Vozes cotistas: a história oral dos estudantes negros nas políticas de ações afirmativas em Biblioteconomia
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Universidade Federal de Minas Gerais
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Tipo
Tese de doutorado
Título alternativo
Primeiro orientador
Membros da banca
Franciéle Carneiro Garcês da Silva
Daniel Alves de Jesus Figueiredo
Ana Paula Meneses Alves
Carolina dos Santos Bezerra Perez
Daniel Alves de Jesus Figueiredo
Ana Paula Meneses Alves
Carolina dos Santos Bezerra Perez
Resumo
Em 2022, a Lei 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas, completou uma
década. Essa lei versa sobre políticas de ações afirmativas para o ingresso no
ensino superior, com o objetivo de promover a equidade entre as diferentes
camadas sociais e raciais no Brasil. Dentre suas atribuições, o sistema de cotas
foi criado para fomentar a democratização atual, em que o Estado viabiliza a
equidade no ensino superior para acolher historicamente pessoas que estão à
margem da sociedade ao longo do processo sócio-histórico brasileiro. Assim,
busca-se proporcionar algum meio de reparar incontáveis séculos de injustiças
sofridas por um longo período do sistema escravocrata, que subordinou a
população negra a uma estrutura de subalternização, tanto durante o período de
escravidão quanto após a abolição. Refletindo sobre o papel da Ciência na
perpetuação de concepções falhas, como as teorias evolucionistas do século
XIX, questiona-se: qual foi a posição adotada pelas áreas da Biblioteconomia e
Ciência da Informação ao longo desse percurso? Tendo em vista que a
Biblioteconomia e a Ciência da Informação são campos de atuações relevantes
na disseminação da informação, na divulgação e manutenção da pesquisa
científica, é importante compreender como os futuros profissionais da
informação, como os cotistas raciais que se tornarão bibliotecários, por exemplo,
compreendem a lei que possibilitou sua entrada em uma instituição pública. Por
meio da metodologia de História Oral, os cotistas bibliotecários descrevem suas
experiências nos espaços educacionais, bem como toda a estrutura das
universidades em que estão cursando, revivendo suas memórias. Essas
narrativas compuseram um discurso que pode abranger os cotistas raciais nos
cursos de graduação em Biblioteconomia. Portanto, levando em consideração a
construção e implementação de uma política de cotas que possibilita a entrada
de grupos étnico-raciais em instituições de ensino público, buscando uma
reparação histórica e uma democratização do acesso, surge a seguinte questão
de pesquisa: qual a percepção de discentes negros cotistas nos cursos de
Biblioteconomia sobre as cotas raciais? A presente pesquisa tem como objetivo
geral identificar a percepção dos ingressantes por cotas raciais dos cursos
presenciais de Biblioteconomia de instituições públicas brasileiras sobre suas
vivências enquanto sujeito negro optante pela política de cotas raciais. Deste
modo, os objetivos específicos do estudo serão: a) Registrar e analisar as
narrativas dos estudantes cotistas raciais de Biblioteconomia sobre suas
percepções e experiências no ensino superior, com ênfase nos significados
atribuídos à política de cotas e suas vivências acadêmicas; b) Investigar as
dimensões racial, social e acadêmica das vivências dos estudantes cotistas de
Biblioteconomia, identificando os desafios enfrentados, as formas de
enfrentamento do racismo (se houver) e as potencialidades percebidas no
contexto universitário; e, c) Analisar como as narrativas dos estudantes cotistas
raciais de Biblioteconomia podem contribuir para as práticas de ensino da
Biblioteconomia e Ciência da Informação, possibilitando a promoção de uma
equidade racial e inclusiva no campo. Essa pesquisa contribui tanto do ponto de
vista epistemológico quanto político. No aspecto epistemológico, está ligada à
produção de conhecimento nas áreas de Biblioteconomia e Ciência da
Informação, bem como em diversas outras áreas do conhecimento. Já no
aspecto político, contribui para a comunidade, proporcionando um retorno social.
A pesquisa está inserida na linha de pesquisa de Memória Social, Patrimônio e
Produção do Conhecimento do Programa de Pós-graduação em Ciência daInformação da Universidade Federal de Minas Gerais. Obteve como resultado
16 narrativas que compuseram a história oral de estudantes cotistas raciais dos
cursos de Biblioteconomia de universidades públicas estaduais e federais do
Brasil. Os estudantes que compuseram a pesquisa são oriundos das regiões Sul,
Sudeste, Norte e Nordeste. Dentre a análise dos resultados, pode-se observar
que os estudantes compreendem as cotas raciais como essenciais para a sua
entrada no ensino superior, reconhecendo que o ensino público que tiveram não
seria suficiente para uma concorrência justa entre todos os candidatos.
Entretanto, também foi evidenciado que, para estes estudantes, apenas as cotas
que possibilitam o ingresso não são suficientes, e sim formas para a manutenção
da permanência dos estudantes durante o seu percurso escolar acadêmico.
Como conclusão, a presente pesquisa revela fatos sobre os estudantes que são
relevantes para a comunidade acadêmica que queira realmente proporcionar
uma educação equânime em seu espaço. Foram diversas as denúncias que os
estudantes relataram em suas oralidades, dentre estas o posicionamento neutro
tanto dos cursos de Biblioteconomia quanto das Universidades como um todo,
com relação a denúncias de racismo, a falta de uma comunidade diversa dentro
dos espaços, incluindo principalmente a falta de professoras e professores
negros, bem como a baixa em estímulos para a construção de conversas com a
comunidade acadêmica sobre as questões raciais. Desta maneira, a presente
pesquisa pode ser utilizada pelas Universidades e cursos de Biblioteconomia
como um direcionamento para a educação de estudantes, professores e técnicos
sobre as relações étnico-raciais e sobre as cotas raciais dentro do espaço, na
tentativa de desassociá-la de um entendimento pejorativo que leva o estudante
cotista para o lugar do que está se apropriando de vagas alheias, ou como
aquele que não possui capacidade intelectual, sendo destinada para o
entendimento de que cotas são esmolas.
Abstract
In 2022, Law 12.711/2012, known as the Quotas Law, completed a decade. This
law deals with affirmative action policies for entry into higher education, with the
aim of promoting equity between the different social and racial strata in Brazil.
Among its attributions, the quota system was created to foster current
democratization, in which the state makes equity in higher education possible in
order to welcome people who have historically been on the margins of society
throughout Brazil's socio-historical process. The aim is to provide a means of
redressing countless centuries of injustice suffered during a long period of
slavery, which subordinated the black population to a structure of subordination,
both during the period of slavery and after abolition. Reflecting on the role of
science in perpetuating flawed conceptions, such as the evolutionist theories of
the 19th century, the question arises: what was the position adopted by the areas
of Library and Information Science along this path? Given that Librarianship and
Information Science are relevant fields of activity in the dissemination of
information and the dissemination and maintenance of scientific research, it is
important to understand how future information professionals, such as racial
quota students who will become librarians, for example, understand the law that
made it possible for them to enter a public institution. Using oral history
methodology, the quota librarians describe their experiences in educational
spaces, as well as the entire structure of the universities they are attending,
reliving their memories. These narratives compose a discourse that can
encompass racial quota holders in undergraduate Library Science courses.
Therefore, taking into account the construction and implementation of a quota
policy that enables ethnic-racial groups to enter public education institutions,
seeking historical reparation and democratization of access, the following
research question arises: what is the perception of black quota students in Library
Science courses about racial quotas? The general objective of this study is to
identify the perception of those entering the classroom Library Science courses
at Brazilian public institutions who have opted for racial quotas about their
experiences as black people. The specific objectives of the study will be: a) To
record and analyze the narratives of racially-quota Librarianship students about
their perceptions and experiences in higher education, with an emphasis on the
meanings attributed to the quota policy and their academic experiences; b) To
investigate the racial, social and academic dimensions of the experiences of
racially-quota Librarianship students, identifying the challenges faced, the ways
of confronting racism (if any) and the potential perceived in the university context;
and c) Analyze how the narratives of racially-quota Library Science students can
contribute to the teaching practices of Library and Information Science, enabling
the promotion of racial equity and inclusiveness in the field. This research
contributes from both an epistemological and a political point of view. From an
epistemological point of view, it is linked to the production of knowledge in the
areas of Library and Information Science, as well as in various other areas of
knowledge. On the political side, it contributes to the community, providing a
social return. The research is part of the Social Memory, Heritage and Knowledge
Production research line of the Postgraduate Program in Information Science at
the Federal University of Minas Gerais. It resulted in 16 narratives that made up
the oral history of racially-quota students on Library Science courses at state and
federal public universities in Brazil. The students who took part in the research
come from the South, Southeast, North and Northeast regions. The analysis of
the results shows that the students see the racial quotas as essential for them to
enter higher education, recognizing that the public education they had would not
be enough for fair competition between all candidates. However, it was also clear
that, for these students, the quotas alone are not enough to enable them to enter
university, but rather ways of keeping them there throughout their academic
career. In conclusion, this research reveals facts about the students that are
relevant to the academic community that really wants to provide an equitable
education in its space. There were several complaints that the students reported
in their speeches, including the neutral position of both library science courses
and universities as a whole with regard to complaints of racism, the lack of a
diverse community within the spaces, including mainly the lack of black
professors, as well as the lack of stimuli for building conversations with the
academic community about racial issues. In this way, this research can be used
by universities and library science courses as a guideline for educating students,
teachers and technicians about ethnic-racial relations and racial quotas within the
space, in an attempt to disassociate it from a pejorative understanding that takes
the quota student into the box of one who is appropriating other people's
vacancies, or as one who lacks intellectual capacity, being destined for the
understanding that quotas are handouts.
Assunto
Ciência da informação, Programas de ação afirmativa na educação, História oral, Biblioteconomia
Palavras-chave
Lei 12.711/2012, Cotas raciais, Ações afirmativas, Biblioteconomia e Ciência da Informação, História oral
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