O processo de institucionalização do uso de agrotóxicos entre pequenos cotonicultores brasileiros
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Editor
Universidade Federal de Minas Gerais
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Tipo
Tese de doutorado
Título alternativo
Primeiro orientador
Membros da banca
Luiz Alex Silva Saraiva
Alexandre de Pádua Carrieri
Elisa Yoshie Ichikawa
Flávia Luciane Scherer
Alexandre de Pádua Carrieri
Elisa Yoshie Ichikawa
Flávia Luciane Scherer
Resumo
A presente tese buscou entender como ocorreu o processo de institucionalização dos agrotóxicos
entre pequenos cotonicultores brasileiros de 1945 e 2018. Escolheu-se esse espaço de tempo
devido ao fato de a década de 1945 marcar o início da adoção em grande escala dos agrotóxicos
organo-sintéticos, como o dicloro-difenil-tricloroetano (DDT), em nível mundial. A importância
de interpretar a cognição de agentes que constituem o ambiente institucional dos agrotóxicos
recai na possibilidade de entender significados, símbolos e elementos materiais que alimentam a
dinâmica de institucionalização dessa tecnologia entre pequenos cotonicultores brasileiros.
Percebe-se que no Brasil os agrotóxicos levantam indagações a respeito das externalidades que
geram na sociedade. A utilização inadequada desses insumos, além de gerar contaminação
ambiental, causa problemas de saúde pública, afetando a saúde dos trabalhadores rurais e dos
consumidores. Por outro lado, multinacionais do agronegócio concebem os agrotóxicos como
tecnologias fundamentais para garantir produtividade alta e segurança alimentar à população.
Alguns agentes, por exemplo, entendem que os agrotóxicos são tecnologias que possibilitaram o
aumento de qualidade e quantidade de comida. Diante desse contexto, baseado na análise de
ações e conflitos empreendidos por multinacionais do agronegócio, políticos, pequenos
agricultores familiares, pesquisadores de diferentes áreas e organizações do terceiro setor,
pretendeu-se verificar como ocorreu o processo de institucionalização dessa tecnologia entre
pequenos cotonicultores de Tauá-Ce, Rondonópolis-Mt, São José dos Quatro Marcos-Mt.
Também é analisado o caso do assentamento Itamaraty-Ms porque os pequenos cotonicultores
desse contexto realizam cultivo orgânico de algodão em meio à forte presença de uma cultura
agrícola convencional. No referencial teórico trabalhou-se com a teoria institucional, focando nas
concepções pilares institucionais, processo de institucionalização e processo de
desinstitucionalização. Além do exposto, também foram usados os conceitos de Pierre Bourdieu
para entender como agentes usam o poder (taxas de capitais) para dominar o campo e de que
forma os seus habitus podem influenciar suas ações nesse processo de busca por dominação. O
pressuposto que guiou esse trabalho é que existe (e existiu) um embate no processo de
institucionalização dos agrotóxicos, e agentes que participam dessa luta fazem uso do poder para
movimentar pilares institucionais (regulativo, normativo e cultural-cognitivo) com o intuito de
avançar seus interesses para institucionalizar essa tecnologia ou desinstitucionalizá-la. No que se
refere ao método delineado, este se caracteriza como eminentemente qualitativo. Realizou-se um
levantamento histórico em documentos para verificar os principais eventos que influenciaram na
constituição da cotonicultura internacional e nacional. Além desse passo, foram realizadas
entrevistas semi-estruturadas com diversos agentes que compõem a amostra para verificar a
percepção deles sobre os eventos. Também se tentou analisar aspectos que exerceram influência
no processo de institucionalização do uso de agrotóxicos, mas que podem ter sido velados pela
literatura que trata desse tema. Os resultados mostraram que no Brasil os agrotóxicos passaram a
ser importados e fabricados após a segunda guerra mundial. Nessa época, com o discurso prómodernização
para o bem-estar social o empresário norte americano Nelson Rockfeller fez uso
do uso do poder econômico ao montar e patrocinar institutos de pesquisa e ao realizar
experimentos na área agrícola para moldar a agricultura brasileira em consonância modelo
agrícola americano. Nelson Rockfeller também investiu em capital cultural ao trazer cientistas e
professores que, dotados de conhecimento científico avançado para a época, propuseram o uso
da ciência e tecnologia para desenvolver a agricultura do Brasil. Com as diversas ações e
estratégias delineadas por Rockfeller e do Governo Americano (principalmente no governo do
Harry Truman) houve uma movimentação do pilar regulativo por parte do poder público
brasileiro. A interdependência do Estado e interesses de Nelson Rockfeller é revelada quando o
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governo brasileiro colocou em prática um projeto elaborado pelo empresário norte americano, o
primeiro serviço de extensão rural no final de 1948. No que concerne aos casos analisados,
verificou-se que apenas em Tauá-Ce o uso de agrotóxicos chegou a um estado de sedimentação a
partir do esforço da assistência técnica (principalmente através do capital cultural) do estado e da
percepção dos agricultores sobre o uso dos agrotóxicos para controlar as pragas. Todavia, na
região ocorreu a desinstitucionalização dos agrotóxicos no final da década de 80 quando se
verificou que o seu uso não combatia a praga bicudo algodoeiro. A partir de 1993 e até hoje,
pequenos cotonicultores de Tauá cultivam algodão orgânico. Foi possível verificar que em Tauá
pode ocorrer a desinstitucionalização do cultivo orgânico diante da falta de jovens permanecendo
no campo. Em São José dos Quatro Marcos e Rondonópolis não existem pequenos cotonicultores
cultivando em escala comercial. Nessas duas cidades os agrotóxicos eram amplamente utilizados
pelos cotonicultores, porém o uso dessa tecnologia alcançou o estado de objetivação. A
dependência das algodoeiras, o surto de pragas e os altos custos para controlar as pragas são
fatores que explicam a derrocada do algodão nessas regiões no final da década de 80. Nesses
contextos verificou-se que assistência técnica do estado (capital cultural) e as algodoeiras
financiando agricultores (capital econômico) foram elementares durante o processo de
institucionalização dos agrotóxicos. No asssentamento Itamaray-Ms o cultivo de algodão é
realizado por pequenos cotonicultores desde 2008. O início o cultivo de algodão no assentamento
sempre foi de base orgânica e para ser realizado ao longo dos anos necessita que os agentes
envolvidos invistam em capital cultural (construção de escolas agroecológicas) e capital social
(organização entre agricultores e relacionamento com políticos). Apesar do esforço, observou-se
que a lógica do cultivo convencional impera no assentamento (também entre a assistencia técnica
do estado). Diante disso, não se descarta a possibilidade da desinstitucionalização do cultivo
orgânico entre esses pequenos cotonicultores analisados. Concluiu-se que grande parte dos
pequenos agricultores brasileiros atuou como coadjuvantes no processo de construção social do
campo agrícola nacional. Observa-se, então, que pouco espaço foi conquistado por esses
agricultores para que pudessem exercer o poder de definir como deveria ser estruturada a
agricultura nacional. Além do mais, concluiu-se que o cultivo de algodão no Assentamento
Itamaraty e em Tauá pode entrar em um processo de derrocada diante da forma como está
estruturada o modelo agrícola tanto em nível regional como nacional. Essas duas regiões podem
seguir o caminho de São Paulo e Paraná que até o começo da década de 90 eram importantes
centros de produção de algodão realizado por pequenos agricultores. Em Tauá e no
Assentamento Itamaraty existem estruturas em comum que enfraquecem as atividades dos
pequenos cotonicultores desses dois contextos, a saber: percepção que atividades fora da
cotonicultura geram mais resultados econômicos; grande parte da assistência técnica estadual
internalizou os pacotes da revolução verde como forma de desenvolvimento agrícola;e, existe um
padrão de uso de agrotóxicos nas redondezas das plantações dos pequenos cotonicultores.
Abstract
The present thesis sought to understand how the process of institutionalization of pesticides
occurred among small cotton farmers in Brazil between 1945 and 2018. This period was chosen
due to the fact that the 1945s marked the beginning of the large-scale adoption of organosynthetic
agrochemicals , such as dichloro-diphenyl-trichloroethane (DDT). The importance of
interpreting the cognition of agents that constitute the institutional environment of pesticides lies
in the possibility of understanding meanings, symbols and material elements that feed the
dynamics of institutionalization of this technology among small Brazilian cotton farmers. It is
noticed that in Brazil the pesticides raise questions about the externalities that generate in the
society. Inadequate use of these inputs, in addition to generating environmental contamination,
causes public health problems, affecting the health of rural workers and consumers. Agribusiness
multinationals view pesticides as key technologies to ensure high productivity and food security
for the population. Some agents, for example, design pesticides as medicines that have made it
possible to increase the quality and quantity of food. Given this context, based on the analysis of
actions and conflicts undertaken by agribusiness multinationals, politicians, small family
farmers, researchers from different areas and organizations of the third sector, it was intended to
verify how the process of institutionalization of this technology occurred among small cotton
farmers in Tauá -Ce, Rondonópolis-Mt, São José dos Quatro Marcos-Mt. The case of the
Itamaraty-Ms settlement is also analyzed because the small cotton farmers in this context carry
out organic cotton cultivation even in the presence of a strong conventional agricultural crop.
Concerning theoretical reference, we worked with institutional theory, focusing on institutional
pillar conceptions, institutionalization process and deinstitutionalization process. In addition to
these concepts, Pierre Bourdieu's concepts were also used to understand how agents use power
(capital ratios) to dominate the field and how their habitus can influence their actions in this
quest for domination. The assumption that guided this work is that there is (and there was) a
clash in the process of institutionalizing pesticides, and agents participating in this struggle have
used power to move institutional pillars (regulatory, normative and cultural-cognitive) in order to
move forward their interests to institutionalize this technology or deinstitutionalize it.With regard
to the method outlined, this is characterized as eminently qualitative. A historical research was
carried out on documents to verify the main events that influenced the constitution of the
international and national cotton industry. In addition to this step, we conducted semi-structured
interviews with several agents that compose the sample to verify their perception about the
events. It was also tried to analyze aspects that exerted influence in the process of
institutionalization of the use of pesticides, but that may have been veiled by the literature that
deals with this theme. The results showed that in Brazil agrochemicals were manily imported and
manufactured after the Second World War. At that time, with the pro-modernization discourse for
social welfare, the North American businessman Nelson Rockfeller made use of the economic
power to set up and sponsor research institutes and to carry out experiments in the agricultural
area to shape Brazilian agriculture in accordance with the American agriculture model. Nelson
Rockfeller (and also the north American government) also invested in cultural capital by
bringing scientists and professors who, endowed with advanced scientific knowledge for the
time, proposed the use of science and technology to develop Brazil's agriculture. With the
various actions and strategies outlined by Rockefeller and the US Government (mainly under the
administration of Harry Truman) there was a movement of the regulatory pillar by the Brazilian
public power. The interdependence of the State and interests of Nelson Rockfeller is revealed
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when the Brazilian government put into practice a project elaborated by the North American
businessman, the first rural extension service at the end of 1948. Regarding the analyzed cases, it
was verified that only in Tauá-Ce the use of agrochemicals reached a state of sedimentation with
the technical assistance effort (mainly through cultural capital) of the state and the farmers'
perception of the use of pesticides to control pests. However, in the region the
deinstitutionalization of pesticides occurred in the late 1980's when it was found that their use
did not combat the cotton boll weevil pest. From 1993 until today, small cotton farmers of Tauá
grow organic cotton. It was possible to verify that in Tauá the deinstitutionalization of the
organic crop can occur due to the lack of young people staying in the field. In São José dos
Quatro Marcos and Rondonópolis there are no small cotton farms growing on a commercial
scale. In these two cities pesticides were widely used by cotton growers, but the use of this
technology reached the state of objectification. Cotton dependence, pest outbreaks, and high
costs to control pests are factors that explain the decline of cotton in these regions in the late
1980s. In these contexts, it was found that state technical assistance (cultural capital) and cotton
processors financing farmers (economic capital) were elementary during the process of
institutionalization of agrochemicals. In Itamaray-Ms cotton farming has been carried out by
small cotton growers since 2008. The beginning of cotton growing in the settlement has always
been organic and to be carried out over the years requires that the agents involved invest in
cultural capital (construction of agroecological schools) and social capital (organization between
farmers and relations with politicians). Despite the effort, it was observed that the logic of
conventional cultivation prevails in the settlement (also among state technical assistance).
Therefore, the possibility of deinstitutionalization of organic cultivation among these small
cotton farmers analyzed is not ruled out. It was concluded that most of the small Brazilian
farmers acted as auxiliaries in the process of social construction of the national agricultural field.
It is observed, then, that little space was conquered by these farmers so that they could exercise
the power to define how the national agriculture should be structured. In addition, it was
concluded that cotton cultivation in the Itamaraty settlement and in Tauá may be subject to a
process of overthrow in view of the way the agricultural model is structured both at the regional
and national levels. These two regions can follow the path of São Paulo and Paraná, which until
the early 1990s were important centers of cotton production carried out by small farmers. In Tauá
and in the Itamaraty settlement there are common structures that weaken the activities of the
small cotton growers of these two contexts, namely: perception that activities outside cotton
farming generate more economic results; a large part of state technical assistance has internalized
the green revolution packages as a form of agricultural development, and there is a pattern of
pesticide use in the surrounding area of the plantations of small cotton growers.
Assunto
Algodão - Cultivo, Produtos químicos agrícolas
Palavras-chave
Cotonicultura, Processo de institucionalização, Agrotóxicos, Poder, Pequenos agricultores