O uso da classificação internacional de funcionalidade, incapacidade e saúde para crianças e jovens (CIF-CJ) na avaliação fonoaudiológica em ambiente ambulatorial
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Universidade Federal de Minas Gerais
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Dissertação de mestrado
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Resumo
Introdução: A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde
para Crianças e Jovens (CIF-CJ), foi criada pela Organização Mundial de Saúde
(OMS) visando descrever as possíveis condições de saúde e funcionalidade de
indivíduos com idade até 18 anos, além das características que são próprias ao
processo de desenvolvimento. Seu uso tem sido reforçado por órgãos tais como o
Conselho Nacional de Saúde (CNS) e o Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa).
Contudo seu emprego em pesquisas e, principalmente, na prática clínica
fonoaudiológica no Brasil ainda é bastante restrito. Objetivo: Utilizar a Classificação
Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde para Crianças e Jovens (CIF CJ) na caracterização da funcionalidade de pacientes atendidos em um ambulatório
de avaliação fonoaudiológica. Métodos: Trata-se de estudo observacional analítico
transversal retrospectivo, realizado no Ambulatório de Fonoaudiologia do Hospital São
Geraldo, integrante do complexo do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de
Minas Gerais (HC-UFMG). A pesquisa foi baseada em dados secundários oriundos
dos relatórios de anamnese e avaliação de pacientes atendidos de 2010 a 2014,
configurando um corpus inicial de 1032 prontuários. Foram excluídos os prontuários
pertencentes a pacientes com idade superior a 16 anos e cujos relatórios de anamnese
ou avaliação encontravam-se incompletos. 556 prontuários considerados elegíveis
fizeram parte da análise inicial, sendo coletadas informações referentes aos aspectos
sociodemográficos e clínico-assistenciais dos pacientes. Na etapa seguinte, somente
os prontuários pertencentes à pacientes com idades entre cinco a 16 anos, e sem a
suspeita ou diagnóstico confirmado de perda auditiva, deficiência intelectual,
transtornos globais do desenvolvimento ou sem inconsistências em relação aos dados
presentes nos relatórios, foram incluídos. Deste modo, 180 prontuários foram
analisados utilizando a CIF-CJ na classificação da funcionalidade dos aspectos de
comunicação e demais questões fonoaudiológicas. Para tanto foi realizada a
identificação dos conteúdos que remetessem à presença das categorias dos
componentes Funções do Corpo, Atividades e Participação e Fatores Ambientais nos
relatórios. Quando presentes, essas foram analisadas como alteradas ou não,
indicando a existência de deficiência, dificuldade, Barreira ou Facilitador. O passo
seguinte focou nas categorias pertencentes às Funções do Corpo e Atividades e
Participação identificadas, sendo realizada, ainda, análise com o objetivo de
estabelecer fatores que pudessem representar um maior número de categorias e
verificar a existência de associações destes com os aspectos sociodemográficos e
clínico-assistenciais. Para a análise dos dados foi realizada a descrição da distribuição
de frequência das variáveis categóricas e análise das medidas de tendência central e
de dispersão para variáveis contínuas. Visando reduzir o número de categorias da CIF CJ dentro de um mesmo componente, foi realizada Análise Fatorial. Para avaliar a
existência de associações entre as variáveis, ao longo do estudo, foram utilizados os
testes Qui-Quadrado de Pearson, Mann-Whitney, Kruskal-Wallis e a correlação de
Spearman. O nível de significância adotado foi de 5%. Resultados: Foram incluídos
inicialmente 556 prontuários, sendo 181 indivíduos do sexo feminino e 375 do sexo
masculino, com idades entre um mês e 16 anos. As queixas mais citadas em
anamnese foram as alterações de fala, linguagem escrita e de dificuldade na interação
social e as hipóteses diagnósticas mais prevalentes foram as alterações na linguagem
oral, nos aspectos cognitivos da linguagem e na motricidade orofacial. Nos 180
prontuários que atenderam aos critérios da segunda etapa foram identificadas 65
categorias da CIF-CJ. Dentre os 13 itens das Funções do Corpo verificados, a
categoria que, com maior frequência, foi caracterizada como na qual houve deficiência
foi a b167 - funções mentais da linguagem (69,4%) e a que predominou com a
descrição de que não se observou deficiência foi a b156 - funções da percepção
(82,0%). Para as 34 categorias identificadas pertencentes ao componente das
Atividades e Participação, as mais frequentemente apontadas como dificuldade foram:
d140 - aprender a ler – desempenho (84,9%) e d640 - realização das tarefas
domésticas – desempenho (61,4%). Já as categorias que em maior porcentagem
foram descritas como não há dificuldade foram: d155 - adquirir
competências/habilidades – capacidade (100,0%), d210 - realizar uma única tarefa –
capacidade (100,0%), d550 – comer – capacidade (100,0%) e d560 – beber –
capacidade (100,0%). Das 18 categorias relativas aos Fatores Ambientais, a descrita
na maior parte dos relatórios como Barreira foi a e425 - atitudes individuais de
conhecidos, pares, colegas, vizinhos e membros da comunidade (25,6%) e as
descritas como Facilitador em maior frequência foram e130 - produtos e tecnologias
para a educação (100,0%), e165 - bens (100,0%), e310 - família próxima/imediata
(100,0%) e e325 - conhecidos, pares, colegas, vizinhos e membros da comunidade
(100,0%). A Análise Fatorial evidenciou duas dimensões das Funções do Corpo, sendo
descritos o Fator um, denominado linguagem/fala/audição, formado pelas funções da
memória, da percepção, cognitivas básicas, mentais da linguagem, auditivas e da
articulação e o Fator dois, referente à motricidade orofacial/voz, foi formado pelas
funções da voz, respiratórias e de ingestão. Para a análise realizada com as categorias
do componente Atividades e Participação, foram retidos três fatores, sendo o Fator
um, socialização formado por gerenciar o próprio comportamento (Capacidade e
Desempenho), interações interpessoais complexas – desempenho e relacionamentos
sociais informais – desempenho, o Fator dois foi formado apenas pela capacidade de
adquirir conceitos, e o Fator três, família/escola, formado pelo desempenho em
relacionamentos familiares e educação escolar. Após análise, foi verificada associação
estatisticamente significativa do Fator um das Funções do Corpo,
linguagem/fala/audição, com as variáveis sociodemográficas escolaridade do
paciente, idade, número de irmãos, número de cômodos no domicílio e número de
pessoas no domicílio e com as variáveis clínico-assistenciais queixa de alteração de
fala, hipóteses diagnósticas de alterações de aquisição/desenvolvimento da linguagem
oral, nos aspectos cognitivos da linguagem, na fala e no processamento auditivo, e
com as condutas de realização da avaliação completa do processamento auditivo e de
terapia fonoaudiológica. O Fator dois, motricidade orofacial/voz, também integrante
das Funções do Corpo, apresentou diferença estatisticamente significativa em relação
a variável sociodemográfica faixa de escolaridade do pai e com as variáveis clínico assistenciais queixa de alterações de motricidade orofacial e na interação social,
hipóteses diagnósticas de alterações de motricidade orofacial e de voz e conduta de
encaminhamento para acompanhamento com outro profissional. Houve diferença
estatisticamente significativa do Fator um das Atividades e Participação, socialização,
em relação as variáveis queixa de dificuldade de interação social e hipótese
diagnóstica de alterações dos aspectos cognitivos da linguagem. Para o Fator dois,
aquisição de conceitos, foi verificada associação com significância estatística com
queixas de alterações de fala e de dificuldade de interação social, hipóteses
diagnósticas de alterações dos aspectos cognitivos da linguagem e de motricidade
orofacial. Já o Fator três, família/escola, constituído também por categorias do
componente Atividades e Participação, apresentou diferença estatisticamente
significativa com as variáveis sociodemográficas escolaridade do paciente,
escolaridade da mãe, escolaridade do pai, local de residência e idade e com as
variáveis clínico-assistenciais queixas de alterações nas questões de leitura e
escrita/dificuldades escolares e ausência de alterações de fala, profissional que
realizou o encaminhamento do paciente para avaliação fonoaudiológica e hipóteses
diagnósticas de alterações nas questões de linguagem escrita e ausência de
alterações de motricidade orofacial. Conclusão: Este estudo mostrou que foi possível
e viável fazer uso da CIF-CJ para caracterizar questões de funcionalidade referentes
aos aspectos fonoaudiológicos de crianças e jovens encaminhados para avaliação
ambulatorial. Possibilitou ainda, verificar a existência de associações entre fatores
construídos por meio das categorias mais prevalentes da CIF-CJ com variáveis
sociodemográficas e clínico-assistenciais. Demonstra-se, assim, a possibilidade e
importância da inserção desta classificação na rotina clínica ambulatorial em
fonoaudiologia.
Abstract
Introduction: The International Classification of Functioning, Disability and Health
Children & Youth Version (ICF-CY) was created by the World Health Organization
(WHO) to describe the possible conditions of health and functionality of individuals
aged up to 18 years and the characteristics that are proper of the development process.
Its use has been reinforced by bodies such as the National Health Council (CNS) and
the Federal Council of Speech Therapy (CFFa). However, its use in researches, and
mainly in speech and language clinical practice in Brazil, is still very restricted.
Purpose: To use the International Classification of Functioning, Disability and Health
Children & Youth Version (ICF-CY) in the characterization of the functionality of patients
assisted in a speech-language pathology outpatient clinic. Methods: This is a
retrospective observational analytic cross-sectional study conducted at the Speech and
Hearing Clinic of the São Geraldo Hospital, an integrant part of the complex of the
Medical School (Hospital das Clínicas) of the Federal University of Minas Gerais (HC UFMG). The research was based on secondary data of anamnesis and evaluation
reports of patients assisted from 2010 to 2014, configuring an initial corpus of 1032
medical records. Medical records of patients aged over 16 years and whose anamnesis
or evaluation reports were incomplete were excluded. Information regarding socio demographic and clinical and assistance aspects of the patients was collected from the
556 records considered eligible for the initial analysis. In the next step, only medical
records of patients aged from 5 to 16 years and without the suspected or confirmed
diagnosis of hearing loss, intellectual disability, and global developmental disorders or
without inconsistencies in relation to the data presented in the reports were included.
Thereby, 180 medical records were analyzed using the ICF-CY in the classification of
the functionality of the communication aspects and other speech-language disorders.
For that, contents including categories of components such as Body Functions,
Activities and Participation and Environmental Factors were identified in the reports. If
present, they were analyzed as altered or not, indicating the existence of impairment,
difficulty, Barrier or Facilitator. The next step focused on the categories pertaining to
the Body functions and Activities and Participation identified, and an analysis was also
carried out to establish factors that could represent a greater number of categories and
verify the existence of their associations with socio-demographic and clinical and
assistance aspects. For the data analysis, a description of the frequency distribution of
the categorical variables, and the analysis of the measures of central tendency and
dispersion for continuous variables were made. In order to reduce the number of ICF CY categories within the same component, a Factor Analysis was performed. To
evaluate the existence of associations between the variables throughout the study, the
Pearson Chi-square, Mann-Whitney and Kruskal-Wallis tests and the Spearman
correlation were used. The adopted significance level was of 5%. Results: Initially, 556
medical records were included, being of 181 female and 375 male individuals, aged
from one month to 16 years. The most frequent complaints in anamnesis were
disorders in speech, written language and difficulty in social interaction, and the most
prevalent diagnostic hypotheses were disorders in oral language, cognitive aspects of
language and orofacial motricity. In the 180 medical records that met the criteria of the
second stage, 65 categories of ICF-CY were identified. Among the 13 items of Body
Functions verified, the category that was most frequently characterized as having
impairment was the b167 - mental functions of language (69.4%), and the one that
predominated with the description that no impairment was observed was the b156 -
perceptual functions (82.0%). For the 34 categories identified pertaining to the
component of Activities and Participation, the most frequently pointed out as difficulty
were: d140 - learn to read - performance (84.9%) and d640 - performance of household
tasks - performance (61.4%). The categories that, with higher percentage, were
described as having no difficulty were: d155 - acquire skills/abilities – capacity
(100.0%), d210 – perform a single task – capacity (100.0%), d550 – eat – capacity
(100.0%) and d560 – drink - capacity (100.0%). Of the 18 categories related to
Environmental Factors, the described one in most part of the reports as Barrier was the
e425 - individual attitudes of acquaintances, peers, colleagues, neighbors and
community members (25.6%) and the described ones as Facilitator with higher
frequency were e130 - products and technology for education (100.0%), e165 - assets
(100.0%), e310 - immediate family (100.0%) and e325 - acquaintances, peers,
colleagues, neighbors and community members (100.0%). The Factor Analysis
revealed two dimensions of the Body functions, being described the Factor one,
denominated language/speech/hearing, formed by memory, perception, basic
cognitive, mental of language, auditory and articulation functions, and the Factor two,
related to orofacial motricity/voice, was formed by voice, respiratory and ingestion
functions. For the analysis carried out with the categories of the Activities and
Participation component, three factors were retained, being the Factor one,
socialization formed by the management of the own behavior (Capacity and
Performance), complex interpersonal interactions – performance and informal social
relationships – performance, the Factor two was only formed by the capacity to acquire
concepts, and the Factor three, family/school, formed by the performance in family
relationships and school education. After analysis, a statistically significant association
of the Factor one of the Body functions, language/speech/hearing, with the
sociodemographic variables, education level of the patient, age, number of brothers,
number of rooms at home and number of people at home were verified, as also with
the clinical and assistance variables, complaint of speech alteration, diagnostic
hypotheses of disorders of oral language acquisition/development, in the cognitive
aspects of the language, speech and auditory processing, and with the conducts of
complete evaluation of the auditory processing and speech therapy. The Factor two,
orofacial motricity/voice, also integrant part of the Body functions, presented a
statistically significant difference in relation to sociodemographic variable, education
level of the father, and with the clinical and assistance variables, complaints of orofacial
motricity disorders and social interaction, diagnostic hypotheses of orofacial motricity
and voice disorders and conduct of referral for the follow-up with another professional.
There was a statistically significant difference of the Factor one of the Activities and
Participation, socialization, in relation to variables such as complaint of difficulty of
social interaction and diagnostic hypothesis of disorders of the cognitive aspects of the
language. For Factor two, acquisition of concepts, it was verified an association with
statistical significance with complaints of speech disorders and difficulty of social
interaction, diagnostic hypotheses of disorders in the cognitive aspects of language and
orofacial motricity. Factor three, family/school, also constituted by categories of the
component Activities and Participation, presented a statistically significant difference
with the sociodemographic variables, education level of the patient, education level of
the mother, education level of the father, place of residence and age and with the
clinical and assistance variables, complaints of disorders in reading and writing
issues/school difficulties and absence of speech disorders, professional that referred
the patient to speech-language assessment and diagnostic hypotheses of disorders in
issues of written language and absence of orofacial motricity disorders. Conclusion:
This study showed that it was possible and feasible to use ICF-CY to characterize
functional issues related to the speech and hearing aspects of children and teens
referred to outpatient evaluation. It made also possible to verify the existence of
associations between factors constructed through the most prevalent categories of the
ICF-CY with sociodemographic and clinical and assistance variables. Thus, the
possibility and importance of insertion of this classification in the outpatient clinic routine
in speech therapy is demonstrated.
Assunto
Fonoaudiologia, Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, Criança, Adolescente
Palavras-chave
Fonoaudiologia, Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, Criança, Adolescente