UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE EDUCAÇÃO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO LATO SENSU EM DOCÊNCIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL SIMONE SOCORRO SOUTO SANTOS AS PERCEPÇÕES DAS CRIANÇAS DO 1º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL SOBRE A PASSAGEM ENTRE OS NÍVEIS INICIAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA BELO HORIZONTE 2015 1 SIMONE SOCORRO SOUTO SANTOS AS PERCEPÇÕES DAS CRIANÇAS DO 1º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL SOBRE A PASSAGEM ENTRE OS NÍVEIS INICIAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização apresentado como requisito parcial para a obtenção de título de especialista em Educação Infantil pelo Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Docência na Educação Infantil da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Orientadora: Doutora em Educação Cecília Vieira do Nascimento BELO HORIZONTE 2015 2 SIMONE SOCORRO SOUTO SANTOS AS PERCEPÇÕES DAS CRIANÇAS DO 1º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL SOBRE A PASSAGEM ENTRE OS NÍVEIS INICIAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização apresentado como requisito parcial para a obtenção de título de especialista em Educação Infantil pelo Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Docência na Educação Infantil da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Aprovado em 28 de novembro de 2015 BANCA EXAMINADORA Orientadora: Cecília Nascimento – Faculdade de Educação da UFMG Convidada: Cibele Noronha – Faculdade de Educação da UFMG 3 RESUMO Esta pesquisa aborda o processo de transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental em uma instituição municipal de ensino, na cidade de Belo Horizonte. Foi realizada uma pesquisa de campo com 08 crianças que concluíram a Educação Infantil e que estão no Ensino Fundamental. Através de desenhos, elas relatam quais as principais mudanças que ocorreram nessa passagem. Para fundamentar minha pesquisa, utilizei autores como Flávia Motta, Maria Cristina Gouvêa, Vanessa Neves, Sônia Kramer, e outros. Palavras-chave: Educação Infantil, Ensino Fundamental, Transição, Infância. ABSTRACT This intervention will deal with the early childhood education of transition to elementary school. A field research with 08 children that they were my students in early childhood education and they are now in elementary school will be made. Through drawings, they will report what the main changes that have occurred in this passage. To support my research, I will use as authors Flávia Motta, Maria Cristina Gouvea, Vanessa Neves, Sonia Kramer, and others. Keywords: Early Childhood Education, Elementary Education, Transition, Childhood. 4 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO................................................................................. .. 6 Características da escola e da comunidade............................... 10 O projeto político pedagógico (PPP)........................................... 12 O perfil das crianças analisadas................................................. 13 CAPÍTULO 1 – IDEIAS EM DIÁLOGO: A LITERATURA SOBRE TRANSIÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA................................................................................................ 14 Capítulo 2: Entre o simbólico e o oral: desenhos e conversas com as crianças sobre a transição da Educação Infantil para a Educação Básica.................................................................................................. 20 3. EXECUÇÃO DAS ATIVIDADES ........................................................ 21 4. ANÁLISE............................................................................................ 22 5. CONCLUSÃO.................................................................................... 35 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................... 37 5 Dedico este trabalho aos meus pais, que sempre ressaltaram a importância dos estudos na vida do ser humano e que fizeram com que os meus sonhos se tornassem realidade. 6 APRESENTAÇÃO Qual! Não posso interromper o memorial: aqui me tenho outra vez com a pena na mão. Em verdade, dá certo gosto deitar ao papel coisas que querem sair da cabeça, por via da memória ou da reflexão. (ASSIS, 1908, p. 50) Venho buscar em minha memória o passado que agora trago em meu presente. Recordações marcantes em minha vida, realizações, conquistas, decepções... Tudo começa a ser lembrado e me ponho a escrever estas poucas linhas. Sou mineira, nascida na cidade de São Pedro do Suaçuí, filha única de José Paulo dos Santos e Angélica Leão Souto Santos. Os dois, também nascidos na mesma cidade, moravam em uma fazenda. Minha mãe, quando jovem, saiu para estudar em Peçanha, uma cidade próxima à nossa, tendo formado em magistério. Meu pai, não teve as mesmas condições, pois, sendo o braço direito do meu avô, precisou priorizar o trabalho da roça, conseguindo estudar somente até a 4ª série do ensino fundamental. O trabalho neste momento se tornou mais importante que os estudos, já que na época a educação era para poucos e o acesso era mais difícil que nos dias de hoje. Com a morte de meu avô, meu pai veio para Belo Horizonte para trabalhar e nós viemos dois anos depois. Ao relembrar minha infância, penso nos vários lugares que conheci, em objetos que foram importantes, em pessoas com as quais interagi. Esses elementos compõem situações sociais únicas, relembrando diferentes contextos culturais e experiências de vida. Lendo assim, não se pode falar em uma única infância e, sim, em infâncias. Iniciei meus estudos aos cinco anos de idade no jardim de infância. Lembro-me até hoje da diretora, D.Valquíria. A Educação Infantil na época era ofertada em poucas escolas públicas. A maioria das instituições era privada, por isso o acesso às vagas era tão difícil. Desta época tenho vaga memória, mas me lembro bem de Karla, uma amiga com a qual estudei até o 2º grau, quando nossa trajetória mudou de rumo, pois eu escolhi o magistério e ela, processamento de dados. 7 Das séries iniciais guardo a música da escola, a grande árvore (com ótima sombra), o Hino Nacional que cantávamos em fila em frente à escola e a merenda, que era muito boa. Lembro-me também da diretora, D.Zilah, muito brava, e das professoras Eliane, que era muito boa, e Márcia, que quase me arrancou a orelha por causa de umas flores que eu perdi. Sempre gostei de estudar. Era caprichosa e dedicada e minha mãe nunca teve problemas para que eu estudasse. No ensino fundamental continuei fazendo meus trabalhos, agora em grupo e estudando cada vez mais. Durante os estudos fiz um curso de natação que posteriormente veio acrescentar ao meu currículo, pois devido a ele comecei a trabalhar dando aulas de natação. Estudei sempre em escolas públicas, mas o 1º ano do ensino médio cursei em escola particular. Essa mudança se deu pelo fato de que havia poucas escolas na região que ofereciam ensino médio, tornando o ingresso nas mesmas muito difícil. Ao concluir o magistério, comecei a trabalhar em escolas particulares na educação infantil. A primeira experiência foi como auxiliar de classe e em seguida passei a ser professora na mesma escola – Oficina – Centro de Criatividade e Recreação, hoje Colleguium. Trabalhei com o maternal e me apaixonei. Daí em diante não parei mais. Logo em seguida tive a oportunidade de trabalhar com a faixa etária de 4 anos em outra escola, também particular – NAI – Núcleo de Aprendizagem Infantil. Trabalhei também com crianças portadoras de necessidades especiais na escola Psique, no bairro Santa Tereza. Ingressei como professora na rede municipal de Belo Horizonte em 2004, no primeiro concurso realizado para a educação infantil e, desde então, trabalho na Escola Municipal Jardim Felicidade com a faixa etária de 4 e 5 anos. Paralelo à Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), trabalho há sete anos com educação infantil no contra-turno no município de Ribeirão das Neves, região 8 metropolitana de Belo Horizonte, onde desenvolvo trabalho com a mesma faixa de idade. Em 2006 participei do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e, através da nota obtida, me inscrevi no PROUNI, conseguindo bolsa integral para o curso de Pedagogia. Comecei o curso em 2007 e conclui em 2010. Por ocasião, participei de muitos cursos de formação ministrados pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), na área de educação infantil, unindo a teoria à prática. No ano de 2014 participei do processo de seleção na UFMG para o curso de Especialização em Docência na Educação Infantil (pós-graduação latu sensu). Tenho, desde então, lido as teorias que sustentam a minha prática pedagógica e refletido sobre as concepções que permeiam o processo de ensino e aprendizagem. Hoje, acredito que possibilitar uma aprendizagem significativa aos alunos exige a ressignificação do processo de aprender do próprio professor. E acreditando neste processo de aprendizagem do professor é que busquei pesquisar sobre “A percepção das crianças do 1º ano sobre a passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental”. São várias passagens na nossa vida, e uma delas é a transição que ocorre na Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Desde cedo passamos por várias transições e a pesquisa mostra vários fatores que levam a criança a vivenciar dia após dia esta ruptura. Assim sendo, a pesquisa é o ato pelo qual procuramos obter conhecimento sobre alguma coisa. Com essa definição tão ampla, podemos dizer que estamos sempre pesquisando em nossa vida. Escolhi o tema porque eu acredito que a transição da educação infantil para a educação básica é um momento importante na vida da criança. Pesquisar esse tema proporciona pensar em maneiras de fazer dessa transição um momento mais “agradável” para as crianças. Assim, isso não 9 gerará desconfortos que poderão desencadear complicações futuras, como a falta de interesse do aluno ou aluna, por exemplo. Objetiva-se neste, estudo, analisar percepções das crianças do 1º ano do Ensino Fundamental sobre a passagem entre os níveis iniciais da Educação Básica. Pretende-se ainda, como objetivos específicos, pensar estratégias que amenizem os impactos da transição, apontados na pesquisa, durante a Educação Infantil, bem como pensar estratégias que amenizem os impactos da transição, apontados na pesquisa, durante o Ensino Fundamental. Este trabalho é uma intervenção e tem como preceito a abordagem de vivências. Para observar como essa transição ocorre, as crianças analisadas farão desenhos orientados sobre o tema. Registrar o processo de pesquisa pode ser compreendido, segundo Tânia Gebara (2004, p. 15), é discorrer sobre dilemas, alegrias, dificuldades, descobertas, surpresas, questionamentos, posturas e escolhas (...) o processo de trabalho que foi se desenvolvendo, avaliando a necessidade de pontuar aspectos que antecedam a sua escrita, bem como o processo em si (elaboração da questão central, escolha metodológica, coleta e análise de dados) e questões posteriores à escrita da primeira versão, até chegar à versão atual. Neste meu trabalho também é abordada a elaboração do questionamento principal, análise dos desenhos feitos pelas crianças, fundamentação teórica com base nas autoras da área, dentre outros aspectos que são necessários para a realização de uma pesquisa. O motivo da escolha dos desenhos é que, como as crianças ainda não dominam a escrita, os registros poderão acontecer através de outras manifestações simbólicas. Pinto e Sarmento (1997, p. 27) apud Gobbi (2009) afirmam que: “o estudo das crianças a partir de si mesmas permite descortinar uma outra realidade social, que é aquela que emerge das interpretações infantis dos respectivos mundos de vida”. Ainda, é lembrado por Sarmento (2011, p. 28): O desenho infantil insere-se entre as mais importantes formas de expressão simbólica das crianças. Desde logo, porque o 10 desenho precede a comunicação escrita (na verdade, precede mesmo a comunicação oral, dado que os bebês rabiscam antes ainda de articularem as primeiras palavras). Características da escola e da comunidade A Escola Municipal Jardim Felicidade foi escolhida para a realização desta pesquisa, por ser meu local de trabalho. Ela encontra-se na Rua Expedicionário Jesus Ramos, número 250, bairro Conjunto Felicidade, em Belo Horizonte. A instituição educacional foi inaugurada em agosto de 1990. Quando a Educação Infantil deu início na Prefeitura de Belo Horizonte em 2004, eram poucas UMEIS (Unidade Municipal de Educação Infantil) construídas, então as escolas municipais que tinham terreno foram ampliadas (construídas) para a construção de salas da E.I neste espaço. Assim, foram construídas 03 salas para atender às crianças da comunidade do Jardim Felicidade nos turnos, manhã e tarde. Hoje, a escola não atende mais às crianças do turno da tarde, e no turno da manhã atende apenas 02 turmas, encerrando totalmente a E.I. para o ano de 2016. Segundo “As proposições Curriculares para a Educação Infantil” (2013), elaboradas pela Prefeitura de Belo Horizonte, volume 1 e página 31: A LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) definiu a Educação infantil como responsabilidade do município, e, como não havia, naquele momento, financiamento para esta etapa advindo do Governo Federal, toda a ampliação deveria ser assumida financeiramente pela Prefeitura. Por esse motivo, a ampliação da E.M. Jardim Felicidade, que acolhia às crianças da Educação Infantil, foi uma responsabilidade da E.M. Jardim Felicidade. Porém, com a implantação do projeto da Unidade Municipal de Educação Infantil (UMEI), houve mudanças nas políticas municipais de Educação Infantil. Assim, as ampliações deixariam de existir, sendo as crianças acolhidas pelas UMEIs. Segundo “As proposições Curriculares para a Educação Infantil” (2013), elaboradas pela Prefeitura de Belo Horizonte, volume 1 e página 31: 11 Os espaços das UMEIs foram projetados por arquitetos, engenheiros e pedagogos, para atender às especificidades e necessidades das crianças pequenas. Um projeto arrojado, orientado pela concepção de criança e educação defendida na RME, implementado pelo Núcleo de Execução de Projetos Especiais – Educação Infantil, da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (NEPEI/SUDECAP). Então, é possível perceber que as UMEI’s foram criadas pensando nas especificidades das crianças pequenas. No turno da manhã, a escola proporciona acolhimento aos alunos do 1° e 2° ciclos do Ensino Fundamental e proporcionou o anexo da Educação Infantil com três turmas pela manhã e três turmas pela tarde também. No período da tarde, a escola atende às turmas do 3° ciclo. A Prefeitura de Belo Horizonte se organiza por ciclo e na E.M Jardim Felicidade funciona o primeiro ciclo, constituído pelo 1°, 2° e 3° ano do Ensino Fundamental; e, também no turno da manhã, há o 4° ano que pertence ao 2º ciclo. No turno da tarde, há o 5° e o 6º ano que pertencem ao 2° ciclo. Ainda no turno da tarde, há o 3° ciclo composto pelos 7°, 8° e 9° ano. No turno da noite, existe o atendimento aos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ao todo, são atendidos 795 alunos. Há, ainda, os projetos Escola Integrada, Escola Aberta e Escola de Férias. O quadro de funcionários é composto por 49 professores, sendo que sete deles atuam como coordenadores pedagógicos nos turnos existentes. A escola possui, também, uma diretora e uma vice-diretora. Além disso, a escola conta com 02 porteiros, 02 vigias, 08 profissionais da limpeza e 07 da cantina. A estrutura da Escola Municipal Jardim Felicidade é composta por 16 salas de aula. Em uma dessas salas, ocorre o Projeto Intervenção Pedagógica (PIP), que é um projeto criado pela Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, que tem o objetivo de correção da defasagem da qualidade do ensino proporcionado. Ou seja, os alunos têm um reforço dos conteúdos para poderem acompanhar os outros colegas em sala de aula. Há, também, sala de 12 professores, secretaria, biblioteca, laboratório de informática, sala de coordenação pedagógica, sala de direção e vice-direção, sala de mecanografia e almoxarifado, auditório, quadra de esportes coberta, cantina, vestiário com banheiros masculino e feminino, pátio e local para estacionamento. Atualmente, a escola atende às duas salas da Educação Infantil pela manhã somente. No período da tarde, a Educação Infantil já encerrou suas atividades e em 2016 encerrará suas atividades no período da manhã. A escola atende aos alunos residentes no próprio bairro e em outros nos arredores. A comunidade atendida possui renda econômica baixa, segundo pesquisa realizada pelo IPEAD – UFMG – FACE (2005). A vizinhança encontra-se em situação de vulnerabilidade social em função de violência. Por isso, a escola tenta realizar projetos e acolhimento à comunidade escolar para amenizar a violência da comunidade em que o instituto educacional está inserido. O Projeto Político Pedagógico da Escola (PPP) O Projeto Político Pedagógico da Escola Municipal Jardim Felicidade, que foi fundada em 27/08/1990, tem como norteador o fornecimento de espaço físico, político e cultural para a formação cidadã e crítica da comunidade em que a escola está inserida. Especificamente, para a Educação Infantil tem-se o objetivo de propiciar um local em que haja vivências construtivas para o campo do desenvolvimento físico, psicológico, intelectual e social das crianças atendidas. Além de estimular o interesse do aluno para o processo de transformação da natureza e com a convivência da sociedade, pretende proporcionar, também, o estímulo à criatividade como modo de expressão própria e formação cidadã. Já no Ensino Fundamental, há o objetivo de construir a compreensão cidadã e incentivar a participação social, além de desenvolver o pensamento crítico sobre a criação do Brasil em todos os âmbitos e construir a 13 compreensão e criação de diferentes linguagens no intuito de proporcionar o acesso ao conhecimento. O perfil das crianças analisadas O grupo de crianças que participam deste estudo é composto por 03 meninas e 05 meninos que possuem 6 anos de idade. Eles foram meus alunos e alunas pelo período de um ano e agora estão com outra professora, cursando o primeiro ano do Ensino Fundamental. Eles contam, através de desenhos, quais as suas percepções quanto às mudanças vivenciadas por eles na passagem da educação infantil para o ensino fundamental. O nome das crianças foi alterado ao serem retratados nessa pesquisa, como modo de preservar seu anonimato. 14 CAPÍTULO 1 – IDEIAS EM DIÁLOGO: A LITERATURA SOBRE TRANSIÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA A pergunta que motivou este estudo é: Quais as principais percepções vivenciadas pelos alunos egressos da Educação Infantil para a Educação Básica? Sabe-se que a fase de transição entre a Educação Infantil e a Educação Básica é um momento de muitas mudanças para os alunos. Para Mônica Baptista (2010, p. 107-108), a transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental pode ser vista, por exemplo, através da cultura escrita: Diferentemente do que se acreditou até algumas décadas atrás, o contato precoce da criança com a cultura escrita favorece uma ampla gama de aprendizagens fundamentais para a aquisição e a apreensão do sistema de escrita. Além disso, também se tem ressaltado que alguns conceitos, habilidades e atitudes em relação à leitura e à escrita podem ser adquiridos, fora do contexto de escolarização obrigatória. As interações entre os pequenos aprendizes e o sistema de escrita, devidamente mediadas e estimuladas, além de simples entretenimento, criam condições favoráveis para que as crianças, dentre inúmeras outras possibilidades, pensem e elaborem hipóteses sobre o funcionamento do sistema de escrita, apropriem-se paulatinamente das regularidades e irregularidades desse sistema, desenvolvam o gosto pela leitura, pela apreciação estética, ampliem seu vocabulário, habituem-se ao estilo formal da linguagem. Percebi, com base na leitura do trecho, que a alfabetização, apesar de ser uma obrigação do Ensino Fundamental, tem o início com a familiarização das crianças com a cultura escrita. Isso ocorre na Educação Infantil. A Educação Infantil não tem o dever de alfabetizar, mas trabalha com letras, contação de histórias e outros fatores que levam para o mundo da criança a interação com as palavras no ambiente educacional. Complementarmente ao que é trazido por Baptista (2010), Sônia Kramer (2010, p. 116) cita: As práticas curriculares respondem a prioridades políticas, institucionais e pessoais. Para garantir o conhecimento do mundo e o reconhecimento do outro, é papel da Educação Infantil contribuir para a formação do leitor: a linguagem, a 15 cultura e a arte são fundamentais, como é o conhecimento científico. Kramer demonstra, no trecho acima, que as crianças frequentam a Educação Infantil para terem acesso à educação. Porém, a educação deve ser proporcionada através de momentos prazerosos de brincadeiras. Então, o propósito desta pesquisa é verificar quais são as percepções em um determinado grupo de crianças que foram meus alunos e que agora estão no primeiro ano do Ensino Fundamental, no que se refere a essa transição. Pois, dessa maneira, será possível uma comparação por minha parte para observar as mudanças e perspectivas das crianças. Para Inês Teixeira (2009, p.76) as experiências dos sujeitos sociais são observadas como: A experiência interior e exterior do tempo presente desses sujeitos é também lembrança e tradição, e ainda projeto. Nele estão artefatos, equipamentos, costumes e linguagens que persistem para além de sua origem e fabricação. Fatos, feitos, conhecimentos e significações deixadas por seus antecessores, como paisagens que não se despregam, circunscrevendo suas experiências presentes e perspectivas. No trecho acima, percebe-se que o sujeito social traz consigo lembranças e tradições que são construtoras e constituintes do próprio ser. Então, ao analisar-se o grupo de alunos, que é objeto de estudo dessa pesquisa, espera-se que as percepções de transição estejam presentes dentro da perspectiva do que é trazido pelos estudantes para esta nova fase da vida deles. John Dewey (2010, p. 52) enfatiza a importância da pesquisa sobre práticas: Já mencionei que planos e projetos educacionais que consideram a educação em termos de experiência de vida estão, consequentemente, comprometidos com a formulação e com a adoção de uma teoria inteligente ou, se me permitem dizer, com uma filosofia da experiência. A partir do que é exposto, explica-se que o projeto de intervenção consiste em proporcionar novas ideias e pensamentos para a questão abordada para o auxílio dos colegas de trabalho e melhor qualidade no processo educacional das crianças. Como é mencionado por Dewey, a 16 filosofia da experiência (passada pelas crianças analisadas) é um tipo de pesquisa inteligente para as vivências e questões da Educação Infantil. Ao relembrar minhas memórias de infância, imaginei vários lugares conhecidos para mim. Vários são os lugares que fazem parte da minha memória. Então, percebi que não possui uma infância, mas várias infâncias. Maria Cristina Gouvêa (2011) fala que nos situamos em relação à infância, entre o desconhecido e uma profunda identificação, pois a infância nos habita e nos visita por meio da memória, do remetimento a um passado que em nós ainda persiste e insiste. Por outro lado, tentamos compreender, significar e submeter a infância à lógica e racionalidade adulta. A seguir, Teixeira (2009, p. 76) enfatiza sobre a relação entre espaço e memórias do sujeito social: Os próprios espaços que percorrem estão impregnados pelo tempo. Na arquitetura, nos objetos e utensílios que compõem o universo, há marcas de ordem, fazendo do presente mais que hoje e do sujeito mais que agora, mesmo na volatilidade do mundo moderno. Então, infere-se que o ambiente na Educação Básica é consideravelmente diferente da Educação Infantil. E isso pode ser sentido pelos alunos. Para complementar, Teixeira (2009, p.77) fala sobre os sujeitos socioculturais: Sujeitos sócio-culturais são também seres concretos e plurais. São pessoas vivas e reais, existindo a partir de sua corporeidade e lugar social, a partir de sua condição de mulheres, homens, negros, brancos. Pertencem a diferentes raças e etnias. São crianças, jovens ou de mais idade; adeptos de variadas crenças e costumes. Têm desejos, projetos e atribuem variadas significações às suas experiências e ao mundo. Para entendê-los, é necessário considerar esses seus atributos, sejam eles adscritos ou adquiridos, pois tudo isto matiza sua existência e condição. Vê-se, logo, que os sujeitos são também socioculturais. Pois, eles trazem suas próprias experiências de vida e costumes externados em 17 pensamentos e lembranças. A partir desse preceito, serão observadas as percepções das crianças através de perguntas escritas, que embasarão uma conversa aberta, e desenhos realizados por elas. Espera-se que isso auxilie a nós, profissionais envolvidos com a educação, no entendimento dos pequeninos durante a transição e que essa pesquisa abra novas portas para buscas nessa área. Já foi mencionado que o objetivo desta pesquisa é demonstrar alguns aspectos sobre a transição dos alunos do Ensino Infantil para a Educação Básica. Para Motta (2014, p. 139), em suas observações e estudos, um dos aspectos que mais se destacou na passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental foi a maneira como se deu a transição. Esse é um conceito que poderá ser abordado pelos alunos. Stasiak (2010, p. 01) explica sobre o que pode ocorrer no processo de transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental em algumas crianças: “A transição ao primeiro ano do ensino fundamental, enquanto processo instigador do desenvolvimento, pode provocar o estresse em crianças. As demandas cotidianas neste período especial da vida podem ser frustrantes, irritantes e muito exigentes.” É possível perceber que esse momento de transição pode não ser fácil para as crianças. Com base nessa autora, percebi, mais uma vez, a importância de se estudar o assunto. Oliveira (2014, p. 02-03) menciona que a polarização (a não interligação entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental) da educação durante a infância é algo que pode prejudicar as crianças: Essas e outras questões nos demonstram a necessidade de reflexão sobre a não polarização do ensino, pois o que observarmos muitas vezes é que à Educação infantil cabe somente proporcionar as crianças experiências com o brincar e com a fantasia, e ao Ensino fundamental cabe ensinar as mesmas a aprendizagem da leitura e escrita, enfocando no ensino sistematizado. A fantasia e a brincadeira presentes na Educação Infantil, muitas vezes já não fazem mais parte deste cenário educacional quando as crianças passam para o Ensino fundamental. 18 O artigo 29 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB - 9.394/96, p.12) fala a respeito da educação infantil: Art. 29º. A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. A mesma lei diz sobre o ensino fundamental (1996, p. 12): Art. 32º. O ensino fundamental, com duração mínima de oito anos, obrigatório e gratuito na escola pública, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante: I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo; II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade; III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social. O que proporcionou a ampliação do Ensino Fundamental para 9 anos de duração é a lei 11.274/06. Então, percebe-se que o desenvolvimento da criança deve começar na educação infantil e ser continuado no ensino fundamental. Logo, os problemas relatados pelas crianças nesse processo de transição devem ser observados para que potenciais problemas futuros, oriundos dessa questão, não interfiram no desenvolvimento dos mesmos. Antes de realizar a análise dos desenhos feitos pelas crianças, irei fundamentar mais esta intervenção através da obra de algumas autoras que retratam o assunto. Sobre o processo de escolarização em si, Vanessa Neves (2010, p. 29) diz: O processo de escolarização da infância, seja na educação infantil ou no ensino fundamental, coloca os sujeitos sociais frente a práticas específicas pertinentes a essas instituições, com tempos e espaços diferenciados, posicionando-os em lugares socialmente demarcados. Cabe perguntar, então, quais seriam as diretrizes curriculares para a educação infantil que, mesmo não sendo obrigatória, é frequentada por uma 19 significativa parcela da população infantil, e para o ensino fundamental. Mesmo em se tratando de práticas, lugares sociais, tempo e espaços distintos e específicos, como salienta Neves, há que se destacar a necessidade de maior diálogo entre esses dois níveis, como modo de facilitar a transição e inserção de crianças pequenas. Percebi, então, o que é dito por Vanesa Neves pode ser dialogado com Sônia Kramer (2006, p. 804) que enfatiza sobre o assunto: A formação de profissionais da educação infantil – professores e gestores – é desafio que exige a ação conjunta das instâncias municipais, estaduais e federal. Esse desafio tem muitas facetas, necessidades e possibilidades, e atuação, tanto na formação continuada (em serviço ou em exercício, como se tem denominado a formação daqueles que já atuam como professores) quanto na formação inicial no ensino médio ou superior. Sendo assim, este estudo servirá como auxílio para a minha formação profissional. Logo, as crianças serão as maiores beneficiadas. Pois, com o conhecimento obtido a partir dos textos de Vanessa Neves e Sônia Kramer, percebi que o “ensinar brincando” proporciona como consequência o aprendizado durante a educação infantil. 20 Capítulo 2: Entre o simbólico e o oral: desenhos e conversas com as crianças sobre a transição da Educação Infantil para a Educação Básica Neste trabalho, destaco a importância do diálogo com duas autoras: Inês Teixeira (2009) e Flávia Motta (2014). A importância de Inês Teixeira neste trabalho ocorre porque, como um estudo que dialoga diretamente com minha vivência e experiência profissional, utilizo as minhas memórias de infância para elaborá-lo. Então, a referida autora utiliza desse instrumento, também, para as teorias dela. Já Motta (2014) é utilizada para fundamentar as respostas analisadas das crianças às teorias de transição entre Educação Infantil e Ensino Fundamental. Pretende-se, como exposto, analisar a transição para o Ensino Fundamental das crianças que foram minhas alunas na Educação Infantil em 2014 e que agora estão no Ensino Fundamental. Para isso, analisarei as perspectivas e impressões delas das diferenças entre os dois níveis de ensino. A observação será concomitante ao registro. Pensar em como as questões expostas pelas crianças podem ser amenizadas tanto durante a Educação Infantil quando durante o Ensino Fundamental. 3 . EXECUÇÃO DAS ATIVIDADES A pesquisa de campo foi realizada na Escola Municipal Jardim Felicidade, onde trabalho. A observação foi feita nos meus horários de projeto com as crianças que em 2014 eram meus alunos. O registro foi realizado através de desenhos nos dias 24 e 25 de maio . escrever na introdução. Escrever que os responsáveis assinaram termo de consentimento. 21 4. ANÁLISE A análise foi feita a partir dos desenhos registrados pelas crianças. O nome delas foi modificado para não serem identificadas. São 03 meninas e 05 meninos. Perguntei para elas o que elas mais gostavam na escola lá de cima (Ensino Fundamental) e o que elas mais gostavam na escola lá de baixo (Educação Infantil). Elas ficaram livres para desenharem o que desejavam a partir do que foi perguntado. 22 Figura 1 – Os desenhos de João Observei que o desenho do João possui cor. Esse é um aspecto próprio do universo infantil. Quando ele foi perguntado sobre o que ele mais gostava 23 na Educação Infantil, o menino responde que gostava de mim (professora) e da Daiene (responsável por cuidados do garoto, pois ele possui déficit de atenção e hiperatividade). Porém, o que ele gostava, além das profissionais, era do escorregador. Percebi, então, que a questão do brincar é muito presente nas crianças egressas da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Corsaro e Molinari (2014, p. 139 apud Motta) falam sobre o assunto: Um dos aspectos que mais se destacou na passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental foi a maneira abrupta com que deu a transição. Se formos em busca dos eventos primários que, para Corsaro e Molinari, seriam ocasiões que antecipam transições iminentes na vida das crianças e têm como objetivo prepará-las para a mudança, praticamente não os encontramos. Eles se manifestariam em: celebrações, atividades, discursos ou oportunidade de compartilhar informações, ou seja, seriam ações que apresentariam para o grupo de crianças as novidades que estão por vir na etapa seguinte. Pode-se analisar o que é dito acima e perceber que a dificuldade da transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental está na forma como a criança percebe a mudança da maneira como ela deve lidar com as situações na escola. Se antes o objetivo de ir à escola estava relacionado com o brincar, agora o foco da escola é ser um local para a educação e o conhecimento. Deve-se lembrar que as atividades têm a função de proporcionar acesso à educação e o conhecimento, entretanto elas podem ser prazerosas. Dewey (1968, p. 96) afirma que para compreendermos fecundamente a ideia de atividade, devemos considerá-la no seu sentido lato, abrangendo tudo que envolva crescimento de capacidade. Talvez, quando o João foi perguntado sobre o que ele mais gostava no Ensino Fundamental, ele respondeu sobre a professora e a biblioteca. Percebi que a biblioteca é um espaço em que as crianças podem trabalhar o lúdico. Ou seja, talvez, essa é uma maneira de ainda estar em comunicação com a Educação Infantil. 24 Figura 2 – Os desenhos de Perla 25 Perla diz que o que ela mais gostava na Educação Infantil era de mim (professora) e da Daiene. Já no Ensino Fundamental, ela gosta da professora Josiane, da Daiene e dos colegas de classe. Apesar dela não citar elementos que envolvam o lúdico diretamente, como os brinquedos e a biblioteca, a menina não cita que gosta das atividades, lições e aulas. Ou seja, ela está focada no contato com as outras pessoas como algo prazeroso. 26 Figura 3 – Os desenhos de Amélia 27 Amélia, ao ser perguntada sobre o que mais gostava na E.I, responde que era de mim, dos coleguinhas e do parquinho. Já no E.F., ela responde que gosta da professora, dos colegas e do recreio. Vi, nessa situação, que, talvez, a menina ainda tem nas lembranças os momentos vividos da E.I. Ao tentar transportar essa experiência para o que ela vive agora, o recreio ocupar o lugar do lúdico presente na E.I. Motta (2014, p. 140) diz sobre o assunto através de pesquisa feita: A influência dessa forma de ver as crianças estava presente nas práticas observadas na turma durante o terceiro período da Educação Infantil. Quando chegaram no Ensino Fundamental, entretanto, as crianças foram recebidas, em termos de legislação pelos documentos oficiais nacionais – a LDB (Lei nº 9.394/96, de 20/12/1996) e o PNE (Lei n 10.172, de 9/1/01) – [...] O foco se deslocou do olhar sobre o sujeito para a preocupação com currículos, conteúdos e horas/aula. É visto, então, pelo o que é dito por Motta (2014, p.14) que as crianças saem da educação infantil e são levadas a serem observadas por currículos, conteúdos e horários de aulas. Isso é muito diferente da maneira como a qual elas são tratadas na Educação Infantil. Como já foi dito, é como se elas “deixassem” a infância de um ano para o outro. Vi aqui, mais uma vez, uma característica na resposta que pode ser oriunda da forma como pode ocorrer a transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. 28 Figura 4 – Os desenhos de José 29 José desenhou que sentia falta das casinhas, que são brinquedos presentes na Educação Infantil. Ao ser perguntado sobre o que ele gosta no Ensino Fundamental, o menino respondeu que gosta da hora do recreio. Ou seja, mais uma vez a hora prazerosa para os analisados tem ligação forte com as brincadeiras. Brincar nas casinhas é algo muito pertinente para a faixa etária deles. Então, percebi novamente que a introdução de bastantes responsabilidades impacta na forma deles enxergarem o processo de amadurecimento. Motta (2014, p.140) ainda mostra: Na prática, o que viveram as crianças e, por consequência a pesquisadora, foi uma transição que não incluiu a perspectiva dos ritos de passagem, como descreve Van Gennep (1978), que deveriam trazer uma sequência que incluísse “separação”, “transição” e “incorporação” na saída da Educação Infantil e ingresso no Ensino Fundamental. Por decorrência, o que Corsaro e Molinari (2005b) identificam como uma “ponte” que liga espaços ou territórios deixou de ser construída no contexto observado e não permitiu que as crianças alcançassem a zona de liminaridade (Turner, 1974, p.95), um espaço-tempo novo, entre duas posições definidas socialmente. O que Motta (2014) demonstra é a necessidade do processo de transição entre Educação Infantil e Ensino Fundamental. Isso não deve ser feito “somente” na E.I. Como a própria autora cita “um espaço-tempo novo, entre duas posições definidas socialmente”. Pois, durante a E.I., os analisados são vistos como crianças e já no ano seguinte passam a serem estudantes. Com isso, vêm muitos deveres e responsabilidades. Por exemplo, o compromisso com a aprendizagem e o alcance de merecimento necessário para prosseguir na vida educacional. 30 Figura 5 – Os desenhos de Antônio 31 Antônio demonstra, através dos desenhos, que na Educação Infantil ele gostava do parquinho e das casinhas. Mais uma vez, a questão do brincar é colocada em destaque pelas próprias crianças. No Ensino Fundamental, o menino gosta da sala de aula e da quadra de esportes. A quadra de esportes está obviamente de forma direta ligada ao ato de brincar. Ou seja, a brincadeira ainda está em foco, pois as brincadeiras estão muito presentes na faixa etária deles. Motta (2014, p.140) cita os Subsídios para Diretrizes Curriculares Nacionais Específicas da Educação Básica: A temática da transição merece atenção especial nas práticas pedagógicas da Educação Infantil. No documento Subsídios para Diretrizes Curriculares Nacionais Específicas da Educação Básica encontramos que: Na elaboração de suas Propostas Pedagógicas as instituições de Educação Infantil deverão prever estratégias para lidar com as diversas transições vivenciadas pelas crianças. Essas transições envolvem, desde a passagem entre o espaço privado – da casa – ao público – da instituição, quando do ingresso da criança na creche, na pré-escola ou na escola, até aquelas que acontecem no âmbito do próprio segmento: entre as diferentes faixas etárias; entre instituições, no caso da passagem da creche a pré-escola; entre turnos e/ou entre docentes, no caso das crianças que frequentam a instituição em turno integral; e, num mesmo turno, entre os diferentes momentos que compões as rotinas diárias (Brasil, 2009, p.40) A autora cita a importância de constar nas Propostas Pedagógicas das escolas ferramentas necessárias para proporcionarem a transição. Dentre as transições citadas, está a mudança da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Então, percebe-se que essa transição precisa ser analisada pela instituição de ensino em conjunto com os discentes. Por isso, é importante o diálogo entre instituição de ensino e discente para a construção de uma experiência mais sutil para as crianças. Pois essas passam a serem estudantes. 32 Figura 6 – Os desenhos de Clóvis 33 Clóvis foi perguntado sobre o que ele mais gostava na Educação Infantil. O garoto respondeu que gostava das casinhas do parquinho. No Ensino Fundamental, o menino demonstrou através dos desenhos que gostava do momento da oração e das atividades. Diferentemente dos outros analisados, Clóvis cita as atividades como algo prazeroso. Entretanto, ainda recorda dos bons momentos vividos na Educação Infantil através das casinhas do parquinho. Motta (2014, p.141), apud documento do Ministério da Educação, demonstra que: Para a transição da pré-escola para o Ensino Fundamental, atenção especial deve ser dada à brincadeira e suas exigências de espaço e tempo. Quanto à natureza das atividades, devem ser privilegiadas as de expansão em detrimento de atividades de contenção; as vivências significativas em detrimento de exercícios de cópia e/ou repetição; a construção da autonomia em detrimento das propostas pautadas na passividade (Brasil, 2009, p.41). Percebi como a transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental deve ser trabalhada com as crianças em ambos os momentos. Pois, assim, o impacto não será tão grande nas crianças que passarão a serem alunos. Isso é comprovado a partir da própria legislação brasileira específica para tratar do assunto. 34 Figura 7 – Os desenhos de Olívia 35 Olívia desenhou-me (professora) e a sala de aula como o que ela mais gostava na Educação Infantil. No Ensino Fundamental, a garota relatou através de desenho que gosta da professora Josiane. Dentre os analisados, apenas ela não se remeteu ao ato de brincar. Assim, percebi que a maioria das crianças remeteu-se ao ato de brincar como algo prazeroso que sentem falta no Ensino Fundamental. 36 Figura 8 – Os desenhos de Frederico 37 Frederico ao ser perguntado, sobre o que ele mais gostava na Educação Infantil, responde, através de desenho, que gostava das casinhas do parquinho, do escorregador, da professora e de um brinquedo chamado “polvo”. O curioso sobre a resposta de Frederico é que todos os objetos estão com características humanas como braços e rostos. Além disso, o sol também possui essas características no desenho do menino. Isso é algo natural da idade do garoto. Quando perguntei para ele sobre o que mais gostava no Ensino Fundamental, o menino respondeu que gostava do recreio. O curioso no desenho de Frederico é que ele não desenhou os objetos com características humanas como na primeira situação. Na segunda situação, as cadeiras e o prédio da escola possui um tom mais sério. Parece que o garoto sentiu que há a necessidade de estar comprometido com os conteúdos ministrados pela professora. Ou seja, ele provavelmente reconhece os tempos de brincadeira da Educação Infantil e vê que isso é restrito ao recreio durante o Ensino Fundamental. Mais uma vez, o ato de brincar é sentido como perda para a criança analisada. Pensei sobre o que já foi abordado e percebi o quanto é importante o ato de brincar para as crianças. A ruptura é realmente brusca de um ano para o outro nas vidas das crianças dessa faixa etária. Substituiria por: A passagem de um ano para o ano tende a ser, em vários aspectos, impregnada por muitas novidades e mudanças nos espaços e nos tempos escolares. Acho que deveria ser esse o tom de sua escrita. Logo, é necessária a pesquisa e observação a partir dessa temática. 38 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a realização desta pesquisa, conclui que a brincadeira é algo muito presente ainda nas crianças egressas da Educação Infantil. E também no Ensino Fundamental: apesar de não ser este o foco, as crianças não deixaram de ser crianças e estão dizendo que mantém a necessidade e interesse centrais pelas brincadeiras, mesmo que o segmento de ensino não as permita brincar o quanto gostariam e precisariam. Ou seja, mesmo a escola não dando tanta vazão e espaço à brincadeira, o recado das crianças é: gostamos e precisamos brincar mais. A partir da leitura de Teixeira (2009) e Motta (2014), percebi como as crianças percebem a forma com a qual elas passam da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. Além disso, o momento prazeroso de brincar não pode ser totalmente retirado das crianças ao ingressaram no Ensino Fundamental. Ainda é preciso realizar atividades prazerosas que envolvam brincadeiras com elas. Por fim, concluo que o tema pesquisado é de importância para o bem- estar e qualidade tanto da Educação Infantil quanto do Ensino Fundamental. Pois, tanto eu quanto outras pedagogas, já passamos por esse processo transitório. Para algumas pessoas foi um momento bom e para outras não. No meu caso, até agressão sofri por parte de uma educadora da época. Felizmente, nos dias atuais, essa prática não encontra ressonância em nossas escolas. Mas é sempre importante pensar no que ainda pode-se melhorar para que as crianças passem a serem adultos conscientes de seus deveres sociais. 39 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. 1908. Disponível em: . Acesso em: 06 maio 2015. BAPTISTA, Mônica Correia. ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO EM CLASSES DE CRIANÇAS MENORES DE SETE ANOS. Belo Horizonte: UFMG, 2010 BRASIL. Senado Federal. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: nº 9394/96. Brasília : 1996 DEWEY, John. Experiência e Educação. Petrópolis: Editora Vozes, 2010. DEWEY, John. Vida e Educação. São Paulo: Melhoramentos, 1968. EDUCAÇÃO E SOCIEDADE. In: KRAMER, Sônia. 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