Oportunidades de aprendizagem de ciências da natureza e relações de gênero: uma análise de interações discursivas e de diferentes dimensões espaço-temporais em sala de aula
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Editor
Universidade Federal de Minas Gerais
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Tipo
Tese de doutorado
Título alternativo
Primeiro orientador
Membros da banca
Sílvia Luzia Frateschi Trivelato
Fábio Augusto Rodrigues e Silva
Rosária Justi
Maria da Conceição Ferreira Reis Fonseca
Fábio Augusto Rodrigues e Silva
Rosária Justi
Maria da Conceição Ferreira Reis Fonseca
Resumo
O objetivo deste estudo é compreender como oportunidades de aprendizagem de
Ciências da Natureza constituem e são constituídas por relações de gênero, envolvendo
diferentes dimensões espaço-temporais. A pesquisa está inserida em um projeto que
acompanhou um mesmo grupo de crianças durante os três primeiros anos do Ensino
Fundamental de uma escola pública federal em aulas de Ciências da Natureza e Língua
Portuguesa. O interesse inicial era compreender relações entre processos de
aprendizagem e diferentes contextos. Foi realizado um levantamento da produção
acadêmica relacionada ao ensino e aprendizagem de ciências entre crianças e uma
imersão em estudos sobre diferentes perspectivas acerca do construto contexto no
campo da Linguagem. Os resultados dessa primeira análise indicaram que processos de
aprendizagem de ciências têm sido investigados com um enfoque predominantemente
instrucional. São escassos os estudos que buscam explorar outros contextos além do
instrucional, por exemplo relações com vivências familiares e comunitárias, políticas
institucionais e curriculares, raça e classe, questões de gênero e aspectos culturais.
Entendendo que esses diversos elementos se intersectam no cotidiano da sala aula,
ofereço contribuições a esta lacuna da literatura. As orientações teórico-metodológicas
foram baseadas em aspectos da Etnografia em Educação para descrever, analisar e
interpretar interações discursivas na turma, buscando olhar esta sala de aula como
cultura. O desenho de pesquisa foi desenvolvido seguindo a lógica do que chamamos de
“Ampulheta Etnográfica”: análises mais amplas foram seguidas de um processo de
afunilamento e, posteriormente, novas ampliações ao longo do tempo. No processo de
afunilamento, analisei registros gerados ao longo da história do grupo, como caderno de
campo, vídeo, e representações, para identificar eventos em que elementos de diferentes
contextos emergiram nas interações durante as aulas de ciências. Esses eventos
passaram por uma nova análise com o objetivo de selecionar situações de frameclashes
em que houve quebras de expectativas no grupo. Uma análise histórica e contrastiva
resultou na seleção de eventos nos quais se observou tais quebras, além de expressivas
relações entre o contexto instrucional de ciências e outro contexto específico, o das
relações de gênero. Nesses eventos, a turma discutia o dimorfismo sexual de um inseto,
o bicho-pau. Selecionei, então, um evento capaz de ancorar análises microscópicas.
Utilizando ferramentas etnográficas, desenvolvi uma análise de interações desse evento,
vértice da ampulheta. Por fim, no processo de ampliação, busquei interpretar as
interações à luz de outros eventos por meio de análises backward/forward mapping e
explorando relações entre gênero e oportunidades de aprendizagem de Ciências da
Natureza. Para interpretar as relações de gênero, utilizei Butler como aporte teórico. Os
resultados indicam que as/os participantes negociaram relações de gênero ao refletirem
e refratarem a norma de gênero, processo que estava articulado à construção de
oportunidades de aprendizagem de ciências. O gênero gerou um movimento no contexto
instrucional de ciências: a partir de um cenário de aparente certeza, o grupo engajou-se
na construção de uma incerteza produtiva, o que envolveu o engajamento das/os
participantes em discussões relacionadas a conhecimentos científicos dos domínios
conceitual, epistêmico e social. Nesse processo, o alinhamento à norma de gênero
significou não apenas deixar de reconhecer o que era proposto nas discussões, mas
também se afastar de tais propostas. O contexto instrucional também teve influência
sobre a negociação das relações de gênero. A possibilidade de discordar e as alterações
nas perguntas que orientavam as atividades foram recursos com implicações relevantes
nos movimentos de reflexão e refração da norma ao longo do tempo. Sendo assim, este
estudo oferece contribuições à pesquisa em Educação em Ciências ao propor formas de relacionar processos de aprendizagem a diferentes dimensões espaço-temporais que
constituem a vida social na atualidade. Os resultados permitem vislumbrar a sala de aula
como um espaço-tempo em que as/os estudantes negociam categorias macrossociais e
lidam com conhecimentos fundamentais para se posicionarem na sociedade. Desse
modo, indico implicações para políticas públicas, especialmente para as discussões
sobre gênero no currículo prescrito e vivido. Por fim, incentivo o desenvolvimento de
estudos que buscam compreender a vida que acontece em sala de aula em sua
complexidade.
Abstract
The aim of this study is to understand how science learning opportunities constitute and
are constituted by gender relations, involving different spatio-temporal dimensions. The
research is part of a larger project that followed a group of children over the first three
years of Elementary School in science and language lessons of a public lottery school.
Our first interest was to understand relationships between learning processes and
different contexts. Based on a literature review related to science teaching and learning
and an immersion in studies about the construct context in the field of Language, we
indicated an expressive focus on the instructional context. There are few studies that
seek to explore other contexts, for example, relationships with family and community
experiences, institutional and curricular policies, gender, race and class issues, and
cultural aspects. We offer contributions to this literature gap, considering the relevant
intercessions between these contextual elements and the everyday life in classroom. Our
theoretical-methodological approaches were based on Ethnography in Education to
describe, analyze and interpret discursive interactions in science lessons, in order to
understand the classroom as culture. The research design was guided by the logic we
called “Ethnographic Hourglass”: broader analyzes were followed by a narrowing
process and, later, new broadening analytical procedures. First, we analyzed the tree
year’s project records, such as field notes, videotapes, and representations, trying to
identify events in which elements from different contexts emerged in interactions of
science lessons. The selected events were analyzed again in order to identify
frameclashes, situations in which there were breaks of expectations in the group. A
historical and contrastive analysis resulted in the selection of specific events in which
relations between the science instructional context and gender were identified. At these
events, the class discussed the sexual dimorphism of an insect, the stick bug. At this
point, we selected an event capable of anchoring microscopic analyzes. Using
ethnographic tools, we analyzed the discursive interactions of this event, the hourglass
vertex. Finally, in the new broadening analytical procedures, we sought to interpret the
interactions based on backward/forward mapping and establish relationships between
gender and science learning opportunities. We used Butler’s theoretical contributions to
interpret gender. The results indicate how the participants negotiated gender relations
reflecting and refracting the gender norm, a process that was articulated to science
learning opportunities. Gender promoted a movement in the science instructional
context: from a certainty situation, the group engaged in a productive uncertainty, which
involved the participants’ engagement in discussions related to the conceptual,
epistemic and social domains of scientific knowledge. In this process, alignment with
the gender norm meant not only failing to recognize what was proposed in the
discussions but moving away from such proposals. The instructional context also had an
influence on the gender negotiation. The possibility of disagreement and changes in the
questions over the lessons were resources with relevant implications in the movements
of reflection and refraction of the gender norm. This study offers contributions to
Science Education field by proposing ways of relating learning processes to different
spatio-temporal dimensions that constitute our social life. The results allow us to look
the classroom as a space-time in which students negotiate macrossocial categories and
deal with fundamental knowledge to position themselves in the society. We indicate
implications for public policies, especially for discussions about gender in the
prescribed and lived curriculum. Finally, we encourage studies that seek to understand
the classroom life in its complexity.
Assunto
Educação, Ciências - Ensino fundamental, Ciências - Métodos de ensino, Aprendizagem experimental, Etnologia - Educação, Antropologia educacional, Análise do discurso, Relações de gênero
Palavras-chave
Aprendizagem de ciências, Relações de gênero, Anos iniciais do ensino fundamental, Etnografia em educação, Contexto(s)
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