Eloiza Mara de Paula Rossoni INTERLOCUÇÕES ENTRE A CERÂMICA DE ÁGUEDA VALENTIM E O BARRO DAS PANELEIRAS DE GOIABEIRAS: POSSIBILIDADES PARA A CONSTRUÇÃO ARTÍSTICA DOS ALUNOS DA REDE ESTADUAL DE VITÓRIA (ES) Processo de Criação Artística em formato de Artigo apresentada ao Curso de Mestrado Profissional da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Artes. Área de concentração: Ensino de Artes Orientador: Professor Dr. Fabrício Andrade Pereira Belo Horizonte Escola de Belas Artes da UFMG 2018 Ficha catalográfica (Biblioteca da Escola de Belas Artes da UFMG) Rossoni, Eloiza Mara de Paula, 1971- Interlocuções entre a cerâmica de Águeda Valentim e o barro das paneleiras de Goiabeiras [manuscrito] : possibilidades para a construção artística dos alunos da rede estadual de Vitória (ES) / Eloiza Mara de Paula. – 2018. 68 p., il. Orientador: Fabrício Andrade Pereira. Dissertação em formato de artigo. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Belas Artes, 2018. 1. Valentim, Águeda, 1866-1929 – Teses. 2. Arte – Estudo e ensino – Teses. 3. Arte e educação – Teses. 4. Criação artística – Teses. 4. Espírito Santo – Cultura popular – Teses. I. Pereira, Fabrício Andrade II. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Belas Artes. III. Título. CDD 707 Dedico esse trabalho aos meus pais e inspiração para a vida: Manoel e Dilza. Aos meus irmãos e heróis: Sebastião, Fiinha, Floro, Valter, Izabel, Paulo, Boy, Mico, Maria e Luiz. Ao meu amor, esposo, companheiro, amigo e grande incentivador Geraldo. A minha filha e motivação para vida: Amanda Rossoni A colega de curso e amiga para a vida Laura Paola, pela sua amizade, auxílio, generosidade e cumplicidade. Aos colegas de trabalho e amigos para vida: Alê, Evelyn, Fifi, Karla e Rafinha. A Dal Lopes pelo incentivo e apoio no início dessa caminhada. Amiga Gina pelo apoio e incentivo e presença constante nos meus momentos de alegria e tribulação. A amiga Adriana Lopes um presente em minha vida com seu jeito sereno e apaziguador me trouxe paz e calma com suas palavras de apoio e incentivo. As amigas Fernanda e Nayane por mergulharem de cabeça no projeto: gratidão e respeito pela excelente profissional que vocês são e pela enorme contribuição na conclusão da minha pesquisa A família “Elza Lemos Andreatta” que me recebeu de forma acolhedora. A Leonara que abraçou o projeto e me deu todo apoio e suporte para a conclusão do mestrado. Em especial por acreditar no poder transformador da Arte e educação na vida desses jovens. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus por me sustentar em todos os momentos nessa trajetória. Aos amigos e colegas de trabalho pelo incentivo, torcida e cumplicidade. A amiga Jossi pelo apoio, incentivo, motivação, lanchinhos para viagem, pesquisas de passagem e viver comigo esse sonho em vários momentos. A amiga Gina, pelo incentivo, conselhos, motivação, auxílio e ombro nos momentos difíceis e vibração nas conquistas, regados a deliciosos cafés. A Maria minha irmã, amiga e comadre, seu apoio incondicional, por acreditar em mim, enxergar e me mostrar o meu melhor, por ser esse ser humano referência de coragem, determinação, luz e força. Sem você não conseguiria, pois sabe tudo que passei e como foi difícil essa caminhada, mas seu incentivo, amor e ternura me fortaleceu, em especial o suporte com Amandinha. A Dal Lopes, a primeira pessoa da área da educação a abrir as portas e me possibilitar tornar esse sonho possível, e ser um exemplo de determinação e força. As amigas Suéllen e Samantha pelo apoio, amizade incondicional, por estarem presente na alegria e na tristeza e vibrando em todas as minhas conquistas. Respeito e admiração resume nossa história. Aos meus irmãos: Maria, Boy, Mico, Paulo, Valter, Luiz, Floro, vocês mergulharam de cabeça nesse sonho e ajudaram com auxílio, apoio, incentivo, oração e me ajudaram a modelar essa conquista. São meus heróis e minha referência de caráter, determinação, alegria e cumplicidade. Ao diretor Rener Melo pelo seu apoio. Aos professores: Ana Cristina, Monica Medeiros, Lucia Pimentel, Ricardo Figueiredo, Tadeu Eugênio, Maurilio, Rosvita pela forma generosa e competente que ministraram suas disciplinas. Ao professor/orientador Fabricio Andrade pela sua competência, generosidade em dividir anos de experiência de forma a permitir um crescimento e conquista desse sonho, bem como me possibilitou ampliar minha percepção de que aprender requer acima de tudo está disposto a dedicar e sempre ter a certeza que se tem muito mais ainda para pesquisar: o aprender é infinito. De forma muito especial e terna meu esposo, um ser especial que Deus colocou em minha vida, um amigo, incentivador, admirador e cumplice em todos momentos da minha vida, mas em especial no mestrado demostrou o quanto é incondicional o seu apoio para a realização dos meus sonhos. Ao amor infinito da minha vida, minha filha Amandinha, amiga, incentivadora, motivadora e razão da minha alegria e força de vontade, por ela os sonhos se tornam possível, pois seu amor, ternura e carinho alimentam minha alma, amor infinito, gratidão eterna. Guilherme Favoretti presença e apoio em todas as etapas da pesquisa. Fulviane Galdino minha referência de excelente profissional da educação e um ser humano repleto de doçura e generosidade. Flávio Christo, um dos melhores designers gráficos e um um ser humano de uma solicitude, carisma e docilidade raros. Gratidão por tudo e principalmente por transpor imagens, cor e forma com tanta sensibilidade e competência. A equipe secretaria EBA/PROFARTES: Nátalia, Kássio e Renata, pela solicitude e empatia. Aos colegas de curso Ana Júlia, Mônica, Débora, Samara, Laura, Léo, Welber, Mauro, Lismar e Patrícia que mergulharam nesse projeto onde a dedicação, esforço e conciliação dos estudos e pesquisa com a árdua rotina escolar foi um esforço de superação dia a dia. “O barro possui uma mobilidade que permite a pessoa de qualquer idade se manifestarem artisticamente, sem dificuldade e de maneira prazerosa. Encanta como uma magia a todos que queiram enveredar-se pelo caminho de arte cerâmica no campo artístico, profissional, pedagógico e terapêutico.” Rômulo Cabral de Sá SUMÁRIO 1 INTERLOCUÇÕES ENTRE A CERÂMICA DE ÁGUEDA VALENTIM COM O BARRO DAS PANELEIRAS DE GOIABEIRAS: POSSIBILIDADES PARA A CONSTRUÇÃO ARTÍSTICA DOS ALUNOS DA REDE ESTADUAL DE VITÓRIA (ES) ....................................................................................................... 7 2 PROCESSO DE CRIAÇÃO ARTÍSTICA: VIVÊNCIA E EXPERIÊNCIA ARTÍSTICA - A COMPOSIÇÃO ARTÍSTICA NO ATELIÊ DA ARTISTA ÁGUEDA VALENTIM - ESCOLA ELZA LEMOS .................. 41 REFERÊNCIAS ..................................................................................... 58 7 INTERLOCUÇÕES ENTRE A CERÂMICA DE ÁGUEDA VALENTIM E O BARRO DAS PANELEIRAS DE GOIABEIRAS: Possibilidades para a construção artística dos alunos da rede estadual de Vitória (ES) Eloiza Mara de Paula Rossoni RESUMO O presente trabalho propiciou aos estudantes da rede pública estadual experiências artísticas a partir de práticas pedagógicas, por meio do estudo das Paneleiras de Goiabeiras e do trabalho da ceramista Águeda Valentim. O barro foi o material básico para construção artística dos estudantes e possibilitou a construção de conhecimento e desenvolvimento expressivo, além de oportunizar vivências em ambientes artísticos e culturais. O processo de construção artística dos alunos foi constituído de vários elementos advindos da vivência e experiência com elementos da cultura local e ateliê da ceramista. A inserção dos estudantes nestes dois universos além de contribuir no processo de formação dos estudantes, e ampliar o repertório cultural, teve como relevância desta pesquisa pela interlocução entre o fazer cultural das Paneleiras de Goiabeiras e o fazer artístico da ceramista Águeda Valentim, no sentido de promover a distinção entre os dois universos, sem deslegitimar nenhum. Elaborou-se um livro com as vivências e possibilidades de atividades pedagógicas que utilizaram o barro no âmbito escolar. A abordagem teórica do trabalho respaldou-se nos autores Larossa (2005), Barbosa (2005), Sacomanni (2004), Dewey (2011) e outros autores que dialogaram com as abordagens no processo de ensino- aprendizagem. Palavras-chaves: Processo de criação. Vivências e experiências artísticas e culturais. ABSTRACT The present work provided the students of the state public network with artistic experiences based on pedagogical practices, through the study of the Paneleiras de Goiabeiras and the work of the ceramist Águeda Valentim. The clay was the basic material for artistic construction of the students and made possible the construction of knowledge and expressive development, besides offering opportunities in artistic and cultural environments. The process of artistic construction of the students was constituted of several elements derived from the experience and experience of the students with elements of the local culture and atelier of the ceramist. The insertion of the students between these two universes, besides contributing to the students' training process, and expanding the cultural repertoire, had as relevance of this research the interlocution between the cultural make of the Paneleiras de Goiabeiras and the artistic work of the ceramist Águeda Valentim, in the sense to promote the distinction between the two universes, without delegitimizing any. A book was elaborated with the 8 experiences and possibilities of pedagogical activities that used the mud in the school scope. The theoretical approach of the work was supported by the authors Larossa (2005), Barbosa (2005), Sacomanni (2004), Dewey (2011) and other authors who dialogued with the approaches in the teaching-learning process. Keywords: Creation process. Experiences and artistic and cultural experiences. APRESENTAÇÃO1 A escolha de propiciar vivências culturais foi caracterizada pela ampliação da fruição estética que pode influir diretamente na criação de trabalhos de expressividade artística dos educandos. É uma forma também de contribuir para um repertório de possibilidades e contextualizações. Considero importante significar experiências artísticas e estudar a Arte como área de conhecimento. O filosofo e pedagogo Larossa (2011), define experiência como tudo que nos acontece, tudo que nos ocorre, tudo que ocorre conosco no sentido da vida. Ele afirma que a cada dia se vive muita coisa, mas, ao mesmo tempo, se experencia muito pouco. Essa proposição de Bondia (2011) me fez refletir que as minhas vivências pessoais faziam conexões com as minhas vivências artísticas e culturais e estas influíam em minha prática educativa. “O lugar onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade”. Barros (2003, p.10) O texto de Barros (2003) me inspira a falar de quintal, de território, de ambiente de infância que contribuíram na construção de elementos que subsidiaram decisões e escolhas nas vidas pessoal e profissional. Sou Caçula de uma família de 11 irmãos: Sebastião, Aparecida, Floro, Isabel, Valter, Paulo, Maria, Valtemir, José, Luiz. Filha de Dona Dilza, do lar, analfabeta de escolaridade, mas detentora de conhecimentos da vida com seus chás que curavam qualquer 1 Somente na apresentação optou-se pela primeira pessoa do singular. 9 doença. Sábia com palavras que curavam as dores da alma. Entoava cantos de santos e cultura popular. Pai, Senhor Manoel, filho de escravos, militar, carregava um largo sorriso e um bom humor peculiar. Pastor da Igreja Assembleia de Deus, eu o acompanhava aos cultos dominicais. Em 1997, aos 104 anos, faleceu. Morávamos em uma casa de madeira, em um amplo quintal com muitas plantas, roseiras e árvores frutíferas: manga, abacate, cajá e araçauna. O pé de manga espada, que resiste ao tempo e a tantas histórias, ainda floresce e dá frutos deliciosos, fazendo rememorar minha infância até os dias atuais. A casa, na parte baixa do bairro de periferia, Itararé, cercada por vizinhos, não tinha muros, apenas uma baixa cerca de arame farpado. A família se reunia no fim da tarde contando casos e lendas em meio a um copo de café com bolinho de chuva. Eu brincava de pique, queimada e amarelinha. Nos fins da tarde de sábado, ía à missa na capela da igreja Nossa Senhora da Vitória, nas dependências do Quartel da Polícia Militar, que fica de frente para a rua da nossa casa. Eu e meus irmãos acompanhávamos o grupo de Congo Amores da Lua, pelos bairros adjacentes, e ainda as procissões dos santos de devoção, São Benedito e Nossa Senhora da Penha, esta padroeira do estado do Espírito Santo. Uma das coisas mais marcantes da minha infância, foi por não ter acesso a brinquedos industrializados, fabricava meus brinquedos, molhando o barro e modelando panelas, copos, bolos, biscoitos, utensílios. Alguns eu colocava para secar e usava várias vezes. Nesse universo lúdico o barro era um elemento de inspiração que despertava a minha criatividade e percepção do mundo. O meu contato com o barro me possibilitou me sentir inserida em um universo do qual eu não fazia parte (o acesso a brinquedos industrializados), mas me possibilitava reproduzi-lo de forma imaginativa. Todas essas memórias afetivas me colocaram nesse território da construção do conhecimento pelas vivências e experiências. E foi a partir das memórias afetivas dos alunos que dei início ao desenvolvimento da pesquisa do mestrado que resultou nesse trabalho. 10 INTRODUÇÃO O presente trabalho propiciou aos estudantes, na disciplina de Arte das escolas da rede estadual: Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio “Major Alfredo Pedro Rabaioli2”, Escola Estadual de Ensino Médio “Maria Ortiz3” e Escola Estadual Ensino Médio e Fundamental “Elza Lemos Andretta4”, vivências expressivas que buscaram interlocuções entre culturas locais do Espírito Santo e as vivências artísticas no ateliê da ceramista Águeda Valentim. O barro foi elemento para as produções e as experiências artísticas e possibilitou a construção do conhecimento e desenvolvimento da expressividade dos estudantes com a cerâmica. O presente trabalho possui três partes: 1. MEU CANTO DESSA CIDADE: leitura das vivências artísticas e culturais; 2. MEU CANTO DESSA CIDADE: leitura do cotidiano,3. PANELEIRAS DE GOIABEIRAS: cultura e tradição de geração em geração Na parte introdutória 1. MEU CANTO DESSA CIDADE: leitura das minhas vivências artísticas e culturais, justifica-se a escolha da metodologia e das práticas educativas que nortearam esta pesquisa. Em 2, MEU CANTO DESSA CIDADE: leitura do cotidiano, apresenta-se quem são os estudantes parceiros da pesquisa e quais os contextos sociais das Escolas Rabaioli, Maria Ortiz e Elza Lemos. Partiu-se dos conhecimentos prévios dos estudantes para se realizar as escolhas das visitas em ambientes artísticos e culturais, bem como as escolhas das atividades práticas educativas. As atividades pedagógicas e artísticas basearam-se em elaborações de fotografia e pintura. Pretendeu-se ampliar os olhares para o ambiente de trajetos cotidianos dos estudantes, por exemplo, entre escola e casa. Dessa forma, a segunda parte, 2.2 VIVÊNCIAS ARTÍSTICAS E CULTURAIS: por esses “cantos”, aborda as visitas aos bens culturais da cidade de Vitória: igrejas, palácios, galerias de arte e teatro. Essa atividade propiciou aos alunos 2 Doravante se referirá à Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Alfredo Rabaioli como Escola “Rabaioli”. 3 Doravante se referirá à Escola Estadual de Ensino Médio “Maria Ortiz” como Escola “Maria Ortiz”. 4 Doravante se referirá à Escola Estadual de Ensino Médio e Fundamental “Elza Lemos Andreatta” como Escola “Elza Lemos”. 11 compreensão de importantes aspectos destes espaços de Arte e cultura, como elementos constitutivos da cultura local. As atividades de expressividade artística propostas aos alunos foram: pintura, desenho, fotografia e maquetes. A terceira parte, é subdividida em dois textos. O primeiro procurou analisar a experiência dos estudantes no ateliê das Paneleiras, onde realizaram oficinas de panelas de barro e interagiram com as pessoas que realizam este ofício. Ocasião na qual os estudantes produziram um documentário e um registro fotográfico, baseados na transmissão oral desta cultura. Esperou-se possibilitar aos alunos uma maior interação com as pessoas que realizam esse ofício, bem como entender a importância de conservar uma forma cultural tão presente e importante para os dias atuais. Procurou-se ainda, conhecer o barro e suas especificidades, processos e ferramentas de manuseio e criação. No segundo, analisou-se a oficina realizada no ateliê da ceramista Águeda Valentim. Os estudantes experienciaram as etapas do processo de criação e construção de uma peça em cerâmica. Objetivou-se permitir ao aluno a experiência de fazer uma construção artística dentro de um ambiente de ateliê. Posteriormente, houve a instalação do painel produzido pelos estudantes na escola. Com essas práticas educativas e com todo o processo vivenciado, pretendeu-se possibilitar aos alunos experimentações e composições artísticas com o barro. Esta pesquisa foi desenvolvida com os estudantes da rede pública estadual, na cidade de Vitória, no Espírito Santo, com o objetivo que os mesmos tivessem experiências artísticas e culturais expressivas. Pelas práticas educativas, no cotidiano escolar, foi possível presumir que somente levar os estudantes ao Galpão das Paneleiras e ao ateliê da ceramista Águeda Valentin e propor uma produção com o barro, provavelmente resultaria em um trabalho ilustrativo, o qual não traria proposições artísticas. Procurou-se criar estratégias que possibilitassem o manuseio e conhecimento de diversas técnicas relacionadas ao barro como: modelação (consiste em dar forma ao barro, criando o objeto desejado), bola (a forma como o barro deve ser amassado) e estampagem e 12 gravação (consiste em utilizar objetos para criar texturas e/ou desenhos). A proposta foi desenvolvida com estudantes da faixa etária entre 15 e 17 anos de três escolas da rede pública estadual. Devido à carga horária reduzida para a disciplina de Arte, apenas uma aula semanal, necessitou-se trabalhar em mais de uma unidade de ensino do período do início do mestrado até a presente data. A investigação foi desenvolvida nas escolas: Escola Rabaioli (período 2014 a 2017), Escola Maria Ortiz (período de 2017) e Escola “Elza Lemos” (2017/2018). Outro motivo de desenvolver o projeto com os estudantes em três escolas foi devido a mudanças implantadas pelo governo do Espírito Santo, que adotou um processo de aulas em tempo integral, denominado Escola Viva. A cada implantação desse sistema reduziu-se o número de turmas e professores. Os profissionais que não fossem aprovados no processo de seleção para essa modalidade de ensino, ou não aderissem à modalidade, tinham que ser realocados para outras unidades. A metodologia utilizada fundamenta-se em procedimento metodológico do tipo exploratório. Como o nome indica, é uma pesquisa que contribui para uma maior familiaridade do pesquisador e aproximação com o tema da pesquisa. Um dos objetivos foi conhecer o ateliê de Águeda Valentim e os aspectos do cotidiano das Paneleiras de Goiabeiras. As visitas possibilitaram aguçar a curiosidade dos estudantes bem como o aprofundamento nas questões relacionadas a técnicas de manuseio dos materiais e processos de produção. Possibilitaram ainda, conhecer a rotina de um ateliê e outros aspectos que contribuíram para fruição e experienciação dos estudantes. Além disso, por ser um tema pouco explorado no âmbito escolar, permitiu um olhar repleto de descobertas sobre o barro e suas relações culturais no estado do Espírito Santo. Sobre pesquisa exploratória Gil (2008, p. 41) nos afirma que seu objetivo é, Proporcionar maior familiaridade com o problema (explicitá-lo). Pode envolver levantamento bibliográfico, entrevistas com pessoas experientes no problema pesquisado. Geralmente, assume a forma de pesquisa bibliográfica e estudo de caso. 13 O procedimento foi a investigação direta por parte dos estudantes no ateliê da artista plástica Águeda Valentim e na comunidade das Paneleiras de Goiabeiras. Ocasiões onde os estudantes interagiram, fizeram oficinas, efetuaram registros fotográficos e filmagens. Estes elementos subsidiaram a possibilidade dos alunos contextualizarem os objetos de investigação. Gil (2008, p. 52) nos fala que, em si, o estudo de campo, Procura o aprofundamento de uma realidade específica. É basicamente realizada por meio da observação direta das atividades do grupo estudado e de entrevistas com informantes para captar as explicações e interpretações do que ocorrem naquela realidade. Por ser a natureza da pesquisa qualitativa, a investigação não foca em mensuração, mas sim nas particularidades e rotinas de um determinado grupo. No caso desta pesquisa, se deu a partir de práticas pedagógicas, que possibilitaram aos estudantes a relação direta com ambientes artísticos e culturais. Procurou-se vivências e experiências desenvolvidas em sala de aula e em ambientes artísticos e culturais. Os estudantes vivenciaram realidades dos ateliês: das Paneleiras de Goiabeiras e de Águeda Valentim e aliaram tais conhecimentos aos conhecimentos prévios de suas culturas de origem. Esperou-se que os alunos construíssem subsídios para contextualizarem e traçarem comparativos entre as aulas normativas e as realidades dos ambientes visitados. Buoro (2005, p. 59), a esse respeito, nos afirma que, A natureza da escola, de maneira geral e como a conhecemos e vivenciamos, não privilegia um modelo de aprendizagem por relação direta com a realidade. O conhecimento do mundo que se faz por mediação da escola é necessariamente filtrado pela ferramenta verbal –de preferência em sua forma escrita. Dessa forma, levar os estudantes além dos muros da escola possibilitou processos de ensino/aprendizagem. O aluno pode experenciar e vivenciar, bem como compreender e contextualizar alguns elementos constitutivos da produção e da expressividade artística relativa ao barro nos contextos abordados. Tanto no aspecto cultural das Paneleiras quanto pelas mãos da artista Águeda Valentim. As vivências artísticas e culturais, não farão dos estudantes artistas, 14 mas os subsidiarão a ampliar repertórios que permitirão experiências artísticas expressivas. Para maior compreensão dos processos de vivências, experiências, criações e construção artística, o texto foi dividido em três partes. Cada um com as vivências de cada escola. Aos estudantes da Escola Rabaioli foi realizado o processo de relato oral, etnografia do redor da escola, o processo de “olhar digital”, a vivência em ambientes artísticos e culturais. Também fez parte do trabalho as vivências e as experiências no ateliê das Paneleiras e as atividades de expressividade artística, com atividades de pintura, desenho, escultura, maquetes, entre outras técnicas a partir das referências da artista plástica capixaba Andrea Barros. Os estudantes produziram um clip com a composição de uma música referindo-se à cultura Capixaba, à beleza feminina, às belezas dos monumentos culturais Capixaba. A criação artística com o barro foi realizada na Oficina de Panela de Barro, no Galpão das Paneleiras, e na sala de aula. Os estudantes da Escola Maria Ortiz também realizaram o processo de relato oral, etnografia do redor da escola, o Olhar digital. Também fez parte do trabalho as vivências e as experiências no ateliê das Paneleiras e as atividades de expressividade artística, com atividades de pintura, desenho, escultura, maquetes, entre outras técnicas a partir das referências da artista plástica capixaba Andrea Barros. Os estudantes produziram um vídeo documentário sobre as Paneleiras, durante a realização da Oficina de Panelas de Barro, no Galpão das Paneleiras e uma maquete de barro do Galpão das Paneleiras. Os estudantes da Escola Elza Lemos realizaram o processo de relato oral, etnografia do redor da escola, o Olhar digital. Também fez parte do trabalho as vivências e as experiências no ateliê das Paneleiras e as atividades de expressividade artística, com atividades de pintura, desenho, escultura, maquetes, entre outras técnicas a partir das referências da artista plástica capixaba Andrea Barros. A experiência e a vivência na “Oficina de Moqueca” e a vivência e experiência artística no ateliê da ceramista, Águeda Valentin também fizeram parte dos trabalhos nesta escola. O que poderia ser uma dificuldade para desenvolver o projeto de pesquisa 15 acabou possibilitando uma maior viabilidade de experiência e uma maior percepção, de como alunos de diferentes escolas, mas de uma mesma comunidade, realizariam essas vivências artísticas e culturais. 1. MEU CANTO DESSA CIDADE: leitura do cotidiano A artista plástica Águeda Valentin, ceramista mineira, que fixa residência em terras capixabas, tem entre outras características, a referência iconográfica para sua produção artística. Já as Paneleiras de Goiabeiras, um grupo de mulheres que, há mais de 400 anos, herdaram dos Índios Tupis Guaranis a técnica de modelar panelas de barro, mantém sua produção tradicional de geração em geração. O Espírito Santo tem uma diversificada cultura advinda dos índios, africanos e dos diversos imigrantes, como os italianos, alemães e pomeranos. Nas danças e na música destaca-se o Congo, um dos ritmos mais tradicionais: entoa-se cantos acompanhado de instrumentos rudimentares, que falam sobre os santos de devoção católica, os escravos e sobre histórias relativas a navegações. As Paneleiras de Goiabeiras também têm um grupo: O Congo de Goiabeiras, que em seu canto descrito abaixo, faz a identificação do santo de devoção, quando o bairro enaltece o ofício de paneleiras: “Congo de Goiabeiras Congo de devoção Congo da União, ê, a Valha-me São Benedito E a virgem da Conceição Samba criolo Deixa sambá Panela de Barro Acabou de chegar”. As aulas de Arte possibilitam aos estudantes conhecer artistas, técnicas de expressão artística (pintura, escultura, cerâmica entre outros), espaços da Arte e da cultura, como museus e galerias. Um dos objetivos é propiciar aos estudantes conhecer monumentos, formas de arquitetura, bens materiais e imateriais como elementos que constituem a construção da identidade cultural 16 capixaba. Através de vivências nos espaços acima mencionados, possibilitou-se ao aluno uma proximidade e uma apropriação cultural de algumas funções e formas de representatividade dos bens imateriais. 2.1 MEU CANTO DESSA CIDADE: o estudante e a leitura do seu cotidiano Os estudantes parceiros desta pesquisa são alunos com faixa etária entre 15 e 17 anos, moradores de áreas adjacentes à escola. A maioria dos pais dos alunos das três escolas exercem função de doméstica, cobrador de ônibus, pescador, autônomos (borracheiros, manicure, cabelereira, mecânico), funcionários municipais ou estaduais. O bairro Mario Cypreste, onde fica a Escola Rabaioli o bairro São Pedro, onde fica a Escola Elza Lemos e o Centro de Vitória onde fica a Escola Maria Ortiz são regiões cercadas por uma exuberante área de manguezal. O Santuário de Santo Antônio (figura 1), um dos patrimônios religiosos mais suntuosos da capital (região de São Pedro) é cercado pelo manguezal. Neste Santuário são realizados casamentos de pessoas de todos os padrões sociais, principalmente de alto poder aquisitivo. Figura 01- Santuário de Santo Antônio. Fonte: https://www.capixabadagema.com.br/basilica-de-santo-antonio-santo-antonio-vitoria-es/ O centro da capital, Vitória (ES), é onde está localizada a Escola Maria Ortiz. O centro é repleto de monumentos arquitetônicos e religiosos e espaços de exposições e apresentações artísticas, como galerias, além do teatro Carlos Gomes. O acesso da escola até esses ambientes é feito em uma caminhada de 17 menos de 500 metros. A escola fica na lateral do Palácio Anchieta. As realidades dos estudantes, são muito semelhantes, no que tange à classe social, poder aquisitivo, situação de vulnerabilidade social, abandono afetivo, problemas com drogas e alcoolismo nas famílias. Por esse motivo não há necessidade de distingui-las nesse primeiro momento. A primeira parte da atividade consistiu em um relato oral de como é o bairro onde moram; como se divertem; que lazer o bairro oferece. Os relatos dos estudantes eram de temor pelas questões da violência que os impediam de sair tranquilamente pelo bairro. Os lugares que mais frequentavam eram as lanchonetes, igrejas, praias e parques. Geralmente, iam a esses ambientes com seus familiares e colegas de escola ou amigos do bairro. Chamar a atenção dos estudantes para o ambiente que os cerca, despertou novos olhares para o que já fazia parte das suas rotinas. As minúcias desses ambientes lhes passavam desapercebidas, talvez, pela correria do cotidiano. Ver os detalhes, os cheiros, as cores, as formas, as pessoas que os cercam foi uma forma de propiciar aos estudantes sensações sobre seu local de pertencimento. 2.2 OLHAR DIGITAL: impressão do real Através da fotografia, solicitou-se aos estudantes que registrassem os seus trajetos, entre suas residências e a escola. E também lançassem olhares aos demais elementos que compunham esses ambientes. A ideia é refletir sobre a importância de entender aspectos de como o estudante percebe os ambientes do seu cotidiano. Qual seu olhar para as pessoas, as paisagens, as cores, as formas que os cercam. Sobre o olhar, nos fala Buoro (2003, p. 43) que, Para que esse olhar sensível seja cultivado e cumpra sua função de abrir as portas para uma abordagem mais significativa da leitura da obra de arte, o professor deve trabalhar-se e ser trabalho, com a finalidade de perceber o objeto artístico também como o sujeito de ações perante os olhos dos leitores e não apenas como objeto fixo, imóvel, receptáculo passivo de nossas impressões. É indiscutível que qualquer pessoa tira uma foto nos dias de hoje. O acesso a 18 celulares é possível e faz parte do cotidiano dos estudantes, mesmo em regiões de vulnerabilidade social, como nas escolas onde se realizou este trabalho. Esta prática educativa, foi denominada como Olhar digital: impressão do real. A atividade surgiu a partir da exposição que visitamos na Galeria Homero Massena: O Véu do Real, da artista plástica Re Henri. A exposição o Véu do Real, abordava também o registro fotográfico e a volatilidade das fotos, o desuso do álbum como elemento de registro e a composição da história das pessoas; a fotografia como registro e memória. O artista escolhido como referência para desenvolver essa atividade, e ampliar os conhecimentos dos estudantes sobre a fotografia foi German Lorca. O artista começou sua carreira fotografando a cidade de São Paulo, enfatizando os locais que remontam a história da cidade e seu cotidiano. Outro fator que considerou- se relevante foi o de que muitas paisagens registradas pelo artista eram semelhantes às moradias dos estudantes. Como verifica-se na figura 2 – Favela de German Lorca, e na Figura 3 – Meu barraco minha vida, da professora Nayane Laia, são retratadas casas de madeira, em um morro. A semelhança do ambiente de moradia com a fotografia artística de Lorca despertou o olhar dos estudantes para questões sociais de moradia de periferia. Muitos expressavam terem vergonha de suas moradias, enquanto outros, como bem mostrou o título, orgulhavam-se de terem um lar, independente de suas condições estéticas. Figura 2 - Favela, 1970. Figura 3 - Meu barraco minha vida Foto: German Lorca Foto: Nayane Laya Os estudantes também estudaram gêneros de fotografia: documental, moda, culinária, política, publicitária, arquitetônica, fotorrealismo. Técnicas de fotografia: 19 perspectiva linear, ângulo alto ou plongê (a foto é feita de cima para baixo), aplongê (a foto é feita de baixo para cima), preto e branco. A atividade consistia em que os estudantes registrassem o percurso que faziam de suas casas até a escola, bem como a própria escola. A esse respeito nos fala Paulo Freire (1986, p. 83), “É a escola que estimula o aluno a perguntar, a criticar, a criar: onde se propõe a construção do conhecimento coletivo, articulando o saber popular e o saber crítico, científico, mediados pelas experiências do mundo.” Essa abordagem propiciou aos estudantes experienciar e vivenciar os caminhos e trajetos percorridos no cotidiano, percebendo as paisagens e as cores. Em seus relatos, ao exporem suas fotos, trouxeram questões do espaço cotidiano que antes eram desapercebidas. A cor do céu e o formato das nuvens foi algo que mais mencionaram. Expuseram suas fotos e, em seus relatos, perceberam, também, que existia uma paisagem de manguezal exuberante (figura 4), que se contrapunha ao lixo jogado a céu aberto pelos moradores. Figura 4 - Região do Manguezal em frente à escola Foto Guilherme Favoretti As árvores também foram muito retratadas e os estudantes mencionaram a sonoridade do vento nas galhas. Os barcos do atracadouro, do outro lado da rua da escola, têm inscritos nome de pessoas que eles perguntaram e descobriram que se tratava de nome das pessoas das famílias dos pescadores (filhos, 20 esposas, netos ou pais). As tonalidades do céu, sob a incidência dos raios do sol, criando um espetáculo de tonalidade de cores, foi outro aspecto que chamou a atenção dos estudantes. Despertar esse olhar para um espaço tão “familiar” foi despertar um olhar repleto de significação, foi compreender que o cotidiano conta quem somos e ao que pertencemos. Dessa forma, o que era corriqueiro se transforma em novidades repletas de vida, cores, formas e sons. A experiência de explorar o espaço físico dos alunos possibilitou ter um maior entendimento do ambiente onde estão inseridos. E ainda, a fotografia possibilitou aos estudantes a obtenção de dados e informações sobre seu local de pertencimento, que muitas vezes não são observados. A este respeito Santana (2018 p.06) afirma que, Além de tornar-se uma lembrança dos locais por onde andamos, a fotografia pode ser entendida como uma fonte infinita de dados, fatos e informações, transformando-se por isso, em um poderoso instrumento de "materialização" de lugares nunca antes visitados por alguns Reconhecer o espaço cotidiano do estudante é conhecer sua realidade social e cultural. A captura do cotidiano pelas lentes do celular nos subsidia de elementos para ir ao encontro de algumas das realidades do estudante. Desta forma propiciou-se atividades expressivas que ampliaram os olhares para novas possibilidades artísticas e culturais criativas. Entende-se que o trajeto que fazem revela relações de pertencimento do lugar onde esse aluno vive. Esses lugares repletos de subjetividades fornecem para os estudantes elementos para construção de suas identidades e interatividades sociais. Esta atividade pedagógica propicia percepções de mundo pelo exercício do olhar. Buoro (2005, p. 46) afirma que, O cultivo de um olhar sensível que desvele no educador a possibilidade do conhecimento igualmente sensível, a fim de que esse sujeito possa fazer-se agente mediador que trabalha com arte, utilizando, para isso, os modos de aprender pela via da sensibilidade que constrói um saber; ao fazê-lo, também instaura uma consciência visual mais aguçada em seus alunos. Conhecer aspectos das realidades dos estudantes é algo que reverbera nos processos de ensino/aprendizagem. Desta forma o professor poderá 21 desenvolver propostas pedagógicas que tragam aprendizados significativos. O registro fotográfico dos estudantes recontou parte de suas próprias histórias, seus trajetos, as pessoas e coisas que os cercam. 2.3 VIVÊNCIAS ARTÍSTICAS E CULTURAIS: por estes “cantos” No cotidiano da escola estudantes, e até mesmo professores, criam termos que se incorporaram ao linguajar como uma espécie de código comum dos grupos. No caso dos estudantes que fizeram parte deste trabalho, observou-se que a expressão canto, era utilizada quando queriam ficar sossegados, sem ser incomodados. Os professores, por exemplo, utilizavam quando ao término do trabalho, desejavam ir para casa. Canto seria, portanto, um lugar que remete a tranquilidade, afinidade, proximidade e sossego. Por isso, para saber os conhecimentos prévios dos estudantes sobre a cultura local, perguntou-se: Qual o seu canto preferido da cidade de Vitória? Os estudantes expressaram esses cantos pelo desenho e muitos trouxeram memórias afetivas de ambientes que eram parte de trajetos no cotidiano. No entanto, percebeu-se que não conheciam a história desses lugares e tampouco os entendiam como constituintes de sua cultura local. Os ambientes mais mencionados foram: Praia de Camburi, Pedra da Cebola, Palácio do Governo, Convento da Penha, Paneleiras de Goiabeiras e o Congo. Buoro (2003, p. 37) afirma que, O ritmo da cidade, para a maioria da população que não tem oportunidade de experimentar um contato mais íntimo com as obras de arte além daquele que a rotina incidentalmente lhe permite, impõe assim sua norma ao nosso olhar e, desse modo, toda a obra de arte urbana passa a ser vista rapidamente, com a mesma velocidade de olhar que nos é imposta pela imagem da publicidade exposta no outdoor. Foi possível perceber que, mesmo morando tão próximos de alguns monumentos e prédios culturais, os estudantes não têm acesso a esses ambientes como constituintes da cultura capixaba. As aulas contaram com documentários que versavam sobre a cultura do Espírito Santo. Os estudantes realizaram debates sobre esses espaços, o que tornou a aula de campo mais 22 produtiva e significativa. Despertou também o interesse dos estudantes em saber sobre elementos descritos no documentário. Após atividades sobre os documentários e os debates, os estudantes produziram desenhos sobre o patrimônio que mais se identificaram ou tiveram interesse em conhecer. Essa atividade teve como finalidade, após os alunos visitarem esses espaços, expressarem suas impressões e sensações bem como elementos que perceberam nos documentários, mas que pessoalmente não lhes chamou atenção. Nesse sentido, para Barbosa (2005, p. 16) “a arte na educação como expressão pessoal e como cultura é um importante instrumento para a identidade cultural e o desenvolvimento de nossas capacidades críticas e perceptivas”. Para dinamizar as aulas de campo e torna-las produtivas, devido ao pouco tempo para realizá-las, foram divididas da seguinte maneira: Patrimônio arquitetônico (Palácio Anchieta, Catedral Metropolitana de Vitória e Igreja do Rosário); Galerias de arte (Virginia Tamanini e Homero Massena); Parque e Teatro (Parque Moscoso e Teatro Carlos Gomes); Ateliê de Panela de barro e Ateliê de cerâmica (Ateliê das Paneleiras de Goiabeiras e Ateliê de Agueda Valentim). Iniciou-se com a visita ao Palácio Anchieta. Um prédio que abriga a atual sede do governo estadual, construído em 1551. Encontra-se em excelente estado de preservação, além de sua monumental arquitetura. O túmulo do Padre José de Anchieta chamou a atenção dos estudantes por sua beleza, formas e suntuosidade. O Palácio abriga exposições de Arte contemporânea e já recebeu exposições de artistas, como Pablo Picasso. Na ocasião da visita dos estudantes, estavam expostos os trabalhos do artista capixaba Samir Hilal Samir. A exposição se intitulava “Constelações” e tinha uma instalação realizada por mais de 2.500 alunos da rede pública. Os nomes dos alunos foram grafados e depois colocados em uma grande instalação inspirada em “Noite Estreladas”, de Van Gogh (figuras 5 e 6). Esta construção trouxe um grande significado para os alunos, pois a exposição contava com instalações e pintura. 23 Figura 5 – Nome grafado dos alunos na Figura 6– Constelações. Hilal Samir Hilal Escola Catharina Chequer Foto: Guilherme Favoretti Fonte: http://constelacoesvitoria.blogspot.com/ Próximo ao Palácio Anchieta, encontram-se duas galerias de Arte: Homero Massena e Virginia Tamanini. Ambas as galerias abrigavam exposições de artistas capixabas. Na Homero Massena, a exposição se inspirava em Memórias Afetivas e ambientes de pertencimento na infância. As pinturas tinham como tema as brincadeiras e os locais visitados pelos artistas quando eram crianças. Na galeria Virginia Tamanini, os artistas também eram capixabas e utilizavam variadas técnicas artísticas: pintura, colagem, textura, mosaico e vitral. A exposição tinha como tema os ícones culturais da Grande Vitória: Convento da Penha, Congo, Santuário de Santo Antônio, Catedral Metropolitana, Igreja do Rosário, entre outros. Na ocasião os estudantes ganharam um livro contando a história de cada obra e o processo de criação dos artistas. Foi muito enriquecedora essa atividade tanto pelo aspecto de visita a um monumento histórico, como o Palácio Anchieta, quanto pela forma com que os artistas se expressaram, usando suportes, técnicas e materiais variados, ampliando para o estudante as inúmeras possibilidades no processo de criação artística. Na figura 7, vê-se o registro dos estudantes em uma atividade interativa com a obra exposta, na galeria Homero Massena. 24 Figura 7: Alunos participaram de atividades interativas na Exposição, Marcas da Memória, na galeria Homero Massena. Foto: Guilherme Favoretti Na terceira aula conheceu-se arquiteturas religiosas. No alto do centro de Vitória, está localizada a catedral Metropolitana (figura 8): uma imponente construção neogótica. Os vitrais centrais mostram São Pedro, São Paulo e Jesus Cristo ao centro e foi o que mais chamou atenção dos estudantes. Tanto quanto o fato da igreja manter a cripta dos restos mortais de bispos e arcebispos de Vitória. Figura 8 - Catedral Metropolitana de Vitória (ES) 25 Foto Geraldo Rossoni Próximo à Catedral Metropolitana 111 degraus dão acesso à Igreja do Rosário, erguida em 1775, pelos negros. Conta a lenda que enquanto construíam a igreja, os negros seguravam um rosário e eram catequizados, e tinham, ali, a garantia de seguirem uma religião que lhes garantisse, ao morrerem, não serem enterrados como indigentes e, sim, como cristãos. A igreja do Rosário possui características do período colonial. Muitos estudantes relataram que transitavam pelo centro de Vitória, no entanto, não conheciam a história dos prédios históricos e construções religiosas. Também revelaram uma mudança de percepção em relação à importância das ideologias por trás da construção desses edifícios na história do Espírito Santo. Finalizando esse roteiro, os estudantes foram ao Parque Moscoso, um parque com 24 mil metros quadrados e uma ampla área verde formada por árvores típicas da Mata Atlântica. O nome é em homenagem ao ex-presidente da província, Henrique Moscoso. Uma das principais atrações do parque, além dos lagos (figura 9), é uma Concha acústica (figura 10), onde são realizadas inúmeras apresentações artísticas e culturais. Figura 9 -Parque Moscoso: Concha Acústica Figura 10 - Parque Moscoso: Lago Fonte: http://www.vitoria.es.gov.br/cidade/parques Fonte: http://www.vitoria.es.gov.br/cidade/parques Foto: Elizabeth Nader Foto: Kadidja Fernandes Ao realizar as aulas de campo, evidenciou-se para os estudantes a importância de se conhecer e valorizar a cultura. Bem como sensibilizou-se os estudantes quanto aos possíveis diálogos existentes entre técnicas, materiais e temáticas diversas para a elaboração e criação de objetos artísticos, o que contribuiu para seu desenvolvimento expressivo. Conhecer histórias da cultura local e fruir obras de artistas nas visitas às 26 exposições, às galerias, com diferentes técnicas e formas expressivas, possibilitou ao estudante vivenciar diferentes diálogos que a Arte propicia, fomentando o processo criativo dos mesmos. Para Pimentel (2012, p. 39), O criar estaria, por conseguinte relacionado com o ato de reorganizar um campo de percepção, constituindo uma nova ordem, uma nova ideia, a partir dos dados já conhecidos. Este ato de reorganizar deve estar provido de originalidade e novidades. Pensar em aula de Arte também fora do ambiente escolar, pode propiciar vivências sobre a importância de práticas que ampliam o pensamento crítico e artístico do estudante. Desta forma, o estudante criará formas de dar importância às suas vivências artísticas e culturais. Constatou-se que essas atividades fora do âmbito escolar possibilitaram aos estudantes ter referências para sua própria construção artística e dos elementos que constituem a cultura local capixaba. As aulas que contaram com vídeos, documentários, fotos e pesquisas prévias tornaram essas vivências, em campo, mais proveitosas. Os conteúdos estudados em sala de aula e as vivências nas aulas de campo dinamizaram os processos de criação e de experiências artísticas e culturais. Os alunos expressaram-se artisticamente com pinturas, maquetes, desenhos entre outras técnicas artísticas antes e depois das visitas. Entende-se, portanto, que não há uma ordem estrita na realização das atividades. Na abordagem sobre a experiência, os alunos relataram que “não sabia que era tão interessante assim um prédio antigo, não sabia que tinha uma história, pensei que foram lá construíram e pronto”, bem como demonstraram interesse de se expressar inspirados nessas vivências. Para trabalhar com a expressividade dos alunos, a artista plástica Andrea Barros foi a referência. A respeito de termos uma artista como referência para ampliar o repertorio artístico dos alunos, Gonçalves (2016, p. 37) entende que, Podemos afirmar que a importância de um ensino aprendizado da Arte com a presença de obras dos artistas além de fortalecer o contato com a produção artística pode trazer para o ser humano maiores possibilidades de ampliação de conhecimentos sobre a linguagem da Arte. 27 Dessa forma os estudantes escolheram a vivência cultural para se expressarem artisticamente através das técnicas de pintura, desenho, maquete, modelagem, recorte, colagem, entre outras. Conforme a figura (11) abaixo, na parte superior da parede da direita para esquerda temos telas com pintura guache: Pedra da Cebola, Santuário de Santo Antônio, Convento da Penha, Terceira Ponte, Pedra dos Dois Olhos, Pedra do Penedo e Praia de Camburi. As maquetes: Relógio da Praça 8 (isopor), Convento da Penha e Pedra da Cebola (papietagem): Figura 11 - Atividades da construção artística dos alunos Foto: Guilherme Favoretti 3. PANELEIRAS DE GOIABEIRAS: cultura e tradição de geração em geração As panelas de barro estão relacionadas a um bem cultural gastronômico do Espírito Santo: a moqueca capixaba. A moqueca de peixe é preparada, tradicionalmente na panela de barro, assim como outro prato típico capixaba, a torta de mariscos. A presidente da Associação das Paneleiras de Goiabeiras, Berenice Correia Nascimento, relatou que cerca de 50 paneleiras e aproximadamente 120 famílias, do bairro Goiabeiras Velha em Vitória (ES), mantém a tradição herdada dos índios Tupi Guarani de produzir panelas de barro. Essa tradição, que já dura aproximadamente 400 anos, mantém-se fiel ao manuseio do barro, retirado do vale do Mulembá pelos homens. Cabe às mulheres os demais processos como a modelagem, secagem, queima e coloração, feitos de forma totalmente tradicional, o que reitera as Paneleiras de 28 Goiabeiras como um saber cultural. Buoro (2003, p.85) afirma que, As culturas representam coisas que lhes sejam significativas mediante formas de linguagem próprias de cada realidade e que irão se estender para além da vida humana, resistindo no universo material por sua concretude e no imaterial por força da memória, ambas garantindo a preservação da experiência do indivíduo e do coletivo. A dinâmica e força da comunidade das Paneleiras, reside em superar os desafios de manutenção dessa cultura frente às dificuldades econômicas. Técnicas e modo de fazer as panelas sofreram poucas modificações, a essência no fazer de forma tradicional, As panelas continuam sendo modeladas manualmente, com argila sempre da mesma procedência e com o auxílio de ferramentas rudimentares. Depois de secas ao sol, são polidas, queimadas a céu aberto e impermeabilizadas com tintura de tanino, quando ainda quentes. Sua simetria, a qualidade de seu acabamento e sua eficiência como artefato devem-se às peculiaridades do barro utilizado e ao conhecimento técnico e habilidade das paneleiras, praticantes desse saber há várias gerações. Fonte: Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Acesso: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/51 É um modo de fazer cultural passado de geração em geração, sendo o primeiro bem imaterial registrado no Livro do Saberes, em 2002, pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional. Aos homens cabe retirar o barro e amassá-lo. Cabe também colher o tanino (uma casca de arvore) que confere a coloração escura especifica das panelas de barro. As mulheres fazem os demais processos, como a modelagem feita manualmente com ferramentas rudimentares: pedras lisas, cascas de coco, cuité (pedaço de cabaça). Após a modelagem a peça recebe o polimento que lhe dá o aspecto liso (figura 12) e uniforme. 29 Figura 12 - Secagem das Panelas de barro com aspecto liso e uniforme. Foto: Elô Rossoni A outra etapa é a queima em fogueira a céu aberto (figura 13) e, por fim, o açoite, que remete a um ritual de benzeção, enquanto a panela ainda está em brasa. O açoite é feito com uma vassoura de gravetos amarrados com folhagens de “vassourinha do campo”. É comum, no galpão de trabalho ver-se várias gerações da mesma família dando continuidade a essa cultura, O processo de produção no bairro de Goiabeiras Velha, em Vitória, no Espírito Santo, emprega técnicas tradicionais e matérias-primas provenientes do meio natural. A atividade, eminentemente feminina, é tradicionalmente repassada pelas artesãs paneleiras, às suas filhas, netas, sobrinhas e vizinhas, no convívio doméstico e comunitário. Fonte: Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Acesso: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/51 30 Figura 13 - Queima da Panela à céu aberto. Foto: Guilherme Favoretti A abordagem sobre a Arte da cerâmica e as Paneleiras de Goiabeiras com os estudantes deu-se primeiramente, com os vídeos: Mestres da cerâmica que mostra o trabalho de artistas internacionais em seu ateliê e o processo de criação e construção das suas peças. O segundo documentário, Brasilidade - Paneleiras de Goiabeiras, conta a história das Paneleiras de Goiabeiras, o processo de fabricação das Panelas de Barro, a proposição cultural passada de geração em geração. No vídeo Mestres da Cerâmica, três artistas orientais: Lee Hyang Gu, Kim Seong Tae e You Yong Chil, mostram o processo de construção de suas peças de cerâmica. Lee utiliza um torno na elaboração de um vaso utilitário liso, sem nenhum tipo de relevo, secagem natural e sem pintura. Kim produz um vaso no torno e desenha varias flores, em seguida essas flores são recortadas (vazado), com efeito de renda, a peça passa ainda pelo processo de pintura com terracota. You faz a modelagem manual, elabora peças utilitárias e artísticas, faz acabamento em suas peças com técnica de estampagem (com carimbos pressiona sobre a argila e cria texturas). Esse vídeo propiciou aos alunos verem 31 as diferentes funções para as peças feitas com argila: ornamental, utilitário e artístico. Processos de queima em forno elétrico e secagem natural. O vídeo Brasilidade - Paneleiras de Goiabeiras, traz o relato da Presidente das Paneleiras de Goiabeiras, Berenice, com as demais paneleiras, enquanto contam a história das Panelas de Barro, fazem os processos de: modelagem, secagem, lixamento, queima em fogueira a céu aberto. E também mostra o Vale do Mulembá, de onde são retirados o barro e o tanino (casca de árvore) usados para dar a coloração à panela de barro. O vídeo ainda traz a relação da panela de barro com a culinária regional: moqueca capixaba e o processo de preparo desse prato típico. Os estudantes fizeram debates sobre os dois documentários, onde explanaram suas opiniões e entendimento acerca dos temas abordados e posteriormente compararam as duas formas de abordagem do trabalho. O vídeo Mestres da Cerâmica apresentava para o trabalho em barro o uso de ferramentas específicas e um maior tempo para execução das peças. O artista era solitário e necessitava de tempo para pensar, criar e executar sua peça. No vídeo das Paneleiras, os alunos observaram o fato de se perpetuar um saber de geração em geração, que a forma se referia à história de uma coletividade, a produção da panela. E que ainda, por ser feita de forma coletiva tem grande importância para a manutenção da história da cultura capixaba para as demais gerações. Na abordagem sobre a cultura das Paneleiras, além de assistirem são documentário sobre o tema, os alunos fizeram pesquisas em fontes variadas da disciplina de Arte, prova avaliativa, rodas de debates e após essa sensibilização foi-se efetivamente conhecer as Paneleiras de Goiabeiras. 3.1 VIVÊNCIA E EXPERIÊNCIA CULTURAL: no ateliê das Paneleiras de Goiabeiras: Escola Rabaioli A aula de campo no Galpão das Paneleiras com os alunos da Escola Rabaioli teve como objetivo conhecer o local com total liberdade de fotografar, interagir com as Paneleiras, fazer perguntas sobre o oficio, sobre o processo de fabricação das panelas. No entanto, foi um dia que coincidiu com a visita de um grupo de turistas. Como as Paneleiras se sustentam com a venda das Panelas 32 de barro, não tiveram tempo para os questionamentos dos estudantes, que esperavam, segundo eles, uma recepção mais calorosa. Mesmo assim, fotografaram o ambiente e as etapas de confecção das panelas. A oficina de Panelas de Barro (figura 14), que consistiu em os estudantes fazerem o processo de modelagem de uma panelinha de barro. O desejo maior foi de fazer registros fotográficos dos processos de confecção das panelas. Como poucos estudantes tiveram interesse em fazer a oficina de panela de barro no Galpão das Paneleiras, propôs-se fazer uma oficina de panela de barro na sala de aula. Essa oficina teve como propósito possibilitar aos alunos o manuseio com o barro. Os educandos manusearam o barro, modelaram e deram formas, utilizaram barro, água, pedaços de madeira. Não houve nenhum tipo de queima, mas após a secagem das peças os alunos demonstraram interesse em levar as peças para casa. Figura 14– Oficina de Panela de Barro realizada com os alunos na escola Em outra etapa demostraram interesse na produção com o barro e fizeram as mais variadas peças abstratas e figurativas. Foi possível avaliar que os alunos assimilaram os processos de confecção das Panelas de Barro, bem como os processos vistos no vídeo Mestres da Cerâmica. Em muitos trabalhos era possível ver que os alunos tentaram replicar alguns processos como o desenho e recorte para dar efeito vazado. Os alunos compreenderam também que é necessário utilizar ferramentas específicas para alguns processos, e que 33 elaborar uma peça com argila requer várias etapas e tempo. 3.2 VIVÊNCIA E EXPERIÊNCIA CULTURAL NO ATELIÊ DAS PANELEIRAS DE GOIABEIRAS: Escola Maria Ortiz Os estudantes da Escola Maria Ortiz também passaram pelos processos de atividades prévias sobre o tema, citados anteriormente. Para abordagem da fotografia, os alunos conheceram, além do trabalho de Lorca, o trabalho de Sebastião Salgado: fruíram alguns trabalhos e observaram: luz, formas, perspectivas das imagens, preto e branco, entre outros elementos. A atividade pedagógica consistiu em registrar o entorno da própria escola. O desdobramento dessa atividade foi realizar composições fotográficas em plano: aplogê (foto debaixo para cima, figuras 15 e 16), plogê (foto de cima para baixo, figuras 17 e 18) e perspectiva (figuras 19 e 20). Figura 15 – Projeto Olhar digital. Figura 16– Projeto Olhar digital. Técnica aplogê Técnica aplogê Figura 17– Projeto Olhar digital. Figura 18 – Projeto Olhar digital. Técnica aplogê Técnica aplogê 34 Figura 19 - Projeto Olhar digital: Perspectiva Figura 20 - Projeto Olhar digital Perspectiva Os estudantes ampliaram a relação com a fotografia, enquanto Arte. Alguns demonstravam interesse em aperfeiçoar os conhecimentos sobre expressões fotográficas. Perceberam a importância da luz no processo fotográfico, e realizaram várias experiências nesse sentido. Essa experiência ampliou para os estudantes as possibilidades de composição artística com a fotografia. A relação dos estudantes com a fotografia, se limitava as selfies e a fotografia enquanto registro de memória não fazia parte do cotidiano dos mesmos. A superficialidade de ações automáticas (como as selfies) sem a percepção das possibilidades artísticas que a fotografia permite foi uma das reflexões que esta atividade despertou nos estudantes com essa experiência com a fotografia 3.2.1 FAZENDO A CULTURA PELAS MÃOS: documentário das Paneleiras de Goiabeiras Na visita ao Galpão das Paneleiras de Goiabeiras, os alunos da Escola Maria Ortiz foram com uma atividade definida: a elaboração de um documentário sobre as Paneleiras. Esse documentário foi totalmente elaborado pelos alunos: roteiro, imagens, textos, edição, escolha do título, trilha sonora e as perguntas da entrevista. Para esta atividade abordou-se, em sala de aula, tipos de documentário. Assistiram ao documentário Vida Maria. O vídeo é sobre a vida de uma menina nordestina, Maria, que desejava aprender a ler e escrever. As 35 condições daquela região, onde o acesso às condições básicas são precárias, a distância das escolas e o acesso à educação e o legado do analfabetismo eram a realidade que se perpetuava de geração em geração. A escolha desse vídeo foi justamente para ampliar a fruição dos estudantes: Vida Maria é um curta em 3D. Também pelo roteiro do curta trazer a abordagem de tradições, tanto no aspecto social, quanto no aspecto cultural. Os estudantes optaram por gravar enquanto realizavam a Oficina de Panela de barro. Deduziram que as imagens ficariam informais e dinâmicas. Os conhecimentos prévios contribuíram para o repertório de perguntas e abordagens durante a realização do documentário. A espontaneidade dos estudantes e a proximidade com o ambiente aconteceram também pela empatia criada com a Paneleira Nete, que se dispôs a dar entrevista e oficina de Panela de Barro. Durante as entrevistas, os estudantes não apenas direcionaram as perguntas sobre o processo de fabricação das panelas de barro, mas sobre a vida daquelas mulheres que se dedicam a uma cultura tão importante para o Estado do Espírito Santo. O documentário foi posteriormente inscrito, selecionado e exibido na mostra de vídeo da rede estadual de educação: Arte em Vídeo. Foi também tema de uma matéria do jornal A Tribuna (figura 21). A matéria abordou o uso da tecnologia em sala de aula, devido ao fato de alunos usarem o celular para toda a produção do vídeo e fotografias. 36 Figura 21– Reportagem do Jornal A tribuna, sobre documentário realizado pelos alunos A respeito dessa investigação direta por parte dos alunos na comunidade das Paneleiras de Goiabeiras, com coletas de informações, registro fotográfico e filmagens, podemos nos valer das reflexões de Gil (2008, p. 52) sobre estudo de campo, Procura o aprofundamento de uma realidade específica. É basicamente realizada por meio da observação direta das atividades do grupo estudado e de entrevistas com informantes para captar as explicações e interpretações do que ocorrem naquela realidade. As aulas de campo, aliadas aos conteúdos estudados no cotidiano escolar, ampliaram para o aluno as possibilidades de formas de se fazer e pensar a Arte. Para Ferraz e Fusari (1999, p. 16), “a arte se constitui de modos específicos de manifestação da atividade criativa dos seres humanos ao interagirem com o mundo em que vivem, ao se conhecerem e ao conhecê-lo”. Porém não se pode ver a aula de campo como algo que de forma instantânea trará à tona toda uma potencialidade e habilidade, antes “escondida dentro do estudante”. É importante que o estudante construa conhecimentos para que as vivências possam ser significativas. Saccomani (2016, p. 61) a esse respeito nos afirma que, O acervo da humanidade existe como memória do gênero humano e, no momento que o indivíduo se apropria dele, passa também a ser memória individual. O uso desses instrumentos culturais gera novas possibilidades na atividade do aluno, que passa a fazer coisas que antes não fazia. 37 Os estudantes da escola Maria Ortiz, após a aula de campo e a produção do vídeo fizeram uma experiência artística com a pintura de uma tela que intitularam: Paneleiras. Os alunos conceberam os elementos que deveriam compor a tela e o aluno Arthur fez a pintura). O quadro expressou parte da vivência e o olhar sensível que tiveram para as Paneleiras de Goiabeiras. Na figura (22) os alunos trazem o registro da experiência que eles vivenciaram no Galpão das Paneleiras onde aparece: uma paneleira com uma panela de barro na mão; várias panelas de barro dispostas em fileiras, a moqueca pronta, o processo de queima da panela, um pequeno barco, as cores verdes representando o Manguezal e as flores: o olhar que tiveram para as mulheres Paneleiras de Goiabeiras. Figura 22 - Pintura acrílica. Paneleiras. Autor: Arthur Foto: Elô Rossoni Os estudantes propuseram, nesse quadro, as contribuições que essa prática pedagógica propiciou nas aulas de Arte, onde puderam ampliar, aguçar e desenvolver suas habilidades e os processos criativos na elaboração de um objeto artístico. Isso ocorre, principalmente, quando se desperta no estudante a percepção de aspectos dos processos de criação. Também as possibilidades sobre as diferentes formas de se interagir em uma comunidade cultural local, reconhecida nacionalmente, e experienciar uma produção artística. 3.3 VIVÊNCIA E EXPERIÊNCIA CULTURAL NO ATELIÊ DAS PANELEIRAS DE GOIABEIRAS: Escola Elza Lemos 38 Os alunos da Escola Elza Lemos tiveram um incentivo a mais para participar da aula de campo. Nas aulas demonstraram ter conhecimentos prévios uma vez que muitos moravam ao lado das Desfiadeiras. Desfiar siri é também uma tradição passada de geração em geração. O insumo é usado na elaboração de um prato típico capixaba: a torta de mariscos. A familiaridade com as Desfiadeiras de Siri, despertou a curiosidade dos alunos em saber como são fabricadas as panelas nas quais os mariscos, que membros da família ou pessoas próximas desfiam é preparada. Os alunos foram recebidos pela Presidente da Associação das Paneleiras de Goiabeiras, Berenice, e pela sua irmã, Nete. O fato da oficina ser realizada no horário da manhã, período que tem pouco movimento de turistas, contribuiu para uma maior concentração e interação dos alunos com as paneleiras. Estas já haviam preparado a estrutura para realização da Oficina de Panela de Barro. Essa organização e receptividade criaram uma rápida aproximação dos estudantes com as paneleiras e familiaridade com o ambiente como um todo. Antes de iniciar a oficina, a presidente da Associação das Paneleiras de Goiabeiras, Berenice, fez um relato da história das Paneleiras e enfatizou a importância da presença de estudantes no Galpão das Paneleiras, por acreditar ser a geração que dará continuidade à preservação desse ofício. Segundo Berenice, a melhor maneira de se preservar é conhecer e valorizar a cultura local. Em seguida deu-se início à oficina de confecção de panelas de barro, um momento repleto de perguntas e curiosidades. Os alunos queriam saber detalhes que se referiam à confecção da panela, por exemplo: Pode secar a panela no fogão industrial? Por que não usam ferramentas industriais? Por que não adquirem equipamentos que aumentem a produtividade das panelas? As Paneleiras explicaram que a tradição mantida pela Panela de barro, quanto ao seu modo de fazer, representa a identidade da cultura capixaba, uma tradição que dura mais de 400 anos. Se inserissem elementos industrializados, descaracterizariam o fazer das panelas de barro como constituinte da história de uma comunidade e suas tradições. Os estudantes construíram conhecimento sobre o fazer tradicional das Paneleiras: uma comunidade onde as pessoas se conhecem pelo nome, muito similar ao local onde os estudantes moram, na Ilha 39 das Caieiras. As Panelas de barro confeccionadas foram muito apreciadas pelos estudantes que demonstraram grande orgulho em participar dessa atividade pedagógica, e teve uma fala de um aluno que assinala o quanto esta prática pedagógica desperta o olhar sensível para as questões relacionadas à Arte: “professora, me senti uma pessoa digna e importante de estar num lugar como esse, com pessoas que mantem viva a nossa cultura e tradição, sem contar que a experiência de manusear o barro é libertadora”. Essa expressão de contentamento e prazer, foi externada por outros alunos, assim como o desejo de dar continuidade às atividades com o barro. 3.3.1 EXPERIÊNCIA CULTURAL: oficina de moqueca capixaba Geralmente, após a realização da oficina de panela de barro, é realizada uma exposição ou os alunos levam as panelinhas para casa. No entanto, na Escola “Elza Lemos”, os alunos demonstraram interesse em saber como é a receita e o preparo da Moqueca capixaba. A Panela de barro é utilizada para cozinhar a principal referência de culinária local: a moqueca capixaba. A realização da oficina teve como principal objetivo oportunizar aos alunos a experiência de preparar um prato conhecido nacionalmente e, ainda, levar essa cultura de forma dinâmica para dentro da escola. Para esta oficina, contamos com a participação da Marzilia Silva, que foi participante, em 2017 de um programa de televisão brasileira, o Master Chef. Os alunos sugeriram a presença das Paneleiras de Goiabeiras, o que foi aceito pela Berenice (presidente da Associação de Paneleiras de Goiabeiras) e sua irmã, a paneleira Nete, que ministrou a oficina para os alunos, no Galpão de Goiabeiras. A escola disponibilizou um fogão e utensílios dispostos no refeitório da escola. Os estudantes, junto com os professores, trabalharam na visualidade do espaço com produções como: panelas de barro, modelagem de paneleiras (feitas de massa de modelar industrializada) e fotografias (figuras 23 e 24). 40 Figura 23- Decoração da Oficina de Moqueca Figura 24- Panelas e objetos de barro feitos pelos alunos e Panelinhas de barro. Fotografias Foto: Fernanda Martins Foto: Fernanda Martins Na fala dos alunos, percebeu-se o quanto foi significativo a ida ao Galpão das Paneleiras, quando viram a moqueca, não como um simples alimento, mas sim um elemento que faz parte da história da Paneleiras. A oficina de Moqueca, aliada às demais vivências artísticas e culturais, foi mais um elemento que despertou a sensibilidade do olhar do aluno, compôs um repertório para sua experiência artística. Os estudantes realizaram um trabalho de pintura (figura 25), cuja proposta foi trazer a imagem das Paneleiras, em um cenário colorido e florido, em contraste com a realidade da estrutura física do Galpão, onde predominam cores frias, pois os alunos relataram que: “pintaram a alma daquele lugar”. É o resultado da percepção e sensações a partir do Galpão das Paneleiras, e das pessoas que exercem aquele ofício: fazer as panelas de barro. Para Pimentel (2012, p. 121): A representação pode ser entendida em duas diferentes vias: como reprodução da composição, forma, cor, isto é, da descrição física de um objeto, e/ou como uma interpretação individual dos seus significados sob o ponto de vista dos sentimentos individuais”. Pode-se dizer que a qualidade da experiência pessoal d@ alun@ vai depender em muito de como foram direcionadas as propostas e como foram conduzidas as atividades nas diversas etapas do processo de aprendizagem. 41 Figura 25– Tela acrílica. Paneleiras Foto: Elô Rossoni Dessa forma, ao conhecer um patrimônio imaterial, que a maioria dos estudantes conceituavam “como aquilo que não se pode tocar”, tiveram a compreensão da cultura que se mantém viva, dinâmica e presente em uma comunidade que traz uma carga afetiva e de pertencimento. Ser paneleira vai muito além de confeccionar artesanalmente panelas de barro. É moldar uma cultura, é manter viva uma tradição, é perpetuar um modo de fazer de geração em geração. Esse contato direto com as paneleiras propiciou uma outra forma de conhecer a história da cultura capixaba, a transmissão oral. 3.3.2 PROCESSO DE CRIAÇÃO ARTÍSTICA: vivência e experiência artística- a composição artística no ateliê da artista Águeda Valentim escola Elza Lemos As aulas normativas com documentários buscaram acrescer aos alunos informações sobre a cerâmica. Inicialmente percebeu-se que os estudantes concebiam a ideia de cerâmica como artesanato utilitário ou para fins ornamentais. Os estudantes não tinham a dimensão de cerâmica como objeto artístico. Abordar com os estudantes temáticas sobre cerâmica fez-se necessário. A partir dessas abordagens, os estudantes tiveram o entendimento da cerâmica e seus diferentes processos e apresentações da construção à queima. De acordo com Barbosa (2002, p. 18), 42 Por meio da arte é possível desenvolver a percepção e a imaginação, aprender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo aos indivíduo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada A experiência prévia com modelagem de panelas, no ateliê das Paneleiras de Goiabeiras, propiciou o entendimento que o fazer da cerâmica, enquanto artesanato, arte popular é tão legítimo quanto de uma artista. Águeda Valentim, elenca possibilidades do universo da cerâmica. A artista utiliza técnicas variadas e os temas das obras vão do contemporâneo a iconografia. Esta prática pedagógica, oficina de cerâmica no ateliê da ceramista Águeda, teve entre outros objetivos permitir que o aluno apreendesse, no processo da experiência artística, os elementos que compõem a criação com o barro: cores, tipos de queima, esmaltação, textura, forma, plasticidade, ferramentas e outros. A ceramista Águeda Valentim produz em seu ateliê, variadas peças tanto ornamentais como funcionais, como artísticas. Uma característica do seu trabalho é a cultura Capixaba como elemento na produção de suas peças. A artista tem produções artísticas expostas em órgãos públicos do Estado do Espírito Santo, onde representa os principais ícones culturais (figura 26). Utiliza formas geometrizadas e texturas. A artista acredita que a arte em ambientes públicos humaniza o ambiente e pensa ser de extrema importância valorizar a cultura local. 43 Figura 26 – Raízes do manguezal. Águeda Valentim Foto: Elô Rossoni Natural de Minas Gerais, ainda criança veio para o interior do Espírito Santo. Essas vivências em diferentes lugares a instigaram a produzir uma cerâmica que abarca a regionalidade de um povo, enfatizando fauna, flora e demais patrimônios culturais, que ela denomina como arte iconográfica. Antes de os alunos irem para o ateliê de Águeda, conheceram suas obras (em projeção de slides) e assistiram a um vídeo intitulado: Cerâmica Águeda Valentim, que mostrava o processo de criação de uma peça em cerâmica da artista, o que já lhes despertou grande interesse em conhecer o ateliê, as ferramentas, suas técnicas, e a própria artista. A ceramista não atende grupos de estudantes, abriu exceção para atender ao projeto de pesquisa. Ministra aula em seu ateliê para público adulto. 44 A ceramista iniciou a oficina falando da sua relação com o barro, sua trajetória e formação acadêmica. Enfatizou a importância de valorizar a cultura local, bem como a importância de fazerem parte de uma pesquisa, que concilia cultura e expressividade artística. Ela afirma que a cerâmica contempla os quatro elementos da natureza: o barro (terra), a água (que auxilia na modelagem), o ar (que faz a secagem da peça) e o fogo (faz a queima da peça). A ceramista falou sobre os principais ícones de nossa cultura e estimulou os estudantes a fazerem suas escolhas para a expressividade artística com o barro. Os alunos escolheram ícones de referência da nossa cultura: a Pedra da Cebola, o Convento da Penha, as Orquídeas, o Congo, as Paneleiras, Tartaruga-de- couro e o Manguezal. O barro, segundo a ceramista, deve ser bem amassado, para a massa ficar homogênea e para total retirada das bolhas, o que requer muita atenção, pois se o barro não for manuseado da forma correta, pode danificar a peça na queima, se tiver bolha de ar. O corte do barro, que vem em forma de barra, foi feito com um garrote (figura 27)- uma peça rudimentar, com uma linha de nylon amarrada nas extremidades em dois parafusos. Figura 27 – Garrote Foto: Elô Rossoni Para o manuseio do barro, foi necessário usar as mãos em posições específicas, conforme as figuras 28, 29, 30 e 31 ilustram. Esse manuseio consiste em deixar a massa homogênea e retirar as bolhas de ar. Não se deve penetrar a massa com os dedos, nem a virar de um lado para o outro. A abertura da massa, consistiu na técnica de lastras para a formação de uma placa de argila, onde a 45 massa é disposta entre réguas de madeiras colocada, lado a lado, da mesma espessura. O barro foi colocado entre essas réguas e foi aberto com um rolo. Após ser aberta a massa, conforme a figura 32, foi definido o tamanho da placa (figura 33), foi passada uma espátula molhada para detectar as bolhas de ar, em seguida uma esponja, conforme figura 34. Onde foram encontradas as bolhas de ar, foi usada uma peça pontiaguda para romper essa bolha. Figura 28 - Figura 29 Figura 30 Figura 31 Figuras de 28 á 31– Processo de forma correta de manuseio (amassar) a cerâmica, Fotos: Elô Rossoni Figura 32 - Placa aberta Figura 33 Placa dimensão 22 x 22 Figura 34 Processo retirada bolha de ar. Foto: Elô Rossoni Foto: Elô Rossoni Foto: Elô Rossoni Os alunos executaram todas etapas com muita atenção, o que é confirmado na fala da estudante que participou da oficina: “achei que era apenas abrir a massa e já fazer o que quer, são muitos detalhes, caramba isso não é nada fácil, mas estou gostando”. As etapas foram realizadas pelos estudantes sob a orientação de Águeda, que acompanhou e orientou cada estudante em todas as etapas. Em seguida, os estudantes iniciaram o processo de dar forma ao ícone que iriam representar. Foi uma etapa que propiciou aos alunos conhecer as diferentes técnicas de dar formas ao barro: estampagem, modelagem em relevo, molde vazado, texturas. Para melhor entendimento dessas técnicas e processos, os relatos dos processos serão de acordo com cada ícone escolhido na seguinte 46 sequência: Orquídea, Tartaruga-de-couro, Convento da Penha, Pedra da Cebola, Paneleiras e Raízes do Manguezal. A Orquídea é encontrada em diversas espécies no Espírito Santo. A técnica utilizada para representar esse ícone da flora capixaba foi a junção de elementos. Esta técnica consiste em modelar as peças em separado e depois fazer a junção desses elementos para dar formar ao que se deseja. O processo utilizado pela estudante na elaboração da peça: Ligação de peças, constou de fazer as pétalas em um molde conforme demonstra a figura 35 e depois foram ajuntadas (figura 36). Em seguida feita a estampagem (figura 37), para a qual foi utilizada uma pedra de coral do mar para texturizar a peça (figura 38). Figura 35 - Uso de molde para pétalas Figura 36 - Figura junção das pétalas Figura 37- Estampagem com pedra de coral Foto: Elô Rossoni Foto: Elô Rossoni Foto: Elô Rossoni Figura 38 – Pedra de coral usada para texturizar Foto: Elô Rossoni Uso do molde foi a técnica utilizada para a reprodução da espécie marinha, a Tartaruga-de-couro, cujo nome se deve à região onde é encontrada, coberta de restinga, em Guriri, região litorânea do Espírito Santo. O molde foi feito em uma 47 folha acetato, figura 39, (material usado para impressão de exames em radiografia). Em cima da placa, foi feito o contorno do desenho, figura 40, criando, em seguida, os relevos e a texturização conforme demonstrado na figura 41. Figura 39: Contorno da forma Figura 40: complementando o desenho Figura 41: fazendo relevo O Convento da Penha da Penha é uma arquitetura religiosa, que fica em um penhasco a 500 metros de altura do mar, cercada pela Mata Atlântica. É um marco da expressão religiosa dos capixabas, por abrigar a imagem de Nossa Senhora da Penha, padroeira do Espírito Santo. Moldagem foi a técnica utilizada, a qual possibilita a reprodução de determinada forma, facilitando e agilizando a execução do processo de modelagem. Em um molde pronto é colocado a argila preenchendo toda a superfície, figura 42. Logo após para acelerar o processo de secagem, foi utilizado um secador de cabelo, figura 43. Após a secagem com o secador, a peça é retirada, (figura 44) e são feitas as marcações para dar relevo e destacar os detalhes da imagem, figura 45. Figura 42 – Molde Figura 43 – Uso secador 48 Figura 44– Retirada do molde Figura 45 - Marcações Pedra da Cebola é um Parque Ecológico, com mais de 100 mil metros quadrados. É um lugar de lazer frequentado pelos estudantes com suas famílias. O nome do parque é devido a uma pedra que tem a característica similar a uma cebola. O processo de construção dessa peça foi com a técnica de modelagem em relevo. Águeda disponibilizou desenhos (riscos), como referência para o contorno da Pedra na placa de argila. Sem uso de moldes, foi feito o contorno do desenho com uma peça de madeira pontiaguda figuras 46 e 47. Em seguida foi acrescentando argila para dar relevo e textura, com as pontas dos dedos figura 48. Figura 46 – Contorno desenho Figura 47 – Contorno com madeira pontiaguda Foto: Elô Rossoni Foto: Elô Rossoni 49 Figura 48 – Relevo e textura com os dedos Foto: Elô Rossoni Paneleiras de Goiabeiras, grupo de mulheres que, há mais de 400 anos, confeccionam Panelas de Barro. Referências da cultura capixaba, foram retratadas pelo estudante com a mesma técnica para retratar a Pedra da Cebola. Desenhou-se o contorno da panela e, em seguida, fez-se a marcação, dando profundidade ao contorno e fez-se o relevo com argila, a textura em torno da panela de barro foi com uma peça de madeira pontiaguda, figura 49. Figura 49 – Contorno da imagem da panela de barro Foto: Elô Rossoni 50 Após ser feito o contorno do desenho, e a marcação do contorno figura 50, foi sendo acrescido argila para dar relevo. E com uma peça de madeira pontiaguda feito a marcação e profundidade na imagem, figura 51. Figura 50 – Argila para dar relevo Figura 51 – Marcação e profundidade FOTO: Elô Rossoni Foto: Elô Rossoni O Manguezal, que fazia parte do cotidiano da maioria dos estudantes, margeia a região da Ilha das Caieiras e das Paneleiras de Goiabeiras, é utilizado para fins de lazer com passeios de barcos e escunas e como meio de economia de subsistência. Em uma das paradas com uma exuberante paisagem, a opção é a Ilha das Caieiras, para visitar os restaurantes do local e, também, o Galpão das Desfiadeiras de Siri, uma cooperativa que beneficia, congela e prepara os frutos do mar. A escolha das raízes do manguezal, para ser a produção artística pela estudante, foi inspirada na obra da ceramista Águeda Valentim, Raízes do Manguezal, exposta no ateliê. A técnica utilizada para elaboração da peça foi o desenho, figura 52. e a sobreposição com argila, figura 53, criando os relevos, figura 54. Figura 52 – Desenho das raízes Figura 53 – Sobreposição da argila 51 Figura 54 – Relevo com a argila Foto: Elô Rossoni Os processos de elaboração dos trabalhos trouxeram um olhar de surpresa, por parte dos alunos, quando observaram que são usados muitos elementos da natureza e objetos do cotidiano para dar texturas e formas nas peças. A textura e o relevo do trabalho foram momentos que trouxeram aos alunos as possibilidades de experimentar a criatividade e experimentações. Os materiais usados para as texturas foram conchas, caroços de frutas, bijuterias, coral . Ainda diferentes sementes, cascas de árvores, espátulas e utensílios do cotidiano como garfos, colheres e pentes. Para Morian (2011), o aprendizado é um caminho, uma estratégia cognitiva, que interagimos com o aluno. A interação de Águeda com os estudantes, sem dúvida, contribuiu para que eles aproveitassem ao máximo a oportunidade de ter uma vivência em um ambiente repleto de possibilidades de construção artística. A vivência no ateliê de Águeda Valentin tornou a experiência dos alunos algo muito expressivo, tendo em vista que, além da artista ser uma referência no que diz respeito à arte cerâmica no Espírito Santo e fora do Estado, a sua solicitude e disponibilidade propiciou a construção do conhecimento dos alunos sobre a arte da cerâmica com tantos detalhes, informações e técnicas. A atividade pedagógica também criou uma aproximação entre professor e estudante, o que contribuiu para melhor entendimento e avaliação do quanto os alunos assimilavam o que lhes acontecia. Nos relatos, os estudantes expressavam o quanto estarem presentes em um ateliê de arte, os fez perceber os processos e construção que jamais saberiam, apenas em livros e vídeos. A 52 realidade de um ateliê só é possível conhecer pessoalmente, nenhum livro é capaz de exprimir e despertar a emoção que estavam sentindo. Fazer uma peça de cerâmica requer muito mais que habilidade manual. A figura 55 mostra uma atmosfera de contentamento por parte dos alunos, bem como orgulho na realização de uma atividade repleta de novidades, momento em que conhecimento, técnica, habilidade foram moldados em cada detalhe por mãos que experienciavam, pela primeira vez, a construção de um objeto artístico com uma artista que, além de talento e técnica, exerce sua profissão com entusiasmo e respeito pela sua Arte. Figura 55 - Águeda e os alunos na conclusão da construção artística Realizou-se, com os trabalhos, conexões e fomento de ideias para ampliação da expressividade artística. A este respeito Pimentel (2012, p. 39) nos fala: O criar estaria, por conseguinte relacionado com o ato de reorganizar um campo de percepção, constituindo uma nova ordem, uma nova ideia, a partir dos dados já conhecidos. Este ato de reorganizar deve estar provido de originalidade e novidades. Nesse sentido, percebe-se o quanto estas práticas pedagógicas, nas aulas de Arte, viabilizam ao estudante conceber a Arte como uma forma de expressar-se e, também, como uma forma de apropriação de nova percepção do mundo a sua volta, o que possibilita a integração diante da diversidade, das diferentes formas de perceber a importância que a Arte exerce na sociedade. Nessa perspectiva são as palavras de Barbosa (2005, p. 23): 53 Entendo, assim, que o eixo da PRODUÇÃO nomeia não apenas ações que caracterizam a aprendizagem do fazer artístico em contato com os materiais e com os princípios de formatividade das diferentes linguagens artísticas. Ou seja, ações se referem à capacidade de produzir obras artísticas, mas também à capacidade de produzir leituras e relações conceituais, tão importantes para a experiência da Arte e que também integram a concretização de formas artísticas. Em relação às oficinas de Panela de barro e de cerâmica no ateliê de Águeda Valentim, os relatos dos estudantes trouxeram não só analogias e comparações entre as vivências no Galpão das Paneleiras e no ateliê de Águeda Valentim que dizem respeito não somente ao uso da matéria prima, o barro em ambos os casos , mas, principalmente, ao respeito às tradições e culturas do nosso Estado, a utilização de ferramentas rudimentares advindas da própria natureza. Tudo isso pode ser confirmado pela fala do aluno que participou da oficina no ateliê de Águeda Valentim:O trabalho realizado no ateliê de Águeda chamou muito minha atenção; umas das coisas que me atraiu foi a maneira que modelamos a argila, pois existem detalhes muito importantes para que ela fique pronta e perfeita, não apenas bonita. Assim como nas paneleiras, o uso de ferramentas tiradas da própria natureza mostra a importância e o valor de preservar uma cultura e uma arte que respeita a natureza. Águeda com seus conceitos de Arte e cultura fez com que nós observássemos a importância da cerâmica enquanto Arte”. Para Dewey (1971), o estudante aprende a pensar executando o pensamento. A experiência é a prática de lidar com os acontecimentos e nos permite transformar as experiências em conceitos, pensamentos e ideias. Os alunos puderam não somente apreender sobre os processos da cerâmica, mas a experiência no ateliê de Águeda permitiu que desenvolvessem um pensamento que contextualizasse e reorganizasse os conceitos e entendimentos prévios que tinham sobre a cerâmica. A instalação do painel Cantinho Capixaba (figura 56), nas dependências da Escola Elza Lemos, envolveu a comunidade escolar que valorizou e incentivou os alunos á novas experiências. 54 Figura 56- Painel da composição artística dos alunos Foto: Elô Rossoni Águeda não apenas contribuiu com sua habilidade e técnica com a cerâmica, mas por ter subsidiado os alunos com sua fala e sua prática para a construção do conhecimento. CONSIDERAÇÕES FINAIS No que diz respeito ao processo de ensino-aprendizagem, na prática pedagógica nesta pesquisa de mestrado, os estudantes puderam contextualizar suas vivências e experiências. Ao experienciar a elaboração de uma obra artística, puderam exprimir suas individualidades. A imagem dos objetos se relacionavam com suas experiências e vivências artísticas e culturais. Visivelmente, as habilidades dos alunos foram aguçadas, bem como o entendimento de inúmeras possibilidades de se fazer Arte em cada atividade de fotografia, desenho, pintura e produções áudios-visuais. 55 A elaboração artística dos alunos relacionou-se, portanto, com ícones culturais capixabas. O barro trouxe cor, textura, forma, espessura, tonalidade, plasticidade, possibilidades que foram experienciadas pelos estudantes de forma direta. Dessa forma, puderam contextualizar as vivências anteriores, fazendo suas percepções dos espaços culturais como fomento de Arte e cultura. O ateliê de Águeda Valentim viabilizou a fruição da cerâmica, a produção artística como algo que requer conhecimentos prévios, estudos de técnicas e ferramentas. O painel fixado no muro da escola foi um dos resultados de uma trajetória de conhecimento advindos das vivências artísticas e culturais que reverberaram em uma produção artística repleta de significados, para todos os estudantes envolvidos nesse processo de construção de conhecimento. Justamente esses aspectos da pesquisa que a tornaram relevante no ensino da Arte no âmbito escolar: a mudança de percepção dos estudantes que passaram a considerar a Arte como uma área de conhecimento e como constituinte de uma sociedade. As Paneleiras de Goiabeiras, vistas pelos alunos como aquelas mulheres que fazem panela de barro, agora são vistas como mulheres que mantem viva a história de nossa cultura capixaba de geração em geração. A cerâmica também vista anteriormente pelos estudantes como algo fácil de fazer, após a realização das oficinas, no ateliê de Águeda Valentim, foi entendida como processos que requerem conhecimentos técnicos. Entendeu-se que a habilidade é algo que requer a prática e a sensibilidade. Muitas são as possibilidades de práticas educativas que tragam vivências para os alunos e desperte neles a reflexão e o entendimento da Arte como uma contribuição às sociedades. As possibilidades de criação artística são tão amplas quanto as possibilidades que as vivências e experiências artísticas possibilitam, a compreensão da Arte pelo estudante quando lhe é oportunizado ir além dos muros da escola. REFERÊNCIAS BARROS, Manoel de. Bordados de Antônia Zulma Diniz, Ângela, Marilu, Martha e Sávia Dumont sobre desenhos de Demóstenes. Exercícios de ser criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999. BARBOSA, A. M. (Org.). A compreensão e o prazer da arte. São Paulo: SESC Vila Mariana, 1998. BONDIA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de 56 experiência. Rev. Bras. Educ. [online]. 2002, n.19, pp.20-28. ISSN1413- 2478. http://dx.doi.org/10. 1590/S1413-24782002000100003. BUORO, Anamélia Bueno. Olhos que pintam: a leitura da imagem e o ensino da arte. 2. Ed. – São Paulo: Educ/Fapesp/Cortez, 2003. DEWEY, John. Experiência e educação. São Paulo: Nacional, 1971. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. – Coleção Leitura. GIL, Antonio Carlos Métodos e técnicas de pesquisa social / Antonio Carlos Gil. - 6. ed. - São Paulo : Atlas, 2008 MORIN, Edgar. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios, 4 ed. São Paulo: Cortez, 2005. PIMENTEL, Lúcia Gouvêa. Limites em expansão: Licenciatura em artes visuais. Belo Horizonte, 2012. SACCOMANI. Maria Claudia da Silva. A criatividade na arte e na educação escolar: uma contribuição á pedagogia histórico crítica á luz de Georg, Lukács e Lev Vigotski. Campinas, SP, 2016. SANTANA, Aurelane Alves. et al. A utilização das imagens e fotografias como recursos didáticos para a espacialização dos conteúdos. Disponível em: < http://www.uesb.br/eventos/ixsegeo/arquivos/A%20utiliza%C3%A7%C3%A3o% 20da s%20imagens%20e%20fotografias%20como%20recursos%20did%C3%A1tico s%20 para%20a%20espacializa%C3%A7%C3%A3o%20dos%20conte%C3%BAdos. pdf >. Acesso em: junho de 2018. 57 58 59 60 61 62 63 64