Evidências de validade do formulário de avaliação da competência da pessoa com estomia para o autocuidado (COPE -AC): subsídios para gestão do cuidado

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Universidade Federal de Minas Gerais

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 “O Formulário de Avaliação da Competência para o Autocuidado da Pessoa com Ostomia (CAO-EI:ESEP), originalmente desenvolvido em Portugal, foi adaptado e apresentou evidências de validade baseadas na estrutura interna e nas relações com outras variáveis e medidas”.  “O CAO-EI:ESEP foi amplamente reestruturado, resultando no desenvolvimento do Formulário de Avaliação da Competência da Pessoa com Estomia para o Autocuidado (COPE-AC)”.  “Os escores normatizados e os níveis de classificação desenvolvidos representam um avanço para a prática e ampliam a aplicabilidade do COPE-Ac o processo de trabalho em enfermagem”.  “O COPE -AC é inovação tecnológica no contexto da Atenção à Saúde da Pessoa com Estomia e oferta subsídios para o processo de enfermagem e gestão do cuidado”.  “A competência para o autocuidado apresentou nível intermediário, revelando fragilidades importantes, especialmente na dimensão das habilidades”.  “Variáveis ainda não exploradas em outros estudos mostraram associação com a competência para o autocuidado, articulando-se com metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”.  “A relação entre qualidade de vida e competência para o autocuidado mostrou convergência, embora limitada, e não deve ser interpretada como equivalência ou como relação preditiva direta”.

Tipo

Tese de doutorado

Título alternativo

Primeiro orientador

Membros da banca

Cristiane Helena Gallasch
Isabel Cristina Ramos Vieira Santos
Juliano Teixeira Moraes
Isabelle Katherinne Fernandes Costa

Resumo

Introdução: O Brasil assumiu compromissos alinhados às agendas globais voltadas à construção de sociedades mais justas e sustentáveis, especialmente por meio dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, com ênfase na redução das desigualdades e na promoção do bem-estar de populações vulneráveis. Pessoas com estomia foram reconhecidas como pessoas com deficiência e integraram esse grupo, enfrentando desafios contínuos no manejo da estomia, na prevenção de complicações e na reabilitação. O fortalecimento do autocuidado, entendido como a capacidade de tomar decisões responsáveis e autônomas sobre a própria saúde, constituiu elemento fundamental para a melhoria dos desfechos em saúde. Entretanto, diferentemente do observado em países como Portugal, Espanha e Itália, o Brasil ainda carece de instrumentos de medida com evidências de validade que possibilitem avaliar a competência dessas pessoas para o autocuidado. Essa limitação compromete a personalização das intervenções, resulta na elaboração de planos assistenciais genéricos e contribui para um processo de enfermagem fragmentado, além de dificultar a gestão do cuidado ao fragilizar a definição de prioridades, a organização das ações e o monitoramento sistemático das necessidades dessas pessoas. Objetivo: Avaliar evidências de validade da versão adaptada do “Formulário de Avaliação da Competência para o Autocuidado da Pessoa com Ostomia” (CAO:EI-ESEP), baseadas na estrutura interna e nas relações com outras variáveis. Materiais e métodos: Estudo psicométrico fundamentado nas recomendações dos Standards for Educational and Psychological Testing, com investigação de evidências de validade baseadas na estrutura interna e nas relações com outras variáveis, realizado em sete Serviços de Atenção à Saúde da Pessoa Ostomizada (Saspo) de Minas Gerais. A amostragem foi não probabilística, por conveniência. A coleta de dados ocorreu entre maio e outubro de 2024, com 591 participantes, conduzida por nove enfermeiras atuantes nos Saspo. Utilizou-se a versão adaptada do CAO:EI-ESEP e o City of Hope Quality of Life – Ostomy Questionnaire, sendo os dados analisados por estatística descritiva (frequências, porcentagens e medidas de dispersão). Posteriormente, procederam-se à análise fatorial exploratória e confirmatória e à normatização dos escores. As associações com variáveis independentes foram testadas pelos testes de Mann-Whitney e Kruskal-Wallis, e as correlações entre os escores de competência para o autocuidado e os de qualidade de vida foram analisadas pelo teste de Spearman. Em todos os testes, o tamanho do efeito foi estimado e a significância estatística considerada para p < 0,05. As análises foram realizadas utilizando os softwares JASP e Factor. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, sob o parecer nº 6.912.595, e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Resultados: A amostra apresentou mediana de 62 anos e escolaridade mediana de 7 anos; 54,5% eram homens e 70,2% estavam em reavaliação. Predominaram colostomias esquerdas (54,1%), temporárias (66,2%), sem demarcação prévia (85,3%) e com etiologia oncológica (63,1%). Complicações foram observadas em 59,4% dos participantes, sobretudo dermatite periestomia (41,1%). A análise fatorial exploratória revelou modelo bidimensional com 23 itens, explicando 69,47% da variância (KMO = 0,95; Bartlett χ² = 4572,6; p < 0,001). As cargas fatoriais variaram de 0,52 a 0,96, com consistência interna elevada (α = 0,95; ω = 0,96; G-H = 0,98 e 0,93). A análise confirmatória ratificou o modelo de segunda ordem com ajuste excelente (CFI = 0,98; TLI = 0,98; NFI = 0,97; GFI = 0,99; RMSEA = 0,09). A normatização definiu três níveis de competência (baixa, intermediária e alta), confirmados pela análise discriminante (λ = 0,195–0,305; p < 0,001; correlações canônicas = 0,775–0,939). Diante de todas as modificações, a nova versão passou a ser denominada como Formulário de Avaliação do Nível de Competência da Pessoa com Estomia para o Autocuidado (COPE-Ac). O nível de competência global dos participantes foi intermediário (41,3%), com melhor desempenho na dimensão dos conhecimentos. Entre as variáveis independentes, observaram-se associações significativas com a localização anatômica da estomia (p < 0,001), fechamento do equipamento coletor (p < 0,01), estado civil (p < 0,01), situação profissional (p < 0,01), temporalidade da estomia (p < 0,001) e demarcação pré-operatória (p = 0,02). Maiores escores de competência foram observados em estomias localizadas nos quadrantes inferiores (p < 0,001), estomias definitivas (p < 0,001), uso de conector plástico (p < 0,01), participantes com demarcação pré-operatória (p = 0,02), empregados formais (p < 0,01) e solteiros (p < 0,01). Associações positivas também ocorreram entre a competência e a avaliação por estomaterapeuta (p < 0,001), consultas de reavaliação (p < 0,001) e presença de cuidador (p < 0,001), com efeitos moderados a grandes. Efeitos menores foram observados para escolaridade (p < 0,05) e contato prévio com pessoas com estomia (p < 0,01). Entre as complicações, apenas o deslocamento mucocutâneo apresentou associação significativa (p < 0,01), enquanto o uso de película barreira correlacionou-se negativamente (p ≤ 0,05). Na validade convergente, identificaram-se correlações positivas entre a competência para o autocuidado e os domínios de bem-estar psicológico (p < 0,001), bem-estar social (p ≤ 0,01) e bem-estar espiritual (p ≤ 0,03), sem associação significativa com o bem-estar físico (p > 0,05). Implicações: Na assistência, o uso do COPE-Ac fundamenta o processo de enfermagem ao orientar diagnósticos, metas e intervenções individualizadas, adequando o acompanhamento ao grau de autonomia da pessoa e otimizando o uso de recursos; na gestão, subsidia a tomada de decisões e o planejamento de equipes, possibilitando a criação de indicadores e o dimensionamento de pessoal conforme a complexidade dos casos; no ensino, contribui para o aprimoramento do raciocínio clínico e para a articulação entre teoria e prática, qualificando a formação voltada ao cuidado da pessoa com estomia; na pesquisa, oferece base comparativa para identificar lacunas persistentes e compreender fatores que influenciam o autocuidado e a qualidade de vida; e, nas políticas públicas, favorece a integração entre os níveis de atenção, a capacitação profissional, a alocação de recursos e a organização dos serviços especializados. Conclusão: Evidenciou-se que o COPE-Ac apresenta evidências de validade que sustentam seu uso para mensurar a competência para o autocuidado de pessoas com estomia de eliminação intestinal. Constatou-se que a maioria das pessoas avaliadas apresenta competência intermediária, com lacunas relevantes no desenvolvimento das habilidades necessárias ao cuidado seguro. Verificou-se que variáveis sociodemográficas e clínicas influenciam os níveis de competência e que há correlação positiva entre competência e qualidade de vida, restrita a domínios específicos. Os resultados demonstram que o COPE-Ac qualifica o processo de enfermagem, favorece a autonomia da pessoa com estomia e oferece subsídios relevantes para a organização e a gestão do cuidado especializado.

Abstract

Introduction: Brazil undertook commitments aligned with global agendas aimed at building fairer and more sustainable societies, particularly through the Sustainable Development Goals, with emphasis on reducing inequalities and promoting the well-being of vulnerable populations. People with ostomy were recognized as persons with disabilities and became part of this group, facing ongoing challenges in ostomy management, complication prevention, and rehabilitation. Strengthening self-care, understood as the ability to make responsible and autonomous decisions regarding one’s own health, constituted a fundamental element for improving health outcomes. However, unlike countries such as Portugal, Spain, and Italy, Brazil still lacked measurement instruments with validity evidence capable of assessing these individuals’ competence for self-care. This limitation compromised the personalization of interventions, resulted in generic care plans, contributed to a fragmented nursing process, and hindered care management by weakening priority setting, action organization, and systematic monitoring of needs. Objective: To assess validity evidence of the adapted version of the CAO:EI-ESEP based on internal structure and relationships with other variables. Materials and Methods: A psychometric study grounded in the Standards for Educational and Psychological Testing was conducted, investigating validity evidence based on internal structure and relationships with other variables. The study took place in seven Health Care Services for People with Ostomy (Saspo) in the state of Minas Gerais, Brazil. A non-probabilistic convenience sampling strategy was used. Data collection occurred between May and October 2024 and included 591 participants, carried out by nine nurses working in the SASPO services. The adapted CAO:EI-ESEP and the City of Hope Quality of Life–Ostomy Questionnaire were administered. Data were analyzed using descriptive statistics (frequencies, percentages, and measures of dispersion). Subsequently, exploratory and confirmatory factor analyses and score standardization were performed. Associations with independent variables were tested using the Mann–Whitney and Kruskal–Wallis tests, and correlations between self-care competence scores and quality-of-life scores were analyzed using Spearman’s correlation. Effect sizes were estimated for all tests, and statistical significance was set at p < 0.05. Analyses were conducted using JASP and Factor software. The study was approved by the Research Ethics Committee of the Federal University of Minas Gerais (approval no. 6,912,595), and all participants provided written informed consent. Results: The sample had a median age of 62 years and a median schooling of seven years; 54.5% were men and 70.2% were undergoing reassessment. Left-sided colostomies (54.1%), temporary ostomies (66.2%), absence of preoperative marking (85.3%), and oncological etiology (63.1%) predominated. Complications were observed in 59.4% of participants, mainly peristomal dermatitis (41.1%). Exploratory factor analysis identified a two-dimensional model with 23 items, explaining 69.47% of the variance (KMO = 0.95; Bartlett’s χ² = 4572.6; p < 0.001). Factor loadings ranged from 0.52 to 0.96, with high internal consistency (α = 0.95; ω = 0.96; G-H = 0.98 and 0.93). Confirmatory analysis corroborated a second-order model with excellent fit (CFI = 0.98; TLI = 0.98; NFI = 0.97; GFI = 0.99; RMSEA = 0.09). Score standardization defined three competence levels (low, intermediate, and high), confirmed by discriminant analysis (λ = 0.195–0.305; p < 0.001; canonical correlations = 0.775–0.939). In light of these modifications, the new version was named the Assessment Form for the Level of Competence of the Person with Ostomy for Self-Care (COPE-Ac). Overall competence was predominantly intermediate (41.3%), with better performance in the knowledge dimension. Significant associations were found with anatomical ostomy location (p < 0.001), pouch closure system (p < 0.01), marital status (p < 0.01), employment status (p < 0.01), ostomy temporality (p < 0.001), and preoperative marking (p = 0.02). Higher competence scores were observed among ostomies located in lower abdominal quadrants (p < 0.001), definitive ostomies (p < 0.001), use of plastic connectors (p < 0.01), participants with preoperative marking (p = 0.02), formally employed individuals (p < 0.01), and single participants (p < 0.01). Positive associations were also found with evaluation by an enterostomal therapy nurse (p < 0.001), reassessment visits (p < 0.001), and presence of a caregiver (p < 0.001), with moderate to large effects. Smaller effects were observed for schooling (p < 0.05) and previous contact with people with ostomy (p < 0.01). Among complications, only mucocutaneous separation showed a significant association (p < 0.01), while barrier film use showed a negative correlation (p ≤ 0.05). Regarding convergent validity, positive correlations were identified between self-care competence and psychological (p < 0.001), social (p ≤ 0.01), and spiritual well-being (p ≤ 0.03), with no significant association with physical well-being (p > 0.05). Implications: In clinical practice, use of the COPE-Ac supports the nursing process by guiding diagnoses, goals, and individualized interventions, aligning follow-up with the person’s level of autonomy and optimizing resource use. In management, it supports decision-making and workforce planning, enabling indicator development and staffing according to case complexity. In education, it enhances clinical reasoning and strengthens integration between theory and practice, improving training focused on the care of people with ostomy. In research, it provides a comparative basis to identify persistent gaps and to understand factors influencing self-care and quality of life. In public policy, it promotes integration across levels of care, professional training, resource allocation, and organization of specialized services. Conclusion: The COPE-Ac demonstrated validity evidence supporting its use to measure self-care competence in people with intestinal elimination ostomy. Most individuals exhibited intermediate competence, with relevant gaps in the development of skills required for safe care. Sociodemographic and clinical variables influenced competence levels, and positive correlations were found between competence and quality of life in specific domains. The findings indicate that the COPE-Ac enhances the nursing process, supports autonomy of people with ostomy, and provides relevant input for the organization and management of specialized care.

Assunto

Autocuidado, Avaliação em Saúde, Enfermagem, Estomia, Estudo de Validação, Dissertação Acadêmica

Palavras-chave

Autocuidado, Avaliação em saúde, Enfermagem, Estomia, Estudo de validação

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