Leitura e participação em sala de aula: um estudo sobre práticas de letramentos acadêmicos de pós-graduandos surdos
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Universidade Federal de Minas Gerais
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Dissertação de mestrado
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Primeiro orientador
Membros da banca
Maria Clara Maciel de Araújo Ribeiro
Simone Gonçalves de Lima da Silva
Simone Gonçalves de Lima da Silva
Resumo
Com a democratização do ensino superior, membros de grupos minoritarizados, como estudantes surdos, passaram a ocupar espaços nas universidades, de modo a surgirem demandas relativas às especificidades linguísticas e culturais desses sujeitos nas suas participações de práticas de leitura e escrita. Assim, esta pesquisa tematiza as práticas de letramentos acadêmicos de pós-graduandos surdos e objetiva compreender essas práticas em uma sala de aula de pós graduação de uma universidade pública e os significados construídos sobre elas pelos membros do grupo. Para tanto, em termos teórico-metodológicos, ancoro-me nos Novos Estudos do Letramento (Heath, 1983; Barton; Hamilton, 1998; Castanheira; Green; Dixon, 2007; Street, 2014), com foco nos letramentos acadêmicos (Lea; Street, 1998; Lea, 1999; Lillis; Scott, 2007) e nos letramentos de surdos (Silva, 2010; Ribeiro, 2016; Rocha, 2021; Fernandes, 2022), valendo-me de uma perspectiva etnográfica (Green; Bloome, 1997; Green; Dixon; Zaharlick, 2005; Street, 2008). Além disso, exploro reflexões teóricas acerca da linguagem e da leitura (Gnerre, 1991; Freire, 1989; 2022; Bakhtin, 2016; Volóchinov, 2021) e dos estudos sobre o bilinguismo (Grosjean, 1998; 2008; Cavalcanti, 1999; García, 2009) e a educação bilíngue de surdos (Fernandes, 2003; Fernandes; Moreira, 2009; Reagan, 2015; Silva, 2018; Megale; El Kadri, 2023), bem como me filio a uma perspectiva sociocultural da surdez (Skliar, 1997; Strobel, 2008; Rezende, 2012). A partir desse referencial, realizei observação participante (Spradley, 1980) em uma sala de aula inclusiva de pós-graduação stricto sensu em uma universidade pública brasileira, composta por maioria ouvinte e quatro estudantes surdos sinalizantes, no primeiro semestre de 2024, utilizando notas de campo, filmagens, fotografias, coleta de artefatos impressos e entrevistas com os estudantes surdos, o professor e os dois intérpretes de Libras. Para a análise, selecionei dois eventos representativos da organização da sala de aula e das práticas de leitura por surdos, cujas interações foram representadas em quadros por meio de transcrição da fala oral e de glosas e vídeos da fala sinalizada, e os relacionei com outros acontecimentos da sala de aula. A análise do primeiro evento me permitiu identificar como os membros da turma negociavam as formas de realização das atividades no grupo e as suas participações, de modo a (re)construírem a organização da comunidade da sala de aula constantemente, considerando a presença de usuários da Libras. Tal negociação envolveu, por exemplo, a demanda da projeção de textos para facilitar o acesso dos surdos e dos intérpretes ao texto escrito. A análise do segundo evento apontou para questões relativas ao engajamento dos estudantes surdos nas atividades de leitura na sala de aula, destacando-se aspectos do trânsito entre as modalidades linguísticas, como o uso da datilologia, das experiências prévias de letramentos, acadêmicos ou não, como o uso da escrita no quadro, e da leitura em L2 por esses sujeitos, incluindo desafios referentes ao vocabulário do português, à construção coletiva dos sentidos das palavras e à reflexão metalinguística. Por fim, este estudo contribui com discussões acerca da compreensão da sala de aula como uma comunidade cultural e do uso do português escrito por surdos como L2 no contexto da pós-graduação.
Abstract
Following the democratization of higher education, members of minority groups, such as deaf students, began to occupy spaces in universities, leading to demands regarding linguistic and cultural specificities of these individuals in their participation in reading and writing practices. Therefore, this research thematizes the academic literacy practices of deaf postgraduate students and aims to understand these practices in a postgraduate classroom at a public university and the meanings constructed about them by the group members. To this end, in theoretical methodological terms, I base myself on the New Literacy Studies (Heath, 1983; Barton; Hamilton, 1998; Castanheira; Green; Dixon, 2007; Street, 2014), with a focus on academic literacies (Lea; Street, 1998; Lea, 1999; Lillis; Scott, 2007) and the literacy of deaf people (Silva, 2010; Ribeiro, 2016; Rocha, 2021; Fernandes, 2022), using an ethnographic perspective (Green; Bloome, 1997; Green; Dixon; Zaharlick, 2005; Street, 2008). In addition, I explore theoretical reflections on language and reading (Gnerre, 1991; Freire, 1989; 2022; Bakhtin, 2016; Volóchinov, 2021) and studies of bilingualism (Grosjean, 1998; 2008; Cavalcanti, 1999; García, 2009) and bilingual education for the deaf (Fernandes, 2003; Fernandes; Moreira, 2009; Reagan, 2015; Silva, 2018; Megale; El Kadri, 2023), as well as affiliating myself with a sociocultural perspective on deafness (Skliar, 1997; Strobel, 2008; Rezende, 2012). Based on this referential, I carried out a participant observation (Spradley, 1980) in an inclusive stricto sensu postgraduate classroom at a Brazilian public university, made up of a majority of hearing students and four deaf signaling ones, in the first semester of 2024, using field notes, video footage, photographs, collection of printed artifacts and interviews with the deaf students, the teacher, and the two Libras interpreters. For the analysis, I selected two events that were representative of the organization of the classroom and of the reading practices by deaf people, whose interactions were represented in charts using transcriptions of oral speech and glosses and videos of signing, and I related them to other events in the classroom. The analysis of the first event allowed me to identify how the class members negotiated the ways of realizing the group activities and their participation in order to (re)construct the organization of the classroom community constantly, considering the presence of Libras users. Such negotiations involved, for example, the demand for the screening of texts to make it easier for deaf people and interpreters to access the written text. The analysis of the second event pointed to matters relating to the engagement of deaf students in reading activities in the classroom, highlighting aspects of transit between language modalities, such as the use of dactylology, of previous literacy experiences – academic or otherwise –, such as the use of writing on the board, and of L2 reading by these individuals, including challenges relating to Portuguese vocabulary, the collective construction of the meanings of words and metalinguistic reflection. In conclusion, this study contributes to discussions about understanding the classroom as a cultural community and the use of written Portuguese by deaf people as an L2 in the context of postgraduate studies.
Assunto
Língua brasileira de sinais, Aquisição de segunda linguagem, Surdos – Educação, Língua portuguesa – Estudo e ensino (Superior), Letramento
Palavras-chave
Letramentos Acadêmicos, Estudantes Surdos, Leitura em L2, Libras, Pós-Graduação