Investigação das causas de mortalidade de mulheres indígenas brasileiras em idade reprodutiva: uma análise de séries temporais
Carregando...
Data
Autor(es)
Título da Revista
ISSN da Revista
Título de Volume
Editor
Universidade Federal de Minas Gerais
Descrição
Tipo
Dissertação de mestrado
Título alternativo
Primeiro orientador
Membros da banca
Flávia Bulegon Pilecco
Mariângela Leal Cherchiglia
Jesem Douglas Yamall Orellana
Bernardo Lanza Queiroz
Mariângela Leal Cherchiglia
Jesem Douglas Yamall Orellana
Bernardo Lanza Queiroz
Resumo
A literatura sugere a existência, no Brasil, de uma sobremortalidade indígena entre indivíduos adultos de ambos os sexos, comparados à população geral. Mas, especificamente em relação às mulheres indígenas, a escassez de estudos abordando etiologia de óbitos compromete o entendimento de como suas taxas de mortalidade específicas por causa são afetadas por discriminações superpostas e sistemáticas, especialmente na idade reprodutiva. O objetivo desse trabalho é comparar mulheres indígenas e brancas quanto às taxas de mortalidade específicas por causas de óbito nesta faixa etária e suas tendências durante um decênio, e aventar possíveis iniqüidades em saúde. Realizamos extensa revisão da literatura pertinente à Saúde Indígena no Brasil, enfocando estudos quantitativos recentes sobre causas de mortalidade. Uma prospecção realizada no Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde sugeriu desproporcionais taxas de mortalidade por grupos de causas. Procede-se a um estudo ecológico utilizando dados secundários de mortalidade, e um modelo de projeção populacional de base censitária, abrangendo o decênio entre Janeiro de 2010 e Dezembro de 2019. Calculamos taxas anuais de mortalidade específicas por grupos de causas, padronizadas por idade, para mulheres indígenas e brancas. As tendências das séries temporais foram estimadas em regressão de Prais-Winsten, e os resultados expressos em variação percentual anual e IC95%%. Os resultados encontrados permitiram maior reflexão sobre o conhecimento já produzido sobre o tema, e o questionamento sobre determinantes de saúde indígena ainda pouco abordados. Analisamos 3.185 óbitos de indígenas e 274.393 de brancas. Houve tendência crescente nas taxas de mortalidade por neoplasias e doenças endócrinas, metabólicas e nutricionais entre indígenas e brancas, com maiores magnitudes para o primeiro grupo. Entre indígenas, observou-se ainda uma tendência crescente também para causas circulatórias, respiratórias e digestivas. As taxas de mortalidade por causas externas e infectoparasitárias foram estacionárias entre as indígenas, com tendência a redução entre brancas. A tendência das taxas de mortalidade relacionadas a gestação, parto e puerpério, e a sinais, sintomas e achados anormais encontram-se estacionárias nos dois grupos pesquisados. Esse estudo permitiu observar, de forma quantitativa, como o crescimento das taxas de mortalidade por doenças crônicas entre mulheres indígenas brasileiras em idade reprodutiva ocorre sem que se tenha superado as altas taxas de mortalidade por causas infectoparasitárias, maternas e externas. Essa sobremortalidade sugere fragilidades na articulação entre políticas direcionadas à saúde da mulher e à saúde da população indígena, e também problemas de acesso a serviços básicos de saúde, como vacinação, prevenção de doenças, avaliação nutricional e pré-natal. Persiste a necessidade de aprofundamento nos estudos sobre causas específicas de mortalidade, para melhor definição de políticas públicas, e estruturação de um Sistema de Saúde adequado às demandas dessa parcela populacional.
Abstract
Literature suggests the occurrence of indigenous excess mortality among Brazilian adults (in relation to the general population) for both sexes. However, the scarcity of studies addressing the aetiology of deaths of indigenous women in the country compromises the understanding of how their cause-specific mortality rates are affected by systematic racial discrimination, especially at reproductive age. This study aims to compare indigenous and white women in terms of specific mortality rates by cause of death in this age group, and their trends over a decade, to suggest possible inequities in health. We carried out an extensive review of the relevant literature about Indigenous Health in Brazil, focusing on recent quantitative studies on causes of mortality. Subsequently, a survey of data in the Mortality Information System of the Ministry of Health suggested disproportionate mortality rates by groups of causes. From this, we carried out an ecological study using secondary mortality data, and a census-based population projection model, covering the decade between January 2010 and December 2019. We calculated annual mortality rates (specific to groups of causes), standardized by age, for indigenous and white women. Time series trends were estimated using Prais-Winsten regression, and the results were expressed as annual percentage change and 95%CI. The results allowed us a greater reflection on the already produced knowledge, also questioning about still little addressed indigenous health determinants. We analyzed 3,185 Indigenous deaths and 274,393 White deaths. There was a growing trend in mortality rates from neoplasms and endocrine, metabolic, and nutritional diseases among indigenous and white people, with greater magnitudes for the first group. Among indigenous people, there was also a growing tendency for circulatory, respiratory, and digestive causes. Mortality rates from external and infectious-parasitic causes were stationary among indigenous women, with a tendency to decrease among whites. The trend of mortality rates related to pregnancy, childbirth, and the puerperium, and signs, symptoms, and abnormal findings are stationary in both groups surveyed. This study made it possible to observe, quantitatively, how the growth in mortality rates due to chronic diseases among Brazilian indigenous women of reproductive age occurs without the overcome of high mortality rates due to infectious, parasitic, maternal, and external causes. This excess of mortality suggests weaknesses in the articulation between policies aimed at women's and indigenous populations' health, as well as problems with access to basic health services, such as vaccination, disease prevention, nutritional assessment, and prenatal care. There is still a need for further studies on specific causes of mortality, for a better definition of public policies, and for the structuring of a more adequate Health System to the demands of this part of the Brazilian population.
Assunto
Saúde de Populações Indígenas, Povos Indígenas, Saúde da Mulher, Saúde Reprodutiva, Mortalidade, Dissertação Acadêmica
Palavras-chave
Desigualdades em saúde, Iniqüidade, Mortalidade, Saúde da mulher, Saúde indígena