FACULDADK DE LETRAS biblioteca UNIVERSIDADE reDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE LETRAS SOBRE A COMPLEMENTAÇÃO INFINITIVA EM PORTUGUÊS Lorenzo Teixeira Vitrai Dissertação apresentada ao Curso de PÓs-Graduação da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como parte dos requi sitos para a obtenção do Grau de Mestre em Lingtlistica. Belo Horizonte, agosto de 1987 Dissertação apresentada à banca examinadora constituída dos se- guintes professores: Para Beatriz Agradeço , ao prof. Samuel Moreira da Silva, Nosso contato foi muito pro- veitoso para mim. Devo-lhe quase tudo do que pude aprender cur- sando o Mestrado. Além disso, foi ele qué encaminhou muitas das propostas apresentadas aqui. Sem sua constante colaboração este trabalho não teria sido possível. . ao prof. Milton do Nascimento, que leu os vários esboços deste trabalho e sempre ofereceu suas preciosas sugestões que me fo- ram extremamente úteis. « aos demais professores do Mestrado de Letras que ajudaram na mi nha formação e às -pessoas que, de uma forma ou de outra, colabo raram para que este trabalho se realizasse, . à CAPES que, pela concessão de bolsa, possibilitou-me cursar o Mestrado. SUMÂEIO INTKODUÇAO 1 CAPÍTULO 1 - SOBRE A GRAMÁTICA TRADICIONAL 2 1.1. INTRODUÇÃO o 2 1.2. O INFINITIVO NA GT 3 1.2.1. SOARES BARBOSA ..o... o. 3 1.2.2. SAID ALI .............. o 7 1.2.3. MAURER JR. 11 1.3. SOBRE A OPOSIÇXO PESSOAL/IMPESSOAL 20 1.4. SOBRE OS DADOS 22 1.4.1. Ocorrências de orações infinitivas - descrição... 23 1.4.2. Observações complementares 28 APÊNDICE 30 NOTAS DO CAPÍTULO 1 33 CAPÍTULO 2 - SOBRE A GRAMÁTICA GERATIVA - MODELO PADRÃO ..... 39 2.1. INTRODUÇÃO 39 2.2. A ANÁLISE DE PERINI 39 2.2.1o Propostas centrais 39 2.2.2. INF/QUE 40 2.2.3. Oposição orações factivas/não-factivas versus opo sição orações nominais/não-nominais e conseqüên- cias .....o o 41 2.2.4. Orações infinitivas com sujeito lexical 44 2.2.5. Orações subordinadas no modo indicativo 44 2.2.6. Orações nominais e orações subordinadas a sintag- mas preposicionais 44 2.2.7. Orações nominais como sintagmas nominais 46 2.2.8o Os verbos de percepção 48 2.2.9. Mandar, deixar, fazer 49 2.2.10. A concordância e o infinitivo pessoal 50 2.3. COMENTÁRIOS 52 2.3.1. Bases teóricas 52 2.3.2. Subcategorização _ 53 2.3.3. Correlação dos tempos 55 2.3.4. A oposição orações nominais/não-nominais e a INS- QUE - orações infinitivas com sujeito lexical ... 57 2.3.5. INS-QUE - opcional, obrigatória e ,bloqueada 60 2.3.6. A oposição orações nominais/orações não-nominais. 61 2.3.7. Orações infinitivas objetivas com sujeito lexical 66 2.3.8. Concordância 68 2.4. KEGRAS E PRINCÍPIOS 69 NOTAS DO CAPÍTULO 2 72 CAPÍTULO 3 - SOBRE A COMPLEMENTAÇÃO INFINITIVA. 74 3.1. INTRODUÇÃO o. o 74 3.2. SOBRE A CONSTITUIÇÃO DA GRAMÁTICA 74 3.2.1. Níveis de Representação/Sistema de Princípios ... 74 3.2.2. As Categorias Vazias 81 3.3. PROBLEMA TI ZAÇXO DO INFINITIVO PORTUGUÊS 84 3.4. ANÁLISE DE ROUVERET 8 6 3.5. ANÁLISE ALTERNATIVA 93 3.5.1. Quatro classes de verbos 93 3.5.2. O caso do sujeito do infinitivo 100 3.5.3. Contexto de Atribuição do (Caso) Nominativo (CAN) - Completivas infinitivas cujo sujeito pode ser [+lexical] ............... o 102 3.5.3.1. V. SUE 102 3.5.3.2. V. IND 104 3.5.3.3. O.AUX nas completivas infinitivas 107 3.5.3.4. V. MIS 110 3.5.3.5. V. INF - Complemento de infinitivo sem sujeito 112 3.5.4. Acusativo com Infinitivo 120 3.5.5. As Categorias Vazias - Completivas Infinitivas cu jo sujeito pode ser [-lexical"] 126 3.5.5.1. Categoria vazia-variâvel 126 3.5.5.2. Categoria vazia - pro 127 3.5.5.3. Categoria vazia - PRO 131 NOTAS DO CAPÍTULO 3 133 CONCLUSXO ■ 142 BIBLIOGRAFIA 145 INTRODUÇÃO A subordinação infinitiva do português é meu objeto de estu- do nesse trabalho. Contemplo-o aqui à luz da Teoria da Regência e Vinculação (TRV), quadro de referência teórica que se encontra a- tualmente em discussão no âmbito da Gramática Gerativa. O infinitive português dispõe, como é sabido, da particular^ dade de se apresentar às vezes acrescido de desinências pessoais. É então a respeito de quando esse flexionajnento se faz possível que se ocupam diversos estudiosos. Oa capítulos 1 e 2 resumem al- gumas de suas análises. Após a apresentação, no capítulo 1, das contribuições de al- guns gramáticos tradicionais, discuto a pertinência de suas pro- postas e os critérios de análise que adotam. Nesse mesmo quadro de referência - chamado aqui Gramática Tradicional (GT) - proponho ainda uma descrição das principais possibilidades de ocorrências do infinitivo português. No capítulo 2, examino o tratamento que PERINI (1977 )propõe, valendo-se do instrumental teórico oferecido pelo chamado Modelo Padrão da Gramática Gerativa - Chomsky (1965) -, para o flexiona- mento do infinitivo e para uma série de outros fenômenos presen- tes na complementação portuguesa. As condições a que a gramática do português obedece quando o ra permite ora não permite um sujeito lexical junto à forma infi- nitiva - o que, em última instância, incita ou não o flexionamen- to - passam a merecer minha atenção no capítulo 3» Nesse capítulo, depois de comentar a proposta de ROUVERET (1980) de análise de a^ guns aspectos que ele pretende ver na complementação portuguesa, contemplo a subordinação infinitiva, valendo-me da TRV. Limito- me, no entanto, dada a amplitude e a complexidade do fenômeno, a analisar apenas as chamadas orações subordinadas objetivas reduz^ das de infinitivo. E essa opção já é conseqüência de razões inter nas ao quadro teórico que adoto. CAPÍTULO I SOBKE A GKAMÂTICA TRADICIONAL 1.1 introdução Neste capítulo comento o que os estudiosos da GT oferecem a respeito do infinitive português. Desnecessário dizer que eles trabalham geralmente com dados observados em textos escritos de autores considerados autoridades em língua portiiguesa. É a partir desse corpus de dados que gramáticos desde SOARES BARBOSA (1875) até MAURER JR (1968 ) se ocupam do infinitive português buscando^ tabelecer-lhe regras gerais. Mas, como se verá, apesar dos esfor- ços dos estudiosos, essa forma verbal tem se apresentado rebelde a uma sistematização rigorosa. Vou apresentar^ inicialmente, alguns aspectos das obras de SO ARES BARBOSA (l875 ), de SAID ALI (1950) e de MAURER JR (1968 ). Es_ sas escolhas se justificam: no caso de SOARES BARBOSA, por ser o primeiro autor a propor regras para o emprego do infinitivo. São regras consideradas "clássicas". SAID ALI e MAURER JR exigem aqui nossa atenção por terem se detido extensamente sobre o infinitivo. Esse último, MAURER JR, se ocupa especificamente, em um livro, de^ sa forma verbal portuguesa. Essas obras, escolhidas entre outras, trazem o que será pertinente para nossa discussão sobre o infini- tivo. As regras que formulam - seção 1.2 - pretendem servir de or^ entação para o uso dessa forma verbal. A questão se levanta en- tão se essas regras são suficientes como descrição do fenômeno do flexionamento do infinitivo. Examino assim se elas nos informam ex plicitamente quando a flexão é obrigatória ou não. Tendo em mente essa questão, faço comentário sobre as propostas de cada um dos autores. Na seção 1.3, discuto a dicotomia pessoal/impessoal usada pe Ia GT no tratamento das formas infinitivas e, na seção seguinte, 1.4, depois de uma descrição sistemática das ocorrências de infi- nitivo, delimito aquelas que serão objeto de estudo no presente trabalho. Acrescento a este capítulo um apêndice, onde teço considera- ções sobre particularidades, que dizem ainda respeito à delimita- ção de meu objeto de estudo. Questões sobre o caráter de auxilia- ridade e de transitividade ou não de algtins verbos são então dis- cutidas. 1.2 O INFINITIVO NA GT 1.2.1. SOARES BAKBOSA As considerações de SOARES BARBOSA (1881:199 ) sobre o uso que a língua portuguesa faz do infinitivo encontram-se transcritas a- baixo: "A Língua Portuguesa tem a singularidade de ter dois infinitives, um impessoal, como to das as mais línguas, e o outro pessoal, o que é um idiotismo seu. Usa o impessoal: 19 _ todas as vezes que o sujeito da ora ção regente é o mesmo que o da oração regida, desta sorte: eu quero fazer, tu quiseste fa- zer, nós queremos fazer. Não devia portanto di zer Camões: E folgarás de veres a polícia Nem: não te .espantes De a Baco nos teus reinos receberes. Devia dizer ver, receber, porque os su- jeitos destes verbos são os mesmos que os de seus regentes, folgcirás, espantes. 22 - todas as vezes que lhe basta expri- mir a coexistência de atributo em um sujeito qualquer sem o determinar: e então emprega-o como substantivo verbal que é, para todos os ofícios a que se prestam os mais nomes, ser- vindo-se dele, já para sujeito, já para atri- buto da oração, como: mentir é faltar à verda de; já para o complemento objetivo de outro verbo como: não querer mentir: já para comple mento de várias preposições, como: em mentir há pecado; entre mentir e não mentir há meio; sem mentir posso dizer; de mentir se passa a jurar falso; para mentir, etc. Usa do pessoal: 19 - quando o sujeito do verbo infinito é diferente do verbo finito que determina a linguagem infinita, ou pode haver equivocação sobre qual é o de quem se fala, ainda que se- ja o mesmo. Então esta linguagem infinita pa- ra distinção dos dois sujeitos toma diferen- tes terminações pessoais, com as quais se ti- ra o equívoco. Por exemplo: julgo seres tu sa bedor, creio têrmos sido enganados. A haverem de chegar amanhã, está tudo preparado. 22 - quando a oração do infinito, ou co- mo sujeit-o e atributo de outro verbo, ou como complemento de alguma preposição, se toma em um sentido não já abstrato, mas pessoal,v.g., o louvares-me tu me causa novidade. Para me louvares com verdade, farei aquilo de que me louvas. Os maus, com se louvarem, não deixam de o ser. Aqui, ainda que o sujeito de ambas as orações parece ser o mesmo, não o é. O pes_ soai louvarem-se era necessário para exprimir o sujeito que reflete sobre si a oração, ou a recíproca com o outro." I Como se pode notar, SOARES BARBOSA, pretende descrever o uso das formas verbais de infinitivo em nossa língua. Em orações co- mo: (1,1) NÓS queremos fazer o exercício o Autor encontra uma primeira regra para o uso da forma impesso- al: o sujeito do verbo infinito é interpretado como sendo idênti- co ao do verbo finito. O caráter de regra que se pode atribuir a essa observação advém do fato de que, a partir dela, o Autor cor- rige Camões. Por outro lado, em orações do tipo: 5 (1.2) a. mentir é faltar à verdade b, não querer mentir c. em mentir há pecado o Autor pretende reconhecer, ao mesmo tempo, o uso do infinitivo verbal impessoal - seu sujeito não seria determinado - e o uso do substantivo verbal - o infinitivo se comportando como "os mais no mes", de um ponto de vista sintático. Ê discutível então se se po de considerar essa segunda observação como sendo uma regra de uso do infinitivo pessoal. Para o uso da forma infinitiva pessoal, SOARES BARBOSA com- pendia sob dois itens várias observações. Por exemplo, em constru ções como: (1.3) a. Julgo seres tu sabedor b. Creio termos sido enganados Ele observa que a forma infinitiva pessoal é usada porque os su- jeitos das duas orações são diferentes. Ao corrigir Camões, o Au- tor já se tinha, implicitamente, valido dessa regra. Daí a idéia inicial da complementariedade no uso das formas ditas pessoais e impessoais. Em sentenças como as de (1.4): (1.4) a. Cremos ter sido enganados b. Cremos termos sido enganados certamente se pode reconhecer a observação do Autor da possibili- dade de "equivocação sobre qual é o de quem se fala, ainda que se ja o mesmo" (n.l). A complementariedade pretendida no uso das for_ mas pessoais e impessoais se desfaz aqui. Se SOAKES BARBOSA |:orri giu Camões isso se deveu ao fato de que ele não via nos exemplos citados a possibilidade de "equivocação". Pica clara, então apre^ são que o uso exerce na caracterização feita até agora dessas ob- servações de SOARES BARBOSA como sendo regras. Para contrapor aos exemplos de (1.2), onde o infinitivo im- pessoal emprega-se como substantivo verbal, o infinitivo pessoal. segundo o Autor, emprega-se como oração nas construções de (1.5): (1.5) a. O louvares-me tu me causa novidade b. Para me louvares com verdade, farei aquilo de que me lou vas c. Os maus, com se louvarem, não deixam de o ser. Parece que SOAKES BARBOSA vê como "sujeito e atributo de outro ver bo" a oração do infinitivo de (l.5a) e como "complemento de prepo_ sição" as orações de infinitivo de (1.5b, c). Não se pode dizer, também aqui, que se tenha uma regra. Se regra houver, como se vê dos comentários que o Autor faz da construção (1.5c), tratar-se-á da mesma que o teria levado a corrigir Camões, isto é, o uso do in finitivo impessoal/pessoal decorre da identidade/não-identidade - se "equivocação" não houver - dos sujeitos das orações infiniti- vas e de suas respectivas orações principais (notar que SOARES BAR BOSA fala em orações regentes). Vê-se então que é difícil encontrar em SOARES BARBOSA, por trás de "regras cerebrinas" (LESSA (1966:382)) e do "inconvenien- te de uma linguagem às vezes rebarbativa e até inexata" (MAURER (1968:126)), informações explícitas sobre a obrigatoriedade ou não da flexão do infinitivo. As observações reunidas nos quatro itens vistos na citação se reduzem, em última análise, à caracterização de uma so' regra, o infinitivo impessoal se usa quando são idênti- cos os sujeitos da oração infinitiva e da oração principal, salvo se houver possibilidade de "equivocação". Esta última cláusula de fine o uso e as intenções do falante como o critério último que termina a obrigatoriedade ou não da flexão, isto é, poder-se-á ou não flexionar o infinitivo num mesmo ambiente sintático. Ver-se-á na extensão deste capítulo que o capítulo que o cr^ tério sujeito idêntico/sujeito diferente é empregado, com outras roupagens, pelos demais autores da GT. Trata-se de aspecto que se faz útil na descrição do comportamento sintático do infinitivo. Adianto, entretanto, que esse critério não é suficiente. In- dependentemente de "haver equivocação sobre qual é o de quem se fala", o flexionamento do infinitivo pode se dar mesmo quando o su jeito do verbo infinitivo é idêntico ao sujeito do verbo princi- pal. Entre muitos outros casos, aponto o de (1.6)(n.2): 7 (1.6) a. Eles lamentam serem os vencedores b. Eles acreditavam deverem-lhe muito dinheiro Pode-se ressaltar que SOAKES BARBOSA não leva em conta a e- xistência de diferentes classes de verbos regentes. Ora, os ver- bos parece que se distinguem com relação às possibilidades de com plementação infinitiva. Assim, o verbo querer de que o Autor se va le para exemplificar sua regra não se comporta como o verbo fol- gar ou espantar encontrados na citação de Camões. Estamos buscando - como foi dito - em autores da GT a descri ção do fenômeno do flexionamento do infinitivo - em última instân cia, estamos procurando neles á explicitação da obrigatoriedade ou não da flexão. Cumpre lembrar, no entanto, que SOARES BARBOSA não faz referência à flexão na sua exposição. Ele se limita a apontar a existência de dois infinitives na língua portuguesa - o pessoal e o impessoal. Na seção 1.3 volto a esse tópico. O infinito impes soai também é caracterizado como substantivo verbal - por ele e por outros autores da GT -, mas é curioso notar que, em seu exem- plo (1.5a), é uma oração de infinito pessoal que se faz introdu- zir pelo determinante 'o': (l.5a) o louvares-me tu me causa novidade. Limito-me aqui a destacar esta nota. 1.2.2. SAID ALI SAID ALI investiga o infinitivo português em um dos tópicos à.e sua Dificuldades da Língua Portuguesa (1950:93 a 123). Ele a- presenta, inicialmente, algumas considerações acerca da "doutrina de Soares Barbosa". Recusa-se a aceitar que em orações como eu que ro fazer se encontrem dois sujeitos, invalidando assim a regra do infinitivo impessoal daquele Autor. Afirma que as regras de SOARES BARBOSA deixam "sem resposta os casos de infinitivo independente de outro verbo" (p.ll4). Os e xemplos, ele os extrai do próprio texto de SOARES BARBOSA: (1.7) a. Todas as gramáticas... têm o comum de serem uns systemas analógicos,.. a b, ... estas expressões, além de serem impróprieis, são de natureza ambíguas... Nos exemplos acima, onde sujeitos idênticos sem "equivocação" en- tram em jogo, há o uso do infinitivo pessoal - mas em (1,7a), co- mo parece sugerir SAID ALI, a oração infinitiva é regida pelo ad- jetivo- comum (de) e em (l.7b) pela expressão adverbial além de - e esses casos não teriam sido considerados. Também incongruências (^e SOARES BARBOSA são comentadas. As construções camonianas, por exemplo, que ele corrige, corrobora- riam, efetivamente, sua regra, se tivessem sido vistas no contex- to em que Camões as emprega (ver p,104). SAID ALI, contudo, está mais interessado em sua própria ma- neira de ver o infinitivo português. Distingue "duas séries de ca sos: 12 - o infinitivo liga-se a um verbo de significação incom- pleta, formando, por assim dizer, com ele um todo predi cativo; 22 — o infinitivo tem ou admite um sujeito seu, pouco impor- ta que seja igual ou não ao de outro verbo." (p.96) O Autor inclui no primeiro caso o que ele chama de "auxilia- res modais" - poder, querer, dever e outros - que só aceitariam o infinitivo impessoal: (1.8) a. devemos dizer b. queremos dizer c. podemos dizer Também os "auxiliares causativos" - fazer, mandar, deixar - fa- riam parte dos verbos de "significação incompleta": (1.9) a. a muitos fez perder a vida e a terra- b. Maudou Alcarac Reis e Infantes e outros altos homeens aco meter os christãos... SAID ALI considera os "auxiliares acurativos" também como verbos da mesma classe. Esses são verbos que teriam por função "determi- nar com mais rigor o momento da ação" (p.lOO). Exemplos: (1.10) a. cost-umo escrever b, continuo a escrever c. começo a escrever Segundo o Autor, essas três classes de verbos apresentam as seguintes características: "19 - Ligam-se a um infinitivo, que psicològicamente é o ver bo principal; 29-0 sujeito da oração é indicado pelas desinências des- ses auxiliares, ao passo que o verbo principal que os acompanha é uma forma nominal, de todo em todo despro- vida de sujeito; 39 - Este verbo principal junto aos ditos auxiliares é ex- presso pelo infinitivo sem .flexão ou impessoal." (p. 101). Além de regido por auxiliar, o infinitivo sem flexão também seria empregado "sempre que o verbo indicar a ação geral, como se fôra um nome abstrato, ou quando não se cogita da pessoa" (p.ll6) Como exemplo, o Autor oferece: (1.11) Estudar (= o estudo) aproveita. Prossegue o Autor dizendo que o infinitivo português não sen do regido por auxiliar - mesmo regido por outros verbos, substan- tivo ou adjetivo - "tem aptidão para um sujeito; aptidão essa que cumpre não identificar com a noção de sujeito necessário, quase sempre sugerida pelas formas finitas".(p.l03). O que facilitará, então, o aparecimento de sujeito no infinitivo no caso nominativo e, portanto, a flexão será: 1) a necessidade de clareza, isto é, quando o infinitivo "po deria referir-se a pessoal ou cousa diversa do que temos em mente," (p.l04) 2) "o realce intencional para pôr em relevo a pessoa de que se trata..." (p.117). Ver o exemplo de Herculano: (1.12) devem buscar-se, unificar-se, completar-se até irem (ênfa- se), depois da morte... SAID ALI conclui afirmando que parece não haver nada que im- peça que o infinitivo se flexione, exceção feita do infinitivo de pendente de verbo com fimção auxiliar (n.3). Mas, mesmo aí, "o in finitivo flexionado tolera-se... se, pela interposição de dizeres mais ou menos extensos, ficar o verbo principal um tanto longe do seu auxiliar." (p.l09). O Autor exemplifica com Herculano: (1.13) Mas a selva já começa a rarear, e os ginetes a esfolegarem com mais violência. Das colocações de SAID ALI pode-se depreender dois pontos bá sicos: l) uma delimitação de contextos em que a flexão do infini- tivo se torna proibitiva e, a partir disso, 2) pode-se flexionar ou não o infinitivo, dependendo de clareza e/ou ênfase. Quanto ao primeiro ponto, o Autor considera que só com as classes de verbos que ele chama de 'auxiliares', o infinitivo de- ve apresentar-se não flexionado. Tem-se então uma contribuição im portante para a descrição das ocorrências do infinitivo: os ver- bos comportam-se diferentemente com relação ao tipo de complemen- to de infinitivo que admitem. No entanto, a caracterização dos traços que definem a auxiliaridade é discutível e édiscutível tam bém se os 'auxiliares' de SAID ALI formam uma classe homogênea.Em apêndice deste capítulo alguma discussão desse tópico terá lugar. C?uanto ao segimdo ponto, o flexionamento fica a cargo e a cr^ tério do falante, inteiramente regulado pelo uso, pelo "realce ne cessário do sujeito" para clareza e pelo "realce intencional para pôr em relevo a pessoa de quem se trata", isto é, a ênfase. (p. 117). Tendo em mente o exame da questão da natureza explícita das descrições do flexionamento do infinitivo pelos gramáticos da GT, pode-se perguntar se as proposições de SAID ALI se configuram co- mo regras. A resposta poderia ser que, pelo menos em parte, sim, na medida em que vigora o caráter proibitivo do flexionamento em certos contextos. Dele se vale SAID ALI para criticar RUI BARBOSA (p.111-2). Por outro lado, algo como o princípio da "equivocação" de SOARES BARBOSA subsiste quando a necessidade de clareza e ênfa TT se deixa em aberto o rigor do flexionamento ou do não-flexionamen to. Não é também explícita a noção de "interposição dé dizeres mais ou menos extensos" que faz relaxar o caráter proibitivo do ú nico contexto de não-flexionamento. Convém ressaltar a natureza dos critérios de que se serve SAID ALI. Diferente de SOARES BARBOSA, a distinção infinitivo fie xionado/não-flexionado é posta em destaque, evidenciando um crité rio de natureza formal, mas esta se faz paralela à oposição pes- soal/impessoal que se deixa enlaçar de preocupação semântica. Tam bém é formal a distinção que propõe entre classes de verbos mas sua definição das classes de auxiliar é de natureza semântica e a visão do infinitivo como verbo principal, no "todo predicative", se dá "psicologicamente". Esses fatos, no entanto, são caracterí^ ticas da GT - o uso indistinto de diferentes critérios. Por fim, SAID ÃLI, mesmo negando que haja dois sujeitos em o rações como eu quero fazer, está ressaltando, ao falar de um "to- do predicative", o mesmo fenômeno notado por SOARES BARBOSA, isto é, um único sujeito ^ para as duas formas verbais. Também como SOARES BARBOSA, ele caracteriza o infinitivo sem flexão como uma forma nominal. De alguma maneira, pode-se concluir, SAID ALI sugere restri- ções no fenômeno do flexionamento do infinitivo português, mas as restrições que ele aponta, como se verá, não são suficientes pa- ra a sua descrição. 1.2.3. MAURER JR Em O Infinito Flexionado Português (1968) MAURER JR, discor- re longamente acerca da forma verbal portuguesa. Na primeira par- te de seu texto, ele discute a questão de saber que forma verbal te ria dado origem ao infinitivo flexionado. Sobre isso ele destaca duas opiniões:1) que o infinitivo flexionado tem sua origem do im- perfeito do subjuntivo latino que teria sobrevivido na região que hoje é Portugal; e 2) que o infinitivo flexionado é o infinitivo românico comum, enriquecido de desinências pessoais que teriam sur gido por analogia com as formas finitas, particularmente com as do futuro do subjuntivo. MAURER esposa essa segunda corrente e pa ra ela fornece seus argumentos (ver p.66 a 102). Neste trabalho, estarei interessado unicamente no comportamento sintático da for- ma verbal portuguesa, É dele que MAURER se ocupa na segunda parte de seu texto. Minha atenção se voltará principalmente para o capítulo 9 de seu livro que tem por título "As três regras básicas para o empre go do infinitivo flexionado e do infinitivo invariável", o mate- rial desse capítulo se distribui em três seções: I - O emprego obrigatório do infinito invariável. II - O emprego obrigatório do infinito flexionado. III - O emprego facultativo do infinito flexionado. Muitas das conclusões desse capítulo encontram-se abreviados no capítulo 13 intitulado "Quadro sinóptico do emprego dos dois infi nitos portuguêses". Eu me valerèi das formulações feitas em um ou outro capítulo. Para a seção I, o Autor destaca a seguinte regra: Regra l: "Quando o infinito é rigorosamente impessoal, isto é, quando a ação por ele expressa não se refere a nenhum a- gente determinado, quer enunciado com o próprio infini- to, quer indicado no contexto, ele é sempre invariável (impessoal)." (p.l35) Segundo o Autor, essa regra "é simples e clara, não admitin- do exceções." (p.l35). Cita, entre outros, os seguintes exemplos: (1.14) a. Saber viver é a prova fundamental da verdadeira sabedo- ria b. Não há nenhuma vantagem em comprar ali c, Para fazer um bom excime é preciso estudar com perseve- rança. Os dois casos seguintes são, segundo o Autor, "aplicação natxrral da regra I" (p.l37): Caso A: "O infinito dependente de um adjetivo, de um substantivo ou de um verbo em construções em que corresponde a iim supino -U ou a infinito passivo da língua latina." (p.236) Caso B: "O infinito com valor de imperativo..." (p.236) Para o caso A, ele arrola, entre outros, os seguintes exemplos: (1.15) a. As crianças são fáceis de contentar b. Ele mandou podar as figueiras c. Coisa de rir e ver a careta E para o caso B, os exemplos: (1.16) a. Marchar! b. A direita volver! Na seção II, que trata do emprego obrigatório do infinitivo flexionado, a regra^11 abaixo é formulada: Regra II: "Quando o infinito é claramente pessoal, isto é, quando tem sujeito próprio - expresso ou não é sempre fle- xionado, pouco importando que o seu sujeito seja idênti CO ao verbo regente ou não." (p.145) Entre outros, temos os exemplos: (1.17) a. É preciso irmos embora já ' b. Creio terem (eles) viajado ontem c. Para chegarem as forças a esse ponto, haviam caminhado desde Santos... Também essa regra e, segundo o Autor, "bastante clara e dificil- mente deixará dúvidas em sua aplicação." (p.146). Ainda assim, no entanto, o Autor distingue dois casos onde o infinitivo flexiona- do é obrigatório: Caso A: "Quando o infinito tem sujeito expresso no texto, seja d^ ferente do sujeito do verbo regente ou seja idêntico a e- le, pouco importa." (p.146) Caso B: "Mesmo quando o infinito não tem sujeito expresso, ele se rá obrigatoriamente pessoal (flexionado), desde que se re fira a m agente não indicado no contexto." (p.l47) As razões que levam o Autor a explicitar esses dois casos se deve ao fato, segundo ele, de "que o português (como algumas outras lín guas rómânicas) conserva a liberdade de exprimir o sujeito ou om^ ti+lo, sempre que a desinência pessoal do verbo o indica claramen te..." (p.l46). Para o caso A, os seguintes exemplos podem ser da dos: (1.18) a. Sei terem éles decidido a questão de maneira pacífica e inteligente. b. A mãe sacrificou-se para terem os seus filhos uma vi- da ... c. Em vez de com eles se animarem os soldados, antes se de Scinimam e'desalentam. Para o caso B, (1.19) a. Vale a pena tentarmos ainda uma vez b. Seria melhor voltarmos antes de anoitecer c. Eu estava contentíssimo de virmos para esta casa. O Autor faz acompanhar essa regra de algumas observações quando a ponta alguns casos que ele diz "desvio" (p.l47) da regra II ou me^ mo "excessões às vezes mais aparentes do que reais" (p.237) quan- do o emprego do infinitivo flexionado se faz facultativo. Trata- se de casos de favorecimento da forma invariável quando um prono- me pessoal reflexivo acompanha o infinitivo ou quando "mesmo que tenha sujeito claro... a distância que medeia entre o infinito e o seu sujeito afrouxa as exigências da concordância normal" (p. 237). Também para a seção III, o emprego facultativo do infinitivo flexionado, o Autor destaca uma regra assim formulada: Regra III: "Quando o infinito, apesai^ de não ter sujeito próprio exprime, contudo, uma ação exercida por um agente que conhecemos do contexto e ao qual esta se atribui, pode ser flexionado ou invariável, embora frequentemen te se dê preferência ora a uma, ora a outra, das duas formas do infinito." (p.153) Para esta regra o Autor fornecerá "as diversas construções em que se emprega um ou outro dos infinitos..." (p.238). Trata-se de uma cimostragem de orações em que a forma verbal pode aparecer flexio- nada ou não. Entre outras, tem-se o infinitive nas seguintes si- tuações : , - como complemento verbal: (1.20) Eles crêem ter (ou terem) cumprido o dever - como oração adverbial: (1.21) Eles trabalhgiram muito para obter (ou obterem) este resul- tado. - comrvalor de gerúndio, regido por preposição: (1.22) Vi as crianças a correr (ou correrem) pelas ruas. - preposicionado e servindo de complemento de um substantivo ou adjetivo: (1.23) a. Tens a obrigação de dar uma resposta... b, Eles têm a vantagem de conhecerem bem o grego... - "... em uma oração subordinada de valor interrogativo-delibera- tivo ou em orações relativas..." (p.242): (1.24) a. Não sabemos como responder b. Não sabemos onde buscarmos pão... c. Não temos o que dizer... Embora possa "quem fala optar pelo emprego da forma flexiona da ou da invariável" (p.200) nos ambientes descritos acima, o Au- tor propõe uma lista de "fatores ponderáveis" que ele diz ser "de caráter mais ou menos subjetivo" para determinar "a preferência por uma dessas formas" (p.200-1). Entre esses fatores encontram-se "a necessidade de clareza, de ênfase ou de vivacidade da expressão", "as exigências da eufo- nia", etc. (p.244). Outros fatores ainda,-todos fideterminando pre ferência "particularmente para a forma flexionada" (p.243) são e- numerados. Assim: a) a presença de um complemento predicative no plural acompanhan- do o infinitivo: (1.25) Eles se esforçam por ser bons Eles se esforçam por serem bons Op^ei'srencial) b) "a presença de um pronome reflexivo junto do infinito"(p.243): (1.26) Imperceptível brisa fazia agitar-se as hastes do trigal Imperceptível brisa fazia agitarem-se as hastes do trigal (preferencial) c) "A forma impessoal do verbo regente" (p..243): (1.27) Eles, fingindo querer abrir caminho ao elegante par... Eles, fingindo quererem abrir caminho ao elegante par... (preferencial) d) "A distância entre o infinito e o termo de que ele depende"(p. 243): (1.28) Eles poderão, desde que tenham terminado a tarefa, voltar aos seus divertimentos. Eles poderão, desde que tenham terminado a tarefa, volta- rem aos seus divertimentos (preferencial) e) "A anteposição do infinito ao verbo regente" (p.244): (1.29) Antes de partir, queriam ainda uma vez rever o belo monu- mento Antes de partirem, queriam ainda uma vez rever o belo monu mento (preferencial) 17 Um dos fatores parece determinar preferência pela forma invariá- vel. Trata-se da f) "ênclise pronominal com o infinito" (p.244): (1.30) Ao vermos-te, tínhamos a impressão forte de reencontrar teu pai Ao ver-te, tínhamos a impressão forte de reencontrar teu pai (preferencial) Como conclusão de seu trabalho, o Autor pondera que, eembora determinem "a preferência por uma ou por outra forma do infinito" os fatores enumerados e os critérios de clareza, ênfase, eufonia, vivacidade de expressão "geralmente não tornam obrigatório o em- prego do infinito flexionado ou do invariável." (p.244) O fenômeno do flexionamento do infinitivo am português pare- ce assim, à primeira vista, estar descrito de forma clara e explí cita em MAURER. Ê pelo menos isso o que garante o Autor. Os "fato res ponderáveis", se "subjetivos", valem para a regra III, lá on- de se tem "um terreno vacilante, em que duas soluções são possí- veis" (p.154). E, como acabamos de ver, o Autor se exime aí de qualquer dogmatismo respeitando inteiramente uma ou outra escolha do falante. Assim, em construções como i (1.31) a; É difícil chegarmos a entender-nos b. Ê difícil chegarmos a entendermo-nos um fator ponderável qualquer, seja a necessidade de eufonia, seja o fator 'f dado acima (isto é, "a ênclise pronominal com o infi- nito"), ou algum outro, poderia levar a preferir (l.31a), mas su- põe-se que o Autor não corrigiria o falante ou redator que se va- lesse de (1.31b) Por outro lado, lá onde se tem uma escolha apenas, isto é, quando ou a regra I (emprego obrigatório do infinito invariável) ou a regra II (emprego obrigatório do infinito flexionado) deve operar, "é fácil decidir imediatamente se devemos usar a forma flexionada ou invariável" - diz-nos ele. (p.154). Critérios obje- tivos'ii supõe-se assim, estão em jogo. Espera-se que o Autor aqui 18 possa corrigir algiim redator incauto. Para ele, o caráter de obr^ gatoriedade de uma forma ou de outra se dá "em virtude de seu sen tido claramente pessoal ou impessoal" (p,134). É o que dizemasre gras I e II. As seguintes definições são, então, dadas pelo Au- tor: A forma do infinitivo é pessoal quando "indi- ca, pela sua própria flexão, a pessoa que e- xerce a ação por ela expressa." (p.l34) A forma do infinitivo é impessoal quando enun cia "a ação de maneira geral e vaga, sem refe ri-la a nenh-um agente determinado" (p.l34) Considerem-se as sentenças: (1.32) a. Querer é poder! b. Querermos é podermos! 1 A partir das colocações acima, tudo o que o Autor parece poder di zer é que em (l.32a) tem-se o infinitivo impessoal e que em (1.32 b) tem-se o infinitivo pessoal. Ora, (1.32a) é tomado pelo Autor como exemplo da regra I - que "não admite exceções" (p.l35) e (1.32b) poderia ser tomado como exemplo da regra II - "que não deixa dúvidas em sua 'aplicação" (p.l46). O que as distingue é a flexãoo Assim parece que os exemplos da regra I podem ser tomados como exemplos da regra II desde que se introduzam as flexões nas formas infinitivas, tornando-se pessoal o impessoal. Os exemplos dados em (I.14) e (I.15) de infinitivo impessoal poderiam se ane- xar a (1.17), de infinitivo pessoal, uma vez feito o flexionamen- to. Assim: (1.33) a. Sabermos viver é a prova fundamental da verdadeira sabe dor ia. I b. Não há nenhuma vantagem em comprarmos ali. c. Para fazerdes um bom exame "é preciso estudardes com per severança. (1.34) a. As crianças são fáceis de contentarem (ver n.12) b. Ele mcindou podêirmos as figueiras c, Coisas de rirmos e vermos a careta. 19 Como conseqtlência dessas colocações, tem-se então o fato de que o falante fica sendo o único responsável pelo flexionamento do infinitivo - como bem ressaltou MORAIS (1971:14-32). MAURER alude à liberdade do falante em várias passagens de sua obra. Por exem- plo: "... em português, como em qualquer outra língua, podemos ex primir o mesmo fato de modo pessoal ou impessoal, isto é, indican do ou silenciando o agente a que se refere o verbo" (p.148); ou ainda, "... o emprego da forma invariável... pode dar lugar a obs curidades ou a ambigüidade que se evitam facilmente recorrendo ao infinito flexionado" (p.209). A questão proposta neste capítulo, com o exame do tratamento do flexionainento do infinitivo na GT, busca verificar se as re- gras propostas pelos gramáticos são suficientes para descrever o fenômeno, isto é, se elas, informam, explicitamente, quando a fle- xão é obrigatória ou não. Parece, no entanto, que a obrigatorieda de que MAURER propõe não é a mesma obrigatoriedade que buscamos na gramática do flexionamento do infinitivo português. Ora, MAURER não apresenta em suas regras ambientes (exceto o caso marginal do infinitivo como imperativo (n,4))em que a flexão do infinitivo não pode necessariamente ocorrer. Em outras palavras, diríamos que MAURER não pode corrigir um locutor que se valesse das sentenças de (1.14-5) onde, segundo ele, o infinitivo impessoal é obrigató- rio, nem das sentenças de (1.33-4), já que é o infinitivo pessoal que, então, tornou-se obrigatório - tudo dependendo da intenção do falante. Não se tem portanto muito a dizer - exceto com respeito a do cumentação e erudição que oferece - sobre a contribuição de 14AU- RER para o estabelecimento da sintaxe do infinitivo português.Tam bem ele se deixou levar pela pressão do uso. Ele se encontra com SOARES BARBOSA enquanto insiste na idéia de que o infinitivo impessoal se comporta como um nome verbal (p. 136), mas distancia-se desse gramático na medida em que não acen- tua a relevância da identidade/não identidade do sujeito da ora- ção infinitiva com o da oração regente. Aproxima-se de SAID ALI enquanto aprova o tratamento que es- te dá aos auxiliares, mas este ambiente que SAID ALI propõe como sendo o único que impede o flexionamento generalizado do infiniti vo é desprezado por MAURER (n.5). 20 1.3 SOBRE A OPOSIÇÃO PESSOAL/IMFESSOAL Como vimos, SOARES BARBOSA e MAURER distinguem as formas in- finitivas por meio da oposição pessoal/impessoal, e MAURER faz des sa oposição fundamento essencial de suas regras. A oposição em questão é de ordem semântica, embora seja possível averiguar suas conseqtlências na sintaxe. É o que faz SAID ALI que, com base em critério formal, propõe a distinção infinitive com flexão/sem fie xão, mesmo se valendo da oposição infinitivo pessoal/impessoal. Pretendo mostrar aqui que esta distinção, tal qual é empregada na GT, não determina as ocorrências flexionadas, ou não, do infinity vo. Debate-se na literatura o lugar e a validade do uso de crité rios semânticos na análise lingtlística. Uma das principais obje- çoes que se faz à GT é o fató de esta recorrer a definições e ex- plicações que se baseiam indiscriminadamente em fatores de nature za diversa, e provocam, em particular, indistinção entre os pla- nos sintático e semântico, (ver, p. ex., GENOUVRIER E PEYTARD (1974:127-47); ROULET (1978:7-14); etc,.). Na seção precedente, co- mentando SAID ALI, fiz menção a esse problema. Quero mostrar então que a oposição pessoal/impessoal - crité rio semântico - não pode ser tomada como base na descrição grama- tical das flexões do infinitivo, e mais, que quase todas as ocor- rências de infinitivo são, de fato, pessoais. Discuto em especial a proposta de MAURER. Se nos fiarmos na pessoalidade/impessoalidade do infinitivo, suas regras não se distinguem. Para exemplificar sua regra I, ele se serve, entre outras, da construção (1.38): (1.38) É preciso ir embora já A regra II, por sua vez, tem em.(1.39) um exemplo: (1.39) É preciso irmos embora já Por fim em (l.40) pode-se ter um exemplo da regra III: (1.40) É preciso ir(em) embora já, (se vocês quiserem tomar o trem das três) 21 Em (1.38), diz o gramático, "não existe nenhuma alusão a um agente verbal" (p.l48), enquanto em (1.39), "o verbo se refere a um agente determinado e conhecido" (p.l48). Em (1.40), por sua vez, diria ele, o infinitive ir(em) "não tem sujeito próprio",mas "o agente é conhecido do contexto". Se ele disser, como o faz, que o infinitivo de (1.38) é impessoal e que o de (1.39) é pessoal, ele deverá afirmar, como o faz (p. 155), que o infinitivo de (l.40) é ora pessoal ora impessoal - no entanto, a interpretação é a mesma; ou que o infinitivo é pessoal (ver p.l53), independentemente da flexão com que se apresenta - então ele estará exatamente corroborando a idéia aqui defendida de que a oposição pessoal/impessoal não é relevante para a descr^ ção do flexionamento ou não do infinitivo. Ora, é exatamente no domínio da regra IIÍ, segundo ele, que as incertezas se concen- tram e se "levam em conta algims fatores mais ou menos subtis e mesmo subjetivos, para decidir entre a forma flexionada ou inva- riável" (p.l55). E como as regras I e II são estabelecidas em fun ção da mesma decisão entre forma invariável e flexionada, não há como não tomá-las como instâncias da regra III, o que significa que não há regra nenhuma. Não há como não se chegar à conclusão a que o Autor chega de uma "liberdade relativa - às vezes quase ab- soluta - que dá ao estrangeiro e, muitas vezes, mesmo a nacionais a impressão de verdadeira anarquia sintática no uso dessa intere^ sante forma verbal da língua" (p.l55). O Autor admite - como um caso de desvio de sua regra II - que há "construções nas quais o infinito vem acompanhado de um pronome pessoal reflexivo, dando ao verbo um sentido pessoal. Ape sar disso a língua portuguesa admite corretamente a forma invariá vel do infinito" (p.l49) e também, segundo o Autor, a forma fle- xionada: (1.41) a. Convém preparar-nos " b. Convém prepararmo-nos Para tratar de casos como (1,41a), o Autor propõe a ênclise prono minai como um dos "fatores" que facilitam o aparecimento, embora o infinitivo seja pessoal, da forma invariável, mesmo não a deter minando como se vê de (l.41b). Evidencia-se mais uma vez que ape^ soalidade não é critério pêira se descrever o flexionamento do in- 22 finitivo. Outras razões poderiam ainda ser apontadas, extraídas da pró pria proposta de MAURER, que convidam a essa mesma conclusão, mas essa discussão torna-se sem importância quando se considera - co- mo faÇo aqui - que quase todas as ocorrências do infinitive podem ser vistas de fato como pessoais, isto é, referem-se a uma pessoa do discurso da qual se pode tomar conhecimento através das desi- nências pessoais do verbo (n,6). Devo essa observação a MORAIS(p. 17). Em orações como (1.38) o infinitivo pode estar concordando, por exemplo, na 3.^ pessoa do singular que também tem desinência 0; assim como em (1.39) está concordando na 1.^ pessoa do plural. A'suposta impessoalidade de orações como (1.38) é diferente da re al impessoalidade presente na oração: (1.42) Chover no campo é bom aqui a impessoalidade de chover não está relacionada com o infini tivo, mas aparece em todas as formas desse verbo. Considerarei, então, como única distinção que a estrutura formal da língua nos permite fazer, a existência de infinitivo com flexão e infinitivo sem flexão. Aliás, mesmo em MAURER, é através das desinências pes soais que se toma conhecimento da presença de agente verbal, sen- tido pessoal e sujeito determinado. 1.4 SOBRE OS DADOS A descrição abaixo de dados recolhe ora fatos observados na GT ora fatos colhidos jvinto a falantes do português do Brêisil. É meu objetivo aqui,delimitar, entre várias ocorrências possíveis do infinitivo, aquelas que se farão meu objeto de estudo nesse traba lho. Para essa descrição adoto como critério o exame das possí- veis referências do sujeito do verbo que está no infinitivo e ten to verificar ainda se esse sujeito pode conferir-se com algum ou- tro nome presente no período. A questão da referência do sujeito do infinitivo, como já foi salientado antes, é aspecto relevante na distinção das ocorrências de infinitivo. Entre as construções sintáticas que a GT normalmente admite como ambientes de ocorrência de infinitivo, seleciono, na descri- ção abaixo, as seguintes: 23 A. Oração infinitiva como objeto (direto ou indireto) B. Oração infinitiva como sujeito C. Oração infinitiva como sintagma adverbial D. Oração infinitiva como sintagma predicativo E. Oração infinitiva como complemento nominal Essa perspectiva da GT é aqui adotada sem nenhuma discussão sobre sua consistência e validade. Não entro em maiores detalhes quanto às classes de verbos que permitem estas ou aquelas ocorrências de infinitivo. Limito-me, no apêndice e em notas, a colocar em sali- ência a discussão sobre alguns detalhes de análise. Será meu objeto no capítulo 3 o estudo do infinitivo na pos^ ção descrita em A - isto é, as orações subordinadas objetivas re- duzidas de infinitivo, como são chamadas pela GT. O çiotivo porque escolho esse tipo de completivas se justifica, como será mostra- do, por razões internas ao quadro teórico que adoto para minha a- nálise: a posição objeto é subcategorizada pelo verbo matriz. Por essas mesmas razões, a distinção, reconhecida pela GT, entre ora- ções objetivas diretas e indiretas torna-se não pertinente para mim (n.7). Ao entender minha descrição para outros tipos de orações in- finitivas que, à primeira vista, prescindem de análise complemen- tar, quero simplesmente destacar as possíveis incidências de fenô menos similares aos que trato. Em todos os casos pode ou não ha- ver correferência, quando a flexão é facultativa; pode a correfe- rência ser obrigatória, e a flexão se neutraliza; ou pode ser o- brigatória a não correferência, e a flexão se manifesta. Ê claro que essas generalizações, apenas insinuadas, não esgotam o fenôme no do infinitivo variável português, mas a descrição abaixo pode- rá assim, pelo menos, justificar o critério adotado. 1,4.1. Ocorrências de orações infinitivas - descrição Em cada um dos tipos de orações infinitivas que serão consi- derados abaixo, alguma relação de correferência, quando possível, estará sendo testada, envolvendo o sujeito da oração subordinada infinitiva - que chamarei aqui de sujeito-2. Ou esta relação de correferência do sujeito-2 se verifica, ou não, com o sujeito da oração principal - sujeito-1, ou com o objeto da oração principal 24 - chamado aqui objeto-1 (n.8). Tanto na relação sujeito-l/sujeito -2 quanto na relação objeto-l/sujeito-2, três alternativas de cor referência são potencialmente dignas de verificação: a) correferência obrigatória b) correferência impossível c) correferência livre. Esse esquema de observação poderia naturalmente ser mantido para cada um dos tipos de orações infinitivas - mas não éminha in tenção aqui estender-me nessa busca, que, aliás, assim apresenta da, não parece ter relevância maior para o que exponho a seguir. Quero apenas, como sugestão, mostrar outra maneira de ver o fenô- meno do flexionamento do infinitivo - ou a flexão se neutraliza, ou se manifesta necessariamente, ou se torna livre. Trata-se de u ma versão alternati-O-a das regras que, com outros termos, MAURER propôs para o mesmo fenômeno. Quero notar, entretanto, que não fa ço destacarem-se aqui as construções eiji que o infinitivo apresen- ta seu sujeito em forma lexical, além das marcas da flexão. Para esses casos, quero concordar com SAID ALI (1950:103) que o flexio namento é, em última análise, a mera aplicação normal da lei de concordância verbal portuguesa (em número e pessoa com o sujeito no caso nominativo) (n.9). A) A oração infinitiva como OBJETO (DIRETO OU INDIRETO) Temos primeiramente construções como as seguintes, as prime^ ras, gramaticais e as outras, mal-formadas: (1.43) a. João quer comer o doce b. NÓS podemos comer o doce c. Eles tentam comer o,doce d. Eu devo comer o doce. (1.44) a.*João quer comermos o doce b,*NÓs podemos comerem o doce c,*Eu quero comerem o doce d,*Eles querem comerem o doce Nessas construções, temos claramente a correferência necessá ria (ou obrigatória) na relação sujeito-l/sujeito-2. E, em vez de 25 falar em infinitive impessoal, como o faz MAURER, ou em "todo pre dicativo", como o faz SAID ALI, prefiro, por enquanto, dizer que a flexão é neutralizada, ou mesmo em não-flexão do infinitivo. A- qui o infinitivo português se comporta como nas demais línguas,ro mânicas ou não. Um segundo tipo de construções pode ser encontrado abaixo,to das bem-construídas: (1.45) a. João viu comer o doce b. NÓS mandamos comer o doce c. Eles deixam comer o doce d. Eu ordeno comer o doce (1.46) a. João viu comermos o doce b. NÓS mandamos comerem o doce c. Eu deixo comerem o doce d. Eles ordenara comermos o doce Em (1.45) e (1.46) tem-se casos de correferência impossível na re lação sujeito-l/sujeito-2. Impossível também é de se falar aqui em infinitivo impessoal ou em "todo predicative", como o fariam, re^ pectivamente, MAURER e SAID ALI, com referência a (1.45). Ao con- trário, eu diria que aqui a flexão, em princípio, é obrigatória, (ver n.8). Tem-se a flexão 0 de terceira pessoa e outras flexoes em (1.46). já não se pode dizer que o infinitivo português se com porta plenamente como o das demais línguas, Temos, enfim, construções como as seguintes, também bem cons truídas: (1.47) a. João acredita ter comido o doce ,bo NÓS lamentamos ter comido o doce c. Eles confessam ter comido o doce d. Eu duvido ter comido o doce (1.48) a, João acredita termos comido o doce b, NÓS lamentamos terem comido o doce c. Eu confesso terem comido o doce TACÜLDADTÇ D* LETRAB BiBUOTS-r * 26 d. Eles duvidam terem comido o doce Essas construções, embora possam, à primeira vista, se asse- melhar às precedentes, têm caracterização diferente. Aqui, não se pode dizer que a correferência, na relação sujeito-l/sujeito-2,de va ser obrigatória ou que seja impossível - eu diria antes que,na relação sujeito-l/sujeito-2, a correferência é livre. (n.lO). E, da mesma forma, a flexão do infinitivo (pelo menos nos casos de correferência) se faz livre. Assim, as orações de (1.49), numa de suas interpretações, podem ser tomàdas como tendo a mesma relação de correferência entre sujeito-1 e sujeito-2; (1.49) a. Eles lamentaram ter comido o doce. b. Eles lamentaram terem comido o doce. Assim, três situações foram descritas até agora na relação sujeito-l/sujeito-2: a) Em ''1.43) e (1.44), a correferência é o- brigatória, e a flexão do infinitivo é neutralizada ''i.é, há uma não-flexão); b) Em fl.45) e (1.46), a correferência é impossível, e a flexão do infinitivo é obrigatória e c) em (1.47) e (1.48), a correferência e a flexão são livres. Há, no entanto, fatos como os seguintes, onde a correferên- cia deve ser verificada na relação objeto-l/sujeito-2: (1.50) a. João impediu os meninos de falar(em) b. João aconselhou os meninos a falar(em) obrigou ensinou impediu convenceu (1.51) a. ? João obrigou os meninos a sairmos b. ? João impediu os meninos de sairmos c. ? João aconselhou os meninos a sairmos ? I ensinou| d. ? Maria aconselhou José a mandarmos embora a empregada e. ? Maria aconselhou José a mandarem embora a empregada f. ? Eu ensinei José a resolvermos o problema 27 •Considerando apenas os exemplos de (1.50), poder-se-ia dizer m que a correferência é obrigatória na relação objeto-l/sujeito-2 , mas a flexão, que devia neutralizar-se, se faz opcional. Pensando também os exemplos de (1.51) - cuja aceitabilidade pode ser obje- to de disputa - posso aventurar a dizer que tem-se aí situação se melhante à de (1.47) e (1.48) - isto é, a referência do sujeito do infinitivo se faz livre e livré também a flexão. (n.ll). B) A oração infinitiva como SUJEITO Se a oração infinitiva é, nos termos da GT, subjetiva, é na relação objeto-l/sujeito-2 que se pode buscar as eventuais corre- ferências. Temos construções como as seguintes: (1.51) a. Perder(em) o dinheiro aborreceu as moças b. Sair(em) cedo aborreceu as moças c. Perder(em) o dinheiro aborreceu a moça d. SairCem) cedo aborreceu a moça e. Perdermos o dinheiro incomodou a moça Tem-se aí"claramente uma situação em que a correferência na relação objeto-l/sujeito-2, é livre. A flexão do infinitivo tam- bém se faz livre, nos termos em que essa liberdade foi definida. Resumindo, temos: nas relações infinitivas subjetivas, há a liberdade de correspondência, na relação objeto-l/sujeito-2, e há a liberdade de flexão. (n.l2) C) A oração infinitiva como SINTAGMA ADVERBIAL Construções como as seguintes podem ser encontradas; (1.52) a. Eles fizeram um assalto para pagar(em, mos, ...) a mul- ta b. Ao sair(em, mos, ...), os jogadores evitaram a imprensa I c. Arrast£xram-se como cobras até chegar(em, mos, ...) lá d. Elas fugiam devagarinho até subir(em, mos ...) pelas pa redes De novo temos a eventual correferência na relação sujeito-l/ 28 sujeito-2. Os fatos mostram que essa correferência é livre e tEim- bém livre se torna a flexão. (n.l3) D) A oração infinitiva com SINTAGMA PREDICATIVO (1.53) O essencial é salvar(em, mos, ...) a vida Não se discute aqui correferência, e o infinitivo português se apresenta com sua característica de poder ser flexionado. Em terceira pessoa do singular, a flexão é 0. E) A oração infinitiva com C0I4PLEMENT0 NOMINAL (1.54) a. Eles estão contentes de vir(em, mos, ...) para es- ta casa b. NÓS perdemos a esperança de vir(em, mos, ...) para esta casa Tem-se de novo a relação sujeito-l/sujeito-2 gozando ou não de correferência. De novo, visto que esta é livre, a flexão do in finitivo também é livre. 1.4.2. Observações Complementai'^es. A descrição dos fenômenos com os quais a forma infinitiva es tá envolvida não se esgota em (1.4.1). Além disso, o critério de se examinar as possíveis referências do sujeito do infinitivoéin suficiente. As construções de infinitivo se acompanham ainda de ou tros fatos - tais como a presença de um auxiliar, a possibilidade ou não de se interrogar seu sujeito, presença possível ou impossí vel de sujeito lexical com certas classes de verbos, etc. - que não são passíveis de descrição através do simples exame da (co) refe- rência de seus SNs. O exame desses fenômenos - exposto no capítulo 3 - encontra sempre a dificuldade de decisão, de maneira inequívoca, quanto à boa-formação das orações. Devido a essa oscilação nos julgamen- tos, tornou-se-me premente que fosse feita, de forma sistemática, uma consulta aos falantes. Realizei, então, junto, a alunos da UFMG e FAFI-BH, uma testaaem a respeito da aceitabilidade de cer- 29 tas construções de infiniti-vo. O uso desse recurso visou, tão so- mente, a proporcionar um quadro de julgamentos mais sistemático que pudesse servir como ponto de referência, ou mesmo de apoio, para a decisão acerca da boa-formação das orações. A esses falantes foi pedido que examinassem uma série de ora ções e as marcassem como aceitáveis, não-aceitáveis ou duvidosas. Devido então à extrema variação em relação à aceitabilidade, ex- traí uma média da marcação dos falantes para cada fato gramatical examinado e decidi considerar-uma construção como pertinente, is- to é, susceptível de ser levada em conta em minha análise, somen- te quando a média atingida superava 50%. Os resultados dessa tes- tagem são comentados em notas, no capítulo 3. Evito aqui qualquer discussão a respeito das conseqüências teóricas do uso desse tipo de recurso em Gramática Gerativa. 30 APÊNDICE SÀID ALI considera os verbos mandar, deixar.e fazer como au- xiliares causativos; os verbos querer, poder e dever como auxilia res modais e os verbos costumar, continuar, acabar, etc., como au xiliares acurativos. PONTES(1973) investiga a possibilidade de esses verbos serem considerados auxiliares e argumenta que, na verdade, eles são tran sitivos ou intransitivos. Aproveitarei aqui alguns pontos da argu mentação de PONTES. Também me valhó da de RADFORD(1977 ) que estu- da, no italiano, os verbos equivalentes aos citados acima. Apre- sento, inicialmente, os verbos que, segundo os autores citados, po_ dem ser considerados auxiliares. Em seguida, comparo o comporta- mento da construção^ir + infinitivo com os auxiliares de SAID ALI. Auxiliar é um constituinte da oração que se realiza nas for- mas Ter + do, estar + ndo e ir + r - significando que o verbo que se segue toma a desinência ^ de particípio passado; ndo de gerún •dio ou r de infinitivo. Sigo PERINI((1976) : 94) e considero ir como auxiliar. PONTES, (p.ll2), na verdade, toma-o como intransi- tive. Interessa-me assim confrontar, valendo-me da argumentação de PERINI, o tratamento de ^ como auxiliar com os auxiliares de SAID ALI. Algumas características da construção ir-»-infinitivo: A. Os dois verbos presentes não podem ser negados independentemen te: (i) a. João não vai fugir de casa b. *João vai não fugir de casa c. *joão não vai não fugir de casa B. Pode aparecer em construções, passivas: (ii) a. João vai comer o doce b.' o doce vai ser comido por João. Os fatos acima sugerem que o verbo ^ é um auxiliar; em (i)não se pode negar o infinitivo porque, em princípio, apenas uma negação pode aparecer em cada oração; em (ii) o SN o doce que está na po- 31 sição sujeito é objeto direto de vai ser comido. Se se tomar as características (A e B)*como traços definido- 1 res de auxiliaridade, teremos de dizer que os auxiliares modais de SAID,ALI não são de fato auxiliares. Os verbos poder, dever - que "permitem, pelo menos, duas interpretações, chamadas de senti- do radical^(ter capacidade e ter obrigação) e sentido epistêmico^ (possibilidade) (ver RADFORD, p.68) - e querer: A. permitem negação de seus complementos: (iii) a. João queria não se envolver no assunto devia podia b. João não queria não se envolver no assunto devia podia B. não podem participar de construções passivas: (iv) a. *0 doce quer ser comido por João deve^ pode^ Considera-se que as duas acepções desses verbos modais apre- sentam comportamentos sintáticos distintos. As estruturas de sen- tido epistêmico sofreriam a regra de Alçamento (Raising) e as de sentido radical, a regra EQUI NP Diletion (ou SSI de PERINI, ver capítulo 2 a seguir). A regra de Alçamento foi concebida inicial- mente para tratêir as construções em que aparece o verbo psirecer. Tomando o verbo dever^, exemplifico a operação dessa regra: (v) Estrutura profunda - deve -João comer o doce 2 Estrutura superficial - João deve^ comer o doce João seria sujeito, na estrutura profunda, apenas do verbo que es tá no infinitive, a regra de Alçamento o levaria para a posição - sujeito - do verbo deve^. Com dever^ ilustro a regra EQUI: (vi) Estrutura profunda - João deve^ João comer o doce 32 Estrutura superficial - João deve^ comer o doce isto é, a regra suprimiria a segiinda ocorrência de um SN idêntico. Discute-se se a oração infinitiva em (v) seria uma oração pre verbal ou pósverbal, isto é, se parecer e," agora, dever^ e poder^ seriam intransitivos ou transitivos» Trata-se de questão contro- versa na literatura. Algims autores (entre eles, RADFQRD, p.84—103, e PONTES,p,92 -103) consideram que os verbos em questão são intransitivos. Nes- sa perspectiva, a oração infinitiva em (v) teria sido deslocada da posição sujeito para a posição objeto por intermédio da regra de Extraposição (sobre esta, ver, por exemplo, PERINl(l97 6:109) ).Tan bem os auxiliares acurativos de SAID ALI podem ser tratados como o verbo parecer, isto é, .como intransitivos (ver RADFORD, p. 84ss). (para um debate de questão, ver CHOMSKY (1981), p.112-3, p.125 e n.9 da p.223)o Volto a discutir esses verbos no capítulo 3. Quanto aos auxiliares causativos direi apenas que a simples possibilidade de esses verbos apresentarem um complemento de inf^ nitivo com sujeito lexical nos informa que não se trata de auxi- liares (PONTES, p,60-78, apresenta vários argumentos nesse senti- do): (vii) a. João mandou Pedro sair fez deixou 33 NOTAS DO CAPÍTULO I ■ I (n.l) Para exemplificar essa observação talvez o Autor se te- nha valido do exemplo: (i) A haverem de chegar amanhã, está tudo preparado. Fica assim implícito que a oração (ii) seria fonte de "equivocação": (ii) A haver de chegar amanhã, está tudo preparado onde tudo poderia ser também interpretado como sujeito de haver de chegar. Pode-se notar que esse equívoco não poderia ser desfeito se o sujeito de haver de chegar fos se algo ou alguém que não tudo, no singular. (n.2) Talvez construções como as de (1.6) não sejam aceitas co mo orações da língua na ocasião em que SOARES BARBOSA es creveu sua Gramática Filosófica. Contudo, levarei em con ta, ao examinar a GT, os recursos do português atual. (n.3) Notar que SAID ALI propõe que um verbo desempenha a fun- ção de auxiliar, isto é, quando, "sem existência própria" seu sentido se completa com outros verbos. Ele também ar rola os verbos que seriam auxiliares. Milton do Nascimen to (comunicação pessoal) sugeriu a possibilidade de se considerar que auxiliar seria uma função que os verbos po dem desempenhar na estrut"ura da oração e não uma classe específica de verbos que desempenham esta função. (n.4) Em relação ao imperativo, que também exemplifica a regra I, poder-se-á dizer simplesmente que esse modo verbal é determinado pelo contexto pragmático. Não se trata, como nos outros modos verbais, de uma estrutura de oração. (n.5) MAURER considera que alguns verbos, "... por formar em nosso espírito uma expressão única..." (p.llO),)são aux^ liares. Trata-se basicamente dos mesmos verbos considera dos auxiliares por SAID ALI - poder, querer, começar a, ir, deixar de e outros. Embora tenha observado que esses verbos ocorrem acompanhados de um infinitivo invariável, não os inclui como casos da regra I, mas da regra III. A 34 razão é que, assim como SAID ALI, ele observou a possib^ lidade de o infinitivo, quando distante, desses auxilia- res, aparecer flexionado. (n.6) Milton do Nascimento (comunicação pessoal) chamou minha atenção para o fato de que em algumas construções de in- finitivo o pronome se_ parece não poder ocorrer: i)ià. Para se viver uma aventura é preciso dinheiro b. Não há vantagem em se comprar ali c. *Fugir-se agora é difícil d. *Saber-se perder é importante mas: e. Não há vantagem em se saber perder f. ?Não'há vantagem em se fugir agora Se as construções de infinitivo são pessoais, dever-se- ia esperar a presença do ^ em todos os casos. Não trata rei dessa questão. Parece-me que a ocorrência ou não do se tem uma gramática própria; independentemente do infi- nitivo ainda que possa estar relacionada. (n.7) O que serve de critério na GT para essa distinçãoé a pre sença obrigatória da preposição antes da completiva. Por exemplo: i) a. João obrigou Maria a sair b. *João obrigou Maria sair Não discuto aqui o papel da preposição nem a maneira co- mo se dá a subcategorização dela pelo verbo matriz. O fe nômeno, no entanto, é objeto de debate no quadro teórico aqui adotado. No capítulo 3, ofereço outros detalhes so- bre isso. (n.8) Uma terceira relação de correferência pode naturalmente ser percebida, aquela entre sujeito-2 com outro SN qual- quer - chamo-o de SN^ - que não está nem na posição su- jeito nem na posição objeto da principal (i.é: encontra- se em posição caracterizada na linguagem gerativa como sendo "não-argumental")• É o caso de orações do tipo: (i) José, eu lamento ter saído onde se diz que José está numa posição 1 opicalizada. É e^ 35 te também o caso de orações interrogativas (ver no capí- tulo 3, seguinte), relativas, etc. Poder-se-ia dizer que, nesses casos, em princípio, tanto a relação de correfe- rência entre SN^ e sujeito-2 quanto a flexão do infinity vo são obrigatórias. No capítulo 2, pode-se ver que PER^ NI considera mal-formadas sentenças como as seguintes: (ii) * os cavalos que vi correrem... * que cavalos você viu correrem? Certamente haverá mais coisas a falar sobre esse tópico, mas não pretendo estudá-lo aqui. (n.9) Mas essa concordância conhece ressalvas. Atente-se para exemplo como este, de J. Lins do Kego, citado por LESSA (1966:409 )": (i) "A tardinha, fazia os homens tirar o chapéu, as mu lheres rezarem". Segundo LESSA (1966:407-8) "pode ocorrer a forma impesso al, se a oração infinitiva que tem sujeito claro e ex- presso, serve de objeto direto a um dos verbos ver, ou- vir, sentir, deixar, mandar, fazer. Tanto se dirá, por- tanto, "vi os meninos chegarem" como "vi os meninos che- gar"; "vi chegarem os meninos" e "vi chegar os meninos". No capítulo 3, uma seção será dedicada a esses verbos. (n.io) Chamo de 'correferência livre' aquela em que o sujeito- 2 pode ser tomado ou não como correferencial como o su- jei to-1, independentemente de o infinitive se encontrar com flexão neutralizada de 35 pessoa singular ou não,não havendo conflito de outros traços. Em outros termos, por 'correferência livre' pretendo exprimir o fato de que os pares de sentenças abaixo podem ser escolhidos, em uma das leituras, como sinônimos, e como não-sinônimos em ou tra leitura: (i) a) Declaramos ter saído b) declaramos termos saído (ii) a) Declararam ter saído b) Declararam terem saído 36 (n.ll) o português oferece assim material para debate iinteres- sante concernente a chamada Teoria do Controle, encontra da no Modelo da Gramática Gerativa mais recente, Regên- cia e Vinculação, que será apresentado no capítulo 3. Sentenças do tipo (i) Eu convenci José a falarmos Ela me convenceu a sairmos contam com fatores outros (pragmáticos?) que impedem que se possa determinar o comportamento sintático do infini- tive no puro nível da gramática das sentenças. Talvez se jam esses fatores que motivam os gramáticos tradicionais a incluírem sempre, de forma pouco explícita, a "clare- za", "ênfase", vivacidade de expressão", "energia", etc. como determinantes do uso do infinitive em português. LESSA (1966) - pesquisando textos de escritores brasilei ros modernos - mostra casos curiosos, onde em estruturas sintáticas idênticás ora a correferência se passa na re- lação sujeito-l/sujeito-2, ora na relação objeto-l/sujei to-2, ora as duas relações se entrecruzam: Coisas do tipo: (ii) Preparei frases fraternais para não magoar(em) a moça Ela só tinha olhos para exprimir(em) a dor profun da Chamei médicos para curar(em)-lhe a palidez. (iii) "Dona Amélia sofria com aquela animosidade den- tro de casa. Uma vez falou com o marido para sa- ir, para procurar um lugar para morarem em casa que fosse deles." (J. L. Rego). (n.l2) Outros fatos,ainda, que dizem respeito a infinitivas sub jetivas, poderiam merecer destaque. Tem-se, por exemplo, construções marginais com o verbo parecer (ver Apêndice"* e suas particularidades: (i) Os meninos pEirecem estudar Dependendo da análise que se der a essa estrutura, poder -se-ia dizer aqui o que foi dito antes: na relação sujei to-l/sujeito-2 a correferência é obrigatória e a flcxão se neutraliza. Mas tem-se de pensar em estruturas varian 37 tes de (i): (ii) a. Os meninos parece estudarem b. Os meninos parecem estudarem. Esta última construção, (ii.b), é reconhecida por alguns gramáticos. MAUEER (1968:109, n.76) refere-se a ela como sendo um "cruzamento" das duas anteriores. (Ver ainda MAURER(1968:l80-3)). Vê-se então que se torna difícil de se perquirir aqui, com rigor, sobre qualquer relação si£ temática de correferência. Também construções do tipo é fácil são muitas vezes lem- bradas: (iii) a. É duro roer(em, mos,...) esse osso b. É difícil lembrar(em, mos,...) certas coisas c.^É fácil decidir(em, mos...) essas disputas Não se vê como falar em correferência aqui. Tem-se o fe- nômeno do flexionamento livre do infinitive português.Em (iv), no entanto, a estrutura é mais complexa: (iv) a. Esse osso é duro de roer b. Certas coisas são difícèis de falar c. Essas disputas são fáceis de decidir d. "Outrora viajei / países imaginários fáceis de habitar..." (Drummond) Aqui, o objeto do infinitive torna-se sujeito de è fácil è duro, etc. E o infinitive,,segundo os gramáticos, "tem a forma ativa e o sentido passivo". Daí "não existe ne- nhuma dúvida de que, neste caso, há que empregar o infi- nitive impessoal" (LESSA (1966:405)). De novo parece que o critério semântico de explicação cho ca-se com a realidade dos fatos. Eu não diria que são mal -construídas as estruturas seguintes, onde se quer dei- xar transparente a referência do sujeito do infinitivo, muito embora LESSA pos.sa não as ter encontrado nos livros de escritores que pesquisou. (v) Esse osso é duro de roermos - Certas coisas são fá ceis de lembrarmos etc. (n.l3) Uma generalização, talvez apressada, parece poder ser fe^ ta: quando a correferência pode ser encontrada tanto na relação sujeito-l/sujeito-2 quanto na relação objeto-l/ 38 sujeito-e, tem-se a liberdade da flexão no primeiro caso e a necessidade da flexão no segundo: (i) a. Eles nos ofereceram presentes para ir embora b. Eles nos ofereceram presentes para irem embora c. Eles nos ofereceram presentes para irmos embora d. ?* Eles nos ofereceram presentes para ir embora Provavelmente, no entanto, o que chamo de objeto-l preci se de ser qualificado. Penso em construções do tipo: (ii) Ele nos ofereceu algumas pessoas para fazer a cer ca O sujeito do infinitivo de (ii) pode ser correferente com ele ou com algumas pessoas, mas não parece ser com nos. 39 capítulo 2 SOBRE A GRAMÁTICA GERATIVA - MODELO PADRAO 2.1. introdução Neste capítulo, é meu objetivo fazer algumas considerações so bre o trabalho de PERINI (1977), Gramática do Infinitive Portu- guês. O Autor oferece aí um tratamento dessa forma verbal valendo -se, como quadro de referência teórica, do conhecido Modelo Pa- drão - CHOMSKY (1965) - da Gramática Gerativa (n.l). Vou apresentar, na seção 2.2., uma resenha dos principais pon tos da análise de PERINI. Na seção 2.3., teço comentários sobre e^ ses pontos. Finalmente, em 2.4., faço considerações sobre ques- toes que se colocam, atualmente, para o Modelo Padrão. 2.2. A ANÁLISE DE PERINI 2.2.1. Propostas centrais Perini pretende basicamente "uma análise gerativa do fenôme- no da concordância do infinitive em português" (p.9), chegando a formular "um conjunto de regras que são responsáveis pelo fenôme- no; são estas (na ordem de sua aplicação): Supressão de sujeito Idêntico (SSl), Movimento de SN Relativizado/ln- terrogado, Cliticização/Reflexivização, Concordância, Su pressão de Sombra e Supressão de Sujeito Pronominal" (p. 176) O Autor também formula "uma restrição à estrutura superficial, o Filtro de Du- pla Desinência, e dois princípios gerais que regulam a a plicação das transformações, a saber, a flutuação de re- gra e o isolamento sintático de certas subordinadas."(p. 176) 40 Para o estabelecimento das regras e condições sobre as trans_ formações citadas, o Autor parte da proposta de uma oposição en- tre orações que apresentam o complementizador INF(infinitivo)e ora ções que apresentam o complementizador QUE. "O complementizador é um elemento introdutor de uma oração subordinada" (p.ll). A ocor- rência desses complementizadores na estrutura superficial, segun- do o Autor, é dependente da aplicação de regras transformacio- nais, particularmente, das regras SSI e Inserção de QUE (INS-QUE). Também o aparecimento dos verbos no modo subjuntivo está relacio- nado com a ocorrência do complementizador QUE, e se daria por me^ o da regra Formação de Subjuntivo. Têm-se assim as propostas cen- trais do texto de Perini, que serão explicitadas a seguir. 2.2.2. INF / QUE PERINI indaga primeiramente sobre o ""status" dos infinitives • na estrutura profunda** (p.ll). Observa que se "a oração subordina da é introduzida por QUE, seu verbo fica em um tempo finito (do subjuntivo ou do indicativo); se é introduzido por INF, o verbo fi ca no infinitivo, e o complementizador propriamente dito é elimi- nado"(p.ll). Era questão de debate então saber se o complementi- zador se introduzia na estrutura profunda ou por transformação. Com a distribuição complementar inf/quE encontrada no comportamen do do verbo querer, PERINI pretende demonstrar que o elemento QUE é introduzido por transformação. Assim, as orações de (2.1) se- riam derivadas das estruturas descritas em (2.2): (2.1) a. nós queremos dormir b. nós queremos que você durma (2.2) a. estrutura profujida - [nós Presente querer INF [nós Tempo dormir] ] SSI - [nós Presente querer INF [ Tempo dormir] ] Inserção de Que - (não se aplica) Concordância - [nós queremos INF [ Tempo dormir] ] 41 b. estrutura profunda - [nós Presente querer INF [ você Tem po dormir] ] SSI - (não se aplica) Inserção de Que - [nós Presente querer que [você Tem- po dormir] ] • Concordância * - [nós queremos que [você dur- ma]] A regra SSI suprime da estrutura profunda o sujeito da oração su- bordinada "idêntico ao da oração principal". A INS-QUE introduz o complementizador QUE quando a oração subordinada tiver um sujeito diferente do da principal. Outra regra - Formação de Subjuntivo (FORM-SUBJ) - participa da derivação de (2.1b). Esta regra - com base em dados como (5s de (2.3) - leva em conta o fato de que "o tempo da subordinada de subjuntivo ê determinado pelo tempo do ver bo principal" (p.l4) (2.3) a. quero que você durma queria que você dormisse b. * quero que você dormisse * queria que você durma Voltarei adiante aos argiimentos do Autor para essa proposta. 2.2.3. Oposição orações factivas / não-factivas versus oposição o rações nominais / não-nominais e conseqüências Continuando, PERINI discute "a configuração sintática das o- rações subordinadas factivas, em oposição às não-factivas" (p.9), distinção, de ordem semântica, já explorada por KIPARSKY e KIPARS KY (1971): "Uma pessoa que enuncie (2.4) pressupõe necessariamen- te a verdade do complemento - ou seja, o falante realmente acredi ta que está chovendo" (p.l6): (2.4) Carlos ignora que está chovendo Este seria um complemento factivo. No complemento não-factivo: 42 (2.5) CExrlos disse que está chovendo não há "pressuposição necessária da verdade do complemento" (p. 16), ou seja, o falante "não se compromete quanto à verdade do com plemento está chovendo" (p.l6). Os íCIPARSKYS sugerem que - haveria uma diferença de estrutura sintática entre os dois tipos de com- plemento: para os complementos factivos propõem a estrutura(2.6a) e para os não-factivos, (2.6b): (2.6) a. SN As configurações (2.6a) e (2.6b), para os IIPARSíCYS, seriam sem- pre respectivamenie factivas e não-factivas. Pensando em senten- ças do português, PERINI contesta essa constância. A determinação da factividade, em português, depende, segundo ele, da relação en tre o tempo do .verbo principal e o tempo do verbo subordinado.Por isso nomeia a configuração (2.6a) oração nominal e a configuração (2.6b), oração não nominal. Uma oração nominal pode ser factiva ou não, enquanto as não-nominais serão sempre não-factivas. BKESNAN (1970) aponta diferença de sentido entre orações que apresentam o complementizador THAT e orações que apresentam o com plementizador FOR. Essa diferença que ela vê é a mesma entre fac- tividade e não-factividade. Assim, BEESNAN argumenta que os com- plement izadores do inglês estão presentes na estrutura profunda. Pode-se lembrar aqui que o Modelo Padrão adota a Hipótese de Katz e Postal (1964) de que a interpretação semântica se passa na es- trutura profunda, não se deixando afetar pelas transformações. PE RINI observa, no entanto, que não é a presença de complementizado res diferentes e, sim, a correlação de tempo entre orações princi pais e orações subordinadas que é relevante para a factividade ou não-factividade em português. Dados como os seguintes: (2.7) a. que Maria vá ao casamento pode incomodar Geralda (NF) fato O b. SN O 43 b. Maria ir ao casamento pode incomodar Geralda (NF) c. que Maria vai ao casamento pode incomodar Geralda (f) (2.8) a. que Maria fosse ao casamento incomodaria Geralda (NF) b. Maria ir ao casamento incomodaria Geralda (NF) c. que Maria foi ao casamento incomodaria Geralda (f) permitem ao Autor concluir: (l) que o tempo da oração subordinada de subjuntivo se determina em relação com o tempo da oração prin- cipal; (2) que a distribuição factivo/não-factivo é a mesma para os complementos de subjuntivo e de infinitivo; e (3) que a coex- tensão factivo/nominal nem sempre ocorre em português. A conclu- são (l) descreve o já conhecido fenômeno de correlação de tempos que se passa entre o tempo da oração principal e o da subordinada de subjuntivo. A conclusão (2) reforça a proposta do Autor de de- rivar as orações com complemento no subjuntivo e no infinitivo de •um único tipo de estrutura profunda, ou seja, a ocorrência dos complementizadores nessas orações pode ser tratada transformacio- nalmente. Em relação à conclusão (3) diz PERINI: "as orações não- nominais nunca podem ser factivas, enquanto que orações nominais podem ou não sê-lo, dependendo dos elementos presentes no auxili- ar da principal ou da própria subordinada" (p.2l). Notar, para es_ se último ponto, que as orações (2.7a) e (2.8a) são nominais e não-factivas. O Autor, então, reservará os termos factivo/não-fac tivo para designar unicamente a propriedade semântica e os termos nominal/não-nominal para se referir às configurações sintáticas. (2.6). Resultado das observações (l) e (2) acima, a regra FORM-SUBJ tem a seguinte proposta de formulação: (2.9) infinitivo - presente do subj./presente,... passado do subj./condicional,... Tanto as subordinadas subjuntivas quanto as infinitivas possuirão tempo vazio (não-especificado) na estrutura profunda. Daí a possi bilidade da regra (2.9). 44 2.2.4. Orações infinitivas com sujeito lexical Tomando o verbo querer como paradigma, PERINI trata dos ca- sos de orações infinitivas que nunca apresentam sujeito lexical. Essas orações existem em conseqüência da SSI, que lhes suprime o sujeito. Não se aplicando a SSI, QUE inserir-se-á e a regra FORM- SUBJ operará a seguir. Há, no entanto, a possibilidade de as orações infinitivas a- presentarem sujeito lexical - ver os exemplos precedentes (2.7b) e (2.8b). PERINI dirá então que a INS-QUE, regra obrigatória, tor na-se excepcionalmente facultativa com orações nominais. Também com orações subordinadas a SPs essa regra se faz opcional. Volto a falar sobre isso nas seções seguintes. 2.2.5. Orações subordinadas no modo indicativo As transformações se ordenam na gramática comentada aqui: INS-QUE SÓ se aplica a orações subordinadas com sujeito. A identi dade do sujeito da subordinada com algum SN da principal provoca a aplicação da SSI, e INS-QUE será então bloqueada. A FORM-SUBJ por sua vez só se aplica a sentenças precedidas de QUE. Mas, precedidas d,e QUE, encontram-se também orações subordina das no indicativo. Ver exemplos do tipo: (2.10) Ele revelou que está em perigo Tem-se aqui "exceções à regra de FORM-SUBJ". Pode-se notar, no entanto, que as completivas do indicativo têm tempo especifica do, e nenhuma correlação de tempos principal-subordinada é neces- sária. As subordinadas no infinitivo e no subjuntivo têm tempo va zio, quando FORM-SUBJ se dará após INS-QUE. Destaca-se assim o pa rentesco infinitivo-subjuntivo versus -indicativo, este último com tempo especificado. 2.2.6. Orações nominais e orações subordinadas a sintagmas prepo- sicionais ' . As orações sublinhadas nas sentenças seguintes são nominais 45 e a INS-QUE é optativa: (2.11) a. que Maria vá ao casamento pode incomodar Geralda b.. Maria ir ao casamento pode incomodar Geralda Com a aplicação de INS-QUE, seguida de FORM-SUBJ e de concor dância (CONCORD) tem-se (2.11a). "Se preferirmos não aplicar a INS-QUE... a FORM-SUBJ não se aplicará" (p.llO), e tem-se (2.11b) As orações sublinhadas em (2.12) são "subordinadas a sintag- mas preposicionais": (2.12) a. chamamos os jardineiros para ajudar b. chamamos os jardineiros para ajudarem c. chamamos os jardineiros para que ajudassem Para essas orações subordinadas a SPs, Perini propõe as deriva- ções seguintes; Na estrutura profunda (2.12d) haveria duas ocor- rências do sintagma nominal o^ jardineiros: (2.12) d. ^hamamos os jardineiros[ para os jardineiros ajudar]] SP Também aqui INS-QUE é optativa, assim como a SSI. Com a aplicação da SSI, deriva-se (2.12a). Nenhuma das duas operando, tem-se (2. 12b), contanto que uma regra de Pronominalização (PRONOM) conver- ta a segunda ocorrência de os jardineiros em pronome, e que este depois seja apagado pela regra de Supressão do Sujeito Pronominal (SSP). Por fim, (2.12c) resultará da não-aplicação de SSI, da a- plicação da INS-QUE e de outras regras, entre as quais PRONOM e SSP, etc. Nota-se então que as orações nominais (2.11) e as orações su bordinadas a SPs (2.12) são "sintaticamente isoladas", isto é,pro vocam um "bloqueio parcial" - tornando "optativas as regras obri- gatórias e inaplicáveis as optativas" (p.ll9). INS-QUE e, SSI, por exemplo, de obrigatórias se fazem optativas nesses contextos. Da mesma forma, Alçamento da Negativa (ALÇ-NEG), que é optativa, tor na-se inaplicável (ver PERINI (1977:113-8)). Feita essa descrição do comportamento sintático semelhante de orações nominais e de orações subordinadas a SPs, Perini acres 46 centa a observação: "... pelo que sabemos, não há razão por que orações su- bordinadas a SPs devam comportar-se como orações nomi- nais, e não como orações não-nominais, no que diz respei to ao isolamento sintático." (p.ll9) Levanta, no entanto, a hipótese - que será examinada a se- guir - de que as "orações não-nominais, ao contrário das nomi- nais, nunca se subordinam a SNs, mas são imediatamente dominadas por SV". (p.ll9). Assim,' as orações nominais, subordinadas a SNs, encontram as orações subordinadas a SPs, na medida em que nenhuma delas é imediatamente dominada por sv. Essa seria uma explicação para o "isolamento sintático" acima descrito e para o contraste com as não-nominais. 2.2.7. Orações nominais como sintagmas nominais Argumentos de natureza sintática e semântica defendem a hipó tese, segundo PERINI, de que as orações nominais, ao contrário das não-nominais, se comportam como SNs. O Autor acentua, por primeiro, a caracterização semântica se melhante de SNs não-oracionais e de orações nominais: as circuns- tâncias que determinam a factividade e a especificidade de uns são as mesmas que determinam a factividade e a especificidade das ou- tras. Assim: (2.13) a. eu posso matar um psiquiatra (Nesp, NF) b. eu mataria um psiquiatra (Nesp, NF) c. eu matei um psiquiatra (Esp, F ) d. eu matarei um psiquiatra (Nesp, F ) (2.14) a. eu posso lamentar que você fuja (Nesp, NF) b. eu lament5iria que você fugisse (Nesp, NF) c. eu lamentei que você fugisse (Esp, F ) d. eu lamentarei que você fuja (Nesp, F ) O Autor observa também, e isso é tomado como argumento sintá tico para a mesma hipótese, aue "todos os verbos aue tomam ora- 47 ções nominais como objetos ou sujeitos aceitam também SNs não-ora cionais (abstratos) naquelas posições; aceitam, em particular, no minalizações "léxicas" ..." (p.l29). Por exemplo: (2.15) a. lamento a sua infelicidade b. ele lamentou a recusa de Nair c. a chegada de V/anderlei me alarmou d. ele levou em conta a critica de Maria Luisa já com verbos que tomam orações não-nominais: (2.16) a. *parece a chegada deles b. *aconteceu a descarga dos navios c. *ele disse a recusa de Nair d. *Pedro afirmou a chegada de 140 caixas de uísque Outro argumento, também de natixreza sintática, é procurado em contrastes do tipo: (2.17) a. você vir me alarmou b. que ele tenha coragem de dizer isso me irrita (2.18) a. ^que ele virá parece (cf.: parece que ele virá) b. *que ninguém me topava aconteceu (cf.: aconteceu que ninguém me topa- va ) PERINI observa que, em (2.17), as orações nominais sublinha- das ocupam de forma 'natural' a posição pré-verbal de sujeito, ao contrário das orações não-nominais de (2.18) - cuja "posposição é aparentemente obrigatória". (p.l32). Querendo concluir que "ape- nas orações nominais podem ser sujeito na estrutura profunda",fun ção que pode ser exercida também por SNs não-oracionais, o Autor vê nisso um argumento em favor de se analisar as orações nominais como SNs. A direção geral que seus argumentos apontam, insiste ele, é suficientemente clara: "as orações nominais devem ser analisadas como orações subordinadas a SNs, enquanto que as orações não-nom^ nais não devem ser analisadas dessa maneira." (p.l33). Perini quer assim reconhecer dois tipos de complementos de predicados: um, formado por uma oração diretamente dominada por SV (orações não-nominais), e o outro, por uma oração subordinada a um SN (orações nominais): (2.19) a. SV O (não-nominais) b. SN O (nominais) De .tudo isso resultam os teoremas, pretendidos por PERINI, de que só orações nominais (ao lado de SNs não-oracionais) podem ser sujeito na estrutura profunda, e que orações não-nominais'sub jetivas' são conseqüência de alguma transformação (Intraposição (INTRAP),' por exemplo), e são, de fato, objetos na estrutura pro- funda. Dispensa demonstração, no entanto, que orações não-nomi nais só podem ocorrer na posição-objeto, da mesma maneira que mui tas das orações subordinadas a SPs. Estas podem ser também não-no minais, mas não estarão diretamente dominadas por SV. 2.2.8. Os verbos de percepção PERINI trata algumas ocorrências - na posição objeto - de in finitivo dito pèssoal. Os verbos de percepção - isto ê, ver, ou- vir e sentir - servem de base para sua análise. O verbo ver - a análise é extensiva aos outros verbos de per cepção - ocorre com dois tipos de complementos oracionais. Nas o- rações: (2.20) a. vi João correr b. vi que João corria ter-se-ia, segundo o autor, ver 1 (2.20a) (percepção sensorial) que significa "enxergar" e só permitiria complemento oracional na forma infinitiva e ver 2 (2.20b) (percepção intelectual) que sig- 49 nifica "compreender" e só permitiria complemento no modo indicati vo (que tem tempo especificado). O Autor argumenta, então, que as orações acima não são sinônimas e que através de (2.21) pode-se comprovar a distinção: (2.21) a. vi que João corria pelo barulho que fazia b. vi João correr pelo barulho que fazia Perini considera também que o complemento de ver 1 é não-nominal e que o de ver 2 é nominal. (2.20b) poderia ser negada e ^ ainda pressupor que João corria, o que não se daria com (2.20a): (2.22) a. não vi João correr b. não vi que João corria Para derivar (2.20b) ele propõe que haveria, na estrutura profunda, "uma oração subordinada [_ João passado correr J à qual se aplica obrigatoriamente a INS-QUE" (p.52). Para (2.20a) ter-se-ia a seguinte derivação: (2.23) estrutura profunda - [eu Pass ver João [joão... correr]] SSI - [eu Pass ver João [ ... correr]] a ocorrência de dois SNs idênticos, satisfazendo a descrição es- trutural da regra SSI, bloqueia a aplicação da regra INS-QUE. 2.2.9. Mandar, deixar, fazer PERINI propõe que a análise empregada para os verbos de per- cepção pode ser transposta para os verbos mandar, deixar, fazer. Esses verbos permitem complementos no infinitivo e no subjun tivo: (2.24) a. O reitor mandou LÚcia trepar no mastro b. O reitor mandou que LÚcia trepasse no mastro 50 PERI NI afirma, porém, que as orações acima não são sinônimas. A primeira "significa que o reitor deu a oríiem de trepar no mastro diretamente a Lúcia; já em (2.24b) ele pode ter transmitido a or- dem a outra pessoa—" (p.95). Tratar-se-ia então de uma distin- ção ordem-dada-diretamente/ordem-dada-indiretamente. Essa distin- ção se comprova, segundo PERINI, pelas sentenças: (2.25) a. O reitor mandou que os livros ficassem no porão b. *0 reitor mandou os lÍAn?os ficarem no porão. A má-formação de (2.25b) se explicaria pela impossibilidade de darmos ordens diretamente a livros. Assim, (2.24a) seria gera- da de uma estrutura profunda similar à que está em (2.23), ou se- ja, com duas ocorrências do SN Lúcia, satisfazendo, portanto, a descrição estrutural da regra SSI. (2.,24b) seria derivada de uma estrutura profunda semelhante à do verbo querer (ver (2.2)), isto é, com apenas uma ocorrência do SN Lúcia, permitindo, assim, a a- plicação das regras INS-QUE e FORM-SUBJ. 2.2.10. A concordância e o infinitive pessoal A concordância é tratada no M.P. como uma regra que copia no verbo os traços de pessoa e número do sujeito. PERINI pretende de monstrar que "a ordenação de todas as regras da língua é a mesma tanto em relação à concordância das formas finitas quanto em rela ção à da dos infinitives" (p.71), e isso seria "argumento em fa- vor da postulação de uma única regra para dar conta de ambos os tipos de concordância" (p.7l). Para isso, o Autor examina como CONCORD interage com as regras de Passivização, Movimento de SN Relativizado, Movimento de SN Interrogado (regras que transportam um SN ou um elemento interrogative, formando orações relativas e interrogativas) e outras. Valendo-se da proposta de PER>íULTTER (1972) - de que as regras de movimento deixam, no lugar deumcons tituinte removido, um pronome-sombra e que este pode se clitici- zar ou mesmo entrar em processo de concordância com o verbo -, PE RINI comprova a hipótese de que a ordenação de CONCORD é a mesma, tanto para as formas finitas quemto para as formas infinitivas. Há, porém, segundo o Autor, um caso em que "a concordância do infinitivo difere da concordância das formas finitas" (p.8l). Nos 51 casos de inversão do sujeito infinitivo a oração seria mal-forma- da, o que não ocorreria com as formas finitas: (2.26) a. Eles ouviram os ladrões sairem do banco b. *Eles ouviram sairem os ladrões do banco c. Eles ouviram sair os ladrões do banco d. Eles ouviram os ladrões sair do banco (2.27) a. Ele disse que os caixotes chegaram b. Ele disse que chegaram os caixotes O Autor propõe dar conta da má-formação de (2.26b) postulando "u- ma restrição (ou filtro) superficial que marca como mal formadas, todas as cadeias superficiais que contenham uma seqüência de ver- bo finito e infinitivo, onde ambos são identicamente flexionados (em número e pessoa)" (p.84). Esse será o Filtro de Dupla Desinên cia que é afetado "pela distância linear entre os dois verbos em questão, de modo que quanto mais afastados estiverem os verbos, mais branda será a violação resultante" (p.84-5). Por isso uma o- ração como (2.28) seria melhor que (2.26b): (2.28) Eles ouviram dali a alguns minutos, transidos de terror e apreensão, saírem os ladrões do banco. Para tratar da concordância optativa entre (2.26a) e (2.26d) PERINI argumenta que a cadeia V SN V presente nestas orações é es_ truturalmente ambígua: o SN ora poderá ser objeto do verbo matriz gerando (2.26d) ora poderá ser sujeito do infinitivo gerando (2. 26a). Na oração (2.26c) a inversão do SN é possível - sendo que o SN é objeto do verbo matriz - também por causa da ambigüidade es- trutural. Esses casos exemplificam a Flutuação da Kegra de Concor dância. 52 2.3. COMENTÁRIOS Nesta seção discuto alguns pontos das propostas de PERINI, a presentadas na seção anterior. Os comentários que faço pretendem, em última análise, mostrar ou bem a adequação de um tratamento da complementação em termos de subcategorização, ou bem a insúficiên cia da análise dos complementizadores por meio de regras transfer macionais. 2.3.1. Bases teóricas A concordância do infinitivo é o tema principal do trabalho de PERINI. A ocorrência de complementos introduzidos por QUE e de complementos na forijia infinitiva decorre da aplicação de regras transformacionais da gramática. É a partir dessa proposta central que PERINI abordará os vários fenômenos presentes na complementa- ção portuguesa. Que a oposição QUE/inf é de origem transformacional se deve a dois fatos. Primeiro; a sinonímia de orações completivas no mo- do subjuntivo e na forma infinitiva, a factividade nos dois ca- sos se distribui na mesma maneira. Segundo: a previsibilidade, em geral, do aparecimento de QUE: sua ocorrência advém da presença de um sujeito lexical na subordinada. Os fatos acima permitem um tipo básico de estrutura profunda em que os verbos subordinados apareçam no infinitivo. As regras, se aplicando, se responsabilizarão pelas estruturas de superfí- cie. A sinonímia como fundamento dessa proposta é resultado, como já foi dito, da Hipótese de Katz e Postal (1964), encampada em Aspects (CHOMSKY (1965:231): na estrutura profunda se dá a in- terpretação semântica. As transformações não alteram o significa- do das seqüências às quais se aplicam. Os fatos acima permitem também a conclusão de PERINI de que "sempre que na estrutura profunda há identidade de sujeito entre a oração principal e a subordinada, INF é o único complementiza- dor possível..." (p.l2) (n.2). A proposta do tratamento transformacional da complementação portuguesa, resumida acima, pode ser objeto de considerações mais amplas. Primeiramente, já foi mostrada a inadequação da Hipótese 53 de Katz & Postal - ver,■ .por exemplo, LOBATO (1985:266ss). É, ali- ás, o debate sobre o lugar da interpretação semântica na Gramáti- ca que serviu de ponto de partida para a reformulação do Modelo Padrão, e o conseqüente desenvolvimento da teoria gerativa. Ora,a verificação da insuficiência de um modelo pode trazer consigo a e ventual rejeição de análises nele baseadas. Assim, embora as con- clusões de PERINI, dado o paralelismo semântico entre completivas de subjuntivo e de infinitivo, sejam inteiramente válidas no qua- dro do Modelo Padrão, outros fatos parecem concorrer que apontam a inadequação de sua análise. 2.3.2. Subcategorização PERINI adianta'que não pretende "desenvolver em detalhe uma teoria dos complementizádores portugueses..." (p.ll), mas as regu laridades que descobre, corroborando um tratamento transformacio- nal da complementização, dão a impressão de que todo tratamento a^ ternativo poderia ser de antemão condenado ao fracasso. No entan- to, a previsibilidade, que ele defende, das ocorrências dos com- plementizádores não se mostrará tão evidente, se se levar em con- ta um quadro mais amplo de dados. Adaptando para o português alguns pontos da análise dos com- plementizádores de CHOMSKY & LASNIK (1977:440-50) - C&L -, posso comprovar essa última afirmação. C&L propõem a seguinte regra de base: (2.29) S 1> COMP S A posição COMP, onde se alocam os complementizádores, apre- senta as seguintes regras: (2.30) COMP > - qu - qu í> 0, que + qu c> se O complementizador 0 - sem matriz fonológica - eqüivale ao INF de PERINI. - qu designa as orações declarativas (ou relativas) e +qu, as orações interrogativas (questão direta ou indireta). C&L argumentam que as regras (2.30) de COMP são por demais 34 complexas para serem tratadas com recursos transformacionais e es te fato seria evidência de que features of lexical itens determine the complementi zers that may appear with their sentenciai complements." (p.445) Pode-se averiguar essas considerações através, por exemplo, de um exame das possibilidades de interrogativas como complemento dos verbos portugueses: (2.31) a. João perguntou se Maria viajou b. *joão perguntou que Maria viajou (2.32) a. João quer que Maria viaje b. *joão quer se Maria viaje (2.33) a. João sabe se Maria viajou b. João sabe que Maria viajou (2.34) a. João descobriu se Maria viajou b. João descobriu que Maria viajou (2.35) a. *João pretende se nós viajamos' b. João pretende que nós viajemos Os verbos admitem ou um complemento declarative ou um comple mento interrogative, ou ambos. Como PERINI daria conta desses fa- tos, em termos de regras transformacionais? É meu objetivo, nesse trabalho, levando em conta proprieda- des léxicas dos verbos, propor (se bem e por isso mesmo me oocupe apenas de complementos oracionais que se alocam na posição obje- to) uma análise da complementação portuguesa em termos de subcate gorização. Podem argüir-me que também a análise de PERINI recorre à subcategorização. Assim: "... subcategorizamos os verbos com respeito ao tempo que aceitaim em seus complementos. Como a inserção léxica pre cisa ser sensível à subcategorização de qualquer manei- 513 ra, os tempos serão inseridos nos lugares certos, tal co mo necessário..." (p.27) É verdade que PEKINI não tem como não contar com a subcatego rização, mas, concentrando-se na defesa de regras transformacio- nais para cuidar das ocorrências de complementizadores, ele deixa por assim dizer ofuscado o papel da subcategorização e seu cará- ter necessário para um tratamento homogêneo da complementação, se ja para cobrir boa parte dos dados que ele trata, seja para dar conta de dados do tipo (2.31-35). Tanto aqui como lá, é imprescin dível que se recorra a propriedades dos itens léxicos. 2o3o3. Correlação dos tempos Problemas teóricos de duas naturezas se levantam com a análi se transformacional dos complementizadores proposta por PERINI, e se adaptam de forma mais natural a um tratamento das completivas, em que o fenômeno da subcategorização seja realçado. Primeiramen- te a questão se levanta da adequação explicativa de uma teoria que permite ampla escolha de gramáticas de base e de transforma- ções (obrigatórias e opcionais). São os problemas teóricos rela- cionados com a aquisição da linguagem e com as condições de prio- ridades epistemológicas que devem ser encontradas (n„3). Os outros problemas, que eu diria de natureza técnica, com- provam o caráter secundário que a subcategorização exerce no estu do de PERINI. Embora CHOMSKY (1965)- onde se delineia o Modelo Pa drão - tenha insistido em que "não é pertinente para a subcatego- rização estrita de V nenhum quadro estrutural que não faça parte do SV" (pp.182-5), e distingá com clareza "subcategorização estri ta" de "regras de seleção", PERINI em nenhum momento em seu estu- do deixou explícita essa distinção, da mesma forma que não distin gue, quanto à subcategorização, a posição sujeito da posição obje to. Ambas as posições PERINI deixa padecer que são subcategoriza- das pelo verbo (n.4). Ora, já faz tempo que a teoria tem reconhe- cido- e isso se torna mais saliente nos estudos gerativistas mais recentes - uma espécie de assimetria entre a posição sujeito e a posição objeto, e essa assimetria, também e com realce, diz res- peito à subcategorização. Não é (também não) meu interesse criar debate aqui em torno dessa questão. É por isso que - volto a in- 56 sistir - tomei como objeto de estudo a complementação na posição objetiva, as completivas passíveis canonicamente de se relaciona- rem com a subcategorização. A correlação de tempos existentes entre as orações princi- pais e as subordinadas poderia ser certamente o principal argumen to de que implicitamente (n.5) se poderia valer PERINI paraumtra tamento uniforme, com o mesmo aparato transformacional que criou, das completivas subjetivas e objetivas, vê-se no entanto que há certamente mais para se cavar nesse poço. Primeiramente, é de se perguntar se a inaceitabilidade das construções de (2.36), onde é a posição objeto que é afetada pela correlação de tempos, e de (2.37), onde a posição sujeito está envolvida, é a mesma: (2.36) a. Eu quero ^que José corresse mais Eu lamento que Pedro fosse É impossível que ele viesse b. Eu queria que José corra mais Eu lamentava que Pedro vá Era impossível que ele venha (2.37) a. que ele corresse mais me irrita que Pedro fosse me incomoda que ela viesse é trágico b. que ela corra mais me irritava que ele vá me incomodava que ela venha era trágico Tenho para mim que a estranhez das sentenças de (2.36) é bem maior que as de (2.37). Como em (2.36) têm-se completivas objeti- vas e em (2.37) completivas subjetivas, poder-se-ia pensar em se- pará-las exatamente pela subcategorização. Tem-se no entanto aqui objeto de mais estudo. Caso haja falantes para os quais os dados de (2.36) seja tão estrsuihos' como os de (2..37), não se poderá con cluir que isso tenha a ver com a subcategorização. Sabe-se que al guma correlação de tempo também há entre orações principais e ora ções subordinadas adverbiais, como se pode ver abaixo: (2.38) a. Pedro não viaja, embora Maria o quisesse Ainda que Pedro não viesse, Maria sai agora 57 Se eu tivesse dinheiro, eu irei à Europa enquanto ele falasse, eu ficarei calado b. Pedro não viajou, embora Maria o queira Ainda que Pedro não venha, Maria saiu Se eu tiver dinheiro, eu iria à Europa enquanto ele falar, eu ficaria calado Ora, em (2.38), não há como falar em subcategorização para explicar a eventual necessária correlação de tempos. E isso mos- tra que aí não se tem argumento para se pensar as completivas sub jetivas como necessariamente subcategorizadas pelo verbo. 2.3.4. A oposição orações nominais/não-nominais e a INS-QUE - ora ções infinitj-vas com sujeito lexical Nesta subseção, comento a proposta de PERINI de analisar as completivas infinitivas com sujeito lexical pela aplicação opcio- nal da regra de INS-QUE. INS-QUE aplica-se a orações com sujeito - depois de essas es truturas já terem passado pela SSI -, e será obrigatória, se o tempo da subordinada dor especificado (independentemente de se tra tar de orações nominais ou de orações não-nominais) - e SSI não po derá ter-se aplicado entaÕ. Será também obrigatória se SSI não en controu condição de suprimir o sujeito de uma completiva que seja não-nominal. O Autor afirma, como foi visto, que a aplicação da INS-QUE pode também fazer-se opcional, e isso pode acontecer em dois ambientes: em orações nominais e em orações subordinadas a SPs. Mas, orações não-nominais também há, não subordinadas a SPs, nas quais não se deu a INS-QUE nem a SSI pôde suprimir O" sujeito lexical. Assim, um terceiro contexto se encontra, de infinitivo com sujeito lexical, em que se poderá dizer que a INS-QUE se fez opcional. Exemplos desse caso são encontrados nos dados do pró- prio Autor: (2.39) a. Rrederico propôs nós entrarmos no barril (p.yi) b. Prometo ela estar pronta às 4 horas (p.160) Além desses, outros exemplos podem ser construídos: 58 (2.40) a. Paulo aceitou seus filhos viajarem de bermuda b. Pedro achou provável os meninos darem-lhe um charuto Parece evidente que em todos esses exemplos temos, como com- pletivas, orações não-nominais. Ora, em nenhuma circunstância nem mesmo com o pretérito perfeito na oração principal - essas o- rações podem ser consideradas factivas (ver PERINI (p.ll9ss)). Pode-se concluir, então, que, se se levar em conta tais exem pios, ver-se-á que a oposição oraçoes nominais/não-nominais não será relevante para um tratamento transformacional das ocorrên- cias de QUE e de sujeitos lexicais em orações infinitivas. O prin clpio do "bloqueio parcial" das regras, atribuído às orações nomi nais, valerá também para as orações não-nominais, pelo menos no que concerne à regra de INS-QUE, isto é, as orações não-nominais de (2.39-40) apresentam-se com sujeito lexical. Também orações nominais se encontram para as quais a INS-QUE se faz obrigatória. Esses exemplos são encontrados também nos da- 'dos do próprio Autor, quando este estabelece diferença entre ver- bos de percepção sensorial e de percepção intelectual. Ora, ver- bos de percepção intelectual, tais como saber, compreender, perce ber, etc., na oração principal, têm como complemento orações nomi nais. E essas orações - mesmo sendo nominais -, não conseguem, por que têm necessariamente tempo especificado, tornar opcional a re- gra obrigatória de INS-QUE. Não poderiam mesmo fazê-lo, pois, pa- ra que a INS-QUE fosse opcional, dever-se-ia esperar que o tempo da subordinada fosse vazio. Ora, esses verbos (por não terem a leitura de percepção sensorial, quando teriam orações não-noninais como complementos) não poderão ter tempo vazio na subordinada - e daí também não permitem que INS-QUE possa mostrar sua opcionalida de. (isso tudo sem dizer que parte da análise dos verbos de per- cepção se estende para verbos como mandar, deixar, fazer, que têm completivas não-nominais). Nos dados do Autor podem ainda ser encontradas outras ocor- rências de orações infinitivas não-nominais com sujeito lexical. Esses exemplos empregam o verbo garantir na oração principal, mas poderiam valer-se também de outros verbos, ditos não-factivos, co mo alegar: (2.41) a. Ele garantiu Bruno estar preparado (p.55) 59 b. Garanto ele chegar a tempo (p.56) c. Ele garantiu Eva ser honesta (p.l63) d. Ele alegou Maria ter trabalhado muito Para essas estruturas não se poderá discutir nem a obrigato- riedade, nem a opcionalidade de INS-QUE, Simplesmente porque a INS -QUE não é então possível. Ora, as orações subordinadas dé (2.41) têm tempo vazio, e INS-QUE não se aplicou - daí o infinitive. Ti- vesse ela entrado em operação, o subjuntivo dever-se-ia manifes- tar, mas as construções de (2.42) são inaceitáveis: (2.42) a. Ele garantiu que Bruno estivesse preparado b. Ele alegou que Maria tivesse trabalhado muito Têm-se então aqui fenômenos semelhantes àqueles apontados por PERINI, com respeito ao verbo revelar (p.65-7), com a ' diferença, essencial para ele, que as completivas de revelar são nominais, en "quanto as de garantir e alegar são não-nom.inais. Mais uma "situa- ção se apresenta assim em que a oposição orações nominais/não-no- minais não se mostra pertinente na explicação das ocorrências de QUE e da presença léxica do sujeito de completivas infinitivas. É também pouco explicativo o recurso, proposto por LAKOFF (1970), de marcar itens léxicos com respeito à aplicação de regras. E des se recurso PEKINI lança mão para dar conta do comportamento (ex- cepcional) de revelar. O mesmo formalism© valeria então para ga- rantir e alegar? Ainda 'um terceiro tipo de estruturas há em que completivas não-nominais se apresentam como sujeito lexical no infinitive.Pen so em construções do tipo: (2.43) a. João afirmou terem seus filhos viajado de bermuda b. Maria disse estar seu pai viajando pela Europa Nas orações subordinadas de (2.43) há a ocorrência de elementos como ter-do, estar-ndo, quanto de um fenômeno de inversão. Os pri meitos, PERINI os trata como "elementos do Auxiliar". Podem, quan do presentes em complementos que são orações nominais, "forçar a interpretação factiva" - diz o Autor (p.41-4). Em (2.43), é cla- eles não podem fazer essa tarefa, pois estão em orações não- 60 nominais. Quanto à inversão do sujeito para depois desses i mesmos elementos do AUX (ou se trata de alçamento deles para antes do su jeito?) - outro fenômeno encontrado nos dados de (2.43) nada está dito no texto de PERINI sobre ela. A regra de Inversão que o Autor reconhece - "que normalmente não tem efeito sobre a concor- dância" (p.8l) - é a que se encontra em dados do tipo (2.27), re- petidos aqui sob (2.44): (2.44) a. ele disse que os caixotes chegaram b. ele disse que chegaram os caixotes Os dados de (2.43) trazem assim em seu bojo as seguintes ques toes: a) É a inversão presente neles que determina a não aplica- ção de INS-QUE? b) É a presença de ter-do, estar-ndo que permite ao infinitivo, mesmo em oração não-nominal, ter sujeito lexical? Deve-se lembrar no entanto - independentemente das respostas que se poderia dar a essas questões - que, como já foi visto, a INS- QUE não seria possível em (2.43) - pois as completivas de afirmar e de dizer (assim como as de revelar, garantir, etc.), tendo tem- po vazio, só têm o infinitivo como meio de se realizarem, são as exceções-à Formação de Subjuntivo. Pode-se também lembrar - como será mostrado no capítulo 3, a seguir - que a inversão que ocorre em (2.43) não é exigida pela maioria dos falantes. Todas as considerações expostas acima esvaziam, por assim di zer, a proposta de um tratamento transformacional das ocorrências de complementizadores e da presença de sujeitos lexicais com infi nitivos. Uma teia intrincada se construiu, feita de descrições es truturais de regras, de implicações sintáticas e semânticas, de marcações de excepcionalidades, etc., e tudo isso parece poder ser substituído por um tratcimento bem mais simples - que, aliás, está subjacente, conforme proposta do Autor, a essa mesma teia: éo tem po da completiva, subcategorizado pelo verbo, que determinará em última instância as ocorrências de QUE e a presença lexical de su jeitos no infinitivo. 2.3.5. INS-QUE - opcional, obrigatória e bloqueada. PEP.INI ilustra sua análise das ocorrências de infinitivo por ele mesmo dito impessoal como o verbo querer. Esse verbo se subme 61 te exemplarmente ao aparato transformacional que ele propõe: quan do há identidade de sujeito na estrutura profunda a regra SSI se aplica derivando um complemento no infinitive e quando não há i- dentidade de sujeito aplica-se a regra INS-QUE, condição para a FORM-SUBJ. NO apêndice do capítulo precedente, foi apontada similarida- de dos verbos poder, dever (de sentido radical) com o verbo que- rer em pelo menos um aspecto: só admitem complemento de infiniti- ve com sujeito não-lexical. Mas, diferentes deste, aqueles não ad mitem complemento oracional introduzido por QUE. PERINI (p.41,n. 12) considera que o verbo poder é um auxiliar - embora admita que talvez PONTES (1973) tenha razão em não considerá-lo como. tal. Demonstrei, porém, que poder e dever são verbos que admitem um complemento na fisrma infinitiva e não se comportam como auxi- liares. Esses fatos levados em conta criam dificuldades para o a- parato transformacional de PEIíINI. Ora, esses verbos, não admitin do complemento oracional introduzido por QUE, exigiriam o bloquei o da regra INS-QUE (e de novo alguma coisa como o recurso de mar- cação de itens léxicos quanto à aplicação de regras, de LAKOFF (1970) deverá entrar em operação). A seguinte situação então se criaria: essa regra seria obrigatória para orações não - nominais; seria opcional para as orações nominais e se bloquearia com po- der, dever, ousar, etc. Estranhas idiossincrasias para uma mesma regra de custo tão alto. Um tratamento que pusesse em destaque a subcategorização seria certamente mais adequado. 2.3.6. A oposição orações nominais / orações não-nominais Nesta subseção ainda será objeto de considerações a oposição oração nominal / não-nominal. Minha atenção se volta especialmen- te para a distribuição sintática dos dois tipos de orações. Nas subseções 2.2.6. e 2.2.7., descrevi como PERINI constrói essa opo sição. Foi visto que a idéia-chave que orienta seu raciocínio é que "as orações não-nominais, ao contrário das nominais, nun ca se subordinam a SNs, mas são imediatamente dominadas por um nódulo SV.'• (p.ll9) 62 Dessa colocação resultam alguns teoremas e muitas questões. Como teoremas, foi visto que só orações nominais (ao lado de SNs não-oracionais) podem ser sujeito na estrutura profunda, ou que o rações não-nominais 'subjetivas' - se as houver - são de fato ob- jetos na estrutura profunda. Ora, se as orações não-nominais são "imediatamente dominadas por um nódulo SV", elas não podem estar senão na posição objeto. As questões, por sua vez, são de diferente nat-ureza. Pode-se equacionar na quarta proporcional seguinte um dos objetos dessas questões: (2.45) oração nominal = oração não-nominal SN não-oracional X Kazões semânticas sustentam a idéia, segundo o Autor, de que um paralelismo existe entre a oração nominal e o SN não-oracional: ambos têm sua especificidade e factividade determinadas sob cir- cunstâncias idênticas (ver 2:13 e 2.14). Paralelismo também se es pera do par oração não-nominal e X, de (2.45). Mas como caracteri zar X? As orações não-nominais são sempre não-factivas e não-espe cíficas. Assim, X deverá também ser não-especifico e não-factivo em todos os contextos, mesmo quando o verbo principal estiver no pretérito perfeito. O objeto indefinido sublinhado de (2.46a) — um exemplo de PERINI (p.l24) - ilustra uma ocorrência de X. Mas, que mais se pode dizer sobre X? (2.46) a. Guilherme pediu um charuto b. Guilherme pegou um charuto Um charuto, em (2.46a), é não-específico, mesmo num ambiente (isto é: objeto de um verbo no pretérito perfeito) em que SN-obje to deveria ter interpretação específica. Dever-se-á dizer então que um charuto não é SN, não e objeto ou não e SN-objeto em (2. 46a), embora o seja em (2.46b)? A solução de PERINI consiste em propor que o objeto de (2.46a) é, na estrutura profunda, uma ora- ção. A sinonímia de (2.46a) com (2.47) autoriza a proposta, onde um charuto, que continua não específico, é objeto de um verbo sem tempo especificado (c\mbiente onde não se espera a factividade e a especificidade). 63 (2.47) Guilherme pediu que se lhe desse um charuto. • A estrutura profunda de (2.46.a) será para o Autor algo semelhan- te a (2.47). O elemento X da equação de (2.45) será assim um SN não-oracional que terá sua objetividade e sua interpretação não- factiva e não-específica definidas com relação a um verbo existen te na estrutura profimda, que terá sido podado, de alguma manei- ra. A hipótese do paralelismo entre SNs não-oracionais e orações nominais se mantém, portanto, pois "um verbo como pedir nunca a- ceita objetos não-oracionais, mas apenas orações não-nominais em todos os casos". (p.l27). Objetos de predicados não-nominais são sempre orações na estrutura profimda. A descrição desse quadro uma vez feita, as questões aparecem. Questões do tipo: Dever-se-á dizer que os verbos oferecer, prome- ter, etc., por exemplo, em (2.48) se comportam como pedir, já que um cigarro, ima viagem, um passeio, etc. podem ter interpretação não específica? Qual seria então as estruturas profundas das sen- tenças de (2.48)? (2.48) a. José ofereceu um cigarro a Guilherme b. Meu pai me prometeu uma viagem c. Eu pensei num passeio Qual será a estrutura profunda das sentenças de (2.49), levando- se em conta que também aí, os sintagmas sublinhados, no escopo de uma negação, podem ter interpretação não específica? (2.49) a. Maria nunca viu uma flor, nunca cheirou um cavalo, b. Não encontrei ainda uma máquina de soletrar Ter-se-á de dizer que os sintagmas sublinhados de (2.50) são orações na estrutura profunda, enquanto os mesmos sintagmas, em (2.51) são SNs não-oracionais (pensando-se na listagem de predica dos factivos e não-factivos que os Kiparskis oferecem)? E se a res posta é positiva, que estrutura profunda se deverá.ipropor para os sintagmas sublinhados de (2.50)? (2.50) a. É provável o silêncio 6^ b. Foi possível o plano cruzado c. Foi falsa uma revolta. (2.51) a. É estranho o silêncio b. Foi trágico o plano cruzado c. Foi excitante uma revolta Também questões se levantam com os argumentos sintáticos de que se vale PERINI (p„128ss) para defender o mesmo paralelismo des crito acimao O primeiro diz respeito a nominalizações léxicas„ Fi ca implícito, na argumentação do Autor, que as nominalizações são naturais quando as orações (nominalizadas) são dominadas por SN (ver os dados de (2.15)), mas não quando dominadas por SV (ver os dados de (2.16)). Paralelamente, no entanto, com os dados de (2« 16), pode-se pensar também nas nominalizações bastante naturais de (2.52), onde se incluem também exemplos do Autor: (2.52) a. Eu não quero a infelicidade dela b. O povo espera a renúncia de Sarney c. É provável a recusa de Nair d. Ela não podia supor a crítica de Maria Luísa e. Sonhei com a facilidade da entrega (p„l30) fo Torquato propôs a fuga imediata (p„130) g. Eu sugeri a compra do livro. Não se vê com clareza a explicação para esses dados. Ora, os verbos que neles ocorrem fazem parte daqueles que aceitam comple- mentos não-nominais. Se esses complementos são dominados por SV, parece que se deveria esperar, com base em (2.16), que as nomina- lizações não fossem possíveis, PEKINI (p,130) dirá que esses ver- bos "são independentemente subcategorizados de modo a tomarem SNs não-©racionais como objetos (ou sujeitos)". Assim, mais uma vez se tem a subcategorização com o papel secundário de justificar idios sincrasias, em vez de fornecer tratamento homogêneo da complemen- tação. Mas essa sugestão não pode convencer. Como o Autor daria conta da nominalização em (2.Í33), que envolve o verbo pedir? Ora, já foi avançado que esse verbo "nunca aceita objetos não-oracio- i^ais, mas apenas orações não-nominais em todos os casos" (p.l27). 65 (2.53) O povo pede a renúncia de Sarney P Parece que se deverá dizer então que pedir está subcategori- zado (excepcionalmente) de modo a tomar um SN que domine apenas as orações nominalizáveis e os sintagmas nominalizados. Com a análise do verbo pensar (p.130-1) tem-se mais uma pro- va de que as propostas descritas acima não são adequadas. Ora, PE RINI quer reconhecer dois verbos pensar; pensar^ que significa 'a creditar' e toma orações não-nominais e pensar^ com o sentido de 'refletir(sobre)' que toma orações nominais. Assim a sentença (2. 54a) é ambígua, mas, diz ele, é apenas pensar^ que "aceita obje- tos não-oracionais" (2»54b): (2.54) a. Ele pensa-que Getúlio morreu b. Ele pensa na morte de Getúlio Se assim é, então será pensar^ que estará envolvido na sen- 'tença (2,55a) seguinte, mas então terei de pensar que o complemen to é factivo e que terá a interpretação (2,56b), em que 'a verda- de do complemento é pressuposta': (2.55) a, eu pensei na minha morte b, eu pensei no fato de eu ter morrido Ora, no verbo pensar o Autor pretende encontrar um segundo argu- mento em favor do paralelismo oração nominal e SN não - oracional. Também o argumento documentado na oposição entre (2,17) e (2.18) tem pouca força para sustentar a tese de PEKINI de analisar as "o rações nominais como SNs e as orações não-nominais como outra coi sa qualquer" (p,133). Outro foco de questões pode-se encontrar ainda no pretendido comportamento sintático similar de orações nominais e de orações subordinadas a SPs, ambas envolvidas no bloqueio de regras (ver subseção 2,2.6,). Quero destacar aqui, de passagem, apenas um pro blema. As orações subordinadas a SPs - pelo menos aquelas de que « o Autor se valeu (ver os dados de (2,12)) são, elas mesmas, ora- ções não-nominais, isto é, são não-específicas e não-factivas. O- I'a, se as orações não-nominais não podem ser dominadas por SNs, u ma nova regra de base deverá ser introduzida que reescreva SP co- 66 SN O mo em (2.56): (2.56) SP 1> P vê-se assim que a proposta do Autor tem ainda esse custo teó ricOc Nesta subseção foi minha intenção levantar algiAmas questões e sugerir alguns problemas que concorrem para apontar como inadequa da a análise da oposição oração nominal/não-nominal, 2.3.7. Orações infinitivas objetivas com sujeito lexical Tomando como base o verbo ver, PERINI analisa as ocorrências de infinitive com sujeito lexical na posição objeto» Pela descri- ção do Autor, vê-se que as acepções desse verbo estão em distri- buição complementar: (2.57) a. vi João correr b. vi que João corria Ver-1 ocorre com um complemento na forma infinitiva que apresenta tempo não-especificado e é interpretado como não-factivo. já o cor. plemento de ver-2 está sempre no modo indicativo, apresenta tempc especificado e é interpretado como factivo, A proposta de derivar as orações (2.45) de estruturas profundas diferentes advém tambér. da Hipótese de Katz e Postal, ou seja, essas orações não sendo si nônimas, possuem estrutiuras profundas distintas. Uma primeira observação pode ser feita em relação à comple- mentaridade mencionada. PERINI vai valer-se de dois itens léxi- cos, ver-1 e ver-2. Ora, seria mais econômico tratá-la em termos de subcategorização. Uma simples regra de redundância do léxico poderia especificar quando o verbo é interpretado como tendo a lei tura de percepção intelectual e quando a de percepção sensoria]. Pode-se também observar que as acepções de ver não precisam se determinar necessariamente, de maneira inequívoca, para todos os falfintes: (2.58) a. vi que João corria de agasalho azul e Maria, de amarelo b. Quando Reagan não quis assinar o tratado, ou vi o fim do 67 inimdo chegar. A oposição de sentido entre percepção intelectual e percepção sen sorial - se existe - se faz muito sutil. No entanto, tem-se indi- cativo na oração (2.46a) que deveria corresponder a (2.45a) e in- finitive em (2.46b) onde deveria estar o indicativo como em (2. 45b). Também a interpretação factiva ou não-factiva dos complemen- tos parece não ser propriedade exclusiva do modo indicativo e da forma infinitiva; principalmente, se algum contexto é acrescenta- do, favorecendo uma ou outra interpretação. Nas orações abaixo pa rece-me poder-se ter a interpretação factiva com o infinitive e não-factiva com o indicativo; (2.59) a. Ontem na praça, eu vi João correr com o agasalho azul de seu irmão b. Quando Reagan não quis assinar o tratado, eu vi que o fim do mundo chegava PERINI argumenta, além disso, que há restrições selecionais específicas quando o verbo é de percepção sensorial ou de percep- ção intelectual, isto é, na primeira acepção, ao contrário do que se passa na segunda, o verbo não pode ocorrer com SNs abstratos. Não prètendo demonstrar que- a distinção semântica sugerida pelo Au tor não exista, mas apenas ressaltEir que esta não parece determi- nar, necessariamente, a ocorrência do modo verbal ou da forma in- finitiva. E mais, o uso de aspectos semânticos não parece ser um guia seguro para a análise de fatos sintáticos. Sobre esse último ponto, já dizia CHOMSKY (1957:111): "II semble clair... que des correspondances indéniables bien qu'imparfaites, existent entre les traits formeis et sémantiques de Ia langue. Le fait .que ces correspondan- ces soient si imprécises suggère que le sens ne peut ê- tre utilisé comme base de Ia description grammaticale." As construções com os verbos causativos também são (analisa- das por PERINI. Assim como para os dois tipos de complementos dos verbos de percepção, as construções de subjuntivo e de infinitive 68 dos verbos mandar, deixar e fazer não são consideradas sinônimas. O que justifica, no quadro de referência adotado pelo Autor, der^ vá-las 'de estruturas profundas distintas. Entretanto, parece que,- se há a distinção ordem-dada-diretamente/ordem-dada - indiretamen- te, esta não determina, nos complementos, a ocorrência do modo ver bal subjuntivo ou da forma infinitiva: (2.60) a. Em conversa ontem com o ministro, o presidente mandou que ele adotasse a austeridade b. Através de um decreto, o presidente majidou o exército construir uma ferrovia Ao contrário do que diz PERINI, tem-se em (2.47a) uma ordem dire- ta e em (2.47b), ordem indireta. Se considerarmos, então, que as orações abaixo são sinônimas - notar também que tanto o complemento de infinitive quanto o de subjuntivo são não-factivos: (2.61) a. Numa conversa particular, o presidente mandou que o mi- nistro adotasse a austeridade b. Numa conversa particular, o presidente mandou o minis- tro adotar a austeridade as regras transformacionais propostas não conseguirão gerá-las de uma estrutura profimda comum: a aplicação da regra SSI, condição para se ter o infinitive, bloquearia a INS-QUE, regra necessária para se derivar o complemento no subj-untivo. Caso inseríssemos o QUE, a regra SSI não poderia se aplicar» O fato de os complemen- tos de mandar serem não-nominais impediria que se considerasse op cional a regra INS-QUE. Um tratamento através da subcategorização se mostra então mais adequado para tratar esses casos. 2.3.8. Concordância No Modelo Padrão analisa-se o fenômeno da concordância, como o faz PEKINI, através de regra transformacional. Considera-se in- clusive — por razoes que não são pertinentes aqui — que a concor- dância nominal se faz por uma regra distinta da regra de concor— 69 dância verbal. Talvez se situe aí a preocupação de PERINI em de- terminar se a concordância do infinitivo - uma singularidade do português - é da mesma natureza que a concordância das formas fi- nitas, ou seja, se a regra de concordância que se aplica nas for- mas infinitivas se ordenaria com as demais transformações da mes- ma maneira que a regra de concordância das formas finitas. Com o desenvolvimento da Gramática Gerativa, passou-se a tra tar o fenômeno da concordância como uma condição de boa-formação das orações (ver, por exemplo, ROUVERET (1980)). Em relação ao tratamento do Autor, vou ressaltar apenas que o Filtro de Dupla Desinência é inadequado, o que se pode compro- var pelas seguintes sentenças: (2.62) a. Eles crêem terem cumprido o dever b. Os meninos lamentam terem fugido de casa c. NÓS esquecemos termos sido convidados para á festa. '2.4. REGRAS E PRINCÍPIOS A constituição da forma superficial das sentenças, nas análi ses que se servem do Modelo Padrão como quadro de referência, é tratada através das regras transformacionais, A aplicação destas se faz ordenadamente, ou seja, a aplicação de uma transformação sempre é pré-condição para a aplicação da transformação seguinte. A partir de CHOMSKY (1973), começou-se a repensar a questão da adequação, tanto descritiva quEinto explicativa, de uma gramáti ca que se serve de regras transformacionais. Percebeu-se que as transformações detêm poder descritivo ilimitado pois podem ser propostas e interligadas com total liberdade. Corre-se então o ris CO de análises ad hoc: as transformações sempre podem ser, com ai guma engenhosidade, "adaptadas" aos problemas tratados. Em outras palavras: as regras transformacionais detêm um poder descritivo tão ilimitado que eqüivale a poder descritivo nenhum. Viu-se também que uma gramática que faz uso de regras trams- formacionais não satisfaz à necessidade de adequação explicativa. Para justificar esse ponto, lembro algumas reflexões que atualmen te orientam a pesquisa gerativa. A necessidade de que uma teoria seja explicativamente adequa da está relacionada, desde CHOMSKY (196!)), com certas considerLw 70 çoes a respeito da aquisição da linguagem. Em CHOMSKY (1980b), u- ma reflexão mais pormenorizada sobre esse tema permitiu que se co locasse, de memeira mais clara, a definição do objeto de estudo da Gramática Gerativa. Considera-se então que a Gramática Gerativa deve se limitar a examinar um domínio cognitivo específico: a faculdade de lingua gem. Esta - também chamada de Gramática Universal (GU) - seria u- ma estrutura cognitiva que todos os membros da espécie humana com partilham, quer dizer, uma estrutura comum, supostamente de base biológica, sobre a qual as línguas humanas se desenvolvem. O reco nhecimento de uma Gramática Universal se deve, basicamente, a con siderações de duas ordens (n.6)í 1) em relação ao fato de que, a despeito das aparências, as gramá ticas das várias línguas humanas parecem apresentar- uma base co mum. 2) em relação à aquisição da linguagem pela criança. Sobre esse segundo aspecto, CHOMSKY (l980b;174) diz: "Dada a riqueza e complexidade do sistema gramatical de uma língua humana e a uniformidade de sua aquisição com base em dados limitados.», não há dúvida que princípios 'universais altamente restritivos têm de existir, princí- pios que determinam a forma geral de cada língua humana e, talvez, boa parte de sua estrutura específica também." Supõe-se, por conseguinte, que, a aquisição da linguagem se fazen do sobre dados limitados, será em pequeno número as grsimáticas construídas a partir da GU» Esta é então, constituída de princí- pios extremamente gerais e restritivos. Nessa perspectiva, diz- se que uma teoria lingüística será explicativamente adequada se ela espelhar, de alguma maneira, os princípios que estruturam a GU. Assim, uma teoria lingtAÍstica que faz uso de transformações dificilmente satisfará à condição de adequação explicativa. As transformações, por terem poder descritivo ilimitado, permitem o estabelecimento ilimitado de gramáticas possíveis. A partir dessas reflexões, na pesquisa gerativa, chegou-se 71 passo a passo ao modelo chamado Teoria da Regência e vinculação. Nesse quadro teórico, prefere-se discutir, em vez de regras, os princípios organizadores da GU. No capítulo 3, vou apresentar as principais propostas desse modelo. O resumo das motivações que orientam a"pesquisa gerativa ser ve para situar as razões teóricas - o desenvolvimento da Gramáti- ca Gerativa - que justificam a recusa da perspectiva transforma- cional adotada por PERINI e também como uma introdução ao quadro de referência que emprego, no capítulo seguinte, para .a análise da subordinação infinitiva. 72 NOTAS DO CAPÍTULO 2 (n.l) Assim como PERINI, MORAES (1971) propõe uma análise do infinitive português através do Modelo Padrão. Embora tenha levado em conta muitas das observações dessa Auto- ra sobre as propostas da GT, limitei-me a comentar, nes- te capítulo, apenas o trabalho de PERINI. Esse Autor, co mo será visto, traz sugestões para a compreensão da su- bordinação infinitiva que serão úteis na análise que de- senvolvo no capítulo 3. Creio que muitas das observações feitas ao trabalho de PERINI em relação à perspectiva transformacional adotada são válidas também para o traba lho de MORAES. (n.2) Casos, no entanto, podem aparecer - diga-se de passagen - de completivas oracionais na estrutura profunda, con sujeito idêntico ao da principal, introduzindo-se Dele complementizador QUE: (i) O deputado do PT queria que ele fosse o esco- lamentou adorou Ihido de Lula para dirigir a bancada PERINI teria de postular que a regra PRONOM se aplica an tes da SSI, ou que os pronomes aparecem como tais na es- trutura profimda. Mas nenhuma das duas alternativas é a- dotada em seu trabalho. (n.3) O termo epistemológico ê usado aqui (ver CHOMSKY (1981: 13)) no sentido de que uma teoria lingüística deve ser concebida sob o escopo de certos fatos relativos à aqui- sição da linguagem pela criança. Na seção 2,4. faço al- guns comentários sobre essa questão, (n.4) Não só PERINI, mas tEunbém BRESNAN (1970) assim trata a ambas as posições. (n.5) Embora hora nenhuma PERINI seja categórico quanto ao ri- gor dessa correlação, ele deixa sempre aberta a possibi- lidade (ver p.44~2 ) que algum clemenLo do AUX, quo nao 73 o tempo, possa afetar essa correlação. Ele mesmo julga possíveis sentenças como as seguintes, que violam (2.9), mas, onde, segundo ele, o AUX não seria completamente va zio: (i) ele queria que você vá ele queria que você vá à missa As construções (b) de (2.36) e (2.37) podem ser lidas à luz das observações sugeridas nesta nota. (•no6) Desnecessário dizer que a Gramática Gerativa se filia à tradição racionalista de se pensar o conhecimento. 74 CAPÍTULO 3 SOBRE A COMPLEMENTAÇÃO INFINITIVA 3.1. INTRODUÇÃO Neste capítulo proponho minha análise de alguns aspectos da subordinação infinitiva. Na seção 3.2. apresento, em forma esque- mática, as principais propostas do modelo - TRV - que adoto nessa análise. Recoloco - em 3.3. - a questão do aparecimento ou não do sujeito lexical no infinitivo sob a ótica dessa teoria. Na seção 3.4., tem lugar a apresentação e discussão da proposta de análise de ROUVERET (198 0) para a forma verbal portuguesa. Proponho - em 3.5 - uma análise alternativa, levando em conta a relação das com pletivas infinitivas com as comp:etivas subjuntivas e indicativas. Por fim, em 3.6,, algi«nas observações concluem este trabalho. 3.2. SOBRE A CONSTITUIÇÃO DA GRAMÁTICA 3.2.1o Níveis de Representação / Sistema de Princípios A TRV reconhece, como expus no capítulo anterior, e existên- cia de uma Gramática Universal (GU). Supõe-se que as grcunâticas das várias línguas se formam a partir dos princípios gerais e res tritivos que estruturam a GU. Para tornar a hipótese da GU compa- tível com a diversidade entre as línguas, CHOMSKY (1981:6) conce- be que a GU deve conter parâmetros variáveis. A fixação dos valo- res desses parâmetros, através da'experiência, estabelece uma Gra mática Nuclear (GN) que é constituída de regularidades ou 'casos não-marcados'. Uma Gramática de uma língua é formada pelo acrésci- mo, à GN, de elementos periféricos ou 'casos marcados', isto é, elementos adquiridos pela aprendizagem que são incorporados tam- bém em consonância com os prindípios da GU. Essa Gramática junta- mente com outras estruturas cognitivas, como por exemplo, o siste ma conceptual, a competência pragmática, a estrutura da memória, etc., formam uma língua particular. Dada então a dificuldade de se apreender, de forma objetiva, a interação das várias estruturas cognitivas - ou seja, a língua a TRV estabelece a Gramática co "IO objeto de estudo, de onde pretende alcançar os princípios da GU. 75 t As formulações que se seguem são objeto de constante debate e revisão. Seja pela emergência de novos fatos empíricos. Seja pe Ia adequação interna da própria teoria, No entanto, em Lectures on Government and Binding (CHOMSKY (1981)) e em Some Concepts and Consequences of the Theory of Government and Binding (CHOMSKY (1982)), encontra-se, bem delineado, um quadro de propostas que o rientam o tratamento dos vários fenômenos gramaticais. Ao apresen tar a TRV nessa seção, baseio-me então nesses textos. No esquema da Gramática abaixo, faço destacarem-se os níveis de representação da Estrutura-P (profunda), Estrutura-S (superfi- cial), Forma Lógica (FL) e Forma Fonológica (FF): (3,1o) Léxico Base Estrutura-P I Estrutura-S Forma Fonológica(FF) Forma LÓgica(FL) O léxico especifica as propriedades inerentes dos itens lexi cais, isto é, as propriedades fonológicas e semânticas quenãosão determinadas por regras. E também as propriedades temáticas dos itens lexicais que servem como núcleos (Head) das construções. As regras da base, aliadas à inserção lexical, geram Estrutu ras-P que são representações em termos configuracionais de fun- ções gramaticais ((FGs) sujeito, objeto, etc) que estão associadas com papéis temáticos (papéis—O), São chamadas posições—0 ou posi- ções-A (argumentais) aquelas posições FG que podem receber um ar- gumento e este ocupa, na estrutura-P, uma posição—O. A regra mover , do componente transformacional, desloca u- ma categoria qualquer de uma posição para outra, deixando, na po- sição inicial, um vestígio que é, por convenção, coindexado com o elemento removido. A aplicação desta regra permite a projeção da Estrutura-P no nível de representação da Estrutura-S e sobre esta última atuam as regras de interpretação dos componentes FF e FL. O sistema de princípios, de caráter modular, se compõe dos seguintes subsistemas (ou Teorias): 76 (3.2) a. Teoria X-barra b. Teoria das F^inções" Temáticas Co Teoria dos Casos d. Teoria da Vinculação (Binding) e. Teoria das Fronteiras (Bounding) £. Teoria do Controle g. Teoria da Regência (Government) a. Teoria X-barra A Teoria X-barra determina a forma geral das regras de expan são das várias categorias da gramática. Fazem parte dessa Teoria as seguintes propostas: (3.3) especi ficador-X complementos (núcleo) Trata-se acima do esquema básico de uma categoria. A variável X simboliza as categorias lexicais N, V, Ã, P e as não-lexicais COMP e FLEX, O núcleo das categorias lexicais é definido pelos traços [-N, ivj que são considerados centrais na gramática: (3.4) [+N, -V] [-N, +V] [+N, +V] r-N, -V] = N (nome) = V (verbo) = A (adjetivo) = P (preposição) A caracterização do sistema da sentença é objeto de debate na TRV. A partir das regras abaixo, tem sido propostas diversas re presentações em forma de 'árvore': (3.5) S -t>COMP S S -I>SN FLEX SV 77 CHOMSKY (1981:300) propõe que o constituinte FLEX (Plexão), conce bido como uma matriz de traços [-tempo, (ÒONCORD)], é o núcleo da sentença. De acordo com PESETSíCY ((1982), cap, 3, seção 1), a sen- tença se reescreve como em (3.6), onde os Princípios da gramática determinam as demais propriedades da estrutura da sentença: (3.6) FLEX -P...núcleo.». b. Teoria das Funções Temáticas O Princípio de Projeção e o critério temático são os dois princípios básicos da Teoria das Funções Temáticas (Teoria-€i). O primeiro controla a projeção das exigências lexicais em todos os níveis de representtLção: (3.7) Princípio de Projeção As propriedades de subcategorização e de marcação temá tica devem ser representadas categorialmente em todos os níveis sintáticos: Estrutura-P, Estrutura-S e Forma Lógica. CHOMSKY (1982:10) postula o Princípio de Projeção Estendido que a crescenta, a (3.7), a exigência de que as orações têm, necessária mente, um sujeito. Propõe-se a seguinte formulação para o Critério Temático: (3.8) Critério Temático Um argumento s6 pode desempenhar um, e um só, papel—0 e cada papel—0 só pode ser atribuído a um, e um só, ar gumento. E o Princípio para a Atribuição de Papel—0 (ver adiante sobre ca- deia): (3o9) princípio para a Atribuição de Papel-O Um papel—0 é atribuído a um elemento do uma cadeia que ocupa uma posição-0 e depois 'herdado' por um argumento da mesma cadeia se e somente se (sse) a cadeia tem Ca- so ou tem PRO como núcleo. 78 c. Teoria dos Casos A Teoria dos Casos trata da atribuição de Caso (abstrato) aos SNs. As regras para a atribuição de Caso geralmente propostas sãc as seguintes: (3olO) Atribuir a um SN (i) O Caso Nominativo se ele for regido por CONCORD (ii) O Caso Objetivo se ele for regido por v (iii) O Caso Oblíquo se ele for regido por P Discute-se também que o Caso Nominativo poderia ser atribuído por intermédio da presença de [+tempo]. Ou então estruturalmente, is- to é, atribuído em ^Recorrência de determinadas características es truturàis (ver RIZZI (1982:108)). Faz parte dessa Teoria o Filtro de Caso: (3.11) Filtro de Caso *N, se N é lexical e não tem Caso. E que Caso também deve ser atribuído a cadeias. Em (3,12b) abai- xo, tem-se a Estrutura-S de (3.12a)(n.l): (3.12) a. John was persuaded to leave bo [[ _ John] was persuaded tj_ [PRO^ to leave]] S Nj_ 0 par ([ John], ) constitue uma cadeia, o segundo termo - c S vestígio de John - recebe um papel—O. PRO recebe um papel—O e bém constitue uma cadeia. A estrutura (3.12b) é formada pela apli cação da regra mover oass] so 6o Ia do V. IND de acreditar que conta. Assim, dever-se-á esperar {pio a completiva de (3.83b) possa e não possa, ao mesmo lempu. Ler- su- jeito lexical. Essa aparente contradição explicaria ent:r\o (3.H3a) onde não há sujeito lexical, (3o83c), onde o CAN 6 oricoii(vrwdo o a rejeição de (3.83b). .5.3.5. V. INF - Complemento do infinitivo sem sujeito A classe de verbos que reconheço como se/ido V. INI-' consiste essencia]-mente daqueles que admitem coino comjílemcntor., não ora- ções 'desenvolvidas' (de indicativo ou de subjuntivo), rrias infini tivos. Penso nos chamados verbos 'modais' (ou 'pseudo-modais' ), 'aspectuais' e 'de moção' (ou 'perifrásticos' ) - tradicionalnente compreendidos, muitas vezes, sob o rótu]o de 'Auxiliares'. Aliste abaixo alguns desses verbos: (3.84) V. INF: poder, dever, ousar, ter de, tratar de, cont.i^ nuar a, acaber de, deixar de, terminar de, p^ rar de... voltar a, chegai' a, vir a, passar 'a, .... (n.15, 16). Os seguintes exemplos ilustram ocorrências de verbos V. INF (3.85) João pode passa a deixa de continua a saber a verdade Pode-se notar que nem mesmo autoriza sujeitos lexicais no£ complementos infinitives a presença de ter-do, estar-ndo, etc», que, como marcadores aspectuais, teriam o efeito de caracterizar o tempo da subordinada: (3.86) João deve volta a continua a.*Maria saber a verdade bo*Maria ter sabido a verdade I estar sabendo| As construções (3o86) são mal formadas também quando o ii;ovi- mento-qu, como se supõe, extrai o sujeito da subordijiada (n.iy^ (ver subseção 3.5.5.1. sobre as interrogativas): (3.87) * Que moça João pode saber (ou: ter r-,abido) vem a deixa do verdade? ■| I a Propus em (3.60), que os verbos da clar.r-.o V. INF .'■;ubcal:o()or;i_ zam urn complemento marcado ["-tempo] , Assúci: (3.88) [o,. V. INF [-tempo] .,o] Quero agora destacar que alguns verbos da classe V. HUH, (luan do tomam um complemento infinitjvo, manifestam os mcsiiio.s comporta mentos descritos acima. Penso, muito particulaiinente, nos ver- bos querer, conseguir, tentar, etc. (n.l8). Esses verbos, qua^ido com complementos infinitives, poderiam ser listados entre os dc (3.84), com a estrutura de (3.88). Ora, na minha proposta, esses verbos - já que da classe V. SUB - deveriam permitir, mesmo som marcas aspectuais complementares, sujeitos lexicais nas suas com- pletivas, uma vez que [+tempo] delas seria especificado pelo tem- po da oração-matriz. Vou considerar então que esses verbos, além de subcategoriza rem um complemento marcado [+tempo] - o que dá conta das ocorrên- cias das subordinadas subjuntivas, - selecionam tamioòin, como os da classe V» INF, um complemento marcado [-tempo]. Dessa maneira: (3.89) tentar querer conseguir [+t empo oi ] [-tempo] Foi ressaltado páginas antes (seção 3o^o3.) que a marcação de tempo feita sobre um complemento implica uma estrutura sujeito -predicado, sob o escopo do operador de tempo. Ao marcar um V. INF subcategorizando [-tempo], quero propor que os com]Vj oinent os desse verbo não apresentam uma estrutura sujeito-p3"cdicailo. Assim a impossibilidade de um sujeito lexical (3.86a), mestno coin a prc^- sença de um marcador aspectual (3.86b) e a estranhez da extração -qu da posição-sujei to do complemento (3.87) I'lOdom s.cr explicadas simplesmente pelo fato de não haver uma posição-sujcito nos com- plementos de um Vo INF. Pode-se indagar então sobre a natureza e o t'J ]io do catocjo;i\i a que subjaz ao complemento [-tempo] dos verbos de (3.8/]) o (3.8^0. Considerando-se a presença do verl^os nesses coinp 1 einentos, a rcv;- posta que vem por primeiro é que se trata do uma projeção de V, ou seja V. Oiitra resposta diria que sc trata cio P, levando em conl a a presença de preposições (deixando-se mesmo a jiossibi l idade e dos complementos ["-tempoj como sendo V ou P a vellia ciuestão da "Escalada dos Clíticos" ("Clitic Climbing") ou "Promoção dor. (M;í- ticos" ("Clitic Promotion"). Esse objeto já foi estudado, no i->or- tuguês, por QUlCOLI (1976), que se valeu, como exemplificação, de condições sobre as transformações, a de Sujeito Especiilcado c a de Tempo Finito (ver CHOMSKY (1977 )). RIZZI (198?), para o ital ia no, propõe a hipótese da "Ristrutturazione", e LUJAN (1977) pro- põe uma análise do mesmo fenômeno em espanhol, levando em conta a oposição dos modos indicativo e subj-untivo. Apesar de todos esses estudos, e de outros (n.l9) que já se fizeram sobre a questão, es se conjunto de fatos tem sido sempre visto de maneira fluida. (-1 minha intensão aqui apenas sugerir um modo de ver os fatos, o es- te modo parece sustentar minha proposta de análise dos complemen- tos dos verbos V. INF. É, grosso modo, com as classes de verbos enumerados em (3. 84) e (3.89) que se dá o fenômeno: isto é, um pronome clítico, ar gumento de um verbo subordinado, aparece preso ao verbo "mais a^ to". Daí se falar em "escalada" ou "promoção" do clítico (n.20). Os exemplos seguintes ilustram o fenômeio: (3.90) Ela me deu as revistas porque eu ^ devia ler pod;i a queri a tentava passei a vol Led a conseguia coineç av a a Esse mesmo fenômeno não se dá quando, no lugar do V. INF, de (3.90), se tem V. SUB e V. IND (e V. MIS ) com com]-» 1 otiienl.os irifini tivos: (3.91) *Ela me deu as revistas porque ou apro(-;i.av;\ lor acrccl;LLavc\ ter üj.clo (In z;i a ovil.wa ler pretendia ' manirest:ava lor De acordo com CHOMSICY (1982:82), a cv associada ao c;i í t :i co pode ser considerada um elementos pronominal, isto 6, i^ro. Para a subordinada de (3=90), proponho então a seguinte estrutura: (3-92) [pLEX tii ^ ^ O clltico deverá reger pro - conforme BOKEK (19B1 ) - ]^ois o conteúdo desse último é determinado por regência e ainda porque - segundo sugestão de AOUN (1981) - o clítico 'absorve' Caso, As- sim, a cadeia (clítico, pro) deverá manifestar Caso. Na ostrut:ura (3.92), o clítico rege pro, pois uma relação de c-comando se esta belece, e tanto o clítico quanto o pro estão contidos na mesma projeção máxima. Nesse caso, o complemento Vg não será considera- do barreira para regência, por estar contido numa projeção máxima da mesma categoria, Com as subordinadas de (3.91) não há j^ossibi- lidade de se fazer a mesma amálise. A regência do clítico sobre pro se torna impossível, pois tem-se pelo menos a projeção de COM? funcionando com.o barreira. E se se tomar o complemento dos verbos V. INP como sondo P';' Um tratamento mais recente que se encontra sugerii.do em CllOM.^ KY (1986) parece permitir quê se dê conta dos fatos exjiostos ac;i- ma, independentemente de o complejnento de V. INF ser tomado como V ou P. Nesse estudo, tanto a regência como o movimento podom sor vistos como sendo mais livres quando se passam através, dacjuolas, mais do que de outras, projeções máximas que são coiti]-" i oiiion t oí-, de categorias léxicas. Outra maneira de explicar (3.90) o (3.9 1 ) o o fenômeno da promoção de clíticos em geral se visluinlxra então. Tomo de CIIOMSkT (1986) as noções do Categoria Ml ociuoari to o Barreira, tais quais informalmente definidas em McCl.OfjKIOY (l')87: 18): I I (. (3o93) a. Uma categoria bloguoante para uin nóch^lo a ó uin iio- dulo quo contem a, e 6 urna projeção maxima ciuc )iao é complemento de uma categoria l6xica. b. Uma barreira para um nódulo a 6 uma categoria cjue é uma categoria bloqueante para a (que não ÍJ) ou que 6 uma projeção máxima (jue imedial .\inent e domina uma categoria bloqueante para a, A estrutura (3 = 92), dada para as subordinadas de (3o9ü) i^o- dem ser representadas no diagrama (3,9^): (3,94) FLEX FLEX Cl. Vo INF pro. Dadas as definições de (3.93), vê-se que a conexão que so torna, em última instância, o fator determinante tanto para rogôn cia, quanto para movimento, entre pro^ e Cl. ■; torna-se trrmsparen te. Ora, proj é dominado por um N, que, sendo complemento de uma categoria léxica não se faz categoria bloqueante nem bar- reira para pro^„ A mesma coisa se poderia dizer do que também, pela mesma razão, não é categoria bloqueante, nem domina uma cate goria bloqueante de proj,. Assim nenhuma barreira separa CJ do proi. Se se tomar o complemento de V, INF como sondo P, poder-sc^-á propor para as subordinadas de (3.90) o diagrama estruturai de (3. 95): V. INF ]^roj I 17 Também cm (3.95), dadas as definições dc CatO(joria l.vi ociuoan- te e de Barreira, se faz transparente a conexão enl.re n 1 .-j o j>:r'0.i . Ora, nenhuma das projeções máximas que separa pro.j de seu CV.-; se constitui como barreira para pro.; , uma vez que Lodas cjlas são com plementòs de categorias léxicas... por outro lado, nas orações subordinadas de (3o9.l), a i>rc)irio- ção do clítico não ô possível. Levando-se em conla a análise j^ro- posta para os complementos de V. SUB e V. IND (o V. MlvS), i"oi a- centuado que todos subcategorizam um complemento marcado [-itemiíoj i quer este seja 'anafórico', ou não» Assim, a relação st;ijed.to-i^re dicado se faz esperar, e C0I4P poderá se tornar operador de FI.KX na FL. Como mostra o diagrama de (3.96), abaixo, pelo menos trôs barreiras bloqueará a conexão entre Cl..; e pro.; : (3.96) FLEX ^Yi V^'^^COriP C1..;X^^V FLEX FLEX V. SUB V. IND V. MIS P^°i Em (3.96), se N, irmão de uma categoria léxica, não é caLcgo ria bloqueante para pro^, V2 o será, por não ser complemento dc categoria léxica, e torna-se então barreira, da mesma maneira cjue flex e COMP, por dominarem ajnbos uma categoria blocjiíoante ]\-Ara pro-j . Assim, uma vez que V» INF subcategoriza [-tempo] como comple mento, torna-se mais ou menos evidente que esse complemerilo não possa ser COMP (n.2l). Poder-se-ia argumentar contra a análise proposta aciiiua, de um complemento V ou P para os verbos V. INF, lembrando-se o Cril.é pio—G e o Princípio de Projeção Estendido. Ora, nas cojisI riiçoc^s (3.85), repetidas abaixo: 1 1 8 (3.85) João pode saber a verdade passa a deixa de continua a ' o verbo subordinado não poderá atribuir um i^apel—O a .'.eu nujoito, dado que ele não dispõe de uma posição-sujeito. Tanto o Principie de Projeção quanto o Critério—O parecem assim burlados. Com relação a essa questão 6 preciso considerar que os ver- bos de (3.84) e de (3.89) apresentam ainda outras semelhanças c alguns contrastes quanto a seu comportamento. Por exemplo, rjnbos os grupos de verbos podem ocorrer em contextos como o de (3.97), onde o complemento exprime "fenômenos da natureza", ou o de (3. 98). Em ambos esses contextos, tem-se a sugestão de que esses ver bos não interferem nas restrições selecionais dos complementos: (3.97) Está querendo chover (fazer frio, fazer calor,etc) tentando voltEindo a começando a ■ameaçando (3.98) A cadeira quer cair tenta ameaça consegue volta a por outro lado, contrastes de diferentes malizes, difcronLo- mente ressentidos pelos falantes, apai."ecem eventual inc]ito nos da- dos de (3.99): (3.99) (i) a) Pedro ousa cantar essa canção ' b) Esta canção ousa ser cantada (ii) a) Pedro consegue cantar ossa canção na tolcvi- sao b) Esta canção consegue ser cantada na l:ol (^vi- são (iii) a) Pedro quer dar prazer a muita gciit-c^ com ■I1') livro b) Esse livro quer dar pr;azcr a muj. l a ro]>iAs cm 3.5.3.3., não têm f+tempoj suficientemente especificado jiar- ticipsir'do CAN. No entanto essas orações tôm sujeil:o lexical. A mesma questão é claro que não vale para as senl onça"'; de (3. 100b), uma vez que nelas as subordinadas tem seu [ileiii|io"j aulotiia- ticamente especificado (pelo ["i tempo] da oração p:rijici]'a I ). (Vivi' 3.5.3.1.). O CAN será então encontrado. "11. o CAII poderia também encontrar-ne nas cul^ordnnrxlas cio (3.100 a) - ver 3» 5.3.3o - se o marcador de Aspecto "])crrocl::i vo" ou "jn-o gressivo" ;Ver (n„16); fosse introduzido, assim l en'j Limando a ocor rência de sujeito lexical nessas subordinadas inPinitivas. O (]uc é curioso, no entanto, pelo menos à primeira vista, 6 que, ma".i s do que as subordinadas de (3.100b), que poderiam dispensá-los, ;\s subordinadas de (3.100a) recusam os marcadores as]icctuaiso Assim, enquanto as subordinadas dos verbos de percepção recusam ambos os tipos de marcadores aspectuais, ter-do (3ol01a) e estar-ndo (3. 102a) (n.l6), as completivas dos verbos causativos recusam apenas os "perfectivos" ter-do (3.101b): (3.101) a. *joão *João *João viu ouviu sentiu Maria ter cantado o hino nacional b. *João I fez 1 *João I deixou I Maria ter cantado o hino nacional ??João I mandou I (3.102) a. *João *João viu/vê ouviu/ouve *joão I sentiu/sente Maria estar cantando o ]i. n. b. João João João fez/faz deixou/deixa m and ou/mand a Maria estar cantando o h. n. A discussão até aqui mostra Já alguma semelhança de comi'orla mento entre os verbos de percepção e os causativos.. Mas 6 sobrelu do o fato de ambos permitirem a chamada PKOMOÇAO DOS ClI'J'IGOS que aproxima mais os dois grupos de verbos. Tal como acontece com os da classe V. INF, tem-se aqui também o fenômeno descrito como sen do a 'escalada' de um pronome qi^e, interpretado como argumento do um verbo subordinado, move-se para jmito do verbo "mais alLo". Mais curioso ainda, no entanto, é o alçamonto de um ]-»ronomo-sujcr^ to de subordinada, que, junto do verbo-matriz, apresenIa-se no (":a so Acusativo: (3.103) a, João a João a João a b. João a João a João a vê/viu ouv e/ouvi sente/sentiu faz/fez deixa/deixou manda/mandou cv cantar o hiino nacional. cv cíxntar o hino nacional Estou supondo que nas sentenças do (3.103) o clínico a, su- blinhado, está ligado à posição marcada cv que, na discussão do (3.100-101), tomei como sendo a posição-sujeito. Assim, o fato do o pronome apresentar-se no Acusativo dispensaria todas as conside rações feitas até agora concernentes ao CAN. Segundo minhas supo- sições, o Acusativo teria de provir do verbo principal que deve- ria então reger a posição sujeito, A questão se levanta assim imediatamente sobre qual 6 a es- trutura das sentenças discutidas até agora. Na ].inha da discussão feita antes sobre a subordinada de (3.90), vou dizer que, em (3. • 103), tem-se uma cadeia (clítico - pro), mExnifestando Caso Acusa- tivo, e que o clítico deve reger pro, para determinar-lhe o con- teúdo o Para minimamente dar conta dos fatos expostos até agora, a doto a análise que CHOMSICY (1981) propõe para os verbos do tipo believe, do inglês, que dispõem da mesma propriedade de se apre- sentarem com o sujeito de suas subordinadas no Caso Acusativo. As sim, direi que os verbos de percepção e os verbos causativos do (3.100), do português, (sem me esquecer de que, cm outras llngiAas românicas, esses verbos manifestêun comportamento similar) aprosen tam a propriedade que chamei de MEC - i.6, Marcação Excepcional do Caso. Ora, COMP, numa estrutura como (3.10-1), passa a se constitu- ir como Barreira - tanto para regência quanto para movimento. Ver as definições de (3.93) (n,22). I P:Í (3.104) V ^COMP (Cl.i) V C0I4P ^FLEX ver fazer Mciria proi Uma vez qiie COI'T é "uma barreira, não será possível que V-nia triz possa reger o SN Maria de (3.100), e lhe atribuir Caso. Da mesma forma, a conexão necessária entre Cl.i e pro^, (na falta da regência do clítico,sobre o pro), também não será possível (3» 103 )o A ífercação Excepcional de Caso - MEC - consistirá então no apagamento do constituinte COMP, Assim, o sujeito das subordina- das de minhas sentenças (isto é, (Esp^ , FLEX) de (3.10-1)), já que ■estará sob a regência de V, (o verbo matriz), não só poderá rece- ber desse verbo o Caso Acusativo, como poderá tornar legítima a cadeia (Cl.^, pro.,- ) (n.23). Como resultado dessa proposta, direi ainda que, nos casos de extração-qu, (ver 3o5.4.1.), como o de (3ol05), abaixo, a variá- vel deixada, pelo movimento-qu, na posição de origem do sintagma que moça também será regida pelo verbo da oração princi])al c a- tenderá então às exigências do PCV. (3.105) a. Que moça Maria viu cv sair de casa? b. Que moça Maria fez cv sair de casa? A proposta de análise pela propriedade MEC, das complctivas infinitivas dos verbos de percepção e causativos - a que chamarei daqui para frente de V. Acus., para facilitar a referência ino^ mo não sendo eloqüente, e deixando muita coisa a ser oxp;iü.cil.a- da, poderá ser provisoriamente aceitável se, pelo menos, puder a- judar na'descrição dos fatos. Assim, não vou me perguntar se essa proposta cobre realmente - e como - as estruturas dos dois grui^os de verbos em questão. Não serei tentado a propor aqui uma análise delas. Quero limitar-me a tecer alguns comentários sobro as :imiili cações dessa proposta sobre a análise que vim Locendo aléa(]u.i das :i 2/] completivas infinitivas, e vou preferir deixar em abertosolu- ção dos problemas que já, seja no texto, seja em notas, foram ou serão mostrados. já acentuei que, segujido minha análise, as completivas dos verbos causativos, por esses serem da classe V. SUD, at:endcm às exigências do CANo Não quero perguntar, como já disso, i^or que a- tribuir a propriedade MEC a esses verbos. Deverei dizer apenas que com essa proposta, as completivas desses verbos se tornam [-tempo] e, dessa forma, não atenderão mais ao CAN. Também as completivas dos verbos de percepção perderão seu traço [+tempo]. Nesse momen- to, os dois grupos de verbos se encontramo As completivas de am- bos terão seu sujeito marcado para Caso, sob a regência do verbc principal. Decorrência ainda da análise que propus, deverei dize;: que essas completivas, na falta de [+tempo], perderão a relação sujeito-predicadOo E surge, assim, de imediato a questão da con- cordância. Quero lembrar aqui, no'entanto, - e no cap. 1, esi^ecialriontG na nota 9, isso foi acentuado - que a concordância, nas completi- vas de V. Acus., é opcional. Foi para dar conta disso que FEKIIi: (1977:91ss) propôs um mecanismo de "flutuação de regras": (3.106) a. bo A concordância, que é tratada como uma condição de boa-forma ção das orações (ROUVERET (3 980:8'^)) pode dar-se ou não nas cons- truções acima. Parece então que a "lei de concoixlância", como d.i • SAID ALI, não dispõe de grande força nas construções com V. Acus. vou considerar que, em orações como (3.106), a presença da f 1 c^xãc é meramente o resultado de analogia com as formas fin;i 1 c\s (n.^^d). ( Outra implicação, para minha análise, advinda do f.^lo d(^ (]U(^ as completivas de V. Acus» se tornam [-tomi-io^, di'/, ir-or.iHvi t o à tão da interpretação. Ora, foi acentuado que, na FI., [lU^iipo] ,\[]c como um operador em COMP, ligando uma variável cm FI.l'lX. ('om a pi>o posta de análise das construções do V. Acu.s. ])ol a jvr'opivi odado TIIm' VI ouvi senti fiz deixei mandei os meninos csmtar o hino nacional os meninos cEmtarem o hino nacional os meninos cantar o hino nacional os meninos cantarem o hino nacional 1 O COIíP matriz passa a ter sob seu escopo dois domínios do Fi'Tix, Com isso se terá o fenômeno curioso em qup o tempo da oração ma- triz estará ligando duas variáveis (n.25). Em vez de se falar, no entanto, em alguma espécie de "Flex parasita", talvez se j-ios.sa descrever o fenômeno de outra maneira, fazendo, como foi ]iropost;o psira a análise da classe V» SUB, de FLEX subordinado uma anáfora de FLEX-matriz. Se se levar em conta a análise da interpretação de tempo, proposta por LAPOINTE (1980), para a classe do verbos que chamo de V. Acus., vejo a possibilidade de que isso faça al- gum sentidoa Segundo esse Autor Cp*778) - e não vou me estender aqui na exposição dos pressupostos teóricos em que sua análise se baseia- para uma interpretação do tempo de uma sentença ser bem formada, deve-se levar em conta as condições relacionajido os momentos (ou intervalos) da oração principal aos momentos (ou intervalos) da o ração subordinada. Essas condições, segundo e'Je, sao impostas i^e- lo verbo-matriz, e podem variar de acordo com a classe a que per- tence. Para a classe a que chamo de V. Acus., o Autor afirma que eles impõem universalmente as seguintes condições do tempo: (3.107) V, Acus. O tempo do evento do verbo-matriz (T^V) 6 igual ao tempo de evento do verbo subordinado (t V*) c 6 ain- ^ e da igual ao tempo de referência do verbo subordinado (TV*) r ou seja: T V = T V* = T V* e e r Assim, a igualdade do tempo de evento e do tempo de referôn- cia reconhecida nos tempos do verbo-matriz e no da sul^ordinada das construções com V. Acus. poderá ser tomada como trar.endo alguma luz para uma análise mais feliz dessas construções (n.26). .1 r^r. 3,5.5. As categorias vazias - Complerivas Infinitivas cujo sujo:i~ to pode ser [-lexical] Propõe-se, na literatura, qaAe a posição sujeito de uma ora- ção infinitiva é, na maioria dos casos, ocupada por p^X). FRO - urn elemento pronominal anafórico - deve ser necessariarriento não regi do pois, do contrário, se submeteria, ao mesmo tempo, aos. Rt""j íu:;í- pios A e B da Teoria da Vinculação. A posição sujeito do uma ora- ção infinitiva é então considerada preenchida por FRÇ), justamente pelo jPato de esta posição ser, nas línguas estudadas pela nramát-£ ca Gerativa, não regida e, portanto, não marcada para Caso. Viu-se, no entanto, que, em português, certas construções do infinitive permitem um sujeito lexical, significando que um Caso lhe é atribuído. Segue-se que, nessas construções, uma cv na posi ção sujeito não poderá ser especificada positivamente i^ai^a os tra ços [-Anafórico, -Pronominal], ou seja, não poderá ser PRO. Vou c Xcirrãnar então a classificação e a distribuição das cvs no infini- ,tivo português. 3.5.5.1. Categoria vazia-variável Como foi visto, pode-se interrogar a posição sujeito tanto das completivas infinitivas dos verbos da classe V. SUB quanto das completivas infinitivas dos verbos da classe V. IND. A l:>oa- formação das sentenças abaixo atesta esse fato: (3.108) a. Que pessoas João admirou passarem no vestibular? b. Que pessoas o banco confirmou terem dinheiro na Suíça? Em casos de extração-qu, concebe-se a seguinte esLrutiu:^a 5'.ub jacente: (3ol09) [+qu^...V [t| |t^ V...]J] Em (3ol09) - adaptando do inglês, segundo CHOMSKY (:i')8p: 35 )- o elemento +qu está indexado com t' em COMP o com t cjuc está na posição sujeito do complemento, t é uma variávo:i pois está 1 oca l i zadamonte Ã-vinculada pelo elemento qu. A variávo-l dovo Gatisr.\- zer ao Principio da Categoria Vazia (PCV): (3.110) [ e] tem de ser regida estritamente. Na estrutura (3.109), a variável não encontra regcncia cstr^ ta na posição sujeito, desde que, como considerei, a posição su- jeito não é uma posição regida. Considero então, como de praxe, que, nos casos de extração -qu, a variável é regida através da indexação com L'. Esto, aloca do em C0I4P, torna-se acessível à regência do verbo principal. 3.5.5.2, Categoria vazia - pro Ocupo-me inicialmente das completivas infinitivas dos verbos da classe V. SUB. Nessas completivas pode ocorrer ou um sujeito Io xical ou uma cv: (3.111) a. Pedro adorou ele conseguir aquele emprego na Cemic I lamentou| b. Pedro adorou cv conseguir aquele emprego na Cemic Ilamentou| A possibilidade de se ter uma cv nas orações acima parece ser um caso de sujeito nulo, como na seguinte construção: (3.112) cv encontrei a Maria no mercado A ocorrência de sujeito nulo tem sido tratada na liLeratirra- principalmente para o italiano — sob o que se chamL\ parfimetrc pre -Drop (ver, por exemplo, EIZZI (1982), IV).' CHOMSKY (I982:78ss)pr_c põe que a cv, em casos como (3.112), deve ser classificada como um elemento pronominal não-ana£órico, ou seja, pro. Este, cujo con teúdo é determinado por CONCORD, deve -ser regido. Proponho então que, em casos como (3.111b), a cv 6 pro. Mas, esse elemento, levando em conta que foi colocado, pode ocorD\vr,cm português, nos seguintes contextos: (3.113) i. Contexto de regência iio Contexto de Atribuição do Caso Noiniinat ivo - CAN 128 Em (3,ll3i) têm-se os casos pro associado a um clltico. to abaixo a definição de (3.113ii): (3.114) CAN O Caso Nominativo deve ser atribuído a um SN que so encontra no seguinte contexto: (i) O SN encontra-se na posição de Especificador de FLEX (isto é: [Esp,, FLEXj, ou: posição su- jeito de S); (ii) FLEX se compõe de traços de [+teinpo,-i CONCOKD] ; (iii.) [+tempo3 encontra-se caracterizado por [-pass] e/ou Aspecto, A cv se encontra, em (3.111b), num CAN - logo, é pro (n.27). A con dição (3oll4ii) satisfaz a proposta de CHOMSICY de que o conteúdo de pro é determinado por CONCOKD» Também nas construções com AUX, a cv é pro, pois tem-se um CAN: (3.115) João adorou cv ter sido chamado para a festa pode-se averiguar a proposta acima examinando os fatos rela- tivos à interpretação dos elementos anafóricos e pronominais. O pronome ele, nas sentenças de (3»111a), parece ser interpretado, preferencialmente, como não-correferente com o sujeito do verbo principal. Isto também é fato quando o complemento está no modo subjimtivo, como nas seguintes sentenças: (3.116) João adorou que ele fosse o vencedor admirou lamentou A caracterização do tempo das completivas dos verbos da cias se V. SUB depende, como foi visto, do tempo da oração principal , ou seja, são completivas marcadas com [^■tempo_^ ]. PiCAl.l.O (I98'j) analisando o catalão, considera que, nas construções de r.ulijunl ;i- vo dessa língua, a não-correferencialidade 6 obrigatória. lOla ana lisa esse fenômeno em consonância com a correlação do temido - dos crita na p.96 - que também ocorre com as constri^ções tlc f.ubjijiit ;i- :i vo do catalão. Para essa Autora, o elemento tempo detorin;ina um do mínio opaco. Nessa perspectiva, o tempo da subordinada de subj\m- tivo, por ser determinado pelo tempo da oração principal , não se- ria bastante "forte" para estabelecer um domínio opaco na subordi_ nada. O que explicaria então - tendo em vista os rrincí]^ios da Teo ria da Vinculação - a impossibilidade de correferêncio. O fato de a interpretação não-correferencial ter pi'iinazia nas construções com os verbos da classe Vo SUB sugere que, em })Oi^Lu- guês, similarmente ao catalão, o elemento tempo está relaciionado com a determinação do domínio opacó. Alguns fatos parecem corrobo rar essa afirmação. Pode-se notar que se, nas completivas dos verbos da classe V. SUB, ocorrer um AUX, a correferência parece ser facilitada, Co mo nas seguintes sentenças: (3.117) a. João lamentou que ele tivesse batido o carro I admirou| bo O ministro adorou ele ter ficado livre de preocu- I admirou| cupações Ora, o tempo das completivas acima, além de ser caracteriza- do em relação com o tempo da oração principal, apresenta também caracterização quanto ao aspecto, Nas completivas dos verbos da classe V. IND - que detém sua própria especificação de tempo - um pronome parece ser, ao coyitrá rio das construções com os verbos da classe V. SUE, interpretado, preferencialmente, como correferente: (3.118) João confessou que ele rezou muito I disse I Tem-se assim uma espécie de gradação. A medida que na órbita da própria subordinada determina-se a caracterização do tàni^o 0 isso implica que mais elementos caracterizam o tempo, ])riv;i:io- gia-se a interpretação correferencial entre o suje;ilo pronom:inal, da oração subordinada e o sujeito da oração princij^al . No entanto, apesar de a interpretação não-corroferonc:i a 1 l ei primazia nas construções com os verbos da classe V. sun, não .1 -AO pode afirmar que se tem impossibilidade de correPercnci 1^: o que mostrou a testagem realizada (n,28). A interpretcição corro.rercncj_ ai parece mesmo tornar-se preferencial se algum contexto (]uo a fa voreça é acrescentado à sentença, como mostram os seguintes exem- plos : (3o119) a. O senador do PC admirou ele obter tantos votos en_ tre os empresários b. Os trabalhadores lamentam eles ganharem apenas um salário mínimo c. José adorou que ele fosse o escolhido para aquele emprego d. Os pecuaristas lamentaram que eles fossem eleitos como bode expiatório Vou considerar, então, a que as subordinadas dos verbos da classe Vo SUB constituem uma categoria regente para elementos ana fori COS e pronominais, E proponho a seguinte definição de catego- ria de regência: (3.120) / é a categoria regente parasse é o mínimo SN ou s que contém^/^ e (i) é regido em ^ ; ou (ii) está num CAN em ^ De acordo com (3o120), o elemento pronominal, presente nas construções discutidas acima, é livre na oração subordinada, o o£ ta é a sua categoria regente» Nos casos de ocorrência de elemen- tos anafóricos, como na seguinte construção: (3.121) João lamentou cortar-se com a navalha A anáfora ^ está vinculada com pro, estando, portanto, vinculada em sua categoria regente. 1 3J 3. 5. 5o 3, Categoria va7Aa - FRO Discuto agora as completivas infinitivas dos verbos da clas- se V. IND, Nessas completivas, pode-se ter "um sujeito lexical desde que -um AUX se faça presente - ou uma. cv: (3.122) a, João confirmou ele ter (ou: ter ele) feito co- I confessou I oper ontem b. João confirmou cv ter (ou: ter cv) feito cv cc I confessou| oper ontem Pi^oponho que t^nbém em casos como (3.122b) a cv é pro: tra- ta-se de um CAN. Em (3ol22a), o sujeito subordinado ele pode ser ou não correferente com o sujeito da oração principal, o que é previsto desde que a categoria regente é a oração subordinada, Na ausência do AUX, os verbos da classe v, IND sô admiten u- ma cv na posição sujeito da completiva: (3.123) João disse cv depositar dinehiro no colchão Na subordinada acima não se estabelece o CAN. A cv pode en- tão ser considerada PRO. Também no caso de ocorrência de um ele- mento anafórico, os fatos se explicam: (3.124) a. João confirmou ter-se ferido na luta de que part^ cipou bo João confirmou ferir-se em todas as lutas do que participa a anáfora se está vinculada com pro em (3.124a) e com PRO em (3. 124b). Tem-se então o seguinte contraste: (3.125) pro ocorre no CAN e nos contextos do 3"ogctic:ia PRO não pode ocorrer no CAN nem em coiitoxios de» re- gência 132 Mantendo assim, de acordo com (3..125), a distribuição complemen- tar, proposta na literatiira, entre contextos de Controle o contex tos de regência/CAN. Devo dizer, no entanto, que, dada a complexidade dor. fenôme- nos relativos à interpretação dos elementos, anafóricos e pronomi- nais, um exame mais detalhado da interação entre a noção de tem- po, aqui desenvolvida, e a Teoria da Vinculação, revelaria certa- mente generalizações mais interessantes. I J J notas do capítulo 3' (n.l) AO expor a TRV, utilizo a exemplificação do ingles e do i- taliano: a transposição, para o português, das análises f(^ tas para essas línguas é objeto de investigação. Por ques- tão de convenção, mantenho a notação ^ (ingl. trace) para designar o vestígio. (n.2) Na verdade, ROUVERET toma, como quadro de referência, o tex to Conferences de Pise (CHOMSKY (1979 ))o Foi a disci^ssão sobre esse texto que possibilitou o estabelecimento do mo- delo da TEV. As observações sobre os dados levados em conta por KOUVE- RET foram retiradas de RAPOSO (1975)» Trata-se de um estu- do a respeito do português de Portugal» •(n.4) De acordo com a testagem realizada (ver seção l„4o2.)> os falantes consideraram, com relação aos verbos factivos,que a extração-qu produz orações bem-formadas em 53% dos ca- sos, sendo 34% duvidosas e 13% mal-formadas. Note-se que há a possibilidade de completivas infinitivas aparecerem com sujeito lexical independentemente da presen ça do auxiliar (ver (ndi)), (n.6) A discussão quanto à co-superinscrição entire constituintes surgiu de construções como: (i) There arrived three men (ii) II est arrive trois hommes em (i) e (ii) there e ^ (expletives) estão coindexados com OS SNs three men e trois hommes, Em ambos os casos, o SN pós-verbal, coindexado com um elemento que o c-comanda,vi o laria o Princípio C da Teoria da Vinculação. Propôs-se en- tão que o tipo de indexação acima - uma co-superinscrição- seria de uma natiur^eza diferente da indexação válida para a Teoria da Vinculação. CHOMSKY (1982) estende essa proposta para a relação entre o sujeito e a concordância e tatiibóin (n. 3) (n. 5 ) para a relação entre outros elementos, • (n.7) Algums falantes porém consideram bem-formadas orações como (i) abaixo em que uma preposição está adjacente ao sujeito subordinado: (i) Eu acredito da moça viajar no carnaval na Em (i ) a preposição poderia estar, como subordinada, na po sição COííPo Sobre essa discussão, ver KAYNE (1981b), que e-- xamina um possível paralelismo entre construções de infini tivo do inglês introduzidas pela preposição for e constru- ções de infinitive do francês e italiano com ^ e Embo ra não trate dessa questão aqui, examino, na subseção 3,3. 3o5., certos,verbos que se fazem seguir de preposição. (n.8) Com o verbo dizer pode-se ter completivas de subjuntivo: (i) João disse a Maria que fosse à festa Em (i) há o objeto Maria, introduzido por preposição, que está indexado corri a posição sujeito da completiva de sub- juntivo (caso a completiva ocorra no indicativo, a indexa- ção possível se passa entre o sujeito da completiva e o sujeito do verbo principal). O verbo pedir apresenta com- portamento semelhante: (ii) João pediu a Maria que fosse à festa Uma construção desse tipo não é possível com os demais V, IND e Vo SUB: (iii) *João afirmou a Maria que fosse à festa lamentou soube aceitou Apesar de (i), vou considerar que dizer faz parto da clas- se Vo IND, Em relação à complementação infinitiva, esse ver bo se comporta como seus pares, (no9) Adiante, ao tratar dos verbos da classe V. INP (seção 3.'3. 3.5.), chego à conclusão qiie essa classe, ]ior subcal.ogori- zar [-tempo] não terá COMP como complemento. Vou pr-ojior que o complemento dessa classe de verbos deva ser ou v ou p. 10) De acordo com a testagem realizada, as conGtruçõon com V. SUB-sujeito lexical - V. infinitivo, isto é, com sujeito l_c xical na completiva e ausência do auxiliar, forma conside- radas bem-formadas em 70% dos casos. 20% foram considera- das duvidosas e 10% mal-formadas. já as construções com V. IND-sujeito lexical - V. infinitivo foram consideradas mal -formadas em 60% dos casos, com 28% duvidosas e 12% bem- formadas, Num teste comparativo, as construções com os ver bos da classe Vo SUB foram em 90% dos casos consideradas mo lhores que as construções com V. IND. 11) Os falantes consultados consideraram bem-formadas 7 6% das construções em que a completiva infinitiva dos verl'jos da classe V. INC, apresentara a estrutura AUX-sujeito lexical- Vo infinitivo, isto é, com sujeito lexical e inversão des- te em relação ao AUX. 14% foram consideradas duvidosas e 10% mal-formadas. Sem a inversão do AUX em relação ao su- jeito os dados são os seguintes; 36% bem-formadas, 32% du- vidosas e 32% mal-formadas. Ha, sem dúvida, diferenças de apreciação se comparairmos as construções com os verbos da classe V. IND e v. SUB. As construções com os verbos V.SUB em que o auxiliar, na completiva infinitiva, não se inver- teu em relação, ao sujeito, foram consideradas bem-formadas em 74% dos casos, sendo 12% mal-formadas e 14% duvidosas. MOREIRA DA SILVA (1983:216-8), examinando a questão da • inversão do auxiliar afirma que, se levarmos em conta os contextos assinalados por RIZZI (1982:83), para o italia- no, que exigem a inversão do auxilicir, no português do Dra ' sil esse fenômeno parece ser facultativo. RIZZI argumenta que a inversão do auxiliar 6 necessAria para a bóa-formação de a) complementos circunstanciais do gerúndio; b) orações subjetivas; c) construções nominais precedidas por um determinante;, d) complementos circunstan ciais de infinitivo precedidos por preposição. Para todos esses casos, pode-se dizer que a inversão do auxiliar 6 o[^ cional: (i) Ele tendo aceitado fazer isso, eu fico contente Tendo ele aceitado fazer isso, eu fico contente (ii) Ele tivesse ficado calado, teria sido melhor 1 :H) Tivesse ele ficado calado, ter:a sido melhor (iii) O ter Maria escrito aquela carta, significou cjuc ruMU tudo está perdido O Maria ter escrito aquela carta,... (iv) O juiz foi suspenso por ter seu filho comotddo *una grave imprudência O juiz foi suspenso por seu filho ter coiriolido. . Além disso, a análise de RIZZI de que o auxiliiar vai a COMP também não é adequada para o português: (v) Se tivesse ele ficado■calado a oração do italiamo equivalente a (v) é mal-formada, RT7r- ZI trata esse fato através da proposta de que o COMP esta- ria duplamente preenchido por ^ e pelo auxiliar que, des- ta forma, estaria em COMPo A boa-formação de (v) invalida esse tratamento, 12) No teste feito junto a meus informantes nao levei à apre- ciação deles sentenças como as de (3.63). Na análise quo desenvolvo a seguir, dou mais atenção às classes V. HUn e V. INDo É nessas classes que se mostra mais evidente a o- corrência ou não do sujeito lexical o 13) As construções com os verbos da classe V. MIS apresentam a inda certos comportamentos que os reforçam como uma classo a parte» Por exemplo: a presença de uma negação junto ao verbo principal parece facilitar a ocorrência de coinplemcn tos no modo subjuntivo (PERINI, p.l77, já cliamava a alt.Mi- ção para esse fenômeno): (i) João não acreditou que Maria fizesse isso ignorou duvidou supôs Esse fato não ocorre com a maioria dos V. TND: (ii) *João não disse que Maria fizesse isso soube confessou confirmou 137 14) Ha, porém, evidência morfológica de Caso oblíquo em ora- ções adverbiais finais como no seguinte exemplo discutido por PERINI, Po89: (i) Ele trouxe o livro para mim ler. 15) A maior parte dos verbos listados como V. INF precisam vir acompanhados de suas preposições. Ora, sem elas, muitos de les regeriam gerundios ou teriam outros tipos de complemen tos o Ver os contrastes parar/parar de, ter/ter de, deixar/ deixar de, por exemplo. Os "de noção" têm dusis leituras,As sim; (i) José voltou ao local do crime José voltou a voltar ao local do crime Além disso, Êsses verbos não formam uma classe solidária. Alguns, como dignar-se, ousar, que parecem tomar apenas complementos infinitivos, se comportam, parece, diferente- mente dos outros verbos (3.84). Outros, como poder, tratar de, parecem, pelo menos marginalmente, aceitar completivas ■ com subjuntivo: (ii) Pode que ela não chegue a tempo Ela tratou de que não a enganassem ??? Ela ousou que seus filhos estudassem. Esses verbos, ,e outros que não constcon da lista, como ame a çar, urgir, usar, merecer (?), etc. representcim, para o e^ tudioso, um problema constante, resíduos de muitas propos- tas de análise, com diferentes objetivos. O contraste Alça mento-SSI (i.é: "Raising"/"EQUI") foi o principal recurso, de que se valeu a Teoria Gerativa Clássica para descrever o comportamento da maioria desses verbos. No quadro da TRV os problemas trazidos por esses verbos afetam especialmen- te a Teoria das Funções Temáticas. .16) Como foi acentuado no texto, os verbos listados em (3.84) são tradicionalmente conhecidos sob o rótulo de Auxiliares e cilguns deles são mesmo tido como "Aspectuais". Ora, ao tratar de V. IND (subseção 3.5.3.2.), referi-me a verbos auxiliares (AUX) como 'marcadores de Aspecto', elementos que caracterizariam [+tempo] suficientemente para que er.se participasse do CAN. Quero notar que eu tinha em mente, en 138 tão, os verbos de (i), (acompanhados de seus elementos aH xais). Trata-se dos maircadores aspectuais conhecidos como "perfectivos" (i.a), e progressivos (i.b): (i) a. ter -do haver -do b. estar -ndo andar -ndo ficar -ndo Não pensava mos 'modais* (pseudo-modais), 'aspectuais* e 'de moção' tratados aqui como V. INF, Assim, as sentenças (a) seguintes são analisadas, respectivamente, em (b), com relação a esses contrastes. Na extensão dessa subseção, e^ essa analise se faça explícita. Pedro disse João ter estado tendo de resolver o problema Pedro disse João ter -do/estar -ndo) ( ter de) resolver o problema) Pedro disse João ter estado tendo de ter resolvi- do o problema Pedro disse João ter -do/estEir -ndo) ( ter AUX V de) (- ter -do)( resolver o problema)) ~ AUX V Jô afirma Leo haver ficado terminando de resolver o problema J6 afirma Léo ^siver -do/ficar -ndo) ( term^ A U A V nar ãe){- resolver o problema) André sabe Joana est sir andando deixando de traba- lhar André sabe Joana ^ esteir -ndo/andar -ndo) ( A U ^ V deixar de) trabalhar) Também estar -do poderia ser tomado como elemento AUX capaz de habilitar [+tempo] a participar do CAN. Estar -do exprime o Aspecto "resultativo", segundo Mattoso, e tem e£ trutura passiva (ver PONTES (1973:55-6)): (v) João afirma tudo estar preparado (por Maria). Há, naturalmente, outros verbos auxiliaros com ir-r, o- lemento marcador do Futuro (ver PEIíINI ( I 077:/i/is.-O )» i-or -do (passivo) que não considero como apt os a caractord'/,ar [+tempoJ como marcador de Caso Noiiiinaiivo. Assim: pero que (i) a. b. (ii) a. b. (iii) a. b. (iv) a. b. 139 (vi) *João disse Maria ir trabalhar (cf. João disse Maria ter ido trabalhar) *joão disse Maria ser beijada (cf.: João disse Maria estar sendo beijada). ,17) De acordo com a testagem, as construções com os verbos (3. 84) e (3.89) que sofreram extração-qu foram consideradas mal-formadas em 67% dos casos, 20% foram consideradas duvi dosas e 13% bem-formadas, ,18) É preciso talvez notar que esses verbos não apresentam, a rigor, o mesmo comportamento. Assim, enquanto (i.a), ccn querer, parece ser absolutamente inaceitável, (i.b.c) po- dem, eventualmente, ter sua inaceitabilidade questionada: (i) a. *João b.?*João c.?*João quer consegue tenta . a Nair não sair toda noite a esposa ficar tecendo em casa .19) Chamo a atenção aqui para o texto de Margarida SUfJER(198C) "Clitic Promotion in Spanish Revisited", onde ela, além de revisitar textos como o de LUJÂN (1977), BORDELOIS (1974), SALTARELLI (1978), apresenta, no texto e em notas, uma re- visão crítica dos debates sobre esse tópico. .20) Outra classe de verbos que permite a Promoção dos Clíticos são os causativos e os verbos de percepção, que receberão comentários na subseção seguinte, 3.5.4. .21) Talvez seja necessário ressaltar que o operador de tempc, na FL, V. INF tomando complemento V e/ou P, se estabelece- rá no COMP da oração principal. Da mesma forma, também pa- rece preciso propor que o marcador de Aspecto ter -do, nu- ma sentença como (i), seja tomado como Especificador eri V, e que a relação com tempo se faça então com a oração principal. Talvez se encontre aqui a razão por que a clas- se V. INF tenha sido tradicionalmente tomada como de 'Ver- bos Auxiliares'. (i) Pedro quer ter estado trabalhando. 140 (n.22) Barreira, "por herança", segundo CHOMSKY. Ora, COMP é, em (3.104) um "irmão" de uma categoria léxica. Sua "barreiri- ce" vem, então, do fato de dominar FLEX, que, por sua vez, mesmo excepcionalmente não sendo uma Barreira, não deixa de ser uma Categoria Bloqueante. (ver CHOMSKY (1986: seção 4)). (n,23) Quero notar que não discuto aqui a escalada (possível? )dos clíticos objetos do verbo subordinado. Coisas assim: (i) Esta canção, eu a farei cantar por um artista (ii) Eu a vi beijarem A simples análise pela propriedade MEC não poderá dar con- ta dessas sentenças, se forem bem construídas. Poder-se-ia pensar numa análise complemento-V, mas a concordância, na subordinada de (ii), recusaria essa proposta. Também não discuto estruturas em que há (?) promoção dos clíticos su- jeito e objeto da subordinada: (iii) Maria ^ fez ver (ambígua?) (n,24) MOREIRA DA SILVA (1983:353-65), ao analisar uma série de construções sintáticas do português, parece mostrair que a concordância se faz através da indexação de CONCORD com o SN frontal mais próximo - desde que, segundo ele, a posi- ção-sujeito não seja marcada por uma função temática. Ora, uma questão que fica em suspenso, no estudo das completi- vas de V, Acus., é a do Critério—O. É de se supor que a po sição-sujeito dessas completivas se apresente "esvaziada", em certas construções: (i) a. José ouviu cantar o hino nacional (pelo povo) b. José ouviu o hino nacional ser cantado (pelo poco) c. O hino nacional foi ouvido cantair (pelo povo) d. O hino nacional foi ouvido ser cantado (pelo povo) Essas sentenças podem ser objeto de muitas questões com respeito à Teoria—0 (e à Teoria do Caso). (n,25) Uma maneira ainda seria de se pensar num s6 constituinte FLEX "descontínuo". 141 [n.26) Valendo-se de (3.107) - que, na proposta de LAP0INTE(1980) se constitui de condições que dizem respeito apenas ao por fectivo - pode-se explicar a agramaticalidade de (3.101), a té agora deixada sob mistério. No comentário desses dados, deu-se a entender que os verbos de percepção recusamos mar cadores aspectuais tanto "perfectivos" (3.101a) quanto "pro gressivos" (3.102a), enquanto os verbos causativos s6 re- jeitam os primeiros (3.101b). Fosse isso levado a sério, não se poderia explicar sentenças como as de (i), que pcxre cem bem construídas: (i) a. João Maria ter sido humilhada Maria ter sido humilhada VIU ouviu sentiu b. João J fez deixou mandou LAPOINTE sugere que a interpretação de tempo bem-formada não vem diretamente da presença de marcadores aspectuais, mas da análise das relações temporais entre oração princi- pal e subordinada. Quando os marcadores aspectuais são "pro gressivos" o caráter da boa-formação da interpretação liga -se ao contraste entre percepções possíveis de processos, mas não de estados que resultam de processos (ver LAPOINTE (1980), e bibliografia citada lá)). (n.27) Não discuto aqui a questão das condições para o aparecimen to de sujeito nulo. Ver MOREIRA DA SILVA (1983) e NASCIMEN TO (1984) sobre discussão a respeito do Parâmetro pro-Drop em português. (n.28) Os falantes consideraram que a correferência, em orações como (3.111a) proporciona orações bem-formadas em 6A% dos casos, sendo 30% mal-formadas e 6% duvidosas. Em orações como (3.116), a correferência foi aceita em 60% dos casos. 2d% das orações foram consideradas mal-formadas e 6% duvi- dosas. Em orações como (3.119), onde o contexto favorece a interpretação correferencial, as orações foram considera- das bem-formadas em 84% dos casos, sendo 10% duvidosas e 65á mal-formadas, 142 CONCLUSÃO Ao examinar a subordinação infinitiva neste trabalho, concen trei-me na busca dos fatores que determinam a ocorrência de sujei to lexical. Ê a presença desse sujeito que deflagaa concordância. Posso apontar aqui uma mudança de perspectiva em relação aos de- mais trabalhos sobre o tema. Esses - refiro-me, principalmente, à GT e à análise de PERINI - privilegiavam o exame da presença das desinências pessoais junto à forma verbal infinitiva. A atenção às condições de aparecimento de sujeito lexical no infinitivo também se justifica na medida em que esse fenômeno traz certas questões para o modelo — TRV - que adoto, l^ata-se de sa- ber como, e em que ambientes, tem-se a atribuição de Caso Nomina- tivo numa oração infinitiva. Propus então - valendo-me da escolha dos verbos quanto ao mo do subjuntivo ou indicativo que admitém em seus complementos- que a Gramática do português apresenta quatro classes de verbos. Es- sas classes são: V. SUB, V. IND, V, MIS e V. INF. Através da sub- categorização verbal tratei esses fatos. A principal diferença en tre as classes diz respeito à escolha do tipo de tempo do comple- mento oracional pelo verbo principal. Viu-se que o tempo das su- bordinadas infinitivas dos verbos da classe V. SUB, ao contrário do tempo das subordinadas infinitivas dos V. IND, é caracterizado em relação ao traço [ípass] de tempo. E essa cciracterização é es- sencial para se ter a atribuição do Caso Nominativo. A proposta do CAN vem capturar esses fatos. Eessalto, no entanto, que é a presença de CONCORD junto à for ma infinitiva que marca a especificidade da Gramática portuguesa. Ora, também em outras línguas românicas, como o francês, o cata- lão, etc., tem-se a correlação de tempo entre completivas subjun- tivas e orações principais - o que autorizaria, em princípio, um tratamento nas linhas aqui desenvolvidas. Mas, diferentemente do português, essas línguas não dispõem de desinências pessoais jun- to à forma infinitiva - o que as impede de apresentarem o sujeito lexical. Creio que a classificação verbal proposta pode vir a ser um guia extremamente útil para a compreensão de vários fenômeíios da Gramática portuguesa. Além disso, essa classificação sc apresenta com mais objetividade que a classificação de classes de verbos - 143 tais como verbos factivos, epistêmicos, declarativos, etc. - que foi empregada por alguns Autores aqui comentados. Essa última cl£^ sificação - de caráter semântico - nem sempre se mostra evidente para todos os falantes e faz surgir problemas relacionados com a validade de análises sintáticas nela baseadas. As diferenças quanto à caracterização do tempo em relação ao traço [ipassj permite também a compreensão da oscilação dos julga mentos dos falantes em relação à boa-formação das construções con completivas infinitivas. Como mostrou a testagem realizada, há grande variação em relação à boa-formação de orações como as se- guintes; (1) a. João disse Maria sair cedo b. João lamentou Maria ir à festa sem sapatos Pode-se supor que os falantes, se avaliam (la) como bem fornada, estão considerando o tempo dessa completiva, sem qualquer especi- ficação para o traço [-pass^ , suficiente para a atribuição de Ca- so Nominativo. A avaliação de (ib) como bem-formada e de (la) co- mo mal-formada é que foi, através do CAN, retratada nesse traba- lho. Aqueles falantes que recusam também (Ib), necessitam nesmc que o traço [-pass] se encontre morfologicamente realizado, come nas seguintes sentenças: (2) a. João lamentou que Maria fosse à festa sem sapatos b, João disse que Maria saiu cedo Pode-se indagar também se a csiracterização de tempo, necessá ria para se ter Caso Nominativo, pode incluir também elementos não verbais, tais como os advérbios. Assim, talvez haja falantes para os quais as sentenças abaixo são melhores que (la): (3) a. João disse Maria sair cedo ontem b. João confirmou Maria viajar hoje de manhã É provável então que toda a dificuldade de decisão sobre a boa—formação das oraçoes infinitivas, o que leva muitas vezes os Gramáticos Tradicionais a transferirem o estudo do comj^ortamontc do infinitivo para o campo da estilística, resida na determinação 14^ dos elementos caracterizadores de tempo que são suficientes para se ter o Caso Nominativo. Posso prever, no entanto, que os resultados desse trabalho,e refiro-me, principalmente, à determinação do sujeito lexical, nu- ma oração infinitiva, são parciais. Necessário se faz um exame das orações infinitivas em outros ambientes sintáticos que não o de objeto. Creio, pelo menos; ter mostrado a complexidade do fenôme- no e que muita investigação deverá ainda se fazer para que se pos sa ter alguma compreensão da Gramática do infinitivo português. 145 BIBLIOGRAFIA ALI, S. (1950), Dificuldades da Língua Portuguesa, Livraria Acadê mica, Rio de Janeiro. ANDERSON, B. R. (1982), "Types of Dependencies in Anaphors: Ice- landic (and others) Reflexives", artigo ^ nedito. UCLA, Los Angeles. BARBOSA, J. S. (1881), Grammatica Philosophica da Lingua Portugue za. BELLETTI, A, & RIZZI, L. (1981), "The Syntax of "NE": Some Theore tical Implications", The Linguis tic Review, p.117-154. BENVENISTE, E. (1976), Problemas de Lingttistica Geral, Cia. Edito ra Nacional, são Paulo. BECHARA, E. (1978), Moderna Gramática Portuguesa, Cia Editora Na- cional, São Paulo.' BORDELGIS, I. (1974), The Grammar of Spanish Causative Comple- ments, Tese de Doutorado, MIT. 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