Oficinas terapêuticas em grupo: intervenção fonoaudiológica em adultos que gaguejam
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Universidade Federal de Minas Gerais
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Dissertação de mestrado
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Resumo
A gagueira é reconhecida como um transtorno da fluência, caracterizado
principalmente por interrupções involuntárias na produção da fala, como repetições
de sons, sílabas, palavras e/ou parte de palavras, prolongamentos de sons e
bloqueios que interrompem o fluxo normal da comunicação verbal. Esses episódios
ocorrem de maneira involuntária e podem afetar significativamente a capacidade de
comunicação de um indivíduo em diferentes contextos sociais e profissionais. A
etiologia da gagueira é considerada multifatorial. Ou seja, sua origem pode estar
relacionada a uma combinação de fatores genéticos, neurológicos, emocionais e
ambientais. É sabido que há uma predisposição genética associada ao transtorno,
evidenciada pelo histórico familiar recorrente em muitos casos. Além disso, fatores
neurológicos relacionados ao funcionamento atípico de áreas cerebrais
responsáveis pela fala e linguagem também são apontados como possíveis
contribuintes. Aspectos ambientais e emocionais decorrentes da forma como os pais
interlocutores e a sociedade reagem aos episódios de gagueira na infância, também
podem influenciar a persistência ou agravamento do quadro. Frente à complexidade
da gagueira, diversas abordagens terapêuticas têm sido desenvolvidas e
aprimoradas ao longo do tempo. Os programas de intervenção mais eficazes
costumam integrar técnicas voltadas à modificação da gagueira e de modelagem da
fluência, com estratégias de enfrentamento, como o fortalecimento da autoestima e
da autoconfiança, além de aspectos que visam à dessensibilização. Tais
intervenções têm mostrado resultados promissores não apenas na melhora da
fluência, mas também na qualidade de vida dos indivíduos que gaguejam,
promovendo maior aceitação e inclusão social. O presente estudo teve como
principal objetivo analisar dados obtidos de protocolos de avaliação de adultos que
gaguejam antes e após sua participação em oficina terapêutica realizada em grupo e
modalidade on-line. Os objetivos específicos foram: analisar a associação entre os
aspectos da experiência subjetiva de gaguejar e a gravidade do transtorno, os
antecedentes familiares, os parâmetros objetivos de fluência e os sentimentos
autorrelatados pelos participantes; comparar a gravidade da gagueira e os
parâmetros da fluência antes e após a oficina terapêutica on-line; e comparar a
autopercepção da gagueira, da comunicação e da qualidade de vida dos falantes
que gaguejam, antes e após a participação nas intervenções fonoaudiológicas em
grupo. Métodos: Este estudo envolveu a coleta de dados de formulários
organizados on-line (Google Forms) e encontros realizados na plataforma Zoom,
permitindo o alcance de uma amostra ampla e geograficamente diversificada. A
amostra foi composta por adultos que se autodeclararam como pessoas que
gaguejam, recrutados por meio de divulgação em grupos de apoio voltados à
gagueira, redes sociais e outras plataformas digitais. A coleta de dados incluiu
informações sociodemográficas (como idade, gênero e estado civil), histórico familiar
de gagueira, e coleta de amostra de fala para realização de avaliações detalhadas
do perfil da fluência dos participantes. Para isso, foram utilizados instrumentos
validados, como o Protocolo de Avaliação do Perfil da Fluência (PAPF), o Stuttering
Severity Instrument – Fourth Edition (SSI-4) além do Overall Assessment of the
Speaker's Experience of Stuttering – Adult Version (OASES-A). Esses instrumentos
permitiram uma avaliação abrangente, tanto objetiva quanto subjetiva, da
experiência de gaguejar. Os dados obtidos foram analisados por meio de métodos
estatísticos descritivos e inferenciais, utilizando softwares específicos para garantir
rigor na análise dos resultados. A partir do estudo, foram gerados três manuscritos
científicos, cada um abordando aspectos distintos da gagueira e dos efeitos das
intervenções terapêuticas. Resultados: O primeiro manuscrito contou com a
participação de 49 indivíduos. Nele, foi analisada a associação entre os aspectos
subjetivos da experiência de gaguejar e variáveis como a gravidade da gagueira, a
presença de antecedentes familiares, os parâmetros objetivos de fluência e os
sentimentos autorrelatados pelos participantes. Os achados deste manuscrito
indicaram associações estatisticamente significativas entre o impacto da gagueira na
vida do indivíduo e sua autopercepção como comunicador. Especificamente,
identificou-se que quanto maior o impacto percebido da gagueira, maior a tendência
de o indivíduo se sentir inferior como falante, inseguro em situações de fala e
apresentar um número elevado de disfluências comuns, bem como menor taxa de
elocução medida em palavras por minuto. Tais resultados reforçam a importância de
considerar os aspectos emocionais da gagueira nas abordagens terapêuticas. O
segundo manuscrito teve a participação de 52 indivíduos e teve como foco a
comparação da gravidade da gagueira e dos parâmetros de fluência antes e após a
realização de oficina terapêutica online em grupo, além da descrição das atividades
realizadas na oficina. Para a avaliação da gravidade foi utilizado o SSI-4, além de
outros parâmetros de fluência, como número de bloqueios, repetições,
prolongamentos e naturalidade da fala. Embora não tenha sido observada diferença
estatisticamente significativa na classificação geral da gravidade da gagueira entre o
momento anterior e posterior à participação na oficina, observou-se melhora em
aspectos específicos da fluência, como a redução na ocorrência de bloqueios e um
aumento na naturalidade da fala. Isso sugere que, mesmo que a gravidade global da
gagueira não tenha se alterado de maneira marcante em um curto período, as
oficinas terapêuticas foram eficazes em promover ganhos objetivos na fluência dos
participantes. O terceiro manuscrito contou com a participação de 35 indivíduos e
teve como objetivo comparar a autopercepção da gagueira, da comunicação e da
qualidade de vida antes e após a intervenção fonoaudiológica realizada em grupo.
Os dados analisados demonstraram uma significativa redução no impacto percebido
da gagueira após a participação nas oficinas, assim como uma melhoria substancial
na qualidade de vida. Um dado especialmente relevante foi que a maioria dos
participantes, que inicialmente se classificou como tendo um impacto moderado a
severo da gagueira em suas vidas, foi reclassificada como apresentando impacto
leve a moderado após a intervenção. Conclusão: A partir dos resultados obtidos
nos três manuscritos, pode-se concluir que os achados do presente estudo
contribuem para a ampliação da compreensão sobre as dificuldades enfrentadas por
adultos que gaguejam. Os dados evidenciam a importância de abordagens
terapêuticas que não se restrinjam ao tratamento da fluência em si, mas que
também levem em consideração os efeitos emocionais, sociais e subjetivos da
gagueira na vida dos indivíduos. A experiência do próprio falante deve ocupar um
lugar central nas análises e nas decisões clínicas, uma vez que é a partir dessa
vivência que se pode compreender como a gagueira interfere na funcionalidade
cotidiana, no bem-estar emocional e na participação social. Nesse sentido,
destaca-se a relevância de incorporar a perspectiva da pessoa que gagueja não
apenas nas práticas clínicas fonoaudiológicas, mas também nas pesquisas
científicas futuras. Isso permite o desenvolvimento de intervenções mais eficazes,
sensíveis às necessidades individuais e personalizadas, respeitando a diversidade
de experiências vividas pelos falantes. Intervenções em grupo, realizadas de forma
online, como as descritas neste estudo, mostram-se especialmente promissoras por
promoverem um ambiente de acolhimento, troca de experiências e redução do
isolamento. Em síntese, este estudo reforça o papel fundamental da fonoaudiologia
na promoção da fluência, mas, sobretudo, na melhoria da qualidade de vida de
indivíduos que gaguejam. A atuação fonoaudiológica deve enfatizar estratégias que
favoreçam a inclusão social, o fortalecimento da identidade do falante e a aceitação
da gagueira como uma característica da diversidade comunicativa humana. Essas
ações são fundamentais para que os falantes possam se expressar com mais
liberdade, segurança e autenticidade em todos os contextos de suas vidas
Abstract
Stuttering is recognized as a fluency disorder primarily characterized by involuntary
speech disruptions, such as repetitions of sounds, syllables, words and/or parts of
words, sound prolongations, and blocks that interrupt the normal flow of verbal
communication. These episodes occur involuntarily and can significantly affect an
individual's ability to communicate in various social and professional contexts. The
etiology of stuttering is considered multifactorial, involving a combination of genetic,
neurological, emotional, and environmental factors. There is a known genetic
predisposition associated with the disorder, as evidenced by recurring family history in
many cases. Additionally, neurological factors, such as atypical functioning of brain
regions responsible for speech and language, are also cited as possible contributors.
Environmental and emotional aspects, especially those stemming from how parents,
interlocutors, and society respond to stuttering episodes in childhood, may influence
the persistence or worsening of the condition. Given the complexity of stuttering,
various therapeutic approaches have been developed and refined over time. The most
effective intervention programs tend to integrate techniques aimed at modifying
stuttering and shaping fluency, along with coping strategies such as boosting selfesteem and self-confidence, and promoting desensitization. These interventions have
shown promising results not only in improving fluency but also in enhancing the quality
of life of individuals who stutter, encouraging greater acceptance and social inclusion.
The main objective of this study was to analyze data obtained from assessment
protocols applied to adults who stutter before and after participating in a therapeutic
workshop conducted in an online group format. Specific objectives included: Analyzing
the association between aspects of the subjective experience of stuttering and the
severity of the disorder, investigating family history, objective fluency parameters, and
self-reported participant feelings, Comparing stuttering severity and fluency
parameters pre- and post-online therapeutic workshop, Comparing self-perception of
stuttering, communication, and quality of life before and after group speech-language
therapy interventions. Methods: Data collection was carried out via online forms
(Google Forms) and meetings hosted on the Zoom platform, allowing access to a broad
and geographically diverse sample. Participants were self-declared adults who stutter,
recruited through outreach in support groups, social networks, and other digital
platforms. Collected data included sociodemographic information (such as age,
gender, and marital status), family history of stuttering, and speech samples for
detailed fluency profile assessment. Validated instruments were used, including the
Speech Fluency Profile Assessment Protocol (PAPF), the Stuttering Severity
Instrument – Fourth Edition (SSI-4), and the Overall Assessment of the Speaker’s
Experience of Stuttering – Adult Version (OASES-A). These tools enabled both
objective and subjective evaluations of the stuttering experience. Data were analyzed
using descriptive and inferential statistical methods, with specialized software ensuring
rigor in result interpretation. Three scientific manuscripts emerged from the study, each
addressing distinct aspects of stuttering and therapeutic intervention outcomes.
Results: The first manuscript included 49 participants and examined associations
between the subjective experience of stuttering and variables such as stuttering
severity, family history, objective fluency parameters, and self-reported feelings.
Statistically significant associations were found between the impact of stuttering on
individuals' lives and their self-perception as communicators. Specifically, greater
perceived impact correlated with feelings of inferiority as a speaker, insecurity in
speaking situations, a high number of common disfluencies, and lower fluency
measured in words per minute. These results underscore the importance of emotional
aspects in therapeutic approaches. The second manuscript, involving 52 participants,
focused on comparing stuttering severity and fluency parameters before and after an
online group therapeutic workshop, along with activity descriptions. Assessment
involved SSI-4 and additional fluency parameters such as number of blocks,
repetitions, prolongations, and speech naturalness. Although no statistically significant
change was found in the overall classification of stuttering severity post-workshop,
improvements were noted in specific fluency aspects—namely a reduction in blocks
and increased naturalness of speech. This suggests that while overall severity may not
shift dramatically in a short timeframe, such workshops can effectively foster
measurable gains in fluency. The third manuscript, with 35 participants, aimed to
compare self-perception of stuttering, communication, and quality of life before and
after group speech-language therapy interventions. Data showed a significant
reduction in the perceived impact of stuttering and a substantial improvement in quality
of life. A particularly noteworthy finding was that most participants initially classified
their condition as having a moderate to severe impact, but post-intervention, they were
reclassified as experiencing mild to moderate impact. Conclusion: The findings from
these three manuscripts contribute to a deeper understanding of the challenges faced
by adults who stutter. The data highlight the importance of therapeutic approaches that
extend beyond fluency improvement, encompassing emotional, social, and subjective
dimensions of the stuttering experience. The speaker’s own experience must occupy
a central role in clinical analyses and decisions, as it provides critical insight into how
stuttering affects everyday functionality, emotional well-being, and social participation.
The study emphasizes the relevance of incorporating the perspective of people who
stutter not only in clinical speech-language practices but also in future research. This
fosters the development of more effective, individually responsive, and personalized
interventions, respecting the diversity of speaker experiences. Group interventions
conducted online, as described in this study, are especially promising, as they create
welcoming environments, encourage sharing, and reduce isolation. In summary, this
study reinforces the essential role of speech-language pathology in promoting fluency
and—most importantly—in improving the quality of life for individuals who stutter.
Therapeutic efforts should prioritize strategies that foster social inclusion, strengthen
speaker identity, and embrace stuttering as part of the spectrum of human
communicative diversity. These actions are fundamental for enabling speakers to
express themselves with greater freedom, confidence, and authenticity across all
areas of life.
Assunto
Gagueira, Qualidade de Vida, Fala, Transtorno Fonológico, Transtorno da Fluência com Início na Infância, Autoimagem, Reabilitação dos Transtornos da Fala e da Linguagem., Fonoterapia, Dissertação Acadêmica
Palavras-chave
Transtorno da fluência com início na infância, Gagueira, Autopercepção, Estudos de linguagem, Reabilitação dos transtornos da fala e da linguagem, Fonoterapia
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