cu lt ur ae pe ns am en to C O L E Ç Ã O DEZ / 2019 ANO 1 #1 ARTE, CULTURA E DEMOCRACIA NO SÉCULO XXI com AILTON KRENAK, ÁLVARO RESTREPO, ANTÔNIO NÊGO BISPO, JORGE BLANDÓN, JOSE ANTONIO MAC GREGOR C., JUCA FERREIRA, LEDA MARIA MARTINS, LUCERO MILLÁN, MARIA THAÍS, PAULO PIRES DO VALE E RENATA MARQUEZ. 2 3 EXPEDIENTE Prefeitura de Belo Horizonte Secretário Municipal de Cultura: Juca Ferreira Secretário Municipal Adjunto de Cultura: Gabriel Portela Presidenta da Fundação Municipal de Cultura: Fabíola Moulin Coleção Programa Cultura e Pensamento Conselho Editorial: Lena Cunha (coordenação), Ananias José Freitas, Armando Almeida, Celma Ferreira, Gabriel Portela, João Pontes, Juca Ferreira, Karime Cajazeiro, Leonardo Beltrão, Marcelo Bones, Simone Gallo Produção Editorial: Voltz Design Projeto Gráfico: Alessandra Maria Soares, Cláudio Santos, Ivan de Castro Revisão: Cláudia Campos Tradução: Paula Zawadzki Transcrição: Tecla Transcrição Foto da Capa: Daniel Monteiro Créditos de fotos: Ana Beatriz M. Baêta, Alexander Krivitskiy, Cindy Paternina, Daniel Monteiro, Henry & Co., Jackson David, Jakob Owens, Ricardo Laf, Sandra Zea, Thaynara Souza, Thiago Japyassu Contatos: gab.smc@pbh.gov.br Permitida a reprodução total ou parcial, desde que citada a fonte. As opiniões aqui expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, a visão da Secretaria Municipal de Cultura e da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte sobre o assunto. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Hélio Prata - CRB6/1849) A786 Arte, Cultura e Democracia no Século XXI.-- Belo Horizonte : Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, 2019. 72 p. -- (Cultura e pensamento ) -- ISBN 978-85-60151-07-3 1. Cultura. 2. Política cultural. 3. Arte. 4. Democracia. I.Belo Horizonte (MG) - Secretaria Municipal de Cultura. CDD: 306.086 Fo to R IC AR D O L AF 4 5 A Coleção Cultura e Pensamento inaugura uma política editorial voltada a divulgar e disponibilizar reflexões produzidas a partir de iniciativas promovidas pela Prefeitura de Belo Horizonte por meio da Secretaria Municipal de Cultura e da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Um de seus propósitos é tornar periodicamente pública a sua produção de conhecimento de modo a ampliar o debate sobre questões afins. Essa coleção nasce do desejo de promover reflexões e debates sobre temas relevantes para a compreensão do Brasil e do mundo contemporâneo no âmbito do Programa Cultura e Pensamento. A primeira edição reúne parte considerável dos debates que deram o tom do que foi o Encontro Internacional Arte, Cultura e Democracia no Século XXI, realizado em agosto de 2019 em Belo Horizonte, Minas Gerais. Esta publicação convida a reflexões que remetem a questões cruciais sobre a contemporaneidade. A formação de mentalidades permitida pelos novos ambientes de comunicação vem ampliando a participação da cultura não apenas em termos econômicos, mas também sob a forma de demandas sociais e de mobilização por direitos e como expressão de cidadania e respeito à diferença. O conteúdo destas publicações, seja proveniente da realização de eventos, de encontros internacionais ou seminários, deve sempre resultar das discussões e debates de âmbito nacional e internacional em permanente diálogo com a cidade, em todas as suas dimensões materiais e intelectuais ao longo de sua história. A criação da Coleção Cultura e Pensamento é um compromisso de fortalecer uma política pública para a cultura que tenha como um de seus pilares a disponibilização gratuita e a democratização de acesso ao conhecimento. Daí seu caráter de projeto especial e permanente.Ar te , c ul tu ra e de mo cr ac ia n o sé cu lo X XI DEZ / 2019 ANO 1 #1 6 7 1 2 3 Cultura, Estado e sociedade Juca Ferreira Gestão cultural para a democracia Jose Antonio Mac Gregor C. Fios que se entrelaçam numa espiral da vida Jorge Blandón O que nós estamos fazendo? Renata Marquez Teatro e participação cidadã Lucero Millán Plano Nacional das Artes – Manifesto “Para todos, com cada um” Paulo Pires do Vale Cultura e… Cultura ou… Antônio Nêgo Bispo Ser florestaS, e não pomar Maria Thaís Fracasso, educação e corpo Álvaro Restrepo Corpo, memória de afetos – os cantares Maxakali Leda Maria Martins Um lugar onde a Terra descansa Ailton Krenak Cultura, crise e democracia no século XXI – reflexões críticas Cultura e participação social no século XXI Política, criação, corpo e afeto – os desafios do século XXI Programação completa do Encontro Internacional Arte, cultura e Democracia no Século XXI 14 15 20 26 30 31 36 39 42 46 47 52 56 61 66 8 9 Fo to T H AY N AR A SO U ZA Belo Horizonte, desde sempre, é uma cidade que reúne e sintetiza to- das as características de Minas Ge- rais. Falo isso com o olhar de quem adotou essa cidade há mais de dois anos e meio e, aos poucos, foi sen- do adotado por ela, admirando e entendendo melhor suas caracterís- ticas e sua pluralidade de sentidos. Belo Horizonte expressa uma con- jugação entre o respeito à tradição, característica típica das Minas Ge- rais – o pensar muito antes de falar, a cortesia no trato com todos e uma resistência a radicalismos supérflu- os – e a ousadia cosmopolita na bus- ca de soluções e inovações na cons- trução da convivência coletiva. Mas o que me chamou a atenção, desde antes de vir para cá assumir a Secretaria Municipal de Cultura, aceitando o honroso convite do Pre- feito Alexandre Kalil, foi, sobretudo, a efervescência da sua vida cultural, intelectual e artística. Essa eferves- cência carrega a contribuição de ge- rações e gerações de artistas, pen- sadores, escritores, atores, músicos e gestores culturais de vertentes diversas, mas que sempre somaram em uma mesma direção. Belo Horizonte produz cultura em todas as suas regiões geográficas e em todos os estratos sociais. Do centro à periferia, da periferia ao centro, é uma cidade que faz teatro, dança, música, artes plásticas para todos os gostos e estilos. Uma cidade que é plural e respeita essa pluralidade e que demonstra isso sendo palco de grandes even- tos, grandes festivais, grandes gru- pos de dança, de música e de tea- tro, ao mesmo tempo que estimula as mais diversas vocações artísticas iniciantes, reforça as culturas tradi- cionais e abre espaço para todas as manifestações artísticas. Isso tudo é reforçado por políticas públicas para a área da cultura que são re- ferência no cenário nacional e que vêm sendo fortalecidas e ampliadas nos últimos anos. São exatamente essas razões que fazem com que Belo Horizonte pos- sa realizar e sediar esse Encontro Internacional com foco nas relações entre a arte, a cultura e a democra- cia. É essa ousadia respeitosa que nos permite abrir mais um espaço institucional de reflexão e de criativi- dade, únicas armas capazes de fazer com que as cidades e as sociedades evoluam, de forma pacífica e demo- crática, em uma construção coletiva e solidária, sem discriminações e preconceitos de qualquer tipo. Vivemos um momento especial- mente difícil em nosso país para a cultura, a educação e a ciência, ata- cadas e ameaçadas por retroces- sos inimagináveis há pouco tempo atrás. Mas é a sociedade toda que está sendo atacada, com conquistas sociais e direitos sendo demolidos dia após dia, e assistindo atônita ao crescimento de um discurso que se apoia na violência e no culto à morte e à destruição. Enquanto isso a eco- nomia nacional vai sendo solapada, entrando em uma recessão profun- da, e a credibilidade do país vai se deteriorando no cenário mundial de uma maneira nunca vista em nossa história. Certamente, esse Encontro, com a participação de expressões de uma gama plural e representativa das mais diversas linhas de pensamento e de experiências nacionais e inter- nacionais variadas, significará um avanço frente aos desafios que te- mos pela frente. É esse espírito que nos anima e nos congrega aqui hoje. Não poderia deixar de, ao terminar essas palavras, ousar citar um ícone da cultura e do pensamento do sé- culo XX, o italiano Norberto Bobbio, um intelectual de renome interna- cional, que nos lembrou com preci- são: A história é um labirinto. Acredita- mos saber que existe uma saída, mas não sabermos onde está. Não havendo ninguém do lado de fora que nos possa indicá-la, devemos procurá-la nós mesmos. O que o labirinto ensina não é onde está a saída, mas quais são os caminhos que não levam a lugar algum. (BOBBIO, 1987) Assim, com esse espírito e com a certeza de que seguiremos em fren- te, é que realizamos esse Encontro Internacional Arte, Cultura e Demo- cracia. Viva a democracia, a arte e a cultura! Juca Ferreira Secretário Municipal de Cultura BOBBIO, Norberto. O futuro da de- mocracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. AO LEITOR REFERÊNCIA 10 11 Neste momento alguns conceitos fundamentais voltam ao debate polí- tico. Longe de estarem consolidados no cotidiano da nossa sociedade, como estruturas (ou instituições), como formas de vida e práticas so- ciais, temas como a liberdade, o po- der, a democracia, a cultura, a sexu- alidade, a arte, a igualdade, a justiça social, a equidade, são conceitos em discussão. Toda ação política pres- supõe também a maneira como as sociedades vão pensando conceitos que lhes são constituintes. Esses conceitos são experiências sociais de larga escala do ponto de vista histórico que continuam existindo (e insistindo) no interior da vida social. Os temas centrais apresentados para reflexões, como: 1. Cultura, crise e democracia; 2. Cultura e participação social; 3. Política, cria- ção, corpo e afeto; 4. Arte, política e democracia – nos dão pistas de quão profundas precisam ser as nossas reflexões e quão intensas devem ser as nossas discussões. Buscamos aqui lançar olhares sob diferentes perspectivas, a partir das instituições, do lugar da participa- ção social, até chegar no indivíduo, no corpo e no afeto. Desdobrá-las em encontros temáticos é também uma forma de ampliar os debates, pontuando questões transversais que perpassam os enunciados cha- ves, tais como: educação, juventude, liberdade de expressão, manifesta- ção, economia da cultura, ativismo cultural, espaços comuns, experiên- cias compartilhadas, entre outros. E para isso será preciso ir aos luga- res de desconforto do pensamento, lá onde se localizam as questões que precisamos pensar, que muitas vezes doem, destoam das aprendi- zagens meramente conhecidas. Tal- vez seja necessário, como afirmou Walter Benjamin, “escovar a história a contrapelo”. Se entendemos a cultura como par- te fundamental da civilização, ela passa a ser compreendida como o campo em que os sujeitos humanos elaboram símbolos e signos, insti- tuem as práticas e os valores, de- finem para si próprios o possível e o impossível, a direção da linha do tempo (passado, presente e futuro), as diferenças no interior do espaço (a percepção do próximo e do dis- tante, do grande e do pequeno, do visível e do invisível), os valores (o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, o justo e o injusto). Segundo Marile- na Chaui, “a cultura é um direito do cidadão, direito de acesso aos bens e às obras culturais, direito de fazer cultura e de participar das decisões sobre a política cultural”. E eu ainda acrescento “direito à fruição”. Se entendemos a cultura como lu- gar de discussões sobre que tipo de forma de vida nós queremos, signi- fica, então, que ela seria uma for- ma de vida adaptada a demandas democráticas. As pessoas querem encontrar novas formas políticas e outras práticas sociais, quebrar vín- culos de representação e ter parti- cipação mais direta na democracia, questionar o modo como o dinheiro público é utilizado e como são cons- tituídas as escolhas que reverberam em políticas públicas cidadãs… Essas são perguntas que poderiam levar a uma transformação estrutural da sociedade brasileira. E neste proces- so a cultura e a arte constituem um campo fundamental. Para Jacques Rancière, política e arte têm uma origem comum. Em suas obras, o filósofo francês desenvol- ve uma teoria em torno da “partilha do sensível”, conceito que descreve a formação da comunidade política (e cultural) com base no encontro discordante das percepções indivi- duais. A política, para ele, é essen- cialmente estética, ou seja, está fun- dada sobre o mundo sensível, assim como a expressão artística. Rancière nota que é preciso ter em conta que há já na base da política uma esté- tica primeira, ou seja, um modo de, ao mesmo tempo, dividir e compar- tilhar a experiência sensível comum. Por isso, um regime político só pode ser democrático se incentivar a mul- tiplicidade de manifestações dentro da comunidade. “Partilha” implica aqui tanto um “co- mum” (a cultura, os direitos civis, a liberdade) quanto um “lugar de disputas” por esse comum – mas de disputas que, baseadas na di- versidade das atividades humanas, definem “competências ou incom- petências” para a partilha. Dividir e compartilhar a experiência sensível comum, proporcionar o encontro discordante das percepções indivi- duais, talvez sejam esses os nossos grandes desafios. Constituir a rela- ção entre arte, cultura, civilização e política/democracia, tirando a arte de seus limites estreitos para reve- lar a sua importância na experiência contemporânea. Fabíola Moulin Presidente da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte AO LEITOR Fo to D AN IE L M O N TE IR O 12 13 Ativista indígena dos Direitos Humanos, pertence à etnia Krenak. Em 1987, liderou a luta pelos princípios inscritos na Constituição Federal do Brasil durante a Assembleia Constituinte. Recebeu vários prêmios, entre eles, o Prêmio Internacional para a América Latina Letelier-Moffitt de Direitos Humanos (Washington), o Prêmio Homem e Sociedade, da Fundação Aristóteles Onassis (Grécia), o Prêmio Nacional de Direitos Humanos. Bailarino, coreógrafo e pedagogo colombiano, um dos pioneiros da dança contemporânea na Colômbia e referência de dança latino- americana. Seu trabalho já foi visto em mais de 60 países. Em 1997, fundou, com a bailarina, coreógrafa e pedagoga francesa Marie France Delieuvin, o Colegio del Cuerpo, na cidade de Cartagena das Índias, na costa caribenha colombiana. Mestre quilombola piauiense, intelectual, poeta, escritor e militante de grande expressão no movimento social quilombola e nos movimentos de luta pela terra. É lavrador, formado por mestras e mestres de ofícios e morador do quilombo Saco do Curtume, localizado no município de São João do Piauí. Em 2017, ministrou o curso de Saberes Tradicionais da UFMG na categoria de Professor Convidado. Profissional de formação artística, cultural e de políticas culturais. Gestor cultural. Produziu El Habitante de abajo de la cama, In-con-cierto, Ventana al cielo, com Nuestra Gente. Articulador da Cultura Viva Comunitária Latino Americana. Professor de Processo Urbano e Ambiental - Urbam Eafit. Publicou: Teatro jovem, Pensar a cultura a partir do desenvolvimento local, Ser-Fazer-Acontecer. Antropólogo social, mestre em Desenvolvimento Rural e gerente cultural. Recebeu o Prêmio Nacional de Antropologia Social Fray Bernardino de Sahagún (1985) e o Prêmio Nacional de Arte e Cultura Mil Mentes por México (2018). Promoveu a criação do Sistema Nacional de Treinamento e Profissionalização de Promotores e Gerentes Culturais do México (2001). Atualmente é Diretor de Cultura do município de El Marqués, Querétaro, México. Sociólogo com dedicação à política, à cultura e às questões ambientais, foi vereador e Secretário do Meio Ambiente de Salvador. Secretário Executivo do Ministério da Cultura e Ministro da Cultura. Foi Embaixador Especial na Secretaria Geral Ibero- Americana e Secretário Municipal de Cultura de São Paulo. É Secretário Municipal de Cultura de Belo Horizonte de 2017 à presente data. Poeta, ensaísta e dramaturga. Doutora em Letras/Literatura Comparada pela UFMG. Mestre em Artes pela Indiana University, Estados Unidos. Pós-Doutora em Performances Studies pela New York University Tisch School of the Arts. Professora aposentada da UFMG. Diretora de Ação Cultural da UFMG (2014-2018). Autora de vários livros e ensaios publicados no Brasil e no exterior. Em 2017, foi homenageada com a criação do Prêmio Leda Maria Martins de Artes Cênicas Negras (BDMG). Estudou Literatura Dramática e Teatro na UNAM (México) e Sociologia na UCA (Nicarágua). Em 1986, fundou, com o seu grupo, o primeiro teatro independente da Nicarágua e é uma das fundadoras do Fit Nicarágua (Festival Internacional de Teatro, 1995). Como autora escreveu Tiempo al tiempo, Ay amor ya no me quieras tanto, La ciudad vacía y Francisca. Consultora em temas de participação cidadã e teatro, além de responsável pelo Teatro Justo Rufino Garay. Professora de Artes Cênicas da ECA-USP. Dirigiu, com a Cia Teatro Balagan, os espetáculos Programa Pentesileia – treinamento para a batalha final, Recusa, que ganhou o Prêmio Shell de Direção, Prometheus – a tragédia do fogo, Západ – a tragédia do poder, Tauromaquia, entre outros. Publicou: Na cena do Dr. Dapertutto: poética e pedagogia em V. E. Meierhold e o livro Balagan – Cia de Teatro. Como pedagoga e diretora, atua na Itália, França, Colômbia e Rússia. Curador, ensaísta, professor universitário e comissário do Plano Nacional das Artes de Portugal, que prevê abranger todo o universo escolar português no período 2019-2024. Professora de Análise Crítica da Arte na Escola de Arquitetura da UFMG, com doutorado em Geografia e pós-doutorado em Antropologia. É uma das editoras da revista PISEAGRAMA, dedicada à discussão da esfera pública no Brasil. Foi curadora da exposição Escavar o futuro (Palácio das Artes, 2013) e do Museu de Arte da Pampulha (2011 a 2012). Sua prática direciona-se às relações entre arte, espaço, outros campos do conhecimento e outras cosmociências. AILTON KRENAK CO LA BO RA DO RE S ÁLVARO RESTREPO ANTÔNIO NÊGO BISPO JORGE BLANDÓN JOSE ANTONIO MAC GREGOR C. JUCA FERREIRA LEDA MARIA MARTINS LUCERO MILLÁN MARIA THAÍS PAULO PIRES DO VALE RENATA MARQUEZ 14 15 Cu lt ur a, c ri se e d em oc ra ci a no s éc ul o XX I – r ef le xõ es c rí ti ca s 11Cultura, crise e democracia no século XXI - reflexões críticas Os desafios emergentes no século XXI e como eles se relacionam com a so- ciedade em suas diversas dimensões. A cultura como estratégia de desen- volvimento, como direito e perspectiva de futuro diante das crises mundiais. Momento dedicado a refletir sobre as políticas culturais no século XXI e os aspectos mais relevantes para a compreensão do papel do Estado, do protagonismo da sociedade e das suas inter-relações com as várias áreas do conhecimento para a construção de uma sociedade mais justa, democráti- ca, plural, sustentável e alegre. A relação entre arte, cultura e demo- cracia pode ser pensada de diversas maneiras. Seja a partir da responsa- bilidade do Estado democrático para com a arte, a cultura e o desenvolvi- mento cultural de uma sociedade ou a partir da contribuição destas para a estruturação de uma sociedade democrática. Geralmente, arte, cultura e demo- cracia se articulam quando se reco- nhece a importância do Estado de- mocrático para o desenvolvimento cultural e para a estruturação de uma sociedade sustentável em to- das suas dimensões. Dois movimen- tos geralmente presentes nos pro- jetos mais qualificados, que assim o são por os possuírem no seu âmago, na sua essência. Quando Lula foi eleito, quando Gil- berto Gil foi escolhido Ministro, a primeira tarefa do Ministério da Cultura foi definir qual era a respon- sabilidade do Estado democrático para com o desenvolvimento cultu- ral da sociedade. Fato que nos fez compreender que tínhamos três im- portantes vertentes: A primeira delas diz respeito a tra- balhar a arte e a cultura como di- mensão simbólica da sociedade. Não há sociedade, não há ser hu- mano e não há desenvolvimento se não tivermos a cultural e arte como estratégia para a organização social. Talvez essa seja sua dimensão mais importante. A máquina do mundo não é uma máquina de produção de mercadorias. Em outras palavras, quando pensamos no ser humano, em seu desenvolvimento enquanto ser, quando pensamos em sua feli- cidade e em seu pleno desenvolvi- mento, inevitavelmente a arte e a cultura se deslocam para o centro da constituição do Estado democrá- tico. Fazer essa reflexão deve ser o primeiro grande desafio para que se pensem políticas, programas e ações em âmbito nacional. O passo seguinte deve ser interagir com os países latino-americanos, africanos e ibero-americanos, sempre dentro dessa perspectiva. Uma segunda dimensão centra-se na cultura e na arte como um direito de todos. O Estado democrático tem obrigação de cumprir sua função de suprir, por meio de serviços, de fo- mento, de incentivo e, eu diria, por meio de uma perspectiva mais am- pla, sua função de criar as melhores condições possíveis para o desen- volvimento cultural da sociedade. Tornando a cultura e a arte acessível a todos, tratando-as como um direi- to básico, como nos é a comida, a moradia e a saúde. A sociedade brasileira tem uma difi- culdade enorme de entender a im- portância da cultura e de entendê- -la como direito, apesar de termos avançado muito nas duas últimas décadas, particularmente depois da redemocratização. A cultura como direito é uma questão que está pos- ta na sociedade brasileira, mas que ainda está sem solução. Especial- Tenho a convicção de que uma das vias para repensar a nossa existência no mundo e para nos reformar como humanidade passa, necessariamente, pela cultura, porque é na cultura que residem as representações simbólicas, o modelo de civilização ou de democracia a que nós podemos aspirar como sociedade. (Jose Antonio Mac Gregor – Diretor de Cultura do município de El Marqués, Querétaro, México) JUCA FERREIRA CULTURA, ESTADO E sOCIEDADE 16 17 Cu lt ur a, c ri se e d em oc ra ci a no s éc ul o XX I – r ef le xõ es c rí ti ca s 1 mente em um momento como o que estamos vivendo, quando essa questão tende a retroceder alguns passos. Estamos passando por um eclipse e, para seguir adiante, já te- mos uma ideia de como avançar, já temos uma plataforma de cidadania consolidada, capaz de se alimentar de um desenvolvimento cultural e do acesso à cultura. Independentemente das condições sociais, todos os seres humanos fa- zem cultura. Mesmo nas periferias das grandes cidades brasileiras, con- vivendo com altos níveis de misera- bilidade, com as condições mais ad- versas, acossados pelo tráfico, pelas milícias e pela polícia, a população faz cultura. Nesse cenário, a cultura acaba sendo a principal dimensão humana da experiência daquelas pessoas. É gigantesca a quantidade de grupos culturais nas periferias brasileiras. Em um levantamento ainda precário, com um nível de im- precisão muito alto, já foi possível identificar mais de 100 mil grupos culturais, distribuídos pelas favelas, pelas periferias das grandes cida- des, das de médio e pequeno porte e pelas aldeias indígenas. Observa- -se, neste último caso, que os jovens indígenas vêm tomando a frente em iniciativas culturais, organizando-se em grupos dentro de sua própria al- deia. O mesmo tem acontecido nos assentamentos rurais. Seja dando um trato à cultura tradicional, seja ativando cineclubes, seja implemen- tando bibliotecas comunitárias. Não importando a natureza da ação e a prioridade, alguns grupos se or- ganizam em pequenas orquestras e até mesmo em filarmônicas. Em Pernambuco, você pode ser sur- preendido por uma orquestra de jovens trabalhadores rurais que, após sua jornada de trabalho, se en- caminham para uma cidadezinha e executam de Bach a Villa-Lobos com uma razoável qualidade. É lastimável ver em um Estado ex- cessivamente ausente e que tem tradicionalmente preferido ter a polícia como principal intermediária diante das populações periféricas; um Estado cuja maior preocupação é o controle dos excluídos, e não sua inclusão de modo qualificado, de maneira a contribuir para o de- senvolvimento das condições huma- nas dessas pessoas. Durante muitos anos as organizações não gover- namentais é que cumpriram a fun- ção de suprir esse vazio em nossa sociedade. Para organizar um evento para as Nações Unidas em 2012, no Ano In- ternacional dos Afrodescendentes, trabalhando pela Secretaria Geral Iberoamericana (Segib), uma insti- tuição intergovernamental, eu tive que viajar ao longo de seis meses do México ao Uruguai. Foi então que descobri que essa é uma realidade de toda a América Latina. Encontrei grupos culturais dedicados à cultu- ra tradicional, outros que atuavam realizando intervenções urbanas de ponta, com linguagens bem con- temporâneas. E notei que havia um reconhecimento por parte do Esta- do dessa efervescência cultural e da necessidade de reforçar o protago- nismo cultural das comunidades e da sociedade como um todo. Não se trata mais daquela visão pa- ternalista do final do século passado que queria levar a cultura a essas comunidades e à sociedade. A so- ciedade faz cultura, a sociedade faz cultura inclusive de muita qualida- de. Cabe ao Estado, além de apoiar, fomentar e incentivar esse protago- nismo, dando-lhe condições de ex- pressão e desenvolvimento de suas linguagens, disponibilizando biblio- tecas, centros culturais, teatros etc. A equação que se nos apresenta é esta: compreender a dinâmica en- tre a sociedade e a responsabilida- de que o Estado democrático tem para com o desenvolvimento cul- tural como um todo, em condições de igualdade com o conjunto da sociedade, principalmente das co- munidades periféricas e apartadas do desenvolvimento. É preciso re- conhecer esse protagonismo, sem o que não se consegue de fato dar a contribuição necessária. Uma terceira e última dimensão da cultura está relacionada ao seu de- senvolvimento econômico. A econo- mia da cultura não pode ultrapassar seu limite e hegemonizar-se em rela- ção às suas outras dimensões. Quan- do isso acontece, mercantilizam-se em excesso os processos culturais, degrada-se a manifestação cultural em si, esvaziando-a de seu conteúdo e de sua força simbólica. Mas é possível, e até necessário e inevitável, conviver-se com a ex- pressão econômica da cultura na sociedade. No México, qualquer um se impressiona com a importância, simbólica e econômica, dos maria- chis; temos a impressão de que esta- mos rodeados deles. Esse é um bom exemplo de uma economia popular importantíssima. Um professor mexicano, ao fazer uma pesquisa sobre os mariachis, impressionou-se com o tamanho da cadeia produtiva que gira em torno deles e descobriu o tamanho da im- portância que eles têm para a so- brevivência de muita gente. Além de desenvolver a reprodução cultural, fazer a vizibilização da alma mexica- na, da identidade mexicana, os ma- riachis se tornaram exemplo de uma robusta economia da cultura. Casos semelhantes a este, com grande potencial de exploração, também nós temos no Brasil inteiro! Como nós demoramos tanto para descobrir que o Carnaval também é uma gigantesca economia cultural? Para Recife, para Olinda, para Salva- dor, para o Rio de Janeiro, para São Paulo e também para a cidade de Belo Horizonte. O São João é um bom caso a citar. É uma das economias da cultura mais importantes do Brasil. E mes- mo sendo maior do que o Carnaval, em sua abrangência em todo terri- tório nacional, não tem a visibilidade que o Carnaval tem. Esquecemo-nos que o São João ocorre em um núme- ro muito maior de municípios do Brasil, mobiliza energias populares gigantescas, tem fluxos econômicos bem consolidados. Compreender a lógica dessas economias é algo cen- tral no campo das políticas públicas de cultura. Temos que tratar a cultura como um direito, um direito a que todos devem ter acesso. Ao mesmo tem- po, como uma dimensão simbólica de uma sociedade ou grupo que os possibilita a qualificação das re- lações humanas e da vivência indi- vidual. No Brasil, é impressionante a precariedade da noção do papel do Estado nesse campo. Quando Gilberto Gil era Ministro, nós pude- mos constatar, de maneira muito óbvia, que nunca haviam sido de- mandados números e indicadores sobre o estado da arte na cultura. Nós constatamos que estávamos sendo os primeiros a fazer este tipo de pedido ao IBGE, instituição en- carregada do censo e da gestão dos indicadores sociais e econômicos do país. Quando os primeiros núme- ros começaram a aparecer, embora não tenham nos surpreendido, não deixaram de nos impressionar. Sou- bemos então que mais de 80% dos municípios brasileiros não têm um teatro, uma biblioteca, um cinema. Mais de 80%! Só 13% dos brasileiros vão ao cinema, e mesmo assim, com pouca regularidade. Nossos coefi- cientes quanto aos níveis de leitura indicam-nos uma média de apenas 1,7 livros per capita lidos ao longo de um ano. Superar níveis tão baixos de leitura e escrita é um de nossos maiores desafios no Brasil. Temos um dos índices mais baixos da América Lati- na. Em países de capitalismo tardio como o nosso, ao Estado se atribui um papel incontornável para que se impulsione seu desenvolvimento. Tenhamos claro que o Estado não faz cultura. No máximo promove al- gumas ações de produção cultural direta, mas esse não é seu principal e fundamental papel. Cabe ao Esta- do criar o melhor ambiente possível para o desenvolvimento cultural da sociedade. E dentre as funções de criar o melhor ambiente possível, a mais importante de todas é sem dúvida a garantia da liberdade de expressão. Desde a queda da Ditadura Militar no Brasil, ninguém tinha sido até en- tão molestado pelo chamado delito de opinião. Isso tinha desaparecido completamente da nossa cena po- litica. Todos nós tínhamos direito de dizer o que pensamos. Somen- te num ambiente como este que dá conta da nossa complexidade e que abre espaço para o contraditó- rio é que vínhamos consolidando a democracia no Brasil, resultado de enfrentamentos, contraposições de ideias e de diferentes sensibilidades e visões de mundo. Agora, estão censurando os proje- tos de cinema que vão ser avaliados, e se disse que nenhum projeto que tenha alguma conotação LGBT vai ser sequer avaliado pelas comissões da ANCINE para financiamento. As pessoas estão sendo molestadas em lugares públicos. Kléber Men- donça, cineasta brasileiro contem- porâneo dos mais premiados, um dos dois premiados em Cannes este ano, acaba de ser punido por ter se manifestado contra o impeachment de Dilma Rousseff, exigindo-se dele a devolução do dinheiro que possi- bilitou a produção desse filme re- centemente premiado. Estamos em um momento que nos demanda muita lucidez. Os que fa- zem arte e cultura não podem pen- sar de uma forma restrita, não po- dem ter limites à sua criatividade. É preciso compreender que a so- ciedade vive um delicado momen- to. Conquistas democráticas estão ameaçadas. É preciso ter grande lucidez. Isso vale não só para polí- ticos e gestores culturais. Cada ar- tista, cada produtor cultural, seja ele da área tradicional, seja da área comunitária, seja um artista de pal- co, cineasta, o que for, precisa de habilidade para construir processos culturais que façam mais que resis- tência, que defenda os direitos cul- turais conquistados na sociedade brasileira e aponte para sua evolu- ção. A democracia brasileira é uma das mais imperfeitas. Chegamos a um estágio de desenvolvimento e inserção do qual não podemos re- troceder. Não podemos permitir retrocessos de qualquer natureza, precisamos consolidar o que foi constituído. Isso cabe a todos. To- dos nós precisamos de uma grande frente em defesa da democracia e da evolução da nossa sociedade, porque sem cultura não seremos bem-sucedidos no século XXI. Foto RICARDO LAF 18 19 Cu lt ur a, c ri se e d em oc ra ci a no s éc ul o XX I – r ef le xõ es c rí ti ca s 1 […] qual é o papel do Estado? O Estado tem papel fundamental em todas as políticas que dizem respeito ao interesse público, claro. E, na cultura em particular, eu vejo com muita clareza a necessidade de o Estado estar presente, cuidando da infraestrutura, cuidando do fomento, dando atenção e trabalhando com mais clareza a questão do financiamento. DANILO MIRANDA Diretor Regional do Serviço Social do Comércio – Sesc – no Estado de São Paulo Fo to R IC AR D O L AF 20 21 Cu lt ur a, c ri se e d em oc ra ci a no s éc ul o XX I – r ef le xõ es c rí ti ca s 1 A queda do Império Romano do Oci- dente foi provocado por diferentes causas que, ao longo de um deter- minado tempo, acabaram entrando em colapso; entre elas se destacam: a pressão dos invasores “bárbaros”, externos à cultura romana, as per- das territoriais irreversíveis, as guer- ras civis destrutivas, os governantes incapazes e corruptos, a perda de legitimidade do imperador, o rela- xamento da disciplina e lealdade de seu poder militar, e finalmente, o estabelecimento da autoridade dos povos “bárbaros” na maior par- te da área de dito Império. Arnold J. Toynbee e James Burke, sustentam que toda a era imperial foi uma que- da constante das instituições funda- das nos tempos da República.1 Por que inicio minhas reflexões com esta referência à queda do Impé- rio Romano? Porque sem dúvidas se tratou de uma crise civilizatória e de profunda raiz cultural. E hoje, as ameaças à democracia ocidental que aspira se construir a partir da cidadania têm, entre seus principais inimigos, uma nova classe de inva- sores bárbaros que se apoderaram de boa parte dos aparelhos políti- cos, militares, financeiros e empre- sariais de nossos países, mediante estratégias absolutamente globali- zadas e brutalmente violentas, que colocaram em crise o conceito mes- mo de Estado-Nação: refiro-me ao crime organizado para o narcotráfi- co, o sequestro, o tráfico de pesso- as, a extorsão, os feminicídios e toda a classe de violência. E, todos sabemos, pessoas com medo ficam paralisadas, confusas, visualizam de maneira distorcida o ambiente, desativam seu poten- cial para conviver, e experimentam uma ansiedade que as leva a atuar de forma mais impulsiva e reativa, e não de modo racional e organizado. Ou seja, o medo e a fragmentação social incidem de maneira devasta- dora sobre a construção da cidada- nia, que significa, acima de tudo, a participação comprometida e orga- nizada nos assuntos públicos, o di- álogo comunitário para intervir na transformação dos problemas que acometem a maioria e a inteligência coletiva e distribuída para atuar de maneira eficiente e gradual, de bai- Num momento em que forças reacionárias e obscurantistas empreendem uma verdadeira cruzada contra o espírito libertário, crítico e pluralista da arte, cabe a toda a sociedade e, especialmente a nós, artistas, a defesa intransigente do direito de acesso irrestrito aos bens culturais, sem qualquer tipo de censura ou cerceamento de qualquer natureza. (Eduardo Moreira – Fundador, diretor artístico e ator do Grupo Galpão) JOSE ANTONIO MAC GREGOR C. GESTÃO CULTURAL PARA A DEMOCRACIA xo para cima e de dentro para fora; quer dizer, sua construção deve ges- tar uma cidadania que seja capaz de gerar processos de desenvolvimen- to sustentáveis e sustentados. Além da violência da delinquência organizada, sofremos agora um re- torno dos discursos da ultradireita, de neonazistas, neofascistas e ex- tremistas na Europa, Ásia e América, juntamente com crises migratórias na América Central e África. Todos estes fenômenos, indicam profun- dos conflitos vinculados à exclusão do “outro” devido a sua origem ét- nica, raça, situação econômica, idade, seu gênero, sua ideologia e suas crenças religiosas. E se por acaso a violência contra humanos fosse pouco, haveria que acrescen- tar também uma crise ambiental global, que afeta todas as espécies vinculadas aos ecossistemas e que tem como origem, principalmente, a atividade humana. A área da camada de gelo da Gro- elândia mostra indícios de derreti- mento e este processo cresce dia- riamente: quarta feira, 31 de julho [de 2019] chegou a um recorde de 56.5% devido à onda de calor que alcançou recorde de temperatu- ra em cinco países europeus na semana passada... Quarta feira, o derretimento provocou a perda de 10 bilhões de toneladas de gelo, to- talizando 197 bilhões de toneladas em julho. (UNOTV.COM, 2019)2 Já não estaremos diante de uma cri- se civilizatória global? Na realidade não posso garantir, mas o que sim quero compartilhar é minha convic- ção de que uma das vias para repen- sarmos nossa existência no mundo e a refazermos como projeto de hu- manidade passa necessariamente pela cultura, na qual se configura, a partir das representações simbó- licas, o modelo de civilização e de- mocracia ao qual podemos aspirar como sociedade. Em dito processo histórico de configuração, se sinteti- zam memória, diversidade de olha- res e linguagens, sonhos e derrotas de um povo em permanente e dinâ- mica transformação. Por isso, a cultura tem uma vocação ‘universalizadora’, pois concentra em seu sonho o projeto humano: “a partir da cultura se compreende e organiza o humano; além da cul- tura se une o limitado com o que não tem limite humano. Na cultura está a aprendizagem de si mesmo em sua relação vocacional com o que inclui e excede, o outro, o mais que humano” (GALINDO, 1997, p. 22). Além disso, se entendemos a cultura, à maneira de Gilberto Gi- ménez (2005), como a organização social do sentido, fica claro que é inerente à nossa condição humana significar e representar a realidade, mediante ações subjetivas por meio das quais possamos compreender a realidade, reproduzi-la e modificá- -la. A cultura, diz Prats (2009), pode ser definida então como uma rede de interpretações da realidade e um sistema de formas de comunicação dentro de grupos sociais que com- partilham códigos e leituras a partir dali: “A gestão cultural tem como objetivo potencializar aquela fração dos produtos da cultura com eficá- cia simbólica, ou seja, o patrimônio cultural, sendo entendido este, ade- mais, como uma construção social legitimada” (PRATS, 2009). Entendo a gestão cultural como uma prática sistematizada em pro- jetos, metodologicamente susten- tada na práxis participativa, que incide em âmbitos significativos da cultura, para orientar o esforço de uma comunidade rumo à transfor- mação de práticas sociais que fa- voreçam à recuperação do espaço físico e simbólico, o fortalecimento de suas identidades, a preservação de sua memória e patrimônio cultu- ral, o estímulo da expressividade, a criatividade e a convivência, a fim de gerar condições adequadas para o exercício dos direitos culturais e da construção de cidadania (vide MAC GREGOR, 2017). Isso permitiu abo- nar o “desenvolvimento livre, igua- litário e fraterno dos seres huma- nos nesta capacidade singular que temos de poder simbolizar e criar sentidos de vida, o qual podemos comunicar a outros” (PRIETO apud MAC GREGOR, 2017). Vemos, a partir disso, como a ges- tão cultural é capaz de incidir nos mais complexos processos de confi- guração das identidades: memória, 1 Disponível em: . Acesso em: 5 nov. 2019. 2 Disponível em: . Acesso em 8 nov. 2019. Fo to P IX AB AY 22 23 Cu lt ur a, c ri se e d em oc ra ci a no s éc ul o XX I – r ef le xõ es c rí ti ca s 1 linguagens, conhecimento e a cria- tividade que todo povo requer para dar continuidade ao humano que conseguiu alcançar, por meio disso, seu porvir histórico. A partir de uma ótica freiriana, optamos por um tipo de gestão cultural que se construa como processo educativo, no qual o gestor se constitui como educador- -educando e a comunidade gradu- almente assume o protagonismo de todos os processos, porque, efetiva- mente: “Ninguém educa ninguém, assim como ninguém educa a si mesmo. Os homens são educados em comunhão e o mundo é o me- diador”. (FREIRE, 1970). Não existem seres humanos sem identidade ou sem cultura; existem problemas, carências, insuficiências e interes- ses culturais compartilhados que podem ser atendidos mediante o diálogo coletivo e desafiante que se orienta ao desenvolvimento de capacidades e potencialidades cog- nitivas, criativas, expressivas e orga- nizadoras, que abonam o exercício da liberdade cultural demarcada nos direitos culturais; isso permite aos grupos e indivíduos decidirem o tipo de cultura que desejam com- partilhar e garantir, dessa maneira, a existência, o desenvolvimento e o reconhecimento da diversidade cultural. “A liberdade cultural cons- titui uma parte fundamental do de- senvolvimento humano, posto que, para viver uma vida plena, é impor- tante poder escolher a identidade própria – o que se é –, sem perder o respeito pelos outros e se ver excluído de outras alternativas” (PNUD, 2004). Diante da intervenção cultural colo- nizadora, unidirecional e autoritária que, fora de uma comunidade, de- cide os conteúdos e processos a se- rem seguidos, aquela que pretende “levar cultura para o povo” (como se ele não a tivesse) e a absorve na apatia e fragmentação, nos opomos a uma gestão participativa, planeja- da, volitiva e guiada a partir da óti- ca comunitária, configurada a partir da própria experiência histórica de cada povo. A cultura não é produzida por meio de abstrações ideais, mas em con- textos historicamente específicos e socialmente estruturados, isto é, em comunidades. “E a ausência de uma cultura específica, isto é, de uma identidade (específica), provoca a alienação e a anomia e, finalmen- te, conduz ao desaparecimento do ator” (SANTOS apud GIMÉNEZ, 2005). É precisamente este aspecto que lhe confere à identidade uma importân- cia fundamental. Daí que quando não está bem constituída, coloca seus membros em estado de inércia e passividade. Concordo plenamen- te com Boaventura de Sousa Santos quando afirma: “O que é diverso não é desunido, o que é unificado não é uniforme, o que é igual não tem que ser idêntico, o que é desigual não tem que ser injusto; temos o direito de ser diferentes, quando a igual- dade nos descaracteriza” (SANTOS apud GIMÉNEZ, 2005). Devido a tudo isso, apostamos na opção que apon- te em direção à gestão cultural para a democracia, demarcada em políti- cas de Estado multiculturais que re- almente se concentrem no desenho e instrumentação de estratégias in- terculturais a partir da própria base da sociedade. Adama Dieng (2019), Assessor de Prevenção do Genocídio na ONU, afirma: Todos devemos nos lembrar que o discurso de ódio precede os cri- mes de ódios […] Lembrem-se que as palavras matam tanto quanto as balas […] Então devemos fazer o possível para investir na educação, nos jovens, para que a próxima geração possa entender a impor- tância de conviver em paz. […] De- vemos usar a palavra para que se torne uma ferramenta para a paz, uma ferramenta para o amor, para a unidade social, para a harmonia, em vez de ser usada para cometer genocídio e crimes contra a huma- nidade. (DIENG, 2019) No momento em que escrevia este texto, se difundiu a notícia do mas- sacre em El Paso, Texas, perpetrada por um jovem de 21 anos que as- sassinou a tiros 22 pessoas e feriu outras 24; oito dos mortos, de nacio- nalidade mexicana. As autoridades apontam que Patrick Wood Crusius, um homem branco de 21 anos, pos- tou na internet um texto que falava de uma “invasão hispana no Texas” e questionava: “Se conseguimos nos desfazer de bastantes pessoas, nossa forma de vida pode ser mais sustentável” (LABORDE, 2019). Isso, no contexto de um aumento expo- nencial de mensagens de ódio de supremacistas brancos, racistas e assassinatos. Entre 2012 e 2015, não foi registrado nenhum inciden- te desse tipo; de 2016 até a presente data (ago. 2019), 18 pessoas morre- ram em tiroteios insanos, como o mencionado no sábado, 3 de agos- to (Milênio notícias de terça-feira, 6 de agosto de 2019). Donald Trump defende, desde antes de assumir a presidência dos EEUU, um discur- so xenófobo, cujos efeitos agora se manifestam nesses tipos de assassinatos. Talvez agora possamos compreen- der melhor por que no século XXI os modelos hegemônicos e antide- mocráticos praticam cortes orça- mentários de maneira sistemática nas rubricas de cultura, ciência, tec- nologia e desarticularam o sistema educacional da educação artística; porque é justamente nessas áreas onde brota o melhor do ser huma- no: a capacidade de se surpreender, a formação de uma consciência críti- ca capaz de questionar e exigir seus direitos; seu potencial para expres- sar beleza e se comover diante da emoção que ela provoca; sua pos- sibilidade de normalizar a convivên- cia comunitária de maneira pacífica, respeitosa e solidária; a capacidade de ‘saber-se’ parte de um planeta que requer a preservação para ga- rantir a sobrevivência humana. E todas essas capacidades são as que permitem a construção da verdadei- ra democracia. Em Medellín, na Colômbia, após a experiência traumática causada por décadas de violência generalizada, construiu-se, junto ao novo sécu- lo, uma visão que atraiu a atenção de todo o mundo e continua sendo considerada uma visão exemplar de política cultural. Lucía González Duque, ex-diretora do Museu Casa da Memória de Medellín, no I Con- gresso Panamenho de Educação e Museus do Panamá, expressou cla- ramente: Em Medellín colocamos a cultura no centro do projeto de desenvol- vimento […] Entendemos a cultura como ‘o tema’ do desenvolvimen- to. Entendemos que é a cultura que transforma. Entendemos que é a partir da cultura que temos que transformar os sujeitos e as realidades; isso não se transfor- ma a partir da política. […] Não se transforma a partir da economia, mas da emoção que conseguimos instalar em um país orgulhoso de si mesmo e da relação com os outros […] À medida que se construam ci- dadãos responsáveis orgulhosos de si, orgulhosos do que têm e or- gulhosos dos outros, com os quais fazem a cidade, vamos construir a cidadania, isto é, sujeitos respon- sáveis, e vamos construir a nação, isto é, nos sentir membros de uma coletividade à qual devemos cui- dar. (CONGRESSO PANAMENHO DE EDUCAÇÃO E MUSEUS DO PANA- MÁ, 2016) O atual governo do México, que pre- tende realizar o que chama de “A quarta transformação” (que trans- forme o país a partir de suas funda- ções como fez primeiro o movimen- to pela independência – início do século XIX –, após o movimento da Reforma, em meados do mesmo sé- culo, e depois a Revolução de 1910), anunciou que levando a cabo (com altos e baixos, críticas, questiona- mentos e insuficiências orçamentá- rias), uma política cultural realmen- te interessante, porque aspira a que se gere uma cultura inclusiva que dê prioridade aos grupos historica- mente excluídos, um foco de cultura comunitária, horizontal e a partir do que as pessoas consideram como prioritário; estimula o programa: Se- milleros Creativos (formação artís- tica comunitária, mediante grupos permanentes de criação coletiva e participação, com crianças e jovens, elementos que lhes permitam cons- truir diálogos e relações solidárias em seus ambientes sociais e comu- nitários) e os Jolglorios (festas comu- nitárias a partir das expressões que as pessoas reconhecem como as que lhes dão identidade, em espa- ços seguros, de jogos e onde a criati- vidade gera laços afetivos). Rodrigo Cordera, diretor do progra- ma Misiones por la Diversidad Cul- tural, da Secretaria de Cultura, ex- plica: “O enfoque das Missões tem uma participação cidadã muito forte para fazer valer o direito à cultura. Não levar a cultura, mas desencade- ar e gerar processos de participação para que os artistas tenham um es- paço”. Reconhecer as dinâmicas par- ticulares em cada território e dese- nhar estratégias territoriais requer promotores e gestores culturais qualificados. Nos meses passados, foi feito um questionário nacional que muitos deles responderam, de todas as idades e diferentes níveis de formação e de trajetória; a sele- ção foi sustentada na experiência de trabalho comunitário comprovada. Equipes de facilitadores em âmbito nacional formam os selecionados em âmbito regional e, desse modo, pelo chamado “efeito cascata”, vão sendo ativadas as capacitações em todo o país. Quem dirige esse processo, considera que o assun- to da violência, que aparece como queixa no âmbito nacional de ma- neira crescente e cada vez mais bru- tal, vai diminuindo paulatinamente (MÉXICO, 2019). É claro que não podemos atribuir à cultura, de maneira mágica e ingê- nua, a tarefa de enfrentar sozinhos a violência e os desastres de que padecemos, e menos ainda fazê-la desaparecer. É claro que os Estados têm que fazer muito mais. Como bem afirma Liliana López Borbón, [a] gestão cultural é uma alternati- va para a construção de cidadania, no âmbito da liberdade cultural necessária para o desenvolvimen- to humano. Nosso olhar foca nas contradições da cidade como lugar onde transcorre a vida, no mode- lo comunicativo (não ‘difusionis- ta’) como necessidade urgente, no território como possibilidade e na construção do diálogo intercultural como laboratório para a convivên- cia. (LÓPEZ BORBÓN, 2017) Isso se deve articular como uma obrigação do Estado, particularmen- te, para desenhar políticas culturais que garantam direitos culturais e se comprometam com perspecti- vas como as colocadas aqui (que surgem da análise de experiências já realizadas com maior ou menor impacto em diferentes países lati- no-americanos e de documentos da UNESCO e outras prestigiadas orga- nizações e instituições nacionais ou internacionais). Deve também en- volver a sociedade, em geral, para diversificar e experimentar novos modelos de gestão cultural, institu- cional ou independente, cada vez mais inclusivas, inovadoras, colabo- rativas e carregadas de esperança. Podemos concluir que é impossível conceber um desenvolvimento civi- lizatório profundamente humano e uma democracia realmente viva sem considerar e reconhecer a relevân- cia das múltiplas culturas que repre- sentam nossa diversidade criativa, nas quais se configuram, cotidiana e permanentemente, a cidadania e suas identidades, sua memória cole- tiva e seus espaços simbólicos para a recriação de si mesmos, na con- vivência para a paz, a proteção do meio ambiente e a certeza de futu- ros melhores. 3 Segundo Mac Gregor, “Milênio notícias é um programa de televisão; quando estava escre- vendo o artigo, estavam dando a notícia, e registrei em fotografias essa informação.” (Em nota à revisora, por e-mail). 24 25 Cu lt ur a, c ri se e d em oc ra ci a no s éc ul o XX I – r ef le xõ es c rí ti ca s 1 CONGRESSO PANAMENHO DE EDUCAÇÃO E MUSEUS DO PANAMÁ, I., 7-9 set. 2016, Panamá. [Pronunciamento: Lucía González Duque]. Panamá: Associação de Antropologia e História, 2016. DIENG, Adama. La palabra al servicio de la paz. Depoimento em vídeo para ONU. Original em inglês. Disponível em: . Acesso: 8 nov. 2019. FREIRE, Paulo. Pedagogía del oprimido. México: Siglo XXI Editores, 1970. p. 86. GALINDO, Jesús. Sabor a ti. Metodología cualitativa en investigación social. México: Ed. Universidad Veracruzana, 1997. GIMÉNEZ, Gilberto. Teoría y análisis de la cultura, v. 5 y 6, México: El Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (CONACULTA) – Dirección General de Vinculación Cultural; Instituto Coahuilense de Cultura (ICOCULT), 2005. (Colección Intersecciones). LABORDE, Antonia. Tiroteo en Estados Unidos. El asesino que condujo nueve horas para provocar un baño de sangre en El Paso, El Pais (Internacional), Washington, 6 ago 2019. Disponível em: . Acesso em: 8 nov. 2019. LÓPEZ BORBÓN, Liliana. La gestión cultural como construcción de ciudadanía. Ensayo ganador del Premio Internacional Ramón Roca Boncompte de Estudios de Gestión Cultural (España), 2015. México: 2017. MAC GREGOR, Jose Antonio. Promoción y Gestión Cultural. In: VÁZQUEZ, Eduardo Cruz (Coord.). ¡Es la Reforma cultural, Presidente! Propuestas para el sexenio 2018-2024. México: Editarte, 2017. MÉXICO. Secretaría de Cultura. Dirección General de Vinculación Cultural. Misiones por la diversidad cultural. Cultura Comunitaria. Vídeo institucional. Disponível em: . Acesso em: 8 nov. 2019. PNUD. Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo. Informe sobre Desarrollo Humano 2004. La libertad cultural en el mundo diverso de hoy. Madrid: Ediciones Mundi-Prensa, 2004. PRATS, Llorenç. Antropología y patrimonio. México: Editorial Ariel, 2009. REFERÊNCIAS Acervo do Autor Atividades realizadas no âmbito do Programa Misiones para la Diversidad Cultural 26 27 Cu lt ur a, c ri se e d em oc ra ci a no s éc ul o XX I – r ef le xõ es c rí ti ca s 1 Essas velhas ideias convivem como modelo do medo, um “conservado- rismo” cultural, que as instalou, que ainda opera nos estamentos legíti- mos da institucionalidade cultural que ali segue com parcimônia ten- tando garantir um lugar para não perdê-lo totalmente. “Uma elite na- cional golpista, intransigente e anti- democrática.” Nesse modelo de velhas ideias, centenas de mulheres e homens conseguiram hackear o aparelho, in- troduzindo-se como um “vírus” que revitaliza esperanças; sua fé poética conseguiu abrir o código, oferecen- do à sociedade oportunidades de mudança. Nada foi fácil, ainda no esgotamento do aparelho, o velho chefe tira toda sua força e se renova em discursos de ódio, racismo, violência, se im- põe a polarização, e alguns desses colegas são segregados, sofrendo ameaças, expulsão. Não podemos nos esquecer que os sistemas da economia e a comunicação que tem sob seu poder o velho “espião” cap- turaram o sistema da vida. Alguns dos colegas se negam a dei- xar o lugar da resistência, pois se sabe que ter um problema adiante é como ter um maravilhoso desafio a se resolver, o que nos permitiu pen- sar em uma oportunidade de supe- rar-nos a nós mesmos e à sociedade que enfrenta os problemas... Resta-nos, então, fazer a soma de aprendizagens, de experiências, sa- beres acumulados, sabores cítricos (mas não agridoces) e certezas que fazem cenários possíveis onde fazer ajustes necessários ao sistema que devemos modificar com a força cria- dora de todos nós. Hoje assistimos ao Encontro Inter- nacional Arte, Cultura e Democracia no século XXI como uma janela que se abre para a conversa, a cocriação solidária, amorosa e renovadora de nossa humanidade, soma de sabe- res e aprendizagens, mas também soma de fracassos e derrotas às que se deve dar a volta juntos, com o firme propósito de melhorá-la, que novas gerações tenham a clareza meridiana de serem autocríticos e de corrigir aquilo que não fizemos bem feito. Somos mudança de época Somos filhos da Teologia da Liberta- ção, que se narra hoje como “evan- gelho cansado”, esgotados pelos “evangelhos das catacumbas”, que não têm bondade, nem amor, nem verdade... Desde antes de assistir ao fogo do nascimento, vi como em meu país o assassinato se tornou um ato natu- ralizado. Como aceitar que na Colômbia tenhamos 250 mil assassinatos em uma guerra que não deixa “poder para nada e para ninguém”, uma cruel polarização; 8 milhões de pes- soas que vivem o inferno do exí- lio, 80 mil desaparecidos, um grito silencioso que é multidão. E em nossa Medellín, que dizem da ino- vação, uma cifra que aterroriza, en- tre 1984 e 1994, da morte na guerra do narcotráfico de mais de 40 mil pessoas. Somos filhos de uma época de morte Somos filhos de uma democracia em disputa, que demorou mais de 50 anos para se aproximar para ver a tragédia humana causada pela guerra. Hoje somos militantes da “paz im- perfeita”, a mesma que proferimos com suas inquietudes, suas misé- rias, suas vilezas, suas desesperan- ças que nos obrigam a trabalhar com ímpeto, com a força que nasce do amor, de dizer não à guerra... de saber que tudo está por ser feito, que somente se nos juntarmos será possível alcançar a paz para todos. Que todos os dias devemos exigir mais democracia deliberativa, me- nos representação, mais participa- ção real nas ruas, no congresso, no tribunal, no palco, na escola, no bair- ro, e somente assim seremos capa- zes de fazer com que estas velhas ideias, de algumas elites classicistas, racistas que ainda governam o país conchavados com outros poderes, sendo o judicial o que acusa e enca- deia a verdade. Como artista, nossa tarefa é mediar, para que se garanta às pessoas da comunidade a liberdade, o bem-es- tar e a dignidade. A arte deve cum- prir sua função estética, mas tam- bém deve recuperar seu enorme potencial de estimular nosso desejo de viver a vida com toda a intensida- de e a alegria que se merece. Como disse William Ospina, para- fraseando o relato de Ray Bradbury: “Se a tempestade vem, que sejamos nós mesmos a própria tempesta- de... SOMOS as pessoas que conti- nuam acreditando no poder media- dor e transformador da palavra e do gesto artístico como mais um meio de transformação do mundo. A casa para amar-e-la como lugar para habitar contra o mal tempo O bairro como território que nos ensina, a casa é formadora, a es- quina, lugar de encontro, o bairro, centro cultural comunitário que anima e promove o protagonismo das pessoas, desde os menores até os mais experientes, com anos de sabedoria. A casa amarela é centro de diálogos e buscas de alternativas que permi- tem que uma comunidade conflua na formulação de seus planos de vida, políticas de bairro de desenvol- vimento social e cultural, um plano de ampla participação da comuni- dade, que perguntou a meninas e meninos, jovens e adultos e sábios mais velhos quais os sonhos que todos tinham e que Nuestra Gente faria o possível para materializá-los; claramente, o plano nos mostra que somos uma ponte entre a comuni- dade marginalizada de recursos e o Estado centralista que durante mui- to tempo não cumpriu suas obriga- ções, ou sim, as cumpriu, mas de forma perversa, através da repres- são militar e policial e a “clienteliza- ção” do Estado com barões e caci- ques que continuam capturando o orçamento público. Passar de dias de muito ativismo e com pouco planejamento, mas sim, com muita dedicação e reflexão, a entender que era preciso consoli- dar o trabalho cultural nas comu- nidades a partir da formulação dos planos locais, planos culturais em relação à educação; o imperativo se estabeleceu traçando cuidadosa- mente estratégias que permitiram que o sonho fosse mais duradouro e menos instável, metas que foram inclusivas a toda a comunidade, mu- lheres e homens com profundo va- lor de seus saberes e práticas. Nosso Povo continuava sendo a aposta ganhadora no bairro, todos esses ganhos, dizia-se a muitos dos garotos pelaos, integrantes das gan- gues do narcotráfico, que existem opções diferentes às da morte, e a CULTURA sim, era uma delas. A prática artística que estimula a criatividade nos habitantes dos bair- ros da periferia tem um interesse em fazer que suas moças e moços tenham opções para a vida, que a arte potencialize a transformação da realidade. A criação e a cultura como mediadores de um tempo e um espaço na comunidade, cada um busca e encontra seu próprio lugar de protagonismo, cada um é sua própria marca, referência, rota, caminho, e entre muitos se faz uma proposta que tenha identidade e memória territorial. Somos ‘comuna unidade’. E junto ao sacerdote jesuíta Horacio Aran- go, dizemos: “... Há, apesar de tudo, razões para a esperança, e essas razões se vestem de história, de re- alidade, na multidão de mãos que neste país tecem a vida, ainda no meio da destruição feita pelos de- predadores...” A sobrevivência da cultura comunitária “Os princípios de autonomia e auto- determinação dos povos indígenas não são em si conceitos (ademais não são discutíveis), são vivências práticas, fundamentadas em princí- pios e raízes ancestrais muito pro- fundas; parafraseando Mamo Nor- berto, a autonomia se expressa nas formas de viver, sentir e pensar. Isso é sobrevivência.” A partir de nossa concepção de cultura VIVA Comunitária, estabele- cemos de forma permanente uma relação harmoniosa e respeitosa com a natureza, não como ação que submete, mas sim como uma ação transformadora que pensa de for- ma profundamente humana. Num espaço em que vivemos e no qual recriamos, de forma simbólica, nos- sas práticas e maneiras de viver um novo tempo humanizado, onde se- jamos garantia da sobrevivência de nós mesmos como espécie. Acreditamos que o mundo atual deve conceber a cultura e a natureza como espaço fundamental de “hos- pitalidade”, onde a sobrevivência é o núcleo central dessa relação, na qual é possível estabelecer um diá- logo fraterno, que possibilite a ges- tão de uma ética cultural comunitá- ria, que facilite a compreensão das riquezas que as culturas têm, onde o direito de sonhar seja de todos, e que não seja prejudicado por uma vontade desenfreada de roubar do homem sua humanidade e o valor da vida, por uma suposta “economia verde”, onde as regras do mercado continuam como centro das supos- tas soluções. Estamos há muitas noites na época do medo e de sua filha mais velha, a desconfiança; assistimos a uma estranha cultura da dor e, em cada amanhecer, alguém nos faz sentir um novo êxito do desrespeito. Habitamos a mentira. Temos que empreender uma luta dura e longa contra os que nos mentem. Luis Alirio Calle, periodista, Medellín. Umas velhas ideias sustentam um velho país... E novas ideias são empurradas para criar um novo país. JORGE BLANDÓN FIOS QUE SE ENTRELAÇAM NUMA ESPIRAL DA VIDA 28 29 Cu lt ur a, c ri se e d em oc ra ci a no s éc ul o XX I – r ef le xõ es c rí ti ca s 1 Neste sentido acreditamos que a gestão cultural deve ser capaz de se reinventar em seus tempos, no compasso do saber das comunida- des e da mediação de seus criado- res, compreendendo que o tempo que se impõe a partir dos planos de cada governante fazem com que se sucumba o sonho coletivo, por um interesse partidário, que os planos de vida de uma comunidade devem ultrapassar os de cada quatro anos, que as temporalidades exigem mar- car um “vento/tempo” que empurra de baixo para cima para que aconte- çam as coisas numa espiral da vida. A partir da proteção das semen- tes que sobreviveram de mãos em mãos, mediante ações de permu- tas, valorização da própria cultura, compreensão e reconhecimento dos outros. Saber fazer da gestação um nascimento que nos aproxime da conquista de novas luas e sóis. É de suma importância que tanto os gestores públicos, sociais, culturais e comunitários possamos compre- ender essa rota de processos hu- manos a partir do afazer de nossas próprias culturas. Quanto à sobrevivência, se faz ne- cessário manter a mobilização para garanti-la, e também estabelecer algum tipo de controle político que permita que esta cidadania cultural acesse de maneira coletiva os meca- nismos de participação. Isto ajudará a pensar em formas de articulação que se baseiem nas necessidades reais das populações. É importante ter uma vontade política para gerar transformação, pois isto é a chave para as organizações comunitárias. Isso implica que se trabalhe para erradicar a segmentação das orga- nizações, garantir as relações e uni- ficar as articulações dos bairros e das ruas; isso se consegue mediante trabalhos comunitários em rede, integrando as zonas urbanas e tam- bém rurais. Uma proposta para isso é criar pro- gramas, sem necessidade de nor- mas ou leis, que consigam mais acolhimento nos processos de par- ticipação cidadã, potencializando a organização, e tendo muito claro que não será permitido nenhum tipo de ideologia particular, pelo contrário, que tudo obedeça aos in- teresses coletivos com propósitos unificados. Nesta mesma ordem de ideias, o fortalecimento político livre de dog- mas, refinando as necessidades co- muns que foquem num desenvolvi- mento geral e para todos. Para isso existem atores de ambos os lados; representações tanto da comunida- de como do Estado. Isso ajudará a fortalecer o trabalho em conjunto de pensamentos coletivos. Atuar com responsabilidade ética a partir de todos os envolvidos que se de- senvolvam relações recíprocas nas quais sejam compartilhadas suas conclusões com a comunidade. Sabemos que na CULTURA exis- tem atos que fortalecem a PAZ Os processos de Cultura Viva co- munitária devem nos permitir fazer acupuntura na cultura, reconhecer o que somos, desenvolver a força que nos nutre espiritualmente. A Cultura Viva Comunitária nos une, apesar de tudo, nos permite resistir e sobrevi- ver, apesar do terror, da violência e dos medos. A Cultura Viva Comuni- tária nos permite sonhar um cam- po/cidade diferentes, um projeto integral de sociedade onde a econo- mia não pode capturar a vida, nos permite avançar na construção de uma verdadeira democracia. O estímulo, a expressividade, a criatividade e a convivência geram condições para o exercício dos direitos culturais e também para a construção da cidadania. JOSE ANTONIO MAC GREGOR Diretor de Cultura do município de El Marqués, Querétaro, México Archivo de Nuestra Gente - Mural de Nuestra Gente Amarilla 3 Foto CINDY PATERNINA Cuidar da vida e salvar a América Latina de uma guerra e invasão total... Parem os tanques, detenham os obuses, tirem as mordaças, soltem as algemas... e venham para o jogo da vida, onde amar pode ter um belo sentido de voltar a viver... Guerreiro não duvide, traga teus bons princípios, teus gostos e preferências pelo bem fazer da vida uma arte, teu sentido belo da educação e da cultura... tuas doces recordações da terrinha que lhe viu nascer... Homem briguento é tempo do cansaço e do tédio, é hora de unir o amor e a Beleza para que a PAZ tenha seu novo tempo. Unir o amor com a Beleza para que “a PAZ ganhe novas asas” com rostos de criança dia, de mulher amanhã, de homem ontem... 30 31 Cu lt ur a e pa rt ic ip aç ão s oc ia l no s éc ul o XX I 2 Cultura e participação social no século XXI Os textos a seguir traduzem a reflexão sobre cultura e participação social. Momento destinado a discutir sobre os espaços urbanos e simbólicos, não apenas como resultado de uma adap- tação ao meio físico, mas também como produto e resultado da cultura de um povo e suas formas de organi- zação e apropriação de espaços co- muns, e sobre ações colaborativas no fazer político. São tempos de construção de alian- ças, e aqui compreendemos a im- portância do Encontro Internacional Arte, Cultura e Democracia no sécu- lo XXI: o empreendimento e a aber- tura para uma prospecção coletiva e reflexiva sobre arte, cultura e demo- cracia, que tem como pressupostos a recusa ao esquecimento, o elogio ao afeto e a defesa da arte como lu- gar estratégico. Para contextualizar este breve en- saio, é necessário dizer que venho de um lugar híbrido. Sou profes- sora de arte nos cursos de Arqui- tetura e Urbanismo e de Design da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); fui também cura- dora de algumas exposições e sou uma das editoras de uma revista que existe desde 2010, a PISEAGRA- MA, surgida no contexto do extinto Programa Cultura e Pensamento do extinto MinC. Gosto de habitar esse lugar inespe- cífico entre a universidade e a cida- de. Gosto também de habitar esse lugar inespecífico entre a arte e os outros campos do conhecimento, porque não me atrai a arte como objeto-fim, mas me interessa a arte como objeto-meio. E por que será que as manifestações de afeto e de arte estão sob a mira de grande parte das práticas políti- cas atuais, ou melhor, das práticas policiais atuais (RANCIÈRE, 1996)? Por que a arte, depois do esgota- mento histórico da arte revolucio- nária e utópica, ressurge como uma força capaz de desorientar o mundo que aqui está posto? Por que eles estão com tanto medo? Como nosso espaço-tempo recon- textualiza a centenária questão so- bre a função social da arte? Se hoje temos no país escolas sem arte e ministérios sem cultura, é porque arte e cultura são perigosamente “escolas de vida, em seus múltiplos sentidos”, como escreveu o filósofo Edgar Morin (2002, p. 48). Porque arte ensina a viver melhor, ensina a pensar, a exercitar as “metamorfo- ses da percepção”, como dizia Wal- ter Benjamin (apud SANTOS, 2004). E ninguém consegue deter essa potência. Entretanto, enquanto esquivar-se de ser alvo daquilo que vem de fora seja uma coisa, sem dúvida, muito difícil de ser feita, eu gostaria de tra- tar aqui do trabalho interno que nós também temos que fazer. Porque aquele lugar inespecífico de onde falo é composto basicamente por três espaços: a universidade, o es- paço expositivo e o espaço editorial. Espaços tradicionalmente moder- nos, colonialistas, elitistas e exclu- dentes. E isso não é pouco. Aqui cabe bem a pergunta contida no texto “A proposição cosmopolíti- ca”, de 2007, da filósofa belga Isabelle Stengers: “O que nós estamos fazen- do diante desse pavor?” Toda uma história foi construída a partir de uma tradição que precisa ser repensada. Quando nós falamos dessa relação do artista, da arte, sociedade, política, educação, nós estamos falando de ser político, o que é inerente a qualquer um de nós. Nós todos somos esses seres políticos, nós mediamos as nossas relações. (Rui Moreira – Bailarino, coreógrafo e investigador de culturas) RENATA MARQUEZ O QUE NÓS ESTAMOS FAZENDO? 32 33 Cu lt ur a e pa rt ic ip aç ão s oc ia l no s éc ul o XX I 2 A própria reflexão sobre aquela que talvez seja a principal dicotomia da modernidade, aquela responsável por separar natureza e cultura, e que assim justificou a capacidade exploratória ilimitada dos recursos da natureza e também dos recur- sos humanos, segundo a qual tudo podia ser objetificado – e que ago- ra nos conduz a problemas globais graves e talvez irreversíveis como o aquecimento global, a contamina- ção desenfreada e a extinção imi- nente –, nos força a perceber que o tempo de hoje precisa de mudanças de hábitos e de paradigmas. Então, “o que nós estamos fazendo diante desse pavor?” Diante da “passagem de um pavor que faz balbuciar as se- guranças” (STENGERS, 2018, p. 447)? É interessante lembrar que Stengers é também química e antropóloga e, ao reunir essas coisas, nos dá ideias para imaginarmos como compor esse novo mundo. Como compor com elementos díspares que só juntos formam possibilidades inu- sitadas, inesperadas. Se o proble- ma recorrente da nossa tradição ocidental é tudo “transformar em chave universal neutra, isto é, váli- da para todos”, como “desacelerar a construção desse mundo comum [um comum compulsório], criar um espaço de hesitação a respeito da- quilo que fazemos […]” (STENGERS, 2018, p. 445-446)? A universidade, o espaço expositivo e o espaço editorial são espaços tí- picos da “vantagem epistemológica”, nas palavras de Viveiros de Castro (2002, p. 115). Espaços de poder, de dizer o que é conhecimento e o que não é, o que é arte e o que não é, o que é cultura e o que não é. E temos que nos capacitar para rever essas seguranças, essas certezas, esses paradigmas. Pensando na univer- sidade, como reconsiderar ou abrir espaços de igualdade entre falas que não considerávamos discurso? Uma amiga da Stengers, a filósofa Vinciane Despret, tem uma outra pergunta importante para nós, que é: “Como tornar um discurso afetivo um discurso?” Ela diz: “Não um dis- curso afetivo, mas um discurso so- bre a afetividade, sobre o corpo, so- bre os modos de fazer?” (DESPRET, 2015). E assim, toda uma outra polí- tica pode aparecer. Quando Despret fala em tomar um discurso afetivo e torná-lo discur- so, eu penso imediatamente num programa que a UFMG desenvolve e do qual participo desde seu iní- cio, em 2014, que é o Programa de Formação Transversal em Saberes Tradicionais, que faz parte da rede do Projeto Encontro de Saberes do Instituto Nacional de Ciência e Tec- nologia de Inclusão no Ensino Supe- rior e na Pesquisa (INCTI) da Univer- sidade de Brasília (UnB). Um projeto em que a universidade se abre para uma nova química, uma alquimia, para que as mestras e os mestres das culturas tradicionais venham dar aulas na universidade e partici- par dessa construção coletiva de co- nhecimento. E ainda dentro da universidade, po- demos perguntar: Qual é o papel formador da arte? Não somente a arte da Escola de Belas Artes ou de Design ou mesmo de Arquitetura, mas a arte como modo de conhe- cer. A arte como leitura e escritura de mundos integra a diversidade epistemológica do mundo comum e ela é, de fato, “perigosa”, porque faz hesitar, porque desacelera, porque produz perguntas. Na verdade, fazer perguntas é um método muito eficaz. É importan- te não formarmos respondedores, máquinas de responder. Muito mais interessante é nos dedicarmos a formar bons perguntadores, capa- zes de desacelerar os discursos e de criar espaços de hesitação, como di- zia Stengers. Como estamos lidando com a potên- cia educativa da arte? Ao elegermos a escrita como lugar privilegiado de produção e armazenamento do co- nhecimento, nos tornamos muito pouco treinados para lidar com as imagens e com outras formas de discurso não escrito que não con- siderávamos como discurso episte- mológico ou científico. Isso me faz pensar em nosso en- contro recente com Kanatyo e Liça Pataxó, indígenas da aldeia Muã Mi- matxi, próximo à Itapecerica, em Mi- nas Gerais. Eles dizem: “Nossa vida de leitura é com a natureza”. Numa prática pedagógica autônoma, eles transformaram o tehey, “rede de pesca tradicional”, em discurso: “tehey” é o nome que deram aos de- senhos feitos para a Escola Indígena da aldeia, desenhos entendidos por todos como “redes de pescar conhe- cimento” e ensinar as crianças sobre o tempo e o espaço. No final deste ano, poderemos ver os desenhos de Liça Pataxó na exposição Mundos in- dígenas, no Espaço do Conhecimen- to UFMG. Uma vez que já fizemos esse mo- vimento para o espaço expositivo, lembro-me de outra perguntadora maravilhosa. A artista e ativista bell hooks (assim mesmo, escrito com le- tras minúsculas, segundo a vontade de hooks) que, no Whitney Museum, de Nova Iorque, em 1992, pergunta aos visitantes na abertura da ex- posição de Jean-Michel Basquiat o que eles sentiam quando olhavam para as pinturas expostas. E ela percebe que ninguém conseguia responder, que “algo parecia entra- var o caminho, impedindo as pes- soas da articulação espontânea de sentimentos evocados pela obra”. Percebe que ninguém conseguia ser movido, ser tocado, deslocado, renascido de repente. “Desde uma perspectiva eurocêntrica só se é ca- paz de ver e valorizar aspectos que simulam as familiares tradições ar- tísticas ocidentais brancas”, escreve hooks (2018). Do outro lado do globo, a partir do ponto de vista de um outro mundo coexistente, a historiadora, profes- sora e ativista Beatriz Nascimento, seis anos antes de ser assassinada, narra no filme Ôrí, de Raquel Gerber (1989): “Eu conto a minha experi- ência em não ver Zumbi, que para mim era o herói”. Beatriz Nascimen- to transforma afeto em discurso e prospecta um outro mundo pos- sível, onde há lugar para todos os heróis. E por falar em prospectar, em pro- jeto de mundos, vamos para o es- paço editorial da Bahia, com um texto publicado no Diário de Notícias (Salvador), em 1958, que traz uma pergunta ainda muito atual da ar- quiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi: “Primeiro as casas ou museus?” Lina responde em seguida: “Tudo de uma só vez: as casas, as escolas, os museus, as bibliotecas” (BAR- DI, 2011, p. 98), acrescentando que Fig. 3 Foto DANIEL MANSUR Fig. 2 Foto RENATA MARQUEZ Fig. 1 Foto RODRIGO ZEFERINO “O museu moderno tem que ser um museu didático [...] para não cair em um museu petrificado, isto é, intei- ramente inútil” (Ibidem, p. 100). Casas, mas também escolas, museus e bibliotecas, contra a ideia de tratar os edifícios culturais como “um luxo intelectual”. Imaginem nossa situa- ção atual com essa fragilidade insti- tucional generalizada, com a recente perda trágica do Museu Nacional da UFRJ, nós que, na cidade de Belo Ho- rizonte, mal temos museus moder- nos, museus petrificados ou museus inúteis, como pensar nosso museu didático? Um museu ordinário, ao invés de extraordinário? Então, te- mos um longo trabalho interno para fazer, apesar das muitas distrações exteriores que tentam nos dissuadir dessa tarefa e fazer com que não cumpramos esse trabalho interno. Eu gostaria de terminar com um pequeno grupo de imagens que fize- ram parte de programas curatoriais dos quais participei, para imaginar- mos esse possível museu de outros pontos de vista: O museu andante O museu vizinho O museu campestre O centro [é] cultural O museu no teatro Respectivamente, imagens de Jonas: Lameiras, 1996. Exposição País pai- sagem, Ipatinga, 2011 (Fig. 1); Moni- ca Nador: Paredes pinturas. Exposi- ção Outros lugares, MAP, 2012 (Fig. 2); Louise Ganz e Ines Linke: Museu campestre. Exposição Outros Luga- res, MAP, 2012 (Fig. 3); Vitor Cesar: Centro cultural. Exposição Escavar o futuro, Palácio das Artes, 2013 (Fig. 4); e uma imagem do palco do Teatro Francisco Nunes com uma pintura de Liça Pataxoop projetada (Fig. 5), onde estive com meu filho e outras crianças, no mês de julho de 2019, para escutar Siwê Pataxoop, filho de Liça, contar histórias de ou- tros mundos, experimentando uma pedagogia pela imagem. 34 35 Cu lt ur a e pa rt ic ip aç ão s oc ia l no s éc ul o XX I 2 BARDI, Lina Bo. Lina por escrito. Textos escolhidos. São Paulo: Casac & Naify, 2011. DESPRET, Vinciane; STENGERS, Isabelle. Entrevista. Revista DR, n. 1, mar. 2015. Disponível em: . Acesso em: 13 nov. 2019. GERBER, Raquel. Ôrí. Gênero: documentário. Ano: 1989. Restauração digital: 2008. Direção, argumento e roteiro: Raquel Gerber. Fotografia adicional: Adrian Cooper, Jorge Bodanzky e Pedro Farkas. Trilha sonora: Naná Vasconcelos. Produtoras: Angra Filmes Ltda.; Fundação do Cinema Brasileiro: São Paulo, Brasil. HOOKS, bell. Altares do sacrifício: relembrando Basquiat. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, seção Extra!, 16 nov. 2018. MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. São Paulo: Ed. 34, 1996. SANTOS, Laymert Garcia dos. Educação desculturalizada. São Paulo: Goethe Institut, 2004. STENGERS, Isabelle. A proposição cosmopolítica. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 69, p. 442-464, abr. 2018. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O nativo relativo. Mana, v. 8, n.1. Rio de Janeiro, abr. 2002. Imagens BRAZ, Siwê. Contação de histórias tradicionais do povo Pataxó: tradição e oralidade. Pintura Liça Pataxoop. Palco do Teatro Francisco Nunes, 2019. Fotografia Renata Marquez. CESAR, Vitor. Centro cultural (2009). Exposição Escavar o futuro, Palácio das Artes, 2013. Fotografia Daniel Iglesias. GANZ, Louise; LINKE, Ines. Museu campestre (2012). Exposição Outros lugares, MAP, 2012. Fotografia Daniel Mansur. JONAS. Lameira de caminhão (1996 c.a.). Exposição País paisagem. Fotografia Rodrigo Zeferino, Ipatinga, 2011. NADOR, Mônica. Paredes pinturas (2012). Exposição Outros lugares. Fotografia Renata Marquez, MAP, 2012. REFERÊNCIAS Fig. 4 Foto DANIEL IGLESIAS Fig. 5 Foto RENATA MARQUEZ 36 37 Cu lt ur a e pa rt ic ip aç ão s oc ia l no s éc ul o XX I 2 Não tenho outra maneira de falar mais do que conheço, por isso, a própria genealogia do meu grupo de teatro servirá para expor uma expe- riência significativa de participação social no âmbito da Revolução Po- pular Sandinista, revolução que se constituiu no acontecimento cultu- ral mais importante da Nicarágua. Quatro meses após o triunfo da re- volução em 1979, surgiu o Teatro Justo Rufino Garay, grupo que fun- dei ao chegar do México, meu país de origem, com apenas 19 anos de idade. A partir dessa plataforma, nos integramos como grupo, com amor e paixão por todas as tarefas revolucionárias: cortes de café, algo- dão, brigadas culturais para o cam- po, frentes de guerra, treinamento militar, a campanha nacional de al- fabetização, entre outros. Fizemos um teatro festivo, alegre, colorido e expressivo. Foram anos felizes, tam- bém de grande sacrifício pessoal, econômico, da perda de entes que- ridos, anos de escassez, de tensão, mas tínhamos o mais importante que um povo pode ter: esperança. Lá aprendemos valores como “so- lidariedade”, “companheirismo”, “camaradagem”, “lealdade”, “coe- rência”, “trabalho em equipe”, “sen- timento de pertencimento”. Valores que tentamos fazer presentes até os dias de hoje em nosso trabalho criativo, sob um simples lema: “Se- remos melhores artistas somente à medida que somos seres humanos melhores”. Nossas peças destes primeiros anos foram realizadas através da me- todologia da criação coletiva, pois permitia a participação de todos os integrantes do grupo, em igualdade de condições e uso do teatro como instrumento de luta política e comu- nicação social. Todas as peças, como A golpes de corazón, La virgen que suda, Escenas de mi ciudad, abordavam diferentes tópicos da vida cotidiana, que senti- mos que deveríamos expor para cui- dar desse belo processo revolucio- nário que estávamos construindo. Amamos tanto essa revolução que consideramos que nossa maneira de participar seria continuar como todo artista que se respeite, com um pensamento crítico em relação ao abuso de poder, a corrupção, a in- tolerância e o machismo. Estávamos começando a ver que a lua de mel dos primeiros anos se desvaía e que estávamos entregando enormes co- tas de poder aos nossos líderes. Na Nicarágua, ao contrário de ou- tros países, exceto o Teatro Nacio- nal Rubén Darío, não havia salas de teatro nem cultura para assistir às peças: O normal era fazer teatro nos espaços onde as pessoas esta- vam, e não o contrário: praças, ruas, frentes de guerra, centros produ- tivos etc. Foi então que fundamos, em 1986, a primeira sala de teatro independente do país, com o propó- sito de criar um público de teatro a médio e longo prazo, através da per- A arte exige do artista um novo olhar sobre o mundo contemporâneo, faz dele alguém naturalmente comprometido com o social. Por meio da arte e da cultura, poderemos ampliar as possibilidades de um país enfrentar os grandes desafios e as perspectivas de futuro. (Gabriel Portela Saliés – Secretário Adjunto da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte) LUCERO MILLÁN TEATRO E PARTICIPAÇÃO CIDADÃ manência e a sistematização teatral, trabalho que continuamos realizan- do ininterruptamente por 40 anos. Poucos anos depois, em 1990, a frente Sandinista de Libertação Na- cional perdeu as eleições para a União Nacional Opositora, liderada pela Dona Violeta Chamorro. Esse fato modificou a vida no país, sem que ninguém estivesse preparado para isso, nem os perdedores para perder, nem os ganhadores para ga- nhar. Ter nosso próprio espaço foi justamente o que nos possibilitou enfrentar a situação. Os artistas que não desenvolveram mecanismos de independência eco- nômica, infelizmente, desaparece- ram, marcando essa etapa como uma situação de crise, já que muitos deles se acostumaram à subven- ção, sem criar outras alternativas. Os que felizmente sobreviveram aprenderam a lição mais importan- te de nossas vidas: a única maneira de garantir a sustentabilidade do trabalho e a liberdade artística foi e continua sendo a autogestão. Após essa virada histórica, seguiram- -se 16 anos de governos neoliberais, uma transição que não só nos pegou de surpresa, mas também nos ge- rou um sentimento de desamparo e desproteção. De um lado queríamos continuar trabalhando em um pro- cesso que nos havia custado a vida, e por outro, não encontrávamos os suportes institucionais nem emo- cionais para poder continuar. Então nos perguntamos: “Agora que havia desaparecido a revolução, como po- deríamos nos inserir na sociedade?” O olhar, portanto, mudou, deixamos de ver para fora e nos olhamos uns aos outros. Começamos a fazer um teatro mais íntimo, mais reflexivo, também menos alegre, as cores eram cinzas. A esta etapa lhe demos o nome de “menos é mais”. Decidi- mos que a partir desse momento trabalharíamos com poucos atores e com formatos pequenos, mas que esses poucos atores estariam comprometidos com a experimen- tação, a busca de novas linguagens artísticas e técnicas, o treinamento diário, a paixão pela arte e pelo tea- tro. São as seguintes peças: La casa de Rigoberta mira al sur, de Arístides Vargas, El malentendido, de Camus, La noche de Molly Bloom, versão de Ulises de Sanchis Sinisterra, Música ligera, entre outras. Em 2007, Daniel Ortega retomou o poder. Não deixamos de acariciar a esperança de que poderíamos re- tomar a revolução que havia ficado truncada em 1990. A história nos es- tava dando uma segunda oportuni- dade de mudar a cultura política do país e modificar as estruturas eco- nômicas, políticas e sociais a favor dos mais desfavorecidos. Mas infelizmente, logo percebemos que não seria assim. Esses valores aprendidos nos anos 1980 ficaram como lemas e desapareceram na realidade. Após 13 anos de governo que se proclamava como “cristão, socialista e solidário”, aos poucos foram sendo construídas duas Ni- caráguas: aquela que estava perto do governo, acumulando poder e riqueza, e da maioria do povo invi- sibilizado. Nós continuamos a fazer o teatro no qual acreditávamos, tentando pegar o melhor de cada uma dessas duas etapas: a revolucionária e a neolibe- ral, e voltamos a ver lá fora, mas sem nos esquecer de que esse ponto de vista partia de nossa própria subjeti- vidade como indivíduos. Queríamos fazer um teatro como instrumento de participação cidadã que voltas- se a ampliar públicos, contribuísse para a construção de uma cultura de tolerância, que refletisse sobre os direitos humanos, a diversidade e a igualdade de gênero, porém sem ter que fazer nenhum tipo de con- cessão, a partir da criação de uma poética que se nutra da realidade social. Quando falo de realidade so- cial, não estou me referindo unica- mente a assuntos externos, mas sim ao nosso próprio mundo interior. Peças representativas desse perío- do são Sopa de muñecas, La revuel- ta, Mordazas, La ciudad vacía e, a há pouco estreada, Francisca. Desde 2007, desenvolvemos um projeto que intitulamos “Teatro e participação cidadã”, que teve um impacto importante em diferentes setores da sociedade. Formamos jovens atores e mestres como pro- motores culturais, que por sua vez reproduziram o conhecimento em seus bairros e em seus centros edu- cativos, multiplicando de maneira lúdica o conhecimento. Realizamos vários espetáculos de alto nível téc- nico sobre a corrupção, o abuso se- xual e a intolerância, baseados em pesquisas sociais, para ampliar o debate com a sociedade civil. No âmbito desse projeto e preocupa- dos com os altos índices de violência intrafamiliar, criamos Sopa de muñe- cas. Este espetáculo foi idealizado para realizar vinte apresentações e debates para diferentes comu- nidades vulneráveis da sociedade. Até os dias de hoje, temos mais de 400 apresentações, e ele foi visto por mais de 70 mil pessoas. Servia como ponto de partida para refle- tir e garantir a presença do público, das instâncias governamentais e da sociedade civil, que por seu acesso ao poder, puderam incidir minima- mente na solução do problema da violência contra a mulher, afirman- do um acordo simbólico chamado “Agendas de mudança”. A experiên- cia teve tanto sucesso que consegui- mos que se construísse um albergue para mulheres maltratadas e que se aumentasse consideravelmente as denúncias de abuso e violência. Foi uma experiência importante de par- ticipação cidadã, onde claramente o teatro contribuiu para ‘empoderar’ um setor da população. Seguindo esta rota de inovação so- cial, desenvolvemos um projeto chamado “O público é o ator”, onde conseguimos a participação ativa da população a partir das metodo- logias do Teatro do Oprimido, do conterrâneo de vocês, o brasileiro Augusto Boal. Com a peça Mordanzas (2013), que aborda o tema da cultura do medo como um fenômeno novo para a Ni- carágua, e com a intenção de contri- buir para o combate à autocensura e à defesa da liberdade de expres- são, desenvolvemos o teatro fórum com comunidades vulneráveis, con- vidando-os para subir no palco para que decidissem, com suas atuações, qual rumo e final a peça teria. Nessa mesma linha, desenvolve- mos o teatro invisível, realizando ações com atores, sem que a popu- lação tivesse conhecimento de que se tratava de teatro, nas ruas, nos ônibus, nos mercados e nas institui- ções. Ações baseadas em pesquisas 38 39 Cu lt ur a e pa rt ic ip aç ão s oc ia l no s éc ul o XX I 2 sobre os assuntos mais tocantes para a sociedade. Essas mesmas experiências foram gravadas com câmera oculta e projetadas nas re- des sociais, gerando ainda mais re- flexões e debates entre os cidadãos. Como grupo de teatro, o caminho não tem sido fácil; são 40 anos de existência em que cada uma de nossas montagens obedeceu, em termos de conteúdo e em termos estéticos, os diferentes contextos políticos, econômicos e sociais da Nicarágua. Os contextos influencia- ram nossa obra artística, e, por sua vez, nossas obras contribuíram para problematizar e propor uma nova realidade, entendida como uma re- alidade de múltiplas leituras. Em abril de 2018, uma rebelião po- pular pacífica estourou novamente. O resultado, em um ano e meio, foi de mais de 500 mortos, centenas de presos políticos, dezenas de de- saparecidos e aproximadamente 100.000 nicaraguenses no exílio. Começando a crise, recebi ameaças de morte e de queimadas nas insta- lações de nossa sala de teatro. Saí do país em 24 horas. Passei um tem- po fora, mas decidi voltar, motivada pelo compromisso com meu grupo e com a Nicarágua. Foi duro chegar e me encontrar com um país, pelo qual me apaixonei por sua liberda- de, que agora está sequestrado. Nesse momento, eu pensava nas palavras de nossa poetisa Giocon- da Belli: “Como se vive duas vezes o horror da memória? Quantos tira- nos uma vida pode chegar a ter?” Novamente o teatro nos salvou da raiva e da impotência diante de tan- tos mortos. Não tínhamos, de forma muito clara, como continuar partici- pando dessa situação de crise, dado que continuo sendo mexicana e não me permitem opinar politicamente, portanto nos dedicamos a ensaiar nossa próxima peça e ajudar os jovens valentes, que nas ruas vol- taram a cobrir o rosto com panos azuis e brancos, lhes oferecendo um espaço livre e tolerante em nossa escola, para formá-los como atores. Voltamos a ver um grupo de jovens com os mesmos valores aprendidos naqueles primeiros anos de revolu- ção, solidários, valentes, com de- sejos puros de liberdade. Esperamos voltar a viver a alegria de nos encontrarmos novamente na praça, para celebrar juntos a cons- trução de uma nova Nicarágua, com justiça, democracia e liberdade. To- mara que seja assim! Enquanto isso, continuamos acreditando no que nos salvou durante quatro décadas: o teatro, como nosso espaço de li- berdade e resistência. Obrigada! Belo Horizonte, Brasil, Agosto de 2019. Na Constituição da República Portu- guesa, podemos ler, no artigo 73º, depois de se afirmar que “todos têm direito à educação e à cultura”: “O Estado promove a democratização da cultura, incentivando e assegu- rando o acesso de todos os cida- dãos à fruição e criação cultural […]”. Procurando cumprir este desígnio, o Plano Nacional das Artes foi instituí- do pelo Ministério da Cultura e pelo Ministério da Educação, para o hori- zonte temporal 2019-2029, por meio da Resolução de Conselho de Minis- tros nº 42/2019, de 21 de fevereiro. Estes são os princípios e valores que orientam a nossa ação: 1. Contrariamente à pretensão de um conhecimento imediato de si próprio ou da comunidade que se quer construir, assumimos que as manifestações culturais são a me- diação necessária para o reconhe- cimento pessoal de cada um e da comunidade que somos e proje- tamos: construímos a nossa iden- tidade em diálogo com esse depó- sito de humanidade que está no património1 (material e imaterial) e nas obras de arte. 2. Entendemos a cultura no plural, considerando a multiplicidade das suas manifestações e diferenças co- munitárias, ultrapassando as sepa- rações entre o popular e o erudito, o tradicional e o contemporâneo, e atendendo às novas linguagens cria- das pelos jovens. 3. “A cultura – afirmou Sophia de Mello Breyner Andresen – não existe para enfeitar a vida, mas sim para a trans- formar – para que o homem possa construir e construir-se em consci- ência, em verdade e liberdade e em justiça [...]”. Nesse sentido, a estéti- ca não está distante da ética nem da política. 4. Compreendemos a arte como par- te da vida – e não como um mundo paralelo, fora da existência ou num âmbito isolado da “cultura”. PAULO PIRES DO VALE PLANO NACIONAL DAS ARTES – MANIFESTO “PARA TODOS, COM CADA UM” 1 Este artigo apresenta variações ortográficas do Português de Portugal previstas no Acordo Ortográ- fico da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). La ciudad vacía Foto SANDRA ZEA 40 41 Cu lt ur a e pa rt ic ip aç ão s oc ia l no s éc ul o XX I 2 5. Queremos criar condições estrutu- rais, políticas e legislativas para faci- litar o acesso dos cidadãos às artes, para enquadrar os muitos projetos de qualidade já existentes e para apoiar a criação de novos. 6. Asseguraremos a centralidade das artes e do património na formação ao longo da vida – porque a educa- ção só será completa se integrar a dimensão cultural e artística. 7. A escola, como comunidade de aprendizagem em que todos os membros são co-construtores desse aprender, deve promover o acesso à diversidade do património e a apro- priação de diferentes linguagens e expressões artísticas – desse modo, ampliar-se-á a quantidade e quali- dade de vivências e competências, reforçando a abertura à comunida- de e ao mundo, promovendo a in- clusão e a participação. 8. Olhamos para a escola como parte de um sistema complexo – e é ne- cessário dirigirmo-nos a esse con- texto social, administrativo e eco- nómico de forma sistémica para conseguir alterar as escolas de modo sustentável. 9. Racionalizámos em demasia a edu- cação, não promovendo suficien- temente a formação dos afetos, a relação com o corpo, a valorização da autonomia, a capacitação para assumir os desafios e os falhanços, o prazer de aprender, de interpretar e intervir no mundo. Há múltiplas linguagens e diversos modos de ex- pressão pessoal e de compreensão do mundo que devemos ajudar a desenvolver. 10. A educação da sensibilidade estética e artística e do pensamento crítico e criativo promoverá uma maior au- tonomia dos cidadãos. A intimidade com as práticas artísticas permite a formação dessas competências: por um lado, as artes exigem a educa- ção da sensibilidade, a tomada de consciência e o assumir do que se sente; por outro, desenvolvem a ca- pacidade de interpretar e pensar cri- ticamente, procurando outros senti- dos, outros pontos de vista, outras possibilidades. 11. Uma relação com as artes e o patri- mónio de diferentes culturas, ensina a respeitar a experiência do outro, a ser mais receptivo à sua mundi- vidência, promovendo a partilha, a argumentação, o conhecimento de critérios de juízo de gosto e da sua evolução histórica. Assumir-se-á, assim, a complexidade do mundo e das culturas, a unidade e diversida- de do humano, recusando o medo da diferença. 12. As artes podem ensinar-nos a ines- timável lição da gratuidade e do prazer desinteressado. Numa época marcada pelo utilitarismo e pelo de- sejo de produtividade, esta subver- são é determinante; é a mesma que valorizamos no lúdico e na festa. Emocionar-se e divertir-se não po- dem estar em oposição a aprender e a conhecer. 13. Se educar é preparar para o futuro (que não existe e que não conhece- mos), é necessário que a educação prepare para o desconhecido, não apenas para o que já se sabe como certo. As artes são, neste contexto, um modo de alimentar a imagina- ção e a criatividade. 14. A criatividade depende dos estímu- los diversificados que temos: quan- to mais variadas e significativas fo- rem as experiências, maior poderá ser o potencial criativo. Elas são a matéria-prima que usamos para criar coisas ou ideias novas: sem medo de falhar, não repetindo o já conhecido ou já pensado, alimen- tando a curiosidade e a capacidade de questionar. 15. Numa sociedade que enfrenta de- safios decorrentes da globalização e do acelerado desenvolvimento tec- nológico, as competências emocio- nais, sociais, criativas e críticas que as artes proporcionam poderão ser um instrumento essencial de adap- tação a esse mundo que virá. 16. As disciplinas fragmentadas e fecha- das em si não permitem a compre- ensão da complexidade do mun- do. A proximidade e familiaridade com as artes e os processos criati- vos poderão incentivar dinâmicas transdisciplinares, o cruzamento e a integração dos conhecimentos apreendidos nas várias disciplinas, indisciplinando e permitindo uma visão de conjunto. Sem cair no erro de as instrumentalizar, iremos mo- bilizar as artes nas escolas como re- curso para as diferentes disciplinas – não as circunscrevendo às discipli- nas artísticas. 17. O conhecimento do património e das artes permite-nos uma consci- ência histórica e inscreve-nos como parte de uma tarefa infinita – que re- cebemos como herança e que deve- mos renovar para o futuro. Fazemos parte de uma comunidade e de um esforço comum que nos antecede, nos implica e nos ultrapassa. 18. Conscientes dos limites da cultura e das obras de arte, sem ilusões sal- víficas, reformulamos uma citação de Jean-Luc Godard sobre o cinema: O que é a arte? Nada. O que quer? Tudo. O que pode? Alguma coisa. A estratégia do PNA 2019-2024 está disponível