Comunidade de fungos presentes em sedimentos de lagos da Antártica: taxonomia, diversidade, ecologia e bioprospecção de enzimas, biossurfactantes, lipídios e metabólitos herbicidas

Carregando...
Imagem de Miniatura

Título da Revista

ISSN da Revista

Título de Volume

Editor

Universidade Federal de Minas Gerais

Descrição

Tipo

Tese de doutorado

Título alternativo

Fungal communities present in Antarctic lake sediments: taxonomy, diversity, ecology, and bioprospecting of enzymes, biosurfactants, lipids, and herbicidal metabolites.

Primeiro orientador

Membros da banca

Resumo

Este trabalho avaliou a diversidade e o potencial biotecnológico de comunidades de fungos presentes em sedimentos de lagos da Antártica por meio de abordagens dependente e independente de cultivo. Foram investigados os sedimentos dos lagos Florencia e Katerina, localizados na Ilha James Ross, e os lagos Jean e Antonia, situados na Ilha Deception. Nos estudos independentes de cultivo foram também incluídos os lagos Skua e Soto, ampliando a análise da diversidade microbiana na região. As abordagens utilizadas permitiram caracterizar a composição taxonômica, estrutura ecológica e potencial funcional das comunidades fúngicas nesses ambientes polares. Nos lagos Florencia e Katerina foram identificados 24 táxons cultiváveis, 16 provenientes de Florencia e oito de Katerina. Já nos lagos Jean e Antonia foram obtidos 139 isolados fúngicos, dos quais 84 foram oriundos do lago Jean e 55 do Antonia. Os fungos cultiváveis detectados foram majoritariamente membros do filo Ascomycota, seguido por Basidiomycota e Mortierellomycota. O gênero Pseudogymnoascus foi predominante em ambos os lagos, com destaque para Pseudogymnoascus sp. 1 (detectado no sedimento do Lago Jean) e Pseudogymnoascus sp. 3 (Lago Antonia). Nos sedimentos do Lago Florencia foram detectados táxons com menos relatos para Antártica, como Leucosporidium muscorum, Mortierella antarctica e Glaciozyma martinii, evidenciando um ambiente propício à ocorrência de leveduras psicrofílicas e espécies endêmicas. A comunidade obtida no sedimento do Lago Florencia foi mais diversa e rica, além de apresentar maior dominância, em comparação à do Lago Katerina. Já a comunidade presente no sedimento do Lago Jean apresentou maior riqueza, enquanto a comunidade presente no sedimento do Lago Antonia apresentou maior diversidade e dominância. No total, os isolados dos sedimentos dos lagos localizados na Ilha James Ross foram triados para produção de 11 enzimas de interesse industrial, das quais a enzima inulinase foi a mais detectada, seguida de protease, invertase, gelatinase e pectinase. Oito isolados dos gêneros Pseudogymnoascus e Thelebolus produziram biossurfactantes e 50 apresentaram corpos lipídicos intracelulares em suas hifas. Apenas o isolado Penicillium palitans UFMGCB 18874 foi capaz de apresentar atividade herbicida, onde seu extrato inibiu totalmente a germinação da planta alvo Allium schoenoprasum. Por meio de técnicas químicas, do extrato de P. palitans UFMGCB 18874 o metabólito (−)-palitantina foi identificado como ativo. Na abordagem independente de cultivo a partir da caracterização do DNA ambiental, por meio da técnica de metabarcoding, foram detectadas 218 sequências de amplicons variantes (ASVs), as quais se mostraram serem representantes dos filos Ascomycota, Basidiomycota, Mortierellomycota, Chytridiomycota, Mucoromycota, bem como os filos crípticos/raros Aphelidiomycota, Basidiobolomycota, Blastocladiomycota, Monoblepharomycota, Rozellomycota, Zoopagomycota e membros do reino Straminopila (Oomycota, Bacillariophyta). As ASVs mais abundantes incluíram táxons não identificados (Fungal sp. 1), Talaromyces rubicundus e Dactylonectria anthuriicola, com registros inéditos para Antártica. Os sedimentos do Lago Florencia apresentaram os maiores índices de diversidade e riqueza, atribuídos à sua conectividade hidrológica, aporte de sedimentos e rica vegetação circundante. Já os sedimentos do Lago Antonia, por sua vez, exibiram a maior diversidade independente de cultivo entre os lagos da Ilha Deception, com 233.580 leituras, 106 táxons identificados. Em contraste, os sedimentos do Lago Jean apresentaram 76.496 leituras, 27 táxons, Fisher’s α = 2,6 e Margalef = 2,31, refletindo menor complexidade ecológica. Os sedimentos do Lago Soto apresentaram os menores índices de diversidade, compatíveis com um ecossistema em estágio inicial de formação, enquanto os do Lago Skua apresentram diversidade intermediária, influenciada pela vegetação e presença de aves. As comunidades independentes de cultivo foram compostas principalmente por fungos sapróbios, seguidos por simbiontes e patógenos, sugerindo que podem desempenhar funções ecológicas importantes na decomposição de matéria orgânica em ambientes frios. Foram ainda detectados diversos táxons sem registros prévios para Antártica, como Sugiyamaella bullrunensis, Starmerella floris, Pseudosydowia indooroopillyensis, Chrysosporium vallenarense e Metschnikowia hawaiiana, o que sugere a presença de uma diversidade críptica ou nichos ainda inexplorados. As diferenças geológicas observadas entre os lagos refletem variações ambientais locais, como profundidade, composição mineral, condutividade elétrica, pH, temperatura da água, aporte de matéria orgânica e tipo de rocha de cada bacia. Essa heterogeneidade pode influenciar a estrutura e a funções ecológicas das comunidades fúngicas residentes. A integração entre métodos dependentes e independentes de cultivo se mostroram primissoras para revelar a diversidade total presentes nos sedimentos lacustres da Antártica e o potencial funcional das comunidades, pois combina a caracterização ecológica com a prospecção biotecnológica de fungos adaptados a condições extremas. Este estudo reforça a importância dos sedimentos lacustres antárticos como hotspots de diversidade microbiana e como fontes promissoras de micro-organismos extremófilos com potenciais aplicações biotecnológicas, ao mesmo tempo em que contribui para o entendimento dos efeitos de variações ambientais e mudanças climáticas na estrutura das comunidades fúngicas polares.

Abstract

This study assessed the diversity and biotechnological potential of fungal communities present in sediments of Antarctic lakes through culture-dependent and culture-independent approaches. Sediments from Florencia and Katerina lakes, located on James Ross Island, and Jean and Antonia lakes, located on Deception Island, were investigated. In the culture independent studies, Skua and Soto lakes were also included, broadening the analysis of microbial diversity in the region. The approaches used allowed the characterization of the taxonomic composition, ecological structure, and functional potential of fungal communities in these polar environments. In Florencia and Katerina lakes, 24 cultivable taxa were identified, 16 from Florencia and eight from Katerina. In Jean and Antonia lakes, 139 fungal isolates were obtained, of which 84 came from Jean Lake and 55 from Antonia. The cultivable fungi detected were mostly members of the phylum Ascomycota, followed by Basidiomycota and Mortierellomycota. The genus Pseudogymnoascus was predominant in both lakes, with emphasis on Pseudogymnoascus sp. 1 (detected in Jean Lake sediments) and Pseudogymnoascus sp. 3 (Antonia Lake). In Florencia Lake sediments, taxa with few records for Antarctica were detected, such as Leucosporidium muscorum, Mortierella antarctica, and Glaciozyma martinii, evidencing an environment favorable to psychrophilic yeasts and endemic species. The community obtained from Florencia Lake sediment was more diverse and richer, in addition to presenting greater dominance, compared to Katerina Lake. In contrast, the Jean Lake sediment community showed higher richness, while the Antonia Lake sediment community exhibited greater diversity and dominance. In total, isolates from sediments of lakes located on James Ross Island were screened for the production of 11 enzymes of industrial interest, among which inulinase was the most frequently detected, followed by protease, invertase, gelatinase, and pectinase. Eight isolates from the genera Pseudogymnoascus and Thelebolus produced biosurfactants, and 50 exhibited intracellular lipid bodies in their hyphae. Only the isolate Penicillium palitans UFMGCB 18874 displayed herbicidal activity, with its extract completely inhibiting germination of the target plant Allium schoenoprasum. Through chemical techniques, the metabolite (−)-palitantin was identified as the active compound in the extract of P. palitans UFMGCB 18874. In the culture-independent approach, based on environmental DNA characterization through metabarcoding, 218 amplicon sequence variants (ASVs) were detected, representing the phyla Ascomycota, Basidiomycota, Mortierellomycota, Chytridiomycota, and Mucoromycota, as well as cryptic/rare phyla such as Aphelidiomycota, Basidiobolomycota, Blastocladiomycota, Monoblepharomycota, Rozellomycota, Zoopagomycota, and members of the kingdom Straminopila (Oomycota, Bacillariophyta). The most abundant ASVs included unidentified taxa (Fungal sp. 1), Talaromyces rubicundus, and Dactylonectria anthuriicola, representing first records for Antarctica. Florencia Lake sediments presented the highest diversity and richness indices, attributed to its hydrological connectivity, sediment input, and rich surrounding vegetation. Antonia Lake sediments, in turn, exhibited the greatest culture independent diversity among Deception Island lakes, with 233,580 reads and 106 identified taxa. In contrast, Jean Lake sediments yielded 76,496 reads, 27 taxa, Fisher’s α = 2.6, and Margalef = 2.31, reflecting lower ecological complexity. Soto Lake sediments showed the lowest diversity indices, consistent with an ecosystem at an early formation stage, while Skua Lake sediments showed intermediate diversity, influenced by vegetation and bird presence. The culture-independent communities were composed mainly of saprobic fungi, followed by symbionts and pathogens, suggesting that they may play important ecological roles in organic matter decomposition in cold environments. Several taxa with no previous records for Antarctica were also detected, such as Sugiyamaella bullrunensis, Starmerella floris, Pseudosydowia indooroopillyensis, Chrysosporium vallenarense, and Metschnikowia hawaiiana, suggesting the presence of cryptic diversity or unexplored niches. Geological differences observed among the lakes reflect local environmental variations, such as depth, mineral composition, electrical conductivity, pH, water temperature, organic matter input, and basin lithology. This heterogeneity may influence the structure and ecological functions of the resident fungal communities. The integration of culture-dependent and culture-independent methods proved promising to reveal the total diversity present in Antarctic lake sediments and the functional potential of fungal communities, as it combines ecological characterization with biotechnological prospecting of fungi adapted to extreme conditions. This study reinforces the importance of Antarctic lake sediments as hotspots of microbial diversity and as promising sources of extremophilic microorganisms with biotechnological applications, while also contributing to the understanding of the effects of environmental variations and climate change on the structure of polar fungal communities.

Assunto

Palavras-chave

Antártica, Lagos, Fungos, Metagenômica, Metabólitos

Citação

Endereço externo

Avaliação

Revisão

Suplementado Por

Referenciado Por