Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa MINEIRINHO, DOS PLANOS AO CONCRETO: memória e história do Palácio dos Esportes de Belo Horizonte (1959-1980) Belo Horizonte Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional/UFMG 2019 Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa MINEIRINHO, DOS PLANOS AO CONCRETO: memória e história do Palácio dos Esportes de Belo Horizonte (1959-1980) Tese apresentada ao Programa de Doutorado em Estudos do Lazer, da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito para a obtenção do título de Doutora. Linha de pesquisa: Lazer, História e Memória. Orientador: Prof. Dr. Elcio Loureiro Cornelsen Belo Horizonte Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional/UFMG 2019 C837m 2019 Costa, Luciana Cirino Lages Rodrigues Mineirinho dos Planos ao Concreto: memória e história do Palácio dos Esportes de Belo Horizonte (1959-1980). [manuscrito] / Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa – 2019. 468 f., enc.: il. Orientador: Elcio Loureiro Cornelsen Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Bibliografia: f. 161-169 1. Lazer – Teses. 2. Políticas públicas – Teses. 3. Belo Horizonte (MG) – história – Teses. 4. Estádios – Teses. I. Cornelsen, Elcio Loureiro. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. III. Título. CDU: 796.344 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário Danilo Francisco de Souza Lage, CRB 6: n° 3132, da Biblioteca da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG. Dedico esta Tese aos meus pais (in memoriam), pela minha vida e pelos exemplos que foram a base para eu seguir a minha jornada valorizando as pessoas; e à minha família, vocês merecem, partilharam e suportaram as venturas e desventuras desta pesquisa, sempre, comigo. AGRADECIMENTOS À vida, experiências, relações, saberes, alegrias, tristezas, compartilhamentos, superações, perdas e ganhos. A Deus, entidade, energia, ação e reação. Ao grande companheiro e amor, Ronie, difícil dizer, em palavras, a gratidão que tenho por tê-lo em minha vida! Você é mais que especial! Ao amado e grande, e à amada em crescimento, Cristiano e Júlia. Filho e filha, amigo e amiga, inspirações para seguir e motivação para resistir. O mundo é de vocês, o mundo é nosso, o mundo é de quem vier! Meu coração transborda de felicidade por vocês. Aos professores Sérgio Merêncio, Luciano Pereira, Rogério Othon, Francisco Brinati, e às professoras, Marilita Arantes e Elisângela Chaves, pela disponibilidade em dialogarmos e a oportunidade de, também neste momento, compartilharmos nossos conhecimentos. Imensamente agradecida! Aos professores Cleber Augusto Dias e Rodrigo Patto Motta e à professora Maria Cristina Rosa, muito obrigada pelas interlocuções possibilitadas durante as aulas. À nossa, FAMÍLIA! Frenética, Amorosa, Meiga, Inspiração, Lar acolhedor, Inquietação em minhas ausências e A luz que me guia. Amo vocês! Manas e manos, Magna, Aracy, Solange, Antônio, Flávio e Marco Antônio. Família grande é isso: muitos agradecimentos. Muitos braços e abraços, para acolher, acariciar, confortar e ser confortado. E família cresce! Há os que chegam e se aconchegam: Ana Clara, obrigada! Sobrinhos e sobrinhas, Iris, João e extensão (um mundo de gente!). Obrigada pela acolhida, há mais de 25 anos, Bodas! Mary, Carlos, Rosana, Luciana e família. Família que amo! Obrigada! Aos amigos e amigas, as bordadeiras, a galera amada do Cume (mais uma bandeira fincada!) ... Meu singelo agradecimento. Da faculdade, as per...: Ana Marina, Cintia, Christiane e Lilia. Sucesso total! Jennyfer, puxa, foi ótimo iniciarmos nossa trajetória de reflexões, obrigada! Ao apoio logístico da Dona Rita. Prefeitura de Belo Horizonte, desse belo horizonte, muitos e muitas, SMELazer (os vínculos são tantos, que se denominasse, não teria espaço para a Introdução), sintam-se agradecido(a)s, nesse abre-alas: Ana Maria, Fabiano, Petter, Ariene, Malu, Márcia, Guilherme, Carlos, Sara, Rita, Iliana, Consuelo, Tarcila, Naiderson, Edmar (valeu a força, garoto!), Cristina, Elberto, Sandra, Samanta, Rana, à equipe Norte ... e à Escola, ainda que eu saísse dela, ela não sai de mim: Aurélio Pires, muito obrigada! Gratidão à gestão e aos funcionários da Superintendência de Gestão de Estruturas Esportivas da Secretaria de Estado de Esportes de Minas Gerais, que prontamente me acolheram e contribuíram para a efetivação da Tese, em especial ao Ricardo Raso, ao Ricardo Oliveira Silva, ao Paulo César Vieira, ao Celso Lacerda e à Danieli Martins. Ao suporte recebido pela Assessoria de Gestão da Informação da Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento da UFMG, em especial à Monisa Lopes. Às sempre Bordadeiras, aos colegas e alunos da UNIFEMM. As prosas, experiências e partilhas fazem o percurso tornar-se mais curto. Obrigada! Ao FULIA, pelas partilhas de conhecimentos e acolhida nas produções, agradecida. À UFMG (um mar de gente), pessoas que, juntas, fazem e vivem a educação, pública, gratuita e de qualidade: equipe da Tutoria do PELC- EaD; PPGEL (Cinira e Danilo, valeu!); Associação de Pós-graduação; e aos funcionário(a)s - a todo(a)s, e de modo aconchegante, aos das bibliotecas). E gratidão imensa aos cinco depoentes que contribuíram significativamente com seus relatos de memórias: Afonso Raso, Celso Lacerda, José França, Ricardo Raso e Richard Lima. Muito obrigada. PALAVRAS... E, como não fazer um agradecimento diferenciado a quem me abriu as portas dessa etapa de minha formação? Impossível! Nesses quatro anos (pensando melhor, um pouco mais), tive a oportunidade de compartilhar contigo, Professor Elcio, muitas experiências, conhecimentos, aprendizados e modos (éticos) de fazer pesquisa. Antes mesmo de ingressar no Programa de Pós-graduação, tive a oportunidade de realizar a disciplina que ofertou, O Lazer sob o jugo totalitário: o caso da Alemanha nazista. Fantásticas contribuições! Inspirada em uma conversa no Grupo de Estudos Polis-EEFFTO, em que o coordenador, Luciano Pereira, mencionou aos presentes a possibilidade de um estudo sobre o Mineirinho, passei alguns dias pensando a respeito, ponderando sobre as possiblidades, e, com um projeto pronto, submeti-o ao processo seletivo. E, grata surpresa eu tive ao saber que fui aprovada! E que seria sua orientanda! Aos poucos, avançando na pesquisa e nas partilhas de ideias (e dúvidas), fomos nos aproximando e tive outras oportunidades cativantes de ver o compromisso que você tem com as pessoas, com o conhecimento e com a docência. A leveza com que conduz os processos, o respeito que tem em relação aos discentes (orientandos ou não, independentemente de ser da Graduação ou da Pós), e a ética que nos expressa e inspira seguir nos direcionam para a ideia de que é possível. Apesar de ... tempos conturbados em nosso país, e foi difícil passar por isso... ... Vale ser professor(a)! E, fazer pesquisa com o mundo girando ao redor (e que mundo louco!), com as atribuições que seguiam, ainda que eu tentasse me distanciar delas, só foi possível porque você me demonstrou confiança. E, foi dessa confiança que eu consegui me fortalecer e seguir, até aqui, ainda que em alguns momentos, sofrendo palpitações e angústias no peito, ficasse temerosa com os resultados. E dá-lhe bike na Pampulha! Foi fácil? Não! Mas, se fora do Programa de Pós-graduação tive forças (e muitas), no suporte recebido pela família (amada) e de amigos e amigas (são muitos, ainda bem!), dentro dele, você foi de suma importância! Assim, é com o coração cheio de gratidão que lhe digo: MUITO OBRIGADA! Quando crescer, quero ser uma professora igual a você! Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. (José Saramago) RESUMO Este estudo teve por objetivo investigar a trajetória da construção do Palácio dos Esportes, oficialmente denominado como Estádio Jornalista Felipe Drummond e popularmente conhecido como Mineirinho. Pesquisamos como foi a sua relação com a região em que foi construído e com os processos políticos executados no período, como e por quê foi planejado e como foi o seu uso logo após a sua inauguração. O recorte temporal da pesquisa está compreendido entre o ano de 1959, quando da publicação da Lei n.º 1947/59, marco legal que fomentou a origem do Palácio dos Esportes, e o ano de 1980, quando o mesmo foi inaugurado. Partimos da hipótese de que a sua construção estaria em consonância com a política de esporte e lazer executada no âmbito nacional, e que serviria de possibilidade para ecoar um discurso positivo do regime militar, e também de conformação dos sujeitos através do esporte e do lazer. Ancorado em uma investigação historiográfica, o estudo baseou-se na literatura relacionada aos estudos da Educação Física, em especial da história da Educação Física relacionada à política pública e aos estudos de Esporte e Lazer, da urbanização, relacionados, em especial, à região da Pampulha, e dos provenientes da história oral. As fontes pesquisadas foram os documentos oriundos, em especial, da ADEMG, legislações, Relatórios de Prefeitos de Belo Horizonte, periódicos e cinco depoimentos colhidos de pessoas relacionadas com a ADEMG, com a construção ou com a gestão do ginásio, que contribuíram para a identificação de sua memória e para a construção da narrativa sobre sua história. A Tese está organizada em quatro capítulos, na seguinte abordagem: apresentação do contexto e de arranjos políticos no esporte e no lazer, envolvendo a construção de grandes equipamentos públicos em Belo Horizonte; apontamentos sobre a urbanização de Belo Horizonte, em especial na região da Pampulha, e sobre a relação com a construção do Mineirão, do Centro Esportivo Universitário e do Mineirinho; aspectos relativos à construção do Mineirinho e à sua utilização logo após a sua inauguração; e, por fim, uma breve apresentação sobre aspectos identificados, em especial, durante a pesquisa documental, no próprio Mineirinho, sobre sua relação com os dias atuais. As fontes nos deram os seguintes apontamentos: de modo inter-relacionado, a construção do Mineirinho, do Mineirão e do Centro Esportivo Universitário contribuiu para a transformação da paisagem da Pampulha, em especial da região mais próxima a eles; o despontar do Mineirinho, na paisagem da Pampulha, guarda relação com a política que foi implementada no final dos anos 1960, em que se almejava a ocupação e controle dos jovens, em especial dos estudantes universitários vinculados à UFMG, sendo de interesse tanto do Governo de Minas Gerais, quanto da própria universidade, cada qual com suas próprias motivações; o seu planejamento buscou oferecer à região em que se encontra e à cidade de Belo Horizonte um grande local que estimularia a realização e o desenvolvimento de diferentes modalidades esportivas, em especial as vinculadas ao esporte amador (mencionadas também como esporte especializado), as atividades culturais, e, assim, fomentaria o lazer; nos dias atuais, observa-se transformações em seu planejamento inicial, reflexos de processos sociais recentes. Palavras-chave: Esporte e Lazer. Política Pública. História. Estádio Mineirinho. ABSTRACT This study aimed to investigate a trajectory of the construction of the Sports Palace, officially known as Felipe Drummond Journalist Stadium and popularly known as Mineirinho. The interface was used as a database and the processes were executed in the period, how and why it was planned and how the logo was used after its inauguration. The temporal cut of the research is between 1959, when Law 1947/59 was published, the legal framework that fomented the origin of the Sports Palace, and the year 1980, when it was inaugurated. We start from the hypothesis that its construction would be in line with the sport and leisure policy implemented at the national level, and that it would be a possibility to echo a positive discourse of the military regime, as well as the conformation of the subjects, through sport and leisure. Anchored in a historiographical investigation, the study was based on the literature related to Physical Education studies, especially in the history of Physical Education related to public policy and Sports and Leisure studies, related to urbanization, especially in the region of Pampulha, and those from oral history. The sources researched were the documents originating, in particular, the ADEMG, legislations, Belo Horizonte Mayors Reports, periodicals and 5 testimonies collected from ADEMG-related persons, with the construction or management of the gymnasium, which contributed to the identification of his memory and for the construction of the narrative about his history. The thesis is organized in 4 chapters, in the following approach: presentation of context and political arrangements in sports and leisure, involving the construction of large public facilities in Belo Horizonte; notes on the urbanization of Belo Horizonte, especially in the Pampulha region and the relationship with the construction of the Mineirão, the University Sports Center and the Mineirinho; aspects related to the construction of Mineirinho and its use soon after its inauguration; and finally, a brief presentation on aspects identified, especially during the documentary research, in Mineirinho itself, about its relationship with the present day. The sources gave us the following indications: in an interrelated way, the construction of the Mineirinho, the Mineirão and the University Sports Center, contributed to the transformation of the landscape of Pampulha, especially the region closest to them; the emergence of Mineirinho in the landscape of Pampulha is related to the policy that was implemented in the late 1960s, in which the occupation and control of young people, especially university students linked to the UFMG, were sought. the Government of Minas Gerais and the university itself, each with its own motivations; its planning sought to offer to the region in which it is located, and to the city of Belo Horizonte, a great place that would stimulate the development and development of different sports modalities, especially those related to amateur sports (also referred to as specialized sports) cultural activities and promote leisure; in the present day, transformations of its initial planning, reflections of recent social processes are observed. Keywords: Sports and Leisure. Public Policy. History. Mineirinho Stadium. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – O ginásio presente no termo de interesse mútuo para a construção do Estádio Minas Gerais ............................................................................................................................. 42 Figura 2 – A construção da barragem da Pampulha ................................................................. 55 Figura 3 – A Pampulha desponta para o turismo e o divertimento .......................................... 56 Figura 4 – Fazenda Dalva, futuro território de novos saberes da UMG – atual UFMG .......... 57 Figura 5 – Crescimento populacional Censo Demográfico IBGE ........................................... 58 Figura 6 – Os equipamentos públicos e privados de esporte e de lazer no entorno da Pampulha .................................................................................................................................................. 61 Figura 7 – Quadro com os diversos equipamentos de esporte e de lazer no entorno da Pampulha, segundo a imagem “Localização do Mineirão e Mineirinho na Pampulha” .......... 62 Figura 8 – O Mineirão na paisagem da Pampulha.................................................................... 63 Figura 9 – Áreas vizinhas ao Mineirão antes das obras do CEU e do Palácio dos Esportes.... 65 Figura 10 – O despontar do CEU na paisagem ........................................................................ 66 Figura 11 – O canteiro de obras do Mineirinho e a fundação .................................................. 67 Figura 12 – O despontar do Mineirinho: o espaço verde ......................................................... 69 Figura 13 – O despontar do Mineirinho, a “ADEMG informa”, sai o verde e entra o concreto .................................................................................................................................................. 70 Figura 14 – A construção do Mineirinho vista de longe .......................................................... 72 Figura 15 – Recorte ampliado da figura 14 .............................................................................. 73 Figura 16 – Vista panorâmica da Pampulha próxima ao Mineirão .......................................... 74 Figura 17 – O progresso muda a face de Belo Horizonte ......................................................... 76 Figura 18 – Mineirinho, o começo e a paisagem ao redor ....................................................... 77 Figura 19 – A Lei n° 1947 e a construção do Estádio Minas Gerais anuciada na Imprensa .... 84 Figura 20 – O campo de Futebol e a pista de atletismo no Estádio Minas Gerais ................... 85 Figura 21 – A pista de Atletismo no Estádio Minas Gerais ..................................................... 85 Figura 22 – A composição do primeiro Conselho de Administração do Estádio Minas Gerais .................................................................................................................................................. 88 Figura 23 – Quadro das legislações em relação ao CEU e ao Mineirinho ............................... 95 Figura 24 – Construção das instalações de educação física da Universidade Federal de Minas Gerais//// ................................................................................................................................. 109 Figura 25 – O estádio de futebol recebe um novo vizinho ..................................................... 109 Figura 26 – O Palácio dos Esportes no Convênio de 1972: a previsão das dependências e da capacidade de público ............................................................................................................. 113 Figura 27 – Começou a construção: a fundação do Palácio ................................................... 114 Figura 28 – A fundação do Palácio altera a paisagem ............................................................ 114 Figura 29 – Da poeira ao concreto.......................................................................................... 115 Figura 30 – A ocorrência do termo Palácio dos Esportes no Jornal dos Sports (1970-1979) 116 Figura 31 – O Palácio dos Esportes de Belo Horizonte no Jornal dos Sports ....................... 118 Figura 32 – A capela no Mineirinho, planos de religiosidade ................................................ 120 Figura 33 – Visita do Governador Aureliano Chaves na inauguração da Avenida dos Esportes ................................................................................................................................................ 122 Figura 34 – O Palácio dos Esportes em construção visto de cima ......................................... 124 Figura 35 – O Mineirinho na imprensa e a propagação da ideia de grandiosidade ................ 128 Figura 36 – Área externa do Palácio dos Esportes no dia da inauguração ............................. 128 Figura 37 – O discurso do esporte como meio de formação da juventude ............................. 129 Figura 38 – Vice-presidente da República em visita ao Mineirinho ...................................... 130 Figura 39 - Motociclistas e estudantes na inauguração do Palácio dos Esportes ................... 131 Figura 40 – A presença de ex-governadores na inauguração do Mineirinho ......................... 131 Figura 41 – O Mineirinho está inaugurado ............................................................................. 133 Figura 42 – Postal Mineirão/Mineirinho – ADEMG ............................................................. 138 Figura 43 – Campeonato Brasileiro League of Legends realizado no Mineirinho em 2017 .. 140 Figura 44 – A utilização de espaços externos......................................................................... 141 Figura 45 – Salas e corredores do Mineirinho ........................................................................ 141 Figura 46 – Sala 409 e a piscina que não foi efetivamente construída ................................... 142 Figura 47 – Visita do prefeito Maurício Campos durante a construção do Mineirinho em 1979 ................................................................................................................................................ 145 Figura 48 – Vice-presidente Aureliano Chaves no canteiro de obras do Mineirinho ............ 146 Figura 49 – Sara Kubitschek cumprimentando Afonso Celso Raso em visita ao Mineirinho em 1979 ........................................................................................................................................ 147 Figura 50 – Portaria que dava acesso ao alojamento do Mineirinho ...................................... 148 Figura 51 – Ziraldo no Mineirinho, em obras em 1979.......................................................... 149 Figura 52 – O muro de contenção compondo a paisagem externa do Mineirinho ................. 151 Figura 53 – Algumas visões do Mineirinho ........................................................................... 151 Figura 54 – Processos de cercamento ..................................................................................... 152 Figura 55 – Mineirinho entre grades ...................................................................................... 152 Figura 56 – As barreiras de aço no Mineirinho ...................................................................... 153 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AMG Administração Estádio Minas Gerais ADEMG Administração de Estádios de Minas Gerais AMCE Associação Mineira de Cronistas Esportivos AI Ato Institucional APCBH Arquivo Público da Cidade AERP Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência da República BH Belo Horizonte CEU Centro Esportivo Universitário CELAR/UFMG Centro de Estudos de Lazer e Recreação/Universidade Federal de Minas Gerais CEMEL/SMES Centro de Memória do Esporte e do Lazer/ Secretaria Municipal de Esportes e Lazer COEP/UFMG Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais DED/MEC Departamento de Educação Física e Desporto do Ministério da Educação e Cultura DEMG Diretoria de Esportes de Minas Gerais DOI-CODI Paulista EEFFTO Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional EPT Esporte Para Todos EsEFEx Escola de Educação Física do Exército ESNI Escola Nacional de Informações EUA Estados Unidos da América MDB Movimento Democrático Brasileiro MG Minas Gerais MOBRAL Movimento Brasileiro de Alfabetização PSB Partido Socialista Brasileiro PSD Partido Socialista Democrático PTB Partido Trabalhista Brasileiro PTN Partido Trabalhista Nacional SEEJ Secretaria de Estado de Esportes e da Juventude SEESP/MG Secretaria de Estado de Esportes de Minas Gerais SMES/PBH Secretaria Municipal de Esportes e Lazer de Belo Horizonte SNI Serviço Nacional de Informação UFMG Universidade Federal de Minas Gerais URSS União das Repúblicas Socialistas Soviéticas SUMÁRIO ABRINDO A PLANTA BAIXA PARA O ESPORTE E PARA O LAZER: A INTRODUÇÃO DE UM PALÁCIO ..................................................................................... 18 1 NA TESSITURA DE UM PROJETO E NA COMPOSIÇÃO DE ARRANJOS POLÍTICOS: O ESPORTE E O LAZER VINCULADOS À CONSTRUÇÃO DE GRANDES EQUIPAMENTOS PÚBLICOS EM BELO HORIZONTE .......................... 28 1.1 De governos eleitos à democracia duramente golpeada: percursos da política no panorama brasileiro (1959-1980) ............................................................................................................ 32 1.2 As ações direcionadas para o esporte e para o lazer: apontamentos sobre as políticas públicas ........................................................................................................................................................... 41 1.2.1 Políticas Públicas de Esporte e de Lazer no Brasil e em Minas entre os anos 1960 e 1970.................................................................................................................................45 2 O MINEIRINHO E A PAISAGEM QUE O RODEIA: PERCURSOS E APONTAMENTOS DA TRANSFORMAÇÃO DA CIDADE ........................................... 53 2.1 A Pampulha na capital: olhares sobre a urbanização e contribuições para a expansão das áreas habitadas na cidade ................................................................................................................... 54 2.2 De campos verdejantes a concretos estruturantes: a Pampulha como espaço do esporte e do lazer ......................................................................................................................................... 60 2.2.1 O despontar do Mineirão, do Centro Esportivo Universitário e do Mineirinho, e a relação deles com a urbanização na Pampulha (1960-1980) ............................................. 64 2.3 Urbanização na Pampulha e construção de equipamentos públicos de esporte e de lazer: diálogos com o local e o regional ................................................................................................ 68 3 DOS PLANOS AO CONCRETO ................................................................................... 79 3.1 Das normativas à fundação: percursos que levaram aos planos do Palácio .................. 80 3.2 Dos planos à definição do local: processos que confluíram para o CEU abrir passagem para o Palácio ............................................................................................................................ 92 3.3 O centro esportivo externo: surge uma nova paisagem na Pampulha ............................. 97 3.4 O Palácio dos Esportes desponta na paisagem da Pampulha: dos planos ao concreto.... .................................................................................................................................................... 110 3.4.1 Os muitos Palácios e o nosso Palácio: dos esportes, do lazer e de outras atividades.. ....................................................................................................................... 115 3.4.2 O Palácio e os planos para ele: as prováveis intenções que inspiraram o projeto........ ...................................................................................................................... 118 3.4.3 A construção: da interrupção ao acelerado processo de término ......................... 121 3.5 O Palácio abre seus portões: começa uma nova fase ............................................................... 125 4 ENTRE O PASSADO E O PRESENTE: OLHAR O PASSADO E COMPREENDER O PRESENTE ...................................................................................... 136 4.1 Dentro do Mineirinho: apontamentos sobre o tempo do passado no presente ........... 139 4.1.1 A estrutura e os diferentes espaços do Mineirinho .............................................. 143 4.2 O Mineirinho no contexto da metrópole no final do século XX e o encarceramento da vida e do lazer ....................................................................................................................................... 150 5 REVENDO OS CONCRETOS DO PLANO: APONTAMENTOS FINAIS ............ 155 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 161 APÊNDICE A – ELEMENTOS PRÉ-ENTREVISTA ...................................................... 170 APÊNDICE B – ENTREVISTAS ....................................................................................... 175 ANEXOS ............................................................................................................................... 443 18 ABRINDO A PLANTA BAIXA PARA O ESPORTE E PARA O LAZER: A INTRODUÇÃO DE UM PALÁCIO Um grupo de estudos1, entre os anos de 2009 e 2011, investigou coletivamente a trajetória das políticas públicas de esporte e de lazer em Minas Gerais: essa foi a primeira aproximação com o objeto de estudo da presente pesquisa de Doutorado sobre a memória e a história do Palácio dos Esportes2. Naquele momento, realizando a pesquisa Um olhar sobre a trajetória das políticas públicas de esporte em Minas Gerais: 1927 a 20063, que teve por objetivo investigar as políticas de esporte que foram desenvolvidas no Estado de Minas Gerais, o Mineirinho apareceu de maneira sutil. Esse percurso favoreceu uma primeira aproximação com arquivos relativos à memória do Mineirinho4. Em um dos períodos pesquisados, foi possível identificar as ações da Diretoria de Esportes de Minas Gerais (DEMG)5, órgão gestor responsável pelas políticas do esporte e do lazer no Estado (1946-1987), e que constituiu o alicerce para a construção do Mineirinho, ação que foi efetivamente realizada pela autarquia Administração de Estádios de Minas Gerais (ADEMG). A ADEMG foi criada em 1965, com o objetivo de realizar a administração do estádio Minas Gerais (Mineirão), e, posteriormente, também coube a essa autarquia a responsabilidade pela construção e gestão do Mineirinho. O que motivou a realização deste estudo foi o desejo de acessar a memória do Palácio dos Esportes, buscando a reconstituição de sua história. Assim, iniciamos a pesquisa, que objetivou investigar os processos que desencadearam o planejamento e a edificação do Mineirinho. Buscamos a elucidação de aspectos relacionados ao seu planejamento e à sua construção, aos interesses relativos à sua constituição enquanto espaço esportivo e de lazer, e 1 Grupo de Estudos em Políticas Públicas de Esporte e Lazer (POLIS/CELAR – UFMG). 2 As fontes pesquisadas evidenciaram que este equipamento de esporte e lazer foi nomeado de três modos diferentes: Palácio dos Esportes, denominação presente na legislação em 1965, que foi utilizada oficialmente até o ano de 1980, quando, então, com a publicação da Lei 7674, de 31 de março de 1980, passou a ser denominado Estádio Jornalista Felipe Drummond; e, Mineirinho, a denominação mais utilizada popularmente, presente em documentos que foram analisados durante a pesquisa, sendo usual na fala dos depoentes participantes das entrevistas no âmbito da história oral, e dos trabalhadores que nos receberam para o levantamento documental no próprio Mineirinho. Ao longo da escrita da Tese, utilizaremos esses três modos de denominá-lo. 3 Realizada pelo Centro de Memória e Informação do Esporte (CEMIE), da Secretaria de Estado de Esportes e da Juventude (SEEJ), e pelo grupo POLIS/CELAR, da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG. 4 E após a conclusão da referida pesquisa, durante a realização de uma reunião do POLIS/CELAR, o professor Luciano Pereira, um dos membros do Grupo, mencionou o Mineirinho como possibilidade de ser um objeto para estudo. Essa foi mais uma motivação que impulsionou a realização dessa pesquisa. 5 A DEMG foi o órgão que estruturou e executou as políticas públicas de esporte em Minas Gerais entre 1946 e 1987 (RODRIGUES; COSTA, 2014). 19 ao modo como se deu a apropriação do local, por parte do poder público e da população nos primeiros meses após a sua inauguração, que ocorreu em 15 de março de 1980. Para isso, nos orientamos a partir das seguintes indagações: quais foram os aspectos que permearam sua concepção e sua construção? Quais eram os interesses relacionados a ele? A quem ou a quais grupos interessaria a sua construção? O que o poder público pretendia com a constituição do Mineirinho enquanto espaço esportivo e de lazer? Haveria relação entre a construção do Palácio dos Esportes e a difusão de uma imagem positiva da ditadura militar? Como foi o seu uso, no ano de 1980, durante os primeiros meses após a sua inauguração? A hipótese defendida foi a de que a construção serviria aos interesses do governo, no campo esportivo e do lazer, em Minas Gerais, que o teria como uma mola propulsora, em especial para a difusão esportiva. O recorte temporal da pesquisa está compreendido entre o ano de 1959, quando da publicação da Lei n.º 19476, marco legal que fomentou a origem do Palácio dos Esportes7, e o ano de 1980, quando o Mineirinho foi inaugurado. Destacamos que, em boa parte desse período, o Brasil foi marcado pela ditadura militar (iniciada com o golpe em 1964), e foi governado por presidentes que pactuaram com tal conjuntura da política nacional. Nesse contexto, conforme evidenciado por Castellani Filho (2001), uma vez incorporados ao Estado, tanto o esporte quanto o lazer constituíram-se como expressão da política pública e receberam atenção desses governantes. A trajetória percorrida durante a pesquisa se deu por meio do levantamento do referencial teórico nos seguintes âmbitos: estudos que forneceram elementos para a compreensão do contexto histórico brasileiro no período pesquisado, dentre os quais destacamos Fausto (2004), Couto (1999), Motta (2009) e Reis Filho (2014); estudos que abordaram a relação entre o esporte, o lazer e a política pública, com atenção especial aqueles que abrangeram as ações realizadas durante o período proposto no recorte temporal de nossa pesquisa, tais como os realizados por Linhales (1996); Costa (1987), Rodrigues (1996), Castellani Filho (2001), Tubino (2003), Oliveira (2004), Veronez (2005), Campos (2007) e Menezes e Marcelino (2011); e estudos relacionados à urbanização e à história de Belo Horizonte, sobremaneira, os que contribuíram para analisarmos a inserção do Mineirinho na 6 Consta na lei citada, entre outras providências, a construção de um Estádio em Belo Horizonte para a prática do futebol e do atletismo. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2017. 7 Conforme descrito no impresso Mineirinho Vitória do Otimismo, a ascensão do desejo popular pela construção de um grande estádio de futebol (o Mineirão, inaugurado em 1965) evidenciou também a intenção de que fosse construído um ginásio poliesportivo em Belo Horizonte, para os esportes especializados. Contudo, considerando que a historiografia a respeito da ditadura militar nos evidencia que foi recorrente a conduta de apagamento da participação popular, parece-nos contraditório a ideia de que, quase dez anos após a inauguração do Mineirão, em plena ditadura, o desejo popular tenha influído no planejamento do Mineirinho. 20 região em que ele se encontra e a sua relação com a cidade, estando, entre esses autores, Santos (2006), Carsalade (2007), Lefebvre (2011), Castello (2007), Ribeiro (2011) e Costa (2014). Além do levantamento da literatura subsidiária, realizamos também pesquisas em diferentes fontes. Guiados pelas palavras de Certeau (1982), que nos alerta para a compreensão de que, em história, o começo acontece ao separar, agrupar e transformar em documentos aqueles objetos que estavam dispostos de outro modo. Fizemos o levantamento das fontes, rumo à sua memória, almejando identificar os indícios (GINZBURG, 1989) e alcançar os fragmentos e os vestígios que poderiam auxiliar na reconstrução da história do Mineirinho. Conseguimos acessar diversos arquivos e acervos, mobilizando, assim, diferentes documentos, que se encontravam no arquivo do próprio Mineirinho, no arquivo pessoal do Sr. Afonso Celso Raso, no Museu Histórico Abílio Barreto, na Biblioteca Pública Luiz de Bessa, no arquivo digital da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e no Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte. Esses documentos eram diversificados: relatórios de gestão de dirigentes que participaram da execução da obra; relatórios de prefeitos de Belo Horizonte; legislações editadas; reportagens de jornais e revistas; documentos oficiais – ofícios, memorandos, projetos estrutural e arquitetônico, planilhas de controle da obra, medições, contratos, atas de reuniões, material didático e de divulgação, prestação de contas e fotografias. Além disso, nos deparamos com alguns aspectos que demandaram grande dispêndio de tempo para o levantamento documental. Não foi tarefa fácil, uma vez que, nos arquivos históricos já constituídos em Belo Horizonte (Museu Abílio Barreto, Arquivo Público da Cidade e Arquivo Público Mineiro), o acervo disponível sobre o objeto de estudo era pequeno. Contudo, era de nosso conhecimento que havia documentos no próprio Mineirinho, que poderiam contribuir para a nossa pesquisa8 e que, já no começo do levantamento documental, foram mobilizados. O acesso ao arquivo documental do Mineirinho, localizado em suas dependências, foi prontamente franqueado9 para a realização da pesquisa. Como não estava constituído um 8 Nesse sentido, agradecemos a contribuição do CEMEL (Centro de Memória do Esporte e Lazer – SMES), que, por meio da então coordenadora Marilita Aparecida Arantes Rodrigues, indicou a existência desse material que estaria localizado no próprio Mineirinho. 9 Agradecemos a contribuição do gestor responsável pela Superintendência de Gestão de Estruturas Esportivas da SEESP/MG, Sr. Ricardo Afonso Raso, que autorizou o acesso ao arquivo do Mineirinho e a utilização dos documentos para a pesquisa. Agradecemos também à equipe gestora do Mineirinho e aos trabalhadores que 21 acervo desses documentos no local, houve uma demanda significativa de tempo para acessar o grande volume de material que se encontrava lá, que guardava também alguns itens de almoxarifado e documentos de gestões mais recentes. Foram muitas as visitas feitas ao arquivo para realizar a pesquisa documental, que foi, literalmente, um garimpar de memórias10. A paciência e a atenção foram elementos fundamentais para conseguir avançar nessa etapa. Entre as dezenas de caixas e arquivos que guardavam possíveis contribuições para o desenvolvimento da pesquisa, cada ida à sala foi um exercício de expectativa: abrir caixas, arquivos de metal e armários em que diferentes documentos e objetos estavam guardados (e foram muitas e muitos); folhear papéis avulsos, livros, revistas e jornais; abrir as pastas e verificar o que tinha dentro delas; e tocar e analisar outros objetos (medalhas, bandeiras, carimbos, calendários, troféus). Algumas vezes, centenas de folhas eram pesquisadas para não localizar nenhuma informação que nos fosse útil. Em outras, caixas e mais caixas eram acessadas, tirando o que estivesse dentro delas, e novamente sem sucesso em localizar algo relevante para a pesquisa. E tal dificuldade prosseguia, a cada ida e a cada busca.. Armários e arquivos de metal tiveram todos os materiais verificados, e, por vezes, não havia sequer uma folha impressa ou manuscrita, uma fotografia ou um projeto da obra que tivesse relação com o Mineirinho. Foi recorrente nos depararmos com inúmeros documentos relacionados ao Mineirão, que, de modo geral, estavam mais organizados e em volume expressivamente maior. Cabe ressaltar que o Mineirinho e o Mineirão estiveram sob a gestão da ADEMG11 até o ano de 2013, quando, então, essa autarquia foi extinta12, e que os documentos provenientes desse órgão foram arquivados no próprio Mineirinho. Portanto, seria provável a identificação também de documentos sobre o Mineirão. E durante o levantamento documental, nos deparamos com ofícios, memorandos, documentos relativos à sua construção, fotografias de diferentes períodos e o projeto de reforma para a Copa do Mundo de 2014. E, como o gentilmente acolheram as demandas apresentadas e, inúmeras vezes, abriram as portas do local, facilitando o acesso à sala em que os documentos estavam guardados e a outros locais, quando solicitado. 10 De acordo com Rousso (2006, p. 94), a memória pode ser compreendida como a “reconstrução psíquica e intelectual que acarreta de fato uma representação seletiva do passado, um passado que nunca é aquele do indivíduo somente, mas de um indivíduo inserido num contexto familiar, social, nacional.” 11 A Administração Estádio Minas Gerais (AMC), criada para construir o Estádio Minas Gerais, foi substituída pela ADEMG, criada por meio da Lei 3410, de 08/07/1965 (que autorizou a aquisição de imóvel destinado à Imprensa Oficial e a criação da Autarquia Estádio Minas Gerais). Disponível em: . Acesso em: 05 out. 2018. 12 A ADEMG foi extinta por meio da Lei 21083, de 27/12/2013. Disponível em: . Acesso em: 15 dez. 2018. 22 Mineirão entrou em funcionamento quinze anos antes do Mineirinho, haveria maior possibilidade de que fossem produzidos mais documentos sobre esse estádio de futebol. Outro aspecto que pode ter contribuído para esse grande volume documental sobre o Mineirão é que, no contexto esportivo brasileiro dos anos 1960 e 1970, o futebol já vinha alcançando grande penetração social. Naquele período, diferentes governantes mobilizaram esforços significativos para o seu desenvolvimento, estimulando o fomento dessa modalidade e interferindo nela. As intervenções se deram por meio de medidas executadas, por exemplo, durante o governo do presidente Médici, em que o preparo da seleção foi o foco principal, implantando-se, inclusive, o processo de militarização no futebol brasileiro, com a constituição da comissão técnica composta por militares e membros vinculados à Escola de Educação Física do Exército, no Rio de Janeiro (SALVADOR; SOARES, 2009). Além disso, vale ressaltar o interesse do Governo Federal em controlar o futebol, por sua capacidade de mobilização popular, que pode ser percebido na ação da “Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência da República (AERP), que distribuía imagens do general Médici acompanhando jogos do Flamengo pelo radinho de pilha ou ensaiando embaixadinhas e controle de bola com a cabeça.” (SARMENTO, 2006, p. 131); ou ainda na inserção do futebol no “projeto desenvolvimentista do Brasil-grande com a construção de estádios de futebol com capacidade elevada, acima de 50.000 pessoas.” (GIANORDOLI- NASCIMENTO; MENDES; NAIFF, 2014, p. 152). Desse modo, considerando esse contexto político mais amplo e sua interface com a política esportiva em Minas Gerais, compreendemos ser possível inferir que a preservação da memória relativa ao Mineirão pode ser vista como indício da expressão do interesse que as gestões do período tiveram em relação ao fomento do futebol por meio da construção de um equipamento esportivo: o estádio de futebol. E, ao preservar tais memórias, os feitos relacionados ao estádio poderiam ecoar ao longo dos anos vindouros. Ponderamos, também, que seria possível que houvesse por parte de funcionários da ADEMG o apreço pelo Mineirão, o que teria contribuído para a preservação desse volume de materiais relativos a ele. Tais apontamentos nos remetem a Pollak (1998), na medida em que ele nos convoca a considerar os processos e os agentes que atuam no processo de constituição e formalização das memórias. 23 Foi desafiador estarmos imersos em meio a tantos documentos, tal qual o Chicão, personagem literário da obra de José Mauro de Vasconcelos13, que vivenciou um sentimento paradoxal estando à deriva em sua embarcação, cercado por água que não podia beber porque era salgada. Para nós, durante o levantamento documental, ainda que em um mar de papéis, experimentou-se o paradoxo de acessar, tocar e ler diversos materiais que pouco nos diziam sobre o Mineirinho. Mas isso não foi impedimento para que déssemos sequência à pesquisa. Ao contrário, nos auxiliou a ampliar a perspectiva e a percepção sobre os dois equipamentos (em especial sobre a relação deles com a paisagem que os rodeia) e a conexão entre eles. Assim, fomos em frente, entre encontros e desencontros, idas e vindas, luvas e máscaras, no silêncio da grande sala ou no barulho que por vezes se ouvia fora dela. Com muita paciência, e contando com a acolhida dos funcionários do Mineirinho, após mais de trezentas horas de acesso ao material, foi possível mobilizar fontes documentais significativas, tais como documentos oficiais (memorandos, ofícios, atas), fotografias, revistas e projetos estruturais. Após a localização do material e a triagem do que avaliamos que poderia ser utilizado para a pesquisa, havia outro procedimento a ser realizado: a digitalização. Uma parte foi escaneada e a outra, fotografada. Organizados em pastas digitalizadas, os documentos foram analisados e utilizados de acordo com a relação que tivessem com os pontos abordados na pesquisa. Esse procedimento também foi utilizado no arquivo do Sr. Afonso Celso Raso14, um dos depoentes que participou das entrevistas15. No dia em que fizemos a visita à casa dele para colher o relato oral, ele nos apresentou o arquivo que possui, inclusive com materiais relacionados ao Mineirinho, autorizando a realização da pesquisa documental no local e a digitalização do que fosse de nosso interesse para a pesquisa. Desse modo, optamos por realizar o levantamento documental também nesse arquivo, que nos possibilitou ampliar ainda mais a pesquisa e acessar uma quantidade significativa de materiais. Seguindo os indícios que nos conduziram a diferentes momentos e acontecimentos relacionados ao Palácio dos Esportes, encerramos o levantamento documental com a percepção de que realizamos um garimpo de suas memórias. Compreendendo a memória como a representação seletiva do passado e, alertas ao que sugere Le Goff (1990, p. 13 Barro Blanco, romance produzido pelo escritor brasileiro José Mauro de Vasconcelos. 14 Ele assumiu a diretoria-geral da ADEMG em 1975, acompanhando a retomada da construção do Mineirinho até a sua inauguração em 1980. Agradecemos ao Sr. Afonso Raso pela disponibilidade e pela paciência que teve em nos receber por várias vezes em sua residência durante o levantamento documental. 15 Para a realização das entrevistas, submetemos a pesquisa ao Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG (COEP/UFMG), que foi aprovado no parecer de número 2.419.530, em 6 dezembro de 2017. 24 423), quando indica que as ciências humanas devem se ocupar “mais da memória coletiva que das memórias individuais”, ampliamos o nosso percurso metodológico. Nesse sentido, para aprofundar ainda mais o nosso estudo, almejando alcançar diferentes perspectivas e pontos de vista, outra estratégia utilizada para o levantamento de dados para a pesquisa foi adotada: o acesso a periódicos, pesquisando exemplares do Jornal dos Sports16 e também do Estado de Minas17. Esse procedimento nos possibilitou observar a expressão que foi dada ao Palácio dos Esportes durante a sua construção e, em certa medida, a receptividade que ele teve nesse período. Outra estratégia utilizada no levantamento das fontes foi acessar fontes orais. Para isso, seguimos os procedimentos18 metodológicos e o embasamento teórico provenientes da história oral19. Os relatos foram colhidos por meio de entrevistas, que foram gravadas e contaram com a participação de cinco pessoas que vivenciaram o contexto e os acontecimentos relativos à construção do Mineirinho (e da política pública relacionada à construção de equipamentos esportivos e de lazer). Os entrevistados foram: o gestor que esteve à frente da ADEMG entre os anos de 1975-1982; o arquiteto que realizou o projeto e acompanhou a execução da obra; um dos operários que compôs o coletivo de trabalhadores que participaram da construção; um estudante de engenharia que foi estagiário na construção entre os anos de 1979 a 1980; e um funcionário da ADEMG que trabalhou na autarquia durante a construção do Mineirinho. Os relatos de memória contribuíram para ouvirmos, em diferentes narrativas, as percepções e as interpretações que tais sujeitos evidenciaram a respeito daquela conjuntura. Posteriormente, fizemos a transcrição das entrevistas conforme constava no registro dos arquivos em áudio e enviamos os documentos digitados para cada um dos depoentes, de modo que pudessem lê-los e alterá-los, caso assim desejassem. O retorno de dois depoentes contendo algumas alterações, realizadas por eles nas transcrições, nos indicou a possibilidade de tratar as transcrições para a versão final da Tese. Essas mudanças poderiam abranger expressões que são comumente utilizadas durante a comunicação oral, tais como “tá” em lugar de “está”, e outros vocábulos que poderiam ser substituídos por vírgula, ou 16 Acessado por meio eletrônico, na página da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional Digital (vinculada à Fundação Biblioteca Nacional). Disponível em: . Acesso em: 22 out. 2018. 17 Acessado na Hemeroteca da Biblioteca Pública Luiz de Bessa. 18 Meihy, Barbosa (2007) e Meihy, Ribeiro (2011) explicitam como se dá o conjunto de procedimentos utilizados na história oral, auxiliando, desse modo, no preparo e na execução das etapas a serem percorridas, sendo elas: o planejamento do projeto; a realização, a transcrição, a guarda do material obtido por meio das entrevistas, e a destinação do que for produzido. 19 Conforme apresentado por Ferreira e Amado (2006, p. xvi), essa metodologia “estabelece e ordena procedimentos de trabalho [...], funcionando como ponte entre teoria e prática.” 25 serem suprimidos em parte, que por vezes se repetiam, dando fluidez na oralidade, mas que, visualmente, na escrita, poderiam ser incômodos para o depoente. Assim, feitos os procedimentos dessa revisão e reenviados os textos aos depoentes para nova apreciação, as entrevistas foram anexadas à versão final da Tese. A partir do levantamento das fontes orais, conseguimos obter diferentes percepções por meio dos depoimentos e construir diálogos com alguns dos sujeitos que constituíram a trajetória do Palácio dos Esportes. Outro procedimento de pesquisa adotado foi a realização da análise das entrevistas. Nessa etapa, utilizamos como estratégia a técnica de análise de conteúdo, uma vez que, conforme Bardin (2008, p. 33), trata-se de “[...] um conjunto de técnicas de análise das comunicações”. Esse momento nos possibilitou identificar alguns apontamentos para as indagações que compuseram o nosso projeto de pesquisa, e também reconhecer elementos que não estavam explicitados anteriormente, como a recorrente utilização do termo “esporte especializado” entre os depoentes. A análise das fontes orais e das fontes documentais evidenciou diversos aspectos que impulsionaram e permearam o despontar daquele que se tornou, em 1980, um novo espaço de esporte e lazer em Belo Horizonte. Destacou-se, ainda, a relação existente entre as trajetórias do Mineirinho e do Mineirão. A construção do Palácio dos Esportes ocasionou impactos em seu entorno, na região da Pampulha20 e, de modo mais ampliado, na cidade de Belo Horizonte, contribuindo para a configuração do campo esportivo e para as possiblidades de lazer da população. Por sua vez, observamos aspectos relacionados às alterações que ocorreram naquela região antes mesmo do Mineirinho existir, tais como a abertura de ruas, a retirada de áreas verdes que foram ocupadas por construções, o adensamento populacional da região, e a expansão das redes de água, de esgoto, de eletricidade e de comunicação. Tais mudanças guardavam relação com a construção de outros dois equipamentos públicos de esporte e lazer: o Mineirão, que foi inaugurado no ano de 1965, e o CEU21, inaugurado em 1971. Constatamos, por meio da aproximação com o Mineirinho, o nosso objeto de pesquisa, como transcorreu o processo de metropolização de Belo Horizonte e, de modo particular, daquela região da cidade. 20 Em nosso estudo, a região da Pampulha pode ser compreendida como os bairros mais próximos à lagoa de mesmo nome. 21 Disponível em: . Acesso em: 25 maio 2019. 26 Além disso, verificamos a presença de diversos aspectos que impulsionaram e permearam o despontar daquele que se tornou, em 1980, um novo espaço de esporte e lazer em Belo Horizonte. Garimpamos imagens capturadas desses espaços que, impressas em fotografias, retratam os fragmentos do cotidiano da cidade de Belo Horizonte, na Pampulha dos anos 1960, 1970 e 1980. Lemos as escritas traçadas à mão, em textos impressos ou digitalizados em documentos variados; e nos relatos de pessoas que contribuíram para a edificação do Mineirinho, constatamos diferentes percepções e olhares daquele tempo. Ao realizar a redação da Tese, estruturada em quatro capítulos, foi possível registrar as constatações e as análises alcançadas por meio das memórias acessadas, que estão relacionadas ao planejamento e à construção do Palácio dos Esportes. Observamos as paisagens, as falas, as escritas e passeamos por processos que nos levaram a identificar, em especial na segunda metade do século XX, a modificação da região e a transformação daquele espaço da cidade em que ele foi edificado, tornando-se mais um equipamento público direcionado ao esporte e ao lazer da população. No capítulo 1, além da contextualização política do período pesquisado, apresentamos alguns aspectos relativos às políticas públicas, em especial as vinculadas ao campo do esporte e do lazer, e aos arranjos que identificamos nessas áreas, nas políticas executadas em âmbito nacional e em Minas Gerais. No capítulo 2, apresentamos aspectos sobre a construção do Palácio dos Esportes e a relação entre a região em que se encontra e a cidade. Apresentamos, entre outros aspectos, como, ao longo dos anos 1960 e 1980, o seu entorno e a Pampulha passaram por transformações que impulsionaram, além da construção de três equipamentos esportivos e de lazer, a aceleração da urbanização nas suas imediações e a constituição da Pampulha enquanto local para o esporte e o lazer. No capítulo 3, demonstramos os percursos que conduziram a construção do Palácios dos esportes, abordando aspectos relacionados à legislação, ao projeto e aos procedimentos que foram realizados e que impulsionaram a existência do Palácio dos Esportes. Apresentamos, também, como foi a relação do Mineirinho com a população logo após a sua inauguração, em 1980. No quarto e último capítulo, expomos aspectos relacionados à estrutura do Mineirinho e às (im)possibilidades do seu uso, para o esporte e para o lazer. Apresentamos, também, o modo como esse equipamento foi se relacionando no contexto da metrópole e alguns impactos que teve sobre a sua estrutura. 27 Pereira (1996, p. 63) indica aspectos que contribuem para compreendermos o fazer historiográfico. Conforme a autora, a História se dá por meio da “reconstituição ‘objetiva’ e versão subjetiva dos fatos e acontecimentos”, que estão inter-relacionados com aspectos sociais e estruturais de um determinado contexto. Desse modo, identificamos que, ainda que os nossos esforços para reconstituir a história do Mineirinho na presente Tese tenham sido grandes, posteriormente, outros aspectos e abordagens poderão surgir a esse respeito, originando novos estudos e olhares. A análise das fontes nos conduziram aos seguintes apontamentos, presentes nas considerações finais da Tese: de modo inter-relacionado, as construções do Mineirinho, do Mineirão e do Centro Esportivo Universitário contribuíram para a transformação da paisagem da Pampulha, em especial da região mais próxima a eles; o despontar do Mineirinho, na paisagem da Pampulha, guarda relação com a política que foi implementada no final dos anos 1960, na qual se almejava a ocupação dos espaços pelos jovens e o controle deles, em especial dos estudantes universitários vinculados à UFMG, sendo de interesse tanto do Governo de Minas Gerais, quanto da própria universidade, cada qual com suas próprias motivações; o planejamento do Palácio buscou oferecer à região em que se encontra, e à cidade de Belo Horizonte, um grande local que estimularia a realização e o desenvolvimento de diferentes modalidades esportivas, em especial as vinculadas ao esporte amador (mencionadas também como esporte especializado), e às atividades culturais, além de fomentar o lazer; nos dias atuais, observam-se transformações no planejamento inicial, reflexos de processos sociais mais recentes. Assim, o percurso realizado por nós contribuiu para acessarmos a memória da construção do Palácio dos Esportes de Belo Horizonte, preservada em diferentes fontes, que, por vezes, o denominam como Estádio Jornalista Felipe Drummond ou, ainda, Mineirinho. Três denominações que perpassam uma única história. Esse percurso favoreceu também a elucidação de nossas indagações, já mencionadas anteriormente, e que estão apresentadas de modo mais detalhado no transcorrer da reescrita dessa história, narrada neste texto e embasada na análise dos indícios com os quais nos deparamos durante a pesquisa. A nossa expectativa é de que essa pesquisa possa contribuir para o debate relativo às presenças do esporte e do lazer na política pública, a partir das (im)possibilidades evidenciadas em relação à construção desse Estádio poliesportivo, que foi uma obra de grandes proporções, e que, nos dias atuais, continua a figurar na paisagem de Belo Horizonte e, de alguns modos, nos cenários esportivo e de lazer. 28 1 NA TESSITURA DE UM PROJETO E NA COMPOSIÇÃO DE ARRANJOS POLÍTICOS: O ESPORTE E O LAZER VINCULADOS À CONSTRUÇÃO DE GRANDES EQUIPAMENTOS PÚBLICOS EM BELO HORIZONTE Saudosa Maloca22 Si o senhor não está lembrado Dá licença de contá Que aqui adonde agora está Esse adirfício alto Era uma casa velha Um palacete abandonado Foi aqui seu moço Que eu, Mato Grosso e o Joca Construímos nossa maloca Mais um dia, eu nem quero me alembrá Veio os homis c’oas ferramentas Que o dono mandô derrubá Peguemo tudo as nossas coisas E fumos pro meio da rua Apreciar a demolição Que tristeza que eu sentia Cada táuba que caia Doía no coração Mato Grosso quis gritá Mas em cima eu falei Os homis tão cá razão Nós arranja outro lugar Só se conformemos quando o Joca falou Deus dá o frio conforme o cobertor E hoje nóis pega a páia nas gramas do jardim E prá esquecê, nós cantemos assim Saudosa maloca, maloca querida Dim-dim donde nóis passemos os dias feliz de nossa vida Saudosa maloca, maloca querida Dim-dim donde nóis passemos os dias feliz de nossas vidas 22 Canção de Adoniran Barbosa (1951). Disponível em: . Acesso em: 20 mar. 2019. 29 Esse clássico do samba brasileiro, composto por João Rubinato, o famoso Adoniran Barbosa, guarda relação com os anos 1950 e com o contexto da cidade de São Paulo. Analisando a composição e considerando o processo de urbanização de Belo Horizonte dos primeiros anos até os dias atuais, nos parece que, em certa medida, a letra apresenta alguma similaridade com a urbanização dessa cidade. Ao longo de sua história, observamos que houve circunstâncias em que a ocupação de Belo Horizonte se deu de modo que a segregação espacial fosse observada, restando à parcela da população com menos poder econômico ocupar espaços mais distantes e com menos recursos. Belo Horizonte pode ser considerada uma cidade nova, uma vez que, em 12 de dezembro de 2019, completará 122 anos de fundação. Ainda que seu planejamento pactuasse com ideias de modernidade, que eram impulsionadas por projetos que buscavam racionalizar e estruturar o espaço, dentro de desenhos que conformavam os tempos e os hábitos de seus futuros moradores, a cidade não conseguiu alcançar de modo amplo todos que nela chegaram ou os que já estavam no Arraial Del Rei. O plano inicial, que foi traçado para que Belo Horizonte se tornasse a nova capital de Minas Gerais, estava envolto pelo contexto da recente Proclamação da República no Brasil (em 15 de novembro de 1889). Costa (2014) aponta que, naquele contexto, as forças políticas no poder estavam ancoradas à ideia de que a ordem levaria ao progresso. E, impulsionados por pensamentos fundados na modernidade, buscando a contraposição e o distanciamento de ideias ligadas ao período da monarquia, seus idealizadores implementaram medidas que impactaram a vida dos cidadãos, estando, entre elas, a mudança da localidade da capital mineira. Essa decisão impulsionou a construção de uma nova cidade, de modo que essa se tornasse o centro do poder de Minas Gerias. Essa mudança de espaço, o deslocamento do poder para outra cidade, aspirava ao rompimento com o passado colonial que a antiga Ouro Preto representava. Entretanto, essa modernidade não alcançaria a todos os moradores da cidade de modo semelhante, nem todos teriam acesso ao planejamento que foi edificado para a nova Capital. Da nossa perspectiva, houve uma parcela da população que foi excluída de um padrão idealizado de modo de vida e de moradia, uma vez que não tiveram condições econômicas para acessar e manter o projeto proposto pelos construtores da Nova Capital, ficando à margem e ocupando os espaços fora do contorno da nova cidade. A estruturação de Belo Horizonte, desde os primórdios, já proporcionava distintas possibilidades de acesso e permanência nas diferentes regiões da cidade, o que, por consequência, conduzia à diferenciação da qualidade de vida de seus habitantes. Tomando por 30 referência o seu traçado inicial, que dividia a cidade em três áreas23, identificamos que seu planejamento impulsionou, já nos primeiros anos, condições de vida distintas para seus moradores: a área central urbana, que era delimitada pela Avenida 17 de Dezembro, atualmente Avenida do Contorno, recebeu estruturas e equipamentos públicos ligados ao saneamento, ao transporte, à educação e ao divertimento; já as outras duas áreas não tiveram a mesma atenção dos primeiros construtores. Essa distinção em relação às condições de vida determinada no e pelo espaço, em Belo Horizonte, continuou ocorrendo nas décadas seguintes. E, nos dias de hoje, ainda podemos identificá-la em diferentes regiões da cidade, em especial nas áreas mais periféricas, que perpetuam a imagem de uma urbanização desigual e incompleta. Como podemos compreender tais discrepâncias, naquele período e nos dias de hoje? Por se tratar de ações vinculadas à atuação do poder público, consideramos que a observação das dinâmicas relativas a essa esfera seria uma possibilidade de evidenciar tais apontamentos. Aproximar-nos de suas tramas e aprofundar nosso olhar em relação às ações executadas pelas gestões poderia auxiliar a melhor conhecê-las e analisá-las, indicando, desse modo, possibilidades de compreender situações como essa, que guarda relação com a urbanização da cidade e a constituição de estruturas e equipamentos públicos. Essa aproximação em relação às tramas políticas, no caso de nosso estudo, mais especificamente da política pública vinculada aos campos do esporte e do lazer, que teve culminância com a construção do Palácio dos Esportes, pode oferecer perspectivas de compreensão de aspectos que envolveram e envolvem o cotidiano das pessoas na cidade. Nossa compreensão sobre a política guarda relação com o que Schmitter (1984, p. 34) apresenta como sendo “a resolução pacífica para os conflitos”. Salientamos que, para que ocorra uma pacificação, pressupõe-se a existência do conflito, e que este poderia se caracterizar pelo encontro das diferenças (tais como de opinião, de projetos), que entrariam em disputa. Assim, a política se configuraria enquanto uma possibilidade de equilibrar as diferentes perspectivas, não anulando necessariamente a existência do conflito, das diferenças, mas tornando-se uma possibilidade de evidenciá-lo e de abordá-lo, para que se construam encaminhamentos a respeito. Desse modo, considerando a política enquanto campo de conflitos, podemos pressupor a existência de diferentes atores e de interesses envolvidos, de diferentes forças e de correlação de forças. Nesse sentido, Rua (2014) indica que, enquanto expressão de atividades 23 Disponível em: . Acesso em: 27 nov. 2018. 31 políticas, a política pode ser considerada como a utilização de diferentes procedimentos que expressam relações de poder, que buscam influenciar o comportamento das pessoas, de modo a obter ou proporcionar uma solução pacífica de conflitos relativos às decisões públicas. Nessa perspectiva, o Estado ocuparia um papel fundamental para administrar os conflitos, e encaminhar as possíveis demandas que emergissem da sociedade, influenciando e sendo influenciado pelas diferentes forças que dela surgem, mediando e sendo mediado por tais forças, ainda que desiguais, considerando a capacidade de alcance. E, como consequência das tomadas de decisão, teríamos a implementação das políticas públicas. Não é objetivo da presente pesquisa fazer uma análise aprofundada das políticas públicas de esporte e de lazer, uma vez que o nosso foco está direcionado, particularmente, para a identificação e análise dos processos e das tramas que levaram à construção de um grande equipamento público de esporte e lazer, em Belo Horizonte, entre 1959 e 1980. Contudo, por se tratar de um objeto de pesquisa que guarda estreita relação com a atuação do poder público, e que poderia comportar também a atuação da sociedade civil, compreendemos que diálogos com os estudos nos campos das políticas públicas de esporte e de lazer, e da história política são fundamentais para nos auxiliar a melhor analisar o nosso objeto de estudo: o Estádio Mineirinho. Direcionando nosso olhar para o passado, seguindo os vestígios relacionados à política orientada para a construção desse equipamento público de esporte e de lazer, foi possível conhecer um pouco mais sobre os arranjos políticos em Minas Gerais naquele período. Além do mais, como o estudo sobre o Mineirinho abarcou em grande parte o período da ditadura militar, também foi possível nos aproximarmos de ações ligadas a esse regime de governo. A observação mais específica dos processos relacionados ao surgimento do Mineirinho auxiliou na aproximação dos arranjos políticos que foram traçados especificamente para ele. Além disso, evidenciou-se também as relações desse espaço com as propostas de ação mais amplas, que estariam relacionadas à política direcionada para a região em que o equipamento se encontra em relação à cidade de Belo Horizonte como um todo, sendo possível, ainda, inferir possibilidades de ação para outras cidades mineiras. Outro aspecto que destacamos em relação à pesquisa sobre o Mineirinho é que, considerando a relação com o espaço, uma vez que se trata de um equipamento de esporte e de lazer24, a perspectiva de analisá-lo com o auxílio dos estudos vinculados à urbanização 24 De acordo com De Pellegrin (2004, p. 69), equipamento de lazer é a "[e]dificação ou instalação onde acontecem eventos e atividades de lazer de um modo geral. Podemos enquadrar na categoria geral de 32 possibilitou conhecer e compreender as questões mais tangíveis ao seu planejamento, sua relação com a cidade e os diferentes modos de sua utilização, aspectos inerentes a tais estudos. Assim, tivemos elementos para analisar a relação desse equipamento com o âmbito local, bem como verificar possíveis conexões com a região que o cerca. Esses aspectos estão apresentados no capítulo 2 da presente Tese. Percorrer essa trajetória de pesquisa possibilitou conhecer e analisar os aspectos mais específicos relativos à construção de um equipamento público de esporte e lazer de grande proporção. Foi possível, ainda, observar a sua relação com as políticas públicas de esporte e de lazer executadas pelo governo de Minas Gerais, que nos auxiliaram a identificar outros arranjos políticos envolvendo a construção e a utilização de equipamentos públicos de esporte e de lazer. 1.1 De governos eleitos à democracia duramente golpeada: percursos da política no panorama brasileiro (1959-1980) No transcorrer do período investigado (1959-1980), foram muitas as transformações ocorridas no cenário político brasileiro. Com o fim do Estado Novo, em 1945, passamos da retomada da democracia (década de 1950 e começo da década de 1960, para os longos anos de ditadura instaurada pelo regime militar, após a vitória do movimento civil- militar que, em abril de 1964, tomou o poder através de um golpe que destituiu o então presidente João Goulart, legitimamente eleito, e impôs ao país um governo que perdurou por mais de 20 anos (1964-1985). No âmbito internacional, marcado por reflexos do período pós Segunda Guerra Mundial e pela tensão entre a URSS e os Estados Unidos – que despontaram como superpotências após esse conflito mundial, instaurando o período da chamada “Guerra Fria” – destacaram-se, entre outros aspectos, os movimentos libertários de colônias localizadas na Ásia e na África, que eram colonizadas por países europeus. As questões políticas externas, em especial a polaridade entre Estados Unidos e União Soviética, impactaram significativamente nos arranjos políticos locais. equipamentos de lazer os clubes, ginásios, centros culturais, piscinas, cinemas, parques, bibliotecas, centros esportivos, quadras, teatros, museus, etc., independentemente de serem púbicos ou privados." 33 Na América Latina, até a primeira metade do século XX, além do Brasil, países como a Argentina, o México e a Venezuela colocaram em prática os projetos autonomistas, por meio do programa nacional-estatista (REIS FILHO, 2002). Outro aspecto que foi recorrente em alguns países da América do Sul, no transcorrer da segunda metade do século XX, foi a ruptura dos regimes democráticos, que foram abruptamente substituídos por governos ditatoriais: no Brasil, os militares tomaram o poder no ano de 1964; no Paraguai a ditadura já havia sido instaurada em 1954; na Argentina, iniciou em 1966, com reedição em 1976; o mesmo ocorreu no Chile em 1972; por sua vez, no Uruguai, em 1973. Cada qual com suas nuances, esses foram anos de muitos conflitos nesses e em outros países. Voltando o nosso olhar para o Brasil, constatamos que, ao longo do período pesquisado, foi recorrente o clima de instabilidade política, que se acentuou ainda mais durante o regime militar. Entre as medidas utilizadas durante a ditadura, que golpearam a democracia e criaram a instabilidade política de modo ainda mais acentuado, destacamos a extinção dos partidos políticos – por meio do Ato Institucional n. 3 –, a dissolução do Congresso Nacional por tempo indeterminado – efetivada pelo Ato Institucional n. 5 –, e os atos de controle e repressão, que ocasionaram perseguições, torturas, exílios, desaparecimentos e mortes de militantes políticos e de pessoas que resistiram e lutaram contra a ilegitimidade do regime militar. De governos eleitos à democracia duramente golpeada; das falas ecoantes aos silenciamentos operantes; entre distanciamentos e aproximações, indiferenças e indignações. Os estudos utilizados nos sinalizaram que esse foi o pano de fundo que conduziu os processos políticos entre o período do recorte temporal da nossa pesquisa. A política, do ponto de vista de impactar a vida das pessoas, pode se aproximar à música e existem em função de nossa ação, são produções humanas. Ainda que não queiramos, por mais que num primeiro momento não tenhamos clareza da presença delas, música e política nos acompanham, nos envolvem e, por vezes, nos tocam. Há momentos que a política transcorre de modo tão crítico, que pensamos: estamos em um momento grave! Essa seria uma situação tensa, carregada de conflitos que poderiam culminar em confrontos. E, por vezes, nos deparamos com ocorrências em que a ideia de algo muito intenso na política, uma crise, pode ser vista como uma situação aguda, acentuada. E na música também temos o grave e o agudo como elementos constituintes. Assim como na música pode haver uma pessoa que conduza a orquestra, o maestro ou a maestrina, na política também há pessoas que conduzem os processos políticos, 34 que estão em muitos cargos (eletivos, indicados ou concursados) ou que assumem papéis de liderança junto a determinadas bases de ação. Esses atores políticos podem impulsionar, conduzir e modificar as diferentes etapas de uma política pública. Conforme Rua (2014, p. 17), o termo política pública, ou policy (em inglês), “é utilizado para referir-se à formulação de propostas, tomada de decisões e sua implementação por organizações públicas, tendo como foco temas que afetam a coletividade, mobilizando interesses e conflitos”. Nesse sentido, Saravia (2006) indica que, na política pública, as tomadas de decisões podem levar à manutenção do equilíbrio social ou à inserção de desequilíbrios que busquem modificar um determinado contexto. Desse modo, percebemos que o poder público tem papel relevante em relação à implementação das políticas públicas e de seus impactos na sociedade. E, tal qual em uma orquestra, em que, dependendo das escolhas do conjunto, dos arranjos e da expressão de cada instrumento, teremos uma determinada combinação de sons, na política, considerando os diferentes interesses, que podem destacar ou anular demandas, e a participação mais restrita ou ampliada de diferentes atores sociais, teremos o resultado das ações políticas. Ambas, política e música, podem nos tocar. Música e política são mediadoras de movimentos no e do cotidiano e demandam escolhas. Na música, a partitura é a referência para o conjunto de músicos, e na política, há a decisão política. E, tanto a execução da partitura, na música, quanto a implementação das políticas públicas, na política, podem nos conduzir a vivenciarmos novos panoramas, estimulando respostas, movimentos, reflexões, impulsionando ações e reações. No cotidiano, música e política podem nos levar a dançar (em sentido literal, com movimentos coreografados, ou no sentido não literal, quando algo dá errado ou não é de nossa vontade ou concordância). Assim, as escolhas políticas realizadas pelos governos nos conduzem a decisões que impactam diferentes situações das nossas vidas. Institucionalmente, acreditamos que as decisões tomadas no âmbito federal podem influenciar as tomadas de decisão e a ação dos governos estaduais e municipais, sobremaneira no estímulo para induzir a realização de programas e projetos. Do mesmo modo, a condução de um projeto na gestão de um governo no âmbito estadual pode influenciar as ações municipais. Existe uma inter-relação entre os diferentes entes federativos e entre os diferentes níveis de gestão governamental. Em certa medida, foi possível identificar essa relação em nossa pesquisa, em especial no período da ditadura militar, em que havia propostas articuladas no âmbito federal que mobilizavam ações 35 relacionadas às políticas estadual e municipal, como é o caso do programa Esporte Para Todos, aspecto que abordaremos adiante. No período correspondente ao do recorte temporal da pesquisa (1959-1980), os presidentes25 que ocuparam o cargo de chefe de Estado foram: Juscelino Kubistchek (1956- 1961), Jânio Quadros (1961), João Belchior Marques Goulart (1961-1964), General Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967), Marechal Artur da Costa e Silva (1967- 1969), General Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), General Ernesto Geisel (1974-1979) e General João Batista Figueiredo (1979-1985), sendo este o último da sucessão do governo ditatorial para a fase de redemocratização do país. Juscelino Kubistchek, nascido em Diamantina (MG), antes de assumir a Presidência da República, foi prefeito de Belo Horizonte. Entre as ações realizadas no período em que governou a cidade, destacamos a construção do Complexo Arquitetônico da Pampulha. O Complexo foi inaugurado no começo da década de 1940 e é composto por locais como o Iate Golfe Clube, a Igreja São Francisco de Assis (que décadas depois seria vizinha do Mineirinho), o Cassino e a Casa do Baile. Conforme Viana (2013), a construção da barragem da Pampulha ocorreu entre 1936 e 1938, durante a gestão do prefeito Otacílio Negrão de Lima, para enfrentar o problema de abastecimento de água na cidade e também para o embelezamento dela. Assim, a Lagoa que, em um primeiro momento, surgiu enquanto solução para uma dificuldade cotidiana relativa à escassez de água na cidade, posteriormente, com a construção do complexo arquitetônico, recebeu mais atribuições, constituindo-se em espaço idealizado para o divertimento, o descanso e para incentivar o turismo em Belo Horizonte. Todavia, nos parece que, naquele momento, o divertimento planejado para essas novas edificações públicas não abarcaria a maioria da população, considerando-se, por exemplo, o afastamento da área central e o baixo povoamento da região. E, conforme Carsalade (2007) evidencia, observamos que os bailes nos salões dançantes do complexo arquitetônico recebiam a elite belo-horizontina. Estando na Presidência da República entre os anos de 1956 e 1961, Juscelino, juntamente com João Goulart (vice-presidente), marcou o seu governo por pautas orientadas para o desenvolvimento e o crescimento econômico26 do país, que foi direcionado pela 25 Consultamos informações a respeito dos presidentes do Brasil e de suas trajetórias políticas no banco de dados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC). Disponível em: . Acesso em: 25 maio 2019. 26 De 1957 a 1961, a taxa anual de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) foi de 7%. Parte desse crescimento foi alcançada devido ao desenvolvimento acelerado da indústria automobilística, que se valeu dos 36 política nacional-desenvolvimentista, sendo destaque nesse mandato o projeto de construção de Brasília, a nova capital do Brasil. Essa iniciativa, em especial, impulsionou a transformação daquela região, podendo ser considerada uma das marcas da gestão de Juscelino. Para isso, seu governo direcionou recursos e esforços que transformaram a paisagem do cerrado goiano, fazendo surgir uma nova cidade lá, que foi inaugurada em 1960. Assim, ainda que não fosse uma decisão coesa entre a classe política, a cidade do Rio de Janeiro deixou de ser a capital brasileira, cedendo o centro do poder político para a nova capital, Brasília. O contraponto desse acelerado desenvolvimento e dos gastos com a construção de Brasília foi sentido com a dificuldade em equilibrar as contas governamentais, contribuindo assim para o crescimento do deficit do orçamento do governo federal e para o aumento da inflação. Nesse período, de acordo com Fausto (2004), percebe-se também que houve um direcionamento, da parte do governo, de ações que atendiam a demandas dos segmentos militares, inclusive com a indicação de nomes relacionados a esse grupo para assumir cargos governamentais importantes, direcionando também suas energias para o controle dos sindicatos. Essas duas bases eram importantes no panorama da mobilização política (e partidária) no período. Juscelino contava ainda com o fator de sua legenda, o Partido Social Democrático (PSB), ter a maioria das cadeiras no Congresso e de ter o maior número de ministros no governo, o que garantia maior força dentro da aliança realizada, e, no panorama político partidário, relativa vantagem de governança. Contudo, enfrentou resistências tanto de militares quanto das forças sindicais daquela época. Ainda segundo Fausto (2004), na corrida ao governo sucessor, PSD e PTB se aliaram novamente, indicando como candidatos para presidente o General Teixeira Lott (PSB), e para vice-presidente João Goulart (PTB). O presidente eleito na eleição de outubro de 1960, a última antes do golpe de 1964, foi Jânio Quadros, que obteve 46% dos votos. Para a vice-presidência, o mais votado foi João Goulart (PTB). Assim, Jânio Quadros e João Goulart foram os sucessores de Juscelino, ao assumirem o governo em janeiro de 1961, e se depararam com um panorama econômico nada favorável. Envolto em dívidas e em um deficit orçamentário deixados pelo governo de Juscelino, o novo governo encontrou ainda a inflação benefícios oferecidos pelo governo. Em contraponto, nesse período houve o abandono das ferrovias e pouco se fez para incentivar o transporte coletivo (FAUSTO, 2004). Esses são apontamentos que nos levam a refletir que, naquela época, considerando a existência de um planejamento da política de mobilidade urbana, os meios de transporte coletivos foram colocados em segundo plano. Tal fato comprometeria o deslocamento da população, em especial nas cidades maiores, impactando, assim, o cotidiano das pessoas que precisassem desse tipo de transporte. 37 em um patamar elevado, superando o índice de 30% ao ano. Sem muito apoio político e tolerando a desconfiança da oposição, o presidente Jânio Quadros renuncia à presidência em agosto de 1961. Temporariamente, a presidência foi ocupada por Ranieri Mazzili – na época, presidente da Câmara dos Deputados –, e, apesar da tentativa por parte de um grupo de militares de impedir a posse do vice-presidente João Goulart, ele assume a presidência em setembro de 1961. Contando também com o apoio de alguns setores sociais mais mobilizados (estudantes, trabalhadores urbanos e rurais, sindicatos), que sinalizavam com intervenções em especial na estrutura econômica, corrigindo assim as desigualdades sociais existentes, viu-se em seu governo o ressurgimento do projeto nacional-estatista, que propunha as “reformas de base. A reforma agrária [...]. A reforma urbana [...]. A reforma bancária [...] A reforma eleitoral [...]. A reforma do estatuto do capital estrangeiro [...]. A reforma universitária” (REIS FILHO, 2002, p. 23-24). Conforme exposto por Fausto (2004), se, por um lado, havia os interessados nesse programa de reformas, por outro, havia também os grupos insatisfeitos com tais propostas, entre eles as elites tradicionais, os empresários desfavoráveis a esse modelo, parte da classe média e também de setores populares, bem como parte dos militares. E, em 1964, em um panorama político conturbado, o que se viu foram episódios que evidenciaram a manifestação de grupos que tinham posicionamentos distintos em relação ao governo, tendo, por um lado, os apoiadores (como no comício, nas ruas do Rio de Janeiro, em favor das reformas), e, por outro, os opositores (como de manifestantes que foram às ruas e fizeram a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”). Assim, em 1964, diante desses acontecimentos, João Goulart deparou-se com a pressão de militares que, apoiados por civis – insatisfeitos com seu projeto de governo –, deram a última cartada contra a democracia e, em 31 de março de 1964, destituiram o presidente do poder por meio de um golpe. Os desdobramentos posteriores nos conduzem a cenas tensas, nebulosas e sombrias da nossa história política recente, à ditadura civil-militar. Agora, a regência do poder estaria nas mãos de militares. Após a derrubada do governo João Goulart, Pascoal Ranieri Mazzili – presidente da Câmara – assumiu temporariamente o governo do país. Pouco depois, uma junta militar composta por membros do Exército, Aeronáutica e Marinha – que se denominaram Comando Supremo da Revolução – editou o Ato Institucional que instaurou o estado de exceção no Brasil – cassaram mandatos eletivos, suspenderam direitos políticos, suspenderam aposentadorias e reformas de militares, além de realizarem a prisão de opositores (REIS 38 FILHO, 2002). Esses primeiros passos tinham por objetivo fortalecer o poder executivo, que estaria centralizado nos militares, e enfraquecer as possibilidades de atuação do Congresso. Através de atos institucionais que foram expedidos pelos governos militares entre 1964 e 1969, o que se viu ao longo dos anos foi a centralização da administração e da política do país. O primeiro desses atos institucionais foi o AI-1, que indicava, em um de seus 11 artigos, a realização de eleição indireta para a presidência e a para vice-presidência da República. Em 15 abril de 1964, como resultado desse processo, o general Humberto de Alencar Castelo Branco assumiu a presidência, sendo o primeiro de cinco presidentes que ocupariam a presidência durante os anos do regime militar. Ao elaborar nova Constituição, Castelo Branco “concentra o poder no governo e incorpora os principais comandos da legislação autoritária, inclusive a eleição indireta para a Presidência da República” (COUTO, 1999, p. 19). Ela passa a vigorar em março de 1967, no mesmo dia em que o se sucessor, General Artur da Costa e Silva, foi empossado. O sucessor de Castelo Branco, General Costa e Silva, viu despontar as manifestações populares contrárias ao governo, em especial os atos de estudantes. Em 1968, tais manifestações contaram também com a participação de outros grupos que estavam descontentes com o governo (REIS FILHO, 2014). Diante desse quadro, frente à resistência, mais uma medida intensiva de controle e repressão foi tomada pelo governo ditatorial: a promulgação do Ato Institucional n.5 (AI-5), que [...] suspendeu os direitos civis comuns. Inclusive o habeas-corpus para prisioneiros políticos. [...] É quase o poder absoluto. Pode fechar o Congresso, cassar mandatos e suspender direitos políticos, intervir em estados e municípios, censurar previamente a imprensa, etc. (COUTO, 1999, p. 19). Viu-se, assim, no final dos anos 1960, o recrudescimento do regime militar, que foi garantido pelo uso da violência contra os opositores ao governo, através de instrumentos de tortura e, inclusive, com mortes. A repressão violenta aos opositores do governo militar também foi prática recorrente no governo do General Emílio Garrastazu Médici, que assumiu a presidência em outubro de 1969. Por sua vez, destacou-se para esse fim o alinhamento das estruturas da segurança pública, que foi implementada no decorrer dos anos 1960 e 1970. Entre os órgãos responsáveis encontrava-se o Serviço Nacional de Informações (SNI), que era vinculado diretamente ao presidente, e que contribuiu significativamente para o controle e a repressão. Quadrat (2012) revela que o SNI contou com um aparato institucional de treinamento dos 39 seus agentes, a Escola Nacional de Informações (ESNI). Nessa escola, os agentes recebiam treinamentos para alcançarem o objetivo de colocar em prática as ações da “segurança nacional”, em especial, a perseguição aos oponentes políticos do regime. O governo buscou influenciar também a opinião das pessoas, no sentido de persuadi-las e coopta-las. Para isso, uma das estratégias foi instituir políticas em diferentes vertentes. Reis Filho (2002) assinala que foram recorrentes as intervenções do governo no campo de políticas direcionadas para programas ou pacotes sociais, por exemplo, nos campos da educação e da saúde. E encontramos também aqui as políticas direcionadas ao esporte e ao lazer (OLIVEIRA, 2012; MANHÃES, 1986; CAMARGOS, 2017). Por meio dessas ações, que aparentemente procuravam enfrentar e superar problemas do cotidiano, o governo também buscou criar uma imagem positiva da gestão, que seria utilizada para o convencimento da população e a adesão aos projetos colocados em prática. Desse modo, o futebol é tomado de modo ufanista, em especial no ano de 1970, quando a Seleção Brasileira venceu o Mundial pela terceira vez (GIANORDOLI- NASCIMENTO, MENDES, NAIFF, 2014). Um aspecto que se destacou em relação à Seleção Brasileira de futebol, em especial no final dos anos 1960 e no decorrer dos anos 1970, foi a presença de dirigentes/comissão técnica vinculados à carreira militar (MARCZAL, 2011; SALVADOR; SOARES, 2009). Para esses autores, um dos aspectos que pode ter contribuído para a constituição desse panorama seria a atuação da EsEFEx (Escola Superior de Educação Física do Exército) na formação de profissionais da área de Educação Física. Apesar de ter como foco maior a formação de militares para a difusão da Educação Física vinculada a princípios militares, essa instituição atuou também na formação de civis. Ainda sobre esse aspecto, podemos considerar que, naquele período, eram poucas as instituições de ensino que ofertavam vagas para a formação de professores de Educação Física. E, como já estava instaurada a ditadura militar no Brasil, é possível considerar a influência que os militares teriam em diferentes frentes de ação da Educação Física. Como um elemento cultural que possibilitava mobilizar multidões, o futebol foi também um instrumento de propaganda utilizada por alguns dos governantes da ditadura. Nota-se, por meio da expansão de estádios, o quanto eles se empenharam por constituir os palcos dos espetáculos, que guardavam a possibilidade de expressão do poder objetivo (econômico) e do poder simbólico do regime. Esse foi um espetáculo que contava com a 40 presença da Seleção Canarinho, que entre 1964 e 1985 jogou em 17 estádios recém- inaugurados 27. Em Minas Gerais, conforme as fontes28 já acessadas na presente pesquisa, identificamos que foi também nesse governo que o projeto de construção do Mineirinho começou a tomar forma. Com a economia enfraquecendo e com conflitos internacionais que impulsionaram a disparada do preço do petróleo, as propostas de aceleração da economia brasileira perderam o fôlego (REIS FILHO, 2014). Esse panorama foi parte do balanço dos 10 anos de ditadura brasileira e do contexto visto no encerramento do governo Médici. Em março de 1974, o General Ernesto Geisel assumiu a presidência. Fato relevante durante o governo Geisel foi o processo de “abertura política gradual e segura, cuidadosamente dosada e monitorada, inclusive sob o látego do AI-5, que permanece em vigor e é frequentemente aplicado até 1977. Pouco a pouco a ditadura vai sendo desmontada” (COUTO, 1999, p. 22). Esse seria o período também denominado como distensão da ditadura militar, em que o auge da repressão já havia passado e, nessas circunstâncias, as forças de resistência estavam exiladas, presas ou mortas. Desarticulada a luta armada, inicia-se o longo processo de redemocratização política. Geisel foi substituído por João Baptista de Oliveira Figueiredo em março de 1979, que assumiu a presidência em um panorama econômico de recessão. Foi em seu governo que a transição democrática foi conduzida de modo efetivo: os movimentos sociais retomaram suas forças e as ruas, tencionando para a democratização. Considerando o Palácio dos Esportes, que é o nosso objeto de estudo, destacamos que foi nesse período que o governo de Minas Gerais, responsável pela realização da obra, retomou, em 1977, a construção, que teve seu início em 1973 e se encontrou suspensa entre 1975 e 1976. Foram anos de intensas mobilizações, que culminaram com a retomada democrática, em 1985, pondo fim ao longo período da ditadura militar que tivera início em 1964. 27 Conforme consta no site Memórias da Ditadura. Disponível em: . Acesso em: 12 out. 2017. 28 Documentos do arquivo do Mineirinho e do arquivo pessoal de Afonso Celso Raso e Richard Lima. 41 1.2 As ações direcionadas para o esporte e para o lazer: apontamentos sobre as políticas públicas Pensando especificamente as políticas de esporte e de lazer, em especial em Minas Gerais, dialogamos com estudos que nos aproximaram das ações que foram executadas pelo governo nesse período, a fim de aprofundar e melhor compreender esse equipamento público na perspectiva historiográfica. Considera-se que, no arranjo político que se constitui por meio da República, ao Estado é delegado o poder de encaminhar as demandas – sejam elas amplas ou restritas, direcionadas à maioria da população, ou ainda, para garantir os privilégios de poucos. Por meio das políticas públicas, mentalidades podem ser impulsionadas, desigualdades corrigidas ou, na sua ausência ou ineficiência, podem manter padrões já constituídos e negar direitos. Ou ainda, poderia ocorrer que projetos e programas estatais, ao serem implementados, guardem mais relação com a intenção de impulsionar uma visibilidade positiva de um determinado governo, e menos com os impactos reais de atendimento das demandas sociais, ocorrendo, assim, o uso das políticas públicas para fins puramente eleitoreiros, de propaganda de um dado grupo ou de um determinado modelo de gestão. Considerando que o esporte e o lazer podem ser objetos da ação do Estado, nesse âmbito, também podem comportar essas mesmas características apresentadas. Tais possibilidades de intervenções também podem ser identificadas ao longo de sua trajetória nas ações do poder público, por meio das demandas apresentadas pela sociedade, que poderão ser respondidas, negadas, ou, alteradas. Tratam-se de projetos que são colocados em ação. Para que as demandas apresentadas pelos grupos participantes dos processos decisórios sejam encaminhadas, torna-se necessário que as mesmas se constituam enquanto pauta da agenda política, ou seja, que ganhem importância nas escolhas políticas de uma determinada gestão. É importante destacar que o que viabilizará a inserção de uma demanda na agenda política é a capacidade de destaque da mesma, seja por pressões de grupos que a reivindicam, fora da estrutura estatal, seja por meio da inserção realizada pelo próprio poder público. Este também carrega a possibilidade de apontar ações a serem incluídas na agenda, que, posteriormente, poderão ser implementadas. Pelo o que constatamos nas fontes, a inserção do Palácio dos Esportes na agenda política do governo de Minas Gerais remonta ao final da década de 1950, conforme 42 observamos no convênio29 firmado em 25/08/1960, que definiu as condições de interesse mútuo para a construção do Estádio Minas Gerais. A liberação do espaço para a construção do Estádio (e que, posteriormente, seria também utilizado para a construção do Palácio dos Esportes) ocorreu sob a forma de comodato e teve como signatários o Ministro Clóvis Salgado, representando o Ministério da Educação e Cultura (MEC), o Reitor Pedro Paulo Penido, representando a Universidade de Minas Gerais e a Comissão Supervisora do Planejamento e Execução da Cidade Universitária, o Deputado Jorge Carone Filho, representando o Conselho de Administração do Estádio Minas Gerais, e o Engenheiro Gil César Moreira de Abreu, representando a Diretoria de Esportes de Minas Gerais. Nesse documento, que indica aspectos relativos aos termos do convênio, é possível constatar nas cláusulas nona e décima que, além da construção de instalações para a prática de futebol, houve também a previsão de construção de instalações que seriam utilizadas para o esporte especializado e para alojamentos para atletas. Observamos, ainda, que estava previsto aos estudantes da Universidade de Minas Gerais o livre acesso para a utilização do ginásio, da piscina e das quadras para esportes especializados, conforme horários e dias que estivessem acordados entre a Administração do Estádio e o órgão representante das atividades esportivas estudantis, na ocasião, a Federação Universitária Mineira de Esportes, conforme podemos observar a seguir: Figura 1 – O ginásio presente no termo de interesse mútuo para a construção do Estádio Minas Gerais Fonte: Assessoria de Gestão da Informação da Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento – UFMG. 29 Tivemos acesso a uma cópia digitalizada desse termo na Assessoria de Gestão da Informação da Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento da Universidade Federal de Minas Gerais. Ele pode ser lido na íntegra no Anexo I. 43 Parada (2006) sinaliza que a agenda pública envolve diferentes pontos de vista e diferentes possibilidades de representação de interesses, e que a participação na esfera política não é similar para todos, ela é bastante heterogênea e expressa um desequilíbrio. Portanto, o caminho que leva à efetivação das políticas públicas pode se constituir enquanto um campo conflituoso, tenso, seja pela expressão de interesses diversos, de desejos convergentes ou não, entre grupos e os sujeitos, que assumem posturas políticas, seja pela subjetividade carregada de sentimentos, de anseios, e que nos remetem à dimensão das relações humanas. Rancière (1996) nos dá pistas desses motes ao abordar alguns aspectos relativos à política, ao indivíduo e à sua ação política. O teórico evidencia que a política se constitui enquanto o lócus da manifestação dos sentimentos humanos, conforme se observa a seguir: [...] A política não é em primeiro lugar a maneira como indivíduos e grupos em geral combinam seus interesses e seus sentimentos. É antes um modo de ser da comunidade que se opõe a outro modo de ser, um recorte do mundo sensível que se opõe a outro recorte do mundo sensível (RANCIÈRE, 1996, p. 368). Na política pública de esporte, é possível identificar a existência de diferentes conflitos e interesses que permearam e permeiam esse campo. Essas disputas estão presentes na trajetória política do esporte no Brasil, conforme apresentado por Linhales (1996). Veronez (2005) demonstra, inclusive, que, incorporados ao Estado, grupos organizados tiveram seus interesses legitimados, criando, assim, situações em que setores privados se beneficiaram das estruturas estatais. Compreendemos que, de modo similar ao esporte, o lazer também não está imune a esses arranjos e apropriações particulares no âmbito estatal. Caso o foco não seja os anseios de uma coletividade, de uma maioria, poderão acontecer apropriações de grupos ou de sujeitos que almejam interesses específicos, particulares. Conforme apresentado por Linhales et al. (2008, p. 14), “o esporte e o lazer constituem dimensões da vida social que, especialmente durante o século XX, foram gradativamente incorporados como formas modernas de expressão cultural”. Assim, diante de premissas que nos indicam a dimensão participativa para a execução de ações direcionadas ao esporte e ao lazer e à incorporação desses elementos culturais no âmbito do Estado, como podemos pensar esses arranjos no contexto da ditadura militar? Como o esporte e o lazer se inseriram na política pública nesse contexto? O que teria impulsionado a construção do Mineirinho, nosso objeto central da pesquisa? 44 Uma primeira reflexão para abordarmos o objeto da pesquisa – o Mineirinho –, guarda relação com as contribuições que Motta (2009) nos apresenta a respeito do conceito de cultura política, que, segundo ele, seria o [...] conjunto de valores, tradições, práticas e representações políticas partilhado por determinado grupo humano, que expressa uma identidade coletiva e fornece leituras comuns do passado, assim como fornece inspiração para projetos políticos direcionados ao futuro (MOTTA, 2009, p. 21). Ainda segundo o autor, esse conceito pode ser utilizado no plural, aplicado a conjuntos nacionais, ou no singular, relacionado a projetos políticos específicos. Desse modo, percebemos que, ao abordarmos o Mineirinho enquanto um elemento concreto da política estatal que foi realizada em Minas Gerais, considerar a perspectiva construída na cultura política30 poderá contribuir para identificarmos traços constituintes de um projeto relativo ao âmbito mais regionalizado. Contudo, considerando o período pesquisado, e em especial os anos em que efetivamente o Mineirinho estava em construção (durante a década de 1970), tomamos por relevante buscar averiguar se havia alinhamento de interesses entre a sua construção e a execução da política no Governo Federal. No Brasil, ao longo do século XX, o esporte foi se constituindo enquanto expressão presente na vida cotidiana da população. A década de 1930, momento em que o Estado brasileiro foi delineado por intensa intervenção e controle estatal em diferentes esferas da vida social, é destacada em alguns estudos sobre o esporte como o marco inicial das intervenções do Estado no setor esportivo. A Revolução de 1930 e o período do Estado Novo (1937-1945) demarcam essa intervenção de modo mais consistente, conforme apresentado por Linhales (1996), que revela que a ação brasileira nesse setor se relacionava com o processo de construção de uma nova ordem política e social. Tal ordem culminou em um projeto maior, característico do Estado Novo, que teve por objetivo alcançar toda a sociedade, para adaptá-la de modo a fortalecer o Poder Público. Assim, incorporou-se a Educação Física e a educação eugênica da Nação ao conjunto de suas metas e atribuições com ênfase nas ações sobre a infância e a juventude. Paulatinamente o Estado brasileiro foi se ocupando do setor esportivo. 30 Conforme observamos em Rémond (2003), nos estudos históricos, a cultura política compreende aqueles que abarcam a história das ideologias e das formações políticas, contribuindo para a interpretação dos fenômenos políticos. 45 O controle estatal no campo esportivo pode ser compreendido como uma característica de continuidade em diferentes governos ao longo de várias décadas. Nesse sentido, Veronez (2005, p. 48-49) anuncia que, [...] em um primeiro momento, em fins da década de 1930, o Estado brasileiro, por meio de ações de governo, outorgou ao setor esportivo um papel de destaque, sendo este alvo de políticas setoriais específicas no âmbito das políticas sociais, especialmente quando se estabeleceu a necessidade de ganhar ‘consciências’ para que um determinado projeto de ‘modernização’ se consolidasse em nosso país. Posteriormente, nas décadas de 1970 e 1980, as necessidades de reprodução e controle social concernentes ao regime da ditadura militar parecem ter justificado a manutenção de uma forte intervenção estatal nesse setor. No período da ditadura militar, a presença do esporte estava direcionada por interesses que o constituía como parte de sua aparelhagem ideológica. Utilizado para a propagação de ideias positivas a respeito desse governo, o esporte tornou-se um instrumento de convencimento dos aspectos engrandecedores que ele oferecia, “um motor do desenvolvimento”, conforme Oliveira (2012, p. 162). Estudos realizados por Veronez (2005), Linhales (1996), Rodrigues (1996) e Costa (1987), que tiveram como foco de análise a relação entre Estado e Esporte, nos indicam que o padrão dessa intervenção estava pautado na centralização e em um modelo burocrático- autoritário. Esse modo de conduzir a sua implementação limitava o seu alcance aos anseios da proposta estatal. Assim, o esporte assumia papéis de significativa importância para educar e estimular os sujeitos na construção de atitudes conformadas aos princípios econômicos e políticos vigentes. Ele foi adotado pelo regime como uma instituição regida por valores dominantes naquela época. 1.2.1 Políticas Públicas de Esporte e de Lazer no Brasil e em Minas entre os anos 1960 e 1970 Estudos como os de Marczal (2011), Fontineles (2017) e Máximo (1999) nos indicam que, em especial nos anos 1970, uma das marcas desse período foi o espírito nacionalista, apontando o uso do futebol nessa conformação de hábitos. 46 O futebol teve tamanho destaque nesses anos, que, não por acaso, teve a promulgação de lei específica para abordar as relações de trabalho entre o atleta profissional e os clubes. Conforme exposto por Godoy (2013, p. 91): Em 1976, foi promulgada a Lei nº 6.354 que passou a ser denominada de ‘Lei do Passe’, as disposições encontradas no texto legal, que vigoraram por mais de uma década, passaram a disciplinar principalmente a relação de trabalho entre atleta profissional de futebol e as associações desportivas (clubes). Outra expressão das ações realizadas nos campos do esporte e do lazer durante o governo militar foi o Esporte Para Todos (EPT), movimento que, conforme Tubino (2003), teve origem na Noruega, no ano de 1967, e que promovia o esporte de modo a alcançar o maior número possível de praticantes, independentemente da performance que teriam. O Esporte Para Todos aterrissou no Brasil em 1973, e, com a construção do documento base da Campanha, a educação não formal assumiu um papel relevante nessa ação (MENEZES; MARCELLINO, 2011). Organizada pelo Departamento de Educação Física e Desporto do Ministério da Educação e Cultura (DED/MEC) em parceria com o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), o EPT almejava a implantação do desporto de massa no Brasil (PAZIN, 2015). A percepção de que o Esporte Para Todos foi utilizado como estratégia para controle social e propagação de uma ideia positiva do regime militar também é identificada em estudos como os de Teixeira (2009) e Pazin (2015). Contudo, nos deparamos também com o entendimento, por parte de Tubino (2003), de que seria equivocado pensar no uso político do EPT, nos contextos de autoritarismo militar em que ele ocorreu, uma vez que, conforme argumentado por esse pesquisador, um dos principais nomes dos estudos sobre política esportiva no Brasil, o EPT apresentava fundamentos internacionais e não estaria ancorado em circunstâncias nacionais. Todavia, em nossa opinião, a percepção de Tubino (2003) não levaria em conta o fato de que elementos específicos de um dado contexto social e político poderiam interferir em modelos externos a serem implementados nesse ambiente. Não atentar para tal situação seria desconsiderar a influência dos atores locais no arranjo político, aspecto que pode ser melhor analisado ao considerar o conceito de cultura política (MOTTA, 2009). 47 Contudo, se houve no esporte indicativos de aparente conformação ao regime, de condutas mais próximas à acomodação,31 há indícios também de resistências. Oliveira (2004) explicita que, nas ações de professores de Educação Física, apesar das orientações instituídas durante o regime militar e de momentos de conformação a elas, também houve posicionamentos contrários, de transformação da estrutura através das atividades cotidianas. Percebemos outra expressão de resistência à ditadura militar, quando observamos, entre 1982 e 1984, o movimento envolvendo personagens do campo esportivo, na equipe de futebol do Corinthians. Destacou-se, entre eles, o jogador Sócrates, que alcançou relevância não somente por sua habilidade com a bola e por sua expressividade ao jogar dentro das quatro linhas, mas também por seu enfrentamento contra as ideias antidemocráticas da ditadura. De acordo com Magalhães (2011), juntamente com outros integrantes do Corinthians, Sócrates liderou o movimento denominado Democracia Corinthiana, em que, além de colocarem em prática uma proposta de gestão democrática no clube, também entravam em campo com camisas mencionando frases em defesa de eleições para presidente. Os jogadores defendiam a democracia e a liberdade de expressão, dentro de campo, e a redemocratização fora dele. Contudo, apesar da existência no âmbito nacional de um projeto maior, da perspectiva de ação da construção de uma cultura política por meio do esporte e do lazer, no âmbito regional, as especificidades ocorriam de acordo com a natureza de ação de cada agente político e do contexto de aceitação. No caso de Minas Gerais, Rodrigues e Costa (2014) nos dão apontamentos de que, nesse período, apesar do alinhamento da política do Estado com relação a algumas propostas construídas no âmbito federal, outras ações eram mais particularizadas e representavam, inclusive, a continuidade de projetos anteriores. Isso ocorreu, por exemplo, no caso das Praças de Esportes que foram construídas em muitos municípios ao longo das décadas de 1960 e 1970. Assim, identificando a possibilidade de diferentes apropriações e relações entre o Estado, os sujeitos e o esporte/lazer; a perspectiva de que, ainda que a ação cotidiana invente e reinvente estratégias de conviver e / ou superar as adversidades; e que as políticas públicas podem ser expressão de projetos maiores, direcionamos o nosso olhar para o contexto mais 31 A respeito dos conceitos de acomodação, resistência e adesão, Motta (2016) apresenta possibilidades de analisarmos a ditadura militar brasileira, tendo por base as políticas universitárias da ditadura e seus impactos na comunidade acadêmica. Tais conceitos podem nos auxiliar a compreender melhor o objeto central da pesquisa que estamos realizando, na tentativa de identificar as decisões tomadas nas políticas de esporte e de lazer, que guardaram relação com a construção do Mineirinho. 48 específico de Minas Gerais, nos aproximando das políticas executadas para o esporte e o lazer no Estado. Rodrigues (1996) revela que essa intervenção parece ter se iniciado de modo mais coordenado, em Minas Gerais, a partir do Decreto-Lei n.º 150, de 24 de dezembro de 1938, que englobava providências sobre a cultura física no Estado. Nesse contexto, o Minas Tênis Clube32 foi transformado em Praça de Esportes Minas Gerais. Colocado à disposição do Estado, tornou-se o polo irradiador de difusão esportiva, da política de difusão da cultura física em Minas. Entretanto, há outro apontamento quanto ao início dessa intervenção na política pública de esporte. Em estudo recente sobre a trajetória das políticas públicas de esporte em Minas Gerais, Rodrigues et al. (2014) identificaram que, em diferentes momentos dessa política, “seu foco não esteve ligado somente a práticas especificamente esportivas, mas a um conjunto de ações voltadas para a educação do corpo, representado pela cultura física, a educação física, a recreação, o lazer e o esporte” (RODRIGUES et al., 2014, p. 30). Baseados nas fontes acessadas, os autores sugeriram que [...] uma primeira intervenção do Estado em prol da prática de exercícios físicos e esportivos de forma sistematizada foi destacada em Minas, em 1927, com a instituição da Inspetoria de Educação Física, pela Reforma do Ensino Primário. Esta previa, além de programas de atividades para as crianças, a criação de espaços específicos para suas práticas e a formação de pessoal especializado, para nelas atuar (RODRIGUES et al., 2014, p. 30). Desse modo, os dados nos indicam que o marco inicial da política de esporte no Estado estaria na década de 1920, a partir da criação da Inspetoria de Educação Física, na Reforma de Ensino Francisco Campos, em 1927. Com essa medida, o Estado pautou algumas ações relacionadas ao preparo físico das crianças e dos jovens, de modo que conformassem seus corpos segundo as demandas dos tempos modernos. E, se nas primeiras escolas de Belo Horizonte, no começo do século XX, o foco de ação da educação dos corpos se dava por meio da difusão da ginástica, já na virada da década de 1920 outros contornos são apresentados. Naquele contexto, sintonizados com o ideário de modernidade, novos princípios se destacam no campo da Educação Física. Schneider (2004) sinaliza que a eficiência, o rendimento e o resultado (aspectos inerentes ao esporte) constituíram-se como elementos que foram anunciados nesse cenário. Assim, a nova 32 Construído pela Prefeitura de Belo Horizonte e inaugurado em 1937, foi arrendado a um grupo da elite política e econômica da cidade, tendo em sua história fortes relações de apoio do poder público estatal (RODRIGUES, 1996). 49 Educação Física, que estava orientada no modelo fabril, tem no “resultado alcançado” o seu ponto crucial. Essa conexão entre o esporte e o trabalho foi apresentada também por Vago (2004), ao destacar que, no aparecimento de uma nova necessidade (o preparo dos corpos para as complexas relações de trabalho), a perspectiva de realização da Educação Física nas escolas estava pautada no princípio de eficiência. Assim, sendo os corpos das crianças uma força iminente de trabalho, esses deveriam ser providos de educação corporal eficiente. E, por muitos anos, a Inspetoria de Educação Física foi o órgão que teve a competência de realizar as políticas públicas de esporte em Minas Gerais, perdurando até 1937. Consideramos importante destacar que, conforme Rodrigues et al. (2014), nos anos seguintes, até 1980 (ano de inauguração do Mineirinho, objeto principal da presente pesquisa), essa política esteve vinculada a outros órgãos, sendo estes: Minas Tênis Clube (1938/1943); Diretoria Geral das Praças de Esportes (1943/1946); Diretoria de Esportes de Minas Gerais (1946/1987); Secretaria de Estado do Trabalho e Cultura Popular/Diretoria de Esportes do Estado de Minas Gerais (1963/1966); Secretaria de Estado do Trabalho, Ação Social/Diretoria de Esportes do Estado de Minas Gerais (1966/1967); Diretoria de Esportes do Estado de Minas Gerais/Gabinete Civil do Governador (1967/1975); Secretaria de Estado do Trabalho, Ação Social e Desportos/Diretoria de Esportes do Estado de Minas Gerais (1975/1983). A Diretoria de Esportes de Minas Gerais, criada em 1946, foi o órgão gestor no campo das políticas públicas de Minas Gerais que perdurou ao longo das quatro décadas seguintes (1950, 1960, 1970 e 1980). Sua origem guarda relação com o período do Estado Novo, quando a política de esportes em Minas Gerais teve o Minas Tênis Clube como modelo para execução de outras políticas públicas de esporte no estado, destacando-se como referência para a construção de praças de esportes em vários municípios mineiros. Essa ação impulsionou a criação de órgãos gestores – como a Diretoria Geral das Praças de Esportes –, que em 1946 foi transformada em Diretoria de Esportes de Minas Gerais – DEMG –, tornando-se o órgão responsável pelo desenvolvimento das políticas esportivas no Estado até a década de 1980. Estando vinculada diretamente ao gabinete do governador, a outra temática, ou ainda, sendo autônoma administrativamente, a DEMG teve uma importante relação com o surgimento do Mineirinho, uma vez que foi durante o período em que a política de esporte esteve associada a este órgão que foi publicada a Lei 1947/59. Ainda que essa legislação 50 estivesse, em um primeiro momento, diretamente relacionada à construção de um estádio (que veio a ser inaugurado em 1965 como Estádio Minas Gerais, mais conhecido como Mineirão), podemos considerar que ela foi embrionária para a construção também de um Centro Esportivo Universitário e de um Ginásio (que, anos depois, seria o Mineirinho), uma vez que, juntamente com o Estádio, ambos compuseram, posteriormente, a paisagem do complexo esportivo construído em terreno cedido por meio de convênio com a UFMG. Ao que identificamos nas fontes, os planos efetivos da construção do Palácio dos Esportes remontam ao começo da década de 1970 e estiveram sob a responsabilidade da autarquia Administração de Estádios de Minas Gerais (ADEMG), que já administrava o Mineirão. Após a realização de projetos e de plantas arquitetônicas, tiveram início a terraplanagem e a obra de fundação. No entanto, foi somente em 1980 que o Mineirinho foi inaugurado33. É importante destacar também que, nos anos 1980, o termo “lazer” passou a vigorar na denominação do órgão responsável pelas políticas de esporte entre 1983 e 1996, a “Secretaria de Estado de Esporte, Lazer e Turismo”.34 Podem-se identificar por meio dessa nomenclatura indícios de que a temática do lazer estivesse assumindo contornos diferenciados no âmbito das políticas públicas em Minas Gerais. Outro aspecto que salientamos é que, posteriormente ao período estudado, em 1996, pela primeira vez o esporte se constitui enquanto uma pasta autônoma e específica no cronograma das políticas públicas de Minas Gerais, com a criação da Secretaria de Estado de Esportes (1996/2003). Acreditamos que essa situação tenha relação com a redemocratização do país e com as demandas que foram postas para o setor do esporte com a retomada dos movimentos sociais mais atuantes, inclusive atingindo também o setor do lazer. Diante de permanências e rupturas, algumas práticas se repetiram ao longo do período, destacando-se, entre elas, a implementação das Praças de Esportes, assim como a Loteria do Estado de Minas Gerais. Esta última foi uma ação originada em 1939, por meio do Decreto-Lei n. 175, que regulamentou a criação da Loteria do Estado de Minas Gerais, que destinava parte de seus lucros líquidos para o desenvolvimento da cultura física (MINAS GERAIS, 1939). Também foi, ao que já identificamos, parte da receita direcionada para a 33 Informações localizadas no impresso denominado Mineirinho Vitória do Otimismo (sem data de publicação), que reúne várias informações sobre o processo de planejamento e construção do Mineirinho. Encontra-se no arquivo do próprio Mineirinho e também no arquivo pessoal do Sr. Afonso Celso Raso. 34 Nesse período, as políticas públicas desenvolvidas por essa secretaria se ocupou da temática do lazer, por meio de diferentes ações, algumas delas focando a população de baixa renda (VIANA; OLIVEIRA, 2014). 51 construção desse grande projeto, de um espaço que representava uma grande obra, com possibilidades direcionadas para os esportes e o lazer. Compreendemos que a disponibilidade de espaços para o encontro, para as vivências esportivas e de lazer pode se constituir enquanto possibilidade de favorecer a implementação das políticas públicas, de torná-las mais acessíveis à população, contribuindo, desse modo, para minimizar as barreiras de acesso ao lazer, democratizando, assim, o espaço e a cidade (MARCELLINO, 2006). Sabemos que não caberia analisar as intenções que levaram à construção do Mineirinho sob a lente de propostas democráticas, de garantia de direitos tal qual concebe-se o esporte e o lazer atualmente, com embasamento na Constituição de 1988, uma vez que esta é de período posterior ao recorte de nossa pesquisa (1959-1980). Contudo, é certo que houve motivações que levaram à construção desse equipamento público de esporte e lazer, e nos interessa identificar quais seriam e se, entre essas, estaria a intenção de constituir a imagem positiva do regime militar por meio do esporte e do lazer. Esses e outros aspectos relativos à construção do Mineirinho serão abordados no capítulo 3 da presente Tese. Dialogando com pesquisas que abordaram historicamente a política pública no setor esportivo em Belo Horizonte e em Minas Gerais, identifica-se a incorporação de interesses privados em ações estatais, já nas primeiras décadas de existência da cidade de Belo Horizonte. Rodrigues (1996) demonstra como o Parque Santo Antônio, um parque público inaugurado na década de 1930, foi rapidamente transformado em um clube para a elite, o Minas Tênis Clube. Não foi um caso isolado, outras cessões de terreno para associações esportivas ocorreram ao longo da história da cidade. Esse jogo de interesses encontrado na política pública em Belo Horizonte também foi anunciado por Viana e Oliveira (2014). Em 1989, na gestão do então governador Newton Cardoso, a Administração de Estádios de Minas Gerais (ADEMG)35 efetuou a doação do Estádio Raimundo Sampaio (o Independência) para o América Futebol Clube. E, quanto ao Mineirinho, como transcorreram tais interesses? Para reconstituir a sua história, garimpando memórias entre páginas, objetos e prosas, seguimos as trilhas deixadas pelos sujeitos que participaram de seus planos e ergueram o seu concreto, alterando a paisagem da Pampulha mais próxima ao Mineirão. 35 Órgão vinculado ao governo estadual, a ADEMG foi criada pela pelo art. 2º da Lei nº 3.410, de 8 de julho de 1965, que autorizava a criação da autarquia “Estádio Minas Gerais, que teria entre outras responsabilidades, a administração do Estádio Minas Gerais”. 52 Seguimos assim para o próximo capítulo, em que apresentaremos aspectos relacionados à relação do Mineirinho com seu entorno, com a região da Pampulha, com a cidade, com o que se constituiu como um complexo esportivo (envolvendo também o Mineirão e o Centro Esportivo Universitário – CEU – da UFMG). 53 2 O MINEIRINHO E A PAISAGEM QUE O RODEIA: PERCURSOS E APONTAMENTOS DA TRANSFORMAÇÃO DA CIDADE Preciso Me Encontrar36 Deixe-me ir, preciso andar vou por aí a procurar rir pra não chorar quero assistir ao sol nascer ver as águas dos rios correr ouvir os pássaros cantar eu quero nascer, quero viver deixe-me ir preciso andar vou por aí a procurar rir pra não chorar se alguém por mim perguntar diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar quero assistir ao sol nascer ver as águas do rio correr ouvir os pássaros cantar eu quero nascer, quero viver deixe-me ir preciso andar vou por aí a procurar rir pra não chorar A pesquisa relacionada à trajetória do Mineirinho, que nos conduziu à imersão no objeto, nos aproximou de aspectos que demandaram a nossa observação de modo bastante atento, focando os processos e as tramas que permearam o seu surgimento. Mas, como se tivessem vida própria, as fontes também nos impulsionaram a ampliar o nosso foco, expandindo a nossa perspectiva de análise e a compreensão a respeito do objeto estudado, uma vez que fomos sensibilizados para elementos que não eram almejados inicialmente. Era como se estivessem tentando nos dizer para observar o Mineirinho, mas, além disso, nos atentarmos aos aspectos que extrapolavam seus limites espaciais, nos provocando a olhar também o seu entorno. Desse modo, construímos diálogos com autores que nos auxiliaram a transitar pela Pampulha de outros tempos, contribuindo para analisarmos a relação do Mineirinho com a região em que ele se encontra, além de algumas modificações que ele, o Mineirão e o Centro 36 Canção de Antônio Candeia Filho. Disponível em: . Acesso em: 05 maio 2019. 54 Esportivo Universitário impulsionaram. Assim, como se estivéssemos seguindo a canção de Candeia, sob a cantoria de Cartola, andamos “por aí a procurar”. 2.1 A Pampulha na capital: olhares sobre a urbanização e contribuições para a expansão das áreas habitadas na cidade A Pampulha é, atualmente, uma das paisagens37 mais destacadas em Belo Horizonte, seja por seus potenciais habitacional, turístico, esportivo ou de lazer. Há diversas possibilidades dos moradores se relacionarem com ela, em diferentes momentos. Essa relação é possível tanto para os moradores dos bairros mais próximos quanto para os que residem em locais mais distantes. A relação entre a Pampulha e os habitantes da cidade existe há muito tempo. Antes mesmo da construção de Belo Horizonte já havia moradores nessa região, conhecida naquela época como Arraial da Pampulha. Com a construção da nova capital, a Pampulha estava inserida no projeto que foi traçado para a cidade e pertencia à área rural, mais distante da área urbana, que era mais central. Por muitos anos, era das fazendas, das chácaras e dos sítios dessa região que saíam parte dos alimentos que iam para os bairros mais centrais. No entanto, seu papel altera-se significativamente a partir da década de 1930, quando foi construída a barragem da Pampulha, que serviria para ajudar no abastecimento de água da capital (RIBEIRO, 2011). 37 Segundo Santos (2006, p. 66) "a paisagem é um conjunto de formas que, num dado momento, exprime as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homem e natureza". 55 Figura 2 – A construção da barragem da Pampulha Fonte: Relatório de Prefeito – 1935-1936-Octacilio-Negrao-de-Lima38 (p. 54c). Observando a figura anterior, que nos remete ao período da construção da Barragem da Pampulha na década de 1930, e considerando as alterações que ocorreram naquela paisagem, para que houvesse o represamento da água e a constituição do lago artificial, identificamos que, possivelmente, houve impactos na região (ambientais, de mobilidade urbana e de sociabilidade) após a construção da barragem. É possível que tais modificações pudessem ser observadas no entorno da Lagoa da Pampulha, e que impactassem também outras áreas próximas a ela. Esse pode ser o caso de Venda Nova, uma região habitada antes mesmo da construção da nova capital, que remete, conforme Arreguy e Ribeiro (2008), à segunda metade do século XVIII. Como a análise desses impactos não faz parte dos objetivos da nossa pesquisa, acreditamos que estudos futuros a esse respeito poderiam contribuir para elucidar tais apontamentos. Conforme constatamos em Ribeiro (2011), em um primeiro momento, foram dos campos e dos córregos da região da Pampulha que saíam alimentos que contribuíram para alimentar os habitantes da cidade. Após a construção da barragem, ela assumiu também a 38 Disponível em: . Acesso em: 26 maio 2019. 56 função de fornecer água para ser utilizada por uma parcela dos habitantes de Belo Horizonte. E, com a construção do Complexo Arquitetônico da Pampulha, inaugurado em 1943, foram incorporados novos atributos à região: lugar de moradia, com a implementação de novos bairros; expansão do divertimento para a cidade, que teria modernos e elegantes espaços para o lazer – no entanto, em um primeiro momento, o acesso a tais divertimentos não seria amplamente garantido a todos os habitantes. Figura 3 – A Pampulha desponta para o turismo e o divertimento Fonte: Relatório de Prefeito – 1940-1941-Juscelino-Kubitschek-de-Oliveira (p. 38a)39. A expansão do povoamento da região também foi impulsionada, nesse período, por outra intervenção estatal de grande relevância para a cidade: a construção da Cidade Universitária da Universidade de Minas Gerais – UMG (atual Universidade Federal de Minas Gerais). A Fazenda Dalva, que pode ser vista na imagem a seguir, foi desapropriada pelo Governo do Estado no começo dos anos de 1940 e deu lugar à UMG já no final dessa década, quando o trabalho de terraplenagem começou no local. 39 Disponível em: . Acesso em: 26 maio 2019. 57 Figura 4 – Fazenda Dalva, futuro território de novos saberes da UMG – atual UFMG Fonte: UFMG – 90 Anos História da UFMG40. Nos anos que se seguiram, continuaram as intervenções estatais na Pampulha e nos bairros próximos, reflexos de processos acelerados da urbanização que já havia ocorrido na área central da cidade: a construção e a pavimentação de novas ruas e avenidas; e a implementação de estruturas de saneamento, de redes de água tratada, de eletricidade e de comunicação. Acompanhando esse avanço da urbanização, também surgiram novos bairros, que impulsionaram o povoamento da região. A Pampulha, tendo a sua barragem construída na década de 1930, com o objetivo de atender à demanda por água na cidade e também para incentivar o turismo, assumiu nova atribuição na década de 1940, devido à construção do Complexo Arquitetônico, constituindo- se também como espaço planejado para descanso e divertimento. Entre a tensão do planejado, no campo das ideias, e o implementado, no campo das ações e das necessidades, essa região recebeu cada vez mais moradores e intervenções do poder público ao longo dos anos e das décadas seguintes. A exemplo dessa expansão populacional, apresentamos na figura 5 dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) relativos ao crescimento da população de Belo Horizonte e de outras capitais. 40 Disponível em: . Acesso em: 25 maio 2019. 58 Figura 5 – Crescimento populacional Censo Demográfico IBGE Fonte: IBGE41. O período apresentado na figura 5 compreende o intervalo de censos realizados entre 1872 e 2010. Todavia, Belo Horizonte figurou no censo somente a partir de 1900, situação que pode ser justificada em razão de que, no censo anterior, o de 1890, essa cidade ainda não existia. Para efeito da nossa análise, abordaremos especificamente os dados de 1950 a 1980. Ao analisar esse período, constatamos a presença das seguintes cifras populacionais em Belo Horizonte: em 1950, 352.724 habitantes; em 1960, 693.328 habitantes; em 1970, 1.255.415 habitantes; e em 1980, 1.822.221 habitantes. Em relação a esses dados, observamos que: nos dois primeiros intervalos (1950- 1960 e 1960-1970), o aumento populacional ocorreu de forma muito expressiva, sendo que a cada intervalo de 10 anos o contingente de pessoas em Belo Horizonte praticamente dobrou; na década de 1970 a cidade alcançaria mais de 1 milhão de habitantes, e comparando os números do senso de 1950 com o de 1970, constata-se que a população da cidade triplicou; o quantitativo de habitantes no senso de 1980 evidencia um panorama de desaceleração do 41 Disponível em: . Acesso em: 21 maio 2019. 59 ritmo de crescimento populacional da cidade, que ainda assim estava com índices significativos, passando de 1.255.415 habitantes em 1970 para 1.822.221 em 1980. Ao longo desses 30 anos de aumento acelerado da população, a cidade, vista de modo mais ampliado, teve seu território impactado e passou por alterações em sua paisagem. Parte dessas transformações aconteceria na região da Pampulha. Desse modo, ao longo da segunda metade do século XX, o que se veria, tanto na Pampulha quanto em outras regiões periféricas da cidade, seria a ampliação das áreas ocupadas por novos moradores, que alterariam a forma da cidade, contribuindo para o crescimento de sua periferia e expandindo o seu adensamento. Esse panorama de expansão da periferia e do adensamento populacional em Belo Horizonte traria novos desafios para seus moradores e para a gestão da cidade. E, tais quais as pinceladas de um(a) artista em uma tela, a cidade, que vai se constituindo como metrópole, vê nas ações cotidianas daqueles que nela habitam a expressão de novos contornos e marcas que a conformam. Assim como a pintura tem seu poder de transformação no íntimo do sujeito que a contempla, o urbano, compreendido enquanto obra42, impacta aqueles que a criam, agem e reagem, cotidianamente nela e sobre ela, dando-lhe vida. Ao analisar os Relatórios dos Prefeitos43 de Belo Horizonte, observamos que o poder público se encarregou de realizar intervenções em diferentes frentes, impulsionando a urbanização de algumas regiões da cidade, mas deixando de lado outras. Ainda observando documentos relativos à gestão do Governo de Minas Gerais (que apresentaremos mais a frente), também percebemos a atuação do governo estadual na reconfiguração de Belo Horizonte, ao realizar intervenções que alterariam a sua paisagem. Entre tais ações, uma em especial se destacou para nós, em virtude do impacto que teria nas políticas de esporte e de lazer, para Belo Horizonte e para Minas Gerais: a construção do Estádio Mineirinho, no complexo de esporte e de lazer, compreendido também pelo Mineirão e pelo Centro Esportivo Universitário. Apresentaremos, ao longo do segundo capítulo, algumas percepções que tivemos sobre a relação desses equipamentos de esporte e de lazer e a Pampulha. 42 Lefebvre (2011) apresenta o urbano e a cidade como processo da ação humana. A cidade é compreendida como obra de pessoas em um dado contexto histórico, que, ao mesmo tempo em que expressa as relações sociais no espaço, reage contra elas. 43Disponível em: . Acesso em: 16 set. 2018. 60 2.2 De campos verdejantes a concretos estruturantes: a Pampulha como espaço do esporte e do lazer Os trajetos percorridos pelas águas que corriam nos córregos dos campos verdejantes das fazendas, dos sítios e das chácaras da Pampulha, na primeira metade do século XX, passariam a acontecer por paisagens modificadas nas décadas seguintes. As intervenções realizadas no decorrer dos anos transformariam o espaço daquela parcela da cidade de tal maneira que, ao final desse século, o avançar da urbanização a teria alcançado de modo tão significativo, que pouco lhe sobraria daquela paisagem do começo do século. A Pampulha, inicialmente idealizada como uma área rural da cidade, passou por transformações em sua forma, por meio da ação das mãos humanas, dos seus moradores e de diferentes governantes, que a conformaram aos seus planos e às suas necessidades. Seguindo os vestígios que nos levariam à construção do Mineirinho, nos deparamos também com outros equipamentos de esporte e de lazer daquela região, públicos e privados. Assim, durante o levantamento e a análise documental destacou-se para nós a constatação de que foram construídos muitos locais idealizados para o esporte e para o lazer na Pampulha (em torno da Lagoa ou próximos a ela). A própria Lagoa foi local de esporte e lazer para a população belo-horizontina, que se aventurava em atividades náuticas, conforme observamos em Viana (2013). E os moradores que já estavam nas terras da Lagoa, antes da construção da barragem, seguiriam com suas tradicionais festas religiosas e outras diversões, conforme observamos em Carsalade (2007). Em um impresso denominado “Conheça o Mineirão”44, que foi produzido pela ADEMG, órgão gestor do Mineirinho e do Mineirão, identificamos algumas informações relativas a esse Estádio de Futebol, tais como aspectos de sua estrutura, dos espaços que o integravam e um pouco da sua história. Nas páginas 10 e 11 desse documento, reproduzidas aqui na figura 6, observamos também a descrição de um mapa denominado “Localização do Mineirão e do Mineirinho na Pampulha”. Ao analisarmos essa imagem, observamos a presença de outros equipamentos de esporte e de lazer que faziam parte da paisagem da região da Pampulha, entre eles, o Zoológico, o Centro Esportivo Universitário e clubes recreativos. 44 Pelo o que identificamos analisando esse documento, parece se tratar de uma cartilha produzida pela ADEMG para divulgação do Mineirão, em razão do seu vigésimo terceiro aniversário. Ainda que não tenha data de publicação impressa nesse material, podemos inferir que foi publicado em 1988, uma vez que o Mineirão foi inaugurado em 1965. No verso desse impresso há uma imagem do Mineirinho. 61 Figura 6 – Os equipamentos públicos e privados de esporte e de lazer no entorno da Pampulha Fonte: Impresso Conheça o Mineirão – Arquivo do Mineirinho. Na imagem da figura 6, nos chamou à atenção a quantidade de equipamentos de esporte e de lazer na região. Por meio dela, podemos observar a presença de locais construídos no entorno da Pampulha que incentivariam o divertimento e as práticas esportivas. Em especial, os equipamentos públicos, que atenderiam aos moradores da região e também àqueles que estivessem em outras localidades da cidade. Outro aspecto que nos chamou à atenção na imagem foi a descrição dos locais públicos e privados, o que nos possibilitou inferir que a atuação desses setores distintos impulsionou a constituição desse panorama. No quadro a seguir, fizemos a organização dos equipamentos citados anteriormente na figura 6, de modo que os distribuímos em duas categorias: equipamentos públicos de esporte e de lazer; equipamentos privados de esporte e lazer. 62 Figura 7 – Quadro com os diversos equipamentos de esporte e de lazer no entorno da Pampulha, segundo a imagem “Localização do Mineirão e Mineirinho na Pampulha” Equipamentos públicos de esporte e lazer Equipamentos privados de esporte e lazer Mineirão; Mineirinho; Centro Esportivo Universitário (CEU); Bicicross (em terreno do Mineirinho); Jardim Zoológico; Museu de Arte; Casa do Baile. Pampulha Iate Clube (PIC); Toca da Raposa; Centro Hípico; Centro de Preparação Equestre da Lagoa (CEPEL); Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB); Sede Campestre – Cruzeiro; Vila Olímpica – Atlético; Labareda – Atlético; Iate Tênis Clube; Mangueiras (Restaurante45). Fonte: Informações extraídas da figura 6. Para estruturar esse quadro, consideramos a natureza de utilização relacionada ao potencial de uso para o esporte e/ou lazer; e também se estariam sob a responsabilidade do Estado (como equipamentos públicos) ou de outros setores (equipamentos privados). Alguns, que não conseguimos definir claramente quanto à utilização ou ao tipo de gestão, não foram inseridos nesse quadro, sendo eles: a Igreja de São Francisco de Assis (espaço predominantemente religioso, ainda que seja possível ter relação com o lazer); o camping (não foi possível identificar se era público ou privado); o Aeroporto (espaço vinculado ao transporte aéreo, ainda que seja possível considerar usos para o lazer); o Hipódromo Serra Verde (aparece relacionado à Pampulha, mas a sua localização era na região de Venda Nova); e a UFMG (espaço concebido para a educação, ainda que seja possível considerar o seu uso também para o lazer e o esporte). Outro aspecto que se destacou ao organizarmos o quadro foi a constatação de que clubes de futebol construíram seus centros de treinamento na Pampulha, na década de 1970: a Toca da Raposa46 vinculada ao Cruzeiro, e a Vila Olímpica47, vinculada ao Atlético-MG. Além dos centros de treinamento, também construíram clubes recreativos: Sede Campestre48, do Cruzeiro; e o Labareda, do Atlético-MG. Carsalade (2007, p. 65) indica que, entre os anos 1960 e 1970, “a grande extensão de terra livre propiciou também o 45 Os bares e restaurantes constituíram-se como opções de lazer na Pampulha, segundo Carsalade (2007, p. 66), “veio primeiro o Mangueira’s, do empresário Milton Reis, pioneiro no ramo na Pampulha”, inaugurado em janeiro de 1965. 46 A Toca da Raposa iniciou suas atividades em 1973. Disponível em: . Acesso em: 01 jun. 2019. 47 A Vila Olímpica foi construída em 1973. Disponível em: . Acesso em: 01 jun. 2019 48 Construída em terreno cedido pelo ex-prefeito Américo Renné Giannetti, a Sede Campestre do Cruzeiro (clube recreativo localizado na Pampulha) começou a ser construída no fim dos anos 1950. Disponível em: . Acesso em: 01 jun. 2019. 63 aparecimento dos clubes, essa maneira urbana de associar grandes espaços livres com muita gente no ócio”. Segundo esse autor, existiam 28 clubes na Pampulha, divididos em 7 categorias: náuticos (3 clubes); campestres (4 clubes); étnicos (3 clubes); de times de futebol e os esportivos ligados a eles (2 clubes); os de associações (11 clubes); os educativos (2 clubes, sendo um deles o CEU); e os diversos (3 clubes). É possível considerar que, com a abertura de equipamentos que tinham uma vocação idealizada para práticas esportivas, em especial para o futebol e para o futebol de salão, tais como o Mineirão, os clubes recreativos e o Mineirinho, o potencial turístico, esportivo e de lazer daquela parte da cidade foi ainda mais impulsionado. E uma vez somados a outros espaços já existentes na região, tais como o Museu de Arte e a Casa do Baile, inaugurados na década de 1940; e o zoológico, que funcionava no Parque Municipal e foi transferido para a Pampulha em 1959 (CARSALADE, 2007), contribuíram para aumentar a concentração de equipamentos de esporte e de lazer na Pampulha. Na figura 8, podemos observar o entorno do Mineirão. Não há uma data atribuída a ela, mas, analisando a paisagem ao redor do Estádio, é possível inferir que o registro foi realizado entre 1965 e 1970, uma vez que o espaço em que o CEU foi construído ainda estava com vegetação (observar na parte inferior direita da figura, ao lado da via pavimentada). Figura 8 – O Mineirão na paisagem da Pampulha Fonte: Arquivo do Mineirinho (s/d). 64 É possível notar nessa imagem a predominância de uma área escura. Trata-se de áreas verdes remanescentes da fazenda que deu lugar ao Campus da UFMG. Já na parte superior esquerda, observamos que há uma área mais clara, sendo esta a parte ocupada e mais urbanizada, estando nela, inclusive, a região Central da cidade, onde se concentravam os prédios mais altos da cidade Assim, ao nos aproximarmos dos documentos e transitarmos naquelas paisagens da Pampulha, percebemos o quanto a criação da barragem no final dos anos 1930, a constituição do Complexo Arquitetônico no começo dos anos 1940, e a construção de diversos equipamentos públicos e privados de esporte e de lazer no decorrer das décadas de 1950 a 1980, contribuiriam para a transformação daquela região. Entre construções públicas e privadas, represamento de águas, derrubadas da vegetação e aumento populacional, a Pampulha figurou, por meio do seu espaço, como palco central para a dinâmica cotidiana do viver na cidade. Ao constatarmos que houve um volume significativo de empreendimentos privados que reconfiguraram a sua paisagem, em especial por meio da construção de clubes, observamos também que a atuação do poder público contribuiu com essa reconfiguração urbana por meio do Complexo Esportivo e de Lazer, em que estavam compreendidos o Mineirão, o CEU e o Mineirinho, conforme apresentaremos a seguir. 2.2.1 O despontar do Mineirão, do Centro Esportivo Universitário e do Mineirinho, e a relação deles com a urbanização na Pampulha (1960-1980) Rodrigues e Costa (2014) indicam que a Diretoria de Esportes de Minas Gerais (DEMG) atuou de modo bastante ampliado no fomento às políticas de esporte em Minas Gerais, e, de modo sucinto, podemos sinalizar o foco de ação em três pontos principais: “criação de espaços esportivos/lazer; realização de ações e a formação do corpo técnico no campo esportivo/lazer” (RODRIGUES; COSTA, 2014, p. 108). Conforme nos apresentam as autoras, a DEMG, criada pelo Decreto-Lei n. 1.765/1946, foi o órgão gestor responsável pela implementação das políticas esportivas em Minas Gerais entre 1946 e 1987. Nesse período, a DEMG esteve vinculada a diferentes setores da administração estatal: de 1946 a 1963, diretamente ao governador; posteriormente, entre 1963 e 1967, integra a Secretaria de Estado do Trabalho e Cultura Popular; no período 65 da ditadura militar, em 1967, retornou à estrutura do Gabinete Civil do Governador, ali ficando até 1976; entre 1976 e 1983, como órgão autônomo da Administração Direta, vinculou-se ao Sistema Operacional de Trabalho, Ação Social e Desportos; e de 1983 a 1987, esteve vinculada ao Sistema Operacional de Esportes, Lazer e Turismo (tendo como órgão central a Secretaria de Estado de Esportes, Lazer e Turismo – SELT). A DEMG foi extinta em dezembro de 1987, quando teve suas competências transferidas para a Secretaria de Esportes, Lazer e Turismo. Considerando a criação de espaços esportivos e/ou de lazer, observamos ainda que, além da construção das Praças de Esportes, que foram edificadas em diferentes municípios de Minas Gerais e tiveram grande destaque na política do setor, a DEMG também direcionou grandes esforços para a construção do Estádio Minas Gerais (Mineirão). Para isso, o Governo Mineiro constituiu parceria com o Governo Federal, em fevereiro de 1960, por meio de “comodato entre a UFMG e a AEMG” (SEIXAS; SIMÕES; RIBEIRO; 2005, p. 15). A figura 9 evidencia a presença do Mineirão na região da Pampulha. Observando a lateral direita da imagem, próximo ao estacionamento do Estádio e à Lagoa da Pampulha, é possível observar uma concentração de vegetação. Esse seria o local em que o Palácio dos Esportes, também conhecido como Mineirinho, seria construído a partir de 1973. Figura 9 – Áreas vizinhas ao Mineirão antes das obras do CEU e do Palácio dos Esportes Fonte: Museu Histórico Abílio Barreto (s/d). 66 Souza Neto (2017, p. 176) indica que a construção do Mineirão na Pampulha “representaria também uma tentativa de povoar/valorizar o afastado bairro planejado”. Nesse sentido, ele corrobora a nossa constatação a respeito do papel catalisador que o Poder Público teve, por meio da política de construção de espaços esportivos/de lazer, para a transformação do espaço naquela parte da Pampulha. O Estádio Minas Gerais foi o primeiro dos três a ser construído e colocado à disposição da população, sendo inaugurado em 5 de setembro de 1965. O Centro Esportivo Universitário da UFMG foi outro equipamento de esporte/lazer que foi construído naquelas porções de terra próximas à Lagoa, por meio de convênio49 entre a universidade e o Governo de Minas Gerais. Nos dizeres de Afonso Celso Raso: “houve o convênio com a Universidade Federal, em que a ADEMG construiria o CEU a troco da utilização do terreno onde se instalaria o Mineirinho. Isso no governo Rondon Pacheco, [...] houve o início da construção, em 1973.” (2018). Essa parceria seria profícua para a constituição do que podemos considerar como o “complexo público esportivo e de lazer”, que viria a se constituir em 1980, com a inauguração do Palácio dos Esportes, compondo assim, juntamente com o Mineirão e o CEU, uma tríade de espaços esportivos que reconfigurariam a paisagem da região. Figura 10 – O despontar do CEU na paisagem Fonte: Arquivo do Mineirinho (s/d). 49 Conforme consta na Resolução Legislativa Nº 959, de 1º de dezembro de 1970, aprova-se o convênio entre a ADEMG e UFMG para a construção do conjunto esportivo externo ao Estádio Governador Magalhães Pinto. 67 Nessa imagem, podemos identificar o Estádio Mineirão ao fundo. É possível inferir que esse grupo de pessoas que está presente nesse registro foi fotografado em um dos espaços pertencentes ao CEU, uma vez que, ao observarmos a estrutura de concreto (no centro da figura) e a compararmos aos espaços existentes atualmente no local, veremos que se trata da base de sustentação da tabela de basquete. Essas bases são encontradas nas quadras, que estão localizadas no segundo platô do Centro Esportivo. Outro aspecto que identificamos é a ausência de cercas/muros, tanto no CEU quanto no Mineirão. Se, com a inauguração do CEU em 1971, o Mineirão teve um novo vizinho que ampliou a possibilidade de lazer da população, com o despontar do Palácio dos Esportes, a oferta de acesso a espaços de lazer seria ampliada ainda mais. Ao iniciar a construção do local, começou também a transferência dos planos que se encontravam nos projetos, deslocando-se para o concreto, por meio da atuação de diferentes trabalhadores. Figura 11 – O canteiro de obras do Mineirinho e a fundação Fonte: Arquivo Mineirinho (s/d). Com o começo das obras, em breve o Gigante da Pampulha teria mais um novo vizinho: o Estádio50 Jornalista Felipe Henriot Drummond, popularmente conhecido como Mineirinho. 50 Ao longo da pesquisa documental sobre o Mineirinho, identificamos que ele era denominado como estádio ou ginásio. Como não identificamos distinção em relação ao significado dessas palavras, ao longo do nosso texto elas serão utilizadas com a mesma intenção: fazer referências ao Mineirinho. 68 2.3 Urbanização na Pampulha e construção de equipamentos públicos de esporte e de lazer: diálogos com o local e o regional À medida em que a pesquisa foi avançando e que caminhamos pelas trilhas que nos conduziram às diferentes fontes que nos aproximaram da história do Mineirinho, fomos capturando (e sendo capturados) por um aspecto que extrapolava nossas indagações iniciais: a relação entre a urbanização da Pampulha e a construção de equipamentos públicos de esporte e de lazer, sobremaneira, do Mineirinho e do Mineirão. Identificamos que, ao longo das décadas de 1960, de 1970 e de 1980, esses dois espaços contribuíram no âmbito local para a reconfiguração dos bairros mais próximos a esses equipamentos. E, considerando que, ao estarem em funcionamento, eles poderiam estimular o desenvolvimento do campo esportivo, em especial na perspectiva de impulsionar a realização de competições e de receber torcedores para assistirem aos jogos, impulsionando novas possibilidades de lazer, eles também impactariam a população de outras regiões da cidade. Nesse sentido, nos aproximamos de Milton Santos (2006) para melhor compreender a dinâmica da construção desses dois equipamentos, especialmente do Mineirinho. Segundo o autor, a leitura de um objeto corresponde à reinclusão dele em condições relacionais, que incluem o espaço e se dão por mediação dele. E o espaço é “considerado em seu conjunto que redefine os objetos que o formam. Por isso, o objeto geográfico está sempre mudando de significação.” (SANTOS, 2006, p. 62). Assim, compreendemos que, observar a relação entre a construção do Mineirinho, seu entorno e a cidade (considerando os elementos da vida cotidiana), pode ser uma estratégia para analisar a relação do Mineirinho com o campo esportivo, de modo a alcançar pistas relacionadas às prováveis motivações para que ele fosse construído. Com a análise das fontes, entre documentos diversos e alguns relatos de depoentes, observamos indícios, conectamos dados e construímos reflexões sobre alguns processos que ocorreram com a construção desses equipamentos, em especial no âmbito local e na região mais próxima a eles. Identificamos como a presença deles interferiu e acelerou a urbanização ao longo do período pesquisado. Em relação ao Mineirinho, constatamos que um impacto inicial que a sua construção ocasionou foi a retirada de uma área verde que existia ao lado do Mineirão. Essa área pode ser observada na figura a seguir: 69 Figura 12 – O despontar do Mineirinho: o espaço verde Fonte: Imagem da capa do impresso “Conheça o Mineirão”, produzido pela ADEMG – (adaptada) – Arquivo Mineirinho. Na figura 12, há uma grande área verde que podemos ver na parte inferior (ao lado do Mineirão). Essa área foi utilizada pela ADEMG a partir de 1973 para construir o Mineirinho. Para isso, a vegetação foi retirada e o terreno foi remodelado, ficando estruturado em três níveis. Considerando os prováveis impactos que a construção do Mineirinho teria na região, identificamos que essa retirada da vegetação pode ser identificada como um possível impacto. Tendo, por um lado, o benefício de oferecer à população um novo equipamento público que seria utilizado pelos moradores da cidade, por outro lado, a derrubada daquela vegetação poderia impactar a fauna e a flora existentes no local e na região. Nesse sentido, um dos depoentes nos relatou a seguinte situação: Porque, era, ali era uma mata, a mina d´água tem ela até hoje. Depois foi internalizando, foi para a rede pluvial. [...] Mas até pouco tempo tinha. Eu comprei uma bomba para tirar água. [...] Ali era um terreno minoso (JOSÉ FRANÇA, 2018). O depoimento apresentado no trecho anterior evidencia que, com o início das obras, o espaço que passou a ser utilizado para a construção parecia ter sido pouco ou nada 70 alterado anteriormente, uma vez que o depoente relatou aspectos da preservação da natureza (a nascente e a vegetação que ali existia). Uma vez iniciada no local a intervenção da ADEMG, logo aquela região seria alterada. E, nos lembrando dos tempos em que se ouvia nos alto-falantes do Mineirão aquelas mensagens que eram iniciadas dizendo “a ADEMG informa ...”51, imaginamos que essa seria completada dizendo que o verde saiu daquela parcela da Pampulha e deu lugar às maquinas e aos trabalhadores que começariam a metamorfose do espaço: em um primeiro momento, levantando a poeira, para depois se instalar ali o concreto da base. Por meio da figura 13, observamos a presença de materiais de construção, máquinas e alguns trabalhadores, nos remetendo à fase de fundação da construção do Palácio dos Esportes, Figura 13 – O despontar do Mineirinho, a “ADEMG informa”, sai o verde e entra o concreto Fonte: Arquivo Mineirinho. Ao analisar a literatura que nos apresenta a trajetória da constituição da Pampulha, e que descrevemos aqui neste segundo capítulo, observamos que esse processo de retirada de grandes parcelas da vegetação nessa região teve início muito antes das chegadas do Mineirão e do Mineirinho. Essa foi uma escolha política definida e colocada em prática pelo governo municipal desde a construção da barragem, nos anos 1930. Analisando a literatura e as fontes acessadas, observamos que essa prática de retirada da vegetação na região foi recorrente e 51 Essa era uma frase repetida durante os jogos no Mineirão, informando algumas ações que ocorriam durante o jogo, como substituições e outras mensagens de interesse da ADEMG. 71 envolveu diferentes níveis de gestão (municipal, estadual e federal), chegando até os anos 1970 com essa intervenção do governo estadual, ao investir esforços na construção dessa grande obra. Observamos que outras intervenções na região foram impulsionadas durante a construção do Mineirão, em um primeiro momento, e depois, durante a construção do Mineirinho. Em ofício enviado pelo Conselho de Administração do Estádio Minas Gerais e a ADEMG, para o prefeito Dr. Luiz de Souza Lima, em 1967, foi solicitada [...] a complementação das obras de construção da nova artéria que se dirige ao Estádio ´Magalhães Pinto`, a Avenida Catalão, [que] constitui medida das mais urgentes em prol da nossa Capital, uma vez que resolverá, em definitivo, o problema de melhor acesso ao Estádio, como, também, virá beneficiar diversos bairros e uma das regiões mais populares de Belo Horizonte (OFÍCIO 341/67-SA-GS, de 01/06/1967). Percebemos, por meio desse documento, que houve a apresentação de uma demanda relativa à intervenção em vias de acesso ao estádio, proporcionando melhoria de acesso ao equipamento. Essa seria uma ação que poderia atender também aos bairros próximos e à região da Pampulha. A figura a seguir é uma fotografia da Pampulha, que acessamos no Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte52. Ao analisá-la, é possível identificar o Mineirão ao fundo. E, do lado esquerdo da fotografia, próximo ao Mineirão, podemos notar uma parte significativa da obra de construção do Mineirinho. A data atribuída à foto é: novembro de 1977. É possível observar nela que vários andares do ginásio já estavam construídos. Outro aspecto que destacamos nessa imagem é a pouca utilização dos terrenos que o cercam, uma vez que percebemos algumas áreas com vegetação próximas a ele. A existência de áreas sem construções pode ser notada tanto ao redor do Mineirinho quanto nas proximidades do Mineirão, o que destaca ainda mais a presença dessas duas edificações na paisagem. 52 Esta imagem encontra-se no ASCOM/APCBH e foi gentilmente disponibilizada em arquivo digital, contendo a seguinte descrição: “39339 – Jardins da igreja São Francisco na Pampulha. Ao fundo e à esquerda: canteiro de obras da construção do Mineirinho. Ao fundo à direita: Estádio Mineirão. Novembro de 1977” 72 Figura 14 – A construção do Mineirinho vista de longe Fonte: ASCOM/APCBH (s/d). Na figura 15, apresentamos um recorte que fizemos da imagem anterior, com a intenção de concentrar o nosso olhar e analisar os aspectos relacionados ao Mineirinho. Observamos tanto o Mineirinho quanto a sua inserção na paisagem que o cerca. Na parte inferior da imagem, é possível visualizar um gramado e um jardim. Trata-se de uma parcela do paisagismo da Igreja São Francisco de Assis – também conhecida como Igreja da Pampulha. O embelezamento da Pampulha (e de outros locais da cidade, tais como praças e parques) também foi uma das intervenções realizadas pela Prefeitura de Belo Horizonte em alguns locais da Lagoa. Curiosamente, ao mesmo tempo em que o poder público retirava a vegetação nativa para a construção de novos equipamentos, também inseria seus jardins. O concreto disputava espaço com a vegetação. 73 Figura 15 – Recorte ampliado da figura 14 Fonte: ASCOM/APCBH (Adaptação). O número baixo de edificações próximas ao Mineirinho também pode ser identificado em outra imagem a que tivemos acesso. Na figura 1653, podemos visualizar áreas um pouco mais distantes do ginásio, sendo possível notar porções significativas de terrenos ainda cobertos por vegetação, dentre eles vários lotes, localizados nos bairros da Pampulha próximos à Igreja São Francisco de Assis e ao Mineirão, tais como Ouro Preto, São Luiz e Bandeirantes. Também é possível notar a concentração de vegetação no local onde, posteriormente, seria construído o Palácio dos Esportes (na imagem, se encontra ao lado do Estádio do Mineirão) 53 Esta imagem foi disponibilizada pelo Museu Abílio Barreto, com a seguinte descrição: Coleção Hélio Gravatá, notação HG.CAP.1974-024. Data, 1965-1974. 74 Figura 16 – Vista panorâmica da Pampulha próxima ao Mineirão Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Pública Estadual Luiz Bessa (Adaptação). 75 Essa imagem, que apresenta a visão panorâmica de uma parte da Pampulha, encontra-se na página 148 de uma edição especial da revista Manchete (1973), publicada em inglês sob o título de New Horizons. Ao analisarmos essa publicação, pudemos inferir por meio de seu conteúdo que se tratava de uma edição voltada, em especial, para o público externo ao Brasil, uma vez que estava editada em inglês. A publicação também estaria direcionada para o mercado econômico externo, considerando as matérias apresentadas nela, em que se destacavam produtos e cidades brasileiras sob a ótica das produções industrial, agrícola, mineral e da beleza natural. Nessa paisagem da Pampulha, além da Lagoa, é possível observar, mais à esquerda, o estádio Mineirão e ao lado dele, o CEU e a UFMG (já com muitas vias de trânsito pavimentadas). Também constatamos o loteamento da área, em que se nota muitos lotes desocupados. Outro aspecto que pode ser observado na imagem é a mescla entre ruas pavimentadas e ruas de terra, sinalizando o andamento do processo de urbanização da região. Observamos ainda, em alguns documentos oficiais, que a ampliação ou melhoria das redes elétrica e de esgoto na região próxima também foi impulsionada com a chegada do Mineirão e, posteriormente, com a construção do Mineirinho, na área interligada a ele. No ofício n° 299/67-AS-03, enviado pelo diretor do Estádio Minas Gerais, Gil César Moreira de Abreu, ao Prefeito Municipal de Belo Horizonte, Luiz de Souza Lima, percebemos que a rede de esgoto que atenderia ao Minas Gerais (e também a uma parte da região próxima a ele) foi executada sob a responsabilidade do estádio, na “Avenida Pampulha, no trecho compreendido entre a Av. da Lagoa (Av. DC) e o Iate Tênis Clube, seja objeto de apropriação pela DEMAE, para posterior ressarcimento das despesas respectivas a êste Estádio”. Ainda nesse ofício, além da descrição do valor que deveria ser ressarcido pela prefeitura ao estádio (Governo do Estado), foi mencionado que aquela obra atenderia a uma grande parte da região da Pampulha. Temos aqui um indício de que essa seria uma demanda que estaria posta para a região: as melhorias da estrutura de urbanização, tais como as redes de esgoto e de água. Ainda nessa mesma página da revista Manchete, observamos em um pequeno texto localizado na parte inferior, contendo o título “Progress in all directions has changed the face of Belo Horizonte” (Manchete, 1973, p. 148). Ao ler o título e o texto, observamos que o progresso é apresentado de modo ufanista. Progresso em todas as direções mudou a cara de Belo Horizonte. Quando a cidade foi exposta pela primeira vez, as linhas limpas [retas] de Belo Horizonte se pareciam às de um tabuleiro de xadrez. Os engenheiros Aarão Reis e Francisco Bicalho 76 inspiraram-se na planície de Washington, D.C. Mas a cidade logo cresceu além das fronteiras de seus núcleos geométricos, espalhando-se pelas colinas circundantes, desde o luxuoso subúrbio residencial da Pampulha até as zonas industriais pesadas de Contagem e Santa Luzia (Tradução nossa; texto original na Figura 17). Sendo o progresso uma mola propulsora para uma rica expansão da cidade rumo à Pampulha, com suas residências luxuosas (local de moradia e de lazer, ainda que em boa parte reservada às elites), e às áreas industriais (local do trabalho), identificamos também que foi mencionada, nessa página, a expansão da cidade de Belo Horizonte. E, em outro texto que se encontra acima da imagem menor, de uma fotografia mais antiga de Belo Horizonte, observamos a comparação daquela Belo Horizonte (anos 1970) com a Belo Horizonte de muitos anos atrás. Vejamos a figura 17: Figura 17 – O progresso muda a face de Belo Horizonte Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Pública Estadual Luiz Bessa (Adaptação) Remetemos a Marques (2001, p. 117), que apresenta que a expansão das cidades de modo desmedido impulsionou o aumento da periferização da população, que “reforçou o processo de deslocamento de grande quantidade de famílias de renda mais baixa para longas distâncias das sedes das regiões metropolitanas do país (...)”. Nesse sentido, identificamos aspectos inter-relacionados, que se destacaram ao analisarmos os processos relativos à expansão da urbanização na região da Pampulha, e, particularmente, na parte mais próxima ao Mineirão-Mineirinho-CEU: ao longo de duas décadas (1960-1970), houve um empenho significativo do poder público para reconfigurar o 77 espaço, atribuindo a ele novos sentidos (moradia, lazer, descanso); a aceleração da urbanização impulsionou a melhoria da região e surgiram novos empreendimentos imobiliários; e, apesar da ampliação da oferta de novos bairros, não foi possível a todos os moradores o acesso aos imóveis nas áreas urbanizadas, contribuindo para o surgimento de vilas e favelas em bairros próximos. Este último aspecto apresentado, relacionado às áreas da cidade que foram ocupadas por pessoas com menor poder econômico, foi apresentado por Costa (2010). Ainda que não fosse objetivo dessa autora a investigação de como ocorreu a constituição desses espaços (vilas e favelas), é possível identificar, nesse estudo, alguns aspectos que permearam a formação de duas vilas próximas à Pampulha. A presença de áreas desocupadas em regiões urbanizadas pode representar a contradição vivida no e pelo espaço, reflexo, por exemplo, do mercado imobiliário que, por meio da especulação, impulsiona a ocupação de determinados locais e contribui para o vazio em outros. Um exemplo da dialética que se expressa na vida cotidiana. E, depois de andarmos a procurar, identificar e analisar as fontes, alcançamos aspectos relacionados ao contexto da Pampulha e da região que acomodaria o Palácio dos Esportes. Tivemos, desse modo, elementos para nos auxiliar na elucidação das indagações relativas aos processos que contribuíram para que o Mineirinho fosse parte da política do Governo de Minas Gerais e se constituísse como mais um equipamento público em Belo Horizonte. Desde seu início, a obra contribuiu para a reconfiguração espacial, conforme podemos observar na figura 18. Figura 18 – Mineirinho, o começo e a paisagem ao redor Fonte: Arquivo Mineirinho. 78 Considerando o papel social do espaço e os impactos que as intervenções que fazemos nele podem ter em nosso cotidiano, direcionamos nosso olhar agora, no capítulo 3, para o Mineirinho: apresentaremos os processos que impulsionaram a sua construção, a sua edificação, e que possibilitam que chegassem às quadras e aos palcos os projetos a ele ligados. 79 3 DOS PLANOS AO CONCRETO Clube da Esquina 254 Porque se chamava moço Também se chamava estrada Viagem de ventania Nem lembra se olhou pra trás Ao primeiro passo, asso, asso Asso, asso, asso, asso, asso, asso Porque se chamavam homens Também se chamavam sonhos E sonhos não envelhecem Em meio a tantos gases lacrimogênios Ficam calmos, calmos Calmos, calmos, calmos... E lá se vai mais um dia... E basta contar compasso E basta contar consigo Que a chama não tem pavio De tudo se faz canção E o coração na curva De um rio, rio, rio, rio, rio E lá se vai... Mais um dia... E o rio de asfalto e gente Entorna pelas ladeiras Entope o meio-fio Esquina mais de um milhão Quero ver então a gente, gente Gente, gente, gente, gente, gente E lá se vai Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges anunciaram sabiamente na letra da música Clube da Esquina 2 que “sonhos não envelhecem”. É isso! Dos sonhos surgem os planos. E dos planos, ainda subjetivos, surgem também os elementos objetivos, frutos das ações daqueles que acreditaram na possibilidade de sua concretização, investindo na efetivação dos sonhos, sejam eles individuais ou coletivos. 54 Canção de Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges (1978). Disponível em: . Acesso em: 04 jun. 2019. 80 O Mineirinho foi um sonho que não envelheceu. Tomou forma. Nos lampejos na mente daqueles que primeiro o anunciaram, que surgiu como a ideia de um ginásio em 1960, sem endereço, sem projetos e sem modelagens. Posteriormente, fez-se presente nos traços medidos e desmedidos da arquitetura e da engenharia, começou a tomar contornos e dimensões, saindo dos planos mentais e surgindo em cálculos e desenhos nas pranchetas. Com a denominação de Palácio dos Esportes o projeto começou a figurar no local em que até então havia uma área coberta por vegetação, que foi derrubada e deu lugar à poeira iniciada pelos procedimentos de preparo do terreno. No começo dos anos 1970, naquele local ao lado do Mineirão e do CEU em que o verde deu lugar aos homens e às máquinas, começou a despontar o concreto do Palácio dos Esportes. Depois de uma pausa, sua construção foi retomada pelas centenas de mãos dos trabalhadores que, juntamente com as equipes gestora e técnica, reiniciaram a obra que ainda estava na fundação. Após todo trabalho de planejamento e execução da obra, seus portões foram abertos para a população da cidade em 1980, iniciando a partir de então a possibilidade de o equipamento se constituir enquanto lugar do esporte, do lazer, de shows, de feiras, de festas e de (des)encontros. Conforme já mencionado nos capítulos anteriores, a aproximação e a análise das fontes pesquisadas nos possibilitaram constatar elementos que auxiliaram na elucidação das indagações que orientaram a realização do presente estudo. Apresentaremos, a seguir, aspectos relativos à sua gênese (que guarda relação com a Lei nº 1947/59 e com o comodato firmado em 25 de fevereiro de 1960 entre o Governo de Minas Gerais e a UFMG), ao contexto político do período pesquisado e aos aspectos que evidenciaram parte da trajetória do Mineirinho e a sua relação com a região da Pampulha. Na sequência, apresentaremos as constatações que fizemos a respeito dos processos que contribuíram para que, ao sair do papel, o Palácio dos Esportes se constituísse como um equipamento público de esporte e de lazer em Belo Horizonte, no concreto. 3.1 Das normativas à fundação: percursos que levaram aos planos do Palácio Ao analisar as fontes, constatamos que os processos que culminaram na construção do Palácio dos Esportes foram desencadeados em momentos diferentes. Isso demandou observação atenta e reflexão cuidadosa, de modo que pudéssemos identificar os procedimentos e os eventos que fomentaram e contribuíram para a construção, assim como 81 alguns aspectos relativos aos desdobramentos que o espaço ocasionou para a política de esporte e de lazer em Belo Horizonte e em Minas Gerais. A trajetória desse grande ginásio envolveu vários contextos, fossem políticos ou econômicos, além de tomadas de decisão. A construção demandou um aporte financeiro significativo e envolveu uma quantidade significativa de trabalhadores, que investiram tempo e energia para que ela fosse edificada; além disso, mobilizou muitas negociações, reuniões e publicações (de leis, decretos e resoluções). O Mineirinho foi construído para ser grandioso, para comportar um público bastante numeroso e para receber diferentes eventos esportivos e culturais. Considerando o seu tamanho e o projeto desenvolvimentista que foi colocado em prática no Brasil durante a ditadura militar, que resultou na construção de grandes obras em várias regiões do país, conforme evidenciado por Giongo; Mendes; Santos (2015) e Costa; Azevedo (2018), notamos que houve similaridade entre a construção do Palácio dos Esportes e tal projeto. A construção de grandes equipamentos esportivos financiados pelo Estado não foi uma prerrogativa dos governos militares. Conforme Souza Neto (2017), durante o governo de Bias Fortes, com a sanção da Lei para a construção do Estádio Minas Gerais, que ocorreu em 1959, seria a primeira vez que “um estádio na capital não seria vinculado à uma instituição privada (clubes ou Federação). O Estádio Minas Gerais se tornaria assim, o inaugural investimento totalmente público do governo de Estado em uma obra desta natureza” (p. 171). Em outros estados brasileiros também ocorreram iniciativas nesse sentido, como no Rio de Janeiro, que teve a construção do Estádio Maracanã iniciada nos anos 1940 (CAMPOS, 2012). Contudo, durante o levantamento documental que realizamos no Jornal dos Sports55, observamos que a construção e a inauguração de uma quantidade significativa de estádios e de outros equipamentos esportivos foi recorrente durante a ditadura militar. Tal fato evidencia, desse modo, o papel impactante que o Estado teve na construção desses locais, por meio de diferentes esferas do governo. Voltando a Minas Gerais e ao panorama político mineiro, veremos que, durante o período pesquisado (1959-1980), a administração de Minas esteve sob a responsabilidade de diferentes governos, sendo eles: José Francisco Bias Fortes (1956/1961); José de Magalhães Pinto (1961/1966); Israel Pinheiro (1966/1971); Rondon Pacheco (1971/1975); Aureliano 55 Identificamos esse fenômeno ao fazermos a busca pela ocorrência: das expressões Inauguração de estádio e esporte especializado, fazendo o levantamento dos exemplares publicados entre 1960 e 1979. Disponível em: . Acesso em: 17 mar. 2019. 82 Chaves (1975/1978); Levindo Ozanan Coelho (1978/1979) e Francelino Pereira (1979/1983). Durante esses anos, a institucionalização do esporte ocorreu por meio da Diretoria de Esportes de Minas Gerais (DEMG). Esse foi o órgão que deu prosseguimento às primeiras ações governamentais no campo esportivo em Minas Gerais, iniciadas a partir da criação da Inspetoria de Educação Física no ano de 1927, conforme indicado por Rodrigues e Isayama (2014). A Diretoria de Esportes, criada em 1946, foi responsável pela implementação da política de esporte em Minas Gerais até 1987. Nesse período, funcionou de modo distinto no arranjo institucional. De acordo com Rodrigues e Costa (2014), a DEMG esteve vinculada ao Gabinete do Governador desde a sua criação até 1963, quando passou a compor a estrutura da Secretaria de Estado do Trabalho e Cultura Popular (1963-1967). Segundo as autoras, em 1967, durante a ditadura militar, a DEMG foi reintegrada à estrutura do Gabinete Civil do Governador, ali permanecendo até 1976: “Reorganizada em definitivo, em 1976, como órgão autônomo da Administração Direta, vinculou-se ao Sistema Operacional de Trabalho, Ação Social e Desportos (p. 49)”, permanecendo esse vínculo até 1983, quando passou a integrar a Secretaria de Estado de Esportes, Lazer e Turismo (SELT), que foi instituída em 1983 como o órgão central do Sistema Operacional de Esportes, Lazer e Turismo. A DEMG foi extinta em 1987, tendo suas atribuições direcionadas para a Secretaria de Esportes, Lazer e Turismo. Ainda que a DEMG fosse o órgão gestor das políticas de esporte e de lazer em Minas Gerais, sendo, inclusive, responsável pela construção do Estádio Minas Gerais, menos de três meses antes da inauguração do estádio (que aconteceu em 13 de setembro de 1965), houve a criação de um novo órgão gestor no campo esportivo, a Autarquia Estádio Minas Gerais. Criada em 8 de julho de 1965, com a função de administrar o Estádio Minas Gerais, a autarquia era diretamente subordinada ao Governador do Estado. Ademais, na década de 1970, caberia à ADEMG a responsabilidade de acompanhar a construção do Palácio dos Esportes e administrá-lo após a sua inauguração. As fontes evidenciaram que a gênese do Mineirinho está relacionada à Lei n° 1947/5956. Identificamos na revista Mineirinho Vitória do Otimismo57, que a sua existência estaria relacionada à legislação mencionada, que foi sancionada pelo governador José 56 MINAS GERAIS. LEI nº 1947, de 13 de agosto de 1959. Dispõe sobre a construção de um estádio em Belo Horizonte, para a prática do futebol e atletismo, e contém outras providências. Belo Horizonte, 13 de agosto de 1959. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2017 57 Essa revista foi produzida pela Assessoria de Imprensa da ADEMG, para a comemoração da inauguração da obra. Ela foi um dos documentos acessados no arquivo do Mineirinho e no arquivo do Sr. Afonso Raso. O Sr. Richard Lima, arquiteto que participou da construção do Mineirinho, também tinha um exemplar da revista e nos cedeu uma cópia da mesma. 83 Francisco Bias Fortes, e que fomentou a criação do Estádio Minas Gerais (o Mineirão). Nessa revista, é mencionado que, em 25 de fevereiro de 1960, firmou-se o comodato entre o Governo de Minas Gerais e o Ministério da Educação, sendo Clóvis Salgado o ministro da pasta. Consta também, que ‘[o] projeto do Estádio deverá compreender, além de instalações para a prática do futebol, também as que se destinarem à prática de esportes especializados, bem como as acomodações para embaixadas de desportistas’ (Minas Gerais, revista Mineirinho Vitória do Otimismo, p. 54, s/d). Ao analisarmos a Lei n° 1947 de 13/08/1959, constatamos que, além da autorização para a construção do estádio e de sua nomeação como “Minas Gerais”, ao longo dos seus 9 artigos estavam descritas outras providências, dentre as quais: que a construção do estádio e a administração dele, posteriormente à sua inauguração, ficaria a cargo da Diretoria de Esportes de Minas Gerais (DEMG), que seria acompanhada por um Conselho de Administração (composto por 10 membros, designados pelo Governo do Estado); as competências do Conselho de Administração; as competências do Administrador do Estádio (que seria um dos engenheiros do quadro de pessoal da DEMG, designado pelo Governador para a função de Administrador); o direcionamento de 4% do custo real do bilhete de cada extração da Loteria do Estado de Minas Gerais para a construção do Estádio Minas Gerais (Minas Gerais, Lei n° 1947/59, artigo 6°). Não observamos algum apontamento específico nessa Lei que mencionasse a construção de um ginásio ou estádio poliesportivo. Ao pesquisarmos o periódico Estado de Minas58 para verificar se haveria alguma informação sobre a Lei mencionada e/ou possível menção à construção do ginásio (Mineirinho), não constatamos evidências a esse respeito. No entanto, em uma reportagem publicada no dia 15 de agosto de 1959, verificamos que o anúncio da construção do estádio em Belo Horizonte foi apresentado de modo otimista, conforme observamos na manchete “Conselho de Administração Para as Obras do Estádio: o ato do Gov. Bias Fortes irá resolver sérios problemas do esporte Mineiro59”. Seguindo a leitura do texto, notamos que, além da descrição da Lei n° 1947 (constando a apresentação de seus artigos na reportagem), também foi anunciado que a iniciativa de construir o estádio era “uma marca na história do desporto montanhês, que, de há muito, espera por um empreendimento dessa envergadura” (Estado de Minas, Segunda Secção, 15 de agosto de 1959, p. 1). 58 Realizamos o levantamento dos exemplares publicados entre os dias 01 e 31 de agosto de 1959, disponíveis no arquivo digitalizado da Hemeroteca Pública Luiz de Bessa. 59 Optamos por utilizar neste trecho a ortografia original dos documentos. 84 Figura 19 – A Lei n° 1947 e a construção do Estádio Minas Gerais anunciada na Imprensa Fonte: Jornal Estado de Minas, 15 de agosto de 1959 – Hemeroteca Pública Luiz de Bessa. A efetiva realização do que estava descrito nessa Lei, a inauguração do Estádio Minas Gerais60, ocorreu seis anos depois, em 5de setembro de 1965. E, além das acomodações para as torcidas e do campo de futebol, também foi construída uma pista de atletismo contornando o campo, conforme apresentamos nas figuras 20 e 21. 60 No estudo realizado por Souza Neto (2017), é possível nos aproximarmos da trajetória de diversos estádios que foram construídos em Belo Horizonte, entre eles, o Minas Gerais. 85 Figura 20 – O campo de Futebol e a pista de atletismo no Estádio Minas Gerais Fonte: Arquivo Mineirinho (s/d). Figura 21 – A pista de Atletismo no Estádio Minas Gerais Fonte: Arquivo Mineirinho (s/d). Nas duas imagens anteriores, que nos remetem ao período da construção do estádio, é possível observar alguns dos espaços que foram planejados para ele. Na parte 86 externa ao campo, reservada para a torcida, identificamos o fosso61, o setor denominado geral62 (que pode ser observado na imagem, na parte inferior direita), e a arquibancada63, que na figura 21 se encontra com um conjunto de escoras que estão dando sustentação às estruturas. Apesar de as imagens pesquisadas não estarem datadas, inferimos que as fotografias foram tiradas próximas ao ano de inauguração do estádio, uma vez que elas evidenciam que uma parte significativa das arquibancadas já havia sido construída, e que as arquibancadas superiores estavam recebendo a cobertura. Além disso, o campo e a pista de atletismo já estavam finalizados. Durante o levantamento documental da presente pesquisa, tivemos contato com vestígios sobre o uso desse equipamento público de esporte e de lazer, ampliando a nossa possibilidade de refletir, inclusive, sobre a presença da pista de atletismo no Mineirão. Seria indício da participação de grupos, ligados a outras modalidades esportivas no panorama político daquele contexto, que teriam figurado no processo de constituição do Mineirinho? A esse respeito, ao analisarmos as fontes, pudemos inferir que a participação de agentes não governamentais na execução de políticas públicas ocorreria por meio da vinculação a entidades esportivas que estariam institucionalizadas junto ao poder público. Podemos observar isso na composição do próprio Conselho de Administração, já previsto na Lei 1947, que apresentaremos na figura 22. Essa centralização da intervenção estatal na relação entre Estado e esporte (sendo possível considerar também o lazer, estando ainda incipiente), foi uma das características evidenciadas em estudos realizados por Veronez (2005), Linhales (1996), Rodrigues (1996) e Costa (1987). A função do Conselho Administrativo era acompanhar a Diretoria de Esportes de Minas Gerais na construção do Estádio e, uma vez inaugurado, na sua administração. Esse Conselho era composto por 10 membros designados pelo Governador do Estado, e cada um representava um órgão governamental ou uma entidade, sendo estes os seguintes: o Governo do Estado; a Assembleia Legislativa (membro indicado pela Comissão Executiva da casa); a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (membro indicado pelo prefeito); a Câmara Municipal de Belo Horizonte; a Federação Mineira de Futebol; os clubes profissionais da Federação Mineira de Futebol; a Diretoria de Esportes de Minas Gerais (membro indicado pela diretoria); a Associação Mineira de Cronistas Esportivos (membro indicado por sua 61 O fosso era uma parte do estádio, que tinha por característica se tornar uma barreira de acesso ao campo, uma vez que ele separava o campo das áreas reservadas para a torcida. Ele dificultava a entrada de torcedores(as) ao campo. 62 Esse era o setor que se localizava mais próximo ao campo e que, usualmente, tinha os ingressos com preços mais baixos. 63 Era dividida em arquibancada superior e arquibancada inferior. 87 diretoria); a Federação Universitária Mineira de Esportes; o Conselho Regional de Desportos (Minas Gerais, Lei 1947, 1959). Tendo em sua composição representantes do Legislativo, do Executivo, do Conselho Regional de Desportos (vinculado ao Conselho Nacional de Desportos64) e de entidades esportivas e da imprensa, esse Conselho Administrativo participou, em um primeiro momento, dos processos relativos à trajetória do Mineirão e, posteriormente, também teve participação nas questões administrativas do Mineirinho. Temos indícios, no que tange a construção do Mineirão, de que esse Conselho teve participação relevante para o desenvolvimento das políticas públicas implementadas inicialmente pela DEMG e, posteriormente, pela ADEMG, sendo também relevante a sua relação com o Mineirinho, durante o período pesquisado. Em atas de reuniões realizadas pelo Conselho Administrativo, observamos que as ações implementadas pela ADEMG eram apresentadas a este Conselho. O mesmo ocorria com as prestações de contas, que também passavam pelo crivo deste órgão, para que fossem conferidas e tivessem os devidos encaminhamentos. Outro aspecto que se destacou foi a presença de conselheiros vinculados à política e também ao esporte. Citamos, por exemplo, Gil César Moreira de Abreu, que foi o engenheiro-chefe de obras na construção do Mineirão, ex-dirigente da ADEMG, tendo ocupado ainda uma cadeira na Câmara de Vereadores de Belo Horizonte, e, em abril de 1977, assumiu a função de membro conselheiro do Conselho Administrativo. 64 O Conselho Nacional de Desporto foi criado a partir do Decreto-Lei 3199, de 14 de março de 1941, sancionado por Getúlio Vargas, durante a ditadura estado novista. 88 Figura 22 – A composição do primeiro Conselho de Administração do Estádio Minas Gerais Fonte: Arquivo do Mineirinho. 89 Em nossa percepção, o estudo mais aprofundado do Conselho Administrativo seria uma possibilidade de melhor conhecer a sua trajetória e os reflexos que teve nas políticas públicas de esporte e de lazer ao longo de sua existência, não sendo, contudo, objetivo da presente pesquisa, tornando-se, assim, uma possibilidade de investigação futura. Um possível reflexo desse Conselho na trajetória do Mineirinho pode ser observado pela presença de cronistas esportivos em cargos de direção da ADEMG, como foi o caso de Afonso Celso Raso, um dos diretores da ADEMG durante o período pesquisado. Além de ter relação com o campo esportivo (enquanto atleta e dirigente do América Futebol Clube65), também era membro da Associação Mineira de Cronistas Esportivos. Seguir os vestígios relativos à identificação da gênese do Mineirinho nos impulsionou a analisar os documentos que mobilizamos, em um primeiro momento, de modo a melhor compreender todo o processo e alcançar seus primórdios. Não era possível realizar essa delimitação de maneira clara, inicialmente, uma vez que, ao analisarmos os documentos, nos parecia que estaria relacionada à década de 1970, em especial quando analisamos as fotografias e os outros documentos do período de sua construção até a sua inauguração (entre os anos de 1972 e 1980). No entanto, uma lacuna ainda persistia: projetos vinculados à política urbana, aqueles que envolvem a execução de uma obra, demandam processos anteriores, o planejamento, a elaboração, ou mesmo liberações e autorizações para seu desenvolvimento efetivo. Ao analisarmos outras fontes pesquisadas e compará-las, ficou perceptível que, após a publicação da Lei n° 1947, aconteceria a assinatura do comodato que autorizaria a utilização de uma área pertencente à UFMG para a construção do Estádio Minas Gerais no ano de 1960. Ficaria incipiente a possibilidade de que, anos depois, houvesse outros convênios em relação à liberação de uma porção de terra pertencente à UFMG para a construção do Palácio dos Esportes, tendo ocorrido um dos convênios em 197066 e o outro, em 197267, conforme veremos a seguir. Ao recorrermos às fontes orais buscando tais indícios, muito nos foi relatado pelos depoentes sobre o período da construção, até porque, de algum modo, todos eles estiveram 65 Esteve na presidência do clube em 1961, 1986/87 e 2002/2005 e compôs o Conselho Administrativo do Clube em 2009-2011 e 2012-2014. Disponível em: . Acesso em: 31 maio 2019. 66 Trata-se da Resolução 959, de 01/12/1970 - Aprova o Convênio celebrado entre a Autarquia Estádio Minas Gerais e a Universidade Federal de Minas Gerais, com a Finalidade de construir o Conjunto Esportivo Externo do Estádio Governador Magalhães Pinto (MINAS GERAIS, 1970). Disponível em: . Acesso em: 28 abril 2015. 67 Referente ao Convênio celebrado em 12/10/1972, entre o Estádio Minas Gerais e a Universidade de Minas Gerais, visando à construção do Palácio dos Esportes de Minas Gerais, veja Anexo II. 90 próximos da construção e viram ou participaram de alguma etapa da obra, em especial após 1976. Contudo, pouco foi relatado68 sobre a etapa que antecedeu a construção e que guarda relação com os trâmites iniciais relativos aos contratos, acordos, leis e os procedimentos burocráticos que ocorreram na fase mais relacionada às negociações e à celebração de convênios e parcerias públicas. Entendemos que tal situação guardaria relação com o fato de que nenhum dos depoentes atuou diretamente nas políticas públicas de esporte e de lazer naquele momento inicial (na gestão ou em outras frentes de trabalho), e que essa etapa da política pública não costumava ser muito acessível à opinião pública, (e, ainda hoje, não é), uma vez que são trâmites mais ligados a gabinetes, assessores e equipes técnicas, em especial nas gestões centralizadoras e pouco participativas (características que perpassaram as gestões públicas nos anos de 1950 a 1980). No caso da ADEMG, percebemos essa centralização em função de sua ligação direta ao gabinete do governador. No depoimento de Afonso Raso, observamos a proximidade entre a direção da ADEMG e o governador: O Mineirão passou por vários administradores depois de mim. Eu e o Gil César tivemos duas vantagens: longevidade no cargo, nós ficamos muitos anos. Eu fiquei 7 anos. O Gil deve ter ficado uns 6 anos. E apoio irrestrito e a confiança irrestrita do governador. Eu despachava com o governador, eu me lembro disso (Afonso Celso Raso, 2018). Uma das indagações que foi apresentada aos depoentes foi se tinham conhecimento sobre os procedimentos iniciais para que o Mineirinho fosse efetivamente construído. Entre os dois depoentes que relataram algum conhecimento a respeito dessa fase, Ricardo Raso, que foi estagiário na obra e que acompanhou a fase final, apresentou informações a respeito das etapas pelas quais o projeto passou, da interrupção que teve e da inauguração, em 1980: Ah, é! Nós estamos falando é, a história que eu aprendi, quer dizer, o de costume era o seguinte: se esperava que é, o Mineirinho, gestado em 1970, final dos anos 1960 e 1970. É, iniciou a sua construção, paralisou-se por anos, retornou a construção e inaugurou em 1980 (Ricardo Raso, 2018). 68 Montenegro (1993) indica que, no transcorrer da entrevista, há a possibilidade de que o depoente nada acrescente ao já conhecido, sendo esse um dos descaminhos da história oral. 91 Outros três depoentes afirmaram que não tinham conhecimento a esse respeito. Richard Lima, um dos arquitetos que foi responsável pela realização e pelo acompanhamento da execução do projeto, nos relatou que: Quando eu entrei era só para fazer o projeto. E quando já estava fazendo o projeto do Mineirinho, eu fiz também o projeto do Ginásio e da pista de atletismo do Círculo Militar. Daquela, onde tem aquela escola na Pampulha? Como chama? [...] Colégio Militar. [...] Eu fiz o ginásio de lá, estou lembrando agora, viu? (risos) (Richard Lima, 2018). Um dos grandes desafios enfrentados na pesquisa foi a elucidação dos procedimentos iniciais para a construção do Palácio dos Esportes. As falas dos depoentes nos auxiliaram a localizar outros aspectos, como o cotidiano da obra, em especial após o ano de 1976, quando a construção que se encontrava suspensa foi retomada, e os desdobramentos até que a obra finalizasse e o Ginásio fosse inaugurado. Mas, em relação aos aspectos que permearam os primórdios do Palácio dos Esportes, os relatos de memória foram pouco elucidativos. Contudo, a interlocução com outras fontes foi nos direcionando para o esclarecimento dessa indagação. Assim, ao analisarmos a publicação que foi produzida pela ADEMG, denominada Mineirinho Vitória do Otimismo, observamos que só houve menção de que a gênese do Mineirinho guardaria relação com a Lei 1947, de 13 de agosto de 1959, e com o convênio que foi firmado em 25 de fevereiro de 1960. Esse convênio, que tratava do comodato entre a UFMG e o Governo de Minas Gerais para a construção de um estádio, explicitava a construção de instalações para a prática de esportes especializados. O convênio mencionou, inclusive, a organização de um calendário para que o ginásio fosse utilizado por estudantes. Um aspecto que nos chamou à atenção nesse convênio foi que nele estava presente o termo esporte especializado. Ao analisarmos os documentos pesquisados, observamos que esse termo estava presente em diferentes fontes que foram utilizadas. Isso nos deu evidências da relação entre a construção do Palácio dos Esportes e o esporte especializado, aspecto que é abordado aqui neste texto, mais adiante. Uma vez explicitados os primórdios da existência do Palácio dos Esportes, no campo das intenções, das leis e das negociações políticas, seguimos em busca das respostas para as indagações relativas aos procedimentos que foram tomados e que favoreceram a transferência de seus projetos, saindo das plantas baixas, dos planos de construção, e se edificando no espaço, no concreto. 92 3.2 Dos planos à definição do local: processos que confluíram para o CEU abrir passagem para o Palácio Ao analisar os relatos dos depoentes almejando conhecer a trajetória pessoal e a relação deles com o Mineirinho e com o começo de sua construção, constatamos que suas memórias sobre o Mineirinho remontam mais aos anos 1970. Dos cinco entrevistados, dois deles chegaram para atuar profissionalmente na construção já próximo à fase de inauguração, sendo eles: Ricardo Raso, que atuou como estagiário de engenharia, próximo da fase final da obra, e Celso Lacerda, que, recém-chegado do interior, trabalhou como pedreiro nos últimos anos da obra: [...] eu vim para Belo Horizonte e fichei aqui na ADEMG, em 24 de janeiro de 1979. Eu comecei trabalhando lá no Mineirão. Aí mais ou menos uns 60 dias que eu estava trabalhando lá, o engenheiro Paulo, me viu trabalhando lá no Mineirinho, fichei no Mineirão. Ele me viu trabalhando lá, gostou do meu trabalho e conversou com o meu chefe no Mineirão, [...] Aí eu desci para cá. E a gente começou trabalhando, fazendo uns termos de assentamento de azulejo, no banheiro, é portão e continuou. Aí eu fiquei aqui até a inauguração do Mineirinho. (Celso Lacerda, 2018) [...] a minha trajetória profissional deve muito a obra do Mineirinho. [...] Eu ingressei no curso de Engenharia Civil, em 1979, e comecei o estágio de Engenharia Civil na obra do Mineirinho até a sua inauguração. E, posteriormente, o meu início de vida profissional, inclusive como engenheiro, foi na equipe de manutenção do Mineirinho e do Mineirão, já que eram administrados pela mesma autarquia, né? (Ricardo Raso, 2018) Entre os depoentes que nos relataram suas memórias, o que evidenciou ter mais tempo de aproximação com a ADEMG foi José França. Conforme observamos em seu depoimento, ficou evidente, inclusive, que ele foi uma das pessoas que participou da construção do Mineirão: Estou aqui no Mineirão desde 9 de março de 61. E participei ativamente da construção desse gigante e, fui, eu posso falar a trajetória toda, né? [...] Eu participei ativamente da construção e fui o chefe do escritório de obras. É, como digo, cheguei em 9 de março de 1961. Só estava na terraplanagem, a fundação e a terraplanagem do campo (COSTA, 2018b). 93 Além de participar da construção do Mineirão, José França também esteve vinculado à autarquia que foi a responsável pela construção e a gestão do Mineirinho, a ADEMG, desde a sua criação até a sua extinção, em 201369. Afonso Celso Raso também esteve vinculado à ADEMG. Ele assumiu a diretoria- geral em 1975, na gestão do governador Aureliano Chaves e permaneceu nessa função até o ano de 1982: [...] E fui presidente da Associação Mineira de Cronistas Esportivos. Quando na década de 1970, eu era presidente da MCE, e a obra do Mineirinho havia começado. Ela começou em 1973. E teve uma paralisação em 1975. E a crônica esportiva lamentava muito isso e se uniu, numa grande promoção para que a obra fosse reiniciada. E já assumindo o governador Aureliano Chaves, ele realmente deu à MCE a oportunidade de indicar nomes que poderiam assumir a ADEMG (Afonso Celso Raso, 2018). Conforme observamos no relato de Afonso Celso Raso, a Associação de Cronistas Esportivos teve a possibilidade de indicar nomes para assumir a ADEMG, sendo ele o escolhido pelo governador para assumir a sua direção. Outro depoente que também atuou na ADEMG foi Richard Lima, o arquiteto que teve o seu primeiro vínculo com essa autarquia quando participou da construção do CEU: É porque eu comecei mais no Mineirão, foi justamente, foi no CEU. Tanto é que portaria do CEU, projeto meu, tem minha placa lá, direitinho. E a pista de atletismo também é projeto meu. Porque quando eu era jovem era atleta de atletismo: saltava, corria, pulava (Richard Lima, 2018). A fala do arquiteto Richard Lima evidenciou a relação da ADEMG com a construção do CEU. Ao analisarmos os documentos, constatamos que a construção do Centro Esportivo Universitário estava diretamente relacionada à construção do Palácio dos Esportes. A Resolução N° 959 foi esclarecedora nesse sentido. No dia 01 de dezembro de 1970, foi publicada a Resolução N° 959, que aprovou o convênio, realizado em 26 de fevereiro de 1970, entre a Autarquia Estádio Minas Gerais e a Universidade Federal de Minas Gerais, que tinha como objetivo a construção do conjunto esportivo externo do Estádio Governador Magalhães Pinto: Aos 26 dias do mês de fevereiro de mil novecentos e setenta (1970) no Gabinete do Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de Minas Gerais, Doutor Israel Pinheiro da Silva, que aprova e assina este ato, aí presentes, por um lado, o Reitor 69 Conforme consta na Lei Nº 21.083, de 27/12/2013, que “[e]xtingue a Autarquia Administração de Estádio Minas Gerais – ADEMG – dá outras providências.” 94 Marcello de Vasconcellos Coelho, representando a Universidade Federal de Minas Gerais, e por outro lado, o Exmo. Sr. Aurélio Costa Netto, representando o Conselho de Administração do Estádio “Minas Gerais” e Sr. Engenheiro Francisco Abel Magalhães Ferreira, representando a Autarquia Estádio “Minas Gerais”, foram convencionadas as condições de interesse mútuo para a construção do conjunto esportivo externo do Estádio “Governador Magalhães Pinto”, a que se referem o Convênio celebrado entre o Ministério da Educação e Cultura e o Estado de Minas Gerais em vinte e cinco (25) de fevereiro de mil novecentos e sessenta (1960) e as leis estaduais números mil novecentos e quarenta e sete (1947) de doze (12) de agosto de mil novecentos e cinqüenta e nove (1959) dois mil seiscentos e quarenta e cinco (2.645), de vinte e sete (27) de novembro de mil novecentos e sessenta e dois (1962), três mil cento e cinqüenta (3.150), de dois (2) de julho de mil novecentos e sessenta e quatro (1964), três mil quatrocentos e dez (3.410), de oito (8) de julho de mil novecentos e sessenta e cinco (1965), e quatro mil e setenta e dois (4.072), de onze (11) de janeiro de mil novecentos e sessenta e seis (1966), ajustadas as cláusulas seguintes, obrigatórias a contar da homologação deste termo (MINAS GERAIS, 1970)70. Nesse trecho, extraído da Resolução n° 959, podemos observar uma série de eventos e legislações que desencadearam a construção do conjunto esportivo externo (que impulsionou, primeiramente, a construção do Centro Esportivo Universitário e, na sequência, a construção do Palácio dos Esportes). Alguns aspectos que ilustram os trâmites, políticos e legisladores, relacionados a estes dois espaços de esporte e lazer estão expostos. No âmbito político, a relação era de ordem intergovernamental, via governo federal, representado pelo Ministério da Educação e Cultura, e o governo estadual, representado pela Autarquia Estádio Minas Gerais, contando também com a presença do Conselho de Administração do Estádio Minas Gerais; além disso, havia a mobilização de setores diferenciados da política pública, educação e cultura, por um lado, e, esporte e lazer, por outro. No âmbito das leis, percebemos um volume significativo que foi publicado e que estava mencionado na Resolução. Organizamos o quadro a seguir, com informações baseadas na cópia original das leis mencionadas, a fim de facilitar a visualização e apresentar uma breve descrição delas para situá-las no contexto do Mineirinho. O item 6 do quadro não consta no trecho destacado, mas compõe a Resolução; dado isso, consideramos que seria interessante acrescentá-lo: 70 Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2017. 95 Figura 23 – Quadro das legislações em relação ao CEU e ao Mineirinho As legislações, o CEU e o Mineirinho LEGISLAÇÃO DESCRIÇÃO 1 LEI 1.947, de 12 de agosto 1959 Dispõe sobre a construção de um Estádio em Belo Horizonte, para a prática do futebol e atletismo, e contém outras providências.71 2 LEI 2.645, 27 de novembro 1962 Dispõe sobre a extração do plano especial pela Loteria do Estado de Minas Gerais.72 3 LEI 3.150, de 2 de julho de 1964 Modifica o artigo 2º da Lei n. 2.645, de 27 de novembro de 1962, que dispõe sobre a extração do Plano Especial da Loteria do Estado e dá outras providências.73 4 LEI 3.410, de 8 de julho de 1965 Autoriza aquisição de imóvel destinado à Imprensa Oficial e cria a Autarquia Estádio Minas Gerais.74 5 LEI 4.072, de 11 de janeiro de 1966 Dá a denominação de “Estádio Governador Magalhães Pinto” ao atual Estádio Minas Gerais.75 6 LEI 4895, DE 29/08/1968 Dispõe sobre a Loteria do Estado de Minas Gerais e dá outras providências.76 Fonte: Formulação própria, com base na legislação citada na Resolução n° 959/1970. Na redação do contrato, consta que a dotação orçamentária viria da Loteria do Estado de Minas Gerais e de outras dotações orçamentárias que fossem destinadas para a obra (municipais, estaduais, federais). Ao analisarmos as fontes, constatamos que os recursos oriundos da Loteria do Estado tiveram contribuição significativa para a construção do CEU, do Mineirão e do Mineirinho. Entre as 10 cláusulas redigidas no documento, a primeira já menciona que o conjunto esportivo externo do Estádio Minas Gerais [...] será constituído de instalações de educação física e esportes da Universidade Federal de Minas Gerais, de acordo com o projeto a ser aprovado pela referida Universidade, e de um ginásio coberto. Observamos aqui a relação com o convênio firmado anos antes, em 1960, quando foram definidos os termos para a construção do Estádio Minas Gerais e as demais providências a respeito. O ginásio coberto, que há vários anos era mencionado em 71 Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2017. 72 Disponível: . Acesso em: 29 set. 2017. 73 Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2017. 74 Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2017. 75 Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2017. 76 Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2017. 96 documentos, estaria agora se encaminhando, para despontar ao lado do Mineirão e do CEU como Palácio dos Esportes. A cláusula segunda apresenta a localização prevista para o conjunto esportivo externo, indicando que seria em terreno da Universidade Federal de Minas Gerais, na Cidade Universitária Pampulha, próximo ao Estádio Governador Magalhães Pinto. Nessa cláusula consta, ainda, que seriam construídas instalações direcionadas para a educação física77 e esportes, realizadas pela Autarquia Estádio Minas Gerais, fiscalizadas conjuntamente pela universidade e pela autarquia. Nos parece que o foco nas instalações direcionadas para a educação física seria uma evidência da consonância, não só das distintas gestões, mas também, de pistas sobre a importância que a educação física, o esporte e o lazer tiveram tanto para o governo federal quanto para o governo estadual. A Educação Física teve a sua importância afirmada pelo Estado em governos anteriores. No âmbito nacional, durante o governo de Getúlio Vargas, a Reforma Francisco Campos, em 1931, foi base para o sistema nacional de educação. Em 1937, foi criada a Divisão de Educação Física, que, vinculada ao Ministério de Educação e Saúde Pública, atuou nas definições acertadas em nível federal sobre a Educação Física, fazendo uso dela para a disciplina da sociedade (RODRIGUES et al., 2014). A partir da ditadura militar implantada em 1964, aconteceram outros projetos e usos da Educação Física, enquanto disciplina escolar, e do esporte e do lazer, enquanto práticas sociais. O esporte teve, entre os seus objetivos, a oferta de atividades para a ocupação do tempo de não trabalho, disciplinando os corpos para as exigências da produtividade; além da representatividade que reforçaria o espírito nacionalista, conseguido por meio dos “talentos” esportivos e de suas conquistas (VERONEZ, 2005; LINHALES, 1996; RODRIGUES, 1996; COSTA, 1987). Nesse período, os governos estaduais guardavam relações próximas ao governo federal, e as decisões políticas eram centralizadas. Desse modo, uma vez definidos os trâmites que impulsionariam a construção do centro esportivo externo, como seria posteriormente a sua efetivação? A seguir, apresentaremos os processos que culminariam com a construção do Palácio dos Esportes. 77 A educação física escrita com a iniciais em minúsculo na Resolução nos remete à constatação de que, possivelmente, estivesse mencionando as práticas voltadas para a educação do corpo, e não para a sua dimensão de disciplina escolar. 97 3.3 O centro esportivo externo: surge uma nova paisagem na Pampulha A construção do conjunto esportivo externo do Estádio Governador Magalhães Pinto seria a impulsão para a retomada das relações entre o governo estadual e a UFMG, que demarcariam mais uma vez a paisagem próxima ao Mineirão e à universidade. Isso porque surgiriam dois novos equipamentos de esporte e de lazer, reconfigurando aquela parcela da Pampulha. Como transcorreria então essa fase, que denominaremos de final da pré- construção, e que viria imediatamente antes de, efetivamente, iniciarem-se os procedimentos das obras do Mineirinho? Para nos auxiliar a responder a essa indagação, remeteremos nossas atenções à Resolução n° 959, de 01/12/1970. Homologada por Homero Santos, então presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), essa resolução regulamentou o convênio celebrado em 26 de fevereiro de 1970 entre a Autarquia Estádio Minas Gerais e a Universidade Federal de Minas Gerais. Os signatários e representantes das entidades e órgãos representados foram: Francisco Abel Magalhães, diretor da Autarquia Estádio Minas Gerais, Marcello de Vasconcellos Coelho, reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, e Aurélio Costa Neto, representando o presidente do Conselho de Administração do Estádio Minas Gerais, Camil Caram. Entre as 10 cláusulas da Resolução, destacamos aqui as que mencionaram a construção do ginásio coberto ou que indicaram relação direta com ele, sendo elas: a Primeira (menciona a construção de um ginásio coberto para a composição do conjunto esportivo externo); a Quarta (evidencia que a construção desse ginásio coberto teria início somente depois de finalizadas as instalações de educação física e esportes da Universidade Federal de Minas Gerais – o local denominado atualmente como Centro Esportivo Universitário); a Oitava (estabelecendo a paridade entre a Autarquia Estádio Minas Gerais e a Universidade Federal de Minas Gerais para a administração do ginásio coberto; além de que, em virtude do elevado custo e da amplitude das finalidades e da destinação do ginásio coberto, a sua utilização seria devidamente analisada e regulamenta, posteriormente); já a Nona e a Décima explicitam, entre outras providências, a liberação total para uso pela Autarquia Estádio Minas Gerais, sob comodato, da área onde foi construído o Estádio Governador Magalhães Pinto: NONA – A área de terreno localizada em anexo à Cidade Universitária, nesta Capital, onde se erigiu o Estádio Governador Magalhães Pinto, delimitada por quatro avenidas abertas e asfaltadas, conforme planta anexa, devidamente rubricada 98 pelos signatários deste, fica totalmente liberada pela Universidade Federal de Minas Gerais ao uso da Autarquia Estádio Minas Gerais sob a forma de comodato. Terminadas as obras de construção do conjunto esportivo externo objeto do presente convênio, a Universidade Federal de Minas Gerais e a Autarquia Estádio Minas Gerais tomarão providências para a doação imediata e em definitivo, pela Universidade Federal de Minas Gerais, conjuntamente com o Governo da União, de terreno em que se erigiu o Estádio Governador Magalhães Pinto à Autarquia Estádio “Minas Gerais”, concomitantemente com a incorporação ao patrimônio da Universidade Federal de Minas Gerais do conjunto esportivo construído, sendo que o Ginásio continuará sob a administração comum, salvo entendimentos que sobrevenham a respeito do mesmo. DÉCIMA – A eventual paralisação das obras do conjunto esportivo externo, por período superior a um ano, além da programação previamente aprovada, facultará à Universidade Federal de Minas Gerais denunciar o presente acordo, independentemente de qualquer indenização (MINAS GERAIS, 1970). É possível observar, na Cláusula Nona, que havia a previsão da doação do terreno em que o Estádio Minas Gerais foi construído, sendo explicitado, também, o interesse da universidade em administrar o ginásio conjuntamente com a autarquia. Para nós, esse seria um indício de que a UFMG partilhava da intenção da construção e da utilização do ginásio. As fontes nos auxiliaram a entender mais esse aspecto. Ao ser indagado sobre a possibilidade de relação entre o Mineirinho e o Mineirão, no contexto inicial da existência deles, Ricardo Raso nos relatou que [...] mais interessante nessa história é que tem uma origem em comum, que é num sentimento que maturou dentro da Universidade Federal [...] A universidade, a questão original do terreno [...] é, burocrático [...] Os prédios estão aí. Eles não existem legalmente. [...] É, e a UFMG sempre foi o irmão mais velho, é, oculto nessa história. [...] Ela é que desvirtuou um pouco, ou melhor, é, teoricamente, eram equipamentos da Escola de Educação Física também. Como o CEU era pra ser, mas a Escola de Educação Física preferiu construir o CEU pra ela. Entendeu? O nascimento do Mineirão como estádio universitário, com pista de atletismo e tal, o do CEU, o do Mineirinho é tudo complementar. Houve uma época, principalmente década, início da década de 1980 e tal, que se apresentava a Pampulha, no meio esportivo, como a enseada de Sydney, onde teve uma Olimpíada. Tem lugar mais vocacionado para uma Olimpíada, do que esse espaço aqui? Mineirão, CEU, Mineirinho, Lagoa, hípica. Ou seja, você tem uma Olimpíada aqui (Ricardo Raso, 2018). Ricardo Raso, além de ter participado da construção do Mineirinho, já na etapa final da construção do ginásio, na função de estagiário de Engenharia Civil (curso que realizou na UFMG), ocupou cargos vinculados à gestão de esporte e de lazer do Governo de Minas Gerais em anos mais recentes: foi diretor da ADEMG e superintendente da Superintendência de Gestão de Estruturas Esportivas da SEESP/MG. Alguns aspectos a respeito dos trâmites administrativos e políticos envolvendo a construção do Mineirinho (do CEU e do Mineirão) podem ser identificados em seu depoimento: as relações 99 intergovernamentais, a burocracia e a presença do Mineirinho, do Mineirão e do CEU na Pampulha, além da menção à relação entre a Escola de Educação Física e o CEU. Considerando a dimensão formativa propiciada pelo curso de Educação Física, avaliamos ser plausível que a aproximação entre a Escola de Educação Física e o CEU seria impulsionada pela necessidade de espaço para a realização de atividades pedagógicas vinculadas às disciplinas do curso. Uma vez construído, o equipamento poderia atender a tais demandas. É interessante mencionar que a existência da Escola de Educação Física da UFMG guarda estreita relação com a DEMG. Rodrigues e Costa (2014) nos apresentam como transcorreu essa trajetória inicial, demonstrando que a Escola de Educação Física do Estado, criada na década de 1950, pode ser considerada como uma das principais realizações da Diretoria de Esportes de Minas Gerais, e uma das mais expressivas de Juscelino Kubitschek, então governador de Minas. A política de difusão cultural, vista como importante para o aprimoramento intelectual e moral da população, foi incentivada no governo de Juscelino, tendo na Escola de Educação Física do Estado a expectativa de uma importante contribuição para a formação de quadros técnicos que contribuiriam para a disseminação da prática de hábitos eugênicos e da educação integral da juventude. Essa escola começou a funcionar em 1952, o mesmo ano de criação da Escola de Educação Física das Faculdades Católicas de Minas Gerais. Com a criação da Escola de Educação Física do Estado, Minas Gerais ganhou um estabelecimento de ensino especializado que realizava cursos de medicina especializada, de técnica desportiva, de educação física infantil, de massagem especializada e superior de educação física. Suas aulas eram realizadas na sede do Minas Tênis Clube e do Departamento de Instrução da Polícia Militar, onde se achava em conclusão uma pista de atletismo [...] (RODRIGUES; COSTA, 2014, p. 58). Segundo Campos (2007), devido a problemas financeiros, baixa inscrição de alunos nos vestibulares e desavenças internas, em novembro de 1953, foi deliberada a realização da fusão das duas escolas, resultando na criação da Escola de Educação Física de Minas Gerais. A administração da escola era mista, uma vez que a sua orientação pedagógica estava vinculada ao Conselho Diretor da Sociedade Mineira de Cultura (que foi agregada oficialmente à Universidade Católica de Minas Gerais em 1958), e que era mantida com recursos da Diretoria de Esportes de Minas Gerais. A sua federalização ocorreria anos depois, já no contexto político da ditadura militar. Além da federalização da Escola de Educação Física de Minas Gerais, também foram federalizadas a Escola de Serviço Social de Natal, 100 agregada à Universidade Federal de Natal, e a Escola Superior de Educação Física de Porto Alegre, vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Esse acontecimento se deu, oficialmente, em 21 de novembro de 1969, por meio do Decreto-Lei nº 997, a Escola de Educação Física de Minas Gerais é agregada à Universidade Federal de Minas Gerais. [...] Este fato corrobora o interesse que o Governo Federal tinha no fortalecimento da área, a partir da sua inserção efetiva no meio universitário. (CAMPOS, 2007, p. 138-139). Ainda segundo esse autor, foram propostas uma série de iniciativas pelo Governo Federal que teriam como intenção o controle dos estudantes, estando, entre elas, a obrigatoriedade da Educação Física nos cursos superiores e a Reforma Universitária (que seria bem diferente da proposta anteriormente no governo de João Goulart, junto às reformas de base78 – defendidas por uma parcela da população brasileira, incluindo estudantes). Considerando o esporte em meio às medidas estatais, no período da ditadura, percebemos que ele [...] teve um papel preponderante no redirecionamento do tempo e da energia dos estudantes. Ao invés de lutarem contra o Governo, melhor seria lutar por títulos para sua escola, para sua universidade, para seu país. Foram incentivados os Jogos Escolares Brasileiros (JEBs) e os Jogos Universitários Brasileiros (JUBs). Com isto, o papel da Educação Física no controle das atividades dos estudantes se tornou central (CAMPOS, 2007, p. 137). Desse modo, é possível identificar que a construção desse conjunto esportivo externo, e em especial do Centro Esportivo Universitário, atenderia, em um primeiro momento, às necessidades da Escola de Educação Física da UFMG (se considerarmos os argumentos apresentados anteriormente, em relação à possibilidade de utilização do espaço para a formação discente do quadro de estudantes vinculados ao curso de Educação Física). No entanto, a construção impactaria também na demanda que foi posta para os demais cursos, em virtude da obrigatoriedade recém determinada de aulas de Educação Física para os estudantes vinculados ao Ensino Superior. Assim, caberia à universidade se estruturar para colocar em prática essa possibilidade. Portanto, do nosso ponto de vista, compreendemos que seria oportuna a celebração do contrato envolvendo a UFMG e a ADEMG que ocorreu em fevereiro de 1970, e que foi oficializado pela Resolução n° 959/70. 78 Compreendidas enquanto um conjunto de iniciativas envolvendo as reformas bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. Disponível em: . Acesso em: 25 maio 2019. 101 E quanto à ADEMG, quais seriam as motivações que impulsionaram o Governo de Minas a pactuar a construção de obra tão complexa e dispendiosa? Uma perspectiva inicial é a de que, ao assinar o convênio em 1960, ficou firmado o compromisso de encaminhar pontos do acordo que se encontravam em aberto, conforme podemos observar na Cláusula Nona do convênio citado: O projeto do Estádio deverá compreender, além das instalações para a prática do futebol, também as que se destinam à prática de esportes especializados, bem como acomodações para embaixadas de desportistas (Convênio que define as condições de interesse ... 25/02/1960). Outro aspecto que inferimos é que, uma vez que o Estádio Minas Gerais já estava construído, seria de interesse do Governo do Estado encaminhar os procedimentos relativos à posse definitiva do terreno em que ele se encontrava, pois, no convênio assinado em 1960, a liberação da área para a construção tinha ocorrido sob comodato. Desse modo, nos parece que dar prosseguimento aos trâmites previstos no Convênio de 1960 seria também uma possibilidade para tentar encaminhar a posse em definitivo do terreno. Fato é que, na Resolução 959/70, encontramos a descrição do que viria a ser o conjunto esportivo externo ao Estádio Minas Gerais, evidenciando a empreitada que estaria sob a responsabilidade do Governo de Minas Gerais: CONJUNTO ESPORTIVO EXTERNO DO ESTÁDIO MINAS GERAIS79 Considerações Gerais: - O Conjunto Esportivo Externo do Estádio Minas Gerais virá preencher uma lacuna há muito existente no desporto amador e universitário em Belo Horizonte. Este parque esportivo será o que de melhor e mais moderno existe em matéria de canchas esportivas, proporcionando a quem se dedica aos esportes, condições de aprimoramento de técnica e servir de incentivo àqueles que porventura queiram se dedicar. A prática esportiva sempre representou papel relevante na formação dos jovens sendo agora esta prática obrigatória por lei para os universitários. O Conjunto esportivo virá integrar à Universidade o esporte em todas as suas modalidades. Composição: - Integram o conjunto esportivo 3 campos de futebol com arquibancadas e respectivos vestiários pista de atletismo completa, 7 quadras de basquete e futebol de salão, 6 quadras de vôlei e peteca com vestiários e arquibancadas, 3 piscinas sendo: 1 para saltos e polo aquático, 1 piscina olímpica e 1 piscina para aprendizagem com vestiários e arquibancadas; 1 ginásio coberto. Situação: - Localizado nos terrenos da Universidade junto ao Estádio Minas Gerais, ao qual se acha integrado situa-se entre a Avenida do Estádio e a Estrada do Engenho Nogueira de um lado, e com a Avenida Catalão e a Lagoa da Pampulha do outro. 79 Informações extraídas da Resolução n° 959/1970, já mencionada no texto. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2018. 102 O terreno apresentava um grande declive sendo necessária para a implantação do conjunto um grande movimento de terra, que veio possibilitar distribuir os diversos campos em planos diferentes e específicos para cada modalidade de esporte permitindo-se assim que diversas disputas sejam realizadas simultaneamente sem que haja interferência com qualquer das especialidades. Orientação: - Obedeceu o eixo longitudinal norte-sul considerado ideal para os campos de futebol. A forma: - Blocos de concreto assemelhando-se a um tronco de pirâmide de base regular. Houve uma perfeita integração de massas entre os blocos de concreto aparente dos vestiários e o Estádio Minas Gerais pois estando situado próximo deste haveria necessidade de uma harmonização de linhas a fim de não ferir a estética do Conjunto. Unidade de esportes terrestres Futebol e atletismo: - Compreende 3 campos de futebol, pista de atletismo completa, vestiários e arquibancadas. Os campos de futebol serão gramados com a “paspatum notatum” a mesma do Estádio Minas Gerais e terão dimensões de 110x75 metros. Pista de atletismo será completa e integrada a um dos campos de futebol. Constará de: pista para corrida de 400 metros, pista para salto em distância e tríplice, pista para salto em altura, saltos com vara, lançamento de peso, lançamento de dardo, lançamento de disco e lançamento de martelo. Vestiários - Os vestiários para futebol e atletismo serão em número de dois sendo que um deles atenderá a um dos campos de futebol e atletismo e o outro aos dois campos de futebol. A área dos vestiários será de 300 m² e terá capacidade para utilização simultânea para 32 pessoas. Consta de 32 boxes individuais para troca de uniformes, com armários e duchas, uma rouparia, instalações sanitárias e local para massagens e exames médicos. Os vestiários serão em concreto aparente internamente receberão revestimento em Paviflex e o piso de material antiderrapante de borracha. A iluminação natural será zenital e através de 4 aberturas localizadas nas paredes externas. A ventilação natural será contínua através de coberturas inferiores e superiores proporcionando renovação constante de ar interior. Abastecimento de água aos vestiários far-se-á por intermédio de gravidade através de reservatórios localizados nos taludes. Cobertura será também em concreto aparente que receberá tratamento com impermeabilizante - tendo uma pequena inclinação da ordem de 3% de maneira a permitir que as águas pluviais convirjam para as gárgulas localizadas nas fachadas posterior e anterior e coletadas por meio de espelhos de água. Dois conjuntos de arquibancadas atenderão aos dois setores de futebol e atletismo: serão em concreto armado e apoiados nos taludes com capacidade para 5.000 pessoas cada uma. Quadras de futebol de salão e Basquete Serão em número de 7 (sete) com dimensões de 32x19 metros, terão piso em placas de concreto armado e revestido com material plástico resistente ao tempo; arcos em concreto aparente. Quadras de Voleibol e Peteca Terão piso em placas de concreto armado e revestidos com material plástico resistente ao tempo. Dimensões 25x16 metros. Todos os campos serão isolados por grades e circundados por áreas gramadas e arborizadas e interligados por circulação pavimentada. Vestiários 4 vestiários atenderão aos setores de basquete e futebol de salão e ao vôlei e peteca. Esses vestiários achar-se-ão interligados por uma grande cobertura de concreto sob a qual localizar-se-á o bar-restaurante. Cada vestiário terá uma área de 150 m² e capacidade para delegação de 16 pessoas. Esses vestiários terão áreas de 150 m² cada um. Apresentam a mesma forma e os mesmos materiais do vestiário de futebol. 103 O bar-restaurante localizado sob a laje de concreto armado, interligado aos vestiários, atenderá não só as delegações disputantes como ao público também. Ocupa uma área de 800 m². Quadras de Tênis Serão em número de 4. Terão vestiários masculinos e femininos com área de 150 m² iguais aos vestiários de vôlei e basquete. As quadras de tênis serão drenadas e revestidas de pó de tijolo. Arquibancadas de concreto armado localizadas nos taludes. Dimensões da quadra 37x23 metros. Unidade Aquática Compreende 3 piscinas sendo: piscina olímpica dimensões 50x25 e profundidade de 1,80m. Será em concreto armado revestido com azulejos brancos. Será provida de refletores para iluminação aérea e submersa nas competições noturnas. Piscina de aprendizagem dimensões de 25x14 e profundidade máxima de 150 será em concreto armado revestida em azulejos brancos com janelas de observação acima e abaixo do nível d’água. Piscina de saltos e water polo dimensões 33x25 e profundidade máxima de 4,50. A unidade aquática terá arquibancadas em concreto armado localizados nos taludes; casa de máquinas para tratamento das piscinas em 10 horas. Vestiários masculino e feminino com área de 300 m² e capacidade para 32 pessoas. Belo Horizonte, janeiro de 1970 (a.) Francisco Abel Magalhães Ferreira - Estádio Minas Gerais. Confere. (a.) Ilegível. RELAÇÃO DAS OBRAS DO CONJUNTO ESPORTIVO EXTERNO A - Serviços Gerais A - 01 - Terraplenagem A - 02 - Taludes gramados A - 03 - Águas pluviais A - 04 - Esgotos B - Plano dos Campos de Futebol B - 01 - Campo com pista B - 02 - Pista de atletismo B - 03 - 2 campos sem pista B - 04 - 2 vestiários para futebol B - 05 - Arquibancadas B - 06 - Escadas de acesso B - 07 - Urbanização C - Plano das Quadras C - 01 - 7 quadras de basquete e futebol de salão C - 02 - 6 quadras de vôlei e peteca C - 03 - 4 vestiários C - 04 - Bar e restaurante C - 05 - Arquibancadas das quadras de basquete C - 06 - Arquibancadas das quadras de vôlei C - 07 - Escadas de acesso C - 08 - Urbanização D - Plano das Quadras de Tênis D - 01 - 4 quadras de tênis D - 02 - Vestiário D - 03 - Arquibancada D - 04 - Escadas de acesso D - 05 - Urbanização E - Plano das Piscinas E - 01 - Piscina olímpica E - 02 - Piscina de saltos E - 03 - Piscina de aprendizagem E - 04 - Vestiário E - 05 - Arquibancada E - 06 - Escadas de Acesso E - 07 - Urbanização F - Resumo Final 104 F - 01 - Serviços Gerais F - 02 - Plano dos campos de futebol F - 03 - Plano das quadras de basquete e etc. F - 04 - Plano das quadras de tênis F - 05 - Plano das piscinas. Belo Horizonte, janeiro de 1970. (a.) Francisco Abel Magalhães Ferreira - Diretor do Estádio Minas Gerais. (a.) Marcello de Vasconcellos Coelho - Reitor da U.F.M.G (MINAS GERAIS, 1970). Um aspecto que se destacou, em um primeiro momento, foi o volume de intervenções que deveriam ser realizadas no espaço: terraplanagem, águas pluviais, esgotos e urbanização. Somado a essas ações, haveria ainda um grande volume de estruturas voltadas para a prática esportiva (por exemplo, as quadras esportivas) ou a ela relacionadas (vestiários), bem como outros espaços (o bar e as escadas de acesso). Outro ponto que despertou a nossa atenção nesse documento foi constatar que, no primeiro parágrafo, nas Considerações Gerais, foi dada ênfase ao desporto amador e ao universitário, estando descrito nesse trecho que o conjunto esportivo externo preencheria uma lacuna existente em relação a essas duas categorias (destacadas e apresentadas enquanto práticas esportivas, de modo distinto). Conforme mencionamos anteriormente, o esporte especializado, relacionado ao esporte amador, foi presença constante nas fontes. Devido à essa presença recorrente e à pouca precisão do que seria o esporte especializado (e, se no contexto do presente estudo, estaria de fato relacionado ao esporte amador), fizemos uma investigação almejando melhor compreender significados para esse termo, que apresentamos neste capítulo, um pouco mais à frente. Observamos que, nessa descrição do conjunto esportivo externo, o Palácio dos Esportes ainda não figurava nos planos descritos na Resolução 959/70. Contudo, na Cláusula Quarta da normativa em questão, temos a evidência de que a construção do Ginásio teria início somente depois de finalizadas as instalações de Educação Física e esportes da Universidade Federal de Minas Gerais (o CEU). Desse modo, os procedimentos relativos à construção do ginásio ficariam postergados, dependendo da efetivação da construção do centro esportivo. José França, que trabalhou na construção do Mineirão e na época estava vinculado à ADEMG, nos relatou alguns processos relativos à construção do Mineirinho, mencionando a participação de um dos engenheiros que compôs o grupo de trabalho durante a construção do conjunto esportivo externo. Ele nos auxilia, também, a ter pistas a respeito do convênio entre a UFMG e a ADEMG: 105 É, 70. [...] Que o projeto saiu, depois parou. [...] Demorou para ser aprovado. É o Richard Lima. (...) muito bom! É, ele participou, Dr. Richard. [...] E, mas ele era do Mineirão também, ele, porque ele era do Mineirão. Porque foi, construiu o CEU para desvincular o Mineirão, o terreno da, universidade. [...] Houve um convênio o Estado e a União, a ADEMG e a Universidade Federal. [...], Mas eu sei que teve uma polêmica lá, que “ah, não, mas não precisa disso! Isso vai ser, vai ser muito ocioso. O esporte, até o esporte especializado é fraco.” Aí “não, mas nós temos que dar força! Se não tiver um palco adequado para, para crescer o esporte especializado, nós não vamos, crescer!” [...], mas, só a parte interna, né? (José França, 2018). Seu depoimento nos indica a existência de possíveis divergências de opinião em relação à construção do ginásio, mas, a esse respeito, não obtivemos outros apontamentos nas fontes acessadas. Em 1970, no governo de Israel Pinheiro80, tanto a ADEMG quanto a DEMG estavam vinculadas ao gabinete do governador. Ainda que a DEMG não estivesse diretamente relacionada com os procedimentos relativos à construção do conjunto esportivo externo (uma vez que esta era uma atribuição da ADEMG), por ser a grande responsável pela gestão das políticas de esporte e de lazer realizadas em Minas Gerais no período, ela contribuiu de modo singular para o desenvolvimento desses campos. Uma das ações realizadas pela Diretoria de Esportes de Minas Gerias foi a reorganização do Conselho Regional de Desportos (CRD), órgão estadual do Conselho Nacional de Desportos (CND) criado pelo Decreto-Lei n° 3.199, de 14 de abril de 1941, que disciplinou as atividades esportivas no Brasil. Essa foi uma ação realizada em colaboração com a política nacional de esportes, que transcorreu de modo continuado ao longo de diferentes gestões da DEMG. Essa legislação previa que, em cada estado ou território, deveria haver um CRD, colaborando, desse modo, com o CND no desenvolvimento das atividades direcionadas para a orientação, a fiscalização e o incentivo à prática do esporte. O esporte foi normatizado, nacionalmente, entre os anos 1940 e 1980, por instrumentos autoritários que produziram uma tutela do esporte, iniciando “pelo Decreto-Lei n. 3.199/1941 e pelas deliberações do CND até 1975. Depois desses anos, pela Lei n. 6.251/1975 e seu Decreto regulador n. 80.228/1977 e pelas continuações das deliberações do CND” (RODRIGUES; COSTA, 2014, p. 59). Desse modo, acreditamos que observar a trajetória da DEMG, nesse contexto que envolveu diferentes agentes da política pública para a efetivar o convênio da construção do 80 Israel Pinheiro, filho de João Pinheiro, ex-Governador de Minas Gerais (que exerceu o governo mineiro entre fevereiro e julho de 1890), antes de assumir o Governo de Minas, exerceu cargos eletivos e também administrativos em diferentes funções públicas. Mais informações sobre a trajetória política de Israel Pinheiro podem ser obtidas em Verbete, no site do CPDOC. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2019. 106 conjunto esportivo esterno, poderia contribuir para nos aproximar das decisões tomadas pelo governo de Israel Pinheiro. Além disso, poderia nos auxiliar a identificar os prováveis motivos que teriam impulsionado a ADEMG a celebrar o convênio com a UFMG, que posteriormente originou o surgimento do Palácio dos Esportes. Assim, ainda segundo as autoras citadas, identificamos que, nessa gestão, [a]lém da recuperação das praças de esportes, [...] dá-se destaque a auxílios para a realização de obras e aquisição de materiais de construção; construção de ginásios, com destaque para o do CPOR, do Sparta e do Mackenzie; aos alojamentos e auxílios, bem como ao patrocínio de campeonatos de diferentes federações. Fazia parte desse rol a realização de cursos e competições esportivas, tais como os Grandes Jogos de BH, Jogos Abertos de Poços de Caldas, Cambuquira e Campanha, Torneio da Primavera, Jogos Universitários de Belo Horizonte e os Jogos Primários de Belo Horizonte, dentre outros (RODRIGUES; COSTA, 2014, p. 85-86). Analisando esse trecho, percebemos dois aspectos que poderiam guardar relação com as prováveis motivações que contribuíram para o surgimento do Palácio dos Esportes. O primeiro, que, em nosso entendimento, estaria muito próximo aos procedimentos relativos ao convênio em questão (envolvendo a UFMG e a ADEMG), seria: a ênfase à uma aparente política direcionada às edificações relativas ao esporte e ao lazer. Dito de modo mais específico, constatamos que houve empenho da parte da Diretoria de Esportes para a edificação ou manutenção de locais para o esporte e o lazer. Fosse executando diretamente ou apoiando as entidades para a execução, nos pareceu que o fomento aos equipamentos esportivos e de lazer foi marca desse período – dando continuidade a tendências de gestões anteriores, em que foram construídas, por exemplo, as Praças de Esportes e o próprio Mineirão. Nesse período, a cidade de Belo Horizonte alargava suas fronteiras com a expansão dos bairros, de novas moradias e da urbanização de áreas ainda inabitadas. Na política pública, o esporte e o lazer também alargavam a sua presença na cidade, com a ampliação dos locais para essas ações. Outro aspecto que despertou nossa atenção foi que, entre as ações realizadas pela Diretoria de Esportes no período próximo ao do Convênio, se encontrava a realização de competições esportivas, entre elas, destacamos os Jogos Universitários de Belo Horizonte e os Jogos Primários de Belo Horizonte. Considerando a denominação dada a esses dois eventos esportivos, constatamos que eram direcionados para o público estudantil, podendo ser uma evidência de que a realização de atividades junto aos estudantes estaria entre os objetivos da DEMG. Para nós, essas ações sinalizam indícios de um possível alinhamento entre a política de esporte e de lazer em Minas Gerais, executada por meio da Diretoria de Esportes de Minas 107 Gerais, e a proposta vinculada naquele momento pelo Governo Federal, sob o comando de Médici (1969-1974). Analisando a Resolução n° 959/70, que fundamentou legalmente o Convênio para a construção do conjunto esportivo externo, identificamos a relevância que foi dada nela, à prática esportiva na formação dos jovens, que, naquele momento, seria uma prática obrigatória por lei para os universitários – aspecto já mencionado aqui em nosso estudo e que guarda relação com o governo anterior, do presidente Costa e Silva (1967-1969). Além disso, encontramos ainda, nesse documento, uma provável justificativa para a construção do Conjunto: o preenchimento de uma lacuna existente no desporto universitário e amador em Belo Horizonte. Entre os depoimentos coletados, localizamos o seguinte relato: Se esperava que o Mineirinho, gestado em 1970, final dos anos 1960 e 1970. É, iniciou a sua construção, paralisou-se por anos, retornou à construção e inaugurou em 80. Mas de obra mesmo na década de 1970 nós tivemos um ano e meio, 2 anos de obra mesmo, estou falando com dois mil operários e tal. Muito tempo, fez a fundação com pouca gente, parou. [...] Mas o ambiente de decisão me parece claro o seguinte: o país tinha a época um esporte nacional que era o futebol. Que se resumia ao eixo Rio-São Paulo. A principal receita desse esporte era a bilheteria, você tinha no Rio de Janeiro o Maracanã, para 200 mil pessoas. E em São Paulo o Morumbi, para cento e tantas mil pessoas, né? E estádios e todo mundo é, o ambiente era de uma ditadura militar, mas de Brasil maior do mundo, ame-o ou deixe-o. É assim que vai ser e tal. E na hora de fazer um ginásio esportivo para Minas Gerais, para Belo Horizonte, vamos fazer o maior ginásio da América Latina! Está dentro do ambiente de decisão. Você tinha a concentração de poder político, ou militar, ou o que fosse, para decidir isso sem consultar as pessoas. Mas era uma obra simpática, por quê? Quando inaugurou o Mineirão em 1965, Minas Gerais passou a ter grandes bilheterias também. Eu tinha um estádio para 130.000 pessoas. Eu já poderia competir com a razão da riqueza do esporte, principalmente carioca e o do São Paulo, que não era grandes coisas, mas é, havia um Rio, um eixo Rio-São Paulo que dominava o esporte nacional. Com o advento do Mineirão, Minas Gerais quebrou esse eixo, passou a ser Minas, Rio e São Paulo (Ricardo Raso, 2018). Entre as informações apresentadas pelo depoente, identificamos a quantidade de trabalhadores que atuaram na obra (sendo relatado dois mil operários), a presença marcante do futebol na sociedade e a concentração de poder. Constatamos, ainda, a presença de aspectos relacionados ao Mineirinho que nos remeteram ao contexto político da época, à ditadura militar, e um significativo investimento do Estado na construção de uma imagem de grandeza do Brasil. Essa construção de um país grande impulsionou a realização de diferentes obras no território brasileiro, que seriam justificadas a partir de diferentes argumentos, tais como a geração de energia para atender à população e a melhoria da rede viária (GIONGO; MENDES; SANTOS, 2015; COSTA; AZEVEDO, 2018). A construção de grandes estádios e de outros equipamentos esportivos também foi uma prática que se viu nesse período. 108 Não era característica desse período a participação da população nas tomadas de decisão no âmbito das ações que seriam executadas pelo Estado, conforme já discorrido. Muito pelo contrário, ao ser baixado o Ato Institucional N° 5, em 13 de dezembro de 1968, o que se viu a partir disso foi: a suspensão dos direitos civis, o fechamento do Congresso, mandatos cassados, direitos políticos suspensos, a intervenção em estados e municípios, a censura prévia à imprensa, entre outras ações antidemocráticas (COUTO, 1999). Assim, não haveria espaço nessas gestões públicas centralizadas e centralizadoras para práticas participativas. Os únicos indícios que identificamos da atuação de atores políticos não vinculados ao poder público, nas tomadas de decisão estatais, em especial nesse contexto da pré-construção do Palácio dos Esportes, foi na representação de entidades junto ao Conselho Administrativo do Estádio (e ao que constatamos, com poder de alcance limitado). Esse conselho representava uma continuidade de governos anteriores, uma vez que a sua criação ocorreu a partir da publicação da Lei nº. 1947/59, que fomentou inicialmente a construção do Estádio Minas Gerias e, nos anos 1970, a construção do conjunto esportivo externo. A respeito dessa participação das entidades junto ao Conselho Administrativo do Estádio Minas Gerais, ao analisarmos as fontes, observamos que a Associação Mineira de Cronistas Esportivos se destacou, em especial, pela presença de filiados a ela em cargos de gestão junto ao Governo de Minas Gerais, como ocorreu com Afonso Celso Raso, membro da AMCE que assumiu a função de diretor da ADEMG em outubro de 1975. Nos parece que, junto ao Conselho Administrativo, houve uma tendência mesclada de acomodação/adesão81 dessa entidade frente às propostas dos governos vigentes. Como a investigação da atuação desse Conselho não foi objetivo de nosso estudo, consideramos que um estudo nesse sentido seria uma contribuição para conhecer melhor a sua participação durante o período de existência da ADEMG. Retomando a indagação a respeito das motivações que impulsionaram o Governo de Minas a pactuar com a UFMG para a construção do conjunto esportivo externo, indicamos que, além de dar prosseguimento ao Convênio firmado em 1960 e da possibilidade que teriam para encaminhar a cessão, em definitivo, do terreno em que o Estádio Minas Gerais se encontrava, haveria também a possibilidade da existência de um alinhamento entre a política do Governo de Minas e a do Governo Federal, em especial no sentido de estimular ações de cunho educacional e de fomento e popularização do esporte e do lazer, sendo assim interesse do Estado a construção do conjunto esportivo externo. 81 Conforme conceito apresentado por Motta (2016) 109 Ao que constatamos nas fontes, após a construção das instalações “de educação física e esportes da Universidade Federal de Minas Gerais” (Resolução n° 959/1970), ou seja, do Centro Esportivo Universitário, estaria dada a largada para o começo das obras de construção de um ginásio coberto! Figura 24 – Construção das instalações de educação física da Universidade Federal de Minas Gerais Fonte: Arquivo do Mineirinho (s/d). Figura 25 – O estádio de futebol recebe um novo vizinho Fonte: Arquivo Mineirinho (s/d). 110 Nas duas figuras anteriores, é possível observar parte da estrutura que integrou a construção do Centro Esportivo Universitário da UFMG. As obras já se encontravam em estágio bem avançado. Na figura 24, temos o vestiário e as quadras esportivas, e na figura 25, a piscina. Ainda que não houvesse data nas fotografias, considerando os indícios, inferimos que fossem de 1971, uma vez que o convênio foi encaminhado em 1970 e, em 1971, ocorreu a inauguração desse centro esportivo. Conforme previa na Resolução nº 959 de 1970, a ADEMG somente poderia encaminhar os procedimentos de construção do ginásio coberto após a finalização das obras do Centro Esportivo Universitário. Assim, encaminhada essa etapa, com a abertura dos portões desse espaço, abriram-se também as possibilidades de iniciar a construção do ginásio. Chegamos, assim, aos processos que levaram à efetivação dos planos do Palácio dos Esportes, à sua construção. 3.4 O Palácio dos Esportes desponta na paisagem da Pampulha: dos planos ao concreto Os primeiros procedimentos para a construção do conjunto esportivo externo haviam sido encaminhados: através do Convênio entre a UFMG e a ADEMG, que foi firmado em 1970 no governo de Israel Pinheiro da Silva, sendo Marcello de Vasconcelos Coelho o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Francisco Abel Magalhães Ferreira o diretor- geral da ADEMG, e Camil Caram o representante do Conselho de Administração. Com a inauguração do Centro Esportivo Universitário em 1971, iniciou-se uma nova etapa do Convênio: a construção do ginásio coberto, o Palácio dos Esportes. As fontes evidenciam que, em meados de 1971, por recomendação do Governador Rondon Pacheco, a ADEMG, por meio de sua equipe, elaborou um anteprojeto de estruturas e de características arquitetônicas e técnicas para a obra. Ainda que já houvesse a perspectiva de construção do ginásio coberto como parte integrante do conjunto esportivo externo ao Estádio, em 1972, a ADEMG examinou e definiu as características de outros terrenos que foram sugeridos, entre eles: o terreno onde se localizava o Estádio Antônio Carlos, do Clube Atlético Mineiro; e dois outros locais de propriedade da Companhia de Desenvolvimento Urbano de Minas Gerais (Codeurb), situados no Bairro Mangabeiras (Mineirinho Vitória do Otimismo, s/d). 111 Afonso Raso, estando na direção-geral da ADEMG a partir de 1975, também participou dos processos relativos à construção do Palácio dos Esportes. Seu relato evidenciou alguns dos procedimentos iniciais que foram tomados para a efetivação da construção do Palácio dos Esportes: É, só rememorando. No governo Israel Pinheiro houve estudo por parte da ADEMG para construir o Mineirinho. E houve a procura do espaço. Onde é que seria? Terreno do Atlético, terreno no Mangabeiras. Terreno na Pampulha, e depois fixou- se ali [Pampulha]. Aí houve o convênio com a Universidade Federal, em que a ADEMG construiria o CEU a troco da utilização do terreno onde se instalaria o Mineirinho. Isso no governo Rondon Pacheco, já foi, houve o início da construção, em 1973 (Afonso Celso Raso). Ainda que não tivesse participado dos primeiros procedimentos relativos à construção do Palácio dos Esportes, que ocorreram no começo dos anos 1970, no depoimento de Afonso Celso Raso tivemos muitos apontamentos a esse respeito. Foi possível identificar que houve uma procura de local para a construção do ginásio e que o convênio com a UFMG foi propulsor para que ele fosse alocado na Pampulha. Foi durante a sua gestão à frente da ADEMG que, em 1977, a construção do Palácio dos Esportes foi retomada. Com o prosseguimento da obra, ele foi inaugurado em 1980. Retornando ao panorama político nacional e estadual, em março de 1971 ocorreu a mudança de governo em Minas Gerais. Rondon Pacheco82, político adepto do regime militar, assumiu o Governo do Estado, substituindo Israel Pinheiro, que esteve no Governo de Minas Gerais entre os anos de 1966 e 1971 e também compôs o bloco político de apoio ao Presidente Castelo Branco (que governou entre abril de 1964 e março de 1967). Essa substituição de governo não significou descontinuidade nos procedimentos iniciados com a assinatura do Convênio realizada em 1970, no governo de Israel Pacheco. Pelo contrário, no governo de Rondon Pacheco, foi encaminhada a assinatura de um novo convênio, que daria início a [u]ma obra que assumiu grande relevo, ‘pelas suas implicações de ordem educacional’ [...]. A ideia da edificação de um ginásio poliesportivo coberto em Belo Horizonte partiu do governo, em meados de 1971, quando foi solicitada à equipe técnica de engenheiros da ADEMG a elaboração de seu anteprojeto, localizando-o às margens da Lagoa da Pampulha, para complementação do Centro Esportivo Universitário. Após a realização de um convenio entre a ADEMG e a UFMG, assinado em 12 de outubro de 1972, iniciaram-se os preparativos para execução da obra [...] (RODRIGUES; COSTA, 2014, p. 91). 82 Mais informações sobre a trajetória política de Rondon Pacheco podem ser obtidas em Verbete, no site do CPDOC. Disponível em: . Acesso em: 30 jun. 2019. 112 Mediante a assinatura do convênio83 celebrado entre o Estádio Minas Gerais e a Universidade de Minas Gerais, em 12 de outubro de 1972, inicia-se uma nova etapa para a efetivação da construção do ginásio coberto, agora denominado Palácio dos Esportes. Esse convênio teve como signatários: Rondon Pacheco, Governador de Minas Gerais; Marcello de Vasconcellos Coelho, Reitor e representante da Universidade Federal de Minas Gerais; Herbert de Almeida Dutra, representando o Conselho de Administração do Estádio Minas Gerais; e Fernando Nunes de Lima, que representou a Autarquia Estádio Minas Gerais. A leitura e a análise desse documento possibilitaram identificar os trâmites relacionados ao Palácio dos Esportes até o momento de sua assinatura, sendo possível constatar a menção feita no documento às normativas e aos convênios celebrados anteriormente. Encontra-se também nesse documento a definição da denominação que o equipamento receberia, uma vez que, até aquele momento, ao referir-se a ele nos documentos anteriores, eram utilizados os termos ginásio ou ginásio coberto. Ao longo de suas 10 cláusulas, que estão distribuídas em quatro páginas, esse documento nos evidencia aspectos relacionados ao Palácio dos Esportes: sua finalidade, as proveniências dos recursos para a sua construção, os critérios para a sua administração e utilização, e a proveniência de verbas para a manutenção. Na Cláusula Primeira, observamos que ele seria denominado Palácio dos Esportes, e que seria destinado para a prática de atividades esportivas, recreativas e culturais. Alguns aspectos relacionados às dependências do Palácio dos Esportes podem ser localizados na Cláusula Terceira, tais como a arena para esportes, o alojamento para 80 pessoas e as cabines para rádio e televisão, conforme pode ser observado na figura 26: 83 Tivemos acesso a uma cópia digitalizada desse Convênio na Assessoria de Gestão da Informação da Pró- Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento da Universidade Federal de Minas Gerais. Ele pode ser lido na íntegra, no Anexo II. 113 Figura 26 – O Palácio dos Esportes no Convênio de 1972: a previsão das dependências e da capacidade de público Fonte: Assessoria de Gestão da Informação da Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento- UFMG. 114 A assinatura desse convênio se constituiu como uma ação institucional decisiva para o começo das obras do Palácio dos Esportes. As figuras 27, 28 e 29 evidenciam as intervenções iniciais que foram realizadas no local. É possível observar a ausência de vegetação e a presença de um canteiro de obras no local. Figura 27 – Começou a construção: a fundação do Palácio Fonte: Arquivo do Mineirinho. Figura 28 – A fundação do Palácio altera a paisagem Fonte: Arquivo do Mineirinho (s/d). 115 Figura 29 – Da poeira ao concreto Fonte: Arquivo do Mineirinho. Não havia uma definição de data nessas imagens; contudo, é possível inferir que se trata da fase inicial da construção, após os procedimentos de remoção da vegetação que se encontrava ali anteriormente e da movimentação de terra para que fizessem os platôs que acomodariam o Palácio dos Esportes. 3.4.1 Os muitos Palácios e o nosso Palácio: dos esportes, do lazer e de outras atividades Ao pesquisarmos sobre possíveis reportagens a respeito da construção do Palácio dos Esportes no Jornal dos Sports84 (do Rio de Janeiro), entre 1970 e 1979, constatamos que, nesse período, era recorrente a utilização dessa denominação, frequentemente utilizada para mencionar outros ginásios/estádios citados pela crônica esportiva. Identificamos a presença de 51 ocorrências desse termo dentro do período em que fizemos o levantamento. Na figura a seguir (figura 30), é possível observar a sua utilização na reportagem feita acerca de um jogo de basquete que foi realizado na Espanha. Conforme é possível observar, a seleção brasileira de basquete realizou um jogo contra a seleção uruguaia, no Palácio dos Esportes de Madri: 84 Acessamos esse jornal por meio do site da Hemeroteca Digital Brasileira, vinculada à Biblioteca Nacional Digital Brasil. Disponível em: . Acesso em: 17 mar. 2019. 116 Figura 30 – A ocorrência do termo Palácio dos Esportes no Jornal dos Sports (1970-1979) Fonte: Jornal dos Sports, 06/05/197085. Além do Palácio dos Esportes de Madri, constatamos também a menção aos de: Roma (Itália), Cidade do México (México), Paris (França), Gênova (Itália), Natal (RN), Barcelona (Espanha), Sherbrook (Canadá), Tunis (Tunísia), Montevidéu (Uruguai), Bauru (SP). Foi também mencionada a possibilidade da construção de um ginásio no Estado do Rio de Janeiro e a inauguração dos Palácios dos Esportes em Recife (PE) e em Salvador (BA). O Palácio dos Esportes de Belo Horizonte (MG) também ganhou as páginas desse jornal, conforme apresentamos na figura 31. A reportagem, que anuncia em seu título que a “Pampulha ganha Palácio dos Esportes”, descreve seus espaços e evidencia possíveis expectativas que havia em relação à sua construção, indicando que seria utilizado para diferentes modalidades esportivas, congressos, recitais artísticos e festas. Ele seria um equipamento público com múltiplas possibilidades de uso. A esse respeito, identificamos algumas falas entre os depoimentos colhidos, que apresentaram memórias sobre o que se esperava do Mineirinho. Há similaridade com as expectativas que foram apresentadas no Jornal dos Sports: E quem melhor se aproveitou disso inclusive foi o Cruzeiro. As duas potências esportivas da época eram o América e Atlético. O clássico das multidões era América e Atlético. O Cruzeiro obteve melhores resultados com o Mineirão, teve torcida e passou a ter renda. Até então não era propaganda na camisa e nem é, souvenirs, sócio-torcedor. Era, a renda era bilheteria. Com o sucesso de Minas Gerais nessa história, começou a: "se o Mineirão fez isso para o futebol, o Mineirinho vai fazer isso para o esporte especializado”. Tinha uma lógica nessa história. É a lógica inclusive do Palácio das Artes, que é da mesma época, em Belo Horizonte. Se você não tiver uma casa grande para espetáculos, como é que o maior 85 Disponível em: . Acesso em: 17 mar. 2019. 117 tenor do mundo vai vir aqui? Como é que o maior bailarino do mundo vai vir aqui? Quando você está num nível competição que você quer mais, você quer ter o que tem de melhor para você se espelhar, não? Para você receber isso aqui você tem que fazer um Palácio das Artes. Você tem que ter espaços que você traga essas, trocas de informações, a troca, essa experiência é muito rica, para não dizer essencial para excelência (Ricardo Raso, 2018). E precisamos de realçar que o ginásio foi batizado Palácio dos Esportes, com previsão inicial para um público de 25.000 pessoas. Ele seria o maior ginásio coberto da América Latina. E ele foi projetado para ter todas as atividades esportivas, que era o sonho de todo o esportista mineiro. Quando a ADEMG fez o convênio com a Universidade Federal de Minas Gerais, para a utilização do terreno, a expectativa era de que o esporte especializado em Minas ganhasse um impulso extraordinário. A exemplo do que o Mineirão significou para o futebol mineiro (Afonso Celso Raso, 2018). A expectativa de grandeza sugerida no próprio nome que foi atribuído ao ginásio em construção, um Palácio dos Esportes, poderia construir um imaginário de feito incomum. Analisando os dois depoimentos apresentados e o documento relativo ao Convênio firmado em 12/10/1972, observamos que a expectativa inicial de tamanho do Palácio dos Esportes era significativa, 20.000 espectadores, e, conforme relatado por Afonso Raso, essa capacidade de receber o público extrapolaria a previsão inicial, chegando a 25.000 espectadores, sendo, segundo ele, o maior ginásio da América Latina. Outro aspecto que destacamos nos relatos é a menção de que havia a intenção de que, ao ser construído, o Mineirinho fosse para o esporte especializado o que o Mineirão foi para o Futebol, conforme notamos na fala de Ricardo Raso. Ele figuraria como uma mola propulsora, que impulsionaria o desenvolvimento dessas modalidades. Interessante ressaltar que a presença do termo “esporte especializado” foi observada já no registro do primeiro convênio entre o Governo de Minas Gerais e a UFMG, em 1960. Entre outros palácios que foram noticiados no Jornal dos Sports, encontramos também o de Belo Horizonte, sendo ele um dos vários que se fizeram presentes nas páginas desse periódico. 118 Figura 31 – O Palácio dos Esportes de Belo Horizonte no Jornal dos Sports Fonte: Jornal dos Sports, 09/09/197586. Entretanto, o equipamento precisaria aguardar um pouco para ser, efetivamente, consolidado. Esse sonho seria brevemente adiado, com a paralisação parcial da construção, após a conclusão da fundação, em 1976. E, no ano de 1977, com a sua retomada, teria rumos que lhe dariam forma aparentes, construídas por milhares de mãos que permitiriam a sua existência não só nos planos, mas, em grandes paredes, no concreto. 3.4.2 O Palácio e os planos para ele: as prováveis intenções que inspiraram o projeto Uma indagação que acompanhou essa pesquisa foi: o que o poder público pretendia com construção do Palácio dos Esportes e com a sua constituição enquanto espaço esportivo e de lazer? Ao analisarmos diferentes fontes que foram mobilizadas na pesquisa documental (tais como fotografias, plantas estruturais, legislações, impressos produzidos pela ADEMG e periódicos) e os depoimentos colhidos, observamos que foram muitas as intenções 86 Disponível em: . Acesso em: 17 mar. 2019. 119 que permearam o projeto que daria forma ao Palácio dos Esportes. Além disso, nos planos pensados para a sua execução, o local comportaria, além de um vultuoso espaço para o esporte, sendo muito destacado o termo esporte especializado, espaço para restaurante, congressos, shows, estacionamento, salas para a Diretoria de Esportes de Minas Gerais e para as federações esportivas, e até para uma piscina. Seria um espaço multiuso. A esse respeito, vejamos o que nos evidenciaram os relatos de memória: Projeto inicial. E eu tinha também em minha cabeça transformar o Mineirinho na sede de todas as federações especializadas. E enfrentei também na época uma resistência um pouco forte das federações que tinham sede no Centro de Belo Horizonte. Porque elas achavam que o Mineirinho era muito longe. Algumas federações vieram: Judô, Box, Pugilismo, Arco e Flecha. Algumas federações, e também a Diretoria de Esportes passaram a se alojar no Mineirinho. Outras tiveram, resistiram um pouco. E nós projetamos também a área externa, com construção de outras atividades, né, tiro ao alvo, ciclismo, campos de aquecimento, muita coisa na área externa. E fizemos um projeto bastante avançado para a época. Mas, infelizmente, algumas obras no Brasil, quando muda a direção, muda também a forma de administrar (Afonso Raso, 2018). O Mineirinho foi feito para receber shows, sim. Não teve o tratamento acústico devido na época e tal, mas era para ter esse tipo de evento sim, para ter missas, para ter circo, sem problema nenhum. Ele é um prédio que a proposta é de multiuso. Você vai ter plantas disso lá, inclusive pensando em ele ser cinema. É, tem, foi projetado dessa forma. Só que o mineiro, por exemplo, ele consome lazer muitas vezes quando ele vai no Rio. Aqui ele não consome. Ele vai no Rio, vai em show, vai em teatro, vai e tal. E aqui em Belo Horizonte ele não consome isso (Ricardo Raso, 2018). Eles iam fazer um plano de colocar lá, em cima, é, aquecimento solar, para iluminar tudo lá e ter energia para tudo. Não sei se fizeram isso (Richard Lima, 2018). Foram pensadas diferentes formas de uso do Palácio: esportivas, artísticas e culturais. Tratava-se de diferentes possibilidades para o esporte (educacional, rendimento, espetáculo) e de interesses no campo do lazer. O equipamento fora idealizado para receber os atletas e os espectadores, e para alojá-los. Não localizamos a menção à construção de uma capela e nem de uma piscina nas instalações do Palácio dos Esportes no Convênio celebrado em 12 de outubro de 1960. Mas, observamos que lá existe uma capela e um fosso que receberia uma piscina – que seria construída no nível 2. 120 Figura 32 – A capela no Mineirinho, planos de religiosidade Fonte: Luciana Cirino. O cinema, que foi mencionado no relato de memória de Ricardo Raso, ficou somente na planta baixa (que não foi possível acessar). Havia também a intenção de realizar o fechamento lateral dos corredores externos com vidros, conforme nos indicou Afonso Raso, mas, essa ideia também ficou apenas nos planos. Palácio dos Esportes era muito suntuoso, que realmente era. No projeto original com Ray Ban, que, fenômeno, né. Espetáculo mesmo! E a área externa, do jeito que a gente queria fazer, com a ornamentação, intercalando com as atividades esportivas, as quadras, a área para tiro ao alvo. Essa coisa toda, né? Que a gente tinha na cabeça é muito boa (Afonso Raso, 2018). Conforme mencionado anteriormente, a presença do termo “esporte especializado” foi recorrente nas fontes. Havia indícios de que seriam as diferentes modalidades esportivas, com exceção do futebol. A fim de melhor compreender o significado, fizemos uma pesquisa mais aprofundada a esse respeito. Ao analisar as fontes, constatamos que, no contexto da pesquisa que realizamos, esporte especializado seria, com exceção do futebol de campo, as modalidades esportivas compreendidas enquanto amadoras ou semiamadoras, tais como, futebol de salão, voleibol, handebol, atletismo, lutas, ginástica olímpica, basquetebol, arco e flecha, ciclismo e natação. Entre as ações realizadas nos campos do esporte e do lazer durante o governo militar, uma que se destacou foi o Esporte Para Todos (EPT). Considerando o contexto mais amplo da política no campo do esporte e do lazer no âmbito federal, em que se propunham nos anos de 1970 projetos como o Esporte Para Todos, que mobilizaria grandes contingentes de pessoas, nos parece ser possível considerar que o Mineirinho poderia atender a essa 121 proposta de massificação esportiva, contribuindo para tal a promoção dos esportes especializados. 3.4.3 A construção: da interrupção ao acelerado processo de término Retornando à construção do Palácio dos Esportes de Belo Horizonte, as fontes nos indicam que a obra teve início no final do ano de 1973, contando com a realização da terraplanagem do terreno e com a construção da fundação. Nesse período, o regime militar começou a mudar os rumos. O governo do Presidente Emílio Médici (1969-1974) foi substituído pelo do Presidente Ernesto Geisel (1974-1979). Nesse governo, é iniciado o processo denominado “distensão política”, caracterizado pela realização de medidas liberalizantes, controladas pelo governo, que diminuiriam a rigidez e o controle do regime sobre a sociedade. Tratava-se de uma longa transição, do governo que estava centralizado nas mãos dos militares, e que seria gradualmente repassado aos civis. Em 1976, já no governo de Aureliano Chaves (1975-1978), ocorreu uma paralisação parcial da construção. A esse respeito, Afonso Raso e José França nos relatam o seguinte: E, quando estava se fazendo a terraplanagem em um dos tubulões, detectou-se uma falha séria, que multiplicava o custo da obra. E exigia também uma modificação muito grande no projeto. Isso foi, com essa paralisação, dava pena ver o terreno lá, o canteiro de obras parado. E a crônica esportiva passou a cobrar do governo e da ADEMG (que na época era administrada pelo engenheiro Fernando Nunes de Lima), o andamento da construção. E o governo alegava que não tinha recursos. [...] Aquela história que a gente sempre fica ouvindo, de passar um governo para outro (Afonso Raso, 2018). E fiz um trabalho que está exposto aqui no museu e o acervo, está preservado, só o Mineirão tem. Aí a partir de, sobre o Mineirinho, aí já veio o Mineirinho depois da década de 1970, que iniciou as obras do Mineirinho e depois ela parou, foi interrompido um período (José França, 2018). Também foi durante a gestão de Aureliano Chaves que ocorreu a mudança da diretoria da ADEMG. Francisco Abel Magalhães, que elaborou o projeto arquitetônico conjuntamente com o arquiteto Richard Lima e a equipe técnica da DEMG, foi substituído por Afonso Raso, que, em seu depoimento, nos aproxima de suas memórias, mencionando a retomada da construção: 122 Em 1977 ela foi reiniciada, no governo Aureliano. Teve sequência no governo do Dr. Levindo Coelho. E quando assumiu o Governador Francelino Pereira, ele determinou uma dinâmica maior, já programando a inauguração que se deu em 15 de março de 1980 (Afonso Celso Raso, 2018). A construção do grande ginásio, iniciada em 1973 no governo de Rondon Pacheco, transcorreu durante a gestão de outros três governadores, Aureliano Chaves, Ozanan Coelho e Francelino Pereira, conforme nos relatou Afonso Raso. Na figura 33, temos o então Governador Aureliano Chaves em visita ao Palácio dos Esportes. O governador se encontra na parte central à frente de um grupo de pessoas, e ao seu lado direito está o diretor-geral da ADEMG, Afonso Celso Raso. Ao fundo, é possível visualizar o muro de contenção existente no Mineirinho (que foi construído na lateral mais próxima à orla da Lagoa). Figura 33 – Visita do Governador Aureliano Chaves na inauguração da Avenida dos Esportes Fonte: Revista Mineirinho Vitória do Otimismo – Arquivo Mineirinho. Considerando a trajetória iniciada em 1959, com a publicação da Lei 1947/59, a primeira legislação relativa à construção do ginásio, que desencadeou o convênio firmado em 1960, o começo das obras em 1973, até a sua conclusão em 1980, temos o transcorrer de 20 anos. Nesse período, diferentes eventos ocorreram nos panoramas políticos brasileiro e mineiro, conforme já apresentamos nos capítulos anteriores. Efetivamente, o começo das 123 obras para a construção do Palácio dos Esportes foi em 1973, nove anos depois do golpe civil- militar que modificou a condução da política no Brasil. Entre o começo e o término da obra passaram-se aproximadamente sete anos, e, nesse período, de acordo com Couto (1999), o regime militar também passou por alterações. O final dos anos 1970 representou a fase de transição, uma fase mais moderada, se comparada ao final dos anos 1960 e começo dos anos 1970, momento em que houve maior endurecimento do aparato repressivo do Estado. Considerando esse contexto, os depoentes que participaram dos relatos de memória foram indagados sobre a percepção que tinham a respeito da ditadura militar. Tivemos apontamentos diferentes, alguns evidenciaram depoimentos que nos dão indícios do esquecimento, ou mesmo, de um desconhecimento a esse respeito: Um, é regime mais de disciplina! Porque eu quando eu posso uma vez eu discuto, eu falo: “não, vocês ouviram dizer”. Porque eu nem lembrava se eu estava aqui com dois mil e quinhentos operários trabalhando aqui, eu estava preocupado com regime? Nem sabia de regime militar, ué! Nem! [...] Não lembrava de regime militar, para mim não tinha. Não estava me alterando em nada, eu estava dedicado sempre ao trabalho. Eu fazia, trabalhava 24 horas por dia junto com os operários aqui! (José França, 2018). Não, eu não me lembro. Eu não me lembro. [...] Sabe porquê? [...] Lagoa Formosa [cidade que morava]. Na verdade, a gente morava na zona rural, então você não tinha luz, né? Você não tinha água encanada, então. Nada, nada [televisão e rádio]. Rádio sim, de pilha, sim, tinha. Mas a gente era, a gente era menino. Você não escutava rádio, você está entendendo? Então, você trabalhava. A época que você trabalhava, você trabalhava, de noite você ia, né, tomar banho e dormir, descansar pro outro dia, então. Quando era criança você brincava. Então a gente, eu não tenho lembrança disso. [...] Não falava porque às vezes, os mais velhos até que podia falar, mas, a gente naquela época, a gente era assim, muito limitado. Às vezes a criança não podia nem chegar onde é que estava os mais velhos conversando, porque se você falasse alguma coisa diferente ou se você chegasse brincando, você era retaliado pelos mais velhos. Então, o respeito era muito grande. [...] Da criança com o mais velho, então é difícil (Celso Lacerda, 2018). Os dois depoimentos anteriores evidenciam a centralidade que o trabalho pode ter na vida das pessoas e como o tempo gasto com ele pode impulsionar o distanciamento de fatos e situações vividas no cotidiano. Entre esses depoentes que afirmavam desconhecer o regime ditatorial, identificamos falas que mencionaram as grandes obras que foram realizadas no Brasil durante a ditadura militar: Não lembro que, nem se foi ruim, se foi bom. Só sei que tem muita coisa que eles fizeram, uma ponte Rio-Niterói que eu admiro muito, conheço, obra deles! O, aquela também lá, Itaipu (José França, 2018). 17, 18 anos, e tal. Eu via, já tinha ciência de ditadura, tinha ciência dos malefícios, da parte ruim, desse tipo de coisa é, eu como estudante ah! É, Itaipu é uma bomba 124 contra a Argentina, se abrir as comportas e alaga, alaga 40% da Argentina. Aquilo lá é não é uma usina, é uma arma (risos) (Ricardo Raso, 2018). Ainda que expressem perspectivas diferentes em relação às grandes obras que foram realizadas no período da ditadura militar, observamos que nos dois relatos essas obras foram elementares para se referirem à ditadura. A execução de grandes obras foi uma das marcas do projeto desenvolvimentista que foi implementado durante a ditadura militar no Brasil, estando, entre elas, os grandes estádios de futebol (GIANORDOLI-NASCIMENTO; MENDES; NAIFF, 2014). Figura 34 – O Palácio dos Esportes em construção visto de cima Fonte: Arquivo Afonso Celso Raso. Tendo em vista os processos realizados pelas gestões que estiveram à frente da ADEMG, ao analisarmos as fontes, nos parece ser possível inferir que, durante o período da ditadura, houve por parte das gestões a tendência de condução dos processos vinculadas à uma mescla de posturas que, conforme conceito apresentado por Motta (2014), estaria entre acomodação e adesão. Nesse panorama, em governos alinhados com o regime militar, seria, de fato, pouco provável nos depararmos com posturas de tendências opostas ao pensamento do governo – em especial, no período mais repressivo. Nos parece que, quanto mais próximo 125 do núcleo do poder vigente for o cargo, maior será a possibilidade de convergência de ideias, e menor será a possibilidade efetiva de resistência – principalmente em um contexto em que os cargos são ocupados por indicação política. Considerando as esferas de poder (municipal, estadual e federal) e uma relativa autonomia de gestão que se pressupõe que elas tivessem, buscamos identificar se haveria na fala dos depoentes algum indício de procedimentos relativos ao controle exercido pela esfera federal durante a construção do Palácio dos Esportes. Nesse sentido, constatamos os seguintes apontamentos: Não, não. Não teve intercessão não [na obra do Mineirinho]. Não teve assim, ninguém intercedeu. A obra continuou no ritmo normal, não veio político, ninguém dos militares também intercedeu, não (José França, 2018). Não, não fez tanta [diferença para trabalhar na obra], nenhuma, nenhuma. Eu não sei para que, eu acho nessa época só fez diferença para os ladrões, minha filha (Richard Lima, 2018). É, tem caso, esse aí você não vai ter tempo não, mas é um caso engraçado. Porque nessa exibição de ginastas, de atletas russos, o Mineirinho tinha sistema de som, e tocaram o hino da União Soviética lá embaixo no sistema de som deles, e o do Brasil eles queriam que fosse, tocasse aqui, e nós não tivemos o hino. Deu um problema, Polícia Federal (risos) (Ricardo Raso, 2018) Assim, em um contexto de opiniões diversas (às vezes, divergentes), a construção avançou e chegou ao final. Chegamos, agora, à inauguração do Palácio dos Esportes, que, conforme constatamos nas fontes, ocorreu em 15 de março de 1980. 3.5 O Palácio abre seus portões: começa uma nova fase Percorremos uma longa trajetória de pesquisa para chegarmos a março de 1980. Analisamos leis, convênios que foram firmados e projetos construídos para a obra. Perpassamos contextos políticos diferenciados, saindo de um período de regime democrático que, após um golpe envolvendo civis e militares, nos conduziu a um longo período ditatorial. Observamos trocas de governos (presidentes e governadores) e de dirigentes vinculados, em especial, à ADEMG. Constatamos a retirada da vegetação que se encontrava no local onde o grande ginásio seria erguido, contando com a ação cotidiana de trabalhadores que, conjuntamente com a equipe técnica, transformaram aquela área ocupada com a vegetação em 126 um grande equipamento de esporte e lazer. Assim, chegamos à inauguração do Palácio dos Esportes. Algumas medidas legais ainda seriam tomadas antes da inauguração. Em 13 de março de 1980, dois dias antes da inauguração do Mineirinho, o Governador Francelino Pereira publica o Decreto n° 20449, de 13/03/198087, que instituiu a Comissão para a implantação das atividades do Palácio dos Esportes e de sua administração, conforme consta a seguir. O Governador do Estado de Minas Gerais, no uso de atribuição que lhe confere o artigo 76, item X, da Constituição do Estado. Considerando os termos do Convênio celebrado em 26 de fevereiro de 1970 entre a Administração do Estádio Minas Gerais – ADEMG e a Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, com a finalidade de construir o conjunto esportivo externo do Estádio “Governador Magalhães Pinto”, aprovado pela Resolução Legislativa nº 959, de 1º de Dezembro de 1970, e Considerando a inauguração do Palácio dos Esportes a realizar-se no dia 15 do corrente mês, decreta: Art. 1º – O Palácio dos Esportes terá por finalidade principal o desenvolvimento do esporte amador, da educação física, da educação e cultura, das artes e de outras atividades afins. Art. 2º – O Palácio dos Esportes será administrado, paritariamente, pela Administração do Estádio Minas Gerais – ADEMG e pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, através de sua Comissão, cujos componentes serão designados pelo Governador do Estado, constituída de quatro membros, sendo dois representantes da UFMG e dois de livre escolha do Governador do Estado, sob a presidência do Diretor-Geral da ADEMG. Parágrafo único – As funções dos membros da Comissão são consideradas relevantes e desempenhadas sem ônus de qualquer espécie para a ADEMG e a UFMG ou para outro órgão ou entidade pública da administração direta ou indireta. Art. 3º – No prazo de 180 (cento e oitenta) dias a Comissão proporá ao Governador do Estado as normas de funcionamento e administração do Palácio dos Esportes, sugerindo as medidas necessárias para o cumprimento do Convênio mencionado neste Decreto. Art. 4º – Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, aos 13 de março de 1980. FRANCELINO PEREIRA DOS SANTOS Humberto de Almeida João Pedro Gustin Além de evidenciar qual seria a finalidade principal do Palácio dos Esportes (desenvolver o esporte amador, a educação física, a educação, a cultura, as artes e outras atividades afins), também definia que a sua administração ocorreria, paritariamente, pela ADEMG e pela UFMG, através de Comissão composta por 4 membros (dois representantes 87 Disponível em: . Acesso em: 28 abril 2015. 127 de cada instituição), sendo de responsabilidade dessa comissão, a criação de uma proposta para o funcionamento e a administração do Palácio. Voltando nossas atenções para à finalidade esperada para o Palácio dos Esportes, segundo consta no o Decreto n° 20449/80, do nosso ponto de vista, a finalidade prevista no Artigo 1° pode ser uma evidência do alinhamento entre as políticas estadual e federal, em especial no que tange os campos da educação, do esporte e do lazer. Conforme Reis Filho (2002), foi recorrente durante a ditadura militar a implementação de ações do governo no campo de políticas direcionadas a programas sociais. estando entre elas, as do campo da educação. Essas intervenções do Poder Público estavam direcionadas para alcançar objetivos traçados para as áreas em que seriam aplicados, sendo possível observar também a influência que tiveram para a cooptação e a persuasão da população a favor do regime, em algumas situações. Nesse sentido, Oliveira (2012) e Camargos (2017) evidenciam como o esporte também apresentou essas características ao ser executado pelo Governo. O Palácio dos Esportes passou a figurar na cena esportiva brasileira como um grande palco para o esporte, mas também para a cultura e outros eventos. Afonso Raso, o diretor-geral da ADEMG que participou da retomada da construção e da inauguração, nos relatou o seguinte: E quando assumiu o Governador Francelino Pereira, ele determinou uma dinâmica maior, já programando a inauguração, que se deu em 15 de março de 1980. Mineirinho estava com 91% das obras prontas e faltava ainda alguma coisa para ser concluída. Tipo a acústica, tipo a piscina olímpica que seria colocada. Coisas que não influenciariam muito para o funcionamento, já naquele ano de 1980. Conforme constatamos nesse trecho, o Governador Francelino Pereira (1979- 1983), sucessor de Levindo Coelho (1978-1979) no Governo de Minas, deu prosseguimento à construção do Palácio dos Esportes e direcionou esforços para o término da obra. 128 Figura 35 – O Mineirinho na imprensa e a propagação da ideia de grandiosidade Fonte: Jornal dos Sports, 19/09/1978. Nessa reportagem, publicada no Jornal dos Sports em 19 de setembro de 1978, constatamos que a inauguração do Mineirinho estava prevista para a segunda quinzena de janeiro de 1979. Ainda que, durante esse período do governo de Levindo Coelho (que aparece ao centro da figura 26), a obra estivesse em fase bem adiantada de execução, a previsão de inauguração não foi cumprida. Assim, essa última etapa, a inauguração, só viria a acontecer no dia 15 de março de 1980, em um sábado. A festa contou com uma agenda cheia de eventos, na qual o Palácio dos Esportes foi tomado por atividades esportivas e artísticas, com desfiles de bandeiras (ao estilo do pensamento dos militares), pronunciamentos, missa, shows e outras atividades. Figura 36 – Área externa do Palácio dos Esportes no dia da inauguração Fonte: Arquivo Afonso Raso. 129 Dias depois de sua inauguração ele viria a receber uma nova denominação, uma homenagem a um cronista esportivo: Estádio Jornalista Felipe Drummond. Figura 37 – O discurso do esporte como meio de formação da juventude Fonte: Mineirinho Vitória do Otimismo (s/d). 130 A trajetória do Mineirinho foi marcada por permanências e descontinuidades. Na figura 26, que foi publicada na revista Mineirinho Vitória do Otimismo (s/d), é possível identificar a imagem do Mineirinho e também a redação de um texto atribuído ao então Governador Francelino Pereira, sendo intitulado: “Meio eficaz para a educação da Juventude”. Em seu conteúdo, o governador direcionou uma mensagem para os jovens, sendo possível a constatação da presença de um o discurso eugenista, recorrente em anos anteriores no panorama político brasileiro, em que a o esporte era visto como um meio eficaz de educação da juventude, e a prática esportiva era compreendida como uma prática sadia. Figura 38 – Vice-presidente da República em visita ao Mineirinho Fonte: Revista Mineirinho Vitória do Otimismo (s/d, p. 5). Foi possível constatar em fotografia e nos relatos de memória que, nos primeiros meses após a inauguração de Mineirinho, ele foi utilizado pela população que, juntamente com esportistas (Emerson Fittipaldi, Maria Ester Bueno, entre outros), artistas, políticos, governadores que participaram da construção do Palácio dos Esportes, trabalhadores e equipe técnica, abriram seus portões. 131 Figura 39 - Motociclistas e estudantes na inauguração do Palácio dos Esportes Fonte: Arquivo Afonso Raso. Na figura 39, observamos a presença de motociclistas ao redor do Palácio dos Esportes, além de estudantes aglomerados em frente a ele. Segundo Afonso Raso, eles participaram das festividades da inauguração, com os motociclistas participando de um desfile de motocicletas. Figura 40 – A presença de ex-governadores na inauguração do Mineirinho Fonte: Arquivo Afonso Raso. 132 Com a abertura dos portões, foi iniciada uma nova fase para a construção de um novo cenário esportivo e de lazer naquele local, que poderia (ou não) constituí-lo enquanto lugar(es)88: Quando eu falo em continuidade administrativa, eu posso falar de cátedra. Porque foi, na inauguração do Mineirinho, nós fizemos questão de colocar lado a lado o ex- governador Rondon Pacheco, que foi, que iniciou a obra. O ex-governador, Aureliano Chaves, o ex-governador, Levindo Coelho e o governador da época, Francelino. Os 4 estavam lá. E a foto, na frente do Mineirinho, no dia da inauguração demonstra que tendo continuidade administrativa a obra sai! (COSTA, 2018a). Por meio dos depoimentos, constatamos que a festa de inauguração do Palácio dos Esportes ocupou a agenda do sábado, avançando, inclusive, para outros dias, conforme rememorado por Afonso Raso: É, foi 15 de março de 80. Nós trouxemos a seleção de basquete do Paraguai, para jogar contra o Brasil. Na parte esportiva. E o Jakie Correia, que era o chefe de cerimonial do Governo de Minas, ele programou uma série de atividades e convidados ilustres. Aí nós tivemos aqui a Maria Ester Bueno, o Emerson Fittipaldi. O Guga. Alguns nadadores famosos, enfim, o Éder Jofre. Ele trouxe os campeões brasileiros de várias modalidades esportivas, que desfilaram com os atletas mineiros, clubes mineiros, seleções mineiras, um desfile maravilhoso! E ele trouxe um conjunto da Itália também, que fez uma exibição artística muito interessante! Então foi uma festa muito gostosa, o dia estava bonito e eu tive a alegria de recepcionar os quatro governadores que tiveram participação efetiva na grande obra: o Governador, ex-Governador Rondon Pacheco, Aureliano Chaves, o Ozanan Coelho e o Francelino. Então, dando um sentido de continuidade administrativa, que ao que me parece, um ponto fundamental para a própria administração pública. [...] Então nós tivemos um show com, como é que ele chama, gente? Está me faltando a memória aqui. João Bosco! Teve um show com o João Bosco, que em seguida teria o Roberto Carlos, na semana seguinte. Olha a loucura que era a vontade de fazer alguma coisa diferente: eu tentei trazer o Frank Sinatra. (Risos). [...] Para a inauguração do Mineirinho. Eu estava tão empolgado, fui ao Rio, conversei com o empresário dele, o Medina. Mas, infelizmente não deu pra ele vir. Mas era a grandiosidade da obra, do que ela representava para Minas esportivo, o Brasil. E se o Frank Sinatra viesse, repercussão mundial (Afonso Raso, 2018) 88 Castello (2007) evidencia que a percepção de lugar pode ser construída a partir da interação entre pessoas e ambiente, podendo ser compreendida de três modos: lugar da Aura, lugar de memória e lugar de pluralidade. No presente estudo, nos aproximamos mais desses dois últimos sentidos. 133 Figura 41 – O Mineirinho está inaugurado Fonte: Arquivo Afonso Raso. Antes do encerramento do mês de março de 1980, o Governador Francelino Pereira publicou a Lei n° 767489, de 31/03/1980, alterando o nome do Palácio dos Esportes. Desde então, ele passou a ser oficialmente denominado como Estádio Jornalista Felipe Drummond. Estruturada em três artigos, é possível observar, no primeiro deles, que, além da definição do nome oficial, foi mencionada outra denominação para o local, Mineirinho: Art. 1º - Fica denominado Estádio Jornalista Felipe Drummond o próprio estadual, destinado à prática de esportes especializados, conhecido como “Mineirinho”, pertencentes à ADEMG – Administração Estádio Minas Gerais, localizado em Belo Horizonte (MINAS GERAIS, Lei 7674/80). Ao nos atentarmos para os documentos, observamos que, ao longo dos anos 1970, esse equipamento esportivo e de lazer foi, de fato, mencionado utilizando a denominação Mineirinho. Essa é a denominação mais conhecida pela população. A alteração do nome Palácio dos Esportes para Jornalista Felipe Drummond, ao que podemos inferir, pode ser uma evidência da presença marcante da Associação Mineira de Cronistas Esportivos, no campo da política de esporte e de lazer nesse período. Vale lembrar, inclusive, que membros dessa Associação tiveram assento no Conselho Administrativo da 89 Disponível em: . Acesso em: 03 nov. 2018. 134 ADEMG, como representantes a ACME. Afonso Raso, sendo então diretor-geral da Administração de Estádios de Minas Gerais, que esteve à frente da retomada da construção da obra, a partir de 1976 até o seu término, em 1980, também esteve vinculado à ACME. A respeito da mudança do nome ele nos informou que [i]sso já pegou de cara. Palácio dos Esportes era muito suntuoso, que realmente era. No projeto original com Ray Ban, que fenômeno. Espetáculo mesmo! E a área externa, do jeito que a gente queria fazer, com a ornamentação, intercalando com as atividades esportivas, as quadras, a área para tiro ao alvo. Essa coisa toda, né? Que a gente tinha, na cabeça, é muito boa. Agora, a denominação, sempre tem alguém que quer homenagear alguém. [...] Não é isso? E surgiu o nome do Mendes Júnior e depois surgiu o nome de Felipe Henriot Drummond, foi dada a sugestão pelo então deputado Ademir Lucas, que depois veio a ser prefeito de Contagem e veio a ser até secretário de estado também. Ele queria homenagear o Felipe Drummond e homenageando a crônica esportiva. O Felipe era um jornalista muito atuante, que fez parte da AMCE e era, fez parte da crônica policial também. E os filhos, filho e neto dele hoje trabalham na área também. São cronistas. E eu não vi nenhuma razão para que o nome não fosse dado a ele. Tinha vários nomes cogitados, nomes de esportistas: Juvenal Santos; Esmeralda de Jesus; é, e tinha Vicente Paula Lima, um nadador fantástico que teve aí; o Bascoal, Sebastião Pinheiro Chagas. Alguns, os nomes foram vetados porque ainda estavam vivos. Tinha, parece uma lei que vetava dar nome a órgão público de pessoa viva. [...] Então esses nomes surgiram e saíram ao mesmo tempo por vedação legal. E surgiu então o do Felipe, me agradou bastante pela amizade que eu tinha a ele, pelo muito que ele fez e perpetuou o nome de um cronista, que a crônica esportiva teve papel preponderante na construção do Mineirinho. Mas foi bem aceita pela crônica esportiva. Que, se a crônica não aceitasse, eu acredito que a minha palavra naquela época talvez pesasse muito. Que o governador me perguntou o quê que eu achava, né? Podia vir o projeto do Legislativo e o governador podia vetar. Não é isso? Mas, felizmente houve o consenso e ele foi, foi bem aceito (Afonso Raso, 2018). A Diretoria de Esportes, assim como algumas federações, alocou-se no Mineirinho. A presença de entidades e de pessoas e a realização de atividades (a animação cultural) trouxe vida e possibilidades diferenciadas de uso do local, impulsionando, assim, a perspectiva de que ele se constituísse enquanto lugar da pluralidade (CASTELLO, 2007). Como a investigação dos usos e da apropriação do Mineirinho ao longo dos anos que sucederam ao da sua inauguração não foi objetivo do presente estudo, sinalizamos que seria uma excelente contribuição futura a realização de um estudo investigativo a esse respeito. O que podemos sinalizar, a partir da análise das fontes, é que, nos primeiros meses que se seguiram após a inauguração do Mineirinho, foram realizados diversos shows (como os de Milton Nascimento e João Bosco), jogos (entraram em quadra apreciadores do esporte, anônimos e famosos), equipes nacionais e internacionais se encontraram mobilizando torcidas e sentimentos. E, em substituição aos operários e à equipe técnica que, com o tempo e a força de trabalho, cada qual a seu modo, contribuíram por anos para que o Palácio dos Esportes fosse construído, entrou em cena uma outra leva de trabalhadores, agora, homens e 135 mulheres que movimentaram (e movimentariam) produtos e serviços ligados aos eventos esportivos e ao lazer. Assim, constatamos que, a partir da sua inauguração, o Mineirinho começou a fazer, efetivamente, parte do cotidiano da cidade, envolvendo e sendo envolvido por aspectos sociais, políticos e econômicos. E essa é uma outra fase de sua história que seria escrita nos transcorrer dos anos seguintes. 136 4 ENTRE O PASSADO E O PRESENTE: OLHAR O PASSADO E COMPREENDER O PRESENTE Sólo Le Pido a Dios90 Sólo le pido a Dios Que el dolor no me sea indiferente Que la reseca muerte no me encuentre Vacía y sola sin haber hecho lo suficiente Sólo le pido a Dios Que lo injusto no me sea indiferente Que no me abofeteen la otra mejilla Después que una garra me arañó esta suerte Sólo le pido a Dios Que la guerra no me sea indiferente Es un monstruo grande y pisa flerte Toda la pobre inocencia de la gente Es un monstruo grande y pisa flerte Toda la pobre inocencia de la gente Sólo le pido a Dios Que el engaño no me sea indiferente Si un traidor puede más que unos cuantos Que esos cuantos no lo olviden facilmente Sólo le pido a Dios Que el futuro no me sea indiferente Desahuciado está el que tiene que marchar A vivir una cultura diferente Sólo le pido a Dios Que la guerra no me sea indiferente Es un monstruo grande y pisa flerte Toda la pobre inocencia de la gente Es un monstruo grande y pisa flerte Toda la pobre inocencia de la gente Esta letra composta por León Gieco fez muito sucesso na voz de Mercedes Sosa, cantora argentina e ativista política que atuou na luta contra a ditadura em seu país e em outros países na América do Sul, sensibilizando o seu público com sua voz e com as letras das 90 Composição de León Gieco (1978). Disponível em: . Acesso em: 25/05/2019. 137 canções que ela interpretou. Uma vez inaugurado o Mineirinho, ela subiu a seu palco nos anos 1980, conforme nos relatou Ricardo Raso: [...] teve um show da Mercedes Sosa. É, soltaram alguma coisinha lá, tipo bombinha, no vestiário, etc., para prejudicar o show. Que ela era tida como esquerda (Ricardo Raso, 2018). Em palcos brasileiros, Sosa também cantou com nomes expressivos de nossa música, entre eles, Milton Nascimento e Beth Carvalho (com quem gravou Sólo Le Pido a Dios). Assim como a música pode nos tocar por meio da melodia e da letra, a aproximação com o objeto também pode alterar a nossa percepção sobre a nossa realidade, contribuindo para a construção de novos saberes. Nas trocas de conhecimento que temos com outras pessoas e na descoberta dos dados almejados, aprendemos, refletimos e temos a oportunidade de vivenciar e de conhecer outros saberes e pontos de vista. Compartilhando conhecimentos e analisando as fontes, nosso olhar em relação ao objeto vai se transformando, se reconstituindo com novas perspectivas e sendo reformulado. Essa aproximação nos oferece elementos para alcançarmos outras possibilidades de analisarmos o fenômeno estudado. Foi assim em nossa trajetória de pesquisa, os processos percorridos (levantamento das fontes, análise e escrita) nos conduziram a diferentes perspectivas e compreensões sobre o Mineirinho. Talvez essa seja uma das magias da pesquisa, da investigação que é realizada a fim de buscarmos respostas para aquilo que se encontra encoberto e fora do alcance do nosso olhar. Transcendemos nosso pensamento de modo a alcançar outras perspectivas e visões sobre o que estamos investigando. Essa não é uma tarefa fácil, afinal, por vezes, os novos aprendizados podem ser tensos. A investigação de um objeto pode nos tocar e nos provocar a sair do nosso próprio mundo, nos conduzindo a outro(s). Foi a busca pela expansão de nossos olhares na pesquisa que nos provocou a realizar a escrita desta última parte da Tese. Avançados esses processos, fomos sensibilizados pelas fontes e trouxemos aqui alguns aspectos a respeito de constatações que fizemos, relacionadas ao Mineirinho já edificado, inaugurado e funcionando. Apresentamos também algumas modificações que foram realizadas em diferentes espaços internos e externos ao ginásio, após a inauguração, as quais foram identificadas em documentos e em nosso transitar pelo Mineirinho durante o período que foi realizado o levantamento documental. 138 Desse modo, além de apresentar uma descrição do Mineirinho conforme observamos nas fontes (fotografias, o projeto de edificação que norteou a construção e relatos de memória colhidos entre os cinco depoentes), também indicamos algumas constatações que fizemos em relação ao uso do local. Além disso, sinalizamos algumas alterações espaciais que o Mineirinho teria provocado, conjuntamente com o CEU e o Mineirão, naquela parte em que se encontram na Pampulha. E do mesmo modo, apresentamos algumas modificações pelas quais ele passou, que nos evidenciaram a sua relação com a transformação da metrópole. Figura 42 – Postal Mineirão/Mineirinho – ADEMG Fonte: Arquivo do Mineirinho (foto- Bruno Rogério) s/d. Nos estudos da urbanização, observamos a dimensão relacional entre espaço e a atuação humana. Nesse sentido, Lefebvre (2011) nos indica que o espaço, enquanto produção social, comporta e, ao mesmo tempo, provoca as relações humanas. Essa percepção em relação ao Mineirinho foi observada por nós e se constituiu como base da análise desse capítulo. 139 4.1 Dentro do Mineirinho: apontamentos sobre o tempo do passado no presente O espaço, envolvendo o Mineirinho e sendo envolvido por ele, foi incorporado como possibilidade de diálogo com esta pesquisa, primeiramente, enquanto um objeto que foi analisado a partir do olhar voltado para a historiografia, no contexto das tramas políticas identificadas e relacionadas à sua construção. Evidenciaram-se indícios do esporte e do lazer vinculados à política de construção de equipamentos públicos, impulsionando a produção de espaços para o (des)encontro: de corpos, de projetos e de possibilidades. O Mineirinho é compreendido enquanto lugar, em especial, de memória (CASTELLO, 2007). No entanto, à medida em nos aproximamos do objeto, em busca por sua memória e por indícios de sua história, também foi impulsionada a nossa imersão corporal nele: permanecendo por muitas vezes dentro da sala do arquivo; transitando por diferentes salas e corredores; nas conversas com os funcionários em diferentes locais; e ao subir em sua cobertura e, lá do alto, observá-lo, de cima e por fora. Parte significativa do levantamento documental da pesquisa foi realizada no arquivo do próprio Mineirinho. Esse procedimento demandou muito tempo, uma vez que havia um grande volume de material para ser pesquisado, o que prolongou o período de levantamento das fontes no local. Assim, nos aproximamos de diferentes momentos do cotidiano desse equipamento público. Em alguns momentos, foi possível observar a dinâmica que envolveu os preparativos para a realização de eventos no local: formaturas91; competições esportivas92, incluindo de jogos eletrônicos93; além de eventos94 culturais e religiosos, alguns dos quais impossibilitaram o acesso ao arquivo. A própria área externa do Mineirinho também era utilizada para fins esportivos e culturais, com dois eventos muito frequentes. O primeiro é a Feira de Artesanato do Mineirinho, localizada no estacionamento inferior e realizada às quintas-feiras e aos domingos, na qual vários expositores comercializam uma variedade de produtos (tais como artesanatos, calçados, roupas, artigos de decoração e bijuterias) e há uma praça de alimentação que disponibiliza pratos variados, além da realização de shows. O segundo 91 Formatura de militares da Polícia Militar de Minas Gerais (2018). 92 Mundial de Super Enduro de Motociclismo (2016); Final da Super Liga Masculina de Voleibol (2017); Winter International Open de Jiu-Jitsu (2017); o 14° Jungle Fighte, uma competição de Lutas Marciais Mistas (MMA) (2017); All Fights, que teve competições de kickboxing, jiu-jítsu, boxe, sanda (também conhecido como boxê chinês), muay thai e MMA (2017). 93 Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL) em setembro de 2017 e o Counter Strike (CS) em 2018. 94 Cirque du Soleil (2019); 97ª edição da Missa da Unidade (2018); show do Roberto Carlos. 140 evento acontece ao lado da feira, em um espaço montado pela Federação Mineira de Arco e Flecha, que é utilizado para treinamentos e competições e se encontra no local há mais de duas décadas, conforme consta na página dessa federação95. A figura 43 apresenta a área interna do Mineirinho na ocasião da realização do Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL) em setembro de 2017. Figura 43 – Campeonato Brasileiro League of Legends realizado no Mineirinho em 2017 Fonte: Foto de Diego Borges/TechTudo96. A Feira do Mineirinho e o local utilizado pela Federação de Arco e Flecha podem ser observados figura a seguir: 95 Disponível em: . Acesso em: 10/08/2018. 96 Disponível em: . Acesso em: 13/06/2018. 141 Figura 44 – A utilização de espaços externos Fonte: Luciana Cirino (2018). Transitando pelos corredores, que na maioria das vezes estavam vazios durante a semana, foi possível identificar outros fragmentos da história do Mineirinho, que não estavam preservados nas páginas de documentos, mas que estão materializadas lá, em paredes, salas e mobílias, dentro de seus portões. Figura 45 – Salas e corredores do Mineirinho Fonte: Luciana Cirino (2017). A identificação de que haveria uma piscina no Mineirinho só foi possível porque colhemos relatos a esse respeito entre os depoentes e também transitamos em diferentes ambientes do Mineirinho. Isso nos conduziu à sala 409, que guarda os vestígios do local em que a piscina seria construída, apresentados na figura a seguir: 142 Figura 46 – Sala 409 e a piscina que não foi efetivamente construída Fonte: Luciana Cirino (2018). Conforme nos relatou Celso Lacerda (2018), que trabalhou como pedreiro no final da obra, e que durante o levantamento documental da pesquisa estava na gestão do Mineirinho, houve um planejamento para a construção da piscina, mas este não foi concretizado: É, você vê ali é a sala 200, 409. Que hoje é, um tipo de um, arquivo. Você vê que está lá, o buraco. Tem concretado, mas não tem nada. Quer dizer, fez um buraco, concretou, mas cadê? Ele não terminou! Não tem azulejo, não tem nada (Celso Lacerda, 2018). Em relação a essa piscina, ao analisar o documento do convênio assinado entre a UFMG e o Governo de Minas Gerais, no qual foi pactuada a utilização da área de 93.000 m² para a construção do Mineirinho, observamos que, na cláusula Terceira, em que se encontra a descrição das dependências que seriam construídas nele, não estava descrita a construção de uma piscina no local. Entre as pendências existentes em relação às obras de construção do Centro Esportivo Universitário, que estavam sob a responsabilidade da ADEMG, se encontrava a construção de uma piscina de aprendizagem. No Parágrafo Único da cláusula Nona desse documento, encontramos um indício do que poderia ter estimulado a construção da piscina no Mineirinho. De acordo com o registro, havia a previsão de que, caso fosse possível, essas pendências poderiam ser supridas nas instalações do Palácio dos Esportes: 143 O Estado de Minas Gerais, através da Administração do Estádio “Minas Gerais”, concluirá a construção do Centro Esportivo Universitário dentro do prazo previsto para a conclusão das obras do Palácio dos Esportes, efetivando a construção das obras do Centro Esportivo Universitário, pendentes de execução, que são as seguintes: - 1 vestiário para as quadras de tênis; - 1 piscina para aprendizagem; - Construção do reservatório d’água, no local já estaqueado. PARÁGRAFO ÚNICO – dispondo o Palácio dos Esportes de condições técnicas construtivas para a realização de atividades simultâneas, conforme cláusula Terceira desse convênio, suprirá as instalações previstas e não construídas na relação das obras do Centro Esportivo Universitário. Seriam essas pendências uma justificativa para a construção da piscina no Mineirinho? As fontes acessadas não apresentaram maiores esclarecimentos a esse respeito. Da mesma forma, não foi possível identificar se as obras pendentes no CEU foram finalizadas na íntegra, uma vez que esse não era o foco de nossa pesquisa. Uma investigação mais aprofundada dessas indagações poderá contribuir para esclarecê-las e para reconstituir a trajetória da construção do Centro Esportivo Universitário. A nosso ver, isso seria uma contribuição relevante para a história do esporte e do lazer em Belo Horizonte. Redirecionando nossos olhares para o Mineirinho no tempo presente, o que constatamos é que houve o preparo de um local para a instalação da piscina, com escavação e revestimento em cimento de uma área na sala 409. No entanto, a conclusão dessa obra não foi efetivada. Na sala 409 encontra-se preservada a memória do começo da obra, do que viria a ser a piscina do Mineirinho. Durante o período do levantamento documental e das visitas a essa sala, identificamos que ela era utilizada para guardar arquivos e outros materiais sob a responsabilidade da Secretaria de Estado de Esporte e Juventude, conforme apresentado anteriormente, na figura 46. No fim das contas, essa piscina não se tornou uma das instalações do Mineirinho, mas outras foram erguidas, contribuindo para a concretização de um projeto que lhe deu forma e que impulsionou a existência de um novo local para o esporte e o lazer em Belo Horizonte. 4.1.1 A estrutura e os diferentes espaços do Mineirinho A estrutura do Mineirinho está distribuída em uma área construída de 80.000 m². Suas dimensões compreendem 144 m de diâmetro (em virtude de ser uma construção circular) e as seguintes alturas: no Setor 1, 35,80 m; no Setor 5, 29,15 m; e no Centro da Arena, 32,50 144 m. Se compararmos os valores com medidas de altura equivalentes aos andares de um prédio, teríamos o equivalente a aproximadamente 10 andares (considerando o pé direito de 3 m). O Mineirinho, no entanto, possui 9 níveis.97 Seguindo a tendência de outras obras que foram realizadas sob a responsabilidade dos diferentes entes federativos no período (anos 1970), o Mineirinho materializou os projetos de uma arquitetura focada na edificação de uma obra de grandes proporções, que se propunha a ser o maior ginásio coberto da América Latina, conforme Ricardo Raso (2018): Inaugurou em 80. Mas de obra mesmo na década de 1970 nós tivemos um ano e meio, 2 anos de obra mesmo, estou falando com dois mil operários e tal. Muito tempo, fez a fundação com pouca gente, parou, E aí foram saber os custos. Então, em termos de engenharia a gente fala que foi uma obra que foi licitada com anteprojeto, se esperando gastar X. E esse X foi gasto só na fundação e o Estado parou. Mas o ambiente de decisão me parece claro o seguinte: o país tinha à época um esporte nacional que era o futebol. Que se resumia ao eixo Rio-São Paulo. A principal receita desse esporte era a bilheteria, você eu tinha no Rio de Janeiro o Maracanã, para 200 mil pessoas. E em São Paulo o Morumbi, pra cento e tantas mil pessoas, né? E estádios e todo mundo é, o ambiente era de uma Ditadura Militar, mas de Brasil maior do mundo, ame-o ou deixe-o. É assim que vai ser e tal. E na hora de fazer um ginásio esportivo para Minas Gerais, para Belo Horizonte, vamos fazer o maior ginásio da América Latina! Está dentro do ambiente de decisão. Esse longo período que representou a efetiva construção do Mineirinho, entre 1972, quando o convênio entre a UFMG e a ADEMG foi firmado, e 1980, quando ocorreu a sua inauguração, foi marcado por contextos políticos particulares, dentro do período que o país estava sob o controle dos militares. Nos anos iniciais, pairava sobre o país o clima de tensão e medo que era reflexo da violência exercida pelo Estado a partir do Ato Institucional n° 5, baixado em 13 de dezembro de 1968 durante o governo do general Costa e Silva, e que foi a marca mais expressiva da repressão aos oponentes do regime militar. O AI-5 vigorou até dezembro de 1978, quando então foi revogado, sendo parte do processo de abertura política conduzida durante o governo de Ernesto Geisel. A efetivação da construção do Mineirinho também se deu nesse panorama de distensão do regime militar, durante o projeto de redemocratização do país. Em 1976, houve a retomada da obra que se encontrava interrompida. O fim da construção foi em 1980, quando o Mineirinho foi inaugurado. O tamanho desse ginásio evidencia uma marca da engenharia desse período, em que o poder público investiu significativamente em grandes obras, abrangendo o campo esportivo. A arquitetura do Mineirinho guarda relação com as intenções apresentadas lá no 97 Informações encontradas na Revista Mineirinho, Vitória do Otimismo [s.d.]. Mais informações a respeito da edificação podem ser observadas no Anexo III. 145 começo dos anos 1960, quando foi manifestado o desejo de que fosse construído um ginásio para atender a diferentes modalidades esportivas tidas como esporte especializado. Assim, a partir de uma ideia de um ginásio inicialmente genérico, sem nome e sem projeto, surgiu o Mineirinho em Belo Horizonte, a expressão da intenção do fomento ao esporte especializado que envolveu diferentes governos e a concretização da ação do trabalho de técnicos e de centenas de operários que edificaram98 um Palácio: dos Esportes, do lazer e da cultura. A análise das fontes, em especial das fotografias99, com as quais nos deparamos, nos sinalizou que foi recorrente a presença de políticos e de outras figuras públicas, em especial na fase final da construção. Na figura 47, por exemplo, se encontra o então prefeito de Belo Horizonte, Maurício Campos (ao centro, de camisa clara e gravata) em visita às obras do Mineirinho, no ano de 1979, acompanhado pelo arquiteto Richard Lima (atrás de Maurício Campos), pelo engenheiro Galbas (de camisa clara ao lado do Prefeito) e pelo diretor-geral da ADEMG, Afonso Celso Raso. Figura 47 – Visita do prefeito Maurício Campos durante a construção do Mineirinho em 1979 Fonte: Arquivo Afonso Celso Raso. A Figura 48 retrata a visita que Aureliano Chaves, Vice-presidente do Brasil, realizou ao canteiro de obras do Mineirinho em 1979. 98 No anexo IV é possível identificar a diversidade de trabalhadores que executaram a obra. 99 Tivemos a colaboração do Sr. Afonso Celso Raso para auxiliar na identificação de muitas fotografias desse período da construção. 146 Figura 48 – Vice-presidente Aureliano Chaves no canteiro de obras do Mineirinho Fonte: Arquivo Afonso Celso Raso. Antes de ocupar a vice-presidência da República, Aureliano foi Governador de Minas Gerais entre 1975 e 1978 e acompanhou uma fase da construção do Mineirinho. É possível identificá-lo na parte central da imagem, de frente e conversando com outras pessoas. Também identificamos o engenheiro Eduardo Bambirra (virado de lado e usando óculos escuros) entre essas pessoas. Sara Kubitschek (do lado direito da imagem – figura 49), esposa de Juscelino Kubitschek, Presidente do Brasil entre 1956 e 1961 (falecido em 1976), também constava entre as fotografias que acessamos. Na figura 49, também se encontra o responsável pelo Cerimonial do Palácio do Governo de Minas Gerais, José de Grisolia (atrás de Sara Kubitschek), e, ao centro, Isabel Santana (Relações Públicas da ADEMG). 147 Figura 49 – Sara Kubitschek cumprimentando Afonso Celso Raso em visita ao Mineirinho em 1979 Arquivo Afonso Celso Raso. Do começo até a conclusão da obra foi necessário um volume significativo de materiais e de mão de obra. A construção foi tão dispendiosa que, o que podemos ver em relação à sua altura, é similar ao que não podemos enxergar, à parte que se encontra em suas fundações, sob o solo. Foi escavado, em volume, o equivalente a 8.500 m³. E a profundidade máxima dos tubulões é comparada a um edifício de 10 andares (32 m). O espaço, planejado, pode ser diferente do efetivamente construído. Durante a execução do projeto outras prioridades podem surgir, previsões iniciais podem ser alteradas e novas demandas podem ser justificar alterações. Além disso, é importante considerar que um equipamento público de esporte e de lazer é usualmente construído para receber pessoas que irão utilizá-lo também para práticas esportivas. No caso de estádios e ginásios, há ainda lugar para as torcidas. Inicialmente, estava previsto no Convênio firmado em 1972 que o Mineirinho seria construído para 20.000 espectadores, mas, uma vez construído, ele teria capacidade para 25 mil pessoas (5.000 cadeiras, 16.000 nas arquibancadas e 4.000 na Arena). Infelizmente, o que foi construído pode deixar de ser utilizado, ficando em situação de desuso, abandonado. Essa situação ocorreu com o alojamento do Mineirinho, que entrou em funcionamento nos anos 1980, com a proposta de oferecer hospedagem a baixo custo, porém, com os preparativos para a Copa do Mundo de 2014, foi desativado e, 148 atualmente, não funciona mais. Esse lugar do Mineirinho permanece nas lembranças de Ricardo Raso: Olha, interessante, o hotel ele não era previsto no projeto original. Mas havia uma enorme demanda. Por exemplo, você recebia a seleção, atletas aqui, Belo Horizonte não tinha nem um ônibus direito, pra cá. Treinos que terminassem depois de 9 horas [21h], você não tinha ônibus pra ir embora, entendeu? A ideia de alojamento baixo custo para o esporte, era uma necessidade! [...], porque ele foi feito para receber delegações esportivas. Mas nada impede de você receber delegações de estudantes, delegações de evangélicos, delegações de encontro de pessoas (Ricardo Raso, 2018). E a respeito do fechamento do alojamento, Celso Lacerda nos relatou que teve a obra da reforma do Mineirão para 2014, né, da Copa do Mundo. Que os funcionários, o pessoal da obra desceu para cá para usar os alojamentos para trabalhar no Mineirão. E falou que depois da reforma do Mineirão que eles iam reformar o Mineirinho. Que inclusive o Mineirinho também estava na PP, né? E, acabou que não reformou. Então não reformou, o pessoal usou, usou, usou. quer dizer, o que estragou eles não consertaram e fechou (Celso Lacerda, 2018). A imagem a seguir apresenta a entrada do alojamento que foi construído no Mineirinho. À direita é possível observar um símbolo redondo, nas duas bandeiras das portas, que foi parte da programação visual utilizada para a produção do material gráfico usado para a divulgação do Mineirinho. A sua criação é atribuída ao cartunista Ziraldo Alves Pinto. Figura 50 – Portaria que dava acesso ao alojamento do Mineirinho Fonte: Luciana Cirino. 149 Aliás, Ziraldo teve uma atuação de resistência à ditadura militar e foi um dos produtores do jornal Pasquim100, que abordava temas políticos por meio de sátira e humor. Figura 51 – Ziraldo no Mineirinho em obras em 1979 Fonte: Arquivo Afonso Celso Raso. Há ainda outras federações que estão alocadas no nível 4 do Mineirinho, e que, por vezes, estimulam a ocupação do local. Durante as visitas para o levantamento documental, observamos a presença de atletas de boxe vinculados à essa federação e também de árbitros de futebol que estavam no Mineirinho aguardando a abertura da sala do Sindicato dos Árbitros de Futebol do Estado de Minas Gerais. Em janeiro de 2018, fizemos um levantamento de quantas salas eram utilizadas por federações ou entidades vinculadas ao esporte. Ao transitar no nível 4, registramos a quantidade de salas que tinham alguma identificação (placas ou cartazes) que possibilitassem indicar a presença de uma entidade que estivesse ocupando o local. Entre federações e outras entidades, totalizamos a verificação de 14 salas que estavam identificadas. Esse foi um indicativo de que a intenção de que a ADEMG acomodasse as federações no Mineirinho foi, de algum modo, alcançado. 100 Jornal semanal que foi fundado em janeiro de 1969, no Rio de Janeiro. Utilizava linguagem coloquial em seus textos e o humor como forma de contestação. Disponível em: . Acesso em: 14/09/2019. 150 4.2 O Mineirinho no contexto da metrópole no final do século XX e o encarceramento da vida e do lazer Considerando as intervenções realizadas no Mineirinho, que foram relatadas pelos depoentes, ou identificadas ao observarmos as suas dependências, constatamos como, ao longo dos anos após a sua inauguração, ele foi se constituindo enquanto espaço/lugar de diferentes atividades: show, eventos esportivos, sociais, religiosos, entre outros. Lefebvre (2011) evidencia a interrelação existente entre as pessoas e o espaço, que, interrelacionados a partir das atividades humanas, se constitui como uma expressão de sua produção. Consideramos, desse modo, que a atuação humana, no espaço, pode ser vista enquanto obra. Assim dito, podemos ter o e no espaço a expressão da ação política de diferentes grupos representando diferentes interesses. Desse modo, o espaço produz, produzirá e receberá impactos no corpo e do corpo, os sentidos do e no espaço. Tal apontamento nos remete aos modos como a cidade pode ser compreendida (os tipos de produção que ela poderia evidenciar). Dialogando com o pensamento de Soja (2000) a respeito do conceito de cidade carceral (inserido no contexto dos discursos contemporâneos, da pós metrópole), refletimos a respeito de situações identificadas em relação à estrutura e aos processos que, segundo constatamos, ocorreram ao longo das últimas três décadas (alguns dos quais, são notados atualmente). Constatamos nas fontes acessadas que, nos primeiros anos de funcionamento do Mineirinho, ele era aberto. Não havia cercas ou muros ao redor dele, salvo em situações relacionadas à demanda estrutural, em que se fazia necessário o uso de contenção de concreto para evitar a movimentação de terra. Essa situação pode ser encontrada, por exemplo, no muro de arrimo que se encontra na parte lateral à Av. Otacílio Negrão de Lima. 151 Figura 52 – O muro de contenção compondo a paisagem externa do Mineirinho Fonte: Luciana Cirino. Identificamos que, nos anos 1990, ocorreu o processo de cercá-lo com mourões de concreto. Podemos identificar nas imagens abaixo alguns dos locais em que o Mineirinho não tinha fechamento por muros. Figura 53 – Algumas visões do Mineirinho Fonte: Arquivo do Mineirinho (s/d). Um dos aspectos positivos, ao não realizar o fechamento de casas e outras edificações com os muros de concreto, é que, estando dentro do estabelecimento ou residência, você terá contato visual com o ambiente externo (a rua), o que pode ser um aspecto positivo em relação à segurança. Além disso, os muros são bloqueios, dificultam o 152 contato corporal e também o visual entre as pessoas e os espaços. E, uma vez instalados ou construídos, os mourões e os muros limitam a possibilidade de se contemplar as edificações, sejam elas públicas ou privadas. Nas imagens a seguir, é possível identificar o fechamento de alguns trechos que circunda o espaço do Mineirinho, sendo, para isso, utilizado os mourões de concreto e as cercas com mourões de madeira e arame. Figura 54 – Processos de cercamento Fonte: Luciana Cirino. As próximas figuras são fotografias que foram feitas de áreas internas e externas do Mineirinho. Elas evidenciam intervenções que foram executadas após a sua inauguração e que, além de desconfigurar o projeto inicial, interferindo na possibilidade de observação da arquitetura desse equipamento público, ocasiona também a desconfiguração de seu projeto inicial. Figura 55 – Mineirinho entre grades Fonte: Luciana Cirino. 153 Figura 56 – As barreiras de aço no Mineirinho Fonte: Luciana Cirino. Essas mudanças que foram ocorrendo ao longo dos anos podem evidenciar como as pessoas podem se (inter)relacionar e atuar no e pelo espaço. A instalação de grades e a construção dos muros podem ser compreendidas como expressão da influência externa que esse equipamento foi sofrendo no contexto da metrópole. A expressão do espaço como obra, mutável e dinâmico, impactando e sendo impactada pelo contexto social que ele constitui, explicita as contradições do cotidiano. Uma contradição que identificamos é que o Palácio dos Esportes, sem muros e com as áreas externas acessíveis à população, atenderia também à intenção de fomentar a inserção dos jovens no esporte e no lazer. Mas observamos que, após a sua inauguração, esse projeto foi se diluindo ao longo dos anos, tomando outros contornos. E cada vez mais fechado, foi sendo isolado de seu propósito. É justificável, inclusive considerando a dimensão do tempo (do ponto de vista historiográfico), que tal fato expresse situações vinculadas a um determinado contexto histórico, que possa comportar permanências e mudanças. Assim dito, uma mudança que percebemos em relação aos tempos de lá, um pouco mais distante de nós, é que nos parece que o Mineirinho já não ocupa o lugar de significativa atenção que ocupou durante o período pesquisado. Além disso, carece de projetos para melhor aproveitá-lo. Talvez, para isso, um bom caminho seria a efetiva participação da população nos processos decisórios da política, aspecto que não fazia parte do panorama político brasileiro durante o recorte temporal pesquisado (1959-1980). 154 Considerando os prováveis usos que foram pensados para o Palácio dos Esportes e os usos efetivos, constatamos que, ainda que atualmente o espaço seja utilizado efetivamente para diferentes atividades (tais como Feira de Artesanato, a escola de Arco de Flecha, estacionamento, aulas de boxe, endereço ativo de algumas federações, almoxarifado da Pasta de Esporte e Lazer do Estado, e para shows e eventos diversos), há um grande potencial de uso desse equipamento de esporte e lazer, que pode ser melhor dimensionado com a devida atenção do governo estadual. E, para isso, não demandaria muitos investimentos, uma vez que foi recorrente entre os depoentes o fato de que, enquanto estavam vinculados à ADEMG, o Mineirão e o Mineirinho foram administrados tendo superávit. Talvez, a demanda maior nos dias atuais seja o desejo político de atender, de fato, aos interesses da população! Pensando os usos de suas dependências, de modo geral, observamos que os níveis101 mais acessados são: o nível 1, que, além de ter parte da área externa utilizada pela Federação Mineira de Arco e Flecha e pelos feirantes (que tem as barracas montadas na área externa), há uma sala interna que é utilizada pela administração da Feira de Artesanato, bem como um grande espaço como depósito de materiais da Secretaria de Estado de Esportes de Minas Gerais; no Nível 2, se encontra duas Diretorias vinculadas à Secretaria de Estado de Esportes e a portaria de acesso às diretorias; o nível 3 é onde se encontra a sala dos vigilantes e a portaria que dá acesso para a entrada de funcionários e de visitantes ao Mineirinho; o nível 4 é utilizado pelas federações (mas possui algumas salas vazias); no nível 5, localizam-se os quartos do alojamento, com grande potencial de uso! Os demais níveis possuem diversos vãos que podem ser reestruturados, comportando diferentes possibilidades de uso. Por fim, refletindo e escrevendo sobre os olhares do passado e os possíveis reflexos da trajetória do Mineirinho no presente, nos chamou à atenção que, em tempos que governos alegam crises, como não pensar possibilidades de melhor utilização desse espaço? Não devemos nos esquecer da trajetória percorrida até que o Palácio dos Esportes figurasse na paisagem da cidade e na história da política pública de esporte e lazer. Agora, no presente, o pequeno gigante ficará sonolento? Tal indagação, feita no tempo presente, somente terá apontamentos nas construções que fizermos agora e ao longo dos anos. Não nos esqueçamos de olhar para o passado! E, assim, tenhamos memórias e histórias para nos inspirar nas tomadas de ação, no presente. 101 Veja anexos de VII a XV. 155 5 REVENDO OS CONCRETOS DO PLANO: APONTAMENTOS FINAIS Chegar ao final desta trajetória em que nos aproximamos dos processos e das diferentes etapas que culminaram com a construção do Mineirinho, analisamos documentos e relatos de diferentes depoentes. Foi uma tarefa tão complexa e distendida no tempo quanto foi a efetivação de sua construção e de sua constituição enquanto equipamento de esporte e lazer. Nosso objeto de pesquisa teve várias denominações, no começo dos anos 1960, era um ginásio, sem nome e sem formas definidas. Nos anos 1970, esse ginásio foi denominado como Palácio dos Esportes, teve suas formas definidas em projetos arquitetônicos e em cálculos estruturais, e foi aos poucos recebendo sua estrutura no concreto, fixado na paisagem da Pampulha através do trabalho de operários e da equipe técnica que participaram das obras. Metamorfoseado pela legislação, após a sua inauguração em 1980, transformou-se em Estádio Felipe Drummond, homenagem ao jornalista. E, nas sensibilidades, memórias e experiências cotidianas da população, continua sendo o Mineirinho. Localizado à margem da Lagoa da Pampulha, juntamente com o Mineirão e o Centro Esportivo Universitário da UFMG, contribuiu para a alteração da paisagem em seu entorno, impulsionando processos que impactaram a urbanização próxima a eles: retirada da vegetação; construção de vias de passagem, de rede de água, de esgoto, de eletricidade e de telefonia; e, com a sua edificação, após a inauguração, se constituiu como um novo espaço multifuncional para a cidade. Aqueles projetos idealizados para a Pampulha nos anos 1940, em que equipamentos públicos como o Cassino, o Iate Club e a Casa do Baile contribuiriam para impulsionar a Pampulha como território de lazer para Belo Horizonte, conforme apresentado por Pimentel (2007) e Carsalade (2007), seriam ampliados com a metropolização de Belo Horizonte no decorrer da segunda metade do século XX. A Pampulha, assim com outras regiões da cidade, teve uma ocupação acelerada de várias áreas, contribuindo para acomodar a população de Belo Horizonte, que aumentou significativamente ao longo dos anos 1960, 1970 e 1980. E acomodou também três novos espaços que foram inaugurados para o esporte e o lazer: o Mineirão em 1965, o Centro Esportivo Universitário em 1972, e o Mineirinho em 1980. Esses equipamentos públicos, somados a outros que surgiram nesse período, como os clubes recreativos, aumentaram ainda mais o potencial de utilização da Pampulha como território esportivo e de lazer. Os espaços internos do Mineirinho, distribuídos entre os nove níveis que o constituem, foram idealizados para promover diferentes possibilidades de lazer (tais como 156 apresentações musicais, festas e outras atividades culturais), eventos religiosos, para o incentivo ao esporte especializado (compreendido enquanto as modalidades amadoras) e à difusão esportiva, conforme identificamos nas fontes. O Mineirinho também foi estruturado para acolher as federações esportivas, e constatamos, ao analisar as fontes e ao transitar no local, que ele veio a ser ocupado por muitas delas, principalmente de muitas salas localizadas no nível 4. Contudo, essa já era uma ação realizada pelo Poder Público antes mesmo da sua inauguração, conforme apresentado por Rodrigues e Costa (2014), que demonstram que, em 1966, com a autorização da aquisição de uma parte de um imóvel localizado na área central de Belo Horizonte para acomodar a Diretoria de Esportes de Minas Gerais e as federações, elas se concentraram na então denominada Casa do Esporte. No nível 5, foram construídos os 62 quartos do alojamento que tinham por finaldade oferecer hospedagem mais acessível a delegações esportivas e a estudantes. Mas nem tudo que foi planejado em seus projetos alcançou êxito: a piscina ficou apenas na base concretada, em uma das salas do nível 4102; o fechamento com o vidro Ray Ban (anunciado por um dos depoentes) também não ocorreu, em virtude do alto valor de custo; e o tratamento acústico que iria melhorar a sonorização interna, também por motivos financeiros, permaneceu apenas nos desejos. Olhando para fora do Mineirinho, para a área externa à grande estrutura, constatamos que, em seus primeiros anos de funcionamento, ela comportou um parquinho infantil (playground), uma pista de bicicross que estava próxima ao portão 3103, e um ginásio (construído nos anos 1990, mas que, com o projeto implementado de remodelação do Mineirão para a Copa de 2014, foi demolido). A área externa também recebeu o campo de treinamento da Federação de Arco e Flecha de Minas Gerais e, ao seu lado foi organizada a estrutura da Feira do Mineirinho, que funciona com espaço de trabalho, de cultura e de lazer. Um dos aspectos marcantes, além de sua beleza arquitetônica, é a dimensão que o Mineirinho possui. Construído para acomodar 25 mil pessoas em suas arquibancadas, cadeiras e na quadra (em ocasião de shows), possui um formato arredondado, similar a seu vizinho, o Mineirão. A imponência planejada para o Palácio dos Esportes pode ser identificada ao longo de suas 48 radiais104 (colunas de sustentação) e em seu tamanho, evidenciado em sua altura e dimensões, sendo esse aspecto marcante fora e dentro dele, em especial quando estamos 102 No anexo XII, é possível identificar a piscina descrita na Planta Baixa do Nível 4. 103 Veja anexo VI. 104 No anexo XIV, que apresenta a Planta Baixa do Nível 2, podemos observar as 48 radiais distribuídas no projeto. Elas configuram o formato circular ao Mineirinho. 157 dentro da quadra e olharmos para a cobertura, ou quando se está na parte mais alta da arquibancada e olhamos para a quadra. Ele e outras grandes obras, que foram realizadas durante o período da ditadura militar, se constituíram como uma das marcas dos governos desse período, impulsionando a ideia desenvolvimentista da época e o deslocamento de grande aporte financeiro, estando entre elas, a hidroelétrica de Itaipu e a ponte Rio-Niterói. Observando estudos que tematizaram grandes obras como essas, é possível constatar que, se elas ofereceram soluções para a sociedade, no período, também representaram desafios (GIONCO; MENDES; SANTOS, 2015; COSTA; AZEVEDO, 2018). Ao que pudemos identificar, a construção do Mineirinho atendeu aos interesses da Universidade Federal de Minas Gerais, na medida em que, diante da federalização do curso de Educação Física (em 1969) e da obrigatoriedade da Educação Física como componente curricular de todos os cursos no Ensino Superior, a sua construção atenderia à demanda emergente de espaço para esses fins. Assim, seria de fundamental importância promover a construção do conjunto externo ao Estádio Governador Magalhães Pinto, que faria figurar dois equipamentos esportivos e de lazer na paisagem vizinha à UFMG: o CEU e o Palácio dos Esportes. Em relação aos interesses que o Governo de Minas Gerais teria com a construção do Mineirinho, destacamos que, em 1964, com a instauração do golpe civil-militar, o Brasil foi governado por sucessivos governos militares, que durou até o ano de 1985. Há indícios de que, durante o período pesquisado, as gestões da ADEMG, que foram responsáveis pela administração do Mineirão e pela construção e administração do Mineirinho se alinharam às políticas e demandas oriundas tanto do Governo de Minas quanto do Governo Federal Ao ter entre as intenções para a construção do Mineirinho a possibilidade de impulsionar o esporte especializado, inferimos que essa poderia ser compreendida como uma relação com o alinhamento da política proposta no âmbito Federal: o Esporte Para Todos e a política de Difusão esportiva junto aos jovens, em especial estudantes. Foi por meio dessa intenção de fomento ao esporte educacional, como meio de controle do tempo e de conduta dos jovens, que se firmou, em 1970, o convênio para a construção do Conjunto Esportivo Externo (que deu origem ao CEU-UFMG, inaugurado em 1971, e ao Palácio dos Esportes, inaugurado em 1980). Contudo, conforme as fontes evidenciaram, a intenção de construção de um ginásio foi apresentada muito antes, em 1960, quando o Governo de Minas assinou o convênio com a UFMG para a construção do Mineirão. E ainda que a sua construção tenha iniciado em princípios dos anos 1970, foi a partir de 1976, já na fase de distensão do regime militar, que a sua construção obteve maior fôlego e que a obra prosseguiu até ser inaugurado em 1980. 158 Desse modo, ao analisarmos a possibilidade da relação do Mineirinho com o regime militar, tendo por referência os conceitos de acomodação, adesão ou resistência, apresentados por Motta (2016), nos parece que, desde o começo de sua construção (em que o imponente Palácio dos Esportes começou a sair do projeto e despontar na paisagem) até a sua inauguração, havia por parte das gestões da ADEMG posturas mais inclinadas à acomodação ou à adesão. Outro aspecto marcante é que tanto o Palácio dos Esportes quanto o Centro Esportivo Universitário guardam relação, em suas origens, com o Mineirão. Isso porque, em 1959, após a publicação da Lei 1947/59, a UFMG e o Governo de Minas firmaram convênio para cessão de terreno em que o Estado construiu o Estádio Minas Gerais, inaugurado em 1965. Esse convênio representou a base para que, anos depois, outros convênios fossem firmados, e para que o CEU e o Mineirinho fossem construídos e inaugurados, constituindo desse modo, a presença de três grandes equipamentos públicos de esporte e lazer. Ao fazemos o levantamento de fontes, e ao realizarmos a análise delas, foi marcante a percepção de que, ao longo da segunda metade do século passado, a Pampulha passou por processos intensos de transformação do espaço. Ao que inferimos, parte da urbanização no entorno do Mineirão, do CEU e do Mineirinho foi impulsionada pela intervenção estatal, em virtude também da construção desses equipamentos. Observamos, ainda em relação aos equipamentos de esporte e lazer, que houve uma intensa ocupação de porções de terras da região da Pampulha, que foram utilizadas por entidades privadas para a construção de clubes e outros equipamentos direcionados ao esporte e ao lazer. Assim, tanto o Poder Público quanto entidades privadas, ao investirem em equipamentos de esporte e lazer, contribuíram para ampliar o potencial da região da Pampulha no sentido de ser utilizada para tais fins. Em relação à participação política nas tomadas de decisão, ao que foi possível identificar, não constatamos mobilizações externas ao governo que fomentassem a construção do Mineirinho. O que identificamos nas fontes, que poderia estar mais próximo de uma mobilização externa ao governo, foi a participação institucionalizada dos jornalistas, por meio da representação da Associação de Mineira de Cronistas Esportivos, que tinham assento no Conselho de Administração da ADEMG. Não identificamos, nas fontes, outras formas de acesso às decisões políticas. Foi recorrente, tanto nas fontes documentais, quanto nos relatos de memória, o argumento de que o Mineirinho foi pensado para atender aos esportes especializados. Tivemos indícios de que ele incentivaria a difusão dos esportes e da Educação Física da 159 juventude. E, ao que observamos, nos primeiros meses após a sua inauguração, houve grande empenho em levar jogos e atletas para sua quadra, e torcedores para suas arquibancadas. Ele foi lugar de espetáculo e de vivências práticas de diferentes modalidades esportivas. Outra intenção, que houve em relação ao seu uso, foi a de acolher a Diretoria de Esportes e as federações, de modo a fomentar o esporte amador. Era esperado que o Mineirinho fosse para o Esporte Especializado o que o Mineirão representou para o futebol: a mola propulsora para seu desenvolvimento. Compreendendo o espaço como produção humana, em que, ao mesmo tempo em que passa por intervenções sociais, também as impulsiona (Lefebvre, 2011), identificamos alguns aspectos que constatamos durante a pesquisa dedicada à história e à memória Mineirinho, que nos evidenciaram essa dimensão de inter-relação do espaço e da população. O levantamento documental que foi realizado no próprio Mineirinho por um período mais extenso, nos trouxe a possibilidade de observar algumas questões mais recentes dessa transmutação de seu espaço, ainda que este aspecto não estivesse previsto no objetivo da pesquisa, em função do recorte temporal proposto. Considerando, em especial o período pós inauguração, em que o Palácio dos Esportes passou a figurar como lugar(es) de lazer e cultura, percebemos como diferentes contextos históricos e sociais foram registrando as marcas que a ação de pensamentos, desejos e necessidades cravaram em suas estruturas e na sua configuração espacial. Uma das mais destacadas, para nós, foram os processos de cercamento pelo qual o entorno do Mineirinho passou ao longo dos anos, e, internamente, o fechamento de algumas áreas com grades e tapumes. Esses processos nos remeteram às considerações apresentadas por Soja (2000) em relação aos diferentes modos como as cidades podem ser compreendidas na pós-modernidade. Entre elas, figura o discurso da cidade carceral, que pode expressar condutas relativas ao aumento da sensação de insegurança no contexto urbano, direcionando a sociedade para condutas de controle social e uso de tecnologias carcerais, como as cercas, os muros e as câmeras de vigilância. Assim, se em um primeiro momento o Mineirinho foi pensado para acolher e fomentar a presença da população, enquanto um lugar de encontro, aberto e acessível, ao longo dos anos, do mesmo modo como ocorreu com outros espaços sociais em Belo Horizonte, ele foi sendo cercado e encarcerado. Tornou-se, pois, mais uma “pseudo ilha de segurança” na metrópole contemporânea. Portanto, distanciou-se, desse modo, de sua proposta inicial, de aglutinar, de aproximar e de estimular práticas e sensibilidades das 160 pessoas (ainda que, naquele no período mais próximo ao seu planejamento, no começo dos anos 1970, também nos parece que haveria a ideia de controle). Além disso, pensando em apontamentos para os dias atuais, mesmo que, em certa medida, o Mineirinho tenha alcançado o objetivo de fomentar o esporte especializado, ainda há uma vacância de ações, além de muitos espaços que poderiam ser utilizados, por exemplo, o alojamento, que funcionou por cerca de três décadas, e que, com o processo de reforma proposto para a Copa de 2014, foi desativo. Por fim, em relação aos usos, nos primeiros meses após a inauguração do Palácio dos Esportes, as fontes nos indicaram que houve grande movimentação do local, com shows, jogos e outras atividades esportivas e culturais, que lhe aproximaram da população e valorizaram a construção do Mineirinho e seu papel fundamental no cotidiano da cidade. Do mesmo modo que seus frequentadores em dias de jogos, ficamos na torcida para que, diante de novos desafios e contextos históricos, o Mineirinho permaneça, enquanto um equipamento público de esporte e lazer, nas mãos do Estado. E tal como os cancioneiros que, com suas letras, nos estimulam à percepção de outras possibilidades de ver e de sentir o nosso e os outros contextos, desejamos que novos interesses políticos, direcionados aos anseios da população, motivem a sua melhor utilização. Que a canção das festas e dos encontros derrube, ainda que simbolicamente, as cercas e os processos de desencontros desse equipamento público de esporte e lazer. E que os governos, atuais e futuros, voltando-se para a nossa memória, repensem o papel que podem ter para a constituição de nossa história política! Esperamos, assim, que o Mineirinho fique ao alcance dos olhos, acessível às sensibilidades, e perto do coração. 161 REFERÊNCIAS MÚSICA CANDEIA FILHO. Antônio. Preciso Me Encontrar. Disponível em: Disponível em: . Acesso em: 05 mai. 2019. GIECO, León. Sólo Le Pido a Dios. Disponível em: . Acesso em: 25 mai. 2019. NASCIMENTO, Milton; BORGES, Lô; BORGES, Márcio. Clube da Esquina 2. Disponível em: . Acesso em: 04 jun. 2019. RUBINATO, João. Saudosa Maloca. Disponível em: . Acesso em: 20 mar. 2019. ENTREVISTAS COSTA, Luciana Cirino. Entrevista concedida por Afonso Celso Raso a Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa. Belo Horizonte, 22 ago. 2018a. COSTA, Luciana Cirino. Entrevista concedida por José França a Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa. Belo Horizonte, 21 set. 2018b. COSTA, Luciana Cirino. 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Contagem: MJR, 2014. p. 119-170. 170 APÊNDICE A – ELEMENTOS PRÉ-ENTREVISTA Apêndice I Carta de Anuência uso de documentos CARTA DE AUTORIZAÇÃO/ANUÊNCIA Eu, Ricardo Afonso Raso, Superintendente de Gestão de Estruturas Esportivas da Secretaria de Estado de Esportes de Minas Gerais, gestor responsável pelo Estádio Jornalista Felipe Drummond - Mineirinho, tenho ciência e autorizo a realização da pesquisa intitulada Mineirinho, dos Planos ao Concreto: memória e história do Palácio dos Esportes (BH – MG) sob responsabilidade da pesquisadora Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa, desenvolvida sob orientação do Prof. Dr. Elcio Loureiro Cornelsen junto ao Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, da Universidade Federal de Minas Gerais. Para isto, serão disponibilizados à pesquisadora o acesso ao arquivo documental que se encontra no próprio Mineirinho, para a realização do levantamento documental. E, autorizo também a digitalização e a utilização dos documentos selecionados pela pesquisadora para que procedam o registro dos dados na pesquisa, assim como fica autorizado o seu uso em publicações acadêmicas. Belo Horizonte,_________________________. ________________________________ (Ricardo Afonso Raso, Superintendente de Gestão de Estruturas Esportivas da Secretaria de Estado de Esportes de Minas Gerais) 171 Apêndice II Roteiro de Entrevista História Oral Universidade federal de Minas Gerais Escola de educação física, fisioterapia e terapia ocupacional Programa de pós-graduação interdisciplinar em estudos do lazer ROTEIRO DE ENTREVISTA- História oral Entrevista realizada com .................................................................................................................................. . Data e local: ...................................................................................................................................... Após a entrega e assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, realizar a leitura da apresentação da entrevista para o depoente e iniciar a gravação: Você está convidado(a) a participar da pesquisa “Mineirinho, dos Planos ao Concreto: história e memória do Palácio dos Esportes de Belo Horizonte (1959-1980)”, desenvolvida por mim, doutoranda Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa, sob a orientação do prof. Dr. Elcio Loureiro Cornelsen, no Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG. Iniciaremos agora com o seu consentimento, a realização da entrevista, que será gravada e posteriormente transcrita, sendo devolvida a você para a conferência e confirmação dos dados, para posteriormente ser utilizada na tese. Roteiro- 1- Diga por favor o seu nome e sua trajetória profissional no campo do esporte e lazer. 2- Qual a função que foi exercida por você no Mineirinho (entre as décadas de 1960 a 1980)? 3- Em relação à construção do Mineirinho, você saberia dizer: - quando iniciou e quanto tempo levou para construí-lo? - Como era o projeto e o que se esperava com a sua construção (o que esperavam que fosse realizado após a sua inauguração)? - Como foi a execução do projeto? Teve alguma alteração? Caso afirmativo, por que? - Havia uma dotação orçamentária para a sua construção? 172 - Qual o setor do Estado era responsável pela execução/acompanhamento da obra de construção? Como esse controle era feito? - Havia alguma empresa externa que foi contratada? Em caso afirmativo, para quê? - saberia dizer quantos trabalhadores participaram da construção? 4- Você saberia dizer qual a expectativa do governo da época em relação ao funcionamento do Mineirinho? 5- Você já ouviu falar em ditadura militar? Em caso afirmativo, o que você saberia dizer a respeito? 6- Para você haveria alguma relação entre a construção do Mineirinho e a ditadura militar? Em caso afirmativo, qual seria a relação? 7- Quando o Mineirinho foi inaugurado? Saberia dizer como ele foi utilizado em seu primeiro ano de funcionamento? 8- Haveria algo mais que você gostaria de falar nessa entrevista? 9- Finalizar a entrevista agradecendo. (Local)_____________________, ____ de __________________ de 201__. 173 Apêndice III Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Pesquisa: MINEIRINHO, DOS PLANOS AO CONCRETO: MEMÓRIA E HISTÓRIA DO PALÁCIO DOS ESPORTES (BH-MG) O(a) Sr.(a) está sendo convidado(a) a participar da pesquisa “Mineirinho, dos Planos ao Concreto: memória e história do Palácio dos Esportes (BH, MG)”, da doutoranda Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa e coordenado pelo pesquisador responsável Prof. Dr. Elcio Loureiro Cornelsen, ambos do Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Estudos do Lazer da Universidade Federal de Minas Gerais. A pesquisa tem como objetivo analisar os processos de planejamento e construção do ginásio, considerando o contexto da política esportiva pensada para o período, assim como os modos de uso do mesmo nos anos iniciais após a sua inauguração. Para essa investigação será necessário identificar e analisar as intenções e as estratégias para o planejamento e a construção desse equipamento público de esporte e lazer, entender qual a relação dele com a política de esporte e lazer do período, examinar como foi utilizado em seus primeiros anos, e identificar qual a relação desse ginásio com a cidade. Para a coleta de dados utilizaremos a história oral, realizando as entrevistas a partir de um roteiro semi-estruturado, que serão gravadas, transcritas e analisadas para fins desse estudo como fonte de informações. Enfatizamos que a entrevista com cada participante será realizada em um único encontro com a doutoranda. Os dados coletados serão mantidos no CELAR/EEFFTO/UFMG pelo período mínimo de 5 anos, conforme Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. Os entrevistados poderão ser identificados pelo nome, caso concordem, do contrário, serão identificados apenas por um número ou nome fictício escolhido pela equipe de pesquisadores e suas identidades não serão reveladas publicamente. A coleta de dados se iniciará após a aprovação do Comitê de Ética, garantindo a eticidade da pesquisa e o respeito à dignidade e autonomia do participante. Esta pesquisa, ao solicitar a assinatura do termo de consentimento livre esclarecido aos sujeitos garante a escolha pelo anonimato dos entrevistados e o sigilo no tratamento das informações obtidas, caso assim o queiram, e ainda prevê que não acarretará malefícios aos participantes. Considerando os fundamentos éticos e científicos, os pesquisadores garantem que os riscos e desconfortos previsíveis da entrevista, como constrangimentos, serão evitados. Um possível benefício da pesquisa relaciona-se com a investigação de um tema que poderá contribuir com o aprofundamento de conhecimentos sobre o lazer, esporte e a história da política pública em Belo Horizonte e em Minas Gerais. As entrevistas serão realizadas pessoalmente pela doutoranda que irá ao encontro do entrevistado voluntário, no local que este indicar para a realização da mesma. Esclarecemos que todas as despesas relacionadas com este estudo serão de responsabilidade da doutoranda, sendo que não haverá nenhuma forma de remuneração financeira para os voluntários. Asseguramos total liberdade aos participantes que poderão recusar a participar ou mesmo retirar seu consentimento sem qualquer tipo de ônus para ambas as partes envolvidas (pesquisados e pesquisadores). Assumimos o dever de tornar público o resultado desta pesquisa e reiteramos nossa disponibilidade na prestação de esclarecimentos. Para esclarecer qualquer dúvida em qualquer etapa do estudo, o pesquisador responsável Prof. Dr. Elcio Loureiro Cornelsen pode ser 174 contatado pelos telefones (0xx31) 997640254 ou (00xx31) 3409-6080. Como também, pelo endereço Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, CELAR – Centro de Estudos de Lazer e Recreação, Av. Presidente Carlos Luz, 4664/Campus UFMG, Pampulha, Belo Horizonte-MG, (31) 3409-2335. Havendo a necessidade de maiores explicações divulgamos os dados do Comitê de Ética da UFMG (COEP): Av. Antônio Carlos, 6627 - Unidade Administrativa II, 2º Andar, sala 2005 - telefone (0xx31) 3409-4592. Assim, se você entendeu a proposta da pesquisa e concorda em ser voluntário favor assinar o protocolo abaixo dando o seu consentimento formal. Desde já, agradecemos pela compreensão e voluntariedade, Prof. Dr. Elcio Loureiro Cornelsen Doutoranda Luciana Cirino L R Costa Belo Horizonte, ______, de _________________________, de 2018. Via do voluntário Eu,___________________________________________________,RG__________________ _aceito participar da pesquisa intitulada: “Mineirinho, dos Planos ao Concreto: memória e história do Palácio dos Esportes (BH, MG)”, realizada por pesquisadores do Doutorado em Estudos do Lazer da Universidade Federal de Minas Gerais. Portanto, livremente dou o meu consentimento para que a entrevista seja gravada. Belo Horizonte, __ de de 2018. ___________________________________________________________________ Assinatura do voluntário ___________________________________________________________________ Via para arquivo/ - CELAR – Centro de Estudos de Lazer e Recreação EEFFTO- UFMG Eu,___________________________________________________,RG__________________ _aceito participar da pesquisa intitulada: “Mineirinho, dos Planos ao Concreto: memória e história do Palácio dos Esportes (BH, MG)”, realizada por pesquisadores do Doutorado em Estudos do Lazer da Universidade Federal de Minas Gerais. Portanto, livremente dou o meu consentimento para que a entrevista seja gravada. Belo Horizonte, ___ de de 2018. _________________________________________ Assinatura do voluntário 175 APÊNDICE B – ENTREVISTAS Transcrição de Entrevista Pesquisa de Doutorado MINEIRINHO, DOS PLANOS AO CONCRETO: MEMÓRIA E HISTÓRIA DO PALÁCIO DOS ESPORTES (BH – MG) JOSÉ FRANÇA (Depoimento) Belo Horizonte 176 Entrevista realizada com o Sr. José França Local: Museu do Futebol do Estádio Mineirão Data: 21 de setembro de 2018. Luciana: É, Bom dia senhor José França. José: Bom dia. Luciana: Eu agradeço a disponibilidade do senhor nos receber aqui no Museu do Mineirão é, hoje dia 21 de setembro, para a gente realizar a entrevista de pesquisa do doutorado do Mineirinho. Pesquisa intitulada: Mineirinho dos Planos ao Concreto: memória e história do Palácio dos Esportes, Belo Horizonte, Minas Gerais. É, lembrando que nós já fizemos a leitura do termo de consentimento livre esclarecido. O senhor já assinou autorizando inclusive o uso do nome do senhor na escrita, né? E também na transcrição, que vai ser feita posteriormente, depois que a gente fizer a transcrição dela para arquivo que o senhor possa ler. Eu mando para o senhor e em qualquer momento, se o senhor não quiser participar da pesquisa o senhor tem a liberdade de manifestar o desejo de não participar tá? José: Tá. Luciana: É, então para a gente começar, é, só confirmando o senhor autorizou José: Está autorizado. Luciana: Autorizou. José: É um prazer estar participando. Luciana: É, autorizou que utilize o nome do senhor na escrita né? José: Certo. Luciana: É, bom então vamos começar. O senhor podia dizer o seu nome e a sua trajetória é, pessoal e profissional. Contar um pouco da história José: Oh, meu nome Luciana: de vida do senhor. 177 José: é José da Silva França Sobrinho. Mas eu sou mais, é, o nome de guerra é, José França. E, estou aqui no Mineirão desde de 9 de março 61. E participei ativamente da construção desse gigante e, a fui, eu posso falar a trajetória toda, né? Luciana: Pode, pode, esteja à vontade. José: Eu participei ativamente da construção e fui o chefe do escritório de obras. É, como digo, como eu disse, cheguei em 9 de março de 1961. Só estava na terraplanagem, a fundação e a terraplanagem do campo. Luciana: Nessa época o senhor trabalhou fazendo o quê? José: Eu fui trabalhar, eu trabalhei uns meses no almoxarifado. Luciana: Sim. José: E depois fui ser o chefe do escritório de obras. É, a partir de 62 foi 2.500 operários sobre a minha responsabilidade. Luciana: Sim. José: Eu e um grupo que eu peguei até na obra. Luciana: Uhum. José: Que não podia admitir gente para escritório e tal. E eu como responsável. E foi a obra, e foi, inaugurou, em 5 de setembro de 65. Eu fui participar do, da parte operacional dos jogos. E participei, se algum jogo eu não trabalhei no dia, eu trabalhei antes ou depois. Luciana: É? José: Foram realizados durante 45 anos no Mineirão, quase 3.386 jogos. Aí a inauguração que foi em 5 de setembro de 65. Meus jogos eu participei ativamente. Luciana: Sim José: E fiz um trabalho que está exposto aqui no museu e o acervo, está preservado, e o, só o Mineirão tem. Aí a partir de, aí sobre o Mineirinho, aí já veio o Mineirinho depois da década de 70, que foi, iniciou as obras do Mineirinho e depois ela parou, foi interrompido um período. O período certo eu não sei porque depois eu, eu não tinha muito acesso ao Mineirinho também porque também não tinha eu não participava, mais do Mineirão 178 Luciana: Uhun. José: Mas como o Mineirinho já pertencia ao Mineirão também, a gente estava sempre presente lá. Luciana: sim José: E ficou interrompido um período, sei que parece que em 77 iniciou as obras. Aí não parou mais. A construtora responsável foi Alcindo Vieira. Eu acho que nem existe mais. Luciana: É, é, tem um outro nome, Convap, né? José: Convap, é, Luciana: Convap. José: É, é, Alcindo Vieira. Luciana: É. José: E, e eu participava, estava sempre, sempre pre, nas obras, olhando como é que ia, porque tava, eu já tinha ajudado a construir o Mineirão. Luciana: Uhun. José: Eu participei também, assim, paralelo. Luciana: Sei. José: Porque eu tinha uma obrigação cá no Mineirão e o Mineirinho já tinha outro grupo. Também o Mineirinho é uma obra gigantesca, foi bem construído, está lá aquele gigante. Que foi construído também dentro do terreno da Universidade. E o tanto como o Mineirão. Que o Mineirão já foi, desligou lá. Que o Mineirinho ainda o terreno parece que ainda é da Universidade. Luciana: Sim. José: E lá foi realizados, na inauguração, foi inaugurada em dia 15 de Março de 1980. Até houve uma tempestade, inundou o hall principal lá, onde tem a placa lá de inauguração, o então Governador Francelino Pereira, e o administrador do Mineirão e do Mineirinho era o Doutor Afonso Celso Raso. 179 Luciana: Sim. José: Que depois ficou no Mineirinho, no Mineirão por 6 anos. Ele bateu o record, de, de, acho que bateu o record, ele e o outro coronel Natal. Eu não sei qual que ficou mais, mais ou menos baseia o período. E hoje o, e o Mineirinho é multiuso até hoje. Luciana: Uhun. José: Ele tem, ele foi, o objetivo dele maior é para o esporte especializado. Luciana: Sei. E nessa época da construção qual que era a relação, que o senhor falou que o senhor estava aqui no Mineirão e estava lá no Mineirinho. José: É porque estava ligado, né? Luciana: É? José: Queira ou não, os engenheiros do Mineirão iam para o Mineirinho. E tinha os engenheiros já definidos que escolhidos para o Mineirão, também, para o Mineirinho. Luciana: Uhum. José: Mas eu, eu não deixava de estar lá. Luciana: O senhor antes de começar a trabalhar é, na ADEMG, né. O senhor já pegou o processo de construção do Mineirão, o senhor trabalhava com que antes? José: Olha, eu servi o exército com muita honra, em 1959. Aí eu sou aqui do interior da cidade de Papagaios. Luciana: Sim. José: Da zona rural de Papagaio. E voltei para lá, eu tenho uma propriedade lá e eu voltei com dinheiro. Quando foi é, 8 de setembro, 8 de março de 61, eu saí de lá. Luciana: É? José: E entrei aqui dia 9. Luciana: Ah. José: E estou até hoje. 180 Luciana: O senhor entrou é, já para participar José: Participar da construção do Mineirão. Luciana: Sim. Sim. José: E fui ser o responsável pelo escritório de obras. Era 2.500 Operários, mil e, mil e quinhentos diurno e mil noturno, 24 horas por dia. Luciana: E quem que trouxe o senhor para cá? Especificamente, pra, né, para começar a trabalhar na? José: Olha, eu, eu tinha um amigo lá em Papagaio, lá na zona rural onde morava muito influente com a política aqui do Magalhães Pinto Luciana: Sim José: Paulo Campos Guimarães, que foi secretário do Magalhães Pinto que até faleceu no acidente, na 040 sentido Sete Lagoas. E ele me trouxe para cá. Nós fomos lá no Palácio da Liberdade. E lá, voltamos para casa dele que ele morava na rua Augusto de Lima, Praça Raul Soares, Edifício Andrade, sétimo andar. E de lá que me deu o pedido para o doutor Gil César Moreira de Abreu que foi o engenheiro responsável pela construção do Mineirão. Luciana: Uhum. José: E eu cheguei e eles confiaram em mim. Luciana: Sim, chegou e não saiu mais, né? José: Não sai mais. E, o, e se pudesse voltar o tempo eu faria tudo de novo. E o, aí eu fiquei, a partir de 80, eu fiquei, Mineirão e Mineirinho. Luciana: Sim. José: Eu trabalhava no jogo do Mineirão, terminava o jogo ia para o show, ia o evento do Mineirinho. E fiz um relato de todos os eventos realizados no Mineirinho até o, só treino eu não fazia. Mas dos eventos oficiais que era é, realizado lá, eu fiz na base da máquina de escrever que não tinha tecnologia. Luciana: Uhum. 181 José: E eu tinha papel assim, de uma máquina de carro grande, de 2, quase, mais de 2 metros de altura de papel, com os dados todos, data e o evento. Luciana: Sim. José: Isso, eu depois eu não encontrei mais no Mineirinho. Não sei que depois é, desapareceu! Não, não estou encontrando estou precisando. Luciana: Isso, eu vi das primeiras vezes, na verdade eu acho que até talvez no começo desse ano, tinha na, em uma sala que é perto do local que o pessoal toma café José: An. Luciana: Ali na, naquela parte da diretoria, tinha uma sala com uns encadernados. Acho que é isso que o senhor está dizendo que tinha do Mineirão e tinha do Mineirinho. José: Não, não. não é que o, porque, eu, que o Mineirinho veio depois, e o, como eu já tinha feito do Mineirão o encadernamento de todo o, o movimento dos eventos. Que o Mineirão tinha eventos de jogos e outros eventos, até é vestibular da Universidade Federal foi realizado aqui. Luciana: Sim. José: Vários concursos e shows religiosos, shows artísticos. E acontece que o estádio tinha 14 portões, cada portão com uma planilha. Luciana: Uhum. José: Com iniciando as catracas mecânica. Luciana: Uhum. José: Que até no museu nosso hoje no Mineirão tem. E, e aquilo, terminava o jogo no outro dia eu pegava. Tinha uma pasta já feita na gráfica, eu só completava os dados que não podia, a, não podia vir, por exemplo, eu não sabia qual o jogo, coloquei só jogo, gente vai e põem um s entre “aspas”, que podia ser jogos. Luciana: Certo. José: Hoje até já não tem mais, antes tinha rodada dupla. E eu encadernando, mandei encadernar, todo ano. Que o que pode ter observado naqueles livros foi encadernado até 96. 182 Luciana: Uhum. É, eu lembro assim que tinha muita coisa do Mineirão e pouca do Mineirinho. José: E pouca, pouca do Mineirinho. Que o Mineirinho depois que foi encadernado uma parte. Luciana: Uhum. José: E veio para cá também. E era uma enciclopédia que tinha. O, o Luciana: É, tipo uma enciclopédia José: É, enciclopédia. Eu falo até isso Luciana: É, é, tipo uma enciclopédia. José: Aí o, como eu tinha do Mineirão, depois eu, o, o Mineirinho, com os portões, também acho que era mais ou menos, menos portões que a capacidade de público era menos. Luciana: É. José: Mas tinha a mesma coisa lá, as catracas mecânicas. Luciana: Uhum. José: E eu fazia o mesmo sistema que eu fazia no Mineirinho, eu fiz no Mineirão, digo, o mesmo sistema que eu fiz do Mineirão, eu fiz no Mineirinho. Luciana: Sim. José: Os dados todos que foi encadernado também que até no livro, Mineirinho. E aí o livro do Mineirinho era, era mais simples. Você pode ter observado. Luciana: É, eu li em um dos livros que eu vi, é, mostrava alguns cantores, tinha foto de alguns. José: Cantores, é o show é Luciana: Alguns artistas que tinham, é apresentado lá. José: Artistas, Luciana: É. 183 José: é o evento. O nome do evento já tinha as planilhas. O movimento daquele evento, encadernava tudo, os (palavra inaudível), a venda, igual tinha sido feito lá, que lá nós pegamos os dados aqui. A referência do Mineirão, para ficar junto. Luciana: Uhum. José: E aí depois não quis fazer até 96, até 96 eu fiz. Luciana: Sei. José: E o Mineirinho eu fazia no papel comum, colocava na máquina de escrever e punha a data. E, que aí ia passando, ia enro, por fim eu enrolava, que eu medi uma vez deu mais de 2 metros. Luciana: É? (risos) José: De papel. Luciana: É muito papel, né? José: Aí, o, mas depois vai mudando porque o governo tem isso, vai mudando de direção, direção a gente vai participando. Mas chegou uma época que, mas isso foi uma época, acho que foi 2008? Que eu já não estava, eu, eu aposentei compulsoriamente com 70 anos. Aí eu já não tinha mais poderes, de, eu me lembro que chegou uma, aqui uma, ela era gerente também, da sala que tinha os livros, tinha toda documentação. Quando eu cheguei com minha chave para abrir tava tinha a chave (risos). Já tinha trocado a chave aí eu "iiii, já tô" (risos). Luciana: É? (risos) José: Tô indo embora! (Risos). Mas como eu tinha um contrato administrativo, ele não podia me mandar embora, dentro do contrato. Luciana: Uhum. José: Aí eu falei, ó, não posso reclamar porque eu não sou funcionário efetivo mais. Que quando era efetivo eu, eu era o gerente, igual uma pessoa que chegou. E foi modificando, modificando, modificando e eu perdi o controle. Luciana: Uhum. José: E também que, quem ficou não fez. 184 Luciana: Sei. José: Não fez para mostrar, que eu tenho um jogo ali, do jogo do Mineiro eu tenho lá, Cruzeiro, tantos jogos, tantas vitórias, tantas derrotas, e vai, vai seguindo. O Mineirinho também tinha, tinha a mesma coisa. Luciana: Sim. O senhor começou com, o senhor se lembra a idade que o senhor começou? José: Oh, eu nasci em 39, cheguei aqui em 61, é, 22 anos, mais ou menos, 21 anos, era rapazinho, novinho, antes. Luciana: É uma vida inteira então? José: É uma vida aqui. Luciana: Uma vida inteira de trabalho, né? José: Eu falo, eu dediquei muito! Tanto ao Mineirão quanto ao Mineirinho. Porque eu vim depois que foi inaugurado eu fui ser o gerente lá também. Eu era o gerente do Mineirinho também, é. Luciana: O senhor foi gerente de quê lá? José: Gerente operacional Luciana: Gerente operacional? José: Gerente operacional dos eventos. Que eu, eu falei com você, 6 horas eu pegava a feira, meio-dia encerrava a feira, almoçava, uma hora eu pegava o jogo. Terminava o jogo eu ia para o Mineirinho no show, aquela papelada toda. Luciana: Sei. José: Toda a parte operacional era de minha responsabilidade Luciana: Aí o senhor trabalhava semana, durante a semana e final de semana? José: É tudo fora do horário de trabalho. Os jogos, os eventos tanto do Mineirinho quanto do Mineirão, fora do horário de trabalho. Luciana: Sei. 185 José: Agora, no horário de trabalho, eu tinha a minha função normal aí que eu tenho. Fazia as minhas pesquisas, fazia tudo no horário normal. Luciana: Sim. José: E os jogos era fora do horário de trabalho. Eu tenho até o relato, até o tempo da obra, as horas-extras que eu fazia. Luciana: Ah, é? José: É, estou fazendo um relato de tudo porque eu dediquei muito e se não fosse eu, não tinha nada do que tem lá no livro Mineirinho. Alguns dados que tem lá se não fosse eu não tinha, tanto do Mineirão, eu falo primeiro do Mineirão porque o Mineirinho veio depois. Se não fosse eu não tinha nada. Luciana: Sim. Agora em relação ao Mineirinho, é, como o senhor de certo modo acompanhou a obra, o senhor se lembra do projeto? O senhor conseguia perceber é, quem tinha interesse com a construção do Mineirinho? José: Não, porque o Mineirão ele foi construído com a responsabilidade da, de uma empreiteira mas de a fiscalização nossa. Luciana: Uhum. José: Foi no Mineirinho e ele foi construído também com seriedade, dentro de um projeto muito bem feito. Eu acho que quem é, a fundação ali deve ter uns 30 metros de profundidade. Luciana: É, o pessoal fala que foi muito profundo. José: Porque, era, ali era uma mata, a mina d´água tem ela até hoje. Depois foi internalizando, foi para a rede pluvial. Luciana: Sei. José: Mas até pouco tempo tinha, tinha. Eu comprei uma bomba para tirar água. Luciana: É? José: A mina, minava. Ali era um terreno minoso, minou. Um terreno que tinha mina. Luciana: Sim. 186 José: E por isso a fundação, aquilo também é tão seguro quanto o Mineirão. Eu falo porque eu participei e tinha contato com os engenheiros, foi bem construído. Está lá, balança mas não cai. Luciana: O senhor se lembra é, quantos trabalhadores passaram, assim, aproximadamente nessa obra do Mineirinho? José: Oh, no Mineirinho, uns 5.000 trabalhadores deve ter passado. Luciana: É, né? José: uns 5000. Luciana: Isso é José: No período da construção. Luciana: Foi aproximadamente 10 anos que com, no começo da, de 1970 José: É, 70 Luciana: década de 70, teve a terraplanagem, né. José: Ah, aproximadamente quase 10 anos. Luciana: É. José: Que o projeto saiu, depois parou. Luciana: Isso, é. José: Demorou para ser aprovado. Luciana: é. José: Houve uma polêmica, eu me lembro. Que uns queriam, outros achavam que não compensava fazer um ginásio daquele. Luciana: Então me conta essa história, dos que queriam e os que não queriam. José: Ah mas quem é engenheiro que não, que não achava que não era, não precisava daquele projeto. Oh, agora o projeto eu não sei de quem que é o projeto. Que, que daqui eu sei, do Mineirão. 187 Luciana: E o arquitetônico é o Richard, né? josé: É o Richard Lima. Luciana: É. José: De Lima. muito bom! É, ele participou, Dr. Richard. Luciana: Participou, participou. José: E o, mas ele era do Mineirão também, ele, porque ele era do Mineirão Luciana: Ele ajudou também aqui na construção do CEU. José: É, do CEU. Do CEU. Porque foi, construiu o CEU para desvincular o Mineirão, o terreno da, da fede, da, da Universidade. Luciana: Uhum. José: Houve um convênio o, o Estado e a União e a Fei, e a ADEMG e a, a Universidade Federal. Luciana: Uhum. José: Mas eu sei que teve uma polêmica lá, que “ah, não, mas não precisa disso! Isso vai ser, vai ser muito ocioso. O esporte, até o esporte especializado é fraco.” Aí “não, mas nós temos que dar força! Se não tiver um palco adequado para, para crescer o esporte especializado, nós não vamos, crescer!”. Luciana: Mas é, é essa discordância vinha só da parte dos engenheiros ou tinha outros que não concordavam? José: Não, não, mais, só a parte interna, né? Porque outros, você fala, “mas não é necessário, isso aqui pode ser menor”. Igual, calculou acho que para 25 mil pessoas. Luciana: É. José: Aí uns falam: “não, vamos fazer para 15.000. Fala “não, já que tem, tem a verba, vamos aproveitar.” Luciana: E tinha algum político que também achava que não devia 188 José: Não, não, não. Politicamente não teve a, não teve nem no Mineirão. Aqui e lá, lá [Mineirinho] eu não posso dizer certo, mas aqui não entrou só nota fiscal, não. Luciana: Sim José: E eu mandava tirar saco de cimento atrás de banco de caminhão e falava com o motorista assim, ó: “- O senhor vai devolver lá onde o senhor colocou a primeira etapa e não volta aqui mais não. Vou comunicar a empresa, lá de onde veio o cimento.” Luciana: Sim. José: E também o de madeira de Santa Catarina também ficava no pátio aqui esperando para desmontar a carga. Eu como eu vim do interior, eu conhecia. E vim só com o primário, e eu, mas é um primário bem feito Luciana: Uhum. José: Que a matemática assim, as ciências exatas, né, nem, na, nessa época nem falava ciências exatas. Luciana: É? José: Era matemática mesmo! 2 e 2 é 4. E mas eu falava assim: “não tem tantos metros cúbicos de madeira, não, amigo. Você vai ter que, é, é, desfazer dessa carga e empilhar de novo. Luciana: Certo. José: Aí, muitas vezes pôs o dinheiro no meu bolso, eu joguei o dinheiro no chão no pátio lá. Luciana: Sim. José: Não. E aí construiu, foi construído com seriedade. Luciana: Sim. José: O Mineirinho, ai se vai, eu não posso, eu não vou acusar nem nada mas também eu sei que, tecnicamente foi bem construído. Luciana: Sim, tá. José: Eu não tenho, não sou formado em engenharia mas eu conheço. 189 Luciana: O senhor, quan, o senhor quando começou, o senhor é, mencionou agora, que é tinha o quarto ano primário. José: É. Luciana: O senhor chegou a estudar depois? José: Eu estudei por tinha o primário, depois você tinha que fazer o, a admissão para entrar no ginásio, eu comecei a fazer, eu fiquei misturado. Luciana: Uhum. José: Eu não tive oportunidade. Eu comecei até fazer, eu falei, vou fazer o vestibular aqui pra mim entrar no, fazer, entrar na faculdade. Mas eu dedi, eu dediquei tanto que eu deixei para lá. Mas eu não tem arrependimento não de eu não ser um homem formado hoje Luciana: Sim. José: Numa faculdade, mas eu sempre falo: a faculdade do mundo me ensinou. Luciana: Sim. É, José: Que eu só tenho a agradecer. Luciana: a gente aprende muito com a vida José: Aprendi muito e eu é, estou aqui, as autoridades que todos me respeita. Todos que passaram me respeitaram e dedicaram confiança em mim. E até hoje nós estamos aí com um estádio moderno e eles dedicam confiança em mim e eu também retribuo. Luciana: Então o senhor chegou a fazer o, é José: O primário Luciana: O segundo José: depois de fazer, o antigamente era o ginásio, né? Luciana: É. José: Primeiro grau Luciana: Isso, é, depois o segundo grau. 190 José: (Risos) Depois é, eu misturei tudo com supletivo Luciana: Ah, o senhor fez o supletivo? José: porque não tem, eu não gosto de, salame e nem pastel. E Coca-Cola também. Porque tinha que, eu ver, eu estava fazendo Luciana: (Risos) José: estava fazendo admissão. Tinha que comer aquele pastel de bar, desses (risos) eles faziam na saída da escola, de noite, do curso, comer aquele pastel murcho (risos) Luciana: Sei. José: Eu mais é, tudo para mim foi lindo, eu não Luciana: Mas então o senhor chegou a concluir o primeiro grau e aí o senhor fez o supletivo? José: Não, não, eu fiz o supletivo, mas também não passei e também larguei pro lado. Luciana: Ah tá. José: Eu não. Luciana: Mas o primeiro o senhor chegou a concluir ou não? José: Não, também ficou no meio da estrada. Luciana: Tá. José: Mas eu não tenho arrependimento não. Luciana: Não, tá certo! José: Eu, eu sou Luciana: É isso aí. É, até porque o tempo era outro, né? José: O tempo era outro. Luciana: A gente sabe que escola antes, antes não era fácil, né? José: Não. 191 Luciana: É, hoje uma criança é, tem creche, numa cidade igual Belo Horizonte, antes não era assim, né? José: Oh, menino hoje de 2 anos, eu entrei na escola com 7 anos, eu andava a 4 Km a pé. Luciana: Exatamente José: Era 4 km a pé! Luciana: É. José: E Olha, e o único que vai na escola onde eu fiz o primário e tem uma diretora, tem uma professora viva até hoje. Luciana: Uhum. José: Ela fraturou a perna e eu fui o único aluno dela que no, que no, que não é da família que foi visitá-la. Luciana: Sei. José: Que eu perguntei. Falei: “_Dona Elza, veio alguém aqui que não é da família da senhora, só que foi aluno da senhora?” falou “_ não, você é o primeiro”. Eu, hoje em dia, eu passo lá na escola para, que lá no grupo, é o maior prazer. Nós, ia á pé! Não tinha condu, nem carona. Mas eu, hoje é muito difícil você formar. Eles falam que, formar não é fácil não. Você chegar a ter um curso superior é difícil! Luciana: É difícil. José: E lá, é outra situação Luciana: E antes era mais ainda, né? Porque José: Não, antes era uma dificuldade. Luciana: É. José: Antes Luciana: Eram poucas faculdades, né? José: E hoje, mesmo assim. 192 Luciana: Muito difícil. Hoje ainda não é fácil. Mas antes era muito difícil. José: Toda vida o curso superior foi difícil! Luciana: É. José: O ensino em si. Você, você veja os meninos hoje, hoje tem só, a tem7 anos, antes de 7 anos não entrava na escola não. Luciana: Uhum. É, não era fácil mesmo não. José: Eu, me lembro que eu ia tirar o diploma em 52. Mas como a prova estava marcada para quinta-feira, não para sexta-feira. Eu faltei quinta, a prova oral foi quinta e essa Dona Elza não quis fazer a prova para mim sozinho e eu tive que repetir o ano de 53 inteirinho e tinha 8 e meio de ponto, eu ia passar com média de 8 e meio, hein! E é uma média boa! Luciana: É. José: Eu tive mais um ano inteirinho. Mas também eu repe, estudei com aquele escritor, Bartolomeu de Campos Queirós, ah. Luciana: É? José: Aquilo era um, nasceu sabendo! Luciana: É? (Risos) José: É, nasceu sabendo (Risos), Bartô. Luciana: Já tinha um, já tinha um livro na barriga, né? José: Nós chamava ele de Bartô. Ele tem um, tem um, memorial lá na minha cidade, lá na cultura e eu vou levar também, um, vou fazer um memorial para mim lá. Luciana: Legal. Isso mesmo. José: Vou levar o meu acervo todo! Luciana: Bacana. José: Que eu puder levar. A minha história vai ficar contada lá, mas quero inaugurar o acervo eu vivo. 193 Luciana: Sim. Se Deus quiser né? É, o senhor mencionou é, a presença de governador, inclusive na época da inauguração. Como é que o senhor via a presença do, do próprio governo e de outros políticos durante a obra do, do Mineirinho. O senhor percebia José: Uai, fala assim Luciana: se eles eram presentes? Na época, como que era? José: Ficava assim, aqui, ó. Que essa mais foi mais o, do Francelino Pereira que estava naquela época, né? Mas o, eles estavam sempre, porque era uma obra também gigante, ó. Que já tinha um gigante, erguido. E estava fazendo outro, um mini gigante. Um mini gigante, não! Porque o Mineirinho é um estádio, é um ginásio. Luciana: É. José: Aí, que tá, com a capacidade para 25 mil pessoas. Não tem isso em Minas Gerais, ué. Luciana: Verdade. José: E as autoridades ficava sempre, deputado vinha sempre aí, tudo, que todo mundo queria ver. Já tinha o Mineirão queria ver o Mineirinho. Era muito visitado também as obras. Luciana: E o senhor acha que eles queriam que o Mineirinho fosse construído por quê? José: Não, ah, porque não tinha. Nós tinha, por exemplo, aí o, esses clubes que tem aí hoje, que do fute, do esporte especializado. Mas é muito assim, reduzido. O, agora já tem o ginásio, a cidade Betim já tem o ginásio muito bom. Contagem já tem. O mi, nosso Minascentro [ Minas Tênis] aqui já foi ampliado também. Mas antes era, era restrito também. Pouca gente. Luciana: Uhum. José: Não tinha condições de absorver todas, u, é, a, o esporte é, de basquete, vôlei, é, futebol de salão e todos esses. Não tinha condições de atender a todos. E o Mineirão, o Mineirinho, justamente é um o espaço maior e público, né? Luciana: E na época da construção tinha assim, representante de, de é delegação, dirigente esportivo de federação? José: Não. Luciana: Vinha visitar? 194 José: Participando não. Não tinha não. Ia só fazer visita esporadicamente, né? E querendo que, torcendo para, mais rápido, ser inaugurado. Pra eles participarem, né? Luciana: Sim, é, no período, né, da construção do Mineirinho, é, a gente, o Brasil passou pelo regime militar. José: Regime militar, foi, foi inaugurado em 60, em 80, né? Luciana: O Mineirinho foi. José: Não, mas, mas ele, da construção, 64, é, foi construído na época do. O, o mas eu, eu vou ser franco, eu nem lembro! Luciana: Sim. José: De regime militar. E eu tava no meu auge de, tava. Mas hoje o regime militar é muito questionado. E, todos os governos, nós todos dependemos dos militares. Eu sempre questiono. Eu, o regime é um regime diferente. Luciana: Como? Diferente, como? José? Um, é regime mais de disciplina! Porque eu quando eu posso uma vez eu discuto, eu falo: “não, vocês ouviram dizer”. Porque eu nem lembrava se, eu estava aqui com dois mil e quinhentos operários trabalhando aqui, eu tava preocupado com Regime? Nem sabia de Regime Militar, ué! Nem! Luciana: Nessa época o senhor se lembrava, assim, como que era essa época? José: Não, não, nem! Luciana: 64. José: Nada! Nada, nem lembrava de regime militar, não. Não tinha tempo para pensar em Regime Militar, se o governo era fulano, era Magalhães Pinto governador do Estado. Depois do governador veio o, o Israel Pinheiro. Aí o Israel Pinheiro falava assim: " Olha, o, quem construiu foi o Magalhães, mas quem pagou fui eu!" Luciana: Un. 195 José: E eu num, não tenho, nem se fala, com toda seriedade. Não lembrava de regime militar, para mim não tinha. Não estava me alterando em nada, eu estava dedicado sempre ao trabalho. Eu fazia, trabalhava 24 horas por dia junto com os operários aqui, ó! Luciana: Sei. É nessa época a gente é, nós tivemos no governo pessoas ligadas né, ao governo militar, é a, general José: Ah, é tinha né? Pois Luciana: Como é que era isso aqui no caso do Mineirão e do Mineirinho? José: Não, não interferia em nada, nada, nada, não. Luciana: Nada. José: É porque o, era nós tinha um grupo de engenheiros com, os responsáveis e nós não tínhamos trabalhando aqui no Mineirão, só a fundação que foi, é terceirizada. Administração direta, eu contratava de engenheiro a operário. Luciana: Sei. José: O escritório de mão de obra contratava de engenheiro a operário. Não tinha empreiteira, não. Luciana: Sei. José: Isso que não tinha muita, não via é, ter visita, por exemplo, na obra que foi Juscelino Kubitschek visitou obra do Mineirão, juntamente com Pelé, com um prefeito de Belo Horizonte que pela foto eu não sei o nome, não tenho nome. E, visita, visitas, celebridades, acho que o, parece que veio um Presidente da República visitou o Mineirão, acho que foi o Castelo Branco. Luciana: É, nesse, nesse começo. José: Eu mesmo não participei ativamente na época do Mineirinho, eu não lembrava. Luciana: Sei José: Não lembro que, nem se foi ruim, se foi bom. Só sei que tem muita coisa que eles fizeram, uma ponte Rio-Niterói que eu admiro muito, conheço, obra deles! O, aquela também lá, Itaipu. 196 Luciana: Uhum. José: Eu. Luciana: Daria para a gente dizer que, na opinião do senhor, né, que esteve aí próximo do processo na função, que teve relação é, da construção do Mineirinho com a ditadura militar? José: Não, não. Não teve intercessão não. Não teve assim, ninguém intercedeu. A obra continuou no ritmo normal, não veio político, ninguém dos militares também intercederam, não. Luciana: Uhum. É, o senhor mencionou o ano que o Mineirinho foi inaugurado, que o senhor estava lá, viu a inundação, do, né. José: Inundou, choveu uma tempestade, é! Luciana: É, conta pra gente como é que foi é esse processo da inauguração, por favor, né? E como que ele foi utilizado nesse, nesses primeiros meses do ano de 1980 José: Ah, Luciana: E depois. José: Ah, mas não dava, não dava tempo, agenda, não cabia, agenda nossa não dava para é, tinha que esperar, ué. E depois vieram os shows. Luciana: Sim. José: Também. Além dos esportes especializados, vieram os outros eventos. Era os eventos religiosos, veio o evento show artístico. Hein, era, é, oo, eu porque não tenho sumiu, né. Eu ia mostrar você vê. A data já estava agenda lotada, não dava tempo, uai. Luciana; Sei. José: Porque o, não tinha um ginásio daquele tamanho para esses eventos, às vezes o Mineirão não podia, que o Mineirão também era multiuso e o Mineirinho foi um alívio também. Luciana: Uhun. José: Para muitos, é, essas igrejas. Teve, teve vários shows lá e outros artistas. 197 Luciana: E o senhor se lembra como é que foi o dia da inauguração? O senhor falou da chuva. Tem mais alguma coisa que o senhor se lembra? José: Não, não. Luciana: Do dia, o quê que teve? José: Estava tudo normal, né? Depois começou um temporal. Eu não participei assim da, da programação da, da festa. Luciana: Sim. José: Porque não era minha área. mas eu Luciana: Mas o senhor passou, chegou a passar? José: Participei. Luciana: Deu uma passadinha pelo menos? José: Não, mas eu participei eu tava no dia Luciana: Ah, sim. José: Mas só não, eu não participei ativamente da programação. Luciana: O senhor não planejou? José: Do plano, do plano da inauguração. Luciana: Sim. José: Isso teve um grupo que planejou. Luciana: Uhum. José: Eu só sei que nós tava tudo, teve um temporal, inundou tudo, nós saímos corre, a gente caçando um lugar mais alto. pra ficar, pra ficar livre da, da, da água. Luciana: E, assim, das coisas que o senhor viu lá, do dia, tem alguma coisa que o senhor lembra? Do dia, o quê que teve? O senhor, o senhor, teve show? José: Ah, não, eu só, lembro show não. 198 Luciana: Lembra não, né? José: É porque é, é uma pena, sabe? Isso foi extraviado. Luciana: Sim. José: Porque tinha, eu fiz do primeiro Luciana: O senhor foi para trabalhar, então? José: Trabalhar, eu fui para trabalhar e depois eu, eu fiz, eu pegava, eu tinha as planilhas tudo comigo, a o público pagante, público presente e o que o show, o nome do show, eu tinha tudo. Luciana: Uhum. José: E aquilo eu fui fazendo, o dia. Luciana: Sei. José: Todo show eu fazia. Luciana: Uhum. Além de show, como, como que a população utilizava é, o Mineirinho assim nesse primeiro ano, em 1980. O quê que o senhor se lembra da população indo fazer lá? José: Oh, fazia visita, queria conhecer também o Mineirinho, igual o, tinha a visita. Igual hoje até já caiu um pouco, caiu muito, hoje quase ninguém visita. Mas ê, o, tinha visita igual aqui, queria todo mundo queria conhecer o ginásio. O ginásio o daquele basquete, futebol de salão, depois, Holiday on Ice, Carnaval no gelo. Aquilo foi um, quando veio esse carnaval no gelo foi uma, uma festa, o pessoal lá, foi muito do Holiday on Ice, né? É antes tinha o carnaval no gelo. Luciana: É? José: Eles falavam carnaval no gelo, né? (Risos) Luciana: É? (Risos) José: (Risos) É, nossa mãe, que o pessoal gostava, né? Depois, então acabou também, acho que não veio mais. Luciana: E por que o senhor acha que parou de ter interesse em fazer visita? 199 José: Parece que via mudando também, vai construindo outros em volta né? Luciana: Sim. José: Vai, vai, igual eu falei, uma grande BH tem, ó, agora, agora muito, o esporte especializado, ele não faz aqui no Mineiri, vai para Betim. Luciana: Verdade. Verdade. José: Agora, o motivo a gente não sabe, né? Porque o estádio está lá e depois o estádio, o Mineirão foi o escritório dele foi para lá. Luciana: O senhor se lembra assim, em relação a, a manutenção dele e tal, é porque eu já ouvi as pessoas dizendo, é que o Mineirão e o Mineirinho são dois, eram dois elefantes brancos, né? Que assim, é, dava prejuízo para o Estado, que o senhor acha disso? José: Não. O estádio, o estádio e o Mineirinho era auto-sustentável. Luciana: Sim. José: Nun, nunca o Mineirão ele, até 98 ele era auto-sustentável. Até 98. Luciana: Un. José: Depois passou para, a parte operacional para a Federação Mineira e o governo também acabou extinto, foi extinto a ADEMG. Isso é coisa do governo, a gente não tem Luciana: É, a extinção da ADEMG é mais recente, né? José: É mais recente,, mas em 2009, 2008 já passou para, já a Federação assumiu a parte operacional. Nós chegamos entregar para o Mineirão Luciana: 2008? José: 2008. Luciana: O senhor tinha falado 98 mas é 2008? José: Não, até 98 ele era autossustentável. Luciana: Ele era autossustentável, tá. José: Não precisava do governo não. 200 Luciana: Sim. José: Depois veio o governo, acho que é do Itamar Franco, que passou para os clubes as propagandas, passou aquelas faixas em volta, do Mineirão, era, era da ADEMG, tinha um convênio, tinha contrato com a empresa era bom, passaram para os clubes aí. Luciana: Sim. José: Aí até a folha de pagamento nossa foi para, o governo. Lucian: Uhum. José: (pausa pensando) É o governo, você tem de aceitar (riso). Luciana: O senhor chegou a ver o hotel do Mineirinho funcionando? José: Sim a Luciana: O quê que o senhor lembra que passou lá? Assim, tem alguma figura que o senhor se lembra? José: Ah, ia muito é a, é mesmo é futebol, né? Essas delegações de, de ao invés de ir para hotel da cidade eles vinha para cá. Disputar aí, porque aí era mais barato. Luciana: Uhum. José: Era um hotel, não era de luxo, não, mas era um hotel que atendia. Luciana: Sei. José: Devido o pessoal muitas vezes o recurso não tinha, eles ficavam, nós construímos justamente para isso. atender aquelas ofertas e, e participar do evento, ficar alojado no Mineirinho. Luciana: E o senhor se lembra quando que o hotel começou a funcionar? José: Não, não me lembro não. Luciana: Uhum. Mas ele funcionou até 2010, né° José: É, até Luciana: Conversando com o pessoal disse que foi até 2010. 201 José: Até, 2010 foi o último, aí já partiu, entregou para o Mineirão, entregou para fazer a reforma do Mineirão e lá também. E o governo também parece que acabou com a ADEMG e ficou lá. Hoje é um espaço, lá tem um espaço grande, viu? O Mineirão lá cabe duas Secretaria. Luciana: É o Mineirão, é o Mineirinho? José: O mineirinho! 35m15s Luciana: É o Mineirinho ele. José: É, o Mineirinho cabe duas Secretarias ali. Luciana: Ele tem muita coisa interessante. José: Muito e ó, e infraestrutura, perfeita! Luciana: Uhum. José: Infraestrutura perfeita! Espaço, você viu lá, o espaço. Luciana: É. José: Lá é enorme, né? Luciana: É, muito grande! José: Eles construíram ali, muitas vezes pensavam muito, que eles discutiam que não precisava fazer aquilo, o que fazer. Porque muitos não, não o, mas "ô, vamos fazer menor, que não precisa desse trem”. Além do, da, de, do atendimento ao público, a parte burocrática. Luciana: Uhum. José: Dos escritórios, foi tudo, tudo grande, é tudo confortável é, acho que tem menos metros quadrados lá deve ter 20, tem escritório aí que tem, tem sala lá que deve ter 20 metros quadrados. Luciana: Não, lá é muito grande. Realmente é, as salas são grandes. É, o senhor se lembra quando que eles fizeram esse cercamento, com esses mourões de concreto? Que lá era aberto antes, né? 202 José: É, era aberto. É, mas depois, acho que foi (pensando). Ah, com uns cinco anos de uso nós fizemos. Que tinha que fechar que não podia ficar aberto. Luciana: É porque eu lembro ali, ó, como ele é de 80, eu lembro ele, 90, tinha muita parte dele que era aberta. Essa parte da frente mesmo aqui, ó, ela foi fechada me parece, mais recente. Inclusive tem uma foto. José: É porque ela tem, tinha, por exemplo, o Luciana: De antes da construção do ginásio José: Tinha uma área lá que, foi sendo depósito, por cima lá. Luciana: Uhun. José: Foi, foi, lixo mesmo, ficou lá. Lá, ninguém nem tinha jeito de entrar. E também era um barranco, é um barranco até hoje. Luciana: Uhum. José: Mas a parte de baixo, demorou ela lá, mas nós fizemos uma cerca. Depois que veio o muro. Esse muro Luciana: Uhun. José: De, de concreto. Luciana: É. José: Igual era do Mineirão aqui que eles fizeram lá também. Luciana: Uhum. José: A parte, uma parte, que tinha uma parte que não precisa porque o barranco não tem jeito de descer. Luciana; Uhun. José: E eles construíram também, uns cômodos lá em cima também, e eu nem sei para quê? Porque acho que ele foi usado, depois uns mendigos começou a usar lá e tal. Eu acho assim até ainda. 203 Luciana: Sei. É, você quer perguntar alguma coisa, Edmar? Edmar: Quero. É, o senhor falou que o senhor teve servindo a nação, né? A nação por um tempo, que o senhor foi do exército, né? José: É, eu servi o exército em 59. Edmar: Mas José: E para mim foi uma grande escola, viu? Edmar: O senhor atribui essa boa relação com o pessoal da alta sociedade, governador e tal, te botou num cargo de, de confiança, a essa carreira militar? José: Não. Edmar: Não? José: Não. É, porque eu servi em 59, né, 60, 61. Depois eu voltei lá para roça de novo. Mas o, não me intercedeu em nada, não. Não. Edmar: Eu estou perguntando porque é, eu não sei como era na época, mas acho que é, os pracinhas, imagino os pracinhas eram bem vistos por servir a nação, e tal. Eles tinham uma importância maior, e tal. Assim, por ter servido a nação. José: Não eu, não é por, eu acho que eu, eu aprendi, eu servi. Por que governo nenhum vive sem as forças armadas. É a segurança que nós temos. E a polícia militar também, a nossa honrosa Polícia Militar de Minas Gerais. Aí tem, eu estou falando, a nossa. Mas as Polícia Militar de um modo geral, são boas. Que qualquer coisa você pega por aí, a polícia. Mas tem gente que não gosta, do sistema né? É, é um sistema meio rígido, queira ou não. É um sistema diferente porque as forças armadas ela, ela não é preparada para fazer policiamento ostensivo, não. Luciana: Uhun. José: Ela está lá, reservada. Não mexe qualquer coisa externa, ela é mais para proteger, para dar segurança, segurança nacional. Eles não tem que com que estar no Rio de Janeiro ali, precisou. Eles vão lá. Mas você vê que eles também nun, que quando eles vão, eles vão para fazer, eles não pode ir para brigar. Por isso que não tem a, que é um regime, duro! E muitos não gostam. Porque, hoje a gente vive num regime meio assim, muito aberto, né? Aí está 204 precisando ó, mesmo nossas autoridades está precisando de, delas tomar um, cautela. Porque fica, fica muito aí. O fica no poder 40 anos, enriquece todo, e, situação nossa não é boa, não. Luciana: Quando o senhor entrou no exército, o senhor foi, serviu, na época tinha o serviço obrigatório, né? José: É, era obrigatório. Até hoje, é? Mas hoje eu acho que o exército podia aproveitar mais gente. Luciana: Uhum. José: Hoje tem, você vinha com 1200 homens no 12 RI. Luciana: Mas o senhor saiu depois de dois anos, né? Que o senhor falou, mencionou. José: Eu sai e fui para a roça, voltei lá para minha cidade de novo. Luciana: Mas é, aí porque é, do pouco que eu entendo, que eu não entendo muito de exército, né? Mas do pouco que eu entendo, tem, você serve aí dependendo você José: Eu posso fazer, eu podia ter feito o curso de cabo, mas eu falei "ah, eu vou embora". Que é um regime muito até para quem está lá dentro. Militar não é qualquer um que serve não. Você, você não aguenta, não, ué. Você tem hora de dormir, você tem, nossa, é o cara tem que gostar. Luciana: Sim. José: Tem que gostar, assim, e o, é rígido! Eu, por exemplo, essa eu dei uma passagem, outro dia eu passei no lugar que eu passei a 60 anos atrás. Onde era ali, onde é a Betânia ali, hoje é tudo, era só chuchu, nós íamos fazer treinamento lá depois do hospital Eduardo de Menezes. Não podia beber água daquela mina que dá assim, aquela água cristalina que desce lá da serra. Luciana: Sim. Luciana: Não, não deixava a gente em beber. Ia beber aquela água quente do Cantil. Luciana: Uhum. E na região aqui, o senhor veio para cá na década de 60, né? 1960. José: Un. Luciana: É, como que era essa região? 205 José: Nada! Tinha só, olha, que tinha só aqui o Bairro São Luiz, poucas casas. Inclusive tinha uma da família Volpini, eu tinha autorização para chegar e dá sinal e pegar o telefone deles e telefonar para pedir material aqui. Luciana: Então usava para construir o Mineirão? O telefone José: Nem telefone nós tinha! Isso ali onde é o Carrefour ali hoje não tinha nada. O Bairro Ouro Preto, os primeiros lotes do bairro Preto foi vendido para nós. Luciana: É? José: Bairro Ouro Preto, esse lado todo é um. Luciana: Nós que o senhor fala são os trabalhadores? José: É, era fazenda. Luciana: Quem trabalhava José: Não, é só do Mineirão. Os primeiros lotes foi vendido para os servidores do Mineirão. Luciana: Sei. Legal. José: E eu até vendi o meu e comprei onde eu moro aqui no Santa Branca. Luciana: É? Un, interessante, interessante. José: Não tinha nada! Luciana: É? José: O Dom Orione, tem hoje é o Colégio Dom Orione, esse, eles tinham uma Olaria dentro de um, um, fabricava tijolos dentro da Universidade, ué! Luciana: Ah, é? José: É, ué. E tem o, a Universidade morava muita gente aí dentro, você sabia? Luciana: Não, não sabia., sabia não. José: Que foi tirando todo mundo. Luciana: É, aí tinha uma fazenda, né? 206 José: Não, era uma fazenda. Aquilo ali parece que eles tomaram. Aquela parte do Mineirinho eles tomaram da dona lá, disse que não pagou não. Ah, mas ela também era sozinha, não tinha filho, não tinha nada. Mas o Luciana: Onde está o Mineirinho? José: Quem, não, onde está aqui o CEU. Luciana: Ah, sim. José: Não, o Mineirinho não. O Mineirinho era uma mata. Luciana: É, eu lembro da foto ter visto uma mata. José: Ali tinha era uma floresta, hein! Tinha árvore ali que tinha dois metros de circunferência, ali ó. Luciana: Uhum. É. José: Que até para cortar foi difícil. Não tinha as máquinas, a tecnologia que tem hoje. E, quem morava lá dentro do terreno da Universidade, eles mandaram, eles se você tinha um lote, eles construíram a casa para você, para você sair Luciana: É. Eu, eu, eu estou fazendo essa pergunta porque eu vi algumas fotos, vi alguns documentos também que falava assim de é, expansão de linha é, de luz. É Jose: Rede de esgoto. Luciana: Rede de esgoto. José: Rede de esgoto, nós tinha, tiramos eu me lembro que, era aqueles tubo de 8 tem mais, era falava, a, eu me esqueci, é uns tubos de ferro, de ferro fundido. Luciana: Sim. José: As, as instalações é, aqui tinha uma ligação, desse foi ligado lá na Universidade, interligando a mata aí. Luciana: É. José: Passava aí as redes de, de, para levar a rede de esgoto, água. A água aqui, do, do, não, mas tinha, tinha água. Não era COPASA, não. Era DEMAE, era um negócio assim. 207 Luciana: Sei, é, era isso mesmo. José: Acho que era DEMAE, né? Luciana: Departamento Municipal de Água e Esgoto, é isso mesmo. José: Departamento Municipal de Água e Esgoto, eu me lembro. Luciana: É isso mesmo, isso mesmo. José: Você falou eu, eu me lembro que tinha aqui, é, aqueles ferros fundidos. Luciana: Uhum. José: Era tubo de ferro fundido. Nós tiramos e depois fizemos uma, tá lá. Luciana: E ônibus, na época? Vocês vinham para cá como? José: Nó! Nós, vinha aqui é, caminhão. Isso aqui essa descida aqui não tinha nada, não. Estradinha de. Caminhão, para trabalhar aqui o caminhão pegava na cidade. Tem até foto minha, eu com, na, teve na porta do caminhão, assim, e os operário tudo em cima. Luciana: É? Tem também ali é, onde construiu o Mineirinho, aquela avenida do lado de lá, ela também foi construído em função né, da construção do Mineirinho, que não tinha, né? José: É, não tinha. Foi construída aquela avenida, até no Mineirão, foi construída depois. Luciana: Uhum. José: E asfaltada, tudo direitinho. Luciana: É. José: E, tem uma casa ali, eu ainda quero perguntar o cara uma hora. Eu sou curioso, porque eu sei que nós construímos lá para ser uma delegacia e depois ele não deixou. Luciana: É? José: É esquina que era José Dias Bicalho. Onde é que tem uma rotatoriazinha ali, perto do Mineirinho. Luciana: Sei, sei. 208 José: Aquela casa da esquina, ali quem construiu foi o Estádio. Para fazer uma delegacia. Que nem delegacia tinha nessa região aqui. O Esta, o Governo autorizou lá a, a construir. Luciana: E isso foi quando? Mais ou menos quando? José: Ah, logo da construção, durante a construção. Luciana: Do, construção do, José: Do Mineirão, Luciana: Do Mineirão. José: antes de 65, antes de inaugurar. Luciana: Entendi, é. José: E o proprietário não deixou nós, por a delegacia depois que construiu. Luciana: Então o senhor, assim, é, eu estou fazendo essas perguntas porque eu analisando, né? Fazendo esse levantamento dos documentos. José: É, depois você vai, é. Luciana: Eu percebi que teve um impacto, é, na região, na parte de urbanização. Parece que com a vinda do Mineirão e do Mineirinho José: Ah, não, ué. Nossa, foi, cresceu isso aí, uai, o, o crescimento dessa região deve muito ao Mineirão e o Mineirinho. (Pensando) E, essa Catalão aí, essa Avenida Catalão, hoje é Carlos Luz, isso era um, era uma estradinha de, de boi. Estrada para carro de boi, descia, isso aqui era uma cascalhada essa avenida aqui. Luciana: Sim. José: Não tinha. Eu, eu o, condução, nós vínhamos e pegava no (palavra inaudível), nós trabalhamos no, não, depois que veio, trabalhando aí com preso, preso da Dutra Ladeira. Andava tudo de caminhões aí, ó. Luciana: Uhun. Mas trabalhou com preso onde? José: Aqui. Aqui trabalhou muito preso da Dutra Ladeira. 209 Luciana: Na obra do, do Mineirão? José: Na obra do Mineirão, mas depois, depois. De, até de inaugurar. Luciana: Um. José: Na manutenção. Luciana: Sei. Olha é as perguntas que eu tinha para fazer para o senhor eram essas. O senhor tem algo mais? José: E no Mineirinho tinha um negócio que, eu fico a lembrar (46m19s). Vocês acreditam? Que um operário, chefe de escritório, trabalhava no escritório da Alcindo Vieira, ôôô, aquelas colunas lá de fora aquilo foi tudo com por intermédio de macaco, né, pra prensar ôô aço, né? Luciana: Uhun. José: E depois concretar. Rebentou bateu na barriga dele ele foi para o porto Socorro com aquilo agarrado do lado. Aí teve que cortar com maçarico, foi o aquela uma ponta para lá outra para cá, com 15 dias já estava trabalhando. Luciana: Sério? José: Hoje eu até comentei com o engenheiro ali hoje, quando eu falei eu fui lá perguntar a data, que eu não lembro, se sabia que eu tinha para mim que era 31 de março. E conversei com ele, falei o operário, (risos) falei no dia ainda brinquei “_ você não morre, você vai viver 200 anos (risos). Olha, com ferro, ele foi pro hospital com um ferro, uma ponta, cortou com um maçarico. O ferro rebentou, bateu nele, não sei o quê que ele foi fazer assim que ele era o apontador. Dentro da barriga dele varou tanta velocidade que não ofendeu nada. Luciana: Nossa! José: Órgão nenhum. Luciana: E essa é, teve, teve caso de pessoas que morreram ali na obra? José: Não, eu não sei não. No Mineirão só um. No Mineirão eu sei que só um, Sinval Moreira. Lembro como se fosse hoje. Luciana: É? 210 José: Ele foi pegar o cartão de manhã, ele trabalhava à noite, o cartão até o cartão de ponto é, tamanho desse computador aqui, que até 31 apontava 8 horas normais e as extras. E ele caiu, machucou a cabeça foi para o Hospital. Ainda me deu trabalho lá, ainda me disseram pra descobrir o rosto dele lá para conhecer. Luciana: Nossa! José: Fazer o conhecimento dele. Agora no Mineirinho eu não sei, que lá tava com ar comprimido, que ar comprimido é perigoso. Luciana: É? José: Ar comprimido é perigoso que lá construiu no barro, na, no brejo, né? Tem que ser ar comprimido. E aquele viaduto que caiu eu falei, eu falei lá um dia: “_Vocês estão concretando isso aí sem ar comprimido?” “_Ah, não precisa não!” eu falei a hora que vocês tirar o escoramento vai cair. Eu porque eu não sou engenheiro, não. Mas eu, obra eu dou palpite, eu sei, ô gente! Luciana: (risos) José: Olha, você acredita? Com 100 dias de obra da reforma eles me convidaram e não convidou ninguém do Mineirão! O, nem engenheiro. Eu fui o único a ser convidar para andar com eles aí, almocei com eles aí, andei com eles todos aí. Luciana: É. O seu José, ótima a conversa. José: É! (Risos) agora você aproveita (risos) Luciana: Pois é. José: Você acha o que mais interessante que eu falei. Luciana: Não, ótimo, foi muito boa a conversa. A gente agradece, né? José: E eu se pudesse voltar ao tempo eu faria tudo que eu fiz tanto no Mineirão quanto no Mineirinho. Mas é eu estou satisfeito. Luciana: É, eu acho que isso é importante. José: E eu sou o 211 Luciana: Estar satisfeito, né? José: Eu sou o único que do, que trabalhou no Mineirão que vim pro Mineirinho, do Mineirão. Luciana: O senhor está, está desde naquele processo que teve da, é da extinção da ADEMG. José: Da reforma. Luciana: É, o senhor ficou onde? José: Eu fui lá para roça, fiquei um, fiquei, trabalhei pelo Estado 50 anos e 2 meses, de 9 de março 61 a 31 de maio de 2011. Aí eu saí. Também falei ah, eu não vou, tem que descansar um pouco né? Luciana: Claro. José: Eu saí de campo de futebol. Fiquei resto de maio tem seis, sete meses. 2012, um ano e pouco. Que quando foi em março de novo eu entrei aqui no Mineirão novo, março, no Mineirão novo, em março também, 23. Luciana: O senhor foi convidado para ver? José: Me chama, o telefone bateu eu estava lá na fazenda, lá na propriedade nossa, me chamou. Eu falei, ah, não vou hoje não! Até a locutora. A locutora, até 99, até 98 era homem, era mulher, era homem, locutor. A partir 99 e locutora, que ela está aí até hoje de novo. Também. Luciana: É a que falava “ADEMG informa”. (Risos) José: A, é, ADEMG informa (risos). Luciana: Eu gostava disso. José: E a eu pra mim, e o pessoal gosta, né. A minha foto está espalhada no país todo e nesses países de fora aí também. Eu fiz uma relação dos países que eu pergunto, de onde que é, desejo as boas vindas e falo. E fui anotar acho que foi, nós catalogamos 55 países. Luciana: Un, tá. 212 José: Sumiu a relação lá, eu quero ela, acho que ela voltou de férias hoje, eu vou procurar ela de novo para nós ir falando. África já veio, teve um dia que veio cinco países: americano, angoriano [angolano], chileno, chileno, peruano, quatro, e mais um outro lá da África. São três, dois da África, um de americano e dois da América do Sul. Luciana: Sim. José: Tudo num dia só. Outro dia também é tão engraçado (riso), chegou uma suíça e no outro dia chegou uma suécia [sueca]. Luciana: Ah, é? (Risos) José: Duas moças, sozinhas, só. Eu falei com a menina assim, elas falam português mais ou menos, eu falei: “_como é que você saiu de lá sozinha, pra vir passear aqui?” Ela, “Ah”. Eu ainda perguntei, que disse que na suíça as, as penitenciárias e delegacia tudo estão transformando tudo em escola, né? Isso é verdade. Luciana: É? José: Vai cometer delito lá para você ver! (risos) Luciana: (Risos) É José: Aí você vê, qualquer coisa você pode procurar a gente Luciana: Tá joia. Obrigada, viu. José: De nada Luciana: E estou à disposição José: Agora eu fico satisfeito com isso, eu tô tô catalogando tudo aí agora o tempo para mim Mas semana que vem eu tô, um pendrive eu vou, transformar as entrevistas que eu dei no rádio e na televisão tudo, estou, vou tirar as fotos para levar lá para casa da cultura da minha cidade Luciana: Depois eu mando para o senhor tá? José: Obrigado. Luciana: Eu posso mandar essa aqui também e a gravação ali do, do vídeo. José: eu tinha, eu levo para a Casa da Cultura. 213 Luciana: Ahan. José: Ficar na casa da cultura, não tem problema não, né? Luciana: Absolutamente. José: É que eu vou deixar todo o meu acervo lá. Luciana: Então você vem cá de uma vez, que você fez uma pergunta antes de parar gravação [chamando o Edmar]. Vem cá, agradece ele se aparecer também porque como a sala não dava para te aparecer. Edmar: (Inaudível). Luciana: Não, pode deixar gravando, vem aqui agradece para, para. José: (Inaudível) é, é. Luciana: Para fazer, vai fazer parte da memória, né? José: É, parte da memória, aí, ó. Mas a gente, eu dei entrevista para toda televisão. Final da transcrição. 214 Transcrição de Entrevista Pesquisa de Doutorado MINEIRINHO, DOS PLANOS AO CONCRETO: MEMÓRIA E HISTÓRIA DO PALÁCIO DOS ESPORTES (BH – MG) CELSO LACERDA (Depoimento) Belo Horizonte 215 Entrevista realizada com o Sr. Celso Local: Ginásio Mineirinho, Belo Horizonte. Data:14 de setembro de 2018. Luciana: É, nós estamos aqui no Mineirinho, com o senhor Celso. E agradecemos a sua disponibilidade em contribui, contribuir aqui na nossa pesquisa de doutorado, né? É, já fiz a leitura do termo de consentimento, expliquei, esclareci é os procedimentos, né? E, o senhor já fez a assinatura do termo, consentiu em fazermos a gravação por vídeo, a gravação de áudio. E consentiu também, né, da gente utilizar o seu nome na parte Celso: Certo. Luciana: da escrita. Celso: Tá certo. Luciana: Né? E nós estamos fazendo a pesquisa, Mineirinho dos Planos ao Concreto: memória e história do Palácio dos Esportes, BH, MG. É, para começar, é, o senhor podia dizer para a gente, por favor, o seu nome e sua trajetória profissional, se apresentar para nós. Celso: Meu nome é Celso Lacerda, eu vim para Belo Horizonte e fichei aqui no, na ADEMG, em 24 de janeiro de 1979. Eu comecei trabalhando lá no Mineirão. Aí mais ou menos uns 60 dias que eu estava trabalhando lá, o engenheiro Paulo, ele chama Paulo, viu eu trabalhando lá no Mineirinho, fichei no Mineirão, viu eu trabalhar, trabalhar de pedreiro, ele viu eu trabalhando lá, gostou do meu trabalho e conversou com o meu chefe no Mineirão, para mim descer para o Mineirinho para mim fazer o trabalho aqui também. Luciana: Sei. Celso: Aí eu desci para cá. E a gente começou trabalhando aí, é, fazendo uns termos de, de, de assentamento de azulejo, no banheiro, é portão e continuou. Aí eu fiquei aqui até a inauguração do Mineirinho. Luciana: Sim. E lá no Mineirão você trabalhava então com a parte de manutenção ou ainda tinha alguma obra? 216 Celso: Não, lá, lá, quer dizer, eles inauguram tudo antes de acabar, né? Eu trabalhei muito em obra lá que, o Mineirão, foi até, como diz o outro, foi até desmanchar, até a reforma dele dois mil e, para a Copa do Mundo de 2014, ainda tinha obra ainda para fazer. Luciana: É? Celso: Tinha. Luciana: O quê, Celso: Então, a tinha. Luciana: Por exemplo? Celso: Ah, tinha muitos, muitas, salas, está entendendo? Que as torcidas organizadas usavam, que, por exemplo, por dentro estava tudo sem reboco. Luciana: Un. Celso: Só tinha parede e chão pronto e concretado. Não tinha reboco, não tinha pintura, está entendendo? Então muita, muitos coisa foram derrubadas lá, então isso ainda, está entendendo? E aí eu desci aqui para baixo, né, com esse engenheiro, e ele gostou muito do meu trabalho, eu continuei trabalhando com ele aqui. Nós trabalhamos mais de um ano, até a inauguração do Mineirinho. Luciana: Sim, e quando você veio para cá, é, como é que estava a obra? Em que pé, assim, em que ponto da obra o Mineirinho se encontrava? Celso: Ah, o Mineirinho estava bem adiantado, estava praticamente quase pronto. Só faltava é assentar os portão de entrada que não tinha ainda. Faltava esses, esses acabamentos, né, de, de, de banheiro que não era muita coisa. Não tinha roleta colocada ainda nos portão. É, essas coisas, né, de, de término de obra. Luciana: Sim. Celso: É, a quadra, eles já estavam pintando ela, começando a querer já pintar, já estava limpando para pintar. É, para colocar o taco, que era madeira, então, é isso. Luciana: E você então trabalha é, desde 1969, é Celso: 79. 217 Luciana: É, 79, vinculado a ADEMG? Celso: É, desde 79 a ADEMG, né, que é, é uma Secretaria, era uma secretaria do Governo, que tinha os seus recursos próprios, e nós foi, trabalhando aí. Luciana: Uhum. Celso: Mexendo, e estou aí até hoje! Luciana: Sim. É, em relação a construção você, você se lembra assim, como que era o projeto? Que você pegou já no estágio bem avançado da obra, né? Mas você enquanto pedreiro, você é, se lembra do projeto, algum detalhe, alguma coisa que tivesse te chamado a atenção? Celso: Não, não tinha. Eu já, como se diz o outro, eu já peguei a obra praticamente, você vê, do jeito que te falei, praticamente pronta. Luciana: Uhum. Celso: Né, então é só no, nos pequenos detalhes. Então, eu, eu não tive esse, essa oportunidade de ver o projeto, nem, entendendo? Luciana: Uhum. Celso: E eu também, eu fui, como diz o outro, quando eu vim para cá, eu fiquei 5 anos, só de pedreiro. Que aí depois eu já tive um cargo, já passei a ser encarregado de, de obra, que ainda era obra, né? E fiquei de o, de encarregado de obra, mais ou menos uns, uns 12 anos. Depois eu ganhei mais um cargo de, de, de chefe de serviço. Depois passou para gerente e eu hoje eu tenho meu cargo que é Diretor de Manutenção. Luciana: Sim. Ok. É, agora em relação, a, a obra, teve, você mencionou o caso do Mineirão, as salas da, da torcida organizada que tinha parede, tinha piso, mas não, não tinha acabado. Celso: Não tinha reboco. Não tinha reboco, não tinha pintura. Luciana: É, e no caso do Mineirinho? Como, o quê que você enquanto trabalhador da época, e hoje, poderia me dizer de partes que não foram, é, acabadas, apesar de ter, terem um planejamento pra, para terem sido executados? 218 Celso: Oh, o Mineirinho tem o nível 6, que não, até hoje não foi acabado. Que o Mineirinho, o nível 6, ele foi feito para ser um shopping, entendendo? Então ele está tudo no cimento grosso, nas paredes, tubo, tudo, tem que fazer tudo lá, entendendo? É até onde que eles querem, que ia fazer o mercado. Luciana: Sim. Celso: Só, porque, não deu certo, né? Mas lá, no, no, a obra está toda para fazer. Luciana: No nível 6? Celso: Só até a parede. Luciana: O nível 6. Celso: O nível 6. Toda para fazer Luciana: É, tem algo, além do nível 6 que você se lembre, assim que Celso: Não, hoje não. Hoje, o que está, o que tem que ser acabado é o nível 6, o resto está pronto. Luciana: É? Celso: Hoje precisa é de uma reforma, já precisa é de refazer, né? Luciana: Ahan. Celso: Porque não, está, está muito ruim. Luciana: É, eu, eu andando né, porque como eu tenho feito, a, o levanta, parte do levantamento de documentos, é, foi realizado aqui. É, conversando com o pessoal e rodando, né, no Mineirinho para conhecer, é, a estrutura. Eu vi, é, aquela parte que tem, como se fosse um, um fosso lá, né? Celso: Un. Luciana: Que seria a piscina. Celso: Sim. Luciana: Que é, foi uma das partes que terminou no, no projeto não sendo construída, né? 219 Celso: É, você vê ali é a sala 200, 409. Que hoje é, um tipo de um, de um arquivo. Você vê que está lá, o buraco. Tem concretado, mas não tem nada. Quer dizer, fez um buraco, concretou, mas cadê? Não terminou! Não tem azulejo, não tem nada. Então, é esse tipo de coisa. Então, é essas salas, mais grande, são várias delas está toda só com piso de, de, de concretado, não tem mais. Não tem, não tem outro piso de acabamento, não tem nada. Luciana: E o senhor, e você sabe o porquê que não foi efetivamente construída a piscina? Celso: Não, eu não sei te falar. Luciana: E o shopping também não, o que seria o shopping? Celso: O que seria o shopping, né, é, é, isso também quer dizer, eles fizeram isso para, para ter uma renda, né? Por fora e, acabou não teve alguém que interessasse e agora como dessa vez interessou, mas não, não foi adiante. Luciana: Agora com esse projeto do mercado que foi é, do ano passado para cá, né? O quê que aconteceu que não colocou em, de fato em prática? O pessoal começou até fazer algumas intervenções aí né? Fizeram, começaram a pintar em alguns, em algumas partes o, o piso foi melhorado. O quê que aconteceu, você saberia me dizer o quê que aconteceu pro mercado do Mineirinho não ter sido colocado em prática? Celso: Eu não sei te informar. Luciana: Porque é a previsão era para inaugurar agora, né? No, acho Celso: Não. Luciana: Era maio, depois junho. Celso: Já era para ter sido inaugurado, né? Já, como diz o outro, se tivesse dado tudo certo, já era para ter inaugurado. Luciana: Aí não, não deu certo. Celso: Não deu, aí eu não sei te informar. Luciana: Começaram e Celso: Isso aí já é outras coisas, né? 220 Luciana: É uma outra parte da gestão, né? Celso: É, é isso, a gente não, não, não sabe. Luciana: Tá joia. É, você saberia me dizer, lá na época da construção, é, qual que era a intenção que tinham com o Meirinho? Qual grupo ou quais os grupos que tinham interesse na construção dele? Celso: Não sei te informar. Não sei porque é que nem eu tô te falando, entendendo? Eu já cheguei aqui em 79. Está certo que é início do ano então, o Mineirinho já está muito bem adiantado, muito, muito. Então eu não sei te informar esse tipo de coisa. E também, né, você chega da roça, eu vim do interior, então é muito difícil, né? Você chega muito bobinho, você não, né? A gente não, eu não tenho. Luciana: Você veio para Celso: Essa informação. Luciana: Belo Horizonte quando mesmo? Celso: Em 79. Luciana: 79? Celso: Janeiro de 79. Luciana: Então você já veio em 79 Celso: Na verdade eu já vi até fichado. Eu vim aqui passear na casa de um primo meu. E aí ele trabalhava no Mineirão de, de garçom e eu fui, né, passear ele me levou lá para conhecer, e tal. Aí ele chegou e falou que tinha duas vagas de pedreiro e eu falei: "_Ah, então vamos ver." Eu estava desempregado na época. Luciana: Unn. Celso: Aí eu já vim fichado. Luciana: Ah, que bom né? Celso: Eu já vim fichado. Quando eu cheguei aqui, então quer dizer, foi só acabar de ajeitar as coisas e trabalhar. 221 Luciana: Sim. E nessa época então, em, em 79, é, tinha um restaurante? O quê que tinha lá no Mineirão que tinha garçom? Celso: O Mineirão tinha um restaurante equipado, entendendo? Para matar, para dar comida para mais de 200 pessoas. Luciana: É? Celso: Muito grande o restaurante ali, com, com um, como é que chama? Com refrigerador de carne, tudo. Trem muito grande! A cozinha enorme. Luciana: Mas essas 200 pessoas eram, era um restaurante aberto ao público ou era restrito a Celso: Não. Luciana: trabalhador? Celso: Não, não. É, é, dava, dava condição até do, do torcedor chegar lá. Desde que ele comprasse um ingresso que dava acesso ali no portão 2, entendendo? Que é o setor 3, setor 4 de cadeira ali, dava acesso. O hall principal, então a imprensa praticamente, comia só no restaurante. Luciana: Sim. Celso: Está entendendo? Luciana: Uhun. É, e na inauguração do Mineirinho, você se lembra quais as partes que estavam prontas? Celso: O Mineirinho estava praticamente todo pronto. É aquilo que eu falei para você, o 6 não estava pronto. Mas o resto estava praticamente pronto, entendendo? Então eu, eu lembro muito bem, está entendendo? Até participei da, da, da inauguração, eu estava trabalhando no dia da inauguração. Eu não me lembro bem é o, é o cantor que veio para cá para inaugurar. Mas é um mineiro muito famoso. Eu não lembro é o nome dele, eu tinha até que ter, me esforçado pare me lembrar para falar o nome dele, está entendendo? Luciana: No dia da inauguração? Celso: Isso. Luciana: É, mas isso a gente consegue, consegue ver 222 Celso: Sim, sim. Luciana: Em outro documento, não precisa, pode ficar tranquilo. É, em relação a obra quem, quem, é você disse que estava fichado. Você estava fichado pela Celso: pela ADEMG Luciana: Pela ADEMG? Celso: Pela ADEMG. Luciana: Então quem te pagava era Celso: Era a ADEMG. Luciana: Era a ADEMG. Celso: Era a ADEMG que me pagava. Luciana: Porque tinha uma empresa de engenharia Celso: Tinha. Luciana: Que tinha funcionários na obra também. Celso: Tinha, tinha. Luciana: Então você não recebida pela empresa? Celso: Não, não. Eu recebia pela ADEMG, eu recebia pela ADEMG. então tudo, entendendo? Meu contrato na minha carteira, tudo foi assinado pela ADEMG. Luciana: E nesse período que você trabalhou, você teve algum problema de pagamento, alguma coisa? Tudo Celso: Não, não, não. Luciana: Tinha problema de atraso? Celso: Tive problema, não, não, não. Tive problema, na verdade eu fui até assim, é, como eu, eu, eu fiz muita hora extra na época. Que eu, a gente vem do interior e aí precisava muito de, de ganhar dinheiro. Eu fiz muita hora extra aqui. Recebi, eu inclusive, eu até gostaria de contar, eu recebi um prêmio, porque, que na época o, esse engenheiro que me trouxe para cá, 223 o Paulinho, ele me deu, uma, uma, uma gratificação, me passando um serviço para mim assentar os portão do Mineirinho. Ele falou assim: "- Você vai assentar os portão do Mineirinho e depois a gente vai ver o quê que vai fazer." Eu trabalhava aqui até meia-noite, até uma hora da manhã, até 11 horas da noite. E eu coloquei, assentei esses portão, coloquei as roletas tudo no, no, no prazo certo. E depois passado um mês que já tinha inaugurado o Mineirinho, ele me chamou, falou assim, me chamou aqui no Mineirinho e falou assim: "_ O Celso, você tem uma, uma gratificação para receber lá na, na Alcindo Vieira”. Ela tinha o escritório aqui no Mineirinho. Aí eu fui lá, cheguei lá eu fiquei muito até assustado com, com o prêmio que ele me, me deu. Me deu um cheque, na época, de Cr $ 5000 (cinco mil Cruzeiros). Que era muito dinheiro! Luciana: É, né? Celso: Dava, dava mais ou menos 1 salário e meio que eu ganhava na ADEMG, na época. Luciana: Nó, que bom, hein? Que beleza! Celso: Eu fui abençoado com esse dinheiro aí que me ajudou muito. Luciana: É, bacana, bacana. É, em relação aos trabalhadores, você se lembra assim, aproximadamente quantas pessoas trabalharam nesse período que você estava? Celso: Oh era, era muita gente, era muita gente e, é que nem eu tô te falando, estava em fase de, de, já de acabamento. Já quase de inauguração. Era, era praticamente uma, uma, 2 turnos, entendeu? É, você via gente aqui a noite inteira. Luciana: Então Celso: Se ficasse, se ficasse a noite inteira Luciana: O tempo todo? Celso: Se você ficasse a noite inteira aqui você via gente trabalhando a noite inteira. Luciana: Então era de dia e Celso: De dia e de noite. Luciana: de noite, que estava funcionando a obra? Celso: De dia e de noite, é, a obra, é 224 Luciana: É? Você trabalhava normalmente no diurno? Celso: No, é eu, na verdade meu trabalho era de pegar serviço 7 horas da manhã e ir até as 17, entendendo? Mas como eu estava no Mineirinho, das 17 em diante era hora extra. Que o, o Estado me pagou, foi autorizado a me pagar essas horas-extras. Na época nós era, CLT, então não tinha problema ainda com hora-extra, nem nada. Então, eu vim cá para baixo, é, para trabalhar mesmo, com meu, né, eu estava chegando na época, no, no, da, do acabamento aqui e eu, como eu te falei, eu precisava de ganhar dinheiro. Então eu trabalhava o tempo todo, né? Luciana: Uhum. Celso: Eu estava novo, né? 21 anos, Luciana: Qual que era a sua ida, é Celso: 21 anos de idade Luciana: Isso em 79? Celso: 79, 21 anos de idade. Então se vê, né? Eu era menino ainda, hoje é 61, né, já fazendo 62. Luciana: É menino ainda. Celso: Não, já está né (risos) Luciana: (risos). É, você saberia assim em relação a essa época aí da, da construção, como que era a relação do governo, né, porque a obra foi, é planejamento tudo e a execução estava vinculado ao Governo do Estado. E como que era esse acompanhamento? O governador vinha? Porque tinha um responsável, que era o gestor responsável pelo, pelo equipamento inclusive, o Afonso Celso Raso. Mas além dele tinha, né, o governador e outras figuras aí da, da política. Você saberia dizer como que era a relação? Se, se você percebia uma preocupação do governo, né, do próprio Governador, é, com essa obra? Eles vinham, não vinha? Você não se lembra? Celso: Isso aí, é, eu não posso te falar porque nem eu falei para você, está entendendo? A gente vem do interior, né. Você vê, a, a quase 40 anos atrás, né? Hoje, hoje já é mais diferente. A pessoa é mais, está mais atenta, vê, né, o que está se passando. Então a gente, você, você vê aí no interior, por exemplo, a 40 anos atrás aí. Então a gente vem praticamente 225 é para trabalhar mesmo. Então eu não tinha, a gente não tinha esse acesso, né? Com quem, como é? Então quer dizer, meu negócio era vir trabalhar, então. Luciana: Sim, Celso: É diferente! Hoje, hoje é diferente. Eu tenho certeza que hoje é diferente. Que se fosse hoje eu sabia informar. Luciana: Sim. Celso: Então eu não sei te informar. Luciana: Você veio de qual cidade? Celso: Eu vim de Lagoa Formosa. Luciana: Lagoa Formosa. E na época você é, quando você veio, você tinha 21? Celso: 21. Luciana: 21 quando você veio lá de Lagoa Formosa para cá. E como é que era a sua vida lá em Lagoa Formosa? Celso: Eu trabalhava, né, por conta, com o meu pai. Que meu pai tinha, nós trabalhava todo mundo de pedreiro, né? Nós era, 9 irmãos. Quatro era pedreiro. Então a gente trabalhava né. O meu pai pegava muito serviço e a gente trabalhava. Cada um tomava conta de um, uma casa que ele pegava. Um pro outro, ia pra outro lugar, então a gente tomava, tomava conta disso. Então a gente trabalhava por conta própria. Luciana: Sim. Celso: né? Então, era assim. Luciana: Você começou a trabalhar com quantos anos? Celso: Com 15. Luciana: Com 15? Celso: Com 15. Luciana: Que até 226 Celso: Com 15, com 15 de pedreiro, né? Mas, eu, eu comecei a trabalhar é, com 11 anos. Com 11 anos eu já tinha terminado meu, minha quarta série, né? E já comecei a trabalhar de ajudante pro meu pai. Luciana: Com 11 anos? Celso: Com 11 anos de idade. Luciana: Mas aí você continuou é, trabalhando e estudando? Celso: Trabalhando de servente, não, não, não. Aí já não trabalhava, não. Que a gente só no, nessa época, só tinha a quarta série onde a gente morava, só tinha a quarta série. Não tinha mais. Luciana: Aí você morava, mas nessa época você morava na, na zona rural? Celso: Morava. Luciana: ou na Celso: Na zona rural, morava na zona rural. Luciana: Ah, então só tinha escola até o Celso: Exatamente. Luciana: Quarta série. Celso: Meu pai não tinha condição de levar nós para cidade que é Lagoa Formosa, para estudar. Então eu já fui trabalhar, já. sendo servente pro meu pai. E, com 15 anos eu já tá, já marcava, já sabia marcar, olhar projeto, entendendo? Dos riscos do meu pai que fazia lá, eu já sabia olhar, e marcava. E fazia a casa, entregava pronta com a chave na porta. Luciana: Com 15 anos já, já era Celso: Com 15 anos, 15 anos. Luciana: Interessante. E, aí depois então desse, começou a trabalhar, voltou a estudar, depois algum momento? Celso: Não, nunca voltei a estudar. 227 Luciana: Sim. Então parou Celso: Parei, parei. Luciana: No, no quarto ano e Celso: Quarta série é primário. Luciana: E a escola foi da vida, né? Celso: Foi da vida, é. Luciana: Daí pra frente a escola, a formação foi a escola da vida. Celso: Foi da vida, isso. Luciana: Sim. É, bom, nesse período, é década de 70, a partir de 64 até meados de 80, a gente passou por um sistema político, né, não sei se você se lembra, como é que era esse processo que é a ditadura militar. Você saberia me dizer alguma coisa desse período? Você se lembra? Celso: Não, eu não me lembro. Eu não me lembro. Luciana: Lá em Lagoa Celso: Não tinha isso Luciana: Lá em Lagoa Celso: Sabe porquê? Luciana: Formosa Celso: Lagoa Formosa. Na verdade, você vê, a gente morava na zona rural, então você não tinha luz, né? Você não tinha água encanada, então Luciana: Televisão? Celso: Não. Luciana: Rádio? Celso: Nada, radio sim. Luciana: De pilha? 228 Celso: Rádio de pilha, sim, tinha. Mas a gente era, a gente era menino. Você não escutava rádio, você está entendendo? Então, você trabalhava, o, a época que você trabalhava, você trabalhava, de noite você ia, né, tomar banho e dormir, descansar pro outro dia, então. Quando era criança você brincava. Então a gente, eu não tenho lembrança disso. Luciana: Pai e mãe falava alguma coisa a respeito? Celso: Não, Luciana: Ou algum adulto, alguém, ouvia? Celso: Não, não falava Luciana: Na escola? Celso: Não falava porque às vezes, os mais velhos até que podia falar, mas o, a gente naquela época, o, a gente era assim, muito limitado. Às vezes a criança não podia nem chegar onde é que estava os mais velhos conversando, porque se você falasse alguma coisa diferente ou se você chegasse brincando, você era retalhado, pelos mais velhos. Então, o respeito era muito grande. Luciana: Sim. Celso: Da, da, da criança com o mais velho, então é difícil. Luciana: Então, normalmente, você não ficava ouvindo Celso: Não. Luciana: O que que o adulto estava falando? Celso: Não, não. Não ouvia. Luciana: Sim. E, agora na época do Mineirinho você percebeu alguma, alguma relação, alguma questão que você pudesse dizer assim, Ah, tem a ver com, com a ditadura nessa época que você pegou a obra? Celso: Não. Luciana: Quando foi inaugurado você estava por aqui também. 229 Celso: Estava, eu tava, não. Mas eu, mas eu não, não tenho essa lembrança de, de, de ditadura, de, disso não, entendendo? Então, é, eu vim para cá assim, que nem eu te falei, é, eu vim assim com esse objetivo, trabalhar, e, e ter alguma coisa porque a gente passou muita dificuldade no interior. Então, o meu objetivo era esse, é, entendendo? Cuidar da minha vida e resolver minhas coisas tudo direitinho. Como eu tenho hoje. Luciana: Uhum. é, você mencionou o pagamento que o engenheiro Paulo, né, tinha te falado para receber pela, pelo serviço que você tinha prestado e tal? Celso: É, Alcindo Vieira. Luciana: É, Alcindo Vieira. Que era a obra, Celso: é contratada, era a, o, a empreiteira Luciana: Que foi contratada Celso: Sim, sim. Luciana: Para fazer execução da obra, né? Celso: Sim. Luciana: Sim. É, você se lembra quando o Mineirinho foi inaugurado? Celso: Lembro, muito, muito, muito! Luciana: Conta para gente o quê que você se lembra. Celso: Ah, o Mineirinho teve uma inauguração aí de muitos, muitos alunos. Gente com bandeira, marchando, né! Teve uma chuvinha, na época. mas foi bom, a noite inteira. Eu trabalhei a noite inteira aqui. É, pintando meio fio, arrumando, acabando de ajeitar as coisas direitinho, aí. Mas foi muito bom, uma, uma alegria muito grande! Aí eu lembro, o Governador veio, está entendendo? Foi um, uma marcharia muito boa aqui, a entrada aqui pelo hall, muito bonito. Luciana: Teve uma marcha na época? Celso: Teve. Teve uma marcha, teve, teve. Banda de, de música. Foi muita coisa, entendendo? Luciana: Então vieram os soldados, 230 Celso: começa Luciana: Para poder fazer Celso: Sim. Sim, começou uma, uma, uma banda aí, mais ou menos 8 horas da manhã, e isso foi o dia inteiro. Luciana: Foi o dia todo de festa? Celso: O dia inteiro, o dia inteiro festa! É, gente aí. Muita gente. Aí. é gente de, de governo, né? Político. Muita coisa bonita que teve aí na época. Luciana: Uhum. E nesse primeiro ano que ele funcionou você saberia me dizer o quê que aconteceu nele termos de uso? Como que as pessoas utilizavam? Celso: Oh, teve muito esporte, muito esporte. Quase todo dia tinha jogo aqui na quadra, é esporte. Muito show, muito show, quase todo fim de semana tinha show. Então, foi, foi uma coisa muito interessante. Em 80, em 80 teve a Expor 80 aqui, uma coisa inesquecível! Entendendo? Que eles fizeram lá no nível 7. Muitas, muitas é, barraca de, de, de artista, de coisas novas que você, se via, por exemplo, os japoneses trazendo uma maquininha de, de massagear. Com te levava, você ia nessas, nessas estante, olhar, o cara levava uma maquininha em você e te dava uma massagem. você falava assim: "- Mas isso é coisa de outro mundo!" (risos) Luciana: É? (risos) Celso: Hoje todo mundo tem na sua casa Luciana: Massageador né? Celso: É. Hoje, às vezes, outra coisa mais, né, mais objetiva. Então, é, foi muito interessante. Luciana: Essa, é, Expo80 era, era uma feira? Celso: Era uma feira, era uma feira para carro. mas muito bonita. Em volta, no, no nível 7, todinho. Entendendo? Luciana: Mas ela ficava assim, foi uma vez só? Ou ela tinha uma frequência? Celso: Não, ela ficou, ela ficou mais de uma semana, essa feira. Está entendendo? 231 Luciana: Então teve feira, teve show. Você lembra? Celso: Tinha. Direto. Luciana: Show, quem, que veio aí. Nesse ano, que você se lembra? Celso: Ah! veio Sítio do Pica-Pau Amarelo, veio muita, muita gente, né? A Globo tinha stand dela também, todo dia tinha um artista diferente lá. Um ator, tinha muita coisa. Luciana: Sei. Celso: Tony Ramos, Betty Faria, Elizabeth Savalla. Então a gente via tudo lá em cima, lá, lá de cima. Luciana: E, é, desses jogos que tiveram, quais as modalidades de, de, de esporte que o pessoal jogava aí? Celso: Ah, muito basquete. Luciana: Praticava Celso: Muito basquete. Vôlei, vôlei, é, é futebol de salão que ainda era futebol salão, hoje é futebol Society, né? É o futebol, né? E, é, handebol. Muita coisa! Luciana: E o pessoal utilizava era a quadra mesmo? Celso: A quadra mesmo. Não, a quadra estava novimha, né? A quadra feita de madeira, com uma quadra na época uma das melhores quadras, né? Luciana: Ah, então passou por reforma? Celso: Não, quer dizer, não passou por reforma, tirou né? Luciana: Tirou? Celso: Porque, tirou Luciana: Então ali ela está ali no Celso: É, ali ela está no cimento. Luciana: Eu estava falando até mais cedo 232 Celso: Hoje Luciana: Conversando sobre ela. Celso: Hoje, hoje ela está no cimento. Ela está uma quadra ali hoje para qualquer tipo de evento. Luciana: Uhum. Celso: Porque se você quiser fazer um Enduro ali, você põe 100 caminhões de terra, pedra, faz piscina, faz tudo ali, e aí as motos começam voar ali. Luciana: É Celso: Né? Hoje isso do jeito que está ali, você vem com, com o tapeto do vôlei você forra lá e pode jogar vôlei. Então ela está preparada para isso. Luciana: Sim. Celso: Né? Então na época tinha essa quadra de madeira que é uma das melhores quadras, que tinha na época. Então como ela era de madeira, então na época, veio muitos eventos para cá. É, carnaval no gelo. É, esse negócio de, da Disney. Luciana: Uhum. Celso: Então. O pessoal Luciana: Holiday on Ice, né? Celso: Holiday on Ice, é. Então o pessoal acho que não forrava direito a quadra, então vazava o gelo, vazava a água, então Luciana: Ahhh, sim. Celso: começou a apodrecer, então tirou. Luciana: Sim. Celso: Aí foi e fez essa quadra, fez essa quadra aí, já, né, pronta para qualquer tipo de evento. Luciana; Porque hoje inclusive tem uma tecnologia, que normalmente o pessoal já vem e monta, né? 233 Celso: Monta. Luciana: Eu tenho observado. Assim, o pessoal do vôlei mesmo, eles vêm Celso: Vem, traz a quadra deles Luciana: Traz o piso, é. Celso: O do Basquete se vier, traz a dele. O do Society vem traz a dele. Então cada um traz o seu. Luciana: É, hoje então ela termina sendo mais para evento de fato, do que antes. Porque antes você já tinha o piso Celso: Tinha, não, antes tinha o piso já preparado Luciana: o piso, aí é só a pessoa chegar e praticar, né? Celso: Preparado, preparado. Não, eles jogavam vôlei em cima daquele piso, hoje não joga, né? Luciana: Uhun. Celso: Eles jogavam vôlei, eles jogavam basquete, eles jogavam futebol de salão, tudo, tudo em cima desse piso madeira. Hoje, hoje é diferente. Luciana: Então hoje para o dia-a-dia está pior? Se eu quiser entrar ali agora para jogar, fica, é pior do que era antes, né? Celso: É, para, vamos supor Luciana: Eu que não tenho a estrutura, a gente né? Celso: É, hoje sim, hoje é pior, hoje é pior. Antes, antes ela servia para tudo, ela tinha jogo de futebol de salão, tinha o basquete, tinha o vôlei, tudo numa quadra só. Luciana: Você já chegava e estava pronta pra poder jogar, né? Celso: Por exemplo, com várias, com várias marcações no chão, já. Quer dizer, ela era toda marcada para tipo, para 4, 5, é, esportes. Luciana: Uhum. 234 Celso: Né, hoje, não. Hoje não. Você traz o do vôlei, é uma marca. Você traz o do basquete, é uma marca só. Então, é isso. Luciana: Uhum. é, hoje ela termina sendo mais preparada para eventos maiores do que para a própria prática. Celso: Sim. Luciana: De grupos menores, né? Celso: Sim. Luciana: Aquela que você chegou, jogou e foi embora. Celso: Sim, sim. Luciana: Igual você chegar num clube, você, né Celso: Já está marcado, está todo arrumado, pronto. Luciana: Uhun. Celso: Então ela hoje, ela é preparada para isso. Você vem. traz, coloca, joga, tira, leva. Luciana: E nesse primeiro ano, você se lembra de alguma federação que veio para cá? Porque eu conversando com o Afonso Celso Raso, ele mencionou e o Richard também menciona, de certo modo, que ele foi pensado para atender várias modalidades e que eles viessem para cá. Você se lembra de federações que vieram para cá em 80? Celso: Uai, os que vieram está, quase todo mundo está aí, né? Aí veio, veio, o Judô. Veio é, esse o Arco e Flecha. Veio o, o, Basque, esse menino do Vôlei. eles têm, sala aí. Tem Canoagem, tem, tem vários, várias federações, tudo veio na época. Luciana: Uhum. Celso: Que era, que era o objetivo do Dr. Afonso, é trazer as federações para cá para manter aí, para ter movimento, o Mineirinho. Luciana: Uhum. 235 Celso: Entendendo? Então, o que veio em 80 está todo mundo aí. Só porque hoje é poucos que, que vem aqui para trabalhar aqui, entendendo? As outras, os outros ficou como depósito. Quer dizer, é, a, a sala ficou como depósito. Luciana: Sei. Celso: Está entendendo? Luciana: E por quê que você acha que eles terminaram vindo e não ficando? Você já pensou a respeito disso? Celso: Não, isso aí. Luciana: Ou a sua experiência enquanto gestor aqui. Celso: Aí eu não sei te falar, porque, entendendo, cada um, né. Cada um com seu cada um. A gente não sabe, o que eles pensam, né. O que eles pensou na época. Que hoje se você vê aí, todo mundo tem sala. Mas sala mesmo, é poucos. Que virou tudo depósito. Luciana: Sei. E essas salas eles pagam alguma taxa para ficar? Como é que funciona? Celso: Nada, paga nada! Luciana: Não? Celso: Não tem hoje, nem contrato tem, né? Então, é complicado. Luciana: Sei. É, para as federações, quantas salas? Se hoje, mais, várias federações quisessem vir, quantas teriam à disposição das federações? Celso: Ah, isso aí eu não sei te informar. Mas é umas trinta salas aí. Luciana: E quantas delas estão ocupadas hoje? Celso: Todas! Luciana: Ah, as trinta estão ocupadas? Celso: Tá, estão. Igual eu estou te falando, as que não é, a, o, os que vem para trabalhar, tem a sala. Os que não vem, tem. Mas não, não é sala, é depósito. Luciana: Ah, funciona como depósito, né? 236 Celso: É depósito, é. Luciana: E dessas que normalmente vem para trabalhar, hoje são quantas? Celso: Ah, nós, tem o Judô, nós temos a, umas, umas 12. Luciana: Umas 12, né? Celso: Umas 12. É. Luciana: Tá. É, você mencionou é, o, o, questão desse primeiro momento como, né, as pessoas utilizaram. E depois, assim, como que a população aqui ao redor, e a população da cidade, utilizou o ginásio? Porque uma coisa são, né, você vir, às vezes como família. Outra coisa é a gente vir enquanto federação, organizar um evento. Para além dos eventos, como o mineirinho era utilizado pela população? Celso: Ah, o Mineirinho na quando ele foi inaugurado, ele, parece que assim, os gestores daqui, eles olhavam mais para aqui. Então não sei se era muita novidade, aí eles fizeram uma, uma pista de bicicross lá na, lá em cima, no terreno lá. Luciana: É, ali tem até ela, né? (aponta para uma fotografia na parede). Celso: É, olha para você ver. Está ali ó (indica a localização na fotografia). Aí tinha uma, uma casa de bicicleta aí, para vender a, vender a bicicleta. e consertar bicicleta. Então, então Luciana: Você lembra qual que era a casa? Celso: É Casa Martins. Luciana: Ela ficava onde? Celso: Ela ficava perto da, da pista ali de cooper ali. Onde é o portão 6 hoje. Luciana: Nesse, é esse aqui? Aqui? (Estamos perto do quadro e eu indico onde seria a localização) Celso: Isso, mais à esquerda. Isso. Luciana: Ah, ficava aqui. Celso: Certo. 237 Luciana: Uhum. Então tinha uma, uma casa aqui? Celso: Tinha, tinha uma casa aqui, de bicicleta aí. De vender e consertar, era tudo. Luciana: Sim. Celso: Casa Martins. Luciana: Porque ali a gente estava até observando. A Daniele estava aqui, a gente estava conversando sobre o quadro, né? E, uma das questões assim que chamou a atenção pelo menos para mim, foi o fato de que nessa época aí dessa foto, não tinha cerca, ao redor. Celso: Não. Luciana: Você pode observar que não tinha cerca. Celso: Não tinha, não. É, a cerca, esse, esse muro foi feito deve ter uns 15 anos, por aí, 20 anos. Luciana: É, eu falei que essa foto, é, me parece que é da década de 90. Celso: Un. Luciana: Você sabe de quando que ela era? Porque aquela parte aqui, desse, desse que era o ginásio que foi demolido na época da reforma, aqui depois de 2010, dessa reforma do Mineirão. Celso: escadaria. Luciana: Eles derrubaram isso aqui. Celso: Derrubou. Luciana: né? Celso: É, a passarela passa aí. Luciana: Isso não tinha no começo. Celso: Não. Luciana: Na foto inicial, nas primeiras fotos que eu vi, não tinha, era um vão aqui. O que tinha de estrutura era essa. Aí hoje a gente tem, esse ginásio foi derrubado, aquele que o 238 pessoal do vôlei usava muito par aquecimento, algumas pessoas vinham jogar. Eu cheguei uma vez até a vir. Na época eu estudava aqui na UFMG, a gente veio. Nós chegamos a usar essa, essa parte aqui. E, aqui é o Mineiríssimo, que também não tinha, né? (indico alguns locais na imagem da parede) Celso: É, é verdade, você está aí. Aí, aí deve ser, isso aí deve ser mais ou menos, novecentos e noventa, 96, por aí (pensando). Que eu não sei bem te falar Luciana: Uhum. Celso: A época, não. Mas esse ginásio aí, a gente, que foi demolido, eu também trabalhei ajudando a fazer, a fazer. Luciana: Foi, né? Celso: Foi, foi. Luciana: Ah, legal. E você sabe assim, de, de qual, gestor, ou de quem foi a ideia de fazer esse fechamento externo do, do Mineirinho? Celso: Esse. Luciana: Com esses postes de concreto? Celso: Isso aí começou com a primeira vez (pensando), acho que com o Sasso. Acho que foi com Sasso, foi o Fernando Sasso. Luciana: Fenando Sasso? Celso: Acho que foi com o Fernando Sasso, é. Luciana: Aí cercou? Celso: A primeira vez que foi, é o Sasso foi presidente aqui duas vezes. Luciana: Sei. Celso: Teve 2 mandatos aqui. Luciana: Sei. E, é, então, até a época do cercamento, você se lembra, por exemplo, que a gente vê nessa foto é, que tinha ali a pista de bicicross aqui também nesse lado, né? 239 Celso: Un. Luciana: A pista. É, e do modo que está ali a gente vê que ela né, não tinha mato, então muito provavelmente era utilizada. Celso: Un. Luciana: Você se lembra se ela era utilizada? Celso: Sim. Luciana: Como que era a utilização dessa pista? E quando que ela foi construída? Porque inicialmente não tinha. Celso: Não. Luciana: De onde que aparece essa pista? Celso: Essa pista ela veio exatamente, esse, esse, esse moço que eu não sei o nome, do que, que tomava conta dessa Casa Martins, ele é que trouxe essa pista para cá. Luciana: Uum. Celso: Ele fez a pista já fazendo a para, está entendendo? Para ter o lugar de vender as bicicletas. Luciana: Sei. Celso: Para os meninos andar. Luciana: Sei. Celso: Está entendendo? Então foi ele, ele que foi o gestor dela, o inventor dela. Luciana: Uhun. E você Celso: É o Ce, César que ele chamava. César da Casa Martins. Luciana: César? Celso: É, César, o nome dele. Luciana: Ah. 240 Celso: César, ele que inventou. Luciana: Ah, então foi por intermédio dele que Celso: Dele, exatamente! Luciana: Que teve essa pista? Celso: É, isso. Luciana: Ele, provavelmente trouxe um projeto, né? Para poder colocar Celso: Isso. Luciana: a loja de bicicleta. Celso: Isso, praticamente foi feito tudo na mão. Luciana: É? Celso: Tudo na mão. Não tem, não teve máquina. Não teve nada. Luciana: Você chegou a participar aí dessa parte? Celso: Não, não participei não. Aí eu já ficava mais no Mineirão ainda eu já, entendendo? Meu trabalho era mais no Mineirão. Luciana: Uhun. Celso: Aí já tinha que, que quando inaugurou, já arrumou, né, um. Já tinha o pessoal, como diz o outro, todo mundo trabalhava em todo, no, no mesmo lugar, desde que precise. Mas nós tinha uma equipe para o Mineirão e uma equipe para o Mineirinho. E eu fiquei na equipe do Mineirão. Luciana: Sim. Celso: Entendendo? Quando precisasse fazer, aí fazia, né? Um mutirão, tanto a gente vinha para cá, como eles iam para lá também. Luciana: Sim. E quando você foi para a equipe do Mineirão? Celso: Assim que terminou. Assim que terminou a obra toda aqui, aí eu fui para o Mineirão. Que aí eles já passou, né, já fichar a gente para aqui. Aí eu voltei para o Mineirão. 241 Luciana: Sei, sei. Aí de vez em quando é igual você falou, participou da obra, da construção daquele ginásio menor ali, né? Celso: Participei. Luciana: Aí quando tinha Celso: Participei. Luciana: algumas obras maiores vocês vinham? Celso: Vinha. Aí a gente, aí era todo mundo. Aí a gente fazia o mutirão, a gente veio, fez isso aqui. Luciana: E o, o Mineiríssimo. Você se lembra quando foi construído? Quem construiu? Celso: O Mineiríssimo foi. O Mineiríssimo eu lembro muito bem foi, foi, quem construiu ele foi o moço que era o dono, dono do Mangabeira aqui, ó. Que tinha um restaurante aqui no Mangabeira aqui nesse. Luciana: Sei. Celso: Nesse parque aqui, ó Luciana: Sei Celso: Como é que era o nome dele? Ele, ele que inventou esse Mineiríssimo aqui Luciana: Ah, tá. OK. Celso: Depois passou para o, o dono dele passou a ser o (pensando), como é que chama, gente? (Pensando) Ah, eu sou muito ruim de, para guardar nome da pessoa, aí. Luciana: E, aí ao lado ali a gente tem aquela, aquele vão, né? Onde, com gramado. Que é onde hoje o pessoal da Federação de Arco e Flecha utiliza, né? Celso: Ali era, uma. Ali foi antes do pessoal do arco e flecha usar ali, isso aí era uma horta, uma horta Comunitária nossa. Luciana: Ah, é? Celso: Era, uma horta. 242 Luciana: Quando que foi essa horta? Celso: Essa horta foi, 94, por aí, na época do, do Oswaldo Nobre. Luciana: É? Celso: O presidente era o Osvaldo Nobre. Luciana: Então ele implementou uma horta Comunitária ali? Celso: Isso, perfeito. Luciana: E quem que vinha cuidar da horta, quem era as pessoas? Celso: Tinha, tinha, tinha o, duas pessoas aqui que chamava, seu Joaquim, um era Joaquim e o outro (pensando). Eles eram dois que tomava conta. E, e todo fim de semana, sexta-feira, eles faziam, né, as coletas aqui, levava para o Mineirão, trazia aqui para o Mineirinho. Ou a gente mesmo vinha aqui em baixo, colhia, entendendo? Mas tinha aí o, o pessoal que tomava conta. Você chegava, eu quero isso, isso, tinha de tudo. E você levava para casa. Luciana: Aí eles que cultivavam? Celso: Eles é que cultivavam, é. Luciana: E era Celso: Os próprios, os próprios Luciana: aí eles vendiam? Celso: Não, não. Não vendia, não. Luciana: Ah, então a ideia era para vocês? Celso: É, é, Luciana: Para consumo Celso: para nós da, da Luciana: Ah, tá Celso: Do Mineirinho e do Mineirão. 243 Luciana: Entendi. Celso: Dava, né, para alguns que vinham de fora, também. Luciana: Entendi. Celso: Se pedisse, dava. Mas vender, não. Luciana: Então era, algo para o consumo próprio Celso: Sim. Luciana: Das pessoas que trabalhavam aqui e lá. Celso: Perfeito. Luciana: Ah, interessante. E quando que o pessoal do Arco e Flecha veio? Celso: foi depois disso, depois disso. Luciana: A horta foi de 97? Celso: É a horta foi na época do, do 94, né? Luciana: 94? Celso: Foi a época do, do Oswaldo Nobre. Esse pessoal deve ter vindo aí 98, por aí já começaram essa, esse arco e flecha aí. Luciana: Sei. É, uma outra coisa que eu, que eu, que eu queria te perguntar, é sobre o, sobre o, sobre o porquê que você acha assim que hoje o Mineirinho, que a gente vê que é, ele tem uma certa utilização, né? E por quê que é, o hotel, por exemplo, não tá funcionando? Celso: Não, hoje é que nem diz o outro, teve, teve a obra da reforma do Mineirão para 2014, né, da Copa do Mundo. Que os, os funcionários, o pessoal da, da, da obra desceu para cá para usar os alojamentos para trabalhar no Mineirão. E falou que depois da, da reforma do Mineirão que eles iam reformar o Mineirinho. Que inclusive o Mineirinho também estava na PP, né? E, acabou que não reformou. Então não reformou, o pessoal usou, usou, usou. quer dizer, o que estragou eles não consertaram, e fechou. Luciana: Isso aí foi no governo do? 244 Celso: Do, do, do Anastasia. Luciana: Anastasia? Celso: Anastasia. Luciana: Então eles fecharam o hotel alegando que faria uma reforma? Celso: É Luciana: Direcionaram os Celso: Mas a, quem era para fazer a reforma era a Minas, é, a, o pessoal da obra do Mineirão, né? Luciana: Sim Celso: Que eles é que falou que depois ia reformar os alojamentos. Só que não reformou Luciana: E ficou por isso, Celso: E ficou Luciana: o governo não fez nenhuma intervenção nesse sentido? Celso: Não fez, pronto. Luciana: Entregaram a obra do jeito que estava e ficou por isso? Celso: E ficou do jeito que está. Luciana: Ou seja, a reforma do Mineirão em relação ao Mineirinho foi impacto negativo? Celso: Foi negativo. Negativo porque, né, se ele funcionava, se o resto, se os alojamentos tudo funcionava, depois da obra não funcionou mais. Luciana: Eles fecharam, mas nesse, no processo de reforma lá da obra do Mineirão foi utilizado como alojamento dos trabalhadores. Terminou a obra, do jeito que estava entregaram? Celso: Foi. Luciana: Até pior? Pelo que você tá falando. 245 Celso: Muito pior, muito pior. Porque na época quando eles começaram a obra tudo funcionava. Luciana: Sei. Celso: Né, entregou, quer dizer, funcionava mas já não, né, não tinha qualidade Luciana: Sei Celso: É, estragou muita coisa. Porque o pessoal, eles peão, né. Então você já viu. Luciana: Sei Celso: Aí só teve que fechar. Luciana: E, é você se lembra quando começou a funcionar o hotel? Celso: Não. Eu não lembro não. Porque aí, como eu te falei né? Como nós, nós, foi dividido. Uma parte ficou no Mineirinho, outra parte foi para o Mineirão, então eu, praticamente quase na época mesmo que, que foi construído, porque, né? Já, já inaugurou o, o Mineirinho com a, bem adiantada as obras dos alojamentos, né? Luciana: Sim Celso: Então foi rápido. Foi rápido, eles terminaram. Luciana: E lá no Celso: E já começou a funcionar. Luciana: Porque que eu me lembre tem, né, é, o projeto é bem bacana que eu estava observando. Que tem como se fosse uma sala, né. Você entra tem uma salinha, tem um banheiro, um armário Celso: Uma varanda Luciana: Uma sacada, né? Celso: É, uma varandinha Luciana: Uma varandinha, é, é bem, me parece bem bolado, né? E aí então já tinha quando você trabalhou nesse processo de acabamento? É 246 Celso: Não, ele já veio, eles já vieram terminando tudo. Praticamente tudo, né? É, entregou, praticamente pronto, já. Luciana: Já pronto? Aí você já estava fazendo acabamento, depois vieram e colocaram o mobiliário? Celso: Sim. Luciana: E o quê que tinha de mobiliário lá? Celso: Na verdade, mobiliário é só colchão, porque as camas é de, de concreto. Luciana: Alvenaria. Celso: Alvenaria Luciana: Ahan. Celso: Então só colocou o colchão e roupa de cama. Luciana: Ou seja, se hoje quisesse reativar seria uma obra barata? Celso: Fácil, fácil Luciana: Fácil, não ia precisar gastar muito? Celso: Não, não. Não precisa. Luciana: Em termos de materialidade não ia precisar muito? Celso: Não, não. Não precisa não. Uma boa pintura, né. É claro que hoje qualquer, qualquer obra que for fazer ali vai ficar caro porque o seguinte, é, todo é, o encanamento lá todo é de ferro né? Então, se você for mexer, você tem que, né, acaba mexendo em tudo. Luciana: Sei. Celso: Então fica caro. Luciana: Agora em termos de funcionamento, o Mineirinho, desse tempo que você está aí na gestão, que você né, acompanha o, essa condução aí do Mineirinho. O Mineirinho, ele gera prejuízo para o Estado? 247 Celso: Não! Pelo contrário, o Mineirinho dá lucro. Entendendo? O Mineirinho arrecada aí mais de 1 milhão por ano, e gasta muito menos. O ruim nosso aqui é porque o governo é, é conta única. Então o dinheiro que arrecada aqui vai para a conta do governo entendendo? Então não fica o, o dinheiro que, que ganha aqui não fica aqui. Luciana: Uhum. Celso: É por isso que ele tá desse jeito hoje, né? Não. Se você ganha o dinheiro aqui, ele não fica aqui. Quer dizer, vai para conta do governo lá, para depois. Não vem! Aí, por isso que está assim. Luciana: Ou seja, a estrutura, em termos do que ele arrecada ele teria possibilidade se fosse, o que ele arrecada, se fosse investido nele Celso: Ele mantém! Luciana: Estaria muito melhor? Celso: Muito melhor! Muito melhor! O Mineirinho arrecada muito dinheiro Luciana: Então hoje Celso: Mesmo Luciana: Não dependeria de repasse do governo para ele poder funcionar? Celso: Não! Definitivo isso. Ainda mais Luciana: Do modo que está aí Celso: É, hoje se, hoje até concordo que às vezes para fazer uma reforma ele precisa. Mas depois de pronto, Nossa Senhora! Isso aqui dá muito dinheiro, é! Luciana: Mas assim, considerando o que você está dizendo, que ele arrecada 1 milhão, o que, o que hoje efetivamente, você diria que em 1 ano, termina desse 1 milhão, quanto que seria gasto aqui? Ou quanto que sobraria? Que poderia fazer, por exemplo, uma poupança e falar assim: olha, nós vamos economizar por tantos anos, com esse dinheiro a gente faria a reforma. Celso: Ah, isso a gente, eu não sei te informar porque eu não sei se, vamos supor, eu falo um X e é outro. 248 Luciana: Tá. Celso: Que vamos supor que, tem que, tem que tirar o, o salário dos funcionários Luciana: É isso que eu estou perguntando, é. Celso: Tem que tirar, né? Então eu acredito aí que, que sobra. Que dá, dá para fazer muita coisa. Dá para dar uma ajeitada no Mineirinho. Luciana: É. Celso: O dinheiro que ganha aqui, dá para ajeitar o Mineirinho. Luciana: É porque hoje além dos eventos que tem, alguns são pagos? É, com valores diferentes? Celso: Outros. Luciana: Outros, né, Celso: Gratuito, né, que é coisa do Governo, né? Luciana: É. Celso: Mas tem, você vê, todo jogo no Mineirão tem estacionamento. Qualquer evento que tem no Mineirão, tem o estacionamento. Luciana: Esse estacionamento é controlado atualmente pelo, pelo Estado? Celso: Não. É uma empresa terceirizada, né. Mas o governo tem 70%. Luciana: Ah, tá. Celso: Entendendo? Luciana: 70% do estacionamento? Celso: É dele. Luciana: Do Mineirinho, aqui também? Celso: Tudo, tudo! 45m45s 249 Luciana: Os Celso: Tem a feira, tem a Feira do Mineirinho, tem o estacionamento. O estacionamento é pago. Luciana: 70% pro Governo? Celso: 70% Governo. Luciana: Tá. A Feira é uma licitação, que é, é como se fosse um aluguel? Celso: Isso. Luciana: Que a empresa paga, né? Celso: Isso, isso. Luciana: Tá. Então tem o Mineirinho, a Feira do Mineirinho Celso: Tem a Feira, tem o evento. Luciana: Tem os eventos Celso: Tem os estacionamentos Luciana: Estacionamento Celso: Tem muita coisa, é! Luciana: Então, dá para a gente dizer que tem uma renda já de cara fixa? Celso: Tem Luciana: Que é o, a feira do Mineirinho? Celso: A Feira e o estacionamento. Luciana: E o estacionamento. Celso: O estacionamento. Que o evento não. O evento aí você tem que trabalhar para trazer os eventos, né? Luciana: É. 250 Celso: Né, você tem que ter uma casa, você tem que ter uma casa boa para o povo vim, para os empresários vim, gostar e trazer o evento. Luciana: Uhum. Celso: Que você tendo uma casa boa, né, os banheiros arrumadinho, tudo certinho, você fazer uma manutenção boa aqui, dá para trazer muito evento, no Mineirinho. Luciana: Uhum. Tá. É, eu observei também é, aqui na, no Mineirinho, que tem dois espaços, um é a igreja, e o outro já no penúltimo pavimento ou no último, a, um alojamento, uma área que o Ricardo, me acompanhando, falou que funcionava como uma base da polícia. Celso: Sim. Luciana: Você se lembra de quando que era essa base da polícia? Celso: Essa base da polícia foi mais ou menos em 90. Luciana: 90? Celso: 90, é. Luciana: E porque que ela veio para cá? Celso: Isso, isso foi um acordo, isso foi um acordo com o Diretor na época do Mineirão que eu não me lembro bem. Que se, se a polícia, se a trouxesse a polícia que ela estava sem lugar para ir, se trouxesse a polícia para cá, eles iam dar uma segurança maior para o Mineirinho e para o Mineirão. Luciana: Sei. Celso: Entendendo? Então quer dizer, tendo essa polícia, tendo o, o PPO, aqui, essa polícia aqui no Mineirinho para, como diz os outros, para qualquer tipo de eventualidade no Mineirão e ou no Mineirinho. Nós já tava com a polícia, tava com a segurança aqui dentro. Então, só porque, passado uns tempo não foi mais ou menos, acho que o, nosso presidente pen, né, achava que ia ser, depois, saiu. Luciana: Você se lembra quando saiu? Celso: Lembro, sim. mas eu não sei a data certa, não sei a data. Mas deve ter ficado aí uns 6 anos. 251 Luciana: É? Celso: Mais ou menos uns 6 anos eles ficaram aqui. Luciana: Mais ou menos que data foi essa aí? Celso: Não Luciana: Sem, muita certeza. Celso: Não, aí eu não sei. Não sei se saiu 99 ou 2000, entendendo? Mais ou menos isso que eles saíram. Luciana: Então mais ou menos meados de 90 eles vieram e Celso: É Luciana: Mais no final eles saíram? Celso: E no final saiu, mais ou menos. Luciana: Tá. E a igreja? O que você me fala da igreja? Celso: A igrejinha aqui? Luciana: É, a capela. Celso: A capela nossa aqui já teve casamento, já teve batizado, né? E é isso. Luciana: É, eu estive lá Celso: Já teve muita celebração de missa. Que o Mineirinho de primeiro quando, quando era a ADEMG, como ela vivia mais com recurso próprio, então tinha uma, muita festividade, né? Então fazia, tinha, por exemplo, tinha as comemorações do aniversário do Mineirinho. Aí vinha para o Mineirinho fazia a celebração da missa, fazia né, um, dava um guaraná para o pessoal tomar, então tinha muita facilidade. Hoje não tem, né? Não tem recurso, então, é difícil. Luciana: Não tem uma dotação orçamentária? Celso: Não tem, não tem. Luciana: definida para o Mineirinho hoje. 252 Celso: Não tem. Luciana: E antes tinha? Celso: Tinha porque era a ADEMG, né. Então ela, como ela vivia com recurso próprio, então o próprio gestor nosso do Mineirão, que era o diretor, ele, né, via os principais de, de principais coisas que tinha que, reformar ou fazer, e fazendo, né. Porque tinha um pouco, podia pegar o dinheiro para aquilo ali. Hoje não tem. Luciana: Então, desde a extinção da ADEMG, passou a ter esse problema? Celso: É, no, já, já com a, com a ADEMG, mesmo existindo a ADEMG, já começou, né? Já participar, o já ter conta única. Então foi bem antes. Luciana: Você se lembra mais ou menos quando foi isso? Começou esse problema aí de não ter repasse? Celso: Não, não lembro não. Não lembro não. Mas isso aí deve ter sido mais ou menos 2.000 por aí, já começou. Luciana: É? Celso: É. 2000 já começou. Luciana: Então foi, foi diminuindo, até que piorou? Celso: Eu acho que foi na época que começou com o governo Itamar. não tem muita lembrança não. Mas eu acho que começou com o Governo Itamar já, essa cota única aí, essa conta única. Luciana: Sei. Então o problema teve a conta única? Mas na época da ADEMG tinha um repasse de verba ainda com a com a, com essa conta única? Celso: Não tinha, não tinha. Na época desse, que eu estou falando com você, não tinha. A ADEMG tinha a conta dela. A ADEMG depositava o dinheiro na conta da ADEMG. Luciana: Entendi. Celso: Entendendo? Então quando chegava o fim do ano, fim do ano, o dinheiro que a ADEMG arrecadava, às vezes você tinha que comprar, porque às vezes tinha muito dinheiro 253 em caixa, comprava muita coisa. Então o almoxarifado nosso era cheio de, de, de material, entendendo? De tinta, de muita coisa. Tudo que precisava no Mineirão tinha. Luciana: Uhun. Celso: Hoje não. Luciana: E atualmente aqui, né, tem essa parte aqui da administração. Quais são os setores que estão aqui dentro do Mineirinho, vinculados ao Estado? Que eu vi que tem o Almoxarifado, né? Tem você, tem a Dani aqui. Celso: É, nós, é tem nós, né, que é da antiga ADEMG e o Almoxarifado, da Secretaria de Esportes, que é ali atrás, entendendo? Que hoje Luciana: Você está vinculado à Direto, Diretoria de Celso: Secretaria de Esportes Luciana: É, Secretaria de Estado de Esportes Luciana: Nós da Secretaria de Esportes, é, que hoje é o mesmo. Luciana: Mas você está, você está como Celso: Diretor de Manutenção Luciana: Diretor de Manutenção. A Daniele? Celso: A Daniele de Diretoria de Operação. Luciana: Diretoria de Operação. Celso: É. Luciana: Tem mais alguma Diretoria além da de vocês? Celso: Não, não. Só nós Luciana: Então, os responsáveis Celso: Hoje é eu e a Daniele. Luciana: Pelo equipamento hoje é vocês dois, né? 254 Celso: É, eu e a Daniele, é. Luciana: É, quantos funcionários tem aqui hoje? Do, da, sem ser os terceirizados, que são os guardas que vieram agora, né? Celso: Un. Luciana: Quantos estão aqui dentro do Celso: Nós aqui é, 18 pessoas. Luciana: São 18 pessoas? Celso: 18. Luciana: 18 pessoas trabalhando. Celso: 18 pessoas. Luciana: E recentemente quando, quando que começou essa patrulha aqui desses, desses guardas, dos vigilantes? Celso: Começou, começou em janeiro. Luciana: Janeiro? Celso: Janeiro. Luciana: São 4 vigilantes que tem? Quantos são? Celso: Na verdade são dois, né? Dois de dia e 2 de noite. Dois de dia e dois de noite. Luciana: É, quatro. Celso: Então são 8. Luciana: São, ah, sim, é! Celso: É. Luciana: O regime 12 por 36, né? Dia sim, dia não. Celso: Uhum. Luciana: Então são 8. Então são, além de vocês, esses terceirizados, 255 Celso: Esses 8, é isso. Luciana: E tem, igual hoje, eu estou vendo o pessoal da limpeza aí, MGS também, né? Celso: MGS, são 4. São 4. Luciana: Quando precisa eles vêm? Celso: Não, não. Esse é fixo com nós, aqui. Luciana: É que eu não me lembro desses antes. Eles vieram agora também? Celso: Não, mas, é, Não, não já tem tempo que eles estão com a gente. Luciana: Ah, tá, desde quando? Celso: Ah, desde 2001 mais ou menos. Luciana: 2001? Celso: É, está com nós. Luciana: A MGS ela foi criada Celso: Eu não sei. Luciana: Eles eram MGS antes, não? Celso: Não tinha, era outra empresa, depois, depois passou a ser MGS, mas tinha outra, era outra empresa. Luciana: Desde 2000? Celso: Mas, mas era a mesma coisa, né. Luciana: Exceto os vigilantes, que eu não me lembro desses vigilantes. Celso: Não, vigilantes não, vigilantes não. Luciana: Vigilante agora, né? Celso: Vigilante agora, é. Luciana: Tá. Bom, que eu me lembre, é isso que eu tenho. Você tem alguma pergunta, Edmar? 256 Edmar: (inaudìvel) mas. Luciana: Tem não, né? Você tem algo mais a dizer que de repente eu não, não perguntei, que você acha que é interessante dizer para a gente? Celso: Não, eu acho que a gente foi mais ou menos tudo o que você falou aí. É mais ou menos a base, né? Que até podia dizer outras coisas mais, na, na atrás, mas eu não tenho lembrança. Luciana: Uhun. Celso: Que nem eu te falei. A gente veio muito, assim, eu acho, até novo para cá, então você não tinha muita experiência. Você não sabia, entendendo? Como é que era chegada as coisas, direito, então, para a gente informar, difícil. Luciana: Uhun. Uma última pergunta que eu me lembrei aqui agora, que eu ia fazer, é, o quê, que na sua opinião, né, de trabalhador, de gestor atualmente e de morador da cidade. Para você, o quê que o Mineirinho representa aqui para o bairro, para região da Pampulha e para cidade? Pensando também lá e pensando hoje? Celso: Não, aí eu acho que o Mineirinho representa uma casa de, uma casa de show. Uma casa, né, que de esporte, que deveria se ser mais usada, que não é usada tanto para esporte. E é isso, e o povo gosta da, do Mineirinho, tenho certeza. Eu como morador, como funcionário, é até difícil de falar, entendendo? Que é uma vida, você vê que uma pessoa ficar numa casa, já vou fazer 40 anos. Você, agora 79, eu vou fazer 40 anos que eu estou aqui. Então 79, não, 2019. Luciana: Uhun. Celso: Já vai fazer 40 anos que eu estou aqui. Você vê que é uma vida, então praticamente eu vivia aqui, eu vivo aqui mais que eu vivo em casa né? Você vê que é durante o dia, é com evento, está sempre aqui. Então é muito bom eu, é muito bom eu falar do Mineirinho, tenho certeza que o povo aqui da Pampulha também. Outros gosta muito do prédio aqui. Luciana: Uhun. Você mora onde? Celso: Eu moro no aqui mesmo bairro São Luiz atrás ali do Dom Orione. Luciana: Ah, então você está pertinho, Celso: Estou perto, é. 257 Luciana: Está pertinho. Então, mesmo à distância você ainda está perto, né? (Risos). Celso: (Risos) Estou perto, perto. Eu ainda escuto barulho ainda do Mineirão, do Mineirinho, dependendo do evento, escuta, Luciana: Quase que entra no seu sonho também né? (risos) Celso: (risos) É verdade. Luciana: O Celso, então eu agradeço, né, e posteriormente a gente vai fazer transcrição e a gente qualquer questão se tiver estou à disposição. Celso: É, e depois se vocês quiserem mudar alguma coisa, né. Também achar que a gente vai se lembrar de mais alguma ou algo aí, a gente. Luciana: Tá, tá joia, eu agradeço. Celso: Eu olho para você aí, não tem importância. Luciana: Obrigada viu. Celso: De nada Final da transcrição. 258 Transcrição de Entrevista Pesquisa de Doutorado MINEIRINHO, DOS PLANOS AO CONCRETO: MEMÓRIA E HISTÓRIA DO PALÁCIO DOS ESPORTES (BH – MG) RICHARD LIMA (Depoimento) Belo Horizonte 259 Entrevista realizada com o Sr. Richard Lima Local: Belo Horizonte, Casa dele, B. Funcionários Data: 12 de setembro de 2018 Luciana: É, estamos aqui com o senhor Richard Lima. Hoje são 12 de setembro de 2018, é, estamos na sua casa, que o senhor nos acolheu, com muita, muito carinho, né. A gente agradece a disponibilidade de, em contribuir aqui na pesquisa, é denominada, a gente já fez a leitura aqui do termo de Consentimento Richard: Consentimento, está autorizado. Luciana: Livre Esclarecido, né? O senhor assinou e autorizou. Lembrando que a gente também está fazendo a gravação em vídeo, né? E, como forma, eu expliquei para o senhor, a ideia é que posteriormente essa entrevista ela pode servir também como um documento para registrar a memória, né, da construção do Mineirinho, da história dele. Richard: É. Luciana: E o senhor concordou né que a gente fizesse a gravação em áudio, a gravação em vídeo. O Termo está assinado e a gente vai agora né, para o começo da entrevista é, da pesquisa intitulada Palácio dos Esportes em busca da História do Ginásio Público Mineirinho, dos planos ao Concreto. Essa pesquisa, ela vem sendo desenvolvida por mim, Luciana Cirino, que estou vinculada ao Programa de Pós-graduação em Estudos do Lazer lá na UFMG, e estou sob a orientação do professor Doutor Elcio Loureiro Cornelsen. Lembrando que qualquer dúvida que o senhor tiver posteriormente, é se o senhor tiver também alguma, às vezes algum documento, alguma informação que o senhor quiser nos passar posteriormente, estamos à disposição tanto para dúvida, e para, né, para outras, outros esclarecimentos. A transcrição da entrevista será feita posteriormente, eu mando para o senhor. E, em qualquer momento que o senhor quiser, o senhor pode, é inclusive dizer que não quer continuar participando, né? E que não quer que a, o, as informações que a gente tiver gravada aqui sejam utilizadas, tá? Então para começar eu gostaria que o senhor dissesse o seu nome e nos diga sobre sua trajetória profissional, para gente começar a nossa conversa. 260 Richard: Meu nome é Richard Lima, sou de Lavras, sou de Minas. Estou aqui em Belo Horizonte a sessenta e tantos anos. Formado em Arquitetura. Quando eu formei era Arquitetura e Engenharia, engenheiro (inaudível). Tenho autorização até para ser responsável por um prédio de três andares (o cachorro dele latiu). Era assim na nossa época, né? E estou aí exercendo a minha profissão. Luciana: Sim, é o senhor é arquiteto, né? Richard: Arquiteto. Luciana: Trabalhou, o que me traz aqui inclusive foi o trabalho que o senhor, é, exerceu é, na construção do Mineirinho, né? E aí o senhor poderia, é, nos dizer, qual, o senhor trabalhou de arquiteto, e como é que foi o trabalho do senhor durante a construção do Mineirinho? Richard: Foram só 17 anos lá dentro (risos). Dá fundação e até a descida, nas fundações do edifício para ver uma vez, como tinha um nível de água alto, tinha umas bombas para empurrar água. E tinha que entrar dentro dos aparelhos, esperar ter respiração, empurrar a água para você poder descer e ver como que era o fundo. Luciana: Então o senhor, o senhor pegou a obra do Mineirinho desde o planejamento? Richard: Desde o início, tudo. Luciana: É, porque eu vi que o senhor tem projetos. Richard: Tem. Luciana: Já com o nome do senhor, lá, né? Richard: É porque eu comecei mais no Mineirão foi, foi justamente foi no CEU. Tanto é que portaria do CEU, projeto meu, tem minha placa lá, direitinho. E a Pista de Atletismo também é projeto meu. Porque quando eu era jovem era atletismo, era atleta de atletismo: saltava, corria, pulava (inaudível). Luciana: Isso já em Lavras o senhor já? Richard: Lavras, é. Luciana: Aí depois o senhor veio para Belo Horizonte continuou como atleta também? 261 Richard: Exatamente! Em Lavras no Instituto Gama. Tem que respeitar demais, essa escola que fez demais comigo (risos). Luciana: Sim. É, o senhor veio para Belo Horizonte quando? Richard: (pensando) 60, 60. Luciana: 60? Richard: Un, estava com 20 e poucos anos. Luciana: Aí o senhor fez a, arquitetura? Richard: Arquitetura, não sabia que tinha escola de arquitetura, vim para estudar engenharia para construir casa. É coisa muito interessante. Quando eu estive na república na Avenida Getúlio Vargas me falaram que tinha uma escola de Arquitetura, se eu queria mexer. Porque a minha cultura na cidade de Lavras era só engenheiro construindo casa. Eu não tinha cultura que existe uma escola de arquitetura. Luciana: Sim. Richard: Aliás, só tinha uma em Minas Gerais. Hoje só Belo Horizonte tem quantas? Tem umas cinco ou seis. Luciana: É. São muitas. Richard: (Risos) Luciana: São muitas, hoje são muitas. Richard: Só para a gente ver a evolução do tempo, como são as coisas. Luciana: Então o senhor participou da construção do CEU? Richard: Do CEU. Luciana: Da obra do CEU. Foi quando o senhor entrou Richard: Foi no Mineirão. Luciana: Na diretoria de Esportes. Richard: É. 262 Luciana: O senhor esteve vinculado lá à diretoria, então desde a obra do CEU? Richard: Do CEU. Depois. Luciana: E como é que foi? O senhor pegou o quê da obra do CEU? O quê que o senhor participou? Richard: Foi desde o começo. Luciana: Foi desde o começo também? Richard: Não, já tinha até os vestiários já estavam prontos. Luciana: Já tinha os vestiários? O que mais já tinha da época do senhor. Richard: Eu não sei se mudou de diretor, eu não, eu não entrei nesses detalhes. Que a faixa de idade que a gente tem, que a gente não entra (risos) nesses acontecimentos, né? Luciana: Sim. Richard: A gente vai só para nosso faturamento. Aí fiz, que eu mexia com atletismo, fiz a pista de atletismo, fiz a portaria. É, por coincidência, a vedação toda do Mineirinho, aquelas placas de concreto em L, foi a primeira em Minas Gerais. Hoje tem em tudo quanto é lugar, já tem ali. Luciana: É? Richard: (risos) E foi usada lá. É um detalhe pequeno, mas é uma realidade. Luciana: Então assim, praticamente pode dizer que o senhor formou e aí já foi para a Diretoria? Richard: É. Luciana: E o senhor lembra como é que foi esse processo de entrada lá na Diretoria? Richard: Não lembro (risos). Luciana: Aconteceu. Richard: Fui contratado, me puseram lá (risos) concreto, depois me ficharam no Mineirão (risos). 263 Luciana: Legal. Legal. Richard: Engraçado, pelo trabalho Luciana: É, em relação ao Mineirinho, né, a obra do Mineirinho, que é o foco aqui de pesquisa, é, o senhor saberia me dizer a quem interessava a construção do Mineirinho? Quem é que, como é que foi esse processo de, de demanda? De onde é que partiu essa demanda para a construção do Ginásio? Richard: Essa parte eu não sei. Luciana: O senhor não sabe não. Richard: Quando eu entrei era só para fazer o projeto. E quando já estava fazendo o projeto do, do Mineirinho, eu fiz também o projeto do Ginásio e da pista de atletismo do, do Círculo Militar. Daquela, onde tem aquela escola de, na Pampulha? Tem, como chama? Luciana: O Colégio, o Colégio Militar? Richard: Colégio Militar. Luciana: Aí o senhor também fez o de lá? Richard: Eu fiz. Fiz o ginásio de lá, estou lembrando agora, viu? (risos) Luciana: Bacana Richard: (risos) E a pista de atletismo de lá. Luciana: Bacana. Legal. Richard: Trabalho meu. Luciana: Então, o senhor, mas o senhor estava no CEU. Richard: Sim. Luciana: O senhor saberia me dizer se paralelo a esse momento, é, de construção do CEU, se já tinha essa discussão de construir o Mineirinho também? Richard: Não. Luciana: Ou acabou o CEU e depois que 264 Richard: Foi depois. Luciana: Entrou a conversa do Mineirinho? Ah, depois? Richard: Justamente. Luciana: Tá. É, agora é uma parte que eu, eu imagino o senhor deve ter muita apreço. Porque eu chego ali no Mineirinho, eu fico muito encantada com muitas coisas ali. Diga assim, como é que foi a construção do Projeto? O quê que o senhor lembra da construção? Como é que foi pensado os espaços? Quais eram os espaços? O quê que o senhor se lembra dele? Richard: Olha, (pausa em que ele fica pensando), tem hora que eu me, foi sentindo o terreno e como fazer toda uma circulação de entrada de pessoas, em várias faces. Porque você tem um projeto redondo, com uma área nobre, que é a principal, que é a entrada, tem o outro, por isso que ele tem duas entradas. Tem uma entrada que chega lá por cima, já entra. Aproveitando o estacionamento, já do, porque nós já tínhamos o estacionamento do Mineirão, para movimentos lá dentro. Luciana: Uhum. Luciana: Quer dizer que movimentos para estacionamento lá era bobagem, era pequena coisa. Eu já tinha essa grande. Luciana: Sim. Richard: E aí, foi saindo (risos). Luciana: Sim. É, lá a gente percebe, assim, de fora você não percebe, você não tem às vezes a dimensão do tamanho, apesar de ser um, uma construção muito grande Richard: É. Luciana: Mas quando você entra, você vê vários andares! Você é muito mais impactado, pelo menos é a percepção que eu tenho é essa, né? Dentro, estando dentro, você é muito mais impactado, do que fora. Porque, talvez é, em função. Richard: A volumetria que você vê internamente é imensa! Luciana: É. Richard: Do lado de fora você não vê isso. 265 Luciana: É. E também a questão do relevo, né? Richard: An. Luciana: Como é um, uma área acidentada, tem essa coisa que o senhor tá, o senhor acabou de dizer: um estacionamento em cima, você entra por cima, você entra em baixo, então. O, o, o externo termina tampando um pouco o visual, né? Então você está lá em cima e ele está em uma parte mais baixo, dependendo do lugar que você estiver, né? Richard: Por coincidência, antes disso, eu estava já para formar, eu fiz um projeto, trabalhando com um arquiteto, que assinou e trabalhou um pouco também, lá em Brasília do colégio, do Dom Bosco, em Brasília. Da igreja de lá. É a mesma coisa essa verticalidade alta. Só que tem que lá em cima terminei diferente (risos). Luciana: Sim, sim. É, e ali assim, são, sete, oito níveis, mais né. Richard: É. Luciana: É, aquela parte que tem tipo umas cabines e a parte do teto que a gente sobe pela escada e consegue sair, né? E pisar mesmo, digamos assim, no teto do, do ginásio. Então são muitos níveis. E ali no projeto é, que eu me lembro tem, além da, da área do esporte, tem as arquibancadas, é o hotel que funcionou até 2010, é uma área para piscina, e tanto os documentos como a conversa, é com outras pessoas, a gente percebe que ideia era é, servir, né, que o Mineirinho servisse como espaço para várias modalidades esportivas. É e o senhor se lembra se tudo que foi planejado foi colocado em prática efetiva, efetivamente? Richard: Muitas coisas foram colocadas, principalmente uma coisa que eu pedi: as camas todas lá, é com 2 metros e 10 (2,10m). Ela é mais comprida porque nossos atletas de (risos), de basquete, e coisa, são todos mais compridos. Luciana: Uhum. Richard: Então já fiz as camas mais compridas todas né, no vestiário, porque era justamente como se. Luciana: Sim. É, eu percebi que tem um vão lá, tem uma, uma das salas é no segundo ou no terceiro pavimento, tem um vão muito grande. E conversando com um dos funcionários é, que me recebe, aliás, com dois, dois funcionários que já me receberam lá. 266 Richard: O Natal? Luciana: Eles falaram Luciana: O, o Ricardo. Richard: Ah, o Ricardo. Luciana: E o Paulo. Richard: É o filho do. Luciana: O Ricardo e o Paulo. É, o, não é o Ricardo Raso, não. Richard: Ah, não é o Raso não? Luciana: Mas o Ricardo Raso também já me recebeu. Inclusive é algumas semanas atrás a gente se encontrou. É, eles me falaram que esse local era para a construção de uma piscina e que só ficou tem um vão lá né? Richard: Ah, é, foi, foi, foi. Foi sim. Luciana: Por exemplo no caso dessa piscina, o que que aconteceu que ela não foi construída? Richard: (respirou fundo) Luciana: E por que que se pensou numa piscina lá dentro? Richard: Porque era a ideia na época, era que tudo de direção de esportes serem lá. Então teria também, um pequeno trabalho para isso. Era Luciana: Sim. Richard: a ideia na época do projeto e foi modificando, durante um tempo, durante esses 15 anos de trabalho né? (risos) Luciana: Sim, sim. Richard: De obra. Luciana: É, então, mas o que que levou a né, foi modificando. Richard: Não sei. 267 Luciana: O senhor lembra o que que levou? Richard: Não lembro, não lembro. Luciana: Não, né? Richard: Porque eu não entrava, quer dizer. Luciana: Tá. Richard: Simplesmente. Luciana: Tá. Essas questões eram mais administrativas. Richard: Mais administrativas do que a minha. Luciana: Faz, não faz. Richard: A minha era mais executiva (risos). Luciana: (Risos) certo, certo. Luciana: É, o senhor se lembra quando iniciou a obra? Que ano que iniciou? Richard: (pensando) Luciana: Não? E Richard: Acho que tem uma placa lá com a datinha (risos). Luciana: É, nos documentos, a parte da terraplanagem é, remota a 1970. Tem a terraplanagem, vem a parte da, da estrutura, né? Richard: Un. Luciana: 1970. E o Mineirinho foi inaugurado em 1980, né? Então, assim, o senhor falou que foram 16 anos de DEMG, né? Richard: Não porque, porque o projeto demorou mais. Luciana: Sim. Richard: Entende? O projeto. E aí já começou, quando que já começou a obra. Luciana: Isso. O senhor entrou antes de começar a obra, né? 268 Richard: Sim. Até autorizar o projeto. Luciana: Até porque o senhor trabalhou no CEU, né° Richard: É. Luciana: É, e o senhor ficou 16 anos. O senhor saiu quando, da Diretoria? Richard: Eu demorei a sair da Diretoria, porque depois o, a parte de esporte passou aqui para o centro. Luciana: Ah, sim. Richard: Nós viemos para cá. Luciana: Tá. Richard: Até aposentar. Luciana: Depois que inaugurou e o senhor veio para cá.? Richard: Até aposentar. Luciana: Tá. Aí o que foram esses 16 anos? Richard: Não, dezesseis, não. Foi mais. Luciana: Não, porque o senhor tinha comentado 16 anos, eu acho. Richard: Não sei quanto tempo. Luciana: Foi mais? Richard: Participamos aqui não? Luciana: Não, no somatório, entre a entrada do senhor e a saída, o senhor tinha comentado comigo, quando a gente estava conversando aqui, é um tempinho atrás aí, que o senhor tinha, me parece que eram 16 anos. Richard: Não estou lembrado. Luciana: Mas o senhor ficou muito tempo, né? Richard: Fiquei muito tempo. 269 Luciana: O senhor pegou a construção do CEU, pegou o Mineirinho, aí depois saiu de lá, fez a entrega do Mineirinho, o senhor falou que veio para cá, né? Richard: Na época, quando eu estava aqui, na Secretaria de Esportes, aqui. O que eu fiz de ginásio coberto por esse interior de Minas e pistinha, aí, Nossa Senhora! Luciana: Uhun. Richard: Eu não lembro mais, você entende? Que era aquele negócio. (fala inaudível) (risos). Luciana: Sei. Richard: Mas, a.(risos) Luciana: Entendi, entendi. Então, aí o senhor deu um giro pela Richard: Dei um giro. Luciana: por Minas Gerais? Richard: Nossa, eu viajava a noite inteira, você entende? Luciana: Mas isso paralelo ao Mineirinho? Richard: Não. aí já tinha acabado. Luciana: Ah, isso depois Richard: Depois Luciana: que acabou Richard: É Luciana: e o senhor foi fazer outras, pegar outras frentes de construção. Richard: Que o Estado mandava Luciana: Sim. Richard: Que eu era do Estado, né? Luciana: Sim. Agora no Estado o senhor entrou é, foi contrato, aí foi renovando? Richard: Aí foi renovando. 270 Luciana: Un. Richard: Quando houve aquela mudança, houve uma mudança aí, que aí eu fui legalizado como funcionário público. Luciana: Sim. Richard: Foi quando foi aquilo? Luciana: Depois da Constituição de 1988. Aí teve um processo de transição na década de 90. Richard: É. Aí entrei já como funcionário público. Luciana: Sim, é. Richard: Porque eu trabalhava para o Governo. Luciana: É, é porque o pessoal antes era celetista, né? Richard: Celetista, é. Luciana: A Prefeitura [de Belo Horizonte] ainda tem umas pessoas que são, né, desse período aí que optaram Richard: E nessa época Luciana: Por continuar celetista. Richard: eu passei a ficar com um péssimo salário. (risos) Luciana: Péssimo salário? O salário caiu? Richard: Uai, o meu salário hoje deve ser R$ 3000 (três mil reais). De aposentadoria. Luciana: É, impactante, né? Luciana: É, ô seu Richard. Pois é, né? É, bom então teve um projeto que o senhor falou que levou um tempo para, para fazer esse planejamento. O senhor lembra assim, quando que começou? Quando o senhor sentou para começar a fazer o projeto? Richard: (Em silêncio pensando) foi logo depois do CEU. Luciana: E assim, quanto tempo? 271 Richard: Tem que ver a placa do CEU, lá. Ah Luciana: Tá, o senhor lembra é mais ou menos quanto tempo Richard: Não lembro. Luciana: Foi para fazer? Foi uma coisa rápida? Demorou? Richard: Não, não, fui fazendo devagarzinho. Foi fazendo, fazendo, é, calculista, muda mais um pouquinho. É muito demorado isso. Luciana: Tá, então aí ele já no começo do projeto o senhor teve para poder fazer a parte do desenho aí tinha um calculista? Richard: Tinha calculista, é. Luciana: Tinha o engenheiro. E o senhor lembra quem eram essas pessoas? Richard: (pensando) Do calculista esqueci. Tem muito tempo isso já, né minha filha? Luciana: Não, tem, é! Richard: Muito tempo (risos). Luciana: Mas isso é um exercício para a memória, né? (risos) Eu pergunto Richard: Vou procurar lembra depois eu passo para você alguma coisa (risos) Luciana: Não, nos documentos tem. Richard: Tem? Luciana: Também. Quanto a isso o senhor pode ficar tranquilo, que tem. Mas eu pergunto porque às vezes a partir dessa pergunta o senhor lembra algum, alguma informação que é interessante, acho que é né? É uma conversa que a gente está fazendo aqui sem um compromisso de o senhor ter que me dar resposta. Richard: O bom é que nessa época eu estava lá, só na Pampulha ali. Eu fiz uns 4 ou 5 projetos também de construção, que eu ia trabalhar e olhava um, olhava outro. (risos) A faixa de idade da gente, né? 272 Luciana: É, isso é bom né, o, né a possibilidade da gente é correr, ajuda muito quando a gente está mais novo. É, bom, aí teve o projeto, teve o planejamento. A gente já viu que nem tudo que foi planejado foi colocado em prática, o caso por exemplo, da, da piscina, né? O senhor se lembra de mais alguma coisa que lá no começo, o senhor com a equipe, desenhou, e no final não foi colocado em prática, além da piscina? Richard: Não. Não lembro de mais nada. Luciana: Não, né? É, em termos de gastos, o senhor lembra assim, o montante que foi gasto? 20m19s Richard: Ah não, iiii, nem chegava ao alcance da mão, não. Luciana: Tá. Richard: Naquele tempo eu não sei como que era o governo. Os governos, e o, a engenharia e o chefão, não sabia da. Luciana: Sim, sim. Richard: Hoje a gente se sabe que todos têm a sua porcentagem, né. (risos) Luciana: É, né? É, bom, no processo de construção, é, a obra estava vinculada ao, ao Estado de Minas Gerais. Richard: É. Luciana: É, o Mineirinho é um equipamento público, atualmente, continua era na época vinculado ao Estado. Continua sob a gestão do Governo do Estado de Minas Gerais, né? A, o senhor entrou, é vinculado à Diretoria, a obra foi administrada por meio da Diretoria de esportes também, né? E, o senhor, é se lembra como é que era esse processo de acompanhamento? Tinham pessoas responsáveis que acompanhava? Richard: Não, não tinha nada não. Só os engenheiros responsáveis. Luciana: Só os. Mas por exemplo, na época a construção Richard: Tinha engenheiro, tinha engenheiro. 273 Luciana: Teve uma parte, um período lá, a partir da segunda metade da década de 50, de 70, o Afonso Celso Raso, ele era o gestor, né? E pelo menos naquele momento ali que eu conversei com ele, ele mencionava que acompanhava a obra. Isso, Richard: Ele acompanhava as obras. Ele dava notícia de tudo. Muito, ele contratou um engenheiro para ser o responsável pela obra. Luciana: Uhun. Richard: (pensando) Eu esqueci o nome dele. Eu sei que eu lembro. Agora que eu tô lembrando que eu tenho porque não, a obra já estava, a empresa maravilhosamente bem, então, só para, para emergência. Luciana: Porque teve uma, uma, uma empresa de engenharia que foi contratada também, né, para executar. Além de pessoas como o senhor. Richard: Exatamente. Luciana: Que constituíam uma equipe, tinha uma empresa. Richard: Tinha uma empresa que fiscalizava tudo, né? Luciana: E que fazia a execução também né? Da, da obra. Richard: Exatamente. Luciana: Éé. Richard: Esqueci o nome dela. Luciana: O senhor Richard: Olha que eu estou lembrando, viu! Tá, está vindo uma porção de coisa na minha memória agora. Luciana: Que bom! Que bom. Richard: (Silêncio) Não estou lembrando o nome dele. Luciana: Não está lembrando a do nome do engenheiro, não? Tá. É, o senhor se lembra assim, como é que era a relação de é, de cargos, como governador, presidente, o senhor se lembra da presença deles na obra? 274 Richard: Nunca vi nada lá. Luciana: Não? Porque eu vi em algumas fotos, é, já, é, na fase final, inclusive, visita de Governador, mais para o começo, o senhor se lembra disso? Richard: Eu não lembro nada disso. Luciana: Tinha interferência direto? O senhor percebia interferência direta? Richard: Não, não. Nunca vi nada de governador. Luciana: De governador, de presidente? Falando assim, ah, a obra tem que ser assim, desse jeito. Richard: Não, não, não. Luciana: Não? Richard: Nada disso. Luciana: O. o senhor, daria para dizer então que o senhor tinha autonomia para fazer o projeto? Richard: Porque depois do projeto, tinha. Depois do projeto pronto e calculado, não se mexia em mais nada. Não se mexia em mais nada! Luciana: Tá. Agora uma coisa que ficou, que, né que uma pergunta que eu é, nesse processo de levantamento documental que eu fiquei pensando assim: de onde veio a ideia de fazer o Mineirinho naquele desenho, naquele, né, naquela forma? Tinha inspiração em outros, em outros modelos? De onde que veio? Richard: (Pensando) Luciana: Da, da, da cabeça. Richard: Deixa eu ver se eu posso falar como. O pedido veio com o tamanho. Como que eu vou fazer desse tamanho? Que aí que veio, veio a estrutura. E depois da estrutura a gente bola uma coisa, para fazer a estrutura que foi feita aí, até o engenheiro me ajudou noutras proporções, entende? Luciana: É, em relação ao tamanho, é, já veio uma orientação? 275 Richard: O tamanho depende da quantidade de pessoas, né? Luciana: Isso, mas já veio uma orientação dizendo, que tinha que ter uma quantidade? Richard: é, com o lugar, já. Luciana: já veio uma orientação? Richard: Já veio uma orientação já. Luciana: Tá, então a partir dessa orientação, é, que são 25.000 (vinte e cinco mil), salvo engano da minha parte. que eu me lembro são 25.000, a capacidade dele, né? De pessoas sentadas. É, então vocês receberam essa orientação, já do, do governo. Não é uma, uma. Richard: O que chegou a mim. Luciana: Tá. Richard: Eu não sei, porque não tinha essa reunião. Eu não era Luciana: Sim. Richard: Eu era mais é cachorro, minha filha (risos) Luciana: Tá. Mas chegou e a partir disso Richard: Chegou. Luciana: A partir do público, né, da capacidade. Richard: Capacitação. Luciana: Aí vocês fizeram o desenho? É, no levantamento, porque um dos locais que fiz o levantamento de documentos, foi lá no, no arquivo, numa sala que tem no Mineirinho. Que tem os arquivos, é, de documentos. E eu vi uma revista é, da década de, eu acredito que deve ser década de 70, porque eu não me lembro ao certo a data. Mas ela tem, é, projetos, de é, estádios, dos Estados Unidos. O senhor saberia me dizer, como arquiteto, se teve é, outros, modelos que ajudaram vocês a pensar? Richard: Não vi nada não. Foi só eu sozinho de arquiteto. Luciana: É, então 276 Richard: Não vi nada disso. Luciana: Porque essa revista me chamou a atenção, porque ela está escrita em inglês, aí você vê vários ginásios. Richard: Eu não sei inglês até hoje (risos). Não, saiu aqui dentro de mim. Luciana: Tá. Richard: Aqui dentro de mim saiu foi aquilo. Luciana: Eu achei interessante. Eu falei assim, ó, pode ser que ela pode ter servido, né, de inspiração também, né. Porque às vezes a gente, é, fala assim, ah, como é que é pensar um projeto e tal. Como eu não sou arquiteta e nem engenheira. Eu falei assim, será se serviu de inspiração, né? E ai falei, a vou perguntar para o senhor Richard. Richard: (palavra inaudível) ver o projeto que eu fiz, até, até quem assinou foi outro, Até já faleceu. Ele foi até diretor do Atlético (pensando), Carlos Naves, Cláudio Naves era o irmão dele, que eu fiz o projeto lá para a Pampu, lá para Brasília, na igreja. Igreja Dom Bosco. Vale a pena ver. (Inaudível) coisa, né. Luciana: A igreja no colégio Dom Bosco, em Brasília. Richard: É! Você conhece? Já foi lá? Luciana: Já fui em Brasília, mas eu não me lembro se eu fui a essa igreja. Richard: W3, interessante (pensando). Luciana: É, é, enquanto o senhor olha aí, voltando para essa, essa pergunta que eu fiz, né, da revista. É, eu estou perguntando porque, nesse levantamento documental, no Mineirinho, eu percebi, também, é, eu tive acesso a documentos que podem é nos mostrar como é que foi o processo de construção do Mineirão. E eu percebi que na etapa lá de planejamento, na própria construção, tinha uma é, comunicação, com é o Rio de Janeiro. Porque tinha o Maracanã, né? Richard: É. Luciana: E aí eu fiquei pensando assim, será se no caso do Mineirinho teve uma interlocução com outros locais que tinha ginásio construído? Talvez o próprio Rio de Janeiro, São Paulo, 277 que já tinha, é, outros ginásios, né? Que se aproximavam da proporção do Mineirinho? Então, o senhor saberia me dizer se teve isso? Richard: Não, não. Luciana: Se vocês chegaram a visitar Rio de Janeiro? Richard: Nada, nada, nada. Luciana: Para ver, São Paulo? Richard: Nada, nada, nada. Visitamos nada. Luciana: É o senhor achou a, não achou a foto não, né? Richard: Não. Luciana: Tá. É, o senhor se lembra o volume de pessoas que trabalharam lá, além dessa equipe, né, do planejamento, de execução? Richard: Não, não lembro dessa parte de trabalho, quem vai, trabalhava não. Luciana: O senhor não lembra não, né? Richard: Eu só lembro um pequeno detalhe de lá. Que, quando nós mandamos lá, avisamos as pessoas que estavam sendo dispensadas, aí elas, elas não trabalhavam mas ficavam lá. Luciana: Uhum. Richard: Que senão elas iam fazer outro serviço Luciana: Sim. Richard: Para ganhar o dia duas vezes. Luciana: Ah, tá. Richard: Tá. Então eles ficavam lá, ficava lá. Luciana: Sim. Richard: Aí todo mundo pedia autorização para sair (risos). Um detalhe que eu me lembro disso. 278 Luciana: É. Interessante, interessante. Luciana: É. Richard: Criamos um espaço para ficar lá! (Pensando) tinha que ir, bater ponto, (inaudível) não trabalhava. Luciana: aí batia o ponto e ficava lá esperando? Richard: É. Luciana: Para poder, mas isso já no, no processo já estava o Mineirinho construído? Terminando? Richard: Estava construindo, estava construindo, Luciana: Ah, já estava, porque eles seriam, é, desligados? Richard: Desligados na obra! Luciana: Ah, mas por que eles seriam desligados? Richard: É, porque, aprontaram alguma coisa. Luciana: Ah, tá. Entendi. É como se fosse um aviso, eles estavam Richard: É, é. Luciana: cumprindo aviso. Aí ficavam lá, não trabalhavam, mas também. Richard: Aí muitos pediam para sair, né° Luciana: Entendi, entendi. É, a partir da percepção do senhor, né, enquanto engenheiro, é enquanto Richard: Agora é uma pergunta difícil que ela vai fazer (risos) agora. Luciana: É? Richard: Conheço a reação do pessoal (risos) Luciana: (Risos) a partir da, eu estou falando a partir da percepção, porque a pergunta é a seguinte: é, se o senhor saberia dizer qual era a expectativa do governo em relação a 279 construção do Mineirinho, né? Assim, porque às vezes a gente pode não conversar, mas às, escuta um conversando, mas às vezes a pessoa diz alguma coisa. Que você fala assim, não, estão querendo isso, ou aquilo, que o senhor queria saber. Richard: Não sei que é o governador. Luciana: O senhor não sabe quem, Richard: Não sei quem era o governador. Luciana: não chegou Richard: Nem quem que era! Eu só tinha o contato muito bem, com o nosso amigo aí, o Afonso. Que sinceramente, nota 10! Luciana: Sim. Richard: Entende? As informações todas e tudo. O resto eu não tinha, eu estava na obra, né minha filha? Luciana: Sim. Richard: Eu estava na obra. Para a inauguração eu fiquei quase 2 dias na obra. A gente, 24 horas, 48 horas trabalhamos para inaugurar. Luciana: É? Richard: É, uai. Luciana: E como é que foi o desenvolvimento da obra assim, é foi o senhor acha que foi. Que foi muito tempo! Richard: Foi muito tempo! Luciana: 70, 80. 10 anos no processo lá do começo da terraplanagem. Não contando o, a parte do planejamento Richard: Mas a, mas a parte do projeto tinha mais tempo (risos). Luciana: É anterior a isso, né? Richard: É. 280 Luciana: Então, isso foi muito tempo para construir, né? Richard: Foi. Luciana: Você pega por exemplo, o Mineirão, é o projeto de lei para construí-lo foi 1959. E ele foi inaugurado em 1965, né? Eu não estou fazendo uma comparação dizendo que um é mais ou menos, mas em termo de proporção de obra Richard: Mas foi inaugurado pela metade, porque até hoje estão fazendo obra lá, né? (risos) Luciana: É. É, a gente sempre tem essas coisas nas obras Richard: Vai mudando as exigências nossas Luciana: É, é. Richard: O negócio é impressionante isso. Luciana: É. Richard: Impressionante. Luciana: Agora é, em termos da construção do Mineirinho, é esse prazo longo, o senhor saberia dizer, atribuir o porquê de ter demorado tanto? Richard: Obra difícil mesmo. Luciana: Obra difícil. Richard: Você imagina uma coisa, só escorar aquilo, para fazer aquela cobertura (risos). Luciana: É, aquela cobertura, eu vou dizer, é uma das coisas mais fantásticas que eu acho é um vão daquele, daquele tamanho, aquela amplitude sem escoramento, aquele ali eu vou dizer Richard: E agora eu não sei se (inaudível) Luciana: Eu tenho muito encantamento. Richard: Eles iam fazer um plano de colocar lá, em cima, é, aquecimento solar, para iluminar tudo lá e ter energia para tudo. Não sei se fizeram isso. Luciana: Não, lá não tem não. 281 Richard: Tem não? Você que subiu lá em cima. Luciana: Tem no Mineirão. Richard: No Mineirão, tem? Luciana: É, no Mineirão tem as placas, agora no Mineirinho não tem não. Richard: É. Luciana: O Mineiro não tem não. Aliás, o Mineirinho em 2010 ele teve, a, o hotel que funcionava foi, parou, né? Richard: Parou, eu não sei por quê? Luciana: O governo, a alegação ao que eu li, né, que a alegação que eu já ouvi também das pessoas que trabalham lá dentro, que alegação é que o governo na época é, disse que ia parar para poder fazer a reforma no Mineirão, e também fazer no Mineirinho. Só que Mineirinho eu não vi nada é de lá para cá. É, a pesquisa não é desse período, né? Mas eu transitava já por ali e parou e ficou por isso. A única coisa que fizeram que ligou o Mineirão ao Mineirinho foi aquela passarela. Não sei se o senhor, né, já percebeu que tem uma passarela ali na Abraão Caran, que faz uma conexão entre Richard: E que não está funcionando! Luciana: Né? Richard: Que tem uma entrada ali pro, coisa Luciana: É, é, aquilo ali funciona que eu já vi funcionado, é dia de jogo que tem clássico, que separa a torcida. Richard: Mas é muito pouco, é muito pouco. Luciana: É.É. Mas é Richard: Isso eu nem sabia. Foi um dia que eu passei por lá e vi. Luciana: E o senhor costuma ir lá? Qual que foi a última vez que o senhor foi? Richard: (Suspirou fundo), teve uma empresa que queria fazer lá, pegar um andar lá e fazer lá um, um andar inteiro de restaurantes. Aí me procuraram porque ele ia mexer aqui no projeto 282 meu, não pode. Que aquilo é tombado! E, eu fui lá, olhei, olhei, cheguei a fazer o projeto. A pessoa me deu o cano, não me pagou nada e parece que não foi aceito. Luciana: Un. Isso foi quando? Richard: Un, tem um ano, mais ou menos. Luciana: É? Ah, então será se é do mercado? Que eles iam implementar o mercado do Mineirinho. Richard: É. Luciana: É do mercado? Richard: É. Luciana: Sim. Richard: Se não me falha a memória é aquele que está explorando lá, aquela parte ali de baixo, comida, que tem lá no domingo. Luciana: Tem a feira, embaixo tem a feira do Mineirinho. Richard: A feira, a Feira do Mineirinho. Luciana: É. E esse pessoal, é pelo menos do que eu vi lá, é, eu acho que era o, parte do piso, do pavimento 7, Richard: É. Luciana: E do 6, Richard: Isso, 6 e 7, é. Luciana: 6 e 7 né, que eles iam fazer esse mercado. Richard: (pensando) E aí Luciana: Então a última vez foi no passado que o senhor foi? Richard: É, aí me procuraram até para dar autonomia, né? Olha que eu cheguei lá um dia, um dia que estava pré, pré-organização. Quando eu cheguei lá eu vi uma, um senhor, como se fosse o dono! Como se fosse a cabeça e a mente! E se não me engano, uma filha dele que era 283 arquiteta e tal, tal, aí me procuraram. Na mesma hora eu pequei os meus projetos e vim embora. (Silêncio) Luciana: Então a última vez que o senhor foi ao Mineirinho. Richard: Me chamaram na inauguração. Não, não. Só essa parte para, para usar lá em cima. Luciana: Ah, tá. Richard: Quando tinham me procurado, eu que fui lá, depois foi embargado, eu não sei o que mais que aconteceu (risos). Luciana: Entendi. Então foi o ano passado? Ou esse ano que o senhor foi? Richard: Ano passado, eu não sei se foi esse ano, começo do ano. Eu estou ruim da cabeça. Luciana: Então foi recente? Richard: Eu estou esquecendo demais essas coisas, né. Chega numa idade, quase 80 anos, né, minha filha? Luciana: Sim. Richard: Õ até (inaudível) Luciana: O senhor está com 79, né? Richard: 79 anos. Luciana: Sim. Pois é, é, nessa fase da construção, né, entre 70 e 80, é, o Brasil passou pelo, por um sistema de, é, político denominado, eu por exemplo denomino como ditadura militar. Porque tem pessoas que dizem de outro modo, né? Richard: Un. Luciana: É, o que que o senhor se lembra desse período da ditadura militar? Richard: Nada! Luciana: Então não se lembra de nada? Richard: nada, não teve autorização, não teve mexida, não teve nada. 284 Luciana: E o senhor percebe assim, em relação a ditadura militar, o que que o senhor pensa sobre a ditadura militar? Richard: (Pensando) Ditadura militar, não sinto nada, não vi nada. Não vi alteração em nada. Como uma rigidez, geral. Luciana: Sim. Richard: Que agora está precisando é de uma (risos). Luciana: (risos) Richard: Quem não é ladrão em Brasília? Pode ficar gravado. Quem não é ladrão em Brasília? (pausa, pensando) Luciana: E na época como que era isso assim, eu acho que é legal até porque eu não vivi, eu era criança nessa época que eu nasci em 74. Richard: Porque naquela época não tinha, não tinha a propaganda e a divulgação que tem hoje, que chega toda na sua mão. Você pega o celular, aqui tem fotografia, tem tudo. Tem até uma agora que eu recebi ontem do, do Governador, do presidente, mandando um (risos). Você viu? Luciana: Não. O que que é? Richard: Horrível! Depois te mostro. Luciana: É? Tá. Richard: A hora que desligar o, o computador do seu (risos) Luciana: É, nessa época o senhor tinha, né, o senhor estava com, 30, 30 e poucos anos? Richard: 30 e poucos anos Luciana: Aí o senhor já trabalhava, então o senhor não percebeu assim, grandes diferenças, a não ser a rigidez, que o senhor falou da rigidez, né? Richard: Un. Luciana: Além da rigidez o senhor percebeu outras diferenças? 285 Richard: Ah, não. Luciana: E como que era essa rigidez? O quê que era rígido? Richard: (pensando) Não sei se era a nossa, nossa parte de liberdade, o medo que a gente tinha de qualquer, de qualquer pensamento diferente, eu vejo como se fosse isso. Luciana: Sim. E isso fez diferença para o senhor trabalhar? Richard: Não. Luciana: No projeto? Richard: Não, não fez tanta, nenhuma, nenhuma, nenhuma. Luciana: Não, isso não fez diferença, não? Richard: Eu não sei para que, eu acho nessa época só fez diferença para os ladrões, minha filha. Luciana: Sim. Richard: É o que passa pela minha cabeça. (Pensando), porque eu nunca vi tanta avacalhação, nesse país, como nós estamos. Inclusive, pode ficar gravado, as interferências dos juízes, das grandes cabeças. Impressionante! Tem até processo hoje, saiu um processo hoje, do coisa, que fez até um aeroporto, para ele lá. Luciana: Quem? Richard: Nosso ex-presidente daqui, Governador. Richard: (pensando) Numa cidadezinha dele onde tem uma fazenda lá. Luciana: É? Richard: O governo pagando um aeroporto para ele, lá. Está no jornal de hoje, aí, no jornal de hoje! Luciana: É, eu confesso para o senhor, que eu não a, eu não vi jornal hoje. Eu confesso assim Richard: (Risos) Luciana: De vez em quando eu leio, mas dependendo do jornal. 286 Richard: Eu não estou nem olhando, as políticas, só passo as páginas, só. Luciana: Dependendo do jornal, eu confesso também. Richard: Porque vejo tem tanta bobagem. Luciana: Dependendo do jornal eu nem perco meu tempo de ler, não. É, bom, o senhor se lembra do ano que foi inaugurado o Mineirinho? Richard: Não. Luciana: 1980, isso posso refrescar (risos). É, o senhor participou da inauguração? Richard: Ah, participei. Luciana: Conta pra gente como é que foi, o que o senhor se lembrar, por favor. Richard: (Respiração profunda) Não lembro. Luciana: Não lembra? Richard: Não lembro. Não lembro porque o cansaço que eu estava, tanto. Luciana: É, o senhor falou que foram, quantas horas sem? Richard: 2 dias sem dormir. Luciana: 2 dias, né? Richard: Eu não, não, não lembro de nada! Não lembro mesmo não. Não lembro nem o que (inaudível). (pensando) Impressionante, viu? Luciana: É, e no decorrer, assim, por que inaugurou, vocês ainda ficaram Richard: É. Luciana: um tempo lá. E como que era a utilização dele nesse, nesse começo aí de Mineirinho? Nesse, nesses primeiros anos? O quê que o senhor se lembra? O quê que tinha? Richard: Aí já lembro mais nada, já não era Luciana: O quê que acontecia? 287 Richard: Aí eu não sei quem pôs de Diretor lá, quem que mandava, não lembro mais nada disso! Luciana: Mas as atividades, por exemplo, o senhor se lembra de, de ter ido algum show? De ter visto programação de shows, torneio, evento, alguma coisa? Richard: Show teve bastante, você entende? Mas eu não Luciana: O senhor chegou a ir a algum show lá? Richard: Sempre ia, olhava assim, ia embora, não ficava até a coisa, você entende? Nunca precisou do meu trabalho nisso. Luciana: Não, mas é independente do trabalho, né? É, assim, enquanto cidadão, enquanto usuário do espaço, o senhor chegou a ir lá? Richard: Não, não. Luciana: Para, para participar de né. Ah, eu vou assistir a um show. Que eu vi que teve muito movimento. Richard: Aí teve tudo lá que você pode Luciana: Vários, né, inclusive nesse começo Richard: Teve, vários é. Luciana: Mas o senhor já chegou a, a ir a algum show? Richard: Sempre ia, sempre ia. Luciana: Un. Richard: Mas nunca tive nem companhia de mulher para ir, sempre ia sozinho. Luciana: Sim. Richard: A vida da gente é um, corre, corre. (risos) Luciana: (Risos), é, é muita correria. Eu vou dizer para o senhor, muita correria, viu? É, bom, que eu me lembre da questão aqui do roteiro, das perguntas que eu tinha para fazer para o 288 senhor, são essas. Tem algo mais assim, que de repente o senhor gostaria de dizer que não foi abordado aqui na nossa conversa? Richard: (Pega uma folha de papel). Qual o seu telefone? Luciana: 98413 Richard: 84 Luciana: 136483. Richard: Lembrar alguma coisa eu falo para você. (Risos) Luciana: Tá joia, tá joia. Eu agradeço. Richard: Numa, numa. Sabe o que acontece? A gente passou já, passou já esse Luciana: E o senhor gostou de, de trabalhar? Foi uma experiência boa, positiva? Como é que o senhor avalia? Richard: Aqui agora? Luciana: Na construção do Mineirinho? Richard: Ah, no Cruzeirinho? Luciana: Nesse tempo que o senhor esteve aí. Richard: (Escreve no papel e me mostra) (risos) Luciana: Nota 10. Richard: (Escreve no papel um elogio e me mostra) (Gargalhada) Luciana: Obrigada. Bom, nada mais tendo a conversar, nesse momento aqui da, da conversa a gente pode até conversar de outras coisas aqui terminando, eu agradeço, né? Nós agradecemos e nos colocamos à disposição. Tá? Posteriormente eu vou transcrever Richard: Você já pôs aqui, olha aqui (risos). (menção ao termo de Anuência). Luciana: Isso, isso. O senhor lembrando também, às vezes o senhor acha algum, alguma coisa que o senhor acha interessante em documentos. 289 Richard: É, se eu lembrar alguma coisa. É? Luciana: Né? Ou lembra de alguma coisa, isso aqui é legal, ela me perguntou sobre isso, eu lembrei. No mais a gente agradece, né? E, vou encerrar aqui a gravação. Obrigada. Richard: (risos). Final da Transcrição 290 Transcrição de Entrevista Pesquisa de Doutorado MINEIRINHO, DOS PLANOS AO CONCRETO: MEMÓRIA E HISTÓRIA DO PALÁCIO DOS ESPORTES (BH – MG) RICARDO RASO (Depoimento Parte 1) Belo Horizonte 291 Transcrição Entrevista Ricardo Raso Data: 28/09/2018 Local: Ginásio Mineirinho Luciana: É, bom dia, Ricardo. Ricardo: Bom dia. Luciana: Agradecemos a sua disponibilidade em contribuir com, com a pesquisa, né? É, sua prontidão desde os primeiros contatos, né, que você disponibilizou a vinda ao arquivo do Mineirinho. Então aproveito, (tosse) desculpa, a oportunidade para agradecer, e é, agradeço também a sua prontidão em contribuir nesse momento da história oral aqui na entrevista, é da pesquisa “Mineirinho dos Planos ao Concreto: memória e história do Palácio dos Esportes”. É, a gente já fez a leitura do Termo, né, de Consentimento Livre Esclarecido. Você já assinou, é, tem uma cópia aí para, essa cópia aqui é a sua. E só lembrando que a entrevista está sendo gravada por áudio e também em vídeo. É, e você deu o seu consentimento para gravação dos dois modos. Posteriormente faremos a transcrição eu te encaminho, você pode fazer a leitura, né, da transcrição. Se tiver algum desacordo, algum, alguma parte que você queira modificar, esteja à vontade. e inclusive também a qualquer momento você pode falar que você não quer, também tem essa liberdade, né, até o final aí da escrita da Tese. E, é, uma pergunta que eu terminei não fazendo para você na hora da leitura é se você concorda durante a escrita é, do, da pesquisa, em colocar o seu nome ou se você prefere que seu nome não seja intensificado, né, como Ricardo, se prefere o anonimato? Ricardo: Não, concordo com os termos aqui, conforme eu assinei. Luciana: Tá. Ok. Então eu agradeço, né. E vamos começar é, a nossa conversa aqui. E aí você poderia dizer por favor, o seu, seu nome e a sua trajetória profissional, de formação. Ricardo: Meu nome é Ricardo Afonso Raso e a minha trajetória profissional deve muito à obra do Mineirinho. Luciana: Sim. 292 Ricardo: Ingressei no curso de Engenharia Civil em 79 e comecei o estágio de engenharia civil na obra do Mineirinho até a sua inauguração. E posteriormente o meu início de vida profissional, inclusive como engenheiro, foi na equipe de manutenção do Mineirinho e do Mineirão, já que eram administrados pela mesma autarquia. Luciana: Sim. É, e você poderia dizer é, sobre essa sua trajetória no processo de construção do Mineirinho? Essa sua trajetória vinculada ao Mineirinho e à própria política de esporte do Estado? Ricardo: Eu ingressei durante a obra, o Mineirinho foi inaugurado em março de 80. E eu entrei, e a obra do Mineirinho tinha algumas características muito impressionantes para quem era da engenharia. Luciana: Sim. Ricardo: E muito marcantes para um estagiário em início de curso, que basicamente era uma obra extremamente arrojada para época, com um vão livre em concreto protendido é maior ou similar ao do maior vão livre do Brasil que é o do vão central da ponte Rio-Niterói. Então tinha características técnicas muito interessantes. E no caso do meu estágio, tecnicamente falando, a obra tinha características de fundações específicas, de concreto protendido, uma obra com muito volume de concreto aparente, para você ter ideia mais ou menos, a mesma ordem de grandeza do Mineirão. Luciana: Sim. Ricardo: Seria tão grande quanto o Mineirão. É uma obra majestosa. E a obra tinha um estágio em que ela estava muito avançada e muito atrasada. Então você tinha oportunidade de lidar desde com concretagem de pilares, até com instalações finais de obra, de banheiros, da quadra e tal. Então, nesse aspecto, foi um estágio muito rico. Luciana: Sim. Ricardo: É uma obra que tinha marcenaria própria, serralheria própria, central de concreto próprio. O concreto era feito aqui mesmo. Uma obra que tinha muita questão pré-moldada. Então já trazia no conceito dela. O Mineirinho hoje, um prédio concebido na década de 70 ainda é tido, é tido como um prédio inteligente. O que já é um conceito bem mais recente. Luciana: Sim. 293 Ricardo: Entendeu? Assim, prédio inteligente que eu falo é o seguinte: ele já tem chapas, já tem os pré-preparadas, as instalações para, para se adaptar ao seu uso. Luciana: Uhum. Ricardo: Então, é nesse aspecto é realmente um prédio muito interessante. Luciana: É, um dos, um dos aspectos nesse, nessa ideia de conceito de um prédio inteligente que me chamou muita atenção é a questão da luminosidade, né? Nessas vindas minhas aqui ao, ao arquivo, eu observo que durante o dia boa parte dos, dos espaços, a não ser igual a uma sala como essa que já, né, não tem muitas janelas. Ricardo: Não. Luciana: Não precisa acender cedo de acender luzes. Ricardo: É. Luciana: Igual, lá, lá dentro. Ricardo: Olha. Luciana: Não precisa acender luz. Ricardo: Eu sou amigo pessoal de um dos arquitetos, conheço os arquitetos. Inclusive tive contato com eles na obra. É, eu sou amigo desde, os critico bastante, os elogio bastante mas você não tem que falar do uso que o Mineirinho tem hoje, do que foi proposto. O que eu quero falar é na realidade é o seguinte, hoje por exemplo, os espetáculos tem uma demanda para o controle de iluminação. Luciana: Uhum. Ricardo: O Mineirinho foi sendo escurecido, para que no espetáculo você tenha o controle da Luz. Luciana: Uhun. Ricardo: Você, é, é, por exemplo, ele tem uma questão de ventilação natural muito interessante. Mas para jogos de Superliga de Vôlei. Luciana: É, de vôlei muda. 294 Ricardo: Esse vento ele atrapalha Luciana: Verdade. Ricardo: a trajetória da bola. Luciana: Verdade. Ricardo: Porque normalmente esses ginásios tem de 7 a 10 metros e o Mineirinho tem 32 metros de altura. Luciana: Uhum. Ricardo: Então um Bernard podia fazer o Jornada nas Estrelas. que foi um saque que trouxe o vôlei pra, como produto televisivo, o famoso Jornada nas Estrelas do Bernard, ele só podia fazer praticamente aqui no Mineirinho ou na praia. Luciana: Sim. Ricardo: Né? Não era uma jogada que você possa fazer em ginásios normais. Luciana: Uhum. É. Ricardo: E aí tem. Luciana: É, mas é bem legal mesmo, assim. Eu particularmente fico, uma das coisas que mais eu fico admirada no Mineirinho é o teto. Eu acho o teto lindo. Assim, o desenho dele é muito bonito. E essa coisa do vão também, você fala: puxa, como que um vão desse tamanho! Ricardo: Na realidade o Mineirinho para desavisados, quer dizer, às vezes a gente provoca isso. É, isso vem de, é, eu brinco que é manual de arquitetura de igrejas. Na realidade as igrejas tentam induzir você. Você, você quando entra numa igreja, é, a catedral, você entra num espaço com pé direito baixo e normalmente penumbra, que é a entrada da igreja. Quando você adentra a catedral você tem uma diferença de pé direito no mínimo de 10 vezes, e com uma luz normalmente de vitrô, no caso de igreja católica e tal. Esse Impacto dessa diferença de pé direito, te coloca, é, a sua insignificância diante de Deus, é para você ter um impacto mesmo. Aquilo não é sem querer. Luciana: Sim. 295 Ricardo: É proposital. E o Mineirinho às vezes provoca isso. Quando você entra pelos vestiários, você vem desce uma escada, vai dos vestiários para a região, pé de 3 metros e 20 e adentra na arena com 30 metros, mais de 10 vezes a diferença de altura. Dependendo da iluminação que está na arena você tem esse impacto de catedral. As pessoas têm um impacto, não percebem o quê que é. Mas normalmente é o famoso "uau!", né? Luciana: É, é. Ricardo: Mas, é em função disso. Luciana: Então e uma questão conceitual mesmo para impactar, né? Ricardo: Num, não sei se foi proposital. a gente sabe que o que provoca que é, isso já foi estudado e é utilizado por exemplo, em catedral. Luciana: Sim, legal, legal. Interessante essa ideia aí. É você saberia dizer assim dentro dessa sua trajetória, lá da época da construção, dessa sua aproximação com a obra, né? É, se, quem tinha o interesse? O Estado a gente sabe que tinha interesse em construir porque fomentou isso, né? Mas além do Estado, e o próprio Estado, quais os interesses? Se você teria como me dizer o quê que estava, se tinha algo por trás? Ricardo: Olha. Luciana: Além, do fomento ao esporte. E se tinha outros grupos que tinha interesse no Mineirinho? Ricardo: Ah, é! Nós estamos falando é, é, a história que eu aprendi, quer dizer, o de costume era o seguinte: se esperava que o Mineirinho, gestado em 70, final dos anos 60 e 70. É, iniciou a sua construção, paralisou-se por anos, retornou a construção e, e inaugurou em 80. Mas de obra mesmo na década de 70 nós tivemos um ano e meio, 2 anos de obra mesmo, estou falando com dois mil operários e tal. Muito tempo, fez a fundação com pouca gente, parou, E aí foram saber os custos. Então, em termos de engenharia a gente fala que foi uma obra que foi licitada com anteprojeto, se esperando gastar X. E esse X foi gasto só na fundação e o Estado parou, vê peraí, é. Mas o ambiente de decisão me parece claro o seguinte: o país tinha a época um esporte nacional que era o futebol. Que se resumia ao eixo Rio-São Paulo. A principal receita desse esporte era a bilheteria, você eu tinha no Rio de Janeiro o Maracanã, para 200 mil pessoas. E em São Paulo o Morumbi, pra cento e tantas mil pessoas, né? E estádios e todo mundo é, o ambiente era de uma Ditadura Militar, mas de Brasil maior do 296 mundo, ame-o ou deixe-o. É assim que vai ser e tal. E na hora de fazer um ginásio esportivo para Minas Gerais, para Belo Horizonte, vamos fazer o maior ginásio da América Latina! Está dentro do ambiente de decisão. Você tinha a concentração de poder político, ou militar, ou o que fosse, para decidir isso sem consultar as pessoas. Mas era uma obra simpática, por quê? Quando inaugurou o Mineirão em 65, Minas Gerais passou a ter grandes bilheterias também. E tinha um estádio para 130.000 pessoas. E já poderia competir com a razão da riqueza do, do esporte, principalmente carioca e o do São Paulo, que não era grandes coisas, mas é, havia um eixo Rio-são Paulo que dominava o esporte nacional. Com o advento do Mineirão, Minas Gerais quebrou esse eixo, passou a ser Minas, Rio e São Paulo. Luciana: Uhum. Ricardo: Né? E quem melhor se aproveitou disso inclusive foi o Cruzeiro. As duas potências esportivas da época era o América e Atlético. O clássico das multidões era América e Atlético. O Cruzeiro obteve melhores resultados com o Mineirão, teve torcida e passou a ter renda. Até então não era propaganda na camisa e nem suvenirs, sócio-torcedor. Era, a renda era bilheteria. Com o, com o sucesso de Minas Gerais nessa história, começou a "se o Mineirão fez isso para o futebol, o Mineirinho vai fazer isso para o esporte especializado”. Tinha uma lógica nessa história. É a lógica inclusive do Palácio das Artes, que é da mesma época, em Belo Horizonte. Se você não tiver uma casa grande para espetáculos, como é que o maior tenor do mundo vai vir aqui? Como é que o maior bailarino do mundo vai vir aqui? Você, quando você está num nível competição que você quer mais, você quer ter o que tem de melhor para você se espelhar, não? Para você receber isso aqui você tem que fazer um Palácio das Artes. Você tem que ter espaços que você traga essas, a, a troca de informações, a troca, essa experiência é muito rica, para não dizer essencial para excelência. Luciana: Uhun. Ricardo: Né? Luciana: Sim. Ricardo: Então, por exemplo, dos primeiros eventos que teve no Mineirinho aqui para o esporte, e aí o meu olhar do Mineirinho é como equipamento esportivo, logo após inaugurado, nós recebemos os atletas olímpicos da União Soviética, que ainda existia. Que vieram aqui fazer exibição. Quando que nós íamos receber? Tinha acabado de ter uma olimpíada na União 297 Soviética. Os maiores atletas russos, hoje russos, né, mas na época União Soviética, né, os romenos e tal. Luciana: Uhum. Ricardo: Em Belo Horizonte? Com certeza daquela exibição é, pessoas que viram de perto atletas daquele nível, podem ter decidido: "é isso que eu quero para minha vida, eu quero me espelhar naquilo." Ou os atletas da época que nem sonhavam com resultados daquele tipo. Luciana: Sim. Ricardo: Tal a distância. Mas na hora que você vê o ser humano fazendo aquilo na sua presença, no mínimo você tem que falar: "_ ó, é possível! Ele é de carne e osso e eu também!" Luciana: Uhum. Ricardo: Né? Luciana: Sim. Ricardo: Então, existe esse impacto e eu entendo que o estado, inclusive tem que fomentar esse tipo de coisa. Luciana: Uhum. Ricardo: Né? Nem que for para o ser humano ter inveja (risos) que não é um bom sentimento, Luciana: Risos. Ricardo: mas, é, tem que te dar esse acesso. Luciana: Ahan. Ricardo: Então o Mineirinho foi pensado dessa forma: que ele faria para o vôlei, basquete, futebol de salão, para os esportes especializados, o mesmo que o Mineirão fez para o futebol Luciana: Sim. Ricardo: Certo? É, vamos à próxima pergunta. Luciana: É, e em relação assim a grupos, porque você cita inclusive algumas modalidades esportivas. Você percebia se tinha nesse processo inclusive da construção, porque pode ser 298 que teve visita de alguma federação ou de grupos de atletas, enfim, né, da população de modo geral. Além do Estado tinha outros grupos que demonstravam interesse pela obra do Mineirinho? Ricardo: Olha, primeiro o esporte na época era de um amadorismo é, saudável, tá? Luciana: Uhum. Ricardo: Não é como crítica que eu falei isso. Eram apaixonados! Então assim, viam na, na execução do Mineirinho um sonho. Mas foi um sonho que começou a ser construído, na, de, decidido no final de se, dos anos 60 começou a ser construído, se não me engano, em 71. E na época as pessoas não tinham acesso à informação detalhada, como hoje você consegue. Por exemplo, se você me pedir um jogo de plantas do Mineirinho, manda um e-mail que eu te mando. Você vai ter dimensões, você vai ter condição técnica de analisar o uso do espaço. Luciana: Uhum. Ricardo: Na época não. Imagino que a sociedade, os clubes aqui era Mackenzie, Minas, Ginástico, era um sonho, mas inatingível ainda. Até porque a própria Pampulha era um espaço que ainda não era Belo-horizontino. Ele era meio fim do mundo, né? É, é, como as pessoas vinham num passeio de fim de semana visitar a Pampulha. Então o contexto é completamente outro. Luciana: É. Ricardo: Mai, não, nem tinha ideia, até por uma questão, hoje eu falo isso que o problema do Mineirinho, primeiro que ele chama Mineirinho, mas ele chama Mineirinho por causa do Mineirão. Esse "inho" pode dar um aspecto de uma coisa menor. E segundo, em função da localização geográfica mesmo, topográfica, você chega pelo telhado, você vê um prédio enfiado no buraco. Você só vai ter noção do, da magnitude dessa obra, quando você entra por baixo e vê, olha, "ah! um prédio de 13 andares!" O Mineirão é um prédio de 5, entendeu? Mas como normalmente você já entra por cima você não fica olhando para baixo, a, e, pelo contrário. Luciana: Uhum. Ricardo: Talvez esse tipo de coisa explique é, as pessoas conhecerem tão pouco o Mineirinho. Luciana: Sei. 299 Ricardo: Em segundo lugar é que os eventos que acontecem aqui são segmentados. Ele é, um jogo de futebol mexe com a cidade toda, e a cidade toda fica sabendo, né? Que teve, a semifinal de Copa do Brasil, e tal. Um jogo no Mineirinho, mesmo que seja é, esportivamente da mesma relevância ou até maior, a cidade não fica sabendo, só aquele seguimento fica sabendo. Então você tem por exemplo: um arco e flecha indoor, que o único lugar que cabe, aqui no Mineirinho, com atletas de nível Olímpico e mundial. Mas só o pessoal que pratica essa modalidade que fica sabendo, entendeu? Então, o Mineirinho passa uma imagem para sociedade de que ele é subutilizado, que você só fica sabendo quando tem aquele evento, o show do Roberto Carlos! Aí a cidade fica sabendo, entendendo? Luciana: Sim. Ricardo: Mas ele tem uma vez a cada 2 anos então é como se não teve, se funcionasse a cada dois anos, entendeu? (Risos) Luciana: É. Ricardo: Tem um, a gente entende isso. De certa forma o Mineirinho, no início eu falava que era no prédio é, muito grande para Belo Horizonte, no seguinte aspecto: é, você tinha poucos artistas, né? O Mineirinho é um prédio duas vezes o Maracanãzinho, comparando com seu irmão. Da mesma forma comparando o Mineirão ao Maracanã. Luciana: Uhum. Ricardo: Comparando o Mineirinho com Maracanãzinho é um prédio duas vezes maior do que o Maracanãzinho, capacidade de público, tamanho e tudo, para uma cidade 6 vezes menor em potencial de utilização. O Mineirinho foi feito para receber shows sim. Não teve o tratamento acústico devido na época e tal, mas era para ter esse tipo de evento sim, para ter missas, para ter circo, sem problema nenhum. Ele é um prédio que a proposta é de multiuso. Luciana: Certo. Ricardo: Você vai ter plantas disso lá, inclusive pensando em ele ser cinema. É, tem, tem, foi projetado dessa forma. É, é, só que o mineiro, por exemplo, ele consome lazer muitas vezes quando ele vai no Rio. aqui ele não consome. Ele vai no Rio, vai em show, vai em teatro, vai e tal. E aqui em Belo Horizonte ele não consome isso. Então muitas vezes os shows que vem aqui, entendeu, assim, você não tinha meio, público, é, além de ficar mais caro, entendeu? 300 Assim, não era da, da mesma época. Então você tinha poucos eventos, que lotavam o Mineirinho. E com isso o espaço foi ficando maldito. Luciana: Uhum. Ricardo: Né? Luciana: Uhum. Ricardo: Nesse, o, olha que eu estou falando de 80. Luciana: Uhum. Ricardo: Da década de 80. Luciana: Uhum. Ricardo: Se fez muita coisa aqui, você tem uma série de coisas. Por exemplo, sonorização, os equipamentos sonorização eram precários, mas a maioria dos eventos que vinha aqui os ingressos já estavam vendidos. O som, quantas vezes eu vi shows aqui que não se ligou metade do rack de som. Que não houve equalização de som, que o som, o show foi ficando audível ao final dele. Luciana: Sim. Ricardo: Entendeu? Tinha o desconhecimento da casa, junto com a falta de qualidade de equipamentos, e uma questão comercial "eu já vendi os ingressos", né? Nos eventos que tinha que era o que ele chama de, que temporada, aí havia preocupação com o som. Um Holyday on Ice, que ia ficar três semanas aqui, ficava aqui uma semana até acertar o som, e aí. Luciana: Ai regulava o som? Ricardo: Inaugurava. Bom. Luciana: Dava para resolver a questão da acústica? Ricardo: E aí a questão do som que também é subjetivo. No show do Roberto Carlos, ele fala "a" de lá eu já entendo amor de cá. (risos) Edmar: Inaudível Ricardo: Né, então 301 Luciana: É, agora eu já vim num, num evento, num motocross acho que foi 2, 2 anos atrás alguma coisa assim, Ricardo: Super Enduro. Luciana: É! E Ricardo: Etapa do mundial Luciana: É. Eu não consegui ouvir muito o que o locutor tava dizendo. Ricardo: Porque o som foi feito só para quem tava entregando a medalha. Luciana: É. Aí às vezes assim Ricardo: É! Não, não foi pensando no público. Até porque o som Luciana: Eu estava do lado de lá ele falava alguma coisa e a gente não estava entendendo. Ricardo: Para o público era ambiente, né? E, e o som que aquele público queria ouvir era o barulho do motor. (Risos). Luciana: Não, mas às vezes ele falava e você não conseguia ouvir. Ricardo: Não, sim, sim. Mas concordo. Luciana: Né? Problema de acústica. Ricardo: Não, mas falta de investimento do produtor. Luciana: Agora é em relação a esse problema que você falou aí? Ricardo: Aí nesse caso eu até perdoo porque um cara que entende corrida de motocicleta para entender de sonorização de evento (risos) Luciana: (risos) Ricardo: É, eu estou querendo muito (risos) Luciana: É, agora assim, pelo que você falou da, dessa questão da acústica tem um problema, e isso várias pessoas dizem. 302 Ricardo: Eu uma época, eu brincava que é, eu não tinha problema de acústica, o Mineirinho não tinha problema de acústica, porque ele não tinha acústica. Eu falo assim: eu não tenho problema com foguete, eu não sou a NASA (risos). Luciana: (risos) Ricardo: Mas esse é um discurso do século passado, é, realmente. E um projeto acústico que tinha aqui que não foi feito por falta de dinheiro. Luciana: Uhum. Ricardo: É, primeiro, pro esporte ele não era relevante. Segundo, é, é, mas era relevante para o Mineirinho como funciona hoje como Robin Wood. Luciana: Multiuso, né? Ricardo: Não, não. É, o que se busca aqui é o Roberto Carlos, cobra dele para se ter o show, para o Jiu-jitsu lutar de graça Luciana: Uhum. Ricardo: Pro vôlei jogar de graça. Luciana: Sei. Ricardo: Ele é uma ferramenta de financiamento do esporte. Luciana: Uhum. Ricardo: Né? Ponto! Né? E tem sido assim nesses 38 anos. Luciana: Sim. Ricardo: Enquanto estiver na mão do Estado como equipamento esportivo. Luciana: Sim. Ricardo: Né? Então, mas não se vê isso. Luciana: Mas o Mineirinho digamos assim. Ricardo: Mas na hora que você conversa com o presidente da Federação de Jiu-jitsu que tem as dificuldades dele. E aí a dificuldade do Mineirinho vira o que? Ele é muito grande e você 303 para fazer um evento aqui você tem que investir. É completamente diferente, sem menosprezar o ginásio do Mackenzie lá. Luciana: Uhum. Ricardo: Você vai fazer uma partida de basquete no ginásio do Mackenzie, fazer no Mineirinho, no mínimo mais gandulas você vai ter que trazer. Luciana: Sim. Ricardo: Entendeu? Luciana: Sim. Ricardo: Você tem que adequar o espaço. Luciana: É, é. Ricardo: E outra coisa, um espetáculo com pouco público, o Faustão paga para ter claque batendo palma lá, entendeu? É, é, ele esfria. O espetáculo é feito para ser visto, pouca gente, é reação, Aqui no Mineirinho, por exemplo, precisa de 25, vai por 300 pessoas ali é como se você tivesse nem aberto o portão ainda. Luciana: Uhum. Ricardo: Entendeu? Luciana: É. Ricardo: É ruim para o espetáculo! Luciana: É, é verdade. Ricardo: Entendeu? Luciana: É verdade, a casa grande vai Ricardo: Agora essa é uma discussão que ficou lá atrás, porque esse tratamento acústico era para tornar a casa com o mesmo comportamento acústico ela estando cheia ou vazia. Que quando você está implantando o seu evento, você tá com a casa vazia. E acertar o som numa casa vazia que tudo é concreto, tudo reflete, é perder tempo de certa forma, né? Obviamente aquele cara que já pôs, vamos pegar o Gabi, que começou aqui, o show da Gal Costa. 304 Luciana: Sim. Ricardo: Década de 80. Esse cara já fez tanto show aqui que ele já sabe regular o som pra cá. Isso, hoje o conceito de sonorização hoje, é que depois que você sonorizou escola de samba no Rio, escola de samba em São Paulo, que você teve um upgrade nesses equipamentos, um gap tecnológico tão grande, você regula a fonte para aquele ambiente. Mineirinho recentemente teve André Rieu, orquestra, você ouvia o violino, né? Assim, quer pepino maior do que sonorizar para uma orquestra? Luciana: Uhum. Ricardo: E uma orquestra de apelo popular, a despeito de tocar música clássica, entendeu? Luciana: Uhum. Ricardo: Te falo porque eu ouvi os violinos. Ricardo: Ah, ficou fenomenal? Imagino que lá no Palácio das Artes, em que eu sento na parede, na, na cadeira, de estofada. tô mais próximo da fonte sonora e tal, o som estivesse melhor, ficaria melhor. Mas ficou, as pessoas saíram é insatisfeitas daquele evento? Basicamente você recebeu o que você esperava. Luciana: Sei Ricardo: Ou se encantou, né? Que você recebeu mais do que esperava. Luciana: Uhum. É, o é só para gente é de novo Ricardo: Mas ao mesmo tempo no evento do André Rieu, eu vi o tanto que a casa está despreparada para receber o idoso. É um evento com muitos idosos, e aí você tem dificuldade de acesso, de qualidade do piso, instalações sanitárias, por exemplo, que naquele show me pareceu absolutamente inadequada ainda. Luciana: Sim. É, então, continuando aí a questão do projeto, você mencionou tamanho, o que foi pensado no espaço para o esporte, para é, diversas modalidades, né, variadas modalidades e também para eventos, como show. É, além disso, você também mencionou a questão do cinema, é Ricardo: Não, teve consultoria, eu me lembro, estagiário aqui, deles recebendo, é, dos arquitetos recebendo o maior, circo da época, Orlando Orfei, se não me engano, aí, que era 305 um circo e tal. E depois eu recebendo projetos da ADEMG, eu trabalhava na Alcindo Vieira CONVAP. Luciana: Uhum. Ricardo: É de locação de blocautes na quadra, para receber equipamentos circenses. Ou seja, conversaram com quem estava lá: “_ O quê que precisa para ter circo aqui?” “_ Ah, seria muito interessante ter isso, ter aquilo, ter aquilo outro.” E equiparam a quadra com aquilo. Luciana: E chegou a Ricardo: Foi consumado lá! Luciana: Ah, então Ricardo: Esses blocautes são na realidade são uns tubos com rosca e gancho por baixo, que você inverte, o gancho fica para cima para você amarrar equipamento. Luciana: Sei, sei. Ricardo: Amarrar, instalar trapézio, coisas desse tipo e tal. Luciana: Sei. Então show, circo. Ricardo: Isso é pra, por exemplo, ginástica olímpica. Luciana: Uhum. Ricardo: Para as barras assimétricas, barras paralelas, esse tipo de coisa. É fixado ao chão. Luciana: É, é. Ricardo: Com o blocaute invertido e tal. Mas teve blocaute que, entendeu assim: foi feito no início para ginástica olímpica, para é, é, essas modalidades. Mas foram feitos outros também para casos venha receber um circo, para caso, entendeu? Luciana: Uhum, sei. Ricardo: Foi pen, olha, é muito avançado para a época. 306 Luciana: É, e essa, por exemplo, da presença dessas pessoas que vieram, por exemplo, da consultoria do circo, foi a partir, você saberia me dizer se foi a partir de uma é, de uma percepção do próprio grupo de né, responsável pela obra? Ricardo: Tinha, com certeza. Luciana: Ou alguém de fora que Ricardo: Não, não, com certeza. Luciana: Então não foi Ricardo: Naquela época as coisas era, cada um no seu quadrado, cada um na sua caixinha, mas havia essa abertura, no caso do Mineirinho, para o novo. Luciana: Sei. Ricardo: É, é, havia sim restrição orçamentária. Porque só na fundação se gastou o que achava que ia gastar nele todo. Luciana: Uhum. Ricardo: E a concepção, esse é um outro problema também. É, você concebe, o nome do Mineirinho é Palácio dos Esportes! Luciana: É, é. Ricardo: Ah, então se critica: “Ah, mas chove lá dentro! Tem chuva de vento na lateral.” Aí eu fui falar com o arquiteto que chove lá dentro, tem chuva de vento na lateral. Ele falou assim: “_ mas no projeto lá está fechado vidro Ray Ban.” Que na década de 70 era o máximo! Entendeu? Tinha dinheiro para pôr vidro Ray Ban? (Risos) E aí é uma outra coisa que é uma cultura do brasileiro, que eu posso te falar que até recentemente, até hoje ainda funciona. É, eu vou fazer um corte histórico aqui, Luciana: Tá. Ricardo: Mas mostrar que quando veio a Copa do Mundo pro Brasil, eu trabalhei com estádios a vida toda, era muito chamado, dar palestras, esse tipo de coisa. E falava, que como cidadão eu achava que o Brasil tinha uma oportunidade de ter uma lição, que infelizmente não era ainda o que eu queria. Mas que na visão do brasileiro comum, e ele tem razão de pensar 307 assim, quando se fala em obra pública, entendo, 3 coisas vem à cabeça do brasileiro médio: é que vai custar mais do que devia; vai atrasar; e vai inaugurar um pedaço só. Certo? Ah, tem que fazer um hospital ali para 400 leitos! Vai inaugurar a primeira etapa de 120 leitos, com 2 anos de atraso e a segunda etapa vamos ver o que vai ser. O Mineirinho, o Mineirão, o, o Mineirão se bobear o de hoje. O antigo tinha um monte de forma lá dentro, tinha um monte de espaço de obra inacabada. O Mineirinho hoje, ele foi inaugurado com menos de 30% de área usada e hoje não deve ter chegado a 50% ainda não. Você tem andares inteiros aqui vazios. Luciana: uhum. Ricardo: E eu estou falando de andares de 7000 metros quadrados, entendeu? Bom, com a Copa do Mundo o quê que aconteceu? Eu ia falar assim, com a Copa do Mundo eu acho que os estádios vão ficar mais caros do que deviam ser, porque é um país rico, sem controle. É, vai inaugurar só um pedaço, que teve estádio que inaugurou sem as catracas funcionarem, coisa desse tipo. Isso é exemplo de África do Sul, é, aconteceu isso também e tal. E, mas uma coisa o Brasil vai ter que aprender: vai ter que inaugurar na data, porque eles não vão adiar a Copa do Mundo. Luciana: É verdade (risos) Ricardo: Eles pensaram até em mudar de lugar (risos), entendeu? Assim, então das 3 lições que nós devíamos ter, pelo menos 1 a gente ia ter. Mas aí entra o jeitinho brasileiro: faz funcionar! Nós temos obra de mobilidade da Copa do Mundo que ainda não foi inaugurada (risos). Nós já estamos quantos anos? 4 anos de Copa do Mundo (risos). Luciana: É, é uma outra Copa, né? Ricardo: Não, é, mas, é, é, essa é uma lógica que infelizmente é, tá errado o brasileiro pensa isso? Ah, vou fazer uma escola para 1000 meninos ali. Ela vai inaugurar pra 400 meninos, só um pedaço. Depois faz a quadra, depois entra o laboratório e tal, entendeu? Porque nós temos urgência da escola! Não tem (palavra inaudível), fazer escola não. Está atrasado. Entendeu? Mas, é, é, a gente tem uma série de razões pra isso que explica, mas não justifica. Luciana: Uhum. Ricardo: Né? Luciana: Uhum. 308 Ricardo: Porque se justifica é o, bom! Vamos Luciana: Onde teria o Ricardo: Já estou desabafando! (risos) Luciana: (risos) onde teria o vidro seria nessa Ricardo: Na, Luciana: parte de cima, né? Ricardo: na área externa. Luciana: Na parte Ricardo: Exatamente. Luciana: lá próximo ao concreto, né? Ricardo: Não, não, não. O vidro aqui é lateral. Aí é uma questão técnica. Luciana: Ah, então nessa parte de fora, aqui? Ricardo: O vidro aqui, nós temos, tecnicismo é o seguinte: nós temos um vento predominante, 70% do tempo, quente e seco que vem da Lagoa [Lagoa da Pampulha]. Luciana: Certo. Ricardo: Certo? Então nós temos problema sim, de nós não temos nenhum tipo de tratamento de conforto ambiental, nenhum tipo de ar-condicionado, nem nada. Mas o que, vento que vem lá fora é quente e seco. Portanto, se você tem 20 mil pessoas aqui dentro, suando, pulando, fazendo parte do espetáculo, é, é, você vai ter problemas de conforto térmico aqui, sim! Luciana: Sei. Ricardo: A temperatura aqui vai subir mais de 5 graus em relação a lá fora. Luciana: Sim. Ricardo: Né? Você tem esse problema sim. Então eventos de longa duração, com muita gente, há uma preocupação nesse sentido. No mínimo de por água pra esse povo beber. 309 Luciana: Certo. Ricardo: Certo? É, é o que acontece é que esses eventos são raros. Quando que você tem eventos de vir 1000 pessoas que duram 8 horas? Mas nós tivemos aqui o, o Liga (palavra inaudível), o CBLol, os meninos jogando aqui. Luciana: É. Ricardo: Evento o dia todo. Luciana: É. Ricardo: É, a, e computador ainda precisa de. Luciana: É. Ricardo: Bom. É, é, na realidade o que você tem aqui é princípio de venture. A cobertura ela abre, afunila e abre de novo. Você cria uma situação que você suga a chuva lá de fora. Você suga o vento lá de fora. Então, é muito inteligente. Só que tinha que ter um anteparo antes pra trocar o ar, ventilar, mas o ar que está vindo lá de fora é quente, seco. Mas na chuva ele vem molhado. Luciana: Certo. Ricardo: Você tem chuvas aqui que o vento entra, a chuva anda 120 metros e molha o palco do outro lado. Nós já tivemos cachoeiras na arquibancada. É um problema? Sim, e grande. Mas, nós trabalhamos com eventos, né? E é absolutamente, é eventual. Luciana: Uhum. Ricardo: Entendeu? Assim, como que aconteceu isso? Aconteceu uma vez em trinta anos. Isso impede o uso do Mineirinho? Absolutamente, não! Mas olha, é, novembro, dezembro é mês das chuvas, né? Você vai fazer a formatura de não sei quem aqui, pode ter essa possibilidade. Porquê nós temos aqui, por exemplo, uma feira de artesanato na área externa, que de vez em quando vem vento que tira todas as barracas. Entorta tudo. Luciana: Sim. Ricardo: É, pra gente, nós não temos tornado e (risos) Luciana: É (risos). 310 Ricardo: Tsunamis, esse tipo de coisa, né? Um país teoricamente abençoado nesse aspecto, mas para aquelas pessoas que perderam tudo, foi um tornado! Luciana: Verdade, é. Ricardo: Um tsunami, né? Luciana: Impactante, né° Impactante. É, então, os vidros seriam nessa Ricardo: Seriam na fachada. Nessa mesma fachada. Luciana: Nessa fachada da frente, aqui? Ricardo: É. E o mais interessante na proposta de modernização que teve, porque a privatização do Mineirão, era a privatização do complexo da Pampulha e o Mineirinho estava junto. Luciana: Sim. Ricardo: Ia colocar vidro na fachada, entendeu? O projeto é, Gustavo Penna mas com consultoria alemã. Entendeu? E pra eles é ar-condicionado e vidro na fachada. Te passo também porque esteticamente fica muito bonito (risos). Luciana: Sim. Ricardo: Porque é a cidade administrativa, né? Fachada de vidro de todo tamanho, representa a época, representa modernidade. Tem vantagens e desvantagens, entendeu? Luciana: Uhum. Ricardo: E o mundo vai se adaptando. Porque hoje por exemplo, você faz um prédio com fachada de vidro, você vai ter que ter ar-condicionado. O vidro você vai ter que por, bloquear o aquecimento dele, ultravioleta, esse tipo de coisa, de apoio. Um monte de coisa boa, um monte de coisa ruim. Luciana: Sim. Ricardo: Mas por outro lado, hoje por exemplo, você já tem película que gera energia, película fotovoltaica que você coloca nesse vidro e vai gerar energia pro prédio. Ôpa, já é legal, já tô diminuindo. 311 Luciana: Um tanto. Ricardo: Já estou a favor da natureza! Luciana: É. Ricardo: Que parece um contrassenso, Luciana: Sim, é. Ricardo: Né? E isso aí já pode ser usado pra alimentar o ar-condicionado que eu estou precisando. E aí vai. Luciana: Sim, é, é. Ricardo: Então, é, o ser humano nessa, nessa é muito criativo, pra criar problema (risos). Mas costuma ser criativo Luciana: Pra resolver também, né? É, tem um, um espaço falando do projeto de partes que não foram colocadas efetivamente em funcionamento. Tem uma das salas aqui em baixo, que tem um fosso ali da piscina, né? Além da piscina Ricardo: Curioso, né? Luciana: É. Ricardo: Eu, a primeira, a minha primeira pergunta como engenheiro, assim, naquela área lá, o Mineirinho é níveis, não são andares. Porque naquela área lá ele começa no terceiro andar. Luciana: Uhum. Ricardo: Do terreno. Aí eu me pergunto: por quê que colocaram a piscina no quarto andar e não no terceiro? (Risos) Já estava no chão. Luciana: (Risos) Ricardo: Mas na realidade, é, é, o Mineirinho foi concebido como Palácio dos Esportes. Então tinha uma série de instalações que foram concebidas pensando no esporte de rendimento, de, de excelência. Luciana: Uhum. 312 Ricardo: Então, naquela área estava previsto uma super sala de fisioterapia e de fisiologia. A piscina é suspensa porque se pensava que o atleta ia tar reproduzindo movimentos na água ali e o fisiólogo, ou fisioterapeuta ou médico estariam na lateral da piscina vendo, aí a piscina ia ser de vidro, vendo esse movimento. O quê convenhamos, na década de 70 era muito avanço! Luciana: É. Ricardo: Se pensava realmente muito na frente! Luciana: Uhum. Ricardo: Você nem tinha tecnologia direito para isso. Luciana: Uhum. Ricardo: Mas, era uma área só de fisioterapia de 1200 metros quadrados. Eu brincava que isso era a maior sauna do, do Brasil por muito tempo. (risos) De, mas naquela concepção, as federações esportivas estariam aqui, o prédio estaria voltado pro esporte. Quem ia, quem vê o Mineirinho, a arena, são 3800 metros quadrados, e as arquibancadas e cadeiras, está vendo coisa de menos de 20% do Mineirinho. Luciana: Sim. Ricardo: É um prédio com muitos andares e com muitas instalações. Luciana: Uhum. Ricardo: Essa área que nós estamos aqui, você não vai mexer com a câmera não, mas no projeto original era uma área para recepção. Esses degraus esquisitos aqui, eram pra receber poltronas e ali dentro tem uma área para chapelaria, uma área para fumantes. Olha só, na década de 70 você pensando em área para fumantes. Né? Que era absolutamente livre fumar em qualquer lugar. Luciana: Uhum. Ricardo: Aqui já se pensava nesse tipo de coisa. Tem muitas coisas muito avançadas pra época. Essa aqui é uma área de recepções ligadas a um hall principal majestoso. Você pega a escada do hall principal aqui, é uma escada em curva, em concreto aparente que, as normas de segurança te obrigam a pôr o corrimão. E matam a escada esteticamente. Não acha que o arquiteto achou um absurdo colocar aquele corrimão ali. 313 Luciana: Sim. Ricardo: Entendeu? Toda norma que veio depois, veio no sentido de aumentar a segurança. Ou toda decisão do administrador depois veio no sentido de aumentar conforto. Luciana: Certo. Ricardo: Normalmente implica em diminuir a capacidade de coisa e numa escolha entre uma beleza plástica e a segurança do usuário de ter um corrimão cercando a escada, entendeu? Luciana: É a segurança. Ricardo: É, é. Mas isso foi escolhido antes, isso foi instalado antes do prédio ser tombado. O Mineirinho hoje é um prédio tombado. Luciana: Uhum. Ricardo: Se ela tivesse sido tombada, mas é tombado volume e fachada, tá? Não, não. Essas áreas internas aqui não têm projeto de tombamento, nem tem porquê ter. Luciana: Certo. Ricardo: Né? Mas quando determinada situação, é, seja culturalmente, artisticamente tenha valores para aquela sociedade, pra isso que tem o tombamento. (risos) Luciana: Uhum. Ricardo: Tal. Preserva isso ali, que isso representa uma época. Luciana: Uhum. É, tem um outro espaço que até 2010 foi utilizado, que é o, a, o hotel. Essa área da, da hospedagem. Ricardo: Olha, interessante, o hotel ele não era previsto no projeto original. Mas havia uma enorme demanda. Por exemplo, você recebia a seleção, atletas aqui, Belo Horizonte não tinha nem um ônibus direito, pra cá. Treinos que terminassem depois de 9 horas [21h], você não tinha ônibus pra ir embora, entendeu? A ideia de alojamento baixo custo para o esporte, era uma necessidade! Luciana: Sim. 314 Ricardo: Entendeu? Na realidade, vamos trazer de novo para hoje porque eu acho um absurdo esse alojamento, num, a gente não chama de hotel, chama de alojamento, porque ele foi feito para receber delegações esportivas. Luciana: Uhum. Ricardo: Mas nada impede você recebe delegações de estudantes, delegações de evangélicos, delegações de é, de encontro de pessoas Luciana: Certo. Ricardo: Você tá na, numa Praça que é pra encontrar pessoas. Luciana: Uhum. Ricardo: Então usa um andar pra fazer alojamento que é, é, o esporte na minha concepção, ele não quer luxo. A não ser quando você vira Pelé, você vira estrela, mas aí você é superstar. Você quer conforto. Então, esse alojamento do Mineirinho, a concepção era alojamento para atletas, que vão estar treinando é, é, seleção mineira juvenil. Luciana: Certo. Ricardo: de vôlei, de judô, de do que for, se concentra aqui, fica aí 3 semanas, pra determinado campeonato, juntos. Criam inclusive os laços de grupo. Luciana: Uhum. Ricardo: A gente vê, seleção americana de vôlei, vai todo mundo pro, pro mato, ficar acampado, na neve, no frio, no que for, pra criar uma sensação, sentimento de grupo e de relação entre os atletas. Luciana: Uhum. Ricardo: Porque isso ganha jogo, sim! Entendeu? A, o resultado coletivo. Mas a, a, foi pensado nisso. E trazendo pra hoje, Belo Horizonte resolveu o problema, com Copa do Mundo principalmente, de hotéis de, de locação de espaço temporário, para 4 e 5 estrelas. Está até sobrando. Tem gente fechando já. Para 1 e 2 estrelas, continuamos com esse problema. Entendeu? Agora volto a falar: quem tiver de ser administrador do hotel lá, do alojamento, né. 315 Luciana: Uhum. Ricardo: É, porque tem demandas de grupos, que é, a sociedade não conhece. Por exemplo, é, você sabe que tem um, não é campeonato, né, mas um encontro de cantores líricos de escolas técnicas? Luciana: Não. Ricardo: Eu nunca ia imaginar isso. Até receber 200 meninos das escolas técnicas do Brasil todo, Manaus, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, hospedados aqui. Que ficavam o dia todo lá “mi, mi, mi, mi, mi, mi” (risos). Ensaiando e tal. Luciana: (Risos) Ricardo: Porque tinha o Encontro dos cantores Líricos de escolas Técnicas aqui em Belo Horizonte. Luciana: Uhum. Ricardo: Lá no era escola técnica na época, mas CEFET, e tal. Luciana: Sim. Ricardo: Mas, são demandas, Ou seja, de vez em quando o encontro aqui de criadores de orquídea. Luciana: Uhum. Ricardo: Entendeu? Pode não ter o interesse da sociedade como um todo, mas pra eles tem e eles estarem juntos, convivendo no mesmo espaço traz progresso pro, pra, pro métier deles. Luciana: É. Ricardo: Esse alojamento ele tem que ser de baixo custo. Nosso caso aqui, para você ter uma ideia, se você trouxesse sua roupa de cama, a gente abatia na diária o valor que ia custar pra gente lavar a roupa de cama. Luciana: Ah. Ricardo: Então assim, é, o último preço ali era R$ 60,00 por apartamento pra 4 pessoas. Ou seja, R$ 15,00 por cabeça. 316 Luciana: Uhum. Ricardo: Mas se você trouxesse a sua roupa de cama era R$ 12. Porque lavar o lençol, o cobertor e tal, não sei o que, nos custava R$3,00 a época. Luciana: Sei. Ricardo: Que é o preço da licitação. Você licitava. Luciana: Uhum. Ricardo: Uma empresa que ganhou a licitação nos cobrava aquilo por peça, e tal. Luciana: E você foi é, na época era diretor? Qual que era a sua função? Ricardo: Eu fui é, gestor. Luciana: Gestor. Ricardo: Como eu tenho uma vida voltada aqui, uma época eu fiz manutenção, eu era engenheiro de manutenção. É, e um hotel, alojamento, hotel, 62 apartamentos. Pra você são 62 apartamentos, para mim são 62 privadas, 62 válvulas, 62 chuveiros, 62 armários, (risos), 62 pro cê, consertar, né? Luciana: É. É. Ricardo: É, é. E, e, todo, com toda uma expertise de lidar com isso, de atleta. E aí, um monte de casos engraçados dessa, desse uso, né? Luciana: Sim. Ricardo: Acontece de tudo numa história dessa. No nosso caso, era voltado para delegações. Luciana: Uhum. Ricardo: Mas às vezes havia delegação de 1 só. Veio um cara do arco e flecha fazer uma competição, lá da Bulgária, que é alojamento baixo custo, até a delegação da Bulgária de 1 pessoa. Luciana: Aham. Ricardo: Fica aí, não tem problema. 317 Luciana: E quando que ele começou a funcionar? Ricardo: Ele foi construído na década de 80 ainda, imagino que foi depois de uns 3 ou 4 anos que o Mineirinho já estava inaugurado. Luciana: Sei. Ricardo: Na realidade a gente chama que esses prédios são obras vivas. Porque a sociedade vai mudando a demanda dela, você vai se adaptando à demanda da sociedade, né? Década de 60/70 era impensável pensar que não ia ter arquibancadas e geral. Luciana: Uhum. Ricardo: Mas as pessoas, né, hoje é, século XXI é impensável você pensar que não vai ter cadeira. Luciana: É. Ricardo: Então hoje você já tem demanda por lugar marcado. Né, você quer comprar ingresso você quer saber Luciana: Verdade. Ricardo: onde você vai ficar. Luciana: Cria-se demanda. Ricardo: Na década de 70, a quero ir num jogo lá no Maracanã. Nem me passava pela cabeça “quero saber onde vou sentar, qual que é o número, o lugar, qual que é o setor.” Luciana: É. Ricardo: Né? Hoje que o cara vai te perguntar: “Você quer setor tal? Você quer” Na época, “me arruma um ingresso aí”. Luciana: É. Você pensando hoje, por exemplo, o caso dos estádios, as pessoas vêm questionando o fato de sentar ou ficar em pé, né? Porque a s pessoas que eram acostumadas a ficar em pé querem Ricardo: Mas, não, não, vamos por outro lado. Você já tem estádios, na Alemanha por exemplo, eu volto a falar, é o meu métier, em que o público demanda ficar em pé. 318 Luciana: Uhum. Ricardo: Né? Tem estádio Dort, é, eles se vangloriam de nos jogos locais eles tiram as cadeiras para o público ficar em pé fazendo as coreografias, as torcidas. Tanto é que tem, hoje já estamos até copiando isso, o Cruzeiro já tem copiando e tal, do time depois fazer a coreografia junto com a torcida. Luciana: Uhum. Ricardo: Mas o estádio se vangloria que, ele instala 26 mil cadeiras em 48 horas, porque nos jogos da Champions, o que for, só pode ter cadeira. Luciana: Uhum. Ricardo: Que ele vai lá e põem cadeira, entendeu? Luciana: Uhum. Ricardo: Seria o caso digamos que o Atlético joga no Independência, é atrás do gol ali vai ficar uma torcida organizada fazendo coisa. Não ter cadeira ali que é até o que aconteceu. E dependendo do jogo, a demanda por cadeira. Porque virou, isso é serviço. Você hoje, qual que é o grande avanço, por exemplo, no futebol, do final do século passado pra esse? O torcedor virou consumidor. O Estatuto do Torcedor, dos primeiros artigos fala assim ó: “Para efeito da lei, o torcedor, é, se equivale a consumidor” Com isso você pode reclamar no PROCON, já que você tem uma série de obrigações que o Estatuto do Consumidor, trouxe. Né, de direitos inclusive do consumidor. Que o torcedor de futebol passou a poder reclamar. Luciana: Sim. Ricardo: Isso aí é uma outra discussão que também é enorme. Luciana: Uhum, é. Ricardo: Porque também tem muitos avanços Luciana: É. Ricardo: Eu como cidadão entendo, por exemplo, entendendo o mínimo de Direito, é que por exemplo, a regra é, regra geral é: quem acusou tem que provar. Certo? Eu truquei eu tenho que mostrar a carta. 319 Luciana: É (risos) Ricardo: (Risos) Não é isso? É, pro Código do Consumidor, não! Eu falo que está estragado e você que prova que está certo. Ou então me dá outro. Olha o avanço que está por trás disso em termos de direito! Entendeu? Eu sou menor, estou contra uma indústria maior, entendeu? Recon, o Estado reconhece isso e fala: “Oh, ele está falando que esse tênis está estragado.” Luciana: Uhum. Ricardo: Ou prova que tá bom ou dá outro. Luciana: É. Ricardo: Ou ressarce, ou o que for. Isso é, é, parece simples, mas em termos de mudança nos tempos e no comportamento, é enorme! Luciana: É. Ricardo: A gente esperava até que o eleitor tivesse essa consciência também, de consumidor. Porque o Código do Consumidor é de 90 e poucos, do século passado já, né? Luciana: Uhum Ricardo: Vinte anos depois já era para o comportamento, já imaginou se o eleitor cobrasse como consumidor? (pausa pensando) Vamos lá, eu estou Luciana: É. (Risos) Ricardo: Desabafando de novo, vamos lá. Luciana: (Risos) Ah, é, você falou das histórias do, do alojamento. Eu já ouvi e algumas pessoas já confirmaram, talvez seja até do tempo que você foi gestor de manutenção, né? Que você exerceu a função de gestor de manutenção? Ricardo: É, fui diretor. Luciana: Do alojamento. Ricardo: Não, na realidade, é Luciana: Geral? Geral. 320 Ricardo: Eu já cheguei a ser Diretor Geral, mas Luciana: Tá Ricardo: Na Diretoria de Infraestrutura, é, depois eu virei Diretor de Infraestrutura e Operações. Luciana: Un. Ricardo: Entendeu? Assim em princípio eu só re, consertava. Luciana: Certo. Ricardo: Depois eu passei a consertar e limpar também. Luciana: Tá Ricardo: Basicamente no uso desses espaços você tem 2 coisas e às vezes as pessoas entendem mal o que eu falo. Falo assim, não tem problema pra mim, fala assim: “ah, o Mineirinho está sujo!” Eu falei assim, ôpa! Sujeira é decorrência do uso humano. Infelizmente, quanto menos educado, mais ele suja. Mas, o uso da estrutura traz sujeira. Luciana: Certo. Ricardo: O errado é não ter ninguém limpando. Luciana: Un. Ricardo: “Ah, mas tá sujo lá!” Tinha gente limpando? Porque na hora que ele terminar de limpar vai estar limpo de novo. Luciana: Uhum. Ricardo: E em condição de uso. Luciana: Certo. Ricardo: Então eu sou contra é não ter ninguém limpando. Luciana: Uhum. Ricardo: “Mas tá sujo!” Mas usou ontem! Teve uma festa aqui, jogaram é, papel picado pra cima. 321 Luciana: Uhum. Ricardo: Não vai sujar? Luciana: Uhum. Ricardo: Não, mas hoje tem que ter alguém varrendo. Luciana: Uhum. Ricardo: Tem que ter alguém tirando esse papel picado. Luciana: Certo. Ricardo: Eu vou ser contra a festa? Ah, na sua festa você não pode soltar papel picado? Aí eu tô, que festa é essa, né? Luciana: Certo. Ricardo: Aí é uma questão até cultural. Mandar a torcida calar a boca que ela está fazendo mais ruído do que a lei permite. Luciana: (Risos) Ricardo: Ué! Uma autoridade que fizer isso: “A lei fala que você pode até 85 decibéis, não sei o que, não sei o que”. Ôô Galocura, cala a boca aí!? Luciana: (Risos) Ricardo: No mínimo você como autoridade tem uma coisa errada. Luciana: É, no mínimo é cruzeirense ou americano, né? (risos) Ricardo: É. Luciana: É cruzeirense ou americano. Ricardo: Ou chato, né? É (risos) Luciana: Pode ser isso também. (risos) Ou chato. Ricardo: Não, é porque essa paz. Luciana: Ou entende pouco do ambiente, né? E da festa. 322 Ricardo: Esse tipo de paz, está querendo um tipo de paz que só tem no cemitério. Luciana: É. Ricardo: Essa, essa paz, essa que é também muito gostoso! Luciana: Porque tem ambiente. Ricardo: Dentro de cemitério tem um ambiente. Luciana: É fato. Ricardo: De paz, de silêncio. Luciana: Se você vai pro estádio, é. Ricardo: Né? Luciana: Você não vai querer silêncio, né? Ricardo: É, nada contra! Luciana: É. Ricardo: Entendeu? Assim, Luciana: É. Ricardo: Mas você querer paz no cemitério, num espaço de celebração. Luciana: É. Ricardo: No mínimo você não está querendo celebrar. (risos) Luciana: Mas é verdade. Mas a, é, a questão da, do alojamento, né, é, nesse período que você esteve aí, você se lembra do, é, do Dadá? Porque algumas pessoas já me falaram que ele Ricardo: É, Luciana: ficou alojado Ricardo: Não, na minha vida aqui, quando ele morou aqui eu não trabalhava aqui. Eu tive algumas licenças e eu fui tratar da minha vida fora. É de, é uma série de razões. É, eu cheguei a trabalhar com o Dario mas ele já não morava aqui. 323 Luciana: Sim. Ricardo: Mas, é interessante lembrar do Dario e a quantidade de estudante, doutorando da UFMG, de veterinária, que morou aqui? Entendeu? Um alojamento de baixo custo. O cara está estudando, não tem é, é, di, o, não tem ou não deve, prefere investir em livro. Luciana: Uhum. Ricardo: Do que em moradia. Luciana: Uhum. Ricardo: Entendeu? E está aqui, próximo à Universidade. E por quê, não? Luciana: Certo. Ricardo: Entendeu? No caso o Dario ficou folclórico, um monte de coisa, por ser o Dario. Luciana: Uhum. Ricardo: Mas nós já tivemos vários casos, por exemplo, é, e essa questão de alojamento, eu vou pegar um exemplo aqui, que é até do Mineirão. Que o Mineirão também tinha alojamento, para 800 pessoas. Depois foi aumentando para 1000 pessoas. A diferença é que o Mineirinho são apartamento para 4 pessoas. E o Mineirão era alojamento para 20 ou 40 pessoas. Luciana: Uhum. Ricardo: Com beliche. Então aqui é um hotel 5 estrelas perto do (risos) Luciana: Certo. Ricardo: E se você der sorte você ainda fica de frente pro mar, de frente pra Lagoa (risos). Luciana: É, é. Tem uma vista bonita mesmo. Ricardo: Então, bom. É, é, mas por exemplo, teve uma construção do placar eletrônico lá, que os técnicos eram de fora e ficou 6 meses a construção. Eles moraram no Mineirão 6 meses. Entendeu? Luciana: Uhun. 324 Ricardo: Uma obra que nos interessava, entendeu? Pra quem tinha alojamento para 800 pessoas, porque não separar quarto, apartamentozinho de 4? Luciana: Uhun. Ricardo: Eu não, não, entendeu? Luciana: Certo. Ricardo: Mas é, o Dario ficou famoso, eu gosto mais de histórias de, quando você junta muitos seres humanos, acontece de tudo. Eu gosto mais de histórias assim. É, teve um JUBs, Jogos Universitários Brasileiros aqui em Belo Horizonte. Aí a delegação de judô de São Paulo, peso pesado, né, atletas de, acima de 1,80m, pesando acima de 150 kg, resolveram fazer um desfile nu. (Risos) Luciana: (Risos). Ricardo: Pelos corredores. Obviamente que teve gente que ficou incomodado, e foi na portaria reclamar. Luciana: Uhun. Ricardo: “Ah, tem uns, gigante, um jamanta lá, andando pelado pra cima e pra baixo. O porteiro viu o tamanho do problema e me ligou. “Oh, tem uns caras de São Paulo Luciana: Risos. Um problema muito grande. Ricardo: Desfilando pelado e não sei o quê. Luciana: Um problema muito grande, né? Ricardo: Pô, isso é onze horas da noite, você em casa, né? Pra você é hora extra aqui, né? Eu falei assim, chama a polícia, pô, né? Me pareceu uma medida administrativa correta (risos). É óbvio que ele chamou a polícia. Veio uma patrulha com a dupla, na época a gente chamava de Cosme e Damião. O Cosme e Damião parou lá: “_ o quê que é?” Ah, tem uns caras, nudão lá em cima. Subiu a dupla (risos). Foi lá, na hora que chegou lá, uns 15, um homem de todo tamanho, alguns alterados pela bebida. Eles olharam o tamanho do pepino. (risos) Luciana: (Risos) 325 Ricardo: Viraram para o porteiro e falaram assim: “Olha, quem quer ver estrelas olha pro céu. Manda os hóspedes voltar pro quarto (gargalhada). Luciana: (Gargalhada). Nossa. Ricardo: E foram embora. Resolveu o problema? Sim, pra mim resolveu. (risos) Luciana: Manda todo mundo pro quarto, né? (risos) E eles continuaram. Ricardo: Não, é (risos). Luciana: É (risos). Ricardo: Mas Luciana: Interessante. Ricardo: Casos desse tipo, de, principalmente alojamentos de jovens, meninas pra um lado, meninos pro outro. Tem muitos que pula a varanda, tem é, entendeu? É, pai querendo vir ver onde que estava, e tal, não sei o quê. Então essas histórias tem, mas que são, decorrentes da atividade. Luciana: Certo. Ricardo: E aí uns 100 números de Luciana: Uhum. Legal. Ricardo: De situações Luciana: Interessante. Dava Ricardo: Que eu imagino Luciana: Dava umas histórias aí, né? Ricardo: Que quem é gerente de hotel, de motel, do que for Luciana: É Ricardo: Também escreva livros Luciana: É, é. 326 Ricardo: Com casos desse tipo. Não é? Luciana: É verdade. É, e quando que ele parou de funcionar? Ricardo: Na realidade Luciana: Parece que foi 2010, né? Ricardo: Não, foi 2013. Mas na realidade o que aconteceu foi o seguinte: os materiais de engenharia têm vida útil. A gente trabalha com o conceito de vida útil. Luciana: Um. Ricardo: É claro que um prédio feito o Mineirinho esse conceito é adaptado. No, materiais de vida útil, é, engenharia normalmente a gente brinca que o engenheiro trabalha com, dependendo da obra, é, oh, eu vou usar materiais com vida útil de 50 anos, que quando cair eu já não estou mais aqui. Luciana: Uhum. Ricardo: Mas, normalmente vida útil dos materiais é 20 anos, 10 anos. Dependendo do material, 25. As coisas têm um prazo de validade. Luciana: Sei. Ricardo: Em que chega na hora que não vale a pena você dar manutenção. Você tem que colocar um novo. Luciana: Certo. Ricardo: Fazer um outro. Por isso muitos prédios você demole e constrói um outro, num outro conceito, de manutenção. Até porque a própria sociedade vai exigindo novas demandas. Luciana: Uhum. Ricardo: Bom. O que aconteceu com o alojamento foi o seguinte: trinta e tantos anos depois, as portas de correr já tinham virado porta de abrir. Luciana: Un. Ricardo: Os materiais já estavam chegando no final e havia a necessidade de uma grande reforma. Quando falavam no século passado, o Mineirão vai ser reformado? Claro que vai! Eu 327 só não sei quando. Por quê? Agora prédios como o Mineirão e o Mineirinho, acontecem tantas coisas aqui de valor para a sociedade. Ou seja, você quando jovem teve aqui, eu quando jovem vi jogos no Mineirão, e tal. Que a sociedade valoriza. A gente brinca o seguinte: daqui a 200 anos, vai descer o seu tataraneto na nave espacial, parar aqui e vai um guia turístico, virar e falar: “Há 200 anos atrás, 22 homens de calça curta, corriam atrás de uma bola, o povo ficava louco, descabelava, e tal, não sei o quê e tal.” É como o Coliseu, você vai hoje em Roma, e vai no Coliseu lá: “há 2000 anos atrás os homens punha, é, alimentava leão, com cristão, coisa é, entendeu? Luciana: Uhum. Ricardo: Eram os jogos da época. É, porque tem valor histórico, tem um, a quantidade de milagre que já teve aqui no Mineirinho, certamente pra alguém daquela igreja lá, o Mineirinho, entendeu? É, é tá incorporado na vida dele. Então esse prédio aqui eu acho que ele vai viver 2000 anos. Luciana: Sei. Ricardo: A forma de manutenção que tem que mudar. Porque tem um monte de material aqui que não vai durar 30 anos, 50 anos, o que for. O que aconteceu com, com o alojamento foi isso: houve um esgotamento da vida útil de uma série de materiais, e ao você abrir uma torneira, a torneira saia na sua mão; e a água estava não sei o que e tal; e merecia uma reforma. Certo? E aí aconteceu o, o maior dos problemas. É que, nós da ADEMG, da autarquia que foi extinta, que já não existe mais, tínhamos mão-de-obra pra essa reforma, a mão-de-obra da manutenção faria essa reforma. Mas não tínhamos o material de uma obra. Entendeu? Eu tinha bucha pra trocar a torneira, eu não, para a torneira parar de vazar, mas não tinha a torneira para ser substituída. Luciana: Sim. Ricardo: E aí, bom, vamos reformar. Mesmo essa reforma, era uma reforma é, pra dar funcionamento a um alojamento baixo custo. Não tinha nada de luxo, não tinha nada. É óbvio que eu queria que tivesse frigobar, que tivesse TV a cabo nos quartos lá. Nem acho que isso é luxo! Se eu vou ficar alojado aqui 15 dias, eu vou ficar num apartamento não tem nem televisão? Nem frigobar? Entendeu? Luciana: Certo. 328 Ricardo: Pra hoje é complicado isso. Luciana: Funcional, digamos assim. Ricardo: É, não é luxo. Luciana: Uhum. Ricardo: É o mínimo de conforto, entendeu? Óbvio, por R$ 15,00 na hora que você pergunta isso. Não, por R$ 15,00 tá querendo (risos). Bom, é, é, e aí, nos foi sinalizado pelo governo que iríamos receber esse dinheiro da Secretaria de Esportes, começamos a quebrar as instalações que seriam substituídas. Luciana: Certo. Ricardo: Anteriormente a isso, esse alojamento foi usado para operários da obra do Mineirão. Olha que alojamento fantástico! Do lado da obra. Luciana: Uhum. Ricardo: Entendeu? Luciana: Uhum. Ricardo: Com outras demandas em termo de alojamento. Com alojamento pra operário, é, as construtoras dão muito menos conforto do que nós dávamos para atletas, entendeu? E aí nós tivemos um uso intenso do alojamento, com um público de operários. O alojamento foi tratado por exemplo, fosse beliche, ao invés de cama, pra caber mais gente, coisa desse tipo. Mas já com o intuito: “Oh, terminou a obra, ele vai pra reforma. Luciana: Certo. Ricardo: Durante isso foi feito o convênio, e tal. Bom, fomos adiantando, já que as condições de uso eram muito ruins, quebrando algumas instalações. Luciana: Uhum. Ricardo: E o convênio, o dinheiro não veio. Luciana: Nossa! Aí? 329 Ricardo: E aí não nos, na realidade teve outros problemas também de ordem administrativa, que o Estado, é, tinha um problema com esse, teve que diminuir a mão de obra terceirizada no Estado é fornecida por uma empresa chamada MGS. Luciana: Uhum. Ricardo: Essa empresa começou a ter problemas e veio ordem gerencial é: “Vamos diminuir 40% do contrato dela.” Os porteiros e as camareiras do alojamento eram da MGS. Luciana: Sei. Ricardo: Entendeu? Ali, por uma decisão administrativa pra atender essa é, orientação geral, era o pessoal dispensável que menos impactava na operação do Mineirinho. Luciana: Uhum. Ricardo: Eu estava com o alojamento quebrado, parcialmente quebrado e Luciana: Operacional. Ricardo: E, é, com mão de obra de camareiro e de porteiro, com apartamento e alojamento fechado. Luciana: Certo. Ricardo: E que o último ano recebendo peões, é, operários da obra, a, a, a portaria e o serviço de camareiro deixaram de funcionar porque a Minas Arena, a empresa que estava construindo lá, assumiu isso. Luciana: Certo. Ricardo: Falou que não queria que os caras atrasassem para a obra (risos), imagina um alojamento de obra, Ah! 6 horas, todo mundo pra fora! Tomar café! E vamos, tem que estar 7 horas lá. Luciana: Uhun. Ricardo: Completamente diferente de um hotel. Luciana: É, é Ricardo: Né? 330 Luciana: É, é verdade. Ricardo: É quase que um alojamento militar. Luciana: Aí terminou mesmo Ricardo: Não, e aí ele foi interrompido porque, primeiro não tinha condições, que eu entendia, mínimas, pra te hospedar. Luciana: Sei Ricardo: E segundo, porque eu aí já não tinha condições administrativa-operacional de hospedar alguém. Mas ele recebe, eventualmente, usuários lá. É, eleições da UNE, o pessoal ia ficar acampado lá fora. Luciana: Uhun. Ricardo: Ah, então acampa aqui dentro, que tem alguns banheiros que funciona e pelo menos não chove na sua cabeça. Luciana: Sei. Ricardo: É, eventualmente tem Programa de Agricultor Familiar que vem pra cá pra fazer curso, entendeu? Aí limpa 10 apartamentos, dá, dá um mínimo de condição de uso, mas não tem roupa de cama, não tem, os colchões, os lençóis, esse tipo de coisa, da época, é, pra mim tinha que tacar fogo, mas é, ou tem que doar Luciana: Porque (inaudível) é, é Ricardo: Porque, né, pensa que esse colchão de espuma cheio de buraco. Luciana: É. De tempo em tempo tem que trocar. Ricardo: Não, o lençol todo rasgado e coisa. Luciana: É. Então é Ricardo: Entendeu? Luciana: Além disso Ricardo: Aí juntou disso 331 Luciana: 2010 vieram os operários? Ricardo: Não, ele funcionou até 2010 Luciana: Né? Ricardo: É, exatamente. Com os operários ele funcionou até antes da inauguração do Mineirão. 2013 ele estava funcionando. Luciana: Aí de lá para cá o, esporadicamente recebe igual você falou Ricardo: Não, aí a ADEMG foi extinta e a sucessora dela foi a Secretaria de Esporte e Turismo, criou uma Superintendência, que onde tinha 200 empregados passou, 200 servidores, passou a ter 20. E aí hoje, você tá nessa situação. Edmar: (fala sobre a filmadora, sobre energia) Luciana: Não, ele não carrega por cabo, não. A gente segue, a gente para aí e continua aqui, então. Edmar: Não, ainda dá. Luciana: Tá. Tá, então vamos lá. Ricardo: Eu já estou, já virou papo de boteco, né (risos) Luciana: É? (Risos) Ricardo: Eu tô, acabando (risos) Luciana: É, bom, então vamos a mais uma, um ponto aqui, é, a ditadura. Esse período da construção, né? A própria inauguração, o que você diria em relação à ditadura e o Mineirinho? Ricardo: Num primeiro momento, havia por exemplo, Show de Mercedes Sosa. É, ameaças de bomba e coisa desse tipo e tal, nós presenciamos. É, teve assim Luciana: Isso, quando foi? Ricardo: Bom, já, início da década de 80, entendeu? O Mineirinho já inaugurado e funcionando. 332 Luciana: É, já estava inaugurado. Ricardo: É, tem caso, esse aí você não vai ter tempo não, mas é um caso engraçado. Porque nessa por exemplo, exibição de ginastas, de atletas russos, o Mineirinho tinha sistema de som, e é tocaram o hino da União Soviética lá embaixo no sistema de som deles, e o do Brasil eles queriam que fosse, tocasse aqui e nós não tivemos o Hino. Deu um problema, Polícia Federal (risos) Luciana: (risos) Ricardo: É, mas eram resquícios dessa época. Mas o que eu posso falar, estando aqui na operação, era uma coisa distante da gente. Luciana: Certo. Ricardo: O que eu quero falar é o seguinte: eu tinha obrigações na Manutenção, de atualizar os projetos e entregar no exército, porque nos planos deles lá, Mineirão e Mineirinho eram estratégicos, não sei em caso de que? Caso de guerra nuclear, sei lá. Luciana: Sei. Ricardo: Mas tinha que manter, tinha algumas rotinas atualizadas assim. Mas, tivemos problemas é, Planet Hemp é, é com drogas, esse tipo de coisas, muito mais característico daquela época, que eu não, eu não via. Porque a administração aqui era voltada para o esporte, o esporte era meio imune a esse tipo de coisa. É óbvio que a gente sabe que, Dario teria sido convocado por é, é presidente general, esse tipo de coisa que é, muito mais é, é, quase que lenda urbana, entendeu? Assim, mas que houve uma troca de comando de seleção brasileira, uma coisa, porque o técnico era comunista, e, e foi trocado por, é professor de Educação Física do Exército, digamos assim. Luciana: Uhum. Ricardo: Entendeu? Assim, teve, teve influência é, e até hoje tem. O mais interessante é o seguinte, a gente não percebe, mas por exemplo, Olimpíadas no Brasil no auge da, da democracia e até essa discussão toda, há um excesso. Digo, não existe excesso de democracia. Eu tô falando assim, todo mundo se fala, e, fala e se coloca, você vai pegar o seguinte: o grande patrocinador de atletas e medalhas desse país, foram as forças armadas! Eu, eu assustei na hora que tinha atleta que ia receber medalha, fazendo continência para a bandeira. 333 Entendeu? Assim, mas isso eu estou falando 2014, entendeu? A quantidade de atletas que é tenente do exército que é, é, e duvido que lá no exército eles deram 1 tiro. Entendeu? Luciana: Uhum. Ricardo: Mas se você for pegar por exemplo, fomentador de é, é, esporte especializado, Polícia Militar de Minas Gerais. A quantidade de gente treinando, uma super pista de atletismo, e tal. Existe ambiente para desenvolvimento de esporte, junto das forças de segurança e forças armadas, entendeu? Assim, não vejo no esporte, eu vejo a, Federação Mineira, família do coronel Zé Guilherme, né? Assim, eu vejo CBD, do tempo do coronel, é, general não sei o que e tal, no comando do esporte já teve resquício de ditadura, que eles comandaram o país e comandaram isso também. Luciana: Uhum. Ricardo: Mas, na política de esporte e aí tem umas coisas assim, por exemplo, normalmente esporte é, judô, é, é, marcial, luta marcial, disciplina é uma característica desses atletas. Disciplina é uma característica de forças armadas (risos), entendeu? Assim, às vezes até tem alguma coisa a ver. Não sou eu o cara para isso, mas eu não vejo, nesses atletas, por exemplo, literalmente esse pensamento de direita e tal, como eu vejo em atletas que não tem ligação nenhuma com isso que tem esse pensamento. Luciana: Você não vê necessariamente nenhuma ligação Ricardo: Essa ligação. E na época, é óbvio que eu estava Luciana: Pelo fato de ser esportista Ricardo: 17, 18 anos, e tal, eu via, já tinha ciência de ditadura, tinha ciência dos malefícios, da parte ruim, desse tipo de coisa é, eu como estudante “ah! É, Itaipu é uma bomba contra a Argentina, se abrir as comportas e alaga, alaga 40% da Argentina. Aquilo lá é não é uma usina, é uma arma”. (risos) Luciana: (Risos) Ricardo: Tal não sei o quê e tal. Esse, é, esse tipo de pensamento fez parte, da minha formação como cidadão, como homem e tal, de, de. Mas no esporte em si, quer dizer, nos atletas, nos dirigentes, nesse tipo de coisa, eu podia ver era assim, um meio, se aproveitar, “ó, 334 aquilo pode ser bom pra mim”. Mas eu não via a questão ideológica, é, ditando os rumos dessa história, não. Luciana: Sei. Ricardo: Entendeu? Assim, é, é, não tenho essa sensação. Luciana: Sei. Ricardo: Obviamente, é absolutamente subjetivo. Luciana: Nesse período aí da, da construção, você né Ricardo: E, e, o que eu quero falar é o seguinte, é, eu tinha amigos no Colégio Militar, é, fiz parte muito da, simpatizava com o Movimento Estudantil, Libelu, aquelas coisas todas da época, é, mas jogava bola com os meninos lá, satisfeito da vida. (Risos), então assim, num, não era, não ditaria costume pra mim, não via dessa forma. E até porque os que eu conhecia tinha um discurso parecido com o meu. Luciana: Uhun. Ricardo: Entendeu? Assim, talvez hoje isso esteja mais aflorado, do que nessa forma na época. Óbvio que (muda a voz para dize, mais grave) ” “Oh, aquele lá é terrorista” e tal. Luciana: Risos Ricardo: E era engraçado, que, por exemplo Luciana: Você cresceu onde? Ricardo: Vou te falar, aqui em Belo Horizonte, é, vou falar, caso do Colégio Técnico. Nós tínhamos um professor de tornearia mecânica, professor Nilson, que espero que esteja vivo e bem, que todo mundo falava que ele era, Federal, que ele era Meganha, cuidado não fala perto dele não, era até um. Nós quisemos fazer uma brincadeira com um colega nosso, é, falsificamos uma advertência, falando que ele estava suspenso, tal. Na verdade, achamos um bloco de advertência, como esse bloco de trabalho, bloquinho, tal. Fomos lá, falsificamos aquilo, carimbamos com uma moeda de vinte centavos e “oh, você está suspenso por perturbação da ordem do colégio e suspeita de porte de tóxicos”, umas coisas assim, tal. Para parte da brincadeira pedimos ao professor Nilson que entregasse aquilo lá, porque se ele tinha fama de que era dedo duro, e tal, não sei o que. Dava, se pôr, e ele numa boa, fez aquilo e tal. 335 Mais tarde nós viemos a saber que, por um aluno que entrou no colégio lá, que era sobrinho dele, que não tinha nada daquilo. Que ele nunca tinha sido de, polícia, nem nada. Mas, no imaginário popular, cuidado com ele que ele é meganha, né? E tal (risos). Luciana: Ahan. Ricardo: E usamos ele para esse tipo de brincadeira, e tal, que teve outras consequências (risos). Mas é, é, mas isso era o que a gente vivia na época. Luciana: Uhum. Ricardo: Tinha aquele negócio, é cuidado, tal, não sei o que. Tinha o decreto, 477 que é, não sei se vocês lembram, mas é na nossa época, encontro de mais de 4 pessoas era proibido, dentro da universidade! Tinha um decreto que você não podia ter esses encontros. Não, nunca vi o decreto, eu sabia que tinha o decreto 477, cuidado aí, ó o decreto 477 e tal, não sei o que e tal. Quem falava, o, até tenho curiosidade, porque, deve, deve ser proibido de encontrar, deve ser dependendo do assunto, sei lá (risos) Luciana: Certo. Ricardo: É o que a gente vivia de, mas é, meus atos terroristas, como juventude foi, se não sabe, gente, agora vão saber: nós fomos na Praça Tiradentes e apagamos os refletores todos pra deixar o Tiradentes no escuro, na véspera do dia 21, entendeu? Luciana: (Risos) Ricardo: Assim, hoje é até infantil, mas na época foi uma adrenalina (risos), você não imagina. Luciana: Com certeza (risos). E como que era a presença, por exemplo, dos militares nessa fase de construção da, da obra no período que você acompanhou? Eu vi algumas fotos, assim, talvez mais próximo da época da inauguração. Ricardo: Olha, na época o que me impressionou, quer dizer, volto a falar, visão do menino de 17 anos, 16 anos, por exemplo, o período, Olimpíada Operária Global, nem foi no Mineirinho, ele tava em construção, mas foi no Mineirão. Mas veio o presidente, né! Fez um tapume, fez um palco Luciana: Uhum. 336 Ricardo: Pra discursar, e tal, não sei o quê. Mas pra gente era assim, é o presidente general Geisel, general fulano, general ciclano, é, é, entendeu? A gente pensava assim: “nossa, se esse palanco cair vai ser um bem pro Brasil”, mas Luciana: (Risos) Ricardo: (Risos) volto a falar, né? Até meio infantil Luciana: Sim Ricardo: No meu caso. Luciana: Sim. Ricardo: Sabia, é, e conhecia pessoas que haviam sido torturadas, meu pai tinha amigos que haviam sido torturados. Mas era uma coisa que não era aberta. Era meio, “gente que eu conheço fulano, com ciclano”, mas pra gente na época, ó, quem tinha 17 anos em 78, o máximo era um Murilo Rubião, com um realismo fantástico na literatura. Oh, falasse em Murilo Rubião, tal e não sei o que, entendeu? Era talvez uma coisa mais riponga, né? Luciana: (Risos) Ricardo: É, não sei, de. Luciana: É, tá. É, agora vamos chegar lá em 1980, inauguração do Mineirinho. Você é, até mencionou algumas, alguns usos que ele é, teve. Agora, especificamente, 1980, você se lembra, o dia da inauguração? Ricardo: Sim. Isso é uma lembrança muito forte. Luciana: O que aconteceu no decorrer do dia. Ricardo: O Mineirinho é, na semana de inauguração, teve engenheiro, vou dar o nome, também espero que esteja vivo e bem, doutor Eduardo Bambirra, que ficou com torcicolo de tanto olhar para cima. Que se chovesse, 15 minutos, não tinha inauguração. Luciana: Sim. Ricardo: A semana foi duma, um ritmo intenso de obra, 24 horas por dia. E, palmeiras de 4 metros de altura, nasceram e já chegavam com 4 metros de altura. O asfalto, isso que você vê aqui na porta, foi feito a 3 dias da inauguração. E eu virei, duas noites trabalhando, é, 337 instalação de refletores, ligando do jeito que desse, que um ritmo louco. Mas, é, na inauguração propriamente, foi 9h da manhã, eu sai daqui 4h da manhã, e já tinha virado a noite, tinha virado quase a outra noite, aí eu apaguei e vim pro show à noite, na inauguração. Dormi o dia todo e tal. E o comentário do pessoal que estava na inauguração era o seguinte: que a quadra terminou de ser pintada às 5 horas da manhã. E às 9 horas da manhã entrou o pessoal marchando com bandeira, inaugurando e o sapato todo colando assim, “crec” (gesticula e faz som na mesa), (risos) que a tinta não tinha secado. Então, na realidade a lembrança da inauguração em si e tal, foi a semana de shows, é, shows mineiros, Célio Balona, Alceu Valença é, van, é, João Bosco, João Bosco impressionou demais! É, e shows, e naquela época, grandes shows, mas que eram acontecimentos! Né, assim, Peter Frampton, Rita Lee, o primeiro ano do Mineirinho foi muito agitado nesse tipo de coisa, tanto pela novidade. Mas hoje na minha visão, o quê que era? Era empresários pegando um espaço do tamanho do Mineirão para show, e cobrando cachê de Palácio das Artes. O que eu quero falar é assim: show da Rita Lee, quanto que era? Digamos, 20 mil para tocar no Palácio das Artes vendendo mil e poucos ingressos. Para tocar no Mineirinho ela veio por 20 mil, os caras venderam 25, 30 mil ingressos. Luciana: Sei. Ricardo: Entendeu? Luciana: Uhum. Ricardo: Então assim, era muito mais um fenômeno de, mercadológico ali, né? É, e uma preocupação, isso eu tive ordem da direção, por exemplo, que o Mineirinho tinha que ter, esporte. Luciana: Uhun. Ricardo: E nós éramos, nós éramos incentivados a chamar as pessoas para jogar aqui. Eu tive ano, dos 350 dias do ano, teve 400 jogos do Mineirinho com todos os shows. Porque eu ia até no Dom Orione ali chamar os meninos pra vir jogar bola aqui. Se não tinha esporte, “Ah, esse fim de semana não tem nada”, vamos inventar o festival de vôlei de, do Mineirinho. Ia no CEU e chamava os times que estavam jogando lá para jogar aqui. Luciana: Sei. 338 Ricardo: O que a gente queria, na realidade, a forma é, de ver era súmulas. Eu quero ter jogo para ter súmula e provar (bate na mão): “Oh, o Mineirinho é a caso do Esporte!” Luciana: Certo. Ricardo: Então, nós tivemos, no início isso se perdeu. E a minha, por, enchemos isso aqui na frente de quadra de peteca, de quadras de vôlei, tinha, você tinha, chegava aqui tinha 400 meninos aqui, e brincando e rolando, jogando peteca, aquela coisa, se formou, a população se apropriou do espaço, e o nosso interesse era o esporte. Eu lembro do, do, (breve pausa pensando) presidente da Federação de Peteca, como é que ele chama? Ele era irmão do Cidinho Bola Nossa do futebol, daquele árbitro. Aristóteles, que ele chamava, alguma coisa, Aristóteles, Tote que era o apelido dele. Luciana: Uhun. Ricardo: E da gente indo lá, pedindo pra fábrica deixar petecas aqui, que a gente ia fazer quadras no asfalto! Pintou, pôs os postes, que a gente tinha serralheria aqui. Você fazia os postes, fazia equipamentos e deixava lá. E o povo chegando pra peteca. E se chegasse o povo sem peteca, nós tínhamos umas petecas aí, do, da fábrica que ele tinha interesse também em popularizar o esporte. Luciana: Uhum. Ricardo: Entendeu? Peteca! O esporte, virou um esporte mineiro. Luciana: Uhun. Ricardo: Depois foi exportado para Brasília. Estamos literalmente falando da década de 80. Luciana: Certo. Ricardo: É, é, talvez hoje já não tenha. Até hoje aqui na Pampulha você vai nas casas antigas todas, todas elas fizeram campo de peteca. Os cantinhos lá fazendo campo de peteca. Luciana: Uhun. Ricardo: Foi uma febre, né? Luciana: É, é. Ricardo: Peteca. É, é, então, mas, isso não tinha é, reverberação na sociedade. 339 Luciana: Uhun. Ricardo: Entendeu? De, é, mas era do plano inicial, é um equipamento desportivo. Luciana: Sei. É, então assim, esse uso da população, digamos da cidade, ele Ricardo: Hoje é diferente, né? Luciana: Não, pra época lá. Ricardo: É. Luciana: Lá na época. É possível dizer que a população vinha para além dos shows? Ricardo: Nos fins de semana Luciana: No campo esportivo. Ricardo: Porque a Pampulha, é nós custamos a perceber isso, nós que somos aqui da Pampulha e vivemos na Pampulha. Eu custei a ter entendimento que a orla da Lagoa é um equipamento de lazer de classe C e D, entendeu? Nós custamos a ter esse entendimento aqui, que a Pampulha sempre teve fama de, São Luiz. E ela é muito mais São Benedito, entendeu? Bairro de classe A, zona, antiga zona ZR1, lotes de 1000 m² com habitações unifamiliares, com no máximo, é, com no mínimo 50, no máximo 50% de ocupação do solo. Ou seja, se 1 lote de 1000 m² só pode ocupar 50%, você vai ter 50% de jardim. E você não pode cobrir 100%, entendeu? Luciana: Uhun. Ricardo: Assim, então é, é, era o bairro, né, Pampulha e tal. Mas era o equipamento da década de 80, longe. Não era de Luciana: É. Ricardo: Hoje é de carro Luciana: Isso eu ia te perguntar, pra época, né? Ricardo: Hoje, é, entendeu? Luciana: Pra época. 340 Ricardo: Tanto é que um dos grandes sucessos de negócio que nós tivemos aqui era aquela antiga Feira de Veículos. A gente brincava que era a feira da Brasília e do Chevete. Mas era de classe C e D. Luciana: Uhun. Ricardo: O que que era: eu venho, o meu lazer é na, vinha pescar na Lagoa! Luciana: Uhun. Ricardo: Né? Vou na Feira, Feira de Artesanato aqui. Luciana: Uhun. Ricardo: Entendeu? Bombava! Luciana: É, eu estou perguntando isso porque é, a gente sabe hoje, se a gente pensar hoje tem um, um significado pra cidade, né, o Mineirinho, o Mineirão, mas vamos dizer do Mineirinho. Ele, ainda que pouco, assim, a população acesse pouco, a não ser no caso dos eventos e tal, até porque ele estava fechado. Ricardo: Uhun. Luciana: Tem algumas pessoas que terminam, né, sendo barreira. Mas ele é relevante, sim, pra região. É relevante pra cidade e tem relevância, igual você falou, os torneios, né? As pessoas vêm. Cantores de fora. Ricardo: Não, e chega umas coisas eu fico, a gente brincava, porque o Mineirinho já teve histórias dele, de situações que ele foi interditado. A cidade não ficou sabendo disso, porquê? Ele foi interditado, mas aí vinha formatura da UFMG, de Medicina. Tem algum, tinha algum lugar da cidade que coubesse? Então, desinterditava ele e fazia formatura. Luciana: Uhum. Ricardo: Aí vinha, eventos maiores, simplesmente Belo Horizonte não tinha onde ter. Luciana: Uhun. Ricardo: Então, eu brincava, ele ficou 8 meses interditado mas ninguém ficou sabendo, porque nesses 8 meses, ele abriu (risos) 341 Luciana: (risos) É, é, estava aberto. Ricardo: É, pro evento abria, né? Então Luciana: É. Ricardo: Fazia um TAC do Ministério Público, é, entendeu? Luciana: É. Ricardo: Mas é, significância social. Luciana: É. E pra época tem umas questões, por exemplo, que eu vejo, é, estudar o Mineirinho, me leva de certo modo a aproximar do Mineirão. Porque os 2 têm uma história inicial em comum. Ricardo: Era a mesma administração Luciana: É de 59, Ricardo: Não, Luciana: mesma administração. Ricardo: Não, e também Luciana: Próximos. Ricardo: Não, e mais interessante nessa história, é que tem uma origem em comum, que é num sentimento que maturou dentro da Universidade Federal. Luciana: É, o terreno, né? Ricardo: A Universidade, a questão original do terreno que até hoje é um pepino! Luciana: Uhun. Ricardo: Assim, é, burocrático Luciana: Uhun. Ricardo: Os prédios estão aí. Eles não existem legalmente. Luciana: Uhun. 342 Ricardo: Né? É, é, e a UFMG sempre foi o irmão mais velho, é, oculto nessa história. Luciana: Uhun. Ricardo: Ela é que desvirtuou um pouco, ou melhor, é, teoricamente, eram equipamentos da Escola de Educação Física também. Como o CEU era pra ser, mas a Escola de Educação Física preferiu construir o CEU pra ela. Entendeu? O nascimento do Mineirão como estádio universitário, com pista de atletismo e tal, o do CEU, o do Mineirinho é tudo complementar. Houve uma época, principalmente década, início da década de 80 e tal, que se apresentava a Pampulha, no meio esportivo, como a, o, a enseada de Sydney, onde teve uma Olimpíada. Tem lugar mais vocacionado para uma Olimpíada, do que esse espaço aqui? Mineirão, CEU, Mineirinho, Lagoa, hípica. Ou seja, você tem uma Olimpíada aqui. Luciana: Uhun. Ricardo: Literalmente. Luciana: Uhun. Ricardo: Na década de 80, ainda grandiosa. Luciana: É. Ricardo: Olimpíada, também mudou (risos). Virou um evento televisivo. Luciana: É. Ricardo: Tal, não sei o que e tal. Luciana: É. Ricardo: Mas, entendeu? Pra época, era um espaço vocacionado para uma Olimpíada. Luciana: Uhun. Ricardo: Né? Luciana: É. E o que eu pensava, por exemplo, é o que que eu percebia. Ricardo: E te falo que os professores de Educação Física da minha época, os cabeças coroadas do desporto, tinham essa concepção. Tinham essa coisa. 343 Luciana: Certo, certo. É, no que eu já né, aproximei de, de alguns documentos, eu vi como que é, e aí é uma percepção que eu fui é me, com essa aproximação, como que Mineirão e posteriormente em, em certa medida também o Mineirinho, como que eles impactaram, o Mineirão muito, na região, até um pouco mais longe, bairros vizinhos. Porque inclusive em fotos, esses dias eu fui ao, ao Museu do Futebol aqui, né, no Mineirão, você vê assim, a Catalão não existia, né? Uma área é, próxima de fazenda. Então a urbanização da região ela foi impactada por esses dois equipamentos esportivos. E conversando é com, o senhor Ricardo Raso Ricardo: Ah, mas Luciana: O Afonso Celso Raso, ele fala inclusive dessa avenida que foi construída depois da construção do Mineirinho. Ricardo: É, dos esportes. Luciana: Né? A questão de ônibus. Ricardo: Mas olha, é aí a minha visão é um pouco diferente, tá? Luciana: Tá. Ricardo: É, ninguém queria morar perto do aeroporto. Luciana: Uhun Ricardo: Na realidade no, não acho que espaço de celebração humano, é, e hoje cada vez mais, tem menos sentido, reunir 100 mil pessoas em qualquer lugar. A Praça do Papa, o que for, é uma sacanagem com a cidade, com o cidadão Luciana: Certo. Ricardo: O que eu quero dizer é o seguinte: se o evento atrai o olhar de 100 mil pessoas, ele já é gigante o bastante pra você vender imagem. Não precisa ser aqui no Mineirão não. No centro da África eu tenho um evento pra 50 mil pessoas Luciana: Uhun. Ricardo: Eu já vou vender imagem. Luciana: Uhun. 344 Ricardo: O que eu acho é o seguinte, tem um saudosista que fala assim: “Ah, cadê o plano A?”. Belo Horizonte se dava ao luxo das 4 pistas da Antônio Carlos serem viradas para o Mineirão, entendeu? Na minha infância eu vinha pro Mineirão, as 4 pistas da Antônio Carlos, que já era o máximo, que ne uma via, já era, o Juscelino pensando 100 anos à sua frente, né? Luciana: Uhun. Ricardo: Fez a Antônio Carlos do viaduto São Francisco pra frente Luciana: É. Ricardo: Com um monte de pista, que não tinha trânsito pra época. Luciana: Certo. Ricardo: Né? Tinha um plano A que era as pistas todas pro Mineirão. E depois na volta todas pra cidade. Luciana: Uhun. Ricardo: Claro, não existia Venda Nova. Hoje se você fizer um plano A, você tem uma Venda Nova, (risos), com mais, não sei quantos mil habitantes ali, que a ambulância de lá não vem então. Entendeu? Luciana: Uhun. Ricardo: É, então assim, é um problema urbanístico tão grande, e eu vou até além. É, e já é da minha visão de operação de megaeventos e desses espaços. Tudo que é crônico, problema crônico na cidade, na hora do Mineirinho funcionar, do Mineirão funcionar, os problemas crônicos da cidade, viram agudos. Luciana: Uhun. Ricardo: E mais, e os problemas que a cidade ainda não tem, ela passa a ter. Eu quero falar é o seguinte, hoje até já tem, mais até 10 anos atrás, a 20 anos atrás, Belo Horizonte não tinha é, movimento punk, movimento, grupos organizados na cidade. com suas reivindicações e com suas é, hoje, pô, você vai embaixo do viaduto Santa Tereza, tem é street music, com basquete, com funk. Uma série de movimentos que foram se organizando e tal. Belo Horizonte não tinha isso. Você não tinha esse movimento, mas você já tinha torcida organizada. Você já tinha manifestação organizada de grupos que a cidade não tinha. E, o tratamento de segurança 345 disso, o que eu quero falar é o seguinte: Belo Horizonte, a cidade não tem transporte. Aí você vai querer que o Mineirão tenha? A cidade não tem saúde. Você vai querer que o Mineirão tenha? Luciana: É, mas a questão que eu quero dizer era outra. Ricardo: Mas lá não pode, o que eu quero falar é o seguinte, o Mineirinho ou o Mineirão, se os bares, se soltar, é, maionese estragada, não tem hospital em Belo Horizonte que atenda isso. Luciana: É. Ricardo: 400 pessoas com diarreia, guerra, é hospital de campanha, o que for. Luciana: Verdade. Ricardo: Então você não pode, aí na operação você não pode deixar isso acontecer Luciana: Uhun. Ricardo: Então na hora que você pega escala nutricionista pra fiscalizar o bar, fazendo comida, ou proíbe a comida ser feita no bar, você é criticado, ou porque está fazendo cabide de emprego pra nutricionista, ninguém vai ver quanto que ela está recebendo lá, que é uma miséria, né? Mas cabide de emprego. Ou que, entendendo? Mas é porque o problema é crônico, né? O problema é agudo, não é crônico. Você não pode deixar acontecer. Luciana: É, o que me chamou a atenção, é como assim, aí a medida que eu fui é, é, pesquisando nos documentos, você percebia uma, uma relação entre diferentes setores do né, tanto do Estado quanto da prefeitura, pra trazer é a urbanização pra região. E aí o quê que eu percebi? Como que esses 2 equipamentos contribuíram. Ricardo: Com certeza. Luciana: E não seria à toa. Porque como que você vai trazer a população pra eles Ricardo: Eu vou Luciana: Se você não tem estrada, se você não tem ônibus, né? Ricardo: Não, vamos à discussão do metrô. 346 Luciana: Então ele contribuiu para a urbanização da região Ricardo: Você não tem conhecimento disso, mas o metrô, né, essa linha 3 que viria aqui, Savassi-Viabrasil, ali, é, houve uma discussão muito grande de que o aeroporto queria que o metrô desviasse na Antônio Carlos, e fosse, passasse no aeroporto, o que é extremamente razoável. É, mistura de modais de transporte. Luciana: Uhun. Ricardo: E o Mineirão queria que o metrô desviasse, passasse por dentro da UFMG e passasse perto do Mineirão, que também viabiliza. Aquela estação de metrô perto do Independência ali, se ela fosse 1 quarteirão pra cá seria muito melhor (risos) Luciana: É. Ricardo: para o Independência. Viabiliza o Independência. Luciana: É. Ricardo: Esse espaço, hoje precisam disso. Luciana: Uhun. Ricardo: Né? Você vê hoje por exemplo, se você for falar a população nos jogos grandes do Mineirão aqui, a população fica uma arara, porque a porta dela vira um bar. Luciana: Uhun, sei. Ricardo: Os caras abrem o porta-malas, faz churrasco, urina ali, e tal. Luciana: É. Ricardo: Então, é Luciana: Os paradoxos, né? Ricardo: É, essa urbanização, pronta. Luciana: Tem quem goste, tem quem não goste, né? Ricardo: Né? É, é, tem uma outra coisa, uma discussão muito interessante também, é porque esses eventos hoje são geradores de emprego e renda. Então, a gente fica pensando no seu 347 filho vindo num show de rock, mas não pensa no pipoqueiro que vem lá pra porta vender esquina ali, que precisa desse evento Luciana: É Ricardo: Que o Estado quer ICMs do milho que ele está usando ali e tal, é, é, e é muita gente vivendo disso! Só que é informal. É pouco medido. Luciana: Uhun. Ricardo: Mas é muita gente! Luciana: Então você concorda que é, por exemplo, vamos dizer, o caso do Mineirinho. Que o fato do Mineirinho ter sido construído continuou esse processo que o Mineirão teve lá no começo de Ricardo: É, eu Luciana: transformar essa parte da urbanização? Ricardo: Eu acho que sim, tem essa importação como centro de negócio da coisa, sim. Luciana: Não, mas na urbanização? Ricardo: Não, eu não vejo, sinceramente, não vejo assim. Luciana: Então, assim porque Ricardo: Sabe porquê? Porque é, aí é uma outra visão que eu tenho é a seguinte: Belo Horizonte como capital, ela é muito pequena. Ela, anormalmente em relação às outras capitais, ela tem muito pouca área. Luciana: Uhun. Ricardo: Tanto é que na nossa industrial, não tem zona rural e hoje ela parou de crescer. Porque quem tem que crescer hoje é Contagem, Betim, é, Sabará. É a Grande BH, ela não tem mais espaço pra crescer. Luciana: Uhun. Ricardo: Se hoje um empreendimento de impacto na cidade se bobear você só tem a UFMG. Eu quero fazer um grande centro de convenções, um grande, não tem mais áreas. 348 Luciana: Mas a urbanização que eu estou falando é no sentido, por exemplo Ricardo: A população, sim Luciana: Das ruas, né° Ricardo: Sim. Mas, entendeu, eu vejo isso como um crescimento natural da cidade. Tanto é que passou daqui, foi pra Venda Nova, foi para a Cidade Administrativa, entendeu? Assim, é, é, a cidade não tem pra onde crescer e na época tinha pra onde crescer, pra cá. Luciana: Sim. Ricardo: Entendeu? Assim. e infelizmente na nossa urbanização, primeiro a cidade cresce e depois vem o serviço público (risos). Coloca o serviço público. E infelizmente a cidade cresce depois você vai por escola, depois você vai para o hospital, né? Infelizmente. Luciana: Sei. Ricardo: Porque a urbanização não era é Luciana: Eu falo porque Ricardo: Planejada. Luciana: O que eu vi nos documentos eu, é eu estou entendendo a sua resposta. Ricardo: Não, com certeza como referência Luciana: Vai eventualmente acontecer. Ricardo: O que eu quero eu custei a entender e hoje eu vejo isso é a questão do valor da marca, da precificação da marca. É, eu vou fazer uma feira de artesanato lá na Av. Silva Lobo, número 2230. Luciana: Uhun. Ricardo: Eu vou montar esse empreendimento lá, tem uma área grande lá. Encher de barracas de artesanato e vou lançar isso no mercado. Eu tenho que explicar para a população que eu estou na Av. Silva Lobo, dois mil e tanto. Que eu pra ir lá eu pego o ônibus tal, eu pego o taxi tal, onde é que é isso e tal, não sei o que. Na hora que eu estou fazendo uma feira de artesanato no Mineirinho, talvez o máximo que eu tenha que falar que é do lado do Mineirão. 349 Todo motorista de taxi, todo cidadão da cidade, em princípio, sabe chegar aqui. Nesse aspecto, como um fator de incentivar a urbanização, pode ter funcionado. Tô lançando um bairro próximo do Mineirão, chama referência geográfica. Talvez pra mim fosse melhor falar que é próximo da UFMG (risos), como referência, que o Mineirão no dia de jogo ele vai fazer barulho, no caso do Mineirão ainda balança a sua casa (risos), faz terremoto e tal. Não pode ser tão grande vantagem, como argumento de venda Luciana: Certo Ricardo: Vai falar que é UFMG pra mim já é um ponto de vantagem. Meu filho eu queria que ele estudasse ali, e tal, não sei o quê, entendeu? Então, é óbvio que o Mineirão trouxe serviço pra cá. O Mineirinho também. Planos de trânsito, mas em função dessa coisa, planos de segurança. É, a CEMIG tem que iluminar o Mineirão, “ah, pô, mas é 60 vezes por ano!”. Eu brinco lá o seguinte, elevador no Mineirão funcionou 60 vezes por ano, 4 horas por vez. Ele é mais novo que qualquer elevador de 1 prédio de 1 ano. Se o elevador no seu prédio não funcionou 1 ano, 24 horas por dia e 7 dias por semana. O Mineirão não, foi 60 vezes, 4 horas por vez. Luciana: Uhun. Ricardo: Ele não tá velho, ele tá obsoleto. Luciana: É. Ricardo: E novo! Luciana: Do ponto de vista de uso, né? Ricardo: Em uso, é, exatamente! Aí a CEMIG teve que colocar um mundo de energia aqui, pra acender um mundo de refletor, que só vai usar, 60 vezes por ano. Luciana: Uhun. Ricardo: Nos domingos. É, agora quartas e quintas à noite. Óbvio que essa energia colocada aqui, sobrou pra outros, entendeu? Assim, gerou facilidades. Luciana: Certo. Ricardo: Né? O Estado tem que melhorar transporte, custa pra usar, mas usa muito, né? Teve que estudar linhas de ônibus. 350 Luciana: Certo. Ricardo: Mas isso, isso assim, é recentemente eu vi isso, conversei antes com a cidade, com o Prefeito da cidade isso, a Arena do Jacaré em Sete Lagoas, entendeu? O futebol fechou o Mineirão e foi pra lá. Eu lá pra lá conversar com o prefeito “Olha, se você não tem problemas de, de ambulante na cidade, agora você vai ter problema com ambulante de Belo Horizonte que vai vir pra cá! E o fiscal dele, a regional dele não vem pra cá.” Luciana: Uhun. Ricardo: Entendeu? “E você vai ter que reforçar isso porque senão vai vender comida estragada pro cara que está ali dentro do estádio. Que depois vai embora, vai passar mal na estrada” (risos) Luciana: É. Ricardo: Entendeu? Isso é muito sério! Luciana: Uhun. Ricardo: Né? E é pouco percebido. Luciana: Uhun. É. É verdade, é verdade. É, uma última pergunta, da minha parte. Pode ser que você tenha mais alguma, alguma questão a dizer, né? Pra você, o Mineirinho, ele se auto sustenta? Ou ele dá prejuízo pro Estado? Ricardo: Tranquilamente, mesmo muito mau administrado, ele é absolutamente superavitário, certo? Hoje nós estamos com uma situação assim, é, a crise, a crise do Estado, é, não nos permitiu fazer alguns que eu não chamo nem de investimento, alguns custeios. Luciana: Certo. Ricardo: Então o problema do alojamento fechado, por exemplo, mesmo com a proposta, era alojamento, não era hotel, que a proposta dele era alojamento de baixo custo. Luciana: Uhun Ricardo: Certo? Eu brinco muito que eu trabalho com uma empresa do Estado que faz aquilo que o capitalismo não resolve: menino rico, o Soma vai dar aula, menino pobre, o Estado vai lá dá aula; é, gente rica, o Mater Dei cuida da saúde, pobre vai pro SUS, entendeu? É, estrada 351 boa, eu ponho pedágio ela se sustenta, estrada ruim vou eu fazer. Então eu trabalho pra uma empresa que trabalha naquilo que o capital, o capitalismo não resolve. Luciana: Uhun. Ricardo: Que é aquilo que não é viável economicamente. O grande problema do Mineirinho hoje, ele era para ser privatizado, assim como o Mineirão e tal. E interessante, futebol não se sustenta. As maiores fontes de receita do Mineirão eram Feira de Carro, era é, eram outras receitas, bar, esse tipo de coisa. O Mineirinho é um prédio superavitário! Só a Feira de Artesanato que tem aqui, recolhe mais do que o Mineirinho gasta. Luciana: Sim. Ricardo: E nem usa o Mineirinho, ela usa uma parte da área externa. Só o estacionamento aqui gera com eventos do Mineirão mais com os eventos do Mineirinho, e hoje, no park no business. Luciana: Uhun. Ricardo: Não tem estacionamento hoje, vira um problema! Parece, qualquer evento você for fazer pra Prefeitura, o problema é onde é que você vai parar o seu carro. Luciana: É. Ricardo: Né? Luciana: É, o transporte. Ricardo: E o transporte nosso, público, é, mal, mal aguenta o dia a dia. E na hora que precisa muito dele. Oh, famosos ônibus especiais. A gente sabe isso o ônus que é pra cidade Luciana: Uhun. Ricardo: E o problema que é assim, num evento desse, vamos falar jogo do Mineirão não. Fazendo, evento na Praça do Papa que hoje nem o Papa pode usar, né? É proibido, mas, né? Pela legislação acho que nem o Papa pode usar (risos). Mas, é, é, é um pepino pra cidade esse uso intenso momentâneo, vai quebrar um ônibus, vai sujar, vai isso e aquilo. E a cidade está preparada pra varrer a Afonso Pena, fazer a Afonso Pena muito suja, ferrou! Entendeu? Com, e é isso mesmo! 352 Luciana: Uhun. Ricardo: E mais, na minha visão do Estado, infelizmente todo mundo fala do lucro que esses megaeventos geram. E eu não vejo esses megaeventos existindo sem, no mínimo apoio do Estado, pra não falar patrocínio. Por quê? Porque mexe com a cidade toda! “Ah, o futebol é um evento privado!” Pô, que evento que é esse que eu marco a data, a Estação Diamante lá em, no Barreiro vai ter um pico de uso, vai ter briga de torcida, vai ter, o evento pode ser privado, mas ele tem interesse público. E o Estado tem que ficar esperto, tem que pôr polícia lá, entendeu? No domingo que ninguém quer trabalhar. Luciana: É. Ricardo: Que vê que o soldado vai fazer falta na segunda-feira, então, entendeu? Luciana: Uhun. Ricardo: É, que o agenciador de megaevento não tem esse tipo de coisa. Mas quem administra espaços feito o Mineirão, o Mineirinho, Expominas e tal, está lidando, eu brinco que o usuário, o cara que propõem eventos aqui é um megalomaníaco. Que o cara que chegou lá no Maracanã: eu vou fazer o maior espetáculo de rock do mundo, entendeu, é megalomaníaco. Luciana: Uhun. Ricardo: Se você não atende ele você matou o Rock´n´Rio. Entendeu? Você espera que esse megalomaníaco tenha uma estrutura empresarial por trás, que pensa que o cliente dele tem que comer, tem que chegar, tem que sair vivo, (risos) Luciana: É. Ricardo: Entendeu? Luciana: Tem uma estrutura. Ricardo: Aí já é uma estrutura Luciana: Uhun. Ricardo: Que tem que ser financiada. E é louco, e a gente vai vendo isso. Os países mais capitalistas do mundo você vai, “Ah, o é, final do Futebol Americano, nos Estados Unidos, altamente patrocinado, o evento mais capitalista do mundo o Estado está bancando feio! 353 Luciana: Uhun. Ricardo: Entendeu? Isso num país que tem tantas outras prioridades, né? Assim, pô, o Estado vai ficar patrocinando o Eike Batista trazer MMA? Entendeu? Mas esses megaeventos não acontecem se não tiver o apoio do Estado. E se o Estado falar não, então aí que é, é receita para o fracasso. Ou para problemas. Agora, eu acredito muito em energias e em dissipação de energias. Luciana: Uhun. Ricardo: Se você não der um monte de murro pro ar comemorando o gol lá no Mineirão, esses murros pode ser em outro lugar (risos). Luciana: É? (risos) Ricardo: Então (risos), eu acho que nesse aspecto o esporte é a grande, é, sacada! Eu não vejo hoje, por exemplo, uma série de problemas que o país tem, crônicos, que a participação do esporte pode ser a solução. Eu não vejo por exemplo, alfabetização, favela no Rio de Janeiro, se não entrar Vasco, Flamengo, Botafogo, numa, entendeu? Um terceiro ente que não é nem o Estado e é, essas marcas é, apaziguando e motivando aqueles meninos. Entendeu? Assim, é, é, tem que ter isso. E o esporte nessa hora, vou te falar. Luciana: É, o esporte tem o poder da sociabilidade. Ricardo: Eu não vejo o esporte sem estar apropriado pela Educação, entendeu? Aquele menino que não aprende matemática, é, é, vai ficar amigo do amiguinho que vai ensinar pra ele jogando futebol no pátio. Jogando Xadrez, Dama é, é, como ferrramenta de integração social, é impressionante. E não estou falando do esporte de alto rendimento, entendeu? Luciana: É, porque esse Ricardo: Porque esse pra mim é até ruim pra saúde. Luciana: É. Ricardo: Entendeu? Assim, falar que é bom para a saúde, não é não. Esporte de alto rendimento você vai, você vê atleta de alto rendimento mais velho você vê um ser andando com dores. Entendeu? Assim, com todo tipo de patologia, é? Mas. Luciana: É. 354 Ricardo: Ainda mais hoje. Luciana: É a tendência. Ricardo: Alto rendimento hoje Luciana: É a tendência mesmo. Ricardo: Mas pelo menos hoje, você já pode ter esse entendimento. Que você não tinha. Luciana: É. Ricardo: Vai falar pra um Luciana: Esporte era saúde, né? Ricardo: Nadador da década de 80, pra, “oh, cuidado, sua articulação”, pra um jogador de vôlei, “cuidado sua articulação você não vai ter isso.” Luciana: Nem tinha isso tudo disponível, né? Ricardo: E nem o cara treinava 10 mil saques. Luciana: É, é. Ricardo: Não, também, Luciana: É. Ricardo: pra ele ter excelência não precisava Luciana: O volume era muito elevado. Ricardo: Hoje você vê um treino da seleção de vôlei aqui no Mineirinho, a gente tem oportunidade de ver isso, cada jogador a gente brinca, que sai com 2 e 1/2 sacos de gelo. Porque, é, um sai com 2 e outro sai com 3. É um no ombro, um no joelho, um nas costas, depois de um treino! Luciana: É. Ricardo: Não pode fazer bem aquilo. Luciana: é. 355 Ricardo: A definição de atleta de alto nível é o seguinte: o cara que convive com dor e continua jogando. Luciana: É, verdade. Ricardo: Né? Então Luciana: Verdade. Ricardo: Então, até esse conceito de saúde é relativo hoje. Luciana: É, é, é isso mesmo. Bom, da minha parte, eram essas, essas Ricardo: Duas horas de conversa (risos) Luciana: (Risos) é, essas, é né? Essas questões aí. Da sua parte você tem mais alguma coisa que eu não perguntei? Ricardo: Não Luciana: Que eu não falei que você gostaria de dizer? Ricardo: Eu a, eu agradeço a, a escolha do tema, pra mim ele é muito relevante, pessoalmente, por uma série de questões, da minha história mesmo. Mas é porque é muito pouco, o esporte é muito pouco estudado e muito renegado. Principalmente a questão da história do esporte. Luciana: Uhun Ricardo: Entendeu? Assim, a gente vê a importância que tem pra quem praticou, é, é, e é um momento ligado a, a momentos felizes. Eu quero falar o seguinte, quando você pega atletas olhando as fotos de quando ele jogou, aquilo ali não remete a memórias ruins, mesmo em, em campanhas que ele foi derrotado. Luciana: Uhun. Ricardo: “Isso aqui foi na, é Jogos da Primavera lá em Poços de Caldas, fulano aqui casou com ciclano. Não sei o quê, não sei o quê”. Mas, normalmente remete a boas lembranças. Luciana: Certo. Ricardo: E se tem uma coisa boa para o ser humano é ter boas lembranças, né? 356 Luciana: É. Ricardo: Ter uma história que remeta a isso. Luciana: É. Ricardo: Não vejo, no esporte essa é, normalmente ele gera, na pior das hipóteses, boas lembranças Luciana: Ricardo, obrigada. Bom dia. Ricardo: Às ordens. Luciana: Qualquer questão, estou à disposição, tá? Ricardo: Bom, também. E você vê que alegria numa sexta-feira, meu telefone não tá tocando. Luciana: Oh, energia! RICARDO RASO (Depoimento- Parte 2, financeiro do Mineirinho) Entrevista realizada com o Sr. Ricardo Raso, Pampulha, Belo Horizonte Local: Casa do Sr. Afonso Celso Raso Data: 18/01/2019 Luciana: É, o Ricardo é como a gente fez entrevista anteriormente, eu terminei não te perguntando algo que eu acho que é muito importante, né, em relação a parte é, do financeiro do Mineirinho. Se na sua avaliação enquanto gestor, se ele dá prejuízo, se ele paga as próprias contas. Como é que funciona essa parte do financeiro? Ricardo: Olha, é o menininho é um prédio inacabado ainda. Então, é, tirando essa parte do investimento para termina-lo, é um prédio absolutamente autossustentável. Luciana: Sim. 357 Ricardo: Os recursos que ele gera, o exemplo que eu te dou, é, só a feira de artesanato que ocorre às quintas e domingos do lado de fora, só os recursos gerados ali já pagam todas as despesas primárias de manutenção do ano todo. Luciana: Sim. Ricardo: Então é um prédio que arrecada entre dois, dois milhões e meio ano, e custa entre 800 e 1 milhão/ano. Então é um prédio superavitário. Com poucos investimentos você ainda poderia aumentar muito essa receita. Por exemplo, uma reforma no hall principal transformando aquilo num centro de eventos, de festas, de pequenas exposições, você tem acréscimo de receita. Outras áreas lá que tem apelo comercial, o Mineirinho estrategicamente está localizado na Pampulha de frente à Igrejinha, então ele tem muito valor comercial, é, sobre esse aspecto. Luciana: Certo. Ricardo: Mas de qualquer forma, a gestão dele e vem sendo assim há muitos anos, foi quando estive à frente da ADEMG, é no sentido de ser um Robin Hood a favor do esporte. Ele tira do Roberto Carlos para que o esporte é, é, não tenha que pagar para jogar lá. Então, a já vem há muitos anos, isso é praticamente desde a sua inauguração. Luciana: Sim. Ricardo: Que o esporte tem privilégio no aspecto de é, primeiro não pagar taxa de locação, mas principalmente muitas vezes quando a autarquia que o administrava, e mesmo a Secretaria tem recursos, de promover o esporte lá. Então é uma casa que arrecada, eu volto a falar, tira do Circo de Soleil, dos shows internacionais para que o esporte é, é, aconteça lá com o mínimo de custo possível ou sem custo. Luciana: Tá, então daria para a gente afirmar que o Mineirinho praticamente desde a sua inauguração ele é um equipamento que não dá prejuízo para o Estado? Ricardo: É, ó, o prejuízo pro Estado, tem essa análise econômica é mais complicado. Luciana: Certo. Ricardo: Porque é, o Estado não tem lucro, ele tem superávit. Luciana: Certo, certo. 358 Ricardo: Então é um prédio superavitário, ponto. Nesse aspecto, sim. É, mas a gente, a, o questionamento que eu faço e que a gente deve fazer para ir à frente no uso do inventário, é porque eu acho que para o investimento que foi feito lá ele ainda traz muito pouco retorno. Luciana: Certo. Ricardo: Então é nesse aspecto que a gente teria que ter uma melhor gestão para arrecadar mais para poder investir mais no esporte. Luciana: Certo. Ricardo: A, a principal crítica que eu faço a, a situação lá é nesse aspecto: que é um crédito já teve muito investimento público lá e que teria que dar mais retorno. Luciana: Que ele tem essa possibilidade, né? Ricardo: Exatamente! Luciana: Tem esse Potencial. Ricardo: Tem esse potencial. Luciana: Certo. Ricardo: É, esse, talvez a grande frustação é esse potencial não realizado. Luciana: Sim. Ricardo: Mas em relação à política é muito mais também poderia fazer muito mais para o esporte, independente de, da questão dos recursos. Luciana: Sim. Ricardo: Mas o que a gente vê é que o Mineirinho é muito grande para o esporte. Na realidade, se esperava inicialmente, eu já te falei isso que ele funcionasse para o esporte especializado como o Mineirão funcionou para o futebol. Luciana: Sim. Ricardo: E isso não aconteceu até porque para ele ser utilizado, fica caro para as federações também. 359 Luciana: Sim Ricardo: Quero falar assim, lá temos sempre, tem muito esporte lá, se você for pegar a agenda ela é prioritariamente esportiva. Luciana: Uhun. Ricardo: Mas, a sociedade, a comunidade não fica percebendo isso, são esportes de menor divulgação e tal. Mas por exemplo Federação Mineira de Jiu-jitsu. Faz várias etapas de seu Campeonato Estadual lá, é Confederação Brasileiro faz no mínimo duas competições internacionais, um Open de Inverno, um Open de Verão,no Mineirinho, os Grace, lá. Luciana: Sei. Ricardo: Que no, naquele segmento esportivo tem uma repercussão, mas as pessoas não ficam sabendo. Luciana: Sei. Ricardo: A pouco tempo nós tivemos lá o Caveira Fitness, o, o, a campeonato fitness, extremamente bem montado, é tá na onda, né, é o esporte do momento, mas que no Mineirinho é, é, couve tranquilamente. É uma arena muito grande que comporta todo tipo de utilização Luciana: Sim. Ricardo: Mas, nesse aspecto poderia arrecadar mais para que o esporte ficasse mais, fosse mais financiado ainda. Luciana: Então em relação ao esporte se eu estou entendendo, tem é, modalidades, tem situações que vocês não cobram? Ricardo: Não, todas as situações a gente não cobra. Algumas Luciana: Mesmo em um campeonato brasileiro de voleibol? Ricardo: Principalmente esse. E, e olha só, por exemplo, bom exemplo esse. O voleibol, joga lá de graça e mais do que isso, é, é, ainda tem alguns patrocínios, tipo não cobrar água e luz, umas coisas dessas que te custa. Luciana: Sim. 360 Ricardo: Mas é, é, vou falar uma outra coisa mais importante do que isso. Você pra receber uma final de Superliga de Voleibol, você tem que reservar 4, no mínimo 4 datas, com 1 semana pra cada data pra treinamento, esse e tal, você reserva mais de 1 mês. Luciana: Sim. Ricardo: E pode ser que você tenha 1 ou 2 jogos. Que vai depender de times mineiros chegarem na final e você pode ter ou a primeira ou a segundo jogo, ou seja, você reserva 1 mês pra eventualmente ter 1 jogo só. Luciana: Certo. Ricardo: E como esse, essa reserva se dá com muita antecedência, você muitas vezes perde grandes eventos internacionais, ou grandes shows, ou situações de muito maior arrecadação, para dar tranquilidade e ter uma Superliga. Luciana: Sei. Ricardo: Entendeu? Luciana: Sei. Ricardo: Então até essa política de agendamento, é nós tivemos anos ruins em termos de arrecadação, foi o ano passado e retrasado, por uma razão muito simples, nós reservamos grandes é, períodos de tempo pra um campeonato de futsete que acabou não acontecendo, ele reservou praticamente 2 meses no ano passado. E aí, como é reservado com antecedência, as pessoas ligam: “eu quero trazer o Roberto Carlos”, está reservado pro esporte, tá reservado. Luciana: Ah, sim. Ricardo: Quando você pega grandes nacos de datas, você passa a ter esse tipo de dificuldade. Já confederações, não confederações menores, mas com, com competições mais locais, o que a gente faz é o seguinte, por exemplo, no início do ano a Federação de Jiu-jitsu é, reserva 6 datas ao longo do ano. Só que a gente só confirma a data 45 dias antes, ou seja, olha, nós estamos em janeiro, ó, a de fevereiro está ok. Mas a de junho que você pediu, por exemplo, vamos aguardar um pouco. Você vai ter uma data ali, mas se tiver um evento grande para aquela data, eu vou te ligar te pedindo pra ou antecipar 1 semana ou adiar 1 semana. Luciana: Sim. 361 Ricardo: É só pra não reservar essas datas de fim de semanas que podem ser é utilizadas pra arrecadar recursos, até pra que você continue utilizando gratuitamente. Luciana: Certo. Ricardo: Entendeu? Luciana: Uhun. Ricardo: Então, é, é a política que veio sendo utilizada no Mineirinho é essa. Num passado mais, lá no início, o Mineirinho tinha obrigação, inclusive, de promover campeonatos. Luciana: Uhun. Ricardo: Nós tínhamos Festival de Verão no Mineirinho, e tal, que a gente chamava os times, tinha um fim de semana livre lá. A gente inventava alguma coisa, chamava as pessoas, fazia a, a, a orientação na época era colocar o povo pra correr (risos). Luciana: Certo Ricardo: Colocar coisa Luciana: Sei, sei. Ricardo: Então, e aí você tinha vários parceiros. Às vezes você chamava as escolas ali perto. Vamos fazer porque o apelo dos, pros meninos irem jogar no Mineirinho era muito grande. Luciana: E as federações que estão alocadas lá elas pagam alguma taxa? Ricardo: Não. Na realidade existe uma tentativa de, elas já pagaram no passado uma taxa simbólica. Elas estão em situação irregular, que não foi regularizada, por isso não estão pagando. Luciana: Sim. Ricardo: Mas, existe uma tentativa nossa de não, não é questão de pagar taxa, é de ressarcir água e luz. Luciana: Ah, sim! Ricardo: Por uma questão é, é de operacional. 362 Luciana: Certo. Ricardo: De cunho operacional. Quando você não paga nem água nem luz, você não se preocupa nem em apagar e nem em avisar quando a descarga disparou (risos). Luciana: Sim. Ricardo: E a gente descobre às vezes que ficou uma descarga vazando água o fim de semana todo, porque a gente faz um acompanhamento de consumo de, semanal, né? Luciana: Sim. Ricardo: Toda segunda, toda sexta-feira você vai lá e mede o relógio e aí descobre que tem alguma coisa vazando. Vai ver, era dentro de uma sala de federação que num Luciana: Sim. Ricardo: Então, é, é, existe uma tentativa nossa, está tudo caminhando pra isso lá, para que caso as federações continuem lá, é que elas passassem a ressarcir água e luz, é, é, mais nesse aspecto que eu estava falando. Luciana: Certo. Ricardo: Né? Luciana: Certo, tá, então só lembrando, né, que a gente está gravando a continuidade Ricardo: Sim. Luciana: Que eu terminei não fazendo a pergunta. Ricardo: Perfeito! Luciana: E teve a sua concordância. Ricardo: E de novo eu falei demais você vai ter trabalho (risos). Luciana: Não, absolutamente (risos). Eu agradeço. Ricardo: É, bom. Transcrição finalizada. 363 364 Transcrição de Entrevista Pesquisa de Doutorado MINEIRINHO, DOS PLANOS AO CONCRETO: MEMÓRIA E HISTÓRIA DO PALÁCIO DOS ESPORTES (BH – MG) AFONSO CELSO RASO (Depoimento) Belo Horizonte 365 Entrevista realizada em 22 de agosto de 2018 Local: Residência do Sr. Afonso Celso Raso - Pampulha Gravação inicial – preparando para iniciar as perguntas do Roteiro de Entrevista. Afonso: é, (inaudível) para você o cálculo estrutural Luciana: ah, sim, ele que foi o responsável? Afonso: eu tinha uma lembrança dele. Luciana: ele foi responsável pelo cálculo? Afonso: Waldemar Santos Pereira. Luciana: que o Ricardo estava perguntando aquela hora o nome dele, né? Afonso: é. Luciana: sim. Afonso: essa revista agora é que está me Luciana: é? Afonso: começa a refrescar a memória né?! Luciana: é bom, né? Afonso: gozado, tem uma página aqui de cabeça para baixo, você chegou a ver? Luciana: de cabeça para baixo? Afonso: é. Luciana: não. Não me lembro não. Afonso: (risos) Luciana: não me lembro, não. Afonso: uma página aqui de cabeça para baixo, aqui. 366 Luciana: pode ser questão da impressão. Afonso: ah, aqui ó! Luciana: não me lembro de ter visto, é não me lembro de ter visto lá na outra não. Posso até observar. Afonso: é. Luciana: se tinha. Afonso: vou até dar uma olhada aqui, eu tenho outra aí. Eu tenho duas, eu vou dar uma olhada. Luciana: uhum. Afonso: aqui foi quando eu assumi. Luciana: aqui já, já liguei (avisando ao Edmar que já tinha ligado para começar a entrevista) Afonso: eu assumi aqui, ó. A obra tinha sido orçada em cerca de 30 milhões. Luciana: uhum. Afonso: aí deu um problema no cálculo, diferencial. Um negócio sério! Mas sério mesmo! Estava na fase de tubulação. É o tubulão tinha, era para ser, 2, 3, 5, 10 metros no máximo. Luciana: sim. Afonso: teve um tubulão que alcançou 23 metros. Luciana: é? Afonso: agora você imagina. Eu não sei, eu não tenho lembrança e ninguém nunca me contou, não. Mas eu tinha muito medo de alguém morrer num tubulão. Luciana: é, né? Afonso: porque na ponte rio-Niterói morreram vários, né? Aquilo é uma coisa estúpida, né? Entrar de cabeça para baixo lá naqueles tubulões. Luciana: nossa! É, então a gente pode começar? 367 Afonso: podemos. Começo da apresentação da pesquisa (para gravar a entrevista) e leitura do roteiro. Luciana: é, nós estamos aqui na casa do sr. Afonso Celso Raso, que com muita generosidade nos recebeu aqui. Edmar: Luciana. (apoio na gravação, me chama). Deixa eu. Luciana: não está filmando não? (pausa para verificar a situação) Afonso: é, como é que ele se chama, Luciana? Luciana: Edmar. Afonso: Edmar. Luciana: é, nós estamos aqui na casa do sr. Afonso Celso Raso, que com muita generosidade nos acolheu aqui, no dia de hoje, 22 de agosto de 2018. Para participar da entrevista, sobre o mineirinho, a parte da história oral que a gente está desenvolvendo, na pesquisa vinculada ao Programa de estudos de pós-graduação em Lazer, pesquisa de doutorado. E, já fizemos a leitura do termo de consentimento livre e esclarecido, né? O qual, é, teremos a assinatura. Os devidos esclarecimentos já foram realizados. E o sr. Afonso aceitou participar desse momento aqui da conversa conosco, né? É, eu vou ler aqui uma introdução do que é a pesquisa. Você está convidado a participar da pesquisa “Mineirinho, dos Planos ao Concreto: memória e história do Palácio dos Esportes, BH, Minas Gerais” desenvolvida por mim, luciana cirino, doutorando do programa de estudos em lazer, sob a orientação do prof. Doutor Elcio Loureiro Cornelsen, vinculado à Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG. Iniciaremos agora, com seu consentimento, que o sr. Já nos deu o consentimento, né, a realização da entrevista que será gravada e também está sendo filmada com o apoio do nosso voluntário da pesquisa, o Edmar Rocha. E posteriormente faremos a transcrição, que será devolvida para o senhor, para a conferência e a confirmação de dados, para posteriormente utilizarmos na escrita da tese. Primeiramente agradecer a acolhida. Todo o apoio que o senhor tem nos dado, inclusive em relação à disponibilidade de documentos. A gente está aqui nesse espaço com uma riqueza documental muito grande! O senhor já nos acolheu aqui nessa primeira hora e meia 368 apresentando, né. Conversando conosco. Então, agradecer a atenção que o senhor tem nos dedicado. E começar a nossa conversa aqui. O senhor poderia dizer o seu nome e a sua trajetória profissional e essa relação com o esporte e lazer. Afonso: olha, Luciana, para mim é um prazer muito grande! Eu considero essa minha assinatura aqui, um momento importantíssimo de minha vida. Porque eu me dediquei muito à construção do mineirinho e tenho uma participação muito efetiva no esporte mineiro. E eu notei ao longo dos anos uma lacuna muito grande de órgãos públicos, e privados também, em preservar a memória. É uma dificuldade muito grande. E eu vejo esse interesse da faculdade de educação física. Essa escola que foi criada, eu me lembro muito bem, com muito esforço, de dedicados professores, entre eles estavam o meu primo irmão, Sylvio Raso, e depois o Lincoln Raso, irmão dele, fizeram parte também da escola de Educação Física. Eu fico numa alegria muito grande! E quero dar a minha colaboração com o que for possível! Tenho muito material, está inteiramente à disposição sua e da escola. É uma pesquisa que eu reputo da maior importância. E que vou te falar está vindo com atraso. Luciana: (risos) Afonso: (risos), já deveria estar pronta a mais tempo. E tenho que cumprimentar também o professor dr. Elcio Loureiro Cornelsen, pela participação dele. Que vai mostrar a realidade de uma, vamos dizer, uma obra de grande vulto e da maior importância para a história do Mineirinho e que faz parte da história de Belo Horizonte. Luciana: sim. É, o senhor esteve à frente da diretoria de esportes no período da construção, né? Então o senhor tem uma história, uma trajetória vinculada ao esporte, né? Tanto como praticante, também próximo ao América enquanto dirigente. E na política pública de esporte de Minas Gerais o senhor também foi uma figura que marcou inclusive no período, de construção do Mineirinho. O senhor podia contar para a gente como é que foi essa trajetória, quando que o senhor entrou, como é que foi esse processo da construção. Qual a relação do senhor nesse processo de construção do Mineirinho? Afonso: é, a minha história no esporte é antiga, né? Eu tinha 7 anos quando o meu primo, professor Sylvio Raso que era técnico de natação e de voleibol, me levou para nadar no américa. Eu tinha 7 anos de idade e comecei a nadar. Eu tenho uma história esportiva curiosa, porque eu participei da seleção mineira de natação, infanto-juvenil, Minas Gerais era disparada no Brasil. Depois eu fui jogar futebol no américa e fui da seleção mineira de futebol 369 júnior, por 3 anos. Depois fui jogar futebol de salão. Fui da seleção mineira, jogando pelo Makenzie e depois pelo América. E, uma forma curiosa, eu joguei basquetebol também, fui da seleção mineira juvenil, vice-campeã brasileira de 1950. Luciana: uhum. Afonso: (risos) então eu devo ser das poucas figuras que participei de seleções de Minas Gerais, em 4 esportes diferentes. Luciana: verdade. Afonso: não é isso? Luciana: verdade. Afonso: pouca gente talvez tenha tido essa, essa glória, né? Eu me lembro do Fernando Pavan, no Morvan, Figueiredo que participava de várias seleções. Bem, na atividade privada eu fui presidente do américa algumas vezes. E fui presidente da associação mineira de cronistas esportivos. Quando na década de 70, eu era presidente da AMCE, e a obra do Mineirinho havia começado. Ela começou em 1973. E teve uma paralisação em 1975. E a crônica esportiva lamentava muito isso e se uniu, numa grande promoção para que a obra fosse reiniciada. E já assumindo o Governador Aureliano Chaves, ele realmente deu à AMCE a oportunidade de indicar nomes que poderiam assumir a ADEMG. Luciana: uhum. Afonso: que era a responsável pela construção do Mineirinho. E a escolha recaiu em meu. Nome. Luciana: sim. Afonso: então eu assumi a ADEMG no dia 8 de outubro de 1975. A obra do Mineirinho estava parada, na terraplanagem e o início dos tubulões. Era uma obra inicialmente contratada para ser feita por empreitada, e, custaria cerca de Cr$ 30 milhões de Cruzeiros, que era a moeda da época. Estava parada já se havia, mais de 30 milhões já haviam sido gastos. Luciana: um. Afonso: estava na 370 Luciana: tudo na terra, né? Afonso: jogado, jogado na terra, na terraplanagem Luciana: na base, lá. Afonso: quando eu assumi, então na primeira conversa com o Governador Aureliano Chaves, nós estabelecemos metas, que a obra parada é obra de prejuízo completo! Não se pode fazer isso. O poder público tem a obrigação de iniciar e concluir. E não deixar pela metade. E o Governador me determinou novos estudos, para que nós fizéssemos a obra por administração. E assim se fez. Luciana: uhun. Afonso: em 1977 ela foi reiniciada, no governo Aureliano. Teve sequência no governo do dr. Ozanan Coelho. E quando assumiu o governador Francelino Pereira, ele determinou uma dinâmica maior, já programando a inauguração, que se deu em 15 de março de 1980. Mineirinho estava com 91% das obras prontas e faltava ainda alguma coisa para ser concluída. Tipo a acústica, tipo a piscina olímpica que seria construída. Coisas que não influenciariam muito para o funcionamento do ginásio, já naquele ano de 1980. E precisamos de realçar que o ginásio tinha sido batizado Palácio dos Esportes, com previsão inicial para um público de 25.000 pessoas. Ele seria o maior ginásio coberto da américa latina. E ele foi projetado para ter todas as atividades esportivas, que era o sonho de todo o esportista mineiro. Quando a ADEMG fez o convênio com a universidade federal de Minas Gerais, para a utilização do terreno, a expectativa era de que o esporte especializado em Minas, ganhasse um impulso extraordinário. A exemplo do que o Mineirão significou para o futebol mineiro. Luciana: uhum Afonso: o Mineirão deu um impulso extraordinário ao futebol mineiro e o Mineirinho daria aos esportes especializados, que era o objetivo maior. Já o Mineirinho, por incrível que pareça, ele passou a ser de multiutilização. E ele além dos esportes especializados, e nós tivemos quebras de recordes de público desde da fundação, no futebol de salão, na ginástica olímpica, no voleibol. Públicos extraordinários que demonstravam a necessidade que o Mineirinho veio preencher no espaço em Minas Gerais e no Brasil. Depois começamos a ver a utilização do Mineirinho em outras atividades. Aí o Mineirinho passou a ser também o palco de cultura, de arte, e show também, de uma forma muito acentuada! Tivemos shows, e eu me 371 lembro que logo em seguida à inauguração, com jogos de basquete, de vôlei, de futebol de salão, nós tivemos shows. Edmar: a gravação foi parada aqui automaticamente (mencionando a gravação do vídeo) Luciana: é, mas quando for assim você pode, você pode seguir, parou você começa de novo, não precisa nem interferir, voltou aí? Edmar: voltei, porque eu tinha parado. Luciana: quando for assim, se ela parar você pode ativar de novo. Não tem problema. Afonso: nós tivemos a utilização para shows. E o primeiro show foi com Roberto Carlos, que superlotou o Mineirinho. Luciana: uhum. Afonso: ali nós tivemos um público aproximado de 30.000 pessoas. Luciana: sim. Afonso: e a explicação é que a parte da quadra foi utilizada também com cadeiras. Luciana: sim. Afonso: e, é, nós vimos a falta na parte acústica. Luciana: uhum. Afonso: que, que desejava, deixou muito a desejar. Mas, o show foi um espetáculo e outros shows foram acontecendo. Circo, circo nós tivemos aí quando Orlando Orfei, compareceu lá no Mineirinho na época que estava ainda em fase de obras e deu muitas sugestões para que o Mineirinho também servisse de palco para atividades circenses. Luciana: uhum. Afonso: e nós tivemos o cuidado de fazer isso também. Depois teve missa com público extraordinário. Cultos ecumênicos com público extraordinário. Formaturas das universidades, de escolas particulares. Festas de casamento. Então o Mineirinho passou a ser, dentro dele, um palco para mil utilidades. Luciana: sim. 372 Afonso: eu falava que era o bombril (risos), da época. Luciana: (risos) é. Afonso: era para mil utilidades mesmo. E já projetando que dentro dele funcionaria um hotel, funcionaria uma feira artesanal e funcionaria também é uma rede de restaurantes, para atrair o público o mais variado possível. E incrementando também o turismo. Luciana: isso, esse planejamento já era Afonso: já era Luciana: já era no projeto inicial? Afonso: projeto inicial. E eu tinha também em minha cabeça transformar o Mineirinho na sede de todas as federações especializadas. E enfrentei também na época uma, uma resistência também um pouco forte das federações que tinham sede no Centro de Belo Horizonte. Porque elas achavam que o Mineirinho era muito longe. Algumas federações vieram: judô, box, pugilismo, arco e flecha. Algumas federações, e também a diretoria de esportes passaram a se alojar no Mineirinho. Outras resistiram um pouco. E nós projetamos também a área externa, com construções para outras atividades, né, tiro ao alvo, ciclismo, campos de aquecimento, muita coisa na área externa. E fizemos um projeto bastante avançado para a época. Mas, infelizmente algumas obras no Brasil, quando muda a gestão, muda também a forma de administrar. Luciana: uhum. Afonso: e a pessoa, por personalismo, por vaidade, também por falta de espírito público, às vezes dá outra destinação, muda o rumo que foi traçado. E às vezes, para alcançar uma meta melhor, mas deixando de atingir os objetivos. E na minha modesta opinião o Mineirinho podia ser melhor utilizado. Luciana: sim. Afonso: melhor utilizado. Luciana: sim. Afonso: o Mineirinho pode ser tido como uma grande obra, acho que foi uma obra monumental para a época, monumental, necessária, compatível com os recursos da época. E 373 tenho absoluta convicção de quem idealizou o Mineirinho fez um benefício para a comunidade como um todo. Agora lamento que ele não tenha sido, ou não esteja sendo plenamente utilizado. Eu gostaria que ele fosse utilizado como se planejou. Luciana: sim. É, o senhor falou da, do envolvimento dos cronistas para essa retomada. Afonso: sim. Luciana: né? Porque ao que eu já identifiquei nos documentos, o senhor também tem conhecimento desse processo de construção. Inclusive menciona que ficou parado, é, começou em 70, a gente estava até conversando, né. Afonso: começou em 73. Luciana: é, 73 o senhor falou mas teve a parte de terraplenagem. Afonso: isso. Luciana: o projeto já no começo da década de 70. E a gente pode considerar esse desejo da construção do ginásio a partir do decreto de 59, que faz aquele vínculo, né, do Governo Federal com o governo do estado para a cessão do espaço Afonso: pode ser. Luciana: para a construção do Mineirão. Afonso: sim. Luciana: a parceria seria também a construção do CEU e posteriormente veio o ginásio. Porque no decreto menciona essas 3? Afonso: isso. Luciana: né? Afonso: isso. Luciana: o Mineirão, né? O estádio. Afonso: o CEU. Luciana: o estádio, o CEU. 374 Afonso: isso. Luciana: e o ginásio é, esportivo, que posteriormente veio a ser o Palácio dos Esportes e a gente tem hoje o Mineirinho, né? Afonso: é, é só rememorando. No Governo Israel Pinheiro houve estudo por parte da ADEMG para construir o Mineirinho. E houve a procura do espaço. Luciana: sim. Afonso: onde é que seria? Terreno do Atlético, terreno no Mangabeira? Terreno na Pampulha, e depois fixou-se ali. Aí houve o convênio com a Universidade Federal, em que o, a ADEMG construiria o CEU a troco da utilização do terreno onde se instalaria o Mineirinho. Isso no governo Rondon Pacheco, quando houve o início da construção, em 1973. Luciana: uhum. Afonso: e quando estava se fazendo a terraplanagem em um dos tubulões, houve, detectou-se uma falha séria, que multiplicava o custo da obra. E exigia também uma modificação muito grande no projeto. Isso foi, com essa paralisação dava pena ver o terreno lá, o canteiro de obras parado. E a crônica esportiva passou a cobrar do governo e da ADEMG, que na época era administrada pelo engenheiro Fernando Nunes de Lima, o andamento da construção. E o governo alegava que não tinha recursos. Luciana: sim. Afonso: aquela história que a gente sempre fica ouvindo, de passar um governo para outro. Luciana: sim. Afonso: até que a crônica bateu de cima e o Governador Aureliano Chaves ficou sensibilizado com aquela situação e chamou os cronistas na responsabilidade. E falou de uma forma muito interessante, eu me lembro: “- vocês estão criticando muito, é hora de se fazer. Então vocês me indiquem pessoas que vocês acham que teriam condições de administrar a ADEMG, para que nós possamos dar andamento a essas obras”. E a ADEMG, então os cronistas se reuniram. Fizeram uma lista sêxtupla, incluindo também cronistas. Luciana: sim. 375 Afonso: com pessoas do mais alto gabarito, eu me lembro do próprio Gil César Moreira de abreu, que é o grande construtor do Mineirão. E aqui eu abro um parêntese “é a figura mais extraordinária da construção de Praças de Esportes em Minas e no Brasil. O Gil César merecia uma estátua no Mineirão, e quando se, mais para frente você vai me perguntar sobre um nome. Um nome que se ventilava era de colocar o Gibuzão. Que ele tinha apelido de Gibu. Luciana: é? Afonso: era uma homenagem que se faria ao Gil, um engenheiro fantástico da Diretoria de Esportes, e que um dinamismo excepcional”. Fecho parêntese, mas fazendo uma homenagem ao Gil. Então o Governador examinando os nomes acabou por me nomear. Luciana: sim. Afonso: e me deu a diretriz depois de uma sabatina, pesada. Eu devo ter ficado conversando com o governador a respeito de Mineirão e Mineirinho, eu modéstia à parte, conhecia bastante, porque as reuniões do conselho que comandava o Mineirão com o Gil César, eram na redação do o diário, com o Zé Flávio dias vieira de saudosa memória, e eu estava sempre perto, porque trabalhava naquele jornal. Luciana: sim. Afonso: e eu acompanhava as idas e vindas do Mineirão, que também sofreu idas e vindas. Época de crise violenta no Brasil, mudança de regime Luciana: sim. Afonso: o Governo João Goulart, aquela coisa toda, e o Mineirão foi um marco. Mas também estava sofrendo paralisações. E depois veio o Mineirinho. Então depois disso eu assumi, passamos a obra para o regime de administração e tocamos aquilo. Fizemos algumas modificações no projeto, para baratear a construção. Coisas incríveis, que ele tinha por exemplo, rai ban Luciana: sim. Afonso: em volta dele, que era uma coisa linda, linda, linda! Mas um custo enorme. Luciana: muito caro, né? 376 Afonso: faraônica! Fizemos aquela parte toda de cimento, que é à vista, né, muito bacana. A parte de iluminação que era quase que de dia, também sofreu modificações. Ficou ótima! Mas com uma economia brutal. Economia de elevadores que eram 24 elevadores, houve uma redução disso. Passarelas, que eram 18 passarelas, houve uma redução dessas passarelas. Então nós trouxemos a construção do Mineirinho à realidade financeira do estado. Luciana: então o senhor acha que essa questão de um projeto inadequado é que fez também a parada? O que o senhor acha que ocasionou essa primeira parada? Afonso: é, também, né? Porque o custo era, imprevisível. Por obra de administração aquilo ia ficar, um preço (risos), vou usar uma expressão “de quebrar o estado”. Luciana: sim. Afonso: o estado não é quebrável, não. Mas ia ficar num preço absurdo! E a construção barateando do jeito e dentro da realidade e sem prejuízo da obra, porque os novos arquitetos que vieram com nova visão, eles mantiveram o projeto original, que era do, eu me lembro, do Francisco Abel, figura espetacular! Depois veio o Richard Lima, uma figura espetacular também! Eles se deram bem em matéria de adaptar-se à situação. Luciana: uhun. Afonso: e se tornou possível a realização da obra num custo que o estado aguentou pagar sem deixar dívidas. Luciana: uhun. Afonso: e o estado completou a obra na minha administração, com a inauguração no dia 15 de março de 1980, no Governo Francelino Pereira. Luciana: uhun. Afonso: uma dívida. E aí nós tivemos uma, uma mini tragédia em seguida, que foi um temporal que caiu em Belo Horizonte. Uma coisa estúpida! E a água chegou a descer pelos portões lá de cima do Mineirão e deu um susto danado na gente. Luciana: é? Afonso: que foi descendo até chegar quase na quadra, né? E foi um teste espetacular para ser corrigido a tempo, né? 377 Luciana: un Afonso: e o Mineirinho tem histórias fantásticas, que eu me lembro do trabalho de que que é a engenharia. Que que é o esforço do operário, a inteligência do brasileiro, a solução para casos e mais casos que surgiam. A cada dia tinha um problema novo para ser enfrentado. E a equipe que participou da construção do Mineirinho era uma equipe fantástica! Eu posso dizer que, tive muita sorte na escolha dos meus auxiliares. Mas eu encontrei pessoas maravilhosas lá. E eu elogio a Diretoria de Esportes. Luciana: sim. Afonso: que teve o pessoal. E a ADEMG o pessoal voltado para essa construção. Era pouca gente, pouca gente mesmo, mas com uma dedicação extraordinária! A gente tem que dar um voto de aplauso e de louvor às equipes, aos funcionários, desde o mais humilde ao mais graduado, porque cada um teve uma participação muito efetiva. Cada um levou um tijolinho para a grande obra que foi o Palácio dos Esportes. Luciana: sim. É, o senhor mencionou o, o engajamento, o empenho dos cronistas esportivos, é grupo ao qual o senhor estava vinculado, para essa retomada da obra. Além desse grupo o senhor percebia outras, outros grupos ou, é liderança política que tinha interesse, que demonstrava interesse para a construção do Mineirinho? Afonso: sim. Sim, é eu tenho até que fazer uma pausa para que na equipe da ADEMG havia pessoas ligadas também à AMCE, associação mineira de cronistas esportivos. Na minha equipe tinha o Erasmo Ângelo, o Zé Flávio Dias Vieira, Hegler Brant Aleixo Luciana: uhun. Afonso: o Zé (José, inserção minha, posterior à transcrição, informação obtida em conversa com o sr. Afonso raso) Flávio Dias Vieira, o Ronan Ramos de Oliveira, Januário Carneiro, Fernando Sasso, que eram pessoas de presença constante na AMCE. Luciana: sim. Afonso: e que me deram suporte muito grande. Depois o Dirceu Pereira, a Rádio Itatiaia com o Osvaldo Faria, o Estado de Minas com o Hélio Fraga, o Roberto Drummond. Quer dizer, nomes que me vem à memória assim e que participavam da ativa, Benedito (Adami, inserção minha, posterior à transcrição, informação obtida em conversa com o sr. Afonso Raso) de 378 Carvalho. Participavam ativamente da, da administração da AMCE e que eram, aliás grandes nomes, né? Cronistas esportivos a eles eram ligados. Luciana: uhun. Afonso: da área. E com, com alguma atividade diuturna no Mineirão. E acompanharam a obra do Mineirinho. Eles tiveram uma participação realmente muito efetiva. Com críticas construtivas e também diuturno. Luciana: sim. Afonso: eles eram também cáusticos em algumas críticas, em falhas que eles encontravam e ajudavam a gente a encontrar soluções. Que essa é que é a grande virtude que eu vejo na crônica esportiva daquela época. Luciana: sim. Afonso: eles apontavam os erros, mas também apontavam sugestões. Isso facilitava muito porque a gente tinha um diálogo muito próximo e conseguimos então o apoio da imprensa. Uma ou outra divergência, mas um apoio muito grande da imprensa apoiando a obra, vendo a necessidade dela. E a seriedade que foi introduzida, que o governo Aureliano pediu uma seriedade absoluta. O Governo Francelino é um governo que foi menor tempo do doutor Ozanan Coelho. E modéstia à parte, a minha também, porque eu posso falar com a maior tranquilidade que eu sou um homem de mão limpa. Então eu administrei o Mineirão com muito rigor e a obra do Mineirinho com muito rigor, com muita, muita vontade de acertar. E evitando ao máximo qualquer desvio. Luciana: sim. Afonso: eu evitando mesmo! E eu estava presente, e aí eu transfiro isso para toda minha equipe. Presença diária de 24 horas. Luciana: sei. Afonso: nós trabalhávamos 24h por dia, em rodízio, na época, principalmente na época mais dinâmica da obra. Luciana: sim. É, o senhor mencionou a questão de algumas divergências. Que tipo de divergências eram essas? 379 Afonso: tinha muita gente que achava que o Mineirinho era muito grande, para a cidade e para o estado. Que era muito mais importante fazer obras menores, espalhadas pelo estado. E, Luciana: mas pessoas ligadas ao universo esportivo? Afonso: também, também. Tinha, houve debates nesse sentido e a gente até chegou a mencionar a construção da ponte Rio-Niterói, era na época, tida como faraônica. Que era muito importante também fazer pontes e pinguelas pelo Brasil inteiro. Mas sem descuidar que a ponte Rio-Niterói também era um marco para a época, né? Luciana: uhun. Afonso: e o Mineirinho, eu pensava da mesma forma, precisamos de ginásios pequenos? Precisamos de quadras cobertas? Precisamos de quadras? Precisamos de campos de várzea? Precisamos sim. Quanto mais, melhor! Mas o Mineirinho era indispensável! Como é até hoje! Eu digo que lamento que ele não seja utilizado em sua plenitude. Luciana: uhun. Afonso: mas é de uma importância capital para o esporte em Minas. Luciana: sim. É. Afonso: não só o esporte, né? Para cultura. Luciana: verdade. Afonso: a arte Luciana: verdade, verdade. É, o senhor estava, o senhor mencionou que tinha o desejo né, que ao longo do processo de construção, e tal, teve esse desejo de reunir as federações. Afonso: todas elas lá. Luciana: lá no Mineirinho. Afonso: sim. Luciana: né? E que no momento pós inauguração algumas foram e outras Afonso: (palavra inaudível) 380 Luciana: resistiram, né? Alegando que a Pampulha, que a localidade do Mineirinho. Afonso: estava muito longe. Luciana: estava longe do centro, né? Além disso tinha outra, outra justificativa, para essa Afonso: sim. Eu queria fazer escolinhas, escolinhas para ter atividade no Mineirinho o dia inteiro! Aí em convênio com as escolas de Educação Física e com as federações então nós teríamos escolinhas de vôlei, escolinhas de judô, escolinha de basquete, escolinha de futebol de salão, com revezamento para utilizar o espaço, um espaço maravilhoso daquele, com as construções que eu planejava para o lado de fora, nós íamos ter atividade no Mineirinho o dia inteiro! Luciana: sim. Afonso: então isso é que era o meu sonho e que espero que alguém possa detalhar isso e fazer. Por exemplo, eu estou sabendo agora da, não sei a época que você vai publicar o seu trabalho, mas de se fazer uma feira permanente no Mineirinho. Luciana: uhun. Afonso: isso eu pensava, já no nível 7, naquela época. Tinha a feira permanente de amostras, que era lá onde é a rodoviária hoje. Quando o Governo Israel Pinheiro pensou em fazer a rodoviária ali, eu fui um dos primeiros a combater. Falei: _ aquilo não é lugar para rodoviária! Do lado de fora, do lado dela, o rio arrudas, linha férrea. Dois entraves para qualquer rodoviária, né? O trânsito em Belo Horizonte é caótico, isso lá naquela época! Luciana: sei. Afonso: que hoje então, nem se fala. E era a feira permanente de amostras, que funcionava ali, eu tinha o sonho de trazer para cá, para o Mineirinho. Luciana: uhun. Afonso: que ia ser uma parte turística espetacular! Né? Luciana: é. Afonso: mas infelizmente não consegui realizar esse sonho. 381 Luciana: é, no começo eu estava lendo alguns documentos, a gente percebe assim, que em 1980 teve uma dinâmica muito grande de uso, shows, né? Afonso: um. Luciana: e dali para frente é igual, tinha um desejo, tinha um plano que era um espaço para o esporte, um espaço para a cultura, para artesanato, é, um espaço próximo à Pampulha que teria o seu impacto positivo no turismo também, né, eu imagino. Afonso: é, o projeto arquitetônico da Pampulha que é patrimônio mundial, né? Luciana: é. Afonso: é mundial, né? Luciana: é. E, assim, o senhor pensa enquanto, também enquanto gestor, né, o que fez com que essas intenções não fossem colocadas em prática? Afonso: ah, eu vou usar uma expressão muito brasileira, ele vai assustar aqui (risos). Para mim é burrice! Luciana: (risos) é burrice? Afonso: burrice. Quando um homem público não dá sequência às obras por vaidade, por falta de dinheiro, por ter outras visões, sabe. Mas tem horas que acho que falta um pouquinho de inteligência, sabe? Luciana: é? Afonso: acho que sim. Lamento dizer isso, mas é um sentimento que eu guardo, sabe? Luciana: sim. Afonso: porque era para ter uma sequência e, não faço nenhuma crítica aos que vieram depois, porque cada um teve a sua dificuldade. Luciana: sim. Afonso: eu sei o que que é administrar um órgão público, principalmente em fase deficitária. É, os orçamentos pequenos, e etc. Eu dei sorte do Mineirão viver com recursos próprios e dei sorte de ter um Governador que apoiava as iniciativas. Agora, outros não tiveram a mesma 382 sorte, de administrador que tinha outra visão, outro tipo de visão. E tipo de visão às vezes muito melhor do que a minha, não vou discutir. Mas, no meu modesto entendimento, eu gostaria que a minha projeção para o Mineirinho tivesse alcançado maior, maior efetividade. Luciana: sim. O senhor falou das alterações que teve no projeto, quando teve o primeiro esboço, né? Afonso: sim. Luciana: e depois quando vocês assumem a retomada da construção, tiveram algumas mudanças como o senhor mencionou a questão do Afonso: sempre visando Luciana: do espelho, né? Dos vidros. Afonso: diminuir o custo. Luciana: isso, visando, diminuir os custos. Agora Afonso: sempre, sem prejudicar a utilidade dele. Luciana: sim. Ou seja, do ponto de vista estrutural, o que foi pensado inicialmente permaneceu? Afonso: permaneceu. Luciana: e também a questão dos andares? Afonso: só, tudo. Luciana: tudo, não teve mudança? Afonso: não. Luciana: do inicial para o que foi colocado em prática? Afonso: não, não. Luciana: mudou mais alguns elementos que, questão da luminosidade que o senhor falou, questão dos vidros, né? 383 Afonso: dos elevadores, das passarelas. Tudo isso sofreu, vamos dizer assim, diminuição sem prejuízo da utilidade. Luciana: é? O senhor fala elevador, inclusive elevador lá, o senhor falou do mercado que estava em vias de Afonso: isso. Luciana: de ser Afonso: os elevadores, seriam muito úteis. Luciana: implementado. Afonso: para isso. Luciana: eu observei desse tempo que eu acompanho, já tem 3 anos que eu tenho ido ao Mineirinho, não é toda semana, mas eu costumo ir. Elevador lá, eu não vejo normalmente em funcionamento. Agora eles estavam reativando também pensando nessa inauguração do, do Afonso: artesanato. Luciana: é. Mas o Ricardo que me acompanha, que é o funcionário lá, ele falou que já teve época que funcionou, né? Afonso: funcionava. Os elevadores que tinham, que havia, eles funcionavam normalmente. Agora, não no número projetado inicialmente. Era um número muito maior. Luciana: quando foi entregue tinha uma Afonso: tinha 4 elevadores funcionando. Luciana: ah, e o senhor se lembra de quantos que era é, Afonso: acho que eram 24, eu não vou chutar Luciana: era 24, foram entregues Afonso: foram entregues 4. Luciana: tá, não foi no caso, o elevador não foram todos entregues dentro do projeto? Afonso: é, eu não me lembro o número certo, eu não me lembro. Acredito que foram 384 Luciana: foram entregues, mas não todos, né? Afonso: é. Todos não, um quarto deles. Luciana: a piscina também, né? Afonso: é. Luciana: é, tem lá um espaço que hoje o pessoal utiliza como um, um arqui Afonso: almoxarifado. Luciana: almoxarifado, isso. Almoxarifado. Então fica lá, prateleiras, alguns materiais, eu vi. Ele também não foi, não, a piscina não Afonso: não foi implementada. Luciana: por que, por exemplo, a piscina não foi construída? Afonso: preço. Luciana: preço? Afonso: na época preço. Luciana: ah, não tinha condições de construir, Afonso: não tinha como. Luciana: problema de licitação, o que que era? Afonso: não tinha, não tinha dinheiro para isso. Luciana: ah, porque não tinha dinheiro? Tá. O hotel, que agora está desativado. Afonso: é outro absurdo, desativar. O que esse hotel foi de útil para delegações esportivas, delegações estudantis, turistas de menor porte, bom, fantástico! Luciana: sim. Afonso: e isso que me entristece, entendeu? Luciana: sim. 385 Afonso: é que o descaso do poder público, com uma obra desse porte, que poderia estar prestando tanto serviço à população! Luciana: o hotel começou a funcionar quando, foi na gestão do senhor? Afonso: na minha gestão Luciana: ah, sim. Afonso: na minha gestão. Luciana: e a ideia do hotel era atender a qual público? Afonso: não, adequar mais às, às delegações esportivas e estudantis. Luciana: certo. Afonso: porque a parte de estudante que vem, para congressos, principalmente, eles têm dificuldade de alojamento. E o Mineirinho servia muito para isso. Luciana: sei. Afonso: porque é um preço muito mais barato, com condições muito, muito, favoráveis, né? E a manutenção dele era uma manutenção realmente, pequena. Luciana: sei. Afonso: de custo muito pequeno. Então eu, quando eu chego lá hoje, me dá uma tristeza. Placar eletrônico tem que alugar. Ah, meu deus! Eu não gosto nem de falar. Luciana: é, e ele parou de funcionar em 2010, né? O caso do hotel. Afonso: o hotel? Luciana: por causa desse processo, pelo menos o Ricardo lá, ele me falou que funcionava até pouco tempo. Mas com essa reforma que teve do Mineirão para a copa, em 2010 eles fecharam e serviu de alojamento para os trabalhadores que estavam trabalhando. Afonso: estavam trabalhando Luciana: na obra do Mineirão. Nessa reforma. 386 Afonso: eu faço essas críticas, você vê que eu faço de uma forma geral, porque eu sei a dificuldade que um administrador tem, quando ele não tem o apoio dos chefões. Dos homens que comandam o estado. A secretaria de fazenda, a secretaria de planejamento, o próprio governador, a casa civil. Se você não tiver entrosamento com eles, você tem dificuldade. Eu estou fazendo isso porque, eu tive o meu filho, foi um dos que, teve uma época dirigindo o Mineirinho e a ADEMG. Porque ele participou como estagiário da obra e conhece o Mineirinho muito melhor do que eu. Porque ele participou daquilo ativamente. Eu vejo a tristeza dele, de chegar aqui e falar: “_ o pai, vontade de fazer isso, não tem verba. Vontade de fazer isso, não posso. Vontade de fazer isso, deixa para amanhã. Vontade de fazer isso, ah, agora não, é impossível.”. Eu vejo a tristeza dele, de comungar com as minhas ideias e não ter condição de realizar. Luciana: sim. Afonso: isso, com outros administradores, deve ter acontecido o mesmo. Luciana: uhun. Afonso: o Mineirão passou por vários administradores depois de mim. Eu e o Gil César tivemos duas vantagens: longevidade no cargo, nós ficamos muitos anos. Eu fiquei 7 anos. O Gil deve ter ficado uns 6 anos. E apoio irrestrito e a confiança irrestrita do governador. Eu despachava com o Governador, eu me lembro disso. A confiança que ele tinha em mim, ele assinava antes de ler. O Governador, eu queria, “_ deixa eu assinar.” Luciana: (risos) Afonso: a confiança é que me obrigava a ser mais leal ainda do que a gente tem a obrigação de ser. Luciana: sim. Afonso: isso eu guardo com um carinho muito grande. Todos 3 já estão em, outro nível, espero que estejam gozando as delícias do paraíso. Tanto o Governador Aureliano chaves, que eu tive um melhor contato com Ozanan Coelho e Francelino. Luciana: sim. Afonso: eu cheguei a esboçar o anteprojeto, a legislação esportiva brasileira que ele teve é muita coisa de novidade na época. O Governador Ozanan Coelho, que é um atleticano doente 387 que participava, assistia a todos os jogos no Mineirão, assistindo de cadeira cativa. Ele não ia para a tribuna. Torcedor, comum mesmo. E o Governador Francelino, que me deu todo o apoio na fase final, né? Luciana: uhun. Afonso: e teve a honra de presidir a inauguração. Luciana: uhun. Afonso: quando eu falo em continuidade administrativa, eu posso falar de cátedra. Porque foi, na inauguração do Mineirinho, nós fizemos questão de colocar lado a lado o ex-governador Rondon Pacheco, que foi, que iniciou a obra. O ex-governador, Aureliano Chaves, o ex- governador, Ozanan Coelho e o Governador da época, Francelino. Os 4 estavam lá. E a foto, na frente do Mineirinho, no dia da inauguração demonstra que tendo continuidade administrativa a obra sai Luciana: sim. Afonso: não tendo. Luciana: é, agora o senhor mencionou que inicialmente foi previsto 30 milhões, né? Afonso: isso Luciana: para aquela primeira Afonso: a obra que daria 30 milhões. Luciana: é, mas com 30 milhões a obra ficou Afonso: na fundação. Luciana: só na fundação, né? Afonso: isso. Luciana: e aí a gente entra na questão do recurso. Esses 30 milhões foi previsto inicialmente pelo governo, para ter essa construção, né? Afonso: certo. 388 Luciana: e como é que foi depois esse recurso para a retomada? Porque olhando nos documentos, eu percebo que, é mais para o final [seria no início, segundo alteração realizada por Afonso Raso após conferir a transcrição] da década de 70, o dinheiro estava acabando, a obra estava caminhando, precisando de finalizar e me parece, a sensação que me dava é que o dinheiro acabando, a obra seguindo Afonso: e a gente segurando Luciana: e como é que era essa questão, né? Afonso: é o que eu te falei da piscina, por exemplo. Não se fez, porque o dinheiro estava escasso. Mas todo o compromisso da ADEMG foi cumprido. Luciana: uhum. Afonso: a secretaria da fazenda e do planejamento, as duas secretarias me deram total apoio. E o Governador, nem se fala, né? Luciana: sim. Afonso: então, nós tínhamos dificuldade financeira, que o estado já tinha. Mas, dentro de uma política de economia severa, de gasto, só mesmo o que era absolutamente necessário, nós conseguimos levar a obra a contento. Luciana: sim Afonso: não vou falar 100%, mas vamos dizer 90%. Luciana: sim. Afonso: e o que ficou faltando, realmente quem veio depois de mim não teve a mesma sorte que eu tive de conseguir recursos para realizar sonhos também, como eu tinha e não pode realizar todos. Luciana: e o senhor atribui essa, né, igual está falando, não teve a sorte, essa sorte o senhor atribui à relação com, mais Afonso: relação pessoal Luciana: pessoal. 389 Afonso: relação de lealdade, relação de mútua confiança, mútuo respeito. Luciana: sim. Afonso: isso é que sensação também de responsabilidade, né? Luciana: sim. Afonso: que a gente sempre teve muita responsabilidade. E aquela de respeitar para ser respeitado. Luciana: sim. Afonso: eu tenho, falo isso com uma alegria, não tenho lembrança do governador: “_ coloca esse fulano de tal, põem fulano de tal, nomeia fulano tal”. Claro que teve nomeações que eu falava com ele: “_estou precisando de um engenheiro e tal. É, indicações são essas”. Ele: “_não, opto por esse, opto por aquele.” Que o Governador, ele é quem manda, né? Luciana: sei. Afonso: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mas a minha grande sorte é que eles me ouviam. Luciana: uhum. Afonso: houve muitas decisões de governo em que os políticos queriam uma coisa e eu queria outra. Eu nunca tive vinculação política com ninguém, literalmente desamarrado. Né? Luciana: sei. Afonso: então essa talvez tenha sido uma, uma vantagem para mim. Luciana: sim. Afonso: eu não tinha rabo preso com partido nenhum. Então eu tinha liberdade para falar com o governador: “_o Governador, não faz isso não, porque não é o mais indicado. Eu se fosse o senhor, eu optaria por outra solução. Essa, ou aquela e tal”. Eu dava sugestões. Luciana: sim. Afonso: e, felizmente, a grande maioria era acatada. 390 Luciana: sei. É, eu vi, eu vi. Afonso: de todas, Luciana: sim. Afonso: que tinha coisas que o interesse do governo era outro e eu tinha que acatar, Luciana: ah. Afonso: né? Luciana: certo. Nem sempre era o que o senhor. Afonso: nem sempre era o que eu queria. Luciana: certo. Afonso: né? Luciana: é, tinha aquele equilíbrio? Afonso: é, o equilíbrio. Exatamente! Luciana: equilíbrio de forças e expectativas, né? Afonso: mas eu nunca precisei Luciana: e às vezes tem um desequilíbrio também, né? Afonso: eu nunca precisei de falar, de dar tapa na mesa, né? (risos) Luciana: (risos) certo. É, a Diretoria de Esportes, é órgão do estado, que o senhor era o representante, né? E era o gestor. Afonso: eu fiquei muito pouco tempo na Diretoria de Esportes. Eu fiquei na ADEMG 7 anos. Na Diretoria de Esportes eu fiquei 9 meses. Luciana: sim. Afonso: então eu praticamente passei batido na Diretoria de Esportes. Era final de mandato de governo. E final de mandato de governo que perde, você sabe, né? Luciana: sei. 391 Afonso: é terrível? Luciana: sei. Afonso: terrível! Luciana: sei. Afonso: você fica amarrado de todo jeito. Luciana: certo. E o senhor ficou Afonso: foi o que aconteceu comigo. Foi no final do Governo Francelino, né? Luciana: sei. Afonso: ele perdeu a eleição e quem veio, veio com outras ideias, né? Luciana: uhum. Afonso: agora, é bom deixar bem claro isso, minha homenagem ao pessoal que trabalhava na Diretoria de Esportes, quando eu assumi e na minha época. Foi ali que teve o embrião da Secretaria de Esportes. Foi na Diretoria de Esportes. Nós quisemos transformar a diretoria de esportes em Secretaria de Esportes. Luciana: sei. Afonso: e fizemos o projeto lá. Luciana: sei. Afonso: e o projeto que o governo que veio, o Governo Tancredo transformou em realidade. Luciana: certo. Afonso: foi o primeiro ato do Governo Tancredo foi criar a secretaria de esportes. O embrião foi na diretoria de esportes. Luciana: sei. É, porque tinha o planejamento, tinha todo esse desejo do estado em criar o ginásio. Mas a execução, tinha uma empresa, inclusive, de engenharia que esteve à frente, né? O senhor saberia me dizer, não necessariamente com números precisos. Mas quantos 392 trabalhadores estiveram envolvidos nesse processo, desde que o senhor esteve acompanhando, nesse processo de construção? Afonso: olha, é (risos), a gente fica puxando a sardinha para a brasa da gente, né? Mas a, o staff Mineirão-Mineirinho era pequeno, mas pequeno mesmo! Era muito pouca gente. Eu me lembro quando alguns políticos começavam a querer transformar, o diretor geral seria presidente com 5 diretorias. Aí vinham 10 departamentos. E não sei o quê, não sei o quê. O governador me chamou lá, para discutir o assunto, eu falei com ele: “_ governador, eu dispenso os 5 diretores. Eu dispenso os 10 departamentos. Eu dispenso tudo isso!”. Luciana: uhum. Afonso: fico lá com diretor mesmo, sozinho. Com meu chefe de gabinete. Eu pediria ao senhor é mais pessoa para cuidar da grama, do gramado do Mineirão. Mais eletricista para ter o funcionamento perfeito. Mais pedreiro para manter a obra sempre. O Mineirão é um mundo, né? Luciana: uhum. Afonso: o Mineirinho outro mundo! A manutenção é cara, é pesada, tem que ser contínua. Então eu prefiro ter bombeiro hidráulico. E prefiro ter jardineiro, prefiro ter pedreiro, prefiro ter auxiliar de pedreiro, do que esse mundo de gente aí, para ocupar cargo. Luciana: certo. Afonso: e ele me acatou. Luciana: sim. Afonso: tanto que eu fiquei como diretor geral era eu, eu, eu. Luciana: sei. Afonso: e com a minha equipe, que era uma equipe cada um com seu setor, cada um fazendo a sua parte. Numa equipe que trabalhava realmente de uma forma, unida. Luciana: sei. Afonso: e graças à deus, dei sorte com meus auxiliares. E time que ganha é time que trabalha em equipe. 393 Luciana: sim. Então, quando o Mineirinho foi inaugurado já tinha uma equipe de manutenção constituída? Afonso: tinha. Luciana: isso a parte Afonso: pequena, pequena, mas tinha. Luciana: certo, tá. Afonso: porque eu queria que fosse maior. Luciana: e na obra, o senhor sabe assim, envolvendo a Afonso: chegou a ter eu acho que 2000, né? Luciana: 2000 trabalhadores? Afonso: chegou a ter. Luciana: 2000 trabalhadores. Afonso: na época o Mineirão e depois o Mineirinho. Eram pessoas contratada até às vezes por semana, por, por dia. Luciana: sim. Afonso: que eram atividades muito específicas Luciana: então a empresa responsável pela execução ela Afonso: é Luciana: aproximadamente umas 2000 pessoas trabalharam Afonso: chegaram a trabalhar lá Luciana: chegou a 2000? Afonso: eu posso te falar isso, porque quando se falava em paralisar obra do Mineirão, já começava a ter crise de desemprego. Luciana: ah é? 394 Afonso: é. E aí o Mineirão foi uma tábua de salvação para o Governo Magalhães Pinto, que deu emprego para tanta gente! Luciana: sei. Afonso: e aquilo foi, é muitos operários ficaram alojados dentro do próprio Mineirão. Luciana: un. Afonso: veio gente do interior para cá, para participar da construção do Mineirão. Luciana: tá. E no caso do Mineirinho? Afonso: no tempo do Gil César. No Mineirinho não. O Mineirinho já era obra por administração, então era a CONVAP, Alcindo Vieira, CONVAP. Luciana: uhun. Afonso: é que contratava e dispensava, né? Luciana: sei. Afonso: o Mineirão apenas a ADEMG fiscalizava a obra. Luciana: e o senhor sabe mais ou menos quantos trabalhadores a CONVAP chegou a contratar? Afonso: não, não, não tenho os números exatos. Luciana: sim Afonso: não, naquele ano. Luciana: eu pergunto porque o senhor acompanhou muito a obra, né? Afonso: acompanhei, mas é Luciana: e Afonso: a mão de obra era muito, vamos dizer, volátil, né° Luciana: sim. Afonso: tinha, às vezes contratava muita gente. Por exemplo, vou fazer o piso da quadra. 395 Luciana: sei. Afonso: aí tinha que contratar muita gente para fazer o piso. Luciana: sei. Afonso: às vezes contratava para uma obra certa e terminava. A instalação elétrica, vamos contratar o pessoal para a instalação elétrica. O pessoal de grama, do gramado externo. Vamos contratar o pessoal para o gramado externo. Luciana: sei. Afonso: então eram equipes contratadas para obras certas, né? Então variava muito. Luciana: e essa parte da execução toda foi responsabilidade da CONVAP? Afonso: CONVAP, Alcino Vieira, CONVAP. Luciana: sim, a. Afonso: a ADEMG tinha corpo de fiscalização, comandado pelo doutor, saudoso, Eduardo Bambirra. Luciana: sim. O senhor mencionou é a questão de interesses. Às vezes que o senhor tinha o desejo é de desenvolver alguma ação, implementar alguma atividade, mas às vezes chegava e tinha que negociar com o governo, né? Afonso: sim. Luciana: com o Governador. É, na opinião do senhor, desse trânsito, dessa relação do senhor com o Governo, qual que era o desejo que se tinha, da parte do Governo, da parte do estado, com a realização do Mineirinho? Porque o senhor menciona que tinha um desejo pessoal, um desejo de implementar uma política. É, me parece muito a cara, né, a concepção que o senhor tinha de esporte. Afonso: certo. Luciana: e um grupo também. Que o senhor representava inclusive um grupo de cronistas, né? Afonso: isso. 396 Luciana: de pessoas que eu acredito que devia, conversar, trocar ideias e tal. Mas o Governo, qual que era a intenção do Governo, com a existência do Mineirinho, nesse processo que o senhor acompanhou? Afonso: o Governo Aureliano era exatamente a minha concepção, eu te falei numa sabatina. Luciana: sim. Afonso: então trocamos ideias sobre o que que eu achava e o que ele achava, tínhamos os pensamentos. Muita coisa coincidia. Mas muita coisa ele pensava de um jeito e eu pensava de outro. Então o diálogo era franco e leal. E, com o objetivo de se fazer o que poderia ser o melhor, né? Então a gente tinha, no Governo Aureliano eu tive muita facilidade de fazer o que eu gostaria de fazer. Luciana: certo. Afonso: o Governo o doutor Ozanan Coelho, já com menos, porque ele ficou pouco tempo lá. Luciana: sei. Afonso: né? Um governo, vamos dizer, tampão, né? Luciana: uhun. Afonso: final de coisa. Já com Francelino, não! Francelino também foi muito positivo! Luciana: sei. Afonso: muito positivo! E ele quis implementar uma política, essa que eu te falei. De fazer tudo aquilo. Inclusive ele era um entusiasta da criação da Secretaria de Esportes. Luciana: certo. Afonso: tanto que, quando eu falei com ele de se fazer um estudo para essa implantação, ele deu plena liberdade à gente para fazer isso. Luciana: uhun. Afonso: ele só não criou porque era fim de governo, ele achou que não deveria criar a Secretaria, né? Luciana: uhun, certo. 397 Afonso: e o doutor Tancredo Neves criou, até ampliando. Que na minha, a minha sugestão era Secretaria de Esportes. Luciana: uhun. Afonso: e ele fez Secretaria de Esportes, Lazer e Turismo. Luciana: certo. Afonso: que eu também não era favorável. Eu sou esporte. Esporte é esporte! E vamos cuidar do esporte! Luciana: uhun. Afonso: a importância do esporte para mim é, eu acho que o país seria outro se desse mais atenção ao esporte Luciana: sei. Afonso: como educação. Posso fazer educação física, que na minha época, escola, no ginásio era obrigatória, né? Tanto foi mexida, né? Que a gente tem uma tristeza. Luciana: sei. O senhor mencionou a questão da ditadura, inclusive de uma crise financeira que tinha, né, da ditadura militar. Inclusive a gente perpassou, né, esse período que o senhor esteve à frente aí da construção do Mineirinho como gestor também da política de esporte. Foi o período da ditadura. O senhor até já mencionou algumas questões aí em especial a questão da crise econômica que o país passou. Agora em relação ao Mineirinho, o senhor teve alguma relação, o senhor consegue identificar alguma relação quanto à construção do Mineirinho e a ditadura militar? Afonso: eu só tenho pouquíssima! Quando teve um show da Mercedes Sosa. Luciana: sei. Afonso: é, soltaram alguma coisinha lá, tipo bombinha, no vestiário, etc, para prejudicar o show. Que ela era tida como esquerda. Mas nunca tive grandes problemas não. Luciana: é? 398 Afonso: nunca, graças à deus. Foi, o Mineirinho foi preservado quanto a isso na época da ditadura, no Presidente Geisel eu tenho até uma foto aí do, do palanque, né? Em que o governo veio todo para cá na abertura da Olimpíada Operária Global. Luciana: sim. Afonso: sucesso! Tinha a parte da segurança, era muito rígida. Luciana: sei. Afonso: muito rígida. Mas não, tive problema assim, no Mineirão, numa época, essa eu passei um aperto danado! Uma delegação de estudantes da Argentina estava hospedada no Mineirão. Luciana: sei. Afonso: no Mineirão. E teve um jogo, do se não me engano, do River Plate no Mineirão, naquela, naquele período. Luciana: o senhor lembra que ano foi? Afonso: ah, não me lembro não. Lembro não. E essa foi entre 77 e 80. E essa, houve uma denúncia de que tinha entre esses estudantes argentinos uns tupamaros, que eram a parte esquerda lá de Uruguai e Argentina, ne? Luciana: sim. Afonso: e, que estavam dispostos a explodir bomba no Mineirão. Você imagina o meu aperto, né? Luciana: (risos) Afonso: fui à secretaria de segurança, expliquei que tinha recebido essa denúncia e eles fizeram uma, uma varredura no Mineirão, total! Luciana: sei. Afonso: não tinha nada, não teve problema nenhum, não teve nada. Mas esse dia, eu assustei! E assustei mesmo! E outra também que me assustou, você veja o que que era o entrosamento da gente com o Governador. Luciana: uhum. 399 Afonso: houve uma enchente em Belo Horizonte e muita gente ficou desalojada. Luciana: uhum. Afonso: e entre os desalojados havia os aproveitadores e gente que eu detectei de cara, marginal. E que pediu ao governador para ceder o Mineirin, Mineirão para eles ficarem lá. Eu, com esse meu jeitão de estar sempre ativo, né. Sempre acompanhando, eu percebi uma conversa de algumas lideranças lá. Luciana: sei. Afonso: que de lá não sairiam mais. Falei com o governador: “- governador, oh, lamento muito mas eu vou pedir ao senhor para desdar a ordem. Porque, é, eu tenho muito medo de acontecer isso, isso, isso, isso.” E ele: “- não, mas esse povo, o povo mais humilde, não sei o que, pá, pá, pau”. E ele realmente tinha uma preocupação muito grande com os desalojados. Luciana: sim. Afonso: os verdadeiros desalojados, as pessoas mais humildes. Mas deus me abençoou na hora, sabe? O espírito santo baixou ne mim Luciana: (riso) hum. Afonso: eu falei: “- governador, eu tenho um problema sério! Eu não posso botar ninguém no Mineirão agora porque vai ter o vestibular. No Mineirão, vestibular eles me ocupam tudo lá! Eu não posso deixar gente estranha, né, no Mineirão nesse período.” Luciana: sei, Afonso: e ele, é, onde eu te falo que a sorte da gente comungar ideias, né? Ele falou: “não, esse momento é importantíssimo!” Esse fato se repetiu depois no Governo Francelino, em que ele, coitado, foi muito criticado por ter feito umas barracas de lona, não sei se você se lembra? Ai para o lado de Sabará e tal. Para alojar o pessoal da Vila São Vicente, se não me engano. Luciana: sim. Afonso: então cada governo tem a sua, sua mentalidade. Mas na minha, o sem-terra, outro problema não é o nosso. O nosso tema aqui. Um problema seríssimo, o governo tem que ter atenção voltada o mesmo, para o movimento sem-terra, mas não do jeito que a gente vê por aí. Eu imagino um órgão público sendo ocupado por movimento sem-terra. 400 Luciana: agora esse grupo de desalojados eles estavam indo para o Mineirão, eles iriam para o Mineirão? Afonso: iriam para o Mineirão Luciana: não era para o Mineirinho não? Afonso: mas já, foram incitados já Luciana: ah, tá. Afonso: por lideranças que eu detectei que eram não para ajudar os desabrigados. Luciana: entendi. Afonso: mas sim para tumultuar. Luciana: tá. Então não era o Mineirinho na época não. Isso foi antes do, isso foi antes do Mineirinho? Afonso: foi antes do Mineirinho. Luciana: certo. Afonso: o Mineirinho é de 80, né? Luciana: é, é essa questão aí dessa. Afonso: o Mineirão. Luciana: desse problema. Afonso: o Mineirão também tinha alojamento, né? Luciana: é, porque na década de 80 também teve problema de desmoronamento. Afonso: foi. Luciana: de enchente. Afonso: foi época de (palavra inaudível) já era Francelino. Luciana: sei, sei. Sim. Afonso: essa felizmente não me pegou não. Eu já estava fora. 401 Luciana: sim (risos) Afonso: (risos) Luciana: é. Afonso: você imagina, eu com meu coração de cristão fraterno, ter que optar para não alojar, quanto me custou isso. Luciana: sim. Afonso: me doía. Luciana: sim. Afonso: mas como administrador de um órgão público eu não podia deixar que eles entrassem para lá. Luciana: certo. Afonso: que eu tinha certeza que ia ter problema para o resto da vida! Luciana: é, né? Afonso: além do problema de higiene. Luciana: sei. Afonso: que esse, dizem que é quase insanável. Luciana: é? É. Afonso: vamos falando com tristeza, né? Mas é a realidade. Dolorosa realidade. Luciana: é, teve um aspecto que me chamou a atenção nesse processo de levantamento documental. É, como que o Mineirinho e o Mineirão, num primeiro momento, o Mineirão. E depois na região também eu percebi no Mineirinho, um favorecimento a agilizar o processo de urbanização na área próxima. Porque eu lembro que eu vi uma foto da década de 60, 1965, depois que o Mineirão já estava construído. E o terreno ali onde posteriormente foi construído o Mineirinho estava com vegetação. Mas aí na foto eu percebia muitas áreas verdes, muitas, áreas pouco ocupadas. 402 Afonso: antes. Luciana: áreas próximo ao Mineirão e ao terreno do Mineirinho. E lendo os documentos, eu percebi também como que a construção desses 2 equipamentos esportivos, agilizou o processo de melhorias. Esgoto, lá no Mineirão, o esgoto. Afonso: uhum. Luciana: é, água, linha de telefone. Melhoria da rede de luz. Afonso: tudo, tudo, tudo. Luciana: a percepção é Afonso: total. Luciana: está correta? Afonso: total. Correta. Luciana: tanto no Mineirão, mas ele né Afonso: depois no Mineirinho. Luciana: o Mineirinho também contribuiu? Afonso: muita coisa mesmo! É, até na avenida, por exemplo, de esportes, ali. Não existia aquilo ali era um matagal danado! Ao lado do Mineirão, onde ficam hoje os ônibus, né? Estacionados. Luciana: sim. Afonso: a área externa do Mineirinho. Aí, o Mineirão, que eu não vou entrar muito em detalhe. Luciana: uhum. Afonso: é a respeito da esplanada do Mineirão. Eu não sei se, foi útil ou não essa última reforma do Mineirão. Da copa do mundo. Luciana: sei. Afonso: porque acabou com o estacionamento, praticamente, né? 403 Luciana: uhum. É. Afonso: hoje para chegar no Mineirão é uma dificuldade maior. Luciana: uhum. Afonso: para o torcedor. Luciana: é. Afonso: então aspectos positivos e aspectos negativos em relação a isso. A utilização para shows. Tinha muito show, e também ao ar livre, né? Luciana: uhum. Afonso: e o Mineirinho serviu, que na época não tinha lugar para show para grande público, né? Luciana: sei. Afonso: quando era época de chuva praticamente não tinha local coberto para isso. E também a região ganhou muitas melhorias. De bares, de restaurantes de melhor qualidade, né? E depois quando a região da Pampulha foi considerada patrimônio cultural da humanidade muita coisa boa está vindo para cá. E agora nós estamos vendo aí a reforma da igrejinha da Pampulha, né? Luciana: uhum. Afonso: a orla da lagoa, estão melhoramentos. É, a orla aí teve uma época também que era indecente, né? Era um matagal terrível! É, a própria Lagoa era cheia de algas, não sei se você lembra disso? Luciana: lembro. Afonso: eu tive. Luciana: lembro muitos problemas. Afonso: para fazer aquela limpeza foi um custo! Luciana: é 404 Afonso: absurdo daquilo, né? E até hoje a gente fica lamentando como é que ainda não fazem o saneamento da Lagoa completo, né? Luciana: uhum. Afonso: os esgotos, aqueles córregos que descarregam ali, né? Luciana: é. Afonso: então, é, a gente, eu vi aquilo tudo como um todo. Luciana: uhum. Afonso: universidade federal, né? Que é um mundo! Né? Luciana: uhum. Afonso: eu vejo que poderia trazer para a região ainda outros melhoramentos. E o maior deles, né? Que era o transporte, eu cheguei a conversar com o prefeito em off. Eu sou colega, eu fui colega de turma do Maurício Campos, que foi prefeito de Belo Horizonte. Nós estudamos no colégio estadual. Nós fomos colegas. Então tinha uma relação de amizade muito boa. E ele como prefeito, ele veio ao Mineirinho, nós trocamos ideias. Eu sempre fui muito preocupado com trânsito, eu tenho algumas crônicas minhas, da época de 70. Luciana: uhum. Afonso: em que eu falava que o trânsito em Belo Horizonte está ficando caótico. Luciana: uhum. (risos) Afonso: (risos) isso é um absurdo! Luciana: (risos) Afonso: (risos) tem que fazer isso! Tem que fazer aquilo! Isso em 1970, você ainda não era nascido, né? (se dirige ao Edmar) Luciana: (risos) Afonso: então a gente, eu falei com ele que a solução devia ser o metrô mesmo, que atenderia a universidade, atenderia ao Mineirão e eu ainda brinquei com ele: “- vamos fazer da área externa do Mineirão uma grande estação. O pessoal que vem aí dessa região aí de venda nova, 405 Vespasiano, de Pedro Leopoldo, Lagoa Santa, Santa Luzia, etc. Faz daqui, daqui pega o metrô para o centro.” Luciana: sei. Afonso: ele brincou comigo: “- não, meu sonho é fazer o metrô até venda nova.” Que venda nova naquela época ainda não tinha a população que tem hoje. A zona norte praticamente não tinha. E, infelizmente, né? Nós estamos vendo aí, apesar da onda verde o trânsito para cá é Luciana: é, é terrível. Afonso: é terrível. Luciana: é terrível. Afonso: e vai ficar pior ainda, né? Luciana: na verdade a cidade toda, né? Enquanto Afonso: acabou, né? Luciana: não investir nessa parte Afonso: eu acredito Luciana: de transporte público Afonso: que nós vamos ter um cortejo fúnebre muito breve. É nós andarmos como se fosse um atrás do outro. Luciana: é? (risos) Afonso: parando, andando, parando, andando. Luciana: é. Afonso: eu vou te, posso falar aqui não, mas depois que desligar. Luciana: (risos) Afonso: (risos) eu vou te falar uma conversa que eu tive com o prefeito, Souza Lima. Luciana: sim. 406 Afonso: a respeito de trânsito. Luciana: sim, tá. Afonso: está fora do nosso Luciana: tá, tá Afonso: do nosso contexto aqui. Luciana: tá. É, eu estou chamando a atenção para essa questão da urbanização porque eu percebi assim, que tinha em alguns momentos em documentos, uma relação com a Prefeitura, com o próprio Departamento de Estradas e Rodagens, para melhorias, né, das áreas próximas. E o senhor mencionou inclusive que na época. Afonso: asfaltamento de região Luciana: isso, é. Afonso: de várias, várias vias de acesso. Luciana: é, vias de acesso que foram asfaltadas nesse processo da construção do Mineirinho, é isso mesmo? Afonso: isso. Isso. Luciana: né? Afonso: aquela avenida lá embaixo, a catalão, né? A Alfredo cara mate, né? [av. Alfredo Camarate] Luciana: sim. Afonso: aquele também ali. A ideia era também cobrir aquele córrego. Luciana: sei. Afonso: só faltou dinheiro, mas ali era para fazer uma avenida tipo a Andradas, né? Luciana: e além dessas intervenções, mais na parte de locomoção da população, o senhor indicou a questão do transporte, também. Teve alguma linha que chegou até aqui em função do Mineirinho? 407 Afonso: ah, teve! Luciana: teve? Afonso: teve. Luciana: porque a gente já tinha o Mineirão. Afonso: inclusive porque a Diretoria de Esportes, quando eu consegui instalar aqui, nós conseguimos fazer uma, uma linha que com horário pré-estabelecido para os funcionários. Luciana: ah, tá. Afonso: que também foi uma, uma vantagem. Teve uma época também muito interessante de arborização, com o Gervásio Horta. Luciana: uhum. Afonso: o grande compositor mineiro, né? Ele plantou árvores no estacionamento do Mineirão. Luciana: sei. Afonso: que era só cimento! Né? Luciana: uhum. Afonso: ele plantou árvores. E nós tivemos uma experiência pioneira que infelizmente não deu certo, foi o transplante das palmeiras do Palácio da Liberdade. Luciana: é? Afonso: feita aqui para a área do Mineirão. Luciana: ah, sei. Afonso: mas não vingou, né? Luciana: sei. E o Mineirinho também tem as palmeiras lá Afonso: tem, tem lá. Luciana: ainda, né? 408 Afonso: é, a gente plantou Luciana: mas essas também foram da praça? Afonso: também, também. Luciana: ah, foram da praça? Afonso: também. Luciana: ah, sim. Afonso: alguma ou outra vingou, mas a maioria não. Luciana: sei. Afonso: agora, nós plantamos demais. Luciana: uhum. Afonso: é, quando a gente fala em educação, esporte, que você na faculdade, Universidade Federal, vamos. Eu me lembro que nós fizemos um projeto de plantio de árvores. Pegava o Centro e vinha até aqui pela Pedro II, pela Antônio Carlos, etc. E o Mineirão teve participação ativa nisso. Luciana: é? Afonso: nós plantamos árvore de Instituto Estadual da Floresta. Luciana: sim. Afonso: tinha um outro que eu estou querendo me lembrar, aqui. Da Prefeitura mesmo. Parques e jardins! Luciana: ah, sim. Afonso: nós fizemos aí um mutirão. Luciana: sei. Afonso: plantamos aquelas arvorezinhas, pequenas. Teve um jogo, Atlético e Cruzeiro, quebraram quase todas elas. 409 Luciana: é mesmo? Afonso: era caminho de torcedor. Luciana: é? Afonso: o time que perdeu Luciana: e, esse plantio Afonso: a raiva do torcedor foi na arvorezinha. Luciana: e esse plantio foi mais ou menos quando? O senhor Afonso: ah, foi na minha época. Eu também não vou precisar Luciana: segunda metade de 70, né? Afonso: é entre 75 e 80. Luciana: certo. Certo. Afonso: tudo isso que eu estou te falando é entre 75 e 82. Luciana: sim. Afonso: foi o período que eu estive na ADEMG. Luciana: é, eu acho que é interessante a gente pensar nisso, né? Porque às vezes a gente dimensiona a construção de um equipamento de esporte, por ele. Afonso: ah. Luciana: construiu, vamos usar, mas tem outras, outros aspectos que às vezes a gente, né? Afonso: reflexos da construção. Luciana: é. Tanto daquele momento da construção, quanto no momento que é utilizado, quanto posterior. Né? Afonso: é. Luciana: e, é digamos, uma irradiação de ações que vão terminando acontecendo, né? E para o lado de cá, esse lado da Pampulha, Região Norte, Venda Nova, apesar de venda nova 1970, 410 80, já era uma área ocupada pela população, né? Já tinha Venda Nova é até mais antiga do que Belo Horizonte. Afonso: uhum. Luciana: mas do ponto de vista de condição, de melhoria, de condição de vida para os moradores, eu estava lendo um livro umas semanas atrás, que falava de quando o bonde chegou aqui, a linha de bonde chegou, já foi no momento que começou, chegou o terminal da linha de bonde, é, na primeira, segunda, na primeira década de, é, acho que 1960. Beirando 70 aí já começa entrar em declínio porque vem os ônibus começa afonso: (palavra inaudível) Luciana: a fazer mais sucesso, digamos assim, né? Então Afonso: a Avenida, Antônio Carlos, você que é historiadora, quando o Juscelino resolver abrir em 6 pistas, do viaduto São Francisco até a barragem. Luciana: a barragem. Afonso: ele falou que lamentava fazer só 6 pistas e não ia até o centro. Luciana: uhum. Afonso: ele queria que as 6 pistas fossem até o Centro. Luciana: uhum. Afonso: só que depois tinha uma desapropriação Luciana: é. Afonso: a história é muito comprida. E houve uma corrida de fórmula 1, na orla da lagoa, com Chico Landi na época. Luciana: sim. Afonso: até que morreu um corredor morreu na corrida. Era de bonde, né? Que o pessoal vinha de bonde. Luciana: uhum. É. Afonso: era de bonde que vinha para cá mesmo. 411 Luciana: a gente percebe que era uma, uma área, até porque Belo Horizonte não foi planejada, o plano inicial era dentro da Contorno. E a gente sabe que os próprios trabalhadores ficavam era fora, né, a não ser os trabalhadores de Afonso: a própria Universidade veio depois, né? Luciana: é. A universidade veio depois, né, 1950 que tem esse processo. Afonso: olha, na sua área, se você parar para pensar, a Pampulha virou um núcleo de clubes esportivos. Luciana: é. Afonso: fantástica! Luciana: é. Afonso: depois, na época de Mineirão, talvez tenha tido reflexo. O, ele estava perguntando sobre o iate. Existia o iate que depois a prefeitura passou para atividade particular, né? Luciana: uhum. Afonso: o camarada comprou, acho que Dalmo Menicucci, que ele chamava. Arrematou aquilo e foi tomando pedacinho. Veio o PIC. Luciana: uhum. Afonso: veio Jaraguá. Aí veio o América, veio o cruzeiro com a toca da raposa. Veio o atlético com o Labareda, depois, mais para frente aí, o centro de treinamento dele. Veio, a Caixa Econômica, aqui na orla. Luciana: uhum. Afonso: mesmo, a Caixa Econômica Federal, Luciana: perto aqui do parque, né? Afonso: tem o Clube do Nado. Veio o Bosque, Clube do Bosque. Luciana: uhum. Afonso: veio. 412 Luciana: tem o Banco do Brasil também mais para frente. Afonso: Banco do Brasil, AABB, AABB, olha quanto Luciana: é Afonso: quanto clube. Luciana: é. Afonso: se fez aqui na orla! Libanês! Luciana: uhum. Afonso: o sírio. Tem o Sírio e tem o Libanês, Sírio-Libanês. Luciana: é, é. Afonso: os dois pertinho um do outro. Luciana: é. Afonso: olha a quantidade de clube que se fez aqui, em razão, de Mineirão. Ou pelo menos reflexo de Mineirão. Luciana: é. Pode ter uma relação, né? Afonso: isso aí, na seu, no seu trabalho de pesquisa você pode fazer um subtítulo, né? Luciana: (risos) é. Afonso: (risos) que você vai Luciana: essa parte me chama muito a atenção porque dentro dos documentos eu via assim, Afonso: é interessante. Luciana: na época do Mineirão, precisa de puxar a linha telefônica, precisa, inclusive uma relação também, com, com a UFMG, né? É. Afonso: bancos que vieram para cá. Luciana: uhum, é. Afonso: agências de banco. 413 Luciana: é. Então passa, é, passa a ter uma Edmar: (informa que precisa trocar a bateria da câmera fotográfica que estava utilizando para a filmagem, já que descarregou) – continuamos a entrevista sem a gravação do vídeo. Luciana: mas só tem essa bateria aí, só tem essa bateria. E eu carreguei ela. Mas não tem problema não, a gente segue aqui. Porque eu também já estou acabando, está na última parte aqui. (continuando) é, eu acho que é interessante, né, como que essas questões podem ter impacto para a própria cidade, né? E para a melhoria de vida das pessoas da região, né? E aí a gente chega em 1980, o ano de inauguração. É, eu acho que era legal o senhor contar para a gente como é que foi, assim, esse processo da inauguração, esse primeiro ano, como é que funcionou? Afonso: é, em 79 a obra começou a ter, os órgãos envolvidos nela, CEMIG, COPASA, DER, começaram, eu estava sentindo um amolecimento. Luciana: tá. Só, só um momento aqui, eu vou ver, de repente me ocorreu que a gente pode talvez ligar ela na tomada. (Pausa com a câmera). Retomada da entrevista- gravação 2 Luciana: então retomando o encerramento da nossa conversa, a gente chegou em 1980 com a inauguração do Mineirinho. É, eu acho que o senhor podia contar pra gente como é que foi a inauguração, o que que teve no decorrer de 1980. Como que foi utilizado o Mineirinho Afonso: é, foi 15 de março de 80. Nós trouxemos a seleção de basquete do Paraguai, para jogar contra o Brasil, na parte esportiva. E o Jackie Correia, que era o Chefe de Cerimonial do Governo de Minas, ele programou uma série de atividades e convidados ilustres. Aí nós tivemos aqui a maria Ester Bueno, o Emerson Fitipald. Luciana: uhun. Afonso: o Guga. Alguns nadadores famosos, enfim, o Éder Jofre. Ele trouxe os campeões brasileiros de várias modalidades esportivas, que desfilaram com os atletas mineiros, clubes mineiros, seleções mineiras, um desfile maravilhoso! E ele trouxe um conjunto da Itália 414 também, que fez uma exibição artística muito interessante! Então foi uma festa muito gostosa, o dia estava bonito e eu tive a alegria de recepcionar os 4 governadores que tiveram participação efetiva na grande obra: o governador, ex-governador Rondon Pacheco, Aureliano Chaves, o Ozanan Coelho e o Francelino. Então dando um sentido de continuidade administrativa, que ao que me parece, um ponto fundamental para a própria administração pública Luciana: uhun. Afonso: quando há continuidade, há bom resultado Luciana: certo. Afonso: então esse é um exemplo flagrante disso. Luciana: uhun. Afonso: então nós tivemos um show com, como é que ele chama, gente? Está me faltando a memória aqui. João Bosco! Luciana: sim Afonso: teve um show com o João Bosco, que em seguida teria o Roberto Carlos, na semana seguinte. Olha a loucura que era a vontade de fazer alguma coisa diferente: eu tentei trazer o Frank Sinatra. (risos) Luciana: ah é? (risos) Afonso: (risos) pra inauguração do Mineirinho. Eu tava tão empolgado, fui ao rio, conversei com o empresário dele, o Medina. Mas infelizmente não deu pra ele vir. Mas era a grandiosidade da obra, do que ela representava para Minas esportivo, o Brasil. E se o Frank Sinatra viesse, repercussão mundial. Luciana: certo. Afonso: então, realmente eu pensei grande, mas não deu pra concretizar. Tudo acertamos, mas não tinha questão de data, aquelas dificuldades. O Frank Sinatra, não sei se você se lembra, ele, tinha uma maldição dele não vir ao Brasil. Luciana: ah, não! 415 Afonso: é. Luciana: não lembro disso não. Afonso: depois ele veio, cantou no Maracanã pra 200 mil pessoas, sabe? Luciana: sei. Afonso: então, coisa fantástica! Então, nós tivemos uma programação esportiva reunindo equipes de Minas, seleções mineiras, seleções brasileiras e a seleção do Paraguai, pra dar conotação internacional para a inauguração. E na semana seguinte, muitas atividades esportivas, culturais e artísticas. Depois veio o balé Bolshoi, que é um espetáculo, também! Veio a ginástica da Rússia, que era uma equipe extraordinária! Enfim nós movimentamos o Mineirinho com muitas atividades! E não me arrependo de nenhuma delas. Fizemos uma economia de tudo que podia fazer. Deixamos de trazer equipes melhores ou mais representativas, que os cachês eram muito altos. Aquele problema de economizar ao máximo. Luciana: sei. Afonso: às vezes nós não trouxemos o que nós gostaríamos de trazer. Luciana: sei. E no que foi pensado em termos de projeto pra ser implementado, de utilização do espaço com esporte, com cultura e tal, é, o Mineirinho, o senhor considera, do, no período que o senhor esteve à frente dele, ele dava prejuízo pro estado? Ele Afonso: nenhum. Luciana: se mantinha? Como que era isso? Afonso: nenhum, nenhum. Pelo contrário, ele era autossustentável. Luciana: ele era autossustentável? Afonso: tanto a ADEMG como, a DEMG sempre foi na minha gestão, felizmente foi autossustentável Luciana: sim. Afonso: que foi na época em que começou a ter placas de publicidade, né? Luciana: sei. 416 Afonso: isso foi uma vantagem muito grande. E tinha as rendas extras, né? De bar, de restaurante, estacionamento, de bilheteria, então o convênio ADEMG com a universidade federal, e aqui eu tenho que enaltecer os reitores da época, que sempre trabalhavam em harmonia com a ADEMG, e tinha 2 representantes da universidade no conselho de administração. Luciana: uhun. Afonso: eu me lembro muito do coronel eros pires de carvalho, professor eros pires de carvalho, que tinha uma atuação muito ativa, sabe? Luciana: sei. Afonso: muito espetacular. Então esse convênio, a ademg se comprometeu a completar o, centro esportivo, né? E, pela cessão do ginásio. Luciana: certo. Afonso: e a universidade utilizava o ginásio em determinados períodos. Luciana: uhun. Afonso: havia uma harmonia muito grande e os resultados eram muito bons. Luciana: então era possível dizer que já ali no começo ele era autossustentável? Afonso: sim. Luciana: ele mesmo se, o recurso que tinha não dependeria Afonso: não. Luciana: do recurso do cofre do estado pra poder se sustentar? Afonso: não, não. E com um detalhe, o que, talvez fosse mais o mais caro era um pessoal reduzido e já era da folha do estado, né? Luciana: sei. Afonso: eles pertenciam à ademg, né? Luciana: um. 417 Afonso: que era uma autarquia, né? Luciana: exceto então a parte de funcionários, que aí já era dentro da folha do estado. Afonso: é, a manutenção se dava com os espetáculos, que a gente tinha participação neles. Luciana: tá. E tem assim Afonso: e com um detalhe: não se cobrava de esportes. Mas se cobrava de artistas Luciana: ah, tá. Afonso: então os shows, a ademg cobrava 10%, 15%, ou um valor de aluguel que dava perfeitamente pra manter. Luciana: sei. O senhor lembra assim, já nesse, nesse começo de funcionamento, quais foram as ações que tiveram mais duradouras? O senhor mencionou a ginástica, os eventos, mas tinha já federação que já estava executando talvez uma escolinha, alguma oferta de atividade pra população?8m10s Afonso: não. Luciana: além desses eventos? Afonso: tiro ao alvo, judô, halterofilismo, isso eram atividades diárias. Mas não as escolinhas, só planejadas. Os dirigentes de federações eram amadores! Ninguém ganhava nada, né? É, são os esportistas que doam o seu tempo e a sua capacidade de trabalho em benefício do esporte. E, o amadorismo dificultava muito isso. E também o problema, tinha muita vontade que o Minas Tênis que era o maior time de vôlei na época, né? E o atlético que era o maior time de futebol de salão, eles jogaram várias vezes aqui. Mas eu tinha vontade que eles jogassem era toda semana! Luciana: uhun. Afonso: as seleções, todas jogaram aqui. As seleções, foram recorde de público uma atrás da outra, né? As finais de campeonato de voleibol, todas elas aqui. Ah, o basquetebol mineiro estava em queda na época. Então a ginástica, em Minas e olhe lá, né? Mackenzie pouquíssima atividade. Nós tínhamos pouca atividade. É o que eu queria fazer: incentivar o esporte especializado. 418 Luciana: certo. Afonso: e o Mineirinho eu tinha vontade de colocar fogo, botar fogo na turbina mesmo, para que eles crescessem junto com a gente. Mas o tempo foi curto. Luciana: sei. E uma última pergunta que eu gostaria de fazer. A gente até já conversou sobre é o que eu vou perguntar, é que no projeto o, o nome do ginásio seria palácio dos esportes. Aí depois ele é renomeado como jornalista Fellipe Drummond. E popularmente ele é Afonso: é Mineirinho Luciana: conhecido como Mineirinho, né? É, por quê dessa mudança de denominação? Afonso: não, a parte de que é Mineirinho já pegou. Luciana: isso, do povo, é. Afonso: o próprio Mineirão, é filho, o Mineirinho, ao lado do Mineirinho. Luciana: é, exatamente. Afonso: isso já pegou de cara. Palácio dos esportes era muito suntuoso, que realmente era. A, no projeto original com ray ban, que fenômeno, né. Espetáculo mesmo! E a área externa, do jeito que a gente queria fazer, com a ornamentação, intercalando com as atividades esportivas, as quadras, a área pra tiro ao alvo. Essa coisa toda, né? Que a gente tinha, na cabeça, é muito boa. Agora, a denominação, sempre tem alguém que quer homenagear alguém. Luciana: sei. Afonso: não é isso? E surgiu o nome do Mendes Júnior e depois surgiu o nome de Fellipe Drummond, foi dado a sugestão pelo então deputado, Ademir Lucas, que depois veio a ser prefeito de contagem e veio a ser até secretário de estado. Ele queria homenagear o fellipe drummond e homenageando a crônica esportiva. O felipe era um jornalista muito atuante, que fez parte da amce e era, fez parte da crônica policial também. E os filhos, filho e neto dele hoje trabalham na área também. São cronistas. E eu não vi nenhuma razão pra, que o nome não fosse dado a ele. Tinha vários nomes cogitados, nomes de esportistas: juvenal santos; esmeralda de jesus, vicente paula lima, um nadador fantástico que teve aí; o bascuá sebastião pinheiro chagas. Alguns nomes foram vetados porque ainda estavam vivos. Tinha, parece uma lei que vetava dar nome a órgão público de pessoa viva. 419 Luciana: uhun. Afonso: então esses nomes surgiram e saíram ao mesmo tempo por vedação legal. E surgiu então o do Felipe, me agradou bastante pela amizade que eu tinha a ele, pelo muito que ele fez e perpetuou o nome de um cronista que a crônica esportiva teve papel preponderante na construção do Mineirinho. Luciana: então o nome veio de uma indicação política, de modo que Afonso: mas foi bem aceita pela crônica esportiva e pela população. Que se a crônica não aceitasse, eu acredito que a minha palavra naquela época talvez pesasse muito. Que o governador me perguntou o quê que eu achava, né? Luciana: uhun. Afonso: podia vir o projeto do legislativo e o governador podia vetar. Não é isso? Luciana: uhun. Afonso: mas, felizmente houve o consenso e ele foi bem aceito. Luciana: ok. É, bom, da minha parte as questões que nesse momento eu tenho, eu já apresentei pro senhor. Eu queria saber se tem mais algum aspecto aqui da conversa que eu não abordei mas que o senhor gostaria de dizer relativo à relação do senhor com o Mineirinho, ou o próprio Mineirinho. Se tem algo mais a dizer? Afonso: ah, o que eu tenho, eu teria a dizer é, uma palavra, operário, né? Operário mineiro. Parte técnica muito eficiente. O governo teve um entrosamento com o pessoal da ADEMG, a alta cúpula que apoiou muito o Mineirinho, dentro das condições que a gente sabia que eram difíceis. Que hoje o estado está atrasando até o pagamento de pessoal, mas naquela época já havia dificuldade, mas dificuldade, mesmo! E a gente sempre ouve falar “dificuldade, dificuldade, dificuldade”. O Mineirinho, um projeto espetacular, tem um aspecto social dele muito relevante, aspecto religioso muito relevante. Ele acompanhou o crescimento da cidade. Ele representa para o esporte especializado o que o Mineirão representou para o futebol profissional. Enfim, ele serviu para atividades esportivas, artísticas, culturais, religiosas, comunitárias de um modo geral, baile do galo, a missa de deus, que espetáculo maravilhoso! Os cultos ecumênicos, as exibições de ginástica, as exibições de grandes artistas, o Chacrinha, a Xuxa, o João Bosco, Roberto Carlos, Mercedes Benz, que lotavam o Mineirinho, a cada 420 semana. A participação da universidade federal, que depois desse convênio houve um aditivo para a construção do CEU, então tudo isso somado dá a gente a sensação de dever cumprido. Luciana: certo. Afonso: uma obra maravilhosa, que nasceu para ser faraônica mas ficou dentro do gosto do mineiro Luciana: certo. Afonso: e era a capa da revista a vitória do otimismo Luciana: sim. Afonso: que houve recentemente. Luciana: que foi publicada em 1980, né? Afonso: isso, a revista que foi editada pelos cronistas. O Ronan Ramos de Oliveira, o Hegler Brant Aleixo, José Flávio Dias Vieira, Erasmo Ângelo, Antônio Carvalho, Cleito Filho e a parte da crônica esportiva que colaborou com ela. Luciana: sei. E ela é de 1980? Afonso: 1980. Luciana: é que eu Afonso: o ano da inauguração, né? Luciana: é. Eu lembro de ter já, eu estava lendo e tal, procurei a data e não localizei. Afonso: não localizou? Depois teve o jornal o debate, fez uma edição comemorativa. E os jornais deram uma boa cobertura ao Mineirinho. Luciana: e essa revista foi financiada pelo governo? Afonso: não Luciana: a Vitória do Otimismo? Afonso: não, 421 Luciana: esse livro, né? Afonso: que ele teve propaganda, né? Luciana: ah, tá. Afonso: tem algumas empresas Luciana: mas a ideia foi do governo? Afonso: a ideia foi do, do ronan ramos que trabalhava conosco, foi da assessoria de imprensa. Luciana: sim. Ele era da assessoria de imprensa? Afonso: da assessoria da ademg. Luciana: certo. Afonso: assessoria de imprensa da ademg. É o que eu te falei que era muito atuante Luciana: sim. Sim. Afonso: muito atuante Luciana: sim. Afonso: eu, eu não posso me queixar porque a turma me ajudou. Eu os voluntários, né? É, toda atividade esportiva, de inauguração, etc., voluntário. Ninguém ganhou nada! Luciana: é, né? Afonso: eu me lembro até um caso curioso que dá até pra encerrar a sua palestra aqui. Uma pessoa me procurou pra ocupar o lugar do edson aun, que deus o tenha. Porque o edson não trabalhava comigo quase que o dia inteiro. Luciana: sim. Afonso: ele falou “_ mas o edson (edson aun, sócio do foto elias, informação coletada com o sr. Afonso posteriormente à entrevista) é um sujeito rico, não precisa disso aqui não.” Eu falei: “_ ah, você quer entrar no lugar dele?”. “_ é, eu posso fazer o trabalho dele, porque ele não precisa disso, não sei o que.”. “_ então eu vou pagar o que eu pago a ele.” Luciana: sim. 422 Afonso: “_ aliás, eu vou te pagar o dobro!”, ele não ganhava nada! Luciana: (risos) é? Afonso: (risos) ele assustou. Luciana: é, é. Afonso: muitos voluntários! Que na época da construção eu tivesse esse cuidado, né? Eu convidei, quem era quem no esporte mineiro pra visitar o Mineirinho. Luciana: sim. Afonso: e tinha um cozinheiro lá, espetacular! Que era um funcionário, Luiz Bracarense. Ele fazia uma peixada como ninguém! Luciana: uhun. Afonso: e a gente fazia vaquinha, ele fazia peixada e a gente convidava a pessoa, participava da peixada lá, no sábado. E com isso eu divulguei o Mineirinho a custo zero. E pegava as opiniões e sugestões dessas pessoas: circo, artística, promoções, etc. Quantas e quantas coisas vieram dessas visitas! Luciana: sim. Afonso: eu sou muito grato a todos eles que colaboraram com a ADEMG, a custo zero! Luciana: muito bom! Afonso: e colaboraram com Minas Gerais, né? Luciana: uhun. Afonso: com Belo Horizonte e Minas Gerais. Luciana: sim. Bom, então mais uma vez eu agradeço. Coloco-me já à disposição do senhor pra alguma demanda que eu puder ajudar, alguma dúvida também em relação a própria pesquisa, tá? E, estamos aí. Afonso: ah, eu tenho algum material, as minhas prestações de contas, essas coisas, que fica à sua disposição. 423 Luciana: e eu vou voltar. Afonso: pode voltar. Luciana: eu vou voltar pra poder seguir. Afonso: ah, você já tem a chave da porta! Luciana: tá joia, Afonso: pode entrar direto. Luciana: muito obrigada (risos). Boa tarde. Finalizamos a entrevista e ele mostrou alguns materiais. E abordamos o problema que teve com a acústica. E com a autorização dele, retomei a gravação, que segue. Parte 3 Luciana: agora, qual que é o problema da, da acústica? Se o Mineirinho foi pensado para evento cultural, show Afonso: un. Luciana: onde que está o problema da acústica? Afonso: a acústica o preço dela dava outro Mineirinho. Luciana: ah, então o problema da acústica já era previsível? Afonso: já era previsível. Luciana: que ia ter esse problema? Afonso: o camarada foi lá onde é o encosto da arquibancada, Luciana: un. Afonso: era colocada uma placa, no Mineirinho inteiro. E evitava, como é que vocês falam? (pergunta para o Edmar, que é instrumentista). Reverberação, né? Edmar: é (pensando) Afonso: na acústica é reverberação? 424 Edmar: isolamento, não sei, não sei o nome disso não. Afonso: bate e volta. Edmar: é, o som ele bate e volta Afonso: acho que é reverberação, mesmo. Edmar: e vai, volta várias vezes, Afonso: isso. Edmar: parece que você não entende, ele sofre um atraso. Afonso: isso. Esse, essa, era uma lã, né, era uma lã que eles chamam lã de vidro, que amortecia o som. Então era espetacular! Mas o preço! Luciana: ah, mas isso depois que foi inaugurado que identificou o problema? Afonso: não, antes. Luciana: ah, sim. Afonso: a gente já sabia. Luciana: aí optou por não colocar? Afonso: eu ia colocar em seguida! Luciana: sei Afonso: era o meu projeto, abandonei a piscina pra fazer o som. Luciana: ah, sim. Afonso: e os próprios artistas Edmar: isso mais caro Afonso: eu tava, é um sonho também, né? Se a gente, quando a gente sonha com vontade, com convicção, torna realidade. Alguns dos empresários iam financiar o acústico. Luciana: sei. Afonso: que é interesse deles, né? 425 Edmar: mas esse problema é um problema até de estádio aberto, também. Quando eu vejo esses shows que eles promovem em outros países, em estádios, eu vi que o som bate e volta. Afonso: bate e volta. É, é barulho só! Edmar:é, né? Luciana: é, uma vez eu fui no Afonso: é o metaleiro, então, é só barulho, né. Luciana: no evento de motocross, você não conseguia, eu não conseguia entender o que que o moço estava falando. Afonso: não ouve. Luciana: do lado de fora eu acho que você entende melhor do que dentro, né? Edmar: é. Luciana: é um problema de fato. Afonso: é verdade. Luciana: ok. Afonso: aqui é a história do américa, aí. Finalizamos a entrevista com o sr. Afonso nos apresentando o acervo dele sobre o américa, time de futebol da Belo Horizonte para qual ele torce e que fez parte de sua trajetória de atleta. 426 Mineirinho/Esporte Especializado Entrevista realizada com o Sr. Afonso Celso Raso – Mineirinho/Esporte Especializado Entrevista realizada para identificar a definição de Esporte Especializada (expressão recorrente em documentos e em alguns depoimentos da história oral) Local: Casa do Sr. Afonso Celso Raso Data: 08/04/2019 Luciana: Estou aqui com o Sr. Afonso Celso Raso pra tentar entender um pouquinho mais sobre o esporte especializado. É, eu gostaria, senhor Afonso, de né, com o senhor concordou em participar novamente desse momento da entrevista, da história oral, lá na época da construção do Mineirinho, década de 70, ou 60 Afonso: Antes. Luciana: Também ante, né? Ou antes, qual que seria o entendimento quando se fala, porque eu vi muito nos documentos, apareceu também nas entrevistas, de algumas entrevistas, é, a expressão esporte especializado. Pro senhor, naquela época ali, o quê que seria o esporte especializado? Qual que seria o, a definição que a gente poderia utilizar para aquela época, de esporte especializado? Afonso: É, eu vou voltar um pouquinho no passado, que antigamente esporte especializado era praticado por amadores. Luciana: Sim. Afonso: é, os times quase todos de vôlei, basquete, futebol de salão ainda não existia. Mas tênis, a própria natação, eram amadores, puramente amadores! De repente veio o, o problema do amadorismo marrom. Eram jogadores que começaram a ser pagos e algumas transferências foram feitas, por exemplo, na década de 40, 50, me lembro quando o Stropiano saiu do basquete do Minas e foi pro América. Me lembro do, Dalmo Assunção que saiu do Paisandu foi pro Atlético e depois pro América, já recebendo. Quer dizer, no meio de jogadores que eram todos amadores, já havia alguns que recebiam. Luciana: Sim. 427 Afonso: É, pela evolução do esporte, veio o esporte especializado que a gente chama de alto nível, em que os jogadores de vôlei, de basquete principalmente, ou de natação, passaram a ter salários pompudos! E os grandes times que hoje disputam as competições, em número reduzido, pagam bem aos seus atletas. Luciana: Sim. Afonso: Tem as bolsas atleta, o governo procurou incentivar de várias formas, mas o que a gente vê é uma dispersão muito grande entre o que era o esporte especializado, do passado e de hoje, da formação de atleta, formação de cidadão, e quase sempre na base do amor à camisa. Luciana: Sim. Afonso: Isso praticamente não existe mais. Luciana: Tá. Afonso: Você não vê mais falar um atleta que ficou num clube 10, 15, 20 anos. Luciana: Sim. Afonso: Antigamente o camarada começava e acabava. Dou o exemplo o octacampeão de basquete do América, os nomes me vêm à cabeça: Silvinho, Joãozinho, Strupiano e Dute Baldonedo. Eles jogaram no octacampeonato todo! Luciana: Sei. Afonso: Pergunta se alguém saiu por dinheiro, alguma cosia? Ninguém! Era realmente um amadorismo puro, né? E com o Mineirinho, nós tivemos naquela época em que o esporte especializado estava oscilando. E a gente pensava que a construção do Mineirinho ia consolidar o esporte chamado especializado, de uma forma mais eficiente. Então a gente pensava que os grandes clubes iriam aproveitar o Mineirinho. Inclusive reconquistando público, né? Luciana: Sim. Afonso: Que é muito importante o público ter um espaço daquele para assistir os grandes espetáculos. Mas pensávamos também na criação das escolinhas, através das federações que iriam ocupar o Mineirinho, abrindo oportunidade para todos os esportes especializados. 428 Luciana: Sei. Afonso: E aí vem, alguma coisa, não gosto nem muito de comentar não, mas eu fico vendo aí, falar em boxe e MMA, eu tenho um pouquinho de receio. Que eu não considero isso esporte. Luciana: Sim. Afonso: Se vai lá pra tirar sangue um no outro, não me entra muito na cabeça, não. Então a gente tinha que separar o esporte amador, esporte especializado, semiamadorismo, esporte profissional. Acho que agora nós temos essa gama aí. Luciana: Aí o senhor está falando isso mais agora? Afonso: Mais agora Luciana: É porque antes você teria o especializado Afonso: Antes era mais de amadorismo. Luciana: Que era amadorismo? Afonso: Era. Depois o semiamadorismo, né, com, ou amadorismo marrom, como eles falam. Luciana: Sim. Afonso: E o camarada tinha competição o camarada não podia receber para jogar. Era só para amador mesmo. Até a Olimpíada! Luciana: Uhum. Afonso: Era só jogador amador. Depois abriram. O dinheiro falou mais alto. E no esporte então, está falando mais alto, mesmo! Luciana: Sim. Afonso: E o que está acontecendo? Os pequenos fecham as portas. Os grandes ocupam espaço. E alguns não conseguem se manter. Então eu estou vendo grandes clubes, grandes times que disputam 1, 2 temporadas, desaparecem! Às vezes é o patrocinador que deixou de contribuir, ou houve uma queda de receita. O que a gente vê é que grandes clubes deixaram de competir. Dando exemplo aí, por exemplo do voleibol, o masculino do Mackenzie. Você não ouve mais falar. E era um timaço! Sendo um timaço! O voleibol do Olímpico era um timaço! 429 Não ouve mais falar. Isso pra gente que é um pouquinho mais antigo, a gente sente! Sente porque a própria sociedade se encarregou de transformar de uma forma absurda o esporte! Luciana: Sim. Afonso: Agora, se é pra melhor ou pra pior, a gente tem um pouquinho de dúvida. Cadê as escolinhas? Estão caras! Material esportivo, caro! Até medalha pra premiar competições, caras! Taças, caras! Bolas, caras! Então é, essa dificuldade financeira, alguns clubes vivem não mais de associado. Vive é de patrocínio. E o patrocínio nunca é tão, seguro. Às vezes tem empresa que investe alto num patrocínio e desaparece! Parmalat, não se ouve mais falar dela. Gastou um dinheirão! Bradesco, banco, tinha um time do Bradesco, era um timaço! Luciana: É. Afonso: Já não se fala mais. É, a gente então Luciana: Banespa também tinha, né? Afonso: Não é isso? É, a Atlântica Boa Vista patrocinava grandes equipes, não se fala mais! Então o esporte especializado ficou mais ou menos na área universitária, na área de escolas de nível médio e escolinhas que os pais estão sonhando é de ver um menino se formar, se transformar num Messi. Luciana: Sim. Afonso: Põem o menino lá não é bem para se divertir. Luciana: Sim. Afonso: É mais pra tentar achar um caminho pra ele no futuro. Essa discrepância Luciana: Então hoje Afonso: É complicada! Luciana: trabalhando com a ideia de que o esporte especializado seriam as modalidades voltadas pra prática mais amadora, então hoje o senhor acredita que terminou ficando mesmo nas escolinhas, no esporte universitário. Afonso: É, em alguns clubes recreativos, em grandes clubes. 430 Luciana: Sim. Afonso: Que ainda se mantém. Embora, uma ressalva a clubes recreativos que também não se mantiveram. Alguns disputavam campeonatos, pararam de disputar. Alguns chegaram ao ponto de deixar de disputar porque a taxa de arbitragem era cara, não estavam aguentando pagar taxa de arbitragem. Houve época também no esporte especializado que os árbitros eram também amadores. Apitavam com colaboração. Luciana: Sim. Afonso: Mas depois a profissionalização e tudo mais. Luciana: E essa profissionalização no esporte especializado, a gente pensando lá no começo, ou mais nesse avançar, é, na percepção do senhor, começou a acentuar o processo de deixar de ser amador pra ser profissional ou semiprofissional, a partir de quando? Afonso: Década de 50/60, talvez. Luciana: Começou lá? Afonso: Isso. Luciana: Tá. É porque Afonso: Por aí Luciana: É, no, nos documentos que eu acessei do Mineirinho, aparecia a, a ideia do esporte especializado. E o Mineirinho se constituía como espaço, né? Afonso: Isso. Luciana: É, Afonso: Esse espelho. Luciana: Pra desenvolver o esporte especializado. Agora em relação às modalidades, me parece se eu não estiver enganada, se eu não estiver entendendo de modo equivocado, que o futebol, no período ali da construção do Mineirinho ele não se enquadrava, ele já não era considerado como modalidade de esporte especializado, parece que ele já era uma outra categoria. 431 Afonso: É, o futebol é totalmente diferente Luciana: Sim. Afonso: Tanto que falava-se muito que o Mineirinho ia representar para o esporte especializado o que o Mineirão representou para o futebol mineiro. O crescimento espantoso, na época que o Cruzeiro se formou com Tostão, Piazza, Dirceu Lopes, deu aquele salto tremendo! Que o Cruzeiro antes do Mineirão era pequeninho, hoje é uma potência. E potência mundial. Luciana: Sim. Afonso: Que temos que reconhecer isso. Luciana: Uhun. Afonso: A base do crescimento do Cruzeiro, aqui eu relembro o saudoso Felício Brand, Furleti, presidentes que passaram por lá. Mas eles enxergaram no Mineirão uma nova fase e se preparam pra isso. Ficaram anos na frente. Em relação ao futebol, também nos clubes de várzea, a crise econômica afetou. A gente vê hoje, como pano de fundo a Copa Itatiaia. Que é também entre clubes amadores ou semiamadores. Mas você não vê muitas competições, não. O DFA só sobrevive com abnegados que cuidam de cada clube. Eu conheço inúmeros rapazes e senhores que mantém time com dinheiro do próprio bolso. Mantém mesmo! Tanto que houve um período em que eu pensava que as secretarias de esportes ou a prefeitura deveriam construir a quadra ou o campo de futebol e entregasse pra um clube constituído para mantê-lo. Para manter a posse territorial e não sofrer o avanço imobiliário. Que o avanço imobiliário então é coisa terrível, acabando com praças esportivas, transformadas em prédios e espigões. Luciana: É. Afonso: Campos de várzea somem da noite pro dia porque alguma grande construtora vai lá e faz mais um shopping, né? Luciana: Sim. Afonso: Então isso afetou demais o crescimento, o desenvolvimento do esporte chamado especializado ou esporte amador, sobretudo no futebol. 432 Luciana: Em relação às modalidades, o senhor falou do basquete, falou do vôlei, daria pra gente pensar que, que quando a gente fala ali, década de 70, 60, é, em esporte especializado daria para a gente dizer que tirando o futebol que já tinha um direcionamento profissional, pelo que o senhor está dizendo aí, mesmo o futebol a gente pode pensar na perspectiva do esporte especializado também quando ele não é profissional Afonso: é muito isolado, né? Parece que dependia do um individualismo Luciana: Sim. Afonso: Na natação apareceram grandes nadadores. No tênis apareceu o Guga, antes a Maria Ester Bueno. Individualista, né? Mas assim, grande proporção, grande número, cadê? Luciana: De maneira geral então, a gente pode, considerando que essas pessoas que terminaram de algum modo sendo profissionalizadas, elas foram exceção, não foi a regra? Afonso: Exatamente. Luciana: Por não ser regra, né? A gente pode dizer, afirmar que essas demais modalidades, a natação, o Afonso: Tênis, atletismo, ciclismo, boxe, tiro ao alvo. Luciana: O tênis. Afonso: Ciclismo, foram Luciana: E daria pra gente dizer assim, uma vez não sendo pago, não sendo profissionaliza, não, não sendo profissionalizado todas as modalidades seriam esporte especializado, naquela época? Afonso: Sim. Luciana: Sim. Afonso: Acredito que sim. Luciana: E mesmo o futebol se fosse igual o caso do DFA Afonso: O ciclismo, por exemplo. Luciana: Um amador, aqueles que jogam lá na várzea também 433 Afonso: Todos eles. Luciana: se enquadrariam no especializado? Afonso: Todos eles. Luciana: A exceção então à regra das modalidades do esporte especializado é o futebol profissional? Afonso: Profissional. Luciana: Certo. Sim. Afonso: Mais ou menos por aí, né? Luciana: Mais ou menos por aí. E uma coisa que eu vi Afonso: O assunto é muito complexo. Luciana: que a crônica trabalhava muito, a crônica esportiva trabalhava muito com esse conceito. Afonso: É, a AMCE Associação Mineira de Cronistas Esportivos, ela até patrocinava competições. Luciana: Sim. Afonso: Ela entrava pra valer também colaborando, não só divulgando, mas patrocinando espetáculos. E ela colaborou muito no desenvolvimento do esporte. Aliás a crônica esportiva ela é importantíssima. Mas até na crônica a gente vê o profissionalismo quando passa a ser paixão e fica sendo exacerbado a gente vê alguns comentários que são contrários ao desenvolvimento do esporte. O sujeito pensa nele e no clube dele. Esquece da coletividade, isso é ruim. Luciana: Sim. Afonso: Eu fico vendo, saindo um pouquinho desse viés, eu fico vendo essa briga Atlético e Cruzeiro, em jogos de Mineirão. Público, 90% pra um 10% pra outro. Que burrice sem tamanho! Me perdoe a expressão. Uma burrice sem tamanho! Invés dos clubes se unirem e tirarem proveito do Gigante da Pampulha, eles prejudicam a eles e ao torcedor. O torcedor você não vê uma constância, vamos jogar no Mineirão ou vamos jogar no Independência? 434 Ainda bem que ainda tem o Independência hoje, mas teve uma época que estavam jogando em Sete Lagoas. Luciana: É. Afonso: Não é? Luciana: É. Afonso: Que foi um período ruim pro esporte. Então eu fico imaginando que muita coisa precisa ser mudada, para que o esporte especializado encontre o caminho certo, que ainda não encontrou. Luciana: Sim. E o senhor se lembra, assim, o senhor saberia me dizer é Afonso: Futebol de salão, né, que nós estamos nos esquecendo dele. Luciana: É. Afonso: O crescimento do futebol de salão é espetacular, né? Mas ele hoje é altamente profissionalizado. E tem também clubes que aparecem e desaparecem. Luciana: É. Afonso: Não é isso? Dependendo do patrocinador e do prefeito da cidade. Não há uma, uma diretriz efetiva para o esporte especializado. Eu não estou vendo isso não. Luciana: O senhor jogou futebol de salão, não jogou? Afonso: Joguei, sim. Luciana: Quando que o senhor jogou? Afonso: Eu joguei 55 a 72 mais ou menos. Eu fui campeão pelo Mackenzie em 57, fui campeão pelo América em 64, 65, 67. E fui da seleção Mineira vice-campeã brasileira por 3 vezes. É, jogando no Rio de Janeiro, jogando no Ceará e jogando no Rio Grande do Norte. Depois perdemos feio lá no Rio Grande do Sul, no Rio Grande, foi quando eu encostei a chuteira (risos). Luciana: (risos) Afonso: O Keds, né? 435 Luciana: É? (Risos) Afonso: Na época era keds. Luciana: Sim. Afonso: Mas eu sou do tempo também do vôlei, do basquetebol, só amador! Luciana: Sim. Afonso: O time do América depois que acabou o octa, o Etiene Filho, saudoso Etiene Filho, assumiu com o Miguel e outros, Décio Vasconcelos e outros o América e fez times, mas só de amador! Paulo Chaves, Helio Aroeira. Escolinha, era juvenil, era aspirante e o time de série A, que também sucumbiu. Luciana: Uhun. Afonso: Não conseguiu se manter. Luciana: Uhun. Afonso: O Atlético não se manteve, o Paysandu fechou, O Iate não disputa mais, o Esparta não disputa mais, o Orion não disputa mais. E são clubes tradicionais! Cadê? Luciana: É. É, eu estava pensando aqui é nessa Afonso: Ah, e outra coisa que acho que mencionar aqui não é falar demais não. É que esporte especializado tem um fator preponderante que é o abnegado. É aquele que se entrega de corpo e alma à direção do time, se dedica mesmo! Tempo, dinheiro e faz tudo que pode pelo clube. Na hora que ele cansa, o clube também perde muito. Luciana: Ah tá. Afonso: Do vigor Luciana: Sim. Afonso: Isso acontece bastante. Luciana: Sim. 436 Afonso: Aí nós temos, nós estamos falando aí tinha um halterofilista, tinha o arco e flecha, tinha bocha, boliche, esses clubes todos tinha esse tipo de, de esporte. Eu me lembro do Palmeiras que é lá no Bairro Santa Efigênia, Funcionários, ele tinha uma equipe de boliche que dava gosto ver. Quem viu, né, sabe, nem sei se tem campeonato ainda. Luciana: Não sei também, não. Afonso: Tem alguns esportes que não sabe se tem campeonato, ainda. Isso me entristece, certo? Luciana: Boliche eu sei que tem ali no, tem o boliche Del Rey Afonso: Pois é, mas só que é comercial Luciana: Aí uma vez Afonso: Né? Luciana: Exatamente, é. Afonso: comercial. Não é mais, Luciana: Parece que tem campeonato lá. Afonso: A preocupação esportiva ali é mínima. Luciana: É Afonso: Ali é, angariar dinheiro pela prática dele, né? Luciana: É. Afonso: A gente tem que separar um pouquinho isso. Luciana: sim, tá. Então, assim, a gente falando em esporte especializado, é aquela prática voltada para o amadorismo Afonso: Sim. Luciana: Ainda que você tenha alguns casos isolados de profissionalismo, né? Afonso: E o alto nível, né? O alto nível também tem que ser profissionalizado, né? 437 Luciana: Sim. É. Afonso: O camarada tem que se dedicar 8 horas por dia no treinamento, né? Luciana: Sim. Afonso: A viagens, etc e tal. Luciana: É. Afonso: Ele vive daquilo. Luciana: É. Afonso: Virou profissão. Luciana: É, o senhor estava falando do futsal, que ali na década de 40, 50, ainda não existia. Afonso: Deixa eu te interromper um pouquinho, que quando eu falei aqui agora, que virou profissão, antigamente os grandes, os clubes médios, o próprio atleta comprava seu material. O clube às vezes só dava a camisa. Luciana: Uhun. Afonso: O tênis era o camarada que comprava, a meia ele comprava e às vezes ajudava na vaquinha pra comprar a bola. Luciana: O senhor chegou a pegar essa época? Afonso: Peguei, peguei. Luciana: Mas assim, todo esse tempo que o senhor jogou? Afonso: Não Luciana: Ou foi uma parte? Afonso: uma parte, né, uma parte. Luciana: Mais ou menos assim, década de Afonso: O América foi o primeiro time de futebol de salão do Brasil a jogar fora do Brasil. Foi jogar no Paraguai. 438 Luciana: Isso foi quando? Afonso: Foi 1965 alguma coisa. A turma cotizou, pagou a passagem e foi pra lá. Luciana: E o senhor foi pra esse jogo? Afonso: Também participei. Luciana: Sim. Afonso: Era o amadorismo ao, talvez ao inverso, né? (Risos) O camarada pagando pra jogar (risos) Luciana: (Risos) Ahan. É. É verdade. Afonso: Mas era bonito demais! Luciana: É, é. Afonso: Os Jogos Abertos, gente, mas que saudade dos jogos abertos, de Cambuquira, Poços de Caldas, São Lourenço, Campanha, vinha time de tudo quanto era lado. E a gente via o amadorismo ali. Luciana: Uhun. Afonso: Misturado com alguns times já semiprofissionais. Luciana: Sei. Afonso: Mas a gente via competições espetaculares, o entrosamento, a esportividade, espetáculo que era pras cidades. O lado de turismo, os hotéis lotados, uma maravilha. Luciana: Sim. Afonso: Ah, os tempos são outros. Essa que é a grande verdade. Os tempos são outros. Luciana: Sim, é. É, e o senhor se lembra assim, porque eu, quando eu estava fazendo o levantamento de jornais ali da década de 50, na verdade eu peguei o mês de agosto de 59, o Estado de Minas, e eu me lembro, me lembro de ter, não me lembro, não posso afirmar que não aparecia lá o termo esporte especializado, mas eu me lembro de atividade especializada. Luciana: Quando falava 439 Afonso: Ah, sim. Luciana: Dessas modalidades, falava, é, a expressão utilizada era atividade especializada. O senhor se lembra assim, mais ou menos quando que essa expressão “esporte especializado” começou a ser utilizado? Afonso: Não. Luciana: Ou mais utilizada? Afonso: Não me lembro, não. Luciana: Porque década de 70 eu vi muito. Afonso: É. Luciana: É, assim, não era incomum. Afonso: Não era não. Luciana: Não era difícil achar. Afonso: Não Luciana: Agora, antes. Afonso: Porque a gente não sabe nem, por exemplo, tinha umas competições de truco. Alguém considerava aquilo esporte. Era? Não sei? É tudo, mais, os clubes faziam muito isso. Tinha, estou me lembrando agora, também, as competições entre os clubes recreativos: era o Jaraguá, o PIC, o América, o Labareda, a Sede Campestre do Cruzeiro, eram competições acirradas! Luciana: Sim. Afonso: Aí entrava tudo quanto era modalidade que você pudesse imaginar. Tinha até, a gente ficava brincando, tinha competição até de bolinha de vidro. Por quê? Porque tinha “n” atividades em que se fazia o esporte, entra o esporte que era um pouquinho de competição, mas era também de recreação. Luciana: Ah, então o esporte recreativo também daria pra pensar nessa perspectiva Afonso: Nessa, sem dúvida! 440 Luciana: do esporte especializado? Afonso: Sem dúvida! Luciana: O amadorismo, mais voltado pra parte do lazer? Afonso: Sim. Luciana: Da recreação? Da diversão? Afonso: Diversão. Luciana: O esporte especializado taria mais no esquema da diversão? Afonso: A diversão sadia, né? Luciana: Sim. Afonso: Essas competições eram muito interessantes! Muito interessantes! E algumas até criaram rivalidades entre clubes. Entre clubes campestres, né? O chamado clube campestre. Estava me lembrando a AABB, o Clube dos Odontologistas, o do Banco Progresso que também tinha a sede campestre dele. Todos eles participavam. Luciana: Sim. Afonso: Eram competições muito interessantes! Luciana: Sim. Afonso: Muito interessantes! Luciana: Sim. Afonso: Tentamos uma época, nós tentamos fazer isso, com o campeonato bancário e campeonato de indústrias, de participar o máximo de pessoas, pra competir uma com a outra. Do que pudesse ser. Até em corrida de saco, a gente tentava incentivar isso. E a Diretoria de Esportes, uma época também, não na minha época, muito antes, ela criou as Ruas de Recreio. Luciana: Uhun. Afonso: Em que as atividades eram também abertas ao público, né? Luciana: Sim. 441 Afonso: E atividades interessantes: queimadinha, peteca, apareceu depois. Peteca, vôlei, patins, tudo era feito. Quer dizer, você fazia o entrosamento do esporte com a sociedade em todos os seus setores. Ali não tinha distinção do craque pro que não sabia jogar, não. É todo mundo. A Copa do Povo. A Copa do Povo era uma realização da Prefeitura de Belo Horizonte muito interessante! É uma pena que acabou. É uma pena! Luciana: É. Afonso: Que reunia pessoas, esportes de, todos os tipos e naipes. Também que estou dizendo, sinal dos tempos. Luciana: É, é, eu acho que é isso. Acho que o senhor me ajudou a entender um pouquinho mais, sobre o esporte especializado. Afonso: Eu tenho um trabalho aqui que eu fiz pro Aureliano Chaves, que deve ter muita coisa disso, mas tanto tempo que Luciana: É? Afonso: Minha memória num, pode ser que Luciana: Tá Afonso: eu achei aqui pra você. Luciana: Tá. Tá joia. Afonso: Eu fiz muita coisa nesse sentido, viu? Luciana: Sim, tá joia. Mais uma vez eu agradeço a disponibilidade. O senhor aceitar participar de mais uma etapa da entrevista me ajudando a entender um pouquinho mais de alguns processos aí da, da construção Afonso: É a, memória vai falhando em certas horas, né? Mas o essencial fica. Luciana: É, Não (risos) Afonso: (Risos) Luciana: Também a gente não consegue guardar tudo não, né? É, fica igual computador, ficando lento. 442 Afonso: É, (risos) Luciana: Então eu agradeço, tá, E aí a gente vai pra outra parte aqui. Obrigada. Transcrição finalizada. 443 ANEXOS Anexo I – Comodato entre a Universidade Federal de Minas Gerais e o Estado de Minas Gerais realizado em 25/02/1960 444 445 446 Fonte: Assessoria de Gestão da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais. 447 Anexo II – Convênio entre a Universidade Federal de Minas Gerais e o Governo de Minas Gerais realizado em 12/10/1972. 448 449 450 Fonte: Assessoria de Gestão da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais. 451 Anexo III – Informações sobre a construção do Palácio dos Esportes 452 Fonte: Revista Mineirinho, Vitória do Otimismo [s.d.]. 453 Anexo IV – Técnicos e operários da construção do Palácio dos Esportes 454 455 456 457 Fonte: Revista Mineirinho, Vitória do Otimismo [s.d.]. 458 Anexo V – Planta Baixa Localização Mineirão Mineirinho Fonte: ADEMG – Arquivo Mineirinho. 459 Anexo VI – Planta descrevendo os 8 portões de acesso ao Mineirinho Fonte: ADEMG – Arquivo Mineirinho. 460 Anexo VII – Planta Baixa Nível 9 Fonte: ADEMG – Arquivo Mineirinho. 461 Anexo VIII – Planta Baixa Nível 8 Fonte: ADEMG – Arquivo Mineirinho. 462 Anexo IX – Planta Nível 7 Fonte: ADEMG – Arquivo Mineirinho. 463 Anexo X – Planta Baixa Nível 6 Fonte: ADEMG – Arquivo Mineirinho. 464 Anexo XI – Planta Baixa Nível 5 Fonte: ADEMG – Arquivo Mineirinho. 465 Anexo XII – Planta Baixa Nível 4 Fonte: ADEMG – Arquivo Mineirinho. 466 Anexo XIII – Planta Nível 3 Fonte: ADEMG – Arquivo Mineirinho. 467 Anexo XIV – Planta Baixa Nível 2 Fonte: ADEMG- Arquivo Mineirinho. 468 Anexo XV – Planta Baixa Nível 1 Fonte: ADEMG – Arquivo Mineirinho.