Efeitos da pandemia de COVID-19 no momento do diagnóstico e início do tratamento da infecção pelo HIV: análise em um centro de referência de Belo Horizonte.

Descrição

Tipo

Dissertação de mestrado

Título alternativo

Effects of the COVID-19 pandemic on the timing of diagnosis and initiation of HIV infection treatment: analysis at a referral center in Belo Horizonte.

Primeiro orientador

Membros da banca

Unaí Tupinambás
Renata Eliane de Ávila
Ricardo Andrade Carmo

Resumo

A pandemia da COVID-19 gerou dificuldades no acesso ao rastreio e causou descontinuidade parcial ou total nos serviços de tratamento do HIV e de outras doenças crônicas. A infecção pelo HIV afeta de forma desproporcional indivíduos vulneráveis e a COVID-19 impactou as pessoas vivendo com HIV (PVHIV) de maneira particular. No Brasil, existem poucos estudos sobre o efeito da pandemia na qualidade do cuidado a esses pacientes. Este estudo avaliou os efeitos da pandemia no momento do diagnóstico, início do tratamento e morbidades relacionadas ao HIV em pacientes atendidos em um serviço de referência de Minas Gerais. Foram analisados retrospectivamente prontuários de 275 pacientes com diagnóstico recente de infecção pelo HIV, sendo 116 no período anterior à pandemia (AP, agosto a novembro de 2019) e 159 durante a pandemia (DP, agosto a novembro de 2021 e 2022), com análise estratificada entre atendimentos ambulatoriais e internações. O objetivo foi comparar a frequência de diagnóstico tardio (LTCD4+ <350 células/mm³), doença avançada (LTCD4+ <200 células/mm³), morbidades relacionadas e não relacionadas ao HIV e o tempo até início da terapia antirretroviral (TARV). Associações com variáveis categóricas foram analisadas por qui-quadrado e diferenças de medianas por testes de Wilcoxon ou Kruskal-Wallis. No ambulatório, o log10 mediano da primeira carga viral variou significativamente: 4,36 (IQR 3,43–5,13) AP, reduzindo para 3,96 (3,71–4,52) em 2021 e 3,68 (3,17–4,27) em 2022 (p=0,004). A mediana da primeira contagem de LTCD4+ foi 392 céls/mm³ (IQR 220–569) AP, superior no DP: 516 céls/mm³ (402–634) em 2021 e 493 céls/mm³ (331–701) em 2022 (p=0,037). O diagnóstico tardio ocorreu em 39% dos pacientes em 2019, 18% em 2021 e 27% em 2022 (p=0,2). A doença avançada esteve presente em 20% em 2019, 12% em 2021 e 11% em 2022 (p=0,4). A condição não relacionada ao HIV mais frequente foi sífilis, com maior ocorrência em 2021. Houve expressiva redução no tempo mediano do diagnóstico ao início da TARV: 77 dias AP para 21 dias DP (p<0,001). Também diminuiu a ocorrência de condições relacionadas à imunodeficiência: 28,5% AP para 5,9% em 2021 e 1,8% em 2022 (p<0,001). Entre pacientes internados, na análise global, 85% tiveram diagnóstico tardio e 75% doença avançada. Apesar de pequenas reduções — diagnóstico tardio de 87% AP para 84% DP e doença avançada de 75% AP para 71% DP — as variações não foram estatisticamente significativas. Durante a pandemia, no atendimento ambulatorial, observou-se diagnóstico mais precoce e redução de condições relacionadas à imunodeficiência, embora tenha havido aumento da coinfecção HIV-sífilis. No contexto hospitalar, não foram identificadas diferenças significativas entre os períodos AP e DP. Assim, até novembro de 2022, não foi possível associar a pandemia ao aumento de diagnósticos tardios de HIV nesse serviço. Pelo contrário, verificou-se melhora em parâmetros assistenciais, com início mais rápido da TARV e redução de complicações relacionadas à imunodeficiência, especialmente no cuidado ambulatorial.

Abstract

The COVID-19 pandemic created difficulties in access to screening and caused partial or total disruption of HIV and other chronic disease treatment services. HIV infection disproportionately affects vulnerable individuals, and COVID-19 had a unique impact on people living with HIV (PLHIV). In Brazil, there are few studies on the effect of the pandemic on the quality of care for these patients. This study evaluated the effects of the pandemic on the timing of diagnosis, treatment initiation, and HIV-related morbidities in patients treated at a referral center in Minas Gerais. Medical records of 275 patients with recent HIV infection diagnoses were retrospectively reviewed: 116 from the pre-pandemic period (PP, August to November 2019) and 159 from the pandemic period (DP, August to November 2021 and 2022), with stratified analysis between outpatient and hospitalized patients. The objective was to compare the frequency of late diagnosis (CD4+ T lymphocyte count <350 cells/mm³), advanced HIV disease (CD4+ T lymphocyte count <200 cells/mm³), HIV-related and non–HIV-related morbidities, and the time to initiation of antiretroviral therapy (ART). Associations with categorical variables were analyzed using the chi-square test, and differences in medians were assessed using Wilcoxon or Kruskal–Wallis tests. In outpatient care, the median log10 of the first viral load varied significantly: 4.36 (IQR 3.43–5.13) in PP, decreasing to 3.96 (3.71–4.52) in 2021 and 3.68 (3.17–4.27) in 2022 (p=0.004). The median first CD4+ count was 392 cells/mm³ (IQR 220–569) in PP, higher in DP: 516 cells/mm³ (402–634) in 2021 and 493 cells/mm³ (331–701) in 2022 (p=0.037). Late diagnosis occurred in 39% of patients in 2019, 18% in 2021, and 27% in 2022 (p=0.2). Advanced disease was observed in 20% in 2019, 12% in 2021, and 11% in 2022 (p=0.4). The most frequent non–HIV-related condition was syphilis, with a higher occurrence in 2021. There was a marked reduction in the median time from diagnosis to ART initiation: from 77 days in PP to 21 days in DP (p<0.001). The occurrence of immunodeficiency-related conditions also decreased: from 28.5% in PP to 5.9% in 2021 and 1.8% in 2022 (p<0.001). Among hospitalized patients, in the overall analysis, 85% had late diagnosis and 75% had advanced disease. Although slight reductions were noted—late diagnosis from 87% in PP to 84% in DP, and advanced disease from 75% in PP to 71% in DP—these changes were not statistically significant. During the pandemic, in outpatient settings, earlier diagnosis and a reduction in immunodeficiency-related conditions were observed, although there was an increase in HIV–syphilis coinfection. In the hospital setting, no significant differences were identified between PP and DP. Thus, up to November 2022, it was not possible to associate the pandemic with an increase in late HIV diagnoses in this service. On the contrary, improvements in care parameters were observed, with faster ART initiation and fewer immunodeficiency-related complications, particularly in outpatient care.

Assunto

HIV, COVID-19, Diagnóstico tardio, AIDS, Linfócitos T CD4-Positivos, SARS-CoV-2, Dissertação Acadêmica

Palavras-chave

HIV, COVID-19, Diagnóstico tardio, AIDS, linfócitos TCD4, SARS-Cov-2, terapia antirretroviral

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