Da mesa ao território: o papel da família e da gestão pública nas dificuldades alimentares e nas necessidades alimentares especiais em escolares

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Universidade Federal de Minas Gerais

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Dissertação de mestrado

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Carlos Podalirio Borges de Almeida
Raquel Braz Assunção Botelho
Nathalia Sernizon Guimarães

Resumo

INTRODUÇÃO: A alimentação na infância é determinante para o crescimento, o desenvolvimento biopsicossocial e a saúde, especialmente nos anos escolares, quando se consolidam práticas e preferências alimentares. Nesse contexto, ganham relevância as Necessidades Alimentares Especiais (NAE), que exigem adaptações no cardápio e na organização do cuidado, incluindo alergias, intolerâncias, prescrições dietéticas específicas e dificuldades alimentares (DA). A literatura aponta prevalências elevadas de DA em crianças neurotípicas e neurodivergentes. No Brasil, a resposta institucional organiza-se nas políticas de Segurança Alimentar e Nutricional e no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), mas persistem lacunas no uso de registros administrativos para caracterizar o perfil das NAE em redes públicas, o que dificulta o planejamento intersetorial e a qualificação das respostas entre família, escola e rede de saúde. OBJETIVO: Investigar a influência da família e o panorama das dificuldades alimentares em escolares neurotípicas e neurodivergentes da rede pública municipal de ensino de Belo Horizonte. MÉTODOS: (1) revisão integrativa nas bases Embase, Scopus e PubMed, com descritores sobre dificuldades alimentares, relações familiares e faixa etária, incluindo ensaios clínicos randomizados com pais/cuidadores de crianças de 2 a 10 anos, avaliando intervenções de estilo de vida ou psicológicas; (2) estudo ecológico de série temporal com 1.967 laudos de NAE da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte (2014–2023). Utilizaram-se dados secundários provenientes de laudos médicos arquivados nas escolas, fornecidos pela Secretaria Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional. As variáveis incluíram ano, sexo, idade, localização da escola e tipo de restrição alimentar. Foram aplicadas estatística descritiva e regressão de Prais-Winsten. RESULTADOS: Na revisão integrativa composta por 11 estudos, identificou-se que as intervenções baseadas em análise de comportamento, combinadas a educação alimentar, manejo sensorial e treino parental, foram predominantes e mostraram efeito favorável sobre as DA como o aumento da aceitação de hortaliças, melhora dos escores de avaliação de instrumentos e redução de transtorno alimentar restritivo evitativo (TARE), sobretudo quando centradas na família. Na análise da tendência temporal, observou-se tendência crescente e estatisticamente significativa dos laudos de alergia alimentar, de intolerância à lactose e de seletividade entre 2014 e 2023. As NAE foram mais frequentes em meninos, em regiões com maior vulnerabilidade social e entre crianças que realizavam todas as refeições na escola (54,6%). Verificou-se ainda um percentual expressivo de laudos sem especificação clara do tipo de NAE, evidenciando limitações nos registros administrativos e desafios adicionais para o planejamento do PNAE em contexto de forte dependência da alimentação escolar. A resposta exige intervenções familiares e interdisciplinares, qualificação dos registros e da comunicação saúde–educação, fortalecimento do PNAE e pesquisas longitudinais e culturalmente adaptadas em países de baixa e média renda. CONCLUSÃO: Intervenções centradas na família mostram eficácia para melhorar o comportamento alimentar infantil, embora a evidência ainda seja limitada, demandando ECRs longitudinais, instrumentos padronizados e estratégias específicas para subpopulações clínicas. Em Belo Horizonte, cresceram alergias, intolerância à lactose e seletividade em áreas vulneráveis, exigindo fortalecimento do PNAE/EAN, triagem padronizada, cuidado interdisciplinar, apoio parental, capacitação de profissionais, educação em saúde a cuidadores e coordenação intersetorial para garantir maior equidade social.

Abstract

INTRODUCTION: Nutrition in childhood is crucial for growth, biopsychosocial development, and health, especially during the school years, when eating habits and preferences are established. In this context, Special Dietary Needs (SDN) become relevant, requiring adaptations in the menu and care organization, including allergies, intolerances, specific dietary prescriptions, and eating difficulties (ED). The literature points to high prevalences of ED in neurotypical and neurodivergent children. In Brazil, the institutional response is organized in Food and Nutritional Security policies and in the National School Feeding Program (PNAE), but gaps persist in the use of administrative records to characterize the profile of SFN in public networks, which hinders intersectoral planning and the qualification of responses between family, school, and health network. OBJECTIVE: To investigate the influence of the family and the panorama of eating difficulties in neurotypical and neurodivergent schoolchildren in the municipal public school system of Belo Horizonte. METHODS: (1) integrative review in the Embase, Scopus, and PubMed databases, with descriptors on eating difficulties, family relationships, and age group, including randomized clinical trials with parents/caregivers of children aged 2 to 10 years, evaluating lifestyle or psychological interventions; (2) ecological time series study with 1,967 NAE reports from the Belo Horizonte Municipal Education Secretariat (2014–2023). Secondary data from medical reports filed in schools, provided by the Municipal Secretariat for Food and Nutritional Security, were used. Variables included year, gender, age, school location, and type of dietary restriction. Descriptive statistics and Prais-Winsten regression were applied. RESULTS: In the integrative review comprising 11 studies, it was found that interventions based on behavior analysis, combined with food education, sensory management, and parental training, were predominant and showed a favorable effect on FAs, such as increased acceptance of vegetables, improved instrument assessment scores, and reduced avoidant restrictive food intake disorder (ARFID), especially when family-centered. In the analysis of the temporal trend, a statistically significant upward trend was observed in reports of food allergies, lactose intolerance, and selectivity between 2014 and 2023. NAEs were more frequent in boys, in regions with greater social vulnerability, and among children who ate all their meals at school (54.6%). There was also a significant percentage of reports without clear specification of the type of NAE, highlighting limitations in administrative records and additional challenges for PNAE planning in a context of strong dependence on school meals. The response requires family and interdisciplinary interventions, improved records and health-education communication, strengthening of the PNAE, and longitudinal and culturally adapted research in low- and middle-income countries. CONCLUSION: Family-centered interventions have been shown to be effective in improving children's eating behavior, although evidence is still limited, requiring longitudinal RCTs, standardized instruments, and specific strategies for clinical subpopulations. In Belo Horizonte, allergies, lactose intolerance, and selectivity have increased in vulnerable areas, requiring strengthening of the PNAE/EAN, standardized screening, interdisciplinary care, parental support, professional training, health education for caregivers, and intersectoral coordination to ensure greater social equity.

Assunto

Comportamento Alimentar, Abastecimento de Alimentos, Serviços de Alimentação, Preferências Alimentares, Promoção da Saúde, Refeições, Cuidadores, Intolerância à Lactose, Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo, Educação em Saúde, Política Nutricional, Estilo de Vida, Hipersensibilidade Alimentar

Palavras-chave

Alimentação escolar, Comportamento Alimentar, Seletividade alimentar, Alergia à alimentos, Intolerância à lactose, Políticas públicas

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