0 Maria Letícia Silva Ticle O nó entre o espaço e o tempo em Santa Tereza: os bares na paisagem boêmia em um bairro de Belo Horizonte Belo Horizonte, MG UFMG/MACPS 2016 1 Maria Letícia Silva Ticle O nó entre o espaço e o tempo em Santa Tereza: os bares na paisagem boêmia em um bairro de Belo Horizonte Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável. Área de concentração: Bens Culturais, Tecnologia e Território Linha de pesquisa: Gestão do patrimônio no ambiente construído Orientadora: Profa. Dra. Myriam Bahia Lopes Belo Horizonte / MG 2016 2 3 COMISSÃO EXAMINADORA 4 À minha família, que primeiro me levou ao bar, Ao Vaz, com amor, companheiro de mesa e de vida, Às amigas e aos amigos, sempre dispostos a ir a um boteco, À cidade, que se fez cheia deles, Ao bairro Santa Tereza, escolha certeira. 5 AGRADECIMENTOS A dissertação é fruto de um trabalho lento, que dá a impressão de ser ora curto, ora longo demais! É resultado de um esforço coletivo e, ao mesmo tempo, tão solitário. Agradeço pelas contribuições afetivas do Vaz, da minha família, das minhas amigas e amigos; pela orientação cuidadosa da Myriam e pela paciência das colegas e dos colegas de curso que compartilharam comigo as alegrias e angústias do Mestrado. Foi um tempo extremamente rico em experiências acadêmicas e pessoais. Através do MACPS tive a oportunidade de encontrar pessoas com trajetórias muito diferentes da minha e que, ainda assim, a vida trouxe ao mesmo ponto: a Escola de Arquitetura e seu entorno que, praticamente uma extensão da minha casa, nos acolheu e fez com que partilhássemos não só o espaço físico, mas expectativas, sonhos e frustrações. Uma verdadeira paisagem do mestrado, com o perdão do empréstimo do termo! Foi também pelo trabalho desenvolvido no MACPS que conheci novas cidades e re-conheci outras, especialmente a minha tão querida Belo Horizonte; que entrei em contato mais aprofundado com o universo acadêmico, inclusive com a sala de aula, dessa vez na posição de professora. Somente pude desenvolver e concluir esta pesquisa com o total apoio dos meus pais, Abílio e Andréia, a quem dedico este trabalho e jamais conseguirei agradecer de forma apropriada pela confiança, orgulho e pelo patrocínio dos meus eternos estudos. Dedico o trabalho e agradeço, ainda, ao grande amor da minha vida, Pedro, ah! para sempre Vaz, que esteve ao meu lado como grande incentivador, que me cobrou resultados, que se orgulha de minhas conquistas. Eu te amo! Agradeço pelo companheirismo e lealdade do meu irmão Raphael, pelo amor desmedido da minha avó Mariinha, pelos mimos e carinhos da Bu, presente todos os dias desde que nasci. Além do apoio de toda minha família, Di, Juninho, Johnny, Rodrigo, Fábia, Jéssica e Lucas, tios, tias, primos e primas; e também da família Oliveira Silva, que aqui agradeço na pessoa da Eveline, que me acolheu tão docemente. Outras tantas pessoas 6 foram essenciais nesse processo, esforcei-me para não deixar ninguém para trás! Devo meus mais sinceros agradecimentos às minhas amigas e amigos. À Sila, à Lu e ao PC pelas longas conversas sobre a vida e sobre a profissão, pelas broncas e pela ajuda técnica indispensável. À minha querida turma que tem no Sagrado suas bases, mas que agregou e congregou tanta gente ao longo dos anos. Elite B, vocês são maravilhosos! Agradeço também às Guapas, a união dos últimos anos tem se mostrado cada vez mais especial; à Laís e aos amigos da História, legados dos (muitos) anos da graduação na FAFICH; aos grandes amigos do B5 e do Cutuque, herança de meses intensos fora do Brasil; aos amigos do MACPS, companheiros de pesquisa, aulas e pasteis, em especial à Tiza, Taís, Jana, Nat, Cézar, Carla, Lu, Paula, Andréia. À Dani, pela confecção dos mapas. Nosso encontro profissional foi também de amizade! Agradeço ainda, imensamente, a algumas pessoas inspiradoras que fazem parte da minha vida acadêmica e profissional: à Myriam Bahia, orientadora paciente e zelosa; à Cris Villefort, ao Marco Antônio Penido, à Stael Alvarenga e à Clara Miranda, professores que fizeram a diferença no período que passei no MACPS; a todos os professores do programa; à Silvana Cançado Trindade, exemplo de profissional e amiga que muito me alegra em ter por perto; à Miriam Hermeto, inspiração como mestra e ser humano; à Letícia Julião pela oportunidade de trabalho durante o Mestrado. Não me esqueço dos primeiros mestres, do Sagrado e do Britain, ainda hoje presentes em minha vida. Obrigada, ainda, à Eliza, à Guiomar e a todo o Movimento Salve Santa Tereza. Agradeço também à FAPEMIG pela bolsa concedida no primeiro ano do Mestrado e à Escola de Arquitetura da UFMG, que concedeu auxílio para a participação em congressos e eventos. Muito obrigada! 7 Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças nem barômetros, etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Manoel de Barros Em volta dessas mesas existe a rua Vivendo seu normal Em volta dessa rua, uma cidade Sonhando seus metais Em volta da cidade... Conversando no Bar, de Milton Nascimento e Fernando Brant 8 REMINISCÊNCIAS O bairro Santa Tereza tem forte presença em minha memória, não por ter sido moradora ou ter parentes e amigos que o fossem, mas por tê-lo frequentado em vários momentos da vida, inclusive atualmente. Ainda criança e adolescente, eram constantes as idas ao Bolão e ao Bar Temático junto de meus pais e minha família nas noites de sábado e nos almoços de domingo; ainda hoje o são. Também nessa época me marcaram as histórias contadas por meus tios que narravam o fim das noitadas entre amigos, frequentemente incluindo um Rochedão e uma última cerveja no Bolão. Durante a adolescência e já na vida adulta, nesses e em outros bares – Bar do Orlando, Parada do Cardoso, Bar do Walmir, La Crêpe... –, o hábito da reunião em torno de uma mesa com petiscos e bebidas, seja com amigos, seja nos programas com o namorado e também com a família, foi sendo incorporado e fortalecido como algo tipicamente belorizontino – se não tem mar, vamos ao bar! E que o bar seja em Santereza, de preferência. Sentar nos banquinhos da Praça Ernesto Tassini (ou Pracinha do Orlando) bebendo uma cerveja e comendo batata assada, finalizar as (agora minhas) noitadas com um espaguete ou um Rochedão, jantar em clima de romance ou reunir os amigos mais chegados pra contar as novidades da semana... Santa Tereza foi se tornando a estrela das minhas noites na cidade. Festas e reuniões do Salve na Praça Duque de Caxias, blocos de carnaval pelas ruas do bairro e até, de vez em quando, como ilustre convidada do namorado, um pulinho na piscina do Oásis, estreitam minha relação com o Santa Tereza sem nunca ter, de fato, morado lá. Desde o início da graduação em História cursei disciplinas, fiz estágios e estudei questões relacionadas ao patrimônio cultural. Interessei-me por museus, história das cidades, arquitetura urbana, costumes e tradições presentes no cotidiano, detalhes do dia a dia que conformavam a vida das pessoas comuns, muitas vezes sem que elas mesmas se dessem conta disso. A cada texto, livro, seminário, curso ou conversa com colegas, a divisão entre patrimônio material e imaterial fazia menos sentido e a noção de patrimônio 9 cultural era assimilada e compreendida com maior clareza. Reuni afeto e estudo na escolha do tema a ser pesquisado para concluir o bacharelado – um bairro associado à memória e à tradição, um dos mais antigos da cidade, ao mesmo tempo protegido e ameaçado pela legislação urbana, o bairro que mais gosto em Belo Horizonte e, para finalizar, o bar que me acompanha desde pequena no centro das discussões patrimoniais e imobiliárias – o Bolão. Pronto!, após meses de indecisão, encontrei meu tema. Durante a pesquisa e escrita da monografia de conclusão de curso, cuja discussão foi o tombamento do imóvel onde está instalado o Bolão no bairro Santa Tereza há mais de 60 anos, o incômodo de não parecer pertencer inteiramente à disciplina histórica, ainda que sem conseguir me desgarrar dela, me fez buscar outros caminhos. No entanto, ficou a certeza de que Santa Tereza seria, a partir de então, a estrela dos meus dias de trabalho e estudo, além das minhas noites de sexta-feira. Iniciar um curso e uma pesquisa de mestrado interdisciplinar foi e tem se mostrado um desafio constante, mas as questões que me trouxeram até aqui, mais especificamente a relação entre Santa Tereza e patrimônio cultural, com atenção especial aos seus bares, não se restringiam a apenas uma área do conhecimento acadêmico. Costumava ouvir de minha avó que Santa Tereza era um lugar pitoresco. Assim como eu, ela nunca morou no bairro, mas diferentemente de mim, apenas passava de carro quando o almoço era por aqueles lados. Embora tentando respeitar sua percepção acerca daquele bairro, sempre questionei tal noção. Resposta mais fundamentada a isso veio durante a pesquisa, nas aulas, nas leituras, na convivência com moradores do bairro, na mudança do olhar, agora também de pesquisadora. Por perceber que ali há pessoas vivendo seus costumes em um cotidiano urbano comum, por compreender que cultura e tradições não se restringem aos monumentos, festas e acontecimentos extraordinários, mas que são vividos no dia a dia, Santa Tereza se mostra a mim como um lugar cuja vida e dimensão afetiva têm forte presença. A vida que acontece ali pode parecer pitoresca ao expectador acostumado à metrópole descrita por Simmel em A Metrópole e a 10 Vida Mental1 – impessoal, automatizada, de ritmo rápido – mas são as especificidades daquele lugar, cuja vida acontece não para ser observada, mas sentida, como um desenrolar de parte essencial da história da cidade, aquela feita pelos homens comuns nos momentos comuns, que chamam a atenção. Pela simplicidade, pela maneira descomplicada e ordinária com que a vida de dá, pelo comum, Santa Tereza é um bairro que celebra a vida no cotidiano e que não passa despercebido do restante da cidade. Tomando emprestada a expressão de Anne Cauquelin2, pretendo desvendar as “armadilhas de afetos” escondidas e/ou escancaradas em Santa Tereza. 1 SIMMEL, Geog. A Metrópole e a Vida Mental. Tradução de Sérgio Marques dos Reis. In: VELHO, Otávio Guilherme. O Fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973. A edição traz a seguinte nota: “Traduzido de “The Metropolis and Mental Life”, The Sociology of Georg Zimmel, traduzido e editado por Kurt H. Wolf – The Free Press, Glencoe, Illinois, 1950. Copyright © by the University of Chicago Press. Publicado pela primeira vez em 1902.” (REIS apud VELHO, 1973, p. 11). 2 CAUQUELIN, Anne. A invenção da paisagem. São Paulo: Martins Fontes, 2007. 11 RESUMO A boemia do bairro Santa Tereza em Belo Horizonte levou à produção desta dissertação de mestrado. A pesquisa se deu no sentido de compreender o que funciona como lastro para esse atributo do bairro, qual a trajetória que levou à imagem boêmia que Santa Tereza tem na atualidade, tendo como principais suportes e símbolos, no momento da pesquisa, os bares. E ainda, em que medida a boemia pode ser, de fato, um argumento pertinente para que o bairro seja considerado patrimônio cultural no âmbito da cidade. Estão aqui apresentadas, portanto, a história do bairro, a discussão da noção de boemia e seu significado em Santa Tereza. Foram articuladas as ideias de boemia e patrimônio e à discussão de paisagem e gentrificação, apontando riscos e potencialidades. A dissertação é fruto de pesquisa bibliográfica e levantamento documental em arquivos institucionais e pessoais na cidade de Belo Horizonte, e ainda de fontes produzidas por meio de entrevistas, conversas e observação participante. Palavras-chave: Boemia. Bar. Bairro Santa Tereza. Paisagem. Patrimônio Cultural. 12 ABSTRACT The bohemian Santa Tereza neighborhood in Belo Horizonte led to the production of this Master’s thesis. The research took place in order to understand what works as ballast for this attribute of the neighborhood, which path led to the bohemian image of Santa Tereza, and to what extent bohemia may be, in fact, a relevant argument for the neighborhood to be considered cultural heritage within the city. Here they are presented, the history of the neighborhood, the discussion of the notion of bohemia and its meaning in Santa Tereza. The concepts of landscape and gentrification were articulated to the discussion of bohemia and heritage, pointing risks and potentialities of this association. The Master’s thesis is the result of a bibliographical and documental research in institutional and personal archives in the city of Belo Horizonte, and the production of sources through interviews, conversations and participant observations. Key words: Bohemia. Bar. Santa Tereza Neighborhood. Landscape. Cultural Heritage. 13 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Planta Geral da Cidade de Minas............................................................. 35 Figura 2 – Mapa com localização do bairro Santa Tereza em Belo Horizonte.......... 38 Figura 3 – Mapa com delimitação oficial do bairro Santa Tereza e delimitação proposta...................................................................................................................... 40 Figura 4 – Mapa-croqui dos marcos arquitetônicos e urbanísticos do bairro Santa Tereza......................................................................................................................... 44 Figura 5 – Hospital Cícero Ferreira............................................................................ 46 Figura 6 – Quartel do 5º Batalhão da Força Pública.................................................. 48 Figura 7 - Igreja Matriz da Paróquia de Santa Teresa e Santa Teresinha................. 50 Figura 8 – Praça Duque de Caxias............................................................................ 51 Figura 9 – Condomínio San Martin, as “Torres Gêmeas” – vista panorâmica do bairro Santa Tereza a partir da Avenida dos Andradas............................................. 58 Figura 10 - Muro do Mercado Distrital desativado: desaprovação quanto à ocupação do espaço pela FIEMG.............................................................................. 60 Figura 11 – Parte externa da área do Mercado durante o evento Mercado Verde Mais Vivo.................................................................................................................... 62 Figura 12 – Barbarella, década de 1970.................................................................... 86 Figura 13 – Bar Bocaiuva atualmente........................................................................ 86 Figura 14 – Mercearia Lacerda.................................................................................. 103 Figura 15 – Mapa-croqui dos bares de Santa Tereza................................................ 107 Figura 16 – Confraria São Gonçalo............................................................................ 113 Figura 17 – Estandarte da Confraria São Gonçalo.................................................... 114 Figura 18 – Balcão do Bar Liverpool.......................................................................... 116 Figura 19 – Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete....................................... 116 Figura 20 – Birosca S2............................................................................................... 117 Figura 21 – Clube Mineiro da Cachaça...................................................................... 117 Figura 22 – Mapa-croqui: Distribuição espacial da paisagem boêmia do bairro Santa Tereza.............................................................................................................. 129 Figura 23 – Um dos salões do Bolão antes da reforma............................................. 131 Figura 24 – Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete....................................... 132 Figura 25 – Rochedão................................................................................................ 132 Figura 26 – Bar do Orlando........................................................................................ 134 Figura 27 – Banco junto ao muro que faz divisa com a linha férrea, em frente ao Bar do Orlando........................................................................................................... 134 Figura 28 – Bar Temático........................................................................................... 136 Figura 29 – Bar Du Pedro: esquinas das Ruas Quimberlita e Tenente Freitas......... 138 Figura 30 – Espeto da Esquina: esquinas das Ruas Bocaiúva, Quimberlita e Bom Despacho.................................................................................................................... 139 14 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ADE – Área de Diretrizes Especiais APM – Arquivo Público Mineiro APCBH – Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte CDPCM-BH – Conselho Deliberativo de Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte DIPC – Diretoria de Patrimônio Cultural DOM – Diário Oficial do Município EFCB – Estrada de Ferro Central do Brasil FIEMG – Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais FMC – Fundação Municipal de Cultura LPUOS – Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo MACPS – Mestrado em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável MHAB – Museu Histórico Abílio Barreto PBH – Prefeitura Municipal de Belo Horizonte ZAP – Zona de adensamento preferencial 15 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO......................................................................................................... 17 1.1 Delimitação temática e temporal........................................................................... 17 1.2 Estratégias de pesquisa ....................................................................................... 20 1.2.1 Objetivos, aporte teórico e metodologia............................................................ 20 1.2.2 A boemia na pesquisa....................................................................................... 21 1.2.3 A porta de entrada da pesquisa......................................................................... 24 1.2.4 Estado da arte.................................................................................................... 28 1.3 Estrutura do texto dissertativo.............................................................................. 30 2 BAIRRO SANTA TEREZA....................................................................................... 34 2.1 Origens da ocupação e delimitação do bairro...................................................... 34 2.2 Da Colônia Agrícola à consolidação do bairro Santa Tereza............................... 42 2.2.1 Referências de territorialidades históricas......................................................... 42 2.2.2 Desenvolvimento do bairro................................................................................ 52 2.2.3 Dois conflitos presentes no bairro ..................................................................... 55 2.3 Particularidades do bairro..................................................................................... 62 3 BOEMIA................................................................................................................... 65 3.1 Uma noção polissêmica........................................................................................ 65 3.2 O tripé Tradição-Cultura-Boemia em Santa Tereza............................................. 72 3.3 Genealogia da Boemia em Santa Tereza............................................................. 79 3.4 Lugares da Boemia: os bares............................................................................... 87 3.4.1. Breve história do bar......................................................................................... 88 3.4.2 O bar em Belo Horizonte................................................................................... 93 3.5 Bares de Santa Tereza........................................................................................ 99 3.6 Mercearias e Armazéns........................................................................................ 101 3.7 Confraria São Gonçalo......................................................................................... 111 16 4 PAISAGEM BOÊMIA DE SANTA TEREZA............................................................. 118 4.1 Regiões da boemia do bairro................................................................................ 123 4.1.1 Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete.................................................. 130 4.1.2 Bar do Orlando................................................................................................... 133 4.1.3 Bar Temático...................................................................................................... 135 4.1.4 Alto dos Piolhos................................................................................................. 136 4.2 Paisagem sensorial............................................................................................... 139 4.3 O bairro enquanto Patrimônio Cultural da cidade................................................. 144 4.3.1 Paisagem e bem comum................................................................................... 144 4.3.2 Santa Tereza: bem patrimonial.......................................................................... 146 4.4 Paisagem boêmia e patrimônio cultural................................................................ 153 4.4.1 Boemia e patrimônio: riscos de gentrificação.................................................... 156 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................... 164 REFERÊNCIAS........................................................................................................... 169 17 1 INTRODUÇÃO 1.1 Delimitação temática e temporal A boemia do bairro Santa Tereza em Belo Horizonte levou à produção desta dissertação de mestrado. A pesquisa se deu no sentido de compreender o que funciona como lastro para esse atributo do bairro, qual a trajetória que levou à imagem boêmia de Santa Tereza, e em que medida a boemia pode ser, de fato, um argumento pertinente para que o bairro seja considerado patrimônio cultural no âmbito da cidade. Foram articuladas algumas noções e terminologias, fruto de pesquisa bibliográfica, e fontes levantadas em arquivos institucionais e pessoais, produzidas por meio de entrevistas, conversas e observações, com o objetivo de traçar um panorama geral da história do bairro, com foco no que é compreendido no discurso coletivo como boemia3. Como será discutido a seguir, mais do que um conceito definitivo, a boemia se apresenta como uma noção que varia de acordo com o tempo e espaço nos quais é aplicada. Santa Tereza é um dos bairros mais antigos de Belo Horizonte, o que chama a atenção quando se há a proposta de escrever uma história da cidade. Após a região ter sido parte de uma colônia agrícola4 inicialmente habitada por imigrantes e, posteriormente, incorporada à zona suburbana da recém- inaugurada capital de Minas Gerais5, o nome Santa Tereza foi dado à linha de bonde que chegava até a Rua Mármore, uma das principais da área. Desde então o bairro passou a se chamar Santa Tereza6. 3 O bairro Santa Tereza é apresentado e relacionado com os referenciais teóricos conceituais ao longo de todos os itens do texto. A opção por não dedicar um item específico ao estado da arte, separado da contextualização do objeto, se deu por questão de estilo de escrita da autora e em decisão conjunta com a orientadora. 4 O núcleo colonial no qual se insere a área que futuramente se tornaria o bairro Santa Tereza foi criado em 1898, segundo relatório referente ao ano de 1905. Fonte: Relatório da Diretoria de Agricultura, Terras e Colonização, 1906, p. 233. Fundo Secretaria da Agricultura, rolo 05. Arquivo Público Mineiro (APM). 5 “Lei nº 55, de 05 de dezembro de 1912. Incorpora à zona suburbana da Capital o povoado do Calafate e as colônias Bias Fortes, Américo Werneck, Carlos Prates e Adalberto Ferraz e dá outras providências a respeito.” Fonte: Coleção de Leis do Conselho Deliberativo de Bello Horizonte (de fevereiro a dezembro de 1912, ns 54 a 62). Bello Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas, 1912. Acervo do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte (APCBH). 6 Segundo Luís Góes (2014), jornalista e morador do bairro, o nome foi definido com a chegada da imagem de Santa Teresa de Ávila para a criação da paróquia de Santa Teresa e foi divulgado no Jornal Estado de Minas em 1928. “A pedido dos moradores do 5º Batalhão, o bonde Avenida do Contorno, que serve a essa parte da cidade, passará a chamar-se Santa Thereza, a partir de amanhã, 1º de abril de 1928”. (Jornal Estado de Minas apud GÓES, 2014, p.34). 18 A pesquisa abrange a história desse bairro desde o início da ocupação que deu origem a ele, como explicitado nas linhas acima. O que significa um longo recorte temporal que vai desde o ano de 1896 até 2015. No entanto, como há, ainda, um recorte temático dentro de sua história, qual seja a chamada boemia, alguns períodos se mostraram mais relevantes ao longo da pesquisa. Eles foram significativos para que se pudesse traçar uma espécie de cronologia boêmia de Santa Tereza, com momentos relativamente bem perceptíveis e que foram delimitados da seguinte maneira: década de 1930; período entre os anos 1960 a 1980 e entre meados da década de 1990 até 2016. Esse recorte temporal se deu pela observação das fontes, tanto dos periódicos, quanto das entrevistas e conversas, apoiado na bibliografia específica do bairro e pela observação, em momentos anteriores ao início da pesquisa e após o início dela. A boemia se articula com a história do bairro Santa Tereza posto que o imaginário coletivo da cidade é constantemente alimentado com essa e outras adjetivações que geralmente especificam o bairro. Além de boêmio, são comumente colocados os atributos de tradicional e cultural. Trabalhos desenvolvidos a respeito de Santa Tereza7 utilizam essas palavras para descrevê-lo, bem como reportagens de jornais das décadas de 1970, 1980, 1990, 2000 e 20108. 7 ARAÚJO, Guilherme Maciel; CASTRIOTA, Leonardo Barci. Um capítulo da preservação em Belo Horizonte: o destino do mercado de Santa Tereza. FÓRUM. v. 0, n. 0, 2007, Cadernos de Trabalho – Edição Especial, Belo Horizonte. Disponível em: . Acesso em: 19 abr. 2016. BAGGIO, Ulysses da Cunha. A Luminosidade do lugar: Circunscrições Intersticiais do Uso de Espaço em Belo Horizonte: apropriação e territorialidade em Santa Tereza. 2005. 221f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2005. SOUZA, Françoise Jean de Oliveira; CAJAZEIRO, Karime Gonçalves. A singularidade do lugar: a construção de um discurso identitário para o bairro Santa Tereza. In: ANDRADE, Luciana Teixeira de; ARROYO, Michele Abreu (Org.). Bairros pericentrais de Belo horizonte: Patrimônio, Territórios e Modos de Vida. 1ed. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2012. SOUZA, Françoise Jean de Oliveira; CAJAZEIRO, Karime Gonçalves; SOARES, Carolina Pereira. Instrumentos de proteção do patrimônio cultural: um olhar sobre o caso do bairro Santa Tereza. . In: ANDRADE, Luciana Teixeira de; ARROYO, Michele Abreu (Org.). Bairros pericentrais de Belo horizonte: Patrimônio, Territórios e Modos de Vida. 1ed. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2012. NEVES, Libério. BH: A Cidade de Cada um – Santa Tereza. Belo Horizonte: Conceito, 2010. GÓES, Luis. Bairro de Santa Teresa: Formação e História 1900 a 1960. Belo Horizonte: O autor, 19--?. GÓES, Luis. Bairro de Santa Tereza: 100 anos. Belo Horizonte: Ed. Luis Góes, 1998. GÓES, Luis. Bairro Santa Tereza: Tradição e História. Belo Horizonte: o autor (publicação independente), 2014. 8 “Santa Tereza, em cada mesa de bar uma poesia, uma canção” Jornal Diário da Tarde, 12/03/1978; “Santa Tereza preserva o romantismo” Revista Veja, Suplemento Quinzenal, nov/1989; “Reduto da boemia” Estado de Minas, 19 Esses três aspectos extrapolam o pensamento coletivo materializado em pesquisas e reportagens e alcançam o discurso do poder público municipal. O bairro está incluído nas políticas públicas municipais de planejamento urbano como Área de Diretrizes Especiais de interesse cultural desde 19969. Com alguns poucos imóveis tombados posteriormente a essa inclusão deu-se a ampliação paulatina das discussões em torno da proteção do bairro como patrimônio cultural da cidade. Discussões essas sempre associadas à adjetivação do bairro como tradicional, cultural e boêmio. Colocou-se, então, a possibilidade de relacionar os estabelecimentos e a vida noturna de Santa Tereza à sua imagem de patrimônio cultural. Ou seja, associar boemia e patrimônio de maneira a compreender essa relação aparentemente já estabelecida, Em março de 2015, já durante o desenvolvimento desta pesquisa, o bairro Santa Tereza foi protegido em nível municipal como Conjunto Urbano e 288 imóveis foram indicados para tombamento individual, o que efetivamente o colocou na agenda das políticas de patrimônio cultural da cidade. No Dossiê para Proteção do Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza desenvolvido pela Diretoria de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura (DIPC) (2015)10, documento que embasa a Deliberação Nº 019/2015 do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte (CDPCM- BH) publicada no Diário Oficial do Município11, a imagem boêmia do bairro é colocada como uma de suas “dimensões simbólicas” e apresentada como justificativa para sua proteção como Conjunto Urbano. 05/08/1994; “Moradores defendem o bucolismo e a cultura do bairro” Hoje em Dia, 16/04/2000; “Santa Tereza mantém tradição” Hoje em dia, 06/08/2000; “Santa Tereza é a sagrada referência dos boêmios”, Estado de Minas, 27/02/2009; “Dilema entre a tradição e o novo” O Tempo, 18/10/2013. 9 A ADE Santa Tereza é definida na Lei nº 7.166, de 27 de agosto de 1996, que institui o Plano Diretor do Município de Belo Horizonte e regulamentada pela Lei nº 8.137/2000. 10 PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE; FUNDAÇÃO MUNICIPAL DE CULTURA DE BELO HORIZONTE; DIRETORIA DE PATRIMÔNIO CULTURAL. Dossiê para Proteção do Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza. Belo Horizonte: PBH, 2015. 11 MINAS GERAIS. Deliberação nº 019/2015 do CDPCM-BH. Diário Oficial do Município, Poder Legislativo, Câmara Municipal de Belo Horizonte, Belo Horizonte, MG, 12 março 2015, Ano XXI, Ed. 4761. 20 1.2 Estratégias de pesquisa 1.2.1 Objetivos, aporte teórico e metodologia O objetivo da pesquisa é, portanto, estudar o bairro Santa Tereza e sua vida noturna, ou boemia, aspecto que qualifica o bairro como patrimônio cultural e lugar de interesse para a história da cidade. O viés escolhido para tal é aquele que vincula pessoas, lugares e acontecimentos comuns à escrita historiográfica. Nessa perspectiva o cotidiano não é rejeitado como objeto de interesse para sua escrita, mas sim como fundamental para a compreensão da relação entre o espaço e a vida que acontece nele. Os objetivos específicos são estudar a boemia como sendo uma das particularidades do bairro que se dá, no momento da pesquisa, principalmente nos ambientes dos bares, botecos, botequins, restaurantes; analisar as mudanças da noite e da boemia no bairro ao longo dos anos; discutir a titulação do bairro Santa Tereza como patrimônio cultural e parte de sua fundamentação no atributo boêmio, além das implicações para essa especificidade do bairro. Para alcançar os objetivos, buscou-se, primordialmente, relacionar paisagem e patrimônio cultural à noção de boemia como maneira de compreender o lugar, suas especificidades e sua história. A interdisciplinaridade e a diversidade de autores possíveis de serem trabalhados se fizeram necessárias e indispensáveis, em conformidade com a proposta do programa de Mestrado em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável (MACPS) e com o projeto de pesquisa a ser desenvolvido. O ponto de partida da pesquisa foi o bairro enquanto patrimônio cultural, que há muito transita por diversas áreas do conhecimento acadêmico, como a História, a Arquitetura, a Antropologia, a Sociologia. Com a centralização da discussão em torno da boemia, um dos aspectos comumente utilizados como justificativa para sua titulação como patrimônio cultural12, este acabou não 12 MINAS GERAIS. Deliberação nº 019/2015 do CDPCM-BH. Belo Horizonte, op. cit. p. 9. 21 sendo o ponto central das discussões da pesquisa. Contudo, não foi excluído e nem poderia ter sido, dada a breve apresentação da situação do bairro relativamente às políticas patrimoniais do município de Belo Horizonte. Foi feita a opção, portanto, de destacar a ideia de paisagem, trazendo variadas concepções acerca dela e por considerá-la mais adequada à análise de um bairro. Ainda que a noção contemporânea de patrimônio cultural proponha uma visão mais ampla dos bens culturais, que congrega valores materiais e intangíveis, Santa Tereza é, antes de ser um bem cultural, um bairro, uma porção da cidade. E somente é dada a ele essa titulação patrimonial devido à complexidade de sua vida urbana, a combinação de seus aspectos sensíveis e palpáveis, sua história e a percepção dos indivíduos acerca dele. A paisagem é um conceito bastante amplo e presente em diversas áreas do conhecimento, como a Geografia, a Arquitetura e o Urbanismo, as Artes. Não há neste trabalho uma tentativa de definir ou esgotar o termo, mas explorar os pontos de contato possíveis diante do tema proposto, a boemia do bairro Santa Tereza. São expostas a relação entre tempo e espaço presente na paisagem trazidas por Anne Cauquelin (CAUQUELIN, 1982; 2003); as maneiras de senti- la, vivê-la e observá-la por maneiras outras que não apenas o olhar – olfato, memórias, comportamentos e práticas –, além da atribuição de sentido e valores à paisagem, como discutem Alain Corbin, Jean-Marc Besse e Pierre Donadieu (CORBIN, 2001; BESSE, 2013; DONADIEU, 2013); a produção de sentido e o cotidiano enquanto produtores e, ao mesmo tempo, elementos da paisagem, discutidos por Isabel Cardoso, Álvaro Domingues e, novamente, Anne Cauquelin (CARDOSO, 2013; DOMINGUES, 2013; CAUQUELIN, 2013). 1.2.2 A Boemia na pesquisa Conquanto a boemia seja uma noção de difícil definição e um tema estruturado por inúmeros atributos, é certo afirmar que um deles é universal – a boemia é uma ideia associada a práticas essencialmente urbanas (SILVA, 2012; MOLAR 22 e SAAD, 2012; SEIGEL, 1992)13. Como o objeto pesquisado é a boemia de um bairro inserido em uma das maiores metrópoles do Brasil na atualidade, paisagem e patrimônio foram pensados no contexto urbano e apoiados em outras ideias, noções e terminologias, como cidade, bairro e, é claro, a própria noção de boemia, já que a análise principal recai sobre esta característica associada ao Santa Tereza. De acordo com Daniele Costa da Silva (2012, p. 14) a boemia se insere no contexto desta pesquisa como noção porque ela “(...) não se apresenta nos estudos como um conceito, mas como uma gama de experiências e atores em diferentes tempos e lugares”. A boemia que será discutida aqui diz respeito a um aspecto particular do bairro Santa Tereza. Há diversas formas de fazê-lo, como o fizeram Rodrigo de Almeida Ferreira (2000)14 e Daniele Costa da Silva (2012)15. Ferreira concentra seus estudos em torno de um dos aspectos da boemia de alguns bares específicos: a sociabilidade envolta nas discussões políticas e culturais que se dava nos bares do Edifício Archangelo Maletta, no centro de Belo Horizonte, no período compreendido entre as décadas de 1960 a 1990. O autor deixa claro suas intenções no trabalho, qual sejam traçar o perfil dos frequentadores desses bares durante o período estabelecido, qual era a percepção dos moradores do edifício sobre esses frequentadores e compreender como se dava a convivência nos bares, como era a sociabilidade ali. Suas estratégias metodológicas compreenderam pesquisa qualitativa, por meio de história oral em entrevistas semi-estruturadas e uma análise que compreende que os dados não deveriam ser generalizados a todos os frequentadores do edifício, mas interpretados como possíveis representações da realidade. 13 SILVA, Daniele Costa da. Entre copos, conversas e canções: um estilo “boêmio” de viver a cidade. 2012. 220f. Tese (Doutorado) – Centro de Humanidades, Departamento de Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2012. MOLAR, J. O.; SAAD, C. L. V. K. Que boemia é essa e que boêmio é este? Reflexões sobre as representações do fazer cotidiano. Revista Tempo, Espaço, Linguagem. Irati, v. 3, n. 1, p. 121-143, 2012. SEIGEL, Jerrold. Paris Boêmia. Cultura, Política e os limites da vida burguesa. 1830-1930. Porto Alegre: L&PM, 1992; e outros. 14 FERREIRA, Rodrigo de Almeida; STEFANI, Eliana Fonseca. A história brinda: os bares do Edifício Archângelo Maletta como espaço de discussão política e de sociabilidade na cidade de Belo Horizonte (1964-1998). 2000. 125f. Projeto de pesquisa (Iniciação Científica) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2000. 15 SILVA, Daniele Costa da. Entre copos, conversas e canções: um estilo “boêmio” de viver a cidade. 2012. 220f. Tese (Doutorado) – Centro de Humanidades, Departamento de Ciências Socais, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2012. 23 Já Daniele Silva interessou-se pela boemia enquanto um estilo de vida urbano específico da cidade de Fortaleza entre as décadas de 1960 e 1970. A autora também elenca o ano de 1964 como ponto de partida da discussão, confirmando uma relação entre boemia e política amplamente partilhada pelo senso comum. Nesse caso, como fez Rodrigo Ferreira, a pesquisa associa ambas as culturas e as discute na figura dos artistas e agitadores culturais da capital cearense em seus discursos e práticas e contestação, principalmente no ambiente dos bares. Segundo Ferreira: A opção por estudar o fenômeno de sociabilidade urbana e o papel do bar em um determinado contexto sociopolítico, deu-se tendo em vista o escasso número de estudos feitos sobre o tema e, mesmo, o relativo preconceito que ronda o bar, (...) embora seja notadamente um local de entretenimento (...). (FERREIRA, 2000, p. 9) Dezesseis anos depois, a afirmação de Ferreira continua atual, apesar de outras pesquisas que têm os bares como objeto tenham sido realizadas desde então, como a tese de Silva. Mas a leitura desses dois trabalhos foi de extrema importância para delimitar o que seria explorado na presente pesquisa, menos pela incorporação de suas abordagens do que pela negativa do que seria feito. Já que a noção de boemia é ampla e possibilita diversas interpretações, foi possível perceber e, aos poucos, delinear o que não seria explorado, processo que deixou cada vez mais claros os objetivos que, inicialmente, não se colocaram de forma explícita. Em comum aos dois autores, aqui se apresenta o papel de destaque atribuído aos bares quando se fala de boemia. Em contraponto, a abordagem da faceta política da boemia, não tendo sido aqui ressaltada. Aos objetivos, mostrou-se útil a insistência na quantidade de bares existente no bairro enquanto símbolos e suportes da boemia, que por sua vez foi considerada enquanto imagem atribuída ao bairro e prática urbana. Apesar de reafirmar que o bar é espaço de sociabilidade por excelência, não será discutido como se dá a sociabilidade nesses bares especificamente, ou quem são os atores específicos. Mas será evidenciada a marca que os bares imprimem na paisagem de Santa Tereza e sua relevância enquanto símbolo cultural. 24 As ideias, noções e terminologias elencadas para a construção dessa história do bairro Santa Tereza demandaram uma seleção de autores que buscam compreender a vida urbana como um todo. Um todo que envolve o sensível e o palpável, o afetivo e a materialidade, o simbólico e a percepção dos indivíduos acerca do espaço no qual estão inseridos. Estes autores serão apresentados nos itens a seguir. 1.2.3 A porta de entrada da pesquisa A escolha por esse viés de interpretação da história urbana está bastante relacionada à ideia desenvolvida por Maria Stella Bresciani em artigo publicado em 199116. A autora faz uma comparação entre as muitas possibilidades de estudos da história urbana e as entradas das cidades antigas, cujas portas ou portões existiam em uma clara tentativa de demarcação do território. Ambas são construções, cada qual à sua maneira: os estudos históricos são definidos pelas pesquisas, que por sua vez exigem recortes espaço-temporais, construções simbólicas e subjetivas; as portas das cidades são erigidas em pedras e materiais resistentes, com o intuito de proteger construções sólidas, rígidas e pretensamente perenes. No presente caso, o que está por detrás da porta de entrada para essa pesquisa é a boemia do bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte. Discute-se sua história urbana desde seu surgimento até o ano de 2016, com ênfase em alguns períodos específicos e em aspectos simbólicos de sua existência. Bresciani (1991), em uma proposta de mesclar essas duas construções simbólicas e objetivas, nos coloca defronte sete portas de entrada para estudos de história urbana, que vão desde as primeiras décadas do século XIX até a contemporaneidade. O extenso período colocado – cerca de dois séculos – não implica na substituição de cada porta ou de cada metodologia de pesquisa pela seguinte, mas é um demonstrativo das permanências e rupturas da história que não deixam de estar presentes na história urbana. 16 BRESCIANI, Maria Stella. As Sete Portas da Cidade. Espaço e Debates: Revista de Estudos regionais e urbanos, São Paulo, v. 1, n. 34, p. 10-15, Ano XI, 1991. 25 As permanências se dão pela continuidade de usos dos métodos de pesquisa ao longo do tempo, pelo imbricamento percebido entre todas as portas; as rupturas não são interrupções abruptas, mas sutis modificações nas ideias e pensamentos – supressões e acréscimos – que levam à configuração de novas propostas de análise um pouco mais complexas que as anteriores. A seguir, as portas foram nomeadas e brevemente explicadas a partir do artigo de Brescini (1991). Técnica – A primeira porta é o estudo das cidades pelo olhar da técnica, suas potencialidades de transformação do meio e do próprio homem. Condiz com o princípio do século XIX, momento em que a Revolução Industrial ocidental indicava novos caminhos para a produção de bens de consumo. Social – Em seguida é colocada a porta da questão social, que investiga as multidões e a população pobre do ambiente urbano. Esta porta, a segunda, está intimamente ligada à primeira, já que era o contingente popular que determinava a produtividade fabril e começava a se organizar a partir da percepção de sua força coletiva. É notada a participação dos sujeitos na evolução da trajetória das cidades, ainda que percebidos como massa. Identidades – A terceira porta é o estudo da história urbana por uma perspectiva da formação das identidades sociais, tanto a da burguesia quanto a do proletariado. Identidades essas bastante complexas e moldadas em ritmos lentos. Sensibilidades – Na esteira da identidade social nova forma de enxergar o urbano se dá através dos sentidos do habitante da cidade e a quarta porta é percebida. A modernidade forja um novo homem e, consequentemente, uma nova sociedade – é preciso reaprender a olhar essa cidade, detectar a imensa gama de imagens que se apresentam, as novas possibilidades e ameaças, os perigos e oportunidades. História – O desenvolvimento das duas últimas portas, a das identidades sociais e a das sensibilidades, acaba por colocar a quinta porta, que assume a cidade como espaço do desenrolar da história e seus moradores como sujeitos ativos desse processo. As diferenças sociais bem estabelecidas entre burguesia e proletariado propiciam a estrutura da sociedade moderna. A 26 construção da história voltada para o progresso toma os indivíduos burgueses como personagens e objetos de análise, enquanto a busca por igualdade social e um futuro livre das necessidades por parte do proletariado se coloca como segunda possibilidade de análise objetiva da sociedade. Em ambas, o individuo é sujeito e objeto da história, bem como o ambiente urbano habitado por ele. A boemia poderia ser estudada e analisada pela perspectiva dessas cinco portas, pois, como veremos adiante, é frequente sua caracterização a partir do contraponto entre burguesia e setores marginalizados da sociedade urbana, como proletariado e imigrantes. Considerando que o bairro Santa Tereza tem em suas origens imigrantes europeus que vieram trabalhar como operários e construtores da nova cidade de Belo Horizonte, seria possível desenvolver a pesquisa da boemia em Santa Tereza voltando o olhar para a dicotomia entre as identidades sociais dos sujeitos que fazem e fizeram parte da vida noturna do bairro e da cidade, para as imagens evocadas pelo contraste entre bairro e centro. No entanto, as demais portas que se abriram a seguir parecem mais adequadas para levar adiante a pesquisa proposta. Cultura popular – A sexta porta é a da cultura popular, e pode-se dizer que se tornou uma das mais utilizadas desde o movimento historiográfico da Nova História Cultural. Esse movimento se deu a partir da década de 1960 e foi protagonizado por autores como Edward Thompson, que estudou o cotidiano e os aspectos socioculturais das camadas populares. Segundo Bresciani, é (...) algo que se entrevê, uma outra forma de comportamento que escapa aos moldes prevalecentes da cultura burguesa, um outro referencial de relacionamento, que cabe mal nos moldes racionalizadores do padrão civilizado. (BRESCIANI, 1991, p. 12) No entanto, são relatos filtrados, olhares direcionados a uma parcela de habitantes, como se sua vida se desenvolvesse à parte da cidade e não em um território dela, em um espaço possibilitado por ela. Caso o presente estudo tivesse recaído exclusivamente sobre a análise do reconhecimento e da titulação pela municipalidade do bairro Santa Tereza como patrimônio cultural da cidade de Belo Horizonte, a sexta porta se mostraria bastante eficiente como metodologia de pesquisa. O bairro seria, então, praticamente deslocado de um contexto urbano maior no qual se 27 desenvolveu; seu cotidiano e sujeitos tomados não como elementos, mas como uma cultura outra que não a da cidade que se pretendia racionalista e funcional; não como um dos espectros da memória e da urbanidade belo- horizontinas, mas como arremedo de uma memória da vida no interior tida como alheia à vida em Belo Horizonte. Porém, sua história não faz sentido se dissociada da história da cidade de Belo Horizonte, mas sim como um de seus territórios de múltiplos significados. Territórios de subjetividade – A sétima e última porta se estabelece não como substitutiva de todas as anteriores, mas como possibilidade de análise da vida e seus territórios de subjetividades, ora circunspectos, ora escancarados. É a porta que examina e averigua a cidade, percebe as lógicas diversas que fazem com que seu território seja composto por frações que se dão por afinidades, particularidades, especificidades. As imagens plenas e as representações racionais se esgarçam e deixam entrever territórios, que podem ser espaços, meios geográficos, mas podem também levantar o véu racional que encobre as fugidias subjetividades. Podem ser espaços onde as múltiplas redes de sociabilidade se repetem, diferenciam-se, modificam-se em filamentos imponderáveis. (BRESCIANI, 1991, p. 13) A sétima porta se mostra a mais adequada como metodologia de pesquisa por possibilitar fazer uma história da cidade e do bairro ancorada em fontes que oferecem mais do que a certeza de fatos e permitem extrapolar a objetividade. A legislação urbanística, as matérias de jornais, os depoimentos colhidos de moradores e frequentadores do bairro são explorados como documentos que permitem perceber o que existe por trás das representações de Santa Tereza, perceber a vida que se traduz geralmente de maneira muito simplificada nas imagens constantemente exploradas acerca do bairro – a boemia como uma dessas imagens. A cada porta, considerando-as como metodologias de pesquisa, o estreitamento do olhar do pesquisador para o indivíduo pode ser percebido. Mas é somente na sétima porta que a ruptura teórica se estabelece, buscando romper com as noções que se pretendem objetivas e também com as tentativas de apreensão ou mesmo construção racional da realidade. Bresciani (1991) cita Anne Cauquelin (s/d) para afirmar sobre a insuficiência das 28 descrições e recortes na construção de uma história urbana, colocando uma nova perspectiva na qual tempo e espaço não são estáticos, mas se relativizam de acordo com a presença humana e a vida que se dá em uma e na outra dimensão. Essa perspectiva está em diálogo com a paisagem, discutida pela própria Anne Cauquelin e outros autores a serem apresentados, no qual o entrelaçamento entre espaço e tempo é essencial para se pensar a cidade enquanto paisagem. A autora fala de realidades que ultrapassam lugares geográficos e construções de tijolos, de territórios que se fazem com a presença de pessoas, de sentimentos, sentidos e percepções vários. É importante também aguçar nossa sensibilidade para a simultaneidade das redes simbólicas diferentes, atadas a discursos díspares que fazem das cidades lugares onde se pode viver. Bairros que existem para além de seus limites geográficos e divisões administrativas, impossíveis de serem conhecidos pelo viajante de passagem que se orienta pelo guia turístico. (BRESCIANI, 1991, p. 14, grifo meu) Esta pesquisa é, portanto, uma tentativa de apresentar uma história do bairro Santa Tereza com foco na boemia pela metodologia descrita na sétima porta, a dos territórios de subjetividades (BRESCIANI, 1991), distanciando-se da objetividade das análises propostas pelo quadro teórico do século XIX e grande parte do século XX. Os olhares lançados à cidade a partir das outras seis portas não deixam de figurar nessa pesquisa sobre o bairro, já que a ruptura definitiva com bases tão fortemente alicerçadas na cultura científica atual é um desafio colocado às ciências humanas. No entanto, a presença da sétima porta e seus territórios de subjetividades é pretensamente preponderante na leitura que se faz do Santa Tereza e de sua boemia. 1.2.4 Estado da arte Tendo como referencial o projeto de pesquisa aprovado na seleção do programa de pós-graduação, as disciplinas cursadas no primeiro ano e as reuniões periódicas com a orientadora, foi delineado o rol de autores para que a revisão bibliográfica teórica fosse feita, além de organizado o estado da arte sobre o bairro Santa Tereza. 29 Outra etapa do projeto foi constituída pela pesquisa com documentação primária sobre o bairro Santa Tereza, principalmente matérias e reportagens de jornais e revistas de Belo Horizonte. Como muitas das questões relativas ao bairro se mantiveram em discussão ao longo da realização da pesquisa, como a proteção do Conjunto Urbano, as indicações de tombamento e o destino da edificação do antigo Mercado Distrital de Santa Tereza17, esta revisão acompanhou a produção do trabalho até o fim. Foi essencial considerar a diversidade e a possibilidade do entrecruzamento de fontes de diferentes naturezas, além das jornalísticas já mencionadas. Por se tratar de um bairro, a regulamentação e legislação urbanísticas e a cartografia podem permitir muito mais do que o entendimento da ocupação ou desenvolvimento do território, mas também as várias maneiras de como é construída a relação das pessoas com o espaço. A dimensão humana da boemia foi possibilitada pelas conversas e entrevistas com aqueles que vivem no bairro, sejam moradores, sejam trabalhadores, sejam frequentadores, e por meio de informações objetivas que propiciam interpretações das interações sujeito-lugar. Além dessas, serviram como fontes para o desenvolvimento desta pesquisa relatórios oficiais dos prefeitos da capital mineira, que incluem os mais variados assuntos sobre a cidade, desde a saúde, passando pela arrecadação de impostos, até os serviços de infraestrutura. Por último, as fotografias foram fontes que enriqueceram a pesquisa por terem espaço documental como base de análise. As fontes documentais fazem parte dos acervos das seguintes instituições, todas em Belo Horizonte: Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte (APCBH), Arquivo Público Mineiro (APM), Diretoria de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura (DIPC/FMC), Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), seção Coleções Especiais, e Hemeroteca Histórica da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa. Foi de extrema importância o acervo pessoal da professora Maria Guiomar da Cunha Frota, que gentilmente disponibilizou 17 A delimitação do Conjunto Urbano Santa Tereza aconteceu em março de 2015 e os tombamentos dos imóveis indicados se encontram em processo no momento da defesa desta dissertação. Parte da destinação do antigo Mercado Distrital de Santa Tereza foi estabelecida com a mudança da sede da FMC para o imóvel, mas as discussões acerca da ocupação como um todo ainda não haviam sido encerradas quando do fim da escrita da dissertação. 30 para consulta e reprodução diversos recortes de jornais, revistas e entrevistas acerca da vida noturna e cultural do bairro Santa Tereza. Pelo mesmo motivo da atualidade das questões, deu-se a observação e a participação em um dos movimentos sociais do bairro, o Movimento Salve Santa Tereza. Pelo acesso ao grupo virtual de e-mails e presença em reuniões periódicas, houve oportunidade de conhecer indivíduos engajados na política de gestão urbana do bairro e conhecer um pouco da rotina de um movimento de caráter popular e horizontalizado. Foi também através de membros do Salve Santa Tereza que foi obtido o contato com alguns dos sujeitos entrevistados. É importante ressaltar que todas as interlocuções foram registradas por escrito ou gravadas, com as devidas permissões dos interlocutores. A observação e a participação da vida no bairro também foram etapas importantes da pesquisa, principalmente para trabalhar sobre os mapas, confeccionar croquis, narrativas e descrições sobre os bares. 1.3 Estrutura do texto dissertativo O item 2, denominado Bairro Santa Tereza, se pretende como uma introdução ao bairro, sua história e particularidades. Nele, a história do Santa Tereza é colocada desde os primeiros tempos, quando era ainda uma Colônia Agrícola da região suburbana de Belo Horizonte, chegando ao ano de 1996, quando se torna uma Área de Diretrizes Especiais. Além da constante leitura de matérias jornalísticas e reportagens, recentes e antigas, e do levantamento de documentos e legislação relativos ao desenvolvimento do bairro, foram levantados autores que já tiveram o bairro como objeto de pesquisa e estudo. Luis Góes (2014), jornalista e antigo morador do bairro se propôs a escrever sua história e contar casos e curiosidades, assim como Libério Neves (2010). Luiz Henrique Assis Garcia (2006) escreveu sobre o Clube da Esquina em tese de Doutorado em História que versa sobre o tema do movimento musical como formação cultural. Vera Lígia Costa Westin (1998) também dissertou sobre o Santa Tereza, objeto de estudo de Ulysses da Cunha Baggio (2005) em sua tese de Geografia Humana e de Flávia Mosqueira Possato (2009) em seu trabalho de especialização em arquitetura. É trazido ainda o texto de Françoise 31 Jean de Oliveira Souza, Karime Gonçalves Cajazeiro e Carolina Pereira Soares (2012) enquanto técnicas da Diretoria de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte (DIPC-FMC). As principais chaves de interpretação do bairro se deram a partir de leituras teóricas de autores que discutem a cidade como algo complexo e composto por representações e imagens, seja de si mesma, seja dos habitantes que nela vivem. Sustentam a construção das ideias, Maria Stella Bresciani (1991) e José Tavares Correia de Lira (2014), trazido mais especificamente por sua ampla visão sobre a noção do que é um bairro. A discussão historiográfica que traz os homens comuns, o sensível, o simbólico e a cultura construída no cotidiano para a tessitura da história coloca a dimensão do vivido como trama. Para além dos grandes nomes, monumentos, heróis e datas específicas, o comum é resgatado e debatido, não como menor, mas como aspecto indispensável para a percepção mais apurada e fundamentada das práticas sociais e culturais. A memória e a história é aspecto relevante a serem trabalhado a partir dessa perspectiva, na qual Eclea Bosi (1984) figura como teórica no contexto desta pesquisa e os interlocutores como sujeitos ativos da história do bairro. À Boemia foi reservado o terceiro item no decorrer do desenvolvimento do trabalho, já que será tratada como uma das características atribuídas mais marcantes do bairro Santa Tereza. Estão presentes no texto aspectos teóricos de Jerrold Seigel (1992), contribuições de Molar e Saad (2012), principalmente no que diz respeito aos apontamentos de Mônica Pimenta Velloso (2000) e Maria Izilda Santos de Matos (1998), Eduardo Frieiro (1966), Anny Jackeline Torres Silveira (1996), Paulo Thiago Mello e, Zé Octávio Sebadelhe (2015). A discussão da noção de boemia por Walter Benjamin (1985) também está presente na pesquisa. A tese de Daniele Costa da Silva (2012) foi de extrema importância para o desenvolvimento da questão da boemia, que parte de uma noção abstrata e bastante ligada a movimentos literários e vai até aquela colocada nesta pesquisa, uma prática social cotidiana urbana. A autora trata da cidade de Fortaleza e muitas de suas discussões estão incorporadas no presente texto, 32 devido a coincidência de referências. Os estudos de Rodrigo de Almeida Ferreira (2000)18 também foram essenciais para balizar a discussão sobre boemia nesta pesquisa. No ponto em que o texto discute as particularidades de Santa Tereza, são trazidos três aspectos frequentemente observados na revisão bibliográfica e documental (matérias de jornais e revistas, dossiês e pareceres técnicos)19 sobre o bairro e ainda os autores que o estudaram, já mencionados. Tradicional, cultural e boêmio, são características atribuídas ao bairro que foram consideradas relevantes de serem detalhadas. Para amparar a discussão sobre tradição e do que é ser tradicional e de cultura, os autores remetidos são Georg Simmel (1973) Eric Hobsbawn (1984) e Leonardo Barci Castriota (2009). Paisagem Boêmia é o item 4 e traz autores que amparam a terminologia da paisagem, também relacionada às discussões sobre lugar e patrimônio cultural, como Michel de Certeau (1994), Maria Stella Bresciani (1991, 2001), Alain Corbin (2001), Anne Cauquelin (2003, 2013), Lisa Diedrich (2013), Álvaro Domingues (2013), Jean Marc Besse (2013), Pierre Donadieu (2013), os últimos cinco com artigos reunidos na obra organizada por Isabel Lopes Cardoso (2013). São teóricos que pensam a cidade e a paisagem para além da materialidade, restituindo-a à vida urbana e incluindo em suas obras as dimensões afetivas e sensíveis. Neste capítulo estão expostas, ainda, as políticas de planejamento e preservação às quais o bairro é submetido – Área de Diretrizes Especiais e Conjunto Urbano – e as justificativas apresentadas para tais. O trabalho busca tratar do patrimônio como algo que está para além da relevância arquitetônica e da cultura material. E, ainda, do patrimônio não como cerne do bairro, mas como consequência das perspectivas que se colocam a respeito dele. Assim, 18 FERREIRA, Rodrigo de Almeida; STEFANI, Eliana Fonseca. A história brinda: os bares do Edifício Archângelo Maletta como espaço de discussão política e de sociabilidade na cidade de Belo Horizonte (1964-1998). 2000. 125f. Projeto de pesquisa (Iniciação Científica) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2000. 19 Ver nota n. 8 e “Fontes - periódicos” no item “Referências” do presente trabalho. 33 será abordada a forma como essas políticas podem afetar a vida boêmia do bairro. O último item, intitulado Considerações Finais, leva este título por não ser exatamente uma conclusão sobre o tema tratado. Busca problematizar a patrimonialização do Santa Tereza e os riscos da gentrificação, propondo novos olhares para a boemia enquanto subjetividade a ser valorizada e salvaguardada. Catherine Bidou-Zachariasen, Helena Menna Barreto Silva e Jean-Yves Authier (2006) com suas discussões sobre gentrificação são colocados em diálogo com Paola Berenstein Jacques (2003) e Henri Léfèbvre (1969), além de outros autores citados ao longo desse extrato. O presente item, o primeiro, denominado Introdução, apresenta o objeto de pesquisa, define os objetivos do trabalho, metodologia e breve descrição dos itens seguintes, que incluem o desenvolvimento do texto e as considerações finais, escritas à guisa de conclusão. 34 2 BAIRRO SANTA TEREZA Santa Tereza é uma acolhedora ilha urbana cercada de cidade por todos os lados. Libério Neves 2.1 Origens da ocupação e delimitação do bairro Para falar sobre o bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, é indispensável que se faça uma breve exposição sobre os primeiros momentos da história da cidade. Determinada para ser construída onde antes havia um pequeno povoamento de nome Curral Del Rey, Belo Horizonte foi planejada por uma Comissão Construtora chefiada pelo engenheiro Aarão Reis. Com sua planta aprovada em 1895, a nova capital de Minas Gerais, então chamada Cidade de Minas, seria dividida em zonas urbana, suburbana e rural. Assim a cidade foi construída. A zona urbana, uma malha ortogonal cortada por diagonais, composta por largas ruas e algumas avenidas idem. Para circundar este conjunto, a Avenida 17 de Dezembro, atual Avenida do Contorno, foi construída. A zona suburbana, composta por seções, era composta pelas áreas em volta dessa mesma avenida, cujo projeto contava com ruas irregulares, mas traçadas e, muitas delas, nomeadas. A área rural foi destinada a abrigar sítios produtores agrícolas, chamados também de colônias, responsáveis pelo abastecimento da cidade. A ocupação dessas colônias remonta a alguns anos antes mesmo da mudança e construção da nova capital. 35 Figura 1 – Planta Geral da Cidade de Minas Fonte: Arquivo Público Mineiro, 189-?. 36 A vinda de imigrantes para o estado de Minas Gerais com o intuito de trabalhar preferencialmente na agricultura, foi incentivada e legislada pelo então presidente do estado, Affonso Augusto Moreira Penna, em 189220. No mesmo ano, a Seção Especial de Terras e Colonização foi criada na Secretaria da Agricultura, Commercio e Obras Públicas21. O incentivo consistia na indenização da passagem da Europa para o Brasil, desde que o imigrante se estabelecesse e permanecesse por, no mínimo, quatro meses em Minas Gerais; na facilitação de aquisição de terras ou mesmo concessão gratuita, desde que respeitando as disposições da lei; no auxílio à introdução de novas culturas agrícolas, dentre outras. Já no ano seguinte à aprovação da planta da nova capital do estado de Minas Gerais, por meio da Lei nº 150, de 20 de julho de 1896, o governador do estado, Crispim Jacques Bias Fortes, aprovou a instalação de colônias agrícolas às margens da cidade, que poderiam ocupar também parcelas das seções suburbanas. Assim, nos locais onde foram instaladas colônias, as plantas das seções suburbanas, cujo planejamento consta na Planta Geral da Cidade de Minas acima, foram alteradas. Segundo a lei, os lotes dos núcleos eram “destinados a imigrantes do norte da Itália, alemães ou portugueses insulares, agricultores de profissão, laboriosos e morigerados, (...) acompanhados das respectivas famílias.”22. Somente no ano de 1899 foi aprovado pelo governo do estado o regulamento desses seis núcleos coloniais, que seriam subordinados ao próprio governo do estado por execução da Secretaria da Agricultura, Commercio e Obras Públicas23. 20 MINAS GERAIS (Estado). Lei nº 32, de 18 de junho (sic-julho) de 1892. Autoriza o presidente do Estado a promover immigração de trabalhadores mediante a concessão de diversos favores. Colecção das Leis e Decretos do Estado de Minas Gerais em 1892. Ouro Preto: Imprensa Official de Minas Gerais, 1893. Acervo do APCBH. 21 MINAS GERAIS (Estado).Lei nº 27, de 25 de junho de 1892. Approva o regulamento dos nucleos coloniaes, creados pela lei n. 150 de 20 de julho de 1896. Colecção das Leis e Decretos do Estado de Minas Gerais em 1892. Ouro Preto: Imprensa Official de Minas Gerais, 1893. Acervo do APCBH. 22 MINAS GERAIS (Estado). Lei nº 150, de 20 de julho de 1896. Autoriza o Governo, por conta do crédito do art. 6.º da lei n.º 32 de 18 de julho de 1892, a estabelecer seis "Núcleos Coloniais" à margem das estradas de ferro, nos pontos julgados mais convenientes a juízo do Governo, e contém outras disposições. Livro da Lei Mineira de 20 de julho de 1896. Acervo da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais. Disponível em: http://www.almg.gov.br/consulte/legislacao/completa/completa.html?tipo=LEI&num=150&comp=&ano=1896. Acesso em: 28 jul. 2015. 23 MINAS GERAIS (Estado). Decreto nº 1.258, de 21 de fevereiro de 1899. Approva o regulamento dos nucleos colniaes, creados pela lei n. 150 de 20 de julho de 1896. Colecção das Leis e Decretos do Estado de Minas Gerais- 1899. Cidade de Minas: Imprensa Official de Minas Gerais, 1900. Acervo do APCBH. 37 Entre os núcleos, estabeleceu-se em 1898 na região leste da cidade a Colônia Ribeirão da Matta (ou Córrego da Matta), posteriormente chamada Américo Werneck24. A ocupação daria origem aos atuais bairros da Graça, Horto, Floresta, Sagrada Família e Santa Tereza, este compreendido na 7ª seção suburbana. Segundo o jornalista Luis Góes25, estudioso e antigo morador de Santa Tereza, para compreender a origem do bairro (...) interessam os lotes compreendidos entre as ruas Pouso Alegre, Salinas, Capitão Bragança e Avenida Flávio dos Santos. Desta forma, parte do que seria Santa Tereza, em 1898, tem outro mapa (...). (GÓES, 19--?, p. 6). Atualmente, o bairro está localizado na Regional Administrativa Leste de Belo Horizonte, região composta por bairros que têm suas origens nas ocupações mais antigas da capital, como exposto nas linhas acima. De acordo com o mapa da PRODABEL de 2010, Santa Tereza é circundado mais a oeste pela Avenida do Contorno, ao sul e ao leste pela Avenida dos Andradas e ao norte pela Rua Pouso Alegre. 24 “Foi este nucleo [Americo Werneck] criado egualmente em 1898.” Fonte: RELATÓRIO da Diretoria de Agricultura, terras e colonização, 1906. p. 233. Fundo Secretaria da Agricultura, rolo 05, APM. 25 GÓES, Luis. Bairro De Santa Theresa: Formação e História 1900 a 1960. Belo Horizonte: O autor, 19--? 38 Figura 2 – Mapa com localização do bairro Santa Tereza em Belo Horizonte Escala:1:120,000 Fonte: Prodabel, 2014, modificado pela autora. 39 No entanto, a percepção de seus limites não é tão rígida, variando de acordo com cada sujeito. Há aqueles que consideram a linha férrea limítrofe, como a moradora Eliza Peixoto26, que está em Santa Tereza há mais de dez anos. Outros se remetem aos limites evocando a sonoridade bairro, “se você ainda está ouvindo o barulho do trem, está por Santa Tereza”, segundo André Macedo, morador do bairro Santa Efigênia, vizinho ao Santa Tereza, e frequentador dos bares e restaurantes do bairro27. Lívia Ladeira e Raphael Pimenta28, jovem casal residente do bairro há cerca de quatro anos, consideram que os quarteirões entre as ruas Salinas e Pouso Alegre já pertencem ao bairro Horto, mesmo que na delimitação oficial eles façam parte de Santa Tereza. Ao longo da pesquisa, nas variadas formas de contato com o bairro, foi percebido que os lotes que possuem frentes voltadas para a Avenida do Contorno são constantemente associados ao bairro Floresta, bem mais que ao Santa Tereza, bem como aqueles da Rua Pouso Alegre, que são identificados como pertencentes ao bairro Horto. Há até mesmo quem desconsidere essa rua como parte do Santa Tereza, como Lívia e Raphael, enquanto outros incluem os quarteirões entre ela e a Avenida Silviano Brandão como pertencentes ao bairro29. Há quem diga que o bairro “começa na Hermilo Alves mesmo”, mas só se sente em Santa Tereza quando alcança a Praça Duque de Caxias, como Cláudio Procópio, um dos entrevistados, morador e frequentador dos bares do bairro, que ainda cita a “forte atmosfera” do bairro na região do Alto dos Piolhos ou nos arredores do antigo Mercado Distrital30. 26 Eliza Peixoto, 60 anos, jornalista, moradora do bairro Santa Tereza há 11 anos, criadora e responsável pelo Portal Santa Tereza Tem e integrante do movimento Salve Santa Tereza. Entrevista concedida em novembro de 2014. 27 André Macedo, 28 anos, profissional de Relações Públicas, morador do bairro Santa Efigênia há mais de 20 anos e frequentador dos bares e restaurantes de Santa Tereza. Entrevista concedida em abril de 2015. 28 Lívia Ladeira, 32 anos; Raphael Pimenta Silva, 29 anos, professores e proprietários de uma escola de idiomas no bairro, também moradores de Santa Tereza. Conversa em fevereiro de 2016. 29 Os entrevistados Eliza e Cláudio discordam nesse ponto. Para Cláudio, os quarteirões entre a Rua Pouso Alegre e a Avenida Silviano Brandão pertencem ao bairro Horto; Eliza, moradora de uma dessas ruas, afirma pertencer ao bairro, “de coração e de correspondência”. 30 Cláudio Procópio, morador e frequentador dos bares do bairro. Entrevista concedida em outubro de 2014. 40 Figura 3 – Mapa com delimitação oficial do bairro Santa Tereza e delimitação proposta Fonte: Prodabel, 2014, modificado pela autora. 41 Para José Tavares Correia Lira (2014): (...) bairro continua a ser aquela parte ou divisão costumeira da cidade. É a referência a ele que fornece ao citadino seu endereço e sentimento de pertença – e até mesmo de bairrismo, como expressão de auto-estima ou de um espírito de exclusividade e recesso(...) (LIRA, 2014, p. 86) 31 Portanto, é inútil tentar impor aos moradores, frequentadores e usuários do bairro limites administrativos, assim como é impossível se esquivar completamente deles. No verbete “Bairro”, Lira (2014) afirma ainda que um bairro se define por suas particularidades sociais, étnicas, religiosas ou econômicas para além de funções estabelecidas. O autor nos apresenta diversas origens da palavra, como militar, religiosa, relativa à exclusão social proposital ou relacionada ao posicionamento de um aglomerado de casas em relação ao muro da cidade. Considerando, então, a delimitação da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, a percepção de moradores e frequentadores, a percepção da autora e ainda os limites do recém-criado Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza32 (Fig. 3), será considerado para o presente trabalho o seguinte perímetro do bairro: ao sul e ao leste a linha férrea, praticamente coincidente com grande parte da Rua Conselheiro Rocha, ao norte a porção superior da Rua Pouso Alegre e a oeste a Avenida do Contorno. Independente das definições de seus logradouros perimetrais, fato é que o bairro possui relativo isolamento geográfico como forte característica, por abrigar uma colina cercada pelo Córrego da Mata e pelo Ribeirão Arrudas. Seu isolamento natural foi ainda intensificado pela presença da linha de trem e pelos acessos ao bairro limitados por algumas vias específicas. As poucas opções de transporte público também contribuíram para que o isolamento se mantivesse por muitos anos. Apesar de o bonde ter avançado até a Rua Mármore em 1926, ainda nas primeiras décadas da cidade, a estação de metrô 31 LIRA, J. T. C. . Bairro. In: TOPALOV, Christian; BRESCIANI, Maria Stella; LILLE, Laurent Coudroy de; D'ARC, Hélène Rivière. (Org.). A aventura das palavras da cidade, através dos tempos, das línguas e das sociedades. São Paulo: Romano Guerra, 2014. p. 85-100. 32 O tema da proteção do Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza será tratado adiante. 42 foi implantada na década de 1990 e ainda hoje há apenas duas linhas de ônibus que atendem ao bairro. (BAGGIO, 2005) 33 2.2 Da Colônia Agrícola à consolidação do bairro Santa Tereza 2.2.1 Referências de territorialidades históricas Retomando a fase inicial da Colônia Agrícola Américo Werneck e os primeiros anos do bairro já com a denominação de Santa Tereza, é possível estabelecer alguns marcos arquitetônicos e urbanísticos que distinguem temporalidades e territorialidades da história do bairro. São edificações e equipamentos que abrigaram ou abrigam instituições constantemente citadas pelos interlocutores da pesquisa e às quais há também alusão recorrente nas fontes consultadas. Esses marcos foram e são polarizadores até hoje por estarem em pontos de referência geográfica do bairro e por terem gerado uma territorialidade características nas áreas de suas imediações. São eles:  Hospital de Isolamento, que funcionou entre os anos de 1910/11 até 1965, quando de sua demolição. No terreno foi erguido o prédio do Mercado Distrital em 1970, cuja construção permanece e o uso foi interrompido em 200734. Está localizado na parte mais elevada da porção leste do bairro e a área era mencionada, enquanto havia ali o Hospital, como região do Isolado. Atualmente, como região do Mercado;  Hospedaria de Imigrantes, entre 1914 e 1918, ano de sua primeira adaptação para receber forças militares do Batalhão do Exército e posterior expansão para abrigar o 5º Batalhão da Força Pública em 1924. Após demolições e remodelações, a edificação foi substituída pelo Colégio 33 BAGGIO, Ulysses da Cunha. A Luminosidade do Lugar: Circunscrições Intersticiais do Uso de Espaço em Belo Horizonte: apropriação e territorialidade em Santa Tereza. 2005. 221f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2005. 34 Em fevereiro de 2016, a ocupação e o uso do antigo Mercado Distrital de Santa Tereza ainda estavam sendo debatidos entre a sociedade civil e o poder público. 43 Tiradentes em 1964, ainda em funcionamento no ano de 2016. Está localizado na porção central de Santa Tereza, tanto geográfica quanto socialmente falando. O local foi escolhido para receber o prédio da Hospedaria pela visibilidade e pelo ponto ser de fácil acesso em um bairro que ainda estava se desenvolvendo. A adequação para instalações militares é simbólica pelo papel preponderante que o local tem dentro do bairro – um local alto é representativo para abrigar uma esfera de poder da sociedade.  Praça Duque de Caxias, inaugurada em 1937 e que passou por algumas reformas e remodelações ao longo do século XX. A praça principal do bairro está localizada em sua porção central e uma das mais elevadas geograficamente. Além da simbologia própria da praça enquanto espaço público de lazer, sociabilidade e encontro, o local de sua construção foi uma demanda dos próprios moradores, como veremos a seguir. Se o espaço já era um ponto de encontro e uma referência, por que não moldá-lo enquanto praça? Além do Batalhão da Força Pública, já estava em construção do outro lado do largo a Igreja Matriz de Santa Tereza e Santa Terezinha, confirmando que aquela porção central do bairro era também de forte representação da centralidade social;  Linha Férrea, cujo ponto referencial do bairro é a Praça Ernesto Tassini, onde ficava instalada a Parada do Cardoso, estação ferroviária que atendia ao bairro. A linha corre nas porções sul e leste mais baixas de Santa Tereza, seguindo o curso natural do Ribeirão Arrudas. A estação Parada do Cardoso estava localizada em um trecho leste do bairro. 44 Figura 4 – Mapa-croqui dos marcos arquitetônicos e urbanísticos do bairro Santa Tereza Escala:1:100,000 Fonte: Prodabel, 2014, modificado pela autora. 45 Relativamente ao Hospital de Isolamento, o Dr. Zoroastro Rodrigues de Alvarenga, em relatório da Directoria de Hygiene (sic) referente ao ano de 1910 e publicado em 191135, dá o seguinte depoimento: Os primeiros doentes de moléstia transmissível, que à Directoria de Hygiene coube isolar, foram removidos para uma velha habitação no bairro do Cardoso. As condições desse isolamento eram de tal sorte inaceitável, que tive de transferir delle para o hospital recentemente construído e ainda sem mobiliario e sem luz, uma mulher accometida de varíola. Isso se deu no mez de setembro. Nenhuma interferência teve a Directoria de Hygiene na construcção do Hospital de Isolamento, que lhe foi entregue quasi acabado. Devidamente autorizado, encommendei da America do Norte o mobiliario destinado a esse hospital e que deve estar a chegar no porto do Rio de Janeiro. (BELO HORIZONTE, 1911, p. 13) No item “Lazareto do Cardoso”36 do mesmo relatório, o médico continua: “No dia seguinte tive que transferi-la para o novo Hospital de Isolamento, ainda não acabado e vazio de mobiliario, taes as más condições do lazareto velho.” (BELO HORIZONTE, 1911, p. 24). O relatório deixa claro que havia na localidade uma antiga construção que servia de abrigo para pacientes de doenças infectocontagiosas, o Lazareto do Cardoso. No entanto, as condições eram tão precárias que o Hospital de Isolamento foi construído próximo da antiga construção. Aspectos que contribuíram para a manutenção desse tipo de instituição na região citada foram a relativa distância do centro da cidade e o baixo adensamento populacional da área na primeira década do século XX. Essas características foram indicadas pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz e coincidiram com as do (futuro) bairro Santa Tereza37. Outros motivos citados foram a proximidade com a linha férrea, facilitando o acesso dos pacientes de Belo Horizonte e de outras cidades do estado, o tamanho do terreno, que permitiu o plantio de árvores em uma área já bastante vegetada, aspectos decisivos para o bom clima necessário aos pacientes em tratamento. 35 DIRECTORIA DE HYGIENE. Relatório Apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Delfim Moreira da Costa Ribeiro Secretario de Estado dos Negócios do Interior pelo Dr. Zoroastro Rodrigues de Alvarenga – Diretor Geral de Hygiene. Anno de 1910. Bello Horizonte: Imprensa Official do Estado de Minas Gerais, 1911. Acervo do APM. 36 A região era conhecida como Cardoso ou Bairro do Cardoso devido à proximidade com o Córrego do Cardoso. 37 FIGUEIREDO, Betânia G.; MARQUES, Rita de Cássia; SILVEIRA, Anny Jackeline T (orgs). História da Saúde em Minas Gerais: instituições e patrimônio arquitetônico (1808-1958). Barueri: Minha Editora, 2011. p. 35. 46 Com sua construção iniciada em 1910 e já funcionando em 1911, o Hospital de Isolamento, posteriormente chamado Cícero Ferreira, passou a funcionar sob a administração da Directoria de Hygiene em 1912. Localizava-se onde hoje está a construção do Mercado Distrital de Santa Tereza (desativado) e a Escola Estadual Pedro Américo. Segundo Luís Góes (2014), muitas pessoas que não viviam por ali tinham certo receio em circular a pé ou mesmo utilizar os meios de transporte que atendiam ao bairro e às imediações do Hospital por causa dos pacientes que eram internados – pessoas em tratamentos psiquiátricos ou de doenças infectocontagiosas, como rubéola, sarampo, tifo. O hospital funcionou entre as ruas São Gotardo, Pirite, Silvianópolis e Alvinópolis durante cinquenta e cinco anos, até ser transferido para a região hospitalar de Belo Horizonte, na porção central da cidade. Portanto, é possível falar do Hospital do Isolado como marco de uma temporalidade e gerador de uma espacialidade dentro do bairro Santa Tereza, tanto pela importância institucional do Hospital, quanto por ele ter se tornado ponto de referência de uma área na qual não era aconselhável que se circulasse. Figura 5 – Hospital Cícero Ferreira Fonte: Museu Histórico Abílio Barreto, 1947. 47 O decreto municipal de 05 de fevereiro de 191238 oficializou a emancipação da Colônia Agrícola Américo Werneck e a incluiu na sétima seção suburbana de Belo Horizonte, abrangendo a área que viria a se tornar o bairro Santa Tereza, como explicitado anteriormente. A ex-colônia passou a ficar, então, sob jurisdição da capital do estado. Essa nova ordem implicou normas e regulamentos para controlar sua ocupação, ficando sob a responsabilidade do município a urbanização da área. Nesse período foi implantado ali o galpão do Centro de Imigração da Capital, com a função de estimular a vinda, receber e regularizar imigrantes europeus que aqui chegariam para trabalhar. Segundo o relatório da Diretoria de Agricultura, terras e colonização, publicado em 1913: É facto que, de tempos para cá, nenhuma corrente de immigrantes, expontânea ou subvencionada, tem se encaminhado para o Estado, quando é certo que existe, como os Estados de S. Paulo, Paraná, etc., oferecem vantagens inconstestáveis àquelles que buscam colocação e trabalho fora da terra natal. Para estabelecer essa corrente e facilitar a introdução, já está contractada a construcção de uma hospedaria nesta Capital, predio que deverá ficar concluído dentro de dez mezes. (...) Concluída a Hospedaria, funccionaria junto dela a Agencia de Collocação. (MINAS GERAIS, 1913) 39 A edificação definitiva da Hospedaria dos Imigrantes só ficaria pronta em 1914, nas imediações de onde está hoje a Praça Duque de Caxias. Habitavam a região italianos, portugueses e espanhóis, além de migrantes brasileiros, sendo que boa parte desses trabalhadores fixou residência nas imediações do Centro de Imigração. Aos poucos, comerciantes também se instalaram ali, fomentando a movimentação e a crescente ocupação da região, que ficou conhecida por muitos anos como Imigração (BAGGIO, 2005). Como não houve aumento significativo do fluxo migratório, o prédio da Hospedaria de Imigrantes foi adaptado em 1918 para receber a 59ª Companhia de Caçadores do Exército Brasileiro. Em 1924, nova expansão foi feita para 38 BELO HORIZONTE. Lei nº 55, de 05 de dezembro de 1912. Incorpora à zona suburbana da Capital o povoado do Calafate e as colônias Bias Fortes, Américo Werneck, Carlos Prates e Adalberto Ferraz e dá outras providências a respeito. Coleção de Leis do Conselho Deliberativo de Bello Horizonte (de fevereiro a dezembro de 1912, ns 54 a 62). Bello Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas, 1912. Acervo do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte. 39 MINAS GERAIS. Arquivo Publico Mineiro – APM. Relatório da Diretoria de Agricultura, terras e colonização, 1913, p.8. Fundo Secretaria da Agricultura, rolo 10, APM. 48 receber o 5º Batalhão da Força Pública Mineira que, posteriormente, foi substituído pelo Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais. (BAGGIO, 2005) Segundo Vera Westin (1998), a forte presença dos militares foi essencial para que as famílias se fixassem na área, atraindo assim mais comerciantes e outros prestadores de serviço que ajudaram a povoar o bairro40. A região havia abrigado desde 1896 a 9ª Companhia de Ouro Preto, transferida de lá para a nova capital ainda em construção, marcando a região pela presença militar até os dias de hoje. Figura 6 – Quartel do 5º Batalhão da Força Pública Fonte: Museu Histórico Abílio Barreto, 1945/1950. 40 WESTIN, Vera Lígia Costa. Santa Tereza na construção cotidiana da diferença. 1998. 145f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, 1998. 49 A história da construção da Praça Duque de Caxias está intimamente ligada à história de desenvolvimento urbano do bairro. Em princípios da década de 1920, de acordo com relatórios oficiais da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, houve crescimento e consolidação da área41, com abertura de ruas e quarteirões na ex-colônia Américo Werneck e antigo bairro da Imigração. Não se pode deixar de falar do “prolongamento da linha do bonde da Floresta pela Avenida do Contorno, até o cruzamento da Rua Hermillo Alves” em 1923, principal acesso ao que seria o bairro Santa Tereza. (PREFEITURA DE BELO HORIZONTE, 1924, p. 53)42 Em 1926, já com o nome de “Avenida do Contorno”, a linha de bonde foi estendida até a Rua Mármore, ainda hoje uma das principais vias do bairro. Uma nota no jornal Estado de Minas do ano de 1928 traz a informação de que os moradores do entorno do 5º Batalhão da Força Pública pediram a mudança do nome da linha do bonde que chegava até a Rua Mármore de Avenida do Contorno para Santa Thereza 43. As referências a partir de então fazem alusão à região como Bairro Santa Tereza. Na literatura sobre o bairro, foram encontradas duas versões para a escolha de seu nome. Segundo Ulysses Baggio (2005), a designação por reivindicação dos moradores teria sido uma sugestão do Capitão José Pinto de Souza, do 5º Batalhão da Força Pública. A escolha estaria ligada a coincidências com o bairro Santa Teresa, no Rio de Janeiro, devido à localização geográfica elevada de ambos e também ao acesso aos bairros feito por bonde. Flávia Possato (2009)44 confere à chegada da imagem de Santa Teresa D´Ávila para a criação da paróquia a escolha pelo nome. A igreja matriz da paróquia de Santa Teresa e Santa Teresinha teve sua construção iniciada em 1931 no largo onde já se encontrava o antigo Batalhão 41 BELO HORIZONTE. Arquivo Publico da Cidade de Belo Horizonte. Relatórios apresentados ao Conselho Deliberativo pelo prefeito Flavio Fernandes dos Santos. Prefeitura de Belo Horizonte, setembro de 1923. 42 BELO HORIZONTE. Arquivo Publico da Cidade de Belo Horizonte. Relatório apresentado ao Conselho Deliberativo pelo prefeito Flavio Fernandes dos Santos. Prefeitura de Belo Horizonte, setembro de 1924. 43 O Bond Avenida do Contorno passa a chamar-se Santa Thereza. Jornal Estado de Minas, 31/03/1928 apud GÓES, 2014. 44 POSSATO, Flávia Mosqueira. Reconhecer para valorizar: Patrimônio Cultural do Bairro Santa Tereza. 2009. 83f. Monografia (especialização) – Escola de Arquitetura, Universidade Federal de Minas Gerais, 2009. 50 da Força Pública, defronte a este, tendo sido concluída e inaugurada cerca de trinta anos depois, em 1962 (BAGGIO, 2005, p. 144). Figura 7 - Igreja Matriz da Paróquia de Santa Teresa e Santa Teresinha Fonte: Acervo pessoal, 2014. O perfil dos moradores do bairro foi sendo reafirmado, contava com imigrantes e suas famílias, pequenos comerciantes que se instalaram ali e militares. No relatório de 1922/1923, o prefeito Flavio Fernandes dos Santos afirma que “lotes tem sido concedidos gratuitamente, e alienados a funcionários e empregados estaduais e federais, a oficiais e praças da Força Publica, e a operários (...) (BELO HORIZONTE, 1923, p. 10)”. Segundo Baggio (2005), apesar de constantes reclamações dos moradores, até a década de 1970 poucas das ruas do bairro Santa Tereza eram pavimentadas e serviços urbanos como energia elétrica, rede de água e esgoto, coleta de lixo e transporte público eram escassos. Poucas intervenções de calçamento e iluminação pública principalmente em fins dos anos 1930 e nos anos 1940 foram executadas. Exemplo disso é a Praça Duque de Caxias, 51 demanda dos moradores, que foi inaugurada em 1937 com o nome de Praça de Santa Thereza pelo prefeito Otacílio Negrão de Lima45. Existia uma praça. Mas era só poeira e sujeira. O prefeito Otacílio Negrão de Lima que mandou construir o jardim da praça. A atual Rua Mármore era uma Avenida e quando passou a ser rua muita gente ganhou os terrenos. Teve muitos interesses políticos e pessoais. As pessoas dizem... (não ele) (TEIXEIRA, entrevista para FROTA, 1990) A Praça Duque de Caxias assumiu, ao longo das décadas, papel de indiscutível centralidade no bairro, por ser ponto de encontro, espontâneo ou combinado, entre os moradores; por abrigar instância de poder sociais, tanto simbólico (Igreja) quanto oficial (Polícia Militar); por reunir no seu entorno considerável parcela do comércio do bairro, inclusive um dos bares mais preponderantes na história da boemia de Santa Tereza, o Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete. No mesmo ano de inauguração da praça, são apresentados pelo prefeito como parte das inaugurações da cidade os serviços finais de pavimentação das ruas do bairro. Figura 8 – Praça Duque de Caxias Fonte: Acervo pessoal, 2014. 45 RELATÓRIO De 1937. Apresentado a S. Excia. O Sr. Governador Benedicto Valladares Ribeiro pelo Prefeito de Bello Horizonte. Belo Horizonte: Graphica Queiroz Breyner Ltda, 1937. 52 A relevância da linha férrea que corta as porções sul e leste do bairro acompanha o percurso de sua existência desde sua instalação em 1895, quando a nova capital ainda estava em construção e a Comissão Construtora construiu um Ramal da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB). Este ramal, que passava pelo atual bairro Santa Tereza na Estação ou Parada do Cardoso, seguia desde o entroncamento da Estação General Carneiro, em Sabará, até Belo Horizonte (BORSAGLI, 2012)46. Segundo Góes (2014), a Parada do Cardoso, localizada na Rua Conselheiro Rocha, ao fim das Ruas Alvinópolis e Dores do Indaiá, chegou a embarcar cerca de trezentos passageiros por dia, mas foi desativada na década de 1950 pela EFCB. Por ali passavam trens do subúrbio e serviam aos moradores do bairro como opção de deslocamento até e desde o centro da cidade e outros bairros e também localidades próximas à Belo Horizonte, como Sabará e Caeté. Os pacientes do Hospital do Isolado também se serviam da linha e desembarcavam e embarcavam na Parada do Cardoso. O comércio que se formou em função da presença da Parada do Cardoso era composto de barbeiro, alfaiataria e botequins que vendiam de tudo um pouco. Um deles está presente até hoje, o Bar do Orlando, antes Bar dos Pescadores e Bar do Zé Inácio. Esses botequins ofereciam material de pesca para aqueles que utilizavam o Ribeirão Arrudas para esse fim, e outros produtos, como querosene, enlatados, bebidas e comidas simples. Eram ponto de encontro dos passageiros nos momentos antes do embarque e após o desembarque, e também para quem ia para ali se encontrar com os conhecidos e colocar a conversa em dia. 2.2.2 Desenvolvimento do bairro A partir da década de 1930, o bairro alcançou alguma notoriedade na cidade devido a elogios em jornais e folhetins. Santa Thereza é o novo subúrbio que surge, exhuberante de vida social e commercial, attestando os esforços de seus diligentes moradores, 46 BORSAGLI, Alessandro. Benéficos ou Malditos? Os Ramais Férreos na história de Belo Horizonte. Blog Curral Del Rey. Disponível em http://curraldelrei.blogspot.com.br/2012/05/beneficos-ou-malditos-os-ramais-ferreos.html#comment-form. Acesso: 17 mar. 2016. 53 confortados pelo apoio material e moral das auctoridades municipaes e estaduaes. (ESTADO DE MINAS, 1928 apud GÓES, 2014) 47 . A matéria continua tecendo elogios à região onde o bairro foi implantado, à presença do bonde, ao progresso, ao seu comércio e suas construções. Os reais problemas de infraestrutura não se mostraram como impedimento para o crescimento populacional do bairro e do número de pequenos estabelecimentos, como tinturarias, armazéns de secos e molhados, restaurantes e botequins48. A maioria das construções até finais da década de 1940 eram residenciais, casas de um ou dois pavimentos, de arquitetura simples, porém buscando seguir os estilos vigentes de cada década – há no bairro exemplares dos estilos Eclético e Art Déco, principalmente. Geralmente, com portas e janelas voltadas para a rua, as casas eram construídas ocupando uma pequena porção do lote, ficando o restante como quintal ou disponível para a construção de um barracão ou pequeno galpão. A partir dos 1950, começam a surgir os pequenos edifícios multifamiliares, com grande oferta de lotes e aquecimento do mercado imobiliário, fase pela qual a cidade de Belo Horizonte como um todo estava passando. Já na década de 1980, os conjuntos habitacionais de pequeno porte também passam a fazer parte dos empreendimentos imobiliários presentes em Santa Tereza. Relativamente às obras urbanas, em 1992 foi construído o viaduto José Maria Torres Leal, que liga os bairros Santa Tereza e Santa Efigênia, e em 1994 a estação de metrô entrou em funcionamento. Ao longo dos anos 1990, essas mudanças começam a ser percebidas pelos moradores e usuários do bairro em seu cotidiano e estilo de vida. (BAGGIO, 2005) A crescente densificação da área construída e o aumento populacional podem ser considerados responsáveis por algumas consequências diretas para o bairro, como a intensificação do tráfego de veículos e circulação de pessoas. Seus dois novos acessos alteraram significativamente, embora não de maneira definitiva, a paisagem do bairro – seu relativo isolamento geográfico, uma das particularidades do Santa 47 Os Bairros Novos. Jornal Estado de Minas. 31/03/1928 apud GÓES, 2014. 48 Digo crescimento, pois, segundo Luís Góes, jornalista, morador e estudioso do bairro, desde o período da Colônia de imigrantes a região contava com pelo menos cinco estabelecimentos comerciais, que vendiam produtos variados. (GÓES, 19-- ?, p.75) 54 Tereza, foi reduzido. Teve princípio, então, um processo de mudanças, ora sutis, ora fortemente perceptíveis, da paisagem do bairro Santa Tereza – sons e imagens característicos, usos tradicionais de espaços, práticas cotidianas e relações entre moradores, ritmo e velocidade da vida foram sendo modificados. Segundo estudos de Souza, Cajazeiro e Soares (2012)49, o mercado imobiliário voltou-se com certa intensidade para Santa Tereza, bairro pericentral que até então havia sido relativamente pouco explorado pelo segmento. Os dois novos acessos – o viaduto ligando o bairro ao Santa Efigênia, em 1992, e a estação de metrô, em 1994 – também exerceram papel importante para ampliar as negociações imobiliárias, se mostraram essenciais nesse momento de exploração do bairro pelo setor. As pressões do mercado culminaram com a inclusão do Santa Tereza como Zona de Adensamento Preferencial (ZAP) nos estudos que estavam sendo conduzidos para a elaboração de um novo Plano Diretor do município de Belo Horizonte. A concomitante proximidade de Santa Tereza ao Centro, à região hospitalar e à Savassi (áreas já saturadas), tornou-o um espaço bastante vulnerável aos interesses do capital imobiliário, vulnerabilidade reforçada com a sua classificação de ZAP (Zona de Adensamento Preferencial) proposta inicialmente pelo Plano Diretor. (BAGGIO, 2005, p. 153) Moradores e frequentadores do bairro perceberam o quanto as transformações urbanas e o interesse do mercado imobiliário alterariam profundamente a vida e as especificidades do lugar, a paisagem de Santa Tereza. No ano seguinte, em 1996, estabeleceu-se um forte movimento de resistência, principalmente no que se referia à inclusão do Santa Tereza no Plano Diretor como ZAP. A pressão do movimento culminou no estabelecimento da ADE de interesse cultural, que será discutida com maior cuidado no item 4. A organização dos moradores em defesa de melhorias e de boa qualidade de vida pode ser percebida em outros momentos da história de Santa Tereza, como foi 49 SOUZA, Françoise Jean de Oliveira; CAJAZEIRO, Karime Gonçalves. A singularidade do lugar: a construção de um discurso identitário para o bairro Santa Tereza. In: ANDRADE, Luciana Teixeira de; ARROYO, Michele Abreu (Org.). Bairros pericentrais de Belo horizonte: Patrimônio, Territórios e Modos de Vida. 1ed. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2012 SOUZA, Françoise Jean de Oliveira; CAJAZEIRO, Karime Gonçalves; SOARES, Carolina Pereira. Instrumentos de proteção do patrimônio cultural: um olhar sobre o caso do bairro Santa Tereza. . In: ANDRADE, Luciana Teixeira de; ARROYO, Michele Abreu (Org.). Bairros pericentrais de Belo horizonte: Patrimônio, Territórios e Modos de Vida. 1ed. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2012 55 possível comprovar a partir de relatos de uma dessas pessoas. Em entrevista concedida ao Portal Santa Tereza Tem50, acompanhada pela autora, o senhor Virgílio de Abreu Martins Filho, então com 96 anos de idade, 68 dos quais vivendo no bairro, relata reivindicações feitas pela Sociedade Pró Melhoramentos de Santa Tereza, da qual fez parte na década de 1960. Segundo Virgílio, o Mercado Distrital foi implantado no bairro a pedido da Sociedade ao prefeito Aminthas de Barros e o Colégio Tiradentes foi requerido ao governo estadual. Outros exemplos encontrados ao longo da pesquisa são a Associação Comunitária do Bairro de Santa Tereza, fundada em 1983, cujo primeiro presidente foi Mario Giuseppe Tedeschi e o atual é João Bosco; a Sociedade Amigos de Santa Tereza, fundada em 1991 pelo jornalista Luís Góes e um grupo de moradores do bairro; o Movimento Salve Santa Tereza, expressivo pela conquista junto ao poder público da inclusão do bairro como Área de Diretrizes Especiais de interesse cultural em 1996, na tentativa de conter o adensamento previsto pelo Plano Diretor; a Associação de Bares e Restaurantes de Santa Tereza, que congrega alguns estabelecimentos do setor. 2.2.3 Dois conflitos presentes no bairro Existem dois pontos de conflito envolvendo poder público, mercado imobiliário e sociedade civil no bairro Santa Tereza que, apesar de não terem relação direta com a presente pesquisa, são relevantes ao ponto de serem mencionados em um capítulo que trata da história do bairro. Um desses conflitos gira em torno do Condomínio Saint Martin, popularmente conhecido como as “Torres Gêmeas” de Santa Tereza, e o outro é sobre o antigo Mercado Distrital de Santa Tereza. O Condomínio Saint Martin, popularmente conhecido como as “Torres Gêmeas” de Santa Tereza, está localizado na Rua Clorita, próximo à linha férrea e à Avenida dos Andradas. Os dois edifícios inacabados, de dezessete andares cada, começaram a ser construídos no final da década de 1970 pela ICC Incorporadora e pela Jet Engenharia. No momento da construção, muitos apartamentos já haviam sido 50 O Casal Virgílio e Edite, um pedaço da história de Santé. Portal Santa Tereza Tem. Disponível em: http://www.santaterezatem.com.br/casal-virgilio-e-edite-um-pedaco-da-historia-de-sante/Acesso: 19 mar 2015. 56 vendidos, ainda na planta. Em 1980, as obras foram interrompidas devido à falência das duas empresas e abandonadas; dezesseis anos depois, em 1996, 171 famílias desabrigadas ocuparam as edificações. Segundo Ulysses Baggio (2005), cerca de dez anos após o início das ocupações: Em que pesem a ocorrência de problemas relacionados ao uso de drogas e mesmo de conflitos com mortes nas dependências das torres e imediações, recaiu sobre o lugar o estigma da violência, considerado perigoso e ameaçador (...) Porém, a partir de 1998, com a atuação da Pastoral de Rua da Igreja Católica na organização dos moradores (atualmente e torno de 500 pessoas), a comunidade ali instalada começou a adquirir, aos poucos, um novo perfil, podendo-se constatar avanços e melhorias significativas, entre as quais se podem destacar a criação de uma comissão de representação dos moradores, que por sua vez passou a contar com o apoio de outras organizações e instituições, como, por exemplo, a PUC- Minas (que através do seu serviço de Assistências Judiciária, presta assessoria jurídica à comunidade), a paróquia de Santa Teresa, a ASMARE (Associação dos Catadores de Papel), o 16º Batalhão da Polícia Militar, entre outras. Além dos avanços na esfera da organização política, ocorreram também conquistas de benfeitorias, como energia elétrica parcialmente regularizada, abastecimento de água(...) (BAGGIO, 2005, p. 184 e 185) Em 2010 houve um incêndio em uma das torres e o comprometimento das estruturas determinou a remoção de mais de sessenta famílias51. Havia a intenção de demolir os prédios por parte da PBH, mas em 2011 a mesma torre foi levada a leilão, tendo sido vendida por R$2,6 milhões. Também os moradores da outra torre, mais de oitenta famílias, foram notificados sobre a interdição do imóvel pelo não atendimento aos requisitos mínimos de segurança contra incêndio e pânico previstos por lei. Os conflitos também passavam pelas políticas de assistências à moradia, consideradas insuficientes por alguns dos ocupantes. Foi veiculado na imprensa que as famílias poderiam ser atendidas por programas da PBH e que seriam reassentadas em unidades de programas habitacionais. Não foi possível verificar quantas dessas famílias realmente foram realocadas contando com o auxílio da Prefeitura, mas segundo o jornal Estado de Minas, cento e setenta e uma estavam cadastradas no programa. 51 “BH confirma demolição de uma das Torres Gêmeas” Jornal o Tempo, 02/12/2010 Disponível em: http://www.otempo.com.br/cidades/bh- confirma-demoli%C3%A7%C3%A3o-de-uma-das-torres-g%C3%AAmeas-1.380558 Acesso: 19 maio 2016. 57 Em junho de 2012, todas as famílias haviam sido removidas e os dois prédios ficaram novamente desabitados52. Um projeto que previa construção de um complexo comercial hoteleiro no local foi divulgado e amplamente debatido entre os moradores do bairro e de Belo Horizonte como um todo. Estimada em cerca de R$1 bilhão, seria construída a maior torre da América Latina, com 85 andares em 350 metros de altura. Em maio de 2013, a segunda torre foi leiloada pro R$3.912 milhões53 e já no ano seguinte a inviabilidade de construção do enorme complexo comercial começou a ser veiculada54. Além de ferir a Lei de Parcelamento, Ocupação e Uso do Solo (LPOUS), que delimita o bairro Santa Tereza como Área de Diretrizes Especiais, sua construção se daria em função de obras que não foram aprovadas no âmbito do Projeto Nova BH55. 52 “Vizinhos das Torres Gêmeas festejam remoção da última família que ocupava imóvel” Jornal Estado de Minas, 19/07/2012. Disponível em: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/07/19/interna_gerais,306868/vizinhos-das-torres-gemeas- festejam-remocao-da-ultima-familia-que-ocupava-imovel.shtml Acesso: 19 maio 2016. 53 “Segundo prédio das Torres Gêmeas é leiloado” Jornal Estado de Minas, 28/05/2013. Disponível em: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2013/05/28/interna_gerais,395921/segundo-predio-das-torres-gemeas-e-leiloado.shtml Acesso: 19 maio 2016. 54 “Construção de megaempreendimento no Santa Tereza pode não sair do papel” Revista Encontro, 13/02/2014. Disponível em: http://www.revistaencontro.com.br/app/noticia/atualidades/2014/02/13/noticia_atualidades,147570/construcao-de-mega- empreendimento-no-santa-tereza-pode-nao-sair-do-pap.shtml Acesso: 19 maio 2016. 55 “O projeto Nova BH, anunciado publicamente pelo governo municipal da cidade de Belo Horizonte no mês de outubro de 2013, pretendia a maior Operação Urbana Consorciada (OUC) da história da cidade tendo como principais eixos os corredores das avenidas Antônio Carlos/Pedro I somado aos corredores das Avenidas Andradas, Tereza Cristina e Via Expressa, que abrangem toda a extensão do Vale do Arrudas (eixo Leste-Oeste).” INDISCIPLINAR. Disponível em: http://oucbh.indisciplinar.com/?page_id=17 Acesso:19 maio 2016. 58 Figura 09 – Condomínio San Martin, as “Torres Gêmeas” – vista panorâmica do bairro Santa Tereza a partir da Avenida dos Andradas Fonte: Revista Encontro, 13 de fevereiro de 2014. Disponível em: http://www.revistaencontro.com.br/app/noticia/atualidades/2014/02/13/noticia_atualidades,147570/con strucao-de-mega-empreendimento-no-santa-tereza-pode-nao-sair-do-pap.shtml Acesso: 18 maio 2016. Desde então, o debate em torno das “Torres Gêmeas” arrefeceu e não foi possível encontrar notícias recentes sobre as ocupações, não sendo prudente afirmar se os prédios se encontram habitados ou não no momento de conclusão da pesquisa. A última matéria encontrada na imprensa local é de fevereiro de 2014. Também no contexto de arrefecimento das discussões sobre as “Torres Gêmeas”, emerge a questão sobre o antigo Mercado Distrital de Santa Tereza. Construído no local onde esteve instalado por cinquenta e quatro anos o Hospital do Isolado, o antigo Mercado funcionou entre os anos de 1970 e 2007. Tendo sido desativado pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH), a primeira providência após o fechamento e desocupação do Mercado foi a tentativa de transformá-lo em sede da Guarda Municipal. A reação popular contrária foi extremamente forte e não houve como rejeitá-la. A mudança radical do uso de um espaço tido como tradicional e agregador dos moradores – comerciantes e clientes – causou bastante estranheza e 59 não foi bem aceita pela comunidade de Santa Tereza que, através de movimentos e associações, resistiu à mudança e se colocou como defensora do Mercado. Foi comprovada a incompatibilidade do uso do espaço pela sede da Guarda Municipal de acordo com o Plano Diretor de 1996 e com a Lei de Parcelamento, Ocupação e Uso do Solo (LPOUS) (ARAÚJO, CASTRIOTA, 2007). Foi organizado um plebiscito para compreender melhor quais eram os desejos e anseios da comunidade de Santa Tereza para o espaço do Mercado. Mais de 90% dos votantes era a favor da manutenção do lugar para uso comunitário e a PBH acabou por reconhecer a legitimidade do processo e desistir da instalação da sede da Guarda Municipal. A Associação de Moradores preparou um projeto concreto de ocupação do Mercado para ser apresentado à Prefeitura. (ARAÚJO, CASTRIOTA, 2007) Após anos de negociações, idas e vindas e projetos nunca implementados, a questão do Mercado Distrital de Santa Tereza se mantinha parada e, aparentemente, sem solução. O envolvimento dos moradores do bairro desde o princípio e o real desejo de manter ali um lugar de convivência demonstram a importância e a força da participação popular nas tomadas de decisão. Em 2013, o Movimento Salve Santa Tereza se rearticulou em função de um novo anúncio por parte da PBH para destinação do espaço do antigo Mercado. A cessão de um espaço público e de vocação primariamente sociocultural para uma entidade privada, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, FIEMG, que pretendia instalar uma escola automotiva no espaço, não foi bem recebida. As transformações urbanas que uma escola do porte previsto pelo projeto acarretariam ao bairro passavam pelo aumento do fluxo de pessoas e veículos, desarticulando ainda mais a ambiência característica do bairro Santa Tereza; pelo desrespeito à legislação urbanística que delimita o bairro enquanto Área de Diretrizes Especiais (ADE); ao patrimônio cultural, com a ocupação pelo setor privado de um espaço público que deveria ser de fruição da população. Rearticulado e com grande apoio popular, o Movimento Salve Santa Tereza trabalhou em prol de um projeto para o Mercado e se manteve firme em sua posição contra a cessão do espaço para a FIEMG. Ao longo de quase dois anos foram espalhadas faixas de protesto por todo o bairro e nos bairros vizinhos, panfletos explicativos foram distribuídos, assinaturas recolhidas 60 contra a ocupação do Mercado pela FIEMG. O Movimento realizou pesquisas focais para envolver um número cada vez maior de moradores e entender suas demandas, necessidades e desejos, que apontavam para o uso público e de atendimento à comunidade. O projeto Mercado Vivo, depois Mercado Vivo Mais Verde foi desenvolvido levando em consideração cinco pontos levantados pela própria comunidade: comércio, com a presença de abastecimento hortifrutigranjeiro e secos e molhados; serviços, como caixas eletrônicos e correios; lazer e convivência, com a reutilização de parte do estacionamento como praça pública; formação profissional, aproveitando a vocação gastronômica do bairro para ofertar cursos na área; espaços para oficinas de arte e artesanato, devido a forte presença de artistas e artesãos que moram e possuem ateliês no bairro. Ainda assim, a cessão para a FIEMG se manteve e o projeto da escola automotiva continuava garantido e legitimado por Estudos de Impacto de Vizinhança contratados pela própria Federação, ainda que contrariando as diretrizes da ADE. Figura 10 - Muro do Mercado Distrital desativado: desaprovação quanto à ocupação do espaço pela FIEMG. Fonte: Acervo pessoal, 2014. A situação do antigo Mercado levou ao pedido de proteção cultural do bairro como um todo na Diretoria de Patrimônio Cultural (DIPC) do município. Após proteção do 61 Conjunto Urbano Santa Tereza, o antigo Mercado Distrital foi indicado para tombamento individual em nível municipal. Após ampla divulgação na mídia e repercussão da proteção do Conjunto e da indicação para tombamento, a FIEMG anunciou a desistência da instalação da escola automotiva. No entanto, a questão da ocupação do Mercado continuou em aberto. A PBH anunciou no princípio do mês de abril de 2015, em diversos veículos de comunicação56, nova parceria para ocupação do Mercado Distrital de Santa Tereza, sem ao menos buscar algum diálogo prévio com a comunidade do bairro, comprovadamente participativa e ativa nesse e em outros aspectos. Foi, então, divulgada a implantação de um Centro de Cultura Africana ou Centro de Referência da Cultura Negra ou Museu Afro Brasileiro no espaço do Mercado desativado, o que também não foi efetivado. No início do ano de 2016, a Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte tomou a frente do processo de ocupação como gestora do antigo Mercado, em diálogo com o Movimento Salve Santa Tereza, com a Associação Comunitária do Bairro Santa Tereza, com a comunidade do bairro como um todo e articulada com a Secretaria Municipal Adjunta de Planejamento Urbano. Foi formada uma Comissão Consultiva, composta por moradores e agentes públicos, que acompanha os estudos para reformas do espaço, as demandas e projetos articulados a partir delas57. O projeto Mercado Verde Mais Vivo já começou a ser implantado, com a primeira ocupação tendo acontecido em maio de 2016. 56 “Uma casa para a Cultura Negra” Jornal O Tempo, 01/04/2015; http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/magazine/uma- casa-para-a-cultura-negra-1.1017991 “Maurício Tizumba negocia ocupação do Mercado de Santa Tereza” Jornal Estado de Minas, 04/04/2015 http://divirta- se.uai.com.br/app/noticia/arte-e-livros/2015/04/04/noticia_arte_e_livros,166375/mauricio-tizumba-negocia-ocupacao-do- mercado-de-santa-tereza.shtml “Será que o antigo Mercado de Santa Tereza vai virar Casa da África?” Revista Encontro, 01/04/2015. http://www.revistaencontro.com.br/app/noticia/atualidades/2015/04/01/noticia_atualidades,152843/sera-que-o-antigo-mercado- de-santa-tereza-vai-virar-casa-da-africa.shtml 57 A discussão pode ser acompanhada de perto pelos seguintes canais: Portal Santa Tereza Tem http://www.santaterezatem.com.br/?s=mercado&cat=0&Submit=Procurar; Fanpage no Facebook do Movimento Salve Santa Tereza: https://www.facebook.com/Salve-Santa-Tereza-381632345284758/?fref=ts. 62 Figura 11 – Parte externa da área do Mercado durante o evento Mercado Verde Mais Vivo Fonte: Acervo pessoal Ana Beatriz Pereira Mascarenhas, 2016. Ainda que não tenham relação direta com a boemia do bairro Santa Tereza, tema desta dissertação de mestrado, foi considerada importante a menção desses dois conflitos, que são capítulos relevantes da história do bairro e dialogam com questões urbanas extremamente caras e diretamente ligadas à sua vida e às suas características. 2.3 Particularidades do bairro Três características são frequentemente atribuídas ao bairro Santa Tereza em reportagens e matérias jornalísticas, trabalhos acadêmicos, no discurso oficial do poder público municipal e ainda no popular. O imaginário coletivo é constantemente reforçado com os termos tradicional, cultural e boêmio quando há algum tipo de referência ao bairro58. Sua história, paisagem, a maneira como os moradores 58 “Santa Tereza preserva o romantismo”, Veja Minas Gerais, 1989 “Santa Tereza, um dos grande redutos da boemia seresteira de Belo Horizonte”, Estado de Minas, 1994; “Santa Tereza: Liverpool em BH”, O Tempo, 1997; “Moradores lutam por preservação do bairro – local tem vida cultural intensa e grandes artistas e Praça Duque de Caxias é marcada pela boemia”, O Tempo, 1998; “Pelas ruas de Santa Tereza – o bairro mais boêmio de Belo Horizonte”, Hoje em Dia, 1998; “Santa Tereza, 100 anos de amor e tradição”, Estado de Minas, 1998; “Santa Tereza reafirma a cada dia sua tradição notívaga”, O Tempo, 2001; “Santê: um roteiro etílico, gastronômico e cultural do bairro e arredores”, Estado de Minas, 2004; “Santa Tereza: reduto cultural de BH”, Estado de Minas, 2004. 63 interagem uns com os outros e fazem uso dos espaços do bairro funcionam como suportes bastante razoáveis para a atribuição dessas três características. São tidas como primordiais e há ainda outras tantas delas derivadas ou a elas relacionadas, além de servirem como base de manutenção para o discurso sobre o bairro. Maria Stella Bresciani (1991) faz uma análise de um dos trabalhos de Anne Cauquelin (s/d), no qual a autora discute a importância das memórias dos sujeitos quando se há a proposta de estudar a cidade. Bresciani afirma que o reenvio mútuo e incessante dessas memórias constitui uma espécie de “estoque de dados que constitui a própria matéria urbana” (BRESCIANI, 1991, p. 13) Essas reflexões podem ser transportadas para a análise do bairro Santa Tereza proposta nesta dissertação: A matéria urbana forma-se pelo fio condutor da opinião, como transmissor de memórias, uma doxa urbana vagabunda, mutável, transportadora de pedaços, de recordações, tanto históricas, como pessoais, intimamente misturadas à escrita, à escuta, ao momento e aos costumes. Trata-se da matéria, esta forma móvel que é a cidade, noção que não encontra lugar na epistemologia da qual representa. No entendimento de Cauquelin, o contrário odioso, o elemento deformante do discurso transparente do conceito. Nesse sentido, as memórias constituem anamorficamente (formas sempre em mudança) o que denominamos a realidade da cidade e a opinião, como já foi dito, se torna o elemento necessário desta operação de mistura pela qual chegam até nós as condensações dos tempos, essas dobras, esses deslocamentos de nomes que provocam modificações sensíveis na percepção da cidade. (BRESCIANI, 1991, p. 13, primeiro grifo da autora, segundo grifo meu.) 59 Moradores de Belo Horizonte, não apenas os de Santa Tereza, constantemente reafirmam através do discurso as características acima mencionadas – tradicional, cultural, boêmio. Buscam, ainda, intensificá-las ao viver experiências no bairro que possam ser descritas como tradicionais, boêmias ou culturais, como frequência aos bares e botecos do bairro, aos eventos realizados na Praça Duque de Caxias, como shows gratuitos, carnaval e feiras gastronômicas, frequência às demais praças do bairro, ouvindo música, conversando e bebendo, numa clara demarcação do espaço público como local do encontro e da sociabilidade.60 59 BRESCIANI, Maria Stella. As Sete Portas da Cidade. Espaço e Debates: Revista de estudos regionais e urbanos, São Paulo, n. 34, p. 10-15. Ano XI, 1991. 60 Foram realizadas entrevistas com moradores do bairro e de outros, mas que frequentam o Santa Tereza, e conversas informais com pessoas nas ruas e bares durante as observações de campo. 64 Maria Eugênia, moradora do bairro há 15 anos, discorre um pouco sobre suas impressões: É um bairro diferente, parece interior. É escuro, a luz é diferente.. (...) Tem identidade, as pessoas têm identidade, são mais focadas no lado cultural. É um bairro cultural porque você convive com vários tipos de pessoas, tem o pessoal do teatro, do cinema. Olha pra você ver, hoje é segunda, isso aqui é uma mercearia, mas é um boteco! (Maria Eugênia, depoimento) 61 As memórias são transportadas de um sujeito a outro e fazem parte de Santa Tereza de maneira bastante complexa e profunda. Sejam elas vivenciadas, sejam somente ouvidas e repassadas, sejam individuais, familiares ou coletivas. Sendo assim, a opinião das pessoas é que conota e mantém as subjetividades do bairro, inteligíveis nos discursos que tratam das percepções sobre Santa Tereza pelas três características recorrentes (BRESCIANI, 1991). É imprescindível investigá-las um pouco mais, bem como as práticas que lhes dão sustentação Estão elas profundamente entrelaçadas à percepção dos sujeitos sobre o bairro e são partes do fundamento da valoração de Santa Tereza como patrimônio cultural da cidade de Belo Horizonte. Foi elencada como foco da pesquisa uma dessas particularidades, a boemia. Foi compreendida enquanto uma noção com o intuito de compreender a força de sua associação com o bairro e o significado do termo nessa associação, constantemente feita e reforçada pelo discurso de atores sociais das mais variadas origens – poder público, academia, mídia, populares. A boemia no bairro foi interpretada como prática social urbana associada à cultura e também como uma das tradições do bairro. 61 Maria Eugênia Silveira, moradora do bairro há 15 anos. Anotações de conversa em julho de 2015. A conversa aconteceu durante uma observação de campo e registros fotográficos no bairro Santa Tereza. Maria Eugênia e a irmã estavam passeando com seus cachorros e, curiosas com a pesquisa iniciaram uma conversa sobre o bairro e a vida ali. A conversa foi levada adiante pela autora e foi geradora de fonte para a pesquisa. 65 3 BOEMIA Nunca fui mais que um boêmio isolado, o que é um absurdo; ou um boêmio místico, o que é uma coisa impossível. Fernando Pessoa 3.1 Uma noção polissêmica É importante que fique claro qual o sentido de boemia quando essa noção é utilizada para se referir ao bairro Santa Tereza na esfera desta pesquisa e desta dissertação. Polissêmica, a palavra boemia admite diferentes interpretações e vem sendo empregada em contextos variados, tanto temporais quanto espaciais. Da origem da palavra à utilização atual no contexto do bairro, o que se mantém desde sua primeira acepção e o que foi incorporado relativamente às práticas posteriores até as contemporâneas (séculos XIX e XX)? A boemia é aqui entendida de duas maneiras: como uma noção que habita o imaginário coletivo, inclusive o imaginário belorizontino, forjada a partir de representações diversas examinadas a seguir; e representação e imagem urbana do bairro Santa Tereza, que tem como espaço de existência e símbolo atuais (entre meados da década de 1990 e o ano de 2016) principalmente os bares do bairro. A boemia está no plano da experiência, envolta em sentimentos, comportamentos e valores, a partir dos quais é possível caracterizá-la como prática cultural típica das cidades. Dicionários da língua portuguesa publicados nas décadas de 1950, 1980, 2000 e 2010 apresentam acepções similares do termo boemia. J. Mesquita de Carvalho (1957)62 define a boemia como vadiagem, vida airada, relativo ou natural da Boêmia, cigano, descuidado de si. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1986)63 também usa os termos vida airada e vadiagem para definir boemia, e ainda vida alegre, 62 CARVALHO, J. Mesquita de. Boêmia (bohemia). In: DICIONÁRIO prático da língua nacional. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1957. Pg 164-165 63 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Boemia; Boêmia; Boêmio. In: NOVO dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. Pg 268 66 despreocupada, desregrada, pândega, entre outros. Não ficam de fora as referências à região da Boêmia, aos artistas e à desambição. As duas obras mais recentes são de Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar (2001)64 e de Antônio Geraldo da Cunha (2010)65. A primeira inicia a definição por “roda de intelectuais, artistas, etc que leva a vida de modo edonista (sic), livre, bebendo e divertindo-se. A vida dessa roda ou vida semelhante que levam outras pessoas.” Dentre as quatro obras, é a que dá mais atenção ao vocábulo, insiste na associação do termo a práticas noturnas e em grupo e é a única a fazer referência ao consumo de bebidas alcoólicas. Os autores seguem com “vida de quem ama dormir a desoras, divertindo-se em grupo e ingerindo bebidas alcoólicas”. Há ainda as referências aos habitantes da Boêmia e também ao dialeto boêmio. Villar é mais sucinto e se refere àquele que é natural da Boêmia, a um certo tipo de capa ou capote e à vida desregrada, alegre e despreocupada. A origem dos significados da palavra boemia66, ou boêmia, trazidos acima, é derivada dos significados do termo francês bohéme ou bohémien, que, inicialmente, se referem aos habitantes da Boêmia, região situada na Europa Central. As primeiras referências escritas à Boêmia como um estilo de vida datam do século XIX, na França. No entanto, “há elementos universais e eternos na boemia, mas como fenômeno social definido e reconhecido ele pertence à era moderna: o mundo moldado pela Revolução Francesa e pelo crescimento da indústria moderna.” (SEIGEL, 1992, p.13, grifos meus)67 Jerrold Seigel (1992) fala das dificuldades em estabelecer os limites físicos dessa região e explora as imagens por ela evocadas para além de seu território, como a associação aos ciganos68, aos jovens artistas, àquelas pessoas sem residência ou trabalho fixo, de cotidiano incerto, gênios ou vigaristas, frequentadores da noite, um 64 HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Boemia; Boêmia; Boêmio. In: DICIONÁRIO Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. Pg 476 65 CUNHA, Antônio Geraldo da. Boêmio. In: DICIONÁRIO Etimológico da língua portuguesa. 4ª edição revisada e atualizada de acordo com a nova ortografia. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010. Pg 94 66 Por opção, será utilizada neste trabalho a grafia boemia, não acentuada, quando do emprego do substantivo, por ser esta a forma privilegiada de uso entre os falantes de nossa convivência. Boêmia ou boêmio são empregados enquanto adjetivos. 67 SEIGEL, Jerrold. Paris Boêmia. Cultura, Política e os limites da vida burguesa. 1830-1930. Porto Alegre: L&PM, 1992. 68 A palavra francesa bohémien se referia ao termo “cigano” por identificar, erroneamente, a província da Boêmia como local de origem dos ciganos, grupo associado ao estilo de vida descrito – sem residência fixa, composto por artistas, vadios, sonhadores. (SEIGEL, 1992) 67 microcosmo de talentos, segundo Honoré de Balzac – os bohémiens. Sem nunca ter sido uma condição social ou cultural objetiva, a prática da boemia aproxima-se da condição geográfica e social da Boêmia, região que passou por tentativas de definição não a partir dela mesma, mas daqueles que a experimentaram. Suas imagens foram exportadas mundo afora – para Paris, inicialmente – e os elementos evocados por elas ainda hoje são aqueles que permitem uma tentativa de definição da ideia da prática urbana da boemia. Como a intensa vida noturna, a produção artística e intelectual, o nomadismo, a vadiagem relacionada à falta de trabalho, ou aos momentos de folga, o consumo de bebidas alcoólicas e a sociabilidade dos e entre os indivíduos que a vivem. O trecho de Seigel é transcrito a seguir na tentativa de demonstrar que além da boemia não ter sido limitada às fronteiras físicas da região da Boêmia, tampouco pôde ou pode ser descrita por termos específicos, por tipos humanos determinados ou reunidos em grupos fechados. A boemia é uma prática percebida, nem sempre pelo sujeito da ação, mas muitas vezes atribuída pelo olhar do outro. Não há ação ou gesto capaz de ser identificado como boêmio que não possa também ter sido – ou não ter sido – realizado fora da Boêmia. Roupas extravagantes, cabelos longos, viver o momento, não ter residência fixa, liberdade sexual, entusiasmos políticos radicais, bebida, ingestão de drogas, padrões irregulares de trabalho, hábito de vida noturna – todos eram boêmios ou não, segundo a forma como eram encarados ou assumidos, boêmios em alguns momentos e não boêmios em outros. Os sinais externos na Boêmia eram importantes, mas nunca foram suficientes para a delimitação de suas fronteiras. (SEIGEL, 1992, p. 20, grifos meus) Diversos sujeitos, de diferentes origens sociais, idades e aspirações, dividem o mesmo espaço urbano na prática da boemia no contexto atual. No entanto, a vida boêmia foi hostilizada e mal vista quando da ascensão da classe burguesa na Paris do século XIX. Enquanto o burguês era visto como o sujeito de vida segura, que se mantinha por meio de um trabalho regular e tradicional e, aparentemente, não possuía dívidas, a representação do ser boêmio ligava-o às artes, a não possuir trabalho regular e passar as noites em animadas conversas e acalorados debates políticos nos cafés da cidade. A burguesia era associada ao Classicismo e, “em contraste, a boemia estaria associada a uma série de formas culturais – o Romantismo, a primeira delas – autoconscientemente separadas da academia e do classicismo.” (SEIGEL, 1992, p. 68 16 e 17). O movimento romântico floresce na década de 1820 como reação política e inovação cultural à Monarquia Bourbon, rígida e reacionária, politicamente conservadora. (SEIGEL, 1992) A conexão entre os bohémiens de Paris e os românticos fazia-se e a dualidade estava posta entre eles e a burguesia. O Romantismo69 na França esteve profundamente ligado à política e os intelectuais do movimento expressavam sua oposição à tradição e à moralidade através de um “comportamento público teatral” (SEIGEL, 1992), expresso no costume de usar barbas longas, beber até altas horas da madrugada nos cafés, em seus textos e peças de teatro, poesias e discussões políticas. Segundo Seigel (1992), o escritor e dramaturgo Félix Pyat descreve esses costumes como um “artistismo” vigente e associa os artistas modernos aos habitantes da Boêmia. Outro elo entre Romantismo e boemia, e que também afasta ambos da burguesia, é o interesse do movimento romântico pelo diferente e pelo exótico, pela natureza humana em níveis que a organização social e a razão não poderiam alcançar. Na Paris do século XIX, a quantidade de pessoas, principalmente imigrantes, alocadas em trabalhos mal remunerados, desempregadas, à margem da cidade e da vida social da sociedade industrializada, vivendo em lugares insalubres e rodeados por doenças assustava a burguesia enriquecida. Essa vida era constantemente associada à criminalidade e a classe baixa era vista como perigosa pelos burgueses. Mas a imaginação romântica era atraída pela novidade desse estilo de vida incerto, envolta em incertezas e promessas de grande produtividade artística e cultural. “Como a Boêmia artística, o submundo urbano atraía os de fora, ansiosos por explorar as possibilidades humanas que em nenhum outro local haviam emergido”. (SEIGEL, 1992, p. 31) Burgueses não deixaram também de se apropriar, ainda que por vezes discreta ou minimamente, do estilo de vida romântico tido como marginal, numa tentativa de dramatizar a dualidade desses dois “destinos sociais” – a certeza e a incerteza, a moralidade e os prazeres da vida. (SEIGEL, 1992) A atração e o estigma social ficaram atrelados à boemia. 69 Importante salientar que o Romantismo foi um movimento extenso em tempo e território e que o melhor seria falar em vários movimentos Românticos. Sendo assim, a diversidade de sujeitos caracterizados como românticos é alta. No contexto desta pesquisa, é interessante pensar em figuras românticas como os poetas Lorde Byron e Charles Baudelaire. 69 Em ensaio, Walter Benjamin (1985)70 traz a boemia do século XIX de forma mais complexa e menos dicotômica em relação à burguesia. É colocada como uma esfera em que se concentravam conspiradores profissionais, segundo Marx. Nesse rol de pessoas estavam incluídos operários ligados à política e os líderes da militância, que poderiam ser encontrados sempre nas tabernas de vinhos. “(...) classificam esses homens naquele círculo de vida que em Paris se chama de la bohéme”. (MARX, 1850, apud BENJAMIN, 1985, p. 45) É nesse sentido que Benjamin associa a discussão a Baudelaire, analisado pelo autor como figura semelhante a esse tipo conspiracionista. A narrativa continua e mescla Baudelaire a um debate acerca da ascensão de Napoleão, que estaria ligada às práticas e aos homens considerados como parte do submundo boêmio. Ambos, a obra e vida de Baudelaire e o poder de Napoleão, estão repletos de conspirações, conchavos, ironias e sujeitos da boemia. Quanto à oposição entre boemia e burguesia, Benjamin aponta constantes contradições nos textos de Baudelaire, que ora aparece como porta voz dos burgeois (burgueses) e dedica seus escritos a eles, ora os compara aos “bohémiens mais foribundos”. A boemia é um fenômeno e uma prática social pertencente à modernidade, como afirma Jerrold Seigel (1992). Em contextos recentes e com recortes empíricos mais precisos, a palavra boemia é apropriada para evocar “repertórios simbólicos liminares” (Featherstone, 1995, p. 113) e uma certa áurea romântica e idealizada. Reapropriações e ressignificações continuam a ser produzidas ao sabor dos segmentos sociais em seu tempo-espaço específicos. No Brasil, estudos históricos sobre o final do século XIX e início do século XX trazem referências semelhantes às análises sobre o contexto europeu, nas quais se insere a discussão sobre o lazer popular e não apenas o universo dos literatos (...) Outros estudos enfocam as práticas e representações chamadas de boemia, em capítulos de pesquisa cuja problemática central não é a boemia. (...) A imagem da boemia, no Brasil, está fortemente associada a esse universo carioca e suas personagens famosas, como Noel Rosa (...) fato que não pode ofuscar a presença de outros referentes e práticas atribuídos à boemia em distintas regiões e cidades do país. (SILVA, 2012, p. 20 e 21). Podemos afirmar que um dos únicos consensos em torno do tema da boemia é que, apesar de haver uma grande variedade no que diz respeito aos indivíduos, espaços 70 BENJAMIN, Walter. A Paris do Segundo Império em Baudelaire - Boêmia. In: Walter Benjamin. Sociologia. Organização de Flavio R. Kothe. Coordenação de Florestan Fernandes. São Paulo: Editora Ática, 1985. 70 e práticas referidos como boêmios, o lazer noturno como prática está sempre relacionado a ela. No contexto brasileiro, Mônica Pimenta Velloso (2000)71 discute a consolidação do universo moderno em paralelo à intelectualidade boêmia a partir dos cafés cariocas de princípios do século XX, espaços de discussões políticas e de ideias sociais. O momento discutido por ela é o do industrialismo em florescimento no Brasil, cerca de um século depois do momento abordado por Seigel (1992). O projeto oficial republicano estava em pleno desenvolvimento e em busca por afirmação, privilegiando a elite (burguesia) industrial que forçava seus ideais de progresso e modernidade ao cotidiano das cidades. Exemplos aplicados desses ideais são a reforma de Pereira Passos no Rio de Janeiro, baseada em um projeto de sanitarismo e regeneração do espaço urbano, e a própria construção de Belo Horizonte, pautada sobre um plano de cidade cujo traçado cartesiano demonstra os valores republicanos de progresso e ordenamento tão caros à elite construtora da nova capital. Nesse conjunto de valores, assim como no Rio de Janeiro, os cafés ao estilo parisiense não ficaram de fora. Anny Jackeline Silveira (1996)72 nos apresenta um breve panorama do que antecede o que viria a ser um dos estilos de vida boêmio de Belo Horizonte no início de sua história: Casas de café não faltaram àquela jovem capital dos anos dez e vinte. Afinal, uma cidade que se queria moderna e cosmopolita, como estampavam as plantas e discursos dos responsáveis por sua construção, não poderia dispensar a presença desse tipo de casa comercial, vista por muitos homens da época como verdadeiro símbolo de refinamento e civilização social. A bem da verdade, os cafés não eram mencionados pelos idealizadores da nova cidade. Para o lazer público eles haviam destinado avenidas, prados de corridas, praças, teatro, e um amplo parque. Porém, os homens que acompanharam a faina cotidiana para o cumprimento do decreto de transferência da capital desde sempre apontavam a necessidade da abertura de estabelecimentos do gênero, a fim de lhe dar vida, movimento, ares de uma grande cidade. (SILVEIRA, 1996, p. 120 e 121) 71 VELLOSO, Mônica Pimenta. Os Cafés como espaço da moderna sociabilidade. In LOPES, Antonio Herculano (org.) Entre Europa e África: a invenção do carioca. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2000. 72 SILVEIRA, Anny Jackeline Torres. O sonho de uma petite Paris: os cafés no cotidiano da capital. In: DUTRA, Eliana de Freitas (org.) BH: Horizontes Históricos. Belo Horizonte: C/Arte, 1996. 71 Maria Izilda de Matos (1998)73 traz uma noção ampliada dos tipos boêmios e, portanto, da boemia ao colocar uma diversidade maior de sujeitos como aqueles que a vivem, para além de intelectuais, artistas e os afeitos às discussões políticas. Tipos de diversas classes sociais, idades e aspirações seriam aqueles que viviam a boemia carioca da década de 1940, alguns “autorizados” a tal prática e outros estigmatizados no imaginário social da época, ambos buscando escapes do cotidiano social diurno. Esse último era o frequentador do botequim e foi considerado boêmio posteriormente, quando o botequim passa de elemento urbano perseguido e estigmatizado a popular e celebrado no discurso carioca (MELLO; SEBADELHE, 2015)74. Segundo Paulo Thiago Mello e Zé Octávio Sebadelhe, o botequim possui vocação boêmia, afirmação feita, provavelmente, em função da sociabilidade que acontece nesses lugares e do consumo de bebidas alcoólicas, dois dos elementos geradores da noção de boemia. Molar e Saad (2012) nos lembram ainda que A boêmia, seja como noção e/ou prática, não deve ser concebida, ou melhor, reduzida ao âmbito de resistência da modernidade ou aos imperativos desta, pois, desembocar-se-ia a um reducionismo político de uma arte de viver em gozos e nas camaradagens das noites perdidas e ganhas. Boêmia para além de abstrações teóricas é um jeito vivido, expresso nas delongas de umas bebedeiras, das prosas, das cantigas e canções – a constituição de um universo paralelo distinto e que, em alguns momentos, conjuga-se à turbulenta modernidade dos dias de trabalho. (MOLAR; SAAD, 2012, p. 129, grifos meus) A boemia pode estar, portanto, vinculada ao ambiente do bar de hoje e de outrora, este como “espaço socialmente fechado, mas em relação com a estrutura social mais ampla” (SILVA, 2012, p.19) e que congrega pessoas diferentes, porém com interesses comuns. Interesses de se pensar a cidade e, acima de tudo, de ter momentos de sociabilidade no cotidiano daqueles que a vivem. De maneira mais generalizada, boemia e bar foram colocados, lado a lado, em contraposição ao cotidiano diurno das normas sociais e, principalmente, do trabalho. 73 MATOS, Maria Izilda S. de. Copacabana: cotidiano e boêmia. In MATOS, Maria Izilda S. de e SOLLER, Maria Angélica (orgs.) O Imaginário em Debate. São Paulo: Editora Olho D´agua, 1998. 74 MELLO, Paulo Thiago; SEBADELHE, Zé Octávio. Memória afetiva do botequim carioca. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015. 72 Em Fortaleza, a palavra boemia recebeu, recentemente, usos diversos, seja na apropriação feita por meus interlocutores, seja nos discursos oficiais e na imprensa, quando matérias jornalísticas fazem alusão a determinadas áreas da cidade, definidas como “redutos boêmios”. É o caso do tratamento dado ao bairro da Praia de Iracema. Associa-se, nesse sentido, boemia ao patrimônio cultural, ao bairro tradicional, à intelectualidade, ao campo artístico. Utiliza-se a palavra boemia para legitimar propostas de recuperação urbana, tornando-se objeto de discursos e exploração de uma imagem que se deseja construir sobre a cidade. Logo, a boemia é polissêmica, histórica e dinâmica. (SILVA, 2012, p. 26) Daniela Costa da Silva expõe uma imagem da boemia de Fortaleza, mais especificamente do bairro da Praia de Iracema, muito semelhante àquela construída sobre o bairro Santa Tereza. Ao longo do texto essas semelhanças serão expostas, sendo a primeira delas, a proximidade com a imagem de tradicionalismo. A seguir, será mostrado ainda como boemia e patrimônio cultural estão correlacionados no bairro. Por ora, esclarecendo qual o sentido de boemia quando essa noção é utilizada para se referir ao bairro Santa Tereza na esfera desta pesquisa e desta dissertação, colocação que abre o presente capítulo, ela é compreendida por nós como imagem e prática urbana do bairro que se dá, atualmente, em seus bares. A grande quantidade desses estabelecimentos, como veremos a seguir, confere ao bairro vida noturna movimentada acompanhada do consumo de bebidas alcoólicas e ainda altos níveis de sociabilidade nesses ambientes que estão contrapostos aos lugares associados ao trabalho no cotidiano dos frequentadores. É possível, então, retomar esses elementos associados à noção de boemia desde suas primeiras acepções e percebê-los na vida do bairro, corroborando com sua compreensão enquanto boêmio. 3.2 O tripé Tradição-Cultura-Boemia em Santa Tereza Foi possível traçar uma interpretação da história, uma leitura da noção de boemia quando utilizada em referência ao bairro Santa Tereza. Para tanto, é pertinente que se amplie um pouco o cenário sobre da pesquisa – o bairro – para que se possa retornar adequadamente ao tema específico da boemia. 73 No livro Palavras da Cidade75, Maria Stella Bresciani (2001) organiza diversos textos de autores das mais variadas áreas do conhecimento em uma proposta de pensar a cidade e temas a ela relacionados por meio da linguagem codificada em palavras. É interessante pensar nas palavras e termos da língua como formas de representações que evidenciam escolhas, positivas ou pejorativas, e imagens que se desejam ter de determinado lugar dentro da cidade. A força da palavra pode ser homogeneizante, diversificadora e até mesmo o início de um estigma a ser enfrentado durante muito tempo. No caso de Santa Tereza, as palavras tradição, cultura e boemia carregam em si significados específicos. Dando maior ênfase à boemia no bairro, esta foi interpretada no âmbito desta pesquisa como uma imagem e uma prática social urbana associada à cultura e também como uma das tradições de Santa Tereza. A atribuição de bairro tradicional é entendida aqui como associação ao modo de vida interiorano contraposto ao urbano, no qual se destacam alguns pontos. As incursões em campo e a observação dos estilos das construções demonstraram que o bairro conserva uma parte significativa do casario das décadas de 1930 a 1960. O comércio local é, geralmente, de pequeno porte, inclusive os bares, botequins e restaurantes; muitos dos proprietários são também moradores do bairro. As diferentes associações presentes em Santa Tereza demonstram a organização social e a proximidade entre alguns habitantes, além do interesse pelas questões sensíveis ao bairro, como a Associação Comunitária do Bairro Santa Tereza, o Movimento Salve Santa Tereza e a Associação dos Bares e Restaurantes de Santa Tereza. A Praça Duque de Caxias é percebida como ponto central e de encontro pelos moradores, na maioria das vezes associada à igreja matriz católica, que tem forte presença no bairro, ao Colégio Tiradentes e ao Bar e restaurante Bolão, o Rei do Espaguete, todos em volta da Praça. (CASTRIOTA; SOUSA, 2011)76 A imagem de uma população que mantém laços estreitos de vizinhança é constantemente evocada tendo como pano de fundo os atributos supracitados, podendo ser percebida em uma breve caminhada por suas ruas, de dia ou à noite. O 75 BRESCIANI, Maria Stella (org.). Palavras da Cidade. Porto Alegre: UFRGS, 2001. 76 CASTRIOTA, Leonardo Barci; SOUSA, Vilmar Pereira de. Identidade e lugar num bairro de periferia: o “símbolo do meu bairro”. In: ENCONTRO NACIONAL DA ANPUR, 14., 2011. Maio de 2011. Anais... Rio de Janeiro: ANPUR, 2011. 74 modo de vida interiorano de um bairro inserido em uma das maiores metrópoles brasileiras remete às abordagens de alguns autores. Simmel (1973)77 interpreta o conceito de tradição como sendo esta uma oposição ao modo de vida moderno e às relações de impessoalidade entre os indivíduos, ambos característicos do cotidiano da cidade contemporânea. No entanto, não são tratados como excludentes, notando-se sua complementaridade na influência que a tradição exerce sobre os modos de vida dos habitantes urbanos – aqueles que predominavam entre as pessoas que outrora habitavam o campo não são completamente eliminados uma vez vivendo na cidade. Leonardo Barci Castriota (2009)78 faz uma discussão interessante a respeito de tradição e modernidade, relacionando os dois conceitos entre si e também com o tempo – passado, presente e futuro. Quanto ao primeiro, o autor afirma haver uma dinâmica centrada principalmente na permanência, com mudanças tímidas e lentas, porém existentes. Processos de transformação marcam a tradição, não sendo esta, pois, estática ou definitiva. A tradição poderia ser entendida como uma reinterpretação do passado com marcas do presente, o que a estaria pré-moldando para um futuro próximo. Este, por sua vez, constantemente associado à modernidade, na qual as mudanças são rápidas e a lógica da substituição é imperativa79. Para Eric Hobsbawn (1984, p. 9)80, “muitas vezes, ‘tradições’ que parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes, quando não são inventadas”. O autor trata do fenômeno da “invenção das tradições” 81como um campo interdisciplinar e que ainda carece de estudos mais adequados, talvez por esse motivo seja tão difícil estabelecer tais diferenças. Ele ainda o relaciona com a modernidade e a relação temporal entre passado, presente e futuro, discussão feita por Castriota (2009) duas 77 SIMMEL, Geog. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio Guilherme. O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973. 78 CASTRIOTA, Leonardo Barci. Patrimônio Cultural: conceitos, políticas, instrumentos. São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: IEDS, 2009. 79 O autor trata a modernidade como uma ideia controversa, de difícil definição conceitual e delimitação cronológica. 80 HOBSBAWN, Eric J. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. 81 “Por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas, normalmente regulada por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado.” (HOBSBAWN, 1984, p. 9) 75 décadas depois de Hobsbawn. As mudanças características do mundo moderno contrastam com a necessidade e a vontade humanas de manter alguns aspectos da vida social invariáveis, demonstrando seu desejo de se manter conectado com um passado, nem sempre distante, mesmo que de forma artificial ou “inventada”. A atribuição de Santa Tereza como bairro cultural se relaciona à compreensão, no contexto da pesquisa, do que vem a ser um ambiente boêmio. Essa atribuição pode ser relacionada aos blocos carnavalescos, clubes, aos movimentos musicais que ancoram no bairro fortes referências históricas e inspirações, e também ao perfil dos moradores: (...) muitos moradores antigos, estudantes universitários, professores, artistas plásticos, músicos, ceramistas, poetas, etc 82 , Santa Tereza conformou-se, assim, como um bairro predominantemente residencial, evidenciando-se no contexto sócio-espacial de Belo Horizonte pela sua vida boêmia, carnavalesca e artística. (BAGGIO, 2005, p. 155 e 156, grifos do autor). Desde a década de 1920, antes ainda do reconhecimento como bairro, os encontros dos moradores em saraus nas casas de famílias eram frequentes, bem como os bailes entre os jovens, as reuniões teatrais e discussões artísticas. Em 1929 foi fundado pelo já falecido Sr. Manoel Teixeira o Clube Recreativo Santa Tereza, o primeiro do bairro (FROTA et al, 1990)83. Eram realizados ensaios, peças amadoras, promovidos bailes de carnaval, reuniões intelectuais e palestras em um local especificamente designado para tais atividades na Rua Norita, 32. Este clube funcionou por seis anos e o Sr. Manoel, junto com alguns amigos, fundou outro clube em 1947, o Clube Ideal de teatro amador. O Ideal manteve as mesmas características do clube anterior, se firmando no bairro ao longo das décadas. Na ocasião da entrevista concedida a Maria Guiomar da Cunha Frota, Manoel Teixeira 82 Cumpre observar, acerca disso, que a literatura sobre valorização do espaço, que atravessa a geografia econômica, fala dessa presença social “alternativa” que tem “certa cultura” e pode ser intermediária – no tempo da capitalização possível – de outros usos e moradores. David Ley fala de “pioneiros que redefinem as características do bairro em que se instalam, e, juntamente com a especial atenção dedicada pela mídia e pelo setor imobiliário, preparam o terreno para uma posterior chegada dos membros da classe média abastada, (...) os possíveis pioneiros são excluídos pelos altos preços residenciais e, inclusive, o ambiente do bairro volta a mudar em relação àquele imposto pelos pioneiros.” LEY, David. The new middle class and the remaking of the central city. Oxford. University Press, Oxford, 1996, apud RIGOL, Sergi Martinez i. A gentrification: conceito e método. In: CARLOS, Ana Fani A. & Carreras, Carles. Urbanização e mundialização – estudos sobre a metrópole. São Paulo: Contexto, 2005. p. 98-121, citação: p. 116. 83 FROTA, Maria Guiomar da Cunha; NEVES, Reinaldo; outros. Entrevista concedida por Manoel Teixeira sobre o Teatro Clube Ideal no bairro Santa Tereza, Belo Horizonte. Belo Horizonte, Maio de 1990. 76 afirmou que o Ideal era um “centro cultural. Centro de cultura, educação e lazer. Que é a síntese do teatro”. (FROTA et. al., 1990, p. 5). Em 1965 é inaugurado o Oásis Clube, presente no bairro até os dias de hoje e ainda um importante espaço de reunião da comunidade para lazer e entretenimento em suas áreas de piscina e quadra e também na realização de festas, bailes e discussões públicas em suas dependências sociais (GÓES, 2014). Os bailes carnavalescos eram promovidos em clubes do bairro, como o Recreativo, o Ideal e o Oásis, além da Mi-Carême84, que acontecia “no primeiro quarteirão da Rua Mármore, entre as Ruas Gabro e HermiIlo Alves, com grande participação dos jovens do bairro." (GÓES, 1998, p. 20)85. Os primeiros blocos carnavalescos, também se tornaram muito populares. Isso talvez não interesse, mas nós fizemos a 1ª Rainha do carnaval de Belo Horizonte. Com eleição e tudo lá no Diretório Central dos Estudantes. As candidatas eram estudantes. A nossa candidata era a Elza (...) Essa passagem se deu ainda no Clube Recreativo. Naquela época já tinha bloco de carnaval aqui em Santa Tereza. No nosso clube tinha batalha de confetes. A banda de música ia também para o coreto da praça no carnaval. Acho que naquela época o bloco ainda não tinha nome. (FROTA et. al., 1990) Um desses blocos, o “Eu Não Rapo Nada”, chegou a ter cento e vinte integrantes, que desfilavam até o centro de Belo Horizonte tocando diversos instrumentos. No final da década de 1960 e início da década de 1970, vários outros blocos carnavalescos se originaram em Santa Tereza, como “Os Inocentes”, “Satã e Seus Asseclas” e “A Banda Santa”. (PEREIRA; TICLE, 2014)86 Outros surgiram depois, como podemos atestar pelo seguinte trecho da entrevista realizada com Walmir, proprietário do Bar do Walmir, Cacá Fortini, assíduo frequentado do Bar do Walmir, morador e músico do bairro, e Carlos Alberto, também morador87: 84 Celebração de origem francesa que encontra-se fora do período de carnaval tradicional. Ver “The Origins of the Mi-Carême”. Le Centre de la Mi-Carême. Disponível em: http://micareme.ca/en/the-origins-of-the-mi-careme.html. Acesso: 10 jul. de 2014. 85 GÓES, Luis. Bairro de Santa Tereza, 100 anos. Belo Horizonte: Luis Góes, 1998. 86 PEREIRA, Ana Beatriz Mascarenhas; TICLE, Maria Letícia Silva. Palimpsesto Urbano: camadas da paisagem cultural de Santa Tereza. In: COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO, 3., 2014, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte: IEDS; MACPS; IPHAN, 2014. 87 Entrevista concedida em outubro de 2015. 77 Cacá: Aqui no bairro já teve quatro blocos caricatos. Não, cinco. Atualmente tem dois só. Carlos: Aqui teve dois dos melhores de Belo Horizonte, né? Satã e Inocentes. Cacá: E o terceiro, Iluminados, que era o meu. É, era bacana essa época. A gente fundou o bloco em 90 [1990], era bacana que os dois melhores eram aqui de Santa Tereza, Inocentes e Iluminados. Autora: Mas hoje eles não saem mais? Cacá: O Iluminados acabou, o Inocentes ainda sai. Mas a história é a seguinte: [em] 1990 o Pimenta da Veiga encerrou o carnaval de Belo Horizonte, ficou dez anos parado. E aquela reciclagem com os meninos de doze, treze anos que iam pros ensaios pra assistir, pra aprender e entrar no bloco, por ficar dez anos parado, isso também parou. Então isso é muito difícil. Antigamente os blocos enchiam com oitenta, noventa componentes tocando. Hoje pra arrumar trinta é uma luta e mesmo assim tem que pôr os velhos igual eu no meio. Autora: Mas hoje sai é o Inocentes? Cacá: Aqui do bairro é, mas tem outros blocos. Carlos: Ah, mas Inocentes acabou também, né? Cacá: É, não é a mesma coisa... Esse nosso bloco, que era meu e do meu irmão, Iluminados, tinha oitenta componentes tocando e se deixasse saía trezentas pessoas. Hoje pra arrumar oitenta pra desfilar é uma luta, tem que catar... É muito difícil. (...) (Cacá e Carlos Alberto, entrevista) Além do teatro e do carnaval, o lado cultural de Santa Tereza tem outra vertente muito conhecida. Na década de 1960, despontou o movimento musical “Clube da Esquina”, de grande repercussão nacional e internacional. Luiz Henrique Assis Garcia analisa a fala de Lô Borges, um de seus integrantes, acerca do Clube da Esquina, de Santa Tereza e da relação entre ambos como referência de cultura e sociabilidade: Como ponto de referência dentro do bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, o Clube da Esquina não passava de “(...) um pedaço de calçada e um simples meio-fio, onde os adolescentes da rua (...) costumavam vadiar, tocar violão, ficar de bobeira (...)” (BORGES, 1996, p. 167). Para Lô Borges, a “esquina” era o “lugar onde acontecia de tudo: música, futebol, peladas homéricas”, um lugar “democrático”. Reparemos como a fala de Lô enuncia expressamente situações de sociabilidade. Um recente depoimento de Marilton Borges, irmão mais velho de Lô e Márcio, ressalta que o bairro permaneceu como reduto da boêmia e das tradições musicais, da seresta, do choro. (GARCIA, 2006, p. 174) 88 88 GARCIA, Luiz Henrique Assis. Na esquina do mundo: trocas culturais na música popular brasileira através da obra do Clube da Esquina (1960-1980). 2006. 288f. Tese (Doutorado) – UFMG, Departamento de História da Faculdade Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2006. 78 Ainda sobre o Clube da Esquina, Luís Góes, em entrevista concedida à autora e à pesquisadora Ana Beatriz Mascarenhas89, faz um breve relato da trajetória do grupo musical e da criação em torno do “mito” do bairro como sendo cultural e boêmio. Mas o Clube da Esquina é assim, é uma coisa impressionante. Eu tenho uma entrevista do Salomão Borges [pai de Lô Borges] (...) Tem uma hora que ele conta que teve um grande guitarrista inglês, diz que é uma banda, assim um trem de doido! Ele esteve aqui, esteve lá na esquina, depois foi lá na casa do seu Salomão e virou e falou assim: “olha, a mesma sensação que eu tive no Cavern Club 90 eu tive aqui, onde está essa esquina aqui”. Você pensa bem, de tão importante! Ele falou: “aqui é tão importante como o Cavern Club”. (...) A família Borges morou aqui, depois mudou para o edifício na Rua São Paulo (...). E lá ele ficou conhecendo os meninos, que já tocavam, o Lô, etc, o Marilton. (...) Quando eles vieram pra Santa Tereza, na Rua Divinópolis ali, 127, se não me engano, ou 227, a casa tá lá até hoje (...) Então, quando eles vieram para cá, foram para a casa deles para tocar. A dona Maria, que é a mulher do Salomão, ela dava aula pros menininhos. Ela dava aula infantil pros meninos de jardim, é uma escolinha que ela tinha. E os meninos queriam tocar lá e ela falou: “aqui não, gente, vai lá pra esquina, sai daqui, vocês estão me atrapalhando”. Ai eles foram pra lá e começaram a tocar na esquina. E eles apelidaram de Clube, o Clube da Esquina. E ai continuou. E o Lô, tá nessa entrevista do Salomão, o Lô contando o que aconteceu com ele e com o Milton, que o Márcio tinha feito uma música e o Lô tinha musicado, e aí chamou o Milton e falou: “ô Milton”, o Milton falou “uai, vamos fazer isso aqui!” “eu que não sou besta, é claro que eu fiz”. Ele conta mesmo assim, que o Milton queria gravar. Então, aí começa essa história da música deslanchar, do Clube da Esquina deslanchar, através disso (...). O Lô contando como é que é, quem participava, né? “Não, aqui de Santa Tereza ninguém participou porque o pessoal aqui não era de música, o único que participou é o Amaury, que morava do lado, mas o Amaury nunca mexia com música, então acabou não se envolvendo”. (...) É muito legal, aÍ o mito todo por causa do Milton Nascimento, porque ele subiu e ficou conhecido mundialmente, e aí o Clube caminhou junto, né? (Góes, entrevista) Na tese de Silva (2012), a autora menciona o grupo Pessoal do Ceará e lhe confere importância e representatividade para o tema de sua pesquisa, apesar de não ter o grupo como seu enfoque, ela o considera como um importante movimento que “fez parte do quadro e da cena cultural e política do estilo de vida boêmio.” (SILVA, 2012, p. 89, grifos da autora). O mesmo acontece com o Clube da Esquina no âmbito deste trabalho. Apesar de não ser o foco, não poderia deixar de ser mencionado, ainda que brevemente, como expoente e um dos fatos geradores para que a imagem de boêmio e cultural do bairro fosse construída e consolidada. 89 Entrevista concedida em 17 de fevereiro de 2016. 90 Cavern Club é um pub localizado na cidade de Liverpool, no Reino Unido, que ficou mundialmente conhecido por ter sido o local onde o grupo de rock’n’roll The Beatles iniciou sua carreira em1961. 79 Góes continua discorrendo sobre o tema da cultura e da musicalidade constantemente associadas ao bairro, muitas vezes também com alusões às bandas Skank e Sepultura, que têm o Santa Tereza como parte de sua história, seja como local de nascimento e criação de alguns integrantes ou de ensaio para as bandas. O jornalista afirma que da perspectiva em que ele enxerga a história do bairro, o fato de esses grupos de projeção nacional e internacional possuírem como origem comum Santa Tereza, não significa que haja uma predisposição para a cultura no bairro. São apenas coincidências. Como visto acima, Santa Tereza é mencionado como celeiro de manifestações culturais – “para além das práticas sociais ancoradas nos movimentos culturais, (...) Santa Tereza respira um ar cultural” (SOUZA; CAJAZEIRO, 2012, p. 114). Nota-se que a associação que se faz do bairro como sendo um lugar cultural evoca uma ideia de cultura que tem mais a ver com a reunião de pessoas em torno de eventos e práticas de lazer populares (carnaval, grupos de teatro, clubes recreativos, música popular) e não eruditas. A cultura que “está no ar” de Santa Tereza é aquela das manifestações urbanas que não se encaixam no dia-a-dia padrão da metrópole, cujo ritmo obedece ao trabalho, ao capital, às atividades mais pragmáticas. 3.3 Genealogia da Boemia em Santa Tereza Se formos considerar as acepções mais tradicionais ou clássicas do que vem a ser boemia, quais sejam as primeiras, que fazem referência aos indivíduos marginais socialmente, artistas e conspiradores da Paris bohèmien do século XIX; ou ainda a ideia de boemia carioca, tão associada ao samba, ao botequim característico da cidade do Rio de Janeiro e ao estilo de vida de um tipo conhecido como malandro, não diríamos que o bairro Santa Tereza possui tradição boêmia. Eliza Peixoto, por exemplo, não percebe o bairro como boêmio e diz que esse discurso sobre a boemia não passa apenas disso, de uma expressão construída e retroalimentada pela mídia, incorporada e repetida pela comunidade. Eu acho que não existe isso [a boemia]. Ter bar não significa que é boemia, não. Para mim boemia significa o que? Tá, não sei se eu estou correta, não. Para mim significa, por exemplo, a Confraria [Confraria São Gonçalo] é uma boemia. O pessoal reúne pra tomar cerveja e pra cantar, isso pra mim é boemia. O Godofredo [antigo bar onde hoje funciona o Bar Museu Clube da Esquina, na Rua Paraisópolis, 738], ali eu acho que é boemia, que tem uma música, o pessoal vai lá pra ouvir música, cantar. A maioria dos bares aqui 80 não tem música, se você for olhar. Aí tem é restaurante, não tem música, é até meio sofisticado, igual o Santa Pizza, a Pizzaria do Cardoso, o próprio Bar do Bolão não tem música. Boemia pra mim, me lembra isso, entendeu? Alguém com violão na mão. Tem alguns pontos, mas ele não é totalmente boêmio [o bairro]. (Eliza, entrevista) Apesar de não considerar o bairro boêmio quando questionada quanto a isso, Eliza rapidamente associa essa denominação à grande quantidade de bares. José Maria Rocha91, mais conhecido como Bolão, morador do bairro Santa Tereza há sessenta e um anos e que esteve à frente do Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete, por cerca de cinquenta, também não enxerga o bairro como boêmio. Pra mim, aqui não é boêmio, nada. O povo fala isso porque tem muito bar, mas boêmio era o centro, aquelas áreas (...) bom, onde tinha mulheres... Isso que é boemia, o baixo meretrício, era uma coisa bonita até, aqueles lugares que a gente ia quando rapaz, quando era novo! Mas aqui não, aqui não tem nada de boêmio. (Bolão, entrevista) A fala de Bolão revela as romantizações e idealizações que envolvem a boemia, pois ainda que ele a relacione a práticas de prostituição e exploração sexual de mulheres, afirma que havia beleza nesse tempo e nesse espaço que não existem mais. A nostalgia está presente em sua rememoração e na negação de que possa haver boemia em um bairro que “tem muito bar.”. No entanto, a noção de boemia é múltipla e cabem nela variadas interpretações e até mesmo representações. Comum a praticamente todas elas é o papel central da noite, da vida noturna fora de casa, na rua e em locais específicos de envolvimento social e de lazer, além da musicalidade. Comum ainda é a alusão ao consumo de bebidas alcoólicas como parte desses momentos noturnos de sociabilidade e diversão92. Temos, portanto, elementos que estão presentes no cotidiano de Santa Tereza – vida noturna movimentada com consumo de bebidas alcoólicas e certa musicalidade. 91 José Maria Rocha, o Bolão, 66 anos, aposentado, morador do bairro Santa Tereza desde o nascimento. Entrevista concedida em março de 2016. 92 Na Paris bohèmien os cafés eram locais de encontro e bebidas como vinho, conhaque, absinto eram bastante consumidas; no Rio de Janeiro, os botequins e casas de samba são os locais privilegiados da boemia, servindo cervejas e chopes para consumo dos frequentadores. 81 No bairro, esses elementos estão conjugados nos mais de setenta estabelecimentos que hoje estão em funcionamento e são abertos aos fregueses diariamente93. Consideramos que eles são, no momento histórico de realização desta pesquisa, o suporte do discurso e da imagem boêmia do bairro, que eles são, hoje, o suporte da boemia como cultura urbana e tradição de Santa Tereza. São símbolos da boemia. Mas nem sempre foi dessa forma. A boemia é, indiscutivelmente, um dos elementos do tripé formado pelas características tidas como essenciais do bairro Santa Tereza, uma de suas três particularidades mais marcantes e reforçadas, ao lado de tradicional e cultural. Já foi citada por Marilton Borges, e integra esse ar de Santa Tereza que, Segundo Luis Góes: (...) é um bairro que tem muitos botequins, bares, restaurantes, casas de shows e até serestas. Esta tradição é bem antiga e vem do tempo em que a região ainda era habitada pelos colonos estrangeiros e brasileiros que aqui viveram. Na ex-colônia Américo Werneck, que foi o princípio da formação do bairro, no final do século passado e princípio deste [séculos XIX e XX], existiram botequins que serviam a comunidade mas não podiam vender bebidas alcoólicas, pelo regulamento vigente na colônia. Depois vieram os pequenos comércios, na década de 1910, quando a região ainda não tinha ruas mas apenas estreitos caminhos e “picadas” no mato. (GÓES, 19--, p. 75) Apesar de afirmar que a tradição de bares e restaurantes é bem antiga em Santa Tereza, desde os tempos da colônia agrícola, devemos ter cautela ao reproduzir o discurso de que a imagem de boemia no bairro existe desde seus primórdios. A pesquisa documental demonstrou que o epíteto de bairro boêmio começou a ser difundido na década de 1970 nos jornais em circulação na cidade e não estava relacionado diretamente aos bares, mas antes à seresta. Em entrevista posterior à publicação do trecho acima, o próprio Luís Góes discorre sobre a “alcunha de bairro boêmio” que leva Santa Tereza e não atribui sua utilização, inicialmente, aos bares, botecos, botequins e restaurantes. Mais adiante retomaremos a discussão em torno desses estabelecimentos. Por ora, é pertinente que apresentemos o relato de Goés acerca da origem da boemia em Santa Tereza, 93 Nem todos os bares funcionam diariamente, cada um tem seu horário específico. Mas em todos os dias da semana é possível encontrar estabelecimentos funcionando no período da noite. 82 em consonância também com as fontes escritas94 para delinear uma genealogia da boemia do bairro. Considerando a musicalidade como elemento da boemia, podemos regressar ao ano de 1922, quando da fundação da Banda do 5º Batalhão da Força Pública pelo Maestro Elviro Nascimento95, antes mesmo de o Batalhão se instalar no bairro Santa Tereza, em 1924. A corporação musical se firmou e realizava retretas públicas96 e concertos em frente ao edifício do Batalhão e, posteriormente, no coreto da Praça Duque de Caxias, inaugurada em 1937. Segundo João Pinheiro, de apelido Barbarella, em entrevista a Maria da Guiomar da Cunha Frota em 199097, as retretas atraíam os moradores do bairro e eram momentos de lazer e diversão fora dos limites dos lares. Barbarella, já falecido, foi uma personalidade do bairro, proprietário de bares e casas noturnas. Para Luís Góes, a origem do que posteriormente seria chamado de boemia do bairro está ligada ao surgimento dos times de futebol e às sedes sociais dos clubes. Ele explica: Pois é, Letícia, a coisa tem uma origem assim um pouco mais comprida, maior. Quando o Quartel do 5º Batalhão veio pra cá em 1924 (...) uma das formas de exercício era através do esporte. Então eles também criaram sua equipe de futebol, tinha uma equipe de futebol do 5º Batalhão. Aí tinham os outros batalhões que disputavam entre si, aquele negócio todo. O que aconteceu? A partir de então, a comunidade começou a criar também equipes de futebol. E é muito interessante porque era muito importante que essas equipes tivessem uma sede e nessa sede aconteciam as festividades sociais, né? Começa a ter bailes, comemorações, festividades, rainha disso, rainha daquilo, aniversário do clube, como eu participei de tantos. Então o que aconteceu? Os outros clubes, os outros times de futebol criaram clubes, criaram também suas sedes, né? Em cima do Bolão ali era a sede do Santa Tereza, Associação Esportiva de Santa Tereza, e ali tinha baile, tinha encontros, esse negócio todo. Isso foi uma época. Década de 40. 30, 40, 50, né? [1930, 1940, 1950] (Luís Góes, entrevista) 94 SANTA Tereza mantém tradição. Hoje em Dia, 06 ago. 2000 95 Revista Militar do 5º Batalhão da Força Pública Mineira, 1932. Acervo pessoal de Maria Guiomar da Frota Cunha, cópia do APM, notação não especificada na cópia. 96 Espécie de desfile militar acompanhado de música. 97 FROTA, Maria Guiomar da Cunha; NEVES, Reinaldo; outros. Entrevista concedida por João Pinheiro (Barbarella) sobre a vida noturna no bairro Santa Tereza, Belo Horizonte. Belo Horizonte, junho de 1990. 83 O Jornal Folha de Minas de julho de 193598 traz uma matéria sobre os clubes do bairro e as festividades promovidas em suas sedes. (...) as moças e os rapazes daquele populoso bairro contam com vários meios de diversão, destacando-se entre as sedes dos clubs sportivos e recreativos que ali existem e onde se realizam sempre animadas soirées dansantes, o que constitue para todos um verdadeiro prazer. (...) Os bailes que esses clubs fazem realizar mensalmente constituem um agradável passatempo para os frequentadores, que alli, ao som de magníficos “jazz”, entregam-se à dansas, que se prolongam até altas horas da madrugada. (Folha de Minas, 1935.) 99 O jornal também menciona horas dançantes aos domingos, das 19 horas às 24 horas e afirma que essas festividades atestavam o “espírito alegre e social dos habitantes de Santa Thereza”. A dimensão social dos clubes esportivos se tornou tão proeminente que outros tipos de clubes também foram surgindo no bairro. Barbarella fala “do mais tradicional, que fez mais sucesso na época (...) o Clube dos 50. Promovia bailes.” Quando questionado sobre o nome do clube, respondeu: “Porque foram cinquenta sócios, organizaram os cinquenta e fundaram o clube” (FROTA, 1990, p. 4 e 5). Luís Góes também menciona o Clube dos 50 em uma de suas publicações e na entrevista. Nenhum dos dois menciona a data de fundação do Clube, mas uma das imagens da publicação de Góes traz uma fotografia de um baile na década de 1960. (GÓES, 1998)100. Este foi fundado essencialmente como um clube social, voltado para a organização e promoção de festividades e bailes dançantes. Em entrevista, o jornalista cita o Clube em meio ao relato sobre outro período marcante da noite no bairro, o da seresta: O meu irmão José Góes, fotógrafo que faleceu ano passado, gostava muito dessas coisas, muito empreendedor. Ele criou ali, no Clube dos 50, o Sobradão da Seresta.(...) A partir de 1970. Aí que essa alcunha de boêmio veio por causa disso, por causa da seresta. (...) Era um clube de dança [o Clube dos 50], carnaval, eu brinquei muito carnaval aí quando era rapaz. Então, o Clube foi formado por um grupo de cinquenta pessoas e chamava Clube dos 50 por causa disso e era ali naquele prédio. Então, o Clube acabou e o meu irmão alugou o espaço e criou o Sobradão da Seresta. O Juscelino [Kubitschek] já chegou a vir aÍ, pra você ter ideia. (...) Se você olhar os jornais de época você vai ver isso lá. Então, a partir dessa 98 Folha de Minas, 24 de julho de 1935 In: GÓES, Luis. Bairro Santa Tereza: Tradição e História. Belo Horizonte: o autor (publicação independente), 2014. 99 Manteve-se a grafia original da publicação. 100 GÓES, Luis. Bairro de Santa Tereza, 100 anos. Belo Horizonte: Luis Góes, 1998. 84 divulgação, o bairro começou a tomar essa conotação. De seresteiro, de boemia, por causa dele. Ai teve uma portuguesa que ficou interessada em comprar o espaço. Ele falou: “não, tudo bem, eu vendo”. Ele vendeu lá e criou do lado de cá [na outra esquina, mesmo quarteirão] (...). Ali era o Recanto e aqui era Sobradão, um negócio assim, não me lembro o nome. E ele continuou no mesmo esquema (...). Isso a partir da década de 70, durou dez, doze anos esse período, mas isso marcou muito. E talvez essa alcunha, essa referência tenha ficado por esse motivo. Eu acredito que sim. (...) Então eu acho que essa alcunha é isso. E o que levou o bairro a manter essa alcunha, essa referência como seresta, como bairro da boemia? Por causa, simplesmente, do bairro, da maneira que o bairro é. Muitas casas antigas, muitas famílias antigas, tradicionais, né? (...) Então assim, essa alcunha, essa maneira vem por esse motivo. Mas se você procurar isso hoje, você não vai encontrar. Hoje, no momento, você não vai encontrar nenhuma casa de seresta, você não vai encontrar. A não ser a Confraria [São Gonçalo] que é a única referência hoje dessa união, reunião... (Luís Góes, entrevista). Cacá Fortini também dá seu testemunho sobre a seresta a partir da década de 1970 e sobre a denominação de bairro boêmio em função desse período. “Eles falam que Santa Tereza é um bairro boêmio porque antigamente tinha o Sobradão da Seresta, o Solar da Seresta que era um do lado do outro. Porque o pessoal vinha pra dançar”. (Cacá Fortini, entrevista). Góes relaciona boêmio e tradicional, ao mencionar que as características que denotam o tradicionalismo do bairro são favoráveis à manutenção da boemia, como as casas antigas, a união dos moradores, o modo de vida interiorano. No cruzamento entre as fontes orais (entrevistas) e escritas (jornais) podemos reafirmar que a alcunha de bairro boêmio começa a ser difundida a partir da década de 1970, quase sempre relacionada ao tradicionalismo. Assim como a Savassi se caracterizou na noite belo-horizontina como o reduto de boates e barzinhos sofisticados, Santa Teresa está se transformando no doce refúgio dos seresteiros. (...) No coreto no meio da praça, as luzes servem de chamarisco para os insetos e vagalumes e também para os notívagos e boêmios que se ajuntam perto dele para o início de uma seresta. (...) Estamos em Santa Teresa, não uma cidade [do interior] com este nome, mas no bairro de Santa Teresa, bem dentro de Belo Horizonte e que, hoje, pode se considerar, sem nenhuma modéstia, como a capital da seresta em Beagá. (Estado de Minas, 29/07/1976) 101 Aqui e ali, os pontos que se formaram, atraindo a boemia sadia, os políticos, intelectuais em busca das serestas, que tal como no interior, em Diamantina, por exemplo, surgem espontâneas e límpidas, nos velhos sobradões e salões, mas também nas esquinas e sob as janelas. A seresta 101 Estado de Minas, 29/07/1976 85 serviu de elemento musical para perenizar a tradição (...) (Diário da Tarde, 27 de julho de 1981) 102 Considerando os relatos de Luís Góes e Cacá Fortini, o prestígio da seresta em Santa Tereza começou a declinar em meados da década de 1980, quando as duas principais casas do gênero no bairro fecharam. No entanto, segundo o depoimento de Barbarella em entrevista a Maria Guiomar Cunha, em 1990 acontecia uma apresentação de seresta na Praça Duque de Caxias toda sexta-feira durante o inverno, eventos promovidos pela Prefeitura Municipal e pela cervejaria Brahma103. Mas e os bares dos quais falávamos e que hoje consideramos o lastro para a manutenção do discurso de que Santa Tereza é um bairro boêmio? Dizer que a existência dos bares se iniciou com o fim das serestas seria reduzir e ignorar a história do bairro. Mesmo porque o Sobradão da Seresta e o Recanto da Seresta eram bares de música, que ficaram conhecidos e se tornaram ícones da noite de Santa Tereza pelo estilo característico – a seresta. Mas, ainda assim, não deixavam de ser bares. Os bares já existiam concomitantemente aos clubes e às serestas, e mesmo antes desses. Exemplos disso são o próprio bar Barbarella, de propriedade de João Pinheiro e José Mauro da Costa, que funcionou na Praça Duque de Caxias na década de 1970104; o Bar Bocaiuva, que funciona no bairro desde 1976, sob a direção da mesma família desde então105, o Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete, em atividade no bairro desde 1961, segundo relato de José Maria Rocha, um dos antigos proprietários. Designar o período mais marcante de cada uma dessas manifestações boêmias no bairro foi uma opção metodológica baseada nas fontes, principalmente nos depoimentos dos interlocutores. 102 Diário da Tarde, 27/07/1981 103 Não foram encontradas outras fontes que reiterem o depoimento de Barbarella, mas a partir de 1994 teve início o projeto musical Minas ao Luar, realizado pelo Sesc Minas. O evento promove apresentações musicais itinerantes, principalmente serestas, em diversos bairros de Belo Horizonte e em cidades do interior do estado. A Praça Duque de Caxias em Santa Tereza já recebeu o Minas ao Luar Ver Jornal o Tempo e Clube do Chora de BH para divulgação dos eventos. Disponível em: http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/minas-ao-luar-%C3%A9-realizado-em-santa-tereza-nesta-sexta-feira-1.132563. Acesso: 20 fev. 2016. Disponível em: http://www.clubedochorodebh.com.br/2013/11/minas-ao-luar-especial-waldir-silva.html. Acesso: 01 fev. 2016. 104 Ver sítio eletrônico Santa Tereza Tem. Disponível em: http://www.santaterezatem.com.br/index.php/2015/09/13/livro-de- graca-na-praca-homenageia-santa-tereza/. Acesso: 20 fev. 2016. 105 Ver sítio eletrônico Veja BH. Disponível em: http://vejabh.abril.com.br/materia/bares/veterano-santa-tereza-bar-bocaiuva- comandado-pelo-neto-seu-fundador. Acesso: 20 fev. 2016 86 Figura 12 – Barbarella, década de 1970 Fonte: Santa Tereza Tem. Disponível em: http://www.santaterezatem.com.br/index.php/ 2015/09/13/livro-de-graca- na-praca-homenageia-santa-tereza/. Acesso: 10 de mar 2016. Figura 13 – Bar Bocaiuva atualmente Fonte: Fanpage Bar Bocaiuva no Facebook. Disponível em: https://www.facebook.com/383553641751624/photos/a.505693349537652.1073741840.38355364175 1624/865281060245544/?type=3&theater Acesso: 10 mar 2016. Bolão afirma que já existiam outros bares quando o bar de sua família se instalou e se estabeleceu no bairro na década de 1960. A história do bar, hoje comandado por seu irmão, se destaca, não apenas pela longa trajetória que vem traçando no bairro, mas pelo caráter inovador que teve ainda nos anos 1970 e 1980. Em 1971 começou a ser servido o espaguete, que segundo conta Bolão, era feito e servido por ele mesmo. Popularizou-se no boca a boca e consagrou o bar na noite de Santa Tereza 87 e de Belo Horizonte. Desde essa época, pessoas do bairro e de todas as partes da cidade procuram o bar pelo seu espaguete. O Bolão, dessa vez o bar, foi pioneiro ao servir refeições até altas horas da noite e, após muita insistência dos clientes, durante a madrugada. O pessoal chegava uma, duas horas da manhã e queria comer. Eu mostrava as horas e dizia que o bar já estava encerrado, mas não adiantava. O pessoal chegava com fome, sabia que tinha comida boa no nosso bar. Aí eu comecei a estender o horário até duas, três, quatro horas [da madrugada]. Minha família não gostava muito, não, mas eu não ligava, era eu que ficava no bar nesse horário. Isso foi no começo dos anos 80 [1980], isso de ficar aberto 24 horas por dia. (Bolão, entrevista) Segundo Bolão, o José Maria, o bar na Praça Duque de Caxias acabou por atrair outros bares que, inspirados por sua presença marcante no bairro, decidiam ter o bairro como espaço de funcionamento. Então, já durante os anos 1970 e 1980, na esteira dos bares de seresta, acompanhando a existência de alguns estabelecimentos mais simples e inspirando-se no Bolão, a quantidade de bares começou a aumentar em Santa Tereza, mas nada que chamasse tanto a atenção dos moradores, já acostumados a certa movimentação noturna do bairro, ou da mídia, interessada na imagem boêmia das casas de seresta. A partir de meados da década de 1990, houve um recrudescimento da quantidade desses tipos de estabelecimentos instalados no bairro, segundo afirmam os entrevistados. Essa multiplicação de bares foi acompanhada, paulatinamente, da forte presença de não moradores aos bares de Santa Tereza. Antes frequentadores apenas do Bolão nos fins das noitadas e para comer o espaguete, a população externa ao Santa Tereza passa a intensificar sua presença no bairro, reforçando também a imagem e o discurso de boemia ancorados em alguns estabelecimentos. São bares, botecos, botequins, restaurantes, armazéns e mercearias, que no âmbito da pesquisa e da dissertação convencionamos chamar apenas de bar para facilitar a fluidez da escrita e da leitura do texto. 3.4 Lugares da Boemia: os bares Como afirmado anteriormente, consideramos que os bares são, no momento da concepção e realização desta pesquisa, o suporte da boemia como cultura urbana e tradição de Santa Tereza, são símbolos da boemia atual. No bairro, há diversos 88 estabelecimentos que funcionam à noite, vendendo bebidas alcoólicas e petiscos e reunindo pessoas em torno de mesas e balcões para momentos de encontro e descontração. São espaços de sociabilidade e lazer noturnos, os lugares dessa prática social, dessa cultura urbana denominada aqui como boemia. Esses lugares da boemia de Santa Tereza são os bares. 3.4.1. Breve história do bar Julgamos ser relevante apresentar um breve histórico do estabelecimento aqui tratado como bar. Espaço de sociabilidade que funciona como signo da capital mineira e do bairro Santa Tereza, o bar tem sua origem ainda na Antiguidade Ocidental, segundo Rodrigo de Almeida Ferreira (2000)106. O autor faz uma espécie de cronologia apoiando-se no conceito de sociabilidade para apresentar ao leitor uma espécie de pequena história do bar. Começando com as celebrações do Mundo Antigo, que não necessariamente aconteciam em espaços destinados exclusivamente a esses momentos de interação social, até chegar aos bares nos moldes como conhecemos hoje. Apoiando-se em autores como Paul Larivaille (1988)107, Jules Leclant (1969)108, Jacques Le Goff (1995)109 e Catherine Salles (1983)110, Ferreira (2000) aponta as festividades e momentos de confraternização no contexto greco-romano, também denominado Antiguidade Clássica na historiografia tradicional, como eventos que desempenhavam importante papel na sociabilidade entre os membros da comunidade, então chamados cidadãos. A partilha de comidas e bebidas e a interação significavam oportunidades de reconhecimento mútuo de grande relevância social. O autor segue afirmando que as estalagens e suas tabernas tiveram papel precursor aos bares. Elas eram pontos de apoio aos viajantes que traçavam as rotas entre a 106 A trajetória histórica traçada por Ferreira, apesar de sucinta, é resultado de pesquisa em obras e autores de referência e se mostrou bastante elucidativa para a presente pesquisa. Além disso, em função do espaço e temas específicos da dissertação, foi considerada suficiente como referência para esta curta elucidação acerca da história do bar na sociedade ocidental. 107 LARIVAILLE, Paul. A Itália no tempo de Maquiavel: Florença e Roma. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. 108 LECLANT, Jules. O café e os cafés em Paris. Revista de História. São Paulo, ano XX, v. 34, n. 79, p.69-83, jul/set. 1969. 109 LE GOFF, Jacques. Os intelectuais na Idade Média. São Paulo: Brasiliense, 1995. 110 SALLES, Catherine. Nos submundos da antiguidade. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1983. 89 Europa e o Oriente ainda no período anterior ao estabelecimento das cidades na Europa. Aos poucos, acompanhando o desenvolvimento das cidades, as tabernas se constituem de forma independente às estalagens e hospedarias, oferecendo comidas, bebidas, jogos e, muitas vezes, prostitutas aos seus frequentadores. (FERREIRA, 2000, p. 20 e 21) A taberna torna-se, portanto, um local de domínio público, ainda que de caráter privado, justamente por ser um estabelecimento comercial. Concentravam-se, principalmente, em bairros populares, próximas a outros locais de diversão e entretenimento, pois, acima de tudo, fixaram-se no contexto urbano como locais de lazer e encontro, sociabilidade e interação social entre os pares. Essas ações antes aconteciam somente nas celebrações comemorativas e em datas específicas. A taberna estende a diversão e a confraternização para qualquer dia do ano, estando à disposição para quem, naturalmente, pudesse pagar pelos serviços e produtos oferecidos. Le Goff (1985) e Salles (1982) atestam que as conversas nas tabernas variavam entre os mais diversos temas, desde a formação dos estudantes, passando pelas guerras, mulheres e os próprios momentos ali vivenciados. (FERREIRA, 2000, p. 22) De acordo com os pesquisadores e como citado anteriormente no que diz respeito à localização, a maior parte dos frequentadores das tabernas eram das camadas populares. Catherine Salles afirma que: Mais do que a escuridão fumacenta, mais do que os cheiros das carnes gordas cozinhando num braseiro, é o barulho que choca os mais delicados: rumor dos pratos e talheres, discussões entre clientes, cantorias desafinadas de bêbados. Os bares não têm boa reputação na Antiguidade: e é preciso dizer que, geralmente, essa má reputação é merecida. (SALLES, 1982, p. 244 apud FERREIRA, 2000, p. 22) No entanto, há evidências que figuras ilustres e intelectuais também frequentavam estes espaços destinados ao consumo de bebidas alcoólicas e comidas características. Debates e disputas políticas eram acirrados e intensos nos ambientes das tabernas, papel que persiste aos estabelecimentos de mesmo caráter ao longo da história até a contemporaneidade. Esse tipo de integração era um fator de preocupação para as autoridades, pois a interação entre pessoas de diferentes perfis em um ambiente de consumo de álcool e exaltação de comportamentos poderia facilmente levar (e levava) ao desenrolar de 90 alianças e conluios políticos. O funcionamento das tabernas era coibido pelas esferas de autoridade. (FERREIRA, p. 23 e 24) Mas a taberna poderia ser considerada como um ambiente que auxiliava a mensurar a vida social de determinada região. Por ser aglutinadora da comunidade, local de contato humano por excelência, onde se estabeleciam redes e se faziam negócios, mas, antes de tudo, por ser local de entretenimento, diversão e relaxamento. Tudo isso regado a bastante bebida e farta oferta de comida. Com o fim das relações feudais, o estabelecimento dos Estados nação e o início dos processos de expansão marítima e colonizações, as interações sociais e a vida cotidiana nas cidades se intensificam. As tabernas vão ganhando novos atributos se transformando nos cafés modernos. É no fim do século XVII que o café é introduzido na Europa por viajantes árabes e as casas que o serviam foram se multiplicando à medida que a população ia tomando gosto pela bebida. Segundo Jules Leclant, essas casas surgiram em Paris e serviam, de início, apenas café, aumentando paulatinamente a oferta para comidas próprias e outras bebidas, inclusive alcoólicas. (FERREIRA, 2000, p. 25) Os cafés foram se popularizando e aburguesando, mantendo a fama das tabernas de lugares ecléticos, propício à transgressão de valores, discussões políticas. Apesar das relativas diferenças entre a estalagem/taberna de tempos remotos com os cafés/cabarés modernos, é fundamental perceber que a função desses estabelecimentos continua basicamente a mesma: local de reunião de pessoas que, movidas por motivos diversos, podem desfrutar dos prazeres da carne, bem como integrarem-se socialmente, discutindo os mais diversificados assuntos. (FERREIRA, 2000, p. 26, grifos meus) Ao longo do século XIX, os cafés são mais disseminados e mudam algumas particularidades, tornando-se também espaços de artes, concertos, saraus e jogos, demonstrando a consolidação da burguesia e o desenvolvimento econômico da classe liberal em um momento que ficou conhecido como Belle Époque. No contexto nacional, Mello e Sebadelhe (2015) apresentam a origem do botequim na cidade do Rio de Janeiro. Segundo os autores, a gênese do botequim vem das antigas farmácias e boticas do século XVIII, que funcionavam como ponto de encontro para conversas e jogos; das estalagens, vendas e pequenos armazéns de secos e molhados; dos mercados e do comércio praticado pelos escravos de ganho 91 em princípios do século XIX; das modernizações advindas da chegada da Família Real Portuguesa à então colônia. O botequim no Rio de Janeiro já surge estigmatizado e inicia sua história como alvo de preconceitos. A seguir, trecho da lei de 1808 que traz um dos primeiros registros da palavra no Brasil: Que as vendas, botequins e casas de jogos não estejam toda a noite abertos para se evitarem ajuntamento de ociosos, mesmo de escravos que, faltando ao serviço de seus senhores se corrompem uns aos outros, são ocasiões e delitos. (Acervo do Arquivo Nacional apud MELLO; SEBADELHE, 2015, p. 39) Eram considerados lugares de populares, da ralé, malvistos vigiados pela polícia e com horário restrito de fechamento. (MELLO; SEBADELHE, 2015). O consumo de “bebidas espirituosas” (MELLO; SEBADELHE, 2015, p. 40) sempre esteve associado aos estabelecimentos do tipo botequim, incluindo as antigas boticas, os armazéns e as estalagens. Era comum o consumo de vinhos portugueses, aguardente de cana de açúcar e rum diluído em água. O consumo de cerveja se amplia somente após o fim do Pacto Colonial em 1808. Até então, a importação da bebida, fabricada em países como Inglaterra e Bélgica, não era permitida. Ainda que entre as classes populares o consumo não tenha se popularizado rapidamente, pois “recusava-se ao freguês mais popular a venda de cerveja” (MELLO; SEBADELHE, 2015, p. 43), com a leva de imigrantes ao longo do século XIX e seus hábitos boêmios, teve início uma produção local e caseira de cerveja adaptada ao gosto tropical. Após o fim da Guerra do Paraguai, a partir de 1870, a cerveja e outras bebidas eram vendidas em pequenas construções espalhadas pela cidade. Criados, a princípio, para vender bilhetes lotéricos, postais e periódicos, os quiosques logo viraram pontos de concentração para a fezinha no jogo do bicho e o bate-papo, afeitos a bebericagens e os tira-gostos – acepipes como sardinhas fritas e bolinhos de bacalhau eram artigos básicos, marcas indeléveis na história da culinária de botequim. (MELLO; SEBADELHE, 2015, p. 47) Pode-se dizer que precederam os botequins cariocas nos moldes que existem hoje, estabelecimentos já criados para oferecer comidas, bebidas e ser um ponto de encontro e lazer para os frequentadores. Os quiosques não agradavam aos republicanos de princípios urbanos higienistas e de progresso, considerados sujos e 92 inapropriados à paisagem da cidade. Sua eliminação começou em 1911, herança da lógica das reformas sanitárias do prefeito Pereira Passos entre 1903 e 1906. Sobre o interior de Minas Gerais no século XIX, por volta de 1840, Eduardo Frieiro111 apresenta a seguinte imagem dos botequins: (...) a única distração que se achava fora de casa era na mesa dos botequins, baiucas mals instaladas e pouco limpas, quase sempre. Passava-se aí, e à noite nos bordéis, a chamada vida boêmia, cara aos amigos do copo e da estúrdia, aos estudantes vadios, aos artistas impecuniosos e aos literatos in herbis, que também os havia. (...) Os botequins tinham fregueses até as tantas da madrugada. Era preciso que o botequineiro, quase sempre um italiano despejasse os retardatários (...) (FRIEIRO, 1966, p. 244) Voltando ao contexto europeu da história do bar, durante os períodos de guerra, nos quais economia, sociedade e instituições ficaram extremamente fragilizadas nos países envolvidos, as pessoas se reuniam nos cafés e casas de bebida para esquecer os problemas e discutir soluções e alternativas. Aos poucos e mais uma vez novas características vão sendo incorporadas e esses cafés, aproximando-os dos bares modernos. No Brasil da década de 1920, segundo Anny Jackeline Silveira (1996), aumenta a ênfase da oferta de bebidas alcoólicas nesses estabelecimentos. A autora assinala como motivo da difícil diferenciação entre cafés e o que hoje chamamos de bares o fato de ambos terem os mesmos usos: oferta de bebidas, drinques, comidas rápidas e petiscos e, inclusive, cafés. A fronteira do que seria o bar é, portanto, tênue, pois os estabelecimentos comerciais assim chamados também possuem características de café, restaurante, casa de bebidas, bares chiques, botequins, mercearia. Defini- lo, talvez, não seja o mais importante, pois o que se deve ressaltar é o seu papel social. Entretanto, cabe assinalar sobre que tipo de estabelecimento se está falando (...). (FERREIRA, 2000, p. 30) No Rio de Janeiro, além dos quiosques, muitos botequins tradicionais foram demolidos ou fechados no contexto da reforma urbana e nos anos seguintes, abrindo espaço para novos modelos. Cafés inspirados nos modelos parisienses começam a se espalhar pelo Rio de Janeiro, com mais força a partir da década de 1920, e dão início a outro padrão de estabelecimento de consumo de bebidas e comidas. (MELLO; SEBADELHE, 2015) 111 FRIEIRO, Eduardo. Feijão, angu e couve: ensaio sobre a comida dos mineiros. Belo Horizonte: Imprensa da Universidade Federal de Minas Gerais, 1966. 93 3.4.2 O bar em Belo Horizonte Também em Belo Horizonte os bares são marcantes e estão presentes desde o início da história da capital mineira. A publicação Belo Horizonte & o comércio: 100 anos de história112 fala dos armazéns como ponto de encontro ainda no período de construção de Belo Horizonte. Esses lugares que “vendiam de tudo”, se transformavam ao final do expediente em lugar de relaxamento e lazer. Após o serviço, “enchiam-se de povo” e as compras resumiam-se a copos de aguardente. (...) Durante a construção da cidade, havia já numerosos botecos e tascas, onde o principal produto comercializado era a bebida alcoólica. (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1997, p. 40) Mas há um estabelecimento específico instalado na Rua Guajajaras que é considerado como responsável pela vida noturna na cidade. Em julho de 1897, antes mesmo da inauguração da cidade, foi instalado o Café Mineiro, na rua Guajajaras, que nada deixava a dever às casas noturnas das grandes cidades brasileiras. Iniciava-se a vida noturna em Belo Horizonte, apontando para a diferenciação funcional dos estabelecimentos comerciais, até então caracterizados pela multifuncionalidade. (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1997, p. 44,) Nos primeiros anos da cidade, algumas regiões centrais foram sendo caracterizadas por determinados tipos de comércio, contrariando, em parte, o plano de Aarão Reis que previa outra área para ser o bairro comercial da cidade. Na região prevista, compreendida entre a Praça da Estação e onde hoje está a rodoviária, se instalou o comércio mais popular, atacadista. Nas Avenidas Afonso Pena e Liberdade (atual João Pinheiro), nas Ruas Guajajaras e da Bahia instalou-se o comércio de varejo e mais voltado para a elite em formação da cidade. Nesse momento, chama atenção a importância da Rua da Bahia. Nela se concentraram os primeiros estabelecimentos comerciais, de lazer e de encontro, que passaram a fazer parte do imaginário da cidade ou, melhor dizendo, das representações elitizadas que dela se faziam nas suas primeiras décadas. Essa característica do consumo da Rua da Bahia está expressa em anúncios de lojas, principalmente das confeitarias e bares que lá se instalaram e que se tornaram ponto de convivência da elite belo- horizontina, reafirmando a função social desse espaço (...). Em 1904, a Confeitaria Acadêmica, a primeira delas, (...) anunciava um finíssimo 112 FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Belo Horizonte & O comércio: 100 anos de história. Fundação João Pinheiro. Centro de Estudos Históricos e Culturais. Belo Horizonte, 1997. 94 sortimento de bebidas, conservas, doces(...). (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1997, p. 53) A Rua da Bahia foi o ponto de diversos outros cafés e bares, como relata José Bento Teixeira de Salles (2005)113 em publicação dedicada ao logradouro. Provavelmente, o estabelecimento mais icônico de sua história tenha sido o Café e Bar do Ponto, figurando em diversas outras obras e referências sobre a cidade. O bar funcionou em frente ao abrigo ou ponto do bonde (atual Mercado das Flores) onde hoje está construído o Othon Palace Hotel, na esquina da Rua da Bahia com Avenida Afonso Pena. Salles cita alguns dos bares que estavam instalados na Rua da Bahia na primeira metade do século XX e que (...) entraram para a história da vida boêmia, social e etílica da cidade, sendo o primeiro da lista o Bar do Ponto, seguido pelo Trianon, Elite, Café Estrela, Leiteria Celeste, Colosso, Caçula, Gruta Metrópole, Zé Alvim e o Bar do Grande Hotel. (SALLES, 2005, p. 6) O escritor rememora diversas histórias e faz descrições físicas e emotivas dos bares, passando pelo aspecto geral das instalações, as mesas, balcões, frequentadores, donos e garçons. Seu relato vai até meados da década de 1960, quando das mudanças passadas pela Gruta Metrópole. Segundo Salles, “a última piada de mau gosto que circulou pela Gruta” foi o corte da venda de bebidas alcoólicas, denotando a grande importância do gênero para a sociabilidade boêmia. Anny Jackeline Torres Silveira (1996), em sua dissertação de mestrado, fala sobre os cafés das primeiras décadas da cidade de Belo Horizonte. A historiadora, apoiada em Abílio Barreto, afirma que os primeiros cafés foram abertos antes da inauguração da nova capital. O primeiro foi o Café Mineiro, de julho de 1897, como mencionado no trecho da publicação da Fundação João Pinheiro. Depois, ao longo dos anos, muitos outros foram abertos pelo centro. Segundo a autora, durante os anos de 1920, os cafés eram os principais locais de encontro e sociabilidade da população. É essencial deixar claro de qual população se está falando: funcionários públicos e suas famílias, trabalhadores formais e intelectuais que viviam e circulavam pela zona urbana. Não é arriscado afirmar que os trabalhadores e operários, suas famílias e seus círculos mais próximos não frequentavam esses locais, tanto por não terem 113 SALLES, José Bento Teixeira de. BH: A Cidade de Cada um – Rua da Bahia. Belo Horizonte: Conceito, 2005. 95 condições financeiras para tal, quanto por habitarem as zonas suburbanas e rurais da capital. O café era “lugar de reunião, de debates políticos e literários acalorados, de irradiação de notícias e boatos, de contratos de negócios, de sofrer dores de amores, de aprender as novas modas e os comportamentos civilizados (...)” (SILVEIRA, 1996, p. 122, grifo da autora) Representavam idealizações e funcionavam como símbolos a respeito da cidade, de modelos a serem seguidos, como Paris, Londres e Berlim. Através dos cafés, foi possível a Silveira perceber um ideal de determinados setores do que deveria ser a cidade. É a classe burguesa europeia, seus comportamentos, gostos, instituições culturais e sociais que se constituem no pattern a ser copiado. (...) E esta era uma das razões da presença dos cafés nas imagens construídas a respeito de como deveria ser a moderna capital. Dessa forma, o café pode ser pensado aqui como espaço que funcionaria enquanto um auxiliar na promoção daquele projeto de ordenação (...). (SILVEIRA, 1996, p. 133 e 134) Muitos dos cafés que se instalaram na cidade talvez não tenham correspondido completamente a esse ideal refinado, talvez alguns possam até ter se tornado a negação dessa imagem que se pretendia para a nova capital. Havia os cafés- sentados, cujas mesas redondas de mármore perduram até os anos 1960, mas já na década de 1940 competiam com os cafés de balcão de alumínio. Todos esses no centro. A autora, ao focar na vinculação dos cafés com os ideais de modernidade, acaba por deixar de lado a questão do papel econômico desempenhado pelo produto no Brasil e, especialmente, em Minas Gerais. Eduardo Frieiro (1966) lembra-nos que na primeira metade do século XIX o café firma-se como produto de exportação de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, inicialmente pelas plantações na atual região da Zona da Mata e, posteriormente, no sul de Minas Gerais. Já pelos meados do século passado [século XIX], era o café a bebida predileta dos brasileiros. Em Minas, o seu uso se difunde rapidamente. Na casa mineira não se deixa sair o visitante sem que lhe ofereçam uma xícara de café – elo de cordialidade e convivência social. A recusa pode ser interpretada como desfeita aos donos da casa. (FRIEIRO, 1966, p. 73) O hábito de consumir a bebida e a sociabilidade no entorno desse consumo, possuem, portanto, referência na economia local. A nova capital de um estado cujo principal produto de exportação há décadas vinha sendo o café e cuja população 96 incorporou a tradição de seu consumo, não deixaria de contar com inúmeros estabelecimentos centrados na venda da bebida e no hábito social de consumi-la. Outros tipos de estabelecimento também existiam na cidade. No bairro Funcionários havia vendas e não cafés, segundo trecho de entrevista para artigo do Jornal Estado de Minas de 1974114. Esse artigo também reafirma o fato de não ser comum, no período em estudo, a existência de grandes bares ou cafés nos bairros e regiões mais afastadas do centro comercial. Estabelecimentos de bairro, como diz o cronista, “são as vendas”, ou então, como apontavam as crônicas escritas sobre os primeiros dias da capital, os simples botequins. Atendendo uma freguesia menor, essas vendas eram casas, a um só tempo, mais simples, no que diz respeito ás suas instalações – “geladeira ainda é luxo dos bares do centro” – e mais diversificadas, no que se refere aos produtos que ofereciam à clientela. Esta, por sua vez, também era diferente daquela que frequentava os estabelecimentos do centro da cidade: mais restrita, no que se refere ao número, e localizada, isto é, composta normalmente por pessoas do próprio bairro. (SILVEIRA, 1996, p. 144, grifos da autora) Os cafés eram, portanto, redutos de convívio social de alguns grupos definidos por interesses comuns, “caracterizados por uma sociabilidade mais fechada, circunscrita e elitista”. (SILVEIRA, 1996, p. 149) Os footings115, bailes e cinema eram práticas e locais de sociabilidade breve, superficial, o foco era outro que não o da conversa. Os cafés, por outro lado, apresentavam um “tipo de sociabilidade menos restritiva, formal e seletiva” (SILVEIRA, 1996, p. 150) Crônicas de períodos posteriores chamam os cafés de bares, talvez por terem tido usos semelhantes aos bares contemporâneos. Dos cafés das primeiras décadas da cidade aos bares nos moldes mais comuns que encontramos atualmente na capital mineira, podemos falar dos botecos. Segundo o dicionário da língua portuguesa 116 : Boteco (buteco) ou botequim são termos oriundos do português de Portugal botica, e do espanhol da Espanha bodega, que, por sua vez, derivam do grego apothéke, que significa depósito, casa de bebidas ou loja em que se vendiam gêneros a retalho. (MELLO; SEBADELHE, 2015, p. 57. grifos do autor) 114 Ver nota 44 de SILVEIRA, Anny Jackeline Torres. Os sonho de uma petite Paris: os cafés no cotidiano da capital. In: DUTRA, Eliana de Freitas (org.) BH: Horizontes Históricos. Belo Horizonte: C/Arte, 1996. 115 Caminhadas pelas ruas e praças da cidade, momentos de exposição – para ver e ser visto, o footing era uma forma de lazer bastante comum na capital mineira, mencionado em crônicas, reportagens e trabalhos acerca da primeira metade do século XX na cidade de Belo Horizonte. 116 Dicionário Brasileiro da língua portuguesa: Encyclopedia Britannica do Brasil, 7ª Ed., 1982. 97 Para Regina Helena Alves Silva (2007)117 os “butecos” de Belo Horizonte nada têm a ver com os botequins cariocas, que geralmente servem chope e tira-gostos “com a cara do botequim”, ou os bares paulistas, com mesas de design, cadeiras autorais, bebidas multicoloridas e petiscos internacionais. Na tentativa de definir o que seriam os botecos (para ela, “butecos”, com U) de Belo Horizonte, cidade conhecida como “capital do barzinho” desde meados da década de 1970 e Capital Mundial dos Botecos desde 2009, a historiadora afirma que eles são lugares de encontro, conversas, comida e bebida. Lugares de sociabilidade em uma cidade que, por nascer planejada e com espaços públicos pretensamente pré-definidos para determinados usos, inspirou na população a necessidade de forjar outros espaços para estar em conjunto, se encontrar. Os botecos em Belo Horizonte são lugares de tomar cerveja gelada e comer petiscos que remontam às fazendas mineiras – a fazenda na própria origem da capital mineira. Frango, carne de sol, mandioca, farinhas, pimentas. Lugares de sentar-se à mesa de madeira ou latão (alguns mais antigos ainda conservam os balcões) com amigos, colegas de trabalho, com a família ou algum desconhecido que faz as vezes de amigo enquanto a companhia não chega. Mas os botecos de Belo Horizonte são por ela caracterizados enfaticamente como espaços públicos no sentido de serem democráticos, de agregarem pessoas com suas diferenças sociais, culturais e idológicas; espaços da diversidade e de práticas culturais incorporadas às práticas cotidianas de seus moradores. O Buteco (sic) é o espaço que evoca nossas formas de viver. (...) No caso de Belo Horizonte, ele é constituído e constituidor de uma ambiência urbana onde identificamos territórios flexíveis, lugares que se entrecruzam, interagem e criam circuitos comunicativos. (SILVA, 2007, s/p). Posto isto, o boteco em Belo Horizonte não se define por suas características físicas, a qualidade do chope ou a proveniência dos tira-gostos, mas, acima de tudo, como lugar do encontro e da sociabilidade. A exposição Em volta dessas mesas, uma cidade. Bares como lugares na história de Belo Horizonte, realizada pelo Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB) no ano de 2011, sinalizou a importância dos bares, botecos e botequins como referência 117 AUTÊNTICA EDITORA (org.). Comida de Buteco – os 41 butecos de 2007. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. 98 cultural, espaços de memória e preservação de hábitos tradicionais de costumes e sociabilidade para a cidade. O discurso do museu, diferente do popular e do midiático, do turístico e do comercial, mas que se apropria e articula todos eles, de certa forma reforça a imagem de Belo Horizonte como capital dos bares e contribui para sua disseminação no imaginário coletivo social. O discurso oficial já havia engrossado o coro e oficializado essa imagem de Belo Horizonte quando em 2009 foi sancionada a Lei Municipal nº 9.714 de 25 de junho de 2009, que intitula Belo Horizonte como “Capital Mundial dos Botecos” e ainda estabelece o “Dia Municipal dos Botecos” no terceiro sábado de todo mês de maio118. Segundo o folder da exposição do MHAB: (...) houve iniciativas de se proteger a história desses espaços demonstrando interesse na preservação de importantes elementos para a história da cidade, como edificações que abrigam bares tradicionais. Com traçados arquitetônicos que convidam à integração com a rua, grande parte dos estabelecimentos é instalada nas esquinas, de onde se pode ver e ser visto com maior facilidade, incorporando-se com fluidez ao universo e ao cotidiano urbanos. (MHAB, 2011) O trecho cita, de forma genérica, iniciativas de se proteger edificações que abrigam bares tradicionais em Belo Horizonte. No decorrer da dissertação, será discutida a apropriação da boemia de Santa Tereza enquanto um atributo que torna o bairro passível de patrimonialização e as possibilidades de se fazer isso de forma positiva para o bairro. Serão exploradas formas de se pensar as práticas sociais que se utilizam desses espaços e considerados horizontes de expectativas a partir dessa associação entre boemia e patrimônio. O trecho também cita a implantação característica de muitos desses estabelecimentos no desenho da cidade, nas esquinas. Nesse aspecto, o bairro Santa Tereza não é exceção. A esquina como lugar “democrático”, “onde tudo acontece”, como afirma Lô Borges, é uma das imagens de Santa Tereza enquanto bairro boêmio, evocando tanto os bares quanto o Clube da Esquina, dois dos aspectos que convergem na boemia do bairro como singularidade marcante. 118 BELO HORIZONTE. Lei Municipal nº 9.714 de 25 de junho de 2009. Diário Oficial do Município, Poder Legislativo, . Câmara Municipal de Belo Horizonte, Belo Horizonte, 25 de junho de 2009. Ano XV, Edição n. 3366, Capital Mundial dos Botecos. 99 3.5 Bares de Santa Tereza Os bares de Santa Tereza também podem ser interpretados como expressão das tradições do bairro, de sua cultura e, acima de tudo, de práticas boêmias, da sociabilidade e do encontro. São considerados aqui, como esclarecido anteriormente, como espaços primordiais e símbolos da boêmia no bairro atualmente. Também foi dito que, por opção metodológica, o bar está em evidência na genealogia proposta para a boemia do bairro desde meados da década de 1990. Apesar disto e apesar de a imagem de bairro boêmio não estar associada aos bares desde seu surgimento no princípio da história do bairro, esse tipo de estabelecimento está presente na história de Santa Tereza desde suas origens. É pertinente retomar o trecho de Luís Góes: Na ex-colônia Américo Werneck, que foi o princípio da formação do bairro, no final do século passado e princípio deste [séculos XIX e XX], existiram botequins que serviam a comunidade mas não podiam vender bebidas alcoólicas, pelo regulamento vigente na colônia. Depois vieram os pequenos comércios, na década de 1910, quando a região ainda não tinha ruas mas apenas estreitos caminhos e “picadas” no mato. Segundo regulamento das colônias, organizado pelo Governo do Estado, os colonos podiam manter casas de vendas para atender a comunidade de imigrantes mas não vendiam bebidas alcoólicas. (GÓES, 19--, p. 75) Além dos estudos de Góes, não foram encontrados documentação ou relatos para atestar a presença significativa de bares e estabelecimentos afins fora do centro de Belo Horizonte nos primeiros anos de sua existência. Silveira corrobora tal fato e justifica a ausência de fontes a esse respeito: Assim como através das crônicas e mesmo obras literárias escritas sobre Belo Horizonte, essa ausência de estabelecimentos de café na região externa da área central da cidade também pode ser percebida a partir dos dados reproduzidos em almanaques comerciais e catálogos telefônicos da capital relativos ao período em questão. Porém, no que se refere às crônicas e outros escritos do gênero, essa falta de referência pode estar relacionada, ainda, com as escolhas efetuadas por seus autores no momento em que se recordam. Quem rememora prioriza aspectos, situações, lugares. E o lugar privilegiado nas maioria dessas memórias é sempre essa área central da cidade, e são normalmente os seus cafés que povoam as lembranças desses escritores. (SILVEIRA, 1996, p. 144 e 145) Goés, estudioso que privilegiou e dedicou suas memórias e pesquisas ao bairro Santa Tereza, afirma ainda que na década de 1920 o comércio já estava bastante desenvolvido, principalmente na Rua Hermilo Alves e na Rua Mármore, que atualmente se mantêm como centralizadoras desse uso no bairro. Ele cita 100 estabelecimentos variados, açougues, tinturarias e lenharias, destacando bares e botequins, dentre eles alguns que ficaram mais conhecidos, como o Armazém do Cardoso, a Venda do Jacó, Maria Macarrão; alguns que já se encontravam “mais para dentro do bairro”, como o Bar do Zé Inácio, o Armazém Montanhês, o Bar do Lopes e outros tantos. Em levantamento relativo à década de 1930, ele nos apresenta uma listagem119 do comércio e dos serviços do bairro em 1937, que contava com 109 endereços comerciais. Destacamos aqui quatorze deles, entre bares, botequins, restaurantes e afins. Foi feita a opção por não apresentá-los em formato cartográfico, visto que a numeração da rua não permanece a mesma. Dessa forma, não há como precisar a localização exata desses antigos bares:  Rua Mármore, 33 – Café  Rua Mármore, 161 – Botequim  Rua Mármore, 184 – Bar  Rua Mármore, 706 – Bar e Restaurante  Rua Mármore, 568 – Botequim  Rua Mármore, 569 – Bar  Rua Hermilo Alves, 94 – Bar e Restaurante  Rua Hermilo Alves, 345 – Fábrica de Bebidas  Rua Hermilo Alves, 419 – Bar  Rua Hermilo Alves, 419 – Bar  Rua Salinas, 1344 – “Taverna”  Rua Salinas, 1531 – Bar  Rua Tenente Vitorino, 46 – Bar  Rua Alvinópolis, 460 – Bar 3.6 Mercearias e Armazéns Havia ainda onze mercearias e treze armazéns, somando cerca de um terço do total dos estabelecimentos do bairro voltados para a venda de secos e molhados, que 119 GÓES,19--, p. 31 e 32, para ver a lista completa. 101 tradicionalmente reúnem os fregueses em momentos que ultrapassam o ato da compra de mercadorias. Tais hábitos de sociabilidade em torno de mesas e balcões de comidas e bebidas geralmente são caracterizados como boêmios e são marcantes em Santa Tereza, justificando sua inclusão no levantamento dos lugares da boemia do bairro feita durante a presente pesquisa. É interessante notar como as mercearias e armazéns funcionam como ponto de encontro, muitas vezes espontâneo, para “tomar uma ou duas cervejinhas no fim do dia, relaxar depois do trabalho” (Maria Eugênia, entrevista)120. Eles representam um tipo de comércio bastante tradicional, presente ainda nos bairros mais antigos e residenciais, atendendo à demanda de consumo da comunidade local com a venda de produtos alimentícios, de limpeza, higiene pessoal e materiais para serviços diversos. Muitos ainda mantêm o hábito de “pendurar” a conta de alguns clientes conhecidos que acertam ao final de cada mês, além de oferecer bebidas e petiscos para consumo no local. Raphael e Livia (entrevista) mantêm uma conta na Mercearia Colombo (Rua Mármore, 29), pois afirmam que a proximidade de casa facilita quando precisam de algum produto de última hora, “quando chega algum amigo e precisa comprar uma cerveja e um salaminho, qualquer coisa assim”. Segundo Góes, em entrevista, o Armazém Cruzeiro (Rua Mármore, 418) funciona desde 1928 na mesma edificação, sendo talvez o mais antigo de Belo Horizonte ainda em funcionamento. O jornalista contou na mesma entrevista que o prédio onde hoje está o Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete, construído no início dos anos 1930, funcionou antes desse como o Armazém Cardoso, vendendo “de tamanco, a querosene”, como as outras mercearias e armazéns do bairro. O Bar do Orlando começou como armazém e mercearia em 1929 e até hoje funciona dessa forma, ainda que não seja o foco do estabelecimento. Segundo Orlandinho, filho de Orlando, proprietário do bar há 35 anos: (...) a loja mesmo em funcionamento tá desde 1929. (...) Sempre mercearia. Antigamente vendia artigos de pesca porque o povo pescava muito no Rio Arrudas antes, quando ele era limpo ainda, era totalmente preservado, né? Depois foi perdendo e a gente manteve o mesmo tom que sempre foi. Mercearia, vender artigos de limpeza... umas coisinhas de... é... rápida! Quando questionado sobre o que está à venda hoje: Enlatados, a maioria 120 Maria Eugênia Silveira, moradora do bairro há 15 anos. Entrevista concedida em agosto de 2015. 102 tem. Coisa que a gente tenta preservar, não perdeu ainda. Não tem muita saída, mas é mais pra ilustração e acaba saindo também. Quando questionado se o foco mesmo é bar. É bar e bebida mesmo. Bebidas e comidas. Ai a gente atende o público pelo que precisar tem ai. A manutenção do uso como mercearia pela família proprietária do Bar do Orlando demonstra conhecimento da história do comércio do bairro e a intenção de preservar sua memória, ainda que de forma “ilustrativa”, como disse Orlandinho. A tradição da mercearia como ponto de encontro e consumo de bebidas é mantida e o negócio local é impulsionado pela procura dos clientes por um lugar simples e descontraído, que representa, ao mesmo tempo, uma memória do bairro e sua imagem atual na cidade. Ao longo das décadas, mercearias, bares e restaurantes encerraram suas atividades, trocaram de nome, outros tantos foram inaugurados, substituídos ou reformados, revelando um traço da trajetória do bairro. Para Góes, a “comodidade dos moradores de ter um bar ao lado de casa” (GÓES, 19--, p. 75) é um dos motivos pelo qual essa prática se manteve em Santa Tereza desde seu surgimento. Figura 14 – Mercearia Lacerda Fonte: Acervo pessoal, 2016. 103 Atualmente, há cerca de setenta estabelecimentos em Santa Tereza que denotam as práticas sócio-espaciais urbanas ditas aqui como boêmias, número que caracteriza uma territorialidade com intensa sociabilidade noturna em Belo Horizonte. Para fazer o mapeamento e listagem desses locais foi essencial a observação do bairro após as 18 horas em todos os dias da semana. A fronteira do que seria o bar é (...) tênue, pois os estabelecimentos comerciais assim chamados também possuem características de café, restaurante, casa de bebidas, bares chiques, botequins, mercearia. Defini- lo, talvez, não seja o mais importante, pois o que se deve ressaltar é o seu papel social. Entretanto, cabe assinalar sobre que tipo de estabelecimento se está falando (...). (FERREIRA, 2000, p. 30, grifos meus) Foram incluídos bares, botecos, restaurantes, mercearias e armazéns que abrem ou permanecem abertos após as 18 horas e que, além da venda, houvesse o consumo de bebidas alcoólicas pelo cliente no próprio estabelecimento ou na calçada em frente a ele. Abaixo, listagem e mapa com endereços e nomes desses estabelecimentos em funcionamento no bairro Santa Tereza até março de 2016: 1. R. Hermilo Alves, 94 - Churrasquinho's 2. R. Bueno Brandão, 352 - Valência Cervejaria e Espetos 3. R. Bueno Brandão, 352 - Odilícia 4. R. Cristal, 147 - Mirante 147 5. R. Mármore, 15 - Posto Ipiranga 6. R. Mármore, 29 - Mercearia Colombo 7. R. Mármore, 30 - Câmara dos Incomuns 8. R. Mármore, 34 - Espeton's 9. R. Mármore, 121 - Mister Pança 10. R. Mármore, 176 - Mercearia Lacerda 11. R. Mármore, 169 - Bar do Javé (Gatão e Cia.) 12. R. Mármore, 224 - Marmoretto 13. R. Mármore, 373 - Clube Mineiro da Cachaça 14. R. Mármore, 365 - Choperia Santa Tereza (passando o ponto) 15. R. Mármore, 383 - 815 Botequim 104 16. R. Mármore, 418 - Armazém Cruzeiro 17. Praça Duque de Caxias, 288 - Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete 18. Praça Duque de Caxias, 306 - Santa Praça 19. R. Salinas, 1780 - Liverpool 20. Praça Duque de Caxias, 143 - Santaboemia (Bar do Michel) 21. Praça Duque de Caxias, 120 - Mercearia Bicalho 22. Praça Duque de Caxias, 120 - Recanto da Seresta (sobreloja) 23. Praça Duque de Caxias, 39 - Casa dos Caldos Espaço Gourmet 24. Praça Duque de Caxias, 15 - Mate-Mate Burguer 25. Praça Duque de Caxias, 5 - Bar Nascente 26. R. Mármore, 600 - Diadorim Cultural 27. R. Mármore, 593 - Armazém Santa Tereza 28. R. Mármore, 689 - Bolão II, o Rei do Espaguete 29. R. Mármore, 626 - Felino's 30. R. Mármore, 644 - Caçapa's 31. R. Mármore, 750 - Desde 1999 32. R. Mármore, 825 - Bar do 1000ton 33. R. Dores do Indaiá, 72 - La Crepe 34. R. Dores do Indaiá, 96 - Bar Santê 35. R. Paraisópolis, 855 - Fundos da Floresta 36. R. Paraisópolis, 802 - Comida Árabe 37. R. Paraisópolis, 738 - Bar do Museu Clube da Esquina 38. R. Conselheiro Rocha, 2627 - Copacabana Grelhados e Pizzas 39. Rua Alvinópolis, 460 - Bar do Orlando 40. R. Dores do Indaiá, 399 - Estação Parada do Cardoso 41. Rua Silvianópolis, 452 - Santa Pizza 105 42. Rua Silvianópolis, 483 - Birosca S2 43. Rua Silvianópolis, 197 - Bar da Gabi 44. Rua Perite, 187 - Bar Temático 45. Rua Silvianópolis, 74 - Empório Viação Cipó 46. Rua Alvinópolis, 122ª - Old Bar 47. R. Salinas, 2421 - Bitaca da Leste 48. R. Paraisópolis, 550 - Bar Bocaiúva 49. Rua Quimberlita, 126 - Bar do Alemão 50. Rua Quimberlita, 201 - Otton Pizzaria 51. Rua Quimberlita, 205 - Estação Santê 52. R. Bom Despacho, 2 - Espeto da Esquina 53. Rua Quimberlita, 246 - Bar Du Pedro 54. Rua Quimberlita, 254 - Bar da Lili 55. Rua Bocaiúva, 26 - Canto do Aristóteles (Bar da Rosa) 56. Rua Bocaiúva, 03 - Bainera Restaurante 57. R. Ten. Vitórino, 269 - Walmir Bar e Restaurante 58. R. Ten. Freitas, 149 - In Casa Crepe e Burger 59. R. Salinas, 2113ª - Copa Beer 60. R. Norita, 9 - Confraria São Gonçalo (não é bar) 61. R. Salinas, 1259 - Rock and Beer 62. R. Salinas, 1173 - Bar do Xumba 63. R. Hermilo Alves, 423 - Bar, Restaurante & Lanchonete da Sãozinha 64. R. Bom Despacho, 15 - Moreno's Bar 65. R. Cristal, 222 - Bar do Edmundo 66. R. Mármore, 585 - Espetos Xingu - Lanchonete e Conveniência 67. R. Mármore, 669 - Santê Espeteria 106 68. R. Prof. Raimundo Nonato, 31 - Kobes 69. R. Salinas, 2351 - Bar do Dão 70. R. Salinas, 2351 - Aroeira 71. R. Salinas, 2376 - Espetinho 72. R. Pouso Alegre, 2744 - Ponto de Encontro 73. R. Pouso Alegre, 2622 - Bar do Tião 74. R. Pouso Alegre, 2240 - Bar e Restaurante Irmãos Mendes 107 Figura 15 – Mapa-croqui dos bares de Santa Tereza Fonte: Prodabel, modificado pela autora, 2016 108 Interlocutores da pesquisa vão ao encontro da afirmativa de que hoje os bares são os lugares da boemia do bairro Santa Tereza, como Walmir, proprietário do Bar do Walmir, Cacá Fortini, assíduo frequentado do Bar do Walmir, morador e músico do bairro, e Carlos Alberto, também morador. Eles consideram o bairro boêmio, ainda que a música não esteja tão presente, como afirmou Eliza. A seguir, trecho da entrevista realizada com os três: Autora: O que vive saindo em jornal, reportagem, é que Santa Tereza é um bairro boêmio. Vocês consideram o bairro boêmio? Walmir: Ah é, uai, é o bairro mais boêmio de Belo Horizonte hoje. Autora: Hoje é, mas antes não? Cacá: Era também, né? Walmir: Acho que os bares hoje podem ficar abertos até mais tarde. Tem muitos bares hoje que ficam abertos até de madrugada... Cacá: Eles falam que Santa Tereza é um bairro boêmio porque antigamente tinha o Sobradão da Seresta e o Solar da Seresta, que era um do lado do outro. Porque o pessoal vinha pra dançar Walmir: Bares de música. É, vinham dançar. Carlos: O freguês levantava, ia lá, cantava... Autora: Então, era diferente do que é hoje? Hoje não tem tanto bar de música mais? Cacá: Hoje a prefeitura não deixa, uai! Eu sou músico, eu posso falar, a prefeitura não deixa. Começa a tocar, chega e manda parar. (Walmir, Cacá e Carlos, entrevista) Cacá ressalta que a imagem de bairro boêmio vem da época em que havia as duas casas de seresta no bairro, como elucidado anteriormente, e durante a entrevista os três interlocutores deixam claro que a boemia hoje está relacionada à quantidade de bares que existem em Santa Tereza e seu extenso horário de funcionamento, diferente do que acontecia nas décadas de 1960 a 1990. Após citar o Bar do Orlando (Rua Alvinópolis, 460) como o mais antigo do bairro – quiçá da cidade! – e que antes funcionava como armazém, além de outros estabelecimentos do mesmo tipo, os interlocutores discorrem sobre os bares atualmente. Walmir: À noite no Santa Tereza existia só o Bolão. Ficava aberto só o Bolão. Carlos: Igual eu te falei, os outros botecos fechava 22h30, 23h. Walmir: Tudo fechava antigamente. Só o único bar que ficava aberto, virava a noite, era o Bar do Bolão. Não tinha, em Belo Horizonte eram muito poucos. Era o Bar do Bolão, o Hi Fi [fora do bairro]... Eram pouquíssimos, eram uns três ou quatro bares. Tinha não. 109 Carlos: Era pouco bar que virava. Walmir: Bar fechava cedo. Cacá: Aqui em Santa Tereza era só Bolão que era 24 horas. Walmir: Essa coisa de boteco ficar aberto até mais tarde, isso tem ... Carlos: Uns dez anos... Walmir: É... é de pouco tempo pra cá. Carlos: Dez, doze, quinze anos! Autora: Mas como que eram os bares? Eles existiam, mas funcionavam mais cedo? Walmir: Existiam menos bares também! Não era essa quantidade de bar, não. Hoje deve ter mais de setenta bares em Santa Tereza! Carlos: Só nesse pedacinho aqui desse quarteirão aqui ó, tem muitos! Walmir: Teve uma época que tinha quatorze! Só nessa rua aqui tinha quatorze! Nessa rua tinha quatorze. [muito enfático] Eu: Isso tem quanto tempo? W: Ah, uns quatro anos atrás. Tinha a pizzaria lá em baixo na casa, aí tinha esse bar da esquina, esse daqui, três. Tinha dois aqui, cinco. Cacá: ainda tem dois. Wlamir: A padaria que vendia cerveja, seis, o Baianeira, sete. Na esquina outro, oito, o seu Pedro lá, nove. O Alemão, dez. Marsal, onze. Doze, treze, e o bar do Rogério. Treze bares! Autora: Tudo só aqui nessa rua? Walmir e Cacá: Só nessa rua. Wamir: Quatro quarteirões. Carlos: (Risada) É trem de doido... (Walmir, Cacá e Carlos, entrevista) Orlandinho, morador de Santa Tereza, funcionário e filho do proprietário do Bar do Orlando, também compartilha da opinião dos vizinhos de bairro: Autora: Você falou antes que aqui, o bairro, é boêmio. Você acha que o bairro é boêmio mesmo? Orlandinho: Ah, é sim! Tem uma quantidade boa de bares, né? Com isso tem a procura do público de vir pra cá por causa do bairro ser tão boêmio, tão procurado por causa dos bares que não são aqueles tradicionais, aqueles bares que você vê em outros lugares, que você tem que ficar muito preso, muito sentado. Santa Tereza é mais livre, você pode passear na rua, ficar em pé tomando sua cerveja, senta no banco de uma praça e ficar tranquilo. (Orlandinho, entrevista) Houve também um aumento da procura dos bares do bairro por pessoas que não moram em Santa Tereza, por “pessoas de fora”. Segundo Orlandinho: Eu fui criado aqui, bem antes de eu trabalhar aqui eu já ficava atrás do balcão com meu pai. Antigamente, era mais o povo daqui do bairro. Então, vamos pôr os dez anos que eu trabalho aqui, meu pai tem trinta e cinco de bar. Por vinte e cinco anos sempre foi o público mais de casa, mais daqui. 110 Aí a partir desses dez últimos anos, o público foi crescendo, mais gente de fora. O povo foi conhecendo e foi o que eu disse, o bairro Santa Tereza ficou mais visado (...). O povo vê uma portinha e tá fazendo bar, continua abrindo bares ainda. (Orlandinho, entrevista) Quando afirma que os bares de Santa Tereza não são “aqueles bares tradicionais”, Orlandinho se refere aos bares ao estilo paulista mencionados por Regina Helena Alves Silva (2007), com presença mais marcante em Belo Horizonte no bairro de Lourdes. É justamente o contrário da representação mais popular de bar tradicional, que seria aquele de ambiente informal, que serve bebidas e comidas direto do balcão, muitos clientes ficam de pé ou em mesas altas e improvisadas, ocupando a calçada e até mesmo o espaço das praças. Esse é estilo do próprio Bar do Orlando e outros estabelecimentos de Santa Tereza. Ligia Mol121, moradora do bairro há vinte e cinco anos e frequentadora da Confraria São Gonçalo, também percebe o bairro como boêmio, em grande parte por causa da quantidade de bares instalados no bairro. Autora: Para a senhora, Santa Tereza é um bairro boêmio? Ligia: Totalmente boêmio! Porque tem muitos botecos, né? Tem muito bar mesmo, e vai aumentando gradativamente. Pra você ver, o bairro parece família, mas não deixa de ser boêmio e até transitam muitas pessoas de outros bairros atraídas pelos botecos. Mas mesmo assim é família, as pessoas daqui do meio também vão nos botecos, não é só aqui na Confraria não. Autora: E sempre foi assim? Ligia: Olha, eu moro aqui há vinte e cinco anos, tinha bastante bar, sim. Mas foi só aumentando, né? Eu acho que tem um bar, aí vem e abre outro, depois outro. As pessoas daqui gostam, as de fora gostam. Autora: E foi aumentando quando, dona Ligia? Ligia: Ah, tem uns quinze anos, eu acho. É, uns quinze. (Ligia Mol, entrevista) Dona Ligia afirma que o bairro parece família pela convivência estreita que mantém com os vizinhos, principalmente na Confraria São Gonçalo, no entanto, não deixa de ser boêmio. Ela associa boemia e tradição, afirmando que uma característica não exclui a outra. Foi dona Ligia que deu importante depoimento sobre a Confraria, que afirma veementemente não ser um bar, mas denota uma outra forma de boemia do bairro. 121 Lígia Mol, moradora do bairro há 25 anos, “confrade” da Confraria São Gonçalo. Conversa realizada em abril de 2016. 111 3.7 Confraria São Gonçalo A Confraria São Gonçalo, que tem lugar na Rua Norita, 9, no espaço originalmente destinado à garagem da residência do senhor Lincoln Tertuliano, acontece desde 2003, neste momento com um grupo ainda restrito de participantes e sem a denominação de confraria. Dona Ligia conta que o pequeno espaço da casa do senhor Lincoln era utilizado apenas como ponto de encontro entre os amigos do bairro, onde cada um levava algo de comer e beber que já tivesse em casa e assim eles partilhavam momentos de conversa e descontração. Não havia um dia da semana específico para esses encontros e nem formalidades envolvidas. Vez ou outra alguém que tocasse violão puxava uma canção e a reunião era musical. Entre os anos de 2005 e 2007, a esposa do senhor Lincoln esteve hospitalizada por algum tempo e quando retornou a casa lhe foi recomendado repouso. O grupo que já frequentava a garagem de sua casa, para que a amiga tivesse distração e diversão em seu período de resguardo, continuou frequentando e, José Góes, irmão do jornalista Luís Goés, certa vez levou um grupo de seresta ao encontro. Nesse período, os participantes em número já consideravelmente maior, decidiram fundar a Confraria São Gonçalo. Confraria por ser um grupo de pessoas envolvido no mesmo interesse – encontro entre amigos, sociabilidade, música, comes e bebes; São Gonçalo por ser este o santo protetor dos violeiros, segundo contou a própria Lígia. A partir de então, o dia oficial da Confraria São Gonçalo passou a ser às segundas- feiras, quando sempre há um músico convidado para alegrar os confrades com músicas e instrumentos de estilos variados. Cada participante traz um tira-gosto, comida simples, segundo dona Lígia, mas muito saborosa e bem preparada, cerveja, cachaça, refrigerante ou outra bebida de sua escolha. Há uma pequena cozinha que serve à confraria, onde algumas vezes é preparada a comida servida no encontro. Nos demais dias da semana, sempre há alguns amigos reunidos no local, mas dificilmente há comes e bebes ou música. Os aniversários dos membros são comemorados a cada mês e há encontros especiais em épocas também especiais, como Carnaval, Festas Juninas, Natal e Ano Novo. O documento afixado na pequena cozinha, datado de 2013, esclarece como se dá o funcionamento da Confraria, que contava, então, com cerca de trinta membros constantes. Como a garagem é um espaço pequeno, são colocadas algumas mesas, cadeiras e banquinhos na calçada em frente à casa; não se vende nada na 112 Confraria, cada confrade leva a bebida de sua preferência e também algum prato. Quando a comida é preparada no local, os custos são divididos entre os participantes. Em reunião, os confrades decidiram que cada um contribuiria com uma quantia simbólica mensal, com o objetivo de ajudar com os gastos de água, energia, gás, temperos e faxina do espaço da residência do senhor Lincoln. Os participantes preencheram uma ficha social, com o objetivo de reter informações sobre os membros do grupo e contatá-los, caso necessário. Segundo dona Lígia, a maioria dos participantes é da terceira idade, como ela e o senhor Lincoln, mas há aqueles mais jovens que, de vez em quando, frequentam os encontros da Confraria. São quase todos moradores do bairro, mas também vêm pessoas de outras regiões, como Cidade Nova, Floresta, Santa Efigênia e também bairros mais afastados de Santa Tereza. Para ela, é uma facilidade de estar perto de casa nesses momentos de diversão e alegria com os amigos, algo que só “um bairro que parece família” como o Santa Tereza pode proporcionar. A garagem é decorada com fotografias dos participantes e dos músicos, recortes de jornais sobre a Confraria, placas com dizeres boêmios, objetos de decoração que vão desde instrumentos musicais a várias imagens de São Gonçalo, passando por flores e retalhos de chita, iluminação baixa e luzinhas na árvore defronte a entrada. Chama a atenção de quem passa pela rua a aparência de um ambiente acolhedor e, ao mesmo tempo, de diversão. Abaixo, uma perspectiva interna da garagem onde acontecem os encontros da Confraria São Gonçalo. 113 Figura 16 – Confraria São Gonçalo Fonte: Arquivo pessoal, abril de 2016. A Confraria São Gonçalo representa um outro viés da boemia do bairro que não aquela dos bares. É uma reunião espontânea de um número restrito de pessoas conhecidas e amigas em um ambiente residencial, diferente do bar, que recebe grupos variados e desconhecidos em um ambiente comercial. Ainda que no bar os amigos compareçam em grupo e ocupem uma mesa, dividem o restante do espaço do estabelecimento com pessoas que não conhecem, ou se conhecem, nem sempre estão ali para partilharem momentos juntos. Confraria e bar coexistem em Santa Tereza, aspectos diferentes de uma mesma particularidade, a boemia. Abaixo, imagem de um dos estandartes da Confraria São Gonçalo, afirmando seu caráter não comercial de bar. 114 Figura 17 – Estandarte da Confraria São Gonçalo Fonte: Arquivo pessoal, abril de 2016. Os bares de Santa Tereza podem ser descritos como espaços coletivos, ainda que propriedades privadas comerciais, voltados para a convivência, o prazer, a diversão. Afinal, apesar de certo ordenamento do ambiente, os bares são delineados por uma peculiar liberdade em relação a tempos e ocasiões para quem os frequenta, sem horários de chegada ou saída, sem definir precisamente, no rol de atividades rotineiras, os dias nos quais visitá-los. (...) Nos bares, pode-se perceber, além dos aspectos abordados, certa maleabilidade das normas e convenções sociais. O consumo de bebidas alcoólicas, as músicas e o clima de alegria que se instaura, promovem comportamentos menos formais. Lá, as pessoas expõem-se. Seus gestos são mais livres, seja de mãos e braços, seja na dança dos mais entusiasmados ou nos abraços e beijos ofertados. (SILVA, 2012, p. 122) Como pudemos notar nas narrações feitas aqui acerca do tema, o consumo de bebidas alcoólicas é constantemente associado à boemia e ao ambiente do bar, seja no cotexto geral, brasileiro ou da história de Belo Horizonte e do bairro Santa Tereza. Daniele da Costa Silva também faz apontamentos acerca do ato de beber 115 nos bares, que não por acaso se mantém como hábito desse tipo de estabelecimento. O ato de beber mantém, através dos tempos, o sentido de um cerimonial. Beber à saúde de alguém, erguer um brinde à honra, é um ato indispensável no protocolo social. Não se compreende banquete ou festa íntima sem os copos erguidos, numa homenagem coletiva. Ainda resistem os hábitos milenares ligados à bebida: não deixar o copo vazio (...), as punições humorísticas para os maus bebedores: os simpósios, beber juntos, transformados em conferências culturais; derramar um pouco no solo do líquido antes de servir-se da refeição, como também o hábito mais recente, o convite para beber como manifestação afetuosa de amizade.[...] (Cascudo, 2001, s/p apud SILVA, 2012, p. 168 e 169) Os bares de Santa Tereza são diversos, em suas estéticas, frequentadores, propostas e características. Há desde os mais simples, informais, de balcão, passando por restaurantes com propostas mais sofisticadas e contemporâneas, e aqueles que existem há muitas décadas e mantêm seus traços, os que se renovaram com o passar dos anos, os novos, os que acompanham as tendências da noite da cidade. Mas há algo em comum que permite reuni-los, as mesas que ocupam as calçadas ou mesmo varandas de alguns imóveis, aproximando a rua e o bar em um movimento de integração do bairro, da boemia do bairro. Em um movimento que permite a percepção e sua paisagem boêmia. No capítulo a seguir, haverá mais espaço para apresentar os diferentes tipos de bares que coexistem no bairro e até mesmo a função polarizadora de alguns deles. Por ora, se faz premente registrar que a imagem de bairro boêmio é prontamente assimilada e reproduzida dada a quantidade de bares em Santa Tereza e que a atração que eles exercem nos moradores e frequentadores de outras partes da cidade é notável. Seja pelo fato de o número de bares atrair ainda mais bares; seja pela tradição do bairro que se associa à boemia; seja ainda pela “aura” de Santa Tereza que alguns afirmam existir, não se pode negar que há uma prática e uma imagem no e do bairro que, atualmente, tem como símbolos e suportes da cultura urbana boêmia os bares. 116 Figura 18 – Balcão do Bar Liverpool Fonte: Acervo pessoal, 2016. Figura 19 – Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete Fonte: Acervo pessoal, 2016. 117 Figura 20 – Birosca S2 Fonte: Fanpage Birosca s2 no Facebook. Disponível em: https://www.facebook.com/BiroscaS2/photos/a.460620737346487.1073741830.458026420939252/46 4519216956639/?type=3&theater Acesso: 10 mar 2016. Figura 21 – Clube Mineiro da Cachaça Fonte: Fanpage Clube Mineiro da Cachaça no Facebook. Disponível em: https://www.facebook.com/ClubeMineiroDaCachaca/photos/a.249906838436689.57393.24985957510 8082/408740015886703/?type=3&theater Acesso: 10 mar 2016. 118 4 PAISAGEM BOÊMIA DE SANTA TEREZA A boemia pode estar em toda parte: não é um lugar, mas uma atitude mental. Arthur Ransome Os bares de Santa Tereza estão, em alguns casos, instalados em edificações antigas e de relevância arquitetônica para o bairro, seja pelo estilo da época das primeiras ocupações da cidade ou de outras décadas também marcantes, como os estilos Eclético e Art Déco. Outros se encontram em imóveis que passam despercebidos por olhares menos atentos, seja por possuírem uma arquitetura mais simples ou de estilo não bem definido, seja pela descaracterização de um estilo anterior. Todavia, mais do que pensar especificamente nas construções que abrigam esses estabelecimentos, nos interessa uma apreciação mais ampla dos bares como símbolos e suporte da cultura urbana tão marcante naquele espaço da cidade, a boemia. É possível fazer essa reflexão sobre a relação entre bares e bairro a partir da terminologia paisagem. Ao tomar o bairro Santa Tereza como uma paisagem constituída de diversas camadas justapostas, como em um palimpsesto urbano122, nos ativemos a uma dessas camadas, a boemia. O termo palimpsesto tem origem nos pergaminhos medievais, nos quais era comum haver sobreposições e inscrições em cima de outras previamente rasuradas ou parcialmente apagadas, sendo que as mais antigas não desapareciam nunca por completo. Esse processo resultava em um documento repleto de frases sobrepostas. Esta é uma analogia para a concepção de paisagem do geógrafo Carl Sauer (1965)123, que a pensa partindo das relações entre espaço e tempo, que estariam em constante processo de desenvolvimento. Desenvolvimento não no sentido de progresso ou busca por níveis mais altos de excelência, mas de 122 Ver PEREIRA, Ana Beatriz Mascarenhas; TICLE, Maria Letícia Silva. Palimpsesto Urbano: camadas da paisagem cultural de Santa Tereza. In: COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO, 3., 2014, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte: IEDS; MACPS; IPHAN, 2014. 123 Ver LEIGHLY, John; SAUER, Carl Ortwin. Land and Life. California: University of California Press, 1965. 119 constantes substituições e continuidades que se dão em consonância com as subjetividades de um lugar; no sentido de processo histórico, sucessão de acontecimentos e representações que conformam a história desse lugar. Nessa linha de pensamento, que conjuga tempo e espaço em uma relação de justaposição, também estão inseridos autores como Anne Cauquelin (1982)124 que aponta para a insuficiência das descrições físicas do ambiente construído e destaca práticas, comportamentos, culturas e memórias, como edificadoras dos espaços e constituidoras da matéria urbana. Sendo assim, mais do que as edificações concretas que abrigam os bares, mas sua existência simbólica que proporciona a atribuição de uma imagem ao bairro é que constitui a camada boêmia mais recente da paisagem de Santa Tereza. Como vimos, a boemia é um aspecto que vem sendo construído há muitas décadas, e há camadas boêmias mais profundas, acessadas pelas memórias mais antigas que evocam as serestas, as festas e bailes nos clubes. Há, inclusive, práticas atuais que fogem da representação dominante da figura dos bares e busca resgatar, exemplo disso é a Confraria São Gonçalo. Outros pensadores que também foram importantes para refletir sobre a paisagem e possibilitar sua articulação à noção de boemia aqui abordada. Essa articulação se mostra possível também pela proteção do bairro Santa Tereza enquanto patrimônio cultural, na medida em que há discursos, instrumentos urbanísticos e culturais que o legitimam como tal. Discursos e política estes esteados, em parte, na imagem de bairro boêmio. Mais à frente será dedicado debate mais cuidadoso sobre essa vinculação entre patrimônio cultural e boemia. Isabel Cardoso (2013) afirma que para “(...) Pierre Nora, a ruptura definitiva com as antigas tradições rurais e urbanas marcou um ponto de viragem na nossa relação com o conceito de patrimônio” (CARDOSO, 2013, p. 7), passando a um momento no qual “tudo é patrimônio”. Do patrimônio de Estado, herdado, histórico, passa-se a um patrimônio reivindicado socialmente, comum, memorial, o patrimônio cultural. (CARDOSO, 2013) Enquanto “tudo é patrimônio”, pode-se falar também de um movimento no qual “tudo é paisagem”. Cardoso aponta o estudioso Michael Jakob que cunha o termo “omnipaissagem” para descrever a forte retomada da 124 Ver CAUQUELIN, Anne. Essai de philosophie urbaine. Paris: Presses Universitaires de France - PUF, 1982 120 terminologia a partir da década de 1980, quando da preocupação com o meio ambiente gerada pelo modelo de crescimento urbano de alto impacto para a natureza. A obra organizada por Isabel Cardoso e aqui tomada de análise é composta por dez artigos de estudiosos da paisagem, dentre eles Álvaro Domingues, Jean-Marc Besse, a própria Anne Cauquelin já citada acima, Pierre Donadieu, e Lisa Dietdrich, importantes nomes para o modo como consideramos adequado de pensar a paisagem quando relacionada ao bairro Santa Tereza. “Rompem com o modo de pensar a paisagem como um todo coerente solidamente ajustado, que enquadra drasticamente as nossas atividades”. (CARDOSO, 2013, p. 9) Nessa perspectiva, o bairro Santa Tereza não precisa ser caracterizado rigidamente como boêmio, pois nem todos o percebem dessa forma. Mas, ao mesmo tempo, é possível narrá-lo e representá-lo assim, dependendo da memória evocada e da experiência vivida. Indo além, sua boemia não precisa se enquadrar em um padrão pré-estabelecido, ela foi e é diversa, como discutido no capítulo anterior. O geógrafo Álvaro Domingues traz para a paisagem a metáfora do transgênico. Para o autor, as paisagens são dispositivos de produção de sentido, narrativas do real por uma perspectiva do coletivo e que extrapolam classificações recorrentes – rural, urbana, marítima, cultural, etc –, pois combinam e misturam elementos diversos compondo um DNA próprio125. A paisagem seria, portanto, mutante, representação de qualquer problemática, exercício de alteridade. Ora, sendo a paisagem um registro da sociedade que muda e sendo a sociedade composta de mudança, essa estabilidade [da paisagem] fica comprometida, comprometendo-se assim a própria construção da identidade ou dos traços identitários que identificam qualidades (supostamente permanentes) da paisagem. (DOMINGUES, 2013, p. 223) Em vista disso, utiliza a metáfora do transgênico, suavizando um pouco os resquícios da rigidez das classificações e a ilusão da noção de identidade. (DOMINGUES, 2013.) Ainda assim, a imagem de um código que é transmitido, como 125 O autor utiliza a metáfora do DNA em consonância com a própria metáfora do transgênico, “não pela alusão aos organismos, mas pela possibilidade de perceber elementos advindos de corpos distintos, bem como seus respectivos campos de saber.” (DOMNGUES, 2013, p. 232) 121 acontece com a ideia de identidade, é, em parte, mantida nessa concepção de paisagem. A escolha aqui feita por não nos atermos ao conceito de identidade se baseia na concepção de que um bairro não se mantém o mesmo no ínterim de sua história, mas é o desdobramento das camadas superpostas de maneira coerente com sua trajetória de existência na cidade. Segundo Cauquelin (2003)126, os sítios urbanos se transformam constantemente e seus valores culturais mudam segundo as épocas, não sendo, pois, prudente falar em traços tão constantes que apontem para a fixidez que a ideia de identidade traz. Nessa perspectiva, podemos dizer que a paisagem do bairro Santa Tereza é produzida a partir de sentidos atribuídos, como o boêmio. Esses sentidos variam no decorrer do tempo, colocando diante de nós uma paisagem que muda em conformidade com as práticas de cada época. A paisagem boêmia de hoje não é a mesma das serestas das décadas de 1970 e 1980, tampouco como a paisagem das décadas de 1930, 1940 e 1950, quando ainda nem era possível atribuir-lhe esta denominação. A paisagem boêmia de hoje é conformada pelos bares e suas mesas nas calçadas e varandas, pelo trânsito de pessoas no bairro a escolher em qual bar irão desfrutar da noite, pela iluminação noturna do bairro advinda desses estabelecimentos, pelo burburinho das conversas e músicas, pelos aromas dos pratos e tilintar dos copos. É ponderado não falar de uma identidade do bairro, já que esta palavra induz à ideia de estabilidade, unicidade e determinação de sentido, o que, definitivamente, não acontece em Santa Tereza. Retomando a forma como Álvaro Domingues explora a paisagem, o autor recorre a George Simmel, que afirma que para que haja consciência da paisagem, deve haver uma percepção do todo sobreposto à diversidade das partes. “Contudo, esse todo é um estado de espírito – mood ou Zeitgeist –, um ar do tempo, uma predisposição e não uma característica objetiva inerente aos fatos de que se compõem a paisagem”. (DOMINGUES, 2013, p. 239, grifo do autor) Esse tipo de percepção permite atribuir significado ao que está disposto lado a lado de forma aparentemente regular e ordenada. Permite, por exemplo, atribuir significado aos bares e à boemia, sendo os 126 CAUQUELIN, Anne. Paisagem, retórica e patrimônio. RUA 8, Salvador, v. 6, n. 1, p. 24-27, Salvador, 2003. 122 primeiros símbolos dessa cultura urbana na atualidade, e a segunda, apoiada nesses mesmos símbolos. Domingues afirma, ainda, que a paisagem é, atualmente, uma terminologia flutuante e vaga por transitar entre diversas falas das mais variadas áreas do conhecimento. Todavia, a noção construída e aplicada no âmbito deste trabalho converge para ideias que dialogam, ainda que de autores de diferentes áreas do saber, em consonância com a proposta inicial da pesquisa. A paisagem a que este trabalho se refere é um modo de percepção do espaço que se dá mais pela vivência, pela experiência, pela atribuição de sentido do que apenas pelo olhar. Dá-se pelo olfato, pela audição, pela narrativas de memórias, pelo modo como o corpo ocupa o espaço. No entanto, as “manobras de produção de sentido” que permitem o processo de paisagificação (mise em paysage)127, como é feito aqui com a boemia, correm o risco de recair sobre o “paradigma pitoresco fundador das noções de sítio ou paisagem patrimonial (e a sua reconversão em produto turístico produtor de identidade, distinção e valor)”. (DOMINGUES, 2013, p. 225). Dessa forma, o caráter mutável da paisagem pode fragilizá-la caso não seja utilizada apropriadamente. O bairro Santa Tereza não deveria ser tratado como um bairro pitoresco devido à sua particularidade boêmia, já que a vida noturna e as atividades ditas e descritas como boêmias nos bares são parte de sua existência como qualquer outra de suas características. São, de fato, aspectos subjetivos do bairro que podem ser ressaltados e explorados devido a sua potência diante da possibilidade de valorização da vida naquele espaço. Contudo, é extremamente delicada e arriscada a associação constante entre boemia e patrimônio cultural, que se colocada simplesmente como uma “manobra de produção de sentido” em função de uma paisagificação de mercado corre o risco de recair no que Paola Berenstein Jacques 127 O termo paisagificação está no artigo de Álvaro Domingues (2013) traduzido para o português para a edição da obra organizada por Isabel Lopes Cardoso. Aparentemente, é uma tradução livre da expressão em francês mise em paysage, utilizada por Pierre Donadieu. 123 (2003)128 chama de “patrimônio espetáculo”. Discutiremos esse ponto oportunamente. 4.1 Regiões da boemia do bairro (...) uma cidade não se faz apenas através de traços retos, praças, casas ou palacetes. O elemento humano é que dá a vida a esse espaço. Assim, as relações que seus habitantes estabelecem, os lugares que criam, o modo como ocupam a cidade, são, da mesma forma, aspectos determinantes na qualificação que se possa fazer a respeito dessa cidade. Anny Jackeline Silveira, 1996 Ao apresentar o artigo do filósofo e historiador Jean-Marc Besse, Isabel Cardoso introduz sua discussão sobre a transformação simbólica do território em paisagem: Caminhar (...) significa participar na construção das experiências paisagísticas de uma geografia ‘afetiva, de proximidade e de contato com o mundo e com o espaço’ na qual, possivelmente tem origem a geografia sapiente. A geografia afetiva seria, assim, antes de mais, uma maneira de estar e habitar o mundo, uma experiência e um uso que se desenvolvem no espaço. Partindo da concepção da paisagem como espaço vivido e seguindo a ideia de que a paisagem é a forma espacio-temporal (sic) segundo a qual o habitar humano se desenvolve no mundo (...), habitar não se aplica apenas à casa, ao lar, ao apartamento, mas se estende, também, às relações que o ser humano mantém com o mundo: o espaço da atividade é o espaço das relações e o espaço dos significados – por conseguinte, a paisagem é ‘a maneira de estar implicado no mundo’ e a diversidade das paisagens corresponde à diversidade das maneiras de habitar o mundo”. (CARDOSO, 2013, p. 10, primeiros grifos meus, demais grifos da autora) Complementando o pensamento de Cardoso, Jean-Marc Besse (2013) desenvolve a ideia de que as paisagens não excepcionais, mas extratos do cotidiano, rotina na própria vida dos indivíduos e dos grupos nos quais eles se inserem. Antes de ser apenas uma imagem a ser contemplada e produto do trabalho e da cultura humanas, “(...) a paisagem é a forma espácio-temporal (sic) segundo a qual o habitar humano se desenvolve no mundo” (BESSE, 2013, p. 34) é o viver, é a participação e transformação do espaço em que se vive. 128 JACQUES, Paola Berenstein. Patrimônio cultural urbano: espetáculo contemporâneo? Revista de Urbanismo e Arquitetura, Salvador, v. 6, n. 1, p. 32-39, 2003. 124 Essa definição demonstra a concepção não dualista de Besse acerca da paisagem, na qual visão e ação não estão apartadas, mas antes aliadas. Representação do mundo e ação transformadora no mundo são perspectivas válidas da paisagem, mas não as únicas, talvez não as mais apropriadas, segundo o autor. (BESSE, 2013). Estar na paisagem, este é o ponto central trazido por Besse. Não deveríamos tentar analisar a paisagem a partir de um ponto de vista exterior, já que “estamos nas pregas do mundo” (BESSE, 2013, p. 35), envolvidos nele e não apenas observando- o. Como indivíduos, nos encontramos nas “dobras da paisagem” (CAUQUELIN, 2013). Sendo assim, são as próprias pessoas que conformam a paisagem boêmia de Santa Tereza, tomando os bares como suporte dessa boemia e fazendo deles as próprias “pregas” e “dobras” do tempo no bairro. Besse fala de três formas de se ver a paisagem, coexistentes e que se confundem no momento da experiência. Elas criam “regimes de espacialidades” e variadas relações com a paisagem. Nesse sentido, considerando o Dossiê para Proteção do Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza (2015) e o diálogo com os interlocutores da pesquisa, foi possível perceber na fala dos entrevistados sobre suas práticas cotidianas no bairro Santa Tereza, certas espacialidades existentes na paisagem. Com maior ênfase sobre os bares enquanto símbolos boêmios, poderíamos falar de regiões da paisagem boêmia de Santa Tereza polarizadas por alguns desses estabelecimentos. Essa proposta dialoga também com a análise sócio-etnográfica da vida cotidiana empreendida por Michel de Certeau, Luce Giard e Pierre Mayol129. Os autores propõem uma metodologia que volta o olhar para a relação entre objetos e pessoas e o vínculo entre espaço público e privado de maneira qualitativa, mais do que o apego às perspectivas quantitativas de percepção do espaço. O bairro seria, então, uma paisagem na qual o morador, de certa forma, privatiza o espaço público à medida que depreende nele suas práticas cotidianas, como a frequência a determinados espaços, a relação estabelecida com outros moradores, comerciantes e demais frequentadores, ao uso que faz das vias e trajetos. A repetição desses modos de existir no espaço faz com que este se torne paisagem reconhecida e apropriada pelos indivíduos. 129 CERTEAU, Michel; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. Línvention Du quotidien 2, Habiter, cuisiner. Paris: Gallimard, 1994. 125 Por esse prisma, os autores falam de uma prática do bairro, a qual podemos chamar aqui de prática da paisagem boêmia. O costume é por eles identificado como a melhor forma encontrada pelo sujeito de se fazer algo, a maneira como ele se sente mais confortavelmente inserido naquele ambiente. Assim é que podemos perceber como os interlocutores demonstraram em suas falas as espacialidades boêmias de Santa Tereza, pelos diferentes tipos de apropriação dessa paisagem. Quando Anny Jackeline Silveira (1996) discute os cafés da Belo Horizonte das décadas de 1920 e 1930, ela afirma que frequentar determinado lugar era como incluir-se num certo grupo, marcar uma posição. Não obstante, a autora também afirma que o individuo urbano é múltiplo, bem como os espaços urbanos, o que não restringe sua vivência a um número restrito de lugares. Podemos transportar essa análise para o que estamos denominando paisagem boêmia de Santa Tereza, tanto a partir das entrevistas e conversas com os interlocutores quanto pela observação participante que se deu no bairro. Cláudio: O que funciona mesmo no Santa Tereza é isso que eu te falei, começa ali na Hermilo Alves, aÍ vem o circuito dos botecos (risos) e você desce aqui a Mármore. Elisa: Na Praça [da Liberdade] tem o Circuito dos Museus, aqui tem o circuito dos botecos. Autora: Então os bares formam uma espécie de circuito? Elisa: É, na verdade mais de um. Esse aqui, outro na Conselheiro Rocha. Vai até lá embaixo. (Cláudio e Elisa, entrevista) Elisa e Cláudio foram os primeiros a despertar para a pesquisa a possibilidade de que houvesse regiões dentro da paisagem boêmia do bairro. Suas falas, acompanhadas de gestos que apontavam para as ruas e regiões de Santa Tereza, tentavam esclarecer o arranjo estabelecido e que toma por suporte físico os cerca de setenta bares do bairro. Um arranjo dado por um acordo não verbal e não institucional, mas feito pelos indivíduos, tanto frequentadores quanto comerciantes, que compreendendo as pré-existências do bairro se adaptam da melhor forma possível. Walmir, Carlos Alberto e Cacá Fortini também explicitam um certo tipo de divisão do bairro: Autora: Tem turma do bairro? Que frequenta os bares? Walmir: Ah, tem demais. 126 Cacá: Mas a turma do bairro em si é muito fiel, né? Autora: Essa turma frequenta onde, hein? Walmir: Ah, mas cada turma aqui frequenta um lugar. Santa Tereza tem N turmas, cada lugar tem sua panela. Carlos: Normalmente a turma lá de baixo não frequenta aqui de cima e vice- versa. Autora: Lá da Mármore? Lá pra baixo? Carlos: Não, aqui da parte de baixo, aqui, tá vendo? [aponta para o lado do Ribeirão Arrudas, porção leste do bairro] Walmir: Aqui e lá. Santa Tereza é considerado parte do alto da Quimberlita pra cá, parte de baixo da Quimberlita pra lá. Porque o bairro, antigamente, vinha até nessa rua aqui só, não tinha a parte de baixo. (Walmir, Carlos Alberto e Cacá Fortini, entrevista) Orlandinho e Luís Góes, quando questionados sobre uma possível espacialização do bairro relacionada à vida boêmia, dizem o seguinte: Aí que eu te falo que é do público daqui do bairro mesmo. Tem gente que tem preguiça. “Ah, não vou descer ali embaixo não, minha área é aqui em cima”. Ai acaba ficando lá, que é o Alto dos Piolhos, que tem os bares lá, bastantes bares também. Ai tem o público da praça [Duque de Caxias]. O público nosso aqui sempre veio aqui. (Orlandinho, entrevista) Luis: Santa Tereza é toda dividida, digamos assim, como diria o poeta, “Santa Tereza são várias”. Autora: E qual que é mais ou menos essa divisão? Luis: Ó, isso era muito latente muitos anos atrás. Eu, quando era rapaz, eu vinha aqui passear na praça [Duque de Caxias], que eu morava ali embaixo na Rua Silvianópolis, eu morava lá onde é hoje a Birosca, em frente tem a Santa Pizza. Então, quer dizer, quando a gente morava lá, a gente vinha aqui [na Praça Duque de Caxias] passear. “Vão ali em cima? Vamos lá! Vamos lá na Praça!” (Luis Góes, entrevista) Esses depoimentos dizem respeito aos frequentadores que moram no bairro há mais tempo e, de certa forma, mantêm essa espacialização. Mas, essas regiões conformadas pela geografia e pela presença marcante de alguns bares específicos, acabam por transparecer e denotar a paisagem de Santa Tereza de forma marcante, inclusive para quem vem de fora do bairro. Walmir: Vem muita gente de fora pro bairro. Carlos: É igual eu te falei, o Temático, por exemplo, se vai uma meia dúzia de Santa Tereza, é muito. É só gente de fora. Walmir: O meu bar mesmo vem muita gente de fora. (Walmir e Carlos Alberto, entrevista) 127 Autora: E você acha que é mais morador, mais gente de fora, ou isso não dá pra saber? Orlandinho: De Santa Tereza tem também, mas não é tanto quanto é de fora. De fora eu acho que hoje em dia é mais. Autora: E antes? Orlandinho: Antigamente, era mais o povo daqui do bairro, o povo de fora sempre veio no Bolão, que recebe gente daqui e de fora, o Bolão é o Bolão, né? Mas o pessoal de fora gosta do Temático, não sei por que, não. A frequência aos bares de muitas pessoas que não moram no bairro é clara na fala dos interlocutores, apesar de atualmente ser difícil diferenciar estabelecimentos frequentados por pessoas de fora do bairro e pessoas que moram em Santa Tereza. A metodologia de pesquisa não incluiu uma análise quantitativa para estabelecer uma proporção de frequentadores que moram no bairro e que não moram, mas se ateve à percepção qualitativa dos sujeitos entrevistados e da própria pesquisadora. Além dos instrumentos de pesquisa mencionados (entrevistas e observações), atentamo-nos para o fato de algumas regiões percebidas na paisagem boêmia serem coincidentes com os marcos arquitetônicos e urbanísticos observados no segundo capítulo desta dissertação – a Praça Duque de Caxias, a linha férrea e o antigo Hospital do Isolado, atual construção que abrigou o Mercado Distrital de Santa Tereza. Essa coincidência não se dá por acaso: O patrimônio expande-se no nosso tempo como uma rede alargada de edifícios, percursos, lieux de mémoire, locais históricos e símbolos, nos quais novos objetos, lugares, memórias e significados estão continuamente interligados. (KOLEN, 2006, p. 52 apud DIEDRICH, 2013, p.. 89, grifo meu) Sendo assim, a partir do dossiê da PBH (2015), das entrevistas e conversas com os interlocutores e pela observação participante no bairro, podemos dizer da existência de algumas regiões da paisagem boêmia de Santa Tereza. Retoma-se a polarização já explicitada pela equipe da PBH pelo Bar e Restaurante Bolão – o Rei do Espaguete, na Praça Duque de Caxias; pelos bares do largo conhecido como Alto dos Piolhos, que reúne muitos estabelecimentos; pelo Bar do Orlando, junto à linha férrea; e propõe-se mais uma região, polarizada pelo Bar Temático, próximo ao antigo Mercado Distrital de Santa Tereza. Foram dois os critérios para a escolha desses bares: a relevância histórica no contexto da genealogia da boemia do bairro e a relevância dos locais como pontos de referência para os frequentadores, tanto moradores quanto aqueles de outros bairros. 128 Quanto à delimitação dessas regiões, esta se deu por meio da observação participante da dinâmica do bairro, momentos nos quais foi possível perceber que se estava em uma ou outra região de Santa Tereza. Em tempo, nem todos os bares do bairro se encaixam nessas regiões, alguns ficam, de certa forma, “avulsos” na paisagem, dado que sua localização não é nem mais ou nem menos relacionada com uma ou outra região, mas neutra em relação a elas. Pode-se observar a representação dessa dinâmica no mapa no mapa-croqui. 129 Figura 22 – Mapa-croqui: Distribuição espacial da paisagem boêmia do bairro Santa Tereza Fonte: Prodabel, 2014, modificado pela autora. 130 4.1.1 Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete O Bolão se insere no contexto da boemia do bairro como um dos bares mais antigos, inaugurado em 1961, e por ter sido pioneiro na noite belo-horizontina – funcionamento 24horas e oferta de refeições completas durante toda a madrugada, ficando conhecido como “fim de noite”. Walmir: Nós não frequentávamos muito aqui não, o bairro [quando mais jovens]. Nós íamos pra outros lugares e vínhamos pro Bolão de madrugada. Carlos: Era Bolão! Walmir: Tinha outro lugar não! De onde que a gente vinha era Bolão. É um estabelecimento de administração familiar, conduzido pela família Rocha, residente no bairro desde 1938. Em 1961, José da Rocha Andrade teve a oportunidade de comprar um bar na Praça Duque de Caxias, ao lado do Cine Santa Tereza130. Sua esposa, Maria dos Passos Rocha, era responsável pela cozinha, enquanto o marido e alguns dos filhos do casal ficavam à frente do balcão. Quando criança, José Maria Rocha, um dos filhos do casal, se aventurou na cozinha com uma receita de espaguete que rapidamente agradou aos clientes. Seu apelido de Bolão e o prato que o consagrou acabaram sendo emprestados para o Bar Rocha e Filhos, atual Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete. Em 1969, o bar mudou- se para o atual endereço em uma das esquinas da Praça Duque de Caxias, ponto central do bairro. Há também o Bolão II e duas filiais em outros bairros da cidade. São três os salões que conformam o bar, todos com mesas e cadeiras de madeira. Dois deles são voltados para a praça, em sujas calçadas há também mesas de plástico, e um voltado para a Rua Mármore. Este último, com paredes revestidas em azulejos brancos, possui decoração mais simples, mesas e cadeiras antigas e pesadas, alguns quadros de Charlie Chaplin e desenhos de nus femininos, alguns relógios espalhados e televisões ligadas. Há placas informativas sobre forma de pagamento, conduta no bar e com sugestões de consumo de alguns pratos da casa. Os outros dois salões, mais antigos, passaram por reformas recentemente e um deles continua fechado. No outro, agora estão expostas nas paredes painéis com fotos antigas de Belo Horizonte, as mesas e cadeiras foram substituídas por 130 Inicialmente, o Bolão estava instalado do outro lado da Praça Duque de Caxias, e não na esquina da Rua Mármore com Adamina, onde está hoje em imóvel tombado. 131 modelos mais finos e leves. Antes, a coleção de relógios era exibida nas paredes dos dois salões mais antigos, cujo revestimento até a metade era de cerâmica branca e o restante pintado de verde e bege. Segundo José Maria Rocha, o Bolão, antes de funcionar durante toda a madrugada, ele apontava as horas aos clientes que chegavam após o fechamento do bar dizendo estar com fome. A situação era recorrente e ele pendurou outros relógios pelo bar, iniciando uma tradição de ser presenteado pelos clientes por relógios de paredes de todos os estilos e formatos. Figura 23 – Um dos salões do Bolão antes da reforma Fonte: Kekanto, 2013. Disponível em: https://kekanto.com.br/biz/bolao-o-rei-do-espaguete-2 Acesso: 10 mar 2016. Ao longo dos anos, junto à Igreja de Santa Teresa e Santa Teresinha, o Bolão consolidou-se por estar na Praça Duque de Caxias, por si só uma referência no bairro, tornando-se se ponto de encontro de motoristas de táxi, reuniões de famílias em almoços festivos e grupos de amigos para tomar cerveja, “beliscar” os tira- gostos, terminar a noite com um prato de espaguete ou Rochedão, a famosa refeição servida no bar. Exerce a função de polarizador por sua história e pelo papel relevante que ainda ocupa no imaginário dos moradores e frequentadores do bairro. 132 Figura 24 – Bar e Restaurante Bolão, o Rei do Espaguete Fonte: Acervo pessoal, 2016. Figura 25 - Rochedão Fonte: Blog Baixa Gastronomia. Disponível em: http://baixagastronomiapornenel.blogspot.com.br/2009/08/rochedao-especial-bolao.html. Acesso: 10 mar 2016. 133 4.1.2 Bar do Orlando O Bar do Orlando, um dos mais antigos do bairro Santa Tereza ocupa um imóvel tombado cujo projeto foi aprovado em 1929 e, desde então, abriga um estabelecimento comercial. O primeiro proprietário foi o senhor Pedro de Assis Filho e, posteriormente, José Inácio Resende alugou o prédio para que ali funcionasse um pequeno armazém que vendia artigos de pescaria, secos e molhados. Nessa época, o estabelecimento era conhecido bar do Zé Inácio ou Bar dos Pescadores. Há trinta e cinco anos o bar pertence a Orlando Silva Siqueira e ainda mantém o aspecto e os produtos de armazém, apesar de seu foco comercial ser o bar. (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2015) A parte interna do bar é formada por apenas um balcão de mármore e cerâmica, atrás dele algumas prateleiras na parede que exibem artigos típicos de armazéns, além de troféus, muitas placas, insígnias e bandeiras do Clube Atlético Mineiro, uma pia, geladeiras de cerveja e uma restrita área de circulação dos funcionários. Sobre o balcão, duas vitrines de salgados do tipo estufa, com pasteis, linguiças e as famosas batatas cozidas inteiras. Não há mesas no interior do bar, cujas paredes são pintadas de verde. Elas ficam nas calçadas das Ruas Alvinópolis e Conselheiro Rocha. Quando não há mesas e cadeiras suficientes para todos os clientes, o que é comum, as pessoas ficam de pé recostadas no balcão interno e do lado de fora, próximas a uma abertura na parede, ou se sentam nos bancos da Praça Ernesto Tassini e de uma grande calçada na Rua Conselheiro Rocha com seus copos, garrafas de cerveja e tira-gostos comprados no Bar do Orlando. Como esclarecido anteriormente por Orlandinho, filho do atual proprietário do Bar do Orlando, ali se tornou um ponto de referência no bairro para quem ia pescar no Ribeirão Arrudas e também para quem embarcava ou desembarcava na Parada do Cardoso. O Bar do Orlando é polarizador de uma região da paisagem boêmia de Santa Tereza tanto pela manutenção das características da edificação e do antigo armazém, pela integração entre o estabelecimento e a Praça Ernesto Tassini, que se dá informalmente pelos clientes e é estimulada pelo bar, e ainda pela localização geográfica na parte mais baixa do bairro, junto à linha férrea. 134 Figura 26 – Bar do Orlando Fonte: Acervo pessoal, 2016. A fotografia acima foi tirada da Praça Erneto Tassini; a fachada não aparente na fotografia está defronte para o muro que faz divisa com a linha férrea. Figura 27 – Banco junto ao muro que faz divisa com a linha férrea, em frente ao Bar do Orlando Fonte: Kekanto. Disponível em: https://kekanto.com.br/biz/bar-do-orlando/fotos/520424. Acesso: 10 março 2016. 135 4.1.3 Bar Temático O Bar Temático, aberto em 1999, atrai frequentadores de toda a cidade e é conhecido por seus pratos típicos pernambucanos. Paulo Benevides, o Bené trouxe do nordeste o feijão de corda, a manteiga de garrafa e o queijo coalho. O Zelder, mineirinho da gema, colocou no trem o angu e a mandioca. E lá da fronteira, quando não se sabe ao certo se é sudeste ou nordeste, acrescentaram a carne de sol. A tampa da panela fechada e o caldeirão começou a funcionar. (BAR TEMÁTICO, 2010) 131 Os tira-gostos e refeições recebem nomes que remetem à tradição nordestina, seja pelos personagens, seja pelo humor característico da região, como “Lampião, Maria Bonita e Cangaceiros”, “Frustração de Noiva”, “Arrumadinho”. Os sabores e nomes inusitados são destaques do bar. São dois salões com mesas e cadeiras de madeiras, um voltado para a rua e o outro no piso superior do bar, além de mesas de plástico nas calçadas. As paredes internas e externas revestidas de azulejos conferem ao Temático um ambiente informal e confortável para os frequentadores, que se sentem à vontade em meio às televisões, decoração que remete ao nordeste brasileiro e displays com fotografias e descrições dos pratos. Ao Bar Temático foi atribuída função de polarização na paisagem boêmia de Santa Tereza por ser constantemente mencionado por atrair muitas pessoas de fora do bairro. Participa de um conhecido circuito gastronômico da capital mineira desde 2001, fato que contribui para sua popularização fora de Santa Tereza e para a atração de não moradores. É interessante fazer um paralelo entre essa atratividade de indivíduos de outros bairros e sua proximidade com o antigo Mercado Municipal, onde funcionou o Hospital do Isolado. O Hospital marcou essa área do bairro pelo acolhimento de não residentes e por certa repulsa de muitos moradores, deixando a região menos movimentada que outras de Santa Tereza. Enquanto o Mercado esteve em funcionamento, o local era um equipamento de aglutinação e movimentação do bairro, mas desde 2007 os moradores do entorno reclamam do esvaziamento e da pouca circulação de moradores, tanto de dia quanto à noite. Coincidência ou não, o entorno do grande quarteirão dos antigos Hospital do Isolado 131 Disponível em: http://bartematico.com.br/index.php?option=com_content& view=article&id=66&Itemid=171 Acesso: 10 mar 2016. 136 e Mercado Distrital, onde se localiza o Bar Temático, é uma área á muito frequentada por indivíduos que não moram em Santa Tereza. Figura 28 – Bar Temático Fonte: Google Maps. Disponível em: https://www.google.com.br/maps/uv?hl=pt- BR&pb=!1s0xa69a2e63da1347:0x3a52b452f80859eb!2m5!2m2!1i80!2i80!3m1!2i100!3m1!7e115!4s//l h6.googleusercontent.com/proxy/_G0ZR-a1rGEC- ma4YcXGw9RAF1tHF3eQ0o09VZwAWGtD6E8_B5daR4XhmrieZOAu2gtC90nyiEO8s8Zsqnk9oyBXu 3aHkN4zQsIB3GbWJCtoQ4jgLFwgqUNa1ayq3bg2ctekIqiCXUfLK97u7_E2GZv6jIIRX2mWjEpZ%3Dw 241-h160!5sbar+tematico+bh+- +Pesquisa+Google&imagekey=!1e2!2sUjnehhhZ0XwAAAQo8AZzvw&sa=X&ved=0ahUKEwj- 3uDFvozMAhXINz4KHfPMCZIQoioIfTAN Acesso: 10 mar 2016. 4.1.4 Alto dos Piolhos A região de Santa Tereza conhecida como Alto dos Piolhos, uma das mais altas do bairro, é um largo formado pelo encontro das Ruas Quimberlita, Bocaiúva, Bom Despacho e Tenente Freitas. Segundo o Dossiê para Proteção do Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza (2015), ali existe (...) uma tipologia arquitetônica que agrega valor ao referido lugar. Isso porque a ocupação do “Alto dos Piolhos” é marcada por edificações com 137 uso comercial voltado diretamente para a via pública, sem a existência de afastamentos frontais. Esse tipo de ocupação incentivou o desenvolvimento de usos comerciais e dos tradicionais “butecos” (...) (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2015, p.97) De acordo com Luís Góes (2014), este nome vem desde a década de 1950 e sua origem não é clara. Uma das versões remete a uma família conhecida como Família dos Piolhos, não se sabe o porquê, que havia se mudado de Mariana para Santa Tereza nas primeiras décadas de existência de Belo Horizonte. Com sua instalação próxima a esse largo, ficou sendo chamada de Família dos Altos dos Piolhos e, ao longo dos anos, abreviou-se a referência para Alto dos Piolhos. Outra versão remete à geografia alta do bairro, interpretando o nome como uma analogia à cabeça, parte mais alta do corpo humano e que está sujeita a infestações de piolhos. Finalmente, a terceira e mais conhecida narrativa versa sobre a existência de inúmeros “jovens cabeludos” frequentando a região, nos anos de 1960. Segundo Márcio Borges, tradicional frequentador do “Alto dos Piolhos”, deixar o cabelo grande era uma maneira de contestar a ditadura: “era como um estandarte visual que a pessoa carregava para falar que não estava nem aí para ditadura. O nome “Piolho” era uma extensão simbólica, um modo pejorativo que os jovens se davam. A juventude ali reunida era inconformada com a situação do país, e é no inconformismo que o Clube da Esquina e o Alto dos Piolhos se uniam”. (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2015, p. 40) Conta Luís Góes que depois da instalação do Bar Bocaiuva em 1976 ali era ponto de encontro dos intelectuais que frequentavam Santa Tereza. Criaram a Confraria dos Piolhos, com sede neste bar. O bar mudou de endereço, ainda dentro do bairro, e hoje no local está o Bar Du Pedro, dividindo espaço e clientela com o Espeto da Esquina, o Baianera Restaurante, o Bar da Lili, Estação Santê, Moreno’s Bar, Otton Pizzaria e Canto do Aristóteles. O Alto dos Piolhos polariza uma das regiões boêmias de Santa Tereza por ser uma referência geográfica do bairro, um de seus pontos mais altos, e por congregar bares de diferentes tipos de estética, clientela, serviços e oferta de produtos. Além disso, consolidou-se no imaginário popular daqueles que residem dentro e fora do bairro e que dele se utilizam como um lugar de apropriação vinculada aos usos culturais e recreativos (...). Elementos deste imaginário podem ser depreendidos da passagem publicada pelo jornal “O Tempo” em 16 de janeiro de 2009, segundo a qual “Belo Horizonte é a capital dos bares, Santa Tereza é o bairro boêmio da cidade e o Alto dos Piolhos é a quintessência do espírito botequeiro 138 da região. (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2015, p. 40, grifos meus) Abaixo, imagens de algumas das esquinas do Alto dos Piolhos. Figura 29 – Bar Du Pedro: esquinas das Ruas Quimberlita e Tenente Freitas Fonte: Acervo pessoal, 2016. Figura 30 – Espeto da Esquina: esquinas das Ruas Bocaiúva, Quimberlita e Bom Despacho 139 Fonte: Estado de Minas, 2016. Disponível em: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2016/01/10/interna_gerais,723617/espetinhos-conquistam-o- belo-horizontino-e-invadem-ruas-da-cidade.shtml Acesso: 10 mar 2016. 4.2 Paisagem sensorial A paisagem é uma espécie de geografia afetiva que repercute os poderes de ressonância que os locais têm sobre a imaginação. Jean-Marc Besse Mais do que ver a paisagem e retomando a ideia de estarmos inseridos nela, Jean- Marc Besse (2013) fala de porosidade do corpo, de expor-se ao mundo e de experiências sensoriais presentes na elaboração de subjetividades. (...) a experiência da paisagem exprime uma dimensão da relação humana com o mundo e a natureza, que a ciência moderna deixou de lado: a relação direta, imediata, física com os elementos do mundo terreno. A água, o ar, a luz, a terra, antes de serem objetos de ciência, são aspectos materiais do mundo abertos aos cinco sentidos, à emoção. A paisagem é uma espécie de geografia afetiva que repercute os poderes de ressonância que os locais têm sobre a imaginação. A paisagem é, antes de mais, da ordem da experiência vivida, no plano da sensibilidade corporal. (BESSE, 2013, p. 46, grifos meus) O corpo é a condição de experimentar a paisagem, de receber e conceder afetividades e é por isso que a vida urbana, possibilitada pela relação entre corpo e espaço, acaba por definir, ainda que inconscientemente, algumas zonas de preferência, maior afetuosidade e afinidade. A dificuldade maior dessa “geografia afetiva” descrita por Besse é encontrar a linguagem adequada para expressá-la. Em Santa Tereza, essa linguagem pode ser percebida pelas regiões no interior da paisagem boêmia. Essas experiências se dão ao longo do tempo, se constroem lentamente e se fortalecem no dia a dia, no decorrer da vida. Nem tudo é objectivável na experiência geográfica que fazemos do mundo. (...) É um saber que exprime, com efeito, uma inteligência quotidiana do mundo e do espaço, uma familiaridade fundada no uso. É uma geografia vivida, tanto quanto pensada. (BESSE, 2013, p. 47) 140 Besse desenvolve a noção de paisagem com a discussão do sentido de habitar o espaço, trazendo a ideia de que habitar é dar qualidade132 ao tempo em determinado local, é o desenrolar da vida. Paisagem é, portanto, um ato de habitar e “o lugar habitado é uma realidade nem objetiva, nem subjetiva, mas sim: a expressão de uma vida que, ao mesmo tempo, impregna o espaço e é impregnado pela matéria”. (BESSE, 2013, p. 38) O espaço-tempo habitado, ou seja, a paisagem, expressa a vida que ali acontece, os significados dados, as intenções dos atos, os sentidos; é o cotidiano transfigurado em história. Ao falar de paisagem, devemos considerar também que ela é “(...) como o conjunto das relações existenciais mantidas pelos humanos com o mundo que os rodeia (...) experimentadas de diferentes maneiras (elas são perceptivas, afetivas, imaginárias, cognitivas, práticas)”. (BESSE, 2013, p. 35) O resultado da maneira como as relações existenciais humanas acontecem no território, de como as pessoas o habitam, é o território carregado de afetividade e sentimentos, experiências e afetos, tornado paisagem. Deveríamos considerar as paisagens (...) de acordo com a sua maneira de satisfazer as necessidades elementares, como a de partilhar algumas dessas experiências sensoriais num lugar familiar: as canções populares, os pratos populares, uma espécie particular de clima que seja suposto não ser encontrado em qualquer outro lado, um desporto ou um jogo especial, praticados unicamente neste local. Estas coisas lembram-nos que nós somos ou que nós vimos de um local particular: um país, uma cidade, um bairro. Uma paisagem devia estabelecer ligações entre as pessoas, a ligação criada pela língua, os usos, a prática do mesmo gênero de trabalho ou de lazer, mas, sobretudo, uma paisagem devia conter o gênero de organização espacial que favoreça essas experiências e essas relações: espaço para juntar, para celebrar e espaços para a solidão. (JACKSON, John Brinckerhoff, 2005 apud BESSE, 2013, p. 37) Anne Cauquelin (2013) interpreta a paisagem a partir de uma perspectiva espaço- temporal e afetiva, ligada à existência, por uma perspectiva que coloca em evidência a afeição e os sentidos para além do olhar. Para a autora, pensar a paisagem “induz ao registro existencial, emotivo, da presença” do indivíduo no espaço. (CAUQUELIN, 2013, p. 21) Nas palavras de Cauquelin, a paisagem dá um nó entre o espaço e o tempo e os torna inseparáveis (CAUQUELIN, 2013). 132 Qualidade não no sentido de um tempo bem ou mal gasto, mas de um tempo preenchido por uma ação. 141 Para a filósofa, “qualquer tentativa de teorização – ou seja, de fixar um quadro, de formular e de dissecar aquilo que vive e mexe – está voltada a um rearranjo permanente. E até a uma desconstrução parcial”. (CAUQUELIN, 2013, p. 29). E é por isso não podemos nos restringir à visão e ao olho para discorrer sobre paisagem e, mais especificamente no contexto desta pesquisa, sobre as experiências boêmias em Santa Tereza. Elas exprimem afetividades construídas entre indivíduos e bairro, entre indivíduos e bares, entre pessoas e espaços, entre pessoas e sensações. Alain Corbin (2001)133, professor de História do Sensível (ou das Sensibilidades) e da Paisagem, dedica parte de seus estudos a explorar a sonoridade delas. Inicia um trecho acerca do assunto no capítulo Comment l´espace devient paysage134 de sua obra L’homme dans Le paysage com o questionamento: “os historiadores fecharam os olhos e abriram os ouvidos?” (CORBIN, 2001, p. 30) Segundo Corbin, Michelet propõe a evocação da sonoridade, ou da falta dela, ou seja, do silêncio, como sugestão de leitura das paisagens para além de descrições, inclusive como forma de reviver e se inserir em paisagens que já não mais existem. As referências aos sons e barulhos característicos de certo lugar funcionariam como um artifício de gatilho da memória. E é isso que acontece frequentemente ao ouvirmos os interlocutores da pesquisa. Rememoram as músicas de determinada época – retreta, seresta – para relembrar aspectos passados do bairro; evocam sons característicos – trem em movimento na linha férrea – para definir os seus limites, ou os limites de sua paisagem; associam a boemia (ou ausência dela) à música e ao burburinho (ou barulho!) das pessoas conversando e interagindo nos bares e à porta deles. Nos momentos de incursão em campo, observando o movimento das ruas, praças e comércio do bairro, é possível afirmar que sua sonoridade é característica, tanto nos momentos diurnos quanto nas horas reservadas à boemia, durante a noite. Pela certa distância de grandes avenidas de forte movimento de tráfego e pelo parco abastecimento de linhas de ônibus, nas porções geograficamente mais altas do bairro ouvem-se mais sons de vozes do que de carros. As praças de Santa Tereza 133 CORBIN, Alain. Comment l´espace devient paysage; Pratiques d’espace. In: L´homme dans le paysage. Paris: Lés editions textuel, 2001. 134 Em tradução livre: Como o espaço torna-se paisagem? 142 recebem crianças e bebês em seus passeios matinais e vespertinos, bem como idosos que se encontram para conversar e jogar damas, adolescentes no intervalo da escola. À noite, as vozes vindas das conversas nos bares, muitos deles com mesas nas calçadas, enchem o bairro de vida em curso, em plena ação. Sons de copos nas mesas, garrafas se partindo acidentalmente ao caírem no chão, talheres nos pratos. Música aqui e ali, nada que chame muito a atenção, pois como a entrevistada Eliza afirmou anteriormente, não são muitos os bares com música. Há ainda o ruído que incomoda os ouvidos. Os entrevistados afirmaram que não há muitas reclamações quanto ao barulho das pessoas conversando nos bares e da música, mas quando passam carros com som alto ou há brigas na madrugada, é motivo de grande incômodo. Walmir também cita um bar nas proximidades do seu que é motivo de reclamação entre os moradores. Tem um bar ali na esquina que os vizinhos ficam todos doidos! Ali abre é 23h30, meia noite, aí esse incomoda porque fica até de manhã cedo! O povo fica ali atrás da casa da minha mãe, ali vira um inferno. Mas, no geral, no geral não tem confusão não. (Walmir, entrevista) Orlandinho também menciona algumas reclamações, mas fala da preocupação em manter um bom relacionamento entre os vizinhos. Tem reclamação às vezes. O pessoal fala: “pô, o Bar do Orlando tá três, quatro horas da manhã aberto, aquela bagunça”. É por isso que a gente fecha lá pras duas horas. Aí, por exemplo, como a praça é um ambiente muito agradável, o povo acaba continuando, às vezes mesmo sem bebida estão aí, vão fazendo um som (...). A gente é bem calejado com isso. Tem que estar sempre atento para não criar caso. Meu pai sempre preserva isso. Porque a gente é morador também, né? Aí, querendo ou não, a gente tem que dar um auxílio, uma assistência. (Orlandinho, entrevista) Corbin (2001) cita Olivier Balay, que faz uma análise da cultura sonora e da sensibilidade auditiva por meio de inventário dos barulhos de Lyon, uma cidade considerada sonora. Para Balay cada cultura ou sociedade possui sua paisagem sonora e a paisagem boêmia de Santa Tereza também possui a sua. A boemia que tem como suporte os bares é uma prática que se dá nesses ambientes, na maioria das vezes coletivamente, com o consumo de bebidas alcoólicas, principalmente a cerveja, e pratos conhecidos como tira-gostos. Geralmente, os tira-gostos são comidas simples, como batata frita, mandioca, linguiça, carne de panela, pastel, costelinha, tipicamente servidas em bares. Eduardo Frieiro (1966) fala que 143 a cachaça engana a fome. Para não relaxar o estômago, o frequentador de botequim pode beber dilatadamente a sua branquinha acompanhando-a de nacos de linguiça frita na hora, o que lhe permite ir longe nas suas libações. (FRIEIRO, 1966, p. 246) A boemia envolve, portanto, uma tradição de origem popular em Belo Horizonte e em Santa Tereza. Nessa tradição, o preparo dos alimentos é simples e seu consumo desperta memórias relacionadas ao olfato e ao paladar, pois o ato de se alimentar envolve sentir o cheiro do alimento enquanto é preparado, quando de sua chegada à mesa e a degustação em si. Está relacionada a esses pratos tradicionais servidos em bares e às bebidas ali consumidas e, enquanto tradição, não é autoral, mas antes uma apropriação e uma prática coletiva. Tradição popular, pois, ainda segundo Frieiro Ao tempo da Comissão Construtora da Nova Capital, era Belo Horizonte um fervet opus de operários especializados e trabalhadores em geral, adventícios em sua quase totalidade, gente imigrada da Itália, Portugal e Espanha, sem falar do elemento nacional, construído em maioria de pretos e pardos. Essa população eventual de gente da labuta, a que se juntavam aventureiros e marginais, amontoava-se quase toda num morro que tomou o nome de Alto da Favela, onde é hoje o começo do bairro de Santa Teresa 135 . Nos botequins eram constantes as bebedeiras, que ameaçavam perturbar a ordem, mantida unicamente em virtude do medo que inspirava o enérgico delegado do lugar, um capitão da polícia militar, assistido por oito soldados”. (FRIEIRO, 1966, p. 249 e 250) Corbin (1987) 136 também se dedica ao estudo dos odores, evocando o sentido como categoria de análise de valores e práticas sociais e utilizando-se do olfato enquanto uma rica fonte histórica. Podemos falar, então, que há outra dimensão sensorial da paisagem boêmia de Santa Tereza que é composta pelo olfato e pelo paladar, dimensão pela qual podemos acessar determinadas características subjetivas do bairro. O autor explicita que o olfato é negligenciado enquanto categoria de percepção social por ser um sentido bastante relacionado aos instintos primários dos seres, inclusive dos seres humanos. Mas é justamente por esse caráter primitivo que o olfato se coloca como relevante na percepção da paisagem. E também por trazer à 135 Não foram encontradas fontes que corroborem a origem do bairro Santa Tereza a partir de uma favela, motivo pelo qual esta versão não é citada no segundo capítulo desta dissertação. 136 CORBIN, Alain. Saberes e Odores: o olfato e o imaginário social nos séculos XVIII e XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. 144 tona memórias afetivas e possibilitar a manutenção de tradições conformadas, em grande medida, pelo próprio olfato. 4.3 O bairro enquanto Patrimônio Cultural da cidade 4.3.1 Paisagem e bem comum As experiências urbanas da paisagem encontraram destaque na obra organizada por Isabel Cardoso, considerando que mais de 80% da população europeia vive, hoje, nas cidades. Pierre Donadieu, geógrafo e professor da Escola Nacional Superior da Paisagem de Versailles, no que se refere à relação do urbano com a natureza e ponderando as intensas transformações das cidades nas últimas décadas, fala de um longo processo de tomada de consciência sobre a conversão de um bem comum paisagístico em patrimônio público transmissível para as futuras gerações. (CARDOSO, 2013) O que o autor trata de bens comuns são os bens indivisos que cada um pode consumir e sobre-consumir, visando, principalmente, o bem estar. O foco de sua exposição está sobre os bens naturais, considerados como “propriedade de ninguém” e hoje em vias de transformação e/ou destruição. A mesma ideia aplica-se às cidades e ao ambiente construído, para os quais é possível aplicar duas saídas frente à degradação, quais sejam a privatização de cunho neoliberal, focada na rentabilidade, ou a transformação de seu patrimônio em bens públicos, no sentido ético e político do termo. Ou seja, optar pela segunda opção significa transformar a cidade que geralmente é tida como ambiente de ninguém em um ambiente de todos. “O bem comum designa, portanto, a comunidade de bens materiais e imateriais que é criada pela troca entre membros de um coletivo”. (DONADIEU, 2013, p. 57) Donadieu também considera que à paisagem são atribuídos valores de acordo com os olhares e julgamentos que são feitos de determinado espaço. Considera-a fruto de uma percepção multissensorial do mundo, da maneira como o vivemos, o descrevemos, o explicamos e o transformamos, seja física – construções – ou intangivelmente – cultura urbana, na qual a boemia de Santa Tereza aqui se insere. 145 O autor define um bem comum paisagístico em três níveis, sendo o primeiro deles o das necessidades sociais fundamentais, garantidos pelo Estado e suas leis; o segundo o da biodiversidade e do reconhecimento das identidades coletivas e individuais em face da sustentabilidade do desenvolvimento econômico e social; por fim, o nível do direito à beleza, ao prazer, ao desfrute do meio, “raramente reconhecido formalmente, já que releva da cultura e se inscreve genericamente nas políticas patrimoniais e artísticas”. (DONADIEU, 2013, p. 59) Nesse sentido último do direito à beleza, ao prazer e ao desfrute, afirma ser importante o reconhecimento formal e de autoridade, mas reconhece que isso não é o suficiente para sua manutenção. Mas o bem comum paisagístico não se cinge apenas aos lugares naturais ou culturais de relevo; ele é elaborado de maneira corrente em cada território onde a história local deixou lugares de memória, e constrói outros. Chamo-lhes cronotopos (espaços-tempos significantes localizados, que fornecem dados geográficos e culturais aos habitantes e visitantes). (DONADIEU, 2013. p. 59 e 61) Santa Tereza é, portanto, um cronotopos cujo significado advém não apenas de sua história, mas de suas características e particularidades que lhe conferem ambiência particular. Sua boemia é um bem comum da cidade e dos cidadãos, é uma cultura urbana de experimentação e prazer na cidade, algo que proporciona o desfrute da paisagem e a fuga das problemáticas da metrópole. A boemia de Santa Tereza é um bem comum, como veremos a seguir, reconhecido formalmente pela municipalidade enquanto uma das características que sustentam a valoração do bairro enquanto patrimônio cultural. 4.3.2 Santa Tereza: bem patrimonial Como vimos anteriormente no segundo capítulo, em um movimento da sociedade civil que pretende assegurar as subjetividades do bairro e garantir sua qualidade de vida particular, Santa Tereza tornou-se um bairro protegido segundo a legislação urbanística da capital. Como veremos detalhadamente a seguir, tornou-se protegido também pela legislação cultural e as recomendações quanto à gestão de sua paisagem, melhor dizendo, do bairro enquanto Conjunto Urbano se mostram insuficientes quando se trata de garantir a boemia enquanto bem comum – 146 considerando a concepção de Donadieu (2013) – e enquanto via de manutenção do patrimônio cultural, apesar de seu declarado reconhecimento de autoridade. Isabel Cardoso, na seção introdutória da obra por ela organizada, chega à conclusão que paisagem e patrimônio são pensados, habitualmente, a partir do olho, ou seja, colocando a visão em posição de superioridade em relação aos demais sentidos humanos e formas de percepção do espaço. As perspectivas da paisagem de Alain Corbin (1987, 2001), Anne Cauquelin (2003, 2013) e dos demais autores aqui apresentadas demonstram como é caro à paisagem que se associem a elas outras sensibilidades, como a audição, o olfato, as emoções. Posto isto, é válido relacionar paisagem boêmia e patrimônio tendo como objeto o bairro Santa Tereza, haja vista que o bairro recebe titulação patrimonial e a boemia é utilizada como argumento para valorá-lo enquanto tal. A Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH) e sua população afirmam que algumas áreas e regiões da cidade demandam tratamento direcionado, dadas as suas particularidades dentro da configuração urbana, seja pelo tipo de ocupação e uso, por ser referência para a população, exemplo de alteridade, cultura local. São regulamentadas como Áreas de Diretrizes Especiais (ADEs)137, cujas delimitações funcionam como sobrezoneametos no âmbito da legislação de Parcelamento, Ocupação e Uso do Solo (LPOUS - Lei n.º 7.166/96, modificada pela 8.137/2000 e novamente pela 9.959/2010) da cidade, variando de acordo com as necessidades de preservação dos elementos que configuram as especificidades de cada uma delas. Nelas, as regras construtivas preponderam sobre as da LPOUS, sendo iguais ou mais restritivas. Como esclarecido no segundo capítulo, em meados da década de 1990 o bairro Santa Tereza foi incluído nos estudos para a elaboração de novo Plano Diretor de Belo Horizonte como ZAP. A população se mobilizou reagindo frente às consequências que o adensamento traria ao bairro, mais especificamente para os modos de vida ali estabelecidos – hábitos de sociabilidade típicos de uma cidade pequena, uso frequente da rua e dos espaços públicos para lazer e momentos de 137 O Plano Diretor de Belo Horizonte (Lei7165/96) criou a ADE e a LPOUS (Lei 7166/96, modificada pela 8.137/2000 e novamente pela 9.959/2010). São Áreas de Diretrizes Especiais: ADE da Serra, ADE do Estoril, ADE da Bacia da Pampulha, ADE Trevo, ADE da Pampulha, ADE da Cidade Jardim, ADE do Mangabeiras, do Belvedere, do São Bento e de Santa Lúcia, ADE do Belvedere III, ADE de Santa Tereza, ADE do Primeiro de Maio, ADE do Buritis, ADE Residencial Central, ADE do Vale do Arrudas, ADE da Savassi, ADE da Lagoinha, ADE de Venda Nova, ADE Hospitalar, ADE de interesse ambiental. 147 encontro, circulação a pé, manutenção de certo isolamento do bairro, que contribui para todas essas características e, é claro, a boemia. O Movimento Salve Santa Tereza, importante canal de participação popular, alcançou uma grande vitória junto ao poder público em 1996, quando o bairro passou a ser uma ADE “em função das características ambientais e da ocupação histórico-cultural” (BELO HORIZONTE, 1996; 2000). As medidas da ADE, de maneira geral, visam manter o uso predominantemente residencial do bairro através de parâmetros urbanísticos e gestão urbana específicos, tais como coeficiente de aproveitamento, quota e permeabilização mínima do terreno, altimetria, volumetria, afastamento e uso (residencial/não residencial) das edificações. A lei permite a construção de edificações de até três pavimentos que, no entanto, se destacam e, muitas vezes, obstruem casas térreas e sobrados que ocupam as ruas do Santa Tereza, além de impedir visadas da Serra do Curral. Desde a regulamentação da ADE pequenos prédios se multiplicaram, apesar do número de casas em relação ao de prédios ter se mantido maior. Em 2005, Ulysses Baggio (2005) não considerava ter havido significativa descaracterização do espaço urbano do bairro, mas de lá para cá a situação mudou um pouco devido ao interesse imobiliário na região. Provavelmente as construtoras viram na permissividade altimétrica da ADE a possibilidade de explorar o nicho de mercado que atenderia a uma parcela da população interessada em morar em apartamento e, ao mesmo tempo, em um bairro pericentral e ainda assim tranquilo. O número maior de habitantes por terreno acaba por alterar o tráfego de passagem e as relações pessoais de vizinhança, fatores essenciais que fazem com que o bairro seja caracterizado pela tradição e ambiência interiorana, destacando-se como um lugar que possibilita o encontro dentro da metrópole, ao contrário de muitos outros bairros da cidade (SOUZA, 2012). No capítulo da lei que regulamenta a ADE Santa Tereza138 há especificidades para lotes lindeiros a edificações de interesse de preservação cultural por parte do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte (CDPCM-BH), mas nem sempre elas são suficientes para resguardá-las. É 138 BELO HORIZONTE. Lei n°7.165 – 27 de Agosto de 1996. Institui o Plano Diretor do Município de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Prefeitura Municipal, 1996. 148 compreensível, portanto, que tal instrumento não seja efetivo na proteção do patrimônio cultural do bairro de Santa Tereza, ideia compartilhada pela Diretoria de Patrimônio Cultural. Mesmo a característica “histórico-cultural” do bairro estando salientada nas disposições gerais do artigo da lei, as diretrizes não são voltadas para a proteção de elementos da arquitetura, do traçado urbano ou para as práticas sociais neles permeadas. Quando aplicada de maneira isolada, a ADE não cumpre papel de preservação do patrimônio porque é genérica, ainda que tenha contribuído para garantir, em certa medida, traços físicos da paisagem do bairro que dão suporte a traços subjetivos, como ambiência e sociabilidade (BAGGIO, 2005). Por ser de interesse cultural, qualquer intervenção nas construções inseridas no perímetro da ADE Santa Tereza deveriam ser comunicadas e avaliadas pela DIPC, o que não acontece, via de regra.139 Portanto, a Diretoria deu encaminhamento à proposta de incluir o bairro no Inventário de Conjuntos Urbanos de Belo Horizonte a partir de uma pesquisa iniciada em 2014, retomando antigos estudos da instituição.140 A delimitação de conjuntos urbanos é uma das referências de atuação da DIPC no que tange à proteção do patrimônio cultural, caracterizando-os como: (...) áreas polarizadoras, onde são encontradas ambiências, edificações ou mesmo conjunto de edificações que apresentam expressivo significado histórico e cultural. Esses espaços destacam-se por desempenharem uma função estratégica e simbólica na estruturação e compreensão do espaço urbano e de suas formas de ocupação. (BELO HORIZONTE, s/d, grifos meus) 141 . O projeto foi apreciado e deliberado junto ao CDPCM-BH no dia 04 de março de 2015, durante sua 89ª sessão extraordinária, tendo sido aprovado por aclamação. Para melhor compreensão do que é e como funciona a proteção através do 139 Segundo comentário feito funcionária da DIPC, em entrevista concedida à autora, 2014. 140 O estudo para proteção do bairro vem sendo conduzido desde 1998, porém sem continuidade. Após longa pausa, foi retomado em 2010, ano em que foi iniciado o inventário das edificações do bairro; em 2012, levantamento mais preciso dessas edificações foi feito. (SOUZA, Françoise Jean de Oliveira; CAJAZEIRO, Karime Gonçalves. A singularidade do lugar: a construção de um discurso identitário para o bairro Santa Tereza; __;__;SOARES, Carolina Pereira. Instrumentos de proteção do patrimônio cultural: um olhar sobre o caso do bairro Santa Tereza. In: ANDRADE, Luciana Teixeira de; ARROYO, Michele Abreu (Org.). Bairros Pericentrais de Belo Horizonte. Patrimônio, Territórios e Modos de Vida. 1ed. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2012.) 141 Conjunto Urbano Rua dos Caetés, Conjunto Urbano Praça da Liberdade - Av. João Pinheiro, Conjunto Urbano Praça da Boa Viagem, Conjunto Urbano Praça Rui Barbosa, Conjunto Urbano Av. Afonso Pena, Conjunto Urbano Avs. Carandaí - Alfredo Balena, Conjunto Urbano Av. Álvares Cabral, Conjunto Urbano Praça Floriano Peixoto, Conjunto Urbano Rua da Bahia e Adjacências, Conjunto Urbano Praça Hugo Werneck, Conjunto Urbano Bairro Floresta, Conjunto Urbano Lagoa da Pampulha - Edificações de uso coletivo e seus bens integrados, Conjunto Urbano Praça Raul Soares - Av. Olegário Maciel, Conjunto Urbano Av. Barbacena - grandes equipamentos, Conjunto Urbano Bairro Santo Antônio, Conjunto Urbano Bairros Prado/Calafate. 149 Conjunto Urbano, em outubro de 2014 foi realizada uma entrevista com uma historiadora da DIPC. Além disso, a reunião do CDPCM-BH foi acompanhada pessoalmente, além da consulta ao dossiê da pesquisa que embasou a proteção, o dossiê de proteção e diversas matérias de veículos da imprensa. É importante esclarecer que não se trata de tombamento do bairro ou da região, como a proteção acaba sendo divulgada ou identificada pelo público em geral. A identificação e demarcação da poligonal do Conjunto Urbano configura-se como um instrumento de preservação distinto deste. Mesmo assim, a pesquisa para proteção incluiu o estudo e o inventário dos imóveis e espaços inseridos no bairro e a partir daí definiu aqueles de interesse cultural e de memória para sua comunidade e para a cidade de Belo Horizonte como um todo. Por fim, indicou ao CDPCM-BH 288 bens de interesse para tombamento individual, entre eles o Mercado Distrital, as quatro praças do bairro – Duque de Caxias, Ernesto Tassini, Joaquim Ferreira da Luz e José Percival, e outros tantos imóveis residenciais e comerciais. Tanto a proteção do Conjunto Urbano quanto as indicações para tombamento individual seguem uma lógica que não a da excepcionalidade arquitetônica ou estilística, mas que destaca a organicidade142 e a ambiência do Conjunto. Estas são observadas pela equipe da DIPC e caracterizadas pela presença marcante do casario tradicional das primeiras décadas do século XX, que reúne tipologias e estilos arquitetônicos variados, até mesmo em uma única edificação; pelo traçado de suas ruas, muitas delas ainda calçadas com pedras – calçamento de paralelepípedos ou “pé-de-moleque”; pelas quatro praças do bairro, que são palco de festas populares e encontros cotidianos; pela imponência da igreja da Paróquia de Santa Teresa e Santa Teresinha na Praça Duque de Caxias, a principal delas; pelo comércio formado por estabelecimentos de pequeno porte; pelos inúmeros bares, botequins e restaurantes, muitos deles presentes em Santa Tereza há anos e que ajudam a manter vivo o imaginário coletivo acerca da boemia do bairro. Ou seja, a boemia é um dos fatores que justificam a proteção do bairro Santa Tereza enquanto patrimônio cultural da cidade e Belo Horizonte. Mas como, de fato, ela é 142 Termo utilizado pela DIPC no parecer na Deliberação sobre o Conjunto Urbano Santa Tereza. (Diário Oficial do Município, Ano XXI, Edição n. 4761, Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, março de 2015) 150 salvaguardada por esse instrumento, ou melhor, como valer-se dela para salvaguardar o bairro como um todo enquanto patrimônio? As diretrizes de proteção estabelecidas pela DIPC incluem algumas alterações na poligonal da ADE, sendo uma delas a inserção de quadras de parte da Rua Pouso Alegre em sua delimitação143, via que hoje está fora do perímetro, provavelmente por ser divisa física com o bairro Horto e comumente mais identificada com este último. As diretrizes de altimetria, uma das principais maneiras de se preservar e manter os aspectos físicos da paisagem do bairro através da proteção do Conjunto Urbano, são complementares àquelas já existentes na ADE e variam de acordo com as áreas dentro do Conjunto. Nas diretrizes gerais são estabelecidos critérios para as novas edificações no que diz respeito ao afastamento lateral e de fundo, e alterações nas construções já existentes, bem como admissão apenas de elementos de permeabilidade visual no fechamento frontal. Para intervenções no traçado urbano deverá haver anuência prévia do CDPCM-BH, os calçamentos em “pé-de-moleque” deverão ser mantidos e restaurados, se preciso, sendo removidos capeamentos parciais ou integrais em todas as vias144. Novas construções ou alterações deverão ser aprovadas pelo órgão de gestão patrimonial do município; qualquer supressão de elementos de arborização deve ser assistida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e acompanhada de novo plantio; os eventos nas praças devem evitar o gradeamento para preservação da fruição pública e da paisagem de Santa Tereza (BELO HORIZONTE, 2015). Há ainda outras diretrizes mais específicas e não menos relevantes que podem ser consultadas na deliberação nº 19/2015 publicada no Diário Oficial do Município no dia 12 de março de 2015. No entanto, não há diretrizes diretamente voltadas para a preservação dos bens intangíveis, das manifestações dos modos de vida do bairro, incluindo a boemia, ressaltada no Dossiê para Proteção do Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza (2015). Ainda que o conjunto urbano se pretenda um instrumento de salvaguarda 143 Comparar Figuras 2 e 7. 144 “(...) exceção das ruas Hermilo Alves, Mármore, Salinas, Pouso Alegre, Dores do Indaiá e Paraisópolis no trecho entre as ruas Conselheiro Rocha e Dores do Indaiá, por onde passam as principais linhas de ônibus que atendem ao bairro e região.” (Diário Oficial do Município, Ano XXI, Edição n. 4761, Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, março de 2015) 151 completo, as ações que visam manter as subjetividades de Santa Tereza são voltadas apenas para seus suportes físicos. É importante frisar que a participação da sociedade civil é essencial para a manutenção do Conjunto Urbano como política pública de preservação efetiva e de maior força que os interesses do capital, a população tem papel fundamental como detentora e fruidora do patrimônio da cidade. Estes são expressos em eventos particulares que se apropriam de espaços públicos e ainda na modificação da paisagem em função do que é ou não mais vantajoso para o lucro – corte de árvores, substituição de calçamento por asfalto, construção de edificações altas. Os critérios para proteção da maioria dos Conjuntos Urbanos de Belo Horizonte foram considerados a partir de fatores de organicidade estilística e preservação de valores estéticos, pouco relacionados a valores subjetivos de sociabilidade, modos de vida e ambiência. Estão bastante próximos do instrumento legal do tombamento que é, historicamente, voltado para um bem material isolado no que tange seus significados estéticos, históricos e artísticos, ainda que os valores simbólicos e intangíveis do bem sejam também reconhecidos por ele. Já a proteção do Conjunto Urbano Santa Tereza leva a discussão patrimonial a outro nível de compreensão, mais contemporâneo e ainda bastante restrito a especialistas e estudiosos do tema. A organicidade da região pesquisada vai além da homogeneidade e/ou excepcionalidade estilística de suas construções. Está mais relacionada às especificidades do bairro, à sua ambiência proporcionada por uma arquitetura voltada para a rua – casas construídas juntas ou bastante próximas ao alinhamento, com varandas, muros baixos (ainda que hoje sejam gradeados, dada à preocupação contemporânea com a segurança), portas e janelas frontais às calçadas; pelas visadas145 da Serra do Curral, propiciadas pela geografia irregular de suas porções norte e sul, visões cada vez mais escassas e raras pela cidade; por sua vocação de resistência demonstrada nas relações sociais, que buscam se manter distintas e ultrapassar as relações de consumo e domínio do capital na metrópole contemporânea. Ambiência proporcionada ainda pela sua boemia, traço marcante e 145 “Exemplos desses mirantes são os cruzamentos das ruas Eurita com Estrela do Sul, Bocaiuva com Mármore, Capitão Procópio com Ângelo Rabelo e final da rua Paraisópolis.” (Diário Oficial do Município, Ano XXI, Edição n. 4761, Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, março de 2015) A proteção das visadas impede também a construção de edificações altas fora dos limites do Conjunto Urbano Santa Tereza, do outro lado do Ribeirão Arrudas. 152 ressaltado nesta pesquisa, que guarda uma história responsável pela proeminência do bairro nesse sentido dentro da capital mineira. A forma de Santa Tereza mostra-se como condição da existência singular do bairro e, os bares, como suportes da boemia hoje, importantes à permanência das diferenças ostentadas por Santa Tereza diante de outros bairros da cidade, aquelas que conformam sua singularidade. Nessa lógica, os bares, considerando os imóveis e mais ainda o estilo informal e despretensioso dos estabelecimentos e a sociabilidade e cultura que se manifestam neles, são a condição de existência da boemia enquanto cultura urbana contemporânea do bairro. O espaço construído efetiva o subjacente valor das manifestações do vivido naquele lugar. Estando isto para além de sua indiscutível relevância cultural como referencial histórico e arquitetônico, documento mesmo da história do bairro como sendo uma das primeiras ocupações da cidade. Eliza Peixoto afirma, por exemplo, que mais importante do que manter fachadas inalteradas ou estilos intactos, é manter as casas ao invés de transformá-las em prédios, ainda que baixos. Nota-se que os valores que fizeram com que a proteção do Conjunto Urbano Santa Tereza fosse levada a cabo se voltam mais para os interesses da vida que pulsa ali dentro, dos moradores, usuários e frequentadores de seu cotidiano. As diversas temporalidades que coexistem no bairro são mais dinâmicas que a monumentalização típica da patrimonialização. Pensando dessa forma, a proteção aos moldes do Conjunto Urbano faz sentido: as mudanças nas estruturas físicas acabam por ocasionar mudanças nas formas de viver, já que a paisagem é a combinação dos elementos palpáveis e não palpáveis da existência humana em determinado espaço-tempo. Seus elementos visuais e sensíveis ao toque, suas imagens e texturas, funcionam como espaços para que se manifestem os demais sentidos invisíveis que conformam o cerne da vida humana, aguçam a percepção sonora, olfativa e subjetiva da paisagem. Entretanto, não nos parece ainda suficiente que Santa Tereza figure nas políticas públicas de patrimônio cultural do município de Belo Horizonte dadas as diretrizes propostas no Dossiê para Proteção do Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza146. Há, inclusive, riscos de recair 146 BELO HORIZONTE; FUNDAÇÃO MUNICIPAL DE CULTURA DE BELO HORIZONTE; DIRETORIA DE PATRIMÔNIO CULTURAL. Dossiê para Proteção do Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza. Belo Horizonte: 2015. 153 em uma visão pitoresca do bairro em movimentos de comercialização do patrimônio, inclusive da boemia. Esses riscos serão expostos mais adiante. 4.4 Paisagem boêmia e patrimônio cultural A paisagem seria bastante profícua se considerada nessa forma de proteção – Conjunto Urbano –, especialmente para a manutenção dos modos de vida do bairro, mais especificamente para a boemia, nosso objeto de discussão. A arquiteta e urbanista Lisa Diedrich (2013) traz uma contribuição à discussão de preservação do patrimônio quando trata de intervenções em centros urbanos com dois exemplos de grandes obras europeias, Marselha e Nantes. A autora propõe uma via de oscilação entre a abordagem estruturalista do projeto (polo estático da especificidade do lugar) e a abordagem fenomenológica da transformação (polo fluido da especificidade do lugar) como forma de fazer o máximo de jus possível à natureza específica do lugar intervencionado. (CARDOSO, 2013, p. 12) Ainda que não haja, atualmente, nenhum grande projeto de intervenção em Santa Tereza, sua titulação como patrimônio cultural urbano e as muitas indicações de tombamento individual de imóveis dão margem ao tipo de discussão e análise propostos por Diedrich. A titulação em si e as respectivas diretrizes de intervenção e alterações arquitetônicas e urbanísticas que a acompanham são indicativas de mudanças na dinâmica do bairro, ainda que mais sutis do que quando um grande projeto é levado a cabo de uma só vez. É importante pensar na via proposta pela autora, que sugere uma gestão flexível às mudanças, moldando-as e conciliando-as com as particularidades que sugerem a ambiência singular do bairro, no caso de Santa Tereza, a boemia. Segundo ela, é preciso integrar conservação e desenvolvimento em políticas de planejamento urbano, respeitando o que aqui se compreendeu como conjuntos de preservação do patrimônio cultural com o crescimento das cidades, processo inevitável no contexto atual. A autora questiona acerca disso: “Será que existem abordagens teóricas ao tema, enraizadas nas disciplinas de design e de patrimônio, que conciliem o respeito pelas preexistências com métodos específicos de desenvolvimento urbano?” (DIEDRICH, 2013, p. 84) 154 Diedrich traz a visão do arqueólogo Jan Kolen (2006), que ao invés de tratar da conservação adota o conceito de transformação, numa notável mudança de paradigma. Kolen afirma que a história deve contribuir para as disciplina de projeto, geralmente na ponta das propostas de salvaguarda do patrimônio urbano no Brasil, como a arquitetura. Ele afirma que (...) projetar com história é mais do que um truque metodológico com repertório histórico, porque o significado do passado e a nossa abordagem do patrimônio mudaram substancialmente nos últimos tempos. (KOLEN,2006 In DIEDRICH, 2013, p. 87) Os valores dos objetos preservados mudaram e muitas vezes não fazem mais tanto sentido como antes. Na verdade, Kolen tenta demonstrar que a ênfase do patrimônio foi deslocada dos objetos, isolados ou em conjunto, para o ambiente como um todo. A paisagem, conformada pelos bens construídos e naturais, pelas formas das vias, pelo uso, pelas apropriações, pelos sentidos, é o que realmente se deseja manter. Em Santa Tereza, poder-se-ia buscar a manutenção das subjetividades do bairro por uma de suas especificidades, a boemia. Significa isso que o nosso patrimônio não é suposto ser apenas composto por edifício e peças de museu, mas também por entidades físicas mais abrangentes, tais como extensões de território do nosso ambiente urbano, incluindo seus elementos materiais – o solo, a vegetação, os edifícios, as condições climpatéricas – e o mundo imaterial de memórias coletivas, histórias, experiências e tradições. (DIEDRICH, 2013, p. 88, grifos meus) Diedrich vê esse movimento como uma forma de aumentar a participação popular no que diz respeito às ações patrimoniais, que também passam a se voltar para os bens e ações do tempo presente e não somente do passado. Em Santa Tereza, é notável a intensa atividade dos moradores que se articulam em função de manter a qualidade de vida no bairro. Partiu do Movimento Salve Santa Tereza e da Associação de Moradores do Bairro Santa Tereza o pedido para que o bairro fosse protegido institucionalmente pela PBH, o envolvimento com as discussões acerca do futuro da área do antigo Mercado Distrital e com outras questões caras àqueles que vivem no bairro. A autora menciona um método de pesquisa da geografia humana proposto por Kolen e outros estudiosos que responde bem aos anseios de uma visão mais ampliada do patrimônio cultural, especialmente quando falamos de um bairro como um todo. 155 A biografia da paisagem constitui uma estratégia heurística, que almeja estudar o caráter em constante transformação de um lugar, numa perspectiva transdisciplinar, de forma a aprofundar a compreensão daquilo que se constitui um lugar (...). (DIEDRICH, 2013, p. 90) O aprofundamento na biografia da paisagem boêmia de Santa Tereza, que aqui denominamos genealogia da boemia, é exemplo de aplicação desse método de pesquisa em função da preservação em uma perspectiva ampliada de patrimônio. Compreender e demonstrar que um lugar é vivo e, portanto, inevitavelmente sofreu e sofrerá mudanças é uma maneira de validar seu valor memorial e patrimonial sem que para isso precise haver um engessamento, em uma espécie de “paralisação da história” bastante expressa pela aplicação que geralmente se faz do tombamento. A noção de lugar tem ganhado mais interesse e, portanto, tem havido um movimento de maior teorização sobre suas especificidades. Lisa Diedrich toma posição em uma nova linha de pensamento acerca de valorização do lugar, que não passa pela validação da identidade, de regionalismos ou do chamado genius loci, evitando essencialismos e valorizações absolutas de certas particularidades. “É um entendimento que se baseia no pragmatismo e no funcionar das coisas, admitindo a presença e a natureza inerente de algo transcendente”. (DIEDRICH, 2013, p. 92, grifos da autora) É a análise do lugar enquanto uma construção dinâmica e relacional e suas especificidades como elementos também relacionais. Nesse cenário, é pertinente tratar a boemia não como algo intrínseco a Santa Tereza, um traço essencial de sua existência ou algo absoluto em relação ao bairro. Muito mais complexa, a boemia é uma construção de sentido atribuída e constantemente ressignificada junto ao bairro, lhe conferindo uma imagem. Nada obstante, faz parte do bairro, hoje, como componente de sua subjetividade, havendo interesse em mantê-la e usá-la como referencial de salvaguarda do patrimônio. Como Lisa Diedrich fala de projetos de conservação, o que geralmente se aplica a bens e áreas patrimonializados, seria interessante pensar a boemia de Santa Tereza como um gancho para a validação pragmática do Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza, qual seja, sua valorização enquanto patrimônio cultural da cidade em favor dos interesses dos cidadãos e de sua qualidade de vida. Para tal, é importante interpretá-la “com mais investigação e prática interdisciplinar.” (DIEDRICH, 2013, p. 105), traduzida aqui no esforço desta pesquisa. Narrar a boemia de forma a 156 desnaturalizá-la enquanto traço essencial do bairro é um passo importante para que ela possa ser associada e utilizada como justificativa de institucionalização do patrimônio sem levar às situações que veremos a seguir. 4.4.1 Boemia e patrimônio: riscos de gentrificação Como vimos anteriormente em um movimento da sociedade civil que pretende assegurar as subjetividades do bairro e garantir sua qualidade de vida particular, Santa Tereza tornou-se um bairro protegido segundo a legislação urbanística da capital; em um segundo momento também se tornou protegido pela legislação cultural, havendo indicações de tombamentos individuais e recomendações gerais quanto à gestão de sua paisagem, melhor dizendo, do bairro enquanto Conjunto Urbano, voltadas para seus aspectos físicos. Ainda que não haja, atualmente, nenhum grande projeto de intervenção em Santa Tereza, sua titulação como patrimônio cultural urbano e as muitas indicações de tombamento individual de imóveis dão margem aos tipos de discussão e análise propostos por Lisa Diedrich (2013), Anne Cauquelin (2003), Álvaro Domingues (2013), Paola Berenstein Jacques (2003) e, Catherine Bidou-Zachariasen (2006)147. A titulação em si e as respectivas diretrizes de intervenção e alterações arquitetônicas e urbanísticas que a acompanham são indicativas de mudanças na dinâmica do bairro, ainda que mais sutis do que quando um grande projeto é levado a cabo de uma só vez. É importante pensar no que os autores discutem, pensando nas particularidades que sugerem a ambiência singular do bairro, dentre elas a boemia. Por ora, é premente a observação de Anne Cauquelin: O que eu gostaria de mostrar aqui é que nenhuma dessas noções [paisagem, retórica e patrimônio] é natural, e que falta clareza na sua utilização. Assim, o projeto do patrimônio, de conservar sítios, de preservar sua autenticidade para as gerações futuras, é realmente ambíguo diante de um objeto que se transforma constantemente e cujos valores culturais mudam segundo as épocas. Por outro lado, seria a paisagem um desses objetos da ciência que podemos descrever porque objeto da natureza, ou obedeceria sua construção a um processo mental, cujos elementos são resultado de uma certa cultura ocidental? Nesse caso, deveríamos 147 Helena Menna Barreto Silva e Jean-Yves Authier são dois autores incluídos na obra de Catherine Bidou-Zachariasen e que também serão discutidos. 157 confessar que as operações retóricas estão na origem de sua constituição em objeto natural e nos perguntar sobre os processos que conduziram uma imagem a uma verdade. (CAUQUELIN, 2003, p. 24, grifos meus) A colocação de Cauquelin, além de provocar uma reflexão sobre os valores do patrimônio cultural e a produção de imagens a partir deles, e ainda sobre as formas de manutenção de um lugar enquanto patrimônio, nos leva a uma última consideração acerca dos cuidados a serem tomados em um movimento de patrimonialização de paisagens. Essa reflexão se volta para a mercantilização da cultura urbana por meio da patrimonialização. No presente caso, por meio da patrimonialização da paisagem do bairro Santa Tereza e seus atributos, inclusive da boemia. Existem diferentes maneiras para discutir esse processo, Álvaro Domingues (2013) utiliza os termos “cenário” e “ficcção”. Retomando o caráter vago e flutuante da paisagem, o autor certifica que o termo “paisagens transgênicas”, por ele cunhado, adveio da necessidade de esclarecer certas questões. Um delas é a das paisagens cenários, ajustadas e construídas visando o turismo por meio da legitimação e do discurso da autenticidade, da tradição, do exótico. Para ele, a “ficcionalização da paisagem” extrai parcelas de realidade em permanente construção. Fala ainda da (...) amnésia e a pouca estima face às paisagens ordinárias, niveladas pela banalidade do quotidiano, despojadas de referências e de coisas extraordinárias (...) sujeitas a sucessivas transformações (...) (estrago, descaracterização, predação, simultaneidade de fenômenos não abarcáveis num todo coerente, contradições e doses de défice de auto-estima sobre quem habita real ou imaginariamente esses lugares) (sic) (DOMINGUES, 2013, p. 228, grifos do autor) Nessa mesma linha de interpretação, Paola Berenstein Jacques (2003) 148 fala do “espetáculo” decorrente dos projetos de renovação levados a cabo nos centros históricos das cidades. Podemos remontar sua análise ao objeto desta dissertação, ainda que Santa Tereza não seja um bairro que possa ser caracterizado como histórico ou central e não seja alvo de renovação urbana. Mas ele é, afinal, protegido por um instrumento de política patrimonial do município e está sujeito aos mesmos processos discutidos por Jacques. O que se segue são apontamentos de situações 148 JACQUES, Paola Berenstein. Patrimônio cultural urbano: espetáculo contemporâneo? Revista de Urbanismo e Arquitetura, Salvador, v. 6, n. 1, p. 32-39, 2003. 158 às quais se deve atentar para que o bairro, por ser patrimônio cultural de Belo Horizonte, não sofra. A autora questiona os instrumentos de preservação do patrimônio urbano e uso da cultura como estratégias em projetos de renovação urbana, afirmando que estes são artifícios utilizados para inserção da cidade em uma rede global. Esta rede se insere no que Otília Arantes (1998) denominou como “culturalismo de mercado”. Para Jacques há uma crise na noção de cidade no que tange ao fenômeno de patrimonialização, que pode fatalmente levar à “espetacularização” de suas paisagens. Esse processo acaba por criar pontos específicos149 dentro das cidades tendo alguns patrocinadores por trás do processo. Nele, a população pouco ou nada participa e o que chamamos de gentrificação se desenvolve. A maneira mais simples de descrever a gentrificação seria dizer que é o processo de substituição de famílias de classes baixas e classes médias baixas por outras de classes superiores, classes média e média alta, em determinados espaços da cidade dada a alta dos valores dos imóveis e dos alugueis. O termo gentrification foi primeiramente utilizado por Ruth Glass em 1963 para descrever esse processo, então espontâneo, em alguns bairros de Londres no início da década de 1960. Helena Menna Barreto Silva (2006)150 fala que dois processos, combinados ou não, levaram à gentrificação ou vias de gentrificação em áreas centrais de grandes cidades ao redor do globo. Pelo lado da demanda, as estratégias das classes médias de (re)conquista de territórios e de volta a cidade depois de décadas de encantamento pelos conjuntos e loteamentos fechados, estimuladas pelo setor imobiliário. Mas não seria a classe média tradicional, mas sim outro tipo: ou os yuppies; ou famílias jovens, com maior escolaridade. Pelo lado da oferta e das decisões dos produtores de espaços – as estratégias dos governantes, em acordo com o setor privado, para tornar as cidades competitivas, dotando os centros de características que o tornariam atrativo para aquelas classes, seja para moradia ou para consumo e lazer. (SILVA, 2003, In BIDOU- ZACHARIASEN et al, 2006, p. 8) A autora afirma, portanto, que a gentrificação não estaria restrita às análises relativas à moradia e habitação, mas a “transformações das paisagens do emprego, 149 Jacques fala de pontos turísticos nos centros históricos das cidades, mas não há como afirmar que Santa Tereza seja um bairro turístico. No entanto, ele ocupa posição de destaque na capital mineira e atrai moradores de outros bairros dadas algumas de suas características já discutidas no âmbito deste trabalho. 150 SILVA, Helena Menna Barreto. Apresentação. In: BIDOU-ZACHARIASEN, Catherine. De volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo: Anablume, 2006. 159 do lazer e do consumo”, reformulando econômica, social e politicamente os espaços urbanos. (SILVA, 2003, apud BIDOU-ZACHARIASEN et al, 2003, p. 9) Mathieu van Criekingen (2006)151 propõe-se à análise de um processo de gentrificação paralelo ao residencial, que seria notado em alguns bairros centrais e pericentrais “em termos de consumo e convívio, por meio da multiplicação de butiques, restaurantes, cafés ‘da moda’, espaços frequentados tanto pelos residentes como pela população de outros bairros (...)” (BIDOU-ZACHARIASEN et al, 2006, p. 35). Esta seria uma etapa rumo à gentrificação completa. Mas, nesses bairros nos quais a arquitetura do pequeno comércio é valorizada, geralmente haveria uma pequena ascensão social dos moradores, melhorias também nos imóveis residenciais por conta deles próprios e manutenção dos traços sociais do bairro, não se podendo falar especificamente de gentrificação. A gentrificação se apresenta como um setor da economia urbana, justificada em grande medida por projetos que passam pelo discurso da valorização cultural e fortalecimento da identidade152, pela criação de empregos e diversificação social em determinadas áreas da cidade. A gentrificação, então, “tornou-se cada vez mais uma inatacável estratégia [global] de acumulação de capital para economias urbanas em competição”, passando a ser apresentada por alguns planejadores urbanos como algo natural. (SILVA, 2006, apud BIDOU-ZACHARIASEN et al, 2006, p. 10) Para Silva, a aplicação do termo gentrificação à realidade brasileira é complicada, pois ainda que haja quadros semelhantes aos grandes exemplos norte-americanos e europeus apontados no livro no qual a autora faz a apresentação (Nova Iorque, Bruxelas, Lyon, Barcelona, Nápoles,) as situações dos chamados países em desenvolvimento são particulares em relação a esses, seja pelo tipo de colonização que passaram, seja pela forma como se dá a ocupação e a valorização do território nas cidades, dentre outros fatores. No entanto, a abrangência do termo permite sua utilização, como visto na própria obra. 151 VAN CRIEKINGEN, Mathieu. A cidade renasce! Formas, políticas e impactos da revitalização residencial em Bruxelas. In: BIDOU-ZACHARIASEN, Catherine et al. De volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo: Anablume, 2006. 152 O que é problemático e conflituoso quando se analisam os resultados desses projetos, que pregam a recuperação de uma identidade, forjando novas que em nada dialogam com as subjetividades locais, mas atendem às demandas do mercado. 160 Jacques afirma que a tentativa constante de se forjar uma imagem singular de cidade pautada em uma identidade para vendê-la como mercadoria, uma dita “cultura local” está no foco das políticas de revitalização com o discurso de marcar a singularidade das cidades. Utilizam-se slogans, campanhas de venda, propostas de circuitos, em um modelo homogeneizador que visa o turista e não o morador. Dessa forma (...) a memória da cultura local – o que a princípio deveria ser preservado – perde-se em prol da criação de grandes cenários para turistas. E o mais grave: na maior parte das vezes, a própria população local, responsável e guardiã das tradições culturais, é expulsa do local da intervenção, pelo processo de gentrificação. (...) Parcerias com o setor privado são estimuladas e, hoje, a preservação do patrimônio urbano já é considerada por muitos empresários um empreendimento lucrativo, que tem base no turismo cultural globalizado (JACQUES, 2003, p. 34 e 35) É possível que um processo de gentrificação em Santa Tereza seja desencadeado e é o tipo de situação estudada por Mathieu van Criekingen (2006) explicitada acima que pode ser vislumbrado para o bairro – a gentrificação pelas vias de seus bares e de sua boemia. Outros autores também exploraram esse tipo de gentrificação. No bairro de Sain-Georges na cidade de Lyon, França, o processo foi impulsionado mais por novos hábitos de lazer e consumo do que pela ocupação residencial. A comparação entre Santa Tereza e Saint Georges é difícil porque os modelos de cidade de Belo Horizonte e Lyon são muitos diferentes, considerando a forma como a classe média se apropria dos territórios em cada uma dessas cidades, o tempo de existência de cada uma delas, sua inserção em países com realidades tão distintas. Mas é possível observar o caso de Lyon para evitar que se aconteça o mesmo aqui. O processo de revitalização do bairro de Saint-Georges, um dos mais antigos da cidade e de caráter popular e de atividades econômicas locais, foi iniciado espontaneamente por seus habitantes e, posteriormente, incorporado pelo poder público. Jean-Yves Authier (2006)153 nos apresenta o panorama do processo de gentrificação dessa região. Com uma qualidade arquitetônica de pouca proeminência e com construções consideravelmente deterioradas, o bairro era preservado por legislação local, o que impediu sua modificação completa. 153 AUTHIER, Jean-YVES. A gentrificação do bairro Saint-Georges em Lyon: a convivência de mobilidades diferenciadas. In: BIDOU-ZACHARIASEN, Catherine et al. De volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo: Anablume, 2006. 161 Deve-se expor o risco de a boemia de Santa Tereza ser usada como mercadoria em movimentos que utilizam o discurso da manutenção da cultura e da preservação do patrimônio. Apesar da imagem boêmia típica de Santa Tereza, a dos bares, se mostrar bastante sólida hoje, como vimos anteriormente, ela é utilizada como argumento para a patrimonialização do bairro (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2015) e é preciso que se esteja atento aos futuros projetos que serão voltados para ele enquanto bem patrimonial. A boemia enquanto cultura urbana do bairro Santa Tereza está inserida em uma escala de valor comercial local, na qual há relações interpessoais envolvidas, valores afetivos e memoriais para os moradores do bairro e mesmo para aqueles que não moram lá, mas o frequentam. No entanto, um ponto problemático do patrimônio urbano, à qual a boemia é associada em Santa Tereza, é a mercantilização das tradições e culturas e sua consequente espetacularização, como demonstrou Jacques (2003). A boemia e os aspectos por ela envolvidos, como a socialização, a música e a gastronomia não são isentos de exploração comercial, mas, como dito, esta se dá em nível local, o chamado comércio de bairro. São, no entanto, passíveis de serem explorados comercialmente de forma menos pessoal e em uma escala mais ampla, como já acontece na cidade com alguns circuitos gastronômicos. Em dois desses circuitos mais populares, apenas cinco bares do bairro Santa Tereza são participantes, dois bares em um deles e três no outro. Esses circuitos exploram a imagem de tradição de bares em Belo Horizonte, de sua culinária simples, a chamada “de raiz” e o consumo de cerveja gelada como elementos de concurso entre os estabelecimentos participantes. O foco é a projeção das marcas dos circuitos e dos bares envolvidos, transformando o que é considerada uma tradição belorizontina em produto, com patrocinadores, regras de consumo e divulgação enquanto tal. Enquanto a tradição dos bares do bairro Santa Tereza é construída na continuidade das relações entre fregueses e comerciantes, na constância e apreço por determinado estabelecimento e na consequente criação de hábitos de sociabilidade, conformando sua boemia, o marketing que se apropria da boemia por meio dos circuitos é imediatista, voltado para a quantidade em um determinado espaço de tempo e para a projeção do concurso em larga escala. 162 Mila Chaseliov Pereira dos Santos (2005)154 discute a “transformação do botequim no Rio, que passa de identidade cultural a fenômeno de marketing” (SANTOS, 2005, p. 9) em um processo fortemente fundamentado na publicação do Guia Rio Botequim, patrocinado pela prefeitura municipal. A autora fala que em meados dos anos 1990 há uma valorização e um amplo reconhecimento do botequim no Rio, antes rejeitado como lugar de práticas mal vistas pela sociedade. Passa a haver uma visão do botequim tradicional como algo pitoresco, cool, da moda. A atenção da mídia auxilia na transformação do botequim em mercado. Dá-se um movimento de apropriação das características estéticas do botequim nos novos bares, acompanhada do aumento dos preços e transformação dos pratos visando sua sofisticação. É uma verdadeira recriação dos cenários dos velhos botequins, inclusive em redes de bares padronizados que se espalham por toda a cidade. Espetacularização e mercantilização da cultura e do patrimônio cultural do Rio de Janeiro. Um processo mais amplo acontece com os circuitos que nasceram em Belo Horizonte e são exportados para outras cidades do Brasil. Ao exportar sua marca e seu marketing característicos, pasteurizam a cultura dita local, específica de Belo Horizonte, em uma ação que se encaixa no movimento de inserção da cidade em uma rede global, como afirmou Jacques (2003) e bem denominou Otília Arantes. Está colocado o culturalismo de mercado. o que poderia e parecia ser, a princípio, uma democratização da cultura - ou, na questão patrimonial, um incentivo à preservação popular e voluntária (de" baixo para cima ") - corre o risco de se tomar cada vez mais uma pura e simples diluição da compreensão de cultura e, por conseguinte, do patrimônio cultural, esvaziando, banalizando essas noções e transformando o patrimônio em um cenário espetacular. (JACQUES, 2003, p. 35) No entanto, a tradição boêmia e sua culinária, seus rituais e subjetividades não são, em sua essência, produtos autorais, ao contrário dos circuitos, que possuem marca, organização, são capitalizável e autorais. Eles se transvestem de tradição, mas, ao contrário desta, instituem uma relação que não é pessoal e construída cotidianamente, mas apenas monetária e focada em momentos espcíficos. A boemia 154 SANTOS, Mila Chaseliov Pereira dos. O botequim na era da reprodutibilidade das filiais: estudo de caso do Belmonte. Monografia (Graduação em Comunicação Social habilitação em Publicidade e Propaganda) – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Escola de Comunicação - ECO, 2005. 65 fl. 163 é uma referência cultural urbana tradicional, os circuitos são uma referência cultural do espetáculo urbano, que envolvem marcas, patrocinadores, regras, propagandas. 164 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A transformação de patrimônios urbanos em cenários comerciais pasteurizados é, geralmente, acompanhada da falta de participação social ou apropriação efetiva dos espaços pela população local, recaindo, mais uma vez, na gentrificação. A questão de áreas patrimonializadas é citada de forma positiva na obra organizada por Bidou- Zachariasen (2006) na experiência da cidade italiana de Nápoles, onde a proposta de valorização simbólica dos centros antigos teve como objetivo a manutenção da população residente. O projeto de intervenção foi acompanhado de projetos de mobilização cidadã, adequação dos espaços públicos e fruição do conjunto arquitetônico e urbanístico, tendo sido bem sucedido o objetivo de manter a complexidade cultural das áreas centrais. Já no México, Obstante os discursos dos militantes, pesquisadores e certos representantes dos organismos de proteção, que se refere à manutenção das funções tradicionais e das formas específicas da cultura popular dos bairros centrais, a política de patrimônio só considera os edifícios e a imagem urbana. As propostas de utilizar a legislação do patrimônio para proteger o que se chama no México de “patrimônio intangível”, não para provocar uma intangibilidade das construções, mas para destacar a existência de elementos de patrimônio que não são físicas, constituídas pela forma de relações sociais específicas dos bairros populares e da “vecindad”, aparecem desconectadas da realidade das ações de proteção do patrimônio. (SILVA, 2003, In BIDOU-ZACHARIASEN et al, 2006, p. 18) Neste item, à guisa de conclusão, serão apresentados panoramas possíveis para que a boemia de Santa Tereza, ou a paisagem boêmia do bairro, possa continuar, de fato, como uma de suas subjetividades e o bairro não recaia no que foi exposto como gentrificação. A boemia é um traço que justifica a patrimonialização do bairro, considerando o patrimônio cultural como um direito do cidadão e cujo valor é atribuído pela relação afetiva e memorial, que está para além da valoração mercantil. Sendo os indivíduos os atores dessa boemia e sujeitos de sua valoração enquanto patrimônio, possuem forças para frear possíveis processos de espetacularização de sua cultura e gentrificação de seu bairro. O envolvimento da sociedade civil é a saída para que não se instaure uma cultura meramente econômica, simulacro da própria cultura e tradição de um lugar. Paola Jacques fala que as implicação sociais dos projetos de revitalização urbana são indispensáveis e que a manutenção da população local é peça chave para uma preservação efetiva e, quem sabe, dispensar instrumentos de institucionalização patrimonial. 165 As diretrizes propostas para o Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza, algumas delas apontadas no capítulo anterior, não contemplam para além de aspectos físicos do patrimônio do bairro e, mais especificamente, não propõem ações de salvaguarda da boemia e de seus símbolos mais latentes atualmente, os bares. Algumas ações conjuntas com outros órgãos da PBH estão apontadas e refletem a compreensão do patrimônio cultural como um conceito mais completo, que abrange esferas da relação entre vida e patrimônio que não apenas aquelas com os bens edificados. Exemplo de uma dessas ações é o monitoramento do tráfego de veículos, ponto pensado em parceria entre a Fundação Municipal de Cultura (que abriga a Diretoria de Patrimônio Cultural) e a Secretaria de Planejamento Urbano. É preciso ir além. Jacques (2013) apresenta o panorama dos situacionistas nas Paris de meados do século XX, em um momento que ela chama de primeira espetacularização urbana. A partir da negação de uma concepção estática da cidade, os situacionistas anteciparam também – além da conhecida e radical crítica ao funcionalismo do movimento moderno e sua separação de funções – uma crítica à "museificação" das cidades, principalmente à transformação das cidades em espetáculos urbanos estáticos e não participativos. A idéia do urbanismo unitário (UU) propunha um "modelo" alternativo. (...) o uso, a experiência, a vivência dos espaços urbanos pela população local passariam a ser determinantes para uma escolha que deveria ser coletiva e que diz respeito à preservação, adaptação ou destruição dos seus antigos patrimônios culturais urbanos, assim como a construção de novos. Se o patrimônio cultural urbano se tornou, de fato, um simples espetáculo contemporâneo, poderíamos tentar nos servir do principal antídoto situacionista contra o espetáculo, ou seja, o seu oposto: a participação ativa dos indivíduos em todos os campos da vida social, principalmente no da cultura. (JACQUES, 2003, p. 37) A arquiteta, filósofa e historiadora prossegue sugerindo que quanto maior for a participação dos indivíduos que são os reais detentores de um patrimônio, ou seja, moradores e frequentadores que dão vida à boemia, menor será a espetacularização. O mesmo se dá quando da situação inversa: quanto mais espetacular, mercantil e explorada enquanto mercadoria for uma cultura ou tradição, mais afastada delas estará a população que mantém qualquer tipo de relação afetiva155. Nesse cenário do patrimônio espetáculo, os indivíduos, ao invés de ocuparem as “dobras da paisagem” e as “pregas do mundo”, como bem disseram 155 Nota da autora presente no texto original: “A relação entre espetacularização e gentrificação, ao inverso, é diretamente proporcional, ou seja, a espetacularização urbana costuma trazer consigo uma gentrificação espacial e cultural”. (JACQUES, 2003, p. 37, nota 16) 166 Anne Cauquelin (2013) e Jean-Marc Besse (2013), transfiguram-se em figurantes passivos ou até mesmo espectadores e, “(...) no sentido inverso, quanto mais ativo for o espetáculo (que no limite deixa de ser um espetáculo no sentido debordiano), mais a cidade se torna um palco e, o cidadão (antes simples espectador), um ator protagonista.” (JACQUES, 2003, p. 37) Mas como envolver a população sem que seja preciso utilizar estratégias de marketing, circuitos comerciais e outras estratégias que levam ao espetáculo urbano contemporâneo do patrimônio cultural? Como manter a boemia dos bares de Santa Tereza permitindo que cada um deles mantenha seu próprio estilo, proposta e relação com clientes e moradores? Julgamos que a participação popular deva acontecer de forma a englobar o maior número de atores sociais possíveis, desde comerciantes, funcionários dos bares, artistas que se apresentam neles, frequentadores de outros bairros e moradores, até mesmo as crianças e jovens. A estes deve ser dado o direito de compreenderem a cultura na qual estão inseridos, as tradições do lugar onde vivem, estudam, brincam e até mesmo frequentam com suas famílias. Só se mantêm vivas uma cultura e uma tradição, e parece ser esse o objetivo dos moradores e da municipalidade, quando se mantêm vivos seus usos sociais e sua utilidade para as pessoas, ainda que simbólica e afetiva. Na discussão sobre Nápoles trazida na obra organizada por Bidou-Zachariasen, é interessante notar que o poder público pretendia atingir, sobremaneira, a população residente da cidade no projeto denominado de “renascimento”. Diversos atores locais estiveram associados a esse trabalho simbólico. Foi assim que os estudantes secundários foram encarregados fazer o papel de mediadores desta “redescoberta” do patrimônio histórico. O projeto chamado “a escola adota um monumento” propunha que os alunos servissem de guia a seus parentes e amigos. (BIDOU-ZACHARIASEN, 2006, p. 43) Em Santa Tereza, seria interessante ampliar a já existente Associação de Bares e Restaurantes para que esse segmento comercial se fortalecesse e se unisse, propondo à prefeitura diferentes incentivos a esse tipo de pequeno comércio no bairro. É uma alternativa a processos de patrimonialização pro meio de instrumentos 167 tradicionais de salvaguarda do patrimônio cultural, que podem ser parcos e falhos quando se trata de um aspecto tão subjetivo da vida urbana que se pretende manter. O bairro Santa Tereza e a boemia são mais complexos do que títulos patrimoniais conseguem abarcar e articular isoladamente e, para que essa titulação não se volte contra o próprio Santa Tereza na forma perversa do patrimônio espetáculo, é preciso que as políticas sejam compreendidas e articuladas de forma permanente com as demais políticas públicas e propostas da própria sociedade. Henri Léfèbvre (1969)156 discute as modificações da forma das cidades e as modificações das relações sociais urbanas sob a ótica dos valores. A contemporaneidade tem se deparado com cidades transformadas em bens de consumo, geridas como empresas e voltadas para o lucro em detrimento dos usos coletivos possíveis de seus espaços. É o valor de uso sendo substituído paulatinamente pelo valor de troca. O bairro Santa Tereza, por algumas de suas características, objetivas ou subjetivas, abriga relações que, aparentemente, ultrapassam as relações de consumo, sejam elas entre indivíduos, entre indivíduos e espaço, entre eles e o tempo. A boemia, hoje simbolizada nos momentos da vida que acontecem nos bares do bairro, é uma dessas características. A cidade é um nível de realidade social e os processos gerais não se desenrolam acima dela, mas entremeados nas relações imediatas. (LÉFÈBVRE, 1969). Compreendendo a cidade como Lefebvre, deve-se sempre ter em consideração que a cidade só o é de fato em função de quem a habita; a cidade é o próprio ser humano. A paisagem pode ser cara às cidades, ao patrimônio e suas subjetividades e por isso pode ser instrumento de potência quando da construção e manutenção de relações de bem estar e qualidade entre indivíduos e urbano. É por esta razão [pelo papel importante nas relações entre sociedades e territórios] que as políticas da paisagem se revelam de uma extrema utilidade para perceber de que se fala realmente quando se fala de paisagem e de como agir na e através da paisagem. A politização da paisagem permite recentrar social e geograficamente o espaço público como dispositivo de discussão e conflito, de implicação/vinculação no contexto de um colectivo social, de negociação e de deliberação em torno das questões, dos actores, da estrutura social dos campos em presença, dos argumentos, dos poderes e contra-poderes, dos implicados e dos 156 LÉFÈBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Editora Documentos Ltda, 1969. 168 excluídos, da caução do Estado em matérias de provisão e regulação de bens e de serviços públicos, da mercantilização da paisagem, do envolvimento dos meios de comunicação, dos lugares/territórios da paisagem. (DOMINGUES, 2013, p. 226) 169 REFERÊNCIAS Bibliografia: ARANTES, Otília. 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