Da dissolução ontológica do problema da dominação social
Carregando...
Data
Autor(es)
Título da Revista
ISSN da Revista
Título de Volume
Editor
Universidade Federal de Minas Gerais
Descrição
Tipo
Tese de doutorado
Título alternativo
On the ontological dissolution of the problem of social domination
De la dissolution ontologique du problème de la domination sociale
De la dissolution ontologique du problème de la domination sociale
Primeiro orientador
Membros da banca
Gilson de Paulo Moreira Iannini
Giovanni Zanotti
Luiz Philipe Rolla De Caux
Thiago Aguiar Simim
Giovanni Zanotti
Luiz Philipe Rolla De Caux
Thiago Aguiar Simim
Resumo
A tese examina o que se chama aqui de processo de dissolução ontológica do problema da dominação social no âmbito da teoria crítica da sociedade. Para tanto, ela parte da constatação de que, na passagem do século XX para o XXI, ocorreu uma transformação no modo como ele é concebido: de situação histórica e social a ser superada politicamente, a dominação passou a ser entendida como “inscrita no nível do ser”. Sugere-se que o cerne dessa dissolução pode ser rastreado a partir do privilégio recente concedido à noção de "poder" pela crítica social. O objetivo, portanto, é analisar os pressupostos e as consequências dessa dissolução a partir do
exame de um programa teórico que considera uma definição adequada de "poder" como requisito indispensável para a crítica social. Esse programa é formulado por três autores ligados de algum modo à tradição (Amy Allen, Rainer Forst e Martin Saar), tendo por base uma crítica a Axel Honneth. A insatisfação com a tematização insuficiente dos mecanismos de poder por parte de Honneth levará esses autores a uma aproximação com o pensamento de Michel Foucault e Judith Butler. Argumenta-se que esse programa incorpora necessariamente aquilo que se chama aqui de os "dois dogmas" da teoria do poder formulada por Foucault: 1) o poder apenas se aplica sobre a liberdade; 2) o poder produz o real. Juntos, esses princípios sustentam que não há oposição entre poder e liberdade, mas um vínculo necessário que estrutura toda relação social possível. A partir daí, metodologicamente, o argumento se desenvolve como uma crítica imanente da ontologia. O procedimento adotado segue o esquema clássico da reductio ad absurdum: as premissas são levadas até o ponto em que suas consequências se tornam insustentáveis. Os dois dogmas da teoria do poder levam à concepção da liberdade como transformação da ontologia e, correlativamente, da dominação como mera ilusão de fixação dessa ontologia. Os limites dessa concepção são evidenciados pela introdução da hipótese da "jaula de ferro da ontologia": admitindo-se que a ontologia seja construída política e normativamente, a liberdade poderia ainda assim ser eliminada caso a ontologia encontrasse um fechamento a posteriori fundado em "compromissos irrevogáveis". A plausibilidade dessa situação reside nas "restrições objetivas" impostas por um artefato técnico particular: as armas nucleares. Sustenta-se que a mera existência desses artefatos é suficiente para determinar
unilateralmente a normatividade social como um todo independentemente de consenso, intencionalidade e legitimidade em razão da sua natureza técnica. A consequência é a de que a teoria do poder precisa ser abandonada. Paralelamente, sugere-se que a "ordem nuclear" poderia ser tomada como a “infraestrutura” material da condição "pós-liberatória" da crítica na qual o próprio programa que visa uma definição adequada de "poder" se inscreve. Ou seja: a dissolução ontológica do problema da dominação social poderia ser interpretada como sintoma da indisponibilidade da ontologia. Por fim, a tese sugere a necessidade de recolocar a questão da possibilidade da liberdade em termos plenamente históricos e políticos, como algo que deve ser remetida à experiência, e não como dado ontológico assumido a priori. Nessa linha, reformula a relação entre técnica, normatividade e liberdade, e fornece uma interpretação das armas nucleares como "objetos absolutamente negativos", isto é, objetos dos quais nenhum "excedente" pode ser extraído e cujo modo de existência encontra-se em relação de negação direta para com a humanidade.
Abstract
This work examines what is called here the process of ontological dissolution of the problem of social domination in the context of the critical theory of society. To this end, it starts from the observation that, at the turn of the 20th to the 21st century, there has been a transformation in the way it is conceived: from being a historical and social situation to be overcome politically, domination has come to be understood as "inscribed at the level of being". It is suggested that the core of this dissolution can be traced back to the recent privilege granted to the notion of "power" by social criticism. The aim, therefore, is to analyze the presuppositions and consequences of this dissolution by examining a theoretical program that considers an adequate definition of "power" as an indispensable requirement for social criticism. This program is formulated by three authors linked in some way to the tradition (Amy Allen, Rainer Forst and
Martin Saar), based on a critique of Axel Honneth. A dissatisfaction with Honneth's insufficient thematization of the mechanisms of power will lead these authors to a rapprochement with the thought of Michel Foucault and Judith Butler. It is argued that this program necessarily incorporates what is referred to here as the "two dogmas" of Foucault's theory of power: 1) power only applies to freedom; 2) power produces the real. Together, these principles maintain that there is no opposition between power and freedom, but a necessary link that structures every possible social relationship. From there, methodologically, the argument develops as an
immanent critique of ontology. The procedure adopted follows the classic scheme of reductio ad absurdum: the premises are taken to the point where their consequences become untenable. The two dogmas of the theory of power lead to the conception of freedom as a transformation of ontology and, correlatively, of domination as a mere illusion of the fixation of this ontology. The limits of this conception are highlighted by the introduction of the hypothesis of the "iron cage of ontology": assuming that ontology is politically and normatively constructed, freedom could still be eliminated if ontology found an a posteriori closure based on "irrevocable commitments". The plausibility of this situation lies in the "objective restrictions" imposed by a particular technical artifact: nuclear weapons. It is argued that the mere existence of these artifacts is enough to unilaterally determine social normativity as a whole, regardless of consensus, intentionality and legitimacy due to their technical nature. The consequence is that the theory of power needs to be abandoned. At the same time, it is suggested that the "nuclear order" could be taken as the material "infrastructure" of the "post-liberatory" condition of
critique in which the very program aimed at an adequate definition of "power" is inscribed. In other words: the ontological dissolution of the problem of social domination could be interpreted as a symptom of the unavailability of ontology. Finally, the thesis suggests the need to reposition the question of the possibility of freedom in fully historical and political terms, as something that must be referred to experience, and not as an ontological given assumed a priori. Along these lines, it reformulates the relationship between technique, normativity and freedom, and provides an interpretation of nuclear weapons as "absolutely negative objects", that is, objects from which no "surplus" can be extracted and whose mode of existence is in a relationship of direct negation towards humanity.
Assunto
Filosofia - Teses, Poder (Filosofia) - Teses, Teoria crítica - Teses, Ontologia - Teses
Palavras-chave
Dominação Social, Poder, Liberdade, Ontologia, Teoria Crítica da Sociedade, Escola de Frankfurt