Narrar entre o apagamento e os rastros: resistência ao esquecimento e à reconciliação extorquida em O corpo interminável e na Trilogia infernal

Descrição

Tipo

Tese de doutorado

Título alternativo

Primeiro orientador

Membros da banca

Elcio Loureiro Cornelsen
Roberto Alexandre do Carmo Said
Cimara Valim de Melo
Fabíola Simão Padilha Trefzger

Resumo

Esta tese analisa como o romance contemporâneo brasileiro responde aos abusos do esquecimento e à tradição de reconciliações extorquidas no tratamento do legado da ditadura militar (1964-1985), concentrando-se na análise de O corpo interminável (2019), de Claudia Lage, e da Trilogia infernal, de Micheliny Verunschk – composta por Aqui, no coração do inferno (2016), O peso do coração de um homem (2017) e O amor, esse obstáculo (2018). A hipótese que orienta o trabalho é a de que essas narrativas elaboram uma forma de resistência literária que não se limita à denúncia temática das violências da ditadura, mas que se realiza também no nível formal. Trata-se de romances que, por meio de estratégias narrativas, ao articularem a precariedade do testemunho possível, a fragmentação, a fabulação e o gesto da escrita a partir dos rastros sobreviventes, recusam o apagamento de memórias interditadas e confrontam o pacto da reconciliação forçada e o apaziguamento promovidos pela história oficial, sob uma falsa ideia de que os traumas estão superados e encerrados. A abordagem metodológica consiste em uma análise crítico-interpretativa das obras, com atenção especial às escolhas formais da narração e às figurações da memória e do esquecimento. A fundamentação teórica articula a compreensão de Antonio Candido de que as determinações sociais, ao se integrarem à literatura, são transformadas por uma concepção estética e se expressam no nível da fatura. De Alfredo Bosi, mobiliza-se a noção de narrativa de resistência, que conjuga ética e estética como dimensões inseparáveis. Dialoga-se, ainda, com Theodor Adorno e Giorgio Agamben, especialmente no que tange ao paradoxo entre a necessidade de transmissão do horror e a consciência de sua irrepresentabilidade, e com Roberto Vecchi, no que se refere aos modos de transmissão de memórias impedidas e a uma política das sobrevivências. Como resultado, o trabalho demonstra que as obras analisadas se e a uma vertente do romance atual sobre a ditadura que, ao narrar entre o apagamento e os rastros, desestabiliza a versão conciliatória dominante, reinscrevendo experiências soterradas e vozes silenciadas das vítimas e evidenciando a permanência de lógicas autoritárias e violentas que atravessam a história brasileira até o presente.

Abstract

This dissertation analyzes how contemporary Brazilian novels respond to the abuses of oblivion and the tradition of extorted reconciliations in dealing with the legacy of the military dictatorship (1964-1985), focusing on the analysis of O Corpo Interminável (2019), by Claudia Lage, and Trilogia infernal, by Micheliny Verunschk – consisting of Aqui, no coração do inferno (2016), O peso do coração de um homem (2017), and O amor, esse obstáculo (2018). The hypothesis that guides this work is that these narratives develop a form of literary resistance that is not limited to the thematic denunciation of the violence of the dictatorship, but also takes place on a formal level. These are novels that, through narrative strategies, articulate the precariousness of possible testimony, fragmentation, fabulation, and the gesture of writing based on surviving traces, refuse the erasure of forbidden memories and confront the pact of forced reconciliation and appeasement promoted by official history, under the misconception that traumas have been overcome and resolved. The methodological approach consists of a critical-interpretative analysis of the works, with special attention to the formal choices of narration and the figurations of memory and erasure. The theoretical foundation articulates Antonio Candido's understanding that social determinations, when integrated into literature, are transformed by an aesthetic conception and expressed at the level of craftsmanship. From Alfredo Bosi, the notion of narrative resistance is mobilized, which combines ethics and aesthetics as inseparable dimensions. There is also a dialogue with Theodor Adorno and Giorgio Agamben, especially concerning the paradox between the need to convey horror and the awareness of its unrepresentability, as well as with Roberto Vecchi regarding the modes of transmission of impeded memories and a politics of survival. As a result, this study demonstrates that the analyzed works are affiliated with a strand of literature on the dictatorship which, by narrating between erasure and traces, destabilizes the dominant conciliatory version, reinscribing buried experiences and silenced voices of victims and highlighting the persistence of authoritarian and violent logics that traverse Brazilian history up to the present.

Assunto

Lage, Cláudia - Corpo interminável - Crítica e interpretação, Verunschk, Micheliny, 1942- - Aqui no coração do inferno - Crítica e interpretação, Verunschk, Micheliny, 1942- - Peso do coração de um homem - Crítica e interpretação, Verunschk, Micheliny, 1942- - Amor, esse obstáculo - Crítica e interpretação, Ficção brasileira - História e crítica, Brasil - História - 1964-1985., Ditadura na literatura, Política e literatura, Violência na literatura, Memória na literatura, Literatura e sociedade - Brasil

Palavras-chave

romance contemporâneo brasileiro, ditadura militar, narrativa de resistência, abusos do esquecimento, reconciliação extorquida, política das sobrevivências, O corpo interminável, Trilogia infernal

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