Educação interprofissional em uma Faculdade Federal de Odontologia: uma análise exploratória Débora de Oliveira Camargos Aluna de graduação da Faculdade de Odontologia da UFMG João Henrique Lara do Amaral Graduação em Odontologia – PUC Minas Mestrado em Demografia – UFMG Doutorado em Odontologia (área: Saúde Coletiva) – UFMG Docente do Departamento de Odontologia Social e Preventiva da Faculdade de Odontologia da UFMG Najara Barbosa da Rocha Graduação em Odontologia – UNESP Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado em Odontologia Preventiva e Social - UNESP Docente do Departamento de Odontologia Social e Preventiva da Faculdade de Odontologia da UFMG  najaraufmg@ufmg.br Recebido em 20 de agosto de 2020 Aceito em 19 de setembro de 2021 Resumo: A educação interprofissional (EIP) desenvolve competências colaborativas favoráveis para formação de profissionais na saúde, como trabalho em equipe, resolutividade e integralidade da atenção em saúde, porém experiências sobre EIP no ensino da Odontologia no Brasil são escassas. O objetivo deste trabalho foi analisar os planos de ensino da matriz curricular do curso de Odontologia, de uma instituição pública, no que se refere à EIP. Foi realizada pesquisa documental, descritiva, exploratória, com análise dos planos de ensino das disciplinas obrigatórias e optativas, disponibilizados pelo Colegiado de Graduação em 2019 do curso de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Entre as 97 disciplinas, distribuídas do 1° ao 10° período, nenhuma disciplina citou pressupostos ou princípios da EIP. Apenas oito mencionaram alguma ação multiprofissional totalizando 15% da carga horária total do curso que corresponde a 4005 horas. Os planos de ensino evidenciaram o trabalho multiprofissional por observação (n=3) e atuação com outros profissionais (n=5). Das disciplinas que apresentam interação com outros profissionais, somente uma tem sua prática dentro da Faculdade de Odontologia. Foi percebido que estas disciplinas com trabalhos multiprofissionais são campos estratégicos para a inserção da EIP no currículo de Odontologia da UFMG. Estes resultados sugerem que a EIP é inexistente dentro do projeto pedagógico do curso em Odontologia na UFMG, quadro comum em outras instituições nacionais que oferecem este curso. Nesse sentido, é necessário um apoio e incentivo aos cursos de Odontologia para que promovam mudanças em seus currículos, visando contribuir para qualificação dos profissionais e na atenção à saúde. Palavras-chave: Educação Interprofissional, Formação Profissional em Saúde, Odontologia, Aspectos Multiprofissionais, Relações Interprofissionais. Interprofessional Education at a Federal School of Dentistry: an exploratory analysis Abstract: Interprofessional education (IPE) develops favorable collaboratives skills for training health professionals, such as teamwork, problem solving and comprehensive health care, but experiences about Interprofessional education in dentistry teaching in Brazil are scarce. The objective of this work was to analyze the teaching plans of the curricular matrix of the Dentistry course of a public institution, with regard to IPE. Documentary, descriptive, exploratory research was conducted, with analysis of the teaching plans of compulsory and mailto:najaraufmg@ufmg.br Revista SUSTINERE, 499 optional disciplines, made available by the Undergraduate Collegiate in 2019 of the Dentistry course at Federal University of Minas Gerais (FUMG). Among the 97 disciplines, distributed from the 1st to the 10th period, no discipline cited principles of IPE. Only eigth mentioned some multiprofessional action, totaling 15% of the total course workload. The teaching plans showed multiprofessional work by observation (n=3) and acting with other professionals (n=5). It was perceived that these disciplines with multidisciplinary work are strategic fields for the insertion of IPE in the dentistry curriculum of FUMG. These results suggest that IPE is non-existent within the pedagogical project of the Dentistry course at FUMG, a common framework in other national institutions that offer this course. In this sense, it is necessary to support and encourage dentistry courses to promote changes in their curricula, aiming to contribute to the qualification of professionals and health care. Keywords: Interprofessional Education, Professional Training in Health, Dentistry, Multiprofisional Aspects, Interprofessional Relations. Educación interprofesional en una Escuela Federal de Odontología: un análisis exploratório Resumen: La educación interprofesional (EIP) desarrolla habilidades colaborativas favorables para la formación de profesionales de la salud, como el trabajo en equipo, la resolución de problemas y la atención integral de la salud, pero las experiencias sobre la educación interprofesional en la enseñanza de la odontología en Brasil son escasas. El objetivo de este trabajo era analizar los planes didácticos de la matriz curricular del curso de Odontología de una institución pública, con respecto a la EIP. Se realizaron investigaciones documentales, descriptivas y exploratorias, con un análisis de los planes didácticos de disciplinas obligatorias y facultativas, puesto a disposición por el Colegiado de Grado en 2019 de la carrera de Odontología de la Universidad Federal de Minas Gerais (UFMG). Entre las 97 disciplinas, distribuidas del 1o al 10o período, ninguna disciplina citó supuestos o principios de educación interprofesional. Sólo ocho mencionaban alguna acción multiprofesional, que totaliza el 15% de la carga de trabajo total del curso. Los planes de enseñanza mostraron trabajo multiprofesional por observación (n-3) y actuando con otros profesionales (n-5). Se percibió que estas disciplinas con trabajo multidisciplinar son campos estratégicos para la inserción del IPE en el currículo de odontología de la UFMG. Estos resultados sugieren que la EIP es inexistente dentro del proyecto pedagógico del curso de odontología em UFMG, un marco común en otras instituciones nacionales que ofrecen este curso. En este sentido, es necesario apoyar y fomentar los cursos de odontología para promover cambios en sus planes de estudio, con el objetivo de contribuir a la cualificación de los profesionales y la atención de la salud. Palabras clave: Educación interprofesional, Formación Profesional en Salud, Odontología, Aspectos multiprofisionales, Relaciones Interprofesionales. INTRODUÇÃO Vivencia-se um momento em que o paradigma da organização do trabalho em saúde, baseado na extrema segmentação, é inadequado, acrítico e centrado nos profissionais, com escassa preocupação com a resolutividade dos serviços e sem capacitação interprofissional para o enfrentamento dos problemas de saúde (CONTERNO; LOPES, 2013). A mudança na formação de estudantes na área da saúde e a capacitação de professores, ainda permanecem como grandes desafios (ARAÚJO; ROCHA, 2007; COSTA et al., 2018). A importância do trabalho em equipe nos serviços de saúde deve ser ressaltada, principalmente, pelo princípio da integralidade e resolutividade no cuidado. No trabalho em equipe, a atuação profissional alcança um maior impacto na intervenção sobre os atores que interferem no processo saúde-doença (ARAÚJO; ROCHA, 2007). Em relação aos serviços de saúde observa-se maior eficiência e eficácia quando os profissionais atuam em equipe (PEDUZZI et al., 2011). Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) e as Diretrizes curriculares Nacionais de Odontologia enfoquem a importância do trabalho em equipe, o modelo predominante ainda é de formação uniprofissional (SILVA et al., 2015). A Educação interprofissional (EIP) é uma estratégia pedagógica na qual duas ou mais profissões trabalham e aprendem juntas priorizando o trabalho em equipe, a integração, colaboração e a troca de conhecimento (AGUILAR-DA-SILVA; SCAPIN; BATISTA, 2011; BATISTA; GONÇALVES, 2011). Com a EIP, o trabalho em equipe interprofissional oferece melhores resultados na atenção à saúde (CARVALHO et al., 2016) e mudanças importantes no perfil profissional (GOELEN et al., 2006; HIND et al., 2003), mostrando que o trabalho colaborativo entre as profissões prepara melhor para a vida profissional (GILBERT; YAN; HOFFMAN, 2010). A vivência de aprendizagens na EIP é reconhecida como promotora do desenvolvimento de competências para a prática colaborativa (GILBERT; YAN; HOFFMAN, 2010), assim como a colaboração na equipe interprofissional é considerada um elemento necessário para a qualidade da atenção à saúde (ALMEIDA; SILVA, 2019; SILVA et al., 2015). Nesse sentido, grupos internacionais propuseram um conjunto de competências para a prática colaborativa interprofissional, com o objetivo de diminuir as limitações identificadas na formação dos profissionais de saúde. O grupo canadense Canadian Interprofessional Health Collaborative elaborou domínios de competências essenciais: comunicação interprofissional; cuidado centrado no paciente, no usuário, na família e comunidade; melhor delimitação dos campos de atuação profissional; dinâmica de funcionamento da equipe; resolução de conflitos interprofissionais e liderança colaborativa (CANADIAN INTERPROFESSIONAL HEALTH COLLABORATIVE, 2010). O Interprofessional Education Collaborative Expert Panel, norte- americano, definiu como competências: valores/ética para prática interprofissional; papéis e responsabilidades profissionais; comunicação interprofissional e trabalho em equipe; bem como segurança, qualidade no acesso e cuidado centrado no paciente (IPEC, 2016). Aspecto Revista SUSTINERE, 501 central da EIP é a intencionalidade para o desenvolvimento destas competências colaborativas (COSTA; AZEVEDO; VILAR, 2019). O modelo de formação e do trabalho atual em saúde estimula muito mais a competição do que a colaboração entre os profissionais. Nesse sentido, é primordial identificar condições favoráveis à implantação da EIP, ressaltando que ela necessita de bases sólidas para se sustentar no currículo com o objetivo de alcançar resultados de curto, médio e longo prazo. Nessa mesma direção, existem três dimensões da realidade que exercem forte influência no processo de adoção da educação interprofissional: dimensão macro, meso e micro, com igual importância para a implantação da EIP. No nível macro, estão relacionadas às políticas de saúde e educação; a dimensão meso está no campo dos desenhos curriculares e processos relacionados a formação; e a micro se refere aos aspectos relacionais entre os sujeitos no processo de ensino aprendizagem (COSTA; AZEVEDO; VILAR, 2019). Em 21 de junho de 2021 foram publicadas as novas Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Odontologia. Teve um importante avanço nesta publicação em comparação com a antiga (2002) no que diz respeito à EIP em saúde, pois foi incluído no perfil do egresso em Odontologia que ele seja apto a atuar em equipe, de forma interprofissional, além da temática ser inserida também nas competências gerais, estrutura curricular e nos conteúdos curriculares dos cursos em graduação (BRASIL, 2021). Embora seja reconhecida como promissora, são escassas no Brasil as experiências com EIP nos cursos da área da saúde, entre eles, os cursos de Odontologia (AGUILAR-DA-SILVA; SCAPIN; BATISTA, 2011; NUTO et al., 2017; SARAIVA et al., 2018; TOASSI; LEWGOY, 2016). A produção científica é restrita e ressalta a necessidade de estudos sobre a EIP (TOMPSEN et al., 2018). Iniciativas que busquem fortalecer EIP nos cursos de graduação na área da saúde devem ser precedidas de análise da existência ou não de condições favoráveis à sua implantação, ou presença de experiências que se apresentem como promissoras. Assim sendo, este estudo analisou os planos de ensino das disciplinas do curso de graduação Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com o objetivo de identificar as experiências de EIP no currículo de graduação. METODOLOGIA Foi realizado estudo descritivo exploratório, com análise documental, dos planos de ensino, disponibilizados em formato digital pelo Colegiado de Graduação, das disciplinas obrigatórias e optativas da matriz curricular do Curso de Odontologia da UFMG, no ano de 2019. A análise documental é uma técnica de pesquisa que tem como fonte documentos diversos que são analisados em profundidade para que deles sejam extraídas informações e indicações relativas ao objeto de estudo (PIMENTEL, 2001). Permite ampliar o conhecimento a respeito de um determinado fenômeno que necessite de contextualização histórica e sociocultural (SÁ-SILVA; ALMEIDA; GUINDANI, 2009). No site do Colegiado de Graduação está disponível o documento do projeto pedagógico do curso (PPC), implantado em 2013, que ao ser analisado, mostrou-se desatualizado em relação aos planos de ensino das disciplinas obrigatórias e optativas. Assim, foi solicitado e disponibilizado pelo colegiado os planos de ensino atualizados em formato digital do segundo semestre de 2019, via e-mail. A matriz curricular do curso de Odontologia na UFMG é organizada por disciplinas, com 4005 horas do 1º ao 10º período, de forma semestral e as atividades acadêmicas curriculares distribuídas de acordo com o nível crescente da complexidade da atenção em saúde e por ciclos de vida: crianças, adolescentes, adultos e idosos. Foram analisadas disciplinas obrigatórias e optativas inseridas no PPC. As disciplinas obrigatórias são imprescindíveis de serem cursadas pelos alunos para obterem o título de bacharel em Odontologia. As disciplinas optativas são de livre escolha do aluno possibilitando uma formação mais diversificada. Como tipologia para modelos de formação na área da saúde foi assumida aquela proposta por PEDUZZI et al. (2013). Segundo a autora, o ensino uniprofissional ocorre quando o estudante ou profissional é formado de forma isolada, multiprofissional quando a formação ocorre de forma conjunta entre duas ou mais profissões, sem haver interação e interprofissional, quando há aprendizagem compartilhada, colaborativa com interação entre estudantes e/ou profissionais de diferentes áreas. Revista SUSTINERE, 503 Na análise dos planos de ensino foram utilizadas as seguintes perguntas de referência: a disciplina é obrigatória ou optativa? Na ementa e/ou objetivos da disciplina há referência às dimensões do EIP? Na ementa e/ou objetivos da disciplina há referência ou são orientadores da ação educativa observando as dimensões do trabalho multiprofissional ou interprofissional? Existe atividade prática de ensino colaborativo, multiprofissional ou interprofissional prevista nos planos de ensino? Se existe, com quais profissões? Após análise dos planos de ensino foram identificadas as seguintes categorias: • Disciplinas que não realizam educação interprofissional ou multiprofissional; • Disciplinas com experiência em educação interprofissional; • Disciplinas que realizam educação multiprofissional. As disciplinas com experiência de ensino multiprofissional foram distribuídas entre dois grupos: experiência multiprofissional por meio de observação do trabalho da equipe de saúde e experiência de formação como membro da equipe de saúde. Os dados foram organizados e processados em planilha Excel®. As informações foram apesentadas de forma descritiva e por meio de frequências absoluta e relativa. RESULTADOS A matriz curricular do Curso de Odontologia da UFMG indica que a carga horária total do curso é de 4005 horas. Entre todas as disciplinas (n=97), apenas oito incluem elementos da educação multiprofissional, totalizando 15% da carga horária total do curso (Tabela 1). Não foram encontradas disciplinas com pressupostos ou princípios da EIP na graduação de Odontologia da UFMG. Foi observado que os estudantes de graduação da Faculdade de Odontologia (FAO) da UFMG têm a oportunidade de compreender por observação o trabalho em equipe ou de trabalharem com médicos, profissionais da enfermagem, área técnica da saúde bucal, profissionais da educação, fisioterapeutas, profissionais da Atenção Básica, Hospital e Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB). O curso apresenta elementos e experiências da multiprofissionalidade. Do total das disciplinas com alguma atividade de interação com outros profissionais, somente uma tem sua prática dentro da Faculdade de Odontologia, as outras são cenários de prática externos à universidade (serviços de saúde, hospitais, Instituição de Longa Permanência para Idosos - ILPI e escolas) (Tabela 1). Tabela 1 – Distribuição das disciplinas com aspectos multiprofissionais da FAO-UFMG de acordo com sua modalidade, período do curso, características e carga horária (teórica e prática). Disciplina Modalidade Período Profissionais Ações com vistas à formação multiprofissional Carga Horária Teoria Carga Horária Prática Carga Horária Total Ciências Sociais Articuladas Obrigatória 1° Médico generalista, enfermeiro generalista, técnico de enfermagem, equipe técnica em saúde bucal Observação e registro do processo de trabalho dos diferentes profissionais de saúde na UBS* 32 13 45 Estágio em Ações Coletivas I Obrigatória 4° Profissionais da Educação Articulação com profissionais da educação das EMEI* em programas e projetos de promoção de saúde para a população infantil 5 25 30 Estágio em Ações Coletivas II Obrigatória 8° Profissionais que compõem a equipe de saúde e NASF- AB Atuar com as equipes de saúde e NASF-AB*** em busca de projetos de promoção de saúde para população adulta 10 20 20 Revista SUSTINERE, 505 Estágio em Ações Coletivas III Obrigatória 10° Médico generalista, enfermeiro generalista, técnico de enfermagem, equipe técnica em saúde bucal Conhecer as políticas de atenção ao idoso ... e o trabalho em equipe na ILPI**** 4 26 30 Estágio em Saúde Coletiva Obrigatória 10° Médico generalista, enfermeiro generalista, técnico de enfermagem, equipe técnica em saúde bucal Conhecer e refletir sobre processo de trabalho em saúde e participar de atividades multiprofissionais - 300 300 Odontologia Hospitalar Optativa - Membros da equipe de cuidados hospitalares Proporcionar ao aluno oportunidade de experiência multiprofissional no atendimento a pacientes do Hospital das Clínicas da UFMG***** 10 50 60 Atenção Odontológica para Crianças e Adolescentes com Deficiência Neuropsico- motoras Optativa - Fisioterapeutas Fisioterapia aplicada ao atendimento odontológico de pacientes com deficiência neuropsicomotora 30 15 45 Formação de Promotores de Saúde Optativa - Trabalhadores Programa Saúde Escolar Experimentação, reflexão e teorização das relações entre o profissional de saúde e a comunidade escolar 12 48 60 *UBS – Unidade Básica de Saúde; **EMEI – Escola Municipal de Educação Infantil; ***Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB); ****ILPI – Instituição de Longa Permanência para Idoso. ***** Universidade Federal de Minas Gerais. Fonte: Própria. A tabela 2 traz recortes dos planos de ensino nos quais foram identificadas ações com vistas à formação multiprofissional. Tabela 2 – Distribuição das disciplinas na Matriz Curricular do Curso de Odontologia da FAO- UFMG segundo a previsão nos planos de ensino de formação interprofissional ou multiprofissional. CATEGORIAS DISCIPLINA RECORTE DO PLANO DE ENSINO Educação Interprofissional - - Educação multiprofissional Ciências Sociais Articuladas “Processo saúde/doença na visão de alunos de odontologia, usuários e trabalhadores do SUS/BH;” Estágio em Ações Coletivas I “Atuar juntamente com as equipes de saúde e das EMEIS** em programas e projetos de promoção de saúde para a população infantil” Estágio em Ações Coletivas II “Atuar juntamente com as equipes de saúde, NASF-AB***, academias da cidade em programas e projetos de promoção de saúde para a população adulta” Estágio em Ações Coletivas III “Identificar oportunidades e atuar para a integração do idoso de forma a melhorar o seu convívio na comufnidade, na família e em ILPI****; trabalhar em equipe” Odontologia Hospitalar Proporcionar ao aluno da graduação em Odontologia oportunidade de experiência no trabalho em equipe profissional muItiprofissional” Atenção Odontológica para Crianças e Adolescentes com Deficiência Neuropsicomotoras “Fisioterapia aplicada ao atendimento odontológico de pacientes com deficiência neuropsicomotora” Formação de Promotores de Saúde “Experimentação, reflexão e teorização das relações entre o profissional de saúde e a comunidade escolar” Estágio em Saúde Coletiva “Conhecer e refletir sobre o processo de trabalho em saúde e participar de atividades multiprofissionais” *UBS – Unidade Básica de Saúde; **EMEI – Escola Municipal de Educação Infantil; ***Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB); ****ILPI – Instituição de Longa Permanência para Idoso. Fonte: Própria. Revista SUSTINERE, 507 DISCUSSÃO A educação interprofissional ocorre quando duas ou mais profissões aprendem entre si, com e sobre as outras, com objetivo centrado na colaboração e na qualidade dos cuidados em saúde (COSTA et al., 2018). Na análise documental dos planos de ensino do Curso de Odontologia da UFMG não foram encontrados elementos que desenvolvessem competências colaborativas da EIP, com a exceção ao estímulo do trabalho em equipe. Quando pensamos em desenvolver EIP é necessário obrigatoriamente promover a colaboração entre as diferentes profissões e não apenas colocar diferentes profissões trabalhando em conjunto em determinado ambiente (PEDUZZI et al., 2013). A formação em saúde no Brasil sempre esteve pautada no modelo tecnicista, centrado no atendimento da demanda espontânea, com enfoque individual e abordagem centrada na doença (CALDARELLI, 2018; SARAIVA et al., 2018). Este modelo favorece uma formação acrítica e restrita aos profissionais, sendo pouco resolutiva, além da falta de capacitação para lidar com os reais problemas de saúde da população (SARAIVA et al., 2018). Para consolidar o movimento de mudança da formação em saúde que vem ocorrendo, há o desafio de romper com estruturas curriculares uniprofissionais rígidas nas instituições de ensino superior, que colaboram para posturas individualistas e uma prática isolada das profissões da saúde (TOASSI et al., 2020). Neste contexto, a ausência da EIP e da perspectiva do trabalho em equipe no ensino em saúde favorece a centralidade no conteúdo das disciplinas e a fragmentação da formação (PEDUZZI et al., 2013; SILVA et al., 2015). A graduação em Odontologia acompanha esta tendência e a ausência da EIP não é cenário apenas da FAO-UFMG. É pouco comum a inserção da EIP nos cursos de graduação em saúde e em menor escala no curso de Odontologia (TOMPSEN et al., 2018). O que se observa são experiências de aprendizagem conjuntas, mas não com o objetivo de desenvolver competências colaborativas para o trabalho interprofissional (BATISTA, 2012). No Curso de Odontologia da UFMG, as oito disciplinas que trazem em si elementos constitutivos da formação e prática multiprofissional são estratégicos para a inserção futura da EIP. As disciplinas de Ações Coletivas I, III e de Formação de Promotores de Saúde têm potencial também para o trabalho intersetorial. A intersetorialidade favorece o fortalecimento da rede de atenção à saúde por meio do diálogo entre instituição. A intersetorialidade aproxima instituições e pessoas, possibilitando a elaboração de ações e políticas de impacto na saúde (REUTER; SANTOS; RAMOS, 2018). A disciplina Estágio em Saúde Coletiva, do último período do curso, tem como cenário de prática as UBS onde acontecem estágios para estudantes de outros cursos da área da saúde. Embora o campo seja favorável, a EIP ainda não é estruturada como estratégia de ensino- aprendizagem. Nesta disciplina, dependendo da particularidade do campo de estágio, podem ocorrer oportunidades de aprendizagens compartilhadas nas rotinas de trabalho das equipes. Entre as disciplinas, o Estágio em Saúde Coletiva parece ser aquela com maior potencial para a introdução da EIP. Entretanto, existe a limitação da sua oferta no último período do curso, uma vez que, nessa etapa da formação, existe o risco de já terem sido consolidados nos estudantes os estereótipos em relação às diferentes profissões da área da saúde (COSTA et al., 2018). No Brasil, a discussão sobre a EIP ampliou-se significativamente, sendo referenciada como um importante eixo direcionador de modelos de mudanças do processo de formação assumidos pelos Ministérios da Saúde e da Educação (BATISTA et al., 2018). A atualização do perfil profissional do egresso, de acordo com as novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) publicadas em 2021, será um fator indutor de mudanças nos cursos de graduação em Odontologia, pois ressalta a necessidade de formação do cirurgião-dentista pautada na atenção integral à saúde, levando em conta o sistema regionalizado e hierarquizado de referência e contrarreferência, e o trabalho em equipe interprofissional (BRASIL, 2021). Em 2018, foi lançado o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde Interprofissionalidade) com o objetivo de incentivar e fortalecer a EIP nos cursos de graduação da área da saúde (ALMEIDA; TESTON; MEDEIROS, 2019). A UFMG concorreu ao edital e seu projeto foi aprovado (CAMARA; GROSSEMAN; PINHO, 2015). A FAO-UFMG faz parte desta iniciativa em parceria com outros cursos da área da saúde da instituição. Atualmente estão em atividade na UFMG cinco grupos PET-Interprofissionalidade, com a participação de professores, trabalhadores dos serviços de saúde, gestores e estudantes. A implantação do PET-Saúde Interprofissionalidade favoreceu a realização de uma atividade formativa de desenvolvimento de competências profissionais para o trabalho interprofissional. Para essa experiência piloto, estudantes dos últimos períodos dos cursos de Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Medicina, Nutrição e Odontologia foram convidados a Revista SUSTINERE, 509 participar de atividade formativa sobre os quatro domínios da educação interprofissional: trabalho em equipe; papéis e responsabilidades; valores e ética e comunicação interprofissional. Nessa atividade foram apresentadas situações problema que exigiram o exercício de competências para o trabalho interprofissional. Existe a expectativas de que essa iniciativa seja um primeiro passo para uma maior articulação entre os estágios curriculares dos cursos da área da saúde na UFMG (SENNA et al., 2020). Nesse cenário é possível identificar uma condição favorável ao desenvolvimento da EIP. Iniciativas que busquem a inserção da EIP no Curso de Odontologia da UFMG devem ser consideradas uma vez que, as experiências de ensino interprofissional na graduação em saúde, em vários países, mostraram mudanças positivas e robustas no perfil dos profissionais. Foram observadas mudanças nas atitudes e percepções da contribuição de cada um no cuidado à saúde, ampliação do conhecimento e desenvolvimento das habilidades para o trabalho e cooperação (REEVES et al., 2016). Nesse processo devem ser desenvolvidos recursos cognitivos, afetivos e psicomotores dos estudantes, com respeito à autonomia e aos campos específicos de conhecimento de cada profissão, tendo em vista a oferta de cuidados à saúde centrados nas necessidades da população (AGUILAR-DA-SILVA; SCAPIN; BATISTA, 2011). As iniciativas com o objetivo de introduzir a EIP na área da saúde, ou de fortalecimento de experiências em curso, devem considerar a articulação entre a formação profissional e os serviços de saúde com a participação colaborativa de trabalhadores e gestores do SUS (AGUILAR-DA-SILVA; SCAPIN; BATISTA, 2011). Este foi um estudo inicial diagnóstico sobre a presença da EIP no curso de Odontologia da UFMG. Não foram encontradas disciplinas que incluíssem a EIP nos planos de ensino. Foram identificadas oito disciplinas com diferentes graus de abordagem para o trabalho multiprofissional, e todas tem potencial para o desenvolvimento da EIP. A partir deste estudo, outros deverão ser desenvolvidos com o objetivo de identificar alternativas e oportunidades para a EIP ao longo do curso. É necessário destacar que o apoio institucional é de fundamental importância para o êxito da EIP e para a consolidação de mudanças nos currículos de graduação (COSTA et al., 2018; SILVA et al., 2015), em consonância com as DCN (BRASIL, 2021). Constitui limitação deste estudo o seu caráter primário e exploratório com a utilização exclusiva da análise documental. Outros estudos deverão ser realizados com abordagem qualitativa que integrem a opinião dos sujeitos diretamente envolvidos com o ensino: estudantes, professores e preceptores de estágios nos serviços de saúde. CONCLUSÃO Este estudo mostrou que as experiências com a EIP são inexistentes dentro do PPC do curso de graduação em Odontologia na UFMG, quadro comum em outras instituições nacionais que oferecem este curso. Nesse sentido, faz-se necessário a continuidade das políticas de apoio institucional para a mudança na formação profissional que considere as necessidades de saúde da população. REFERÊNCIAS AGUILAR-DA-SILVA, R. H.; SCAPIN, L. T.; BATISTA, N. ALVES. Avaliação da formação interprofissional no ensino superior em saúde: aspectos da colaboração e do trabalho em equipe. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior (Campinas), v. 16, n. 1, p. 167-184, 2011. Disponível em: . Acesso em 02 de agosto de 2020. ALMEIDA, R. G. DOS S.; SILVA, C. B. G. A Educação Interprofissional e os avanços do Brasil. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 27, p. e3152, 2019. Disponível em: . Acesso em 04 de agosto de 2020. ALMEIDA, R. G. DOS S.; TESTON, E. F.; MEDEIROS, A. DE A. M. A interface entre o PET-Saúde/Interprofissionalidade e a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. Saúde debate , v. no.spe1, p. 97–105, 2019. Disponível em: . Acesso em 02 de agosto de 2020. ARAÚJO, M. B. D. 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