Constituição e desenvolvimento do mergulho autônomo recreativo (Scuba Diving) nos mares brasileiros a partir do circuito São Paulo-Rio de Janeiro (1975–1990)
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Universidade Federal de Minas Gerais
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Arquivo PDF substituído por versão corrigida, conforme solicitação formal do autor(a), em 17/11/2025, aprovada pela equipe do setor do Repositório Institucional
Tipo
Tese de doutorado
Título alternativo
Constitution and development of recreational Scuba Diving in brazilian seas from the São Paulo-Rio de Janeiro circuit (1975–1990)
Primeiro orientador
Membros da banca
Maria Cristina Rosa
Ambrozio Correa de Queiroz Neto
Cleber Augusto Gonçalves Dias
Joana Carolina Shossler
Priscilla Kelly Figueiredo
Ambrozio Correa de Queiroz Neto
Cleber Augusto Gonçalves Dias
Joana Carolina Shossler
Priscilla Kelly Figueiredo
Resumo
O mergulho autônomo recreativo é uma atividade de lazer realizada em ambientes subaquáticos
naturais e artificiais, especialmente marinhos, viabilizada pelo equipamento de respiração de
circuito aberto (SCUBA) desenvolvido a partir de 1943 por Jacques-Yves Cousteau e Emile
Gagnan. A sistematização do ensino e prática do mergulho ocorreu a partir da década de 1950
no exterior. No Brasil, o contato com o equipamento deu-se por meio da imprensa, importação
gradual e posterior fabricação nacional. A prática consolidou-se baseada em padrões
internacionais, mas com especificidades políticas, econômicas, ambientais e culturais locais.
Esta pesquisa objetivou compreender processos de constituição e desenvolvimento do
mergulho no Brasil entre 1975 e 1990, a partir da questão: quais foram os tipos de relação que
mergulhadores brasileiros construíram com o ambiente subaquático e como essas relações
desenvolveram? O início do recorte temporal corresponde à chegada de Álvaro Luis Santos
Vilar Moreira ao Brasil em 1975 e à fundação da primeira escola de mergulho, Bandeirantes do
Mar. O final do período estudado compreende os anos em que o mergulho começa a assumir
características que ainda hoje o definem — como equipamentos, metodologias de ensino,
sistemas de certificação e desenvolvimento do turismo de mergulho. O recorte espacial
concentrou-se no circuito entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, que reuniram as
principais iniciativas nas décadas iniciais da prática no país. Os procedimentos metodológicos
incluíram história oral, pesquisa bibliográfica e documental. Foram realizadas vinte e quatro
entrevistas com dezoito pioneiros do mergulho brasileiro. A análise dos dados, com base em
Minayo (2012), organizou-se nas categorias: pessoas; institucionalização/profissionalização;
aprendizado; lugares; equipamentos; e práticas. Os resultados indicaram duas fases:
constituição (1975–1981) e desenvolvimento (1982–1990) em que ocorreram processos de
diferenciação e profissionalização do mergulho autônomo recreativo em relação a outras formas
de mergulho — como o comercial, o militar e a caça submarina —, ainda que tenha incorporado
elementos dessas práticas. Para se distinguir precisou afirmar-se como prática amadora, em que
o objetivo não era mais a captura ou o trabalho submerso. Essa nova forma de mergulhar exigiu
processos formativos centrados na observação, respeito à vida marinha e cuidado com
ecossistemas. A figura do herói caçador — celebrado por sua valentia e força física — deu lugar
ao herói desbravador, cuja legitimidade foi construída na preservação e na convivência com os
animais, mudança simbólica acompanhada pela introdução de novos equipamentos, operações
comerciais de turismo de mergulho e entrada das certificadoras internacionais, que
reconfiguraram o ensino. As operações passaram a oferecer mais suporte, transformando-se em
serviços estruturados. A introdução de equipamentos que tornaram o mergulho mais leve —
especialmente o colete equilibrador — ampliou o acesso à prática. Configurou-se uma nova
lógica voltada ao turismo subaquático, com maior padronização e novas formas de fruição e
relação com o ambiente marinho. A prática tornou-se mais acessível, porém mais restritiva do
quanto à aventura e exploração, pois as operações controlam o risco e restringem o acesso a
determinados lugares. O mergulho brasileiro foi uma construção cultural sustentada por
disputas de sentido, redefinições pedagógicas, transformações tecnológicas e mudanças nos
perfis e sensibilidades dos praticantes diante do ambiente. Atualmente, a prática pode assumir
formas contemplativas e básicas ou desafiadoras, que exigem formação continuada. Seus
sentidos futuros dependerão das escolhas políticas e educativas
Abstract
Recreational scuba diving is a leisure activity carried out in natural and artificial underwater
environments, especially marine ones, made possible by the open-circuit breathing apparatus
(SCUBA) developed from 1943 by Jacques-Yves Cousteau and Émile Gagnan. The
systematization of diving training and practice began abroad in the 1950s. In Brazil, contact
with the equipment occurred through the press, gradual importation, and later domestic
manufacturing. The practice became established based on international standards but with local
political, economic, environmental, and cultural specificities. This research aimed to understand
the processes of constitution and development of diving in Brazil between 1975 and 1990,
guided by the question: What types of relationships did Brazilian divers build with the
underwater environment, and how did these relationships evolve? The starting point of the time
frame corresponds to the arrival of Álvaro Luis Santos Vilar Moreira in Brazil in 1975 and the
foundation of the first diving school, Bandeirantes do Mar. The end of the period studied
encompasses the years when diving began to take on characteristics that still define it today —
such as equipment, teaching methodologies, certification systems, and the development of dive
tourism. The geographical scope focused on the circuit between the states of São Paulo and Rio
de Janeiro, which concentrated the main initiatives in the early decades of the practice in the
country. Methodological procedures included oral history, bibliographic, and documentary
research. Twenty-four interviews were conducted with eighteen pioneers of Brazilian diving.
Data analysis, based on Minayo (2012), was organized into the categories: people;
institutionalization/professionalization; learning; places; equipment; and practices. The results
indicated two phases: constitution (1975–1981) and development (1982–1990), during which
processes of differentiation and professionalization of recreational scuba diving occurred in
relation to other forms of diving — such as commercial, military, and spearfishing — although
it incorporated elements from these practices. To distinguish itself, it needed to affirm itself as
an amateur practice, in which the objective was no longer capture or underwater work. This
new way of diving required training processes centered on observation, respect for marine life,
and care for ecosystems. The figure of the hunter-hero — celebrated for bravery and physical
strength — gave way to the explorer-hero, whose legitimacy was built on preservation and
coexistence with marine animals. This symbolic shift was accompanied by the introduction of
new equipment, commercial dive tourism operations, and the entry of international certifying
agencies, which reconfigured training. Operations began offering greater support, becoming
structured services. The introduction of equipment that made diving easier — especially the
buoyancy compensator — expanded access to the practice. A new logic emerged, oriented
towards underwater tourism, with greater standardization and new forms of enjoyment and
interaction with the marine environment. The practice became more accessible, but more
restrictive in terms of adventure and exploration, as operations control risk and limit access to
certain sites. Brazilian diving was a cultural construction sustained by disputes over meaning,
pedagogical redefinitions, technological transformations, and changes in the profiles and
sensibilities of practitioners regarding the environment. Today, the practice may take
contemplative and basic forms or challenging ones that require ongoing training. Its future
meanings will depend on political and educational choices.
Assunto
Palavras-chave
Atividades de Lazer, Educação, Mergulho, Historiografia, Natureza, Turismo
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