UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
ESCOLA DE BELAS ARTES - EBA
LINHA DE PESQUISA: ARTES PLÁSTICAS, VISUAIS E INTERARTES:
MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS E SUAS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS,
TEÓRICAS E CRÍTICAS
TÍTULO DA DISSERTAÇÃO: DESTINO ELDOURADO
Proponente: Armando de Queiroz Santos Junior
Orientadora: Maria Elisa Martins Campos do Amaral
Belo Horizonte, fevereiro de 2018
2
ARMANDO DE QUEIROZ SANTOS JUNIOR
DISSERTAÇÃO
DESTINO ELDOURADO
Dissertação apresentada à Escola de Belas Artes da
Universidade Federal de Minas Gerais, como parte
dos requisitos para a obtenção de grau Mestre em
Artes Visuais.
Orientadora: Profa. Dra. Maria Elisa Martins Campos
do Amaral
BELO HORIZONTE
2018
3
Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor, através do
Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFMG
Santos Junior, Armando de Queiroz
Destino Eldourado [manuscrito] / Armando de Queiroz Santos
Junior. - 2018.
125 p. : il.
Orientadora: Maria Elisa Martins Campos do Amaral.
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Minas Gerais,
Escola de Belas-artes.
1.Trânsitos culturais. 2.Etnografia. 3.Garimpo de Serra Pelada.
4.Espírito do ouro. I.do Amaral, Maria Elisa Martins Campos.
II.Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Belas-artes.
III.Título.
4
Esta dissertação é dedicada a Janine Bargas
5
AGRADECIMENTOS
Secretaria de Estado de Cultura (SECULT), Sistema Integrado de Museu e Memoriais, Espaço
Cultural Casa das Onze Janelas, Museu da Imagem e do Som do Pará, Museu Histórico do
Estado do Pará, Arquivo Público do Estado do Pará, Universidade Federal do Pará, Escola de
Aplicação da Universidade Federal do Pará, Arquivo Nacional (RJ), Associação FotoAtiva,
Escritório de Arte AUT AUT, Galeria Virgílio, Galeria Kamara Kó, Abraão Ferreira de Sousa –
Protético (Curionópolis-PA), Acácio Sobral (In memoriam), Alberto Brito (Fazenda Urucuri-
AP), Alex Flemming, Alice Brito (Fazenda Urucuri-AP), Almires Martins Machado, Amada
Gomes dos Santos (Fazenda Nova Califórnia-AP), Augusto Vianna, Armando Sobral, Bitu
Cassundé, Dalcídio Jurandir, Daniela Sequeira, Dimitri Maracajá, Dr. Misael Pinto Mendonça –
Protético, Dumas Seixas, Camila Mello, Cassiano Macias, Cássio Tavernard, Celso Fioravante,
Chico Paes, Clarisse Tarran, Cláudia Nascimento, Cláudio de La Rocque Leal, Christine Mello,
Dona Nazaré Cardoso, Emanuel Franco, Emmanuel Nassar, Evelina Skeete, Fabize Muinhos,
Família Lucena de Brito (Marabá-PA), Flavya Mutran, Francisco Carlos, Fernando Gomes da
Silva “Gigante”, Gabriel Cardoso (elo), Geraldo Ramos, Geraldo Teixeira, Gladys Skeete, Guy
Veloso, Haydée da Mota Martins, Heldilene Reale, Hederson Furtado, Ibis Habascal, Ivo Paes,
Izabel Pinheiro, Izer Campos, Iraneide de Jesus Viana, James Skeete, Jeff Keese, Janine Bargas,
João Cirilo, João de Jesus Paes Loureiro, João Leite (Fazenda Nova Califórnia-AP), João
Lizardo (Serra Pelada-PA), João Lúcio Mazzini, Joaquim Neves das Chagas, Jocatos, Jorge
Eiró, José de Moraes Rego, José Xavier de Lucena “Bigode Caçador” (Curionópolis-PA),
Juscelino Leal Ferreira “Zé do Barco” (Abaetetuba-PA), Jussara Derenji, Killzy Kelly, Klinger
Carvalho, Leonildo Miralha, Leonor Vieira da Silva “Minha Comadre”, Libânia, Lídia Souza,
Lilo C. Karsten, Luana Miralha, Lúcia Gomes, Luiza Interlengui, Luiz Braga, Luiz Fernando
Carvalho, Lu Magno, Manoel dos Santos “Seu Manézinho” (Fazenda Nova Califórnia - AP),
Manoel Pacheco, Makiko Arao, Maria de Nazaré dos Santos Cardoso, Paulo Herkenhoff,
Marcelo Rodrigues, Marcone Moreira, Marcos Dana, Maria Alice Penna, Maria Christina
Barbosa, Margalho Açu, Mariano Klautau Filho, Marinaldo Santos, Mário Fraga, Marise De
Chirico, Maurício Braga de Souza “Carioca” (Curionópolis-PA), Mauro Espíndola, Mestre
Amadeu Sarges (Abaetetuba-PA), Michael Arnegger, Miguel Chikaoka, Minoru Matsuo,
Moacir dos Anjos, Nazaré Cardoso (minha companheira de décadas), Nildo Ferreira, Nilza
Maranhão Pires Franco, Nina Abreu, Nina Matos, Nio Dias, Olegário Gomes (Fazenda Nova
Califónia-AP), Oneno Brito, Patrick Pardini, Paula Sampaio, Paulo Chaves, Paulo Machado,
Pedro César de Angelim Cardoso, Raimundo Peixoto “Diabinho” (Abaetetuba-PA), Ramiro
Quaresma, Regina Maneschy, Renata Maués, Renato Sidrin, Rev. Anselmo Stein, Roberta
6
Maiorana, Robert Clyde Skeete, Romualda do Carmo “Neném”, Ricardo Resende, Rubens
Matuck, Ruma, Sandra Gomes, Seu Nilson Cardozo, Shirley Penaforte, Solange Farkas, Tadeu
Lobato, Tamara Saré, tia Querubina, Telma Saraiva, Valdelir Costa Alves (Abaetetuba-PA),
Valseli Sampaio, Vânia Leal, Véronique Isabelle, Vilemar Leite (Fazenda Nova Califónia-AP),
Walder Paródio S. Ramos “Peruca” (Santa Izabel-PA), Waldemar Henrique, Wagner Barja,
Walda Marques, Walkyria Gomes dos Santos, Adriele Silva Silva, Alexsandro Costa, Andreza
Raiol, Aurilene Ferreira, Aylana Canto, Beth Viana, Breno Bitencourt, Breno Filo, Carol
Lobato, Crispim, Dayanne Eguchi, Delandro Melo, Edson Ricardo Silva, Eliane Costa, Elton
Galdino, Eve Frusciante, Evna Moura, Fernanda Mota, Gleiciane Farias, Hamilton Sacramento,
Helen Magalhães, Igor Alencar, Jamille Neves, José Edivaldo Damião, Joyce Viggiano, Karina
Castillo, Karina Farias, Keoma Calandrini, Klau Menezes, Luana Peixe, Maria Silva, Lucicleide
Lima, Lucileide Marta, Max Andreone, Odileuza Alfaia, Rafael Pinto, Raíssa Okawa, Robson
Siqueira, Romário Alves, Rosielen Machado, Samantha Silva, Silvia Cruz, Suzana Xavier, Tay
Sid Tayná Cardel, Valmir Tadeu Silveira “Bigode”, Wendeel Picanço, Yuri Barros, Antônio
Xavier de Lucena, Benta Martinha das Virgens, José Miguel de Souza “seu Laranjeira”, José
Xavier de Lucena, Leonildes Soares, Raimunda Pereira de Lucena e José Geraldo de Brito,
Jaqueline Cristina Lucena de Brito, Acilon Alighieri, Afonso Medeiros, Alexandre Sequeira,
Agenor Sarraf, Amintas Ribeiro, Ana Del Tabor, Ana Lobato, Ana Maracahipe, Analzira Vieira,
Arthur Leandro, Cláudia Leão, Danielle Smith, Edilson Coelho, Edison Farias, Erasmo Borges,
Graça Bonfim, Ivanete Moreira, Jorane Castro, Lenir Trevizan, Luizan Pinheiro, Luzia Gomes,
Marcelo Lima, Mário Barata, Marisa Mokarzel, Maurilo Lobato Pantoja, Monica Martins,
Neder Charone, Orlando Maneschy, Ronaldo Moraes Rêgo, Idanise Hamoy, Ricardo Harada
Ono, Sandra Melo Cardoso, Socorro Lima, Ubiraélcio Malheiros, Valzeli Sampaio, Zélia
Amador de Deus, Amir Brito Cadôr, Baba Tayandô, Bernardo Miranda, Carlos Henrique
Rezende Falci, Daisy Leite Turrer, José Lara, Kássio Santiago, Leonardo Santa Inês, Mauricio
Silva Gino, Daisy Turrer, Mabe Bethônico, Marcos César de Senna Hill, Mariana de Lima e
Muniz, Maria Angélica Melendi, Maria do Carmo de Freitas Veneroso, Natália Arruda, Patrícia
Dias Franca-Huchet, Renata Sousa Costa, Stéphane Huchet, Thálita Motta, Alicianne Gonçalves
de Oliveira, Luis Fernando Fontes Moreira, Maria Gislene Carvalho, Lívia Barroso, Gáudio
Luiz, Filipe Monteiro, Nelson “Mandela” Vimieiro, Frida “Kahlo” Vimieiro, Sr. Toby, Renato
Vimieiro, Carol Vimieiro, Jésus Costa, Sulamita Brasil, Rita Figueira, José Eustáquio Santana,
Laurindo Vimieiro, Edna Vimieiro, Regiane Lucas Garcêz, Alice Garcêz, Elisa Garcêz, Gustavo
Guedes, Paulo Nazareth, Luciana de Oliveira, Maria e Gabriel de Oliveira, Vitor Andrade,
Larissa Arantes, Fred Fuchs, Ronélia Moreira, Elmo Alves, Rousiley Maia, Martin Jüef, Sabine
Reiter, Dr. Rony de Araújo Soares, Klinger Carvalho, Taranga Deva, Dada Ranendrananda,
7
Luciana Caravello, Ana Lobato, Valéria Teixeira, Marcelo Cintra Amaral, Luis Monteiro Silva
Junior, Rodrigo Borges, Marcelo Rodrigues, Paulo Almeida, Dirceu Maués, Isis Molinari,
Edgard Patrício, Fabrício Carvalho, Vivas Almeida, Mestre Vânio Tonussi, Marcy Santos,
Ângela Maria, Albele Assumpção, Nilda Bargas Guimarães, Afonso Guimarães, Orlando
Lemos, “Gisele B.”, José Casemiro “Casé”, Ana Paula Bargas Guimarães, André Luiz da Silva
Corrêa Junior, Seu André Luiz da Silva Corrêa, dona Lúcia de Araújo Ferreira, Ana Karolina
Corrêa, “Super” Pedro Vieira, Neolinda Bargas, Marlene Serra, Sheila Almeida, Alfredo Lanna
Neto, Moisés Resende, Yris Nascimento, Maria Elisa Almeida, Bruno Rios, Rosaly Brito,
Lorena Ferreira, Marcelo Correia, Frederico Caiafa, Samantha Moreira, Flavya Mutran, Antônio
Silva Campo, Nancy de Jesus Bargas, Dona Arlete de Jesus Ramos Bargas, Maria Luiza Bargas,
Cyro Almeida, Ricardo Macedo, José Sebastião Ferreira dos Santos, Nelma Bargas dos Santos,
Luana Rodrigues, Neldson de Jesus Bargas, Nielson de Jesus Bargas, Nelsivaldo de Jesus
Bargas, Elias Santos, Casa Aberta, Luis Larocca, Matheus Silva, Zeca TF, Adelaide Oliveira,
Padre Bruno Sechi, LEVE, Danielle Correa Batista, Danilo Patrício, Débora Lima Sanches
Dias, Aldrin Moura de Figueiredo, Leno Ricardo Vidal, Railiane Araújo, Rosane Preciosa,
Letícia Bertagna, Marisa Flórido Cesar, Lina Rodrigues, Anne Rodrigues, Eliane Moura, Cesar
Elias, Rafael Bandeira, Edilton Vilhena Pacoval, Seu Pena Verde, Divino Sobral, Amanda
Garcia, Luiz Madson Vasconcelos, Walmor Corrêa, Xico Chaves, Patrícia Costa, Danila Cal,
Leandro Lage, Cristiana Tejo, Wagner Túlio Paulino, Mauro Queiroz Santos, Juliana Queiroz
Santos, Ana Laura de Queiroz Santos, José Alberto Nemer, Annie Rottenstein, Célia Jacob,
Diógenes Moura, Camila Fialho, José Viana, Dany Meirelles, Leonardo Bargas, Célia Brito,
Cristiano Batista, Murilo Lobato, Arnaldo Jardim, Isabel Pinheiro, Fernanda Coimbra, Carlos
Neto, Ana Carolina Bargas Guimarães, dona Arlete Bargas, Dênio Maués, Marcus Avaloni,
Martín Pérez, Nina Pérez, Wellington Romário Alves, Dora Bellavinha, Bernardo Mosqueira,
Denise F. Adams, Luciana Nacif, Regina Nascimento, Ida Hamoy, Victoria Rapsódia, Turenko
Beça, Jóice Denne, Lourival Cuquinha, Raphael Fonseca, Fernando Granato, Patrícia Rosinni,
Marco Aurélio Rossini, Wilson Lázaro, Karol Luan Oliveira, Michele Wadja, Benjamin
Seroussi, Pablo Lafuente, Joaquin Barriendos, Lucas Mariano, Killsy Lucena, Edivânia Câmara
de Andrade, Márcio Almeida, Celeste Ramos, Daniela Name, Luiz Nogueira, Leonardo Kossoy,
Valquiria Prates, Juliana Dias, Adinaldo Fonseca, Noêmia Maués, Rodrigo Marques, Lara
Lages, Marina Câmara, Rivaildo Peixoto “Riva”, Nina Aragon, Lula Ricardi, Izabelle Aguiar de
Araújo Matos, Bárbara Altivo, Gabriel Brisola da Cunha, Alessandra Bergamaschi, Francilins
Castilho Leal, Dalton Paula, Ize Sena, Susana Oliveira Dias, Sebastian Wiedemann, Bia do Mar,
Rodrigo Lourenço, Luis Carlos Solha Junior, Rafaela Casseb, Marina Seif, Alan Cavalete,
Izabel Costa, Marconi Marques, Paulo Meira, Solange Machado, Kelly Prudêncio, Yasmin
8
Alves, Rafael Brasil, Silvan Kälin, Marta Mestre, Mário Lopes, Isabel Hölzl, Priscilla Brasil,
Rosanne D’Oliveira, Almires Martins, Ingrid Sá Lee, Mônica Vaz, Paulo Nunes, Telma Rabelo,
Marianna Kutassy, Wlad Lima, Alaice Mota, Waleiska Fernandes, Angelim Silva, Eliete da
Silva, Thiago Martins de Melo, José Arnaud, Lorena Esteves, Altemar di Monteiro, Madalena
Leitão, Alex Mesquita, Anna Cleide, Antônia Altina, José Adriano Neto, Alessandra Malachias,
Iracy Monteiro, Arcanjo Perverso, Juliana Soares, Ernestina Rodrigues, Bruno Amarante, Edson
Ignácio, Jordano Silva, Cláudia Silva dos Santos, Ronaldo Silva, Luiz Guilherme Vergara,
Uhura Bqueer, Eliana Almeida, Jessica Gogan, Keila Doc, Adilenhe Chagas, José Roberto
Aguilar, Daniel Lima, Hegila Meireles, Iracy Monteiro, Jarneane Furtado, Orismildo Rodrigues
Maia, Gladston Costa, Heloisa Leite, Priscila Heeren, Laura Berbert, Maíra Lobato, Rafael
Campos, Marcos Meigre, André Hauck, Janaína Melo, Tamires Coelho, Cristiano Batista, Luiz
Arnaldo Dias Campos, Célia Maracajá, Sincope Ciclope, Evandro Salles, Thamires Duarte,
Randolpho Lamonier, Conceição, José Geraldo, Paulo, Elias, Márcio, Jardel, Ednaldo,
Cristiano, Marcos, Flávio, Paulo Sérgio, Rosana Prudente, Divino Sobral, Carlos Sena Passos,
Lucas Niamey, José Maria Ferreira Pereira, Bráulio Humberto da Silva, Tayara Souza Martins,
Eduardo de Jesus, Delson Uchoa, Amália Paes, Fernando Lindote, Denise Bendiner, Nadan
Guerra, Ana Maria Maia, Lúcia Padilha, Hassan Santos, Mariana Lorenzi, Solange Farkas, Bitu
Cassundé, Carlos Mélo. A todos nós, partida e chegada. Uma constelação sentimental.
Querida Elisa Campos, obrigado por ter acreditado, confiado, orientado e ter seguido junto.
Agradecimento muito especial ao meu filho Gabriel, ao meu pai Joaquim e à minha mãe Théo.
À poesia
9
A vida vale a pena ser vivida
apesar de todas suas dificuldades,
tristezas e momentos de dor e
angústia.
O mais importante que existe sobre
a face da terra é a pessoa humana.
E surpreender o homem no ato de
viver é uma das coisas mais
fantásticas que existe.
Érico Veríssimo
10
RESUMO
Esta dissertação investigou qual é o lugar na academia de alguém que vem do campo do fazer
artístico: o ser artista, qual é o seu lugar de fala. Assim, buscou entender através da experiência
do vivido como se dá esta escrita, a escrita do artista-pesquisador. Do pesquisador que se
confunde sensivelmente com o próprio objeto de estudo. Conduzindo a uma particular visão
sobre a cultura paraense através do que representa o garimpo de Serra Pelada como síntese da
problemática político-cultural deste lugar do país. Experiência esta, reverberada no estado de
Minas Gerais, mais particularmente no que ofereceu como mote de reflexão o perambular
poético pela cidade de Belo Horizonte: destino Eldourado. Ir à busca do espírito do ouro em
terras tão distantes. Perambular à cata de sentidos em trânsitos culturais, experimentar
linguagens atravessadas por abordagens epistemológicas distintas, contudo complementares:
história da arte, filosofia da arte, fontes históricas, fílmicas, televisivas, a fala do próprio artista,
escritos literários, tratados, pensares e fazeres múltiplos alargados no tempo, onde tudo é
devoração. Exercer, excitar um olhar poético-etnográfico. Eis a proposição do caminhar
andarilho desta dissertação.
Palavras-chave:
Trânsitos Culturais – Etnografia – Garimpo de Serra Pelada – Espírito ouro.
11
ABSTRACT
This dissertation investigated the place in the academy of someone who comes from the field of
artistic making: being an artist, what is his place of speech. Thus, he sought to understand
through the experience of the lived as it gives this writing, the writing of the artist-researcher.
Of the researcher who is confused sensibly with the object of study itself. Leading to a
particular vision about state of Pará culture through what represents the mining of Serra Pelada
as a synthesis of the political-cultural problematic of this place of the country. This experience
reverberated in the state of Minas Gerais, more particularly in what it offered as a reflection to
the poetic wandering around the city of Belo Horizonte: destination Eldourado. Go to the
pursuit of the gold spirit in lands so far away. Wandering through the senses in cultural transits,
experimenting with languages that are crossed by different yet complementary epistemological
approaches: art history, philosophy of art, historical, film, television sources, the artist's own
speech, literary writings, treatises, extended in time, where everything is devouring. Exercise,
excite a poetic-ethnographic look. Here is the proposition of the wanderer walk of this
dissertation.
Keywords:
Cultural Transits - Ethnography – Gold mine of Serra Pelada - Spirit of Gold.
12
LISTA DE FIGURAS
Figura 01 - Objeto: Série Sermoens (1997), de Armando Queiroz ........................................ 23
Figura 02 – Frame do filme O descobrimento do Brasil (1937), de Humberto Mauro.......... 25
Figura 03 - Peça em ouro pertencente atualmente ao Museu do Ouro de Bogotá ................. 29
Figura 04 - Mapa do trajeto da expedição de Francisco de Orellana (1541-1542) ................ 30
Figura 05 – Cena do filme Aguirre, a cólera dos Deuses, 1972 ............................................ 31
Figura 06 - Igreja São Francisco da Penitência (1657-1733), Rio de Janeiro ........................ 32
Figura 07 - Objeto: vidrinho com coroa e purpurina (1997), de Armando Queiroz .............. 33
Figura 08 – Frame do vídeo El Dourado (2007), de Armando Queiroz ................................ 34
Figura 09 – Cena do filme Iracema, uma transa amazônica, 1976 ....................................... 37
Figura 10 – Still do filme Bye Bye Brasil, 1979, de Cacá Diegues ........................................ 40
Figura 11 - Jornal Nacional. Reportagem sobre Serra Pelada, jul. 1982 ................................ 41
Figura 12 - Objeto: A obra de Adão (década de 1990), do garimpeiro Adão ........................ 45
Figura 13 - Mapa da Vila de Serra Pelada, 2011 .................................................................... 46
Figura 14 – Ação da Polícia Militar em Serra Pelada (1986), de Sebastião Salgado ............. 48
Figura 15 – Trabalhadores Sem-Terra mortos no massacre
de Eldorado dos Carajás (1996), de Júlio Rocha ................................................ 49
Figura 16 - Marco da Mina: pare, olhe, escute (2016). Caderno de Campo, Armando
Queiroz .................................................................................................................................. 25
Figura 17 - A balsa da Medusa (1819), de Theodore Gericault ............................................. 55
Figura 18 - Lâmina-passarinho (1999), Armando Queiroz ................................................... 57
Figura 19 - Jesus-borboleta-dourada (1996-2016), Armando Queiroz ................................. 59
Figura 20 - Stencil (2016), localizado nas ruas de Belo Horizonte ....................................... 60
Figura 21 - Estação de Metrô Vilarinho - Destino Eldourado (2016), Armando Queiroz ..... 65
Figura 22 - Frame do vídeo Os mistérios de Clara (2014), Armando Queiroz ..................... 67
Figura 23 - Imagem sem título A da Série Poeira de rio. Alenquer (2016), Armando
Queiroz ................................................................................................................ 69
Figura 24 - Imagem sem título B da Série Poeira de rio. Alenquer (2016), Armando
Queiroz ................................................................................................................ 72
Figura 25 - Imagem sem título C da Série Poeira de rio. Alenquer (2016), Armando
Queiroz ................................................................................................................ 73
Figura 26 - Frame do vídeo-performance MIDAS (2009), Armando Queiroz ....................... 79
Figura 27 - Torre de Babel (c.1563), de Pieter Bruegel, o Velho .......................................... 80
Figura 28 - O ator Christopher Plummer interpreta Atahualpa (1964) .................................. 83
Figura 29 – Rita Cadilac no garimpo de Serra Pelada, 1986 .................................................. 85
13
Figura 30 - O Andarilho Sobre o Mar de Neblina (1818), de Caspar David Friedrich .......... 89
Figura 31 - O Pendurado (Enforcado), Arcano XII maior do Tarot de Marselha (c.
séc.XV) ................................................................................................................................... 91
Figura 32 - Serra Pelada – a lenda da Montanha de Ouro (2013), dir. Victor Lopes........... 92
Figura 33 - O silêncio é de ouro (2016-2017), Armando Queiroz ......................................... 94
Figura 34 – Do pó ao pó, 2013. Ação performativa para fotografia. Armando Queiroz ...... 98
Figura 35 – Frame do filme Chico Rei (1985), de Walter Lima Junior ............................... 110
Figura 36 – Paisagem com a queda de Ìcaro (1565), de Pieter Bruguel ............................. 113
14
SUMÁRIO
PREÂMBULO
CONSTELAÇÃO SENTIMENTAL ................................................................................................. 17
1. CAPÍTULO PRIMEIRO ............................................................................................................ 22
SOB O SIGNO DAS DEVORAÇÕES - A AMÉRICA COLONIAL .............................................. 23
A AMAZÔNIA DO SÉCULO XX – A PROLIFERAÇÃO DOS GARIMPOS ............................... 36
BREVE HISTÓRIA DE SERRA PELADA ..................................................................................... 40
MASSACRES DE SÃO BONIFÁCIO (1987) E DE ELDOURADO DOS CARAJÁS (1996) ....... 48
2. CAPÍTULO SEGUNDO ............................................................................................................. 51
O ATRITO DO TREM ..................................................................................................................... 53
UMA IMAGEM DE TRECHO ......................................................................................................... 54
O EXPERIMENTAR EM BANDO .................................................................................................. 56
O CLARÃO DAS MANHÃS ........................................................................................................... 58
ESTAR, EXPERIMENTAR ............................................................................................................. 59
AO ENCONTRO DAS MANHÃS IMPRECISAS........................................................................... 60
O RESTITUIR, O TESTEMUNHAR ............................................................................................... 62
PERAMBULAR, REMEMORAR DESTINOS ............................................................................... 66
HOTEL PEPITA ............................................................................................................................... 69
QUERER VOLTAR .......................................................................................................................... 74
3. CAPÍTULO TERCEIRO ........................................................................................................... 76
O MIDAS ETERNO ......................................................................................................................... 77
UM TREM DESTINO MACONDO-CRATERA ............................................................................. 80
AS LAVANDERIAS DE PARIS OU EXATOS 51kg ..................................................................... 71
4. CAPÍTULO QUARTO ............................................................................................................... 86
ÁRIDA TERRA, TERRA DE MINAS ............................................................................................. 87
CHEGANÇA OU AS MÃOS DE UMA VELHA SENHORA DE VINTÉNS ................................ 91
MALUNGO ...................................................................................................................................... 94
O CORONEL SANGRANDO .......................................................................................................... 96
ONDE AS ONÇAS BEBEM ÁGUA ................................................................................................ 98
15
5. INTERLÚDIO OU CONSIDERAÇÕES PARA NOVOS RECOMEÇOS,
NOVOS VEIOS DE OURO-GENTE .......................................................................................... 104
ENRICAR, PEDER TUDO... NOVAMENTE... OURO PRETO... SERRA PELADA ................. 105
CHUVA FINA COMO FIOS DE OURO... O ANDARILHAR ..................................................... 108
A LINGUAGEM CORRENTE DO GARIMPO DE SERRA PELADA ........................................ 116
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................................ 120
16
PREÂMBULO: CONSTELAÇÃO SENTIMENTAL1
É o mar que ancora o rio ou é a desembocadura de rio que avança mar adentro?
É o Rio que se avizinha da Amazônia, ou talvez seja a ponta de lança que se projeta
sobre o horizonte de águas profundas de uma história mal acabada? Mal acabada como
uma melodia gasta e empoeirada pela velhice do esquecimento. É o espírito diametral
da floresta e do litoral em busca de complementaridade? Algo nos diz, e cala, que seja
sim a busca de pares que procuram silenciosamente borrar fronteiras, muitas delas
esquadrinhadas pelas desigualdades federativas da república, ativadas, anteriormente,
com a derrocada de um território gigantesco e soberano anexado à força dentro do
processo conturbado de independência do Brasil. Processo este, aniquilador e
reconstrutor de memória como melancolicamente nos faz lembrar o escritor amazonense
Márcio Sousa2. É a história do vencedor, dita, escrita pelo vencedor, também nos diz
Paes Loureiro em texto fundamental intitulado Colonialismo Interno3 onde esmiúça as
vicissitudes do domínio sócio-econômico-cultural imposto à região amazônica pelo
poderio do eixo sudeste do país. E, viva Galvez4! Criam-se vazios, assombram-se as
distâncias, o oco sem eco “civilizatório” instala-se na mentalidade do novo novo Brasil,
sempre o novo a romper com arroubos de modernidade alienígena e arrogante, o
estabelecido. É o novo violentando contumaz o caduco da tradição, sempre visto como
1 Este texto foi escrito na Belém de 15 de agosto de 2014 para fazer parte do catálogo da exposição
Pororoca do Museu do Rio de Janeiro - MAR. Concebido no feriado em que se comemora o 191º
aniversário da adesão do Pará à Independência do Brasil.
2 SOUSA, Márcio. Breve História da Amazônia, Editora Agir, Rio de Janeiro, 2001.
3 PAES LOUREIRO, João de Jesus. Elementos da Estética. 2. Ed. Ampliada. Belém: Edições CEJUP,
1988.
4 SOUSA, Márcio. Breve História da Amazônia, Editora Agir, Rio de Janeiro, 2001.
4 PAES LOUREIRO, João de Jesus. Elementos da Estética. 2. Ed. Ampliada. Belém: Edições
CEJUP, 1988. Assim se refere o autor: Este é um livro de ficção onde figuras da história se entrelaçam
numa síntese dos delírios da monocultura. Os eventos do passado estão arranjados numa nova atribuição
de motivos e o autor procurou mostrar uma determinada fração do viver regional (SOUZA, 1985, p. 9). O
personagem Galvez representa este delírio, esta febre, esta fome e sede de grandeza.
17
conservador e ultrapassado. Contudo, muitas das vezes uma modernidade de segunda
água, tardã e requentada. Jamais o olhar de menino esquecerá a imagem televisiva de
Mundinho Falcão exibindo sua modernidade vencedora nas ruas de Ilhéus ao receber o
beijo de benção dado em sua mão pela baiana paramentada no final da novela Gabriela
exibida pela Rede Globo em 1975 baseada no romance homônimo do romancista Jorge
Amado. Em suas mãos de intendente eleito está toda a continuidade do ranço
conservador de Ramiro Basto, seu velho e diametralmente opositor: seu igual. É o
litoral e a floresta, é a sina das nossas elites moderno-conservadoras. E que viva a
tecnocracia? E que viva Max Weber5? O vazio de experiência humana é corroborado
pelo geógrafo e escritor Euclides da Cunha que, em missão científico-diplomática na
Amazônia do final do século XIX, depara-se com esta natureza que, segundo ele “É,
sem dúvida, o maior quadro da Terra; porém chatamente rebatido num plano horizontal
que mal alevantam de uma banda, à feição de restos de uma enorme moldura que se
quebrou (...)”6, um quadro vazio, um vazio de história. Vazio que nos induz a imaginá-
la, até hoje, como uma vastidão desabitada, um profundo abismo verde – rico em
biodiversidade e recursos minerais –, mas rarefeito em experiência humana a preenchê-
la. Acusa também o estudioso que o Amazonas é o menos patriota dos rios por depositar
seu corpo sedimentar nas costas da América do Norte. De que Amazônia real se queixa
o geógrafo? Contraditoriamente, dá-nos Euclides toda a chave de compreensão do que
alinhava o investimento imagético que os artistas, ao longo de décadas, pretenderam
constituir em suas aventuras - se é possível afirmar simplesmente como aventura a vida
vivida num cotidiano poeticamente pleno e complexo. Pode sim, pode se considerar
aventura e algo mais que não seja a superfície do exótico, do chapéu de campanha,
roupa safári e lupa. É o artista em seus meandros de águas barrentas e caudalosas. O que
nos trás Euclides da Cunha como compreensão de Amazônia no seu À margem da
História, coletânea de textos publicados postumamente em 1909, é o que nos trás oposta
e ironicamente o poeta e ensaísta Osório Duque-Estrada que visita Belém no mesmo
5 Max Weber (Erfurt, 21 de abril de 1864 - Munique, 14 de junho de 1920) foi um intelectual, jurista e
economista alemão considerado um dos fundadores do estudo moderno da sociologia, mas sua influência
também pode ser sentida na economia, na filosofia, no direito, na ciência política e na administração. Sua
obra mais famosa é A ética protestante e o espírito do capitalismo, composta por dois artigos e onde
inicia suas reflexões sobre a sociologia da religião.
6 CUNHA, Euclides da. À margem da história. São Paulo: Martin Claret, 2006.
18
ano do lançamento desta publicação e se encanta com o que o fausto da Borracha
proporciona a esta cidade encravada entre rios e floresta: “É de verdadeiro
deslumbramento a impressão que se recebe na capital do Pará, ao contemplar as
preciosas e opulentas coleções de quadros e objetos de arte acumulados em 65 galerias
de pintura pertencentes a amadores, ao Estado e à Intendência Municipal”7. É o retrato
do deslumbre. Da extravagância que não se acanha em contrair primeiras núpcias com o
mau gosto despudorado de frágeis e tristes raízes. É mesmo novo-riquismo que
verticaliza hoje esta Miami-Belém que pretende abrir janelas para o rio, e conquistar
paisagem, ao mesmo tempo em que dá as costas para as portas dos portos e feiras livres,
que dão acesso à realidade ribeirinha que a alimenta com o sumo grosso de sua ocultada
e desprezada identidade cabocla, identidade certamente múltipla e rica. É o desejo de
gentrificação total por excelência. Um mundo limpo, pasteurizado e ordeiro. Somente
quando há silêncio de feriado ouvimos os bate-estacas atingindo o fulcro da alma
paraense. Talvez a saída seja resgatar tantas mulheres como Guiomar, curandeira de
Jarilândia (AP) que trouxe à vida e benzeu tantos filhos dos outros como seus, assim
como trouxe à vida seu bisneto Gabriel que agora faz valer na Biotecnologia seu
passado pajé. Entre a imagem do vazio de experiência humana e o exagero da riqueza
material vive esta Amazônia e seus artistas. O garimpo de Serra Pelada seja talvez o
exemplo mais contundente deste mal-estar no mundo da Amazônia, seu retrato mais
fiel. Aquele que possui em sua síntese a dramaticidade do contrário, do contradito, do
contraditório em si próprio. Bachelard em sua aldeia recebeu alvíssaras sobre as águas
inquietas e silenciosas da aldeia de Dalcídio Jurandir 8? Escritor paraense posterior,
autônomo e atrevido como o próprio filósofo. O vazio acachapante de pensamento
embotado pela natureza opressora, apontado por Inglês de Souza9, a partir de seu olhar
inquiridor sobre a imagem literária de um caboclo agachado contemplando absorto o
7 DUQUE-ESTRADA, Osório. O Norte – Impressões de viagem. Livraria Chardron, Porto, 1909. p. 25.
8 Aqui se faz alusão à obra A água e os sonhos – ensaio sobre a imaginação da matéria (1989), de Gaston
Bachelard (1884-1962), e sua concepção poética do poder simbólico das águas, suas águas.
Particularíssimas são também as águas de Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras, ilha do Marajó, 1909 - Rio
de Janeiro,1979), romancista paraense, fundamental para a compreensão da alma amazônica. Talvez
águas complementares, contudo diferentes.
9 SOUSA, Inglês de. Contos amazônicos: conto: Voluntário, 1893. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
[Coleção Contistas e Cronistas do Brasil]
19
rio, é justa e igual em sua superioridade de quem se arvora a desvendar a alma
humana?10 Sinais de uma época cientificista do final do século XIX, compreendamos.
Respeitemos o contexto histórico, desrespeitemos sua ressonância forte aos nossos
ouvidos desbarroquizados do hoje. Ouvidos muito mais propensos ao discurso do
império da razão que a modernidade vem advogando. Ouvidos que tendem a negar os
meandros transcendentes do espírito humano. Claros e escuros, sinuosidades,
tempestades e desvãos. Queda e precipício. Nada, nada é linha reta. Não permitamos
que a sofisticação da ciência atual macule nossa sensibilidade poética ancestral.
Dissecar a alma – diriam nossos contemporâneos –, em sua intencionalidade e objetivo,
camada por camada, camadas de pele e músculos, pele e músculos apartados em carne
esgarçada, em couro ainda trêmulo de vida segundos após o abate. Seria possível? Seria
possível descarnar delicadeza? Seria possível descarnar delicadeza? Que mistérios
ocultam o ato criativo impossíveis de serem sondados? A isso, nos admoesta o velho e
sempre atual Vieira “Julgar mal uma obra boa, grande maldade é; mas julgar, ou bem ou
mal, um pensamento que não pode ser conhecido, ainda é mais tirania. Se não conheces
nem podes conhecer o pensamento, como te atreves, homem, a julgá-lo?”11. Desde que
se tiveram notícias epistolares sobre a Amazônia da descida de Orellana12 registrada por
Carvajal13 o imaginário preponderante da Amazônia oscila entre estes opostos: o olhar
10 Herculano Marcos Inglês de Sousa, Inglês de Sousa (Óbidos, 28 de dezembro de 1853 — Rio de
Janeiro, 6 de setembro de 1918) foi um escritor, advogado, professor, jornalista e político brasileiro, tido
como introdutor do naturalismo na literatura brasileira por meio do seu romance O Coronel Sangrado,
publicado em Santos (SP), em 1877. O Naturalismo foi uma escola literária conhecida pela radicalização
do Realismo, baseando-se na observação fiel da realidade e na experiência, mostrando que o indivíduo é
determinado pelo ambiente e pela hereditariedade, negando a existência de esferas transcendentes ou
metafísicas entendendo-as como redutíveis ou explicáveis nos termos das leis e fenômenos do mundo. O
naturalismo como forma de conceber o universo constitui um dos pilares da ciência moderna.
11 VIEIRA, Antônio. Sermão da Sexagéssima. Pregado na Capela Real, 1665. Fonte:
http://www.usp.br/cje/anexos/pierre/padreantoniov.pdf Acessado em 16-07-2017. O padre jesuíta Antônio
Vieira (Lisboa, 06 de fevereiro de 1608 - Salvador, 18 de julho de 1697) exerceu papel de suma
importância na Amazônia do séc. XVII como orador e político. Sua postura crítica, muitas vezes acintosa
e rebelde, fez com que angariasse inúmeros desafeto saído expulso do Estado do Maranhão e Grão-Pará,
em setembro de 1661, por reações contrárias às suas ações contra a escravidão dos povos nativos.
12 Francisco de Orellana (Trujillo, 1490 - rio Amazonas, c. 1550), foi um aventureiro e explorador
espanhol. Em 1535 participou, juntamente com Francisco Pizarro, na conquista do Peru. Entre 1540 e
1541, integrou a expedição de Gonzalo Pizarro que explorou o rio Napo; em seguida, prosseguiu com
alguns homens até ao vale do rio Amazonas, tendo sido o primeiro a percorrer integralmente o curso deste
rio, desde os Andes ao oceano Atlântico.
13 Gaspar de Carvajal (Trujillo, 1504 - 1584) foi um padre dominicano espanhol. Fez parte da expedição
de Gonçalo Pizarro (irmão de Francisco Pizarro), em 1540, de Quito à foz do Rio Amazonas, à qual
20
de dentro e o olhar de fora sobre a região. Como lidar com isso sendo deste locus? É
acompanhar esta realidade dada ou negá-la? Negar não é afirmar às avessas? Como
lidar com o passado sem negá-lo? Como existir sem passado? Somente uma cultura
híbrida como a nossa tem estas questões tão à flor da pele. Como estar no mundo, se
não a fustigá-lo com a nossa presença?! É querer autonomia, e agenda própria. Ninguém
nasce impunemente onde nasce! A todos nós, caminhos e desvãos. A todos nós, idas e
vindas. A todos nós que deixamos indícios, rastros, pegadas. A todos nós, saídas
labirínticas. A todos nós que transbordamos e somos tragados. A todos nós, fragmentos
e completude. A todos nós que agrupamos e partimos em debandada. A todos nós que
distendemos os laços e apertamos os nós. A todos nós. Uma constelação sentimental.
chegaram depois de dois anos e oito meses de viagem. Retornou então ao Peru, onde dirigiu conventos
em Lima e Cuzco. Foi também vigário em Tucumán. Da expedição ao Brasil escreveu Relación del nuevo
descubrimiento del famoso río Grande que descubrió por muy gran ventura el capitán Francisco de
Orellana.
21
CAPÍTULO_1
22
SOB O SÍGNO DAS DEVORAÇÕES – A AMÉRICA COLONIAL
“O sol brilha para todos! E eu desconheço a cláusula
do testamento de Adão que dividiu a terra entre
portugueses e espanhóis.” 14
Francisco I, rei da França
Figura 01 - Objeto da Série Sermoens (1997), de Armando Queiroz. Baseado na pregação do Sermão da
Primeira Dominga da Quaresma, na cidade de S. Luís do Maranhão, no ano de 1653.
Tudo, tudo é devoração. Insidiosos desde o início, o desejo de conquista e os
vislumbres de prosperidade material influenciaram os destinos do processo colonizador
nas Américas: o sonho de riqueza exploratória. Assim foi na América espanhola, assim
foi na América portuguesa (figura 01). O interesse pelos metais preciosos está expresso na
carta que anuncia o “achamento” da Terra de Vera Cruz a El Rei D. Manuel. Desejo
insuspeitado, dentro dos princípios mercantilistas adotados na Europa entre o século XV e
o final do século XVIII, pelos Estados-Nacionais, em suas práticas econômicas. Entre
14 Assim reagiu o Rei da França Francisco I ao Tratado de Tordesilhas, de 7 de junho de 1494. Disponível
em:
23
eles, o Bulionismo (do inglês: ouro em lingotes)15, também conhecido como Metalismo.
Assim expresso, podemos perceber o desejo por metais preciosos:
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma
alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao
pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires
Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa
alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia
fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o
colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e
depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E
também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra
e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!
(CAMINHA, 1500, p. 36)16
Tudo, tudo é devoração. A insistência deste desejo retorna clara neste outro
trecho da carta de Caminha, ainda ao receber dois nativos na Nau Capitânia:
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e
folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as
em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o
colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós nesse
sentido, por assim o desejarmos!
Tudo, tudo é devoração. Em terra, reforça-se o desejo:
Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia. E
ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falou,
enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos nós; mas ninguém o
entendia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com
respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra.
Tudo, tudo é devoração. O cineasta brasileiro Humberto Mauro realiza o filme O
descobrimento do Brasil, (1937), com trilha sonora de Heitor Villa-Lobos, subvencionado
15 O bulionismo ou bulhonismo ou metalismo é uma teoria econômica da Idade Moderna (1453-1789),
que quantifica a riqueza através da quantidade de metais preciosos possuídos. Foi uma das práticas
econômicas usadas no mercantilismo. Baseia-se na crença de posse e acúmulo de ouro e metais
preciosos. O metal é a maior fonte de riquezas, confundindo estes com capital, não investindo em
atividades lucrativas como manufaturas, comércio etc. Um exemplo de país bulionista no período
citado foi a Espanha, que não percebeu que o acúmulo de metais preciosos (ouro e prata) era apenas
uma ilusão de prosperidade, tornado-se periferia econômica na Europa, enquanto a economia
mineradora na América, principal fonte de riqueza espanhola, esgotava-se. Durante a Idade Moderna,
Espanha e Portugal, que buscavam uma balança comercial favorável por meio do monopólio,
defenderam o entesouramento de metais preciosos. Ver História da Economia. Disponível em:
.
16 CAMINHA, Pero Vaz de. Carta de Pero Vaz de caminha. In: Carta a El Rei D. Manuel. São Paulo:
Dominus, 1963. Fonte: Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística (NUPILL) ©
LCC Publicações Eletrônicas.
24
pelo Instituto de Cacau da Bahia, coincidentemente lançado no mesmo ano do golpe de
estado que levou Getúlio Vargas ao poder (Estado Novo 1937-1945). Percebe-se, neste
filme, a carga de sua época (Figura 02), quando a busca de um nacionalismo exacerbado e a
adesão incondicional do indígena ao trabalho de construção da nação brasileira são motes
fundamentais: nada é conflituoso, tudo é venturoso.
Figura 02 - Frame do filme O descobrimento do Brasil (1937), de Humberto Mauro.
Tudo, tudo é devoração. O filme é narrado em forma de documentário,
baseando-se em fragmentos de textos extraídos da Carta de Pero Vaz de Caminha. Uma
tentativa de atribuir visualidade ao que seria o primeiro contato dos portugueses com as
terras que viriam a ser brasileiras, suas gentes e, sobretudo, a afirmação de desejos-
chave: o desejo civilizatório e o desejo exploratório. A ambivalência destas intenções
não escapa à crítica, intitulada Uma tradução de Pero Vaz, que o escritor Graciliano
Ramos faz ao filme inspirado na carta de Caminha:
Os estrangeiros se extasiam na presença dos hóspedes beiçudos e pintados
que jogam fora a comida e cospem a bebida. São uns santos os portugueses,
têm uma expressão de beatitude que destoa das façanhas que andaram
praticando em Terras de África e de Ásia e por fim neste hemisfério. É o
próprio almirante que põe cobertores em cima dos selvagens e lhes arruma
25
travesseiros com uma solicitude, uma delicadeza de mãe carinhosa. Os
visitantes praticam numerosos disparates - e os brancos não desmancham um
sorriso de condescendência babosa.
Diante do invariável sorriso, chega-nos uma idéia triste. Se os europeus
procederam de semelhante modo, foram os maiores canalhas do universo,
pois enganaram, adularam torpemente os desgraçados que pouco depois iam
exterminar.
Mas a intenção dos criadores da melhor película brasileira não foi denegrir o
invasor: foi melhorá-lo, emprestar-lhe qualidades que ele não tinha. Se nos
mostrassem apenas ofertas de cascavéis e voltas de contas, muito bem. Mas
vemos um sorriso beato nos lábios daqueles terríveis aventureiros, vemos o
comandante da expedição, com desvelo excessivo, lançar cobertas sobre os
tupinambás e retirar-se nas pontas dos pés, para não acordá-los. Como não é
possível admitir que o almirante pretendesse iludir criaturas adormecidas, é
razoável supormos que ele tinha um coração de ouro.
Sabemos, porém, que os que vieram depois dele foram muito diferentes.
E lamentamos que nesse trabalho de Mauro, trabalho realizado com tanto
saber, se dêem ao público retratos desfigurados dos exploradores que aqui
vieram escravizar e assassinar o indígena (RAMOS, 1962).17
Tudo, tudo é devoração. A ideia de riqueza confunde-se como a ideia de
acúmulo. Rico materialmente é o indivíduo, o grupo ou a sociedade que acumula.
Oriundo da necessidade de previdência às intempéries e aos períodos de escassez de
alimentos e combustível, o acúmulo faz parte da lógica de sobrevivência de inúmeros
grupos humanos, marcando a passagem do nomadismo à fixação do homem a terra.
Acumular significa estar livre dos rigores da natureza. Libertar-se dos períodos de estio
e das oscilações climáticas. Contudo, além das qualidades intrínsecas que o valor
material do acúmulo de riquezas proporciona às sociedades, o valor simbólico da
riqueza é primordial para a manutenção das estruturas sociais, diferenciando os grupos e
indivíduos que nela atuam. De todos os materiais utilizados pelo homem para esta
tarefa, o ouro, devido às suas características especiais, talvez seja o mais adequado para
isso.
Tudo, tudo é devoração. Na história da metalurgia, a importância do ouro difere
da do ferro, do chumbo, da prata e das ligas com o bronze. Se o avanço do
conhecimento tecnológico na manipulação dos metais possibilitará uma eficiência maior
no uso destes materiais na criação de objetos utilitários, sobretudo na confecção de
armamentos cada vez mais eficazes, será justo no valor simbólico que o ouro se
17 Trecho do livro Em Linhas Tortas, obra póstuma de Graciliano Ramos, 1976, p. 143-144.
26
destacará dos demais. Para isso, devemos levar em consideração a sua raridade e
permanência, características apropriadas simbolicamente por diversas culturas que
tiveram contato com este metal, ao qual atribuíram o valor representativo dos deuses e
da realeza: o ouro reluz, brilha como o sol, e permanece.
Tudo, tudo é devoração. Permanecer incólume diante dos olhos é desejar a
continuidade matérica das coisas e das situações. Talvez seja por esta razão que o ouro é
o metal mais utilizado para alianças de casamento ou compromisso, pois o seu brilho
não diminui com o passar do tempo. No Egito antigo, o ouro era considerado como a
pele dos deuses.18 Como é um metal que não sofre corrosão, foi considerado um metal
eterno, simbolizava a imortalidade e a vida eterna, diferentemente do que é mundano,
do que se corrompe com o tempo, do que é corruptível, o ouro permanece intacto.
Tudo, tudo é devoração. Movidos pelo desejo do acúmulo de metais preciosos,
espanhóis, portugueses, franceses e holandeses, ao chegarem às Américas, não estariam
livres do reforço de construção do imaginário em torno do ouro. A carga imagética que
trouxeram, o desejo premente em obtê-lo, aliados aos mitos locais, contribuíriam para
sedimentar aos poucos uma gramática de imagens que davam conta de cidades banhadas
a ouro e reis salpicados de dourado. Desta maneira, não é de se estranhar que a ideia de
um Eldorado fosse tão atraente para os europeus, originária de uma antiga lenda
relatada pelos índios aos espanhóis no início da colonização. A narrativa falava de uma
cidade dourada, na qual as construções seriam feitas de ouro, ouro maciço, de tesouros
em quantidades extraordinárias.
Tudo, tudo é devoração. Eis uma das versões sobre O Reino do Eldorado que
permaneceu viva na Amazônia do século XIX, relatado no livro Reminiscências de
viagens e permanência no Brasil, publicado em 1845 pelo missionário metodista norte-
18 Por volta de 2500 a.C., os reis do Egito tinham cinco nomes. Os cinco títulos reais consistiam em
quatro nomes que eram dados ao rei quando este subia ao trono, e um quinto nome que era escolhido
quando do nascimento do futuro rei. O terceiro nome, o Hórus Dourado. As origens desse nome podem
ser seguidas nas inscrições reais da primeira e terceira dinastias e também na Pedra de Palermo. Era
simplesmente inscrita com o hieróglifo que significava ouro. Quando foi introduzida no período
dinástico antigo, talvez simbolizasse a divindade do rei (o ouro era considerado eterno e se acreditava
que a pele dos deuses era de ouro; o ouro, portanto, era a representação da divindade). O ouro também
simbolizava o sol nascente. Fonte:
27
americano Daniel Parish Kidder19. O missionário esteve no Brasil por duas vezes, de
1836 a 1837 e de 1840 a 1842, em viagem de ministério evangélico pelo nordeste e pela
Amazônia:
Esse reino fabuloso era conhecido pelo apelido de seu monarca o qual, ao que
então se dizia, para ostentar trajo mais suntuoso que o de qualquer potentado
da terra, cobria seu corpo, todos os dias, com uma nova camada de ouro em
pó. Para tanto fazia friccionar a pele com raríssima resina aromática, a qual a
preciosa poeira aderia, soprada através de tubo. Graças a essa indumentária
bárbara, os espanhóis o apelidaram de Eldourado. Nenhuma fantasia que se
relacionasse com tal monarca parecia por demais extravagante para que se lhe
desse crédito. Supunha-se que ele residisse na grande cidade de Manoa, onde
nada menos de três mil operários trabalhavam na rua dos ourives. As colunas
do palácio real eram de porfírio e alabastro, o trono, de marfim e os degraus,
que a ele conduziam, de ouro maciço. Outros imaginavam um palácio
construído de pedra branca, ornado de sóis de ouro e luas de ouro, tendo as
portas guardadas por leões vivos, presos em correntes de ouro. Fascinados
por semelhantes sonhos, comandantes e soldados do exército de Pizarro
partiram, acalentando as mais ousadas esperanças. Seguindo para leste de
Quito, foram obrigados a abrir caminho através da floresta, escalar
montanhas e enfrentar tribos hostis. A todos os índios que encontravam,
perguntavam do “Eldourado” e, se não obtinham informações satisfatórias,
torturavam os míseros silvícolas. Alguns eram queimados vivos, outros
estraçalhados por molossos bravios, especialmente ensinados pelos espanhóis
a se alimentarem de carne humana (KIDDER, 1845).20
Tudo, tudo, é devoração. Desta maneira, o termo Eldorado pode ser
compreendido como um local dourado, uma cidade dourada; ou personificando a figura
de um imperador, cacique ou sacerdote: o homem dourado. Como também mesclar estes
elementos em domínios, cidade e homem.
Tudo, tudo é devoração. A muitas outras regiões do Novo Mundo foram
atribuídas a localização do Eldorado: algum ponto remoto da América Central; o
Planalto das Guianas; a região entre a Guiana, a Venezuela, o Brasil, no atual estado de
Roraima – ou até mesmo o Deserto de Sonora, no México. Acreditava-se também que o
Eldorado estava localizado nas nascentes do rio Amazonas. Reforçava esta crença os
relatos do padre dominicano Frei Gaspar de Carvajal, integrante da expedição do
navegador espanhol Francisco de Orellana, que desceu de Quito à foz do Rio
19 Daniel P. Kidder (Darien, 1815 - Evanston, 1891) foi uma figura importante dos primórdios do
protestantismo brasileiro. Ele viajou por todo o país, vendeu Bíblias e manteve contatos com
intelectuais e políticos destacados, como o padre Diogo Antônio Feijó, regente do império (1835-
1837). Fonte:
20 Ver Kidder (1980), com adaptação em História do Pará: Amazônia. Belém: SEMEC; CEJUP, 1992. p.
36.
28
Amazonas, à qual chegaram depois de dois anos e oito meses de viagem (1541-1542).
Desta expedição, escreveu Relación del nuevo descubrimiento del famoso río Grande
que descubrió por muy gran ventura el capitán Francisco de Orellana, considerado o
primeiro registro escrito da existência das guerreiras amazonas, as Icamiabas, e de
grandes rios interligados por um grande lago sob a linha do equador, que seria
denominado lago Manoa ou lago de Parimé, onde ficaria, em sua proximidade, o tão
inatingível Eldorado (Figura 03).
Figura 03 - Peça em ouro pertencente atualmente ao Museu do Ouro de Bogotá.
Foto: Sara y Tzunki / Creative Commons.
Tudo, tudo é devoração. As sociedades amazônicas desconheciam a
ourivesaria, metalurgia e não constituíam Estados. Gonzalo [Pizarro] atinge o País da
Canela, que não era exatamente o que ele pensava (ele só encontrara poucas árvores
de canela). A expedição fracassara e não havia mais comida para as tropas. Gonzalo
decidiu mandar o Capitão Francisco de Orelhana descer o rio em busca de
mantimentos, para depois retornar. Orelhana seguiu o curso do rio em busca de
29
mantimentos e, não os encontrando, decidiu prosseguir viagem, a despeito das ordens
de Pizarro (Figura 04). O provável objetivo do capitão era descobrir o lago do El
Dorado (MATTOS, 2011).21
Figura 04 - Mapa do trajeto da expedição de Francisco de Orellana (1541-1542).
Fonte: http://www.gentedeopiniao.com/lerConteudo.php?news=37583
Tudo, tudo é devoração. Em 1972, o cineasta alemão Werner Herzog leva às
telas de cinema a dramática expedição comandada por Lope de Aguirre e Dom Pedro de
Urzua em busca do Eldorado. Aguirre, a Cólera de Deus (Aguirre, der Zorn Gottes),
teve como base de inspiração os escritos de Frei Gaspar de Carvajal que, como dito
acima, também desceu o rio Amazonas em expedição (Figura 05). Esta livre adaptação
se passa em 1561, narrando os inúmeros contratempos desta malfadada expedição.
Destaca-se a figura de Don Lope de Aguirre, em interpretação magistral Klaus Kinski,
como o insano conquistador devastado por sua impossibilidade de encontrar o Eldorado.
Tudo, tudo é devoração. Nada aconteceu como planejado. O seu olhar alucinado
e o corpo desfigurado pela carga da obsessão são sintomáticos. Para o crítico de cinema
Nikola Matevski22: “O que interessa a Herzog não é a História em sua dimensão épica,
mas a miudeza das relações humanas no seio de uma coletividade isolada da civilização
e cercada pelo desconhecido”. Busca, na verdade, “destituir a narrativa e os personagens
de qualquer grandeza romântica enquanto os submete às forças imponderáveis da
natureza”. Séculos depois, após o fechamento da exploração do ouro em Serra Pelada
21Ver Mattos (2011). Disponível em: .
22 Texto crítico sobre o filme Aguirre, a cólera de Deus (Aguirre, der Zorn Gottes). Disponível em:
http://olhardecinema.com.br/movie/aguirre-a-colera-dos-deuses/ Acessado em 14/07/2013.
30
(1992), o olhar vago e corpo “fincado” à terra vermelha do garimpo serão também
sintomáticos: é o peso excessivo do ouro.
Figura 05 - Cena do filme Aguirre, a cólera dos Deuses, 1972.
Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-87601/fotos/detalhe/?cmediafile=18930519.
Tudo, tudo é devoração. Resquícios desta lenda sobrevivem até os nossos dias.
Mesmo não tendo sido localizado o Eldorado, muito ouro e prata foram descobertos nas
Américas, em territórios como o Alto Peru, Sudeste do Brasil, Minas Gerais, Goiás, e
nas regiões onde viviam as civilizações Asteca, Inca e Maia. Contudo, a opulência
vislumbrada desde os primeiros exploradores europeus nunca foi alcançada. Nenhuma
quantidade de ouro foi suficiente para recobrir catedrais e catedrais e mesmo assim,
tanto ouro foi levado! O que dizer, então, do desejo civilizatório europeu no novo
continente, intermediado pelas inúmeras ordens religiosas que acorreram em busca de
salvação dos gentis no grande teatro barroco do mundo?
31
Tudo, tudo é devoração. O que acontecerá com esta “arte selvagem, bastarda,
degenerada da Renascença” 23 em contato com as terras do Novo Mundo? Diferentemente
dos ideais renascentistas de ordem e domínio apolíneo do mundo, o barroco claudica.
Como uma pérola imprevisível, imperfeita e bela, a pacionalidade barroca atravessa os
mares do sul. Um mundo em franca transformação, conturbado, febril. O Brasil é
barroco, sua essência é barroca. Ao se referir ao Barroco como estilo artístico vinculado
diretamente a acontecimentos de ordem histórica, religiosa, econômica e social nas novas
terras, dificilmente se desvinculará a ideia de um pensamento implantado em uma
realidade adversa, que responderá ao seu modo, de acordo com as circunstâncias especiais
ativadas pelo descompasso, seja na América espanhola, seja na América portuguesa. Um
Barroco tropical. Um Barroco dos trópicos (Figura 06).
Figura 06 - Igreja São Francisco da Penitência (1657-1733), Rio de Janeiro. Aqui, justamente, vemos uma
catedral revestida de ouro! Pelo menos essa é no Brasil… mas quantas não foram revestidas na Europa...
Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rio-Igreja-Penitencia4.jpg
23 Assim, o historiador suíço Jacob Burckhardt considera o Barroco em seu livro Cicerrone (1855), citado
por Suzy de Mello (MELLO, 1983: p.8).
32
Tudo, tudo é devoração. O surgimento do Barroco originário da Europa confunde-se
com o início dos governos absolutistas europeus, com especial ênfase para a França, Áustria
e Alemanha, momento em que os reis foram considerados senhores absolutos, com amplos
poderes adquiridos pelo o que se considerava direito divino. E, como tal, passaram a exigir
das artes a sua glorificação pessoal.
Tudo, tudo é devoração. Outro fator decisivo para a configuração do que seria o
Barroco surge após a revolta de Lutero contra o Papa Leão X (1520), que resultou na
Reforma Protestante, obrigando a Igreja Católica a rever suas atitudes quanto aos
principais dogmas e ao seu próprio funcionamento, ocasionando a redução do abuso do
poder papal e religioso em geral, como foi determinado no Concílio de Trento (1545-
1563), motivando um amplo movimento de revitalização dos sentimentos religiosos,
incluindo a fundação de várias ordens religiosas, entre as quais a Companhia de Jesus, por
Ignácio de Loyola (1534), para maior e mais dinâmica difusão da fé católica. Este
movimento chamado Contra-Reforma, também trouxe novos condicionamentos para as
artes e se ligou intimamente ao plano de conquista do Novo Mundo.
Figura 07 – Objeto: vidrinho com coroa e purpurina (1997), de Armando Queiroz.
Este objeto faz parte da série Sermões. Foto: Flavya Mutran.
33
Tudo, tudo é devoração. Diferentemente de outras regiões conquistadas pelas
coroas espanholas e portuguesas – e demais nações rivais nas Américas, das quais se
tem notícia da descoberta significativa de ouro e prata, em territórios como o Alto Peru,
Sudeste do Brasil, Minas Gerais, Goiás, e nas regiões onde viviam as civilizações
Asteca, Inca e Maia a frustração por sua ausência na Amazônia é visível à época. Assim
atesta o Sermão da Primeira Oitava de Páscoa, pregado pelo padre Antônio Vieira, na
Matriz da Cidade de Belém no Grão-Pará, em 1656. “Na ocasião em que chegou a nova
de se ter desvanecido a esperança das minas, que com grandes empenhos se tinham ido
descobrir”24. O pregador consola:
Nos autem sperabamus: Esperávamos de ter minas, e estamos desenganados
de que as não há. Muitas vezes está a nossa perdição em sucederem as coisas
como esperamos. Maldição de Jó à noite. O ouro e a prata as mais das vezes
são como os dois cabritinhos de Jacó, com que enganou ao pai cego para
levar a benção de Esaú. Qui sunt hi sermones, quos confertis ad invicem
ambalantes, et estis tristes? Que práticas são estas que ides conferindo entre
vós, e de que estais tristes? - Esta foi a pergunta que fez Cristo, Redentor
nosso, aos dois discípulos que iam de Jerusalém para Emaús. E se eu fizesse
a mesma no nosso Belém, e perguntasse às vossas conversações por que
estais tristes, é certo que me havíeis de responder como eles responderam:
Nos autem sperabamus: Esperávamos de ter minas, e estamos desenganados
de que as não há, ou esperávamos que se descobrissem, e não se descobriram.
E se eu instasse mais em querer saber o discurso ou consequência com que
sobre este desengano fundais a vossa tristeza, também é certo havíeis de
dizer, como eles disseram, que no sucesso que se desejava e supunha,
estavam livradas as esperanças da redenção, não só desta vossa cidade, e de
todo o Estado, senão também do mesmo Reino: Nos autem sperabamus quia
ipse esset redempturus Israel. Ora, ouvi-me atentamente, e – contra o que
imagináveis, e porventura ainda imaginais - vereis como nesta, que vós
tendes por desgraça, consistiu a vossa redenção, e de quantos trabalhos,
infortúnios e cativeiros vos reuniu e vos livrou Deus em não suceder o que
esperáveis (VIEIRA, [1656], 1998).
Tudo, tudo é devoração. Outro sermão do padre Antônio Vieira, o da Quarta-
feira de Cinzas, pregado em Roma, na Igreja da Santo Antônio dos Portugueses,
também nos faz refletir sobre a condição humana segundo a perspectiva de
transitoriedade da vida e de uma riqueza não terrena (Figura 07):
[...] Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverterio, não é
necessário fé nem entendimento para o crer. N’aquelas sepulturas, ou abertas
24 Ver VIEIRA, Pe. Antônio. (1656). Sermões. Erechim: Edelbra, 1998. Disponível em:
. Acesso em: 5 jun.
2013.
34
ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem
aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há,
é o nada que havemos de ser: tudo pó. Vamos, para maior exemplo, e maior
horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são
pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epithafios (que só as distingue):
Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, este
que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente. De sorte que para eu crer
que hei de ser pó, não é necessário fé nem entendimento, basta vista
(VIEIRA, [1672], 1998).
Tudo, tudo é devoração. Na Praça d’armas do Forte do Presépio resiste às
intempéries e às transformações do tempo, uma pegada humana. Fixada em uma das
peças da tijoleira que compõe o piso onde seria o refeitório da fortificação, a pequena
marca foi impressa em argila fresca: a marca de um pé. Um de criança, provavelmente
ainda de colo.25 Para mim, eis a marca do desejo e da ausência traduzidos neste vídeo
(Figura 08).
Figura 08 - Frame do vídeo El Dourado (2007), de Armando Queiroz.
25 Descrição do Vídeo El Dourado (2007), de Armando Queiroz.
35
A AMAZÔNIA DO SÉCULO XX - A PROLIFERAÇÃO DOS GARIMPOS
“Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!”
Macunaíma, 1928
Mário de Andrade.
Tudo, tudo é devoração. Passados séculos sem a descoberta significativa de
metais preciosos na Amazônia, o início da fase atual da garimpagem na região se deu
em 1958, ano em que foram descobertas as primeiras jazidas de ouro na região do
Tapajós, historicamente marcada pelo extrativismo da borracha e outros produtos de
valor econômico. Contudo, diferentemente do seringal, uma nova forma de relação
econômica se implantará. Se tradicionalmente a remuneração do seringueiro dependia
da produção e do preço da borracha na venda, com a chegada dos garimpos, os seus
proprietários passaram a se apropriar, sozinhos, da renda gerada nas áreas de alta
produtividade, com o estabelecimento do trabalho assalariado. A complexidade das
relações econômicas, a carência de planejamento estratégico eficaz para a região, os
conflitos agrários, desembocaram nesta nova realidade que é o garimpo. Vale lembrar
que nessa década havia focos de garimpagem nos seguintes municípios paraenses: São
Félix do Xingu, Altamira, Marabá, Almeirim, Oriximiná, Gurupi, Senador Porfírio,
Itupiranga, Jacundá, Porto de Moz e Portel (IDESP, 1966, p. 68).
Entre os fatores que contribuíram para que ocorresse (a valorização do
processo de extração mineral) destacamos dois: um aumento significativo de
preço do metal, que se registrou em 1971, sendo que esse aumento reflete os
sintomas da crise no sistema financeiro internacional e a perda da hegemonia
econômica dos Estados Unidos. Soma-se a isto o anúncio pelo Presidente
Médici em 1970 de um conjunto de medidas que visavam a transformar a
Amazônia em um espaço (“milagroso”), que se encaixaria dentro da
perspectiva do milagre econômico, transformando-a em um local de resolver
os problemas dos flagelados da seca do nordeste. O Programa de Integração
Nacional (PIN) previu a construção de grandes rodovias (Transamazônica,
Santarém-Cuiabá) e o Programa de Redistribuição de Terras ficou
responsável pelo assentamento dos imigrantes (BRITO et al., 1997, p.13).
Tudo, tudo é devoração. Este processo voraz de ocupação da Amazônia não
passa despercebido pelos cineastas Jorge Bodanzky e Orlando Senna, que dirigem
Iracema, um transa amazônica. Uma produção teuto-franco-brasileiro de 1976. Atentos
ao impacto provocado pela rodovia Transamazônica na vida e nos anseios das
populações atingidas, este drama que mescla o ficcional ao documental, esteve proibido
no país desde o seu lançamento e oficialmente só foi lançado no Brasil em 1981. A
36
trama segue os caminhos e descaminhos de um caminhoneiro e uma jovem prostituta.
Descortina-se a Rodovia Transamazônica recém-construída, e todo o ideário
desenvolvimentista e ufanístico do governo militar à época, que vai de 1964 a 1985.
Este governo foi caracterizado pela falta de democracia, supressão de direitos
constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime
militar. Transgressor, o filme desafia os personagens não ficcionais, ao serem
provocados, desvelem as contradições dos discursos impostos e a realidade nua. No seu
caminhão, Tião “Brasil Grande” tem no para-brisa o famoso adesivo "Brasil, ame-o ou
deixe-o" (popularizado pelo regime militar) e no para-choque está escrito "Do destino
ninguém foge" (Figura 09).
Figura 09 – Cena do filme Iracema, uma transa amazônica (1976), de Jorge Bodanzky e Orlando Senna.
Fonte: http://pensandocinema.arteblog.com.br
Tudo, tudo é devoração. Outro filme fundamental que mergulhará neste Brasil
profundo é Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues. O filme adentra num país
esquecido, abandonado pelas inúmeras levas de modernidade que, não estabelecidas a
contento, vão deixando suas marcas de desilusão, de deserdados. Um Brasil a ser
37
expurgado, velho, obsoleto, rural, indígena, popular. Incompatível com a ideologia
ufanista propalada pelo poder econômico e político brasileiro à época em que o filme foi
rodado. Mas, por que não dizer de hoje? Um Brasil ingênuo ou que resiste ao seu
modo? Em pleno século XVII, o Padre Antônio Vieira observa:
Os que andastes pelo mundo, e entrastes em casas de prazer de príncipes,
veríeis naqueles quadros e naquelas ruas dos jardins dois gêneros de
estátuas muito diferentes, umas de mármore, outras de murta. A estátua de
mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas,
depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão:
sempre conserva e sustenta a mesma figura; a estátua de murta é mais fácil
de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário
andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve. Se
deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias sai um ramo que lhe atravessa
os olhos, sai outro que lhe descompõe as orelhas, saem dois que de cinco
dedos lhe fazem sete, e o que pouco antes era homem, já é uma confusão
verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre umas nações e outras na
doutrina da fé. Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as
quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus
antepassados; resistem com as armas, duvidam com o entendimento,
repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão
grande trabalho até se renderem; mas, uma vez rendidos, uma vez que
receberam a fé, ficam nela firmes e constantes, como estátuas de mármore:
não é necessário trabalhar mais com elas. Há outras nações, pelo contrário
— e estas são as do Brasil —, que recebem tudo o que lhes ensinam, com
grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar,
sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a
tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e
natural, e a ser mato como dantes eram. É necessário que assista sempre a
estas estátuas o mestre delas: uma vez, que lhes corte o que vicejam os
olhos, para que creiam o que não vêem; outra vez, que lhes cerceie o que
vicejam as orelhas, para que não dêem ouvidos às fábulas de seus
antepassados; outra vez, que lhes decepe o que vicejam as mãos e os pés,
para que se abstenham das ações e costumes bárbaros da gentilidade. E só
desta maneira, trabalhando sempre contra a natureza do tronco e humor das
raízes, se pode conservar nestas plantas rudes a forma não natural, e
compostura dos ramos (Pe. António Vieira. Fragmento do Sermão do
Espírito Santo, capítulo III, 1657).
Tudo, tudo é devoração. Com o intuito de investigar a integração de um Brasil
velho com um novo, o filme de Cacá Diegues acompanha o deambular da Caravana
Rolidei e seus personagens que atravessam o país sempre em busca de um lugar
paradisíaco. Um lugar sem a presença das “espinhas de peixe”: antenas de televisão
que anunciam outro país sem lugar para a magia do circo, ícone da vida de sonhos
perambulantes. Um país integrado pelos meios de comunicação, mas
contraditoriamente não enxerga a si na sua pluralidade, na sua multiplicidade de
culturas. De cima para baixo, pretendem homogeneizar as realidades, fazendo com
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que esta integração permaneça melancolicamente incompleta. Segundo o crítico de
cinema Rafael Leopoldo “Esta conexão por sua vez envolve uma relação de poder
complexa que o filme mostra muito bem, abarcando a intricada relação entre
variedades culturais, entre os centros e as periferias”26. O crítico complementa, ao
analisar a cena da chegada da Caravana a Altamira, na máxima fusão do rural e do
urbano, naquele lugar em que se pensou que iriam achar um Brasil virgem,
encontraram a face obscura do progresso. “As relações humanas pautadas pelo valor
monetário e oportunidades de negócios, as ruas sujas, as novas fábricas, o capital
estrangeiro envolvendo as relações sociais, o contrabando da matéria-prima, e é neste
clima que a Caravana então se desfaz”27 (Figura 10). Se desfazem Brasis, em
detrimento de outro Brasil. Assim a ficção, assim a realidade.
26 Texto Vozes em off (2012), de Rafael Leopoldo.
Disponível em http://vozesemoff.wordpress.com/2012/12/18/bye-bye-brasil-o-multiculturalismo-em-
caca-diegues/ Acessado em: 13/01/2018.
27 Referencia também extraída do texto Vozes em off (2012), de Rafael Leopoldo.
Disponível em http://vozesemoff.wordpress.com/2012/12/18/bye-bye-brasil-o-multiculturalismo-em-
caca-diegues/ Acessado em: 13/01/2018.
39
Figura 10 - Still do filme Bye Bye Brasil, 1979.
Fonte: http://horizontesafins.wordpress.com/2012/06/19/bye-bye-brasil/ Acessado em junho de 2013.
BREVE HISTÓRIA DE SERRA PELADA
“A história aflora como o ouro”
Márcia Bezerra
Tudo, tudo é devoração. Em perdas e ganhos se resume a história de Serra
Pelada – um lugar de extremos, de contrastes assustadores. De acordo com o jornalista
Ricardo Kotscho,28 que realizou inúmeras reportagens sobre Serra Pelada à época, a
história da garimpagem naquela região se inicia em 1976, quando um geólogo do
Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) identificou amostras de ouro no
sul do Pará. Inicialmente mantida em sigilo, a notícia começou a se alastrar em 1977
(Figura 11). Em outubro do mesmo ano, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD),
detentora do direito de lavra da região, confirma a presença de ouro na Serra dos
28 Ver “Serra Pelada – uma ferida aberta na selva” (KOTSCHO, 1984). O livro reúne uma série de
reportagens de Kotscho sobre a história e o contexto do garimpo no auge dos acontecimentos, a partir
de relatos e personagens inesquecíveis.
40
Carajás. Em 1979, alguém encontrou ouro num local que ficou conhecido como Grota
Rica, dentro da fazenda Três Barras, do “velho” Genésio. Dias depois, como um rastro
de pólvora, a fazenda foi ocupada por garimpeiros. De acordo com o depoimento de
José Mariano dos Santos, o Índio – um dos mais famosos garimpeiros de Serra Pelada –
assim iniciou-se a saga do ouro:
Aí então tinha a casinha (do funcionário do Genésio), e toda tarde a mãe
levava ela (a filha) pra tomar banho, e sabe como é... criança gosta de tá
malinano, abrindo os olhos dentro d’água. Aí a menina encontrou uma pedra
brilhosa, só que nem o próprio Genésio conhecia ouro. 29
Tudo, tudo é devoração. Certamente se ouvirão inúmeras versões sobre o
descobrimento de ouro em Serra Pelada. Contudo, a construção simbólica desta versão
acima descrita, através das memórias dos remanescentes de Serra Pelada, reconstrói de
maneira marcante o sentido de pureza, talvez maculado dia após dia, na busca
desenfreada do enriquecimento imediato, vivenciado por mais de 90 mil homens
vorazes pelo ouro naquele garimpo. Sangue-mercúrio. Desdita e sorte. Queda e
ascensão. Lama e suor. Fagulha de riqueza. Sim, tudo é devoração.
Figura 11 - Jornal Nacional: Reportagem sobre o garimpo de Serra Pelada (jul/1982).
Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=sUg6J0t-6nk Acessado em junho de 2013.
29 Depoimento coletado por Márcia Bezerra (BEZERRA; RAVAGNANI, 2011).
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Tudo, tudo é devoração. Como conhecer o depoimento do Sr. Índio e não se
lembrar desta passagem de Macunaíma, de Mário de Andrade, o qual também padeceu
pelos encantos enganadores do fundo dos rios:
Macunaíma depôs com delicadeza os legornes30 na praia e se chegou pra água.
A lagoa estava toda coberta de ouro e prata e descobriu o rosto deixando ver o
que tinha no fundo. E Macunaíma enxergou lá no fundo uma cunhã lindíssima,
alvinha e padeceu de mais vontade. E a cunhã lindíssima era a Uiara
(ANDRADE, 1928, p.35).
Tudo, tudo é devoração. Mário de Andrade nos convoca a isso, a deixar-se
devorar pelo reflexo de si no espelho das águas não temendo o turvo das profundezas
ricas em fabulação. Deixar-se devorar por sua própria imagem confundida com o fundo.
Superfície e profundidade. Superfície concernente ao pragmático da vida, àquilo que
atende às necessárias básicas do sustento material: objetividade e praticidade.
Profundidade, mais relacionada ao deslumbre, ao devaneio que não possui limites.
Sobreposição de realidades e desejos. Entre o enricar e o perder tudo, ainda permanecem
os garimpeiros e suas histórias.
Dezembro de 1979, o ouro é encontrado na fazenda do velho Genésio – enricar –
perder tudo – enricar – perder tudo – Uma aberração geológica – enricar – perder tudo –
Entre fevereiro e março de 80, 30 mil homens chegam ao local – enricar – perder tudo –
enricar – perder tudo – enricar – Grota rica, ouro encontrado na superfície do rio –
perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo –
enricar – Revólver 38 – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – 1983, época do
formigueiro humano – perder tudo – enricar – perder tudo – perder tudo – Começaram a
descer os barrancos – perder tudo – Revólver 38 – enricar – enricar – perder tudo –
enricar – perder tudo – enricar – perder tudo perder tudo – enricar – perder tudo – enricar
– perder tudo – Revólver 38 – enricar – perder tudo – enricar – 2 x 3 metros de palavra de
homem – enricar – perder tudo – enricar – Revolver 38 – perder tudo – enricar – perder
tudo – enricar – Reque – perder tudo – enricar – O grosso estava no pó dourado –
enricar – perder tudo – enricar – Sócios do barranco – perder tudo – enricar – perder tudo
– Os trabalhadores recebiam diárias e uma pequena porcentagem na exploração – enricar
– perder tudo – enricar – O solo retirado era quebrado, lavado e passado no mercúrio –
30 Legorne, palavra derivada do inglês Leghorn, designa a raça de galinha poedeira de ovos brancos,
oriunda da Cidade de Livorno, Itália.
42
perder tudo – enricar – perder tudo – Ao aquecer a mistura dos dois metais o mercúrio
evapora primeiro, deixando para trás a riqueza dourada – enricar – perder tudo – enricar
– perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – Muita gente enricou –
enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – Em 1984, o presidente
Figueiredo pagou uma indenização de US$ 69 milhões à Vale, então estatal – perder
tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar –
enricar – Indenização à Companhia Vale do Rio Doce, que detinha o direito de
exploração mineral da área, incorporado da Amazônia Mineração S/A em 1981 – perder
tudo – perder tudo – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo –
enricar – perder tudo – O acordo previa o fechamento do garimpo em três anos ou por
mais vinte metros de profundidade, quando alcançaria a cota 190, número que
representa a altitude em relação ao nível do mar – enricar – perder tudo – enricar –
perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo –
enricar – perder tudo – enricar – O garimpeiro entendeu o interesse da companhia
naquele depósito e a cota 190 alcançou patamar quase mítico, muitos sustentando que
ali 60% ou 70% de todo o material seria ouro puro – enricar – perder tudo – enricar –
perder tudo – enricar – A descida foi desenfreada e aumentou a cobrança de vidas nos
barrancos que, sem estrutura, desabavam soterrando garimpeiros na própria riqueza que
buscavam – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – Em
1985, próximos à sonhada cota 190, o buraco foi interrompido pelas autoridades.
Desligadas as bombas de sucção, o Tilim, ponto mais profundo da cava, encheu de água
no irrigado solo amazônico – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo
– enricar – perder tudo – Utilizando o argumento da segurança, fecharam aquele
garimpo para abrir novo bem ao lado – enricar – perder tudo – enricar – enricar – perder
tudo – enricar – perder tudo – enricar – A nova descida prosseguiu de forma mais
racional, menos íngreme em direção ao fundo e mais segura – perder tudo – enricar –
perder tudo – enricar– perder tudo – Foi a partir de 1987, quando novamente se
aproximavam da cota 190, que sabotagens e boicotes se tornaram frequentes – enricar –
perder tudo – enricar – perder tudo – Diversos motores das bombas de sucção foram
inutilizados com areia e açúcar em suas engrenagens – enricar – perder tudo – enricar –
perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – De um dia para o outro o segundo Tilim
amanhecia submerso, necessitando muito tempo de trabalho para drená-lo com as
43
máquinas dos garimpeiros – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar –
perder tudo – enricar – De um dia para o outro o segundo Tilim amanhecia submerso,
necessitando muito tempo de trabalho para drená-lo com as máquinas dos garimpeiros –
perder tudo – enricar– perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo –
enricar – perder tudo – enricar – A passagem da água criava sulcos nas paredes da cava,
aumentando o risco de desabamento – perder tudo – enricar – perder tudo – perder tudo
– Em busca de segurança era preciso derrubar aquelas paredes frágeis dentro do próprio
buraco que abriam, para só então recomeçar a cavar – perder tudo – perder tudo –
enricar– perder tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – Após muitos dias
de trabalho voltavam ao ponto que estavam antes e não passava muito tempo até nova
sabotagem ocorrer, exigindo repetir o trabalho – enricar – perder tudo – enricar – perder
tudo – enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – Essa estratégia quebrou financeira
e moralmente o trabalhador que ainda insistia em sua busca – enricar – perder tudo –
enricar – perder tudo – enricar – perder tudo – enricar– perder tudo – Em 1988 se tornou
inviável prosseguir e o garimpo em Serra Pelada, ao menos na cava, o buraco mais
profundo terminou – perder tudo – perder tudo – perder tudo – perder tudo – perder
tudo – perder tudo – perder tudo – perder tudo – Para o garimpeiro, o mote "água no
Tilim31 e segurança nos homens" se tornou símbolo cínico da sabotagem que os impediu
de chegar aos depósitos mais profundos de ouro – perder tudo – perder tudo – perder tudo
– enricar – perder tudo – perder tudo – perder tudo – perder tudo – perder tudo – perder
tudo – perder tudo – perder tudo perder tudo – enricar – perder tudo – perder tudo –
perder tudo – perder tudo – perder tudo – perder tudo – perder tudo – perder tudo perder
tudo – enricar – perder tudo – perder tudo – perder tudo – perder tudo – perder tudo.
Tudo, tudo é devoração. Entre o enricar e o perder tudo, ainda permanecem os
garimpeiros e suas histórias. Seu desejo de ouro. Situações que podem surgir
inesperadamente, em plena Av. Presidente Vargas, no centro da cidade de Belém. Na
década de 1990, nesta avenida o garimpeiro Sr. Adão vende objetos em dourado. Atração
metalizada. Sobre um tecido aberto na calçada alguns objetos reluzem. Pedras de tamanho
médio recebendo escadas e a representação de “homens formigas” com sacas nas costas
escalando uma gigante pepita. Garimpagem de sentidos. Inúmeras pepitas. Parecem
31 “Tilim” é parte mais funda do garimpo. Fonte: Revista do Garimpeiro, novembro/dezembro de 1983.
44
troféus de ouro. Entre eles, sobre uma base de madeira dois bambus paralelos e de
tamanhos diferentes são acessados por escadas e a mesma representação de “homens
formigas”, com sacos nas costas. No que seria o fundo da cava, a figura de um garimpeiro
com uma pá nas mãos e uma bateia. Na fase superior, o ouro: o troféu. O troféu no troféu .
O Sr. Adão e seus troféus. Estas peças são muito significativas, pois são a representação
máxima do garimpo através do olhar de quem experienciou, com suas mãos e espírito,
esta realidade de facetas tão contrastantes (figura 12). Uma representação plástica de
expressividade tocante, criada por alguém de dentro do garimpo. Ouro e lama. Tudo, tudo
é devoração.
Figura 12 – Objeto: A Obra de Adão, do garimpeiro Adão (década de 1990).
Tudo, tudo é devoração. Esta mesma força do vivido está contida no mapa da
Vila de Serra Pelada (Figura 13). Elaborado, por um grupo de professores da Vila e
exposto no Centro de Educação Comunitária de Serra Pelada (Casa do Professor).
Trata-se da representação gráfica do espaço de vivência coletiva dos garimpeiros. Uma
busca de autoconhecimento e, ao mesmo tempo, de reconhecimento social extra-
comunidades. Sobre a importância estratégica destes mapeamentos participativos nos
esclarece a socióloga Janine Bargas:
45
No processo de confecção dos mapas são estabelecidas relações, em
princípio impulsionadas pela proposta de pesquisa, entre
pesquisadores e pesquisados, nas quais, muitas vezes, os
conhecimentos tradicionais guardados pelos mais velhos e o
cientificismo antes limitado às realidades laboratoriais da academia,
são compartilhados. Nesse ambiente de negociações entre o que é
próprio do pesquisador e o que é próprio dos agentes sociais
pesquisados se estabelecem arranjos em que é possível fortalecer o
capital social dos grupos ameaçados pelo desenvolvimento
hegemônico (BARGAS, 2013, pp. 17-18).
Figura 13 - Mapa da Vila de Serra Pelada, 2011. Elaborado por um grupo de professores da Vila e
exposto no Centro de Educação Comunitária de Serra Pelada (Casa do Professor).
Fonte: Bezerra e Ravagnani (2011).
Tudo, tudo é devoração. Devorar também é reconhecer-se, compreender que a
memória é a riqueza maior de Serra Pelada. A apropriação da área através deste
mapeamento propicia outra consciência em relação ao local, não é mais um lugar apenas
de exploração mineraria, faz surgir um sentimento de pertença. Sentimento fundamental
para esta pesquisa. Baliza e rumo desta caminhada.
Tudo, tudo é devoração. Em 1981, os depósitos de ouro na superfície se
esgotaram, e a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) tentou reaver a posse da área.
Mas os interesses eleitorais (havia 80 mil garimpeiros na área) levaram o governo a
fazer obras para prorrogar a extração manual. Em 1982, o garimpo foi reaberto, e
Sebastião Rodrigues de Moura Curió, mais conhecido como Major Curió foi eleito
46
deputado federal. Mão de ferro do regime militar no garimpo de Serra Pelada e região,
Curió tomou posse na Câmara em 1983 e propôs uma lei que dava permissão para que
garimpeiros continuassem explorando o ouro de Serra Pelada por cinco anos. Em 1984,
a CVRD recebeu indenização de US$ 59 milhões pelo que considerava invasão da área
pelos garimpeiros, ferindo seu direto de lavra. A produção continuou caindo – em 1988
foram extraídos 745 kg; e em 1990, menos de 250 kg. Em março de 1992, o governo
não renovou a autorização de 1984, e o garimpo voltou a ser concessão da CVRD. Em
1996, os garimpeiros restantes invadiram a mina, mas uma operação do Exército e da
Polícia Federal pôs fim à obstrução dos acessos à Serra Pelada que já durava 171 dias
(Figura 26).
Levados pelos ventos do sonho e da liberdade: assim os homens chagaram a
Serra Pelada. Ninguém foi levado à força, mas uma vez lá todos se tornaram
escravos da possibilidade da fortuna e da necessidade de suportar, sobreviver.
Uma vez lá dentro, impossível sair: ali estava a chance da fortuna. A única.
Cada vez que um barranco encontrava ouro os transportadores de lama, de
terra, tinham o direito de escolher um dos sacos que transportavam. Ali
dentro podia estar a fortuna, a liberdade. Sua vida era a sequencia alucinada
de descidas ao fundo do barranco e subidas delirantes até as alturas da mina,
carregando nas costas um saco de terra e o sonho do ouro.
Não havia álcool, não havia mulheres. Havia uma indizível necessidade de
tudo, de afeto, de calor humano. Havia um perigo constante e uma vida sem
consolo. Escravos da solidão revolviam a terra.
Quem chegava na ponta do barranco pela primeira vez tinha uma visão
dilacerada e definitiva do bicho-homem: havia ali 50 mil criaturas esculpidas
em lama e sonho. Só se ouvia o rumor humano, murmúrios e gritos
silenciados, e o ruído de pás e enxadas impulsionadas pelas mãos humanas.
Nenhum som de máquina, nenhum som que não viesse do homem. Era o
rumor do ouro na alma de seus perseguidores. Havia um dirigente sindical
que era também líder da ala dos mineiros homossexuais de Serra Pelada.
Liderava uma enorme quantidade de trabalhadores que distribuíam e
recebiam afeto, fonte única entre os desesperados. Era um valente, respeitado
por todos, e sonhava encontrar ouro e ir para Paris. “Lá”, dizia ele, “vou pôr
seios. Os de Paris são os seios mais lindos do mundo, os melhores silicones.”
Este era seu sonho: esta era sua escravidão” (SALGADO; NEPOMUCENO,
1992, p.19).32
32 Texto escrito a quatro mãos pelo fotógrafo Sebastião Salgado e o escritor Eric Nepomuceno, em
outubro de 1992. Sebastião Salgado esteve em Serra Pelada em 1986.
47
MASSACRES: SÃO BONIFÁCIO (1987) E DE ELDORADO DOS CARAJÁS (1996)
Tudo, tudo é triste devoração. Dramaticamente as realidades se confundem na
violência desmedida – os garimpeiros, os sem-terra, e a solução dos conflitos sociais na
esteira do desmando e do ocultamento (Figura 14). O massacre de São Bonifácio
envolvendo garimpeiros de Serra Pelada e o massacre de Eldourado dos Carajás
envolvendo os sem-terra confundem-se e traduzem a estupidez do uso da força bruta no
sudeste do Pará. O apogeu do garimpo ocorreu em 1983, quando foram extraídas 13,9
toneladas de ouro. De 1984 a 1986, a produção se manteve em torno de 2,6 toneladas
anuais, e caiu para 2,2 em 1987, ano em que os garimpeiros interditam a ponte
rodoferroviária sobre o rio Tocantins: eles queriam que o governo rebaixasse a cava do
garimpo. No dia seguinte, uma operação da Polícia Militar (PM) do Pará para
desimpedir a ponte, deixou três garimpeiros mortos, segundo a PM. De acordo com os
garimpeiros, o número de mortos passou de 60.
Figura 14 - Ação de guardas-civis em Serra Pelada (1986), de Sebastião Salgado.
Foto: Sebastião Salgado, 1996.
48
Segundo Sebastião Salgado (1996):
As minas são controladas por guardas-civis que têm um salário ainda menor
que os dos carregadores; os conflitos são frequentes. Os guardas fardados têm
orgulho do seu status e não querem ser considerados inferiores aos mineiros
por causa de seus salários. Às vezes há brigas e mortes: um guarda que tinha
disparado contra um trabalhador foi apedrejado até a morte por carregadores
durante um desses confrontos (SALGADO, 1996, p. 19).
Figura 15 - Trabalhadores sem-terra mortos no massacre de Eldorado dos Carajás.
Fotografia de Júlio Rocha. Fonte: http://averdade.org.br/2012/04/o-massacre-de-eldorado-
dos-carajas-se-calarmos-as-pedras-gritarao/
Tudo, tudo é devoração. Num rodopio de terra, gira-mundo, giram gritos. O
vento levanta tudo. O desespero fere a terra, morte. Estampidos, vociferações. Acuar,
desestabilizar, romper a coluna cervical, romper a marcha é ordem bem dada (figura
15). Os sem-terra e uma sina: palmos de terra em latifúndio. As origens do conflito
perdem-se no rodopiar gigante. Poeira levantada, sangue derramado. Contra um
revolver disparado: facões, enxadas e pedras. Uniformes militares sem identificação. O
descuido de câmeras ligadas, uma equipe de televisão cobre, mostra para o mundo, o
49
que não foi exposto num protesto anterior dos garimpeiros de Serra Pelada, que pedindo
a reabertura do garimpo, foram contidos à bala pela Polícia Militar do Pará, com o
auxílio do Exército Brasileiro sobre a Ponte Mista de Marabá, o Massacre de São
Bonifácio (1987). Mortes invisíveis sobre os trilhos da ferrovia que carrega o minério
de ferro de Carajás. Fantasmas insepultos. Desinteligência. Desinteligência.
Desinteligência. Dramas de um mundo que exige imagem, que exige imagem de
comprovação. Certamente as imagens mais chocantes que restaram de quando a poeira
assentou, em abril de 1996, são aquelas que desglamourizam o fato, a violência em si.
Morte e assassinato – encarados de frente. Diretos. Violentam a violência, sabem da
violência, vivem sobre o manto da violência. Gesto cru, o cru, o cru. O cheiro das
mortes, o sangue, a pólvora. Seja sem-terra, seja garimpeiro.
Tudo, tudo é devoração. Lama e ouro. Sangue. Tudo, tudo é devoração. Lama e
ouro. Sangue. Tudo, tudo é devoração. Lama e ouro. Sangue. Tudo, tudo é devoração.
Lama e ouro. Sangue. Devoração.
50
CAPÍTULO_2
51
Figura 16: Marco da Mina: pare, olhe, escute (2016). Detalhe Caderno de Campo, Armando Queiroz.
52
O ATRITO DO TREM
“José Arcadio Buendía conseguiu por fim o que procurava:
conectou a uma bailarina de corda o mecanismo do relógio,
e o brinquedo dançou sem interrupção, ao compasso da sua
própria música, durante três dias. Aquela descoberta o
excitou muito mais do que qualquer das suas empresas
descabeladas. Não voltou a comer. Não voltou a dormir.
Sem a vigilância e os cuidados de Úrsula, deixou-se arrastar
pela sua imaginação até um estado de delírio perpétuo do
qual não voltou a se recuperar.”
Cem anos de solidão
Gabriel Garcia Márquez
O atrito do trem, ferro com ferro. Os mineiros conhecem a Serra dos Carajás.
Foram e voltaram. Foram e voltaram. O atrito do trem. Foram e voltaram. Onde estamos
o trem também passa. Viaduto, metrô e escuridão de trem de minério. Viaduto, metrô e
escuridão de trem de mistérios. Viemos atrás dos mineiros. Também conhecemos a
Serra do Carajás. Viemos e voltaremos. Carradas de minérios. Escarradas de minério.
Escarradas de ferro e pulmão de gente. Gente. Secura que fere as narinas. O mineiro
somente é solidário no câncer? Quando os olhos se voltarão aos céus? Faro de vista oca.
Ainda hoje o horror-menino ao ver um gato de olho vazado. Deus! Deus, como pode?
Como pode, quantos maranhenses atravessarão às avessas a riqueza do sudeste
paraense? Desqualificados, humilhados. Viaduto, metrô e escuridão de trem de minério.
O atrito do trem, ferro com ferro. O interdito do desejo. O atrito do trem também
esmaga. Esmaga também o atrito do trem. Ferro, ossos, ferro. A idade dos ossos. A
idade do homem. O aço, o punho, a dor. A forja, a melancolia, o calor medonho. O
líquido queimante em brasa. Brasa-brasa-sol-quadriga-de-Apolo-amanhacendo-a-
vastidão-da-Amazônia. Mário de Andrade detestou esta pintura. Os mineiros conhecem
a Serra dos Carajás. Foram e voltaram. O atrito do trem. Foram e voltaram. Conhecem
os grandes projetos, as grandes desilusões. O voltar, o ir cabisbaixo dos nossos irmãos
maranhenses é a derrota de todo o Brasil. A puta, o menino buchudo, o dito analfabeto.
O rude, o brabo. O mesmo rude, o mesmo brabo que vive nas cercanias da rodoviária de
Belo Horizonte. Aquele que quer partir, mas não pode. Pode abandonar seus sonhos,
não pode. Quer ir, mas quer ficar. Cobertor surrado de sonhos surrados. O Crack, o
álcool... dois paralelepípedos enegrecidos sustentam a lata rala do jantar. Dois
53
paralelepípedos. Mais a diante, a pavorosa extorsão da fé dos homens. Teriam visto, os
incréus, poetas subirem em viadutos? Uma talagada de cachaça, poesia bruta. Triste o
câncer. Triste nossa solidariedade. Triste o atrito do trem, ferro com ferro. Ossos. Ossos
sem carne. Ossos sem carne.33
UMA IMAGEM DE TRECHO
Inúmeros são os caminhos que levam grupos humanos a saírem de sua terra de
origem, fatores como esgotamento dos recursos naturais, catástrofes e mudanças
climáticas, outros ainda mais críticos e compulsórios como conflitos armados ou
epidemias, sempre exerceram papel fundamental na movimentação de homens e
mulheres desde tempos imemoriais, as diferentes diásporas, recorrente em toda a
humanidade desde os primórdios. Além, é claro, do desejo de expansão territorial e
acúmulo de riquezas. Menos traumático, contudo não menos radical naquilo que implica
em transformações significativas na percepção do vivido, o desejo de conhecimento das
coisas do mundo apresenta-se como um dos motivos mais estimulantes para se iniciar
alguma jornada, lançar-se para além do reconhecível.
Após o impacto gerado na mentalidade da Europa com o advento das grandes
navegações e o contato com povos distantes, o séc. XIX trouxe confundido com o
ideário romântico que pairava no antigo continente o impulso exploratório do indivíduo:
a busca incessante pelo exótico, pelo inóspito e pelo selvagem que há fora de si mesmo,
de sua cultura, a atração pelo diferente. Talvez, um diferente complementar. Diz-se que
jamais se retorna o mesmo depois de uma longa caminhada. Agora não mais
necessariamente a deambulação de grupos ou nações, é a experimentação pessoal que se
instala e se faz premente. Para a sensibilidade artística é o terreno fértil a ser
experienciado, experienciado em suas últimas consequências.
Como aqui não se lembrar da obra capitular A peregrinação de Chide Harold
(1812-1818) de Lord Byron, diante da hediondez das guerras napoleônicas ou A balsa
da medusa (1819) de Gericault, em seu drama de esfacelamento de um ideário comum,
onde a ordem estabelecida pelas regras sociais se tornam tão frágeis e incapazes de
33 Este pequeno texto foi escrito para a minha esposa Janine em setembro de 2015, logo da minha chegada
para fixar residência em Belo Horizonte. Nele estão contidas as primeiras impressões do lugar.
54
responder ao momento crucial vivenciado por cada um, pelo indivíduo, pela
sensibilidade da pessoa. Lísia, Gália, Albion serão suficientes?
Figura 17: A balsa da Medusa (1819), de Theodore Gericault.
Atravessado o séc. XX amainaram-se os ímpetos “aventurescos” do romantismo,
o mundo está irremediavelmente palmilhado pelos recursos tecnológicos, onde satélites
varrem o planeta com seus olhos eletrônicos e a precisão do GPS (Global Positioning
System) torna-se máquina de guerra, dirá Deleuze. Onde estará a pulsão da experiência
do homem-artista? Após a derrocada de ideologias bipolarizadas com a queda do bloco
soviético e a aparente hegemonia do capitalismo em sua nova fase, “o capitalismo
informacional”, não há mais lugar para grandes narrativas. Resta o fragmento, a fratura.
Corrobora com esta perspectiva o inchaço incontrolável das grandes metrópoles
apontando para a falência da cidade modernista em que as figuras baudelairianas do
dandy, do flaneur e do boêmio são tragadas pela multidão e parecem não mais fazer
sentido como tradutores da sensibilidade das ruas. Não somos únicos.
Uma imagem de trecho. Uma cidade passageira. Sítios inconclusos.
55
Estamos cegos e vemos, um homem é carregado sobre os ombros de seus iguais.
Belo Horizonte à deriva. Deveria estar em Belém rumo à Estrada Nova. Estou aqui entre
rochas e concreto. Apanho um ônibus desgovernante de sentidos entre meus iguais. Ir
sem destino, Alea jacta est. A sorte está lançada, sempre esteve. Minutos inconstantes
sacolejam nossos desejos irrequietos. Ir e não ir. Partir e não partir. A sensibilidade
colocada à prova do intelecto. Razão. Desrazão. A crível desinteligência das ruas posta
em questão. Estamos na TV? Roda-rodopio de tempo e gente dentro do ônibus e
conversas trançadas. Quentura e colo. Brisa sem brisa de outono. Tudo é novidade e
morre. Tudo é atrativo e vai para o nunca mais. Do centro, da Praça Sete e marco zero
de BH, estamos em Contagem, estamos na zona industrial. Longe, longe demais das
capitais. Tráfego intenso, ruelas, vielas. Calor incômodo, suportável para quem nunca
abandonará o suor no rosto do norte do país. Vir, ver e não vencer. Estar. Estar, estar.
Estar com seus pares, deriva. Nau, negras naus. A urbe é mar aberto e zona de oco.
Tudo é paisagem. Tudo é ruína e não cai. Tudo é cemitério, casca de ovo. Muros e
montanhas cenográficas. Nada rui porque o cotidiano sustenta a cidade. Uma parada
para o lanche e a nota de dez reais é falsa para pagar o cafezinho. O alienado, o
indígena, o zero valor atribuído a nós que seguimos entre avenidas que arrastam a
riqueza do país. Rio, São Paulo, Minas Gerais. A Amazônia não é o pulmão do mundo:
é o enclave moral da última fronteira. Anos nos separam da figura que ainda está nos
braços de seus iguais. Terras vermelhas, ferro, pasto, pasto. Pare, escute, veja.
O EXPERIMENTAR EM BANDO
Qual é o lugar na academia de alguém que vem do campo do fazer artístico? O
ser artista. Qual é o seu lugar de fala? Como se dá a escrita desta experiência, do artista
na academia, do artista-pesquisador? Tateamos juntos, à beira do abismo. De pronto
consideramos ser impossível uma única definição. O sentido do experimentar é
atravessado por óticas epistemológicas distintas, possivelmente complementares, que se
cruzam e se afastam: história da arte, crítica da arte, filosofia da arte, a fala do próprio
artista, escritos literários, tratados, pensares e fazeres múltiplos alargados no tempo.
Camadas de compreensão, tracejados complexos que se sobrepõem. Desvelar estes véus
sem romper a sutileza de compreensão deste emaranhado singular é tarefa árdua e
repleta de cuidados. O corte abrupto incidido pela razão pode causar impressões
56
precipitadas e o que está pousando nas mãos e diante dos olhos pode escapar, esvair-se.
Mistérios da não-linearidade do pensamento.
Figura 18: Lâmina-passarinho (1999), Armando Queiroz
O que estará acontecendo neste momento em Serra Pelada? Experientia. Qual é
a definição etimológica de experiência? Faz-se necessário levar em consideração a
dimensão do perigo, do risco embutido no ato de experenciar. Periculum. O risco como
perturbador da ordem já estabelecida. Risco que afeta o ser em sua existência. Prova da
existência, andar em bando. Animais quânticos nos apontam saltos. Pombos e seus
padrões físicos indicam o momento-situação do salto-entendimento, penas em leque,
plumagem. Pare, olhe, escute. Penas, plumagem, momento-situação do salto. Você está
lendo e percebe o salto. Algo lá fora permanece, o ruído de carros que passam, uma
máquina quebra o calçamento. Contudo, você escuta o que lê e percebe o salto.
Mudança de qualidade energética do pensamento é o que apontam os saltos, sala de
aula, escritório e casa. Anos 70.
Ver e criar paisagens. Onde estão as paisagens? Aonde residem as paisagens?
Qual é seu testemunho de existência sensível diante da paisagem, do mundo? “Voava
sobre um mar em direção a uma linha áspera da costa (...) A terra fora um lugar onde
aprendera muito, é certo, mas os pormenores estavam esmaecidos – qualquer coisa
como lutar por comida e ser banido”34. Sim, e as borboletas? As borboletas que nos
acompanham e ferem sentimentos. Que ferem e partem sentimentos. Partem,
34 BACH, Richard D., Jonathan Livingston Seagull — a story. Nórdica Editora, 1976. p. 71.
57
multiplicam-se na latência das larvas e são banidas. O bando bane. Pássaros pousam
sobre o gume cortante da linguagem. O bando bane. Banido, bando, bandido,
bandeirante.
A radicalidade da linguagem é posta à prova para além das preocupações entre
criação e recepção. Há algo além e fora do bando. Algo único, incompartilhável,
indivisível. A linguagem é este fio condutor de rastros. Apenas estes rastros podem ser
compartilhados. Testemunhos e rastros. Solidão. “Fui tomado de verdadeiro pânico. Já
não sabia aonde ia. Corri ao longo das docas, me enfiei pelas ruas desertas do Bairro
Beauvoisins: as casas me viam fugir com seus olhos apagados.” Repetia e Repetia,
Roquentin. “Repetia para mim mesmo com angústia: aonde ir? Aonde ir? Tudo pode
acontecer”35. Rastro e solidão. A experiência solitária dói aos ossos do entendimento. O
bando bane.
O CLARÃO DAS MANHÃS
Assim disse a borboleta: despeço-me da noite como quem se despede do
amanhã. A noite não acompanha o dia, pois não se extingue ao raiar do sol, somente
encolhe suas asas sem dar bom dia! Então, tudo é luz cegante, ofuscante. Mesmo assim,
ao fecharmos os olhos deparamo-nos com a escuridão que não é dia. Mesmo que tudo
em volta garanta claridade, a noite está dentro de mim. Saímos de casa, trabalhamos,
somos tragados pelo calor e o brilho excessivo do sol, deslumbre de cor. Despeço-me da
noite! Mesmo assim, fecho os olhos ao raiar do dia. Em mim, a consciência de Midas
que se quer anti-Midas. Dourada as asas de borboleta batendo sincopadas sob o sol.
Cintilantes. Frágeis suas tênues esperanças sob o sol. Pequenino músculo circulatório
necessário e vingativo sob o sol. Queda sem plano de queda sob o sol. Rasgos de
fantasia, princípio de carnaval sob o sol. Mecanismo propulsor de brilhos e olhares sob
o sol. Pó, poeira de vidro sob o sol. Microtensões, sob o sol. Patas douradas, pelos
dourados, antenas douradas, pólen dourado. Olhar dourado voltado para o sol dourado.
Ouro velho, bater de asas velho, borboleta velha, velha e dourada. Pequenino músculo
da manhã dourada. Minhas mãos ainda guardam vestígios de um Midas que não se quer
35 SARTRE, Jean-Paul, A náusea. Tradução: Rita Braga (7ª edição). Editora Nova Fronteira, Rio de
Janeiro, 1991.
58
Midas. Que não é Midas. Unhas douradas de uma noite que não findou. Cuidados
contigo. Madrugadas e clarão do dia. Aí reside o Midas coletivo. Não aquele que
pretende humanizar o ouro, que transforma sentimentos em ouro. Ouro alquímico das
invisibilidades querentes. Relações que apenas bordejam a indiscrição dos dias e vão
habitar num aconchegante lugar distante de todos os olhos, o clarão. Bem-vinda
madrugada de sol dourado. Estar em Minas.
Pare, olhe, escute.
Figura 19: Jesus-borboleta-dourada (1996-2016), Armando Queiroz
ESTAR, EXPERIMENTAR
Uma única gota de café pende da beirada do bule, parece uma lágrima negra que
não seca. Ela sabia que eles viriam através do frio, do gelo. A quentura nas costas arde,
o tempo não passa, passa sem passar. Agruras e Quimeras escarlates. Tecidos
desbotados bruxuleiam lentamente, os costados. O pano de boca se estende pela baia, o
tempo passa e não passa, teso. Pouco vento, muito muito muito tempo. Muitas costas,
muito ardor e tempo e tempo. O lodo, a lonjura das terras pagãs. Um terço, um terçado.
A margem, à margem da história. Muito muito tempo. Ela sabia que eles viriam através
59
do frio, do gelo. O carteado, o “eme” das mãos, as palmas vermelhas ciganas que eu
quis ter tendo de mãe. O enforcado. Ela sabia que eles viriam através do frio, do gelo.
Meu pai jogador de carteado. Muito, muito tempo. A quentura nas costas doe, a fivela
nas costas dói. O perdão das fivelas. Eu traidor, eu marcado de dor. A praia, marujo, o
dependurado, o degolado, o afogado. A ilha, o carro, o hotel-navio. A ponta de pedra, os
farrapos vermelhos sob o sol que calcina os ossos. Abandono do corpo. Muitas costas,
muito ardor e tempo. O longe o longe o longe. O longe o longe. Uma única gota de café
pende da beirada do bule, parece uma lágrima negra que não seca. Bêbados não
marcham, diz moribundo o roqueiro. Meu pai era jogador de carteado. Uma imagem de
trecho. Uma cidade passageira. Sítios inconclusos. Pare, olhe, escute.
Estamos cegos e vemos, um homem é carregado sobre os ombros de seus iguais.
Belo Horizonte à deriva. Belém, Estrada Nova, Rochas e concreto. Alea jacta est. O que
leva o rio Amazonas a desembocar em outro rio Amazonas. Superfícies em desalinho.
Zonas intersticiais. Estar à deriva nos leva a compreender o quão importante é sustentar
nossa subjetividade. Este elemento tão dissonante e necessário. Diz-se da potência do
vivido, do ato e força da palavra-grão: experiência.
Figura 20: Stencil reverberante localizado nas ruas de Belo Horizonte, 2016
AO ENCONTRO DAS MANHÃS IMPRECISAS
Um lagoinha para o café, preto. Preto. As balas caem flamejantes aos nossos pés.
Tudo um dia será ruína. Arruinada aurora outonal. Aulas. Quartas-feiras. Oito da
manhã. O ontem, distante, não se estabelece. O hoje-agora prestes a ser o amanhã,
próximo, inconcluso, cai indolente aos nossos pés. Mãos flamejantes, esborradas.
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Queda, ouro velho distante. Suspensa manhã entre carrinhos de bebê que passam em
procissão gemente e pessoas sonolentas encasacada e círios acesos nas mãos e bocas-
mãos que oram silentes. Não é permitido ver seus rostos, vasos comunicantes de ônibus.
Penso em Serra Pelada e sua gente. Penso na bruma cerrada que une e anula diferenças
ente o oco do norte e o vazio do Curral del Rei. Sete gentes gemem, oito, cinco,
morrem.
O restaurante do Chico do Peixe estava fechado para o nosso combinado almoço
desta terça-feira. Fechado também estava para a atualização de horário de
funcionamento via rede de computadores. Pouco importa, realmente. A vontade de
estarmos juntos prevaleceu. Atravessamos a rua e fomos parar em outro restaurante.
Comida à quilo, boa, barata e mesa prolongada em que coubemos todos nós do LEVE36.
A lógica de todo lugar exige a compreensão redobrada de que cada contexto é
construído através do escalonamento de suas importâncias e desimportâncias. Nem
sempre o que é prioridade para quem chega o é para o lugar. E nem sempre o que
queremos é o que o lugar pode oferecer de mais atraente e vigoroso. Deixamos-nos
fluir. Fomos acolhidos, acolhemos o lugar. Estamos no Ver-o-Peso.
Estar à deriva talvez seja este exercício constante de atenção ao fluxo e
contrafluxo das coisas da vida. Adequar-se à repentina mudança de planos, redirecionar
movimentos, reconstruir sentidos e dar fôlego à jornada. A trama de significados
exteriores à vontade da cada um de nós é mais do que convidativa a estes mergulhos.
Diz-se que o grande problema de caminhar constantemente guiado por mapas é o risco
de nunca se perder. Um vendedor ambulante oferece doces ao leite e doces de milho da
ribeirinha Abaetetuba para você saborear na viagem enquanto o MOVE passa rente ao
portão da UFMG. O mundo gira e dá lugar para outro pregoeiro que entra na estação
Operários anunciando paçoquinhas: três por um, três por um Real... A luz da tarde vibra
36 Aqui é relatada uma expedição do grupo de pesquisa do qual faço parte, o LEVE – Laboratório de
Estudos e Vivências da Espacialidade. Este grupo tem como uma das idealizadoras a artista pesquisadora
Dra. Elisa Campos, orientadora dessa dissertação aqui realizada. De acordo com a ementa da disciplina
ofertada em 2016 na Escola de Belas Artes da UFMG, assim é definido: “é um núcleo de pesquisa e ação
tendo como temática principal a espacialidade na arte contemporânea, em abordagem teórico-prática,
visando as relações entre a arte e o espaço social. A espacialidade é aqui definida como um conceito
estruturante para estabelecer convergências entre artistas, estudantes, professores e pesquisadores que se
orientam principalmente por um viés transdisciplinar.”
61
através das janelas-vidraças e os corpos absorvem aquele calor alaranjado. O fone de
ouvido trazendo memórias antigas, sonoridades. O chegar de barco a Belém nas últimas
luzes desta tarde. Estamos no Ver-o-Peso? Minha mãe sempre brincou comigo dizendo
que desde pequeno sou cachorro de montaria, o primeiro a subir na canoa para passear.
Sempre o fascínio da descoberta. Amizades clandestinas.
O RESTITUIR, O TESTEMUNHAR
Turva a memória muito do que se lê e diz esvai-se. Contudo, muito do tudo
permanece num canto nobre da sala, na mesa da cozinha, no quarto de dormir. Móveis e
utensílios novos em antigos ambientes. Uma poeira de luz oscilante varrendo e
ocultando velhos pensamentos:
Estudo, disciplinas? Nunca acaba. Talmude. Ideias de estudo. O
fascínio da descoberta e a imensidão das coisas. Podium. De onde você
fala. Para onde você vai se dirigir. Literatura. Gravura. Provas de
estado. Aquilo que não é ainda. Santo Antão. Plínio. Fundamentação. A
beleza da academia. Frontão, Marco Aurélio. A verdade é impostora.
[20:09, 4/4/2016] +55 91 8129-2018: Meu Deus! [ajuntar] Igualzinho a
pintar e fazer literatura: a academia. Zelo pelo objeto do outro.
Querer articular. Vi paixão nela! [20:11, 4/4/2016] +55 91 8129-
2018: A questão imagem: presença # ausência. Lonjura # Distância.
Semelhança # dessemelhança. Aparição. Fascínio - o que retorna. Corrente.
1946. Sartre. Do Imaginário. Imagina o que falta [Imaginário].
Desconstrução da imagem clássica da imagem! Fascínio é a paixão!
Índice e icônica. Insone - não tem pouso. A potência do detalhe.
Bétulas. Lascas. Ver melhor. [20:13, 4/4/2016] +55 91 8129-2018: A
Rendeira de Vermeer. Pontes que te desestabilizam. Desassossego. Agamben.
Simulacro. Uma ilusão. Deleuse. Brecha na noção da imagem. A mentira
brilhante. O lugar que escapa. O lugar nenhum. Tudo é imagem. - Meu
nome é Legião! Imagem/escrita. A escrita não dá conta da imagem. Sair do
registro. A ideia de morte. A máscara mortuária. Questionar o binário.
62
Lonjura. Horizonte antigo, uma outra hora que não é agora. Desvios. Física
que faz curva. O isso e o aquilo. Tudo no mesmo tempo agora. O afogado sem
pouso. Ambiguidade. [Sim] Não se perde nada. A impessoalidade.
Arrebentar. A imagem como fantasma, ela retorna de algum lugar. O desenho.
A imagem-documento. Mabe Bethônico. Apropriação ou restituição?
[restituir] Imagem sem muita ética. Espectro. Ontológico. Uma nota
insone. O que certa o livro. O prefácio. Noite dos tempos transborda
vômito negro. Sua capa. A filosofia da imagem. A mentira brilhante.
Verdade/mentira. Questões. Frontão e Marco Aurélio: Uma amizade
clandestina. O lugar do desconforto. Articular pensamento. O sistema
binário. A palavra plural. Gonçalo Tavares. Algo que tem curva.
Admeto. A saga. A impossibilidade de manter-se aqui. Lugar sem
engendramento. O desvio. A gravura, o gravar. O lugar da fala, o encostar o
ouvido no seio de sua amada.
Onde estará a imagem?
Vinte e quatro anos após ter estado pela primeira vez em Serra Pelada, o repórter
José Hamilton Ribeiro retorna ao local para mais um encontro com os personagens-
sujeitos daquele garimpo. Em nova reportagem, assim dialoga com aqueles homens do
ouro; e nos faz refletir sobre a natureza humana:
(voz em off da antiga reportagem)
Repórter – Mas o que há em Serra Pelada é apenas carência, não só a
carência do ouro, mas também de carinho, de atenção, até de um cigarro.
(voz em off da nova reportagem)
Repórter – Casa cheia na cooperativa dos garimpeiros pra ver a reportagem
de 24 anos atrás.
(voz em off da antiga reportagem)
Repórter – Abri um maço novo, e ofereci a um deles. – Liberou! Eles
gritavam. Qualquer pequena mordomia que os garimpeiros conseguem,
gritam logo. – Liberou!
(diálogo da nova reportagem)
Garimpeiro – Quando você me deu aquele cigarro, eu lembrei de tudo que eu
passei. Carreguei saco para aquele Raimundo, para mandar diária para a
minha mulher, que tava passando fome.
Garimpeiro – O cigarro, eu não fumei.
63
Repórter – Você guardou ele?
Garimpeiro – Guardei, inté quando ele acabou. 37
Do início da exploração do garimpo de Serra Pelada, em 1980, até o seu
fechamento em 1992, foi computada a extração de 42 toneladas de ouro e um cigarro
não fumado.
Com este rescaldo, fecha-se uma longa e contundente etapa do garimpo de Serra
Pelada. A contaminação de mercúrio e a profundidade do lago que se formou onde os
garimpeiros trabalhavam impedem a extração manual do ouro. Hoje, a promessa é de
uma exploração organizada, e com uso de tecnologia moderna. Vinte e cinco anos após
o fechamento do maior garimpo a céu aberto do mundo, a velha Serra Pelada dá lugar a
uma nova Serra Pelada voltando a produzir ouro. No lugar de aproximadamente noventa
mil homens com pás e picaretas, a mineradora canadense Colossus Minerals, e seus 700
milhões de reais em Serra Pelada. Para retomar a exploração, a cooperativa teve de criar
a Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral, uma joint venture com a
empresa canadense. Os 38.000 garimpeiros cooperados obtendo 25% dos lucros da
operação. Os noticiários já acusam malversação destes valores. As sombras da velha
Serra Pelada não se calam. Sua bocarra de dentes faltantes permanecerá a cobrar
atenção e cuidado com aqueles que viveram excessos: abundância e pauperidade. 2016.
Onde estará o Eldourado de Minas Gerais?
37 Trecho de reportagem do Jornal Nacional sobre Serra Pelada, que inaugura uma série de reportagens
que comemoram os quarenta anos da TV Globo. Postada por Sérgio Matthias: SERRA PELADA,
BARE MOUNTAIN RANGER. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=WvViVuBk0sA
64
Figura 21: Estação de Metrô Vilarinho - Destino Eldourado (2016), Armando Queiroz.
PERAMBULAR, REMEMORAR DESTINOS
65
Caminhos improváveis nos levam a Munique. Quão longe é longe? Corpos
repletos. Corpos encharcados. Corpos ensopados de suor da mata. Ophelia afogara-se
por amor? A tragédia inexplicável assombrada pela loucura. O abandono do amor, o
corpo abandonado por amor. Corpos-copos-d’água. Potes d’água. Reflexos de fundo de
poço de água transparente. Fundo de poço branquinho habitado por um único peixe
negro colocado ali para a limpeza de detritos. O longe, o perto. A choupana-moradia de
panelas que brilham com dignidade. Tudo flutua sobre as águas crescentes. O machado
marajoara muito bem afiado para retirar turus38 de lenho rijo dos mangues. Olhos
d’água que nos alumiam no clarão da noite. A menina Clara vive entre peixes e jacarés.
A ilha grande de Joannes39, a barreira do mar. Sou um estrangeiro no meu próprio país.
O distante está em casa. Na casa-chão-umbigo de águas tumultuadas. Nos
caminhos de igarapés, no corpo quente de costas ardentes, nas pernas geladas que
afastam peixes e mururés. Mururés que se tornam joias: colares, pulseiras, adornos de
cabeça na imaginação fértil das crianças ribeirinhas. Clara-Ophelia40 sob a luz do sol
que bruxuleia entre vazios e cheios da densa floresta. O eco de sua própria voz no
silêncio intermitente de cigarras. Um grito na escuridão das matas. Uma borboleta,
cintilante em seus azuis metálicos, acaricia seu-meu rosto. O abandono do amor. Uma
brisa que passa. Os pés descalços. A fome de verde que não sacia. A menina-moça entre
folhagens e a boca que exala a sensualidade das misturas dos frutos verdes e maduros.
Alfredo menino, Alfredo-menino. Menino Armando, Armando-menino.
38 Turu é um molusco da família dos teredinídeos, semelhante a uma minhoca. É encontrado nos
manguezais amazônicos. Rico como fonte de proteína é consumido pela população local.
39 A Ilha Grande de Joannes, assim era denominada anteriormente a ilha do Marajó. No "Extrato do
Diário da Viagem Filosófica que fez o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira pelo Estado do Grão
Pará" contém uma relação das obras do autor e esta memória vem sob o título "Viagem a Ilha Grande de
Joannes ou Marajó" e com data de 20 de dezembro de 1783. Fonte:
http://bdlb.bn.gov.br/acervo/handle/123456789/273806 Acessado em 19-06-2017.
40 Faz-se aqui a fusão de duas personagens ligadas ao trágico das águas. Sob Ophelia, da peça Hamlet de
William Shakespeare (1564-1616), paira a dúvida de suicídio por afogamento motivado por desilusão
amorosa. Sob Clara, do romance Chove nos Campos de Cachoeira (1941), de Dalcídio Jurandir (1909-
1979), a morte também vem do meio líquido, afogar-se é retornar a ser fruto suculento com gosto de rio.
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Figura 22: Frame do vídeo Os mistérios de Clara (2014), Armando Queiroz.
Rio Araguari, um gigante de águas tépidas. Meu primeiro banho de rio, aos dois
anos de idade, na imensidão das águas de margens longínquas. Colo seguro de quem
ama aquele lugar. O vaqueiro e sua sabedoria de beira de rio. Os búfalos em manada
que espanta as serpentes em retirada. O trotar dos cavalos com água pela cintura nos
campos de Cachoeira. Sim, ainda possuo na boca aquela semente de tucumã. Sim, ainda
chove nos Campos de Cachoeira. A plenitude do banho esvai qualquer nota de exotismo
do lugar. Meu sentimento está em casa. A razão sempre dirá que não.
Um cheiro de café torrado invade minha lembrança. A fazenda Nova Califórnia
e dona Amada: Ophelias e Claras da beira do rio. As mãos alvas e seguras moem
aqueles grãos pacientemente. O feijão está no fogo. O rádio eternamente ligado dá
notícias de Belém para toda a planície amazônica. O longe, o perto. Pelos campos
alagados chegam homens a cavalo, trazem consigo uma lontra amarrada pelo dorso.
Num gesto de nobreza e compaixão, necessárias do humano, ela pede que
imediatamente o animal seja solto. É atendida, e o bicho escorrega para a liberdade do
ontem-dontem. O que restituir?
Assim foi e sempre será a vida vivida em inteireza ribeirinha tal qual a semente-
fruto do pé de café a transformar-se em aroma de café bem feito. Assim foi e sempre
será a lida diária de uma fazenda que exige dureza e objetividade. Curioso notar que
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estes predicados tão exigidos pela sobrevivência num ambiente tão inóspito só fez
acentuar a delicadeza e placidez desta mulher de muitos filhos e marido muito amado,
seu Manézinho. Um casal e a vastidão da Amazônia. É a Amazônia parideira e
constante. Suas vidas, um testemunho. Poderiam ter nascido em qualquer rincão dos
Gerais. Poderiam morrer em Sarajevo sitiada.
A imagem que permanece é de seus olhos muito claros e sua risada silenciosa.
Segura, foi o esteio de uma vasta família. Exemplificada e adorada pelos seus. Em dona
Amada, Nova Califórnia nunca sairá dos meus pensamentos. Da gratidão de tudo que
me sensibilizou e aprendi naquele silêncio repleto de altivez e compreensão das águas.
Desde sempre me fez duvidar quem eram verdadeiramente os donos daquela fazenda,
daquele lugar. Gente repleta de água. Corpos repletos. Corpos encharcados. Corpos
ensopados de suor da mata. Corpos-copos-d’água. Potes d’água.
Toda linha é rastro, mácula benfazeja que rasga o espaço inerte, puro e morto.
Vida, princípio, ação. Linha é a centelha vivificante de oposição e acertividade. Gesto
atitude átimo, anima. O trem de ferro.
Toda linha é mácula. Ação, movimento, oposição sutil, algumas não deixam
sequer vestígios, contudo, não deixam de expressar vontade, tempo, espaço. O minério
de ferro. O caminhar pelas ruas da cidade.
Toda linha é rastro, mácula benfazeja que rasga o espaço puro, inerte e
indiferente. Princípio, oposição. Centelha vivificante de afirmação em sua radicalidade
de ação. Átimo, anima. Gesto e atitude. A carne das pessoas.
Toda linha é rastro, mácula benfazeja que rasga o espaço puro, inerte e
indiferente. Princípio e oposição. Centelha vivificante de afirmação em sua radicalidade
de ação. Átimo, anima. Gesto e atitude e aflição. Se o ponto determina o princípio, a
linha é a radicalidade da ação. É o não conter-se. Os ossos metálicos da cidade.
68
HOTEL PEPITA41
Figura 23: Imagem sem título A da Série Poeira de rio. Alenquer (2016), Armando Queiroz.
Tudo, tudo vaidade, e vento que passa. Tudo vaidade, e vento que passa. Tudo
vaidade, e vento que passa. Tudo vaidade, e vento que passa. Tudo vaidade, e vento que
passa. Tudo vaidade, e vento que passa. Tudo vaidade, e vento que passa. Tudo vaidade,
e vento que passa. Tudo vaidade, e vento que passa. Tudo vaidade, e vento que passa.42
Lá fora o Sol estilhaça sua luz na passagem que queima nossos olhos.
Expectativas de viagem. Ganhos de amor e felicidade. Belém, Belo Horizonte,
Salvador. Aqui dentro tudo cala e diz. Mãos dadas, amanhecer. O ônibus, o voo, o mar
profundo e transparente que nos espera. Amo Belo Horizonte, verdadeiramente. Diz-se
que só se ama aquilo que se sente falta. Amo meu filho, verdadeiramente. Amo minha
mulher, verdadeiramente. O Cristo em prata desfaz-se entre pedidos e bênçãos de
41 Hotel localizado na cidade de Alenquer no estado do Pará, Baixo Amazonas.
42 Parágrafo referenciado na leitura do Eclesiastes. A Bíblia (ECLESIASTES, cap. 1:14).
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oração no Sagrado Coração de Paris. Velas acesas queimam a seus pés. Prantos,
prantos. A pedra-catedral é fria, soturna. Seu piso-arco-ogival gela os olhos. Nem
mesmo a sonoridade do órgão aquece nossos corações. O futuro-ex-pastor holandês
ainda habita sua alma, Paris? Bairro dos artistas. – Celveja! Que lindo linguajar escuto
de um carregador da beirada do Tapajós que se aproxima. – Celveja! Celveja! Aquece
meu espírito. Amo meus irmãos. A mestiçagem cabocla é bem mais do que o tom da
pele. Aqui os homens são entroncados e as mulheres barrigudinhas sem culpa, lindas.
Senti falta do barulho ensurdecedor do Pará. O silêncio pode ser aterrador. Há uma nota
de insubmissão nestes urros imemoriais. Festa. Há festa. Sempre devoraremos nossos
mártires-heróis-feiticeiros, o Novo Mundo, o Novo Mundo. Como é duro retornar às
raízes lusitanas. Todos na bastardia enganadora de nossos pais, todos. Trás-os-Montes,
aldeias fantasmas informes para mim. Não possuo nenhuma Quinta tão sonhada pelo
delírio de fortuna e nobreza comum a tantos e tantos descendentes das rochas e olivais. -
Na manha da jabota43 manca levamos a vida, escuto dos estivadores ao meu lado. É
sábado. Cumpleanios, cumpleanios. Gracias a la vida44, grancias a la vida, gracias.
Gracias aquecidas sob o céu das montanhas de nuvens e precipícios tropicais. O que é
Paris? E se ela viesse vestida de outra forma? Que sabedoria se pode escutar no falar das
pessoas! Mais do que a circunstância da comunicação direta, objetiva, é a construção do
dizer que é encantadora. Marcas do cotidiano enriquecido de poesia. Quantas vozes-
pensamento numa só pessoa ou num só diálogo. Quanto tempo de elaboração e
apreensão do mundo destas pessoas? Duas mulheres, três homens, visivelmente
destoantes do que se pretende Europa nos acompanham no trajeto de retorno Paris-
Munique. Irrequietos, alcoolizados. Cheiro de muitos dias de rua, de outros lugares. O
mesmo cheiro de corpo dos hospitais e pronto-socorros. Falares assertivos, quase
alucinantes. Certamente eles serão parados em alguma barreira-muro. Foram. Foram
detidos. Turcos? Curdos? Ciganos? Forasteiros do mundo. Papéis e não-papéis e
policiais à paisana, sérios e resolutos, quase gentis. Há algo de muito errado. Perdidos
na grande Babilônia. Nice e Munique, Brasil. Brasil e governo ilegítimo. Somos
construtores cruéis de barreira-muro. – Qual é seu barco? – É o Leon, despois nós
43 Jabota, designação comum para a fêmea do Jabuti.
44 “Gracias a la vida” (1966), canção da compositora, cantora, artista plástica e ceramista chilena Violeta
Parra, interpretada belamente também pela cantora argentina Mercedes Sosa, La Negra.
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conversa! É o diálogo da mesa ao lado com a pessoa que passa e para um minutinho e
vai. Um copo de cerveja dado numa mão e na outra, mão-braço-ombro, litros de rios
num balde de plástico equilibrante. O bar Gama da gata. Imensidão do partir. O Quarto
Andar se expandido. O Rebotalho revisitado de outra forma. O mestrado acontecendo
neste exato momento, em todas estas viagens-experiências do estar. Alenquer e troca.
Sempre sonhei com isso. Sábado fecha as portas para o trabalho, beirada de Santarém.
Coisas para navegar. Coisas para a lida da terra. Extensores de sucção dependurados
entre cordas de nylon, candeeiros de manga comprida e tabaco. Coisas para
mineradores? O revirar da terra e leito de rio. Meio-dia. Tudo se fecha. O barulho tão
reconhecível das postas metálicas a baixar no calor de Belém. Vrum! Lembro-me do
meu avô português e seus olhos muito azuis. A Europa possui olhos de azul abissal,
impactantes. Descanso-cerveja para os trabalhadores dos portos. O capacete de moto é
elmo medieval. Cada loja do comércio, uma defensa castelo-capital. Castelos foram
feitos para desmoronar. Boatos de término da Bolsa Família convulsionam fortemente o
país muito mais do que Black Blocs apedrejantes. Um poder incomensurável da
população. Desestabilizador. – A morte não te procura, mas te acha! Ouço ao meu lado.
Um poder incomensurável da população. Quantas Bastilhas ainda terão que cair?
Girondinos, Jacobinos e Farizeus, digladiam-se no Congresso Nacional.
71
Figura 24: Imagem sem título B da Série Poeira de rio. Alenquer (2016), Armando Queiroz.
Gente de trecho. Somos gente de trecho. Um sistema circulatório de rios,
margens e tempo-gente. De uma Mulher vestida de Sol45, fala a TV enganchada no
trapiche. Madrugada. Os carapanãs46 ainda não deram trégua. Do hotel para a lancha me
acompanha um pastor também hospedado. Para trás deixamos o que acreditamos ser
sementes. Sementes das sementes. Trazemos realmente nas mãos sementes
germinantes? Como plantar em solo já cultivado, revolvido pacientemente pelo suor das
eras? Respeito profundo pela experiência dos daqui. A sedução do capital é tremenda!
Esmagadora em suas bordas. Uma moça de traços indígenas serve as mesas do bar. Tem
o corpo jovem e velha a alma. Seu semblante é grave, duro, mesmo quando sorri.
Quanta dor carrega? O porto e caminhões empoeirados transportam gado e sofrimento.
Lágrima de touro-gente abatido. O animal pressente sua hora, sabe que vai morrer. O
crânio atingido e os estertores do nada sentir. As fazendas passam ao largo do rio. Garra
da Gata. Comprei nossa segunda aliança das mãos de um africano na Magalhães
45 A Bíblia (APOCALIPSE, 12:1).
46 Carapanã, designação comum na Amazônia para pernilongo.
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Barata47, aço. Aço. Aço resistente. Aço não-grilhões. Arco-Íris também pode ser aliança
e não grilhões. Ficará somente para a lembrança o Hotel Pepita, a gentileza de seus
donos e a bicicleta emprestada? Meus colegas professores de tantas localidades que
ainda quero conhecer? Sabemos que não. Virão as selas para montar búfalo, as
coberturas de palha das casas. Os peixes. As danças. Os alunos. O úmido da existência
cada vez mais entranhada no que quero da vida compartilhada com todos. A tuíra48 de
rio que nunca saiu do cheiro do meu corpo. Corpo-corrente que impulsiona e não
aprisiona, desfaz-se. Cuias que cruzam destinos. Dignidade de Pacoval49.
Figura 25: Imagem sem título C, da Série Poeira de rio. Alenquer (2016), Armando Queiroz.
47 “Magalhães Barata”, uma das avenidas principais da cidade de Belém do Pará, Avenida Magalhães
Barata. Logradouro que homenageia o Governador Magalhães Barata (Belém, 02 de junho de 1888 - 29
de maio de 1959). Polêmico político paraense que guarda, localmente, semelhanças com o que representa
Getúlio Vargas para o imaginário brasileiro.
48 Tuíra, camada de sedimentos de rios barrentos que permanece sobre a pele, por muito tempo, em quem
possui o hábito de banhar-se nestas águas.
49 Pacoval é outra comunidade originária de quilombo situada no município Santarém (Pará), Mesorregião
do Baixo Amazonas.
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QUERER VOLTAR
Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar,
Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há
mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
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voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
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voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
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voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar,
Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há
mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
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voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais.
Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar,
Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há
mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar não há mais. Querer voltar,
Minas não á mais. Querer voltar, Minas não á mais. Querer voltar, Minas não há mais.
Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar,
Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há
mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar não há mais. Querer voltar, Minas não á mais. Querer voltar, Minas não á mais.
Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar,
Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há
mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar não há mais.
Querer voltar, Minas não á mais. Querer voltar, Minas não á mais. Querer voltar, Minas
não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais.
Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar,
Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há
mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar não há mais. Querer voltar,
Minas não á mais. Querer voltar, Minas não á mais. Querer voltar, Minas não há mais.
Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar,
Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há
mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer
voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar Minas não
há mais. Querer voltar, Minas não há mais. Querer voltar, Pará não há mais Pará.
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CAPÍTULO_3
76
O MIDAS ETERNO
“Depois de morto, roubaram-lhe a dentadura. Eis o nosso
rei destronado, devolvido à sua solidão, fraco e pobre
como o mais fraco e mais pobre dos seres.” 50
Miséria, hanseníase e abandono espreitam Serra Pelada quase trinta anos depois
do início da ‘febre do ouro’. Restaram casebres abandonados, pessoas perambulando,
quais mortos-vivos, numa cidade fantasma ao redor de um grande lago contaminado de
mercúrio, o oco. Restaram velhos aposentados, mulheres e a prostituição infantil. O
índice de HIV é altíssimo. O gigante ameaçador, percebido no clima tenso do local, está
presente a todo o momento. O gigante quer terra, o gigante quer expulsão, o gigante tem
papéis e advogados, o gigante tem anuência do poder constituído. O garimpeiro tem
apenas uma amarfanhada carteirinha de autorização para exploração de minério, e muita
tristeza da sua atual situação. O garimpeiro tem ao lado de si muitas cooperativas, nem
todas bem intencionadas.
Muitos não deixam o local simplesmente por vergonha, não teriam condição de
encarar seus familiares tantos anos depois, sem nada nas mãos. É regra geral ouvir que
saíram sempre pior do que chegaram. Dos poucos que ainda exploram o minério, pouca
ou nenhuma esperança. O olhar vago de um gaúcho à espera de um hipotético sócio –
com dois meses de máquinas paradas –, e de um também hipotético veio riquíssimo
debaixo de poucos metros de rocha maciça, diz tudo.
Noventa mil homens, como insetos de uma gigante colônia a céu aberto, tiveram a
capacidade de revolver inteiramente uma montanha! A montanha foi a Maomé! A
montanha curvou-se ao desejo e a cobiça: cobiça, mãe-rainha desta colônia iracunda,
deusa filicida. Rabos de dinheiro, viagens de ‘teco-teco’51 onde o passageiro era apenas
um chapéu prosaicamente esquecido. Mulheres, cachaça e muita coragem. ‘Bamburrar’52
foi para poucos, manter a fortuna para pouquíssimos. Muita morte para que a montanha
50 Comentário sobre a peça de Nelson Rodrigues disponível no site Olhar Literário. Disponível em:
http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/Contemporanea/Nelson_Rodrigues_O_Boca_de
_Ouro_resumo.htm. Acesso em: 10 dez. 2010.
51 Avião de pequeno porte, que possui apenas um motor, e muito usado para pequenos trajetos. Foi
bastante utilizado em Serra Pelada: “A pista improvisada no cabo de enxada era apenas uma tênue nesga
de terra rasgada no meio da mata, quase sempre escondida pela chuva, a neblina ou a poeira. Cercada por
morros, era também a principal e única rua do garimpo, vivia coalhada de gente. Descer lá sem problemas
era como acertar sozinho na loto.” (KOTSCHO, 1984: 44).
52 Bamburrar: ficar rico. Por extensão, bamburrado: aquele que encontra muito ouro, fica rico nos
garimpos.
77
mantivesse suas vísceras à mostra. Reza a lenda dos garimpos que “montanha que não é
banhada por sangue, ouro não brota”.
Muita expectativa, pouca esperança. É comum a todos que vão à Serra Pelada
perceber que aquele é um momento especial, algo de positivo irá acontecer brevemente.
Vã expectativa! Tudo retorna ao mesmo lugar: o lugar da espera, da desesperança.
Como tatus cegos que fuçam incessantemente a terra, estes homens não abandonam o
sonho do ouro. Aquela cava submersa é ainda o jardim de rosas onde Midas acolheu o
velho sátiro Sileno53, mestre e pai de Ovídio.
A morte paira na atmosfera de tudo. Por que interessar-se por Serra Pelada e
seus mortos-vivos? Reter suas dentaduras, suas bocarras? Por que escrever, pensar sobre
a ira de Baco vingativo? Esta boca-ânus ancestral. Prazer e gozo. Lembrança de fezes e
chocolate. Insetos e morte. Devoradora criatura que se deixa devorar sem fim, mãe-
rainha deste gofento formigueiro. Por que aprisionar a ira do Baco ancestral? Uma ode
aos primeiros vermes-insetos que irão comer nossas carnes frias. Seremos nós os
garimpeiros cegos a fuçar a lama da cobiça? Onde estarão as rosas do jardim? Seremos
nós o gigante ameaçador? Ou seremos todos o Midas eterno – orelhas de burro –, em
miséria, lepra e abandono?54
53 Em A origem da tragédia, assim o filólogo e filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 - 1900)
descreve o encontro de Sileno o mais velho, o mais sábio e o mais beberrão dos seguidores de Dioniso, e
o rei Midas: "Reza a antiga lenda que o rei Midas perseguiu o sábio Sileno na floresta, durante longo
tempo, sem conseguir apanhá-lo. Quando, por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe qual
dentre as coisas era a melhor e a mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, calava-se; até que,
torturado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras: - Estirpe
miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti
mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser,
nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer." A origem da tragédia proveniente do
espírito da música, Friedrich Nietzsche. Versão para e-book, E-book Brasil. Disponível em:
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/tragedia.pdf. p.48. (Acessado em 14/01/2018).
54 Texto publicado no catálogo da exposição Amazônia - ciclos da Modernidade, realizada no Centro
Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro e de Brasília, sob a curadoria de Paulo Herkenhoff. São Paulo:
Zureta, 2012; e na revista Por uma cartografia crítica da Amazônia. ABDORAL, C.; ALVES, R.;
CECIM, V. F.; DPADUA, F.; LEANDRO, A.; GOUVEIA, L.; QUEIROZ, Armando; VIEIRA, G. Belém
- Pará, p.27 - 27, 2012.
78
Figura 26: Frame do vídeo-performance O MIDAS Midiático (2009), Armando Queiroz.55
55 Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=s4gkkYNop6M Acessando em 13-04-2014.
79
UM TREM DESTINO MACONDO-CRATERA56
“Vinde! Construamos uma cidade
e uma torre cujo ápice penetre nos
céus! Dessa forma, nosso nome
será honrado por todos e jamais
seremos dispersos pela face da
terra!” (Gênesis 11:4)
Figura 27: Torre de Babel (c.1563), de Pieter Bruegel, o Velho.
Óleo sobre painel, 114 × 155. Museu de História da Arte, Viena.
(Legenda intencionalmente trocada com a legenda da Figura 31)
Uma mecha de cabelo sobre o rosto. Carbenet Sauvignon. Conta-gotas-de-mar-
mistério-de-amor. Numa noite exageradamente quente a palavra não redime. O que,
pois está escrito? Uma camisa suada. Um rosto observador que se esconde na multidão.
O que ele diz e não diz? Que parece tolo, que parece bobo, e não diz? O que a encanta e
não diz, que parece tolo, que parece bobo e não diz? A fuga premeditada, o prazer do
sequestro. Uma Paris que não existe existindo em nós. Belém-Paris-tropical. A conversa
solta tão esperada. A putas do 1900 tão grávidas de sentimento e de desejos de escuta.
Olhar que diz e perturba o artista. É pai ou cúmplice? Ou cúmplice-pai? Morre um
pedaço de nós na Latina-América. Chora a realidade “tardã”. Chora a realidade
56 Esse texto foi escrito sob o impacto da morte de Gabriel Garcia Marques, em 17 de abril de 2014.
80
descarnada de sonhos. Uma breve esperança de que o dia vazio, enterneça a noite
prenhe e vivida. O chapa, o chefe são bem-vindos e amados. Urge o encontro, as putas
dormem para o avesso do tempo que segue a diante, mas continuam a nos arguir
sentimentos. Vermelhos coques de Paris e mangas-frutos elegantes a serem
banqueteados no desesperador e constante “débâcle-bancarrota”57 das selvas. O-
mistério-de-Clara-no-Mar-Dulce-Barroco-Oco. O que, pois está escrito? “Conectou a
uma bailarina de corda o mecanismo do relógio, e o brinquedo dançou sem interrupção,
ao compasso da própria música, durante três dias.”58 Amo a mulher que está ao meu
lado. Amo seu corpo, seu cheiro que movimenta tudo, a bailarina sem relógio que é, seu
relógio de pulso sem sentido, o celular sem sentido, a bússola sem sentido, o chapa, o
chefe, o que se diz sem dizer, a menina que é, o desejo que é. O pingo. A lágrima-rio-
barro-barroco-que-cai. O conta-gotas de desejos, os segredos de amor. Um parque de
diversão à deriva de si mesmo. As princesas todas. Ariel. Ariel. O todo, o nada da
existência. O movimento, o nada. O desejo de permanência. O desejo de filho. De
perpetuidade de sentimento. Uma Paris que não existe existindo em nós. Morre um
pedaço de nós na Latina-América. Amo e amo. Amo e digo, amo e amamos, e sinto, e
quero, e bobo, e tolo, e ela, e tudo, e tempo. Num querendo viver de nós dois, tudo num
querendo querer de nós dois.
AS LAVANDERIAS DE PARIS OU EXATOS 51 KG
Besame/Luzes da ribalta/Besame mucho/Que te siento mucha falta
Ah soy luz del fuego/Ah yo soy rumbera/Soy milonguera
De la Sierra Pelada/Conchita mercedes dolores
De la plata/Guantanamera
Milongueira da Sierra Pelada – Gretchen
O garimpo constituiu sua mítica com rabos de dinheiro amarrados ao cós da
calça dos garimpeiros enriquecidos, com aviões de linha fretados por uma única pessoa
e tantas outras peripécias que a atração do dinheiro pode comprar. É a lógica do gozo
57 Débâcle, substantivo feminino (em francês): fracasso, ruína, queda. Bancarrota (em português),
substantivo feminino com o mesmo sentido: quebra, falência ou insolvência, acompanhada ou não de
culpa ou fraude do devedor.
58 GARCIA MARQUES, Gabriel. Cem anos de solidão. Tradução Eliane Zagury; ilustração de Carybé. –
60ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2006. p. 49.
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que se instaura novamente. É o salto vertiginoso para o absurdo, o extravagante, tudo
muito semelhante ao fausto da borracha, a Belle Époque amazônica, na virada do século
XX. Destas duas experiências humanas na Amazônia o que as igualam e as identificam
é que, na base das duas, a exploração do homem pelo homem às sustentam na
brutalidade da exploração. A mesma riqueza que construiu os casarios da Av. Nazaré
em Belém, os teatros da Paz e Amazonas, que embelezou o palácio Lauro Sodré,
urbanizou cidades; fez morrer de febre, bicho ou espingarda, o seringueiro em levas
nordestinas. Quase setenta anos depois o mesmo deslumbre pela riqueza fez o homem
acreditar na riqueza “fácil” das lamas do garimpo. Queda. A insistência dos garimpeiros
pelo rebaixamento das encostas a dar segurança ao aprofundamento da cratera, se
concretamente objetivava a garantia física do garimpeiro, soa como uma porfia entre o
desejo e a realidade que diz não ao sonho de riqueza. Quanto mais profunda a cava,
quanto mais ouro resgatado das entranhas da terra, mais o risco se impõe. Bruteza da
vida:
Na noite da última terça-feira (12), Gretchen e Viviane
Araújo, que estão inseparáveis desde o início do reality show,
conversaram sobre as pessoas que estavam no celeiro. Gretchen, que
já passou por lá, disse que não tem pena de ninguém. “Eu não tenho
pena de ninguém, porque pena é um sentimento muito sério. E ter
pena de quem dorme dois dias no chão, pra quem já dormiu no
garimpo como eu, não é nada”, disse Gretchen.59
Reza a lenda de Serra Pelada que o desejo de muitos garimpeiros era o de manter
relações sexuais com a cantora Gretchen60 - naquele momento no auge do sucesso
nacional -, foi negociado a peso de ouro. No caso, o peso de seu próprio corpo. Exatos
51kg. O imperador inca Atahualpa aprisionado pelo conquistador espanhol Francisco
59 Matéria online sobre o reality show A Fazenda 5 (2012). Fonte: http://www.ofuxico.com.br/noticias-
sobre-famosos/a-fazenda-5-viviane-araujo-diz-que-ja-dormiu-em-chao-de-cadeia/2012/06/13-
141439.html Acessado em 06-10-2016
60 A carreira de Gretchen no cinema iniciou em 1979 em um filme infantil com suas irmãs, "Vamos
Cantar Disco Baby". Em 1982, Gretchen fez Aluga-se moças, pornochanchada que contava também com
a participação de Rita Cadillac, e ganhou certo aspecto cult no Brasil. Esse filme, na época, quebrou todos
os recordes de bilheteria, ficando à frente de "Caçadores da Arca Perdida" de Steven Spilberg. Filmou
também "A Rota do Brilho", de Deni Cavalcanti, ao lado de Alexandre Frota. Entre 2006 e 2008,
participou de filmes com conteúdo erótico/adulto. Fonte: https://www.last.fm/pt/music/Gretchen/+wiki
Acessado em 10-10-2016.
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Pizarro prometeu uma sala repleta de peças de ouro e o dobro desta quantia em prata
para ganhar liberdade. Exigências e fugas desesperadas:
Fonseca’s Gang. Você certamente já foi a algum show em que eles
fizeram a segurança. Conheça a história da mítica empresa que há 42 anos
coloca sujeitos grandes e com cara de mau entre você e seus ídolos Piripiri.
Em meados dos anos 1980, Gretchen fez um show para garimpeiros da Serra
Pelada, no Pará. Eram 20 mil homens isolados havia meses e que, quando
viram aquela bunda mexendo no palco, avançaram em cima dela. Zé
Português, um dos Fonseca’s, pegou Gretchen no colo, entrou numa canoa e
remou para longe dos desesperados. Memorável.61
Em se tratando das histórias relacionadas aos exageros do ouro, inúmeras vezes
fatos reais são aparentemente muito mais inverossímeis do que a ficção pode nos
oferecer. Exigências e fugas desesperadas.
Imagem 28: O ator Christopher Plummer interpreta Atahualpa no filme
O real caçador do Sol (1964), direção de Peter Shaffer
61 Fonte: http://vip.abril.com.br/boa-vida/show/fonsecas-gang/ Acessado em 10-10-2016.
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Quando Atahualpa chegou, a praça aparentava estar vazia, pois os
homens de Pizarro aguardavam ocultos. Atahualpa foi recebido apenas pelo
padre Vicente Valverde que, através de um tradutor, imediatamente
interpelou Atahualpa exigindo que ele e seu séquito se convertessem ao
cristianismo e se submetessem à soberania do rei espanhol, ameaçando-o,
pela recusa, de ser considerado um inimigo da Igreja Católica e do Reino da
Espanha. De acordo com lei espanhola, a esperada recusa de Atahualpa à tal
"Exigência" permitiria que os espanhóis oficialmente declarassem guerra aos
incas. Pelo relato dos conquistadores, já havia sido dada uma bíblia a
Atahualpa que, tendo ouvido a insolente exigência, atirou-a ao chão,
constituindo este gesto uma grave ofensa aos invasores. O relato é de que
mais de seis mil soldados incas foram dizimados no curso de duas horas e
Atahualpa acabou aprisionado no Templo do Sol. Em troca da liberdade,
Atahualpa concordou em encher de peças de ouro o grande aposento que
ocupava, e se obrigou a dar ao espanhol o dobro daquela quantia, em prata.
Embora aturdido com o resgate, Pizarro jamais teve intenção de libertar
Atahualpa, que pretendia manter refém para evitar a transferência do poder e
escalada da violência, já que o general inca Ruminavi ainda estava no
comando de grande contingente de guerreiros incas.62
Como na libertação de Atahulpa a construção da mítica sobre o garimpo de Serra
Pelada não se resume ao campo circunscrito das “mentiras bem contadas” que muito
bem caberiam à sombra da frondosa Árvore da Memória ou Pau da Mentira63,
localizada em frente ao restaurante Vitória na Vila de Serra Pelada. O imaginário de
Serra Pelada ganhou o mundo. A dicotomia verdade/mentira dá lugar a outra lógica, a
lógica do desmesurado, do desmedido. Distanciados no tempo do “baronato” da
borracha, da queda do Império Inca, as histórias de Serra Pelada convivem
tranquilamente com resgates a peso de ouro, a queima de notas de cem dólares para
acender charutos e roupas enviadas a lavanderias de Paris que o poder do “látex”
financiou. Não seria diferente para Rita Cadilac. Sonho. Exigências, fugas e deslumbre.
Realidade nua e crua:
TPM 95: E quando você foi ao garimpo, em Serra Pelada, no Pará, ali sim tinha
risco, porque no presídio era tudo controlado. Rita Cadilac: A primeira vez, em
1985, 86, teve um risco. Na época eram 60 mil homens. Eu era a única mulher dentro
da selva. Tinha uns 50 policiais federais... e 60 mil garimpeiros. Se um fala assim:
“Come!”, morriam uns 10 mil, mas iam sobrar 50.
62 Érica Turci Atahualpa e Pizarro in Império Inca: Da guerra civil a Francisco Pizarro. Publicado em
30/04/2014 Disponível em: https://pt.scribd.com/document/155241119/IImperio-Inca-pdf
63 Árvore da memória ou Pau da mentira: local na Vila de Serra Pelada, debaixo de uma árvore frondosa
em frente ao Restaurante Vitória; onde os garimpeiros, depois do auge do garimpo, passaram a se reunir
para contar seus feitos, suas histórias.
84
TPM 95: Ficou com medo? Rita Cadilac: Não, a única coisa que aconteceu é que
pensei que no primeiro show não estava agradando, levei tanta pedrada... mas era
pepita.
TPM 95: Guardou as pepitas? Rita Cadilac: Não podia trazer. Você podia trazer
como joia, lá mesmo teriam que transformar em joia. A última dei pra minha neta que
nasceu, a Larissa.
TPM 95: Onde você dormia lá? Rita Cadilac: Dormíamos em acampamentos
improvisados, mas tinha até banheiro. Eu gosto de uma coisa mais rústica. 64
Imagem 27: Rita Cadilac no garimpo de Serra Pelada, no Pará, em 1986:
"Eram 60 mil homens. Eu era a única mulher dentro da selva.
O ouro, o desejo do ouro, por conseguinte, o desejo de enriquecimento imediato,
algo que solucione de vez todas as suas dificuldades materiais, não escapa dos sonhos
daqueles que apostam numa “cava”, pás, picaretas e muita sorte. Viagens mirabolantes,
64 Entrevista de Rita Cadilac à Revista Tpm 95. Páginas Vermelhas. Postado em 09.02.2010 | 21:16 | texto
por Carol Sganzerla e Ronaldo Bressane. Fonte: http://revistatpm.uol.com.br/print.php?cont_id=3018
Acessado em 10-10-2016.
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moradias suntuosas, a compra ilimitada do que quiser, das benesses sexuais. E,
sobretudo, o reconhecimento social. Vide o apelo aos jogos chamados “de azar”: o
“carteado” profissional, a contravenção tolerada pelo Estado em relação ao Jogo do
Bicho. Além dos jogos legalizados como a Loto, a Loteria Esportiva, a Sena e tantas
outras modalidades de jogos permitidos. A história da riqueza em Serra Pelada, nos idos
dos anos 80, concretiza a maioria destes sonhos impossíveis para o grosso do povo
brasileiro. O fenômeno existe, foi noticiado na TV! Porque não acreditar que este
enriquecimento pode ser também seu. Por que não abandonar tudo e ir à busca deste
sonho?
CAPÍTULO_4
86
ÁRIDA TERRA, TERRAS DE MINAS
Alô, alô interior! 65
A decisão de caminhar está lançada, todas as ruas de Belo Horizonte levam á
Roma. Cabelos crespos em pó dourado. Contorcido o cajueiro, aterrissa o avião. Árido,
o vermelho-sangue da terra. Xangô entre montanhas, Reis Negros de batalhas intestinas.
Grosso fumo. O doce caldo gotejante do fruto-sumo, ouro ardente a escorrer das
montanhas imemoriais. Curvas suspensas de concreto-osso rivalizam com o barro-tijolo
do antigamente. “Tudo vaidade, e vento que passa. Tudo vaidade, e vento que passa.
Tudo vaidade, e vento que passa”66. Um mundo de ponta-cabeça. Capilaridades de
universos paralelos.
Jornal Hoje em Dia: Número de moradores de rua cresce 70%
em BH em dois anos: pelo menos 3 mil vivem sem teto fixo. O
crescimento da população de rua em Belo Horizonte não é
apenas uma impressão, mas uma constatação da Secretaria de
Políticas Sociais da PBH. O órgão já considera que, pelo
número de atendimentos prestados, há pelo menos 3 mil
pessoas morando nas ruas da capital – um aumento de quase
70% em relação aos 1.827 moradores contabilizados no último
censo, realizado em 2014.67
Junto ao mar de neblina, o viajante. Este momento-conversa chama-se: chove
nos olhos sem morte, ainda. Veio num sonho. Eles tinham acabado de voltar da cidade,
ainda molhados. – Vem, senta. Toma uma cerveja. Diz, vindo ao seu encontro. Estoura
o lacre de um latão gelado no barril de sal e serragem. Sentam-se entre as barracas e
65 “O radialista Almir Silva escreveu seu nome na história do rádio apresentando o “O Alô, Alô Interior”,
que foi um dos programas de muita audiência da Rádio Guajará, depois também na Marajoara. Foi no
comandado deste programa que ele criou um estilo próprio, muito irreverente, para transmitir as
mensagens. O ‘Alô, alô interior’ foi o primeiro programa específico para as ondas tropicais por mexer
com o interior do Estado do Pará.” Fonte: http://radiomemoria-pa.blogspot.com.br/2014/07/almir-silva-o-
alo-alo-interior.html, (acessado em 10-10-2016)
66 A Bíblia (ECLESIASTES, 1:2).
67 Matéria Jornal Hoje em Dia (sexta-feira, 21 de abril de 2017). Fonte:
http://hojeemdia.com.br/horizontes/n%C3%BAmero-de-moradores-de-rua-cresce-70-em-bh-em-dois-
anos-pelo-menos-3-mil-vivem-sem-teto-fixo-1.445437 (acessado no mesmo dia)
87
trailers acampados. Não é dia, nem noite, ainda. – “Pai, em tuas mãos entrego Meu
espírito.” (Lucas 23;46) Poderiam ou não ser ciganos. Tia Saphira era e não era cigana.
Seus vermelhos, anéis e colares de poetiza. Muitos. O primeiro adulto a dar atenção à
minha mãe. Atenção verdadeira de conversa. Verdadeira. Conquisto-a para sempre em
admiração e vontade de espelho. Minha mãe tornara-se cigana e não-cigana em seus
vermelhos, anéis e muitos colares de poetiza. Bruxuleiam os poucos bicos de luz
incandescentes. Anoitece sem volta. Saphira também é uma pequenina joia que vive no
colo de sua mãe lá para as bandas de Belo Vale. Grassar, alastrar-se, é também o que faz
o andarilho. De ponta-cabeça, as coordenadas geográficas. O que procura aquele que
perambula, um lagoinha para o café? Café preto, preto. Fonte de experiências esta
comunicação caminha desejosa de encontros. Grassar, expandir-se. Ouvir o murmúrio
suave de nossos pares ao pé do ouvido. Todos. Todos que partem e partilham sua parte,
o comungar do sensível. Ainda penso em Serra Pelada e sua gente. As balas insistem em
cair flamejantes, tocaias e perigos. Tiradentes. O ontem tão distante não se estabelece, o
hoje-agora, prestes a ser o amanhã, se desfaz inconcluso. Faz-se mais do que necessário
a escuta, a interlocução; suspensa manhã entre viadutos que passam e pessoas
sonolentas encasacadas, vidros-vitrines de ônibus. Penso em Serra Pelada e sua gente.
Penso na bruma cerrada que une e anula diferenças entre o oco do norte e o vazio de
estábulos do Curral del Rei.
Triste Macabéia.
88
Figura 30: O Andarilho Sobre o Mar de Neblina (1818), de Caspar David Friedrich.
Óleo sobre tela 94 x 74,8cm. Acervo Kunsthalle, Hamburgo.68
68 Fonte: http://noblat.oglobo.globo.com/noticias/noticia/2009/08/pintura-andarilho-sobre-mar-de-
neblina-1818-213621.html. Data de acesso: 16-06-2017
89
Quem caminha perde a cabeça. Perde o prumo do reconhecível. Perder-se.
Perder-se. Um mundo de ponta-cabeça. Homens perdem a cabeça, mulheres perdem a
cabeça, padres perdem a cabeça, bispos perdem a cabeça. Mulheres de padre viram
Mula-sem-cabeça. Cortem as cabeças! Cortem as cabeças! A corda sempre arrebenta
para o lado mais fraco. Cortem as cabeças! O interdito. Alguém passa lá fora, os cães
ladram. Os homens ladram. Um passo em falso e a desgraça da mulher. Um bispo sem
cabeça. Homens perdem a cabeça por terras, por riqueza, por amor. Perder a cabeça por
amor. Cruz, espada e desejo classificatório racional. Homens não viram Mula-sem-
cabeça, mas pedem a cabeça. A desgraça da mulher. A corda sempre arrebentará do
lado mais fraco. Devemos saber o que é Ajuri. O paço em falso, a cobiça, o dinheiro, a
terra. O domínio do mundo. Um mundo de ponta cabeça. O Silêncio do Matá69. Desejo
carnal proibido. A solidão do Inferno Verde, a amplidão das águas. Um mundo de
ponta-cabeça. Mulheres de padre viram Mula-sem-cabeça. Não haverá escolha possível.
Frexal. Quantos perderam a cabeça? Quantos se perderam no mato e se encontraram?
Delírios e febre noturna. Um passo em falso. Rezas e benzedeiras não tirarão do corpo a
paixão da alma. A desgraça da mulher. A desgraça do homem. A paixão da mulher, a
paixão do homem. A carne, a paixão. O interdito. Sempre o passo em falso e a desgraça
da mulher. Um mundo de ponta-cabeça. Homens perdem a cabeça, mulheres perdem a
cabeça, padres perdem a cabeça, bispos perdem a cabeça.
Caminhar e perder a cabeça. O Louco, Arcano XXII do Tarot é um andarilho,
enérgico, ubíquo e imortal. É o mais poderoso de todos os Trunfos do Taro. Como não
tem número fixo, está livre para viajar à vontade, não raro, perturbando a ordem
estabelecida com as suas travessuras. Como vimos, o seu vigor o impulsionou através
dos séculos, onde ele sobrevive em nossas modernas cartas de jogar como o Coringa.
Aqui ainda se diverte confundindo o estabelecimento. No pôquer fica louco, capturando
o rei e toda a sua corte. Em outros jogos de cartas surge quando menos se espera,
criando deliberadamente o que decidimos denominar um erro de carteio. O Louco
andarilho pode confundir-se com o Enforcado, arcano XII do Tarot, dependurado e
caminhante das ideias?
69 O Silêncio do Matá e Flexal, ou Frexal, são comunidades quilombolas do município de Óbidos – PA.
90
Figura 31: O pendurado (Enforcado), Arcano XII maior do Tarot de Marselha (c. séc.XV).70
CHEGANÇA OU AS MÃOS DE UMA VELHA SENHORA DE VINTÉNS
Senhor Rompe Mato, Senhor
Quebra Galho! O Senhor Que Lhe
Chama É Jesus No Calvário! Na
Sua Aldeia Ele É Caboclo Seu
Rompe Mato, Seu Arranca Toco.
Ponto do Caboclo Rompe Mato
70 Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Enforcado_(tar%C3%B4) (acessado em 10-10-2016)
91
Figura 32: Serra Pelada – a lenda da Montanha de Ouro (2013), dir. Victor Lopes.
O caminhar por dentro. Andarilhar por dentro. O dentro, proposto por Jorge Luis
Borges no escrito A Biblioteca de Babel talvez possua, ao reverso, a mesma carga
enigmática do que buscamos na fisicalidade “do fora” dos corpos. De imediato
identifica o universo como “o que os outros chamam a Biblioteca” pode estar contido
no fundo de uma gaveta, o dentro. Dentro do guarda-roupa mora a caixa. Há muitos
anos não a vejo. Contudo, imagino que ela ainda conviva com apliques de cabelos,
“bolsas de sair” e algumas bijuterias quebradas. Memórias eufóricas agora adormecidas
no fundo da gaveta. A dona da caixa também não costumava remexer naquele novelo de
lembranças. De certa forma, desde pequenino fui seu fiel depositário. O fascínio do
passado, contado com riqueza de detalhes, sempre preencheu minha imaginação.
Cabiam e não cabiam na caixa histórias que não vivi, mas que, contadas assim, faziam
com que eu as experimentasse com intensidade e veracidade. Transbordavam para além
do guarda-roupa... Era eu, era ela! Eram todas as almas do mundo que num salto de
duas gerações me faziam caminhar pelos labirintos de uma cidade lindamente
92
reconhecível. Curioso que neste guarda-roupa também repousam todos os outros
guarda-roupas das casas que fomos morando. Ao abrir cada porta, outras portas
aparecem num infindável jogo de espelhos que, a qualquer momento, poderá tragar o
presente fazendo com que penetremos infindáveis realidades paralelas. Uma pérola
caída, uma abotoadura, um par de sapatos, a poeira dos tempos... Beijos roubados,
amigos inseparáveis. Brindes tilintantes e finais de festa. Nada melhor do que amigos
exaustos na última mesa da madrugada! Ah, burguesa Belém sem culpa de si! Tão
pequenina: cidade sem muros! Na minha retina aquele casal eternamente pegará a
estrada Mosqueiro on the road, on the rocks. No rádio Guilherme Coutinho dedilha os
bailinhos da Assembleia Paraense. Papa Jimmy ultra-cor, ultra-som, destoa do
caudaloso e fulgurante Pop Som. “A terra treme!”, dirá Orlando.71 Carnavais e banhos
de igarapé em matizes sépia repousam entre as traças que devoram sentimentos,
enquanto Caetano canta Leãozinho. A caixa, agora sei, é um repositório imagético
inconsútil. Longe do olhar e da luz da manhã, pode ser o que quer. Diferentemente da
curiosidade de Pandora, melhor seria que a fizéssemos serenar eternamente no fundo da
gaveta. Ela está lá, eu sei... pronta à violação! Hoje, depois que a dona da caixa foi
morar no guarda-roupa, tenho a nítida impressão que tornei-me mais uma das portas,
prestes a ser aberta por mais um menino ávido de sonhos e passado. Uma eterna jovem
senhora. Estamos em Minas Gerais ou no reflexo de um espelho de armário trocado?
Viemos da planície do mar de gente. Mês de outubro todo ano. Corpos
encharcados de suor e lágrimas. Um sorriso. O rio está submerso em nós. A Grande
Mãe nos guia, de suas entranhas parte o cordão umbilical que nos une, iguais em
qualquer beira de rio. Corpos encharcados de suor e lágrimas. Um rio anulado, um rio
negado, posto em subterrâneo. Está lá, contudo seco-cego ao nosso deslumbramento. A
dança dos corpos revela o desassossego do rio. Unidos, ritmados seguimos. Quantas
lanternas devemos acender para evocar o grosso brotar desta Boiuna ancestral? Sua
fúria pode transbordar navios-cidades-casas-de-morar.
71 Orlando Manescky, artista visual, professor da Universidade Federal do Pará e curador paraense.
Amigo querido e interlocutor constante.
93
Figura 33: O silêncio é de ouro (2016-2017), Armando Queiroz.
MALUNGO72
Quem olha para fora sonha,
Quem olha para dentro desperta.
Carl Gustav Jung
Negras, negras naus. Malungo, irmãos de barco. Novamente um lagoinha para o
café. O bairro boêmio de Belo Horizonte continua lá, Lagoinha. Agora habitado pelo
crack e abandono do longe dos ônibus e carros que passam em velocidade. Sombras
andantes e escuridão à luz do dia. Trapos e farrapos, dignidade de Pacoval. Ele se diz
investigador de polícia, olhos alucinantes, traz consigo a erva mate que acaba de
comprar no Mercado Central. Ela, muito provavelmente uma velha prostituta que agora
72 Malungo (do kikongo m'alungu, contração de mualungu - locativo para "no barco", "no navio") quer
dizer, na gíria falada pelos negros brasileiros durante a escravidão, "companheiro", pessoa da mesma
condição. (CASCUDO, 1954: 540-541)
94
perambula pelas ruas da capital. Rosa, unhas e cabelos muito compridos. O outro de
olhos tristes e lindos - lindos e verdes das misturas de Holanda -, conta-nos sobre as
desventuras de si. Hollanda, seu fictício nome verdadeiro. Novamente um lagoinha para
o café. Uma cerveja, duas. Conversa e atenção do humano que nos atrai e confunde.
Como Wittgenstein73, todos a escrever sobre si mesmos de sua própria altura, com os
pés descalços. Andarilhos sobre o mar de neblina. As balas caem flamejantes aos nossos
pés. Tudo será ruína. Arruinadas criaturas que somos. O ontem distante não se
estabelece, o hoje-agora, prestes a cumprir sua sina. Suspensa manhã entre carrinhos de
bebê, debaixo do viaduto que passa e pessoas sonolentas encasacadas. Vidros-vitrines
do ônibus. Penso em Serra Pelada e sua gente. Penso constantemente na bruma cerrada
que une e anula diferenças ente o oco do norte e o vazio do Curral del Rei. Penso em
malungos.
Os carros avançam no reino das dez mil coisas. Gosto do ruído surdo da chuva
arrastada pelos pneus molhados. Um cajado, uma cerimônia, a terra minerada. Crianças
brincam de minerar tampinhas de refrigerante em pleno Carnaval. Retorno dos deuses
negros. Negra a mão do trabalho. Negra a moça, filha de mãe de rua. Triste o rechaço.
Triste a indiferença institucional. Poderoso o esborrar da carnavandalização74 do
mundo. Uma rainha do Congado e uma triste tristeza das ruas da qual fomos capazes de
instituir. Triste persistência nossa em não perceber rainhas e moças filhas de mãe de
rua... de não nos sentirmos filhos destas mãos, destes seios, destas barrigas-mulher.
Na janela brotou uma planta, gosto de vê-la crescer. A planta diz não aos tiranos.
Tiranos os dias. Negras, negras naus. Busca e encontro, as distâncias geográficas que
73 “Não se consegue escrever algo sobre si mesmo que seja mais verdadeiro do que aquilo que se é. Essa é
a diferença entre escrever sobre si mesmo e escrever sobre objetos externos. Escreve-se sobre si mesmo
de sua própria altura, não apoiado em muletas e andaimes, mas com os pés descalços”. Pensamento do
filósofo Ludwig Wittgenstein (Cultura e Valor, 1937) citado na dissertação O dicionário para Escolas
Primárias de Ludwig Wittgenstein (2010), de Maria Fernanda de Moura Reis, apresentada à Faculdade de
Educação de São Paulo (FEUSP) como requisito parcial para a obtenção do Título de Mestre em Filosofia
da Educação. p.19.
74 A ideia de “carnavandalização do mundo” remete como homenagem ao termo “Carnavandália”
concebido por Thálita Motta que assim denominou sua proposta de Expedição, na FEU – Feira de
Expedições Urbanas do Grupo LEVE (2016). Segundo esta pesquisadora de artes cênicas, trata-se de
aplicar ao cotidiano a potencialidade do Carnaval em esborrar e distender as fronteiras dos grupos sociais,
misturar, por em cheque o que está implícito nas distâncias e comportamento excludentes.
95
atiçam o mistério, o desconhecido. A lama, o barro da criação. Busca, encontro,
imagem. A fluidez da palavra. A água como condutora de sentidos. O elemento
feminino prenhe de desejos. O gesto, a ação transformadora. Desejos de busca, de
encontros, de reconhecimento mútuo.
O CORONEL SANGRANDO
Apenas uma questão de tempo. O corpo-imagem estirado no chão frio da galeria
anuncia a despedida de si mesmo. De suas entranhas a transmutação constante. Quem
poderá estancar o fluxo poderoso da vida? Diante de nós, o desmoronar silencioso que
tanto apavora. Shiva, o destruidor. Finar-se a cada instante, envelhecer, craquelar-se. A
eternidade posta em cheque na fragilidade da matéria que se esvai. A ruína da carne.
Apenas uma questão de tempo, murmura a aparência do corpo. A decomposição do
papel de arroz - onde a juventude está impregnada - anuncia a passagem para outro
plano de existência: a perenidade conclamada no punctum primordial da imagem. O
pungir necessário à permanência de significado que acompanha toda a trajetória poética
da humanidade. A individualidade assimilada pela sensibilidade do outro. A
coletivização do ser. Cabe a cada um de nós devorar este corpo-imagem para que ele
sobreviva. Cabe a nós metabolizar o brotar dos grãos de arroz que negam a
inexorabilidade do fim. Alegre, abana o rabo o cão de três patas. Desconfio do vazio
que há entre nós. Todas as circunstâncias não explicam o abandono. Hoje será mais do
que nunca. Cada exemplo transformará culpa, em culpa maior. O rio arrasta suas
correntes. O lodo, a lama, a tabatinga. Os homens de branco estão para chegar. O
convés, a bebida, o tabaco. Urdiduras, cabelos platinados. Unhas e lábios espreitam.
Verde limão. Cílios postiços, amores postiços. Barrigas postiças. Filhos postiços. Os
homens de branco estão para chegar. - Por amor, ou “besteira”? Belém pagã dos navios
em fuga. Rotas de cargas escusas. O café, o convés, a corrente, a lama, o branco, o
abandono, a urdidura, a barriga, a bebida, o tabaco, a puta. Descalças pisam o frio da
noite. Luzes alaranjadas, persianas fechadas, Macapá. Munguba75. Capoeira do Rei.
Muita maquiagem, pouca idade. Muita vida, pouco sizo. Alegre, abana o rabo o cão de
75 Munguba, nome do retiro (área de pousada de gado) durante o período de seis meses de ‘águas grandes’
nos rios da Amazônia, o inverno amazônico. O retiro é pertencente à fazenda Uruguaiana localizada no
rio Araguari (Amapá) que foi de propriedade de meu pai, Armando Santos.
96
três patas. Violento amanhecer. Ela sabe que os homens de branco, estão para chegar.
Entre o tempo e o destino, Monte Dourado. A celulose, a tuberculose química. Apavora
silêncio dos bichos. Sem muita conversa. Afogados. A dança: os seios suados, túmidos.
O cheiro de querosene das lamparinas. Os seios túmidos. O suor que cheira o menino. A
vingança, a cachaça, a traição. A. S.76 Uma janela para ver, uma porta para entrar. Os
desejos do caboclo. Os desejos de Marinaldos, Adrialvas, Marialvas. Marinaldo,
Adrialva, Marialva. Paisagem, porto, passagem, estiva. Passagem-paisagem. Os desejos
de Arlete. À sombra do oitizeiro o romancista conta histórias. “Vento solar e estrelas do
mar", fabulará o Borges. Não mais de quinze casas e três ruas de areia limpinha.
Madrugadas de luar e meninos e meninas que brincam de romance. As frutas de quintal
roubadas. Os saltos dos mais altos galhos na maré crescente. A queda de costas e mais
novos saltos de desafio. Os mesmos saltos de trapiche de Marapanim que deságuam na
maranhense Bom Gosto, não mais de quinze casas e três ruas de areia limpinha. Minhas
mãos escalavradas tateiam as páginas destes livros-pessoas de almas escalavradas.
Marinaldo, Adrialva, Marialva, Arlete e Arletes. O sol inclemente, as três ruas
inclementes sendo paisagem. Sendo, sendo.
76 A.S. iniciais de Armando Santos, meu pai. Iniciais utilizadas para marcar a ferro em brasa o gado da
sua fazenda.
97
Figura 34: Do pó ao pó, 2013. Ação performática para fotografia. Armando Queiroz.
ONDE AS ONÇAS BEBEM ÁGUA
Esta noite um rosto visita minha casa. O que estará acontecendo neste momento
naquele lugar tão distante? Uma única gota de café pende da beirada do bule, parece
uma lágrima negra que nunca secará. Ela sabia que eles viriam através do rio, de
corações regelados. A quentura nas costas arde, o tempo não passa, passa sem passar.
Agruras e Quimeras escarlates. Tecidos desbotados bruxuleiam lentamente, os costados.
O pano de boca se estende pela baía, o tempo passa e não passa, teso. Pouco vento,
muito muito muito tempo. Muitas costas, muito ardor, e tempo, e tempo. O lodo, as
distâncias das terras pagãs. Peles-urucum margeiam as matas senhores de si, seus
habitantes. Um terço, um terçado. A margem, à margem da história. Muito muito
tempo, o agora. Ela sabia que eles viriam através do rio, de corações regelados. Os
castigos do céu que não conheciam. Estamos cegos e vemos, um homem é carregado
sobre os ombros de seus iguais. Belo Horizonte à deriva. Belém, Estrada Nova, rochas e
98
lamaçal. Alea jacta est. O que leva o rio Amazonas a desembocar em outro rio
Amazonas? Superfícies em desalinho. Zonas intersticiais. Estar à deriva nos leva a
compreender o quão importante é sustentar que as lonjuras não nos separam: irmana-
nos. Muitas línguas, muitas bocas. Marcados para viver ou morrer? Os castigos do céu
que não conheciam. Gente de trecho. Somos gente de trecho. Um sistema circulatório de
rios, margens e tempo-gente. De uma Mulher vestida de Sol77, fala a TV enganchada no
trapiche. Madrugada. Os carapanãs ainda não deram trégua. Do hotel para a lancha,
acompanha-me um pastor também hospedado. Para trás deixamos o que acreditamos ser
sementes. Sementes das sementes. Trazemos realmente nas mãos sementes
germinantes? Como plantar em solo já cultivado, revolvido pacientemente pelo suor das
eras? Respeito profundo pela experiência dos daqui. A sedução do capital é tremenda!
Esmagadora em suas bordas. Uma moça de traços indígenas serve as mesas do bar. Tem
o corpo jovem e velha a alma. Seu semblante é grave, duro, mesmo quando sorri.
Quanta dor carrega? O porto e caminhões empoeirados transportam gado e sofrimento.
Lágrima de touro-gente abatido. O animal-gente pressente sua hora, sabe que vai
morrer. O crânio atingido e os estertores do nada sentir. As fazendas passam ao largo do
rio. Bar Garra da Gata. Comprei para ela a nossa segunda aliança das mãos de um
africano na Magalhães Barata, aço. Aço. Aço resistente. Aço-não-grilhões. Arco-Íris
também pode ser aliança e não-grilhões. Ficará somente para a lembrança o Hotel
Pepita78, a gentileza de seus donos e a bicicleta emprestada? Meus colegas professores
de tantas localidades que ainda quero conhecer? Sabemos que não. Virão as selas para
montar búfalo, as coberturas de palha das casas, as aldeias, os quilombos. Os peixes. As
danças. Os alunos. O úmido da existência cada vez mais entranhada no que quero da
vida compartilhada com todos. A tuíra de rio que nunca saiu do cheiro do meu corpo.
Corpo-corrente que impulsiona e não aprisiona, desfaz-se. Cuias que cruzam destinos.
Dignidade de Pacoval.
Viemos da planície do mar de gente. Corpos encharcados de suor e lágrimas.
Um sorriso. O rio está submerso em nós. A Grande Mãe nos guia, de suas entranhas
parte o cordão umbilical que nos une, iguais em qualquer beira de rio. Corpos
77 A Bíblia (APOCALIPSE, 12:1)
78 Hotel localizado na cidade de Alenquer no estado do Pará, Baixo Amazonas.
99
encharcados de suor e lágrimas. Um rio anulado, um rio negado, posto em subterrâneo.
Está lá, contudo seco-cego ao nosso deslumbrar. A dança dos corpos revela o
desassossego do rio. Unidos, ritmados seguimos. Quantas lanternas devemos acender
para evocar o emergir desta Boiuna79 ancestral? Sua fúria pode transbordar navios-
cidades-casas-de-morar. Lanterna dos afogados. Mesmo espelhados e com mais de vinte
andares e muitos metros de altura os casebres de Belém permanecem estruturados de
palha, taboca e sangue indígena. Damos a ver espelhos que não somos nós. As velhas
palhas trançadas, ainda hoje recobrem estes casebres. Quatro ou cinco casebres, diria
Antônio Vieira. No mercado do Ver-o-Peso nem todas as novidades vêm do Além-mar.
Muitas e muitas destas novidades, que não são tão novas assim, carregam as vozes dos
invisibilizados das ilhas e furos80 do interior dos rios da Amazônia. Uma multiplicidade
de falas e costumes que o barrento das águas aflui e faz confundir suas origens em
tempos imemoriais. Este fluxo que desce do alto dos Andes até sua foz, num intrincado
serpentear hídrico, por si só já é um gigantesco tecido vascular que mais parece um
manto ancestral, um manto trançado com as palhas do ontem, onde todas as onças virão
beber água.
As velhas palhas trançadas nos fazem lembrar do quanto é importante não
darmos as costas aos rios e ao que eles carregam do seu interior. Tristes e violentas
Entradas e Bandeiras subiram os rios ao contrário. Onde estará o herói de nossa gente?
A máxima Tupy or not Tupy cunhada por Oswald de Andrade continua de pé como
prova dos nove da alegria? No fundo do mato virgem nasceu para o modernismo
Macunaíma escutando o murmurejo do Uraricoera, o herói sem nenhum caráter, nós
sem nenhum caráter. “Infeliz a nação que precisa heróis.”81, dirão por Brecht. Mesmo
79 Boiuna é um poderoso ser encantado que habita o fundo dos rios da Amazônia, também conhecida
como Cobra Grande, Mãe do rio ou Senhora das águas.
80 Furo é a designação amazônica a um espaço navegável que corre, geralmente entre copas árvores, e
serve de ligação entre dois rios.
81 Reformulação corrente e sem autoria definida da frase “Infeliz a terra que não tem heróis!” contida na
peça "Life of Galileo" [Vida de Galileu] (1938) – Cena 13, p. 153, do dramaturgo, poeta e encenador
alemão Bertolt Brecht (10 de Fevereiro de 1898 – 14 de Agosto de 1956). In: Teatro Completo, em 12
Volumes / Bertolt Brecht. Tradução Roberto Schwarz. Rio de Janeiro : Editora Paz e Terra, 1991
(Coleção Teatro, v. 9 – 14).
100
espelhados e com mais de dez andares e muitos metros de altura os casebres de Belém
permanecem estruturados de palha, taboca e barro. Damos a ver espelhos, espelhos
contorcidos e dor. Miçangas contemporâneas. O que esperar então, da arte e da cultura
produzidas nesta região do país, este “continente” tão cobiçado e ao mesmo tempo tão
desconhecido? Desconhecimento este, que permite imaginá-lo como uma vastidão
desabitada, um profundo abismo verde, rico em biodiversidade e recursos minerais, mas
rarefeito de experiência humana. O mesmo desconhecimento que abarrota as cidades e
tornam invisíveis os povos da floresta. Desconhecimento ou, mais grave, indiferença à
dinâmica histórica própria da região. Indiferença e cobiça que estimulam grandes
investimentos econômicos, muitos deles projetos natimortos, falidos e abandonados.
Como nos diz o poeta João de Jesus Paes Loureiro: “A história oficial nos narrou e nos
tem narrado como uma historia de fracassos. Uma história de perdas e danos. O que não
se diz é que essa não é a nossa história, mas, sim, a história do outro aqui: uma história
do outro, contada pelo outro, garantida pelo outro.” (LOUREIRO, 1989). Entre o
Inferno Verde e o Eldorado perdido, existe uma Amazônia verdadeira, palpável,
compreensível, viável. Vivemos então, as contradições do nosso passado e o que se
arrasta ao nosso presente: da suntuosidade das praças europeizadas ao cheiro cru dos
peixes do Mercado do Ver-o-Peso. A Amazônia e o Pará não são mais os mesmos após
a década de 70. A grande metrópole impôs-se à vida quase bucólica de uma não tão
pacata Belém. A crítica mordaz de Jonathan Swift82 em As Viagens de Gulliver pode, de
certa forma, ser aplicada como antídoto aos clichês da Amazônia. Muito mais do que
viver permanentemente atarracado diante da poderosa escala de verdes e ocres das
florestas e dos rios. Local, à primeira vista, dominado pela vastidão da mata. Esta
desproporção de tamanhos pode nos colocar frente a outras questões que problematizam
domínio e visão distorcida do outro. Nem gigantes, nem pequeninos homens.
82 Jonathan Swift (Dublin, 30 de novembro de 1667 — Dublin, 19 de outubro de 1745) escritor anglo-
irlandês de verve desconcertante e envolvente. Crítico mordaz de sua época levou às últimas
consequência seu ideais. Surdo e louco morre em Dublin. Em sua lápide pode ser lido: "Aqui jaz o corpo
de Jonathan Swift, doutor em Teologia e deão desta catedral, onde a colérica indignação não poderá
mais dilacerar-lhe o coração. Segue, passante, e imita, se puderes, esse que se consumiu até o extremo
pela causa da Liberdade". Fonte: http://tiooda.com.br/index.php/escritores/escritores-irlandeses/jonathan-
swift/2339-jonathan-swift-a-critica-acida-e-amarga-do-sistema-politico-britanico. Acessado em 31-01-
2018.
101
Sempre admirei gestos delicados, vejo-os como força poderosa e extremamente
significativa, em resposta à violência e à brutalidade. Uma forma muito eficaz de
subversão da ordem imposta pela ignorância e o desrespeito à condição humana.
Encaro-os não como uma atitude messiânica, mas como postura diante do mundo. Vem
daí todo o meu encantamento pelos artesãos de brinquedos de miriti de Abaetetuba,
lugar de caboclo, de brabo “amansado” 83, de índio, de indígena: tanta delicadeza em
suas vidas, tanta generosidade no olhar, no fazer, no receber, no querer bem. Tudo tão
contrastante, numa pequena cidade ribeirinha engolfada pela grande metrópole que é
Belém, com a presença do narcotráfico na região, contrabando, bairros dominados por
gangs, falta de perspectiva dos jovens, prostituição infantil, onde o corpo é trocado por
uma lata de óleo Diesel, moeda corrente e cruel. Tristes velhas palhas trançadas.
Coincidentemente, visitei há poucos anos o Museu do Ipiranga em São Paulo. Fiquei
muito impressionado com este prédio-monumento, rico em leitura deste ideário
bandeirante como desbravador de fronteiras, configurado nas suntuosas escadarias que
contêm, em esferas de vidro, as águas dos rios dos diversos rincões do Brasil. Além de
pinturas e esculturas de seus expoentes e os ciclos de conquista do interior do território
brasileiro. Curioso notar que alguma coisa se desconecta neste espaço arquitetado há um
descompasso na placidez daquelas águas encapsuladas e a grave turbulência das cenas e
figuras ali representadas. Estas águas paradas, em nada lembram que o processo
histórico de conquista deu-se através do conflito acirrado, da reação ao esmagamento e
imposição violentadora e, que ainda hoje, estas águas tormentosas, longe da história
oficializante, negam a domesticar-se facilmente. As velhas palhas trançadas. Vale
ressaltar aqui Buarque de Holanda, que maravilhosamente nos faz lembrar da nossa
condição de mestiçagem bastarda: “Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em
torturar, esganar, trucidar/Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora...”. É neste
“entre”, neste lugar de invisibilidade perturbadora que, a meu ver, a violência se mostra
mais cruel e destrutiva, em que a própria carne é dilacerada impiedosamente, onde o
“outro”, que é uma parte de nós mesmos, será neutralizado na desmemória, no
apagamento sistemático do vencido. Isto se dá, da mesma forma, nos sistemas de
dominação internos na Amazônia. Observar o processo histórico da Amazônia é
83 Amansado, triste referência ao que se propunha a colonização no Brasil: amansar suas gentes. Amansar
o “índio” brabo, “civilizá-lo”.
102
deparar-se com uma história da violência. Grassa a força desmedida como solução
imediata. Exemplo disso é o episódio conhecido como Massacre do Brigue Palhaço
ocorrido no conturbado período da adesão do Pará à independência do Brasil onde, em
1823, duzentos e cinquenta e seis pessoas foram presas indistintamente e depois
trancafiadas no porão de uma embarcação, em represália aos ataques a estabelecimentos
portugueses ocorridos nas noites anteriores. No dia seguinte, aberto o porão, constatou-
se que duzentos e cinquenta e duas pessoas morreram com “sinais de longa e penosa
agonia”. Dos que restaram vivos naquela manhã somente um sobreviveu. Como não
lembrar da violenta repressão ao movimento cabano, não somente no campo da
eliminação física, mas principalmente na diluição da memória cabana onde o
componente indígena estava fortemente representado em seus anseios de liberdade.
Como não lembrar que atualmente circula uma tenebrosa Lista da Morte que busca
resolver à força os conflitos agrários, lista que não somente ameaça, cumpre, mata.
Amputam-se braços e dignidade. Indígenas e quilombolas, sociedades tradicionais,
como entraves “civilizatórios”. Violentar a violência é descortinar o que está oculto,
eviscerar as entranhas, permitir que o olho, a mente e o coração vejam as próprias mãos
tingidas de sangue. Os corpos luminosos amam a luz, mas respeitam a escuridão que é o
vazio entre o eu e o outro. Possibilidades de encontro e transfiguração. Balsa, luzes e
fogo. Os índios ateiam fogo no céu. Balsa, luzes e fogo. Noite. Despertar. Atear fogo.
Balsa e fogo. Ardor longínquo. Incomensurável dor. Nuvens e dor. Branco-cinza no
céu, amarelo dor de fogo. Tromba úmida, calor de fogo. Navio que parte. Calor de
corpo, de nuvem longínqua. É tarde e as luzes brilham. Ardem e acendem tristes. Calor
de fogo longínquo. Os índios ateiam fogo no céu. As almas riscam fogo no céu.
Incomensurável dor e fogo. Amarelo fogo. Fogo-fátuo longínquo. Amarelo fogo. Luzes
e tristeza. Morte e fogo. Escuridão. Onde todas as onças irão beber água.
103
INTERLÚDIO OU CONSIDERAÇÕES PARA NOVOS
RECOMEÇOS, NOVOS VEIOS DE OURO-GENTE_
104
ENRICAR, PEDER TUDO... ENRICAR NOVAMENTE... OURO
PRETO... SERRA PELADA...
“A palavra é o fio de ouro do pensamento.” 84
O que faz o andarilho? Caminha. O que faz o andarilho? Caminha. O que faz o
andarilho caminhar? O caminho... devora caminhos que o devoram...
Rompe-mato, Vence-barreiras... Seu Sete léguas... Tudo, tudo é devoração.
Monografia, dissertação, tese, projeto de vida. Tudo, tudo é devoração.
Em Terra em Transe (1967), filme de Glauber Rocha, uma repetição de cena: a
personagem interpretada por Glauce Rocha entra duas vezes consecutivas na redação de
um jornal no fictício país de Eldourado85: duas vezes o mesmo gesto de tirar da bolsa o
óculos. Sortilégios da mesa de edição. Mais do que marcar um estilo de escrita fílmica,
esta cena profundamente marcante demonstra uma possibilidade de estar no mundo, de
apreensão de mundo. A um estado de ser que esta dissertação a todo o momento
procurou irmanar-se. Um convite à partilha de estados mentais, de processamento de
ideias e sentimentos inauditos, no que cabe e não cabe no poderio do dizer. Entre idas e
vindas, entre fluxos e refluxos, fios de ouro foram lançado no lusco-fusco da linguagem,
no escorregadio das palavras. Para o crítico Bernardo Mosqueira, nos dois casos uma
aproximação à gagueira deleusiana86, uma insurgência gaga em seu desvio normativo.
84 Frase atribuída ao filósofo grego Sócrates (470-399 a.C.)
85 Não esqueçamos que a trama se passa no país chamado Eldourado em plena ditadura militar que assola
o Brasil da época. Um outro Brasil? Um Brasil-Eldourado-Macondo fictício e pertencente ao passado?
Assim é apresentado o país de Eldourado em crítica de Antônio Muniz Vianna, no jornal carioca Correio
da Manhã, publicada em 11 de maio de 1967(edição 22728): “a história aparentemente se passa em um
país subdesenvolvido, latino-americano, atlântico, talvez uma ilha, talvez no continente, habituado à
convulsões políticas, à intromissão de trustes estrangeiros em seu negócios de Estado, habituado também
à demagogia dos seus líderes, ao suborno da imprensa. Eldorado, esse paraíso nada voltairiano.”
Fonte:
http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=089842_07&pagfis=82095&url=http://
memoria.bn.br/docreader# Acessado em 14/01/2018.
86 Para a pesquisadora Anitta Malufe, “A gagueira, que seria um “erro” no bem falar, uma deficiência ou
um débito, é revertida ali em um procedimento de linguagem de certo modo intencional, ou até mesmo
técnico, adotado por alguns escritores e poetas. A gagueira aparece, em Deleuze, como um procedimento
de escrita desejado e desejável; um procedimento extremamente potente em termos criativos. (...) À
primeira vista, é possível este conceito causar um certo incômodo. Ele pode soar como uma espécie de
105
Tudo, tudo é devoração. O terrificante Eterno Retorno87 que fez Nietzsche nos perceber
como “poeirinha da poeira”88, onde a eterna ampulheta da existência será virada outra
vez? Alternâncias, dor e deleite. Da lama, à lama. Do pó ao pó. Tudo devoração.
Devoração da repetição, regurgitação das repetições. Confirmar o não dito pelo
dito outra vez. Restituir pelo fragmento, pela beleza barroca da pérola imprevisível e
imperfeita. Por que interessar-se por Serra Pelada e seus mortos-vivos? Reter suas
dentaduras, suas bocarras? Por que escrever, pensar sobre a ira de Baco vingativo? Esta
boca-ânus ancestral. Prazer e gozo. Lembrança de fezes e chocolate. Insetos e morte.
Devoradora criatura que se deixa devorar sem fim, mãe-rainha deste gofento
formigueiro. Por que aprisionar a ira do Baco ancestral? Uma ode aos primeiros vermes-
insetos que irão comer nossas carnes frias. Seremos nós os garimpeiros cegos a fuçar a
lama da cobiça? Onde estarão as rosas do jardim? Seremos nós o gigante ameaçador?
Ou seremos todos o Midas eterno – orelhas de burro –, em miséria, lepra e abandono?
Tudo, tudo é devoração. Como princípio de experimentação estética, onde a
própria tessitura do texto torna-se obra, optou-se nesta dissertação em devorar os
próprios textos que deram origem a este mestrado. Arregimentá-los em outro contexto
foi de fundamental importância para os objetivos propostos: pensá-los flutuantes no
capricho do filósofo, de exagero, tendo como objetivo “forçar a mão” para defender uma certa concepção
de estilo liberto do peso da tradição – e da correção. Afinal, em sintonia com as propostas literárias do
século XX, para Deleuze é fundamental que se desloque o conceito de estilo: ter estilo, em literatura,
deixa de ser a qualidade de quem escreve corretamente, segundo as regras da gramática e da sintaxe. Ter
estilo, após todas as experiências das vanguardas, aproxima-se muito mais de uma criação sintática do
que de uma obediência à sintaxe da língua mãe. O estilo é antes de tudo uma subversão, uma transgressão
às leis gramaticais, estando mais próximo do erro do que do acerto, do desvio do que da norma.”
MALUFE, Annita Costa. Estilo e repetição: Deleuze e algumas poéticas contemporâneas - Cadernos de
Letras (UFRJ) n.26 – jun. 2010. Acessado em 01-02-2018. Fonte:
http://www.letras.ufrj.br/anglo_germanicas/cadernos/numeros/062010/textos/cl26062010Annita.pdf
87 “Eterno retorno” é um conceito desenvolvido pelo filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) sobre os
sentidos das vivências em alternâncias numa eterna repetição. Contudo, mesmo em repetição o devir não
se repete de maneira cíclica, exatamente igual. São as variações de sentidos da mesma realidade já
vivenciada, nuances do mesmo estado de espírito que poderão ser experimentados novamente em
circunstâncias aproximativas. Como se pudéssemos dar sentido revigorado a textos revisitados como é o
caso aqui desta dissertação ou buscando outras possibilidades de compreensão do vivido em épocas e
espacialidades distintas, mas complementares, em estados marcadamente minerários como o Pará e Minas
Gerais. Serra Pelada estará contida em Ouro Preto? Ouro Preto estará contida em Serra Pelada?
88 Aforismo 56. In A Gaia Ciência (1882), de Friedrich Nietzsche (1844-1900). Editora Escala. São
Paulo, 2008.
106
regime das marés, sempre em fluxo e refluxo. Elementos modulares que a cada
momento ganham novos contornos por sua plasticidade e impregnância de sentidos.
Muitos dos textos aqui apresentados fizeram parte do trabalho de conclusão de curso de
graduação em Artes Visuais (UFPA - 2013), especialmente no primeiro capítulo.
Capítulo este, todo devorado e necessário como substrato histórico de pesquisa para o
que viria ser a investigação proposta neste mestrado. Textos estes vistos aqui como
extratos do vivido na pesquisa anterior, agora reconduzidos em melhor situação.
Lamentável seria não tê-los aqui como corpo fluido dialogante com o devir em
constante curso.
Muitos destes textos também foram objeto de falas públicas em seminários e
encontros, outros foram publicados em sua íntegra ou parcialmente criando uma rede de
intercomunicação em busca de resonância, em busca de pares. Redes vasculares.
Devorá-los, reorganizá-los, fortalecer significados para depois abandoná-los, até a
próxima paragem, eis a sina do que está sempre em movimento. Como um barquinho de
papel apanhado por um galho em redemoinho. Espera-se que estes mesmos textos
avolumem-se aguardando a nova etapa desta pesquisa no doutorado e que por ele
também sejam devorados. Tudo, tudo é devoração. Devoração e transfiguração
alquímica que tanto a busca do ouro transcendental incita.
A mesma letra M na inicial dos seus nomes. Os gêmeos eram idênticos em
corpanzil de menino, maiores e mais largos do que porta alta. Humores e caminhar
distintos fazendo com que fossem reconhecidos em suas individualidades até mesmo
vistos de costas. Viviam confortavelmente em Belém vindos do Araguaia, Araguacema.
Do mesmo lugar do pai que nunca saíra dos garimpos, mesmo estando em casa. O ouro
os mantinha na capital para estudar. O ouro mantinha o pai fora de casa. Um dia, o ouro
venceu para sempre e nunca mais se soube notícias dele. Araguaia.
Diziam que era a maior palma de mão que já haviam visto. Um negro enorme e
temido descido dos garimpos das Guianas de linguajar enrolado. O mítico Pompua-
Didi. Vinha a Belém trazendo seu ouro para transformar em joias pessoais. Anéis
maciços, âncoras e sereias. Colares de corrente de navio na camisa entreaberta, alto-
mar. Medalhas-farol ultra-brilhantes em tormenta de meia-noite. Palácio dos Bares,
bordéis de beira de rio. Cuba libre e corpos suados. Chão de tábua corrida a projetar-se
107
no escuro da mata líquida. Aquelas mãos calejadas aspergindo ouro fino na quentura da
madrugada. 27 de novembro de 2017. 09:25.
Após ter assassinado seu sócio - antes que o próprio sócio o tivesse assassinado -
, resolveu sair de Serra Pelada. Sabia que ali não ia durar muito. Colocou tudo que tinha
numa Brasília velha, pegou a mulher e foram em busca de outro garimpo. Diziam que o
garimpo Maria Preta prometia bamburrar. Comeram muita estrada de terra até chegar na
boca do Maria Preta. Na beirada da pista havia um bar. Param em frente para descansar
as pernas. Ao saírem do carro ouviram disparos que vinham do interior do bar.
Cambaleante sai um homem, que desnorteado vai agarrar-se na saia de sua mulher.
Morre aos pés dela. Atônita a mulher só quer sair dali imediatamente. Ele insiste em
comprar cigarro e entra no bar. No balcão encontra apenas um homem de costas.
Aproxima-se e pede uma cachaça. O homem do lado enfia ainda quente o cano do
revólver no copo a ser servido misturando a cachaça. Diz: Bebe! Ele não conta
conversa. Pede outro copo de cachaça, retira o próprio revólver da cintura, agita a
bebida e também oferece ao homem do lado. Brindam o encontro, talvez a morte e a
coragem. Ali se consumava uma nova sociedade que duraria muitos anos e quilos de
ouro. Onde corre sangue corre ouro, dizia. Ouro e saias ensanguentadas.
CHUVA FINA COMO FIOS DE OURO... O ANDARILHAR...
Tudo, tudo é devoração. Recomeços, findar os caminhos abertos pelo mestrado.
Abrir caminhos para o que virá no doutorado. Se a realidade amazônica, no então
Estado do Maranhão e Grão-Pará (1654-1751), corporificou-se através das palavras-
trovão do padre Antônio Vieira e seus Sermões, agora outro jesuíta aponta caminhos
vindouros, coriscos, pedras de raio de Xangô: o padre André João Antonil (Lucca,
Toscana, 1649 – Salvador, Bahia, 1716). Antonil virá ao Brasil a convite de Vieira, que
muito o admira, mesmo tornando-se opositores em muitos assuntos e posicionamentos
na Companhia de Jesus. Em 1711, o padre Antonil publica em Lisboa a obra Cultura e
Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas. Este livro é considerado obra de
referência para se estudar as condições sociais e econômicas do Brasil no início do
século XVIII. Polêmicos e contraditórios na leitura de suas obras e compreensão de suas
histórias de vida, tais jesuítas demonstram-se fundamentais como fonte de reflexão da
108
nossa atualidade, como linha desveladora de cicatrizes profundas, antigas como os
rasgos de terra do explorar minérios em Minas. Como não pensar no hoje, em nossos
conflitos tão prementes, lendo o que diz Antonil sobre as entranhas de Minas?
A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem
suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos
como os das Minas, que dificultosamente se poderá dar
conta do número das pessoas que atualmente lá estão.
Cada ano, vêm nas frotas, quantidades de portugueses e
estrangeiros para passarem às Minas. (...) As constantes
invasões de portugueses do litoral vencerão os paulistas
que haviam descoberto as lavagens de ouro - florestas
batidas, montanhas revolvidas, rios desviados de cursos,
pois a sede de ouro enlouquecia. (ANTONIL, 1710)
Reconstituir tais caminhos em busca de compreensão desta arquitetura do sujeito
na história provoca o caminhar andarilho, experenciar a cidade de Ouro Preto em Serra
Pelada, ir à busca do ouro em solo mineiro. Ir à busca de ouro é ir à busca das histórias
destes dois garimpos, daquilo que, independentemente da permanência deste “enricar”,
está marcado na memória e na vida das pessoas, seu bem maior. Riqueza esta
confundida metaforicamente com a busca do ouro alquímico, aquela que é impossível
de ser roubada, subtraída. Memórias e silêncios. Encruzilhar suas histórias. Em que pia
batismal poderemos hoje lavar os cabelos repletos de pó de ouro de Chico Rei89 e os pés
calçados por tênis Kichute que escondem sangrando, entre os dedos enlameados, pepitas
do seu Zé Bigode Caçador90 fugido de morte do garimpo de Serra Pelada?
89 Chico Rei, figura considerada lendária. Este projeto busca tratar em pé de igualdade e importância
elementos como este – que permanecem vivos no imaginário mineiro –, em relação a fatos de natureza
comprobatória, por sua materialidade documental, exigidos pelos rigores historiográficos.
90“Como no Midas lendário – refém de seus desejos –, aos garimpeiros que permanecem vivendo ao
redor da grande cratera do lago contaminado de mercúrio do que um dia foi a elevação de Serra Pelada, a
sina: Sonhar em “enricar” novamente. Seu Zé Bigode Caçador é um grande exemplo dos altos e baixos do
garimpo. Entrou como “furão” em Serra Pelada. Assim eram chamados os que chegaram ao garimpo após
o controle da Polícia Federal e do Exército Brasileiro. Após dias pelo mato, assim como ele, muitos
chegaram ao garimpo. Além de “furão”, foi “requeiro”, não era assalariado de nenhum dono de “barraco”.
Vivia da promessa de “reque”, muito comum no garimpo. O “reque” era a distribuição dos sacos com
ouro pequeno, ínfimo, sinal de sorte e status dos donos de “barranco”. “Zé Bigode Caçador” tinha um
grande diferencial – era considerando por muitos uma pessoa que tinha “faro” para ouro. Sonhava com
ouro. Sonhava onde estariam os depósitos de ouro. Assim, pegou em ouro “grande”, enricou, perdeu tudo,
enricou novamente, viu muitos dos seus companheiros morrerem, muitos de uma só vez, perdeu tudo,
traficou cachaça para dentro do garimpo, contrabandeou pepitas entre os dedos dos pés. Saiu do garimpo
ameaçado de morte, para nunca mais voltar. Para ele, do ouro que restou de Serra Pelada, somente a
aliança de sua esposa. Mesmo assim, porque ela a escondeu dele por muitos anos. Hoje [2009], sentado,
como vigia noturno de uma escola municipal ao lado de sua casa em Curionópolis, confessa sonhar todos
109
Figura 35: Frame do filme Chico Rei (1985), de Walter Lima Junior.
Tudo, tudo é devoração. O caminho, o caminhar andarilho. Rompe-mato, Vence-
barreiras. Seu Sete-léguas. Caminhar léguas – os que invadem, agridem – sonhar com
riquezas – apresar riquezas-gente-braba – gente-ouro-riqueza – vilipêndio e decepção –
entradas e bandeiras – sertão – tropa – conflito – conflito-morte – estupores malignos –
cachoeiras – ventania – aridez de pedra e mato rasteiro – mãos e pés escalavrados –
ouro pequeno – caminhar légua e meia - ouro de tolo – Vieira perambulava pela
Amazônia no mesmo momento? – trovão e a presença do Deus terrificante – diamantes?
– latitude 20º23'08" sul - longitude 43º30'29" oeste – Itacolomi – 1711 – Paulistas
Vicentinos – forasteiros Emboabas – bandeiras – arraiais – giro-rodopio de corpo nu –
morte – escravidão – as minas e os campos gerais – guerra – Manoel Nunes Viana –
Capitania de Minas Gerais - caminhar léguas – sonhar com riquezas – forasteiros luso-
nordestinos – Emboabas – gado – fome – mais decepção – tropa – mulas – ventania de
serra – sertão – luso-tupis – perambulação – unhas negras – entradas – pés descalços –
arcabuzes – espada – faca de ponta – couro cru – tabaco – cheiro de tabaco entre os
dias com ouro.” (Trecho extraído da monografia A Metáfora do ouro: Excessos – Abundância e
Pauperidade na Obra de Armando Queiroz (2013), de minha autoria, apresentada como Trabalho de
Conclusão de Curso, na obtenção do título de Bacharel em Artes pelo Curso de Artes Visuais do Instituto
de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará - UFPA).
110
dentes – rio São Francisco – patas peludas – caminhar léguas – sonhar com riquezas -
caminhar léguas – sonhar com riquezas – mbóaba91 – calça e sapatos – pés descalços do
caminhar – os que invadem, agridem – os que invadem, agridem – os que invadem,
agridem – os que invadem, agridem – pedras preciosas – perdas preciosas – línguas –
falares – truncares – aventura – tumores – açoites – costados – légua e meia – os que
invadem, agridem – escravidão indígena – negritude – córregos – rios de sangue –
povos e nações indígenas – séc. XVII – “achamento” de ouro grosso – afluxo de gente –
sertão – escravidão – Antônios – Bartolomeus – muitos Carlos - gentes da Bahia,
Pernambuco – expedições e mais expedições – deambular – perder-se – encontrar-se –
perder-se novamente – os que invadem, agridem – Fernão Dias – Dom Rodrigo - giro-
rodopio de corpo nu – morte – escravidão – Tripuí – “ouro preto” – transpor o Itatiaia –
distâncias – lonjuras – Cachoeira – Casa Branca – mais léguas – conflito e destruição –
amores de sertão – Ribeirão do Carmo – exploração – Ouro Branco – ouro ainda não
formado – oito dias de caminho – dele, pouco caso faziam os paulistas, ouro branco,
mal formado – Antonil – rendimentos – gente-ouro-riqueza – vilipêndio e decepção –
entradas e bandeiras – sertão – tropa – conflito – conflito-morte – Gualacho do Sul –
Miguéis e gentes de Taubaté – ribeiro de Ouro Preto – Passadez – Bom Sucesso – Ouro
Fino – Ouro Bueno - Antônios, Fialhos – Camargos – Siqueiras – muita, muita gente a
acudir ao local – muito, muito ouro e muita gente a encontrar – perder-se – perder-se
novamente – e novamente – e novamente – e novamente – açoites – costados – légua e
meia – os que invadem, agridem – três braças em quadra a cada minerador – Brumado –
Sumidouro – 1652 Vila Rica de Albuquerque – Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de
Ouro Preto – 800 toneladas oficiais de ouro – retábulos – santos de roca – santos do pau
oco – 40 mil almas em 1730 - 80 mil almas – águas correntes – quebradas dos montes –
quinhões – Senhor dos solos – O rei – o quinto – pensão enfitêutica92 – os vinte por
91 “Mbóaba” [emboaba], termo proveniente da língua geral paulista significando originalmente “pata
peluda” para designar aves de pernas cobertas de penas. Também designa os “forasteiros” que,
diferentemente dos paulistas, usavam calças e sapatos.
Fonte: http://www.descubraminas.com.br/MinasGerais/Pagina.aspx?cod_pgi=2421. Acessado em 31-01-
2018.
92 Atualmente, enfiteuse, aforamento ou aprazamento é o direito real pelo qual o proprietário (senhorio),
conservando o domínio direto do imóvel, transfere a alguém (que assim é constituído enfiteuta ou
foreiro), o domínio útil, mediante um pagamento anual, chamado foro ou pensão. Fonte:
http://www.ggv.com.br/2009/09/29/enfiteuse-certidao-de-situacao-enfiteutica/ Acessado em 31-01-2018.
111
cento de tudo – o guarda-mor – o escrivão – o tesoureiro – os oficiais – lavras novas –
bocas de minas – Passa-dez – arraiais – fome de ouro – fome de tudo – grande fome –
bruacas – nada se planta – nada se dá – rio das Velhas – vales estreitos, profundos –
diamantes – uma quarta de milho - dois forasteiros se mataram à faca por uma cuia de
farinha - caindo de inanição nos caminhos do Rodeio – 1700 – o Campo das Caveiras –
fugir, fugir, fugir – fugir de Ouro Preto – fugir da fome de Midas - um alqueire de milho
vinte oitavas de ouro, 32 oitavas por um alqueire de farinha ou de feijão, uma galinha
custava doze oitavas, um cachorrinho ou gatinho 32, uma vara de fumo valia cinco
oitavas e um prato pequeno de estanho, cheio de sal, oito – Tapanhunhos – Carijós –
Paladium - Imperial Cidade – exaladora de conflitos – Conde de Assumar - entrave da
modernidade – quantas igrejas há? – Ouro Podre – Taquaral – Antônio Dias – Pilar –
Palácio dos Governadores – arruamentos – Topázio Imperial – deambular – perder-se –
encontrar-se – perder-se novamente – os que invadem, agridem – deambular – perder-se
– encontrar-se – perder-se novamente – os que invadem, agridem – deambular – perder-
se – encontrar-se – perder-se novamente – os que invadem, agridem – deambular –
perder-se – encontrar-se – perder-se novamente – os que invadem, agridem ––
deambular – perder-se – encontrar-se – perder-se novamente – os que invadem, agridem
– agridem - os que invadem, agridem – deambular – perder-se – encontrar-se – perder-
se novamente – os que invadem, agridem – deambular – perder-se – encontrar-se –
perder-se novamente – os que invadem, agridem – deambular – perder-se – encontrar-se
– perder-se novamente – os que invadem, agridem – agridem.
112
Figura 36: Paisagem com a Queda de Ícaro, Pieter Bruegel, de 1565.
Ele atentara contra a vida pela segunda vez. Ano Novo, vida velha muito usada.
O trapiche e as águas mornas de Marapanim o esperavam desde a primeira vez. O mar
não tem cabelos, os rios não possuem anéis. A mesmíssima coisíssima de quem desiste
de si e cai em precipício. Tudo, tudo é devoração e queda. O drama íntimo da pessoa
humana disfarçado em cotidiano e normalidade. Ano Novo, nova vida, vida que segue,
vida de todos nós. Ícaro em derrocada. Penas-plumas-penugens e uma perna que
escapam à vista, Bruegel, o velho (figura 36). Todo buraco-cratera tem fome e desejo de
vingança. Vingança da falta do comer. Vingança de saciar a fome. Fome de afago e
compreensão. Talvez o encontrem no final da tarde ou no início da manhã. Finda o ano.
O arado continua a escovar a terra. Na pequena avenida muito movimentada todos
preparam a festa. Lanterna dos afogados, luzes brilhantes como sol dourado vão buscar
esta alma triste que contorna as beiradas dos rios. Virada das marés, o ir e vir dos
peixes. Cardumes cintilantes em busca de fios de ouro, de vida e esperança. Uma
criança nasce, mais uma esperança no mundo. Tudo, tudo é devoração. Tudo é
devoração, mas também pode ser transubstanciação além da queda. Ícaro poderá tornar-
113
se peixe encantado na virada do ano. Penas-plumas-penugens e pés por guelras-
escamas-nadadeiras e arpões. O que estará acontecendo neste exato momento em Ouro
Preto? Em Serra Pelada há silêncio.
Ano Novo, ouro a transformar-se em gente. Em gente-peixe-encantado, gente-
ouro-que-nasce-puro, em gente-terra-de-minas. Que venham os dias busca e encontros
em novos caminhares, no caminhar andarilho. Recomeços. Observar o cotidiano,
relacionar-se com gente e suas histórias sobre o ouro. Onde tudo, tudo será devoração.
Tudo, tudo é devoração: “Marcelo faz um barquinho, faz um barquinho de
papel.”93 O barquinho Amarelo, o primeiro livro lido na vida. Ler para o pai, orgulhoso
em saber decifrar letras. Parece o mesmo texto de agora, o mesmo fluxo, as repetições...
o dizer, a ênfase poética que duplica margens. O barquinho amarelo tornou-se folhas de
ouro. Nunca se termina onde acaba.
As lavadeiras lá de Alagoas94 a permitir um exercício de escrita do espremer as
palavras reverberando em tudo. Em tudo que parece afortunadamente ser a mesma
coisa, a mesma intenção de cascalho bruto a ser bateia no tempo das dez mil coisas do
mundo. De tudo um pouco, do texto-tronco-raiz-de-águas-turvas-de-beira-de-rio: o
Rebotalho95. Texto para onde tudo retornará, onde tudo se misturará novamente como
um único texto em fluxo. Nada é igual quando devorado. Como um barquinho amarelo
a transformar-se momentaneamente no dourado sorriso-garimpeiro, parada de galho que
apruma barco-vento-intenção, bailarina de corda engendrada nas mãos alquímicas de
93 Trecho de O barquinho Amarelo – Pré-livro 1ª Série. Comunicação e Expressão, de Iêda Dias da Silva.
Editora Vigília Ltda. Belo Horizonte,1972. p. 10. Link de acesso ao livro:
https://lucialiliu.wordpress.com/category/livro/
94 “Deve-se escrever da mesma maneira com que as lavadeiras lá de Alagoas fazem em seu ofício. Elas
começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o
pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando água com a mão. Batem o pano na laje ou na
pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente
depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois
quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como
ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” Conselho de Graciliano Ramos em Conversas com Joel
Silveira. IN: SILVEIRA, Joel. Na fogueira: memórias. Rio de Janeiro: Mauad, 1998, p.281-285.
95 Rebotalho, texto inédito construído desde 2010 em paralelo aos trabalhos da monografia e da
dissertação. Este texto possui como característica maior sua capacidade de absorção de tudo que está a
sua volta: memórias do vivido, fabulações, reflexões, indagações... Não linear, muitos trechos novos ou
antigos de texto se permitem a devoção em diferentes partes do texto maior. Muitas bocas de rio ao longo
desta serpente de escritos. Momentaneamente, o Rebotalho está em sua 29ª versão.
114
Melquídes-Dalcídio-José-Arcadio-Buerdia-menino, na Macondo-Serra-Pelada-Ouro-
Preto que somos nós. Eldourado? Uma compilação de tudo. Um sentimento de copista
que nos impulsiona a perambular, a repetir, copiar, repetir e copiar, sempre o mesmo
livro. Diz-se que na verdade escrevemos apenas um livro, sempre o mesmo livro a
devorar tudo, a devorar a si próprio. O ouro alquímico em que tudo é devoração.
Destino, destino Eldorado.
Lá fora o trem atrita sobre os trilhos.
A LINGUAGEM CORRENTE DO GARIMPO DE SERRA PELADA96
96 Glossário composto por informações extraídas de: Revista do Garimpeiro (1983, p. 10); Kotscho
(2008); Bezerra e Ravagnani (2011), e material coletado em entrevistas realizadas pelo autor em
Marabá, Curionópolis e Serra Pelada, Pará, em 2009.
115
GLOSSÁRIO:
ADEUS-MAMÃE: nome dado às escadas utilizadas pelos “formigas” para levarem os
sacos de cascalho para a superfície. São verdadeiras estradas de trânsito com mão
própria de subida e descida. O nome vem dos frequentes acidentes fatais quando
do desabamento das escadas com dezenas de “formigas” sobre elas. (KOTSCHO,
2008). Referindo-se especificamente a uma delas: escada de madeira com 58
degraus, utilizada pelos garimpeiros para entrar e sair da cava, carregando pesados
sacos de sedimento. O nome é uma referência ao grande número de mortes em
decorrência de quedas (BEZERRA; RAVAGNANI, 2011, p. 19).
APONTADOR: empregado do dono do barranco, que controla a quantidade de sacos
retirados pelos carregadores de terra e despejados fora da cava. Têm direito a uma
porcentagem da produção de ouro do barranco.
APURADOR: indivíduo que faz a separação do ouro, utilizando-se de uma bateia para
lavar o amálgama mercúrio-ouro. O mercúrio liga-se quimicamente ao ouro,
facilitando a separação das impurezas.
AMARELINHA: carteira de autorização para garimpagem, expedida pelo Ministério da
Fazenda no final do anos 1980. Além desta, houve outras: “orelha de anta” e a
COMIGAASP, a mais recente.
BABILÔNIA I E II: Frentes de trabalho dentro da cava do garimpo.
BAMBURRADO: aquele que tirou a sorte grande no garimpo, encontrando um filão de
ouro no seu barranco. “Aquele que pega muito ouro; fica rico”
BARRANCO: pedaço de terra de dimensões variáveis, comprado dentro da cava por um
ou mais garimpeiros para ser explorado na busca do ouro.
BARRACÃO: local de moradia provisória dos garimpeiros, geralmente coletivo;
construído em madeira
BATEIA: instrumento em forma de peneira feito de chapa de metal, utilizado para a
purificação manual final da mistura de mercúrio com o ouro.
BELÉM-BRASÍLIA: Escada de madeira com 52 degraus, utilizada pelos garimpeiros
para entrar e sair da cava, carregando pesados sacos de sedimento.
BLEFADO ou “BREFADO”: garimpeiro que perdeu tudo, só é dono da roupa do corpo.
Na pior; “apertado”; sem dinheiro; sem “pegar” ouro.
BICO FINO: Esperto; “vivo”; não trabalha; “furão”.
BOCA RICA: aquele que depois de pegar em “ouro grande” refaz a boca com jaquetas
de ouro para fins odontológicos, sobretudo, estéticos.
116
BOROCA: bolsa; sacola; pasta; “muxila”. Saco ou bolsa que serve para guardar roupas
e demais pertences pessoais.
BAROQUINHA: pequena bolsa do tipo tiracolo, utilizada pelos garimpeiros para
guardar isqueiro, cigarros, dinheiro; também usada pelos apontadores para
guardar o pagamento dos diaristas.
BARRANCO: área de 6 a 7 m2 delimitada pelo Departamento Nacional de Produção
Mineral para a garimpagem do ouro.
BURRO PRETO: lage queimada, de cor preta, que sempre acompanha o “filão”.
CACHORRA: mala de quem chega ou sai do garimpo.
CAPITALISTA: dono do barranco, que normalmente vive fora do garimpo; financia as
despesas com comida e equipamentos.
CASCALHO RICO: onde existe a maior quantidade de ouro.
CASCALHO: até mesmo em Belém se tem memória oral do termo “cascalho” como
dinheiro em espécie: “Cadê meu cascalho?”; “Recebi hoje meu cascalho!”.
CATA: sinônimo de barranco, onde os garimpeiros “catam” o ouro.
CAVA: como é chamado o grande buraco do garimpo aberto à mão; a de Serra Pelada
tem hoje cerca de 100 metros de profundidade e o formato de um feijão.
CEGOU: cascalho que não deu ouro.
COBRA-FUMANDO: “uma banheira de botar água para lavar cascalho e separar ouro”,
na definição dos próprios garimpeiros.
CORRUTELA: vila; lugarejo; acampamento; local de apoio ao garimpeiro; dormitório.
CUCA: cozinheiro; merendeiro; “motorista de fogão”; “pestana queimada”; “mão
pelada”; “mão de óleo”; “umbigo quente”; “pé de óleo”. Era responsável pelo
controle dos mantimentos e pela preparação das refeições. Os cucas recebiam uma
porcentagem do ouro que era retirado do barranco ou diárias pagas,
independentemente da produção.
CURIMÃ: rejeito mais nobre da separação do ouro, que geralmente passa por uma
segunda lavagem. Cascalho já lavado pelo britador ou pela máquina manual.
CUTIA: carregador de cascalho que fica com a pele vermelha.
DÍZIMO: porcentagem retirada da venda do ouro, destinada à cooperativa dos
garimpeiros para efetuar melhoramentos e obras de estabilização da cava.
EMBARCADOR: indivíduo que coloca o cascalho com ouro na britdeira, onde o
material é moído por um processo rudimentar.
117
FAGULHOU: quando o teste acusou que existe ouro no cascalho.
FEDECA: policial federal.
FORMIGA: carregador de sacos de terra e cascalho. São os boias-frias do garimpo, que
recebem um pagamento correspondente aos sacos carregados entre o barranco e o
alto da cava.
FORNECEDOR: quem faz a despesa do barranco.
FRANGO: a entrada de bebidas alcoólicas era proibida, por isso eram contrabandeadas.
O código para se referir a elas entre os garimpeiros era “frango”.
FURÃO: “quem entrou sem autorização dentro do garimpo”; que não tem licença ou
registro para garimpar.
GROTA RICA: pequeno córrego situado na Fazenda Três Barras, entre Marabá e Serra
dos Carajás, onde foi descoberto o ouro que deu origem a Serra Pelada.
LAGREZA: material encontrado antes do ouro.
LIBEROU: a comida está pronta; terminou a tarefa do dia; despejou fora da montoeira.
MÁQUINA: sinônimo de cobra-fumando.
MELEXETE: “Lama causada com a água e cascalho no fundo da cava e no último
cascalho lavado”. Lama resultante do processo de garimpagem que recobria os
corpos dos garimpeiros.
MELEXETES: são os “formigas” sujos de barro.
MEIA-PRAÇA: trabalhadores braçais que têm direito a uma porcentagem sobre o ouro
encontrado no barranco do dono. Sócio no barranco, aquele que entra com o
trabalho.
MONTOEIRA OU MONTUEIRA: local onde depositam o cascalho sem ouro.
ORELHA DE ANTA: primeiro tipo de documento criado para permitir a entrada e o
trabalho no garimpo concedido pela Polícia Federal. O apelido refere-se ao
tamanho do documento, que se assemelhava à grande orelha de anta.
ORELHA DE JEGUE: vale, adiantamento.
PASSADOR-DE-MÃO: indivíduo que procura separar à mão o ouro da terra na qual
está misturado.
PAU DA MENTIRA OU A ÁRVORE DA MEMÓRIA: local na Vila de Serra Pelada,
debaixo de uma árvore frondosa em frente ao Restaurante Vitória; onde os
garimpeiros, depois do auge do garimpo, passaram a se reunir para contar seus
feitos, suas histórias.
118
PORCENTISTA: quem tem porcentagem livre de despesas.
PUACA: poeira do ouro apurado.
REQUE: uma porção de cascalho rico, doada por um dono de barranco.
REQUE DE BOROCA: doação em dinheiro advindo do ouro vendido.
REQUEIRO: fazer reque; procurar ouro nos rejeitos que correm nas águas, as migalhas
que sobram. Aquele que vive de pedir cascalho; preguiçoso; aproveitador.
SEGURANÇA: trabalho feito no barranco alto para proteção do garimpeiro; borda da
cava.
TILIM: parte mais funda do garimpo.
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