UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS ALINE LUIZA DA CUNHA Análise do Priming lexical das composições sintagmáticas em textos publicitários: Por uma metodologia em que o léxico seja o ponto central do Ensino de Língua Portuguesa BELO HORIZONTE 2017 ALINE LUIZA DA CUNHA Análise do Priming lexical das composições sintagmáticas em textos publicitários: Por uma metodologia em que o léxico seja o ponto central do Ensino de Língua Portuguesa Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de doutor em Linguística Aplicada. Área de Concentração: Linguística Aplicada Linha de Pesquisa: Ensino de Português Orientador: Prof. Dr. Aderlande Pereira Ferraz Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG 2017 FICHA CATALOGRÁFICA FOLHA DE APROVAÇÃO ALINE LUIZA DA CUNHA Análise do Priming lexical das composições sintagmáticas em textos publicitários: Por uma metodologia em que o léxico seja o ponto central do Ensino de Língua Portuguesa Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de doutor em Estudos Linguístico pela Comissão Julgadora composta pelos membros: COMISSÃO JULGADORA Prof. Dr. Aderlande Pereira Ferraz -UFMG (orientador) Profa. Dra. Ieda Maria Alves - USP Prof. Dr. Bruno Oliveira Maroneze - UFGD Profa. Dra. Maria Cândida Trindade Costa de Seabra - UFMG Prof. Dr. Sebastião Camelo da Silva Filho - UFMG Ao meu querido pai. Minha grande motivação e inspiração AGRADECIMENTOS Um processo de doutorado é um projeto longo e ousado. Durante os quatro anos é preciso ter planejamento, tempo disponível, disciplina e muita coragem. Coragem para aceitar não apenas as coisas que saem do seu planejamento, mas a grande mudança que naturalmente acontece com as muitas descobertas que esse trajeto nos proporciona. Neste período de descobertas, quero agradecer àqueles que de alguma forma me ajudaram durante minha caminhada. Agradeço ao meu orientador, Prof. Dr. Aderlande Pereira Ferraz, por desde a graduação ter confiado em meu trabalho quando me ofereceu a oportunidade de fazer pesquisa. Agradeço pela disponibilidade em compartilhar conhecimento, pela generosidade, pelas leituras cuidadosas e por todo o incentivo que me deu ao longo destes anos. Admiro seu senso de justiça e o professor competente que é. Agradeço a CAPES, pelo apoio financeiro para a realização desta pesquisa. Agradeço aos professores da Pós-Graduação, que contribuíram para a realização deste trabalho e para minha formação acadêmica. Em especial, os professores que aceitaram compor a banca examinadora pela contribuição com esta pesquisa. Ao meu pai, pelo apoio e amor incondicional e por ter me iniciado no mundo das letras, quando, mesmo cansado do trabalho, me ajudava a melhorar minha leitura. À minha linda mãe, cuja presença espiritual sempre guiou os meus passos. Ao meu amor, companheiro e marido, Thiago Carvalho, por me apoiar, entender minha ausência e fazer de tudo para que eu tivesse as condições necessárias para a elaboração deste trabalho. À minha irmã, Lidiane, que mesmo distante sempre apoiou minha vida acadêmica. Aos amigos que eu trouxe na bagagem ou conheci no caminho. À minha amiga Marina Morena, pela amizade longa e sincera e pela disponibilidade de me ajudar sempre, seja me dando conselhos ou apenas me ouvindo. Aos amigos da pós-graduação de longa data, Geraldo e Bárbara, pela amizade e momentos prazerosos e de aprendizagem nos congressos. Aos amigos que tive o privilégio de conhecer durante o doutorado, Bernadete, Ana Flávia, Sebastião e Maria Aparecida, pela troca de conhecimento. Certa palavra dorme na sombra de um livro raro. Como desencantá-la? É a senha da vida a senha do mundo. Vou procurá-la. […] (A palavra mágica - Carlos Drummond de Andrade) RESUMO Esta pesquisa, essencialmente qualitativa e de caráter exploratório, tem por objetivo principal fazer a análise de um corpus de composições sintagmáticas neológicas veiculadas em textos publicitários de três revistas noticiosas, a saber, Veja, Época e IstoÉ. O corpus pertence à base de dados do projeto Observatório de neologismos na publicidade impressa: aplicação ao desenvolvimento da competência lexical, projeto em andamento na Faculdade de Letras sob a orientação do Prof. Dr. Aderlande Pereira Ferraz. A partir da análise das composições sintagmáticas espera-se evidenciar não apenas a estrutura lexical dessas unidades, mas o padrão de uso dessas estruturas no que tange aos aspectos semântico, lexical (colocacional) e gramatical (coligacional). Consideramos, portanto, que as informações sobre o padrão de uso das composições em textos reais são essenciais para o contexto de ensino e aprendizagem de língua portuguesa no que se refere ao ensino do léxico e, consequentemente, ao desenvolvimento da competência lexical do aluno. As composições sintagmáticas foram analisadas, principalmente, à luz da teoria da teoria Lexical Priming (HOEY, 2005) e do enfoque Lexical Approach (LEWIS, 1993), que têm como pressuposto principal o entendimento de que o léxico é sistematicamente estruturado e a gramática é o resultado dessa estrutura lexical e, portanto, o léxico deve ocupar uma posição central no ensino de línguas, ou seja, o ponto de partida das práticas didáticas no ensino de línguas. Os dados foram organizados de modo a evidenciar o priming semântico, priming colocacional (textual) e o priming coligacional das composições sintagmáticas considerando o contexto publicitário. A discussão dos dados foi feita de maneira que fosse estabelecida uma relação direta entre o priming lexical e sua exploração no ensino de português a favor do desenvolvimento das competências lexical e discursiva do aluno em sala de aula. Esperamos com esta pesquisa evidenciar uma nova abordagem de exploração do léxico e, assim, contribuir para uma mudança metodológica no ensino de português. Palavras-chave: Léxico; Lexical Priming; Abordagem Lexical; Competência lexical; Ensino de Língua Portuguesa. ABSTRACT This research, essentially qualitative and exploratory, has the main objective of analyzing a corpus of neological syntagmatic compositions found in advertising texts of three Brazilian magazines, namely Veja, Época and IstoÉ, which belongs to the database of a project called O corpus pertence à base de dados do projeto Observatório de neologismos na publicidade impressa: aplicação ao desenvolvimento da competência lexical, project in progress in the Faculdade de Letras under the guidance of Prof. Dr. Aderlande Pereira Ferraz. From the analysis of the syntagmatic compositions, it is expected to show not only the lexical structure of these units, but the standard of use of these structures as far as the semantic, lexical (colocational) and grammatical (colligational) aspects are concerned. Therefore, we consider that the information about the pattern of use of the compositions in real texts is essential for the context of teaching and learning of Portuguese with regard to the teaching of lexicon and, consequently, to the development of lexical competence of the students. The syntagmatic compositions were analyzed mainly in the light of the lexical theory Lexical Priming (HOEY, 2005) and the Lexical Approach (LEWIS, 1993). Both theory and approach have as main presupposition the understanding that the lexicon is systematically structured and the grammar is the result of this lexical structure and in this way the lexicon should occupy a central position in language teaching and the starting point of didactic practices in language teaching. The analyzed data were organized in order to show the semantic priming, colocational (textual) priming and the colligational priming and the data discussion was done in a way that it was established a direct relation between lexical priming and its exploration in the teaching of Portuguese in favor of the development of lexical and discursive competences in the classroom. We hope with this research to highlight a new approach to lexical exploration and, thus, to contribute to a methodological change in the teaching of Portuguese. Keywords: Lexicon; Lexical Priming; Lexical competence; Portuguese language teaching. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1: Porcentagem da sequência de acordo como tempo verbal 84 ------------------------ FIGURA 2: Porcentagem de coligação do substantivo “consequence” 85 ------------------------ FIGURA 3: Os campos semânticos 105 ----------------------------------------------------------------- FIGURA 4: As subcategorias dos campos semânticos 106 -------------------------------------------- FIGURA 5: campanha publicitária CVC. 134 ---------------------------------------------------------- FIGURA 6: Campanha publicitária do bando BDMG 134 -------------------------------------------- FIGURA 7: Campanha publicitária Moneygram 135 -------------------------------------------------- FIGURA 8: Campanha publicitária da klm 135 -------------------------------------------------------- FIGURA 9: Composições formadas a partir do vocábulo “verde” 149------------------------------ LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO 1: COMPOSIÇÃO SINTAGMÁTICA PADRÃO. 178 ............................................ GRÁFICO 2: COMPOSIÇÃO SINTAGMÁTICA LONGA 179 ................................................ GRÁFICO 3: COMPOSIÇÃO SINTAGMÁTICA COM SIGLA VERNÁCULA 180 .............. GRÁFICO 4: COMPOSIÇÃO SINTAGMÁTICA COM SIGLA ESTRANGEIRA 180 ........... GRÁFICO 5: COMPOSIÇÃO COM ESTRANGEIRISMO 181............................................... LISTA DE QUADROS QUADRO 1: possíveis modificações das colocações 51 ----------------------------------------- QUADRO 2: Exemplos de compostos coordenativos . 54 ---------------------------------------- QUADRO 3: Processos de formação neológica/mecanismo da própria língua 59 ------------- QUADRO 4: Formação neológica por mecanismo de outro sistema linguístico. 60 ---------- QUADRO 5: Modelo de tabela de coleta de neologismos 98 ------------------------------------- QUADRO 6: Neologismos automobilística 113 ---------------------------------------------------- QUADRO 7: Neologismos tecnologia/informática 113 ------------------------------------------- QUADRO 8: Neologismos moda (beleza/vestuário) 114 ------------------------------------------ QUADRO 9: Neologismos eletrodomésticos/móveis 114 ----------------------------------------- QUADRO 10: Neologismos telefonia 114 ----------------------------------------------------------- QUADRO 11: Neologismos habitação 115 ---------------------------------------------------------- QUADRO 12: Neologismos turismo/entretenimento 115 ----------------------------------------- QUADRO 13: Neologismos rede bancária 115 ----------------------------------------------------- QUADRO 14: Neologismos saúde 116 ------------------------------------------------------------- QUADRO 15: Neologismos alimentação e bebidas 116 ------------------------------------------- QUADRO 16: Associação semântica de “cabine” 122 -------------------------------------------- QUADRO 17: Associação semântica de “sensor” 124 --------------------------------------------- QUADRO 18: Associação semântica de “Câmbio” 126 ------------------------------------------- QUADRO 19: Associação semântica de “Farol” 128---------------------------------------------- ABREVIATURAS AC - Análise de Conteúdo LC - Linguística de Corpus LDP - Livro Didático de Português LP - Lexical Priming PCNs - Parâmetros Curriculares Nacionais PLN- Processamento Automático das Línguas Naturais UFs - Unidades Fraseológicas SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 17 ----------------------------------------------------------------------------------- 1.1 Justificativa 20 ----------------------------------------------------------------------------------------- 1.2 Objetivos 22 ------------------------------------------------------------------------------------------- 2. REFERENCIAL TEÓRICO 24 -------------------------------------------------------------------- 2.1 O léxico 24 --------------------------------------------------------------------------------------------- 2.1.1 O léxico sob diversos olhares 27 ----------------------------------------------------------------- 2.2 O léxico no ensino de português 31 ---------------------------------------------------------------- 2.2.1 O léxico e o desenvolvimento da competência lexical 38 ------------------------------------- 2.2.2 A competência léxico-fraseológica 42 ----------------------------------------------------------- 2.3 A propaganda como um gênero textual 43 --------------------------------------------------------- 2.4 Unidades Fraseológicas 45 -------------------------------------------------------------------------- 2.4.1 Colocação: unidade lexical ou propriedade da língua? 48 ------------------------------------ 2.5 A composição sintagmática 53 --------------------------------------------------------------------- 2.5.1 Composições sintagmáticas: siglas e acronímica 56 ------------------------------------------- 2.6 A neologia lexical 58 --------------------------------------------------------------------------------- 2.7 A abordagem lexical 62 ------------------------------------------------------------------------------ 2.8 A teoria Lexical Priming (LP) 64 ------------------------------------------------------------------- 2.8.1 Priming: da Psicologia à Linguística 65 -------------------------------------------------------- 2.8.2 Hipóteses e principais características da Lexical Priming (LP) 70 -------------------------- 2.8.3 Considerações sobre a Lexical Priming 89 ----------------------------------------------------- 2.9 A Linguística de Corpus (LC) 90 ------------------------------------------------------------------ 3. METODOLOGIA DE PESQUISA 93 ------------------------------------------------------------- 3.1 A natureza da pesquisa 94 ---------------------------------------------------------------------------- 3.2 O corpus 95 ------------------------------------------------------------------------------------------- 3.2.1 O corpus de exclusão e o critério lexicográfico 98 --------------------------------------------- 3.3 Procedimentos adotados para a análise dos dados 100 -------------------------------------------- 3.3.1 Divisão por áreas do conhecimento 100 ---------------------------------------------------------- 3.3.2 Análise da associação semântica 102 -------------------------------------------------------------- 3.3.4 Análise do aspecto coligacional das composições sintagmáticas 107 ------------------------ 3.3.5 Análise do léxico e sua relação com as mudanças na sociedade 108 -------------------------- 3.3.6 Análise da variação e adaptação dentro do texto publicitário 109 ----------------------------- 3.3.5 Composições sintagmáticas sinônimas 110 ------------------------------------------------------ 3.3.6 Análise tipológica das composições sintagmáticas 110 ----------------------------------------- 4. ANÁLISE DOS DADOS 112 ------------------------------------------------------------------------- 4.1 Exemplos de neologismos por áreas de especialidades 112 -------------------------------------- 4.1.1 Composições que transitam por várias áreas de especialidade 117 ---------------------------- 4.2 O léxico e suas associações 119 --------------------------------------------------------------------- 4.2.1 Associação semântica 119 -------------------------------------------------------------------------- 4.2.1.1 A produtividade do vocábulo “cabine” 120 ----------------------------------------------------- 4.2.1.2 A produtividade do vocábulo “sensor” 123 ----------------------------------------------------- 4.2.1.3 A produtividade do vocábulo “câmbio” 125 ---------------------------------------------------- 4.2.1.4 A produtividade do vocábulo “farol” 127 ------------------------------------------------------- 4.2.2 Colocações das composições sintagmáticas 129 ------------------------------------------------ 4.2.3 Colocações textuais das composições sintagmáticas 136 -------------------------------------- 4.2.4 Categoria Gramatical e coligação das composições sintagmáticas 140 ----------------------- 4.3 O léxico como espelho das mudanças da sociedade 147 ------------------------------------------ 4.3.1 A produtividade lexical e a consciência ambiental 148 ----------------------------------------- 4.3.2 A produtividade lexical e os avanços tecnológicos 152 ----------------------------------------- 4.4 A composição sintagmática em contexto: características e mudanças 155 --------------------- 4.4.1 O processo de redução das composições sintagmáticas 156 ----------------------------------- 4.4.2 Perda de um elemento com alteração no significado 161 --------------------------------------- 4.4.3 Tradução direta: Inversão da ordem dos constituintes da formação 162 --------------------- 4.4.4 Composições sintagmáticas sinônimas 164 ------------------------------------------------------- 4.5 O conceito da composição sintagmática neológica no texto 167 -------------------------------- 4.6 A estrutura lexical das composições sintagmáticas da publicidade 167 ------------------------- 4.6.1 Formações longas: compostas por três ou mais de três elementos 171 ----------------------- 4.6.2 Formação híbrida: composta por um item lexical estrangeiro 173 ---------------------------- 4.6.3 Composição sintagmática totalmente estrangeira 175 ------------------------------------------- 4.6.4 Composição com sigla estrangeira 175 ------------------------------------------------------------ 4.7. Análise quantitativa das composições sintagmáticas quanto à estrutura lexical 176 --------- 5. DISCUSSÃO DOS DADOS ANALISADOS 183 ------------------------------------------------ 5. 1 O ensino de língua portuguesa como um prisma 186 --------------------------------------------- 5.2 Implicações da análise das composições sintagmáticas para o ensino 188 --------------------- 5.2.1 A inovação lexical 188 ------------------------------------------------------------------------------ 5.2.2 O priming semântico 190 --------------------------------------------------------------------------- 5.2.3 O priming colocacional (textual). 191 ------------------------------------------------------------ 5.2.4 O priming coligacional 193 ------------------------------------------------------------------------ 5.2.5 Características e mudanças das composições sintagmáticas em contexto 194 --------------- 5.3 A estrutura lexical das composições sintagmáticas da publicidade 198 ------------------------- 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS 200 ------------------------------------------------------------------- REFERÊNCIAS 205------------------------------------------------------------------------------------- !17 1. INTRODUÇÃO O léxico exerce um papel fundamental na relação do ser humano com o mundo que o cerca, pois esse componente representa uma forma de se registrar o universo. Para Biderman (2001), o léxico das línguas naturais foi gerado a partir da necessidade primária do ser humano de nomear os seres, objetos e eventos no mundo. Ainda de acordo com Biderman (2001), com o processo de nomeação de seres, objetos e eventos, o homem consegue reunir os objetos em grupos, identificar semelhanças e, ao mesmo tempo, discriminar seus traços distintivos, sendo possível, assim, individualizar os seres e objetos em entidades diversas. O homem, portanto, com o processo de classificação que ocorre simultaneamente ao processo de nomeação, consegue estruturar o mundo que o cerca. Ao compreender que o léxico é a primeira etapa do percurso científico do ser humano com o universo, e que no processo de nomeação, automaticamente, o homem classifica, identifica semelhanças e discrimina traços distintivos dos seres e objetos, estamos assumindo também que a gramática, compreendida aqui como um conjunto de normas, surge posterior ao léxico, ou seja, a gramática é criada a partir do léxico. Essa constatação vai ao encontro dos princípios das teorias lexicais, que nos mostra que a língua não consiste em uma gramática lexicalizada, mas em um léxico gramaticalizado (LEWIS, 1993). Além disso, como a gramática é o resultado de uma estrutura lexical, o léxico é complexo, sistemático e estruturado (HOEY, 2005). Logo, o léxico é o componente central da língua e a investigação desse componente pode revelar os aspectos organizacionais da língua, além de proporcionar a ampliação lexical do falante. Contudo, ao transpor o pensamento científico sobre o entendimento de que o léxico consiste em um componente complexo e estruturado para o ensino, podemos observar uma incoerência do ponto de vista didático. O ensino de português como língua materna segue um percurso em que o ponto central é a gramática e a partir dela acontece o ensino do léxico. Por exemplo, ao tocar no tema produtividade lexical, muitos livros didáticos recomendados pelo PNLD ensinam o processo de formação de palavras mostrando todos os prefixos e sufixos e 1 Programa Nacional do Livro Didático1 !18 suas respectivas funções, origens e significados e, somente em um segundo momento, os exemplos dos produtos criados a partir do processo de sufixação e prefixação são apresentados aos alunos. Analisando essa prática nos livros didáticos, ressaltamos a necessidade de percorrer o caminho inverso. Ou seja, precisamos de metodologias que favoreçam práticas didáticas que coloquem o léxico em seu devido lugar, como componente central da língua. 
 Antunes (2012) também sinaliza a necessidade de o léxico ocupar uma posição central, já que, ao longo dos anos, a gramática é que tem ocupado uma posição de destaque no ensino de português, enquanto o ensino do léxico tem um papel adicional e que, portanto, é considerado “breve e insuficiente” (p. 20). O léxico, definido como um conjunto aberto de unidades lexicais de uma determinada língua que está à disposição do falante para que este possa se expressar, está sempre em constantemente expansão, devido ao caráter dinâmico inerente à língua (FERRAZ, 2006). Como o léxico é considerado o componente da língua que mais recebe diretamente o impacto dos acontecimentos sociais e culturais, é possível perceber, através do léxico, as mudanças que ocorrem no mundo, como por exemplo, os avanços científicos e tecnológicos (FERRAZ, 2006). Nesse processo de criação lexical, comum a todas as línguas naturais, presenciamos a entrada de muitas unidades neológicas em nossa língua. Podemos citar como exemplo as composições sintagmáticas. As composições sintagmáticas, unidades lexicais em vias de lexicalização, são compostas por pelo menos dois elementos lexicais e serão mais bem detalhadas no referencial teórico deste trabalho. Olhando para as composições sintagmáticas do ponto de vista cognitivo, elas refletem o modo como o nosso léxico mental é organizado, pois em nosso léxico mental as palavras não são organizadas individualmente, mas em ‘blocos’ (LEWIS, 1993, HOEY, 2005, CORREIA, 2011). Ademais, as composições sintagmáticas aparecem em abundância em diversos textos, e por isso, são consideradas o produto de um processo neológico muito produtivo. As composições sintagmáticas têm sido objeto de estudo de diversas áreas como a Lexicologia, Linguística, Psicolinguística, Lexicografia, Linguística Cognitiva, entre outras. Embora as áreas de estudo mencionadas adotem perspectivas e metodologias diferentes para abordar as composições sintagmáticas, verificamos um consenso no objetivo de descrever e !19 identificar características dessas unidades lexicais. A Lexicologia e a Lexicografia, por exemplo, consideradas as disciplinas mais tradicionais no que tange ao ensino do léxico, limitam-se na descrição da estrutura das composições sintagmáticas e também a identificação de suas características . Sobre esse assunto, Biderman (2001, p. 15) afirma que “essas disciplinas enfocam o seu objeto de estudo, o léxico, de modos distintos, porém, ambas têm como principal finalidade a descrição desse mesmo léxico”. São escassos no Brasil, entretanto, os trabalhos envolvendo os processos de formação de palavras, numa perspectiva pedagógica, cujo objetivo seja o ensino de língua materna. Contudo, embora as composições sintagmáticas representam unidades lexicais que fazem parte de nossas experiências diárias, uma análise minuciosa de como as nossas escolhas lexicais refletem o nosso pensamento é, por muitas vezes, negligenciada. Nesse sentido, é preciso conhecer melhor a estrutura dessas unidades lexicais utilizadas em nosso cotidiano. No que tange às estruturas cujo processo de formação é aqui designado por composição sintagmática, é preciso conhecê-las a partir de suas associações possíveis e poucos estudos dedicam-se à análise dessas construções, principalmente, no contexto de ensino de português como língua materna. Dessa forma, partindo do pressuposto de que a compreensão do processo lexicogenético de que resultam as composições sintagmáticas e sua aplicação ao ensino de língua materna são elementos fundamentais para o desenvolvimento de competências diversas, sobretudo, a competência lexical, proponho a análise das composições sintagmáticas que fazem parte da base de dados do projeto Observatório de neologismos na publicidade impressa: aplicação ao desenvolvimento da competência lexical , à luz de teorias lexicais, 2 como a Lexical Priming (HOEY, 2005) e a Lexical Approach (LEWIS, 1993). O projeto mencionado tem por objetivo coletar unidades lexicais neológicas de textos publicitários impressos nas revistas Veja, IstoÉ e Época. Dentre os neologismos coletados, a composição sintagmática, um tipo de ‘co-ocorrência lexical’, será o objeto de estudo desta pesquisa. A escolha desse corpus deu-se com o intuito de preencher algumas lacunas no estudo do léxico, como por exemplo, a escassez de estudos sobre as associações possíveis das composições sintagmáticas e também o comportamento das referidas unidades lexicais no contexto publicitário. Embora o objetivo do projeto vigente na Faculdade de Letras seja o de Projeto em andamento na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, sob a 2 orientação do professor Dr. Aderlande Pereira Ferraz. !20 coletar as formações sintagmáticas neológicas, não trataremos da neologia a fundo, pois o foco recairá sobre a análise do comportamento relacionados aos aspectos semântico, lexical e gramatical das composições sintagmáticas em contexto. Entendemos que ao optar pelas unidades neológicas, daremos mais credibilidade ao trabalho, uma vez que teremos a oportunidade de analisar estruturas que estão entrando em nossa língua atualmente. Dessa forma, podemos ter um diagnóstico real do que está acontecendo, do ponto de vista lexical, na língua portuguesa do Brasil. 1.1 Justificativa O ensino de língua portuguesa é um processo altamente complexo que dada a sua complexidade apresenta também problemas metodológicos (LIMA, 1985). Por isso, esse processo precisa ser analisado e o estudo do ensino de língua portuguesa deve ser interpretado a partir de realidades variadas. Esta pesquisa, portanto, se faz relevante para a área de Linguística Aplicada pelo fato de apresentar uma visão pautada em uma realidade em que o léxico passa a ser o ponto central do ensino de língua portuguesa e, desta forma, o léxico é o componente para onde devem convergir as práticas metodológicas e didáticas do ensino de língua portuguesa. Além disso, apresentamos abaixo uma série de razões que ressaltam a importância deste estudo para a Linguística Aplicada. Primeiramente, como já mencionado, as composições sintagmáticas são pouco analisadas pelos teóricos da lexicologia no Brasil, principalmente, em trabalhos que tratam do estudo das possíveis associações dessas unidades lexicais. Ademais, os trabalhos existentes sobre as composições sintagmáticas não priorizam o contexto de ensino e aprendizagem de português, mas tratam, em sua maioria, da descrição do léxico em diversos contextos. Entretanto, a escassez de trabalhos nessa perspectiva acarreta uma carência da utilização dessas unidades como objeto de estudo no contexto escolar. Tal fato pode ser comprovado ao analisarmos superficialmente os livros didáticos, pois dificilmente encontramos exercícios pautados no estudo das composições sintagmáticas em uma abordagem lexical qualitativa. Todavia, no contexto de ensino e aprendizagem do inglês como língua estrangeira, encontramos diversos trabalhos que se preocupam em analisar e identificar os padrões !21 semânticos, lexicais e gramaticais da língua através das possíveis associações das combinatórias lexicais. Esses trabalhos têm como base teorias lexicais que partem do pressuposto que as combinatórias lexicais são abundantes em nossa língua e, dessa forma, devem ser priorizadas no ensino. De acordo com essas teorias, são as combinatórias lexicais que dão pistas de como o léxico é organizado em nossa mente (LEWIS, 1993; HOEY, 2005) Segundo, a análise das composições sintagmáticas nos permite ampliar os estudos sobre esse objeto de estudo que se revelou como muito produtivo, sobretudo, na linguagem publicitária. Conhecer melhor o comportamento do objeto de estudo desta pesquisa significa conhecer melhor os padrões lexicais (colocacionais), gramaticais e semânticos da língua. O comportamento das combinatórias lexicais constitui-se como um reflexo de como nossa mente é organizada, já que, segundo Hoey ( 2005) as palavras são armazenadas em nossa mente em grupos e não separadamente. Corroborando essa ideia, Lewis (1993) também sinaliza que as palavras “andam juntas” e nunca sozinhas e, por isso, afirma que o estudo das combinatórias lexicais revela-se como um princípio organizador muito útil. Terceiro, a análise dos padrões lexicais (colocacionais), gramaticais e semânticos nos permite romper com a separação léxico/gramática. Consideramos essa dicotomia inválida e um fator que contribui para o insucesso no contexto escolar, uma vez que verificamos uma clara preferência pelo ensino de gramática e, com isso, o ensino do léxico fica prejudicado. Sobre esse assunto, Lewis (1993) sinaliza a arbitrariedade de se validar a dicotomia léxico/ gramática, pois para o pesquisador, “the grammar/vocabulary dichotomy is invalid” (Lewis, 1993, vi). Esse princípio da dicotomia está estritamente ligado a outro princípio, o fato de que a língua consiste em um léxico gramaticalizado e não em uma gramática lexicalizada e, desta forma, tornarmos gramática e léxico dois elementos indissociáveis, um inerente ao outro. Além disso, como a língua consiste em um léxico gramaticalizado, existe uma necessidade iminente de uma mudança de foco no ensino, ou seja, é necessário que o foco do ensino de línguas recaia sobre os estudos do léxico, explorando os diversos recursos lexicais, principalmente aqueles que tenham como consequência direta o desenvolvimento das competências de leitura e produção de texto. Quarto, um estudo que coloca o léxico em uma posição central no ensino de língua materna busca ressaltar a importância do conhecimento lexical que, ao ser explorado, contribui para o desenvolvimento das competências lexical, discursiva e leitora. Antunes !22 (2012) salienta que a competência discursiva contribui de forma significativa para que o aluno possa construir discursos claros e fluentes e, principalmente, tenha um repertório lexical amplo. No que diz respeito à competência leitora, Antunes (2012) afirma que o estudo do léxico em sala de aula fornece ao aluno práticas necessárias para compreender textos orais e escritos. Além disso, por meio de uma abordagem de ensino com ênfase no léxico, é possível explorar o papel que as unidades lexicais exercem no texto como elementos coesivos. Na teoria Lexical Priming (HOEY, 2005), por exemplo, os itens lexicais são utilizados na construção dos elos textuais através de repetições, uso de sinônimos, hiperônimos, associações semânticas e também a utilização desses elementos na construção da coerência do texto. Em uma visão sistêmica, Hoey (2005, p. 150) sugere que “devemos conectar nosso sistema de descrição da organização textual com nosso sistema de descrição do léxico”. 3 Desta forma, Hoey (2005) salienta que a organização textual tem uma perspectiva lexical. Por fim, a análise das composições sintagmáticas nos permite olhar o interior das palavras e revelar quanta informação do ponto de vista estrutural da língua pode ser encontrada no léxico. Esse caminho dever ser transposto para o contexto escolar de língua portuguesa, para que assim tenhamos alunos lexicalmente competentes. Correia (2011, p. 225) salienta a importância de olhar para “dentro das palavras”, pois, no que concerne às combinatórias lexicais, se o aluno “aprender a olhar para sua estrutura interna, a reconhecer os seus constituintes e as relações entre eles, aprenderá a inferir o significado estrutural inferível das palavras construídas.” Ainda de acordo com Correia (2011), treinar essa capacidade, ou seja, desenvolver a competência lexical do aluno permite que ele ganhe autonomia no uso do léxico da língua, na medida em que o aluno terá a capacidade de inferir o significado de palavras com as quais ele nunca teve contato antes. 1.2 Objetivos O estudo que aqui proponho tem como objetivo geral demonstrar, a partir da análise das composições sintagmáticas neológicas, uma possível exploração das referidas unidades Tradução de: “we have to connect our systems of description of text organization with our systems id 3 description of lexis” (HOEY, 2005, p. 150). !23 lexicais presentes em textos publicitários, na sala de aula, em conformidade com a teoria Lexical Priming (HOEY, 2005) e a Lexical Approach (LEWIS, 1993). O corpus, que compreende textos publicitários retirados de três revistas nacionais, Veja, IstoÉ e Época, pertence a base de dados do projeto Observatório de neologismos na publicidade impressa: aplicação ao desenvolvimento da competência lexical. Os objetivos desse projeto serão descritos na metodologia deste trabalho. Para se chegar a esse objetivo geral, é preciso alcançar os seguintes objetivos específicos: • Organizar e revisar o corpus já formado de composições sintagmáticas presentes em textos publicitários das revistas Veja, IstoÉ, e Época, entre os anos de 2002 a 2014. Para a organização, descartaremos as composições sintagmáticas que foram registradas sem o contexto. Para a revisão, faremos a consulta de todas as composições sintagmáticas do corpus já organizado nas seguintes obras lexicográficas: Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2010), Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa (2009), ambos os dicionários na versão eletrônica, e o Dicionário Caldas Aulete (2013), versão on-line. Desta forma, descartaremos as composições sintagmáticas que fazem parte do repertório de algum desses dicionários, uma vez que não são mais caracterizadas como neologismos; • Identificar, a partir da análise das composições sintagmáticas em textos publicitários, as associações padrões que essas unidades lexicais estabelecem entre seus componentes e também componentes do texto publicitário. Assim, em conformidade com a Lexical Priming (HOEY, 2005), buscaremos a identificação do priming lexical ou colocacional, priming coligacional e gramatical e priming semântico. • Evidenciar como o estudo das composições sintagmáticas, a partir de material didático autêntico (textos publicitários), pode auxiliar o aluno no desenvolvimento da competência lexical, por meio do conhecimento dos padrões léxico-gramaticais e semânticos. !24 2. REFERENCIAL TEÓRICO Este capítulo, dividido em nove seções, tem por objetivo fazer uma revisão dos trabalhos que nortearam e serviram de embasamento para esta pesquisa. Na primeira seção, destacamos o conceito de léxico dado por vários pesquisadores e mostramos que esse componente da língua é objeto de estudo de várias áreas ou campos de pesquisas, além da Linguística Aplicada. Em seguida, ressaltamos o trabalho com o léxico no ensino de língua portuguesa, evidenciando os desafios e os estudos desenvolvidos sobre as unidades lexicais com o foco na competência lexical. Ainda nessa seção, enfatizamos os pressupostos da competência lexical para mostrar o impacto que o ensino, através do foco no léxico, pode exercer sobre o aluno. Na terceira seção, como nosso objeto de estudo advém de textos publicitários, discorremos sobre o gênero textual propaganda no ensino de língua portuguesa, enfatizando as vantagens de sua utilização em sala de aula. Na quarta e quinta seções, buscamos o conceito de unidades fraseológicas para chegarmos ao conceito de composição sintagmática. Nesse sentido, ressaltamos as características estruturais das composições sintagmáticas e estruturas que compartilham propriedades semelhantes, mas que se diferem em alguns pontos. Nas sexta seção, considerando que nosso objeto de trabalho é, especificamente, as composições sintagmáticas neológicas, discutimos a neologia lexical, suas características e diferentes tipos de neologismos. Por fim, nas sétima e oitava seções, abordamos as principais características e hipóteses da abordagem lexical (LEWIS, 1993) e da teoria Lexical Priming (HOEY, 2005). Trata-se de teorias lexicais em que o léxico é colocado como foco no ensino de línguas e, por esse motivo, serviram de base para esta pesquisa. 2.1 O léxico Ao lado da gramática, o léxico representa o outro grande componente da língua. Antunes (2012) diz que o léxico de uma língua pode ser definido, de forma geral, como “o !25 amplo repertório de palavras de uma língua, ou o conjunto de itens à disposição dos falantes para atender às suas necessidades de comunicação” (ANTUNES, 2012, p. 27). Basílio (1987) acrescenta que o léxico além de compreender os itens lexicais, compreende também um conjunto de regras que são utilizadas para definir a classe das palavras possíveis na língua. Dentre as palavras que fazem parte desse repertório, que Basílio (2011) chama de léxico externo, uma vez que pode ser verificado nos enunciados, podemos citar dois grandes grupos: as lexias simples ou palavras individualizadas e as lexias complexas. Como lexias simples, podemos citar todas as palavras que são compostas por apenas um componente lexical, ao passo que a lexia complexa apresenta, pelo menos, dois componentes como, por exemplo, as colocações, as expressões institucionalizadas, os verbos frasais, as expressões idiomáticas e as composições sintagmáticas (LEWIS, 1993). Ainda sobre a definição de léxico, Ferraz (2006) acrescenta que o léxico é um conjunto aberto de unidades lexicais - também chamadas de lexias - de uma determinada língua que está à disposição do falante para que este possa se expressar. O referido pesquisador ressalta ainda que o léxico é um conjunto aberto, pois está constantemente em expansão, devido ao caráter dinâmico inerente à língua, o que, na prática, inviabiliza a enumeração de todas as lexias que pertencem ao léxico de uma língua. Tendo em vista a perspectiva cognitivo-representativa, Vilela (1997, p. 31) salienta que o léxico é “a codificação da realidade extralinguística interiorizada no saber de uma dada comunidade linguística”. Antunes (2012) concorda como o pesquisador mencionado ao afirmar que, na perspectiva cognitiva, o léxico é na verdade um catálogo com os itens linguísticos que os falantes de uma determinada língua utilizam para expressar categorias cognitivas construídas das coisas ao longo de suas experiências. Nas palavras de Antunes (2012, p. 27) a linguagem intermedeia a nossa relação com o mundo. No entanto, essa relação não se dá diretamente; quer dizer, não se dá entre as palavras e as coisas. Essa relação se dá entre as categorias cognitivas que construímos das coisas ao longo de nossa experiência e as palavras que a língua vai dispondo para expressar tais categorias. Quer dizer, as palavras são “a representação” dessas categorias cognitivas que construímos e armazenamos […]. !26 Nessa mesma perspectiva, Biderman (2001) salienta que o léxico consiste em uma forma de registrar o universo e, desta forma, foi gerado a partir da necessidade de nomear seres, objetos, eventos, entre outros. Sob um enfoque social, o caráter dinâmico do léxico se torna uma das características mais marcantes desse componente da língua, pois o léxico tem a capacidade de incorporar e refletir as mudanças sociais que ocorrem dentro de uma comunidade linguística, seja na criação de novas palavras ou nas palavras que caem em desuso. Sobre a capacidade de o léxico se adaptar às mudanças, Ferraz (2006, p. 219) acrescenta que, uma das características universais mais marcantes das línguas naturais é a mudança. Dada a dinamicidade da linguagem humana, podemos verificar o fenômeno da mudança se manifestando em todos os níveis linguísticos (fonológico, morfológico, sintático, semântico, pragmático), mas de forma mais evidente no nível lexical. [...] À medida que ocorrem mudanças sociais, a língua se adapta a essas mudanças e produz novas unidades léxicas. Um dos recursos de que se utilizam as línguas para a sua continuidade é a inovação lexical. A língua que não se atualiza acompanhando a atualização da sociedade corre o risco de desaparecer por estagnação. [...] A criação de palavras novas e a reutilização de palavras já existentes a partir de novos significados constituem um processo geral de desenvolvimento do léxico de uma língua. À luz de um enfoque cultural, Costa (2012) mostra a forte relação entre léxico e cultura, sobretudo a cultura popular. Em conformidade com Câmara Junior (1972), que nos informa que a cultura se expressa através da língua, e Fiorin (2001), que nos chama atenção pelo fato de o léxico de uma dada língua ser formado na ‘História’ de um povo, a pesquisadora acrescenta que é “no nível lexical que são registrados os costumes, ideologias e técnicas de um grupo social” (COSTA, 2012, p. 29). Desta forma, o léxico é o componente da língua capaz de incorporar as mudanças que ocorrem na sociedade e também refletir a cultura de uma sociedade. Dada a sua complexidade e importância, esse componente tem cada vez mais atraído olhares de diferentes áreas de pesquisas. !27 2.1.1 O léxico sob diversos olhares Tendo em vista que o léxico é o componente da língua que, por não ser estático, tem a capacidade de incorporar as mudanças sociais e culturais, esse componente é foco de estudo de diferentes áreas e campos de pesquisa. Na Psicolinguística, na Linguística Cognitiva, no Processamento Automático das Línguas Naturais (PLN) e na Linguística, o léxico é visto e focalizado em diferentes perspectivas. A visão dessas áreas ou campos sobre o léxico pode contribuir para os estudos lexicais na Linguística Aplicada, área em que esta pesquisa está inserida, e, por isso, essas diferentes perspectivas serão detalhadas a seguir. a) Psicolinguística A Psicolinguística, um campo de estudo que surgiu a partir da união de pressupostos da Linguística e da Psicologia, investiga a existência e o funcionamento de mecanismos mentais no processamento da linguagem humana. O ponto central dessa investigação tem o objetivo de compreender como se dá o armazenamento e o acesso aos itens lexicais de uma dada língua na mente dos falantes (DI FELIPPO; DIAS-DA-SILVA, 2006). Para essa investigação, os pesquisadores da área da Psicolinguística têm um grande interesse no léxico mental dos falantes. O termo léxico mental é próprio da Psicolinguística e foi introduzido em 1961, por Ann Triesman, como sendo um banco de conhecimento que funciona como um dicionário na mente, permitindo o fácil acesso às formas escritas e orais de palavras e de seus significados (SOUZA; GABRIEL, 2012). No entanto, Aitchison (1996) destaca o caráter simplório da relação entre léxico mental e dicionários, ao enumerar uma série de caraterísticas que evidenciam que o léxico mental não pode ser definido como um dicionário. Primeiro, o léxico mental não está organizado por ordem alfabética como um dicionário, pois, se assim fosse, levaríamos muito tempo para acessar uma palavra que, por exemplo, começasse com a última letra do alfabeto. Segundo, o conteúdo de um dicionário é fixo, ou seja, existe um número limite de palavras, ao !28 passo que o léxico mental não é fixo, devido ao fato de as pessoas estarem sempre aprendendo novas palavras ou atualizando os seus significados. Por fim, o léxico mental, diferentemente de um dicionário que, na maioria das vezes, apresenta apenas o significado da palavra, possui um universo de informações consideravelmente maior sobre cada palavra. Souza e Gabriel (2012) salientam que, além da analogia com os dicionários, o léxico mental também foi comparado à memória de um computador e a uma biblioteca, mas, nenhuma dessas analogias é adequada para demonstrar o funcionamento do léxico mental. Ainda de acordo com esses pesquisadores, o léxico mental como sendo organizado por redes semânticas é atualmente a hipótese aceita para ilustrar seu funcionamento. Dada a importância do léxico mental na psicolinguística, ele representa o ponto central no processamento cognitivo da linguagem que, segundo Di Felippo e Dias-Da-Silva (2006), envolve três tipos de processos: conceitualização, formulação e articulação. No processo de produção da fala/enunciado (articulação), está envolvido o processo de identificação (conceitualização) e também o processo de seleção de uma representação sintático-semântica de um signo, por exemplo, assim como a codificação dessa representação em termos fonológicos (articulação) (DI FELIPPO; DIAS-DA-SILVA, 2006, p. 7). Outro pesquisador do campo da Psicolinguística, Gibbs (1980, 1986), também se dedicou a entender como se dava o acesso aos itens lexicais no léxico mental. No caso do pesquisador mencionado, foram realizados alguns experimentos que tinham como objetivo verificar o processo de compreensão de uma expressão idiomática. Sua hipótese, que tem o entendimento de que as expressões idiomáticas são armazenadas no léxico mental como uma “bloco”, partia da ideia de que para entender o sentido não literal (convencional) de uma expressão, o indivíduo a analisaria de forma literal. Em outras palavras, essa hipótese sugere que ao entendermos uma expressão idiomática, o sentido literal seria processado antes da extração do sentido convencional. Os experimentos mostraram que os indivíduos levaram menos tempo para ler e fazer um julgamento da expressão com sentido idiomático do que o sentido literal. Para o estudioso, esse resultado mostra que para compreender o sentido idiomático de uma expressão não é necessário computar o seu sentido literal. Estudos como esse têm um grande peso nos estudos lexicais, pois, revelam, do ponto de vista cognitivo, informações sobre as expressões fixas que podem oferecer pistas de como estas estruturas podem ser trabalhadas em sala de aula. !29 b) Linguística Cognitiva Nessa mesma perspectiva cognitivista da Psicolinguística, o campo da Linguística Cognitiva também se destina a estudar o léxico e sua relação com aspectos cognitivos dos falantes. Jackendoff (1997) discute como acontece o armazenamento das unidades complexas no léxico mental do falante. Para esse pesquisador, alguns estudiosos (CHOMSKY, 1957; WEINREICH, 1969; FRASER, 1970) buscaram mais do que uma simples descrição das unidades complexas, mas uma explicação cognitiva para esses fenômenos. Nesse sentido, houve uma tentativa de explicar como acontece o armazenamento e o processamento das referidas construções no léxico mental (Cf. JACKENDOFF, 1997, p. 160). As hipóteses levantadas por Chomsky (1957), citado por Jackendoff (1997), sobre a inserção lexical foram relevantes para o tema, cuja complexidade é ressaltada por muitos autores. No entanto, Jackendoff (1997), ao propor a teoria de licenciamento lexical para explicar os aspectos cognitivos das expressões fixas, refuta alguma dessas hipóteses. A hipótese padrão de que o léxico, responsável pelo armazenamento do vocabulário mental seja composto, em sua maioria, apenas por palavras simples, foi questionada por Jackendoff (1997, p. 153). O pesquisador refuta essa hipótese com o argumento de que a quantidade de “fixed expressions” (expressões fixas) é da mesma proporção das “single words” (palavras simples). Nas palavras de Jackendoff (1997, p. 156) There are a vast number of such memorized fixed expressions; these extremely crude estimates suggest that their number is about the same order of magnitude as the single words of the vocabulary. Thus they are hardly a marginal part of our use of language. De fato, percebe-se que as unidades lexicais complexas são bastante representativas no léxico. Nesse sentido, podemos visualizar a grande produtividade das expressões fixas no léxico em comparação com as “single words”, ou seja, com as unidades simples. Sobre essa temática, Jackendoff (1997, p. 157) sinaliza que qualquer estrutura que faça parte da língua e que foi construída a partir dos níveis de representação linguística (fonético, semântico e fonológico), está necessariamente localizada no léxico. Portanto, o referido autor nos ensina !30 que não existe outra faculdade mental em que as unidades lexicais complexas devem estar localizadas a não ser o léxico mental. Ainda de acordo com Jackendoff (1997, p. 162), o armazenamento das unidades lexicais complexas prevê uma articulação da sintaxe, da fonologia e da semântica em um mesmo nível, e não um modelo que considera apenas a sintaxe, pois não existem argumentos linguísticos disponíveis que considere a superioridade da sintaxe frente à semântica e à fonologia. Portanto, o autor considera que as unidades lexicais complexas consistem em estruturas “tripartidas” (PS, SS, CS) , que são ligadas entre si por regras de correspondência. 4 Jackendoff (1997), ao refutar algumas hipóteses da teoria de Chomsky (1957) para as estruturas sintáticas, tem por objetivo apresentar a sua teoria de licenciamento lexical para as expressões fixas. Com essa teoria, o pesquisador se opõe à ideia de inserção lexical e nos mostra que as expressões fixas são licenciadas e não inseridas no léxico mental. Além disso, esse licenciamento se dá através da correlação entre os traços sintático, semântico e fonológico. O último ponto questionado por Jackendoff (1997, p. 166) relaciona-se à hipótese de que o léxico inclui apenas as informações que não podem ser previsíveis. Todas as informações redundantes, ou seja, previsíveis por regras sintáticas são extraídas do léxico e passam a ser de responsabilidade do componente sintático. Jackendoff (1997) se opõe a essa ideia com a seguinte indagação: como então uma unidade lexical complexa pode estar inserida no léxico se esta é composta por unidades lexicais que já fazem parte do léxico e que, portanto, pela lógica da redundância não poderiam ser repetidas? Com esse questionamento, Jackendoff (1997) parece reforçar o argumento de que as unidades lexicais complexas estão licenciadas no léxico e não inseridas, bem como a hipótese de que esse licenciamento acontece de forma a correlacionar os níveis fonológico, sintático e semântico. c) Processamento Automático das Línguas Naturais (PLN) Na área do PLN, o léxico desempenha um papel central nos sistemas que processam língua natural, seja em sistemas de tradução automática, como a elaboração de tradutores eletrônicos, ou em sistemas de sumarização, por exemplo. Os esforços dispensados na PS: Estrutura fonológica; SS: Estrutura sintática; CS: Estrutura conceitual (semântica)4 !31 investigação do léxico estão direcionados para duas questões centrais: a especificação das estruturas global e interna do léxico e a representação formal do componente lexical (DI FELIPPO; DIAS-DA-SILVA, 2006, p. 2). Na elaboração de tradutores eletrônicos, uma grande preocupação no tratamento do léxico recai sobre as unidades lexicais complexas. Dias e Garrão (2001) apontam as unidades complexas, ou seja, expressões compostas por mais de um vocábulo e, que, de certa forma apresentam um grau de soldadura entre os elementos que a compõem, como aquelas que representam um grande problema para a tradução. Deste modo, o desafio para a área consiste em não considerar as unidades lexicais complexas como fragmentos sintáticos e sim como unidades lexicais. Nessa mesma perspectiva, dedicando-se aos estudos de sequência de palavras que apresentam elevado grau de coesão sintática e semântica entre os componentes do grupo e tendo em consideração o papel importante que essas estruturas desempenham no processamento automático das línguas naturais, Abalada, Cabarrão e Cardoso (2010) apresentam um estudo que tem como objetivo central a identificação das principais associações de palavras do português europeu. Além disso, as pesquisadoras buscaram estabelecer uma proposta de anotação dessas associações de palavras que foram selecionadas a partir de um léxico previamente extraído de um corpus composto por 50 milhões de palavras. O mérito do trabalho das referidas pesquisadoras, do ponto de vista da linguística computacional, está no fato de que a criação de um léxico de associações de palavras com informações detalhadas sobre o comportamento sintático e semântico configura-se como um recurso valioso, já que essas combinatórias lexicais representam sérios obstáculos na criação de ferramentas para o processamento da língua natural (ABALADA et al., 2010) 2.2 O léxico no ensino de português Antes de falar diretamente do léxico e sua interface no ensino de língua portuguesa, discorreremos sobre o objetivo do ensino de língua portuguesa nas escolas, sobretudo, no ensino fundamental. Para isso, utilizaremos reflexões retiradas dos Parâmetros Curriculares !32 Nacionais (PCNs) (BRASIL, 1998), que trazem orientações essenciais para o ensino de língua portuguesa. As discussões acerca da necessidade de melhorar o ensino de língua portuguesa, sobretudo no sexto ano, período em que, teoricamente, o aluno deveria fazer o uso apropriado de padrões de língua escrita, têm sido foco desde os anos 70 do século XX. No entanto, somente no início dos anos 80, motivados pelos estudos desenvolvidos em variação linguística e psicolinguística e por uma linguística que se distanciava da tradição normativa, houve avanços na área de educação e da psicologia da aprendizagem, especialmente na área da aquisição da escrita (BRASIL, 1998). Dentre as críticas sobre o ensino tradicional que motivaram os avanços no ensino de língua portuguesa destacavam-se a intensa valorização de uma gramática normativa que, como consequência, gerava preconceito contra as variedades não padrão da língua e a apresentação de uma teoria gramatical inconsistente (BRASIL, 1998). Com a reavaliação das práticas de ensino de língua portuguesa, almejava-se que as práticas permitissem que os alunos conquistassem novas habilidades linguísticas, que levassem o aluno a “pensar sobre a linguagem para poder compreendê-la e utilizá-la apropriadamente às situações e aos propósitos definidos” (BRASIL, 1998, p. 18). Assim, as práticas de ensino devem contribuir de forma significativa para que o aluno possa 1. Utilizar a linguagem na escuta e produção de textos orais e na leitura e produção de textos escritos de modo a atender a múltiplas demandas sociais, responder a diferentes propósitos comunicativos e expressivos, e considerar as diferentes condições de produção do discurso; 2. Utilizar a linguagem para estruturar a experiência e explicar a realidade, operando sobre as representações construídas em várias áreas do conhecimento; 3. Analisar criticamente os diferentes discursos, inclusive o próprio, desenvolvendo a capacidade de avaliação dos textos; 4. Conhecer e valorizar as diferentes variedades do Português, procurando combater o preconceito linguístico; 5. Reconhecer e valorizar a linguagem de seu grupo social como instrumento adequado e eficiente na comunicação cotidiana, na elaboração artística e mesmo nas interações com pessoas de outros grupos sociais que se expressem por meio de outras variedades; 6. Usar os conhecimentos adquiridos por meio da prática de análise linguística para expandir sua capacidade de monitoração das possibilidades de uso da linguagem, ampliando a capacidade de análise crítica. (BRASIL, 1998, p. 18) !33 Como podemos ver, o objetivo final do ensino de português vai além de um ensino em que a gramática, entendida aqui como um conjunto de normas, possa representar o ponto para onde devem convergir as atividades de ensino, pois como salientou Antunes (2007, p. 44), “língua e gramática não se equivalem e, por isso, o ensino de línguas não pode constituir-se apenas de lições de gramática.” O grande problema do ensino de gramática está na forma como ela é ensinada, com foco no reconhecimento e memorização da terminologia e desarticulada das práticas da linguagem. Todavia, olhando por uma ótica didática voltada para a produção e interpretação de textos, atividades metalinguísticas articuladas com as práticas da linguagem devem ser utilizadas de apoio para o debate sobre aspectos da língua. Desta forma, para os PCNs (BRASIL, 1998), o problema do ensino da gramática nas aulas de português incorre em uma falsa questão sobre a necessidade de ensiná-la, quando a verdadeira questão deveria ser o porquê e como ensiná-la. Ainda sobre o ensino de gramática nas aulas de língua portuguesa, Antunes (2007) salienta que ensinar a gramática de forma integral dentro da sala de aula tira a possibilidade de se explorar o outro componente da língua, o léxico. Para a referida autora, essa observação pode ser confirmada ao analisar os livros didáticos de língua portuguesa que destinam muitas páginas para o ensino da gramática tradicional, com a prescrição e descrição de normas. Por outro lado, o ensino de léxico nos livros didáticos, sobretudo no ensino fundamental, fica “reduzido a um capítulo em que são abordados processos de ‘formação de palavras’, com a especificação de cada um desses processos, acrescidas de exemplos e de exercícios finais de análises de palavras” (ANTUNES, 2007, p. 20-21). O estudo do léxico feito dessa forma, além de negligenciar o destino que tomarão essas palavras formadas e a possibilidade de criação de novas palavras a partir do significado, também não dá importância à vinculação dessas novas palavras às demandas culturais de cada lugar e época (ANTUNES, 2007). O grande problema em colocar a gramática no centro do ensino de línguas consiste em colocar o estudo do léxico em uma perspectiva bastante reduzida, além de difundir junto aos alunos a ideia de uma língua estática. Por outro lado, o léxico como o ponto central no ensino de línguas mostra que a língua não é fixa, mas, ao contrário, está sempre sofrendo transformações, ou seja, em movimento. Sobre esse assunto, Antunes (2007, p. 23) salienta que !34 outra vez, a língua das escolas parece uma abstração, parece uma entidade estática, fixa, não em movimento, e as palavras, consequentemente, parecem ter seus sentidos fixados, tal como etiquetas em pedras. Essa perspectiva de reduzir a palavra a uma única significação se ajusta muito bem aos costumeiros exercícios em torno de palavras isoladas ou de frases descontextualizadas. Para Antunes (2007), no entanto, é possível explorar o léxico no ensino de português sob várias vertentes e tendo como objetivo final o desenvolvimento da competência lexical do aluno. Desta forma, deve-se trabalhar o léxico na perspectiva da variação lexical, da criação lexical e, por fim, da função do léxico na construção textual. Sob a ótica da variação lexical, trabalhar com o aluno os tipos de vocabulários e as situações adequadas para empregar cada um é uma prática que oferece a oportunidade de tornar o falante/aluno mais eficaz, além de ampliar seu repertório lexical. Antunes (2007) afirma que atividades com ênfase na variação lexical são significativas e, por isso, é necessário ir além das listas de sinônimos e incluir, na sequência dos textos, a exploração de antônimos, de palavras de sentido afim (ou semanticamente contíguas); de hiperônimos (palavras de sentido geral ou “nomes de classes de seres”, como “animal”, “produto”, “elemento”, “item” e, o mais geral de todos: “coisa”); de partônimos (nomes que designam membros de uma série ou que expressam a relação de “parte”/“todo”, como “torre”/“igreja”; “casa”/“porta”; “livro”/“sumário”, entre outros casos. (ANTUNES, 2007, p. 45) Além disso, o léxico dever ser investigado a partir da relação dos itens lexicais com seu contexto. Ou seja, reconhecer os contextos em que certos tipos de unidade lexicais aparecem e quais contextos são mais representativos para certos usos. Por exemplo, ao escrever uma carta de apresentação para pleitear uma vaga de trabalho em uma empresa, adjetivos que descrevem a personalidade são essenciais para a apresentação do candidato. Dessa forma, podemos afirmar que esses adjetivos aparecem com grande frequência nesse contexto de carta de apresentação. Do ponto de vista da criação lexical, a investigação do léxico oferece ao aluno a possibilidade de participar da “vida do léxico” (ANTUNES, 2007, p. 46). Nesse caso, o aluno poderá ver a fundo o que, de fato, acontece no processo de formação. Segundo a pesquisadora !35 mencionada, “o fundamental é explorar o espírito do processo de formação de palavras. Quer dizer, explorar a possibilidade do léxico de abrir-se indefinidamente à incorporação de novas palavras, criadas no interior da língua ou trazidas de fora; adaptadas ou ressignificadas” (ANTUNES, 2007, p. 45). Ao fazer isso, o aluno automaticamente estará aumentando seu repertório lexical e, consequentemente, desenvolvendo sua competência lexical. O léxico, ao lado da gramática, é essencial na construção de um texto. Desta forma, no ensino de língua portuguesa, o léxico deveria ter um foco maior, tendo como base a função que ele desempenha na construção e organização do texto. Antunes (2009) salienta que no texto as unidades lexicais exercem uma função que vai além do sentido que elas possuem, mas a função de dar ao texto coerência e coesão. Ao tratar o léxico na perspectiva da construção textual da coerência e coesão, os procedimentos de reiteração e colocação são fundamentais na organização textual. Sobre o procedimento de reiteração, Antunes (2009, p. 145) nos mostra que a unidade lexical pode ser repetida - literal e parcialmente -, conforme se mantenham ou se alterem suas marcas morfológicas, como em ‘democracia’, ‘democracia “ e ‘democracia, ‘democrata’; substituída por uma conta que, de alguma maneira, lhe é equivalente, como em ‘articulação’, ‘encadeamento’. No domínio da colocação, considerada como um procedimento, Antunes (2009) afirma que as palavras são “colocadas” umas junto às outras e pelo fato de as palavras terem inclinação por procurar “as mesmas companhias” (p. 146), elas criam uma regularidade que, possivelmente, resulta em uma locução fixa. Para Antunes (2009), as associações que são estabelecidas entre as palavras, como são decorrentes dos tipos de ligação semântica e pragmática, acabam por representar um recurso coesivo da associação semântica. Portanto, para Antunes (2009), o ensino deveria trabalhar também o léxico na perspectiva da construção do texto, como por exemplo, com os procedimentos da reiteração e da colocação. Para a referida pesquisadora !36 a consideração desses recursos da coesão lexical, sem dúvida, propiciaria ao ensino das línguas reorientações bem mais significativas para a reavaliação e o tratamento de algumas questões textuais. Ou seja, saber o que se faz com o léxico para deixar o texto com sentido e bem estruturado constitui, de fato, uma competência das mais significativas. (Antunes, 2009, p. 147) É importante salientar que, ao considerarmos que o léxico deve ser visto como componente central no ensino de língua portuguesa, não estamos dizendo aqui que ensinar gramática não seja necessário, mas como já salientamos antes e iremos focar nas próximas seções, o problema não é o ensino da gramática, mas sim como ela é ensinada. Sobre o ensino de gramática e léxico, Lewis (1993) defende o princípio de que a divisão entre esses dois componentes dentro da língua é inválida, pois a língua consiste em um léxico gramaticalizado, ou seja, um léxico que contém informações sobre a organização da língua. Logo, na visão do referido pesquisador, o léxico deve ser o centro e o ponto de partida nas aulas de línguas. O léxico, especialmente a lexia complexa, começa a ganhar destaque a partir dos anos 50 do século XX, com trabalhos como os de Firth (1955), Coseriu (1967) e Sinclair (1991), que apontavam a possibilidade de identificação de padrões associativos regulares e complexos das relações que as palavras estabelecem umas com as outras (ANTUNES, 2013). Embora os trabalhos mencionados davam informações cruciais sobre os potenciais significados e usos dos itens lexicais - o que poderia contribuir para uma didática voltada para o léxico - esses trabalhos não eram aproveitados para as práticas na sala de aula. Nesse espaço, no entanto, apenas os aspectos tradicionais, como a formação de palavras e relações de sentido como a sinonímia e antonímia, eram valorizados (ANTUNES, 2007). Atualmente, algumas pesquisas desenvolvidas no âmbito do estudo do léxico representam um grande avanço nos estudos lexicais voltados para o ensino de português. Embora essas pesquisas possuam objetos de estudos diferentes, todas têm o objetivo comum de colocar o léxico como componente central e ponto de partida para as práticas dentro de sala de aula. As pesquisas que serão descritas a seguir são uma grande contribuição para os estudos lexicais que têm como finalidade contribuir para o desenvolvimento da competência lexical e, consequentemente, da competência comunicativa. Cunha (2012) aponta, através da análise das expressões idiomáticas encontradas em textos publicitários, como essas unidades complexas podem contribuir para o !37 desenvolvimento da competência lexical, isto é, para a ampliação lexical qualitativa do aluno da Educação Básica. Para a referida pesquisadora, as expressões idiomáticas são representantes legítimas do patrimônio lexical da língua portuguesa que não podem continuar a ser ignoradas no ensino de português como língua materna. Nesse mesmo aspecto, buscando evidenciar o importante papel do léxico no desenvolvimento da competência lexical, Morato (2012), utilizando uma obra literária como corpus de investigação, coleta e descreve os neologismos lexicais e mostra como o estudo sob uma perspectiva lexical pode ser aproveitado para tornar o aluno agente passivo do processo de aprendizagem. Em uma abordagem semelhante, Souza (2013) destaca o estudo dos estrangeirismos lexicais como um meio de ampliação lexical do aluno. O fato dessas unidades lexicais aparecerem em textos autênticos, como o publicitário, parece indicar que elas são aceitas e compartilhadas pela comunidade linguística e não apenas pelas pessoas que dominam uma língua estrangeira e, desta forma, devem ser trabalhadas na sala de aula de língua portuguesa. No mesmo ano, Santos (2013) apresenta uma pesquisa na qual analisa como os provérbios são desenvolvidos em uma coleção de livro didático de Potuguês (LDP). A partir dos resultados de sua análise, verificou-se a grande necessidade de trazer esses itens lexicais para o ensino de português, já que a presença dos provérbios é, constantemente, percebida em músicas, anúncios publicitários, textos literários, tirinhas, entre outros. Em outro trabalho com foco no léxico, Liska (2013) destaca o estudo dos gêneros textuais de fins humorísticos para o desenvolvimento da competência lexical na sala de aula. Para o pesquisador, o trabalho com os textos humorísticos permite ao aluno reconhecer e explicar efeitos intencionais de sentidos ambivalentes por meio da seleção lexical, a partir de pistas fonológicas, gráficas (imagens e sinais de pontuação), morfossintáticas, semânticas, interdiscursivas e intertextuais, utilizando-se de operações mentais que envolvam conhecimentos prévios de mundo, léxico-sistêmico e textual. Com base na análise de alguns LDPs, Resende (2014) verifica e descreve como os neologismos lexicais são ensinados nas escolas. Os resultados de sua análise mostram que, ainda hoje, a neologia lexical permanece marginalizada na sala de aula, pois em raros os casos, era abordada nos LDPs, o que pode indicar que a neologia lexical é pouco trabalhada em sala de aula. !38 Em uma recente pesquisa, Torquetti (2015) elenca uma série de estratégias para associar o ensino de léxico ao de leitura, levando em consideração a perspectiva textual o que culminou em uma proposta de reformulação de alguns exercícios da coleção analisada. No mesmo período, Martins (2015) faz uma pesquisa com enfoque nos neologismos semânticos e sua abordagem no ensino de língua portuguesa. A autora analisa, de forma qualitativa, os neologismos semânticos presentes em textos publicitários a partir de uma perspectiva pedagógica que busca aliar o ensino do léxico ao ensino do texto. Como podemos constatar, uma gama de trabalhos na atualidade tem como objeto o estudo de léxico. Além disso, os estudos dos diferentes tipos de itens lexicais mostram o quão rico é o universo lexical e como ele pode ser aproveitado dentro da sala de aula com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento das competências necessárias ao aluno, para que este possa utilizar sua língua com propriedade, de forma consciente e em situações diversas. É importante ter em mente que o trabalho com o léxico em sala de aula é fundamental e por isso, na próxima seção, falaremos do léxico e o desenvolvimento da competência lexical. 2.2.1 O léxico e o desenvolvimento da competência lexical Explorar o léxico em sala de aula com o objetivo de desenvolvimento da competência lexical do aluno significa ajudar esse aluno a ampliar seu repertório lexical de forma qualitativa. Ou seja, o trabalho com o léxico oferece ao aluno possibilidades concretas de transição de unidades lexicais de seu léxico passivo, onde se encontram as palavras que são conhecidas ou assimiladas pelo falante, para seu léxico ativo, onde são armazenadas as palavras realmente utilizadas pelo falante. Desta forma, é importante que o aluno tenha uma grande variedade de palavras disponíveis em seu léxico passivo para que ele possa utilizá-las em diferentes situações sócio-discursivas. Por outro lado, também torna-se essencial que a escola saiba que ampliar o repertório lexical envolve procedimentos que vão além de uma lista de palavras e seus significados. Quando falamos em uma ampliação lexical qualitativa, temos que considerar que não se trata de um processo simples, mas sim de um projeto !39 complexo que envolve habilidades a serem trabalhadas com os alunos ao longo de sua trajetória escolar. O trabalho com essas habilidade é que vai auxiliar o aluno no desenvolvimento da competência lexical. Sobre a competência lexical, Richard (1976) estabeleceu oito pressupostos relativos a essa competência que representam um grande contributo para o ensino de línguas, no que tange ao desenvolvimento da competência lexical e que serão descritos a seguir. No primeiro pressuposto, Richard (1976, p. 78) diz que “ [o] falante nativo de uma língua continua a expandir seu vocabulário ao longo de sua vida adulta, enquanto que o desenvolvimento de sintaxe na sua vida adulta é relativamente mínimo” . Deste modo, ao 5 explorar o léxico no ensino de língua portuguesa seria uma oportunidade de expandir o vocabulário dos alunos, ao passo que trabalhar aspectos gramaticais de modo tradicional como, por exemplo, a sintaxe, não seria adequado, já que o desenvolvimento dessa propriedade da língua acontece somente em um período específico, aproximadamente entre dois e 12 anos. Os outros pressupostos, no entanto, envolvem o conhecimento de uma palavra. Para Richard (1976, p. 79), “conhecer uma palavra significa reconhecer as probabilidades de ocorrência de uma palavra e as possibilidades associativas dessa palavra” . 6 Desta forma, para o referido pesquisador o conhecimento de uma unidade lexical vai além de conhecer o seu significado, pois envolve o conhecimento de sua frequência e também de sua colocação. Além disso, a hipótese seguinte nos mostra que “conhecer uma palavra implica em reconhecer restrições de uso de uma palavra de acordo com as variações de função e situação ” (RICHARDS, 1976, p. 79). Para que o aluno amplie seu repertório lexical, ele precisa 7 reconhecer as características das unidades lexicais relacionadas a fatores externos, como fatores sociais, temporais, geográfico, entre outros. Tradução nossa de: “The native speaker of a language continues to expand his vocabulary in 5 adulthood, whereas there is comparatively little development of syntax in adult life” (RICHARDS, 1976, p. 78) Tradução nossa de: “Knowing a word means knowing the degree of probability of encountering that 6 word in speech or print. For many words we also “know” the sort of words most likely to be found associated with the word”. (RICHARDS, 1976, p. 79) Tradução nossa de: “Knowing a word implies knowing the limitations imposed on the use of the 7 word according to variations of function and situation”. (RICHARDS, 1976, p. 79) !40 Ademais, Richard (1976, p. 80) diz que “conhecer uma palavra significa reconhecer o comportamento sintático associado a essa unidade lexical” . Sobre esse assunto, Ferraz 8 (2008) salienta que, como em nosso léxico mental as palavras não estão armazenadas simplesmente como conceitos, é fundamental ter o conhecimento de suas estruturas específicas e propriedades gramaticais. Outro pressuposto que envolve o conhecimento de uma palavra está relacionado às possibilidades derivacionais dessa palavra, ou seja, a criação de novas palavras a partir de uma unidade lexical. Nesse sentido, para Richard (1976, p. 80), “conhecer uma palavra implica o conhecimento da forma de uma palavra subjacente e as derivações que podem ser feitas a partir dela” . 9 Outra hipótese mostra que as palavras não existem isoladamente e, por isso, “conhecer uma palavra implica o conhecimento da rede de associações entre a palavra e outras palavras da língua” (RICHARD, 1976, p. 81). Sobre essa hipótese Souza (2013) afirma que a 10 exploração do campo semântico de uma palavra é uma atividade de ampliação lexical bastante interessante, na medida em que proporciona ao aluno a possibilidade de enxergar as palavras como elementos conectados ao contexto e, que dependendo do contexto, possuem campos semânticos diferentes. Ainda sobre os aspectos semânticos, Richard (1976, p. 82) salienta que “conhecer uma palavra significa conhecer o seu valor semântico” . Ou seja, conhecer uma palavra envolve 11 também reconhecer fatores semânticos que podem provocar restrições de uso dessa palavra em determinado contexto. Por fim, “conhecer uma palavra significa reconhecer os muitos e diferentes significados associados a ela” (RICHARD, 1976, p. 82). As palavras podem ter sentidos 12 Tradução nossa de: “Knowing a word means knowing the syntactic behavior associated with that 8 word”. (RICHARDS, 1976, p. 80) Tradução nossa de: “Knowing a word entails knowledge of the underlying form of a word and the 9 derivations that can be made from it”. (RICHARDS, 1976, p. 80) Tradução nossa de: “Knowing a word entails knowledge of the network of associations between that 10 word and other words in language”. (RICHARDS, 1976, p. 81) Tradução nossa de: “Knowing a word means knowing the semantic value of a word” (RICHARDS, 11 1976, p. 82) Tradução nossa de: “Knowing a word means knowing many of the different meanings associated 12 with the word”. (RICHARDS, 1976, p. 82) !41 diferentes dependendo do contexto em que ela está inserida. Desta forma, como a palavra dificilmente possuirá apenas uma referência, para que o aluno inclua essa palavra em seu léxico passivo, ele precisa conhecer os diferentes sentidos dessa palavra nos diferentes contextos. Corroborando os pressupostos propostos por Richard (1976), Tréville e Duquette (1996) citados por Bezerra (1998) relacionam a competência lexical a cinco componentes: 1. Componente lingüístico (relativo à palavra e à frase) – constituído pelo conhecimento das formas oral e escrita dos itens lexicais, de sua estrutura, de seus diversos sentidos, de suas relações morfossintáticas e de seus contextos privilegiados; 2. Componente discursivo – constituído pelo conhecimento da combinação das palavras com as séries lexicais que apresentam relações lógico-semânticas entre si (regras de coesão, coerência, coocorrência); 3. Componente referencial – conhecimento relativo às experiências pessoais, aos objetos do mundo e suas relações e que permite prever, no discurso, as seqüências lexicais correspondentes a estereótipos de comportamentos sociais; 4. Componente sociocultural – constituído pelo conhecimento do valor das palavras de acordo com os registros lingüísticos, de seus significados culturais e de seu emprego de acordo com as situações de comunicação; 5. Componente estratégico – capacidade de manusear as palavras em suas redes associativas com o objetivo de esclarecer, resolver um problema de comunicação e capacidade de superar o desconhecimento de palavras por procedimentos de inferência a partir de pistas contextuais (compreensão) ou de formulações aproximadas, paráfrases e definições (produção). (TRÉVILLE e DUQUETTE, 1996, apud BEZERRA, 1998, p.98): Cunha (2012), ao desenvolver uma pesquisa sobre as expressões idiomáticas, fez uma adaptação dos cinco componentes relativos à competência lexical, para o desenvolvimento do que a referida pesquisadora chamou de competência léxico-fraseológica". Como neste trabalho nosso objeto de pesquisa também consiste em uma unidade fraseológica, utilizaremos os cinco componentes da competência léxico-fraseológica adaptados por Cunha (2012) para mostrar como o trabalho com as composições sintagmáticas podem contribuir para o desenvolvimento de competências comunicativas em sala de aula. !42 2.2.2 A competência léxico-fraseológica Associando as composições sintagmáticas ao componente linguístico, o aluno deve estar consciente das diversas formas que esses itens lexicais podem assumir levando em consideração sua utilização em modalidades e registros diferentes. Nesse caso, o aluno deve estar consciente de que, embora a fixidez seja uma característica forte das estruturas em questão, é possível que haja modificações em sua estrutura para que melhor se adapte ao contexto, principalmente quando levamos em consideração o discurso publicitário. As relações morfossintáticas também podem ser trabalhadas nesse componente, e assim é possível mostrar que as composições sintagmáticas funcionam como unidades simples, embora elas possuam número de componentes variados. Em relação ao componente discursivo, devemos lembrar que as unidades fraseológicas são elementos que atuam no discurso dando coesão sintática, semântica e pragmática. Sendo assim, é essencial que o aluno conheça o sentido da composição sintagmática para que ele possa perceber as relações lógico-semânticas presentes no texto. O componente referencial está ligado ao conhecimento prévio que o aluno tem sobre o gênero e tipo textual aos quais está sendo exposto, pois, nesse caso, ele terá condições de prever e entender o tipo de vocabulário a ser utilizado. Por exemplo, se o aluno sabe previamente as características inerentes à publicidade, ele poderá então prever que, em se tratando de um discurso marcado pela necessidade de vender um produto, seja ele um objeto ou um conceito, esse discurso, certamente, será marcado pela presença de composições sintagmáticas neológicas. No que tange ao componente sociocultural, é preciso que o aluno consolide seu conhecimento em relação ao valor das composições sintagmáticas, isto é, ele deve saber quais são as condições e restrições de uso dessas unidades. Por último, temos o componente estratégico que consiste na capacidade do aluno entender o texto utilizando estratégias como a inferência. Nesse caso, o aluno, ao utilizar essa estratégia, é capaz de compreender palavras que não pertencem ao seu repertório lexical. Em uma relação com a competência léxico-fraseológica, esse componente pode auxiliar o aluno a identificar pistas textuais que o levem a depreender o sentido de uma composição sintagmática neológica importada de outro sistema linguístico. Como há necessidade de !43 nomear novas tecnologias, nem sempre temos disponível em nossa língua a palavra e, desta forma, a unidade lexical é importada mantendo a forma do sistema de origem. Nesse caso, podem existir pistas textuais que levem o leitor a compreender o sentido dessa palavra. É importante ressaltar que a competência léxico-fraseológica está intrinsecamente ligada à competência comunicativa. Sendo assim, o desenvolvimento da primeira, consequentemente, provoca o desenvolvimento da segunda. 2.3 A propaganda como um gênero textual Uma das funções da escola no que concerne à ampliação da competência comunicativa do aluno seria cultivar a diversidade, isto é, a língua real falada no dia a dia, como salienta Antunes (2007). É preciso, sobretudo, que o aluno tenha consciência da diversidade da língua e, para isso, a escola deve favorecer práticas que privilegiem a percepção dessa diversidade pelos alunos. Antunes (2007, p. 107) exemplifica uma série de tópicos os quais a diversidade deve compreender: Diversidade de modalidade de usos da língua: neste caso os alunos devem conviver tanto com textos orais como também com os escritos; Diversidade de norma: explorar tanto textos na norma culta padrão, quanto textos que compreendem a norma não padrão; Diversidade de registros: permitir que o aluno tenha contato com o nível de língua formal e também informal; Diversidade de suporte: possibilitar o contato do aluno com textos veiculados em diferentes tipos de suporte (de livros, de jornais, de revistas, de cartazes etc.); Diversidade de funções: permitir que o aluno tenha contato com textos literários e textos não literários (informativo, expositivos, persuasivos, apelativos, explicativos etc.); Diversidade de gêneros textuais: permitir que o aluno tenha o acesso a uma diversidade de gêneros textuais, como artigos de opinião, anúncios publicitários etc. Sobre a diversidade de gêneros textuais, os PCNs (BRASIL, 1998) ressaltam a importância de se trabalhar os gêneros como objeto de ensinso. É preciso lembrar que a seleção dos gêneros a serem trabalhados deve levar em consideração não só aqueles que pertencem ao universo do aluno, mas também aqueles que possuem uma grande circulação !44 social. Os gêneros escolhidos é que vão determinar os tipos de conteúdo a serem trabalhados em sala de aula. De acordo com os PCNs (BRASIL, 1998, p. 53), [a] grande diversidade de gêneros, praticamente ilimitada, impede que a escola trate todos eles como objeto de ensino; assim, uma seleção é necessária. Neste documento, foram priorizados aqueles cujo domínio é fundamental à efetiva participação social, encontrando-se agrupados, em função de sua circulação social, em gêneros literários, de imprensa, publicitários, de divulgação científica, comumente presentes no universo escolar. Ainda em conformidade com os PCNs (BRASIL, 1998), o texto publicitário é um gênero textual que deve ser privilegiado em sala de aula para o trabalho com a leitura de textos. A propaganda circula comumente no universo social e, a partir da leitura desse gênero textual, espera-se que o aluno, no que tange à prática de análises linguísticas, possa desenvolver capacidades que serão listadas a seguir: a) reconhecer características referentes a esse tipo de gênero, considerando o estilo e a construção composicional; b) fazer uma análise das sequências discursivas predominantes e também dos recursos expressivos característicos da publicidade; c) observar a variação linguística e a escolha do registro em função do gênero publicidade; d) ampliar o repertório lexical, isto é, não só a aquisição de novas palavras, mas sim consolidação do conhecimento sobre o uso mais apropriado dessas palavras; e) ativar estratégias como as inferências pragmáticas para depreender o sentido de expressões que fazem parte do seu vocabulário; f) interpretar recursos figurativos tais como, as metáforas, metonímias, hipérboles. Todas essas habilidades podem ser praticadas dentro de sala de aula a partir da utilização de textos publicitários, com a finalidade de ampliar o repertório lexical do aluno, além de auxiliar no desenvolvimento de sua competência lexical. Sobre o gênero textual publicidade, Carvalho (2010, p. 279) salienta que a publicidade é um gênero textual em que os neologismos são bastante frequentes. Nesse caso, consideramos o trabalho com textos publicitários essencial para os objetivos dessa pesquisa, !45 já que nosso objeto de estudo são as composições sintagmáticas neológicas retiradas de textos publicitários. 2.4 Unidades Fraseológicas O estudo das combinações fixas ou coocorrência de palavras remontam à Antiguidade. Desde essa época existem discussões relacionadas às formações de palavras, sintagmas e locuções (CUNHA, 2012). Ortiz Alvarez (1997) afirma que as primeiras pesquisas sobre as combinações fixas de lexemas foram feitas por Bally, entretanto, essas pesquisas encontraram apoio somente nos anos 30 na União Soviética. Silva (2006) discorda da estudiosa mencionada, ao afirmar que, Saussure já teria feito referência às locuções. Contudo, a contribuição e o mérito de Bally não são descartados, uma vez que ele foi o pesquisador que introduziu pela primeira vez o termo phraséologie, segundo Silva (2006, p. 13), utilizado “para abarcar o conjunto de fenômenos sintáticos e semânticos que dão lugar, por uma parte aos grupos usuais ou séries fraseológicas e, por outra, às unidades fraseológicas”. A composição sintagmática, objeto de pesquisa deste estudo, em uma classificação mais geral, está inserida em um grupo mais amplo, o grupo das unidades fraseológicas (UFs). As UFs, com suas particularidades, vêm despertando cada vez mais a atenção dos pesquisadores (CUNHA, 2012). No entanto, construir um único conceito que abarque as características comuns a todas as UFs não consiste em uma tarefa fácil para os estudiosos da área da Fraseologia, tampouco, estabelecer fronteiras que definam quais as UFs devem ser objeto de estudo da área. Sobre essa temática, Nogueira (2007, p. 62) acrescenta que: [...] determinar os limites das UFs, classificando-as satisfatoriamente, não tem sido uma tarefa fácil para aqueles que se propuseram a fazê-lo, tampouco se têm obtido resultados que atendam completamente às expectativas dos estudiosos da área. Definir e classificar as UFs constitui-se, portanto, num dos aspectos mais controvertidos da investigação no campo da fraseologia. Com o objetivo de tentar buscar um conceito de unidades fraseológicas que norteie este trabalho, e consequentemente, um conceito de composição sintagmática, será feito o !46 percurso teórico de alguns estudiosos. Além disso, na tentativa de tornar esse assunto menos controverso, serão retomadas as posições de pesquisadores em relação aos tipos de UFs. Ortiz Alvarez (1997, p. 194) define as UFs como “[...] combinações de elementos linguísticos de uma dada língua, relacionados semântica e sintaticamente, que não pertencem a uma categoria gramatical específica e cujo significado é dado pelo conjunto de seus elementos”. Para a autora mencionada, as UFs podem pertencer à categorias lexicais distintas e, por isso, podem desempenhar funções gramaticais diferentes. Ademais, os constituintes internos dessas unidades lexicais fraseológicas mantêm uma relação sintático-semântica que, confere às estruturas em questão o status de unidades simples (apenas um vocábulo), já que o significado é dado pelo conjunto de seus elementos e não pelos constituintes separadamente. Sobre as UFs, Vilela (2002) acrescenta que as UFs são combinações fixas que funcionam, do ponto de vista sintático e semântico, como unidades lexicais no sistema linguístico. Para o referido autor, as UFs são “[...] combinações fixas (diria mesmo, congeladas) de uma dada língua, combinações que, no sistema e na frase, podem assumir a função e o significado de palavras individuais” (VILELA, 2002, p. 160). Uma conceituação mais específica é apresentada por González Rey (2004), citado por Nogueira (2007), que nos mostra as UFs como aquelas unidades caracterizadas pela pluriverbalidade, a fixação, a repetição no discurso, a idiomaticidade, iconicidade e a institucionalidade. A pluriverbalidade tem a ver como o número de vocábulos que compõem a unidade fraseológica, ou seja, é a presença de, pelo menos, dois vocábulos na estrutura. A fixação é uma característica que nos mostra que os componentes de uma unidade fraseológica estabelecem uma relação estável entre si e, como consequência de sua estabilidade e fixação, muitas vezes, se repetem com a mesma forma no discurso. Já a idiomaticidade está relacionada ao fato de o sentido de uma unidade fraseológica ser depreendido através de uma leitura não composicional, ao passo que a iconicidade da sequência fixada representa um mundo real, mesmo que abstrato. Por fim, a institucionalidade é o reconhecimento da unidade fraseológica pela comunidade de falantes. No entanto, Nogueira (2007) parte para um conceito mais geral do que aquela postulada por González Rey (2004). Para o pesquisador, as UFs são: !47 [...] construções formadas por meio da combinação de dois ou mais elementos, com certo grau de fixação, cunhadas ao longo dos anos (colocação, locução idiomática ou expressão idiomática, e ainda as parêmias: refrões e provérbios e outros enunciados fraseológicos) cada uma com suas características. (NOGUEIRA. 2007, p. 43) Essa definição é um pouco mais cautelosa na medida em que são apresentadas as características comuns a todas as UFs e é especificado que cada uma possui traços peculiares. Dessa forma, podemos dizer que seria um tanto inadequado estabelecer um conceito geral e único para todas as UFs, uma vez que cada uma delas, embora compartilhem algumas características, possuem propriedades individuais típicas. Além de conceituar as UFs, é importante estabelecer quais unidades lexicais fazem parte do grupo das UFs. Para isso, é necessário, primeiro, que se estabeleça uma diferença clara entre as UFs e as combinações livres do discurso. As combinações livres são geradas a partir das regras de uma dada língua, porém são combinações efêmeras, ou seja, são geradas em uma situação sem a obrigatoriedade de se repetir novamente com a mesma forma. Por outro lado, as UFs são construções estáveis que geralmente se repetem com a mesma configuração, uma vez que os seus constituintes estabelecem uma relação de dependência uns com os outros. Vilela (2002, p. 159) concorda ao afirmar que “a técnica livre do discurso é toda a combinação gerada pelas regras combinatórias jogando com as propriedades sintáticas e semânticas, como, por exemplo, as regras que regulam a relação entre verbo e respectivos complementos”. O estudioso ainda faz uma oposição entre as combinações livres e as construções do “discurso repetido” que, para ele, se equivalem às UFs. Delimitar o grupo de UFs exige que o pesquisador estabeleça critérios rigorosos, mas, ainda sim, existe a possibilidade de incorrer em inadequações. De fato, não existe uma consonância entre os pesquisadores sobre quais são os tipos de estruturas que devem fazer parte desse grupo. Casares (1969 [1950]), em seu importante trabalho intitulado Introducción a la lexicografia moderna, estabelece quatro tipos de UFs, a saber: a locução, a frase proverbial, o provérbio (el refrán) e por fim, o modismo. Já Corpas Pastor (1996), uma estudiosa de grande peso no âmbito dos estudos fraseológicos, divide os fraseologismos em três grandes esferas representadas pelas seguintes construções: as colocações; as locuções; os enunciados fraseológicos (fórmulas rotineiras e as parêmias). Com algumas alterações, Nogueira (2007) apresenta uma lista composta por cinco estruturas que, segundo ele, !48 representam o grupo das UFs: colocação, locução idiomática ou expressão idiomática, refrão, provérbio e enunciados fraseológicos. Como podemos constatar, o provérbio ou parêmia é o único ponto de convergência na classificação dos três referidos pesquisadores. As locuções, os enunciados fraseológicos e as colocações são citados, pelo menos, por dois dos estudiosos. O modismo, citado somente por Casares (1969 [1950]), refere-se a um “modo particular de hablar proprio y privativo de una lengua, que se suele apartar em algo de las regras generales de la gramática” (CASARES, 1969 [1950], p. 207). Podemos entender, portanto, que os modimos são estruturas que representam modos de falar próprios da língua, que possuem certa liberdade em termos de regras gramaticais. No entanto, embora Casares (1969 [1950]) avalie os modimos com um tipo de unidade fraseológica, acreditamos que todas as UFs representam modos de falar peculiares e próprios de uma língua. Portanto, a nosso ver, o modismo não consiste em um tipo específico de unidade fraseológica, mas sim uma característica peculiar a todas as UFs. Em relação às colocações, apontada por dois pesquisadores como um tipo de unidade fraseológica, existe uma grande discussão entre os estudiosos da área em torno de seu status como unidade fraseológica ou como propriedade da língua. Essas questões serão discutidas a seguir, pois acreditamos que, para caracterizar o objeto de estudo deste trabalho, é necessário antes a retomada das discussões sobre as unidades lexicais que compartilham características. 2.4.1 Colocação: unidade lexical ou propriedade da língua? O termo colocação foi utilizado pela primeira vez em 1957 pelo linguista J. R. Firth, para designar a coocorrência frequente entre unidades lexicais (ŠKOLNÍKOVÁ, 2010) Para Corpas Pastor (1996), as colocações são unidades que são geradas a partir de regras da própria língua e não consistem em atos de fala, nem enunciados completos. A referida pesquisadora salienta que as colocações podem ser definidas levando-se em consideração duas características complementares, a fixação analítica e as restrições de combinações estabelecidas pelo uso. A fixação analítica está relacionada com o fato de os falantes produzirem certas combinações de palavras frente a outras combinações que são !49 totalmente possíveis de ocorrerem. Ademais, as colocações apresentam restrições de combinação estabelecidas pelo uso, geralmente embasadas pela semântica, pois em uma colocação, podemos identificar uma base (elemento semanticamente autônomo) que, além de determinar a escolha do colocado, atribui a ele uma acepção que, na maioria das vezes, apresenta caráter abstrato ou figurado. Para Corpas Pastor (1996), a fixação analítica e as restrições semânticas e sintáticas, características observadas nas colocações, são responsáveis por conferirem a elas o caráter estável das UFs. Dessa mesma forma, podemos considerar que Koike (2001, apud SKOLNÍKOVÁ, 2010, p. 21) também considera as colocações como uma unidade lexical fraseológica e não como uma propriedade da língua. Ademais, o referido autor descreve as cinco características que, segundo ele, são as mais importantes em se tratando de colocações, a saber: a) frequência; b) restrições combinatórias; c) composicionalidade formal; d) combinação dos lexemas; e) tipicidade e precisão semântica. Para um melhor esclarecimento, descrevemos as características mencionadas: a) Frequência A frequência de coocorrência das unidades lexicais constituintes de uma colocação é sem dúvida uma das propriedades mais marcantes dessa unidade fraseológica. No entanto, é preciso enfatizar que essa não é a única característica percebida em uma colocação, nem tampouco por si só pode ser utilizada como propriedade definidora de uma colocação. Não podemos afirmar, portanto, que todas as combinações que coocorrem frequentemente são colocações, pois em se tratando dessas estruturas é preciso ressaltar que a coocorrência dos lexemas é, normalmente, determinada por critérios semânticos e de uso. b) Restrições combinatórias Embora as colocações, em nível do sistema linguístico, sejam combinações de palavras livres, elas apresentam restrições combinatórias que de certa forma as diferenciam das combinações que ocorrem no discurso livre, por exemplo. Nas combinações que ocorrem no discurso livre, as possibilidades de alteração que atuam nas combinações não são tão restritas. Nesse sentido, Skolníková (2010), apoiada por Corpas Pastor (1996) postula que no caso da colocação, ou seja, a coocorrência de unidades lexicais, normalmente um de seus constituintes, apresenta maior restrição. A autora citada apresenta a colocação coger la gripe, !50 e afirma que o sintagma nominal la gripe ocorre principalmente com o verbo coger e seus sinônimos, enquanto que o referido verbo combina com outros vários substantivos. Nesse caso, temos que o sintagma nominal (la gripe) é a base da colocação que determina, do ponto de vista semântico, o colocado, no caso o verbo (coger). c) Composicionalidade formal A composicionalidade formal é uma característica própria das unidades que não apresentam um grau de fixidez alto, como é o caso das colocações. O fato de as colocações permitirem alterações de ordem sintática e semântica de seus elementos constituintes nos mostra que são estruturas mais flexíveis, ou seja, possuem baixo grau de fixidez. Entretanto, segundo Skolníková (2010), essa particularidade não é o suficiente para classificar uma colocação como uma combinação livre, pois não podemos nos esquecer de que as combinações encontradas no discurso livre são mais flexíveis do que as colocações. d) Combinação dos lexemas A combinação dos lexemas é um traço semântico que nos permite observar a forte 13 relação entre os significados das unidades lexicais de uma colocação. Ao observar as colocações chuva torrencial e chover torrencialmente, percebemos que houve uma alteração na classe gramatical dos componentes (chuva [substantivo], torrencial [adjetivo] e chover [verbo], torrencialmente [advérbio]), o que demonstra que existe uma forte combinação dos lexemas e que, por esse motivo, foi possível a modificação das classes gramaticais das unidades lexicais e manter duas colocações semelhantes do ponto de vista semântico. e) Verdade, tipicidade e precisão semântica Essa característica corresponde a outros vínculos que os componentes das colocações apresentam. Segundo Corpas Pastor (2001, p. 103) “los miembros de las colocaciones reflejan la relación típica, y, por tanto, verdadera que mantienen los colocados em el mundo real.” Para exemplificar tal afirmação, temos o exemplo da colocação carregar uma pistola (cargar um pistola) em oposição às que, segundo a autora, não seriam exemplos de colocações, lavar e esquecer uma pistola (lavar e olvidar uma pistola). Para a referida autora, o substantivo pistola, estabelece uma relação típica com arma de fogo e, por esse motivo, existe uma Unidade lexical correspondente à unidade distintiva mínima do sistema semântico de uma língua, e 13 considerada abstratamente, isto é, independentemente da forma flexional que possa assumir. Lexema. In: Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-09-19].Disponível na www: . !51 precisão semântica pela escolha do verbo carregar, pois os verbos lavar ou esquecer não representam a relação típica entre os componentes. Para Skolníková (2010), as características acima descritas, principalmente as restrições combinatórias, são fortes indícios que sustentam o argumento de que as colocações são UFs. No entanto, a autora reconhece que as fronteiras entre as colocações e as combinações livres não são muito claras e sinaliza a dificuldade em delimitá-las. Ainda sobre essa mesma temática, Gama (2009) sinaliza que as colocações possuem uma alta flexibilidade combinatória, permitindo assim que essas sofram transformações de ordem sintática. As colocações podem sofrer transformações tais como a modificação adjetiva, transformação para a passiva, nominalização, relativização, entre outras. Vejamos a seguir os exemplos trabalhados por Gama (2009, p. 17) que nos mostram as possibilidades de modificações observadas nas colocações (QUADRO 1). QUADRO 1: possíveis modificações das colocações Fonte: (GAMA, 2009, p.17) Nesse sentido, ao mostrar as possibilidades de alterações semântica e sintáticas das colocações, Gama (2009) as aproxima das combinações livres, cuja principal característica é a liberdade combinatória e a flexibilidade de restrição. Hoey (2005), no entanto, é contundente ao afirmar que o termo ‘colocação’ é utilizado Tipos de transformações Exemplos (colocação prototípica / colocação modificada). Modificação adjetiva Fazer uma aterragem/ fazer uma aterragem forçada Transformação para a passiva Transplantar um órgão / O órgão foi transplantado Nominalização Transplantar um órgão/ O transplante do órgão !52 para denominar uma propriedade da língua, mais especificamente uma propriedade do léxico mental. Apoiado em Sinclair (1991) e Stubbs (1996), o pesquisador mencionado enfatiza que todos os itens lexicais possuem colocações (HOEY, 2005). Na definição de Hoey (2005, p. 3) “[c]olocação é, a grosso modo, a propriedade da língua em que duas ou mais palavras aparecem com frequência em companhia umas da outras (e.g. consequência + inevitável)” . 14 No intuito de fortalecer seu argumento para considerar a colocação como uma propriedade da língua, Hoey (2005) apresenta a definição do Webster’s New internacional Dictionary (1928), que descreve a vocábulo ‘collocation’ como: o ato de se colocar, esp. com outra coisa; propriedade de ser colocado com outra coisa; disposição no lugar; arranjo. A escolha e a colocação das palavras. Sir W Jones ... Colocação denota um arranjo ou a ordenação de objetos (esp. Palavras) com referência um ao outro . (HOEY, 2005, p. 3) 15 Diante da questão que posiciona o termo ‘colocação’ ora como uma unidade lexical, ora como uma propriedade da língua, preferimos considerar que a colocação pode assumir as duas funções. O termo ‘colocação’ pode representar tanto as unidades lexicais que coocorrem com uma grande frequência, quanto a propriedade da língua, mais especificamente do léxico mental, que nos mostra a capacidade de dois ou mais vocábulos aparecem frequentemente ao lado um do outro. Em nosso trabalho iremos nos referir a colocação como uma propriedade da língua, e utilizaremos os termos composição sintagmática e combinatória lexical para nos referir ao resultado dessa colocação. Tradução nossa de: “Collocation is, crudely, the property of language whereby two or more words 14 seens to appear frequently in each others company (e.g. inevitable + consequence) ” (HOEY, 2005, p. 3) Tradução nossa de: “… the act of placing, esp. with something else; state of being placed with 15 something else; disposition in place; arrangement. The choice and collocation of words. Sir W Jones… COLLOCATION denotes an arrangement or ordering of objects (esp. words) with reference to each other collocation”(HOEY, 2005, p. 3) !53 2.5 A composição sintagmática Para se chegar ao conceito de composição sintagmática, objeto de estudo desta pesquisa, será necessário antes conceituar os outros tipos de composição, a composição subordinativa e a composição coordenativa. Desta forma, ao estabelecer as características de outros tipos de compostos sintáticos, conseguimos isolar nosso objeto de pesquisa com mais precisão. Ao descrever os neologismos formados por composição, Alves (1994) define como a principal característica da composição subordinativa o fato de existir uma subordinação lexical entre os elementos compostos. Em outras palavras, em uma composição subordinativa existe uma relação de caráter determinante/determinado, ou determinado/determinante entre os dois componentes da unidade lexical. Sobre as características da composição subordinativa, Alves (1994, p. 41) acrescenta que: A relação subordinativa revela-se entre dois substantivos, em que o primeiro exerce o papel de determinado e o segundo, de determinante. Em outras palavras, a base determinada constitui um elemento genérico, ao qual o determinante acresce uma especificação, característica da classe adjetival. Como exemplo dessa relação de subordinação entre os substantivos, Alves (1994) apresenta as unidades lexicais “enredos-denúncias”, “político-galã”. Para a autora mencionada, esses dois compostos distribuem-se entre a classe substantival e os substantivos determinantes “denúncia” e “galã” desempenham função adjetival. As unidades lexicais “empurra-êmbolo” e “lava-louça” são exemplos de subordinação lexical “expressa por meio de formações substantivas nas quais o primeiro componente constitui uma base verbal, ao qual se subordina um outro, que desempenha a função sintática de objeto direto.” (ALVES, 1994, p. 42). Além das composições subordinativas constituídas pela justaposição de dois substantivos, Alves (1994) também apresenta os compostos que foram formados a partir da justaposição de adjetivo e substantivo (ou vice-versa). Nesses casos, a subordinação lexical é motivada pelo adjetivo (determinante), que especifica o substantivo (determinado). As !54 unidades lexicais “pinta-preta” e “média-metragem” são apresentadas como exemplos e nos mostram que a ordem dos elementos, determinado e determinante, não é fixa, pois o substantivo (determinado), ora antecede o adjetivo (determinante), ora apresenta-se na segunda posição. Sobre a composição coordenativa, Alves (1994, p. 44) afirma que “a função sintática de coordenação é exercida pela justaposição de substantivos, adjetivos ou membros de uma classe gramatical”. Além disso, a composição coordenativa processa-se sempre entre bases que possuem a mesma distribuição e não apresentam a relação de subordinação do tipo determinado/determinante. Como exemplos, a pesquisadora apresenta as seguintes unidades lexicais destacadas, em negrito, abaixo (QUADRO 2) QUADRO 2: Exemplos de compostos coordenativos . Fonte: ( ALVES, 1994, p. 44) Como podemos ver através dos exemplos apresentado, a presença do hífen não é uma característica que define se um item lexical é, de fato, uma composição coordenativa ou subordinativa, embora ele esteja presente na maioria dos exemplos apresentados. Sobre esse assunto, Santos (2009, p. 24) afirma que o hífen trata-se de uma convenção da escrita que, aplicada aos compostos, constitui uma tentativa de traçar os seus limites, individualizando-os. No entanto, o seu uso nesse meio se dá muitas vezes de forma assistemática. O hífen reflete uma tentativa de marcar, através da escrita, a chegada de uma estrutura sintática ao estágio de um composto, constatação nem sempre fácil devido ao caráter gradual desse processo. Sob essa perspectiva, não há diferença entre chapéu-de-sol e pai de família, por exemplo. (1) composto coordenativo (base adjetiva): (2) composto coordenat ivo (base substantiva): ‘tiroteio lírico humorístico’; “outono-inverno” ‘explorações rítmico-harmônicas’; “telespectador-eleitor-contribuinte” ‘delegação jordaniano-palestina’ ‘jovem sueco-argentina’ !55 Sem fazer a diferenciação entre os compostos formados por subordinação ou coordenação, e com o nome de compostos sintáticos, Villalva (1994) acrescenta que a composição sintática é uma estrutura formada por um mínimo de duas palavras, mas que no discurso funciona como um item lexical, ou seja, funciona como uma palavra simples. As unidades lexicais “governo-sombra”, “surdo-mudo”, “saia-casaco”, “porta-voz” e “espirra- canivetes” são apresentados como exemplos de compostos sintáticos. No entanto, Villalva (1994) faz questão de salientar que unidades lexicais como “amor-perfeito”, “pés de galinha”, “ministro da educação”, “fita magnética” não se encaixam na denominação de compostos sintáticos, mas sim são denominadas pela autora de ‘expressões sintáticas lexicalizadas’. A referida pesquisadora aponta como característica dos compostos sintáticos que os diferencia das ‘expressões sintáticas lexicalizadas’ o fato de os primeiros serem oriundos de um processo condicionado por restrições sobre as formas de base e sobre as formas resultantes de sua intervenção, já o segundo grupo é formado a partir de um processo de lexicalização, que, segundo Villalva (1994), opera de forma imprevisível. Para Alves (1994) e Ferraz (2010) as ‘expressões sintáticas lexicalizadas’ são as denominadas ‘composições s in tagmát icas’ (ALVES, 1994) e ‘ formações sintagmáticas’ (FERRAZ, 2010), respectivamente. Importa salientar que no presente trabalho, assim como em Alves (1994), adotaremos o termo ‘composição sintagmática’ para se referir ao objeto de estudo desse trabalho. Alves (2010) afirma que a composição sintagmática é processada “quando os membros integrantes de um segmento frasal encontram-se numa íntima relação sintática, tanto morfológica quanto semanticamente, de forma a constituírem uma unidade léxica” (p. 50). Além de uma composição sintagmática se portar como uma unidade lexical simples, pela forte relação sintático-semântica entre seus elementos, esta também se caracteriza por apresentar uma ordem constante a suas unidades formadoras (Alves, 2010). Em outras palavras, uma composição sintagmática nominal apresenta-se com uma base (determinada) seguida de um determinante, que pode ser introduzido por uma preposição, como verificamos nas unidades lexicais “farmácia de manipulação” e “crimes de colarinho-branco”. Porém, nem sempre os determinantes são introduzidos por uma preposição, como é o caso das unidades lexicais “produção independente” e “condomínio fechado”. Ademais, no interior de uma composição sintagmática, os membros constituintes desse item lexical conservam as relações !56 gramaticais características das classes a que pertencem, como por exemplo, as peculiaridades flexionais de suas categorias de origem. Ainda sobre essas unidades, com a denominação ‘formação sintagmática’, Ferraz (2010, p. 38-39) as define como “unidades constituídas de mais de uma palavra, com certa coesão interna entre os seus componentes, tornando-se combinações fixas que, no sistema e na frase, podem assumir a função e o significado de palavras individuais”. Para o pesquisador mencionado, trata-se de unidades que estão em vias de lexicalização, ou seja, estão deixando de ser combinações livres e passando para o nível do léxico, se tornando uma unidade lexical (FERRAZ, 2010). No entanto, Alves (1994) ressalta que sobre o processo de lexicalização dessas unidades, a tradição gramatical considera composta a unidade léxica, cuja lexicalização não seja uma dúvida para o falantes. Ferraz (2010) apresenta como exemplos de formações sintagmáticas retirados de textos publicitários, as seguintes unidades destacadas em negrito: (...) É muito conforto: computador de bordo, direção hidráulica, CD Player e ar- condicionado, itens de série na versão RXE. RENAULT . Revista IstoÉ. nº1595, 03/05/2000 p. 05. Bagageiro para até 100 kg, com escada para facilitar a colocação da bagagem e prancha de desencalhe. MITSUBISHI. IstoÉ. nº1873, 07/09/2005 p. 08 Importa considerar que para este trabalho que o conceito de composição idiomática aceito consiste no conjunto dos conceitos descritos por Alves (1994) e Ferraz (2010). Contudo, não consideramos que esse seja um conceito fechado, pois a partir da análise das composições sintagmáticas neológicas podemos identificar características que não foram mencionadas pelos referidos pesquisadores. 2.5.1 Composições sintagmáticas: siglas e acronímica Existe um tipo especial de composição sintagmática formada por meio de sigla ou acrônimo que é resultado da lei de economia discursiva, pois o sintagma é reduzido de modo !57 a tornar o processo de comunicação mais simples e eficiente (ALVES, 1994, p. 56). Assim como Alves (1994), não faremos a distinção da terminologia de sigla e de acrônimo, embora assumimos que exista uma diferença terminológica. Na composição sintagmática formada por meio de sigla ou acrônimo encontramos características que serão apresentadas a seguir, seguidas de exemplos que possibilitarão uma melhor visualização. A composição é constituída pelas iniciais dos elementos componentes do sintagma. Esse processo é, de acordo com Alves (1994), o processo mais frequente levando em consideração esse tipo especial de composição sintagmática. Como exemplo, a referida pesquisadora nos apresenta a unidade lexical “EPR” (Exército Revolucionário do Povo). Outro tipo de composição consiste na união de sílabas do conjunto sintagmático, como em “Anfavea” (Associação nacional de Veículos Automotores). Algumas composições formadas por meio de siglas ou acrônimos, embora não muito frequentes, podem ser ligadas por preposição, como é o caso de “PC do B” (Partido Comunista do Brasil). Com relação às regras de flexão quanto ao gênero, as siglas ou acrônimos seguem o primeiro elemento da composição, como podemos verificar no exemplo abaixo retirado de Alves (1994, p. 57) ““o presidente me determinou e eu vou implantar as ZPEs’, afirmou ontem Fernando Mesquista” (E, 11-10-88:34, c.5). No caso do exemplo apresentado “ZEPs” é a redução do sintagma ‘zonas de processamentos de exportações’, e, nesse caso, utilizou-se o artigo feminino “as” para concordar com o primeiro elemento da composição “zonas”, que também é feminino. Nesse exemplo, também podemos perceber a presença do “s” ao final da sigla, que tem a ver com a flexão quanto ao número. Nem sempre essa flexão é feita, permanecendo, assim, a sigla invariável, como podemos verificar através do exemplo abaixo também retirado de Alves (1994, p. 57) “o novo ministro da Indústria e Comércio, Roberto Cardoso Alves, prometeu ao empresário de São Paulo que as ZPE - Zonas de Processamento das Exportações - aprovadas pelo seu antecessor Castelo Branco, ainda não são uma questão fachada” (IE, 24-08-88:26, c.1) !58 É importante salientar que, para a utilização da composição formada por meio de sigla ou acrônimo como uma forma de economia linguística, essa sigla, ao ser empregada pela primeira vez, deve vir acompanhada do sintagma completo. Assim, a sigla pode ser interpretada corretamente pelos receptores do texto, salvo caso em que a sigla já seja muito utilizada em vocabulários específicos, como é o caso da sigla “PT” (partido dos trabalhadores), que, no vocabulário político, seria facilmente decodificada pelos receptores do texto. Em nosso trabalho, como já salientamos antes, o objeto de pesquisa consiste em composições sintagmáticas e neológicas. Escolhemos trabalhar com esse objeto de pesquisa por considerar que os neologismos nos fornecem informações sobre o que está acontecendo com a língua. Desta forma, na próxima seção falaremos um pouco sobre a neologia lexical. 2.6 A neologia lexical As línguas vivas têm como característica principal a capacidade de renovar seu acervo lexical. Enquanto algumas palavras, por diversas motivações e processos, são criadas pelos falantes de uma comunidade linguística, outras unidades lexicais caem em desuso e passam a ser denominadas de arcaísmos. Ao processo de criação de novas unidades lexicais, damos o nome de neologia lexical. A neologia lexical é um fenômeno inerente às línguas em evolução e o léxico, diretamente associado ao universo de pessoas e coisas, absorve imediatamente a evolução de uma sociedade, bem como as transformações culturais (tradição, costume, moda, crença), e registra tudo nos fenômenos de variação e mudança lexicais, entre os quais situamos a motivação para a constituição e expansão do universo lexical. (FERRAZ, 2010, p. 251) Sobre os fatos que desencadeiam o processo de inovação lexical e a consequente criação de novas palavras, Ferraz (2010) aponta a falta de uma unidade lexical adequada para nomear ou referir à realidade e o fato de certas palavras perderem a capacidade de expressar !59 um determinado conceito. Nessa mesma perspectiva da expansão lexical, Basílio (2011) afirma que […] um conjunto fechado de unidades de designação não é suficiente. Como estamos sempre (re)produzindo e (re)conhecendo novos seres, objetos e relações, precisamos de um sistema dinâmico, capaz de se expandir à medida que se manifesta a necessidade de novas unidades de designação e construção de enunciados. (p. 9) O processo de criação lexical tem como elemento resultante a palavra nova, designada de neologismo, que pode ser formado por mecanismos oriundos da própria língua ou por itens léxicos provenientes de outros sistemas linguisticos (ALVES, 1994). No primeiro caso, os neologismos formados por mecanismos da própria língua, verificamos vários processos de formação neológica no português brasileiro, que podem ser visualizados pelos exemplos a seguir (QUADRO 3): QUADRO 3: Processos de formação neológica/mecanismo da própria língua - Neologismo fonológico (tchurma → turma) - Neologismos sintáticos: • derivação prefixal (anticonjugal, sem-teto, contraplano) • derivação sufixal (brizolismo, concertação. enxugamneto) • composição subordinativa (político-galã, enredos-denúncias) • composição coordenativa (lírico humorístico, rítmicos-harmônicas) • composição sintagmática (produção independente, condomínio fechado, farmácia de manipulação) - Neologismos semânticos (torpedo → com sentido de ‘mensagem enviada pelo celular’) - Truncação (euromercado → europeu + mercado) - Palavra-valise ou cruzamento vocabular (cantriz → cantora + atriz) - Reduplicação (troca-troca, pula-pula) - Derivação regressiva (amasso → amassar) Fonte: (Alves, 1994) No segundo mecanismo de formação, temos os neologismos formados a partir de empréstimos de outros sistemas linguisticos. Esses podem ser !60 QUADRO 4: Formação neológica por mecanismo de outro sistema linguístico. - Neologismos por empréstimos: • estrangeirismo (pole-position, know-how) • decalque (alta tecnologia → high technology) • empréstimos (abajur, xampu) Fonte: (Alves, 1994) A neologia lexical por empréstimo é muito comum e faz parte da história da formação da língua portuguesa. Entender esse mecanismo é importante para o entendimento da língua portuguesa como uma língua que sempre esteve em constante renovação e não uma língua estática. Ao longo do tempo, a língua portuguesa foi se apropriando de contribuições de outras línguas. Alves (1994) salienta que o léxico do português é basicamente de origem latina e que a ampliação de seu acervo foi (e ainda continua sendo) feita por meio de mecanismos como a derivação e a composição, ambos mecanismos oriundos do latim. Além de palavras provenientes do latim, o acervo lexical do português também herdou unidades lexicais de diversos outros sistemas linguísticos, os chamados empréstimos linguísticos. Sobre esse assunto, Carvalho (2009) nos mostra a origem desses empréstimos e também sua classificação. Para a referida pesquisadora, podemos classificar esses empréstimos como: elementos aloglóticos pré-romanos e pós-romanos, introduzidos na fase de formação da língua; elementos aloglóticos das modernas línguas europeias, latinas e não-latinas; elementos de línguas extraeuropeias, resultado dos descobrimentos. (CARVALHO, 2009, p. 24) Alves (1994), de forma mais detalhada, destaca que a língua portuguesa, ao longo de sua formação, incorporou empréstimos de outros sistemas linguísticos como !61 empréstimos provenientes de contatos íntimos entre a comunidade de fala portuguesa e outros povos (influência celta, fenícia, basca, bárbara, árabe, africana e tupi) e empréstimos culturais, fruto de relações sociais luso-brasileiras com outras sociedades (origem provençal, francesa, espanhola e italiana). (ALVES, 1994, p. 6) A língua francesa exerceu grande influência sobre o léxico do português desde o século XVIII, mas foi no início do século XX que essa influência se acentuou (ALVES, 1994, p.6). Palavras como dama, joia, blusa, chaminé, robe, envelope são exemplos de palavras de origem francesa que foram incorporadas pela língua portuguesa. Na contemporaneidade, a língua portuguesa tem assimilado palavras oriundas da língua inglesa. Esses empréstimos, segundo Alves (1994), são motivados, principalmente, pela presença nos domínios técnico e científico. Sobre a neologia lexical, Carvalho (2010) nos chama atenção para as diferenças entre os neologismos da língua, aqueles que são necessários, pois cobrem lacunas na conceituação, e os neologismos de fala ou de autor, aqueles criados por questões de estilo e, dificilmente são retomados. A referida autora aponta o campo literatura como o mais produtivo nas criações neológicas estilísticas. Dessa forma, Carvalho (2010) aponta os escritores e poetas como grandes inovadores do sistema linguístico, embora, como já sinalizado, essas palavras novas criadas no campo da literatura, dificilmente serão comumente utilizadas pela comunidade linguística em geral. É importante mencionar que o trabalho com os neologismos em sala de aula representa uma grande contribuição para o desenvolvimento de competências linguísticas. No entanto, entendemos que nem sempre é fácil trazer o estudo dessas palavras neológicas para dentro de sala por não dispormos de teorias e abordagens com um enfoque lexical. Desse modo, as próximas seções serão destinadas para tratar da Abordagem Lexical (LEWIS, 1993) e da teoria Lexical Priming (HOEY, 2005). Ambas as pesquisas são destinadas ao ensino de língua inglesa, mas podem ser totalmente aplicadas ao ensino de língua materna, uma vez que colocar o léxico como ponto central nas práticas do ensino de língua materna também é uma necessidade real. !62 2.7 A abordagem lexical Formulada pelo linguista britânico Michael Lewis (1993) e considerada um marco para o ensino de línguas estrangeiras, a Abordagem Lexical (Lexical Approach), termo cunhado por Lewis (1993), colocou sob dúvida o ensino da gramática, considerada uma das mais sólidas bases do ensino de língua estrangeira, ao considerar o léxico como ponto central do ensino de línguas. Lewis (1993), ao propor a Abordagem Lexical, desenvolve algumas concepções consideradas fundamentais e aponta como um dos principais princípios nessa abordagem o fato de que “a língua consiste de um léxico gramaticalizado, não de gramática lexicalizada” (LEWIS, 1993, p. vi) e com isso ele parece questionar o sistema de ensino de língua 16 estrangeira, que até aquele momento, sempre teve o foco na aquisição da teoria gramatical. Para o referido linguista, ao invés de estudar regras estáticas e a terminologia para descrever a língua, os aprendizes deveriam partir para tentativas de se comunicar na língua. Para Lewis (1993), a Abordagem Lexical pode ser resumida em poucas palavras: a língua não consiste em uma gramática tradicional e palavras isoladas, mas de multi-palavras e partes pré- fabricadas. Todavia, é importante mencionar que a Abordagem Lexical não foi concebida com o objetivo de tirar definitivamente o ensino da gramática da sala de aula, mas de ser uma abordagem complementar ao ensino e contribuir para o desenvolvimento da competência comunicativa no ensino de línguas estrangeiras. Nessa abordagem, o paradigma PPP (Present, Practice, Produce) foi colocado à prova e a ideia de que para uma comunicação efetiva, seja ela através da fala ou da escrita, o necessário seria o conhecimento gramatical em conjunto com algumas palavras isoladas, foi questionada. Ao rejeitar o paradigma PPP, Lewis (1993) propõe que ele seja trocado pelo OHE (Observe, Hypothesize, Experiment). Deste modo, o aprendiz deve primeiro aprender a observar (observe) a língua que está sendo utilizada em contexto e, a partir de suas observações, ele então cria uma hipótese (hypothesize) sobre o modo como a língua foi usada, Tradução nossa de: “Language consists of grammaticalised lexis, not lexicalised 16 grammar” (LEWIS, 1993, p. vi) !63 e por fim, esse aprendiz deve colocar a sua teoria à prova (experiment). Esse paradigma ainda prevê que, caso saia algo errado durante esse ciclo, o aprendiz deve voltar a fase inicial de observação. A Abordagem Lexical, no entanto, sofreu severas críticas por parte de estudiosos da área do ensino de língua inglesa que queriam que o ensino da gramática permanecesse inquestionável. Thornbury (1998) criticou a Abordagem Lexical por ela não apresentar um roteiro que servisse de base para o ensino lexical. Para o referido autor, a ideia de um ensino centrado no léxico era válida, porém o que deveria ser ensinado ainda era dúvida. Contudo, a crítica de Thornbury (1998) não é válida, uma vez que Lewis (1993) apresenta um capítulo intitulado “Lexis in the classroon” (O léxico na sala de aula), em que o autor apresenta em forma de atividades como o léxico poderia ser trabalhado em sala de aula, considerando todos os pressupostos da Abordagem Lexical. Além disso, Lewis (1997) consolida os conceitos e concepções da Abordagem Lexical e os apresentam em forma de atividades práticas, em que o léxico é o ponto central, para serem utilizadas pelos professores de língua em sala de aula. Na abordagem lexical, existe uma diferença entre vocabulário e léxico. Enquanto o primeiro tradicionalmente é constituído por itens individuais, ou palavras isoladas, o léxico é composto, além das palavras isoladas, por combinações de palavras que são armazenadas em nosso léxico mental. Para Lewis (1993), o léxico é composto por palavras simples (caderno, lápis, sapato), locuções (a propósito), colocações ou “palavras parceiras” (serviço comunitário, amor incondicional), enunciados institucionalizados (Se eu fosse você; Gostaria de uma xícara de café?) e estruturas de textos ( Neste artigo vamos explorar…; Em primeiro lugar.. ., em segundo lugar…; Por fim,….). Desta forma, podemos perceber que a linguagem é composta por ”pedaços” significativos que, quando combinamos, produzem um texto coerente. Além disso, o autor mencionado diz que uma pequena minoria de frases faladas é inteiramente novas criações. Ao passo que a grande maioria é composta por ”pedaços” que ficam armazenados no léxico mental e, por esse motivo que o foco da Abordagem Lexical recai sobre essas estruturas. Para Lewis (1997) em vez de palavras isoladas, nós conscientemente tentamos pensar em colocações, e apresentá-las em expressões e, por isso, ao invés de tentar quebrar as coisas em !64 pedaços cada vez menores, há um esforço consciente em ver as coisas cada vez maiores, ou seja, uma visão mais holística. Outro princípio apresentado na Abordagem Lexical invalida a dicotomia gramática/ léxico. Para Lewis (1993), não faz sentido fazer a separação entre léxico/gramática, uma vez que a gramática está integrada aos itens lexicais e, portanto, não há necessidade de analisar a estrutura interna das frases, por exemplo. Seria mais válido aprender/adquirir itens lexicais e a partir deles o falante identificar os princípios organizadores da língua. Ou seja, como a língua consiste em um léxico gramatizalizado, é possível estudar a gramática das palavras, pois as palavras revelam-se como um princípio organizador muito útil (LEWIS, 1993). Embora a Abordagem Lexical seja uma abordagem pensada e idealizada para o ensino de língua estrangeira, especialmente a língua inglesa, acreditamos na total possibilidade de importar seus princípios para o ensino de língua portuguesa, como língua materna. Acreditamos ainda que colocar o léxico como componente central das práticas pedagógica seja também uma necessidade da língua materna, pois ao longo de nossa vida adulta estamos adquirindo vocabulário, ou seja, ampliando nosso repertório lexical para podermos nos comunicar. Nesse ponto, os objetivos do ensino de língua estrangeira e língua materna, sob uma perspectiva da Abordagem Lexical, se coincidem. Na próxima seção, corroborando os pressupostos da Abordagem Lexical, discorreremos sobre a “Lexical Priming” (Hoey, 2005), uma teoria lexical também proposta para o ensino de língua estrangeira e que defende que o léxico deve permanecer no centro das práticas dentro da sala de aula. 2.8 A teoria Lexical Priming (LP) A teoria Lexical Priming (LP), proposta pelo linguista Michael Hoey em 2005, foi considerada um grande avanço para o ensino de línguas estrangeiras por ser considerada uma teoria inovadora sobre palavras e língua. Hoey (2005), ao propor a teoria LP, espera alcançar todos aqueles pesquisadores envolvidos com a linguística de corpus e também pesquisadores interessados em entender as palavras que ocorrem em contextos reais de uso. Hoey (2005) !65 define a LP como uma teoria nova, original e radical sobre o léxico, o que equivale a uma nova teoria de língua/linguagem baseada em como as palavras são utilizadas no mundo real. Nessa teoria, as palavras não estão confinadas às definições dadas a elas nos dicionários, pois a definição de uma palavra é dada a partir da interação dessa palavra com outras palavras em padrões comuns de uso, ou seja, em contextos reais. Além disso, o pesquisador citado afirma que a LP vai de encontro com as teorias clássicas em que os pressupostos estão enraizados na premissa de que no sistema linguístico a gramática, entendida aqui como conjunto de normas, é gerada primeiro e, somente depois, as palavras ”aproveitam” a oportunidade para serem criadas (HOEY, 2005). Dessa forma, na LP, há uma reversão dos papéis da gramática e do léxico, uma vez que nessa teoria o léxico é visto como sistematicamente estruturado e a gramática é resultado dessa estrutura lexical. Todavia, antes de descrever os princípios e as principais características da teoria Lexical Priming, discutiremos a evolução do conceito de Priming, que surgiu na Psicologia e depois passou pela Psicolinguística até chegar à Linguística e estabelecer uma relação com o ensino de línguas. 2.8.1 Priming: da Psicologia à Linguística O conceito do termo Priming surgiu na Psicologia e foi importado, com algumas alterações, para a Linguística. Na psicologia, a noção de Priming está sempre relacionada ao acesso à informação na memória, que compreende dois fatores. O primeiro fator tem a ver com a ativação do conhecimento armazenado através de experiências no contexto imediato que pode tornar a informação privilegiada ou relevante mais acessível na memória. Desse modo, essa construção que foi ativada pode influenciar inferências, avaliações e decisões sobre as tarefas subsequentes (PACE-SIGGE, 2013). O segundo fator relaciona-se à frequência com que uma construção é “ativada”. Traços, atitudes e estereótipos frequentemente ativados em experiências passadas estão mais disponíveis na memória do que aqueles que foram menos “ativados”. Dessa forma, através da noção de Priming da Psicologia podemos perceber que o cérebro humano não acessa a memória de forma aleatória, pois a informação é acessada mais facilmente quando esta é ligada a outra informação já conhecida. !66 Aproveitando-se dessa noção, no final do século XX, o conceito de Priming foi, pela primeira vez, relacionado com a linguagem no trabalho de Ross M. Quillian, intitulado “Theory of semantic memory search and semantic preparation or priming”, em 1962 (COLLINS;LOFTUS, 1975). De acordo com Collins e Loftus (1975), o pesquisador da inteligência Artificial Quillian desenvolvia trabalhos na área de tradução de línguas e acreditava que os tradutores humanos não traduzem diretamente e, por esse motivo não poderíamos esperar o mesmo da tradução mecânica. Pa ra t en ta r p rovar a lguns princípios para o tradutor mecânico, Quillian (1962) tentou simular como a mente humana aprende uma língua e, assim, relacionou o conceito de Priming com a língua. A principal preocupação do pesquisador era em como lidar com a polissemia na tradução mecânica. Para o referido pesquisador, [a] resolução de uma ambiguidade polissêmica, por qualquer método de tradução, em última análise, consiste em explorar pistas nas palavras, frases ou parágrafos de texto que cercam a palavra polissêmica, pistas que fazem alguns dos seus significados alternativos impossíveis, e, geralmente, deixa apenas um dos seus significados apropriados para esse contexto particular. A localização e a disposição em que nós encontramos tais pistas é por si só um indício, ou melhor, um conjunto de pistas, que podemos chamar de pistas sintáticas . (QUILLIAN, 1962, p. 17) 17 O esboço teórico de Quillian (1962) antecipa a obra Hoey (2005), que também enxerga que o problema da ambiguidade causada pela polissemia é, muitas vezes, solucionado com o contexto, através de pistas semânticas. Por exemplo, nas orações “Ele chegou no banco” e “Ele conseguiu um empréstimo no banco”, sabemos que na segunda oração a palavra “banco” só se trata de uma instituição financeira pela palavra “empréstimo”, que se configura como uma pista semântica, enquanto que na primeira frase, que é ambígua, a palavra “banco” pode significar tanto uma “instituição financeira”, quanto um “assento”. Sobre os exemplos dados, Quillian (1962, p. 18) salienta que Tradução nossa de: “The resolution of a polysemantic ambiguity, by whatever method of translation, 17 ultimately consists of exploiting clues in the words, sentences or paragraphs of text that surround the polysemantic word, clues which make certain of its alternate meanings impossible, and, generally, leave only one of its meanings appropriate for that particular context. The location and arrangement in which we find such clues is itself a clue, or rather a set of clues, which we may call syntactic clues.” (QUILLIAN, 1962: 17) !67 em nosso exemplo, uma referência ao dinheiro é uma pista semântica, e uma que, caso apareça na sentença, poderia ser explorada não importando qual palavra apareceu, seja uma palavra conhecida ou não (...) Aprender a entender uma língua consistiria da aprendizagem de que leituras em escalas devem ser ativadas em resposta a cada palavra dessa língua. . (Quillian 1962: 18) 18 As pistas semânticas representam uma vantagem crucial sobre as abordagens da tradução mecânica que envolvem as ambiguidades geradas pela polissemia (QUILLIAN, 1962). Conforme Quillian (1962), para solucionar problemas da ambiguidade, os seres humanos não se limitam a características gramaticais, mas sim utilizam de forma extensiva as pistas semânticas. Para o referido autor, este seria o motivo pelo qual uma pessoa é capaz de entender uma linguagem cheia de erros gramaticais e sintáticos, por exemplo. Nas palavras de Quillian (1962), (…) parece-me uma vantagem crucial sobre essas outras abordagens para a tradução mecânica que, na falta de qualquer representação gerenciável de significado, têm de proceder como se as únicas pistas que são úteis para resolver ambiguidades são aquelas que envolvem aspectos gramaticais e suas localizações, ou expressões estabelecidas. Como os seres humanos não são tão limitados, eles também utilizam pistas semânticas extensivamente, e parece evidente a partir do fato de que as pessoas são capazes de entender a linguagem que está cheia de erros gramatical e sintático. (Quillian 1962,18 ) 19 Em outro trabalho, Quillian (1969) afirma que um leitor mecânico constrói uma rede semântica em sua memória, assim como acontece na memória dos seres humanos. Para Quillian (1969), a memória é uma “rede semântica” que representa asserções factuais sobre o mundo e o programa de leitura mecânica tenta reproduzir essa “rede semântica” ao criar cópias de parte de sua memória que foram encontradas para se relacionar ao texto novo, Tradução nossa de: “Thus, in our example, a reference to money is one such semantic clue, and one 18 which, should it appear in the sentence, could be exploited no matter what word it occurred in, whether one of those on our list or not. (…) Learning to understand a language would consist if learning which readings on which scales should be activated in response to each word of the language.” (Quillian 1962, 17) Tradução nossa de: “This seems to me a crucial advantage over those other approaches to 19 mechanical translation which, lacking any manageable representation of meaning, have to proceed as though the only clues that are useful in resolving polysemantic ambiguities are those in grammatical features and their locations, or else in established idiomatic phrases. That human beings do not so limit themselves, but also utilize semantic clues extensively, would appear obvious from the fact that people are able to understand language that is full of grammatical and syntactical errors.”(Quillian 1962: 18) !68 adaptando e combinando essas cópias para representar o significado dessa nova produção. Assim, o significado de todo texto que o programa compreende de forma satisfatória é codificado para o mesmo formato da memória e adicionado a ela para formar a rede semântica. Ao comparar o leitor mecânico com o processo de leitura dos seres humanos, Quillian (1969) se aproxima do conceito de priming lexical como um processo psicológico, como proposto por Hoey (2005). Para Hoey (2005) priming lexical é um processo psicológico no qual tudo que é lido o escutado prepara o indivíduo para o uso das palavras de uma maneira específica. Em outras palavras, o conhecimento que um indivíduo adquire sobre uma palavra depende de sua experiência com ela (HOEY, 2005). Nesse sentido, Quillian (1969) afirma que o leitor (humano), ao ler um texto, deve ter uma habilidade versátil de identificar o ‘pedaço’ apropriado de informação da memória entre milhares de outros que ele deve ter aprendido ao longo da vida. Para Quillian (1969, 474), o texto em linguagem natural realizada a comunicação fazendo com que o leitor recorra a conceitos mentais que ele já possui. A referência para tais conceitos mentais já conhecidos é feita através de palavras isoladas e sintagmas, e em seguida, o texto especifica ou implica relações particulares entre estes. Outro trabalho, como de Meyer e Schvaneveldt (1971), também foi responsável para a evolução do conceito de Priming para que esse chegasse à interface com a linguagem. Os referidos pesquisadores da área de psicolinguística fizeram alguns experimentos que levaram a constatação da facilitação no reconhecimento de “pares de palavras”. Ou seja, as palavras eram ativadas com mais velocidade quando precedidas de outra palavra semanticamente relacionada. Por exemplo, o significado da palavra ‘enfermeira’ foi ativado com mais velocidade quando a palavra era precedida pela palavra ‘médico’, pois compartilhavam relações semânticas, do que com a palavra ‘pão’, com a qual não compartilha relações semânticas. Para Pace-Sigge (2013), a chave para explicar o efeito do priming evidenciado pelos os experimentos de Meyer e Schvaneveldt (1971) está na proximidade das palavras associadas, na qual uma palavra atua como “ativadora” direcionando a mente para acessar um conjunto limitado de opções e, desta forma, o tempo de ativação do significado da segunda palavra era menor. Ademais, as evidências experimentais de Meyer e Schvaneveldt (1971), que introduziu o conceito de ‘pares de palavras’, conectam-se com o conceito teórico de !69 ‘colocação’ que adquiriu uma grande importância na Linguística de Corpus e aproxima-se na noção de colocação de Firth ([1951]1957), de acordo Pace-Sigge (2013). O termo Priming foi usado, pela primeira vez, junto à palavra ‘Lexical’ no trabalho de James H. Neely intitulado Semantic Priming of Lexical Memory (PACE-SIGGE, 2013). Nesse trabalho, Neely (1976) baseia-se no trabalho de Meyer e Schvaneveldt (1971) e faz um experimento para medir o tempo de reação de ativação de uma palavra quando precedida por (i) uma palavra de valor semântico relacionado, (ii) outra palavra de valor semântico não- relacionado e, por fim, (iii) uma palavra de valor semântico neutro. Assim como Meyer e Schvaneveldt (1971) revelou em seus experimentos, Neely (1976) verificou que o tempo de ativação de uma palavra quando precedida por outra de valor semântico relacionado era menor. Neely (1976) conclui que uma palavra facilita a decisão lexical sobre a palavra subsequente quando possuem valores semânticos relacionados e, consequentemente, inibe a decisão lexical quando a palavra posterior possui valor semântico não relacionado. Como podemos perceber, os pesquisadores da inteligência artificial, linguística cognitiva e psicolinguística, cujos trabalhos foram descritos nessa seção, encontraram evidência de priming a partir de experimentos. Até esse ponto, segundo Pace-Sigge (2013), poucos pesquisadores tentaram encontrar provas para a noção de priming em textos de ocorrência natural produzidos por falantes ou escritores, ou seja, em corpus. Ainda de acordo com o referido pesquisador, foi o trabalho de Gries (2005) que ganhou relevância por tentar encontrar evidência de priming em um corpus. O estudo de Gries (2005) tinha como objetivo central a análise de priming sintático com base em um corpus a fim de identificar os efeitos de priming para dois tipos de construções sintáticas do inglês que são passíveis de sofrer alternância (ex. construção 1: Jane gave a present to Mary / Jane gave Mary a present - construção 2: John picked up the book / John picked the book up.). Os resultados da análise revelaram que uma abordagem baseada em corpus para identificação de priming torna possível resolver muitas questões que são debatidas atualmente e que envolvem as construções analisadas e priming sintático (GRIES, 2005, p. 385). Ademais, de acordo com o referido estudioso, questões como duração, direcionabilidade, especificidade da construção e a relativa independência da construção puderam ser evidenciadas com a análise do corpus. Gries (2005) salienta que seu estudo é o !70 primeiro a encontrar evidências do efeito priming em um corpus e revela que os resultados baseados em corpus são similares aos resultados em pesquisas baseadas em experimentos. Outros trabalhos também se dedicaram a analisar evidências de priming em análises baseadas em corpus. Na linguística, Hoey (2005) foi o primeiro a introduzir o termo Lexical Priming (LP) para designar uma teoria lexical inovadora proposta para o ensino de língua estrangeiras. O referido pesquisador dedicou-se a um trabalho baseado em corpus para buscar evidências de priming lexical. Para Hoey (2005), o léxico é complexo e sistematicamente estruturado e, desta forma, uma investigação sobre os itens lexicais encontrados em textos que ocorrem naturalmente pode oferecer informações sobre a organização da língua. Na LP, a colocação - entendida como uma propriedade da língua, na qual duas ou mais palavras aparecem frequentemente na companhia uma da outra (HOEY, 2005) - ganha uma grande relevância, na medida em que é explorada do ponto de vista gramatical, semântico, sociolinguístico e textual. Dessa forma, Hoey (2005), a partir da análise dos itens lexicais que aparecem em companhia um do outro no texto com uma grande frequência, e se valendo da colocação como uma propriedade natural da língua, mostra que é possível extrair informações sobre o funcionamento da língua através do léxico. Embora os pesquisadores citados nessa seção tenham utilizado a noção de priming para se referir a forte relação que existem entre as palavras, seja do ponto de vista semântico ou sintático, Hoey (2005) foi o primeiro a fazer uma relação direta com o ensino de línguas. Logo, essa teoria serve de base para a nossa pesquisa, e, por esse motivo, na próxima seção ressaltaremos as hipóteses e principais características da LP. 2.8.2 Hipóteses e principais características da Lexical Priming (LP) A teoria LP, segundo Hoey (2005), se desenvolveu a partir de uma crescente consciência de que as visões tradicionais do ensino de vocabulário na língua inglesa estavam fora dos eixos com os fatos sobre itens lexicais que estavam sendo levantadas pelas investigações baseadas em corpus. Dessa forma, a LP faz uma ligação entre a Linguística de !71 Corpus, no que tange ao aspecto lexical, com a psicolinguística, no que se refere ao aspecto priming para propor uma teoria lexical voltada para o ensino de língua estrangeira (PACE- SIGGE, 2013). A linguística de corpus, segundo Pace-Sigge (2013) está fundamentada em cima de três pilares - colocação, coligação e associação semântica. Esse três elementos podem indicar, ao serem observados, que certas palavras podem atrair ou evitar a companhia umas das outras, certas classes gramaticais e também certas associações semânticas. Para Pace-Sigge (2013), a linguística de corpus desempenha uma grande contribuição ao mostrar que as relações entre as palavras podem refletir padrões de ocorrência da língua, porém ela não explica o porquê isso ocorre. Nesse ponto, a LP oferece uma explicação para essas relações estabelecidas pelas palavras. Pace-Sigge (2013, p. 151) argumenta que (…) enquanto a Linguística de Corpus tem sido capaz de nos mostrar que essas relações entre as palavras irão fornecer mais do que uma representação do que pode ser observado: elas simplesmente refletem padrões de ocorrência da língua investigados. A linguística de corpus, no entanto, não explica porque isso ocorre, em primeiro lugar. Deve haver uma razão (ou razões) do porquê as palavras (ou grupos de palavras) se colocam, se agrupam em certas construções, mas evitam outras, e têm certas associações semânticas. Neste ponto, a Lexical Priming nos dá uma idéia de porque é provável (ou improvável) que certas palavras estão em tais relações umas com as outras.(PACE-SIGGE, 2013, p. 151, grifo nosso) 20 Além de tentar buscar explicações para as relações estabelecidas entre as palavras, a LP mostra que existe uma forte ligação entre os sistemas lexicais e gramaticais e, desta forma, rejeita a visão das versões mais extremas da teoria clássica sobre as palavras que estabelece uma relação muito fraca entre léxico/palavra e outros sistemas (HOEY, 2005). Segundo Hoey (2005), a teoria clássica sobre as palavras é um reflexo dos estudos linguísticos do século XVIII e XIV, no qual prevalecia uma visão tradicional que estabelecia uma integração muito fraca entre as palavras e os outros sistemas. O pesquisador mencionado cita dois argumentos que podem ser relacionados a essa fraca interação entre a palavra e outros sistemas. O Tradução nossa de: “Yet, while Corpus Linguistics has been able to show us that these relations 20 between words will provide no more than a representation of what can be observed: They simply reflect occurrence patterns of the language investigated. It does not, however, explain why it occurs in the first place. There must be a reason (or reasons) why words (or clusters of words) collocate, group into certain constructions but avoid others, and have certain semantic associations. At this point, Lexical Priming gives us an idea why it is likely (or unlikely) that certain words stand in such relations to each other” (PACE-SIGGE, 2013, p.151). !72 primeiro argumento está relacionado ao fato de que a gramática é gerada primeiro, enquanto que as palavras tiveram a oportunidade de serem criadas durante o processo gramatical (CHOMSKY, 1957, 1965 apud HOEY, 2005). O segundo argumento mostra que a semântica também é gerada primeiro e o léxico é apenas a concretização desse sistema semântico (PINKER, 1994 apud HOEY, 2005). Nas palavras de HOEY (2005, p. 1), é possível entender que nas versões mais extremas da teoria, a conexão entre a palavra e os outros sistemas tem sido tão fraca que é possível argumentar que a gramática é gerada em primeiro lugar e as palavras tiveram oportunidades gramaticais e assim foram criadas (e.g. Chomsky, 1957, 1965) ou que a semântica é gerada primeiro e o léxico apenas concretiza a semântica (e.g. Pinker 1994) (HOEY, 2005, p. 1). 21 Outras teorias mais sofisticadas também fazem uma representação da relação entre léxico/ gramática e léxico/semântica como sendo sistemas que estabelecem uma relação, porém uma relação distante. Na teoria sistêmico-funcional, por exemplo, o léxico está subordinado ao sistema gramatical, na medida em que ele passa pelo filtro gramatical que tem a função de organizá-lo e discipliná-lo (HOEY, 2005). Dessa mesma forma, a teoria Tagmêmica, desenvolvida por Pike (1954), trata o léxico como tendo o mesmo nível de importância teórica que a gramática, porém propõe uma divisão - hierarquia gramatical, hierarquia fonológica e hierarquia lexical, que deixa evidente que léxico e gramática estão, na verdade, em níveis separados (HOEY, 2005). Podemos perceber pelas duas teorias lexicais descritas que o léxico está sempre subordinado a outros sistemas e ainda é visto como sendo o resultado ou a concretização desses sistemas. Nesse ponto, a teoria LP vai de encontro às teoria que colocam o léxico em um nível separado e distante de outros sistemas. Além disso, a LP contrapõe a visão de subordinação do léxico que passa a assumir uma posição central no sistema linguístico. Tradução nossa de: “in the most extreme versions of the theory, the connection between the word 21 and the other systems has been so weak that it has been possible to argue that grammar is generated first and the words dropped into the grammatical opportunities thereby created (e.g Chomsky, 1957, 1965) or that the semantics is generated first and the lexis merely actualises the semantics (e.g. Pinker 1994)”(HOEY, 2005, p.1). !73 A LP propõe uma inversão nos papéis do léxico e da gramática, colocando o léxico no centro do sistema linguístico. Nessa teoria, o léxico passa a desenvolver o papel central pelo fato de ele ter uma estrutura complexa e sistemática ao ponto de a gramática ser o resultado dessa estrutura lexical (Hoey, 2005). Nas palavras de Hoey (2005, p. 1), “a teoria inverte os papéis do léxico e da gramática, argumentando que o léxico é complexo e sistematicamente estruturado e que a gramática é o resultado dessa estrutura lexical” . Ao tratar da 22 complexidade e do fato do léxico ser sistematicamente estruturado, Hoey (2005) destaca a colocação como sendo o ponto central de sua teoria. A definição de colocação defendida por Sinclair (1991) sugere que um usuário da língua tem em sua disposição um grande número de sintagmas pré-construídos que, na verdade, funcionam como escolhas individualizadas, mesmo que esse sintagma possa parecer analisável em segmentos. Por exemplo, a estrutura “of course”, embora constituída por dois seguimentos, opera efetivamente como uma unidade simples. Para Sinclair (1991), o espaço entre os seguimentos de estruturas como ‘of course’, com o tempo, irá desaparecer, assim como em ‘maybe’, ‘anyway’ e ‘another’. Ademais, Sinclair (1991) salienta que ‘of course’ poderia ser colocado na mesma lista dos compostos, como “cupboard”, cujos elementos foram esvaziados de sentidos. Para o referido pesquisador, o mesmo tratamento pode ser dado a outras centenas de sintagmas similares - ou em qualquer ocasião em que uma escolha leva a de uma palavra no texto. Sendo assim, estruturas como expressões idiomáticas, provérbios, clichês, termos técnicos, jargão, expressões, verbos frasais são estruturas que compartilham características similares dentro da língua. Para Hoey (2005), a colocação é definida como uma propriedade da língua, mais especificamente uma propriedade do léxico mental, na qual duas ou mais palavras frequentemente aparecem em companhia uma da outra, gerando estruturas do tipo ‘inevitável + consequência’. Sobre a definição de colocação, Hoey (2005, p.5) acrescenta que nossa definição de colocação é que ela é uma associação psicológica entre palavras (em vez de lemas) - até quatro palavras de intervalo - e é evidenciada mais Tradução nossa de: “the theory reverses the roles of lexis and grammar, arguing that lexis is 22 complexly and systematically structured and that grammar is an outcome of this lexical structure” (HOEY, 2005, p.1) !74 frequentemente por sua ocorrência conjunta em corpora do que é explicável em termos de distribuição aleatória (HOEY, 2005, p. 5). 23 Ademais, o referido pesquisador afirma que as colocações são ao mesmo tempo pervasivas e subversivas (HOEY, 200). Segundo Hoey (2005), o fato de a colocação ser considerada pervasiva é amplamente reconhecido pela Linguística de Corpus e está ligado à naturalidade colocacional de todos os itens lexicais, ou seja, o fato de que, provavelmente, todo item lexical possuir uma colocação. A noção de que a colocação é uma propriedade natural da língua também é defendida por Sinclair (1991), que salienta que o princípio idiomático, representado pela colocação, é muito mais pervasivo do que se possa imaginar, embora a importância dessa naturalidade seja negligenciada. Corroborando o fato de a colocação ser uma propriedade natural, Partington (1998, p. 16) argumenta que a colocação “faz parte da competência comunicativa de um falante nativo, que sabe quais são as colocações normais ou incomuns em uma dada circunstância” . Hoey 24 (2005) salienta que um texto escrito por um nativo é composto de colocações usuais (comuns, naturais), ao passo que um texto escrito por um falante não nativo é composto por colocações incomuns. Dessa forma, na visão do referido pesquisador, para consolidar o argumento de que colocação é uma propriedade natural da língua, o que difere um texto produzido por um falante nativo de um texto escrito por um falante não nativo são as colocações usuais presentes no primeiro tipo de texto. Contudo, além de serem pervasivas, Hoey (2005) também atribui às colocações o conceito de subversão. Para Hoey (2005), no entanto, qualquer explicação do caráter subversivo das colocações deve ser psicológica, uma vez que a colocação tem um conceito fundamentalmente psicológico. Desta forma, Hoey (2005) afirma que o conceito mais apropriado para explicar o caráter subversivo das colocações parece ser o conceito de priming, já que ele é essencialmente psicológico. Tradução nossa de: ”Our definition of colocation is that it is a psychological association between 23 words (rather than lemmas) up to four words apart and is evidenced by their occurrence together in a corpora more often that is explicable in terms of random distribution”. (HOEY, 2005, p. 5) Tradução nossa de: “ It is part of a native speaker’s communicative competence to know what are 24 normal and what are unusual collocations in given circumstances.” (PARTINGTON , 1998, p.16) !75 Para Hoey (2005), a colocação só pode ser explicada, se assumirmos o fato de cada palavra ser mentalmente preparada (primed) para o uso colocacional, ou seja, para ocorrer com outras palavras. A ativação dessa colocação na mente depende dos “encontros” que um falante teve com essa palavra em determinados contextos. Sobre o conhecer uma palavra, Hoey (2005, p. 8) argumenta que “como uma palavra é adquirida através de encontros com ela, na fala e na escrita, ela é cumulativamente carregada com os contextos e co-textos em que é encontrada, e nosso conhecimento sobre a palavra inclui o fato de que ela co-ocorrer com determinadas outras palavras em certos tipos de contexto” . 25 Corroborando essa noção de priming, Pace-Sigge (2013, p.151) salienta que o caráter subversivo das colocações pode ser encontrado em um (…) conceito psicológico subconsciente e subliminar: a “repetição-uso” reforça uma ideia de um padrão de ocorrência que parece natural. Esta ‘ocorrência de repetição’ age na mente para ativa-lá para que ela possa fazer conexões automáticas. "Priming" pode proporcionar para conjuntos de ações, ou, no campo lexical, conjuntos de palavras. Assim, por exemplo, um falante, ouvindo a palavra ‘pão’ vai reconhecer palavras como ‘padeiro’ e ‘manteiga’ mais rapidamente do que palavras não relacionadas, como ‘médico’ e ‘radiador’ (PACE-SIGGE, 2013, p. 151) . 26 Desta forma, podemos entender que a colocação - entendida aqui como uma propriedade da língua - é caracterizada como pervasiva pelo fato de ela ser uma propriedade natural da língua, porém ela também é subversiva, pois a ativação da colocação na mente é proporcionada a partir da experiência prévia de um falante com as palavras em textos orais ou escrito. Segundo Hoey (2005), tudo que sabemos sobre uma palavra é um produto de nosso encontro com essa palavra ao longo de nossa vida como falante. Tradução nossa de: “As a word is acquired through encounters with it in speech and writing, it 25 becomes cumulatively loaded with the contexts and co-texts in which it is encountered, and our knowledge of it includes the fact that it co-occurs with certain other words in certain kinds of context.” (HOEY, 2005, p. 8) Tradução nossa de: “in a subliminal, sub-conscious psychological concept: namely that repeat-use 26 reinforces an idea of an occurrence pattern that seems natural. This ‘repeat occurrence’ acts to prime one’s mind to make automatic connections. Priming can provide for sets of actions, or, in the lexical field, sets of words. So, for example, a listener, hearing the word bread will recognize words like baker, butter, knife more quickly than unrelated words like doctor, mortar, radiator” (PACE-SIGGE, 2013, p. 151). !76 O mesmo se aplica para as sequências de palavras, que também são carregadas juntamente com o contexto e cotexto em que elas aparecem. Hoey (2005) refere-se à sequência de palavras como “nesting” (assentamento) para se referir ao produto do priming que se torna “primed” (preparado) para se colocar como outras palavras de uma maneira que não se aplica às palavras individuais que formam a combinação. Por exemplo, no corpus analisado pelo referido pesquisador, foi constatado que a palavra ‘winter’ (inverno) se coloca com a proposição ‘in’ (no), formando a sequência de palavras ‘in winter’. A sequência ‘in winter’, por sua vez, se coloca com as diferentes formas do verbo ‘is/was’ e ‘are/were’, que não são colocadas com as palavras que compõem a sequência em questão quando essas aparecem isoladas. Portanto, podemos concluir que a colocação de uma sequência pode ser diferente da colocação das palavras que compõem a sequência, quando estas ocorrem isoladas. Para Hoey (2005), necessariamente, o priming das sequências de palavras é normalmente uma segunda fase no priming. No entanto, acontece de, ocasionalmente, uma criança adquirir o ‘priming’ de uma sequência primeiro e o ‘priming’ das palavras individuais posteriores, como é o caso da sequência de palavras do inglês all gone (utilizada para se referir a algo que tenha acabado). Nesse caso, a criança adquire primeiro o ‘priming’ da sequência como um todo, e, posteriormente, adquire o priming das palavras individuais ‘all’ e ‘gone’, o que inclui o conhecimento sobre a capacidade de colocação dessas palavras para formar outras sequências (HOEY, 2005). O referido pesquisador acrescenta que, sobre o processo de reconhecimento de uma palavra ou sequência de palavras e sua capacidade colocacional, não há diferença no princípio entre adquirir a palavra (ou sequência de palavras) e adquirir o conhecimento de suas colocações, embora, pressupõem-se que o reconhecimento da palavra deve preceder, pelo mesmo em tese, o reconhecimento das características recorrentes, e a palavra tem que ter ocorrido duas vezes (pelo menos) para o último processo começar (HOEY, 2005, p. 8) . 27 Tradução nossa de: “There is no difference in principle between acquiring the word (or word 27 sequence) and acquiring the knowledge of its collocations, though presumably recognition of the word must notionally precede recognition of recurrent features, in that the word has to have occurred twice (at least) for the latter process to begin” (HOEY, 2005, p. 8). !77 A noção de priming, na teoria Lexical Priming, pode ser vista como a inversão da relação tradicional entre gramática enquanto sistemática e o léxico como fracamente organizado e introduz argumento do léxico como sistemático e a gramática como um sistema vagamente organizado. No entanto, Hoey (2005) sinaliza que priming não é uma característica permanente da palavra ou sequência de palavra. Toda vez que usamos uma palavra e toda vez que a encontramos novamente, essa experiência pode tanto reforçar o priming, confirmando uma associação existente entre a palavra com o contexto e o cotexto, quanto pode enfraquecer o priming, se esse encontro introduz a palavra em um contexto ou cotexto desconhecido, ou se optamos em nosso próprio uso substituir o condicionamento atual da palavra. Existe também a possibilidade de quebra de priming e Hoey (2005) aponta a educação como a causa para essa quebra. Por exemplo, se o pronome ‘you’ foi ativado como colocação da forma do verbo ‘was’ por um aluno, mas o professor informa a esse aluno que a sequência foi ativada de forma inapropriada, há uma quebra potencial de priming. Nesse caso, essa quebra de priming pode ser recuperada se o priming original ‘you was’ for atribuído a um contexto específico como, por exemplo ‘famíliar’ e o priming posterior ‘you were’ ser atribuído a outro contexto, como “sala de aula’ (Hoey, 2005). É importante mencionar a relevância do contexto quando tratamos de priming e a capacidade de colocação das palavras. Hoey (2005, p 10) salienta que o “priming colocacional é sensível aos contextos (textuais, genérico, social) em que o item lexical é encontrado, e é parte de nosso conhecimento de um item lexical saber que ele é usado em certas combinações em certos tipos de texto” . Além disso, Hoey (2005) acrescenta que sem 28 o contexto a palavra não pode ser ativada apropriadamente. Isso não quer dizer que o priming ocorre somente em certos domínios, ou gêneros, mas indica a necessidade de se ter cuidado com o excesso de generalizações sobre priming (HOEY, 2005). Corroborando a importância do contexto, Firth (1957 [1951], p.151), citado por Hoey (2005, p. 10), sinaliza que Tradução nossa de: “collocational priming is sensitive to the contexts (textual, generic, social) in 28 which the lexical item is encountered, and it is part of our knowledge of a lexical item that it is used in certain combinations in certain kinds of text” (HOEY, 2005, p.10) !78 o estudo das colocações habituais de uma forma literária particular, gênero, ou de um determinado autor possibilita uma contribuição claramente definida e precisamente fundamentada para o que eu tenho chamado de espectro da linguística descritiva, que processa e indica o significado, dispersando-o em uma gama de técnicas de trabalho a uma série de níveis (FIRTH [1951] 1957, p. 195 apud HOEY, 2005, p.10 ) . 29 A noção de priming, delineada na LP, pressupõe que a nossa mente possui uma concordância mental para cada palavra que ela já encontrou, e essa concordância tem sido ricamente incorporada pela mente para os diversos contextos tais como o social, físico, discursivo, genérico e interpessoal. Hoey (2005, p. 11) acrescenta que essa concordância mental é acessível e pode ser processada da mesma forma que uma concordância de computador, de modo que todos os tipos de padrões, incluindo padrões de colocação, estão disponíveis para uso. Ela serve simultaneamente como parte, pelo menos, de nossa base de conhecimento . 30 De acordo com Hoey (2005), existem dois tipos de priming, o produtivo e o receptivo. Por um lado, o priming produtivo ocorre quando uma palavra ou sequência de palavras é encontrada repetidamente em discursos e gêneros nos quais há possibilidades de participação ativa e também quando os falantes ou escritores envolvidos são aqueles os quais manifestamos uma preferência ou desejo de emulação (HOEY, 2005). Por outro lado, o priming receptivo ocorre quando uma palavra ou sequência de palavras é encontrada em contextos nos quais não existe possibilidade ou probabilidade de participação ativa, tais como discurso político partidário ou entrevista com estrelas de filme, ou o escritor é alguém que não gostamos ou não temos empatia. Hoey (2005) sinaliza que, embora o priming receptivo seja importante, o priming produtivo, entendido aqui como o encontro com palavras em textos ou Tradução nossa de: “The study of the usual collocations of a particular literary form or genre or of a 29 particular author makes possible a clearly defined and precisely stated contribution to what I have termed the spectrum of descriptive linguistics, which handles and states the meaning by dispersing it in a range of techniques working at a series of levels”. (Firth [1951]1957: 195) Tradução nossa de: “his mental concordance is accessible and can be processed in much the same 30 way that a computer concordance is, so that all kinds of patterns, including collocational patterns, are available for use. It simultaneously serves as a part, at least, of our knowledge base” (HOEY, 2005, p. 11). !79 fala em ambientes valorizados pelos envolvidos, é mais interessante e pode obter um impacto maior no priming do que em ambientes em que os envolvidos demonstram pouco interesse. Para Hoey (2005, p. 12) uma conversa com pessoas próximas representa uma probabilidade maior de afetar o nosso priming do que uma conversa com alguém que somos indiferentes. A noção de priming na LP é utilizada para explicar as colocações e também outras características da língua. Na verdade, a LP pressupõe que a colocação somente pode ser explicada utilizando-se do conceito de priming, porém esse conceito também explica muitas outras questões referente à linguagem. Hoey (2005, p. 12) explica que “priming é a força motriz por trás do uso da linguagem, estrutura da linguagem e mudança da linguagem” . 31 Assim, a noção de priming pode explicar questões que envolvem a maneira como a língua é adquirida e utilizada. Desta forma, algumas hipóteses que envolvem a noção de priming e a construção de associações entre as palavras são levantadas na LP. Hoey (2005), ao levantar as hipóteses, ressalta que é preciso levar em consideração as restrições do contexto ou domínio analisado, pois são hipóteses sobre a forma como a língua é adquirida e utilizada em situações específicas. O referido pesquisador descreve as seguintes hipóteses: Collocation (colocação), Colligation (coligação), Semantic associations (associações semânticas), Pragmatic associations (associações pragmáticas), Grammatical categories (categorias gramaticais), Textual collocations (colocações textuais), Textual colligations (coligações textuais) e Textual semantic associations (associações semânticas textuais). Essas hipóteses serão descritas e exemplificadas a seguir: 1. Collocation (Colocação) A primeira hipótese levantada na LP diz respeito ao fato de que toda palavra ou sequência de palavras é ‘preparada’ para ocorrer com outra determinada palavra, ou seja, toda palavra ou sequência possui uma colocação em potencial. O conceito de ‘colocação’, fundamentalmente psicológico, está relacionado à propriedade da língua em que duas ou mais palavras aparecem frequentemente uma em companhia da outra. Tradução nossa de: “Indeed it is the argument of this book that priming is the driving force behind 31 language use, language structure and language change” (HOEY, 2005, p. 12). !80 Por exemplo, Hoey (2005), em sua análise, verificou que, em determinados contextos, a palavra ‘naked’ se coloca com ‘eye’, formando a sequência ‘naked eye’ (olho nu). Nesse mesmo processo de colocação, porém um exemplo mais complexo, a palavra ‘word’ (palavra) se coloca com o verbo ‘say’ (dizer), formando a sequência ‘say a word’. A sequência “say a word’ também é preparada para se colocar com outra palavra, que no caso seria a palavra ‘against’ (contra), formando uma nova sequência ‘say a word against’. Essa nova sequência ‘say a word against’ ocorre com uma grande frequência com ‘Won’t’ (auxiliar do futuro na negativa). Contudo, a LP não opera somente no nível colocacional, pois se assim fosse seria uma característica anômala da língua, como salienta Hoey (2005). Dessa maneira, existe mais a dizer sobre a língua e a capacidade de associação de palavras como, por exemplo, a associação semântica, que será descrita a seguir. 2. Semantic associations (associações semânticas) Hoey (2005) argumenta que se a LP operasse somente no nível da colocação, não haveria nada o que se falar sobre a criatividade linguística e, consequentemente, não haveria também nenhuma importância teórica. Dessa forma, Hoey (2005) introduz a segunda hipótese levantada pela LP: a associação semântica. A associação semântica na LP remete ao fato de que toda palavra é ”preparada” para aparecer em determinados conjuntos semânticos. Por exemplo, foi verificado que a palavra ‘hour’ (hora) se associa semanticamente com ‘numbers’ (números) e com ‘journey’ (jornada). Hoey (2005) apresenta alguns exemplos retirados de seu corpus de análise para ilustrar esse padrão de priming semântico. Vejamos os exemplos do padrão semântico number-hour journey (número-hour jornada): thirty-hour ride half-hour flight two-hour trip three-hour journey Ainda sobre o exemplo anterior, Hoey (2005) verificou em seu corpus que a sequência de palavras ‘number-hour journey’, formada por associação semântica, se coloca com o artigo ‘a’ para formar a sequência ‘a number-hour journey’. Essa nova sequência, por sua !81 vez, se associa semanticamente com ‘vehicle’ (veículo) e como resultado temos a sequência do tipo “a number-time vehicle journey (um número-tempo veículo jornada). Vejamos os exemplos: a three-hour car ride a 12-hour bus ride a five-hour coach ride a two-hour ferry ride a half-hour train ride Padrão semântico semelhante foi encontrado ao analisar a palavra ‘consequence’ (consequência) que, no corpus de Hoey (2005, p. 24-25), possui associação semântica com ‘logic adjectives’ (adjetivos de lógica), formando o esquema semântico ‘logic adjetive consequence”, como podemos ver através dos exemplos a seguir: 1. Whatever his decision, it will be seen as a logical consequence of a steady decline in influence. 
 2. (…) it is the ineluctable consequence of having been in power for ever . . . 
 3. Mr Haughey’s support for liberal reform is a direct consequence of the election of President Mary Robinson last November. 
 4. (…) intense scrutiny in Moscow with the probable consequence that a suitable (…) 5. disability is not a natural and inevitable consequence of old age. Sinclair (1991, p.112) também argumenta que muitos usos de palavras e sintagmas mostram uma tendência em aparecer em certos ambientes semânticos. O referido autor apresenta o exemplo do verbo ‘happen’ (acontecer), que possui uma tendência em se associar com ‘unpleasant things’ (coisas desagradáveis), como acidentes ou similares, formando uma sequência como o padrão semântico como ‘unpleasant things happen’ (coisas desagradáveis acontecem)”. Outros pesquisadores já haviam notado esse padrão semântico de associação entre as palavras. Embora sob nomenclatura diferente de ‘priming’ lexical, Bastow (2003), citado por Hoey (2005) evidencia em seu estudo sobre os discursos do departamento de defesa dos Estados Unidos esse padrão semântico. Seus dados revelam que a palavra ‘men’ (homens) se coloca com ‘women’ (mulheres), formando a sequência ‘men and women’, que, por sua vez, !82 se coloca com ‘young’ (jovens). Foi verificado que a nova sequência ‘young men and women’ se associa semanticamente com adjetivos que pertencem ao universo semântico de ‘compliments’ (elogios). Dessa forma, temos o seguinte esquema semântico ‘COMPLIMENT young men and women’ (ELOGIO jovens homens e mulheres), como podermos observar nos exemplos abaixo: BRIGHT young men and women VERY CAPABLE young men and women DEDICATED young men and women FINEST young men and women HIGH-QUALITY young men and women THE FINEST OF young men and women OUTSTANDING young men and women SPECIAL-GIFTED, SERIOUS-MINDED young men and women SUPERB young men and women TALENTED young men and women De acordo com Hoey (2005), se uma palavra ou uma sequência é preparada para aparecer em certas associações semânticas, ela também pode ser preparada para se associar, pragmaticamente, como será discutido no próximo tópico, na terceira hipótese da LP. 3. A Pragmatic associations (associações pragmáticas) A terceira hipótese delineada pela LP pressupõe que toda palavra ou sequência de palavras é “preparada” para aparecer em associação com determinadas funções pragmáticas. Nas palavras de Hoey (2005, p. 26), a associação pragmática “ocorre quando uma palavra ou sequência de palavras é associada com um conjunto de características em que todas servem as mesmas ou funções pragmáticas semelhantes” . Essas características podem indicar 32 incerteza ou imprecisão, por exemplo. Hoey (2005) ilustra a associação pragmática com o exemplo que mostra primeiro uma associação semântica entre o numeral ‘sixty’ (sessenta) e ‘units of time’ (unidades de tempo), ‘units of distance’ (unidades de distância) e ‘age’ (idade). Essa nova sequência formada por associação semântica associa-se, pragmaticamente, com Tradução nossa de: “Pragmatic association occurs when a word or word sequence is associated 32 with a set of features that all serve the same or similar pragmatic functions” (HOEY, 2005, p.26). !83 expressões de ‘vagueness’ (imprecisão) como, por exemplo, ‘around’ (por volta de ). Vejamos as ocorrências da sequência ‘vagueness sixty’, apresentados por Hoey (2005, p. 27): about sixty over sixty around sixty more than sixty an average of sixty some sixty almost sixty nearly sixty up to sixty maybe sixty getting on for sixty A palavra ‘reason’ (razão) fornece outro exemplo de priming por associação pragmática. Hoey (2005) verificou que ‘reason’ é tipicamente preparada para a associação com atos de ‘denial’ (negação) - negação de que algo é uma razão, ou que a razão é conhecida, ou que a razão importa, como é evidenciado nos exemplos abaixo representando a sequência ‘DENIAL reason’ Mahathir sees NO reason to tinker with success Unless you have ANY reason to suspect a murder, I’d… But there was NO reason on God’s earth why I… There is NO reason to suppose that our stay here… Really I see NO reason why I should be obliged to … They’d have NO reason to come to the surface That’s NOT the reason why… There’s NO medical reason why a baby needs to change Podemos concluir, portanto, que o priming por associação pragmática nos mostra a capacidade de uma palavra ou sequência de se associar a uma série se característica que evidencia uma função pragmática. Além da associação pragmática, a LP pressupõe que uma palavra ou sequência pode aparecer ou evitar certas funções ou posições gramaticais. A associação por coligação será evidenciada no próximo tópico. 4. Colligation (coligação) !84 A quarta hipótese levantada na LP relaciona-se ao fato de toda palavra ou sequência de palavras ser ‘preparada’ para ocorrer em ou evitar certas posições e funções gramaticais independente se de seu priming por colocação ou associação semântica (Hoey, 2005). Sobre a ideia básica de coligação, Hoey (2005, p. 43) aponta que, (…) assim como um item lexical pode ser preparado para coocorrer com outro item lexical, ele também pode ser preparado para ocorrer em ou com uma função gramatical específica. Alternativamente, pode ser preparado para evitar aparecer ou co-ocorrer em uma função gramatical particular (HOEY, 2005, p.43) . 33 Embora a coligação esteja em um nível gramatical e a colocação em um nível lexical e uma acontecer independente da outra, Hoey (2005) salienta que o termo coligação é utilizado na LP como a relação entre gramática e a colocação. O exemplo de coligação dado pelo pesquisador citado mostra que a sequência “that winter” (aquele inverno) está sempre no passado simples, enquanto que a expressão “in winter” (no inverno) é menos utilizada no passado. Desse modo, o exemplo pode indicar que a expressão “in winter” evita contextos no passado simples, enquanto que “that winter” é “preparada” para ocorrer no passado simples, como podemos observar os dados apresentados por Hoey (2005, p. 39) (FIGURA 1): FIGURA 1: Porcentagem da sequência de acordo como tempo verbal Fonte: (HOEY, 2005, p.39) Tradução nossa de: “(…) just as a lexical item may be primed to co-occur with another lexical item, 33 so also it may be primed to occur in or with a particular grammatical function. Alternatively, it may be primed to avoid appearance in or co-occurrence with a particular grammatical function” (HOEY, 2005, p.43). !85 Em outro exemplo, Hoey (2005) mostra a preferência de coligação do substantivo ‘consequence’ (consequência) e revela que ‘consequence’ possui uma coligação positiva para ocorrer com a função de complemento e adjunto de uma oração. Dessa mesma forma, o substantivo ‘consequence’ possuiu uma coligação negativa para aparecer como objeto de uma oração. A análise foi feita de modo a comparar o substantivo ‘consequence’ com outros substantivos com características similares, pois era importante verificar se a preferência coligacional revelada pelos dados eram características de todos os substantivos ou somente do substantivo ‘consequence’, como podemos evidenciar pela figura apresentada por Hoey (2005, p. 46) (FIGURA 2): FIGURA 2: Porcentagem de coligação do substantivo “consequence” ! Fonte: (HOEY, 2005, p. 46) Para Hoey (2005), os dados apresentados revelam que os padrões de uso de uma palavra são caracteristicamente controlados por suas coligações e a forma como esses padrões, por meio das sequências de palavras, se apresentam, por sua vez, revelam que as sequências são preparadas para propósitos particulares. É importante mencionar a relevância do domínio ou gênero analisado, pois a coligação de uma palavra ou sequência pode ser diferente em outro ambiente. Hoey (2005) ressalta que cada domínio ou gênero tem suas próprias características coligacionais. Estendendo a noção de priming colocacional, a próxima hipótese mostra que uma palavra ou sequência de palavras pode aparecer em uma ou mais categorias gramaticais. Essa hipótese que descreve o priming gramatical das palavras será descrita no tópico a seguir. !86 5. Grammatical categories (categorias gramaticais) A quinta hipótese, categoria gramatical, relaciona-se ao fato de que toda palavra é ”preparada” para o uso em uma ou mais categorias gramaticais (HOEY, 2005). Categoria gramatical está sendo usada para atribuir à palavra ou sequência de palavras o status de verbo ou substantivo de uma oração, por exemplo. Corroborando a ideia de ‘priming’ gramatical, Sinclair (1991) também sinaliza que muitas palavras e sintagmas mostram uma tendência de coocorrer com certas escolhas gramaticais. Hoey (2005, p. 155) apresenta como exemplo o priming da palavra ‘winter’ (inverno), que é preparada para ser utilizada em duas categorias gramaticais distintas. Por exemplo, nas orações “in winter, Hammerfest is….” (No inverno, Hammerfest está…) e “I’ll winter in Brussels” (+- Eu vou invernar em Bruxelas) a palavra ‘winter’ está funcionando como substantivo e verbo, respectivamente. Em outro exemplo,verificamos que a palavra ‘return’ aparece em duas categorias gramaticais distintas, verbo (exemplo 1) e substantivo Exemplo2), como podemos ver nas orações a seguir retiradas de Hoey (2005, p 155, grifo autor): The expedition returns England, having rescued the men left (…) Many happy returns. Contudo, diferentemente dos exemplos nos quais há mudança de categoria gramatical, Hoey (2005) evidencia o priming gramatical da palavra ‘consequence’ e verifica que ela é ‘preparada’ para operar apenas como substantivo. Em nenhum momento, portanto, no corpus analisado, a palavra ’consequence’ é utilizada em outra categoria gramatical. Assim como uma palavra ou sequência de palavra é preparada para ocorrer em categorias gramaticais diferentes, ela também é preparada para formar ou participar de correntes coesivas, em uma perspectiva textual. Esse tipo de priming textual será descrito no próximo tópico. 6. Textual collocations (colocações textuais) !87 A sexta hipótese levantada pela LP, colocação textual, relaciona-se ao fato de toda palavra ser ‘preparada’ para participar de ‘correntes coesivas’ ou ligações, ou a evitá-las. Hoey (2005) define corrente coesiva como três ou mais itens que são ligados por colocação textual. Essa relação, por sua vez, pode ser feita através de repetições ou referentes. Já a ligação ocorre quando apenas dois itens lexicais estão intimamente conectados (HOEY, 2005). Hoey (2005, p.117, grifo nosso) apresenta um exemplo de palavras que formam correntes coesivas: With a spare hour on my hands before lunch in Lebanon this week, I revisited the joys of my childhood, crunched my way across the old Beirut marshalling yards and climbed aboard a wonderful 19th-century rack-and-pinion railway locomotive. Although scarred by bullets, the green paint on the wonderful old Swiss loco still reflects the glories of steam and the Ottoman empire. For it was the Ottomans who decided to adorn their jewel of Beirut with the latest state-of-the-art locomotive, a train which one carried the German Kaiser up the mountains above the city where, at a small station called So far, the Christian community begged for his protection from the Muslims. ‘We are a minority,’ they cried, to which the Kaiser bellowed: ‘Then become Muslims!’ (The first two paragraphs of ‘The irresistible romance of a steam train scarred with the bullet holes of battle’ by Robert Fisk, The Independent, Saturday 12 February 2005, p. 37) No exemplo, a corrente coesiva começa com “a wonderful 19th-centure rack-and- pinio railway locomotive” e continua com “the worderful old Swiss loco” e “the latest-of-the- art locomotive” e por fim, “train”. Desta forma, podemos concluir que a palavra ‘locomotive’, ao participar de uma corrente coesiva com ‘loco’, a repetição ‘locomotive’ e ‘train’ é ‘preparada’ para participar de colocações textuais. Nessa mesma passagem, Hoey (2005) apresenta um exemplo de ligação entre dois itens lexical, ‘the Ottoman empire’ e ‘the Ottomans’, que forma coesão na forma de uma simples repetição. Entretanto, as palavras ‘hour’ e ‘crunched’ não formaram nenhuma corrente coesiva ou ligação, e, desse modo, podemos concluir que nessa passagem essas palavras evitam a colocação textual. Ainda em uma perspectiva textual, como descrito no priming por colocação textual, veremos que uma palavra ou sequência de palavras pode aparecer ou evitar certas posições dentro de um texto, por exemplo. Nesse caso, estamos nos referindo ao priming por coligação textual, que será descrito no próximo tópico. !88 7. Textual colligations (coligações textuais) A sétima hipótese delineada pela LP, coligação textual, diz respeito ao fato de que toda palavra ou sequência de palavra é “preparada” para ocorrer ou evitar certas posições dentro do discurso. Hoey (2005) afirma que a noção de coligação textual é estendida para abranger não apenas o posicionamento dentro da frase, como no priming coligacional, mas o posicionamento dentro da fala, parágrafo, conversa ou texto. Um exemplo de coligação textual apresentado por Bastow (2003), citado por Hoey (2005), analisa o priming textual da sequência nominal ‘our men and women in uniform’ e revela que essa sequência possui preferência para ocorrer na posição de Rema, ou seja, em posição final de uma oração. Contudo, Hoey (2005) argumenta que sua investigação sobre coligação textual sugere que Rema é uma categoria muito ampla de análise e, desta forma, não permite afirmações interessantes sobre a coligação textual. Para o pesquisador citado, se uma palavra é preparada para ocorrer em posição inicial ou final de uma oração, ela também pode ser preparada para ocorrer na primeira ou última posição de um parágrafo, seção ou texto. Assim, em sua análise do priming textual da palavra ‘consequence’, Hoey (2005) verificou que a palavra evita posição inicial de um parágrafo ou texto. Por outro lado, o plural ‘consequences’ possui um priming positivo por aparecer em posição inicial de parágrafo. Em outro exemplo, Hoey (2005), ao analisar o priming por coligação textual da palavra ‘reason’ (razão) no sentido de ‘logic’ (lógica), revelou que em 154 casos analisados ‘reason’ como sentido de lógica aparece com maior frequência na posição final de parágrafo (24% dos casos). Por outro lado, para essa mesma posição, de final de parágrafo, a análise revelou que em 817 casos, a palavra ‘reason’ no sentido de ‘cause’ (causa) quase não ocorre (6% dos casos). Portanto, foi concluído, a partir da análise do priming coligação textual da palavra ‘reason’, que ela é ‘preparada’ para ocorrer no final de parágrafo somente quando tem a ideia de ‘lógica’. !89 No próximo tópico, veremos que em uma perspectiva textual também é possível analisar o priming semântico de uma palavra ou sequência de palavra, pois isso permite verificar as preferências das relações semânticas das palavras dentro do texto. 8. Textual semantic associations (associações semânticas textuais) A última hipótese levantada na LP, associação semântica textual, relaciona-se ao fato de que toda palavra ou sequência de palavras é ”preparada” para ocorrer ou evitar certas relações semânticas no discurso. Na verdade, essa hipótese representa uma extensão da associação semântica. Sobre essa hipótese, Hoey (2005) argumenta que todo item lexical ou combinação de itens lexicais possui uma preferência positiva ou negativa por ocorrer como parte de um tipo específico de relação semântica em um padrão textual específico. Hoey (2005, p. 123) ilustra essa última hipótese com a análise do priming da combinação ‘The + adjetive + side' (O + adjetivo + lado). Foi constatado que em 126 dos casos analisados de ocorrência da combinação, 58 (que representa 46% das ocorrências) faziam parte de uma relação de ‘contraste’, 19 (que representa 15% das ocorrências) faziam parte de uma relação de ‘paralelismo estreito’ e as outras nove ocorrências restantes faziam parte de ambas as categorias semântica-textuais. 2.8.3 Considerações sobre a Lexical Priming Ao observar os resultados de análise apresentados por Hoey (2005), tomamos a consciência da grande dimensão que o léxico de uma língua possui. Desta forma, a partir da análise empreendida por Hoey (2005) do ’priming’ de alguns itens lexicais ou combinação de itens lexicais, ficou evidente que esses itens são “preparados” para se associarem a outros itens lexicais em diversos níveis, tais como lexical, semântico e gramatical. Desse modo, foi possível verificar universo de informações que podem ser retiradas de uma análise lexical e concordar com o argumento de Hoey (2005) de que a estrutura do léxico é complexa e sistemática e, desse modo, fornece informações sobre o funcionamento da língua. !90 Portanto, esta pesquisa se fundamenta na análise de Hoey (2005) para analisar o corpus escolhido e, a partir da nossa análise, as informações sobre os dados encontrados serão organizados de modo a serem aproveitadas para as discussões sobre o ensino de língua de língua materna. Em outras palavras, utilizaremos uma teoria de ensino de língua estrangeira para a aplicação em um corpus composto por textos de língua portuguesa. Dessa maneira, os dados encontrados serão organizados e discutidos em uma relação direta com os princípios envolvidos no desenvolvimento da competência lexical. Importa mencionar que, como estamos analisando um corpus diferente daquele utilizado por Hoey (2005), nos resguardamos no direito de fazer algumas adaptações na análise para obtermos um melhor aproveitamento dos dados analisados. Nosso corpus é composto por textos publicitários que, como naturalmente são textos menos extensos, esperamos encontrar um padrão regular de priming diferente do gênero jornalístico, utilizado por Hoey (2005). Sobre a análise de corpus, teceremos algumas considerações sobre a linguística de corpus, ciência empírica que se destina a análise de corpus formado por textos autênticos que, portanto, devem ser coletados de contextos reais de ocorrência. 2.9 A Linguística de Corpus (LC) Os avanços tecnológicos proporcionaram e ainda estão proporcionando o desenvolvimento de muitas pesquisas voltadas para o ensino de língua. Nesse contexto, a linguística de corpus (LC), uma ciência empírica, teve como componente essencial para seu desenvolvimento, o avanço da tecnologia, que permitiu o uso de computadores e programas eletrônicos para análise de corpus (OLIVEIRA, 2009). Dessa forma, a LC ofereceu, a partir da análise de corpus, a possiblidade de armazenar, acessar e analisar grande quantidades de dados linguísticos. A LC, segundo Sardinha (2004), pode ser vista de três maneiras diferentes, dependendo do pesquisador. Ela pode ser considerada uma metodologia, uma vez que é vista como instrumento que poder ser aplicado a diversas disciplinas, sem que ocorra a mudança de orientação destas. No entanto, a LC, também é vista como algo mais do que uma metodologia, pois é capaz de produzir conhecimento novo, que não poderia ser adquirido com !91 o uso de outras ferramentas ou pressupostos teóricos. Por fim, a LC pode ser considerada uma abordagem ou uma perspectiva, que possui uma maneira peculiar e específica de enxergar a linguagem. Para a nossa pesquisa adotaremos a visão da LC como um modo específico de aplicar um conjunto de pressupostos de caráter teórico. Ou seja, para a presente pesquisa, a LC será vista como uma metodologia e os pressupostos teóricos que serão amplamente utilizados serão descritos nessa seção. A LC possui uma perspectiva própria sobre a linguagem, que é considerada um fenômeno social. Nessa perspectiva, faz-se uma análise da língua a partir de sua ocorrência em textos reais com o auxílio de programas de computador com o objetivo de extrair evidências linguísticas desse corpus (OLIVEIRA, 2009, 49). O corpus, portanto, ganha uma grande relevância e deve obedecer a critérios específicos para, de fato, ganhar o status de corpus. Para Sardinha (2004), a definição de corpus, dentro da LC, é bem criteriosa. Para que um conjunto de dados linguísticos possa ser considerado um corpus seria necessário alguns critérios, como a origem, propósito, composição, formatação, representatividade e por fim, a extensão. Quanto à origem e propósito do corpus, os textos utilizados para formação do corpus devem ser coletados de contextos reais de ocorrência, ou seja, textos autênticos e os dados precisam ser utilizados como objeto de estudo linguístico. Para a composição e formatação do corpus, é preciso que a escolha e a coleta dos dados sejam bem criteriosas e em um formato que seja legível por computadores. Além disso, os dados precisam ser representativos de uma língua e também extenso, para que a extração de dados que serão transformados em conhecimento seja possível. Sobre a utilização corpus em pesquisas linguísticas, Sardinha (2004) salienta que todo corpus é a representação de uma porção limitada da língua, mas que, na verdade essa porção pode ser vista como um sistema potencial de significados. Oliveira (2009) corrobora que o corpus, na verdade, oferece evidências linguísticas que precisam ser interpretadas pelo pesquisador para que possam servir de apoio para novas descrições linguísticas ou para proposta de novas perspectivas teóricas. Sinclair (2004) também enfatiza a importância de se confiar no texto para se obter dados linguísticos. Para o referido pesquisador, a LC trouxe importantes contribuições para a análise de textos, uma vez que oferece a oportunidade e encoraja pesquisadores a formular novas hipóteses e representa uma nova era para o ensino de línguas. Ao defender a !92 necessidade de se confiar no texto e estar aberto ao que ele tem a dizer para o pesquisador, Sinclair (2004, 23) salienta que o pesquisador pode encontrar fenômenos incomuns e muitas surpresas. Dessa forma, o pesquisador deve procurar por modelos que são especialmente adequados para o estudo de textos e discursos. Halliday (1993, p. 1) salienta que o trabalho baseado em corpus tem a capacidade de mudar o pensamento dos pesquisadores no que diz respeito ao léxico, padrões do vocabulário das línguas e até a gramática. Para o referido estudioso, o impacto que a linguística de corpus trouxe para as investigações teóricas sobre a linguagem foi extremamente benéfico. O tratamento dos dados na LC, em sua grande maioria é quantitativo, pois os números servem de base na identificação de padrões. Contudo, Oliveira (2009) afirma que observar os dados do corpus qualitativamente é uma abordagem que se vê o maior potencial para a produção de ‘insights’ pedagógicos que fazem parte do objeto de pesquisa em questão. Sobre os ‘insights pedagógicos, Oliveira (2009) vai além, ao enfatizar que a aplicação pedagógica de estudos baseados em corpus não se restringe a descrições linguísticas, mas tem impacto direto no planejamento de práticas pedagógicas ligados ao ensino de línguas. Considerando os pressupostos teóricos que envolvem a LC, reafirmamos que para a nossa pesquisa a utilizaremos como um recurso metodológico, ou seja, aplicaremos para o desenvolvimento desse trabalho as hipóteses levantadas sobre a LC e discriminadas acima. Dessa forma, para nós importa considerar, como na LC, a importância e o impacto que um trabalho baseado em corpus e uma análise de dados, a partir de uma perspectiva qualitativa, têm sobre o ensino de língua, sobretudo, nos estudos lexicais. !93 3. METODOLOGIA DE PESQUISA Neste capítulo, subdividido em quatro seções, apresentaremos o percurso metodológico utilizado na condução deste estudo. Na primeira seção, discorreremos sobre a natureza desta pesquisa, uma pesquisa qualitativa de caráter descritivo e exploratório. Na segunda seção, descreveremos os projetos que serviram de base para a coleta do corpus de pesquisa para dimensionar o contexto em que o corpus utilizado como objeto de estudo dessa pesquisa foi criado, bem como as justificativas para a adoção de critérios que servem como norte para conferir às composições sintagmáticas analisadas o status de neologismos. Na terceira, apresentaremos os procedimentos adotados para a análise dos dados. Dessa forma, ressaltaremos os trabalhos que serviram de referência para a divisão e classificação das áreas de especialidades que contribuíram para a criação de composições neológicas na publicidade. Além disso, no que concerne à Lexical Priming, ressaltaremos a metodologia utilizada para a identificação dos primings semântico, colocacional e coligacional das composições que irão nos permitir a identificação de padrões de uso dessas unidades lexicais. Ainda nessa seção, mostraremos o percurso metodológico para a identificação das composições sintagmáticas que foram criadas a partir de acontecimentos sociais, históricos e culturais e também a capacidade de variação e adaptação das composições sintagmáticas dentro do discurso publicitário. Por fim, na quarta e última seção, apresentaremos os critérios adotados para a classificação da estrutura lexical das composições sintagmáticas, além de explicar o procedimento e a justificativa para a análise quantitativa das estruturas lexicais encontradas, no que tange à produtividade das composições. É importante mencionar que dado o tipo de pesquisa e os critérios adotados para a análise, as descobertas desse estudo não são generalizáveis ou irrefutáveis, uma vez que se leva em consideração o contexto em que o corpus foi construído e a possibilidade de aprimoramentos futuros na identificação, categorização e análise das composições sintagmáticas e o priming lexical. Em outras palavras, estamos deixando claro que, por exemplo, o padrão de uso colocacional de uma composição sintagmática dentro do discurso !94 publicitário pode ser diferente em outros contextos. Contudo, isso não invalida essa pesquisa, mas deixaria evidente que o priming lexical está atrelado ao contexto de uso. 3.1 A natureza da pesquisa Esta pesquisa se configura como uma pesquisa qualitativa de caráter descritivo e exploratório, pois tem como objetivo não apenas a descrição das composições sintagmáticas, mas também uma visão panorâmica da produtividade lexical da língua portuguesa, no que diz respeito à criação de novas palavras em textos publicitários e a exploração do priming lexical dessas unidades dentro do contexto publicitário. Este estudo busca ainda, ao explorar as composições sintagmáticas neológicas dentro de textos publicitários, oferecer dados que poderão dar suporte a uma nova metodologia de ensino, em que o léxico seja colocado como ponto central da língua e, desta forma, será o ponto de partida para as ações didáticas em sala de aula. A pesquisa qualitativa, segundo Denzin & Lincon (2006), não tem como objetivo enumerar ou medir eventos estudados e também não estabelece referencial estatístico na análise de dados. Nesse tipo de pesquisa, os interesses vão se definindo à medida que o estudo se desenvolve. Flick (2009, p. 23) aponta que a escolha adequada de métodos e teorias convenientes, o reconhecimento e análise de diferentes perspectivas e a reflexão dos pesquisadores a respeito de suas pesquisas como parte do processo de produção de conhecimento são aspectos fundamentais na pesquisa qualitativa. Chueke e Lima (2012, p. 68) complementam que, em uma abordagem qualitativa, que se destaca por sua complexidade, o pesquisador poderá adotar uma grande variedade de métodos para assegurar a compreensão e profundidade do fenômeno. Dentre os métodos frequentemente adotados em estudos qualitativos, faremos uma breve descrição do método que foi adotado para esta pesquisa: a análise de conteúdo. A análise de conteúdo (AC) surgiu nos Estados Unidos, no início do século XX, com o objetivo de analisar material jornalístico. O impulso desse método foi entre os anos 1940 e 1950 com o interesse dos cientistas pelos símbolos políticos, e em 1950 e 1960 a AC se estendeu para outras áreas (BARDIN, 1977). !95 Para Bardin (1977), a AC pode ser definida como um conjunto de técnicas de análise, que visa obter indicadores que permitam inferência de conhecimento relativo ao conteúdo do texto analisado. Esses indicadores de inferência são adquiridos por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição de conteúdos das mensagens. Sobre a validação dessa metodologia científica, Moreira, Simões e Porto (2005) afirmam que a AC teve um tempo de maturação de 13 anos e inúmeros trabalhos redigidos nos critérios definidos por essa técnica, o que, na opinião dos pesquisadores, são fatos que validam essa proposta de metodologia. Caregnato e Mutti (2006), ao discorrer sobre as características da AC, afirmam que a maioria dos autores refere-se a essa técnica sendo um procedimento de pesquisa que trabalha com a palavra, permitindo de forma prática e objetiva produzir inferências do conteúdo da comunicação de um texto, replicáveis ao seu contexto social. As pesquisadoras citadas ressaltam ainda que na AC o texto é um meio de expressão do sujeito, onde o analista busca categorizar as unidades de textos (palavras ou frases) que se repetem, inferindo uma expressão que as representem. Assim como previsto na AC, ao utilizar essa técnica em nossa pesquisa, estamos considerando as três etapas previstas, a pré-análise; a exploração do material; o tratamento dos resultados e a interpretação. A primeira etapa, a pré-análise, é a fase de organização, que pode utilizar vários procedimentos, tais como: leitura flutuante, hipóteses, objetivos e elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação. Na segunda etapa, os dados são codificados a partir das unidades de registro e faz-se a categorização, que consiste na classificação dos elementos, segundo suas semelhanças e por diferenciação com posterior reagrupamento, em função de características comuns (BARDIN, 1977). Por fim, na etapa final, se faz o tratamento e a interpretação dos dados encontrados na etapa anterior. 3.2 O corpus Para esta pesquisa contamos com um corpus composto por 859 composições sintagmáticas, devidamente contextualizadas, considerando as três revistas, Veja (588 composições), IstoÉ (106 composições) e Época (165 composições). Chegamos a esse número após retirar as repetições, quando as composições apareciam no mesmo texto publicitário, mas em revistas ou exemplares diferentes. Descartamos também as composições !96 sintagmáticas que apareciam sem contexto, pois dentro da teoria da Lexical Priming o contexto é fundamental para a análise. Por fim, chegamos a esse número de composições sintagmáticas após a revisão do corpus nos três dicionários que adotamos como corpus de exclusão e que serão descritos na próxima seção. O corpus que serviu de base de análise para esta pesquisa foi retirado do banco de dados de projetos de pesquisa que se iniciaram em 2004 com o intuito de analisar textos publicitários. Todos esses trabalhos, que serão descritos a seguir, foram ou estão sob a coordenação do Prof. Dr. Aderlande Pereira Ferraz. Embora com algumas diferenças em termos de propósitos, o objetivo central de todos esses projetos é a observação e análise de textos publicitários impressos e, consequentemente, a coleta de unidades lexicais neológicas. Essas unidades variam entre palavras que são criadas a partir de regras formais da língua como as unidades criadas a partir dos processos de prefixação, sufixação, composição, formação sintagmática, truncamento, cruzamento vocabular, siglagem, hibridismo, e também por empréstimos de línguas estrangeiras. O projeto inicial, intitulado Observatório de neologismos na publicidade impressa em circulação no Brasil, finalizado em 2005, tinha como objetivo central a observação e análise do surgimento de palavras novas em uso no português brasileiro. Nesse sentido, o projeto buscava a difusão do fenômeno da criatividade lexical das unidades lexicais da língua geral e especializada. Como objetivos específicos, esse projeto procedeu ao tratamento lexicológico de neologismos coletados de quase 3000 volantes impressos. Essa base de dados pertence ao projeto anterior, Descrição do léxico da publicidade escrita do Brasil a partir de 2000, encerrado em 2004. Com objetivos semelhantes, o projeto Observatório de Neologismos na Publicidade impressa: Aplicação ao Desenvolvimento da Competência Lexical teve início em 2006 e foi finalizado em 2009. Esse projeto, que visava à observação e análise da criação lexical do português contemporâneo, também tinha como objetivo o estabelecimento e fornecimento de um observatório de neologismos na publicidade impressa, cuja proposta consistia em analisar um corpus constituído de textos publicitário impressos. Para dar continuidade ao projeto descrito acima, o projeto intitulado Desenvolvimento do observatório de neologismos na publicidade impressa: produtividade e competência lexical em português teve seu inicio em 2010 e foi finalizado em 2013. Esse projeto é !97 considerado inovador, em comparação ao demais projetos descritos, pois, além de observar e analisar o fenômeno do surgimento de palavras novas, vigentes no português contemporâneo, ele também procura difundir aspectos da inovação lexical que possam contribuir para o desenvolvimento da competência lexical. Nesse projeto, a observação e análise era feita em textos publicitários veiculados pelas revistas noticiosas de grande circulação no Brasil, Veja, IstoÉ e Época, a partir das edições de janeiro de 2006 a dezembro de 2010. Atualmente, o projeto intitulado Revisão e ampliação do observatório de neologia na publicidade impressa: aplicação ao desenvolvimento da competência lexical, tem como objetivo revisar e atualizar a base de dados do Observatório de Neologia (FALE-UFMG). A revisão contará com a reclassificação dos neologismos coletados em projetos anteriores, levando em cosideração a ampliação do acervo lexical dos dicionários que constituem o corpus de exclusão. Além disso, esse projeto, que foi iniciado em 2014, realizará a coleta de novos neologismos a partir da descrição de textos publicitários impressos veiculados pelas revistas Veja, Época e IstoÉ, a partir das edições de janeiro de 2011 a dezembro de 2015. Em relação à análise das revistas, era desejável, na medida do possível, a análise do maior número de edições por ano de cada revista. Para a coleta dos neologismos, os projetos contavam com a colaboração de uma equipe responsável por analisar todos os textos publicitários dos impressos volantes e das revistas com o intuito de identificar e coletar os itens lexicais neológicos presentes. Embora os projetos apresentassem especificidades em termos de propósito, a coleta dos neologismos, objetivo compartilhado por todos os projetos, consistia em três etapas. A primeira etapa do processo era a identificação de possíveis candidatos a neologismos nos textos publicitários, observando-se a variedade de unidades que a língua é capaz de criar. Após essa etapa, era feita a verificação do candidato a neologismo no corpus de exclusão, representado por três dicionários. A última etapa, após a consulta aos dicionários, era composta pela inserção dos neologismos em uma tabela. Nessa tabela, era colocado o contexto no qual o neologismo aparece; a marca do produto ao qual o texto publicitário pertence; o significado; o processo de formação e as referências, como podemos ver abaixo (QUADRO 5): !98 QUADRO 5: Modelo de tabela de coleta de neologismos Fonte: Dados da autora. 3.2.1 O corpus de exclusão e o critério lexicográfico Para que um item lexical, candidato a neologismo, se configure de fato como um item neológico, é necessário a adoção de um critério. Atualmente, estudiosos desse assunto dispõem de três critérios: psicológico, diacrônico e lexicográfico, que serão detalhados a seguir. O critério psicológico, segundo Ferraz (2006), está fundamentado na sensação de novidade da palavra sentida pelo falante. No entanto, o critério psicológico apresenta uma grande dificuldade de aplicação e peca pela subjetividade e, por esse motivo, não é frequentemente adotado pela maioria dos estudiosos de neologismos. Outro critério que também é marcado pela subjetividade é o critério diacrônico. De acordo com Ferraz (2006, p. 224) o critério diacrônico se “baseia na comprovação da data de surgimento de uma unidade léxica num dicionário”. O grande problema desse critério é que nem sempre os dicionários apresentam informações sobre quando a unidade léxica apareceu pela primeira vez, o que inviabiliza a utilização desse critério, no que diz respeito aos estudos !99 de neologismos. Desta forma, a adoção de um critério para definir se um item lexical é um neologismo deve preservar a objetividade e a praticidade na aplicação. Nesse sentido, o critério lexicográfico é marcado pela objetividade e facilidade de aplicação. Sem dúvida, esses são os motivos que explicam o fato de a maioria dos pesquisadores da área adotarem esse critério como definidor de um neologismo. Para aplicação desse critério adota-se um corpus de exclusão, que no caso desta pesquisa, é composto por três obras lexicográficas. Todo aquele candidato a neologismo que, ao ser verificado, não aparecer em nenhuma das obras lexicográficas analisadas, ganha o status de unidade lexical nova. Contudo, o grande problema do critério lexicográfico é que os dicionários demoram um período relativamente extenso para se atualizarem, mas, ainda assim, podemos considerar que esse tipo de obra lexicográfica é um parâmetro seguro para este tipo de pesquisa. O corpus de nossa pesquisa foi construído ao longo de dez anos e, até 2013, o corpus de exclusão era composto por três obras lexicográficas, a saber: Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa (2001), Dicionário Michaelis da Língua portuguesa (1998) e Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1999), todos em versão eletrônica. Com a atualização de alguns dicionários, a partir de 2014, adotou-se as obras mais recentes. Como a revisão do corpus completo ainda está em andamento, conforme previsto no projeto Revisão e ampliação do observatório de neologia na publicidade impressa: aplicação ao desenvolvimento da competência lexical,selecionamos o corpus referente ao objeto de estudo desse trabalho, as composições sintagmáticas e procedemos com a análise, que tinha como objetivo verificar os itens lexicais que deixaram de ser neologismos, com a atualização das obras lexicográficas. Nessa análise, contamos com o corpus de exclusão composto pelos principais dicionários brasileiros de língua portuguesa, com suas mais novas edições: Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2010), Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa (2009), ambos os dicionários na versão eletrônica, e o Dicionário Caldas Aulete (2013), versão on- line. Para a aplicação do critério lexicográfico, no caso das composições sintagmáticas, é necessário verificar nas obras lexicográficas todos os componentes da composição, caso o item não apareça como uma entrada individualizada. Isso porque, embora os dicionários !100 sejam considerados obras lexicográficas de grande prestígio, nem sempre essas obras adotam um critério seguro para inclusão desses item lexicais. Para verificar, por exemplo, se a formação “computador de bordo” é um item lexical neológico, buscamos pelas acepções no verbete “computador” e, em seguida, no verbete “bordo”. Dessa forma, ao nos certificarmos de que a composição mencionada não aparece como subentrada em nenhuma das acepções dos substantivos consultados, esta é, então, considerada um item lexical neológico pelo critério lexicográfico. No caso da consulta ao dicionário Caldas Aulete, como se trata de uma obra lexicográfica on-line, e, deste modo, pode ser atualizada com mais frequência, optamos por ressaltar a data da consulta. Assim, ao consultar o dicionário e não verificar a inclusão da composição sintagmática na obra, na data especificada, aquela composição era considerada neológica até a data de análise. Desta forma, nos resguardamos, já que existe a possibilidade de atualização da obra e aquele item lexical passar a fazer parte do dicionário, deixando assim de ser um neologismo. A análise do nosso corpus de pesquisa no dicionário Caldas Aulete foi feita nos dias 06 e 07 de setembro de 2015, e, portanto, as composições sintagmáticas, objeto de análise deste trabalho, são consideradas neologismos, considerando a data mencionada. Na próxima seção, ressaltaremos os procedimentos que foram utilizados para a análise do corpus de pesquisa. 3.3 Procedimentos adotados para a análise dos dados Nessa seção, descreveremos os procedimentos metodológicos e critérios adotados para a análise do corpus de pesquisa, tanto do ponto de vista semântico, colocacional e coligacional, quanto do ponto de vista estrutural. Ressaltaremos trabalhos que serviram como ponto de partida e base para a análise que será empreendida neste trabalho. 3.3.1 Divisão por áreas do conhecimento Com o objetivo de estudar a linguagem dos meios de comunicação para um conhecimento mais aprofundado da língua, Carvalho (1995) afirma que é preciso fazer uma !101 descrição e mostrar o funcionamento da linguagem em contextos reais. Deste modo, a estudiosa mostra através do estudo do discurso publicitário que é possível descobrir a ação da língua na sociedade. Em seu trabalho, Carvalho (1995) tinha como corpus as mensagens publicitárias em revistas de circulação geral e revistas femininas de circulação no ano de 1991 - junho- dezembro. Foi escolhido o léxico pertencente aos seguintes campos semânticos: alimentação, vestuário, cosmética, todos em sentidos amplos (CARVALHO, 1995, p. 11). Sob um enfoque semelhante e com o objetivo de mostrar a dinamicidade da língua portuguesa, no que diz respeito ao surgimento de palavras novas, Ferraz (2008) apresenta um estudo descritivo de neologismos retirados de anúncios publicitários. O estudo apresentado pelo pesquisador parte da coleta e análise de um grande número de material publicitário caracterizado como impressos volantes. Ferraz (2008) afirma que, como os textos publicitários procuram divulgar todos os tipos de produtos comerciais, com esse estudo é possível verificar as unidades lexicais neológicas que fazem parte de diversas áreas de especialidade. Como exemplo de áreas de especialidade, temos: informática, vestuário, automobilística, culinária profissional (principalmente fast-food), eletrodomésticos e eletrônica, telefonia, etc (FERRAZ, 2008, p. 142). Para a nossa análise, como se trata de um corpus retirado de textos publicitários de revistas de grande circulação nacional, direcionadas ao público geral, e não só ao feminino, ampliaremos os campos semânticos. Além dos campos semânticos ou áreas de especialidade citados por Carvalho (1995) e Ferraz (2008), acrescentaremos outras áreas de especialidade como, saúde, turismo/entretenimento, rede bancária e habitação. Além disso, faremos a fusão de algumas áreas. O critério para a divisão foi, em um primeiro momento, a análise da marca do produto. Por exemplo, composições sintagmáticas que foram encontradas em publicidades das marcas Hyundai e Citroën, que são marcas de empresas do ramo automobilístico, foram consideradas, portanto, neologismos que pertencem a area de especialidade automobilística . Estabelecemos dez áreas de especialidade, que serão descritas a seguir: !102 1. automobilística; 2. tecnologia/informática; 3. moda (beleza/vestuário); 4. eletrodomésticos/móveis; 5. telefonia; 6. habitação; 7. turismo/entretenimento; 8. rede bancária; 9. saúde; 10. alimentos e bebidas. Após a divisão dos neologismos, a partir das áreas de especialidades, verificamos se existem composições sintagmáticas neológicas que transitam simultaneamente pelas diferentes áreas do conhecimento e se, essas composições neológicas, ao migrarem para outras áreas de especialidades, apresentam alteração em seu significado. Para verificar a mudança ou não de significado, nos apoiamos no contexto e no Google, quando o contexto não foi suficiente para chegar ao significado do conceito expresso pela composição neológica. 3.3.2 Análise da associação semântica O estudo da associação semântica de estruturas sintagmáticas tem uma grande representatividade na análise de palavras que coocorrem com certa frequência, como é o caso do objeto de pesquisa deste trabalho, uma vez que essa característica da língua pode fornecer generalizações e refletir um tipo regular de agrupamento lexical. A associação semântica existe quando uma palavra ou sequência de palavras é associada na mente de um usuário da língua por um conjunto semântico ou classe (HOEY, 2005, p. 24). Para Hoey (2005), existem informações sobre a maneira como as estruturas sintagmáticas são construídas que podem ser explicadas levando em consideração a associação semântica desses itens lexicais e não apenas a colocação como um arranjo de palavras. !103 Ao analisar a associação semântica de uma única palavra, o substantivo ’consequence’ (consequência), Hoey (2005) identificou que a palavra “consequência” no sentido de “result” (resultado), em oposição ao sentido de “significance” (sentido), tem “preferência semântica”, no que diz respeito ao ato de se associar com outro item lexical. Com ajuda de uma ferramenta eletrônica de concordância para análise do corpus de pesquisa, composto por textos do jornal The Guardian, foram encontrados 456 exemplos em que a palavra “consequência” era modificada por um adjetivo. Ao fazer a classificação desses adjetivos, do ponto de vista semântico, o pesquisador verificou que 59% dos adjetivos que modificavam a palavra “consequence” representava uma classe de adjetivos que faziam alusão à lógica subjacente ao processo em que “consequência” era descrito. Como exemplo, no corpus analisado, a palavra “consequence” foi pré-modificada por três adjetivos: logical (lógica), ineluctable (inelutável) e direct (direta). Considerando o contexto em que apareceram, esses adjetivos faziam menção à lógica implícita no processo ao qual “consequência” estava sendo descrita e, por este motivo, são chamados de (adjetivos de ‘lógica’), “logic’ adjetives”. Vejamos o exemplo dado por Hoey (2005, p.25): Mr Haughey’s support for liberal reform is a direct consequence of the election of President Mary Robinson last November. Na ocorrência acima, temos a associação de “consequence” com o adjetivo “direct”, e esse adjetivo, que está modificando o substantivo, faz alusão a um processo lógico, em que o apoio de Mr Haughey para a reforma liberal é uma consequência evidente e clara das eleições da presidente Mary Robinson. A análise de Hoey (2005) demonstrou que a análise da associação semântica da palavra “consequence” pode oferecer informações sobre a “preferência semântica” da palavra. Contudo, em nosso corpus, para proceder com a análise semântica, tivemos que fazer uma adaptação do modo como o pesquisador mencionado fez sua análise. Primeiro, diferentemente de Hoey (2005), que utilizou uma ferramenta eletrônica de concordância para identificar a associação semântica da palavra “consequence”, selecionamos composições sintagmáticas em que pelo menos um de seus itens era produtivo. Consideramos uma unidade lexical produtiva aquela que formou, pelo menos, quatro composições !104 sintagmáticas. Por exemplo, a unidade lexical ‘sensor’ se associou a outros substantivos para formar várias composições. Logo, essas composições foram objeto de análise em nossa pesquisa para a identificação de um possível padrão de associação semântico. O critério de selecionar composições formadas por uma unidade lexical produtiva deu- se pelo fato de o nosso corpus de composição já ser constituído, ou seja, não era necessário utilizar de nenhuma ferramenta para identificar grupos lexicais, como realizado na pesquisa que serve de base para este trabalho. Em seguida, ao selecionarmos composições sintagmáticas com itens lexicais produtivos, realizamos uma análise da associação semântica dos itens lexicais da composição com o intuito de verificar se existe algum padrão sobre a “preferência semântica” do componente da composição que se mostrou produtivo. Para o procedimento de análise das composições sintagmáticas, considerando os principais campos semânticos e subcategorias, adotamos um sistema de categorias (etiquetador semântico) chamado USAS (UCREL sistema de análise semântica) (ACHER; WILSON; RAYSON, 2002) adaptado por um recurso chamado O Léxico semântico de Lancaster (PIAO, ARCHER et al., 2005) utilizado para mapear o potencial semântico dos modelos de multipalavras (multiword expression – MWE). O léxico semântico de Lancaster (PIAO et al., 2005) se destaca quanto à analise semântica de coocorrências lexicais, que é âmbito de estudo deste trabalho. Trata-se de uma classificação semântica que consiste em um conjunto de classes semânticas organizadas como um thesaurus. Desta forma, o léxico semântico de Lancaster (PIAO et al., 2005) consiste em uma proposta de análise de conteúdo e, por esse motivo, oferece uma concepção de mundo geral. Segundo Abalada, Cabarrão e Cardoso (2010) existem duas vantagens importantes de se utilizar o léxico semântico de Lancaster (PIAO et al., 2005) para o tratamento semântico do léxico. A primeira vantagem está no fato desse material linguístico ser organizado por campos semânticos, divididos em classes e subclasses, e não por relações entre palavra e significado. Essa organização, segundo as pesquisadoras mencionadas, garante uma homogeneidade às classes, já que o material linguístico mantém entre si relações semânticas de sinonímia, antonímia, hiperonímia, hiponímia, holonímia e meronímia (ABALADA et al., 2010). !105 Outra vantagem apontada por Abalada et al. (2010) está relacionada ao fato de o léxico semântico de Lancaster (PIAO et al., 2005) ser uma classificação que permite a aplicação tanto em corpora mais abrangentes, quanto mais específicos, o que não seria possível com uma taxonomia para domínios específicos. Desta forma, seria possível a aplicação dessa classificação em palavras pertencentes a um domínio específico, como uma área científica, a partir de informações de apenas uma classe. Atualmente o sistema de classificação semântica, o léxico semântico de Lancaster, é composto por 21 classes (campos semânticos) (FIGURA 3) e 232 subcategorias. Vejamos os exemplos dos 21 campos semânticos. FIGURA 3: Os campos semânticos Fonte: (PIAO et al., 2005) Apresentamos também o exemplo de algumas das 232 subcategorias (FIGURA 4). Nesse caso temos subcategorias que foram criadas a partir da classe F: food and farming (alimentos e agricultura): !106 FIGURA 4: As subcategorias dos campos semânticos Fonte: (PIAO et al., 2005) Definidos os pressupostos da classificação, aplicou-se a classificação semântica a um grupo de composição sintagmática em que, pelo menos, um componente era produtivo, ou seja, se repetia. A aplicação foi feita por meio de uma etiquetagem manual aos grupos de composição sintagmática, de modo a identificar a classe semântica dos componentes do item lexical e verificar o padrão semântico dessas ocorrências dentro de uma área de especialidade. 3.3.3 Análise do aspecto colocacional das composições sintagmáticas A maneira como as palavras se agrupam dentro de um discurso pode refletir um tipo de priming colocacional que, por sua vez, pode refletir um padrão de uso de uma palavra ou sequência de palavras em um determinado contexto. Hoey (2005), por exemplo, constatou que a palavra “winter” se coloca com a preposição “in”. Logo, o pesquisador concluiu que “in !107 winter” forma um priming colocacional dentro de um contexto e esse padrão de uso da palavra "winter” é uma informação importante sobre o uso das palavras em contexto. Com o objetivo de evidenciar o priming colocacional das composições sintagmáticas dentro do discurso publicitário, fizemos a leitura exaustiva dos textos publicitários que compõem nosso corpus a fim de identificar características semelhantes quanto ao agrupamento de composições sintagmáticas com ‘preposições’, ‘artigos’, etc. Como conhecemos e manuseamos o corpus com grande frequência, não utilizamos ferramentas específicas pela busca de colocações das unidades analisadas. Utilizamos apenas ferramentas como o localizar, o que serviu para potencializar a pesquisa. Ao identificar um priming colocacional e testar a confiabilidade dos dados encontrados, utilizamos o Google para buscar pelas composições sintagmáticas que se colocavam com preposições, para verificar que se tratava de um priming colocacional ou se a motivação para tal agrupamento teria outras razões. Desta forma, procedemos com a busca de algumas composições em contextos publicitários, porém precedidas de outras unidades lexicais. Em outra análise, ainda sobre a aspecto colocacional, buscamos evidenciar o priming colocacional textual das composições dentro do contexto publicitário. Hoey (2005) identificou que algumas palavras ou sequência de palavras estão preparadas para aparecerem em correntes coesivas, ou seja, fazerem ligações através de expressões semanticamente relacionadas à palavra ou à sequência fonte. Dessa forma, a partir da leitura dos textos publicitários, buscamos identificar as composições que formavam uma corrente coesiva. Como estamos lidando com textos publicitários, que normalmente, possuem um tamanho reduzido, esperamos encontrar composições sintagmáticas na formação de pequenas correntes coesivas. 3.3.4 Análise do aspecto coligacional das composições sintagmáticas O priming coligacional diz respeito ao fato de toda palavra ou sequência de palavras estar preparada para aparecer com ou em funções gramaticais específicas ou evitar certas funções gramaticais dentro de um discurso. Hoey (2005) evidenciou através de sua análise !108 que certas palavras ou sequência de palavras possuem a preferência por aparecem no plural e em posição final de oração, além de terem a preferência por ocorrer em um tempo verbal específico. Por exemplo, ao analisar o priming coligacional da palavra ‘consequence’, foi constatado que esse substantivo possui um priming coligacional positivo para aparecer em posição inicial de parágrafo somente quando utilizado no plural. Além disso, Hoey (2005), na análise do priming coligacional, verificou também que a sequência de palavras “that winter” possui um priming coligacional positivo para ocorrer no passado simples. Ao posso que a sequência ‘in the winter’ possui um priming negativo para esse tempo verbal. Assim como Hoey (2005), procederemos com a análise do priming coligacional das composições sintagmáticas dentro do discurso publicitário com o objetivo de buscar por padrões coligacionais dessas unidades lexicais. Para isso, faremos a leitura exaustiva dos textos publicitários para identificar se alguma composição possui preferência por aparecer em alguma função gramatical específica, tais como a preferência por um tempo verbal, flexão de gênero ou número, ou sua posição específica dentro de uma oração ou texto. 3.3.5 Análise do léxico e sua relação com as mudanças na sociedade Considerando a idiossincrasia do léxico, buscamos em nosso corpus composições sintagmáticas neológicas que, de alguma forma, representam itens lexicais criados a partir de mudanças na sociedade contemporânea, sejam elas, mudanças sociais, históricas ou culturais. Utilizamos como referência para a busca de unidades lexicais que possam ser criadas a partir de fatos como o avanço tecnológico e os esforços para a preservação do meio ambiente, pois, de acordo com Alves (2010), esses fatos possibilitam a formação de unidades neológicas. A identificação dessas composições neológicas se dará a partir da leitura minuciosa do corpus em busca de palavras que tenham relação com os acontecimentos/temas: “avanço tecnológico e preservação do meio ambiente. Ao encontrar essas composições, faremos a !109 leitura do contexto para verificar a relação entre a palavra e o acontecimento, caso o contexto não nos ajude, utilizaremos a ferramenta do Google para verificar a possível relação. 3.3.6 Análise da variação e adaptação dentro do texto publicitário Uma das principais características que define uma composição sintagmática é a fixidez que, segundo Ferraz (2010), consiste em conservar a mesma estrutura formal e significado. No entanto, considerando o carácter dinâmico da língua e sua capacidade de adequação ao contexto ou domínio específico, buscaremos por composições que sofreram algum tipo de variação e/ou adaptação de um texto publicitário para o outro. Como exemplo de quebra de paradigma, no que diz respeito à fixidez, que é uma das principais características definidoras de uma composição sintagmática, buscaremos por itens lexicais que sofreram um processo de redução de um texto publicitário para o outro. Ao buscar por composições sintagmáticas que sofreram a perda de um item lexical, verificaremos também a data de publicação do texto, pois a partir da data poderemos apontar qual forma de composição foi utilizada primeiro. Assim, podemos estabelecer se houve perda ou acréscimo de um item e, com a ajuda do contexto e do Google, examinaremos se houve mudança de significado/sentido com esse processo de redução ou adição. Outros processos também serão pesquisados como, por exemplo, a incorporação de itens de outros sistemas linguísticos para o português brasileiro, os chamados estrangeirismos. Todavia, não faremos a distinção de empréstimo linguístico e estrangeirismos, pois essa discussão não se configura como objetivo desta pesquisa. No entanto, importa salientar que a maioria das línguas adotam o decalque, uma modalidade de empréstimo como um recurso utilizado para exprimir um conceito novo, quando não se deseja adotar o sintagma estrangeiro. Assim, o decalque é a tradução literal do item estrangeiro, normalmente utilizado para designar uma nova tecnologia (SOUZA, 2013, p. 18). Nosso objetivo é observar como está sendo feita a tradução literal desses itens estrangeiros, ou seja, verificar se existe alguma anomalia quanto à substituição pela forma léxica vernácula. !110 3.3.5 Composições sintagmáticas sinônimas No âmbito lexical, o estudo dos sinônimos se torna relevante, sobretudo, as composições sintagmáticas sinônimas. Sobre esse assunto, Hoey (2005), na tentativa de verificar se os sinônimos compartilhavam características de associações semânticas semelhantes, verificou que através da análise do sinônimos seria possível estabelecer padrões para o uso da língua. Ao analisar as palavras “consequence” e ‘result’, foi possível verificar que, embora as palavras sejam sinônimas, elas possuem “preferências semânticas” diferentes. Hoey (2005) mostrou a partir de dados do corpus que a palavra “result” era associada a palavras que descreviam um resultado positivo e definido. Por outro lado, a palavra “consequence” era associada a palavras que descreviam um resultado negativo e indefinido. Desta forma, faremos uma observação minuciosa do corpus e buscaremos por composições sintagmáticas sinônimas, ou seja, aqueles itens lexicais que designam o mesmo conceito ou conceitos similares. Após a identificação dessas composições sintagmáticas sinônimas, examinaremos características estruturais e semânticas, a fim de encontrar informações que possam estabelecer algum padrão de língua, quanto às composições sinônimas. O contexto será um grande aliado nessa análise, pois ele será o ponto de partida para entender a utilização de composições concorrentes. A data de publicação do texto publicitário também será levada em consideração, já que é importante estabelecer qual composição foi criada primeiro. 3.3.6 Análise tipológica das composições sintagmáticas Faremos uma análise descritiva para a identificação da tipologia das composições sintagmáticas presentes no corpus de análise. Após a descrição, procederemos com uma análise quantitativa para verificar qual tipo de estrutura é a mais produtiva , no que diz respeito ás composições sintagmáticas. Utilizaremos como referência, para essa análise, o trabalho de Ferraz (2007), que analisou cerca de três mil impressos volantes e descreveu os processos mais frequentes no !111 português brasileiro. Em um universo de nove processos de formação de palavras, as composições sintagmáticas ocuparam o quarto lugar na análise do referido pesquisador. Além de identificar os processos de formação de palavras nos impressos volantes, Ferraz (2007) também teve como objetivo classificar, do ponto de vista estrutural, as composições sintagmáticas encontradas. Assim, o pesquisador encontrou as seguintes estruturas: “vidro elétrico” (nome + adjetivo), “taxa de entrega” (nome + preposição + nome) e “radio palito” (nome + nome). Em nossa pesquisa, procedemos com a análise para descrever a tipologia de todas as composições sintagmáticas. Em seguida, faremos a análise quantitativa dos dados para verificar qual estrutura é mais expressiva no corpus em questão e se, a partir da análise quantitativa, podemos inferir algum padrão do ponto de vista de uso das composições sintagmáticas. Por fim, é importante relembrar que, nesta pesquisa, a análise desses dados não é generalizável. Ao lidar com o priming lexical das composições sintagmáticas ressaltamos que as descobertas feitas, neste estudo, se atêm ao universo de composições presentes em textos publicitários. !112 4. ANÁLISE DOS DADOS Neste capítulo, subdividido em sete seções, faremos a análise dos dados seguindo os procedimentos adotados e os critérios descritos no capítulo metodológico desta pesquisa. Na primeira seção, apresentaremos exemplos das composições sintagmáticas divididas por áreas de especialidade. Nosso objetivo nessa seção será mostrar os tipos de composições neológicas que estão entrando na língua via publicidade. Apresentaremos ainda nessa seção, composições que transitam por diversas áreas e, muitas vezes, não alteram seu significado. Na segunda seção, mostraremos as associações possíveis de composições sintagmáticas, de acordo com a teoria Lexical Priming, considerando o priming semântico, colocacional e o coligacional. Na terceira seção, veremos o léxico como um componente suscetível às mudanças que ocorrem na sociedade contemporânea. Desta forma, apresentaremos composições que foram criadas a partir de acontecimentos ligados aos avanços tecnológicos e também à preservação do meio ambiente. Na quarta e quinta seções, apresentaremos características das composições sintagmáticas e as mudanças que ocorrem com esses itens lexicais neológicos dentro dos textos publicitários e uma característica do discurso publicitário, em que o publicitário acrescenta no próprio texto o conceito da composição sintagmática. Na sexta e sétimas seções, apresentaremos a análise estrutural das composições sintagmáticas e ressaltaremos a grande variedade tipológica dessas estruturas lexicais, além de uma análise quantitativa para dimensionar as composições mais produtivas quanto a sua estrutura lexical. 4.1 Exemplos de neologismos por áreas de especialidades Apresentamos a seguir exemplos de composições sintagmáticas considerando as áreas de especialidades. Nosso objetivo com essa análise é apresentar um panorama de unidades lexicais que estão entrando na língua a partir das diversas áreas de especialidade e também apresentar exemplos das composições sintagmáticas, objeto de estudo desta pesquisa. !113 Apresentamos exemplos de composições oriundas de dez diferentes áreas, conforme delimitado no capítulo metodológico desta pesquisa, a saber: automobilística (QUADRO 6), tecnologia/informática (QUADRO 7), moda (beleza/vestuário) (QUADRO 8), eletrodoméstico/móveis (QUADRO 9), telefonia (QUADRO 10), habitação (QUADRO 11), turismo/entretenimento (QUADRO 12), rede bancária (QUADRO 13), saúde (QUADRO 14), e alimentação/bebidas (QUADRO 15). Nos exemplos, serão apresentados o texto em que a composição sintagmática está inserida, as referências, a marca do produto e, por fim, o significado. QUADRO 6: Neologismos automobilística Analista automobilístico “O Crossover Hyundai Veracruz ganha facilmente até de carros excelentes como o Lexus RX350, mesmo custando milhares de dólares a menos. Fonte: Test Drive comparativo realizado por Warren Brown, analista automobilístico do The Washington Post.” Veja. ano. 42, n.49. 09/12/09, p. 29 - Hyundai Significado: Responsável por analisar os problemas relacionados ao automóvel. Alarme volumétrico Travas elétricas e alarme volumétrico com controle remoto. Veja. Edição 2062, 05/2008, p. 04. FORD Significado: Alarme sonoro usado como antifurto. Fonte: Revista Veja QUADRO 7: Neologismos tecnologia/informática Diagnóstico remoto “1 ano de garantia com diagnóstico remoto e serviço executado na sua empresa. Seu Dell mais seguro:1 ano de serviço exclusivo Dell contra danos imprevistos. Completecare.” Veja. ano. 42, n.43. 328/10/09, p. 37. Dell. Significado: Diagnóstico realizado através da conexão entre computadores e mecanismos semelhantes. Estabilização de imagem eletrônica “Estabilização de imagem eletrônica, para minimizar a chance de uma foto tremida.” Veja. ano. 41, n.49. 10/12/08, p. 87. Nikon. Significado: Equipamento eletrônico para câmeras que atua como ferramenta que evita fotos com trepidação (tremidas ou embaçadas). Fonte: Revista Veja !114 QUADRO 8: Neologismos moda (beleza/vestuário) Escudo protetor Novo escudo protetor com pró-vitaminas. Protege 10x mais em uma semana. Veja, ano. 43, n. 2166. 06/10, p. 33. Pantene PRO-V. Significado: Uma linha de shampoo e condicionador que oferece na composição uma vitamina, funcionando como um escudo no tratamento dos cabelos. Depilação a laser Você pronta sempre. Promoção 40% de desconto sobre toda a tabela. Depilação a laser: axilas, virilha, ½ perna, virilha completa. Veja, ano. 43, n.2166. 06/10, p. 47. Naked Significado: Um processo de depilação que retira os pelos do corpo da mulher, utilizando-se do dispositivo de radiação. Fonte: Revista Veja QUADRO 9: Neologismos eletrodomésticos/móveis Acendimento automático Brastemp Cooktop, 4 bocas, acendimento automático. Veja, ano. 43, n.45. 10/11/2010 Ed. 2190, p. 62/63. Casas Bahia Significado: Função do fogão através da qual se pode acender o fogo apertando um botão. Purificador de água Purificador de água IBBL. Saúde desde cedo na sua família. Veja, ano. 42, Ed. 2138,11/2009, p. 191. IBBL. Significado: Aparelho que elimina os germes da água, tornando-a própria para consumo humano. Fonte: Revista Veja QUADRO 10: Neologismos telefonia Rádio interacional “Blackberry Curve. É Smartphone. É rádio. É Nextel. Rádio interacional, sms, GPS e celular para celular Nextel. Edição de documentos Word, Excel, PowerPoint, Teclado Qwerty e TrackBall que imita os movimentos do mouse.” Veja, ano. 42, n.37. 16/09/09, p. 181. Nextel Significado: Tecnologia que permite que com o simples toque de um botão, você fale de forma ilimitada com qualquer outro Nextel, gerando economia com ligações internacionais: valor do serviço fixo para uso ilimitado, sem custo de ligação internacional e nem adicional de roaming. Mensagens instantâneas Social Hub: integração de e-mails, redes sociais, calendários e Mensagens instantâneas. Veja, ano. 43, n.29. 21/07/10, p. 50. VIVO. significado: Mensagens enviadas pelo celular que chegam para o destinatário imediatamente. Fonte: Revista Veja !115 QUADRO 11: Neologismos habitação Mercado imobiliário Um condomínio único e exclusivo, com campo de golf, complexo hípico e pista de pouso. Ao todo serão investidos mais de 1 bilhão de reais na Reserva Real. Uma prova inequívoca da confiança do Grupo Design Resorts em Minas Gerais e no mercado imobiliário mineiro. Veja, ano. 43, n.44. 3/11/2010 Ed. 2189, p. 107. Design Resorts. Significado: Conjunto de transações financeiras relacionadas ao ramo imobiliário. Varanda gourmet Vila Grimm Vale dos Cristais. Apartamentos de 3 ou 4 quartos com varanda gourmet. Veja, ano. 42, n.36. 09/09/09, p. 46. Odebrecht. Significado: É um ambiente destinado à prática culinária. Fonte: Revista Veja QUADRO 12: Neologismos turismo/entretenimento Pacote aéreo Pague 4 noites e fique 7 com tudo incluído. Pacote aéreo, apto. Standard, baile com música ao vivo, programação especial para crianças. Veja, ano. 43, n.24. 16/06/10, p. 124. Costão do Santinho Resort . Significado: Um pacote de viagens que inclui o voo, o translado, hospedagem e outros tipos e serviços ( suíte, refeições, tour local) . Parede de escalada CVC Soberano. Um grandioso e luxuoso navio com capacidade para 2.800 passageiros. 3 piscinas, 3 jacuzzis, solarium, academia, parede de escalada, miniquadras ao ar livre,sala de jogos, equipes de recreação, cassino, SPA, salão de beleza, espaço para crianças e adolescentes com atividades especiais, teatro, discoteca, piano-bar, biblioteca, minishopping, bares e restaurantes. Veja, ano. 42, n36. 09/09/09, p. 115. CVC. Significado: Local onde se pratica uma técnica desportiva cujo fim é atingir o topo de uma parede rochosa. Fonte: Revista Veja QUADRO 13: Neologismos rede bancária Antecipação de recebíveis “Se sua empresa precisa de crédito para financiamento, capital de giro e antecipação de recebíveis (...)” Veja, ano. 42, n36. 09/09/09, p. 115.Caixa. Significado: Linha de crédito com prestações mensais utilizada para aumentar o capital de giro de pequenas empresas. Cheque eletrônico !116 “E para compras, em todos os estabelecimentos conveniados ao Cheque Eletrônico. Para ter acesso ao cartão de crédito você não paga nada e tem até 40 dias para pagar suas compras.” Veja, ano. 41, n52. 31/12/08, p. 99-102. Banestes. Significado: Sistema de transferência eletrônica de valores, por meio de cartão de débito das instituições financeiras, substituindo a utilização do cheque confeccionado em papel. Fonte: Revista Veja QUADRO 14: Neologismos saúde Cardioversor desfibrilador Uma alternativa para prevenir a morte cardíaca súbita é o implante de um cardioversor desfibrilador, aparelho que restaura o ritmo normal do coração caso ocorra uma arritmia grave. Veja, ano. 43, n.36. 08/09/10, p. 53. EINSTEIN. Significado: Aparelho que restaura o ritmo normal do coração caso ocorra uma arritmia grave. Cefaleia tensional Para Dorflex P, dor de cabeça tensional é coisa séria. Trate dela corretamente. A cefaleia tensional é causada por tensões do dia a dia. Veja, ano. 43, n.2166. 06/2010, p. 79. Dorflex. Significado: Trata-de de uma dor de cabeça oriunda das tensões provocadas por situações de estresse. Fonte: Revista Veja QUADRO 15: Neologismos alimentação e bebidas Mestre cervejeiro A Ambev acredita tanto que hoje sou mestre cervejeira de uma de nossas fábricas. Ainda acha que mestre cervejeiro é cargo masculino?Ambev. Significado: Denominação de um cargo de gerência de produção na empresa, que busca oferecer uma cerveja de qualidade. Buffet de saladas Rodízio de carnes nobres, frutos do mar, Buffet de saladas e frios, culinária japonesa, além de deliciosas sobremesas. Veja, n.45.11/09 Ed. especial 2135, p. 45.AMBRÓSIOS Significado: Conjunto de saladas em que a pessoa pode servir-se. Fonte: Revista Veja A partir dos exemplos apresentados, foi possível observar quais composições neológicas estão entrando na língua via publicidade considerando as áreas de especialidade. !117 Contudo, não foi possível fazer uma análise quantitativa de qual área do conhecimento foi mais produtiva, uma vez que não analisamos de forma proporcional o número de propaganda de cada área. Por exemplo, verificamos em nosso corpus um número expressivamente maior de composições neológicas oriundas das áreas de especialidade da automobilística e informática/tecnologia. Porém, o número de propagandas analisadas dessas áreas também foi proporcionalmente maior. 4.1.1 Composições que transitam por várias áreas de especialidade No tópico acima, demonstramos as composições dividas por áreas de especialidade. Percebemos, no entanto, ao fazer uma análise mais profunda que algumas composições sintagmáticas transitam por diversas áreas do conhecimento. Algumas dessas unidades neológicas com o mesmo significado nos dois contextos em que apareceram, outras com a mesma forma, mas significado diferente. A composição sintagmática “comando de voz” apareceu em nosso corpus em publicidades da automobilística e telefonia. Nos dois contextos em que a composição apareceu percebemos que “comando de voz” está sendo utilizada em áreas do conhecimento diferentes, mas com o mesmo significado. Em ambas as publicidades, “comando de voz” é um recurso que permite o reconhecimento de padrões de fala de seus usuários, conforme podemos evidenciar nos exemplos a seguir: 1. Comando de voz “O novo iPhone 3GS já chegou na Vivo cheio de novidades: comando de voz, câmera digital de 3.0 megapixels com foco ajustável ao toque do seu dedo e gravação de vídeo”. VIVO. Veja, ano. 42, n.35. 02/09/09, p. 16/17. “Faz ligações e lê mensagens SMS,toca MP3 ( CD ouUSB). Tudo por comando de voz ou botões no volante”. LINEA FIAT. Veja. ano. 43, n.31. 04/08/10, p. 08. Assim como “comando de voz”, a composição sintagmática “central de relacionamento” percorre diferentes áreas de especialidades sem alteração em seu significado. Verificamos que essa unidade sintagmática veiculada em propagandas de duas áreas diferentes, automobilística !118 e saúde, não altera seu significado, pois, em ambas as áreas, ela se refere a um serviço prestado por uma empresa para atendimento do cliente. Seguem os exemplos: 2. Central de relacionamento “Para mais informações, acesse www.fiat.com.br ou fale com nossa central de relacionamento: 0800 707 1000.” FIAT. Veja. ano. 42, n.47. 25/11/09, p. 43. “Central de relacionamento: 0800 705 5050 ligado em você”. FARMÁCIAS WALMART. Veja. ano. 43, n.45. 10/11/10 Ed. 2190, p. 16/17. “Débito em conta” é outro exemplo de composição sintagmática que manteve seu significado imutável mesmo sendo veiculada em duas áreas de especialidades distintas, a saber, eletrodomésticos/móveis e rede bancária. Em ambos os contextos “débito em conta” significa uma operação bancária em que o valor é debitado direto na conta corrente do cliente, conforme ilustrado nos exemplos a seguir: 3. Débito em conta “A sua casa de preço baixo ma internet. As melhores ofertas da internet. Pague com cartão de crédito, Cartão Casas Bahia, boleto ou débito em conta”. CASAS BAHIA. Veja. ano. 43, n. 30. 28/07/10, p. 71. “Ganhe 50 dias para começar a pagar. Assine por débito em conta ou cartão de crédito e ganhe mais prazo”. ABRIL. Veja. ano. 43, n.29. 21/07/10, p. folheto. A composição “acendimento automático” também é uma composição sintagmática que transitou por duas áreas do conhecimento distintas, a saber, automobilística e eletrodomésticos/móveis. Contudo, diferentemente dos primeiros exemplos apresentados, “comando de voz”, “central de atendimento” e “débito em conta”, foi possível verificar pelo contexto que os significados eram diferentes. No primeiro contexto, da automobilística, “acendimento automático” diz respeito a uma função que permite acionar automaticamente os faróis de acordo com a iluminação e o tráfego, em condições de ambientes adversas ou em situação de pouca luminosidade. Já no segundo contexto, o de eletrodoméstico/móveis, o neologismo ”acendimento automático” diz respeito a um tipo de acendimento que dispensa a utilização de fósforos, já que para realizar o acendimento do fogão será necessário girar o !119 botão que libera o gás e depois apertar outro botão que faz o fogo acender. Vejamos os exemplos: 4. Acendimento automático “Novo Sonata. Câmbio automático de 6 velocidades com Paddle Shift no volante. Sistema de ignição Keyless com sensor de proximidade e botão start/stop. Faróis de Xenon HID com acendimento automático para maior visibilidade e segurança. Freios ABS de 4 canais. Sistema de som com controle para iPod, entrada USB, entrada auxiliar, MP3, disqueteira no painel para 6 CDs e subwoofer. Exclusivo teto solar duplo para as duas fileiras de bancos. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Ar-condicionado digital independente nas duas fileiras de bancos. Computador de bordo completo. Suspensão com amortecedores de regulagem automática. Eco Driving Digital (único no mundo). Sistema que indica, em tempo real, a forma mais econômica de dirigir, diminui o consumo e a emissão de poluentes”. HUNDAI. Veja. ano. 43, n.45. 10/11/10 Ed. 2190, p. 04/05. “Brastemp Cooktop, 4 bocas, acendimento automático”.CASAS BAHIA. Veja. ano. 46, n.45. 10/11/10 Ed. 2190, p. 62/63. Os exemplos apresentados nesta seção mostraram que as composições sintagmáticas transitam por áreas do conhecimento distintas. Em sua maioria, conforme apresentado, há a manutenção do significado. Encontramos, no entanto, uma composição neológica que, embora tenha conservado a mesma forma, apresentou significados distintos, como foi o caso da composição “acendimento automático”. Na próxima seção, faremos uma análise do potencial semântico de composições sintagmáticas em que, pelo menos, um de seus vocábulos apresentou o caráter produtivo. 4.2 O léxico e suas associações Nesta seção, evidenciaremos o caráter produtivo de vocábulos componentes das composições sintagmáticas neológicas dentro do contexto publicitário e apresentaremos características do processo de associação das referidas unidades lexicais. 4.2.1 Associação semântica Em se tratando de associações, algumas palavras ou sequências se formam por associação semântica. Segundo Hoey (2005), a associação semântica pode refletir um tipo !120 regular do priming lexical e fornece subsídios para generalizações. Desta forma, é possível a 34 partir da análise da associação semântica de alguns itens lexicais verificar a “preferência semântica” de algumas palavras em determinados contextos. Em nosso corpus da publicidade encontramos algumas composições sintagmáticas em que um dos componentes mostrou-se bastante produtivo. Assim como Hoey (2005), analisaremos quais são as “preferências semânticas” da palavra e, se a formação ocorre dentro de uma mesma área do conhecimento. Utilizando-se de um recurso chamado de O Léxico semântico de Lancaster (PIAOet al., 2005) para mapear o potencial semântico dos modelos de multipalavras (multiword expression – MWE) baseada em um sistema de categorias chamado USAS (UCREL sistema de análise semântica) (ACHER; WILSON; RAYSON, 2002), analisaremos as composições sintagmáticas considerando os principais campos semânticos e subcategorias, conforme estabelecido e explicitado na metodologia deste trabalho. As composições que serão analisadas e apresentadas são formações que compartilham estruturas semelhantes, ou seja, em que pelo menos um de seus componentes pertencem a um mesmo “espaço semântico” (PIAO et al., 2005) e serão descritas como modelos usando uma forma simples de uma expressão regular. 4.2.1.1 A produtividade do vocábulo “cabine” A palavra “cabine” mostrou-se muito produtiva em nosso corpus, pois encontramos várias formações nas quais a palavra “cabine” era um dos componentes fixos da formação neológica. As ocorrências encontradas são oriundas de duas áreas do conhecimento distintas, a saber, automobilística e turismo/entretenimento. Aqui, o contexto nos ajuda a perceber que há um ponto de interseção entre essas áreas, no que diz respeito às formações sintagmáticas em questão, pois estão inseridas em um universo em que é descrito tipos de acomodações. As formações “cabine dupla”, “cabine externa” e “cabines triplas” são neologismos oriundos da área do conhecimento do turismo/entretenimento e são utilizadas para designar O priming é um efeito experimental que se refere à influência que um evento antecedente (prime) 34 tem sobre o desempenho de um evento posterior (alvo). Em outras palavras, pode-se dizer que, nesse método, supõe-se que uma palavra possa ser acessada mais rapidamente se precedida por outra palavra com a qual ela partilhe características semânticas (médico/hospital), fonológicas (hora/oca), ou morfológicas (dança/dançarino), (França, Lemle, Pederneira e Gomes, 2005). !121 tipos de acomodações dentro de um navio. Já as formações “cabine estendida”, “cabine leito” e “cabine simples” são neologismos provenientes da área do conhecimento da automobilística e designam compartimento dentro de um carro ou caminhão, onde fica o motorista. Os exemplos retirados do corpus são: Cabine dupla “Prezado cliente: preço por pessoa, somente parte marítima, em cabines duplas,conforme categoria mencionada, taxas de embarque e marítimas não estão incluídas.”CVC. Veja, ano 42, n. 47, 25/11/09, 59. Cabine estendida Nova Saveiro. Carregada de aventura. Cabine estendida. Nova suspensão RCS (Robust Cargo Suspension) e degrau lateral. Wolkswagen. Veja, ano 42, n. 35,02/09/09, 38. Cabine externa Acompanhado de 1 adulto pagante em cabine externa (exceto suítes) dos navios CVC Zenith (saídas 6, 13 e 20/dez. e 7/fev.). CVC. Veja, ano 42, n. 33,19/08/09, 42/43. Cabine leito Compre um Tector e compare. Motor Iveco FPT: potência de 250 cv e torque de 950 Nm, com baixo consumo de combustível; 2 opções de câmbio: 6 marchas ou 9 marchas; cabine simples ou leito; maior plataforma de carga da categoria: 10m no cabine simples e 9,4 no cabine leito (EE 5.670mm). IVECO TECTOR.Veja, ano 43, n. 36, 08/09/10, 28. Cabine simples Compre um Tector e compare. Motor Iveco FPT: potência de 250 cv e torque de 950 Nm, com baixo consumo de combustível; 2 opções de câmbio: 6 marchas ou 9 marchas; cabine simples ou leito; maior plataforma de carga da categoria: 10m no cabine simples e 9,4 no cabine leito (EE 5.670mm). VECO TECTOR.Veja, ano 43, n. 36, 08/09/10, 28. . CVC. Veja, ano 42, n. 33,19/08/09, 42/43. Cabines triplas Promoção válida para todas as saídas dos navios CVC Zenith, CVC Soberano e CVC Imperatriz sujeita a disponibilidade de cabines triplas. CVC. Veja, ano 42, n. 33,19/08/09, 42/43. Aplicamos a essas composições a taxonomia do Léxico semântico de Lancaster (PIAO et al., 2005) e analisamos as composições formadas a partir do vocábulo “cabine”, no que diz respeito a associação semântica. !122 Como o vocábulo “cabine” é fixo, criamos um modelo que será iniciado com a classificação H1: acomodação. De acordo com o sistema de categorias USAS (ACHER et al., 2002), H1 representa a categoria de termos relacionados às acomodações, construções/ habitats de vários tipos. Criamos a tabela a seguir (QUADRO16) para melhor visualização da associação semântica de “cabine”, seguindo o recurso utilizado para mapear o potencial semântico de algumas composições sintagmáticas. QUADRO 16: Associação semântica de “cabine” Fonte: Dados da autora. Classificamos as composições e, do ponto de vista semântico, as unidades lexicais se formaram a partir da interação da palavra “cabine" com numerais (N1) que indicam quantidade (cabine dupla, cabines triplas), neste caso, trata-se de cabines que podem comportar duas e três pessoas, respectivamente. O termo “cabine simples” é utilizado para designar caminhonetes que, além do motorista, comporta apenas um passageiro. O item lexical “cabine” se associou ao item lexical “simples”, que, embora não seja um numeral, tem valor semântico equivalente aos numerais e indica que a cabine comporta apenas uma pessoa. Em outras unidades lexicais o vocábulo “cabine” também é componente da composição sintagmática que se formou a partir de sua interação com “externa”, “estendida” e “leito”. Essas palavras, “externa”, “estendida” e “leito”, nos levam a ideia de “espaço”, categoria que não aparece no sistema de categorias USAS (ACHER et al., 2002) e que, portanto, foi criada para agregar ao sistema e será representada por E1. O vocábulo “externa” categoriza “cabine” como sendo em um espaço do lado de fora, enquanto que “estendida” ACOMODAÇÃO Cabine + ESPAÇO externa, estendida, leito NÚMERO/ QUANTIDADE simples, dupla, tripla !123 denota que “cabine” expandiu um espaço. O vocábulo “leito”, segundo o dicionário, determina “qualquer espaço sobre o qual se pode descansar deitado” (HOUAISS, 2009). 4.2.1.2 A produtividade do vocábulo “sensor” O vocábulo “sensor” também se mostrou muito produtivo em nosso corpus, uma vez que encontramos várias formações nas quais “sensor” era um dos componentes fixos da formação neológica. A área da automobilística foi, sem dúvida, a área que mais apresentou composições sintagmáticas em que “sensor” era um dos componentes. As composições “sensor de chuva”, “sensor de estacionamento”, sensor de distância”, “sensor de luminosidade”, “sensor de proximidade”, “sensor de umidade” e “sensor de queda” são exemplos de composições encontradas na área da automobilística. Já a composição “sensor de queda” foi encontrada na área da tecnologia/informática. Vejamos os exemplos: Sensor de chuva 6 airbags duplo frontal, laterais de cortina. Sensor de chuva, acendimento automático dos faróis, transmissão automática de 5 velocidades, controle de tração e estabilidade VSA, tração 4x4 real time. VEJA. 43, 24, 16/06/10, p. 08. Sensor de estacionamento Segurança- 6 air bags, direção elétrica, sistema de alerta pós-acidente, sensor de estacionamento, sensor de pressão dos pneus. VEJA. 43,31, 04/08/10, p.12 Sensor de proximidade Novo Sonata. Câmbio automático de 6 velocidades com Paddle Shift no volante. Sistema de ignição Keyless com sensor de proximidade e botão start / stop. Faróis de Xenon HID com acendimento automático para maior visibilidade e segurança. Freios ABS de 4 canais. Sistema de som com controle para iPod, entrada USB, entrada auxiliar, MP3, disqueteira no painel para 6 CDs e subwoofer. Exclusivo teto solar duplo para as duas fileiras de bancos. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Ar-condicionado digital independente nas duas fileiras de bancos. Computador de bordo completo. Suspensão com amortecedores de regulagem automática. Eco Driving Digital (único no mundo). Sistema que indica, em tempo real, a forma mais econômica de dirigir, diminui o consumo e a emissão de poluentes. VEJA. 43, 45, 10/11/10, ed. 2190, p.4 e 5 Sensor de umidade Ar condicionado dual zone, com filtro de pólen e sensor de umidade. VEJA. 43, 36, 08/09/10, p. 92. !124 Sensor de luminosidade “Farol de xenônio com lavador e autonivelamento. Acendimento automático dos faróis com sensor de luminosidade. Retrovisores elétricos escamoteáveis com setas.” VEJA. 42, 48, 02/12/09, p. 18 Sensor de queda “Windows. A vida sem Limites. A Dell recomenda o Windows. Conectividade móvel sem complexidade. Notebook VostroTM 1320. Com sensor de queda. Webcam com Dell Vídeo Chat para videoconferência com até 4 pessoas.” VEJA. 42, 37, 16/09/09, p. 43 As composições apresentadas foram analisadas a fim de verificar o potencial semântico associativo dessas estruturas e, desta forma, aplicaremos a essas composições a taxonomia do Léxico semântico de Lancaster (PIAO et al., 2005). Para o vocábulo “sensor”, que é fixo nas composições apresentadas, criaremos um modelo que será iniciado com a classificação Y2: dispositivo. De acordo com o sistema de categorias USAS (ACHER et al., 2002), Y2 representa a categoria de termos relacionados à tecnologia da informação e computação. Além disso, como nas ocorrências verificamos a presença fixa da preposição “de”, teremos em nossa classificação Z5: item gramatical. Z5 representa a categoria de itens gramaticais como preposições, advérbios, conjunções, de acordo com o sistema de categorias USAS (ACHER, et al., 2002). Deste modo, temos os seguintes modelos para as composições identificadas em nosso corpus representadas no (QUADRO 17): QUADRO 17: Associação semântica de “sensor” Fonte: Dados da autora. DISPOSITIVO ITEM GRAMATICAL sensor + de + AÇÃO queda DISTÂNCIAS proximidade, distância CONDIÇÃO DE CLIMA/TEMPO chuva, umidade, luminosidade ESPAÇOS FÍSICOS estacionamento !125 Na classificação das composições apresentadas na QUADRO 17, do ponto de vista semântico, as unidades lexicais se formaram a partir da interação da palavra “sensor". No primeiro exemplo, temos a associação de “sensor de” com o vocábulo “queda” que indica ação, para formar uma composição que nomeia uma tecnologia que detecta queda do notebook e em um curto espaço de tempo retrai a cabeça do disco para a proteção. Da interação de “sensor de” com vocábulos que descrevem medida relativas as distância, encontramos “sensor de proximidade” e sensor de distância”, composições que nomeiam tecnologias que sinalizam quando o veículo está próximo a outro veículo ou obstáculo. Vocábulos que descrevem condições do clima e tempo como, “chuva”, “unidade” e “luminosidade”, ao interagir com “sensor de”, formam composições que nomeiam tecnologias capazes de identificar as condições climáticas e do tempo. Por fim, a associação de “sensor de” com o vocábulo “estacionamento”, utilizado para descrever espaços físicos, forma a composição “sensor de estacionamento”, que é utilizada para nomear um tipo de tecnologia que, ao estacionar, sinaliza quando o veículo está próximo a outro veículo ou obstáculo. 4.2.1.3 A produtividade do vocábulo “câmbio” O potencial semântico associativo das composições sintagmáticas formadas a partir de “câmbio” revelou que esse vocábulo possui uma preferência semântica pela associação com palavras que pertencem ao campo semântico “Tecnologia”, representado no sistema de categorias USAS por Y2. De acordo com a classificação semântica adotada na metodologia desse trabalho, o vocábulo “câmbio” será representado por O2 (objetos em geral). Vejamos os exemplos retirado do corpus: Câmbio automatizado O painel conta com um COMPUTADOR DE BORDO que informa a necessidade de manutenção periódica e indica a faixa de giros mais econômica do motor; caso o motorista assuma a troca de marchas do câmbio automatizado. 43, 36, 08/09/2010. p. 42 !126 Câmbio automático Novo Sonata. Câmbio automático de 6 velocidades com Paddle Shift no volante. Sistema de ignição Keyless com sensor de proximidade e botão start / stop. Faróis de Xenon HID com acendimento automático para maior visibilidade e segurança. Freios ABS de 4 canais. Sistema de som com controle para iPod, entrada USB, entrada auxiliar, MP3, disqueteira no painel para 6 CDs e subwoofer. Exclusivo teto solar duplo para as duas fileiras de bancos. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Ar-condicionado digital independente nas duas fileiras de bancos. 43, 45, 10/11/2010 Ed. 2190, p. 27/29 Câmbio Dualogic Câmbio dualogic automático (somente na versão dualogic). 43, 31, 04/08/10, p 68 Câmbio Multimarchas Novo câmbio multimarchas (multi-division de 6 velocidades) com trocas imperceptíveis e shiftronic para opção manual. 43, 29, 21/07/2010, p.29 Câmbio borboleta “Magentis. R$69.900 à vista. Completo com câmbio borboleta no volante.” 42, 49, 09/12/09 p.23 A partir da análise das composições sintagmáticas exemplificadas acima, elaboramos o QUADRO 18 para a visualização dos modelos semânticos para as unidades lexicais formadas a partir do vocábulo “câmbio”: QUADRO 18: Associação semântica de “Câmbio” Fonte: Dados da autora. OBJETOS EM GERAL Câmbio + TECNOLOGIA automático, automatizado, dualogic, multimarchas FORMA borboleta !127 Em nossa classificação apresentada acima, “câmbio” se associa semanticamente com palavras do campo semântico classificado como ‘tecnologia’. Desse modo, temos a associação de “câmbio” com, por exemplo, “automático”, para designar um sistema de transmissão que realiza a troca de marchas automaticamente, sem a influência do condutor. Outro exemplo é representado pela formação da composição “câmbio automatizado” que se refere a um sistema - similar ao sistema de troca de marchas manual- formado por dois atuadores e uma central eletrônica responsável pelo controle da embreagem, ajuste do toque e o ‘timing’ para que a trocas sejam realizadas de forma rápida e suave. No mesmo campo semântico, “câmbio” se associa a “dualogic” para formar uma composição que nomeia um sistema que possui uma caixa de câmbio tradicional controlado por uma central eletrônica, que por sua vez comanda a troca de marchas manualmente, além de atuar no acionamento da embreagem. Por fim, “câmbio” fez uma associação com o vocábulo “multimarchas” para nomear um sistema de transmissão automática com mais de cinco marchas. O vocábulo “câmbio” também se associou a uma palavra que pertence ao campo semântico ‘forma’, formando a composição “câmbio borboleta” para nomear uma tecnologia que permite que as trocas de marchas sejam feitas em um botão em forma de borboleta que fica atrás do volante. No contexto da automobilística, o vocábulo “borboleta” faz referência à forma de disposição desses botões que lembra o formato de uma borboleta. 4.2.1.4 A produtividade do vocábulo “farol” O vocábulo ‘farol’ também se mostrou bastante produtivo em nosso corpus. Dessa forma, analisamos as composições formadas por esse vocábulo para verificar seu potencial semântico associativo e utilizamos o sistema de categorias USA (ACHER et al., 2002) para classificar os vocábulos por campos semânticos. Seguem os exemplos: Faróis bi-xênon Faróis bixênon. Sensor de estacionamento. Programa de controle eletrônico de estabilidade (ESP). Lavador de faróis. CD Player com acumulador para 6 CDs e função MP3. Air- condicionado eletrônico (Climatronic) com controle individual de temperatura (motorista e passageiro). Sistema de controle de eletrônico de tração (ASR). Rodas de liga leve aro 17’’. !128 Sistema de freios ABS/EBD. Suspensão traseira independente Multilink. Direção eletromecânica Servotronic. ISTOÉ. 31/01/2007. 1944 12/14 Faróis de Xênon “Disqueteira para 6 CDs com MP3 e entrada para iPod. Faróis de Xênon com acendimento automático.”VEJA. 51. 23/12/09. p. 30 Faróis de milha Novo Symbol Connection série limitada. Air bag duplo. Computador de bordo. CD MP3 com bluetooth e USB. Rodas de liga leve. Faróis de milha. VEJA. 43, 45 10/11/2010 Faróis de neblina Clio Dynamique. Rodas de liga leve 15’’, farol de neblina e acessório exclusivo - kit Sport: spoiler e saias laterais.Direção hidráulica, air bag duplo, ar-condicionado, volante e manopla do câmbio revestidos em couro. ISTOÉ, 1795, 03/03/04, p. 2 e 3. A análise evidenciou que o vocábulo “farol”, classificado como um ‘dispositivo’, e o item gramatical “de”, se associou a palavras que pertencem aos campos semânticos “distância”, “substância gasosa” e “condições clima/tempo”. Assim, temos a formação de composições como “farol de milha” - farol de longo alcance que fica localizado entre os faróis principais para melhorar a visibilidade do motorista -,“farol de xênon” e “farol bixênon - faróis compostos com o gás xenônio, que proporciona mais visibilidade lateral e longa distância ao motorista - e “farol de neblina” - faróis que direcionam a luz para o chão com a função de melhorar a visualização do motorista quando existir neblina, respectivamente. Apresentamos a tabela abaixo (QUADRO 19) para a visualização do modelo semântico associativo de “farol”. QUADRO 19: Associação semântica de “Farol” Fonte: Dados da autora. DISPOSITIVO Farol + (de) DISTÂNCIA milha SUBSTÂNCIA GASOSA xênon, bixênon CONDIÇÕES CLIMA/TEMPO neblina !129 A análise do potencial associativo semântico das composições formadas por vocábulos que se mostraram bastante produtivos dentro dos textos publicitários evidencia a preferência semântica desses vocábulos. O potencial de associação semântico evidenciado na análise pode representar um padrão semântico associativo muito útil para os estudos lexicais. Na próxima seção, veremos a colocação das composições sintagmáticas, ou seja, o fato de algumas unidades lexicais terem a ‘preferência’ de ocorrer com certas estruturas dentro de um discurso específico. 4.2.2 Colocações das composições sintagmáticas Foi constatado a partir da análise dos dados que algumas composições sintagmáticas ocorriam sempre com a mesma preposição ou pronome possessivo. Isso pode demonstrar um padrão de uso para as composições neológicas dentro do discurso publicitário. Por exemplo, na análise dos dados, constatamos que as composições “alta definição” e “alta performance”, em todas as ocorrências, considerando as diferentes revistas em anos diferentes, eram sempre precedidas da preposição ‘de’. No caso de “alta performance”, importa mencionar que, no discurso publicitário, a palavra “performance” era muito frequente, porém em nenhuma das ocorrências era precedida da preposição “de” quando utilizada isoladamente, somente quando formava a composição “alta performance” . Vejamos os exemplos: Alta definição A nova TV de LED da H-Buster é o encontro perfeito entre o entretenimento, a qualidade de imagem e o design. Fina e bonita, ela é uma TV de alta definição (Full HD), que já vem com conversor de sinal digital integrado. Tem 3 entradas HDMI para maior conectividade com TV por assinatura, home theaters, videogames, notebooks e players de última geração. VEJA, ano 43 n. 45, 10/11/2010 Ed. 2190, p. 179 Conheça as TVs de LED H-Buster. TVs de alta definição ( Full HD) com conversor de sinal digital integrado. VEJA, n. 50, 15/12/10, p. 231 !130 Ainda bem que você não tem um ponto de vista comum. Câmera embutida de alta definição. Display interno de 262 mil cores. Envia e recebe MMS. Campainha polifônica de 32 poly. Tecnologia 3G 1xRTT. ÉPOCA, n. 304, 15/03/04, p. 19 (...) Slot PCI Express 16X. Áudio 7.1 de alta definição. HD 160 GB SATA. DVD-ROM 16x (gravador de DVD). Caixa de som. Teclado ergonômico. (...) Monitor 10’’ ViewSonic widescreen (...) substitua: caixas de som por Subwoofer Preview (…) ÉPOCA, n. 440, 23/10/06, p.115 Musica, teatro, artes plásticas, dança, cinema, vídeo, literatura... A Preview mostra o que se faz por aí. (...) Com processador Intel core 2 duo E6300 (64bits, FSB 1066, cachê L2 2MB) e novo chipset Intel G695. Vídeo integrado de alta performance Intel GMA X3000 com nova tecnologia Intel clear vídeo. Slot PCI Express 16x. Áudio de alta definição. Firewire. 1024 MB DDR2 667 Kingston. HD 250GB SATA II. DVD-R/RW 16X (gravador de DVD). Drive 1.44MB. Caixas subwoofer Preview Slim. Teclado ergonômico, mouse óptico. Windows Vista Home Premium. Monitor não incluso. Sem fax moden. (...) ÉPOCA, n. 460, 12/03/07, p.91 Alta performance artes plásticas, dança, cinema, vídeo, literatura... A Preview mostra o que se faz por aí. (...) Com processador Intel core 2 duo E6300 (64bits, FSB 1066, cachê L2 2MB) e novo chipset Intel G695. Vídeo integrado de alta performance Intel GMA X3000 com nova tecnologia Intel clear vídeo. Slot PCI Express 16x. Áudio de alta definição. Firewire. 1024 MB DDR2 667 Kingston. HD 250GB SATA II. DVD-R/RW 16X (gravador de DVD). Drive 1.44MB. Caixas subwoofer Preview Slim. Teclado ergonômico, mouse óptico. Windows Vista Home Premium. Monitor não incluso. Sem fax moden. (...) ÉPOCA, n. 460, 12/03/07, p.91 Preview style com processador Intel core 2 Duo E6300 (64 bits, FSB 1066MHz, cachê L2 2MB e novo chipset Intel G965. Vídeo integrado de alta performance Intel GMA X3000 com nova tecnologia Intel clear vídeo. DVD-R/RW 16x (gravador de DVD). Teclado ergonômico, mouse óptico. Monitor não-incluso. Sem fax moden. ÉPOCA, N. 456, 12/02/07, P.101 Contudo, em uma composição sintagmática que compartilha características semelhantes não foi observado o mesmo padrão, já que não era precedida somente pela preposição “de”. A análise dos dados mostrou que a composição sintagmática “alta resolução” era precedida ora da preposição “em” ora da preposição “de”. Vejamos os exemplos apresentados: !131 Alta Resolução Nokia N8. Display Touch: tela com reconhecimento de múltiplos toques; Cabo adaptador USB on the Go: salve, copie e visualize arquivos direto do seu pendrive; Câmera de 12 MP com lentes Carl Zeiss e flash Xenon: fotos incríveis em alta resolução; Filme, edite e compartilhe com seus amigos em HD; Navegação GPS gratuita por voz em tela de 3,5”. VEJA, n.43 ano. 44, 3/11/2010 Ed. 2189, p. encarte. VEJA, ano 43 n. 44, 3/11/10 Ed. 2189, p. encarte (...) Novas lentes Varilux. Visão em alta resolução. Olhe em volta: quase tudo que você vê evoluiu nos últimos anos. Com seus óculos não poderia ser diferente. (...) 
 SAC 0800 727 2007 (…) ÉPOCA, n. 433, 04/10/06, p.89 Lançamento Nokia 6131. MP3 player com cartão de memória de 128 MB. Câmera de 1.3 megapixel. Display de alta resolução. (...) Consulte cobertura em roaming e roaming internacional no www.claro.com.br ou ligue 1052. ÉPOCA, n. 440, 23/10/06, p.48, 49 Outro exemplo nos mostra que, seguindo a constatação que algumas composições sintagmáticas têm preferência por ocorrer com algum elemento específico, a composição sintagmática “agente de viagens” sempre era precedida pelo pronome possessivo “seu”. Além disso, observamos que mesmo uma variação dessa composição como “agência de viagens” também era precedida pelo pronome possessivo, nesse caso, “sua” para concordar com o gênero. Como se trata de um anúncio publicitário, o pronome possessivo assume uma função pragmática de aproximar o leitor e possível consumidor do produto anunciado. Ou seja, nos textos publicitários, percebemos que o ato comunicativo está centrado no receptor da mensagem, pois o texto tem por finalidade manter um diálogo com o destinatário da mensagem publicitária. Dessa forma, Sandmann (1993) afirma que a linguagem da propaganda se utiliza de vários recursos para dialogar com o leitor e um deles é a utilização de pronomes na segunda pessoa. Nas palavras do estudioso, “o ato comunicativo centrado no receptor se distingue pela forte presença de períodos interrogativos, o modo das ordens, pedidos ou conselhos. Há também muitos pronomes e verbos de 2ª pessoa, palavras dêiticas”. (SANDMANN, 1993, p. 25). Vejamos os exemplos retirados do nosso corpus: !132 Agente de viagens Vôos diurnos para Miami. Você chega para o happy hour. Para reservas e informações, ligue para seu agente de viagens ou para American Airlines SP (11)3214-4000, demais localidades 0300-789-7778. ISTOÉ, n. 1795, 03/03/04, p.92 Consulte seu agente de viagens. ÉPOCA, n. 506, 28/01/08, p.13 (...) Descubra, nos arredores de um vilarejo colonial, um sitio arqueológico. Entre tantas áreas de proteção ambiental, um berçário de tartarugas marinhas. (...) Consulte seu agente de viagens: 08007710060. ÉPOCA, n. 190, 27/01/02, p.20-21. Na Costa do Sauípe todos os dias são feriados. Cada feriado foi batizado com as coisas boas da vida. (...) São 5 resorts dos mais variados estilos, que fazem parte das redes hoteleiras mais importantes do mundo. Para agitar a Vila Nova Praia, um centro de lazer e entretenimento com bares e lojas. Nos centros esportivos, dá para escolher até o esportista que você quer ser (...) Roteiros de 8 dias com 7 noites. Saídas de São Paulo aos sábados e domingos. Inclui passagem aérea, traslados e passeio à Vila da Praia do Forte. (...) SuperClubs Breezes – Super inclusive a partir de R$ 2,628 (...) Acesse WWW.cvc.com.br/ brasil ou consulte seu agente de viagens. (…) ÉPOCA, n. 470, 12/03/07, p.77. Agência de viagens 40 anos de paixão. 31 de março a 07 de abril de 2007. Pontos de venda. Pernambuco: Shopping Recife, Tacaruna, Guararapes, Rua Nova e Imperatriz. Bilheterias do teatro nos dias do espetáculo. Demais estados: procure sua agência de viagem. ÉPOCA, n. 460, 12/03/07, p.65. No entanto, em outras composições sintagmáticas que apresentam características sintáticas e morfológicas semelhantes com as de “agente de viagens” não foi observada a presença do pronome possessivo. A composição neológica “agente financeiro” foi precedida por preposições, e não pelo pronome possessivo. Da mesma forma, a composição neológica “agente credenciado” também não foi precedida de nenhum pronome ou preposição. Assim, podemos concluir que a composição sintagmática “agente de viagens” está “preparada” para ocorrer com o pronome possessivo, enquanto as composições “agente financeiro” e “agente credenciado” não têm a mesma preferência colocacional, por serem precedidas por pronomes possessivos dentro do texto publicitário. Seguem os exemplos: !133 Agente financeiro “CET a ser fornecido pelo agente financeiro que aprovar o crédito. Tarifa: R$990,00 não inclusa.” VEJA, ano. 42 n. 32, 12/08/09, p. 05 Crédito sujeito à aprovação do agente financeiro. VEJA, n. 50, 15/12/10, p. 68. Frete incluso. TAC de R$990,00 não inclusa. CET a ser fornecida pelo agente financeiro em função do prazo escolhido. ÉPOCA, n. 516, 07/04/08, p. 9-11. Agente credenciado É a operadora de turismo líder na preferência dos brasileiros, com 38 anos de experiência, 700 roteiros à sua escolha, 8.000 agentes credenciados e mais de 500 lojas espalhadas por todo o Brasil. VEJA, n. 50, 15/12/10, p. 104 Durante a análise do priming colocacional da composição “agente de viagens” levantamos a hipótese de que a motivação para essa composição vir sempre acompanhada pelo pronome possessivo seria o verbo que a precedia. Além disso, as outras composições sintagmáticas apresentadas com as quais “agente de viagens” compartilhava características sintáticas, semânticas e morfológicas semelhantes, como “agente financeiro” e “agente credenciado” não eram precedidas pelo verbo e não estavam acompanhadas do pronome possessivo. Desta form, procedemos com uma verificação diferente. Utilizamos o Google para buscar por textos publicitários em que essas composições apareciam e eram precedidas de verbo, para verificar se eram acompanhadas do pronome possessivo ‘seu’. A composição ”agente autorizado” (FIGURA 5) foi precedida do verbo “procurar”, mas não foi acompanhada do pronome ‘seu’. Da mesma forma, a composição ‘agente credenciado’ (FIGURA 6) e (FIGURA 7), embora precedido do verbo ‘procurar’, não estava acompanhada do pronome ‘seu’ nos dois textos publicitários encontrados. Contudo, a composição ‘agente de viagem’ (FIGURA 8), mesmo quando não precedida de verbo, era acompanhada pelo pronome possessivo ‘seu’. Essa constatação reforça o fato de que, no texto publicitário, a composição ‘agente de viagem’ está licenciada para ocorrer junto com o pronome possessivo ‘seu’, sem a necessidade de ser precedida por um verbo. Ou seja, do ponto de vista colocacional, ‘agente de viagens’ tem uma predisposição para ocorrer com o pronome em questão. Vejamos os exemplos apresentados: !134 FIGURA 5: campanha publicitária CVC. Fonte: http://www.cvc.com.br/vale-viagem.aspx. Acesso em 15 de novembro de 2016. FIGURA 6: Campanha publicitária do bando BDMG Fonte: http://www.bdmg.mg.gov.br/transparencia/lists/perguntasfrequentes/allitems.aspx. Acesso em 15 de novembro de 2016. Procure um agente autorizado Procure aqui um agente autorizado !135 FIGURA 7: Campanha publicitária Moneygram Fonte: http://www.btcorretora.com.br/moneygram.php. Acesso em 15 de novembro de 2017. FIGURA 8: Campanha publicitária da klm Fonte: https://www.klm.com/travel/br_br/business/jsme/earning/email_travel_agent.htm Procure o agente credenciado Como e quando seu agente de viagens … informações para seu agente de viagens !136 Os exemplos apresentados evidenciaram que a composição sintagmática “agente de viagens” era precedida do pronome “seu” mesmo em outros contextos publicitários e mesmo não sendo precedida de verbo, afastando a hipótese de o verbo ser o responsável por atrair o pronome. Desta mesma forma, as composições “agente financeiro” e “agente credenciado” continuam possuindo um priming negativo por ocorrer com o pronome “seu” em outros contextos, ainda que publicitários, e mesmo com presença do verbo. Logo, podemos concluir a presença do priming colocacional para as combinações sintagmáticas em questão. 4.2.3 Colocações textuais das composições sintagmáticas Toda palavra ou sequência de palavras está ‘preparada’ para participar de correntes coesivas ou evitar certos tipos de relação coesivas. Corrente coesiva pode ser definida pela ligação de itens por colocação textual. A análise dos dados nos mostrou que algumas composições sintagmáticas neológicas formavam correntes coesivas nos textos em que apareciam. É importante mencionar que como os textos publicitários são normalmente textos curtos, não encontramos composições com longas correntes coesivas. A ligação era feita através de expressões ou sequência de palavras que eram semanticamente relacionadas ao conceito imprimido pela composição neológica. Por exemplo, encontramos em nosso corpus composições compostas pelo vocábulo “verde” que imprimia o conceito de preservação do meio ambiente e em algumas ocorrências era possível construir correntes coesivas. A composição “pneus verdes”, por exemplo, forma uma corrente coesiva com as sequências “emissão reduzida de CO2” e “economiza em média 10% de combustível”, ambas as sequências estão relacionadas ao meio ambiente e, portanto, se relacionam ao conceito que ‘verde’ imprime na composição em questão. Da mesma forma, a composição “TI verde” forma uma corrente coesiva com a sequência “livre de substâncias nocivas”. No texto publicitário abaixo, temos a composição “supermercado verde” que mantém uma relação coesiva com a palavra “sustentabilidade”. Vejamos os exemplos abaixo, em que os elementos que formam a corrente coesiva estão em negrito: !137 Pneus Verdes O Gol Ecomotion tem emissão reduzida de CO2, pneus verdes e economiza em média 10% de combustível. WOLKSWAGEN. Veja. n.52. 29/12/10, p. 05. TI verde ITAUTEC é pioneira em TI verde, com sua produção totalmente livre de substâncias nocivas ao meio ambiente. ITAUTEC. Veja. n.52. 30/12/09, p. 257. Supermercado verde Certificado internacional Leed em sustentabilidade para o Pão de Açúcar Indaiatuba, o primeiro supermercado verde da América Latina. SUPERMERCADO PÃO DE ACÚÇAR. Veja. n.52. 30/12/09, p. 57. Contudo, os dados também revelaram que algumas composições sintagmáticas, com características semelhantes aos das unidades descritas acima, não formaram nenhuma corrente coesiva. São os exemplos das composições “carro verde”, “vidro verde”, “plástico verde” e “eteno verde”. Podemos concluir a partir da análise que, nos textos publicitários, essas unidades neológicas evitam a formação de correntes coesivas. Seguem os exemplos: Carro Verde Gol Ecomotion, eleito pela Revista Autoesporte o Carro Verde do Ano. VOLKSWAGEN. Veja. n.52. 29/12/10, p. 05. Vidro verde Pense em tudo que o carro dos seus sonhos precisa ter. Cambio automático. Ar- condicionado. Trio elétrico. Duplo airbag. CD player. Freios ABS. Roda de liga leve. Direção hidráulica. Vidro verde. (...) SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor: 0800161654. GOODYEAR. Época, n. 190, 27/01/02, p.115 Eteno verde A Braskem inaugura a maior fábrica e Eteno Verde do Mundo. E realiza o sonho de produzir, em escala industrial, o Plástico Verde Feito a partir da cana-de-açúcar. BRASKEM. Veja. Ano. 43, n.39. 29/09/10, p. 39. Plástico verde A Braskem inaugura a maior fábrica e Eteno Verde do Mundo. E realiza o sonho de produzir, em escala industrial, o Plástico Verde Feito a partir da cana-de-açúcar. BRASKEM. Veja. Ano. 43, n.39. 29/09/10, p. 39. !138 A composição “banco postal” apresentou a corrente coesiva mais longa. As sequências “correspondente bancário”, “serviços financeiros” e “agências” possuem uma ligação coesiva com “banco postal”. Nesse caso, as sequências, ao servirem de referentes, contribuem para entendimento do conceito da composição neológica, evitando, assim, qualquer tipo de ambiguidade. O leitor saberá que “banco” é um tipo instituição financeira, pois as sequências remetem a esse universo. Vejamos o exemplo: Banco postal Os Correios atuam como correspondentes bancários por meio do Banco Postal, oferecendo serviços financeiros em 6.021 agências, localizados em 5.159 municípios brasileiros. VEJA, n. 52, 30/12/09, p. 138, 139. As composições sintagmáticas formadas pelo vocábulo “taxa” formam uma pequena corrente coesiva, normalmente, com referentes numéricos, tanto em número percentual, quanto monetário. Por exemplo, as composições “taxa de adesão” e “taxa de performance” formam a corrente com referentes numéricos monetários R$9.90 e 20.00$, respectivamente. Já as unidades neológicas “taxa de administração”, “taxa de escolaridade” e “taxa de probreza” formam correntes coesivas com os referentes percentuais 2,00%, 99% e 48,4%, respectivamente. Seguem os exemplos, devidamente sinalizados: Taxa de adesão Atuais clientes: taxa de adesão de R$9,90. ÉPOCA, n. 506, 28/01/08, p. 07. Taxa de Administração Taxa de Administração de 2,00% ao ano e Taxa de Performance de 20,00$ sobre o que exceder a variação do CDI. VEJA, n. 26, 30/06/10, p. 144. Taxa de Escolaridade A alegria também está na educação de qualidade. A taxa de escolaridade entre os jovens chegou a 99%. VEJA, n. 26, 30/06/10, p. 115. Taxa de Performance Taxa de Administração de 2,00% ao ano e Taxa de Performance de 20,00$ sobre o que exceder a variação do CDI. VEJA, n. 26, 30/06/10, p. 144. Taxa de Pobreza A capacidade de investimento do governo do estado subiu de menos 1% para 16%, a maior do Brasil. Também houve uma redução de 48,4% da taxa de pobreza no estado. VEJA, n. 26, 30/06/10, p. 115. !139 A composição sintagmática ‘central de atendimento” e ‘serviço de atendimento ao consumidor’, considerando também suas variações, formam uma pequena corrente coesiva com o número de telefone e, em um dos exemplos, com o e-mail e a sigla. Estamos chamando de variações aquelas composições sintagmáticas que também se referem a um serviço de informações disponível para os consumidores. Composições como ‘central de atendimento BB’ (incorporação à marca ao serviço), ‘central de atendimento pessoa jurídica’ (delimitação do serviço), e, por fim, ‘serviço de atendimento ao assinante’ (especificação do tipo de consumidor). A composição ‘serviço de atendimento ao consumidor’ forma uma corrente coesiva com a sigla que representa a redução do sintagma ‘SAC’ e também com o número de telefone. Já sua variação, ‘serviço de atendimento ao assinante’, além de formar uma corrente coesiva com o número de telefone, também tem como referente o endereço eletrônico. Vejamos os exemplos: Central de atendimento A sua encomenda entregue no horário combinado ou o seu dinheiro de volta em dobro. (...) Central de Atendimento: 03007887003. ÉPOCA. n. 433, 04/10/2006, p.107 Central de Atendimento BB Recebíveis Cartão a Realizar. Um novo produto para capital de giro. É crédito calculado sobre as vendas ainda não realizadas com cartão que você pode financiar em até 5 vezes. Afinal, só quem é líder no segmento das Micro e Pequenas Empresas pode oferecer soluções sob medida para a sua empresa. (...) Central de Atendimento BB: 40040001 (…) ÉPOCA. n. 440, 04/10/2006, p.62,63 Central de Atendimento Pessoa Jurídica Não fique com dinheiro parado. Consulte já um gerente Safra. Central de Atendimento Pessoa Jurídica. Grande São Paulo: (11) 3175-8248. Demais Localidade:0800157575. ISTOÉ. n. 1802, 21/04/2004, p.06 Serviço de atendimento ao consumidor Pense em tudo que o carro dos seus sonhos precisa ter. Cambio automático. Ar- condicionado. Trio elétrico. Duplo airbag. CD player. Freios ABS. Roda de liga leve. Direção hidráulica. Vidro verde. (...) SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor: 0800161654. ÉPOCA. n. 190, 27/01/2002, p.115 !140 Serviço de atendimento ao assinante serviço de Atendimento ao assinante: ligue (11) 3618-4566 (2º a 6º, das 8h00 às 20h. Sábados, das 9h00 às 15h00) Fax.: (11) 3618-4161 E-mail: atendimento@editora3.com.br. ISTOÉ. n. 1795, 03/03/2004, p.14 4.2.4 Categoria Gramatical e coligação das composições sintagmáticas Na teoria Lexical Priming, toda sequência de palavras está “preparada” para o uso em uma ou mais categorias gramaticais. No caso da composição “alta tecnologia”, encontrada em nosso corpus, observamos que essa composição está sendo utilizada em duas categorias gramaticais. No primeiro exemplo, verificamos que “alta tecnologia” está categorizando a marca Dell e, por isso, tem a função de adjetivo. Já no segundo e no terceiro exemplo, “alta tecnologia” está sendo utilizada como um substantivo, pois há a presença de artigos antecedendo a composição. Desta forma, podemos concluir que “alta tecnologia” está “preparada” para ser utilizada em duas categorias gramaticais distintas, adjetivo e substantivo. Por outro lado, composições como “alta definição” e “alta performance” (ver exemplos acima) são utilizadas apenas na posição de adjetivo. Vejamos os exemplos apresentados de “alta tecnologia”. Alta Tecnologia Imperdível isto é Dell: alta tecnologia, excelente serviços e ótimos preços. Notebook Dell Latitude 131L Mobilidade com ótima Performance. Processador AMD Sempron Móbile 3500. Windows XP Home Original. Tela Widescreen Matriz Ativa de 15.4” 512MB de memória disco rígido de 40GB Cd-Rom 24X Peso: a partir de 3kg 1 ano de garantia. 6X R$ 446, 50 sem juros no CDC.(…). ÉPOCA, n. 460, 12/03/07, p. 41. Amigável ao meio ambiente, a linha de produtos de força comercializada pela Honda no Brasil, composta por geradores, motobombas, roçadeiras, motores de popa, motores estacionários e cortadores de grama, é desenvolvida com a mais alta tecnologia, visando a facilitar o trabalho, o lazer e melhorar a vida das pessoas. ÉPOCA, n. 516, 07/04/08, p. 26-28. É até difícil saber por onde começar a valorizar o agricultor brasileiro. Se pelo uso da mais alta tecnologia no campo, como agricultura de precisão e mapeamento por satélite. Ou se !141 pelo fato de que, a cada ano, ele produz mais por área plantada. ISTOÉ, n. 1802, 21/04/04, p.116 Ademais, algumas composições sintagmáticas apresentam um padrão coligacional característico dentro do discurso publicitário. Nesse sentido, verificamos a preferência quanto à flexão de números de composições sintagmáticas e verificamos uma predileção por ocorrer no plural. É o caso, por exemplo, das composições formadas pelo vocábulo ‘farol’ encontradas em publicidades da automobilística. Foi constatado após a análise que essas composições possuem uma preferência coligacional por ocorrerem no plural dentro dos textos publicitários. As composições “faróis autodirecionais”, “faróis bi-xênon”, “faróis de xênon” e “faróis de milha” apareceram no plural em todas as ocorrências do corpus e, desta forma, concluímos que essas composições possuem uma preferência coligacional, por ocorrerem no plural, em textos publicitários. Contudo, a composição ‘farol de neblina’ aparece flexionada tanto no plural quanto no singular. Embora essa composição tenha mais ocorrências no singular, não podemos estabelecer um padrão coligacional, já que, em nossos dados, ‘farol de neblina’ também ocorre no plural. No entanto, podemos dizer que quanto ao padrão coligacional das composições sintagmáticas formadas a partir do vocábulo ‘farol’, essas possuem uma preferência por aparecerem no plural dentro dos textos publicitários. Vejamos os exemplo, retirados do corpus: Faróis autodirecionais Itens de segurança, tecnologia e novo visual incomparáveis. Suspensão Hydractive III ajusta a altura do carro de acordo com a velocidade, as condições da pista e o estilo de dirigir. Faróis autodirecionais que acompanham a curva em um ângulo de te 15°. ISTOÉ. Citroën. 27/04/2005. 1854. 68/69 Faróis bi-xênon “Faróis Bi-Xenôn adaptativos. Partida start-stop. Som Alpine com 14 alto-falantes. Sistema Terrain Response.” VEJA. 42, 37. 16/09/09. p.93 !142 Faróis bixênon. Sensor de estacionamento. Programa de controle eletrônico de estabilidade (ESP). Lavador de faróis. CD Player com acumulador para 6 CDs e função MP3. Air- condicionado eletrônico (Climatronic) com controle individual de temperatura (motorista e passageiro). Sistema de controle de eletrônico de tração (ASR). Rodas de liga leve aro 17’’. Sistema de freios ABS/EBD. Suspensão traseira independente Multilink. Direção eletromecânica Servotronic. ISTOÉ. 31/01/2007. 1944 12/14 Faróis de Xênon “Disqueteira para 6 CDs com MP3 e entrada para iPod. Faróis de Xênon com acendimento automático.”VEJA. 51. 23/12/09. p. 30 Sistema de som Infinity (JBL) com disqueteira para 6 CDs, 8 alto-falantes e subwoofer. Faróis de Xênon multifoco. VEJA. 42.31.05/08/09. p. 27 “Faróis de xênon. Abertura e fechamento do porta-malas a distância na chave de ignição. Sistema de som infinity (JBL) com disqueteria para 6 CDs, 8 alto-falantes e subwoofer.” VEJA. 42.49.09/12/09.p.31 Faróis de milha Novo Symbol Connection série limitada. Air bag duplo. Computador de bordo. CD MP3 com bluetooth e USB. Rodas de liga leve. Faróis de milha. VEJA. 43, 45 10/11/2010 Faróis de neblina Sensores de estacionamento no para-choque traseiro. Faróis de neblina. Abertura interna da tampa de combustível. VEJA. 42. 33. 19/08¹09. p. 02 e 03 ABS, Air bag duplo, direção hidráulica, rodas de liga leve, vidros e travas, retrovisores externos elétricos, farol de neblina, e muito mais.VEJA. 43. 29. 21/072010. p.35 “Novo farol de neblina”. VEJA. 41, 49, 10/12/08, p. 88 Clio Dynamique. Rodas de liga leve 15’’, farol de neblina e acessório exclusivo - kit Sport: spoiler e saias laterais.Direção hidráulica, air bag duplo, ar-condicionado, volante e manopla do câmbio revestidos em couro. ISTOÉ, 1795, 03/03/04, p. 2 e 3. O mesmo padrão coligacional foi observado com composições formadas a partir do vocábulo ‘sensor’, que no corpus aparecem em sua grande maioria no plural. Por exemplo, foi verificado que as composições sintagmáticas ‘sensor de chuva’ e ‘sensor de estacionamento’ apareceram no plural na grande maioria das ocorrências, salvo uma única vez no corpus em que ambas as composições ocorreram no singular. Desta forma, no que tange ao priming !143 coligacional dessas unidades, podemos concluir que as composições ‘sensor de estacionamento’ e ‘sensor de chuva’ possuem uma predisposição por serem flexionadas no plural. Todavia, algumas composições sintagmáticas, que também foram formadas a partir do vocábulo ‘sensor’, não demostraram possuir uma predisposição para ocorrerem no plural. Como exemplo, temos as composições ‘sensor de proximidade’, ‘sensor de umidade’, ‘sensor de luminosidade’, ‘sensor eletrônico’ e ‘sensor de pressão dos pneus’, em que não foi verificado a ocorrência dessas unidades flexionadas no plural. Assim, podemos concluir que essas composições não estão preparadas para ocorrerem no plural dentro dos textos publicitários. Vejamos os exemplos retirados do corpus: Sensor de chuva i 30 cw. Sistema de som com MP3, entrada para iPod e disqueteira no painel para 6 CDs. Novo câmbio automático multimarchas (multi-division) ou mecânico. Ar-condicionado digital. Computador de bordo. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Sensores de estacionamento. Sensores de chuva. Freios ABS de última geração com BAS e EBD que reduz a distância de frenagem. Suspensão independente Multilink. Distância entreeixos ainda maior, oferecendo um extraordinário espaço interno. VEJA, 43, 45, 10/11/10, ed. 2190, p.27/29 “8 air bags. Frontais, laterais e de cortina . Sensores de estacionamento. Sensores de chuva. Freios ABS de última geração com BAS e EBD que reduz a distância de frenagem.” VEJA. 43, 34, 25/08/10, p.29 “Freios ABS, BAS com programa eletrônico de estabilidade. 3 memórias de posição com ajuste elétrico simultâneo para retrovisores, direção e bancos elétricos de couro Premium. Sensores de chuva no pára-brisa. Abertura do porta-malas a distância. Sensores de estacionamento.” VEJA. 42, 39, 30/09/09, p. 28 Cortina de proteção solar no vidro traseiro, sensores de chuva no pára-brisa. VEJA. 42, 31, 05/08/09, p. 28 e 29 Muito mais conforto e prazer ao dirigir. 8 air bags. Frontais, laterais e de cortina. Sensores de estacionamento. Sensores de chuva. VEJA. 42, 35, 02/09/09, p. 04 e05 6 airbags duplo frontal, laterais de cortina. Sensor de chuva, acendimento automático dos faróis, transmissão automática de 5 velocidades, controle de tração e estabilidade VSA, tração 4x4 real time. VEJA. 43, 24, 16/06/10, p. 08. !144 Sensores de chuva no pára-brisa. Áudio Infinity (JBL) com MP3, disqueteira para 6 CDs no painel e 10 alto-falantes. Sensores de estacionamento. 10 ari bags, máxima segurança 5 estrelas no NCAP. Ar-condicionado com controle individual de temperatura, filtro antipólen, AQCS e umidificador de ar. Recém-lançado, já é o seda de luxo mais vendido do Brasil. Fonte: Fenabrave, março de 2008. ÉPOCA, 516 07/04/2008, p. 20 e 21. Sensor de estacionamento i 30 cw. Sistema de som com MP3, entrada para iPod e disqueteira no painel para 6 CDs. Novo câmbio automático multimarchas (multi-division) ou mecânico. Ar-condicionado digital. Computador de bordo. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Sensores de estacionamento. Sensores de chuva. Freios ABS de última geração com BAS e EBD que reduz a distância de frenagem. Suspensão independente Multilink. Distância entreeixos ainda maior, oferecendo um extraordinário espaço interno. Teto solar elétrico panorâmico automático. Direção elétrica. VEJA. 43, 45, 10/11/10, ed. 2190, p. 27/29 “Itens já inclusos, nada é opcional. Motor de 4 cilindros, 2.0L, DOHC, 16 válvulas (CVVT), 149 cv. Active Headrests – encostos de cabeça ativos. Porta-objetos nas 3 fileiras de bancos. Sistema antifurto e abertura das portas acionados por controle remoto. Sensores de estacionamento no para-choque traseiro.”VEJA. 42, 38, 23/09/09, p.15 “I30 A nova sensação da Hyundai. Câmbio automático multimarchas. Retrovisor interno eletrocrômico. Suspensão independente Multilink. Sensores de estacionamento. Sensores de chuva. Freios ABS de última geração com BAS e EBD que reduz a distância de frenagem.” VEJA. 42, 37, 16/09/09, p.04. “Freios ABS, BAS com programa eletrônico de estabilidade. 3 memórias de posição com ajuste elétrico simultâneo para retrovisores, direção e bancos elétricos de couro Premium. Sensores de chuva no pára-brisa. Abertura do porta-malas a distância. Sensores de estacionamento.” VEJA. 42, 39, 30/09/09, p. 28. Lanternas traseiras e luzes de freio com LED. Abertura do porta-malas a distância. Sensores de estacionamento. VEJA. 42, 31, 05/08/09, p. 28 e 29 8 Air bags frontais, laterais e de cortina; sensores de estacionamento; sensores de chuva. VEJA. 43, 34, 25/08/10, p. 29. “Sistema antifurto e abertura das portas acionados por controle remoto. Sensores de estacionamento no para-choque traseiro. Faróis de neblina.” VEJA. 42, 32, 12/08/09, p. 17 Muito mais conforto e prazer ao dirigir. 8 air bags. Frontais, laterais e de cortina. Sensores de estacionamento. VEJA. 42, 35, 02/09/09, p. 04 e 05 Segurança- 6 air bags, direção elétrica, sistema de alerta pós-acidente, sensor de estacionamento, sensor de pressão dos pneus. VEJA. 43,31, 04/08/10, p.12 !145 Sensor de proximidade Novo Sonata. Câmbio automático de 6 velocidades com Paddle Shift no volante. Sistema de ignição Keyless com sensor de proximidade e botão start / stop. Faróis de Xenon HID com acendimento automático para maior visibilidade e segurança. Freios ABS de 4 canais. Sistema de som com controle para iPod, entrada USB, entrada auxiliar, MP3, disqueteira no painel para 6 CDs e subwoofer. Exclusivo teto solar duplo para as duas fileiras de bancos. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Ar-condicionado digital independente nas duas fileiras de bancos. Computador de bordo completo. Suspensão com amortecedores de regulagem automática. Eco Driving Digital (único no mundo). Sistema que indica, em tempo real, a forma mais econômica de dirigir, diminui o consumo e a emissão de poluentes. VEJA. 43, 45, 10/11/10, ed. 2190, p.4 e 5 Novo sistema de partida sem chave com botão de start/stop e sensor de proximidade.VEJA. 43, 29, 21/07/10, p. 05 Sistema de ignição com sensor de proximidade. VEJA. 50, 15/12/10,p. 35 Sensor de umidade Ar condicionado dual zone, com filtro de pólen e sensor de umidade. VEJA. 43, 36, 08/09/10, p. 92. Sensor de luminosidade “Farol de xenônio com lavador e autonivelamento. Acendimento automático dos faróis com sensor de luminosidade. Retrovisores elétricos escamoteáveis com setas.” VEJA. 42, 48, 02/12/09, p. 18 Sensor de pressão dos pneus “Segurança: 6 air bags, direção elétrica, sistema de alerta pós-acidente, sensor de estacionamento, sensor de pressão dos pneus.” VEJA. 42, 47, 25/11/09, p. 12. Sensor eletrônico Novos sensor eletrônico na suspensão com calibragem computadorizada, tornando a rodagem mais macia e mais silenciosa. VEJA. 43, 29, 21/07, p.10 Ao fazer o levantamento dos dados das composições que possuíam uma preferência coligacional por ocorrer no plural, foi levantada a hipótese de que são itens componentes de um automóvel que não são encontrados como uma unidade e, portanto, descartaríamos a !146 noção de um priming coligacional. O fato de um automóvel normalmente ter dois faróis e mais de um sensor de estacionamento fortaleceu a hipótese. Porém, dois fatores nos levaram à conclusão de que existe um priming coligacional que evidencia que algumas construções possuem uma preferência no que tange à flexão de números. O primeiro fator nos mostra que, embora a maioria das composições compostas pelos vocábulos ‘farol’ e ‘sensor’ tenham aparecido no plural, houve uma ocorrência no singular. Desta forma, podemos verificar que, de fato, embora essas composições também possam ocorrer no singular, existe uma preferência coligacional por sua forma no plural. O outro fator ressalta as composições utilizadas para designar itens de um automóvel que também são encontrados em mais de uma unidade, mas que possuem uma preferência coligacional por ocorrer no singular. Por exemplo, embora os automóveis possuam mais de uma ‘suspensão’, as composições formadas a partir desse vocábulo possuem um priming coligacional por ocorrerem no singular. Desta forma, após a análise dos dados, verificou-se que essas composições não ocorrem no plural, como podemos verificar nos exemplos a seguir: Suspensão autonivelante Santa Fé V6 24V 4x4 AWD. Luxo e conforto com suspensão autonivelante. ÉPOCA 506, 28/01/08, p.19 Mais silencioso e mais macio. Suspensão autonivelante self levelizer recalibrada. VEJA .42, 46, 09/09/09, p. 04 e 05 Suspensão traseira Double wishbone, Todas com a tecnologia, a segurança e o conforto que só um Honda Civic tem: exclusivo assoalho traseiro plano, rodas de liga leve, suspensão traseira Double wishbone, sistema grade logic control, nas versões com transmissão automática, motor 16v de alumínio e muito mais. ÉPOCA . 304, 15/03/2005, p. 17. Suspensão Hydractive III Itens de segurança, tecnologia e novo visual incomparáveis. Suspensão Hydractive III ajusta a altura do carro de acordo com a velocidade, as condições da pista e o estilo de dirigir Faróis autodirecionais que acompanham a curva em um ângulo de te 15°. ISTOÉ.1854, 27/04/04 , p. 68 e 69 !147 Suspensão RCS Nova Saveiro. Carregada de aventura. Cabine estendida. Nova suspensão RCS (Robust Cargo Suspension) e degrau lateral. VEJA .1944, 31/01/07, 12/14 Suspensão independente i 30 cw. Sistema de som com MP3, entrada para iPod e disqueteira no painel para 6 CDs. Novo câmbio automático multimarchas (multi-division) ou mecânico. Ar-condicionado digital. Computador de bordo. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Sensores de estacionamento. Sensores de chuva. Freios ABS de última geração com BAS e EBD que reduz a distância de frenagem. Suspensão independente. Distância entre-eixos ainda maior, oferecendo um extraordinário espaço interno. Teto solar elétrico panorâmico automático. Direção elétrica. VEJA . 43, 45, 10/11/2010 Ed. 2190, p. 27/29. Suspensão pneumática Climatizador de série. Cabine leito. Cama mais larga da categoria, banco com suspensão pneumática e computador de bordo. VEJA. 42, 43, 28/10/09, 127. Verificamos nas seções anteriores a capacidade associativa das composições sintagmáticas dentro do discurso publicitário. Essa análise revelou padrões associativos no que tange às preferências colocacionais, coligacionais e semânticas. Além de as composições sintagmáticas possuírem padrões associativos dentro dos textos publicitários, que revelam a organização da língua do ponto de vista lexical, essas unidades também incorporam as mudanças e evolução que ocorrem no mundo. Na próxima seção, veremos como algumas composições sintagmáticas podem espelhar as transformações de uma sociedade. 4.3 O léxico como espelho das mudanças da sociedade O léxico é o componente da língua mais suscetível a mudanças de uma sociedade. Ferraz (2006) explica que a língua, além de registrar a visão de mundo e a realidade histórica e cultural, registra também as diferentes fases da vida social de uma comunidade linguística. São essas mudanças que ensejam o léxico em direção à criação de novas unidades lexicais. Muitas vezes, o avanço e criação de novas tecnologias ou a conscientização da preservação do !148 meio ambiente são manifestações sociais que são motivos para ao surgimento de neologismos. Corroborando a ideia de que o léxico, muitas vezes, reflete os acontecimentos vivenciados pela sociedade contemporânea, Alves, (2010, p.70) mostra que fatos como o avanço tecnológico, os esforços para a preservação da saúde e meio ambiente e problemas relacionados ao consumo e comércio de drogas, possibilitaram a formação de unidades neológicas. A estudiosa exemplifica com elementos como “ciber-”, “e-”, “eco-”, “bio-” e “narco-” que são utilizados como prefixos. 4.3.1 A produtividade lexical e a consciência ambiental Em nosso corpus identificamos composições sintagmáticas criadas a partir de conceitos relacionados à preservação do meio ambiente e ao avanço tecnológico. Em relação ao primeiro conceito, composições sintagmáticas criadas a partir da palavra “verde”, que exerce função de categorização, foram abundantes no corpus analisado. Todas as unidades lexicais neológicas encontradas, como pode ser depreendido do contexto, estão relacionadas à ideia de preservação do meio ambiente. Na sociedade contemporânea há uma grande preocupação com o meio ambiente e uma crescente consciência ambiental. A preocupação universal com a preservação do meio ambiente, através do uso consciente e sustentável do planeta entrou em pauta, pela primeira vez, na conferência das Nações Unidas, em 1972, em Estocolmo (Suécia). O evento discutiu a necessidade de preservar e melhorar o ambiente humano e estabeleceu as bases para a nova agenda ambiental do sistema das Nações Unidas: “Chegamos a um ponto na História em que devemos moldar nossas ações em todo o mundo, com maior atenção para as consequências ambientais. Através da ignorância ou da indiferença podemos causar danos maciços e irreversíveis ao meio ambiente, do qual nossa vida e bem-estar dependem. Por outro lado, através do maior conhecimento e de ações mais sábias, podemos conquistar uma vida melhor para nós e para a posteridade, com um meio ambiente em sintonia com as necessidades e esperanças humanas…” “Defender e melhorar o meio ambiente para as atuais e futuras gerações se tornou uma meta fundamental para a humanidade.” !149 Trechos da Declaração da Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente (Estocolmo, 1972), parágrafo No site de um grupo ligado a ONU encontramos formações que foram criadas a partir do conceito de sustentabilidade. Essa ideia de consciência ambiental é resgatada através da palavra “verde”, que formou as composições “ONU verde” e “escritórios verde”, como podemos verificar na figura abaixo (FIGURA 9): FIGURA 9: Composições formadas a partir do vocábulo “verde” ! Fonte: http://www.onuverde.org.br/ . Acesso em 16 de novembro de 2015 No corpus de pesquisa encontramos várias composições sintagmáticas similares que foram formadas a partir do conceito de sustentabilidade e de consciência ambiental. Tais conceitos foram resgatados através das palavras “verde”, “ecológico” e sua abreviação “eco”, formando, assim, uma composição neológica que carrega em seu significado a preocupação com o meio ambiente. A área do conhecimento da automobilística foi responsável pela criação de quatro composições, a saber, “carro verde”, “pneus verdes”, “vidro verde” e “eco driving digital”. Carro Verde Gol Ecomotion, eleito pela Revista Autoesporte o Carro Verde do Ano. WOLKSWAGEN. Veja. n.52. 29/12/10, p. 05. !150 Pneus Verdes O Gol Ecomotion tem emissão reduzida de CO2, pneus verdes e economiza em média 10% de combustível. WOLKSWAGEN. Veja. n.52. 29/12/10, p. 05. Vidro verde Pense em tudo que o carro dos seus sonhos precisa ter. Cambio automático. Ar- condicionado. Trio elétrico. Duplo airbag. CD player. Freios ABS. Roda de liga leve. Direção hidráulica. Vidro verde. (...) SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor: 0800161654. GOODYEAR. Época, n. 190, 27/01/02, p.115 Eco driving digital Novo Sonata. Câmbio automático de 6 velocidades com Paddle Shift no volante. Sistema de ignição Keyless com sensor de proximidade e botão start / stop. Faróis de Xenon HID com acendimento automático para maior visibilidade e segurança. Freios ABS de 4 canais. Sistema de som com controle para iPod, entrada USB, entrada auxiliar, MP3, disqueteira no painel para 6 CDs e subwoofer. Exclusivo teto solar duplo para as duas fileiras de bancos. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Ar-condicionado digital independente nas duas fileiras de bancos. Computador de bordo completo. Suspensão com amortecedores de regulagem automática. Eco Driving Digital (único no mundo). Sistema que indica, em tempo real, a forma mais econômica de dirigir, diminui o consumo e a emissão de poluentes. HYUNDAI. Veja, ano. 43, n.45, 10/11/10, Ed. 2190, p. 4/5. Na área de especialidade tecnologia/informática encontramos “TI verde”. Nesse caso, “verde” se associou a uma sigla que consiste na redução do sintagma “tecnologia da informação” (TI) para retomar a ideia de uma tecnologia que está totalmente livre de produtos nocivos ao meio ambiente, como o próprio contexto nos ajuda a inferir. TI verde ITAUTEC é pioneira em TI verde, com sua produção totalmente livre de substâncias nocivas ao meio ambiente. ITAUTEC. Veja. n.52. 30/12/09, p. 257. As composições neológicas “supermercado verde”, “sabão ecológico” e “gestão eco- eficiente” foram identificadas na área de alimentos/bebidas. Supermercado verde Certificado internacional Leed em sustentabilidade para o Pão de Açúcar Indaiatuba, o primeiro supermercado verde da América Latina. SUPERMERCADO PÃO DE ACÚÇAR. Veja. n.52. 30/12/09, p. 57. !151 Sabão ecológico A Bunge patrocina o Instituto Ação Triângulo na reciclagem do óleo de cozinha usado, que é transformado em sabão ecológico. BUNGE . Veja, n.52, 30/12/09, p. 92. Gestão eco-eficiente “Assim como a PepsiCo possui uma forte atuação nessa área, a AmBev também atua em diversos projetos de sustentabilidade, como a gestão eco-eficiente dos recursos naturais, uso racional da água e energia, programa de redução de CO² de sua frota, entre outros. PEPSICO. Veja, ano. 42, n.42, 21/10/09, Ed. 2190, p. 06. Na área de especialidade habitação foram encontradas as composições “eteno verde”, “plástico verde” e “tijolos ecológicos. Eteno verde A Braskem inaugura a maior fábrica e Eteno Verde do Mundo. E realiza o sonho de produzir, em escala industrial, o Plástico Verde Feito a partir da cana-de-açúcar. BRASKEM. Veja. Ano. 43, n.39. 29/09/10, p. 39. Plástico verde A Braskem inaugura a maior fábrica e Eteno Verde do Mundo. E realiza o sonho de produzir, em escala industrial, o Plástico Verde Feito a partir da cana-de-açúcar. BRASKEM. Veja. Ano. 43, n.39. 29/09/10, p. 39. Tijolos ecológicos Possíveis aplicações do entulho processado: Pavimentação de estradas rurais; Blocos; Mourões; Bloquetes; Aterro de vias de acesso; Enchimento de fundações; Tijolos ecológicos. BARAM.Veja, ano. 42, n.31 05/08/09, p. 154. Podemos perceber que os componentes “verde” e “ecológico” foram utilizados como categorizadores, ou seja, como adjetivo, e, por esse motivo, seguiam o substantivo. Já “eco” ocorreu no início ou no meio da composição sintagmática. Na ocorrência “gestão eco- eficiente” percebemos que “eco” é um prefixo que se uniu à palavra eficiente, em um processo de composição prefixal e, depois, a formação “eco-eficiente” uniu-se a “gestão” para formar a composição sintagmática “gestão eco-eficiente“. Em uma outra ocorrência, “eco” se uniu a uma palavra estrangeira para a formação “eco driving digital”. !152 4.3.2 A produtividade lexical e os avanços tecnológicos A importância do estudo da neologia lexical de uma língua está no fato de podermos analisar a evolução da sociedade que dela se faz uso, pois as transformações sociais e culturais e tecnológicas estão nitidamente refletidas no acervo lexical. Nesse sentido, encontramos em nosso corpus inúmeras formações que refletem os avanços tecnológicos em nossa sociedade. Formações sintagmáticas que carregam como um de seus componentes as palavras “digital” e “virtual” foram muito produtivas em textos publicitários. Essas formações são, na verdade, uma representação da realidade em que a sociedade se encontra, no que tange ao uso da tecnologia. A área de especialidade da automobilística foi responsável por criar as formações “odômetro digital” (dispositivo digital utilizado para medir a distância percorrida pelo veículo), “ar-condicionado digital” (ar condicionado cujo acionamento depende de um microprocessador), e “eco driving digital” (sistema digital de condução que indica, em tempo real, a forma mais econômica de dirigir, diminui o consumo e a emissão de poluentes). Vejamos os exemplos: Odômetro digitaL “Banco traseiro bipartido e rebatível para ampliação do porta-malas. Odômetro digital com mediações parciais A e B. Encosto de cabeça com ajuste de altura.” KIA MOTORS. Veja, ano. 42, n.47, 25/11/09, p. 22. Ar-condicionado digital i 30 cw. Sistema de som com MP3, entrada para iPod e disqueteira no painel para 6 CDs. Novo câmbio automático multimarchas (multi-division) ou mecânico. Ar-condicionado digital. Computador de bordo. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Sensores de estacionamento. Sensores de chuva. Freios ABS de última geração com BAS e EBD que reduz a distância de frenagem. Suspensão independente Multilink. Distância entre-eixos ainda maior, oferecendo um extraordinário espaço interno. Teto solar elétrico panorâmico automático. Direção elétrica. HYUNDAI. Veja, ano. 43, n.45, 10/11/10, Ed. 2190, p. 27/29. !153 Eco driving digital Novo Sonata. Câmbio automático de 6 velocidades com Paddle Shift no volante. Sistema de ignição Keyless com sensor de proximidade e botão start / stop. Faróis de Xenon HID com acendimento automático para maior visibilidade e segurança. Freios ABS de 4 canais. Sistema de som com controle para iPod, entrada USB, entrada auxiliar, MP3, disqueteira no painel para 6 CDs e subwoofer. Exclusivo teto solar duplo para as duas fileiras de bancos. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Ar-condicionado digital independente nas duas fileiras de bancos. Computador de bordo completo. Suspensão com amortecedores de regulagem automática. Eco Driving Digital (único no mundo). Sistema que indica, em tempo real, a forma mais econômica de dirigir, diminui o consumo e a emissão de poluentes. HYUNDAI. Veja, ano. 43, n.45, 10/11/10, Ed. 2190, p. 4/5. Outras áreas também foram responsáveis por produzir formações sintagmáticas neológicas, como podemos ver, através dos exemplos abaixo: Educação Digital O projeto Educação Digital da Brasil Telecom e do IG instalou laboratórios digitais. BRASIL TELECOM. Veja, ano. 41, n. 49, 10/12/08, p. 104. Laboratórios Digitais O projeto Educação Digital da Brasil Telecom e do IG instalou laboratórios digitais. BRASIL TELECOM. Veja, ano. 41, n.49, 10/12/08, p. 104. TV digital Internet, TV digital e GPS em apenas um toque. LinhaTouch Samsung. O acesso à qualidade da Vivo ainda mais fácil para você. VIVO. Veja, ano. 42, n.37, 16/09/09, p. 79. Microprocessador digital “30% de economia de energia no meu ar-condicionado?”Se não economizar nós devolvemos os seu dinheiro.O NEWAIR é um microprocessador digital de apenas 7 cm por 12cm e muito fácil de instalar. Uma vez conectado na tomada do ar-condicionado, você passa a monitorar o ambiente na temperatura que quiser. NEWAIR. Veja, n.10, 10/03/10, p. 119. Display digital Lavadora Front Load Prime. Display digital, 5 opções de temperatura, sensor automático de carga. CASAS BAHIA . Veja, ano. 42, n.36, 09/09/09, p. 60/61. Som digital “Home Theater com o mais puro som digital”. LG. Veja, ano. 41, n.49, 10/12/08, p. 49. Marketing digital Alguma hora você descobre a importância de um bom MBA. Principalmente se ele estiver 600 horas. pós-graduações: comunicação com o mercado. Marketing digital. Marketing de !154 serviços. Comunicação empresarial. Gestão de design. ESPM. Época. n.456. 12/02/06, p. 101 Leitor de impressão digital Notebook HP Pavilion. HD de 160 GB. Gravador de DVD com tecnologia LightScribe. Finger Print – leitor de impressão digital. HP. Época. n.516. 07/04/08, p. 79. Saída de áudio digital Com capacidade de som de 30W (RMS), amplificador embutido para reprodução de som HI- FI, 5 caixas acústicas e um subwoofer (...)Telefone celular pantech Modelo Panstar GSM, com visor de 65.000 cores, 16 tons polifônicos, entre outras funções. Compatível com qualquer operadora GSM e desbloqueado para planos pós e pré-pagos (...) Mini DVD Portátil Compatível com DCD, SVDC, VCD, CDR, CDRW MP3 e JPEG CD, com decodificador Dolby Digital (AC3) integrado, saída de áudio digital (DTS) coaxial (...) . Época. n.433. 04/10/06, p. 109. Tecnologia digital PLL Mini system com Do $ $ $ ck station. Visor de LCD. Rádio AM/FM como tecnologia 154154154 Digital PLL. Potência de mais de 25 W RMS com 2.1 canais e subwoofer. LOJACASA.COM. Época. n.498. 03/12/07, p. encarte. Certificado Digital A Receita Federal passa a exigir, a partir de 2007, a entrega da Declaração PJ, pelo lucro real ou arbitrado, com Certificado Digital. Evite transtornos, adquira já o seu Certificado Digital Serasa, com todo o conforto diretamente no nosso site. Instrução Normativa SRF n° 696, publicada no dia 20 de dezembro 2006, no Diário Oficial da União. SERASA. Época. n.460. 12/03/07, p. 117. Duas ocorrências foram encontradas de formações sintagmáticas com “virtual”. Ambas as formações neológicas são utilizadas para designar locais que antes eram “lugares físicos” e agora existem também no mundo não físico, o mundo virtual. Os exemplos são: Salas virtuais (...) Plantões on-line, com corpo docente do COC. Departamento de vestibulares completo e eficiente. Salas virtuais de treinamento. (...). COC. Época. n.191, 14/01/02, 99. Cenário virtual Agora, com a TV digital em HD, as novidades não param de surgir: Redação móvel, cenário virtual, Moto link, Flash news.REDE GLOBO. Veja, ano. 42, 11/09, ed. 2138 p. 92. !155 Nessa seção vimos que o acervo lexical pode ser visto como o espelho das mudanças que ocorrem em nossa sociedade. A crescente preocupação com a preservação do meio ambiente ensejou a criação de formações sintagmáticas neológicas que demonstram que uma grande parte da sociedade possui consciência ambiental. Essa ideia foi resgatada através dos vocábulos “verde”, “eco” e “ecológico”. Além disso, formações sintagmáticas que tem como um de seus componentes os vocábulos “digital” e “virtual” demonstram que o léxico acompanha os avanços tecnológicos. 4.4 A composição sintagmática em contexto: características e mudanças À uma estrutura é dada o nome de composição sintagmática quando esta deixa de ser uma combinação livre e passa a assumir uma estrutura morfossintática fixa. Segundo Ferraz (2010, p. 39) quando a formação sintagmática perde características que a situavam como segmento da frase, quer dizer que essa estrutura está se lexicalizando. Podemos dizer que a lexicalização é o processo pelo qual uma combinação de palavras (dimensão sintagmática) se torna um item lexical (dimensão paradigmática) (FERRAZ, 2010, p 40). Umas das principais características que define uma composição sintagmática é o fato de esse item lexical conservar a mesma estrutura formal e o mesmo significado que, segundo Ferraz (2010) indica o caráter fixo dos elementos integrantes do sintagma. No entanto, em nosso corpus identificamos uma quebra desse paradigma do ponto de vista da estrutura formal de algumas composições. Encontramos ocorrências em que a composição sintagmática neológica sofre uma redução de um de seus elementos, mas não há alteração no significado. Em outros casos, a composição neológica perde um de seus elementos, mas sofre também uma pequena alteração no significado. Por fim, encontramos uma ocorrência em que há uma inversão na ordem dos elementos, mas sem alteração do significado. !156 4.4.1 O processo de redução das composições sintagmáticas Verificamos em nosso corpus que algumas composições sintagmáticas perderam um de seus componentes quando veiculada em textos publicitários diferentes. Chamaremos essa perda de “processo de redução das composições sintagmáticas”. É importante ressaltar que em nenhuma das ocorrências apresentadas houve a alteração de significado da composição sintagmática que sofreu o processo de redução. Para denominar um aparelho utilizado para converter sinal analógico digital, encontramos a composição “conversor de sinal digital”, que após processo de redução perdeu os componentes “de” e “sinal” e assume a forma “conversor digital”. Percebemos que as duas formações foram veiculadas na mesma revista e no mesmo período, porém em publicidades diferentes já que uma é das Casas Bahia e a outra da H-Buster. Seguem os exemplos: Conversor de sinal digital A nova TV de LED da H-Buster é o encontro perfeito entre o entretenimento, a qualidade de imagem e o design. Fina e bonita, ela é uma TV de alta definição (Full HD), que já vem com conversor de sinal digital integrado. Tem 3 entradas HDMI para maior conectividade com TV por assinatura, home theaters, videogames, notebooks e players de última geração. H- BUSTER. VEJA, ano.43, n.44, 3/11/2010 Ed. 2189, p.155 Conversor digital TV 46” LED 3D. Full HD. HDMI. Conversor digital. CASAS BAHIA. VEJA, ano.43, n.44, 3/11/10 Ed. 2189, p.66/67 As formações “câmbio automático multimarchas” e “câmbio multimarchas” denominam um mecanismo que permite mudar a relação entre a velocidade (número de giros) do motor e a velocidade das partes por ele movida e que possui o número de marchas superior ao normal. A composição “câmbio automático multimarchas” foi veiculada na revista Veja, em 2009 e ao sofrer um processo de redução, perde o elemento “automático”. Já na publicação de 2010, assume a forma “câmbio multimarchas”. Embora “câmbio multimarchas” tenha perdido o elemento “automático”, não há alteração de significado quanto à característica de ser automático. A composição “câmbio multimarchas” se refere ao mesmo mecanismo automático, veiculado no texto publicitário em que temos “câmbio automático !157 multimarchas”. Essa constatação só foi possível a partir do contexto, no qual podemos verificar que existe a “opção manual” e, desta forma, inferimos que o texto está veiculando a publicidade de um mecanismo automático, mesmo não aparecendo o elemento “automático” na composição. Vejamos os exemplos: Câmbio automático multimarchas “Câmbio automático multimarchas Prodrive, tornando as trocas imperceptíveis.” VEJA, ano. 42, n. 38, 23/09/09, p. 29. Câmbio multimarchas Novo câmbio multimarchas (multi-division de 6 velocidades) com trocas imperceptíveis e shiftronic para opção manual.VEJA, ano. 43, n. 29, 21/07/10, p. 29. A formação “sensor automático de chuva”, veiculada na revista Veja de 2005, passou pelo mesmo processo de redução e também perdeu o vocábulo “automático” para assumir, em 2010, a forma “sensor de chuva”. Ambas as composições nomeiam uma tecnologia capaz de detectar a incidência de chuva para o acionamento e controle do limpador para-brisa. Vejamos os exemplos: Sensor automático de chuva O carro com mais itens de série da categoria. Freios ABS de 5ª geração, air bag duplo, computador de bordo, trio elétrico, sensor automático de chuva. PEUGEOT.Época. n.369, 13/06/05, p. 30/31. Sensor de chuva Sensores de chuva no pára-brisa. Áudio Infinity (JBL) com MP3, disqueteira para 6 CDs no painel e 10 alto-falantes. Sensores de estacionamento. 10 air bags, máxima segurança 5 estrelas no NCAP. Ar-condicionado com controle individual de temperatura, filtro antipólen, AQCS e umidificador de ar. Recém-lançado, já é o seda de luxo mais vendido do Brasil. Fonte: Fenabrave, março de 2008. HYUNDAI. Época. n.516, 7/4/08, p. 20/21. Para nomear um tipo de padrão de conexão áudio-vídeo digital, encontramos a formação “conexão digital HDMI”, que foi veiculada na revista Veja em julho de 2010. Na mesma revista, mas em um período posterior, novembro de 2010, a composição passa por um !158 processo de redução, perdendo o componente “digital” para assumir a estrutura formal “conexão HDMI”, como podemos ver pelos exemplos abaixo: Conexão digital HDMI Processador Intel® Core i3; Windows® 7 Home Premium original; 3 GB de memória; Disco rígido de 320 GB; Conexão digital HDMI; Webcam integrada.VEJA, ano. 43, n. 29, 21/07/10, p. 37. Conexão HDMI São três modelos Full HD, com conexão HDMI, megacontraste e opção de woofer integrado.VEJA, ano. 43, n. 44, 03/11/10 Ed. 2189, p. 41. A composição “Motor total flex” passou pelo mesmo processo de redução quando perdeu seu elemento “total” e passou a assumir a forma “motor flex”. Como não há alteração no significado, ambas as composições são utilizadas para denominar um tipo de motor que pode funcionar alternadamente com dois combustíveis: álcool ou gasolina. É importante mencionar que a composição reduzida “motor flex” foi veiculada na revista Veja, em 2010, um ano posterior a publicação do texto publicitário em que aparece a composição “motor total flex”, em 2009. Seguem os exemplos: Motor total Flex Lançou a tecnologia bicombustível com os motores total flex. E a tecnologia E-Flex, que dispensa o uso de gasolina nas partidas a frio.VEJA, ano. 42, n. 40, 07/10/09, p. 92/93. Motor flex Porta-objetos. Compartimento refrigerado. Transmissão automática seqüencial. Ar- condicionado dual zone. Motores flex sigma 1.6L 16V Duratec 2.0L 16V.VEJA, ano. 43, n. 44, 3/11/10 Ed. 2189, p. 20/21. Para nomear um orifício no computador que permite a conexão de periféricos, sem a necessidade de desligar o computador, e que tem capacidade de transmitir e armazenar dados, encontramos a composição “entrada auxiliar USB”, que foi veiculada na revista Veja, em 2008. No entanto, em 2010, na mesma revista, verificamos em nosso corpus, com o mesmo significado, a composição “entrada USB”. Essa última ocorrência pode ser explicada como resultado de um processo de redução da composição sintagmática “entrada auxiliar USB”, em que houve a perda do componente lexical “auxiliar”. Vejamos os exemplos: !159 Entrada auxiliar USB “CD/MP3 player com entrada auxiliar USB”. VEJA, ano. 41, n. 49, 10/12/08, p. 128. Entrada USB Novo Sonata. Câmbio automático de 6 velocidades com Paddle Shift no volante. Sistema de ignição Keyless com sensor de proximidade e botão start / stop. Faróis de Xenon HID com acendimento automático para maior visibilidade e segurança. Freios ABS de 4 canais. Sistema de som com controle para iPod, entrada USB, entrada auxiliar, MP3, disqueteira no painel para 6 CDs e subwoofer. Exclusivo teto solar duplo para as duas fileiras de bancos. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Ar-condicionado digital independente nas duas fileiras de bancos. Computador de bordo completo. VEJA, ano. 43, n. 45, 10/11/10 Ed. 2190, p. 4/5. Por fim, para nomear um tipo de tecnologia que, ao estacionar, sinaliza quando o veículo está próximo a outro veículo ou obstáculo, a composição “sensor de auxílio para estacionamento”, veiculada em 2006 na revista Veja, sofreu um processo de redução e perdeu os componentes “auxilio” e “para” e, em 2008 na mesma revista, passou a assumir a forma “sensor de estacionamento”. Vejamos os exemplos: sensor de auxílio para estacionamento Chegou o novo Peugeot 307 Sedan. Todos os itens de série elevam ao máximo o conforto e o prazer de dirigir. Além dos itens acima, ele ainda conta com bancos em couro, comando do rádio no volante, piloto automático (regulador de velocidade), air bag duplo inteligente (motorista e passageiro), ABS de ultima geração, sensor de acendimento automático dos faróis, sensor de auxílio para estacionamento, limpador de pára-brisa automático com sensor de chuva e teto solar com telecomando na chave. Um carro tão completo que mostra onde você chegou. Novo Peugeot 307 Sedan. Avançar. Não correr. (...) Câmbio automático seqüencial Tiptronic System Porsche. CD player e disqueteira para 5 CDs no painel. Ar- condicionado independente Bi-zone. Sistema hands-free Bluetooth. (...).PEUGEOT. Época. n. 433, 04/10/06, p. 52/53. Sensor de estacionamento Sensores de chuva no pára-brisa. Áudio Infinity (JBL) com MP3, disqueteira para 6 CDs no painel e 10 alto-falantes. Sensores de estacionamento. 10 air bags, máxima segurança 5 estrelas no NCAP. Ar-condicionado com controle individual de temperatura, filtro antipólen, AQCS e umidificador de ar. Recém-lançado, já é o seda de luxo mais vendido do Brasil. Fonte: Fenabrave, março de 2008. HYUNDAI. Época. n.516, 7/4/08, p. 20/21 Em nosso corpus, foi possível verificar casos em que, ao invés de perda de um componente, houve a inserção de um elemento. A composição veiculada na revista Veja, em !160 julho de 2010, “câmera de ré”, ganhou o elemento lexical “marcha”, quanto veiculada em um texto publicitário dois messes depois, em setembro de 2010, e passou a assumir a forma “câmera de marcha a ré”. Em ambas as ocorrências as composições nomeiam um aparelho que permite ao condutor do veículo observar o espaço externo através de filmagem, durante o recuo, e, portanto, não houve alteração no significado. Seguem os exemplos: Câmera de ré Nova Câmera de ré com monitor LCD de 3,5” no retrovisor interno.HYUNDAI. VEJA, ano. 43, n.29, 21/07/2010, p. 5. Câmera de marcha ré Equipado com: Câmera de marcha ré com tela LCD de 3,5’’ no retrovisor interno; 124 CV de potência; CD/MP3 com entrada auxiliar, USB e para IPOD; direção elétrica e controles de áudio no volante; air bag duplo; ar-condicionado; rodas de liga leve aro 16’’ e freios ABS com EBD. KIA MOTORS. VEJA, ano. 43, n. 36, 08/09/2010, p. 18. As composições sintagmáticas “responsabilidade socioambiental” e “responsabilidade social e ambiental” são concorrentes e ambas são utilizadas para denominar a responsabilidade que uma empresa, ou organização tem com a sociedade e com o meio ambiente além das obrigações legais e econômicas. A análise dos dados revelou que a composição “responsabilidade socioambiental” foi utilizada nas revistas Época e Veja, nos anos de 2007 e 2009, respectivamente, enquanto que a composição “responsabilidade social e ambiental” não aparece nos textos publicitários antes de 2010. Esses dados podem indicar que houve uma substituição da composição “responsabilidade socioambiental” pela forma “responsabilidade social e ambiental”. Esse dado revelou que nem sempre há perda de um componente na substituição natural de uma composição para a outra, pois nesse caso houve a inserção de um componente, a vogal de ligação “e”. Vejamos os exemplos encontrados: Responsabilidade socioambiental Para o Banco do Brasil, 2006 foi um ano de grandes realizações. O ano da responsabilidade socioambiental e do desenvolvimento regional sustentável, que levou oportunidades e geração de empregos a várias regiões do Brasil. O ano do crédito, que impulsionou as micro e pequenas empresas, o agronegócio e a agricultura familiar. O ano do comércio exterior. (…) 65,8 mil jovens e adultos alfabetizados no programa BB Educar (…) ÉPOCA, n. 460, 12/03/07, p. 12-13. !161 Responsabilidade socioambiental “Valorizar as pessoas, o trabalho e o empreendedorismo. Incentivar práticas de cidadania e responsabilidade socioambiental.” VEJA, ano 42 n. 48, 02/12/09, p. 06 Responsabilidade social e ambiental Atuamos com responsabilidade social e ambiental: somos a 1ª rede do país a eliminar a venda de termômetros de mercúrio. VEJA, ano 43 n. 10/11/10 Ed. 2190, p. 16,17 Todas as formações apresentadas nessa seção tiveram alterações na forma, em sua maioria, com perda de um elemento, o que culminou no processo de redução das formações sintagmáticas. No entanto, como sinalizamos, não houve alteração no significado. Na próxima seção, apresentaremos composições que, com a perda de um elemento em sua composição, o significado também foi alterado. 4.4.2 Perda de um elemento com alteração no significado A composição sintagmática neológica “ar condicionado automático digital”, veiculada na revista Veja em 2009, é utilizada para nomear um tipo de ar condicionado com controle de temperatura em uma tela digital (computador de bordo) e que permite que a temperatura do ar escolhida seja mantida, caso o botão “auto” seja acionado. Já a composição “ar condicionado digital”, como um resultado de um processo de redução, perde o elemento “automático”. Porém, como a perda desse constituinte há alteração no significado. A composição “ar condicionado digital”, veiculada na Veja em 2010, é utilizada para nomear um tipo de ar- condicionado que permite o controle da temperatura dentro do veículo através do computador de bordo, no entanto, não permite que a temperatura do ar seja mantida, pois não possui a função “auto”. Vejamos os exemplos: Ar condicionado automático digital CD/MP3 player com entrada auxiliar USB e para iPod com controle remoto no volante.Veja. ano. 42, n.33. 19/08/09, p. 2/3. Ar-condicionado digital i 30 cw. Sistema de som com MP3, entrada para iPod e disqueteira no painel para 6 CDs. Novo câmbio automático multimarchas (multi-division) ou mecânico. Ar-condicionado !162 digital. Computador de bordo. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Sensores de estacionamento. Sensores de chuva. Freios ABS de última geração com BAS e EBD que reduz a distância de frenagem. Suspensão independente Multilink. Distância entre-eixos ainda maior, oferecendo um extraordinário espaço interno. Teto solar elétrico panorâmico automático. Direção elétrica. HYUNDAI. Veja, ano. 43, n.45, 10/11/10, Ed. 2190, p. 27/29. A formação sintagmática “acendimento superautomático”, veicula na revista veja de 2009, também sofreu uma pequena alteração de significado ao perder o constituinte “super” e assumir a forma “acendimento automático”. Na primeira ocorrência, a formação é utilizada para designar um tipo de acendimento baseado em um sistema em que é necessário apenas girar o botão do fogão para que o gás seja liberado e a chama se acenda automaticamente. Já na formação “acendimento automático”, nomeia um sistema um pouco diferente, já que é necessário, além de girar o botão para liberar o gás, pressionar outro botão para que a chama seja acendida. Vejamos os exemplos: acendimento superautomático “Queimador Tri-Chama; Grill elétrico bivolt, doura e gratina os alimentos; acendimento superautomático.” VEJA.ano.42, n.48, 02/12/09, p.encarte Acendimento automático “Brastemp Cooktop, 4 bocas, acendimento automático”.CASAS BAHIA. Veja. ano. 46, n.45. 10/11/10 Ed. 2190, p. 62/63. 4.4.3 Tradução direta: Inversão da ordem dos constituintes da formação Em nosso corpus foi possível verificar uma inversão na ordem dos constituintes de uma composição sintagmática. A formação neológica “controle eletrônico de estabilidade”, que designa um sistema responsável por corrigir a trajetória do carro em situações de curvas muito rápidas e desvios, foi veiculada na revista Veja, em 2009. Já no ano 2010, na mesma revista, a formação aparece com uma inversão na ordem de seus constituintes e passa a assumir a forma “controle de estabilidade eletrônico”. No segundo caso, verifica-se que o adjetivo “eletrônico” está categorizando o sintagma nominal “controle de estabilidade”, o que não ocorre no primeiro caso, em que o vocábulo “eletrônico” está modificando apenas “controle”. A composição neológica apresentada nessa seção é, na verdade, um !163 estrangeirismo, que foi incorporado, principalmente pelo fato de não haver um correspondente no português, para nomear uma nova tecnologia. (SOUZA, 2013, p. 18). A composição “controle eletrônico de estabilidade” é um decalque, ou seja, uma tradução direta da formação sintagmática do inglês “Electronic stability control” que é representada pela sigla “ESC”. No entanto, houve uma variação nessa tradução direta, como podemos ver nos exemplos abaixo: Controle eletrônico de estabilidade “Câmbio automático com Shiftronix Prodrive. Controle eletrônico de estabilidade (ESC). Freios ABS com 4 sensores e 4 canais com EBD e BAS.”Veja, ano. 42, n.38, 23/09/09, p. 5. Controle de estabilidade eletrônico Partida sem chave. Sistema de ignição com botão start/stop. Controle de estabilidade eletrônico.VEJA, ano. 43, n.34, 25/08/10, p. 5. Verificou-se também a presença de traduções diretas de algumas composições sintagmáticas. Porém, os publicitários mantiveram as duas composições nos textos, a tradução e, ao lado entre parênteses, a composição de origem estrangeira. A composição sintagmática “compartimento refrigerado” foi publicada na revista Veja ao lado da composição estrangeira “cool box”. Desta forma, podemos percebe que “compartimento refrigerado” é uma tradução direta de “cool box”. É importante mencionar que no primeiro exemplo, a composição estrangeira aparece ao lado da tradução, enquanto que no segundo exemplo, a tradução aparece um pouco mais distante da tradução. Outro exemplo de tradução pode ser representado pela composição neológica “alta definição”, que é a tradução de “full HD”. Nesse caso, a tradução não é totalmente direta, pois “alta definição” é a tradução somente da sigla HD (high definition), enquanto que a composição completa seria “full HD”, e, portanto, a tradução direta dessa composição estrangeira deveria se “alta definição completa”. Percebemos, ainda, que em alguns textos publicitários a composição estrangeira aparece sozinha, ou seja, sem a correspondente do português. Vejamos os exemplos: !164 Compartimento refrigerado (cool box) “Compartimento refrigerado (cool box). Sistema de controle de tração ESP com TCS. Mais tração em qualquer situação. VEJA, ano 24, n. 38, 23/09/09, p. 04. Câmbio automático, Multimarchas prodrive, tornando as trocas imperceptíveis. Compartimento refrigerado no porta-luvas (cool box).Teto solar elétrico panorâmico. Direção elétrica. VEJA, ano 43, n. 31, 04/08/10, p.05. alta definição (Full HD) A nova TV de LED da H-Buster é o encontro perfeito entre o entretenimento, a qualidade de imagem e o design. Fina e bonita, ela é uma TV de alta definição (Full HD), que já vem com conversor de sinal digital integrado. Tem 3 entradas HDMI para maior conectividade com TV por assinatura, home theaters, videogames, notebooks e players de última geração. VEJA, ano 43, n. 45, 10/11/10 Ed. 2190, p. 139. São três modelos Full HD, com conexão HDMI, megacontraste e opção de woofer integrado. VEJA, ano 43, n. 44, 3/11/10 Ed. 2189, p. 41. 4.4.4 Composições sintagmáticas sinônimas Encontramos em nosso corpus composições sintagmáticas sinônimas. No primeiro caso, temos as formações “ar-condicionado bi-zone” e “ar-condicionado dual-zone”, ambas as composições nomeiam um sistema do ar condicionado que permite que motorista e passageiro escolham temperaturas diferentes de forma independente. Tanto os componentes “bi-” quanto “dual” fazem referência à possibilidade de escolha de duas temperaturas diferentes. Vejamos os exemplos: Ar-condicionado digital bi-zone Ar-condicionado digital bi-zone com sensor de umidade.Veja, ano. 43, n.34, 25/08/10, p. 4. Ar-condicionado dual zone “Também vem com transmissão automática sequencial, três estilos de direção, ar- condicionado dual zone, Ford Power, partida sem chave, computador de bordo, sistema de áudio de última geração e motores sigma 1.6L 16V flex e duratec 2.0L 16V.”Veja, s/r. !165 No segundo caso, para nomear um orifício no computador que permite a conexão de periféricos, sem a necessidade de desligar o computador e que tem capacidade de transmitir e armazenar dados, foram encontradas as composições sinônimas “porta USB” e “entrada USB”. Foi possível verificar que as duas foram veiculadas em textos publicitários de áreas de especialidades diferentes, tecnologia e automobilística, porém na mesma revista e no mesmo período. Desta forma, é possível concluir que ambas as composições são utilizadas como concorrentes já que pela data de veiculação estão sendo utilizadas em um mesmo período. Porta USB Notebook Samsung R480. Performance: Windows 7 Professional autêntico. Retorno de hibernação em apenas 3 segundos. Porta USB para recarga de dispositivos móveis. Design: Acabamento cristal Touch of Color (TOC). Touchpad iluminado.Veja, ano. 43, n.45, 10/11/10 Ed. 2190, p. 109. Entrada USB Novo Sonata. Câmbio automático de 6 velocidades com Paddle Shift no volante. Sistema de ignição Keyless com sensor de proximidade e botão start / stop. Faróis de Xenon HID com acendimento automático para maior visibilidade e segurança. Freios ABS de 4 canais. Sistema de som com controle para iPod, entrada USB, entrada auxiliar, MP3, disqueteira no painel para 6 CDs e subwoofer. Exclusivo teto solar duplo para as duas fileiras de bancos. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Ar-condicionado digital independente nas duas fileiras de bancos. Computador de bordo completo. VEJA, ano. 43, n. 45, 10/11/10 Ed. 2190, p. 4/5. Na área da automobilística encontramos três composições sintagmáticas sinônimas. As composições “sensor de estacionamento”, “sensor de distância” e “sensor de proximidade”, foram veiculadas nos anos de 2008, 2009, 2010, respectivamente. Quanto ao significado, as três são utilizadas para denominar um tipo de tecnologia que sinaliza quando o veículo está próximo a outro veículo ou obstáculo. Nota-se, no entanto, que o vocábulo “sensor” se uniu a dois vocábulos: “distância” e ‘proximidade”, que são opostos, porém, criou-se duas composições sintagmáticas que são sinônimas, ou seja, são utilizadas para denominar o mesmo conceito. Vejamos os exemplos: Sensor de estacionamento Sensores de chuva no pára-brisa. Áudio Infinity (JBL) com MP3, disqueteira para 6 CDs no painel e 10 alto-falantes. Sensores de estacionamento. 10 air bags, máxima segurança 5 estrelas no NCAP. Ar-condicionado com controle individual de temperatura, filtro antipólen, !166 AQCS e umidificador de ar. Recém-lançado, já é o seda de luxo mais vendido do Brasil. Fonte: Fenabrave, março de 2008. HYUNDAI. Época. n.516, 7/4/08, p. 20/21. Sensor de distância “A Hyundai fez um carro mais fácil de manobrar, com direção mais leve, sensor de distância no para-choque traseiro (na versão completa) e melhor visibilidade.” HYUNDAI. Veja, ano 42, n. 47, 25/11/09, p. 05. Sensor de proximidade Novo Sonata. Câmbio automático de 6 velocidades com Paddle Shift no volante. Sistema de ignição Keyless com sensor de proximidade e botão start / stop. Faróis de Xenon HID com acendimento automático para maior visibilidade e segurança. Freios ABS de 4 canais. Sistema de som com controle para iPod, entrada USB, entrada auxiliar, MP3, disqueteira no painel para 6 CDs e subwoofer. Exclusivo teto solar duplo para as duas fileiras de bancos. Retrovisores externos com rebatimento elétrico e antiembaçante. Ar-condicionado digital independente nas duas fileiras de bancos. Computador de bordo completo. Suspensão com amortecedores de regulagem automática. Eco Driving Digital (único no mundo). Sistema que indica, em tempo real, a forma mais econômica de dirigir, diminui o consumo e a emissão de poluentes. HYUNDAI. Veja, ano 43, n. 45, 10/11/10, Ed. 2190, p. 04/05. As composições sintagmáticas “entrada HDMI” e “saída HDMI” também são exemplos de composições que apresentam componentes com valores semânticos opostos (‘entrada’ e ‘saída’), mas são sinônimas e são utilizadas para nomear um sistema que possui transmissão de áudio e vídeo digital. Seguem os exemplos: Entrada HDMI A nova TV de LED da H-Buster é o encontro perfeito entre o entretenimento, a qualidade de imagem e o design. Fina e bonita, ela é uma TV de alta definição (Full HD), que já vem com conversor de sinal digital integrado. Tem 3 entradas HDMI para maior conectividade com TV por assinatura, home theaters, videogames, notebooks e players de última geração. VEJA, ano 43 n. 45, 10/11/10, ed. 2190, p. 179 Saída HDMI Desafie as fronteiras entre realidade e entretenimento com a performance de tirar o fôlego da tecnologia HD – High definition, que agora se tornou móvel através do notebook ultra fino da série FZ. Com sua saída HDMI, tela widescreem e o poderoso processador Intel Core 2 Duo. ÉPOCA, n. 498, 03/12/07, p. 123. !167 4.5 O conceito da composição sintagmática neológica no texto Encontramos em nosso corpus um exemplo em que o publicitário optou por utilizar a composição neológica totalmente estrangeira, sem a correspondente em português, porém, nesse caso, optou também por acrescentar o conceito da composição neológica estrangeira no corpo do texto. Em outro exemplo, embora não se tratasse de uma composição totalmente estrangeira, o publicitário também fez a opção de acrescentar a explicação do conceito da composição no próprio texto. É o caso da composição neológica “chave inteligente”, em que existe uma explicação, dentro do texto, sobre o funcionamento do objeto. Seguem os exemplos: Display touch Nokia N8. Display Touch: tela com reconhecimento de múltiplos toques; Cabo adaptador USB on the Go: salve, copie e visualize arquivos direto do seu pendrive; Câmera de 12 MP com lentes Carl Zeiss e flash Xenon: fotos incríveis em alta resolução; Filme, edite e compartilhe com seus amigos em HD; Navegação GPS gratuita por voz em tela de 3,5”. VEJA, ano 43 n. 44, 3/11/10, ed. 2189 p. encarte Chave inteligente “Livina. Muito espaço: porta-malas com 449 litros. Chave inteligente: destrave e ligue o carro com a chave no bolso.” VEJA, ano 42 n. 21/10/09 p. 63 Na próxima seção, analisaremos a estrutura lexical das composições sintagmática neológicas a fim de verificar qual estrutura é mais produtiva nos textos publicitários. 4.6 A estrutura lexical das composições sintagmáticas da publicidade Ferraz (2007) apresenta a análise de 3.000 peças publicitárias (impresso volante) que foram recolhidas em 2003 e 2004 na região metropolitana de Belo horizonte para mostrar os processos mais frequentes no português brasileiro. O pesquisador identificou 413 unidades lexicais neológicas, que foram classificadas de acordo com as estruturas morfossintáticas. A análise empreendida pelo pesquisador demonstrou a ocorrência de neologismos formais !168 criados por procedimentos formais internos como a prefixação, sufixação, composição, formação sintagmática, truncamento, cruzamento vocabular, siglagem e o hibridismo. Foi encontrada também a ocorrência de neologismos por empréstimo de línguas estrangeiras. A formação sintagmática, ou composição sintagmática, foco de estudo dessa análise, ocupou o quarto lugar no índice percentual dos processos de formação de palavras mencionados acima. Segundo Ferraz (2007), as formações sintagmáticas possuem um caráter denominativo e a estrutura desses itens léxicos sintagmáticos apresenta-se caracterizada pela cristalização de sintagmas nominais. Esses sintagmas nominais se apresentaram com as seguintes estruturas: 1. Nome + adjetivo “Venda, conserto instalação, revisão de som, alarmes, trava carneiro, vidro elétrico, reboque, acessórios em geral”. - Edi peça “Radio gravador c/ CD TD (AIWA, sintonia digital, T-bass”. - Carrefour 2. Nome + preposição + nome “Sem taxa de entrega”. - telepizza “A cada proposta aprovada, você ganha pontos, que são revestidos em crédito num cartão de premiação”. - Credicard 3. Nome + nome “Radio palito c/ alto falante e fone de ouvido”. - Cash Box Na análise do corpus da publicidade encontramos, além das estruturas descritas pelo pesquisador, uma variada tipologia de composições sintagmáticas. Dentre elas, a tipologia de composição sintagmática mais produtiva em nosso corpus foi nome + adjetivo, seguida da estrutura nome + preposição + nome. Verificamos também uma grande quantidade de hibridismo, ou seja, estrutura formada por, pelo menos, um item estrangeiro. As composições longas, compostas por mais de três elementos tiveram grande expressividade em nosso corpus, além de apresentarem estruturas variadas. !169 Como mencionado, composições sintagmáticas com estrutura nome + adjetivo foram a mais expressiva no corpus da publicidade impressa. Em seguida, composições sintagmáticas neológicas com a estrutura nome + preposição + nome também foram muito produtivas. Nessa última, os substantivos eram, em sua grande maioria, acompanhados pela preposição “de”. No entanto, foram encontradas ocorrências de composições em que apareceram as preposições “do”, “para” e “em”, como poder ser visto através dos exemplos a seguir: 1. Nome + adjetivo Dispositivo antifurto Estepe com dispositivo antifurto, sensores de chuva e estacionamento, bancos de couro, Computador de bordo, direção hidráulica, 3 anos de garantia. VEJA, ano 43 n. 39, 29/09/10, p. 46 Agente financeiro “CET a ser fornecido pelo agente financeiro que aprovar o crédito. Tarifa: R$990,00 não inclusa.” VEJA, ano 42 n. 32, 12/08/09, p. 05 Chave inteligente “Grand Livina. Mais de 60 configurações possíveis de interior. Chave inteligente, destrave e ligue o carro com a chave no bolso.” VEJA, ano 42 n. 37, 16/09/09, p. 463 2. Nome + preposição + nome Controle de tração 6 airbags duplo frontal, laterais de cortina. Sensor de chuva, acendimento automático dos faróis, transmissão automática de 5 velocidades, controle de tração e estabilidade VSA, tração 4x4 real time. VEJA, ano 43 n. 24, 16/06/2010, p. 08 Antecipação de recebíveis “Se sua empresa precisa de crédito para financiamento, capital de giro e antecipação de recebíveis (…)” VEJA, ano 41 n. 49, 10/12/08, p. 111 Aniversariantes do mês “tem gente que celebra os aniversariantes do mês da firma”. VEJA, ano 41 n. 49, 10/12/08, p. 22 Cadeira para auto “Carrinhos, cadeira para auto, bebês-conforto” VEJA, n. 2062, 05/08, p. 29. Débito em conta Assine Claudia 2 anos 5% de desconto 12x R$ 19,00 Cartão ou débito em conta. VEJA, ano 43 n. 45, 10/11/2010, ed. 2190, p. encarte. !170 Normalmente, quando encontramos ocorrência com dois substantivos, esses eram separados por uma preposição. Contudo, verificamos ocorrências em que a composição era formada por dois substantivos, sem a presença da preposição. Para Estopà (2011), esse tipo de estrutura (nome + nome) foi criada no componente morfológico da língua, pois na sintaxe do Catalão, por exemplo, a categoria gramatical que categoriza o substantivo é o adjetivo e não outro substantivo. Para a pesquisadora, a composição sintagmática formada por dois substantivos representa, à primeira vista, uma transgressão nas regras sintagmáticas do Catalão. Assim como no Catalão, as composições sintagmáticas que serão apresentadas a seguir mostram a dificuldade que alguns itens lexicais neológicos têm em se adaptar aos paradigmas gramaticais tradicionais do português brasileiro e, assim, representam uma ruptura do ponto de vista sintagmático. Percebe-se que nos três casos, o substantivo tem função de categorizar e, dessa forma, esse substantivo exerce a função de um adjetivo. Para os três vocábulos “borboleta”, “balcão” e “leito”, o dicionário apresenta somente significados em que esses vocábulos funcionam como substantivo e nunca como adjetivo. Vejamos os exemplos: 3. Nome + nome Câmbio borboleta “Magentis. R$69.900 à vista. Completo com câmbio borboleta no volante.” VEJA, ano 42 n. 49, 09/12/09, p. 23 Garantia balcão “Windows Vista Home Basic Autêntico. 4GB de memória. Bluetooth. Câmera integrada. 1 ano de garantia balcão.” VEJA, ano 42 n. 37, 16/09/09, p. 18 Cabine leito Compre um Tector e compare. Motor Iveco FPT: potência de 250 cv e torque de 950 Nm, com baixo consumo de combustível; 2 opções de câmbio: 6 marchas ou 9 marchas; cabine simples ou leito; maior plataforma de carga da categoria: 10m no cabine simples e 9,4 no cabine leito (EE 5.670mm). VEJA, ano 43 n. 36, 08/09/10, p. 28 !171 Além das estruturas descritas, encontramos em nosso corpus composições com a estrutura lexical (adjetivo + nome) e (nome + adjetivo + adjetivo) que podem ser observadas nos exemplos a seguir: Alta Tecnologia Imperdível isto é Dell: alta tecnologia, excelente serviços e ótimos preços. Notebook Dell Latitude 131L Mobilidade com ótima Performance. Processador AMD Sempron Móbile 3500. Windows XP Home Original. Tela Widescreen Matriz Ativa de 15.4” 512MB de memória disco rígido de 40GB Cd-Rom 24X Peso: a partir de 3kg 1 ano de garantia. 6X R$ 446, 50 sem juros no CDC.(…). ÉPOCA, n. 460, 12/03/07, p. 41. Controle eletrônico inteligente Tração AWD 4X4 com controle eletrônico inteligente e ESP. VEJA, 42, 36, 09/09/09, p. 4 e 5. As composições sintagmáticas descritas até aqui foram chamadas de padrão, por serem compostas por até três constituintes. Na próxima seção, mostraremos os exemplos de composições sintagmáticas com uma estrutura lexical longa, isto é, composta por mais de três constituintes. 4.6.1 Formações longas: compostas por três ou mais de três elementos Após a análise do corpus da publicidade foi possível verificar a ocorrência de estruturas longas, com mais de três componentes. Identificamos também uma vasta tipologia dessas estruturas que serão exemplificadas a seguir: 1. nome + preposição + nome + adjetivo Roda de liga leve Equipado com: câmera de marcha a ré com tela LCD de 3,5’’ no retrovisor interno; 124 CV de potência; CD/MP3 com entrada auxiliar, USB e para IPOD; direção elétrica e controles de áudio no volante; air bag duplo; ar-condicionado; rodas de liga leve aro 16’’ e freios ABS com EBD. VEJA, ano 43 n. 36, 08/09/10, p. 19 2. nome + adjetivo + preposição + nome Sensor automático de chuva !172 O carro com mais itens de série da categoria. Freios ABS de 5ª geração, air bag duplo, computador de bordo, trio elétrico, sensor automático de chuva. ÉPOCA. 369, 13/06/05, p. 30 e 31. 3. nome + preposição + adjetivo + nome Sistema de alto desempenho Preview Platinum 4GHz – Sistema de alto desempenho com overclock.. ÉPOCA. 506,28/01/08, p.49 4. nome + preposição + nome + preposição + nome Taxa de abertura de crédito Ofertas válidas de 27/01/2007 até sexta, 2/2/2007, ou enquanto durarem os estoques. Após esta data, os preços voltam ao normal. Formas de pagamento; á vista; a prazo no cartão de crédito em 10 parcelas sem juros com o 1º pagamento no vencimento no cartão e os demais de 30 em 30 dias. Não cobramos taxa de abertura de crédito. Nenhuma despesa adicional. IstoÉ, n.1944, 31/1/07, p. 24/25 5. nome + adjetivo + adjetivo + adjetivo + adjetivo Teto solar elétrico panoramico automático Tucson. O máximo em satisfação e qualidade. Transmissão automática H-Matic com Shifttronix; freios ABS nas 4 rodas com EBD, BAS e desaceleração progressiva; (...) comando de válvulas e coletores de admissão variáveis; ar-condicionado digital com AQCS (Air Quality Control System); rodas de liga leve aro 16; Tração 4x4 full time; 4WD com TCS; bloqueio eletrônico do diferencial; 8 air bags (frontais, laterais, e de cortina); bancos em couro com ajuste lombar; teto solar elétrico panorâmico automático; pneus radiais com banda larga, all-season passenger (…). Época. 440, 23/10/2006, p. 4 e5. 6. nome + preposição + nome + preposição + nome + adjetivo banco de sangue de cordão umbilical O Hermes Pardini oferece exames laboratoriais, diagnósticos por imagem, vacinas, banco de sangue de cordão umbilical e banco de sêmem terapêutico. VEJA, ano 43 n. 36, 08/09/2010, p. folheto 7. nome + preposição + nome + adjetivo + preposição + nome Sistema de controle eletrônico de tração Programa de controle eletrônico de estabilidade (ESP). Lavador de faróis. CD Player com acumulador para 6 CDs e função MP3. ar-condicionado eletrônico (Climatronic) com controle individual de temperatura (motorista e passageiro). Sistema de controle de eletrônico de tração (ASR). Rodas de liga leve aro 17’’. Sistema de freios ABS/EBD. Suspensão traseira independente Multilink. Direção eletromecânica Servotronic. IstoÉ, n. 1944, 31/01/07, p. 12/13/14 !173 Constatamos no corpus a presença de formações sintagmáticas híbridas, ou seja, composta por um item lexical estrangeiro. Essas unidades lexicais apresentam variadas estruturas lexicais que serão apresentadas na próxima subseção. 4.6.2 Formação híbrida: composta por um item lexical estrangeiro A formação híbrida é composta por pelo menos um item lexical estrangeiro. Estamos considerando item lexical estrangeiro todo aquele vocábulo proveniente de outro sistema linguístico que não tenha sido incorporado no sistema linguístico do português brasileiro, isto é, que não esteja dicionarizado. Vejamos os exemplos desse tipo de formação, considerando que o constituinte em itálico corresponde o vocábulo estrangeiro: Varanda gourmet Vila Grimm Vale dos Cristais. Apartamentos de 3 ou 4 quartos com varanda gourmet. VEJA, ano 42 n. 36, 09/09/09, p. 46 Carro design Kia Soul. Um carro que inaugura um novo segmento: carro design. VEJA, ano 43 n. 31, 05/08/09, p. 86/87 Dispenser de água Refrigerador Side by Side Frost Free LG 570 litros. Dispenser de água e gelo, controle de temperatura inteligente. Home bar. Titanium. ÉPOCA, 7/4/2008 516, p. 36 e 37 Air bag duplo inteligente Chegou o novo Peugeot 307 Sedan. Todos os itens de série elevam ao máximo o conforto e o prazer de dirigir. Além dos itens acima, ele ainda conta com bancos em couro, comando do rádio no volante, piloto automático (regulador de velocidade), air bag duplo inteligente (motorista e passageiro), ABS de ultima geração, sensor de acendimento automático dos faróis, sensor de auxílio para estacionamento, limpador de pára-brisa automático com sensor de chuva e teto solar com telecomando na chave. Um carro tão completo que mostra onde você chegou. Novo Peugeot 307 Sedan. Avançar. Não correr. (…) ÉPOCA 433, 04/10/206 p. 52 e 53 !174 Marketing de acesso total Quanto vale assistir, durante três dias, as 13 dos melhores especialistas mundiais em gestão empresarial. Marketing de acesso total; Gestão do tempo; Gestão de resultados; capital intelectual. ÉPOCA, 328, 30/08/04, p. 62 e 63 Colchão King size Segura aí para não cair da cama. Colchões king size em até 15x sem juros. ÉPOCA, 369, 13/06/2005, p. 44/45 web aula “A Abril Educação criou o SER, o único que conta com renomados autores das editoras Ática e Scipione. Conta ainda, com a credibilidade e a força em educação do Grupo Abril. Projetos de leitura. Web aulas. Palestras para os pais. Formação continuada para professores e coordenadores.VEJA, 42, 37, 16/09/09, p.149 Gestão de design Alguma hora você descobre a importância de um bom MBA. Principalmente se ele estiver 600 horas. pós-graduações: comunicação com o mercado. Marketing digital. Marketing de serviços. Comunicação empresarial. Gestão de design. ÉPOCA, 456, 12/02/07, p. 101 Duplo airbag Pense em tudo que o carro dos seus sonhos precisa ter. Câmbio automático. Ar- condicionado. Trio elétrico. Duplo airbag. CD player. Freios ABS. Roda de liga leve. Direção hidráulica. Vidro verde. (...) SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor: 0800161654. ÉPOCA, 190, 27/01/05, p. 115. Partida start/stop Partida start-stop. Som Alpine com 14 alto-falantes. Sistema Terrain Response.” VEJA, 42, 37, 16/09/09, p. 93 Display digital LG Lavadora lava/seca Front Load Prime. Display digital, 5 opções de temperatura, sensor automático de carga. VEJA, ano 43 n. 45, 10/11/2010, ed. 2190, p. 62/63 !175 4.6.3 Composição sintagmática totalmente estrangeira Encontramos uma ocorrência em que a composição sintagmática era composta por dois itens estrangeiro com a estrutura lexical de nome + nome. Percebemos que no anúncio publicitário, logo após a composição totalmente estrangeira “display touch”, foi colocada a definição da composição, que seria uma tela com reconhecimento de múltiplos toques. Esse evento pode ser explicado pelo tipo de texto em questão, já que, nesse caso, o publicitário tem o interesse de explicar ao consumidor do que se trata o item lexical neológico e estrangeiro e, por isso, traz a definição no próprio anúncio, como podemos ver no exemplo a seguir: nome + nome Display touch Nokia N8. Display Touch: tela com reconhecimento de múltiplos toques; Cabo adaptador USB on the Go: salve, copie e visualize arquivos direto do seu pendrive; Câmera de 12 MP com lentes Carl Zeiss e flash Xenon: fotos incríveis em alta resolução; Filme, edite e compartilhe com seus amigos em HD; Navegação GPS gratuita por voz em tela de 3,5”. VEJA, ano 43 n. 44, 3/11/10, ed. 2189 p. encarte 4.6.4 Composição com sigla estrangeira Encontramos em nosso corpus publicitário composições sintagmáticas em que o elemento estrangeiro era apresentado através de siglas. No primeiro exemplo, a formação “dispositivo USB”, a sigla “USB” é a redução do sintagma do inglês “Universal Serial Bus”. No segundo caso, “entrada HDMI”, “HDMI” é a sigla para “High-definition multimedia interface”. Vejamos os exemplos: Dispositivo USB Nem todo dispositivo USB é compatível. VEJA, ano 43 n. 44, 3/11/2010, ed. 2189, p. 105 !176 Entrada HDMI A nova TV de LED da H-Buster é o encontro perfeito entre o entretenimento, a qualidade de imagem e o design. Fina e bonita, ela é uma TV de alta definição (Full HD), que já vem com conversor de sinal digital integrado. Tem 3 entradas HDMI para maior conectividade com TV por assinatura, home theaters, videogames, notebooks e players de última geração. VEJA, ano 43 n. 45, 10/11/10, ed. 2190, p. 179 Além da estrutura lexical “nome + sigla” das composições formadas por siglas estrangeiras apresentadas, encontramos em nosso corpus uma ampla variedade de estruturas lexicais de composições com siglas estrangeiras como componente, tais como, “sigla + nome”, “nome + adjetivo + sigla” e “nome + prep + SIGLA”, que serão ilustradas nos exemplos abaixo: CD player “CD Player com MP3. Entrada auxiliar de áudio no console central (iPod). Cockpit com bancos esportivos. Volante e manopla de câmbio revestidos de couro.” VEJA, 42, 49, 09/12/09. p. 49. Leitor de DVD Desktop HP Pavilion b2030br. Gravador e leitor de DVD / CD com LightScribe. Leitor de Cartão de Memória 16 em 1. Monitor não incluso. ISTOÉ, 19, 36, 29/11/2006, p. 26. Cabo adaptador USB Nokia N8. Display Touch: tela com reconhecimento de múltiplos toques; Cabo adaptador USB on the Go: salve, copie e visualize arquivos direto do seu pendrive; Câmera de 12 MP com lentes Carl Zeiss e flash Xenon: fotos incríveis em alta resolução; Filme, edite e compartilhe com seus amigos em HD; Navegação GPS gratuita por voz em tela de 3,5”. Análise quantitativa das composições quanto à estrutura lexical. VEJA, 46, 44, 3/11/2010 Ed. 2189. p. 5 e 6 4.7. Análise quantitativa das composições sintagmáticas quanto à estrutura lexical Nesta seção, faremos a análise quantitativa da classificação das composições sintagmáticas considerando sua estrutura lexical. Desta forma, evidenciaremos com essa análise quais estruturas lexicais são mais produtivas dentro dos textos publicitários, além de dados sobre o priming lexical das composições. !177 Conforme explicitado no capítulo metodológico deste trabalho, a análise se dividirá em cinco partes e serão apresentados cinco gráficos para melhor visualização dos resultados encontrados. Faremos a análise da estrutura lexical de composições sintagmáticas padrão, composições sintagmáticas longas, composições sintagmáticas com siglas vernáculas, composições sintagmáticas com siglas estrangeiras e, por fim, composições sintagmáticas com item estrangeiro. Foram analisadas um total de 555 composições sintagmáticas que se distribuíram da seguinte forma: 415 composições sintagmáticas padrão, 40 composições sintagmáticas longas, 38 composições sintagmáticas com sigla, 20 composições sintagmáticas com sigla estrangeira e 42 composições sintagmáticas com vocábulo estrangeiro. 4.7.1 Composições sintagmática padrão (com até três elementos constituintes) A análise revelou que dentre as composições sintagmáticas padrão, a estrutura mais produtiva foi a do tipo “nome + adjetivo” com 225 ocorrências, o que representa mais da metade das composições padrões (GRÁFICO 1). Composições como “sala virtual” E “comunicação empresarial” foram bastante produtivas em nosso corpus. Em seguida, a estrutura lexical “nome + preposição + nome”, representando as composições como “gestor de carteira” e “serviço de bordo” foi a segunda composição mais produtiva em nosso corpus, com 158 ocorrências. Ao analisar a estrutura lexical “nome + preposição + nome”, ficou evidente que ‘de’ foi a preposição mais utilizada entre os nomes componentes desse tipo de unidade lexical, o que representa uma informação importante quanto ao priming colocacional de composições que apresentam essa estrutura lexical. A estrutura lexical “adjetivo + nome” (alta resolução) e “nome + nome” (garantia balcão) não apareceram com grande expressividade no corpus, obtendo apenas quatro e seis ocorrências, respectivamente. Desta forma, podemos concluir a partir da análise que entre as composições sintagmáticas compostas por até três componentes, a estrutura lexical “nome + adjetivo” foi a mais produtiva no contexto publicitário analisado. !178 GRÁFICO 1: Composição sintagmática padrão. Fonte: dados da autora. 4.7.2 Composição sintagmática longa (mais de três elementos) Encontramos em nossa análise composições sintagmáticas com mais de três elementos constituintes, que as chamamos de composições sintagmáticas longas. Dentre esse tipo de composições, a estrutura lexical “nome + prep + nome + adjetivo”, como “roda de liga leve” e “controle de temperatura inteligente”, foi a mais produtiva, com 59% (23 ocorrências) (GRÁFICO 2). Por outro lado, composições com estruturas lexicais “nome + prep + adjetivo + nome” , “nome + adjetivo + adjetivo + adjetivo + adjetivo” e “nome + prep + nome + adjetivo + prep + nome, como “sistema de alto desempenho”, “teto solar elétrico panorâmico automático” e “sistema de controle eletrônico de tração”, respectivamente, foram menos produtivas, com 3% de ocorrência cada (1ocorrência cada). 0 75 150 225 300 nome + adjetivo nome + prep + nome nome + adjetivo + adjetivo nome + nome adjetivo + nome !179 GRÁFICO 2: Composição sintagmática longa Fonte: Dados da autora. 4.7.3 Composições sintagmáticas com siglas ( vernácula e estrangeira) Considerando o total de 58 composições sintagmáticas compostas por siglas - redução de vocábulos vernáculos (GRÁFICO 3) e vocábulos estrangeiros (GRÁFICO 4), a análise revelou que a estrutura lexical “ nome + sigla” foi a mais produtiva, com 30 ocorrências. Composições do tipo “UTI móvel” (unidade de terapia intensiva móvel” e “porta USB” (porta Universal Serial Bus) representam mais da metade das ocorrências de composições formadas por siglas encontradas no corpus. Por outro lado, composições do tipo “nome + prep + nome + sigla” (central de atendimento BB) - sigla vernácula, foi a mesmo produtiva, pois em nosso corpus encontramos uma única ocorrência. 3% 5% 3% 3% 15% 15% 58% nome + prep + nome + adjetivo nome + adjetivo + prep + nome nome + prep + nome + prep + nome nome + prep + adjetivo + nome nome + adjetivo + adjetivo + adjetivo + adjetivo nome + prep + nome + prep + nome + adjetivo nome + prep + nome + adjetivo + prep + nome !180 Sobre a posição da sigla dentro da composição sintagmática, a análise revelou que na maioria dos casos a sigla ocorria em posição final, ou seja, como o último elemento da unidade lexical. Desta forma, podemos concluir dentro do contexto publicitário de que a sigla tem uma predisposição para ocorrer em posição final dentro da composição, o que significa dizer que quanto ao priming textual coligacional a sigla tem preferência por ocorrer em posição final, considerando a estrutura lexical da composição. GRÁFICO 3: Composição sintagmática com sigla vernácula Fonte: Dados da autora. GRÁFICO 4: Composição sintagmática com sigla estrangeira Fonte: Dados da autora. 3% 13% 8% 8% 8% 8% 53% nome + sigla sigla + nome nome + prep + sigla sigla + verbo sigla + adjetivo nome + adjetivo + sigla nome + prep + nome + sigla 0 3 5 8 10 composição com SIGLA estrangeira SIGLA + NOME nome + prep + SIGLA nome + SIGLA nome + adjetivo + SIGLA !181 4.7.4 Composição sintagmática com elemento estrangeiro A análise das composições como elemento estrangeiro (GRÁFICO 5) - vocábulo de outro sistema linguístico que não consta no dicionário de língua portuguesa - como elemento constituinte revelou que em um total de 42 composições, 14 ocorrências possuem a estrutura lexical “nome + nome” , sendo que a classe gramatical em itálico representa o vocábulo estrangeiro. Composições como “sistema car” e “carro design” foram as mais produtivas no corpus. Em seguida, composições como “espaço gourmet”, representadas pela estrutura “nome + adjetivo” também foram produtivas, contabilizando 10 ocorrências. Outro ponto importante revelado pelos dados é que a palavra estrangeira na condição de ‘adjetivo” apareceu somente na posição mediano e final da composição. Não foi encontrado em nenhuma ocorrência na posição inicial da composição. Essa informação pode revelar uma facilidade de adaptação às regras do português, já que o adjetivo não aparece facilmente na posição inicial da composição com grande frequência. GRÁFICO 5: Composição com ESTRANGEIRISMO Fonte: Dados da autora. 0 4 7 11 14 NOME + prep + nome nome + ADJETIVO NOME + prep + nome + adjetivo NOME + adjetivo nome + ADJETIVO + NOME NOME + nome nome + NOME nome + prep + NOME adjetivo + NOME NOME + NOME nome + VERBO !182 4.8 Considerações em torno da análise A análise empreendida nesta pesquisa teve como objetivo evidenciar informações relativas ao uso das composições sintagmáticas nos textos publicitários analisados. Consideramos que essas informações podem contribuir para um direcionamento no sentido de colocar o léxico como ponto central das aulas de português. Além disso, mostramos a presença do priming lexical e acreditamos que saber o padrão de uso das referidas unidades lexicais em contexto é fundamental para o desenvolvimento de competências linguísticas, sobretudo a lexical. Deste modo, na próxima seção, faremos uma relação direta entre as informações reveladas pela análise e o ensino de língua portuguesa. Contudo, antes de estabelecermos uma relação entre os dados da pesquisa e a competência lexical, revistaremos alguns conceitos e hipóteses que foram fundamentais para a elaboração deste trabalho. 
 !183 5. DISCUSSÃO DOS DADOS ANALISADOS Para iniciar a discussão dos dados analisados e suas implicações no ensino de Língua Portuguesa, é necessário, portanto, antes, retomarmos algumas hipóteses e conceitos que serviram como base para esta pesquisa e também a nossa visão sobre o papel que o ensino de português deve exercer com relação ao ensino do léxico. Sobre o papel do léxico no ensino, Lewis (1993) discorre sobre a natureza do léxico e afirma que o léxico é gramatizalizado e representa o coração da língua, embora ele sempre tenha sido marginalizado no ensino de línguas e comparado a um caos, devido ao seu caráter dinâmico. Além disso, estudar a natureza do léxico pode auxiliar na definição do processo pedagógico a ser adotado. Corroborando esse assunto, Schmitt e McCarthy (1997) também nos adverte sobre o caos aparente do léxico. Contudo, o pesquisador diz que os profissionais que se dedicam ao ensino de línguas não precisam se distanciar do léxico pelo fato de ele aparentar um caos, uma vez que o léxico tem a capacidade de estabelecer princípios, que estão à espera de uma exploração plena. Importa considerar que, ao colocar o léxico no centro, estamos automaticamente quebrando a dicotomia entre a gramática produtora de generalizações e a natureza arbitrária do léxico, que o ensino de língua, tradicionalmente, tem difundido (LEWIS, 1993). Para o referido pesquisador, a realidade de dados linguístico é mais bem representada por um Spectrum of Generalisability, sobre o qual tanto os itens gramaticais quanto os itens lexicais poderiam ser colocados. Desta forma, Lewis (1993) parece fortalecer o argumento do léxico gramatizalizado capaz de fornecer generalizações sobre a língua. Ainda sobre a natureza desse componente central da língua, se faz necessário ressaltar que o léxico e o vocabulário não se confundem. Ao discutir a terminologia dentro de uma abordagem lexical, estamos sugerindo que o léxico consiste em um componente complexo da língua, que vai além de lista de palavras. Essa visão representa uma profunda mudança na maneira como enxergamos e analisamos a língua (LEWIS, 1993). Ainda sobre a diferença entre léxico e vocabulário, Lewis (1993) afirma que ter um grande vocabulário ou saber muitas palavras não se compara com o ter acesso a um grande estoque de itens lexicais, que se diferem um do outro. Portanto, podemos entender que, na !184 abordagem lexical, a variedade de itens lexicais, aos quais um falante tem acesso, pode influenciar sua competência lexical, na medida em que há uma expansão lexical qualitativa e não quantitativa, como no caso das listas de palavras. Ademais, Pawley e Syder (1983) afirmam que nem todas as sequências memorizadas por um falante individual são lexicalizadas, e, portanto, não se configuram como itens lexicais. O que confere a uma expressão o status de item lexical, que faz parte da comunidade de fala, está ligado a três fatores. O primeiro diz respeito ao fato de que o sentido/significado dessa expressão não ser totalmente previsível pela forma. Segundo, essa expressão precisa se comportar como uma unidade mínima para certos propósitos sintáticos. Por fim, o terceiro fato relaciona-se à instituição social, ou seja, o uso social é que sanciona a independência dessa expressão como um item lexical. Na próxima subseção, discorreremos sobre os tipos de itens lexicais. Sobre os tipos de itens lexicais, Lewis (1993) salienta que existem diferentes tipos de itens lexicais. O mais básico e mais familiar são as palavras individualizadas. Dentro dessa categoria há uma distinção entre as palavras que possuem zero ou baixo conteúdo informativo, como é o caso das preposições, e palavras com grande conteúdo informativo, como os substantivos, adjetivos, etc. As palavras individualizadas são aquelas que ganham grande relevância nos materiais do ensino de línguas (LEWIS, 1993). Contudo, Lewis (1993) chama atenção para as várias evidências científicas que endossam a visão de que uma grande quantidade de língua é armazenada em nossa mente em unidades maiores do que as palavras individualizadas. Essa informação, de extrema importância, sugere uma mudança nas práticas pedagógicas que priorizam as palavras individuais. Dentre os itens lexicais que se configuram como unidades maiores do que palavras individualizadas estão as multipalavras (multi-word items), cuja principal característica está na independência de sua existência (LEWIS, 1993). As multipalavras constituem um grupo subdividido em três categorias, a saber, colocações, expressões institucionalizas e polipalavras (LEWIS, 1993). O primeiro exemplo de multipalavra, a colocação, amplamente discutida no capítulo teórico deste trabalho, descreve o comportamento de palavras individuais que coocorrem umas com as outras. Lewis (1993) discute a fixidez dessas unidades lexicais que, para o !185 pesquisador, são mais bem explicadas através de um espectro, em que temos as colocações fixas em uma extremidade e as colocações livres no outro polo. Esse espectro, que define o grau de fixidez e liberdade de uma colocação, sugere também que diferentes procedimentos pedagógicos devem ser adotados no tratamento dessas colocações no ensino (LEWIS, 1993). As colocações se aproximam das palavras individuais discutidas acima por serem associadas mais ao conteúdo expresso pelo usuário do idioma e se distanciam das expressões institucionalizadas, que serão descritas a seguir, por essas possuírem caráter pragmático, como aponta Lewis (1993). Além disso, Lewis (1993) faz uma ressalva e afirma que as colocações fixas, na verdade, configuram-se como um tipo de polipalavra. Outro exemplo de multipalavra, as expressões institucionalizadas, permite que o usuário do idioma gerencie aspectos da interação, por isso, possuem um caráter pragmático. Ademais, Lewis (1993) afirma que essas unidades multipalavra garantem um processo eficiente, tanto na recepção ou na produção de textos escritos ou falados. Desta forma, o pesquisador citado acredita que essas unidades deveriam ser mais definidas e melhor exploradas nos programas de ensino de línguas para auxiliar na fluência de falantes não- nativos. Por fim, o último exemplo, as polipalavras, na definição de Lewis (1993), são compostas em média por dois ou três componentes, podem pertencer a qualquer tipo de classe de palavras e o significado do grupo de palavras pode ser diferente do significado dos componentes quando analisados isoladamente. No ensino de língua inglesa, apenas um tipo de polipalavra é privilegiado, os verbos frasais. Contudo, para Lewis (1993) outros tipos de polipalavra precisam de atenção no ensino, tais como: taxi rank (ponto de taxi), record player (toca disco), continuous assessment (avaliação contínua), all at once (tudo de uma vez), by the way (a propósito). É importante mencionar que nosso objeto de pesquisa, as composições sintagmáticas, se inserem, segundo a categorização de Lewis (1993), na categoria de itens lexicais como polipalavra. Contudo, não traçamos como objetivo dessa pesquisa a categorização dos itens lexicais, pois isso se configura como uma tarefa muito difícil, devido à falta de clareza da categorização nos casos marginais e a sobreposição de categorias (LEWIS, 1993). Nosso intuito consiste também em evidenciar a variedade de itens lexicais que precisam ser amplamente explorados no ensino de língua portuguesa. Nesse sentido, o ensino de língua !186 portuguesa, em uma perspectiva lexical, deve atuar no sentido de difundir o léxico em sala de aula. 5. 1 O ensino de língua portuguesa como um prisma Tendo em vista a importância do léxico, Lewis (1993) aponta a necessidade de levar o léxico a sério em sala de aula, pois o conceito de léxico não é apenas mais uma palavra comum de vocabulário, ele, na verdade, é um conceito muito rico que foi deixado de lado no passado. Corroborando essa visão, entendemos que o léxico configura-se como um componente da língua caracterizado por sua complexidade, já que este vai além de uma lista de palavras individuais, entendemos que ele deve ganhar uma atenção maior e uma abordagem mais profunda em sala de aula. Desta forma, o ensino de língua portuguesa deve atuar de forma a explorar amplamente o léxico para que fique evidente sua complexidade e também evidenciar a variedade de itens lexicais. Antunes (2007) também argumenta que todo falante para ser eficaz precisa ter acesso e explorar uma variedade de itens lexicais para que ele saiba empregar de forma satisfatória o tipo de palavra para cada situação. Portanto, para Antunes (2007, p. 45) “atividades de exploração da variedades lexicais são bastantes significativas, com ênfase, é claro, na ampliação do repertório disponível.”. Em outro trecho, a pesquisadora afirma que todo falante, para atuar nas práticas sociais eficientemente, deve ter acesso a palavras que pertencem ao “vocabulário técnico, especializado, fora do usual, comum, literal, metafórico, coloquial (ANTUNES, 2007, p. 45)”. Considerando a complexidade e profundidade do léxico, faremos a importação do conceito de prisma utilizado em óptica, um ramo da física, para ilustrar qual deve ser o papel do ensino de Língua Portuguesa no que tange ao ensino do léxico. Segundo o dicionário Caldas Aulete (versão online), o prisma é feito de um material transparente, geralmente cristal, que decompõe a luz branca nas várias frequências visíveis, que resultam nas cores do vermelho ao violeta. Desta forma, o ensino de língua portuguesa, representado pelo prisma óptico, tem a função de decompor o léxico, representado pela luz branca, nas várias frequências de cores, !187 que indicam os diferentes tipos de itens lexicais. A FIGURA 8 ilustra a analogia representada pelo Léxico, Ensino de Língua Portuguesa e os Itens Lexicais: FIGURA 10: A representação do papel do ensino de língua portuguesa em uma abordagem lexical. Fonte: Dados da autora. Dentre as unidades lexicais que o ensino de língua portuguesa deve promover estão as composições sintagmáticas, objeto de estudo desta pesquisa. Todavia, uma forma de potencializar o ensino de léxico a partir de uma variedade de itens lexicais seria a exploração dessas unidades em contextos reais de ocorrência, pois, dessa forma, é possível obter informações sobre os padrões de uso das unidades lexicais que levariam o aluno ao desenvolvimento da competência lexical. Deste modo, na próxima seção, mostraremos como os dados revelados pela análise empreendida, sob a ótica da teoria Lexical Priming e da Abordagem lexical, podem auxiliar no desenvolvimento da competência lexical do aluno/usuário da língua em sala de aula. !188 5.2 Implicações da análise das composições sintagmáticas para o ensino 5.2.1 A inovação lexical Evidenciamos na primeira seção do capítulo de análise as composições que estão entrando em nossa língua via publicidade, divididas pela área de especialidade. Nossa pretensão com essa breve análise consiste em mostrar o conceito de dinamicidade da língua em um contexto real. Ou seja, mostrar como a publicidade se configura como uma porta para criação de novas unidades lexicais, o que também nos evidencia que o léxico não é estático. Essa informação, embora de extrema relevância é, muita vezes, negligenciada nos livros didáticos, e, consequentemente, em sala de aula, que preveem explorar apenas os diferentes processos de formação de palavras (ANTUNES, 2007). Não obstante, Antunes (2007) argumenta que fazer com que o aluno reconheça os processos de formação de palavras não é o fundamental, pois, nesse caso, o foco ficaria restrito as classificações. Para a referida pesquisadora, o importante é que o aluno explore a essência do processo de formação das palavras o que corresponde a possibilidade de participar da vida do léxico. Antunes (2017, p. 46) acrescenta que é fundamental que o aluno possa explorar a possibilidade do léxico de abrir-se indefinidamente à incorporação de novas palavras, criadas no interior da língua ou trazidas de fora; adaptadas ou ressignificadas. Tudo isso abordado de maneira tal que o falante se sinta, ele próprio, fazendo parte desse processo de criação tendo a possibilidade de participar da vida do léxico (ANTUNES, 2007, p. 46). Nesse sentido, reiteramos que explorar as composições sintagmáticas oriundas de diferentes áreas de especialidade é uma forma de proporcionar ao aluno a possibilidade de participar da vida do léxico, uma vez que o aluno/falante poderá ter o diagnóstico real das unidades lexicais novas que estão entrando na língua. Além disso, essas unidades lexicais, ao transitarem pelas diversas áreas do conhecimento, podem (ou não) alterar o significado. Essa condição também representa uma !189 informação importante para a participação efetiva na vida do léxico, uma vez que o aluno/ falante desenvolverá a consciência de que as palavras não possuem apenas um significado fixo, mas sim, como no caso revelado em nossa análise, a possibilidade de assumir novos significados quando há a transição para outra área de especialidade. Sobre esse assunto, Richard (1976) afirma que para que um falante desenvolva sua competência lexical, é fundamental que este falante saiba reconhecer os diferentes significados que uma unidade lexical pode assumir quando utilizada em diferentes contextos. Antunes (2012) também nos adverte sobre a importância de se explorar os diversos sentidos que uma palavra pode assumir quando há mudança de contexto. A pesquisadora acrescenta ainda que a língua da escola “parece uma abstração, parece uma entidade estática, fixa, não em movimento, e as palavras, consequentemente, parecem ter seu sentido fixado, tal como etiquetas em pedra.” (ANTUNES, 2012, p. 23). Diante dessa discussão, concluímos, portanto, que o trabalho com os textos publicitários no que diz respeito à capacidade de mudança de significado das composições sintagmáticas, ao serem utilizadas em áreas de especialidades diferentes, pode auxiliar o aluno a dimensionar o caráter dinâmico e vivo da língua e a explorar os diversos significados que uma unidade lexical pode assumir com a mudança de contexto. Ademais, entender que o léxico é o componente da língua mais susceptível às mudanças que acontecem na sociedade também representa um ponto que favorece a participação do falante na vida do léxico. Em nossa análise, ficou evidente essa capacidade inerente ao léxico de incorporar as mudanças que acontecem na sociedade. Desta forma, encontramos nos textos publicitários analisados composições neológicas como “vidro verde”, “carro verde” e “telhado verde” que foram criadas a partir de uma preocupação constante e atual com o meio ambiente. Os avanços tecnológicos também impulsionaram a criação de unidades lexicais como “salas virtuais” e “laboratórios digitais”, que refletem a evolução de novas tecnologias. Salientando a função do léxico na língua e sua representação para o ensino, Antunes (2007) ressalta que o léxico “é um depositário dos recortes com que cada comunidade vê o mundo, as coisas que o cercam, o sentido de tudo. Por isso pe que o léxico expressa, magistralmente, a !190 função da língua como elemento que confere as pessoas identidade: como indivíduo e como membro pertencente a um grupo (p. 41) Antunes (2007) ressalta a importância do léxico para o ensino e acrescenta que nele estão expressas, para cada época, as marcas das visões de mundo que os falantes alimentam, ou traços que indicam seus ângulos de percepção das coisas. Não à toa a história do percurso das palavras de uma língua se confunde com a história do percurso dessa língua. Nenhuma palavra nova se forma ou é introduzida aleatoriamente em qualquer língua (ANTUNES, 2007, p.46) Portanto, um trabalho em sala de aula com as composições sintagmáticas que refletem as mudanças de cada época evidencia a sensibilidade e também o caráter dinâmico do léxico, além de possibilitar que o falante tenha a consciência de que o surgimento de uma unidade lexical não acontece por acaso. 5.2.2 O priming semântico Sobre os aspectos semânticos que envolvem a ocorrência das composições sintagmáticas em textos publicitários, tendo em vista a teoria Lexical Priming, verificou-se a existência de um priming semântico, que, por sua vez, evidenciou a preferência semântica de composições oriundas de vocábulos considerados produtivos. Por exemplo, ao analisar as composições formadas a partir do vocábulo “cabine”, verificou que essa palavra, dentro das áreas de especialidade da automobilística e turismo/ entretenimento, possuiu um priming semântico positivo para se associar com palavras que pertencem ao campo semântico espaço e número/quantidade. Já as composições formadas tendo como base o vocábulo “sensor” deixou evidente que esse vocábulo possui um priming semântico positivo, ou preferência associativa semântica com palavras relacionadas à distância e condições de clima/tempo. !191 Em outro exemplo, temos a evidência de que as composições formadas pelo vocábulo “câmbio” revelaram que esse vocábulo possui um priming semântico positivo para se associar a palavras que pertencem ao universo semântico da ”tecnologia”. A análise da associação semântica de unidades sintagmáticas formadas pelo vocábulo “farol” revelou que, embora com menos representatividade, esse vocábulo possui um priming semântico positivo para se associar a palavras com valor semântico de substância gasosas. Consideramos que os dados revelados pela análise podem ser utilizados em sala para o trabalho de desenvolvimento da competência lexical do aluno. Nesse sentido, Richard (1976) afirma que conhecer as possibilidades associativas de uma unidade lexical consiste em uma tarefa fundamental que faz parte das habilidades a serem trabalhadas para que o desenvolvimento da competência lexical aconteça. Logo, um trabalho sistemático, dentro de sala de aula, que evidencie o caráter semântico-associativo de composições sintagmáticas formadas a partir de vocábulos produtivos dentro de textos publicitários irá contribuir de forma explícita para a consolidação de habilidades necessárias para uma ampliação lexical qualitativa do falante. 5.2.3 O priming colocacional (textual). A análise evidenciou, em conformidade com a Lexical Priming que, dentro dos textos publicitários, algumas composições sintagmáticas possuem uma preferência colocacional. Em outras palavras, algumas composições sintagmáticas tendem a sempre coocorrer com algum item lexical específico. Por exemplo, verificamos a partir da análise dos dados que as composições sintagmáticas “alta definição” e “alta performance” possuem um priming colocacional positivo para serem precedidas da preposição ‘de’. No entanto, a composição “alta resolução”, que possui característica estrutural semelhante, possui um priming colocacional negativo para ocorrer com a preposição ‘de’, já que nas ocorrências verificadas “alta resolução”, na maioria das vezes, apareceu precedida da preposição “em”. Em outro exemplo encontrado na análise do corpus podemos identificar o priming colocacional das composições “agente de viagens” e “agência de viagens”, que apareceram !192 sempre precedidas pelo pronome possessivo “seu” e “sua”, respectivamente. Já as composições “agente financeiro” e “agente credenciado” possuem um priming colocacional negativo para serem precedidas pelo mesmo pronome possessivo. As informações sobre o priming colocacional de algumas composições sintagmáticas obtidas através da análise empreendida neste trabalho são de extrema relevância para o ensino do léxico no contexto de ensino e aprendizagem de português. Segundo Richard (1976), ao estabelecer pressupostos que auxiliam no desenvolvimento da competência lexical, para que um falante aprenda/adquira uma unidade lexical é preciso que ele saiba informações que vão muito além de aprender seu significado, é preciso ter o conhecimento de sua frequência e também de sua colocação. Além disso, Lewis (1993) também explica que o maior elemento para ser capaz de utilizar uma palavra, ou seja, ter conhecimento sobre um item lexical, é conhecer sua colocabilidade. Desta forma, o conhecimento sobre a colocação das unidades lexicais é essencial para aprender/adquirir novos itens lexicais e, consequentemente, expandir o repertório lexical. Logo, os dados revelados pela análise, no que tange ao priming colocacional das composições, podem ser aproveitados em sala de aula para atividades que extrapolam o estudo do significado e evidenciem informações sobre as preferências colocacionais das unidades lexicais. Em outro momento da análise, examinamos a colocação textual das composições e verificamos que algumas composições sintagmáticas possuem priming de colocação textual positivo para formar correntes coesivas nos textos publicitários. As composições como “pneus verdes”, “TI verde” e “supermercado verde” apareceram em pequenas correntes coesivas, o que indica o priming positivo para colocação textual. Já as composições semelhantes como “carro verde” e “vidro verde”, por exemplo, parecem possuir um priming negativo para a colocação textual, pois não encontramos nenhuma ocorrência em que as referidas composições formassem correntes coesivas no texto publicitário. As informações sobre o priming de colocação textual das colocações sintagmáticas são dados relevantes e essenciais para o ensino de léxico, pois o conhecimento de um item lexical envolve também o conhecimento de sua rede de associações (RICHARD, 1976). !193 Corroborando o pressuposto que envolve o conhecimento de um item lexical, Tréville e Duquette (1996), citados por Bezerra (1998), também afirmam que para o desenvolvimento da competência lexical é necessário o conhecimento das unidades lexicais com as séries lexicais com as quais apresentam relações semânticas. Enfatizando uma perspectiva discursiva, Antunes (1997) reitera que as unidades lexicais são unidades de sentido com a finalidade de atuar como elo de amarração dentro do texto e, por isso, elas são organizadas no texto em combinações, cadeias ou sequências, conforme as regras previstas pela coesão e coerência do texto. Para Antunes (2012), o estudo da coesão e da coerência não pode se limitar aos nexos criados pelos pronomes e conjunções, que para a autora citada trata-se de pontos gramaticais, mas deve dar maior visibilidade aos nexos entre substantivos, entre adjetivos ou verbos dentro do texto. Portanto, os dados revelados pela análise sobre o priming de colocação textual podem ser explorados no ensino de língua portuguesa na perspectiva de ampliação do repertório lexical, na medida em que o aluno, ao ter informações sobre a rede de associações das composições sintagmáticas dentro do discurso publicitário, consolida o conhecimento sobre essas unidades lexicais. Os dados também podem ser aproveitados considerando uma perspectiva discursiva, pois o domínio do conhecimento sobre uma unidade lexical pode ser utilizado na arquitetura e amarração do texto, o que irá favorecer e auxiliar o aluno tanto na produção quanto na recepção textual. 5.2.4 O priming coligacional A análise empreendida, sob a luz da teoria Lexical Priming, revelou dados importantes sobre o priming coligacional de algumas composições sintagmáticas nos textos publicitários, que podem ser explorados em sala de aula para o ensino de léxico com a finalidade de desenvolver a competência léxica. Por exemplo, os dados evidenciaram que a composição “alta tecnologia” possui priming coligacional positivo para ser utilizada em duas categorias gramaticais distintas, a saber, substantivo e adjetivo. Por outro lado, composições sintagmáticas como “alta definição” e “alta perfomance” apresentam priming coligacional negativo para serem !194 utilizadas em categorias gramaticais diferentes, pois em todas as ocorrências foram utilizadas como adjetivo. Ademais, sobre a preferência coligacional das composições sintagmáticas, verificamos, a partir da análise, que as composições formadas a partir do vocábulo “farol” e “sensor” possuem um priming coligacional positivo por ocorrerem no plural. Todavia, as composições formadas a partir do vocábulo “suspensão” possuem um priming coligacional negativo para ocorrência no plural, tendo em vista que em todas as ocorrências ocorreram no singular. Essas informações são essenciais para a ampliação lexical do falante, pois, segundo Richard (1976), o conhecimento de uma unidade lexical também envolve reconhecer as restrições de uso de uma palavra de acordo com as variações de função e situação. Desta forma, entendemos que para conhecer uma unidade lexical e que ela seja parte do repertório lexical do falante é necessário, portanto, também saber sobre a preferência coligacional dessa palavra, dentro de um determinado contexto. Corroborando o pressuposto de Richard (1976), Nation (1990) argumenta que, para um falante adquirir o conhecimento receptivo e produtivo de uma palavra, é necessário que ele tenha informações sobre o comportamento gramatical dessa unidade lexical. Logo, os dados revelados pela análise, no que tange ao priming coligacional, podem contribuir significativamente para uma ampliação do repertório lexical do falante e para a consolidação de conhecimentos receptivos e produtivos, utilizados na recepção e produção de textos. 5.2.5 Características e mudanças das composições sintagmáticas em contexto Em nossa análise foi verificado se algumas composições sintagmáticas sofreram, de alguma forma, mudanças no discurso publicitário, mesmo levando em consideração que a fixidez e a estabilidade formal são características marcantes dessas unidades lexicais. Como estamos falando de unidades lexicais que já passaram pelo processo de lexicalização, a estabilidade formal deveria prevalecer. No entanto, constatamos que as composições sintagmáticas sofreram vários tipos de mudanças quando utilizadas no contexto publicitário. Todavia, essas mudanças não !195 descaracterizam as composições sintagmáticas como unidades lexicalizadas, mas revelam o caráter dinâmico da língua e sua capacidade de adaptação em contextos. E essas adaptações assumidas pelas composições sintagmáticas em nossa análise podem ser aproveitadas no ensino de língua portuguesa a favor do desenvolvimento da competência lexical. Sobre as atividades de exploração de significados das palavras, Antunes (2012) chama atenção para o fato de que apenas os sinônimos e antônimos são explorados, enquanto outras relações semânticas são esquecidas. Todavia, o grande problema não está no fato de a escola privilegiar os sinônimos e os antônimos como atividades de exploração do significado, mas está na forma como esse tipo de atividade é explorada, sempre pela operação de substituição de uma palavra pela outra em uma frase. Sobre esse assunto, concordamos com Antunes (2012, p. 24) quando ela diz que esse tipo de exercício esconde o que acontece em nossa experiência verbal, onde, funcionalmente, as substituições de uma palavra por seu sinônimo ou a ocorrência de seu antônimo acontecem não pelo corte da primeira e o uso na segunda, mas pela presença simultânea das duas na superfície do texto (ANTUNES, 2012, p.24) Desta forma, entendemos que explorar o significados das palavras a partir dos sinônimos pode se tornar uma atividade poderosa em sala de aula, pois, além de ampliar a visão do aluno sobre os significados das palavras, o aluno também pode utilizar esse conhecimento consolidado sobre os sinônimos como mecanismos de coerência e coesão em um texto, por exemplo. Nesse sentido concordamos com Antunes (2012, p. 35) quanto ela diz que “a ocorrência de palavras sinônimas é textualmente significativa; sobretudo pela continuidade semântica que promove no curso do texto (…).” Sobre o desenvolvimento da competência lexical, Richard (1976) sublinha que conhecer o valor semântico das palavras favorece a ampliação lexical de um falante/aluno. Em nosso corpus, encontramos diversas composições sinônimas, porém daremos ênfase as composições sinônimas que foram criadas a partir de vocábulos de valores semânticos opostos, por considerarmos esse fato um recurso interessante a ser explorado no ensino. As composições “sensor de proximidade” com “sensor de distância” e “entrada HDMI” com !196 “saída HDMI” são exemplos de sinônimos, mas que foram compostas pelos vocábulos com significados opostos, ‘distância’, proximidade’ e ’saída’,’entrada’. Logo, esses exemplos podem ser explorados para mostrar ao aluno que, na relação de significados das palavras, nem sempre as palavras que possuem valores semânticos opostos são antônimas, ou as palavras que possuem valores semânticos similares são sinônimas. Sobre esse assunto, Antunes (2012) argumenta que, sobre a sinonímia, é interessante observar a instabilidade do léxico, que faz com que os sentidos das palavras sofram ‘deslizes’ e vão ‘escorregando’ para ganhar novas significações. Para a pesquisadora, os antônimos também sofrem dessa instabilidade lexical e, nessa perspectiva, seus valores semânticos podem ser alterados, assim como evidenciado pelos exemplos apresentados anteriormente. Além das composições sintagmáticas sinônimas, outro ponto a ser explorado em sala de aula, pela riqueza de informação, recai sobre o processo de redução das composições sintagmáticas, que consiste em um fenômeno de perda de um vocábulo. Encontramos em nosso corpus diversos exemplos em que a composição sintagmática sofre a perda de um vocábulo, passando assim, por um processo de redução. Por exemplo, as composições “sensor automático de chuvas” e “sensor de auxílio para estacionamento” sofrem uma redução e passam a assumir as formas “sensor de chuva” e “sensor de estacionamento”. Nos exemplos citados, não há alteração no significado das composições após a perda de elementos, porém encontramos exemplos em que o processo de redução também causa alteração no significado. A composição “ar condicionado automático digital”, ao sofrer um processo de redução e assumir a forma “ar condicionado digital”, tem também seu significado alterado. Sobre o processo de redução das composições, Ferraz (2010) afirma que a modificação na sequência linear dessas estruturas merece a devida atenção, pois reflete a manifestação de dois fatores que se confrontam, o caráter analítico das composições e as exigências de economia verbal. Ferraz (2010, p. 46) ainda acrescenta que o estudo do caráter polilexical dos sintagmas em vias de lexicalização permite observar aspectos relevantes no que concerne a redutibilidade formal desse tipo de unidades lexicais. É que o fenômeno de redução, em que muitas vezes a forma modificada co-ocorre com a base matricial, nos induz a refletir a necessidade de reconsideração de sintagma terminológico. !197 O referido pesquisador acrescenta ainda que o fenômeno da redução traz à tona a necessidade de revisão de aspectos característicos considerados como padrão para reconhecer as composições sintagmáticas, como a fixidez e a relação íntima entre a designação conceptual e a totalidade formal dos sintagmas. Logo, explorar o processo de redução das composições em sala de aula é também uma forma de conscientizar e estimular o aluno a fazer uma reavaliação de características e da capacidade de mudanças e adaptações das unidades lexicais quando em contextos, para que, assim, o aspecto dinâmico da língua seja revelado para o aluno. Outro ponto que pode ser explorado no ensino de língua portuguesa é a neologia lexical por empréstimos. Trata-se de um mecanismo comum da maioria das línguas vivas, pois quando um sistema linguístico não dispõe de uma determinada unidade lexical para nomear, por exemplo, uma nova tecnologia, ele a importa de outros sistemas linguísticos. Muitas vezes, a palavra importada aparece com a mesma forma do sistema de origem, mas também pode acontecer o decalque, ou seja, a tradução direta. Em nosso corpus há várias composições sintagmáticas que se configuram como decalque, mostrando que esse tipo de empréstimo linguístico é bem comum. Contudo, uma ocorrência de decalque encontrado em nossa análise mostra que pode existir uma instabilidade lexical quanto à forma da tradução direta, uma vez que há uma inversão na sequência linear da composição. Verificamos que coexistem no corpus da publicidade, especificamente na área de especialidade da automobilística, as composições “controle eletrônico de estabilidade” e “controle de estabilidade eletrônico” como decalque da composição, oriunda do inglês, “Electronic stability control”. Como a neologia por empréstimos faz parte da história da formação da língua portuguesa, entendemos a importância de se explorar o produto desse mecanismo, mas também acreditamos que, ao aprofundar na investigação de como se dá a neologia por empréstimo em sala de aula, exemplificando, por exemplo, a possibilidade de inversão linear da composição, o aluno poderá ter a dimensão real sobre o constante processo de renovação da língua. !198 5.3 A estrutura lexical das composições sintagmáticas da publicidade A análise quantitativa da estrutura lexical das composições dentro do contexto publicitário revelou informações importantes sobre o priming lexical que podem ser exploradas no ensino de português a favor não apenas da ampliação lexical qualitativa dos alunos, mas também do conhecimento mais aprofundado da língua através do estudo explícito das unidades lexicais em contexto. Após a análise dos dados, verificamos que dentre as composições sintagmáticas denominadas padrão, que possuem até três elementos, a estrutura “nome + adjetivo” foi a mais produtiva. Já as composições longas, que possuem mais de três componentes, a produtividade quanto à estrutura lexical girou em torno da estrutura “nome + preposição + nome + adjetivo”. Dentre as composições formadas por siglas, vernáculas ou estrangeiras, encontramos um número maior com a estrutura lexical “nome + sigla”. Por fim, as composições com a presença de um elemento estrangeiro a estrutura “nome + NOME”, sendo que a classe gramatical em caixa alta representa o elemento estrangeiro, foi a mais produtiva. Essas informações, além de enriquecer os estudos teóricos e práticos sobre as composições sintagmáticas, levando em consideração a estrutura lexical, que visam o o conhecimento desse tipo de unidade lexical, podem ser exploradas em sala de aula para proporcionar aos alunos um diagnóstico real do tipo de estrutura lexical que está sendo produtiva na língua. A análise quantitativa das composições sintagmáticas, no que concerne sua estrutura lexical, também evidenciou dados sobre o priming coligacional de algumas estruturas que podem ser aproveitadas no ensino de Português. Ficou evidente, por exemplo, que nas composições compostas por preposição, a preposição “de” foi a mais utilizada e as composições sintagmáticas em que a sigla era um dos componentes, esta tinha uma preferência por ocorrer como último elemento da composição. Ainda sobre o priming coligacional, verificamos que nas composições compostas pelo adjetivo como elemento estrangeiro, este ocorre sempre em posição final, o que demonstra uma facilidade em se adaptar as regras do português, já que em inglês o adjetivo, na maioria das vezes, ocorre em posição inicial de uma composição. Logo, essas informações !199 podem contribuir para os estudos de léxico em sala de aula, pois concordamos com Bezerra (1998), quando ele afirma que um dos requisitos para o desenvolvimento da competência lexical é o reconhecimento da estrutura dos itens lexicais, bem como suas relações morfossintáticas. !200 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS A fim de apresentar as contribuições deste trabalho, retomaremos nesse capítulo, o objetivos de estudo, buscando responder aos questionamentos que surgiram durante a proposição do objetivo e apontando, posteriormente, algumas sugestões para as pesquisas futuras. Este trabalho teve como objetivo principal demonstrar, a partir da análise das composições sintagmáticas neológicas, uma possível exploração das referidas unidades lexicais, presentes em textos publicitários, na sala de aula, em conformidade com a teoria Lexical Priming (Priming lexical) e a Lexical Approach (abordagem lexical). Ao chegarmos a esse objetivo esperamos evidenciar a possibilidade de se trabalhar o léxico em sala de aula a partir de uma abordagem em que este é colocado como ponto central e, desta forma, facilitar a absorção de informações sobre a língua que possam auxiliar o aluno no desenvolvimento da competência lexical. Para a análise, contamos com um corpus composto por textos publicitários, nos quais o foco de análise foram as composições sintagmáticas presentes nesses textos. Os textos, retirados das revistas Veja, IstoÉ e Época, de grande circulação nacional, sugerem que o objeto de pesquisa circula comumente e, desta forma, a análise do Priming Lexical das composições sintagmáticas ganha uma grande relevância. Ao traçarmos o objetivo central desta pesquisa, vários questionamentos surgiram durante o trajeto que culminou na proposta que foi aqui desenvolvida. Esses questionamentos serão brevemente retomados nesse capítulo e irão evidenciar a contribuição que este trabalho pode oferecer para os estudos lexicais teóricos e aplicados. O principal questionamento surgiu em torno da existência de um priming lexical que permeasse o uso das composições sintagmáticas no discurso publicitário. Esse priming lexical, portanto, iria revelar informações sobre a utilização das composições sintagmáticas em um contexto de uso real. Ademais, essas informações poderiam ser exploradas no ensino de português a favor do desenvolvimento da competência lexical e discursiva. O contexto de ensino e aprendizagem de português, portanto, adotaria uma abordagem em que o léxico fosse o ponto central e, desta forma, o ponto de partida para as práticas pedagógicas em sala de aula. !201 Nossa análise revelou a existência de um priming lexical que permeou a utilização das composições sintagmáticas no discurso publicitário e evidenciou que existe um padrão de uso das composições no que se refere aos aspectos semântico, gramatical, lexical e textual. No que tange ao aspecto semântico, foi possível identificar que composições sintagmáticas formadas a partir de vocábulos considerados produtivos, apresentavam um padrão semântico associativo e, desta forma, foi possível mapear o potencial semântico dessas referidas unidades. Sobre o aspecto lexical ou colocacional, verificamos que algumas composições possuíam um priming positivo para se colocar sempre com a mesma preposição ou o mesmo pronome possessivo e, assim, foi possível identificar o padrão colocacional dessas composições sintagmáticas. Ademais, sobre o aspecto lexical discursivo, foi possível identificar que algumas composições possuíam o priming positivo para formar correntes ou ligações coesivas dentro do discurso publicitário, demostrando o potencial lexical discursivo dessas unidades. Por fim, a respeito do priming gramatical ou coligacional, ficou evidente que algumas composições possuem um priming positivo para a mudança de classe, enquanto outras, para ocorrerem sempre flexionadas de modo específico, seja no plural ou singular, revelando um padrão coligacional especifico dentro do discurso publicitário. Importa mencionar que os padrões associativos encontrados dizem respeito ao padrão de uso no discurso publicitário, de modo que, ao analisar essas unidades lexicais em outros gêneros, podemos identificar padrões diferentes. Deste modo, os resultados encontrados em nossa análise não são generalizáveis, pois indicam um padrão de uso dentro dos textos publicitários. Todavia, esse fato não invalida esta pesquisa, mas, ao contrário, evidencia a possibilidade de pesquisas futuras a fim de identificar o priming lexical em outros contextos e também em outras unidades lexicais. Outro questionamento girou em torno de como as informações reveladas pela análise, sobre o priming lexical, poderiam ser aproveitadas em sala de aula e para qual finalidade. Primeiro, consideramos que esta pesquisa, cuja base teórica está fundamentada em uma teoria lexical, sugere automaticamente uma mudança de abordagem pedagógica. Concordamos com Lewis (1993) e Hoey (2005) quando eles dizem que o léxico é sistematicamente estruturado e !202 a gramática é o resultado dessa estrutura. Desta forma, estamos sugerindo uma mudança do foco, de uma abordagem gramatical para uma abordagem lexical. Em segundo lugar, as informações sobre as unidades lexicais analisadas são relevantes para uma ampliação lexical qualitativa, já que vão ao encontro dos pressupostos teóricos estabelecidos por Richard (1976), Nation (1990) e Tréville e Duquette (1996) sobre o desenvolvimento da competência lexical. Por fim, os dados revelados pela análise também evidenciam a possibilidade de trabalhar com o léxico em uma perspectiva textual-discursiva. Em outras palavras, assim como Antunes (2012), assumimos que o estudo de léxico em sala de aula pode levar o aluno ao desenvolvimento da competência discursiva, que, consequentemente, o auxiliará tanto na produção quanto na produção de textos orais ou escritos. Em outro questionamento, refletimos sobre a utilização de teorias lexicais que, originalmente, foram elaboradas e aplicadas na língua estrangeira, mas que nesta pesquisa, cujo foco recaí sobre a língua portuguesa como língua materna, serviu como base teórica. Sobre esse assunto, Lewis (1993) afirma que o léxico pode ser tanto aprendido quanto adquirido e que, portanto, a distinção entre aprender e adquirir não se aplicaria aos itens lexicais, nem mesmo às palavras individuais. A aquisição que, na distinção de Krasen e Terrell (1983), acontece por meio de um processo automático que se dá no nível do subconsciente pela necessidade de comunicação, se equivale com o processo de aquisição de língua materna. Já a aprendizagem, que acontece através de um processo consciente, resultante do conhecimento formal que o indivíduo tem em relação a estrutura e o funcionamento da língua está sempre associada com o ensino de uma língua estrangeira. Contudo, como essa distinção não se aplica aos itens lexicais, a utilização de teorias lexicais formuladas para o ensino de língua estrangeira pode ser perfeitamente aplicada no ensino de língua materna para o ensino do léxico. Além disso, como não dispomos de teorias lexicais para o ensino do léxico, a utilização da Lexical Priming e da Lexical Approach no contexto de ensino-aprendizagem de português representa um grande contributo para essa linha de pesquisa. O último questionamento indagava a relevância de se trabalhar com um corpus formado por composições sintagmáticas neológicas. Nesse sentido, compartilhamos a reflexão de Antunes (2012), quando ela sinaliza a importância na formação de um aluno, !203 enquanto sujeito social, participar da vida do léxico da língua para que este adquira consciência - por meio do léxico-, que a língua está sempre em constante transformação e movimento. Ademais, o trabalho com as composições neológicas também oferece a oportunidade de um diagnóstico real das estruturas que estão surgindo na língua via publicidade e, desta forma, oferece a possibilidade de identificar um quebra de paradigma ou desvio de norma, no que diz respeito aos aspectos semântico, lexical ou gramatical. É importante salientar que muitas das implicações advindas deste estudo não se destinam apenas aos alunos, mas ao contexto brasileiro de ensino e aprendizagem de língua portuguesa. Logo, fica evidente a necessidade de mais pesquisa, em especial, em corpus maiores e discursos diversos para que se possa identificar o priming lexical e, consequentemente, o padrão de uso das unidades lexicais. Assim, entendemos que a investigação do priming lexical em corpus é um campo frutífero de investigação, que pode ser ainda pesquisado e abordado a partir de múltiplas perspectivas. Desta forma, faço as seguintes sugestões para futuras pesquisas: 1) Investigação do priming lexical em gêneros textuais variados, a fim de identificar novos padrões de usos das unidades lexicais, considerando também as palavras individuais; 2) Estudos comparativos do priming lexical de unidades lexicais quando utilizadas em discursos diferentes e também em outras línguas; 3) Pesquisas descritivas teóricas que foquem e aprofundem no estudo das composições sintagmáticas e seu padrão de uso em contexto; 4) Pesquisas no âmbito do Processamento Automático das Línguas Naturais que visam à produção de tradutores eletrônicos para que aprofundem nas questões do priming lexical, sobretudo do priming semântico; 5) Pesquisas lexicográficas, cujo foco seja o aprofundamento do comportamento dos itens lexicais em contexto para a elaboração de dicionários. Finalmente, esperamos ter contribuído para a compreensão de que o léxico é um componente sistematicamente organizado e capaz de fornecer informações sobre padrões de uso e estrutura da língua que podem ser fundamentais no desenvolvimento de habilidades necessárias para formar um aluno competente em sua língua. O desenvolvimento de competências em uma língua nunca é feito de uma única forma, assim, compreender as !204 múltiplas perspectivas envolvidas em um processo tão complexo é importante para que os professores e pesquisadores possam entender os desafios educacionais. Ao compreendermos a importância que o léxico representa para o desenvolvimento dessas competências, buscamos preencher algumas lacunas e lançar mais uma luz sobre os estudos lexicais voltados para o ensino de língua portuguesa. Os resultados deste estudo não esgotam as perguntas a serem respondidas, contudo apontam para a possibilidade de uma mudança de perspectiva nas práticas pedagógicas em sala de aula, onde o léxico seria o ponto central do ensino de língua portuguesa. !205 REFERÊNCIAS ABALADA, S.; CABARRÃO, V. & CARDOSO, A. Proposta de Classificação Semântica de Unidades Lexicais Multipalavra Nominais. In: Textos Seleccionados do XXV Encontro Nacional da APL. Porto, 2010 p. 81-94. AITCHISON, J. Words in the mind: an introduction to mental lexicon. Oxford, Basil Blackwell, 1987. ALVES, M. I. Neologismos: Criação lexical. São Paulo: Editora Ática, 1994. ———, M. I. A neologia do português brasileiro de 1990 a 2009: tradição e mudança. In: ALVES, Ieda Maria (Org.). Neologia e neologismos em diferentes perspectivas. São Paulo: Paulistana, 2010. ANTUNES, I. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. São Paulo: Parábola Editorial, 2007. _________, I. 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