação de duas
ordens de estudos: a qualitativa e a quantitativa.
Do ponto de vista qualitativo, foram utilizados dois tipos de
delineamentos que se interrelacionam, o estudo bibliográfico e o
documental.
Entre os objetivos que conduziram a um estudo de caráter
bibliográfico está a busca de informações, uma vez que em relação ao
problema focalizado elas se encontram muito dispersas. A pesquisa
bibliográfica abrangeu o universo de trabalhos teóricos desenvolvidos em
campos como, por exemplo, o da filosofia, política, história, sociologia e
antropologia, permitindo identificar contribuições de diversos autores
sobre o assunto examinado (GIL, 1996). A pesquisa bibliográfica sobre o
tema da formação de professores e a inclusão educacional das pessoas
com deficiência, políticas de inclusão social e educacional foi realizada a
partir da consulta a livros, dissertações, teses, artigos em diferentes
revistas e anais de congressos científicos nacionais e internacionais.
A pesquisa documental, por sua vez, embora se assemelhe à
pesquisa bibliográfica, teve como diferença essencial a natureza da fonte
de dados, pois valeu-se de materiais que ainda não receberam tratamento
analítico ou que poderiam ser reelaborados, conforme os objetivos da
pesquisa (GIL, 1996). Assim, os documentos constituíram a fonte primária
para coleta dos dados deste estudo, os quais foram obtidos por meio da
consulta a sites do governo brasileiro e de organismos internacionais.
Segundo Quivy e Campenhoudt (2008), dentre as várias razões para
o desenvolvimento de uma pesquisa com base em documentos, está o
fato de esse material permitir obter informações úteis para ampliar o
conhecimento de aspectos macrossociais, demográficos e sócio-
econômicos, ideológicos e culturais, bem como analisar mudanças sociais
e o desenvolvimento histórico de fenômenos sociais.
Para Lüdke e André (1986) a pesquisa que tem como base para
coleta de dados ‘documentos’ se constitui em uma abordagem valiosa,
pois possibilita não só complementar informações, mas, também, desvelar
aspectos novos de um problema ou tema de estudo. Essa é também a
avaliação de Flick (2009), quando discute a utilização de documentos
como fonte de dados, salientando que eles não se configuram apenas
como uma simples representação dos fatos ou da realidade, mas são um
meio de comunicação e são produzidos (por alguém ou por uma
instituição) visando ao alcance de objetivos específicos. A opção pela
análise de documentos deve levar em conta o conteúdo, o contexto, a
utilização e a função dos mesmos, pois eles possibilitam apreender a
construção de um evento ou processo a partir de uma versão específica e,
normalmente, mais ampla.
O estudo de documentos relativos às concepções de inclusão social e
educacional presentes nas políticas públicas nacionais para a formação
inicial dos professores, com recorte nas direcionadas para a pessoa com
deficiência se configurou de singular importância para a apreensão das
diretrizes oficiais, concepções, justificativas e fundamentação que
norteiam a implementação da política de inclusão, pois os documentos
elaborados em âmbito internacional e nacional é que passaram a orientar
as ações não só governamentais em cada país, mas, também, numa
perspectiva micro, no âmbito dos cursos de formação de professores e na
prática pedagógica dos mesmos.
Quanto às informações quantitativas, foram considerados dados
censitários educacionais e indicadores de matrículas referentes às pessoas
com deficiência, bem co