Medicina veterinária de povos e comunidades tradicionais: um modelo para promoção ao bem-estar e saúde única
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Autor(es)
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Editor
Universidade Federal de Minas Gerais
Descrição
Tipo
Tese de doutorado
Título alternativo
Primeiro orientador
Membros da banca
Júlia Angélica Gonçalves da Silveira
Ana Liz Ferreira Bastos
Rita Maria de Cássia Garcia
Fernanda do Carmo Magalhães
Camila Stefanie Fonseca de Oliveira
Ana Liz Ferreira Bastos
Rita Maria de Cássia Garcia
Fernanda do Carmo Magalhães
Camila Stefanie Fonseca de Oliveira
Resumo
O modelo atual de relação entre seres humanos e o meio ambiente contribui para efeitos danosos aos seres vivos, resultando na redução da biodiversidade, fragmentação do habitat e aumento de doenças zoonóticas. As comunidades tradicionais enfrentam historicamente esses impactos, através do racismo ambiental, insegurança alimentar, exposição às doenças, e, negligência institucional, associado aos impactos oriundos dos danos ambientais e pelo cenário em saúde marcado pela colonialidade e os impactos diretos. Embora tenham ocorrido modificações ao longo do tempo no acesso à saúde, o atendimento específico aos povos tradicionais foi tardio, com o surgimento de programas e políticas apenas em décadas recentes. O conceito de Saúde Única, vinculado ao Bem-Estar Único, surge como estratégia para integrar cuidados à saúde humana, animal, vegetal e ambiental, destacando a importância da educação em saúde e da transdisciplinaridade na resiliência das comunidades. Dessa forma, esse estudo teve como objetivo apresentar quatro esferas importantes para a implementação de um modelo de ação em Bem-Estar e Saúde Única em Territórios Tradicionais, especificamente na Terra Indígena Xakriabá, a partir de: a) medidas específicas em diagnóstico socioambiental, educação em saúde única e humanitária; b) promoção e vigilância em saúde de animais domésticos e silvestres; c) monitoramento das espécies de animais silvestres e seus respectivos impactos; e, d) implementação de um modelo específico, com base na revisão de literatura, para medidas em bem-estar único e saúde única em territórios tradicionais. A análise dos dados destaca a complexidade dos desafios enfrentados pelas comunidades indígenas e a importância de ações integradas para promover a saúde única. Em relação às práticas de educação por base na troca de saberes, foi fundamental a capacitação de profissionais, assim como a formação de crianças, jovens e adultos, ao longo da intervenção, promovendo uma maior compreensão sobre saúde única, bem-estar animal e meio ambiente. O diagnóstico socioambiental evidenciou a incidência moderada de doenças crônicas, zoonóticas, e, emergentes na população humana e animal, além da necessidade de estratégias preventivas e educativas que combinem o conhecimento tradicional com métodos científicos para a promoção de um sistema de saúde eficaz perante uma visão em saúde única. A atenção primária em saúde dos animais demonstrou ser um fator atualmente ausente no território, mas de importância, em especial através da implementação de protocolos sanitários, medidas básicas em bem-estar animal, e, programas de vigilância de patógenos e ectoparasitos. Além disso, a coexistência de animais domésticos e silvestres nas áreas estudadas sugere a necessidade de monitoramento contínuo para conservação da fauna local, reforçando a necessidade de investimento em saúde animal e a capacitação de atores locais como pontos indispensáveis para a sustentabilidade dos programas. A diversidade de espécies e os dados coletados reforçam a necessidade de abordagens multidisciplinares para a identificação e tratamento de doenças, e, a implementação de um modelo básico de atenção primária em saúde animal, promovendo a saúde única e a justiça social. Por fim, a partir de uma revisão extensa, e, considerando a valorização dos saberes tradicionais e a promoção da participação ativa como pilares para respostas mais eficazes e sustentáveis, especialmente quando as comunidades se tornam protagonistas em todas as etapas do cuidado, estabeleceu-se que o diagnóstico situacional, os aspectos socioambientais aplicados ao contexto local, as medidas básicas em Saúde Única, a comunicação e ecologia dos saberes, e, as estratégias de devolutiva e participação ativa, são passos importantes para a implementação de uma ação perene em bem-estar único e saúde única em territórios tradicionais. A urgência de ação é clara considerando ser imperativo a implementação de políticas integradas que abordem a perda de biodiversidade e promovam soluções sustentáveis, sob uma perspectiva ecossocial. Dessa forma, a integração entre saúde humana, animal vegetal e ambiental deve ser uma prioridade nas políticas públicas, fortalecendo o Sistema Único de Saúde e garantindo que a saúde única seja efetivamente promovida, reduzindo desigualdades e garantindo o acesso equânime a serviços essenciais.
Abstract
The current model of the relationship between humans and the environment contributes to harmful effects on living beings, resulting in the reduction of biodiversity, habitat fragmentation, and an increase in zoonotic diseases. Traditional communities have historically faced these impacts through environmental racism, food insecurity, exposure to diseases, and institutional neglect, which are associated with the impacts stemming from environmental damage and a health scenario marked by coloniality and direct effects. Although access to healthcare has changed over time, specific care for traditional peoples was delayed, with programs and policies emerging only in recent decades. The One Health concept, linked to One Welfare, arises as a strategy to integrate human, animal, plant, and environmental health care, highlighting the importance of health education and transdisciplinarity in community resilience. Thus, this study aimed to present four key areas for implementing an action model in One Welfare and One Health in Traditional Territories, specifically in the Xakriabá Indigenous Land, based on: (a) specific measures in socio-environmental diagnosis, One Health and humanitarian education; (b) promotion and surveillance in the health of domestic animals and wildlife; (c) monitoring of wildlife species and their respective impacts; and (d) implementation of a specific model, based on literature review, for the One Welfare and One Health approach in traditional territories. Data analysis highlights the complexity of challenges faced by indigenous communities and the importance of integrated actions to promote One Health. Related to knowledge exchange-based educational practices, training of professionals as well as education of children, youth, and adults throughout the intervention was fundamental, promoting better understanding of One Health, animal welfare, and the environment. The socio-environmental diagnosis showed moderate incidence of chronic, zoonotic, and emerging diseases in human and animal populations, in addition to the need for preventive and educational strategies combining traditional knowledge and scientific methods to promote an effective health system from a One Health perspective. Primary animal health care was currently absent in the territory but important, especially through health protocols, basic animal welfare measures, and pathogen and ectoparasite surveillance programs. Moreover, the coexistence of domestic and wildlife animals in the studied areas suggests the need for continuous monitoring to conserve local fauna, reinforcing the need for investment in animal health and capacity building of local actors as indispensable for sustainability of programs. Species diversity and collected data reinforce the need for multidisciplinary approaches for disease identification and treatment, and implementation of a basic primary animal healthcare model, promoting One Health and social justice. Finally, based on an extensive review and considering the appreciation of traditional knowledge and promotion of active participation as pillars for more effective and sustainable responses, especially when communities become protagonists in all care stages, it was established that situational diagnosis, socio-environmental aspects applied to the local context, basic One Health measures, communication and ecology of knowledge, and strategies for feedback and active participation are important steps for implementing enduring actions in One Welfare and One Health in traditional territories. The urgency for action is clear given the imperative to implement integrated policies addressing biodiversity loss and promoting sustainable solutions from an eco-social perspective. Thus, integration of human, animal, plant, and environmental health must be a priority in public policies, strengthening Brazil’s Unified Health System and ensuring One Health is effectively promoted, reducing inequalities and guaranteeing equitable access to essential services.
Assunto
Saúde Animal
Palavras-chave
Epidemiologia veterinária, Saúde animal, Ecossistema, Zoonose