A ação abrasiva do estar presente: registros de um tempo contínuo
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Universidade Federal de Minas Gerais
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Dissertação de mestrado
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Junia Cambraia Mortimer
Ricardo Miranda Burgarelli
Ricardo Miranda Burgarelli
Resumo
Esta dissertação se constrói como um livro de artista, uma montagem entre fragmentos textuais, cadernos de imagens e notas bibliográficas, onde o tempo e a ruína operam como matéria e método para compor um atlas imagético e teórico de múltiplas paisagens artificiais. A pesquisa parte da experiência subjetiva do caminhar urbano e se ancora na empiria delicada, conceito proposto por Walter Benjamin, para investigar como a paisagem, especialmente a da cidade de Belo Horizonte, registra e revela o desgaste como estética, memória e linguagem. Ao articular a ruína como devir e a matéria como campo simbólico, o trabalho propõe a corrosão como gesto artístico, instaurando um modo de criação em que o tempo age como coautor. A reflexão sobre o tempo como agente transformador é atravessada por autores como Emanuele Coccia, que entende a metamorfose como condição essencial da vida, e Milton Santos, que concebe a técnica como empiricização do tempo na produção do espaço. O uso de processos químicos e biológicos sobre chapas metálicas tensiona os limites entre controle técnico e ação imprevisível, inscrevendo no corpo da obra uma temporalidade viva e instável. Essa experimentação se aproxima das práticas de Anselm Kiefer e Tacita Dean, artistas que lidam com o tempo como elemento constituinte da imagem e da matéria, revelando a impermanência como potência estética. Entrelaçada a essas investigações, a memória familiar atua como fio condutor que atravessa e costura os diferentes materiais do trabalho. Fotografias de arquivo, sonhos e narrativas ancestrais emergem como vestígios que ultrapassam o plano individual, compondo uma arqueologia íntima e coletiva da imagem, em diálogo com a ideia de sobrevivência de Georges Didi-Huberman e com a noção de arquivo subjetivo presente na obra de Sophie Calle. O fotolivro, como dispositivo híbrido, torna-se espaço de inscrição do tempo doméstico e da história não oficial, em que o corpo e a casa se confundem como suportes de memória. A imagem fotográfica é compreendida como rastro, espectro e arquivo, atuando como campo de fricção entre visível e invisível, presença e ausência, realidade e imaginação. O caminhar pela cidade desafia estruturas individuais e torna o ser andante um amálgama de sensações. Uns atravessados pelo medo - ou pela coragem demandada no ato de estar presente -, outros pela curiosidade, a maior parte movida pela necessidade de deslocamento na metrópole. A participação no Núcleo Nômade de Fotografia insere a dimensão coletiva e performativa da caminhada como método de produção de sentido, reafirmando o corpo em trânsito como operador estético e político através da Pesquisa Baseada em Arte, evidenciando relações entre o corpo do artista e o corpo da cidade, a prática criativa em ateliê coletivo e a existência deste ateliê em um espaço museal institucional. A cidade, nesse contexto, é simultaneamente ruína e gesto, palco e arquivo, território e linguagem. Ao articular visualidade, escrita e matéria em constante metamorfose, esta pesquisa propõe um modo de fazer artístico ancorado na escuta, na fabulação e no gesto de demorar-se sobre o que tende a desaparecer.
Abstract
This dissertation is built as an artist's book — a montage of textual fragments, image notebooks, and bibliographic notes — where time and ruin operate as both material and method to compose an imagetic and theoretical atlas of multiple artificial landscapes. The research begins with the subjective experience of urban walking and is grounded in delicate empiricism, a concept proposed by Walter Benjamin, to investigate how the landscape, particularly that of the city of Belo Horizonte, registers and reveals wear as aesthetics, memory, and language. By articulating ruin as becoming and matter as symbolic field, the work proposes corrosion as an artistic gesture, establishing a creative process in which time acts as co-author. The reflection on time as a transformative agent is informed by authors such as Emanuele Coccia, who understands metamorphosis as a fundamental condition of life, and Milton Santos, who conceives technique as the empiricization of time in the production of space. The use of chemical and biological processes on metal plates challenges the boundaries between technical control and unpredictable action, inscribing in the body of the work a living and unstable temporality. This experimentation resonates with the practices of Anselm Kiefer and Tacita Dean, artists who engage time as a constitutive element of image and matter, revealing impermanence as aesthetic power. Intertwined with these investigations, family memory acts as a guiding thread that weaves together the various materials of the work. Archival photographs, dreams, and ancestral narratives emerge as traces that exceed the individual sphere, composing an intimate and collective archaeology of the image, in dialogue with Georges Didi-Huberman’s notion of survival and Sophie Calle’s idea of the subjective archive. The photobook, as a hybrid device, becomes a space for inscribing domestic time and unofficial history, in which the body and the home merge as memory supports. The photographic image is understood as trace, specter, and archive, functioning as a field of friction between visibility and invisibility, presence and absence, reality and imagination. Walking through the city challenges individual structures and turns the walking subject into an amalgam of sensations. Some are crossed by fear — or the courage required by the act of being present — others by curiosity, and most by the necessity of displacement in the metropolis. Participation in the Núcleo Nômade de Fotografia inserts the collective and performative dimension of walking as a method of meaning-making, reaffirming the body in transit as an aesthetic and political operator through Art-Based Research. This dynamic reveals relations between the artist’s body and the body of the city, the creative practice in a collective studio, and the presence of this studio within an institutional museum space. In this context, the city is simultaneously ruin and gesture, stage and archive, territory and language. By articulating visuality, writing, and matter in constant metamorphosis, this research proposes a mode of artistic practice grounded in listening, fabulation, and the gesture of lingering over what tends to disappear.
Assunto
Arte - Filosofia, Memória na arte, Tempo na arte, Imagem (Filosofia), Fotografia, Criação (Literária, artística, etc.), Livros de artistas
Palavras-chave
Ruína, Tempo, Cidade, Memória, Imagem, Arquivo, Corpo
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