Flávia Lage Pessoa da Costa Papel da cetamina sobre receptores TRPV1 da via sensorial aferente periférica: implicações celulares e moleculares. Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Medicina Programa de Pós - Graduação em Medicina Molecular Belo Horizonte - 2017 Flávia Lage Pessoa da Costa i Papel da cetamina sobre receptores TRPV1 da via sensorial aferente periférica: implicações celulares e moleculares. Tese submetida ao Programa de Pós-Graduação em Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da UFMG como pré-requisito para obtenção do grau de doutora em Ciências da Saúde: Medicina Molecular. Orientador: Professor Dr. Renato Santiago Gomez Co-orientador: Dr. Célio José de Castro Júnior Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Medicina Programa de Pós - Graduação em Medicina Molecular Belo Horizonte – 2017 ii ii ii i APOIO INSTITUCIONAL Este trabalho foi realizado com o auxílio das seguintes instituições: - Laboratório de Neurociências - Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais; - Laboratório de Genética Molecular- Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais; - Centro de Experimentação Animal da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais; - Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia– Medicina Molecular (INCT-MM); - Laboratório de Neurotransmissores do Instituto de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, Minas Gerais (LAB-NEURO). - Laboratório de eletrofisiologia celular (ELETROCEL). - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES); - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG); iii “Tudo tem seu tempo e até certas manifestações mais vigorosas e originais entram em voga ou saem de moda. Mas a sabedoria tem uma vantagem: é eterna.” Baltasar Gracián “Entrego, confio, aceito e agradeço.” iv PARTES DOS RESULTADOS DESTA DISSERTAÇÃO FORAM APRESENTADAS NOS SEGUINTES ENCONTROS: - 1º Simpósio internacional de Neurociências da UFES. Título de melhor trabalho do simpósio na categoria de doutorado -2016. - XXIII Semana do conhecimento da UFMG – 2014. . v Dedico esse trabalho às pessoas pelas quais cultivo amor e admiração incondicionais: Israel, Cida, Alexandre, Marina, Bruno, Gustavo e Henrique. vi AGRADECIMENTOS Agradeço à Deus, por ter me dado saúde e persistência, frente a todas as adversidades, para que eu pudesse desenvolver esse trabalho. Aos meus pais, Israel e Cida, por serem meus maiores exemplos de que o conhecimento nos transforma! Mãe, seu exemplo diário de dedicação aos estudos e sua capacidade notória de “auto-aprendizado” me ensinou que podemos ser do tamanho que quisermos e que o limite para aprender está em nós mesmos! Pai, o prazer que você tem em adquirir conhecimento, em ler, em debater ideias e a dedicação que mantém em seus estudos é contagiante, emocionante e motivo de muito orgulho para mim! Vocês sempre me incentivaram a ir além! Obrigada por me transmitirem o prazer de aprender! Aos meus irmãos, Marina e Bruno, pelo carinho e por torcerem sinceramente pelas minhas conquistas. Aos meus sobrinhos Gustavo e Henrique pela diversão, pela descontração nos momentos em que eu não conseguia mais estudar e pelos calorosos afetos! Ao Theo, pela simples existência! Ao Alexandre, meu marido e melhor amigo, agradeço pela transformação positiva que causou em minha vida! Sua presença, seu amor, sua dedicação, sua capacidade de me ouvir, de me apoiar e de me oferecer conselhos contribuíram imensamente para que nunca desistisse e continuasse a seguir em frente, mesmos nos dias mais difíceis! Obrigada por acreditar em mim, pela compreensão pelos inúmeros finais de semana em que apenas dediquei aos estudos, pela minha falta de disponibilidade, pelos lanches e “abraços surpresa” durante meus estudos! Amo você! À Madalena pelo carinho, orações e energia positiva. Ao meu orientador Professor Dr. Renato Santiago Gomez agradeço pelo aceite em me orientar novamente e por confiar em meu trabalho. Obrigada por me vii auxiliar nos momentos em que precisei e por ter possibilitado que eu pudesse realizar esse trabalho de forma ética, competente e prazerosa. Ao meu co-orientador Professor Dr. Célio José de Castro Júnior, agradeço pela orientação que me deu em cada momento desse projeto, pelos nobres ensinamentos, pelas ricas discussões científicas, por me incentivar a sempre ir além e pela disponibilidade! Celinho, além de um grande amigo, você sempre será uma pessoa pela qual nutrirei extrema admiração, respeito e gratidão! Ao professor Dr. Marcus Vinícius Gomez agradeço pela oportunidade que me deu de fazer parte do seu grupo de pesquisa e pelo acolhimento agradável em seu laboratório. Agradeço pelos desafios que me apresentou, que muito contribuíram para o meu crescimento científico e pela confiança em mim depositada. O seu espírito científico, o seu humor e o seu prazer visível na carreira acadêmica e científica são alvos de minha admiração e me motivam a seguir este caminho. O senhor sempre será um grande exemplo de profissionalismo, comprometimento e seriedade. Ao professor Dr. Marcelo Diniz Monteiro de Barros pelo exemplo extremo de profissionalismo, pelos grandes aprendizados e pelas oportunidades profissionais! Aos professores Dr. Luiz Armando, Dr. Marco Aurélio e Dra. Débora Miranda agradeço pelo acolhimento nos laboratórios que coordenam permitindo que eu desenvolvesse este trabalho. Às amigas Cinthia Vila Nova, Natália Virtude e Duana Santos agradeço pelo incansável apoio nos momentos em que quis desistir e precisei de ânimo para seguir; pelas ricas discussões científicas; pelo aprendizado que me trouxeram; pelas palavras confortantes nas horas certas; pelos abraços renovadores e pelo exemplar trabalho experimental que tivemos juntas. Certamente esse trabalho não teria sido finalizado sem o apoio incondicional de vocês. Vocês viii tornaram os dias de experimento menos cansativos e mais divertidos! Serei eternamente grata a cada uma de vocês! Aos colaboradores Juliana Figueira da Silva e Itamar Couto Guedes de Jesus agradeço pelos ensinamentos profissionais e por me auxiliarem a desenvolver esse trabalho com qualidade e excelência. Aos alunos de iniciação científica Michele Sampaio e Rodrigo Tempori agradeço pela disponibilidade e boa vontade para me acompanharem nos experimentos! Aos amigos de laboratório do Lab-Neuro do IEP e aos amigos do INCT-MM agradeço pelas contribuições, que cada um à sua maneira soube me dar; agradeço pelo apoio, aprendizado, discussões científicas e pelos momentos agradáveis. Aos colegas e alunos do CSD agradeço pelo apoio, incentivo e energias positivas! Aos meus familiares e amigos agradeço, pelo apoio, pelas orações, pelo incentivo e pela compreensão de minhas ausências. Aos funcionários: Marcelo e Dona Nívea meus sinceros agradecimentos pela seriedade, competência e colaboração para a realização deste trabalho. Aos animais utilizados neste trabalho, meu respeito e imensa gratidão. À UFMG, à Faculdade de Medicina, ao Departamento de Saúde Mental, ao Instituto de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Misericódia de BH/MG e às entidades financiadoras CNPq, CAPES e FAPEMIG agradeço por propiciarem uma pós-graduação de tão elevado nível no Brasil. ix SUMÁRIO RESUMO ----------------------------------------------------------------------------------- XVIII ABSTRACT --------------------------------------------------------------------------------- XIX I. INTRODUÇÃO -----------------------------------------------------------------------------01 1.0 ANESTÉSICOS ------------------------------------------------------------------------- 02 1.1 ANESTÉSICOS GERAIS ------------------------------------------------------------- 02 1.2 MECANISMOS DE AÇÃO DOS ANESTÉSICOS GERAIS ------------------- 03 1.3 CETAMINA------------------------------------------------------------------------------- 05 1.4 MECANISMOS DE AÇÃO DA CETAMINA --------------------------------------- 07 1.5 CANAIS IÔNICOS E ALGESIA ------------------------------------------------------ 09 1.6 TRPV1 ------------------------------------------------------------------------------------ 09 1.7 PROTEÍNA QUINASE C -------------------------------------------------------------- 12 1.8 PROTEÍNA QUINASE DO TIPO “ε” ------------------------------------------------ 14 II. OBJETIVO -------------------------------------------------------------------------------- 15 2.1 OBJETIVO GERAL---------------------------------------------------------------------- 16 III. MATERIAIS E MÉTODOS ------------------------------------------------------------ 17 3.1 EQUIPAMENTOS ----------------------------------------------------------------------- 18 3.2 SOLUÇÕES ----------------------------------------------------------------------------- 19 3.2.1 SOLUÇÕES PARA FLUORÍMETRO E CONFOCAL ------------------------ 19 3.2.2 SOLUÇÕES PARA EXPERIMENTO DE COMPORTAMENTO ------------ 20 3.2.3 SOLUÇÕES PARA WESTERN BLOTTING ------------------------------------ 20 3.3 MEIOS DE CULTURA ----------------------------------------------------------------- 22 3.4 DROGAS E REAGENTES ------------------------------------------------------------ 23 3.5 CULTURA DE CÉLULAS HEK-293 ------------------------------------------------ 24 3.5.1 REPIQUE CELULAR -----------------------------------------------------------------24 3.5.2 PLAQUEAMENTO DAS CÉLULAS HEK --------------------------------------- 24 x 3.5.3 TRANSFECÇÃO COM O CANAL TRPV1 -------------------------------------- 25 3.5.4 ENSAIO FLUORIMÉTRICO PARA AVALIAR O CÁLCIO INTERNO EM CÉLULAS TRANSFECTADAS COM O CANAL TRPV1 ---------------------------- 25 3.6 ANIMAIS ---------------------------------------------------------------------------------- 26 3.7 PREPARO DA CULTURA PRIMÁRIA DE DRGS ------------------------------- 27 3. 7.1 DISSECAÇÃO ------------------------------------------------------------------------ 27 3.7.2 DISSOCIAÇÃO DOS GÂNGLIOS------------------------------------------------ 27 3.7.3 PLAQUEAMENTO DOS GÂNGLIOS ------------------------------------------- 28 3.7.4 IMAGENS DE Ca2+ POR MICROSCOPIA CONFOCAL ---------------------- 28 3.7.5 AVALIAÇÃO DE VIABILIDADE CELULAR PELO ENSAIO DE METABOLIZAÇÃO DE METILTIAZOLTETRAZÓLIO (MTT) ---------------------- 30 3.8 EXPERIMENTOS DE COMPORTAMENTO ANIMAL -------------------------- 31 3.8.1 AVALIAÇÃO DO COMPORTAMENTO NOCICEPTIVO ATRAVÉS DA ADMINISTRAÇÃO INTRAPLANTAR DE REAGENTES --------------------------- 31 3.9 WESTERN BLOTTING----------------------------------------------------------------- 32 3.9.1 EXTRAÇÃO DE PROTEÍNAS TOTAIS DAS CÉLULAS HEK-293 TRANSFECTADAS -------------------------------------------------------------------------- 32 3.9.2 QUANTIFICAÇÃO DE PROTEÍNAS -------------------------------------------- 33 3.9.3 CORRIDA E TRANSFERÊNCIA ------------------------------------------------- 33 3.9.4 BLOQUEIO E REVELAÇÃO ------------------------------------------------------- 34 4.0 ANÁLISE ESTATÍSTICA -------------------------------------------------------------- 35 IV. RESULTADOS-------------------------------------------------------------------Página 37 4.1 EFEITO DA CETAMINA NA [Ca2+]i EM CÉLULAS HEK-293 TRANSFECTADAS COM O RECEPTOR TRPV-1 ---------------------------------- 38 4.2 EFEITO DA PRÉ-INCUBAÇÃO DA CETAMINA NA [Ca2+]i EM CÉLULAS HEK-293 TRANSFECTADAS COM O RECEPTOR TRPV-1 --------------------- 39 4.3 EFEITO DA CETAMINA NA [Ca2+]i EM DRGS DE RATOS --------------------- 41 4.4 A CETAMINA POTENCIALIZA A RESPOSTA DE [Ca2+]i, INDUZIDA PELA CAPSAICINA, EM DRGs ------------------------------------------------------------------------ 42 4.5 A CETAMINA PREVINE A DESSENSIBILIZAÇÃO INDUZIDA POR CAPSAICINA EM DRGs ------------------------------------------------------------ 44 xi 4.6 O MECANISMO DE AÇÃO DA CETAMINA É DEPENDENTE DA PKCє------ ------------------------------------------------------------------------------------------------------46 4.7 EFEITOS DA CETAMINA NA VIABILIDADE CELULAR EM DRGs -------- 50 4.8 CETAMINA SENSIBILIZA NOCICEPÇÃO INDUZIDA POR CAPSAICINA---- -------------------------------------------------------------------------------------------------------54 4.9 CETAMINA FOSFORILA TRPV1-S800 VIA PKCє-------------------------------56 V. DISCUSSÃO ---------------------------------------------------------------------Página 59 VI. CONCLUSÃO--------------------------------------------------------------------Página 67 VII. REFERÊNCIAS-----------------------------------------------------------------Página 69 xii LISTA DE FIGURAS Figura 01- As sete subfamílias TRP.................................................................. 10 Figura 02- O TRPV1 é diretamente fosforilado pela PKC em 16 resíduos ...... 13 Figura 03- Sistema de perfusão acoplado ao microscópio confocal para aquisição de imagens de cálcio intracelular ...................................................... 29 Figura 04- A cetamina não é capaz de ativar o TRPV1 .................................... 38 Figura 05- A pré-incubação com cetamina potencializa a resposta do receptor induzida pela cetamina ..................................................................................... 40 Figura 06- Cetamina não é capaz de provocar o aumento da [Ca2+] em DRGs de ratos. ............................................................................................................. 41 Figura 07- Cetamina restaura e potencializa a resposta induzida por capsaicina no DRG de ratos. .............................................................................................. 42 Figura 08- Cetamina reverte a dessensibilização do TRPV1 em DRGs de ratos. ................................................................................................................. 44 Figura 09- A ação da cetamina é dependente da PKCє .................................. 47 Figura 10- A cetamina reduz a quantidade de células responsivas à capsaicina ......................................................................................................... 51 Figura 11- A cetamina apresenta efeitos citotóxicos em DRGs. ....................... 53 Figura 12- A cetamina aumenta o tempo de nocicepção em ratos, de forma dose-dependente nas concentrações de 20, 40 e 80 nmol/pata .......................................................................................................... 55 xiii Figura 13- Níveis de expressão de PKCє e de TRPV1 fosforilados e totais em células HEK na presença e na ausência de cetamina 10µM .................................................................................................................. 57 xiv LISTA DE TABELAS Tabela 01 - Tabela 1: Solução Krebs-Ringer-Hepes (KRH) – sem cálcio ......... 19 Tabela 02- Tampão de lise (RIPA Buffer) ........................................................... 20 Tabela 03- Tampão 6X (TA 6X) .......................................................................... 20 Tabela 04- Tampão de corrida ........................................................................... 21 Tabela 05- Tampão de transferência (1X) ......................................................... 21 Tabela 06-Solução TBS .................................................................................... 21 Tabela 07- Solução TBS-T (Tris-Buffered Saline- Tween 20)........................... 21 Tabela 08- Meio de cultura para DRG .............................................................. 22 Tabela 09- Meio de cultura para células HEK-293............................................ 22 Tabela 10- Meio para transfecção de células HEK-293 .................................... 23 Tabela 11- Delineamento do experimento de comportamento animal ............. 32 Tabela 12- Descrição dos anticorpos primários e secundários utilizados no Western Blotting ................................................................................................ 34 xv LISTA DE ABREVIATURAS єV1-2 Inibidor de PKCє ψє RACK Ativador de PKCє [Ca2+] Concentração de íons cálcio [Ca2+]i Concentração de íons cálcio intracelular Ca2+ Íons Cálcio µM Micromolar 12-HPETE Ácido 12-Hidroperóxido Eicosatetraenóico 5-HT Serotonina (5-hidroxitriptamina) ANOVA Análise de variância de uma via ATP Adenosina trifosfato CAPS Capsaicina CEBIO Centro de bioterismo CETEA Comitê de Ética em Experimentação Animal CO2 Gás carbônico (Dióxido de carbono) DMEM Dulbecco's Modified Eagle Medium DMSO Dimetil sulfóxido DNA Ácido desoxirribonucleico DRGs Gânglios da raiz dorsal EGTA Ácido tetra acético etileno glicl bis- (β- aminoetil éter) FLUO-4-AM Marcador fluorescente de cálcio FURA-2-AM Marcador fluorescente de cálcio GABA-A Ácido gama-aminobutírico H2O2 Peróxido de Hidrogênio HANKS Solução Salina Balanceada de Hanks HCl Ácido Clorídrico xvi HEK-293 Células humanas embrionárias de rim HEK-TRPV1 Células transfectadas com o receptor TRPV1 HEPES Ácido 2-etanossulfónico IC50 Concentração capaz de inibir 50% da ação máxima efetiva de uma determinada substância KCl Cloreto de potássio KET Cetamina KRH Solução de Krebs Ringer Hepes MgSO4 Sulfato de magnésio mL Mililitro MTT Metil-Tiazol-Tetrazólio NaCl Cloreto de Sódio NADA Dopamina N-araquidonoil NGF Fator de crescimento neuronal nm Nanômetro NMDA N-metil-D-aspartato NO Óxido nítrico NOS Óxido nítrico sintase NP40 Éter poliglicol (tergitol) NT Células não transfectadas PBS Tampão fosfato-salino PKA Proteina quinase A PKC Proteína quinase C PKCє Proteína quinase C do tipo epsilon pH Potencial hidrogeniônico PMA 4-beta-phorbol 12-miristato 13-acetato xvii ROIs Regiões de interesse SB / SB-366791 Antagonista potente e seletivo de TRPV1 SNC Sistema nervoso central SNP Sistema nervoso periférico SDS Dodecil sulfato de sódio TREK-1 Two-pore-domain K+ (K2P) channel subunits TRIS Trisaminometano TRPA Receptor de potencial transiente anquirina TRPC Receptor de potencial transiente canônicos TRPM Receptor de potencial transiente melastatina TRPML Receptor de potencial transiente mucolipina TRPN Receptor de potencial transiente mecanoreceptores potencial C TRPP Receptor de potencial transiente policistina TRP Receptor de potencial transiente TRPV Receptor de potencial transiente vanilóide TRPV1 Receptor de potencial transiente vanilóide tipo 1 U.A. Unidades arbitrárias UFMG Universidade Federal de Minas Gerais xviii RESUMO A cetamina é um anestésico intravenoso utilizado para a indução da anestesia geral, sedação em pacientes com cuidados intensivos, analgesia em pacientes queimados e em medicina veterinária. Seu mecanismo de ação envolve interação com múltiplos sítios incluindo receptores glutamatérgicos NMDA e não NMDA, receptores colinérgicos nicotínicos e muscarínicos, receptores monoaminérgicos e opióides. Doses sub-anestésicas são utilizadas na terapia de dor pós operatória e dor crônica. O TRPV1 é um canal catiônico não-seletivo, que é expresso em fibras nociceptivas. Ele está presente em neurônios sensíveis à capsaicina e em, aproximadamente, 50% dos gânglios da raiz dorsal (DRGs). O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da cetamina sobre os receptores TRPV1 da via sensorial periférica. Células HEK-293 transfectadas com o TRPV1 foram estimuladas ou pré-incubadas com concentrações variadas do anestésico e avaliadas quanto à variação da [Ca2+]i em fluorímetro. Os resultados sugeriram que apesar da cetamina não ativar diretamente o receptor ela potencializa a resposta das células transfectadas induzida por capsaicina. Culturas de DRGs foram realizadas e analisadas em microscopia confocal apresentando resultado semelhante às células transfectadas quando estimuladas e pré-incubadas com o anestésico. Em experimentos também realizados com cultura de DRGs foi possível observar que a cetamina previniu a dessensibilização dos DRGs após estímulos consecutivos com a capsaicina, de forma dependente da PKCє. Experimentos de western blotting indicaram que os níveis de expressão proteicos de TRPV1 e de PKCє fosforilados aumentam na presença do anestésico. Análises de culturas de DRGs indicaram que o pré-tratamento com o anestésico reduziu a proporção de neurônios responsivos à capsaicina, independentemente do tamanho dos mesmos. Experimentos de MTT sugeriram que o anestésico apresenta efeito citotóxico em DRGs provocando redução da viabilidade das fibras nociceptivas responsivas à capsaicina em, aproximadamente, 20%. Experimentos comportamentais corroboraram os resultados encontrados in vitro. Em conjunto nossos dados indicam que a cetamina modula a sensibilidade do TRPV1 à capsaicina através de um mecanismo dependente da fosforilação do receptor pela PKCє. xix ABSTRACT Ketamine is an intravenous anesthetic used for induction of anesthesia, as an adjuvant to local anesthesia, for sedation of patients in intensive care, to induce analgesia in burned patients and in dental and veterinary procedures. Ketamine’s mechanism of action involves interaction with multiple sites including glutamatergic NMDA and non-NMDA receptors, muscarinic and nicotinic cholinergic receptors, opioid and monoaminergic receptors. Sub- anesthetic doses are used in postoperative pain therapy and chronic pain. The TRPV1 is a nonselective cation channel which is expressed in nociceptive fibers. It is present in capsaicin-sensitive neurons and approximately 50% of dorsal root ganglia (DRG). In this study we investigated ketamine’s effect on TRPV1 receptors present in peripheral sensory pathway. HEK-293 cells transfected with TRPV1 receptors were stimulated or incubated with different anesthetic concentrations and evaluated for changes in [Ca2+]i using a fluorometer machine. The results have suggested that although ketamine didn’t activate the receptor directly it potentiates the capsaicin response in transfected cells. DRG cultures were performed and analyzed in confocal microscopy. The experiments confirmed the previous results and suggests that ketamine could prevent DRG’s desensitization induce by capsaicin successive stimulations via activation of PKCє. Western blotting experiments indicated that phosphorylated TRPV1 and phosphorylated PKCє protein expression levels were increased in anesthetic’s presence. DRG’s culture pretreatment with ketamine reduced the amount of capsaicin’s responsive neurons regardless the neuron’s size. MTT cell viability experiments were performed and suggest that ketamine’s incubation has a cytotoxic effect on DRG’s cultures that promotes reduction in 20% in the amount of nociceptive fibers responsive to capsaicin. Behavioral experiments corroborate results found in vitro. Taken together our data indicate that ketamine modulates TRPV1 sensitivity to capsaicin through a mechanism dependent of receptor phosphorylation by PKCє. 1 I. INTRODUÇÃO 1.0 ANESTÉSICOS A história da anestesia pode ser dividida em duas fases distintas: antes e após 1846. Antes de 1846 os métodos para se aliviar a dor em procedimentos cirúrgicos eram bastante rudimentares. Algumas vezes utilizavam-se métodos físicos para produzir analgesia como, por exemplo, envolver um membro em gelo, ou torná-lo isquêmico com um torniquete. A inconsciência produzida por um golpe na cabeça ou por estrangulamento produzia alívio da dor, porém a um custo bastante elevado para o paciente. O método mais utilizado para se conseguir um campo cirúrgico era a simples contenção do paciente pela força. Dessa forma não era de se admirar que a cirurgia fosse considerada o último recurso empregado (Davidson et al., 1965). Em 1846, em uma demonstração pública, o dentista Willian T.G. Morton apresentou à comunidade científica o efeito promissor dos anestésicos ao submeter o paciente Edward Gilbert Abbott a uma cirurgia para a retirada de um tumor na glândula submaxilar e na língua. Após a inalação de éter por alguns minutos, o paciente permaneceu inconsciente e não apresentou sinais de dor, nem sequer reflexos motores embora estivesse vivo e respirando. Desde este dia a técnica de Morton propiciou um rápido desenvolvimento na cirurgia moderna e tornou-se uma das descobertas mais revolucionárias da medicina, de forma que atualmente mais de 45 milhões de pacientes nos Estados Unidos da América são submetidos à anestesia anualmente (American Society of Anesthesiologists, 2015). 1.1 ANESTÉSICOS GERAIS Apesar de utilizados, pioneiramente, há mais de 170 anos e de serem amplamente empregados em procedimentos médicos e em cirurgias, o mecanismo de ação desses agentes ainda permanece em estudo. A dificuldade de determinação dos alvos potenciais desses agentes reside na multiplicidade de efeitos que os mesmos são capazes de gerar nos pacientes, uma vez que cada efeito anestésico envolve a participação de diferentes 3 regiões nervosas e consequentemente, distintos alvos celulares e moleculares (Hemmings, Myles, et al., 2005). Os anestésicos gerais são caracterizados, clinicamente, por causarem amnésia, inconsciência, imobilidade aos estímulos nociceptivos e analgesia (Antognini, Carstens, 2002; Hemmings et al., 2005). São divididos em dois grupos, conforme sua via de administração: inalatórios e intravenosos. Os anestésicos inalatórios geralmente são utilizados para a manutenção da anestesia enquanto os anestésicos intravenosos são empregados para induzir a anestesia. A amnésia ocasionada pelo uso de anestésicos gerais presumivelmente envolve circuitos do hipocampo, amígdala, córtex entorrinal e córtex perirrinal, todos os quais são implicados na aprendizagem e memória (Hemmings et al., 2005). O efeito da inconsciência relaciona-se ao tálamo, ao córtex e ao tronco cerebral (Sonner et al., 2003), enquanto que a imobilidade aparentemente está envolvida com a depressão de vias reflexas na medula espinhal como consequência da supressão de mecanismos excitatórios ou da potencialização de mecanismos inibitórios (Sonner et al., 2003). Já a analgesia está relacionada à atuação dos anestésicos no circuito da dor. Além desses efeitos, os anestésicos gerais produzem consideráveis efeitos colaterais, sendo os principais, a depressão cardiovascular e respiratória, fraqueza, excitação e sonolência. 1.2 MECANISMOS DE AÇÃO DOS ANESTÉSICOS GERAIS Os anestésicos gerais inalatórios compreendem um grupo diverso de substâncias voláteis e gasosas que apresentam a capacidade de suprimirem a atividade do sistema nervoso central (SNC) (Franks, 2008) e de excitar neurônios nociceptivos periféricos, ativando os circuitos sensoriais da dor (Mutoh et al., 1998; Mutoh, Tsubone, 2003). Numerosos estudos sugerem que os mecanismos de ação dos anestésicos gerais inalatórios no SNC envolvem sensibilização ou ativação dos 4 receptores gabaérgicos tipo A (Nakahiro et al., 1991;Wakamori et al., 1991, Franks, Lieb, 1994; Hemmings et al., 2005), modulação dos canais de K+ da família TREK-1 (Franks, Lieb, 1988; Gray et al., 1998; Honoré, 2007), bloqueio ou alteração da afinidade do agonista pelos receptores nicotínicos (Firestone et al., 1986; Violet et al., 1997; Flood, Role, 1998; Raines et al., 2002; Raines, 2003, Rada et al., 2003), inibição dos receptores glutamatérgicos (Yamakura, Harris, 2000; Hoffmann et al., 2001) e alteração da liberação pré-sináptica de neurotransmissores (Van Swinderen et al., 1999). No sistema nervoso periférico (SNP) os anestésicos gerais inalatórios exercem seus efeitos através da ativação direta com o receptor TRPA1 (Cornett et al., 2008) ou pela sensibilização do TRPV1, um canal iônico expresso em neurônios nociceptivos. Cornett e colaboradores demonstraram em 2008 que concentrações clínicas de isoflurano, sevoflurano, enflurano e de desflurano são capazes de sensibilizarem o TRPV1 para capsaicina e para prótons e, além disso, reduzem o limiar de ativação térmica do receptor. Nesse mesmo trabalho ainda foi sugerido que o isoflurano ativa o TRPV1 diretamente através de um mecanismo dependente da proteína quinase C (PKC). A atuação dos anestésicos gerais intravenosos no SNC envolve mecanismos diversos e muito similares aos mecanismos de ação dos anestésicos inalatórios: ativação dos receptores GABAA (Franks,Lieb, 1994; Hemmings et al., 2005;), inibição dos receptores colinérgicos (Maleque et al.,1981; Tsai, 1989, Hass, Harper, 1992), bloqueio dos receptores glutamatérgicos NMDA (Haas, Harper, 1992; Orser et al., 1995) e não NMDA (Gonzales,1995), inibição dos canais de Ca2+ (Inoue et al., 1999; Shiraska et al., 2004; Martella et al., 2005), bloqueio dos canais de Na+ sensíveis à voltagem (Ratnakumari, Hemmings, 1997; Irnaten et al., 2002; Reckiegel et al., 2002; Ouyang et al., 2003; Haeseler et al., 2003;) e alteração da liberação de neurotransmissores (Ratnakumari, Hemmings, 1997; Kikuchi et al., 1998; Costa, et al., 2014). Escassas são as publicações acerca do efeito dos anestésicos gerais intravenosos no SNP. Em 2010, Wickley e colaboradores desvendaram que o 5 propofol modula a sensibilidade do TRPV1 à capsaicina através de um mecanismo dependente da fosforilação do TRPV1 pela PKCє. 1.3 CETAMINA A cetamina é um anestésico geral intravenoso, derivada do cloridrato de fenciclina (Micallef et al., 2003) que foi sintetizado em 1963 por Calvin Stevens e utilizado pela primeira vez como mistura racêmica em humanos em 1965 (Kohrs, Durieux, 1998; Craven, 2007). Ao ser introduzida na clínica médica buscava-se a criação de uma substância que fosse capaz de induzir analgesia, amnésia, perda de consciência e imobilidade. Tal objetivo não foi atingido, uma vez em que a cetamina exerce potente vasodilatação cerebral, o que acarreta aumento da pressão intracraniana (Urwin, Menon; 2004). Além disso, diversos efeitos colaterais, tais como fortes alucinações, ansiedade, desorientação e agitação foram relatados contribuindo para a redução do uso de tal agente rapidamente (Kohrs, Durieux, 1998). Apesar disso, foi reconhecido que a cetamina apresentava efeito analgésico atrativo, o que motivou o aumento do número de pesquisas sobre essa substância. Estudos, com o objetivo de reavaliar o potencial terapêutico desse anestésico, avaliaram a solução comercial de cetamina. Esta era composta por dois enantiômeros, as formas S (+) e R (-), preservados em cloreto de benzetônio. Tais estudos sugeriram que a S(+) cetamina era 3-4 vezes mais potente que o isômero dextrógiro para alívio da dor e apresentava menor incidência de efeitos psicomiméticos do que a mistura racêmica, sugerindo que a S (+) cetamina poderia ser usada em doses menores, gerando recuperação mais rápida do estado anestésico, com a possibilidade de ocasionar menores efeitos colaterais. Em 1992, a “Food and Drug Administration” determinou a separação dos enantiômeros S (+) e R (-) da cetamina (Kohrs, Durieux, 1998). A partir desse período pesquisas com o isômero S (+) da cetamina se intensificaram e revelaram que tal agente poderia ser classificado como um “anestésico dissociativo”, ou seja, capaz de gerar analgesia profunda, perda sensorial marcante, perda do movimento e amnésia, sem necessariamente haver perda de consciência (Morgan et al., 2004; Rang et al., 2004) . Apesar de 6 não ficar adormecido, o paciente submetido ao uso da cetamina apresenta intensa sensação de dissociação do meio. Beneficamente o estado clínico causado pelo uso da cetamina induz, além da analgesia, broncodilatação e estimulação simpática (Bowles, Gold, 2012). A estimulação simpática pode ocasionar aumento da pressão sanguínea, da frequência cardíaca, da pressão na artéria pulmonar e das secreções orais (Kohrs, Durieux; 1998). No entanto, a estimulação é dita benéfica, pois, quando a cetamina é administrada com agonistas gabaérgicos ocorre estabilização hemodinâmica, o que reduz a necessidade de medicações vasoativas pelo paciente (Bowles, Gold, 2012). A S (+) cetamina é utilizada em indução de anestesia em pacientes com choque hemodinâmico ou crise asmática; como sedativa em pacientes não cooperativos, particularmente crianças; suplemento da anestesia local; sedação de pacientes sob cuidados intensivos; analgesia em pacientes queimados; procedimentos odontológicos e em anestesia veterinária (Haas, Harper, 1992; Kohrs, Durieux, 1998; Lamont, 2008). Doses sub-anestésicas são utilizadas na terapia de dor pós operatória e dor crônica (Craven, 2007). Também tem sido utilizada, em pesquisas laboratoriais, como modelo para induzir esquizofrenia em animais (Becker et al., 1978). Além do uso terapêutico, a droga tem sido utilizada, ilicitamente, por jovens, produzindo efeito alucinógeno. Apesar de apresentar efeitos atrativos, convencionalmente, a cetamina não tem seu uso clínico disseminado. Pesquisas diversas (Sakai, et al., 2000; Engelhard et al., 2001; Nagase et al., 2001; Bourgoin, et al., 2003; Bar-Joseph et al., 2009) demonstraram que quando a cetamina é utilizada como adjuvante, com outros agentes anestésicos, e quando a normocapnia é mantida com ventilação mecânica, a pressão intracraniana se mantém estável e não há desenvolvimento de problemas hemodinâmicos cerebrais indesejados ou consequências neurológicas. Em 2003, Bourgoin e colaboradores avaliaram pacientes que usaram cetamina como adjuvante e demonstraram que estes apresentaram resultados estatisticamente indistinguíveis dos pacientes que receberam anestesia com propofol, anestésicos voláteis, opióides ou benzodiazepínicos. 7 1.4 MECANISMOS DE AÇÃO DA CETAMINA O mecanismo de ação da cetamina é complexo. Este anestésico interage com múltiplos sítios incluindo receptores glutamatérgicos tipo-NMDA e não NMDA, receptores colinérgicos nicotínicos e muscarínicos, receptores monoaminérgicos e opióides. Além disso, parece bloquear canais iônicos para sódio e cálcio do tipo L provocando modesto efeito anestésico local e vasodilatação cerebral, respectivamente (Kohrs, Durieux; 1998). Os receptores pós sinápticos glutamatérgicos do tipo NMDA são considerados o principal sítio de ação do anestésico no SNC. A administração de cetamina em humanos promove o bloqueio não competitivo de receptores glutamatérgicos ionotrópicos do tipo NMDA (Haas e Harper, 1992) e parece estar envolvida com a ação anestésica da cetamina (Bowles, Gold, 2012). A ação analgésica da cetamina parece estar relacionada ao bloqueio causado por este anestésico nos receptores glutamatérgicos não NMDA (Gonzales,1995). Quando ativados, os receptores glutamatérgicos NMDA e não NMDA estimulam a síntese de óxido nítrico (NO), um neurotransmissor, central e periférico, que se relaciona com a percepção da dor, pelo menos, na coluna vertebral (Wod et al., 1990; Garthwaite, 1991; Marin et al., 1993;). A cetamina inibe a óxido nítrico sintase (NOS) causando efeito analgésico (Gordh et al., 1995). Os receptores colinérgicos, muscarínicos e nicotínicos, são bloqueados pela cetamina. A administração intravenosa do anestésico potencializa o efeito de drogas bloqueadoras neuromusculares de maneira dose-dependente, possivelmente interagindo com receptores colinérgicos (Maleque et al., 1981; Tsai, 1989; Hass, 1992). A afinidade da S (+) cetamina pelos receptores muscarínicos é 10-20 vezes menor que pelos receptores NMDA (Kohrs, Durieux, 1998). Receptores opióides também são alvo de ação da cetamina, ainda que a afinidade do anestésico seja de 10 a 20 vezes menor nesses receptores do que nos receptores NMDA. Tal fato sugere que a ativação dos receptores opióides pelo anestésico não justifique de maneira relevante o efeito analgésico da 8 cetamina (Kohrs, Durieux, 1998). A similaridade dos efeitos causados pela cetamina e pelos agonistas opióides nos receptores opióides do tipo κ explica os efeitos psicotomiméticos do anestésico (Kohrs, Durieux, 1998). Em relação à liberação de neurotransmissores sabe-se que a cetamina, em concentrações clínicas, inibe a liberação de acetilcolina (Silva et al., 2009). A R(-) cetamina inibe a captação neuronal de noradrenalina e a S(+) cetamina adicionalmente inibe a captação extra- neuronal, produzindo uma resposta sináptica prolongada e aumento da transferência de noradrenalina para dentro da circulação, que pode ser observada no sistema cardiovascular pelo aumento da pressão arterial, da frequência cardíaca e do débito cardíaco. A captação de dopamina também é inibida pela cetamina, o que pode levar ao aumento da atividade dopaminérgica central, sugerindo uma relação com os fenômenos de dependência química (Vasconcelos et al., 2005). Estudos demonstram que a captação neuronal de serotonina parece ser inibida pela cetamina, já que a metisergida, um antagonista serotonérgico (5-HT), é capaz de abolir o efeito analgésico da administração intratecal de cetamina. Isto implica que mecanismos serotonérgicos estão envolvidos nos efeitos analgésicos desse anestésico (Crisp et al., 1991). A cetamina pode atuar também em canais iônicos. A cetamina bloqueou canais para sódio operados por voltagem em neurônios e em células de músculo esquelético (Haeseler et al., 2003). Além desse dado, o anestésico inibiu a condutância do sódio em canais para sódio em neuroblastomas (Reckiegel et al., 2002). Foram observados, também, efeitos em canais iônicos pós-sinápticos. De fato, investigou-se a ação da cetamina em canais para sódio e potássio em neurônios do corno dorsal da medula de ratos e o anestésico determinou o bloqueio dos canais para sódio com IC50 de 128 µM (Schnoebel et al., 2005). Corroborando com estes achados, estudos relacionados ao efeito da cetamina em canais iônicos têm demonstrado que este anestésico bloqueia canais para sódio nos sistemas nervoso central e periférico (Seeler et al., 1996), bloqueia canais para potássio (Brau et al., 1997) e canais para cálcio sensíveis a voltagem (Hirota, Lambert 1996). 9 1.5 CANAIS IÔNICOS E ALGESIA Uma vez que um estímulo nocivo é aplicado num tecido inicia-se a propagação da dor, pois, um potencial de ação é imediatamente gerado e ativa um nociceptor. Nociceptores (ou receptores da dor) são terminações livres de fibras aferentes primárias sensíveis a estímulos nocivos (Millan, 1999) que apresentam quatro componentes básicos: um terminal periférico, que é o transdutor dos estímulos externos e que inicia os potenciais de ação; o axônio, que conduz os potenciais de ação; o corpo celular que controla a integridade do neurônio e um terminal central que forma o elemento pré-sináptico que forma a 1ª sinapse da via sensória no SNC (Woolf, Ma, 2007). São encontrados na pele, mucosa, membranas, tecido conjuntivo de órgãos viscerais, ligamentos e cápsulas articulares, periósteo, músculos, tendões e vasos arteriais (Almeida et al., 2003). Durante a geração do potencial de ação há a participação de canais iônicos, permeáveis principalmente à cátions, que controlam: o disparo do potencial, a condução do potencial e a transmissão sináptica para o segundo neurônio. Os principais canais responsáveis pela geração das correntes iônicas de entrada nas membranas dos nociceptores são os canais iônicos sensíveis à voltagem de sódio e de cálcio, enquanto as correntes de saída são mediadas principalmente por canais iônicos de potássio sensíveis à voltagem. Além disso, a ativação dos neurônios sensórios é dependente de canais de cátions não seletivos (Lee et al., 2005) tais como os canais pertencentes à superfamília de receptores de potencial transiente (TRP). 1.6 TRPV1 Os canais TRPV1 (receptor de potencial transiente vanilóide tipo1) são canais iônicos membros da superfamília TRP, que apresenta canais distintos expressos em mamíferos, invertebrados e fungos. Os canais agrupados nessa superfamília participam dos mecanismos moleculares de sinalização da dor atuando como tradutores de estímulos nocivos térmicos, mecânicos e químicos (O’neill et al., 2012). Sendo canais não seletivos para cátions permitem o fluxo destes, pela membrana plasmática, movidos pelos respectivos gradientes 10 eletroquímicos, levando assim a uma possível despolarização da membrana celular. A superfamília TRP é composta por sete subfamílias: TRPV (Vanilóides); TRPC (Canônicos); TRPM (Melastatina); TRPA (Anquirina), TRPP (Policistina), TRPN (mecanoreceptores potencial C) e TRPML (Mucolipina) (Montell, 2005; Gudermann, Flockerzi, 2005; Nilius et al., 2007), conforme ilustrado na figura 01, sendo as isoformas TRPV1 e TRPA1 consideradas as mais bem estudadas no que se refere ao desenvolvimento de tratamentos para dor e para condições inflamatórias (Radresa et al., 2013). Figura 01- As sete subfamílias TRP. A imagem representa a organização geral dos canais TRPs. Esses canais são compostos por uma estrutura proteica com seis domínios transmembrana, com o poro condutor de cátions localizando-se entre o quinto e o sexto domínio. Há ainda duas extremidades intracelulares: a amino e a carboxiterminal. Alguns domínios importantes presentes nos canais podem ser identificados: segmentos transmembrana, domínio TRP, domínio da proteína quinase (apenas presente no TRPM6/7) A: anquirinas. CC: domínio da espiral enrolada. Imagem adaptada de Montell. The TRP superfamily of cations chanels. Science Signaling. (272) 1-24,3. 2005. Os canais TRPV1 foram os primeiros canais nociceptivos TRPs identificados (Catherina et al., 1997). Esses receptores são expressos em todo o organismo, principalmente nos neurônios sensoriais primários de pequeno diâmetro dos gânglios da raiz dorsal (DRGs) e dos 11 gânglios trigeminais. Também são expressos na membrana do retículo endoplasmático de neurônios DRG (Olah et al., 2001; Sandín et al., 2009; Kwak, 2012). Esses canais participam de processos fisiológicos diversos, tais como: motilidade intestinal, metabolismo ósseo, controle da micção, controle da audição e visão, controle da liberação de neurotransmissores, e, por fim, a proliferação de células sadias e tumorais, etc. Apresentam também importante papel na transmissão da sensação já que eles servem de sensores moleculares que detectam uma variedade de estímulos como tato, cheiro, audição, mecanossensação, termosensação e dor (Scott, Zuker, 1998; Minke,Cook, 2002). O TRPV1 é um dos canais da família TRP que apresenta o maior número de ligantes conhecidos além de apresentar grande número de moduladores de sua função. Seus agonistas exógenos mais conhecidos são a capsaicina e a resiniferatoxina e, os agonistas endógenos principais são os endocabinóides anandamida e a dopamina N-araquidonoil (NADA), além dos produtos da oxidação do ácido araquidônico tais como o ácido 12-(S)- hidroperoxieicosatetraenoico (12-HPETE) e o leucotrieno B4. Além disso, um grande número de estímulos físicos e químicos podem atuar no TRPV1, ativando-o, tais como calor, prótons, cátions, ácidos graxos inflamatórios, etc (Pingle et al., 2007). Em 2008, Cornett e colaboradores demonstraram que concentrações clínicas de anestésicos gerais inalatórios eram capazes de aumentar a sensibilização do TRPV1 à capsaicina e de potencializar sua ativação amplificando a sinalização nociceptiva periférica em cirurgias. Um importante aspecto a respeito do TRPV1 refere-se aos mecanismos através dos quais ocorre a regulação da sensibilização e da dessensibilização deste receptor, uma vez em que, tal regulação parece estar associada, respectivamente, à hipersensibilidade induzida por inflamação e à anti- nocicepção (Mandadi et al., 2006). Diversas vias, envolvendo fosforilações do receptor, foram associadas aos mecanismos de regulação do TRPV1 (Mohapatra et al., 2005; Novakova- Tousova et al., 2007; Vycklický et al., 2008), através de proteínas quinases “A” (De Petrocellis et al., 2001; Bhave et al., 2002; Hu et al., 2002; Rathee et al., 12 2002,) de proteínas quinases “C” (Premkumar and Ahern, 2000; Tominaga et al., 2001; Sugiura et al., 2002; Bhave et al., 2003; Dai et al., 2004), e do complexo Ca2+/Calmodulina, que dessensibiliza o TRPV1 através de um mecanismo dependente de Ca2+ extracelular (Numazaki et al., 2003; Jung et al.,2004; Rosenbaum et al., 2004). Em 2002, os grupos de pesquisa de Numazaki e de Bhave demonstram que os domínios citoplasmáticos do TRPV1 apresentam sítios que podem ser regulados pela PKC e pela PKA mediante fosforilação. Dentre esses sítios, destacam-se os resíduos de serina (S502 e S800) que já foram associados como essenciais para que a resposta do TRPV1 induzida pela capsaicina seja potencializada por PMA, por ATP e por temperatura (Numazaki et al., 2002). Dentre essas vias de segundos mensageiros que regulam o TRPV1, destaca-se a associação com as proteínas quinases “C”, uma vez em que Wickley e colaboradores, em 2010, sugeriram que a modulação induzida pelo propofol, um anestésico intravenoso, na sensibilidade do TRPV1 à capsaicina, ocorre por um mecanismo de fosforilação do receptor dependente de PKCє. 1.7 PROTEÍNA QUINASE C As proteínas quinases correspondem à maior família de proteínas presentes em eucariotos. Muitas foram descobertas no início dos anos 80 e pesquisas contínuas indicam que o genoma humano apresente por volta de 2000 quinases. Elas são a chave central de comunicação no controle intracelular, na regulação e na transdução de sinais (Silva et al., 2009). As proteínas quinases são enzimas que catalisam a fosforilação de proteínas celulares através da transferência de um grupo fosforila de ATP e, em casos excepcionais, de GTP, para os grupos hidroxila presente nos aminoácidos treonina, serina ou resíduos de tirosina presentes nas proteínas.A fosforilação destes resíduos é responsável por estímulos extracelulares e intracelulares, que fornecem um mecanismo altamente eficiente para o controle da atividade de proteínas (Silva et al., 2009). As proteínas quinases conseguem fosforilar o receptor TRPV1, diretamente, em 16 regiões possíveis (figura 02). Tais regiões estão localizadas na cauda amino (NH2) terminal do receptor, no primeiro loop intracelular e na cauda carboxiterminal (COOH) e se caracterizam por conterem resíduos de serina ou de treonina (Numazaki et al., 2002). Figura 02- O TRPV1 é diretamente fosforilado pela PKC em 16 resíduos. A imagem representa um canal TRPV1 com seus domínios transmembrana. Destaca-se, na imagem, duas extremidades intracelulares: a amino (NH2) e a carboxiterminal (COOH) e um loop transmembrana representado. A figura apresenta 16 posições contendo resíduos de serina (“S”) ou de treonina (“T”) que são sensíveis à fosforilação pela PKC.Imagem adaptada de Numazaki et al.. Direct phosphorylation of capsaicin receptor VRI by protein kinase C epsilon and identification of two targets serine residues. J Biol Chem 277: 13375-8. 2002. Atualmente, são descritos na literatura 11 isotipos de PKC presentes em mamíferos que são classificados em 3 grupos distintos de acordo com a estrutura e a característica de ativação de cada isoforma. O primeiro grupo é constituído pelas PKCs convencionais (PKCα, PKCβI, PKCβII e PKCγ), que são dependentes de cálcio e ativadas pela fosfatidilserina ou diacilglicerol (DAG). O segundo grupo contém as PKCs denominadas de “novas”, que apesar de serem independentes de cálcio são também reguladas pela fosfatidilserina ou diacilglicerol (DAG). Nesse grupo estão as PKCs “σ”, “δ”, “ε” e “η”. No terceiro grupo estão as PKCs atípicas 13 14 (PKC “ζ” e PKC “λ”) que são independentes de cálcio e não necessitam do dialcilglicerol para ativação (Mackay, Twelves; 2007). 1.8 PROTEÍNA QUINASE DO TIPO “ε” Apesar de alguns trabalhos científicos sugerirem o envolvimento das PKCs na regulação dos nociceptores (Mandadi et al., 2004;Mohapatra, Nau; 2005), poucos conseguiram desvendar quais isoformas dessa classe de proteínas estão envolvidas, especificamente, neste processo. Em 1999, Khasar e colaboradores sugeriram que a PKCє é necessária para a expressão de epinefrina induzida por estímulos mecânicos e químicos em nociceptores. No mesmo ano, Cesare e colaboradores demonstraram que a PKCє é a principal responsável pela sensibilização da resposta térmica induzida pela bradicinina nos nociceptores. Em 2003, Numazaki e seu grupo de pesquisa indicou que os substratos para fosforilação direta do TRPV1 pela PKCє estão localizados no primeiro loop intracelular e na cauda carboxiterminal do receptor, sendo respectivamente os resíduos S502 e S800. Em 2010, Wicley e colaboradores indicaram que na presença de propofol, um anestésico intravenoso, a sensibilidade do TRPV1 à capsaicina é modulada por um mecanismo de fosforilação desse receptor, no resíduo S800, que envolve a participação da PKCє. Esse mesmo grupo de pesquisa, já havia indicado, em 2006 que a PKCє era ativada pelo propofol, em cardiomiócitos. Assim, a literatura nos informa que a PKCє está envolvida na modulação de nociceptores e parece ser sensível à atuação dos anestésicos gerais. Apesar de diversos mecanismos de ação da cetamina já terem sido desvendados e de se reconhecer a atuação desse agente em canais iônicos, não há na literatura publicações que avaliem o efeito deste anestésico intravenoso em canais iônicos TRPV1.Sendo a ação analgésica um importante efeito desse agente justifica-se a verificação da atuação da cetamina em canais iônicos TRPV1, canais conhecidos por serem relacionados aos mecanismos de sinalização da dor. 15 II. OBJETIVO 16 2.1 OBJETIVO GERAL Avaliar o efeito da cetamina sobre receptores TRPV1 da via sensorial aferente periférica. 17 III. MATERIAL E MÉTODOS 18 3.1 EQUIPAMENTOS - Agitador de Solução Corning (Modelo: PC420). - Agitador Vortex para tubos Quimis Aparelhos Científicos Ltda (Modelo: Q220). - Balança eletrônica de precisão decimal Indústria e Comércio Eletro-Eletrônica Gehaka Ltda (Modelo BG 2000). - Banho Maria microprocessado com agitação e temperatura regulável Quimis Aparelhos Científicos Ltda (Modelo: Q215M1). - Cuba de eletroforese BIO-RAD (Modelo: semi-dry). - Espectrofluorímetro (Modelo: shimadzu rf-5301 pc). - Estufa de CO2 Shel Lab ( Modelo 5215-2). - Centrífuga refrigerada Hitachi (Modelo: HIMAC CR20B2). - Guilhotina para decapitação Insight® Pesquisa e Ensino Ltda (Modelo: EB- 271). - Homogenizador de tecidos Marconi (Modelo MA099). - ImageQuant ( Modelo LAS 4000 – GE). - Microscópio invertido de fase Axiovert 25 (Carl Zeiss). - Microscopia confocal Leica (Modelo SP5, software Leica LAS) acoplado a um sistema de perfusão (Bioptechs). - Lupa para dissecação PIEZA (M18SL). - pHmêtro de bancada Quimis Aparelhos Científicos Ltda (Modelo: Q400AS). - Sonicador (Ultrasonicador/homogenizador) da Biologics, INC (Modelo 150 V/T). - VictorTM X4 PERKIN ELMER (Modelo 2030- 0040- Multilabel plate reader). 19 3.2 SOLUÇÕES 3.2.1 SOLUÇÕES PARA FLUORÍMETRO E CONFOCAL - CaCl2 (1M). - Solução Krebs-Ringer-Hepes (KRH) – sem cálcio. Reagente Concentração ( mM) NaCl 124 KCl 4 MgSO4 1,2 Glicose 10 HEPES 25 O pH final era ajustado para 7,4 com solução de NaOH 5M. Tabela 01- Solução Krebs-Ringer-Hepes (KRH) – sem cálcio. - Solução Krebs-Ringer-Hepes (KRH) – com cálcio 1,5 mM. Em uma alíquota de 40 mL de KRH - sem cálcio era adicionado 60 µL de solução de CaCl2 (1M) . - Solução Krebs-Ringer-Hepes (KRH) – com cálcio 1,0 mM. Em uma alíquota de 40 mL de KRH - sem cálcio era adicionado 40 µL de solução de CaCl2 (1M). - Solução de cetamina 1 µM, 10 µM, 30 µM, 100 µM. A cetamina era diluída em KRH com Ca2+ 1,5M. - Solução de capsaicina 500nM. A capsaicina era diluída em KRH com Ca2+ 1,5M. - Solução de Ativador de PKCє (ψє RACK) 0,5µM. O ativador era diluído em KRH com Ca2+ 1,5M. -Solução de Inibidor de PKCє (єV1-2) 0,5µM. O ativador era diluído KRH com Ca2+ 1,5M. 20 3.2.2 SOLUÇÕES PARA EXPERIMENTOS DE COMPORTAMENTO - Solução salina 0,9% (veículo). - Solução de cetamina 20; 40;80 e 160 µg/pata. - Solução de SB 2mM. - Solução de Capsaicina 1mM. 3.2.3 SOLUÇÕES PARA WESTERN BLOTTING - Tampão de lise (RIPA Buffer). Reagente Concentração NaCl 150mM Tris-HCl 25mM Desoxicolato de sódio 1% Tergitol (NP40) 1% SDS 1% Inibidores de protease (Sigma fast) 1 pastilha para 100mL Tabela 02- Tampão de lise (RIPA Buffer). - Tampão 6X (TA 6X). Reagente Concentração Glicerol 20% v/v SDS 4% m/v 2-β-mercaptoetanol 10% v/v Azul de bromofenol 0,2% m/v Tris 100mM O pH foi ajustado para 6,8. Tabela 03 - Tampão 6X (TA 6X). 21 - Tampão de corrida (1X). Reagente Concentração Tris-base 25 mmol/L SDS 3,5 mmol/L Glicina 210 mmol/L Tabela 04 - Tampão de corrida. - Tampão de transferência (1X). Reagente Concentração Tris-base 48mM Metanol 20% Glicina 39mM Tabela 05- Tampão de transferência (1X). - Solução TBS. Reagente Concentração Tris-base 20mM NaCl 137mM O pH foi ajustado para 7,4. Tabela 06- Solução TBS. - Solução TBS-T (Tris-Buffered Saline- Tween 20). Reagente Concentração NaCl 150 mmol/L Tris 25 mmol/L Tween 20 0,05% O pH foi ajustado para 8,0. Tabela 07 - Solução TBS-T (Tris-Buffered Saline- Tween 20). 22 - Solução de leite em pó 1% e 5%. O leite era diluído em TBS-T. 3.3 MEIOS DE CULTURA - Solução filtrada de HANKS sem bicarbonato de sódio, cloreto de cálcio e sulfato de magnésio. - DMEM low glicose e DMEM high glicose. - Meio para cultura de DRG. Reagente Concentração DMEM low glucose 89% Soro fetal bovino 10% Glutamina 2mM Penicilina/Estreptomicina 1% (100µg/mL) 5-fluoro-2’-deoxiuridina 50µg Uridina 150µg Tabela 08- Meio de cultura para DRG. - Meio para cultura de células HEK-293. Reagente Concentração DMEM high glucose 89% Soro fetal bovino 10% Penicilina/Estreptomicina 1% Tabela 09- Meio de cultura para células HEK-293. 23 - Meio para transfecção de células HEK-293. Reagente Concentração DMEM high glucose 90% Soro fetal bovino 10% Tabela 10- Meio para transfecção de células HEK-293. 3.4 DROGAS E REAGENTES - Fura-2 acetoximetil éster (AM) e Fluo-4- acetoximetil éster (AM) foram adquiridos da Life tecnologies. - Solução de Hanks’ balanced salt solution sem bicarbonato de sódio, Capsaicina (8-methyl N-vanilil-6-noneamida), Cloreto de cálcio, Sulfato de magnésio, DMEM low glucose, DMEM high glucose, SB-366791, Colagenase, Laminina, Papaína, Reagente de Bradford e Ponceau S foram adquiridos da foram adquiridos da Sigma Chemical Co., (Mo, USA). - Penicilina/Estreptomicina foi adquirida da GIBCO® Life tecnologies. - Anticorpos anti PKCє fosforilado no resíduo S729 e Anti PKCє foram adquiridos da Abcam; anti TRPV1 fosforilado no resíduo S800 foi comprado da Abnova e o anti-TRPV1 foi comercializado pela Santa Cruz. Anticorpos secundários e Lipofectamina 2000R foram adquiridos da Invitrogen. - Ativador (ψє RACK) e inibidor de PKCє (єV1-2) foram comprados da Anaspec. - Membrana para blotting PVDF (0,45µm; 300 mm x4m) e o ECL Plus foram adquiridos da GE Healthcare Life Science, Fairfield – EUA). -As soluções estoque de capsaicina e de SB-366791 foram dissolvidas em DMSO 100%, armazenadas a -20ºC e diluídas para a concentração desejada imediatamente antes do uso. Fura-2 acetoximetil éster (AM) foi dissolvido em DMSO 100%, e armazenado a -20ºC. Deve-se ressaltar que a concentração final de DMSO presente nessas diluições não excedeu a 0,01%. 24 3.5 CULTURA DE CÉLULAS HEK-293 Células HEK-293 (células embrionárias de rim humano), adquiridas do banco de células do Rio de Janeiro (Cell Bank), foram mantidas em cultura (37ºC, 5% CO2 e 80% de umidade) em meio DMEM, suplementado com 10% de soro fetal bovino e 1% penicilina/estreptomicina. 3.5.1 REPIQUE CELULAR Após atingirem a confluência de, aproximadamente, 80% as células mantidas em cultura eram replicadas. Imediatamente antes do repique o meio das placas era esgotado e adicionado 10 mL de PBS previamente aquecido (37ºC) para lavagem e retirada das células mortas. Em seguida eram acrescentados 2 mL de tripsina para soltar as células aderidas às placas seguido de 8 mL de PBS aquecido. Após homogeneizações sequenciais e intermitentes todo o conteúdo era transferido para um tubo falcon de 15 mL e centrifugado à 800g, à 4ºC por 5 minutos. Posteriormente à centrifugação o sobrenadante era descartado e o pellet resuspendido em 5 mL de meio de cultura para células HEK. Placas de petri (100X20mm) contendo 9,5 mL de meio de cultura para células HEK recebiam, cada uma, 0,5mL da suspensão celular e eram incubadas em estufa (37ºC, 5% CO2 e 80% de umidade) . 3.5.2 PLAQUEAMENTO DAS CÉLULAS HEK Após atingirem confluência aproximada de 50-70% as células replicadas eram removidas enzimaticamente e transferidas para lamínulas de 22X22 mm, partidas ao meio, previamente tratadas com 100 µL de poli-lisina para os experimentos em fluorímetro. Para os experimentos de western blotting após a confluência ter sido atingida as células eram removidas enzimaticamente das placas e transferidas para placas de cultivo de 6 poços tratadas com poli-lisina de dimensões de 35X17,5mm e com área de crescimento de 9,6cm2. Após plaqueamento, as células eram mantidas na estufa (37ºC, 5% CO2 e 80% de umidade), para recuperação, por 48 horas antes da realização da transfecção com o canal TRPV1. 25 3.5.3 TRANSFECÇÃO COM O CANAL TRPV1 A transfecção dos plasmídeos contendo os insertos do canal TRPV1 (gentilmente cedidos pelo Dr. David Julius - UCSF/CA/EUA) foi realizada utilizando lipofectamina de acordo com as instruções do fabricante. Em suma, foi utilizada a proporção de 1:3 (µg de DNA: µL de lipofectamina, respectivamente). A quantidade de DNA por poço foi definida em 128 ng/poço. Após 4 horas da adição da mistura DNA + lipofectamina o meio da placa era substituído por meio de cultura para células HEK até o momento do experimento. Em todo procedimento de transfecção era realizado um grupo controle (células eram incubadas com lipofectamina, sem DNA). Após a transfecção as células eram mantidas na estufa (37ºC, 5% CO2 e 80% de umidade) para recuperação por 24 horas e, então, eram executados os experimentos para avaliar a variação de cálcio intracelular no fluorímetro ou eram aplicados os tratamentos prévios aos experimentos de western blotting. 3.5.4 ENSAIO FLUORIMÉTRICO PARA AVALIAR O CÁLCIO INTERNO EM CÉLULAS TRANSFECTADAS COM O CANAL TRPV1 A sonda FURA 2-AM (forma acetoximetilester) é um importante indicador de Ca2+ e tem contribuído para significativos avanços no estudo do papel do mesmo em diversos tipos celulares (Nakamura et al.,1996). A sonda atravessa a membrana plasmática, sendo posteriormente desesterificada no citosol por esterases específicas. Esta sonda é seletiva para o Ca2+, sendo que a sua ligação a este íon altera o espectro de excitação em, aproximadamente, 30nm de modo que a intensidade obtida na faixa de excitação de 340 e 380nm permite a medida da [Ca2+]i. As lamínulas contendo as células transfectadas foram, inicialmente, marcadas com Fura-2 AM. Para tanto, um mL de KRH contendo cálcio 1,0 mM foi adicionado à placa de cultura de 35X16mm juntamente com Fura-2 AM (1,0 µM), por uma hora, e incubados na estufa (37º C, 5% CO2 e 80% umidade) protegidos da luz. Após o período de incubação, as células foram lavadas com KRH contendo cálcio 1,5 mM para a retirada do excesso de sonda não internalizada. A lamínula contendo as células marcadas foi acoplada a um adaptador de 26 cubeta e levada ao espectrofluorímetro com agitação e temperatura (37ºC) constantes. Em cada dosagem fluorimétrica, foram adicionados capsaicina (500 nM) ou cetamina (1, 10, 30 e 100 µM) aos 100 segundos, SDS (10%) aos 300 segundos e Tris - EGTA (4 mM) aos 370 segundos, sendo a emissão da fluorescência medida em um período de 500 segundos. Alguns pontos foram pré- incubados com a cetamina (1, 10, 30 e 100 µM) ou com SB-366791 (3 µM), por 5 minutos. A leitura foi iniciada com dupla faixa de excitação 340 e 380 nm e a emissão detectada em 510 nm sob temperatura controlada a 37ºC e sob constante agitação, utilizando um espectrofluorímetro SHIMADZU RF-5301 PC. A calibração do sinal de fluorescência foi obtida pela adição de SDS e Tris- EGTA. A concentração em nanomolar de cálcio foi calculada por meio da fórmula: C = Kd*[(R-R )/(R -R)]*Sf2/Sb2, fórmula essa já contida no min máx software de análise do fluorímetro (Grynkiewicz et al., 1985). 3.6 ANIMAIS Foram utilizados ratos albinos adultos da raça Wistar ,machos pesando entre 180 a 300 gramas fornecidos pelo CEBIO do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG- campus Pampulha. Os animais foram mantidos em ambiente climatizado, com temperatura entre 22 e 26ºC e disponibilidade luminosa controlada (12/12hs luz/noite). Os ratos foram armazenados em caixas de dimensão 40X34X16 cm com, no máximo, cinco animais de mesmo sexo e idade, contendo água e comida disponíveis ad libitum. A cada dois dias as caixas dos animais eram assepsiadas, a maravalha trocada e a comida e a água eram renovadas. Os animais foram acondicionados até o momento dos experimentos conforme sugerido pelo CETEA da UFMG e também foram sacrificados conforme os princípios do mesmo comitê - projeto 265/2011. 27 3.7 PREPARO DA CULTURA PRIMÁRIA DE DRGS 3. 7.1 DISSECAÇÃO Os animais foram eutanasiados por decapitação em guilhotina. Para a obtenção do gânglio da raiz dorsal dois animais, machos e de massa compreendida entre 180-300 g, foram utilizados em cada experimento. Após o sacrifício dos animais, rapidamente, a região dorsal compreendendo os segmentos cervicais a lombar da coluna vertebral, era retirada e colocada em solução de HANKS. Em seguida a coluna era aberta por dois cortes longitudinais no lado ventral para expor a medula. Após retirar a medula as fibras do corno dorsal eram puxadas, com auxílio da pinça e de uma lupa, expondo o gânglio que era cortado na outra extremidade da fibra. Imediatamente os gânglios eram transferidos (em média 20 a 25 gânglios) para outra placa contendo solução de HANKS. 3.7.2 DISSOCIAÇÃO DOS GÂNGLIOS A preparação e manutenção da cultura de neurônios foi feita como descrito anteriormente (Eckert et al., 1997) com pequenas modificações. Os gânglios dissecados eram transferidos para um tubo falcon de 15 mL contendo 3 mL de solução de HANKS com papaína 0,1% (3mg/3mL) por 20 minutos, com agitação mecânica sutil a cada 5 minutos. Após esse período os gânglios eram centrifugados a 800g por 3 minutos. O sobrenadante era descartado e adicionado 3 mL da solução de HANKS com colagenase 0,3% (9mg/3mL) seguido de nova incubação a 37º C por 10 minutos, com agitações sutis e mecânicas a cada 5 minutos. Sequencialmente os gânglios eram centrifugados a 800g por 3 minutos, o sobrenadante descartado e o pellet ressuspendido em 3 mL de HANKS. Uma nova centrifugação era feita a 800g por 3 minutos e novamente os gânglios eram ressuspendidos em 3 mL de HANKS e centrifugados. Finalmente o sobrenadante era descartado e o pellet ressuspendido em 3 mL de meio para cultura de DRG (item 3.3 dessa secção). Uma nova centrifugação era feita a 800g por 3 minutos, o meio descartado e o pellet ressuspendido em meio para cultura de DRG. Nesse momento era feita uma 28 dissociação mecânica dos gânglios com auxílio da pipeta de Pauster de vidro com a ponta polida em fogo. O volume de meio para cultura de DRG utilizado nessa última ressuspensão do pellet dependia do número de placas a ser feito (100 µL de meio por placa). 3.7.3 PLAQUEAMENTO DOS GÂNGLIOS Cem microlitros do meio contendo os gânglios eram adicionados no centro das lamínulas previamente tratadas por duas horas com poli-lisina (20 µg/mL) e por uma hora com laminina (200 µg/mL). Após esse tempo era acrescentado 2,5 mL de meio completo contendo 12,5 µL de NGF em cada placa. As lamínulas de vidro usadas no plaqueamento da cultura de DRG eram previamente tratadas com poli-lisina e com laminina para garantir melhor aderência e desenvolvimento dos gânglios. A poli-lisina, diluída em solução de HANKS, era adicionada na região central das lamínulas, e mantida à temperatura ambiente por duas horas. Em seguida a poli-lisina era aspirada da lamínula e lavada com água duas vezes. As placas eram então tratadas com solução de laminina, diluída em solução de HANKS, por uma hora e em seguida a lamina era aspirada. Seqüencialmente os gânglios eram adicionados no centro das lamínulas por duas horas e, após esse tempo, era acrescido meio completo contendo NGF. As placas eram incubadas na estufa (37º C, 5% CO2 e 80% umidade) por 24 horas e avaliadas quanto à variação da [Ca2+]i em microscopia confocal. 3.7.4 IMAGENS DE Ca2+ POR MICROSCOPIA CONFOCAL A avaliação da variação de [Ca2+]i foi realizada através da sonda fluo-4 aceto-metil-éster (Fluo-4 AM), um indicador fluorescente de cálcio que apresenta Kd (constante de dissociação) elevada (345 nM à 22ºC) e grande fluorescência, o que permite maior sensibilidade de mensuração na presença de altas concentrações de cálcio intracelular. As lamínulas contendo a cultura de DRG foram, inicialmente, marcadas com Fluo-4 AM. Para tanto, um mL de KRH contendo cálcio 1,0 mM foi adicionado à uma placa de cultura de 60X15 mm juntamente com Fluo-4 AM 29 (1,0 µM), por uma hora, e incubados na estufa (37º C, 5% CO2 e 80% umidade) protegidos da luz. Após o período de incubação, as lamínulas eram lavadas com meio KRH com cálcio (1,5M) sem fluo-4AM e transferidas para um suporte padronizado de perfusão (Bioptechs) o qual formava um sistema hermético de aproximadamente 100 µL e com controle preciso da entrada e saída da solução que era perfundida continuamente com fluxo padronizado de 0,6 mL/min.Os experimentos foram realizados em temperatura ambiente (20-22ºC) baseado em trabalhos prévios (Gomes et al., 2004; Altier et al., 2006). A aquisição de imagens foi feita em modo curso-temporal utilizando-se microscópio confocal Leica modelo SP5, software Leica LAS e sistema de perfusão (Bioptechs) para permitir o fluxo de soluções/agonistas/antagonistas durante a aquisição de imagens. A figura 03 apresenta a montagem do sistema de perfusão acoplado ao microscópio confocal. Foi usada objetiva de 20x com imersão em água. As imagens das células marcadas com fluo-4 foram obtidas pela excitação do fluoróforo com uma linha de laser de argônio a 488 nm e a luz emitida coletada na banda 510-560nm. A coleta de imagens era feita a cada três segundos. Durante a coleta de imagens as células eram tratadas com estimuladores de transiente de cálcio KCl (66 mM) ou capsaicina (500 nM) na presença ou ausência de cetamina (10 µM) e com ativadores e inibidores de PKCє conforme descrito em resultados. 30 Figura 03- Sistema de perfusão acoplado ao microscópio confocal para aquisição de imagens de cálcio intracelular. 1 – Bomba peristáltica; 2 – Seringas com as soluções de perfusão; 3 – Suporte com a câmara de perfusão contendo a lamínula com as células. 4 – Descarte. 3.7.5 AVALIAÇÃO DE VIABILIDADE CELULAR PELO ENSAIO DE METABOLIZAÇÃO DE METILTIAZOLTETRAZÓLIO (MTT) A citotoxicidade de uma substância pode ser investigada usando diferentes tipos de ensaios, tal como o de MTT. O ensaio de MTT é um teste laboratorial colorimétrico usado para mensurar a atividade mitocondrial de células e, consequentemente, serve como parâmetro de medição da viabilidade celular. O sal solúvel MTT (brometo 3-(4,5-dimetiltiazol-2-il)-2,5- difeniltetrazólico) apresenta coloração amarela e, quando a célula se apresenta viável é reduzido na mitocôndria através da clivagem realizada pela enzima succinato desidrogenase, em cristais insolúveis de formazan, de coloração púrpura. A quantidade de cristais formados é quantificada no espectofotômetro e é diretamente proporcional ao número de células viáveis. Os DRGs dissecados e enzimaticamente tratados foram plaqueados na densidade de, aproximadamente, 3,5 gânglios por poço e incubados overnight a 37°C para estabilização da cultura. Após a estabilização cada poço foi incubado com diferentes substâncias (Cetamina 1, 10, 30 e 100µM; Capsaicina 500 nM; DMEM; H2O2) em um volume final de 500 µL por poço. Os ensaios foram realizados em duplicata. Foi utilizado como controle negativo um poço 31 que foi incubado com DRGs e DMEM. Como controle positivo foi realizado a incubação dos DRGs com H2O2 (1000 µM). Para determinação da concentração a ser utilizada de H2O2 foi realizada uma curva de doses nas concentrações de 300 µM, 600 µM, 1.000 µM, 5.000 µM e 10.000 µM. As concentrações de 1.000 µM; 5.000 µM e 10.000 µM não apresentam diferença estatística em relação à mortalidade celular, que foi, aproximadamente, de 90% (dado não mostrado). A metodologia utilizada foi descrita por Mosman et al. (1983) e realizada com modificações. Decorrido o período de incubação das células com as substâncias, foram adicionados a cada poço, 500 µL de uma solução de 0,5 mg/mL MTT diluída em meio DMEM, preparada no momento de uso. Após três horas de incubação com o reagente, ou seja, após 3 horas para a formação dos cristais de formazan, o sobrenadante foi retirado com pipeta monocanal de maneira a preservar os cristais. Posteriormente, a cada poço foi adicionado 500 µL de uma solução de HCl 0,4N diluída em isopropanol. Após solubilização dos cristais de formazan formados pela metabolização do MTT pelos gânglios viáveis, as placas foram analisadas no VITOR X 4 no comprimento de onda de 595 nm. Os resultados foram expressos como porcentagem de viabilidade celular. A porcentagem de células viáveis foi calculada da seguinte forma: (Média de absorbância da amostra / Média da absorbância do controle negativo) x 100. Foi subtraído da média de cada amostra a média da amostra “branca”. 3.8 EXPERIMENTOS DE COMPORTAMENTO ANIMAL 3.8.1 AVALIAÇÃO DO COMPORTAMENTO NOCICEPTIVO ATRAVÉS DA ADMINISTRAÇÃO INTRAPLANTAR DE REAGENTES Ratos wistar machos de peso médio de 200 gramas foram divididos em seis grupos contendo dez animais cada. Em cada grupo os animais foram, previamente ao experimento, ambientados na sala de comportamento por uma hora. Após esse período, cada animal de cada grupo recebia em cada dia experimental, duas injeções intraplantares de 25 µl cada, num total de 50 µl de reagente aplicado em uma mesma pata por experimento (Romero, Duarte, 32 2013). Entre cada injeção era realizado um intervalo de 10 minutos. O delineamento experimental executado em cada grupo, assim como os reagentes aplicados em cada grupo animal está resumido na tabela abaixo. Número do grupo Descrição do grupo 1ª aplicação Intervalo 2ª aplicação 01 Controle Solução salina 10 minutos Capsaicina1 nmol/pata 02 SB 3nmol/pata SB 3 nmol/pata 10 minutos Capsaicina 1 nmol/pata 03 Cetamina 20 µg/pata Cetamina 20 µg/pata 10 minutos Capsaicina 1 nmol/pata 04 Cetamina 40 µg/pata Cetamina 40 µg/pata 10 minutos Capsaicina 1 nmol/pata 05 Cetamina 80 µg/pata Cetamina 80 µg/pata 10 minutos Capsaicina 1 nmol/pata 06 Cetamina 160 µg/pata Cetamina 160 µg/pata 10 minutos Capsaicina 1 nmol/pata Tabela 11- Delineamento do experimento de comportamento animal. Após receber a segunda aplicação cada animal era colocado, imediata e individualmente, em caixas de acrílico transparentes que serviram como câmaras de observação. O tempo despendido pelos animais para lamber ou morder a pata injetada foi registrado com o auxílio de um cronômetro e considerado como indicativo de nocicepção. Foi estabelecido que o período máximo de observação da nocicepção dos animais seria de cinco minutos. A definição das doses de cada reagente aplicada nos grupos animais foi determinada pela consulta à literatura (Castro-Júnior et al., 2013; Romero, Duarte; 2016) associada à execução de curvas dose-resposta ( dados não apresentado). 3.9 WESTERN BLOTTING 3.9.1 EXTRAÇÃO DE PROTEÍNAS TOTAIS DAS CÉLULAS HEK-293 TRANSFECTADAS Após 24 horas da realização da transfecção, o meio de cultura das placas era aspirado e trocado por novo meio. Cada poço da placa era então submetido a uma das seguintes condições experimentais por 30 minutos: 33 controle não transfectado; controle transfectado; grupo cetamina 10 µM; grupo cetamina 10 µM + inibidor de PKCє e grupo ativador de PKCє. Sequencialmente ao tratamento as células eram lavadas cuidadosamente com PBS a 37 °C por duas vezes. Em seguida as células eram removidas das placas com PBS à 37ºC, transferidas para eppendorfs e centrifugadas por 3 minutos a 800 x g a 4°C. O sobrenadante era descartado e as células eram ressuspendidas em 80 µL de tampão de lise (RIPA BUFFER). A seguir eram sonicadas em gelo (com amplitude de ondas ultrasônicas de 20- 30%) para que ocorresse a lise celular. Após homogeneização, os lisados eram mantidos no gelo por 20 minutos e logo em seguida centrifugados a 16.000 x g por 10 minutos para remoção de debris celulares e teciduais. Alíquotas de cada lisado eram submetidas à quantificação de proteínas (passo 3.9.2) e mantidas a -80 °C até as análises posteriores. 3.9.2 QUANTIFICAÇÃO DE PROTEÍNAS A quantificação proteica foi realizada como descrita no método de Bradford (Bradford, 1976). Entre 1,0 e 2,0 µL de extrato proteico era adicionado ao reagente de Bradford em microplacas de 96 poços. Após a homogeneização, a mistura foi levada para leitura das absorbâncias no leitor de microplacas Victor™ X4 no comprimento de onda de 595 nm. Em cada dosagem, uma curva de calibração com albumina sérica bovina (0,2 a 2,0 µg) era utilizada como padrão. 3.9.3 CORRIDA E TRANSFERÊNCIA Quantidades iguais de proteína (30-50 µg) foram adicionadas ao tampão 6X e incubadas à 95 °C por 5 minutos. Logo em seguida as proteínas foram separadas em gel de poliacrilamida 10%. As corridas foram realizadas com voltagem fixa em 120 volts e com tempo máximo de 2 horas. Sequencialmente foi realizada transferência para membrana PVDF (0,45µm; 300 mm x4m), previamente ativada em metanol, utilizando-se o aparato semi-dry com voltagem fixa de 20 volts e tempo de transferência de 25- 34 30 minutos. Todas as membranas foram coradas com Ponceau S para monitorar a qualidade da transferência. 3.9.4 BLOQUEIO E REVELAÇÃO As membranas foram lavadas com TBS-T por 30 minutos (6 vezes de 5 minutos) e incubadas à temperatura ambiente por uma hora, em solução de leite 5% com TBS-T. As membranas foram incubadas overnight a 4º C com os anticorpos primários de interesse (tabela 12) diluídos em solução de leite 1% com TBS-T. Após a incubação com os anticorpos primários, as membranas foram lavadas com TBS-T por 30 minutos (6 vezes de 5 minutos) e incubadas à temperatura ambiente por uma hora em solução de leite 5% com TBS-T. Seqüencialmente, as membranas foram incubadas com os anticorpos secundários específicos diluídos em solução de leite 1% com TBS-T, por uma hora, sob agitação, em temperatura ambiente. Após nova lavagem com TBS-T por 30 minutos (6 vezes de 5 minutos), as membranas foram submetidas à detecção de quimioluminescência conforme instruções do kit ECL Plus e visualizadas no equipamento ImageQuant 4000. Os valores obtidos foram normalizados pelos valores da GAPDH. Anticorpo Número de catálogo Diluição Fornecedor Anti PKCє fosforilado no resíduo S729 Ab 63387 1:250 Abcam Anti PKCє ab124806 1:250 Abcam Anti TRPV1 fosforilado no resíduo S800 PAB 8499 1:1000 Abnova Anti-TRPV1 ACC-030 1:1000 Santa Cruz Anti- GAPDH SC-47724 1:3000 Santa Cruz Anti-coelho G-21234 1:15000 Invitrogen Anti-camundongo G-21040 1:15000 Invitrogen Tabela 12- Descrição dos anticorpos primários e secundários utilizados no Western Blotting. 35 4.0 ANÁLISE ESTATÍSTICA Os experimentos de medidas dos níveis de cálcio em fluorímetro foram realizados em dias independentes e foram repetidos, no mínimo, cinco vezes. Os resultados foram analisados inicialmente por uma tabela de Excel onde eram inseridos os valores de fluorescência emitida por cada célula. Com a introdução desses valores na tabela, os dados de fluorescência (F) foram normalizados pela fluorescência inicial (F0) e foram expressas como (F/F0) x 100. A média do pico de fluorescência induzida pelo anestésico em diferentes concentrações foi normalizada pela média do pico de fluorescência induzida pela capsaicina do dia e expressa como variação da [Ca2+]i. Esses dados normalizados eram então plotados num gráfico onde era expresso a variação da [Ca2+]i induzida por cada concentração anestésica. Os resultados obtidos representam a média de duplicatas, de cinco experimentos realizados de forma independente. Os resultados foram analisados por ANOVA, seguido do teste de Múltipla Comparação Newman-Keuls. Diferenças entre os grupos foram consi888888deradas significativas quando p < 0,05. A quantificação e a análise estatística dos resultados foram realizadas utilizando o programa GraphPad Prisma, versão 5.0 para Windows (GraphPad Software. La Jolla, CA, USA). As análises de imagens visualizadas na microscopia confocal foram feitas com auxílio do Software LAS (Leica). A análise consistia em delimitar ROIs (regiões de interesse) correspondentes aos corpos celulares neuronais para quantificação das variações de fluorescência nessas regiões. As mudanças de fluorescência (F) também eram normalizadas pela fluorescência inicial (F0) e foram expressas como (F/F0) x 100. Os valores foram apresentados como a média de fluorescência de células avaliadas em no mínimo três dias distintos de experimentos. Foram consideradas como células responsivas aos estímulos dados apenas células cuja fluorescência ultrapassava 50% do valor de sua linha de base. Ainda, para não subestimar a amplitude dos picos devido à saturação da escala de fluorescência, células cujo pico de fluorescência alcançavam a saturação (> 200.000 u.a.) eram eliminadas das análises de quantificação. 36 Os resultados dos experimentos de comportamento foram expressos como média ± S.E.M. Os dados foram analisados por análise de variância (ANOVA) seguida pelo teste de múltiplas comparações Newmann-Keuls. Diferenças entre os grupos foram consideradas significativas quando p < 0,05. Os dados dos experimentos de western blotting foram normalizados e plotados num gráfico onde era expressa a razão entre anticorpos fosforilados pelos totais para cada grupo experimental. Os resultados obtidos representam a média de cinco experimentos realizados de forma independentes. Os resultados foram analisados por ANOVA, seguido do teste de Múltipla Comparação Newman-Keuls. Diferenças entre os grupos foram consideradas significativas quando p < 0,05. A quantificação e a análise estatística dos resultados foram realizadas utilizando o programa GraphPad Prisma, versão 5.0 para Windows (GraphPad Software. La Jolla, CA, USA). 37 IV. RESULTADOS 38 4.1 EFEITO DA CETAMINA NA [Ca2+]i EM CÉLULAS HEK-293 TRANSFECTADAS COM O RECEPTOR TRPV-1. Os resultados apresentados na figura 04 demonstram que a capsaicina (CAPS), substância agonista de TRPV1, não é capaz de promover variação na [Ca2+]i em células HEK não transfectadas com o TRPV1 (CAPS/NT), enquanto células transfectadas (CAPS/HEK-TRPV1) apresentam intenso aumento na [Ca2+]i após serem estimuladas com capsaicina. Esse dado valida a eficiência do método de transfecção empregado. Conforme descrito anteriormente, o TRPV1 é um receptor que pode ser ativado por um grande número de estímulos químicos e físicos tais como calor, prótons, cátions, ácidos graxos inflamatórios, capsaicina, etc (Pingle et al., 2007). Além disso, concentrações clinicas de anestésicos gerais inalatórios são capazes de sensibilizarem o TRPV1 para calor, prótons e para a capsaicina (Cornett et al., 2008). Portanto, era necessário avaliar, inicialmente, se concentrações variadas da cetamina (1,10, 30 e 100 µM) seriam capazes de ativar diretamente o receptor TRPV1. A figura 04 sugere que o tratamento das células HEK-TRPV1 com cetamina (KET) não induziu aumento considerável da [Ca2+]i, portanto, a cetamina não foi capaz de ativar diretamente esse receptor. 120 100 80 60 40 20 0 CAPS CAPS KET 1 KET 10 KET 30 KET 100 ESTÍMULO NT HEK-TRPV1 TRANSFECÇÃO FIGURA 04: Cetamina não é capaz de ativar o TRPV1. Os resultados expressam a média + EPM, de pelo menos três lamínulas de cada condição experimental avaliadas em três experimentos independentes. a: estatisticamente diferente de CAPS-HEK-TRPV1; P < 0,05. % d e a u m e n to d a [ C a 2 + ] i 39 2+ 4.2 EFEITO DA PRÉ-INCUBAÇÃO DA CETAMINA NA [Ca2+]i EM CÉLULAS HEK-293 TRANSFECTADAS COM O RECEPTOR TRPV-1. Após avaliar que a cetamina não era capaz de ativar diretamente o TRPV1 investigamos se o anestésico seria capaz de modificar a resposta induzida pelo agonista. A análise da figura 05 permite concluir que as células HEK não transfectadas (KRH/NT/CAPS) não apresentam variação na [Ca2+]i enquanto as células HEK transfectadas (KRH/HEK-TRPV1/CAPS) apresentam grande aumento na [Ca2+]i na presença do agonista. Como pode ser observado, na presença de SB-366791, um antagonista de TRPV1, o aumento na [Ca ] i foi reduzido em 80+ 4,3%. A pré-incubação, por cinco minutos, com concentrações subclínicas (1,0 µM) e clínicas (10 e 30 µM) de cetamina foi capaz de intensificar o aumento da [Ca2+]i induzida pela capsaicina no TRPV1 de forma dose dependente. A cetamina 1,0 µM (KET 1) causou aumento de aproximadamente 33+ 2,4% na resposta induzida pela capsaicina quando comparada ao grupo controle KRH/HEK-TRPV1/CAPS. A cetamina 10,0 µM (KET 10) causou aumento de aproximadamente 71+2,7% na resposta induzida pela capsaicina quando comparada ao grupo controle KRH/HEK-TRPV1/CAPS. A cetamina 30,0 µM (KET 30) causou aumento de aproximadamente 122+4,6% na resposta induzida pela capsaicina quando comparada ao grupo controle KRH/HEK- TRPV1/CAPS. A pré-incubação com cetamina 100 µM (KET 100), uma dose supraclínica, provocou aumento aproximado de 23+2,7% na resposta induzida pela capsaicina, se assemelhando ao resultado gerado pela concentração de 1,0 µM do anestésico. Sugere-se então que o anestésico tenha efeito máximo sobre o receptor na concentração clínica de 30 µM. Em conjunto, esses dados sugerem que a cetamina, embora não ative diretamente o receptor TRPV1, é capaz de potencializar a resposta desse receptor ao seu agonista, a capsaicina. 40 Para os demais experimentos realizados neste trabalho foi selecionada, para uso, a concentração anestésica de 10 µM, pois esta dose foi significativamente mais efetiva do que a concentração de 1 µM, sem apresentar diferença estatística em relação à concentração de 30 µM (que representa o efeito máximo da cetamina no receptor TRPV1). Além disso, a concentração de 10 µM está de acordo com as concentrações clínicas empregadas para este agente. 300 200 100 0 KRH KRH SB-366791 KET 1 KET 10 KET 30 KET 100 NT HEK-TRPV1 CAPS PRÉ-INCUBAÇÃO TRANSFECÇÃO ESTÍMULO FIGURA 05: A pré-incubação com cetamina potencializa a resposta do receptor induzida pela capsaicina. Os resultados expressam a média + EPM, de pelo menos três lamínulas de cada condição experimental avaliadas em três experimentos independentes. a: estatisticamente diferente de KRH-NT na presença de capsaicina. b: estatisticamente diferente de KRH-HEK-TRPV1 na presença de capsaicina. c: estatisticamente diferente de SB-366791 na presença de capsaicina. d: estatisticamente diferente de KET 1 µM na presença de capsaicina. e: estatisticamente diferente de KET 100 µM na presença de capsaicina. P <0,05. % d e a u m e n to d a [ C a 2 + ] i 41 4.3 EFEITO DA CETAMINA NA [Ca2+]i EM DRGS DE RATOS. Em seguida, investigamos se os efeitos observados da cetamina em células HEK-TRPV1 podiam ser observados em células do sistema nervoso periférico (DRGs) que nativamente expressam o TRPV1. A cultura de DRGs também não apresentou variação na [Ca2+]i quando incubada com cetamina 10 µM (KET 10) por 15 segundos. Os DRGs em cultura também não apresentaram alteração na [Ca2+]i quando foram pré-incubados por cinco minutos com o anestésico na ausência de estímulo pela capsaicina – Figura 06. A fim de comprovar que a cultura preparada era viável, ao final da avaliação experimental do efeito da cetamina 10µM nos DRGs foi adicionada ao sistema de perfusão capsaicina 500 nM. A adição de tal substância elevou a fluorescência emitida em aproximadamente 400%, ou seja, aumentou a [Ca2+]i nos DRGs. FIGURA 06: Cetamina não é capaz de provocar o aumento da [Ca2+]i em DRGs de ratos. O gráfico mostra a variação da fluorescência normalizada pela linha de base de um conjunto de células em unidades arbitrárias (u.a.) x tempo (s). Cada célula presente na análise teve sua fluorescência normalizada pela sua respectiva linha de base. Pontos pretos representam média + E.P.M. da fluorescência em células de pelo menos 3 experimentos independentes. 42 4.4 CETAMINA POTENCIALIZA A RESPOSTA DE [Ca2+]i, INDUZIDA PELA CAPSAICINA, EM DRGs. A fim de corroborar o dado de que a cetamina era capaz de potencializar a resposta induzida pela capsaicina nas células HEK-293 transfectadas com o TRPV1, pré-incubamos a cultura de DRGs com o anestésico na concentração de 10 µM. No controle do experimento, a adição de capsaicina (500nM por 15s) aos DRGs induz aumento considerável (aproximadamente 500% da linha de base) na [Ca2+]i. Um segundo estímulo dos DRGs pelo agonista, 15 minutos após o primeiro, induz novo aumento da [Ca2+]i de amplitude aproximadamente 34% menor (Figura 07-A). Entretanto, quando o segundo estímulo com capsaicina é aplicado após incubação com cetamina (10µM, por 10 minutos e após o primeiro estímulo), a amplitude desse segundo estímulo ultrapassa em aproximadamente 19% a amplitude do 1º estímulo (Figuras 07-B e 07-C). Esses dados sugerem que semelhantemente ao observado com células HEK-TRPV1, a cetamina foi capaz de potencializar, em DRGs, a resposta dessas células à capsaicina. 43 200 150 100 50 0 KRH KET 10M FIGURA 07: A Cetamina restaura e potencializa a segunda resposta induzida por capsaicina no DRG de ratos. Os gráficos (A) e (B) mostram a variação da fluorescência normalizada pela linha de base de um conjunto de células em unidades arbitrárias (u.a.) x tempo (s). (A) Resposta das células a dois estímulos com capsaicina 500 nM com intervalo de 15 minutos entre os estímulos. (B) Resposta das células a dois estímulos com capsaicina 500 nM com intervalo de 15 minutos entre os estímulos. Durante os 15 minutos de intervalo entre as administrações de capsaicina foi adicionado cetamina 10 µM de maneira ininterrupta por 10 minutos. Pontos pretos representam média + E.P.M. da fluorescência em células de pelo menos 3 experimentos independentes. (C) Quantificação das respostas obtidas em “A” e em “B”. O gráfico indica a porcentagem do segundo pico de cada gráfico (“A” e “B”) em relação ao primeiro pico de cada respectivo gráfico. As barras representam média + E.P.M. (*P < 0.05). C 2 + V a ri a ç ã o r e la ti v a d o C a p ic o ) 44 4.5 A CETAMINA PREVINE A DESSENSIBILIZAÇÃO INDUZIDA POR CAPSAICINA EM DRGs. Após a observação de que a cetamina era capaz de promover a restauração da segunda resposta consecutiva induzida por capsaicina em DRGs, decidiu-se avaliar a capacidade do anestésico intravenoso em promover a resensibilização do TRPV1 após dessensibilização induzida por capsaicina. A figura 08-A demonstra que a capsaicina induz aumento considerável na [Ca2+]i nos DRGs. Contudo, após estímulos sucessivos de capsaicina (com intervalos de seis minutos entre os mesmos) observam-se aumentos cada vez menores na [Ca2+]i. A quantificação da intensidade do quinto pico em relação à intensidade do primeiro pico de resposta ao agonista sugere redução de 40,6% da amplitude (Figura 08-A) na [Ca2+]i. A figura 08-B mostra que a incubação contínua com cetamina 10 µM durante a estimulação sucessiva dos receptores com a capsaicina é capaz de prevenir a dessensibilização do receptor, pois, a fluorescência emitida no quinto pico não só atinge o valor emitido pelo primeiro pico, como o ultrapassa em aproximadamente 23% (Figura 08- B). A figura 08-C quantifica as porcentagens de redução e de aumento do quinto pico, quando comparado ao primeiro pico, na ausência e na presença de cetamina 10 µM, respectivamente. 45 600 KET 10M KCl 60mM Caps 500nM 500 400 Caps 500nM (15s) Caps 500nM (15s) Caps 500nM (15s) Caps 500nM (15s) (15s) 300 200 100 0 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 Tempo (s) 150 100 50 0 KRH KET 10M FIGURA 08: A Cetamina reverte a dessensibilização do TRPV1 em DRGs de ratos. Os gráficos (A) e (B) mostram a variação da fluorescência normalizada pela linha de base de um conjunto de células em unidades arbitrárias (u.a.) x tempo (s). (A) Resposta das células a cinco estímulos com capsaicina 500 nM com intervalo de seis minutos entre os estímulos. (B) Resposta das células a cinco estímulos com capsaicina 500 nM com intervalos de seis minutos entre os estímulos. Durante todo o experimento foi adicionado cetamina 10 µM de maneira ininterrupta. Pontos pretos representam média + E.P.M. da fluorescência em células de pelo menos três experimentos independentes. (C) Quantificação das respostas obtidas em “A” e em “B”. O gráfico indica a porcentagem do quinto pico de cada gráfico (“A” e “B”) em relação ao primeiro pico de cada respectivo gráfico. As barras representam média + E.P.M. (* P < 0.05). B C F lu o re s c ê n c ia ( % d a l in h a b a s a l) V a ri a ç ã o r e la ti v a d o C a 2 + (% d o 5 º p ic o e m r e la ç ã o a o 1 º p ic o ) 46 4.6 O MECANISMO DE AÇÃO DA CETAMINA É DEPENDENTE DA PKCє. A fim de avaliar se o mecanismo através do qual a cetamina previne a dessensibilização induzida por capsaicina em DRGs de ratos é dependente da PKCє realizamos pré-tratamentos dos gânglios mantidos em cultura, por 10 minutos, com ψє RACK (0,5 µM) e com єV1-2 (0,5 µM), respectivamente, ativador e inibidor de PKCє. A realização de três estímulos consecutivos, com capsaicina em intervalos de 6 minutos entre cada um deles, foram suficientes para provocar dessensibilização nos receptores, conforme representado na figura 09-A (redução de 30% da fluorescência). Na presença de cetamina 10µM, conforme demonstrado na figura 09-B, a dessensibilização dos receptores é revertida e potencializada em, aproximadamente, 30%. A figura 09 – C demonstra que estímulos sucessivos de capsaicina, na presença de ψє RACK (0,5µM), apresentam resultados análogos aos encontrados na incubação das culturas de DRG com cetamina 10µM, pois, a fluorescência emitida pelo terceiro pico não só atinge o valor emitido pelo primeiro, como o supera em 89%, sugerindo prevenção da dessensibilização do receptor. A figura 09-D indica que a fluorescência emitida pela cultura de DRG é menor a cada estímulo sucessivo realizado pela capsaicina, na presença de єV1- 2 (0,5µM) e de cetamina 10µM. Tal dado indica que na presença de inibidor de PKCє o efeito da cetamina em reverter os quadros de dessensibilização dos receptores é anulado, sugerindo-se assim que o mecanismo de ação da cetamina 10 µM é dependente da PKCє. A fluorescência emitida pelo terceiro pico é 43% menor do que a emitida pelo pico inicial. A figura 09-E quantifica as porcentagens de variação relativa do Ca2+, entre o terceiro e o primeiro pico de estimulação pela capsaicina, na ausência e na presença do anestésico, na presença do ativador de PKCє e na presença de cetamina 10 µM associada ao inibidor de PKCє. 47 KCl 60mM Caps 500nM (15s) Caps 500nM (15s) Caps 500nM (15s) 1000 800 600 400 200 0 0 200 400 600 800 1000 Tempo (s) KET 10M 1500 KCl 60mM 1200 900 Caps 500nM (15s) Caps 500nM (15s) Caps 500nM (15s) 600 300 0 0 200 400 600 800 1000 Tempo (s) A B F lu o re s c ê n c ia ( % d a l in h a b a s a l) F lu o re s c ê n c ia ( % d a l in h a b a s a l) 48 C D 49 250 200 150 100 50 0 KRH I+KET 10M KET 10M Ativador FIGURA 09: A ação da cetamina é dependente da PKCє. Os gráficos (A), (B), (C) e (D) mostram a variação da fluorescência normalizada pela linha de base de um conjunto de células em unidades arbitrárias (u.a.) x tempo (s). (A) Resposta das células a três estímulos com capsaicina 500 nM com intervalo de seis minutos entre os estímulos. (B) Resposta das células a três estímulos com capsaicina 500 nM com intervalos de seis minutos entre os estímulos. Durante todo o experimento foi adicionado cetamina 10 µM de maneira ininterrupta. (C) Resposta das células a três estímulos com capsaicina 500 nM com intervalo de seis minutos entre os estímulos, na presença de ativador de PKCє. (D) Resposta das células a três estímulos com capsaicina 500 nM com intervalo de seis minutos entre os estímulos, na presença de cetamina 10 µM + inibidor de PKCє. No final dos experimentos (A), (B), (C) e (D) foi adicionado KCl 60 mM para comprovar a viabilidade celular após os ensaios. Pontos pretos representam média + E.P.M. da fluorescência em células de pelo menos três experimentos independentes. (E) Quantificação das respostas obtidas em (A), (B), (C) e (D). O gráfico indica a porcentagem do terceiro pico de cada gráfico (A, B, C e D) em relação ao primeiro pico de cada respectivo gráfico. As barras representam média + E.P.M. (P < 0.05). a: estatisticamente diferente de KRH. b: estatisticamente diferente de I+KET 10µM. E V a ri a ç ã o r e la ti v a d o C a 2 + (% d o 3 º p ic o e m r e la ç ã o a o 1 º p ic o ) 50 4.7 EFEITOS DA CETAMINA NA VIABILIDADE CELULAR EM DRGS. A população dos neurônios nas culturas de DRGs preparadas era sempre heterogênea em muitos aspectos, tais como viabilidade celular (medida através da responsividade ao KCl), responsividade dos mesmos à capsaicina e em relação ao diâmetro dos neurônios. Eram considerados viáveis os neurônios que, após a adição de KCl, tinham seus níveis de fluorescência aumentados, no mínimo, em 50% acima da linha de base (Figura 7-A e figura 10-A). Em relação à responsividade à capsaicina podemos classificar os neurônios em “CAPS +” e em “CAPS -” de acordo com a capacidade de responderem ou não ao agonista de TRPV1, respectivamente. A responsividade à capsaicina é a principal característica de um nociceptor. Já em relação ao diâmetro podemos classificá-los em neurônios pequenos (<15 µm de diâmetro), médios (entre 15 e 30 µm de diâmetro) e grandes ( > 30µm de diâmetro) (Lu et al., 2006). Avaliamos em seguida se o tratamento com cetamina altera a proporção de neurônios responsivos à capsaicina. Inicialmente avaliamos se a presença do anestésico influenciava na responsividade da população total de neurônios à capsaicina. Dentre as células viáveis (responsivas a um estímulo final com KCl) quantificamos o percentual de células responsivas à capsaicina (“CAPS +”) e as não responsivas (“CAPS -”) na ausência e na presença de cetamina. Os dados desse experimento estão apresentados na figura 10. Na ausência do anestésico, 58,6 + 5,2% das células mostraram responsividade à capsaicina. A incubação das células com a presença do anestésico (KET 10µM, por 15 minutos) reduz a quantidade de células responsivas à capsaicina a 27,3 + 6,0% (p < 0.05 em relação ao controle) - Figura 10-B. É bem relatado na literatura que a responsividade à capsaicina em DRGs é mais prevalente em neurônios de pequeno diâmetro do que em neurônios de grande diâmetro (Cardenas et al., 1995; Lu et al., 2006). Após 51 observar que a cetamina causou redução no percentual total de neurônios “CAPS +”, decidimos então avaliar se essa redução estava associada ao tamanho dos neurônios. A figura 10-C mostra que a população de células “CAPS +” segue uma distribuição normal quanto ao diâmetro do corpo celular apresentando média de 25 µm. O tratamento com cetamina não alterou a distribuição das células “CAPS +”, sugerindo que a redução da responsividade provocada pela cetamina independe do tamanho neuronal, ou seja, não é restrita a neurônios de pequeno diâmetro. Para confirmar o efeito da cetamina em reduzir a viabilidade celular – figura 10 B- realizamos o ensaio de MTT, que avalia a quantidade de células viáveis de maneira indiscriminada. A análise da figura 11 indica que doses diferenciadas da cetamina (1µM, 10 µM, 30 µM e 100 µM) são capazes de reduzir significativamente a viabilidade celular na cultura de DRGs. As concentrações de 10 e 30 µM foram as que induziram maior percentual de morte celular (25+4,9 e 28,3+1,7% de morte, respectivamente) comparado ao controle com H2O2. A 52 FIGURA 10: A cetamina reduz a quantidade de células responsivas à capsaicina. (A) Variação da [Ca2+]i em cultura de DRGs em resposta ao KCl. Imagem de luz transmitida sobreposta à imagem de luz de fluorescência de DRGs marcados com fluo 4-AM. As setas vermelhas indicam células responsivas ao KCl enquanto as células azuis indicam células não responsivas ao KCl. Barra de escala 100µM. (B) Quantificação das células responsivas à capsaicina (“CAPS +”) na ausência e na presença de cetamina 10µM (KET 10µM). As barras representam média + E.P.M. (* P < 0.05) de pelo menos 3 experimentos independentes. (C) Histograma relacionando o diâmetro dos DRGs com a responsividade à capsaicina. 53 100 a 80 60 40 20 0 CTRL H2O2 CAPS KET 1M KET 10M KET 30M KET 100M FIGURA 11: A cetamina apresenta efeitos citotóxicos em DRGs.Dados representativos de três experimentos independentes a: estatisticamente diferente de H2O2 1.000µM. b: estatisticamente diferente de CTRL. P <0,05. V ia b il id a d e C e lu la r (% ) 54 4.8 CETAMINA SENSIBILIZA NOCICEPÇÃO INDUZIDA POR CAPSAICINA. A fim de reproduzir os resultados experimentais encontrados in vitro realizamos teste nociceptivos em animais. Aplicações intraplantares de cetamina, 20, 40, 80 e 160 µg/pata , nos ratos não foi capaz de evocar estímulos nociceptivos nos animais, sugerindo, novamente que o anestésico não é capaz de ativar diretamente as vias de dor- Figura 12-A. A administração intraplantar de capsaicina 1nmol/pata (Castro-Junior et al., 2013), produziu efeito nociceptivo nos animais, caracterizado pela intensa lambedura das patas e reflexo de retirada das mesmas do assoalho das caixas de acrílico em que os animais foram inseridos para observação (Grupo “CT” – Figura 12-B). Após observação dos animais por 5 minutos, foi percebido comportamento nociceptivo, nos animais que receberam aplicações de salina (Grupo “Veículo” – Figura 12-B) e de capsaicina, respectivamente, por 19 + 4,2 segundos e por 53 + 7,1 segundos (Figura 12-B). A injeção de SB 3 nmol/pata (Castro-Junior et al., 2013) um antagonista de TRPV1, previamente à aplicação intraplantar de capsaicina nos animais, reduziu em 47% o comportamento nociceptivo dos animais para 28 + 5,3 segundos (Figura 12-B). Aplicações intraplantares de cetamina, previamente à capsaicina, nas concentrações de 20, 40, 80 e 160 µg/pata (Romero, Duarte, 2013) aumentaram o comportamento nociceptivo dos animais, respectivamente, para 79 + 2,6 segundos (aumento de 49%), 93 + 6,0 segundos (aumento de 75%), 143 + 9,3 segundos (aumento de 170%) e 124 + 9,2 segundos (aumento de 133%) - Figura 12-B. Tal dado corrobora os resultados encontrados, in vitro, (Figuras 05 e 07) de que o anestésico é capaz de potencializar a resposta induzida pela capsaicina nos receptores TRPV1. O efeito nociceptivo consequente da aplicação da cetamina previamente à capsaicina foi dose dependente nas concentrações de 20, 40 e 80 µg de cetamina/pata. A dose de 160 µg/pata apresentou efeito nociceptivo considerável, 55 porém, menor do que a dose de 80 µg/pata, sugerindo que o anestésico tenha efeito máximo na concentração de 80 µg/pata. Esse dado está de acordo com os resultados encontrados, in vitro (Figura 05). As doses de capsaicina, SB e cetamina empregadas no experimento de comportamento animal foram determinadas através da literatura (Castro-Junior et al., 2013; Romero, Duarte, 2013) e de curvas doses respostas (Figura 12-A para a cetamina). As curvas dose-resposta para Capsaicina e para o SB não foram apresentadas. 200 150 100 50 0 1.0 1.5 2.0 2.5 Logaritmo da dose de Cetamina (g/pata) 200 150 100 50 0 b,c,d,e,f,g c,d,e,f,g b,d,e,f,g a,b,c,f,g a,b,c,f,g a,b,c,d,e,g a,b,c,d,e,f Veículo CT Sb KET 20 KET40 KET 80 KET 160 Capsaicina 1nmol/pata A B C o m p o rt a m e n to n o c ic e p ti v o ( s ) te m p o d e n o c ic e p ç ã o ( s ) 56 FIGURA 12: A cetamina aumenta o tempo de nocicepção em ratos, de forma dose- dependente nas concentrações de 20, 40 e 80 µg/pata. (A): Curva dose resposta de cetamina. (B) Dados representativos de cinco experimentos independentes. a: estatisticamente diferente de Veículo; b: estatisticamente diferente de controle (CT); c: estatisticamente diferente de SB; d: estatisticamente diferente de KET 20; e: estatisticamente diferente de KET 40; f: estatisticamente diferente de KET 80; g: estatisticamente diferente de KET 160 na P <0,05. 4.9 CETAMINA FOSFORILA TRPV1-S800 VIA PKCє. Para confirmar, bioquimicamente, se o mecanismo de ação da cetamina envolve a fosforilação do TRPV1, foram realizados experimentos de western blotting em culturas de células HEK transfectadas com TRPV1. As células foram divididas em 5 grupos (descritos no item 3.9.1) e incubadas, por 30 minutos, com distintos reagentes. Experimentos de western blotting foram realizados para avaliar os níveis de expressão proteica de TRPV1 fosforilado (pTRPV1) e de TRPV1 total (tTRPV1) nas células HEK transfectadas. A imagem da figura 13-A e o gráfico da figura 13-B demonstram que na presença da cetamina (grupo “K10 µM”) a relação pTRPV1/tTRPV1 aumentou em 71+ 2,1% quando comparada ao grupo TRPV1; enquanto os grupos “inibidor+ cetamina 10µM” (grupo “I+K10µM”); e “ativador de PKCє” (grupo “Ativador”) aumentaram, a mesma relação, em 18+ 2,8% e em 42+ 4,0%, respectivamente. Tal dado sugere que a presença do anestésico contribui para o aumento da fosforilação e, portanto, da ativação do receptor. Dados prévios da literatura sugerem que a fosforilação do TRPV1 pode ocorrer via PKCє.Para avaliar se o aumento de pTRPV1 induzido por cetamina estava associado à ativação da PKCє, foi realizada uma nova série de experimentos avaliando os níveis de expressão proteica de PKC fosforilada (pPKC) e de PKC total (tPKC) nas células HEK transfectadas com o receptor TRPV1. As imagens da figura 13-C e o gráfico da figura 13-D demonstram que a cetamina, na concentração de 10µM, aumentou em 61+ 1,6% a relação pPKC/tPKC quando comparado ao grupo TRPV1 enquanto o grupo “inibidor + cetamina 10µM” reduziu em 4+3,6% a mesma relação. O grupo “ativador de 57 PKCє” promoveu intenso aumento (aumento de 406+2,9%) nos níveis de expressão de pPKC quando comparada à tPKC (Figura 13-D). Tal dado sugere que a presença do anestésico contribui para o aumento da fosforilação da PKCє. tTRPV1 NT TRPV1 I+K10 K10 ATIV NT TRPV1 I+K10 K10 ATIV pTRPV1 2.5 2.0 1.5 1.0 0.5 0.0 a,b a,b a a NT TRPV1 I+ K10M K10M Ativador A B p T R P V 1 (S e r8 0 0 )/ tT R P V 1 58 a,b a,b a,b NT TRPV1 I+K10 K10 ATIV tPKCε NT TRPV1 I+K10 K10 ATIV pPKCε 6 4 2 0 NT TRPV1 I+K10M K10M Ativador FIGURA 13: Níveis de expressão de TRPV1 e de PKCє, fosforilados e totais, em células HEK na presença e na ausência de cetamina 10µM. As imagens (A) e (C) representam corridas de géis para TRPV1 e para PKCє, total e fosforilado. Os gráficos (B) e (D) quantificam as respostas obtidas em (A) e (C). (B) Dados representativos de cinco experimentos independentes. “I” indica a presença do inibidor de PKCє (єV1-2), na concentração de 0,5 µM e “Ativador” ou “ATIV” indicam a presença de ψє RACK na concentração de 0,5 µM. a: estatisticamente diferente de controle não transfectado (NT); b: estatisticamente diferente de TRPV1. (D) Dados representativos de cinco experimentos independentes a: estatisticamente diferente de controle não transfectado (NT); b: estatisticamente diferente de ativador. As barras representam média + E.P.M. (P < 0.05). C D p P K C  (S 7 2 9 )/ tP K C   59 V. DISCUSSÃO 60 O presente estudo avaliou de forma inédita a ação da cetamina diretamente em receptores TRPV1. Diversos trabalhos avaliaram as ações fisiológicas deste anestésico que pudessem justificar seu notável efeito analgésico, mas em nenhum deles avaliou-se a atuação da cetamina no SNP. O TRPV1 é um receptor expresso nos neurônios sensórios periféricos atuando como detector da dor induzida por diversos estímulos tais como químicos e térmicos. Tal receptor pode ser ativado diretamente pelo isoflurano, um anestésico geral inalatório, através de um mecanismo dependente de PKCє (Cornett et al., 2008). Experimentos de aplicação concomitante em neurônios sensórios de isoflurano e de bradicinina, um importante mediador da resposta tecidual inflamatória, sugerem que na presença de bradicinina, o isoflurano ativa o TRPV1 reforçando a hipótese de que os anestésicos inalatórios podem contribuir para o aumento da resposta nociceptiva pós- cirúrgica (Cornett, 2008). Concentrações clínicas de isoflurano, sevoflurano, enflurano e de desflurano podem sensibilizar o TRPV1 para capsaicina e prótons e podem ainda diminuir o limiar térmico de ativação do receptor (Cornett, 2008). Assim, a primeira avaliação realizada neste estudo foi analisar a capacidade da cetamina per si, nas concentrações de 1,10, 30 e 100 µM, em ativar diretamente o TRPV1- figura 04. A incapacidade da cetamina em ativar diretamente o TRPV1 corrobora o dado de Wickley e coloboradores (2010) de que o propofol, outro anestésico geral intravenoso, não exerce efeito direto nesse receptor, embora o propofol não tenha ação analgésica. Após avaliar que a cetamina não era capaz de ativar diretamente o TRPV1 investigamos se o anestésico seria capaz de modificar a resposta induzida pela capsaicina no TRPV1 tal qual o PMA, o ATP, a temperatura (Mandadi et al., 2004) e o propofol ( Wickley et al., 2010) são capazes de fazer. O experimento realizado sugeriu que a cetamina seria capaz de potencializar a resposta induzida pela capsaicina de forma dose dependente em concentrações subclínicas (1,0 µM) e clínicas (10 µM e 30 µM) do anestésico – figura 05. 61 Apesar da capsaicina ativar os receptores TRPV1 presentes nos DRGs evocando respostas sensoriais dolorosas, estimulações repetitivas dos receptores pela capsaicina causam quadros conhecidos por dessensibilização, ou seja, provocam inativação temporária do receptor (Wickley et al., 2010) e silenciamento temporário dos terminais aferentes. Em 1994, Zhang e Li Wan Po demonstraram que o uso de capsaicina na forma de creme era eficaz para a retirada da dor em certas condições clínicas, tais como a osteoartrite, a neuropatia diabética e a psoríase. Para observar se a cetamina seria capaz de ressensibilizar o TRPV1 a variação da [Ca2+]i foi monitorada, em microscopia confocal, após exposições sequenciais dos DRGs à capsaicina (15 s), a fim de induzir a dessensibilização do canal. Quando o processo de dessensibilização é induzido experimentalmente observa-se respostas induzidas pela capsaicina cada vez menos intensas em relação ao aumento da [Ca2+]i (Mandadi et al., 2004). Em 2010, Wickley e colaboradores demonstraram que o propofol era capaz de restaurar os quadros de dessensibilização do TRPV1, ou seja, de ressensibilizar o receptor. Nossos dados demonstram que após a dessensibilização induzida pela capsaicina no TRPV1, a cultura de DRGs se manteve viável, pois, estava responsiva ao estímulo fisiológico de KCl -figura 08 A. A dessensibilização realizada durante exposição contínua dos neurônios DRGs ao anestésico (10 µM) restaurou a potência de resposta do receptor às sucessivas estimulações induzidas pela capsaicina, o que pode ser percebido pela manutenção e aumento da [Ca2+]i em cada pico de estimulação e pela manutenção da resposta da cultura aos estímulos fisiológicos de KCl. Assim, pode-se dizer que a cetamina restaura e potencializa a sensibilidade do receptor TRPV1 em DRGs. Cabe ressaltar que o efeito de ressensibilização do receptor encontrado neste experimento não pode ser atribuído ao tempo de recuperação da dessensibilização, pois a incubação dos DRGs com solução fisiológica (KRH - figura 08A) pelo mesmo tempo de incubação com o anestésico (cetamina 10 µM - figura 08B) não foi capaz de promover a restauração nem a potencialização da sensibilidade do TRPV1. Isso pode ser evidenciado na figura 08-A em que entre os picos de resposta decorrentes das aplicações do agonista não foi observado aumento na [Ca2+]i. 62 Estudos prévios sugerem que os mecanismos moleculares que medeiam a sensibilização, a dessensibilização e a ressensibilização do TRPV1 envolvem fosforilações e desfosforilações deste receptor em diversos locais regulados pela PKC e pela PKA (Mandadi et al., 2004; Mohapatra, Nau, 2005; Novakova et al., 2007; Vyklický et al., 2008). Cabe ressaltar que a compreensão dos sistemas de segundos mensageiros envolvidos na regulação da dessensibilização do TRPV1 à capsaicina é de suma importância, pois pode auxiliar no desenvolvimento de estratégias terapêuticas para controlar a dor. Estudos nessa linha de pesquisa demonstram que os domínios citoplasmáticos do TRPV1 apresentam sítios que podem ser regulados pela PKC e pela PKA mediante fosforilação (Bhave et al., 2002; Numazaki et al., 2002). Dentre esses sítios, destacam-se alguns resíduos de serina, tais como o S502 e o S800, que já foram associados como essenciais para a potenciação, por PMA, ATP e calor, e para a ativação do TRPV1 induzida por capsaicina (Numazaki et al., 2002).O resíduo S502 foi identificado como possível de ser fosforilado pela PKC e pela PKA (Mandadi et al., 2004); o S800 pode ser especificamente fosforilado pela PKCє (Zhou et al., 2001; Mandadi et al., 2004; Mandadi et al., 2006) e o S116 é fosforilado pela PKA e já foi identificado como essencial para inibir a dessensibilização do TRPV1 induzida por estimulações sucessivas pela capsaicina (Bhave et al., 2002). Como a fosforilação do resíduo S502 pela PKA não inibe a dessensibilização do receptor induzida por estimulações consecutivas de capsaicina acredita-se que a fosforilação, pela PKC, nos resíduos S800 e no S502 sejam os mais prováveis de regularem a dessensibilização do TRPV1. Em 2010, Wickley e colaboradores demonstraram que o propofol é capaz de induzir a ativação da PKCє e a subsequente fosforilação do receptor no resíduo S 800 e sugeriram que esse mecanismo seria o responsável pela restauração da sensibilidade do TRPV1 à capsaicina e também pela atenuação da capacidade da capsaicina em dessensibilizar o TRPV1. Assim, constituiu grande interesse neste trabalho avaliar a participação da PKCє nos mecanismos de fosforilação, de potencialização da resposta induzida pela capsaicina no receptor e de recuperação dos quadros de dessensibilização no receptor TRPV1, especificamente no resíduo S800 do TRPV1. 63 Para tanto, realizamos, inicialmente, experimentos em microscopia confocal avaliando os efeitos de ψє RACK e de єV1-2, respectivamente, ativador e inibidor de PKCє. A presença de ψє RACK aumentou, consideravelmente (aproximadamente 89%), a fluorescência emitida pelo 3º pico de resposta, em relação ao 1º pico, pelos DRGs estimulados sucessivamente pela capsaicina. A estimulação dos DRGs com capsaicina na presença de єV1-2 e de cetamina inibiu em 43%, o 3º pico de resposta da cultura em comparação a 1º pico figura 09- C-D-E. Tal dado nos sugeriu que os mecanismos de modulação da sensibilização do TRPV1 pela cetamina envolvem a participação da PKCє. Os resultados encontrados durante a realização deste protocolo experimental estão em consonância com os dados obtidos em 2010, para o anestésico propofol. Wickley e colaboradores demonstraram que o pré-tratamento das culturas de DRG com propofol e com єV1-2 (0,5µM), simultaneamente, inibiram a restauração da dessensibilização do TRPV1 induzida pelo tratamento feito unicamente com o anestésico. Além disso, o tratamento das culturas de DRGs com ψє RACK (0,5µM), assim como em nossos dados, restaurou a sensibilidade do receptor TRPV1. A fim de avaliar melhor tal resultado foram realizados experimentos de western blotting visando analisar os níveis de expressão do TRPV1 fosforilado, quando comparado ao TRPV1 total na presença e na ausência de cetamina (figura 13 A-B). Os resultados nos sugerem que a cetamina aumenta em 71% os níveis de expressão do TRPV1 fosforilado comparado ao total enquanto o ativador (ψє RACK) aumenta apenas em 42% a fosforilação do receptor. Nossos dados são corroborados por Wickley e colaboradores (2010) que demonstraram que DRGs de camundongos selvagens tratados com propofol apresentam aumento de 100% nos níveis de expressão do TRPV1 fosforilado quando comparado ao TRPV1 total e que na presença de ψє RACK (0,5µM) os níveis de fosforilação do receptor se elevaram em 150%. Sabendo que o ψє RACK é uma substância que atua especificamente em PKCє e que na presença do ativador os níveis de fosforilação do receptor foram aumentados, tivemos o indício de que, provavelmente, as PKCє presentes nas células HEK transfectadas com o receptor estavam sendo 64 ativadas pelo ψє RACK e, consequentemente, atuando no TRPV1, fosforilando- o e ativando-o ainda mais. Para verificar se tal situação ocorria realizamos experimentos de western blotting visando analisar os níveis de expressão de PKCє fosforilada, no resíduo S 729, em comparação com a quantidade de PKCє total na presença e na ausência do anestésico. Cetamina 10 µM aumentou em 61% a quantidade de PKCє fosforilada em comparação à quantidade de PKCє total enquanto o ativador de PKCє aumentou em, aproximadamente, 400% os níveis de expressão de PKCє fosforilada (figura 13 C-D). Este dado está de acordo com a literatura, que sugere que o propofol aumenta em 50% a proporção de PKCє fosforilada, no resíduo S 729, em cardiomiócitos (Wickley et al., 2006) e que indica que a PKC fosforila o TRPV1 reduzindo a auto dessensibilização do receptor e causando aumento da [Ca2+]i (Hagenacker et al., 2008). Em 2010, Wickley e seu grupo de pesquisa ainda sugeriram que camundongos knockout para PKCє não apresentaram aumento nos níveis de fosforilação do TRPV1 no resíduo S800 quando comparado ao TRPV1 total, na presença do anestésico, reforçando os indícios de que os quadros de recuperação da dessensibilização do TRPV1, induzidos pelos anestésicos gerais intravenosos envolvem a participação da PKCє. Uma análise detalhada das figuras 8A e 8B evidencia que a presença do anestésico influi no formato do registro de fluorescência captado, ou seja, é perceptível que na presença de cetamina - figura 8B- é necessário mais tempo para que ocorra a recuperação dos valores de Ca2+ para valores próximos ao basal após estímulo com capsaicina. Tal achado é consistente com os dados publicados por Wickley em colaboradores (2010), em que o propofol prolonga o decaimento da [Ca2+] durante a restauração da sensibilidade do TRPV1. Para Wickley tal fato sugere que o propofol poderia de alguma forma regular a habilidade do TRPV1 em se dessensibilizar e dessa forma alterar a via de sinalização da dor. Além de modificar o padrão de registro de fluorescência foi perceptível durante a realização dos experimentos que na presença do anestésico havia uma menor quantidade de células em cultura responsíveis à capsaicina (Figura 65 10-B) em decorrência de possível ação citotóxica da cetamina nos DRGs. De fato, Cheng-Huang Shen e colaboradores (2015) demonstraram que a incubação de células uroteliais humanas com cetamina por 24 horas em concentrações variáveis entre 0,01 e 8 mM apresentou efeito citotóxico dose dependente. Corroborando este achado, os dados do presente estudo sugerem que a incubação com cetamina por apenas 30 minutos nas concentrações experimentais utilizadas (1,10, 30 e 100 µM) também apresentou efeito citotóxico o que poderia justificar a menor quantidade de células responsivas à capsaicina nas culturas incubadas com o anestésico em aproximadamente 20%. Foi observado também que as respostas fisiológicas das culturas de DRG ao estímulo final com KCl na ausência ( figura 08-A) e na presença do anestésico ( figura 08-B) eram diferentes no que diz respeito à amplitude do pico de fluorescência induzido pelo KCl. Na ausência da cetamina percebe-se que a fluorescência induzida pelo estímulo com KCl é, aproximadamente, 80% maior do que a fluorescência induzida pelo KCl, na cultura de DRGs, na presença da cetamina. Tal fato também pode ser atribuído à ação citotóxica do anestésico que reduzindo a quantidade de DRGs viáveis poderia ocasionar menor amplitude de resposta da cultura frente ao estímulo induzido pelo KCl. A fim de correlacionar os resultados encontrados in vitro com o observado em sistemas vivos, foram realizados experimentos de comportamento animal. Nestes testes avaliamos e comprovamos a capacidade da cetamina em potencializar a resposta do TRPV1 induzida pela capsaicina (Figura 12-B). As doses de cetamina selecionadas para o experimento e inicialmente empregadas para os testes foram extraídas da literatura. De acordo com a bula do CETAMIM (cloridrato de cetamina 10% - de uso veterinário) a dose recomendada do anestésico, para uso em ratos de laboratório, é de 10 mg/kg do animal por via endovenosa. Assim interessados em avaliar o efeito de doses subanestésicas, anestésicas e supra-anestésicas nos animais preparamos soluções de cetamina nas concentrações de 1mg/kg; 5mg/kg; 10mg/kg e 25mg/kg. Ao injetar as 3 primeiras doses em diferentes ratos, de forma intraplantar, foi observado, rapidamente após a injeção, o aparecimento de 66 intensos efeitos adversos nos animais, assemelhando-se a movimento involuntário dos membros, tremores musculares, aumento do tônus muscular, tonturas, tombamentos e fraqueza. Esses efeitos, apesar de relatados na bula do medicamento como possíveis de ocorrerem, eram inesperados e impossibilitaram o uso das doses selecionadas. Assim foram realizados experimentos com doses menores do anestésico nas concentrações de 20, 40, 80 e 160 µg/pata (Romero, Duarte, 2013). As doses empregadas eram de 10 a 1,25 vezes menores do que a dose de 1 mg/kg, respectivamente. Apesar das doses em questão terem seu uso indicado como analgésico foi possível perceber, que potencializaram, de forma progressiva, nas concentrações de 20, 40, 80 µg/pata a resposta induzida pela capsaicina nos animais. A dose de 160 µg/pata também potencializou a resposta da capsaicina, porém de maneira menos intensa do que a dose de 80 µg/pata. Tal fato se assemelha aos resultados encontrados nos experimentos in vitro (Figura 05). 67 VI. CONCLUSÃO 68 Esse estudo demonstra por análise da variação da [Ca2+]i medida por análises fluorimétricas e por microscopia confocal, por análises bioquímicas e por experimentos comportamentais que o anestésico venoso cetamina modula a sensibilidade à capsaicina do receptor TRPV1 em neurônios sensoriais nociceptivos. Esse trabalho também sugere que: - A cetamina não é capaz de ativar diretamente o TRPV1. - A cetamina, em doses subclínicas e clínicas potencializa a resposta do TRPV1 induzida pela capsaicina de maneira dose dependente. - A cetamina, em concentrações clínicas (10 µM), restaura a sensibilidade do receptor TRPV1 à capsaicina. - A cetamina modula a sensibilidade do TRPV1 através de um mecanismo de ação dependente de PKCє. - A cetamina reduz a quantidade de células viáveis responsivas à capsaicina. - O diâmetro dos DRGs não influencia na responsividade dos mesmos à presença do anestésico. - A cetamina apresenta efeitos citotóxicos em DRGs. 69 VII. REFERÊNCIAS 70 1- ALMEIDA, ROIZENBLATT, TUFIK. Afferent pain pathways: a neuroanatomical review. Brain research.1000 40–56.2004. 2- ALTIER, KHOSRAVANI, EVANS, HAMEED, PELOQUIN, VARTIAN, CHEN,BEEDLE, FERGUSON, MEZGHRANI, DUBEL, BOURINET, MCRORY, ZAMPONI. ORL1 receptor-mediated internalization of N-type calcium channels. 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