Problemáticas do cuidado : a primazia da alteridade como matriz de inteligibilidade da psicanálise e suas consequências clínicas, éticas e políticas para o cuidado em saúde

Descrição

Tipo

Tese de doutorado

Título alternativo

Problemáticas do cuidado

Membros da banca

Camila Peixoto Farias
Kenia Lara da Silva
Tereza Cristina Peixoto
Marcia dos Santos Pereira

Resumo

Este estudo sobre o cuidado buscou enriquecer as pontes existentes entre o pensamento psicanalítico de Laplanche e o pensamento político-filosófico de Butler, alcançando assim recursos de inteligibilidade para a experiência de cuidado em saúde que, no SUS, vale enfatizar, é sempre uma experiência subjetivante multideterminada. O apelo que realizamos ao desenvolvimento analítico conceitual de Butler sobre a teoria psicanalítica se justifica pela crítica cuidadosa e coerente que a autora estabelece, fazendo trabalhar as inconsistências da psicanálise a partir da própria episteme analítica. Ou seja, não se deixando enganar pelo conservadorismo apaixonado da doxa psicanalítica. Aliás, é justamente a doxa psicanalítica que esperamos ter, pelo menos em parte, desconstruído quando questionamos a força explicativa e a força de derivação terapêutica, ética e política de alguns pressupostos analíticos problematizados neste trabalho. Com efeito, se a psicanálise é por excelência um método de tratamento e investigação, isso representa a tarefa de avaliar como alguns projetos de psicanálise se envolvem na construção de uma clínica realmente comprometida com o alívio do sofrimento de corpos tomados como dissidentes. Nossa discussão a esse respeito serviu ao propósito de demonstrar que a psicanálise tem recursos para se exorcizar de algumas matrizes conceituais, sem precisar abandonar outros muitos de seus recursos conceituais. Aliás, esses recursos compõem a análise de Butler ao abordar como campo prioritário de maior potência da vida humana aquele que define a dependência inevitável da subjetividade ante a invasão do outro em seus territórios mais íntimos. Ora, se a prioridade da experiência de precariedade dos corpos é gerada pela origem comum de desamparo da vida humana e, portanto, da radical dependência do outro, então também é determinante da necessidade societária de proteção (cuidado) para diferentes formas de existência. A partir desse pensamento, o processo analítico desenvolvido pelo instrumental da psicanálise que propusemos (a arqueologia e a curadoria clínicas) pode compor a avaliação da distribuição afetiva da proteção garantida a alguns corpos e não a outros, o que torna a noção laplancheana uma categoria ética e política fundamental para o cuidado. Nesse sentido, a psicanálise irá contribuir para mapear como o ethos afetivo da alteridade subscrita nas relacionalidades define quais corpos devem merecer o direito de proteção da vida . Nessa direção, nossa pesquisa demonstrou como os termos de inteligibilidade da teoria da sedução generalizada podem romper com a clínica psicanalítica normativa, principalmente quando inserida no cuidado de vidas que seguem massacradas pelo simples fato de não participarem do exclusivismo da norma - como acreditamos ter demonstrado ser a realidade assistencial da política pública no SUS. Finalmente, deixamos caminhos para outras pesquisas sobre o cuidado que possam aprofundar debates clínicos, éticos e políticos com recursos da teoria laplancheana e com filosofia de Butler. Ao destacarmos a potência da noção de prioridade do outro nos circuitos de produção da episteme e da tecnologia clínica da psicanálise para o cuidado, colaboramos com a definição de horizontes de durabilidade ontológica para os que precisam receber mais da política pública em termos de recursos de proteção da vida.

Abstract

This study on care sought to enrich the existing bridges between Laplanche’s psychoanalytic thought and Butler’s political-philosophical thought, thus reaching resources of intelligibility for the experience of health care, which, in the SUS, it is worth emphasizing, is always a multidetermined subjectivating experience. The appeal we make to Butler’s analytical and conceptual development of psychoanalytic theory is justified by the careful and coherent critique she establishes, making psychoanalysis work through its own inconsistencies from within its analytical episteme. In other words, not being deceived by the passionate conservatism of psychoanalytic doxa. Indeed, it is precisely the psychoanalytic doxa that we hope to have at least partially deconstructed when questioning the explanatory force and the therapeutic, ethical, and political derivational force of some psychoanalytic assumptions problematized in this work. In fact, if psychoanalysis is par excellence a method of treatment and investigation, this represents the task of evaluating how some psychoanalytic projects engage in building a clinic truly committed to alleviating the suffering of bodies taken as dissident. Our discussion in this regard served the purpose of demonstrating that psychoanalysis has the resources to exorcise itself from certain conceptual matrices without having to abandon many of its other conceptual resources. Indeed, these resources are part of Butler’s analysis when addressing as a priority field of human life the one that defines the inevitable dependence of subjectivity on the invasion of the other into its most intimate territories. Moreover a, if the priority of the experience of the precariousness of bodies is generated by the common origin of helplessness of human life and, consequently, of the radical dependence on the other, then it is also determinant of the societal need for protection (care) for different forms of existence. From this perspective, the analytical process developed through the tools of psychoanalysis that we proposed (clinical archaeology and curation) can contribute to evaluating the affective distribution of protection granted to some bodies and not to others, which makes Laplanche’s notion a fundamental ethical and political category for care. In this sense, psychoanalysis contributes to mapping how the affective ethos of alterity inscribed in relationalities defines which bodies should deserve the right to life protection. In this direction, our research demonstrated how the terms of intelligibility of the theory of generalized seduction can break with normative psychoanalytic clinics, especially when applied to the care of lives that remain shattered simply because they do not participate in the exclusivity of the norm — as we believe we have shown to be the reality of public health care within SUS. Finally, we leave open paths for further research on care that may deepen clinical, ethical, and political debates with the resources of Laplanchean theory and Butler’s philosophy. By underscoring the power of the notion of the priority of the other in the circuits of production of the psychoanalytic episteme and clinical technology for care, we contribute to the definition of horizons of ontological durability for those who need more from public policy in terms of resources for the protection of life.

Assunto

Psicologia - Teses, Psicanálise - Teses, Saúde - Teses

Palavras-chave

Alteridade, Autonomia, Psicanálise, Relacionalidades, Cuidado

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