UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS - UFMG INSTITUTO DE CIEˆNCIAS EXATAS DEPARTAMENTO DE PO´S-GRADUAC¸A˜O EM MATEMA´TICA Introduc¸a˜o ao estudo do Ca´lculo Variacional e da Curva Cicloide Fernando Antoˆnio Barros Orientador: Prof. Carlos Maria Carballo Dissertac¸a˜o apresentada ao Pro- grama de Especializac¸a˜o em Ma- tema´tica com eˆnfase em Ca´lculo Di- ferencial e Integral. Belo Horizonte - MG 2016 AGRADECIMENTOS Quero agradecer a Deus, sinto que Ele sempre esteve presente em minha vida, nos momentos felizes e naqueles dif´ıceis, quando precisamos muito de um verdadeiro amigo. E por falar em amigo, na˜o tenho palavras para agradecer ao Prof. Carlos Maria Carballo, profissional de primeira grandeza que me orientou neste trabalho, e aproveito para afirmar que se na˜o fosse pela sua inteligeˆncia ı´mpar, pela sua generosidade na doac¸a˜o de seu precioso tempo, eu jamais teria conseguido chegar ao fim desta jornada, portanto, caro Professor Carlos, o senhor tera´ sempre a minha eterna gratida˜o e admirac¸a˜o. Quero agradecer tambe´m a treˆs grandes mulheres que para mim sa˜o muito espe- ciais, sa˜o pessoas que amam a vida, sa˜o exemplos de superac¸a˜o, de alegria pela vida e que me ajudaram muito a enfrentar muitos desafios, e eu tenho a sorte de teˆ-las por perto, sa˜o elas: a minha amada esposa Joelma, com quem tenho treˆs filhos ma- ravilhosos: Ian, Giovana e I´ris; a minha querida ma˜e Maria Luiza e a minha querida sogra, Maria Jose´, elas sa˜o pessoas abenc¸oadas por Deus, fazem desse mundo um lugar muito melhor de se viver e sempre estara˜o em meu corac¸a˜o. Agradec¸o a` Coordenadora Profa Jussara de Matos Moreira e a todos os professo- res com os quais tive a honra de conviver em sala de aula, possibilitando que todos no´s, alunos, aprendeˆssemos e aprimora´ssemos nossos conhecimentos. Quero agradecer tambe´m a` Andre´a e a` Kelli, funciona´rias da Po´s-Graduac¸a˜o, pela atenc¸a˜o e cordialidade dispensadas a todos no´s. A todos voceˆs, o meu muito obrigado. 2 Suma´rio 1 Introduc¸a˜o 5 2 O Ca´lculo Variacional 12 2.1 Func¸o˜es e funcionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 2.2 Equac¸a˜o de Euler-Lagrange . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 2.3 Problema da Braquisto´crona . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24 3 Cicloide 33 3.1 A geometria da curva Cicloide . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 3.2 A Cicloide e´ tauto´crona . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 3.3 O uso do aplicativo Geogebra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41 3 Resumo Nesta monografia procurou-se tratar, de uma forma simples e objetiva, das noc¸o˜es ba´sicas iniciais de uma a´rea da Matema´tica conhecida como Ca´lculo Varia- cional, abordando o conceito de funcional de forma dida´tica e resolvendo problemas relativos a` otimizac¸a˜o atrave´s da aplicac¸a˜o da Equac¸a˜o de Euler-Lagrange, a qual sera´ demonstrada nesta monografia, possibilitando ao leitor associar ao seu conheci- mento pre´vio de Ca´lculo Diferencial e Integral uma noc¸a˜o ba´sica desta interessante a´rea da Matema´tica. Tambe´m faz parte dos objetivos desta monografia mostrar que a Cicloide e´ uma curva especial, pois, ale´m de ser a soluc¸a˜o do “Problema da Braquisto´crona”, o qual sera´ tratado nesta monografia, esta curva tambe´m possui a interessante propriedade conhecida como “Tauto´crona”, a qual sera´ explicada em detalhes neste trabalho. Ao final desta monografia, o objetivo foi determinar, atrave´s do aplicativo Ge- ogebra, o comprimento do raio do c´ırculo que gera uma curva Cicloide que deve interceptar um ponto dado no plano vertical. 4 Cap´ıtulo 1 Introduc¸a˜o Quando se pesquisa sobre a Histo´ria da Civilizac¸a˜o, e´ poss´ıvel constatar que a busca pela otimizac¸a˜o das atividades faz parte do comportamento do ser humano, nas mais diversas a´reas do conhecimento. Desde a Idade dos Metais, que e´ a u´ltima fase da Pre´-Histo´ria que vai de 5000 a.C. ate´ o surgimento da escrita pelos sume´rios, em 4000 a.C., ja´ se buscava criar ligas meta´licas mais resistentes e dura´veis para a confecc¸a˜o de ferramentas e armas, num procedimento cont´ınuo de aperfeic¸oamento, cujo resultado atual e´ o acesso a uma infinidade de materiais com caracter´ısticas importantes, como as ligas meta´licas que apresentam uma grande resisteˆncia aliada a` leveza ou materiais que possuem a capacidade de serem submetidos a grandes tenso˜es e diferenc¸as de temperatura sem apresentar deformac¸o˜es considera´veis em suas estruturas. Na e´poca das grandes navegac¸o˜es, procurava-se projetar o formato dos barcos para que os mesmos apresentassem a menor resisteˆncia na a´gua, adquirindo assim a maior velocidade poss´ıvel, e tambe´m constru´ıam-se as velas das embarcac¸o˜es de modo a aproveitar a forc¸a dos ventos da forma mais eficiente. Os conhecimentos matema´ticos e astronoˆmicos da e´poca, aliados ao uso de equipamentos como o as- trola´bio, o sextante e os relo´gios mar´ıtimos de grande precisa˜o, possibilitavam que se navegasse com muito mais eficieˆncia e seguranc¸a pelas rotas mar´ıtimas, na medida em que se podia determinar a latitude e a longitude de suas embarcac¸o˜es durante as viagens pelos oceanos, o que muito contribuiu para o desenvolvimento do come´rcio e do intercaˆmbio cultural entre diversos povos. Em tempos de guerra, a F´ısica, a Qu´ımica e a Matema´tica foram usadas por diversos l´ıderes com o objetivo de se promover as maiores baixas poss´ıveis nas tropas inimigas, quando se buscava, por exemplo, produzir a melhor po´lvora; determinar o melhor aˆngulo de disparo dos canho˜es e as dimenso˜es e as formas de seus proje´teis, de 5 maneira que estes pudessem ser os mais letais, atingindo a maior distaˆncia poss´ıvel e com o maior potencial de destruic¸a˜o. A procura pelas soluc¸o˜es dos desafios de cada e´poca e´ a mola propulsora que impulsiona e projeta a sociedade a patamares mais elevados em relac¸a˜o aos conhe- cimentos cient´ıficos, ao aperfeic¸oamento e a` criac¸a˜o de te´cnicas mais modernas e eficientes, nas mais variadas a´reas do conhecimento. Desde a antiguidade, va´rios matema´ticos e f´ısicos procuravam compreender os fenoˆmenos naturais e suas leis, tentavam determinar, atrave´s de experieˆncias f´ısicas e ca´lculos matema´ticos, o princ´ıpio absoluto que rege a natureza, a qual era vista por muitos como a criac¸a˜o de um Deus perfeito. O uso da Matema´tica com objetivo de se atingir a otimizac¸a˜o pode ser constatado desde a Gre´cia Antiga atrave´s do poema e´pico denominado “A Lenda de Dido” (veja [1, p. 127]), o qual faz parte do Caˆntico I da “Eneida”, obra em que o poeta romano Virg´ılio (70−19 a.C.) narra a epopeia de Ene´as de Tro´ia. De acordo com esta lenda, Dido era uma princesa fen´ıcia do se´culo IX a.C., da cidade de Tiro, localizada a`s margens do Mediterraˆneo, onde hoje e´ o L´ıbano, e, conforme esta lenda, seu irma˜o, o rei Pigmalia˜o, assassinou seu marido, o grande sacerdote Arquebas, para subtrair- lhe seus tesouros, e temendo sua pro´pria morte, Dido enta˜o fugiu em um navio com um grande nu´mero de seguidores dispostos a fundar uma nova cidade (Cartago). No lugar escolhido para ser Cartago, Dido tentou comprar terras do rei local para que pudessem se estabelecer, mas o acordo feito com o rei foi que ela so´ teria em terras o que pudesse abranger com o couro de um boi. Dido e seu grupo decidiram enta˜o cortar o couro em tiras ta˜o finas quanto poss´ıvel e emendar todas essas tiras de couro para englobar a maior a´rea no formato de um semic´ırculo que tivesse o seu diaˆmetro a`s margens do oceano. O surpreendente procedimento de Dido demonstra o conhecimento sobre a soluc¸a˜o do Problema Isoperime´trico, o qual questiona sobre qual deve ser a disposic¸a˜o geome´trica de um fio de comprimento determinado para que o mesmo delimite a maior a´rea poss´ıvel. A soluc¸a˜o do Problema Isoperime´trico teria sido dada inicialmente pelo ma- tema´tico grego Zenodoro (200-140 a.C.), mas a sua demonstrac¸a˜o completa so´ teria sido conhecida em 1880, quando foi apresentada pelo matema´tico Karl Weierstrass (1815− 1897) em seus semina´rios na Universidade de Berlim. Ate´ hoje, a soluc¸a˜o do Problema Isoperime´trico e´ considerada por muitos como algo especial, pois, se demonstra que o fio abrangera´ a maior a´rea poss´ıvel quando o mesmo for disposto na forma de uma circunfereˆncia. A otimizac¸a˜o dos resultados sempre interessou a` humanidade por motivos o´bvios 6 e, naturalmente, continua a fazer parte dos seus anseios. Desde a antiguidade, va´rios matema´ticos e estudiosos se mostraram influenciados por um princ´ıpio metaf´ısico: o de que a natureza segue sempre os caminhos mais simples e fa´ceis, evitando des- perd´ıcios ou a inutilidade, e essa ideia ja´ estava presente nas obras do nota´vel sa´bio grego, Aristo´teles (384 - 322 a.C.), que afirmava que a natureza na˜o faz nada em va˜o. Essa visa˜o se justificava pelo fato de que a` e´poca muitos estudiosos acreditavam que o mundo teria sido criado por um Deus perfeito, criador das leis que regeriam os fenoˆmenos naturais da forma mais simples e perfeita poss´ıvel. Va´rios matema´ticos e f´ısicos contribu´ıram para o desenvolvimento de conheci- mentos relativos a` otimizac¸a˜o matema´tica nos se´culos XV I e XV II, e um destes grandes cientistas foi Galileu Galilei (1564−1643), o qual desempenhou um papel es- sencial na Revoluc¸a˜o Cient´ıfica ao contribuir para o desenvolvimento de va´rias a´reas da Matema´tica, F´ısica e Astronomia, introduzindo o me´todo cient´ıfico e tentando descrever os fenoˆmenos da F´ısica atrave´s da linguagem matema´tica, sendo atribu´ıda a Galileu a seguinte frase: ”A Matema´tica e´ o alfabeto com que Deus escreveu o Universo”. Em relac¸a˜o a Galileu, ha´ relatos histo´ricos que evidenciam a sua mente genial e demonstram que ele era capaz de observar detalhes e de elaborar teorias cient´ıficas sobre os mais variados campos relativos aos fenoˆmenos naturais. Em relac¸a˜o ao movimento pendular, por exemplo, contam que certa vez Galileu teria observado as oscilac¸o˜es de um lustre da Catedral de Pisa e teria efetuado medidas do tempo das suas oscilac¸o˜es e comparado com a contagem das suas pulsac¸o˜es, e, dessa forma, ele teria verificado que mesmo quando as amplitudes das oscilac¸o˜es do lustre diminu´ıam, os per´ıodos destas eram iguais entre si (para pequenas oscilac¸o˜es). Galileu apresentou suas concluso˜es a` respeito do isocronismo de peˆndulos com base em suas experieˆncias e concluiu que o per´ıodo de oscilac¸a˜o de um peˆndulo depende do seu comprimento, mas independe da sua massa e da sua amplitude (para pequenas oscilac¸o˜es). Por volta de 1630 Galileu fazia experieˆncias sobre o tempo de queda de objetos e comparou o tempo de descida de uma esfera por um segmento circular com os tempos correspondentes a`s descidas da mesma esfera atrave´s de pol´ıgonos inscritos e de diversos arcos que uniam os pontos dados, e nestas experieˆncias Galileu tinha o objetivo de determinar qual seria a curva plana que ligaria dois pontos A e B, com B em n´ıvel inferior, de tal forma que, apenas sob a ac¸a˜o da forc¸a da gravidade, esta esfera deveria percorrer a curva de A ate´ B no menor intervalo de tempo poss´ıvel. Na e´poca, Galileu teria chegado a` conclusa˜o (incorreta) de que esta curva seria um 7 arco de uma circunfereˆncia. Em 1641, quando Galileu ja´ estava cego, ocorreu-lhe que fosse poss´ıvel adaptar o peˆndulo a relo´gios, utilizando pesos ou molas, mas ele nunca teria concretizado esta ideia. Outro grande cientista que se dedicou ao estudo sobre os fenoˆmenos naturais e as leis que os governam foi o franceˆs Pierre de Fermat (1601−1665), que, em agosto de 1657, enunciou o famoso “Princ´ıpio do Tempo Mı´nimo”, o qual afirma o seguinte:“A luz, para ir de um ponto A ate´ outro ponto B, o fara´ pela trajeto´ria cujo tempo de traˆnsito seja o menor poss´ıvel”, e este princ´ıpio pode ser constatado atrave´s do processo da incideˆncia e reflexa˜o da luz em espelhos planos, onde os aˆngulos de incideˆncia e de reflexa˜o possuem a mesma medida, de forma que a luz percorra a distaˆncia entre dois pontos do espac¸o no menor intervalo de tempo poss´ıvel. Figura 1: Reflexa˜o no espelho plano Um dos grandes cientistas que tambe´m muito contribuiu com estudos relativos ao movimento pendular foi o matema´tico, f´ısico e astroˆnomo holandeˆs, Christian Huygens (1629− 1695), que, em 1673, publicou a sua obra intitulada “Horologium Oscillatorium”(Relo´gio Pendular), e foi quando formulou o interessante problema intitulado: “Problema da Tauto´crona”(Tauto=mesmo + Chrone=tempo), o qual indagava: Qual e´ a curva descrita em um plano vertical que, independentemente da posic¸a˜o inicial em que se coloque um objeto sobre a mesma, o tempo que o objeto leva para atingir o ponto mais baixo da curva seja sempre o mesmo? (Considerando que este objeto esteja sujeito apenas a` forc¸a gravitacional e na˜o sofra a ac¸a˜o da forc¸a de atrito). 8 Figura 2: Peˆndulo E´ poss´ıvel pensar que durante o per´ıodo que Huygens pensava sobre a soluc¸a˜o do “Problema da Tauto´crona”, ele buscava uma relac¸a˜o com o fato do movimento pendular apresentar o seu per´ıodo invaria´vel para pequenos aˆngulos, ou seja, o peˆndulo levava tempos iguais para percorrer distaˆncias distintas, considerando ape- nas aˆngulos com pequenas amplitudes. Huygens havia inventado o relo´gio de peˆndulo cuja extremidade inferior descreve um arco de circunfereˆncia, e, a partir de suas experieˆncias, sabia que, para pequenos aˆngulos de abertura, o per´ıodo de um peˆndulo simples na˜o depende da sua amplitude e nem da sua massa. De forma comparativa, Huygens verificou que se abandonasse uma esfera em uma rampa na forma de uma semicircunfereˆncia, o tempo que a esfera levava para atingir o ponto mais baixo da trajeto´ria dependia da altura em que a mesma era abandonada sobre a curva, e ,nesta e´poca, ocorreu-lhe considerar o que aconteceria se a superf´ıcie hemisfe´rica fosse substitu´ıda por outra, cuja secc¸a˜o fosse um arco de Cicloide invertido, e foi quando Huygens ficou surpreso ao observar que em tal caso a esfera chegava ao ponto mais baixo da curva levando sempre o mesmo tempo, independentemente da altura em que a esfera fosse colocada sobre a Cicloide. Huygens provou, geometricamente, que a Cicloide e´ tauto´crona, ou seja, apre- senta a propriedade de que quando um objeto se desloca sobre a mesma, desprezando- se o atrito e somente sob a ac¸a˜o da gravidade, o tempo que este objeto leva para atingir o ponto mais baixo da curva (ponto de mı´nimo) sera´ sempre o mesmo, in- dependentemente da posic¸a˜o inicial na qual ele e´ colocado na curva.Ale´m disso, Huygens verificou tambe´m que se um peˆndulo constru´ıdo na forma de uma esfera 9 presa por um fio deforma´vel se movimentar entre dois arcos cicloidais fixos de mesmo comprimento que o peˆndulo, a trajeto´ria descrita pela esfera sera´ um arco cicloidal. De posse desses conhecimentos, Huygens construiu um relo´gio cujo peˆndulo era limitado por dois anteparos na forma de Cicloides, procurando assim construir um relo´gio cujo per´ıodo de oscilac¸a˜o na˜o se alterasse com a variac¸a˜o da amplitude de seus movimentos. A seguir, podemos observar a representac¸a˜o gra´fica de um Peˆndulo Cicloidal, onde PQ e PR sa˜o anteparos fixos na forma de arcos cicloidais, os quais limitam o movimento do peˆndulo PS, o qual e´ constru´ıdo com uma esfera na extremidade de um fio deforma´vel, de forma que, a` medida que o peˆndulo se movimenta entre os anteparos fixos, a esfera ira´ descrever um arco de Cicloide, portanto, apresentara´ a propriedade tauto´crona. Figura 3: Peˆndulo cicloidal Neste contexto histo´rico, estavam germinando as ideias de uma importante a´rea da Matema´tica que ficou conhecida como Ca´lculo Variacional. Em se tratando do Ca´lculo Variacional, podemos considerar tambe´m o grande matema´tico e f´ısico Isaac Newton (1643 − 1727) como um dos seus precursores, considerando que Newton propoˆs, no segundo volume da sua ce´lebre obra “Prin- cipia Mathematica”, publicada em 1687, o problema de se determinar a forma da superf´ıcie de revoluc¸a˜o de um so´lido que apresentasse a menor resisteˆncia poss´ıvel quando o mesmo atravessasse um fluido, e este e´ um problema sobre otimizac¸a˜o, t´ıpico do Ca´lculo Variacional. A Matema´tica vem sendo constru´ıda e desenvolvida desde a mais remota antigui- 10 dade, e o seu desenvolvimento se deve muito a` busca de soluc¸o˜es de problemas que desafiaram as mentes mais brilhantes de cada e´poca. No se´c. XVII, o Ca´lculo Vari- acional foi criado para solucionar problemas a`s otimizac¸o˜es de resultados, e grac¸as ao seu desenvolvimento, hoje e´ poss´ıvel obter soluc¸o˜es otimizadas para inu´meros problemas, nas mais variadas a´reas do conhecimento. 11 Cap´ıtulo 2 O Ca´lculo Variacional 2.1 Func¸o˜es e funcionais Partindo de uma ana´lise ba´sica e simplificada, pode-se considerar que o Ca´lculo Variacional e´ uma a´rea da Matema´tica que foi criada para se determinar as func¸o˜es que extremizam os seus respectivos funcionais. Mas afinal, o que vem a ser um funcional? Com o objetivo de ser dida´tico em relac¸a˜o a` ide´ia intuitiva do que vem a ser um funcional, pode-se fazer uma comparac¸a˜o entre uma func¸a˜o com o domı´nio definido no conjunto dos nu´meros reais e um funcional cujo domı´nio e´ um espac¸o definido de func¸o˜es. Toda func¸a˜o cont´ınua, com domı´nio no conjunto dos nu´meros reais, possui, para cada elemento do seu domı´nio, um elemento correspondente que pertence ao seu conjunto imagem. Por exemplo, a func¸a˜o quadra´tica y(x) = x2, com x ∈ R, pos- sui um elemento em seu conjunto imagem correspondente a cada elemento de seu domı´nio, como se observa a seguir: para x = 0 temos y = 0, para x = 1 temos y = 1, para x = 2 temos y = 4, ou seja, para cada valor de x, a func¸a˜o retornara´ apenas um determinado valor da func¸a˜o y(x). Ha´ uma semelhanc¸a entre os conceitos de func¸a˜o e funcional, no entanto, o domı´nio de um funcional na˜o e´ formado por nu´meros reais, mas sim por func¸o˜es, e para cada func¸a˜o substitu´ıda no funcional dado o resultado sera´ um nu´mero real. 12 Para se compreender melhor o conceito de funcional, vejamos a soluc¸a˜o do pro- blema a seguir. Seja o funcional I(y) = ∫ 4 0 y(x) dx, onde y(x) representa uma func¸a˜o deriva´vel qualquer em relac¸a˜o a` varia´vel x, sendo que este funcional fornece como resultado o valor da a´rea sob a curva representada pela func¸a˜o y(x), a qual e´ limitada no intervalo 0 ≤ x ≤ 4, com x ∈ R. A partir deste funcional dado, qual das func¸o˜es a seguir abrange a maior a´rea entre o seu gra´fico e o eixo das abscissas no intervalo dado? a) y = x2 b) y = ex c) y = √ x+ 1 d) y = 2x Apo´s os devidos ca´lculos, os resultados das respectivas a´reas sa˜o: a) I(y) = ∫ 4 0 x2 dx = x 3 3 ∣∣∣4 0 = 64. b) I(y) = ∫ 4 0 ex dx = ex|40 ≈ 53, 6 c) I(y) = ∫ 4 0 √ x+ 1 dx = 3 2 (x+ 1) 3 2 ∣∣∣4 0 ≈ 6, 78 d) I(y) = ∫ 4 0 2x dx = x2|40 = 16 Portanto, dentre as func¸o˜es dadas, aquela que determina a maior a´rea sob o seu gra´fico e´ a func¸a˜o quadra´tica y = x2. No caso acima, para solucionar o problema bastou substituir cada uma das func¸o˜es no funcional dado e calcular os respectivos resultados, mas, no Ca´lculo Variacional, o objetivo e´ determinar, dentre infinitas func¸o˜es, aquela que devera´ extremizar o funcional dado, ou seja, determinar a func¸a˜o que, se substitu´ıda no 13 funcional devera´ gerar o valor extremo (ma´ximo ou um mı´nimo) deste. O processo para se determinar a func¸a˜o que extremiza o funcional, em parte, e´ semelhante a`quele em que se determina o ponto extremo de uma func¸a˜o cont´ınua e diferencia´vel em determinado intervalo, onde a derivada da func¸a˜o se anula. Para melhor compreensa˜o do significado de um funcional, pode-se analisar o problema proposto a seguir, o qual tem como objetivo determinar a expressa˜o ma- tema´tica (funcional) para se calcular o comprimento da curva representada pela func¸a˜o dada em um determinado intervalo: Problema resolvido: Dados dois pontos distintos A(x1; y1) e B(x2; y2) perten- centes ao plano cartesiano xy, determinar o funcional que possibilite calcular o comprimento de uma curva qualquer, representada por y(x), a qual interliga tais pontos. Soluc¸a˜o: Considerando uma curva C que seja definida pela equac¸a˜o y = y(x), a qual representa a func¸a˜o procurada, sendo y(x) cont´ınua no intervalo a ≤ x ≤ b, e com x ∈ R, tal que a sua derivada tambe´m seja cont´ınua neste intervalo. Para melhor descrever a situac¸a˜o analisada, obtemos uma poligonal de aproximac¸a˜o para a curva C a ser definida, dividindo o intervalo [a, b] do seu domı´nio em n subintervalos com extremidades x0, x1, ..., xn e com larguras iguais a ∆xi. Se yi = y(xi), enta˜o o ponto Pi(xi, yi) esta´ em C, e a poligonal com ve´rtices P0, P1, ..., Pn, ilustrada na figura abaixo e´ uma aproximac¸a˜o para C. 14 Figura 4: Comprimento do arco por aproximac¸a˜o de linhas poligonais. O comprimento L da curva C e´ aproximadamente o mesmo dessa poligonal e a aproximac¸a˜o fica melhor quando n aumenta. Portanto, definimos o comprimento L da curva C com a equac¸a˜o representada por y(x), no intervalo a ≤ x ≤ b, como sendo o limite dos comprimentos dessas poligonais inscritas (se o limite existir), conforme [2, p. 488]: L = lim n→∞ n∑ i=1 |Pi−1 − Pi| Se tomarmos ∆xi = xi − xi−1 e ∆yi = yi − yi−1, enta˜o: |Pi−1 − Pi| = √ (xi − xi−1)2 + (yi − yi−1)2 = √ (∆xi)2 + (∆yi)2. Aplicando-se o Teorema do Valor Me´dio para a func¸a˜o f , no intervalo [xi−1, xi], conclu´ımos que existe um nu´mero x∗i entre xi−1 e xi, tal que: y(xi)− y(xi−1) = y′(x∗i )(xi − xi−1) 15 isto e´, ∆yi = y ′(x∗i )∆xi. Enta˜o, temos: |Pi−1Pi| = √ (∆xi)2 + (∆yi)2 = √ (∆xi)2 + (y′(x∗i )∆xi)2 = √ 1 + [y′(x∗i )]2 √ (∆xi)2 = √ 1 + [y′(x∗i )]2∆xi. Logo, o comprimento do arco de uma curva suave representada pela func¸a˜o y(x) e´ dado pela expressa˜o: L(y) = lim n→∞ n∑ i=1 |Pi−1Pi| = lim n→∞ n∑ i=1 √ 1 + [y′(x∗i )]2∆xi. L[y] = ∫ b a √ 1 + y′(x)2 dx (2.1) com y′(x) cont´ınua no intervalo [a, b]. Portanto, apo´s os devidos ca´lculos, tem-se a expressa˜o matema´tica (2.1) como exemplo de um funcional, cujo domı´nio na˜o e´ composto por nu´meros reais, mas por func¸o˜es deriva´reis, e atrave´s deste funcional e´ poss´ıvel calcular o comprimento da curva determinada pela func¸a˜o y(x) no intervalo a ≤ x ≤ b. 2.2 Equac¸a˜o de Euler-Lagrange O Lema Fundamental do Ca´lculo Variacional, que e´ ba´sico para o desenvolvimento da teoria do Ca´lculo Variacional, e´ demonstrado a seguir: Lema 1. Se G : [x1, x2]→ R e´ uma func¸a˜o cont´ınua e se e´ va´lida a condic¸a˜o:∫ x2 x1 η(x)G(x) dx = 0 (2.2) para toda func¸a˜o diferencia´vel η(x) : [x1, x2] → R tal que η(x1) = η(x2) = 0 enta˜o G(x) = 0, para todo x ∈ (x1, x2). Demonstrac¸a˜o. Suponha, por absurdo, que G(x′) 6= 0 para algum x′ ∈ (x1, x2), e, 16 sem perda de generalidade, que G(x′) > 0. Pela continuidade de G, existe uma vizinhanc¸a de x′, digamos, c ≤ x′ ≤ d na qual G(x′) > 0, ∀x ∈ [c, d]. Mas com isso a igualdade (2.2) na˜o se verifica para toda func¸a˜o diferencia´vel η(x). Por exemplo, considerando-se a func¸a˜o η(x) a seguir: η(x) =  0 se x1 ≤ x ≤ c (x− c)2(x− d)2 se c ≤ x ≤ d 0 se d ≤ x ≤ x2 obte´m-se: ∫ x2 x1 η(x)G(x)dx = ∫ d c [(x− c)2(x− d)2]G(x) dx e como G(x) > 0 para c ≤ x ≤ d tem-se que:∫ x2 x1 η(x)G(x) dx 6= 0 o que contradiz a hipo´tese. O caso G(x1) < 0 e´ ana´logo e assim o lema acima esta´ provado. O objetivo ba´sico do Ca´lculo Variacional e´ determinar a func¸a˜o diferencia´vel, y(x), com y : [x1;x2] → R, a qual tenha a sua derivada primeira y′(x) cont´ınua no intervalo considerado, de modo que satisfac¸a a`s condic¸o˜es de fronteira dadas: y(x1) = y1 e y(x2) = y2, e, dependendo do problema, minimize ou maximize o funcional I(y), o qual e´ representado genericamente pela expressa˜o a seguir, conforme [3, p. 292] e [4, p. 93]: I(y) = ∫ x2 x1 F (x, y, z) dx (2.3) sendo x = x; y = y(x) e z = y′(x). Analisando a integral acima, e´ importante que se compreenda que a func¸a˜o F (x, y, z) e´ uma func¸a˜o composta por x, y e y′, e, apo´s a sua integrac¸a˜o em relac¸a˜o a dx, o funcional I(y) dependera´ apenas da func¸a˜o y e/ou da sua derivada y′ e sera´ independente da varia´vel x. A ideia ba´sica inicial do Ca´lculo Variacional e´ admitir que haja uma func¸a˜o y(x) que extremiza o funcional dado, e, a partir desta func¸a˜o y(x), cria-se uma nova 17 func¸a˜o parametrizada y, a qual representara´ as func¸o˜es vizinhas a` func¸a˜o y(x) que estara˜o sujeitas a`s mesmas condic¸o˜es de fronteira da func¸a˜o y(x). Com o objetivo de representar uma famı´lia de func¸o˜es que possui os mesmos extremos da func¸a˜o o´tima y(x), a qual extremiza o funcional dado, define-se uma nova func¸a˜o y(x, ) da seguinte forma: y(x, ) = y(x) + η(x), (2.4) tal que a func¸a˜o y(x, ) seja parametrizada pelo fator  ∈ R e a func¸a˜o η(x) seja uma func¸a˜o arbitra´ria deriva´vel, tal que η(x) : [x1, x2] → R obedec¸a a`s seguintes condic¸o˜es de fronteira: η(x1) = η(x2) = 0. Dessa forma, assegura-se que a famı´lia de func¸o˜es representadas por y(x, ) obedec¸a, para qualquer valor de , as condic¸o˜es de fronteira: y(x1, ) = y(x1) e y(x2, ) = y(x2). ou seja, determina-se que as func¸o˜es y(x, ) e y(x) sejam coincidentes nos extremos do intervalo definido pelos limites de integrac¸a˜o x1 e x2 apresentados. Figura 5: Curvas vizinhas a` func¸a˜o o´tima representada por y 18 Tomando o funcional (2.3) e substituindo a func¸a˜o y(x) pela func¸a˜o y(x, ) defi- nida em (2.4), chegaremos a` expressa˜o: I() = ∫ x2 x1 F (x, y(x, ), y′(x, ))dx (2.5) e neste ponto e´ importante que se compreenda que em (2.3) tem-se um funcional I(y) cujo domı´nio e´ um conjunto de func¸o˜es e, apo´s a substituic¸a˜o que gerou (2.5), na˜o se tera´ mais um funcional, mas sim uma func¸a˜o, I(), cujo domı´nio e´ definido pelos poss´ıveis valores de  ∈ R, pois, para cada func¸a˜o cont´ınua e diferencia´vel η(x) dada, apenas o valor de  devera´ variar, gerando os correspondentes valores de y(x, ). A partir de (2.4), se tomarmos  = 0, teremos que y(x, 0) = y(x) + 0, ou seja, y(x, 0) = y(x), e, conforme a hipo´tese inicial de que y(x) extremiza o funcional (2.3), enta˜o, para  = 0, tem-se que y(x, 0) representara´ a func¸a˜o que extremiza (2.5). Portanto, adotando-se  = 0, pode-se concluir que o valor correspondente da func¸a˜o I() relativa a` equac¸a˜o (2.5), a qual foi criada a partir do funcional (2.3), sera´ um extremo, e, baseando-se no fato de que no ponto extremo (ma´ximo ou mı´nimo) de uma func¸a˜o a derivada e´ nula, e pode-se tambe´m afirmar que para o valor de  = 0 a derivada da func¸a˜o I(), em relac¸a˜o a , devera´ ser nula, ou seja: dI() d ∣∣∣∣ =0 = 0 d d (∫ x2 x1 F (x, y(x, ), y′(x, ))dx )∣∣∣∣ =0 = 0 (2.6) Com a finalidade de se prosseguir nos ca´lculos da equac¸a˜o anterior, e´ necessa´rio que se calcule a derivada de uma integral definida de uma func¸a˜o composta, fazendo-se necessa´rio, nesta etapa, o emprego do importante lema conhecido como Regra de Leibniz, veja [5, Teorema 3, p. 66]. Lema 2 (Regra de Leibniz). Sejam f (x, t) uma func¸a˜o real definida num retaˆngulo R = [a, b] × [c, d] ∈ R2 integra´vel em x para cada valor real de t e ∂f (x, t) ∂t a sua derivada parcial cont´ınua em x e t no mesmo retaˆngulo. 19 Seja o integral, func¸a˜o do paraˆmetro t, dada por: I(t) = ∫ b a f(x, t) dt. A derivada de I(t) e´ dada por: I ′(t) = ∫ b a ∂f(x, t) ∂t dx. Na sequeˆncia, de acordo o Lema 2, podemos dar continuidade a (2.6):∫ x2 x1 ( ∂F (x, y(x, ), y′(x, )) ∂ )∣∣∣∣ =0 dx = 0. Na sequeˆncia, usando a “Regra da Cadeia”, temos:∫ x2 x1 ( ∂F ∂x ∂x ∂ + ∂F ∂y ∂y(x, ) ∂ + ∂F ∂y′(x, ) ∂y′(x, ) ∂ )∣∣∣∣ =0 dx = 0 (2.7) De acordo com a parametrizac¸a˜o definida: y(x, ) = y(x) + η(x), pode-se deter- minar as seguintes equac¸o˜es: ∂y(x, ) ∂ = η(x) (2.8) ∂y′(x, ) ∂ = η′(x). (2.9) A partir da equac¸a˜o (2.4) e adotando-se  = 0, tem-se que y(x, ) = y(x), enta˜o pode-se substituir y(x, ) por y(x) em (2.8) e (2.9) e se obter as seguintes equac¸o˜es: ∂y(x, 0) ∂ = ∂y(x) ∂ = η(x) ∂y′(x, 0) ∂ = ∂y′(x) ∂ = η′(x), e apo´s algumas substituic¸o˜es na equac¸a˜o (2.7), aliado ao fato de que a varia´vel x na˜o depende de , o que faz com que ∂x ∂ = 0, chegaremos ao seguinte resultado:∫ x2 x1 ( ∂F ∂y η(x) + ∂F ∂y′ η′(x) ) dx = 0. (2.10) A segunda parcela de (2.10) pode ser integrada por partes, como e´ visto a seguir: 20 ∫ x2 x1 ∂F ∂y′ η′(x) dx = [ ∂F ∂y′ η(x) ]x2 x1 − ∫ x2 x1 d dx ( ∂F ∂y′ ) η(x) dx (2.11) e, devido a`s condic¸o˜es de fronteira η(x1) = η(x2) = 0 tem-se que a primeira parcela do segundo membro da expressa˜o acima se anula, conforme se representa a seguir:[ ∂F ∂y′ η(x) ]x2 x1 = 0. Portanto, apo´s os ca´lculos descritos, tem-se que (2.10) foi reduzida a` seguinte ex- pressa˜o: ∫ x2 x1 ( ∂F ∂y η(x)− d dx ( ∂F ∂y′ ) η(x) ) dx = 0 e, colocando η(x) em evideˆncia, tem-se:∫ x2 x1 ( ∂F ∂y − d dt ( ∂F ∂y′ )) η(x) dx = 0, (2.12) sendo η(x) uma func¸a˜o arbitra´ria, requerendo-se apenas que a mesma seja deriva´vel e obedec¸a a`s condic¸o˜es de fronteira ja´ definidas em (2.2). De acordo com o Lema 1, a partir de equac¸a˜o anterior podemos chegar a` seguinte equac¸a˜o: ∂F ∂y − d dx ( ∂F ∂y′ ) = 0 (2.13) a qual e´ denominada Equac¸a˜o de Euler-Lagrange. Atrave´s da Equac¸a˜o de Euler-Lagrange podemos determinar a func¸a˜o y(x) que extremiza um determinado funcional I[y(x)], e e´ importante salientar que satisfazer esta equac¸a˜o e´ uma condic¸a˜o necessa´ria para tal, pore´m na˜o suficiente, pois, para se verificar se a referida func¸a˜o y(x) corresponde a um ma´ximo, um mı´nimo ou a um ponto de inflexa˜o sa˜o necessa´rios outros ca´lculos mais complexos que na˜o sa˜o abordados nesta monografia, mas podem ser verificados em [3]. Com o objetivo de se mostrar uma aplicac¸a˜o da Equac¸a˜o de Euler-Lagrange, vejamos a soluc¸a˜o do problema a seguir: Problema: Dados dois pontos distintos A(x1; y1) e B(x2; y2), localizados no plano cartesiano xy, determinar, atrave´s da Equac¸a˜o de Euler-Lagrange, qual e´ a func¸a˜o que representa o menor caminho a ser percorrido entre A e B. 21 Soluc¸a˜o: Inicialmente, admite-se que existe uma func¸a˜o y = y(x) que extremiza o funcional que representa o comprimento total de uma curva suave descrita atrave´s de uma func¸a˜o deriva´vel y = y(x) em um intervalo que pertenc¸a ao seu domı´nio, sendo que, conforme (2.1), o referido funcional e´ representado pela expressa˜o: L = ∫ x2 x1 √ 1 + [y′(x)]2 dx sendo que o objetivo, neste caso, e´ determinar a func¸a˜o que extremiza este funcional, minimizando-o. Conforme a definic¸a˜o de funcional dada em (2.3), temos: I(y) = ∫ x2 x1 F (x, y, z) dx com x = x; y = y(x) e z = y′(x). Neste problema, a func¸a˜o F (x, y, y′) e´ representada por √ 1 + [y′(x)]2 e na˜o de- pende explicitamente de x. Fazendo a substituic¸a˜o dos termos do funcional na Equac¸a˜o de Euler-Lagrange, a qual e´ dada a seguir, teremos: ∂F ∂y − d dx ∂F ∂y′ = 0 sendo que ∂F ∂y = 0 e d dx ∂ ∂y′ (√ 1 + (y′(x))2 ) = 0 d dx y′(x)√ 1 + (y′(x))2 = 0 como a derivada do termo acima em relac¸a˜o a x e´ igual a zero, pode-se concluir que este termo e´ uma constante, conforme explicitado a seguir: y′(x)√ 1 + (y′(x))2 = c (constante), 22 logo y′(x) = c √ 1 + (y′(x))2 e, fazendo os ca´lculos para explicitar y′(x), temos: (y′(x))2 = ( c. √ 1 + (y′(x))2 )2 = c2(1 + (y′(x))2). Portanto (1− c2)(y′(x))2 = c2, de onde (y′(x))2 = c2 1− c2 , e assim y′(x) = ± √ c2 1− c2 = a, onde a e´ constante. Considerando-se a > 0 para fins de simplificac¸a˜o, a equac¸a˜o diferencial y′(x) = dy dx = a e´ elementar e tem a soluc¸a˜o geral do tipo y(x) = ax+ b, onde b e´ uma constante de integrac¸a˜o, e como a curva y(x) deve passar pelos pontos (x1, y1) e (x2, y2), as constantes a e b sa˜o determinadas pela reduc¸a˜o do seguinte sistema de equac¸o˜es lineares: ax1 + b = y1ax2 + b = y2 isto e´, a = y1 − y2 x1 − x2 e b = y2x1 − y1x2 x1 − x2 . Portanto, atrave´s da Equac¸a˜o de Euler-Lagrange foi poss´ıvel determinar que o menor caminho entre dois pontos localizados em um plano corresponde a um seg- mento de reta representada pela func¸a˜o linear y(x) = ax + b, conforme ja´ se sabia pelo senso comum. Atrave´s do Ca´lculo Variacional, mais precisamente, da aplicac¸a˜o da Equac¸a˜o de Euler-Lagrange, foi poss´ıvel determinar a func¸a˜o que extremiza o funcional em questa˜o, ou seja, obtivemos uma func¸a˜o que representa a soluc¸a˜o o´tima para o pro- 23 blema, e, no caso em pauta, a soluc¸a˜o encontrada representa um ponto de mı´nimo. Conve´m reiterar que e´ necessa´rio que se fac¸a uma ana´lise para se determinar se a soluc¸a˜o encontrada atrave´s da Equac¸a˜o de Euler Lagrange, a qual extremiza o fun- cional, corresponde a um ponto de mı´nimo, de ma´ximo ou a um ponto de inflexa˜o. O leitor interessado em se aprofundar no assunto podera´ consultar [3]. 2.3 Problema da Braquisto´crona Em 1696, o matema´tico Johann Bernoulli (1667−1748) propoˆs o Problema da Braquisto´crona, palavra que tem origem grega: “brachisto”significa mais curto e “chronos” significa tempo, ou seja, o tempo mais curto. Na e´poca, este problema foi enviado a va´rios matema´ticos e alguns como Isaac Newton, Gottfried W. Leibniz, L’Hospital e Jakob Bernoulli apresentaram as suas soluc¸o˜es. O Problema da Braquisto´crona pode ser descrito da seguinte forma: Sejam A e B dois pontos distintos, posicionados no plano vertical xy, com o ponto A posicionado em um n´ıvel superior ao de B e sem pertencer a` reta vertical que passa pelo ponto B. O problema consiste em se determinar qual deve ser a trajeto´ria, no plano vertical, que interligue os pontos A e B, de tal forma que uma pequena esfera possa deslizar, a partir do repouso, de A ate´ B, no menor intervalo de tempo poss´ıvel, considerando- se que esta esfera sofra apenas a ac¸a˜o da forc¸a da gravidade, sem a ac¸a˜o da forc¸a de atrito. A soluc¸a˜o do Problema da Braquisto´crona consiste em se determinar a func¸a˜o que representa a curva de descida mais ra´pida entre os pontos A e B nas condic¸o˜es supracitadas. Sabemos que ha´ infinitas formas de trajeto´rias poss´ıveis entre os pontos A e B, tais como uma reta, uma para´bola, um ramo de hipe´rbole, etc, mas como determinar qual e´ a forma da trajeto´ria na qual a esfera se deslocara´ de A ate´ B no menor intervalo de tempo poss´ıvel? A seguir temos a representac¸a˜o gra´fica de uma curva qualquer que representa a trajeto´ria de uma esfera de massa m entre os pontos A e B. 24 Figura 6: Deslocamento da esfera de massa m Com o objetivo de simplificar o problema proposto, evitando-se ca´lculos com nu´meros negativos relativos ao eixo y, considera-se que os pontosA(x1, y1) eB(x2, y2) estejam no plano cartesiano xy, com o eixo y posicionado com sentido positivo para baixo e com o eixo horizontal x mantendo-se com o sentido positivo para a direita. Admitindo-se que a esfera parta do repouso do ponto A(0,0), que a trajeto´ria descrita pela esfera ate´ o ponto B no intervalo de tempo mais curto poss´ıvel seja representada pela func¸a˜o y = y(x), e denominando por s(x) o comprimento de arco descrito pela esfera ao descer pela referida curva, conforme (2.1), temos que: s(x) = ∫ x x1 √ 1 + y′(h)2 dh e, de acordo com o Teorema Fundamental do Ca´lculo (ver [2, p. 350]) temos: ds dx = √ 1 + y′2, (2.14) Agora, sabemos que v = ds dt . Logo, pela regra da cadeia temos 25 v = ds dt = ds dx dx dt = √ 1 + y′2 dx dt , reescrevendo esta equac¸a˜o, temos: dx dt = v√ 1 + y′2 , e pela derivada da func¸a˜o inversa, conclui-se que dt dx = √ 1 + y′2 v . Integrando a equac¸a˜o acima em relac¸a˜o a x no intervalo [0, x], obtemos: T = ∫ x 0 √ 1 + y′2 v dx (2.15) Para o ca´lculo da velocidade da esfera que se desloca pela curva entre os pontos A e B usamos a Lei da Conservac¸a˜o da Energia e o fato de na˜o estarmos considerando a presenc¸a de forc¸as dissipativas no problema. Assim, o decre´scimo de energia potencial Ep e´ acompanhado por um igual acre´scimo da energia cine´tica Ec, ou seja: ∆Ec = ∆Ep sendo que a Energia Cine´tica da esfera e´ dada por: Ec = mv2 2 onde m representa a massa da esfera e v representa a velocidade da mesma. A Energia Potencial Gravitacional da esfera e´ dada por: Ep = m.g.y, onde m representa a massa da esfera; g representa a acelerac¸a˜o da gravidade e y representa a altura da esfera em relac¸a˜o ao solo. De acordo com (2.3), temos: 26 12 mv2 − 1 2 mv1 2 = mg(y − y1) Portanto, a partir da equac¸a˜o acima e considerando que a esfera parte do repouso, temos que v = √ 2g(y − y1), e desde que estamos considerando as coordenadas do ponto inicial da esfera como sendo A(0, 0), a expressa˜o da velocidade em func¸a˜o da coordenada y que representa a altura em relac¸a˜o a` posic¸a˜o final da esfera sera´ dada por v = √ 2gy, e o tempo gasto para percorrer a trajeto´ria entre os pontos A(x1, y1) e B(x2, y2) podera´ ser determinado atrave´s do seguinte funcional: T (y) = 1√ 2g ∫ x2 x1 √ 1 + y′2√ y dx. (2.16) A qual foi obtida substituindo v = √ 2gy na equac¸a˜o (2.15). Considerando a func¸a˜o F (x, y, y′) = √ 1 + y′2√ y relativa ao funcional (2.16), vamos usar a Equac¸a˜o de Euler-Lagrange para deter- minarmos a func¸a˜o que extremiza este funcional, no caso, a func¸a˜o que o minimiza, pois, se trata do deslocamento da esfera no menor tempo poss´ıvel. Seja a Equac¸a˜o de Euler-Lagrange: ∂F ∂y − d dx ( ∂F ∂y′ ) = 0 Desenvolvendo o seu primeiro termo, temos: ∂F ∂y = ∂ ∂y (√ 1 + (y′)2√ y ) = √ 1 + (y′)2 ∂ ∂y y− 1 2 = √ 1 + (y′)2 ( −1 2 y− 3 2 ) = −1 2 √ 1 + (y′)2 y 3 2 . (2.17) 27 Desenvolvendo o termo ∂F/∂y′ temos: ∂F ∂y′ = ∂ ∂y′ (√ 1 + (y′)2√ y ) = 1√ y ∂ ∂y′ ( 1 + (y′)2 ) 1 2 = 1√ y 1 2 (1 + (y′)2)− 1 2 .2(y′) Com isto calculemos agora d dx [ ∂F ∂y′ ] = d dx ( y′√ y(1 + (y′)2) ) = y′′( √ y(1 + y′2))− (y′(√y(1 + y′2))′ ( √ y.(1 + y′2))2 = y′′( √ y.(1 + y′2))− ( y′ (y(1 + y′2)) 1 2 )′ y(1 + y′2) = y′′( √ y(1 + y′2))− ( y′ ( 1 2 (y(1 + y′2)) )− 1 2 ) (y′ (1 + y′2) + y2y′y′′) y(1 + y′2) = y′′ √ y(1 + y′2) y(1 + y′2) − 1 2 y′2(1 + y′2)− 2yy′y′′√ y(1 + y′2)3 Substituindo esta equac¸a˜o e a equac¸a˜o (2.17) na Equac¸a˜o de Euler Lagrange, tere- mos: −1 2 √ 1 + (y′)2 y 3 2 − y” √ y(1 + y′2) y(1 + y′2) + 1 2 y′2(1 + y′2) + 2yy′y′′√ y(1 + y′2)3 = 0 de onde −(1 + 2y′2 + y′4)− 2y′′y − 2y′′yy′2 + y′2 + y′4 + 2yy′2y′′ 2 √ y3(1 + y′2)3 = 0 Apo´s simplificac¸a˜o chegaremos a` seguinte equac¸a˜o diferencial: −1− y′2 − 2yy′′ 2 √ y3(1 + y′2)3 = 0 o que implica que −1− y′2− 2yy′′ = 0, ou seja 2yy′′+ y′2 + 1 = 0. Se multiplicarmos ambos os membros desta equac¸a˜o por y′, chegaremos a` equac¸a˜o diferencial: 28 2yy′y′′ + y′3 + y′ = 0. (2.18) No pro´ximo passo, observemos que: d dx [y + yy′2] = 2yy′y′′ + y′3 + y′ que e´ a mesma equac¸a˜o (2.18). Portanto, se forem integrados ambos os lados da equac¸a˜o (2.18) com relac¸a˜o a` varia´vel independente x, se chegara´ a` seguinte equac¸a˜o:∫ (2yy′y′′ + y′3 + y′) dx = ∫ 0 dx ou equivalentemente ∫ d dx [y + yy′2] dx = C onde C representa uma constante. Portanto, temos que y + yy′2 = C e, obte´m-se a equac¸a˜o: y′ = √ C − y y , onde a raiz sera´ positiva devido ao eixo y ser orientado positivamente para baixo e a func¸a˜o ser crescente. Logo, dy dx = √ C − y y ou equivalentemente dx dy = √ y C − y (2.19) A partir deste ponto vamos introduzir a varia´vel φ, a qual representara´ o aˆngulo formado entre a reta tangente a` curva no ponto P (x, y), onde a esfera se encontra em cada instante t, e o eixo y, sendo que o aˆngulo φ varia a` medida que a esfera se desloca pela referida curva, conforme mostra o esboc¸o a seguir: 29 Figura 7: Representac¸a˜o da curva y Em seguida, podemos determinar a relac¸a˜o: tanφ = dx dy = √ y C − y elevando ao quadrado os extremos desta equac¸a˜o temos que: sin2 φ cos2 φ = y C − y assim C sin2 φ− y sin2 φ = y cos2 φ de onde y = C sin2 φ (2.20) ou equivalentemente y = C 2 (1− cos 2φ). Derivando y = C sin2 φ, temos dy dφ = 2C sinφ cosφ 30 e, conforme (2.19), temos: dx dy = √ y C − y logo, aplicando a regra da cadeia dx dφ = dx dy dy dφ = √ y C − y 2C sinφ cosφ substituindo y = C sin2 φ, temos: dx dφ = √ C sin2 φ C − C sin2 φ2C sinφ cosφ = C √ sin2 φ 1− sin2 φ2 sinφ cosφ = C sinφ cosφ 2 sinφ cosφ = C(1− (1− 2 sin2 φ)) = C(1− cos 2φ) Logo, dx = C(1− cos 2φ)dφ, e integrando esta equac¸a˜o temos que x = C ∫ 1 dφ− ∫ cos 2φ dφ = C ( φ− 1 2 sin 2φ ) = C 2 (2φ− sin 2φ) Portanto, para que a esfera se desloque do ponto A ate´ o ponto B no menor inter- valo de tempo poss´ıvel, sob a ac¸a˜o apenas da forc¸a da gravidade, e sem a ac¸a˜o da forc¸a de atrito, ela devera´ se deslocar atrave´s da curva representada pelas equac¸o˜es parame´tricas deduzidas anteriormente e mostradas a seguir: x = C 2 (2φ− sin 2φ) y = C 2 (1− cos 2φ) (2.21) 31 Tais equac¸o˜es parame´tricas representam uma curva especial denominada Cicloide, sobre a qual se tratara´ no pro´ximo cap´ıtulo. 32 Cap´ıtulo 3 Cicloide 3.1 A geometria da curva Cicloide A curva Cicloide e´ uma curva especial e pode ser constru´ıda da seguinte forma: Seja um c´ırculo de raio r posicionado sobre o eixo x, com um ponto P fixo em sua borda. Considerando que o ponto fixo P esteja inicialmente sobre a origem dos eixos do plano cartesiano xy, e que este c´ırculo role, sem deslizar, no sentido positivo do eixo x, a curva descrita pelo ponto P durante a rolagem do c´ırculo e´ denominada Cicloide. A Cicloide e´ uma curva que foi estudada inicialmente no se´culo XV por Nicholas Cusa (1401-1464) quando ele buscava determinar a a´rea de um c´ırculo atrave´s da integrac¸a˜o. Outro matema´tico, Charles de Bovelles (1475-1566), foi um dos que avanc¸ou no estudo da Cicloide, e em um trabalho de geometria publicado em Paris em 1501, se referiu a essa curva relacionando-a com o “Problema da Quadratura do C´ırculo”. Os primeiros estudos rigorosos sobre a Cicloide que se tem conhecimento sa˜o devidos aos matema´ticos Giles Person de Roberval (1602-1675), a Blaise Pascal (1623-1662) e a Evangelista Torricelli (1608-1647), um disc´ıpulo de Galileu Galilei (1564-1642). O pro´prio Galileu tambe´m estudou a curva Cicloide, sendo inclusive o primeiro a denomina´-la de Cicloide em 1599, quando referiu-se a sua forma graciosa, sugerindo-a para compor o perfil dos arcos de construc¸o˜es em arquitetura. 33 Figura 8: Formac¸a˜o da curva cicloide a partir da rolagem do c´ırculo. Com o objetivo de se deduzir as equac¸o˜es parame´tricas da curva Cicloide, vamos considerar um c´ırculo de raio r posicionado sobre o eixo x, de forma que na borda deste c´ırculo tenha um ponto fixo denominado P (x, y), o qual se encontra posici- onado inicialmente sobre a origem dos eixos. Considerando que este c´ırculo role, sem deslizar, ao longo do eixo x, no sentido positivo, deduz-se, a seguir, as equac¸o˜es parame´tricas da curva descrita pelo ponto P (x, y). Figura 9: Rolagem do c´ırculo gerando a curva Cicloide Determinando-se como paraˆmetro o aˆngulo central α, o qual e´ varia´vel e e´ for- mado entre o segmento de reta vertical que possui como extremidades o centro do c´ırculo e o eixo x e o segundo segmento de reta que possui como extremidades o 34 centro do c´ırculo e o ponto P que e´ fixo na borda do c´ırculo e muda de posic¸a˜o a` medida que o c´ırculo rola. Considerando inicialmente que o ponto P esteja sobre a origem dos eixos, com o aˆngulo α nulo, a partir da figura anterior percebe-se que apo´s o c´ırculo ter girado α radianos ao rolar no sentido hora´rio ao longo do eixo x, a distaˆncia que o c´ırculo rolou, a partir da origem, e´: |OT | = arcPT = rα e, dessa forma, o centro do c´ırculo, durante a sua rolagem, tera´ como coordenadas, o ponto C(rα, r). Sejam (x, y) as coordenadas cartesianas do ponto P na borda do c´ırculo de raio r. As equac¸o˜es parame´tricas da curva Cicloide, as quais possuem o aˆngulo central α como paraˆmetro, sa˜o: x = |OT | − |PQ| = rα− r sinα = r(α− sinα) (3.1) y = |TC| − |QC| = r − r cosα = r(1− cosα) (3.2) Na figura 10 podemos observar a formac¸a˜o da curva Cicloide invertida, a qual e´ gerada a partir do movimento de um ponto fixo posicionado na borda de um c´ırculo que rola sob o eixo horizontal. Figura 10: A curva Cicloide invertida 35 Retornando a`s equac¸o˜es parame´tricas da Cicloide que foram representadas em (3.1) e (3.2), as mesmas tambe´m podem ser parametrizadas pelo aˆngulo φ que e´ formado pela reta tangente a` curva Cicloide no ponto P , o qual que muda de posic¸a˜o a cada instante durante a rolagem do c´ırculo e o eixo vertical y. Pode-se observar na figura a seguir que o triaˆngulo CPG e´ iso´sceles, pois, os aˆngulos relativos aos ve´rtices P e G sa˜o congruentes, portanto, em relac¸a˜o aos aˆngulos α e φ temos que: α = 2φ (3.3) Figura 11: Evidenciando a relac¸a˜o entre os aˆngulos φ e α E, a partir da relac¸a˜o (3.3), as equac¸o˜es parame´tricas (3.1) e (3.2) tambe´m podem ser parametrizadas pelo aˆngulo φ, conforme segue: x = r(2φ− sin 2φ) e y = r(1− cos 2φ). 3.2 A Cicloide e´ tauto´crona Tauto´crona, do grego “tautos”que significa mesmo e “chronos”que significa tempo, e´ a propriedade da curva que, independentemente da posic¸a˜o em que se coloque uma esfera sobre ela, por exemplo, o tempo que esta esfera, partindo do repouso, leva 36 para se deslocar ate´ o ponto mı´nimo da curva sera´ sempre o mesmo, ou seja, o tempo de deslocamento da esfera ate´ o ponto mais baixo da curva na˜o dependera´ da posic¸a˜o na qual a esfera ira´ iniciar o seu deslocamento, considerando que a esfera esteja sujeita apenas a` forc¸a da gravidade e sem a interfereˆncia do atrito. O “Problema da Tauto´crona”surgiu em 1673 quando Christian Huygens (1629− 1695) se dedicava a construc¸a˜o de um relo´gio de peˆndulo, e a soluc¸a˜o deste pro- blema foi dada pelo pro´prio Huygens quando demonstrou, geometricamente, que a curva que possu´ıa a propriedade tauto´crona era a Cicloide, e, portanto, ale´m de ser a soluc¸a˜o do Problema da Braquisto´crona, a curva Cicloide tambe´m apresenta a propriedade tauto´crona, como sera´ demonstrado nesta monografia. Considerando-se uma situac¸a˜o, representada pela figura 11, onde uma esfera de massa m, inicialmente em repouso e partindo de um ponto inicial A(x(αA), y(αA)), com αA ∈ [0, pi], se des- loque sobre uma curva Cicloide invertida, tal que A(x(αA), y(αA)) corresponda a` posic¸a˜o inicial da esfera, e tomando como refereˆncia o aˆngulo central α do c´ırculo gerador da respectiva curva, e considerando que, posteriormente, essa esfera venha a atingir o ponto mı´nimo da curva, onde α = pi. Para fins de simplificac¸a˜o, considera-se que a esfera se desloca no plano vertical, sem a ac¸a˜o do atrito, com o eixo y direcionado com o sentido positivo verticalmente para baixo. Inicialmente, calcula-se o tempo que a esfera demora para efetuar o movimento que inicia-se em um ponto qualquer da curva e finaliza no ponto mı´nimo desta, onde α = pi. Recorrendo ao “Princ´ıpio da Conservac¸a˜o da Energia”, sabemos que ao longo da trajeto´ria a energia mecaˆnica da esfera se conserva, tendo-se: Emecaˆnica = EPotencial + ECine´tica. No ponto A a energia cine´tica da esfera de massa m e´ nula, pois, considera-se que a mesma esta´ inicialmente em repouso. Sendo v a velocidade da esfera num ponto gene´rico P (x(α), y(α)) da curva de paraˆmetro α, com α ∈ [αA, pi] e h = y(α) − y(αA), onde α representa o aˆngulo central varia´vel, conforme mostra a figura 3.1 temos v2(t) = 2mgh m = 2gh. Logo 37 v = √ 2gh = √ 2g(y(α)− y(αA)) = √ 2g(R−R cosα−R +R cosα) = √ 2gR(cosαA − cosα). (3.4) Substituindo a relac¸a˜o trigonome´trica: 2 cos2 α 2 − 1 = cosα, na equac¸a˜o (3.4), obtemos: v = √ 2gR ( 2 cos2 αA 2 − 1− 2 cos2 α 2 + 1 ) = √ 4gR ( cos2 αA 2 − cos2 α 2 ) = 2 √ gR ( cos2 αA 2 − cos2 α 2 ) . (3.5) Por outro lado, sendo s a func¸a˜o comprimento do arco percorrido pela esfera do ponto A ate´ o ponto mais baixo da curva, temos que sendo que v(t) = ds dt (t). Derivando as equac¸o˜es (3.1) e (3.2) em relac¸a˜o a` α, temos que dx dα = r(1− cosα) (3.6) dy dα = r sinα (3.7) Agora, pela definic¸a˜o de comprimento do arco de uma curva parametrizada (veja [6, p. 602]) e por (3.6) e (3.7), temos que 38 s = ∫ α 0 √( dx dα )2 + ( dy dα )2 dα = ∫ α 0 √ [r(1− cosα)]2 + (r sinα)2dα = ∫ α 0 √ r2(2− 2 cosα)dθ = √ 2r ∫ α 0 √ 1− cosαdα. (3.8) Recordemos que sin α 2 = √ 1− cosα 2 , de onde √ 1− cosα = √ 2 sin α 2 . Enta˜o, substituindo esta expressa˜o em (3.8), temos s = 2r ∫ α 0 sin α 2 dα, e derivando respeito de α ds dα = 2r sin α 2 de onde segue ds = 2r sin α 2 dα. (3.9) Como v(t) = ds dt , segue que dt = ds v(t) enta˜o, substituindo (3.9) e (3.5) nesta equac¸a˜o teremos dt = 2r sin α 2 dα 2 √ gr ( cos2 αA 2 − cos2 α 2 ) (3.10) 39 integrando ambos os membros de (3.10), temos t = √ r g pi∫ αA sin α 2√ cos2 αA 2 − cos2 α 2 dα = √ r g pi∫ αA sin α 2 cos αA 2 √√√√√1− cos2 α2 cos2 αA 2 dα = 2 √ r g −arcsin cos α2 cos αA 2 pi αA = pi √ r g . Podemos enta˜o concluir que o tempo que a esfera leva para deslocar-se do ponto de partida A(x(αA), y(αA)), seja ele onde for, com αA ∈ [0, pi], ate´ o ponto mais baixo da curva, sera´ sempre o mesmo, na˜o dependendo do ponto de partida da esfera, de forma que se conclui que a Cicloide possui a propriedade tauto´crona. Figura 12: Esferas que partem do repouso sobre a curva Cicloide. 40 A partir da propriedade tauto´crona da Cicloide podemos construir um interes- sante so´lido e denomina´-lo de Cuba Tauto´crona, a qual sera´ gerada atrave´s da rotac¸a˜o completa de uma curva Cicloide invertida em torno de um eixo vertical que passa pelo seu ponto mı´nimo. Apo´s a gerac¸a˜o deste so´lido, representado pela figura 13, pode-se verificar que o mesmo tera´ forma de uma cuba e apresentara´ a interessante propriedade tauto´crona, de forma que, colocando-se esferas no interior da referida cuba, em qualquer posic¸a˜o, pode-se verificar que, apo´s abandona´-las simultanea- mente do repouso, de forma que se desloquem em direc¸a˜o ao ponto inferior da cuba, sujeitas apenas a` forc¸a gravitacional, todas elas atingira˜o o ponto mais baixo da cuba no mesmo instante, independentemente das posic¸o˜es iniciais nas quais estas esferas foram colocadas dentro da cuba, pois, ao se deslocarem em direc¸a˜o ao ponto inferior da cuba, as esferas estara˜o se deslocando sobre curvas Cicloides ideˆnticas e, portanto, estara˜o sujeitas a` propriedade tauto´crona descrita anteriormente. Figura 13: Cuba Tauto´crona 3.3 O uso do aplicativo Geogebra Como podemos determinar, atrave´s do aplicativo Geogebra, a medida do raio de um c´ırculo que devera´ gerar uma curva Cicloide que venha a interceptar um ponto pre´-determinado no plano vertical? Considera-se que o c´ırculo gerador da Cicloide encontra-se inicialmente posici- onado sobre a origem dos eixos do plano cartesiano, e que, ao rolar sobre o eixo 41 horizontal, no sentido hora´rio, o mesmo gere uma curva Cicloide constru´ıda atrave´s do deslocamento de um ponto fixo K de sua extremidade. Com o objetivo de que a curva Cicloide gerada deva interceptar o ponto gene´rico T (a; b), o qual, para efeito de simplificac¸a˜o, e´ localizado no primeiro quadrante do plano vertical xy, e admitindo-se que existe um ponto fixo K sobre a borda de um c´ırculo de raio desconhecido e que durante o seu movimento de rolagem no sentido hora´rio sobre o eixo x, este ponto K ira´ gerar a Cicloide que devera´ interceptar o referido ponto T (a; b). Admite-se tambe´m que o c´ırculo esteja com o seu ponto fixo K posicionado inicialmente sobre a origem dos eixos cartesianos xy. Soluc¸a˜o: Sendo as equac¸o˜es parame´tricas da Cicloide: x = r(α− sinα) y = r(1− cosα) e substituindo as coordenadas do ponto T (a, b) nas mesmas, teremos: a = r(α− sinα) e b = r(1− cosα). De onde teremos: r = a α− sinα e r = b 1− cosα, e, enta˜o, temos: a α− sinα = b 1− cosα, ou seja: a(1− cosα) = b(α− sinα). (3.11) Atrave´s do aplicativo Geogebra e´ poss´ıvel resolver esta equac¸a˜o determinando-se inicialmente a medida do aˆngulo α em radianos e, em seguida, basta substituir o valor do aˆngulo α em qualquer das equac¸o˜es anteriores para se determinar o valor correspondente do raio do c´ırculo procurado. Com o objetivo de se dar um exemplo desta aplicac¸a˜o, vamos determinar a medida do raio do c´ırculo que, durante a sua rolagem, um ponto fixo K de sua extremidade, e que se encontra posicionado inicialmente na origem do plano cartesi- ano, devera´ gerar uma curva Cicloide que devera´ interceptar o ponto N(3; 3). Sendo 42 as equac¸o˜es parame´tricas da Cicloide: x = r(α− sinα) y = r(1− cosα) e substituindo as coordenadas do ponto N(3, 3) nas mesmas, teremos: 3 = r(α− sinα) e 3 = r(1− cosα). Assim r = 3 α− sinα e r = 3 1− cosα, enta˜o: 3 α− sinα = 3 1− cosα, ou seja: α− sinα = 1− cosα (3.12) Nesta etapa, vamos usar o aplicativo Geogebra para determinar o valor do aˆngulo α (em radianos) que soluciona a equac¸a˜o (3.12), sendo que o resultado sera´ eviden- ciado graficamente atrave´s das coordenadas do ponto de intersec¸a˜o entre as func¸o˜es f(α) = α− sinα e g(α) = 1− cosα. Na figura 14 podemos verificar a plotagem dos gra´ficos das func¸o˜es f(α) e g(α) e as coordenadas dos pontos A e P onde os gra´ficos destas func¸o˜es se interceptam. 43 Figura 14: Intersec¸a˜o dos gra´ficos das func¸o˜es f(α) e g(α) Atrave´s da ana´lise gra´fica citada, determinou-se que a soluc¸a˜o da equac¸a˜o se verifica para α=0 e α=2,41 radianos, conforme e´ evidenciado pelas intersec¸o˜es nos pontos A(0, 0) e P (2, 41; 1, 75).Em seguida, substituindo o valor de α = 2, 41 em alguma das equac¸o˜es para r determinamos o valor do raio do c´ırculo gerador desta Cicloide, que neste caso devera´ medir r = 1, 72. Com o objetivo de se fazer a verificac¸a˜o, utilizou-se novamente o aplicativo Geo- gebra na construc¸a˜o de um c´ırculo com o raio r = 1, 72 e com o ponto fixo K de sua borda posicionado inicialmente na origem dos eixos cartesianos, e, na sequeˆncia, efe- tuando a rolagem deste c´ırculo, ficou constatado que a curva Cicloide gerada passa pelo ponto N(3, 3), conforme se evidencia na figura 15. 44 Figura 15: Gra´fico da curva Cicloide 45 Refereˆncias Bibliogra´ficas [1] G. G. Garbi, “A Rainha das Cieˆncias,” 2006. [2] J. STEWART, “Ca´lculo, vol. 1, 7a edic¸a˜o,” CENGAGE Learning, 2013. [3] L. ELSGOLTZ, “Ecuaciones diferenciales y ca´lculo variacional,” 1975. [4] J. M. B. FILARDO and M. S. D. CATTANI, “Elementos de f´ısica e matema´tica 1a edic¸a˜o,” vol. 2, 2011. [5] E. L. Lima, Ana´lise Real, vol. 2. IMPA, 1997. [6] J. STEWART, “Ca´lculo-vol. ii. 6a edic¸a˜o,” Sa˜o Paulo: Thomson, vol. 2, 2013. 46