Vênus nas ruas, Urano nas esquinas: Escrita afeminada em "Ovelhas Negras", de Caio Ferando Abreu.

Descrição

Tipo

Dissertação de mestrado

Título alternativo

Primeiro orientador

Membros da banca

Aline Magalhaes Pinto
Roberto Alexandre do Carmo Said
Lucia Ricotta Vilela Pinto

Resumo

Esta dissertação investiga o funcionamento da escrita afeminada enquanto experiência estética e política queer, a partir da análise do livro Ovelhas Negras (1995), de Caio Fernando Abreu. Parte-se da hipótese de que há, na tessitura formal e sensível da obra, uma poética do desvio, marcada por estratégias narrativas que tensionam a linearidade, a estabilidade do sujeito e os imperativos normativos da linguagem. A pesquisa propõe que o conceito de “escrita afeminada” não se configura como mera tematização do afeminado, mas como uma forma de narrar que performatiza a instabilidade, a teatralidade, a melancolia e o erotismo dissidente. A partir do diálogo com autoras e autores como Judith Butler, Jack Halberstam, Paul B. Preciado, Georges Didi-Huberman e Mario Perniola, além de referências específicas à literatura queer e às teorias da performatividade, constroem-se estratégias analíticas voltadas à identificação das marcas de uma linguagem que tropeça, que vacila, que não busca a firmeza da narrativa tradicional, mas o tremor de uma voz que se monta e se desmonta como um corpo afeminado. Tais hipóteses são aplicadas à análise dos contos de Ovelhas Negras, livro composto por textos anteriormente censurados, dispersos ou recusados, e que adquire forma como um corpo narrativo fragmentado, residual e movente. As leituras concentram-se nos modos como Caio Fernando Abreu articula, na linguagem, uma escrita erotizada e melancólica, que opera por fragmentação, oscilação sintática, teatralidade camp, deslocamento afetivo e erotismo. A dissertação defende que a escrita afeminada em Caio Fernando Abreu constitui uma estética do “vir-a-ser”, compreendida como um “enviadecer” da linguagem: um movimento contínuo de desestabilização da norma literária e existencial, no qual o texto se torna corpo, desejo e falha. Conclui-se que Ovelhas Negras se configura não apenas como um livro queer, mas como uma performance textual da dissidência, em que o gesto de escrever é também o gesto de expor-se, desejar e resistir.

Abstract

This dissertation explores “afeminada writing” as a queer aesthetic and political experience, through an analysis of Ovelhas Negras (1995), by Caio Fernando Abreu. It argues that the book’s formal and affective structure performs a poetics of deviation, destabilizing linear narrative, coherent subjectivity, and normative linguistic codes. Rather than thematizing effeminacy, “afeminada writing” is proposed as a mode of narration that embodies instability, theatricality, melancholy, and dissident eroticism. Drawing on theorists such as Judith Butler, Jack Halberstam, Paul B. Preciado, Georges Didi-Huberman, and Mario Perniola, along with frameworks from queer theory and performance studies, the dissertation identifies strategies of writing that stumble, tremble, and fragment. The voice that emerges is one that assembles and undoes itself, like an “afeminado” body. These hypotheses are applied to the analysis of Ovelhas Negras, a collection of censored, fragmented, and previously unpublished texts. Abreu’s writing is shown to be erotically charged and affectively unstable, operating through syntactic oscillation, narrative disjunction, camp aesthetics, and the eroticism of absence and loss. Ultimately, the study proposes that “afeminada writing” constitutes a queer aesthetics of becoming an “enviadecer” of language: a continuous unmaking of literary and existential norms. Ovelhas Negras is thus read not only as a queer book, but as a textual performance of dissidence, in which writing itself becomes a gesture of desire, exposure, and resistance.

Assunto

Abreu, Caio Fernando, 1948-1996. – Ovelhas negras – Crítica e interpretação, Contos brasileiros – História e crítica, Teoria Queer, Performatividade

Palavras-chave

Escrita afeminada, Caio Fernando Abreu, Teoria Queer, Literatura Brasileira

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