Águas e vidas suspensas: uma leitura da ruptura dos metabolismos hidroterritoriais a partir do rompimento da barragem da Vale S.A. em Brumadinho (MG)
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Universidade Federal de Minas Gerais
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Tese de doutorado
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Wagner Costa Ribeiro
Rômulo Soares Barbosa
Eliano de Sousa Martins Freitas
Heloísa Soares de Moura Costa
Klemens Augustinus Laschefski
Rômulo Soares Barbosa
Eliano de Sousa Martins Freitas
Heloísa Soares de Moura Costa
Klemens Augustinus Laschefski
Resumo
Nesta tese, analisamos os conflitos ambientais relacionados à água na região impactada pelo rompimento da barragem da Vale S.A., em Brumadinho (MG), em 2019. Partindo da concepção da água como território, ancorada na ecologia política, investigamos como as transformações socioespaciais provocadas pela desterritorialização in situ do rio Paraopeba contribuem para a perenidade dos conflitos relacionados à água, bem como analisamos os processos de reparação e mitigação dos danos realizados pela Vale naquele contexto. Adotamos uma abordagem qualitativa, baseada em análise documental, entrevistas semiestruturadas e trabalho de campo junto a comunidades diretamente afetadas no município de Brumadinho, como Tejuco e Parque da Cachoeira. O estudo contextualiza esses conflitos no cenário mais amplo de intensificação das disputas hídricas no Brasil no início do século XXI, resultantes da inserção subordinada do território brasileiro na lógica da acumulação global. Destacamos, nesse processo, o avanço do neoliberalismo, o neodesenvolvimentismo e o neoextrativismo, que condicionaram as formas de apropriação da água e ampliaram os impactos ambientais. Minas Gerais, em especial, tornou-se o estado com maior concentração de conflitos hídricos, agravados pelos rompimentos das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Com base no arcabouço teórico-conceitual e na análise empírica dos casos analisados, propomos as noções de desterritorialização das águas, tanto no plano material e quanto no cognitivo. A primeira, por meio da produção capitalista do espaço e das rupturas metabólicas; a segunda, por meio da produção, pela ciência moderna, da água moderna. Além disso, propomos a noção de metabolismos hidroterritoriais, como forma de interpretar os conflitos ambientais pela água, considerando o território como mediador, em diversos níveis, das relações comunidades-territórios-águas. As análises apontam que o processo de reparação conduzido pela Vale e mediado por órgãos estatais tem reproduzido lógicas tecnocráticas e desterritorializadas de gestão da água, desconsiderando a diversidade dos modos de vida e das relações sociais com os recursos hídricos. Tal abordagem resulta na violação do direito humano à água e na homogeneização das lutas por acesso, ao impor critérios excludentes para o fornecimento de água potável. Ao discutir os metabolismos hidroterritoriais e sua destruição como condição e resultado da acumulação capitalista por despossessão, o trabalho revela como o desastre não apenas interrompeu os fluxos materiais e simbólicos da água, mas também criou um novo terreno de disputa, onde os direitos, os territórios e os modos de vida das populações atingidas seguem sendo negados ou invisibilizados.
Abstract
In this thesis, we analyze the environmental conflicts related to water in the region affected by the collapse of the Vale S.A. dam in Brumadinho (Minas Gerais, Brazil) in 2019. Based on the conception of water as territory, grounded in political ecology, we investigate how the socio-spatial transformations caused by the in situ deterritorialization of the Paraopeba River contribute to the persistence of water-related conflicts. We also examine the damage repair and mitigation processes carried out by Vale within this context. We adopt a qualitative approach, based on document analysis, semi-structured interviews, and fieldwork conducted with communities directly affected in the municipality of Brumadinho, such as Tejuco and Parque da Cachoeira. The study situates these conflicts within the broader scenario of intensifying water disputes in Brazil in the early 21st century, resulting from the subordinate insertion of Brazilian territory into the logic of global accumulation. Within this process, we highlight the advance of neoliberalism, neo-developmentalism, and neo-extractivism, which have shaped forms of water appropriation and exacerbated environmental impacts. Minas Gerais, in particular, has become the state with the highest concentration of water conflicts, worsened by the dam collapses in Mariana (2015) and Brumadinho (2019). Based on the theoretical-conceptual framework and empirical analysis of the cases studied, we propose the notions of the material and cognitive deterritorialization of waters. The former occurs through the capitalist production of space and metabolic ruptures; the latter, through the production of modern water by modern science. Additionally, we propose the concept of hydro-territorial metabolisms as a way to interpret environmental conflicts over water, considering territory as a mediator—at various levels—of the relationships between communities, territories, and waters. The analyses reveal that the repair process conducted by Vale and mediated by state agencies has reproduced technocratic and deterritorialized water management logics, disregarding the diversity of ways of life and social relations with water resources. Such an approach results in violations of the human right to water and in the homogenization of struggles for access by imposing exclusionary criteria for the provision of drinking water. By discussing hydro-territorial metabolisms and their destruction as both a condition and a result of capitalist accumulation by dispossession, the study shows how the disaster not only interrupted the material and symbolic flows of water but also created a new terrain of dispute where the rights, territories, and ways of life of the affected populations continue to be denied or rendered invisible.
Assunto
Ecologia política – Brumadinho (MG) – Teses, Água – Teses, Barragens de rejeitos – Brumadinho (MG) – Teses, Desastres ambientais – Brumadinho (MG) – Teses
Palavras-chave
Conflitos ambientais, Água, Metabolismo hidroterritorial, Desterritorialização, Água moderna, Brumadinho, Ecologia política
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